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MENSAGEM de Fernando Pessoa- Segunda Parte: MAR PORTUGUEZ


- ASCENÇÃO DE VASCO DA GAMA

. Óleo de Carlos Alberto Santos

Comentários: Uma solução estilística


ASCENÇÃO DE VASCO DA GAMA recorrente em diversos poemas de
Pessoa é a de se referir ao visado
apenas através do momento da sua
morte. Fará o mesmo em relação a
Os Deuses da tormenta e os gigantes da terra
Bartolomeu Dias e a Fernão de
Suspendem de repente o ódio da sua guerra Magalhães. Nesse momento
e pasmam. Pelo valle onde se ascende aos céus contabiliza-se a valia de toda uma vida
Surge um silêncio, e vae, da névoa ondeando os véus, e a de Vasco da Gama é tal que, diz o
Primeiro um movimento e depois um assombro. poeta, faz pasmar os próprios deuses!
Ladeiam-no, ao durar, os medos, hombro a hombro,
E ao longe o rastro ruge em nuvens e clarões. "Os deuses da tormenta e os gigantes
da terra...etc"- referência à guerra entre
Em baixo, onde a terra é, o pastor gela, e a flauta os titãs e os deuses do Olimpo, parte
capital da mitologia grega.
Cahe-lhe, e em extase vê, à luz de mil trovões,
O céu abrir o abysmo à alma do Argonauta.
Argonauta- navegador (de "Argos"
nome do navio do mítico Jasão).

. .

English version

An introduction to the poem: A recurrent solution that Pessoa uses when referring to a person is to center on the
moment of his death because it is then that the worth of all his achievements can be measured. And in the case of
Vasco da Gama, the discoverer of the sea route to India, his worth is such that (according to Pessoa) the Titans
and the Gods of the Olympus are so stricken with wonder that they interrupt their endless war to watch as the soul
of the navigator ascends to heaven.

Ascension of Da Gama
The gods of the storm and the giants of the earth
Suddenly suspend the hatred of their war
And are stricken with wonder. Up the valley that leads to heaven
A silence looms, and rise, rippling the veils of mist,
First a movement and then an amazement.
Skirting it, while it lasts, go fears, shoulder to shoulder;
And in the distance the wake thunders in clouds and flashes of light.

Below, where earth lies, the shepherd freezes and his flute
Falls; in ecstasy he sees, by the light of a thousand bolts,
Heavens gape the abyss to the soul of the Argonaut.
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MENSAGEM de Fernando Pessoa- Segunda Parte: MAR PORTUGUEZ


- A ÚLTIMA NAU

. Óleo de Carlos Alberto Santos

Comentários:

"aziago"- de um dia infeliz; de mau agouro.


A ÚLTIMA NAU
"erma"- desamparada, só.

Levando a bordo El-Rei Dom Sebastião, "ao sol aziago erma"- desamparada sob um
E erguendo, como um nome, alto, o pendão céu de mau agouro; enfrentando sozinha um
Do Império, destino adverso..
Foi-se a última nau, ao sol aziago
"ancia"- ortografia clássica de "ânsia".
Erma, e entre choros de ancia e de presago
Mystério.
"pressago"- que prediz algo, que é prenúncio
de qualquer coisa.
Não voltou mais. A que ilha indescoberta
Aportou? Volverá da sorte incerta "Deus guarda(...) o futuro, mas(...) projecta-o,
Que teve? sonho escuro e breve"- só Deus sabe o futuro
Deus guarda o corpo e a forma do futuro, mas (como o Destino está traçado) por vezes
Mas Sua luz projecta-o, sonho escuro permite aos homens entrevê-lo em breves
E breve. lampejos indefinidos (escuros).

Ah, quanto mais ao povo a alma falta, "falta a alma"- estão desalentados.
Mais a minh'alma atlântica se exalta
E entorna, "e entorna"- e extravasa.
E em mim, num mar que não tem tempo ou 'spaço,
Vejo entre a cerração teu vulto baço "que torna"- que regressa.
Que torna.
As duas últimas estrofes referem o regresso
de D.Sebastião, que o poeta diz ser certo
Não sei a hora, mas sei que há a hora, embora não saiba quando. E ao regressar vem
Demore-a Deus, chame-lhe a alma embora ainda com a determinação de construir um
Mystério. império universal (se bem que não material,
Surges ao sol em mim, e a névoa finda: mas do espírito- como se depreende de outros
A mesma, e trazes o pendão ainda escritos de Fernando Pessoa).
Do Império.
Ver também, abaixo, uma versão inglesa que
pode ajudar a compreensão uma vez que o
conteúdo é idêntico mas, necessariamente, o
estilo é diferente.

. .

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NOTA: Este poema constitui uma espécie de fulcro de Mensagem. Inicia-se em 1578 com a partida de
D.Sebastião, entre sinais de mau presságio, para Marrocos. A nau com a sua bandeira içada nunca mais voltou e o
embarque de D.Sebastião torna-se místico pelo seu desaparecimento material e comparável ao do Rei Artur, após
a batalha de Camlan, para a Ilha Encantada de Avalon ("a que ilha indescoberta aportou?"). Com o
desaparecimento de D.Sebastião morre, aparentemente, o sonho de um império universal sob o seu ceptro. Neste
momento Fernando Pessoa, que até agora se tinha referido ao passado de Portugal, diz, num aparte, que o futuro é
por vezes intuível aos homens e passa imediatamente a contar a sua visão do porvir. A Última Nau volta e trás um
vulto (O Desejado) que Pessoa assemelha a D.Sebastião, que vem retomar a caminhada para o império universal-
já não material, mas espiritual- que será o Quinto Império sonhado pelo Padre António Vieira.

English version

An introduction to the poem: This eleventh poem of Mar Português starts with King Sebastian leaving Lisbon for
Morocco in 1578, under a sky of ill-omen. The ship flying his colours will be the Last Galleon because after the
battle of El-Ksar-el-Kebir, in which the young king disappeared, there was no longer the possibility of a worldwide
Portuguese empire. But King Sebastian's death on the battleground was never confirmed. The ship that carries him
may be at sea, though it was never seen again. Did it carry him to an unknown island, like King Arthur was carried
to Avalon after the battle of Camlan? Remarking that the future is sometimes revealed to visionaries (like himself)
Pessoa brings the reader abruptly to the time of his writing, as if he had woken up from a dream of the past, only to
fall immediately in a dream of the future: he now sees King Sebastian returning and still bent on accomplishing an
Universal Empire...

The Last Galleon


Carrying aboard King Don Sebastian,
And raising atop, like a motto, the pennant
Of Empire,
The last galleon sailed away, under a sun of ill-omen
Forsaken, 'mid weeping of anxiety and ominous
Mystery.

It never returned. To what undiscovered island


Did it call? Will it ever return from the unknown fate
It met?
God hides the body and the shape of the future
But His light projects it, a dream clouded
And brief.

Ah, the more the people is dispirited,


The more my Atlantic soul lifts up
And overspreads,
And in me, in a sea without time or space,
I see through the thick fog your dim outline
Returning.

I know not the hour, but I know there is one,


Even if God delays it, or the soul calls it
Mystery.
You rise in the sun within me and the mist ends:
The same, and you are still carrying the pennant
Of Empire.
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MENSAGEM de Fernando Pessoa- BRAZÃO


II- OS CASTELLOS
Terceiro- O CONDE D. HENRIQUE
Quarto- D.TAREJA

. Ilustração de Carlos Alberto Santos

Comentários:

D.Henrique: "Todo o começo é involuntário. Deus é o


agente"- exprime a ideia de Fernando Pessoa segundo
a qual o Destino rege inexoravelmente a História e foi
traçado por Deus desde a origem dos tempos. Assim,
aqueles que, na Terra, determinam a História não são
mais do que agentes da vontade primeva de Deus e
O CONDE D.HENRIQUE assistem aos seus próprios actos confusos ("vários") e
inconscientes de estar a cumprir um plano.
Todo começo é involuntário.
Deus é o agente. "À espada em tuas mãos achada... etc"- A ideia
O heroe a si assiste, vário anterior é particularizada para o pai de D.Afonso
Henriques, que talhou à espada os alicerces da futura
E inconsciente. independência de Portugal. Confuso, pegou em armas
À espada em tuas mãos achada e inconscientemente cumpriu a sua missão na Terra...
Teu olhar desce. O trabalho que lhe estava destinado "fez-se" (isto é,
"Que farei eu com esta espada?" cumpriu-se, não por sua vontade, mas pela de Deus).

D.Tareja (versão arcaica do nome de D.Teresa, mãe


Ergueste-a, e fez-se. de Afonso Henriques): "cada nação é todo o mundo a
sós"- cada nação constitui um todo que, enquanto tal,
se basta a si próprio;

D.TAREJA "mãe de reis e avó de impérios"- refere-se à linhagem


real portuguesa que dela originou e ao futuro Império.
As naçôes todas são mystérios.
"...com bruta e natural certeza"- "bruta" significa aqui
Cada uma é todo o mundo a sós. "de acordo com a natureza" e portanto "bruta e natural"
Ó mãe de reis e avó de impérios, constitui um pleonasmo (isto é, uma repetição).
Vella por nós!
"o que, imprevisto, Deus fadou."- Aquele que Deus
Teu seio augusto amamentou determinou (que fundasse Portugal- isto é, Afonso
Com bruta e natural certeza Henriques). "imprevisto" porque improvável- o primeiro
O que, imprevisto, Deus fadou. rei de Portugal enfrentou guerras contra o poderoso
Por elle reza! reino de Castela e Leão, e contra os potentados
islâmicos. As probabilidades de sucesso pareciam, à
partida, muito remotas, de onde a improbabilidade.
Dê tua prece outro destino
A quem fadou o instincto teu! "dê tua prece outro destino"- faça com que Afonso
O homem que foi o teu menino Henriques seja visto pela História a uma luz mais
Envelheceu. favorável (ver a NOTA final).

Mas todo vivo é eterno infante "Mas todo vivo é eterno infante"- Fernando Pessoa
Onde estás e não há o dia. toma, aqui, como premissa a imortalidade da alma e
No antigo seio, vigilante, por isso refere que, no reino dos mortos ("onde estás e
De novo o cria! não há o dia") Afonso Henriques é sempre menino para
a sua mãe. "no antigo seio, vigilante, de novo o cria"-
acarinha-o de novo no teu colo.

OBS: Uma interpretação alternativa seria a de ver no


poema uma invocação a D.Teresa para reviver Afonso
Henriques: "dê tua prece outro destino..." e "...de novo
o cria!", mas esta interpretação não tem sequência no
resto de Mensagem, pelo que não foi adoptada. Ver,
também, a nota final sobre a interpretação global.

. .

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English version

An introduction to the poems: The Counts of Portugal, Henry and Teresa, were the parents of Afonso I Henriques
who, in 1140, would become the founder and first king of Portugal. With his sword Count Henry secured the borders of
the hereditary fiefdom he would bequeath to his son. The founding of a dynasty symbolically justifies one of the
castles in the Portuguese coat of arms and gives to Pessoa the opportunity to dwell into one of his recurring themes:
History is a fabrication of God the Creator, that has been set since before man; predetermined, it is called Destiny
before it happens, and History after it does. History and Destiny are the very same succession of events; the Present
is the moment when Destiny becomes History! In this vision the hero is the unconscious performer of God's Master
Plan. Such was Count Henry, according to this poem.

Countess Teresa is, perhaps surprisingly, symbolized by one more castle. Widowed, she ruled for over a decade but
then refused to relinquish power until defeated in battle against her son. An old tradition (seemingly inspired by a lost
piece of fiction written over a century later, itself suggested by an episode that actually happened with different people)
holds that, after the victory, Afonso Henriques imprisoned his mother and actually had her in chains until the matter of
succession had been settled to his content. As far as is known today, that tradition is not based in fact but it
persisted and seemingly troubled Fernando Pessoa (himself a loving son) as a stain to the memory of Portugal's great
founder-king. That inner trouble justifies the surprising rendition of "Countess Teresa", undoubtedly one of the most
perplexing poems in Mensagem. Countess Teresa, dead, lives on in the world of spirits ("where the day is not") and
through her prayers she shows only love towards her son, who aged and died but is eternally her little boy in the realm
of the dead. At the time when the poem was written, a negative image of Afonso Henriques still endured, whence
Pessoa's call for Countess Teresa's prayer to "change his destiny", i.e. "make him be seen at a kinder light by
History". That, by the way, was exactly what happened when, in time, historical data prevailed over tradition...

- Count Henry - Countess Teresa


. .
Every outset is involuntary. All nations are mysteries.
God is the agent, Each one is the whole world on its own.
The hero watches his own actions, confused Oh mother of kings and grandmother of empires,
And unconscious. Watch over us!
On the sword found in your hands
Your glance falls. Your venerable breast nursed
"What am I to do with this sword?" With spontaneous and natural certainty
He who, unforeseen, God predestined.
Pray for him!
You raised it aloft; and it was done.
May your prayer change the destiny
To the one your instinct foretold.
The man who was your little boy
Has now grown old.

But, full of life, he is eternally young


Where you are, and the day is not.
In your ancient bosom, diligent,
Cuddle him once more.
. .

NOTA FINAL: D.Tareja é, dos poemas de Brasão, o de mais difícil interpretação sobretudo por causa da frase
misteriosa "Dê tua prece outro destino". O poema consiste basicamente numa invocação ao espírito de D.Teresa que
o poeta faz no seu próprio presente, isto é, muito depois da morte de D.Teresa e de Afonso Henriques. Qual então o
sentido da invocação de um outro destino para quem já viveu a sua vida e, ainda por cima, tendo o seu destino sido a
origem de Portugal? Para responder a isto comece-se por considerar alguns dados relevantes sobre D.Teresa.

Como filha de Afonso VI de Leão, D.Teresa e o marido D.Henrique recebem do rei leonês o governo hereditário do
Condado Portucalense no ano do seu casamento (1096). Afonso Henriques nasce durante a primeira década do
século seguinte e o Conde D.Henrique morre em 1112. Em 1125 Afonso Henriques é armado (ou arma-se a si
próprio, à maneira dos reis) cavaleiro num enquadramento de dúvidas sobre a sucessão no Condado. D.Teresa tinha
entretanto tomado como marido um fidalgo galego (Fernan Peres de Trava) e parece apostada em manter o poder
assinando os documentos com o título de "Rainha". São tentadas várias alternativas de divisão de prerrogativas entre
mãe e filho mas, na sequência de uma "purga" de nobres portugueses que ocupavam altos cargos e que foram
substituídos por fidalgos galegos, o infante acaba por exigir completo poder governativo sobre a totalidade do território
do Condado, conduzindo a um confronto armado que ocorreu em 1128 nos arredores de Guimarães (Batalha de
S.Mamede). Sabe-se que nenhum dos principais intervenientes neste confronto foi morto, que após esta data Afonso
Henriques assume a direcção total do Condado e que essa situação foi aceite por todas as partes em presença (não
houve qualquer tentativa posterior de inverter a situação através, por exemplo, de uma invasão de Portugal a partir da
Galiza). Também se sabe que D.Teresa recolheu a um convento na Galiza onde morreu três anos mais tarde. Tudo
isto é histórico.

Mas a história real de Afonso Henriques terá originado, duas ou três gerações após a sua morte, um poema épico
do tipo do longo e magnífico Cantar de Mío Cid em que, como sempre acontecia nestes casos, a gesta do nosso
primeiro rei foi "melhorada" com muitas pequenas e maravilhosas histórias acessórias tais como o Milagre de
Ourique, a prisão a ferros de D.Teresa após S.Mamede, a maldição da mãe ao filho, etc... Este poema, de que
infelizmente nunca se encontrou qualquer cópia, foi divulgado e tomado como base de outros trabalhos mais sérios,
incluindo a Crónica de Duarte Galvão escrita cerca de 300 anos após a morte de Afonso Henriques. Estas
pseudo-fontes sedimentaram a lenda de que o filho teria prendido a mãe a ferros quando os factos históricos que se
conhecem parecem apontar S.Mamede como uma justa antecipadamente combinada- espécie de torneio em que os
contentores sujeitavam, através do combate, o seu pleito ao julgamento divino e aceitavam sem discussão o
respectivo resultado. Sendo assim, D.Teresa ter-se-ia retirado voluntariamente para o exílio na sequência da
sentença divina, deixando ao filho o governo de Portugal sem que tivesse havido qualquer episódio de prisão da mãe
pelo filho.

Na falta de factos históricos, os historiadores são frequentemente tentados a adiantar hipóteses para colmatar
brechas (tal como eu, sem ser historiador, o fiz no parágrafo anterior). Frequentemente esta ficção toma a forma de
uma construção do carácter das figuras históricas. Uns historiadores podem apresentar Afonso Henriques como
nobre pai da nação que traçou, com grande visão estratégica, o futuro de um país independente e o foi consolidando
tenazmente à custa de brilhantes vitórias políticas, sempre que possível, ou militares, quando necessário -o recente
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MENSAGEM de Fernando Pessoa- BRAZÃO


II- OS CASTELLOS
Quinto- D.AFFONSO HENRIQUES

. Óleo de Carlos Alberto Santos

D.AFFONSO HENRIQUES
Comentários:
Pae, foste cavalleiro.
"Pai" (da nacionalidade).
Hoje a vigília é nossa.
Dá-nos o exemplo inteiro
"hora errada"- épocas em que a caminhada de
E a tua inteira força! Portugal para o seu destino- que Pessoa confiava ir ser
esplendoroso- sofra retrocessos.
Dá, contra a hora em que, errada,
Novos infiéis vençam, "novos infiéis"- pessoas que, na opinião de Fernando
A bênção como espada, Pessoa, criavam obstáculos (ou viriam a criá-los...) ao
A espada como benção! destino glorioso que ele sonhava para Portugal.

. .

English version

An introduction to the poem: Afonso Henriques was the first Portuguese king, who carved the country's
independence by the strength of his sword fighting alternatively against his powerful Northern neighbour, the
Emperor of Castille and Leon, and the scattered but nonetheless less powerful Southern Muslin.

See, also, the references to Afonso Henriques in the poem Countess Teresa.

King Afonso Henriques


Father, you were a knight.
Today the vigil is ours.
Give us your full example
And the fullness of your strength!

Give us, to ward against that stray hour


When new infidels hold sway,
Your blessing as a sword,
Your sword as a blessing!
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MENSAGEM de Fernando Pessoa- BRAZÃO


II- OS CASTELLOS
Sexto- D.DINIZ

. Óleo de Carlos Alberto Santos

D.DINIZ Comentários:

No século XIII a Europa estava deflorestada após


Na noite escreve um seu Cantar de Amigo séculos de exploração selvagem das florestas
o plantador de naus a haver, primevas. D.Dinis levou a cabo um vasto plano de
e ouve um silêncio múrmuro comsigo: reflorestação através do plantio de matas reais de
é o rumor dos pinhaes que, como um trigo pinheiros bravos. A madeira foi depois utilizada na
de Império, ondulam sem se poder ver. construção das caravelas das Descobertas, o que é o
tema deste belo oitavo poema da Mensagem.

Arroio, esse cantar, jovem e puro, "Cantar de Amigo"- poema medieval, cantado pelos
busca o oceano por achar; trovadores. D.Dinis escreveu vários destes cantares.
e a falla dos pinhaes, marulho obscuro,
é o som presente desse mar futuro, "silêncio murmuro"- silêncio murmurante.
é a voz da terra anciando pelo mar.
"arroio"- riacho; "marulho"- som do mar.

. .

English version

An introduction to the poem: In the XIII century Portugal, as well as large parts of Europe, lay deforested by
centuries of wild exploration of the natural resources. Unlike his predecessors, King Dinis inherited a land now
totally under Christian control. A learned man- he wrote poetry of the sort that was sang by troubadours and founded
an university in Lisbon- he reigned in peace with his neighbours and laid the foundations of a prosperity yet to come.
He ordered the planting of wide expanses of territory with pine trees that became afterwards the most common
wood-supplying tree in Portugal. By Prince Henry's time the oldest of those trees were large enough to supply wood
for the keels and masts of the caravels and it was this "seeding of Empire" that earned King Dinis his place in
Fernando Pessoa's Mensagem as one of the pillars of the Portuguese Age of Exploration.

King Dinis
In the night, the planter of ships-yet-to-be
Writes one of his troubadour's poems
And he listens to a murmuring silence within him:
It is the whisper of the pine groves which,
Like a cornfield of Empire, undulate unseen.

Like a brook, that song, young and pure,


Searches out the ocean-to-be-found;
And the talk of the pine groves, dull rumble,
Is the present sound of that future ocean,
Is the call of the land yearning for the sea.
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MENSAGEM de Fernando Pessoa- Primeira Parte: BRAZÃO


II -OS CASTELLOS
Sétimo (1)- D. JOÃO O PRIMEIRO
Sétimo (2)- D.PHILLIPA DE LENCASTRE

. Óleo de Carlos Alberto Santos

Comentários:

D.João o Primeiro: "O homem e a hora são um só,


quando Deus faz e a História é feita"- Fernando
D.JOÃO O PRIMEIRO Pessoa exprime de novo a ideia de que o destino é
traçado por Deus e rege inexoravelmente a História.
Quando uma nação atinge uma encruzilhada (como
O homem e a hora são um só Portugal em 1383) é a hora e os escolhidos executam
Quando Deus faz e a história é feita. os actos determinados. O homem é o papel que
O mais é carne, cujo pó desempenhou, este é o requerido pela ocasião (pela
A terra espreita. hora), a ocasião é determinada pelo Destino, o Destino
foi traçado por Deus... (simples, não?). Conhecemos
D.João I porque teve a sua hora; sem ela teria sido um
Mestre, sem o saber, do Templo obscuro mestre de uma ordem militar obscura. Sem a
Que Portugal foi feito ser, hora não teria havido o homem...
Que houveste a glória e deste o exemplo
De o defender. "na ara da nossa alma interna"- no altar do nosso
espírito nacional.
Teu nome, eleito em sua fama,
É, na ara da nossa alma interna, "repele a sombra eterna"- repele o olvido, que seria o
A que repelle, eterna chama, destino de Portugal se perdesse a sua identidade
A sombra eterna. como nação.

D.Filipa de Lencastre: "Que enigma havia em teu


D.PHILIPPA DE LENCASTRE seio que só génios concebia"- referência à chamada
"ínclita geração" dos filhos de D.Filipa e D.João I.

Que enigma havia em teu seio "Volve a nós teu rosto sério"- vira o teu rosto
Que só génios concebia? (sisudo...) e olha para nós; lembra-te de Portugal; reza
Que archanjo teus sonhos veio por nós!
Vellar, maternos, um dia?
"Princesa do Santo Gral"- referência ao Graal
Volve a nós teu rosto sério, procurado pelos cavaleiros medievais das lendas da
Princeza do Santo Gral, Távola Redonda. Existem várias versões sobre o que
Humano ventre do Império, seria, mas a mais comum refere-o como a taça de
Madrinha de Portugal! onde Cristo bebera na Última Ceia e/ou que teria
recolhido o seu sangue na Cruz. A referência deve ser
interpretada como "Princesa mística" porque fadada
por Deus para ser mãe dos principes da ínclita geração
e muito particularmente do Infante D.Henrique; ou
"Princesa da grandeza (futura) de Portugal" (O Graal
era suposto trazer felicidade à Terra).

. .

.
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NOTAS: Sobre o Graal ver também os comentários a "O Desejado".

English version

An introduction to the poems: I(...)

King Joao, the First Philippa of Lancaster


The man and the hour are one What enigma held your bosom
When God makes and history is made. That geniuses alone did conceive?
The rest is flesh, whose dust What archangel came to watch
The earth awaits. Over your maternal dreams, one day?

Master, unwitting, of the Temple Turn to us your austere face,


That Portugal was made to be, Princess of the Holy Grail,
You won the glory and gave the example Human womb of the Empire,
Of defending it. Godmother of Portugal!

Your name, elected for its fame,


Is, on the sacrificial altar of our inner soul,
The eternal flame that wards off
The eternal shadow.
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MENSAGEM de Fernando Pessoa- Segunda Parte: MAR PORTUGUEZ


- EPITAPHIO DE BARTHOLOMEU DIAS

. Óleo de Carlos Alberto Santos

Comentários: "epitáfio"- inscrição tumular.

"praia extrema"- praia do extremo sul de África.


EPITAPHIO DE BARTHOLOMEU DIAS
"Capitão do Fim"- Bartolomeu Dias, que descobriu o
fim do Continente Africano (e fim do Mundo de então).
Jaz aqui, na pequena praia extrema,
O Capitão do Fim. Dobrado o Assombro, "Dobrado o Assombro"- passado o cabo do medo;
O mar é o mesmo: já ninguém o tema! vencido o terror (aqui: dobrado o Cabo da Boa
Atlas, mostra alto o mundo no seu hombro. Esperança).

Atlas- um dos titãs, condenado por Zeus a carregar no


ombro a esfera do firmamento.

. .

NOTAS:

Bartolomeu Dias, descobridor do Cabo da Boa Esperança, comandava uma das naus da armada de Pedro Álvares
Cabral que desapareceu durante uma tempestade ao largo desse mesmo cabo em 1500. Na alegoria acima, as
sereias transportam o corpo do grande navegador.

Sobre Atlas, os interessados poderão visitar ESTA página (em inglês) que inclui apontamentos da mitologia grega
e estátuas de Atlas.

English version

An introduction to the poem: Bartolomeu Dias carved his place in history when, during the course of a sixteen
-month voyage in 1487-88, he finally rounded Africa thus showing that there was a sea route to India. In 1500 he was
in command of one of the galleons in the second fleet to be sent to India. After touching in Brazil, the fleet set a
course to the Cape of Good Hope where, in a violent storm, several ships were lost with all hands, including Dias'.
The irony that the Cape claimed the life of its discoverer was not lost in Camoens who used it in one of the episodes
of The Lusiads. Pessoa, on the other side, dedicated an epitaph to the fearless Captain of the End of the World.

Dias' epitaph
Here lies, on the small strand of the furthest reach,
The Captain of the End. With Awe now rounded,
The sea is the same: let no one fear it now!
Atlas shows the world high on his shoulder.
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MENSAGEM de Fernando Pessoa- Segunda Parte: MAR PORTUGUEZ


- FERNÃO DE MAGALHÃES

. Óleo de Carlos Alberto Santos

Comentários:

FERNÃO DE MAGALHÃES Este poema refere-se à viagem de


circum-navegação da Terra, iniciada por Fernão
de Magalhães e terminada por Sebastián Elcano
No valle clareia uma fogueira. após Magalhães ter sido morto em combate por
nativos de uma das ilhas do arquipélago filipino.
Uma dança sacode a terra inteira.
E sombras disformes e descompostas
Como solução estilística recorrente, Fernando
Em clarões negros do valle vão Pessoa não se refere directamente aos feitos do
Subitamente pelas encostas, visado mas aborda apenas um momento da sua
Indo perder-se na escuridão. vida, mais precisamente a morte. Fará o mesmo
em relação a Bartolomeu Dias e a Vasco da
De quem é a dança que a noite aterra? Gama. Presumivelmente trata-se da
São os Titans, os filhos da Terra materialização da sua ideia de que uma vida sem
Que dançam da morte do marinheiro sonho não vale a pena e de que é no momento
da morte que se podem contabilizar as valias de
Que quiz cingir o materno vulto- cada vida.
Cingil-o, dos homens, o primeiro-
Na praia ao longe por fim sepulto. Fernando Pessoa descreve uma dança de
selvagens, presumivelmente dos guerreiros que o
Dançam, nem sabem que a alma ousada mataram (aliás em legítima defesa...) que
Do morto ainda commanda a armada, compara aos titãs, antigos deuses da terra que,
Pulso sem corpo ao leme a guiar na mitologia grega, antecederam os deuses do
As naus no resto do fim do espaço: céu.
Que até ausente soube cercar
A terra inteira com seu abraço. Simbolicamente, os seres da terra dançam da
morte daquele que, concluindo o sonho do
Infante, a rodeou tornando-a una e rasgando o
Violou a Terra. Mas elles não último mistério (violando a Terra, como diz
O sabem, e dançam na solidão; Pessoa). E doravante já ninguém, mesmo
E sombras disformes e descompostas, vivendo numa ilha remota, estará isolado. A Terra
Indo perder-se nos horizontes, vingou-se da violação, através dos seus "filhos",
Galgam do valle pelas encostas com a morte do navegador. Mas eles não sabem
Dos mudos montes. que aquele que mataram acabou com o seu
isolamento geográfico e porque não o sabem
mantêm-se na solidão da ignorância. E a Terra,
enfim desvendada, não lhes fala...

. .

.
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NOTAS: Poderão ler aqui uma página interessante sobre Fernão de Magalhães e sobre a viagem que o tornou o
navegador supremo.

English version

An introduction to the poem: This poem is dedicated to Magellan and again focuses on the time of his death. A
group of savages, compared to the Titans, dance by the fire on the death of the navigator. He wanted to encompass
the whole Earth and tear away its last grand veil. And although he could not complete the quest, his determination
outlived him and directed the fleet to the place where the distance finally ended, and that was the point where the
voyage had begun...

Magellan
In the valley a fire grows brighter.
A dance shakes the whole earth.
And shadows, enormous and disordered,
In black flashes go, suddenly, from the valley
And up the slopes,
Blending into the dark.

Whose is the dance that terrifies the night?


It is the Titans', the sons of the Earth,
Who dance at the death of the sailor
Who wanted to encircle mother earth-
To gird it, of all men the first -,
On the strand, far off, buried at last.

They dance, not knowing that the daring soul


Of the dead man still commands the fleet,
Strength without body at the helm, steering
The galleons through the rest of the ends of space:
For even though departed he was able to encompass
The whole Earth with his embrace.

He transgressed Earth. But they


Know it not, and dance in isolation;
And shadows, enormous and disordered,
Blending into horizons,
Mount from the valley up the slopes
Of the mute hills.
-1-

MENSAGEM de Fernando Pessoa- Segunda Parte: MAR PORTUGUEZ


- HORIZONTE

. Óleo de Carlos Alberto Santos

HORIZONTE Comentários:

"teus medos tinham coral, e praias e arvoredos"-


Ó mar anterior a nós, teus medos o medo do desconhecido é o temor infundado do
Tinham coral e praias e arvoredos. que se imagina como real. Fernando Pessoa
Desvendadas a noite e a cerração, exemplifica dizendo que o medo ancestral do
As tormentas passadas e o mysterio, mar era sem fundamento: não havia monstros ou
Abria em flor o Longe, e o Sul siderio turbilhões que afundassem os navios- quando
ultrapassámos o medo só encontrámos praias e
'Splendia sobre as naus da iniciação.
arvoredos, flores e aves...

Linha severa da longínqua costa - "Sul sidéreo"- Sul sideral, isto é, "sul celeste"- a
Quando a nau se approxima ergue-se a encosta constelação do Cruzeiro do Sul que indica a
Em árvores onde o Longe nada tinha; direcção do polo austral
Mais perto abre-se a terra em sons e cores:
E, no desembarcar, há aves, flores, iniciação- cerimónia pela qual se começa a
Onde era só, de longe a abstracta linha. explicar a alguém os mistérios de alguma
religião ou doutrina. O termo está
O sonho é ver as formas invisíveis frequentemente associado aos ritos das
sociedades ditas secretas.
Da distancia imprecisa, e, com sensiveis
Movimentos da esp'rança e da vontade,
"resplendia sobre as naus da iniciação"- brilhava
Buscar na linha fria do horizonte (resplandecia) sobre as naus que demandavam
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte- os mistérios do desconhecido, para os
Os beijos merecidos da Verdade. desvendar.

. .

.
-2-

NOTA: Os interessados poderão ler aqui uma página sobre a constelação do Cruzeiro do Sul que é visível a sul do
paralelo 26º54''N.

English version

An introduction to the poem: In Horizon Pessoa muses about the fear of the unknown that prevents man from
"unraveling the mist". Such was the fear of the unknown sea, but once the first explorers went there to check they
found nothing but coral, beaches, flowers and birds. The dream, to which Pessoa attaches great importance, is to
imagine those shapes before they are perceived. The most beautiful part of this calm poem is the reference to the
Southern Cross which, of all Europeans, an unrecorded Portuguese navigator was the first to see.

Horizon
Oh sea created before man, your fears
Had coral and beaches and groves of trees.
The night and the thick mist unraveled,
The storms and the mystery surpassed,
The Distance opened in flower, and the Southern Cross
Shone in splendour over the galleons of initiation.

Austere line of the far-off coast-


When the ship comes near, the slope raises up
In trees where the Distance had been empty;
Closer by, the land opens up in sounds and colours:
And, on disembarking, there are birds, flowers,
Where, from afar, there had only been a meaningless line.

The dream consists in seeing the invisible shapes


Of the hazy distance, and, with perceptible
Movements of hope and will,
Search out in the cold line of the horizon
The tree, the beach, the flower, the bird, the spring-
The well deserved kisses of Truth.
-1-

MENSAGEM de Fernando Pessoa- Segunda Parte: MAR PORTUGUEZ


- MAR PORTUGUEZ

. Óleo de Carlos Alberto Santos

MAR PORTUGUEZ Comentários:

Este é o poema principal da Segunda Parte de


Ó mar salgado, quanto do teu sal Mensagem (porque a ela deu o nome) e também o
São lágrimas de Portugal! poema breve mais conhecido da lingua portuguesa. É
Por te cruzarmos, quantas mães choraram, incomparável em simplicidade e beleza e também na
Quantos filhos em vão rezaram! sucessão de grandes frases: "Ó mar salgado, quanto
Quantas noivas ficaram por casar do teu sal são lágrimas de Portugal!", "Tudo vale a
Para que fosses nosso, ó mar! pena se a alma não é pequena", "Quem quer passar
além do Bojador tem que passar além da dor" e "Deus
ao mar o perigo e o abismo deu, mas nele é que
Valeu a pena? Tudo vale a pena espelhou o céu".
Se a alma não é pequena.
Quem quere passar além do Bojador Tem também a qualidade rara de poder ser traduzido
Tem que passar além da dor. em linguas estrangeiras (pelo menos nas europeias)
Deus ao mar o perigo e o abysmo deu, com manutenção integral do sentido e conservação de
Mas nelle é que espelhou o céu. alguma da sua beleza estilística.

. .

English version

An introduction to the poem: Mar Português (after which the second part of Mensagem is named) is the capital
short poem of Portuguese Literature and also Pessoa's best known poem in his homeland. It sums up the cost of
conquering the seas in terms of human suffering and asks "Was it worthwhile?" immediately replying with two
resounding sentences "All is worthwhile when the spirit is not small" and "He who wants to go beyond the Cape has
to go beyond pain". The poem then concludes in a grand manner with the statement that God created the sea
dangerous but it was in it that He chose to mirror the sky that symbolizes heaven!

Portuguese Sea
Oh salty sea, so much of your salt
Is tears of Portugal!
Because we crossed you, so many mothers wept,
So many sons prayed in vain!
So many brides remained unmarried
That you might be ours, oh sea!

Was it worthwhile? All is worthwhile


When the spirit is not small.
He who wants to go beyond the Cape
Has to go beyond pain.
God to the sea peril and abyss has given
But it was in it that He mirrored heaven.
-1-

MENSAGEM de Fernando Pessoa- Segunda Parte: MAR PORTUGUEZ


- OCCIDENTE

. Ilustração de Carlos Alberto Santos

Comentários:
OCCIDENTE
Este poema, que refere as navegações para ocidente
e, em particular, a descoberta do Brasil, chamou-se
Com duas mãos- o Acto e o Destino- originalmente "Os descobridores do Occidente" e o
Desvendámos. No mesmo gesto, ao céu texto final aqui apresentado tem diferenças apreciáveis
Uma ergue o facho trémulo e divino em relação à primeira versão, que muito a melhoraram.
E a outra afasta o véu.
Aborda um tema recorrente em Mensagem: a epopeia
Fosse a hora que haver ou a que havia dos Descobrimentos foi o cumprimento de um destino;
A mão que ao Occidente o véu rasgou, e a obra portuguesa foi a corporização da vontade de
Foi alma a Sciencia e corpo a Ousadia Deus "foi Deus a alma e o corpo Portugal" (da mão que
levantou o facho e rasgou o véu da ignorância).
Da mão que desvendou.
"Fosse acaso ou vontade, ou temporal..."- referência à
Fosse Acaso ou Vontade, ou Temporal dúvida quanto a se a descoberta do Brasil em 1500 foi
A mão que ergueu o facho que luziu, ocasional, planeada para que fosse divulgado nessa
Foi Deus a alma e o corpo Portugal data um território já anteriormente encontrado, ou
Da mão que o conduziu. causada por um temporal que teria desviado as naus
da rota traçada.

. .

.
-1-

MENSAGEM de Fernando Pessoa- Primeira Parte: BRAZÃO


I- OS CAMPOS
Segundo- O DAS QUINAS

. Pormenor de um óleo de Carlos Alberto Santos

O DAS QUINAS Comentários:

"Os Deuses vendem quando dão" é uma frase que


remonta pelo menos à Grécia Clássica e que
corresponde a uma visão mesquinha da divindade: os
Os Deuses vendem quando dão. favores dos deuses pagam-se!
Compra-se a glória com desgraça.
Ai dos felizes, porque são "Ai dos felizes porque são só o que passa"- a
Só o que passa! felicidade é transitória e os que se contentam em ser
apenas felizes não têm consequência na História;
"Baste a quem baste...etc"- a mesma noção referida: a
Baste a quem baste o que Ihe basta quem basta o que tem, por esses limites se fica! "ter é
O bastante de Ihe bastar! tardar"- a posse do bastante adia os cometimentos.
A vida é breve, a alma é vasta:
Ter é tardar. "Foi com desgraça e...etc"- mas Deus tem outro ideal:
concebeu o Cristo para ser infeliz e baixo (e, contra a
Foi com desgraça e com vileza natureza humana, para não desejar felicidade material
Que Deus ao Christo definiu: ou posses) e, tendo-o assim determinado, sagrou-o
Assim o oppoz à Natureza como Filho, mostrando o Seu caminho (não material,
mas espiritual). O campo das quinas simboliza, em
E Filho o ungiu. geral, a espiritualidade em Portugal, o sonho. Em
particular é um elogio ao sacrifício da felicidade
material a altos ideais (que o poeta cria ser o seu
próprio caso).

..

English version

An introduction to the poem: The escutcheons in the Portuguese coat of arms bear five dots each. These are
called "quinas". Their origin and meaning are doubtful but in time they came to be accepted as representing the five
wounds inflicted to the Christ. The field of the escutcheons can, thus, symbolically represent the spiritual nature of the
Portuguese nation and although Pessoa did not himself believe in the deity of the Christ, he acknowledged elsewhere
in his writings the devotion of the people to Jesus and the fact that the history of Portugal and Christianity are
inseparably entangled.

In this poem Pessoa comes back to a favorite theme: those who are happy in a material way have no impact on the
world; History is made by those who, like himself, recognize the primacy of the spirit and are willing to sacrifice
everything to a vision. That was, in particular, God's message through his definition of Christ.

The Field of the Escutcheons


The Gods sell when they give.
Glory is bought with misfortune.
Alas for the fortunate, for they are
Merely passers-by!

Let it be sufficient for whom there is sufficiency


The sufficient to suffice him!
Life is short, the soul is vast:
Possession is delay.

'T was with misfortune and lowliness


That God the Christ defined:
Thus He set him against Nature
And as Son consecrated him.

.
-1-

MENSAGEM de Fernando Pessoa- BRAZÃO


I- OS CAMPOS
Primeiro- O DOS CASTELLOS

. Composição de ilustrações de Carlos Alberto Santos

O DOS CASTELLOS Comentários:

O poema é uma descrição do mapa da Europa que


Pessoa assemelha a uma mulher reclinada.
Compare-se com um trecho d' Os Lusiadas de que a
parte referente a Portugal pode ser lida (com
A Europa jaz, posta nos cotovellos: comentários meus) seguindo ou a totalidade (a partir
De Oriente a Occidente jaz, fitando, da Estância 6) . O campo dos castelos representa a
E toldam-lhe românticos cabellos materialidade (ver "O das Quinas").
Olhos gregos, lembrando.
"olhos gregos, lembrando"- lembrando a herança
cultural da Europa que Pessoa remontava à Grécia
O cotovello esquerdo é recuado; Antiga.
O direito é em ângulo disposto.
Aquelle diz Itália onde é pousado; "olhar esfíngico e fatal"- olhar enigmático
Este diz Inglaterra onde, afastado, (imperscutável) e (mas) pré-destinado. Note-se que,
A mão sustenta, em que se appoia o rosto. por fidelidade, foi mantida a ortografia original o que
permite, também, conservar a métrica que seria
Fita, com olhar sphyngico e fatal, alterada pela grafia "esfíngico" em vez de "sphyngico".
O Occidente, futuro do passado. Ao que parece, Fernando Pessoa favorecia a ortografia
clássica por razões de estilo mas também de elitismo.

O rosto com que fita é Portugal. "o Ocidente, futuro do passado"- o Mar, onde a
Europa se lançou, através de Portugal, na grande Idade
das Descobertas com a qual traçou o seu próprio
futuro (o actual e, pensa Pessoa, também o futuro a
haver).

. .
-2-

NOTA: sobre este poema leia-se o comentário de Soares Feitosa que se segue e que pode ser lido na sua
integralidade no Jornal da Poesia:

" O leitor já tem todo o direito de ir dizendo: "Também, com Pessoa, é moleza...". Nada disso. Só neste poema,
de tudo o que li de Pessoa, há o abismo-absoluto-e-inesperado — hifenizei: abismo-absoluto-e-inesperado. A
mesma angústia da falta de tempo do Anjo sobre as águas... Em análise: Trata-se de um poema “geográfico”, mero
comparatório do mapa físico da Europa com a efígie de uma pessoa. A Europa jaz, posta nos cotovellos: De
Oriente a Occidente jaz, fitando, E toldam-lhe romanticos cabellos Olhos gregos, lembrando. Nada de
extraordinário até aqui. Os fiordes escandinavos realmente parecem uma cabeleira vasta. O cotovello esquerdo é
recuado; O direito é em angulo disposto. Aquelle diz Italia onde é pousado; Este diz Inglaterra onde, afastado, A
mão sustenta, em que se appoia o rosto. Ainda sem maior interesse. Dir-se-ia — e aí precisamente mora o perigo
— um poema bobo. Confira no mapa da Europa — é assim mesmo: os acidentes Itália e Inglaterra seriam os
cotovelos de uma jovem. Fita, com olhar sphyngico e fatal, Occidente, futuro do passado. Aqui a coisa já começa a
“complicar”. Anunciam-se borrascas e temporais: Fita, com olhar sphyngico e fatal,/ O Occidente, futuro do
passado. Mas, finalmente, mas: O rosto com que fita é Portugal. Feche o livro, caro leitor, respire fundo e
contemple o Infante preparando as navegações daquela nesga minúscula, simplório enclave geográfico no mapa
d’Espanha... — quanta glória!!! Ah, meu Deus, quanta glória em 7 (sete, misticamente sete — dizem que
Mensagem é uma mensagem misticamente cifrada, parece que é!), sete palavras apenas para tamanha
grandiosidade. Os lusos, Os Lusíadas, a própria Ode Marítima, esta do mesmo Pessoa, contidos nesta frase
perfeita: O rosto com que fita é Portugal.! Disse Pessoa a frase perfeita. Veja o caro leitor se tenho razão em
chamá-la perfeita. O rosto — de quem, o rosto? — do mapa anteriormente descrito, o rosto da Europa, símbolo
então de toda a civilização ocidental, o rosto da Humanidade, o rosto de Deus? Quem, afinal, fita o mundo?! Agora
percebemos que a estrofe anterior — o olhar sphyngico — era terreno preparatório (Batista, às margens do Jordão,
batizando o Cristo) para o grande final, o rosto que fita, onde fitar não é simplesmente sinônimo de olhar. Portugal,
no extremo (ou no início!) do mapa e no extremo do verso, FUNDA o mundo e o domina! E na ponta da lança dos
seus guerreiros, o missal dos frades enlouquecidos, a esmagar os deuses das novas terras, em nome do Cristo!
Quem olha, afinal? A Cruz-de-Malta?! Já não há mais tempo: eis o abismo, caia nele, de ponta!".

English version

An introduction to the poem: The castles in the Portuguese coat-of-arms represent walled towns that were
conquered from the Moors in medieval times. Thus, the field of the castles pertains to the materiality in the country.
Appropriately this first poem in Mensagem starts by a brief description of the map of Europe and of the geographic
position of Portugal in it. According to the mythic origin of the continent, Europe is a woman whose Greek eyes
remind us of the racial and cultural origin of the Portuguese nation (which Pessoa believed to be rooted in
pre-classical Greece).

But, as often happens in Pessoa's best work, a final twist makes us review the simplicity we had laid out in our
minds. Europe is staring out west to the future of the past and... the staring face is Portugal! A double meaning is
intended: on one side, this is a clear reference to the fact that Portugal has, in the past, sought its destiny in the
sea and consequently spearheaded the European expansion overseas; but on the other side the mention of the
future means that the saga is not over yet and that the future of Europe still awaits out west. According to Fernando
Pessoa's belief, Portugal will, one day, again show the way and that profecy is the Message itself...

The Field of the Castles


Europe lies, reclining upon her elbows:
From East to West she stretches, staring,
And romantic tresses fall over
Greek eyes, reminding.

The left elbow is stepped back;


The other laid out at an angle.
The first says Italy where it leans;
This one England where, set afar,
The hand holds the resting face.

Enigmatic and fateful she stares


Out West, to the future of the past.

The staring face is Portugal.

.
-1-

MENSAGEM de Fernando Pessoa- Segunda Parte: MAR PORTUGUEZ


- O MOSTRENGO

. Óleo de Carlos Alberto Santos

O MOSTRENGO

O mostrengo que está no fim do mar


Na noite de breu ergueu-se a voar;
À roda da nau voou trez vezes,
Voou trez vezes a chiar,
E disse: «Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?»
E o homem do leme disse, tremendo:
«El-rei D. João Segundo!»

«De quem são as velas onde me roço?


Comentário:
De quem as quilhas que vejo e ouço?»
Disse o mostrengo, e rodou trez vezes, Este é um dos poemas mais conhecidos de
Trez vezes rodou immundo e grosso. Mensagem. Aquando das suas duas primeiras
«Quem vem poder o que só eu posso, publicações chamava-se "O Morcego" mas o nome
Que moro onde nunca ninguém me visse foi alterado para a forma definitiva na revisão anterior
E escorro os medos do mar sem fundo?» à edição de Mensagem em livro.
E o homem do leme tremeu, e disse:
«El-rei D. João Segundo!»

Trez vezes do leme as mãos ergueu,


Trez vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer trez vezes:
«Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um povo que quere o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
D' El-rei D. João Segundo!»

. .

.
-2-

English version

An introduction to the poem: Together with Mar Português, O Mostrengo (here translated by "Bogey-beast" for
lack of a better rendition of the idea of an imaginary source of fright) is one of the poems that any moderately
cultivated Portuguese will immediately link to Fernando Pessoa. The Bogey-beast is a creature of a monstrous
nature that represents Fear and flies around the ships that transgress the limits of the known sea and skims their
sails with a promise of horrible death. Men are mortally afraid of the monster but they persevere because their king's
iron will commands them to go forth and on their determination lie the hopes of their nation.

The Bogey-beast
The bogey-beast that lives at the end of the sea
In the pitch dark night rose up in the air;
Around the galleon it flew three times,
Three times it flew a-squeaking,
And said: "Who has dared to enter
My dens which I do not disclose,
My black roofs of the end of the world?"
And the helmsman said, a-trembling:
"King Don Joao the Second!"

"Whose are the sails over which I skim?


Whose are the keels I see and hear?"
Said the monster, and circled three times,
Three times it circled filthy and thick.
"Who comes to do what only I can,
I who dwell where none has ever seen me
And pour forth the fears of the bottomless sea?"
And the helmsman trembled, and said:
"King Don Joao the Second!"

Three times from the helm he raised his hands,


Three times on the helm he lay them back,
And said, after trembling three times:
"Here at the helm I am more than myself:
I am a People who wants the sea that is yours;
And more than the monster, that my soul does fear
And dwells in the dark of the end of the world,
Commands the will, that binds me to the helm,
Of King Don Joao the Second!"
-1-

MENSAGEM de Fernando Pessoa- Segunda Parte: MAR PORTUGUEZ


- OS COLOMBOS

. Óleo de Carlos Alberto Santos

Comentários: Este poema substitui um outro (infeliz,


OS COLOMBOS na minha opinião) chamado "Ironia" que constava das
primeiras versões de Mar Portuguez publicadas em
revistas e que começava "Faz um a casa onde outro
Outros haverão de ter poz a pedra/ o galego Colón de Pontevedra/ seguiu-nos
para onde nós não fomos...".
o que houvermos de perder.
Outros poderão achar
Nesta forma final, o poema não se refere
o que, no nosso encontrar, especificamente a Cristóvão Colombo, mas a todos os
foi achado, ou não achado, navegadores estrangeiros (genericamente e, neste
segundo o destino dado. caso, maldosamente chamados "Colombos") cuja
glória, diz, é apenas um reflexo da luz das descobertas
Mas o que a elles não toca portuguesas.
é a Magia que evoca
o Longe e faz d'elle história. Sem querer discutir a injustiça feita aos grandes
E por isso a sua glória navegadores italianos, ingleses, espanhóis, franceses
é justa auréola dada e holandeses (para falar apenas dos europeus) direi
apenas que, na minha opinião, este é o poema menos
por uma luz emprestada. interessantes de Mar Português. É, também, o único
que foi escrito em 1934 para a publicação em livro..

. .

.
-1-

MENSAGEM de Fernando Pessoa- Segunda Parte: MAR PORTUGUEZ


- PADRÃO

. Óleo de Carlos Alberto Santos

PADRÃO

Comentários:
O esforço é grande e o homem é pequeno
Eu, Diogo Cão, navegador, deixei Este é outro dos poemas mais conhecidos de
este padrão ao pé do areal moreno Mensagem e tal como os seus pares (Infante, Mar
e para deante naveguei. Português, e Mostrengo) a linguagem é clara e quase
não requer explicações.
A alma é divina e a obra é imperfeita.
Este padrão signala ao vento e aos céus "o mar com fim..."- o Mediterrâneo; "o mar sem fim..."-
Que, da obra ousada, é minha a parte feita: o Oceano.
O por fazer é só com Deus.
"o que me há na alma (...) só encontrará, de Deus na
eterna calma, o porto sempre por achar"- irei sempre
E ao immenso e possível oceano
mais longe porque, por mais longe que vá, haverá
Ensinam estas quinas, que aqui vês, sempre um porto por descobrir; só descansarei (só
Que o mar com fim será grego ou romano: encontrarei esse porto) depois de morrer.
O mar sem fim é portuguez.
palavras mantidas em ortografia antiga: deante=
E a Cruz ao alto diz que o que me há na alma diante; signala= sinala (assinala); immenso= imenso;
E faz a febre em mim de navegar portuguez= português.
Só encontrará de Deus na eterna calma
O porto sempre por achar.

. .

.
-2-

English version

An introduction to the poem: The early discoverers used to mark newly found lands with a wooden cross. King
John II ordered those markers to be made of stone, for greater durability. A typical "padrao" was a stone pillar
topped by a cross beneath which was engraved the Portuguese coat-of-arms. Some of these stone markers lay
unnoticed by all until rediscovered in the late XIX century, some 400 years after they were erected and are a moving
memento to those who left them to signal "to the wind and the skies" that the caravels of King John II had reached
those distant strands.

Padrao
The task is great and man is small.
I, Diogo Cão, navigator, have left
This padrao by the sandy shore
And onwards set my course.

The soul is divine and the work is imperfect.


To the wind and the skies this stone signals
That, of the daring deed, mine is what is done:
What is left to do, is God's will.

And to the vast and possible ocean


Tell these escutcheons you see
That the bounded sea may be Greek or Roman:
The sea without bounds is Portuguese.

And the Cross on high says that what goes in my soul,


And causes in me the urge to sail forth,
Will only find in God's eternal calmness
That port forever unfound.
-1-

MENSAGEM de Fernando Pessoa- Segunda Parte: MAR PORTUGUEZ


- PRECE

. Óleo de Carlos Alberto Santos

Comentários: A quase totalidade dos poemas de


Mensagem trata, até este ponto, da glorificação do
PRECE esforço da Raça que cumpriu um destino que a
levou a iniciar a grande Idade da Exploração
Marítima e atingiu o seu apogeu no século XVI. O
Senhor, a noite veio e a alma é vil. poema anterior a este faz a ponte entre o eclipse
de Portugal, com o desaparecimento do rei
Tanta foi a tormenta e a vontade!
D.Sebastião, e o tempo em que o poeta escreve. O
Restam-nos hoje, no silencio hostil, presente poema conclui este ciclo de Mensagem
O mar universal e a saudade. fechando-o com uma invocação do poeta à
intervenção divina.
Mas a chamma, que a vida em nós creou,
Se ainda há vida ainda não é finda. "Senhor, a noite veio e a alma é vil. Tanta foi...etc"-
O frio morto em cinzas a ocultou: passou o tempo da nossa grandeza; tantos
A mão do vento pode erguel-a ainda. obstáculos vencemos que hoje perdemos a valia.

Dá o sopro, a aragem- ou desgraça ou ancia- "a mão do vento pode erguê-la ainda"- tal como o
fogo quase extinto pode ser reavivado por um sopro,
Com que a chamma do esforço se remoça,
a Alma Portuguesa pode ainda levantar-se.
E outra vez conquistemos a Distancia-
Do mar ou outra, mas que seja nossa! "E outra vez conquistemos a Distância, do mar ou
outra, mas que seja nossa!" (uma bela frase)-
sejamos de novo grandes entre as Nações!

. .

.
-2-

English version

An introduction to the poem: This is the twelfth and last poem of the Cycle "Portuguese Sea". Pessoa remarks
that the spirit of the Portuguese is low and justifies it by the exhaustion of the strength of the nation in surpassing
the Herculean tasks that had been met. He then appeals to God and asks him to bring back the old spirit of
Portugal so that we may yet again conquer the Remoteness.

Prayer
Lord, the night has come and the spirit is low.
So great was the storm and the strife!
What is left to us today, in the hostile silence,
Are the universal sea and a yearning.

But the flame, that life created within us,


If there is still life, 'tis not yet done.
The deathly cold concealed it in ash:
The hand of the wind may yet raise it.

Give the breath, the breeze - or misfortune or the eager desire-


With which the flame of endeavour is rejuvenated,
And again shall we conquer the Remoteness-
Of the sea or some other, but let it be our own!
-1-

MENSAGEM de Fernando Pessoa- Primeira Parte: BRAZÃO


II- OS CASTELLOS
Primeiro- ULYSSES

. Ilustração de Carlos Alberto Santos

Comentários:

ULYSSES "O mito é o nada que é tudo"- esta frase exprime a


ideia que Fernando Pessoa tinha dos mitos como
potenciais motores sociológicos. Mesmo se falso (isto
é, mesmo que não seja nada) um mito tem o potencial
O mytho é o nada que é tudo. de provocar comportamentos sociais e, portanto,
O mesmo sol que abre os céus facilitar a evolução de uma nação segundo
É um mytho brilhante e mudo - determinados vectores.
O corpo morto de Deus,
Vivo e desnudo. "O mesmo sol que abre os céus...etc"- provável
referência aos deuses solares (ou mitos afins) que
Este, que aqui aportou, todos os dias eram supostos renascer à alvorada,
Foi por não ser existindo. depois de terem "morrido" no poente anterior.
Sem existir nos bastou.
Por não ter vindo foi vindo "Este que aqui aportou"- referência a Ulisses, herói
lendário da Odisseia e fundador mítico de Lisboa, onde
E nos creou.
teria aportado numa das suas navegações ("Lisboa"
deriva de Olisippo e Ulixbona- em cuja raiz alguns
Assim a lenda se escorre creem ver o nome de Ulisses ou Odisseus).
A entrar na realidade,
E a fecundal-a decorre. "Foi por não ser existindo"- porque não era, foi
Em baixo, a vida, metade existindo; foi-se insinuando na nossa realidade.
De nada, morre.
"a fecundá-la decorre"- a lenda tem uma interacção
positiva com a realidade; "A vida, metade de nada,
morre"- a vida por si só nada vale porque logo
desaparece (mas o mito persiste!).

. .

.
-2-

English version

An introduction to the poem: Ulysses, the mythic hero of the Odyssey, is said to have sailed into the Atlantic
and landed where Lisbon is today. And from his name derived the name of the town he then founded (Lisbon was
once called Ulixbona). So, although Ulysses never existed except as a myth, Fernando Pessoa reasons that he is
one of the pillars of the Portuguese nation (one of the castles in its coat of arms) and in this poem he muses on the
importance of myths.

In the opening part of the poem he refers the myths of solar gods who die at sunset only to reincarnate at dawn in
the Sun itself. The poem closes with the thought that, compared to the everlasting quality of myths, life in its fragility
is indeed of little value... This thought calls to memory that Pessoa once said of himself "I want to be a maker of
myths".

Ulysses
Myth is the nought that means all.
The very sun that opens up the sky
Is a bright and silent myth-
The dead embodiment of God
Alive and naked.

This one who called here at port,


Found existence in not being.
Without being he sufficed us.
Because he did not come, he came about
And created us.

And so does legend flow


Across the threshold of reality
And enriching it, runs forth.
Down below, life, half
Of nothing, dies away.
-1-

MENSAGEM de Fernando Pessoa- Primeira parte: BRAZÃO


II- OS CASTELLOS
Segundo- VIRIATO

. Óleo de Carlos Alberto Santos

VIRIATO

Comentários:
Se a alma que sente e faz conhece
Só porque lembra o que esqueceu, "Se a alma... etc"- a nação portuguesa representa,
Vivemos, raça, porque houvesse segundo Pessoa, a memória colectiva do instinto de
identidade e independência personificado por Viriato.
Memória em nós do instincto teu.
"povo porque ressuscitou (...) o de que eras a haste"-
Nação porque reincarnaste, somos um povo porque renasceu (após a presença
Povo porque ressuscitou romana, nórdica e islâmica) o espírito nacional de que
Ou tu, ou o de que eras a haste- Viriato foi a origem.
Assim se Portugal formou.
Fernando Pessoa tem uma predilecção pelo uso,
Teu ser é como aquella fria literal ou simbólico, do termo "antemanhã", isto é, o
Luz que precede a madrugada, periodo antes do alvorecer quando começa a despontar
E é já o ir a haver o dia uma luz muito ténue. Aqui o poeta compara Viriato à
antemanhã da nacionalidade portuguesa.
Na antemanhã, confuso nada.

. .

.
-2-

NOTA: Os Lusitanos eram um povo de raiz céltica indo-europeia (ariana). Os historiadores consideram os
Lusitanos um povo do ramo celta da família indo-europeia. Os Celtas ocuparam uma grande parte da Peninsula
Ibérica, tendo mantido uma certa identidade na faixa oeste da Peninsula (num território correspondente actualmente
à Galiza e a Portugal) e misturando-se com povos anteriores não-arianos (os Iberos) no centro e sul da Peninsula.

O local de nascimento de Viriato é conhecido,a história e a tradição consagra o maciço da Serra da Estrela,mais
exactamente Lorica,a actual vila de Loriga,em Portugal.

English version

An introduction to the poem: The Lusitanians were an Indo-European tribe (possibly of Celtic origin) that lived in
what is today Portugal and adjacent parts of Spain. During the I century BC they opposed the Roman Invasion of the
Peninsula. Headed by Viriathus they held the Romans long in check mostly by guerrilla warfare. In this poem
Pessoa traces the ancestry of the Portuguese nation to the instinct of Viriathus for independence and asserts that
we exist as a nation because there lives in us a memory of that instinct.

Viriathus:
If the soul, that feels and acts, knows
Simply because it remembers what it forgot,
Then we, nation, live because within us
There is a memory of your instinct.

Nation, because you reincarnated,


People, because you were reborn,
Either you, or that of which you were the stem,
And thus was Portugal born.

Your being is like that cold


Light that precedes dawn,
And is the assurance of the day to be
Before daylight, obscure nothingness.
-1-

MENSAGEM de Fernando Pessoa; Primeira Parte-BRAZÃO


V- O Timbre: A Cabeça do Grypho
O INFANTE D.HENRIQUE

. Óleo de Carlos Alberto Santos

O INFANTE D.HENRIQUE Comentários:

"entre o brilho das esferas"- refere-se ao modelo


ptolomaico do universo, que era o geralmente aceite
na época do Infante, e que se baseava num conjunto
de esferas concêntricas.
Em seu throno entre o brilho das espheras,
com seu manto de noite e solidão, "o mar novo e as mortas eras"- o mar desvendado e
tem aos pés o mar novo e as mortas eras- o passado de ignorância e temor do desconhecido.
-o único imperador que tem, deveras,
o globo mundo em sua mão. "o único que tem deveras o globo mundo em sua
mão"- os imperadores e alguns reis tomavam como
simbolo do poder uma esfera que sustentavam na
mão, representando a universalidade do seu estatuto.
Só no caso do Infante, diz Pessoa, tal se justificaria!

. .

NOTA: Pode ler um trecho explicado d'Os Lusíadas descrevendo o Universo das Esferas.

English version

An introduction to the poem: This short poem is interesting in the almost casual manner by which Fernando
Pessoa says the essential about Prince Henry (mood and all) in only five verses. The "spheres" refer to the
Ptolomean model of the universe, that was accepted in the XV century, while the "globe of the world" refers to the
orb which emperors used to hold as a symbol of the universality of their status.

Prince Henry, the Navigator


On his throne amidst the glint of the spheres,
With his mantle of night and solitude,
He has at his feet the new sea and the dead eras-
The only emperor who truly holds
The globe of the world in his hand.
-1-

MENSAGEM de Fernando Pessoa; Primeira Parte-BRAZÃO


V- O Timbre: A Outra Asa do Grypho
AFFONSO DE ALBUQUERQUE

. Ilustração de Carlos Alberto Santos

Comentários:
AFFONSO DE ALBUQUERQUE
O poema centra-se no desempenho de Afonso de
Albuquerque na Ásia, por contrapartida com o seu
descrédito na corte de Lisboa motivado por invejas.

De pé, sobre os paízes conquistados "tão poderoso que não quer o quanto pode, que o
desce os olhos cansados querer tanto calcara mais do que o mundo sob o seu
de ver o mundo e a injustiça e a sorte. passo"- Albuquerque podia até ter-se proclamado
Não pensa em vida ou morte, imperador, mas sempre foi súbdito fiel do Rei
tam poderoso que não quere o quanto D.Manuel. Não queria o quanto podia porque o seu
póde, que o querer tanto sucesso lhe pesava mais sobre os ombros (por ter
calcára mais do que o submisso mundo perdido o favor real) do que a conquista pesara aos
povos submetidos.
sob o seu passo fundo.
Trez impérios do chão lhe a Sorte apanha.
"três impérios lhe a Sorte apanha"- refere-se às
Creou-os como quem desdenha. conquistas de Goa (na Índia), Malaca (na Malásia) e
Ormuz, no Golfo Pérsico.

"apanha-os como quem desdenha"- submete-os


como se isso fosse coisa de pouca monta.
. .

.
-2-

NOTA: Por vezes discute-se a importância das virgulas. Note-se, a título de exemplo, que os primeiros versos nos
dão Afonso de Albuquerque de pé e que os seus olhos cansados de ver a injustiça descem sobre os países
conquistados. Note-se que o significado seria formalmente diferente se a virgula fosse mudada: "De pé sobre os
paises conquistados, desce os olhos cansados..."!

English version

An introduction to the poem: In 1509 Albuquerque took charge of the Portuguese interests in India. By then it
was evident that peaceful trade was not possible without a military hegemony over the trade routes and the new
governor established it with characteristic zeal by taking Goa, Malacca and Ormuz (the three "empires" mentioned
in the poem) and organizing an administrative system that would be the mainstay of the Portuguese Empire in Asia.
But his success in the East was his downfall in Lisbon: ill-advised by envious cortisans, king Manuel I thought that
his governor had grown too ambitious and was following his own policies rather than his written orders. He fell in
disfavour (whence the verse about how his success weighed on him more than his rule on the conquered countries)
and was replaced but died before returning to Portugal.

This was, to me, the hardest translation in Mensagem because what were relatively simple ideas in Portuguese
proved unmanageable without changing the text. The last verse, in particular, could not be properly rendered and the
English version is by no means level with the Portuguese meaning. In this poem Pessoa shows his superlative
craftsmanship of the language.

Afonso de Albuquerque
Standing upright, towards the conquered countries
He lowers his weary eyes
From seeing the world, the injustice and fate.
He thinks not of life or death
So powerful that he wants not all
That he may, because wanting so much
Has weighed him down more than
His heavy step had the submissive world.
From the ground, three empires Fate picks for him.
He raised them as if he made little of it.
-1-

MENSAGEM de Fernando Pessoa; Terceira Parte- O ENCOBERTO


Terceiro- OS TEMPOS
Quarto- ANTEMANHÃ

. Óleo de Carlos Alberto Santos

Comentários:

"a madrugada do novo dia, do novo dia sem


acabar"- a alvorada do Quinto Império (que será
ANTEMANHÃ eterno).

"desvendou o Segundo Mundo, nem o Terceiro


O mostrengo que está no fim do mar quer desvendar"- referência à Segunda Epístola
Veio das trevas a procurar de S.Pedro onde o apóstolo divide os Tempos em
A madrugada do novo dia, três: o Primeiro Mundo, que durou desde a
Do novo dia sem acabar; Criação até ao Dilúvio; o Segundo Mundo, em que
E disse, «Quem é que dorme a lembrar vivemos, que durará até à segunda vinda de
Que desvendou o Segundo Mundo, Cristo- que supostamente reinará por mil anos- e
o Terceiro Mundo que se segue e que perdurará
Nem o Terceiro quere desvendar?» eternamente e é, nesta alegoria, confundido com
o Quinto Império.
E o som na treva de elle rodar
Faz mau o somno, triste o sonhar. "Aquele que está dormindo e foi outrora Senhor
Rodou e foi-se o mostrengo servo do Mar"- D.Sebastião ou Portugal, que nesta
Que seu senhor veio aqui buscar, acepção se confundem.
Que veio aqui seu senhor chamar –
Chamar Aquelle que está dormindo Face a "O Mostrengo" de Mar Português
E foi outrora Senhor do Mar. conclui-se que Pessoa quer de novo simbolizar o
medo do desconhecido, agora não do mar ignoto,
mas da via para o Quinto Império na qual Portugal
ainda não se lançara (está dormindo). No entanto
o mostrengo que um dia foi soberano é agora
servo de Portugal (o medo já não será nosso,
mas de outros) que procura, debalde, para o início
do caminho. O nome deste poema indica que
está a chegar a hora, "a madrugada do novo dia".

. .

.
-2-

NOTA: Para uma discussão do simbolismo deste poema inserido no conjunto d'Os Tempos ver a minha introdução
a "O Descoberto".

English version

An introduction to the poem: The Bogey beast of Portuguese Sea returns, again to symbolize the fear of the
Unknown. Maybe it comes to instill in the hearts of men fear for the Fifth Empire (the new day that will last forever)
but the monster no longer rules because its realm was unraveled by the Explorers of Old. So the monster, now
reduced to serfdom, comes to seek his master that was once Lord of the Sea and is now sleeping (a reference to
Portugal or King Sebastian who, in this sense, are equivalent). But Portugal who unraveled the Second World ( that
in which we live- this is a reference to the Three Worlds of the Second Epistle of St. Peter) sleeps on and does not
show signs of willing to show the way to the Fifth Empire (which Pessoa likens here to the Third World of St. Peter's
Epistle). So the monster flies away again...

Before Dawn
The bogey-beast that lives at the end of the sea
Came from the darkness to seek
The dawning of the new day,
Of the new day that will last forever.
And said, "Who is he who sleeps remembering
That he has unraveled the Second World
But does not want to unveil the Third?".

And the sound of his turning in the dark


Makes the sleep bad, sad the dreaming.
Turned and flew away the monster-serf
That came here to seek his master,
That came here his master to call -
To call the One who lies in sleep
And who was once Lord of the Sea.
-1-

MENSAGEM de Fernando Pessoa; Terceira Parte- O ENCOBERTO


Segundo- OS AVISOS
Segundo- ANTÓNIO VIEIRA

. Composição sobre óleo de Carlos Alberto Santos

Comentários:

ANTÓNIO VIEIRA Este é um belíssimo poema de Mensagem que


bem poderia ilustrar a afirmação de que a poesia
de Fernando Pessoa é para ser compreendida e
O céu 'strella o azul e tem grandeza. não explicada. A leitura transmite imediatamente,
Este, que teve a fama e à gloria tem, através de imagens suscitadas pelo texto, a visão
Imperador da lingua portugueza, do poeta. No entanto uma análise estritamente
Foi-nos um céu também. literal das frases individuais revelaria inesperadas
complexidades.
No immenso espaço seu de meditar,
Constellado de fórma e de visão, "imperador da lingua portuguesa"- epíteto dado
Surge, prenúncio claro do luar, por Pessoa ao Padre António Vieira que foi o
maior orador do seu tempo e um dos mais
El-Rei D. Sebastião. admiráveis estilistas da prosa portuguesa.

Mas não, não é luar: é luz do ethéreo. "surge, prenúncio claro do luar, El-Rei
É um dia; e, no céu amplo de desejo, D.Sebastião"- refere-se aos escritos do Padre
A madrugada irreal do Quinto Império António Vieira sobre as esperanças de Portugal,
Doira as margens do Tejo. que um grande rei conduziria a futuro Quinto
Império do Mundo.

"luz do etéreo"- luz celeste.

. .

.
-2-

NOTA: Os interessados poderão ler uma boa biografia do Padre António Vieira; e uma outra nota com referências
ao ideal do Quinto Império de raiz portuguesa.

Vieira deixou incompleto um livro em vários volumes a que deu o nome fantástico "História do Futuro" em que
abordava a questão do Quinto Império. O livro está acessível na rede, bem como esta tese sobre o tema.

English version

An introduction to the poem: Father Antonio Vieira's life spanned for most of the XVII century. Born during the
period when the crowns of Portugal and Spain were united under a Spanish king, he was nevertheless an ardent
nationalist. Educated and trained by the Jesuits, he served in Brazil where his quick mind and oratory gifts soon
made him noticed. Following the 1640 Portuguese uprising against the Spanish rule, he sailed to Lisbon on a
mission and subsequently became a trusted counselor of King John IV.

His logical reasoning which he explained in simple words to enraptured crowds, both in Portugal and abroad, to
whom he preached an egalitarian society under God (he himself was of mixed blood) eventually made him known as
the most gifted preacher of his time. He is still considered as the grand master of Portuguese Prose, whence the
epithet "Emperor of the Portuguese Language" bestowed upon him by Fernando Pessoa.

Based on old prophecies that he interpreted in his own way and noticing the peculiar Portuguese intuition for easy
dealings with people of all races, he postulated that Portugal was the Chosen Nation that would lead the world to an
era of peace, understanding and union in the Christian Faith. This would be the Fifth Empire and the man who would
make all this happen was "The Yearned-for", the new King Sebastian. In this respect, Pessoa was his "apprentice"
and follower as visionary and theoreticist of the Portuguese Fifth Empire.

Father Antonio Vieira


Heaven spangles the blue and has splendour.
This man, who once had fame and now glory has,
Emperor of the Portuguese language,
Was to us a heaven too.

In his wide expanse of meditation,


Constellated with form and with vision,
Rises, clear harbinger of moonlight,
King Don Sebastian.

But no, 't is not moonlight: 't is light ethereal.


'T is a day, and, in the sky ample with desire,
The unreal dawning of the Fifth Empire
Gilds the banks of the Tagus.
-1-

MENSAGEM de Fernando Pessoa; Terceira Parte-O ENCOBERTO


Primeiro- OS SYMBOLOS
Quarto- AS ILHAS AFORTUNADAS

. Ilustração de Carlos Alberto Santos

AS ILHAS AFORTUNADAS Comentários:

As Ilhas Afortunadas são uma lenda medieval.


Que voz vem no som das ondas Por vezes o nome é associado a ilhas
que não é a voz do mar? maravilhosas (por exemplo, com cidades de ouro
É a voz de alguém que nos falla, puro) que teriam existência real e chegavam até a
mas que, se escutamos, cala, estar indicadas nos mapas náuticos; outras vezes
por ter havido escutar. referiam-se declaradamente a ilhas que podiam
ser vistas pelos mareantes mas nunca
alcançadas. Provavelmente a lenda foi sugerida
E só se, meio dormindo, por fenónemos atmosféricos que provocavam
sem saber de ouvir ouvimos, miragens de terras inexistentes no meio do mar.
que ella nos diz a esperança
a que, como uma criança "onde o Rei mora esperando"- de novo Fernando
dormente, a dormir sorrimos. Pessoa faz uma convolução das lendas da Távola
Redonda e do Desejado. Supostamente, depois
São ilhas afortunadas, da batalha de Camlann em que Artur matou
são terras sem ter logar, Mordred mas foi, ele também, mortalmente ferido,
o rei moribundo foi levado para a Ilha de Avalon
onde o Rei mora esperando.
(uma "ilha afortunada") onde, em vez de morrer,
Mas, se vamos despertando, ficou adormecido para um dia voltar numa hora de
cala a voz, e há só o mar. suprema necessidade para salvar o seu povo e
restaurar o seu reino.

. .

.
-1-

MENSAGEM de Fernando Pessoa; Terceira Parte- O ENCOBERTO


Terceiro- OS TEMPOS
Terceiro- CALMA

. Ilustração de Carlos Alberto Santos

CALMA
Comentários:
Que cousa é que as ondas contam
Este estranho poema deve ser comparado ao
e se não pode encontrar intitulado "Ilhas Afortunadas" que versa o mesmo
por mais naus que haja no mar? tema e foi escrito alguns dias mais tarde. É
O que é que as ondas encontram provável que o poema agora intitulado "Calma"
e nunca se vê surgindo? tenha sido a primeira versão de "Ilhas
Este som de o mar praiar Afortunadas" e tenha sido repescado para a
onde é que está existindo? última parte de Mensagem que foi preparada com
um prazo muito curto e, destinando-se a um
concurso que impunha um número mínimo de
Ilha próxima e remota, páginas, obrigava o poeta a incluir mais material
que nos ouvidos persiste, do que o que, de outra maneira, poderia ter
para a vista não existe. incluido.
Que nau, que armada, que frota
pode encontrar o caminho Este poema representa uma espécie de tempo
à praia onde o mar insiste, de paragem para reflexão, o que talvez tenha
se à vista o mar é sòzinho? justificado o seu nome.

Haverá rasgões no espaço "rasgões no espaço que deem para outro lado"-
que dêem para outro lado, este conceito dos mundos paralelos ou túneis
para outros mundos, hoje lugar comum nos
e que, um d’elles encontrado,
contos de ficção científica e parcialmente alvo de
aqui, onde há só sargaço, estudos pelos físicos teóricos, é altamente
surja uma ilha velada, surpreendente para a época e suscita a questão
o paiz afortunado de se Pessoa o terá imaginado ou se terá tido
que guarda o Rei desterrado notícia dele através de revistas de ficção científica
em sua vida encantada? americanas.

. .

.
-1-

MENSAGEM de Fernando Pessoa; 1ª Parte-BRAZÃO


III- As Quinas
Primeira- D.DUARTE REI DE PORTUGAL
Terceira- D. PEDRO REGENTE DE PORTUGAL
Quarta- D.JOÃO INFANTE DE PORTUGAL

. Ilustração de Carlos Alberto Santos

D.DUARTE REI DE PORTUGAL Comentários:

Meu dever fez-me, como Deus ao mundo. D.Duarte Rei de Portugal: "A regra de ser Rei
A regra de ser Rei almou meu ser, almou meu ser"- A disciplina de ser rei encheu
em dia e letra escrupuloso e fundo. a minha vida (isto é, como D.Duarte viveu o fim
do seu curto reinado no remorso das
consequências da falhada expedição a Tânger e
Firme em minha tristeza, tal vivi. da prisão do irmão Fernando não tinha prazer na
Cumpri contra o Destino o meu dever. vida, dedicando-se inteiramente ao dever da
Inutilmente? Não, porque o cumpri. governação). Esse remorso é a razão da frase
do poema: "firme em minha tristeza".
D.PEDRO REGENTE DE PORTUGAL
D.Pedro Regente de Portugal: "indiferente ao
que há em conseguir que seja só obter"- não fui
Claro em pensar, e claro no sentir, movido pelo desejo de posse; não fui ambicioso
é claro no querer; de bens materiais.
indifferente ao que há em conseguir
que seja só obter; "Dúplice dono, sem me dividir, de dever e de
ser"- eu e o meu dever fomos um só.
duplice dono, sem me dividir,
de dever e de ser-
D.João Infante de Portugal- "Minha alma
estava estreita entre tão grandes almas...etc"-
não me podia a Sorte dar guarida os meus irmãos (o Infante D.Henrique, o Rei
por não ser eu dos seus. D.Duarte, o Infante D.Pedro, e o Infante
Assim vivi, assim morri, a vida, D.Fernando) tiveram tal grandeza que me
calmo sob mudos céus, ofuscaram completamente.
fiel à palavra dada e à ideia tida.
Tudo o mais é com Deus! "virginalmente parada"- sem actividade; virgem
de acção (esta afirmação é inexacta em relação
ao Infante D.João que foi um homem de mérito e
D.JOÃO INFANTE DE PORTUGAL de préstimo para o País. Aliás, qualquer
comparação com um homem de estatura
mundial como o Infante D.Henrique só pode
Não fui alguém. Minha alma estava estreita resultar injusta para o comparado!).
entre tam grandes almas minhas pares,
inutilmente eleita, "é do português querer só isto: o inteiro mar ou
virgemmente parada; a orla vã desfeita"- para um português não há
meios termos: ou tudo ou nada (por isso, como
porque é do portuguez, pae de amplos mares, não fui tudo, então eu não fui nada!).
querer, poder só isto:
o inteiro mar, ou a orla vã desfeita- "a orla vã desfeita"- a cercadura do mar; a
o todo, ou o seu nada. espuma das ondas que se desfazem futilmente
na costa.

. .

Sobre D.Pedro sugiro esta página excepcional que mostra como o infante, apesar da sua morte trágica e inútil na
batalha de Alfarrobeira (que inspirou a ilustração a esta página) teve uma vida verdadeiramente extraordinária e um
papel importante no início das Descobertas.

Sobre o Infante D.João Sugiro esta página, notando apenas uma correcção: o ano da sua morte foi 1442 e não
1422 como refere a página aconselhada na versão que existia à data em que preparei esta página.
-1-

MENSAGEM de Fernando Pessoa; 1ª Parte-BRAZÃO


III- As Quinas
Segunda- D.FERNANDO INFANTE DE PORTUGAL

. Ilustração de Carlos Alberto Santos

Comentários:
D.FERNANDO INFANTE DE PORTUGAL
Este poema, sem dúvida um dos mais belos de
Mensagem, foi o primeiro a ser escrito (em
Deu-me Deus o seu gládio, porque eu faça 1913) e destinava-se a servir de mote a um livro
A sua sancta guerra. que Fernando Pessoa pensou chamar
Sagrou-me seu em honra e em desgraça, "Portugal". O conteúdo incluiria, pelo menos, o
Às horas em que um frio vento passa equivalente às duas primeiras Partes de
Por sobre a fria terra. Mensagem, mas a índole talvez não tivesse sido
integralmente afim. Este poema, inicialmente
chamado "Gládio", foi rebaptizado mas não está
Poz-me as mãos sobre os hombros e doirou-me totalmente sintonizado com o seu novo nome. É
A fronte com o olhar; provável que tenha sido originalmente escrito
E esta febre de Além, que me consome, com D.Sebastião em mente.
E este querer-grandeza são Seu nome
Dentro em mim a vibrar. O D.Fernando referido no poema é o Infante
Santo, que morreu refém em Marrocos.
E eu vou, e a luz do gládio erguido dá
Em minha face calma. O gládio era uma espada curta como as
Cheio de Deus, não temo o que virá, utilizadas pelos gregos e pelos romanos. A
sonoridade da palavra era muito apreciada pelos
Pois venha o que vier, nunca será autores italianos, espanhóis e portugueses que
Maior do que a minha alma. a usavam amiúde designando uma espada de
qualquer tipo ou, simplesmente, o seu
equivalente simbólico.

. .

.
-2-

English version

An introduction to the poem: Written in 1913, this beautiful poem was the very first of the set that would one day
become Mensagem. It was originally published as "Glaive" and was likely written as a simple allegory, without a
personality in mind (although, on noticing that it is applicable to King Sebastian, one wonders...). For Mensagem it
was renamed "D. Fernando Infante de Portugal" and now remembers Prince Henry's brother who in 1437 sailed
under his command for a failed attempt to seize Tangiers. He died a captive in Morocco, six years later, and
subsequently became known as "The Holy Infante". As a symbol of martyrdom and of the high price that has to be
paid for expansion, he gained his place in Mensagem as one of the "quinas" in the Portuguese coat of arms.

Fernando, Infante of Portugal


God gave me his glaive for me to wage
His holy war.
He made me his own in honour and disgrace,
At the time when a cold wind blows
Over the cold land.

He put his hands on my shoulders and gilded


My brow with his gaze;
And this fever for the Beyond that consumes me,
And this want for greatness, are His name
Throbbing inside me.

And I go forth and the light of the glaive aloft glints


On my calm countenance.
Full of God, I fear not what will come,
Because come what may, it will never be
Greater than my spirit.
-1-

MENSAGEM de Fernando Pessoa; Primeira Parte-BRAZÃO


V- O Timbre
Uma Asa do Grypho- D.JOÃO, O SEGUNDO

. Composição sobre ilustração de Carlos Alberto Santos

D.JOÃO, O SEGUNDO

Braços cruzados, fita além do mar.


Parece em promontório uma alta serra- Comentários:
O limite da terra a dominar
O mar que possa haver além da terra. "parece temer o mundo vário que ele abra os braços
e lhe rasgue o véu"- parece temer o mundo perplexo
Seu formidável vulto solitário que ele revele os seus mistérios.
Enche de estar presente o mar e o céu
E parece temer o mundo vário
Que ele abra os braços e lhe rasgue o véu.

. .

English version

An introduction to the poem: King Joao II (or John II) was probably the most influential Portuguese king in terms
of world history. He devised and set the objectives that were to persist and direct the Portuguese expansion: the
domain over sea routes without (whenever possible) territorial conquest of countries requiring manpower that the
country could ill afford; and the reach for the spice lands and particularly for India (Prince Henry before him had
started the Age of Discovery but, as far as is known today, never set India as a goal). It was also under John II that
the modern concept of exploration was applied: Diogo Cao, Bartolomeu Dias, Pero da Covilha, Duarte Pacheco
Pereira and others left Lisbon with the sole intent of gathering information on new lands, winds and populations
without any concern of immediate commercial gains.

King Joao the Second


Arms crossed, he stares beyond the sea
Resembling the promontory of a high mountain ridge-
The limit of the land dominating
The sea that may exist beyond the land.

His formidable solitary hulk


Fills with his presence the sea and the sky,
And the bewildered world seems to fear
That he will open his arms and tear away its veil.
-1-

MENSAGEM de Fernando Pessoa; 1ª Parte-BRAZÃO


III- As Quinas
Quinta- D.SEBASTIÃO REI DE PORTUGAL

. Ilustração de Carlos Alberto Santos

D.SEBASTIÃO REI DE PORTUGAL Comentários:

"areal"- o campo de Alcácer Quibir.


Louco, sim, louco, porque quiz grandeza
Qual a Sorte a não dá. "ficou meu ser que houve, não o que há"- ficou
Não coube em mim minha certeza; o meu corpo, não a minha alma que vive eterna.
Por isso onde o areal está
Ficou meu ser que houve, não o que há. "sem a loucura que é o homem mais do que a
besta sadia"- sem o sonho (impossível, neste
Minha loucura, outros que me a tomem caso) o homem é apenas um animal vivente.
Com o que nella ia.
Sem a loucura que é o homem "cadáver adiado que procria"- vivo e a
reproduzir-se (sem outra finalidade do que,
Mais que a besta sadia, como nos animais, a propagação da espécie)
Cadáver addiado que procria? mas inexorávelmente destinado à morte.

. .

English version

An introduction to the poem: King Sebastian dreamt of crushing the Muslim of North Africa and, having thus
gained an access to the borders of the Turkish Empire, unite the Christian kingdoms in a crusade aimed at
eradicating the Islamic faith. He is said to have hoped to establish a Portuguese supremacy among the Christian
nations that would make of Portugal the source of the Fifth Empire.

In 1578 he made the first move of his grand scheme of conquest by passing into Africa to battle the Moroccans but
his army was defeated in El-Ksar-el-Kebir, where he probably died. This poem is dedicated to him as a martyr (one
of the "quinas" in the coat of arms), and to his dream of the Fifth Empire which in Pessoa's fruitful mind persists in
the idealized form of an Empire of the Spirit that will one day be brought forth by a Portuguese which is indistinctly
referred to elsewhere in Mensagem as The Hidden One, The Yearned-for, or King Sebastian.

Sebastian, King of Portugal


Mad, yes, mad, because I wanted greatness
Such as Fate does not grant.
I could not live up to my certainties;
Thus, where the sandy expanse is,
I left who I was, not who I am.

My madness, let others take it up


Along with all that went with it.
Without madness what is man
But a healthy beast,
Postponed corpse that begets?
-1-

MENSAGEM de Fernando Pessoa; Terceira Parte- O ENCOBERTO


Terceiro- OS TEMPOS
Quinto- NEVOEIRO

. Óleo de Carlos Alberto Santos

NEVOEIRO
Comentários:

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra, Neste poema, o último de Mensagem, Fernando
define com perfil e ser Pessoa transmite uma imagem desencantada da
este fulgor baço da terra realidade do Portugal dos seus dias... mas para
que é Portugal a entristecer – concluir que essa situação é, afinal, o nevoeiro de
brilho sem luz e sem arder, que falam as profecias e que marcará o regresso
como o que o fogo-fátuo encerra. de D.Sebastião. A conclusão de que o nevoeiro
que se esperava não é, afinal, literal (físico) mas
antes simbólico (social e político) permite-lhe
Ninguém sabe que coisa quere. acabar o Poema com uma "volta" final ao gritar:
Ninguém conhece que alma tem, "É a Hora!".
nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ância distante perto chora?) "fogo-fátuo"- chama azulada, em geral breve,
Tudo é incerto e derradeiro. resultante da combustão espontânea de uma
Tudo é disperso, nada é inteiro. mistura de metano e ar em determinadas
Ó Portugal, hoje és nevoeiro... proporções. O metano (gás dos pântanos) é
produzido naturalmente pela decomposição da
matéria orgânica, vegetal ou animal. A combustão
produz calor, mas como é muito breve a chama
É a Hora! pode parecer fria.

. .

NOTA: Para uma discussão muito breve do simbolismo deste poema inserido no conjunto d'Os Tempos ver a minha
introdução a "O Descoberto".

English version

An introduction to the poem: According to an old prophecy, king Sebastian did not die in Morocco and he will
one day return to his homeland, arriving in a misty morning. Mist is thus intertwined with the myth of the return of
the Desejado (he who is yearned for), be he king Sebastian or someone else. In this final poem of Mensagem,
Fernando Pessoa introduces a final turn that allows for a masterful close to the whole Poem: he describes the rather
hapless and forsaken situation of his country at the time of his writing and ends by stating that such situation is,
symbolically speaking, mist. And so he cries out that the time is thus come: "It is the hour!" meaning that a time
such as his is indeed the right moment for the prophecy to be fulfilled!

Mist
Neither king nor law, neither peace nor war,
Define with outline and substance
This dull brilliance of the land
That is Portugal sinking in sadness -
Brightness without light or heat,
Like that which the will-o’-the-wisp confines.

Nobody knows what one wants.


Nobody is aware of one’s own soul,
Nor of what is evil, nor of what is pure.
(What distant anxiety weeps nearby?)
All is uncertain and ultimate.
All is fragmented, nothing is whole.
Oh Portugal, today you are mist...

‘Tis the hour!


-1-

MENSAGEM de Fernando Pessoa; Terceira Parte- O ENCOBERTO


Terceiro- OS TEMPOS
Primeiro- NOITE

. Óleo de Carlos Alberto Santos

Comentários:

NOITE O poema refere o episódio da exploração da


América pelos irmãos Corte-Real: Gaspar
explorou as costas do Canadá em 1500 mas não
A nau de um d’elles tinha-se perdido
regressou de uma viagem similar no ano seguinte.
no mar indefinido. O seu irmão Miguel foi procurá-lo com três navios
O segundo pediu licença ao Rei que se separaram ao atingir a América. O navio
de, na fé e na lei de Miguel nunca mais foi visto embora os outros
da descoberta ir em procura dois tenham regressado a Portugal. Finalmente o
do irmão no mar sem fim e a névoa escura. terceiro irmão, Vasco, viu recusado por D.ManueI
o pedido de autorização de procurar os irmãos,
Tempo foi. Nem primeiro nem segundo uma vez que a sua eventual morte representaria o
fim da linhagem. O rei enviou ele-próprio uma
volveu do fim profundo expedição de salvamento que não encontrou
do mar ignoto à pátria por quem dera vestígios dos desaparecidos.
o enigma que fizera.
Então o terceiro a El-Rei rogou "Noite" (em relação ao advento do Quinto
licença de os buscar, e El-Rei negou. Império) refere um episódio apropriadamente
passado antes do Bandarra ou D.Sebastião terem
Como a um captivo, o ouvem a passar sequer nascido mas é provável que tenha sido
os servos do solar. redigido para outro fim e aproveitado por Pessoa
E, quando o vêem, vêem a figura quando, em 1934, se apressava a completar
Mensagem para apresentar o livro a um concurso
da febre e da amargura, de poesia.
com fixos olhos rasos de ância
fitando a prohibida azul distancia. "não volveu à pátria por quem dera o enigma que
fizera"- não voltou à Pátria pela qual deu a vida (o
Senhor, os dois irmãos do nosso Nome enigma é a circunstância do seu misterioso
– O Poder e o Renome – desaparecimento).
ambos se foram pelo mar da edade
à tua eternidade; "ambos se foram à Tua eternidade"- ambos
e com elles de nós se foi morreram.
o que faz a alma poder ser de heroe.
"com eles de nós se foi o que faz a alma poder
ser de herói"- com eles perdeu Vasco o alento e a
Queremos ir buscal-os, d’esta vil
ousadia.
nossa prisão servil:
é a busca de quem somos, na distancia "queremos ir buscá-los desta vil prisão"- (fala
de nós; e, em febre de ância, Vasco) quero morrer para ir ter com eles (a
a Deus as mãos alçamos. "prisão servil" é a vida).

"Deus não dá licença que partamos"- falhado o


Mas Deus não dá licença que partamos. pedido feito ao rei para ir em busca dos irmãos,
Vasco pede então a Deus que o liberte da
amargura e o leve para se reunir aos irmãos no
Além, mas Deus não lhe concede a morte...

. .

.
-2-

NOTA: Os interessados poderão ler uma página sobre os irmãos Corte-Real.

Para uma discussão muito breve do simbolismo deste poema inserido no conjunto d'Os Tempos ver a minha
introdução a "O Encoberto".
-1-

MENSAGEM de Fernando Pessoa; Primeira Parte-BRAZÃO


IV- A Coroa
NUN'ÁLVARES PEREIRA

. Óleo de Carlos Alberto Santos

NUN'ÁLVARES PEREIRA
Comentários:

Que auréola te cerca? Segundo lendas pagãs de origem irlandesa a espada


É a espada que, volteando, Excalibur foi dada ao Rei Artur pela Dama do Lago.
faz que o ar alto perca Era mágica e tornava-o quase invencível. De acordo
com uma tradição guerreira muito antiga, era
seu azul negro e brando.
costume ser dado nome a uma arma notável pela sua
beleza ou qualidade. Excalibur não podia ser
Mas que espada é que, erguida, quebrada e o seu nome tem origem céltica e quer
faz esse halo no céu? dizer "relâmpago duro".
É Excalibur, a ungida,
que o Rei Artur te deu. "S.Portugal em ser"- personificação do que há de
místico em Portugal (ou do melhor e mais puro em
'Sperança consumada, Portugal).
S. Portugal em ser,
ergue a luz da tua espada "Ergue a luz da tua espada para a estrada se ver!"-
inspira-nos para que encontremos o caminho (da
para a estrada se ver!
grandeza de Portugal).

. .

.
-2-

NOTA: Os interessados podem ler,uma boa página em inglês sobre Excalibur e sobre os personagens das lendas
arturianas.

English version

An introduction to the poem: T

Nuno Álvares Pereira


What halo encircles you?
It is the sword that, swirling,
Makes the lofty air lose
Its dark, soft blue.

But what sword is it that, raised aloft,


Makes that halo in the sky?
It is Excalibur, the anointed blade,
Which King Arthur bestowed upon you.

Hope accomplished,
St. Portugal in essence,
Raise your sword like a torch
To light the path for us.


-1-

MENSAGEM de Fernando Pessoa; Terceira Parte- O ENCOBERTO


Segundo- OS AVISOS
Primeiro- O BANDARRA

. Ilustração de Carlos Alberto Santos

O BANDARRA
Comentários:

Pessoa refere neste poema Gonçalo Anes,


Sonhava, anonymo e disperso, sapateiro de Trancoso, que escreveu uns versos
o Império por Deus mesmo visto, de cariz profético na época de D.João III. Neles
confuso como o Universo veem alguns a previsão do periodo de domínio
e plebeu como Jesus Christo. filipino, a Restauração e uma posterior expansão
imperial que está na origem próxima da convicção
do Padre António Vieira quanto ao advento de um
Não foi nem santo nem heroe, Quinto Império português que teria sido destinado
mas Deus sagrou com Seu signal por Deus ("por Deus mesmo visto").
este, cujo coração foi
não portuguez mas Portugal. Este que "Deus sagrou com seu sinal"- este, a
quem Deus deu o dom da profecia.

. .

NOTA: Os interessados poderão ler aqui uma curiosa página incluindo dados biográficos sobre o Bandarra.

English version

An introduction to the poem: I(...)

Bandarra
He dreamed, anonymous and dispersed,
The Empire by God Himself seen,
Confused as the Universe
And plebeian as Jesus Christ.

He was neither saint nor hero,


But God made sacred with His sign
This man, whose heart was

Not Portuguese, but Portugal!


-1-

MENSAGEM de Fernando Pessoa; Terceira Parte-O ENCOBERTO


Primeiro- OS SYMBOLOS
Terceiro- O DESEJADO

. Óleo de Carlos Alberto Santos

Comentários:

"Onde quer que jazas entre sombras, sente-te


sonhado e ergue-te para teu novo fado"- onde quer
que a tua alma esteja, pressente que esperamos
por ti e renasce para o teu novo destino"
O DESEJADO
"Galaaz com pátria"- O Desejado, D.Sebastião
que é equiparado a Sir Galahad, o cavaleiro
Onde quer que, entre sombras e dizeres, virgem do Ciclo da Távola Redonda a quem foi
Jazas, remoto, sente-te sonhado, dado conhecer o Santo Graal. A origem de
E ergue-te do fundo de não-seres Galahad era desconhecida (não tinha pátria)
Para teu novo fado! embora na verdade fosse filho de Sir Lancelot.

Vem, Galaaz com pátria, erguer de novo, "erguer a alma do teu povo à Eucaristia Nova"-
Mas já no auge da suprema prova, trazer a Portugal a Nova Religião (Pessoa
A alma penitente do teu povo referiu-se várias vezes em outros escritos ao seu
sonho de uma nova religião popular de cariz
À Eucharistia Nova.
helénico).

Mestre da Paz, ergue teu gládio ungido, "Mestre da Paz"- O Senhor do 5º Império, O
Excalibur do Fim, em geito tal Desejado; "Excalibur do Fim"- Símbolo do fim do
Que sua Luz ao mundo dividido mundo tal como o conhecemos; arauto da Nova
Revele o Santo Gral! Era (cujo estabelecimento é a "suprema prova").

"revele o Santo Graal"- no Ciclo da Távola


Redonda, o Graal desapareceu como castigo do
amor adúltero de Guinevere e Lancelot e com ele
foi-se a felicidade do Reino. O retorno do Graal
representaria, pela mesma lógica, a união, paz e
felicidade de todos os povos do mundo.

. .

.
-2-

NOTA: Os interessados na figura de Sir Galahad, o cavaleiro-menino do Ciclo da Távola Redonda poderão ler a sua
história.

English version

An introduction to the poem: In its original Portuguese version, this is one of the most beautiful poems of the
third part of Mensagem. The Yearned-for is the man that will lead Portugal and the world to the Fifth Empire and is
often indistinctly called "The Hidden One", "King Sebastian" or "The King". Here Pessoa states his belief that this
person will be Portuguese ("the penitent soul of your people") and will start a new religion (the "New Eucharist")-
Pessoa argued, on several occasions, for a popular religion akin to the Greek paganism. In the last stanza of the
poem he stresses twice that the Fifth Empire he dreams of, will be the Kingdom of Peace (and consequently will be
established by peaceful- spiritual- means). In the King Arthur Cycle, the disappearance of the Holy Grail -because of
the adultery of Guinevere with Lancelot- brought about war and misery to the kingdom; consequently the revealing of
the Holy Grail by the Yearned-for means peace and happiness to the world of the Fifth Empire.

The Yearned-for
Wherever you lie, amidst shades and murmurs,
Remote, feel yourself dreamed of,
And rise from the depths of non-being
To your new fate!

Come, Galahad with homeland, and raise again,


But this time at the height of the supreme trial,
The penitent soul of your people
Towards the New Eucharist.

Master of Peace, raise your anointed sword,


Excalibur of the End of Days, in such a way
That its light, to the divided world,
Reveals the Holy Grail!
-1-

MENSAGEM de Fernando Pessoa; Terceira Parte-O ENCOBERTO


Primeiro- OS SYMBOLOS
Quinto- O ENCOBERTO

. Óleo de Carlos Alberto Santos

Comentários:

Este curioso poema é uma sucessão de


O ENCOBERTO referências cruzadas à mística rosicruciana. Os
Rosa-Cruz foram (são?) uma sociedade secreta
cujas origens provavelmente remontam ao século
Que symbolo fecundo XVII. Os interessados poderão ler um texto sobre
Vem na aurora anciosa? os Rosa-Cruz aqui. Parece que originalmente
Na Cruz Morta do Mundo seria um grupo secreto de homens cultos e
A Vida, que é a Rosa. superiormente desinteressados que sonhavam
controlar os destinos da humanidade de maneira
a assegurar o advento de um mundo pacífico e
Que symbolo divino feliz (na prática, uma variante da noção do Quinto
Traz o dia já visto? Império). As diversas cisões e criação de
Na Cruz, que é o Destino, sociedades sob o mesmo nome obliteraram as
A Rosa, que é o Christo. pistas quanto à permanência real de uma
sociedade secreta que represente a presença
Que symbolo final actual de uma herança multisecular ininterrupta.
Mostra o sol já disperto?
Na Cruz morta e fatal Existem várias interpretações da simbologia da
Rosa e da Cruz. Uma, que convém a este poema,
A Rosa do Encoberto. é de que a Rosa é uma representação do círculo
e está associada a ideais de perfeição que são
metas, enquanto que a Cruz representa, por
exemplo, as atribulações que há a ultrapassar ou
vencer para as atingir.

. .

NOTA: Sobre simbolismo Rosa-Cruz, ler também a minha nota no fim da Introdução a esta Parte de Mensagem.
-1-

MENSAGEM de Fernando Pessoa; Segunda Parte- MAR PORTUGUEZ


- O INFANTE

. Óleo de Carlos Alberto Santos

Comentários: Este poema é um dos mais


conhecidos de Mensagem.
O INFANTE
"Foste desvendando a espuma e a orla branca foi
de ilha em continente..."- a espuma das ondas
que morrem nas praias ou rebentam contra os
Deus quere, o homem sonha, a obra nasce. rochedos, marca as costas com uma orla branca.
Deus quiz que a terra fosse toda uma, A frase anterior é uma forma poética de dizer que
as costas foram sendo descobertas, primeiro as
Que o mar unisse, já não separasse.
ilhas e depois os continentes, "até ao fim do
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma, mundo".

E a orla branca foi de ilha em continente, "Quem te sagrou criou-te português"- porque,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo, segundo Fernando Pessoa, Deus tinha fadado
E viu-se a terra inteira, de repente, Portugal para um magno destino.
Surgir, redonda, do azul profundo.
"Do mar e nós, em ti nos deu sinal"- através de ti
Quem te sagrou creou-te portuguez. revelou-nos que o nosso destino era o mar.
Do mar e nós em ti nos deu signal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez. "Cumpriu-se o Mar e o Império se desfez...falta
Senhor, falta cumprir-se Portugal! cumprir-se Portugal"- cumpriu-se o destinado: o
Mar foi desvendado; o Império Português (isto é, o
controle das rotas oceânicas e a hegemonia no
Índico) desfez-se. Pessoa pensa que Portugal
está destinado à grandeza futura, e isso ainda
não se cumpriu!

. .

.
-2-

English version

An introduction to the poem: This poem, dedicated to Prince Henry, the Navigator, is one of the best known in
Mensagem. The often-cited last verse is related with the main theme of the Poem: Portugal has a mission, the first
part of which was the spearheading of the Discoveries (the unraveling of the foam, that went from island to continent
). But its accomplishment as a nation is not yet complete for there is a second part to its mission: the showing of
the way to the Fifth Empire!

Prince Henry
God wills, man dreams, the task is born.
God wanted the world to be whole,
The sea to connect, and no longer divide.
He chose you and you went forth unraveling the foam,

And the white rim went from island to continent,


Clearing up, racing, to the end of the world,
And the whole Earth was suddenly seen,
Emerging, round, from the deep blue.

He who hallowed you, made you Portuguese.


Of the sea and us, in you he gave us a sign.
The Sea was accomplished, and the Empire was undone.
Lord, Portugal is yet to be accomplished!
-1-

MENSAGEM de Fernando Pessoa; Terceira Parte- O ENCOBERTO


Primeiro- OS SYMBOLOS
Segundo- O QUINTO IMPÉRIO

. Óleo de Carlos Alberto Santos

Comentários:

"Triste de quem..."- a mesma noção já


encontrada em O das Quinas de que ser feliz é
O QUINTO IMPÉRIO uma infelicidade porque se vive maquinalmente e
não para o sonho ou para os cometimentos.
Triste de quem vive em casa,
"a lição da raiz- ter por vida a sepultura"- na
Contente com o seu lar,
própria essência material do homem está, desde
Sem que um sonho, no erguer de asa, a sua origem, a inevitabilidade da morte.
Faça até mais rubra a brasa
Da lareira a abandonar! "passados os quatro tempos do ser que sonhou"-
referência ao rei assírio Nabucodonosor que,
Triste de quem é feliz! segundo a Bíblia, sonhou com uma estátua de
Vive porque a vida dura. quatro metais que o profeta Daniel interpretou
Nada na alma lhe diz como uma premonição de quatro grandes
Mais que a lição da raiz- impérios sucessivos, dos quais o seu era
cronologicamente o primeiro.
Ter por vida a sepultura.
"que no atro da erma noite começou"- que
Eras sobre eras se somem começou nas trevas da noite deserta.
No tempo que em eras vem.
Ser descontente é ser homem. "Grécia, Roma, Cristandade, Europa"- os quatro
Que as forças cegas se domem impérios que Pessoa pensava ajustarem-se ao
Pela visão que a alma tem! sonho do rei assírio.

E assim, passados os quatro "vão para onde vai toda a idade"- envelhecem e
Tempos do ser que sonhou, morrem; desaparecem.
A terra será theatro
Do dia claro, que no atro "Quem vem viver a verdade?"- o Quinto Império
Da erma noite começou. sonhado por pessoa é uma abstracção de Luz (ou
Verdade, ou Cultura- todos os termos são, nesta
acepção, equivalentes). A frase deve ser lida
Grecia, Roma, Cristandade, "Quem vem viver o Quinto Império?".
Europa- os quatro se vão
Para onde vae toda edade. "Quem vem viver a verdade que morreu Dom
Quem vem viver a verdade Sebastião?"- completa, a frase torna-se uma
Que morreu Dom Sebastião? interrogação meramente retórica, a menos que se
tome "que" na acepção de "porque" ou "para a
qual". Nesse caso a frase torna-se "Quem viver a
verdade (do Quinto Império) para a qual
D.Sebastião morreu". Foi esta a acepção
utilizada na minha versão inglesa, abaixo.

. .

.
-2-

English version

An introduction to the poem: In "The Fifth Empire" Pessoa continues his revision of the symbols of the
Portuguese Milenarism. The poem starts by one of his favourite themes (also found in " The Field of the
Escutcheons"): that homely happiness precludes creativity. When he goes about to the main subject he refers
Nebuchadnezzar's dream from the Bible, interpreted by Daniel as a succession of four empires which would in time
crumble. But the Fifth would be God's own and would last forever. And Pessoa offers the reader his own opinion of
what empires were/are the four that precede the final one, yet to come...

The Fifth Empire


Pity him who lives at home
Happy with his life,
Without a dream, a flexing of wings,
To make him relinquish
Even the warmest ember of his hearth!

Pity him who is happy!


He lives because life lasts.
Nothing within him whispers
More than the primeval law:
That life leads to the grave.

Eras upon eras vanish


In the course of time, made of eras.
To be discontent is to be a man.
Let nature's forces be tamed
By the vision within the soul!

And so, past the four


Ages of the being that dreamed,
The world will be the stage
Of the bright day, that in the dark
Of the empty night began.

Greece, Rome, Christianity,


Europe - the four go
To where all age goes.
Who wants to live the truth
For which Don Sebastian died?
-1-

MENSAGEM de Fernando Pessoa; Terceira Parte- O ENCOBERTO


Segundo- OS AVISOS
Terceiro

Comentários:

Neste Terceiro Aviso, único poema de


Mensagem que não tem nome, Fernando Pessoa
fala como sucessor do Bandarra e do Padre
António Vieira: também ele anuncia a boa nova, o
(TERCEIRO AVISO) advento do Rei que conduzirá Portugal ao Quinto
Império. Anuncia-o, não como profeta ungido (que
só o Bandarra teria sido, já que Vieira derivou as
'Screvo meu livro à beira-mágua. suas conclusões das trovas do antecessor e das
Meu coração não tem que ter. Sagradas Escrituras) mas como Homem de
Tenho meus olhos quentes de água. Razão que sabe e que espera (e desespera,
Só tu, Senhor, me dás viver. como acentua). A ter nome, o poema
chamar-se-ia "Fernando Pessoa" e por isso o não
Só te sentir e te pensar tem!
Meus dias vácuos enche e doura.
"Senhor"- O Encoberto, também chamado "Rei"..
Mas quando quererás voltar?
Quando é o Rei? Quando é a Hora?
"dias vácuos"- dias monótonos, vazios.

Quando virás a ser o Christo "o Cristo de a quem morreu o falso Deus"- o meu
De a quem morreu o falso Deus, Cristo. Pessoa não acreditava no Deus da Igreja
E a despertar do mal que existo Católica Romana, nem na divindade do seu Cristo
A Nova Terra e os Novos Céus? que com Ele se confunde (o "falso Deus").

Quando virás, ó Encoberto, "a Nova Terra e os Novos Céus"- o Quinto


Sonho das eras portuguez, Império (referência à expressão usada na 2ª
Tornar-me mais que o sopro incerto Epístola de S.Pedro para designar o Terceiro
De um grande anceio que Deus fez? Mundo- ver o comentário ao poema
"Antemanhã").

Ah, quando quererás, voltando, "sonho das eras português"- sonho secular dos
Fazer minha esperança amor? portugueses.
Da névoa e da saudade quando?
Quando, meu Sonho e meu Senhor? "tornar-me mais que o sopro incerto de um
grande anseio que Deus fez"- Quando Pessoa se
refere a Deus, refere-se ao Criador (em que
acreditava) e Arquitecto do Destino. Aqui ele
diz-nos que com o advento do Encoberto, que
esperava para os seus dias, ele tornar-se-ia mais
do que a voz quase inaudível que exprimia um
sonho nacional.

. .

.
-2-

English version

An introduction to the poem: The set of three poems, called "The warnings", begins with a poem dedicated to
Bandarra, the XVI century shoemaker turned prophet whom interpreters credit with foretelling accurately the coming
of a period when Portugal was under Spanish rule, the subsequent 1640 revolution and liberation under king John IV.
The same Bandarra is said (by a miracle of interpretation) to have foretold a future supremacy of Portugal among
nations. The second poem is dedicated to father Antonio Vieira who was the true theoreticist of the Fifth Empire to
which Portugal (and the world) would be lead by a great king. Finally, the third poem does not have a name (the only
nameless poem in Mensagem) because the third prophet, the man who voices the third warning, is Fernando
Pessoa himself! He says he is waiting for the King, which tradition says will come in a misty morning, and he is
despairing of witnessing his advent in his own time...

Third Warning
I write my book at the brink of despair.
My heart has nothing to hold.
I have my eyes warm with water.
Only you, Lord, give me a reason to live for.

Only the feeling and thinking of you


Fills and gilds my empty days.
But when will you want to return?
When is the King? When the Hour?

When will you come to be the Christ


Of one on whom the false God died,
And to awaken, from the evil of today,
The New Earth and the New Skies?

When will you come, oh Hidden One,


Dreamed by Portuguese of all eras,
To turn me into more than the uncertain breath
Of a great yearning that God inspired?

Ah, when will you wish, by returning,


Turn my hope into love?
From the mist and the yearning, when?

When, my Dream and my Lord?


-1-

MENSAGEM de Fernando Pessoa; Terceira Parte- O ENCOBERTO


Terceiro- OS TEMPOS
Segundo- TORMENTA

. Ilustração de Carlos Alberto Santos

Comentários:

TORMENTA "a noite é o fausto do mistério"- a noite é a


pompa do mistério; é na noite que o mistério
assume toda a sua grandeza.
Que jaz no abysmo sob o mar que se ergue?
Nós, Portugal, o poder ser. "o relâmpago, farol de Deus, um hausto brilha"- o
relâmpago reluz por um instante (literalmente:
Que inquietação do fundo nos soergue? pelo tempo de uma inalação rápida). "e o mar
O desejar poder querer. escuro estruge"- o mar estrondeia (faz um
estrépito muito alto) .
Isto, e o mystério de que a noite é o fausto...
Mas súbito, onde o vento ruge, Apesar da ilustração que escolhi, o poema é
O relâmpago, pharol de Deus, um hausto sobre uma tormenta simbólica: a agitação íntima
Brilha, e o mar 'scuro 'struge. de Portugal que, segundo Pessoa, aspira ser a
nação do Quinto Império. E no negrume da
ignorância do Seu desígnio, Deus indica-o por um
breve instante (supostamente através do próprio
F. Pessoa que seria, assim, o "farol de Deus").

. .

English version

An introduction to the poem: Albeit the illustration chosen by me, this poem- my personal favourite from this
Cycle- is about a symbolic storm: that of Portugal wanting to be the nation of the Fifth Empire but not knowing the
way (because The Yearned-for has not yet arisen). But a lightning bolt shines briefly in the night: God is showing the
way and his beacon is Fernando Pessoa himself!

Storm
What lies in the abyss beneath the sea that rises up?
We, Portugal, the possibility of becoming.
What restlessness from the depths lifts us up?
The wish to be able to become.

This, and the mystery of which night is the splendour.


But suddenly, where the wind roars,
A lightning bolt, beacon of God, for a moment
Shines and the dark sea thunders.

NOTA: Ver a tradução de 1997 do Prof. Mike Harland (que eu li antes de produzir a versão acima).

Para uma discussão muito breve do simbolismo deste poema inserido no conjunto d'Os Tempos ver a minha
introdução a "O Encoberto".
-1-

Mensagem
por Fernando Pessoa
.

.
- Introdução a BRASÃO
.

A primeira parte de Mensagem é curiosíssima na ideia que a estruturou:


considera uma versão do brasão real português utilizado no século XV
e a cada uma das suas partes relevantes associa um poema relativo a
Portugal. O Brasão tem dois campos: o escudo central que é o campo
dos cinco escudetes azuis com besantes brancos a que chamamos
"quinas", e a bordadura periférica que é o campo dos castelos ( ver a
figura abaixo ). Cada um destes campos inspirou um poema adequado: "
O dos Castelos" refere-se à terra (ou mais genericamente à
materialidade) e consiste numa descrição geográfica da Europa e da
posição de Portugal nela; "O das Quinas" ( segundo a lenda as quinas
representariam as cinco chagas de Cristo) refere-se à divindade, ao
Deus Cristão cuja religião se entrelaça indissociavelmente com a
história de Portugal e ao sacrifício da felicidade à obrigação para com
a História (genericamente representa, assim, os valores espirituais).
Nenhum dos campos é explicitamente dedicado ao povo português:
Mensagem é um poema sobre elites (e, creio, também para elites).

Aos poemas relativos aos Campos, segue-se um conjunto de poemas


chamado "Os Castelos". A cada um dos sete castelos do brasão
associa-se um herói (incluindo o mítico Ulisses) ou um monarca que
pela sua acção tenha moldado a História de Portugal de uma maneira
materialmente relevante.

Segue-se, em "As Quinas", um conjunto de cinco poemas dedicados a


figuras portuguesas que, por uma razão ou por outra, foram vítimas da
engrenagem implacável da História, e dela sofreram as consequências
(tais como o Infante Santo ou D.Sebastião). Num caso realça-se o
triunfo da espiritualidade ("D.Fernando Infante de Portugal"), mas o
tema comum é a infelicidade terrena.
.

Uma parte individual, chamada "A Coroa",


distingue com um belo poema o cavaleiro
que combinou em si as qualidades de
comando do Rei Artur, a bravura de Sir
Lancelote e a piedade pura de Sir
Galahad: Nuno Àlvares Pereira.

Finalmente "O Timbre" (que no sécXV era


uma espécie de dragão conhecido na
Mitologia como grifo) justifica três poemas
referidos aos três alicerces da política de
expansão portuguesa: o Infante
D.Henrique que a iniciou, D.João II que
apontou a meta das Índias e traçou o futuro
de Portugal, e Afonso de Albuquerque que
foi o arquitecto e o braço do Império
Português do Oriente.
.
-2-

Cada uma das partes do Poema inclui uma divisa ou epígrafe em latim
e que em "Brasão" é: BELLUM SINE BELLO (literalmente "Guerra
sem a guerra") que eu, não sendo latinista, traduziria por "Guerra sem
combate". Este parece ser, pois, o mote que Fernando Pessoa
associaria a Portugal através da lição da sua história e, como tal,
merece-me um curto comentário, sobretudo porque, de certa maneira,
me recordou o Fado Tropical do Chico Buarque (e do Ruy Guerra) em
que ele diz pela boca de um português-brasileiro da época dos
holandeses: "Meu coração tem um sereno jeito e as minhas mãos o
golpe duro e presto, de tal maneira que depois de feito, desencontrado
eu mesmo me contesto. Se trago as mãos distantes do meu peito é que
há distância entre a intenção e o gesto...". BELLUM SINE BELLO é um
ideal português de paz a que hoje se convencionou chamar "brandos
costumes". "Guerra sem combate" é o poder associado à recusa
consciente da violência, recusa essa que enobrece o poder. A divisa
poderia igualmente ser "A Paz dos fortes" embora, claro, lhe faltasse
então a subtileza da epígrafe escolhida por Fernando Pessoa!

Uma outra explicação da epígrafe (que imaginei não porque me pareça


provável mas apenas para exemplificar as dúvidas que se deparam a
quem tenta interpretar alegorias alheias) poder-se-ia basear na
tradução alternativa "Guerra sem armas". Neste caso a divisa
representaria um ideal de conquista espiritual e humana (pela difusão
da cultura portuguesa e não apenas da religião) que foi no passado um
importante vector da expansão portuguesa e seria no futuro,
presumivelmente, a via para o Quinto Império. A cultura é, afinal, o único
remanescente da colonização que não é efémero...
.

Brasão inclui 19 poemas, muitos dos quais verdadeiramente


extraordinários. Todos valem a pena ler! Eis alguns dos meus favoritos,
com links directos para as respectivas páginas, bem como uma
selecção de grandes versos e frases escolhidas que ofereço à vossa
atenção:

"O dos Castelos" é um dos melhores poemas do conjunto. É nele que o


poeta diz que A Europa fita com olhar esfíngico e fatal o Ocidente- o rosto
com que fita é Portugal !

De "O das Quinas" (lembre-se que o nome refere O Campo das


Quinas no brasão português) pode não se gostar à primeira, mas
aconselho a leitura até se mudar de opinião. É nele que Pessoa
escreve: Os Deuses vendem quando dão: compra-se a glória com desgraça . e
também o verso maravilhoso: Foi com desgraça e com vileza que Deus ao
Cristo definiu: assim o opôs à natureza, e Filho o ungiu .

Em "Ulisses" escreve Pessoa uma frase famosa: O mito é o nada que é


tudo.

"D.Tareja" tem uma singular beleza. É neste poema que se encontra o


verso: As nações todas são mistérios, cada uma é todo o mundo a sós. Ó mãe
de reis e avó de impérios, vela por nós !

"D.Dinis" é uma sucessão de grandes versos (tantos que para os citar


necessitaria uma transcrição integral do poema!) sugerindo imagens
dos pinhais plantados pelo rei-lavrador e da sua contrapartida futura nas
caravelas da Descoberta.

Em "D.João, O Primeiro" diz Pessoa: O homem e a Hora são um só quando


Deus faz e a História é feita.

"D.Fernando,Infante de Portugal" (também conhecido como "Gládio")


é, para mim, o melhor poema de Brasão e um dos melhores de
Mensagem. IMPERDÍVEL!!

Finalmente em "O Infante D.Henrique" Pessoa precisa apenas de cinco


versos para demonstrar, quase com desdém, a sua extraordinária
craveira.
.
-1-

Mensagem
por Fernando Pessoa
.

.
- Introdução a MAR PORTUGUÊS
.

A segunda parte de Mensagem tem como epígrafe "POSSESSIO


MARIS" (Posse do Mar- escrita em maiúsculas porque o latim não tinha
minúsculas) e o seu tema é, não tanto a hegemonia marítima como
essa divisa poderia fazer supôr (e muito menos o império baseado
nessa hegemonia), mas antes o desvendar do mar ignoto pelo Portugal
dos séculos XV e XVI que representa a vitória do querer e da ousadia
sobre a ignorância. O medo do desconhecido, uma fabricação do
espírito que não tem, realmente, causa palpável, é vencido pela vontade
de desvendar a Verdade. Essa vontade, inicialmente um sonho,
materializa-se na Descoberta- este é, aliás, o tema do segundo poema
do Ciclo: "Horizonte". Fernando Pessoa privilegiava os triunfos do
espírito sobre os ganhos materiais e, conscientemente ou não, faz
poucas referências ao império físico e nenhuma às riquezas materiais
dele derivadas.

Mas então, perguntar-se-á: porque não ter feito de "Horizonte" o


primeiro poema de "Mar Português"? É que esta parte de Mensagem é
também sobre os homens que levaram a cabo a Grande Obra e o
primeiro poema é dedicado àquele que esteve na origem do desvendar
dos mares, o Infante D.Henrique. Mas esta dedicação está sobretudo
no título ("O Infante") porque o texto é de índole geral e poderia também
aplicar-se ao esforço da Raça na época das grandes viagens de
descobrimento, ao contrário do poema "O Infante D.Henrique" de
Brasão que se refere inequivocamente a um só homem.

Os poemas de "Mar Português" seguem uma ordem aproximadamente


cronológica referindo (directa ou indirectamente) o Infante, Diogo Cão,
D.JoãoII, ... até ao antepenúltimo poema, que dá o nome ao conjunto,
"Mar Português" (geralmente considerado o melhor de Mensagem) que
olha em retrospectiva a época das Descobertas e pergunta "Valeu a
pena?" oferecendo, como resposta, duas das frase mais célebres de
toda a literatura portuguesa; "tudo vale a pena se a alma não é
pequena" e "quem quer passar além do Bojador tem que passar além
da dor".

No penúltimo poema do ciclo (A última nau) a época de ouro é


encerrada com o desaparecimento de D.Sebastião que, qual Rei Artur
depois da batalha de Camlan, embarca para uma ilha desconhecida, e
o poeta transporta-nos subitamente à actualidade em que escreve,
interrompendo a narrativa para confiar ao leitor o seu pensamento. Mas
a visão de Pessoa atira-nos imediatamente para o futuro, um futuro em
que O Desejado regressa para retomar o sonho interrompido de um
império universal. A intimidade entre poeta e leitor transforma-se no
derradeiro poema do ciclo (Prece) em súplica a Deus a quem pede que
reacenda a Alma Lusitana para que de novo "conquistemos a
Distância".
.
-2-

O ciclo poético de "Mar Português" é anterior a "Mensagem", tendo


sido publicado pela primeira vez em 1922, e manteve a generalidade
do conteúdo com apenas a substituição de um poema e alterações aos
títulos de outros e a alguns versos. Compreende 12 poemas, incluindo
quatro dos cinco através dos quais a poesia de Fernando Pessoa é
realmente conhecida da generalidade dos portugueses: "O Infante",
"Padrão", "O Mostrengo" e "Mar Português" (o quinto é "O menino da
sua mãe" que não faz parte de "Mensagem"). Vale a pena notar que em
todos estes o Poeta utiliza uma linguagem sumamente simples, sem
recurso a termos estritamente eruditos. Eis alguns dos meus favoritos
desta Parte, com links directos para as respectivas páginas, bem como
uma selecção de grandes versos e frases escolhidas que ofereço à
vossa atenção:

"O Infante" inclui o famosíssimo início Deus quer, o homem sonha, a obra
nasce bem como Cumpriu-se o Mar e, em sequência, Falta cumprir-se
Portugal !

"Horizonte" inclui uma sequência de quatro versos cuja sonoridade e


imagem que invocam muito me agradam:
Desvendadas a noite e a cerração,
As tormentas passadas e o mistério,
Abria em flor o Longe, e o Sul sidério
'Splendia sobre as naus da iniciação.

"Padrão" inclui as frases O esforço é grande e o homem é pequeno , e o mar


com fim será grego ou romano; o mar sem fim é português .

"O Mostrengo" é conhecido, não por grandes frases mas pelo ritmo e
pela imagem de um timoneiro que combate o pavor de sulcar os mares
do fim do mundo com a lembrança múrmura das ordens que lho
impõem até que, na última estrofe, vence o terror e se alevanta para
gritar ao Medo o desafio de um povo condensado na vontade do seu
Rei.

"Ascensão de Vasco da Gama " é notável pela descrição poética do


indescritível.

"Mar Português" é O poema de "Mensagem" e é praticamente uma


sucessão de grandes frases: Ó mar salgado, quanto do teu sal são lágrimas
de Portugal! ; Quantas noivas ficaram por casar para que fosses nosso, ó mar! ;
Tudo vale a pena se a alma não é pequena. ; Quem quer passar além do Bojador
tem que passar além da dor. ; e Deus ao mar o perigo e o abismo deu, mas nele
é que espelhou o céu .

"A última nau" é o primeiro poema de "Mensagem" que se pode


designar de místicamente complexo, indiciando um sentido oculto que
será precisado na Terceira Parte do Poema. Tem excepcional beleza
mas há que lê-lo e relê-lo até começar a saboreá-lo. De notar que este
poema constitui o verdadeiro fulcro de Mensagem, concluindo a parte
que diz respeito ao Passado, transportando o leitor ao presente e logo
à visão do poeta para o futuro de Portugal... e tudo em quatro estrofes!

"Prece" é mais um poema de grande beleza que inclui os versos:


e Outra vez
Restam-nos hoje, no silêncio hostil, o mar universal e a saudade
conquistemos a Distância- do mar ou outra, mas que seja nossa!
.
-1-

Mensagem
por Fernando Pessoa
.

.
- Introdução a O ENCOBERTO
.
-2-

A terceira parte de Mensagem tem como epígrafe "PAX IN EXCELSIS" (Paz


nas Alturas) e o seu tema é o Quinto Império e O Desejado que há-de vir para
torná-lo realidade. Tem três partes das quais a primeira ("Os Símbolos") trata
da simbologia do tema: D.Sebastião, o rei que morreu na terra mas nasceu
para o mito com a promessa (que outros firmaram por si) de voltar para
conduzir a Nação à glória, O quinto Império, O Desejado (aquele cuja vinda
se aguarda com fervor), As Ilhas Afortunadas (o local fora do Espaço onde os
mitos esperam para se concretizar); e O Encoberto (aquele que talvez já
esteja entre nós mas ainda não se deu a conhecer).

A segunda parte de "O Encoberto", chamada "Os Avisos" é a de


interpretação mais imediata, tratando daqueles que anunciam a vinda do
messias português: O Bandarra (o único com o dom da profecia), o Padre
António Vieira, e o próprio Fernando Pessoa que se refere a si próprio num
poema sem nome que começa Escrevo o meu livro à beira mágoa.

Finalmente a terceira parte "Os Tempos" é uma sucessão arbitrária (em


parte cronológica e em parte sociológica) de cinco ocasiões simbólicas
representando épocas ou Tempos (em linguagem bíblica) antes do advento
do Encoberto e do consequente estabelecimento do Quinto Império (que
seria "O dia claro", como é chamado no poema homónimo). O primeiro
poema desta Parte não tem qualquer relação com o tema e passa-se, até,
cronologicamente antes da questão sequer se pôr. Presumivelmente
justifica-se, assim, o nome "Noite". O segundo, "Tormenta", refere a agitação
íntima de Portugal que, segundo o poeta, aspira ser a nação do Quinto
Império. Deus envia um sinal orientador cuja identidade não é revelada.
Talvez se refira ao Bandarra, cujas profecias (posteriormente muito aditadas)
estão na origem próxima do mito. No entanto, como usa o improvável termo
"hausto", talvez se refira a um ser vivo que, então, não poderia ser outro
senão o próprio Fernando Pessoa. Seria ele o fulgor passageiro, arauto dos
desígnios de Deus.

"Calma" é o poema mais desinteressante desta Parte, espécie de aparte ou


tempo de espera (que talvez justifique o nome) para uma divagação sobre as
impossibilidades possíveis. É, mais do que os outos poemas do conjunto, o
tempo do sonho e da divagação. "Antemanhã" representa a proximidade do
início da caminhada: o Mostrengo de Mar Português volta para simbolizar o
medo que inspira uma outra nova via desconhecida que há a percorrer- via
que, supostamente, será espiritual e portanto absolutamente revolucionária
para um mundo habituado ao materialismo. Portugal não tem medo (o
mostrengo é agora seu servo), no entanto ainda não se lançou nessa via
("está dormindo") mas Pessoa pressente que o tempo está próximo, de onde
o nome do poema. Finalmente "Nevoeiro" corresponde ao tempo actual para
o poeta, no momento de escrever. Aliás este poema e os três anteriores não
parecem representar uma sequência cronológica, mas sobretudo fenónemos
psicológicos, sociais e políticos vistos pelos olhos de Pessoa, que podem
coexistir no tempo. "Nevoeiro" permite-lhe encerrar Mensagem com uma
chave de ouro, indo repescar o mito sebastianista de que o Rei voltará numa
manhã de nevoeiro e mostrando que, simbolicamente, nevoeiro é a situação
que então se vive em Portugal (e por maioria de razão hoje!) de onde o grito
final "É a Hora!".

Mas mais do que a tentativa de interpretação simbólica que muitos outros


certamente já tentaram com mais bases do que eu, prefiro a originalidade de
apontar que "Noite" não está datado pelo poeta e é, provavelmente, um
poema já antigo (todos os de 1933-34 parecem ter sido datados) sobre a
saga da família Corte-Real; "Calma" versa o tema das Ilhas Afortunadas e foi
escrito cinco semanas antes do poema com esse nome que foi incluido na
parte atrás referida sobre símbolos. "Calma" deve, então, ter sido a primeira
versão de "Ilhas Afortunadas" sendo preterido quando o poeta, às voltas com
o tema, arquitectou um outro poema que lhe agradou mais. "Nevoeiro" era,
também, um poema já antigo, datando de 1928. De maneira que esta parte
foi montada com dois poemas antigos, um reaproveitado e dois que podem,
ou não, ter sido feitos expressamente para a finalidade que cumprem.

Não me parece que valha a pena procurar uma simbologia mais intricada no
conteúdo dos poemas do que algo do estilo da minha interpretação anterior
(quando muito, haveria que procurá-la na sucessão de "Tempos" escolhida, a
que não falta beleza: Noite, Tormenta, Calma, Antemanhã, e Nevoeiro). Se
tiver que encerrar esta introdução com um reparo conclusivo, direi que esta
Terceira Parte de "O Encoberto" resultou de uma montagem por um poeta
com falta de tempo e de páginas. Os poemas individualmente são bons mas
no seu conjunto não constituem um corpo perfeitamente articulado (na minha
opinião, claro!).

Quanto ao simbolismo rosicruciano e, em particular, o que ocorre no poema


"O Encoberto", os interessados poderão ler a minha Nota final em que o
explico nas próprias palavras do poeta.
.
-3-

O ciclo poético de "O Encoberto" compreende, então, 13 poemas. Eis alguns


dos meus favoritos desta Parte, com links directos para as respectivas
páginas, bem como uma selecção de grandes versos e frases escolhidas
que ofereço à vossa atenção:

"D.Sebastião" é um poema curto mas interessante que inclui a frase Caí na


hora adversa que Deus concede aos seus .

"O Quinto Império" começa com a frase (surpreendente para quem não
conhece a filosofia pessoana) Triste de quem é feliz! que depois passa a
explicar...

"O Desejado" é um dos melhores poemas desta parte, repleto de


referências sonhadoras ao Ciclo dos Cavaleiros da Távola Redonda.

"António Vieira" é o poema que eu prefiro desta Terceira Parte de


"Mensagem". Dá ao Padre Vieira o epíteto " Imperador da Língua Portuguesa " e
inclui os belos versos No céu amplo de desejo, a madrugada irreal do Quinto
Império doira as margens do Tejo .

O "O Terceiro Aviso" é um belo poema de Fernando Pessoa sobre si


próprio que se inicia com a frase Escrevo meu livro à beira-mágoa ...

"Tormenta" vale pela magnífica segunda estrofe.

Finalmente "Nevoeiro" conclui o Poema com a frase (escrita em 1928 mas


infelizmente sempre actual) Ó Portugal, hoje és nevoeiro...É a hora!
.

Breve nota sobre simbolismo rosicruciano- Além de Pessoa ter


epigrafado cada parte de "Mensagem", também a totalidade do Poema tem
uma divisa em latim, que é "BENEDICTUS DOMINUS DEUS NOSTER QUI
DEDIT NOBIS SIGNUM". Ele próprio nos dá uma versão portuguesa (que não
é uma tradução literal) num dos ensaios iniciáticos (1) que deixou
incompletos: Bendito seja Deus Nosso Senhor, que nos deu o Verbo .

Quanto ao significado da Cruz e da Rosa, escreveu Fernando Pessoa (2):

A dupla essência, masculina e feminina, de Deus- a Cruz. O mundo gerado, a Rosa,


crucificada em Deus . E mais adiante: Todo homem, que tenha que talhar para si um
caminho para o Alto, encontrará obstáculos incompreensíveis e constantes . (...) E o
triunfo consiste na força para [... saber submeter as vontades do amor e da
terra] à vontade do espírito do Mundo. Este processo de vitória, figuram-o os
emblemadores no símbolo da crucificação da Rosa- ou seja no sacrifício da emoção
do mundo (a Rosa, que é o círculo em flor) nas linhas cruzadas da vontade
fundamental e da emoção fundamental, que formam o substracto do Mundo, não
como Realidade (que isso é o círculo) mas como produto do Espírito (que isso é a
cruz).

1- Fernando Pessoa "Para a Obra Intitulada Átrio ", in A Procura da Verdade


Oculta-Textos filosóficos e esotéricos (de Fernando Pessoa), apresentados
e anotados por António Quadros, Livros de Bolso Europa-América nº471

2- Idem "Sobre a Filosofia Rosa-Cruz" .

PS. Para os interessados na fascinante obra em prosa de Fernando Pessoa


recomendo esta excelente colecção (pela relação qualidade/preço) da
Europa-América anotada por António Quadros. Sobre o tema em apreço, ler
também o nº 435 e, principalmente, o nº 472 da mesma colecção.
.
-1-

Mensagem
por Fernando Pessoa
.

.
- Introdução geral a Mensagem
.

Mensagem é um Poema constituído por 44 poemas independentes que


foram inseridos numa espécie de esqueleto que deu coerência ao
conjunto. Este esqueleto está dividido em três partes ( Brasão , Mar
Português e O Encoberto que tratei individualmente em textos
introdutórios) e a coerência é dada, não pelos poemas propriamente
ditos, mas antes pelos seus nomes e pelos títulos e subtítulos das
partes em que se inserem. Esta é uma solução deveras inovadora!!
Para evitar confusões, quando falar do Poema (com maiúscula) estarei
a referir Mensagem; se falar de poema (com minúscula) referir-me-ei a
qualquer dos 44 poemas que constituem o Poema.
.
Mensagem foi publicada em livro no dia 1 de Dezembro de 1934, em
vida de Fernando Pessoa, mas em condições muito particulares que
influenciaram a sua composição: destinava-se a participar num
concurso com regras rígidas em relação ao prazo e número de páginas.
Das três partes do Poema a segunda "Mar Português" já existia como
um conjunto e é evidente a sua homogeneidade e a constância da
qualidade da generalidade dos poemas; as duas restantes foram
fabricadas a partir de poemas soltos. Destes, pelo menos quatro dos
dezanove poemas da primeira parte ( Brasão) foram escritos no próprio
ano da publicação (as datas dos poemas, quando conhecidas, estão
indicadas no índice) enquanto que pelo menos sete dos treze da
terceira parte ( O Encoberto ) foram escritos em 1933 ou 1934. Talvez
por ter sido mais apressadamente preparada, esta é a "menos boa"
(todas são boas!!) do conjunto. Segundo as regras do concurso o livro
teria que ter pelo menos cem páginas que foram conseguidas com
muita dificuldade à custa dos 44 poemas e das páginas interpostas
entre eles (artifício que, aliás, o júri não aceitou). Daqui resultaram
enxertos de poemas soltos, anteriores, num conjunto para o qual não
teriam sido pensados (pelo menos na posição que vieram a ocupar),
duplicações e acrescentos. Quer isto dizer que Fernando Pessoa teve
que construir de forma relativamente rápida um Poema que,
provavelmente, teria sido diferente se as circunstâncias o não tivessem
pressionado.
.
-2-

Os Lusíadas foi escrito ainda no apogeu da expansão portuguesa (na


sua fase final, que hoje sabemos ser já irremediavelmente decadente
mas que, na época, não seria necessariamente apercebido como tal)
glorificando o esforço da Raça e apontando para uma ainda maior
predominância futura. Quando a si próprio se pôs como desafio
produzir um Poema de grandeza semelhante (se possível superior),
Pessoa vivia num Portugal descolorido e atrasado, sem nada que o
recomendasse excepto a criatividade dos seus literatos. Há duas
caracteristicas de Fernando Pessoa que importa notar: por um lado
amava apaixonadamente a Pátria, de uma maneira que hoje, na Europa
onde as nacionalidades se diluem, nos é difícil compreender; por outro
era um lógico obsessivo cujas tentativas "científicas" de racionalizar o
irracionalizável impressionam e, às vezes, divertem pela candura que
demonstram.

Posto perante a inelutável equação do seu tempo, parece ter


racionalizado a situação da seguinte maneira: o Universo teve uma
causa que o contém, um Criador a que podemos convenientemente
chamar "Deus"; se Deus contém em si o Universo então também
contém toda a História, que deve ter determinado desde o início (a esta
determinação chama-se "Destino"); alguns homens conseguem por
vezes entrever o futuro porque ele já está estabelecido; um destes
homens foi o Bandarra que profetizou nas suas "Trovas" (pensava o
Padre António Vieira e com ele Fernando Pessoa, embora
reconhecendo-lhes uma autoria múltipla) a hegemonia portuguesa numa
época futura; o único trunfo de que Portugal dispunha era a cultura duma
elite e, particularmente, um génio poético desproporcionado à sua
população; logo a hegemonia terá uma base cultural e será alcançada
através de uma poesia tão superior que inspire os homens à fruição da
beleza em paz e concórdia...

Este será o Quinto Império, uma época de união e paz universais sem
limite final no tempo. Se Portugal está predestinado, então terá que
produzir um grande poeta (a que Pessoa chamava super-Camões
referindo-se, presumivelmente, a si próprio) e um grande lider que
inspirem e conduzam todo o Mundo à união cultural que marcará o
advento do Quinto Império. Esse lider é convenientemente chamado de
"O Desejado", "O Encoberto" ou "D.Sebastião", uma designação que
Pessoa valorizava por pensar ser mais fácil passar a ideia de um mito
já estabelecido do que criar um inteiramente novo. Na prática é uma
esperança semelhante à do Grand Roi da mitologia francesa, que seria
o Carlos Magno do futuro.

A insistência de Fernando Pessoa na figura de D.Sebastião não


significa realmente que esperasse ver o espírito do rei morto reencarnar
para conduzir o País à glória. Até porque a história nos ensina (e
Pessoa sabê-lo-ia melhor do que eu) que D.Sebastião tinha muito
pouco que o recomendasse. Só me ocorre uma coisa: soube morrer
bem! Quando o nome do rei morto em Alcácer Quibir ocorre nos
poemas, ou se trata de uma passagem histórica e, portanto, literal, ou
então deve subentender-se que Pessoa se refere Àquele que há-de
guiar Portugal e o Mundo ao Quinto Império.
.

Pode-se ver na visão de Mensagem uma estranha beleza, bem como


uma inegável grandiosidade. Mas não pode ser ocultado que essa
visão é também decadente já que, ao dizer que o futuro nos está
traçado em grandeza, desincentiva o esforço que poderia levar a essa
meta. Não se trata do tradicional efeito de uma "self-fulfilling prophecy"
(que pode realmente ter ocorrido no caso das Trovas do Bandarra em
relação à Restauração) mas de um convite à inacção porque nos
bastaria esperar pelos Tempos e ter fé no Destino! Mas este meu
ensaio é sobre beleza e não sobre decadência, por isso passemos a
examinar as grandes linhas do Poema.
.
-3-

As duas primeiras partes de Mensagem percorrem a história de


Portugal através de personalidades (quer heróis, quer pessoas-chave
que, mesmo sem saber, tiveram consequência no futuro do País, quer
ainda e até alguns anti-heróis), mitos e sinopses históricas. A Primeira
Parte, chamada Brasão , propõe um extraordinário tour-de-force ao
percorrer os campos, peças e figuras de um brasão real do tipo do
utilizado por D.Joao II associando, a cada, um traço marcante ou uma
personalidade relevante da nossa história. A Segunda, chamada Mar
Português, aborda a Idade das Descobertas que foi a época
individualizante da história portuguesa. No penúltimo poema do ciclo (A
Última Nau) a época de ouro é encerrada com o desaparecimento de
D.Sebastião e o poeta como que desperta de um sonho transportando
subitamente o leitor à sua actualidade e confiando-lhe os seus
pensamentos. Mas esses pensamentos são uma janela para um futuro
em que O Desejado regressa para retomar o caminho interrompido
para o Império Universal. No último poema (Prece) Pessoa invoca a
intercessão de Deus para reacender a Alma Lusitana para que de novo
"conquiste a Distância".

A Terceira Parte de Mensagem, O Encoberto , é quase inesperada e


totalmente extraordinária: Fernando Pessoa retoma o tema só indiciado
em "A Última Nau" e precisa o que entende pela "Distância" que
haveremos de conquistar. Trata-se do advento do Quinto Império do
Mundo, um império de cultura, paz e harmonia entre os povos que será
liderado por um português- O Encoberto, O Desejado, o Rei ou
D.Sebastião, como é indistintamente chamado. Nesta Parte vai
intercruzar profecias, mitos antigos, símbolos de vária origem, e factos
históricos sempre orientado por três vectores básicos: Portugal que
dorme e que tem que despertar; o Quinto Império que há-de
seguramente ser estabelecido mas que depende desse despertar; e O
Desejado que realizará a visão do poeta.

Apesar de publicado numa época em que uma revisão ortográfica tinha


já imposto um padrão muito semelhante ao que ainda hoje utilizamos,
Fernando Pessoa optou por utilizar em Mensagem uma ortografia
arcaica. Por isso, essa ortografia é parte do Poema ( e, de facto,
está-lhe de tal maneira associada que choca ler "Mar Português" em
vez do clássico "Mar Portuguez") e nos textos que transcrevi optei pela
fidelidade à intenção do poeta, utilizando a ortografia em que ele quis
que Mensagem fosse lido.

Antes de passar à apresentação detalhada de cada parte de


Mensagem, deixo-vos com um pensamento: sugere a lógica e
comprova a história recente que uma agregação pacífica de estados
baseada no entendimento terá necessariamente que advir dentro de
alguns séculos, quando a tecnologia tal como a conhecemos já for
irrelevante, a menos que a Humanidade sofra um retrocesso. Os
grandes passos em frente são em geral fruto da influência de alguém
extraordinário, com uma visão revolucionária e a capacidade de a levar
à prática. Dentro de alguns séculos, quem sabe, talvez o encoberto se
descubra e seja mesmo português (ou portuguesa). Afinal, como diz
Pessoa, "Deus guarda o corpo e a forma do futuro"!
.