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6 a 15 de agosto de 2010 São Paulo

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Filmagem de Terje Vigen


Sumário

7 Secretaria do Audiovisual 37 Jon Wengström apresenta 54 Visita ao Acervo 74 Destaques de Pordenone


8 Cinemateca Brasileira O Cinema Silencioso Sueco Filmes de Arquivo do Quadra de Ases Americanos
12 Curadoria 43 Conferência de abertura Instituto Sueco de Cinema Aposta (sem blefe) de Pordenone
14 Curadoria musical
45 Programa 1 57 Programa 1 – Censura 76 Regeneração
Na primavera da vida O Rio da vida 77 O Supersticioso
15 Músicos e artistas convidados Madame de Thèbes Cagliostro 78 Este mundo é um teatro
O Abismo 80 Golpes de audácia
46 Programa 2 O Jardineiro 81 Raymond Griffith
Quando o capitão Krogg foi fazer o seu retrato 59 Asta Nielsen
20 Cinédia 80 anos A Prisioneira da Fortaleza de Karlsten
Ode parnaso-punk aos 80 anos Nos grilhões da escuridão 61 Programa 2 82 Janela para a América Latina
21 Lábios sem beijos Filmando Ana Boleyn Tesouro inca
47 Programa 3 A Aurora de um amanhã
Terje Vigen 83 Wara wara
24 Em busca do Brasil O Mosteiro de Sendomir 62 Programa 3
Trenzinho Caipira A Rua das lágrimas
27 Companhia Paulista de Estrada de Ferro 48 Programa 4 84 Produções silenciosas
27 Companhia Mogyana A Feitiçaria através dos tempos 63 Programa 4 contemporâneas
32 O Segredo do corcunda – a cor em Gilberto Rossi Uma visita a Selma Lagerlöf Preservação e coronelismo,
34 O Segredo do corcunda 48 Programa 5 A Carne e o diabo orgia e cachoeira,
35 Hilda Machado Pesquisadora do Cinema Contra o orgulho 65 Greta Garbo som direto e silêncio,
Silencioso Brasileiro 49 Einar Hanson cinzas e tesouros
63 Programa 5
50 Programa 6 A Mulher divina 85 Que cavação é essa?
As garotas de Norrtull Vento e areia
51 Tora Teje 69 Lars Hanson
87 Mesas de debates
52 Programa 7 72 Programa 6
A Herança de Ingmar Rua Meschanskaia, 3 / Sofá e cama

53 Exposição 73 Programa 7
91 Referências bibliográficas
A Chegada do rei do Sião a Logårdstrappan
Cenas da vida do rei Oscar II 91 Agradecimentos
Viagem às ruínas de Angkor
Na terra dos Moïs: exploração e caça 92 Créditos

94 Instituições colaboradoras

Abreviações
cp: companhia produtora; d: direção; da: direção de arte; df: direção de fotografia; e: elenco; ee: efeitos
especiais; mo: montagem; mor: música original; p: produção; r: roteiro
Mary Johnson

Secretaria do Audiovisual
Newton Cannito
Secretário do Audiovisual
Ministério da Cultura

A Jornada Brasileira de Cinema Silencioso é uma oportunidade singular e instigante


para conferir com outros olhos obras audiovisuais diversas, no resgate de filmes
significativos na história do cinema brasileiro e mundial, abrindo espaço para a
inovação e a ousadia de linguagem. Chega à sua quarta edição uma mostra que
se destaca pela proposta estética original e criativa e se consolida na agenda da
cidade de São Paulo.

Sendo a única mostra de cinema voltada a esse gênero, desprivilegiado nos meios
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exibidores, sua inovação não para por aí, pois a dinâmica de obras audiovisuais
com música ao vivo possibilita uma experiência inovadora aos que apreciam a arte
cinematográfica. Releitura é a palavra do momento, e nada é mais contemporâneo
do que estimular diferentes formas de fruição.

É com grande satisfação que a Secretaria do Audiovisual – Sav/MinC apoia a


realização deste evento por meio da Cinemateca Brasileira. Iniciativas como esta,
além de enriquecer a formação cultural brasileira, contribuem para a restauração,
preservação e difusão de acervo raro e de importância inquestionável para a
história do cinema.

Por fim, convidamos a todos a participarem de uma experiência diferente nesta


Jornada que, sem dúvida, trilhará próspero caminho e será capaz de, a um só
tempo, divertir, informar e incentivar a reflexão.
IV Jornada Brasileira de
Cinema Silencioso
Cinemateca Brasileira

Damos então continuidade à marcha do cinema silencioso.

Jornadear é um verbo que a cidade de São Paulo conjuga, no mês de agosto, quando excelência, mas vale destacar o famoso Häxan / A Feitiçaria através dos tempos
a Cinemateca Brasileira apresenta sua já consolidada Jornada Brasileira de Cinema (1922), de Benjamin Christensen, numa cópia que o curador do arquivo sueco, Jon
Silencioso – evento que ilumina temas, cinematografias e personalidades do cinema Wengström, considera a mais bela de seu acervo. Agradecemos a colaboração do
mundial produzido entre finais do século XIX até aproximadamente 1930, quando Svenskafilminstitutet / Kinemateket e de seu curador, que ainda fez uma seleção de
o som, sincronizado à imagem e agregado ao suporte fílmico, modificou para sempre títulos internacionais conservados naquele arquivo e proferirá a conferência inaugural
nossa concepção de cinema. da IV Jornada Brasileira de Cinema Silencioso.

É com o sentimento de ver consolidada uma importante ação de difusão cinematográfica Agradecemos também a colaboração de Paolo Cherchi Usai, do comitê diretor das
que realizamos esta quarta edição. Um acontecimento que, por três anos consecutivos, Giornate del Cinema Muto, de Pordenone, pela seleção de programas desse evento,
foi merecedor da fidelidade e de uma afluência crescente do público, gera a confiança representado nas Jornadas em uma seção permanente – neste ano com ênfase em
de que, para além da qualidade das manifestações culturais e artísticas apresentadas a produções americanas.
cada ano, o assunto “cinema silencioso”, em si, é valoroso e oportuno.
Completando a parte internacional, é com grande satisfação que, em sua seção
O formato da Jornada permite: retomar esse cinema antigo através de uma Janela para a América Latina, a IV Jornada focaliza o longa-metragem Wara wara,
programação cuidadosamente selecionada e com acompanhamento musical ao realizado em 1929 por José Maria Velasco Maidana, único silencioso remanescente
vivo, articulando experiências visuais e narrativas do passado com uma atmosfera da produção boliviana, recém-restaurado no laboratório L’Immagine Ritrovata, em
sonora contemporânea; conjugar um saudável entretenimento com reflexões acerca Bolonha, na Itália.
da conservação e restauração de filmes; conhecer a produção brasileira do período
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em diálogo com o que se produziu na América Latina e com as cinematografias de Voltando à produção brasileira do período, acreditamos oferecer um excelente
outros países; e promover discussões em mesas temáticas nas quais pesquisadores contexto para homenagear os 80 anos da produtora Cinédia, fundada por Adhemar
apresentam e fortalecem suas abordagens históricas sobre o cinema do período. Gonzaga em 1930. Para tanto, a IV Jornada apresentará Lábios sem beijos,
dirigido por Humberto Mauro, único filme silencioso da produtora. Conhecer ou
Para que um evento ganhe consistência no calendário cultural, talvez a chave necessária reconhecer, lembrar e discutir os sonhos e as ações dos pioneiros do nosso cinema
seja a inovação dentro da continuidade. Apostando na equação, a IV Jornada são disposições que a Jornada coloca para seu público que, cada vez mais, integra
manteve a organização de seus contornos gerais. A seção brasileira apresentará o especialistas e não-especialistas, tornando a história do nosso cinema mais próxima
tema Trenzinho Caipira, com filmes documentais e de ficção que tratam da atividade da experiência coletiva.
ferroviária durante a década de 1920. Participam da seção documentários de longa-
metragem restaurados pela Cinemateca Brasileira nos últimos anos, assim como o Mais uma vez, contamos com o talento do músico e compositor Livio Tragtenberg,
longa-metragem de ficção O Segredo do corcunda, de Alberto Traversa (1924), responsável pela curadoria musical do acompanhamento ao vivo dos filmes exibidos
objeto de um grande estudo da pesquisadora Hilda Machado, a quem a Cinemateca na Sala Cinemateca-BNDES. Além desta sala, e das projeções silenciosas na Sala
presta justa homenagem. A alegria de organizar e apresentar esta seção se completa Cinemateca-Petrobras, e dado o grande sucesso das sessões musicadas na Sala São
com o acompanhamento do violinista e diretor do Museu Villa-Lobos, Turíbio Santos, Paulo na edição de 2009, a IV Jornada apresenta projeções ao ar livre junto ao
especialmente convidado. Auditório Ibirapuera. Esperamos, desse modo, levar a experiência a um público cada
vez maior.
Fortalecendo o diálogo com as cinematografias do mundo, e trabalhando em conjunto
com o arquivo de filmes sueco, o Svenskafilminstitutet / Kinemateket, a Jornada É com entusiasmo que a Cinemateca Brasileira percebe ter, nessa abordagem
apresenta um panorama do cinema do período silencioso da Suécia, e os trabalhos do passado sem traços do saudosismo que paralisa (ao contrário, uma abordagem
de restauração de filmes que há décadas vêm sendo desenvolvidos naquele país. moderna, que aponta para o futuro), tantos parceiros, sem cuja colaboração esta
Trata-se de um dos conjuntos mais brilhantes da história do cinema, com diretores Jornada não seria possível.
consagrados como Victor Sjöström e Mauritz Stiller, e grandes atores, como Lars
Hanson e Greta Garbo. Difícil apontar uma obra específica em uma mostra de tal E então... é novamente agosto, vamos jornadear!
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O Mosteiro de Sendomir
Coisas de amor passaram a ser um espetáculo completo, produtos finais padronizados e, como tal,
apareciam do mesmo jeito em qualquer cinema de qualquer parte do mundo.

O que Dibbets sugere é que, antes do advento do sonoro, cada espetáculo


Carlos Roberto de Souza cinematográfico era único. O que diz é que, antes, os espectadores compareciam a
Curador um espetáculo multimídia que era prioritariamente desempenhado do lado de cá da
tela. Com o som no filme, entravam no cinema para ver somente o que acontecia
Num antigo momento da Cinemateca Brasileira – que este mês (ao menos pela na tela, ou do outro lado da tela, como diziam alguns. A emoção de assistir um
minha cronologia) completa seus 70 anos –, a sublime Lygia Fagundes Telles declarou filme transformou-se de happening coletivo numa relação entre o filme e o espectador
numa reunião de Conselho em que se debatiam diferenças internas (elas nunca estão individual. A capacidade do exibidor ou da plateia de intervirem no processo de
superadas!), que tudo era uma questão de amor. comunicação reduziu-se ao mínimo.

Realizar a Jornada Brasileira de Cinema Silencioso é uma questão de amor, com as Um dos propósitos fundamentais da Jornada Brasileira de Cinema Silencioso
suas complexidades, eventuais desapontamentos e alegres satisfações. Amor para com é possibilitar a seus espectadores – através de apresentações arquivísticas – a
os colegas da Cinemateca, que oferecem seu apoio, solidariedade e ajuda “no que recuperação do caráter dionisíaco do espetáculo cinematográfico, no que ele tem
precisar”; amor ao público que anualmente prestigia as sessões da Jornada, sugere, de celebração arrebatada e amorosa. Tenho certeza de que alguns espectadores que
comenta e pede mais; amor ao cinema, aos filmes e à sua preservação – da qual a seguiram as três primeiras edições da Jornada concordarão comigo que, em algumas
apresentação é parte integrante. sessões memoráveis, logramos plenamente nosso intento.

No mais importante livro sobre a missão dos arquivos audiovisuais publicado este Nesta nova edição da Jornada insistimos nesse propósito e tivemos a colaboração
século (o livro é de 2008), Film Curatorship – Archives, Museums, and the Digital Marketplace, calorosa de Jon Wengström, curador da Coleção de Filmes de Arquivo do Instituto
Paolo Cherchi Usai, David Francis, Alexander Horwath e Michael Loebenstein Sueco de Cinema. Qualquer coisa que se possa dizer sobre amizade seria discreto em
(arquivistas de diferentes gerações) dialogam sobre vários aspectos das atividades dos relação a Jon – aliás, ele próprio extremamente discreto em suas manifestações de
arquivos, discutindo e propondo a definição do que seria a maneira mais moderna amizade. Colaborador permanente da Jornada, desta vez Jon foi o máximo. Durante
de conceituar o conjunto de seu sistema de trabalho. O conceito é o de “curadoria meses trocamos mensagens, até estabelecer a seleção final dos filmes que vieram do
cinematográfica”, que consiste na arte de interpretar a estética, a história e a tecnologia do arquivo sueco (e várias vezes tive de dizer não à sua proposta de incluir mais um título).
cinema através da coleta seletiva, da preservação e da documentação sobre filmes, e sua exibição em Jon providenciou fotografias para o catálogo, selecionou imagens para a exposição, fez
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apresentações arquivísticas. pessoalmente a tradução para inglês de intertítulos de filmes que existiam apenas em
sueco. E ainda se dispôs a apresentar sessões.
Por “apresentação arquivística” entenda-se a exibição – nas instalações do próprio
arquivo ou em locais externos, desde que o arquivo tenha pleno controle das condições Carinhosa para com a Jornada também é a relação de Paolo Cherchi Usai, do comitê
técnicas de apresentação – da obra cinematográfica de forma a possibilitar que a diretivo das Giornate del Cinema Muto de Pordenone, nossa irmã mais velha. Numa
experiência do contato seja organizada de maneira consistente com sua identidade demonstração de que carinho é uma via de mão-dupla, por proposta de Paolo,
histórica, de forma a gerar um novo conhecimento. Significa oferecer ao público o alguns programas de nossa seção “Em busca do Brasil – Amazônia Silenciosa”, da
maior número possível de informações sobre a obra e seu contexto histórico, bem III Jornada, serão apresentados na vigésima nona edição das Giornate, no próximo
como apresentá-la nas condições mais próximas possíveis das de sua apresentação mês de outubro.
pública original (bitola, cor, velocidade de projeção corretas, etc.). Em termos de
curadoria, um “conteúdo”, privado de seu contexto ou fruição, é apenas um item de Em belíssimas cópias, o amor será apresentado na IV Jornada sob diferentes
consumo, de mercadoria (daí o uso preferencial do termo “obra” ou “artefato” no manifestações e para quase todos os gostos: o amor tórrido, o fraternal e o maternal,
mundo arquivístico e museológico). o diábolico e o idílico. Um dos exemplos extremos dessa presença é Tretia
Meschanskaia / Rua Meschanskaia 3 ou Sofá e cama (Abram Room, 1927),
Karel Dibbets, historiador de cinema holandês, destacou alguns pontos relativos às uma espécie de Dona Flor e seus dois maridos em locação moscovita. Confesso que,
mudanças do espetáculo cinematográfico quando do advento do som, a partir de dando asas a uma “interpretação local”, ao assisti-lo pela primeira vez, imediatamente
1926. Até então, os filmes eram apresentados com orquestras, pequenos conjuntos lembrei-me da marchinha “Ride... palhaço”, de Lamartine Babo, gravada em 1933
ou músicos individuais que faziam o acompanhamento ao vivo, eventualmente com pelo autor em dupla com Mário Reis.
o acréscimo de ruídos e mesmo de falas. Com a transferência desses sons para a
pista inscrita na película – ou em discos, como ocorreu provisoriamente com o uso Eu sou o seu Pierrô,
do sistema Vitaphone –, o cinema perdeu seu caráter de espetáculo multimídia e Colombina (bis)
passou a ser um evento de uma mídia única. Os filmes não chegavam mais às salas Reparte esse amor
como mercadorias semimanufaturadas que necessitavam de complementações e Metade pra mim
interpretações locais – do exibidor, dos músicos e da plateia. Com o som, os filmes Metade pro teu Arlequim
Pondo sons e imagens nos trilhos...
Livio Tragtenberg
Curador musical

A seleção de filmes suecos apresentados este ano na Jornada, por sua densidade e
refinamento, coloca a questão do uso da música no cinema silencioso num patamar de Músicos e Artistas Convidados
linguagem mais complexo e sofisticado.

O refinamento dos recursos utilizados nesses filmes, como tratamento de cores,


fotografia, montagem, enquadramentos, soa como música das imagens em movimento.
Me assombraram o ritmo e o envolvimento sensorial que eles propiciam. Apesar da
diversidade estilística – épico-poético, drama, comédia, policial – essa qualidade rítmica
está sempre presente. Ana Fridman
Formada em Música e Dança pela Unicamp, atua como compositora, pianista, arranjadora,
A questão colocada pelo compositor de música de cinema David Raksin – “No que,
exatamente, a música contribui para um filme?” – torna-se ainda mais instigante quando bailarina e professora de Percepção e Harmonia. Em 2002 ganhou a bolsa Virtuose em
nos deparamos com o cinema silencioso e suas relações com o espectador de hoje. Assim, Composição para estagiar com o grupo londrino Kinetic Concert. Lançou em 2004,
no que a música ao vivo pode contribuir para o filme silencioso? pelo selo Zabumba Records / Rob Digital, o CD O Tempo, a Distância e a Contradança, com
músicas e arranjos de sua autoria, incluindo trilhas que compôs para teatro e dança. Entre
Para o filósofo esloveno Slavoj Zizek, a “música de cinema possui uma dimensão superior os lugares que lecionou estão: Instituto de Artes da Califórnia, Unicamp, unidades do Sesc
para causar distúrbios na ordem simbólica do filme”. (Zizek, Slavoj, The Metasteses of de São Paulo, Ongs e Companhias Teatrais. Em 2007 foi convidada pela Guildhall School
Enjoyment, New York,1994.) de Londres para ministrar um workshop sobre ritmos brasileiros.

De certa forma, esse é um dos objetivos que perseguimos na Jornada (complementando


a curadoria de Carlos Roberto), no sentido de uma revitalização – mais do que uma André Abujamra
pretensa “atualização” que, de resto, soa ridículo quando se trata de criação artística – do Multiinstrumentista, compositor, produtor e ator paulistano. Na década de 1980 montou a
cinema silencioso, ao buscarmos, ao lado de condições ideais de exibição e sonorização, banda Os Mulheres Negras, que o projetou no cenário musical alternativo em São Paulo.
uma leitura sonora do cinema silencioso através da escolha de criadores musicais que Depois passou pelo Karnak e hoje está em carreira solo. Compõe para cinema e teatro;
possam estabelecer diálogos instigantes com as plateias de hoje. entre seus trabalhos recentes estão uma participação na trilha de O Bicho de 7 cabeças
14 e a trilha toda de Carandiru. Abujamra também atua como produtor musical, e trabalha 15
Assim, a ideia de que a música ao vivo possa criar reflexos, e reflexões paralelas ao filme, junto com artistas como Pato-Fu e Duo Portal. Recentemente lançou seu terceiro CD solo,
tem sido um dos vetores na escolha dos músicos participantes. Seja por aproximação ou intitulado Mafaro, que tem recebido excelentes críticas, e já está com shows marcados por
por distanciamento (irônico ou conceitual) as musicalizações buscam sobretudo estabelecer
todo o mundo até 2011.
uma conversa criativa, ao invés de uma moldura decorativa, com as narrativas fílmicas.

A Janela para a América Latina apresenta o filme silencioso boliviano Wara Wara, que Basavizi
já vem sonorizado com a música do importante compositor contemporâneo, também Grupo formado em 2008 para desenvolver pesquisas sobre a improvisação livre como
boliviano, Cergio Prudencio (1955). Ele é criador da Orquestra Experimental de forma de processo criativo e de composição, que resultaram também em outra pesquisa
Instrumentos Nativos, em seu país, nos anos de 1980. Realizou música para mais de sobre o uso de tecnologia digital e analógica para performances ao vivo. Formado por um
quarenta filmes, tendo recebido vários prêmios. Será, portanto, uma oportunidade única trio paulistano, o grupo desenvolveu diversos arranjos instrumentais. Sempre focado
para se travar contato com sua obra. na interação entre instrumentos tradicionais, ainda que tocados de forma não usual, e
tecnologias high e low-tech.
Este ano, o Auditório Ibirapuera acolhe uma sessão da Jornada, que tem tudo para ser
especialíssima, iniciando uma parceria que, esperamos, perdure e se integre à própria
Jornada. O filme sueco Häxan / A Feitiçaria através dos tempos (1922) irá encantar Daniel Murray
com luzes e visões fantasmagóricas. Violonista. Em 1997 conquistou o segundo prêmio no Concours International de Guitarre
de Trédrez-Locquémeau, na Bretanha, França. Há 15 anos trabalha como intérprete,
Filmes que documentam a ferrovia no Brasil também são destaque na programação, arranjador e compositor. Em 2007 gravou Suíte Retratos de Radamés Gnatalli com o Trio Opus
repercutindo a imagem-fetiche dos Irmãos Lumière nos primórdios do cinema, e que 12, de violões. Em 2008, lançou seu primeiro CD solo ...universos sonoros para violão e tape..., com
terão um tratamento sonoro diversificado, seja na sonoplastia ou na colagem musical, patrocínio da Petrobras. Integrou em 2009 o Quarteto Tau de violões, com Breno Chaves,
compondo um painel de sonoridades que dialogam com a memória do espectador. Temos José Henrique Rosa Campos e Fabio Bartoloni, e formou com o violonista e compositor
músicos representativos da chamada música popular musicando filmes na homenagem aos
Chico Saraiva o Duo Saraiva-Murray, que acaba de voltar de uma turnê pela Europa.
80 anos da Cinédia, ampliando assim a palheta de timbre e estilos musicais.

Mais uma vez, a seleção musical da Jornada apresenta uma ampla diversidade sonora,
não apenas no sentido de estilos e gêneros musicais, mas também nas diferentes formas de
abordagem das imagens.Literalmente, este ano as imagens e sons estão nos trilhos...
Daniel Szafran
Pianista solo. Trabalhou com Laura Finnochiaro, Zé Rodrix, Mauricio Pereira, Edvaldo Gustavo Barbosa Lima
Santana, entre outros. Foi durante três anos pianista da banda do Programa Fanzine, Formado em Música (clarinete), fez especialização na França. Frequentou o curso de
da TV Cultura. Com o parceiro Mauricio Pereira, coproduziu e tocou piano no CD Música Eletroacústica do GRM de Paris e lecionou em escolas da região parisiense.
Mergulhar na Surpresa. Fez trilhas para peças e produziu CDs de outros artistas. Em 1992, Obteve o 1o Prêmio de Clarinete da Associação Leopold Bellan de Paris e o 1o Prêmio
a Rádio Cultura AM de São Paulo fez com ele um programa especial de uma hora. Foi de Clarinete do VIII Concurso Jovens Instrumentistas Brasil. Compôs trilhas para
pianista do Piratininga Bar por 16 anos, no bairro da Vila Madalena, em São Paulo, casa espetáculos de dança e filmes; participou das edições de 2007 e 2009 da Jornada Brasileira
bastante conhecida dos paulistanos pelos bons pianistas que por lá passaram. de Cinema Silencioso. Foi clarinetista da Orquestra Jazz Sinfônica de 2001 a 2003.
Integrante do Duoportal, lançou em 2000 o CD Música de um povo imaginário. Na área
Danilo Moraes da música erudita, atua com a pianista Scheilla Glaser. É professor de clarinete e música
Nascido em São Paulo, cantor, compositor e guitarrista, trabalhou com artistas como de câmara da Escola de Música do Estado de São Paulo desde 2000. Pós-graduado em
Chico César, Ná Ozzetti, Miriam Maria, Premê, Wandi Doratiotto (seu pai, com quem Administração de Empresas pela FIA, participa da coordenação pedagógica de vários
produziu o disco Pronto), Mário Manga, Ceumar, Inácio Zatz, Celso Sim, entre outros. projetos artísticos.
Lançou seu disco solo em 2003 e foi selecionado para o projeto Rumos do Itaú Cultural.
Com a banda Banguela, Danilo apresentou-se durante vários anos nas casas de forró de Laércio de Freitas
São Paulo e, em 2004, lançou o disco Na Pista. Em 2009 iniciou o projeto de seu novo Pianista, maestro, arranjador e compositor. Graduou-se em piano no Conservatório
disco Danilo Moraes e os Criados Mudos, apresentando-se em cidades de todo o Brasil. Carlos Gomes. Fez parte da Orquestra Tabajara de Severino Araújo e do Sexteto de
Radamés Gnatalli. Em 1973 lançou o LP Laércio de Freitas e o som roceiro. Atuou como
Dante Pignatari arranjador e regente em companhias de discos. Acompanhou artistas como Ângela
Formou-se em piano na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Maria, Maria Bethânia, Maria Valle, Emílio Santiago, Nancy Wilson, Clara Nunes,
Paulo. Já se apresentou no Brasil, Inglaterra, Espanha e Alemanha, dedicando-se The Supremes, entre outros. É arranjador da Banda Sinfônica do Estado de São
especialmente à música de câmara. Trabalhou na produção, edição e apresentação de Paulo, para a qual também ministra aulas de Prática de Execução Conjunta. Em 2001
programas para a Rádio Cultura FM. Coordenou e foi pianista do projeto Poesia paulista assinou os arranjos do tema para piano e orquestra de Amazonas: um poema sinfônico, de
- Doze canções, que resultou no CD do mesmo nome. Foi colaborador da revista Bravo! de João Donato e Everardo de Castro, apresentado no Teatro Amazonas, em Manaus.
1997 a 2001, e desde 2005 escreve notas de programas para a OSESP. Ministra aulas
de piano e cursos livres de música.
Livio Tragtenberg
Dino Vicente Escreve músicas para teatro, vídeo, cinema e instalações sonoras. Compôs obras
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Atua como músico, compositor, arranjador e produtor musical nas áreas de publicidade, instrumentais, sinfônicas, eletroacústicas e operísticas. Em 1987 ganhou o prêmio Vitae
cinema, teatro, instalações e multimídia. Começou sua carreira cedo, tocando piano pela ópera Inferno de Wall Street; em 1991 foi contemplado com uma bolsa da Fundação
na montagem da peça Bonitinha, mas Ordinária, dirigida por Antunes Filho. Já compôs Guggenheim pela composição da ópera Tatuturema. Gravou os discos Temperamental, Othello
com Arrigo Barnabé e, recentemente, escreveu a trilha sonora do longa-metragem 400 e Anjos Negros, Pasolini Suite e Coleção de Novas Danças Brasileiras. Apresenta-se regularmente
contra 1, do diretor Caco Souza. no Brasil e no exterior. É autor dos livros Artigos Musicais, Contraponto e Música de Cena.
Desde 1995 colabora com o coreógrafo Johann Kresnik em produções de teatro-dança
Duo N1 na Alemanha. Criou a Orquestra de Músicos das Ruas de São Paulo e a Nervous City
Formado por Alexandre Fenerich e Giuliano Obici em julho de 2007, o duo nasceu Orchestra em Miami (Estados Unidos). Também criou a Blind Sound Orquestra, com
da vontade de criar um ambiente de experimentação sonora a partir da performance músicos cegos acompanhando filmes silenciosos.
musical e do improviso. Já se apresentou em festivais de arte eletrônica, cinema e música,
bares e galerias de arte. Em 2009 lançou o CD Jardim das Gambiarras Chinesas - Broken Marcelo Poletto
Music Machines, registro das experimentações musicais criadas até então. Desde 2009 Artista plástico por formação acadêmica; educador por opção política; músico por
explora também performances audiovisuais, criando peças para ver-ouvir – um modo de necessidade. Com a bailaria Morena Nascimento, forma o Duo UNS, que apresenta
atuação que marcou sua participação na Mostra Live Cinema de 2009, com a performance suas próprias composições de forma simples e direta.
“Marulho Oceânico”.
Marcio Nigro
Eric Nowinski Músico premiado, jornalista, compositor, engenheiro de áudio e produtor musical. Há
Começou sua carreira no teatro em 1980 sob a orientação da atriz Célia Helena. Seus mais de dez anos explora as novas tecnologias da criação musical. Em 2002 lançou o
principais trabalhos são: Às margens da Ipiranga, dirigido por Fauzi Arap; Tartufo, de Molière,
livro Áudio e Vídeo Digital no Macintosh, em parceria com João Velho. Em 1998 fundou
dirigido por José Rubens Siqueira; Os coveiros, de Bosco Brasil, dirigido por Hugo Possolo;
a produtora Trio Digital, que compõe jingles para TV. Como compositor de cinema,
e Barrela, de Plínio Marcos, dirigido por Sérgio Ferrara. Seu trabalho mais recente é a
ganhou o prêmio de melhor trilha sonora por Encarnação do Demônio, no Festival
transposição para o palco do conto O Espelho, de Machado de Assis.
de Paulínia (2008) e por É proibido fumar (2009), no Festival de Brasília.
Matheus Leston Simone Sou
Músico, compositor, produtor musical e professor. Formado em contrabaixo e Teoria “Percuterista”, desenvolve pesquisa baseada em ritmos brasileiros e do mundo, adaptando
Musical no Centro de Estudos Musicais. É tecladista do grupo Patife Band. Em 2009 técnicas de percussão às de bateria. Gravou com e acompanhou músicos e compositores
participou do projeto Ao redor de 4’33’ na Bienal do Mercosul. Lecionou a disciplina Música como Itamar Assumpção, Mutantes, Chico César, Zeca Baleiro, Zélia Duncan, Elza
Erudita no Século XX no Curso de Arte Contemporânea do Instituto Tomie Ohtake. Soares, Jards Macalé, Paulo Miklos, Robertinho Silva, Otto, entre outros. Atualmente
Compôs a trilha sonora de diversos curtas-metragens, entre eles Mais uma Noite, de toca com a Orquestra Mundana, liderada por Carlinhos Antunes.
Pedro Morelli e Luis Eduardo Amaral, e Sombras, de Dalila Martins.
Turíbio Santos
Max de Castro Gravou 65 álbuns para Erato-WEA (Paris), Chant du Monde (Paris), Kuarup, Visom e Ritornelo
Nascido no Rio de Janeiro, mudou-se para São Paulo ainda criança. Estimulado pelo pai (Rio de Janeiro) e editou coleções de partituras pela Max-Eschig (Paris) e Ricordi (São
Wilson Simonal, interessou-se por música muito cedo. Influenciado por Djavan, Jorge Ben Paulo). Em 1983 criou a Orquestra de Violões do Rio de Janeiro. Em 1999 regravou a
Jor e Cassiano, formou em 1992 a banda Confraria, ao lado de Pedro Mariano e Daniel obra completa de Heitor Villa-Lobos para violão ao lado de compositores como Edino
Carlomagno. No começo de 2000, lançou pela gravadora Trama o seu primeiro disco solo, Krieger, Sérgio Barboza, Nicanor Teixeira, Chiquinha Gonzaga e Ernesto Nazareth,
Samba Raro. Em 2002 lançou Orquestra Klaxon, com parcerias de Erasmo Carlos, Marcelo
para uma série de cinco CDs em comemoração aos 500 anos do Descobrimento do
Yuka, Nelson Motta, Fred Zero Quatro e Seu Jorge. Em 2005 lançou seu terceiro disco, Max
Brasil. É membro-fundador do Conseil d’Entr’aide Musicale (UNESCO). Em 1985
de Castro, o mais autoral de todos eles, e nele conta com a participação do percussionista Naná
foi nomeado diretor do Museu Villa-Lobos e Chevalier de la Legion D’Honneur. Seus
Vasconcelos e do Trio Mocotó.
últimos lançamentos discográficos foram Turíbio Santos interpreta Agustin Barrios, Violão
Ricardo Carioba Sinfônico e a Introdução ao Choro, todos sob a regência de Silvio Barbato. Foi indicado para
A criação de formas visuais e sonoras que não estavam previstas na programação de máquinas o Grammy Latino em 2008.
eletrônicas é a ideia que está por trás da nova série de trabalhos e projetos de Ricardo Carioba.
Por meio de fotografias digitais e analógicas, vídeos e impressões de imagens eletrônicas, o Wilson Sukorski
artista aproveita a inteligência eletrônica para inventar possibilidades de experiência em espaço Compositor, músico eletrônico, performer multimídia, criador e produtor de conteúdos
digital. Desde as fotografias, com que conferia materialidade a ambientes virtuais (Panorama musicais para rádio, vídeo e cinema, designer e construtor de instrumentos musicais
da Arte Brasileira, MAM-SP, 1999), até as simulações feitas em computador (Paço das Artes, inusitados, e pesquisador em áudio digital. Trabalha em diversas atividades musicais no
2003), persegue não o desvendamento dos mecanismos internos da “caixa preta”, mas a Brasil e no exterior: compõe para cinema, vídeos experimentais, instalações de áudio
intervenção nos processos eletrônicos que ali ocorrem, formalizando a poética desse espaço. arte, arte urbana, arte e novas mídias, e se apresenta como performer musical em shows e
performances monoband.
Ricardo Reis
18 Ao lado de Miriam Biderman coordena a Effects Filmes, especializada na finalização Zé Luiz Rinaldi 19
de longas-metragens e documentários. No cinema destacou-se pelos seus trabalhos de Doutor em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro; colaborou
finalização de som, entre eles, Suprema felicidade, de Arnaldo Jabor; A Encarnação intensamente com os diretores Luiz Antônio Martinez Corrêa, Bia Lessa, Celina Sodré,
do demônio, de José Mojica Martins (prêmio de Edição de Som no Festival de Paulínia Fábio Ferreira, Gilberto Gawronsky, Jefferson Miranda e Ulysses Cruz. Premiado pela
em 2008); e Noel, o poeta da vila, de Ricardo Van Steen (prêmio de Edição de Som no bolsa Vitae de Artes, criou e dirigiu a ópera Deslimites da Palavra (CCBB-RJ, 2000). Seu
Festival de Miami de 2007). Na televisão, sobressaiu-se por trabalhos nas séries Travessia, trabalho recebeu o prêmio Rumos Musicais Tendências e Vertentes, do Itaú Cultural,
dirigida por João Batista de Andrade, e Carandiru, outras histórias, de Hector e o prêmio de edição da Cartografia Musical Brasileira, como representante da atual
Babenco, Roberto Gervitz e Walter Carvalho. produção artística nacional.

Ricky Villas Zérró dos Santos


Violonista, baixista e compositor. Paulistano, atua no cenário musical brasileiro desde 1980. Contrabaixista, arranjador, compositor e produtor. Zérró dos Santos tocou ao lado de
Participou das bandas Bom Quixote, Performática, La Vie en Rose e Banda Zero (que músicos como Geraldo Azevedo, Leni Andrade, Família Caymmi, Miúcha, Célia, Nara
ganhou um disco de ouro). Tem parcerias com Ronaldo Bastos, Celso Fonseca, Eduardo Leão, Maurício Aihorn, Alaíde Costa, Alceu Valença, entre outros. Participou da Rio
Amarante, Fredy Haiat e Guilherme Isnard. Representou o Brasil em diversos festivais Jazz Orquestra e também das gravações dos discos de Elza Soares, Martinho da Vila
no exterior e participou do Projeto World Party ao lado dos músicos holandeses Tomaz
e Nana Caymmi. É criador e líder do grupo Zérró Santos Big Band Project, formado
Geretsem e Georgia Dias. Fomou-se no Audio Engineering Institute (SAE), de Amsterdã.
por 6 saxofones, 2 trompas, 4 trombones, 1 tuba, 5 trompetes, contrabaixo, guitarra,
acordeom, bateria e percussão.
Ruggero Ruschioni
Graduou-se em Composição e Regência na Faculdade Santa Marcelina; especializou-se
em Multimídia na Media Research Lab New York University e fez mestrado em Cinema,
Rádio e Televisão na Escola de Comunicações e Artes da USP. Atualmente é professor
do Centro Universitário Belas Artes de São Paulo e professor-assistente da Faculdade
Cásper Líbero. Tem experiência nas Artes com ênfase em música, e atua principalmente
com temas de computação gráfica, música computacional, realidade virtual, 3D tempo
real, síntese sonora e sincronia.
Cinédia 80 anos
Ode parnaso-punk aos 80 anos
Hernani Heffner

De forma sintética, pode-se dizer que a Cinédia é uma produtora cinematográfica


brasileira fundada em março de 1930. Está fazendo, portanto, 80 anos. Sendo assim,
seus predicados históricos seriam o pioneirismo industrial, a configuração de um
produto fílmico de sucesso para o mercado, a revelação de talentos técnicos e artís-
ticos, e a criação de alguns filmes marcantes do ponto de vista estético. Suas limitações
diriam respeito à carência de um projeto cultural mais decisivo, à formulação de um
modelo de produção de inspiração estrangeira, ao precário acabamento da maioria
das produções. Em que pese os variados e diferentes contextos por que passou, sua
glória e sua danação estariam ligados à sobrevivência por esses longos, lentos e proble-
máticos 80 anos de vida do cinema e do país.

Essa persistência incomoda e intriga. O que a teria levado tão longe? O que a
teria sustentado para além de uma época de ouro, encerrada em meados do século
passado? Não existe resposta simples ou fácil a estas indagações. Com maior ou Filmagem de Lábios sem beijos. Adhemar Gonzaga (sentado) e Álvaro Naher (de chapéu)
menor empenho, é possível sustentar em alguma medida as indicações positivas ou
negativas listadas acima. Estaríamos diante de uma iniciativa complexa? Seu criador,
o jornalista e cineasta Adhemar Gonzaga, não pensava assim. O desafio era grande, Lábios sem beijos
mas óbvio: fazer cinema por prazer, lucro e arte com vistas a modernizar o país Brasil, 1930, 35mm, preto e branco, 53min, 24qps
de um ponto de vista moral, social e cultural. Desenvolver as potencialidades para cp: Cinédia; p e r: Adhemar Gonzaga; d, df e mo: Humberto Mauro; e: Lelita Rosa (Lelita), Paulo Morano (Paulo), Didi
Vianna (Didi), Gina Cavalieri, Tamar Moema (Tamar), Augusta Guimarães, Alfredo Rosário (tio de Lelita), Décio Murilo,
enriquecer econômica e existencialmente a todos – público, homens de cinema, a Máximo Serrano, Adhemar Gonzaga, Humberto Mauro, Leda Lea, Renato Oliveira, Carmem Violeta, Carlos Eugenio,
nação. A boa e velha utopia. Luiz Gonzaga Martins, Ivan Villar, Fernando Lima
Origem da cópia: Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro

20 As energias descarregadas nesta solene tarefa viraram uma referência, uma narra- 21
Lelita é uma jovem moderna, que encontra Paulo casualmente num táxi. Voltam a se falar durante uma festa. O
tiva, uma lenda; talvez um mito? E o que nos contaria este mito? Machado de Assis desentendimento inicial não impede que os dois passem a se ver, nascendo entre ambos arrebatadora paixão. Certo
afirmava que a missão da literatura brasileira do século XIX era captar e trans- dia, Lelita encontra sua prima Didi chorando sentidamente, e descobre que o motivo dessa mágoa chamava-se Paulo
mitir o sentimento nacional em formação. Ou melhor, era inventar esse sentimento, Morano. Paulo acusa sua ex-namorada, Tamar, de ter preparado a intriga e ter colocado Lelita contra ele.
abstraído dos rostos, das vozes, das ruas, do destino, de qualquer destino que se Depois de muita insistência e dos assédios de Paulo, Lelita decide falar com ele e obrigá-lo a cumprir seu
compromisso com Didi. Superados alguns percalços durante o trajeto de automóvel, Lelita e Didi chegam ao
quisesse atribuir ao homem brasileiro. Gonzaga se lançou a proposta semelhante, encontro com Paulo, ocasião em que se desfaz todo o equívoco.
sem nenhuma crença ingênua sobre o “poder” do cinema. No momento em que se
mencionasse a “força” das imagens, emergia a deixa para qualificá-la em sentido
Nas palavras do próprio Gonzaga: “Não se trata de fazer sionalização crescente do negócio, instaurando relações
preciso. O Brasil e Cinema Brasileiro deveriam aflorar pela palavra jovem, decidido, um filme apenas. Já se fizeram muitos. Trata-se de fazer de trabalho mais regulares, compatibilizando despesa e
renovador, expressivo e criativo. uma indústria de filmes. Estabilidade, produzir um após receita e pondo de lado preconceitos contra os demais
outro. O cinema é a indústria mais completa do mundo. produtos fílmicos (cinejornais, curtas documentais e de
Egoísta. Não admite improvisações nem adaptações. O ficção, filmes publicitários, institucionais, etc.). Foram
Este caldo primordial arremessado ao futuro encontra seu núcleo de expansão na
que falta é maquiagem, dizem uns. Precisa melhorar a mais de 700 produções de pequena duração e 55 longas-
passagem do silencioso ao sonoro, no amor à imagem perante à inevitável ditadura fotografia, dizem outros. Mas a maquiagem depende de metragens até 1952. A Cinédia chegou a possuir três
do som, no sucesso da primeira experiência diretorial, fundada em uma crença de boa iluminação do artista, do cinegrafista, da qualidade palcos de filmagem, laboratório, sala de som, dois almo-
valores juvenis e na paixão por Griffith, Stroheim, Murnau, Mauro e uns poucos dos refletores e da força elétrica. Esta, por sua vez, de xarifados para cenários e figurinos, sala de montagem,
uma possante e dispendiosa subestação... E que adian- camarins e restaurante, entre outros departamentos. Teve
mais. A Cinédia era o futuro inevitável e necessário, mas seus primeiros tempos, mais tará uma boa iluminação, sem estudos de gama, sem câmeras como a Mitchell e a Super-Parvo, reveladora e
especificamente suas três primeiras produções, tinham que reter e na verdade fundar sensitometria, da parte científica do laboratório, enfim? copiadora Debrie, sistema de gravação e mixagem RCA,
esse sentimento de um cinema nacional. A encarnação disso pode ser a liberação E que valerão estes estudos, sem máquinas de revelação grua de madeira e de ferro, refletores Mole-Richardson,
crescente da mulher, o modernismo carioca, a licenciosidade da canção popular ou automática e contínua?” fotômetros Weston, entre outros equipamentos pioneiros
no país. E por lá passaram ou se formaram realizadores,
qualquer outra manifestação histórica corriqueira. O espírito vagueia pela ousadia O projeto da Cinédia derivou em grande parte das rela- técnicos, atores e cantores.
formal, empresarial e cultural de propor um cinema fadado ao malogro. Na contra- ções de Gonzaga com um grupo de jovens amantes e
corrente de uma sobrevivência necessária, arriscar-se no deleite de uma experiência praticantes do cinema. Somente a partir do acúmulo O próprio Gonzaga exerceu quase todas as funções
de crises associadas aos altos investimentos e às baixas dentro do estúdio, de ator a montador, de cenógrafo
livre de pressões mais amplas. A expulsão do paraíso viria, mais cedo ou mais tarde, bilheterias iniciais, sem mencionar o anacronismo da a roteirista, de locutor a diretor, mas foi sobretudo
mas como era conhecida e esperada, não tinha grande importância frente à chama persistência em um modelo “silencioso”, Gonzaga se produtor e administrador. A ação gonzaguiana ainda
contrabandeada para os sets de filmagem. afastou dos amigos e desenvolveu uma estratégia de profis- não foi estudada e compreendida em sua justa medida.
22 2
23

Crítica de Pery Ribas sobre Lábios sem beijos. Cinearte, 13 janeiro 1932
Vento e areia

Em Busca do Brasil
Trenzinho Caipira feitas pela Cinemateca Brasileira de dois fantásticos documentários sobre compa-
nhias de estradas de ferro da década de 1920, e também de propiciar um contato
com a versão mais completa (em termos de metragem e de cor) até hoje possível
Cuidado com o carvão no olho. Não debruçar demais para não estourar a cabeça de de O Segredo do corcunda, filme em que o transporte ferroviário tem grande
encontro às pilastras das caixas d’água de onde saía aquele enorme tubo de couro por onde importância, por ser ele que faz a ligação entre campo e cidade, cenário em que
o trem bebia... Os postes elétricos do lado dos trilhos, que suspendiam numa chicotada os se desenvolvem os conflitos dessa história.
fios que novamente se curvavam para, de repente, subirem de novo. [...] Tinha vontade de
24 descer e bater também nas rodas de ferro com um poderoso martelo. Ou ser guarda-trem, 25
O outro significado da escolha é um desafio aos espectadores da Jornada:
para perfurar os bilhetes. Ou maquinista, para apitar sem parar, não parar mais e varar em quantos outros dos filmes exibidos o trem desempenha um papel simbó-
todos os túneis do mundo. lico importante?
Pedro Nava, Baú de ossos
Um exame superficial dos programas nos permite colher alguns exemplos. É de
O trem, símbolo máximo da Revolução Industrial durante o século XIX, modificou trem que Letty Mason (Lillian Gish) penetra nos domínios em que Vento e areia
radicalmente as relações do homem com o mundo à sua volta. As distâncias encolheram modificarão para sempre seu destino. Algumas cenas-chave de A Carne e o diabo
e o próprio tempo precisou ser reformado: as horas foram padronizadas de forma a se transcorrem numa estação ferroviária e é de trem que von Harden (John Gilbert)
poder estabelecer quadros de horários e os passageiros não perderem seus trens. volta para os fatídicos braços de Felicitas (Greta Garbo). Igualmente de trem que
Volódia (Vladimir Fogel) chega a Moscou, distraído ainda do que o espera na cidade
No final do século, o trem encontrou-se com uma invenção tecnológica que revolu- grande. Nos filmes suecos, a presença das linhas férreas é mais escassa, sobretudo
cionaria o entretenimento de massas: o cinema. Não é à toa que, ao lado da saída porque o barco e o trenó eram meios de locomoção mais adequados num país em
dos operários de suas usinas em Lyon, a estaçãozinha de La Ciotat, vizinha à Riviera que água e neve abundam. Mesmo assim, é numa viagem de trem que Gunnar
Francesa, fosse um dos primeiros lugares escolhidos pelos irmãos Lumière para fixar Hede (Einar Hanson) combina a aventura que o enlouquecerá em Contra o
sua câmera com a finalidade de registrar a chegada de um trem. orgulho. Mas trens estão presentes em outros filmes. Em quantos? Descubram!

Cinquenta segundos de imagem em movimento que se transformaram numa quase Em 1926, durante sua campanha à presidência do Brasil, Washington Luiz
obsessão dos cinegrafistas das décadas seguintes. Centenas de chegadas de trem propalou que “governar é abrir estradas”. Com isso, atrelava o país à “moder-
foram filmadas em todo o mundo, muitas delas (a maioria?) com o mesmo enquadra- nização” das regras do capitalismo ocidental que apostava na indústria
mento, ou muito semelhante ao do registro dos Lumière. Quando os filmes ficaram automobilística e na exploração extensiva dos recursos petrolíferos do planeta.
mais longos e surgiram documentários sobre cidades, era raro que uma das imagens Sabemos ao que isso nos levou.
inseridas não fosse a de um trem chegando a uma estação.
As consequências artísticas da opção foram menores: a poesia dos trens de ferro,
A escolha do tema “trem” para o destaque brasileiro desta Jornada tem duplo signifi- ou de aço, continuou e continua frequentando filmes feitos em todo o mundo.
cado. Trata-se de uma oportunidade privilegiada para exibir as restaurações recentes No fundo, no fundo, o ser humano resiste como um ser poético. (CRS)
Companhia Paulista de Estrada de Ferro
Brasil, 1930, 35mm, preto e branco, 62min, 18qps
cp: Rossi-Film
Origem da cópia: Cinemateca Brasileira

Documentário dividido em três partes. Na primeira, a Companhia Paulista de Estradas de Ferro instala, em espaços da
Companhia Docas de Santos, uma oficina para montar 750 vagões com estruturas recebidas dos Estados Unidos. O
trabalho, de abril a dezembro de 1929, é realizado em Santos para evitar o transporte de cerca de 20 mil toneladas de peças,
o que implicaria num custo superior a 800 contos de réis. Diversas fases da montagem dos vagões: os depósitos, os guindastes
auxiliares, as diferentes seções de trabalho. O refeitório dos operários e encarregados, montado num vagão. O dr. Martins
Fontes, diretor do serviço médico que atendeu 180 operários, posa ao lado do pessoal no encerramento da empreitada.

Na segunda parte, o documentário mostra a cidade de Rio Claro e as oficinas da CPEF: ferraria, serraria, marcenaria,
pintura e transporte dos vagões. Na terceira parte, a via férrea dupla entre Jundiaí e Campinas e as oficinas de reparo de
locomotivas elétricas e a vapor na primeira cidade. Seções de trabalho, transporte das locomotivas e saída dos operários.

Companhia Mogyana
Brasil, década de 1920, 35mm, preto-e-branco com viragem e tingimento, 56min, 18qps
cp: Guarany Filme
Origem da cópia: Cinemateca Brasileira
26 27
A Companhia Mogyana de Estradas de Ferro foi eterna rival da Companhia Paulista. Ambas foram criadas por grupos de
fazendeiros do interior do estado de São Paulo, e a fundação Mogyana se constitui em 1872, exatamente no ano em que
a CPEF inaugura o trecho ligando Campinas a Jundiaí. O primeiro trecho da Mogyana foi inaugurado em 1875, e ligava
Campinas à Jaguariúna e, no mesmo ano, a linha chegava à Mogi Mirim. O último trecho construído pela Mogyana foi
inaugurado em 1921, quando seus trilhos chegaram a Passos, em Minas Gerais.

O filme documenta diversas atividades da companhia e suas oficinas de montagem e construção de locomotivas a vapor
e vagões de carga e de passageiros.
28 29
30 31
Em Busca do Brasil O Segredo do corcunda falseia cinematograficamente o interior de S. Paulo3:
O Segredo do corcunda filma-se gado (emprestado do matadouro de Vila Mariana, que hoje pertence à
Cinemateca Brasileira) pastando no relevo plano daquele bairro da zona sul de São
– a cor em Gilberto Rossi Paulo. Paralelamente produz-se um figurino adequado com poucos recursos: lenço no
pescoço, por exemplo. Há também habilidade na administração de dificuldades de
superprodução (trens chegam em estações cheias, charretes cruzam as ruas da cidade) e
as locações são escolhidas com sensibilidade. (...)

Hilda Machado A fotografia de Gilberto Rossi, que descreve a paisagem rural na tradição pictórica
da paisagística acadêmica, entusiasmou o crítico Benedito Duarte, e desequilibra
A localização de cópia em nitrato, virada, daquele que parece ser o único dos filmes O Segredo do corcunda. Esse desnível entre a qualidade do aspecto documental
do italiano Alberto Traversa que resistiu ao tempo e ainda pode ser visto – O Segredo da obra frente às pretensões ficcionais do filme é típico do cinema silencioso médio
do corcunda –, lança luz sobre o uso da cor por um dos melhores fotógrafos do brasileiro. O documentário dentro de O Segredo do corcunda (– as externas) –
cinema silencioso brasileiro. A cópia permite uma aproximação maior à obra de explode o espaço teatral que confina os interiores aos planos médios e abre espaço
Gilberto Rossi, um italiano que ensinou os paulistas a fazer cinema, já que a cor era para a excelente fotografia de Gilberto Rossi, fotógrafo da estatura de Edgar Brasil e
uma das razões para o velho Rossi ser, nos anos 1920, considerado o melhor fotógrafo Humberto Mauro, com quem uma comparação se faz inevitável. É a mesma descrição
paulista. Mesmo o impiedoso realizador José Medina, ferino crítico do cinema brasi- da paisagem rural, característica do mestre em sua primeira fase, em Cataguases.
leiro, reconhecia a excelência da escolha dos “positivos em cores fracas, salmon, Os planos gerais entusiasmaram Benedito Duarte, para quem eles legitimam o filme:
amarelo, azul, etc., com as quais Rossi conseguia efeitos muito delicados. Gostava de “Essa legitimidade se deve, em grande parte, à excelente fotografia de Gilberto Rossi,
virar o positivo em sépia, bem fraquinho; Rossi era um artista” 1. A cópia descoberta a atingir nessa fita alturas que não seriam ultrapassadas, certamente, depois, na idade
permitirá que o público apreenda melhor o que era o cinema no período silencioso. de ouro do cinema mudo brasileiro. Há quadros de uma beleza plástica tão pura, tão
Os filmes do chamado cinema mudo não são assistidos hoje como em sua época. O despida de virtuosismo, mas tão integrada na narrativa, tão funcional, como se diria
próprio ritmo acelerado que marca esse cinema para o grande público não passa hoje, que nos faz lembrar a obra ingênua de certos pintores primitivos” 4. (...)
de uma alteração moderna da velocidade de projeção, causada por equipamento
inadequado. Falta a música performática que o acompanhava. E, principalmente, as Alberto Traversa parece ser diluído pela historiografia brasileira (a italiana, com seu
cópias pálidas e incompletas apenas lembram a fotografia original, pois a cor sumiu. rico cinema silencioso, ainda não se ocupou dele) no perfil mais geral do rude cavador,
O Segredo do corcunda é todo ele virado em diferentes densidades. As sequên- mais um dos italianos que apenas sabendo manipular uma câmera, aqui vieram fazer
32 a América. Traversa participou do grande auge do cinema italiano: em 1914 havia 33
cias alternam caprichosas viragens – como a combinação apontada por Francisco
Moreira como “de viragem azul e sepiada sobre uma base laranja da Pathé” 2 – com 80 produtoras na Itália, algumas com renome mundial: o país exportava cinema.
sequências tintadas sem nuance – como aquelas em verde que sublinham as propostas Segundo fontes argentinas, Traversa dirigiu para as produtoras Savoia, Ambrosio,
documentais da fazenda. A concepção da viragem, o uso da cor no cinema silencioso, Latina Arts, Musical Film e Jupiter Film. (...)
se apoiava num código compartilhado por realizadores e público, em que cada cor era
investida de um significado simbólico, onde o vermelho, por exemplo, é o emblema A ida de Traversa para a Argentina faz parte do fenômeno da imigração italiana para
recorrente, a cor convencional, de paixão ou violência. O processo obrigava à classi- aquele país. No final da década de 1910, fugindo talvez da guerra ou seguindo o fluxo
ficação das sequências (...), à escolha das partes que, de acordo com o sentido a elas imigratório, o aventureiro Traversa vai para a Argentina, esperançoso com o pulso
atribuído, deveriam receber uma determinada cor (...), sendo as sequências agrupadas daquela cinematografia: entre 1915 e 1921 foram produzidos mais de 100 filmes.
para receberem sua cor. Um dentre os letreiros de O Segredo do corcunda – todos Alberto Traversa chega à Argentina exatamente em 1915. Já no ano seguinte, ele
sem viragem –, ao introduzir um flashback, desvenda o significado desse uso da cor, dirige um longa, Bajo el sol de la pampa. Depois ele dirigiu dois filmes produzidos
característico do período: “A vida de cada um é um livro de páginas de muitas cores ... por Mario Gallo: En buena ley (1919) e En un dia de gloria (1918), este último
claras, escuras, róseas e negras...” possivelmente um projeto paralisado.

A fotografia com viragem de Gilberto Rossi pode explicar o sucesso do filme. Um êxito Ainda em 1918 ele rodou Los Inconscientes, um longa na linha da Ambrosio, que
comercial segundo os padrões e a linguagem da época, O Segredo do corcunda foi foi apresentado como um filme científico sobre “a fatalidade da lei atávica”, a heredita-
lançado em São Paulo, capital, exibido em vários cinemas de bairro e distribuído no riedade do alcoolismo. (...). Miguel Couselo5 afirma ter Alberto Traversa permanecido
interior do estado e na praça de Minas Gerais. No Rio, o crítico Pedro Lima fez uma no país apenas até 1920. Possivelmente, a crise que termina com o silencioso argentino
crítica favorável e o filme foi ainda exibido em Portugal – no Porto e em Lisboa –, o o expulsa para o Brasil. (...)
que levou João Cypriano a afirmar a Maria Rita Galvão, no seu indispensável Crônica
3 Trata-se aqui de um equívoco da Autora: a cena se passa diegeticamente nos pampas
do cinema paulistano, que O Segredo do corcunda “foi o primeiro filme brasileiro gaúchos (N.E.).
exibido no estrangeiro”. (...) 4 Benedito Duarte. “Alberto Traversa e O Segredo do corcunda”. Catálogo da Retrospec-
tiva do Cinema Brasileiro, São Paulo, Museu de Arte Moderna, 1954.
1 Maria Rita Galvão, Crônica do cinema paulistano. São Paulo, Ática, 1978, p.221. 5 Miguel Couselo e outros. Historia del cine argentino. Buenos Aires, Centro Editor de Latino
2 Francisco Moreira. Conversa com a autora. Rio de Janeiro, 4 de setembro de 1997. América, 1984, p.16.
O produtor-protagonista de O Segredo do corcunda, João Cypriano, afirmou,
Em Busca do Brasil
sempre a Maria Rita Galvão: “Rossi e Traversa inventavam truques que ninguém
sabia como eram feitos (...); a cena do delírio, em que aparece uma série de imagens
Hilda Machado
superpostas, cada qual num canto da tela”, foi totalmente criada pelos dois. A própria
sequência do hospício – ainda segundo Cypriano – “não estava no enredo, (...) a ideia é
Pesquisadora do Cinema
dele”, Traversa. As superposições, a ideia de delírio, o hospício, a semelhança do herói, Silencioso Brasileiro
naquele plano patético, com o louco de Conrad Veidt, o claro-escuro da fotografia são
uma bem recriada linguagem expressionista.

O último dos três homens que fizeram O Segredo do corcunda, a história de João Lauro Ávila Pereira
Cypriano não foge a conhecido padrão. Típico realizador paulistano dos anos 1920,
nascido na periferia, em Franco da Rocha, João Cypriano (...) mudou para São Paulo Em 1987, O Segredo do corcunda foi exibido na sala de cinema do Museu Lasar
ainda menino. E se apaixonou por cinema. Para ver filmes sem pagar ingresso, vendia Segall. Presente naquela sessão estava Hilda Machado. Ali, começou a obsessão da
bala na plateia ou carregava tabuletas de propaganda pelas ruas. Adulto, sobreviveu pesquisadora pelo filme.
de seu ofício, encanador, e frequentava a Escola de Artes Cinematográficas Azurri, de
Arturo Carrari. Na escola onde se reuniam ingênuos operários que sonhavam ser atores O interesse de Hilda foi despertado ao observar curiosa a reação daquela plateia não-
de cinema, João Cypriano fica amigo de Francisco Garcia, também encanador por habituada ao cinema silencioso: durante a projeção, os presentes riam e se divertiam
profissão. João escreve um argumento, ambos economizam durante dois anos – doze ao tentar identificar, em vão, entre os personagens, qual seria o corcunda do título.
contos de réis – e convidam o melhor fotógrafo de São Paulo, Gilberto Rossi, para
a equipe. João Cypriano acumulou as funções de argumentista, roteirista e produtor, Por mais de dez anos, realizou intensa pesquisa sobre o filme – perseguiu as biogra-
desempenhando ainda o papel do protagonista, o galã do filme. Sua família carinho- fias dos atores, do diretor Alberto Traversa e do fotógrafo Gilberto Rossi. Percorreu
samente durante anos guardou a cópia de nitrato virada que João levou para exibir na arquivos, bibliotecas e cinematecas no Brasil, na Itália e na Argentina, em um
Europa. Se projetada – até hoje só foi vista em moviola – suas cores alargarão mais a minucioso e exaustivo trabalho de recuperação de pistas escritas e visuais sobre o
ideia do que eram os filmes silenciosos médios brasileiros. Nossa aproximação com o filme e seus realizadores. Entre as preocupações de sua pesquisa, estava a relação entre
passado fílmico é sempre uma construção presente, pois o espectador hoje é um outro, o olhar do público e a proposta do realizador. Discutia as irregularidades do filme, os
e outras são as relações estabelecidas na sala escura entre ele e os velhos filmes. Muitas caminhos de produção e sua inserção no cenário do cinema brasileiro da época. O
das intenções de O Segredo do corcunda não mais se realizam. Envelheceram. Mas trabalho de Hilda Machado rebateu a ideia de que os realizadores do cinema silen-
a viragem mostra que nem toda a imagem está fadada a um envelhecimento precoce. cioso brasileiro fossem ingênuos e de que a estética destes filmes pudesse ser tachada
34 A viragem de Rossi pode hoje ser degustada como alternativa à dieta cromática do de “primitiva”. 35
naturalismo hegemônico. O tempo não age de maneira uniforme e implacável: setenta
e três anos depois, poucas intenções originais de O Segredo do corcunda se realizam A intensidade com que Hilda se dedicou à pesquisa sobre O Segredo do corcunda
para o espectador cinematográfico. Mas essa cor, que tão facilmente se perde nos filmes, esteve presente em toda sua trajetória. Foi militante socialista, tendo sido presa no
e aqui resistiu ao tempo, mantém sua eficácia. final dos anos de 1970 por lutar contra a ditadura militar e participar da organização
de um movimento socialista. Levou a crítica social para o audiovisual, com o curta
Cinemais n.9, janeiro-fevereiro 1998.
Joilson marcou, de 1986, do qual assina roteiro e direção. O curta, sobre jovens
da periferia paulistana, foi premiado nos festivais de Gramado (melhor direção e
Hilda Machado nasceu em 1952. Fez mestrado em Artes pela Universidade de São Paulo (1987)
e doutorado em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2001). A poeta- fotografia), Fortaleza (diretor e ator) e ganhou também o troféu Macunaíma de melhor
cineasta lecionava na Universidade Federal Fluminense, trabalhando especialmente na área de curta no Rio Cine, no ano de 1987.
pesquisa e realização cinematográficas. Estudou cinema em Cuba e atuou como pesquisadora
do uso da imagem na história junto à coleção fotográfica do Warburg Institute, da Universidade
de Londres, na Inglaterra, além de ter passagens como pesquisadora por várias universidades e Hilda Machado foi professora do curso de cinema da Universidade Federal Fluminense
instituições no Brasil e exterior. Faleceu em 2007. e incansável pesquisadora da área, deixando diversos artigos e ensaios, principalmente
sobre a história do cinema silencioso brasileiro. Por sua experiência de “escavadora”
O Segredo do corcunda de acervos, soube valorizar este tipo de trabalho e defendeu a integração entre a
academia e as instituições de memória, pregando a superação da divisão do trabalho
Brasil, 1924, 35mm, com viragem e tingimento, 49min, 20qps acadêmico (intelectual) e de preservação (manual).
cp: Rossi Filme; p: João Cypriano e Francisco Garcia; d: Alberto Traversa; df: Gilberto Rossi
e: João Cypriano (João), Francisco Garca (Marcos), Inocência Collado (Rosa, filha de Carlos), FranciscoMadrigano (Pedro),
Philomeno Collado (Carlos Fernandes, o fazendeiro), Raphaela Collado (Dolores, mãe de João), Benedito Ortiz (Benedito),
Enne Traversa, Nino Ponti, Annunciata Mena Madrigano Em 2002 lançou o livro Laurinda Santos Lobo – mecenas, artistas e outros marginais em Santa
Origem da cópia: Cinemateca Brasileira Teresa (Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2002), resultado de uma extensa pesquisa sobre
o bairro e a relação entre os artistas e mecenas da elite carioca. Também escreveu
Dois empregados em uma fazenda de café – o jovem João e um corcunda idoso, Marcos – são despedidos por Pedro, poesia – foi premiada na 1a Mostra de Poesia Carioca em 1998.
o administrador vilão. O corcunda revela que o capataz foi o assassino do pai do rapaz, e João salva uma mocinha em
perigo, a filha do patrão, que os readmite. O capataz tenta eliminar o rapaz quando os jovens começam a namorar, Hilda Machado faleceu em 2007, deixando pesquisas que enriqueceram a história do
mas, na luta, acaba sendo morto pelo corcunda. Um ano depois, a felicidade idílica coroa o final: os jovens estão
cinema brasileiro e uma obra artística marcada pela sensibilidade e crítica social.
casados e com um filho.
Jon Wengström apresenta
O Cinema Silencioso Sueco

Jon Wengström

Nascido em 1964, Jon Wengström graduou-se na Universidade de Estocolmo, em 1988, em


Literatura, Filosofia e Cinema. Começou a trabalhar no Instituto Sueco de Cinema, em 1990,
como programador de filmes e se tornou coordenador de programação em 1996, posição em
que permaneceu até 2003, quando foi nomeado para sua posição atual de Curador da Coleção
de Filmes de Arquivo. Conferencista sobre assuntos de arquivo e sobre a História do Cinema
Sueco em numerosas cinematecas e festivais em todo o mundo, colabora muito com artigos
no Journal of Film Preservation, publicação da Federação Internacional de Arquivos de Filmes. É
também vice-coordenador da Comissão de Programação e Acesso às Coleções, da Fiaf.

As primeiras imagens em movimento captadas na Suécia foram feitas em agosto


de 1896 por Max Skladanowsky, inclusive algumas cenas cômicas de ficção, e o
primeiro evento sueco de maior importância registrado em celuloide foi a exposição
de Estocolmo em maio de 1897. O acontecimento foi filmado pelo famoso cinegra-
fista francês Alexandre Promio, que percorria a Europa trabalhando para os irmãos
Lumière. A exposição aconteceu numa ilha no centro de Estocolmo, e em uma parte
ainda existente desse material, a câmera é colocada em um barco que se move ao longo
de uma conhecida rua à beira da água, um exemplo bastante pioneiro de utilização
da câmera em movimento. A primeira filmagem feita por um cinegrafista sueco foi o
registro, com 18 metros, da chegada do rei Choolalongkorn, do Sião, ao palácio real
de Estocolmo, em julho de 1897, onde ele é recepcionado pelo rei Oscar II. A cena,
chamada Konungens af Siam landstigning vid Logårdstrappan / Chegada
do rei Sião a Logårdstrappan, é de autoria de Ernst Florman, que trabalhou como
assistente de Promio durante a exposição mundial. Florman foi, várias vezes, contra-
tado pela família real sueca para registrar eventos, e seu último filme conhecido é En 37
bildserie ur Konung Oscar:s lif / Cenas da vida do rei Oscar II (1908), do qual
uma cópia sobrevivente termina com um belo plano colorido a mão.

Durante a primeira década do cinema sueco, os filmes de não-ficção predominaram


e, em 1907, uma primeira série de cinejornais começou a ser produzida pela Svenska
Biografteatern, sediada na cidade de Kristianstad, no sudeste da Suécia (o estúdio conti-
nuou produzindo cinejornais semanais até o início da década de 1960). Sob o comando
do famosíssimo coordenador de produção Charles Magnusson, a Svenska Biografteatern
aventurou-se na realização de filmes de ficção alguns anos depois, utilizando como
fonte obras literárias famosas e acontecimentos históricos. Outros estúdios e produ-
tores também se lançaram na produção de filmes de ficção, como Frans Lundberg, em
Malmö, e N.P. Nilsson, em Estocolmo. Deste último, os trabalhos mais conhecidos são
Fröken Julie / [Senhorita Júlia] (1912) e Fadren / [O Pai] (1912), adaptados de
peças de Strindberg e dirigidos pela realizadora Anna Hofman-Uddgren.

A realização verdadeiramente profissional de filmes na Suécia começou, porém, no


final de 1911, quando Charles Magnusson decidiu abandonar Kristianstad e trans-
ferir as operações da Svenska Biografteatern para Estocolmo. Magnusson construiu os
novos estúdios na ilha de Lidingö, nos arredores da cidade e, em 1912, contratou três
renomados atores e diretores de teatro para realizar seus filmes. Os três eram Victor
Sjöström, Mauritz Stiller e Georg af Klercker, que em pouco tempo seriam as princi-
pais figuras do cinema sueco. Como parte de seu treinamento profissional, Magnusson
estimulou que os três interpretassem papéis em filmes produzidos por outras compa-
nhias. Magnusson estabeleceu também, nesses primeiros anos, acordos de produção e
distribuição com outros estúdios, como a filial da Pathé Frères em Estocolmo. Um dos
primeiros filmes suecos de longa metragem sobreviventes até os dias de hoje é I lifvets
Gustav Molander e Julius Jaenzon filmando A Herança de Ingmar
vår / Na primavera da vida (Paul Garbagni,1912), da Pathé de Estocolmo, rodado exibido na Jornada Brasileira de Cinema Silencioso de 2008. Essa “receita” para realizar
nos estúdios da Svenska Biografteatern pois a Pathé não dispunha de estúdios próprios filmes de sucesso também foi adotada por outros estúdios na época. Por exemplo, pela
na Suécia. A característica mais notável deste filme é que Sjöström, Stiller e Klercker Skandia que, em 1919, adaptou duas famosas novelas do escritor norueguês Bjørnstjerne
nele desempenham os principais papéis. Bjørnson: Synnöve Solbakken, e Ett farligt frieri / [Um Namoro perigoso].

Sjöström e Stiller, as duas figuras mais famosas do trio, rapidamente aprenderam seu A outra figura mais importante do cinema silencioso sueco foi Mauritz Stiller. Como
ofício e realizaram um espantoso número de filmes – chegavam a seis ou sete por Sjöström, em seus primeiros anos foi muito prolífico, realizando filmes de gêneros e
ano. Talvez o mais plenamente bem-sucedido desses primeiros tempos seja Ingeborg estilos variados. O trabalho mais significativo de Stiller, anterior à Idade de Ouro, prova-
Holm, dirigido por Sjöström em 1913, um drama sobre uma mãe solteira que perde a velmente é Vingarne / As Asas (1916), adaptado do conto “Mikael”, de Herman
guarda dos filhos. O filme causou tanto impacto em seu lançamento que desencadeou Bang (a mesma história foi filmada por Carl Theodore Dreyer na Alemanha em 1924).
um debate e uma modificação na legislação sueca, que então passou a favorecer as mães O interessante sobre o filme – e no que a versão de Stiller se diferencia da de Dreyer
solteiras. Mas o filme tem também aspectos visuais interessantes, e o que mais chama – é o acréscimo à história de uma moldura autorreflexiva, característica que pode ser
a atenção talvez seja a maneira como Sjöström usa a profundidade de campo – a ação encontrada em outros filmes do diretor, como em Thomas Graals bästa film / O
se desenvolve, numa mesma tomada, em diferentes planos espaciais. Outra surpreen- Melhor filme de Thomas Graal (1917). Stiller adaptou também para a tela duas
dente característica do filme é o estilo de interpretação contido, que se tornaria uma novelas finlandesas, Sången om den eldröda blomman / Canção sobre a flor
das marcas registradas do cinema silencioso sueco. escarlate (1919) e Johan (1921), ambas rodadas em partes remotas do norte da Suécia
e que contêm cenas de grande impacto visual, como a audaciosa corrida sobre troncos
Terje Vigen, realizado por Sjöström em 1916 e lançado no ano seguinte, é um filme de árvores que flutuam num rio, feita pelo personagem principal (interpretado por Lars
notável por muitas razões. Não apenas porque é um filme sobre a passagem do tempo Hanson), no primeiro dos títulos. Mas a maior fonte literária da Svenska Biografteatern
e o comovente retrato de um velho homem (interpretado pelo próprio Sjöström) que durante a Idade de Ouro foram as obras de Selma Lagerlöf, sendo a mais importante
decide enfrentar seus sentimentos de perda e vingança, mas também porque provocou delas Herr Arnes pengar / O Tesouro de Arne (1919), de Stiller. Uma história de
a mudança da política de produção da Svenska Biografteatern. Ele marca o início cobiça e redenção situada na Suécia do século XVII, com tomadas espetaculares do
do que se tornou conhecido como Idade de Ouro do Cinema Sueco (período que fantasma de uma moça assassinada. As histórias de Selma Lagerlöf se revelaram grande
se diz habitualmente ter durado até 1924). Foi a produção mais cara feita até então fonte para filmes, frequentemente porque lidam com elementos de um misterioso
e, quando o filme se tornou um grande sucesso financeiro e obteve uma boa reper- mundo, com espíritos de mortos que se manifestam aos vivos – o que forneceu excelente
cussão crítica, o estúdio decidiu mudar radicalmente sua política de produção. De vinte material visual e ajudou a criar o clima de exotismo desses filmes suecos da época. A
filmes por ano, a produção anual caiu para alguns apenas, que passaram a ter uma escritora era muito ciosa quanto à adaptação de suas histórias, e sempre manteve uma
preparação mais longa e cuidadosa, além de um orçamento maior. Como muitos dos boa relação com Sjöström, além de ter Stiller em alta consideração, afirmando ter ele
filmes realizados a partir de então, Terje capturado excelentemente sua escrita em Herr Arnes pengar. No entanto, se revelou
Vigen se baseava numa famosa obra menos entusiástica com algumas adaptações que fez posteriormente de seus trabalhos,
38 como Gunnar Hedes saga / Contra o orgulho (1923). Ela se opôs muito ao roteiro 39
literária, no caso, um longo poema do
escritor norueguês Henrik Ibsen (o filme e relutou em aceitar que seu nome fosse associado ao filme. Mas, Stiller, já no roteiro,
é talvez a melhor adaptação já vista de criava um lindo conto de perda e sofrimento, e mostrava como se poderiam encontrar
um poema para a tela). Outra caracterís- consolo e redenção na arte e no amor. A mais famosa adaptação de Selma Lagerlöf é
tica marcante é que foi rodado sobretudo Körkarlen / A Carruagem fantasma, rodada por Sjöström em 1920 e lançada em
em locações. Sjöström e o renomado 1o de janeiro de 1921, e que atualmente seja talvez encarada como o melhor filme silen-
diretor de fotografia Julius Jaenzon utili- cioso sueco e um verdadeiro clássico do cinema. O filme tem uma estrutura narrativa
zaram maravilhosos cenários não apenas complexa: a história de um homem que faz um retrospecto de sua vida, e das injustiças
como pano de fundo espetacular para e males que infligiu a outros, é contada em flashbacks – eventualmente flashbacks dentro
Julius Jaenzon o desenvolvimento do drama, mas para de flashbacks –, criando uma espécie de estrutura de múltiplas camadas que, contudo,
justamente mostrar a interação do homem com a natureza. Todos esses aspectos parecem cristalinas à medida que o filme se desenrola. Körkarlen também é famoso
– grande orçamento, o uso de uma famosa obra literária e a filmagem em locação por seu uso de múltiplas exposições, criadas pelo diretor de fotografia Julius Jaenzon.
– consubstanciaram a nova política da Svenska Biografteatern.
Outras personalidades, além de Sjöström e Stiller, ajudaram a dar forma ao cinema
Mas devemos ser cuidadosos no uso da expressão Idade de Ouro e na divisão de silencioso sueco. Um dos mais famosos é Gustaf Molander, que começou sua carreira
filmes feitos antes e depois de Terje Vigen. A Idade de Ouro caracteriza não apenas escrevendo o roteiro de Terje Vigen com Sjöström e continuou fazendo filmes até a
uma tal qualidade dos filmes, mas também um certo modo de produção da indústria década de 1960 (além de ter sido o diretor que projetou a atriz Ingrid Bergman ao estrelato
cinematográfica do período. Muitas fitas realizadas antes de 1917 têm sido injustamente em meados dos anos 1930). Durante o período silencioso, Molander demonstrou grande
negligenciadas, assim como muitas produções de depois de 1917 nada têm de notáveis. A habilidade na realização de filmes de gêneros variados, desde trabalhos ambientados
verdade sobre Terje Vigen, contudo, é que ele contribuiu para que o cinema ganhasse em diferentes períodos históricos a dramas e comédias contemporâneos. Provavelmente
credibilidade e respeitabilidade culturais. Foi o primeiro filme a ter uma resenha assinada sua contribuição mais notável como diretor de filmes silenciosos tenham sido as duas
num jornal sueco, escrita por um crítico literário muito famoso. Teve também muito adaptações componentes do ciclo de filmes feitos a partir da obra Jerusalém, de Selma
sucesso no exterior, e a filmagem em locações, nas quais o homem é visto lutando contra Lagerlöf, Ingmarsarvet / A Herança de Ingmar (1925) e Till Österland / [Para o
os elementos, tornou-se parte do “exotismo” ou “originalidade” do cinema sueco, que Oriente] (1926). Esses filmes foram a continuação de Ingmarssönerna / [Os Filhos
pareciam fascinar as plateias estrangeiras. Esse diferencial predominou também no de Ingmar] (1919) e Karin Ingmarsdotter / Karin, filha de Ingmar (1920),
filme seguinte de Sjöström, Berg-Ejvind och hans hustru / Os Proscritos (1918), dirigidos por Sjöström. Ingmarsarvet é uma comovente descrição da vida em uma
pobre vila rural, desequilibrada pela chegada de um fanático religioso (interpretado Outra obra cinematográfica dissidente, mas de escala muito maior, é Häxan / A
por Conrad Veidt) – e chega a ser melhor contribuição que a dada por Sjöström para o Feitiçaria através dos tempos, quase um monumento na história do cinema
mesmo ciclo de filmes. A obra tem todas as características familiares dos filmes clássicos silencioso sueco, com poucos equivalentes em qualquer outra parte do mundo.
suecos: mostra a interação do homem com a natureza em cenários espetaculares, e se Häxan foi realizada pelo diretor dinamarquês Benjamin Christensen e é uma curiosa
baseia numa famosa fonte literária. E justamente por ter sido feita num momento em combinação de explicações e dramatizações didáticas da visão medieval sobre demônios
que já se considerava encerrada a Idade de Ouro do cinema silencioso sueco, indica o e bruxarias. Não se parece com nenhum outro filme feito na época na Suécia; e esse
quanto o uso desse rótulo deveria ser aplicado com mais cautela. estudo verdadeiramente pessoal sobre
os recalques impostos pela moral e
Evidentemente nem todos os filmes suecos do final da década de 1910 e começo da pela religião sobre os seres humanos
seguinte se passam em locações nem mostram a luta do homem contra a natureza em permanece ainda hoje como uma
cenários autênticos. Stiller fez muitas comédias em ambientes da classe alta urbana, e poderosa experiência visual. Christensen
Norrtullsligan / As Garotas de Norrtull (1923), de Per Lindberg, é uma comédia não foi o único talento estrangeiro a quem
sobre quatro secretárias que vivem juntas numa metrópole e, em comunidade tentam se ofereceu a oportunidade de realizar
sobreviver no mundo governado por chefes. O filme, adaptado de uma novela de Elin filmes na Suécia. Entre outros contratados,
Wägner, é notavelmente moderno ao retratar mulheres que lutam pela auto-suficiência, esteve seu compatriota Carl Theodore
auto-sustentabilidade e a autoconfiança. Outra figura importante do período silencioso Dreyer, que realizou Prästänkan / A
foi o autor de desenhos animados Victor Bergdahl, que entre 1915 e 1922 realizou nada Quarta aliança da sra. Margarida
menos do que 17 filmes curtos com o personagem Capitão Grogg. Eles demonstram A Feitiçaria através dos tempos (1920) para a Svensk Filmindustri.
que Bergdahl pode ser comparado com qualquer outro animador mundial do período.
Em Kapten Grogg skall portätteras / Quando o capitão Grogg foi fazer seu O final da Idade de Ouro do cinema sueco é habitualmente fixado em 1924, com o
retrato (1917), Bergdahl engenhosamente mistura animação e seres vivos, e ele próprio lançamento de Gösta Berlings saga / A Saga de Gösta Berling], para sempre
interpreta o pintor contratado para fazer o retrato de Grogg. inscrito no cinema como o momento de revelação da atriz Greta Garbo. Até então, ela
era praticamente desconhecida (era ainda aluna da Escola de Arte Dramática quando
No final dos anos 1910, a Svenska Biografteatern começou a expandir e consolidar foi selecionada por Stiller para o elenco do filme – por recomendação de Molander, o
ainda mais sua posição no mercado cinematográfico sueco; fundiu-se a outras então diretor da escola. Quando o filme foi lançado, Stiller e Greta Garbo já haviam
companhias e, em 1919, batizaram-se como Svensk Filmindustri (ainda existente), deixado a Suécia. Depois de um abortado projeto em Istambul (então Constantinopla),
uma companhia completa, verticalmente integrada, que não só era a maior produtora chegaram a Berlim, onde Greta foi escolhida por G.W. Pabst para o elenco de Die
mas também a maior distribuidora e a maior proprietária de salas de exibição. No freudlose Gaße / A Rua das lágrimas (1925). Leo B. Mayer, produtor da MGM,
momento em que se fundiram, reestruturaram e rebatizaram, aumentou também a viu Gösta Berlings saga e ofereceu a Stiller e a Greta um contrato em Hollywood.
necessidade por melhores e maiores instalações de filmagem. Os novos estúdios em Naquele momento, Sjöström também já havia deixado a Suécia e ido para a América
40 Råsunda, ao norte de Estocolmo, ficaram prontos para uso na primavera de 1920 (o 41
do Norte – e o mesmo fizeram o ator Lars Hanson e o roteirista Hjalmar Bergman.
primeiro filme produzido nas novas instalações foi Körkarlen). Mas, como dito, seria tolice considerar inferiores todos os filmes feitos na Suécia depois
de 1924. Ingmarsarvet é um filme que veremos na Jornada mas, além deste, do final
Quando, dez anos antes, Magnusson transferira as operações da Svenska Biografteatern da era silenciosa, temos também o primeiro filme de Alf Sjöberg, Den starkaste /
para Estocolmo, ele contratara não apenas Sjöström e Stiller, mas também Georg af [O Mais forte] (1929), notável e visualmente muito bem realizado, filmado no mar
Klercker. Este, com seu espírito contestador, quis ser seu próprio chefe, e logo se desen- Ártico. Outro filme de interesse, depois de 1924, é Flickan i frack / [A Garota de
tendeu com Magnusson. Em 1915, Klercker decidiu se mudar para Göteborg, na costa smocking] (Karin Swanström, 1925), com algumas das primeiras cenas de travestismo
oeste da Suécia, onde realizou uma série de filmes de aventura e ação para o estúdio no cinema sueco. Sua realizadora dirigiu outros três filmes silenciosos e, após o advento
Hasselbladfilm, estabelecido pela famosa fábrica de câmeras Hasselblad. Klercker do sonoro, tornou-se a chefe de produção da Svensk Filmindustri.
tinha gosto por filmes de ação e aventura, que narrava com eficiência e muita incli-
nação por composições espetaculares. As Filmes de não-ficção continuaram a ser produzidos durante todo o período silencioso, e
locações externas dos filmes de Klercker não apenas sob a forma de cinejornais semanais. Bengt Berg foi um importante diretor
não se prestam a mostrar a interação do de documentários e fez uma série de curtas e longas-metragens que descreviam a vida
homem com a natureza, mas a aproveitar animal e selvagem na Suécia, iniciando assim uma tradição que seria levada ao apogeu
os cenários na criação gráfica de efeitos por Arne Sucksdorff nas décadas de 1940 e 50. Berg reuniu-se também ao cinegrafista
impactantes, como em seu magnífico Gustaf Boge e ao príncipe Wilhelm em viagens a países estrangeiros em meados da
Fången på Karlstens fästning / A década de 1920. Esses filmes eram realizados com propósitos educativos e distribuídos
Prisioneira da Fortaleza de Karlsten em escolas, o que acontecia também com uma grande quantidade de filmes de ficção
(1916). Os filmes de Klercker para a da Svenska Biografteatern e da Svensk Filmindustri.
Hasselblad faziam sucesso mas, por
uma infeliz e irônica virada do destino, Ainda antes da evasão dos grandes talentos, a Svensk Filmindustri iniciara uma
A Prisioneira da Fortaleza de Karlsten
a Hasselbladfilm foi logo assumida pela mudança em sua política de produção, afastando-se do tradicional look dos filmes
Skandia – um dos estúdios envolvidos na fusão com a Svenska Biografteatern que suecos para criar algo que acreditava ter mais apelo internacional. Dois primeiros
resultou na formação da Svensk Filmindustri. Klercker, impossibilitado de trabalhar exemplos – os mais bem-sucedidos – foram Klostret i Sendomir / O Mosteiro
com Magnusson, teve de compreender que seus dias como diretor de filmes estavam de Sendomir (1920), de Sjöström e Erotikon (1920), de Stiller. O filme de Sjöström
definitivamente encerrados. não está entre seus mais conhecidos mas, na época, foi um dos que tiveram maior
repercussão. Fez enorme sucesso de bilheteria e foi vendido para mais de 50 países. É
um filme de época, ambientado na Europa central e não há nada de muito “sueco”
nele, embora seja um trabalho graficamente muito fascinante, em que pela paisagem
se criam interessantes padrões que acentuam o isolamento dos locais e a claustrofobia
de uma história de amores clandestinos. Erotikon foi concebido inicialmente como o
primeiro de uma série de filmes em locações urbanas, sob a direção de Stiller e com uma
sedutora atriz no papel principal. Por diversas razões, o projeto nunca se concretizou
mas, como filme isolado, Erotikon sobrevive como a mais deliciosa comédia realizada
por Stiller. No final da década de 1920, o caminho da “internacionalização” ficou
mais forte e a Svensk Filmindustri chegou a criar uma companhia subsidiária, a Isepa
Films, responsável apenas por coproduções internacionais. O melhor exemplo é
Förseglade läppar / [Lábios selados] (1927), filmado por Gustaf Molander na
Itália, coproduzido pela National Film AG de Berlim e a famosa Les Films Albatros,
de Paris. O clássico de Anthony Asquith exibido na Jornada Brasileira de Cinema
Silencioso de 2008, A Cottage on Dartmoor / Uma Casa em Dartmoor (1929),
também foi coproduzido pela Svensk Filmindustri e lançado na Suécia, Conferência de abertura
em uma versão um pouco diferente da inglesa, como Fången n:r 53. Mas Convidado a fazer a conferência inaugural da IV Jornada Brasileira de
alguma coisa havia sido perdida quando a busca pela internacionalização Cinema Silencioso, Jon Wengström falará sobre o Cinema Silencioso Sueco,
prevaleceu sobre outros interesses: muitos dos filmes realizados na segunda
com excertos de filmes.
metade da década de 1920 poderiam ter sido feitos por qualquer pessoa
em qualquer lugar do mundo.

Há muitas hipóteses sobre a razão de os filmes silenciosos suecos terem


alcançado tanto sucesso e provocado tanto impacto a partir de meados
da década de 1910. Talvez seja correto dizer que os melhores filmes da
década de 1910 e começo da seguinte tiveram apelo por seu exotismo
e originalidade, mas também porque particularmente incluíam algo
universalmente entendido. Embora a produção cinematográfica sueca
fosse pequena em comparação com a de outros países, a combinação de
grandes talentos individuais à frente e atrás das câmeras, um elevado nível
42 de sofisticação técnica, o engenhoso uso de locações naturais e a riqueza 43
psicológica das histórias e dos personagens transformaram os filmes silen-
ciosos suecos num cinema nacional dos mais interessantes e ricos das
décadas de 1910 e 20.

Um enorme percentual do patrimônio cinematográfico sueco tragicamente


se perdeu quando toda a coleção de negativos originais de filmes silenciosos
O Mosteiro de Sendomir produzidos pela Svensk Filminidustri (e suas encarnações anteriores) foi
destruída num incêndio, em 1941. Um aspecto desse trágico acidente é que mais de
50% da produção silenciosa sueca perderam-se completamente (no caso de Sjöström
e de Stiller, os números são ainda piores: apenas 15 dos 43 filmes suecos de Sjöström
sobreviveram, e apenas 14 dos 45 de Stiller). Outro aspecto diz respeito aos trabalhos de
preservação ou restauração de filmes suecos do período silencioso que ficaram quase intei-
ramente restritos ao uso de cópias de exibição em nitrato, mais ou menos gastas, como
materiais de duplicação. Muitas delas também apenas na forma de cópias resumidas
para distribuição escolar ou mesmo em formato ainda mais fragmentário. Felizmente,
cópias em nitrato (e mesmo negativos originais de coproduções) ainda são localizadas
em arquivos estrangeiros. Na última década, filmes como I lifvets vår, Madame de
Thèbes (Stiller, 1915), Hämnaren / O Estivador (Stiller, 1915), Dödskyssen / O
Beijo da morte (Sjöström, 1916), Karusellen / [Carrossel] (Buchowetzki, 1923) e
Polis Paulus’ påskasmäll (Molander, 1925) vieram se somar à lista de filmes redes-
cobertos. E novos materiais de filmes, como Klostret i Sendomir e Gunnar Hedes
saga, foram descobertos em anos recentes, tanto na Suécia quanto no exterior, forne-
cendo outras fontes para novas e melhores restaurações. Estamos esperançosos de que
haja mais tesouros a serem descobertos, o que quiçá nos permitiria aprofundar nossa
compreensão do cinema silencioso sueco. Greta Garbo (à esquerda) em Pedro, o vagabundo / Luffar - Peter
PROGRAMA 1

Na primavera da vida
I lifvets vår
Suécia, 1912, 35mm, preto-e-branco com viragem e tingimento, 54min, 16-17qps
cp: Pathé Frères; d: Paul Garbagni; r: Abdon Hedman baseado no romance Första älskarinnan, de August Blanche;
df: Willi Neumaier; e: Victor Sjöström (Cyril Alm), Anna Norrie (senhora Alm, mãe de Cyril), Georg af Klercker
(comendador von Seydling), Selma Wiklund af Klercker (Gerda), Mauritz Stiller (tenente von Plæin), Astrid Engelbrecht
(Sara Andersson), Victor Arfvidson (Brooms), Georg Fernquist, Erland Colliander, William Larsson, Valdemar Dalquist,
Henrik Jaenzon, Martha Josefson
Origem da cópia: Svenska Filminstitutet

44 Gerda, com a morte da mãe, é enviada ao comendador von Seydling, que a concebera em um de seus amores 45
escusos. O comendador entrega a menina a uma senhora que a vende a uma quadrilha que explora crianças
mendigas. Cyril Alm a salva e a cria na casa de sua mãe. Muitos anos depois, Gerda sucumbe aos encantos do
tenente von Plæin e foge de casa. Vinte anos se passam: Gerda é uma atriz famosa e o próprio pai a corteja. Cyril a
procura para reencontrar o passado, salva-a de um incêndio e tem o incentivo do comendador para desposá-la.

Madame de Thèbes
Suécia, 1915, 35mm, preto-e-branco com viragem e tingimento, 50min, 17qps
cp: AB Svenska Biografteatern; d: Mauritz Stiller; r: Martin Jørgensen, Louis Levy; df: Julius Jaenzon; e: Ragna
Wettergreen (Ayla, conhecida como Madame de Thèbes), Nicolay Johannsen (conde Roberto), Albin Lavén (barão von
Volmar), Karin Molander (Louise von Volmar), Märta Halldén (condessa Júlia), Doris Nelson (Ayla quando jovem)
Origem da cópia: Svenska Filminstitutet

Uma cigana é amaldiçoada pelo pai e precisa renegar seu filho ilegítimo para que ele tenha sucesso na vida. Ela
entrega a criança à condessa Júlia, que acaba de perder seu próprio filho. Trinta e cinco anos depois, o conde
Roberto tornou-se um político importante prestes a ser nomeado ministro de Assuntos Estrangeiros. Seu rival
no Parlamento é o barão von Volmar, mas, por uma fatalidade, o conde apaixona-se pela filha do barão. Este,
por sua vez, através de manobras escusas, descobre que Roberto é filho da famosa Madame de Thèbes, profetiza
consultada por todos os políticos, e usa essa informação para arruinar a carreira do conde.

Madame de Thèbes
PROGRAMA 2

Quando o capitão Grogg foi fazer o seu retrato


När Kapten Grogg skulle porträtteras
Suécia, 1917, 35mm, preto-e-branco, 7min, 18qps
cp: AB Svenska Biografteatern; d, da e e: Victor Bergdahl (pintor)
Origem da cópia: Svenska Filminstitutet

Combinação de filmagem ao vivo e animação. Um pintor, insatisfeito com seus trabalhos, recebe a visita do
capitão Grogg, que deseja um quadro seu, de corpo inteiro. Mas o capitão não fica contente com a maneira como
o pintor retrata seu nariz, avermelhado pelos efeitos da bebida.

A Prisioneira da Fortaleza de Karlsten


Fången på Karlstens fästning
Suécia, 1916, 35mm, preto-e-branco com viragem e tingimento, 64min, 16qps
cp: Hasselblads Fotografiska AB; d: Georg af Klercker; r: Willy Grebst e Georg af Klercker; df: Gösta Stäring;
e: Nils Chrisander (De Faber), Maja Cassel (Mary Plussman), Manne Göthson (Johan Plussman), Arvid Hammarlund
(doutor Johnson), Gustaf Bengtsson (assistente de De Faber), Victor Arfvidson (Berger, guardião da fortaleza),
William Engeström (pescador)
Origem da cópia: Svenska Filminstitutet

De Faber é um inventor que fracassa na tentativa de descobrir uma nova fórmula de explosivo. A descoberta, Terje Vigen
porém, é realizada pelo professor Plussman, da Suécia, e De Faber, disfarçado de conde, visita Plussman e quer
comprar a fórmula. Como o inventor se recusa a vendê-la, De Faber a rouba e sequestra Mary, filha do professor.
46 O sequestro é visto por pessoas que alertam a polícia, o pai da moça e Johnson, seu namorado. Prisioneira numa 47
fortaleza construída sobre uma ilha rochosa, Mary consegue enviar uma mensagem de socorro dentro de uma PROGRAMA 3
garrafa. Johnson e alguns pescadores seguem para a ilha para resgatar Mary, que consegue fugir das garras dos
sequestradores quando percebe a chegada de seus salvadores.
Terje Vigen
Suécia, 1917, 35mm, preto-e-branco com viragem e tingimento, 56min, 17qps
cp: AB Svenska Biografteatern; p: Charles Magnusson; d: Victor Sjöström; r: Gustaf Molander e Victor Sjöström, baseado
no poema homônimo de Henrik Ibsen; df: Julius Jaenzon; da: Axel Esbensen e Jens Wang; e: Victor Sjöström (Terje Vigen),
August Falck (lorde inglês), Edith Erastoff (lady inglesa), Bergliot Husberg (sra. Vigen), William Larsson (novo proprietário
da casa de Terje e oficial do navio inglês), Gucken Cederborg, Jenny Tschernichin-Larsson
Origem da cópia: Svenska Filminstitutet

Terje Vigen é um pescador que vive numa ilha que é bloqueada por navios ingleses durante a guerra, em 1809. Ele
tenta furar o bloqueio para buscar alimentos para sua mulher e filha, mas é capturado e mandado para a prisão.
Libertado cinco anos depois, descobre que seus entes queridos morreram de fome. Terje se torna um homem
recluso e jura se vingar do homem que provocou seu sofrimento. Mas quando chega a oportunidade da vingança,
a voz de uma criança faz com que seu ódio seja superado.
Nos grilhões da escuridão
I mörkrets Bojor O Mosteiro de Sendomir
Suécia, 1917, 35mm, preto-e-branco, 43min, 16qps Klostret i Sendomir
cp: Hasselblads Fotografiska AB; d: Georg af Klercker; r: Willy Grebst; df: Carl Gustaf Florin;
e: Sybil Smolova (Ellinor Petipon), Carl Barcklind (dr. Petipon), Artur Rolén (filho de Ellinor), Ivar Kalling (conde Xavier), Suécia, 1921, 35mm, preto-e-branco com viragem e tingimento, 80min, 17qps
Frans Oscar Öberg (pastor da prisão), Karl Gerhard, Hugo Björne, Ludde Gentzel, Helge Kihlberg, Nils Wahlbom, Victor cp: AB Svenska Biografteatern; d e r: Victor Sjöström, baseado em conto de Franz Grillparzer;
Arfvidson, Gustaf Bengtsson df: Henrik Jaenzon; e: Tore Svennberg (conde Starchensky), Tora Teje (Elga), Richard Lund (Oginsky), Renée Björling
Origem da cópia: Svenska Filminstitutet (Dortka), Albrecht Schmidt (administrador), Gun Robertson (filha do conde), Erik A. Petschler (nobre), Nils Tillberg
(nobre), Gustaf Ranft (abade), Yngwe Nyquist (criada), Axel Nilsson (frade), Jenny Tschernichin-Larsson
(mulher do carvoeiro), Emil Fjellström (frade)
Origem da cópia: Svenska Filminstitutet
Acusada de matar o marido, Ellinor Petipon fica traumatizada e perde a memória. Mesmo sem provas conclusivas,
a moça permanece presa durante alguns anos, sob observação. Relata ao pastor da prisão os acontecimentos de
que vai se lembrando, inclusive a corte que lhe fazia o conde Xavier. Por intercessão do pastor, Ellinor é libertada Dois nobres, a caminho de Varsóvia, no século XVII, passam a noite num mosteiro. Curiosos, pedem a um monge
e, ainda desnorteada, ouve num café a conversa de um grupo de malfeitores que trama roubar a mansão Petipon. que lhes conte a história do local. Ali vivera um poderoso conde de nome Starchensky, com a mulher Elga e a filha.
Ellinor alerta seu filho, já rapaz, e se junta ao bando para atrapalhar os planos criminosos. Em seu leito de morte, Elga, porém, foi infiel ao marido e teve uma relação com o próprio primo. Ao desvendar a trama, Starchensky
o conde Xavier confessa ter assassinado o dr. Petipon. decidira dedicar sua vida e fortuna à construção do mosteiro em que agora se encontravam.
PROGRAMA 4

A Feitiçaria através dos tempos


Häxan
Suécia, 1922, 35mm, preto-e-branco com viragem e tingimento, 106min, 20qps
cp: AB Svensk Filmindustri; d e r: Benjamin Christensen; df: Johan Ankerstjerne; da: Richard Louw; mo: Edla
Hansen; e: Benjamin Christensen (Demônio), Ella la Cour (Karna, uma feiticeira), Emmy Schønfeld (assistente de
Karna), Kate Fabian (donzela apaixonada), Oscar Stribolt (monge glutão), Wilhelmine Henriksen (Apelone, uma pobre
velha), Astrid Holm (Anna, mulher do gráfico), Karen Winther (sua irmã mais moça), Maren Pedersen (Maria, bruxa),
Johannes Andersen (frei Henrik, juiz do tribunal), Herr Westermann (carrasco), Clara Pontoppidan (irmã Cecília),
Tora Teje (a histérica do episódio moderno)
Origem da cópia: Svenska Filminstitute

A partir de um início lento, com imagens de uma série de gravuras em madeira ou xilogravura e desenhos, o filme
encaminha-se para uma progressão de vinhetas dramáticas que ilustram a força espantosa da feitiçaria na Idade
Média. Embora obviamente um trabalho de pura imaginação, o filme assume as dimensões de um documentário,
produto da extensa pesquisa realizada por Christensen antes de iniciar o projeto.
Contra o orgulho
Trata-se de um filme ficcional de horror em forma de documentário, e apresenta uma extraordinária fotografia,
estrutura não-linear e iconografia grotesca. Os desiguais valores de produção e a crueza dos motivos visuais enfatizam
a eficácia do filme, e acrescentam uma inesperada autenticidade à sua abordagem voyeurista. A despeito dos esforços
da censura para proibir o filme, ele se transformou numa sistemática influência sobre os realizadores do século XX.
O filme marcou o divórcio dos caminhos de Christensen e a indústria cinematográfica dinamarquesa. Em seguida,
48 ele concentraria suas atividades no cinema alemão, antes de ir para Hollywood em 1928. 49
EINAR HANSON
Existe uma outra versão do filme, de menor duração, lançada em 1968, com narração feita pelo lendário escritor 15 junho 1899, Estocolmo, Suécia - 3 junho 1927, Hollywood, Estados Unidos
da geração beat William S. Burroughs (Naked Lunch) e trilha musical composta por Jean-Luc Ponty.
O belíssimo jovem Einar Hanson foi descoberto Corinne Griffith em Into her kingdom / A
PROGRAMA 5 por Mauritz Stiller quando atuava no Teatro Princesa russa (Sven Gad, 1926) e The Lady in
Dramático Real, de Estocolmo. Foi dirigido por ermine / A Dama em arminho (James Flood,
Contra o orgulho Stiller que estrelou Gunnar Hedes saga / 1927); Laura La Plante em Her big night / Que
Gunnar Hedes saga
Contra o orgulho, filme que o consagraria no noite aquela! (Melville W. Brown, 1926); Esther
Suécia, 1923, 35mm, preto-e-branco com viragem e tingimento, 73min, 17qps cinema sueco. Em 1924 participou da tentativa Ralston em Fashions for women / A Mulher
cp: AB Svensk Filmindustri; p: Charles Magnusson; d: Mauritz Stiller; r: Alma Söderhjelm e Mauritz Stiller, baseado no
romance En herrgårdssägen, de Selma Lagerlöf; df: Julius Jaenzon e Henrik Jaenzon; da: Axel Esbensen; e: Einar Hanson de Stiller, em companhia de sua também prote- e a moda (Dorothy Arzner, 1927); e Pola Negri
(Gunnar Hede), Hugo Björne (sr. Hede), Pauline Brunius (sra. Hede), Mary Johnson (Ingrid), Adolf Olschansky gida, Greta Garbo, de realizar em Constantinopla em Barbed wire / Amai-vos uns aos outros
(sr. Blomgren), Stina Berg (sra. Blomgren], Thecla Åhlander (Stava), Ingeborg Strandin (criada), Gösta Hillberg (advogado)
Origem da cópia: Svenska Filminstitutet (depois Istambul) uma versão cinematográfica do (Rowland V. Lee, 1927) e The Woman on trial /
romance A odalisca de Smolensk, de Vladimir Semitoy. A Ré amorosa (Mauritz Stiller, 1927).
Gunnar Hede é criado por sua orgulhosa mãe, que deseja que o rapaz se torne respeitável para fazer jus à riqueza Contudo, a companhia produtora abre falência
da família. Mas Gunnar é mais interessado em seu avô, que começou a vida como violinista andarilho mas ficou e o trio volta para a Suécia, passando antes por A 3 de junho de 1927, Einar Hanson sofreu um
rico ao conduzir um rebanho de renas selvagens para vendê-lo nos mercados do sul da Suécia. O rapaz apaixona-
se por Ingrid, uma violinista que viaja com um casal de artistas ambulantes, e renuncia à fortuna familiar para Berlim, onde Greta Garbo tem um papel impor- acidente de automóvel quando voltava de um
também se tornar um violinista andarilho. Gunnar tenta também repetir a façanha do avô, conduzindo renas para tante e Einar apenas um papel secundário em Die jantar com Greta Garbo e Mauritz Stiller em
o sul, mas a líder do rebanho o arrasta pela neve durante muitos quilômetros e o incidente o enlouquece. Gunnar freudlose Gaße / A Rua das lágrimas. Hollywood. O ator passou mais de quatro horas
é levado de volta ao solar da família, onde Ingrid ocupa-se dele e finalmente o cura com a música. agonizando até que o encontrassem, ainda vivo, à
O filme é construído sobre uma atração sensacional com raízes na cultura nórdica – uma marca registrada de Stiller –, no caso, Einar vai para Hollywood em 1925, na compa- espera de socorro. Morreu a caminho do hospital
a audaciosa travessia na neve que envolve o que parecem ser zilhões de renas. A atração emerge do conflito entre comércio e arte, nhia de Stiller e Greta Garbo e imediatamente o ator que, conforme algumas revistas propalavam,
com os poderes redentores da arte vencendo a batalha. Stiller equilibra criativamente as demandas da arte elevada ao colocar interpreta papéis principais em filmes dos grandes seria o sucessor de Rudolph Valentino.
personagens em ambientes o mais modestamente artísticos que se possa imaginar, o que também oferece comoventes momentos de estúdios, como galã de suas principais estrelas:
comédia. (...) A estratégia narrativa inspira uma inédita confiança em efeitos fotográficos com sonhos, memórias e alucinações
como traços motivadores, até que o poder da música restaure a sanidade e a felicidade, com a prosperidade completando o tripé.
Jan Olsen. Catálogo da XXVIII edição das Giornate del Cinema Muto de Pordenone, 2009. Einar Hanson é ator no filme A Rua das lágrimas / Die freudlose Gaße.
TORA TEJE
17 janeiro 1893, Estocolmo, Suécia - 30 abril 1970, Estocolmo, Suécia

Tora Teje foi uma das mais famosas atrizes teatrais Ela fez também uma breve mas memorável
suecas no início do século XX, construindo seu aparição em Häxan / A Feitiçaria através
nome através de uma série de notáveis interpreta- dos tempos (Benjamin Christensen, 1922).
ções no Teatro Sueco e no Teatro Dramático Real, O filme termina com um episódio dos tempos
em Estocolmo, entre as quais, de alguns grandes modernos, pois Christensen queria mostrar
papéis femininos da literatura como Fedra e Lady que o que era percebido como maquinações do
Macbeth. Quando, em 1920, começou a atuar demônio nos tempos medievais não difere de
em filmes, tornou-se efetivamente a maior das vários problemas mentais revelados por estudos
estrelas suecas, uma diva, e objeto de numerosos psiquiátricos que estiveram na moda na virada
artigos na revistas de cinema, figurando em do século passado. No episódio, Tora Teje faz
ambiente elegantes e com roupas extravagantes. alguns retratos breves, precisos e tocantes de várias
Ela encarnou, assim, a emergência de um tipo mulheres com cleptomania, tendências histéricas
de modernidade no mundo do espetáculo sueco, e outras desordens nervosas. No ano seguinte, ela
com um brilho internacional, semelhante aliás fez talvez a sua melhor interpretação, como uma
PROGRAMA 6 ao personagem que ela interpreta em Erotikon das mulheres secretárias de Norrtullsligan / As
(Mauritz Stiller, 1920). Garotas de Norrtull (Per Lindberg, 1923), que
50 moram em uma espécie de comunidade e tentam 51
As Garotas de Norrtull
Norrtullsligan Tora Teje atuou em apenas nove filmes silenciosos sobreviver num mundo masculino. O personagem
Suécia, 1923, 35mm, preto-e-branco com viragem e tingimento, 85min, 21qps e um sonoro, mas suas interpretações memoráveis que interpreta tem também a carga adicional de
cp: Bonnierfilm; p: Stellan Claësson and Karin Swanström; d: Per Lindberg; r: Hjalmar Bergman, baseado no romance contribuíram para a fama duradoura e a qualidade precisar cuidar de um irmão muito mais jovem
horônimo de Elin Wägner; df: Ragnar Westfelt; e: Tora Teje (Pegg), Inga Tidblad (Baby), Renée Björling (Eva), Linnéa
Hillberg (Emmy), Egil Eide (chefe de Pegg), Tollie Zellman (Gorel, prima de Pegg), Olav Riégo (noivo de Gorel), Stina Berg de muitos deles. Seus primeiros papéis cinemato- (as convenções do tempo não permitiriam que o
(tia de Pegg), Lili Ziedner (agitadora), Lauritz Falk (Putte, irmãozinho de Pegg), Nils Asther (filho da senhoria), Gabriel Alw gráficos foram o da principal intérprete feminina
(noivo de Eva), Torsten Bergström (primeiro namorado de Pegg), John Ekman (chefe de Baby) personagem pudesse ser encarado como uma mãe
Origem da cópia: Svenska Filminstitutet em dois filmes de Victor Sjöström, mostrando sua solteira criando seu próprio filho).
versatilidade como atriz: o filme de época Klostret
Pegg muda-se para Estocolmo, na esperança de conseguir melhores oportunidades de trabalho. Ela divide um i Sendomir / O Mosteiro de Sendomir (1920), Embora sua carreira no cinema tenha sido muito
apartamento com três outras garotas que enfrentam as tentações e as armadilhas de uma metrópole que rapi- no qual ela cria o comovente retrato de uma breve e esporádica, Tora Teje provoca uma
damente se moderniza. Uma das moças perde o emprego após tomar parte em uma greve; outra prefere largar mulher dividida entre a família e o homem que duradoura impressão como uma das melhores
o emprego a aceitar as investidas de seu chefe. O filme é narrado em primeira pessoa por Pegg e os intertítulos
expõem, além de detalhes da história, seus sentimentos e reações aos acontecimentos, e ainda, informações que ama, e Karin Ingmarsdotter / Karin, filha de atrizes suecas do cinema silencioso. Ao interpretar
nos ajudam a compartilhar suas opiniões, o que dá à narração uma qualidade memorialística. Ingmar (1920), também um filme de ambientação a esposa de um fazendeiro no século XIX, uma
histórica, no qual interpreta a maltratada mulher batalhadora “mãe solteira” na Estocolmo contem-
Per Lindberg (1890-1944) estudou com o famoso diretor de teatro alemão Max Reinhardt e desenvolveu impor- de um fazendeiro. Ela é, entretanto, mais conhe- porânea, uma mulher dilacerada às beiras de um
tante carreira no cinema, mas sobretudo nos palcos teatrais. Depois de As Garotas de Norrtull, seu segundo
filme, voltaria a dirigir apenas em 1939. Em 1940 realizou Juninatten / [Noite de junho] seu filme mais conhe- cida por sua interpretação em Erotikon, no qual colapso nervoso, ou a rica e levemente entediada
cido devido à participação de Ingrid Bergman. desempenha a cortejada esposa de um cientista. mulher de um “marido cego”, ela traz profundi-
Seu personagem é evasivo e envolve os homens a dade, compreensão, inteligência e beleza à tela,
As Garotas de Norrtull é um dos filmes mais corajosos e apreciáveis da década de 1920 europeia. Antes de 1923, seu redor, mas ela lhe dá grande profundidade e, sempre sugerindo que há muito mais nos persona-
os filmes apresentavam personagens femininas individuais de carne e osso, mas As Garotas de Norrtull abre um
precedente ao lidar com um elenco dominado por quatro mulheres extremamente dinâmicas. (...) O roteiro de Hjalmar com nuances delicadas em suas expressões, revela gens do que à primeira vista se revela.
Bergman transcende a imagem familiar das mulheres como objetos decorativos. O quarteto feminino percorre a vida humana quando o verdadeiro amor cruza seu caminho.
com passos largos. (...) O filme se assemelha a um inteligente livro de memórias, quase um diário. A direção de Lindberg foge
das convenções da época e suas mulheres ainda hoje parecem muito modernas, com seus penteados e chapéus discretos, por
exemplo; e as minúcias da vida cotidiana destacam-se com muita vivacidade.
Peter Cowie. Scandinavian Cinema, Londres, Tantivity Press, 1992. A atriz Tora Teje está nos filmes O Mosteiro de Sendomir / Klostret i Sendomir e
A Feitiçaria através dos tempos / Häxan.
PROGRAMA 7

A Herança de Ingmar
Ingmarsarvet
Suécia, 1925, 35mm, preto-e-branco com viragem e tingimento, 100min, 20-24qps
cp: Nord-Westi Filmaktiebolag; p: Oscar Hemberg; d: Gustav Molander; r: Ragnar Hyltén-Cavallius e Gustaf Molander,
baseado no romance Jerusalem I: I Dalarne, de Selma Lagerföf; df: J. Julius; e: Märta Halldén (Karin), Ivan Hedqvist
(Stark Anders), John Ekman (Elias, marido de Karin), Lars Hanson (Ingmar), Mathias Taube (Halvor Halvorsson), Mona
Mårtenson (Gertrudes Storm), Nils Arehn (mestre-escola Storm), Conrad Veidt (Helgum), Ida Brander (mãe de Gertrud),
Knut Lindroth (juiz Berger Sven Person), Jenny Hasselqvist (Barbro)
Origem da cópia: Svenska Filminstitutet

O pequeno Ingmar perde toda a herança, inclusive a fazenda Ingmarsson, por obra de um cunhado alcoólatra.
Já crescido, quer se tornar professor mas, durante uma noite de tempestade, o fantasma de seu avô promete
amaldiçoá-lo se ele não se tornar um fazendeiro como seus ancestrais. Nessa mesma noite de tempestade, o
místico Helgum chega à vila e rapidamente se torna líder de uma comunidade de fanáticos que se instala na
fazenda Ingmarsson. Ingmar, apaixonado por Gertrudes, passa o inverno trabalhando na floresta, mas volta, ao
ser informado sobre a tentativa de Helgum de se aproximar da moça. Ao ir tirar satisfações com Helgum, Ingmar
o defende dos irmãos de uma moça enlouquecida pela doutrinação do fanático e, na briga, leva uma facada.
Helgum decide partir, mas um incidente faz com que a irmã mais velha de Ingmar, paralítica, ande para salvar
seu filho pequeno de morrer queimado. Todos acreditam em um milagre de Helgum e decidem vender tudo para
acompanhá-lo a Jerusalém. No dia em que a fazenda Ingmarsson vai a leilão, o juiz Person a compra, a pedido da
filha, apaixonada por Ingmar que se compromete a se casar com ela, apesar de apaixonado por Gertrudes. Esta
enlouquece. Ingmar casa-se com a filha do juiz mas, no dia das núpcias, Gertrudes o procura e lhe entrega um
pacote que encontrara por acaso, oculto no travesseiro do falecido cunhado de Ingmar e que contém o que restara
da herança deixada pelo pai de Ingmar, que teria permitido a ele comprar a fazenda e ficar com Gertrudes.

52 53

Exposição

Placas de vidro do
cinema silencioso sueco
O setor histórico do Instituto Sueco de Cinema é depositário de uma coleção de
43 mil placas de vidro oriunda da AB Svensk Filmindustri – e de sua predecessora,
a AB Svensk Biografteatern – que registram a produção sueca de 1911 a 1967.
Um enorme projeto iniciado em 2007 pretendia fazer a digitalização de todas
essas imagens, mas a tarefa revelou-se acima das possibilidades orçamentárias.
Diante disso, priorizou-se a digitalização de todos os negativos referentes ao
periodo do cinema silencioso sueco e às produções de Ingmar Bergman, tendo
em vista as solicitações relativas ao trabalho de Bergman.

A exposição que apresentamos foi feita mediante a sugestão do curador da Jornada


Brasileira de Cinema Silencioso de que Jon Wengström selecionasse imagens
captadas durante a filmagem de trabalhos que apresentamos na IV Jornada. A
qualidade dessas imagens nos desperta um enorme desejo de ter contato com o
maior número possível delas – e de comparar os esforços de realização suecos
com os que realizávamos no Brasil no mesmo período.
Visita ao Acervo
Filmes de Arquivo do
Instituto Sueco de Cinema

Jon Wengström
Curador do Acervo de Filmes de Arquivo do Instituto Sueco de Cinema

A Coleção de Filmes de Arquivo do Instituto Sueco de Cinema tem, como parte


integrante de sua missão, o objetivo de incorporar tudo o que é projetado nos
cinemas suecos, inclusive cópias de filmes estrangeiros. Isso acontece, entretanto,
apenas sob a forma de depósito voluntário, e esta política tem sido praticada
somente nas últimas décadas. Como, então, materiais de filmes silenciosos estran-
geiros entraram para a coleção?

VISITA AO ACERVO – CINEMATECA SUECA


O Clube de Cinema Sueco e, depois, o Arquivo de Filmes Históricos, precursores
da Coleção de Filmes de Arquivo do Instituto Sueco de Cinema, foram sempre o
organismo nacional responsável pelos filmes e, consequentemente, o guardião dos
materiais em nitrato, incluindo cópias suecas de filmes silenciosos estrangeiros, deposi-
tadas por distribuidores locais ou por colecionadores privados.

Ao longo dos anos, alguns desses materiais em nitrato se deterioram além da possibili-
dade de salvaguarda e foram descartados, e outros foram repatriados, antes de serem
duplicados, para arquivos de seus países de produção. Mas alguns ficaram no Arquivo,
e foram duplicados e preservados pelo Instituto Sueco de Cinema – como o rolo com
19 filmes da Gaumont realizados entre 1899 e 1901, apresentados na Jornada do
ano passado. Esse trabalho continua em andamento, na medida em que o acervo em
54 nitrato ainda está em processo de identificação e catalogação. 55

Uma das mais recentes e espetaculares descobertas na coleção de nitratos foi a


existência da cópia sueca, quase completa, do filme até então considerado perdido
The Dawn of a tomorrow / A Aurora de um amanhã (James Kirkwood, EUA,
1915), estrelado por Mary Pickford. O filme restaurado foi exibido até agora apenas
no festival Il Cinema Ritrovato, em Bolonha (Itália) e no V Seminário Mulheres e
Cinema Silencioso, realizado em Estocolmo em 2008.

Entretanto, é habitual que a coleção de filmes estrangeiros em nitrato apareça apenas


sob a forma de fragmentos. A mais interessante coleção de fragmentos é constituída
por cortes feitos pelas autoridades da censura sueca. Essa coleção foi incorporada,
ainda na década de 1940, pelo Arquivo de Filmes Históricos e contém alguns materiais
muito raros. Entre os materiais apresentados na Jornada deste ano estão corte de
The River / O Rio da vida (Frank Borzage, 1928) e Cagliostro (Richard Oswald,
1928). Nesses dois casos, os filmes sobreviveram, mas os cortes da censura sueca são os
únicos materiais em 35mm que existem no mundo.

A censura sueca está entre as mais antigas do mundo, e começou a funcionar já


em 1911. Uma das principais razões para seu estabelecimento foi Afgrunden / O
Abismo (Urban Gad, 1910), estrelado por Asta Nielsen. Quando o filme foi apresen-
tado na Suécia, os censores consideraram excessiva a famosa dança gaúcha de Asta
Nielsen, e decidiram cortar a cena antes de autorizar sua exibição nas salas. O corte da
censura foi preservado e cedido ao arquivo do Instituto Dinamarquês de Cinema, em
Copenhague (a produção, afinal, é dinamarquesa) para a restauração do filme.
O Rio da vida
A maior parte da coleção em nitrato que ainda está sendo identificada e catalogada,
sobretudo os filmes de não-ficção e mesmo os cinejornais, é formada por materiais que
mostram personalidades e eventos suecos das primeiras décadas do século passado.
Alguns filmes estrangeiros de não-ficção vêm sendo também descobertos à medida
que o trabalho continua. Apenas em 2007 foi identificado e preservado um assunto de
um cinejornal alemão que apresenta a filmagem de Anna Boleyn / Ana Bolena, de
Ernst Lubitsch (1920). A cópia em nitrato e a nova cópia de projeção estão preservadas
em Estocolmo, mas um novo contratipo e uma segunda cópia foram repatriados para
a Alemanha. Em 2009, dois rolos de documentários de viagem [travelogues] franceses
sobre a Ásia oriental foram preservados (Un Voyage aux ruines d’Angkor / Uma
viagem às ruínas de Angkor e Au pays des Moïs: explorations et chasse /
No país dos Moïs: exploração e caça). A origem desses materiais não foi deter-
minada, mas temos razões para acreditar que pertenciam ao príncipe sueco Wilhelm,
ele próprio um famoso cinegrafista de materiais de não-ficção das décadas de 1920 e
30. Na verdade, pensou-se que ele próprio teria dirigido esses filmes, mas um deles foi
identificado como uma produção francesa de 1908, e o outro provavelmente também
é francês e da mesma época.

Sempre que os recursos o permitiram, a Coleção de Filmes de Arquivo teve orçamento


para a compra de filmes não suecos conservados em arquivos estrangeiros. Além de
clássicos do cinema internacional, o arquivo reuniu algumas ricas coleções especiais
como, por exemplo, a de cinema silencioso soviético. No final da década de 1960 e Cagliostro
no começo da seguinte, adquirimos cópias do Gosfilmofond (Cinemateca Russa), em
Moscou, de filmes de diretores famosos como Eisenstein, Dovjenko, Pudovkin, Vertov,
Kulechov, e também de filmes preciosos de diretores menos conhecidos, como Tretia
Meschanskaia / Rua Mechanskaia, 3 ou Sofá e cama (1927), de Abram Room.

Aquisições recentes de filmes estrangeiros do período silencioso concentraram-se PROGRAMA 1 – Censura na Suécia
naqueles de específico interesse sueco: filmes rodados na Suécia ou com contribuição
56 sueca significativa na frente ou atrás das câmeras, e em suas melhores versões possí- 57
veis. Filmes deste tipo incluem os de Greta Garbo: Die freudlose Gaße / A Rua
das lágrimas (G.W. Pabst, Alemanha, 1925) e Flesh and the devil / A Carne
O Rio da vida Cagliostro
e o diabo (Clarence Brown, EUA, 1926), adquiridos respectivamente do Museu de
The River
Cinema de Munique e da Warner Brothers, e The Wind / Vento e areia (Victor Cagliostro – Liebe und Leben eines
Estados Unidos, 1929, 35mm, preto-e-branco, 2min, 24qps
Sjöström, EUA, 1928), da George Eastman House (o filme tem música sincroni- cp: Fox Film; d: Frank Borzage; df: Ernest Palmer; großen Abenteurers
zada e efeitos sonoros, como foi lançado); e uma cópia do fragmento existente da e: Charles Farrell, Mary Duncan
França/Alemanha, 1929, 35mm, preto-e-branco, 2min, 18qps
Origem da cópia: Svenska Filminstitutet
única colaboração de Victor Sjöström com Greta Garbo, The Divine woman / cp: Films Albatros; d: Richard Oswald; df: Maurice
Desfassiaux e Jules Kruger; e: Hans Stuwe (Cagliostro),
A Mulher divina (EUA, 1928), adquirida da Cinemateca Russa em meados da Alfred Abel, Renee Heribel (Lorenza)
década de 1990 – na verdade, o fragmento foi identificado por pesquisadores suecos O Rio da vida é tido por alguns como um dos Origem da cópia: Svenska Filminstitute
de cinema que estavam trabalhando em Moscou. Outra importante descoberta em filmes silenciosos mais eróticos. Com a liberdade
um arquivo estrangeiro aconteceu no final da década de 1970, quando uma cópia de que lhe permitiram o sucesso mundial e o Oscar
recebido por 7th Heaven / Sétimo céu, Frank De acordo com este filme, o alquimista e vidente
um filme em três rolos, de 1912, guardada na coleção da Biblioteca do Congresso, Borzage realizou um filme pleno de sensualidade, Cagliostro não era um charlatão e um gatuno, mas
em Washington, Estados Unidos, revelou-se como o primeiro filme de Sjöström, sobre um jovem do campo iniciado no amor por um homem decente que tenta escapar da sua vida de
Trädgårdsmästaren / O Jardineiro. O filme havia sido proibido pelos censores uma misteriosa mulher da cidade. crimes com a ajuda da virtuosa Lorenza.
suecos e nunca foram feitas cópias no país; o filme só foi exibido no exterior, com inter-
títulos em línguas estrangeiras. O fragmento de O Rio da vida que apresentamos O fragmento apresentado é um corte da censura
é um corte feito pelos censores suecos e é o único sueca e novamente o único material em 35mm que
material em 35mm do filme localizado até o presente. sobreviveu. Na França, o material existente do filme
Em conclusão, a coleção de filmes silenciosos estrangeiros do Acervo de Filmes de Paradoxalmente, a única coisa que sobreviveu é a é uma cópia Pathé-Baby em 9,5mm. O nitrato
Arquivo do Instituto Sueco de Cinema é, em parte, o resultado de trabalhos de parte que foi cortada, supostamente para não ser vista original do fragmento apresentado foi restaurado pela
preservação e restauração executados pelo arquivo e, em parte, resultado de uma (pelo menos pelas plateias suecas). Cinemateca Francesa.
ativa política de aquisição, e como tal constitui forma parte integral e importante da
evolução e do desenvolvimento das práticas históricas executadas pelo Arquivo. Ela
inclui tanto clássicos conhecidos como filmes menos famosos e até mesmo filmes de
linha. É com satisfação que apresentamos exemplos dessa coleção na Jornada de São
Paulo. Que a seleção lhes agrade!
ASTA NIELSEN
O Abismo 11 setembro 1881, Copenhague, Dinamarca - 25 maio 1972, Copenhague, Dinamarca
Afgrunden
Dinamarca, 1910, 35mm, preto-e-branco, 37min, 16qps
cp: Kosmorama; p: Hjalmar Davidsen; d e r: Urban Gad; df: Alfred Lind; e: Asta Nielsen (Magda Vang), Robert Dinesen
(Knud Svane), Poul Reumert (Rudolph Stern), Hans Neergaard, (Peder Svane, pastor, pai de Knud), Hulda Didrichsen (mãe
de Knud), Emilie Sannom (Lilly d’Estrelle, cantora do espetáculo de variedades), Oscar Stribolt (garçom), Johannes Fønss,
Arne Weel, Torben Meyer. Nascida em uma família de classe operária, fez não convencionais, que desafiam limitações sociais
Origem da cópia: Svenska Filminstitutet
cerca de oitenta filmes em pouco mais de vinte e sexuais. Ela expressava os conflitos íntimos
anos de carreira. Cursou a Escola Real de Teatro, de uma maneira inédita no cinema. Era direta,
Magda, professora de piano, encontra no bonde o jovem engenheiro Knud. Tão logo se acham comprometidos,
ele a convida para conhecer seus pais, que moram no campo. Magda conhece então Rudolph, principal atração em Copenhague, e trabalhou nos palcos dinamar- natural e moderna. Com sua silhueta esbelta,
de um espetáculo de circo; apaixona-se e foge com ele. Algum tempo depois, Knud localiza Magda na cidade, queses por uma década. acentuada por trajes
mas ela prefere continuar com Rudolph. Sentindo ciúme com as infidelidades do amante, Magda o provoca num De forte personalidade, sugestivos – de farrapos
sensual número de dança “gaúcha”. Uma briga provoca a demissão do casal do espetáculo de varidades; Magda
passa a tocar piano em cafés para mantê-los. Novamente Knud a descobre e tem com ela um encontro íntimo, que ficou grávida aos 20 a vestidos extravagantes
é interrompido pela chegada de Rudolph. No confronto, Magda mata o amante. anos; insistiu em ter a –, ela cruzava de forma
A importância de Afgrunden reside sobretudo em seu tema, o Afgrunden foi um sucesso explosivo, para a divertida surpresa de criança, recusando-se a convincente, de um filme
retrato dos poderosos sentimentos de posse e submissão sexual, e todos os envolvidos (apenas o diretor de fotografia tinha experiência casar com o pai de sua para outro, as fronteiras
na extraordinária atuação de Asta Nielsen e Poul Reumert, mais cinematográfica anterior) e marcou o início da carreira de Asta filha, apesar dos precon- de sexo e de classe.
do que em sua construção formal. (...) O que importa realmente Nielsen como uma estrela realmente internacional. (...) Nielsen ceitos sociais contra
é a apresentação chocantemente realista do destino. escreve em sua autobiografia que ela e Gad fizeram o filme para
Isso fica mais evidente do que nunca na famosa dança que chamar a atenção dos empresários teatrais de Copenhague para os mães solteiras. Em 1910, Um dos filmes mais
Nielsen e Reument interpretam e que demonstra sem disfarces talentos que estavam desperdiçando em papéis insignificantes. (...) contra as opiniões de interessantes de Asta
58 o que o restante do filme apenas insinua. Nesta dança, Asta A exaltada naturalidade da interpretação de Nielsen nesse período seus parceiros teatrais, Nielsen foi Hamlet 59
Nielsen amarra Poul Reument com uma corda e, em seguida, era resultado de um estudo cuidadoso. Ela escreve sobre como estreou no cinema com (Sven Gad e Heinz
dança ao redor dele, esfregando o corpo contra o do parceiro. O aprendeu depressa a melhorar sua interpretação observando-se na
caráter erótico desse número fez do filme um grande sucesso e lhe tela, onde tudo é ampliado. A persona natural que ela projetou O Abismo, realizado com Urban Gad, cenógrafo Schall, 1921). Havia precedentes de grandes
deu a reputação de “quase pornográfico”. ao longo de uma série de personagens foi criada propositadamente de seu teatro e com quem se casou dois anos atrizes teatrais interpretando papéis masculinos
para a câmera e para a tela. depois. O filme fez um sucesso colossal e a lançou – Eleanora Duse, por exemplo, fez isso várias
Ron Mottram, The Danish cinema before Dreyer: Metuchen,
N.J./Londres: Scarecrow Press, 1988. Janet Bergstrom, Asta Nielsen’s early German Films, in Prima di como uma das primeiras estrelas cinematográficas vezes. Mas Asta dá uma sutil reviravolta ao não
Caligari. Cinema tedesco 1895-1920 / Before Caligari. German Cinema verdadeiramente internacionais. Suas aparições interpretar um homem, mas sim uma mulher
1895-1920. Pordenone. Bilioteca dell’Immagine, 1999.
pessoais provocavam tumultos na Europa e fora disfarçada de homem, adicionando uma nova
do continente. camada à complexidade dos sexos. Hamlet
O Jardineiro baseou-se menos em Shakespeare e mais num livro
Trädgårdsmästaren
Suécia, 1912, 35mm, preto-e-branco, 34min, 18qps Logo após, Asta Nielsen e Urban Gad aceitaram popular da época, que propalava que Hamlet era,
cp: AB Svenska Biografteatern; d: Victor Sjöström; r: Mauritz Stiller; df: Julius Jaenzon; e: Victor Sjöström um convite para trabalhar no cinema alemão e, na verdade, uma moça criada como rapaz para
(o jardineiro), Gösta Ekman (o filho do jardineiro), Lili Bech (a moça), John Ekman (o general), Mauritz Stiller
(passageiro no barco), Gunnar Bohman, Karin Alexandersson entre 1911 e 1915, realizaram mais de trinta filmes garantir um herdeiro ao trono da Dinamarca.
Origem da cópia: Svenska Filminstitutet para a produtora PAGU – Projektions-AG Union.
Ela participava ativamente em diferentes aspectos Asta Nielsen estrelou A Rua das lágrimas /
Uma garota fica apaixonada pelo filho de seu patrão, um jardineiro dono de uma grande estufa de flores. O da realização cinematográfica, como a escolha de Die freudlose Gaße ao lado de uma estrela em
jardineiro manda o filho para longe, teoricamente para dar fim a uma relação socialmente indesejável, mas, na
verdade, para se aproveitar da moça. Como esta recusa as investidas do jardineiro, ela e seu velho pai são suma- elenco e locações, cenografia, figurino e publici- ascensão cuja fama ultrapassaria a sua, Greta Garbo,
riamente demitidos. A jovem conquista a proteção de um velho general rico mas, com a morte dele, é expulsa pela dade, e em 1920 criou sua própria companhia que afirmava: “Ela me ensinou tudo que sei”.
família e cai na vida mundana. Arrependida, volta a sua vila natal, mas as lembranças do passado terminarão produtora, a Maxim-Film.
por destruí-la. O Jardineiro foi o primeiro filme de Sjöström, e nunca foi exibido nos cinemas suecos porque foi Com a chegada do cinema sonoro, Asta Nielsen
integralmente proibido pela censura. O produtor conseguiu, na época, uma projeção especial para o primeiro-
ministro sueco, mas isso de nada adiantou. Nenhuma cópia foi tirada na Suécia e, por isso, não sobreviveu – ou Nielsen era brilhante em papéis trágicos e cômicos; realizou apenas um filme e, em meados da década
assim se pensava. Mas, obviamente, o filme fora exportado para alguns países. Estreou em Copenhague e foi mais sua sensualidade igualava sua inteligência, seus de 1930, voltou para a Dinamarca, embora o
tarde exportado para os Estados Unidos. Em meados da década de 1970, uma cópia americana com intertítulos recursos dramáticos e sua agilidade física. Era governo nazista quisesse, oferecendo-lhe facilidades
em inglês (com o nome Broken spring rose) apareceu na Biblioteca do Congresso. Não é uma obra preservada extraordinária na interpretação de personagens de produção, conservá-la como a maior joia de seu
pela Cinemateca Sueca mas por um outro arquivo, daí sua presença fora da seleção sueca, e sua inclusão nesse
programa de filmes censurados.
A geração de hoje não pode compreender o que sua
máscara lívida, de olhos imensos e ardentes, significava
para os anos 1910 e 20. Outras usaram aquela PROGRAMA 2
franja lisa e reta de cabelos negros; mas ninguém
senão ela – talvez também Louise Brooks – parecia
inseparável daquela aparência estilizada. Uma época Filmando Ana Bolena
Bakomfilm Anna Boleyn
hipercultivada, instável e sofisticada encontrara seu
ideal em Asta Nielsen, mulher intelectual, cheia de Alemanha, 1920, 35mm, preto-e-branco com tingimento e viragem, 2min, 18qps
cp: UFA Universum Film AG; e: Ernst Lubitsch, Emil Jannings, Henny Porten
refinamentos, com rosto de pierrô lunar, pálpebras Origem da cópia: Svenska Filminstitutet
pesadas, mãos que pareciam conter feridas invisíveis,
como as de Eleonora Duse. (...) Trecho de cinejornal da UFA, filmado por ocasião da visita do presidente da República Alemã Friedrich Ebert
aos estúdios da produtora, onde Ernst Lubitsch filma Ana Bolena. Emil Jannings e Henny Porten chegam de
Mas Asta Nielsen foi mais do que o ideal de uma geração automóvel para as filmagens.
que cultivava o linear e o arabesco. (...) Sua humanidade
quente, cheia de fôlego, de presença, refutava o abstrato,
bem como o caráter abrupto da arte expressionista. (...)

Nunca se rebaixava à afetação; quando travestida, nunca


chocava. Podia representar de calças sem ambiguidade.

Pois o erotismo de Asta Nielsen estava longe de todo equívoco;


tratava-se sempre, para ela, de uma paixão autêntica.

60 Seu penteado em franja às vezes a levava a representar 61


vamps, mas Nielsen não tinha qualquer frieza calculista.
Caricatura da dança gaúcha de O Abismo, feita Sentia-se nela aquele fogo devorador que não vai apenas
por Urban Gad, diretor do filme destruir os homens, mas também a ela mesma. (...) A Aurora de um amanhã
The Dawn of a tomorrow
Estados Unidos, 1915, 35mm, preto-e-branco com tingimento e viragem, 67min, 17qps
firmamento de estrelas. Voltou a trabalhar em Não se conseguiu esquematizar Asta Nielsen. E é cp: Famous Players Film Company; p: Daniel Frohman; d: James Kirkwood; r: Eve Unsell baseado em romance e peça
teatro e, em 1946, publicou sua autobiografia, bem justamente porque ela soube conservar sua maneira de ser, homônima de Frances Hodgson Burnett; e: Mary Pickford (Glad), David Powell (Dandy), Forrest Robinson (sir Oliver
Holt), John Findlay (William, criado de sir Oliver), Robert Cain (Oliver, sobrinho de sir Oliver), Margaret Seddon (Polly),
humorada e repleta de sabedoria. Escreveu contos, seu próprio rosto, que nunca foi contratada para filmar Blanche Craig (Bet), Ogden Childe
artigos para jornais e revistas, e uma série radio- em Hollywood, onde não poderiam transformá-la. Origem da cópia: Svenska Filminstitutet
fônica sobre a arte de envelhecer. Desenvolveu
também um expressivo trabalho como artista Nielsen é tipicamente nórdica, saída das lendas selvagens A história se passa na Inglaterra, e Mary Pickford interpreta Glad, “a mais pobre e feliz órfã de Londres”. No
plástica, além de ter dirigido um filme sobre sua do Edda, e mesmo tendo filmado muito pouco em seu decorrer do filme, este anjo inspirado no mundo de Dickens abriga uma mãe e uma criança abandonadas,
própria carreira. país natal, a Dinamarca, permanece nos filmes alemães evita um suicídio, evita violências domésticas e impede que o namorado Dandy sucumba a uma vida de crimes.
A beleza dos primeiros planos exibe uma extraordinária precisão expressiva e tornam esse filme de Mary
uma figura à parte, não apenas porque os diretores
Pickford uma revelação. Essa obra era considerada perdida até que uma cópia nitrato tingida, versão exibida
Segundo o poeta Guillaume Apollinaire, Asta dinamarqueses Urban Gad e Sven Gad (...) dirigiram na Suécia, foi identificada na Coleção de Filmes de Arquivo do Svenska Filministitutet, em 2005.
Nielsen era “o delírio do bêbado e o sonho do a maioria de seus filmes: em torno dela persiste aquela A restauração foi completada em 2008.
homem solitário”. aura complexa quando filma com diretores alemães,
como Pabst ou Bruno Rahn. O filme é uma adaptação de um romance e uma peça de Frances Hodgson Burnett, autora dos consagrados Little
Princess / (A Princesinha) e Little Lord Fauntleroy / (O Pequeno lorde).
“Baixem as cortinas diante dela”, escreveu certa vez Bela
Balazs, depois de ver Asta Nielsen representar a morte de Lotte Eisner, A tela demoníaca. Rio de Janeiro: Paz
Hamlet, “baixem as cortinas, pois ela é única”. e Terra, 1985.

Asta Nielsen está no elenco do filme A Rua das lágrimas / Die freudlose Gaße
PROGRAMA 3 PROGRAMA 4

Uma Visita a Selma Lagerlöf


Ett besök hos Selma Lagerlöf
Suécia, 1926, 35mm, cor, 6min, 20qps
cp: Film AB Le Mat-Metro-Goldwyn; d: Raoul Le Mat
Origem da cópia: Svenska Filminstitutet

Documentário com a escritora Selma Lagerlöf, autora de vários livros adaptados pelo cinema sueco e primeira mulher a
ganhar o prêmio Nobel de Literatura, em 1909. O filme mostra a casa em que mora numa vila tranquila. Em seguida,
a escritora vai a uma cidade vizinha assistir o filme The Tower of lies / Castelos de ilusões, com Norma Shearer
e Lon Chaney, realizado por Victor Sjöström a partir de seu romance Keisarn av Portugallien. O filme não existe mais, mas
vemos Selma Lagerlöff examinar algumas imagens do filme, com rolo no colo, perto de uma janela.

A Rua das lágrimas


Die freudlose Gaße
Alemanha, 1925, 35mm, preto-e-branco com tingimento e viragem, 149min, 19qps
cp: Sofar-Film-Produktion; p: Michael Salkin e Romain Pinès; d: Georg Wilhelm Pabst; r: Willy Hass baseado no romance
homônimo de Hugo Bettauer; df: Guido Seeber, Curt Oertel e Walter Robert Lach; da: Hans Sohnle e Otto Erdmann;
mo: Mark Sorkin; e: Asta Nielsen (Maria Lechner), Greta Garbo (Greta Rumfort), Werner Krauss (açougueiro), Einar
Hanson (tenente Davy), Jaro Fürth (Hofrat Rumfort), condessa Agnes Esterhazy (Regina), Karl Etlinger (Rosenow), Ilka
Grüning (sra. Rosenow), Henry Stuart (Egon Stirner), Robert Garrison (Canez), Valeska Gert (sra. Greifer), condessa Tolstoi
(srta. Henriette), Alexander Murski (dr. Leid), Tamara Tolstoi (Lia Leid), Grigori Chmara (garçom), Hertha von Walther
(Elza), Max Kohlhase (sr. Lechner), Sylvia Torff (sra. Lechner), Loni Nest (Mariandl), Mario Cusmich (coronel Irving), Edna
Markstein (sra. Merkl), Otto Reinwald (marido de Elza), M. Raskatoff (Trebisch), Krafft-Raschig (soldado)
Origem da cópia: Svenska Filminstitutet

Na Viena de 1921, parte dos habitantes da rua Melquior padece as horrendas consequências de uma profunda
inflação. Existem apenas duas pessoas ricas na rua: o açougueiro e a sra. Greifer, que dirige uma loja de roupas e
62 um clube noturno frequentado pela classe abastada de Viena. Anexo ao clube, há um hotel de alta rotatividade, A Carne e o diabo 63
onde as moças pobres que o frequentam se prostituem para pagar a sra. Greifer e comprar comida para suas Flesh and the devil
famílias. A história segue as desventuras de duas mulheres: Maria, filha de um pai cruel e brutal, que sucumbe às Estados Unidos, 1926, 35mm, preto e branco, 113min, 20qps
atrações da prostituição; e Greta, oriunda de uma família acostumada a melhores condições de vida, que resiste à cp: Metro-Goldwyn-Mayer; p: Irving Thalberg; d: Clarence Brown; r: Benjamin Glazer baseado no romance Es
tentação do dinheiro fácil. No final do filme, Elza, moça doente e empobrecida, assassina o açougueiro; e os pobres war, de Hermann Sudermann; df: William Daniels; da: Cedric Gibbons e Fredric Hope; mo: Lloyd Nosler; e: John
Gilbert (Leo von Harden), Greta Garbo (Felicitas), Lars Hanson (Ulrich von Eltz), Barbara Kent (Hertha von Eltz),
da rua, ao escutar os sons vindos do clube noturno, iniciam uma revolta contra os ricos. William Orlamond (tio Kutowski), George Fawcett (pastor Voss), Eugenie Besserer (mãe de Leo), Marc McDermott
(conde von Rhaden), Marcelle Corday (Minna)
Nenhuma cópia da versão original deste filme sobreviveu. Diversas ações da censura destruíram-no sistematicamente Origem da cópia: Svenska Filminstitutet
na Alemanha, ao mesmo tempo em que as versões estrangeiras também sofreram cortes extensos e foram alteradas.
Uma reconstrução inicial do filme foi empreendida por Enno Patalas, do Museu de Cinema de Munique, em
1989, baseada em cópias de três versões estrangeiras distribuídas na Rússia, na Inglaterra e na França. Para o Leo von Harden e Ulrich von Eltz são ligados desde criança por uma profunda amizade. Servem num colégio
estabelecimento da ordem na versão que apresentamos, uma outra cópia francesa e uma americana também foram militar alemão e, em uma licença, Leo fica apaixonado por Felicitas, esposa de um poderoso conde. Num duelo,
consultadas, além de fragmentos da versão alemã recentemente descobertos. A ordem desta versão e os intertítulos Leo mata o conde e, antes de partir para a África, pede a Ulrich que cuide de Felicitas. Ulrich, ignorante do amor
são baseados tanto no relatório de censura de 1926 como nas versões estrangeiras. Mas, mesmo esta reconstrução de Leo por Felicitas, apaixona-se e se casa com ela. Com a volta de Leo, Ulrich divide-se entre a amizade e o amor
é, no máximo, apenas uma aproximação da versão original, sobretudo porque ainda faltam partes do filme que, de de Felicitas – que estimula a paixão de Leo. Acusado pelo pastor Voss de manter um caso amoroso com Felicitas,
acordo com o roteiro e outros registros, chegaram a existir. Leo perde o controle de suas emoções, tenta matá-la e duela com o amigo de toda sua vida.

O filme marcou um momento decisivo da carreira e da vida pessoal de Greta Garbo. A princípio, ela não queria
tomar parte no filme. Ela havia concluído The Tempress / Terra de todos, estava cansada, e seu contrato
com a Metro-Goldwyn-Mayer não lhe permitia fazer a longa viagem à Suécia que desejava. Uma carta dura da
MGM a alertou sobre as sérias consequências que provocariam sua recusa em voltar ao trabalho. Na verdade,
isso foi o ensaio da batalha que, após A Carne e o diabo, ela travou com os chefes do estúdio e que terminaram
por fazer com que fosse uma das estrelas mais bem pagas de Hollywood na época. A química romântica entre
Greta Garbo e John Gilbert foi o sonho de qualquer diretor, porque não era apenas interpretação. Segundo
a lenda, Gilbert propôs casamento a Garbo durante a produção; ela aceitou, mas escapou no último minuto.
O filme marcou o início de um dos mais famosos romances hollywoodianos de sua idade de ouro. Apesar do
romance tórrido, Garbo e Gilbert não se casaram, mas continuaram a fazer filmes juntos até depois da chegada
do cinema sonoro (embora a carreira de Gilbert tenha sofrido um sério abalo quando sua voz foi ouvida pela
primeira vez). Garbo ficou muito impressionada com o trabalho de direção de Clarence Brown e com a fotografia
de William Daniels, e exigiu continuar trabalhando com eles nos filmes seguintes na MGM. Acima de tudo, ela
elegeu Daniels como seu fotógrafo ideal.
GRETA GARBO
18 setembro 1905, Estocolmo, Suécia - 15 abril 1990, Nova Iorque, Estados Unidos

Greta Lovisa Gustafsson era a filha mais nova O seu rosto tinha a beleza pura da Maria na Pietà
de uma família de operários suburbanos de de Michelangelo, e contudo brilhante de paixão. O
Estocolmo. Em 1920 começou a trabalhar como sofrimento de sua alma era tão grande que o público
balconista da PUB, uma loja de departamentos. americano perdoaria os muitos casos amorosos de
Em pouco tempo estava posando com chapéus Torrent / Laranjais em flor [Monta Bell,
para o catálogo da loja e, em seguida, para 1926], o primeiro filme de Garbo nos Estados Unidos.
pequenos filmes de propaganda da empresa. Em Finalmente, o casamento – o obstáculo que se inter-
1922 interpretou um pequeno papel na comédia punha entre o sexo e o prazer – podia ser esquecido!
curta Luffar-Petter / [Pedro, o vagabundo] Finalmente, achara-se a resposta para as jovens atrizes
(Erik A. Petschler) e ganhou uma bolsa para que queriam representar apenas garotas boazinhas.
estudar na Academia Real de Arte Dramática. Foi
na Academia que Mauritz Stiller a descobriu e de No que diz respeito às estrelas femininas estabelecidas,
onde a tirou para estrelar Gösta Berlings saga era apenas uma questão de um ano ou dois antes que
/ A Saga de Gösta Berling (1924). Em Berlim, o poderoso apoio dos estúdios fosse retirado de todas
sob a direção de G.W. Pabst, Greta coadjuva Asta elas. A coincidência temporal do advento dos filmes
Nielsen em Die freudlose Gaße / A Rua das falados forneceu uma razão plausível para se dar ao
lágrimas. O sucesso de público e de crítica das público como desculpa pelo desaparecimento de muitas
duas fitas solidificam a posição de Greta – já com o favoritas. Mas não havia uma atriz em Hollywood que
nome de Garbo – como uma das primeiras atrizes não compreendesse a verdadeira razão: Greta Garbo.
da Europa. Contratada pelo presidente da Metro- Desde o momento em que Torrent entrou em produção,
Goldwyn-Mayer, Louis B. Mayer, juntamente com nenhuma atriz contemporânea seria novamente feliz
Mauritz Stiller, Greta chega a Hollywood, onde consigo mesma. Todo o estúdio MGM – incluindo
estrelará, de 1926 a 1941, 25 longas-metragens, Monta Bell, o diretor –, assistiu as tomadas diárias
64 sempre para a MGM, produtora para a qual com grande alegria ao perceber o quanto Garbo criava, 65
assegura grandes lucros. Aos 36 anos, considerada a partir de um roteiro pobre e antiquado, a sombra
um mito da arte cinematográfica, Greta Garbo complexa e encantadora de uma alma na tela. E era
abandona o cinema. uma sombra tão gigantesca que as pessoas não falavam
sobre ela. Nas festas, duas ou três vezes por semana,
Garbo sofria de depressão crônica e passou muitos eu encontrava Norma Shearer e Irving Thalberg,
anos tentando se livrar disso através da filosofia Hunt Stromberg, Paul Bern, Jack Conway e Clarence
oriental e de um regime alimentar saudável. Brown, todos contratados da MGM. Se, por acaso, um
Entretanto, nunca parou de fumar nem de beber. dos homens era tão desumano a ponto de falar de um
filme de Garbo, uma das garotas diria “Sim, ela não
Certa ocasião, Garbo declarou a uma revista é divina?”, e mudaria para um assunto que causasse
francesa: “Eu me sinto como uma criminosa que está menos desespero.
sendo caçada. Quando os fotógrafos me cercam, Louise Brooks, “Gish and Garbo”. Lulu in Hollywood.
eles atraem multidões. Eu fico amedrontada acima University of Minnesota Press, 2000.
de meu controle com tanta gente me olhando. Me
sinto quase envergonhada”.
Clarence Brown (diretor de A Carne e o diabo):
“Eu nunca disse: ‘Eu quero ficar sozinha’. Eu disse: A Carne e o diabo foi meu primeiro filme para
‘Eu quero que me deixem sozinha’. Há um mundo a MGM, e ele realmente criou Garbo. Ele também
de diferença entre as duas coisas”. alavancou o romance Garbo-Gilbert. Greta Garbo tinha
algo que ninguém nunca tinha visto na tela. Ninguém.
No começo da primavera de 1925, Louis B. Mayer Eu não sei se ela sabia que tinha isso, mas ela tinha. E
a encontrou! Ao ver Greta Garbo no filme Gösta eu posso explicar isso em poucas palavras.
Berling, em Berlim, ele sabia, tanto quanto que
estava vivo, que tinha descoberto um símbolo sexual Eu fazia uma cena com Garbo – muito bem. Eu fazia
além de sua imaginação – ou de qualquer outra. três ou quatro tomadas. Estava muito bom, mas eu

A Rua das lágrimas


nunca ficava plenamente satisfeito. Quando eu via a a 1941, de vida contínua.
mesma cena na tela, entretanto, ela tinha alguma coisa De minha vida. De The Torrent a Two-faced woman.
que não tinha no set. Entre os dois, um abismo
onde aprisionei, para meu gozo, Greta Garbo.
Garbo tinha algo atrás dos olhos que você não podia Ou ela me aprisionou?
ver, a não ser que a fotografasse em primeiro plano. Será que não houve nada disso?
Você podia ver o pensamento. Se ela precisava olhar Alucinação, apenas?
para uma pessoa com ciúme e para outra com amor, ela O tempo é imperscrutável. São tudo visões.
não precisava mudar de expressão. Você podia ver isso Greta Garbo, somente uma visão, e eu sou outra.
em seus olhos quando ela olhava de uma para outra. Neste sentido nos confundimos,
E ninguém mais podia fazer isso na tela. Garbo fazia realizamos a unidade da miragem.
isso sem nenhum domínio do inglês. É assim que ela perdura
no passado irretratável e continua no presente,
Para mim, Garbo começa onde todos terminam. Ela esfinge andrógina que ri
era uma pessoa tímida, sua carência de inglês provo- e não se deixa decifrar.
cava nela um ligeiro complexo de inferioridade. Eu (...)
costumava dirigi-la com muita calma. Eu nunca a Dela quiseram fazer uma ninfa obediente,
orientava falando alto, mas sempre num sussurro. autômato de impulsos programados.
Ninguém no set sabia o que eu havia dito a ela, e ela Foram vencidos.

VISITA AO ACERVO – CINEMATECA SUECA


gostava disso. Ela odiava ensaiar. Preferia ficar longe (...)
até que todos tivessem ensaiado; então ela entrava e Que é a realidade do real
fazia a cena. ou da ficção?
Kevin Brownlow, The Parade’s gone by... University Que é personagem de uma história
of California Press, 1997. mostrada no escuro, sempre variável,
sempre hipótese,
Às 9 horas, o trabalho podia começar. “Digam à na caleidoscópica identidade da intérprete?
senhorita Garbo que estamos prontos”, dizia o diretor.
“Eu estou aqui”, respondia uma voz grave, e ela Como posso acreditar em Greta Garbo
aparecia, perfeitamente vestida e penteada como a cena nas peles que elegeu
pedia. Ninguém poderia dizer por que porta ela havia sem nunca se oferecer de todo para mim,
entrado, mas ela estava lá. E às 18 horas, mesmo que para ninguém?
66 Enganou-me todo o tempo. Não era mito 67
a tomada pudesse ser concluída em cinco minutos, ela
apontava para o relógio e ia embora, com um sorriso como eu pedia. Escorregando entre os dedos
de desculpas. Ela era muito rigorosa consigo mesma que tentavam fixá-la,
e dificilmente ficava satisfeita com seu trabalho. Ela Marguerite Gauthier, Lillie Sterling,
nunca assistia copiões nem ia aos lançamentos, mas, Susan Lenox, Rita Cavallini,
alguns dias depois, num começo de tarde, entrava Arden Stuart,
sozinha em algum cinema de bairro, sentava num lugar Marie Walewska, água, água, múrmura água
discreto e saía apenas quando a projeção terminava, deslizante,
escondida atrás de seus óculos escuros. máscaras tapando a grande máscara
para sempre invisível.
Jacques Feyder, que dirigiu Greta Garbo em The A vera Greta Garbo não fez os filmes
Kiss / O Beijo (1929) e na versão alemã de Anna que lhe atribui minha saudade.
Christie (1931). A versão em inglês foi dirigida Tudo se passou em pensamento.
por Clarence Brown em 1930 e foi o primeiro Mentem os livros, mentem os arquivos
filme em que Garbo falou. da ex-poderosa Metro Goldwin Mayer.

Agora estou sozinho com a memória


Os 27 filmes de Greta Garbo de que um dia, não importa em sonho,
imaginei, maquinei, vesti, amei Greta Garbo.
Carlos Drummond de Andrade E esse dia durou 15 anos.
E nada se passou além do sonho
27, tem certeza? Não importa. diante do qual, em torno ao qual, silencioso,
Para mim são 24. Lembro-me bem. fatalizado,
Conto um por um, de 1926 fui apenas voyeur.

Greta Garbo é atriz de A Rua das lágrimas / Die freudlose Gaße, A Mulher
divina / The Divine woman e A Carne e o diabo / Flesh and the devil A Mulher divina
PROGRAMA 5

A Mulher divina
The Divine woman
Estados Unidos, 1928, 35mm, preto-e-branco, 10min, 22qps
cp: Metro-Goldwyn-Mayer; p: Irving Thalberg; d: Victor Seastrom (Sjöström); r: Dorothy Farnum; df: Oliver T. Marsh;
mo: Conrad A. Nervig; e: Greta Garbo (Mariana), Lars Hanson (Luciano), Lowell Sherman, Polly Moran, Dorothy
Cumming, John Mack Brown, Cesare Gravina
Origem da cópia: Svenkska Filminstitutet

A jovem inglesa Mariana, abandonada pelos pais pobres, quer ser atriz e se muda para Paris. Apaixona-se por
Luciano, desertor do Exército. Para provar seu amor por Mariana, o rapaz rouba um vestido e é preso.

A Mulher divina, dirigido por Victor Sjöström, em Hollywood, e coadjuvado pelo também sueco Lars Hanson,
é o único filme desaparecido de Greta Garbo. O fragmento existente (10 minutos dos 81 originais), e o que apre-
sentamos nesta Jornada foi identificado na Gosfilmofond / Cinemateca Russa, em 1990. Nele, numa graciosa cena
de despedida interpretada por Garbo e Hanson, a atriz aparece relaxada e risonha, desmentindo a lenda de que
só riria em Ninotchka (1939), seu penúltimo filme.

Vento e areia
The Wind
Estados Unidos, 1928, 35mm, preto-e-branco, sonoro, 72min, 24qps
cp: Metro-Goldwyn-Mayer; d: Victor Seastrom (Sjöström); r: Frances Marion, baseado no romance homônimo de Dorothy
Scarborough; df: John Arnold; da: Cedric Gibbons e Edward Withers; mo: Conrad A. Nervig; mor: William Axt; Vento e areia. Lars Hanson, Lilian Gish e William Orlmond (da esquerda para direita)
e: Lillian Gish (Letty), Lars Hanson (Lige), Montagu Love (Roddy), Dorothy Cumming (Cora), Edward Earle (Beverly),
William Orlamond (Sourdough), Carmencita Johnson, Leon Janney e Billy Kent Schaefer (filhos de Cora)
Origem da cópia: Svenska Filminstitutet

Letty muda-se para o oeste do Texas para morar no rancho de seu primo Beverly. Em sua viagem, ela fica inco-
modada com o vento incessante. Roddy nota isso e a amedronta dizendo que habitualmente o vento enlouquece
as mulheres. Lige, vizinho de Beverly, apanha Letty na estação de trem. Depois de quilômetros de vento e areia, LARS HANSON
chegam ao rancho onde Cora, esposa de Beverly, imediatamente manifesta seu ciúme em relação ao marido e aos 26 julho 1886, Göteborg, Suécia - 8 abril 1965, Estocolmo, Suécia
filhos, que demonstram seu carinho por Letty. Cora afinal pede que Letty deixe o rancho e, sem alternativas, a moça
68 aceita uma proposta de casamento de Lige. Mas Letty sente profundo desprezo pelo marido que, ofendido, jura que 69
nunca a tocará. Um dia, Lige parte para reunir-se a outros vaqueiros. Letty, muito transtornada pelo vento, pede Dotado desde a adolescência de grande talento, Atuou em diversos filmes americanos como Flesh
que o marido a leve junto, mas Lige recusa-se. Mesmo assim, ela tenta segui-lo, mas volta para casa, ferida numa Lars Hanson estudou arte dramática em Estocolmo and the devil / A Carne e o diabo, Captain
tempestade de areia. Roddy chega ao rancho machucado e Letty cuida dele, que tenta se aproveitar dela. Lige chega e em Helsinque, na Finlândia, tornando-se um ator Salvation / O Jovem redentor (John S.
e, pela primeira vez, ficando contente ao vê-lo, se beijam. Lige parte novamente e, durante uma nova tempestade de shakespeariano de grande popularidade. Estreou Robertson, 1927), Buttons / Meu comandante
areia, Letty enlouquece. Roddy a salva e tenta estuprá-la, mas Letty o mata. Ela tenta enterrar o corpo, mas o vento (George W. Hill, 1927) e, em 1928, voltou a
a impede e ela novamente perde a razão. Lige volta, ela confessa seu crime e ele compreende como o vento a afetou.
no cinema em 1915, pelas mãos de Mauritz Stiller,
Quer levá-la para longe do rancho, mas Letty declara que nunca o abandonará. diretor com quem continuou trabalhando ao longo trabalhar com a amiga Lillian Gish em The
dos anos. Foi com Stiller que se consagrou em Wind / Vento e areia, também sob a direção de
Trabalhar em Vento e areia foi uma das minhas piores experiências em cinema. A areia era atirada sobre mim por oito motores de dois filmes notáveis, Erotikon (1920) – estrelado Sjöström. A sequência da noite de casamento deste
aeroplanos, e potes de enxofre também foram usados para produzir o efeito de tempestades de areia. Eu ficava queimada e corria o também por Karen Molander, com quem Lars filme demonstra o talento excepcional de seus
risco de perder os olhos. Meus cabelos eram queimados pelo sol forte e quase arruinados pela fumaça de enxofre e pela areia. se casaria dois anos depois – e Gösta Berlings atores e é considerada por muitos uma das mais
Quando vimos o filme na tela, inclusive Irving Talberg, pensamos que era o melhor filme que já havíamos feito. Mas os meses se
passavam, e o filme não era lançado. Escutei rumores de que o filme estava sendo remontado. Fui chamada de volta ao estúdio saga / A Saga de Gösta Berling (1924), que belas interpretações do cinema silencioso.
e Irving explicou que oito dos maiores exibidores do país haviam visto Vento e areia e insistiam que o final fosse mudado. Em chamaria a atenção de Hollywood para uma atriz
vez do desaparecimento da heroína na tempestade, ela e o herói deveriam se reconciliar num final feliz. Ficamos com o coração coadjuvante: Greta Garbo. Com o advento do cinema falado, Hanson retornou
partido, mas fizemos o que eles queriam. à Suécia. Seu sotaque era carregado demais para o
Lillian Gish. The Movies, “Mr. Griffith and Me”, de Lillian Gish e Ann Pinchot. Prentice-Hall, Inc., 1969. Com o rosto de traços delicados e mãos que pareciam público americano. Participou de diversos espetá-
esculpidas em porcelana, Lars encarnava o arqué- culos teatrais em toda a Europa e ganhou uma
Louise Brooks sobre Lillian Gish e Greta Garbo
Parece fatal lembrar que, depois que Lillian Gish assistiu uma projeção de Gösta Berling, declarou que tinha fé em L. B. tipo do sueco suave de seu tempo. A pedido da atriz infinidade de prêmios, entre eles o Eugene O’Neil,
Mayer porque ele trouxera Greta Garbo para Hollywood. Ela não poderia adivinhar que esse evento tornaria obsoletos americana Lillian Gish, Hanson foi para Hollywood até hoje considerado o mais importante prêmio do
os papéis à la Gish tão rapidamente quanto o estúdio pudesse terminar com seu contrato. Antes do início da produção em 1926, para contracenar com ela no filme The teatro sueco.
de Torrent, o estúdio deixou Garbo meio solta, tirando fotografias para publicidade, e ela pode testemunhar Lillian Gish Scarlet letter / A Letra escarlate, sob a direção
trabalhando em La Bohème [King Vidor, 1926]. Ao assistir a única estrela americana cuja integridade, dedicação de Victor Sjöström. A química entre os dois prota- Foi casado com Karin Molander até 1965, quando
e força de vontade elevavam sua interpretação aos padrões de disciplina e excelência que Garbo aprendera na Europa,
ela percebeu que a atriz impotente, triturada durante horas de indecisão, imprevisibilidade e falta de resoluções não era gonistas transformou o filme em uma das grandes faleceu, aos 78 anos. Permanece como um dos mais
necessariamente a lei da produção cinematográfica americana. Em maio de 1926, a revista Photoplay publicou uma referências de romance no cinema da época. influentes atores suecos de todos os tempos.
frase de Garbo “Serei feliz quando me tornar uma estrela tão grande como Lillian Gish. Então, não precisarei mais de
publicidade nem tirar fotografias apertando a mão de boxeadores campeões”. Lars Hanson está no elenco dos filmes A Herança de Ingmar / Ingmarsarvert,
Louise Brooks, “Gish and Garbo”. Lulu in Hollywood. University of Minnesota Press, 2000. A Mulher divina / The Divine woman e A Carne e o diabo/ Flesh and the devil
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Vento e areia
PROGRAMA 7

Chegada do rei do Sião a Logårdstrappan


Konungens af Siam landstigning vid Logårdstrappan
Suécia, 1897, 35mm, preto-e-branco, 1min, 18qps
d e df: Ernest Florman; e: Chulalongkorn, rei do Sião; Oscar II, rei da Suécia
Origem da cópia: Svenska Filminstitutet

Cenas da vida do rei Oscar II


En bildserie ur Konung Oscar:s lif
Suécia, 1907, 35mm, preto-e-branco e cor, 3min, 16qps
cp: Nya London; d e df: Ernest Florman; e: Oscar II, rei da Suécia; Frederico VIII, rei da Dinamarca
Origem da cópia: Svenska Filminstitutet

Cortejo de cavalaria; Oscar II despede-se de Frederico VIII num barco; bandeira da Suécia colorida à mão.

Viagem às ruínas de Angkor


PROGRAMA 6 Voyage aux ruines d’Angkor
França, 1908 (?), 35mm, preto-e-branco, 25min, 18qps
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Rua Meschanskaia 13 / Sofá e cama d: Monseigneur le Duc de Montpensier
Origem da cópia: Svenska Filminstitutet
Tretia Meschanskaia
União Soviética, 1927, 35mm, preto-e-branco, 86min, 20qps
cp: Sovkino; d: Abram Room; r: Viktor Shklovsky e Abram Room; df: Gregori Giber; da: Vasili Rakhals e Sergei Yutkevich; O filme acompanha um grupo de turistas que chega a Saigon, no Vietnã, e sobe o rio Mekong. Vista das margens
e: Lyudmila Semyonova (Liudmila), Nikolai Batalov (Kolia), Vladimir Fogel (Volodia), Leonid Yurenyov (porteiro), e das vilas ribeirinhas. Chegada à capital do Camboja e viagem em carros de boi até o conjunto das ruínas de
Yelena Sokolova (enfermeira) Angkor. Diversas vistas das ruínas.
Origem da cópia: Svenska Filminstitutet

Um casal, Liudmila e Kolia, mora num pequeno apartamento em Moscou. Volodia, um amigo de Kolia, chega
à cidade e não consegue encontrar moradia. Kolia convida Volodia para ficar em seu apartamento e dormir no Na terra dos Moïs: exploração e caça
sofá. Quando Kolia viaja a negócios, Liudmila e Volodia apaixonam-se e têm um caso. Furioso a princípio, Kolia Au pays des Moïs: exploration et chasse
acalma-se, muda-se para o sofá e os três passam a morar juntos até o momento que Liudmila revela sua gravidez.
França, 190?, 35mm, preto-e-branco, 25min, 18qps
Os dois homens tentam decidir o que fazer, mas é Liudmila quem toma suas próprias decisões. Origem da cópia: Svenska Filminstitutet

Moscou tem carência de moradias,como Londres, Berlim, Paris e qualquer outra cidade, pequena ou grande. Em Moscou,
a superpopulação gera certos males sociais, os mesmos males sociais gerados em Londres, Berlim e Paris. A superpopulação
constrange o ser humano em sua luta por independência, liberdade e saúde. Abram Room, que é um bom psicólogo, entende Um grupo de turistas vai de Saigon à terra dos Moïs, inicialmente de automóvel e depois a cavalo. Detalhes da
o problema e se decide a expô-lo e enfrentá-lo. Ele sabe que ao fazer isso ele tem o apoio do governo soviético. Na Inglaterra, viagem. Ao encontrarem um acampamento da tribo Chô Mas, os exploradores acompanham a caçada de um
onde existe uma carência de cerca de um milhão de moradias, os diretores de cinema não fazem esse tipo de coisa. búfalo. Maneiras dos Chô Mas fazerem fogo. Refeição. Ritos executados pelas sacerdotisas. Pormenores da caçada
durante a qual os exploradores matam alguns búfalos.
Sofá e cama mostra o que acontece quando duas pessoas vivem apertadas em um cômodo, e mostra o que acontece
quando as duas aumentam para três. Room expõe seu assunto; nós sabemos o que vai acontecer, e esperamos que aconteça.
Mas ficamos profundamente interessados pela maneira que o diretor usa para retratar pictoricamente o estado mental e
as reações psicológicas desses três. Tudo se encaminha para uma crise, um rompimento, mas Liudmila toma a decisão, a
única possível: rompe com tudo e parte para começar uma nova vida.

A mulher é igual ao homem. A mulher precisa ser livre, independente. As velhas tradições morais da superioridade
masculina estão erradas. A superpopulação precisa ser abolida, diz Room, em busca de uma nova vida, uma vida livre,
baseada na completa igualdade social.
A.W., Close Up (Suíça), maio 1929
Destaques de Pordenone
Quadra de Ases Americanos
Aposta (sem blefe) de Pordenone

Paolo Cherchi Usai


Pesquisador, historiador, presidente da Fundação Haghefilm, membro do conselho diretor das
Giornate del Cinema Muto de Pordenone, Itália

Se vocês acompanharam esta seção desde o início – quer dizer, desde a segunda
edição da Jornada –, notaram que as Giornate del Cinema Muto di Pordenone (o o jovem Raoul Walsh, ex-assistente de Griffith (D.W.). The Birth of a nation / O
festival italiano “gêmeo” da Jornada, prestes a completar seus trinta anos) até agora Nascimento de uma nação havia sido produzido apenas um ano antes, e Walsh
sugeriram a nossos amigos da Cinemateca Brasileira um programa “internacional” já anunciava um tipo cinema que estaria na moda em época muito posterior com a
de obras-primas, convencido que estamos de que o grande cinema não conhece apoteose do film noir. Regeneration não é apenas uma lição de estilo, nem apenas
fronteiras geográficas. Façamos desta vez uma exceção, propondo uma quadra de uma incendiária reportagem sobre a criminalidade americana: é também um exemplo
ases, todos americanos. Uma outra exceção se deve ao fato de que três das quatro joias brilhante de realismo social (o filme foi rodado sobretudo em locações) e de sobrie-
que verão este ano são comédias. Todas comédias de alta classe. dade expressiva. Hollywood não inventou nada em seus anos de ouro: tudo já pode ser
encontrado em Regeneration e em seu admirável sentido de economia expressiva.
Não tenham medo: o cardápio será adaptado a todos os gostos. Se acreditavam que
as grandes divas do cinema silencioso fossem estupendas apenas em assuntos dramá- Já que falamos de “clássicos”, deixem-me aproveitar a ocasião para explicar um
ticos, Glória Swanson os fará mudar de ideia com Stage struck / Este mundo é pouco mais detalhadamente a “filosofia” sobre a qual se apoia a seleção anual para
74 um teatro (Allan Dwan, 1925), uma subversiva homenagem à tradição do teatro a Jornada. Pordenone deu início no ano passado a uma nova seção sob o título “Il 75
ambulante, com sequências coloridas de tirar o fôlego. Se gostam de absurdo e de canone rivisitato” [O cânone revisitado], dedicado à revisão dos grandes filmes que
surreal, When the clouds roll by / O Supersticioso (1919) é feito para vocês. traçaram o percurso da história do cinema durante seus silenciosos princípios. Mas o
Muito antes que Victor Fleming se tornasse um “clássico” da epopeia sulista com que é o “cânone”? É fácil demais responder dizendo que o termo compreende filmes
Gone with the wind / E o vento levou... (1939), seus princípios haviam-no reconhecidos por todos como monumentos indiscutíveis das imagens em movimento.
visto adotar um tom muito mais despreocupado: mérito naturalmente de Douglas A questão é muito mais complicada, mas é legítimo começar por admitir que um
Fairbanks, aqui em grande forma nas vestes de um enamorado supersticioso. Mas o filme “canônico” é antes de tudo um filme que merece ser encontrado muitas vezes,
mérito é também de uma desenfreada imaginação visual que encontra seu ápice na quer dizer, ser visto e revisto sem medo de cansaço. É uma constatação óbvia que, no
sequência dedicada a um estupefaciente balé de hortaliças no estômago do protago- contexto de um festival de cinema, todavia merece algum aprofundamento. Por que o
nista (não podemos dizer-lhes mais: é ver para crer). cânone no cinema silencioso é tratado como tal, e como se tornou um cânone? Quem
ratificou sua posição de absoluta proeminência na historiografia do cinema,e com
Se, em vez disso, estão com disposição para descobertas, prometo que não ficarão base em quais critérios? Os nossos predecessores fizeram uma escolha justa ou equivo-
frustrados com Griffith. Não, não estou falando de D.W. Griffith, diretor de gênio cada? Quais circunstâncias culturais orientaram sua seleção das “obras-primas” para
– mas francamente pouco dotado na arte de fazer rir. Refiro-me a Raymond Griffith, o primeiro panteão do cinema? E se acreditamos que nossos antepassados erraram,
uma das grandes “descobertas” na história de Pordenone, verdadeiramente um como demonstrar que a razão está conosco?
precursor da “comédia impassível” (deadpan comedy);. Hands up! / Mãos ao alto!
(Clarence Badger, 1926) é uma de suas obras mais inspiradas, uma deliciosa investida Em suma, há uma razoável quantidade de motivos para revisitar os cânones do cinema
no gênero do faroeste, com um toque de ironia no que se refere aos mórmons). Nós silencioso. O mais importante é que hoje podemos revê-los com mais confiança em
de Pordenone não temos dúvida: Raymond Griffith deveria ser colocado ao lado de nossos recursos, agora que temos à disposição um atlas menos vago de um mundo
Chaplin, Keaton e Harold Lloyd. fascinante e com muitos mapas ainda desconhecidos. A estratégia proposta por
Pordenone a nossos companheiros da Jornada é essa mesma: rever com olhos novos
E se, afinal, quiserem tocar com as mãos o nível de perfeição alcançado pelo cinema aquilo que acreditávamos já conhecer; rever não como um ato de nostalgia no que diz
com apenas vinte anos de seu nascimento, permitam-se uma pausa nas comédias respeito às certezas que perdemos, mas como o início de um diálogo com os especta-
com Regeneration / Regeneração (1915) e observem as coisas que sabia fazer dores e com a novidade de seu olhar. Temos muito que aprender com vocês.
Regeneração O Supersticioso
Regeneration When The Clouds Roll By
Estados Unidos, 1915, 35mm, preto-e-branco com viragem e tingimento, 64min, 18qps Estados Unidos, 1919, 35mm, preto-e-branco, 86min, 19qps
cp: Fox Film Corporation; d: Raoul Walsh; r: Raoul Walsh, baseado na autobiografia My Mamie cp: Douglas Fairbanks Pictures; p: Douglas Fairbanks, d: Victor Fleming; r: Thomas J. Geraghty;
Rose, de Owen Frawley Kildare; df: Georges Benoît; e: John McCann (Owen Conway aos 10 anos), df: William C. McGann e Harris Thorpe; e: Douglas Fairbanks (Daniel Boone Brown), Kathleen
James A. Marcus (Jim Conway), Maggie Weston (Maggie Conway), H. McCoy (Owen Conway aos Clifford (Lucette Bancroft), Frank Campeau (Mark Drake), Ralph Lewis (Curtis Brown), Daisy
17 anos), Rockliffe Fellowes (Owen Conway aos 25 anos), Anna Q. Nilsson (Marie “Mamie Rose” Jefferson (Bobby De Vere), Bull Montana (Pesadelo), Herbert Grimwood (dr. Ulrich Metz), Albert
Deering), William Sheer (Skinny), Carl Harbaugh (promotor Ames) MacQuarrie (Hobson), Victor Fleming, Thomas J. Geraghty, William C. McGann, Harris Thorpe
Origem da cópia: MoMA – The Museum of Modern Art / Film Preservation Center Origem da cópia: MoMA – The Museum of Modern Art / Film Preservation Center

Owen cresce nos cortiços novaiorquinos e se transforma em líder de um bando que passa O rico e amável Daniel Boone Brown é vítima das experiências psicológicas de Ulrich
a maior parte do tempo bebendo, jogando e praticando pequenos furtos. Paralelamente, Metz, um cientista louco que decidiu transformá-lo numa espécie de cão pavloviano. Saúde
a jovem Marie Deering abandona a vida da alta sociedade e estabelece uma casa missio- debilitada, sono inquieto, indisposição nervosa e irritável, atraso no trabalho e superstições
nária na zona de criminalidade da cidade. Quando encontra Marie, que toma a seu encargo que preocupam e atemorizam, tudo faz parte das maquinações de Metz para enlouquecer
ensiná-lo a ler e escrever, Owen percebe que andara até ali pelo lado errado da vida e dá o Daniel. Alimentado pelo mordomo a serviço de Metz, Daniel tem um terrível pesadelo em
primeiro passo no caminho da regeneração. A história se complica, contudo, pelo fato de o que os componentes da refeição transformam-se em demônios que o atormentam. O jovem
pior inimigo de Owen, o promotor Armes, paladino contra o crime na cidade, também estar literalmente sobe pelas paredes e enfrenta uma inundação colossal. Os experimentos de Metz
apaixonado por Marie. levarão Daniel ao suicídio?

Aos 28 anos, e após haver realizado uma dezena de curtas-metragens, Raoul Walsh Esta comédia surreal – primeiro filme dirigido por Victor Fleming – foi a segunda
acabara de sair de The Birth of a nation / O Nascimento de uma nação (1915), produção de Douglas Fairbanks para a United Artists, criada em 1919 por ele, D.W.
no qual foi um dos assistentes de D.W. Griffith e interpretou o papel de John Wilkes Griffith, Charles Chaplin e Mary Pickford – com quem Douglas se casaria no ano
Booth (o assassino de Abraham Lincoln). Em sua autobiografia, Walsh credita Griffith seguinte, realizando o ideal de casamento do maior herói do cinema americano
por havê-lo ensinado tudo sobre a realização cinematográfica de ficção, mas também com a Namorada da América. (Mary Pickford comparece à IV Jornada Brasileira
sobre as técnicas de produção que o auxiliariam a tirar proveito das locações novaior- de Cinema Silencioso com o filme A Aurora de um amanhã, na seção Visita ao
quinas que utilizou em Regeneração. Acervo de Filmes de Arquivo do Instituto Sueco de Cinema).

Além de seu enredo violento e do status de primeiro longa-metragem de Raul Walsh, A partir de 1920, Fairbanks modificaria radicalmente a orientação de sua carreira,
Regeneração deve sua importância a ser igualmente o primeiro longa-metragem dedicando-se à produção e interpretação de heróis de filmes de aventuras com
que fala do ambiente da marginalidade e dos gangsters, na mesma linha de The ambientação histórica, começando por The Mark of Zorro / A Marca do Zorro
Musketeers of Pig Alley (1912), de D.W. Griffith, curta-metragem sobre o ambiente (Fred Niblo).
76 77
criminal. Baseado na autobiografia de Owen Kildare (afastado da criminalidade e do Douglas Fairbanks fora levado de Nova Iorque para Hollywood em meados da
analfabetismo por uma professora), que se dedicou ao jornalismo, Regeneração não década de 1910 numa tentativa de fazer com que artistas da Broadway carreassem
segue o mesmo caminho de seu mestre, que utiliza um estilo entre romantismo e prestígio para as produções cinematográficas. Mas era um ator de poucos recursos
realismo. Walsh prefere a linha do verismo: a grande maioria dos “atores” interpreta e de sucesso secundário e, durante algum tempo, foi pouco aproveitado. Começou a
seus próprios papéis, o que dá ao filme um ar quase documental muito perturbador. ganhar crescente prestígio quando a roteirista Anita Loos e seu marido, o diretor John
A miséria parece transpirar dos fotogramas que descrevem as ruas, os bares e as Emerson, iniciaram a realização de comédias modernas em que o herói, descontente
moradias, de onde emana uma miséria que é descrita como o berço da criminali- com a vida normal, ou com sua relação com a namorada, lançava-se em aventuras
dade. Walsh, contrariamente a alguns de seus sucessores, não trabalha sobre o aspecto acrobáticas. Sobre esse período, escreveu Anita Loos:
romântico ou misterioso do personagem e de seu meio, nem procura transformá-lo
em ícone ou herói. Owen é um maldoso gentil (ou o inverso), um personagem inteiro Em deferência ao ídolo de Doug, Theodore Roosevelt, a ação sempre deveria estar de acordo
que prefigura bastante as grandes figuras picarescas que atravessarão a carreira do com “a vida enérgica”, e meus heróis sempre tinham de estar em movimento. Às vezes eu
grande cineasta americano, fascinantes justamente por seu realismo e sua verossimi- tentava uma cena de amor que necessitava que Doug se acalmasse e fosse sentimental por
lhança. A própria professora é uma matriz dos personagens femininos que nos filmes alguns momentos, mas ele, em geral, interrompia dizendo com uma careta: “Eu não posso
de Walsh têm sempre um lugar importante. interpretar isso, Nita! Eu não sou ator!”. Assim, as minhas mais sedutoras cenas de amor
tinham de ser interrompidas com uma ação abrupta e muitas vezes inesperada de Doug
O que espanta em Regeneração é sua complexidade narrativa, pois, além de ser uma
saltando para o lustre ou nadando rio acima por uma cachoeira. Doug era tão corajoso que,
pintura realista dos bairros pobres de Nova Iorque, o enredo é também um pequeno
não importando o risco, nunca permitia que um dublê o substituísse. Numa ocasião apenas ele
afresco que descreve a trajetória do jovem gangster. O filme – com uma espantosa
foi covarde na frente de todos nós. Foi durante uma cena em que meu herói precisava estourar
economia no uso de intertítulos – emprega um número grande de personagens secun-
um pneu de automóvel com um alfinete de chapéu. John Emerson rodou a cena diversas vezes,
dários que, embora não sejam atores, têm consistência e se encaixam na narrativa e
em seus esquemas dramáticos ou simbólicos. O cinema tinha pouco mais de vinte
mas Doug estragava o plano no momento de enfiar o alfinete no pneu. Afinal, ele desistiu e
anos, e é impressionante constatar que Raoul Walsh, digno aluno de D.W. Griffith, confessou: “Eu não consigo fazer isso. Estou com medo”. Todos pensamos que Doug estava
utiliza uma linguagem plenamente adulta, sóbria, enérgica e, em alguns momentos, brincando, mas ele realmente estava com medo que o pneu estourasse e ele ficasse cego, e John
lírica. A câmera (em geral fixa) executa alguns movimentos muito bonitos, sem teve de que usar o primeiro e último dublê de que Doug precisou.
nenhuma gratuidade. O conjunto é conduzido pelo senso rítmico típico do cinema Anita Loos. A girl like I. Ballantine Books, 1975.
de Raoul Walsh.
Este mundo é um teatro
Stage Struck
Estados Unidos, 1925, 35mm, preto-e-branco com viragem e tingimento, e cor, 77min
cp: Famous Players-Lasky Corporation; d: Allan Dwan; r: Forrest Halsey e Sylvia LaVarre a partir
de uma história de Frank R. Adams; df: George Webber; da: Van Nest Polglase e René Hubert;
mo: William LeBaron; e: Gloria Swanson (Jennie Hagen), Lawrence Gray (Orme Wilson), Ford
Sterling (Waldo Buck), Gertrude Astor (Lillian Lyons), Oliver Sandys (Hilda Wagner), Carrie Scott
(sra. Wagner), Emil Hoch (sr. Wagner), Margery Whittington
Origem da cópia: National Film and Television Archive / British Film Institute

Jenny, garçonete de um modesto restaurante à beira do rio Ohio, sonha em ser atriz e
conquistar o coração de Orme, seu companheiro de trabalho, que opera com destreza a
chapa de fazer panquecas. Para viabilizar seus sonhos, Jenny faz, em segredo e por correspon-
dência, um curso de interpretação. Orme, por sua vez, é fascinado por atrizes, não importa de
que tamanho ou formato, e as paredes de seu quarto são forradas de fotografias delas. Com
a chegada do barco que anualmente percorre o rio apresentando espetáculos de variedades,
Orme tem a oportunidade de se aproximar de Lillian Lyons, uma atriz em carne e osso. Jenny
faz tudo para evitar que Orme sucumba aos encantos da vamp e, com a ajuda do empresário
das variedades, finalmente consegue participar de um espetáculo.

James Card, durante muito tempo curador de filmes do arquivo da George Eastman
House, escreveu sobre Gloria Swanson:

78 Em 1925, apareceu um outro filme da dupla Allan Dwan-Gloria Swanson: Stage Struck. 79
Mais uma vez, Gloria aparecia como operária oprimida. Ela fazia uma garçonete num restau-
rante barato à margem do rio que sonhava em ser uma grande atriz. O filme começa com um
elaborado prólogo em Technicolor em seu sonho de triunfo no palco. Ironicamente, a sequência
do sonho é documental e profética da carreira de Gloria Swanson na época: em 1925 ela era
uma das mais admiradas e invejadas personalidades glamourosas do cinema, em um tempo
que marcou o ápice do estrelato de Hollywood. E tinha voltado da França para Hollywood,
recém-tornada marquesa de la Falaise de la Coudraye, para uma das maiores recepções com
multidões e cinegrafistas que a cidade tinha visto. A procissão triunfal pela capital do cinema
parecia ter sido coproduzida por Cecil B. DeMille e Erich von Stroheim.

Meu primeiro encontro com Gloria Swanson foi inteiramente fora de contexto. Ela estava em
Rochester divulgando sua linha de vestidos “Forever Young”, e passeando por grandes lojas de
departamento. Como eu era conhecido como alguém do cinema, fui convidado pela adminis-
tração das lojas para cuidar de um almoço em sua homenagem. Gloria começou a fazer filmes
em 1915, quando era uma adolescente em Chicago. Quando a conheci, em 1952, Gloria era
agradável, calma e uma mulher sexy que aparentava ter de vinte e oito a trinta e três anos. Por
anos e anos, ela teve de participar de encontros com senhoras de cabelos brancos que diziam:
“Oh, senhorita Swanson, a senhorita era minha estrela favorita quando eu era garotinha”.
Eu tinha senso suficiente para não dizer a ela que via seus filmes desde que era pequeno. No
almoço, tiraram nossa fotografia juntos. Gloria está colocando um cravo na minha lapela. Ela
está com um sorriso e um fogo no olhar que poderia incendiar um arquivo todo com filmes de
nitrato. Eu estou ali olhando como um bobo, pronto para ser preparado por um martelo para
um bife assado.
James Card. Seductive Cinema. University of Minnesota Press, 1999.

Gloria Swanson
Golpes de audácia
Hands Up!
Estados Unidos, 1926, 35mm, preto-e-branco, 63min, 24qps
cp: Famous Players-Lasky Corporation; p: Jesse L. Lasky e Adolph Zukor; d: Clarence G. Badger;
r: Monte Brice e Lloyd Corrigan a partir de uma história de Reggie Morris; df: H. Kinley Martin;
ee: Barney Wolff; e: Raymond Griffith (Jack), Virginia Lee Corbin (Alice Woodstock), Marian Nixon
(Mae Woodstock), Mack Swain (Silas Woodstock), Charles K. French (Brigham Young), Noble Johnson
(Touro Sentado), Montagu Love (capitão Edward Logan), George A. Billings (Abraham Lincoln)
Origem da cópia: MoMA – The Museum of Modern Art / Film Preservation Center

No final da guerra civil americana, o presidente Lincoln recebe a boa notícia de que uma
mina de ouro de Nevada fornecerá todos os recursos necessários para o esforço de guerra do
Norte. O presidente quer que lhe tragam o ouro imediatamente. Ao mesmo tempo, Jack, um
espião do Sul, recebe a missão de interceptar o carregamento de ouro. Em sua missão, ele
encontra duas irmãs e se apaixona por elas, enganando oficiais nortistas ao forjar uma falsa
identidade. Com o término da guerra, Jack precisa resgatar as irmãs de quem se enamorou,
bem como o pai delas, de uma tribo de índios. Mas o dilema permanece: com qual das duas
ele se casará, já que as ama com igual paixão?
RAYMOND GRIFFITH
23 janeiro 1895, Boston, Estados Unidos / 25 novembro 1957, Los Angeles, Estados Unidos

Raymond Griffith iniciou a carreira cinematográ- Durante o período na Goldwyn, Griffith criou
fica em 1915. Durante sua vida, trabalhou como um estilo único de atuação. Seus personagens não
ator, figurante, roteirista, cenógrafo, mímico e eram explicitamente cômicos e suas caracterizações
produtor. Conhecido mundialmente como “O eram repletas de atrevimento. Tudo temperado
Comediante do Chapéu de Seda”, foi um dos com uma incrível criatividade artística, chegando
grandes mestres do humor, da sátira e da paródia. às vezes aos níveis da palhaçada burlesca.
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Filho de uma família de atores, fez sua estreia Esse estilo de atuação atraiu a atenção dos estúdios
nos palcos quando tinha apenas 15 meses de da Paramount Pictures e, em 1924, Griffith foi
vida. Aos nove anos, tendo já protagonizado contratado para atuar em Changing husbands
diversos espetáculos teatrais, foi acometido por / [Troca de maridos] (1924), de Paul Iribe.
uma difteria pulmonar e teve suas cordas vocais Na Paramount, também atuou nos filmes Paths
danificadas. Perdeu sua voz quase por completo. to paradise / [Caminhos do paraíso] (1925)
e Hands Up! / Golpes de audácia (1926), de
Impossibilitado de atuar, Raymond entrou para Clarence G. Badger. Foi aclamado pela crítica
o circo. Trabalhou como dançarino, professor por sua inteligência iconoclástica e apontado por
Não é das melhores comédias de Raymond Griffith, considerando que o seu assunto, a guerra de dança e excursionou pela Europa com uma muitos como rival de Charles Chaplin.
civil americana, perde cinquenta por cento da sua graça exibido fora dos Estados Unidos. companhia francesa de mímica.
Comédia sem nexo, mas, contudo, agradará aos admiradores de Raymond Griffith. Tem as Griffith continuou atuando até o advento do
suas boas cenas. O princípio é interessante. Idem a cena do duelo. Todas as cenas passadas Em 1910, aos 15 anos, foi convocado a prestar cinema falado – seu último papel é uma inesque-
dentro da mala-postal são engraçadíssimas e bem apanhadas. A cena em que ele ensina serviços para a Marinha dos Estados Unidos. Após cível aparição como oficial francês no final de All
charleston aos índios também é muito boa. o desligamento do serviço militar, trabalhou para quiet on the Western front / Sem novidades
Aquelas perseguições no final estão muito bem feitas e jogadas. Um pouco longo o filme que, os estúdios Vitagraph, L-KO e Triangle. no front (Lewis Milestone, 1930). Aposentou-se
como disse, apesar de não ser dos bons de Raymond Griffith, agradará aos seus fãs com uma de suas funções de ator, mas nunca do mundo do
meia dúzia de trechos impagáveis. Em 1916 começou uma parceria com o renomado cinema. Trabalhou como produtor e roteirista até
Coadjuvação excelente. Marion Nixon, Virginia Lee Corbin e, principalmente, Mack diretor Mack Sennett. Dedicou-se principalmente o final da vida.
Swain, vão muito bem. à produção de filmes, cenografia e elaboração de
Cinearte n.31, 29 setembro 1926 roteiros. Em 1921 foi convidado para trabalhar Casado com a atriz Bertha Man, Raymond Griffith
com o renomado diretor Marshall Neilan, morreu aos 74 anos, vítima de um engasgamento
retomando sua carreira de ator e logo assinando alimentar seguido por asfixia.
contrato com a Goldwyn Pictures.
Janela para a América Latina pioneiros do cinema dos anos de 1920, da era de ouro do cinema silencioso boliviano.
Ainda quase úmido dos banhos de revelação do laboratório L’Immagine Ritrovata,
Longe de poder ser considerada uma indústria estabelecida, o cinema boliviano era (e
(Bolonha, Itália), onde foi restaurado e, há pouco mais de um mês, apresentado no
ainda é) entregue aos cuidados e às iniciativa de visionários como Pedro Sambarino,
prestigioso festival Il Cinema Ritrovato – organizado pela Cineteca della Comune di
Arturo Posnanky e José Maria Velasco Maidana. Todos criadores de laboratórios
Bologna –, temos a enorme satisfação de apresentá-lo antes mesmo de sua reestreia
cinematográficos que funcionavam de modo absolutamente artesanal na cidade
em seu país de origem.
de La Paz. Em 1925, Velasco Maidana finalizou seu primeiro longa-metragem, La
Profecía del lago. O filme foi censurado e destruído pelas autoridades municipais,
pois contava a história de amor entre uma dama da aristocracia e seu criado de origem
indígena. Entre 1928 e 29, dirigiu Wara Wara, a história de um amor impossível entre
uma princesa inca e um nobre conquistador espanhol. O filme mostra a conquista
do Império Inca pelo exército de Pizarro e foi uma verdadeira superprodução. Em
1933, durante a Guerra de Chaco, Maidana trabalhava em seu último filme quando
resolveu encerrar suas investidas no cinema. Retornou para a atividade que sempre
esteve mais próxima do seu coração, a música. Em dezembro de 1938 foi convidado
para apresentar em Berlim sua Orquestra Sinfônica, a Ameríndia. Alguns anos depois,
fundou a Orquestra Sinfônica Nacional, mas sua inquietação artística, e talvez,
sua amargura por ser mais reconhecido no exterior do que em seu próprio país, o
fizeram sair da Bolívia. Imigrou para o México e depois para os Estados Unidos, onde
conheceu a pintora Dorothy Hood, com quem viveu até o final de sua vida.

Em 1989, no ano de sua morte, foi encontrado na casa de sua família em La Paz
um baú contendo inúmeros rolos de filmes em nitrato. Não havia traços de cópias
positivas, e a maior parte do material era composta por negativos originais de câmera.
Um exame preliminar mostrou que a maioria dos rolos era relativa ao filme Wara
Wara. Graças ao Instituto Goethe de La Paz, uma parte desse material foi enviada
a um laboratório alemão, que se responsabilizou por fazer uma cópia em película
com o objetivo de recuperar o que fosse possível. Até 2001, na verdade, a “versão
restaurada” de Wara Wara ressentia-se das partes que faltavam no filme, mas os anos
seguintes, de pesquisa e investigação, lançaram luzes importantes sobre a fase silen-
ciosa do cinema boliviano. Apenas em 2009, com a intenção de restaurar o filme a
partir de seu negativo original, foi possível recuperar os 150 metros de película, corres-
pondentes à parte final da obra. A complexa operação de reconstrução da narrativa 83
foi baseada em fontes primárias – o próprio negativo que foi ordenado não segundo
uma narrativa linear, mas em blocos, de acordo com diferente período de colorizações
– e em fontes secundárias, como a peça de Diaz Villamil, recortes de jornais de época,
documentos de família e entrevistas com atores e colaboradores do filme. Sabemos
também que Cesar Carces B. foi o responsável por “sincronizar” as projeções do
Tesouro inca filme com a execução ao vivo de música étnica. Foi preciso um período de vinte anos
para trazer de novo à vida essa obra lendária do cinema boliviano. Ainda estão em
andamento pesquisas para a reconstrução das viragens e o acompanhamento musical
Stefano Lo Russo originais. Mas também essa atividade poderá ser trabalho para pioneiros.

A restauração dos negativos originais, preservados pela Fundação Cinemateca


Boliviana, realizou-se no laboratório L’Immagine Ritrovata, em Bolonha, na Itália, Wara Wara
em 2010. Os negativos foram restaurados digitalmente em 2K, duplicados em película Bolívia, 1930, 35mm, preto-e-branco, 69min, 24qps
e, ao final, tirou-se uma cópia positiva com som combinado. A trilha sonora de Cergio p: Urania Film; d: José Maria Velasco Maidana; r: José Maria Velasco Maidana, Antonio Diaz Villamil a partir da peça La voz de
la quena de Antonio Diaz Villamil; df: Mario Camacho, Jose Jimenez e José Maria Velasco Maidana; da: Arturo Borda, Martha
Prudêncio e a edição de Fernando Vargas foram recriadas de acordo com estudos de de Velasco e Alicia Diaz Villamil; e: Juanita Taillansier, Martha de Velasco, Arturo Borda, Emmo Reyes, Jose Velasco, Guillermo
fontes primárias e secundárias. Viscarra, Damaso Delgado, Raul Montalvo, Juan Capriles, Humberto Viscarra
Origem da cópia: Cinemateca Boliviana
“É a uma Bolívia de estrutura semi-feudal que chega o cinema. Filho pródigo da
sociedade industrial, rejeitado pela classe dominante, foi embalado e colocado para O pacífico reino de Hatun Colla é invadido por um exército de conquistadores espanhóis que destroem povoados e
dormir ao som das cantigas de ninar da divisão internacional do trabalho. Essas matam o chefe Calicuma e sua esposa Nitaya. No caos reinante, o sumo sacerdote Huillac Huma consegue salvar a
características socioeconômicas foram determinantes para o destino do cinema princesa Wara Wara e levá-la por passagens secretas até uma caverna nas montanhas. Neste esconderijo, Huillac Huma
boliviano, renegado desde sempre e condenado a um permanente trabalho forçado prepara por cinco anos um exército de nativos com o qual pretende vencer os espanhóis. A princesa Wara Wara é sua
única esperança, pois ocupará o trono de Atahuallpa, assim que conquistarem a vitória. Um dia, o capitão Tristán de
diante da contínua indiferença do Estado” (Pedro Susz).
la Vega, à frente de uma pequena tropa de espanhóis, chega nas proximidades do esconderijo e raptam a princesa. O
capitão Tristán quer defendê-la, mas é ferido na batalha que então se inicia. Para compensá-lo de sua nobre ação, Wara
Pedro Susz, fundador da Cinemateca Boliviana, acredita que para se fazer cinema Wara leva o capitão à caverna e cuida de seus ferimentos. Apaixonam-se e sonham com uma vida juntos. Mas o sacerdote
na Bolívia é preciso ter alma desbravadora. Assim também acreditava José Maria Huillac Huma e outros indígenas da tribo de Wara Wara preferem antes a princesa morta do que uma aliada dos
Velasco Maidana, músico profissional e artista multitalentoso, considerado um dos invasores. O casal é abandonado para que morra de fome, mas eles se salvam e se dispõem a começar uma nova vida.
Produções Silenciosas Contemporâneas

Preservação e coronelismo,
orgia e cachoeira,
som direto e silêncio,
cinzas e tesouros
Estevão Garcia
Cineasta, crítico de cinema e pesquisador, graduado em Cinema pela Universidade Federal
Fluminense, mestre em Estudos Cinematográficos pela Universidade de Guadalajara, México.
Pesquisador do projeto Trocas Simbólicas e Econômicas no Cinema da América Latina.
Organizador e programador do Cineclube Sala Escura – Sessão Latina da Cinemateca do MAM
do Rio de Janeiro. Além de Que cavação é essa?, dirigiu, entre outros filmes, Artesanos (2003)
e O Latido do cachorro altera o percurso das nuvens (2005).
Luís Alberto Rocha Melo
Cineasta e pesquisador, doutorando em Comunicação, Imagem e Informação pela UFF e redator
da revista Contracampo (www.contracampo.com.br). Além de Que cavação é essa?, realizou,
entre outros trabalhos, os documentários Fernando Py (1994), Fragmentos – Uma narrativa
intranquila (1997) e O Galante rei da Boca (com Alessando Gamo, 2004).

Tendo sido realizado com os recursos da primeira edição do Programa SAV/Forcine, fala sobre a dupla ação do tempo, ao mesmo tempo destruidora e transformadora;
o curta-metragem Que cavação é essa? nasceu também do curso de História fala ainda sobre as múltiplas tradições do cinema brasileiro, do filme pornográfico
do Cinema Brasileiro (um curso de fato histórico, no duplo sentido do termo) que ao “povo fala”.
84 85
Hernani Heffner ministrou no Rio de Janeiro durante um ano (2005-2006). Hernani
conseguiu a façanha de reunir uma plateia numerosa que comparecia ao Odeon Se é verdade que, passado algum tempo, todo filme de ficção acaba se tornando um
todos os sábados, das nove da manhã ao meio-dia, para ver filmes brasileiros em docu-mentário, o contrário também pode ocorrer. A melhor forma de se relacionar
película e discutir sobre eles. O primeiro módulo do curso, que durou de junho a com um filme “do natural” é entendendo o quanto há de “posado” em cada um deles.
dezembro de 2005, foi em grande parte dedicado ao cinema silencioso feito no Brasil, Desvinculados das regras gramaticais do espetáculo cinematográfico convencional,
com ênfase nos chamados filmes “tirados do natural” (cinejornais, filmes de viagem, esses filmes “do natural” revelam uma outra e nada óbvia relação com o real. Aqueles
de família ou de autoridades). homens e mulheres de luminosidade oscilante, que frequentemente denunciam a
câmera com o olhar, são hoje personagens de fantásticas histórias desabrigadas, a
A equipe de Que cavação é essa?, a maior parte dela composta de estudantes de serem reconstruídas pela sensibilidade de cada um de nós.
cinema da Universidade Federal Fluminense, assistiu a esses filmes, se integrou e se
entregou inteiramente ao projeto de um curta concebido como um programa duplo,
que dialoga com o cinema silencioso não a partir da tradição dos filmes “posados” (de
ficção) mas da quase desconhecida herança dos filmes “do natural” (documentários).
Que cavação é essa?
Nos anos 1920, costumava-se relacionar a “cavação” aos “naturais”. Isso foi
marcante para a história do cinema brasileiro, pois até hoje pouco se fala das Rio de Janeiro, 2008, 35mm, preto-e-branco e cor, 19min
cp: Universidade Federal Fluminense; d e r: Estevão Garcia e Luís Rocha Melo; df: William Condé; da: Mariana Kaufman e
cavações “posadas” – e elas existiram, como ainda existem, em grande número. Paula Gurgel; mo: Gustavo Bragança; e: Cosme Monteiro, Sílvia de Carvalho, José Marinho, Érica Collares, Hernani Heffner,
Os “cavadores” consistiam na verdadeira escória da humanidade para aqueles que Severino Dadá, Godot Quincas
Origem da cópia: Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro
defendiam o cinema-espetáculo nos padrões internacionais. Cinema com c maiúsculo
só poderia ser o “posado”. Mas para cada filme “posado”, a “canalha tocadora de
realejo” produzia cem “naturais” – inadmissível! O tempo e o descaso encarregaram- Concebido como um programa duplo, Que cavação é essa? Apresenta, em sua primeira parte, Um alegre churrasco
na estância do Coronel Alexandrão, filme “do natural” silencioso, realizado pela Prosopopeia Actualidades no final
se de reduzir tudo – filmes “posados” ou “naturais” – ao total desaparecimento ou
dos anos 1910; na segunda parte, o Complemento Nacional n. 9545: “Restaurare”, cinejornal realizado em 1974
a algumas poucas obras preservadas em cinematecas. Que cavação é essa? fala que se beneficiou da Lei do Curta para exibição em cinemas. Preservação e coronelismo, orgia e cachoeira, som direto e
sobre esse descaso, mas também sobre o comprometimento do cinema com o poder; silêncio, cinzas e tesouros. O tema de Que cavação é essa? é o próprio cinema brasileiro.
Mesas

A declaração da Federação
Internacional de Arquivos de
Filmes sobre Acesso Livre e a
função dos arquivos

Jon Wengström
curador da Coleção de Filmes de Arquivo do Instituto Sueco de Cinema

Luís Alberto Rocha Melo e


Estevão Garcia

MESAS DE DEBATES
realizadores de Que cavação é essa?

86 87

Salas de cinema em São Paulo e


no Rio de Janeiro nas primeiras
décadas do século XX

José Inácio de Melo Souza


Foi pesquisador da Cinemateca Brasileira. Autor de vários livros, entre os quais Paulo Emílio
no paraíso e Imagens do passado – São Paulo e Rio de Janeiro nos primórdios do cinema. Atualmente
trabalha com o sistema de exibição dos primórdios, tendo lançado em parceria com a
Cinemateca Brasileira e o Arquivo Municipal de São Paulo uma página no site da
Cinemateca Brasileira sobre os cinemas da cidade entre 1895 e 1929.

Júlio Lucchesi Moraes


Mestrando em História Econômica da FFLCH-USP, dedica-se a pesquisas nas áreas de
Economia da Cultura e História Econômica da Cultura. Aluno convidado da Goethe
Universität Frankfurt am Main, Alemanha, entre 2008 e 2009. Ganhador do prêmio
Carlos e Diva Pinho de melhor monografia em Economia da Arte do departamento de
Economia da FEA-USP com a pesquisa São Paulo: Capital Artística - a cafeicultura e as artes
na Belle Époque.
Cine-teatro Paulistano, Rua Vergueiro, anos 1920
88 89

A Feitiçaria através dos tempos


Referências bibliográficas

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1920 / Before Caligari. German Cinema 1895-1920. Pordenone: Biblioteca dell’Imagine,
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City girls – Frauenbilder im Stummfilm. Catálogo da retrospectiva realizada durante o LVII


Internationale Filmfestspiele, Berlim, 2007.

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Olsen, Jan. Comentário sobre Gunnar Hedes saga. Catálogo da XXVIII edição das
Giornate del Cinema Muto, Pordenone, 2009.

Agradecimentos
Alexandre Pietro, Alice Gonzaga Assaf, Edina Fujii, Ednalva Soares Martins, Estevão Garcia,
Francisco Gaytan, Hubert Alquéres, João Marcos, José Carvalho Motta, José Quental, Karin
Bizzarro, Lauro Avila, Liegen Clemmyl Rodrigues, Luciana Sima, Luiz Alberto Rocha Melo,
Marcelo Fujii, Marisa Tomazela, Mary Keene, Natália de Castro Soares, Oga Mendonça, Paulo
Moinhos, Pena Schmidt, Sara Mejia, Sidnei Gonçalves, Ronald Goes, Vera Wey
Lars Hanson
Créditos

CINEMATECA BRASILEIRA IV JORNADA BRASILEIRA DE CINEMA SILENCIOSO

Ministro de Estado da Cultura Curadoria


João Luiz Silva Ferreira (Juca Ferreira) Carlos Roberto de Souza

Secretário do Audiovisual Curadoria musical


Newton Cannito Livio Tragtenberg

Sociedade Amigos da Cinemateca SAC


Maria Dora Genis Mourão (Presidente) Produção executiva Pesquisa
Leopoldo Nosek (Vice-Presidente) Rafael Sampaio Carlos Roberto de Souza
Andréa K. Lopes (Coordenadora Administrativa) Coordenação de produção João Marcos de Almeida
Maíra Torrecillas Remier Lion

A Jornada Brasileira de Cinema Silencioso é uma atividade realizada com a colaboração de toda a Produção Revisão de textos
equipe da Cinemateca Brasileira e da SAC: Daniela Lazzari Ana Paula Gomes
Adilson Inácio Mendes, Adinael Alves de Jesus, Jair Leal Piantino, Janaina Santina Paulino,
Adriana Maria da Cruz Lima, Adriana Souza, Jesus Fernandez, João Marcos de Almeida, João Produção musical Digitalização de fotogramas /
Adriano Campos Pedreira, Agnaldo Tadeu Pedro Moraes, José Francisco de Oliveira Mattos, Lucas Gervilla fotografias / textos
Dias, Alexandre Dotta Cristófaro, Alexandre G. Josiane da Ponte, Katia Dolin Lopes, Kelly
Araújo, Alexandre Hadade Machado, Alexandro Gois Almeida, Kelly Santos de Lima, Larissa
Coordenação editorial João Marcos de Almeida
Nascimento Genaro, Alexandre Vasques, Aline Domingos de Sá, Larissa Rebello, Leandro Remier Lion Fernando Fortes
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Martins, André Custódio Mascarenhas, Andréa Gorni Scabello, Luciana Pilon, Luciana Lopes Assessoria de imprensa
92 Senna, Anna Paula Nunes, Arthur Teixeira Sens, Salviano, Luciano Oliveira, Luisa Malzoni, Luiz Élcio Miazaki 93
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Zavatti, Bruna Venâncio dos Anjos, Bruno Feitosa Luiz Gustavo Pereira Pinto, Marcos Kurtinaitis, Transcrição, tradução e Vinheta
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Suécia

     


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