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A DIFUSÃO DA CULTURA BRASILEIRA NO EXTERIOR

Além da diplomacia cultural e do soft power

Flávio Luís Soares de Barros1

Resumo: O objetivo principal deste trabalho é empreender uma análise dos desafios que
se colocam para as políticas e práticas de difusão, no exterior, da cultura brasileira e da
língua portuguesa, analisando sua formulação e implementação no período recente e os
percalços enfrentados. Nota-se, principalmente, a falta de um referencial teórico que
permita, simultaneamente, a análise das práticas empíricas e a geração de subsídios para
a formulação de políticas para temas culturais no âmbito externo. São apontadas
direções para o estabelecimento de quadro conceitual.

Palavras-chave: Difusão cultural, Políticas, Cooperação, Relações internacionais.

Ao falar em cooperação cultural internacional, na promoção e divulgação


cultural, nomes como Institut Français, British Council e Instituto Goethe, entre outros,
e o papel de representações diplomáticas estrangeiras, assim como representações
nacionais no exterior, levam a indagações quanto à natureza e os objetivos da
cooperação cultural empreendida nessas situações, que podem ser compreendidas como
formações práticas, no sentido dado por BOURDIEU (1993), ou seja, em que o material
(o objetivo) está ligado ao simbólico (o subjetivo), de forma indissociável.
Ao se questionar, na literatura, o escopo dessas práticas, encontramos, entre
outros aspectos, a diplomacia cultural, tendo em conta características: 1) de prática
diplomática (ou seja, da relação entre Estados2); 2) da relação entre as atividades de
divulgação e promoção cultural com questões de poder e legitimidade.
Antes de prosseguir, é preciso expor rapidamente dois conceitos de cultura
recorrentes e importantes nas articulações da Diplomacia Cultural: o conceito humanista

1
Doutorando, Instituto de Relações Internacionais-Universidade de São Paulo
2
Embora muitas vezes as definições fluídas de Diplomacia Cultural envolvam também atores
não governamentais.
e o conceito antropológico3. No primeiro caso, “Cultura” designa o resultado da
produção artística legitimada pelas elites, servindo de sinônimo para as artes em geral,
desde que institucionalizadas, entre outros aspectos, pela educação.4 No entanto, essa
visão, considerada elitista, perdeu espaço e foi substituída pelo conceito antropológico,
o qual engloba práticas religiosas, políticas e criativas que formam o âmago de
sociedades e comunidades5 (IVEY, 2008). Essa distinção ganha importância na medida
em que esses dois conceitos são instrumentalizados nas práticas. Algumas definições
correntes de Diplomacia Cultural falam em “comunicação com elites”, sugerindo uma
visão humanista de cultura; já ONU e UNESCO falam em “diversidade”, o que
pressupõe um olhar que, se por um lado, apresenta aspecto inclusivo, por outro, coloca
o desafio de enfrentar a fórmula “tudo é cultura”, que dificulta a delimitação do objeto.
Não existe um esforço de definição mais profundo do campo em sua
especificidade, que leve em conta o aspecto duplo dos bens e serviços culturais
(simbólico e econômico), sua importância para o desenvolvimento inclusivo e
sustentável, a governança cultural internacional (instrumentos UNESCO, UNCTAD,
OMC) e as políticas culturais internacionais, relacionadas ou não aos processos de
integração. Além disso, a difusão cultural não se restringe ao aspecto comunicativo (a
chamada Diplomacia Pública), nem à propaganda, que de certa forma caracterizou as
primeiras análises da Diplomacia Cultural.
Como constatações empíricas, há alguns fatos relevantes. O Ministério das
Relações Exteriores do Brasil conta com estrutura dedicada à divulgação e promoção
cultural desde a primeira metade do século 20. Desde então, a realização de eventos de
caráter cultural sugere uma percepção de importância tanto objetiva como subjetiva,
concomitante com esforços de mensuração objetiva dos resultados (espaço na imprensa,
número de alunos inscritos em cursos de português no exterior, variação no número de

3
Obviamente, não são os únicos conceitos possíveis; foram escolhidos por sua relevância para o
tema deste artigo.
4
Sobre a formação do gosto e a institucionalização da arte, ver BOURDIEU (1979).
5
Para uma discussão mais ampla sobre a visão humanista e a antropológica de cultura, v. o
verbete “Cultura e civilização”, CUNHA (2003).
turistas, publicação de traduções de livros de autores brasileiros no exterior, entre outros
indicadores).
Não foram identificados esforços críticos que captem o espectro mais amplo
assumido pela agenda da cultura, objeto de estudos específicos, em disciplinas diversas,
como Antropologia, Sociologia, Política, Economia, História e Relações Internacionais,
entre outras, que pode envolver, de maneira não exaustiva: relações culturais
internacionais, cooperação cultural internacional, circulações e acesso a bens e serviços
culturais, proteção do patrimônio cultural material e imaterial, direitos de autor, tráfico
internacional de bens culturais, políticas culturais no âmbito internacional, proteção da
diversidade cultural e economia da cultura.
Considerando os aspectos citados, chega-se à possibilidade de sugerir a
delimitação de um escopo mais amplo para a diplomacia cultural, no que consideramos
sua especificidade: 1) em torno dos conceitos de bens e serviços culturais; 2) em torno
da criação, produção, distribuição, circulação e acesso a esses bens e serviços; 3) em
torno dos aspectos políticos, econômicos e sociais envolvidos.
É preciso deixar claro que não se busca um “congelamento” do conceito de
forma a-histórica, atribuindo a ele um significado único, pré-determinado, e que se
busque adequar a objetivos políticos e ideológicos. O campo em questão exige uma
percepção mais refinada, no sentido de captar o conceito de cultura empregado pelos
atores (bastando notar, por exemplo, a ideia de “cultura” operacionalizada nas
atividades de difusão do exterior, mais próxima de um conceito humanista, ligado às
artes visuais e à literatura, enquanto as políticas culturais no âmbito doméstico vinham
se concentrando no fortalecimento de práticas significantes, associadas a um conceito
humanista.

AS POLÍTICAS RECENTES DE DIFUSÃO DA CULTURA BRASILEIRA

Ao longo de seus dois mandatos, o governo do presidente Luís Inácio Lula da


Silva (2003-2010) aumentou de forma exponencial a presença da cultura brasileira no
exterior. O aspecto de ruptura em relação ao governo anterior, carregado também de um
ideal de novidade, emanado do conjunto de alocuções por ocasião da posse do
Presidente e dos Ministros de Estado das Relações Exteriores e da Cultura, entre outras
autoridades, expôs o relevo atribuído aos temas culturais, nomeadamente à dimensão
cultural do processo de integração da América do Sul, ao intercâmbio intelectual e
artístico como instrumento de política externa e ao estabelecimento de estruturas
institucionais encarregadas de fomentar o surgimento de uma identidade do
MERCOSUL e da América do Sul.
Ao tomar posse, o presidente Lula ressaltou a adoção de uma nova atitude na
política externa, que buscaria para o país um ativismo maior, adequado ao peso
específico do país no cenário internacional. Tal novidade seria constituída como reflexo
do desejo de mudança expresso nas urnas. Buscou-se, no período compreendido pelos
dois mandatos do presidente Lula, assumir papel de destaque no cenário internacional,
com instrumentos que incluíram a chamada diplomacia presidencial e a ação nos
organismos multilaterais e instituições intergovernamentais regionais e inter-regionais, e
a luta contra a miséria, no âmbito interno. O eixo da política externa proposta se situaria
em torno da promoção no exterior das políticas internas (e dos valores subjacentes a
elas), exemplificadas pelas politicas de eliminação da fome e da pobreza, como veremos
adiante, que ressalta outro valor proposto, a solidariedade, mas também afirmando
características fundamentais dessa nova inserção, de uma nação que, tanto internamente,
por meio do combate à fome e à pobreza, quanto externamente, afirmando a presença no
mundo, refletiria “os anseios de mudança que se expressaram nas ruas”.
Cabe notar que foram empregadas as palavras “soberana” e “criativa” para
definir a inserção internacional do Brasil. Pode-se, assim, afirmar que a busca da
promoção de valores e práticas internas, ao explicitar o caráter multicultural dinâmico
da sociedade brasileira, tem como resultado, a um só tempo, a afirmação da
especificidade do Brasil e os laços que unem o povo brasileiro a outros povos,
permitindo uma melhor compreensão da imagem brasileira no exterior, assim como uma
maior familiaridade com a realidade do país.
No entanto, ao estabelecer as prioridades de sua política exterior, é importante
notar a importância atribuída, num primeiro momento, no discurso, aos temas culturais,
nomeadamente à dimensão cultural do processo de integração da América do Sul, ao
intercâmbio intelectual e artístico e ao estabelecimento de estruturas institucionais
encarregadas de fomentar o surgimento de uma identidade do MERCOSUL e da
América do Sul, empenhando-se na mesma tarefa no relacionamento com os demais
países da América Latina. Também a cooperação, não apenas programática, mas
concreta, nas dimensões social, cultural e científico-tecnológica do processo de
integração foi contemplada.
Como fundamento da legitimação desse projeto humanista estaria o aspecto de
novidade assumido pelo Brasil, estabelecendo, também, o vínculo entre o plano interno
e externo, pela afirmação de um projeto nacional para além de nossas fronteiras.
As prioridades da política externa estabelecidas nos pronunciamentos citados
apoiavam-se, marcadamente, na especificidade cultural do país. Tal fato sugere
reconhecimento de um poder latente no aspecto cultural para um rompimento do quadro
de poder vigente.
Nele foram estabelecidas ou fortalecidas alianças de geometria variável como
IBAS, BRICS e CPLP. Outro aspecto que adquire relevância é a presença da cultura nos
instrumentos constitutivos ou protocolos do MERCOSUL e UNASUL, além de tratados
e acordos-quadro temáticos estabelecidos em blocos, como o BRICS, e organizações
multilaterais, como UNESCO, UNCTAD e OMC.
Também foram realizados grandes eventos culturais: o Ano do Brasil na França
(2005), o Ano da França no Brasil (2009), as exposições Centenário do arquiteto Oscar
Niemeyer (2008), a tradicional participação das representações brasileiras nas Bienais
de Arte e Arquitetura de Veneza, a participação brasileira nas Bienais do MERCOSUL e
as participações estrangeiras nas Bienais de Arte de São Paulo.
Esse breve apanhado histórico situa a difusão cultural brasileira em um momento
que uma ruptura com o passado foi proposta. Buscava-se uma mudança de paradigmas
tanto internamente como externamente, sendo a cultura vista, em consonância com os
documentos mais recentes emanados pela UNESCO6, por exemplo, sobre seu papel na
superação dos problemas estruturais dos países.
No entanto, ao observar a lista das principais ações de difusão cultural, nota-se
uma opção clara pelos grandes eventos, geralmente realizados por meio de parcerias
com governos e organizações estrangeiras ou transnacionais. Pelo próprio caráter dos
eventos, percebe-se uma preferência não pela cultura, mas pela arte legitimada, ou seja,
percebe-se um conflito entre uma visão antropológica de cultura e uma visão humanista,
aquela englobando as práticas significantes, essas, as realizações da “cultura nacional”.

NEM DIPLOMACIA CULTURAL, NEM SOFT POWER

O estudo do papel do Estado em temas culturais no âmbito internacional,


principalmente no que se refere ao aspecto político dos contatos entre culturas, do ponto
de vista material e simbólico, confunde-se com a noção de Diplomacia Cultural. Boa
parte das articulações correntes dessa locução é de diplomatas, enfatizando sua relação
com a política externa, o interesse nacional e o financiamento das ações empreendidas
no exterior. De forma mais ampla, permite que se leve em conta também as “Relações
Culturais Internacionais”, ou seja, a participação de agentes não estatais no diálogo
intercultural e a cooperação cultural internacional e governança cultural global.
Essa falta de clareza pode ser evidenciada pelo fato de as articulações
empregadas na literatura serem imprecisas e incompatíveis, por vezes confundindo-se
com a Diplomacia Pública e Propaganda (CULL, 2008; HIXSON, 1997), com a noção
de Soft Power (NYE, 2004), ou com Relações Culturais Internacionais
(WYSZOMIRSKI; BURGESS; PEILA, 2003).

6
“Building on its six international Culture Conventions, UNESCO is determined to secure
recognition of culture as an enabling factor in the post-2015 agenda. Two UN General Assembly
Resolutions on Culture and Development have already been adopted, in 2010 and 2011. The
Hangzhou International Congress on ‘Culture: Key to Sustainable Development’ was held in
May 2013, followed by the High Level UN General Assembly Thematic Debate on Culture and
Development in June, and a session on education and culture of the Open Working Group on the
Sustainable Development Goals” (UNESCO, 2013)
Frequentemente, o discurso oficial brasileiro afirma ser o soft power (v. mais
abaixo) um de seus principais recursos de poder. No entanto, de forma contra-intuitiva,
os recursos empregados nos programas de Diplomacia Pública (este incipiente e ainda
pouco estruturado) e Diplomacia Cultural (mais tradicional na estrutura do Ministério
das Relações Exteriores) ainda são pequenos, o que demonstra a necessidade de um
quadro objetivo para avaliação do impacto das ações culturais, contrastando a relação
entre a visão de ganho efetivo do uso de recursos não tradicionais de poder e o
investimento efetivo (em sentido amplo, não apenas financeiro) realizado.
A França, por exemplo, aplicou, em 2007, cerca de um bilhão de euros em
atividades culturais no exterior, sendo 35% para a manutenção de sua rede cultural
(como as unidades da Aliança Francesa, responsável pelo ensino do francês, e centros
culturais espalhados pelo mundo, entre outros) e 21% com radiodifusão. Esse montante
foi oriundo, principalmente, do Ministério das Relações Exteriores, mas também dos
Ministérios da Cultura, Educação e Ensino Superior. Já a Alemanha contou no mesmo
ano com um orçamento combinado de cerca de 680 milhões de euros, referentes
principalmente à manutenção do Instituto Goethe (200 milhões de euros, 75% dos quais
oriundos do Ministério de Relações Exteriores), que possui 140 unidades em 81 países,
e do DAAD (Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico) (MORRISON;
COMPAGNON, 2010, p. 117-118). No caso brasileiro, embora tenha havido um
aumento das verbas destinadas para a difusão e promoção cultural no exterior tenha
aumentado entre 2004 e 2011, atingindo um máximo de R$ 25 milhões, os gastos
caíram significativamente desde então, encontrando-se em patamar pouco significativo,
seguindo tendência histórica (RIBEIRO, 2011).
Assim, a aparente pouca importância das atividades de promoção cultural no
exterior, do ponto de vista institucional e dos gastos realizados, que leva alguns autores,
de forma normativa, a afirmar a “inexistência” de uma diplomacia cultural, pela
ausência de políticas específicas, com o que discordamos, pois a falta de estrutura
institucional ou de políticas específicas não implica na inexistência de ações culturais,
que, inclusive, fazem parte da rotina diplomática, se comparadas com a importância
atribuída à diplomacia econômica e financeira ou com os números das chamadas
indústrias criativas e culturais, deve ser vista no âmbito desse novo panorama,
caracterizado também pela preeminência das novas formas de comunicação digital, que
exacerba a colaboração e a interação entre os diversos atores.
Trata-se, portanto, de entender como os valores e ideias contidos nas práticas de
divulgação, promoção e cooperação cultural empreendidas pelo governo brasileiro
projetam a imagem do Brasil como ator no cenário internacional e como essas práticas
enquadram-se nos objetivos estratégicos estabelecidos no discurso da política externa
brasileira. Em outras palavras, investigar como a difusão cultural é empregada, tanto
como instrumento de legitimação, quanto como estratégia de poder do país, na inserção
explicitada pelo governo.
Desse modo, é necessário analisar a relação entre a centralidade da cultura para a
elaboração de políticas, no plano interno (NINKOVITCH, 1981; UNESCO, 2002), que
serviriam como fator de legitimação para a política externa, e o conteúdo da difusão
cultural e sua importância objetiva para a consecução dos objetivos políticos no plano
internacional.
A questão que se coloca em relação à difusão a cultura brasileira no exterior está
relacionada: 1) Com a falta de um referencial teórico-político claro; 2) Com a baixa
densidade institucional para essa atividade.
Quanto ao primeiro aspecto, na literatura existente, os temas culturais, no âmbito
internacional, por uma série de razões, não contam com um quadro teórico de referência
que possa servir como base para a formulação de políticas para o setor. Os intercâmbios
de bens e serviços culturais, denominados de forma genérica “Diplomacia Cultural”,
não contam nem com definições dessa atividade, nem com um consenso em torno de
qual seria seu conteúdo, os atores ou os objetivos envolvidos. Para outros atores, a
difusão cultural está atrelada ao esforço comunicativo de governos, sendo, portanto,
afeita ao campo da “Diplomacia Pública”.
Consideramos que nem a Diplomacia Cultural, nem a Diplomacia Pública
oferecem alternativas adequadas para a formulação de políticas de difusão cultural, por
oferecerem abordagens estreitas, do ponto de vista teórico, e que, consequentemente,
não exploram a multiplicidade de práticas existentes.
Como as relações de poder entre estados são constituídas pelos e nos discursos
da cultura (direitos culturais, economia da cultura/criativa, cultura e desenvolvimento
sustentável inclusivo, diversidade cultural).
No âmbito internacional, ressaltamos um aparente paradoxo. Enquanto os
aspectos militares, econômicos e políticos são tradicionalmente objeto de estudos
aprofundados e já solidificados, os temas culturais são relativamente pouco analisados.
No entanto, é interessante notar que, do ponto de vista institucional, os países europeus
tem em comum não a participação na União Europeia (27 membros), na zona do Euro
(19 países), na Organização do Tratado do Atlântico Norte (26 membros europeus) ou
na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (26 membros na
Europa), mas a filiação à União das Federações Europeias de Futebol (54 membros) ou
à União Europeia de Radiodifusão (com 73 membros de 56 países), responsável pelo
Festival Europeu da Canção (com 52 países participantes desde a primeira edição do
evento). Os membros europeus da UNESCO totalizam 41, incluindo as Ilhas Faroé,
membro associado. Além disso, 70% dos filmes exibidos nos cinemas europeus em
2014 era composto por filmes norte-americanos. Mesmo assim, a indústria
cinematográfica do continente representou um faturamento de 60 bilhões de euros em
2010 . Esse aspecto ressalta os debates em torno do controle da distribuição de bens e
serviços culturais, com o argumento da proteção de culturas locais e dos saberes
tradicionais.
Temas como a proteção do patrimônio cultural, material ou imaterial, o tráfico
de obras de arte, o debate em torno da propriedade intelectual, o intercâmbio de pessoas
e artefatos, além da cooperação internacional nesses setores, sugerem a ampla
importância da cultura, tanto sob o aspecto simbólico, como econômico e político.
Temos, assim, um panorama breve do paradoxo citado. Enquanto aspectos
políticos, econômicos e militares contam com esforços mais consistentes de pesquisa e
análise , os temas culturais são objeto de estudos relativamente rarefeitos, centrados
principalmente na ideia, que consideramos vaga, de Diplomacia Cultural.
Quanto ao seu conteúdo, CUMMINGS (2003), em uma das definições
recorrentes do termo, define a diplomacia cultural como o intercâmbio de ideias, valores
e informação, sem, no entanto, aprofundar as formas ou a substância desse intercâmbio.
Alguns autores consideram a diplomacia cultural como atividade afeita ao
Estado. Outros consideram, ainda, a participação de agentes transnacionais, como
associações, empresas de radiodifusão e outros.
Já quanto aos objetivos, a promoção do entendimento mútuo e a cooperação são
os aspectos mais citados na literatura existente. Não há esclarecimento, no entanto, a
respeito do que levaria países com interesses possivelmente divergentes a cooperar em
um setor em que se pode pressupor uma baixa interdependência, quando a densidade
das relações é baixa, pelo menos no que se refere aos aspectos materiais, ou quando há
grande assimetria entre os atores, como no caso da indústria cinematográfica americana,
capaz de atuar com base tanto no poder econômico quanto político.
O argumento principal dessas articulações é que o discurso da Diplomacia
Cultural é empregado como instrumento na busca pela manutenção ou alteração do
equilíbrio de poder, por meio do apagamento do político, ou seja, do aspecto conflitivo.
Esse discurso, ao embasar politicas e práticas, assume aspecto estrutural, delimitando o
espaço de ação dos atores. Ao mesmo tempo, as representações de si e do outro passam
a guiar ações e políticas, coincidindo com a noção do construtivismo da co-constituição
de agentes e estruturas.
Ainda que haja um crescimento recente, há um número relativamente restrito de
publicações e artigos no Brasil sobre Diplomacia Cultural, basicamente composto por
estudos de caso ou temas específicos, como a participação do Brasil em órgãos
multilaterais (a OMPI, por exemplo, em DUMONT, 2008) e o papel do Ministério das
Relações Exteriores na divulgação da música brasileira (FLÉCHET, 2012), ou análise
de eventos como o Ano do Brasil na França (AMARAL, 2008) e a Copa da Cultura
(LIMA, 2014).
Duas obras, no entanto, constituem exceção a essa “regra”. RIBEIRO (2011),
que inaugurou a bibliografia sobre o tema no país, buscou uma visão de conjunto, sem,
no entanto, conseguir fugir ao aspecto teleológico, fato normal ao se considerar que seu
livro teve origem no Curso de Alto Estudos (CAE), do Instituto Rio Branco . Já Monica
Leite Lessa e Hugo Rosélio Suppo incluíram a cultura como o “quarto pilar das relações
internacionais”, na esteira de Marcel Merle, que definiu os outros três pilares como
sendo o político, para o paradigma realista, o econômico, para o paradigma liberal e a
revolução tecnológica, para o paradigma da interdependência (SUPPO; LESSA, 2012,
p. 13).
Quanto aos atores envolvidos, temos, além dos Estados, as instituições culturais
e educacionais, organizações não governamentais, empresas e indivíduos (produtores
independentes, artistas etc.), no que pode ser entendido como um mercado simbólico
internacional, baseado em BOURDIEU (1992).
Finalmente, tendo em vista que pesquisas anteriores têm se dedicado
principalmente à análise da Diplomacia Cultural de países que, ao mesmo tempo,
contam com culturas dominantes e que tradicionalmente possuem estruturas sólidas de
divulgação e promoção cultural, como Estados Unidos, França, Reino Unido, Alemanha
e Itália, o enfoque aqui adotado, ao analisar a Diplomacia Cultural brasileira no
contexto bilateral, regional e multilateral, permite uma visão mais complexa de
eventuais modelos e estratégias adotadas e resultados obtidos, o que possibilita uma
melhor compreensão do campo da Diplomacia Cultural, passível de um esforço de
elaboração de um modelo teórico mais abrangente.
Fala-se, com frequência, da relação entre diplomacia cultural e soft power, ou
poder brando, como traduzido constantemente. Essa noção, cunhada por Joseph Nye,
considerado um dos acadêmicos mais influentes da política externa norte-americana, é
definida como a capacidade de atração, ou seja, de levar outro ator a adotar
comportamento que não seria adotado de outra forma, por meio da cultura ou de fatores
ideológicos (NYE, 2004), em oposição ao emprego dos instrumentos coercitivos
(“sticks and carrots”). Essa noção permite ampliar a ideia de poder para além do aspecto
material da concepção realista, que considera a ameaça ou o uso da coerção como
ferramenta privilegiada para modificar o comportamento de um ator. Por meio do Soft
Power, a mudança de comportamento poderia ser induzida pela atração gerada pela
cultura, pelos valores e pelas instituições.
Partindo dessa noção, se entendermos “poder” como as fontes, meios e relações
de dominação, controle e subordinação, pelos quais um ator, individual ou coletivo,
histórica e geograficamente situado, é capaz de dominar outros atores, visando a atingir
seus próprios objetivos e interesses, mesmo diante de oposição e resistência, seria
necessário explicitar como a Diplomacia Cultural exerceria essa dominação diante de
resistência.
Como notado por BILGIN e ELIS (2008), o conceito criado por Nye não é uma
alternativa ao conceito de Hard Power, que envolve a coerção oriunda da força física,
para impor e manter a dominação, ou que pode ainda ser o produto do acesso e
distribuição diferenciados de recursos, tanto materiais, como simbólicos (os vários tipos
de capital cultural), mas um complemento..
Várias críticas podem ser feitas, tanto à noção, quanto a sua aplicabilidade ao
debate sobre Diplomacia Cultural. Não há, por exemplo, uma explicitação da noção de
cultura adotada, que parece aproximar-se do conceito antropológico. Essa posição, ao
mesmo tempo em que oferece uma abrangência bastante grande ao termo, diminui seu
poder explicativo, pois não permite observar as especificidades empíricas. Além disso,
desconsidera-se o fenômeno cultura como sendo uma abstração e uma generalização, e
não algo concreto. Arte, a música e a literatura são “artefatos, relíquias ou resultados da
cultura” (WEAVER, 2000), ou “indícios”, e não “cultura”.
O emprego disseminado da noção de soft power justifica-se pela necessidade de
levar em conta outros recursos de poder além dos meios coercitivos (poderio militar e
econômico, entre outros). O problema central está em saber se atração e persuasão
confundem-se com poder, pois o fundamento do soft power é a legitimidade (HALL,
2010).
Ao assumir a atratividade da cultura, das ideias políticas e políticas de um país
como fontes de Soft Power, Nye não oferece uma explicação sobre quais os elementos
presentes nesses fatores fazem com que eles se tornassem atrativos. Ao sugerir a atração
como cooptação por valores considerados universais e que seriam a fonte da
atratividade da cultura e dos valores norte-americanos, Nye basicamente afirma tais
valores como hegemônicos, oferecendo, além disso, um quadro extremamente benigno
dessa hegemonia, sem levar em conta eventuais aspectos conflitivos, por um lado, nem
a característica expressiva dos bens e serviços culturais, que não se prestam a leituras
pré-definidas. Além disso, Nye não leva em conta o grau de coerção envolvido na
produção do Soft Power americano, oriundo de fatores materiais (poderio econômico e
militar), mas, também, de outras formas de poder (poder simbólico) (BILGIN; ELLIS,
2008).

CONCLUSÃO

Apesar das dificuldades conceituais que envolvem o termo cultura e suas


implicações para o estudo das Relações Internacionais (HUDSON, 1997),
empregaremos uma definição estrita, que engloba o patrimônio imaterial, a paisagem
cultural, o patrimônio histórico edificado, o patrimônio móvel e documental e as
atividades de criação, comunicação, difusão e recepção nas artes, manifestações
híbridas ou ecléticas “transversais a várias delas” (LIMA, 2010).
Nesse âmbito, consideramos mais adequado falar em ação cultural externa, a
qual engloba, sem se reduzir a esses aspectos, o emprego de programas e projetos que
interfiram nos quatro momentos da atividade cultural: produção, distribuição,
participação e consumo (BARROS, 2015). Incluem, entre outros, a criação, circulação,
promoção, proteção e difusão de bens e serviços e da diversidade das expressões
culturais.
Além disso, a promoção e divulgação da cultura, o incentivo à criação de
políticas públicas de âmbito internacional, o estabelecimento de mecanismos de
intercâmbio, informação e difusão e o fomento à circulação de acervos e exposições
formam os pilares da cooperação cultural internacional, que têm efeitos benéficos e
externalidades importantes.
A ação cultural deve, portanto, fazer parte da visão ampla das políticas públicas,
integrando programas domésticos e externos e adotando terminologia adequada para
situações específicas, como o conceito de cultura adequado para o contexto.
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