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VOL.

II

João Pessoa - PB
2017
ORGANIZADORES
Antônio da Silva Sobrinho Júnior
Evelyne Emanuelle Pereira Lima
Ana Maria Nascimento Henriques e Silva

VOL. II

João Pessoa - PB
2017
Copyright@ by Institutos Paraibanos de Educação

Capa
Alexandre Cavalcanti de Sousa

Diagramação
Raiff Pimentel Félix Almeida

Conselho Editorial
Ana Maria Nascimento Henriques e Silva
Antônio da Silva Sobrinho Júnior
Evelyne Emanuelle Pereira Lima
Valkisfran Lira de Brito
Viviane Brito dos Santos
Wilson Cartaxo Soares
Filipe Carvalho de Almeida

Revisão Final
Antônio da Silva Sobrinho Júnior
Ana Maria Nascimento Henriques e Silva

S677e Sobrinho Júnior, A. S.


Engenharia Civil- Temas, Técnicas e Aplicações - Volume II/
Antônio da Silva Sobrinho Júnior; Evelyne Emanuelle Pereira
Lima; Ana Maria Nascimento Henriques e Silva - João Pessoa, 2017.
545p

ISBN: 978-85-87868-34-3

1. Engenharia Civil, 2. Temas, Técnicas e Aplicações-Volume II. I.


Sobrinho Júnior, A. S. II. Lima, E. E. P. III. Henriques e Silva, A. M.
N. IV. Centro Universitário de João Pessoa. V. Título.

CDU 624
CDD 360
UNIPÊ/BC

Impresso no Brasil - 2017


SUMÁRIO
CAPÍTULO 1
CONCRETO PRODUZIDO A PARTIR DE AGREGADOS RECICLADOS DE ALVENARIA
........................................................................................................14
Amanda Carla Santos de Mendonça | Rayane de Sousa Pinho | Carlos Maviael de
Carvalho
CAPÍTULO 2
ARQUITETURA EMERGENCIAL: ABRIGOS EFÊMEROS COMO CONTRIBUIÇÃO
PARA PROBLEMAS CONTEMPORÂNEOS.................................................23
Ana Gomes Negrão | Antônio da Silva Sobrinho Júnior | Dimitri Costa Castor |
Lizia Agra Villarim | Pedro Ivo Gomes Negrão
CAPÍTULO 3
PLANEJAMENTO E CONTROLE DA PRODUÇÃO UTILIZANDO TÉCNICAS DA
LEAN CONSTRUCTION.........................................................................35
Maria Luiza Abath Escorel Borges | Henrique Sérgio Rêgo de Holanda Sá Sobrinho
| Julyana Kelly Tavares de Araújo
CAPÍTULO 4
COMPATIBILIZAÇÃO DE PROJETOS E SEUS AVANÇOS...........................47
João Viana de Oliveira Neto | Evelyne Emanuelle Pereira Lima | Antônio da Silva
Sobrinho Júnior
CAPÍTULO 5
DIAGNÓSTICO DOS ACIDENTES DE TRABALHO E NÃO CONFORMIDADES
EM OBRAS NA GRANDE JOÃO PESSOA – PB........................................62
Dimas José Antão da Silva | Antônio da Silva Sobrinho Júnior
CAPÍTULO 6
UTILIZAÇÃO DA CARTA SOLAR E TRANSFERIDOR DE ÂNGULOS DE
SOMBRA COMO ROTINA NA ELAORAÇÃO E ANÁLISE DE PROJETOS
ARQUITETÔNICOS.............................................................................91
Dimitri Cavalcante da Rocha Lima | Jaine Candido De Gois | Letícia Karoll
Felizardo da Costa
CAPÍTULO 7
ANÁLISE COMPARATIVA DOS TIPOS DE ESTACAS, FATORES DE ESCOLHA
E SUAS APLICAÇÕES .......................................................................105
Érika Suyani Maria de Freitas Alves | Matheus Varela Cavalcanti | Ulisses Targino
Bezerra | Antônio da Silva Sobrinho Júnior
CAPÍTULO 8
ESTUDO DAS PATOLOGIAS CAUSADAS POR RECALQUE DE FUNDAÇÕES
RASAS......................................................................................118
Bruno Monteiro Cunha | Bruno Luiz David Costa | Victor Amorim de Carvalho |
Ramon Silva Menezes | Wilson Cartaxo Soares
CAPÍTULO 9
MATERIAIS SUSTENTÁVEIS NA CONSTRUÇÃO CIVIL: UMA REVISÃO DE
LITERATURA....................................................................................134
Fabio Cavalcanti de Arruda Filho | Francisco Teotonio Bisneto Junior | Joalisson
de Oliveira Gonzaga | Antônio da Silva Sobrinho Júnior
CAPÍTULO 10
FACHADA VENTILADA: SISTEMA CONSTRUTIVO E SUAS CARACTERÍSTICAS
.......................................................................................................147
Diego de Oliveira Monteiro | Vitor Emanuel Granito Pontes
CAPÍTULO 11
O BAMBU NO ANTEPROJETO DE UM PAVILHÃO DE EXPOSIÇÕES..........153
Francisca Amanda Vieira Queiroga | Antônio da Silva Sobrinho Júnior
CAPÍTULO 12
A ATUAÇÃO DO ENGENHEIRO CIVIL NAS EQUIPES ELABORADORAS DOS
ESTUDOS DE IMPACTO AMBIENTAL.....................................................166
Henrique Elias Pessoa Gutierres | Jéssika de Oliveira Neles Rodrigues | Camilla
Jerssica da Silva Santos | Valdeniza Delmondes Pereira
CAPÍTULO 13
O RISCO GEOMORFOLÓGICO NA COMUNIDADE SATURNINO DE BRITO NA
CIDADE DE JOÃO PESSOA-PB............................................................180
Henrique Elias Pessoa Gutierres
CAPÍTULO 14
A UTILIZAÇÃO DE FIBRAS DE GARRAFA PET NO MELHORAMENTO DE
SOLOS PARA ATERROS DE RODOVIAS.................................................195
Isabelly Cícera Dias Vasconcelos | Virna Iayane Montenegro de Carvalho
CAPÍTULO 15
O EMPREGO DA VERMICULITA NA CONSTRUÇÃO CIVIL: UMA REVISÃO DA
LITERATURA...................................................................................205
Jailson Silva Alves | Rosane Kelen Rodrigues Delfino | Antônio da Silva Sobrinho
Júnior | Erika Aranha Fernandes Barbosa
CAPÍTULO 16
A ERGONOMIA NA PREVENÇÃO DE DORT EM UMA REPARTIÇÃO PÚBLICA
DO ESTADO DA PARAÍBA...................................................................218
Marcelo da Silva Ramos|Ana Raquel Carmo Lima|Wanda Cecília de Sousa Pereira
Rique | Antônio da Silva Sobrinho Júnior|Fabiola Samara Medeiros de Albuquerque
CAPÍTULO 17
ANÁLISE COMPARATIVA ENTRE ESTRUTURAS DE AÇO E CONCRETO ARMA-
DO: EXECUÇÃO, PROJETO E CUSTOS.................................................230
Lucas Lins Nóbrega | Antônio da Silva Sobrinho Júnior
CAPÍTULO 18
AVALIAÇÃO DA QUALIDADE DA ÁGUA DA BACIA DO RIO CUIÁ POR MEIO DO
PARÂMETRO MICROBIOLÓGICO NO PERÍODO 2005 A 2015....................247
Luciana Alves da Nóbrega | Marcos Pereira de Araújo | Kleysa Rodrigues da Silva|
Evelyne Emanuelle Pereira Lima
CAPÍTULO 19
AVALIAÇÃO DO PROCESSO PRODUTIVO DE UMA OLARIA EM ITAPORANGA-
PB..................................................................................................258
Manoel Mauri Bidô da Costa Neto | Carlos Maviael de Carvalho | Idisa Virginia
Abrantes|Maria Luar de Oliveira Carvalho|Lívia Maria de Medeiros Martins
CAPÍTULO 20
ANÁLISE DE DESASTRES EM ESTRUTURAS METÁLICAS E DE CONCRETO
ARMADO: UMA REVISÃO DA LITERATURA...........................................273
Matheus Varela Cavalcanti | Érika Suyani Maria de Freitas Alves|Antônio da Silva
Sobrinho Júnior | Ulisses Targino Bezerra
CAPÍTULO 21
REUTILIZAÇÃO DE ARGAMASSA ESTABILIZADA: ESTUDO DE CASO.......287
Carlos Maviael de Carvalho | Eloiza Ramalho Montenegro Soares | José Ferreira
Pereira Júnior | Lívia Maria de Medeiros Martins | Rafaela Benicio Mendes
CAPÍTULO 22
ANÁLISE DO PROCESSO DE DEGRADAÇÃO AMBIENTAL EM POMBAL – PB
UTILIZANDO SENSORIAMENTO REMOTO..............................................296
Lucivânia Rangel de Araújo Medeiros | Valéria Peixoto Borges
CAPÍTULO 23
PRÁTICAS DE RACIONALIZAÇÃO CONSTRUTIVA EM EDIFICAÇÕES VERTICAIS
DA GRANDE JOÃO PESSOA................................................................311
Mirela Oliveira Medeiros | Antônio da Silva Sobrinho Júnior
CAPÍTULO 24
CONSERVAÇÃO DE ÁGUA EM CENTROS DE ENSINO UNIVERSITÁRIOS: USO DE
TECNOLOGIAS ECONOMIZADORAS.....................................................322
Vânia Paiva Martins | Maria Jacy Cajú do Egito | Thaiane Rabelo Da Costa |
Gedeão Costa Floriano dos Santos | Julliana Caldas
CAPÍTULO 25
ESTRUTURAS MÓVEIS PARA REALIZAÇÃO DE EVENTOS.......................336
Valéria Vieira da Silva | José Ykaro Alves da Costa Macedo | Daniel Rodrigues
Barreto Junior|Edgar Granja Bezerra Neto|Maria Jacy Cajú do Egito
CAPÍTULO 26
PRÁTICAS SUSTENTÁVEIS EM EDIFICAÇÕES VERTICAIS DA GRANDE JOÃO
PESSOA..........................................................................................348
Julyana Kelly Tavares de Araújo |Antônio da Silva Sobrinho Júnior |Mirela Oliveira
Medeiros|Rochanna Alves Silva da Rocha|Renato Moura Rodrigues
CAPÍTULO 27
SISTEMA DE CAPTAÇÃO DE ÁGUA DE CHUVA: UM ESTUDO SOBRE A
VIABILIDADE DE IMPLANTAÇÃO EM UM CENTRO DE ENSINO NA CIDADE DE
JOÃO PESSOA-PB.............................................................................358
Vânia Paiva Martins|Maria Jacy Cajú do Egito | Thaiane Rabelo Da Costa |
Gedeão Costa Floriano dos Santos | Julliana Caldas
CAPÍTULO 28
CAPTAÇÃO DE ÁGUA DA CHUVA EM ÁREA RESIDENCIAL.....................368
Gabriela Tavares D’Albuquerque|João Fortunato Vieira Neto|Marina de Oliveira
Maia|Maria Jacy Caju do Egito
CAPÍTULO 29
OS DESAFIOS DA GESTÃO DAS UNIDADES DE CONSERVAÇÃO EM ÁREAS
URBANAS: O CASO DO PARQUE NATURAL MUNICIPAL DE CABEDELO - PB...
......................................................................................................375
Wendel Pereira de Lima|Henrique Elias Pessoa Gutierres
CAPÍTULO 30
OS COMITÊS DE BACIAS HIDROGRÁFICAS COMO INDUTORES DE OBRAS E
PROJETOS DE ENGENHARIA...............................................................389
Maria Adriana de Freitas Mágero Ribeiro | Mirella Leôncio Motta e Costa
CAPÍTULO 31
SELEÇÃO DE MATERIAIS CONSTRUTIVOS: MÉTODOS EXISTENTES E DESAFIOS
NO BRASIL.......................................................................................402
Rafael Eduardo López Guerrero|Carlos Alejandro Nome | Jakeline Silva dos Santos
CAPÍTULO 32
A CONTRIBUIÇÃO DA NBR 15575 PARA UMA ARQUITETURA SUSTENTÁ-
VEL................................................................................................417
Ricardo Nogueira Paiva | Jakeline Silva dos Santos | Ana Luzia Lima Rodrigues
Pita | Anny Karinny Lima Leal
CAPÍTULO 33
ANÁLISE DA APLICAÇÃO DA NR-18 EM CONSTRUÇÕES........................433
Rui Ramos de Oliveira | Ricardo Vasconcelos Gomes da Costa | Fernanda de Jesus
Barreto
CAPÍTULO 34
CARACTERIZAÇÃO MORFOMÉTRICA DA BACIA HIDROGRÁFICA DO RIO
MIRIRI.............................................................................................444
Sarah Veeck |Vanessa Negreiros de Medeiros Miranda|Lucivânia Rangel de Araújo
Medeiros
CAPÍTULO 35
O ESTUDO DE IMPACTO AMBIENTAL COMO SUBSÍDIO AO LICENCIAMENTO
AMBIENTAL DAS OBRAS DE ENGENHARIA: UM PANORAMA DA REALIDADE
DO ESTADO DA PARAÍBA....................................................................456
Valdeniza Delmondes Pereira | Henrique Elias Pessoa Gutierres
CAPÍTULO 36
PAREDES DRYWALL: UMA ABORDAGEM SOBRE INSTALAÇÕES
HIDRÁULICAS..................................................................................471
Victor Amorim de Carvalho|Laudelino de Araújo Pedrosa Filho|Ramon Silva
Menezes |Bruno Luiz David Costa|Bruno Monteiro Cunha
CAPÍTULO 37
DOMÍNIOS DE DEFORMAÇÃO NO CONCRETO ARMADO...........................478
Weslley Imperiano Gomes de Melo|Fernanda de Jesus Barreto|Rui Ramos de
Oliveira
CAPÍTULO 38
IMPLANTAÇÃO E CERTIFICAÇÃO DO SISTEMA DE GESTÃO DA QUALIDADE
EM CONSTRUTORAS DE JOÃO PESSOA/PB........................................489
Wesley Maciel de Souza|Evelyne Emanuelle Pereira Lima|Antônio da Silva
Sobrinho Júnior|Samara Kaline Soares Vieira|Andréa Carla Nascimento de
Oliveira Medeiros
CAPÍTULO 39
NÚCLEO CENTRAL DE INÉRCIA E SUAS APLICABILIDADES...................505
Wesley Maciel de Souza|Weslley Imperiano Gomes de Melo|Adriano Gonçalves
de Luna Freire|Flávia Angélica dos Santos Martiniano Pereira|Safyra Hadassa
Alves Gurgel
CAPÍTULO 40
EQUACIONAMENTO DAS TAXAS DE ARMADURA NA FLEXO – COMPRESSÃO
PARA A CONFIGURAÇÃO DE DUAS CAMADAS DE AÇO.........................517
Weslley Imperiano Gomes de Melo
CAPÍTULO 41
REFORÇO DE FUNDAÇÕES COM RADIER ESTAQUEADO: ESTUDO DE CASO NA
CIDADE DE JOÃO PESSOA.................................................................529
Wilson Cartaxo Soares|Wanessa Cartaxo Soares|Ana Clara Ramalho Alves|Jakeline
Emerenciana Souza | Thaissa Ingrid Vaz de Carvalho Paiva
CAPÍTULO 1

CONCRETO PRODUZIDO A PARTIR DE


AGREGADOS RECICLADOS DE ALVENARIA
Amanda Carla Santos de Mendonça¹, Rayane de Sousa Pinho²,
Carlos Maviael de Carvalho³.

RESUMO
A crescente preocupação com o meio ambiente, que é um dos temas
mais discutidos na sociedade atualmente, tem motivado cada vez
mais a busca de alternativas com a perspectiva de reduzir os impactos
ambientais. Dentro desse cenário, a reciclagem de resíduos que
compõem o concreto surge como uma possibilidade promissora, e a
partir disso, foi analisada a reutilização dos resíduos de construção
e demolição (RCD), como agregado para o concreto, de forma que
possibilitou comparar suas propriedades físicas e mecânicas com o
concreto convencional. Nesse mesmo contexto, foram verificados
também os comportamentos dos diferentes traços do concreto com
uma substituição específica de 7%, 10% e 15% do agregado natural
pelo agregado reciclado da cerâmica vermelha, e assim, observou-se
alterações na massa específica, absorção de água e índice de vazios,
bem como a resistência mecânica a compressão. O concreto estudado
apresentou resultados na ordem de 31 MPa aos 28 dias de idade e
o de 7% apresentou o resultado mais satisfatório, porém os que
possuíam porcentagens de 10% e 15% apresentaram diminuição nos
resultados da resistência à compressão e os teores de índice de vazios
aumentaram. Por outro lado, os resíduos podem ser utilizados em
aplicações de concretos leves, pois além do peso específico diminuir,
existe o fato do reaproveitamento dos resíduos que seriam descartados,
mas que sendo reciclados, garantem uma maior sustentabilidade e
proporcionam uma grande contribuição com a redução da poluição
ambiental.

Palavras-Chave: Concreto reciclado. Resíduos de construção e


demolição (RCD). Cerâmica vermelha. Agregados reciclados.

1 Graduanda do curso de Engenharia Civil do Unipê. E-mail: amaandamendonca@hotmail.com


2 Graduanda do curso de Engenharia Civil do Unipê. E-mail: raayanepinho@hotmail.com
3 Mestre em Engenharia de Materiais. Professor do Curso de Engenharia Civil do Unipê.
E-mail: maviael.mcarvalho@gmail.com

14 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


INTRODUÇÃO
A busca pela qualidade de vida para a geração atual sem comprometer
a futura é definida como sustentabilidade, que é um dos temas mais discutidos
nos últimos tempos, pois com o crescimento populacional, o avanço
tecnológico e a busca por inovações no mercado faz com que se utilizem
cada vez mais recursos naturais para fabricação de bens de consumo, o que
acaba nos servindo não só de alerta, mas nos fazem refletir na forma de
como nosso meio ambiente está sendo tratado.
Dentre os inúmeros desastres que estão ocorrendo, parte deles são
de responsabilidade da construção civil, visto que, é o setor responsável
por gerar cerca de 50% dos resíduos sólidos, sem contar com os impactos
ambientais irreparáveis causados por meio das suas atividades.
Hoje em dia, desfruta-se de muitas possibilidades que são de fácil acesso
e que estão dentro dos critérios de sustentabilidade, pois é possível criar ou
reciclar produtos ou serviços de maneira ecologicamente mais corretos, com
menos custos e que causem menos perdas.
Como forma de reduzir tantos danos causados no ambiente e destacando
a importância para reutilização de resíduos sólidos, um dos produtos que tem
um grande uso e chama atenção em virtude de suas flexibilidades a diversas
mudanças é o concreto reciclado.
O concreto reciclado é originado a partir do reaproveitamento de
materiais (entulhos) descartados diariamente nas construções e que não
apresentam mais funções para utilização. A importância de estudar os
agregados isoladamente, fundamenta-se no fato, que 75% do volume do
concreto é ocupado pelos agregados, não sendo surpresa o fato de sua
qualidade ser de considerável importância (LEVY, 2001).
Deste modo, para a fabricação feita neste trabalho, fez-se
necessário o recolhimento das sobras dos resíduos que são devidamente
direcionados aos processos relevantes, a fim de se obter um material
capaz de substituir um agregado graúdo no traço, ou seja, ocorrer a
substituição da brita por agregados provenientes de restos de alvenaria,
criando-se assim uma excelente alternativa, pois se comparado ao traço
tradicional, este tipo de concreto reciclado possui uma alta eficiência e
sua resistência não apresenta considerável diferença do convencional.

METODOLOGIA
Os procedimentos utilizados para a execução da pesquisa
experimental foram inicialmente divididos em diferentes etapas. A princípio,
foi feita a coleta, a preparação e a especificação do agregado graúdo reciclado
utilizado para a preparação do concreto. A amostra de resíduos de alvenaria
utilizada foi obtida em uma obra residencial da cidade de João Pessoa -
PB, onde foram recolhidas as sobras de blocos cerâmicos com presença de
argamassa, oriundos de cortes de paredes e a partir da quebra dos mesmos.
Desta forma, a amostra recolhida de 5kg foi levada ao moinho
e triturada de forma que a granulometria dos resíduos se aproximasse
com o diâmetro do agregado graúdo natural utilizado no concreto
convencional, cuja escolha foi a brita 0 com dimensão máxima característica
de 19 mm, pois é a granulometria comumente utilizada nas obras da região.

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 15


Feito isto, foi necessário fazer uso das peneiras de #16 e #19 mm com o
material moído, a fim de distinguir o que poderia ser classificado como
agregado graúdo (todo o material passante) e o que seria descartado por ser
considerado agregado miúdo.
Para o agregado miúdo natural, utilizou-se areia lavada
proveniente do laboratório do UNIPÊ. O material foi seco ao ar,
homogeneizado manualmente e, logo após, passado na peneira de malha
#4,8 mm, sendo retirada toda a fração superior a essa malha. Após a
caracterização dos materiais, realizou-se a dosagem experimental do
concreto convencional e do reciclado, e assim foram moldados os corpos
de prova cilíndricos, seguindo os parâmetros da NBR 5738:2011 com 10
cm de diâmetro e 20 cm de altura, com o uso da dosagem 1: 1,50:1,92:1,4,
utilizando o cimento Portland CP V. O procedimento se iniciou com a
execução do concreto convencional, e depois se repetiu por mais três
vezes, só que com as devidas substituições de 7%,10% e 15% empregadas
com o RCD que exerceram o papel do agregado graúdo natural.
Foram produzidos pelo menos 4 corpos de prova para cada
traço de concreto produzido e a cura foi realizada nas primeiras 24
horas ao ar, e após esse período, foram desmoldados e curados em
câmara úmida até o momento do seu rompimento para a verificação
da resistência do concreto aos 7,14 e 28 dias, quando então foi possível
fazer as devidas análises que estão apresentadas nos resultados.
Cabe ressaltar que todos os ensaios foram realizados no
Laboratório de Materiais do UNIPÊ – Centro Universitário de João Pessoa
e que todos os equipamentos foram disponibilizados também pela própria
universidade, mas os RCD’s necessários para o estudo foram fornecidos por
uma construtora da cidade.

RESULTADOS E DISCUSSÕES

ENSAIO GRANULOMÉTRICO DO MATERIAL GRAÚDO


Com o material cerâmico após o processo da moagem, foi executado
o ensaio de granulometria segundo a NBR 248 (ABNT,2003) – Agregados
– Determinação da composição granulométrica. A amostra de 5 kg foi
devidamente colocada na série de peneiras segundo a Tabela 1 e depois, foi
feita a pesagem do que ficou retido em cada uma delas, e assim, tornou-se
possível classificar o resíduo e fazer a seguinte relação, através da Equação (1):

pesoretido
x= * 100% (1)
pesoamostra
Onde:
Peso retido : Peso retido em cada peneira;
Peso amostra : Peso de 3,00kg da amostra.

16 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


Tabela 1 – Resultados dos ensaios de granulometria dos RCD

Peneiras (mm) Peso retido (g) % Retida %Retida Acumulada


25 242,17 8,07 8,07
19 760,68 25,37 33,44
16 1586,40 52,88 84,32
9,5 332,30 11,08 97,4
Fundo 78,45 2,61 100,0
Total do peso retido: 3,0 kg
Fonte: Os autores
Então, foi feita a soma da porcentagem acumulada (Ac), conforme
a NBR NM 248( ABNT, 2003) obtendo um valor de 323,23 e um módulo de
finura de 3,23. Após a análise em que a amostra empregada foi considerada
como agregado graúdo empregou-se referências da NBR NM 53 (ABNT,
2003) - Agregado Graúdo - Determinação de massa específica, massa
específica aparente e absorção de água.

ENSAIO DE MASSA ESPECÍFICA E ABSORÇÃO DE ÁGUA


Seguindo as especificações da NBR NM 53/2003 que trata sobre
o método para a determinação da massa específica e absorção de água dos
agregados graúdos, na condição saturada em superfície seca, sempre sendo
destinados ao uso de concreto, fez-se o seguinte ensaio com uma amostragem
total de 2,15 Kg de RCD e uma amostragem total de 2,05 Kg de brita, onde
foram dividas em três amostras, apresentadas como amostra 1, amostra 2 e
amostra 3, que posteriormente foram todas pesadas ainda em estado seco.
A tabela 2 mostra os pesos das amostras com os resíduos cerâmicos e com
as britas:

Tabela 2 – Pesos das amostras dos agregados secos


Agregados graúdos Amostra 1 (g) Amostra 2 (g) Amostra 3 (g)
Resíduos 583,66 532,43 1.034,18
cerâmicos
Britas 718,50 745,50 584,50
Fonte: Os autores
Com o peso dos resíduos cerâmicos e das britas ainda em estado seco,
tornou-se possível obter as massas específicas dos dois agregados, através da
Equação (2). E a partir disso, determinou-se os valores apresentados na Tabela 3.
ms
d= (2)
m sat − ma

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 17


Onde:
d = massa específica; ms = massa ao ar da amostra seca;
msat = massa ao ar saturada com superfície seca;
ma = massa em água da amostra.

Tabela 3 – Massa específica dos agregados secos


Agregados Amostra 1 Amostra 2 Amostra 3
graúdos (g/cm³) (g/cm³) (g/cm³)
Resíduos 1,430 1,232 1,305
cerâmicos
Britas 1,761 1,760 1,694
Fonte: Os autores

Os agregados em condição seca foram colocados em um recipiente


com água, onde ficaram submersos por 24 horas, e depois desse tempo,
foram feitas as devidas pesagens com os resultados contidos na tabela 4.
Tabela 4 – Pesos das amostras dos agregados na condição saturada
Agregados Amostra 1 (g) Amostra 2 (g) Amostra 3 (g)
graúdos
Resíduos 761,50 686,50 1381,50
cerâmicos
Britas 842,00 874,00 697,50
Fonte: Os autores

Consequentemente, foi possível descobrir as massas específicas na


condição saturada das três amostras de cada agregado, através da Equação
(3). Os dados encontrados são apresentados na Tabela 5.
m sat (3)
ds =
m sat − ma
Tabela 5 – Massa específica dos agregados na condição saturada
Agregados Amostra 1 (g/cm³) Amostra 2 (g/cm³) Amostra 3 (g/cm³)
graúdos
Resíduos 1,866 1,589 1,733
cerâmicos
Britas 2,064 2,069 2,052

Fonte: Os autores

18 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


ABSORÇÃO DE ÁGUA
A partir dos valores das massas específicas na condição saturada
e das massas específicas no estado seco dos resíduos cerâmicos e das britas,
foi possível encontrar a absorção d’água dos agregados estudados para cada
amostra na Tabela 6, através da Equação (4):

m sat − m s
A= * 100 (4)
Onde: ms
A = absorção d’água.

Tabela 6 – Absorção de água


Agregados Amostra 1 (%) Amostra 2 (%) Amostra 3 (%)
graúdos
Resíduos 11,56 11,49 12,01
cerâmicos
Britas 6,47 6,58 4,59
Fonte: Os autores

Com base nos resultados obtidos das massas especificas nas três
condições do ensaio, e as absorções de água encontradas, foi possível gerar
um gráfico com as médias de cada item analisado e assim, comparar as
diferenças entre os dois tipos de agregados.

Gráfico 1 - Média das massas específicas e absorção de


água dos agregados em estudo

Fonte: Os autores

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 19


Nota-se que os RCD’s apresentaram uma taxa de absorção bem
considerável em relação ao agregado brita, devido a utilização do material
bloco cerâmico para realização do ensaio, onde a porosidade dos agregados
de RCD’s influencia na massa específica, estando esta relacionada com a
absorção de água. Com isso a presença da cerâmica vermelha nos RCD’s
faz com que agregado tenha também uma maior taxa de porosidade que o
agregado brita. (ANGULO, 2005).

CARACTERIZAÇÃO DO TRAÇO PARA FABRICAÇÃO DO


CONCRETO INSERINDO RESÍDUOS DE ALVENARIA
Depois de definido o traço do concreto base de 1: 1,5: 1,92:
1,4 e considerando os ensaios granulométricos da amostra apresentados
acima, determinou-se o traço do concreto com a adição de resíduos sólidos,
denominado concreto reciclado. A relação água/cimento desse traço
aumentou proporcionalmente à medida que os teores de substituição tam-
bém aumentaram, pois com a alta absorção de água do agregado, é necessário
o acréscimo de mais água para não comprometer a trabalhabilidade.
No decorrer da rodagem do concreto com utilização do agregado
reciclado de blocos cerâmicos, não encontrou-se muitas dificuldade em alcançar
o resultado desejado no Slump Test, pois com o teste de granulometria,
identificamos boa parte dos ‘’finos’’ existentes na amostra a partir da moagem.

CONSISTÊNCIA DO CONCRETO ATRAVÉS DO SLUMP TEST



A consistência do concreto geralmente é determinada pelo
Slump Test – Ensaio de Abatimento do Tronco de Cone. O ensaio foi
feito pelo seguinte procedimento: Inicialmente se colocou o tronco de
cone de 30 cm de altura, sobre uma placa metálica nivelada, conhecido
como cone de Adams, sendo preenchido com três camadas individuais
compactadas através de uma haste de ponta arredondada com 25 golpes
cada camada, sempre atentando para que a 2º e 3º camada não ultrapassar
a 1º camada, como é de exigência do procedimento. Após preenchida as
três camadas, nivelou-se o que excedeu do concreto com a base do cone
para que em seguida pudesse ser retirado o tronco de cone. Colocou-se
a haste sobre o cone e com uma régua foi medido a quantidade abatida.
A seguir os resultados do Slump Test, referentes aos dois tipos de
concreto estudados, visto que o objetivo era atingir o mesmo abatimento
para ambos concretos.
Tabela 7 – Resultados do ensaio de Abatimento Tronco de cone
Abatimento (cm)
Concreto convencional 8
Concreto com 7% de agregado cerâmico 7,5
Concreto com 10% de agregado cerâmico 7
Concreto com 15 % de agregado cerâmico 8
Fonte: Os autores

20 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


DETERMINAÇÃO DO TESTE DE RESISTÊNCIA DOS CORPOS
DE PROVA
Para realizar o teste de resistência a compressão, seguiu-
se as normas de acordo com a NBR 5739/2007: Concreto – Ensaio de
compressão de corpos-de-prova cilíndricos no qual ocorre o processo de
rompimento de um corpo de prova por meio de uma prensa hidráulica.
Na tabela 8 abaixo, pode-se observar os resultados obtidos de cada amostra,
aos 7, 14 e 28 dias. A cada três amostras de um determinado traço, foi feito
a média das resistências.
Tabela 8- Resultados do Ensaio de resistência à compressão do concreto
Resistência a compressão em MPa
Corpos de Prova 7 dias 14 dias 28 dias
Concreto convencional 29,44 30,09 31,90
Concreto com 7% de agregado 24,39 27,99 32,60
cerâmico
Concreto com 10% de agregado 21,99 25,06 29,10
cerâmico
Concreto com 15 % de agregado 19,21 20,12 23,45
cerâmico
Fonte: Os autores

Fazendo a comparação das resistências de todos os concretos


produzidos, constatou-se que a resistência à compressão aos 28 dias do
concreto com 7% de agregado cerâmico foi maior que a resistência dos
demais concretos.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Baseado nos resultados foi possível verificar a viabilidade
técnica da substituição do agregado graúdo natural por resíduos de blocos
cerâmicos na fabricação de concreto, e foi visto que esse concreto reciclado
serve como uma boa alternativa para aplicações de concretos leves, como
contrapisos, contramarcos de janelas, envelopamento de tubulações, entre
outros elementos que não possuam função estrutural.
Tendo como base o valor de resistência à compressão em 32
MPa, percebeu-se que, na produção do concreto com substituição de 7%
do agregado natural pelo reciclado foi obtido o resultado mais satisfatório,
pois aos 28 dias a sua resistência à compressão foi superior ao concreto
convencional, além de apresentar um menor peso específico também.
Os resíduos cerâmicos apresentaram uma taxa de absorção de
água bastante elevada, havendo, portanto, a necessidade de compensar a
relação a/c à medida que houve o aumento dos teores de substituição do
agregado reciclado de RCD durante a confecção dos concretos para que a
trabalhabilidade dos mesmos não fosse comprometida.

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 21


Portanto, analisando-se os resultados alcançados, pode-se
concluir que o estudo vem contribuir para a melhoria da qualidade de vida,
através da redução da poluição e dos impactos ambientais causados muitas
vezes pela geração de entulhos nos grandes centros urbanos, além de abrir
espaço para a utilização de um material alternativo, preservando, deste
modo, as reservas naturais e contribuindo com a sustentabilidade.

REFERÊNCIAS
ARIAS, M. M.; PALMEIRA, E. M. Agregados Para a Construção Civil.
In: ISAIA, G. C. Materiais de construção civil e princípios de ciência e
engenharia de materiais. São Paulo: Ibracon, 2010.

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______. NBR 5739: Concreto: ensaio de compressão de corpos-de-prova


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______. NBR NM 53: Agregado graúdo – Determinação de massa específica,


massa específica aparente e absorção de água. Rio de Janeiro, 2003.

______. NBR NM 248: agregados: determinação da composição


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da Universidade de São Paulo. São Paulo, 2005.

BUTTLER, A. M. Concreto Com Agregado Graúdo Reciclado: influência


da idade de reciclagem nas propriedades dos agregados e concretos
reciclados. São Carlos, 2003. Dissertação (Mestrado em Engenharia Civil)
- Escola de Engenharia de São Carlos, Universidade de São Paulo. São
Carlos, 2003.

GEYER, André Luiz B. Importância do controle de qualidade do concreto


no estado fresco. Informativo técnico - Realmix, Ano 2, n.2, 2006.

LEVY, Salomon Mony. Contribuição ao estudo da durabilidade de


concretos, produzidos com resíduos de concreto e alvenaria. São Paulo:
USP, 2001. Tese (Doutorado) Engenharia Civil). Escola Politécnica da USP.
Universidade de São Paulo, 2001.

______. Reciclagem de entulho de construção civil para utilização


como agregado de argamassas e concreto. 145p. Dissertação (Mestrado)
– Escola Politécnica. Universidade de São Paulo. São Paulo, 1997.

22 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


CAPÍTULO 2

ARQUITETURA EMERGENCIAL: ABRIGOS


EFÊMEROS COMO CONTRIBUIÇÃO PARA
PROBLEMAS CONTEMPORÂNEOS
Ana Gomes Negrão1, Antônio da Silva Sobrinho Júnior2, Dimitri Costa Castor3,
Lizia Agra Villarim4, Pedro Ivo Gomes Negrão5.

RESUMO
Pode-se dizer que, atualmente, as catástrofes naturais, as perseguições
e guerras, passam a fomentar projetos de arquitetura emergencial,
enfatizando a contribuição social da arquitetura, urbanismo e
engenharias, em diversos países. No Brasil, as soluções adotadas como
arquitetura emergencial são inexistentes ou improvisadas, porém,
tem-se conhecimento de algumas soluções criadas internacionalmente.
Este artigo resulta da pesquisa, em andamento, que é realizada de
forma colaborativa entre Arquitetura e Urbanismo, e Engenharias,
cujo objetivo principal é estudar propostas de abrigos emergenciais
confeccionados com materiais alternativos de construção civil, nos
âmbitos nacional e internacional, e que possam gerar diretrizes
de projeto para abrigos emergenciais voltados para o território
brasileiro. Assim, é compreendido por uma breve revisão de literatura
sobre o tema abordado, e a etapa de sistematização dos referenciais
projetuais em fichas catalográficas, com a ilustração de três exemplos,
que apresentam diretrizes de projeto pertinentes a serem trabalhadas
no Brasil. Dessa forma, percebe-se a importância de pesquisas dessa
natureza que possam oferecer melhores soluções para propostas de
abrigos emergenciais voltados para o local supracitado.

Palavras-Chave: Concreto reciclado. Resíduos de construção e


demolição (RCD). Cerâmica vermelha. Agregados reciclados.

1 Doutoranda em Arquitetura e Urbanismo (UFRN). Professora do Curso de Arquitetura e Urbanismo do


Unipê. E-mail: agnegrao@hotmail.com
2 Engenheiro Civil e Doutor em Engenharia Mecânica. Professor do Curso de Engenharia Civil do Unipê.
Professor do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da UFPB. E-mail: sobrinhojr@hotmail.com
3 Doutorando em Arquitetura e Urbanismo (UFRN). E-mail: dimitricastor@hotmail.com
4 Mestre em Desenvolvimento Urbano (UFPE). Professora do Curso de Arquitetura e Urbanismo do
Unipê. E-mail: liziaagra@gmail.com
5 Mestre em Engenharia Mineral (UFPE). E-mail: pedronegrao@live.com

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 23


INTRODUÇÃO
Algumas pesquisas ressaltam que desde o início do monitoramento
climático, por volta de 1850, a primeira década do século XXI foi a mais
quente da história da humanidade. O aumento da temperatura global
impulsionou uma maior incidência de eventos climáticos extremos em todo
o mundo, ocasionando situações de desastres naturais e, consequentemente,
emergenciais (PROJETAR, 2016).
Outra questão que se relaciona com as situações emergenciais,
são as guerras e perseguições, que colocam o ser humano, e até países por
completo, em situações vulneráveis, como ocorre atualmente na Síria.
A demanda por arquitetura de emergência tem aumentado
consideravelmente no âmbito mundial devido à frequência, cada vez maior,
dos fenômenos mencionados anteriormente. Sendo assim, considerando a
moradia, o abrigo emergencial de caráter efêmero pode contribuir com esse
problema (BARBOSA, 2012).
Tendo em vista esses fatos, em 1984, a Organização das Nações
Unidas (ONU), apresentou um relatório contendo diretrizes para a prestação
de assistência nas situações de calamidade, intitulado “O abrigo depois do
desastre”, direcionando as ações de competência tanto para a arquitetura
e engenharia quanto para o governo, através dos órgãos assistenciais
correspondentes (RÊGO, 2013).
No contexto de um cenário urbano emergencial, devem ser
mencionados alguns problemas, tais como, ausência de moradia, destruições
de ecossistemas e infraestrutura urbana, fome e doenças diversas. Neste
sentido, pensar em como abrigar a população afetada passa a ser uma das
atribuições dos arquitetos e urbanistas, e engenheiros, contemporâneos.
Desta forma, é relevante afirmar que essa temática se relaciona
com os materiais construtivos que devem ser empregados para a confecção da
arquitetura emergencial, os quais devem ser de baixo custo, devido às perdas
financeiras resultantes dos desastres naturais ou das perseguições e guerras.
Observa-se, atualmente, a retomada do uso de materiais naturais
e confeccionados com matérias-primas provenientes de resíduos sólidos,
denominados de materiais alternativos ou não convencionais, enquadrando-
se em um contexto de racionalização na produção da construção, o qual se
deve considerar, a escolha das matérias-primas, o uso de fontes de energia, e
o processo de fabricação e transporte de produtos.
Dentro desse cenário, alguns casos podem ser exemplificados,
como a produção do arquiteto Shigeru Ban, que utiliza a celulose em grande
parte de seus projetos, a partir rolos de papel prensado. O arquiteto iniciou a
aplicação desse material em abrigos emergenciais e temporários, localizados
em áreas devastadas por tragédias, passando a utilizá-los em residências de
alto padrão construtivo.
Este artigo resulta de uma pesquisa acadêmica, em andamento,
que é realizada de forma colaborativa entre alunos e professores dos cursos
de Arquitetura e Urbanismo, e Engenharia Civil do Centro Universitário de
João Pessoa (UNIPÊ) e pesquisadores colaboradores externos à instituição,
cujo objetivo principal é estudar propostas de abrigos emergenciais e
efêmeros confeccionados com materiais alternativos de construção civil, nos
âmbitos nacional e internacional, e que possam gerar diretrizes de projeto

24 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


para abrigos emergenciais e efêmeros voltados para o território brasileiro.
A pesquisa possui cunhos teórico e propositivo, e tem como
procedimentos metodológicos principais: a) pesquisa bibliográfica e de
referenciais projetuais em bases de dados científicas e de instituições
não governamentais, e em sítios de internet especializados no tema; b)
sistematização dos projetos de referência em fichas catalográficas; c) análise
das propostas identificadas e a definição de diretrizes de projetos; e d)
simulações bi e tridimensionais utilizando programas computacionais – tipo
CAD – de propostas para abrigos emergenciais voltados para o território
brasileiro.
Como a pesquisa se encontra em andamento, este artigo
apresenta uma breve fundamentação teórica sobre o tema abordado, e a
etapa de sistematização dos referenciais projetuais em fichas catalográficas,
com a ilustração de três exemplos, que apresentam diretrizes de projeto
pertinentes a serem trabalhadas no Brasil.
Dessa forma, percebe-se a importância de pesquisas dessa
natureza que possam oferecer melhores soluções para propostas de abrigos
emergenciais voltados para o território brasileiro.

METODOLOGIA
A pesquisa teve início com um estudo bibliográfico sobre os
seus conceitos-chave princiais: arquitetura emergencial – enfatizando os
abrigos emergenciais e efêmeros – e materiais alternativos de construção
civil, descritos, de forma sintética, no item relacionado ao referencial teórico
deste artigo. Em seguida, foi iniciada a análise de referenciais projetuais,
em bases de dados científicas e de instituições não governamentais, e em
sítios de internet especializados, buscando projetos que contemplassem as
características pertinentes à temática trabalhada.
Como forma de organização para a coleta de dados, as equipes
foram divididas de acordo com os continentes. A sistematização dessa
etapa ocorreu com a catalogação em fichas que abordam os seguintes
dados referentes ao projeto analisado: título; local; ano; autores; situação –
proposta, protótipo ou construído; materiais; imagens; outras informações
relevantes – como as intenções de projeto e técnicas utilizadas. O modelo da
ficha está ilustrado na Fig. 1.

Figura 1 - Modelo de ficha para catalogação dos referenciais projetuais

PROJETO

*Título do projeto
Local: *Indicar local de destino do Ano: *Ano do projeto
projeto.
Autor(es): *Autor(es) e Coautor(es)o projeto.
Materiais: *Principais materiais utilizados no projeto.
Situação: *Indicar a situação do projeto (proposta, protótipo e construção).

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 25


Imagens: 00/00; Número da foto apresentada nesta ficha/número total de
fotos do projeto.

*Local destinado para inserção da imagem do projeto.


Outras informações relevantes: *Informar aspectos específicos do projeto que
sejam relevantes – e não estejam em outros campos desta ficha –, tais como,
intenções e diretrizes do projeto, técnicas utilizadas e premiações recebidas.
Fontes de Pesquisa: *Indicar as bases de dados onde foram coletadas as infor-
mações apresentadas nesta ficha.

Fonte: Os autores
Dessa forma, a partir do material já coletado e sistematizado na
pesquisa, assim como dos exemplos a seguir, pode-se afirmar que a maior
parcela de projetos referentes a abrigos emergenciais alertam para questões
importantes durante a sua concepção projetual, tais como:

a) o uso de materiais alternativos e/ou locais;


b) adaptabilidade e flexibilidade;
d) modulação e
e) facilidade de montagem e de tranporte.

Estas características podem ser utilizadas com diretrizes


projetuais para equipamentos desta natureza, quando direcionados para
o território brasileiro. Como forma de ilustrar esta etapa da pesquisa, são
aprensentadas as Figs. 2, 3 e 4, que ilustram três fichas preenchidas.

Figura 2 - Modelo de ficha preenchida com os dados do abrigo


emergencial Weaving a Home
PROJETO

Weaving a Home
Local: *Deve ser adaptável a vários locais Ano: 2013
Autor(es): Abeer Seikaly
Materiais: Material têxtil
Situação: Proposta
Imagens: 02/10

Abrigo emergencial Weaving a Home; www.abeerseikaly.com

26 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


Outras informações relevantes:

Confeccionado para sanar problemas relacionados aos refugiados de guerras e


perseguições políticas;

A imagem evidencia que o abrigo tende a ser adaptável e desmontável, carac-


terísticas importantes para o tema em questão;

Uso de materiais têxtil, preferência para fibras naturais.

Premiado no Lexus Design Award, em 2013.


Fonte(s) de Pesquisa: www.abeerseikaly.com

Fonte: Os autores

Figura 3 - Modelo de ficha preenchida com os dados do abrigo


emergencial para o Nepal – Shigeru Ban
PROJETO

Abrigo emergencial para o Nepal


Local: Nepal Ano: 2015
Autor(es): Shigeru Ban
Materiais: Estrutura modulada de madeira; Tijolos de borracha reciclada; Tu-
bos de papelão;
Situação: Protótipo
Imagens: 01/05

Vista externa do abrigo emergencial; www.archdaily.com.br

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 27


Outras informações relevantes:

Este imagem apresenta a vista externa da proposta realizada por Ban para o
abrigo emergencial. Deve ser evidenciado, neste projeto, o uso de materiais
alternativo de construção civil, como os tijolos elaborados com borracha re-
ciclada e tubos de papel prensando, também reciclado – técnica desenvolvida
pelo referido arquiteto;

Modulação;

Materiais locais.
Fonte(s) de Pesquisa: www.archdaily.com.br; www.shigerubanarchitects.com

Fonte: Os autores

Figura 4 - Modelo de ficha preenchida com os dados do abrigo


emergencial Just a Minute
PROJETO

Just a Minute
Local: Nepal, porém deve ser adaptável a vários locais. Ano: 2010
Autores: Barberio Colella ARC
Materiais: Chapa OSB; Laminado de bambu; Bambu; Membrana plástica a
prova d’água composta por fibra vegetal da região; Policarbonato.
Situação: Proposta
Imagens: 02/07

Estudo do abrigo emergencial; www.archdaily.com.br

Outras informações relevantes:

Abrigo confeccionado com materiais locais; desmontável, adaptável e flexível.


Fonte(s) de Pesquisa: www.archdaily.com.br

Fonte: Os autores

28 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
Este item destaca uma breve fundamentação teórica acerda
dos conceitos-chave deste artigo, arquitetura emergencial e materiais
alternativos de construção civil.

ARQUITETURA EMERGENCIAL
A arquitetura emergencial teve desenvolvimento crucial desde a
primeira grande guerra mundial para uso militar, que tinham como características
principais o uso de componentes fáceis de fabricar, intercambiáveis e modulados,
facilitando sua montagem em campo (ANDERS, 2007 apud RÊGO, 2013).
No Brasil, como já mencionado, as soluções adotadas como
arquitetura emergencial são inexistentes ou improvisadas. Porém, devem ser
destacadas algumas pesquisas, como a desenvolvida no Núcleo Habitat sem
Fronteiras (NOAH) da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade
de São Paulo, coordenada pela professora Lara Leite Barbosa, que objetiva
analisar projetos para situações de desastres.
Segundo Barbosa (2012) uma questão pertinente quanto à
arquitetura emergencial, refere-se à durabilidade dos abrigos propostos, que,
em geral, podem variar de três dias a três anos, devendo ser considerado, ainda,
se a intervenção direciona-se para um socorro de emergência ou uma fase
transitória – com uma permanência estendida.
Quanto a esta questão, Quarantelli (1982) afirma que um alojamento
de pessoas durante e depois de desastres pode ser classificado em quatro níveis,
descritos a seguir:

Nível 01. Abrigo de emergência: Pode ocorrer em qualquer


local, como, em baixo de uma escada e dentro de uma tenda –
promovendo proteção contra o vento, a chuva e as variações
normais de temperatura;

Nível 02. Abrigo efêmero – ou temporário: Inclui lugares para


dormir, cozinhar e tomar banho – Em certos casos são alojamentos
comunitários, em ginásios, galpões, igrejas, ou escolas;

Nível 03. Habitação temporária: Nesta fase os sobreviventes


estão alojados nos seus agrupamentos familiares de preferência,
podendo restabelecer suas rotinas diárias normais, mas num local
temporário;

Nível 04. Habitação transitória ou permanente: É o alojamento


que toma o lugar do que foi destruído, no qual a família se encontra
quando o processo de recuperação fica concluído – projeto pode
começar com uma unidade básica, que pode expandir ao longo do
tempo, de acordo com os recursos disponíveis.

Existem algumas características da arquitetura emergencial que


podem influenciar diretamente na forma como ela é concebida, necessitando
preencher alguns critérios, que são:

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 29


a) rápido fornecimento;
b) baixo custo;
c) fácil exequibilidade e
d) adaptabilidade.

Outros critérios que devem ser observados são apontados


por Junqueira (2011) ao mencionar que algumas soluções adotadas
devem buscar resolver questões como a transportabilidade, facilidade na
montagem e desmontagem, resistência às intempéries e adequação ao clima
– destacando-se a importância de estruturas transportáveis.
A autora supracitada ainda afirma que a necessidade pela
arquitetura emergencial é evidenciada por três aspectos:

a) proteção de elementos externos;


b) preservação da dignidade e
c) orientação e identidade.

Os aspectos citados acima se relacionam diretamente com o uso


de materiais alternativos de construção, que, na maioria dos casos, possuem
baixo custo, e na qualidade de vernaculares, podem aproximar o indivíduo
que sofreu o desastre com o abrigo emergencial proposto, por possuir
identidade com o material utilizado.
Assim, devem-se avaliar as variações em diferentes culturas,
pois cada povo se utiliza do espaço de uma maneira muito própria, criando
elementos de identidade.

MATERIAIS ALTERNATIVOS DE CONSTRUÇÃO CIVIL


O crescimento da população urbana, e consequentemente das
cidades, relaciona-se diretamente com os impactos gerados ao meio ambiente
– e com as catástrofes ambientais, e perseguições e guerras –, uma vez que,
ao fenômeno de da expansão urbana, está relacionado o crescimento do
setor industrial.
Nesse contexto, Rocha (2008) aponta alguns responsáveis pelos
impactos ambientais, tais como, o intenso uso de materiais de construção,
mão de obra, água e energia, a disposição inadequada dos esgotos sanitários,
e principalmente, a destinação dos resíduos sólidos.
A proposta de reciclagem do resíduo sólido busca minimizar os
efeitos negativos que surgem com a sua produção – o descarte inadequado
no meio ambiente, o esgotamento das reservas de matérias-primas e dos
custos com o seu armazenamento e transporte –, e contribuir com soluções
de novas modalidades de moradias.
Sendo assim, a escolha do material alternativo deve ser
condicionada à localização da propriedade e dos recursos naturais
disponíveis. A terra crua, o solo cimento, a argamassa armada, o bambu, os
compósitos cimentícios e plásticos reforçados com fibras vegetais, as cinzas
e aglomerantes alternativos, os agregados leves e concretos alternativos,
etc., podem ser utilizados em substituição total ou parcial dos materiais
convencionais.

30 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


Os autores supracitados indicam a pertinência da utilização de
resíduos sólidos como fonte de matéria-prima para a produção de novos
materiais destinados à construção civil e rural, à fabricação de móveis,
às obras de infraestrutura rural e urbana, à fabricação de componentes
automobilísticos, à confecção de equipamentos para a criação de animais,
etc.. Este fato se enquadra em um contexto de racionalização na produção da
construção, o qual se deve considerar, a escolha das matérias-primas, o uso
de fontes de energia, e o processo de fabricação e transporte de produtos.
Outro ponto importante dessa temática é a tomada de decisões
analisando as condicionantes ambientais locais, desde a concepção projetual,
como sugerido por Holanda (1976), até a definição dos materiais que serão
utilizados, a exemplo de produtos confeccionados com matérias-primas
vernaculares, coletadas diretamente da natureza ou reutilizáveis.
Um documento intitulado “Teoria e práticas em construções
sustentáveis no Brasil” desenvolvido em 2010, pelos Governos Locais pela
Sustentabilidade (ICLEI), aponta a importância da racionalização dos processos
de construção por meio da redução de insumos e resíduos sólidos, da otimização
do deslocamento de produtos e pessoas, do consumo de recursos de fontes
renováveis devidamente manejadas e da inovação tecnológica.
Dentre esses exemplos, Negrão (2016) destaca a atuação
profissional de Diébédo Francis Kéré, que utiliza a terra crua como
condicionante projetual para solucionar principalmente demandas
habitacionais e de equipamentos públicos, como hospitais e escolas, no país
onde reside, Burkina Faso, África. O arquiteto defende o uso de materiais
locais, naturais e biodegradáveis.
A autora referenciada ainda cita o projeto realizado em Cuba, que
utiliza materiais alternativos para a construção de habitações de interesse
social. O documento produzido pelo ICLEI (2010) aponta que devido aos
furacões, diversos edifícios são afetados regularmente nesse país, e embora
muitos cubanos sejam proprietários de suas casas, a reforma e a manutenção
são dificultadas pela escassez de materiais, especialmente de cimento.
O documento destaca o Centro de Investigação de Estruturas
e Materiais (CIDEM), que realiza, desde 2003, pesquisas com materiais de
construção alternativos, onde foi descoberta uma matéria-prima para substituir
parcialmente o cimento, proporcionando um material de construção de baixo
custo, um agente aglutinante, denominado CP-40, produzido com as cinzas
liberadas durante incineração do bagaço de cana-de-açúcar.
As autoridades locais dão apoio e os bancos têm um sistema de
empréstimos para que os residentes reconstruam suas habitações, na maior
parte dos casos, em sistema de mutirão e autoconstrução. Este projeto foi
vencedor, no ano de 2007, do “World Habitat Awards”, concurso promovido
pelo “Building and Social Housing Foundation”.
Negrão (2016) aponta que a necessidade atual de um
desenvolvimento tecnológico com menor impacto ambiental, nas áreas de
arquitetura e engenharia, também se destaca a partir de pesquisas voltadas
à incorporação das fibras vegetais, que podem ser adicionadas a materiais
cerâmicos ou plásticos, produzindo compósitos com diversas finalidades, a
exemplos dos componentes arquitetônicos.
No Brasil, uma das pesquisas pioneiras relaciona-se com o
desenvolvimento de telhas compostas por fibra de coco e cimento Portland,

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 31


desenvolvida, no início de 1980, pelo Centro de Pesquisa e Desenvolvimento
(CEPED) , em Camaçari/Bahia, por meio do grupo de pesquisadores do
Programa de Tecnologias de Habitação (THABA). Segundo Cerchiaro (2010),
após a avalição das fibras disponíveis, os pesquisadores concentraram seus
trabalhos nas fibras de sisal e coco, com estudos sobre a influência do teor e
comprimento das fibras e dos processos de moldagem em matrizes cimentícias.
Em 1999, Agopyan e Savastano Jr. (2007) desenvolveram telhas
com polpa de celulose – Eucalyptus grandis – e cimento Portland, com base
nos estudos desenvolvidos na Inglaterra, durante a década de 1970.
Outra aplicabilidade dos materiais alternativos foi destacada pela
professora Lara Barbosa, da Universidade de São Paulo(USP) ao publicar,
no ano de 2012, uma pesquisa sobre a confecção de abrigos temporários
com caráter emergencial, evidenciando o potencial uso de matérias-primas
provenientes do reuso de resíduos sólidos para essa finalidade, como a
produção do arquiteto Shigeru Ban.
Quanto aos materiais alternativos produzidos em escala industrial,
devem ser mencionados os painéis e telhas feitos com polpa de celulose e o
cimento Portland tipo III (CPIII), produzido com resíduos de altos fornos de
metalúrgicas e siderúrgicas – escórias de alto forno – e amplamente utilizado
em obras de engenharia de grande porte, como as barragens.
Considerando esse contexto, Rêgo (2013) coloca que é na
transitoriedade que se encontra o principal elemento da relação entre
o abrigo efêmero para situações de emergência e as diversas culturas:
corresponder adequadamente ao meio ambiente, minimizando o impacto.
Dessa forma, a escolha correta do material empregado na sua confecção é
de enorme importância.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este artigo apresenta um breve recorte do conteúdo coletado
na pesquisa, sendo assim, deve-se apontar que foram identificadas várias
idéias, principalmente no âmbito internacional, de propostas e protótipos
de abrigos emergenciais e efêmeros.
Pode-se dizer que, atualmente, as catástrofes naturais, e as
perseguições e gueras, passam a fomentar projetos emergenciais, enfatizando
a contribuição social da arquitetura, urbanismo e engenharias. Dentro deste
contexto, é importante que equipamentos desta natureza sejam objetos
de estudo para esta categoria de profissionais, democratizando-os para
diversos países.
Portanto, após o conteúdo exposto, pode-se afirmar que o estudo
de propostas para abrigos emergenciais e efêmeros no âmbito internacional
podem e devem auxiliar na concepção de equipamentos desta natureza
voltados para o território brasileiro, uma vez que foram identificadas
tomadas de decisões que se repetem, e são pertinentes para a concepção
projetual destes equipamentos.
Quanto ao uso de materiais alternativos de construção civil, deve-
se ressaltar a abrangência do território brasileiro em recursos naturais, que
podem ser aproveitados para esta finalidade, como a terra crua, o bambu e
as fibras vegetais. Assim, pode-se apontar que pesquisas desta natureza são
pertinentes no Brasil.

32 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


REFERÊNCIAS
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34 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


CAPÍTULO 3

PLANEJAMENTO E CONTROLE DA
PRODUÇÃO UTILIZANDO TÉCNICAS DA
LEAN CONSTRUCTION
Maria Luiza Abath Escorel Borges1, Henrique Sérgio Rêgo de Holanda Sá
Sobrinho2, Julyana Kelly Tavares de Araújo3.

RESUMO
O modo com que uma construtora define o gerenciamento de uma obra
influencia diretamente na sua produção. Isso implica na maneira com
que uma empresa se firma diante de seus concorrentes, fornecedores
e clientes, como também, na sua posição perante os desperdícios e
como consequência, seus lucros. Com o acirramento da concorrência
e consumidores mais exigentes, o aumento do valor agregado aos
produtos e a redução dos custos, por meio de um sistema de produção
e de gerenciamento mais eficazes, tornam-se condições necessárias
para garantir respostas satisfatórias à empresa. A indústria da
construção civil tem adaptado técnicas gerenciais de setores
industriais para sua realidade, com o intuito de eliminar desperdícios
e aumentar a eficiência dos processos. É nesse cenário que surge a
Lean Construction, filosofia que visa melhorar o gerenciamento de
informações, materiais e pessoas na construção civil. Desenvolvida
por Koskela (1992), é uma adaptação do Sistema Toyota de Produção,
que tem o objetivo de eliminar os desperdícios e agregar valor através
da aplicação de onze princípios. É admitindo a importância econômica
e social desse setor que essa pesquisa foi desenvolvida, com o objetivo
de avaliar o grau de aplicação dos princípios da construção enxuta
nas empresas que funcionam na cidade de João Pessoa. Assim,
utilizando um questionário como ferramenta de coleta de dados, foi
possível identificar, em termos percentuais, o desempenho atual de
cada empresa estudada em relação à utilização da construção enxuta.

Palavras-Chave: Lean Construction. Planejamento. Produção.


Desperdício.

1 Engenheira Civil (UNIPÊ). E-mail: mluizabath@gmail.com


2 Engenheiro Civil e Especialista MBA Gestão Eficaz de Obras e Projetos. Professor do Curso de Enge-
nharia Civil do Unipê. E-mail: henrique.sobrinho@unipe.br
3 Estatística e Mestre em Engenharia de Produção. Professora do Curso de Engenharia Civil do Unipê.
E-mail: julyanaestaticista@gmail.com

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 35


INTRODUÇÃO
Nas últimas décadas, as empresas brasileiras vêm passando por
transformações na busca contínua pela competitividade. Isso se deve às
dificuldades geradas pela abertura da economia ao mercado estrangeiro,
quando Associação Brasileira de Normas Técnicas ( ABNT) adotou, em
1990, as normas da série ISO 9000, publicada pela International Organization
for Standardization (ISO), uma organização internacional cujo objetivo é
padronizar as normas industriais. No mesmo período, o país passava por
uma crise econômica, o que causou a queda do volume de financiamentos
públicos para o mercado habitacional, agravando a situação das empresas
do setor. Essa situação as estimulou ainda mais a entrar no movimento da
busca por competitividade (HEINECK, 2004).
Esse movimento se baseia na melhoria do trinômio: produtividade,
qualidade e flexibilidade. Tradicionalmente, o conceito de qualidade se
resumia à produção de produtos em conformidade com seus requisitos.
Esse conceito vem se ampliando e, modernamente, qualidade significa
o atendimento dos requisitos do produto e das necessidades individuais
dos clientes, com economia, produtividade, eliminação de desperdícios,
inclusão dos serviços agregados ao produto e maximização de seu valor
(bom desempenho por um preço aceitável). A má administração é apontada
por diversos autores como a principal causa dos problemas de qualidade.
Assim, diversas metodologias gerenciais são desenvolvidas, visando atingir
melhores níveis de desempenho por meio de investimentos em gestão e
tecnologia da produção (POLITO, 2015).
É nesse cenário que a Lean Construction adquire notoriedade. O
modelo de gestão utilizado por grande parte das construtoras é baseado
em processos de conversão, que transformam insumos em produtos
intermediários ou finais. Porém, essa definição de produção tem ignorado,
muitas vezes, algumas atividades que compõem os fluxos físicos entre as
atividades de conversão, como por exemplo, a movimentação de materiais,
de pessoas e de informações, inspeção, espera, etc. Essas atividades são
caracterizadas por não agregar valor ao produto. A filosofia Lean Construction
tem como objetivo principal estudar a relação entre atividades de conversão
e de fluxo, para reduzir ou até eliminar operações que não agreguem valor
para aquele processo e que resultem em perdas de tempo e produtividade
(REZENDE et al., 2012).
Diante disso, este estudo teve como objetivo fazer uma
revisão bibliográfica da utilização dos princípios e ferramentas da
Lean Construction como estratégia de planejamento e controle para a
otimização de obras da construção civil, além de realizar uma pesquisa de
campo para identificar e discutir o nível de conhecimento e de aplicação
desta filosofia de gestão em construtoras da cidade de João Pessoa.

FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

DESPERDÍCIO NA CONSTRUÇÃO CIVIL

36 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


A construção civil é caracterizada por ser um setor que possui
um alto índice de desperdício. Formoso et al. (1996), define perda como
sendo algo muito além do que o desperdício de materiais. É qualquer
ineficiência que ocorre no uso de equipamentos, materiais, mão de obra
e capital, que acarrete em maiores quantidades àquelas necessárias para
construção da edificação. Esse conceito vem ganhado espaço por meio
da Lean Construction, onde o desperdício está intimamente ligado à ideia
de agregar valor. Ou seja, perda é uma resposta quanto à execução de
atividades desnecessárias que geram custos adicionais que não agregam
valor. Portanto, é importante apontar as atividades que contribuem para
as perdas e eliminar aquelas que absorvem recursos, que não criam valor.
Shingo (1996) dividiu as perdas em sete categorias:

• Por superprodução: São aquelas que ocorrem por produção de um produto


em quantidades superiores às necessárias;
• Perdas por espera: Está relacionada com as atividades de fluxo de materiais
e trabalhadores, como por exemplo, parada no serviço por conta de falta de
materiais;
• Perdas por transporte: Está associada ao manuseio excessivo ou inadequado
de materiais e componentes devido a uma má programação de atividades ou
de um layout de canteiro ineficiente, como por exemplo, estoque de material
distante do ponto de utilização;
• Perdas no processamento em si: Está associada a falta de padronização nas
atividades, ineficiência no método de trabalho e mão de obra desqualificada.
Por exemplo, quebra manual de blocos por de meios-blocos, rasgos na
alvenaria para instalações elétricas e hidráulicas;
• Perdas nos estoques: São aquelas que decorrem de estoques excessivos,
devido a programação inadequada de compra, entrega do material ou erro
na orçamentação, e que podem resultar em falta de local adequado para
a disposição dos mesmos. São exemplos: deterioração do cimento por
armazenamento em contato com o solo e pilhas muito altas;
• Perdas no movimento: São aquelas que decorrem da execução de
movimentações desnecessárias por parte dos trabalhadores durante a
realização de suas atividades, por causa de frentes de trabalho distantes,
layout inadequado do canteiro ou programação de uma sequência inadequada
da atividades;
• Perdas pela elaboração de produtos defeituosos: São aquelas que resultam
em retrabalho ou redução no desempenho do produto final. Surgem da falta
de integração entre o projeto e a execução, das deficiências do controle
do processo produtivo ou da falta de treinamento dos funcionários. São
exemplos: paredes fora de esquadro e descolamento de azulejos.

Observando que existem diversos fatores que influenciam


no processo de produção, pode-se ver como é ineficiente o modelo de
gestão comum. A Lean Construction veio modificar o conceito tradicional
de processo de produção, com a intenção de aumentar a eficiência global
dos empreendimentos do setor, buscando eliminar o máximo possível de
atividades como movimentação, espera e inspeção, que não agregam valor e
consomem bastante tempo no processo produtivo (PAIXÃO, 2011).

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 37


SISTEMA TOYOTA DE PRODUÇÃO
A conjuntura sócio-política e econômica do Japão guiava a família
Toyoda à indústria automobilística. Diz-se que o seu interesse para com o setor
automobilístico surgiu após uma viagem aos Estados Unidos, onde tomaram
conhecimento do “Modelo T” de Ford e sua crescente popularidade. Em
decorrência do entusiasmo e da crença de que a indústria automobilística em
breve se tornaria o carro-chefe da indústria mundial, Kiichiro Toyoda criou
o departamento automobilístico na Toyoda Automatic Loom Works, a grande
fabricante de equipamentos e máquinas têxteis da família Toyoda, para, em
1937, fundar a Toyota Motor Company Ltda (REIS, 2005).
A Toyota iniciou sua produção na indústria automobilística, mas seu
interesse estava em aderir à técnica de produção em larga escala de carros
de passeios. Porém, a participação do Japão na II Guerra Mundial adiou
os anseios da empresa. No findar da Guerra em 1945, a Toyota resgatou
seus planos de tornar-se uma grande montadora de veículos. Contudo,
os americanos fordistas estavam muito à frente na sua produção e essa
desvantagem serviu para estimular os japoneses a se equiparar à indústria
americana, o que veio a acontecer anos à frente (WOMACK, 2004).
De acordo com Isatto et al. (2000), a diferença de produtividade
só poderia ser explicada pela existência de perdas no sistema de produção
japonês. A partir daí, começou a estruturação de um processo para identificar
e eliminar perdas. Por esse motivo, o Sistema Toyota de Produção (STP)
também é conhecido com Lean Production, ou Produção Enxuta. Com o
passar do tempo a empresa ficou conhecida mundialmente, principalmente
na Crise do Petróleo em 1973, pois, foi uma das poucas empresas que
conseguiram escapar dos efeitos da crise.
Algumas ferramentas utilizadas para aplicação dos princípios
básicos da Toyota são muitas vezes confundidas com o próprio STP. Por
isso, é necessário que os conceitos de Justin in Time, Kanban, Jidoka e o
Método dos 5 Por quês sejam bem definidos para que não haja essa confusão.
O Just in Time (JIT) é um sistema de administração da produção
simples, porém eficaz. Ele possibilita a produção eficaz em termos de custo,
assim como o fornecimento apenas da quantidade correta, no momento e
local corretos, utilizando o mínimo de instalações, equipamentos, materiais
e recursos humanos. O JIT é dependente do equilíbrio entre a flexibilidade
do fornecedor e a flexibilidade do usuário. De maneira simplificada, Just in
Time quer dizer que os produtos não devem ser produzidos nem antes do
tempo, para que não se tornem estoque, nem depois, para que os clientes
não precisem aguardar (KRAJEWSKY, 2009).
O controle Kanban, algumas vezes, foi utilizado, equivocadamente,
como equivalente ao “planejamento e controle JIT”. Segundo Slack et al.
(2009), esse é um método de operacionalizar o sistema de planejamento e
controle puxado. Kanban é a palavra japonesa para cartão ou sinal. Ele é
chamado algumas vezes de “correia invisível”, que controla a transferência
de material de um estágio a outro da operação.
Outro conceito que deve ser entendido é o Jidoka. A sua tradução
significa automação. Jidoka é um sistema de transferência de inteligência
humana para máquinas automáticas, de modo que sejam capazes de detectar
o processamento de qualquer anormalidade parar a produção e acionar

38 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


um alarme. Isso permite a um único operário controlar várias máquinas
sem correr risco de produzir grandes quantidades de peças defeituosas
(WOMACK, 2004).
O Last Planner System pode ser entendido como um instrumento
de transformação daquilo que deveria ser feito, para o que pode ser feito e o
que será feito. Assim, cria-se um acúmulo de trabalho disponível, e a partir
daí o planejamento semanal pode ser criado (REIS, 2005).
O método dos “5 Por quês” é uma prática utilizada na solução de
anomalias com a finalidade de descobrir sua causa principal. De acordo com
Cunha (2009), perguntar “Por quê?’ 5 vezes impede que a investigação seja
concluída antes de atingir a raiz do problema, que é o objetivo fundamental
da melhoria.

LEAN CONSTRUCTION
Em 1985, foi publicado um relatório pelo Massachussets Institute
of Technology (MIT), respeitada instituição acadêmica dos Estados Unidos,
procurando avaliar as causas do sucesso da indústria automobilística
japonesa e o que poderia ser aprendido pelas indústrias estadunidenses. Esse
relatório tinha como autores, entre outros, J. Womack e D. Jones, que logo
em seguida publicaram um livro com o nome de “A Máquina que mudou o
Mundo”. Esse volume faz parte da biblioteca obrigatória dos praticantes da
produção enxuta e é apresentado como referência bibliográfica para esta
publicação (NUNES, 2010).
Em 1992, um pesquisador finlandês, Lauri Koskela, realizou
um estágio na Universidade de Stanford e emitiu um relatório técnico,
entitulado Application of the New Production Philosophy to Construction,
que se tornou clássico para a construção civil. No seu texto, ele adaptou
os conceitos da Lean Production para a construção civil, propondo assim, a
Lean Construction, e enumerou os seguintes onze princípios para a melhoria
do fluxo da nova filosofia de gestão (DENARI, 2010):

1 – Aumentar o valor para o cliente mediante a consideração de seus


requisitos: Koskela inicia os princípios com o conceito central da qualidade.
A produção só tem sentido para atender os desejos dos clientes. Estes
desejos devem ser reconhecidos e transformados em bens e serviços que
atendam exatamente a esta demanda.
2 – Diminuir as atividades que não agregam valor no processo produtivo:
tendo definido o que o cliente quer, tudo aquela que não agrega valor para o
cliente é definido como desperdício, perda, e deve ser eliminado.
3 – Simplificar o processo produtivo: principalmente com ações ligadas aos
projetos da edificação (arquitetônico, estrutural e de instalações), devendo-
se buscar soluções projetuais simples, minimizando o número de partes,
interfaces e operações envolvidas.
4 – Reduzir o tempo de ciclo: trabalhar uma pequena quantidade de produtos
a cada vez, garantindo que estes estejam prontos antes de se iniciar o novo
lote. Esta redução do tamanho do lote leva à redução do tempo de ciclo para
sua execução.
5 – Diminuir a variabilidade: também é um conceito atrelado a qualidade,

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 39


mas nesse princípio a intenção é tentar diminuir a variabilidades antes que o
processo comece, por um projeto mais padronizado, pela escolha de mão de obra
homogênea e pelo oferecimento de condições de trabalho estáveis.
6 – Aumentar a transparência: o objetivo é que se entenda o que cada um
esteja fazendo, que isto seja descrito em manuais de procedimentos e que
haja uma clara identificação de materiais, ferramentas, estoques, fluxos de
suprimentos e trabalhadores. Indicadores e medidas relativas a produção,
em termos de qualidade e produtividade, também devem estar disponíveis.
7 – Focar o controle no processo como um todo: o objetivo é entender como
acontece a produção de cada parte do produto e avaliá-lo em conjunto.
Na visão tradicional de gerenciamento, busca-se medir apenas resultados
ligados a produtos prontos, sem que haja análise, dos produtos que ainda
estão na linha de produção, em fase de montagem.
8 – Alternar esforços de melhoria de conversão e de fluxo: por conversão
entende-se o trabalho isolado executado em um posto operativo. Por fluxo
entende-se a movimentação de materiais, informações e produtos em processo
até chegar a este posto. Koskela recomenda este equilíbrio no processo de
melhoria, temendo que os praticantes da Lean Construction venham a se ater
apenas à melhoria dos fluxos. Melhorar o produto e a execução de suas
partes, com a melhor mão de obra, materiais e equipamentos, é um objetivo
que não deve ser abandonado.
9 – Fazer benchmarking: é o processo de tomar como referência os melhores
procedimentos que podem ser encontrados para cada etapa da produção
e adaptá-los à empresa em questão. Estes procedimentos ideais podem
ser encontrados nas organizações do mesmo setor, ou, melhor ainda, nas
firmas de outros ramos que se notabilizam pela excelência naquele aspecto
específico da operação.
10 – Praticar o kaizen: é a busca pela melhoria contíuna, sistemática, de
forma perene, ao longo do tempo, não tendo uma meta fixa a tingir. É um
processo de melhoria que tem início, mas não tem fim.
11 – Aumentar a flexibilidade de saída: está ligado à possibilidade de
modificar as características dos produtos de acordo com os requisitos de
clientes específicos, sem aumentar significativamente os custos de produção.
Geralmente isto é obtido incorporando-se as modificações somente nas
últimas etapas do processo produtivo.

Em uma revisão de seus postulados, realizada em 2000, na


publicação de sua tese de doutorado, Koskela simplifica a produção
enxuta, enunciando apenas três grandes princípios, um misto de aspectos
conceituais e filosóficos. Segundo ele, ser Lean é focar em transformação,
fluxo e valor. Focar em transformação é fazer bem feito o produto, cuidar da
qualidade na sua execução e aplicar da melhor maneira o esforço produtivo
de máquinas e operários. Focar em fluxo é não deixá-lo parar, garantindo
a sua continuidade por alguma sistemática de planejamento da produção,
idealmente aquelas que determinam que um produto só deva ser produzido
se ele é requerido. Por fim, focar no valor é admitir a relevância do cliente
no processo produtivo. A transformação e o fluxo só adquirem sentido se
atenderem aos requisitos daqueles que vão usufruir dos bens ou serviços
assim produzidos (HEINECK, 2009).

40 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


METODOLOGIA

PROCEDIMENTOS

O presente estudo pode ser classificado como sendo uma


pesquisa dos tipos bibliográfica e exploratória, de natureza qualitativa.
Para a sua realização, o trabalho foi executado em três etapas. Na primeira,
foi produzida a revisão bibliográfica, através de monografias, livros,
dissertações, artigos científicos e publicações em revistas relevantes para
o tema abordado. Além disso, foi elaborado um questionário fundamentado
nos conhecimentos adquiridos nessa fase. Na segunda etapa, foi realizada a
seleção de 30 empresas atuantes no setor de edificações na cidade de João
Pessoa. A seleção foi feita pelo método convencional e os questionários,
instrumentos de coleta de dados do trabalho, foram respondidos por
responsáveis por obras das empresas escolhidas. Depois de coletar os dados
nas construtoras, foi feita a análise dos dados, sendo essa a terceira e última
etapa do estudo.

ANÁLISE DOS DADOS


O questionário foi dividido em duas partes. A primeira avalia o
grau de aplicação dos princípios da Lean Construction. Para isso, foram feitas
três perguntas para cada um dos onze princípios, em que os responsáveis
responderam com um número de 1 a 5. Sendo assim, a pontuação máxima
por princípio é de 15 pontos, e o somatório máximo possível das respostas
é de 165 pontos. Já na segunda parte do questionário, foram avaliados os
graus de conhecimento a respeito da filosofia e de interesse em aplicá-la,
além dos entraves para isso.
As 30 empresas foram divididas entre grande e pequeno porte,
conforme elas se auto classificaram após questionadas, resultando em 12
de grande e 18 de pequeno porte. Para cada questionário respondido, foi
calculado o desempenho da empresa, através somatório dos pontos obtidos,
dividido pelo somatório dos pontos possíveis. Assim, pôde-se obter a maior,
a menor e a médias das médias.
Com a ajuda do software SPSS Statistics, obteu-se a mediana das
médias de todas as empresas. De acordo com Bisquera (2004), a mediana
é uma medida de localização do centro da distribuição dos dados, ou seja,
50% dos elementos da amostra são menores ou iguais à mediana e os
outros 50% são maios ou iguais à mediana. A partir disso, foram geradas
tabelas avaliando o interesse, conhecimento, entraves e aplicação da Lean
Construction nas construtoras de João Pessoa.

RESULTADOS E DISCUSSÃO
Depois de fazer a coleta de dados, foi percebida uma diferença grande
de pontuação entre o maior e o menor somatório, sendo de 127 e 63 pontos,
respectivamente. A média de todos os somatórios foi de 96,1 pontos. Sabendo
do somatório dos pontos obtidos por cada empresa e dividido pelo somatório
máximo possível (165 pontos), foram analisadas as médias individuais.

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 41


O software SPSS Statistics calculou a mediana de 100 pontos. Isso
quer dizer que 15 empresas pontuaram acima de 100 e 15 abaixo de 100. A
mediana obtida representa um valor acima da média geral, de 96,1 pontos, e
equivalente a cerca de 60,6% de aplicação dos princípios da Lean Construction.
Dessa forma, constata-se que metade das empresas participantes da pesquisa
possuem pelo menos esse percentual bem significativamente bom da
metodologia enxuta implantada nas suas obras. O gráfico seguinte faz uma
comparação da pontuação atingida entre empresas de grande e pequeno
porte.

Gráfico 1 – Pontuação obtida pelas empresas em


relação à mediana da amostra

Fonte: Os autores.

De acordo com o gráfico, das doze empresas de grande porte,


apenas uma ficou abaixo da mediana. Já no caso das empresas de pequeno
porte, das dezoito estudadas, apenas quatro ficaram acima da mediana.
Essa análise mostra que quanto maior for o controle do planejamento e da
produção, melhor sucedida a empresa será. Segundo Barros (2005), uma
empresa será mais ou menos competitiva dependendo da eficiência do seu
sistema de produção, em termos de estrutura, infraestrutura, qualidade,
planejamento e controle. A característica principal da competitividade

42 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


traduz-se como sendo o planejamento racional das atividades de produção.
Em relação ao conhecimento a respeito da Lean Construction,
quase metade dos entrevistados (treze engenheiros) afirmaram saber
razoavelmente da filosofia de gestão. Apenas oito disseram que possuem
um nível bom de conhecimento, em contrapartida com nove que afirmaram
possuir pouco conhecimento. Os resultados dessa análise são mostrados na
tabela 1 a seguir:

Tabela 1 – Distribuição das empresas de acordo com


o conhecimento a respeito da filosofia
CONHECIMENTO A RESPEITO DA LEAN CONSTRUCTION
    POUCO RAZOAVEL BOM ÓTIMO
ABAIXO
6 6 3 0
MEDIANA DE 100
ACIMA
3 7 5 0
DE 100
Total 9 13 8 0
Fonte: Os autores.

Uma contradição observada é que oito responderam o


questionário como tendo bom conhecimento em torno da construção
enxuta, porém três delas adquiriram pontuação abaixo da mediana. Ou
seja, mesmo sabendo que a utilização da Lean Construction como modelo
de gestão aumenta a eficiência global do empreendimento, a aplicação não
acontece nas suas obras. Por isso, é preciso saber quais fatores impedem a
prática Lean nessas construtoras. A tabela 3 apresenta as respostas que os
engenheiros deram para o principal entrave que impedem as construtoras,
de uma maneira geral, não se utilizar essa metodologia de gestão.

Tabela 2 – Distribuição das empresas a partir dos fatores que impedem a


prática da filosofia
ENTRAVES PARA APLICAR A LEAN CONSTRUCTION NA EMPRESA
NÃO SER
DIFICUL- NÃO
CUSTO DE UMA FI-
DADE DOS CONFIAR
    IMPLANTA- LOSOFIA
FUNCIONÁ- NA APLI-
ÇÃO DISSEMI-
RIOS CAÇÃO
NADA
ABAIXO
4 2 1 8
DE 100
MEDIANA
ACIMA
5 5 2 3
DE 100
Total 9 7 3 11
Fonte: Os autores.

Como possíveis entraves, foram dadas quatro possíveis


alternativas, sendo elas: Custos de Implantação (gastos com consultorias,
treinamentos, novas tecnologias); dificuldade dos funcionários de produção

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 43


e de corpo técnico em compreenderem a filosofia; não confiar na expectativa
de bons resultados com a aplicação da filosofia da Construção Enxuta; e
não ser uma filosofia com técnicas disseminadas da região. A última opção
foi a mais votada, que é onde entra a questão da cultura, as empresas têm
medo ou receio de inovar e não dar certo, acarretando em prejuízo. Apesar
disso, apenas três empresas não confiam em bons resultados aplicando a
Lean Construction. Nove apontaram os custos de implantação como principal
entrave e sete indicaram a dificuldade em compreender a filosofia.
Por fim, após apresentar toda a teoria da Lean Construction, o
questionário buscou também saber o interesse em aplicar esse modelo de
gestão. Como era esperado, a maior parte tem de bom a ótimo nível de
interesse, representando 83,3% das empresas (25 empresas).

Tabela 3 – Distribuição das empresas a partir do interesse em aplicar a filosofia


GRAU DE INTERESSE EM APLICAR A LEAN CONSTRUCTION

    POUCO RAZOÁVEL BOM ÓTIMO


ABAIXO
0 2 8 5
MEDIANA DE 100
ACIMA
1 2 8 4
DE 100
Total 1 4 16 9
Fonte: Dados da pesquisa, 2016.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente trabalho propôs a aplicação de uma ferramenta de
coleta de dados e análise do estado atual das construtoras da cidade de João
Pessoa, a respeito da filosofia de gestão Lean Construction. Fundamentada
por um referencial teórico, foi realizada uma pesquisa de campo em trinta
empresas do setor da construção civil.
O primeiro objetivo deste trabalho foi identificar como os
profissionais ligados ao planejamento e gerenciamento de obras avaliavam
seu próprio conhecimento a respeito da Lean Construction. As respostas
dadas pelos entrevistados indicam que a filosofia ainda é pouco disseminada
na região. Os entrevistados que afirmaram ter bom conhecimento a
respeito do assunto, disseram que apenas leram sobre a filosofia. Assim,
o que para uns pode ser considerado ter muito conhecimento, para outros
ler, estudar e não trabalhar com a filosofia, pode ser considerado pouco.
Desse modo, perguntas mais minuciosas são necessárias para que se possa
obter uma resposta que esteja de acordo com a realidade, pois, não seria
adequado atribuir o mesmo nível de conhecimento para alguém que estudou
a metodologia e outro que tenha trabalhado com ela.
O presente trabalho também buscou verificar o interesse em
aplicar os princípios da Lean Construction e os obstáculos para isso. Dadas
as respostas dos questionários, pode-se chegar à conclusão que a maior
parte dos entrevistados (83,3%) possuem interesse em aplicar a construção
enxuta e acreditam que sua utilização pode melhorar o desempenho de

44 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


suas empresas. Isso leva a crer que existe espaço na construção civil para
a implementação da filosofia. Porém, esse resultado entre em contradição
com relação aos obstáculos enfrentados para essa implementação, pois as
empresas alegaram o fato de não ser uma técnica muito difundida na região
como o principal entrave. Assim, fazer conhecidos os conceitos e vantagens
da aplicação do pensamento enxuto para todos os envolvidos na construção
civil da cidade, pode acabar com o principal entrave para utilização da Lean
Construction e proporcionar a colaboração de todos, de modo que, se obtenha
um aumento da qualidade e produtividade e redução de desperdício.
Em relação a aplicação dos princípios, realizar esse estudo
permitiu compreender que as construtoras da região possuem características
e procedimentos pertencentes a filosofia Lean Construction, mas que não
existe consciência disso por parte dos envolvidos na construção. Além
disso, foi percebido que existe uma variação na importância que as empresas
dão para cada princípio, porém, focar o controle no processo global é de
comum importância para todas. Isso mostra que as empresas se preocupam
com planejamentos, sejam eles de curto, médio ou longo prazo, bem como
realizam controle sobre o seu orçamento e produtividade dos funcionários.
O segundo princípio mais aplicado é o de atendimento às considerações dos
clientes. Logo, é perceptível o valor desse fator no dia-a-dia das construtoras,
pois entender as necessidades dos clientes é característica primordial para a
permanência no competitivo mercado da construção.
Diante disso, pode-se afirmar que o objetivo principal desse
trabalho foi alcançado ao identificar o nível de aplicação dos princípios da
Lean Construction, o desempenho global de cada construtora, e concluir,
levando em conta as respostas dadas nos questionários, que existe a
preocupação nas empresas em otimizar seus processos produtivos e reduzir
os desperdícios.

REFERÊNCIAS
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com o pacote estatístico SPSS. Porto Alegre: Artmed, 2004. 94f.

CUNHA, Anielli. Aplicabilidade do Sistema Lean Construction na


Indústria da Construção Civil em Petrolina- PE. 2009. 122f. Monografia
(Graduação em Engenharia de Produção) - Universidade Federal do Vale
do São Francisco.2009.

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empresas construtoras. 2010. 67f. Monografia (Graduação em Engenharia
Civil) - Universidade Federal de São Carlos. 2010.

FORMOSO, Carlos T. et al. As perdas na construção civil: conceitos,


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<http://www.pedrasul.com.br/artigos/perdas.pdf> Acesso em: 17 out. 2016.

HEINECK, Luiz et al. Logística e Lógica na Lean Construction: um


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KOSKELA, Lauri. Application of the New Production Philosophy to
Construction. EUA, 1992. Relatório Técnico nº 72.

KRAJEWSKI, L.; RITZMAN, L.; MALHOTRA, M.; Administração de


Produção e Operações. 8.ed. São Paulo: Pearson, 2009. 615f.

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2010. 84f. Dissertação de Mestrado (Engenharia Civil) - Universidade
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PAIXÃO, L. G. A.; Implementação de práticas da produção enxuta:


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SHINGO, Shingeo; Sistemas de Produção com Estoque Zero: o sistema


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SLACK, N; CHAMBERS, S.; JOHNSTON, R. Administração da


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WOMACK, James; Mentalidade Enxuta nas Empresas: elimine os


desperdícios e crie Riqueza. 7. ed. Ed. Rio de Janeiro: Campus, 2004.

46 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


CAPÍTULO 4

COMPATIBILIZAÇÃO DE PROJETOS E
SEUS AVANÇOS
João Viana de Oliveira Neto1, Evelyne Emanuelle Pereira Lima2, Antônio da
Silva Sobrinho Júnior3.

RESUMO
Com evolução da ciência da computação, a engenharia civil
apresentou grandes avanços e ferramentas que facilitaram o trabalho
do engenheiro civil capacitado para idealizar, projetar e concretizar
componentes diversos da infraestrutura necessária para o bem-
estar e desenvolvimento da sociedade. Este artigo pôde constatar
que é possível reduzir custos através da maior precisão e estudos
preliminares nos projetos através da compatibilização. Além desses,
também podemos levar em consideração que com a análise dos
projetos, pode-se também obter uma maior precisão no planejamento,
orçamento e execução de obra. Para realização desse estudo foram
utilizados os projetos de dois empreendimentos que estão localizados
na cidade de João Pessoa no estado da Paraíba. Edificações de
padrão classe média que serão classificados como “A” e “B”. Foram
utilizados os projetos de arquitetura, estrutura e hidrossanitário dos
empreendimentos citados. Como ferramenta de compatibilização foi
utilizado a metodologia BIM (Building Information Modeling) com
o auxílio dos softwares Revit para a modelagem das disciplinas e
Navisworks para o estudo de compatibilização, ambos pertencentes a
Autodesk. Veremos também que mesmo com o auxílio dos softwares,
as teorias e práticas vividas em sala de aula e no campo de atuação é
fundamental para o bom desempenho dessa atividade.

Palavras-Chave: Compatibilização. Gestão. BIM. Projeto.

1 Engenheiro Civil (UNIPÊ). E-mail: joaov.net@gmail.com


2 Mestre em Engenharia Urbana e Ambiental. Professora do Curso de Engenharia Civil do Unipê.
E-mail: evelyne.lima@unipe.br
3 Engenheiro Civil e Doutor em Engenharia Mecânica. Professor do Curso de Engenharia Civil do
Unipê. Professor do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da UFPB. E-mail: sobrinhojr@hotmail.com

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 47


INTRODUÇÃO
O surgimento dos primeiros projetos feitos na plataforma 3D
(três dimensões, eixos X, Y e Z do plano cartesiano) trouxe ainda mais
domínio e facilidade na visualização dos projetos principalmente para as
equipes de execução de obra.
Com a contínua evolução, chega a plataforma Building Information
Modeling (BIM)) e seus diversos “D’s”. Ao escutar um termo 4D, 5D, 6D e
7D uma pessoa que desconheça do assunto não tem ideia do que se trata,
principalmente pelo fato desses D’s não estarem contidos no nosso plano
cartesiano do ensino fundamental, logo surge a curiosidade, mas realmente,
esses D’s não tem ligação com o plano cartesiano.
Foram termos criados para facilitar as diversas atividades
ligadas a tecnologia BIM. O 3D como mais conhecido, trata-se da própria
modelagem da edificação. O 4D traz a interação do que está sendo planejado
com a modelagem. O 5D vem para mostrar valores e custos aos D’s citados
anteriormente. Não menos importante porem ainda pouco utilizados o 6D e
o 7D que trata da sustentabilidade e manutenção respectivamente.
Das principais características e funções dentro da tecnologia
BIM é a interação entre os projetistas, que agora passam a trabalhar de
forma integrada e instantaneamente com o uso de um servidor, onde erros
de incompatibilidade que até então só poderiam ser visualizadas durante a
execução da obra, com o auxílio dessa ferramenta, e bem gerenciada pelo
gestor, podem ser previstos e tomadas as devidas ações corretivas.
Essas alterações não mais irão acarretar em retrabalhos como
ocorre por exemplo em um levantamento de quantitativos que foi elaborado
em uma planilha eletrônica, onde o engenheiro terá que refazer parte do
orçamento ou até todo o orçamento a depender da alteração que o projeto
precisou sofrer.

METODOLOGIA
A metodologia aplicada neste trabalho foi baseada em pesquisas
bibliográficas sobre o assunto estudado com o objetivo de analisar os
projetos de obras que estão em execução, observar se houve estudo de
compatibilização de projetos, elaborar um estudo de compatibilização
e analisar os resultados trazidos por ferramentas específicas dentro da
metodologia BIM.
Posteriormente, foi feita a coleta dos projetos direto com os
diretores das empresas escolhidas, para o estudo. Foram usados projetos
estruturais, arquitetônicos e hidrossanitários de duas obras em execução
na cidade de João Pessoa e, a partir deles, iniciou-se a execução virtual do
empreendimento e, em seguida, foi feita a verificação das incompatibilidades
dos projetos em questão.
Para a análise de compatibilização foram utilizados como
principal ferramenta a metodologia BIM com a utilização dos softwares
Revit onde foi feita toda a construção virtual do empreendimento e o
Navisworks foi o software responsável por detectar de forma automática
todas as interferências entre disciplinas.

48 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
Esquecida, relevada e não dada a importância necessária, a
compatibilização de projetos é uma aliada a todo o trabalho de projetos,
orçamentação e planejamento de obras. Sem o conhecimento adequado para
tal, muitas empresas não se atentam para tal ferramenta e passa a conviver
com um aliado desagradável ao seu lado. A partir do momento que se inicia
a obra sem se ter feito um estudo adequado das incompatibilidades existente
entre os projetos, é com a sorte que o gestor vai precisar contar para que
todo o seu trabalho de “pré-obra”, não vá as ruinas.
Para o orçamento, pode-se citar como exemplo os furos em vigas
que será necessário para poder concluir a rede de esgoto, pior, se esse furo
for necessário em todos os trinta pavimentos de um edifício, o quanto isso
vai pesar para o orçamento? E se esse item não foi incluído no orçamento?
Para o planejamento, o desvio de frente de trabalho que será necessário
para a equipe de bombeiros hidráulicos não parar, o trabalho adicional para
o gestor, contratar uma equipe ou empresa que não estava nos seus planos
e o atraso que acarretará para outras equipes que estavam aguardando esse
trabalho ser concluído. Pequenos exemplos que se pode observar o quanto
é importante essa atividade.
Callegari (2007), afirma se tratar de ações que detectam falhas
entre projetos de arquitetura com as demais disciplinas, tem a finalidade
de gerenciar e integrar os projetos para que haja obtenção de padrões
de controle de qualidade, agregando a otimização de materiais, mão de
obra e posteriores manutenções. Podem trazer custos adicionais para o
empreendimento em ações que venha ser tomada de forma equivocada.

“O desenvolvimento de projetos sem a análise


da compatibilização pode gerar consequências
negativas, tais como, aumento de retrabalho, atraso
no cronograma de execução, e falhas na qualidade
da edificação, que frequentemente conduzem
acréscimo dos custos das obras. A compatibilização
de projetos visa à redução das possíveis falhas que
ocorrem na fase concepção até a fase de execução
da obra arquitetônica. Na fase de elaboração de
projeto propõe-se como melhoria a conscientização
da participação dos projetistas envolvidos, bem
como a existência do coordenador que integra os
processos e verifica possíveis incompatibilidades
físicas e funcionais dos projetos desenvolvidos. Atua
como mediador e transmissor das informações, e
gerencia as propostas e soluções a serem aplicadas”
(CALLEGARI, 2007, p. 2).

Uma hipótese para a desvalorização dessa atividade é o quanto oneroso ela
se torna para a empresa. O método atual necessitaria de um engenheiro
ou algum profissional que tenha um cargo inferior hierarquicamente po-
rem seu custo também não seria baixo, pois esse profissional deve ter uma

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 49


experiência impar para detectar as possíveis falhas e preencher planilhas
complexas que trazem informações de difícil visualização para apresentar,
comparada a forma atual de compatibilização.
Tabela 1 - Custo incorporado ao planejamento

Fonte: CALLEGARI, 2007.

Nas colunas indicadas pelas letras A, B e C, da tabela 1 mostram


as obras em estudo. E as células mostram a quantidade de erros encontrados
sobre a quantidade analisada. Dessa maneira seriam necessárias mais
informações para correção desses itens. Para equipe de obra e para os
projetistas essa informação se tornaria inválida por não trazer o local exato
onde ocorre tal erro.
Com a chegada da tecnologia BIM e suas ferramentas essa
atividade agora de forma automatizada, ficou menos onerosa, traz resultados
rápidos e com imagens que facilita o entendimento (figura 7).

Figura 7 - Seleção das disciplinas a serem analisadas

Fonte: Os autores.

50 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


Através da ferramenta “Clash Detective” do software Navisworks
podemos indicar as disciplinas e itens que desejamos analisar. Nesse caso,
analisamos o projeto de estrutura com o projeto hidrossanitário .
Figura 8 - Resultado da análise

Fonte: Os autores.

O software nos traz a quantidade de interferências encontradas,
a lista de todas as interferências, a situação atual que pode ser alterada
conforme for resolvida, e junto a lista, imagens, data, responsáveis,
descrição, comentários e distância. Na figura 8 podemos observar a viga
sendo transpassada pela tubulação de esgoto.
Nesse caso, não havendo um estudo de compatibilização entre tais
projetos, esse problema certamente iria ser resolvido durante a execução
da tubulação pelo bombeiro hidráulico que muitas vezes não consulta
o engenheiro responsável pela obra podendo trazer outros problemas
para o empreendimento essa maneira resolveria esse problema e afetaria
diretamente o levantamento de quantitativos e os quantitativos de material
da obra. E se caso fosse necessário executar um furo na viga? O local para
passar a tubulação é o mais adequado para não atingir alguma armadura da
viga? Esse furo de viga foi incluído no orçamento da obra?
Essas perguntas são apenas hipóteses levantadas para esse erro.
Esses problemas trazem para o gestor da obra desvio de atividades que
podem ser resolvidas com um estudo bem elaborado de incompatibilidades
de projetos.

ESTUDO DE CASO
Serão apresentados, no estudo de caso, as análises dos estudos
de duas edificações de pequeno porte com finalidades similares de obras
residenciais multifamiliares localizadas em João Pessoa – PB, todas em
fase de construção. Nesse caso, foram adotadas as nomenclaturas “A” e “B”,
respectivamente, para cada edifício.

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 51


EMPREENDIMENTO “A”
Trata se de uma edificação residencial multifamiliar composta
por um pavimento térreo (semi-pilotis), dois pavimentos tipo e coberta. A
obra encontra-se na fase de conclusão da estrutura e início das divisórias de
alvenaria.

DESCRIÇÃO DO PROJETO ARQUITETÔNICO


O empreendimento em questão é composto por um único bloco,
locado no terreno com área de 360,00m², taxa de ocupação de 51% e 1,33
de índice de aproveitamento. Oito unidades habitacionais com área total
construída de 480,94m², sendo, no térreo, uma unidade com área de 54,20m²
e uma unidade com 48,90m². No pavimento tipo, uma unidade com 52,23m²,
uma com 60,91m² e uma com 51,21m².
Internamente, os apartamentos recebem cerâmica em todo o piso
e nas paredes das áreas molhadas. As demais áreas de parede e teto, recebem
pintura. Na fachada será aplicada revestimento cerâmico de três cores.

DESCRIÇÃO DO PROJETO ESTRUTURAL


A estrutura do empreendimento será composta de sapatas,
pilares, vigas e lajes de concreto armado moldados no local através de forma
de madeira. O concreto terá fck de 25 MPa. O aço será CA-50 e CA-60
cortados e dobrados na obra. As fundações do edifício, é do tipo direta e rasa,
composta por sapatas isoladas interligadas por vigas no nível do terreno.
Nesse empreendimento o projeto de estrutura já foi modelado em
três dimensões e integrado ao projeto de arquitetura.

DESCRIÇÃO DO PROJETO HIDROSSANITÁRIO


O projeto hidrossanitário contempla toda a rede hidráulica do
edifício em questão, composto por um reservatório inferior que recebe a
água da concessionária, sendo elevada através de bombas para o reservatório
superior, desce para o quadro de hidrômetros e por fim elevado aos
apartamentos. Também o esgoto sanitário que é coletado nos apartamentos,
conduzidos por tubos devidamente calculado e transferido por gravidade
até a caixa coletora, em seguida para a fossa séptica e sumidouros.
O projeto hidrossanitário desse empreendimento também foi
modelado em três dimensões com o uso do software Revit, porém não foi
elaborado nenhum estudo de compatibilidades de projetos pela em empresa.

RESULTADO DO ESTUDO ENTRE ESTRUTURA E


ARQUITETURA
O método de compatibilização foi feito através da modelagem
simulada de todas as etapas da obra de acordo com dados retirados dos
projetos. Para essa etapa é necessário além da utilização do software,

52 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


a experiência de execução de obra para que não haja falhas durante a
verificação das incompatibilidades (figuras 9 e 10).

Figura 9- Vista suíte térreo

Fonte: Os autores.

Figura 10- Vista Suíte na Construção Virtual

Fonte: Os autores.

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 53


Pelo fato do projeto estrutural ter sido modelado a partir do
projeto de arquitetura, a figura acima, mostra a única incompatibilidade
que foi detectada em questão. A aplicação da esquadria teoricamente não
será possível, pois para aplicação da esquadria seria necessário além do
aro (forra) da porta, dois centímetros para cada lado, totalizando oitenta
centímetros.

RESULTADO DO ESTUDO ENTRE ESTRUTURA E


HIDROSSANITÁRIO
O método para a compatibilização das disciplinas citadas, foi feita
através da utilização do software NAVISWORK. Para isso, é necessário
a modelagem de ambas, e a utilização da ferramenta “Clash detective” do
mesmo.

Figura 11 - Compatibilização Estrutura x Hidrossanitário

Fonte: Os autores.

Na figura 11 pode-se observar que o software traz a lista de todas
as incompatibilidades encontradas e também as imagens destacadas como
na figura 18. Nesse caso, foram encontradas dezesseis interferências entre
as disciplinas.

RESULTADO DO ESTUDO ENTRE CAIXAS SANITÁRIAS DO


TÉRREO COM O PROJETO HIDRÁULICO
Esse estudo mostra as incompatibilidades existentes apenas
no pavimento térreo entre os tubos de água fria e as caixas de passagem,
reservatório inferior, fossa e sumidouros.

54 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


Figura 12 - Compatibilização Caixas sanitárias x hidráulica

Fonte: Os autores.

Na figura 12 podemos observar um número bastante expressivo,


por ser uma área onde há uma concentração alta de tubulações com
finalidades distintas. Nesse estudo foram encontrados 51 (cinquenta e uma)
interferências.

RESULTADO DO ESTUDO ENTRE INSTALAÇÕES


HIDRÁULICAS E SANITÁRIAS
A análise mostrada na figura 13, vemos as incompatibilidades
existentes entre as tubulações de água fria e esgoto, detectadas pelo software.

Figura 13 - Compatibilização Instalações sanitárias x hidráulicas

Fonte: Os autores.

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 55


O software detectou 22 (vinte e duas) incompatibilidades
semelhantes a que está ilustrada na figura 20 onde as tubulações se
interceptam.

EMPREENDIMENTO “B”
Trata se de uma edificação residencial multifamiliar composta
por um pavimento térreo (garagem), quatro pavimentos tipo, uma cobertura
com piscina, barrilete e caixa d’agua. A obra encontra-se na fase de execução
da estrutura (quarta laje). Todos os projetos desse empreendimento, foram
elaborados em duas dimensões, portanto, fez-se necessário a modelagem em
BIM de todas disciplinas.

DESCRIÇÃO DO PROJETO ARQUITETÔNICO


O empreendimento em questão é composto por um único bloco,
locado no terreno com área de 600,00m², taxa de ocupação de 38,25% e 1,83
de índice de aproveitamento. Dezessete unidades residenciais com área total
construída de 1127,56m², sendo, no térreo, constituído apenas de garagem.
No pavimento tipo, quatro unidades com área média de 48m² e uma unidade
na cobertura com área de 107,87m².
Internamente os apartamentos receberão porcelanato em todo o
piso, cerâmica nas paredes das áreas molhadas, as demais áreas, receberão
pintura. Na fachada será aplicada revestimento cerâmico partilhado na cor
azul e branco.

DESCRIÇÃO DO PROJETO ESTRUTURAL


A estrutura do empreendimento será composta de sapatas, pilares,
vigas e lajes nervurada de concreto armado moldados no local através de
forma de madeira. O concreto terá fck de 30 MPa. O aço será CA-50 e CA-
60 fornecidos cortados e dobrados na obra. As fundações do edifício, é do
tipo direta e rasa, composta por sapatas isoladas interligadas por vigas no
nível do terreno.

DESCRIÇÃO DO PROJETO HIDRÁULICO


O projeto hidráulico contempla toda a rede de água fria edifício
em questão, composto por um reservatório inferior que recebe a água
da concessionária, essa é elevada através de bombas para o reservatório
superior, desce para o quadro de hidrômetros e por fim elevada para os
apartamentos. O edifício dispõe de medição individual de água. O projeto
sanitário não foi fornecido pelo proprietário. Da mesma maneira, o projeto
hidráulico também foi modelado em duas dimensões.

56 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


RESULTADO DO ESTUDO ENTRE ESTRUTURA E
ARQUITETURA
Como citado anteriormente, algumas incompatibilidades são
detectadas durante a execução virtual da obra. Para as disciplinas estudadas
nesse item, como realmente é feito durante a execução de qualquer obra,
a primeira etapa é a estrutura e em seguida a alvenaria conforme projeto
de arquitetura e é dessa maneira que foi feita a modelagem até chegar aos
resultados abaixo sobre estrutura modelada (figura 14).

Figura 14 - Sobreposição Figura 15 - Sobreposição da


da planta de arquitetura Figura planta de arquitetura

Fonte: Os autores. Fonte: Os autores.

Nessas imagens podemos observar que após a execução virtual


da estrutura e ao tentar lançar as alvenarias pelo projeto de arquitetura,
foi possível visualizar que no trecho dos quartos o projeto de arquitetura
não coincide com o projeto de estrutura. No caso da Figura 15, é possível
observar também que a esquadria de canto ao ser deslocada junto com a
alvenaria para o local onde a laje (já executada) está, não será mais possível
a utilização da mesma, trazendo um transtorno maior para o proprietário.

RESULTADO DO ESTUDO ENTRE ESTRUTURA E HIDRÁULICO.


Para o estudo desse item, foi utilizado a modelagem feita e
posteriormente lançado no Navisworks. Porem durante a execução virtual
do projeto hidráulico foram observados vários pontos que seria inevitável
não chegar aos resultados dados pelo software (figura 16).

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 57


Figura 16 - sobreposição da arquitetura x hidráulico

Fonte: Os autores.

É possível ver que as versões do projeto arquitetônico utilizado


para elaboração do projeto hidráulico, é diferente da versão final da
arquitetura. Com apenas esse ponto já é possível prever que a obra está
vulnerável a incompatibilidades durante a execução. Outro ponto que
podemos observar na figura 17 é que o projetista utiliza o “shaft” apenas
na prumada de alimentação da caixa d’água e na prumada de descida que
alimenta os medidores, já para a alimentação dos apartamentos não foi
utilizado os vazios previstos no projeto para se evitar furos demasiados nas
vigas e lajes.

Figura 17 - Detalhe da utilização dos vazios da laje (Shaft’s)

Fonte: LÍVIO, 2016.

Com isso, após o lançamento no software e a análise pode ser


observado na figura 18. Além das quantidades, o resultado completo de
todos os erros encontrados.

58 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


Figura 18 - Resultado da análise entre estrutura e hidráulico

Fonte: Os autores.

Trezentos e quarenta e oito erros encontrados pelo software.


Erros esses similares ao da figura 19 onde a tubulação traspassa algum
elemento estrutural, onde seria necessária alguma intervenção, furo de viga,
alteração do percurso normal da tubulação acrescentando peças que não
foram consideradas para o cálculo das perdas de cargas.

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 59


Figura 19 - Compatibilização Estrutura x Hidráulico

Fonte: Os autores.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Com o estudo realizado, foi possível observar a importância da
compatibilização de projetos e como as ferramentas que evoluem a cada
dia vem auxiliar a boa gestão da obra. Também pode-se concluir com
os resultados das compatibilizações que se erros como esses não forem
antecipados, vem gerar danos a várias disciplinas do empreendimento como
o orçamento, planejamento e execução da obra.
Contudo, como já citado anteriormente, essa metodologia e
os softwares, são apenas ferramentas que quando bem operadas trazem
resultados satisfatórios para uma boa gestão, logo, a experiência de obra
e técnicas adquiridas em estudos teóricos são indispensáveis para uma boa
construção virtual do empreendimento e a partir dessa construção, poder
extrair tudo o que essa metodologia pode nos fornecer.
É certo também que para a compatibilização de projetos venha a
ser aceita, é preciso que os empresários venham entender que erros como
esses, geram custos não previstos nos orçamentos e consecutivamente
prejuízos ao empreendedor
Outro fato importante pode-se observar que, além dos
custos acrescidos ao empreendimento, pode-se também tomar decisões
tecnicamente corretas, baseadas nas normas e não confiar apenas em
profissionais que muitas vezes não estão totalmente capacitados quanto o
engenheiro para solucionar tais problemas.

60 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


REFERÊNCIAS
CALLEGARI, S; Análise da Compatibilização de Projetos em Três
Edifícios Residenciais Multifamiliares. Dissertação ( Mestrado)
Arquitetura e Urbanismo. Universidade Federal de Santa Catarina.
Florianópolis, 2007.

LÍVIO, A.N. Tiago. Projetos do empreendimento “B”. Mensagem pessoal.


Recebido por: soli.construcoes@gmail.com. 6 nov. 2016.

POLARI FILHO, Rômulo. Projetos do empreendimento “A”. Mensagem


pessoal. Recebido por: polari.filho@gmail.com. 16 set. 2016.

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 61


CAPÍTULO 5

DIAGNÓSTICO DOS ACIDENTES DE


TRABALHO E NÃO CONFORMIDADES EM
OBRAS NA GRANDE JOÃO PESSOA – PB
Dimas José Antão da Silva1, Antônio da Silva Sobrinho Júnior2

RESUMO
Com alto número de acidentes, a construção civil vem perdendo apenas para
o setor de transporte rodoviário de carga, onde segundo o anuário estatístico
do INSS, uma média de 14 pessoas sofre algum tipo de acidente diariamente.
Dentre as causas mais comuns de acidentes do trabalho aparece a queda e em
seguida o soterramento. Assim, visando analisar as não conformidades em
obras na cidade de João Pessoa – PB, no tocante da NR-18 e os acidentes de
trabalho na construção civil, foram feitas buscas na literatura sobre acidentes
nela ocorridos. As buscas tiverem como base uma pesquisa exploratória,
visando proporcionar maior afinidade com o problema, tornando-o explicito
e fazendo com que haja uma melhor visualização e propostas de mudanças,
com uma abordagem de forma indireta. E foi composta também por uma
pesquisa documental, aplicação de questionário, procedimentos feitos
por meio de pesquisas em campo, livros e consultas a órgãos públicos
fiscalizadores tais como INSS (Instituto Nacional de Seguridade Social) e
MTE (Ministério do Trabalho e Emprego). Foram visitadas 06 (seis) obras,
com aplicação de questionários de forma aleatória e em fases distintas de
construção com padrões, portes e métodos construtivos distintos. A análise
dos resultados se deu de acordo com a obtenção e tabulação de resultados,
pois a construção civil, ainda está muito abaixo do que poderia estar em nível
de segurança do trabalho, já que o setor influência muito na economia do país.
A construção civil continua sendo um dos setores que mais geram empregos
e movimenta bilhões de reais anualmente. Por fim o que se conclui é que é
um setor ainda carente de melhorias, prejudicando assim os colaboradores
que colocam em risco o seu bem mais precioso, a “vida”, para garantir sua
subsistência epara que as empresas façam um melhor e mais adequado
planejamento dos serviços a serem executados e atentem–se cada vez mais a
segurança do trabalho, com maiores investimentos, e que o estado não venha
a pagar a conta no fim, com pessoas inválidas e com altos custos com pensões
por morte e invalidez aos respectivos cônjuges por causa de acidentes de
trabalho, negligência e falta de planejamento das empresas e fiscalização dos
órgãos competentes do setor.

Palavras-Chave: Construção Civil. Acidente de Trabalho. NR18. INSS.MTE.

1 Engenheiro Civil e Tecnólogo em Construção de Edifícios. E-mail: dimas.engenharia@hotmail.com


2 Engenheiro Civil e Doutor em Engenharia Mecânica. Professor do Curso de Engenharia Civil do Unipê.
Professor do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da UFPB. E-mail: sobrinhojr@hotmail.com

62 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


INTRODUÇÃO
A construção de edificações, segundo a Previdência Social, é o
segundo setor com o maior número de mortes em acidentes do trabalho
no país, perdendo apenas para área de Transporte Rodoviário de Carga.
Todos os dias, uma média de 14 pessoas sofre algum tipo de acidente de
trabalho, na Paraíba, segundo estimativas da Previdência Social. Só em
2011, foram contabilizadas 5.110 ocorrências dessa natureza. Destas, 525
envolveu operários da construção civil, o que representou uma média de
três acidentados a cada dois dias. (OLIVEIRA ; FARIAS,1998).
Os números são do Anuário Estatístico de Acidentes de Trabalho,
da Previdência Social, e mostram que a quantidade de funcionários feridos
em canteiros de obra está aumentando na Paraíba. Em 2010, o Estado
registrou 404 casos dessa natureza, enquanto em 2009 foram 388.
A queda é a causa morte mais comum entre os profissionais
da engenharia civil, na seqüência, aparece o soterramento
(OLIVEIRA;FARIAS,1998).
De acordo com citação da Agência do Senado em 11/03/2013:´´O
crescimento acentuado da construção civil, verificado nos últimos anos em
todo o país, têm sido acompanhado pelo aumento de número de acidentes
de trabalho e de mortes de operários, principalmente por soterramento,
queda ou choque elétrico. “O setor foi foco da preocupação de auditores do
trabalho, gestores públicos e especialistas da Justiça do Trabalho”.
Conforme o desembargador Sebastião Geraldo de Oliveira
(2011), representante do Tribunal Superior do Trabalho (TST), a cada
dia de 2011, em média, 50 trabalhadores saíram do mercado por morte ou
invalidez permanente, vítimas de acidentes de trabalho em todos os setores
produtivos. Naquele ano, foram cerca de 20 mil acidentes registrados, que
resultaram em morte ou invalidez permanente. E outros 300 mil acidentes
de trabalho, também em 2011, causaram invalidez de trabalhadores, número
que pode ser muito superior, tendo em vista que não há registro para o
mercado informal.
Com base nesses pressupostos, o que este trabalho pretende
apresentar é a relação da organização de trabalho com o acidente de trabalho
fatais ocorridos na construção civil na cidade de João Pessoa - PB, através
do levantamento realizado nos arquivos do Sistema Federal da Inspeção
do Trabalho (SFIT) do Ministério do Trabalho e Emprego (TEM), dos
acidentes ocorridos no período de 2011 a 2016.
O acidente é algo que pode ser traduzido por uma sucessão de fatos
ou fatores, e que, em um determinado momento ocorrem. O recebimento de
uma simples ligação do celular, uma discussão anterior sobre a perda do
jogo ou título de seu time, uma fofoca que incomoda o fato da obra estar em
sua fase final, a chegada de um encarregado que não se relaciona bem com a
equipe, mudanças súbitas de turno, etc.

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 63


REFERÊNCIAL TEÓRICO

SETOR DA CONSTRUÇÃO CIVIL


De acordo com Diesel et al. (2001), a construção civil é o setor
dos mais importantes do país devido ao seu grande volume, capital que nele
circula, enorme utilidade dos produtos e principalmente, pelo grande número
de empregos gerados. Medeiros e Rodrigues (2002) têm posição semelhante
em estudo onde afirmam que a influência do setor da construção civil em
no país é significativa, pois além de ser importante para o desenvolvimento
econômico nacional, onde tem grande desenvolvimento tecnológico com
intensidade variante, e envolve consigo estruturas culturais, sociais e
políticas.
Nesse aspecto não divergem do entendimento que Véras et
al. (2003), têm destacado que a construção civil é um setor com grande
capacidade para o desenvolvimento de um país, impactando a produção,
os investimentos, a geração de emprego e o nível de preços, devido terem
grande participação no Produto Interno Bruto (PIB), no que concordam
Damião (1999) e Rolim (2004). Quanto sua capacidade de geração de
empregos absorver mão de obra, esse setor também possui enorme
capacidade de realização de investimento, contribuindo para o equilíbrio da
balança comercial e na geração de empregos conforme identificam Damião
(1999) e Véras et al. (2003).
Uma característica dessa atividade econômica, é que não é
utilizado o processo fabril tradicional de produção com os produtos
passando pelos postos de trabalho, onde então se agrega valor aos mesmos
até seu estado final. Na construção o produto é fixo e geralmente único,
sendo que os postos de trabalho passam pelo produto agregando valor.
Quanto às suas características da mão-de-obra, o setor da construção
apresenta características marcantes nos aspectos quanto ao sexo, origem,
escolaridade, qualificação, remuneração, rotatividade, e sindicalização,
aspectos estes que estão diretamente vinculados com os seus problemas de
organização do trabalho.
Diversos autores afirmam que essas características definem um
perfil da mão-de-obra, a nível nacional, onde predominantemente o sexo
masculino, a procedência da zona rural, o analfabetismo, a desqualificação
profissional, baixos salários, grande rotatividade, pouco índice de
sindicalização, precária forma de organização de trabalho (TAIGY, 1994;
DAMIÃO, 1999; VALENÇA, 2003; NÓBREGA, 2004; ROLIM, 2004).
Quanto sua função o trabalhador, estudo realizado por Carvalho
et al. (1998), conseguiu identificar que a mão-de-obra, é composta em sua
grande parte por serventes (52,40%), seguida por pedreiros (21,65%),
carpinteiros (13,05%), ferreiros (7,49%). Com relação à faixa etária, observa
– se que tanto entre os serventes como entre os oficiais, 44% deles estão
entre 30 e 40 anos, enquanto que 75% dos mestres e encarregados estão
entre os 40 e 50 anos. Acima dos 50 anos, o percentual é de 7,8%. 84%
deles são casados. Esse estudo constata que seu grau de escolaridade, 41%
não são alfabetizados ou só assinam o nome, 45% têm ensino fundamental
incompleto e apenas 8% concluíram o ensino fundamental, 4% o ensino

64 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


médio incompleto e 2% o ensino médio completo (CARVALHO et.al., 1998).
Esse perfil acidentário pode ser visto como gerador de inúmeras perdas
de recursos tanto humanos quanto financeiros para osetor (MEDEIROS;
RODRIGUES, 2002).

METODOLOGIA

CARACTERIZAÇÕES DO ESTUDO
Neste trabalho foi desenvolvido o tipo de pesquisa exploratória,
na qual visa proporcionar maior afinidade com o problema visando torná-
lo explícito, fazendo com que sejam analisadas melhorias na construção
civil a partir do esclarecimento da importância, que se deve ter ao executar
serviços oriundos da construção civil de acordo com a NR 18 na cidade de
João Pessoa – PB.

ABORDAGENS DO ESTUDO
Esta pesquisa contemplou a abordagem indireta e quantitativa,
pois é composta por pesquisa documental e aplicação de questionário.

PROCEDIMENTOS
O levantamento se deu por meio de pesquisas via internet, livros,
publicações em geral e entrevistas, consultas a órgãos públicos responsáveis
tais como Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS), Ministério do
Trabalho e Emprego (MTE) na área referida.

INSTRUMENTOS DE COLETA DE DADOS

Para a realização da pesquisa, foram visitados 06 canteiros de obra na


cidade de João Pessoa, de forma aleatória em fase de estrutura e acabamento,
pois estavam executando tarefas diversas, tais como: preparo e lançamento do
concreto, montagem e colocação das formas, armação das ferragens e fase de
acabamento, pois são nessas fases que o alto índice da construção civil, devido
ao não uso do Equipamento de proteção individual (EPI).
Essa pesquisa consistiu no acompanhamento das tarefas citadas
acima, através de observações “in loco”, para verificação dos riscos de acidentes
de trabalho, quanto ao uso de EPI e Equipamento de Proteção Coletivo (EPC) e
os fatores agravantes que possam interferir no trabalho do funcionário.

PROCEDIMENTOS DE COLETA DE DADOS


No total, foram observadas 06 empresas, distribuídas em fases
distintas e com padrões e portes construtivos distintos, através de um
questionário com 13 perguntas, elaborado de acordo com itens da norma NR
18 condições e meio ambientede trabalho na indústria da construção civil.

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INSTRUMENTO DE COLETA DE DADOS
Quadro 1 – Questionário aplicado
  Questionário TCC Data:
Obra:   Construtora  
Qual o tempo de atuação no mercado?
10 A 20
1   5 A 10 Anos   Anos  
Quantos colaboradores atualmente na obra?
2   10 A 20   21 A 30   Mais de 30
Qual fase atualmente na obra?
3  
Já houve acidente de trabalho?  
4   Sim   Não    
Sesim, houve morte?  
5   Sim   Não    
Houve afastamento pelo INSS?  
6   Sim   Não    
A empresa tem Engenheiro de Segurança do trabalho?  
7   Sim   Não    
Se não houver Engenheiro tem consultoria?  
8   Sim   Não    
A empresa tem Técnico de Segurança do trabalho?  
9   Sim   Não    
Os treinamentos são constantes e periódicos?  
10   Sim   Não    
Quais são os treinamentos e a periodicidade?
11  
A empresa constituiu CIPA?  
12   Sim   Não    
Quais órgãos fiscalizaram a obra?  
13 CREA .MTE PMJP TODOS Nenhum  
Fonte: Os autores.

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RESULTADOS E DISCUSSÃO
Foram feitas 06 visitas técnicas em obras da grande João Pessoa –
PB, com o intuito de diagnosticar acidentes ocorridos e não conformidades
de acordo com a NR - 18 nas obras da grande João Pessoa. Para isso foi
aplicado um questionário com perguntas formuladas especialmente para este
diagnostico a fim de tentar tabular dados para que possa ser diagnosticado
a ocorrência e o porquê de tantos acidentes ocorridos em obras no setor da
construção civil.

GRÁFICOS

Gráfico 1 – Tempo de atuação no Mercado

Fonte: Os autores.

O gráfico nos mostra que 67 % das empresas pesquisadas atuam


no mercado imobiliário a cera de 5 a 10 anos, ou seja, consideradas novas
comparadas a outras pelo Brasil e própria cidade de João Pessoa – PB e
somente 33% possui entre 10 e 20 anos.

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 67


Gráfico 2 - Quantos colaboradores atualmente na obra?

Fonte: Os autores.

Cerca de 50% das obras pesquisadas possuem mais de 30


colaboradores e cerca de 17% possuem entre 21 e 30 funcionários,portanto
obrigatoriamente terá que ser constituído CIPA e cerca de 33% possuem
apenas 10 a 20 funcionários.

Gráfico 3-Qual fase atualmente da obra?

Fonte: Os autores.

O gráfico mostra que 67% das obras pesquisadas estão na fase de


acabamento finais sejam elas (cerâmicas internas, externas, louças e metais,
etc) e apenas 33% estão na fase de estrutura ou super estrutura.

68 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


Gráfico 4 – Já houve acidente de trabalho?

Fonte: Os autores.

O gráfico afirma que 83% das empresas consultadas, afirmam que


já sofreram acidentes sejam elas de natureza leve, médio ou grave e apenas
17% das empresas afirmam que nunca sofreram acidentes.

Gráfico 5 - Houve morte?

Fonte: Os autores.

Com base nesse gráfico 83% das empresas,afirmam que em


suas contruções não houve acidente com vítimas fatais e apenas 17% das
empresas assumem que já houve na empresa acidentes com vítimas fatais.

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 69


Gráfico 6 - Houve afastamento pelo INSS

Fonte: Os autores.

Cerca de 83% afirmam que seus colaboradores já foram ou estão


afastados pelo INSS devido a acidentes de trabalho e apenas 17% afirmam
que não sofreram afastamento.

Gráfico 7 –A empresa tem Engenheiro de Segurança do trabalho?

Fonte: Os autores

O gráfico mostra uma realidade preocupante em relação à


segurança na construção civil, pois 100% das empresas pesquisadas não
possuem engenheiro de segurança do trabalho em seu quadro e sim apenas
assessoria, pois a NR 4 lhe respalda para que não esteja em seu quadro
permanente de corpo técnico.

70 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


Gráfico 8 –Se não houver Engenheiro,tem consultoria?

Fonte: Os autores.

O gráfico mostra que as empresas terceirizam os serviços de


engenheiro do trabalho e que 100% das empresas pesquisadas afirmam que
possuem serviços de segurança terceirizados e/ou consultoria, mas estão
ressalvadas pela NR 4, devido ao número de funcionários

Gráfico 9 – A empresa tem Técnico de Segurança do Trabalho?

Fonte: Os autores.

Mostra que apenas 50% das empresas, possuem técnicos de


segurança em seu quadro de empregados e 50% são terceirizados e/ou
consultoria.

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 71


Gráfico 10 – Os treinamentos são constantes e periódicos?

Fonte: Os autores.

De acordo com o gráfico, 67% das empresas os treinamentos
são constantes e periódicos, e apenas 33% afirmam que não fazem com tal
peridiocidade.

Gráfico 11 – Quais são os treinamentos e a periodicidade?

Fonte: Os autores.

O gráfico nos mostra que 50% das empresas consultadas deram


treinamento referente a NR – 35 (trabalho em altura), 33 % dão o treinamento
referente a queda de materiais em suas obras e apenas 17% dão palestras e
treinamentos sobre doenças sexualmente transmissíveis (DST´s).

72 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


Gráfico 12- A empresa constituiu CIPA?

Fonte: Os autores

De acordo com o gráfico 67% das empresas, possuem CIPA e


apenas 33% não possuem.

Gráfico 13 –Quais órgãos fiscalizaram a obra?

Fonte: Os autores

De acordo com o gráfico 50% das empresas foram fiscalizadas


pela prefeitura, ministério do trabalho e prefeitura, apenas 17% afirmam
que foram apenas pela prefeitura, 17%pelo MTE e 17% pelo CREA-PB.

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 73


RESULTADOS

EMPRESA A
Esta empresa está em consolidação na cidade de João Pessoa –
PB, no qual seu tempo de atuação no mercado está entre 05 e 10 anos, possui
atualmente uma obra em andamento com mais de 30 funcionários, sua fase
atual é acabamento. As figuras a seguir, mostram várias não conformidades,
de acordo com a NR-18.

Figura 1 - Uso inadequado de EPI na obra

Fonte: Os autores.

Funcionário trabalhando com EPI inadequado colocando – o


em risco, de ter seus pés furados, ou materiais encima de seus pés, além de
prejudicar sua locomoção.

Figura 2 – Falta de EPC (Equipamento de proteção coletiva)


de acordo com o PCMAT – Guarda corpo

Fonte: Os autores.

74 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


Funcionário subindo escada sem proteções laterais, com risco de
queda e risco iminente de morte.

Figura 3 – Escada de acesso sem EPC e placas de sinalização

Fonte: Os autores.

Escada sem nenhuma proteção lateral, com riscos para os


funcionários e visitantes.

Figura 4 – Poço da escada sem nenhuma placa de sinalização e sem


guardas corpo lateral de acordo com o PCMAT

Fonte: Os autores.

Escada sem sinalização, com riscos iminentes dos trabalhadores


de quedas sem sinalização e sem proteção lateral, ou seja, totalmente errado.

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 75


Figura 5 – Guardas corpo da periferia e inexistência de placas
de sinalização

Fonte: Os autores.

Proteção da periferia totalmente sem proteção lateral,colocando
assim em riscos os colaboradores.

Figua 6 – Poço de elevador sem proteção frontal (EPC) e


sem placas de sinalização

Fonte: Os autores.

76 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


Poço de elevador totalmente errado, com apenas uma tábua como
proteção deixando assim exposto totalmente funcionários e visitantes.

Figura 7 – Segurança armado para proteção dos trabalhadores

Fonte: Os autores.

Segurança armada para proteção dos trabalhadores, pois na obra


ocorreu uma tentativa de homicídio e logo depois a segurança armada, ficou
rondando em toda a obra, ocasionando assim um tremendo temor para os
outros funcionários.
Conclui – se que esta empresa ignora toda e qualquer observação
oriunda da NR 18 da construção civil,pois renuncia de proteger o seu
trabalhador, no qual faz correr enorme riscos, olhando apenas para a
produção diária,não se importando em nada com riscos de acidentes
provocados pelo não uso de equipamentos proteção individual e quipamento
de proteção coletiva.

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 77


EMPRESA B
Figura 8 – Alojamento com falta de higiene e armários danificados

Fonte: Os autores.

Alojamento sem bancos para os funcionários sentar e sem limpeza


para os funcionários e colaboradores.

Figura 9 - Shaft´s sem proteção contra queda – Falta de EPC

Fonte: Os autores.

Shaft´s sem nenhum tipo de sinalização e com risco de queda dos


funcionários, e com isso comprometendo os funcionários e visitantes.

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Figura 10 – Guarda corpos danificados do poço do elevador e sem sinalização

Fonte: Os autores.

Guarda corpos do poço do elevador danificado, colocando assim


em risco os funcionários com riscos iminentes de morte

Figura 11 – WC sujo e coletor de lixo incorreto

Fonte: Os autores.

Wc´s do alojamentos sem trincas na portas,lixo sem correto


acondicionamento e totalmente sujo.

Figura 12 – Mictório sem limpeza

Fonte: Os autores.

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 79


Mictório sem limpeza constante colocando assim a higiene e
saúde do trabalhador em risco.
Conclui- se que a empresa B, está com seu canteiro de obras
totalmente fora de norma e o não cumprimento das normas do PCMAT,
acarretando assim problemas para os colaboradores de higiene no canteiro.

EMPRESA C
Esta construtora com atuação no mercado de 05 a 10 anos,
construindo o seu primeiro prédio com 22 pavimentos, sendo o primeiro de
estacionamento e um de cobertura, sua área de atuação é de apartamentos
de médio padrão na cidade de João Pessoa – PB.

Figura 13 - Estrutura sem bandeja primária e falta de


guardas corpo nas periferias

Fonte: Os autores.

Periferia totalmente exposta colocando em riscos os funcionários


e colaboradores

Figura 14 – Área de carga e descarga de materiais, com falta de proteção


de coletiva e funcionário em local totalmente errado

Fonte: Os autores

80 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


Funcionário em área de risco de queda de materiais, colocando
assim o funcionário em risco grave de acidente.

Figura 15 – Bancada de serra, totalmente inadequada, pó de serra com


perigo de incêndio e falta de extintor

Fonte: Os autores.

Funcionário operando a máquina sem EPI adequada e com materiais


expostos e pós com risco de incêndio e sem a presença de extintores.
Conclui – se que a empresa, não está preocupada em nenhum
momento no bem estar do seu colaborador, colocando – o em constantes
riscos para sua vida e seu bem estar, pois ela não segue nenhum tipo de
NR oriundas da construção civil e como também não segue o PCMAT do
canteiro.

EMPRESA D
Esta construtora com atuação no mercado de 10 a 15 anos,
construindo prédios de alto luxo. Este prédio conta com cerca de 40
pavimentos sendo edifício misto no bairro nobre de João Pessoa – PB.

Figura 16 – Lixo em local inadequado

Fonte: Os autores

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 81


Materiais más acondicionados, com riscos de queda de
funcionários dos jaú´s, e risco de incêndio.

Figura 17 – Falta de proteção coletiva na periferia do poço de elevador

Fonte: Os autores

Periferia sem guarda corpo e não isolados com risco iminente de


queda de colaboradores e funcionários.

Figura 18 – Canteiro de obra com restos de materiais


e com falta de sinalização

Fonte: Os autores

Canteiro sujo e materiais mal acondicionados, podendo ocasionar


acidentes aos colaboradores.

82 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


Figura 19 – Estrutura com falta de bandeja primária

Fonte: Os autores

Ausência de bandejas na periferia e falta de proteção nas periferias,


colocando assim os colaboradores e visitantes em riscos.
Conclui-se que a empresa, possui um corpo de técnicos de
segurança engajados com a empresa, mas que deixa falhas gravíssimas
em relação à segurança na qual poderá acarretar acidentes graves com os
colaboradores

EMPRESA E
Esta construtora com atuação no mercado de 15 a 20 anos,
construindo prédios de alto luxo. Este prédio conta com cerca de 35
pavimentos sendo edifício residencial no bairro nobre de João Pessoa – PB.

Figura 20 – Acesso inadequado

Fonte: Os autores

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 83


O acesso por esta passagem está completamente errado, pois este
tipo de passagem não pode ser simplesmente apoiado em madeirites usados,
sem proteção lateral, além de está numa periferia com riscos iminentes de
morte.
Figura 21 – Funcionário com risco iminente de queda

Fonte: Os autores.

A fiscalização da obra não pode deixar ocorrer este tipo de


situação, pois ele está com alto risco de queda, pois a ´´ponte´´, utilizada
está totalmente errada e como também o funcionário deverá estar atento
para não correr o risco e se for o caso,chamar a segurança da obra para que
seja resolvido o problema.

Figura 22 – Acesso adequado – Área de isolamento

Fonte: Os autores.

Área isolada, para a circulação de pessoas e mercadorias, devido


às periferias estarem abertas e possuir alto risco de queda.

84 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


Figura 23 – Operador de guincho com cinto de segurança

Fonte: Os autores.

Funcionário em meio insalubre, com várias pedras no seu local de


manejamento do guincho foguete, as instalações elétricas aparentes com fios
suspensos e mal acondicionados, e o seu cinto amarrado de maneira precária.

Figura 24 – Área de risco sem Equipamentos de proteção coletiva

Fonte: Os autores.

Área totalmente errada, pois a área não esta isolada, as bandejas


não estão instaladas corretamente e com isso o risco iminente além do local
não está sinalizado, ou seja, mais uma vez o local está totalmente errado.
Conclui-se que a empresa, possui grandes erros de segurança
colocando assim em risco a segurança dos seus colaboradores, por não
obedecer à norma NR 18, não regulamentadora que a construção civil adota
como norma para a segurança de todos os funcionários.

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 85


EMPRESA F
Esta construtora com atuação no mercado de 20 a 25 anos,
construindo prédios de alto luxo. Este prédio conta com cerca de 40
pavimentos sendo edifício residencial no bairro nobre de João Pessoa – PB.

Figura 25 – Canteiro de obras sujo e Equipamentos de proteção coletiva


com tela rasgada e sem sinalização

Fonte: Os autores.

Laje totalmente cheia de entulhos e guarda corpos rasgados e


mal isolados com risco grande na periferia, pois analisasse a foto e notasse o
descaso e a improvisação que algumas obras ainda hoje em dia se submetem.

Figura 26 – Canteiro de obras com uso de proteção coletiva


adequado para o poço de ventilação

Fonte: Os autores.

86 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


Área isolada corretamente, mas com ressalvas, pois não possuem
placas de sinalização de fácil visualização, pondo assim em risco os
colaboradores e visitantes.
Figura 27 – Área de periferia com uso correto de
isolamento de periferia e laje sem entulhos

Fonte: Os autores.

Área limpa, ferramentas e materiais armazenados de maneira


adequada, garantido assim a segurança dos colaboradores e visitantes.

Figura 28 – Linha de vida inadequada

Fonte: Os autores.

Linha de vida inadequada, além de ter ferragens aparentes sem


proteções em suas cabeças para que não ocorra acidentes.

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 87


Figura 29 – Equipamento de proteção para abafamento de pilar
adequado e bandeja terciária adequada

Fonte: Os autores.

Proteção para o abafamento do pilar pela periferia, mas a foto no


seu entorno, nos mostra a ausência de linha de vida e materiais expostos na
laje,colocando em risco assim os colaboradores da obra.

Figura 30 – Escadas sem proteção lateral e placas de sinalização

Fonte: Os autores.

Escada e seu entorno com barreiras de materiais dificultando assim


a passagem além do seu guarda corpo lateral está totalmente errado, pois teria
que possuir telas e ter uma altura mínima a ser definida pelo seu PCMAT.
Conclui - se que a empresa, possui um corpo de segurança do
trabalho empenhado em diminuir os erros oriundos da não aplicação das
normas regulamentadoras, em especial as NR – 18 abordada em nosso
estudo com maior ênfase, deixando erros gravíssimos primários colocando
em riscos a segurança dos seus colaboradores.

88 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


CONSIDERAÇÕES FINAIS
A construção civil continua sendo um dos setores que geram mais
empregos e movimenta milhões de reais anuais movimentando assim toda a
economia, mas este setor precisa cada vez mais se atualizar, se adequando as
normas virgentes impostas pelo. MTE e órgãos fiscalizadores, pois o que foi
exposto neste trabalho fica evidente que as empresas na cidade de João Pessoa
– PB, não estão se importando com os colaboradores das suas respectivas
empresas, isto é um fato alarmante, pois sem investimentos neste setor para
a saúde e segurança do trabalhador a grande probabilidade de ocorrer mais
acidentes é enorme. Pois os funcionários são mal treinados, mal remunerados e
não trabalham em um ambiente salubre na maioria dos casos.
Os colaboradores têm que sujeitarem as tais condições de
trabalho para poderem levar sustento para as suas famílias, pois não existe
alternativa, ou seja, tem que trabalhar em um ambiente degradante a
dignidade da pessoa humana fica em último lugar, colocando as suas vidas
em riscos para que empresas lucrem cada vez mais valores exorbitantes,
colocando cada vez mais a vida dos trabalhadores em risco.
A realidade da construção civil é muito bem delineada por
Sampaio (1998), onde diz o seguinte:

“A construção civil é um dos ramos de atividade mais


antigos do mundo. Ao longo do tempo passou por uma
grande transformação. Em decorrência da evolução
por parte das obras, teve – se a perda de milhares
de vidas, provocadas por acidentes de trabalho e
doenças ocupacionais, causadas, principalmente, pela
falta de controle do meio ambiente do trabalho, do
processo produtivo e da orientação dos operários.”

Por fim os dados coletados nos mostram que os empregados e em-


pregadores têm que planejarem melhor os serviços, fazerem mais investi-
mentos em segurança afim de que, sobretudo a previdência social, não sofra
com tantas pessoas invalidas, ou viúvas recebendo pensão por morte de seus
cônjuges, pois o Brasil perde João Pessoa – PB e principalmente a pessoa
que teve sua vida ceifada ou inutilizada em cadeiras de rodas, deixaram de
produzir para suas famílias e o estado que arcará com estes custos, por conta
de uma estrutura deficitária e carente de investimentos.

REFERÊNCIAS
ANUÁRIO brasileiro de proteção (ABP) 2005. Novo Hamburgo: MPF Pu-
blicações Ltda, 2005. Edição especial da revista proteção.

DAMIÃO, Mary-Else Moreira. Controle das perdas em canteiros de


obras:uma contribuição da engenharia de produção para a melhoria
das condições de trabalho e aumento da produtividade. João
Pessoa,1999,129 p. Dissertação(Mestrado em Engenharia de Produção) –
Universidade Federal da Paraíba.

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 89


GIL, Antonio Carlos. Como elaborar projetos de pesquisa. 4.ed.São
Paulo Atlas,2002.
LAKATOS, Eva Maria; MARCONI, Marina de Andrade. Fundamentos de
metodologia científica. 5.ed. São Paulo: Atlas 2003.

MEDEIROS, José Alysson Dehon Moraes, RODRIGUES, Celso Luiz


Pereira. Inventário de soluções desenvolvidas em termos de segurança e
saúde no trabalho pelos operários da ICC/SE em João Pessoa – PB. In:
ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUÇÃO, 22,
Anais... Curitiba: PR, 2002. 1 CD ROM.

______. A existência de riscos na indústria da construção civil e sua relação


com o saber operário In: ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA
DE PRODUÇÃO.,21, Anais... Salvador: BA, 2001.1 CD-ROM.

NÓBREGA, David Gomes de Araújo. Aplicabilidade de sistemas de


informações gerenciais, na construção civil, subsetor de edificações,
sob o enfoque da saúde e segurança do trabalho. João Pessoa, 2004, 143
p. Dissertação (Mestrado em Engenharia de Produção) – Universidade
Federal da Paraíba.

ROLIM, Giovana de Almeida Marques. Controle das condições de saúde


e segurança do trabalho na indústria da construção civil: um estudo
multicaso. João Pessoa, 2004, 119p. Dissertação (Mestrado em Engenharia
de Produção) – Universidade Federal da Paraíba.

SAMPAIO, José Correia de Arruda. PCMAT: programa de meio ambiente


do trabalho na indústria da construção civil. São Paulo: Pini, 1998.

TAIGY, Ana Cristina. Perfil das inovações tecnológicas na construção


civil: subsetor de edificações em João Pessoa. João Pessoa,1991.
Dissertação(Mestrado em Engenharia de Produção) – Universidade Federal
da Paraíba

VÉRAS, Juliana Claudino, et al. Comunicações de acidentes de trabalho:uma


análise particular dos acidentes da construção civil no estado de Pernambuco.
In: ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUÇÃO. 23,
Anais... Ouro Preto:MG,2003. 1 CD- Rom.

VALENÇA, Samantha Leandro. Rotatividade da mão de obra de nível


operacional no âmbito dos sistemas de gestão da qualidade – um estudo
multicaso em empresas de construção de edifícios. João Pessoa, 2003.
120f. Dissertação (Mestrado em Engenharia de Produção) – Universidade
Federal da Paraíba, 2003.

90 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


CAPÍTULO 6

UTILIZAÇÃO DA CARTA SOLAR


E TRANSFERIDOR DE ÂNGULOS
DE SOMBRA COMO ROTINA NA
ELABORAÇÃO E ANÁLISE DE PROJETOS
ARQUITETÔNICOS
Dimitri Cavalcante da Rocha Lima1, Jaine Candido De Gois2,
Letícia Karoll Felizardo da Costa3.

RESUMO
A exigência de conforto ambiental nas edificações se faz cada vez
mais presente na atualidade com a prerrogativa da sustentabilidade,
no entanto, tais considerações são pouco absorvidas em projetos
arquitetônicos de forma efetiva. Para ressaltar a importância desse item
para a qualidade de vida e no desenvolvimento de cidades mais saudáveis,
foi feita um abordagem sobre um projeto de expressão na Paraíba: o
Projeto Habitacional Mangabeira. Deste projeto, desenvolvido pelo
Cehap na década de 1980, surgiu um dos mais populosos bairros de João
Pessoa. Ele foi o estudo de caso selecionado para demonstrar a utilização
da carta solar e do transferidor de ângulo de sombra, como ferramentas
importantes no desenvolvimento e análise de projetos arquitetônicos no
tocante a geometria da insolação. A partir do entendimento histórico,
técnico e formal do projeto em si, realizou-se a análise da insolação
nas aberturas dos ambientes de permanência prolongada encontrados
em suas tipologias habitacionais originais. A metodologia para a
exploração da temática incide em duas fases: descritiva e analítica. Ao
final foi apontado, de maneira sucinta, estratégias para serem adotadas
nos futuros projetos a fim de garantir qualidade de vida aos usuários,
aliado a compreensão que o conforto ambiental é indispensável para
alcançar esse objetivo. E mais, ressalta-se a facilidade e a importância do
uso da carta solar e transferidor auxiliar no ato de projetar edificações,
compreendendo-os como processo indissociável a sua concepção e capaz
de proporcionar melhores índices de conforto.

Palavras-Chave: Conforto ambiental. Proteção solar. Arquitetura.


Sustentabilidade..

1 Arquiteto e Urbanista - UFPE. Especialista em Engenharia de Instalações Prediais – Centro Ensino


– FESP – PB. Professor dos cursos de Engenharia Civil e Arquitetura e Urbanismo do Unipê. E-mail:
dimitricrl@gmail.com
2 Graduanda em Arquitetura e Urbanismo do Unipê. E-mail: jaine.candido.ifpb@gmail.com
3 Graduanda em Arquitetura e Urbanismo do Unipê. E-mail: leticiakarollfe@gmail.com

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 91


INTRODUÇÃO
Os grandes aglomerados urbanos têm partilhado de problemas
ambientais, sociais, culturais, políticos e/ou econômicos, de maneira especial
o déficit habitacional que abarca a carência da habitação e igualmente de
habitabilidade e infraestrutura. A crescente conscientização ambiental
que vem ocorrendo nos últimos anos acentuou a procura por conforto e
economia na sociedade atual. Entretanto, os projetos arquitetônicos têm,
em sua maioria, desconsiderado especificidades regionais, principalmente
no que diz respeito ao conforto ambiental e o desempenho energético.
Tendo em vista que o atual cenário brasileiro apresenta uma produção em
larga escala de novas unidades habitacionais destinadas a famílias de baixa
renda, incentivada pelo Governo Federal em parceria com os Estados e os
Municípios, torna-se cada vez mais pertinente e essencial à preocupação
com conforto ambiental nesses empreendimentos. Para Correia (2010);

[...] Em HIS as condições restritivas de seus


usuários requerem projetos ainda mais integrados ao
ambiente, que minimizem as demandas ambientais,
econômicas e sociais – por parte do governo ou
do próprio morador – de sua adaptação ao meio
natural, facilitando uma maior qualidade na moradia
e Conforto Ambiental ao usuário, impactando
diretamente na qualidade de vida (CORREIA, 2010,
p.15).

Na visão de Gonzalo (2003):

a arquitetura deve integrar tecnologia e natureza,


o clima e suas variações devem ser priorizados no
projeto das edificações. A edificação pode atuar como
um mecanismo de controle das variáveis do meio,
através de sua envoltória - paredes, piso e cobertura,
do seu entorno - água, vegetação, sombra, solo, etc
e, ainda, através do aproveitamento dos recursos
naturais ( LIMA; LEDER, 2010, p.44).

Associando essa necessidade a melhor utilização de dados climáticos


e de orientação, se faz necessário o entendimento sobre as variáveis que podem
interferir na solução arquitetônica mais eficaz a cada contexto.
Quando o assunto é conforto ambiental, muitos arquitetos, no ato
de projetar, limitam-se apenas a posicionar os ambientes de permanência
prolongada para leste e os de menor uso, tais como banheiros, cozinha e
área de serviço para oeste. Essa prática, embora não equivocada, nem
sempre protege adequadamente os ambientes da irradiação solar direta
ao longo do ano. Ainda, quando preveem algum dispositivo de proteção
das aberturas e/ou paredes, essas não são devidamente dimensionadas
ou posicionadas de acordo com a sua orientação e localização do projeto.
Para tal seria necessário a utilização das cartas solares e transferidores de
ângulos de sombras. Tais instrumentos/ferramentas possibilitam exatidão

92 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


e correto dimensionamento das proteções, indicação do período de insolação
das fachadas ao longo dos meses e do dia, determinar sombreamento da
edificação no seu entorno.
Embora durante a sua formação o arquiteto tenha acesso e
conhecimento sobre esta ferramenta, ela ainda é pouco utilizada para
projetar ou mesmo analisar se as soluções arquitetônicas são eficientes
no que se propõem. Desse modo, a escolha desse tema se torne pertinente
devido à importância que tais conjuntos habitacionais assumem na sociedade
brasileira em geral, e a de João Pessoa em particular.
É uma tarefa desafiadora procurar o que seria ideal de conforto
humano e o que nele interfere, pois, a adequabilidade e a satisfação do usuário
podem variar significativamente dependendo do contexto social, cultural e
econômico em que está inserido. Deve-se observar que a importância de se
construir utilizando as recomendações da Arquitetura Bioclimática reflete
no clima e no microclima de um determinado espaço – casa, vila, bairro,
cidade – e no dia-a-dia dos usuários, podendo ser de forma benéfica ou
maléfica (NEVES; FREITAS, 2010, p.9).
Para entender sua aplicabilidade nos projetos se faz necessário
alguns entendimentos sobre os conceitos de conforto ambiental e seus
desdobramentos. São três grandes grupos envolvidos no conforto: o homem
(as atividades, vestimentas e equipamentos), o clima (temperatura, umidade,
movimento do ar e radiação) e, por último, os materiais componentes das
edificações (vedações, aberturas e cobertura). Alguns autores esclarecem
de maneira didática como cada um deles se relacionam na denominada
Arquitetura Bioclimática, entendida segundo Juliana de A. Neves e
Ruskin Freitas como [...] aquela que permite que o edifício se beneficie
de ambientes confortáveis sem a necessidade (ou utilizando o mínimo) de
condicionamento artificial, segundo Jean-Louis Izard (1983):
Ela utiliza dados climáticos do local a ser “alvo” do
projeto, de modo a colaborar com o conforto e com
a eficiência energética da edificação. Para chegar a
esses últimos dados é necessário analisar o clima da
região (ou microclima, se o clima da região possuir
características diferenciadas do espaço analisado),
dados de temperatura, umidade e velocidade e direção
do vento médias, observar os materiais utilizados na
arquitetura local e sua tradição vernacular, a cultura
e o contexto socioeconômico de seus habitantes
(NEVES; FREITAS, 2010, p.3).

Desses três grandes grupos, o ponto fundamental de análise do


conforto é o Homem. Entende-se que a satisfação do usuário é o fator chave
nas decisões projetuais e, portanto, dever ser apreendido o funcionamento
de seu organismo e considerar as atividades por ele desenvolvidas, além
dos equipamentos abrangidos nelas. Vários autores já abordaram o tema
do conforto em edificações e ao longo do tempo muitas bases para projetos
com esse enfoque foram traçados, inclusive no Brasil, através de Normas
(ABNT) que alcançaram também as Habitações de Interesse Social - HIS.
Foram geradas várias formas de aplicá-los nos projetos, entre eles destacam-

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 93


se as Cartas Solares, a Cartas de Conforto, Carta Psicométrica, a Carta
Bioclimática Olgyay, adaptação de Givoni e as planilhas de Mahoney para
o caso brasileiro. Foram desenvolvidos índices de conforto considerando
diversas variáveis e, para o tratamento das informações climáticas, foi
estabelecido estratégias projetuais em um formato aplicável ao projeto.
Por conseguinte, é primordial para o projeto saber as
características do local onde será implantado. Deve considerar também
que a orientação da futura construção influi diretamente na adoção das
estratégias de conforto no interior dos ambientes, já que a trajetória solar
é diferenciada para cada localidade no globo terrestre. Cabe salientar que:
A Geometria da Insolação fornece um instrumental,
a partir de gráficos simplificados, para mensurar os
horários de insolação para distintas orientações de
paredes em cada latitude particular. A determinação
gráfica de sombras é importante, principalmente
em áreas urbanas, visto que em grande parte do
dia os raios solares diretos podem ser barrados
pelas construções vizinhas, modificando, portanto,
o horário real de insolação. Não menos importante
é a orientação das aberturas e dos elementos
transparentes e translúcidos da construção, que
permitem o contato com o exterior e a iluminação
dos recintos. A proteção solar das aberturas por
meio de “brise-soleil” ou quebra-sol é também um
indispensável recurso para promover os controles
térmicos naturais (FROTA; SCHIFFER, 2001,
p.16).

Tais condições e os seus valores são obtidos através das cartas


solares de cada latitude, bem como subsidiada pelos transferidores
auxiliares. Atualmente existem vários softwares que facilitam o acesso
dessas informações e avaliação dos dados integrados aos projetos.
Para dar organicidade ao trabalho, os itens desenvolvidos foram
sequencialmente assim distribuídos: um introdutório que aborda, em linhas
gerais, a temática em foco, ressaltando a importância de aplicar os conceitos
de conforto ambiental nos mais diversos projetos. O seguinte aborda os
procedimentos metodológicos utilizados e uma breve explanação sobre o
campo empírico escolhido como estudo de caso. O outro - analítico - centra-
se especificamente no aspecto climático, com ênfase nas condições de
insolação. Por último, o conclusivo, indica de maneira sucinta as estratégias
para serem adotadas nos futuros projetos arquitetônicos, no que diz respeito
aos conceitos de conforto ambiental. Esse trabalho objetiva corroborar na
concepção de projetos arquitetônicos, com ênfase no desempenho térmico,
utilizando cartas solares e transferidores auxiliares, mediante a facilidade do
seu uso na elaboração e análise de projetos frente aos aspectos de insolação.

94 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


MATERIAIS E MÉTODOS
As bases referenciais desse trabalho estão em consonância com
a literatura envolvida com a temática dentro do campo da arquitetura e
engenharia. Outro apoio documental importante, de caráter analítico-
teórico, foram as legislações em vigor.
O Projeto Habitacional Mangabeira em João Pessoa, elaborado
pela equipe da Companhia Estadual de Habitação Popular de Paraíba –
Cehap – foi escolhido como locus da realidade empírica para aplicabilidade
das cartas solares e transferidores. Foram adotados os procedimentos de
conforto ambiental recomendados pelas normas e legislações vigentes
com devidas adaptações para obtenção dos respectivos mascaramentos das
sombras.

CARTA SOLAR E TRANSFERIDORES DE ÂNGULOS DE


SOMBRA
A distribuição da insolação na esfera terrestre ocorre de forma
não homogênea, porém cíclica em função de algumas características como a
esfericidade da terra, a espessura da camada atmosférica, e, principalmente,
pela inclinação do eixo de rotação da terra em relação ao plano de órbita
de modo a possibilitar condições de aquecimento e resfriamento do globo
caracterizando as estações climáticas.
A carta solar de cada latitude representa, portanto, o percurso
aparente do sol ao longo dos meses e horas do dia, através de uma projeção
estereográfica (figura 1). Nela é possível identificar o ângulo percorrido na
horizontal (azimute) e ângulo incidente na vertical (altura solar) (figura 2).
Figura 1 - Carta solar Figura 2 - Altura solar

Fonte: RIBEIRO, 2003. Fonte: RIBEIRO, 2003.

Já o Transferidor de sombras é a ferramenta utilizada para


determinar as proteções solares em projeto, considerando orientação da
fachada, mês e hora. Estas proteções podem ser do tipo horizontal, vertical
ou mista e é fornecida através dos ângulos alfa, beta e gama (figura 3). Deve

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 95


ser utilizado em conjunto com a carta solar da localidade do projeto para
seu devido dimensionamento.

Figura 3 – Transferidores de ângulos de sombra, alfa, beta e gama

Fonte: Adaptado de FROTA, 1995.


Essas ferramentas, em conjunto, fornecem as máscaras de
sombras para cada orientação em projeto. A determinação dos ângulos
de proteção é obtida através dos passos a seguir indicados. Com a carta
solar, correspondente a latitude do projeto, marca-se o período desejável
de proteção (intervalo de meses e horas). A seguir, sobreposto a ela os
transferidores auxiliares de sombras, alfa, beta e gama. Escolhe-se o tipo de
solução a ser utilizada – horizontal, vertical ou mista, representadas pelos
ângulos alfa e beta e complementada por gama. Alinha-se então ao centro
da carta solar o alinhamento horizontal do transferidor (plano de fachada),
de acordo com sua orientação. Marcam-se então quais linhas cobrirão o
período selecionado de proteção, definindo a parte protegida como aquela
que estará dessa linha do transferidor ao plano da fachada. Obtêm-se, então,
os valores de suas angulações a serem lançadas nas proteções. (figura 4).
Figura 4 - Ângulos alfa, beta e gama

Fonte: Adaptado do programa SOL-AR.


A correta adoção desses dados permite estabelecer apropriadamente
o grau de proteção para as aberturas de uma edificação para um período
desejável de proteção, indicar o período de insolação ao longo do ano sobre as
fachadas, bem como determinar o sombreamento da edificação em seu entorno.
Este processo pode ser executado para desenvolvimento de projetos novos e
também na análise de projetos existentes.

AS UNIDADES HABITACIONAIS
O Projeto Habitacional Mangabeira foi um grande laboratório
para as experiências projetuais, onde foram exploradas ao máximo as
possibilidades urbanísticas e arquitetônicas, inclusos a diversificação
tipológica das habitações. Foi previsto o uso de determinadas tipologias nas

96 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


quadras que variavam em área, número de dormitórios, como também a
sua morfologia. No entanto, contavam sempre com: sala, cozinha, banheiro,
quarto e área de serviço externa, em alguns casos ainda apresentavam o
terraço.
Foram determinadas 10 (dez) tipologias denominadas pela Cehap
através dos códigos: PB15, PB17, PB18, PB19, PB20, PB21, PB23, PB24,
PB26 e PB27. Esses modelos habitacionais podem ser classificados em
Isoladas, Geminadas e Duplex. A seguir serão retratados, sinteticamente,
as dez plantas baixas dos modelos habitacionais, implantados no Projeto
Mangabeira, identificados por seus códigos.

Figura 5 - Tiplogias habitacionais do Conjunto Mangabeira

PB 15 PB 18 PB 19 PB 21

PB 20 PB 27 PB 17 PB 26

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 97


PB 23 PB 23 PB 24 PB 24

Fonte: LIMA, 2013.

Foram distribuídos em quadras predominantemente ortogonais.


Como decorrência da orientação dada aos padrões, as quadras teriam suas
maiores extensões orientadas segundo as direções dos ventos predominantes.
De uma maneira geral as Tipologias estão orientadas conforme Quadro 1
abaixo:
Quadro 1- Tipologias por categoria
Nº de Orientação
Tipo Tipologias
Padrões
PB15,PB17, PB18, PB19, Norte, Sul, Leste,
Isoladas 7
PB20, PB26 e PB27 Oeste
Geminadas 1 PB21 Norte, Sul
Duplex 2 PB23 e PB24 Leste, Oeste
PB17, PB18, PB19, PB20,
Total 10 PB21, PB23, PB24, PB26,
PB27 e PB29A-B
Fonte: LIMA, 2013.

Visando demonstrar a fácil utilização das cartas solares e


transferidores, bem como sua importância para projetos que prezam pelo
conforto ambiental, foram realizados os seguintes procedimentos:
O primeiro passo foi a coleta de dados a respeito das unidades
habitacionais, sua concepção urbanística, época da sua construção, partido
arquitetônico, plantas baixas, cortes, soluções adotadas, enfim, todos os
dados que corroborem ao entendimento pleno do empreendimento. No
segundo, de acordo com a carta solar e transferidor de ângulo de sombras,
elaborou-se o mascaramento das orientações das aberturas dos ambientes
de permanência prolongada (salas e quartos). As unidades habitacionais
de Mangabeira estão sempre orientadas para norte, sul, leste e oeste. Foi
analisada cada uma dessas orientações, identificando as combinações de
proteções, sejam horizontais, verticais ou mistas, para o período do verão
das 10:00 as 16:00. Utilizou-se a latitude 8ª sul como referência da carta
solar, correspondente a João Pessoa-PB.

98 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


Ao final, foi estabelecido um quadro resumo dos dados
necessários para as soluções de proteção das aberturas e algumas propostas
arquitetônicas.
O principal instrumento para análise da insolação direta nas
tipologias do projeto Mangabeira foi a carta solar e transferidor atendendo
o período selecionado, considerado crítico. Alguns softwares deram suporte
à referida análise, tais como o Sol-Ar, Sketchup, Autocad e Revit, para
apresentação dos resultados.

RESULTADOS E DISCUSSÃO
As unidades habitacionais de Mangabeira, orientadas sempre
no sentido leste-oeste, norte-sul, após sobreposição da carta solar e
transferidores de sombras, tiveram seus mascaramentos de sombras efetivos
determinados para o período em análise. Os dados foram sintetizados
para cada orientação de fachada e os tipos de soluções para as aberturas
recomendados para garantir eficácia da proteção.
Por meio da utilização dessa ferramenta, se obteve também o
período de insolação incidente, durante o ano, para todas as orientações,
conforme o gráfico 1. Constata-se que durante o verão a fachada norte
possui menor incidência solar quando comparada às demais, sendo
a sul a mais afetada. As fachadas leste e oeste vêm a seguir, porém com
apresentando incidência de praticamente a metade da sul. Essa informação
já é uma premissa para estratégias projetuais a serem contempladas quanto
ao conforto térmico, tendo em vista que a insolação direta é responsável por
grande parte dos ganhos de calor no interior das edificações.

Gráfico 1- Duração média da insolação nas fachadas durante o ano

Fonte: LIMA, 2013.

Como o foco da análise são as aberturas dos ambientes de


permanência prolongada, no caso - sala e quarto – e de posse dos dados
obtidos nos mascaramentos é possível estabelecer as propostas de proteção
das mesmas. Estas janelas possuem as dimensões de 0,90 x 1,20 x 0,90 (base
x altura x peitoril) e são denominadas J1. Compreendendo que as fachadas
Norte e Sul sofrem principalmente os efeitos da insolação relacionados

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 99


ao azimute, as proteções do tipo vertical são as mais indicadas. Aquelas
orientadas para leste e oeste, sofrem principalmente com relação à altura
solar e, consequentemente, o tipo de proteção que melhor atua é a horizontal.
Após comparar as diversas possibilidades de mascaramentos, a solução que
melhor se adéqua a situação estudada compõe o quadro 2 abaixo.

Quadro 2- Máscaras de sombras

ORIENTAÇÃO/ MÁSCARAS
NORTE SUL LESTE OESTE

ÂNGULOS DE SOMBRAS
α = 80º α = 55º α = 30º α = 30º
β = 85º β = 65º γ = 60º γ = 80º
β = 85º β = 65º γ = 80º γ = 55º
TIPO DE PROTEÇÃO
HORIZONTAL HORIZONTAL
+ + HORIZONTAL HORIZONTAL
VERTICAL VERTICAL
Fonte: Os autores.

A partir desse quadro acima referido, foi possível estabelecer, nos


projetos selecionados, os tipos de soluções, com identificação da orientação
das aberturas presentes nas tipologias (quadro 3).
Quadro 3- Tipo de proteções por tipologia e presença de aberturas
segundo orientação

TIPOLOGIA NORTE SUL LESTE OESTE


PB-15 α+β α+β Não se aplica α+γ
PB-17 Não se aplica α+β Não se aplica
PB-18 Não se aplica α+β α+γ Não se aplica
PB-19 α+β α+β α+γ Não se aplica
PB-20 α+β α+β Não se aplica α+γ

100 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


PB-21 Não se
α+β Não se aplica α+γ
aplica
PB-23 Não se
Não se aplica α+γ α+γ
aplica
PB-24 Não se
Não se aplica α+γ α+γ
aplica
PB-26 Não se aplica α+β Não se aplica α+γ
PB-27 Não se aplica α+β Não se aplica α+γ
Fonte: Os autores.
Conclui-se que os dois tipos de solução, mista e a horizontal
estarão presentes para todas as tipologias, todavia, por não apresentarem
janelas voltadas para todas as orientações, em algumas orientações não se
aplica a proteção.
Observa-se que quando a orientação da janela está para o norte,
e esta possuir o beiral, o mesmo, já atinge o necessário para proteger da
insolação no período selecionado. O mesmo não ocorre quando se trata das
outras fachadas, na sul verifica-se que para atingir o objetivo seria necessário
estender o beiral cerca de 50cm além do original, passando o beiral a possuir
1,00m. No caso da fachada leste e oeste, esse procedimento na seria muito
indicado, pois acarretaria um custo maior para suporte do beiral. (figura 6)

Figura 6 – Ângulos de proteção alfa segundo a orientação da abertura

Fonte: Os autores.

Para essa orientação, seria indicado o uso de brises-soleis


horizontais para sombreamento. Aplica-se a mesma solução de angulação,
porém, com uso diferente na solução arquitetônica, trabalhando de forma
a minimizar os custos adicionais quando se tiver restrição econômica ou
estrutural. A figura 7 demonstra algumas possibilidades.

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 101


Figura 7 – Demonstração de possibildiades de arranjos
nas proteções horizontais

Fonte: Os autores.

Com o uso da carta solar e transferidor de ângulos de sombras fica


fácil a solução arquitetônica quando se pretende proteger as aberturas da
insolação direta incidente. É papel do arquiteto decidir aquela que melhor
satisfaça as questões funcionais e estéticas, de acordo com o contexto de
inserção da nova edificação, bem como as questões socioeconômicas, entre
outros fatores. Aponta-se que, em muitos casos, com pequenas alterações e
ajustes de projeto, já seria possível garantir eficiência sobre esse tema, caso
tivesse sido utilizado este recurso. Tal fato poderia e deveria ser mais bem
analisado nos projetos desde o momento de sua concepção.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
A proposta representa um exercício de uma nova abordagem
que redirecione a concepção dos projetos arquitetônicos tendo em vista
um melhor atendimento as questões de conforto ambiental, em especial no
correto dimensionamento e localização e tipo de proteção frente à insolação
direta nas aberturas. Visando, dessa forma, uma melhor sensação de conforto
dos usuários das edificações propostas.
Quando esta ferramenta é utilizada no dia a dia dos projetistas,
se torna um grande auxiliar para obtenção de melhor desempenho das
edificações, tendo em vista que ela é capaz de fornecer dados diretos e
importantes para proteção das aberturas da insolação. Sabe-se que a
negligência desse aspecto, por desconhecimento ou por comodismo, pode
influenciar significativamente nos custos da operação e manutenção da
edificação ao longo da sua vida útil.
Os benefícios obtidos serão desfrutados pelos usuários, e
ampliados para as cidades como um todo, pois atuam na redução dos efeitos
do calor e de seus desdobramentos com gastos energéticos. A despeito dessa
constatação, as tentativas são sempre válidas e merecem ser consideradas
para uma melhor adequação dos projetos futuros nessa área.

102 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


REFERÊNCIAS
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15220-3:projeto 02:135.07-001/3: desempenho térmico de edificações
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habitações unifamiliares de interesse social. Rio de Janeiro, 2005.

_____. NBR 15220-3: desempenho térmico de edificações parte 3: zone-


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unifamiliares de interesse social. 2005.

BITTENCOURT, Leonardo. Uso das cartas solares: diretrizes para


arquitetos. Maceió: Edufal, 2004.

BROWN, G. Z. ; DEKAY, M. Sol, vento & luz: estratégias para o projeto de


arquitetura. 2ed. Porto Alegre: Bookman, 2004.

CORBELLA, Oscar. Em busca de uma arquitetura sustentável para os


trópicos: conforto Ambiental. Rio de Janeiro: Ed. Revan, 2003.

CORREIA, Ludmila de Araújo. Conforto ambiental e suas relações


subjetivas: análise ambiental integrada na habitação de interesse social.
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CUNHA, Eduardo Grala da (org.). Elementos de Arquitetura de


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FONSECA, Ingrid C. L. et al. Arquitetura moderna e conforto ambiental


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LATINO-AMERICANO DE CONFORTO NO AMBIENTE
CONSTRUÍDO (ENCAC/ ELAC), 8. Anais... Maceió, 2005.

FROTA, Anésia B. Geometria da Insolação. São Paulo: Ed. Geros, 2004.

______. SCHIFFER, Sueli Ramos. Manual de conforto térmico. São


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como um lugar ameno nos trópicos ensolarados. Recife: UFPE, 1976.

LAMBERTS, Roberto. Eficiência energética da Arquitetura. São Paulo:


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ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 103


LIMA, Dimitri Cavalcante da Rocha. Habitação social e conforto
ambiental: uma visão crítica do Projeto habitacional Mangabeira – João
Pessoa-PB. João Pessoa: FESP-CE, 2013.
MASCARÓ, Lúcia R. Energia na edificação: estratégia para minimizar
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RIBEIRO, C. A. M. Aplicação de técnicas de geoprocessamento para


análises das relações entre o fator de visão do céu e as diferentes
orientações da malha urbana . João Pessoa. Monografia (Graduação)
Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnológica da Paraíba, 2003.

SILVA, Antônio Willamys Fernandes da. Transformações urbanísticas


em um bairro planejado: o caso do projeto habitacional Mangabeira em
João Pessoa – PB. Dissertação (Mestrado) - Universidade Federal da
Paraíba. João Pessoa, 2005.

104 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


CAPÍTULO 7

ANÁLISE COMPARATIVA DOS TIPOS


DE ESTACAS, FATORES DE ESCOLHA E
SUAS APLICAÇÕES
Érika Suyani Maria de Freitas Alves1, Matheus Varela Cavalcanti2, Antônio da
Silva Sobrinho Júnior3, Ulisses Targino Bezerra4

RESUMO
A engenharia de fundações é a área especializada que tem com
finalidade lidar com projetos e execução de fundações. As fundações
são elementos de infraestrutura que tem como funcionalidade
suportar as cargas provenientes da superestrutura e transmiti-las,
com a devida segurança, ao terreno em que ela se apoia. As estacas
são um tipo de fundação profunda e que apresentam vários tipos
de acordo com o material ou método executivo. A escolha do tipo
de estaca empregada é de total responsabilidade do engenheiro de
fundações e este se depara com alguns fatores antes de determinar
a solução adequada para determinado caso. Portanto, diante destes
fatores, este trabalho tem como objetivo uma análise comparativa
dos diferentes tipos de estacas e suas aplicações, através de estudos
de casos. Este trabalho consistiu em uma revisão bibliográfica de
conceitos e aplicações das fundações existentes, e posteriormente, na
análise de estudos de casos. Foram analisadas duas obras que optaram
por estaca como fundação, que apresentaram dois tipos diferentes de
solo e condições de vizinhança diferenciadas. No primeiro, a empresa
escolheu a opção que apresentava um bom histórico na região. Já
no segundo caso, ela preferiu uma solução mais cara, porém mais
segura no que diz respeito ao método executivo, pois o solo era
bastante mole, além disso, procurou evitar quaisquer transtornos
com a vizinhança. Portanto, em ambos os casos, pôde ser visto que a
empresa responsável optou por soluções seguras, evitando possíveis
problemas futuros, os quais poderiam acarretar em custos maiores.

Palavras-Chave: Construção Civil. Fundações. Estacas.

1 Graduanda do curso de Engenharia Civil. E-mail: erika_suyanef@live.com


2 Graduando do curso de Engenharia Civil. E-mail: matheusvarelacavalcanti@gmail.com
3 Engenheiro Civil e Doutor em Engenharia Mecânica. Professor do Curso de Engenharia Civil do Unipê.
Professor do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da UFPB. E-mail: sobrinhojr@hotmail.com
4 Engenheiro Civil e Doutor em Ciência e Engenharia de Materiais (UFRN). E-mail: dartarios@yahoo.com.br

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 105


INTRODUÇÃO
A engenharia de fundações é a área especializada que tem como
finalidade lidar com projetos e execução de fundações. De acordo com Cintra e
Aoki (1999), este é o ramo da engenharia que possui caráter multidisciplinar
ao avaliar os parâmetros e solicitações, através da engenharia de estruturas
e geotecnia.
Em qualquer obra de Engenharia, existe certa probabilidade
de riscos. Porém, em obras que envolvem terra e fundações, esse risco é
particularmente maior que as demais áreas da Engenharia Civil, devido
principalmente a natureza do solo que é trabalhado. Portanto, o solo
tem sido objeto de estudo de grandes profissionais na área de fundações
(VELLOSO, 2010).
As fundações são elementos de infraestrutura que tem como
funcionalidade suportar as cargas da superestrutura e transmiti-las, com
a devida segurança, ao terreno em que ela se apoia. A NBR 6122 (ABNT,
2010) classifica estes elementos em função da profundidade de assentamento
da base, sendo as fundações superficiais e as fundações profundas. Neste
segundo grupo podemos encontrar as estacas, as quais podem ser
classificadas de acordo com material (aço, madeira, concreto) e o método
executivo (Strauss, Franki, Raiz, etc).
A escolha do tipo de estaca empregada é de total responsabilidade
do engenheiro de fundações. Para determinar a estaca mais adequada devem
ser conhecidos os esforços atuantes sobre a edificação, as características do
solo e dos elementos estruturais que formam as fundações. Logo, analisa-
se a possibilidade de utilizar vários tipos de estacas, tendo como fator
determinante de escolha a complexidade de execução e os custos.
Além da preocupação com as características do solo e as cargas
provenientes das edificações, o profissional responsável também deve se
preocupar com a integridade física das obras da vizinhança, visto que alguns
tipos de estacas geram vibrações altíssimas em sua execução. Vale ressaltar
também, os fatores que afetam diretamente o custo, como por exemplo, a
complexidade do método executivo, disponibilidade de material e de mão de
obra especializada.
Deste modo, diante das variáveis impostas na escolha do tipo
de estaca utilizada em uma determinada obra, é de suma importância para
o engenheiro civil saber lidar com as diferentes situações na prática, para
determinar o tipo de estaca. Portanto, este trabalho tem como ênfase o
estudo dos tipos de estacas e suas aplicações, através de estudos de caso.

METODOLOGIA
A metodologia desenvolvida neste trabalho consistiu,
primeiramente, em uma pesquisa bibliográfica dos conceitos e aplicações das
estacas existentes e relatadas em trabalhos acadêmicos, como por exemplo,
livros técnicos, artigos e algumas monografias.
Após o desenvolvimento de conceitos principais das estacas,
partiu-se para a análise de alguns estudos de casos práticos, referentes a
construções que utilizavam as estacas como fundações, com o intuito de

106 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


estudar quais foram, na prática, os elementos cruciais na determinação
daquele tipo fundação. Com a análise concluída foi realizada uma comparação
dos fatores que determinam o tipo de estaca na teoria com os relatados nos
estudos de casos, para um melhor entendimento da importância de que um
engenheiro deve tomar conhecimento das convergências entre a teoria e
prática na hora de tomar as decisões.

REFERENCIAL TEÓRICO

ESTACAS
As estacas são elementos de fundação profunda que são executados
com o auxilio de ferramentas ou equipamentos e que podem ser de aço, madeira,
concreto pré-moldado ou moldado in situ. Segundo Alonso (1983), as estacas
são elementos estruturais esbeltos que, colocados no solo por cravação ou
perfuração (escavação), têm a finalidade de transmitir cargas ao mesmo, através
da resistência sob sua extremidade (resistência de ponta), pela sua resistência ao
longo do fuste (atrito lateral) ou pela combinação das duas.
Existe hoje uma variedade muito grande de tipos de estacas para
fundações. Com certa frequência, um novo tipo é introduzido no mercado e
a técnica de execução de estacas está em permanente evolução (HACHICH
et al., 1998).
De acordo com Velloso e Lopes (2010) as estacas podem ser
classificadas de acordo com o material, sendo de madeira, aço, concreto (pré-
moldado ou moldado in loco), mista, ou segundo o processo executivo, como
por exemplo, estacas de deslocamento (estacas cravadas), sem deslocamento
(estaca raiz), de substituição (escavadas em geral).
Na figura 1, pode ser visto alguns exemplos de estacas mas
utilizadas.

Figura 1 – Alguns tipos de estacas existentes (a) estacas metálicas; (b) de


concreto pré-moldado; (c) tipo Strauss

(a) (b)

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 107


(c)

Fonte: FUNDAÇÕES, 2016.

INVESTIGAÇÕES GEOTÉCNICAS
A elaboração de projetos de fundações de qualidade depende,
entre outros fatores, do conhecimento do solo em que a edificação será
construída, ou seja, o profissional responsável deve saber identificar e
classificar as diversas camadas que o compõe. Isto é possível através de
ensaios de investigações (ou prospecção) geotécnica, classificados em ensaios
de laboratórios e ensaios de campo (QUARESMA apud HACHICHI, 1998).
No Brasil, o método de ensaio e sondagem de solo mais utilizado
é o Standard Penetration Test (SPT), devido a sua tecnologia relativamente
simples e de boa coerência e confiabilidade nos resultados, isto ocorre
porque sua execução é regulamentada pela NBR 6484( ABNT,2001).
O Standard Prenetration Test (SPT) ou sondagem à percussão é
um procedimento geotécnico que consiste na cravação de um amostrador
padrão no solo, através de quedas sucessivas de um peso de 65 kg (martelo)
de uma altura determinada de 75 cm. O equipamento utilizado neste
processo é bastante simples e composto de um tripé formado por roldanas,
hastes, amostrador e martelo. O índice de resistência à penetração (N) é
obtido anotando o número de golpes necessários para cravar os 45 cm do
amostrador em três conjuntos de golpes para cada 15 cm. O resultado deste
ensaio é determinado pelo número de golpes necessários para cravar os 30
cm finais, desprezando os primeiros 15 cm (BRAGA, 2009).

CAPACIDADE DE CARGA
O projetista de fundações necessita conhecer os esforços
resultantes nos pilares da estrutura em questão para que possa definir o tipo
de fundação a ser executada. Cintra e Aoki (2010) definem a capacidade de
carga como sendo o valor da força correspondente à máxima resistência que
o sistema pode oferecer, em termos geotécnicos. Sendo esta força definida
pela soma da parcela de ponta e de atrito (entre fuste da estaca e o solo).
Existem diversos métodos de se calcular a capacidade de carga de
uma estaca. Entretanto, no Brasil os métodos mais utilizados são o de Aoki e
Velloso (1971) e Décourt e Quaresma,1978, pois são os que calculam a capacidade
de carga em função dos resultados das sondagens a percussão (SPT), o método
de investigação geotécnica mais usual do Brasil (AOKI; CINTRA, 2010).

108 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


ASPECTOS ECONÔMICOS
Fundações bem projetadas correspondem em média de 3% a
10% do custo total da obra, mas, se forem mal executadas e mal projetadas,
podem chegar a atingir 5 a 10 vezes o custo da fundação mais apropriada
para o caso (BRITO, 1987).
Deste modo, o custo não está necessariamente ligado à forma
direta, por metro de estaca construída. O construtor deve analisar outros
aspectos para a determinação final do custo, como por exemplo, o tempo
de execução, pois soluções com custos elevados, mas prazos de execução
menores podem ser viáveis, e disponibilidade de mão-de-obra de confiança no
mercado, pois algumas soluções dependem de cuidados durante a execução.
Cuidados ao escolher a solução adequada também afeta diretamente o custo,
pois a ruptura de uma estaca durante a prova de carga pode implicar em
despesas adicionais muito grandes no contrato.
De acordo com a ABCP (2016), considerando em uma escala
relativa de custos da utilização de fundações profundas, pode-se, de um
modo genérico, afirmar que:

• As estacas pré-moldadas é uma das soluções mais econô-


micas;
• A estaca tipo hélice contínua já foi considerada de custo ele-
vado, mas devido a sua alta produção e aumento na deman-
da, houve uma redução nos custos;
• A estaca tipo Franki é considerada mais cara que as anterio-
res, porém possui um custo menor que a estaca raiz;
• A estaca raiz possui alto custo.
Vale salientar, que cada caso é um caso, ou seja, em uma
determinada edificação um tipo de fundação pode ser mais econômica, mas
em outra obra, este mesmo tipo de fundação, pode ser a solução mais cara.
Na determinação do custo direto final de um alternativa, é preciso levar em
consideração três itens principais: a mão-de-obra, o material utilizado na
execução, e o volume do bloco de coroamento, que neste último, dependendo
do valor pode tornar uma solução inviável (BRAGA, 2009).
Cardoso e Santos (2013) em sua obra estudaram o custo de
estacas de uma determinada situação, ao comparar os custos das estacas pré-
moldadas de concreto armado, estacas raiz e estacas metálicas, determinou
que as estacas metálicas são de fato a solução mais cara do mercado.

OBRAS VIZINHAS
O engenheiro de fundações deve tomar conhecimento de algumas
informações sobre as construções vizinhas da obra em que será construída,
pois algumas estacas durante sua execução geram vibrações que podem
afetar as construções próximas. De acordo com a ABCP (2016), deve se
conhecer o tipo de estrutura e das fundações vizinhas, saber se há subsolos,

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 109


analisar os efeitos de escavações e vibrações gerados pela obra, e tomar
conhecimento dos danos já existentes.
As vibrações são provenientes do processo de cravação das
estacas e causam mais danos quando cravadas em areias fofas. Velloso e
Lopes (2010), afirmam que prédios mais antigos que possuem paredes de
alvenaria espessas, são extremamente sensíveis, pois, mesmo apresentando
grande rigidez por conta dos elementos maciços, são, ao mesmo tempo,
frágeis. Além disso, as vibrações podem causar incômodos às pessoas e
acabar limitando algumas atividades, como o trabalho de precisão em
fabricas, escolas, hospitais, etc.
Portanto, é de suma importância, que antes de definir o tipo
de estaca a ser escolhida, cabe ao engenheiro analisar as condições e
atividades das construções vizinhas, para evitar problemas que venham a
ser acarretados pelas vibrações geradas pela execução das estacas.

RESULTADOS E DISCUSSÕES

CASO A: EDIFICIO 18 PAVIMENTOS

Dados da estrutura
A obra do estudo de caso é uma edificação de 18 pavimentos
destinada para uso residencial e está localizada na cidade de João Pessoa –
PB. Os pilares da estrutura devem transmitir a fundação cargas na ordem
de 42 tf a 440 tf.

Investigações Geotécnicas
Foram realizados quatro furos de sondagens, nos anexos estão
presentes os resultados dos furos 01 e 02. Os resultados das sondagens
apresentam solos resistentes, pois em suas primeiras camadas demonstram
pouca a média compactação, atingindo grandes resistências à penetração
nas profundidades a partir de 12 m, com valores acima de 20. Os solos
apresentados são, em sua grande maioria, silte-argilo-arenoso, silte-
arenoso, areias-siltosas, argilas-areno-siltosas. Além disso, vale salientar
que este solo é impenetrável à percussão nas profundidades a partir de 19
m. Não foi detectado o nível do lençol freático nesta sondagem. Foi definida
para o cálculo das estacas, uma profundidade que varia de 12 m a 14 m, que
possuem Nspt acima de 20.
Estacas sugeridas
Analisando o resultado do ensaio de sondagem (SPT) e as
capacidades de cargas através do método de Aoki e Velloso 1971, as
estacas sugeridas são Strauss, Pré-moldadas de concreto, Franki, Hélice
continua, Metálicas e Escavadas. Entretanto, é aconselhado não executar
as estacas cravadas (Franki, Pré-moldada de concreto e Metálicas), pois o
solo apresenta muita resistência e pode provocar transtornos devido a alta
vibração gerada na execução.
A partir deste momento, serão analisados outros fatores além da

110 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


capacidade de carga para que possa determinar a solução correta para este
determinado tipo de edificação.
Obras vizinhas
A obra do estudo de caso está localizada próxima a diversas
edificações destinadas tanto para o uso comercial quanto residencial e que,
aparentemente, apresentam condições normais de uso.
Estaca escolhida
O tipo de estaca escolhido foram estacas escavadas com
profundidades de 12 m e diâmetros de 400 mm, 600 mm e 700 mm,
apresentando, respectivamente, cargas admissíveis de 60 tf, 140 tf e 190 tf.
Considerações da construtora
O diretor técnico da construtora alega que antes de contratar as
empresas que irão executar as fundações, em conjunto com o engenheiro
estrutural e o engenheiro geotécnico de confiança, analisam as soluções
viáveis para aquele determinado tipo de obra. Deste modo, ao contratar
as empresas, a construtora já tem em mente qual tipo de fundação será
executada.
Para esta obra, o diretor afirmou que o motivo que determinou
o tipo de estaca foi a análise de qual fundação possuía melhor histórico e
consolidação no mercado da região. Após este estudo, analisaram que
a utilização das estacas escavadas para essa edificação era a solução que
possuía, naquela região, um histórico sem casos de insucessos. O diretor
ainda alegou que é politica da empresa ser conservadora, principalmente
quanto às fundações, pois os solos possuem peculiaridades em função de
cada região e que devem ser levadas em considerações.
Para a empresa, os fatores que determinaram a escolha da
fundação, foi em uma ordem de importância, o histórico daquele tipo de
fundação na região, particularidades das obras vizinhas, e por último, o
custo, pois em relação à grandiosidade da obra esta tomada de decisão não
irá pesar tanto no orçamento final.
Portanto, a empresa agiu em prol da segurança e conforto, ao decidir
a solução que possui um bom histórico na região onde a obra será consolidada.

CASO B: EDIFICIO 20 PAVIMENTOS

Dados da estrutura
A estrutura do estudo de caso é uma edificação de 20 pavimentos
destinada ao uso residencial e está localizada na cidade de João Pessoa – PB.
Os pilares da estrutura devem transmitir a fundação cargas na ordem de
445 tf a 1000 tf.

Investigações Geotécnicas
Foram realizados três furos de sondagens, em anexo está presente
o resultado mais completo. Os resultados das sondagens apresentaram

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 111


solos bastante moles nesta região. Contatou-se, portanto, que os solos que
possuíam Nspt igual a 1,estão presentes nas faixas de profundidades de 1
m a 11 m, tendo um aumento da resistência em 12 m, com um Nspt de 22 e
caindo aos poucos até 22 m, após esta profundidade é constatado o aumento
na resistência à penetração até que não fosse possível a continuação do ensaio
a percussão, ou seja, atingiu a rocha calcaria. O nível do lençol freático foi
verificado a 1,35 m de profundidade.
Estacas sugeridas
Nesta obra, houve a particularidade do solo ser bastante mole e
apenas apresentando resistência a partir de 22 m de profundidade. No que
diz respeito às capacidades de cargas poderiam ser utilizadas as mesmas
soluções do caso anterior, mas, como o solo apresenta esta peculiaridade e
apresentar lençol freático, aconselha-se excluir o uso das estacas moldadas
in loco, logo se recomenda o uso das estacas pré-moldadas (metálicas e de
concreto armado). Este motivo se dá pelo fato de que as estacas moldadas
in loco, neste tipo de solo, necessitam de controles e cuidados minuciosos na
execução, devido ao risco de estrangulamento do fuste.
Obras vizinhas
A obra do estudo de caso está localizada próxima a diversas
edificações altas, destinadas ao uso residencial e que, aparentemente,
apresentam condições normais de uso. Além disso, em sua proximidade há
uma escola de ensino infantil.
Estaca escolhida
O tipo de estaca foram estacas metálicas de perfil HP 310 x 79
cravadas em comprimentos variando de 22 m a 24 m, com cargas admissíveis
de 120 tf.
Considerações da construtora
O diretor técnico da construtora afirma que, como discutido no
caso anterior, analisou em conjunto com os engenheiros, de estruturas e
geotécnico, as soluções para este caso específico, e chegaram a três tipos de
fundações, a estaca metálica, a hélice continua e a estaca tipo Franki.
No que diz respeito, a análise de histórico de fundações da região,
o diretor alegou que os prédios presentes no quarteirão onde a obra se
encontra, apresentam fundações com estaca metálica, outros com o tipo
Franki e alguns com estaca hélice continua. Deste modo, partiram para
a análise de alguns fatores, como possíveis transtornos com a vizinhança.
Logo de imediato a solução tipo Franki foi descartada, visto que havia uma
escola nas proximidades e este tipo de fundação gera vibrações enormes
durante sua execução.
Sobre a estaca metálica, apresentou como vantagem ser cravada
por um bate-estaca, o qual foi analisado antecipadamente e pessoalmente
pelo diretor técnico, que concluiu que a vibração gerada era mínima. Embora,
gerasse mais ruídos do que a estaca hélice continua, toda a fundação ficou
pronta em 15 dias, pois não dependia de concreteiras para a execução. Além
disso, a estaca metálica ainda apresentava como vantagem, a integridade da

112 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


estaca no que diz respeito à profundidade, após atingir a nega. Este tipo de
estaca só apresentou mesmo o custo como desvantagem para empresa.
Tanto a estaca hélice contínua quanto a tipo Franki, apresentavam
riscos de estrangulamento do fuste, já que dependia da habilidade do operador
e a construtora não queria ficar refém desta habilidade. Embora, segundo
as empresas responsáveis pela execução da fundação, houvesse garantias
da segurança durante a execução, a construtora decidiu pela segurança na
escolha da estaca metálica mesmo seu custo sendo mais elevado.
Em suma, a construtora, mais uma vez, preferiu partir para
segurança na escolha da estaca metálica, pois as mesmas apresentavam
diversas vantagens em relação às outras, principalmente no fato da
segurança, rapidez e conforto ao evitar transtornos com os vizinhos.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
As fundações são elementos estruturais de mportância igual à de
uma superestrutura, pois é responsável por transmitir todas as cargas com
segurança ao solo. Além disto, estes elementos podem ser de vários tipos
de acordo com o material ou processo executivo, possuindo vantagens e
desvantagens relacionadas a determinadas situações. Deste modo, é muito
importante que o engenheiro civil responsável pela construção de novas
edificações conheça as peculiaridades de cada fundação existente e saiba
lidar com as diferentes situações na prática, que ocorrem ao determinar o
tipo de estaca, pois são diversos os fatores que estão diretamente ligados a
este processo.
Primeiramente, podemos relatar o fato de o solo possuir
propriedades relativas a determinadas regiões e que deve ser analisado com
bastante cautela e segurança ao se escolher a fundação adequada. No que
diz respeito ao caso dos solos, a empresa responsável pela execução dos
estudos de casos analisados neste trabalho, tratou este fator com bastante
segurança, ao fazer um estudo prévio do histórico das fundações mais
utilizadas na região e com índice de insucesso nulo.
Além disso, foi visto que a empresa se preocupava com os possíveis
transtornos causados às obras vizinhas devido à execução de algumas
estacas, colocando como um dos fatores principais para determinação do tipo
de estaca. Sobre os custos da fundação, a empresa decidiu colocá-los como
último fator de escolha, pois preferiu agir de forma segura e confortável,
evitando possíveis problemas futuros, os quais podem acarretar em custos
maiores.
Vale ressaltar também, que as empresas specializadas na
execução das fundações podem influenciar na escolha do tipo de fundação,
ao sugerir outros tipos que podem ou não ter sido utilizada naquela região.
Entretanto, cabe ao engenheiro responsável à decisão final, se vai ou não
assumir determinados riscos.
Portanto, diante do que foi proposto, acredita-se que, além dos
outros fatores, a análise do histórico de fundações da região foi uma solução
bastante interessante para decidir o tipo de fundação com segurança. Deste
modo, pesquisas com ênfases nos tipos de fundações mais utilizadas em
determinadas regiões para uma análise, é de bastante interesse e de suma
importância para soluções futuras.

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 113


REFERÊNCIAS
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS (ABNT). NBR
6122: projeto e execução de fundações. Rio de Janeiro: ABNT, 2010. 91 p.

______. NBR 6484: solo – sondagens de simples reconhecimento com SPT


– método de ensaio. Rio de Janeiro: ABNT, 2011. 17 p.

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE CIMENTO PORTLAND (ABCP).


Manual de Estruturas: Fundação. Rede Federal – Educação Tecnológica
– SETEC. Disponível em: < http://portal.mec.gov.br/expansao-da-rede-
federal>. Acesso em: 24 out. 2016.

ALONSO, U. R. Exercício de Fundações. São Paulo: Edgard Blucher


Ltda,1983.

AOKI, N.; CINTRA, J. C. A. Fundações por estacas: projeto geotécnico.


São Paulo:Oficina de Textos, 2010. 96 p.

BRAGA, V. D. F. Estudo dos tipos de fundações de edifícios de múltiplos


pavimentos na região metropolitana de Fortaleza. Monografia( Graduação
em Engenharia Civil). UFCE – Ceará, 2009.

BRITO, José Luis Wey de. Fundações do edifício. São Paulo: EPUSP,
1987.

CARDOSO, M. J.; SANTOS, A. A.; Projeto geotécnico de fundações


profundas em solos moles: estudo de caso. Artigo (Graduação em
Engenharia Civil). Universidade do Extremo Sul Catarinense – UNESC.
Criciúma – SC, 2013.

CINTRA, J.C.A; AOKI, N. Carga admissível em Fundações Profundas.


São Carlos: Publicação EESC – USP, 1999. 61p.

FUNDAÇÕES. Disponível em: < http://blog.construir.arq.br/category/


engenharia/fundacoes/>. Acesso em: 24 out. 2016.

HACHICH, W. et al. Fundação: teoria e prática. 2.ed. São Paulo, Pini,


1998.

QUARESMA, A. R. et al. Investigações geotécnicas: introdução. In:


HACHICH, W. et al. Fundações: teoria e prática. 2. ed. São Paulo: Pini,
1998. 119p.

VELLOSO, D. A.; LOPES, F. R. Fundações: critérios de projeto, investigação


do subsolo, fundações superficiais, fundações profundas. São Paulo: Oficina
de textos, 2010.

114 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


ANEXO - SONDAGEM: Caso B: Edificio de 20 pavimentos.

SONDAGEM: Caso B: Edificio de 20 pavimentos (Continuação).

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 115


116 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II
SONDAGEM: Caso A: Edificio de 18 pavimentos.

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 117


CAPÍTULO 8

ESTUDO DAS PATOLOGIAS CAUSADAS


POR RECALQUE DE FUNDAÇÕES RASAS
Bruno Monteiro Cunha1, Bruno Luiz David Costa2, Victor Amorim de Carvalho3,
Ramon Silva Menezes4, Wilson Cartaxo Soares5.

RESUMO
Os problemas provenientes de projeto, execução ou do uso de qualquer
construção são determinados por vários tipos de manifestações que se
tornam visíveis ao longo do tempo. Essas manifestações são exploradas
com o intuito de identificar suas causas e origens, com o objetivo de
se obter uma melhor solução para o problema. Entretanto, isto se
torna mais difícil ao serem analisados elementos de fundações, pois os
mesmos se encontram enterrados no terreno. O objetivo do presente
trabalho é abordar a importância da identificação e conhecimento das
causas de patologias, como fissuras, rachaduras e trincas, provocadas
por recalque provenientes de fundações rasas. A pesquisa teve, como
base, uma revisão bibliográfica sobre o aparecimento de patologias em
edificações, tendo como origem as deformações do solo. Nessa revisão
foram analisadas as principais causas do aparecimento de recalques
diferenciais nos solos e como estes recalques induzem o aparecimento
de danos nas edificações, com objetivo de tornar possível a correta
identificação, prevenção e solução das manifestações patológicas que
são provenientes dos recalques das fundações rasas.

Palavras-Chave: Recalque. Fundações rasas. Patologia estrutural.

1 Graduando em Engenharia Civil. E-mail: eng.brunomonteiro@hotmail.com


2 Graduando em Engenharia Civil. E-mail: brunoldcosta@gmail.com
3 Graduando em Engenharia Civil. E-mail: victoramorim.eng@gmail.com
4 Graduando em Engenharia Civil. E-mail: ramonmenezes12@hotmail.com
5 Doutor em Engenharia Civil - Área Geotecnia. Professor do Curso de Engenharia Civil do Unipê.
E-mail: wilson.soares@unipe.br

118 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


INTRODUÇÃO
O acelerado crescimento da construção civil provocou a
necessidade de inovações que trouxeram uma aceitação implícita de maiores
riscos. Aceitos estes riscos, ainda que dentro de certos limites, o avanço
do desenvolvimento tecnológico aconteceu naturalmente e, com isso, houve
um aumento do conhecimento sobre estruturas e materiais, em particular
através do estudo e análise dos erros ocorridos, que tem resultado em
degradação precoce ou em acidentes (SOUZA E RIPPER, 1998). Neste
ramo, é possível encontrar diversos problemas causados na estrutura de
uma obra e um dos motivos é a fundação, onde torna-se um problema mais
delicado, pois após a sua conclusão, ela encontra-se enterrada, tornado
difícil a sua inspeção em busca de erros. Quando se trata de terreno, o solo
é o principal objeto de estudo, afinal é ele quem recebe as cargas de uma
estrutura e a sua má análise, má execução ou uso de materiais indevidos
podem gerar diversos sintomas futuros, causando patologias na edificação.
Segundo Quintana e Ribeiro (2014), a patologia da fundação
é o estudo da causa e dos efeitos dessas falhas na fundação, fazendo o
diagnóstico e em seguida é feito um estudo para a elaboração de uma solução
contemplando a recuperação, reforma, limitação de uso ou demolição total
ou parcial da área afetada pela patologia.
Como nos últimos anos houve um acréscimo no número de
casos de erros nas construções, os estudos sobre o tipo de fundação e o
solo a ser executado passaram a ter uma atenção dobrada na projeção de
uma edificação. Neste trabalho será apresentado as principais patologias
causadas em estruturas com fundações rasas e seus principais fatores
responsáveis pelo surgimento das manifestações patológicas encontradas
na edificação e no final será apresentado um estudo de caso de um edifício
que sofreu patologia e será analisado as suas causas e a solução apresentada
para contornar esse problema.

METODOLOGIA
Objetivando obter maiores compreensões no que se refere aos
problemas ocorridos em construções, devido aos processos patológicos
transmitidos dos elementos de fundação para o restante da estrutura, a
análise feita pelo presente estudo e informações aqui apresentadas foram
obtidas através de materiais bibliográficos tais como: livros, periódicos,
teses, artigos e documentos publicados na internet. Observações entre
resultados de pesquisas realizados por vários autores sobre a mesma área
de estudo patológico das fundações foram feitas para que as informações
conclusivas convergissem em um trabalho final conciso, acrescentando
conhecimento técnico e teórico ao leitor.

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 119


FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

PATOLOGIA ESTRUTURAL
De acordo com Souza e Ripper (1998), designa-se genericamente
por patologia das construções esse novo campo da engenharia das
construções que abrange o estudo das origens, formas de manifestação,
consequências e mecanismos de ocorrência dos erros e dos sistemas de
degradação das estruturas.
O surgimento de problemas patológicos nas edificações pode
ter as mais diversas origens. Tais problemas podem ter inicio por vários
fatores: internos, externos e da natureza. Os fatores internos, que são os
mais comuns, englobam os erros de projeto, de execução, equívocos nas
escolhas de materiais e o uso final da construção. Os fatores externos são
os acidentes que, por um acaso, podem acontecer, como por exemplo: um
incêndio na edificação ou uma batida de um automóvel com um pilar. A
natureza, por sua vez, pode causar adversidades com o passar do tempo.
Como, por exemplo, enchentes, alagando o solo e diminuindo a resistência e
coesão do mesmo (SOUZA ; RIPPER; 1998).
A patologia pode ter seu principio ainda na fase de projeto, durante
a concepção da estrutura da edificação, podem, também, ser originadas na
fase de execução do edifício, ou ainda após sua conclusão, quando o uso
efetivo é diferente daquele previsto para aquela edificação.
Segundo Caputo (2012), toda edificação está sujeita a
deslocamentos verticais (recalques), durante ou mesmo após a sua
conclusão, por um determinado período de tempo, até que o equilíbrio
entre o carregamento aplicado e o solo seja atingido. Essas atividades
podem provocar falhas eventuais, evidenciadas pelos desnivelamentos de
pisos, trincas e desaprumos da edificação. O estudo das origens, tipos de
manifestações e consequências das falhas caracteriza o conceito de patologia
nas construções.
Segundo Milititsky et al. (2008), a causa mais frequente de
problemas de fundações é a ausência ou incompleta investigação do
subsolo. Em mais de 80% dos casos de mau desempenho de fundações de
obras médias e pequenas, a ausência completa de investigação é o motivo
da escolha de solução desapropriada. Problemas típicos decorrentes da
privação de investigação para fundações rasas são:

• Tensões de contato excessivas, incompatíveis com as reais


características do solo, resultando em recalques inadmissíveis ou
ruptura do solo;

• Fundações sobre solos compressíveis sem estudos de recalques,


resultando grandes deformações;

• Fundações apoiadas em materiais de comportamento muito


diferente, heterogêneos, ocasionando o aparecimento de recalques
diferenciais;

120 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


• Fundações apoiadas em crosta dura sobre solos moles, sem análise
de recalques, ocasionando a ruptura ou grandes deslocamentos da
fundação.

SINTOMAS, DIAGNÓSTICOS E TRATAMENTOS


Frequentemente durante e/ou após a execução de obras, depois
de horas, dias ou até anos, podem surgir sintomas e consequentemente
danos devido as patologias das construções. As trincas e fissuras são uns
dos principais sinais que chamam atenção. Portanto é necessário fazer uma
análise profunda para saber qual o real motivo desses danos acontecerem
(FIGUEIREDO, 2005).
Segundo Gonçalves (2015), podemos destacar algumas razões
para que as fissura apareçam: em função da compressão, retração hidráulica,
variação de temperatura, flexão, cisalhamento e torção. Essas rupturas
ocorridas no concreto devem ter uma minuciosa observação para confirmar
uma dessas fontes geradoras de abertura.
Outro tipo de sintoma que podemos encontrar nas construções
de modo geral é a corrosão do aço, fator que gera um aumento no seu
volume, fornecendo uma força de tração muito superior à estipulada em
projeto, fazendo com que o concreto não suporte e consequentemente se
rompa (GONÇALVES, 2015).
É considerável lembrar que a corrosão da armadura acontece de
forma gradativa, ou seja, com o decorrer do tempo vai se comprometendo
ainda mais. Quanto as suas origens, os fatores mais frequentes para que
ocorra esta patologia são produzidas pela ação do tempo, exibição a águas
agitadas e a ação de gases presentes na atmosfera, concreto com resistência
inadequada e má execução (HELENE,1992).
Segundo Appleton (2002), para se chegar a um diagnóstico de
um efeito de patologia de forma eficaz, utilizando método empírico, em que
se baseia na experiência do engenheiro civil patologista, método científico,
onde são utilizados experimentos in situ ou em laboratório e modelações
matemáticas, ou uma combinação dos dois métodos, que utilizará o método
científico para confirmar a observação empírica do engenheiro.
Depois de ter realizado todos os processos de verificação e
diagnosticado de forma eficaz o problema, certifica-se qual a melhor
solução para corrigir a patologia, colocando a viabilidade econômica como a
principal fonte de decisão. Observando que há grandes limitações para a sua
utilização mesmo depois da correção de seus esforços estruturais e um vasto
desperdício de dinheiro é recomendado a possível demolição da estrutura
(DO CARMO, 2003).

FUNDAÇÕES
A fundação é o elemento responsável por transmitir as cargas
das construções ao solo. Em geral, são utilizadas várias fundações na
construção de um edifício. Existem diversos tipos de fundação, e elas
são projetadas levando em consideração a carga que recebem e o tipo
de solo onde vão ser construídas, conforme NBR 6122 (2010).

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 121


As fundações são convenientemente separadas em dois grandes
grupos: fundações rasas, ou diretas, e fundações profundas. Segundo
Hachich, Frederico et al. (1998), a distinção entre estes dois tipos é feito a
partir do critério, arbitrário, de que uma fundação profunda é aquela a qual
o mecanismo de ruptura de base não alonga-se até a superfície do terreno.
A NBR 6122 ( ABNT, 2010 estabelece que fundações profundas são aquelas
cujas bases estão implantadas no solo a mais de duas vezes sua menor
dimensão, e a pelo menos três metros de profundidade.
De acordo com a NBR 6122( ABNT, 2010) define-se fundação
rasa como elementos de fundação em que a carga é transmitida ao terreno,
predominantemente pelas pressões distribuídas sob a base da fundação, e
em que a profundidade de assentamento em relação ao terreno adjacente
é inferior a duas vezes a menor dimensão da fundação. As fundações rasas,
também conhecidas como superficiais ou diretas, são as que requerem menos
gastos financeiros por serem as mais simples de serem executadas, logo
não necessitam de equipamentos tão avançados para serem colocadas em
prática. Incluem-se neste tipo de fundação as sapatas, os blocos, os radier, as
sapatas associadas, as vigas de fundação e as sapatas corridas.
As sapatas, por serem o tipo de fundação direta mais usual, vai ser
o foco principal desde estudo. Geralmente, as sapatas são usadas em casos
de solo que em baixa profundidade é encontrada uma resistência suficiente
para aquela edificação. Uma característica bastante forte nas sapatas, é a sua
altura: relativamente pequena quando comparada a sua base. Com relação
a sua forma geométrica, podemos caracterizá-las de várias formas, porém a
mais comum é a cônica retangular, visando o menor consumo de concreto a
ser utilizado, conforme a figura a seguir.

Figura 1 – Sapata

Fonte:http://www.solonet.eng.br/Duvidas/sapata.htm

Fundações profundas são definidas na NBR 6122( ABNT, 2010)


como elemento de fundação que transmite a carga ao terreno pela base
(resistência de ponta), por sua superfície lateral (resistência de fuste) ou por

122 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


uma combinação das duas, e que está assentada em profundidade superior
ao dobro de sua menor dimensão em planta, e no mínimo três metros, salvo
justificativa. Neste tipo de fundação incluem-se as estacas, os tubulões e os
caixões.
As fundações profundas são mais utilizadas em casos
de edifícios altos em que os esforços do vento se tornam consideráveis, e/
ou nos casos em que o solo só atinge a resistência desejada em grandes
profundidades. Os tipos mais comuns são as estacas escavadas, hélice
continua e as estacas cravadas. As estacas cravadas, por sua vez, podem ser:
de madeira, metálicas, concreto armado ou pré-moldadas (figura 2).

Figura 2 – Estacas pré moldadas

Fonte: http://sete.eng.br/estacas-reoldadas-1024-servico

ESTADOS LIMITES
Segundo Cintra et al. (2011), o quesito “segurança das
superestruturas” é de extrema importância para todos os profissionais da
área de construção, porque a possibilidade de uma estrutura entrar em
colapso caracteriza-se geralmente numa situação perigosa, por envolver
vidas humanas e perdas financeiras por danos materiais de grande valor,
com isto o cálculo, ou dimensionamento de uma estrutura, deve garantir
que ela suporte, sem deformações excessivas, todas as solicitações a que está
submetida durante sua execução e utilização.
O principal objetivo da consideração dos estados limites
nas estruturas de concreto é determinar o limite máximo que um elemento
estrutural não pode mais ser utilizado ou que pode ser considerado
inseguro ou próximo de atingir uma situação de colapso/ruína. Quando
uma estrutura não satisfaz uma das suas finalidades na construção ou não
atinge um tempo de vida útil esperado, pode-se afirmar que a estrutura
atingiu um estado limite. Os estados limites podem ser classificados em
estados limites últimos ou de ruína (ELU) onde a fundação não pode
romper, e sua simples ocorrência implica numa paralisação total ou parcial
do uso da construção, e estados limites de serviço (ELS) onde o elemento de

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 123


fundação não pode ultrapassar um valor de deformação e recalque máximo
admissível previamente sabida em projeto, e a ocorrência deste indica que
há um comprometimento na durabilidade da estrutura. (SILVA, 2009).
De acordo com Cintra et al. (2011) existe duas filosofias
de projeto, a de solicitação admissível e a de valores de cálculo. Alguns
projetistas dão ênfase à primeira há algum tempo, mesmo havendo outros
afirmando que a utilização da filosofia de valores de cálculo seja mais
detalhada. Ao se tratar do ELS para a estimativa de recalque na fundação, o
que deve ser levado em consideração é o esforço atuante na cabeça da estaca
ou tensão vertical na base da sapata, sendo preciso logo após a finalização
da análise, a comparação dos resultados obtidos com o recalque admissível.
Desta forma, é importante que haja uma análise de confiabilidade nos
projetos de fundação para que os riscos de ruína sejam minimizados e
estejam dentro de um parâmetro quantitativo aceitável.
Para que haja a determinação da capacidade de carga nas
fundações diretas é necessário que sejam obedecidos em cálculos os estados
limites últimos e de serviço para cada elemento de fundação. O valor da
tensão resistente de projeto pelo ELU deve atender ao ELS (tensão máxima
aplicada ao terreno atendendo às limitações de recalque da estrutura).
Numa análise do estado limite último, os valores obtidos para
capacidade de carga devem seguir as normas brasileiras em vigor. Quando
a fundação atinge o ELU, a situação é caracterizada como um esgotamento
da capacidade resistente da estrutura. Atingindo o ELS, as características
aparentes são: deslocamento excessivo sem perda de equilíbrio, vibrações,
danos locais refletidos em elementos estruturais como vigas e pilares,
desconforto visual com trincas ou fissuras e recalque (VELLOSO, 1996).

RECALQUE
Na engenharia civil, o fenômeno que ocorre quando uma
edificação sofre deslocamento vertical para baixo é chamado de recalque.
Isto acontece devido à sobrecarga da estrutura na fundação, podendo causar
danos arquitetônicos, estruturais e funcionais (CINTRA et al. 2011).
Já segundo Rebello (2008), recalque é a deformação do solo
quando submetido a cargas, provocando movimentação na fundação que,
dependendo da intensidade, pode resultar em sérios danos à estrutura.
As fundações são calculadas como se as cargas e a resistência
do terreno fossem uniformes, quando na realidade isso raramente acontece.
Os recalques podem ocorrer tanto em solos que suportam
edificações com fundações rasas, quanto com fundações profundas, a
depender das condições do terreno onde as fundações serão implantadas.
Tais recalques, devido às cargas estáticas, podem acontecer de duas
maneiras: imediato e por adensamento.

Imediato – devido às deformações elásticas do solo, e ocorre


imediatamente após a aplicação das cargas. É muito importante
nos solos arenosos, por serem solos não coesivos, segundo
Albuquerque (2012). Deve-se considerar a rigidez da fundação,
sua forma, profundidade e a espessura da camada deformável de
solo (TEIXEIRA; GODOY, 1998);

124 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


Adensamento – a deformação no solo ocorre pela diminuição
no volume aparente do maciço de solo, causada pelo fechamento
dos vazios deixados pela água expulsa em função da pressão
da fundação aplicada ao solo. Este tipo de recalque ocorre mais
lentamente, dependendo da permeabilidade do solo, e é muito
importante nos solos argilosos, segundo Caputo (2012). O recalque
por adensamento pode ser estabilizado quando toda a água entre
os grãos de solo é expulsa, não mais havendo diminuição do
volume do solo. Se o recalque não afetou a estrutura, o problema
passa a ser apenas vedar a trinca na alvenaria (REBELLO, 2008).

Para facilitar os estudos de combate aos recalques, os estudiosos


dividiram os recalques em três tipos: recalque total, recalque diferencial e o
recalque diferencial específico (distorção angular).

RECALQUES ABSOLUTOS
Uma questão de extrema importância é o recalque admissível,
que representa o recalque máximo que o edifício pode suportar, não havendo
danos para sua funcionalidade, e deve ser analisado em duas etapas durante
a construção de um edifício: a primeira ocorre durante a etapa de análise de
projeto de fundações quando é feito o cálculo/estimativa do recalque das
fundações e é preciso tomar a decisão relativa á adequação dos resultados
obtidos como o comportamento desejado da estrutura. Outra situação ocorre
quando é feito o controle de recalques, durante a construção da estrutura ou
na existência de dúvidas referentes aos efeitos adversos externos, quando
precisa ser definido um limite a partir do qual se considera problemática a
segurança ou o desempenho da estrutura (MILITITSKY et al., 2008).

RECALQUE DIFERENCIAL
O recalque diferencial é o corresponde à diferença entre os recalques
totais de dois pontos quaisquer da fundação, ou seja, é a diferença entre os
recalques totais de dois elementos da fundação. Este tipo de recalque impõe
distorções à estrutura que pode acarretar em fissuras (ALONSO, 1991).
Segundo Cintra et al. (2011), a grande variabilidade das
características do subsolo, as estimativas das cargas provenientes da
estrutura, a variabilidade das dimensões dos elementos de fundação, faz com
que a ocorrência de recalques diferenciais seja praticamente inevitável.
Porém, a maioria das patologias causadas por fundações é causada
por distorção angular, que é calculada através da razão entre o recalque
diferencial e a distancia entre dois elementos da fundação.
Nesta situação, a distorção angular é que influencia na magnitude
dos danos. Quanto maior a distorção maior o fissuramento, o qual pode
provocar nos elementos estruturais a redução do cobrimento de armadura,
deformação nas lajes e vigas, trincas nas alvenarias, além de comprometer a
abertura de janelas de correr, entre outros.
Alguns autores sugeriram limites de distorção angular.
Lembrando que, estes valores apresentados a seguir servem como
indicativos, considerando que tais valores foram observados em trabalhos

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 125


de pesquisas para um número limitado de casos, sendo que a maioria destes
avaliou edificações com pequeno número de pavimentos.
O trabalho mais famoso e utilizado é o de Bjerrum (1963), com
base no trabalho de Skempton &Mac Donald, publicado em 1956, que
estabeleceu uma tabela com os limites de distorção angular, onde é citado os
danos prováveis e a aceitabilidade em função do uso da obra.

Figura 3 - Recalques diferenciais admissíveis

Fonte: BJERRUM (1963).

Para a recuperação e reforma das fundações que apresentam


patologias, é necessário definir as estruturas que necessitarão de reforço,
realizar o cálculo estrutural, indicar a necessidade de escoramento ou não,
avaliar o nível de segurança da estrutura antes, durante e depois do reforço,
escolher a técnica de execução e determinar cada tarefa a ser relizada e cada
material a ser utilizado, para ser feito o orçamento da obra de recuperação
(SOUZA ; RIPPER, 1998). Após a realização o orçamento, deve-se esperar
a decisão do proprietário após a análise da viabilidade da obra para decidir
se será viável a recuperação ou se será optada pela demolição parcial ou
total (GONÇALVES, 2015).
Existem diversas técnicas de recuperação de fundações diretas,
podendo ser dividas em dois tipos: com ou sem aprofundamento.
Sem aprofundamento:
Um método que pode ser utilizado é a melhoria das condições
do solo, que consiste em melhorar as características de resistência e
compressibilidade dos solos de apoio da fundação (GOTLIEB, 1998), é
indicado em casos onde o pé direito exigido não é muito grande e também
que não seja passível de vibrações excessivas (NEVES, 2010). A técnica
mais utilizada é o jet grouting que consiste em injeção de nata de cimento ou
gel sob altas pressões, que procura preencher os vazios naturais dos solos
afim de melhorar suas características geotécnica (COELHO, 1996).
Outro método que pode ser utilizado é o alargamento da base da
fundação direta, que é utilizado quando a resistência do solo é menor do que
a resistência solicitada pelo pilar ou alvenaria. Com a base alargada, visa-se

126 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


que a carga seja distribuída o mais uniformemente possível para aproveitar
ao máximo o alargamento. Antes de sua execução, deve-se escorar o pilar ou
alvenaria e aplicar macacos hidráulicos nas escoras para aliviar as tensões
aplicadas na sapata (NEVES, 2010).
Com aprofundamento:
Nas situações em que não é viável utilizar como tratamento
o reforço sem aprofundamento, é necessário que seja empregado uma
intervenção mais aprofundada no solo, distribuindo, assim, as suas cargas
para o terreno mais extenso e diminuindo consideravelmente as vibrações
na estrutura, onde a solução para realizar esses reforços é a utilização de
estacas e microestacas (NEVES, 2010).
Segundo Gotlieb (1998), as microestacas são utilizadas para
reforços de fundações e apresentam vantagens como poucas vibrações
durante a sua execução, assim, não comprometendo a sua fundação já
existente, além do fácil acesso na sua instalação pelo fato dessas estacas
possuírem pequenas dimensões. Entretanto, existem casos em que há uma
altura considerável para implantação de estacas com dimensões maiores nos
reforços da fundação, como as de concreto armado, metálicas e madeira.

ESTUDO DE CASOS
Com base no que foi apresentado anteriormente, será
exemplificado alguns estudos de casos que relatarão qual tipo de patologia
encontrada, as medidas de controle e a análise dos engenheiros responsáveis
de cada caso.

TORRE DE PISA
A torre italiana, localizada a cidade de Pisa, é um conhecido caso
de recalque de fundação com inclinação notável. Sua construção foi iniciada
em 1173 e durou cerca de 200 anos, incluindo duas longas interrupções: de
1178 até 1272 e de 1278 até 1360.
Logo após o início de sua construção, a Torre de Pisa começou
a inclinar e desde então sua inclinação continuou a aumentar, como mostra
a figura 4.

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 127


Figura 4 – História da construção com acréscimos de carga

Fonte: Burland et al. (2009)

ESCRIÇÃO DO PROBLEMA
Segundo Burland et al. (2009), isso ocorreu devido à camada
de solo abaixo da torre, que consiste em três tipos de solo: Os 10 (dez)
primeiros metros são compostos por areia e silte argiloso. Depois há uma
camada com cerca de 30 metros de profundidade formados por argila
marinha, um solo que perde muita rigidez quando submetido a tensões. Nos
20 metros seguintes, existe uma camada de areia marinha densa, conforme
apresentado na Figura 5. O contato entre a camada A e a camada B abaixo
da Torre se apresenta de forma côncava, o que indica um adensamento na
camada B provocada pela distribuição de tensões da fundação.

Figura 5 – Tipologia do terreno

Fonte: BURLAND et al. (2009).

128 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


Foi possível constatar que o problema reside mais na instabilidade
da inclinação do que na capacidade de carga do solo. Segundo Burland et al.
(2009), a instabilidade da inclinação não é devido à capacidade de carga do
solo, mas devido à sua rigidez.
A seção de máxima inclinação da Torre foi de 5,5 graus, antes
de ser iniciado o processo de estabilização, em 1993. De acordo com
Burland et al. (2009), a tensão média na fundação é de 500 kPa. Uma análise
computadorizada e detalhada indicou que a tensão no lado sul da Torre era
de quase 1000 kPa, enquanto que no lado norte a tensão era próxima de
zero.

SOLUÇÕES ADOTADAS
O governo italiano preocupado com a crescente inclinação da
Torre de Pisa e consciente do risco de colapso da estrutura estabeleceu, em
1990, um Comitê Internacional com a intensão de estabilizar a estrutura.
De acordo com Burland et al. (2009), uma solução permanente
foi a redução das tensões na alvenaria no lado sul da Torre, estabilizando a
fundação. Dessa forma, em 1993, foi aplicada uma carga de 600 toneladas de
chumbo no lado norte através de um anel de concreto removível, colocado
ao redor da base da Torre. Os pesos reduziram a inclinação em cerca de
um minuto de arco, ou seja, aproximadamente 0,0167 graus. Assim como
reduziu também o momento que atua nas fundações.
Segundo Burland et al. (2009), dois anos após a aplicação da
carga, em setembro de 1995, foi realizada uma tentativa de substituir a
carga por tirantes fixados ao anel de concreto. Para esse procedimento foi
utilizada uma técnica de congelamento de solo para conter o movimento
da Torre durante a execução. Porém, o congelamento do solo fez com
que o volume de água já existente no solo fosse aumentado, provocando
o deslocamento do anel de concreto e fazendo com que a Torre recalcasse
mais. O procedimento foi então interrompido e fez-se necessário aumentar
de 600 toneladas para 900 toneladas a carga de chumbo a fim de controlar
a aceleração do movimento.
Com finalidade de estabilizar o nível do lençol freático do solo, ao
instalar piezômetros no solo foi constatado que nos meses em que as chuvas
eram intensas, a velocidade de inclinação da Torre aumentava. Porém, foi
observado que o aumento no nível da água não era linear, no lado norte era
maior do que no lado sul da Torre. Como o lado sul sofre as maiores cargas
devido à inclinação, a expulsão da água no solo é maior, ocasionando uma
diminuição na poropressão e contribuindo para a rotação em direção ao sul.
Em 1999 foi adotado um processo de retirada de uma parte
do solo abaixo da fundação, ao norte. Este método, conhecido como
escavação subterrânea, consiste em instalar tubos de extração de
solo abaixo da fundação. Estes tubos são compostos por uma hélice
contínua dentro de outro tubo que gira em sentido contrário para
contrabalancear e diminuir a vibração na escavação. O processo resultou
em uma redução na inclinação da Torre de 80 segundos de arco,
cerca de 1,33 graus, até junho de 1999, quando a extração foi parada.
O sistema foi implementado em 2002 e levou a uma diminuição
na poropressão assim como uma significante redução na variação do lençol

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 129


freático. O sistema induziu a Torre a um movimento no sentido norte,
contribuindo na diminuição da inclinação (BURLAND et al., 2009).

EDIFÍCIOS DE SANTOS
A construção de obras civis e industriais na região da Baixada
Santista constitui-se, de há muito tempo, num desafio para a Engenharia
Geotécnica, face à existência de extensas e profundas camadas de argilas
marinhas muito compressíveis, dificultando a sua travessia por estradas, e,
outras vezes, subjacentes a estratos arenosos, onde soem apoiarem-se as
fundações diretas de edifícios, como é o caso na Cidade de Santos.
No período entre anos de 1940 e 1970, Santos viveu uma grande
expansão imobiliária, com a construção de edifícios ao longo da orla praiana,
com até 18 pavimentos, apoiados em sapatas ou “radiers”, sobre uma camada
de areia medianamente a muito compacta, sobrejacente a mais de 30m de
argila mole a média, às vezes rija. Em geral, o recalque máximo situou-se
entre 40 e 120 cm. Além disso, mais de 100 edifícios são inclinados; Um caso
extremo e muito conhecido, o Edifício Núncio Malzoni inclinou-se 2,2° e foi
reaprumado com o emprego de fundação profunda (MAFFEI et al., 2003).

DESCRIÇÃO DO PROBLEMA
Devido ao tipo de solo formado por uma considerável camada
de areia medianamente compactada, seguida de uma camada muito espessa
de argila marinha, podendo haver ou não outra faixa de areia, e por ultimo
uma camada de solo resistente formada por rochas (Figura 6). A escolha por
uma fundação rasa levou o Edifício Núncio Malzoni construído em 1967,
com dezessete andares (com um apartamento de 240 metros quadrados
por andar) recalcar de forma irregular, tombando para seu lado direito. A
diferença entre uma lateral e outra é de 45 centímetros, o que representa
um deslocamento do topo de 2,10 metros. A cada ano, notava-se que o
desaprumo aumentava um centímetro (Figura 7).

Figura 6 – Sondagem do
solo de Santos. Figura 7 - Inclinação do
Edifício Núncio Malzoni.

Fonte: https://petciviluem.com Fonte: http://www.muitobem.net.brl

130 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


SOLUÇÕES ADOTADAS
O projeto de reaprumo do prédio, desenvolvido pelos professores
Carlos Eduardo Moreira Maffei, Heloísa Helena Silva Gonçalves e Paulo
de Mattos Pimenta, do Departamento de Engenharia de Estruturas e
Fundações da Escola Politécnica da USP, considerado inédito no mundo,
para corrigir o recalque estão foram colocados 14 macacos pneumáticos de
alta potência nas laterais do prédio.
Estes equipamentos receberam pressão variável de até 900 toneladas
para erguer a estrutura. No entanto, para fazer o monitoramento de todo o
prédio, inclusive dos apartamentos, os moradores tiveram que deixar suas
residências durante o dia e retornar à noite. Pois poderiam ocorrer rompimentos
de tubulações ou então ser preciso interromper o fornecimento de energia.
Para execução do projeto de reaprumo da estrutura, foi seguida
as seguintes etapas:

• Foi feita a implantação de fundações profundas com a exe-


cução de oito estacas de cada lado do edifício. Com diâmetro
variando de 1,0 a 1,4m, estas estacas têm uma profundidade
média de 57,0 m e atingem um solo residual resistente e segu-
ro situado abaixo da camada de argila mole.

• Em seguida, foram executadas oito vigas de transição com


cerca de 4,5 m de altura para receber os esforços dos pilares e
transmiti-los às novas fundações. 

• Por fim, 14 (quatorze) macacos hidráulicos acionados por seis


bombas, instalados entre as vigas de transição e os novos blo-
cos de fundação, foram utilizados para reaprumar o edifício.
Os vãos em que estavam os macacos foram preenchidos com
calços metálicos e posteriormente concretados. 
Dessa forma, a fachada lateral esquerda do edifício foi levantada
45 cm e a fachada posterior, 25 cm, levando o prédio a ficar novamente no
prumo. Reaprumado, o Núncio Malzoni repousa hoje sobre as novas estacas,
que transmitem suas 6500 tf ao solo residual seguro e resistente situado a
cerca de 60 m de profundidade. 

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este estudo descreveu as causas de recalques de fundações
rasas e as possíveis patologias decorrentes desses movimentos. Ajudando
na identificação da existência de recalques de fundações rasas através
das patologias apresentadas, enfatizando a importância do controle e
estabilização dos recalques diferenciais.
Foram apresentadas experiências profissionais obtidas através
de estudos de casos em diferentes tipos de construções com o objetivo de
aprimorar os conhecimentos sobre a área e contribuir com o meio técnico.

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 131


Como forma de prevenção ao recalque de fundações rasas, antes
de iniciada sua execução, conclui-se que seja fundamental a realização de
investigações geotécnicas e análises do solo observando o disposto na norma.
Pode-se sugerir investigações complementares ou número de sondagens
superior ao mínimo determinado na norma, como forma de minimizar os
riscos de resultados falsos. É importante que seja obtido informações sobre
as edificações vizinhas com o objetivo de evitar possíveis interferências.

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ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 133


CAPÍTULO 9

MATERIAIS SUSTENTÁVEIS NA
CONSTRUÇÃO CIVIL:
UMA REVISÃO DA LITERATURA
Fabio Cavalcanti de Arruda Filho1, Francisco Teotonio Bisneto Junior2,
Joalisson de Oliveira Gonzaga3, Antônio da Silva Sobrinho Júnior4.

RESUMO
O crescimento populacional nos dois últimos séculos propiciou inúmeras
transformações, porém, uma conseqüência deste sucesso humano ficou
evidente na degradação acentuada dos recursos naturais. Diante disto,
é notório o surgimento de uma corrente preocupada em amenizar estes
impactos. Assim como em outras áreas, a engenharia civil tomou para
si a responsabilidade de promover a construção de edificações mais
sustentáveis. Diante deste cenário, este trabalho teve por objetivo fazer
uma revisão literária acerca de materiais de construção sustentáveis
aplicados na construção civil. Para tanto, foi realizada uma revisão literária
de natureza qualitativa, visando demonstrar a utilização de alguns
materiais de uso sustentáveis na área da engenharia civil, a exemplo
do Abobe, Bambu e Terra Crua, através de inspeções via internet nos
endereços eletrônicos de revistas cientificas especializada, alem de livros
da área de engenharia civil, arquitetura e outras especialidades. Também
se fez uso de notas técnicas e boletins informativos. No contexto geral
do trabalho, foram evidenciados três materiais sustentáveis bastante
utilizados na construção civil, o adobe, que nada mais é um tijolo de terra
crua com fibras adicionadas formando um bloco sólido após ser seco, o
Bambu, que é uma material de construção de origem vegetal mas com
alta versatilidade, bastante utilizado em países como Bangladesh, onde
cerca de 90% das habitações são feitas de bambu e a terra crua que vem
sendo utilizadas desde mais de 7.000 anos A.C.. Onde os seres humanos
vêm aprimorando diferentes técnicas de construção, como a construção
em taipa. Pode-se concluir com o trabalho que diante do que foi visto,
todas as questões que afetam as cidades, devido ao meio ambiente e/
ou edificações pouco ou não sustentáveis, teriam que ter gradativamente
corrigidas suas distorções, para se alcançar o equilíbrio ecológico e
sustentável.

Palavras-Chave: Construções ecológicas. Abobe. Bambu. Terra crua.

1 Graduando do Curso de Engenharia Civil do Unipê. E-mail: fabioarrudafilho@hotmail.com


2 Graduando do Curso de Engenharia Civil do Unipê. E-mail teoroniobjr@gmail.com
3 Graduando do Curso de Engenharia Civil do Unipê. E-mail joalissonoliveiraeng@gmail.com
4 Engenheiro Civil e Doutor em Engenharia Mecânica. Professor do Curso de Engenharia Civil do Unipê.
Professor do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da UFPB. E-mail: sobrinhojr@hotmail.com

134 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


INTRODUÇÃO
Os fatos marcantes da evolução no mundo apontam para uma
construção civil que se moldou para acolher as aspirações primarias e
imediatas do homem. As civilizações humanas são consideradas diferentes
das outras espécies por diversas peculiaridades, uma delas pudesse atribuir
a sua inteligência e capacidade de construir e modificar sucessivamente suas
técnicas por meio de aprimoramento e observação sucessiva dos resultados.
O desenvolvimento das áreas urbanas ordenou muito mais esforço
técnico para se construir edificações cada vez mais sustentáveis, surgindo
assim, as edificações com maior responsabilidade social.
Atualmente a sociedade moderna, vem procurando um modelo
de vida com maior praticidade e bem-estar comum aos membros da família,
propiciado pelas novas instalações que cada vez mais surpreendem pela
velocidade de desenvolvimento, sobretudo nos últimos anos no Brasil.
Contudo, também existe a necessidade de conscientização acerca das
conseqüências originadas pelas construções a natureza, a fim de tornar
mínimo os impactos causados ao meio ambiente a longo prazo.
De acordo com Beltrame (2013), as construções consomem 34%
do mantimento mundial de água, 66% de toda a madeira extraída, e sua
intervenção esgotam mais de 40% de toda a energia produzida no mundo.
Wines (2000) aponta o caso da Europa, onde cerca de 50% da energia
consumida é empregada para a construção e manutenção de edifícios e outros
25% são desperdiçados em transporte. Esta energia é gerada na sua grande
maioria por fontes de combustíveis fosseis não renováveis, gerando resíduos
da conversão destes recursos em energia, que por sua vez acarretam em
impactos ambientais como o efeito estufa.
Todavia, a pressão da sociedade e ambientalistas aos governos,
tem levado a industria e profissionais de engenharia, à uma frenética
busca por métodos menos agressivos à natureza. Segundo pesquisa da
revista Business Week, realizada em 2006, constata-se que as futuras
gerações acrescentarão dramaticamente a demanda por itens ligados a
sustentabilidade, sendo que dos avaliados, 89% confirmam que preferem
marcas ligadas a essa nova realidade sustentável (FEBRABAN, 2010).
Diante desde cenário, faz-se necessário a implantação de
projetos voltados a investigar novos produtos e metodologias de trabalho
que venham contribuir com o conceito de sustentabilidade nas futuras
edificações, podendo assim garantir uma melhor qualidade de vida a está e
as futuras gerações que viram.

OBJETIVOS

OBJETIVO GERAL
Fazer uma revisão literária acerca de materiais de construção
sustentáveis aplicados na construção civil.

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 135


OBJETIVOS ESPECÍFICOS

• Fazer uma abordagem sobre sustentabilidade na construção


civil visando principalmente alguns materiais de construção não
convencionais como o bambu, terra crua, adobe, entre outros.
• Demonstrar aplicações dos materiais estudados em edificações nas
mais diferentes regiões do mundo.

MATERIAL E METODOS
O trabalho prepondera-se a natureza qualitativa, pois estes tipos
de trabalho se propõem a identificar, interpretar e conceituar fenômenos,
não fazendo uso de ferramentas e técnicas estatísticas.
A coleta de dados foi realizada através de inspeções via internet
nos endereços eletrônicos de revistas cientificas especializada, alem de livros
da área de engenharia civil, arquitetura e outras especialidades. Também
fez-se uso de notas técnicas e boletins informativos.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

SUSTENTABILIDADE: CONCEITO E PARADIGMAS


Recentemente tem aumentado o empenho de estudiosos na
investigação de novos materiais alternativos para o uso na construção civil,
com a finalidade de tornar a sociedade, e as construções nela inserida, mais
sustentáveis. Sartori e Pinho (2006) consideram que a consciência social da
degradação cada vez mais acelerada dos recursos naturais é a fonte desse
interesse. A atual crise ambiental, para ser superada, exige um novo olhar
uma nova trilha, uma diferente direção.
Para Elkington (2012), o mundo vivencia o início de uma quarta
onda ambiental, cuja palavra foco finalmente é a sustentabilidade. Uma série
de acontecimentos ocorreram desde 2010, entre eles cinco Conferências
do Clima, organizadas anualmente pela Organização das Nações Unidas
(ONU) nos últimos cinco anos, e a Rio +20, novamente na cidade do Rio
de Janeiro. Cinco anos depois, a COP 20 de 2015 ainda “encoraja”, mas não
“decide” (CÂMARA DOS DEPUTADOS, 2014).
As dimensões apontadas pelo desenvolvimento sustentável
contemplam aspectos que vão além das causas ambientais. As esferas
econômicas e sociopolíticas somam-se aos aspectos biofísicos como base
para tentar interferir no modelo predatório de recursos vigente. Jacob
(2003) defende como sendo uma estratégia que deve levar em conta tanto a
viabilidade econômica como a ecológica, ao pensar em medidas que migrem
do conceito para a ação.
Ou seja, uma das principais questões da sustentabilidade é como
o desenvolvimento social e econômico podem ser alcançados mundialmente
sem colocar em perigo os ecossistemas do planeta. A conclusão do conceito
também pode ser descrita como a capacidade de assegurar qualidade de vida
às sociedades e criar as condições necessárias para seu bem-estar.

136 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


Neste sentido, o termo sustentabilidade está cada vez mais em
foco, podendo assim ser evidenciado como uma terminação utilizada para
deliberar todas as atividades e ações que possuem como objetivo suprir as
necessidades atuais dos seres humanos, relacionadas à qualidade de vida no
geral, sem comprometer as futuras gerações. A sustentabilidade está ligada
ao desenvolvimento econômico e social de uma determinada região, sem
agredir de modo significativo o meio ambiente, minimizando o consumo
dos recursos naturais primários, substituindo-os por recursos renováveis.
Sendo assim, o termo sustentabilidade pode ser definido como
o atributo de um princípio que responde às necessidades do atual sem
comprometer a capacidade das gerações futuras de responder às suas
necessidades (AGENDA 21, 2002).

CONSTRUÇÕES SUSTENTÁVEIS: UMA TENDÊNCIA MUNDIAL


As edificações são aparelhos de amplo valor para a estabilização
social, pois o lar representa o abrigo natural e seguro da família, sendo esta a
célula da estrutura social de uma nação. Neste sentido, pode se dizer que a muito
tempo a demanda habitacional no planeta vem crescendo consideravelmente
no mundo, isso se deve provavelmente devido ao crescimento acelerado da
população mundial principalmente nas ultimas décadas.
Segundo Peliano (2004) a moradia condigna configura um dos
mais importantes direitos do homem e o acesso a ela constitui uma das mais
legítimas aspirações do cidadão, é uma condição básica para a promoção
de sua dignidade, o que faz dela um importante fator de estabilidade social
e política. Muitos estudiosos abordam este tema num aspecto processual,
trazendo o conceito para as grandes cidades, ampliando a visão além da
simples dimensão ambiental.
Diante disto, pode-se afirmar que a constituição da
sustentabilidade nas cidades demanda o enfrentamento de diferentes
questionamentos e desafios, como a centralização de renda e a espantosa
disparidade econômica e social principalmente em países subdesenvolvidos.

ALGUNS MATERIAIS SUSTENTÁVEIS UTILIZADOS NA CONS-


TRUÇÃO CIVIL (TERRA CRUA, BAMBU, ADOBE)
Materiais podem ser definidos como substâncias onde os
atributos podem ser utilizados direta ou indiretamente para diferentes
finalidades. Metais, cerâmicas, polímeros, semicondutores, vidros, fibras,
madeira, areia, pedra e vários outros componentes e compostos podem ser
citados. Sua fabricação e processamento visando a construção de produtos
acabados absorvem alta porcentagem dos empregos e grande parcela do
produto interno bruto de um país (CAIADO, 2014).
A união fundamental dos materiais com o desenvolvimento
das sociedades se dá por conta da vinculação a eles, em particular à sua
disponibilidade, assim como seu incremento. Caiado (2014) garante que
a narrativa dos materiais se confunde com a história humana, uma vez
que o aumento dos grupos ao longo das eras decretou o aprimoramento
dos materiais já popularizados, fazendo com que houvesse uma busca por

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 137


novos objetos de construção, tornando-se assim, contínuo o incremento
tecnológico para obtê-los ou fabricá-los.
Observa-se então que os materiais são sem dúvida parte
integrante do cotidiano das pessoas. Representam a substância de trabalho
para os pilares das sociedades e possuem função determinante para o
desenvolvimento natural da vida, avanço econômico dos países, assim como
bem-estar e segurança das nações.
A variedade e gama de materiais a serem explorados hoje na
construção civil, sustentam a tese de que o futuro das edificaçõ
es começa com a utilização de novos materiais que agridam
menos a natureza.

TERRA CRUA
As edificações em terra crua são utilizadas há mais de 7.000 anos
A.C. (FIGURA 1).

Figura 1- Shibam no Yemen, conhecida como a Manhattan do Deserto, 


onde os edifícios atingem os 11 pisos

Fonte: ARCHDAILY, 2016.

Os seres humanos vêm aprimorando diferentes técnicas de


construção, como a construção em taipa, em adobe ou em bloco de terra
compactado (MATOS, 2012). Diante disto, a maioria das civilizações
teve contato com ela em algum momento da história. Ao longo de nossa
história, a terra vem sendo utilizada em construções populares, edifícios
monumentais e até mesmo cidades projetadas em terra, sendo a África e o
Oriente Médio as regiões onde registros mais remotos foram encontrados
(GUILLAUD; HOUBEN, 1989).
Segundo Torgal e Jalali (2010) a terra crua apresenta algumas
vantagens como regulação da umidade interna das habitações, sendo assim,
importante em regiões de clima muito quente. Um bom exemplo são as
construções que se utilizam do barro, devido este ter uma maior aptidão
de absorver e perder a umidade que os demais materiais de construção. A
umidade dentro de um domicílio de barro costuma ficar em torno de 50%,
variando essa percentagem em mais ou menos 5 a 10%.
Com o passar do tempo, após uma era de muita degradação

138 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


ambiental, e com o surgimento de uma nova consciência por parte das
pessoas, surge uma busca mais agitada por materiais de construções mais
sustentáveis, sendo assim, a terra crua vem ganhando destaque como
material de construção (SCHROEDER; RÖHLEN ; VOLHARD, 2007).
Seu uso vem ganhando espaço na arquitetura contemporânea, tanto para a
estrutura de edifícios como para interiores, como pode ser visto de maneira
mais moderna como nos trabalhos dos arquitetos e de engenharia civil nos
dias atuais (Figura 2).

Figura 2 - Arquitetura em terra contemporânea

Fonte: NOCTULACHANNEL, 2016.

Uma grande quantidade de organizações e empresas adotaram


a construção com terra crua como sendo uma alternativa muito mais
sustentável, fazendo com que nas últimas décadas ocorresse um acréscimo
de avanços na recuperação de dados históricos e geração de conhecimento
científico sobre as edificações em terra crua (NEVES ; FARIA, 2011).
Neves e Faria (2011) ainda destacam que na Inglaterra por
exemplo, conta com diversos estudos promovidos pela Universidade de Bath
nas linhas de construção com terra crua, onde há trabalhos sobre a melhoria
da qualidade do ar interior e testes estruturais de novas tecnologias,
incluindo a construção com terra ensacada.

ADOBE
Pode-se dizer que o adobe de terra crua é uma das estruturas de
construções mais antigas do mundo. Edificações com adobe permanecem
em uso ainda nos dias atuais em todos os continentes habitados do planeta.
O adobe é a nomenclatura dada aos blocos de terra crua (tijolo)

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 139


seco ao sol, confeccionados em molduras de madeira, metal ou plástico, a
partir de uma terra flexível, comumente misturada a palha para aumentar
sua resistente (FERREIRA, 1986). Inicialmente estas estruturas (tijolos)
eram construídas à mão, atualmente, podem ser fabricados com a ajuda de
maquinário apropriado como pode ser observado na figura 3 (HOUBEN;
GUILLAUD, 1989).

Figura 3 - Máquina para fabricar tijolos ecológicos

Fonte: ENGEMÁQUINAS, 2016.

A terra utilizada na construção do bloco precisará conter, pelo


menos, 10% de argila, sendo que a quantidade adequada seria 20% de
argila. Em caso de material (solo) rico em areia, se faz necessário utilizar
uma certa quantidade de calcário (cal). Depois de preparado, o adobe deve
descansar ao sol para que ocorra uma secagem bem uniforme, o que em
media irá acontecer nos próximos 15 a 20 dias após o início deste processo,
dependendo da região e do clima. O trabalho de construção com o adobe
é semelhante ao realizado com o tijolo convencional, porém, em vez de se
assentar com argamassa industrial, utiliza-se argamassa de terra (BRASIL,
2005) (Figura 4).

Figura 4 - Casa de adobe e produção de adobe.

Fonte: ARQUITETURABIBLICA13, 2016.

140 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


No Brasil, um projeto de norma já foi conduzido à Associação
Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) e está em procedimento avaliações
para possível aceitação (BARBOSA ; NEVES, 2014). Já os tijolos de terra
compactados (BCT), ou blocos prensados são um tipo relativamente
moderno de construção com terra. Trata-se de uma mistura ideal de
argila, areia e água colocada em uma prensa manual ou automática, com
desmolde imediato (HUNTER E KIFFMEYER, 2004). Os tijolos podem
ser fabricados em vários formatos, tamanhos e modelos, de acordo com o
uso que se deseja trabalhar (Figura 5).

Figura 5 - Tijolhos de adobe

Figura 6- Blocos prensados de barro.

Fonte: ECODOMUSBRASIL, 2016.

BAMBU
O bambu é um recurso sem muita expressão econômica, social ou
cultural aqui no Brasil. Em outras nações, o bambu e tratado como muito
importante e valioso, sendo fruto de inúmeras pesquisas por seu potencial
em diferentes áreas e comprovadas por sua performance. Materiais como
o bambu não são poluentes, não demandam consumo maior de energia
e oxigênio em seu preparo; sua fonte é renovável e de baixo custo e de
crescimento rápido (RIPPER, 1994). Seu principal produto é o caule, que
tem formato cilíndrico e alongado, esconde características que poucas
plantas possuem (FIGURA 6).

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 141


Figura 6 - Formato e tamanho de hastes de Bambu

Fonte: SOCIEDADE NACIONAL DE AGRICULTURA, 2016.

Um emaranhado de feixes de fibras longitudinais que são


praticamente paralelos da base ao topo dessa gramínea que chega a ter mais
de 30 metros de altura, diâmetros de até 0,3 metros e suportam uma pressão
de vento em sua copa que pode ter uma velocidade de até 50 m/s. O bambu se
diferencia dos demais materiais vegetais utilizados na construção civil devido
à sua rapidez em desenvolver-se e alta produtividade, somente dois anos e
meio bastam depois de brotar do solo para ser utilizado em construções.
Outro aspecto importante no bambu diz respeito a sua resistência mecânica
estrutural bastante elevada. Somam-se às qualidades desejáveis do bambu
uma forma tubular acabada, considerada muito estável. Os resultados
dessas características sugerem um baixo custo de produção, facilidade de
transporte e manuseio, as quais se revertem em diminuição nos custos das
construções (GHAVAMI, 1989,1992; MOREIRA ; GHAVAMI,1995).
No entender de Teixeira (2006) em países como Bangladesh, que
tem cerca de 5 milhões de habitantes, 90% das moradias são construídas a
base de bambu. Ainda conforme explica Teixeira (2006), o aproveitamento
do bambu como material na construção civil é diversificado, como pode
ser exemplificado na sua utilização como telhados, portas, janelas, paredes,
esquadrias, escadas, pisos, decorativos entre outras. Podendo ser empregado
tanto in natura quanto processado. Sua forma quando aproveitada de
maneira natural, provoca um aspecto de produto regional com produção
artesanal ou semi-artesanal.
Ao passo que os produtos industrializados são na verdade
componentes que podem ter diversas aplicações, muitas vezes sendo
transportado e adaptado a situações variadas, independendo da cultura
regional de onde será empregado (Figura 7).

142 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


Figura 7 - Edificação a base de bambu

Fonte: ARQUITETANDO SUSTENTABILIDADE, 2016.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Diante do exposto com a coleta de informações obtidas com
o referencial teórico, pode-se observar que a indústria da construção se
constitui como um dos segmentos que mais devastam o meio ambiente,
o que torna imprescindível uma alteração do modelo que caracteriza este
sector e que seja capaz de fazer a passagem de um sector poluente para um
sector mais sustentável e amigo do ambiente.
Sendo assim, este trabalho procurou abordar o caso particular
dos materiais de construção no contexto da construção sustentável, e
em especial a Terra Crua, o Adobe e o Bambu. Neste artigo foi feita uma
retrospectiva de verificações atuais sobre as mudanças a levar a cabo no
sentido de uma sustentabilidade crescente neste sector. Sendo uma indústria
consumidora de vastas quantidades de materiais, apresenta uma vantagem
muito significativa no sentido de ser capaz de escoar grandes quantidades
de resíduos de outras indústrias.
A utilização de materiais mais duráveis, baratos e menos
agressivos ao meio ambiente, com menor energia incorporada ou reciclável
compõem alternativas para uma maior sustentabilidade dos materiais de
construção. Contudo, a escolha entre vários materiais não dispensa uma
análise de ciclo de vida dos materiais, procedimento que embora padecendo
de algumas limitações é ainda a melhor opção para o efeito.
E assim todas as questões que afetam as cidades, sejam devido
ao meio ambiente e/ou edificações pouco ou não sustentáveis, teriam que

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 143


ser gradativamente corrigido suas distorções, para se alcançar o equilíbrio
ecológico e sustentável.

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146 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


CAPÍTULO 10

FACHADA VENTILADA:
SISTEMA CONSTRUTIVO E SUAS
CARACTERÍSTICAS
Diego de Oliveira Monteiro1, Vitor Emanuel Granito Pontes2.

RESUMO
O avanço tecnológico na construção civil permitiu inovar nos
sistemas construtivos, aproximando-se de um processo cada vez mais
industrializado. Com a crescente necessidade de se reduzirem gastos
energéticos com a climatização dos edifícios, foi concebido o sistema
de fachada ventilada, que associa rapidez de execução, trazendo o
caráter industrial ao processo construtivo, com um desempenho
superior relativamente a fachadas aderidas, satisfazendo ambos os
critérios. O sistema de fachada ventilada surgiu no hemisfério norte.
No inverno, as perdas de calor devem ser minimizadas e no verão,
a absorção de calor pela fachada deverá ser mínima de modo a que
não sejam necessários equipamentos de climatização. Com a chegada
da nova norma de desempenho, criaram-se critérios mais exigentes
para o desempenho térmico-acústico das edificações. Sendo assim, a
fachada ventilada, torna-se num excelente instrumento que auxilia
o cumprimento dessas normas e que tem grande impacto no gasto
energético associado à climatização das edificações. O sistema de
fachada ventilada foi introduzido recentemente no pais, tendo sido
executadas já algumas obras com o sistema, comprovando-se o seu
desempenho térmico-acústico. O presente trabalho apresenta os
principais resultados de alguns estudos de caso realizados no Brasil
onde o sistema de fachada ventilada foi utilizado.

Palavras-Chave: Fachada. Ventilada. Sistema. Fachada inteligente

1 Graduando do Curso de Engenharia Civil do Unipê. E-mail: diegoolivermont@gmail.com


2 Mestre em engenharia Civil. Professor do Curso de Engenharia Civil do Unipê.
E-mail: vitor.pontes@unipe.br

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 147


INTRODUÇÃO
Em razão da sua importância técnica e econômica, as tecnologias
construtivas responsáveis pela execução das fachadas vêm passando por
constantes evoluções ao longo dos últimos anos, como o surgimento das
fachadas “inteligentes”, as quais são formadas por elementos leves e ativos
que, muitas vezes, têm função de armazenar e gerar energia para o edifício
(BAIRD, 2001; OLIVEIRA, 2002; FERNANDES, 2008).
Segundo Mazzarotto apud Santos Filho (2015), uma fachada
inovadora deve permitir o conforto ambiental interno, proteção acústica, ao
mesmo tempo em que reduz a demanda por energia extra.
O Sistema de Fachadas Ventiladas foi desenvolvido nas últimas
décadas por laboratórios europeus, a partir da necessidade de redução
dos custos com energia para refrigeração e calefação das edificações
(FACHADAS respirantes, 2009). Com esse estudo, foram obtidos como
resultado: eficiência energética, e conforto térmico.
Relevante sempre atentar para o projeto da fachada, pois
grande parte das manifestações patológicas em fachadas é decorrente de
um processo e execução inadequados. De acordo com o manual técnico da
Mirage (2008), os projetos de fachada ventilada devem ser articulados da
seguinte forma:

• Análise do projeto arquitetônico da fachada;

• Identificação dos materiais relacionado à estrutura da fachada,


depois a escolha do tipo de revestimento adequado para a edifica-
ção, escolhendo o tipo de revestimento tem-se a definição da es-
trutura suporte (perfil metálico) para a fixação do revestimento;

• Análise do projeto estrutural e a estimativa de custo, e a elabora-


ção do desenho gráfico para a execução da fachada.
Foram coletados os mais recentes trabalhos sobre a utilização do
sistema de fachada ventilada no Brasil e está sendo acompanhada a execução
de uma obra na cidade de João Pessoa, Paraíba, onde está sendo utilizado
pela primeira vez o sistema de fachada ventilada.

FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

SISTEMA DE FACHADA VENTILADA


O sistema de fachada ventilada é caracterizado pelo fato de haver a
renovação de ar entre as camadas formadas pelo sistema. O sistema é composto
basicamente por: uma estrutura de vedação, podendo ter uma camada de
isolamento ou não uma subestrutura metálica; o revestimento externo; câmara
de ar - espaço vazio formado entre o revestimento externo e a estrutura de
vedação. Segundo Campos (2011), através desse espaço, promove-se uma
ventilação natural, tem-se a renovação do ar, provocada por efeito chaminé.A
camada de base, para o início das instalações do sistema de fachada ventilada,

148 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


deverá estar finalizada, com uma camada impermeabilizante, visando garantir a
estanqueidade e planicidade do sistema.
A camada de isolante térmico serve para conter a transferência
de calor para o interior da edificação. Para Siqueira Jr. (2003), uma das
vantagens do material isolante é que ele reduz a perda de calor no inverno e
reduz calor no verão, podendo promover uma economia com a refrigeração
e o aquecimento do ar. Na base são fixados os perfis onde será encaixado o
revestimento externo.
A estrutura de fixação é composta por perfis verticais e horizontais,
e guias que são distribuídos seguindo o projeto de fachada, de acordo com
a paginação dos revestimentos. Os perfis guias são tomados como base
de alinhamento para os perfis verticais, para garantira retilineidade e a
planicidade do sistema. Os perfis horizontais são distribuídos para garantir
a fixação junto ao revestimento externo.
A instalação do revestimento externo é a parte final da execução
do sistema de fachada ventilada. Segundo Direito (2011), os revestimentos
são fixados à estrutura com o apoio de peças metálicas. Normalmente,
quando as fixações são pontuais, os revestimentos são ligados por parafusos
ou encaixes, uma peça fixada no revestimento e outra na fachada, fazendo
assim a junção das mesmas. A maior durabilidade do sistema se dá pelo fato
de que o revestimento externo trabalha como uma barreira para proteger o
isolamento térmico contra as ações das intempéries, como também protege
a estrutura interior. Um item importante a ser considerado no sistema de
fachada ventilada são as juntas entre os revestimentos. As aberturas entre os
revestimentos são importantes para o desempenho térmicos das edificações
pois proporcionam um escape e entrada de ar no sistema, facilitando assim
a renovação de ar junto a câmara de ar. Estudos recentes (Maciel, 2013),
mostram que sistemas de fachada ventilada utilizando ACM são as mais
eficientes nos quesitos energéticos. O sistema é ilustrado na figura 1.

Figura 1 – Componentes do sistema de fachada ventilada

Fonte: https://engenhariacivil.files.wordpress.com/2008/01/fachada2.jpg.

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 149


VANTAGENS E DESVANTAGENS DO SISTEMA
A fachada ventilada é um sistema que apresenta vantagens
quando comparada com o método tradicional de fachada com revestimentos
aderidos, tais como:

• Economia de energia, pois o isolamento térmico permite a


diminuição do calor de dispersão;

• Melhoria no conforto térmico e acústico; custo com manutenção


reduzido; problema com infiltração diminui, pois o revestimento
externo não fica diretamente conectado com a estrutura de vedação
do edifício; menor risco com destacamento dos revestimentos;

• Produtividade alta, comparado com o sistema convencional,


podendo proporcionar redução no prazo da obra. Além disso, a
chuva não impede a continuidade dos trabalhos, pois a instalação
do sistema não depende da secagem de nenhum material (CAUSS,
2014).

• Facilidade de manutenção: Na ocorrência da quebra do revestimento,


a troca pode ser realizada de maneira rápida e limpa.

O sistema de fachada ventilada apresenta algumas desvantagens,


tais como a não existência de normas brasileiras especificas e o alto custo
inerente ao sistema (FACHADAS respirantes, 2009).

MANIFESTAÇÕES PATOLÓGICAS OBSERVADAS NO SISTEMA


DE FACHADA VENTILADA
O surgimento das patologias pode ter diversas origens, tais como
inexistência de especificação em projeto, não trazendo informações necessárias
para o controle e execução, uso de material inadequado, materiais com pouca
durabilidade e a qualidade comprometida, etc. Existem ainda interferências
decorrentes do meio ambiente, ações climáticas. Podemos identificar como
causas de manifestações patológicas encontradas no SFV as seguintes:

1. Quebra ou trinca do revestimento externo;

2. Vandalismo;

3. Oxidação das peças de fixação;

4. Variação de cor do revestimento;

5. Infiltração na câmara de ar;

150 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


Note-se que apenas os itens infiltração na câmara de ar e oxidação
das peças de fixação são inerentes ao processo construtivo.

DESEMPENHO DOS SISTEMAS DE FACHADA VENTILADA


Campos (2011) mostrou que os custos de fachada ventilada por
m² variam de R$ 259,00 a R$ 762,00, correspondentes a fachada ventilada
com acabamento em ACM e vidro – Glazing. Os custos associados a fachada
ventilada com revestimento externo em porcelanato foram estimados em
R$ 530,00. A produtividade dos sistemas observada foi de 350 m²/mês.
De acordo com os dados coletados em uma construtora em João
Pessoa, o custo da fachada ventilada por metro quadrado foi quase três vezes
superior ao custo de execução de fachada pelo método convencional, porém
o tempo de execução da fachada foi reduzido de 18 meses para apenas 8. Foi
utilizado um sistema de fachada ventilada com revestimento de porcelanato.
O custo por m² fornecido pela construtora foi de R$ 255,00 por m² de
fachada. A produtividade medida foi de aproximadamente 500 m² por mês.
Em termos de desempenho térmico, Marcondes (2004) mostrou
a viabilidade de utilização de sistemas de fachada ventilada em edifícios
altos na cidade de São Paulo. O autor mostrou que o tempo de ocupação
da edificação sem a utilização de um sistema de refrigeração poderia ser
aumentado em 40%, relativamente ao sistema de fachada convencional. A
fachada ventilada aumentou o período de ventilação natural em até 15% do
que o melhor sistema convencional.
Mazzarotto (2011) mostrou que o desempenho térmico dos
sistemas ventiladas é superior aos sistemas simples, promovendo um menor
gasto de energia recorrendo a sistemas ativos de climatização e tornando os
ambientes mais agradáveis durante um maior tempo de ocupação.
Causs (2014) afirma que o uso de fachada ventilada contribui
para a obtenção de até 18 pontos para a certificação Leadership in Energy and
Environmental Design ( LEED). O mesmo ainda expõe que a durabilidade
associada ao sistema ventilado é superior à do sistema convencional, pois
não é necessária a aplicação de rejunte, reduzindo a absorção de água pela
fachada e, consequentemente, as manifestações patológicas associadas à
presença de água.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
O sistema de fachada ventilada ainda é um sistema recente no
Brasil, não havendo ainda muitos estudos sobre o desempenho destes, o
que implica em uma limitação no estudo destes sistemas. Nos trabalhos
apresentados, observa-se que o desempenho térmico superior dos sistemas
ventilados relativamente aos sistemas convencionais é uma realidade e que
se traduz em um menor gasto com a refrigeração e calefação das edificações
de modo a proporcionar um ambiente agradável. Os sistemas ventilados
surgem então como uma alternativa viável para os cumprimentos de normas
de desempenho vigentes, embora não exista ainda uma norma técnica que
regulamente a sua execução, o que se traduz em uma falta de padronização
do sistema.

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 151


REFERÊNCIAS
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SIQUEIRA JÚNIOR, Amaury Antunes de – Tecnologia de fachada-


cortina com placas de grês porcelanato. Dissertação (Mestrado). São
Paulo, 2003. 199p.

152 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


CAPÍTULO 11

O BAMBU NO ANTEPROJETO DE UM
PAVILHÃO DE EXPOSIÇÕES
Francisca Amanda Vieira Queiroga1, Antônio da Silva Sobrinho Júnior2.

RESUMO
A construção civil é a atividade humana que mais gera resíduos
sólidos, causando um grande impacto ambiental. Para amenizar
esse problema, uma das recomendações é o uso de materiais que não
agridam a natureza. O bambu tem sido uma alternativa por ser um
material natural, renovável, biodegradável e de rápido crescimento,
com potencial de aplicação em diferentes etapas do projeto, além
de conseguir substituir materiais comumente usados. Este trabalho
tem como objetivo desenvolver um estudo sobre a aplicabilidade do
bambu em um anteprojeto de um Pavilhão de Exposições e estudar
algumas técnicas de utilização. O anteprojeto proposto foi projetado
usando o bambu como principal material construtivo e em conjunto
com concreto e eucalipto, demonstrando, as ligações entre as peças,
formas de uso e plasticidade.

Palavras-Chave: Bambu. Arquitetura. Construção civil.


Sustentabilidade.

1 Graduanda do Curso de Arquitetura e Urbanismo. E-mail: amanda-queiroga@hotmail.com


2 Engenheiro Civil e Doutor em Engenharia Mecânica. Professor do Curso de Engenharia Civil do Unipê.
Professor do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da UFPB. E-mail: sobrinhojr@hotmail.com

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 153


INTRODUÇÃO
A construção civil é uma das atividades humanas que mais
causam impactos ambientais, sendo a que mais gera resíduos sólidos. Nas
cidades brasileiras de médio e grande porte os resíduos provenientes das
construções e demolições representam de 40 a 70% do total de resíduos
sólidos (PINTO, 1999 apud RIOS, 2014). Em João Pessoa, a taxa da
geração de resíduos chega a média de 140 ton/dia (PIMENTEL, 2013).
O impacto causado pelo processo da indústria da construção civil envolve
consumo de recursos e cargas ambientais causadas principalmente pelo uso
indiscriminado de energia, geração e disposição inadequada de entulhos.
As construções sustentáveis devem ser planejadas a partir de
várias diretrizes, dentre elas a escolha de materiais ambientalmente corretos,
com pouca energia incorporada, não tóxicos, de origem certificadas e com
baixa emissão de CO2; (CÂMARA DA INDÚSTRIA DA CONSTRUÇÃO,
2008.) É possível construir edifícios com baixo consumo energético, feito
com materiais naturais renováveis e cuidando para que os resíduos não
causem danos a natureza.
O bambu é um material ecológico e biodegradável, possui grande
resistência a tração em relação ao peso específico, sendo comparado ao aço,
concreto e madeira (MURAD, 2007) e tem condições de ser usado no Brasil
em conjunto com materiais convencionais e proporcionar uma obra mais
limpa, reduzindo a geração de resíduos sólidos e o impacto ambiental.
Segundo Figueira e Gonçalves (apud PEREIRA; BERALDO,
2007) fizeram um levantamento quantitativo do bambu no Brasil e
constataram que existem 34 gêneros e 232 espécies de bambus nativos (174
espécies consideradas endêmicas), sendo 16 gêneros do bambu herbáceo
(ornamental) e 18 gêneros do tipo lenhoso. Existem 89% de todos os gêneros
no país e 65% de todas as espécies de bambu conhecidas da América.
Na Paraíba se destacam o Bambusa vulgaris e o Dendrocalamus
giganteus, plantas largamente usadas nas construções, tendo plantações
especialmente no brejo.
Para estudar o limite estrutural e o potencial construtivo do
bambu foi proposto o anteprojeto de Pavilhão de Exposições, por ter um
programa de necessidades interessante para trabalhar o bambu sozinho
e em conjunto com outros materiais e identificar seus limites estruturais,
visto que serão necessários espaços com pés-direitos altos e grandes vãos.

METODOLOGIA

PROCEDIMENTOS

1. PESQUISA SOBRE O BAMBU COMO VEGETAL


A primeira etapa consiste em estudar as principais características
do bambu, sua morfologia, formas de cultivo, clima ao qual se adapta melhor,
o tempo de crescimento e amadurecimento para colheita e quais os bambus
mais indicados para ser usado na construção civil. A pesquisa foi feita em
artigos, periódicos, livros e anais de congressos e teve como subproduto
parte do embasamento teórico do trabalho.

154 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


2. ESTUDO DO USO DO BAMBU EM PROJETOS
ARQUITETÔNICOS
Abordar o bambu como um material possível de ser aplicado em
diferentes fases do planejamento de projeto, E desde a etapa estrutural até
os revestimentos, estudando as propriedades físicas, mecânicas, ligações
estruturais e formas de tratamento das varas antes de serem utilizadas. A
pesquisa foi feita em artigos, periódicos, livros e anais de congressos e teve
como subproduto parte do embasamento teórico do trabalho.

3. ELABORAÇÃO DO ANTEPROJETO DO PAVILHÃO DE


EXPOSIÇÕES
A primeira parte da proposta é definir as diretrizes e partido
arquitetônico do Pavilhão de acordo com as condicionantes legais do terreno
e de acordo com as propriedades e limites do bambu que será o material
base do projeto. A atividade projetual foi feita em dois softwares: Autocad e
Sketchup. O subproduto desta fase foi a definição do partido arquitetônico e
do programa de necessidades

FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
Bambu é o nome popular dado a planta da família Poaceae, da sub-
família Bambusoideae da família das gramíneas. Os bambus se classificam
em lenhosos (Bambuseae) e herbáceos (Olyrae). Morfologicamente, o
bambu é composto por colmo, folhas e ramificações, rizoma e raiz. Pelas
características do seu colmo, é considerada uma planta lenhosa, ou seja,
capaz de produzir madeira, classificada como angiosperma, pois tem a
semente protegida e produz frutos, e monocotiledônias, que são plantas que
possuem raízes fasciculadas (Figura 1) (PADOVAN, 2010).
Algumas espécies apresentam colmo cilíndrico e com dimensões
que variam de acordo com cada espécie, como por exemplo, o gênero
Arundinaria que alcança poucos centímetros de altura e largura, e o
Dendrocalamus giganteus que chega até 40 metros de altura e 30 centímetros
de diâmetro. Segundo Koichiro Ueda (citado por HIDALGO-LÓPEZ,
2003), o período de crescimento de um colmo, desde o momento em que
emerge do solo até adquirir sua altura total, é de 80 a 110 dias nas espécies
do grupo paquimorfo e de 30 a 80 dias nas espécies do grupo leptomorfo.
Em condições normais e na época de maior desenvolvimento, o crescimento
médio, em 24 horas, é de 8 a 10 cm e, em alguns casos, de 38 a 40 centímetros,
com recordes observados de até 121 cm (Phyllostachys reticulata), relatados
em Kyoto, Japão, em 1955. Segundo Marquez (2006), o bambu apresenta
rápido crescimento podendo algumas espécies superar facilmente 100 cm
em apenas um dia (PADOVAN, 2010).
No Brasil, os gêneros mais conhecidos que podem ser usadas
como material construtivo podem-se citar:
Bambusa vulgaris - Planta arborescente, que pode ultrapassar 20 m
de altura, e seus colmos são verdes ou amarelos (STAROSTA ; CROUZET,
1998 apud SOBRINHO JUNIOR, 2010). Esta espécie é muito comum no

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 155


Brasil e em outros países latino-americanos.
Dendrocalamus giganteus- (bambu gigante) planta arborescente,
colmos de até 40 m de altura e 25 cm de diâmetro. É um dos maiores do
mundo e é muito usado na construção (MARTINESI ; GHAVAMI, 1985
apud SOBRINHO JUNIOR, 2010). Esta espécie é encontrada no Rio de
Janeiro e na Paraíba, por exemplo (MURAD, 2000).
Bambusa guadua – Planta arborescente de até 18 m de altura,
colmos de até 15 cm de diâmetro. Muito difundida na América do Sul e
amplamente utilizada na construção (MARTINESI ; GHAVAMI, 1985
apud SOBRINHO JUNIOR, 2010).

PROPRIEDADES FÍSICAS
Ghavami (2005) destaca que o bambu possui dimensões variáveis
ao longo da vara, sendo mais grossa na base e diminuindo gradativamente
o diâmetro do colmo e a espessura da parede até a extremidade, estando
variável de acordo com a espécie:
Segundo Murad (2007), o bambu é um material que possui baixa
massa específica e uma alta resistência mecânica (Tabela 1). O bambu deixa
a estrutura mais leve, se tornando uma vantagem significativa em relação
ao concreto, por exemplo. Na base do colmo a resistência à flexão é 2 a 3
vezes maior na parte externa do que na interna (PEREIRA, 2001 apud
MURAD, 2007).
A medida que se aproxima do topo, a densidade aumenta na
parte interna e há redução na espessura da parede. A umidade natural varia
de 13 a 20%, variando de acordo com o clima local, fazendo com que o
bambu se dilate com o aumento da umidade e se contraia com a perda. Essas
mudanças afetam principalmente o diâmetro da peça do que no comprimento
e praticamente não existe variação no sentido longitudinal (TEIXEIRA,
2003 apud MURAB, 2007).

PROPRIEDADES MECÂNICAS
Ghavami (2005) analisou amostras da Guadua angustifólia e seu
comportamento após esforços de tração, compressão e cisalhamento a partir
de testes aplicados a corpos de prova e levando em consideração as variações
das características do bambu, sendo de acordo com a espécie, idade, tipo de
solo, condições climáticas entre outras variáveis.

TRAÇÃO
A parte central do bambu apresenta maior resistência. Nas
regiões com nó, a resistência diminui devido à descontinuidade das fibras
nesses pontos, seguindo a direção do nó. A região do topo, sem nó, apresenta
maior valor da resistência à tração, 115,84 MPa. A resistência à tração
do bambu Guadua angustifolia é 36,7% menor que a resistência do bambu
Dendrocalamus giganteus (GHAVAMI ; MARINHO, 2005).

156 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


COMPRESSÃO
Observa-se que a resistência à compressão é, em geral, três vezes
menor que a resistência à tração. A resistência a compressão aumenta da base
para o topo. Enquanto o valor máximo da tensão ocorreu na parte do topo, na
base, este valor caiu para 25,27 MPa (GHAVAMI ; MARINHO, 2005).

CISALHAMENTO
Nesta, observa-se que os valores aumentam da base para o
topo. Nos testes feitos com corpos-de-prova sem nó, a resistência é maior
e se mantém quase uniforme nas três partes do comprimento do colmo;
já nas partes com nó, a resistência é menor e os valores variam muito. A
resistência ao cisalhamento do bambu Guadua angustifolia é inferior à do
bambu Dendrocalamus giganteus (GHAVAMI : MARINHO, 2005).

PRINCIPAIS LIGAÇÕES DO BAMBU: PEÇAS PARAFUSADAS


De acordo com Cardoso Junior (2000), o bambu não resiste
aos pregos devido sua constituição ser basicamente composta por fibras
paralelas muito longas, com densidade especifica muito alta, principalmente
nas paredes externas, com grande tendência a criar fendas. As ligações mais
indicadas, por proporcionar maior estabilidade, são as parafusadas, pois há
um corte das fibras, sem o afastamento entre elas, evitando assim as fissuras.
A ligações parafusadas permitem ajustes no material de acordo com as
variações da umidade relativa do ar, ou ainda, do término do processo de
secagem de peças utilizadas, não totalmente secas.
Simón Velez estudou uma outra forma de ligação com parafusos.
Sua proposta consiste em injetar concreto nos entrenós que fazem parte das
ligações, ou seja, somente nos segmentos que serão parafusados (Figura
1). O concreto cumpre a função de aumentar a superfície de contato do
parafuso e as paredes do bambu, evitando fissuras, esmagamento e desgaste
na superfície externa (HIDALGO, 1974 apud CARDOSO JUNIOR, 2000).

Figura 1- Ligação Vélez produzida por alunos, 2003.

Fonte: MARÇAL, 2008.

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 157


PEÇAS AMARRADAS
De acordo com Cardoso Junior (2000) essa técnica não é tão
eficiente quanto as peças parafusadas, porém, as amarrações de bambu são
muito utilizadas, pois são realizadas apenas com cordas e arames (Figura 2).
Não possui rigidez satisfatória para ser usado em estruturas, pois o índice
de retrabilidade do bambu é alto. Para aumentar a rigidez nas ligações
amarradas, recomenda-se utilizar também cavilhas de madeira, parafusos
ou conexões metálicas para distribuir as forças aplicadas e evitar a torção na
ligação. Umedecer as tiras de bambu, ou outra fibra natural, antes de serem
amarradas, facilita o ajuste das amarrações.

Figura 2- Exemplos de amarrações com corda, extraído do livro “Manual


de construcción con Bambú de Guadua”, Oscar Hidalgo

Fonte: <http://www.plataformaarquitectura.cl/>. Acesso em: 20 mar.2016.

PEÇAS ENCAIXADAS
O bambu possui uma resina natural protetora, o que faz com
que sua superfície seja muito lisa e deslize, dificultando o travamento das
ligações.
A maneira mais simples de ligar os segmentos de
bambu é pela sobreposiçao de colmos usinados
de forma côncava, permitindo a fixação das peças
que permanecem em sua forma roliça. Os cortes
devem ser feitos sempre o mais próximo a um nó
possível, aumentando assim, a resistência da peça
e evitando fissuras. Os entalhes devem ser feitos
somente nas peças verticais para evitar a ruptura
por cisalhamento (Figura 3) (CARDOSO JUNIOR,
2000, p. 31).

158 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


Figura 3- União de encaixe: conexão em cruz com passador, união lateral
com passador e união de esquina, extraído do livro “Manual de construcción
con Bambú de Guadua”, Oscar Hidalgo.

Fonte: http://www.plataformaarquitectura.cl/. Acesso em: 20 mar.2016

PRINCIPAIS APLICAÇÕES DO BAMBU NA ARQUITETURA


Na arquitetura o bambu pode ser usado desde o revestimento
do piso até a coberta. Dentre as inúmeras possibilidades de utilização do
bambu, podem-se destacar (MEIRELLES;OSSE, 2010):

• A criação de painéis verticais para vedação em diversas alturas, ou


painéis vazados para o aproveitamento da luz e ventilação natural;
• A montagem de painéis cromáticos, devido à grande diversidade
da coloração de folhas e colmos dentre as diferentes espécies;
• A facilidade de obter texturas diferenciadas em biombos;
• Pode constituir paredes e outros elementos de diferentes escalas
no espaço de projeto, pelos seus diferentes portes, conforme
gênero e espécie.
• O bambu tratado e montado sob a forma de painéis pode atuar
como bris soleil, interno ou externo, e também como revestimento,
forros e paredes.
• Pode ser usado em seu formato natural, como laminado, prensado,
agregado a outros materiais, etc.

VANTAGENS E DESVANTAGENS DO BAMBU


Dentre as vantagens do bambu, pode-se citar:
• O tempo de estabelecimento de uma plantação varia de 5 a 7 anos,
e o amadurecimento de um bambu acontece de 3 a 5 anos (BAMBU
BRASILEIRO, 2005 apud SOBRINHO JUNIOR, 2006), mais
rápido que o eucalipto que é amplamente utilizado na arquitetura
e construção civil e demora de 6 a 10 anos para ser colhido), (VAZ
FILHO ; SANT’ANA, 2013);
• O bambu possui grande resistência e rigidez, com valores
que superam a madeira e o concreto, sendo comparado ao aço
(JANSSEN, 2000 apud PEREIRA & BERALDO, 2007);

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 159


• Possui grande resistência a tração em relação ao peso específico,
sendo comparado ao aço, concreto e madeira (MURAD, 2007)

• É uma planta auto renovável, produz colmos anualmente sem a


necessidade de replantio (PEREIRA ; BERALDO, 2007)
• Existem no Brasil cerca de 65% de todas as espécies de bambu
conhecidas na América (FILGUEIRAS ; GONÇALVES, 2004
apud PEREIRA ; BERALDO, 2007);
• As varas de bambu são longas e permitem construções maiores e
com pé-direito mais alto;
• Não há parte que possa se considerar desperdicio (MARTINESI ;
GHAVAMI, 1985 apud SOBRINHO JUNIOR, 2006);
• Pode ser trabalhado com ferramentas simples (FARRELY, 1984
apud PEREIRA ; BERALDO, 2007).
Como desvantagens pode-se listar as seguintes (SOBRINHO JUNIOR,
2010):

• O bambu tem uma durabilidade natural baixa e necessita de um


longo processo para conseguir ser utilizado: corte, cura, secagem e
tratamentos imunizantes;
• Por ser um material vegetal, é suscetível ao ataque de fungos e
insetos;
• Possui baixa resistência ao fogo (YAO e LI, 2003 apud SOBRINHO
JUNIOR, 2010);
• Apodrece em contato permanente com variação de umidade;
• A normatização é difícil devido à variação de diâmetros em
todo o comprimento, como também não é regular sua espessura
(PADOVAN, 2010).

RESULTADOS
O projeto do Pavilhão para Exposições (Figura 4) tem como
partido priorizar o uso do bambu plasticamente e estruturalmente, tanto
de forma isolada como também trabalhando com outros materiais, como o
concreto (material convencional) e a madeira eucalipto (material natural) e
entender os seus limites estruturais.

160 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


Figura 4- Pavilhão de Exposições

Fonte: Os autores.

O Pavilhão possui uma área de 1234,32 m² para exposição de


obras de pequeno a grande porte e um primeiro pavimento com um pé-
direito de 6.7m e com grandes aberturas que possibilitam aos usuários
contemplar toda a exposição. Além disso, esta edificação tem como objetivo
mostrar o bambu para os visitantes como um material forte e bonito,
compondo um bloco de grandes dimensões e pé-direito alto.

ESTRUTURA DO PAVILHÃO
O principal material estrutural do projeto é o bambu, sendo
usado de forma laminada ou em seu formato natural. O Pavilhão possui um
vão de 33 x 34,85m e o maior pé-direito possui 6,70m.

Figura 5- Esquema da estrutura do Pavilhão de Exposições

Coberta de Dendrocalamus
giganteus Ø15cm e 10 cm
Colunas de Dendrocalamus
giganteus Ø15cm
Piso de bambu laminado
Caixa de concreto armado

Vigas em Dendrocalamus
giganteus Ø 15 cme pilares
de eucalipto Ø 30 cm
Fonte: Os autores.

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 161


O Pavilhão de exposições foi projetado com uma estrutura mista
(Figura 5). Os pilares da área do pilotis são de toras de eucalipto citriodora,
com Ø 30 cm, colocados a uma distância média de 10m. As vigas são
compostas de quatro varas de Dendrocalamus giganteus Ø 30cm, que foram
ligadas aos pilares de eucalipto por parafusos (Figura 6) e a estrutura de
concreto armado com o auxílio de uma chapa metálica 50x50 cm de ½’’
(Figura 7).
O piso foi inspirado em uma laje wall, usualmente feita com
compensado de madeira e estrutura metálica. No projeto o piso é de bambu
laminado suportado por vigas de Dendrocalamus giganteus Ø 15 cm.

Figuras 6- Ligação do pilar de eucalipto com as vigas de bambu

Fonte: Os autores

Figura 7- Ligação das vigas de bambu com a estrutura em concreto armado

Fonte: Os autores.

162 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


A coberta foi estruturada com Dendrocalamus giganteus Ø 15 cm
parafusados e amarrados. A cobertura foi feita com bambus tratados com
resina e fibra de vidro (BRF).
A coberta de bambu de 1962,5m² é suportada por cinco grandes
colunas de bambu Dendrocalamus giganteus Ø15cm em forma de guarda-
chuva, dispostos a uma distância de cerca de 16 metros (Figura 8). As
colunas possuem diâmetro de 1,65m e têm 9,70 metros de altura e também
servem como captadores de águas das chuvas, tendo uma tubulação interna
que leva a água para uma cisterna.

Figura 8- Corte do Pavilhão de Exposições

Fonte: Os autores.

Os painéis das fachadas foram projetados com Dendrocalamus


giganteus Ø 15 cm para a sua estrutura e travamentos e Bambusa vulgaris Ø
8cm para as tramas dos painéis. Os bambus foram parafusados e amarrados
com fibra de bambu na estrutura e amarrados nas tramas de Bambusa vulgaris.
Estes mesmos painéis se repetem na fachada do Café/Administração.
Todos os painéis estão fixados através de um embasamento feito
com taliscas de bambu colocados em um radier de concreto, como mostra a

Figura 9 - detalhe do embasamento + radier

Fonte: Os autores

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 163


CONSIDERAÇÕES FINAIS
Apesar do Brasil ser o país da América Latina onde mais existem
espécies de bambu e possuir um clima favorável para o desenvolvimento de
muitas espécies, ainda há uma resistência cultural e falta incentivo para usá-
lo na construção civil, faltando plantios voltados para esta atividade.
O projeto proposto mostrou algumas das formas estudadas de
aplicação do bambu, feitas com materiais comumente usados em outras
obras. As técnicas progridem e novas formas de usar o material surgem a
cada nova experiência.
O bambu demonstra ser um material versátil, podendo ser usado
junto com outros materiais, em todas as fases da obra e de diversos formatos,
além de ser um material de fácil acesso, possui ligações simples, forma uma
estrutura leve e pode ser manejado com ferramentas comuns. Além disso,
é economicamente viável por ser de baixo orçamento, auto renovável e se
adapta a vários tipos de solo. Existe uma crescente demanda por materiais
sustentáveis e o bambu está começando a ser notado pelo mercado brasileiro.

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ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 165


CAPÍTULO 12

A ATUAÇÃO DO ENGENHEIRO CIVIL


NAS EQUIPES ELABORADORAS DOS
ESTUDOS DE IMPACTO AMBIENTAL
Henrique Elias Pessoa Gutierres1, Jéssika de Oliveira Neles Rodrigues2,
Camilla Jerssica da Silva Santos3, Valdeniza Delmondes Pereira4.

RESUMO
Para analisar a viabilidade ambiental de empreendimentos/atividades
com significativo poder de degradação ambiental, a legislação
ambiental brasileira obriga a elaboração e a apresentação do Estudo
de Impacto Ambiental (EIA) e o seu respectivo Relatório de Impacto
Ambiental (RIMA) para fins de licenciamento ambiental. O presente
trabalho objetiva apresentar e discutir a composição das equipes
profissionais elaboradoras dos Estudos de Impacto Ambiental (EIAs)
e os seus respectivos Relatórios de Impactos Ambientais (RIMAs),
protocolados no órgão ambiental do estado da Paraíba, entre os
anos de 2000 e 2015, destacando a atuação do engenheiro civil. O
desenvolvimento deste trabalho foi baseado numa pesquisa aplicada
e descritiva sob o método documental, a partir do levantamento dos
EIAs arquivados no centro de documentação do órgão ambiental
da Paraíba. Foi possível constatar uma expressiva participação dos
profissionais da engenharia civil nas equipes técnicas de elaboração
dos EIAs/RIMAs. Logo, o engenheiro civil desempenha um papel
importante nos EIAs, considerando que os empreendimentos/
atividades envolvem, na sua quase totalidade, a execução de obras de
engenharia. Portanto, a presença do profissional da engenharia civil na
equipe elaboradora permite que o mesmo possa fornecer informações
referentes aos aspectos construtivos do empreendimento, estando em
sintonia com outros profissionais na troca de informações.

Palavras-Chave: Licenciamento ambiental. Estudo de Impacto


Ambiental. Equipes. Engenheiro civil.

1 Geógrafo do Departamento de Geociências da UFPB. Especialização em Licenciamento Ambiental e


Doutorando em Geografia (UFPE). Professor do Curso de Engenharia Civil do Unipê. E-mail: hepg86@
hotmail.com
2 Graduanda do Curso de bacharelado em Engenharia Ambiental (UFPB). Estagiária (SUDEMA). E-mail:
jessikaoliveiranr@gmail.com
3 Graduada do Curso de bacharelado em Geografia (UFPB). E-mail: camilla.jerssica@hotmail.com
4 Bacharel em Geografia (Universidade Federal da Paraíba - UFPB). E-mail: del_mondes@hotmail.com

166 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


INTRODUÇÃO
A implantação de empreendimentos e o desenvolvimento de obras
e atividades é algo que acontece diariamente em todo o Brasil. E ao se falar
nessas atividades humanas o meio ambiente surge como algo fundamental
para a viabilidade da instalação e operação dos empreendimentos dos mais
diversos ramos.
O interesse pelas questões ambientais tem aumentado a cada
dia. Apesar de em alguns casos ser encarado como modismo ou puro
marketing, constitui uma questão de sobrevivência humana. Diante disso,
a Lei Federal nº 6.938/81, que instituiu a Política Nacional de Meio
Ambiente, trouxe definições, objetivos, estrutura governamental e alguns
instrumentos. Dentre os vários instrumentos elencados, encontra-se o
licenciamento ambiental, que é obrigatório para a implantação e operação
das mais diversas atividades humanas. Contudo, sabe-se que o licenciamento
ambiental possui níveis de exigências diferenciados de acordo com o tipo do
empreendimento a ser licenciado. Dessa maneira, para analisar a viabilidade
ambiental de empreendimentos/atividades com significativo poder de
degradação ambiental, a legislação ambiental brasileira impõe a elaboração
e a apresentação do Estudo de Impacto Ambiental (EIA) e o seu respectivo
Relatório de Impacto Ambiental (RIMA). Obrigatoriamente, todo EIA
necessita abordar conhecimentos relacionados ao meio físico (geologia,
geomorfologia, climatologia, pedologia, recursos hídricos etc.), além do
meio biológico (fauna e flora) e do socioeconômico (dinâmica populacional,
economia, patrimônio histórico e cultural etc.).
O Estudo de Impacto Ambiental para fins de licenciamento
ambiental não possui um caráter monográfico e nem é um simples documento
a ser anexado no processo de licenciamento. A sua existência por si só, não vai
“garantir” uma tomada de decisão favorável à emissão da licença por parte do
órgão ambiental licenciador. Talvez com a mentalidade de achar que o EIA é um
simples documento para cumprir uma formalidade processual, é que algumas
equipes profissionais que elaboram tais estudos não consideram a importância
em se observar a quantidade correta e as qualificações profissionais necessárias
para atender ao que pede a legislação ambiental, bem como ao Termo de
Referência elaborado para o EIA/RIMA daquele empreendimento. A falta de
profissionais especializados para tratar de determinados temas do EIA acarreta
em algumas deficiências, a exemplo de: ausência de levantamentos de campo;
caracterização da área baseada, predominantemente, em dados secundários;
ausência ou insuficiência de informações sobre a metodologia utilizada; falta
de integração dos dados de estudos específicos; pesquisas insuficientes e
metodologicamente ineficazes; não-identificação de determinados impactos
ambientais; indicação de impactos genéricos; subutilização ou desconsideração
de dados dos diagnósticos para avaliação dos impactos ambientais. Sendo assim,
o presente capítulo objetiva apresentar e discutir a composição das equipes
profissionais elaboradoras dos Estudos de Impacto Ambiental (EIAs) e os seus
respectivos Relatórios de Impacto Ambiental (RIMAs), protocolados no órgão
ambiental do estado da Paraíba, entre os anos de 2000 a 2015, enfatizando a
atuação profissional do engenheiro civil junto a essas equipes elaboradoras.

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 167


METODOLOGIA
O desenvolvimento deste trabalho foi baseado numa pesquisa
aplicada e descritiva sob o método documental. De acordo com Gil (2010, p.45):

A pesquisa documental assemelha-se muito à


pesquisa bibliográfica. A diferença essencial entre
ambas está na natureza das fontes: enquanto a
pesquisa bibliográfica se utiliza fundamentalmente
das contribuições dos diversos autores sobre
determinado assunto, a pesquisa documental vale-se
de materiais que não receberam ainda um tratamento
analítico, ou que ainda podem ser reelaborados de
acordo com os objetos da pesquisa.

Realizou-se um levantamento dos EIAs no Centro de Documentação


do órgão ambiental do estado da Paraíba (Superintendência de Administração
do Meio Ambiente - SUDEMA). Após a coleta e tratamento dos dados, os
mesmos foram organizados e apresentados em tabelas e gráficos.

LICENCIAMENTO AMBIENTAL
O licenciamento ambiental é um procedimento administrativo
pelo qual o órgão ambiental competente licencia a localização, instalação,
ampliação e a operação de empreendimentos e atividades utilizadoras de
recursos ambientais, consideradas efetiva ou potencialmente poluidoras ou
daquelas que, sob qualquer forma, possam causar degradação ambiental,
considerando as disposições legais e regulamentares e as normas técnicas
aplicáveis ao caso, conforme Resolução CONAMA nº 237, de 19 de dezembro
de 1997 ( BRASIL, 2016).
A origem legal do licenciamento ambiental no Brasil se deu com
a edição da Lei Federal nº 6.938/81 (Política Nacional de Meio Ambiente),
que em seu artigo 9º apresenta vários instrumentos a serem executados,
dentre os quais se destaca o inciso IV (o licenciamento e a revisão de
atividades efetiva ou potencialmente poluidoras). A Resolução nº 01/86
do Conselho Nacional de Meio Ambiente (CONAMA) trata o Estudo de
Impacto Ambiental (EIA) e o respectivo Relatório de Impacto Ambiental
(RIMA) como um dos principais instrumentos do licenciamento ambiental.
Este representa o mecanismo através do qual o poder público busca
controlar as atividades econômicas que degradam ou possam degradar
o meio ambiente, através da permissão para que um empreendimento
seja instalado e venha a operar. Porém, tal instrumento contempla desde
empreendimentos de menor porte (a exemplo de restaurantes, padarias,
lava-jatos etc.) até empreendimentos de grande porte e com alto poder
degradador (mineração, aterros sanitários, aeroportos, projetos urbanísticos
etc.). Para estes empreendimentos, a legislação impõe a obrigação de que
o licenciamento ambiental seja acompanhado de um Estudo de Impacto
Ambiental, que é um dos estudos ambientais possíveis de serem solicitados
pelos órgãos ambientais (federal, estaduais e municipais). De acordo com o
CONAMA, os “estudos ambientais” são:

168 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


Todos e quaisquer estudos relativos aos aspectos
ambientais relacionados à localização, instalação,
operação e ampliação de uma atividade ou
empreendimento, apresentado como subsídio para a
análise da licença requerida [...] ( BRASIL 2016).

ESTUDO DE IMPACTO AMBIENTAL (EIA)


Barbieri (2007) entende que o EIA é um instrumento de
planejamento de ações futuras com elevado potencial de degradação
ambiental. Para o autor, tal instrumento compreende a avaliação dos
impactos, a identificação de soluções e de alternativas, o desenvolvimento
de medidas para prevenir, controlar e compensar os impactos inevitáveis. A
National Environmental Policy Act (NEPA), lei dos Estados Unidos do ano
de 1969, é considerada a primeira lei no mundo a estabelecer a obrigação
do EIA enquanto instrumento de política pública. Já a Organização das
Nações Unidas, por meio do Programa das Nações Unidas para o Meio
Ambiente (PNUMA) foi responsável pela disseminação desse instrumento.
O EIA envolve diversos atores: empreendedor (público ou privado), órgão
ambiental licenciador (tomador de decisão), equipe profissional elaboradora
do EIA e interessados em geral. O EIA deve ser entendido como uma etapa
integrante do próprio projeto da obra ou de atividade potencialmente
causadora de degradações significativas no meio ambiente. Assim,
constituem os procedimentos de avaliação do impacto ambiental no âmbito
das políticas públicas, além de fornecer os subsídios para o planejamento
e a gestão ambiental, vislumbrando assim, a prevenção relativa aos danos
ambientais através do licenciamento ambiental.
A Resolução CONAMA nº 01/1986( BRASIL, 2016) estabelece
uma estrutura mínima para as atividades técnicas a serem desenvolvidas no
momento da elaboração do EIA:

Artigo 6º - O estudo de impacto ambiental


desenvolverá, no mínimo, as seguintes atividades
técnicas:

I - Diagnóstico ambiental da área de influência do


projeto completa descrição e análise dos recursos
ambientais e suas interações, tal como existem, de
modo a caracterizar a situação ambiental da área,
antes da implantação do projeto, considerando:

a) o meio físico - o subsolo, as águas, o ar e o clima,


destacando os recursos minerais, a topografia, os
tipos e aptidões do solo, os corpos d’água, o regime
hidrológico, as correntes marinhas, as correntes
atmosféricas;

b) o meio biológico e os ecossistemas naturais - a


fauna e a flora, destacando as espécies indicadoras

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 169


da qualidade ambiental, de valor científico e
econômico, raras e ameaçadas de extinção e as áreas
de preservação permanente;

c) o meio sócio-econômico - o uso e ocupação do


solo, os usos da água e a sócio-economia, destacando
os sítios e monumentos arqueológicos, históricos e
culturais da comunidade, as relações de dependência
entre a sociedade local, os recursos ambientais e a
potencial utilização futura desses recursos.

II - Análise dos impactos ambientais do projeto e de


suas alternativas, através de identificação, previsão
da magnitude e interpretação da importância dos
prováveis impactos relevantes, discriminando:
os impactos positivos e negativos (benéficos e
adversos), diretos e indiretos, imediatos e a médio e
longo prazos, temporários e permanentes; seu grau
de reversibilidade; suas propriedades cumulativas
e sinérgicas; a distribuição dos ônus e benefícios
sociais.

III - Definição das medidas mitigadoras dos impactos


negativos, entre elas os equipamentos de controle
e sistemas de tratamento de despejos, avaliando a
eficiência de cada uma delas.

lV - Elaboração do programa de acompanhamento e


monitoramento (os impactos positivos e negativos,
indicando os fatores e parâmetros a serem
considerados.

Como forma de discutir a composição das equipes técnicas


responsáveis pela elaboração dos estudos ambientais, parte-se do
entendimento de que o EIA será elaborado considerando os três
meios principais: MEIO FÍSICO, MEIO BIOLÓGICO e MEIO
SOCIOECONÔMICO.
Aqueles que conhecem os procedimentos para elaboração de
um EIA sabem que esses três meios não estão presentes apenas no item
“Diagnóstico Ambiental”, mas norteiam também as atividades de “Análise dos
impactos ambientais”, “Definição das medidas mitigadoras” e “Elaboração
dos programas de acompanhamento e monitoramento”, conforme constam
nos incisos II, III e IV do artigo 6º da Resolução CONAMA nº 01/86. Logo,
espera-se que cada “MEIO” fique sob a responsabilidade de profissionais
legalmente habilitados para tratarem dos diferentes temas solicitados. A
importância do Diagnóstico Ambiental no EIA é tanta, que o Ministério
Público Federal, em sua publicação “Deficiências em estudos de impacto
ambiental: síntese de uma experiência” (BRASIL, 2004), afirma que:

170 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


O EIA deve ser capaz de descrever e interpretar
os recursos e processos que poderão ser afetados
pela ação humana. Nesse contexto, o diagnóstico
ambiental não é somente uma das etapas iniciais
de um EIA: ele é, sobretudo, o primeiro elo de uma
cadeia de procedimentos técnicos indissociáveis
e interdependentes, que culminam com um
prognóstico ambiental consistente e conclusivo.

Logo, o “Diagnóstico Ambiental” será referência no cumprimento


das próximas atividades técnicas no EIA (“análise dos impactos“; “definição
das medidas mitigadoras”; “elaboração dos programas de acompanhamento
e monitoramento”) e torna-se imprescindível a presença de equipes
multidisciplinares especializadas para o levantamento de informações
detalhadas e para realizar análises complexas sobre os múltiplos aspectos
do meio ambiente e do empreendimento.
Além das diretrizes estabelecidas pela Resolução CONAMA nº
01/86( BRASIL, 2016), deve-se salientar que a composição da equipe técnica
deve levar em consideração o Termo de Referência, que é um documento
elaborado pelo órgão ambiental licenciador, que orienta a elaboração do
EIA/RIMA, a partir de um maior detalhamento daquilo que deve constar
no estudo ambiental, de acordo com as especificidades do projeto e do
ambiente a ser impactado.
Sem dúvida que para a elaboração de um EIA é necessária a presença
de profissionais das mais diversas áreas do conhecimento. Tomando a preocupação
com relação à quantidade e as profissões responsáveis pela elaboração dos EIAs no
estado da Paraíba nos últimos quinze anos, o texto apresentará os dados levantados
e que foram analisados, tendo sido possível encontrar algumas falhas e equívocos,
conforme será discutido no próximo item.
O EIA é um instrumento que proporciona a prevenção e avaliação
dos impactos negativos de um empreendimento ou atividade sobre os meios
físico, biótico e antrópico, identificando mecanismos para evitá-los antes
que o empreendimento seja implementado (BARBIERI, 2007). E sendo
guiado por estudos mal elaborados, mascarando impactos importantes, o
órgão ambiental poderá aprovar e licenciar empreendimentos que poderão
causar danos sérios e irreversíveis ao ambiente. Segundo Sanchez
(2008), a desqualificação de muitos consultores, por não compreenderem os
objetivos e fundamentos do Estudo de Impacto Ambiental, acaba reduzindo
suas atividades a prepararem documentos para facilitar a obtenção do
licenciamento ambiental, através da preparação de documentos quase
idênticos para projetos distintos, o que passou a se chamar de “indústria
do rima”. Em virtude dessa deficiência, muitos autores buscaram analisar
a qualidade dos EIAs/RIMAs apresentados aos órgãos ambientais
competentes, entre eles: Ministério Público Federal (MPF) (BRASIL,
2004), Müller-Plantenberg e Ab’Sáber (2006) e Sánchez (2008).
O Ministério Publico Federal (MPF) realizou, no ano de 2004,
uma análise em 80 (oitenta) EIAs/RIMAs de empreendimentos dos mais
diversos gêneros, entre hidrelétricas, aeroportos, complexos turísticos,
mineração, obras de saneamento básico, entre outros, realizadas em diversos
estados brasileiros, com o objetivo de verificar os principais problemas

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 171


encontrados nos referidos estudos. Verificaram-se muitas deficiências na
elaboração desses estudos, culminando em uma síntese de suas principais
deficiências. Dentre as deficiências citadas estão: a identificação parcial de
impactos; indicação de impactos genéricos; indicação de medidas que não
são a solução para a mitigação do impacto; indicação de medidas mitigadoras
pouco detalhadas; indicação de ações destinadas à complementação do
diagnóstico ambiental e à mitigação de impactos, como se fossem programas
de monitoramento; desconsideração das exigências presentes nos Termos
de Referência (TRs); ausência de proposição de alternativas tecnológicas
e locacionais; prevalência dos aspectos econômicos sobre os ambientais na
escolha das alternativas; entre muitos outros problemas levantados (MPF,
2004). Diante de tal cenário é impossível não tratar do exercício profissional
daqueles que são responsáveis pela elaboração de tais estudos ambientais
(BRASIL, 2004).

RESULTADOS E DISCUSSÃO
A partir do levantamento realizado e da sistematização dos
dados, o quadro 1 apresenta o quantitativo de EIAs protocolados por ano,
num total de quarenta e três estudos. Do total de quarenta e três EIAs,
vinte e três foram protocolados oriundos da iniciativa privada, enquanto
que vinte foram protocolados pelo poder público (Governo Estadual e
Governos Municipais).
Partindo para a análise das equipes elaboradoras dos estudos
analisados, buscou-se identificar o total de profissionais de cada equipe e o
quantitativo de EIAs que adotaram a mesma quantidade de profissionais.
Observa-se que dos 43 EIAs, treze estudos tiveram de 4 a 6 profissionais, o
que representa 30,2% do total analisado. Ou seja, quase um terço dos EIAs
foram elaborados por, no máximo, 6 profissionais, o que coloca em discussão
a exigência do caráter multidisciplinar da equipe técnica responsável pela
elaboração do EIA/RIMA.

Quadro 1 - Quantidade de EIAs protocolados na SUDEMA de


acordo com o ano do número do processo
ANO TOTAL DE EIAs ANO TOTAL DE EIAs
2000 1 2008 3
2001 1 2009 0
2002 2 2010 8
2003 5 2011 7
2004 6 2012 2
2005 1 2013 3
2006 2 2014 0
2007 1 2015 1

Fonte: levantamento feito no Centro de Documentação da SUDEMA.


Org.: Os autores.

172 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


Se considerarmos as equipes com até 9 profissionais, totalizam-se
24 EIAs, representando 55,8%. Portanto, mais da metade dos EIAs tiveram
até nove profissionais em sua equipe técnica. Em se tratando de equipes
maiores, constata-se que catorze EIAs apresentaram equipes compostas
com 10 a 15 profissionais, o que representa 32,5% do total. Por fim, 4
estudos apresentaram mais de quinze profissionais, chegando ao máximo
de vinte e oito profissionais. Portanto, 41,9% dos EIAs apresentaram uma
equipe técnica acima de dez profissionais (Quadro 2).
O quadro 2 demonstra que 30,3% dos EIAs tiveram uma equipe
formada por 4 até 6 profissionais. Por outro lado, 25,6% dos estudos
tiveram uma equipe composta entre 7 a 9 profissionais. Sendo assim, os
dados demonstram que 55,9% dos EIAs tiveram equipes compostas entre
7 e 9 profissionais. As equipes com mais de 10 profissionais totalizaram
41,8%, sendo que apenas 9,3% apresentaram equipes com mais de quinze
profissionais.

Quadro 2 - Quantidade de profissionais na equipe técnica


em valores percentuais
Quantidade de Profissionais
Quantidade de EIAs Percentual
na Equipe Técnica
4a6 13 30,3
7a9 11 25,6
10 a 15 14 32,5
Acima de 15 4 9,3
Não identificado 1 2,3
Fonte: levantamento feito no Centro de Documentação da SUDEMA.
Org.: Os autores.

Pelo menos em oito EIAs/RIMAs apresentados à SUDEMA,


constata-se, claramente, que não houve preocupação em atender o caráter
multidisciplinar da equipe elaboradora do EIA. Do total, sete EIAs
apresentaram deficiências graves no tocante à quantidade de profissionais
e as formações de cada um. Abaixo são elencadas algumas das deficiências
identificadas na composição das equipes técnicas responsáveis pela
elaboração dos EIAs analisados:

 Nenhum dos profissionais possui atribuição profissional para atuar


na área de ESTUDOS SOCIOECONÔMICOS;

 A equipe não possui profissional com atribuição para atuar nos


ESTUDOS SOBRE A FAUNA;

 Falta de profissionais habilitados nas áreas de GEOLOGIA/


GEOMORFOLOGIA/HIDROGEOLOGIA, considerando a
importância dessas áreas para a definição da viabilidade ambiental
e da operação de um aterro sanitário;

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 173


 Evidencia-se a falta de profissionais que detenham atribuição
profissional para trabalhar com modelagem de dispersão de
poluentes na atmosfera;

 Verifica-se um quantitativo considerável de profissionais


(Biólogos/Eng. Florestais) para tratar do “MEIO BIOLÓGICO”,
mas constata-se a ausência de profissionais habilitados para
trabalharem com os estudos do MEIO FÍSICO.
Tais constatações evidenciam a necessidade de um melhor
acompanhamento da atuação profissional daqueles que compõem as equipes
elaboradoras dos EIAs, especialmente o órgão ambiental licenciador,
mas também os conselhos profissionais (responsáveis pela fiscalização do
exercício profissional) e o Ministério Público.
O Quadro 03 detalha os dados do quadro anterior, pois expõe
um viés quantitativo ao listar a quantidade total de profissionais que
compuseram a equipe técnica de cada estudo.

Quadro 3 – Total de profissionais das equipes técnicas responsáveis


pela elaboração dos EIAs
Quantidade de Profissionais na
Quantidade de EIAs identificados
Equipe Técnica
Quatro 2
Cinco 5
Seis 6
Sete 1
Oito 1
Nove 9
Dez 4
Onze 4
Doze 1
Treze 1
Catorze 3
Quinze 1
Dezessete 1
Dezenove 1
Vinte e três 1
Vinte e oito 1
Não identificado 1
TOTAL 43
Fonte: Org.: Os autores.

174 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


Constata-se uma considerável quantidade de EIAs com equipes
formadas por 5 ou 6 profissionais (total de 11 EIAs), como também equipes
compostas por nove profissionais, que foram identificadas em nove EIAs.
No mais, as equipes técnicas compostas por quatorze ou mais profissionais
apresentou um baixo quantitativo (5 EIAs), o que demonstra que o universo
amostral analisado privilegiou equipes com uma menor quantidade de
profissionais.
Por fim, no universo de todos os EIAs analisados, procedeu-
se a totalização dos participantes das equipes em relação a profissão. O
gráfico 1 apresenta o percentual da participação dos dez profissionais mais
requisitados, a partir de um total de 419 profissionais integrantes das
equipes técnicas dos 43 EIAs analisados, o que resulta numa média de 10,2
profissionais/EIA. Os biólogos foram os profissionais mais contratados
para as equipes, totalizando 24% do total de profissionais, seguidos pelos
Geólogos (14,7), Geógrafos (11,2%), Engenheiro Civil (9,1%) e Engenheiro
Florestal (5%).

Gráfico 1 - Ranking dos profissionais com maior participação na composição


das equipes de elaboração dos EIAs/RIMAs (2000 – 2015).

Fonte: Org.: Os autores.

Constata-se que do montante total de profissionais, verifica-


se que os cinco profissionais mais requisitados, representaram 65% dos
profissionais contratados para os 43 EIAs analisados.

A ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO CIVIL


O Engenheiro Civil é a designação profissional para toda
pessoa portadora do diploma de bacharelado em engenharia civil com
registro no Conselho Regional de Engenharia e Agronomia (CREA).
Logo, diante da expressiva participação destes profissionais nas equipes
técnicas elaboradoras dos EIAs/RIMAs na Paraíba, parte-se para a análise
e caracterização da participação do engenheiro civil. Os seguintes aspectos
serão discutidos: número de engenheiros civis integrantes da equipe
técnica de cada EIA; análise temporal da participação do engenheiro civil;

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 175


as tipologias de empreendimentos que mais demandaram a presença do
engenheiro civil.
No tocante ao número de engenheiros civis em cada equipe
técnica, constata-se que dos 43 EIAs, o engenheiro civil esteve presente em
22 estudos. Destes, constata-se que em cartoze EIAs houve a presença de
um engenheiro civil em cada estudo. Já em outros cinco estudos, a equipe
técnica foi composta por dois profissionais da engenharia civil. Chama a
atenção que na equipe elaboradora de um EIA, o mesmo contou com a
participação de sete engenheiros civis.
No aspecto temporal, o gráfico 2 a participação do engenheiro
civil numa perspectiva temporal, considerando o período adotado (2000-
2015), buscando entender se a participação do engenheiro civil vem caindo
ou aumentando ao longo dos anos.
O gráfico demonstra que com o passar dos anos houve uma
oscilação da quantidade de engenheiros civis que integraram as equipes
elaboradoras. Contudo, cabe destacar que tal quantitativo está também
diretamente relacionado ao total de EIAs por ano, que também oscilou ao
longo do período analisado.

Gráfico 2 - Participação do engenheiro civil na perspectiva temporal do


período analisado (2000-2015), associando a quantidade de EIAs por ano

Fonte: Org.: Os autores.

Associando os dois dados do gráfico, constata-se que na maior


parte do período analisado, o número de engenheiros civis que compuseram
as equipes técnicas foi igual ou menor a quantidade de EIAs do respectivo
ano. Tal marca só foi ultrapassada nos anos de 2000, 2001 e 2010. Já nos
anos de 2004 e 2010, anos que, juntamente com 2011, tiveram a maior
quantidade de EIAs no período analisado, o aumento de engenheiros civis
nas equipes seguiu essa tendência, resultando numa maior quantidade de
profissionais da engenharia civil. Vale destacar o ano de 2010, quando foram
protocolados sete EIAs e que totalizou a participação de quinze engenheiros
civis. No entanto, o comportamento que se observa é que na maior parte do

176 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


período analisado (16 anos), em 12 anos o número de engenheiros civis
compondo as equipes elaboradoras variou de 0 a 2 por ano, não tendo
nenhuma participação nos anos de 2007, 2009, 2014 e 2015, sendo que nos
anos de 2009 e 2014 não foi protocolado nenhum EIA.
Por fim, parte-se para a discussão a respeito dos tipos de
empreendimentos dos EIAs analisados e, considerando que a maior parte
dos EIAs trata de empreendimentos/atividades em que existem obras
de engenharia, é possível estabelecer relações com a menor ou maior
quantidade de engenheiros civis nas equipes elaboradoras desses estudos. O
gráfico 3 permite aprofundar o entendimento da participação do engenheiro
civil, buscando entender se essa maior ou menor participação pode estar
condicionada aos EIAs de determinados empreendimentos/atividades.
Observa-se que a tipologia “Aterro Sanitário”, compreendendo
os aterros de João Pessoa, Campina Grande, Puxinanã e Patos, foi o
que apresentou a maior quantidade de EIAs com o engenheiro civil na
composição das suas equipes. Seguido das “obras rodoviárias”, “implantação
de rede de gás natural”, “construção de hotel/condomínios horizontais” e
“barragens”. Portanto, exemplos de obras de engenharia comuns a atuação
profissional do engenheiro civil.

Gráfico 3 - Tipologias de empreendimentos que tiveram a presença do


engenheiro civil na sua equipe técnica de elaboração do EIA/RIMA.

Fonte: Obs: Os autores.

Sendo assim, as tipologias do gráfico representaram um total de 15


EIAs. Considerando que o profissional da engenharia civil esteve presente
em 22 EIAs, é possível afirmar que houve uma tendência para contratação
de engenheiros civis para os EIAs referentes as grandes obras de engenha-
ria citadas.

POSSIBILIDADES DE ATUAÇÃO DO ENGENHEIRO CIVIL

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 177


De modo breve, serão destacadas as atividades técnicas que vem
sendo desenvolvidas nos EIAs com a participação do engenheiro civil.
A descrição do projeto e a caracterização das instalações do
empreendimento são itens pertinentes a atuação do engenheiro civil,
quando o mesmo pode:

 Apresentar a estimativa de volumes de terraplanagem


compreendendo cortes, aterros, empréstimos, bota-foras e jazidas;

 Apresentar as questões pertinentes à metodologia e técnicas de


execução, infraestrutura, estruturas de apoios, referenciando as
normas associadas;

 Apresentar o cronograma de desenvolvimento do empreendimento,


com detalhamento das etapas de execução.
No Diagnóstico Ambiental, o engenheiro civil se faz importante na
abordagem do meio físico, especialmente no campo da Geotecnia. Identificar
e referenciar as áreas de risco geológico-geotécnico, diagnosticando as áreas
de influência quanto à suscetibilidade dos terrenos aos processos de erosão,
assoreamento, recalques, instabilização de taludes, solos, águas subterrâneas
e outros, tendo em vista as principais interferências a serem provocadas pelo
empreendimento, como construção de aterros, enrocamentos de proteção,
interceptação e rebaixamento do lençol freático, utilização de áreas de
empréstimo e pedreiras, utilização de áreas de bota-foras, acessos etc.
No tocante aos EIAs que contemplem os aspectos do sistema
viário, destacam-se algumas possibilidades de atuação do engenheiro civil:

 Levantar a estrutura viária existente na área de influência,


incluindo dados de capacidade e fluxos atuais, considerando a
movimentação sazonal;

 Apresentação e mapeamento das vias de acesso ao empreendimento


(parte terrestre), comparando a situação atual com as do
incremento de fluxo e tráfego de veículos pesados gerados pelo
empreendimento;

 Apresentar a infraestrutura existente e projetada de transportes e


integração modal para acessibilidade.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os dados apresentados permitem expor a realidade da atuação
profissional do engenheiro civil na elaboração dos EIAs/RIMAs,
enquanto estudos ambientais imprescindíveis ao licenciamento ambiental
de empreendimentos e atividades consideradas efetiva ou potencialmente
causadoras de significativa degradação do meio. Sendo assim, considerando

178 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


os três meios adotados para a elaboração do EIA/RIMA (meio físico, meio
biológico e meio socioeconômico) fica evidente que é impossível que um
único profissional ou um grupo de pessoas com o mesmo título profissional
consigam elaborar tal estudo ambiental tendo atribuição profissional,
conhecimento de todas as áreas e um nível de aprofundamento teórico-
metodológico-aplicado para todos os conhecimentos envolvidos nos três
meios indicados.
Logo, o engenheiro civil desempenha um papel importante nos
EIAs, considerando que os empreendimentos/atividades envolvem, na sua
quase totalidade, a execução de obras de engenharia. Sendo assim, a presença do
profissional da engenharia civil na equipe elaborada permite que o mesmo possa
fornecer informações referentes aos aspectos construtivos do empreendimento,
estando em sintonia com outros profissionais (geólogos, geógrafos, biólogos,
engenheiros ambientais, engenheiros florestais, arqueólogos etc.) na troca de
informações com o objetivo de implantar um empreendimento que traga o
menor número de impactos ambientais negativos.
A partir do que foi exposto, evidencia-se também a necessidade
de inclusão dos conhecimentos da ciência ambiental, da legislação ambiental
e do estudo de impacto ambiental, licenciamento ambiental e outros
instrumentos em disciplinas que trabalhem com a área ambiental para uma
melhor formação do graduando em engenharia civil.

REFERÊNCIAS
BARBIERI, José Carlos. Gestão Ambiental empresarial: conceitos,
modelos e instrumentos. São Paulo: Saraiva, 2007.

BRASIL. Ministério Público Federal. Deficiências em estudos de


impacto ambiental: síntese de uma experiência. Brasília: Escola Superior
do Ministério Público, 2004.

______. Resolução CONAMA nº 001, de 23 de Janeiro de 1986. Disponível


em: < http://www.mma.gov.br/port/conama/res/res86/res0186.html >.
Acesso em: 16 out.2016.

______.Resolução CONAMA nº 237, de 19 de dezembro de 1997. Disponível


em: <http://www.mma.gov.br/port/conama/res/res97/res23797.html>.
Acesso em: 16 out.2016.

GIL, Antonio Carlos. Como elaborar projetos de pesquisa. 3. ed. São


Paulo: Atlas, 2010.

MÜLLER-PLANTENBERG, C. ; AB’SABER, A.N. (Orgs.) Previsão de


impactos. São Paulo: EDUSP, 1998.

SÁNCHEZ, Luis Enrique. Avaliação de impacto ambiental: conceitos e


métodos. São Paulo: Oficina de Textos, 2008.

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 179


CAPÍTULO 13

O RISCO GEOMORFOLÓGICO NA
COMUNIDADE SATURNINO DE BRITO NA
CIDADE DE JOÃO PESSOA-PB
Henrique Elias Pessoa Gutierres1.

RESUMO
A urbanização, na maioria das médias e grandes cidades brasileiras, se
deu de forma intensa e desigual, a revelia do zoneamento urbanístico
e descumprimento das limitações/restrições impostas pela legislação
ambiental. A ocupação de áreas impróprias para a moradia,
denominadas de assentamentos espontâneos ou aglomerados
subnormais, é a prova de como o meio físico pode impactar
negativamente na vida dessa parcela da população. O presente
capítulo apresenta a situação de risco geomorfológico da Comunidade
Saturnino de Brito, localizada na cidade de João Pessoa, Paraíba,
destacando alguns eventos climáticos nos anos de 2012 e 2013, bem
como as ações que têm sido implementadas para diminuição dos
transtornos no cotidiano dos moradores. O capítulo foi estruturado
a partir do levantamento bibliográfico, material cartográfico, visitas
a comunidade Saturnino de Brito no intuito de fazer observações
e registros fotográficos em etapas distintas de sua transformação
urbana. A situação apresentada demonstra que para o tratamento da
problemática do risco geomorfológico é obrigatório que as análises
sejam feitas por meio da junção de aspectos físicos e humanos,
buscando identificar as áreas, traçar o perfil socioeconômico das
populações vulneráveis e a implementação de ações e procedimentos
que eliminem os efeitos negativos dos desastres.

Palavras-Chave: Zoneamento urbanístico. Urbanização. Risco.

1 Geógrafo do Departamento de Geociências da UFPB. Especialização em Licenciamento Ambiental e


Doutorando em Geografia (UFPE). Professor do Curso de Engenharia Civil do Unipê. E-mail: hepg86@
hotmail.com

180 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


INTRODUÇÃO
O processo de urbanização é realidade em vários países e no
Brasil tal fenômeno vem ganhando destaque nas últimas décadas. Sendo
assim, esse fenômeno vem acarretando no aumento da demanda por áreas
para ocupação de moradias, implantação/ampliação do sistema viário e
o desenvolvimento de atividades econômicas. É inegável que todas essas
situações causam pressão significativa sobre o meio físico, acarretando
em conseqüências negativas (poluição atmosférica, das águas e do solo;
enchentes; assoreamento; deslizamentos de terra; canalização e retificação
de canais fluviais).
A urbanização, na maioria das médias e grandes cidades
brasileiras, se deu de forma intensa e desigual, a revelia do zoneamento
urbanístico e descumprimento das limitações/restrições impostas pela
legislação ambiental. A ocupação de áreas impróprias para a moradia,
denominadas de assentamentos espontâneos ou aglomerados subnormais,
é a prova de como o meio físico pode impactar negativamente na vida dessa
parcela da população. Normalmente, tais moradias apresentam condições
precárias de infraestrutura, o que eleva o risco de serem afetadas quando da
ocorrência de fenômenos naturais, a exemplo de deslizamentos, enchentes,
inundações etc.
Face à problemática da gestão de riscos e à dificuldade da promoção
da saúde ambiental, pode-se considerar dois tipos de medidas preventivas
básicas: as estruturais (obras de engenharia e intervenções urbanas) e as
não estruturais, que envolvem ações de planejamento e gerenciamento,
como sistemas de alerta e zoneamento ambiental. Goudie e Viles (1997)
apud Guerra e Marçal (2006) afirmam existir a combinação dos fatores do
meio físico e biológico (chuvas, solos, encostas, rede de drenagem, cobertura
vegetal etc.) e os impactos provocados pela ocupação humana, que induzem
e/ou causam a detonação e aceleração dos processos geomorfológicos, que
podem atingir um caráter catastrófico.
Como forma de apresentar a realidade de uma área de risco
no espaço urbano, o presente capítulo irá mostrar a situação de risco
geomorfológico existente na comunidade Saturnino de Brito, localizada
na cidade de João Pessoa-PB, destacando alguns eventos climáticos nos
anos de 2012 e 2013, bem como as ações que têm sido implementadas para
diminuição dos transtornos no cotidiano dos moradores. A escolha pela
área justifica-se pelo alto risco de deslizamentos e de desmoronamento,
considerada a primeira área de risco da cidade. E busca analisar a situação
atual no tocante às ações que vem sendo realizadas pelo poder público
municipal para diminuição do número de ocorrências de deslizamento de
terra.

METODOLOGIA

O presente trabalho foi estruturado a partir do levantamento


bibliográfico de temas relacionados à problemática da ocupação das áreas de
risco, geomorfologia ambiental, climatologia e as encostas. Foram também
realizadas visitas a comunidade Saturnino de Brito, no intuito de fazer

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 181


observações e registros fotográficos em etapas distintas de sua transformação
urbana. Utilizou-se material cartográfico a partir das imagens do Google
Earth e utilizados mapas para permitir embasar as discussões. Pesquisas aos
sites oficiais, como da Agência Executiva de Gestão das Águas no Estado da
Paraíba (AESA) e da Prefeitura Municipal de João Pessoa, foram de grande
importância para anexar informações confiáveis ao trabalho.

CARACTERIZAÇÃO DA ÁREA DE ESTUDO


A área de estudo encontra-se entre a área de planície e a encosta
do planalto sedimentar na borda do relevo tabular sobre a estrutura
de sedimentos do Pleistoceno denominado geologicamente de Grupo
Barreiras. O município de João Pessoa encontra-se em uma área de terrenos
sedimentares, compostos pelas unidades litoestratigráficas: Complexo
Cristalino; Grupo Paraíba (Formação Beberibe, Itamaracá, Gramame e
Maria Farinha) e Grupo Barreiras. A geomorfologia é caracterizada por dois
domínios: Baixos Planaltos Costeiros e a Baixada Litorânea, abrangendo
várias unidades morfológicas.
Segundo Mendonça e Danni-Oliveira (2007), João Pessoa é
enquadrada como tendo um clima tropical litorâneo, que se diferencia dos
climas mais secos característicos do restante do estado.
Segundo a Série Histórica do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET),
entre 1961-2000, a cidade apresenta uma precipitação média anual de
1.764.2 mm, com mínima de 27.7mm no mês de novembro e máxima de
301.7 mm em junho. Dessa forma, devido a sua localização geográfica, as
massas de ar e os sistemas atmosféricos atuantes na cidade são oriundos
do Oceano Atlântico (MOURA; PEREIRA, 2015). As médias apresentadas
têm o propósito de fazer uma breve caracterização, contudo, vale salientar
que tal procedimento não é suficiente, pois impossibilita a visualização dos
tipos de tempo extremos, o que leva a mascarar a dinâmica climática de
uma determinada área. No tocante a temperatura, a mínima é de 20,7 ºC e a
máxima registrada de 30,5ºC, tendo 26,8ºC como temperatura média para o
período considerado
A hidrografia do município é composta por nove rios (Sanhauá,
Jaguaribe, Cabelo, Cuiá, Timbó, Laranjeiras, Marés, da Bomba e Mussuré).
No município de João Pessoa, a estimativa é que do total de 60
bairros, 40 possuem favelas, 34 estão inseridas em áreas de risco, estando
11 em áreas de risco iminente, a qual se inclui a comunidade Saturnino de
Brito (Figura 1).

182 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


Figura 1 – Localização da Comunidade Saturnino de Brito
na cidade de João Pessoa.

SATURNINO DE BRITO

SANTA EMÍLIA

DE RODAT

RENASCER I

Mapa do município de João Pessoa

Fonte: Os autores.

O ESTUDO DO RISCO GEOMORFOLÓGICO


Estudar o risco geomorfológico é buscar a definição de vários
termos úteis aos interessados pelo estudo de tal temática: evento (hazard),
perigo, risco, desastre ou catástrofe e vulnerabilidade. Os eventos são os
fenômenos/processos que acontecem naturalmente. Contudo, tais eventos
se transformam em desastres, quando os homens vivem nas áreas de
ocorrência e agravam as causas de seus processos (MOURA E SILVA,
2008). O perigo é uma realidade difícil de ser evitada, mas os desastres
podem ser evitados a partir da ação do poder público e da comunidade. O
desastre pode ser definido como o conjunto de danos consequentes de um
perigo, derivado de um risco.
Já o conceito de vulnerabilidade permite uma compreensão
analítica das condições sociais de uma determinada população, somado
as condições ambientais presentes no espaço geográfico (CUNICO;
OKA-FIORI, 2014). Dessa forma, constitui-se em um conceito com uma
perspectiva holística e complexa, pois, para uma análise confiável, necessita
considerar aspectos físicos, ambientais, técnicos, econômicos, sociais,
políticos entre outros. No entanto, entende-se que a probabilidade de áreas
ou populações serem afetadas negativamente por eventos (terremotos,
inundações, deslizamentos de terra, entre outros) caracteriza uma
vulnerabilidade com um viés ambiental. Sendo assim, a maior ou menor
ocorrência de tais eventos está condicionada a localização geográfica e as
condições geológicas e geomorfológicas. O conceito de “vulnerabilidade”
pode ser compreendido como a possibilidade da população ser afetada
negativamente por um fenômeno, devendo buscar associar o conceito às
questões “a quê”, “onde” e “quem”.

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 183


Por outro lado, o conceito de risco, bastante difundido na sociedade,
corresponde a possibilidade de que um evento (esperado ou não esperado) venha
a tornar-se realidade. Somado a isso, está associado a noção de perder algo ou a
possibilidade da perda, sendo, portanto, a sua existência condicionada a valoração
de algum bem material ou imaterial (CUNICO; OKA-FIORI, 2014). E em se
tratando das áreas urbanas, os riscos encontram o seu principal “palco” quanto a
sua concentração espacial, considerando o adensamento populacional, presença
de moradias, atividades econômicas e a existência ou falta da infraestrutura, que
resultam em pressões no tocante ao uso e ocupação de áreas mais sensíveis ou
no desencadeamento de processos de cunho geológico-geomorfológico. Sendo
assim, Cunico e Oka-Fiori (2014, p.8) entendem que “o risco refere-se, portanto,
à probabilidade de ocorrência de processos no tempo e no espaço, não constantes
e não determinados, e à maneira como estes processos afetam a vida humana”.
Logo, deve-se destacar que o risco está extremamente ligado as decisões no
âmbito político, já que é o responsável pela tomada de decisões relacionadas à
organização e gestão do território, o uso dos recursos etc. (VEYRET, 2007).
Em resumo, o risco contém um fator de probabilidade, enquanto
o hazard representa um evento danoso, que põe em perigo, realizado como
um “desastre”. Risco é a probabilidade de realização de um perigo. Desastre
é o resultado de um perigo derivado de um risco, portanto, acontecimento
súbito, inesperado ou extraordinário, que provoca prejuízos aos indivíduos.
Logo, Hétu (2003) destaca o papel relevante que a geomorfologia pode
desempenhar na prevenção de riscos naturais e intitula uma geomorfologia
socialmente útil.

AS ENCOSTAS E A QUESTÃO AMBIENTAL


Em se falando de risco geomorfológico, impossível não se remeter
ao estudo das encostas. Goudie (1985) apud Guerra (2007, p.191) “conceitua
encosta como sendo uma forma tridimensional produzida por intemperismo
e erosão, com elementos basais, os quais podem ser de origem deposicional
ou erosiva”. Portanto, o estudo dessas feições é de grande importância para
a geomorfologia. Para Hooke (1988), os profissionais da geomorfologia
devem atuar de forma conjunta com as pessoas responsáveis em tomar as
decisões em nível governamental, de modo a influenciar as políticas públicas
que estejam relacionadas ao meio físico.
De fato, as mudanças no meio físico, fruto das atividades
antrópicas, têm se dado num ritmo maior, porém, a geomorfologia
atual apresenta também uma maior gama de conhecimentos, técnicas
e procedimentos que devem ser utilizados em favor de um melhor uso
e ocupação de um determinado terreno, considerando que o homem é o
agente geomorfológico mais importante. Sendo assim, a Geomorfologia
tem entendido que é cada vez maior a importância dos seus levantamentos e
estudos, objetivando proporcionar uma ocupação mais segura e permanente
de diversas partes da superfície terrestre.
Para Guerra (2007, p.191), qualquer obra que o homem realize
sobre uma encosta poderá afetar as formas de relevo, que ficará dependente
da natureza da obra realizada e dos materiais que constituem a área ocupada.
Devido às diferenças geológicas, pedológicas, geomorfológicas e climáticas,
as encostas apresentam variação no tocante à forma, comprimento

184 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


e declividade de um local para outro ou, até mesmo, numa mesma
comunidade. Logo, podem-se destacar os seguintes processos que ocorrem
nas encostas: salpicamento (rainsplash), escoamento superficial (surface wash)
e ravinamento (rill erosion), que estão intimamente relacionados, para o seu
desencadeamento, dos seguintes fatores: erosividade da chuva, erodibilidade
dos solos, características das encostas e da natureza da cobertura vegetal.
Subsuperficialmente pode-se destacar a formação de dutos (pipes), que
apresentam diâmetros que vão de poucos centímetros até poucos metros,
resultando, na maioria das vezes, no colapso do teto e originando voçorocas.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A SITUAÇÃO DE RISCO NA COMUNIDADE SATURNINO DE


BRITO
O aglomerado subnormal Saturnino de Brito possui uma área
de 4,8 hectares, composta de 378 domicílios, somando uma população
estimada de 1.291 habitantes. Encontra-se localizada entre os bairros de
Jaguaribe, Varadouro, Cruz das Armas e Ilha do Bispo. Situado entre dois
taludes, caracterizando-se pela configuração espacial linear e pela ocupação
desordenada dos topos e bases dos taludes.
De acordo com o mapa das “Zonas de Perigo de João Pessoa”
da Defesa Civil Estadual, a comunidade encontra-se inserida no bairro
Trincheiras, que é classificada como “comunidade vulnerável” à ocorrência de
desabamento e desmoronamento. Vale destacar que, perante o zoneamento
urbanístico de João Pessoa, a área de estudo encontra-se inserida em duas
zonas: ZEP 2 – Zona Especial de Preservação dos Grandes Verdes 2; e ZR2
– Zona Residencial 2.
De acordo com pesquisa feita pela Prefeitura Municipal de João
Pessoa, a partir da realização de entrevistas com moradores que residem
a mais de 50 anos na área, período que comprova a ocupação desses locais
pelo crescimento da industrialização, a área era toda coberta por diversos
tipos de vegetação, que variavam entre espécies nativas da mata atlântica e
frutíferas. Na condição de aglomerado subnormal, a comunidade Saturnino
de Brito apresenta muitos problemas decorrentes da ocupação irregular
da área, tornando-a uma área de risco que desperta grande preocupação
no poder público. Pode-se considerar a realidade apresentada como
decorrente de ações crônicas, a partir do entendimento de Moura e Silva
(2008), que diferenciam as situações de risco decorrentes de fenômenos com
forte intensidade, agudos, com efeitos vorazes, catastróficos e de duração
passageira (tsunamis, terremotos, erupções vulcânicas, furacões etc.) dos
danos cotidianos por fenômenos naturais (ações crônicas), que inclui os
deslizamentos e as inundações, gerando o que configura uma vulnerabilidade
socioambiental na gestão territorial dos riscos, segundo os autores.
Considerando alguns dos fatores responsáveis pela instabilidade
das encostas, observa-se a pouca vegetação na área e de pequeno porte
ou a sua ausência (Figura 2). Para se analisar a predisposição da área, em
maior ou menor grau, necessário seria analisar se o material subjacente
é mecanicamente fraco ou inconsolidado. Ou seja, a erosão numa encosta
é resultante de processos como o salpicamento (rainsplash), escoamento

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 185


superficial (surface wash) e ravinamento (rill erosion), que dependem da
erosividade da chuva, da erodibilidade dos solos, da ação da gravidade, das
características das encostas e da natureza da cobertura vegetal (GOUDIE,
1995 apud GUERRA 2007).

Figura 2 – Área de risco da comunidade Saturnino de Brito próxima a


avenida João da Mata (bairro de Jaguaribe).

Foto: Os autores.

A partir do que consta no material do Ministério das Cidades (2006),


entende-se que a comunidade estudada apresenta todas as características
elencadas a respeito das cidades brasileiras: exclusão socioespacial; ocupação
das encostas com assentamentos precários; remoção da vegetação; execução
de cortes e aterros instáveis para construção de moradias e vias de acesso;
deposição de lixo; ausência de sistemas de drenagem de águas pluviais e
coleta de esgoto; elevada densidade populacional e fragilidade das moradias.
Logo, a existência e associação dessas características, somada a dinâmica
superficial da área, acarreta na freqüência das ocorrências e a magnitude
dos acidentes.
Sem dúvida, pensar e buscar melhorar a realidade da Comunidade
Saturnino de Brito passa pela adoção de ações que buscam atenuar e prevenir
as catástrofes, conforme Veyret (2007):

 A ocupação racional do território e orientação da urbanização das


zonas menos expostas e menos frágeis;
 A modificação das ações antrópicas geradoras de riscos e adoção
de normas de construção adequadas;
 A realização de obras corretivas;
 A instalação de rede de auscultação dos fenômenos perigosos;
 A organização dos atores operacionais encarregados da proteção,
do socorro e das ações de reabilitação.

186 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


Sendo assim, o enfrentando de situações dessa natureza requer
a adoção do gerenciamento de risco, que visa reduzir, prevenir e controlar
os riscos que atingem a sociedade. Para alcançar tal objetivo, necessita-se
fazer uso de dados e informações que levem a quantificação do risco, ou
seja, “que processos naturais ou da ação humana estão produzindo o perigo,
em que condições a sua evolução poderá produzir um desastre, e qual a
probabilidade de esse fenômeno ocorrer” (CUNICO; OKA-FIORI, 2014,
p.12). Hétu (2003, p.85) afirma que “as catástrofes naturais relacionadas
à dinâmica externa resultam, na maior parte do tempo, de contextos
meteorológicos excepcionais”. Partindo desse entendimento, apresenta-se
a seguir alguns eventos climáticos de maior precipitação na cidade de João
Pessoa e que acarretaram em transtornos a comunidade estudada.
Nos últimos anos têm sido recorrentes os episódios de
deslizamentos de terra na comunidade estudada. Considerando a chuva
como um dos principais fatores para o desencadeamento dos movimentos de
massa na cidade de João Pessoa, inicialmente, pode-se visualizar a dinâmica
da precipitação na cidade. Tomando os dados disponibilizados pela Agência
Executiva de Gestão das Águas do Estado da Paraíba (AESA, 2016), os
dados do intervalo compreendido entre os anos de 1999 a 2015 revelam as
variações do total de precipitação anual na cidade. É possível constatar a
amplitude desse volume, sendo 1999 o ano menos chuvoso com um total de
972 mm. Já o ano de maior precipitação anual foi o de 2009 com um total
de 2.550mm.
Quando utilizamos a média histórica como referência (média =
1.794mm), é possível notar que em 10 anos o total de precipitação anual
ficou superior a média histórica, e em sete anos o total foi inferior a média.
Chama a atenção o ano de 1999, que apresentou uma média anual quase 50%
menor do que a média histórica (Quadro 1).

Quadro 1 – Total de precipitação anual na cidade de João Pessoa


entre os anos de 1999 e 2015.
Ano Precipitação (mm) Situação
2015 1.618 IM
2014 1.488 IM
2013 2.155 SM
2012 1.651 IM
2011 1.982 SM
2010 1.333 IM
2009 2.550 SM
2008 2.229 SM
2007 2.010 SM
2006 1.122 IM
2005 1.931 SM
2004 2.257 SM
2003 2.041 SM

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 187


2002 1.996 SM
2001 1.168 IM
2000 2.445 SM
1999 972 IM
MÉDIA HISTÓRICA 1.794  
*IM = Inferior à média / SM = Superior à média
Fonte: AESA (2016).
Org. Os autores.

A partir dos dados de data e localização dos movimentos de massa


ocorridos em João Pessoa em decorrência das chuvas, conforme registro da
Defesa Civil Municipal e noticiado pelos meios de comunicação da cidade,
serão destacados cinco ocorrências que trouxeram sérios transtornos a
Comunidade Saturnino de Brito nos anos de 2012 e 2013. Conforme os dados
do quadro 2, nos dias 18 e 19 de junho as chuvas ocasionaram deslizamento
de terra com o soterramento de uma adolescente. Em 24 horas, a AESA
registrou um total de 51,6mm. Analisando a precipitação no mês de junho
de 2012 em João Pessoa, observa-se um total de 540mm, o que representa
um volume de 32,7% em relação ao total de precipitação anual no ano de
2012. Portanto, o fato relatado demonstra que quase 10% da precipitação
do mês foi registrado em 24h, sendo um dos fatores responsáveis pelo
desencadeamento de movimentos de massa.
Outro fato similar no tocante a grande precipitação em um
curto espaço de tempo foi verificado nos dias 01 e 02 de julho do mesmo
ano. Conforme dados da AESA, João Pessoa recebeu 67mm em 24 horas.
Os dados revelam que a precipitação mensal total foi de 290mm, o que
representou 17,5% em relação ao total de precipitação anual no ano de 2012.
Portanto, o volume de um dia representou cerca de 23,1% de todo o mês de
julho em 2012.

Quadro 2 – Total de precipitação mensal, média histórica mensal e


participação/total anual nos anos de 2012 e 2013
Precipitação Média histórica Participação/
Mês/Ano
(mm) mensal (mm) total anual
Junho/12 540 301.7 32,7%
Julho/12 290 236.6 17,5%
Junho/13 488 301.7 22,6%
Julho/13 460 236.6 21,3%
Setembro/13 286 67.5 13,2%
Fonte: AESA (2016).
Org. Os autores.

Nos dias 12 e 13 de junho de 2013, o volume de chuvas acarretou


no alagamento de 400 casas e mais de 132 famílias desabrigadas. Com
um total de 488mm para o mês de junho de 2013, o volume representou

188 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


uma participação de 22,6% em relação a precipitação anual em 2013, como
também ficou acima da média histórica mensal (301.7mm).
Outro registro aconteceu entre os dias 12 e 15 de julho, tendo
sido totalizado 80mm em João Pessoa. O total mensal de 460mm demonstra
o volume de precipitação considerável, ficando acima da média mensal
histórica (236.6mm).
Por fim, um quinto registro de problemas ocasionados pelos
movimentos de massa decorrentes de precipitação foi registrado entre os
dias 02 e 03 de setembro de 2013. Segundo dados da AESA (2016), os dois
dias apresentaram uma precipitação de 202mm, o que é algo de destaque,
tanto em relação ao curto espaço de tempo, mas, principalmente, pela média
histórica mensal de setembro (67,5mm) ser bem inferior a esse volume
registrado. No ano de 2013, o mês de setembro totalizou 286mm, o que
representou 13,2% em relação ao total de precipitação anual e 423,7% acima
da média mensal histórica.
As cinco situações relatadas demonstram o caráter dinâmico dos
elementos climáticos na cidade de João Pessoa e como isso pode repercutir
negativamente no desencadeamento de processos da dinâmica superficial,
que podem resultar em mortes, pessoas feridas, traumas e perdas de bens
materiais. Dessa forma, se faz necessária a adoção de medidas e ações de
caráter mais duradouro, levando em consideração um conjunto de fatores,
que inclui a dinamicidade dos totais de precipitação, que como foi exposto,
apresentam grande variação anual, mensal e diária.

AÇÕES DO PODER PÚBLICO NA COMUNIDADE SATURNINO


DE BRITO
Considerando todo o histórico de deslizamentos na comunidade,
no ano de 2013, por meio de recursos aprovados através do Programa de
Aceleração do Crescimento (PAC), a comunidade entra em um processo de
urbanização. É neste momento que o poder público, agente e ente regulador
atuante, precisa fazer valer os direitos constitucionais do indivíduo, que
proporcionará aos moradores desta região uma condição de vida mais digna
do que eles possuem atualmente.
A primeira etapa do projeto foi destinada à infraestrutura
e amparo social da comunidade. No tocante a infraestrutura, a principal
ação foi a contenção e drenagem da encosta, que oferece grande perigo de
desmoronamento para os moradores que residiam na base da encosta. Para
isso foi construído um muro de arrimo que contempla toda a comunidade,
tanto na parte de cima quanto na parte de baixo do talude (Figura 3).

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 189


Figura 3 – Execução das obras de contenção nas áreas de risco na
comunidade Saturnino de Brito.

Foto: Os autores.

Segundo a Secretaria Municipal de Habitação (SEMHAB),


para a elaboração do plano urbanístico da comunidade foram adotados
pontos que buscaram um melhor desempenho urbano ambiental,
dando condições para habitabilidade para os futuros moradores, como:

 o respeito à área de reserva ambiental que compõe o entorno do


empreendimento;
 implantação das edificações nas macro-quadras permitindo
melhor distribuição das vias de pedestres e equipamentos
comunitários;
 estabilização das áreas de risco com a implantação de contenções;
 relocação da comunidade para uma área próxima ao assentamento
de origem;
 acessibilidade para pessoas portadoras de necessidades especiais
aplicados na habitação e no urbanismo;
 ciclovia como elemento de acessibilidade para a população local.

Conforme se observa na figura 4, o projeto de urbanização


e melhoria da comunidade prevê um centro comunitário, dois centros
comerciais, praças, áreas de lazer, além de uma ciclovia que conectará a
região com outros pontos da cidade.
O caso tratado reflete os fatores recorrentes em problemas

190 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


de áreas de risco: falta de regulação do uso e ocupação do solo, rápido
crescimento urbano e pobreza. Sendo assim, a atuação humana tem gerado
um conjunto de impactos negativos nas encostas, fazendo com que os
diferentes profissionais necessitem adotar formas de recuperar as encostas
degradadas. Sendo assim, nem sempre a melhor solução para uma área é
a construção de um muro de arrimo. Em alguns casos, o uso de técnicas,
ditas naturais e com custo mais baixo, podem trazer mais benefícios, sem
transformar tão drasticamente a paisagem anterior. Para isso, deve-se
conhecer a realidade a partir da elaboração de uma lista dos fenômenos
físicos que ocorrem ou que são susceptíveis de ocorrer numa determinada
comunidade (inundações, tipos de movimentos de massa, colapso de terreno
etc.). Em seguida, deve-se espacializar, delimitando e identificando sua
freqüência e intensidade (volume e extensão). A cartografia se constitui em
um instrumento de grande contribuição para o estabelecimento das zonas
de risco, através da representação das formas ativas e das formas herdadas
numa determinada área (Figura 5).

Figura 4 – Planta da área de relocação dos moradores residentes em áreas


de risco na comunidade Saturnino de Brito.

Fonte: RODRIGUES, 2014.

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 191


Figura 5 – Casas demolidas na área de risco mais crítica da comunidade
Saturnino de Brito para o início das obras de contenção em 2013.

Fonte: RODRIGUES, 2014.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
A situação apresentada e todo o referencial teórico exposto
demonstram que para o tratamento da problemática do risco geomorfológico
é obrigatório que as análises sejam feitas por meio da junção de aspectos físicos
e humanos, buscando identificar as áreas, traçar o perfil socioeconômico das
populações vulneráveis e a implementação de ações e procedimentos que
eliminem os efeitos negativos dos desastres.
Responder questões, como: quais áreas da cidade são mais
sensíveis às alterações na paisagem, em quais áreas a população necessita de
maior atenção aos riscos, como reordenar o território diante de mudanças
mais intensas, o que se espera da cidade para melhor acolher seus habitantes,
quais órgãos públicos e quais equipes de profissionais estão dedicados a lidar
com estas preocupações da sociedade, são imprescindíveis para o estudo e a
implementação de ações bem sucedidas.
O conhecimento das relações entre os aspectos físicos e as
atividades sociais de determinadas porções do território, permite entender
a dinâmica espacial e como ela se desenvolve ao longo do tempo. Assim,
assuntos correlatos às vulnerabilidades, riscos, reconstrução, dentre
outros, decorrentes de eventos naturais no âmbito municipal que se

192 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


alinham à Defesa Civil, podem contar com o suporte teórico-metodológico
da geomorfologia com olhar voltado para a gestão pública com foco nos
indicadores geomorfológicos de risco e, portanto, auxiliar os tomadores de
decisão a construir uma visão mais holística e integradora de suas propostas
de intervenção sobre o território urbano. Percebe-se também que, para estes
casos, existe a necessidade de um maior estreitamento entre o Estado e a
população, buscando conhecer a percepção, concepção e representação do
problema por parte dos moradores, e assim, obtendo maior eficiência das
políticas públicas urbanas.

REFERÊNCIAS
AGÊNCIA EXECUTIVA DE GESTÃO DAS ÁGUAS DO
ESTADO DA PARAÍBA ( AESA). Dados de precipitação anual
e mensal da cidade de João Pessoa (1999-2015). Disponível
em: <http://site2.aesa.pb.gov.br/aesa/medicaoPluviometrica.
do?metodo=chuvasDiariasMapa>. Acesso em: 15 out. 2016.

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Capacitação em mapeamento e gerenciamento de risco. Brasil:
Ministério das Cidades, Universidade Federal de Santa Catarina/Centro de
Estudos e Pesquisa sobre Desastres, Instituto de Pesquisas Tecnológicas
(IPT), 2006. 122 p. (+CD-ROM).

CONTI, J. B. Resgatando a “Fisiologia da Paisagem”. Revista do


Departamento de Geografia, São Paulo, v.14, p. 59-68, 2001.

CUNICO, C.; OKA-FIORI, C. O estado de normalidade e o estado de


exceção diante da importância das categorias de “vulnerabilidade”,
“risco” e “resiliência”. Caminhos de Geografia, Uberlândia, v. 15, n.
52, p. 1-20, dez. 2014. Disponível em: <www.seer.ufu.br/index.php/
caminhosdegeografia/>. Acesso em: 8 de outubro de 2016.

GOUDIE, A. The Enciclopaedic Dictionary of Physical Geography.


Oxfor, Brasil Blackwell Ltd., 1985.

GOUDIE, A; VILES, H. The Earth Transformed – An Introduction to


Human Impacts on the Environment. Oxford, Blackwell Publishers, 1997.

GUERRA, A. J. T.; MARÇAL, M. dos S. Geomorfologia Ambiental. Rio


de Janeiro: Bertrand do Brasil, 2006.

______. Encostas e a questão ambiental. CUNHA, Sandra Baptista da;


GUERRA, Antonio José Teixeira (Orgs.). A questão ambiental: diferentes
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HÉTU, B. Uma geomorfologia socialmente útil: os riscos naturais em


evidência. Mercator: Revista de Geografia da UFC, ano 2, n.3, 2003.

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HOOKE, J. M. Geomorphology in Environmental Planning. Plymouth,
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MENDONÇA, F.; Danni-Oliveira, I. M. Climatologia: noções básicas e


climas do Brasil. São Paulo: oficina de texto, 2007.

MOURA, M. de O.; PEREIRA, M. D. B. Dinâmica atmosférica e as


chuvas na cidade de João Pessoa. In: SILVA, A. B. da; GUTIERRES, H.
E. P; GALVÃO, J. de C. Paraíba: pluralidade e representações geográficas.
Campina Grande: EDUFCG, 2015. p. 35-48.

MOURA, R.; SILVA, L.A de Andrade e. Desastres Naturais ou Negligência


Humana? Revista Geografar. Curitiba, v. 3, n. 1, p. 58-72, jan./jul. 2008.
Disponível em: < http://revistas.ufpr.br/geografar/article/view/12910>.
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RODRIGUES, E. C. Transformação do espaço urbano na comunidade


Saturnino de Brito em João Pessoa-PB. Monografia (Bacharelado em
Geografia) – Departamento de Geociências, Universidade Federal da
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VEYRET, Y. Os riscos: o homem como agressor e vítima do meio ambiente.


São Paulo: Contexto, 2007.

194 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


CAPÍTULO 14

A UTILIZAÇÃO DE FIBRAS DE GARRAFA


PET NO MELHORAMENTO DE SOLOS
PARA ATERROS DE RODOVIAS
Isabelly Cícera Dias Vasconcelos1, Virna Iayane Montenegro de Carvalho2.

RESUMO
A construção civil tem atuado com um papel significativo no
desenvolvimento econômico e social do país. Porém, é um setor
que ocasiona grandes problemas ambientais. Dentre os materiais
mais utilizados na construção de uma rodovia, destaca-se o solo. As
garrafas PET é um produto 100% reciclável, mas no Brasil, o volume
é de cerca de 50%, ou seja, milhões de garrafas são descartadas no
meio ambiente e demora anos para se decompor, prejudicando o solo,
animais e plantas. Com isso, o estudo tem objetivo analisar a resistência
da areia argilosa adicionados a fibras de garrafa PET para utilização
em aterros de rodovias, de tal forma a melhorar as propriedades. Para
isso, foi utilizado uma metodologia descritiva e ensaios laboratoriais
de granulometria, limite de liquidez, plasticidade, compactação e cbr.
As garrafas PET são recicladas, mas muitas não possuem o destino
correto, então, utilizá-las no solo é uma forma de contribuir com a
sustentabilidade e aumentar a resistência do material para execução
em aterros de rodovias.

Palavras-Chave: Pet. Resistência. Aterros.

1 Mestre em Engenharia Urbana. Professora do Curso de Engenharia Civil do Unipê.


E-mail: isabelly.vasconcelos@unipe.br
2 Graduanda do curso de Engenharia Civil do Unipê. E-mail: virna.montenegro.vm@gmail.com

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 195


INTRODUÇÃO
Diariamente, escuta-se falar sobre o decréscimo do mercado
da construção civil e o quanto essas atividades afetam o meio ambiente.
Dentre os materiais mais utilizados na construção de uma rodovia, destaca-
se o solo. Este influencia nos estudos do pavimento: conhecimento de suas
propriedades físicas e mecânicas e permite analisar o comportamento
durante a construção, ou seja, ao longo da vida útil da obra.
A construção civil tem atuado com um papel significativo no
desenvolvimento econômico e social do país. Porém, é um setor que ocasiona
grandes problemas ambientais. A idéia de sustentabilidade abrange o uso e
produção de materiais que exibam maior tempo de vida útil, reduzindo o
impacto ambiental e a utilização de recursos naturais.
A estabilização de solos é uma técnica utilizada para melhorar
as propriedades físicas e mecânicas, tais como resistência, deformabilidade,
permeabilidade para o uso de pavimentação e permite a utilização de outros
solos, aglutinantes ou agentes químicos (VIDAL, 2004).
O pavimento é uma estrutura constituída de revestimento, base
e sub-base; sobreposta de aterros (materiais compactados), fixado sobre o
subleito do corpo da estrada, visando melhoras as condições de tráfego de
veículos (DITTRICH, 2011).
Segundo Vidal (2004) apud (ABIPET, 2004), o polietileno
tereftalato (PET), é um poliéster, polímero termoplástico, empregado na
produção de garrafas de refrigerantes, sucos, água e outros. Esse material
é o melhor e mais resistente plástico, por isso, foi utilizado por apresentar
elevada resistência mecânica (impacto) e por ser muito consumido no país.
Dessa forma, o estudo tem a finalidade de analisar a resistência
da areia argilosa e adicionados a este material, fibras de garrafa PET para
utilização em aterros de rodovias, de tal forma a melhorar as propriedades.

METODOLOGIA
O pavimento investigado consiste de um aterro em um trecho da
rodovia em construção, no Viaduto do Geisel, na cidade de João Pessoa-PB.
Inicialmente, foi feita uma análise descritiva através de buscas via internet,
leitura de artigos, livros, entre outros. Logo após, foram realizados ensaios
laboratoriais e análise dos dados do material coletado para o referido aterro.
Os ensaios foram realizados, um para o tipo de solo areia argilosa
e o outro para o mesmo solo mais fibras de garrafa PET. Estes possuem
granulometria parecidas e de acordo com a classificação Highway Reserch
Board (HRB) apresentam classes A–2-4 e A-2-5. Para estes tipos de
classes, os solos são considerados granulares com características de finos e
apresentam bom comportamento para o tipo de obra.
Para realização dos ensaios, foram necessárias quatro garrafas
PETs, cortadas em fibras menores para melhor homogeneização ao solo a
fim de reduzir os vazios. A figura 1 e 2 mostra os materiais utilizados nos
ensaios.

196 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


Figura 1 – Fibras PET utilizadas.

Fonte: Os autores.

Figura 2 – Solo utilizado nos ensaios.

Fonte: Os autores.

A areia argilosa (Solo A) e esse material com fibras de garrafa


PET (Solo B) receberam os ensaios de granulometria, limites de liquidez,
índice de plasticidade, compactação, “Índice de Suporte Califórnia - ISC”
California Bearing Ratio (CBR).

GRANULOMETRIA
Foi pesada 1 kg de areia argilosa para realização deste ensaio. Em
seguida, foi separada o conjunto de peneiras e empilhadas na ordem 11/2”,
1”, ¾, 1/2”, 3/8”, 4, 10, 40, 80 e 200; o material foi colocado neste conjunto
de peneiras e levado ao agitador por 2 minutos.

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 197


LIMITE DE LIQUIDEZ
Inicialmente, separou-se 300 g do material que foi passado na
#40. Para o ensaio do Solo A (areia argilosa), foram utilizados 138,8 g de
solo e 25 ml de água. Com o auxilio de um recipiente de porcelana, espátula
e água, foi possível homogeneizar o material e realizar o ensaio no aparelho
de Casagrande, coletar amostras e levá-la a estufa a fim de obter a umidade,
de acordo com a NBR 6459( ABNT, 1984).
Para o Solo B (areia argilosa mais fibras PET), separou-se 280 g
do material e 20 g de fibras. Mas, no ensaio foi necessário utilizar 132 g de
solo, 14 g de fibras e 60 ml de água. Logo após, o material foi homogeneizado
em um recipiente, colocado no aparelho Casagrande, coletado amostras e
levado a estufa a fim de obter a umidade.

Tabela 1 – Determinação do limite de liquidez


LIMITE DE LIQUIDEZ
Solo A 29,0%
Solo B (COM PET) 45,0%
Fonte: Os autores.

LIMITE DE PLASTICIDADE
Coloca-se parte da amostra de solo em um recipiente de porcelana,
adiciona-se água a fim de obter uma mistura homogênea com auxílio da
espátula. Acrescenta-se mais solo que passou na #40, até que passa do
estado plástico para semisólido, quando o mesmo começa apresentar
fissuras. Separa os fragmentos no formato cilíndrico de acordo com a NBR
7180( ABNT, 1984), coloca-o em cápsulas e leva-o para a estufa.

Tabela 2 - Determinação do Limite de plasticidade e índice de plasticidade.


ÍNDICE DE
LIMITE DE PLASTICIDADE
PLASTICIDADE
Solo A 21% 8,0%

Solo B (COM PET) NÃO APRESENTA PLASTICIDADE 45,0%


Fonte: Os autores.

COMPACTAÇÃO
Foi coletado 3 kg do solo A, passado na peneira nº4 quarteado
e destorroado e acrescentou-se 200 ml de água. O ensaio foi realizado por
Proctor Normal de acordo om a NBR 7182 ( ABNT, 1988), soquete de
2,5 kg, 3 camadas e 26 golpes cada. E no segundo e terceiro ponto foram
adicionados 120 ml de água e no quarto e quinto 110 ml de água.
O solo B, foi feito com 2980 g de material e 20 g de fibras e

198 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


inicialmente, foi adicionado 240 m de água. E para os próximos pontos
foram adicionados 110 ml de água cada.
As curvas de compactação (figura 2 e 3) apresentam os dois
tipos de solos ensaiados. A tabela 3 represente o resultado final da massa
específica seca máxima e umidade ótima.

Gráfico 1 – Curva de compactação solo A.

Fonte: Os autores.
Gráfico 2– Curva compactação solo B

Fonte: Os autores.
Tabela 3 – Ensaio de compactação.

Massa específica seca máxima Wótima


Parâmetro (g/cm³) (%)
Solo A 1,84 13,10
Solo B (COM PET) 1,903 12,80
Fonte: Os autores.
ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 199
ISC – CBR
Com base na NBR 9895( ABNT, 1987) o material foi destorroado,
passado na #4 para os dois tipos de solos. Para o solo A, o ensaio foi realizado
por meio de Proctor Normal de acordo com NBR 7182, sendo utilizado
6000g do material, 634 ml de água, 5 camadas com 12 golpes cada.
O mesmo ensaio foi realizado para o solo B, sendo utilizado 5980
g de solo, 20 g de fibras e 617 ml de água. Ambos os corpos de prova ficaram
submersos 3 dias no tanque com água.

Tabela 4 – Determinação do ISC.


Parâmetro ISC (%)
Solo A 8,18
Solo B (COM PET) 9,01
Fonte: Os autores.

FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
O movimento de terra ocorre por meio de corte, aterro ou seção
mista (corte e aterro). O corte é utilizado quando precisa escavar o terreno,
retirar o material para o aterro ou depósito. O Aterro incide na colocação
em uma área a fim de nivelar ou elevar determinadas áreas de acordo com o
projeto do local, e este também determina a espessura da camada final. Os
aterros devem ser compactos com os equipamentos manuais e mecanizados.
A seção mista é a movimentação que envolve corte e aterro, como mostra a
figura 1 (FSD, sd).

Figura 3 – Seção mista

Fonte: FSP, [s.d.]


Segundo a Companhia Estadual de Habitação e Obras Públicas
(CEHOP), a efetivação dos aterros ocorre com a descarga, espalhamento,
umedecimento, compactação dos materiais oriundos de cortes ou
empréstimos, indicado a substituir materiais de baixa qualidade, com a

200 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


finalidade de melhorar as fundações de aterros. Para realização dos corpos
de prova, não é permitido solos que tenha capacidade de suporte (ISC < 2%)
e expansão maior que 4%. Os corpos de aterro não compactados devem ser
lançados e não ultrapassar 0,30 cm e as camadas finais não exceder 0,20 cm.
O PET é um poliéster, polímero termoplástico é empregado
para produção de garrafas e recipientes para sucos, refrigerante, entre
outros. Foi inserido no Brasil em 1988, sendo aproveitado na indústria
têxtil e o consumo foi aumentando cada vez mais. Em 1993, o PET passou
a ter grande presença no mercado das embalagens, principalmente nos
refrigerantes, reduzindo o desperdício na etapa de fabricação e distribuição
(VIDAL, 2004).
As garrafas PET é um produto 100% reciclável, mas, no Brasil,
o volume é de cerca de 50%, ou seja, milhões de garrafas são descartadas
no meio ambiente e demora anos para se decompor, prejudicando o solo,
animais e plantas. Este material proporciona uma elevada resistência
mecânica (impacto), química e resiste ao contato com agentes agressivos
(LUMASI, 2011).

RESULTADOS
O solo A obteve características de acordo com a figura 5 e a
tabela 5. Os resultados obtidos de acordo com os ensaios mostraram que o
solo é uma areia argilosa, com 2% passando na peneira de nº 200. Com isso,
a classificação de acordo com o HRB é o A-2-4 (areia argilosa), é um solo
grosso com característica de fino, além de apresentar um índice de grupo
(IG) igual à zero, com um comportamento de excelente a bom.

Gráfico 3 - Curva granulométrica do solo

Fonte: Os autores.

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 201


TABELA 5 – Características do solo A.
Limite de liquidez (LL) 29,0%
Limite de plasticidade (LP) 21,0%
Índice de plasticidade (IP) 8,0%
Índice de grupo (IG) 0 
Massa específica seca (ρd) 1,84 g/cm³
Umidade ótima (W) 13,10%
Fonte: Os autores.

O solo B com adição de 20 g fibras PET (para cada ensaio),


apresentou um bom comportamento para aterro de pavimento e 2% passou
na peneira de nº 200. Desta forma, a classificação para obras rodoviárias de
acordo com o HRB, o solo B é o A-2-5 (areia argilosa), embora seja um solo
grosso, possui característica de fino e o IG muito bom. A expansão deste
tipo de solo é maior do que o solo A, mas não houve ponto negativo na
resistência. A tabela 6 representa as características desse material.

Tabela 6 – Características do solo B (com fibras de PET).

Limite de liquidez (LL) 45,0%


Limite de plasticidade (LP) NÃO APRESENTA PLASTICIDADE
Índice de plasticidade (IP) 45%
Índice de grupo (IG)  0
Massa específica seca (ρd) 1,903 g/cm³
Umidade ótima (W) 12,80%
Fonte: Os autores.

Com base na tabela 5 e 6, observamos que houve uma redução


da umidade e um aumento da massa específica seca após adicionar fibras
PET ao solo. Porém, houve um aumento de resistência (ISC) como mostra
a tabela 7.

Tabela 7 – Determinação do ISC.


Parâmetro ISC (%)
Solo A 8,18
Solo B (COM PET) 9,01
Fonte: Os autores.

202 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente estudo ao analisar a resistência da areia argilosa e as
fibras de garrafas PET adicionadas a esta, utilizadas nos aterros do viaduto
do Geisel, em João Pessoa-PB, verificou que:
O solo 1 apresentou características de solo grosso, porém com
finos sendo classificado como A-2-4 de acordo com o HRB e o ISC menor
que o solo 2 e a expansão do solo B foi maior que o solo A.
O solo 2 é classificado como A-2-5 e durante os ensaios observou-
se que é um material que consome muita água, como no ensaio de limite de
liquidez. Mesmo assim, o solo 2 apresentou um aumento do ISC em relação
ao solo 1, mostrando ser útil para aterros de rodovias após adição de 20g
das fibras de PET.
Desta forma, a utilização de fibras PET mostra ser eficiente
para utilização de aterro de rodovias por apresentar um bom índice de
grupo e uma boa resistência, mostrando que as fibras elevam a resistência
do material e reduz os vazios, além de contribuir para o meio ambiente,
reduzindo o desperdício.

REFERENCIAS
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DA INDÚSTRIA DE PET
(ABIPET). Disponível em: < http://www.abiPET.org.br/index.
html?method=mostrarInstitucional&id=81>. Acesso em: 7 nov. 2016.

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS (ABNT). NBR


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______. NBR 7180: Solo – Determinação do limite de plasticidade. Rio de


Janeiro, 1984.

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS – ABNT (1984).


NBR 7181: Análise granulométrica. Rio de Janeiro.

______.NBR 7182: Solo – Ensaio de compactação. Rio de Janeiro, 1988.

______.NBR 9895: Solo – Índice de Suporte Califórnia – Método de ensaio.


Rio de Janeiro, 1987.

COMPANHIA ESTADUAL DE HABITAÇÃO E OBRAS


PÚBLICAS (CEHOP). Execução de cortes e aterros. Disponível em:
<http://187.17.2.135/orse/esp/ES00181.pdf>.Acesso em: 7 nov 2016.

DITTRICH, A. C. Disponível em: <https://www.lume.ufrgs.br/bitstream/


handle/10183/47306/Resumo_11631.pdf ?sequence=1>.Acesso em: 8 nov.
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FSP. Estabilidade: talude e aterro. Disponível em: https://


engenhariacivilfsp.files.wordpress.com/2012/11/geologia-estabilidade-

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talude-e-aterro1.pd>. Acesso em: 8 nov. 2016.

LUMASI. A importância da reciclagem da garrafa PET. 2011. Disponível


em: < https://lumasi.wordpress.com/2011/05/27/a-importancia-da-
reciclagem-da-garrafa-PET/>. Acesso em: 7 nov. 2016.

VIDAL, F. X. R., et al. Resíduo da reciclagem de PET (polietileno tereftalato)


como material altermativo na construção de reforço de subleito de rodovias.
In: CONGRESSO BRASILEIRO DE CIÊNCIA E TECNOLOGIA EM
RESÍDUOS E DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL. ICTR 2004.
Florianópolis/Santa Catarina, 2004.

204 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


CAPÍTULO 15

O EMPREGO DE VERMICULITA NA
COSNTRUÇÃO CIVIL:
UMA REVISÃO DA LITERATURA
Jailson Silva Alves1, Rosane Kelen Rodrigues Delfino2, Antônio da Silva
Sobrinho Júnior3, Erika Aranha Fernandes Barbosa4.

RESUMO
É cada vez mais comum a incorporação de novos materiais e
tecnologias na indústria da construção civil. A vermiculita, mineral
micáceo é um exemplo de como alternativas não convencionais
podem melhorar e equalizar os processos e técnicas de construção.
O trabalho em questão faz uma revisão de literatura de forma ampla
sobre os estudos e métodos de utilização do mineral na construção
civil. Abordando suas características, condições mineralógicas
e fatores físicos do estado natural de agregados. Demonstrando
ainda como o emprego do mineral pode contribuir para solucionar
problemas corriqueiros da atividade construtiva. Os apontamentos
descritos direcionam o estudo para os principais materiais, dentre
eles o concreto, utilizados na engenharia civil, de modo a possibilitar
alternativas que reduzam fatores como peso e nível de ruídos nas
estruturas e edificações. Nas aplicações são ilustrados ensaios que
comprovam a viabilidade dos processos de substituição de materiais
comuns pela vermiculita, garantindo condições similares em relação
aos aspectos técnicos considerados nos processos convencionais. São
considerados ainda os fatores de formação da vermiculita expandida,
destacando os percentuais de compostos químicos presentes em
algumas amostras comercializadas nas regiões Nordeste e Centro-
Oeste do Brasil.

Palavras-Chave: Construção Civil. Vermiculita. Concreto.

1 Graduando do Curso de Engenharia Civil do Centro Universitário de João Pessoa – Unipê. E-mail:
jailsonalves21@gmail.com
2 Graduanda do Curso de Engenharia Civil do Centro Universitário de João Pessoa – Unipê. E-mail:
rosane.ifpb@gmail.com
3 Engenheiro Civil e Doutor em Engenharia Mecânica. Professor do Curso de Engenharia Civil do Unipê.
Professor do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da UFPB. E-mail: sobrinhojr@hotmail.com
4 Coordenadora Adjunta do Curso de Engenharia Civil do Unipê. Pós Graduação em Supervisão e
Orientação Educacional (Cintep – PB).

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 205


INTRODUÇÃO
Boa parte dos materiais utilizados pela indústria da construção
civil são recursos naturais que podem ou não passar por processos de
industrialização. A variedade desses recursos leva a um interesse em
pesquisar alternativas que aumentem a eficiência e a qualidade das
edificações. Entre os materiais mais utilizados nas construções do homem
moderno estão o concreto e as argamassas, ambos empregados em escala
na construção civil e que despertam preocupação pelas desvantagens que
podem apresentar.
O elevado peso próprio no concreto é fator determinante para
aumento nos custos de produção e na disposição de elementos estruturais
mais robustos nas construções. Nas argamassas convencionais também,
ocorrem perda das funções de proteção contra variações de temperatura e
diminuição dos níveis de ruídos. Essas implicações negativas, no entanto,
são objeto de estudo que levam a alternativas mais inteligentes, substituindo
agregados convencionais por materiais menos deficitários.
O agregado a ser estudado nessa pesquisa será a vermiculita,
mineral silicato que possui propriedades capazes de interagir ativamente
com o ambiente. Devido a sua capacidade de isolamento térmico e acústico,
além das características porogênicas que possui baixo peso específico, tona-
se possível diminuir assim o peso total de uma construção, influenciando
diretamente no dimensionamento estrutural delas, podendo ser usado
menos materiais em seus elementos construtivos.
O intuito desta pesquisa consiste em um aparato de informações
existentes na literatura, sobre a aplicação da vermiculita na construção
civil, suas vantagens, desvantagens, métodos e meios de aplicação, assim
como as características predominantes deste material. Serão analisados
alguns trabalhos acadêmicos e experimentos realizados com esse mineral, a
fim de se obter uma visão geral de sua empregabilidade nos diversos ramos
da construção civil.

METODOLOGIA
Por meio de uma pesquisa bibliográfica, abordou-seo emprego
da vermiculita dentre os agregados como sendo capaz de interagir com o
concreto qualitativamente. Diante desta assertiva, utilizou-se uma análise
dos dados onde segundo Gil (2009), a análise tem como objetivo organizar
as informações, possibilitando fornecer respostas ao problema investigado.
Para interpretação dos dados, utilizou-se o princípio estabelecido
em Gil (2009), onde é entendido como processo que sucede a analise,
buscando a interpretação tentando fornecer um sentido amplo para os
dados investigados.
Dessa forma, foi desenvolvida a pesquisa com o intuito de gerar
um resultado capaz de expandir a necessidade e/ou demanda da vermiculita
dentro da construção civil.

206 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

MINERALOGIA E PROCESSOS DE EXTRAÇÃO DA VERMICULITA


O termo vermiculita é utilizado para designar comercialmente
um grupo de minerais micáceos constituídos de dezenove variedades de
silicatos hidratados de magnésio e alumínio, com ferro e outros elementos
(OLIVEIRA, 2009). Possui uma grande variedade de arranjos entre os
elementos que o compõem e características que tornam o mineral um
excelente agregado para os diferentes usos na construção civil.

Tabela 1 - Características da Vermiculita

Fonte: BRASIL Minérios, 2011.


A extração desse mineral ocorre de forma convencional,
semelhante aos processos de captação de maciços rochosos e outros minerais,
dadas as condições do seu estado bruto. O aspecto lamelar da vermiculita
possibilita o desmonte em blocos, o que facilita as técnicas de tratamento e
processamento do mineral nas fases posteriores a extração.

A vermiculita é normalmente minerada a céu aberto,


e são utilizados equipamentos convencionais, tais
como escavadeiras, carregadeiras e caminhões.
Perfuração e desmonte são necessários quando há a
presença de corpos rochosos mais duros. As técnicas
de beneficiamento são baseadas em propriedades
como forma, densidade, composição e resistência
à cominuição. Algumas dessas propriedades são
aplicáveis tanto ao processo seco quanto ao úmido
(HINDMAN, 2006).

De acordo com o Ministério de Minas e Energia (2009), o Brasil


detém 10% das reservas mundiais de vermiculita, ocupando a terceira
posição no cenário mundial. As reservas nacionais se concentram em cinco
estados, com o Estado de Goiás (66,7%) ocupando a primeira posição,
seguido dos Estados da Paraíba (19,1%), Bahia (13,3%), Piauí (0,9%) e
Pernambuco (0,05%) (DNPM, 2015).
A vermiculita comercializada no Brasil é a soma de um conjunto
de compostos químicos, uma composição de óxidos em sua maioria, que

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 207


são unidos e após os processos de incorporação originam a vermiculita
expandida. A tabela (Tabela 2) a seguir, mostra os principais compostos e
sua porcentagem, tomando como referência a comercialização nos estados
da Paraíba e Goiás.
Tabela 2 – Composição média de elementos químicos na Vermiculita

Fonte: UGARTE et. al., 2005.


A vermiculita caracteriza-se como um mineral não-metálico, e
pode ser encontrada na natureza como macro e micro cristais. Sua estrutura
básica é constituída por lâminas de cristais de pequenas espessuras ligadas
face a face para dar origem a célula unitária, formada por duas folhas
tetraédricas separadas por uma octaédrica, conforme encontra-se descrito
na figura1 (figura 1). Deste modo esses planos são unidos entre si através de
ligações covalentes de átomos de oxigênio, proporcionando uma estabilidade
na sua estrutura química.

Figura 1- Estrutura cristalina da vermiculita.

Fonte: GOMES, 2007a.

208 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


Após a extração do mineral ocorre um processo de aquecimento
a fim de reduzir o teor de água presente entre a estrutura espacial dos
cristais minerais.
A vermiculita é um mineral semelhante às micas,
pertencente ao grupo dos filossilicatos. Esse mineral
é constituído de silício, alumínio, magnésio, ferro e
água, em porções variáveis. Apresenta clivagem basal
paralela e ocorre em placas compostas por finíssimas
lamínulas superpostas (VALDIVIEZO, 2003). No
estado natural, os espaços entre as lamínulas (espaço
interlamelar) são ocupados por água. Essa água
irterlamelar não está submetida a ligações fortes
podendo ser quase ou totalmente removida através
de aquecimento moderado (SANTOS, 1989).

Quando submetida a altas temperaturas essa água presente


entre suas lamínulas são removidas, com isso o mineral inicia um processo
de expansão (Figura 2), ganhando novas características. Neville (1976)
constata que a vermiculita quando aquecida em temperaturas entre 650 a
1000 °C é capaz de expandir cerca de 30 vezes o seu volume inicial pela
esfoliação de suas placas. Como resultado, a massa específica da vermiculita
expandida é muito baixa, em torno de 60 a 130 kg/m³.

Figura 2– Amostras de vermiculita:


(a) Vermiculita natural(b) Vermiculita expandida

(a) (b)
Fonte: BRASIL Minérios , 2016.

A vermiculita se classifica de acordo com sua granulometria,


recebendo os nomes de: médio, fino, superfino e mícrons. Na tabela 3 a
classificação de acordo com o padrão internacional, padrão americano e
padrão brasileiro.

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 209


Tabela 3 - Classificação da vermiculita segundo padrão
americano e brasileiro

Fonte: Adaptado do Guia de Construção PINI, [s.d].

A VERMICULITA COMO AGREGADO


Em função das diversas propriedades da vermiculita, como
isolante térmico, acústico, alta capacidade de absorção, adsorção, leveza,
incombustível, resistência à chamas, isento de componentes orgânicos e não
tóxica, sua aplicação ocorre em distintas áreas e com inúmeras finalidades.

No ramo da construção civil o mineral é utilizado


como isolante térmico e acústico em paredes e
tetos, na forma de argamassa de revestimento,
blocos e placas; interior de divisórias e portas
“corta-fogo’’ e proteção de impermeabilização em
lajes de coberturas. Na agricultura, é utilizada
na composição de fertilizantes, formação de solos
para horticultura, condicionador de solos ácidos
e argilosos. Ainda pode ser aplicado na indústria
de tintas, fabricação de pneus e pastilhas de freios
para a indústria automobilística, produção de tijolos
refratários, fabricação de isolantes térmicos têxteis,
isolantes termo acústicos para a indústria naval,
isolantes de câmaras frias, revestimento de moldes
para a fundição de ferro e alumínio, adsorção de
óleos, pesticidas e materiais pesados (OLIVEIRA,
2009 ; NUNES,[ s.d.]).

A adição do mineral expandido em pastas de cimento previne a


queda abrupta da pressão hidrostática e da retração do cimento durante o
período de cura. Klyusov et al. (2005) acrescenta ainda que há um aumento
na impermeabilidade do cimento, bem como a resistência a cargas térmicas
e dinâmicas, além de promover um bom isolamento. Possibilita a formação
de uma bainda de cimento livre de defeitos mesmo sob grandes diferenças
de temperatura entre a formação e o revestimento.
A utilização da vermiculita expandida como agregado na
argamassa e no concreto proporcionam diversos benefícios para a
construção. Dentre tantas vantagens, a que mais se destaca é a redução do

210 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


peso da estrutura, bem como os isolamentos térmicos e acústicos. A redução
do peso, comparando uma estrutura com vermiculita expandida incorporada
e outra de apenas concreto estrutural, é de 15% a 30%. Também cita que em
termos de isolamento, uma camada de 2,5 cm de argamassa de revestimento
com vermiculita, equivalem a uma camada de 25 cm de concreto comum. A
facilidade de aplicação da argamassa com essa adição é a mesma do que a
sem adição, se ajustado o teor de água adicionado (NUNES, [s.d.]).
O potencial de isolamento térmico de determinado material é
medido através de sua condutividade térmica, grandeza física que quantifica
a habilidade do material em conduzir energia térmica. De acordo com o
Brasil Minérios (2016), o potencial isolante da argamassa com vermiculita
possui grande capacidade de otimização de projetos que visam promover
isolamento térmico. Além desse conforto, o revestimento em edificações
pode acarretar em uma redução de até 19% no consumo de energia elétrica
gerados por sistemas mecânicos de climatização.

Figura 3- Micrografia com aspecto geral da argamassa


VM aos 190dias de idade (Ampliação 100X)

Fonte: BRASIL Minérios , 2016.

ANÁLISE DE TRABALHOS REALIZADOS COM A APLICAÇÃO


DO AGREGADO VERMICULITA
A aplicação do mineral na sua forma expandida como agregado,
vem ao longo dos anos sendo alvo de diversos estudos e inúmeras analises,
para melhor aproveitamento e desempenho de suas características na
indústria da construção civil. Em uma recente pesquisa realizada por
Machado (2014), utilizando a vermiculita como agregado para a produção
de blocos de vedação, a mesma conclui que o material é um grande aliado
na diminuição do peso global da estrutura quando utilizado como parte do
agregado em blocos de concretos e em concretos leves.
Sua pesquisa constituiu uma análise no comportamento de quatro
corpos de prova (Figura 3), quando submetido a um carregamento axial,
onde possuem diferentes concentrações de vermiculita. Ao final dos teste

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 211


foram obtidos no bloco A uma resistência média de 3,46 MPa, no bloco B
de 3,07 MPa, no bloco C de 2,13MPa e no bloco D de 2,73MPa. Portanto
a mesma conclui que os grupos de blocos A e B apresentaram valores de
resistência característica máxima dentro do limite estabelecido pela norma
NBR 6136 ( ABNT, 2014), de 3MPa, estando, estão em acordo com a Norma
de Desempenho, e assim em conformidade para utilização em campo.

Figura 4 - Blocos Rompidos durante os ensaios

Fonte: MACHADO, 2014.


Muitos outros trabalhos usam a vermiculita no concreto
agregando outros materiais na mistura, na literatura há uma diversidade de
estudos e patentes destes experimentos, materiais como borrachas, fibras de
vidro, telas de aço, argilas expandidas, dentre tantos outros que acarretam
uma elevação na resistência a compressão do material.
Um promissor estudo realizado por Micheviz, Santos e Teixeira
(2011), proporciona uma inovação no emprego da vermiculita na construção
civil. Até então, a sua utilização para fins estruturais não era muito
mensurado, devido a suas perdas de resistência satisfatórias à compressão.
Mas com o incremento da argila expandida na mistura, tornou-se possível
sanar algumas dessas perdas. Com base nos resultados dos blocos produzidos
durante a pesquisa, os mesmos constataram que a substituição ideal é que,
de toda a brita 0 (100%) por argila expandida e 8,77% da areia média fina
por vermiculita expandida para se atender 4,5 MPa de resistência mecânica
à compressão. Tal substituição de agregados proporcionaria segundo o
tratamento estatístico uma redução de aproximadamente 33,6% na massa
específica do bloco de concreto, se comparado ao bloco de referência.
Alguns estudos e ensaios realizados por Tenório (2005),
constatam a possibilidade de obter argamassas com Vermiculita Expandida
de granulometria super fina com resistência à compressão variando de 2
MPa a 7 MPa, o que indica que ela pode ser aplicada como elemento de
enchimento de painéis tipo sanduíche com vantagem em relação a outros
tipos de enchimento do ponto de vista de resistência mecânica do painel.
Um estudo efetuado por Araújo e Cândido (2015), Complementa
a pesquisa realizado por Tenório (2005), onde acarreta um peso significativo

212 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


no desenvolvimento do mineral e evidencia a viabilidade técnica da utilização
de painéis vazados leves com pré-painel em argamassa com Vermiculita
expandida e reforçados com tela de fibra de vidro. Foram produzidos quatro
painéis, o primeiro com fibra de vidro no pré-painel, o segundo com fibra
de vidro na calda de cimento, o terceiro com tela de aço e o quarto sem
reforço.
Os resultados destes testes constataram que com a utilização da
tela de fibra de vidro, foi possível evitar a ruptura brusca nos painéis vazados,
que romperam por cisalhamento. Valendo ressaltar que o posicionamento
da tela na calda de cimento dos painéis vazados mostrou-se mais eficiente,
pois permitiu um aumento de resistência do painel após o aparecimento da
primeira fissura de cisalhamento. Portanto tal solução pode contribuir para
o desenvolvimento de sistemas construtivos em painéis pré-fabricados leves
e de melhor isolamento térmico, quando comparados aos tradicionais painéis
pré-fabricados em placa cimentícia. Os pesquisadores complementam ainda,
que foram encontrados melhores desempenhos na utilização de telas de aço
no lugar da própria fibra de vidro.

A VERMICULITA NA OBRA
Ao entrar em vigor a Norma de Desempenho NBR 15575
(ABNT,2013), trouxe consigo uma demanda de produtos voltados para a
melhoria do desempenho térmico e acústico das edificações, entre eles o
de argamassa, reboco e contrapiso, com materiais isolantes. Esses produtos
vão surgindo e sendo aprimorados ao longo do tempo, na constante busca
de assegurar o conforto, qualidade, eficiência, baixo custo e impactos nos
processos construtivos, bem como da edificação como um todo. Com isso
muitas empresas se voltam à atenderem esses requisitos, desenvolvendo
técnicas e materiais que asseguram algumas dessas especificações.
Alguns produtos existentes no mercado formados com
vermiculita, propõe o desempenho acústico de paredes, aos quais deve ser
aplicado no preenchimento dos espaços confinados dos blocos de alvenaria,
sendo eles cerâmico, concreto ou drywall. Já sua utilização afim de propiciar
desempenho acústico em lajes, deve ser inserido na composição da argamassa
cimentícia, resultando numa solução de isolamento acústico aderido à laje.
De acordo com os dados da Brasil minérios (2016), essa aplicação resulta
em uma massa específica de 1.000 kg/m³, resistência em torno de Fck 28
/ 5 Mpa e índice de isolamento acústico de entre os pavimentos de 70dB.
Outros produtos são direcionados a atenderem as especificações do reboco,
permitindo usufruir de todas as vantagens fornecidas pela vermiculita
expandida.

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 213


Figura 5– Argamassa Acústica:
(a) isolamento acústico de paredes
(b) isolamento acústico aderido à laje (contrapiso)
(c) Aplicação de Reboco (Proteção Passiva)

(a) (b) (c)


Fonte: BRASIL minérios, 2016.

A vermiculita ainda pode ser empregada na produção de produtos


refratários, como argamassas, concretos e placas que são fabricados com
Vermiculita esfoliada que confere um alto grau de resistência ao calor e
choques térmicos. Segundo a Grena (2006), as placas ignífugas produzidas
com vermiculita são resistentes ao CO2, ao CH4 atmosférico, ao alumínio
líquido, fluero e criólitos. Estas placas contam com suficiente rigidez e
estabilidade mecânica, alta resistência a temperaturas e alta resistência
elétrica, assim como baixa condutividade térmica. São aplicados em
isolamento de chaminés, câmaras de combustão, para contato direto com o
fogo em lareiras, fornos, caldeiras, indústria metalúrgica, indústria do aço,
equipamentos eletrônicos, entre outros.

Figura 6– Produtos Refratários: (a) Lareira (b) Churrasqueiras (c) fogão

(a) (b) (c)

Fonte: CATÁLOGO: Refratil Refratários, 2016.

214 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


CONSIDERAÇÕES FINAIS
As características da vermiculita apresentadas nesse estudo,
além de suas implicações técnicas possibilitam reconhecer o mineral como
bom agregado para diversas finalidades na construção civil. Seus aspectos
macroscópicos e o arranjo de seus cristais minerais são fundamentais para
as necessidades dos ligantes quando empregadas em argamassas e no
concreto.
As aplicações descritas aqui mostram a consistência e a viabilidade
do mineral em algumas áreas fundamentais na engenharia. Os aspectos
positivos relacionados a seu uso em atividades distintas possibilitam que
novos estudos aconteçam e viabilizem novas áreas de emprego, fazendo com
que os aspectos técnicos sejam aprimorados e suas funções ampliadas.
Com base em todas as características e benefícios que foram
analisados até então, decorrentes da aplicação da vermiculita como agregado
na construção civil, é notável seus benefícios. Esse estudo amplia a visão de
novos autores sobre a vermiculita e atesta através de análises detalhadas
como o material pode ser eficiente, e seu emprego confiável, tendo em vista
os resultados possíveis, além do aprimoramento de técnicas convencionais.

REFERÊNCIAS
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NBR 13528: revestimento de paredes e tetos de argamassas inorgânicas.
Determinação da resistência de aderência à tração. Rio de janeiro, 2010.

______. NBR 6136: blocos vazados de concreto simples. Rio de Janeiro,


2014.

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Rio de Janeiro, 2013.

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CATÁLOGO: Materiais ignífugos, refratários e resistentes ao


fogo - GRENA. Disponível em:<http://www.grena.cz/res/dwe-
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CATÁLOGO: Refratil Refratários. Disponível em:< http://www.refratil.


com.br/produtos >. Acesso em: 15 nov. 2016.

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Sumário mineral brasileiro. Brasília, 2015. Disponível: <www.dnpm. gov.
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FÓRUM DE MINERALOGIA FORMATIVA. Micas. Disponível em
< http://www.foro-minerales.com/forum/viewtopic.php?p=114752>.
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MICHEVIZ, J.; SANTOS, J.C.; TEIXEIRA, R. A. N. L. Análise


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ufpb.br/tde_arquivos/20/TDE-2010-1011T150724Z-684/Publico/
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Análise da Eficiência do Conector Tipo Treliça na Rigidez do Painel. 2005.
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UGARTE, J. F. O et.al. Vermiculita, comunicação técnica elaborada para


edição do livro de rochas e minerais industriais: Usos e Especificações.
Cap.32, p.677 a 698. Rio de Janeiro.2005.

VALDIVIEZO, E. V. et al. Caracterização e esfoliação térmica de vermiculitas


dos estados da Paraíba e do Piauí. In: ENCONTRO NACIONAL DE
TRATAMENTO DE MINÉRIOS E METALURGIA EXTRATIVA., 19.
Anais... v.1, Recife, Brasil, 2002. p.562-569.

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 217


CAPÍTULO 16

A ERGONOMIA NA PREVENÇÃO DE
DORT EM UMA REPARTIÇÃO PÚBLICA
DO ESTADO DA PARAÍBA
Marcelo da Silva Ramos1, Ana Raquel Carmo Lima2, Wanda Cecília de Sousa
Pereira Rique3, Antônio da Silva Sobrinho Júnior4, Fabiola Samara Medeiros de
Albuquerque5.

RESUMO
Aplicar a Ergonomia para o estudo de Distúrbios Osteomusculares
Relacionados ao Trabalho (DORT), dentro das empresas vem se
tornando um fator relevante, colaborando para um ambiente que
proporcione ao funcionário trabalhar de maneira mais saudável e
produtiva. A pesquisa objetiva avaliar a influência da Ergonomia e
seu impacto para o desempenho do trabalhador em uma repartição
pública do estado da Paraíba. O estudo justifica-se pela importância
de analisar os fatores ergonômicos relacionados às lesões e ou
patologias. Trata-se de uma pesquisa de campo, de natureza
qualitativa e quantitativa. Quanto à coleta de dados ocorreu através
de um questionário contendo 06 perguntas objetivas e 01 de livre
opinião, aplicadas a 22 servidores públicos e a análise foi feita em
gráficos e os valores expressos de maneira percentual. Os resultados
evidenciam que os parâmetros ergonômicos na empresa, são aceitos
com parcialidade tendendo ao desconforto pelos servidores, podendo
acrescentar algumas melhorias que podem promover benefícios
a saúde física e mental, sendo elas referentes ao local de descanso
durante os horários das refeições para promover a reposição física e o
bem-estar psicológico, implantação de ginástica laboral e práticas de
tai chi chuan para promover a boa condição do corpo e mente como um
todo a fim de reduzir dores osteomusculares e estresse promovidos
pela carga de atribuições, bem como a implantação de poltronas mais
confortáveis, encosto para os pés, apoio para teclado e mouse nas
atividades de digitação. Agindo assim, a administração proporcionará
um espaço mais saudável para os seus servidores, possibilitando neles
um melhor desempenho e produtividade.

Palavras-Chave: Ergonomia. Distúrbio. Servidor.

1 Especialista em Engenharia de Segurança do Trabalho. E-mail: marceloramosea@yahoo.com.br


2 Doutoranda em Engenharia de Processos – UFCG. E-mail: anaquel_alimentos@hotmail.com
3 Especialista em Engenharia de Segurança do Trabalho. E-mail: Wanda.Cecilia@gmail.com
4 Engenheiro Civil e Doutor em Engenharia Mecânica. Professor do Curso de Engenharia Civil do Unipê.
Professor do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da UFPB. E-mail: sobrinhojr@hotmail.com
5 Especialista em Engenharia de Segurança do Trabalho. E-mail: fabiola-samara2011@hotmail.com

218 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


INTRODUÇÃO
Na busca por maior lucratividade, muitas empresas não
estão atentas às consequências que venham acontecer no futuro de
seus colaboradores, pois é através de fatores, como excesso de trabalho,
permanência do indivíduo na mesma postura por muitas horas, realização
de movimentos repetitivos e utilização de equipamentos impróprios, podem
levar ao funcionário a desenvolver as doenças ocupacionais mais epidêmicas
nas instituições, conhecidas como Distúrbios Osteomusculares Relacionados
ao Trabalho (DORT).
Os DORT é conhecido por apresentar sintomas decorrentes
dos danos provocados pela utilização excessiva do sistema osteomuscular,
devido a repetição de movimentos, através do uso contínuo de músculos
ou grupos musculares, agravada pela falta de intervalos de tempo para sua
recuperação. Existem inúmeros sintomas que podem ser concomitantes
ou não, e muitos são desenvolvidos predominantemente nos membros
superiores e exemplo dos dores, par estesia, sensação de peso e fadiga
que as doenças mais associadas. Os DORT, em geral, estão relacionados
a falta da adaptação correta da ergonomia no processo de trabalho, que
pode ocasionar problemas relacionados diretamente ao local de trabalho a
exemplo de projetos inadequados de instalação e acomodação de mobiliário,
ferramentas e instrumentos; e/ou fatores relacionados ao trabalhador, como
postura irregular e apreensão de instrumentos de modo não ergonômico
(PICOLOTO; SILVEIRA,2008 ; FERNANDES,2000).
Vivemos em um mercado de constantes mudanças, em que as
empresas agrupam várias formas de trabalhos e não sabe como aproveitá-
las num curto espaço de tempo. Devido a essas transformações no ambiente
de trabalho, as pessoas são submetidas a desenvolver atividades sem
adaptações de máquinas e ou equipamentos. A partir da necessidade de
estudar as adequações do ambiente de trabalho aos colaboradores surgiu
então uma disciplina científica chamada Ergonomia, que de acordo com
a Associação Brasileira de Ergonomia (ABERGO, 2012) deriva do grego
Ergon [trabalho] e nomos [normas, regras, leis].
A Ergonomia tem como ideal a garantia de satisfação, segurança
e bem-estar dos trabalhadores em relação ao ambiente e as condições
de trabalho tais como desempenho de tarefa, equipamento (ROYAS;
MARZIALE,2001)
A aplicabilidade da ergonomia na situação de trabalho pode ser
executada em diferentes fases do processo de trabalho, ou seja ao organizar
o local de execução de trabalho contemplando fatores como condições
laborais e atividades de trabalho como também no ambiente onde realizam
as atividades de trabalho (ROYAS; MARZIALE,2001).
A Ergonomia se limita para estudar a adequação do trabalho ao ser
humano e caracteriza–se pela preocupação de repassar melhores benefícios
para empresa, contribuindo então pela integração dos funcionários, redução
de acidentes de trabalho, doenças ocupacionais entre outros.
Preocupar-se com programas de Ergonomia nas empresas por um
lado pode ser um gasto muito elevado, mas por outro, há uma economia de
encargos referentes a problemas futuros relacionados à saúde do trabalhador,
e este se sentirá mais motivado, existindo assim satisfação de ambos os lados.

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 219


Sendo assim, trabalhar em um ambiente laboral que relaciona
a ergonomia ao bem estar do trabalhador pode proporcionar uma maior
atuação, fazendo com que haja mais criatividade e prazer de no local de
trabalho e em suas funções.

METODOLOGIA

CARACTERIZAÇÃO DA PESQUISA
A pesquisa foi realizada com servidores públicos em uma
repartição pública do estado da Paraíba, situado na cidade de João Pessoa.
Partiu-se com a necessidade de analisar a importância e benefícios da
ergonomia na prevenção de DORT, a fim de melhorar a adaptação do trabalho
as pessoas e as consequências que os equipamentos, uma vez inadequados,
e posturas incorretas em tempos prolongados, poderão trazer de malefícios
a saúde destes servidores no futuro. No entanto, foram coletados dados que
permitiram visualizar a situação das atividades de trabalho desenvolvidas
na empresa e avaliar a real situação do uso da ergonomia e o surgimento de
Lesões por Esforços Repetitivos (LER) nestes servidores públicos.
A pesquisa se caracteriza como descritiva, porque permite uma
investigação dos fenômenos da realidade através de questionários, para
solucionar os riscos de doenças e lesões ocupacionais. De acordo com
Vergara (2007), a pesquisa descritiva, trabalha com características dos
fatos trazidos da realidade sobre as diversas relações entre suas variáveis
e de seus fenômenos ou populações, tendo como característica principal a
utilização de técnicas padronizadas de coleta de dados, como o questionário
e observação sistemática.
Será também uma pesquisa de campo, que segundo Severino
(2007 p. 121) consiste “na coleta dos dados feita nas condições naturais em
que os fenômenos ocorrem, sendo assim diretamente observados, sem a
intervenção e manuseio por parte do pesquisador”.
No que se refere à abordagem, a pesquisa é de caráter quantitativo,
por fazer uso de um questionário que permite explanar em números as
opiniões e informações adquiridas.
A pesquisa contou também com uma única questão aberta de
caráter qualitativo. Quanto a isso Michel (2005), relata que nesse tipo de
estudo o pesquisador compreende e analisa as respostas dos entrevistados,
ou seja, é feita uma explanação e interpretação dos conhecimentos coletados,
que não podem ser comprovados em números.

PLANO DE COLETA DE DADOS


Com o objetivo de estudar a influência da Ergonomia no ambiente
de trabalho para prevenção de DORT, foi utilizado um questionário contendo
06 questões objetivas e uma pergunta aberta, encontrado no apêndice deste
trabalho, no qual se aplicou aos servidores relacionados ao tema deste
trabalho de conclusão de curso entre os dias 27 a 30 de abril de 2015.

220 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


O questionário foi divido em quatro partes:

 Parte 1 – 04 Questões objetivas sobre os entrevistados (perfil dos


servidores);
 Parte 2 – 01 Questão objetiva a respeito de ergonomia física (mo-
biliário);
 Parte 3 – 01 Questão objetiva sobre DORT assinalando diversos
pontos corporais relevantes para avaliação e argumentação pos-
terior;

 Parte 4 – 01 Questão aberta, com intensão de abordar o ponto de


vista dos servidores a respeito de melhorias ergonômicas sugeri-
das ao seu ambiente de trabalho.

A população corresponde a um universo de 22 servidores, lotados


em uma repartição pública do estado de educação do estado da Paraíba,
incluindo os gerentes. Sendo assim Vergara (2010, p.46) afirma que a
população corresponde “não ao número de habitantes de um local, como é
largamente conhecido, mas um conjunto de elementos (empresas, produtos,
pessoas, por exemplo) que possuem as características e que será objeto de
estudo”.

RESULTADOS E DISCUSSÕES

PERFIL DOS SERVIDORES


Primeiramente, buscou-se elaborar o perfil dos participantes
nesse estudo. Nesse sentido, as questões a seguir têm o propósito de
proporcionar um conhecimento inicial sobre o funcionário, correspondendo
ao gênero, idade, faixa etária, tempo de serviço na empresa e a função
que desempenha. Adiante, observa-se que os gráficos em que os dados
estão tabulados na forma de porcentagem (Gráfico 1).

Gráfico 1 – Classificação por Gênero.

Fonte: Dados da pesquisa realizada entre 27 e 30 de abril de 2015.

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 221


Conforme apresentado no gráfico 1, identificou-se que a
porcentagem de mulheres que trabalham nos setores é um pouco acima da
média, sendo de 63,64%, e de homens 36,36% do total, tal situação ocorre
pelo fato de que as tarefas executadas na empresa requerem basicamente
capacidade psicológica, paciência e flexibilidade no tratamento das demandas
e de público, onde notoriamente a uma tendência ao aspecto feminino.

Gráfico 2 – Faixa etária dos servidores

Fonte: Dados da pesquisa realizada entre 27 e 30 de abril de 2015.

Comparando os dados, encontra-se um percentual mais elevado


entre os colaboradores acima de 46 anos, tendo um percentual de 40,91% do
total, enquanto que nas idades entre 25 a 30 anos, ficaram correspondendo
ao segundo patamar com 27,27 % do total de pessoas. Assim percebe-se
que nestes setores do serviço público há uma concentração de servidores
com idade avançada, o que pode enriquecer os dados referentes ao problema
analisado conforme as possíveis doenças adquiridas com o tempo de serviço.

Gráfico 3 – Tempo de serviço prestado a empresa.

Fonte: Dados da pesquisa realizada entre 27 e 30 de abril de 2015.

Os resultados proporcionaram um número expressivo de


colaboradores que possui entre 1 e 5 anos, representando, portanto
54,55% do total, vale ressaltar a quantidade de servidores com mais de 21
anos de serviço, estes ocupam 36,36% da quantidade total de servidores,
demonstrando que os setores analisados preservam os funcionários com
experiência ao longo do tempo de serviço tornando-os peças fundamentais
para a execução das atribuições diárias.

222 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


Gráfico 4 – Funções desempenhadas pelos servidores na empresa

Fonte: Dados da pesquisa realizada entre 27 e 30 de abril de 2015.

Observa-se que 63,64% dos entrevistados ocupam cargos de


técnicos administrativos, o que remete a cargos de servidores concursados
que ocupam diversas áreas dos setores com atribuições que se complementam
e seguem as ordens dos cargos gerenciais.
Assim esse conhecimento prévio acerca do perfil dos
colaboradores traduz-se em algo necessário e fundamental para a
compreensão dos dados coletados e a análise geral do ambiente ergonômico.

ERGONOMIA FÍSICA
A Ergonomia Física está intensamente voltada para a capacidade
que o indivíduo tem em desenvolver tarefas dentro da empresa em que
atua. Por isso ele necessita de máquinas e equipamentos que desenvolvam
trabalhos sem prejudicar a saúde do funcionário.
A mobília da empresa torna-se um fator preponderante para
o desenvolvimento de tarefas realizadas dentro do ambiente de trabalho,
portanto no gráfico 5, será mostrado o grau de concordância dos funcionários
com relação à mobília ergonomicamente correta da agência estudada.

Gráfico 5 – Mobília ergonomicamente correta

Fonte: Dados da pesquisa realizada entre 27 e 30 de abril de 2015.


Percebe-se no gráfico 5, que a opinião majoritária escolhida
pelos servidores é discordar em partes com a afirmativa de que os trabalhos
desenvolvidos são compatíveis com a sua capacidade física (31,82%), sendo
que 27,27% concordam em partes. Podemos assim entender que o universo

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 223


desta pesquisa mostra-se ora indiferente conforme analise de dados
o que demonstra níveis de confiança a respeito da ergonomia física sem
unanimidades e, onde a minoria demonstra satisfações e insatisfações aos
extremos em questão exatamente iguais (9,09%).

SINTOMAS CONTRAÍDOS ATRAVÉS DO TRABALHO
DESEMPENHADO PELOS SERVIDORES
Com a expansão da tecnologia o processo de trabalho busca por
um constante crescimento na produtividade e i sso acarreta no ser humano
certos desconfortos gerados devido aos elevados e impróprios movimentos
repetitivos. Dessa forma os indivíduos estão sujeitos a desempenharem seus
afazeres mesmo sentindo-se estressados e/ou com dores ocasionadas pelo
excesso de tarefas, e até mesmo pela repetição das mesmas.
O gráfico 6 apresenta os sintomas contraídos pelos servidores no
desempenho de seus trabalhos na empresa e o nível de desconforto durante
as atividades sem descanso regular.

Gráfico 6 – Áreas de desconforto e suas frequências

Fonte: Dados da pesquisa realizada entre 27 e 30 de abril de 2015.

Conforme os dados expostos nos gráficos 6 tem-se que a


frequência com que acontecem os sintomas acerca da má Ergonomia no
espaço de trabalho é considerável, pois a grande maioria delas apresentou
um grau de frequência relevante.
A primeira área analisada se refere à parte da coluna, em
que 68,18% dos entrevistados responderam que sempre sentem dores
localizadas nessa região. Essas dores podem ser causadas a partir das
tarefas que realizam, pois praticamente todas as funções desenvolvidas
nos setores abordados, requerem a utilização intensa de computadores.
Quando não há paradas constantes para fazerem alongamentos. As dores
no pescoço é uma das consequências mais marcantes, fato este se tornou
verídico e comprovado de acordo com os dados coletados, onde 65,00% os
servidores indicaram que sentem às vezes dores nesta região. Mesmo as
dores no pescoço não tenham sido predominantes, é evidente que devemos
levam em conta está ocorrência, pois o valor desta incidência foi elevado.

224 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


As dores de coluna podem ter sido contraídas, devido às más
posturas em que se habituam, por não possuírem cadeiras mais apropriadas
para a realização das tarefas. No que diz respeito às pernas, na maioria das
vezes esses desconfortos ocorrem pelo fato das pessoas passarem a maior
parte de seu tempo desenvolvendo trabalhos que requerem a postura
em assentos mal apropriados, como também pode ocorrer pela falta de
equipamentos adequados (encostos para os pés).
Com relação aos braços e articulações, houve um empate técnico
em cerca de 50% no nível de desconforto para às vezes sentir dores.
Massagens, ginástica laboral e práticas de tai chi chuan caberiam
como solução para reduzir esses sintomas, bem como para coluna, pescoço e
outras partes do corpo de maneira geral.
Questão aberta (sugestão): A seguir apresenta-se uma tabela,
no qual foram citadas algumas sugestões, em ordem de maior relevância,
dos colaboradores a respeito do que possa ser implantado na empresa para
que eles desenvolvam suas tarefas de maneira mais saudável, voltados para
o ambiente interno.

Quadro 1 - Sugestões dadas pelos colaboradores destinadas à saúde,


ergonomia e produtividade de suas atribuições diárias.
01 – Mobília Poltronas mais confortáveis (Ergonômicas).
02 – Equipamentos Encosto/apoio para os pés; apoio de teclado e mouse.
03 – Ambiente Sala de repouso para descanso durante horário de almo-
ço.
04 – Social/Esporte Ginastica Laboral e práticas de tai chi chuan.
Fonte: Dados da pesquisa realizada entre 27 e 30 de abril de 2015

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Estudar sobre Ergonomia vem sendo um fator de grande valia
para as organizações, pois esse contribui para um aperfeiçoamento das
pessoas a fazerem apenas o que podem e substituir por aquelas que estão
com melhores condições para realizar tal tarefa.
As empresas não precisam somente de equipamentos, mas
também de pessoas para alcançarem seus ideais, ou seja, são elas que estão
à frente de todo maquinário, computadores, telefones para a realização de
atividades, por isso é de suma importância à preocupação com o bem estar
físico e mental dos servidores públicos.
O uso Ergonomia para a prevenção de DORT assume um grande
interesse no aspecto humano das instituições, contribuindo para a melhoria
no desempenho das pessoas, para que elas possam se sentir altamente
satisfeitas com o bem-estar físico e psicológico no ambiente organizacional,
proporcionando um avanço na lucratividade da empresa.
A partir desse enfoque, os objetivos da pesquisa foram
respondidos com êxito. Para tanto, primeiramente verificou-se a adequação
do ambiente ergonômico as necessidades dos servidores, tendo como base
os fundamentos ergonômicos já citados.
Nesse sentido, avaliou-se que acerca da Ergonomia física, há

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 225


uma interação precisamente adequada sobre essa categoria, mais que ainda
deve ser melhorada em alguns aspectos, como à mobília dos escritórios, que
necessita de novos equipamentos propícios para contribuir no desempenho
das tarefas a serem realizadas, com menos riscos à saúde dos servidores.
Vale ressaltar o uso da Ergonomia cognitiva para apontar, de
acordo com as sugestões dos servidores, que a secretaria de educação do
estado precisa proporcionar ao seu servidor, um local onde possam relaxar
durante as pausas de expediente regular e após as refeições; praticar
ginastica laboral; alongamentos com exercícios de tai chi chuan de baixo
impacto a evitar frustrações psicológicas, patologias provenientes do
mau uso ergonômico e baixa no rendimento nas atividades ao longo do
expediente.
O segundo objetivo específico a ser atendido permitiu avaliar
indiretamente que muitos servidores sofrem de situações patológicas, de
médio/baixo e baixo risco em decorrências das áreas mais afetas, conforme
relatado na pesquisa feita, às regiões da coluna e do pescoço que refletem
incidências de dores musculares, desconfortos ósseos e em consequência
baixa no rendimento produtivo e desempenho dos servidores. Mesmo não
havendo registros de afastamentos para tratar de problemas de saúde deste
gênero, a pesquisa mostrou-se eficaz em comprovar que se faz necessário
uma melhor abordagem quanto à restruturação do Layout dos equipamentos,
configuração do mobiliário, inserção de práticas laborais e aspectos internos
no ambiente de trabalho.
Por fim, tratando o último objetivo especifico deste trabalho, a
faixa etária, que na pesquisa foi predominantemente maior que 46 anos de
idade, agrega diretamente aos resultados apresentados para incidência de
DORT pelo simples fato de estarem ligadas ao desgaste osteomuscular com
o passar dos anos do servidor e de suas atividades diárias.

REFERÊNCIAS
FERNANDES S.C. Tecnologia e treinamento no aparecimento de
lesões por esforço repetitivo: o caso do NPD da UFSC. Dissertação
(Mestrado). Universidade Federal de Florianópolis, 2000.

MICHEL, Maria Helena. Metodologia e pesquisa científica em ciências


sociais. São Paulo: Atlas, 2005.

PICOLOTO D. ; SILVEIRA E. Prevalência de sintomas osteomusculares


e fatores associados em trabalhadores de uma indústria metalúrgica em
Canoas - RS. Cienc Saude Coletiva, v.13, n.2, p. 507-51, mar./abr.2008.

ROYAS, A.V.; MARZIALE, M. H. A situação de trabalho do pessoal de


enfermagem no contexto de um hospital argentino: um estudo sob a ótica
da ergonomia. Revista Latino-Americana de Enfermagem, v. 9, n. 1, p.
102-108, 2001.

SEVERINO, Antônio Joaquim. Metodologia do trabalho científico. 23.


ed. São Paulo: Cortez, 2007.

226 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


VERGARA, Sylvia Constant. Projetos e relatórios de pesquisa em
administração. 8. ed. São Paulo: Atlas, 2007.

. Projetos e relatórios de pesquisa em administração. 12. ed. São


Paulo: Atlas, 2010.

APÊNDICE
Questionário

A ergonomia na prevenção de DORT (distúrbios osteomusculares


relacionados ao trabalho) no setor de planejamento, orçamento e
finanças da secretaria de estado da educação da Paraíba.

Parte 1 - Dados gerais (perfil dos servidores)

- Gênero

Masculino Feminino

- Faixa Etária

Abaixo de 24 anos Entre 25 e 30 anos Entre 31 e 35 anos

Entre 36 e 40 anos Entre 41 e 45 anos Acima de 46 anos

- Tempo de Serviço

Entre 01 e 05 anos Entre 06 e 10 anos Entre 11 e 15 anos

Entre 16 e 20 anos Acima de 21 anos

- Função desempenhada/Área

Assistente/Auxiliar Técnico (Adm./outros) Gerencial

Outra Especificar: ________________________________

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 227


Parte 2 - Dados específicos (ergonomia física)

Avalie a conformação do mobiliário (mobília ergonomicamente


correta) ao qual você tem contato direto, com a adequação das suas
atribuições realizadas no ambiente de trabalho.

Discordo totalmente Discordo em partes

Não concordo nem discordo

Concordo em partes Concordo totalmente

Parte 3 - Dados específicos (DORT)

Assinale em qual (is) área(s) de seu corpo apresentam sintomas de


desconforto devido a movimentos repetitivos ou longos períodos de
trabalho sem pausas para descanso conforme abaixo:

Pescoço > Nunca Raramente Às vezes Sempre

Coluna > Nunca Raramente Às vezes Sempre

Pernas > Nunca Raramente Às vezes Sempre

Braços > Nunca Raramente Às vezes Sempre

Articulações > Nunca Raramente Às vezes Sempre

Punhos > Nunca Raramente Às vezes Sempre

Nos olhos > Nunca Raramente Às vezes Sempre

Psicológicos> Nunca Raramente Às vezes Sempre

Outros: Especificar: ________________________________

228 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


Parte 4 - Questão aberta

Cite sugestões, a respeito das condições ergonômicas em seu am-


biente de trabalho, que possa ser implantado pela administração
para que os servidores possam desenvolver as tarefas/atribuições de
maneira mais saudável.

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 229


CAPÍTULO 17

ANÁLISE COMPARATIVA ENTRE


ESTRUTURAS DE AÇO E CONCRETO
ARMADO: EXECUÇÃO, PROJETO E
CUSTOS
Lucas Lins Nóbrega1, Antônio da Silva Sobrinho Júnior2

RESUMO
São vários os tipos de estruturas, dentre elas as de madeira, concreto
armado, aço, blocos estruturais entre outros, mas o foco é expor fatores
importantes a serem ponderados para escolha do partido estrutural
entre estruturas de concreto armado e estruturas em aço. Para tal
escolha, é necessário se conhecer da extração da matéria prima, sua
composição, seus processos industriais, transporte, a tecnologia
construtiva ideal, as propriedades características de cada material que
compõe a estrutura e o desempenho da estrutura quando finalizada e
destinada ao uso. É importante lembrar que a região, o solo, o tipo de
atividade a ser desenvolvida na edificação, a velocidade que se deseja
o término da obra, são fatores que podem fazer essa escolha mudar,
por vezes o aço é melhor, por outras o concreto. Do ponto de vista
econômico, considerando os materiais utilizados e a mão de obra, o
aço na maioria das vezes é a possibilidade mais cara. Porém quando se
junta os custos com mão de obra e material ao fator tempo o resultado
já pode ser diferente. Dessa forma deve-se sempre discutir os dois
partidos estruturais considerando suas vantagens e desvantagens,
para definir qual solução a ser adotada. Uma partido estrutural bem
definido garante um projeto e uma execução de sucesso, no Brasil
existem diversos casos onde as duas opções estruturais obtiveram
êxito, da mesma forma que os insucessos.

Palavras-Chave: Engenharia civil. Obras. Partido estrutural.


Estruturas. Estrutura metálica. Concreto armado.

1 Engenheiro Civil
2 Engenheiro Civil e Doutor em Engenharia Mecânica. Coordenador do Curso de Engenharia Civil do
Unipê. Professor do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da UFPB. E-mail: sobrinhojr@hotmail.com

230 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


INTRODUÇÃO
O projeto e a construção de estruturas formam um campo da
engenharia civil onde muitos engenheiros se especializam, são eles os
engenheiros estruturais, também conhecidos como calculistas. A engenharia
estrutural trata do planejamento, projeto, construção e manutenção de
sistemas estruturais para transporte, moradia, trabalho e lazer.
A formalização da engenharia estrutural através de teorias
cientificas permite que os engenheiros civis estabeleçam as forças e
solicitações que podem atuar com segurança nas estruturas ou em
seus componentes, definindo adequadamente os materiais e dimensões
necessários para obter-se uma estrutura com bom desempenho e que não
sofra qualquer tipo de efeito prejudicial. No entanto, com todo avanço da
engenharia trazido pela inovação tecnológica, há ainda profissionais que pela
falta de conhecimento ou até mesmo comodismo, executam as estruturas de
toda e qualquer forma, e escolhem opções de concepção estrutural inviáveis,
trazendo inadequações técnicas e econômicas.
A finalidade deste artigo científico é apresentar a partir de uma
revisão de literatura e alguns estudos de caso, os fatores que levam os
engenheiros e as empresas atuantes no ramo de construção civil a optar
por executar uma estrutura em concreto armado ou em aço, assim como
os resultados, a partir de critérios de ordem técnica, econômica e estética.

MATERIAIS E MÉTODOS
Analisar a partir de revisão bibliográfica e estudos de caso as
diversas variáveis envolvidas na viabilidade de partido estrutural, seja em
concreto armado ou estruturas de aço, tais como custo, projeto, velocidade
de execução, geração de resíduos, para a partir desses pontos desenvolver
no profissional da área um senso crítico capaz de ponderar os pontos para
tomada de decisão.

REFERENCIAL TEÓRICO
Para dar início a todo entendimento e discussões sobre as
estruturas de aço e de concreto, é indispensável a compreensão do que é
uma estrutura. Para Dias (2009), a estrutura é uma parte ou conjunto de
uma construção que se dispõe para resistir às cargas atuantes na mesma.
Dias comenta ainda que cada parte contida numa edificação é denominada
elemento estrutural, e deve resistir aos esforços incidentes e transmiti-los
até outros elementos através de vínculos, com a finalidade de conduzi-las ao
solo, conforme figura 1.

Figura 1 – Ilustração de estrutura.

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 231


Fonte: DIAS, 2009.

ESTRUTURAS DE CONCRETO ARMADO


O concreto armado pode ser entendido como ferramenta
principal da engenharia, responsável por compor grandes obras
estruturais em todo o mundo. O concreto armado nada mais é que
o concreto em seu estado simples associado a uma armação passiva
incumbida de resistir aos esforços de tração existentes na peça.
Segundo Lins e Sobrinho Jr. (2016), inicialmente o concreto
era formado por cinzas vulcânicas e cal, ou seja, o concreto era algo bem
diferente do que é conhecido hoje, tempos depois, ainda com poucos estudos
sobre o material, o concreto passou a ser composto pela simples mistura de
areia, pedras e água, era o chamado concreto simples.
Este material foi utilizado em grande escala para construção de
grandes obras como o Panteon e os Aquedutos de Roma, porém as obras
que utilizavam o concreto simples tinham seu cronograma estendido devido
ao grande desafio que o material tinha para vencer os grandes vãos, por isso,
a arquitetura das antigas construções exibe um uso exagerado de cúpulas
e arcos, pois esta forma diminui a solicitação à tração das peças estruturais
(LINS; SOBRINHO JR., 2016).
A resistência à compressão do concreto é maior que a resistência
à tração cerca de dez vezes mais. Em números, um concreto de 30 MPa
é capaz de resistir a 30 MPa quando solicitado a compressão, mas talvez
não suporte os 3 MPa uma vez tracionado (CARVALHO ; FIGUEIREDO
FILHO, 2014).
As vigas de concreto armado são exemplos clássicos de elementos
que quando fletidos, sua seção transversal pode estar submetida à esforços
normais de tração e compressão.

232 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


Figura 2 – Comportamento de uma viga de concreto simplesmente apoiada.

Fonte:CARVALHO; FIGUEIREDO FILHO, 2014.

De acordo com Carvalho e Figueiredo Filho (2014), na figura


2 o trecho BC está submetido à flexão pura, e dependendo da intensidade
dos esforços atuantes há a possibilidade de ocorrer na parte inferior da viga
algumas fissuras causadas por pequena deformabilidade e baixa resistência
do concreto à tração. O grande problema é que essas fissuras fazem com
que a capacidade resistente da viga ao momento fletor fique comprometida.
Conforme Fusco (2013), enquanto as solicitações não
ultrapassarem os limites de fissuração, o concreto manterá sua integridade,
permanecendo em um estado chamado estado I. O autor ainda diz que quando
há fissuração, a estrutura passa para o estado II e para que a integridade do
concreto seja preservada é requerido a presença de armaduras de aço. As
armaduras de aço devem absorver os esforços de tração que não mais podem
ser resistidos pelo concreto já fissurado.
A NBR 6118 ( ABNT, 2014) define para elementos de concreto
armado: “aqueles cujo comportamento estrutural depende da aderência
entre concreto e armadura, e nos quais não se aplicam alongamentos iniciais
das armaduras antes da materialização dessa aderência.” (ABNT, 2014). Ver
figura 5.

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 233


Figura 3 – Tensão deformação na Figura 4 – Tensão deformação
compressão. na tração

Fonte: BLOGSPOT, 2016.

A figura 3 exibe o diagrama tensão x deformação do concreto


quando submetido ao esforço de compressão. Verifica-se que a curva é
dividida em 3 trechos: o primeiro de comportamento linear, ou seja a
deformação varia linearmente em consonância com a tensão aplicada. No
segundo trecho esse comportamento não é linear, e no terceiro, a peça sofre
fissuras e possível ruptura.
A figura 4 exibe o comportamento do concreto quando submetido
a esforços de tração. Pode-se constatar porém que a resistência do concreto
a esforços de tração é quase nula, na ordem de dez vezes menor a sua
resistência para esforços compressivos.

Figura 5 – Estrutura em concreto armado do Next Towers.

Fonte: ARQUIVOS DO AUTOR, 2013.

234 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


VANTAGENS E DESVANTAGENS DO CONCRETO ARMADO
Assim como todo material, o concreto armado também apresenta
vantagens e desvantagens quanto ao seu uso estrutural. Carvalho e
Figueiredo (2014) as elencam da seguinte forma:

a) Vantagens

i. Apresenta boa resistência à maioria das solicitações;


ii. Tem boa trabalhabilidade, e por isso se adapta a várias
formas, podendo, assim, ser escolhida a mais conveniente
do ponto de vista estrutural, dando maior liberdade ao
projetista;
iii. Permite obter estruturas monolíticas, o que não ocorre
com as de aço, madeira e pré moldadas. Existe aderência
entre o concreto já endurecido e o que é lançado
posteriormente, facilitando a transmissão de esforços;
iv. As técnicas de execução são razoavelmente dominadas
em todo o país;
v. Em diversas situações, pode competir com as estruturas
de aço em termos econômicos;
vi. É um material durável, desde que seja bem executado,
conforme as normas, e evitado o uso de aceleradores
de pega, cujos produtos químicos podem corroer as
armaduras;
vii. Apresenta durabilidade e resistência ao fogo superiores
em relação à madeira e ao aço, desde que os cobrimentos
e a qualidade do concreto estejam de acordo com as
condições do meio em que está inserida a estrutura;

b) Desvantagens

i. Resulta em elementos com maiores dimensões que o


aço, o que, com seu peso específico elevado , acarreta
em peso próprio muito grande, limitando seu uso em
determinadas situações ou elevando bastante seu custo;
ii. As reformas e adaptações são, muitas vezes, de difícil
execução;
iii. É bom condutor de calor e som, exigindo, em casos
específicos, associação com outros materiais para sanar
esses problemas e

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 235


iv. São necessários um sistema de fôrmas e a utilização de
escoramentos (quando não se faz uso da pré moldagem)
que geralmente não precisam permanecer no local até
que o concreto alcance resistência adequada.

ESTRUTURAS DE AÇO
As estruturas metálicas, também conhecidas por estruturas de
aço, somam-se à uma lista de modelos para concepção de uma estrutura.
O aço que dá origem às peças de uma estrutura metálica é originada da
matéria prima do ferro, também conhecido como ferro gusa.
Este tipo de estrutura é usado em maior escala na construção de
pequenas cobertas, e também para edificação de grandes pontes para uso
civil, no entanto, seu uso para edificações residenciais e comerciais ainda é
um pouco resistido pelos profissionais da construção civil, devido à cultura
de executar estruturas em concreto armado.
Para Pinho e Bellei (2008), as fontes mais seguras indicam que a
primeira obtenção do ferro ocorreu aproximadamente 6 mil anos a.C., em
civilizações como as do Egito, Babilônia e Índia. Neste tempo o ferro era
considerado um material nobre devido à sua raridade, e possuía utilização
limitada para uso militar ou como adorno nas construções.
Segundo Pfeil e Pfeil (2014), as formas mais usuais de metais
ferrosos aplicados hoje em dia são o aço, ferro fundido e o ferro forjado,
sendo o aço, o mais importante dos três. O aço e o ferro fundido são ligas
de ferro e carbono, com outros elementos de dois tipos: elementos residuais
resultantes da fabricação, como silício, manganês, fósforo e enxofre, e
elementos adicionados com a finalidade de melhorar as características
físicas e mecânicas do material, denominados elementos de liga.
Os aços podem ser classificados em aços carbono e os aços liga,
onde o primeiro contêm teores normais de elementos residuais, enquanto
o segundo, são aços carbono acrescidos de elementos de liga ou que
apresentam altos teores de elementos residuais. (PFEIL E PFEIL, 2014).

PROPRIEDADES MECÂNICAS DO AÇO


De acordo com Dias (2009), as propriedades mecânicas
constituem as características mais importantes dos aços, para a sua aplicação
na engenharia, uma vez que o projeto e a execução das estruturas metálicas
assim como a fabricação de suas peças são baseados no conhecimento delas.
Elas definem o comportamento do elemento estrutural quando sujeito a
esforços mecânicos e uma vez solicitadas são obrigadas a corresponder às
propriedades que determinam a sua capacidade resistiva e transmissora de
esforços aplicados na estrutura em que ela esta inserida, sem romper-se ou
deformar-se excessivamente.

236 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


Segundo Pfeil e Pfeil (2014), o aço possui algumas características
físicas podem ser adotadas em todos os tipos de aço estrutural, são elas:

i. módulo de elasticidade E=200.000 Mpa;


ii. coeficiente de Poisson ;
iii. coeficiente de dilatação térmica e
iv. massa específica .

De acordo com Dias (2009), a relação entre tensão aplicada


e deformação obtida pode ser acompanhada pelo diagrama tensão x
deformação (Figura 6). Dentro de determinados limites (fase elástica),
ao ser tracionada, a peça sofrerá uma deformação que obedecerá a lei de
Hooke, que garante que a deformação é proporcional ao esforço exercido.
Ultrapassado este limite, é dado início a fase plástica, onde ocorrerão
deformações crescentes sem variação de tensão (limite de escoamento). O
valor máximo da tensão é chamado de limite de resistência, porém o limite
mais importante no aço é o de escoamento, e esta é a constante física mais
importante no cálculo das estruturas de aço.

Figura 6 – Diagrama tensão x deformação do aço.

Fonte: USP, 2016.

a) Ductilidade
Chama-se ductilidade a capacidade que o material possui de se
deformar sob a ação de cargas. Os aços dúcteis, quando sujeitos a tensões
locais elevadas, sofrem deformações plásticas capazes de redistribuir as
tensões A ductilidade tem ainda uma suma importância, pois conduz a
estrutura a deformar-se excessivamente antes de entrar em colapso, ou seja,
a propriedade serve de aviso aos profissionais que a estrutura está perigosa.
(PFEIL E PFEIL, 2014).

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 237


b) Corrosão
Para Pfeil e Pfeil (2014), a corrosão é o processo de reação
do aço com alguns elementos presentes no ambiente em que se encontra
exposto, produzindo um material muito similar ao minério de ferro. A
corrosão acarreta perda de seção das peças de aço, podendo ser principal
causa de colapso em estruturas desse tipo.

OS AÇOS ESTRUTURAIS
Para Dias (2009), o aço carbono é o que contém elementos de liga
em teores residuais máximos admissíveis. Em função do teor de carbono,
estes tipos de aços podem ser dividido em três subgrupos:

i. baixo carbono: ;
ii. médio carbono: e
iii. alto carbono: .

O aumento de teor de carbono é o fator determinante para


garantir maior resistência do aço, porém, quanto mais elevado a quantidade
de carbono, menor será a ductilidade deste aço, abrindo espaço para
problemas na soldagem. Os aços carbono com até 0,30% de carbono em sua
composição podem ser soldados sem nenhuma prescrição especial, sendo
eles os mais indicados para uso na construção civil (PFEIL ; PFEIL, 2014
; DIAS 2009).
De acordo com Dias (2009), “existe uma grande variedade de
formas e tipos de aços disponíveis, o que decorre da necessidade de continua
adequação do produto às exigências de aplicações especificas que vão
surgindo no mercado...”.

AÇOS PATINÁVEIS
A crescente industrial tem gerado grandes efeitos de poluição
atmosférica, o que contribui bastante para o aumento de agentes corrosivos
atuantes no aço. Para combater esse efeito criou-se um grupo de aços
chamados patináveis, que se destacam por sua maior resistência a corrosão
atmosférica, e ainda com bom desempenho mecânico. Os aços patináveis
são fabricados com uma taxa de carbono de até 0,25%, teor de liga inferior
a 2% e com limite de escoamento mínimo de 300 MPa (3000 kgf/cm²), de
forma que se obtenha além desses fatores, uma boa ductilidade, tenacidade e
soldagem satisfatórias (DIAS, 2009).
Segundo Dias (2009), quando expostos aos agentes do clima,
estes aços desenvolvem em sua superfície uma camada de óxido compacta e
aderente que atua como barreira de proteção à continuidade do processo de
corrosão, o que possibilita seu uso sem necessidade de revestir a peça. Essa
camada (pátina) só é desenvolvida quando as superfícies metálicas forem
submetidas a ciclos repetitivos e alternados de contato com água e secagem.

238 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


Figura 8 – Aço patinável sob Figura 9 – Aço carbono sob
ação de chuva. ação de chuva.

Fonte: DIAS, 2009.

Nota-se que na figura 8 a fina camada de pátina (confundida com


ferrugem) impede que a água agrida o metal através dos sais insolúveis
contidos em sua composição, que bloqueiam seus poros e fissuras. Na figura
9 o aço carbono por não possuir a camada protetora permite que a água
infiltre lentamente, agredindo o metal.

PRODUTOS ESTRUTURAIS EM AÇO


De acordo com Pfeil e Pfeil (2014), os produtos laminados podem
ser classificados em baras, chapas e perfis conforme a figura 12.

Figura 11 – Principais produtos siderúrgicos laminados.

Fonte: PFEIL; PFEIL, 2014.

As barras (item a, Figura 11) são produtos laminados onde em


sua seção transversal, duas dimensões são pequenas em relação à terceira.
Elas podem ser laminadas em seções circulares, quadradas ou em barras
chatas. As chapas (item b, Figura 11) são produtos onde a espessura é muito
inferior às outras duas (largura e comprimento).
Os perfis (item c, Figura 11), produtos oriundos da deformação
mecânica a quente de blocos ou tarugos são os que merecem uma maior
atenção, pois sua forma física garante a elas um grande momento de inércia,
de forma a promover uma fuga de área da linha neutra. (BOTELHO ;
MARCHETTI, 2013 ; DIAS, 2009).
Os demais itens, (d), e) e f) da Figura 11), representam trilhos,

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 239


tubos quadrados e tubos redondos respectivamente. As peças de aço são
unidimensionais, enquanto as estruturas trabalham tridimensionalmente, fato
que gera a necessidade de ligar as peças através de conexões. Os projetos de
conexões influenciam no custo da estrutura, e deve ser escolhido levando-se
em conta: o comportamento da conexão, as limitações construtivas, facilidades
de fabricação e montagem. As conexões geralmente são executadas mediante
soldagem (Figura 14), parafusos (Figura 13) ou rebites, este último tem caído
em desuso devido sua inviabilidade (DIAS, 2009).
Para Dias (2009), os tipos de soldagem mais comum são as por
filete e entalhe ou penetração (Figura 12). Na primeira o metal de solta
é colocado externamente aos elementos que serão conectados, enquanto a
por entalhe ou penetração o metal de solda é colocado entre os elementos a
serem unidos. Esta segunda é mais agradável esteticamente, pois a soldagem
reconstitui a seção da peça conectada e minora os efeitos que podem causar
a fadiga do material.

Figura 12 – Métodos de soldagem

Fonte: DIAS, 2009.

Figura 13 – Ligação por parafuso. Figura 14 – Ligação por solda.

Fonte: METALICA, 2016. Fonte: EDITORA L


AMONICA, 2016.

240 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


VANTAGENS E DESVANTAGENS DAS ESTRUTURAS
METÁLICAS
Conforme Pinho e Bellei (2008), as principais vantagens do uso
das estruturas de aço são as seguintes:

i. Alta resistência do aço em comparação com outros ma-


teriais;
ii. O aço é um material homogêneo de produção controlada;
iii. As estruturas são produzidas em fábricas por processos
industrializados seriados, cujo efeito de escava favorece a
menores prazos e menores custos;
iv. Os elementos das estruturas metálicas podem ser des-
montados e substituídos com facilidade e permitem tam-
bém reforço quando necessário;
v. A possibilidade de reaproveitamento do material que não
seja mais necessário à construção e
vi. Menor prazo de execução se comparado com outros ma-
teriais.
As dificuldades de execução encontradas no dia dia das obras
com estruturas de aço leva a caracterizar os pontos abaixo como negativos:
corrosão, desembolso imediato para aquisição da estrutura, desconforto
térmico, baixa resistência ao fogo, necessita de manutenção e proteção
adequadas e possuem alto custo no mercado brasileiro.
Pinho e Bellei (2008) garantem que devido ao menor número de
operários, menor prazo da obra, e uma redução com gastos de limpeza da
obra, pode-se obter um menor custo de administração da obra. O autor
continua o pensamento dizendo que a redução de peso em relação ao
concreto, garante uma economia também nas fundações, além de atividades
múltiplas na obra devido a rapidez de execução.
Para Pravia, Ficanha e Fabeane (2013), as estruturas em aço
apresentam pontos positivos e negativos listados da seguinte forma:

i. VANTAGENS:
a. redução das solicitações nas fundações;
b. aumento da área útil;
c. redução do tempo de montagem e
d. flexibilidade e agilidade.
ii. DESVANTAGENS:
a. dependendo do planejamento da obra, pode

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 241


custar mais caro que uma estrutura de concreto
equivalente;
b. exige mão de obra altamente especializada;
c. em algumas regiões, às vezes é difícil encontrar
determinados aços e perfis;
d. muitas regiões do Brasil não costumam utilizar
estruturas de aço;
e. necessita de mercado de componentes
desenvolvido (fachada pré moldada, dry-wall,
etc e
f. viabiliza somente elementos lineares, para lajes
necessita de associação com concreto.

AMPLIAÇÃO DO COMPLEXO HOSPITALAR SÍRIO LIBANÊS


O complexo hospitalar Sírio Libanês, em São Paulo, atende por
ano cerca de 120 mil pacientes e é um hospital de referência em especialidade
e procedimentos de alta complexidade. Construído em 1940, com uma área
de 100 mil m², o complexo passou há poucos anos por um programa de
expansão aumentando sua capacidade de atendimento em mais de 355
leitos. A ampliação contou com a construção de 3 novos blocos, E, F e G, que
somaram mais de 72 mil m² de área total construída. São duas torres, uma
com 20 pavimentos e outra com 14 pavimentos, ambas executadas sobre o
volume já existente. Uma outra torre com 16 pavimentos foi implantada em
terreno ao lado do prédio antigo, ver figura 15.
As obras iniciaram em abril de 2011 e foram concluídas em
janeiro de 2015, e durante esse período de reforma, o hospital funcionou
normalmente, sendo esse um dos maiores desafios. A entrega foi realizada
aos poucos, à medida que se eram finalizadas as reformas, os blocos eram
entregues à administração do hospital. Por serem construídos sobre uma
edificação já existente, os blocos E e F foram projetados para serem leves,o
que motivou a opção pela estrutura metálica, medida decisiva para garantir
maior número de pavimentos sem sobrecarregar a estrutura existente.

242 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


Figura 15 – Mapeamento de área do Sírio Libanês.

Fonte: EDITORA PINI, 2015.

Segundo editora Pini (2015), foi possível aumentar em 20m a


altura final em relação ao projeto original em concreto armado. Além de
que o menor volume de concretagem decorrente da escolha pela estrutura
metálica gerou menos ruídos, diminuindo o desconforto causado para os
pacientes e profissionais pelo procedimento de concretagens. Na construção
dos blocos E e F, utilizou-se pilares e vigas de aço (Figura 17), e as lajes
utilizadas foram do tipo steel deck para formar módulos de 8m x 8m.
Diferentemente, o bloco G foi concebido em estrutura de concreto armado,
e as lajes foram tipo cubeta (nervurada) com 50cm de altura, para vencer
vãos de até 15m, conforme figura 16.
Figura 8 – Aço patinável sob Figura 9 – Aço carbono sob
ação de chuva. ação de chuva.

Fonte: EDITORA PINI, 2015.

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 243


BRANDÃO E MARMO ENGENHARIA E CONSTRUÇÕES
Como citado outra série de vezes, não se pode garantir que o aço
tem custo mais elevado que o concreto, nem o contrário. Mas para discutir
um pouco sobre isso, pode-se usar o exemplo da construtora Brandão &
Marmo Engenharia e Construções.
Segundo Mariane (2014), a construtora tinha necessidade de
executar o empreendimento num prazo curto, e apenas com o projeto
arquitetônico em mãos, decidiu-se fazer um estudo preliminar para analisar
a viabilidade econômica e de prazo dos dois tipos de estruturas.

Figura 18 – Orçamento para estrutura metálica.

Fonte: EDITORA PINI, 2014.

Figura 19 – Orçamento para concreto armado.

Fonte: EDITORA PINI, 2014.

De acordo com Mariane (2014), “ao confrontar os custos da


estrutura metálica com os do concreto armado, a construtora constatou
que a segunda opção (concreto armado) seria a mais econômica.”Com isso,
percebeu-se que outros fatores eram desfavoráveis: longo prazo, logística
complexa para entrega de insumos, sobre tudo o uso do concreto usinado
que exigiria interrupções na via pública.
A estrutura metálica (figura 18) previu antes da execução dos
projetos um consumo de 70 kg/m² de aço, o que os preocupou, mas que não
os fez mudar a opção pela estrutura metálica, pois pelo prazo era a melhor
opção visto que a data máxima previa 7 meses de execução apenas.
O resultado final foi um sucesso, pois superou as expectativas
contidas. A taxa de aço reduziu em 15% para 60 kg/m², fato que tornou
a estrutura de aço 21,62% mais cara, e a fabricação e montagem das peças
não ultrapassou os 60 dias, o que resultou na metade do prazo previsto
para a execução em concreto armado (figura 19). O planejamento foi algo
indispensável, e graças a ele foi possível iniciar a fabricação das peças
quando nem sequer as fundações estavam prontas.

244 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


CONSIDERAÇÕES FINAIS
Conhecendo os fatores responsáveis pela tomada de decisão do
partido estrutural, o responsável técnico pode decidir qual solução mais
viável para seu empreendimento, de forma a garantir uma estrutura que
atenda às necessidades civis da população.

REFERÊNCIAS
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS (ABNT). NBR
6118: projeto de estruturas de concreto - procedimento. Rio de Janeiro:
ABNT, 2014.

BELLEI, Ildony H.; PINHO, Fernando O.; PINHO, Mauro O. Edifícios de


múltiplos andares em Aço. 2. ed. São Paulo: Pini, 2008.

BOTELHO, Manoel Henrique Campos; MARCHETTI, Oswaldemar.


Concreto armado eu te amo. 7. ed. São Paulo, SP:Blucher, 2013.

CARVALHO, Roberto Chust; FIGUEIREDO, Jasson Rodrigues. Cálculo e


detalhamento de estruturas usuais de concreto armado: segundo a NBR
6118:2014. 4. ed. São Carlos, SP: EdUFSCAR, 2014.

CHAMBERLAIN PRAVIA, Zacarias M.;FICANHA, Ricardo. FABEANE,


Ricardo.Projeto e cálculo de estruturas de aço: edifício industrial
detalhado.Rio de Janeiro, RJ: Elsevier, 2013.

DIAS, Luis Andrade de Mattos. Estruturas de aço: conceitos, técnicas e


linguagem. 7. ed. São Paulo, SP: Ziguarate Editora, 1997.

EDITORA LA MONICA. Ligação por solda. Disponível em: http://


editoralamonica.com.br/estabilidade-nas-construcoes/. Acesso em: out. 2016.

EDITORA PINI. Engenharia intensiva. São Paulo, p.22-27, jan. 2015. Ed.
214. Mensal.

FUSCO, Péricles Brasiliense. Técnicas de armar as estruturas de


concreto. 2. ed. São Carlos, SP: PINI, 2013.

MARIANE, Aline. Custo comparado. Disponível em: <http://


construcaomercado.pini.com.br/negocios-incorporacao-construcao/157/
artigo319701-1.aspx> . Acesso em: out.2016.

METALICA. Ligação por parafuso. Disponível em: http://www.metalica.


com.br/pg_dinamica/bin/pg_dinamica.php?id_pag=513. Acesso em: out.
2016

PFEIL, Michèle; PFEIL, Walter. Estruturas de aço: dimensionamento Prático


de Acordo com a NBR 8800:2008. 8. ed. Rio de Janeiro, RJ: LTC, 2014.

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 245


SOBRINHO JUNIOR, Antônio da Silva; NOBREGA, Lucas Ramos Lins.
Concretos Especiais na Engenharia: uma revisão da literatura. João
Pessoa, PB: Unipê, 2016.
UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO (USP). Diagrama de tensão e
deformação do aço. Disponível em: http://www.lmc.ep.usp.br/people/
valdir/PEF5736/propr_mec/propr_mec1.html. Acesso em: out. 2016.

246 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


CAPÍTULO 18

AVALIAÇÃO DA QUALIDADE DA ÁGUA


DA BACIA DO RIO CUIÁ POR MEIO DO
PARÂMETRO MICROBIOLÓGICO NO
PERÍODO 2005 A 2015
Luciana Alves da Nóbrega1, Marcos Pereira de Araújo2, Kleysa Rodrigues da
Silva3, Evelyne Emanuelle Pereira Lima4.

RESUMO
A água apresenta uma particularidade, ela coexiste em condições
naturais nos três estados físicos da matéria (sólido, líquido e gasoso)
e está inserida num sistema cíclico, em que a mesma não varia
quantitativamente e sim qualitativamente. Dessa forma entende-se
que a sustentabilidade em ecossistemas aquáticos está ligada à sua
qualidade e a mesma varia de acordo com indicativos químicos, físicos
e biológicos. É necessária análises desses indicativos e dos seus fatores
de influência. O Rio Cuiá está localizado no litoral sul da cidade de
João Pessoa – PB e está inserido num ambiente bastante urbanizado,
além de receber dois lançamentos de efluentes da rede de tratamento
de esgoto de João Pessoa, desse modo o Rio Cuiá caracteriza um
ótimo ambiente para estudo das influências naturais e antrópicas
sobre um ecossistema aquático. Para esta verificação foi realizado
de um levantamento em campo apontando os principais indicadores
de qualidade ambiental e coleta para análises laboratoriais. Os dados
obtidos pelas análises foram confrontados com os limites estabelecidos
pela Resolução CONAMA nº 357/2005. O estudo demonstrou que
alguns pontos do Rio Cuiá estão contaminados pela presença de
coliforme termotolerantes.

Palavras-Chave: Degradação Ambiental. Parâmetros de Qualidade.


Saneamento.

1 Mestre em Modelos de Decisão e Saúde – UFPB. E-mail: lucyana.ufpb@gmail.com


2 Graduando do curso de Engenharia Civil do Unipê. E-mail: marcos16pa@outlook.com
3 Graduando do curso de Engenharia Civil do Unipê. E-mail: kleysa_rodrigues@hotmail.com
4 Mestre em Engenharia Urbana e Ambiental – UFPB. E-mail: evelyne.lima@unipe.br

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 247


INTRODUÇÃO
A crescente urbanização agregada à exploração de recursos
naturais e a ação humana ao longo da história, vem trazendo intensas
mudanças nos ambientes naturais, e uma dessas mudanças são causadas
devido à degradação ambiental em rios (MOURA FILHO, 2014, p. 10).
Os ecossistemas aquáticos têm sido alterados em diferentes
escalas como consequência negativa de atividades antrópicas, como
por exemplo, áreas urbanas não saneadas e lançamento de efluentes por
estações de tratamento de esgotos. Os rios integram tudo o que acontece
nas áreas de entorno, considerando-se o uso e ocupação do solo. Assim,
suas características ambientais, especialmente as comunidades biológicas,
fornecem informações sobre as consequências das ações do homem
(CALLISTO et al., 2001).
O ecossistema de um corpo d’água encontra-se em estado de
equilíbrio quando não é perturbado por um lançamento de efluente. Quando
há a entrada de uma fonte de poluição num corpo hídrico, o equilíbrio entre
as comunidades é afetado, resultando numa desorganização inicial, seguida
por uma tendência posterior à reorganização (SARDINHA, 2008).
Uma vez lançado no corpo hídrico, um poluente pode provocar a
alteração daspropriedades físicas, químicas ou biológicas da água, ocasionando
a degradação da mesma e a sua intensidade dependerá da concentração
desses poluentes. Cada corpo d’água tem valores máximospreestabelecidos
das concentrações dos poluentes que podem receber.
A qualidade da água dos mananciais é um indicador da
eficiência do sistema sanitário, por isso se faz cada vez mais necessário o
desenvolvimento de técnicas de monitoramento da qualidade da água e dos
diversos elementos que estão associados a mesma, como a disposição de
resíduos domésticos e industriais.
Para se avaliar a qualidade ambiental como um todo, é preciso obter
informações que estejam integradas entre os fatores bióticos e abióticos que
regem o funcionamento do ecossistema (SILVA et al., 2008). De acordo com
Pereira (2004), o grau de poluição no corpo hídrico é mensurado através de
características físicas, químicas e biológicas das impurezas existentes, que,
por sua vez, são identificadas por parâmetros físicos, químicos e biológicos
de qualidade das águas.
Dentre os parâmetros biológicos, tem-se os Coliformes
Termotolerantes (CT) que, de acordo com a Resolução CONAMA nº
357/2005, tratam-se de um grupo de bactérias gram-negativas, em forma
de bacilos, oxidase-negativas, caracterizadas pela atividade da enzima
β-galactosidase. Podem crescer em meios contendo agentes tenso-ativos e
fermentar a lactose nas temperaturas de 44º - 45ºC, com produção de ácido,
gás e aldeído.
Essa avaliação microbiológica da água tem um papel destacado,
em visto da grande variedade de microrganismos patogênicos, em sua
maioria de origem fecal, que pode estar presente na água (BETTEGA, 2006
apud RATTI et. Al., 2011). Além disso, a presença elevada desse grupo
de bactérias pode causar limitação na concentração de oxigênio no corpo
hídrico já que durante a degradação da matéria, essas bactérias utilizam o
oxigênio em seus processos respiratórios.

248 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


De acordo com a Fundação Nacional da Saúde(FUNASA) (2006),
a razão da escolha desse grupo de bactérias como indicador de contaminação
da água deve-se aos seguintes fatores: estão presentes nas fezes de animais
de sangue quente, inclusive os seres humanos; sua presença na água possui
uma relação direta com o grau de contaminação fecal; são facilmente
detectáveis e quantificáveis por técnicas simples e economicamente viáveis,
em qualquer tipo de água; possuem maior tempo de vida na água que as
bactérias patogênicas intestinais, por serem menos exigentes em termos
nutricionais, além de ser incapazes de se multiplicarem no ambiente
aquático; são mais resistentes à ação dos agentes desinfetantes do que os
germes patogênicos.
Sendo assim, este trabalho teve como objetivo avaliar a qualidade
das águas do Rio Cuiá e os fatores que estão diretamente influenciando na
degradação desse Rio. Para isso, foram analisados os índices de Coliformes
Termotolerantes relacionados ao período de 2005 a 2015. Foi verificado
se os dados obtidos estavam em conformidade com o que é determinado
pela Resolução CONAMA nº 357/2005, realizando-se uma análise do
monitoramento feito pela Superintendência de Administração e Meio
Ambiente (SUDEMA) no referente período.

METODOLOGIA

ÁREA DE ESTUDO
O Rio Cuiá corresponde à área de estudo que caracteriza este
trabalho. A bacia hidrográfica do rio Cuiá está inserida no município de
João Pessoa, com uma área de aproximadamente 40 km² com valores
altimétricos que variam de 0 até 60 m (SILVA, 2007). Ao longo de seu
percurso de aproximadamente 10 km, o rio segue o sentido Oeste/
Leste, até desaguar no Oceano Atlântico na Praia do Sol (REIS, 2010).

Figura 1 - Bacia Hidrográfica do Rio Cuiá e Carta Topográfica N. S. da Penha

.
Fonte: Adaptado de REIS, 2010.

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 249


De acordo com Reis (2010), o Conselho de Política Ambiental
do Estado da Paraíba classifica o Rio Cuiá como sendo de ÁGUA DOCE,
CLASSE 3, onde suas águas são destinadas: ao abastecimento para o
consumo humano, após tratamento convencional ou avançado; à irrigação
de culturas arbóreas, cerealíferas e forrageiras; à pesca amadora; à recreação
de contato secundário e à dessedentação de animais.

COLETA DOS DADOS


Os dados utilizados neste trabalho foram coletados pela
Superintendência de Administração do Meio Ambiente (SUDEMA), que é o
órgão estadual responsável pelo monitoramento das águas do rio em estudo.
Os parâmetros de avaliação da qualidade do Rio foram definidos
de acordo com o que preconiza da Resolução CONAMA nº 357/2005, que
dispõe sobre a classificação dos corpos de água e diretrizes ambientais
para o seu enquadramento, bem como estabelece as condições e padrões de
lançamento de efluentes.
Atualmente a SUDEMA monitora quatro pontos ao longo do
rio Cuiá: o Ponto 1 - P1 (Latitude: 07º11’19,4’’S, Longitude: 34º51’18,8”O),
o ponto 2 - P2 (Latitude: 07º11’35,4”S, Longitude: 34º50’22,4”O), o ponto
3 - P3 (Latitude: 07º11’57,7”S, Longitude: 34º49’26,8”O) e o ponto 4 – P4
(Latitude: 07º12’17”S, Longitude: 34º48’15,8”O).

Figura 2 - Pontos de coleta da SUDEMA.

Fonte: Google Earth (2016).

O planejamento e procedimento de coleta das amostras é


realizado segundo o Guia Nacional de Coleta e Preservação de Amostras da
Agência Nacional de Águas( ANA), 2011.
De acordo com o Guia Nacional de Coleta e Preservação de
Amostras da ANA, 2011, o planejamento da coleta foi feito com base

250 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


na seleção de itinerários que obedecesse a uma logística funcional e a
disponibilidade do laboratório. Foi feito previamente a preparação das
fichas de coleta, dos frascos para amostra, dos equipamentos para coleta e
medições (baldes, garrafa, pipetas) e da caixa térmica. Definiu-se também
o volume de coleta, para que fosse suficiente ao número de análises. O
procedimento de coleta inclui evitar o contato da parte interna dos frascos
e as tampas com as mãos e quaisquer impurezas, fazer a ambientação
dos equipamentos com a água do local, certificar-se que as amostras não
contenham partículas grandes, deixar as amostras ao abrigo da luz solar
e acondicioná-las em caixas térmicas com gelo e manter registro de todas
as informações de campo. As amostras foram acondicionadas nas caixas
térmicas e encaminhadas para o laboratório para as análises.

ANÁLISE LABORATORIAL
Após a coleta, as amostras foram analisadas nas dependências
do Laboratório de análise de água da SUDEMA, de acordo com os
procedimentos especificados na Resolução CONAMA nº 357/2005.
Para o parâmetro Coliforme Termotolerantes, foi utilizada a
metodologia da Membrana Filtrante. A técnica consiste na homogeneização
do produto em análise, em seguida o mesmo é filtrado através de membranas
filtrantes de acetato de celulose ou nitrocelulose, de porosidade adequada
(geralmente de 0,45μm), que permite a passagem de líquidos retendo os
microrganismos com dimensões maiores que o tamanho do poro. Após a
filtração e retenção dos microrganismos, a membrana é transferida para a
superfície das placas de Petri contendo o meio de cultura de escolha. Após a
incubação a 44ºC - 45ºC as colônias são enumeradas, visualmente ou através
de contadores eletrônicos e os resultados expressos em UFC (Unidade
Formadora de Colônia) /100 ml de água (FRANCO; LANDGRAF, 2003
apud DAVINO, 2013, p. 25).

LEVANTAMENTO BIBLIOGRÁFICO
Foi realizado um levantamento bibliográfico das principais
características do local como vegetação, uso do solo, ocupação urbana, relevo
e clima. Esse levantamento serviu como subsídio para o entendimento
da dinâmica local e para obter dados quantitativos e qualitativos das
características ambientais e sociais que serviram como indicadores da
qualidade do rio.

FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

A IMPORTÂNCIA DA ÁGUA
A água é um elemento essencial a todas as relações humanas e
animais. É através dela que é possível estabelecer uma boa qualidade de vida,
além de apresentar significativa importância no tocante ao desenvolvimento
econômico e ao equilíbrio e preservação do meio ambiente. Entretanto não

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 251


é só indiretamente que a água exerce influência sobre a saúde humana, já
que através dela são vinculadas doenças que atingem 1 bilhão de pessoas no
mundo por ano (RECESA, 2008).

CICLO ARTIFICIAL DA ÁGUA


Com o aumento populacional e o consequente desenvolvimento
urbano, o consumo de água aumentou significativamente, obrigando
o homem a interferir em seu ciclo natural, a promover grandes obras
destinadas à captação, transporte, armazenamento e a desenvolver técnicas
de tratamento. Essas modificações criaram o que podemos chamar de ciclo
artificial de água. Esse ciclo artificial altera o corpo hídrico quantitativa e
qualitativamente através de um intenso processo de captação e devolução da
água (FUNASA, 2006).

USOS E REQUISITOS DE QUALIDADE DA ÁGUA


Os requisitos de qualidade de uma água devem estar associados
aos usos pretendidos para essa água. Se um corpo d’água é de uso múltiplo,
a qualidade das suas águas deverá ser tal que possa atender aos requisitos
dos diversos usos previstos. Porém, além dos requisitos de qualidade, é
necessário estabelecer-se também padrões de qualidade, embasados em um
suporte legal. Os padrões devem ser cumpridos, por força de legislação,
pelas entidades envolvidas com a água a ser utilizada (CASTRO, 2013).
A legislação em vigência que determina os padrões e as
qualidades de água preponderantes aos seus diversos usos é estabelecida
pelo Ministério do Meio Ambiente através da Resolução nº 357 (2005)
do Conselho Nacional de Meio Ambiente (CONAMA). Para efeito desta
resolução a qualidade das águas doces foi classificada em: Classe Especial,
Classe 1, Classe 2, classe 3 e Classe 4, e para cada uma dessas definiu-se
os padrões de qualidade pertinentes aos seus usos conforme a tabela 1
(CASTRO, 2013).

Tabela 1 – Padrões de qualidade estabelecidos pela


Resolução CONAMA Nº 357
Classe Coliformes Termotolerantes ( UFC/ 100 mL)
Especial  ----
1 200
2 1.000
3 4.000
4  ----
Fonte: Adaptado. BRASIL, 2005.

POLUIÇÃO AQUÁTICA
De forma genérica, a poluição das águas decorre da adição de
substâncias ou de formas de energia que, diretamente ou indiretamente,

252 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


alteram as características físicas e químicas do corpo d’água de uma
maneira tal, que prejudique a utilização das suas águas para usos benéficos
(PEREIRA, 2004, p. 1).
Apesar de sua importância, os corpos de água estão sendo
contaminados sistematicamente por diversas fontes, tais como o lixo
industrial e doméstico e os esgotos que são lançados sem o devido
tratamento. Segundo Lima e Garcia (2008), os rios brasileiros recebem um
volume de substâncias poluentes quatro vezes maior que sua capacidade
natural de conservação.

SANEAMENTO BÁSICO
De acordo com a Lei Federal Nº 11.445, de 5 de janeiro de 2007,
considera-se saneamento básico como o conjunto de serviços, infra-estruturas
e instalações operacionais de abastecimento de água potável, de esgotamento
sanitário, de limpeza urbana e manejo de resíduos sólidos e, de acordo com a
Lei Nº 13.308, de 6 de julho de 2016, de drenagem e manejo das águas pluviais,
limpeza e fiscalização preventiva das respectivas redes urbanas.
Segundo o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento
(SNIS, 2014), uma média de 93,2% das áreas urbanas das cidades brasileiras
são atendidas por redes de água, e 57,6% por redes coletoras de esgotos. Já
o tratamento dos esgotos gerados chegou a uma média nacional de 40,8%.

RESULTADOS E DISCUSSÃO
Na tabela abaixo apresenta os resultados das análises
microbiológicas, em relação aos quatro (04) pontos monitorados nos últimos
dez (10) anos para o Rio Cuiá. No período em estudo, verificou-se presença
de coliformes termotolerantes.

Tabela 2 - Resultados das análises e dados descritivos do monitoramento


para o parâmetro Coliformes Termotolerantes, do Rio Cuiá para o período
de 2005 a 2015.
Ano Coliformes Termotolerantes (UFC / 100 mL)
Ponto 1 Ponto 2 Ponto 3 Ponto 4
2005 670 33270 21050 320
2006 1460 10000 150 320
2007 0 9800 2120 1960
2008 1250 17110 20 70
2009 1020 3010 150 20
2010 380 4400 200 40
2011 1220 330 10 80
2012 120 10000 1670 2240
2013 700 23000 850 280

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 253


2014 2750 23300 200 230
2015 3800 64000 58300 790
Estatística Descritiva
Média 4324,55 18020,0 7701,82 577,27
DP* 11194,5 18221,4 17881,9 785,304
Valor
3800 17110 58300 2240
máximo
Valor
0 330 10 20
mínimo
*DP= Desvio padrão
Fonte: Dados da SUDEMA, 2016.

As variações de densidade de Coliformes Termotolerantes (CT),


durante os últimos dez (10) anos de monitoramento, para o mês de junho,
estão apresentadas na Figura 3.

Figura 3 – Densidade de coliformes termotolerantes (UFC / 100 mL), do


período 2005 a 2015.

Fonte: Dados da Pesquisa, 2016.

No período em análise, observou-se que o quantitativo de


coliformes termotolerantes (CT) apresentou-se inferior ao limite máximo
previsto Resolução CONAMA nº 357 de 2005 para os pontos P1 e P4, como
apresentando tabela 2 e observado na Figura 3.
O ponto P1 foi selecionado para tentar descrever a qualidade
do rio após sua nascente, pois de acordo com Lima (2012), a nascente do
Rio Cuiá vem sendo degrada por vários fatores, destacam-se entre eles o
despejo de esgoto bruto nas proximidades da nascente, o descarte indevido
de resíduos sólidos e a existência  da população no local.

254 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


A escolha do ponto P2 se deu por dois motivos, o
primeiro foi por estar inserido em uma área urbana, mas alguns trechos
encontram-se em meio tipicamente rural, sendo assim observado a
influência antrópica sobre a qualidade do rio. O segundo motivo, por
estar situado à montante do primeiro lançamento de efluente da estação de
tratamento de efluentes (ETE) de mangabeira. 
Acerca da influência antrópica foi possível verificar nas
proximidades  do ponto P2, por conseqüência da ineficiência do sistema
de saneamento ambiental, caracterizado pelo carreamento de águas
servidas e o descarte inapropriado de resíduos. Além disso, observou-se
também nas proximidades desse local, a presença de criações de bovinos e
suínos, provocando a contaminação do solo por seus dejetos, que em período
de chuvas contaminam o rio.
Com relação ao ponto 3, observou-se que o mesmo não
apresentou, de acordo com os resultados, características diferentes em
relação aos segundo ponto, para os parâmetros analisados.
No que diz respeito ao ponto P4, foi selecionado de modo que
o mesmo  permitisse a determinação da qualidade do rio próximo a sua
desembocadura no oceano e a observação das suas características naquele
ambiente. Observou-se nesse ponto a capacidade de autodepuração do rio,
uma vez que a sua qualidade melhorou nesse local, conforme os resultados
apresentados.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
O estudo revelou que o Rio Cuiá apresenta uma qualidade
insatisfatória em alguns trechos, pois para o parâmetro analisado, verificou-
se desconformidade com o que preconiza a Resolução CONAMA Nº
357/2005. Essa situação é preocupante, pois esse alto nível de contaminação
acarretar sérios riscos à saúde da população.
De acordo com os resultados obtidos pelas análises, percebeu-se
que o efluente lançado no Rio Cuiá pela estação de tratamento de efluentes
(ETE) não altera as características do mesmo, chegando inclusive a melhorar
a sua qualidade. Essa observação foi atribuída a um aumento na capacidade
de diluição. Verificou-se também que o Rio Cuiá consegue restaurar sua
qualidade ao longo do seu curso, caracterizando poder de autodepuração dos
poluentes lançados no mesmo.

REFERÊNCIAS
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e preservação de amostras: água, sedimentos, comunidades aquáticas e
efluentes líquidos/ Companhia Ambiental do Estado de São Paulo: São
Paulo: CETESB: ANA, 2011. Organizadores: Carlos Jesus Brandão [et al.].

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nacionais para o saneamento básico; altera as Leis nos 6.766, de 19 de
dezembro de 1979, 8.036, de 11 de maio de 1990, 8.666, de 21 de junho
de 1993, 8.987, de 13 de fevereiro de 1995; revoga a Lei no 6.528, de 11
de maio de 1978; e dá outras providências. Disponível em:<http://www.

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 255


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ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 257


CAPÍTULO 19

AVALIAÇÃO DO PROCESSO PRODUTIVO


DE UMA OLARIA EM ITAPORANGA-PB
Manoel Mauri Bidô da Costa Neto1, Carlos Maviael de Carvalho2, Idisa Virginia
Abrantes3, Maria Luar de Oliveira Carvalho4, Lívia Maria de Medeiros Martins5.

RESUMO
No sertão paraibano no município de Itaporanga, onde sua economia
girar em torno de fábricas, gerando empregos e movimentando
a economia do Vale do Piancó, local onde está situada a olaria em
estudo. Neste trabalho apresenta a análise do processamento e
propriedade dos produtos cerâmicos da olaria MM. Foram coletados
corpos de prova dos produtos de cerâmica vermelha, os quais foram
verificados conforme a norma técnica da ABNT 15270:2005. Onde
passaram pelos ensaios de caracterizações visuais, geométricos,
físico, mecânico. O processo produtivo de fabricação (extração,
sazonamento, conformação, corte, secagem e queima) da olaria foi
analisado “in loco” com alguns instrumentos de coleta de dados como
formulário, entrevistas e observação, desdá extração da matéria-prima
até o produto final. Com os resultados das análises, foi constatado
que algumas das caracterizações técnicas apresentam valores fora
das tolerâncias da norma e a necessidade do melhoramento de
algumas etapas do processo produtivo, com isso os produtos de
cerâmica vermelha estão com baixa qualidade técnica. Desse modo,
os resultados mostram a necessidade do melhoramento do processo
produtivo da olaria em estudo para alcançar produtos cerâmicos
conforme as especificações determinadas pela norma técnica, assim
se mantendo em um mercado que a cada dia aumenta a concorrência.

Palavras-Chave: Indústria cerâmica. Bloco cerâmico. Processo


produtivo.

1 Graduando do Curso de Engenharia Civil (UNIPÊ). E-mail: mauryneto@hotmail.com.br


2 Professor do Curso de Engenharia Civil do Unipê. Doutorando em Engenharia de Materiais (UFPB).
E-mail: maviael.carvalho@hotmail.com
3 Graduando do Curso de Engenharia Civil do Unipê. E-mail: idisa@hotmail.com
4 Graduando do Curso de Engenharia Civil do Unipê. E-mail: luar_viola@hotmail.com
5 Graduando do Curso de Engenharia Civil do Unipê. E-mail: liviamariamm@gmail.com

258 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


INTRODUÇÃO
O setor de cerâmica é uma das indústrias mais antigas do
mundo e do país, tendo uma atuação no PIB (Produto Interno Bruto) de há
aproximadamente 1%, (ABC, 2009).
O crescimento do setor de cerâmica vermelha ver a necessidade
de investimento e melhoria na qualidade e produtividade dos produtos
cerâmicos (MOTTA; ZANARDO; CABRAL JUNIOR, 2001).
Vivemos em um mundo que está em constantes evoluções
tecnológicas, o que deixa o mercado cada vez mais competitivo, com normas
mais exigentes e deste modo melhorando os produtos, proporcionando uma
melhor satisfação do consumidor. Com o crescimento do setor de cerâmica
vermelha, os materiais não poderiam ficar de fora dessas evoluções, tendo a
necessidade de aumentar o número de análises durante o processo produtivo,
ensaios dos produtos acabados em laboratórios para o conhecimento das
propriedades química, física e mecânica destes produtos.
Para acompanhar as evoluções constantes no mercado de
produtos cerâmicos, pesquisas veem sendo desenvolvidas e vão desde da
matéria-prima até o produto final, visando o melhoramento do processo
produtivo além de conseguir se adaptar a essas evoluções (MAIA, 2012).
Na cidade de Itaporanga localizada no interior da Paraíba onde
sua economia gira em torno de fábricas, a qual gera empregos. Local que
está situada a olaria, a mesma tem cerca de 30 funcionários do município
onde é situada e de municípios vizinhos. No entanto a fabricação dos
produtos é de forma empírica, no qual possa ser um dos maiores problemas
para o processo de fabricação, levando a uma perda de produção. A
utilização de duas ou mais massas argilosas com características diferentes
são utilizadas nessa olaria de cerâmica vermelha. O produto campeão de
vendas é o tijolo vermelho, mas recentemente começou a fabricação de
lajotas. As argilas utilizadas nos produtos (tijolos e lajotas) ainda não foram
estudadas, mostrando a necessidade deste estudo, com intuito de conhecer
as propriedades tecnológicas e indicar o melhor processo produtivo e
consequentemente os melhores produtos a serem fabricados.
O processo cerâmico lida com uma produção cada vez mais criteriosa,
diante desse cenário, é preciso conhecer com muita precisão todas as etapas que
contemplam tal processo, o que almeja detalhar o presente estudo.
Tendo como objetivo, a avaliação do processo de produção de
produto de cerâmica vermelha, fabricado no município de Itaporanga –
PB. Analisando as características físicas, visuais, geométricas e mecânica
após a fabricação da cerâmica vermelha, conforme a norma técnica da
ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas), assim identificando as
principais causas de perdas no processo de produção, e assim diminui-los,
aumentando a qualidade e a redução dos custos dos produtos cerâmicos.

METODOLOGIA
A característica da pesquisa se trata de um estudo de caso,
uma avaliação do processo produtivo de uma olaria, a qual está situada
no município de Itaporanga – PB. O universo da pesquisa é o processo
produtivo e a amostra é os matérias cerâmicos.

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 259


O principal objetivo da análise foi documentar todo o processo
produtivo da olaria (sazonamento, conformação, corte, secagem e queima)
em estudo. Para essa análise do processo foi utilizado os instrumentos de
coleta de dados o qual é separado por documentação indireta (bibliográfica
e documentação) e documentação direta (observação, entrevista, formulário
e teste) (LAKATOS, 2013).
O processo de coleta de dados ocorreu por meio de visitas a
cerâmica e com o apoio dos proprietários e dos funcionários onde os mesmo
ajudaram nas evoluções dos estudos. A análise do processo industrial
da olaria ocorreu através de um formulário, onde o mesmo apresenta
informações significativas como: fabricação mensal, uso das normas
técnicas, preparação da matérias-primas, elaboração da massa argilosa,
conformação dos produtos, método de secagem e método de queima. Teve
também entrevistas e a observação do processo “in loco”.
Os testes de qualidades ocorreu de acordo com a norma da ABNT
NBR 15270 (2005) onde foi realizado as caracterizações dos produtos
cerâmicos que são visuais, geométricas, físicas e mecânica.
Por motivos de ética para preservação da olaria foi adotado um
código para identificar a mesma que foi o MM.
A análise de dados ocorreu de acordo com os resultados dos
processos quantitativos dos ensaios e dos qualitativos que foi a análise do
processo produtivo, na qual foi proposto algumas sugestões no processo
produtivo, assim melhorando o produto final.

FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
O setor de artefatos cerâmicos é o mais difundido
no Brasil. Está presente na maioria das cidades
brasileiras, em olarias e pequenas fábricas.
Geralmente são empresas familiares, que produzem
tijolos e blocos de barro, telhas de barro e manilhas
de barro (CRIVELARO, 2014, p.98).

A indústria de cerâmicas vermelhas, tem um grande desafio que


é produzir uma grande quantidade de produtos praticamente idênticas,
isto é com as mesmas características técnicas e estéticas, de modo que as
características da matéria-prima são variáveis. Dependendo dessas variações
podem afetar a qualidade do produto final (MELCHIADES, 2002).
Argilas são materiais terrosos naturais que apresenta alta
plasticidade quando é misturados com quantidade determinada de água.
Formados basicamente por partículas cristalinas bem pequenas, constituído
de poucas substâncias. Estas por sua vez são conhecidas como argilominerais,
onde as argilas podem apresentar um ou mais argilominerais (BAUER, 2015).
Com a facilidade de encontrar a argila, que está quase em toda a
superfície terrestre, deve-se lembrar que as propriedades delas variam de forma
e de acordo com o lugar que são encontradas (CHRISPIM et al., 2010).
Em geral as argilas encontradas não são totalmente puras, têm
mais de um tipo de mineral argiloso, mas se considera o mineral que mais
se predomina. Temos vários tipos de argilas como: Caulim, bentonita, argila
de grês, argila vermelha, argila refratária, argila bola e outras. A utilizada na

260 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


fabricação de tijolos é a argila vermelha que após seu cozimento apresenta
tonalidade avermelhada, pela presença de óxido de ferro na sua composição.
A Caulinita é considerado o argilomineral mais puro, para ser utilizado na
fabricação de cerâmica sanitária, refratários e porcelana (PETRUCCI, 1998).
Figura 1 - Processo de fabricação de cerâmica vermelha

Fonte: O autores.
Ao localizar a jazida de argila, deve-se fazer uma análise especifica
das características do material e do volume total do material da mesma
(PETRUCCI, 1998). Com a pesquisa concluída, consegue definir misturas
com outras argilas ou materiais e, por fim, escolher quais os equipamentos e
processos que iram ser utilizados para o produto solicitado. (LOYOLA, 1998).
O sazonamento pode ocorrer de três maneiras pilhas separadas,
em camadas ou montes já misturados, a variação de tempo desse processo
depende da olaria, podendo durar meses ou até anos. As vantagens são
diminuição das tensões causadas pelas quebra das ligações químicas,
eliminação de matéria orgânica, melhor trabalhabilidade da plasticidade das
argilas entre outros (MAIA, 2012).
A preparação da mistura em via mecânica são divididas

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 261


em algumas etapas, as quais são: Britagem ou moagem – diminuir a
granulometria, Dosagem e alimentação – dosagem por peso, através de um
caixote alimentador, Controle de umidade – verificado após as etapas de
britagem e moagem, Desintegração – redução dos torrões, Misturador –
deixa a massa mais homogenia e se necessário pode ser acrescentado água e
Laminação – desintegração dos torrões ainda existentes na argila (MAIA,
2012; MÁS, 2002; MOTTA et al., 2001; PETRUCCI, 1998).
É na etapa da conformação é formado por quatro métodos, aonde
o processo de fato da forma a peça. A maromba ou extrusora é nome do
equipamento responsável pela processo de extrusão, o qual dar o formato
desejado ao produto. No interior da mesma possui um eixo helicoidal
(hélice) que gira, comprime e puxa a massa argilosa para dentro da cavidade.
A extrusão ocorre no momento que a massa passa por alta pressão pela
boquilha (peça de aço que tem o formato do perfil do bloco cerâmico que
está localizada na saída extrusora para fazer a moldagem da massa (MAIA,
2012; GALASSI, 2013).
O corte acontece de forma mecanizada, onde é instalada no final da
extrusora, que se realiza de acordo com o deslocamento das peças (GALASSI,
2013). O responsável pela dimensão do comprimento da peça é o corte, que
segue um modelo de corte padronizado do qual está sendo processado. Existem
dois tipos de cortadores o automático e o manual (MAIA, 2012).
Geralmente a secagem dos blocos cerâmico acontece de forma
lenta e em lugares fechados, assim evitando o surgimento de fissuras na
parte externa. Deve acontecer de forma uniforme para evitar defeitos
nas peças. Mas o que define essa secagem é a olaria, são conhecidos cinco
processos de secagem de produtos cerâmicos: Secagem natural, secadores
de fornos, secagem artificial, secador de câmara e secador túnel (GALASSI,
2013; MAIA, 2012).
A secagem natural é também conhecida como secagem ao ar livre.
É o processo mais utilizado nas olarias pelo baixo custo, mas é demorado e
precisa de grandes espaços (BAUER, 2015). No entanto os secadores não
devem ter obstáculos, para facilitar a circulação do ar. Os secadores são
galpões grandes e cobertos para que haja proteção da chuva e raios de sol.
Onde sua construção é levado em consideração a direção dominante do
vento (MAIA, 2012).
A queima é considerada uma das etapas mais importante da
fabricação dos materiais cerâmicos (BAUER, 2015). A qual é considerada a
que tem o custo mais elevado do processo produtivo, pois o custo para manter
a fonte térmica é muito alto, o qual é um procedimento essencialmente
energético. Os principais combustíveis para gerar essa temperatura é o gás,
óleo ou lenha, no entanto a lenha é o mais acessível ás cerâmicas brasileiras
(VIEIRA, 2003).
No mercado existem inúmeros tipos de fornos, os mais utilizados são:
forno de Hoffmann, forno túnel, forno cedan, fornos de chama direta tipo caieira ou
caipira e os fornos tipos chama invertida ou chama reversível (MAIA, 2012).
O forno cedan também conhecido como forno câmara, tem
algumas semelhanças do forno Hoffman como: sistema de queima, com
zonas de fogo móvel e carga fixa além do aproveitamento de calor entre as
câmaras, em relação a forma de convecção de calor é diferente. (GALDINO;
TADEU; GILKSANA, 2014).

262 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


RESULTADOS E DISCUSSÃO

AVALIAÇÃO DO PROCESSO PRODUTIVO


A olaria MM utilizada dois tipos de argilas a “forte” e a “fraca”
os quais são localizada no município de Pedra Branca – PB. A jazida da
argila “forte” são barro bruto, e a argila “fraca” é a lama de açude. Onde seu
consumo mensal de argila foi estimado em 1000 a 2000 toneladas de argilas.
A mesma não aplica nenhum ensaio de características físicas e mineralógica
nas matérias-primas empregadas no processo.
O sazonamento acontece em forma de pilhas separadas, as argilas
“forte” e “fraca” descansam separadamente. O período de sazonamento era
em média de 6 meses mas com o aumento da demanda e da falta de espaço
hoje passou a ser de 2 dias.
Como o processo utiliza apenas argilas como matéria-prima, são
utilizados dois tipos de argila com propriedades distintas. Faz a mistura da
argila “forte” no qual tem característica a alta plasticidade e da argila “fraca”
onde tem pouca plasticidade, as mesmas são misturadas diariamente com
a adição de água, essa mistura é de forma mecânica onde é utilizado uma
retroescavadeira. No qual é chamado de argila “curtida”, seu traço é de 1:1 e
a quantidade de água é pela experiência do funcionário, a qual passa por um
período de 2 dias de descanso.
Para a preparação da massa a mesma passa por alguns processos
que são: caixão alimentador, desintegrador, laminador 01, laminador 02 e
misturador.
Após os 2 dias que a massa passa “curtindo” a mesma é colocado
no caixão alimentador mecânico, equipamento que tem “facões” para cortar a
argila para diminuir os torrões, no final desse equipamento tem um registro
para controlar a saída da argila. Em seguida acontece a desintegração de
forma manual, onde um funcionário faz a retirada de pedras, raízes, metais e
outras coisas que possam vir a atrapalhar o processo, essa fase é para deixar
a argila mais limpa.
A esteira rolante conduz a argila para os laminadores, onde
o laminador 01 tem uma abertura de 3 cm por onde passa a argila, esse
mecanismo é para eliminar torrões que ainda existem que não foram
desfeitos em fases anteriores. No mesmo instante passa para o laminador 02
o qual é mais fechado e sua abertura é de 1,5 cm, deixando as partículas mais
aglomeradas para facilitar as próximas fases e ocasionando a diminuição de
manutenções com quebras de equipamentos.
É utilizado um misturador horizontal, o qual deixa a massa
mais homogêneo, onde pode ter a adição de água, que é variável. Quando
o solo está muito seco a quantidade aumenta e quando está muito fluido
a quantidade diminui. Após essa fase a argila está pronta para a extrusão
equipamento conhecido como maromba.
O processo de conformação dos blocos cerâmico ocorre na
extrusora, de forma automática. A mesma possui uma câmara de vácuo
que é o “coração” da maromba, que tem como principal função a retirada
da umidade necessária e o ar presente na argila através de uma bomba,
para que a mesma tenha compacidade, assim gerando a armação do tijolo,
fazendo com quer a peça saia ao passar na boquilha tenha forma adequada.

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 263


A boquilha da olaria MM é um perfil de porcelana.
Após esse processo a massa é encaminhada por rolos de plásticos
rígidos, para o corte, no qual a olaria MM utiliza o corte automático vertical.
Os blocos cerâmicos são levado para secagem através de um reboque, onde
tem capacidade para 300 tijolos. Os blocos cerâmicos são encaminhado para
o galpão onde acontecer a secagem. Onde é utilizado a secagem natural em
galpões. Seu tempo de secagem é de aproximadamente 3 dias.
O forno utilizado na olaria MM é o forno cedan, o qual são
formados por 14 câmaras e cada uma tem uma capacidade para 14 milheiros,
onde sua queima é continua. Um entrevistado falou sobre o fechamento das
portas que é realizado com tijolo e argila e acontece da seguinte forma, pra
começar a queima a câmara da frente deve está fechada e queimada e para
abrir deve ter duas câmaras na frente queimada e fechada.
O combustível utilizado é apenas a lenha. A temperatura da
queima é aproximadamente 820 °C, essa temperatura é acompanhada
através de um quadro de temperatura e de uma ficha de temperatura no
qual faz anotações na mesma de 30 em 30 minutos. E seu tempo médio
de queima é cerca de 12h. Após esse tempo a câmara é aberta e os tijolos
cerâmicos estão prontos.
As perdas tem uma variação de 2% a 5% de perdas, tijolos
quebrados e com defeitos que não dar pra ser aplicado na sua função
especifica. Em relação aos ensaios de propriedades física e mecânicas não
são realizados no produto final.

CARACTERIZAÇÃO DOS PRODUTOS CERÂMICOS


A Tabela 01 apresenta as caracterizações visuais obtidos para
os produtos cerâmicos da olaria MM, o qual foi realizado com 13 corpo-
de-prova (C.P.), as amostras foram recebidas dia 14/10/2016 e no mesmo
dia foi realizado o ensaio. Na Tabela 01 contém a tolerância da altura das
caracteres conforme a norma da NBR 15270 ( ABNT,2005).

Tabela 1 – Caracterização visuais

Fonte: Os autores

Os valores das alturas das caracteres do C.P. (13) está fora da


tolerância da Norma 15270 (2005). Podemos observar que pela Tabela 02

264 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


que os blocos tiveram a aceitação, pois 12 C.Ps. estão conforme a tolerância
da norma.

Tabela 2 – Aceitação e rejeição para caracterização visuais

Fonte: ABNT, 2005.

Os resultados das caracterizações geométricas estão nas Tabela


04, Tabela 5, Tabela 06, Tabela 7 e Tabela 8 os quais foram obtidos através
dos produtos cerâmicos da olaria em estudo. Foram utilizados 13 C.Ps., os
quais foram recebidos e analisados dia 14/10/2016. Os resultados serão
analisados pela Tabela 3.

Tabela 3 - Aceitação e rejeição na inspeção por


ensaios para caracterização geométricas

Fonte: ABNT, 2005.

A Tabela 4 apresenta os valores das dimensões efetivas dos


produtos cerâmicos da olaria MM. As dimensões das larguras individuais,
todos os C.Ps. estão dentro de norma e a dimensões médias apenas o C.P. (1)
está fora de norma, mas pela Tabela 3 a largura teve a aceitação conforma
a Norma 15270 (ABNT , 2005). Em relação as dimensões das alturas
individuais, todos os C.Ps. estão dentro de norma e a dimensões médias
apenas o C.P. (13) está acima da tolerância da norma, no entanto a altura
tem a aceitação pela Tabela 3.

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 265


Tabela 4 – Dimensões efetivas (largura, altura e comprimento)

Fonte: Os autores.

Os comprimentos das dimensões individuais (Tabela 4), os C.Ps.


(2 e 13) estão acima dos critérios de tolerância da Norma 15270 (2005), as
dimensões médias dos C.Ps. (1,2,7 e 13) estão fora da tolerância admitida
pela norma. Em relação a Tabela 03 as dimensões individuais teve a
aceitação mas as dimensões médias teve rejeição.
A Tabela 5 apresenta os valores da espessura das paredes
externas dos produtos cerâmicos da olaria MM. No qual apenas o C.P.
(2) está conforme a Norma 15270 (ABNT, 2005) que apresentou todas
espessuras estão maior que 7mm. De acordo com a tabela 3, a espessura de
parede externa teve a rejeição, pois possui 12 C.Ps. estão fora de tolerância
em relação a norma.

Tabela 5 – Espessura das paredes externas

Fonte: Os autores.

A Tabela 6 apresenta os valores da espessura dos septos dos


produtos cerâmicos da olaria em estudo. Os C.Ps. (2 e 5) está fora da Norma
15270 (ABNT, 2005) que apresentou espessuras menores que 6mm. De
acordo com a tabela 03, a espessura dos septos teve a aceitação, pois possui
apenas 2 C.Ps. estão fora de tolerância conforme a norma.
A Tabela 7 apresenta os valores de desvio em relação ao esquadro
dos produtos cerâmicos da olaria MM. No qual os C.Ps. (1,3,4,7,9 e 10)

266 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


está de acordo com a Norma 15270 (ABNT, 2005) que apresentou desvios
menores que 3mm. Conforme a tabela 03, o desvio em relação ao esquadro
não teve a aceitação, pois possui 7 C.Ps. estão fora de tolerância conforme
a norma.
A Tabela 8 apresenta os valores das planezas das faces dos
produtos cerâmicos da olaria MM. Os C.Ps. (5, 7 e 11) estão de acordo
com a Norma 15270 (ABNT, 2005) que apresentou planezas menores
que 3mm. Conforme a tabela 03, a planezas das faces teve a rejeição,
pois possui 10 C.Ps. estão fora de tolerância em relação a norma.

Tabela 6 – Espessura dos septos Tabela 7 – Desvio em relação


ao esquadro (D)

Fonte: Os autores. Fonte: Os autores.

Tabela 8 – Planeza das faces (F)

Fonte: Os autores.

O resultado da absorção de água (Tabela 9 e Gráfico 1) obtidos


para os produtos cerâmicos da olaria MM, o qual foi realizado com 6 C.Ps.,
as amostras foram recebidas dia 14/10/2016 e o início do ensaio ocorreu dia
17/10/2016 e finalizou dia 18/10/2016. Na Tabela 9 contém a tolerância
da absorção de água conforme a norma da NBR 15270 (ABNT, 2005).

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 267


Tabela 9 – Absorção d´água

Fonte: Os autores.

Gráfico 1 – Índice Absorção d´água

Fonte: Os autores.

Conforme a Tabela 9 todos os C.Ps. estão dentro da tolerância da


Norma 15270 (2005). No entanto pela Tabela 10 a absorção de água teve
aceitação pela norma.

Tabela 10 - Aceitação e rejeição na inspeção de ensaio


de caracterização física

Fonte: ABNT, 2005.

O resultado da resistência à compressão, obtida para os produtos


cerâmicos em estudo, o qual foi realizado com 13 C.Ps., as amostras foram
recebidas dia 14/10/2016 e o início do ensaio ocorreu dia 18/10/2016 e
finalizou dia 20/10/2016. Na Tabela 11 contém a tolerância da resistência
à compressão conforme a norma da NBR 15270 ( ABNT,2005).
Conforme a Tabela 11 apenas o C.P. (7) está fora da tolerância
da Norma 15270 (2005). Os resultados variaram entre 0,91 a 4,74 MPa
(Gráfico 2). Confirmado pela Tabela 13 que a resistência à compressão teve
aceitação pela norma.

268 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


Tabela 11 – Resistência à compressão

Fonte: Os autores.

Gráfico 2 – Resistencia à compressão

Fonte: Os Autores.

Tabela 13 - Aceitação e rejeição na inspeção de ensaio


de caracterização mecânica

Fonte: ABNT, 2005.

A Tabela 14 apresenta o resumo de todos os resultados dos


ensaios realizados para olaria MM, o qual proporciona melhor visualização
dos resultados.

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 269


Tabela 14 – Resumo dos resultados

Fonte: Os autores.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente trabalho aborda um estudo de caso, que teve como
objetivo analisar o processamento e propriedades finais dos produtos de
cerâmica vermelha de uma olaria que está situada no município de Itaporanga
– PB. Conforme os resultados se proporcionou as seguintes conclusões:

1. A olaria MM apresenta processo de fabricação tradicional utilizado em


olarias de cerâmica vermelha.
2. Na fase inicial do sazonamento, na qual acontece o descanso da argila
em pilhas separadas após a chegada das jazidas. O tempo de descanso na
olaria ocorre em torno de 2 dias, o qual não está sanando as matérias
orgânicas, uma das principais causadoras das fissuras no blocos. Onde foi
sugerido do aumento desse tempo de descanso.
3. Na preparação da mistura, foi proposto a substituição do desintegrador
manual pôr o desintegrador automático e também dos dois laminadores
por um laminador com maior eficiência.
4. Através dos resultados de rejeição dos ensaios de espessura das paredes
externas, desvio em relação ao esquadro e planezas das faces, é necessário
aumentar a manutenção e troca da boquilha, a olaria deve analisar se a
secagem está acontecendo de forma não uniforme, pois assim pode causar
distorções. A espessura dos septos estão conforma tolerância da norma.
5. No momento que um dos ensaios sofre a rejeição, todo o produto é
rejeitado.
6. Nas dimensões efetivas, o comprimento dos produtos estão acima da
tolerância da norma, assim foi sugerido uma atenção especial para o
equipamento de corte automático vertical. A largura e altura estão de
acordo com a norma.

270 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


De acordo com os resultados, a olaria possui grande divergência
com os padrões de tolerância das normas técnicas. Onde a mesma precisará
aumentar o investimento em procedimentos técnicos para conhecer os
minerais que consistem a argila, onde irá melhora a preparação da massa
tendo uma maior trabalhabilidade, aumentando a qualidade do processo
de extrusão com isso nas fases de secagem e queima as peças apresentem
melhor operação e consequentemente melhor resistência, assim fabricando
produtos com maior qualidade e conseguindo se manter em um mercado
cada vez mais competitivo. Entretanto a olaria necessita do melhoramento
do processamento e propriedades dos produtos finais, procurando adaptar
o processo produtivo para alcançar a aceitação das caracterizações dos
produtos conforma a norma.

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272 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


CAPÍTULO 20

ANÁLISE DE DESASTRES EM
ESTRUTURAS METÁLICAS E DE
CONCRETO ARMADO: UMA REVISÃO DA
LITERATURA
Matheus Varela Cavalcanti1, Érika Suyani Maria de Freitas Alves2, Antônio da
Silva Sobrinho Júnior3, Ulisses Targino Bezerra4.

RESUMO
O ato de construir nos permite o desenvolvimento de obras
importantes que afetam diretamente e indiretamente a economia
de uma região. É função do engenheiro civil projetar, gerenciar e
executar obras como casas, prédios, pontes, viadutos, estradas e
barragens, ou seja, vários tipos de estrutura. Estruturas são definidas
como sendo elementos que tem a finalidade de suportar algum tipo
de carregamento e garantir o equilíbrio da construção. Todavia, nem
sempre a estabilidade e a segurança da edificação são garantidos,
ocasionando patologias. Com a saúde comprometida, podem-se ocorrer
desastres. Os desastres são acontecimentos súbitos, imprevistos ou
extraordinários, que provocam prejuízos severos na vida das pessoas,
afetando, de alguma forma, suas funções na sociedade. Na construção
civil, quando se fala em desastres, geralmente, são acontecimentos
relacionados a grandes fatalidades, acarretando na perda de vidas
e prejuízos de empresas que estavam ou não diretamente ligadas
àquele empreendimento. Portanto, este trabalho tem como objetivo
estudar os motivos pelos quais ocorrem desastres em estruturas
metálicas e de concreto armado e como poderiam ter sido evitados ou
solucionados ao se ter conhecimento dos motivos causadores através
de estudos de caso. Foram analisados dois casos de desastres, por
motivos distintos, um no Brasil e um na Polônia. No primeiro, um
erro de projeto e de manutenção ocasionou o desabamento da coberta
da estrutura. Já no segundo caso, uma das vigas da varanda teve a
armadura completamente corroída por uma falha de manutenção e
possivelmente de execução.

Palavras-Chave: Engenheiro Civil, Estrutura, Desastres.

1 Graduando em Engenharia Civil. E-mail: matheusvarelacavalcanti@gmail.com


2 Graduanda em Engenharia Civil. E-mail: erika_suyanef@live.com
3 Engenheiro Civil e Doutor em Engenharia Mecânica. Professor do Curso de Engenharia Civil do Unipê.
Professor do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da UFPB. E-mail: sobrinhojr@hotmail.com
4 Engenheiro Civil (UFPB). Doutor em Ciência e Engenharia de Materiais (UFRN).
E-mail: dartarios@yahoo.com.br

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 273


INTRODUÇÃO
O ato de construir nos permite o desenvolvimento de obras
importantes que afetam diretamente e indiretamente a economia de
uma região, através da criação de moradias, praças, academias, bancos,
supermercados, entre outros. Entretanto construir é mais do que empilhar
tijolos, construção é executar um projeto previamente elaborado e acima de
tudo criar espaços com alguma finalidade e o profissional responsável pela
execução e fiscalização desse projeto é o engenheiro civil.
É função do engenheiro civil projetar, gerenciar e executar obras
como casas, prédios, pontes, viadutos, estradas e barragens. Ele acompanha
todas as etapas de uma construção ou reforma, da análise do solo e da
ventilação do local até a definição dos tipos de fundação e os acabamentos.
Especifica as redes de instalações elétricas, hidráulicas e de saneamento
do edifício e define o material a ser usado. Chefia as equipes de trabalho,
supervisiona prazos, custos, padrões de qualidade e de segurança. Cabe a
ele garantir a estabilidade e a segurança da edificação, calculando todos os
possíveis efeitos causados na mesma.
Todavia, nem sempre a estabilidade e a segurança da edificação são
garantidos, ocasionando patologias. Falta de conhecimento, erros de cálculo
ou de projeto, má fiscalização da execução, pressa, são alguns dos erros que
engenheiros acabam cometendo e comprometendo a saúde da obra.
Com a saúde comprometida, podem-se ocorrer desastres. Esses
desastres podem causar danos ao patrimônio pessoal ou até mesmo à vida
de cidadãos inocentes. É importante, então, descobrir onde e de quem foi o
erro, para que pessoas indevidas não sejam punidas.
Não são só os grandes acidentes que trazem lições a serem bem
aprendidas pelos profissionais. As pequenas imperfeições, os pequenos
equívocos, as pequenas desatenções, sejam elas nos projetos, nas técnicas
de construção, nos materiais empregados, no controle da execução, no seu
uso durante sua vida útil, podem estar na origem de graves anomalias, e
grandes prejuízos (CUNHA et al, 1996).
Portanto, é interessante estudar os motivos pelos quais ocorrem
desastres em estruturas metálicas e de concreto armado e como poderiam
ter sido evitados ou solucionados ao se ter conhecimento dos motivos
causadores através de estudos de caso.

METODOLOGIA
A metodologia utilizada para a elaboração deste trabalho foi
constituída por uma revisão bibliográfica através da leitura de trabalhos
acadêmicos, artigos técnicos, monografias e livros, tendo como principal
ênfase fazer um estudo dos desastres ocorridos nas estruturas de aço e
concreto armado no mundo.
A partir desses dados, utilizando-se de gráficos e tabelas, será
feita uma relação entre as causas e a ocorrência delas em desastres.
Além disso, serão realizados alguns estudos de caso, um nacional
e um internacional, em que serão analisadas outras possíveis causas
dos desastres e sugeridas possíveis soluções para que este tivesse sido
solucionado, e consequentemente, evitado.

274 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


REFERENCIAL TEÓRICO

ESTRUTURA
De acordo com Hibbeler (2013), estrutura é um sistema composto
por elementos conectados que têm o objetivo de suportar uma determinada
carga. Além disso, Carvalho (2015) afirma que estrutura é o elemento
da construção responsável por resistir aos diferentes tipos de ações com
intuito de assegurar a estabilidade das edificações. Portanto, estruturas são
definidas como sendo elementos que tem a finalidade de suportar algum
tipo de carregamento e garantir o equilíbrio da construção.
Toda estrutura é composta por elementos estruturais, como
tirantes, vigas, colunas, lajes e etc. O conjunto destes é conhecido como
sistema estrutural.
O estudo da interação entre os elementos estruturais e os
esforços internos é conhecido como análise estrutural. Para projetar
uma estrutura o engenheiro deve realizar uma análise estrutural que
relacione as forças internas e os deslocamentos nos elementos estruturais
devido às cargas atuantes. Portanto, é de suma importância o engenheiro
tomar conhecimento de todos os esforços atuantes para que os elementos
estruturais sejam dimensionados de forma segura e econômica.
Os materiais construtivos mais conhecidos são madeira, aço
e concreto armado. A seguir, serão estudadas as estruturas compostas
pelos dois mais utilizados, são elas as estruturas de concreto armado e as
estruturas metálicas.

CONCRETO ARMADO
O concreto armado é um material novo, tanto que os sistemas
construtivos mais usuais até o final do século XIX eram estruturas de
madeira e alvenaria de pedras. (CARVALHO, 2008).
De acordo com Botelho (2013), os romanos, para conseguir
vencer grandes vãos com o uso da pedra, que embora fosse durável e resistia
bem a esforços de compressão não conseguia vencer grandes vãos devido a
tração na parte inferior a qual não era resistente (ver fig. 1), desenvolveram
uma estratagema, o uso de arcos, permitindo assim que cada peça de pedra
pudesse trabalhar apenas sob compressão (ver fig. 2).

Figura 1- A carga na parte superior da pedra gera


esforço de tração na parte inferior.

Fonte: BOTELHO, 2013

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 275


Figura 2- Múltiplos arcos eram utilizados, de forma
que todos os elementos trabalhassem sob com-
pressão e assim pudessem vencer grandes vãos.

Fonte: BOTELHO, 2013

O material composto de água, cimento e agregados é denominado


concreto. O problema é que o concreto tem a mesma deficiência da pedra,
citada acima, não consegue resistir à tração. O uso de múltiplos arcos
era a única solução para vencer grandes vãos mas o processo era difícil,
devido a tecnologia da época. Então surge a idéia: por que não usar uma
mistura de um material bom para compressão na parte comprimida e um
bom para tração na parte tracionada? Isso permitiria mais simplicidade nas
construções. Essa é a idéia do concreto armado e devido a sua facilidade é
utilizado até nos dias de hoje e é regulamentado pela NBR 6118:2014.
Segundo Carvalho (2015), o concreto armado, como todo e
qualquer outro material, apresenta vantagens quanto ao seu uso estrutural,
entre elas: apresenta boa resistência à maioria das solicitações, tem boa
trabalhabilidade, as técnicas de execução são razoavelmente dominadas
em todo o país, apresenta durabilidade e resistência ao fogo superiores
em relação à madeira e ao aço, possibilita a utilização da pré-moldagem,
proporcionando maior rapidez e facilidade de execução, é resistente a
choques e vibrações, efeitos térmicos, atmosféricos e desgastes mecânicos. As
principais desvantagens são: resulta em elementos com maiores dimensões
que o aço, o que, com seu peso específico elevado, acarreta em peso próprio
muito grande, limitando seu uso em determinadas situações ou elevando
bastante seu custo, as reformas e adaptações são, muitas vezes, de difícil
execução, é bom condutor de calor e som, exigindo, em casos específicos,
associação com outros materiais para sanar esses problemas, são necessários
um sistema de fôrmas e a utilização de escoramentos (quanto não se faz uso
da pré-moldagem) que geralmente precisam permanecer no local até que o
concreto alcance resistência adequada.

METÁLICAS
A primeira aparição do ferro se deu em aproximadamente 6 mil
anos a.C., em civilizações como Egito, Babilônia e Índia. O material era
considerado nobre, devido à sua raridade, sendo seu uso limitado a fins
militares ou como efeitos de estética nas construções. (BELLEI, 2008).

276 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


Porém, de acordo com Chamberlain et al (2013), o ferro só
começou a ser usado em escala industrial em meados do século XIX,
devido a Revolução Industrial na Europa. Um dos marcos das aplicações
em edifícios foi a construção do Palácio de Cristal, em 1851, em Londres,
com um sistema de fabricação e montagem muito próximo ao atual nas
construções metálicas.

Prosseguindo, Coelho (2011), afirma que:


Desde o século XVIII, quando se iniciou a utilização
de estruturas metálicas na construção civil até os
dias atuais, o aço tem possibilitado aos arquitetos,
engenheiros e construtores, soluções arrojadas,
eficientes e de alta qualidade. Das primeiras obras
- como a Ponte Ironbridge na Inglaterra, de 1779
- aos ultramodernos edifícios que se multiplicaram
pelas grandes cidades, a arquitetura em aço sempre
esteve associada à idéia de modernidade, inovação e
vanguarda, traduzida em obras de grande expressão
arquitetônica e que invariavelmente traziam o aço
aparente.

No que diz respeito ao Brasil, Chamberlain et al (2013), aponta


que o Brasil deu início ao uso do aço no fim do século XIX, porém, como
não haviam indústrias siderúrgicas, importavam-se grandes quantidades de
componentes de ferrovias da Inglaterra. Entre as duas grandes guerras, em
consequência da paralisação das importações, tornou-se necessário começar
o processo de criação e desenvolvimento das siderúrgicas nacionais.
Com a expansão do uso de novas tecnologias na construção
civil, o aço tem se destacado e redescoberto pelos projetistas que procuram
tomar proveito de suas vantagens. Atualmente, o maior mercado para o
aço dentro da construção civil se encontra na construção de prédios
industriais e de shopping centers devido às suas características de estética,
de industrialização e rapidez, e em alguns casos, à sua elevada capacidade de
carga. (CASTRO, 1999).

Chaves (2007), acrescenta que:


O processo para construções em estruturas em aço se
destaca, pois o aço tem uma maior resistência mecânica
se comparada a outros materiais. É um dos processos
construtivos mais velozes e é o que suporta os maiores
vãos. Por isso são muito utilizados principalmente em
indústrias e supermercados que precisam de grandes
vãos e velocidade na execução e também é bastante
utilizado em ginásios, pavilhões, telhados, torres,
guindastes, escadas, passarelas, pontes, garagens,
hangares, depósitos, lojas entre outros.
Segundo Chamberlain et al (2013), a utilização de estruturas de
aço atribuem as seguintes vantagens: alta resistência à diferentes estados

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 277


de tensão, redução das solicitações nas fundações, aumento da área útil,
redução do tempo de montagem, flexibilidade e agilidade. Porém, também
há certas desvantagens a serem consideradas, sendo elas: dependendo do
planejamento da obras, pode custar mais caro que uma estrutura de concreto
equivalente, exige mão de obra altamente especializada, em algumas regiões,
às vezes é difícil encontrar determinados aços e perfis, muitas regiões do
Brasil não têm tradição em utilizar estruturas de aço, necessita de mercado
de componentes desenvolvido, viabiliza somente elementos lineares, para
lajes necessita da associação com concreto.

DESASTRES NA CONSTRUÇÃO CIVIL


Os desastres são acontecimentos súbitos, imprevistos ou
extraordinários, que provocam prejuízos severos na vida das pessoas,
afetando, de alguma forma, suas funções na sociedade. Na construção civil,
quando se fala em desastres, geralmente, são acontecimentos relacionados a
grandes fatalidades, acarretando na perda de vidas e prejuízos de empresas
que estavam ou não diretamente ligadas àquele empreendimento.
Os sinistros na engenharia civil ocorrem por diversos motivos,
dentre eles, pode-se destacar, os erros de projetos e de execução, causados
devido à ganância, desconhecimento, negligência e pressa de alguns
profissionais desta área. Além disso, estes problemas também são acarretados
devido à condições adversas, tais como mudança de uso, alterações das
condições locais, obras vizinhas, ação do tempo e do meio ambiente, e tantas
outras situações que podem, em determinado instante, alterar as condições
de estabilidade de uma edificação. (MARCELLI, 2007).
Segundo Cánovas (1988), quando ocorrem acidentes catastróficos,
como prédios que vão a ruina, não são obedecidos apenas uma origem
agindo por si só, mas sim várias que juntamente acabam levando a estrutura
ao colapso. Não é difícil encontrar estruturas nas quais foi cometido
grandes erros em qualquer uma das etapas e mesmo assim não apresentam
grandes danos. De modo contrário, poderia ser encontrado estruturas que
apresentem grandes danos que acarretam na redução da durabilidade e
resistência mecânica, mas que sua causa é proveniente de erros ou falhas
menores, mas quando atuam de maneira conjunta, superpões seus efeitos e
trazem graves consequências.

VIDA ÚTIL, DESEMEPNHO, DURABILIDADE E MANUTENÇÃO


A vida útil de um determinado material é o período pelo qual
suas propriedades permanecem acima do limite mínimo especificado. É
importante tomar conhecimento a respeito da vida útil, pois é fundamental,
principalmente, para confecção de programas de manutenção adequados e
mais próximos da realidade da obra. (SOUZA ; RIPPER, 1998)
A NBR 15.575 -1 (ABNT, 2013) define desempenho como sendo o
comportamento em uso de uma edificação e de seus sistemas. Vale salientar,
que mesmo quando existem programas de manutenção bem definidos, as
estruturas e seus materiais ainda são passíveis de deterioração. O ponto que
cada estrutura atinge seu nível de desempenho insatisfatório varia de acordo
com seu tipo e algumas delas já iniciam sua vida útil de forma inadequada,

278 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


enquanto outras chegam ao final de suas vidas com bom desempenho.
Porém, apresentar desempenho insatisfatório não necessariamente condena
a estrutura, pois pode haver imediata intervenção técnica de forma que
ainda seja possível sua reabilitação.
A durabilidade é entendida como sendo o produto da interação
entre a estrutura, o ambiente e as condições gerais de uso, como manutenção
e operação, determinando então a vida útil da construção. É importante
mencionar que uma mesma estrutura pode possuir diferentes funções
de durabilidade no tempo, de acordo com seus diversos elementos, até
dependendo da forma de utilizá-la. (HELENE, 2001)
De acordo com Souza e Ripper (1998), a manutenção de uma
estrutura é o conjunto de rotinas que têm como finalidade a extensão
da vida útil da obra, a um custo viável, garantindo o seu desempenho. É
responsabilidade dos usuários arcar com o custo da manutenção concebida
pelos projetistas.

PATOLOGIAS EM GERAL
Patologia é definida como sendo a área da Engenharia que procura
estudar os sintomas, o mecanismo, as causas e as origens provenientes dos
defeitos das construções civis, ou seja, é o estudo das partes que compõem o
diagnóstico do problema. (HELENE, 1988)
Souza e Ripper (1998) afirmam que a Patologia das Estruturas
não consistem em apenas um novo campo no que diz respeito a identificação e
conhecimento das anomalias, mas também referente à concepção e ao projeto
das estruturas, e, mais amplamente, à própria formação do engenheiro civil.
O que ocorre é que todo o aprendizado da engenheira de estruturas tem
sido feito, em nível de projeto e execução, através da abordagem das serem
construídas.
Em estruturas de aço e de concreto armado, as patologias mais
comuns ocorrem devido a diversos fatores sendo, as principais, as falhas
humanas durante a concepção do projeto, durante a execução e durante a
fase de utilização.

RESULTADOS E DISCUSSÕES
Caso I: Sala de exposições em Katowice, Polônia

 Descrição do caso
Durante a Feira Internacional de Katowice, na Pôlonia, o teto
de uma das salas de exposições entrou em colapso em 28 de Janeiro 2006,
acarretando em 65 mortes e mais de 170 feridos.

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 279


Figura 3 – Telhado em ruínas da sala de exposições em Katowice, Polônia.

Fonte: WIKISPACES, 2016.

No dia da catástrofe, a neve no topo do telhado estava duas


vezes maior do que o esperado em projeto. O telhado do local já havia
demostrado sinais de que não era capaz de suportar o peso da neve antes do
evento, porém devido a negligência dos organizadores o evento prosseguiu,
acarretando neste desastre.

Descrição do sinistro
O teto ruiu em dois eixos adjacentes, acarretando no deslizamento
da estrutura e apenas a viga principal dos dois outros eixos se mantiveram
na coluna. Também houveram danos nas partes superiores das colunas ao
passo que eles não estavam conectados corretamente aos outros elementos
estruturais. As paredes externas foram tombadas no sentido interno da
edificação assim que a parte central ruiu. O sistema estava instável com a
viga principal distorcida, porém ainda engastada ao pilar que a apoiava. A
viga principal desabou com o colapso da parte inferior, causando a queda da
outra viga principal como pode ser vista na figura 4.

280 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


Figura 4 – Vigas principais que sustentavam o teto.

Fonte: WIKISPACE, 2016.

O Wikispace (2016) relata que este edifício foi projetado com uma
série de erros durante a elaboração do projeto, tanto na resolução das cargas
quanto nas ligações entre os elementos estruturais, pois esta edificação não
previa o movimento da estrutura, afinal as ligações não estavam engastadas.
Além disso, a estrutura não foi capaz de resistir a quantidade enorme de
neve depositada naquele dia, sendo o dobro do que o projeto havia previsto.
De acordo com Chmielewski e Kozminski (2014), o projetista
enfatizou a construtora que a utilização adequada do edifício era que em
caso de presença de neve no telhado, os usuários teriam de removê-la
adequadamente, para que não houvesse acumulo de neve podendo acarretar
em colapsos.

Problemas encontrados
• Erro de projeto: Carga de neve não prevista;
• Falta de manutenção.
Análise de possíveis prevenções
O dimensionamento da estrutura foi insuficiente, os elementos
estruturais não foram conectados corretamente para distribuir a carga.
Haviam cargas horizontais bastante elevadas nos pilares, devido falhas
na construção, as vigas não eram resistentes o suficiente para suportar a
carga horizontal e o topo dos pilares estavam inacabados, portanto eles não
estavam conectados aos outros elementos como uma estrutura monolítica.
Este acidente poderia ter sido evitado ao se engastar o teto à estrutura,
evitando cargas horizontais acima do normal, o que causou altíssimas
torsões nas vigas principais, e também adequando a construção correta

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 281


das colunas principais para suportar a carga. Além disso, deveria ter sido
removida, periodicamente, a neve do telhado.

Caso II: Varanda do Edifício Versailles em Fortaleza, Ceará

Descrição do caso
O desabamento da laje da varanda do segundo pavimento do
edifício Versailles, localizado na cidade de Fortaleza - CE ocorreu no dia 2
de março de 2015, deixando dois funcionários mortos e um ferido.
Figura 5 – Vista frontal da varanda sinistrada.

Fonte: CREA – CE, 2015.

O edifício continha 07 pavimentos, sendo um apartamento por


andar e havia sido construído em 1984, totalizando uma área construída de
3.017,40 m².

Descrição do sinistro
De acordo com o relatório do laudo técnico do CREA – CE (2015),
o colapso estrutural da varanda do Edifício Versailes teve como causa o
rompimento de uma das vigas de concreto armado da fachada que serve de
sustentação da varanda, totalmente destruída pela corrosão da armadura
principal, devido às infiltrações de águas pluviais e água de manutenção
das plantas, ocasionado também pela ineficiência das impermeabilizações da
jardineira de fachadas.

282 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


Figura 6 – Detalhe das armaduras oxidadas da viga da varanda.

Fonte: CREA – CE, 2015.

Com a corrosão da armadura principal, o aço deteriorado no


interior do concreto, não possuía mais capacidade de suporte e sustentação
da carga da varanda, acarretando o seu colapso estrutural.

Problemas encontrados
• Falta de manutenção e conservação da estrutura;
• Erro de execução devido a ineficiência das impermeabiliza-
ções, causando a oxidação na armadura;
Análise de soluções
O laudo técnico alega que houve a falta de manutenção e
conservação da estrutura da edificação. Deste modo, ainda relata que deve
ser contratado um engenheiro civil com especialidade em cálculo estrutural
para a avaliação da estrutura e realização de projetos de escoramentos e de
recuperação/reforço.

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 283


Figura 7 – Vista lateral da jardineira da varanda.

Fonte: CREA – CE, 2015.

Diferentemente do laudo, acredita-se que também houve erro de


execução. Afinal, foi encontrado indícios de falhas na impermeabilização das
jardineiras de fachadas, o que por si só, já justificaria, a longo prazo, na
corrosão da armadura.

Figura 8 – Detalhe da armadura oxidada da


viga de sustentação da varanda.

Fonte: CREA – CE, 2015.

Deste modo, conclui-se que para ter sido evitado deveria ter
ocorrido vistorias técnicas de engenheiros especializados durante a
construção para um melhor controle dos serviços executados. Além disso,
também deveriam ter sido realizadas inspenções períodicas preventivas,
afim de detectar manifestações patológicas na estrutura.

284 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


Diante do ocorrido, a solução adequada é tratar a armadura
corroída com o auxilio de técnicas de recuperação e reforço das armaduras,
através do conhecimento de engenheiros especializados. Além disso,
identificar possíveis problemas de impermeabilização em outras áreas e
realizar o reforço estrutural necessário.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Deste modo, é constatado que é de suma importância estudar
os motivos pelos quais ocorrem desastres em estruturas metálicas e de
concreto armado e como poderiam ter sido evitados ou solucionados ao se
ter conhecimento dos motivos causadores, pois toda a experiência adquirida
será determinante para resolução de, possíveis, futuros problemas.
Diante dos resultados, constata-se portanto, que um dos erros
principais é realizado ainda na fase de concepção do projeto, por diversos
motivos, ou por falta de atenção, ou por ganância, ou por falta da experiência
técnica do engenheiro responsável.

REFERÊNCIAS
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS ( ABNT). NBR
15.575-1: Edificações habitacionais - desempenho. Parte 1: Requisitos
gerais. Rio de Janeiro, 2013.

BELLEI, lldony H.; PINHO, Fernando O.; PINHO, Mauro O. Edifícios de


múltiplos andares em aço. 2. ed. - São Paulo: Pini, 2008.

BOTELHO, Manoel H.C.; MARCHETTI, Osvaldemar. Concreto Armado,


eu te amo. 7.ed. São Paulo: Blucher, 2013. v.1.

CÁNOVAS, M. F. Patologia e Terapia do Concreto Armado. São Paulo: Ed.


Pini, 1988. 522 p. Tradução de M. C. Marcondes; C. W. F. dos Santos; B.
Cannabrava.

CARVALHO, João D. N. Sobre as origens e desenvolvimento do concreto.


Revista Tecnológica, v. 17, p. 19-28, 2008.

CARVALHO, Roberto C.; FIGUEIREDO FILHO, Jasson Rodrigues.


Cálculo e detalhamento de estruturas usuais de concreto armado: segundo
a NBR 6118:2014. 4. ed. São Carlos: EdUFSCar, 2015. 415 p.

CASTRO, Eduardo M. C. Patologia dos edifícios em estrutura metálica.


Ouro Preto - MG, 1999. 202 p. Dissertação (Mestrado) - Departamento de
Engenharia Civil - Escola de Minas da Universidade Federal de Ouro Preto.

CHAVES, M. R. Avaliação do desempenho de soluções estruturais para


galpões industriais leves. Ouro Preto, 2007.

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 285


COELHO, Roberto de Araújo. Apostila do Curso “Sistemas Complementares
para Edifícios em Estruturas Metálicas”. FUPAM/FAU-USP, 2011.

CONSELHO REGIONAL DE ENGENHARIA E AGRONOMIA DO


CEARÁ. Laudo técnico: varanda do 2º pavimento condomínio Versailles.
Fortaleza, 2015.

CUNHA, Albino J. P.; SOUZA, Vicente C.M.; LIMA, Nelson A. Acidentes


estruturais na construção civil. São Paulo: Pini, 1996.v.1.

HELENE, Paulo Roberto Lago. Introdução da vida útil no projeto das


estruturas de concreto. In: WORKSHOP SOBRE DURABILIDADE DAS
CONSTRUÇÕES. São José dos Campos, 2001.

HELENE, Paulo Roberto Lago. Patologia do concreto: roteiro de palestra.


São Paulo: EPUSP, 1988, 29p.

HIBBELER, R. C. Análise das estruturas. São Paulo: Pearson Education do


Brasil, 2013.

MARCELLI, Mauricio. Sinistros na construção civil: causas e soluções para


danos e prejuízos em obras. São Paulo: Pini, 2007.

PRAVIA, Zacarias M.C.; FICANHA, Ricardo; FABEANE, Ricardo. Projeto


e cálculo de estruturas de aço: Edifício industrial detalhado. – Rio de Janeiro:
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SOUZA, Vicente Custódio de; RIPPER, Thomaz. Patologia, recuperação e


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WIKISPACE. Trade Hall Roof Collapse. Site. Disponível


em: < https://failures.wikispaces.com/Katowice,+Poland+-
+Trade+Hall+Roof+Collapse> Acesso em: 20 out. 2016.

286 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


CAPÍTULO 21

REUTILIZAÇÃO DE ARGAMASSA
ESTABILIZADA: ESTUDO DE CASO
Carlos Maviael de Carvalho1, Eloiza Ramalho Montenegro Soares2, José Ferreira
Pereira Júnior3, Lívia Maria de Medeiros Martins4, Rafaela Benicio Mendes5.

RESUMO
A Paraíba vem se destacando no cenário nordestino dentro do
segmento da construção civil como uma das capitais que mais tem
expandido neste setor, sendo responsável por uma grande geração
de resíduos. A maioria das construtoras não apresentam projetos
que tratem de forma adequada os resíduos gerados no processo
construtivo, sendo assim estes acabam sendo depositados em lixões
ou levados para aterros sanitários da cidade. O presente trabalho
tem por objetivo principal avaliar o reuso de argamassa estabilizada
como uma solução sustentável, transformando-a, durante o processo
construtivo, em agregado miúdo o qual poderá ser utilizado em
diversas aplicações, entre elas elaboração do traço de chapisco e
contrapiso. Para evidências do trabalho, realizou-se a verificação dos
materiais através do teste de absorção, conforme a NBR 9778/2009
Argamassa e concreto endurecidos -Determinação da absorção
de água, índice de vazios e massa específica e para analisar sua
resistência mecânica foram utilizados parâmetros estabelecidos pela
NBR 13279/2005 no qual moldou-se 16 corpos de prova prismáticos,
sendo 8 corpos para chapisco e 8 para contrapiso, os quais foram
rompidos de forma mecânica após 7 e 14 dias. Constatou-se neste
estudo que a areia da obra poderá ser substituída completamente
pela argamassa estabilizada a qual gera grandes benefícios nas
suas propriedades físico-mecânicas, além de reduzir consumo de
um recurso não renovável e assim diminuir os impactos ambientais
gerados na construção civil.

Palavras-Chave: Argamassa estabilizada. Reaproveitamento.


resistência mecânica e teste de absorção.

1 Professor do curso de Engenharia Civil do Unipê. Doutorando em Engenharia dos Materiais (UFPB).
E-mail: maviael.mcarvalho@gmail.com
2 Graduanda do curso de Engenharia Civil do Unipê. E-mail: eloizaramalho@hotmail.com
3 Graduando do curso de Engenharia Civil do Unipê. E-mail: juniorferreiraeng@gmail.com
4 Graduanda do curso de Engenharia Civil do Unipê. E-mail: liviamariamm@gmail.com
5 Graduanda do curso de Engenharia Civil do Unipê. E-mail: rafabenicio@hotmail.com

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 287


INTRODUÇÃO
Desde a Revolução Industrial, observa-se um constante
crescimento econômico do mundo. Porém é algo inegável que os resultados
desse crescimento econômico devido a um avanço tecnológico muito grande
colocaram o Planeta Terra em uma posição desfavorável em relação aos
impactos ambientais decorrentes das atividades produtivas, mobilizando as
empresas a buscarem cada vez mais as alternativas sustentáveis.
Diante do exposto, uma das maiores dificuldades encontradas no
cenário atual da construção civil é a destinação dos resíduos, geralmente
tratados de forma inadequada, como matéria-prima e insumos. O
reaproveitamento dos mesmos aparece como questão fundamental na
melhoria do meio ambiente, tanto em função da redução de desperdícios
de materiais, quanto na minimização dos impactos ambientais oriundos da
disposição final dos resíduos.
A legislação ambiental brasileira tem passado a exigir das
empresas maior responsabilidade, como forma de eliminar os impactos
ambientais decorrentes das atividades relacionadas à geração, transporte e
destinação desses materiais.
A Paraíba vem se destacando no cenário nordestino dentro do
segmento da construção civil como uma das capitais que mais tem expandido
neste setor, sendo responsável por uma grande geração de resíduos. A
maioria das construtoras não apresentam projetos que tratem de forma
adequada os resíduos gerados no processo construtivo, sendo assim estes
acabam sendo depositados em lixões ou levados para aterros sanitários da
cidade (SINDUSCON, 2016).
A prefeitura municipal de João Pessoa (PMJP) instituiu através
da Lei Nº 11.176 ( JOÃO PESSOA, 2007), o Sistema de Gestão Sustentável
de resíduos da construção civil e demolição e o Plano Integrado de
gerenciamento de resíduos da construção civil e demolição.
Com a expansão atual do desenvolvimento sustentável, cada vez
mais, as empresas têm buscado práticas relacionadas à otimização do uso
dos recursos ambientais em suas atividades e a diminuição do seu impacto
no meio ambiente, uma vez que, a sociedade como todo vem adquirindo
preceitos de responsabilidade social.
O presente trabalho visa avaliar à implantação do reuso de
argamassa estabilizada como uma solução sustentável, já que o desperdício
dos materiais em geral está na ordem de 30% e o uso dessa nova tecnologia
alinhada à durabilidade, a economia e o desempenho do material.
O estudo de caso tem como objetivo o reaproveitamento da
argamassa, transformando-a, durante o processo construtivo, em agregado
miúdo o qual poderá ser utilizado em diversas aplicações, entre elas a
elaboração do traço de chapisco e contrapiso.
Baseado nesta estratégia, uma construtora do Nordeste, com
empreendimentos na Paraíba e no Rio Grande do Norte, tem buscado,
soluções que reduzam a perda de material no canteiro de obra, fazendo
assim o reaproveitamento do mesmo. Para o estudo de caso, foi escolhida
uma obra vertical residencial localizada na cidade de João Pessoa capital da
Paraíba, no Bairro dos Estados.

288 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


MATERIAIS E MÉTODOS

PROCEDIMENTOS
Os materiais empregados no reaproveitamento da argamassa
estabilizada, foram os seguintes:

Cimento Portland
Foi utilizado o cimento Portland tipo CP II- Z, fabricado pela
CIMPOR. O cimento foi condicionado em sacos plásticos devidamente
fechados e posto em locais adequados para não haver uma hidratação prévia.
A justificativa para a escolha deste tipo de cimento reside no fato de conter
material pozolânico, o qual torna a argamassa mais impermeável e por isso
mais durável.

Agregado miúdo
Foi utilizado como agregado miúdo areia e argamassa estabilizada
peneirada, promovendo o retardo do início da pega e permitindo que as
características e propriedades se mantenham por um período de tempo maior.

Água
Foi utilizada água potável proveniente do sistema de
abastecimento da referida obra.
O resíduo foi coletado in loco e manualmente, proveniente dos
restos das argamassas estabilizada de revestimento da fachada, onde a maior
quantidade se acumulava na bandeja de proteção coletiva.
O material inicialmente armazenado no subsolo da obra passou
por um processo coleta seletivo, onde foram descartados todos e quaisquer
materiais que não fossem ser reutilizados nesse processo, tais como: restos
de EVA, madeira, papelão, plástico, etc, conforme a figura abaixo (Figura 1).
Figura 1- Armazenamento do material na obra.

Fonte: Autor, 2016.

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 289


A argamassa estabilizada proveniente do desperdício seguiu para
o procedimento em uma peneira rotativa mecânica (Figura 2), com malha
de #5mm, na qual todo o material que passou pela peneira foi reaproveitado,
na ordem de 75%, como agregado miúdo e o restante seguiu para a usina de
beneficiamento da empresa Atrevida/Ambiental.

Figura 2- Peneiramento da argamassa estabilizada.

(a)
Fonte: Autor, 2016.

Após o processo de peneiramento, a argamassa estabilizada foi


colocada na betoneira e misturada junto com água e cimento para elaboração
do traço do chapisco e contrapiso.

ANÁLISE DOS DADOS


Durante o processo da produção do traço, várias composições
foram testadas in loco, e após análise técnica corporativa observou-se que
o traço que melhor atendeu as necessidades de trabalhabilidade e retenção
de água foi aquele que apresentava maior percentual de substituição,
conduzindo-nos assim ao maior teor de resíduos incorporados, razão
pela qual houve a substituição total da areia pela argamassa estabilizada,
com a manutenção das propriedades mecânicas (Figura 3 (a), (b)).

290 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


Figura 3 - (a) Argamassa estabilizada no traço do chapisco

Fonte: Autor, 2016.

No entanto, o padrão selecionado pela empresa foi o traço


unitário em massa de 1.00:2.00:0.90 (cimento/argamassa beneficiada/
água) utilizado como argamassa para chapisco, e 1.00:3.00:0.50 (cimento/
argamassa beneficiada/água) para o traço unitário em massa para utilizado
como contrapiso. Para verificar sua resistência mecânica foram utilizados
parâmetros estabelecidos pela NBR 13279/2005 no qual moldou-se
16 corpos de prova prismáticos, sendo 8 corpos para chapisco e 8 para
contrapiso. Após este procedimento os corpos de prova foram submersos
em água, para haver a cura do material. No dia seguinte, colocaram-se os
mesmos em estufa durante 24 horas, em seguida realizou-se o capeamento
de dois corpos de prova, os quais foram rompidos de forma mecânica após
7 e 14 dias.
Tais traços apresentam um consumo zero de areia natural, isto
faz com que este estudo esteja mais que alinhado com os anseios da sociedade
atual, visto que a areia é uma matéria prima não renovável.
O processo de reaproveitamento deste material é feito segundo
o fluxograma a seguir.

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 291


Figura 4 - Fluxograma: o processo de reaproveitamento
da argamassa estabilizada.

Fonte: Autor, 2016.

RESULTADOS E DISCUSSÕES
Para evidências do trabalho foi feito a verificação dos materiais
através da análise de absorção onde os corpos de provas são secos em estufas
e pesados para determinar a massa da amostra, após isso, submersos em
água durantes 3 dias e realizou-se uma nova pesagem para concluir o teste
de absorção, conforme a NBR 9778 ( ABNT, /2009) - Argamassa e concreto
endurecidos -Determinação da absorção de água, índice de vazios e massa
específica. Os resultados estão expostos abaixo (Tabela 1).

Tabela 1- Distribuição dos resultados obtidos no LABEME


Material Peso Seco(g) Peso úmido(g) Absorção (%)
Chapisco 328,5 353,6 7,1
Contrapiso 329,2 353,5 6,87
Fonte: Autor,2016.

De acordo com os resultados obtidos, o teste de absorção revelou


que o chapisco apresentou um maior teor de absorção de água do que o
contrapiso, correspondendo ao esperado visto que o fator água/cimento no
traço do chapisco é maior (Gráfico 1)

292 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


Gráfico 1- Distribuição dos resultados do teste de absorção

Fonte: Autor, 2016.

A resistência à compressão foi calculada de acordo com o que


a NBR 13279/2005 prescreve, através do ensaio em corpos de prova
cilíndricos de 5 cm de diâmetro e 10 cm de altura. Obteve-se com 7 dias
uma resistência de compressão de 6,7 MPa para chapisco e 4,1 MPa para
contrapiso. Aos 14 dias os valores encontrados foram 8,6 MPa para chapisco
e 4,7 Mpa para contrapiso (Figura 7 e Gráfico 2).

Figura 5 - Ensaio de resistência à compressão.

Fonte: Autor, 2016.

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 293


Gráfico 2 – Distribuição dos resultados do ensaio de
resistência à compressão

Fonte: Autor, 2016.

Após a ruptura dos corpos de prova percebeu-se que o chapisco


obteve uma resistência à compressão maior. Segundo a NBR 131281
(ABNT, 2005) essa argamassa apresenta uma classificação do tipo P5, ou
seja, este material proporciona uma boa resistência.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Constatou-se nos resultados obtidos que a reutilização
da argamassa estabilizada apresentou resultados positivos nas suas
propriedades físico-mecânicas onde todos os resultados estão de acordo com
as especificações técnicas das normas da ABNT.
Através deste estudo, conseguiu-se um material que reduziu
o consumo desse recurso não renovável que é a areia, uma vez que se
conseguiu a substituição total do agregado miúdo no traço do chapisco e
contrapiso pela argamassa estabilizada beneficiada. Mitigando assim os
danos causados ao meio ambiente e trazendo economia para a empresa,
alcançando os objetivos propostos pela pesquisa.
As substituições de agregados naturais por resíduos de argamassa
estabilizada devem ocorrer em proporções controladas por volume. A resistência
à compressão ficou de acordo com a estabelecida na NBR 13279( ABNT,2005).
Para pesquisas futuras é interessante utilizar os resíduos de
argamassa estabilizada para o desenvolvimento de novos compósitos
cimentícios destinados ao mercado da construção.

REFERÊNCIAS
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS (ABNT). NBR
131281:. argamassa para assentamento e revestimento de paredes e tetos-
requisitos. Rio de Janeiro, 2005.

294 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


______. NBR 9778: argamassa e concretos endurecidos- Determinação da
absorção de água, índice de vazios e massa específica. Rio de Janeiro, 2009.
______. NBR 13279: argamassa para assentamento e revestimento de
paredes e tetos- determinação da resistência à compressão simples- Método
de Ensaio. Rio de Janeiro, 2005.

______. NBR 7215: cimento portland – determinação da resistência à


compressão. Rio de Janeiro, 1997..

______. NBR 1004: resíduos sólidos – classificação. Rio de Janeiro, 2004..

BRASIL. Ministério do Meio Ambiente. Conselho Nacional do Meio


Ambiente ( CONAMA). Resolução no 307, de 05 de julho de 2002.
Estabelece diretrizes, critérios e procedimentos para a gestão dos resíduos
da construção civil. Diário Oficial da República Federativa do Brasil,
Brasília, DF, n. 136, p. 95-96 , 17 jul. 2002. Seção 1.

INSTITUTO BRASILEIRO DO CONCRETO. ARGAMASSA


ESTABILIZADA (IBRACON).. Disponível em: <http://www.ibracon.org.
br/eventos/53cbc/pdfs/ARGAMASSA_ESTABILIZADA.pdf>. Acesso
em: 15 set. 2016.

JOÃO PESSOA (Município). Lei nº 11.176, de 10 de outubro de 2007.


Resíduos da construção civil. Institui o sistema de gestão sustentável
de resíduos da construção civil e demolição e o plano integrado de
gerenciamento de resíduos da construção civil e demolição de acordo com
o CONAMA Nº 307, de 50 de julho de 2002, e dá outras providências.
Legislação do Município de João Pessoa, PB. Disponível em: <http://
www.joaopessoa.pb.gov.br/portal/wp-content/uploads/2015/02/Lei-
Municipal-n_-11.176-2007-Residuos-da-Construcao-Civil.pdf ?4028d8 >.
Acesso em: 28 set. 2016.

OLIVEIRA, D. F. Contribuição ao estudo da durabilidadede blocos de


concreto produzidos com a utilização de entulho da construção civil.
Tese (Doutorado). Universidade Federal de Campina Grande/PB. Campina
Grande/PB, 2004.

SINDICATO DA INDÚSTRIA DA CONSTRUÇÃO CIVIL DE JOÃO


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Acesso em : 30 out. 2016.

SOUZA, J. Estudo da durabilidade de argamassas utilizando cinzas


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Grande. Campina Grande/PB, 2008.

VIANA, K. Metodologia simplificada de gerenciamento de resíduos


sólidos em canteiros de obras. Tese ( Doutorado). Universidade Federal
da Paraíba. João Pessoa, 2009.

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 295


CAPÍTULO 22
.

ANÁLISE DO PROCESSO DE
DEGRADAÇÃO AMBIENTAL EM POMBAL-
PB UTILIZANDO SENSORIAMENTO
REMOTO
Lucivânia Rangel de Araújo Medeiros1, Valéria Peixoto Borges2.

RESUMO
No Estado da Paraíba, dois terços da área total do Estado
correspondem ao ecossistema Caatinga, bioma que é frágil e vulnerável
à desertificação. Um instrumento que tem sido amplamente utilizado
para fazer o levantamento e reconhecimento de áreas em processo
de desertificação é o sensoriamento remoto. O objetivo do presente
trabalho foi analisar e mapear a evolução do processo de degradação
do município de Pombal entre os anos de 1985, 1995, 2006 e 2009
por meio do estudo do Albedo. Em boa parte do município, os valores
de albedo aumentaram com o decorrer dos anos, evidenciando além
da expansão urbana, o crescimento da degradação da vegetação
natural e o aumento de áreas de solo exposto, fenômenos inerentes ao
processo de degradação.

Palavras-Chave: Degradação. Sensoriamento Remoto. Albedo.

1 Engenheira Ambiental e Mestre em Engenharia Civil e Ambiental. E-mail: lucivaniarangel@gmail.com


2 Engenheira Agrônoma, Mestre em Ciências Agrárias e Doutora em Meteorologia.
E-mail: valpborges@gmail.com

296 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


INTRODUÇÃO
O meio ambiente oferece todos os recursos utilizados nas
atividades humanas, sendo de vital importância para a manutenção da vida.
Nas últimas décadas a literatura acadêmica e mesmo os noticiários vêm
destacando a celeridade do processo de degradação do meio ambiente, o que
é, sem dúvida, uma informação alarmante e negativa para todas as espécies
do planeta. (MAY; LUSTOSA, 2003).
Um grave problema ambiental, amplamente discutido nos últimos
anos é a desertificação, que pode ser definida através do capítulo 12 da agenda
21 do United Nations Conference on Environment and Development (UNCED),
como: “a degradação de terras em áreas áridas, semi- áridas e subúmidas secas,
resultante de vários fatores, incluindo variações e atividades humanas”. A
degradação da terra corresponde à degradação dos solos, dos recursos hídricos,
da vegetação e da biodiversidade. A degradação está ligada diretamente à
redução da qualidade de vida das populações afetadas pelo conjunto combinado
desses fatores (PROGRAMA DE AÇÃO, 2004).
Um instrumento que tem sido amplamente utilizado para fazer
o levantamento e reconhecimento de áreas em processo de desertificação
é o sensoriamento remoto. Essa tecnologia permite a realização de
levantamentos da superfície a custos relativamente baixos, comparado
a outras tecnologias, apresentando uma relevante importância em
consequência do seu enfoque espacial, intrínseco e multitemporal, podendo
suprir em longo prazo e longa escala observações necessárias para detectar
os processos de degradação ambiental. (LOPES, et al., 2005).
O sensoriamento remoto nos auxilia a entender a situação da área
estudada, identificando antecipadamente a tendência de desenvolvimento do
fenômeno da desertificação através do monitoramento de vários parâmetros
de superfície, sobretudo nos fornece dados para pesquisa sobre mecanismos
internos, processos atuais e diferenças no tempo e no espaço do processo em
questão (SUN WU, 2000; LOPES, et al. , 2005).
Portanto, esta pesquisa teve como objetivo principal analisar
e mapear a evolução do processo de degradação no município de Pombal
entre os anos de 1985, 1995, 2006 e 2009 por meio do estudo do Albedo
no referido período, gerados a partir de imagens TM – Landsat5. O estudo
em questão proporcionou analisar a evolução do processo de desertificação
através do parâmetro físico Albedo, além disso, identificando as principais
áreas dentro do município que estão com os maiores níveis de degradação e
aquelas que devem ser preservadas ou recuperadas.

MATERIAIS E MÉTODOS

LOCALIZAÇÃO E CARACTERIZAÇÃO DA ÁREA DE ESTUDO


O município de Pombal, localizado no estado da Paraíba
(06º46’13” de latitude S, 37º48’06’’ de longitude W, altitude média de 184m),
possui uma área de 889,7 km² e está inserido na mesorregião do Sertão
Paraibano na microrregião de Sousa, como pode-se conferir na Figura 01.

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 297


Figura 1- Localização de Pombal em relação ao estado da Paraíba

Fonte: Elaboração Própria

Os solos presentes no município de Pombal são basicamente


os Luvissolos Crômicos, Neossolos Litólicos e os Neossolos Flúvicos
(EMBRAPA, 2009). A vegetação predominante da área é a caatinga
hiperxerófila (ARRUDA, 2001). O clima do município é do tipo Tropical
Semiárido, com chuvas de verão. O período chuvoso se inicia em novembro
com término em abril (MASCARENHAS et al., 2005). A precipitação média
anual é de 719,7 mm (AESA, 2013).

IMAGENS DE SATÉLITE
As imagens de satélite utilizadas foram geradas pelo Mapeador
Temático do satélite Landsat 5 (TM - Landsat 5), na órbita 216 e ponto
65, adquiridas do Serviço Geológico Americano (USGS) através do site:
http://earthexplorer.usgs.gov/. Quatro imagens geradas nas seguintes
datas foram aplicadas no estudo: 18 de novembro de 1985 (dia do ano - DDA
322), 11 de setembro de 1995 (DDA 254), 25 de setembro de 2006 (DDA
268) e 03 de novembro de 2009 (DDA 307).
Estas datas foram selecionadas em função da inexistência de
cobertura de nuvens na área de estudo e do período de interesse que é o de
estiagem no município, as imagens não podem ser no período de precipitação
já que a chuva deixa a vegetação exuberante, mascarando os resultados da
degradação.
O satélite Landsat 5 tem resolução temporal de 16 dias. O sensor
TM mede a radiância espectral dos alvos e armazena-os na forma de níveis
de cinza, ou número digital (ND), cujos valores variam de 0 a 255 (8 bits),
tendo uma resolução espacial de 30 m x 30 m nas bandas 1, 2, 3, 4, 5 e 7, e
resolução de 120 m x 120 m no canal termal, banda 6. As características de
cada banda do TM - Landsat 5 estão apresentadas na Tabela 1.

298 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


Tabela 1- Bandas do Mapeador Temático (TM) do Landsat 5, com os
correspondentes intervalos de comprimento de onda, coeficientes de
calibração e irradiâncias espectrais no topo da atmosfera

Bandas Compri- Coeficientes de calibração Irra-


mento de (W m-2 sr-1 μm-1 ) diância
espectral
Onda (μm) no topo
da at-
Grescale Brescale mosfera
(W m-2
μm-1)
1985 1985 2006 2006
1995 1995 2009 2009
1- Azul 0,45 – 0,52 0.602431 -1.52 0.762824 -1.52 1957,0
2- Verde 0,53 – 0,61 1.175100 -2.84 1.442510 -2.84 1826,0
3-Vermelho 0,62 – 0,69 0.805765 -1.17 1.039880 -1.17 1554,0
4-IV 0.814549 -1.51 0.872588 -1.51
0,78 – 0,79 1036,0
próximo
5-IV médio 1,57 – 1,78 0.108078 -0.37 0.119882 -0.37 215,0
6-IV termal 10,4 – 12,5 0.055158 1.2378 0.055158 1.2378 -
7-IV médio 2,10 – 2,35 0.056980 -0.15 0.065294 -0.15 80,67
Fonte: CHANDER et al., 2007
Todo processamento das imagens foi realizado com o software
ERDAS Imagine 9.1, da Leica Geosystems. Inicialmente as bandas foram
empilhadas, seguindo a ordem crescente, formando um único arquivo de
imagem. O recorte da área de interesse foi feito a partir um arquivo vetorial
do limite do município de Pombal, o mesmo recorte foi mantido para todas
as imagens.

OBTENÇÃO E APLICAÇÃO DO ALBEDO


É necessário fazer a calibração radiométrica de cada banda, ou
seja, a conversão dos dados armazenados em números digitais (DN) para
radiância monocromática (Lλi). A radiância monocromática compreende
a radiação solar refletida (bandas 1, 2, 3, 4, 5 e 7) ou emitida (banda 6)
por unidade de ângulo sólido, de comprimento de onda e de elemento de
área projetada na direção do sensor. No cálculo utiliza-se os coeficientes de
calibração da Tabela 1, seguindo a equação 1 de Markham e Baker (1987):

(1)

onde a e b - irradiâncias espectrais mínima e máxima, Grescale


e Brescale (Wm-2 sr-1 μm-1) conforme Tabela 01, ND - número digital ou

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 299


intensidade do pixel (número inteiro de 0 a 255) e i corresponde as bandas
espectrais (1, 2, 3,.. e 7) do satélite.
As equações 2 a 5, apresentadas a seguir, compreendem as
etapas para obtenção do albedo da superfície. A partir da irradiância,
calcula-se a reflectância espectral planetária (ρλi), que representa a
razão entre o fluxo de radiação solar refletida e o fluxo de radiação solar
incidente para cada canal do satélite. A determinação da reflectância
pode ser realizada aplicando-se a equação 2 (BASTIAANSSEN, 1995):

(2)

em que: Lλi- irradiância espectral de cada banda; Kλi- irradiância


solar espectral de cada banda no topo da atmosfera; Z - ângulo zenital
solar obtido por meio do cabeçalho das imagens adquiridas e dr- inverso do
quadrado da distância relativa Terra-Sol (Allen et al., 1998).
O cálculo do albedo no topo da atmosfera foi feito através de uma
combinação linear das reflectâncias espectrais (ρλi) e o respectivo coeficiente
de ponderação para cada banda (ωλ) de acordo com Bastiaanssen (1995),
sendo descrito nas equações 3 e 4:
(3)

(4)
Em que Kb - irradiância solar espectral média de cada banda no
topo da atmosfera (W m-2µm-1). Valores de ωλ são apresentados na Tabela
2 para cada banda.

Tabela 2- Coeficientes de ponderação para o cálculo do albedo no topo da


atmosfera, para o sensor TM - Landsat5

Banda 1 2 3 4 5 6 7
0,
ωλ 0, 293 0, 274 0, 233 0, 157
033
- 0, 011

Fonte: BASTIAANSSEN, 1995.

Para obtenção do albedo na superfície é necessário corrigir as atenuações


atmosféricas, segundo a equação 5 e 6 proposta por Bastiaanssen, (1995):

(5)

(6)

300 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


Em que αtoa - albedo no topo da atmosfera; αp - porção média da
radiação solar refletida pela atmosfera na direção do satélite, cujo valor
varia entre 0,025 e 0,04; e τsw é a transmissividade atmosférica determinada
segundo Allen et al. (1998), onde A representa a altitude local. Na aplicação
do algoritmo SEBAL é recomendado o valor 0,03 para αp (BASTIAANSSEN,
2000).

ANÁLISE DO PROCESSO DE DESERTIFICAÇÃO


A partir dos produtos gerados pelas imagens Landsat, foram
gerados mapas com classes de albedo que possibilitaram o diagnóstico da
evolução do processo de degradação no município de Pombal nos últimos
vinte quatro anos. As regiões no município foram classificadas em três
aspectos: Áreas degradadas; áreas em processo de degradação e áreas não
degradadas.

FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
As regiões áridas, semiáridas e subúmidas secas representam
cerca de 51.720.000 km2, ou seja, 33% da superfície terrestre. Tendo em vista
42% da população vivem nela, é necessário que se dê uma maior atenção ao
processo de desertificação, com foco, principalmente nas formas de evitar
e mitigar os seus efeitos. O processo em questão vem sendo acelerado a
cada ano. Estima-se que 24 bilhões de toneladas da camada arável do solo
sejam perdidas por ano, afetando de forma negativa a produção agrícola e
o desenvolvimento sustentável das regiões impactadas (MATALLO, 2001;
PAN-Brasil, 2004).
Quanto mais seca a região mais susceptível é o local à desertificação.
O índice de aridez é um fator climático que pode identificar as Áreas Susceptíveis
à Desertificação (ASD), embora este critério, apenas, não seja suficiente para
identificar as áreas de riscos. Esta susceptibilidade pode variar de muito alta até
moderada, as áreas que estão dentro desse índice de aridez são conhecidas como
“terras secas” (MATALLO; SCHENKEL, 1999).
Lillesand e Kiefer (1987) afirmam que o sensoriamento remoto
pode ser definido como “a ciência e arte de receber informações sobre
um objeto, uma área ou fenômeno pela análise dos dados obtidos de uma
maneira tal que não haja contato direto com este”. Imagens de satélites e
de radar e fotografias aéreas são exemplos de produtos gerados a partir de
dispositivos remotamente sensoriados.
As técnicas de sensoriamento remoto envolvem quatro elementos
fundamentais: a fonte de radiação eletromagnética, a atmosfera, o alvo e o
sensor.
Os diversos alvos da superfície terrestre absorvem uma
quantidade característica do espectro eletromagnético, devido às diferentes
propriedades bio-físico-químicas que cada um traz consigo, permitindo
desta forma, uma assinatura identificável de radiação eletromagnética. Em
consequência dessa característica, ou seja, do conhecimento do comprimento
de onda que é absorvido por cada alvo em conjunto com a informação da
intensidade de sua reflectância, é que torna-se possível analisar uma imagem

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 301


de sensoriamento remoto. Desta forma, através da “assinatura espectral”
de cada alvo que o sensoriamento remoto consegue distinguir os diversos
materiais (SUITS, 1983; STAR; ESTES, 1990).
Os papéis de técnicas espaciais no monitoramento e no
mapeamento da desertificação têm sido examinados durante décadas por
muitos pesquisadores. As imagens de satélites em conjunto com as bases de
dados locais e mapas são usadas para examinar e quantificar a natureza, a
tendência e o processo de desertificação em diferentes ambientes (LOPES
et al., 2005).
Essas técnicas são interessantes no estudo da desertificação pela
possibilidade de oferecer uma análise em escala espacial e temporal desses
processos (COSTA et al., 2002). As informações que podem ser produzidas
com base nos dados dessa tecnologia oferecem suporte para a tomada de
decisões, tais como medidas de prevenção e recuperação.
A avaliação, a quantificação de risco e o monitoramento da
desertificação podem ser dados a partir de parâmetros biofísicos como
índices de vegetação e físicos, como albedo, dentre outros parâmetros
obtidos em imagens orbitais (LOPES et al., 2005).
O albedo é consequência da razão entre a radiação refletida
e a radiação incidente. O mesmo pode ser determinado para cada faixa
espectral, podendo citar: global (0,3 a 3,0 μm); radiação fotossinteticamente
ativa (0,4 a 0,7 μm) e infravermelha (0,7 a 3,0 μm) (BEZERRA, 2004; DI
PACE, 2004).
O albedo da superfície varia fortemente dependendo do tipo e
das condições dos materiais existentes na superfície. Pode-se obter desde
valores muito baixos, como 5%, para oceanos sob condições de vento leve, a
muito altos, a exemplo de 90% para neve seca e fresca (SILVA, 2009).
Em se tratando do albedo em coberturas vegetais, seu resultado
irá depender diretamente da cobertura do solo e das condições fisiológicas
da copa das plantas. O albedo em superfícies vegetadas com folhas de um
único tipo e sem muitos espaços vazios são maiores do que as superfícies que
apresentam características inversas (SILVA, 2009).
Quanto ao comportamento do albedo nos solos, Hartmann (1994)
afirma que o solo seco apresenta um maior albedo de que os úmidos e uma
superfície lisa têm maior albedo do que a rugosa. Este comportamento se
deve ao fato da variabilidade de absorção da radiação solar pelas superfícies,
a qual afeta também na temperatura dos solos (SILVA, 2009).

RESULTADOS E DISCUSSÃO
O bioma caatinga responde de forma rápida à presença ou falta
de chuvas. A Tabela 03 apresenta os dados pluviométricos do município de
Pombal disponibilizados pela Agência Executiva de Gestão das Águas do
Estado da Paraíba (AESA) servindo para dar embasamento na análise dos
índices de Albedo e NDVI.
Uma ressalta a ser feita são os valores pluviométricos do ano
de 1985. Nessa época os dados foram coletados pela Superintendência do
Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE), e para o município de Pombal
esta entidade não apresenta nenhum dado pluviométrico. Desta forma,
utilizou-se o município de Coremas-PB, que fica a 29,92 km de Pombal,

302 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


como base de referência para a região em estudo. A média pluviométrica de
Coremas é 880,6 mm (AESA, 2013), entretanto, verifica-se que no ano de
1985 o total de chuvas foi muito superior (1837 mm), o que infere que este
ano foi de grande índice pluviométrico na região.
Em se tratando de uma pesquisa com período relativamente
curto, e com diferença pluviométrica entre os anos, a variação no albedo será
esclarecida pelos dados pluviométricos apresentados na Tabela 03 e pelas
mudanças ocorridas na cobertura do solo. Estudos realizados através da
variação do albedo em decorrência de chuvas foram realizado no Nordeste
do Canadá e Nordeste do Brasil, respectivamente, por Wang; Davidson
(2007) e Chaves et al. (2009).
Tabela 3- Dados pluviométricos do Município de Coremas (1985)
e Pombal (1995, 2006 e 2009), Paraíba
Dados pluviométricos mensais (mm)
Ano: 1985 1995 2006 2009
Jan. 222,5 17,6 2,3 92,3
Fev 323,8 62,4 373,8 200,4
Mar. 341,6 291,2 215,7 159,4
Abr. 504,4 234,6 213,5 397,1
Mai. 189,6 257,6 127,5 218,3
Jun 127,0 31,2 21,9 91,3
Jul. 20,5 61,2 7,8 28,6
Mês: Ago. 20,4 0,0 9,1 102,0
Set. 1,6 0,0 0,0 0,0
Out. 0,0 6,0 5,3 0,0
Nov 1,6 28,4 0,0 0,0
Dez. 84,7 0,0 0,0 36,5
Totais (mm): 1837,7 990,2 976,9 1325,9
Fonte: Agência Executiva de Gestão das Águas do
Estado da Paraíba (AESA)
Percebe-se que praticamente todo mapa de 1985 (Figura 2) está
em tons esverdeados, tanto claros como escuros, representando a presença de
vegetação nessas áreas. O albedo com intervalo entre 0,15-0,20 caracteriza uma
vegetação caatinga aberta e/ou solo exposto. Os valores de albedo entre 0,10-
0,15 simulam uma vegetação arbustiva mais densa, esse resultado podendo ser
explicado pelo período chuvoso que o ano analisado aferiu.
O que mais chama atenção nesse mapa são os pixels no tom
amarelo claro (albedo= 0,20-0,25) que começam a surgir próximo as
margens do rio Piancó, região central do mapa, representando a retirada da
vegetação pela população. Consequentemente, o valor do albedo aumentou
na área analisada em função da expansão do solo exposto.

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 303


Figura 2 - Mapa do albedo do município de Pombal- PB para o ano de 1985

Fonte: Elaboração Própria

Esses valores de albedo estão bem próximos dos trabalhos


realizado por Chaves et al. (2009) na bacia do Forquilha, Ceará e por Lopes
et al. (2010), na Bacia do Rio Brígida no Oeste do Pernambuco.
Á área do município de Pombal, como foi dito anteriormente, é
de 889,7km2, desse total, as classes que mais destacaram foram 04; 05 e 06,
apresentando respectivamente uma área de 79,0 km2; 526,7 km2 e 270,1 km2.
No ano de 1995 (Figura 03), percebe-se que a cor verde claro
(albedo= 0,15-0,20) é a que predomina no mapa, indicando uma área de
vegetação de caatinga aberta. Os pixels em tons de verde escuro (albedo
0,10-0,15) também se destacam, representando uma área de vegetação
densa na porção noroeste do município em análise. As classes que se
destacaram neste ano também foram 4, 5 e 6. Observou-se um aumento
na área da classe 4, a qual passou a dominar 140,8 km2. Estes pixels,
representados pela cor amarela (albedo 0,20-0,25), são muito presentes ao
longo do rio Piancó, caracterizando solo exposto através da ação antrópica
na área analisada, ou seja, houve um avanço no desmatamento nas faixas
marginais do rio para uso do solo, provavelmente para a agricultura.
Desta forma, os valores no albedo aumentaram na área em estudo.

304 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


Figura 3- Mapa do albedo do município de Pombal- PB para o ano de 1995.

Fonte: Elaboração Própria

Outra justificativa para esses valores de albedo foi a má


distribuição da precipitação pluviométrica ao longo do ano de 1995, se
observamos o mês que a imagem foi capturada, setembro, e os meses que
o antecedem, a precipitação atingiu valores bem baixos, apesar do total de
chuva anual ser 990,2 mm, considerado que esse valor está acima da média
pluviométrica do município.
Na pesquisa da bacia de drenagem do açude Soledade, localizada
na microrregião do Curimataú Ocidental do estado da Paraíba, realizada
por Silva et al. (2007) o albedo para área cultivada apresentou um valor de
0,2. Nas áreas de vegetação rala, vegetação aberta e vegetação mais densa,
o albedo foi de 0,22, 0,18 e 0,13, respectivamente. Todos esses valores estão
análogos à pesquisa em questão.
Os valores encontrados estão também de acordo com os
reportados por Oliveira et al. (2009) para o estudo da bacia do rio Moxotó,
no semiárido nordestino. As áreas com atividades antrópicas apresentaram
valores de albedo variando entre 0,20-0,25 enquanto que, que as áreas com
valores no albedo entre 0,10 e 0,20 eram com presença de vegetação.
Na imagem seguinte, a do ano de 2006 (Figura 04), há um aumento
perceptível do albedo da cena como todo, destacando-se os pixels nas cores
amarelo claro (albedo=0,20-0,25) e laranja (0,25-0,30), sendo esta última
representante de áreas de solo exposto, provavelmente retratando áreas
urbanas. As classes 04 (258,8km2), 05 (517,5 km2) e 06 (79,9km2) continuam
predominando no mapa. O destaque vai para a classe 3, que torna-se perceptível
especialmente no perímetro urbano do município e totalizou 27 km2.

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 305


Figura 4- Mapa do albedo do município de Pombal- PB para o ano de 2006.

Fonte: Fonte: Elaboração Própria

O aumento do albedo da superfície em 2006 pode ser explicado


tanto pela baixa pluviosidade deste ano, registrando a menor precipitação
total anual (976,9mm) dos anos analisados, quanto pelas características
inerentes da vegetação de caatinga, a qual deixa cair sua folhagem no período
de estiagem. Outro fator que pode justificar os altos valores no albedo foi a
intensificação da exploração agrícola sem um manejo adequando nos anos
que antecederam essa imagem, e a expansão da área urbana, sendo bem
definida no mapa pelos pixels de tom laranja (albedo= 0,25-0,30).
Esses valores de albedo estão de acordo Silva et al. (2010) que
pesquisou as alterações climáticas decorrentes de mudanças do uso da
terra na Bacia do rio Jaguaribe, Ceará, e encontraram albedo entre 0,16 e
0,18 para as áreas de vegetação na Fazenda Frutacor. Nas margens do rio
Jaguaribe a variação no albedo foi de 0,22–0,26 para áreas agrícolas, mais
especificamente plantações de melão.
Oliveira et al. (2012), registraram valores no albedo entre 0,23-
0,28 para as áreas urbanas dos municípios que integram os limites da Bacia
do Rio Tapacurá, sub‑bacia do rio Capibaribe, PE. Tais resultados estão bem
próximos aos encontrados para as áreas urbanas da análise do município de
Pombal (albedo=0,25-0,30).
No mapa de albedo do ano de 2009 (Figura 5), os pixels nos tons
verde claro (albedo= 0,15-0,20) são os que mais se destacam, representando
uma vegetação de caatinga aberta. A cor verde escuro, caracterizando uma
vegetação densa (albedo=0,10-0,15), está bem evidente na porção noroeste
da área analisada. Esta classe apresentou considerável crescimento,
aumento sua área em 302,6 km2. A cor amarelo claro (albedo=0,20-0,25),
que representa, conforme discutido acima áreas de solo exposto e/ou
vegetação rala, teve uma considerável redução nesse ano. Do total de 258,8
km2 apenas permaneceram 52,7km2. Contudo, os pixels no tom laranja
(albedo=0,25-0,30) ainda estão em destaque no mapa, representando bem
as áreas urbanas do município de Pombal (2,7 km2).

306 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


Figura 5- Mapa do albedo do município de Pombal- PB para o ano de 2009

Fonte: Elaboração Própria

O valor do albedo é inversamente proporcional ao da vegetação.


Desta forma, as áreas vegetadas aumentaram e as de solo exposto diminuíram,
resultando na redução do valor do albedo da cena como um todo.
Esses valores podem ser justificados devido ao índice
pluviométrico total (1325,9 mm/ano) e a distribuição das chuvas no ano
analisado, este sendo considerado um ano atípico para o Nordeste brasileiro.
A alta pluviosidade afetou o comportamento do albedo da superfície, em
consequência de que após um evento chuvoso há redução da radiação
refletida pelo solo e, no caso da Caatinga, aumentam o índice de área foliar
da vegetação. Portanto, não se pode afirmar, pela diminuição da reflectância
da superfície, que o processo de degradação ambiental do município de
Pombal reduziu.
Rodrigues et al. (2009) apresentaram na estação seca, para bacia
do Trussu-CE, albedo de 0,10 a 0,15 para áreas de cobertura vegetal nos
pontos de maior elevação. A segunda maior porção, aproximadamente
40,16% do território da bacia, demonstrou valores de albedo entre 0,15
e 0,20, representando a vegetação típica da área (caatinga); e os valores
de albedos variando de 0,26 a 0,36 caracterizaram áreas desprotegidas,
tipicamente encontradas em regiões semiáridas.
Na pesquisa de Souza et al. (2012) realizada na Chapada do
Araripe, PE, o valor médio do albedo para caatinga degradada foi de 0,16
durante o período chuvoso. Este resultado é correlato aos valores de albedo
que mais se destacam na nossa área de estudo no ano de 2009, o qual foi
de chuvas acima da média. Portanto, este resultado pode apontar para uma
condição de vegetação sofrendo processo de degradação.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Em decorrência da redução da vegetação entre o ano de 1985 e o
de 2006, pode-se inferir que a degradação do solo localizado no município
de Pombal-PB é crescente. As áreas próximas ao rio Piancó foram as que
sofreram maior impacto com a supressão da cobertura vegetal, uma vez que

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 307


o rio contribui para o adensamento populacional e exploração dos recursos
naturais. Se não houver uma mudança no hábito da população essas áreas
se tornarão improdutivas, dessa forma, torna-se necessário uma fiscalização
mais eficiente das mesmas por parte do Poder Público e da sociedade, tendo
em vista que as matas ciliares são áreas de proteção permanente.

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310 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


CAPÍTULO 23

PRÁTICAS DE RACIONALIZAÇÃO
CONSTRUTIVA EM EDIFICAÇÕES
VERTICAIS DA GRANDE JOÃO PESSOA
Mirela Oliveira Medeiros1, Antônio da Silva Sobrinho Júnior2.

RESUMO
O modelo de construção tradicional ainda utiliza processos
construtivos essencialmente manuais que geram perdas consideráveis.
Portanto, quanto maior for a perda existente em um projeto
(empreendimento), maior será o custo do empreendimento e menor
será o lucro da empresa construtora/incorporadora. A construção
racionalizada apresenta-se como solução para reformulação dos
processos construtivos tradicionais, tornando-se indispensável à
sobrevivência da indústria da construção. Este capítulo apresenta
alguns dos resultados de um trabalho de conclusão de curso que se
propôs a identificar e analisar as práticas de racionalização construtiva
nas edificações verticais da grande João Pessoa. O objetivo do trabalho,
além de divulgar os resultados da pesquisa, é servir como referencial
para pesquisas correlatas e, principalmente, servir como subsídio
para a tomada de decisões por parte das empresas construtoras.
Com o auxílio de um questionário aplicado nos canteiros de obras,
17 construtoras atuantes em João Pessoa foram analisadas. Pode-se
constatar que 53% das empresas pesquisas utilizam processos de
racionalização construtiva. A falta de conhecimento sobre o tema e
as dificuldades em se implementar novas técnicas são os motivos para
não implementam em suas obras a racionalização.

Palavras-Chave: Racionalização. Construção civil. João Pessoa.

1 Graduanda do Curso de Engenharia Civil do Unipê. E-mail: mirela.jpa@gmail.com


2 Engenheiro Civil e Doutor em Engenharia Mecânica. Professor do Curso de Engenharia Civil do Unipê.
Professor do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da UFPB. E-mail: sobrinhojr@hotmail.com

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 311


INTRODUÇÃO
A racionalização na construção busca a melhor utilização dos
recursos existentes em todas as etapas da obra. Ela está presente em novas
técnicas criadas com os recursos disponíveis nos canteiros de obras, através
de um conjunto de pequenas medidas para o aumento de produtividade e
qualidade, ou na substituição total de sistemas de construção tradicionais.
Para tanto, as metodologias da racionalização devem ser bem
empregadas com uma mudança organizacional dos processos tradicionais de
construção. No Brasil, a maioria dos edifícios são verticais em estrutura de
concreto armado moldados no local e vedação em blocos cerâmicos. Esse modelo
de construção ainda utiliza processos construtivos essencialmente manuais que
geram perdas consideráveis. Portanto, quanto maior for a perda existente em
um projeto (empreendimento), maior será o custo do empreendimento e menor
será o lucro da empresa construtora/incorporadora.
Com o aumento da concorrência do mercado da construção civil,
as empresas têm que buscar soluções para enfrentar os desafios relacionados
com a qualidade do produto, os custos de construção e o valor de venda
(MARQUES, 2013).
Thomaz (2011) destaca que as construtoras brasileiras como
regra geral ainda utilizam pouco dos recursos tecnológicos mais modernos,
entretanto a construção no pais está entrado numa nova fase, adotando
gradualmente processo construtivo de maior racionalidade, no intuito
de obter economia de insumos e redução do dispêndio de força física
pelos trabalhadores, e por consequência, a otimização da relação insumos
consumidos versus benefícios alcançados.
As construtoras brasileiras já sofreram na tentativa de trazer para
seu processo novas tecnologias. Isso aconteceu porque, depois de adquiri-las,
perceberam que não havia fornecedores aptos para a reposição de materiais
e operários qualificados (THOMAZ, 2001). As objeções encontradas pelas
empresas na adoção da racionalização nos processos construtiva também
são inerentes da carência de envolvimento da equipe integrante nas etapas
construtivas.
Providências na direção da racionalização podem ser empregadas
em diferentes etapas construtivas. Os sistemas tradicionais de construção
podem desenvolver dentro da sua realidade procedimentos e ferramentas
que buscam atender os conceitos de racionalização.
Este capítulo apresenta alguns dos resultados de um trabalho
de conclusão de curso que se propôs a identificar e analisar práticas de
racionalização construtiva nas edificações verticais da grande João Pessoa.
O objetivo do trabalho, além de divulgar os resultados da pesquisa,
é servir como referencial para pesquisas correlatas e, principalmente,
servir como subsídio para a tomada de decisões por parte das empresas
construtoras.

RACIONALIZAÇÃO EM CANTEIROS DE OBRAS


A construção civil racionalizada pode ser a alternativa para a
ampliação da produtividade nos processos, agilidade na execução, qualidade

312 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


do edifício e otimização dos custos (SOUZA et al., 2011). Com um processo
construtivo racionalizado pretende-se ter suas tarefas executadas somente
uma vez, com o mínimo de retrabalhos ou esperas.
Sabbatini (1989) afirma que a racionalização nada mais é que
uma ferramenta da industrialização, é um processo composto pelo conjunto
de todas as ações, que tenham por objetivo otimizar o uso de recursos
materiais, humanos, organizacionais, energéticos, tecnológicos, temporais e
financeiros disponíveis na construção em todas as suas fases.
O conceito de racionalização pode ser aplicado em todas as etapas
dos processos construtivos tradicionais, tais como:

Projeto: Através da compatibilização de projetos é possível prevenir falhas


devido a interferências entre projetos das diferentes disciplinas e minimizar
o retrabalho, reduzindo prazos de execução, desperdícios e custos. Do
estudo preliminar ao projeto executivo, ajustar as incompatibilidades entre
vários projetos, averiguar os ajustamentos necessárias, é primordial para
evitar problemas após a entrega da obra.

Canteiro de Obras: Elaboração de Projeto de Canteiro de Obras,


com a análise do layout e a logística do canteiro. Com a implantação da
racionalização através de métodos direcionados aos processos no canteiro
de obras, concentrando-se no planejamento e o controle na preparação e
organização do trabalho, permitirá o aumento da produtividade, redução
dos custos no deslocamento do material e melhoria do fluxo de informações
do canteiro de obras.

Estrutura: Racionalizar nesta etapa com a implantação e utilização de


sistemas totalmente ou parcialmente pré-fabricados, pode aumentar sua
produtividade e maximizar potencialmente os processos construtivos
adotados.

Alvenaria de vedação: Utilização da alvenaria racionalizada permite a


redução desperdícios e aumento da produtividade.

Revestimentos: As medidas que visam à racionalização construtiva


desenvolvendo metodologias aplicadas nos revestimentos de argamassa e
cerâmicos podem obter melhor desempenho na execução, menor desperdícios,
maior produtividade e menor incidência de problemas patológicos.

Instalações hidráulicas e elétricas: Kits hidráulicos e elétricos ajuda


a racionalização do processo executivo, facilita a sequência de etapas,
reduzindo as “horas improdutivas”, e ainda colabora para o melhor controle
dimensional da obra.

MATERIAIS E MÉTODOS
A pesquisa é classificada como exploratória, descritiva e
bibliográfica, com método de observação e análise de natureza quantitativa,
utilizada no intuito de avaliar a lógica que envolve os processos de
racionalização construtiva e seus efeitos/consequências para com os

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 313


aspectos sociais, e, principalmente, econômicos.
Foi realizado um levantamento junto ao Sindicato da Indústria
da Construção Civil de João Pessoa (SINDUSCON-JP) das construtoras
associadas, para posterior definição das empresas a serem pesquisadas. A
pesquisa foi realizada em dezessete empresas construtoras que aceitaram
participar. Todas as construtoras pesquisas possuíam canteiros de obra
ativos na grande João Pessoa, no momento da pesquisa.
A coleta de dados foi realizada através da aplicação, em campo
(canteiro de obras), de questionário, elaborado com base em pesquisa
bibliográfica referente ao tema de racionalização construtiva em trabalhos
acadêmicos, artigos e livros. Os referidos questionários foram aplicados junto
a gestores e trabalhadores que atuam nos canteiros de obra pesquisados. Essa
ferramenta buscou identificar os processos de racionalização construtiva já
utilizados nas obras pesquisadas e analisar os resultados que podem ser
obtidos com a utilização das mesmas.
Os dados obtidos foram tratados de forma quantitativa, utilizando-
se procedimentos estatísticos, e qualitativa, através da estruturação e
avaliação destes. Após a obtenção dos dados coletados, os mesmos foram
migrados para uma planilha construída no software Excel, da Microsoft,
com o intuito de se obter uma análise quanto aos processos de racionalização
construtiva utilizados pelas empresas construtoras da grande João Pessoa.

RESULTADOS E DISCUSSÃO
A seguir são apresentados análises e resultados da pesquisa,
oriundos da aplicação dos questionários e de registros fotográficos.

Perfil das empresas construtoras pesquisadas



Com relação ao tempo de atuação das 17 empresas construtoras
pesquisadas no mercado, a maioria (65%) atua há mais de 10 anos, porém,
há menos de 30 anos (Gráfico 1). As demais empresas pesquisadas estão no
mercado há menos de 8 anos (35%).

Gráfico 1 – Tempo de atuação das empresas construtoras no mercado

Fonte: Dados de pesquisa, 2016.

314 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


As 17 empresas construtoras pesquisadas foram denominadas
por letras do alfabeto, “Construtora A a Q”. Todas as empresas construtoras,
com exceção da Empresa Q, possuíam obras em andamento. Das empresas
pesquisadas 53% (9) possuíam obras na fase de Acabamento, 29% (5) na fase
de Estrutura e 12% na Fundação, apenas a empresa Q na fase de Finalização.
A Tabela 1 apresenta as principais características das empresas
pesquisas.

Tabela 1 - Caracterização das Empresas


Localização
Empresa Fase atual da Obra Sistema Construtivo
da Obra
A Manaíra Acabamento Estrutura Concreto Armado e
vedações blocos cerâmicos
B Cabo Branco Estrutura Estrutura Concreto Armado e
vedações blocos cerâmicos
C Bessa Estrutura Estrutura Concreto Armado e
vedações blocos cerâmicos
D Bessa Estrutura Estrutura Concreto Armado e
vedações blocos cerâmicos
E Bessa Acabamento Concreto Armado
F Jardim Luna Acabamento Estrutura Concreto Armado e
vedações blocos cerâmicos
G Altiplano Acabamento Alvenaria Estrutural
H Tambauzinho Acabamento Concreto Armado
I Tambaú Estrutura Estrutura Concreto Armado e
vedações blocos cerâmicos
J Bessa Acabamento Laje Nervurada/Vedação tra-
dicional
K Manaíra Fundação Parede de Concreto
L João Pessoa Fundação Estrutura Concreto Armado e
vedações blocos cerâmicos
M Portal do Sol Acabamento Alvenaria Estrutural
N Cabo Branco Acabamento Alvenaria Estrutural
O Altiplano Acabamento Lean Construction
P Jardim Luna Estrutura Estrutura Concreto Armado e
vedações blocos cerâmicos
Q Água Fria Finalizada Estrutura Concreto Armado e
vedações blocos cerâmicos
Fonte: Dados de pesquisa, 2016.

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 315


No que diz respeito ao número de funcionários das empresas
construtoras pesquisadas, a maioria (59%) possui entre 90 e 22 funcionários,
enquanto 4 (23%) possuem menos de 90 funcionários e três (18%) possuem
mais de 2 funcionários, como mostra a Gráfico 2.

Gráfico 2 – Classificação do porte das empresas


construtoras critério SEBRAE

Fonte: Dados de pesquisa, 2016.

Pela classificação do SEBRAE (Serviço Brasileiro e Apoio


às Micro e Pequenas Empresas), quanto ao número de funcionários, as
empresas pesquisadas são classificadas em pequeno porte (empresas B, C
e D), médio porte (empresas A, E, F, G, H, I, J, K, L e M) e grande porte
(empresas N, O, P e Q).

PRÁTICAS DE RACIONALIZAÇÃO CONSTRUTIVA


O levantamento dos dados que compõem esta pesquisa foi obtido
através de uso do questionário preenchido através de entrevistas com os
profissionais das obras, com auxílio da verificação visual e de registros
fotográficos das práticas racionalizadas (Figura 1).
A maioria (82%) dos profissionais pesquisados, das 17 empresas
construtoras que concordaram em participar da pesquisa, afirmaram
conhecer algum processo ou práticas de racionalização construtiva, com
exceção de três (empresas D, G e H) afirmam não conhecer ou não quiseram
responder sobre sua compreensão em relação as práticas de racionalização.
Constatou-se que 35% (06) das empresas pesquisadas não
utilizam processos de racionalização construtiva nas obras; 53% (09)
utilizam processos de racionalização (Figura 1) nos seus canteiros de obras,
tais como (a) paredes de concreto armado moldadas in loco, (b) alvenaria
racionalizada, (c) alvenaria estrutural, (d) kits porta pronta, hidráulicos e
elétricos, compatibilização de projetos, paginação de pisos, entre outros;
e 12% (02) das empresas não quiseram responder sobre a existência de
práticas de racionalização construtiva em seus canteiros.

316 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


Figura 1 - Registros fotográficos das práticas de racionalização
construtiva

(a) Paredes de concreto armado moldadas in loco

(b) Alvenaria racionalizada

(c) Alvenaria estrutural


Fonte: Dados de pesquisa, 2016.

A seguir, foram criados percentuais, com as principais respostas


analisadas referente a aplicação da racionalização construtiva nos canteiros
de obras pesquisados. Cada item da Gráfico 3 abaixo representa uma
pergunta do questionário.
Os questionamentos respondidos tinham como opções de
resposta: “SIM”, “NÃO” e “NS/NR” (não sabe ou não responde).

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 317


Gráfico 3 – Aplicação da racionalização construtiva no canteiro de obras.

Fonte: Dados de pesquisa, 2016.


Ao analisar a Gráfico 3, percebe-se que: com o uso das práticas de
racionalização é possível minimizar os desperdícios de materiais; otimizar
o processo produtivo e os custos das obras; garantir que o produto final
(edificação) terá maior qualidade; e racionalizar o tempo de execução e por
consequência o aumento de velocidade na execução.
Todos os profissionais entrevistados se mostraram comprometidos
e motivados em buscar aplicar práticas de racionalização construtivas em
seus respectivos ambientes de trabalho. Na maioria das empresas, 76% (13)
do total, o profissional mais entrevistado foi o Engenheiro Civil. Ressaltar-
se que é constatado que esses profissionais são recém-formados.
Todas as empresas que não utilizam em suas obras a racionalização
construtiva afirmam que o principal motivo é dificuldade em se implementar
novas técnicas, uma vez que a para utilizar se faz necessário uma mudança
organizacional dos processos tradicionais de construção e uma adequação
tecnológica.
Outros motivos indicados pelas construtoras que não
implementaram em suas obras a racionalização são: a falta de conhecimento
sobre o tema; inexistência de obrigatoriedade de sua utilização por parte do
poder público; falta de interesse; falta de recursos financeiros; e técnicas não
disseminadas na região.

RACIONALIZAÇÃO NA CONCEPÇÃO DA EDIFICAÇÃO


A maioria (65%) das empresas construtoras pesquisadas
afirmaram que a racionalização é contemplada desde a fase de projeto das
suas obras (Gráfico 4). Essas mesmas empresas (82%) também afirmaram
padronizar seus projetos.

318 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


Com relação compatibilização de projetos (Gráfico 4),
dez empresas (59%) afirmaram realizar os estudos necessários com
compatibilizar seus projetos. Na compatibilização, projetos de diferentes
disciplinas são sobrepostos de forma que as interferências entre eles sejam
encontradas e, assim, resolvidas.

Gráfico 4 - Racionalização na concepção da edificação

Fonte: Dados de pesquisa, 2016.

A compatibilização de projetos é fundamental para prevenir falhas


devido a interferências entre projetos das diferentes disciplinas e minimizar
o retrabalho, reduzindo prazos de execução, desperdícios e custos.

RACIONALIZAÇÃO X NORMA DE DESEMPENHO (NBR 15575)


Analisando os dados obtidos (Gráfico 5), percebe-se que 11
(64,71%) das empresas elaboram manual de uso, operação e manutenção
das edificações, de acordo com as normas NBR 14037( ABNT, 2011) e NBR
15575( ABNT, 2013)..
Essas normas estabelecem padrões quanto à eficiência de todos os
novos edifícios residenciais e sua elaboração visa contribuir para a modernização
tecnológica da construção brasileira e melhoria da qualidade das habitações.

Gráfico 5- Racionalização x Norma de Desempenho (NBR 15575)

Fonte: Dados de pesquisa, 2016.

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 319


A NBR 15575(ABNT, 2013). orienta que as empresas construtoras
devem realizar estudo de viabilidade na concepção do produto (Edificação).
No que diz respeito a viabilidade, 12 (70,59%) das construtoras pesquisadas
realizam analise de viabilidade do projeto com foco em relacionar a qualidade
e desempenho das edificações.
Vale salientar que analisando os resultados obtidos (Gráfico 5),
é possível identificar que os de processos de racionalização construtiva têm
contribuído para a qualidade e desempenho dessas edificações, tomando
como referencial a Norma de Desempenho para Edificações Habitacionais,
a NBR 15575 ( ABNT, 2013). A maioria das empresas pesquisas buscam
atender os requisitos exigidos nas referidas normas.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Conclui-se que a maioria das construtoras (53%) já aplicou
metodologias da racionalização construtiva em suas obras e que a sua
aplicação permite a melhor utilização dos recursos existentes em todas as
etapas da obra.
Ainda pôde-se verificar o aumento na velocidade de execução,
produtividade nos processos, qualidade do produto final e otimização dos
custos nas obras que fazem uso dos conceitos de racionalização construtiva.
O medo do novo ainda é o freio para o uso da racionalização
construtiva. Todas construtoras pesquisadas afirmaram não implementar
novas técnicas por ser um obstáculo, em razão da necessidade de mudança
organizacional dos processos tradicionais de construção.
Porem todos os profissionais entrevistados procuram conhecer e
na medida que for possível aplicar práticas com a filosofia da racionalização
construtivas em seus respectivos canteiros de obras.
Com esse resultado, se deduz que no momento o setor da
construção civil está vivendo uma tomada de consciência mais ampla sobre a
necessidade de construir de forma mais eficiente, com foco na racionalização
(redução de custos, otimização de sistemas, análise de viabilidade, etc).
A julgar-se pelo que se constata nos dados da pesquisa, de
forma geral, a NBR 15575:2013 vem contribuindo gradativamente para a
racionalização construtiva, 65% das empresas pesquisadas elaboram manual
do usuário, 70% realizaram análise de viabilidade do projeto em relação a
qualidade e desempenho das edificações.
Evidentemente este trabalho não pretende esgotar o assunto, pois
racionalização construtiva e a Norma de desempenho abrange de maneira
profunda o amplo espectro da arquitetura e da engenharia, que por sua vez
também estão em constante evolução.

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ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 321


CAPÍTULO 24
.

CONSERVAÇÃO DE ÁGUA EM CENTROS


DE ENSINO UNIVERSITÁRIOS: USO DE
TECNOLOGIAS ECONOMIZADORAS
Vânia Paiva Martins1, Maria Jacy Cajú do Egito2, Thaiane Rabelo Da Costa3,
Gedeão Costa Floriano dos Santos4, Julliana Caldas5.

RESUMO
A água, embora seja considerado o recurso natural mais presente no
planeta, tem se escasseado com o passar do tempo. A redução da água
para consumo, provocada por agentes distintos, é constante e, por
vezes, não percebida por todos. Tal ruído tende a ser notado apenas
quando já for tarde para agir. Nesse sentido, uma preocupação geral
e, em particular, no meio acadêmico passa a existir com relação a
ela. Assim, a temática da conservação da água em centros de ensino
universitário é uma necessidade para a sensibilização dos futuros
profissionais sobre o consumo consciente e eficiente deste recurso
natural. Esta pesquisa avalia o consumo com o uso de tecnologias
economizadoras e demonstra o impacto de redução ao substituir
os aparelhos convencionais pelos aparelhos redutores. Trata-se de
investigação teórica em que se procura entender a atual situação do
consumo de água em um bloco de uma instituição de ensino superior.
O estudo mostrou que havendo a substituição do sistema atual por
aparelhos economizadores em apenas um bloco da instituição, é
possível ter uma redução de 51,33% referente ao consumo de água.

Palavras-Chave: Água. Conservação. Tecnologias economizadoras.

1 Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente (PRODEMA) UFPB/ UEPB. Professora do Curso de


Engenharia Civil do Unipê. E-mail: vania.paiva@unipe.br
2 Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente (PRODEMA) UFPB/ UEPB. Professora do Curso de
Engenharia Civil do Unipê. E-mail: maria.jacy@unipe.br
3 Graduanda do Curso de Engenharia Civil do Unipê. E-mail: thaianerabelo13@gmail.com
4 Graduanda do Curso de Engenharia Civil do Unipê. E-mail: gedeaocosta@gmail.com
5 Graduanda do Curso de Engenharia Civil do Unipê. E-mail: jullianacaldas8@gmail.com

322 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


INTRODUÇÃO
A água é o recurso natural mais abundante do planeta Terra,
mas ao contrário do que se pensa é um recurso esgotável. Ela está presente
na vida de todos os seres que habitam o planeta. Porém, o recurso mais
fundamental para a vida na terra enfrenta uma crise de abastecimento.
Existem vários casos de regiões que seus habitantes vivem uma situação de
estresse hídrico e o quadro se agrava a cada ano. A preservação dos recursos
hídricos para as gerações futuras trata-se, portanto, de um grande desafio
da atualidade.
Diante desta situação alarmante, com previsão de aumento
gradativo da escassez de água no mundo, vê-se a obrigação de pensar em
alternativas para evitar o desperdício deste recurso natural e utilizá-lo da
maneira mais racional possível. Uma maneira de se alcançar esse uso racional
da água é utilizando tecnologias economizadoras de água. Estes aparelhos
utilizam uma tecnologia que funciona com vazão reduzida, evitando o
desperdício ocasionado pelo mau fechamento dos aparelhos convencionais.
O objetivo principal desta pesquisa é verificar a atual situação
do consumo de água referente a um dos Blocos de aula de uma instituição
de ensino, particularmente o bloco F, e da possível implementação de
dispositivos poupadores de água neste ambiente.
A presente temática é de extrema importância, pois além de
buscar sensibilizar sobre o uso da água a toda uma comunidade acadêmica
que cotidianamente usufrui desse bem precioso, traz contribuição para que
todos os envolvidos na área da Engenharia e afins possam compreender a
temática e passar a utilizar as tecnologias economizadoras.

METODOLOGIA
Este trabalho é uma pesquisa teórica com a finalidade de construir
um embasamento sobre a conservação da água em centros universitários
de ensino. O procedimento metodológico consistiu inicialmente na
fundamentação teórica com uma pesquisa bibliográfica sobre conservação
da água e as tecnologias economizadoras nos pontos de consumo através de
estudos e pesquisas sobre o assunto.
Em seguida, utilizando como estratégia de pesquisa o estudo de caso
e gerando uma pesquisa de campo, conforme Vergara (2000), o presente estudo
pôde ser classificado considerando-se os seguintes aspectos: quanto aos fins e
quanto aos meios. Quanto aos fins, trata-se de pesquisa exploratória, aplicada e
descritiva. Exploratória porque existe a necessidade de investigar a realidade,
existente no Bloco F, com relação ao consumo da água a fim de obter os dados
necessários para a elaboração da análise, e aplicada porque foi criada a partir da
necessidade de resolver um problema concreto.
Nesse sentido, Silva e Menezes (2001, p. 21) define a pesquisa
aplicada como aquela que: “objetiva gerar conhecimentos para aplicação
prática dirigida a solução de problemas específicos. Envolve verdades e
interesses locais”.
Por isso, procedeu-se a pesquisa visando um diagnóstico geral do
bloco F do campus universitário. Para isto foi realizado registro fotográfico,
a apresentação de tecnologias economizadoras e o cálculo das estimativas de

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 323


consumo atuais do referido bloco e também o cálculo da redução de consumo
com a instalação destas tecnologias a partir de uma abordagem quantitativa.

REFERENCIAL TEÓRICO
A escassez de água provocada pelo crescimento extremamente
acelerado da população mundial, pelo consumo exagerado e pela degradação
do recurso, necessita de políticas públicas e de estruturas e sistemas de
gestão sustentáveis adequados às diversas culturas mundiais.
No Brasil, apesar da grande disponibilidade hídrica, em algumas
regiões observa-se uma escassez quantitativa e qualitativa do recurso provocada
pela poluição, aquecimento global, desperdício e consumo exagerado. As
mudanças climáticas afetam diretamente os recursos hídricos disponíveis
através da modificação do regime de precipitações a nível mundial.
Conforme Gonçalves (2006), a conservação de água compreende
o uso racional da mesma, que pressupõe o uso eficiente, e o uso de fontes
alternativas de água, como a captação de água de chuva, o reuso, a utilização
de aparelhos economizadores, etc. No caso dos aparelhos com tecnologia
economizadora de água nos pontos de consumo, funcionam com vazão
reduzida evitando o desperdício. A crescente aceitabilidade destes aparelhos
provavelmente decorre do fato de serem medidas que dependem menos de
hábitos e motivações permanentes do que de uma tomada de decisão sobre
a aquisição dos equipamentos.
Assim sendo, em uma edificação, a utilização de tecnologias
economizadoras de água é de suma importância para a redução dos custos,
a curto ou a longo prazo, pois funcionam com vazão reduzida e/ou evitam
o desperdício devido ao mau fechamento de componentes convencionais.
Para enfatizar e exemplificar isto, um estudo realizado sobre
estimativa de uso final de água em dez edifícios públicos na cidade de
Florianópolis demonstra que os percentuais referentes aos vasos sanitários
representam 47,70%, enquanto o consumo de mictórios 30,60 % e por último
a limpeza, rega e lavagem de carro 4,90 % do total consumido. Com isto, as
autoras verificam que aproximadamente 78,30 % da água consumida em
edifícios públicos não precisa ser potável, uma vez que diz respeito ao uso
de bacia sanitária e mictório (KAMMERS; GHISI, 2006).
A Associação Brasileira de Fabricantes de Materiais e Equipamentos
para Saneamento (ASFAMAS, 2013) que carregam em seus produtos o selo
do Programa Brasileiro da Qualidade e Produtividade do Habitat (PBQP-H),
instrumento do Governo Federal, divulgou em setembro deste ano que 89%
dos fabricantes brasileiros do setor de aparelhos economizadores estão em
conformidade. Baseado nessa informação, no Brasil, o PBQP-H determinou que
a partir de 2003 todas as bacias sanitárias produzidas no país utilizassem para o
consumo, no máximo, de 6 a 8 litros/descarga, independente do sistema em que
fossem adotadas (BRASIL, 2014).
Com esta necessidade definida como lei, procuramos verificar os
tipos de equipamentos disponíveis no mercado. Atualmente, são três tipos
de equipamentos sanitários: por gravidade, a vácuo e por pressão; sendo o
primeiro mais utilizado nacionalmente. As bacias sanitárias por gravidade
funcionam por meio de diversos tipos de acionamento, tendo como os mais
usuais: válvula de descarga e caixa de descarga convencional ou acoplada.

324 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


Ademais, existem dispositivos conhecidos como duo-flash que
funcionam com descargas de três litros para o descarte de efluentes líquidos,
enquanto que para o de efluentes sólidos são necessários seis litros. Estes
dispositivos são fornecidos tanto em caixas acopladas como para válvulas
de descargas.
As empresas fabricantes do produto afirmam que existe uma
economia de água do aparelho economizador em relação ao convencional
considerando que as descargas para eliminação dos dejetos líquidos
representam 80% e que o sistema convencional consome 6L por acionamento.
Outro elemento complementar ao próprio aparelho sanitário, e
que contribui para a redução do consumo de água, é a utilização de água
para pia que fica acoplada proveniente do reuso, pouco utilizada ainda no
Brasil (Quadro 1).

Quadro 1 - Bacias sanitárias e válvulas economizadoras de água

*Economia de água do aparelho economizador em relação ao convencional considerando


que as descargas para eliminação dos dejetos líquidos representam 80% e que o sistema
convencional consome 6L por acionamento.
Fonte: Baseado em ACQUAMATIC; DECA; DOCOL; ROCA, 2016.

Vale ressaltar que para a pia acoplada à bacia sanitária, se deve


ter cuidado na hora de utilizá-la para descartar substâncias que apresentem
cor e/ou cheiro diferenciado impossibilitando, assim, o seu reuso.
No caso dos mictórios, estes equipamentos podem, dependendo da
tipologia, consumir grande quantidade de água para que haja a remoção da
urina e nos mais antigos, o acionamento de água ocorre de forma contínua.
Atualmente, no mercado, existem dois tipos de válvulas que ao

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 325


serem acionadas removem os efluentes líquidos: fechamento automático
e por acionamento infravermelho. Este tem como problema o fato da
sensibilidade do sensor, o qual é acionado, às vezes, simplesmente pelo fato
de haver uma pessoa próxima do mesmo.
Grande avanço se deu, em relação à economia significativa de
água, com a fabricação de mictório economizadores, que funcionam sem a
necessidade de água para eliminar os dejetos, o fecho hídrico é feito através
de um líquido de coloração azul, menos denso que a urina, conhecido por
EcoTrap e de mictórios com lavatórios. Ambos são pouco utilizados devido
ao custo de compra (Quadro 2).

Quadro 2 - Mictórios economizadores de água

*Economia de água do aparelho economizador em relação ao convencional considerando que o uso


de descargas para efluentes liquídos, no mictório, consome 1,2L e, no sistema convencional, 6L.
Fonte: Baseado em DECA; DOCOL; DRACO, 2016.
Tal produto, ou seja, aparelho economizador, segundo os
fabricantes, pode gerar economia de água em relação ao convencional
considerando que o uso de descargas para efluentes líquidos, no mictório,
consome 1,2L e, no sistema convencional, 6L.
As torneiras apresentam seu consumo diretamente ligado à sua
vazão e ao período de tempo em que o usuário utiliza a mesma. Para tal,
visando à economia do consumo, existe no mercado acessórios incorporados
à torneira como: arejador, regulador/restritor, fechamento automático e
acionamento fotoelétrico (LOMBARDI, 2012).
Os arejadores são instalados na saída da bica da torneira e é
composto por uma tela fina que reduz a área e possibilita a entrada de ar
pelas laterais. Enquanto que os restritores de vazão limitam a quantidade de
água das torneiras (Quadro 3).

326 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


Quadro 3-Torneiras e dispositivos economizadores de água

*Economia de água do aparelho economizador em relação ao convencional.


Fonte: Baseado em DECA; DRACO (2016)

As torneiras com fechamento automático e acionamento


fotoelétrico são indicadas em locais com alto fluxo de pessoas, tendo o
retorno do investimento em um curto período de tempo devido à redução
no desperdício de água (LOMBARDI, 2012).
De acordo com a NBR 10.281 (ABNT, 2003) a torneira dotada de
arejador deve apresentar vazão mínima de 0,05L/s, nas mesmas condições de
alimentação estabelecidas para o ensaio sem arejador (limite mínimo de 0,10L/s
para a vazão quando a torneira é alimentada por água na pressão de 15kPa).
Para se ter um parâmetro do custo/benefício, foi realizada uma
pesquisa em relação ao valor de algumas tecnologias economizadoras
existentes nas lojas de materiais de construção da cidade de João Pessoa e
constatou-se que as torneiras automáticas e de sensor, as bacias sanitárias
por acionamento dual e os arejadores de vazão podem ser encontrados em
diversas marcas e em praticamente todos os estabelecimentos (Tabela 1).
Como também, notou-se que algumas torneiras já apresentam o dispositivo
incorporado.

Tabela 1- Custo dos produtos convencionais e economizadores de água


PRODUTO TIPO PREÇO 1* PREÇO 2*
Dual R$ 467,82 R$584,91
BACIA SANITÁRIA
Convencional R$91,15 R$ 105,30
Convencional
MICTÓRIO R$256,79 R$277,86
(sem acionamento)

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 327


Automático R$119,87 R$125,91
TORNEIRA Sensor R$277,55 R$362,89
Convencional R$79,83 R$83,97
AREJADOR - R$ 19,90 R$31,90
*Valores monetários atuais de referência
Fonte: Elaborada pelos autores (2016)

Entretanto, diante do exposto na referida Tabela, percebe-se a


dificuldade em encontrar produtos economizadores nos estabelecimentos
comerciais, tais como: bacia e mictórios acoplados na pia, mictórios sem
água e bacia com fluxo de 2 litros por acionamento. Esta foi encontrada no
próprio site da fornecedora, Acquamatic, por um preço de R$498,00.
Ademais, é notório que o custo da torneira por acionamento
automático em relação à convencional é irrisório, tendo-se o custo/benefício
em curto prazo. Já o valor associado à bacia sanitária, mesmo sendo uma
diferença de custo um pouco maior, em médio prazo conseguiria eficácia na
relação custo/benefício.

RESULTADOS E DISCUSSÃO
Para alcançar o objetivo proposto neste estudo, foram escolhidos
os sanitários públicos masculino e feminino localizados no Bloco F, onde
funcionam salas de aulas dos cursos de Engenharia Civil e Direito, localizado
no Centro Universitário de João Pessoa (UNIPÊ) (Figura 1).

Figura 1 - Centro Universitário UNIPE, localizado no


bairro Água Fria em João Pessoa-PB

BLOCO F

Fonte: Os autores.

O objeto de estudo são os sanitários públicos masculino e


feminino localizados no Bloco F, onde funcionam salas de aulas dos cursos
de Engenharia Civil e Direito, localizado no Centro Universitário de João

328 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


Pessoa (UNIPÊ) (Figura 2).
Neste ponto da pesquisa, passamos a apresentar a presente
situação dos sanitários em análise para que se possa entender o consumo de
água existente no local.

Figura 2 - Planta de coberta e Layout do Bloco F

Sanitários masculino e feminino

Fonte: Os autores.

No sanitário público feminino estão localizadas três bacias, todas


elas com caixa de descarga alta não acoplada sendo uma para portadores de
deficiência física. Há a existência também de três lavatórios, cada um com
torneira sem acionamento automático (Figura 3).

Figura 3 – Sanitário Público Feminino – Bloco F

Fonte: Os autores.

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 329


Figura 4 – Sanitário Público Masculino – Bloco F

Fonte: Os autores.

Já o sanitário público masculino, apresenta duas bacias com caixa


de descarga alta não acoplada sendo uma para portadores de deficiência física,
três mictórios e três lavatórios, cada um com torneira sem acionamento
automático (Figura 4).
Assim, resumidamente, a quantidade de dispositivos sanitários –
consumidores de água - que se apresenta no Bloco F desponta na Tabela 2.

Tabela 2- Aparelhos sanitários existentes no Bloco F


SANITÁRIO SANITÁRIO
APARELHO SANITÁRIO
FEMININO MASCULINO
BACIA COM CAIXA DE
03 02
DESCARGA ALTA
LAVATÓRIO 03 03
MICTÓRIO - 03
Fonte: Os autores.

O que pôde ser observado nestes ambientes é que quanto aos


pontos de consumo, número adequado de pontos - tanto de torneiras, como
de vasos sanitários - existe quantidade de água adequada nas torneiras.
Com relação às válvulas de descarga, alguns pontos apresentam quantidade
maior que a necessária de água para limpeza dos vasos sanitários.
Com relação ao estado de conservação dos dois sanitários públicos,
temos a seguinte situação:

• Vaso sanitário, caixa de descarga e Tubo de alimentação: Satisfa-


tório e adequado, sem manchas, trincas e rachaduras.
• Parede não está manchada, nem aparenta estar úmida.
• Assento: o tamanho está um pouco desproporcional ao da bacia
sanitária.
• Fixação do vaso sanitário: tipo parafusado.
• Tipo de alimentação: satisfatório

330 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


• Não foram observados vazamentos visíveis nos equipamentos
sanitários
• Marca da caixa de descarga: Tigre.
• Há pressão suficiente na rede

CÁLCULO DA ESTIMATIVA DE CONSUMO CONFORME A


TIPOLOGIA DA EDIFICAÇÃO ESTUDADA
O cálculo da estimativa consiste na relação entre o volume
consumido em um determinado período e o número de consumidores desse
mesmo período, que é a variável mais representativa de consumo de água.

Tabela 3 – Número de Usuários nos semestres de 2016.1 e 2016.2


NÚMERO DE USUÁRIOS

SE-
2016.1 2016.2
MEST.

CUR-
  DIREITO ENGENHARIA CIVIL   DIREITO ENGENHARIA CIVIL
SO

TUR-
FUN MANHÃ TARDE NOITE FUN MANHÃ TARDE NOITE
NO

TUR- USUÁ- TUR- USUÁ- TUR- USUÁ- TUR- USUÁ- TUR- USUÁ- TUR- USUÁ-
     
MA RIO MA RIO MA RIO MA RIO MA RIO MA RIO

    P5F 44 P1A 53 P1H 50   P10F 28 P1A 51 P1G 33

    P5H 38 P1B 27 P2G 47   P10H 43 P2D 38 P2G 38

    P5J 44 P1C 28 P2H 44   P7J 25 P5B 64 P3G 40

    P5L 45 P1D 33 P3H 60       P5C 63 P3H 31

    P5N 60 P1E 38               P4G 54

                          P4H 52

SUB-
8   231   179   201 8   96   216   248
TOT.

TOTAL
POR
619 568
SE-
MEST.

TOTAL
1187
ANUAL

Fonte: Dados fornecidos pela Coordenação de Engenharia Civil (2016).

No presente estudo de caso, o edifício estudado não tem hidrômetro,


por isso utilizou-se a vazão nos pontos de consumo conforme o aparelho
sanitário e a peça de utilização de acordo com a NBR 5626 ( ABNT, 1998). A
Tabela 3 apresenta o resultado do levantamento dos usuários do Bloco F.
Objetivando realizarmos um comparativo de consumo ocorrido no Bloco
em estudo e o que é considerado ideal pelos estudos realizados, inserimos
neste ponto da pesquisa resultados apontados por Creder (2012).

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 331


Tabela 4 - Consumo de água em edifícios públicos ou comerciais
PRÉDIO CONSUMO (LITROS)
Residências 120 per capita
Apartamentos 200 per capita
Hospitais 250 por leito
Escolas (internatos) 150 per capita
Edifícios públicos ou comerciais 50 per capita
Escritórios 50 per capita
Restaurante 25 por refeição

Fonte: CREDER (2012)

O objeto de estudo desta pesquisa é um edifício público. Portanto,


segundo a Tabela 4, o consumo de água para prédios públicos ou comerciais
é de 50 litros per capita, isto é, por habitante ou usuário.
Tomando como base esse valor de consumo de água per capita,
nos apoiamos em Oliveira (1996) e realizamos o Cálculo do índice de
consumo (IC). Segundo o referido autor, o indicador de consumo pode ser
calculado pela fórmula:

IC = Ve x D/ 1000 x U (1)

Onde: Ve = estimativa de consumo em edificações públicas; D = dias úteis


do ano e

U = número de usuários.

IC = 50 litros/ hab x dia x 252 dias no ano/ 1000 litros x 1187 usuários

IC = 50 X 0,252 X 1187 = 14.956,20 m³.

Portanto, o consumo de água que ocorre atualmente no Bloco em


estudo é de 14.956,20 m³.

CÁLCULO DO PERCENTUAL DE REDUÇÃO DO CONSUMO COM


A SUBSTITUIÇÃO DOS EQUIPAMENTOS CONVENCIONAIS
POR PRODUTOS ECONOMIZADORES DE ÁGUA
Os fabricantes de aparelhos sanitários como foi visto, têm
desenvolvido dispositivos e modelos que reduzem a quantidade de água
consumida. A Tabela a seguir mostra estimativas em valores percentuais de
redução de consumo entre equipamentos convencionais e os considerados
redutores de consumo.

332 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


Tabela 5- Comparativo percentual de consumo entre equipamento
convencional e equipamento com redutor de consumo
EQUIPAMENTO EQUIPAMENTO ECONO-
CONSUMO CONSUMO
CONVENCIONAL ECONOMIZADOR MIA
BACIA COM CAIXA 12 litros/ Deca 6 litros/
40%
ACOPLADA descarga (Descarga dual)) descarga
TORNEIRA DE
0,23 litros/ Arejador de 0,10 litros/
LAVATÓRIO 57%
segundo vazão 6 l/min segundo
(até 6 mca)
Válvula 1 litros/se-
MICTÓRIO 2L/uso 57%
automática gundo
Fonte: SABESP (2007)

Neste estudo utilizamos, para nosso cálculo, o percentual de


economia referente aos consumos de água não potável, que são as bacias
sanitárias, lavatórios e mictórios. A Média percentual de consumo com os
dispositivos redutores = 40 +57 + 57 / 3 = 51,33 %. Logo, o consumo com
a redução pode ser calculado pela fórmula abaixo:

Vr = V x 51,33% (2)

Onde: V= estimativa de consumo

Vr = 14.956,20 m³ X 0,5133 = 7.677,02 m³

O impacto de redução com os aparelhos economizadores é


calculado com a equação:
IR= V – Vr, onde V=estimativa de consumo e Vr = estimativa
de consumo com os redutores. Assim, IR=14.956,20 – 7.677,02 = 7.279,18.
Desta forma, com a instalação dos equipamentos redutores po-
demos ter uma redução de 51,33 % no consumo de água para fins não po-
táveis nos sanitários masculino e feminino do bloco F. Tal economia pode
ser considerada significativa num momento em que o mundo carece de ter
uma atenção especial com relação à conservação da água no planeta.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Através do cálculo do indicador de consumo, no valor de
14.956,20 m³, foi possível estimar a atual situação de consumo de água do
bloco F, localizado no UNIPÊ.
Por intermédio da realização das análises comparativas entre
o consumo de água atual e o com a possível utilização dos aparelhos
economizadores, pôde-se estimar que com uso dos dispositivos convencionais,
o consumo vigente foi de 14.956,20 m³ enquanto que, com o uso dos aparelhos
economizadores, seria de 7. 677,02 m³, mostrando, assim, que em apenas um
bloco da instituição de ensino é possível ter uma diminuição do consumo de

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 333


água, em um ano, de 51,33% e um significativo impacto de redução no valor
de 7219,18 m³, além de oferecer maiores benefícios econômicos e ambientais,
atenuando o desperdício de água e consequentemente otimizando seu uso,
por meio da substituição pelas tecnologias economizadoras.
Com isso, conseguiu-se comprovar a viabilidade do presente
estudo, que pode ser estendido a outras áreas da Instituição e até mesmo
a outros Centros de ensino do país, contribuindo para que o consumo de
água seja racionalizado, facilitando a compreensão e sensibilização de toda
uma comunidade acadêmica e de todos os envolvidos na área de Engenharia
para que, progressivamente, faça uso da água de forma consciente e passe
a conservar esse recurso natural através da utilização de tecnologias que
reduzam seu consumo.
No entanto, ainda é preciso maiores investimentos e uma divulgação
mais ampla e abrangente, por parte do governo, dos benefícios de ordem
econômica, ambiental e social, que o uso de dispositivos econômicos de água
pode oferecer. Além disso, faltam campanhas educacionais à população em geral
e nos Centros educativos, o que dificulta o estímulo à conservação dos recursos
hídricos e o combate do desperdício de forma efetiva.
Por causa disso, o governo deve investir gradativamente em
políticas públicas que incentivem o uso de dispositivos economizadores,
com campanhas educativas de grande abrangência, facilitando o acesso da
população, principalmente a de baixa renda.

REFERÊNCIAS
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DOS FABRICANTES DE MATERIAIS
PARA SANEAMENTO (ASFAMAS). PGQ-4 AE: aparelhos
economizadores de Água. 2013. Disponível em: <http://www.asfamas.org.
br/>. Acesso em: 12 ago. 2016.

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS (ABNT). NBR


10.281: torneira de pressão – Requisitos e métodos de ensaio. Rio de Janeiro, 2003.
______. NBR 5626: instalação predial de água fria (1998). Disponível
em: <https://ecivilufes.files.wordpress.com/2013/ 06/nbr-05626-1998-
instalac3a7c3a3o-predial-de-c3a1gua-fria.pdf>. Acesso em: 16 out. 2016.

BRASIL. Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior


- Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia – INMETRO.
Programa de análise de produtos sistemas de descarga. 2014. Disponível
em: < http://www.inmetro.gov.br/consumidor/ produtos/ sistemas_de_
descarga.pdf>. Acesso em: 18 ago. 2016.

CREDER, Hélio. Instalações Hidráulicas e Sanitárias. 6.ed. Rio de


Janeiro: LTC, 2012.

GONÇALVES, Ricardo Franci (Coord.). Uso racional de água em


edificações: Tecnologias de segregação. Projeto PROSAB, Rio de Janeiro:
ABES, 2006. v.5.

KAMMERS, Pauline Cristiane; GHISI, Enedir. Usos finais de água em

334 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


edifícios públicos localizados em Florianópolis, SC. Ambiente Construído,
Porto Alegre, v. 6, n. 1, p. 75-90, jan. /mar. 2006. Associação Nacional de
Tecnologia do Ambiente Construído.
LOMBARDI, Lucas Ruiz. Dispositivos poupadores de água em um
sistema predial: análise da viabilidade técnico-econômica de implementação
no instituto de pesquisas hidráulicas. Monografia ( Graduação) Curso
Engenharia Civil – UFRGS, 2012.

OLIVEIRA, L. H. Metodologia para a implantação de programa de


uso racional de água em edifícios. Tese (Doutorado) - Escola Politécnica:
Universidade de São Paulo, 1999.

COMPANHIA DE SANEAMENTO BÁSICO DO ESTADO DE SÃO


PAULO (SABESP). Programa de uso Racional da água – PURA.
Disponível em <http://www.sabesp.com.br/Uso_Racional_ Água>.
Acesso em: 23 out. 2016.

SILVA, Edna L., MENEZES, Esteia M., Metodologia da pesquisa e


elaboração de dissertação. 3.ed.Florianópolis: Atual, 2001.

VERGARA, Sylvia Constant. Projetos e relatórios de pesquisa em


administração. São Paulo: Atlas, 2000.

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 335


CAPÍTULO 25
.

ESTRUTURAS MÓVEIS PARA


REALIZAÇÃO DE EVENTOS
Valéria Vieira da Silva1, José Ykaro Alves da Costa Macedo2, Daniel Rodrigues
Barreto Junior3, Edgar Granja Bezerra Neto4, Maria Jacy Cajú do Egito5.

RESUMO
Eventos acontecem diariamente em todo o mundo. Contudo, para que
ocorra a realização deles faz-se necessário uma equipe técnica e um
intenso estudo sobre o local e também a estrutura a ser montada.
A presente pesquisa se volta à segurança e necessidade da presença
de um engenheiro no momento em que se erguem as estruturas
para a realização dos eventos, pois eventuais erros podem ocorrer
colocando em risco as vidas de pessoas que estão envolvidas direta
ou indiretamente com o evento denotando, assim, um descaso com
as leis e normas da construção civil. Trata-se de uma pesquisa de
observação e tem o foco de apontar erros detectados, com dados
coletados em pesquisa de campo e com a ajuda de software de análise
estrutural que vem nos dar uma visão mais ampla dos possíveis erros
estruturais. Constatou-se que, embora o orgão fiscalizador CREA,
eventualmente, esteja presente para regularizar e deixar o seu selo
de certificação, de aprovação, deveria haver cálculos mais precisos
realizados por um engenheiro para que erros estruturais não venham
a acontecer.

Palavras-Chave: Estruturas. Falta de planejamento. Calculo


estrutural. Engenheiro.

1Graduanda do Curso de engenharia Civil do Unipê. E-mail: valeria_vieira2014@hotmail.com


2Graduando do Curso de engenharia Civil do Unipê. E-mail: ykaro_alves@hotmail.com
3Graduando do Curso de engenharia Civil do Unipê. E-mail: drodrigues802@gmail.com
4Graduando do Curso de engenharia Civil do Unipê. E-mail: edgargranjaa@gmail.com
5 Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente – UFPB- UEPB. Professora do Curso de Engenharia Civil
– Unipê. E-mail: maria.jacy@unipe.br

336 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


INTRODUÇÃO
Eventos acontecem praticamente todos os dias e, para ocorrer
com a devida qualidade e segurança, são necessários equipamentos que
promovam tais finalidades. Nesse contexto, é preciso ter uma estrutura de
fácil montagem e de locomoção simples que suporte uma grande carga e que
tenha uma boa resistência ao desgaste diário.
Esse estudo tem como objetivo apresentar estruturas que são
montadas em eventos e como é realizada a sua montagem, já que, caso ela
não seja bem colocada pode trazer sérias consequências negativas ao evento.
Trata-se portanto, de uma analise estrutural necessária a estabilidade da
montagem e segurança do evento. Além disso, a falta de um engenheiro
nas obras dificulta ainda mais a segurança e o estabelecimento dos padrões
corretos do procedimento da obra, possivelmente decorrente de uma falha
da gestão das empresas envolvidas, que não cobram isso dos engenheiros
contratados.
Vale salientar que existe material especifico que compõe uma
estrura no qual é utilizado diariamente em muitos shows com o objetivo
de sustentar iluminação, o som, o palco e tudo que for necessário para a
realização do evento. Tais equipamentos são usados na montagem de palcos,
traves para telões, torres de sustentação para sistema de som, passarelas
e coberturas de camarotes. Cada uma dessas estruturas tem uma forma
correta de montagem. Para a presente pesquisa, foi descrito especificamente
os seguintes materiais: treliça box truss Q30, cubo tipo ST30, pau de carga,
trava Q30, base quadrada S30, sleeve ST30 e os parafusos de 5/8 de aço
com arruelas e porcas.
A presente temática é pertinente, atual e relevante, e plenamente
inédita, pois estudos não se encontram voltados a essa área de interesse.
Por isso, compete a engenheiros, estudantes de engenharia e
áreas afins refletir sobre tal assunto, pois devido a importância dos eventos
no nosso meio social, uma situação catastrófica afeta todos os envolvidos
no evento e também usuários dele, ou seja, interfere na vida de toda uma
sociedade.

METODOLOGIA
O presente estudo é uma pesquisa de campo em que analisamos
dois tipos diferentes de estruturas de palco e, conjuntamente, usamos
a entrevista como instrumento de coleta de dados com o objetivo de
colhermos informações de alguns operários que trabalharam nas estruturas
em questão, além de conseguir varias imagens utilizadas para a análise.
Para a realização dos cálculos, focamos em uma área da estrutura,
onde a carga aparentava ser maior, utilizamos o software Ftool e conseguimos
os gráficos de momento e cortante. Utilizamos também o Auto cad 2016 e
realizamos a representação de como estava montada a estrutura. Registro
fotográfico tembém foi realizado objetivando colher imagens dos principais
erros na montagem das estrutturas visitadas.

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 337


PLANEJAMENTO E CUIDADOS NA MONTAGEM
De modo a iniciar uma obra, é vital diversos cuidados prévios
e um bom planejamento para que a mesma seja entregue com segurança
e qualidade. Isso se faz necessário pois uma obra mal planejada pode
estar sujeita a todo tipo de problema que comprometa seu andamento e
seu resultado final. Sendo assim, uma análise prévia do local e do tipo de
construção deve ser feita de modo a perceber quais são os equipamentos
ideais, insumos necessários, métodos de segurança, estruturas de apoio, e
tipo de mão de obra que servirão a execução daquela construção de forma
mais efetiva. Além disso, é evidente a importância de um engenheiro no
desenvolvimento do projeto, para que haja um cálculo bem feito dos recursos
a serem utilizados, da iluminação ideal, entre outros fatores. Assim, faz-se
menos provável que ocorram imprevistos e grandes problemas na execução
do projeto que prejudiquem sua qualidade, seu tempo de entrega ou que
aumente seu orçamento.
Durante o planejamento, deve-se atentar para além da parte
técnica da obra. As documentações necessárias para a sua execução são tão
importante quanto esses detalhes, pois a falta de um documento, licença
ou aprovação, pode comprometer todo o andamento da obra. É de suma
importância que se obtenha uma licença do CREA, a atuação do engenheiro,
uma licença ambiental, documentos do contratante, e a análise desses
documentos deve ser feita por uma equipe capacitada e eficiente, para que
não haja erros.
Em um dos locais da pesquisa, na cidade, encontramos um adesivo
do Órgão Regulamentador - CREA (Conselho Regional de Engenharia
e Agronomia) que fiscaliza as obras de engenharia e, no caso especifico,
estrutura de evento (Figura 1).

Figura 1- Selo do CREA-PB

Fonte: Acervo pessoal (2016)

338 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


Entretanto, nesse mesmo local, identificamos irregularidades
na estrutura montada, mesmo recebendo o certificado do CREA. Tal
constatação se apresentam nas figuras 2 e 3, em que estão evidenciados os
erros e negligências dos responsáveis pela estrutura.
Figura 2- Falta de dois parafusos na montagem

Fonte: Acervo pessoal (2016)

Figura 3- Estrutura de aluminio flexionada pela quantidade de peso

Fonte: Acervo pessoal (2016)

Como se pode perceber, a falta de parafusos pode gerar problema


estrutural, de segurança, assim como a nítida situação de estrutura que está
sofrendo uma carga mais intensa do que a que naturalmente pode suportar,
ou seja, produzindo esforço que tende a curvar o eixo longitudinal,
provocando tensões normais de tração e compressão na estrutura.

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 339


RISCOS NAS ESTRUTURAS
A falta de um engenheiro observando e fiscalizando se a
montagem esta correta e se a quantidade de material estará na carga ideal
para a estrutra é bastante comum. Como elas são móveis, então cada evento
precisa de um cálculo e uma quantidade de materiais diferentes e a ausência
de um engenheiro especializado traz o risco de colocarem uma quantidade
de peso exagerado em uma estrutura e causar danos graves. Em tal situação,
os operários não podem ser culpados, pois muitos não têm a noção adequada
de cálculo para saber se a estrutura vai suportar. Outro risco é não pensar
nos feitos naturais que desgastam o material e, principalmente, a força do
vento que pode prejudicar a estrutura ao ponto de cair.

EXEMPLOS MAIS COMUNS DE ACIDENTES


Convém esclarecer, nesse ponto do estudo, as problemáticas mais
comumente ocorridas em eventos.

• Quedas de palco: cada palco é montado praticamente da mesma


forma, o que muda é que, dependendo do tamanho das estrutu-
ras, aumenta a quantidade dos equipamentos e, além disso, são
acrescentados à estrutura luzes, som, instrumentos musicais e
outras peças para o show. Assim, o peso vai ficar todo na estrutura
de aço e nem sempre ela suporta essa carga ocorrendo, assim, a
queda do palco. Possivelmente por não ter havido cálculo tal qual
ocorreu em Indiana, Estados Unidos (Figura 4).

Figura 4 - Rompimento de uma estrutura e queda de um palco

Fonte: Portal rock line (2011)

340 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


• Acidentes com operários: a falta de uso de equipamentos podem
causar vários tipos de acidentes como, por exemplo, sem as luvas
podem ocorrer cortes; falta de capacete -pode causar danos na ca-
beça com a queda de equipamentos; não utilizar protetores sonoros
traz prejuízos à audição; não usar botas pode aumentar o risco de
descargas elétricas; falta de protetores de coluna pode trazer aos
operários danos futuros e deixar eles sem poder levantar pesos e
um dos EPI’s menos utilizados são os cintos para subir em um
ponto elevado e qualquer descuido, pode causar um acidente grave.
Ao observamos as normas vigentes, é perceptíivel que, conforme
a Portaria n.º 3.214, de 08 de junho de 1978, a empresa é obrigada a
fornecer aos empregados, gratuitamente, EPI adequado ao risco, em
perfeito estado de conservação e funcionamento (MTE, 1978), mas por
não ter fiscalização ou cobrança da empresa, os operários que trabalham na
montagem simplesmente não utilizam a segurança necessária. Então, eles
ficam expostos a riscos que podem afetar a vida de todos os envolvidos em
eventos realizados com essas estruturas.
Um exemplo de acidente relatado um uma das entrevistas foi o
erro de um dos operários que esqueceu de colocar parafusos de um lado da
estrutura deixando-a solta no referido lado e, ao subir outro operário, este
percebeu que um lado estava solto e isso quase causou a queda do operário,
mas como um dos lados estava devidamente encaixado, ele teve tempo
suficiente para descer da estrutura evitando algo pior. Com isso, se confirma
a importância da presença de um engenheiro na montagem, como também
uma fiscalização mais rígida antes do inicio do evento.

RESULTADOS E DISCUSSÃO
Nos propomos, neste ponto do estudo, informar sobre observações
realizadas no cotidiano da vivência de montagem de estruturas para
eventos, onde a montagem de grids ocorre sem fiscalização, sem o cálculo
correto, sem analise de iluminação e com a falta de engenheiro presente na
montagem para propor construções estruturais pertinentes ao evento em
questão.
A construção civil é uma indústria delicada, que requer grande
planejamento na execução das obras, pelo alto risco que falhas podem trazer
tanto para a segurança do trabalhador, quanto no resultado final da obra.

Para que as barras de treliças estejam submetidas


apenas às forças normais, como hipótese de cálculo,
é necessário que essas peças estejam igualmente
articuladas e sejam perfeitamente retilíneas.
Nenhuma barra será considerada contínua de um
nó para outro. Na prática, essas condições ideais não
ocorrem perfeitamente. Existem muitos fatores que
opacam a teoria quando se caminha para a prática
dos materiais. Isto se dá, principalmente, pelas
condições intrínsecas das partes que compõem as
peças elementares das treliças. Os nós, por exemplo,

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 341


sempre oferecerão alguma resistência estática à
rotação plena da rótula ideal que para ele se admita
por hipótese. No caso das peças metálicas, por
exemplo, essas articulações não podem ser perfeitas
porque são formadas de chapas soldadas, parafusadas,
arrebitadas, etc. Sempre haverá certa rigidez real
nisto mesmo quando as cargas são aplicadas somente
e diretamente nos nós de transição. Na prática, acaba
havendo alguma solicitação de momento (“M”) às
barras (FRANCO, 2012).

O referido autor (2012) complementa afirmando que

a diferença (real) que ocorre entre as tensões reais e as


tensões de projeto chamadas “tensões primárias”que
levarão às “tensões ocultas” ou “secundárias”. No
entanto, se pode garantir que as barras de treliças
quando cuidadosamente dispostas de maneira a
fazer com que seus eixos (prolongamento do perfil
longitudinal que passa por todos os centros de
gravidade “CG” de cada unidade de seção da barra)
se cruzem num único ponto em cada nó as grandezas
dos esforços primários pouco se alterará por motivo
das tensões ocultas. Nesta condição, estes poderão
ser desprezados. O comportamento das treliças pode
ser comparado ao das vigas submetidas à flexão
simples. Geralmente para uma treliça bi-apoiada.

Compreendendo isto, nos propomos, neste estudo, a levantar os


cálculos refrentes a montagem de uma estrutura. A que foi escolhida para
análise foi a que se apresenta na figura 5.

Figura 5 – Representação em CAD da estrutura para evento

Fonte: Elaborada no Autocad pelos autores (2016)

342 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


Assim, para melhor visualização desse estudo, desenhamos a
estrutura com auxílio da ferramenta Autocad2016, em que é possivel ver a vista
superior, a vista lateral esqueda e a vista frontal da estrutura em análise.
Em seguida, montamos a estrutura no programa de analises
estrutural Ftool para, assim, obter um resultado com relação a estabilidade
e esforços (Figura 6).

Figura 6 – A Distribuição das barras e cargas é feita de


forma simétrica para garantir a estabilidadeda estrutura.

Fonte: Elaborada no software Ftool pelos autores (2016)

Os esforços axiais podem ser de dois tipos: tração e compressão.


Como podemos observar na estrutura, há uma forca horizontal que
impulsiona a estrutura para a tração e compressão, que se mantem em
equilíbrio (Figura 7).

Figura 7- Esforços da estrutura

Fonte: Elaborada no software Ftool pelos autores (2016)

Observando os esforços verticais e, de acordo com a distribuição


das cargas na estrutura e com o auxilio do ferramenta Ftool, foram obtidos
as reações de apoio conforme a Figura 8 e chegou-se a conclusão de que elas
estão em perfeita harmonia e equilíbrio, pois a treliça não chega a romper
e quebrar.

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 343


Figura 8- Esforços constantes

Fonte: Elaborada no software Ftool pelos autores (2016)

A força momento do material também foi observada e percebeu-se que a


estruturatem uma elasticidade considerável no limite da sua carga (Figura 9).

Figura 9- Força momento

Fonte: Elaborada no software Ftool pelos autores (2016)

Portanto, usando os dados coletados e utilizando o programa de


analises estrutural Ftool, para chegar a uma conclusão estrutural confiável
neste show, podemos verificar que essa estrutura, em particular e montada de
forma peculiar não apresenta problemas de segurança e, consequentemente,
nãotrará risco para os participantes do evento (Figura 10).

344 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


Figura 10 - Estrutura montada de um evento

Fonte: Acervo pessoal (2016)

Ao realizarmos os cálculos e encontrarmos situação estrutural


favorável da montagem deste evento em particular, não inibe a preocupação
em se ter plena atenção e fiscalização nas distintas montagens de estruturas.
Tal reflexão se confirma a partir de entrevista realizada in loco com os
operários, pois de acordo com ela, costatou-se que as medidas de segurança
do trabalho são muitas vezes negligenciadas, e grandes consequências
podem surgir disso. Diversos acidentes em construções evidenciam essa
realidade e escancaram a falta de planejamento de segurança.
Ainda segundo os entrevistados, a negligência durante a
montagem e no decorrer da obra pode ser percebida cotidianamente.
De acordo com um operário entrevistado, é dado aos trabalhadores o
equipamento básico, conhecidos como Equipamentos de Proteção Individual
(EPIs) que consiste em botas, protetores auriculares e luvas, mas proteções
extras, tais como capacetes e proteção de coluna para redução de riscos, não
são oferecidos normalmente. Com isso, as empresas responsáveis, tendem a
seguir o mínimo possivel do estabelecido pelas normas.
Nesse sentido, a questão de segurança se estende do básico –
proteção do operário envolvido - até a própria questão estrutural.
Todo esse quadro de segurança precária é uma grave falha na
indústria da construção civil. O planejamento de segurança é uma fase essencial
da obra, de modo que deve haver uma avaliação das áreas de risco e investimento
na proteção para evitar, ao máximo, os riscos de possíveis acidentes.
Vale ressaltar que, na Secretaria de Comunicão Social (SECOM),
as orientações são bem especificas sobre as montagens de eventos indo da
indicação do projeto básico, local de realização até a montagem do palco em
que se deve informar: O número de pessoas que o utilizarão; Equipamentos
que estarão dispostos no espaço; Posicionamento das peças de ambientação
e comunicação e, por fim, Condições de acesso, segurança e visibilidade
(SECOM, 2015).

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 345


Na entrevista aplicada, pôde-se perceber também que a
negligência, em geral, é decorrente dos prazos curtos de entrega de uma obra
e os bônus por produtividade, em que em ambas situações a lucratividade se
torna mais relevante que a segurança.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
A partir das observações in loco e das entrevistas realizadas,
erros que podem ser considerado simplórios são bastante comuns em
eventos como: falta da colocação de parafuso, fios descascados, o apoio
de materiais com hastes inadequadas, colocação de muitos materiais em
uma estrutura que não suporta, operários que trabalham na confecção da
estrutura do evento sem a utilização de equipamentos de seguranças (EPI’s)
e a possibilidade de outros tipos de acidentes que podem ser evitados.
Os EPI’s são distribuidos para os operários com o objetivo
de evitar acidentes pessoais e, caso ocorra algum problema, eles estejam
seguros, pois cada um dos equipamentos serve para protejer uma parte do
corpo e são adaptados a cada situação de trabalho.
Além disso, a falta de um engenheiro que acompanhe as obras
é uma problemática séria, pois o processo de montagem é feito muitas
vezes sem os cálculos corretos, sem uma análise apropriada de riscos e das
condições da obra, e principalmente, sem fiscalização da pessoa competente.
Todas essas questões que negligenciam as normas estabelecidas levam ao
aumento dos fatores de risco e podem vir a causar acidentes na indústria da
construção civil, em particular, na montagem estrutural de eventos.
Com isso, o engenheiro é bastante necessário no acompanhamento
da construção das montagens de eventos por ter a noção e poder organizar os
cálculos da estrutura, auxiliando os operários de forma correta e mostrando
o que fazer para que a estrutura fique a mais segura possível. Com isso,
evitando falhas de planejamento de cada evento, trabalhando assim a
diminuição dos riscos e evitando acidentes graves. O que pode induzir
que ter um engenheiro que confirme a segurança da estrutura pode até
aumentar a clientela, já que a empresa terá garantia de bom planejamento
e estruturas seguras.

REFERÊNCIAS
EICKHOFF, Daiv. Palco de festival em Indiana desaba e mata cinco
pessoas. 2011. Disponivel em: <http://portalrockline.com.br/palco-de-
festival-em-indiana-desaba-e-mata-cinco-pessoas> . Acesso em: 10 out.
2016.

FRANCO, Rogério Carvalho de Mello. Sistemas estruturais na


arquitetura. 2012. Disponível em: < http://estruturasarquitetonicas.
blogspot.com.br/2012/03/tomo-ii-capitulo-xvii-sistemas.html>. Acesso
em: 13 out. 2016.

346 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


MINISTÉRIO DO TRABALHO E EMPREGO SECRETARIA DE
INSPEÇÃO DO TRABALHO (MTE). Portaria n.° 3.214, 08 de junho
de 1978 . Normas Regulamentadoras - NR - do Capítulo V, Título II, da
Consolidação das Leis do Trabalho, relativas a Segurança e Medicina do
Trabalho. Disponivel em: < http://www.camara.gov.br/sileg/integras/
839945.pdf>. Acesso em: 12 out. 2016.

SECRETARIA DE COMUNIÇÃO SOCIAL ( SECOM). Orientações para


eventos. 2015. Disponível em: < http://www.secom.gov.br/orientacoes-gerais/
eventos/orientacoes-para-eventos >. Acesso em: 18 out. 2016.

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 347


CAPÍTULO 26
.

PRÁTICAS SUSTENTÁVEIS EM
EDIFICAÇÕES VERTICAIS DA GRANDE
JOÃO PESSOA
Julyana Kelly Tavares de Araújo1, Antônio da Silva Sobrinho Júnior2, Mirela
Oliveira Medeiros3, Rochanna Alves Silva da Rocha4, Renato Moura Rodrigues5.

RESUMO
Este trabalho apresenta os resultados de uma pesquisa de iniciação
cientifica que buscou avaliar as edificações verticais da grande João
Pessoa quanto a utilização de práticas sustentáveis, abordando
aspectos do grau de importância das práticas sustentáveis no processo
de construção de obras e o perfil dos Engenheiros Civis, levando em
consideração as práticas de sustentabilidade. Desenvolvido com base
em pesquisa bibliográfica sobre responsabilidade socioambiental e as
características da Indústria da Construção Civil no Brasil, a partir
da qual foi elaborado um questionário com perguntas relacionadas a
sustentabilidade em edificações residenciais, aplicado nos canteiros de
obras de 31 construtoras atuantes em João Pessoa foram analisadas.
Por fim, foi realizado um delineamento amostral com o objetivo de
investigar as práticas sustentáveis na cidade de João Pessoa. Esta
pesquisa utilizou amostra probabilística com o objetivo de traçar
um perfil de forma mais aleatorizada possível. O importante de usar
uma amostra probabilística é que na revisão bibliográfica, foram
apresentados vários estudo sobre a sustentabilidade na construção
civil, porém nenhum adotou esse tipo de amostragem, ou seja, a
amostragem por conveniência foi mais utilizada. Este trabalho é de
grande importância para incentivar ao conhecimento das práticas
de construção sustentável, bem como entender se existem avanços
no setor da construção civil da cidade de João Pessoa no cenário
da sustentabilidade. Além disso, espera-se promover aos discentes
envolvidos uma sensibilidade para produzir com práticas sustentáveis,
assim serão formados profissionais preocupados com o bem-estar das
gerações futuras.

Palavras-Chave: Sustentabilidade. Construção Civil. Práticas


Sustentáveis.
1 Mestre em Engenharia de Produção. Professora do curso de Engenharia Civil do Unipê.
E-mail: julyana.tavares@unipe.br
2 Engenheiro Civil e Doutor em Engenharia Mecânica. Professor do Curso de Engenharia Civil do Unipê.
Professor Adjunto do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da UFPB. E-mail: sobrinhojr@hotmail.com
3 Graduanda do Curso de Engenharia Civil do Unipê. E-mail: mirela.jpa@gmail.com
4 Graduanda do Curso de Engenharia Civil do Unipê. E-mail: rochanna.alves@hotmail.com
5 Graduando do Curso de Engenharia Civil do Unipê. E-mail: renatomourar@gmail.com

348 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


INTRODUÇÃO
A escassez dos recursos naturais se tornou um tema bastante
discutido no planeta. As transformações sociais, tecnológicas e políticas
ao longo dos anos vêm causando a degradação da natureza. O impacto do
consumo dos recursos naturais passa por três fases históricas e abrangem
as diferentes formas as quais os seres humanos se utilizavam daquilo do que
era retirado do meio ambiente. A primeira fase se refere ao período neolítico,
com a descoberta da agricultura, A segunda fase se inicia no momento
em que o ser humano entende que aquelas matérias primas retiradas da
natureza, poderiam ser transformadas em produtos úteis, que impulsionou
de forma intensa e irracional o consumo pelos recursos naturais, causado pelo
crescimento exponencial da população humana e pela crescente demanda
por alimentos. A terceira fase compreende a cultura do consumismo, na qual
a sociedade atual está inserida, de forma que o consumo é incentivado com o
propósito de estimular o progresso de uma nação, com o meio ambiente ao
serviço do bem-estar da humanidade (BAPTISTA, 2010).
De forma geral, a sustentabilidade pode ser entendida como
o conjunto de práticas que suprem as necessidades atuais sem afetar as
gerações futuras, ou seja, utiliza de forma inteligente os recursos naturais
para um desenvolvimento socioeconômico que não acometa o meio ambiente
no futuro (PATZLAFF, 2009).
Ultimamente, grandes conferências mundiais foram realizadas,
como a Rio 92, no Rio de Janeiro, em 1992, e a Rio+10, em Johannesburgo,
em 2002. Nessas reuniões, protocolos internacionais foram firmados a fim de
rever as metas e elaborar mecanismos para o desenvolvimento sustentável.
O desafio global de melhorar o nível de consumo da população mais pobre
e diminuir o impacto ambiental dos assentamentos humanos no planeta foi
o grande tema em debate.
A construção civil é hoje um dos mais importantes setores da
economia, porém é uma das maiores consumidoras de recursos naturais.
De acordo com Patzlaff (2009), estima-se que o consumo de energia e água
pela construção civil brasileira seja de 40% e 34%, respectivamente, além de
produzir 67% da massa total dos resíduos sólidos urbanos e 50% do volume
total de resíduos. Por isso, busca-se aplicar o conceito de sustentabilidade à
construção, na qual são adotadas medidas que provoquem menor impacto
ambiental.
A construção sustentável, no setor da construção civil é um
conceito que denomina um conjunto de práticas adotadas antes, durante e
após os trabalhos de construção com o intuito de obter uma edificação que
não agrida o meio ambiente.
Com base no pressuposto, este trabalho propõe-se avaliar as
edificações verticais da grande João Pessoa quanto a utilização de práticas
sustentáveis. No contexto, será observado se as construtoras brasileiras
estão buscando práticas sustentáveis, além do que a legislação obriga, ou
seja, reduzindo perdas e evitando desperdício de materiais de construção,
gerenciando corretamente os resíduos e incentivando primeiro sua
reutilização, quando possível, e depois a sua reciclagem, inclusive pela
aquisição de materiais de construção reciclado.
Sendo assim, este trabalho é de grande importância para

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 349


incentivar o conhecimento das práticas de construção sustentável, bem
como entender se existem avanços no setor da construção civil da cidade de
João Pessoa no cenário da sustentabilidade. Além disso, espera-se promover
aos discentes envolvidos uma sensibilidade para produzir com práticas
sustentáveis, assim serão formados profissionais preocupados com o bem-
estar das gerações futuras.

FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

SUSTENTABILIDADE
A sustentabilidade desde o início do século XX passou a ganhar
destaque em termos internacionais e se intensificou ainda mais nos anos
90. A construção sustentável refere-se à aplicação da sustentabilidade às
atividades construtivas, sendo definida como a criação e responsabilidade de
gestão do ambiente construído, baseado nos princípios ecológicos e no uso
eficiente de recursos.
Com o crescimento demográfico do planeta, está cada vez
mais difícil de se obter o desenvolvimento com a sustentabilidade, pois,
o consumo incontrolável dos recursos naturais e a degradação do meio
ambiente passam a exigir cada vez mais ações de controle e corretivas para
que se possa obter o equilíbrio do planeta sem afetar os recursos naturais.
Contudo, vale mencionar que o desenvolvimento sustentável busca o
crescimento econômico, com a difusão dos benefícios desse crescimento
entre a população, e a preservação do meio ambiente, e que não precisa nem
deve se restringir a uma preocupação com a sustentabilidade por um prisma
puramente ambiental (GOMES, 1995).

PRÁTICAS SUSTENTÁVEIS NA CONSTRUÇÃO CIVIL


Os empreendimentos da construção civil são responsáveis por
grande parte do impacto causado à natureza, por isso há uma grande
preocupação por parte das construtoras e por partes dos clientes com o
interesse pelas práticas sustentáveis que a edificação apresenta. Com base
nisso, as construtoras brasileiras devem estar atentas, se atualizando e
adequando as suas políticas às práticas sustentáveis que podem ser desde a
extração da matéria-prima, planejamento, projeto, construção, utilização até
possíveis demolições (ROCHETA; FARINHA, 2007).
Os clientes atuais buscam nas edificações alguns fatores sustentáveis
tais como: durabilidade dos materiais utilizados durante a construção,
monitoramento do desempenho da edificação, eficiência energética, captação de
águas de chuva, materiais e processos que reduzam a utilização dos recursos
naturais e que contribuam para a manutenção da biodiversidade, utilização de
materiais naturais e ou reciclados, dentre outros.
De acordo com Mandai et al. (2011), em uma construção
sustentável utiliza-se medidas, soluções tecnológicas e diferentes materiais
para promover o uso inteligente de recursos naturais finitos, redução da
poluição e o conforto dos usuários.

350 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


Sendo assim, o uso de energias renováveis, como solar e eólica,
contribuem para amenizar o impacto ambiental causado pelo alto consumo
energético. Porém, os custos elevados de implantação e manutenção dessas
tecnologias dificultam sua ampla aplicação no mercado da construção.
Outra contribuição pode ser através de uma estratégia adequada
de ventilação natural, para isso é necessário observar a orientação solar do
edifício e desenvolver um projeto eficiente, no qual os cômodos aproveitem
ao máximo as condições naturais oferecidas pelo ambiente (ROCHETA ;
FARINHA, 2007).
Do mesmo modo ocorre para o aproveitamento de iluminação
natural. Esse recurso reduz a necessidade de utilização de iluminação
artificial e provoca uma diminuição no consumo energético dos edifícios
(ROCHETA ; FARINHA, 2007).
Além disso, a utilização de cores claras nas superfícies verticais
interiores contribuem para uma melhor qualidade térmica, pois refletem parte
da radiação solar incidente no ambiente. Também, para melhorar naturalmente
a temperatura ambiente, deve-se usar materiais isolantes térmicos, pois
minimizam as trocas de calor (ROCHETA ; FARINHA, 2007).
Medidas como o aproveitamento de águas pluviais e residuais
domésticas contribuem para redução do consumo de água da rede pública
e do custo de fornecimento da mesma, auxiliam no controle das enchentes
e possuem baixo custo de investimento. As águas residuais domésticas
possuem qualidade inferior às águas pluviais, por isso devem passar por
processos de filtração e desinfecção. Além dessas, pequenas medidas, como
torneiras com temporizadores e descargas acopladas, também influenciam
um melhor aproveitamento da água (ROCHETA ; FARINHA, 2007).
A indústria da construção civil é responsável por consumir
grande quantidade dos recursos naturais, por isso optar por materiais
reciclados, reutilizáveis, com baixa manutenção, reflorestados legalmente,
no caso da madeira, e não poluentes, ameniza os efeitos causados ao ambiente
(PATZLAFF, 2009; ROCHETA ; FARINHA, 2007).
A adopção de uma adequada política de gestão de resíduos
que se baseie em reduzir, reutilizar, recuperar e reciclar é importante ao
longo de todo o ciclo de vida dos edifícios. Reduzir os resíduos implica um
adequado planejamento. Para os processos de reutilização, recuperação e
reciclagem contribui a utilização de elementos pré-fabricados bem como
uma recolha seletiva dos resíduos em obra e respectivo depósito apropriado
para posterior recolha/entrega às entidades competentes (ROCHETA ;
FARINHA, 2007, p.2).
Dessa forma, o desenvolvimento de tecnologias que permitem
reduzir custos, tanto para gerenciar as etapas dos processos construtivos,
como a reutilização da água nas edificações e aproveitamento de resíduos na
construção, por exemplo, são os principais ideais das práticas sustentáveis
na construção civil.

CERTIFICAÇÕES AMBIENTAIS
As novas edificações já vêm sendo projetadas com visão
ecológica, havendo, inclusive, normas técnicas e certificações internacionais
para os greenbuildings (edifícios verdes). Importante observar que as

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 351


principais medidas de proteção ao meio ambiente já vêm sendo implantadas
nos projetos das futuras edificações. A maioria dos antigos edifícios, no
entanto, não contempla projetos ou equipamentos com esses objetivos
de sustentabilidade, ou outras medidas que propiciem maior proteção ao
meio ambiente, motivo da importância de se incluir esses itens no plano de
manutenção de melhoria (GOMIDE, 2007).
A construção civil desenvolve novas tecnologias de construção,
no intuito de contribuir com a preservação do meio ambiente. Essas
novas tecnologias podem colaborar para solução de questões ambientas, e
implementar a sustentabilidade em uma tentativa de minimizar a degradação
do meio ambiente.
Em função desse cenário, surgem os certificados para obras
sustentáveis. As soluções aplicadas às obras, estão beneficiando a melhoria
de saúde e bem-estar de quem utiliza o espaço e a otimização da relação das
pessoas com o ambiente, a redução dos estragos progressivos ocasionados
pela contaminação, oxidação e deterioração dos materiais.
Atualmente, existem vários sistemas internacionais de
certificação e orientação ambiental para edificações, que possuem o intuito
de incentivar a transformação dos projetos, obra e operação das edificações,
sempre com foco na sustentabilidade de suas atuações. Os certificados mais
utilizados no Brasil são: o certificado internacional LEED, o Processo
AQUA e o Selo Casa Azul.
Desenvolvido em 1998 pelo U.S. Green Building Council (
USGBC) o LEED (Leadership in Energy and Environmental Design) é um selo
internacional que certifica edifícios que priorizam o conforto dos usuários
com sistemas eficientes de redução de desperdícios. Os empreendimentos
que possuírem essa certificação indicam que atenderam aos critérios
estabelecidos de desempenho de energia, água, redução de CO2, qualidade
do interior dos ambientes, uso de recursos naturais e impactos ambientais.
A certificação ocorre através de um sistema de pontos que define o nível
de proteção ambiental adquirido no empreendimento. O selo LEED
possui 4 (quatro) níveis: Certificado, Prata, Ouro e Platina (GRÜNBERG,
[s.d]; LEITE, 2011). De acordo com Mandai et al. (2011), a construção
sustentável pode custar 5% a 7% mais que a convencional, porém o retorno
do investimento de empreendimentos certificados pelo LEED é de três a
cinco anos, enquanto o de edifícios convencionais pode chegar a dez anos.
O Processo de Alta Qualidade Ambiental (AQUA) é o primeiro
selo brasileiro que norteia a construção sustentável. Os empreendimentos
certificados pelo Processo AQUA foram avaliados pelo seu desempenho
ambiental e apresentam benefícios como economia de água e energia e
qualidade de vida dos usuários (MANDAI et al., 2011). O Processo AQUA
compõe-se do Sistema de Gestão do Empreendimento (SGE) e do referencial
de Qualidade Ambiental do Edifício (QAE). Desenvolve uma metodologia na
qual são verificadas quatorze categorias e incorpora elementos que facilitam
o desempenho ambiental após a entrega da obra (GRÜNBERG, [s.d.).
O Selo Casa Azul tem por objetivo estimular o uso inteligente dos
recursos naturais, reduzir as despesas mensais dos usuários e incentivar as
vantagens das construções sustentáveis. São avaliadas as soluções eficazes
utilizadas na construção, manutenção, uso e ocupação das edificações.
A adesão ao selo não é obrigatória e é aplicada apenas em construções

352 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


habitacionais financiadas pela Caixa Econômica Federal. Os possíveis níveis
do selo conquistado são: Bronze, Prata e Ouro (GRÜNBERG, [s.d.]).

METODOLOGIA
A metodologia utilizada na pesquisa consiste em bibliográfica e
exploratória. A pesquisa bibliográfica foi realizada por meio de consultas em
trabalhos acadêmicos, artigos e livros referentes ao tema sustentabilidade
na construção civil. Após o levantamento dos conceitos de práticas de
sustentabilidade, foi elaborado um questionário usado como ferramenta
de pesquisa para aplicação junto a gestores e trabalhadores que atuam nos
canteiros de obra pesquisados.

PROCEDIMENTOS
Para determinar a amostra, foi realizada uma apuração junto ao
Sindicato da Industria da Construção Civil de João Pessoa (SINDUSCON-
JP) das construtoras cadastradas (179) e retirada uma amostra representativa
através de uma técnica sistemática, acreditando que 4% das construtoras de
João Pessoas são sustentáveis. Das empresas cadastradas, 31 construtoras
aceitaram participar da pesquisa.
A pesquisa utilizou amostra probabilística e aplicando tal
metodologia, teve por objetivo traçar um perfil de forma mais aleatorizada
possível das construtoras em relação a sustentabilidade. A escolha em
usar uma amostra probabilística é que na revisão bibliográfica, foram
apresentados vários estudos sobre a sustentabilidade na construção civil,
porém nenhum adotou esse tipo de amostragem, ou seja, a amostragem por
conveniência foi mais utilizada.

ANÁLISE DOS DADOS


A análise dos dados adquiridos foi realizada de forma
quantitativa, utilizando-se procedimentos estatísticos; e qualitativa, através
da estruturação e análise destes. A partir dos resultados, foram avaliadas
as práticas de sustentabilidade existentes nas empresas pesquisas. Foram
utilizados testes estatísticos através do software SPSS com auxílio da
planilha Excel obtendo os gráficos e tabelas.
Para verificar se os escores: sustentabilidade nos canteiros de
obras; práticas sustentáveis no pós obra; gestão ambiental; e etapas do
projeto, associando ao tempo das empresas pesquisas atuam no mercado e o
tempo de profissão dos profissionais entrevistados, utilizou-se o método da
correlação de Pearson, visto que as variáveis citadas acima se comportam
como distribuição normal, de acordo com o teste de Kolmogorov-Smirnov.

RESULTADOS E DISCUSSÃO
A seguir são apresentados os principais resultados da tabulação
dos dados coletados através da aplicação do questionário nas 31 construtoras
de João Pessoa filiadas a SINDUSCON-JP.

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 353


GESTÃO AMBIENTAL
Em se tratando de gestão ambiental, a pesquisa realizada indica
que: 71% dos clientes não buscam alternativas sustentáveis na hora de fechar
negócio; 58% das empresas desejam atingir metas em favor da construção
sustentável visando certificação ambiental; 97% das construtoras trabalham
com o plano de gerenciamento dos resíduos da construção e demolição
(RCDs); 71% realizam capacitação dos funcionários sobre o RCD; e 65%
das empresas há uma fiscalização constante para evitar o desperdício. O
resultados estão representados no Gráfico 1.

Gráfico 1 - Distribuição dos percentuais de itens sobre a Gestão Ambiental


aplicada nas construtoras entrevistadas

Fonte: Dados da Pesquisa, 2016.

ETAPA DE PROJETO
Na etapa de projeto (gráfico 2), verificou-se que 67,7% das
empresas se preocupam com a gestão sustentável da implantação da obra e
90,3% com a implantação e análise do entorno.

Gráfico 2 - Distribuição dos percentuais sobre as preocupações ambientais


na fase da Etapa do Projeto

Fonte: Dados da pesquisa, 2016.

354 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


CANTEIRO DE OBRAS

A maioria das empresas pesquisadas (71%) utilizam materiais de


baixo impacto ambiental, contudo apenas 6,5% das empresas se preocupam
em reduzir o consumo energético e utilizam lavagem a seco nos seus
canteiros de obras. O Gráfico 3 abaixo representa os percentuais obtidos
nos questionamentos relacionados a sustentabilidade no canteiro de obras.

Gráfico 3 – Sustentabilidade no canteiro de obras

Fonte: Dados da pesquisa, 2016.

PÓS OBRA
Foram respondidos questionamentos, relativos as nove práticas
sustentáveis presentes nos empreendimentos, tendo como opções de
respostas: “sim”, “as vezes” e “nunca”.
A prática pós obra mais utilizada pelas empresas é a utilização
de lâmpadas econômicas e/ou com sensor de presença (91%). O uso de
aquecedor solar ou a gás é o item menos utilizado (27%).

Gráfico 4 – Sustentabilidade pós obra

Fonte: Dados da pesquisa, 2016.

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 355


TESTES ESTATÍSTICOS
Foram utilizados testes estatísticos através do software SPSS
com auxílio da planilha Excel obtendo as Tabelas 1 e 2 a seguir.

Tabela 1 – Teste de normalidade


Variáveis Kolmogorov-Smirnov
Estatística df Sig.
Tempo de profissão ,222 31 ,000*
Tempo de mercado ,192 31 ,005*
Sustentabilidade no canteiro de obras ,176 31 ,015*
Práticas sustentáveis ,141 31 ,117
Gestão ambiental ,161 31 ,039*
Etapas do projeto ,251 31 ,000*

Fonte: Dados da pesquisa, 2016.

Nível de significância de 0,05

Baseado no teste de normalidade observou se que os escores das


variáveis no quadro apresentam distribuição normal, dessa forma pode-se
associar o tempo de mercado e o tempo de profissão com a sustentabilidade
no canteiro de obras, gestão ambiental e etapas do projeto.

Tabela 2 – Correlação de Pearson


Tempo de Tempo de
Variáveis P_valor P_valor
mercado Profissão
Sustentabilidade no
canteiro de obras -0,134 0,472 -0,0008 0,965
Gestão ambiental -0,106 0,572 0,009 0,243
Etapas do projeto 0,321 0,078 0,243 0,187
Fonte: Dados de pesquisa, 2016.

Conforme a correlação de Pearson, contatou-se que nenhuma das


variáveis envolvidas apresentou relação com o tempo de mercado e o tempo
de profissão, portanto pode-se afirmar que o tempo de mercado e o tempo
da profissão não interferem no uso de práticas sustentáveis nas edificações
verticais da grande João pessoa.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Pelo anteriormente exposto, conclui-se que as empresas
construtoras atuantes na grande Joao Pessoa utilizam práticas de
sustentabilidade nos canteiros de obras. Porém, verificou-se que nas visitas

356 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


para aplicação dos questionários, as respostas obtidas não condizem com a
realidade, ou seja, o discurso é diferente da realidade.
A maioria das construtoras (97%) trabalham com o plano de RCDs,
comprovando uma preocupação com a responsabilidade socioambiental,
mas acima de tudo atender a legislação municipal (Lei nº. 11.176/2007),
que prevê a criação de um sistema de Gestão Sustentável de Resíduos da
Construção Civil e Demolição.
Este trabalho não pretende esgotar o assunto, pois a
sustentabilidade abrange de forma ampla a construção civil, que por sua vez
está em constante evolução.

REFERÊNCIAS
BAPTISTA, V. F. A relação entre o consumo e a escassez dos recursos
naturais: uma abordagem histórica. Revista em saúde e ambiente.
Universidade UNIGRANRIO, 2010. Disponível em <http://publicacoes.
unigranrio.edu.br/index.php/sare/article/viewFile/921/682> Acesso
em:5 dez. 2014.

GOMES, G. M. Desenvolvimento sustentável no nordeste brasileiro: uma


interpretação impopular. In: ______. ; SOUZA, H. R.; MAGALHÃES, A. R.
(Org.). Desenvolvimento sustentável no nordeste brasileiro. [S.l.]: Ipea,
1995. Cap.6. p.9-60.

GOMIDE, T. L. F. Engenharia legal: novos estudos. São Paulo: Leud, 2008.

_____. Manutenção predial (Parte II). Manutenção sustentável. Revista


Construção Mercado, jul. 2007. Edição 72.

GRÜNBERG, Paula Regina Mendes; MEDEIROS, Marcelo Henrique


Farias; TAVARES, Sergio Fernando. Certificação ambiental de
habitações: comparação entre LEED for homes, Processo AGUA e
Selo Casa Azul. [s.l.] : [s.n.], [s.d.].

LEITE, Vinicius Fares. Certificação ambiental na construção civil:


Sistemas LEED e AQUA. Belo Horizonte, MG, 2011. p.7-27.

MANDAI, C. E. et al. Adequação da construção civil aos preceitos da


sustentabilidade: estudo exploratório junto a construtoras curitibanas.
Monografia( Graduação) - Universidade Tecnológica Federal do Paraná, 2011.

PATZLAFF, J. O. Avaliação de princípios da construção sustentável em


construtoras de micro e pequeno porte na região do Vale do Caí-RS.
Dissertação ( Mestrado) UNISINOS, São Leopoldo, 2009. 162 p.

ROCHETA, V.; FARINHA., F.. Práticas de projecto e construtivas para a


construção sustentável. Faro, Portugal, p. 2-10, dez. 2007.

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 357


CAPÍTULO 27
.

SISTEMA DE CAPTAÇÃO DE ÁGUA


DE CHUVA: UM ESTUDO SOBRE A
VIABILIDADE DE IMPLANTAÇÃO EM
UM CENTRO DE ENSINO NA CIDADE DE
JOÃO PESSOA-PB
Vânia Paiva Martins1, Maria Jacy Cajú do Egito2, Thaiane Rabelo Da Costa3,
Gedeão Costa Floriano dos Santos4, Julliana Caldas5.

RESUMO
A escassez da água provocada pelo crescimento populacional,
poluição e o consumo desordenado provocou o surgimento de
políticas que privilegiam o uso racional da água doce e outras formas
de abastecimento urbano como os sistemas de captação de água de
chuva. Este trabalho trata de uma análise sobre a possibilidade de
instalação de um sistema de captação de água de chuva em um bloco
de um Centro Universitário. O estudo do índice de precipitação anual
acumulada para efeito de cálculo do volume de água aproveitado
durante os anos de 1995 a 2015 demonstrou que, como existe uma
variação pluviométrica rítmica, a utilização da mediana do índice
é mais apropriável e confiável, ou seja, 1966 mm. Nesse sentido, o
resultado da presente pesquisa demonstrou que o aproveitamento da
coberta disponível para a captação de água de chuva no bloco estudado
ultrapassaria a estimativa de consumo. Ou seja, seria suficiente para
suprir todas as necessidades de abastecimento do edifício, somente
com a implantação do sistema de captação.

Palavras-Chave: Captação de água pluvial. Índice de precipitação


pluviométrica. Estimativa de consumo.

1 Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente (PRODEMA) UFPB/ UEPB. Professora do curso de


Engenharia Civil do Unipê. E-mail: vania.paiva@unipe.br
2 Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente (PRODEMA) UFPB/ UEPB. Professora do curso de
Engenharia Civil do Unipê. E-mail: maria.jacy@unipe.br
3 Graduanda do Curso de Engenharia Civil do Unipê. E-mail: thaianerabelo13@gmail.com
4 Graduando do Curso de Engenharia Civil do Unipê. E-mail: gedeaocosta@gmail.com
5 Graduanda do Curso de Engenharia Civil do Unipê. E-mail: jullianacaldas8@gmail.com

358 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


INTRODUÇÃO
A vida, da maneira como conhecemos, não existe sem a presença
da água. Todos os organismos conhecidos que habitam o planeta Terra
contêm água em suas composições. Mas a falta de água é um dos mais
graves problemas enfrentados nos dias atuais. O mau uso, o crescimento da
demanda e a falta de gestão são fatores que contribuem para alavancar ainda
mais a escassez hídrica que vivemos. É de grande valia encontrar maneiras
de se preservar esse recurso para que as gerações futuras possam ter acesso
ao mesmo.
A conscientização da existência desse distúrbio é um passo
importante para que se possa amenizar o problema. Existem formas de
economizar água que podem ser levadas para a população a fim de atingir
o uso racional da mesma. A captação de água da chuva é um artificio que
pode ser utilizado para situações em que a utilização de água potável não
seja necessária.
O aproveitamento da água pluvial é um procedimento difundido
em vários países há anos. É uma tecnologia que vem ganhando adeptos e dá
ênfase à conservação da água, pois ao se fazer uso da mesma é naturalmente
gerada uma economia de água potável. Aliada a isso, em grandes cidades,
esse aproveitamento pode auxiliar na prevenção de enchentes ocasionadas
pelas chuvas torrenciais, permitindo que seja aproveitada para outros
fins a água que tem dificuldade em se infiltrar no solo devido a grande
impermeabilidade da superfície.
O objetivo preponderante desta pesquisa é averiguar a capacidade
de captação de água da chuva de um bloco de salas de aula do Centro
Universitário de João Pessoa (UNIPÊ), particularmente o denominado de
bloco F, baseada na média de chuva acumulada entre os anos de 1985 a 2015,
obtida por meio de uma análise dos índices pluviométricos do Instituto
Nacional de Meteorologia do Brasil (INMET), para verificar se é viável a
implantação de um sistema dessa natureza.

METODOLOGIA
O procedimento metodológico consistiu inicialmente na
fundamentação teórica com uma pesquisa bibliográfica sobre conservação
da água e os sistemas de captação de chuvas. Em seguida, utilizando
como estratégia de pesquisa o estudo de caso e gerando uma pesquisa de
campo, conforme Vergara (2000), o presente estudo pôde ser classificado
considerando-se os seguintes aspectos: quanto aos fins e quanto aos meios.
Quanto aos fins, trata-se de pesquisa exploratória, aplicada
e descritiva. Exploratória porque existe a necessidade de investigar a
realidade, existente no Bloco F, com o cálculo da estimativa de captação de
água pluvial na coberta existente e aplicada porque foi criada a partir da
necessidade de resolver um problema concreto, isto é, conforme a utilização
de tipos de telhas diferentes.
Nesse sentido, Silva e Menezes (2001, p. 21) define a pesquisa
aplicada como aquela que: “objetiva gerar conhecimentos para aplicação
prática dirigida a solução de problemas específicos. Envolve verdades e
interesses locais”

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 359


Por isso, procedeu-se a pesquisa visando um diagnóstico geral do
bloco F do campus universitário com a realização de registro fotográfico,
a apresentação dos sistemas de captação de água de chuva e o cálculo das
estimativas de captação atuais do referido bloco e também o cálculo da
estimativa com a instalação de um sistema de captação, a partir de uma
abordagem quantitativa.

REFERENCIAL TEÓRICO
A água é um recurso natural essencial para vida dos seres vivos e
está presente em grande quantidade na atmosfera terrestre. Apesar disso, a
água doce, que é utilizada para consumo humano apresenta-se em pequenas
quantidades e segundo Marinoski (2007) é o mais ameaçado recurso, tanto
devido à escassez como também a qualidade, pois os recursos hídricos vêm
sendo desperdiçados de diferentes formas em todo o mundo, sobretudo nos
grandes centros urbanos.
Tendo em vista a sua importância para abastecimento humano,
novas formas de preservação desse elemento têm sido estudadas nos últimos
anos, a exemplo do sistema de captação de água de chuva, tanto para fins
potáveis, quanto para não potáveis, a depender da qualidade da água captada
e do material filtrante utilizado para dimensionamento desses sistemas.
Segundo Pereira e Andrade (2013) aproveitar águas pluviais
surge como uma fonte alternativa de abastecimento dos pontos de consumo
de água, sendo importante prática na busca da sustentabilidade hídrica e
podendo evitar desperdício de água de alta qualidade para fins não potáveis.
Já segundo Nascimento, Fernandes e Yoshino (2016) o
aproveitamento de água da chuva demonstrou ser uma ótima alternativa para
o uso sustentável e a gestão e o planejamento dos recursos hídricos e ainda
com a vantagem de que é totalmente praticável, na maioria dos casos. Além
disso, com baixo investimento pode-se fazer a instalação desse sistema, uma
vez que a maioria das grandes cidades prevê a construção de uma bacia de
retenção da água de chuva, tornando útil a ideia de reutilizar essa água em vez
de simplesmente destiná-la a rede pluvial pública (KRÜTZMANN, 2015).
Compete-nos ressaltar que os sistemas de captação e
aproveitamento de água da chuva, em geral, são simples, pois segundo o
referido autor (2015), se for realizado um estudo adequado e a criação de
um projeto, o sistema pode ser facilmente implantado em edificações novas
e em construções existentes.
Porém, segundo Guimarães et al. (2015), a utilização do sistema
de captação necessita de estudos acerca da viabilidade e eficiência no
atendimento dos usos a que será destinado, avaliação dos possíveis riscos
sanitários, adequação das instalações hidráulicas prediais, dimensionamento
do sistema de captação, coleta e armazenamento, observando as
características locais, evitando a implantação de projetos inadequados.
Enfim, para a viabilidade de captação da água de chuva em um sistema, é
necessária a análise de três fatores: precipitação, área de coleta e demanda
(GUIMARÃES et al., 2015).
Para projetar tal sistema, conforme Silva (2014) devem-se
levar em conta as condições ambientais locais, clima, fatores econômicos,
finalidade e usos da água, buscando não uniformizar as soluções técnicas.

360 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


Os componentes principais do sistema de aproveitamento da água
de chuva são: a área de captação (telhados ou superfícies impermeáveis no
solo) que recebem a precipitação pluvial e geram o escoamento superficial;
telas ou filtros para remoção de materiais grosseiros, tubulações para a
condução da água e o reservatório de armazenamento (SILVA, 2014).
Como o reservatório de armazenamento ou de água da chuva é
o mais oneroso do sistema, deve ser cuidadosamente projetado, observando
alguns fatores tais como: tipo de material, disponibilidade pluviométrica
local, entre outros.
O reservatório de água da chuva, por ser o
componente mais dispendioso do sistema, deve
ser projetado de acordo com as necessidades do
usuário e com a disponibilidade pluviométrica local
para dimensioná-lo corretamente, sem inviabilizar
economicamente o sistema. Eles podem ser do
tipo enterrado, semienterrado, apoiado sobre o
solo ou elevados, sendo construídos de diferentes
materiais (concreto armado, alvenaria, fibra de
vidro, aço, PVC.) e de diferentes formas (PEREIRA;
ANDRADE, 2013).

Segundo Silva (2014) no Brasil, em especial na região Nordeste, já


se faz uso das águas de chuva para o consumo humano fazendo o reserva em
cisternas, porém sem um controle da qualidade da chuva coletada. Por isso,
para um maior controle de qualidade, deve ser levado em conta também,
segundo Guimarães et al. (2015), a presença das camadas de material
filtrante – areia fina, areia grossa, seixo, pedregulho e carvão que favorecem
a retenção ou eliminação de microrganismos causadores de doenças.
No que se refere à legislação percebe-se que ainda há uma
precariedade em incentivos para a implantação dos sistemas de captação
e utilização da água da chuva, apesar de algumas cidades brasileiras já
aplicaram leis referentes ao tema (KRÜTZMANN, 2015).
O aproveitamento de água pluvial é uma alternativa que promove
um bom potencial de economia para redução do consumo de água potável,
seguido dos aparelhos economizadores, que são a segunda alternativa
mais viável e como atendem direta ou indiretamente um grande número
de pessoas, torna-se um excelente meio de divulgação dos benefícios do
emprego de técnicas sustentáveis (FASOLA et al, 2011).
Além disso, assegura a redução dos custos financeiros com os serviços
de abastecimento de água nos vários setores da Unidade a que ela é destinada, a
preservação da água no meio ambiente e, consequentemente, a conservação de
um dos bens naturais mais escassos. (GUIMARÃES, et al., 2015).
Comprovando este entendimento, estudo feito por Araldi et
al. (2014) em um sistema de captação de água da chuva, pôde perceber a
diminuição de gastos com água encanada/tratada quando a demanda passou
a ser realizada pela captação da cisterna, além de trazer a atenuação dos
picos de vazão de enchentes.
Com relação ao consumo de água em instituições de ensino,
é importante ressaltar que ele pode variar bastante devido aos tipos

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 361


de aparelhos sanitários e das dependências existentes no local como:
lanchonetes, ginásios, laboratórios, cozinha, horta e outros ambientes em
que ocorre consumo de água (FASOLA et al., 2011).
Vale destacar que em edificações públicas, como escolas
e universidades, onde o usuário não é diretamente responsável pelo
pagamento da conta de abastecimento de água, ocorre uma tendência de
maior desperdício de água. Desta forma, alguns programas e estudos de
uso racional da água em escolas e universidades vêm sendo desenvolvidos
atualmente, tendo como principal objetivo a redução do consumo de água.
No Brasil, pode-se destacar o PURA-USP que vem sendo implantado desde
1997 no campus da Universidade de São Paulo - USP. (MARINOSKI, 2007).
O aproveitamento de água da chuva se torna mais viável quando
o consumo de água não potável é elevado, caso de indústrias, edifícios
que pertencem ao setor público, como escolas, onde são contabilizados
maiores consumos e desperdícios de água, universidades e entre outros,
mostrando-se cada vez mais necessário o incentivo à conservação de água
nessa tipologia de edificações acarretando uma economia significativa de
água tratada, permitindo períodos de retorno com prazos mais favoráveis.
(MARINOSKI, 2007, 2011).

RESULTADOS E DISCUSSÃO
O Centro Universitário de João Pessoa (UNIPÊ) é constituído
por diferentes blocos, composto por salas de aulas, bibliotecas, laboratórios,
auditórios e centro de vivência. Para o estudo em questão foi realizada uma
análise na coberta do bloco F, onde funcionam salas de aula dos cursos de
Engenharia Civil e Direito nos turnos matutino, vespertino e noturno.

Figura 1 - Centro Universitário UNIPÊ, João Pessoa-PB

BLOCO F

Fonte: Google Earth (2016)


A coberta do bloco F apresenta uma área de 1376,10 m² e é
composta por telhas cerâmicas, apresentando o telhado em duas águas,
conforme mostra a figura 2.

362 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


Figura 2- Coberta do bloco F do UNIPÊ

Fonte: Google Earth (2016)

PRECIPITAÇÃO ACUMULADA NO PERÍODO DE 1985 – 2015


Anualmente, o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET)
disponibiliza o índice de precipitação acumulado dos 26 estados, além
do Distrito Federal, do Brasil. Com o auxilio dos índices do estado da
Paraíba, recortamos àqueles referentes à cidade de João Pessoa, local onde
está situado o objeto de estudo analisado. Portanto, o gráfico 1 mostra a
precipitação anual acumulada de 1985 a 2015.

Gráfico 1- Precipitação anual acumulada para a cidade de João Pessoa, PB

Fonte: INMET – Instituto Nacional de Meteorologia (2015)

Percebe-se que ao longo desses anos houve uma variação


cíclica em relação à precipitação de chuva em seu respectivo ano. Para
tal, considerando que pode chover muito ou pouco em determinado ano,
achou-se viável fazer um cálculo médio para, a partir daí, calcular o índice
pluviométrico precipitado acumulado médio e o volume de água que pode
ser aproveitado por meio da coberta do bloco F.
Inicialmente, foi calculado a média e a mediana. A média é obtida
dividindo-se a soma das precipitações anuais acumuladas, do ano de 1985 a
2015, pelo número de anos estudados. Neste caso, o equivalente a 31 anos.
Já o cálculo da mediana indica exatamente o valor central da precipitação,
quando esta é colocada em ordem crescente, ao longo dos anos estudados.

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 363


Tabela 1- Precipitação acumulada dos anos de 1985 a 2015

ÍNDICÉ ESTATÍSTICO PRECIPITAÇÃO ACUMULADA (1995 - 2015)*


Média 1904,28
Mediana 1966,00

* Cálculo obtido por meio do software Excel


Fonte: Elaborada pelos autores (2016)
Tratando-se do desvio padrão, este é uma medida de dispersão usada
com a média. O resultado obtido com o auxílio do software Excel foi de 510,60.
Este valor mostra que o desvio padrão encontra-se inferior à média, sendo
quase a metade da mesma, ou seja, que há uma variação pluviométrica rítmica,
podendo, assim, ser utilizado tanto o valor da média quanto da mediana.
Caso o desvio padrão desse um valor próximo à média, o gráfico
se caracterizaria com arritmia, mostrando que dificilmente se teria um
controle em relação aos valores da precipitação acumulada anual. Assim,
não poderia ser utilizado nem a média e nem a mediana.
Segundo Tomaz (2003), a precipitação média não proporciona
credibilidade de dados, pois representa aproximadamente 40% dos valores
contidos na amostra. Enquanto que as medianas, conforme Sugahara e
Rocha (2010), apresentam vantagens por serem mais robustas em relação à
outliers, tornando a sua utilização confiável.
Dessa forma, para efeito de cálculo do volume de água
aproveitado durante os anos de 1995 a 2015, utilizamos a mediana do índice
de precipitação acumulado que é de 1966mm.

CÁLCULO DO VOLUME DE ÁGUA APROVEITADO


Segundo Tomaz (2003), o volume de água da chuva aproveitado
não é o mesmo que o precipitado por causa de perdas que ocorrem devido a
alguns fatores como: perdas devido à limpeza do telhado, perda por evaporação,
autolimpeza, entre outras. Assim, ele é calculado por meio da seguinte fórmula:

V=AxIxc (1)

Onde: V = volume de água de chuva aproveitado


A = área da coberta do bloco F= 1376,10 m²
I = mediana do índice de precipitação acumulado entre 1985 e 2015
= 1966 mm
C = coeficiente de Runoff das telhas

Compete-nos esclarecer que, como o tipo de material por onde a


chuva escoa influencia no volume aproveitado, por conta disso, para efeito
de cálculo, usa-se um coeficiente de escoamento denominado coeficiente de
Runoff (C - conforme foi detalhado na fórmula apresentada anteriormente),
que é o quociente entre a água que escoa superficialmente pelo total da água
precipitada no telhado (TOMAZ, 2003).

364 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


Na Tabela 2 são apresentados os coeficientes médios de Runoff para
cada tipo de telha, inclusive a do bloco F, o qual se encontra material cerâmico.

Tabela 2- Coeficientes médios de Runoff


MATERIAL COEFICIENTE DE RUNOFF
Telhas cerâmicas 0,8 a 0,9
Telhas esmaltadas 0,9 a 0,95
Telhas corrugadas de metal 0,8 a 0,9
Cimenta amianto 0,8 a 0,9
Plástico, PVC 0,9 a 0,95

Fonte: Tomaz (2003)


Após a realização dos cálculos necessários e cientes desses
valores, procuramos aplicá-los na fórmula para achar o volume de água
aproveitada para a coberta do bloco F e, nesse caso, levando em conta o tipo
de telha - material cerâmico – existente (Figura 3).
Tabela 3 - Simulação de captação de água de chuva para
telhas dos tipos cerâmicas
ÁREA DE PRECIPITAÇÃO VOLUME DE
COEFICIENTE
SETOR COBERTA ACUMULADA CHUVA APROVEI-
DE RUNOFF
(m²) EM 2013 (m) TADA (m³)
BLOCO F 1376,1 0,85 1,97 2304,28

Fonte: Elaborada pelos autores (2016)


O mesmo valor de 2304,28 m³ se aplica as telhas corrugadas de
metal e de cimento amianto, pois apresentam o mesmo intervalo do coe-
ficiente médio de Runoff. Já para as telhas esmaltadas, de plástico e PVC,
tem-se os valores definidos na Tabela 4.
Tabela 4 - Simulação de captação de água de chuva para telhas
dos tipos esmaltadas e plásticas
ÁREA DE PRECIPITAÇÃO VOLUME DE
COEFICIENTE
SETORES COBERTA ACUMULADA CHUVA APRO-
DE RUNOFF
(m²) EM 2013 (m) VEITADA (m³)
BLOCO F 1376,1 0,95 1,97 2521,15

Fonte: Elaborada pelos autores (2016)


Verifica-se que para telhas dos tipos cerâmicas, corrugadas de
metal e cimento amianto, o volume de chuva aproveitado foi de 2304,28m³,
enquanto que para telhas dos tipos esmaltadas e plásticas foi de 2521,15
m³, apontando a superioridade de 216,87 m³ por ano do volume de
chuva aproveitado em detrimento dos demais tipos de telhas e, com isso,
visualizando a influência do tipo de material no volume de chuva aproveitado.

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 365


CONSIDERAÇÕES FINAIS
A cidade de João localiza-se numa área geográfica propícia
para implantação de sistemas de captação de água de chuva, conforme
estudos sobre o índice de precipitação acumulada anual. Esta pesquisa é
uma contribuição para trabalhos futuros sobre um melhor aproveitamento
de água pluvial, principalmente em centros universitários onde futuros
profissionais devem ser formados para uma atuação sustentável.
Estudos como este pretendem lembrar que a perda total do
volume hídrico de precipitações em centros urbanos diante de rios urbanos
poluídos, a perda de matas ciliares e o desperdício de águas nas canalizações
de distribuição é uma absurda contradição. Neste contexto, sistemas de
captação de água de chuva instalados em cobertas das edificações podem
e devem ser uma grande contribuição positiva no balanço hídrico das
populações urbanas, evitando que a água precipitada seja drenada e perdida
sem aproveitamento.
Além do aproveitamento da água pluvial direto através da
instalação de sistemas de captação como neste estudo, é urgente estudos
sobre a captação indireta com a infiltração deste recurso no solo e
armazenamento nas camadas do substrato geológico dos centros urbanos
abastecendo, desta forma, nossos reservatórios subterrâneos.
Esta pesquisa foi desenvolvida com a finalidade de demonstrar a
viabilidade e vantagem da instalação de um sistema de captação de chuva
e contribuir com outros estudos sobre formas semelhantes de sistemas
que possam contribuir com a conservação deste recurso precioso para a
população urbana.

REFERÊNCIAS
ARALDI, Bruna et al. Ánálise do aproveitamento da água da chuva nas
escolas do município de Videira-SC e estudo da viabilidade da implantação
de um sistema de captação e aproveitamento dessa água no IFC – Campus
Videira. In: FEIRA DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA E EXTENSÃO, 3.,
2014. Disponível em: < http://videira.ifc.edu.br/fice/wp-content/uploads
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366 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


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SUGAHARA, Shigetoshi, SILVEIRA, Reinaldo Bonfim da, ROCHA,


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2010. USP: IAG. Disponível em: < http://repository.usp.br/result.php?
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VERGARA, Sylvia Constant. Projetos e relatórios de pesquisa em


administração. São Paulo: Atlas, 2000.

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 367


CAPÍTULO 28
.

CAPTAÇÃO DE ÁGUA DA CHUVA EM


ÁREA RESIDENCIAL
Gabriela Tavares D’Albuquerque1, João Fortunato Vieira Neto2, Marina de
Oliveira Maia3, Maria Jacy Caju do Egito4.

RESUMO
No momento atual do nosso planeta, temos o desafio de utilizar
os recursos naturais com responsabilidade, objetivando assim o
desenvolvimento sustentável. Tendo a visão que no futuro a água
de boa qualidade poderá se esgotar, é necessário que as construções
atuais já sejam preparadas para futuros esgotamentos ambientais.
Logo, a captação da água da chuva em ambientes residenciais na cidade
de João Pessoa surge como uma alternativa para que o recurso seja
melhor aproveitado, sendo esse indicado para uso não potável, para
não oferecer riscos à saúde humana. Vale ressaltar, que esse tipo de
projeto não gera grandes custos para as construtoras e criam uma boa
economia para os consumidores, pois ajuda a resolver, em boa parte,
a demanda de água que os indivíduos utilizam no dia-a-dia. Portanto,
nesse estudo observou que utilizando ralos que recolhem a água,
juntamente de encanamentos que a transportam e um reservatório
que a estocam, pode-se abastecer a área comum de um edifício, em
proporções básicas, buscando assim trazer sustentabilidade a essa
construção.

Palavras-Chave: Água. Captação. Sustentabilidade.

1 Graduanda do Curso de Engenharia Civil do Unipê. E-mail: gabitda@hotmail.com


2 Graduando do Curso de Engenharia Civil do Unipê. E-mail: joaoneto50@hotmail.com
3 Graduanda do Curso de Engenharia Civil do Unipê. E-mail: mari_maia96@hotmail.com
4 Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente – UFPB- UEPB. Professora do Curso de Engenharia Civil
– Unipê. E-mail: maria.jacy@unipe.br

368 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


INTRODUÇÃO
Atualmente no Brasil, vivenciamos uma grande crise em relação
aos recursos naturais. A principal dificuldade enfrentada é o abastecimento
de água, pois em consequência de vários fenômenos naturais e o uso
indevido deles pelo homem, os reservatórios onde se é captada a água para o
abastecimento estão cada vez mais vazios, levando a escassez desse recurso.
A cidade de João Pessoa, por ser localizada na Zona da Mata,
possui certa regularidade das chuvas e o açude que a abastece está em uma
boa situação. Entretanto, é necessário que exista uma preocupação com
futuros colapsos ambientais. Por isso, surge a possibilidade de armazenar
água da chuva em lugares independentes da distribuição da Companhia de
Água e Esgoto da Paraíba ( CAGEPA).
É de fundamental importância para a construção civil que haja
uma preocupação com a sustentabilidade de seus projetos. De acordo com
Correia (2009), o uso de práticas sustentáveis na construção civil é algo em
ascensão no mercado. O próprio governo, os consumidores, associações e
investidores escolhem auxiliar as empresas que estimulam essas atividades
e então se sentem pressionados a continuar nesse caminho que não promete
retroceder.
Nesse contexto, buscamos explicar como funciona o processo de
captação de água da chuva em ambientes residências.
No projeto em estudo, será observado locais de captação,
possíveis áreas onde serão utilizadas a água reservada e a quantidade que
poderá ser armazenada e conjuntamente, expor se esse recurso receberá
tratamento especifico e entender como esse tipo de processo contribui para
o desenvolvimento sustentável.

METODOLOGIA
A presente pesquisa está voltada ao estudo de caso de um prédio
residencial localizado na cidade de João Pessoa. Trata-se de uma pesquisa
descritiva, em que se realizou um embasamento teórico a partir de pesquisas
bibliográfica e baseada em uma visita técnica acompanhada por responsáveis
pela obra. Estes responderam uma série de perguntas, instrumento de
coleta de dados, sobre o projeto analisado. Utilizou-se também de imagens,
gráficos e tabelas para melhor apresentar as informações pesquisadas.

FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
Nosso planeta possui em sua superfície uma enorme quantidade
de água. Apesar dessa abundancia, boa parte dela é salgada. O que resta é
água doce, porém a maior parte dela está congelada, o que sobra é apenas
uma pequena quantidade de água disponível para utilização humana. Como
é possível observar no gráfico 1.
O Brasil detém 13% da água doce do planeta. Essa água é
distribuída de forma heterogênea, sendo 80% dessa localizada na Região
Hidrografia da Amazônia, onde se tem baixa densidade demográfica.
Levando em consideração esse fato, se torna eminente uma crise hídrica em

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 369


algumas cidades, devido ao alto consumo da população e o baixo índice de
tratamento de esgoto, fazendo com que a pouca quantidade de água que nos
resta esteja, em sua maioria, contaminada (ANA, 2012).
Gráfico 1- Porcentagem de água no planeta terra

Fonte: World Resources Institute, ONU. (Adaptado pelos autores, 2016)

Atualmente, muito se tem discutido sobre o assunto


desenvolvimento sustentável, inclusive em encontros mundiais, pois se
tem a clara preocupação com o esgotamento dos recursos naturais. Existe
então a visível necessidade do aproveitamento responsável dos vários
recursos, principalmente da água já que é limitada, de difícil acesso e de
vital importância para a existência humana.
Diante disso, busca-se soluções para a demanda de água da
população. A captação da água da chuva em ambientes residenciais surge
como uma saída para usos onde não existe a necessidade da água não potável.
Os reservatórios desempenham papel importante
na gestão dos recursos hídricos. Além de armazenar
água nos períodos de chuva, contribuindo para o
controle de cheias em alguns casos, eles podem
liberar parte do volume armazenado em épocas de
seca, aumentando a oferta de água (ANA, 2012).

O uso dessa água é parametrizado pela Norma Brasileira de


Aproveitamento de Águas Pluviais para Fins não Potáveis NBR15527
( ABNT, 2010), que explicita que essa água da chuva pode ser utilizada
depois de um tratamento adequado, como por exemplo: em descargas de
bacias sanitárias, irrigação de gramados e plantas ornamentais, lavagem de
veículos, limpeza de calçadas e ruas, limpeza de pátios, espelhos d’água e
usos industriais.
O projeto analisado busca o reaproveitamento da água da chuva,
tendo como consequência a economia de água potável. O que mais incentiva
as próximas construções a possuir esse tipo de reservatórios é a economia
que pode gerar nas contas de água durante a construção e também aos
clientes que irão residir naquele ambiente.

370 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


A utilização da água da chuva como fonte alternativa
trata-se de uma das soluções mais simples e baratas
para preservar a água potável, pois além de trazer
benefícios da conservação da água e reduzir a
dependência excessiva das fontes superficiais de
abastecimento, reduz o escoamento superficial,
dá chance a restauração do ciclo hidrológico
urbano, gera conservação de energia, na estação
de tratamento, no bombeamento e na distribuição
(ANNECCHINI, 2005).

Nesse sentido, a importância do reaproveitamento da água da


chuva se confirma, levando a enfatizar o valor da presente pesquisa.

RESULTADOS E DISCUSSÃO
O edifício em estudo é constituído de duas torres conjugadas, com
dois apartamentos por andar em cada torre, apresenta trinta pavimentos
tipo e quatro pavimentos pilotis, mezanino, térreo e subsolo. Total de 120
apartamentos, 101 metros quadrados.
Por ser um ambiente residencial, há muitas áreas comuns, nas
quais se fossem utilizadas água potável para sua manutenção, provocaria
altos gastos para seus moradores. Por isso, a melhor saída foi a captação
de água da chuva através de ralos (figura 1), localizados em lugares
estratégicos. Essa água não potável, vai ser utilizada na irrigação do
jardim, no abastecimento de um lago artificial e para lavagem geral de áreas
comuns. A água do reservatório da figura 2, onde se localiza uma bomba
(figura 3), esta é que distribui a água para todas as torneiras das áreas
citadas anteriormente.

Figura1- Ralo para captação Figura 2- Reservatório de água

Fonte: Acervo pessoal (2016) Fonte: Acervo pessoal (2016)

Na construção dos pontos de coleta da água de chuva usou-se


tubos de PVC comum de 100mm x 100mm para toda a água pluvial, em que
foi instalado no pavimento mezanino, nas varandas dos apartamentos, na
quadra poliesportiva, na cobertura, estacionamentos e no deck da piscina.

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 371


Foram instalados ralos de medida 100mm x 100mm x 75 mm (figura 1)
onde a água é captada e levada a um reservatório (figura 2) de concreto
armado com capacidade para 36 mil litros de água.
Essa água reservada recebe apenas um doseamento de cloro. Todas
as torneiras que são abastecidas por esse reservatório estão sinalizadas com
o aviso que aquela água não é potável, como mostra a figura 4. Na figura 5,
podemos observar o encanamento da construção que também é diferenciado
para esse tipo de água sendo o verde claro utilizado para o transporte dessa
água.
Figura 3 - Figura 4 - Torneira Figura 5-
Bomba sinalizada Encanamento

Fonte: Acervo pessoal (2016)

A parcial independência dessas áreas da utilização de água potável


traz à tona a grande praticidade do projeto analisado, gerando uma série de
boas consequências. Como a economia de até 100m³ a menos na conta de
água, a possível prevenção de enchentes e inundações por conter em parte
a água da chuva, além de contribuir positivamente para o meio ambiente.
Por João Pessoa ter o clima tropical úmido, de acordo com a
classificação climática de Köppen-Geiger (RAGLIONE, 2013), as chuvas
ocorrem durante todo o ano, sendo abril o mês com maior precipitação de
acordo com a gráfico 2.

372 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


Gráfico 2 - Médias climatológicas da cidade de João Pessoa

Fonte: Climatempo (2016)

Tal precipitação regular incentiva uma visão positiva para que o


sistema de captação de chuva possa ser propagado, justificando-se, assim, a
viabilidade desse tipo de projeto na área urbana de João Pessoa.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Devido a demanda cada vez maior da população da utilização da
água e a maior escassez desse recurso para o uso humano devido, estudos
têm buscado continuamente uma solução para esse problema. A captação da
água da chuva em ambientes residenciais surge para ajudar nesse quadro
preocupante.
O presente estudo mostrou um prédio residencial, localizado na
cidade de João Pessoa, que apresenta tecnologia voltada à captação de água
de chuva e, com isso, beneficiar moradores e a sociedade como um todo.
Pôde-se observar que se trata de um projeto simples,
economicamente viável e que não precisa de manutenção constante ou
que venha a encarecer qualquer usuário dele. Portanto, utilizando-o de
maneira correta e economizando a água que a natureza doa, serão muitos os
benefícios para a população que usufrua do sistema de captação. Observou
se também que iniciativas simples como essas, geram grandes mudanças na
utilização exagerada de recursos naturais beneficiando a todos.

REFERÊNCIAS
ANNECCHINI, Karla. Aproveitamento da Água da Chuva Para Fins
Não Potáveis na Cidade de Vitória (ES) (2005). Disponível em:< http://
portais4.ufes.br/posgrad/teses/tese_6582_VERS%C3O%20final%20
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ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 373


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AGENCIA NACIONAL DE ÁGUAS (ANA) . Relatório de Conjuntura


dos Recursos Hídricos traz balanço da situação e da gestão das
águas no Brasil .2012. Disponível em http://www2.ana.gov.br/Paginas/
imprensa/noticia.aspx?id_noticia=12365>. Acesso: 25 out. 2016.

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em http://docplayer.com.br/5142141-Monografia-sustentabilidade-na-
construcao-civil-autor-lasaro-roberto-correa-orientador-prof-jose-claudio-
nogueira-vieira.html>. Acesso em: 17 out. 2016.

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climatempo.com.br/ climatologia/256/joaopessoa-pb>. Acesso em: 17 out.
2016.

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2013. Disponível em: <https://portais.ufg.br/up/68/o/Classifica____o_
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SÁ JUNIOR. Aplicação da classificação de Köppen para o zoneamento


climático do estado de Minas Gerais.2014. Disponível em: <http://
repositorio.ufla.br/handle/1/3076>. Acesso em: 17 out. 2016.

374 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


CAPÍTULO 29
.

OS DESAFIOS DA GESTÃO DAS


UNIDADES DE CONSERVAÇÃO EM
ÁREAS URBANAS: O CASO DO PARQUE
NATURAL MUNICIPAL DE CABEDELO-PB
Wendel Pereira de Lima1, Henrique Elias Pessoa Gutierres2.

RESUMO
Este trabalho tem como objetivo analisar as atividades humanas e
os impactos ambientais no Parque Natural Municipal de Cabedelo,
que é um importante patrimônio ecológico e natural de restinga,
remanescente de ecossistema do domínio da Mata Atlântica, que deve
ser preservado e protegido, harmonizando as atividades humanas
com a conservação das funções ecológicas. Devido a esses aspectos,
o Parque Natural Municipal de Cabedelo é considerado uma unidade
de conservação municipal de proteção integral com uso bastante
limitado, onde não se pode compatibilizar ocorrências que ameacem
sua integridade ambiental. O presente trabalho fundamentou-
se no método da interdisciplinaridade aplicado as questões
socioambientais. Neste sentido, estabeleceu-se uma metodologia que
se consistiu basicamente na verificação, in loco, de todo ou qualquer
fato impactante, com análise bibliográfica, observações, entrevistas
informais e aplicação de questionários. Desta forma, a partir do
uso da legislação ambiental pertinente, verificou-se que o Parque
Natural Municipal de Cabedelo tem sido alvo de diversas ações
impactantes que podem ser associadas à falta de infraestrutura e de
ações do poder público que permitam a proteção e as condições para o
desenvolvimento das atividades permitidas pela legislação.

Palavras-Chave: Área Protegida. Unidade de Conservação. Parque


Natural Municipal de Cabedelo.

1 Bacharel em Geografia (UFPB). Centro Integrado de Operações (CIOP) da Secretaria da Segurança e da


Defesa Social da Paraíba (SEDS). E-mail: wendel140800@hotmail.com
2 Geógrafo do Departamento de Geociências da UFPB, Especialização em Licenciamento Ambiental e
Doutorando em Geografia (UFPE). E-mail: hepg86@hotmail.com

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 375


INTRODUÇÃO
Diante da intensificação das atividades humanas a partir do avanço
tecnológico, as áreas protegidas surgiram com o objetivo de preservar o
ambiente natural, visando produzir um maior benefício à sociedade humana
atual, mantendo seu potencial de satisfazer as necessidades e aspirações
das futuras gerações, garantindo e restringindo o uso indevido nas áreas
nas quais se aplicam medidas restritivas de uso do solo, com a função de
proteção destas áreas naturais dos eventuais impactos ambientais. Dentre
os diferentes tipos de áreas protegidas, destacam-se as Unidades de
Conservação (UCs), que são áreas instituídas pelo poder público, com o
objetivo de assegurar a proteção da biodiversidade, dos ecossistemas e da
paisagem natural.
Apesar dos objetivos conservacionistas, muitas UCs têm sofrido
com diversas ações impactantes, principalmente aquelas próximas ou que se
encontram inseridas nas áreas urbanas, acarretando em algo desafiante para
a gestão dessas áreas. A Resolução do Conselho Nacional de Meio Ambiente
(CONAMA) nº 001, de 23.01.1986, considera como impacto ambiental “qualquer
alteração das propriedades físicas, químicas e biológicas do meio ambiente
causada por qualquer forma de matéria ou energia resultante das atividades
humanas [...]”. Portanto, tal conceito refere-se aos efeitos da ação humana
sobre o meio ambiente por determinada ação ou atividade. No entendimento de
Sánchez, impacto ambiental é “a alteração da qualidade ambiental que resulta
da modificação de processos naturais ou sociais provocada por ação humana”
(SANCHEZ, 2006, p. 32). Em outras palavras, “impacto ambiental é o resultado
das atividades humanas sobre o meio ambiente e, desta forma, pode recair sobre
ele de maneira positiva ou negativa, dependendo da qualidade da intervenção
efetuada” (CERVI, 2009, p. 3).
O Parque Natural Municipal de Cabedelo (PNMC) surge como
exemplo de uma unidade de conservação localizada em uma área urbana,
que possui grande relevância ecológica e beleza cênica natural, devendo
ter os seus usos regulamentados a fim de evitar a ocorrência de impactos
ambientais. A partir desta percepção, é imprescindível harmonizar a atividade
humana com a proteção ambiental para que possa haver sustentabilidade e
conservação das funções ecológicas dos ecossistemas, que tem sofrido com a
falta de integração com as populações que residem no seu entorno, gerando
um aumento da pressão antrópica sobre essas áreas.
Dessa maneira, o presente capítulo busca identificar os impactos
ambientais ocasionados ao Parque Natural Municipal de Cabedelo e qual a
percepção dos moradores do entorno sobre os usos e as práticas que ocasionam
tais impactos. A partir dos impactos identificados, propõe-se ações e possíveis
medidas mitigadoras para minimização ou eliminação dos impactos ambientais
identificados. Logo, buscou-se aprofundar a análise da situação atual da citada
UC, considerando suas potencialidades e fragilidades.

METODOLOGIA
Os procedimentos metodológicos adotados para o cumprimento
dos objetivos traçados consistiram no levantamento e na análise bibliográfica,
observações in loco, entrevistas informais e aplicação de questionários com

376 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


os moradores, obtenção de documentos nos órgãos públicos (Secretaria
Municipal de Meio Ambiente e Pesca de Cabedelo; Ministério Público
Estadual em Cabedelo), além de trabalhos de campo realizados de agosto
de 2014 a dezembro de 2015. A identificação das atividades humanas
impactantes por meio da observação in loco ou indiretamente através do
testemunho de terceiros, objetivou a obtenção de dados atualizados da real
situação do PNMC.
Posteriormente, foram realizadas incursões no bairro de
Jardim Manguinhos, com a realização de entrevistas livres e aplicação de
questionários semiestruturados. No intuito de determinar a quantidade
de questionários que seriam aplicados, procedeu-se a determinação da
amostragem das pessoas entrevistadas do seguinte modo: o quantitativo de
questionário aplicados na área em estudo teve como parâmetro 0,1% do total
de “Domicílios Particulares Ocupados”, constante no Censo Demográfico
2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O total de
entrevistadas foi de 18 pessoas, o que representa 0,1% do total de domicílios
particulares ocupados no município de Cabedelo, sendo que 100% foram
mulheres, ou seja, donas de casa que residem na comunidade. A escolha das
mulheres se deu devido ao horário da entrevista, que ocorreu no período da
tarde, momento em que as donas de casa costumam ficar em frente as suas
residências.

FUNDAMENTAÇÃO TEORICA
No Brasil, a primeira referência acerca da possibilidade de criação
de uma área protegida foi feita em 1876, pelo engenheiro André Rebouças,
que influenciado pela criação do Yellowstone National Park nos Estados Unidos
(1872), publicou um trabalho que fazia referência a proposta de criação de dois
Parques Nacionais (o de Sete Quedas e o da Ilha do Bananal), no entanto, sua
proposta não foi aceita naquele momento (MORSELLO, 2010).
A Constituição Federal de 1988 ganhou um capítulo exclusivo
sobre o meio ambiente, ao contrário das constituições anteriores que nada
traziam de específico acerca do tema, e a expressão sequer havia sido utilizada.
A partir da exigência do meio ambiente ecologicamente equilibrado como
condição de direito fundamental da pessoa humana, no inciso III, § 1º do
art. 225, a Constituição garante a manutenção de espaços territorialmente
protegidos em todas as unidades da federação, e afirma que a criação dessas
áreas deve melhorar as condições de vida humana, por meio da manutenção
de espaços naturais ocupados por espécies animais e vegetais, associados aos
seus recursos abióticos (geologia, relevo, solos, águas etc.).
Porém, doze anos depois, foi promulgada a Lei Federal nº
9.985/2000, que regulamentou os incisos I, II, III e VII, parágrafo 1º, do artigo
225, da Constituição Federal, instituindo o Sistema Nacional de Unidades de
Conservação da Natureza (SNUC), estabelecendo critérios e normas para a
criação, implantação e gestão das unidades de conservação no Brasil.
De acordo com a definição do artigo 2º, inciso I da lei do SNUC,
a unidade de conservação (UC) é definida como o “espaço territorial e seus
recursos ambientais, incluindo as águas jurisdicionais, com características
naturais relevantes, legalmente instituída pelo Poder Público, com objetivo
de conservação e limites definidos, sob regime especial de administração, ao

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 377


qual se aplicam garantias adequadas de proteção”.
Sendo assim, o SNUC é constituído pelo conjunto das unidades
de conservação federais, estaduais e municipais. Segundo o artigo 7º da lei
do SNUC, as UCs são divididas em dois grupos: Unidade de Conservação de
Proteção Integral (UPI) e Unidade de Conservação de Uso Sustentável (UUS).
Dessa forma, o SNUC divide as Unidades de Conservação
de Proteção Integral em cinco categorias: Estação Ecológica, Reserva
Biológica, Parque Nacional, Monumento Natural e Refúgio de Vida Silvestre;
e as Unidades de Conservação de Uso Sustentável em sete categorias: Área
de Relevante Interesse Ecológico, Floresta Nacional, Reserva de Fauna,
Reserva de Desenvolvimento Sustentável, Reserva Extrativista, Área de
Proteção Ambiental e Reserva Particular do Patrimônio Natural. O SNUC
preocupou-se em classificar as diversas áreas naturais em categorias e
tipos distintos, tendo como referência suas características naturais, sua
localização, seu tamanho, suas restrições, sua posse e domínio, seus usos e
os critérios de desapropriação das áreas particulares.
Na Tabela 1 é possível visualizar as categorias de unidade de
conservação de proteção integral, que são áreas que proíbem ou restringem
a visitação pública, no entanto, permitem a pesquisa científica, desde que
esta ocorra com a devida autorização e observando algumas restrições.

Tabela 1- Tipos de uso e ocupação das UCs de Proteção Integral, segundo


a Lei Federal nº 9985/2000
Posse e Áreas Visitação Pesquisa
UC Integral Domínio Particulares Pública Científica
Estação Público Desapropriadas Proibida Depende de
Ecológica (Objetivo Autorização
Educacional)
Reserva Público Desapropriadas Proibida Depende de
Biológica (Objetivo Autorização
Educacional)
Parque Público Desapropriadas Permitida Depende de
Nacional (Com Autorização
restrições) (Com restrições)
Monumento- Público/ Desapropriadas/ Permitida Depende de
Natural Particular Não (Com Autorização
restrições) (Com restrições)
Refúgio da Público/ Desapropriadas/ Permitida Depende de
Vida Silvestre Particular Não (Com restri- Autorização
ções) (Com restrições)

Org.: Os autores.

PANORAMA DAS UNIDADES DE CONSERVAÇÃO NO BRASIL


De acordo com o levantamento realizado em outubro de 2015
no site do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade
(ICMBio), o país totalizava 370 Unidades de Conservação administradas
pelo ICMBio, presentes em todo o território nacional, que ocupam uma

378 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


área de 77.908.672,84 milhões de hectares. Dessa forma, verifica-se que no
Bioma Amazônia encontram-se 61.082.204,15 milhões de hectares, o que
corresponde a 78,4% do percentual das Unidades de Conservação Federais.
O estado da Paraíba, por possuir uma grande diversidade de
ecossistemas naturais de grande relevância ecológica e beleza cênica, possui
diversas unidades de conservação que pertencem as diversas categorias do
SNUC. Estas unidades são divididas em três jurisdições, sendo cinco federais,
dezessete estaduais e algumas municipais (LIMA, 2015). As unidades
de conservação estaduais são administradas pela Superintendência de
Administração do Meio Ambiente (SUDEMA), órgão estadual responsável
pela criação, administração, monitoramento, implementação, manejo e
conservação ambiental, que, atualmente, totalizam 18 UCs, sendo nove
Parques Estaduais (PE), quatro Áreas de Proteção Ambiental (APA), uma
Estação Ecológica (ESEC), um Monumento Natural (MONA), uma Área de
Relevante Interesse Ecológico (ARIE), um Refúgio de Vida Silvestre (RVS)
e uma Reserva Ecológica.
Na esfera municipal, as prefeituras municipais são responsáveis
pela gestão das unidades de conservação criadas pelo município. O município
de Cabedelo abriga três unidades de conservação: Floresta Nacional da
Restinga de Cabedelo, Parque Estadual Marinho Areia Vermelha e Parque
Natural Municipal de Cabedelo. A primeira é administrada pelo ICMBio,
a segunda pela SUDEMA e a terceira é administrada pela Prefeitura
Municipal de Cabedelo.
O Parque Natural Municipal de Cabedelo está enquadrado no
tipo de unidade de conservação de proteção integral na categoria de Parque,
submetendo-se aos critérios e as normas de implantação e gestão definidos
pela Lei Federal nº 9.985/2000 e o seu Decreto Federal nº 4.340, de 22 de
agosto de 2002.
Verifica-se que os parques são criados com fins de conservação,
pesquisa e turismo. Tal criação pode acontecer em âmbito federal, estadual ou
municipal, em terras de posse e domínio públicos, ou em áreas particulares,
que devem ser desapropriadas para esse fim. Neste sentido, a lei do
SNUC no seu artigo 11 afirma que: “As unidades dessa categoria, quando
criadas pelo Estado ou Município, serão denominadas, respectivamente,
Parque Estadual e Parque Natural Municipal”. Com o intuito de aprofundar
a análise da situação atual da citada UC, a seguir serão apresentadas as
principais atividades humanas que vem sendo desenvolvidas dentro do
parque e no seu entorno, bem como os impactos ambientais gerados por
tais atividades e os reflexos para gestão do PNMC.

RESULTADOS E DISCUSSÃO
A área do PNMC foi cedida pela União ao município sob a
forma de utilização gratuita, conforme o processo n° 05053.000190/2001-
52, que possibilitou a implantação das instalações do Parque Natural
Municipal de Cabedelo, que ocorreu mediante promulgação do Processo
nº 08012.007035/2007-27, através do Conselho Federal Gestor do Fundo
de Defesa de Direitos Difusos na reunião de 25 de julho de 2007. Dessa
forma, a criação do Parque Natural Municipal de Cabedelo se deu através
do Decreto Municipal nº 12, de 16 de abril de 2003:

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 379


O Prefeito Municipal de Cabedelo no uso das
atribuições que lhe são conferidas cria O Parque
Natural Municipal de Cabedelo, com os seguintes
objetivos: I - preservar a biodiversidade e os
ecossistemas naturais admitindo-se apenas o uso
indireto e controlado dos recursos; II - proteger
espécies novas, endêmicas, vulneráveis ou em perigo
de extinção; III – possibilitar a realização de estudos,
pesquisas e trabalhos de interesse científico; IV –
proteger a beleza cênica e paisagística (PMC, 2016).

No entanto, após mais de uma década de criação o local ainda não


dispõe de um plano de manejo, descumprindo o inciso III do artigo 27 da Lei
Federal nº 9.985/2000, que estabelece que o plano de manejo é obrigatório
para todas as unidades de conservação e sua elaboração deve ocorrer em até
cinco anos após a criação da unidade de conservação.

CARACTERIZAÇÃO GERAL DAS ÁREAS DO ENTORNO DO


PNMC
O bairro do Jardim Manguinhos, antigo “Sitio do Boi”, começou
a se formar no início na década de 1950, como resultado da expansão do
bairro de Camalaú, que está situado a oeste do Parque Natural Municipal
de Cabedelo. A história da comunidade está diretamente ligada com a
antiga Mata do Estado, atual Parque Natural Municipal de Cabedelo.
Inicialmente, a comunidade foi formada por pescadores, catadores de
caranguejos, marisqueiras e trabalhadores do setor terciário que residiam
em localidades próximas ao bairro. Em meados dos anos de 1980, o local foi
contemplado com as obras do Projeto Mutirão, financiado pelo Governo do
Estado, que transformou as antigas casas de taipa em casas de alvenaria com
infraestrutura básica para a comunidade.
Para melhor entender as atividades humanas e os impactos
ambientais ocorridos no Parque Natural Municipal de Cabedelo foi
realizado um levantamento socioeconômico dos moradores do bairro de
Jardim Manguinhos, consistindo em reunir dados que evidenciassem os
vários fatores que vem contribuindo para o processo de degradação dos
recursos naturais do PNMC (Gráfico 1).

380 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


Gráfico 1 - Nível de instrução das entrevistadas
residentes no entorno do PNMC

Fonte: Trabalho de campo (maio/2015)


Org.: Autores.

Foram entrevistadas moradoras com idades entre 20 e 67 anos,


sendo que 16,7% apresentavam idades de 20 a 29 anos, 22,2% possuíam
de 30 a 39 anos, 44,4% tinham mais de 40 e menos que 60 anos, enquanto
que 16,7% tinha idade superior a 60 anos. Cerca de 61% das entrevistadas
são naturais das cidades de Cabedelo e João Pessoa, 16,8% de outros
municípios paraibanos (Santa Rita, Lucena e Esperança), 16,6% do estado
de Pernambuco e 5,6% do Rio Janeiro.
De acordo com o gráfico 1, apenas 5,6% das entrevistadas
não possuem instrução, sendo que quase 61% têm entre o ensino médio
incompleto, médio completo e o ensino superior completo.
A média do rendimento familiar das entrevistadas foi de 1,7
salários mínimos, sendo que 11,1% possuem menos de um salário mínimo,
55,5% possuem renda de um salário mínimo, 5,6% tem renda de dois salários,
22,2% recebem entre quatro e cinco salários, e 5,6% tem renda superior a
cinco salários mínimos (Gráfico 2).

Gráfico 2- Faixa de rendimento familiar, segundo as entrevistadas residentes


no entorno do PNMC (salário Mínimo, valor vigente no ano de 2015)

Fonte: Trabalho de campo (maio/2015).


Org.: Autores.

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 381


De uma forma geral, todos os domicílios visitados eram casas,
sendo que 83% das entrevistadas possuem residências próprias, 11% moram
em casas alugadas e apenas 6% residem em imóveis cedidos, tendo a média
do tempo de residência das entrevistadas ficado em 26 anos. O tempo de
residência é um fator importante e fundamental para o alcance temporal
e a confiabilidade das respostas dadas. Assim, foi constatado que o tempo
de residência variou de 17 a 45 anos, sendo que 94,4% das entrevistadas
residem no local a mais de 20 anos, sendo: 66,6% (20 e 29 anos); 22,2% (30
e 39 anos); e 5,6% (acima de 40 anos).
Sobre a infraestrutura e os serviços públicos, constatou-se que
100% dos domicílios visitados tem como fonte de abastecimento de água
a rede pública. Desta forma, 100% das entrevistadas informaram que a
qualidade da água era boa, o fornecimento era constante e não utilizavam
outros corpos de água (rios, riachos etc.) para suprir as suas necessidades.
No tocante aos serviços de esgoto, 88% das entrevistadas
responderam que utilizam fossas sépticas para lançamento das águas
residuais domésticas e 11,1% informaram que utilizam o sistema de rede
de esgoto. E todas informaram que não jogam resíduos dentro dos rios ou
mangue ou do PNMC. No entanto, o bairro está passando por um processo
de implantação da rede de esgoto, mas que ainda não foi ligado as residências.
Com relação aos resíduos sólidos, foi informado que há coleta
de lixo por parte da prefeitura e que a coleta ocorre de forma frequente.
Um universo de 77,7% respondeu que a coleta do lixo ocorre todos os
dias, principalmente no período noturno, 16,7% informaram que a coleta
é realizada três vezes por semana e 5,6% informaram que ocorre apenas
duas vezes por semana. Algumas moradoras que residem em ruas estreitas
próximas ao mangue, reclamaram que a coleta só é realizada nas principais
ruas e que os moradores são obrigados a colocar o lixo na avenida principal
para facilitar o recolhimento por parte da prefeitura.
O problema dos resíduos sólidos faz com que cerca de 77,8% das
entrevistadas afirmem sofrer com problemas relacionados com a poluição
do ar, sendo a fumaça proveniente da queima de lixo (16,7%), o mau cheiro
(22,2%) e a fumaça proveniente da queima de madeira (38,9%), as principais
causas mencionadas pela comunidade. Do total das entrevistadas, apenas
22,2% informaram que não sofrem com problemas relacionados à poluição
do ar.

A COMUNIDADE E O PARQUE NATURAL MUNICIPAL DE


CABEDELO
Todas as entrevistadas afirmaram que o Parque Natural Municipal
de Cabedelo é muito importante para o bairro de Jardim Manguinhos, no
entanto, 72% informaram que a situação ambiental do PNMC “piorou” ou
“piorou muito” nos últimos anos (Gráfico 3).

382 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


Gráfico 3 - Percepção das moradoras com relação a
situação da conservação do PNMC

Fonte: Trabalho de campo (maio/2015).


Org.: Autores.

A falta de fiscalização e de segurança foram os principais problemas


encontrados no parque, o que tem contribuído significativamente para
todas as outras ações impactantes que ocorrem no interior da UC (Gráfico
4). Vale destacar que a “deposição de lixo” e “Queimadas” são citados pelas
entrevistadas, o que confirma os dados referentes as situações de poluição
do ar, onde as queimadas foram apontadas como um problema para a
comunidade.

Gráfico 4 - Principais problemas do PNMC, segundo as moradoras do


entorno da unidade de conservação.

Fonte: Trabalho de campo (maio/2015).


Org.: Autores.

Segundo as entrevistadas, para melhorar a conservação do


PNMC, a Prefeitura deve terminar de cercar o local, disponibilizar
vigilância e colocar placas de identificação, além de desenvolver um trabalho
de educação ambiental na comunidade e nas escolas.
Por fim, ao serem perguntadas se algum morador ou a
comunidade já fez alguma reclamação a Prefeitura Municipal de Cabedelo
ou ao Ministério Público para denunciar problemas ambientais na área do
Parque Natural Municipal de Cabedelo, todas as entrevistadas informaram
que não sabem ou desconhecem qualquer tipo de denúncia desta natureza.

IMPACTOS AMBIENTAIS IDENTIFICADOS NO PNMC


O Parque Natural Municipal de Cabedelo foi criado com a
finalidade de proteger e preservar os ecossistemas no estado natural, nos

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 383


termos do Decreto Municipal nº 12 de 16 de abril de 2003, cabendo à
Secretaria de Meio Ambiente Pesca e Aquicultura da Prefeitura Municipal
de Cabedelo a responsabilidade de gerir as terras, a flora e as belezas
naturais das áreas constitutivas do parque. No entanto, o local tem sido
alvo de diversas ações impactantes, destacando-se: o corte de madeira,
deposição de lixo, incêndios, retirada de areia, descarte de entulhos e criação
de animais (Figura 3).

Criação de animais
A criação de animais no PNMC tem ocorrido de forma constante
em quatro pontos da UC, sendo dois localizados na porção norte do Parque,
nos limites da rua João Castor de Sena (antiga rua de barro) no loteamento
Vila Madalena, e na lateral da ferrovia da Companhia Brasileira de Trens
Urbanos (CBTU) e no bairro Jardim Manguinhos.
A criação de animais provoca alterações significativas no
ambiente. Dentre os principais impactos, destacam-se: o impacto visual,
compactação do solo, a retirada da vegetação rasteira e o corte de árvores.

1. Deposição de lixo
Foi observado que são descartados dentro do PNMC vários
tipos de resíduos, os mais comuns são materiais sólidos como papéis, latas e
plásticos, além de eletrodomésticos (Figura 1 e 2).

Figuras 1 e 2 - Lixo e entulhos jogados no interior do PNMC

Fonte: Os autores

Ainda sobre essa questão, as pessoas entrevistadas informaram


que não utilizam coletores fechados e apropriados para armazenarem o lixo
que sai de suas casas, 5,6% informaram que descartam o lixo dentro do
PNMC, 22,3% declararam que utilizam recipientes abertos não apropriados,
22,8% descartam o lixo nas bordas do PNMC e 44,4% depositam o lixo em
ruas ou avenidas.
Constatou-se que alguns moradores não utilizam sacolas,
caixas ou qualquer outro recipiente para depositarem seu lixo, levam tudo
em carros de mão e deixam nas bordas do PNMC para ser recolhido por
caminhões da Prefeitura.

384 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


O descarte não apropriado do lixo tem gerado vários problemas
para o PNMC e para a comunidade, pois além de alterar a paisagem,
possibilita o surgimento de focos para várias doenças. Ainda sobre a
deposição de resíduos, constatou-se que animais mortos são jogados dentro
do PNMC. Sobre essa questão, 22,2% das entrevistadas informaram que
tem convivido com esse problema.
Figura 3 - Croqui dos principais impactos ambientais identificados e
localizados no PNMC.

Fonte: Os autores.

2. Retirada de areia
A retirada de areia do interior do PNMC ocorre, geralmente, no
interior da mata, sendo utilizadas carroças para retirada do material. Nas
Figuras 4 e 5 é possível visualizar os locais onde houve a retirado areia.

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 385


Figuras 4 e 5 - Locais de retirada da areia no interior do PNMC

Fonte: Autores (maio/2015).

Essa prática de extração ilegal provoca vários problemas ao meio


ambiente, principalmente no tocante ao desencadeamento de processos
erosivos, o que não condiz com os objetivos propostos para essa UC, que
tem sofrido com a falta de fiscalização e conservação.

3. Incêndios
O Parque Natural Municipal de Cabedelo também tem sido alvo
de incêndios que são provocados geralmente por causas antropogênicas
acidentais (Figura 6 e 7). Tal situação pode acarretar na extinção de espécies
nativas, perda dos nutrientes dos solos, proliferação de espécies exóticas e
problemas a saúde dos moradores.
Segundo a equipe do Corpo de Bombeiros que esteve no local
para apagar um princípio de incêndio que ocorreu dentro da área:
“os incêndios ocorrem por falta do cuidado de pessoas que
colocam fogo em castanhas ou passam nas margens na BR e jogam piolas de
cigarro na vegetação seca que ao entrar em contato com a vasta quantidade
de combustível do local ocasionam incêndios” (Entrevista concedida em
Novembro de 2014).

Figuras 6 e 7- Ocorrência de incêndio atingindo parte da vegetação do PNMC

Fonte: Lima (2015).

386 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


Retirada de madeira
A respeito da problemática da retirada de madeira no PNMC,
uma moradora informou que esse problema acontece por diversos fatores,
sendo que alguns moradores ainda utilizam a madeira como combustível
para cozinhar alimentos.
Uma moradora residente no bairro do Jardim Manguinhos
há mais de 45 anos, afirmou que: “antigamente as pessoas tiravam madeira
da nata para construir as casas e para cozinhar, hoje não resta quase nenhuma
árvore grande, o povo destruiu quase tudo”. Sobre esse assunto ela informou
ainda que: “a retirada de madeira do Parque Natural Municipal de Cabedelo
ocorre principalmente no mês de junho, período em que são retiradas madeiras para
fogueiras de São João” (Entrevista realizada em novembro de 2015).

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Devido à falta de políticas públicas que assegurem a
sustentabilidade ambiental e a conscientização das pessoas que residem no
entorno do Parque Natural Municipal de Cabedelo, o local tem sido alvo
de diversas ações impactantes provenientes da antropização das áreas que
se encontram próximas do bairro do Jardim Manguinhos e da comunidade
“Gameleira”, que apesar de possuírem uma infraestrutura básica (água
encanada, coleta de lixo, fossas e rede de esgotos), tem contribuído de forma
significativa para a degradação ambiental do PNMC, principalmente com
a deposição de lixo, queimadas, retirada de madeira e de areia no interior
da unidade. Percebe-se que essas localidades não foram contempladas com
a instalação de muretas e grades de proteção, que ocorreu apenas na frente
da BR 230 e na lateral norte do Parque, o que favoreceu a ocorrência de
diversas ações impactantes nessas áreas, que podem ser associadas à falta de
infraestrutura do lugar, que não possui condições mínimas que assegurem
a sua proteção.
Diante das péssimas condições de conservação e preservação
do Parque Natural Municipal de Cabedelo, constata-se que a Prefeitura
Municipal de Cabedelo tem se mostrado bastante negligente no seu devido
papel de salvaguardar esse importante patrimônio ambiental, o que tem
reforçado a percepção por parte da população que a situação ambiental do
Parque piorou muito nos últimos anos.
Em suma, apesar de existir um amplo aparato legal no que diz
respeito às políticas de conservação da natureza e defesa do meio ambiente,
os órgãos que têm a responsabilidade legal de aplicar a legislação ambiental
e promover as políticas de proteção e conservação ambiental ainda não têm
disponibilizado os recursos humanos, técnicos e financeiros suficientes para
promover as atividades de fiscalização e controle sobre os danos causados
ao meio ambiente.

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 387


REFERÊNCIAS
CERVI, Taciana Marconatto Damo. O estudo de impacto ambiental: A
realidade entre a proteção jurídica do meio ambiente e o desenvolvimento.
In: Âmbito Jurídico, Rio Grande, v.12, n. 61, fev. 2009. Disponível em:
<http://www.ambitojuridico.com.br/site/index.php? n_link=revista_
artigos_leitura&artigo_id=5869>. Acesso em: 10 out. 2016.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE).


Censo Demográfico 2010. Disponível em: <http://www.censo2010.ibge.
gov.br>. Acesso em: 23 set. 2016.

LIMA, Wendel Pereira de. Parque Natural Municipal de Cabedelo/


PB: atividades humanas e impactos ambientais. Monografia (Bacharelado
em Geografia) – Departamento de Geociências, Universidade Federal da
Paraíba, João Pessoa, 2015.

MORSELLO. Carla, Áreas Protegidas Públicas e Privadas Seleção e


Manejo. Revista de Geografia, Recife: UFPE – DCG/NAPA, n. 2, Set.
2010. Volume Especial. VIII SINAGEO.

PREFEITURA MUNICIPAL DE CABEDELO (PMC). Disponível em:


http://www.cabedelo.pb.br. Acesso em: 23 out. 2016.
SANCHEZ, Luis Enrique. Avaliação de impacto ambiental: conceitos e
métodos. São Paulo: Oficina de Textos, 2006.

SANTOS, M. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. São


Paulo: Edusp, 2002.

388 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


CAPÍTULO 30
.

OS COMITÊS DE BACIAS
HIDROGRÁFICAS COMO INDUTORES DE
OBRAS E PROJETOS DE ENGENHARIA
Maria Adriana de Freitas Mágero Ribeiro1, Mirella Leôncio Motta e Costa2.

RESUMO
Comitês de Bacias Hidrográficas (CBHs) são organismos de bacias
hidrográficas corresponsáveis pela gestão de águas em uma bacia
hidrográfica. Tem composição tripartite, pois são compostos por
membros representantes do Poder Público (Federal, Estadual e
Municipal), Usuários de Água e Sociedade Civil Organizada. São
de competência dos CBHs, entre outras, o acompanhamento da
elaboração e a aprovação dos planos de recursos hídricos a nível de
bacia hidrográfica. Comumente, os Planos de Bacias Hidrográficas
preveem diversas ações estruturais e não-estruturais que, sendo
implantadas, contribuirão para o desenvolvimento sustentável da
população residente, no tocante aos aspectos sociais, econômicos
e ambientais. Neste capítulo, objetiva-se mostrar a importância
desses Comitês enquanto entes indutores de projetos e obras de
engenharia civil. Para tanto, foi utilizada a análise documental de
Planos de Bacias Hidrográficas já elaborados na região Nordeste
do Brasil, observando-se quais projetos e obras de engenharia estão
presentes, bem como o montante investido nessas ações estruturais.
Constatou-se que os percentuais de investimentos, nestas obras, são
bastante representativos, quando comparados aos demais programas
analisados.

Palavras-Chave: Planejamento participativo. Planos de recursos


hídricos. Obras e projetos.

1 Mestre em Engenharia Civil e Ambiental e Doutora em Recursos Naturais. Professora do Curso de


Engenharia Civil do Unipê. E-mail: drickadefreitas@yahoo.com.br
2 Mestre em Engenharia Civil e Ambiental e doutoranda em Desenvolvimento e Meio Ambiente. E-mail:
mirellamotta@yahoo.com.br

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 389


INTRODUÇÃO
Os Comitês de Bacias Hidrográficas (CBHs) são órgãos
colegiados corresponsáveis pelos processos de gestão e gerenciamento de
recursos hídricos no nível das bacias hidrográficas, sendo compostos por
representantes de usuários de água, sociedade civil organizada e poder
público. Tais CBHs são a base do sistema de gerenciamento de recursos
hídricos e, portanto, interlocutores da sociedade na gestão e no planejamento
participativo da água.
De acordo com suas atribuições, os CBHs contribuem com o
desenvolvimento das regiões em que atuam, principalmente nos aspectos
econômicos, sociais e de preservação ambiental, através do planejamento
participativo materializado nos planos de bacias hidrográficas.
Os planos de bacias hidrográficas são planos diretores de
recursos hídricos, de longo prazo, elaborados para fundamentar e orientar
a implementação das políticas de recursos hídricos (Federal e Estaduais) e
o gerenciamento dos recursos hídricos na área de uma bacia hidrográfica.
Nestes planos, comumente são planejadas obras de engenharia necessárias
ao alcance dos objetivos da política. Muitas dessas obras são de engenharia
civil distribuídas nas áreas de abastecimento, saneamento, resíduos sólidos,
geotecnia, entre outras.
Diante do exposto, este capítulo objetiva fazer uma explanação
sobre os comitês de bacias como entes indutores de projetos e obras de
engenharia civil para alcance dos objetivos da Política Nacional de Recursos
Hídricos, bem como apresentar as componentes dos planos de recursos
hídricos que trazem esse tipo de ações estruturais em seus planos de
investimentos.

METODOLOGIA
Este estudo apresenta uma abordagem qualitativa, que identifica
a descrição da complexidade de determinado problema. De acordo com
Denzin e Lincoln (2006) a pesquisa qualitativa envolve o estudo do uso e a
coleta de uma variedade de materiais empíricos, que são capazes de descrever
acontecimentos significativos na construção do problema.
Ressalta-se que esta pesquisa possui característica documental,
buscando destacar os principais aspectos dos entes envolvidos para aprimorar
a gestão dos recursos hídricos (GIL, 2008). A pesquisa documental torna-
se importante em função da sua capacidade de corroborar e ampliar as
evidências oriundas de outras fontes (YIN, 2010). Na pesquisa documental
observam-se as fontes mais diversificadas e dispersas. As pesquisas
elaboradas a partir de documentos são importantes não porque respondem
definitivamente a um problema, mas promovem uma melhor análise do
problema proposto (RAMPAZZO, 2005).
O objeto de estudo da pesquisa abrange os Comitês de Bacias
Hidrográficas, que conforme estabelecido pela Lei Federal nº. 9.433/97,
se destacam como espaços democráticos e funcionam como fóruns de
descentralização e participação na tomada de decisão. Neste sentido, os
CBHs são espaços privilegiados para se instituir a negociação e resolução
de conflitos, em torno da gestão de recursos hídricos.

390 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


Os Comitês podem atuar em diferentes limites geográficos, a saber:

i) comitê interestadual: quando abrange bacias hidrográficas


cujas áreas se expandem em mais de um estado;
ii) comitê estadual: cuja área de atuação restringe-se ao limite de
uma ou mais bacias hidrográficas inseridas no território de um
único estado.
Esses recortes espaciais são coincidentes com as possibilidades
de abrangência dos Planos de Recursos Hídricos (ANA, 2015).
Como instrumento de estudo foram selecionados quatro Planos
de Recursos Hídricos (também chamados de Planos de Bacias Hidrográficas)
já elaborados no Nordeste brasileiro, sendo dois de bacias hidrográficas
interestaduais (Bacia do Rio Piancó-Piranhas-Açu e Bacia do Rio São
Francisco) e dois de bacias hidrográficas estaduais (bacia do Rio Japaratuba
e Bacia do Rio Capibaribe).

FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
Segundo Grigg (1996), a gestão das águas é a aplicação de medidas
estruturais e não estruturais para controlar os sistemas hídricos, naturais
e artificiais, em benefício humano e atendendo a objetivos ambientais. Para
que a gestão da água seja sustentável, o bem-estar das gerações futuras
deve ser reconhecido e os aspectos ambientais, econômicos e sociais também
devem ser considerados (SETEGN ; DONOSO, 2015).
No Brasil, a gestão das águas é orientada pela Política Nacional
de Recursos Hídricos, também conhecida como Lei das Águas, que foi
promulgada sob o número 9.433 no dia 08 de janeiro de 1997. São objetivos
desta lei:

I. assegurar à atual e às futuras gerações a necessária disponibilidade


de água, em padrões de qualidade adequados aos respectivos usos;

II. a utilização racional e integrada dos recursos hídricos, incluindo o


transporte aquaviário, com vistas ao desenvolvimento sustentável;

III. a prevenção e a defesa contra eventos hidrológicos críticos de ori-


gem natural ou decorrentes do uso inadequado dos recursos na-
turais.
Para conseguir alcançar os seus objetivos, os poderes públicos
municipais, estaduais e federal, necessitam que sejam elaborados planos,
programas, projetos e obras. No caso de assegurar água em quantidade e
qualidade para as gerações atual e futuras, bem como garantir a prevenção e
defesa contra eventos críticos é primordial a elaboração de projetos e construção
de diversas estruturas de engenharia civil dos mais variados tipos.
Por exemplo, para garantir o abastecimento de água de uma
cidade, é necessário que exista, no mínimo, um sistema de abastecimento
de água, composto por um manancial, adutoras e bombas, estação de

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 391


tratamento de água e sistema de distribuição para as residências. Essas
obras de engenharia geralmente são executas por prefeituras municipais,
governos estaduais (ou Federal) e empresas concessionárias de água.
A referida lei também instituiu cinco instrumentos de gestão, que
ao serem aplicados integradamente, favorecem o alcance dos objetivos. Os
instrumentos e suas principais características são apresentadas no Quadro 1:

Quadro 1 - Instrumentos de gestão de recursos


hídricos e suas principais características.
Instrumento Características principais
São planos de longo prazo, com horizonte de planejamento
compatível com o período de implantação de seus programas

Planos de São elaborados por bacia hidrográfica, por Estado e para o


Recursos País
Hídricos
Visam fundamentar e orientar a implementação da Política
Nacional de Recursos Hídricos e o gerenciamento dos
recursos hídricos
Baseia-se no diagnóstico da qualidade de água do rio
Enquadramento (“rio que temos”) e produz-se o prognóstico de usos e de
dos corpos qualidade que se deseja para o rio (“rio que queremos”)
de água
em classes, Visa assegurar às águas qualidade compatível com os
segundo usos mais exigentes a que forem destinadas e diminuir os
os usos custos de combate à poluição das águas, mediante ações
preponderantes preventivas permanentes
da água
É estabelecido em conjunto com a legislação ambiental
É o ato administrativo mediante o qual o poder público
outorgante (União, Estado ou Distrito Federal) faculta
ao outorgado (requerente) o direito de uso de recursos
hídricos, por prazo determinado, nos termos e nas condições
expressas no respectivo ato
Outorga dos
direitos de uso Visa assegurar o controle quantitativo e qualitativo dos usos
de recursos da água e o efetivo exercício dos direitos de acesso à água
hídricos
Deve preservar o uso múltiplo das águas

Não implica a alienação parcial das águas, que são


inalienáveis, mas o simples direito de seu uso.

392 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


Objetiva reconhecer a água como bem econômico e dar
ao usuário uma indicação de seu real valor; incentivar a
racionalização do uso da água; e obter recursos financeiros
para o financiamento dos programas e intervenções
contemplados nos planos de recursos hídricos
Cobrança pelo
uso de recursos Serão cobrados os usos de recursos hídricos sujeitos a
hídricos outorga

Os valores arrecadados com a cobrança pelo uso de


recursos hídricos serão aplicados prioritariamente na bacia
hidrográfica em que foram gerados
É um sistema de coleta, tratamento, armazenamento e
recuperação de informações sobre recursos hídricos e
fatores intervenientes em sua gestão
Sistema de
Informações Tem como objetivos reunir, dar consistência e divulgar
sobre Recursos os dados e informações sobre a situação qualitativa e
Hídricos quantitativa dos recursos hídricos no Brasil; atualizar
permanentemente as informações sobre disponibilidade e
demanda de recursos hídricos em todo o território nacional;
fornecer subsídios para a elaboração dos Planos de Recursos
Hídricos

Fonte: BRASIL (1997); CNRH (2001).

A Política Nacional de Recursos Hídricos também foi responsável


por criar o Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos (Figura
1) composto com várias instituições de nível Federal, Estadual e de bacia
hidrográfica. A SRHU1, no âmbito nacional, e as Secretarias de Estados,
no âmbito dos estados, são as maiores indutoras de obras de engenharia,
principalmente aquelas denominadas obras hídricas. Entretanto, este
capítulo demonstra que os comitês de bacias hidrográficas também podem
ser entes indutores de obras e projetos de engenharia através dos planos
de recursos hídricos no nível da bacia hidrográfica, os chamados planos
diretores de bacias hidrográficas.

1 SRHU – Secretaria de Recursos Hídricos e Ambiente Urbano

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 393


Figura 1 - Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos

Fonte: MMA, 2012.

Abers (2010) ressalta que a aprovação da Lei das Águas de 1997


(Lei 9. 433/97) foi passo importante na direção de uma reforma institucional
que contempla a especificidade do uso múltiplo da água, porque propôs um
sistema de gestão de água em múltiplos níveis territoriais. Na base desse
sistema se criaram os comitês de bacia hidrográfica, colegiados participativos
com assentos para poder público, sociedade civil e usuários de água.
Na Figura 2, observa-se a evolução da criação de comitês de
bacias hidrográficas no Brasil. Com a promulgação da Lei das Águas no
ano de 1997 e a criação da Agência Nacional de Águas no ano 2000, houve
um aumento considerável no número de comitês de bacias hidrográficas no
Brasil. Hoje, segundo o Fórum Nacional de Comitês de Bacias(FNCBH) o
número de CBHs já ultrapassou duas centenas.
Os CBHs, após sua instalação2, recebem diversas atribuições que
são aspiradas de maneira compartilhada entre os demais órgãos integrantes
dos sistemas de recursos hídricos. A viabilização da implementação dos
instrumentos de gestão de recursos hídricos (dispostos no Quadro 1) é
tarefa primordial dos comitês.

2 A instalação de um CBH é realizada por uma comissão eleitoral através de um processo elei-
toral amplamente divulgado na região da bacia hidrográfica. O processo eleitoral é composto
por várias etapas: mobilização social, divulgação de editais com prazos e vagas por segmento a
serem preenchidas, plenárias eleitorais por segmento e posse.

394 ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II


Gráfico 1 - Evolução da criação de CBHs no Brasil no
período de 1988 a 2010

Fonte: ANA, 2011.


Nesse sentido, os Planos de Recursos Hídricos e, mais
especificamente, os Planos de Bacias Hidrográficas são documentos
norteadores das ações, programas, projetos e obras que devem ser
implantados numa bacia hidrográfica. De acordo com a Agência Nacional
de Águas, foram elaborados no Brasil 120 planos de bacias de rios estaduais
(ANA, 2015). A distribuição destes planos pode ser visualizada na Figura 3.

Figura 2 - Situação dos planos de bacias de rios


estaduais em dezembro de 2014

Fonte: ANA, 2015.

ENGENHARIA CIVIL | Temas, técnicas e aplicações - Volume II 395


De acordo com a Figura 3, é perceptível a maior quantidade de
planos de bacias elaborados nas regiões Sudeste