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UNIVERSIDADE FEDERAL DO PIAUÍ

LICENCIATURA EM FILOSOFIA

ÂNGELO ANTÔNIO MACEDO LEITE

CONSIDERAÇÕES SOBRE O CONCEITO DE ANIMAL LABORANS EM HANNAH


ARENDT

JUAZEIRO-BA
2018
ÂNGELO ANTÔNIO MACEDO LEITE

CONSIDERAÇÕES SOBRE O CONCEITO DE ANIMAL LABORANS EM HANNAH


ARENDT

Monografia apresentada ao Curso de


Licenciatura em Filosofia da Universidade
Federal do Piauí, como requisito básico
para o Trabalho de Conclusão de Curso.
Orientador: Prof. Me. João Batista Farias
Junior

JUAZEIRO-BA
2018
CONSIDERAÇÕES SOBRE O CONCEITO DE ANIMAL LABORANS EM HANNAH
ARENDT

Monografia apresentada ao Curso de


Licenciatura em Filosofia da Universidade
Federal do Piauí, como requisito básico
para o Trabalho de Conclusão de Curso.
Orientador: Prof. Me. João Batista Farias
Junior

Aprovada em ____ / ____ / ____

BANCA EXAMINADORA

___________________________________________________________

Orientador: Prof. Me. João Batista Farias Junior (UFPI)

___________________________________________________________

Avaliador (a) 01:

___________________________________________________________

Avaliador (a) 02:

JUAZEIRO-BA
2018
Dedico este trabalho a minha amada
esposa Maria Franciane e a minha
querida filha Ana Beatriz.
AGRADECIMENTOS

Em especial ao prof. João Batista Farias Junior (UFPI) pela orientação e as valiosas
contribuições neste trabalho.

Aos demais professores da Universidade Federal do Piauí, pela dedicação e idas e


vindas ao polo de Juazeiro-BA.

Aos funcionários do polo UAB de Juazeiro, em especial a Rosângela (coordenadora


do polo), por todo apoio durante a realização do curso.

As tutores presenciais, Lindalva e Biquinha e aos tutores a distância, prof. Gabriel


Kafuré, profa. Aline Rasech e profa. Aryane Raysa, por todo suporte dado durante o
curso.

Aos colegas do curso de filosofia da turma 2014, pela amizade e motivação.


A medida do amor é não ter medida.

Santo Agostinho
RESUMO

O presente Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) tem o propósito de fazer uma


análise sobre o pensamento de Hannah Arendt a respeito da atividade humana do
trabalho (labor) na obra A Condição Humana, com o objetivo de verificar em que
consiste esse conceito específico e qual o seu papel dentro da crítica de Hannah
Arendt à modernidade. Para isso, este TCC foi estruturado através de três capítulos
básicos. No primeiro capítulo é discutido a crise na modernidade segundo
pensamento de Arendt, nele destaca-se a figura do animal laborans, sua
característica e seu modo de agir. No segundo capítulo é feito uma análise da crítica
Arendt a Marx. Nele o conceito de trabalho é discutido com o objetivo de se entender
a modernidade. No terceiro capítulo aborda a importância do conceito de animal
laborans, com destaque para sua vitória através de várias constatações feitas pela
autora. Como conclusão, percebe-se que o conceito de animal laborans é
fundamental para o entendimento do pensamento arendtiano, da obra em questão e
da modernidade. Entender este conceito é essencial para compreender os aspecto
da política no mundo moderno.

Palavras-chave: Trabalho, Labor, Animal laborans, Arendt


ABSTRACT

The purpose of this course work conclusion is to analyze what Hannah Arendt says
about the human activity of labor by The Human Condition, with the aim of verifying
the specific concept and what is its role within Hannah Arendt's critique of modernity.
For this, this was structured through three basic chapters. In the first chapter is
discussed the crisis in modernity according to Arendt's thought. In this chapter stands
out the figure of the animal laborans, its characteristic and its way of acting. In the
second chapter there is an analysis of Arendt's criticism to Marx. In this chapter, the
concept of work is discussed in order to understand modernity. In the third chapter, it
discusses the importance of the concept of animal laborans, especially its victory of
several observations made by the author. As a conclusion, we see that the concept
of animal laborans is fundamental for the understanding of Arendtian thought. The
concept of animal laborans is essential to understanding the aspects of politics in the
modern world.

Keywords: Work, Labor, Animal laborans, Arendt


SÚMARIO

INTRODUÇÃO........................................................................................................................10

1. A CRISE NA MODERNIDADE SEGUNDO PENSAMENTO ARENDTIANO....................13

2. A CRÍTICA DE HANNAH ARENDT À KARL MARX.........................................................17

3. A IMPORTÂNCIA DO CONCEITO DE ANIMAL LABORANS PARA ANÁLISE

DA MODERNIDADE...............................................................................................................25

CONSIDERAÇÕES FINAIS...................................................................................................30

REFERÊNCIAS......................................................................................................................32
10

INTRODUÇÃO

O presente Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) tem como objetivo fazer


uma análise do que diz Hannah Arendt a respeito da atividade humana do trabalho
(labor) na obra A Condição Humana, com o propósito de verificar em que consiste
esse conceito específico e qual o papel dele dentro da crítica de Hannah Arendt à
modernidade.

A Condição Humana, é uma das principais obras de Hannah Arendt. Sua


primeira edição foi publicada no ano de 1958, quando a autora buscou desenvolver
alguns conceitos-chaves para compreender as transformações do homem,
assentadas na ideia da pluralidade e singularidade. Nesta obra, ela aprofunda sua
análise sobre o homem através do exame de suas atividades em três atividades
específicas, labor (trabalho), obra e ação1.

O primeiro aspecto, e talvez um dos mais inovadores, na obra da autora é o


seu destaque para a ideia de labor no entendimento da vida ativa do homem em
sociedade. No capítulo específico sobre o trabalho (terceiro capítulo), Arendt
aprofunda com mais detalhe a importância do trabalho em várias épocas da
sociedade, destacando seu conceito e em muitas vezes a necessidade de distingui-
lo do conceito de obra (work).

No conceito arendtiano, o labor (trabalho) constitui-se a atividade do animal


laborans destinada a satisfazer as necessidades biológicas da espécie com o intuito
de preservar a vida. Para Arendt, este conceito permaneceu esquecido durante
séculos e resgatá-lo tornou-se essencial para a compreensão de sua obra. Em A
Condição Humana, principalmente no terceiro capítulo, Arendt faz questão de
ressaltar a importância de distinguir o labor (trabalho) do conceito de obra (work). "A
distinção que proponho entre trabalho e obra é inusitada" (ARENDT, 2016, p. 98).
Porém, muitos pensadores tem ignorado essa distinção. Até mesmo, Karl Marx, uma
das maiores referências nesta discussão, ignorou esse tipo distinção.

1
Neste TCC, a tradução para o original de labor, work e action será respectivamente trabalho, obra e
ação, conforme orientações feitas por Adriano Correia na edição brasileira da obra A Condição
Humana publicada pela Forense Universitária em 2016.
11

Diante disso, Arendt não poupou críticas a análise parcial feita por seus
antecessores, e utiliza esse conceito como algo essencial na sua obra. O que
realmente tem de especial no conceito de animal laborans, que fez Hannah Arendt
lançar críticas especialmente a Karl Marx? Ou seja, diante do que exposto na obra A
Condição Humana, qual a importância do conceito de animal laborans para a
compreensão da filosofia de Hannah Arendt? Partindo destes questionamentos
básicos, esse TCC busca dialogar neste contexto para compreender melhor o
pensamento arendtiano.

O trabalho faz parte da vida do homem há muito tempo, há quem diga que
desde a sua origem da humanidade. O trabalho tem sido fundamental para manter a
espécie humana viva. É através dele que o homem interage com a natureza, agindo,
modificando, transformando e criando algo que o ajude ou torne a vida mais feliz e
menos sofrida.

Muitos filósofos buscaram explicar a importância do trabalho para a


humanidade. Marx (1817-1888) foi um dos maiores teóricos sobre o trabalho. Para
ele, é o trabalho que fez surgir o homem em sociedade, e além disso, ele é o
principal elemento que distingue o homem dos outros animais. Para Marx (2010) o
trabalho é algo exclusivo do homem, pois ele é o único ser vivente que faz uso da
inteligência para idealizar e realizar as atividades.

Para Marx (2010), a operação realizada por uma aranha ao tecer sua própria
teia ou a construção de uma colmeia feita por qualquer abelha não se compara a
atividade de um arquiteto ou tecelão. Pois, o que distingue o pior arquiteto da melhor
abelha ou um jovem arquiteto de uma experiente abelha é que eles (arquiteto e
tecelão) figuram nas suas mentes a construção antecipada de algo antes de realizar
a transformação. Há neste processo, o que Marx (2010) idealizou como prévia-
ideação. Ou seja, "no fim do processo do trabalho aparece um resultado que já
existia antes idealmente na imaginação do trabalhador. Ele não transforma apenas o
material sobre o qual opera; ele imprime ao material o projeto que tinha
conscientemente em mira, o qual constitui a lei determinante do seu modo de operar
e ao qual tem de subordinar sua vontade". (MARX, 2010, p. 212)

Nesta perspectiva marxiana, pode-se perceber que existem diferenças entre


atividades realizadas pelo o homem e por outros animais. O trabalho do homem se
destaca, pela sua realização e idealização. Portanto, ele é mais rico e complexo.
12

A análise marxiana do trabalho influenciou muitos pensadores do século XX.


Hannah Arendt por exemplo, destacou na sua obra A Condição Humana a
importância de Marx diante da temática do trabalho. Ela utilizou de algumas
conclusões feitas por ele para desenvolver e analisar o papel ativo do homem na
contemporaneidade. Arendt concordava com algumas observações feita por Marx,
porém fez algumas críticas a ele pela simplificação e análise parcial do aspecto do
trabalho na vida do homem. Dos pensadores contemporâneos, Hannah Arendt foi
uma das principais pensadoras a criticar o pensamento de Marx.

Em A Condição Humana, Hannah Arendt procura compreender a sociedade


pós revolução industrial através das formas que a vida impõe ao homem para
sobreviver. Neste sentido, ela analisa a condição humana através de três aspectos
chaves: o trabalho (labor), a obra e a ação. Destes três aspectos, cabe destacar a
importância do conceito de labor introduzida por ela para o estudo do homem em
sociedade. Para ela, o labor é atividade desenvolvida pelo animal laborans para
garantir a sobrevivência biológica da sua espécie.

É através do labor, que podemos destacar a profundidade e novidade do


estudo do trabalho feito pela a autora. Percebe-se que, através da apresentação
desta temática, a análise de Hannah Arendt se distancia da abordagem já realizada
por Karl Marx. Este conceito parece ser essencial para a compreensão e
identificação da maturidade da filosofia da Hannah Arendt. Debatê-lo, torna-se
importante para a filosofia e para a compreensão política do homem na sociedade.

Para alcançar o objetivo aqui exposto, esta monografia foi estruturada com o
objetivo inicial de analisar a crise na modernidade segundo pensamento arendtiano,
onde a cultura do descarte, é uma das principais preocupações assinalada por ela
no prólogo d'A Condição Humana. O que é importante destacar no pensamento
arendtiano é que a modernidade passa por um processo de crise muito
provavelmente ligado a vitória do animal laborians, através de muitas de muitas
perspectiva de análise. Entender o conceito, o contexto e o sentido empregado do
animal laborians na obra de Arendt, torna fundamental para buscar compreender o
seu pensamento e a crise da sociedade em que vivemos. Este será o tema para o
próximo capítulo.
13

1. A CRISE NA MODERNIDADE SEGUNDO PENSAMENTO


ARENDTIANO

A Condição Humana é uma obra que mostra a relação do homem no mundo.


Ao longo da história da humanidade, o mundo vem apresentando determinadas
condições, construídas pelo próprio homem em sociedade. Ao analisar esta
dinamicidade, Arendt dá um maior destaque para o contexto histórico da
modernidade, dado que nesse período ocorrem modificações radicais nas formas
como o homem se relaciona com o mundo e consigo mesmo.

A modernidade analisada por Arendt segue uma divisão e uma linha de


raciocínio própria desta autora. Para ela, é necessário analisar a modernidade
dentro de dois contextos: contexto da era moderna e contexto do mundo moderno.
Segundo ela, estes dois contextos são distintos. Ao analisar o prólogo da obra em
questão, percebe-se a clara atenção de Arendt para este detalhe. "A era moderna
não coincide com o mundo moderno. Cientificamente, a era moderna, que começou
no século XVII, terminou no limiar do século XX; politicamente, o mundo moderno
em que vivemos hoje nasceu com as primeiras explosões atômicas”. (ARENDT,
2016, p. 07)

Filosoficamente, a era moderna tem na figura de René Descartes uma das


referências mais forte. A dúvida metódica apresentada na sua filosofia é um dos
impulsionadores para o surgimento da ciência moderna. Por volta do século XVII,
surge todo o contexto científico que desencadeou no aparecimento da Revolução
Industrial e no auge do desenvolvimento tecnológico do início do século XX,
trazendo consigo todo um contexto de dúvida, incerteza e questionamentos sobre o
futuro da humanidade.

É na era moderna que se cria todo o ambiente de crise para o mundo


moderno da atualidade. O ser humano chegou no mundo moderno com um nível de
desenvolvimento tecnológico jamais visto anteriormente, porém dentro de um
ambiente de extrema incerteza. Neste mundo, por exemplo, ele já é capaz de sair da
própria Terra e fazer uma viagem espacial, como relata Arendt. Se, por um lado,
esse fato é visto com "bons olhos" por alguns, para Arendt, isso é visto como algo
14

preocupante, pois de certa maneira, isso representa um alívio ilusório diante de uma
possível prisão física aos limites da terra.

Embora os cristãos tenham chamado a Terra de vale de lágrimas e


os filósofos tenham considerado o corpo uma prisão da mente ou da
alma, ninguém na história da humanidade jamais havia concebido a
Terra como prisão para os corpos dos homens nem mostrado tal
avidez por ir, literalmente, daqui à Lua. (ARENDT, 2016, p. 02)

A modernidade, segundo Arendt, é marcada no seu início pelo distanciamento


da ideia da figura de um Deus Pai, criador do Céu e da Terra, assim como, na fuga
ou abandono de uma mãe Terra, a qual o homem desde sua origem esteve
umbilicalmente ligada a terra. "A Terra é a própria quintessência da condição
humana" (ARENDT, 2016, p. 02). Pensar o ser humano longe da sua natureza
terrena é algo que desperta certa preocupação para Arendt. Isso pode, a primeira
vista, ser considerado como algo trivial, mas ao analisar o contexto de A Condição
Humana, representa um sinal que algo de errado está acontecendo no campo da
vida activa que merece ser apreciado e refletido.

Há no interior do campo da vida um processo de artificialização do ser


humano, onde coisas que anteriormente aconteciam na perspectiva da naturalidade,
é na atualidade levada ao campo da interferência humana e artificialidade do
ambiente onde se vive. Os artifícios criados pelos homens têm levado a um
distanciamento do seu lado animal, e a procura por uma nova identidade, distante da
sua natureza essencialmente biológica.

O campo da artificialização da vida tem sido outra forma do homem de se


livrar do aprisionamento da terra. Nesta modernidade, o homem busca artificializar a
vida na tentativa de inserir seus desejos e padrões em algo que anteriormente é tido
como totalmente do ciclo da Natureza. Deste modo, "o artifício humano do mundo
separa a existência humana de todo ambiente meramente animal". (ARENDT, 2016,
p. 02).

Um dos exemplos de artificialização da vida, citados em A Condição Humana


em 1958 (ano de sua publicação), é a tentativa de criação da vida através de uma
fecundação artificial, feita por uma proveta, ou seja, no laboratório. Este fato
externaliza uma vontade do ser humano de ser algo mais, ou como mencionado pela
autora:
15

o mesmo desejo de escapar do aprisionamento à Terra manifesta-se


na tentativa de criar a vida em uma proveta, no desejo de misturar,
'sob o microscópio, o plasma seminal congelado de pessoas de
comprovada capacidade, a fim de produzir seres humanos
superiores' e 'alterar[-lhes] o tamanho, a forma e a função'; e
suspeito que o desejo de escapar à condição humana também
subjaza à esperança de prolongar a duração da vida humana para
além do limite dos 100 anos. (ARENDT, 2016, pp. 02 - 03).

Neste processo de fabricação da vida, há uma tentativa de aplicar o método


de inclusão e exclusão da vida, onde aqueles tidos como "melhores" são
selecionados e os tidos como "piores" são descartados. Este tipo de procedimento
pode também ser comparados atitudes realizadas em campos de concentração
nazistas, durante a Segunda Guerra Mundial, onde se decidiam o destino da vida de
alguns, através de alguns critérios previamente estabelecidos.

Os efeitos da modernidade tem impacto direto no mundo do labor, glorificando


teoricamente e buscando resultados econômicos em torno da eficiência e
produtividade. O progresso técnico alcançado pela humanidade, fez alguns a
acreditar que é possível livrar o homem do seu "fardo mais pesado" - o fardo do
trabalho.

Com o advento da Revolução Industrial, e posteriormente a automação dos


processos de produção, pela primeira vez é possível pensar um mundo dominado
por máquinas e um homem aparentemente livre da obrigação do labor, para se
sustentar, ou como assinalado pela crítica de Arendt aos modernos: "o advento da
automação, que dentro de algumas décadas provavelmente esvaziará as fábricas e
libertará a humanidade do seu fardo mais antigo, o fardo do trabalho e a sujeição à
necessidade" (ARENDT, 2016, p. 05)

É possível mesmo pensar um mundo sem trabalho? É possível pensar o ser


humano totalmente livre das condições que lhe são impostas desde a sua
concepção? Qual o papel do ser humano diante das condições que lhe são
apresentadas?

Desde a sua origem, o homem precisa lançar mão do trabalho para


sobreviver. Ao interagir com a natureza para tirar o seu sustento, o homem ou
animal laborans (na concepção arendtiana) faz esforço físico, gasta energia e na
16

medida do possível, inventa ferramentas para facilitar a realização de suas


atividades.

De tanto criar e inventar novas ferramentas e novas técnicas de produção, o


homem consegue realizar uma maior produtividade em um espaço de tempo cada
vez menor. Portanto, o homem chega a modernidade com a sensação de que o
desenvolvimento tecnológico poderá levá-lo a um maior tempo livre, e
consequentemente maior tempo para consumo, ou na pior das hipóteses, viver sem
trabalho, apenas do consumo. É na era moderna que o homem "trouxe consigo uma
glorificação teórica do trabalho, e resultou na transformação factual de toda a
sociedade em uma sociedade trabalhadora". (ARENDT, 2016, p. 05).

A cultura consumista disseminada no mundo moderno tem levado a um


mundo individualizado, onde a figura do animal laborans se sobressai. Nele, tudo
tem sido levado para a lógica do animal laborans, ou seja, pelo consumo imediato
das coisas. O marketing da felicidade é aquele onde as pessoas são medidas pela
capacidade de ter o último objeto da moda. Neste mundo, "o modo de vida do
consumidor venceu, e as implicações políticas de tal vitória dificilmente podem ser
exageradas" (CORREIA, 2016, p. XLVI)

Arendt ver com preocupação a vitória do animal laborans no mundo moderno,


pois para ela uma sociedade que vive somente do consumo ainda não sabe
absolutamente como cuidar do mundo onde vive, pois "sua atitude central ante todos
os objetos, a atitude do consumo, condena à ruína tudo em que toca". (ARENDT,
2014, p. 264).

Percebe-se que o mundo atual vive uma crise que põe em risco o futuro de
toda vida orgânica da Terra e neste contexto, a possibilidade de resolução desse
problema está cada vez mais ligada a espera da política e não simplesmente da
esfera técnica ou da revolução. Portanto, cabe aos homens, enquanto seres da
ação, a sua solução. Neste caso, este é um problema que não pode ser deixado
para cientistas ou políticos profissionais de plantão. A vida activa do homem cabe a
ele mesmo analisá-la e realizá-la.
17

2. A CRÍTICA DE HANNAH ARENDT À KARL MARX

A Condição Humana, obra publicada no ano de 1958, é um dos principais


livros escritos pela filósofa alemã Hannah Arendt, tem como elemento central de
discussão conhecer o que o ser humano está fazendo, ou seja, debater os aspectos
políticos da vida humana.

Para Correia (2013) uma das primeiras motivações da autora para escrever A
Condição Humana foi a necessidade da investigação entre a relação marxismo e
totalitarismo suscitada logo após a publicação de sua principal obra até então: A
Origem do Totalitarismo, publicada no ano de 1951. Verifica-se, segundo esse
mesmo autor, que na elaboração da segunda edição, Arendt acrescentou o último
capítulo nesta obra, nos dando a entender que iria surgir outro livro, para dar
continuidade a lógica do pensamento arendtiano.

Como também ressalta Correia (2013) foi analisando a obra de Marx, que
Hannah Arendt percebeu a importância do trabalho da vida dos homens. Ela destaca
alguns elementos da filosofia de Marx na sua obra, porém fez uma análise ímpar,
diferente da marxiana, ao analisar o trabalho no interior da vida activa do homem.
Segundo Arendt, a vida activa está dividida em 3 atividades chaves: o trabalho
(labor), a obra (work) e a ação (action).

O trabalho (labor) é o tipo de atividade humana que tem como objetivo


satisfazer as necessidades vitais e a preservação da espécie, representando o que
há de mais humano e animal existente em um ser vivente, ou seja, o cuidado e a
preservação com a vida biológica. Como as ações para se manter vivo nunca
cessam, as atividades do trabalho nunca atingem o seu fim. É cíclico, repetitivo,
muitas vezes penoso e com uma sensação de inutilidade.

Para Arendt (2016) o conceito de trabalho foi bem compreendido pelo antigos,
porém muito desprezível por uma classe social, por representar uma atividade que
desgasta principalmente o corpo, ao invés da mente. Era uma atividade menor, mas
necessária para a sobrevivência. Talvez por isso, os antigos justificassem a
escravidão, para a manutenção de um estilo de vida próprio daquela civilização.
18

Na modernidade, o conceito de trabalho perde a sua compreensão por ter


sido inserido no contexto da Revolução Industrial, onde a importância econômica da
produtividade material dos trabalhadores ganha destaque no progresso da
humanidade. O trabalho (labor) perde espaço para a sua obra (work), mudando o
foco de análise. Agora, o trabalho, para alguns pensadores, entre eles Marx, torna-
se o elemento central, para análise do homem no desenvolvimento do capitalismo. A
produtividade alcançada pelo homem, através das máquinas a vapor, traz um novo
olhar sobre a atividade do trabalho. Na modernidade, o trabalho é símbolo do
desenvolvimento e do progresso, deste modo, a visão do trabalho árduo do animal
laborans cede espaço para a entrada da obra do homo faber.

A era moderna em geral e Karl Marx em particular, fascinados, por


assim dizer, pela produtividade real e sem precedentes da
humanidade ocidental, tendiam quase que irresistivelmente a encarar
todo trabalho como obra e a falar do animal laborans em termos
muito mais adequados ao homo faber, como a esperar que restasse
apenas um passo para eliminar totalmente o trabalho e a
necessidade. (ARENDT, 2016, p.107)

A atividade da obra é o conceito central da análise do homo faber. Ele está


em um estágio de desenvolvimento acima do labor, principalmente quando o ser
humano busca a superação dos ciclos naturais para criar um mundo durável em
períodos de existência duradouro. Nele o homem consegue extrair da natureza
coisas antes não imagináveis. Na realização da obra, o homem constrói um mundo
artificial sobre um mundo natural.

Na visão arendtiana, o mundo artificial criado pelo homo faber, é duradouro


no processo de acumulação e lento no processo de desgaste. Um mundo que
oferece ao homem, alívio de suas dores e criam possibilidades de excedentes que
tornaria o homem um ser mais livre.

É na construção de objetos de uso com mais durabilidade de vida que o homo


faber reduz as dores da fadiga, tornando a sua atividade digna de glorificação. É
uma característica do homo faber, a capacidade de criar elementos novos na
natureza, ao contrário do animal laborans, que somente reproduz o que lá se
encontra.

O material já é um produto das mãos humanas que o retiram de sua


natural localização, seja matando um processo vital, como no caso
da árvore, que tem de ser destruída para que se obtenha a madeira,
19

seja interrompendo alguns dos processos mais lentos da natureza,


como no caso do ferro, da pedra ou do mármore, arrancados do
ventre da Terra. Esse elemento de violação e de violência está
presente em toda fabricação, e o homo faber, criador do artifício
humano, sempre foi um destruidor por natureza. O animal laborans,
que com o próprio corpo e a ajuda de animais domésticos nutre o
processo da vida, pode ser o amo e o senhor de todas as criaturas
vivas, mas permanece ainda servo da natureza e da Terra; só o
homo faber se porta como amo e o senhor de toda a Terra.
(ARENDT, 2016, p.173)

Para Arendt, o homem busca ser senhor de toda a Terra e senhor de si pela
ação. É pela ação que o homo faber consegue se escapar da esfera do trabalho a
medida que toma consciência de si e do significado de sentido das coisas, fora da
esfera da utilidade. Nas palavras da própria autora: "A ação, única atividade que
ocorre diretamente entre os homens, sem a mediação das coisas ou da matéria,
corresponde à condição humana da pluralidade, ao fato de que os homens e não o
Homem, vivem na terra e habitam o mundo". (ARENDT, 2016, p. 09). É na ação que
o homo faber se transforma no homem político.

A atividade desenvolvida pelo homo faber, a obra, tem sido essencial para a
manutenção da vida do ser humano na terra e no processo de evolução do ser
humano. Ela tem evoluído com o homem. Através das mudanças tecnológicas é
possível verificar uma adaptação do homem sobre alguns desafios apresentado pela
natureza . A obra tem ajudado o homem a ampliar suas habilidades e melhorar o
bem estar de uma sociedade.

Na visão marxista, a obra e o trabalho não se diferencia muito entre si, pois
possuem elementos em comum que estão presentes na sobrevivência da
humanidade, como também na estão na base da atividade econômica e social de
uma sociedade. Segundo Marx (2010) foi na modernidade, especialmente com o
surgimento da sociedade capitalista, que a obra se tornou essencial para a
economia, pois, é através da obra que o homem cria as mercadorias, elemento
primordial para a constituição da riqueza em uma sociedade.

De forma resumida, pode-se perceber que tanto em Arendt quanto em Marx,


o trabalho e a obra são essenciais tanto para a vivência em sociedade, quanto para
a sobrevivência do próprio homem enquanto ser biológico. Porém, vislumbrado com
o avanço alcançado pela sociedade industrial, Marx destaca muito mais do que
20

Arendt a importância do trabalho para o homem, chegando a afirmar que é


essencialmente por meio do trabalho que os indivíduos, homens e mulheres,
distinguem-se dos outros animais biológicos. Ou seja, para Marx, o trabalho é uma
relação exclusiva entre o homem e a Natureza. “um processo de que participam o
homem e a natureza, processo em que o ser humano com sua própria ação
impulsiona, regula e controla seu intercâmbio material com a natureza”. (MARX,
2010, p. 211).

Como o ser humano interage com a natureza para produzir os meios de


produção ou de subsistência? Para Marx (2010) isto se dá através dos meios de
produção, onde o trabalhador os coloca entre ele e o objeto de trabalho. “Ele utiliza
as propriedades mecânicas, físicas, químicas das coisas para fazê-las atuarem
como forças sobre outras coisas, de acordo com o fim que tem em mira” (MARX,
2010, p. 213).

No processo de ação do homem sobre o objeto, o objeto fica sujeito à


subordinação do homem. “Ele não transforma apenas o material sobre o qual opera;
ele imprime ao material o projeto que tinha conscientemente em mira, o qual
constitui a lei determinante do seu modo de operar e ao qual tem de subordinar sua
vontade. (MARX, 2010, p. 212)”.

Para Marx (2010) os elementos que compõem o processo de trabalho podem


ser simplificados em: 1) A atividade orientada para um fim; 2) O objeto e 3) Os meios
de trabalho

A atividade orientada a um fim pode ser entendida como o trabalho


propriamente dito, realizado pelo próprio homem. Ele é central no processo de
transformação e deve ser a categoria mais importante deste processo. O objeto
(matérias-primas, informações etc.) encontrado na natureza irá sofrer o processo de
transformação para se transformarem em alguma útil para o ser humano. Os meios
de trabalho são os complexos de máquinas, equipamentos e ferramentas que os
trabalhadores colocam entre si e o objeto de trabalho. Eles são usados pelo ser
humano para interagir com a natureza.

Embora alguns animais utilizem algumas ferramentas para realizar algo, foi
somente a espécie humana que se valeu de sua inteligência e conseguiu aprimorar
os meios de trabalho, dando início ao processo de desenvolvimento que culminaram
21

na revolução industrial. Foi através das melhorias dos meios de trabalho que a
humanidade vivenciou diferentes modos de produção e de vida.

O que distingue as diferentes épocas econômicas não é o que se faz,


mas como, com que meios de trabalho se faz. Os meios de trabalho
servem para medir o desenvolvimento da força humana de trabalho
e, além disso, indicam as condições sociais em que se realiza o
trabalho. (MARX, 2010, p. 214)

Ao analisar a atividade do homem na modernidade, Marx não faz distinção


entre trabalho e obra e analisa com mais detalhe a importância da figura do homo
faber no interior do processo produtivo industrial. Ao ler Marx (2010) pode-se
verificar que a atividade humano no processo produtivo industrial possui um duplo
caráter, chamado pelo mesmo de"trabalho produtivo" ou "trabalho improdutivo",
"trabalho concreto" ou "trabalho abstrato". O "trabalho produtivo" está relacionado
todo esforço despendido para gerar um mais valor. Ou seja, é aquele tipo de
atividade gasto diretamente na produção de bens. Por sua vez, o "trabalho
improdutivo" é o tipo de atividade que não agrega diretamente nenhum tipo de mais
valor.

A produção capitalista não é apenas produção de mercadorias, ela é


essencialmente produção de mais-valia. O trabalhador não produz
para si, mas para o capital. Por isso, não é mais suficiente que ele
apenas produza. Ele tem de produzir mais-valia. Só é produtivo o
trabalhador que produz mais-valia para o capitalista, servindo assim
à auto-expansão do capital. (MARX, 2009, p. 578,)

Por sua vez, a ideia de "trabalho concreto" está relacionada ao seu valor de
uso e caracterizado pelo modo operatório da atividade realizada pelo homem na
natureza, diferenciando-se de uma atividade profissional para outra. Já o "trabalho
abstrato" está relacionado ao valor-de-troca da força utilizada pelo trabalhador e é o
mecanismo utilizado para permitir a comparação entre os diferentes "trabalhos
concretos" realizados por diferentes trabalhadores, igualando os diferentes tipos de
atividades a um denominador comum.

Todo trabalho é, de um lado, dispêndio de força de trabalho, no


sentido fisiológico, e, nessa qualidade de trabalho humano igual ou
abstrato, cria o valor das mercadorias. Todo trabalho, por outro lado,
é dispêndio de força humana de trabalho, sob forma especial, para
um determinado fim, e, nessa qualidade de trabalho útil e concreto,
produz valores-de-uso. (MARX, 2010, p. 68).
E ainda mais:
22

Um valor-de-uso ou um bem só possui, portanto, valor, porque nele


está corporificado, materializado, trabalho humano abstrato. Como
medir a grandeza do seu valor? Por meio da quantidade da
“substância criadora de valor” nele contida, o trabalho”. A quantidade
de trabalho, por sua vez, mede-se pelo tempo de sua duração, e o
tempo de trabalho, por frações do tempo, como hora, dia etc. (MARX,
2010, p. 60).

Portanto, nesta sociedade, a atividade humana na realização de obras (work)


é vista como moeda de troca, onde os objetos por ele criado são levados a um
denominador comum e comparados entre si pelo dispêndio da força de trabalho
utilizada em cada mercadoria.

Ao fazer sua análise principalmente em torno da atividade humana, seja ela


no trabalho ou na obra, Arendt faz una análise ímpar e deixa claro suas posições
contrárias2 à algumas ideias de Marx, apesar de demonstrar certos elogios a
algumas categorias de análise marxiana. Sua crítica é claramente percebida no
início do terceiro capítulo da sua obra: "No capítulo seguinte, Karl Marx será
criticado", afirma a autora.

Ao analisar a esfera do trabalho em si, Arendt utiliza de vários pensadores


clássicos, incluindo Marx, para descrever a particularidade da atividade do homem
diante da natureza da transformação. Em alguns momentos, ela destaca a
capacidade intelectual de Marx em compreender alguns elementos presentes no
trabalho, que foram ignoradas ao longo de toda história da humanidade. Porém, em
outros momentos, Arendt faz críticas a abordagem marxiana do trabalho.

Em relação a categoria do trabalho, pode-se classificar a crítica de Arendt à


Marx em dois aspectos principais3: na forma e no conteúdo. Na forma quando
percebe uma análise diferente de uma mesma categoria. Marx ignora a
diferenciação entre trabalho e obra. Para ele, a finalidade última, seja ela para
consumo imediato ou uso duradouro, é simplesmente uma característica do próprio
ato de realizar ação humano. É uma característica do trabalho laboral uma vontade

2 Em uma das críticas por Arendt a Marx é a atribuição de ideia marxista do fim do trabalho no
comunismo. Porém, muitos autores filósofos marxistas (Gyorge Lukacs, István Mészáros etc.) não
concordam com a ideia atribuída a Marx do fim do trabalho, uma vez que para estes autores o
trabalho na concepção marxista está a necessidade natural do eterno intercâmbio do homem com a
natureza.
3 A crítica de Arendt a Marx sobre o fim do trabalho no comunismo não é analisado neste TCC, por

entender que seriam necessários outras linhas de argumentação que fugiria o propósito deste TCC.
23

orientada a um fim. Portanto, o ato de trabalho começa com um ato de consciência,


dirigida a uma ação específica.

Arendt faz uma crítica aos pensadores modernos pela simplificação na


análise da atividade do trabalho, ignorando a sua distinção em relação a sua
finalidade. A distinção em Arendt é fundamental em sua obra, pois é através dela
que compreende-se melhor o agir do homem na esfera do público e do privado.

Para ela, uma das causa para que a distinção entre trabalho e obra seja
ignorada na modernidade advém pela glorificação a produtividade do trabalho,
diante dos avanços tecnológicos alcançados pela Revolução Industrial. Ao invés da
distinção entre trabalho e obra, Marx e os modernos preferem discutir a relação
entre trabalho produtivo e improdutivo, trabalho material e intelectual, trabalho vivo e
morto, etc. Tudo isso, tendo como elemento central a análise do trabalho muito mais
voltada ao ponto de vista econômico do que do ponto de vista político. Ou seja,
Marx, "encantado" pelo ponto de vista econômico do trabalho em si, deixa de lado a
filosofia política (principalmente Aristóteles) e se aproxima dos clássicos da
economia política (Adam Smith e David Ricardo, por exemplo).

Outro tipo de crítica feita por Arendt a Marx está relacionada ao aspecto do
conteúdo do trabalho. Se para Marx, o trabalho é a categoria fundante do ser social
e elemento de distinção entre os homens e outros animais, para Arendt há um
exagero radical em relação a centralidade do trabalho.

O motivo da promoção do trabalho na era moderna foi a sua


"produtividade"; e a noção aparentemente blasfema de Marx de que
o trabalho (e não Deus) criou o homem, ou de que o trabalho (e não
a razão) distingue o homem dos outros animais, era apenas a
formulação mais radical e consistente de algo com que toda a era
moderna concordava. (ARENDT, 2016, p. 105)

Para Arendt, a compreensão da ação humana vai além da análise da esfera


do trabalho. Ela partindo de uma influência grega percebe a política como algo
inerente ao agir humano. A análise do animal laborans e homo faber esquecida por
Marx, tem sido elemento importante para a compreensão do agir do homem em
sociedade.

Portanto, as abordagens feitas por Marx e Arendt sobre o trabalho são


diferentes tanto na forma quanto no conteúdo. Se analisarmos a tradição marxista o
24

trabalho é a atividade central do agir humano. Na modernidade, o trabalho é


considerado por Marx como o gerador de toda a riqueza e progresso humano.
Arendt percebe um supervalorização do trabalho e lança críticas a esta linha de
pensamento, analisando a relação entre as crises da modernidade e a influencias
das ideologias sobre o trabalho, incluindo a ideologias marxistas.
25

3. A IMPORTÂNCIA DO CONCEITO DE ANIMAL LABORANS PARA


ANÁLISE DA MODERNIDADE

Ao analisar superficialmente a obra A Condição Humana de Hannah Arendt, a


primeira vista, percebe-se que ela utiliza de um conceito esquecido dos modernos,
aparentemente por uma questão de falta de sentido e de um grau de importância
menor. O uso do conceito de animal laborans, aparece para alguns como uma
característica do ser humano que merece ser lembrada. Porém, muito mais do que
isso, o uso desse conceito é fundamental para a compreensão d'A Condição
Humana como um todo.

Ao iniciar o longo capítulo sobre o trabalho, Arendt faz a seguinte declaração:


"A distinção que proponho entre trabalho e obra é inusitada" (ARENDT, 2016, p. 98).
Ou seja, parece trivial e sem sentido fazer uma discussão sobre a diferença entre
trabalho (labor) e obra (work). Porém, quando analisamos o papel do homem em
uma sociedade de consumo, percebe-se a necessidade de se conhecer melhor o
animal laborans para se compreender sua relação com a modernidade.

A primeira vez que o termo animal laborans aparece n'A Condição Humana é
no segundo parágrafo do segundo capítulo - Os Domínios Público e Privado. Nele,
Arendt o utiliza na tentativa de explicar que o ser humano é um animal, igual aos
demais, assim como um ser político, quando age interagindo com os demais de sua
espécie. Na medida que age por vontade própria, excluindo a ação coletiva, se
comporta como animal laborans, uma vez que a atividade desse ser (labor -
trabalho) não requer, à princípio, a presença do outro. "A atividade do trabalho não
requer a presença de outros, mas um ser que trabalhasse em completa solidão não
seria humano, e sim um animal laborans no sentido mais literal da expressão"
(ARENDT, 2016, p. 27). Assim sendo, a primeira vez que o termo é utilizado foi com
objetivo de analisar as diferenças do público e do privado, na perspectiva do coletivo
e do individual.

O conceito de animal laborans está diretamente ligado ao conceito de


trabalho (labor), assim como o conceito de homo faber está diretamente ligado ao
conceito de obra (work). A distinção entre ambos abrange a compreensão entre as
diferenças do fazer humano. Como mencionado no capítulo anterior, o trabalho é a
26

atividade realizada pelo animal laborans com o objetivo de manter a sua


subsistência e garantir a satisfação das necessidades vitais. A obra, por sua vez, é a
atividade realizada pelo homo faber com o objetivo de buscar fabricar coisas que
tenha certa durabilidade no mundo dos homens. Portanto, se a finalidade do
trabalho, realizado pelo animal laborans, é o consumo, o objetivo da obra é o seu
uso. A finalidade em si serve para diferenciar estas duas esferas da atividade
humana, ou como assinala Arendt: "O que os bens de consumo são para a vida
humana, os objetos de uso são para o mundo dos homens" (ARENDT, 2016, p.
116).

A finalidade principal do animal laborans está intimamente relacionado ao


conceito de satisfação das necessidades básicas do ser humano, ou seja, o seu
consumo. O fruto do trabalho, as coisas criadas por ele, são destinados ao processo
da vida. Neste sentido, o trabalho (labor) é a atividade humana que mais nos
aproxima dos outros animais. Pois, ambos fazem esforços físicos para alcançar
algum objetivo que está ligada a manutenção da vida.

Das coisa tangíveis, as menos duráveis são aquelas necessárias ao


processo da vida. Seu consumo mal sobrevive ao ato de sua
produção. Seu consumo mal sobrevive ao ato de sua produção; nas
palavras de Locke, todas essas "boas coisas" que são "realmente
úteis à vida do homem", à "necessidade de subsistir", são
"geralmente de curta duração, de tal modo que - se não forem
consumidas pelo uso - se deteriorarão e perecerão por si mesmas"
(ARENDT, 2016, p. 118).

A necessidade de consumir para viver faz do ser humano um ser


individualizado em si. Para existir, o ser humano precisa do consumo e, este por sua
vez precisa do trabalho, da força e do esforço para obter os itens necessários ao seu
consumo. Trabalho e consumo são duas etapas sempre presentes para a
manutenção da vida biológica.

A necessidade básica de manter a vida impõe ao ser humano um limite a sua


liberdade de ação. Entre todas as alternativas colocadas a disposição do homem,
ele como ser vivo, primeiramente é obrigado a escolher inicialmente as atividades
necessárias a manutenção da sua própria vida. Por esse motivo, não é por livre
vontade que o animal laborans é individualista, mas ele é prisioneiro do seu próprio
corpo físico. Nas palavras de Arendt, o animal laborans: "compelido pelas
27

necessidades do seu corpo, não usa esse corpo tão livremente" (ARENDT, 2016, p.
145).

Aparentemente, o consumo em si não é um problema para o ser humano.


Porém, a sua exaltação na era moderna, através da esfera do animal laborans é o
elemento chave da crítica de Arendt aos rumos que esta sociedade andou tomando.
Uma das crises da sociedade moderna é a exaltação da figura do animal laborans
muito mais do que a obra e a ação.

O grande problema da sociedade moderna é a transformação dos objetos de


uso em bens de consumo, onde a cultura do imediatismo e do descarte parece ser o
modo de vida estabelecido na era moderna. Para Arendt, a característica marcante
desta sociedade:

Consiste em tratar todos os objetos de uso como se fossem de


consumo, de sorte que uma cadeira ou uma mesa seja então
consumidas tão rapidamente quanto um vestido e um vestido se
desgaste quase tão rapidamente quanto o alimento. (ARENDT ,
2016, p. 153).

O ser humano vive em uma sociedade, que optou por consumir e devorar as
coisas por ele fabricadas. Como assinala a autora, o ser humano vive a devorar
suas casas, mobílias, carros etc. como se fossem coisas da natureza inseridas no
ciclo biológico da vida. E o resultado físico disso é o individualismo e os respectivos
problemas ambientais do lixo e da poluição.

A exaltação do animal laborans vem trazendo consequências diretas no


campo da política, uma vez que pelo seu caráter individual e privado, o público e o
social deixam de ser prioridade. O privado vem tomando lugar do público. Ao se
pensar em uma sociedade baseada na satisfação das necessidade do consumo, a
liberdade perde seu espaço diante das exigências da cultura das necessidades
corporais passageiras.

O problema da exaltação do trabalho e consequentemente do animal laborans


na modernidade reside no fato que esta esfera humana é a mais anti-política das
atividades humanas. O grande problema identificado por Arendt é que o mundo
moderno está marcado pela vitória do animal laborans. Esta vitória se deve a vários
fatores inerentes as crises da modernidade, iniciada pela dúvida metódica de
Descartes e alcançando seu auge nos filósofos existencialistas do século XX. Ao
28

perder a certeza no mundo e na vida, o homem volta-se a si mesmo, isolando-se


dos outros e exaltando as característica inerentes do animal laborans. O conceito de
animal laborans em Arendt está relacionado a três características básica: a primeira,
a condição humana da vida, a segunda, como resultado de uma sociedade
atomizada e terceira, pelo modo de vida usado na ação do homem no mundo
moderno. (CORREIA, 2013).

Como ser vivo, o homem precisa realizar trabalho para nutrir o seu processo
vital. Na qualidade de um ser vivo, o ser humano é sempre um animal laborans,
individualizado nas suas necessidades e recolhido na sua privacidade, na busca da
manutenção sagrada da vida e reprodução da espécie.

Como resultado de uma sociedade atomizada, o animal laborans está inserido


em uma lógica da "organização pública do processo vital" (ARENDT, 2016, p. 56),
com a transformação da sociedade moderna em sociedade de trabalhadores e
empregados. Neste mundo, os interesses privado e público se misturam no âmbito
do coletivo, “impondo inúmeras e variadas regras, todas elas tendentes a
‘normalizar’ os seus membros, a fazê-los comportarem-se, a excluir a ação
espontânea ou a façanha extraordinária” (ARENDT, 2016, p. 50).

A terceira característica do animal laborans esta marcada pelo


estabelecimento de um modo de vida, no qual os ideais de durabilidade e
permanência do homo faber, foram ultrapassados pelos ideais da abundância do
animal laborans, tidos pelo mundo moderno com sinônimo de felicidade. O modo de
vida do homem moderno está intimamente ligado com o consumismo do animal
laborans, produzindo para consumir como se tivesse uma fonte inesgotável de
matérias primas ou como se tivesse espaços para depósitos de bens consumados.

A vitória do animal laborans representa a perda de espaço do homo faber,


representada essencialmente pelo declínio nas atividades de contemplação de tudo
aquilo produzido ou idealizado pelo homem para atividades essencialmente de
consumo. Assim como, pela perda do modo materialismo mecanicista a um modo do
naturalismo vitalista, centrado na busca do prazer e da riqueza. Esta vitória é
marcada também pela derrota da experiência para introspecção e pela mudança da
ênfase de "o que" para "como", ou seja, o que importa neste espaço não é o grau de
utilidade das coisas produzidas para mundo, mas o quanto traz de felicidade ao
29

homem ou quanto é fonte de prazer individual experimentado no consumo


(CORREIA, 2013).

Ao fazer uma comparação entre o mundo moderno e o mundo antigo, pode-


se perceber que a perda da experiência é uma das marcas de processo de
mudança. O homem não só deixou de ser contemplativo, mas ele deixou de ter
significado. A própria forma de pensar, relacionada com a possíveis consequências,
pode ser artificializada e transferida para computadores que analisam os ambientes
simulando as relações de causas e efeitos.

O domínio do animal laborans no mundo moderno desperta uma preocupação


para Arendt, pois se ele começou de forma tão promissora, possivelmente chegue a
um fim passível e estéril, jamais visto até então. Percebe-se que as atividades de
produzir, fabricar e construir estão ficando cada vez mais raras, restritas muitas
vezes a profissionais ligados a criação e a arte. Neste contexto, segundo Correia
(2018) o modo de vida do animal laborans venceu na modernidade, transformando a
ideia inicial de animal político em meros animais vivos, incapazes de uma existência
política que vá além de um mero contentamento animal. Porém, Arendt tem a
convicção de que essa vitória talvez não seja eterna.

Hannah Arendt sempre demonstrou um pensamento otimista em relação a


humanidade. Ela sempre acreditou na política e na capacidade humana de mudar o
humano. Como ela assiná-la em A origem do totalitarismo: "todo fim na história
constitui na verdade um novo começo; esse começo é a promessa, a única
'mensagem' que o fim pode produzir... Cada novo nascimento garante esse começo”
(ARENDT, 2012, p. 739).
30

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O presente TCC teve como objetivo fazer uma análise sobre o conceito de
animal laborans na obra A Condição Humana da filósofa política Hannah Arendt,
como o propósito de verificar em que consiste esse conceito específico e qual o
papel dele dentro da crítica de Hannah Arendt à modernidade.

A princípio, pode-se chegar a uma ideia de que o conceito de animal laborans


seja apenas uma simples caracterização da atividade humana. Parece que a autora
quis somente classificar as atividades humanas diante da sua finalidade. Porém,
através de uma análise mais aprofundada, percebe-se que este conceito é
fundamental para o entendimento do pensamento arendtiano, da obra em questão e
da modernidade.

Na área da política, A Condição Humana, é uma das principais obras de


Hannah Arendt. Nela, a autora buscou desenvolver alguns conceitos chaves para
compreender a victa ativa do homem assentada na ideia da pluralidade e
singularidade. Nesta obra, Arendt aprofunda sua análise sobre o homem através do
exame de suas atividades em três esferas específicas, labor (trabalho), obra e ação.

Para aprofundar a temática do trabalho na modernidade, Arendt precisou dos


clássicos: Decartes, Locke, Engels, Marx etc. Entre estes, ela dá muito destaque a
obra de Marx, destacando certa admiração e não se abstendo de fazer críticas
quando necessário. Para Magalhães (1985) e Correia (2007; 2013) a crítica de
Arendt é fundamental para o entendimento desta obra. Para eles, um dos propósitos
d'A Condição Humana foi fazer uma relação entre o marxismo e o totalitarismo, uma
temática não abordada no livro Origens do Totalitarismo. Porém, alguns autores,
entre eles (Fry, 2009; Oliveira, 2012) não destaca tanto esta questão, focando
principalmente nos aspectos gerais da obra e destacando as aspectos antipolíticos
do animal laborans.

O conceito de animal laborans está relacionado com o ser vivo que busca
satisfazer as necessidades biológicas de sua espécie com o intuito de preservar a
vida. Para Arendt, este conceito permaneceu esquecido durante séculos e resgatá-lo
tornou-se essencial para a compreensão da crise no mundo moderno.
31

O mundo moderno está em crise diante da vitória do animal laborans, que


busca através do consumo e do isolamento fazer o modo de vida da política entre os
homens. Porém, isto despertou uma certa preocupação de Arendt, pois em uma
sociedade que vive isoladamente em ato de consumo não sabe como cuidar do
mundo onde vive.

A vitória do animal laborans desperta uma certa preocupação para Hannah


Arendt devido ao fato de que as discussões no campo da política têm perdido
espaço para questões do âmbito do consumo, onde tudo que importa são as
necessidades biológicas dos seres humanos. A glorificação do consumo levou uma
alteração nas relações do público e privado, onde questões anteriormente
reservados no plano privado tornou-se uma preocupação coletiva. A vitória do
animal laborans representa a vitória da vida sobre a política, ou seja, da vida
individual sobre o coletivo.

Se antes da modernidade acreditava-se na característica política que o


homem tinha em relação aos outros animais, com a vitória do animal laborans o
campo da política perdeu espaço para o campo do individualismo, e nele o homem
não tem como se diferenciar muito dos outros animais. A Condição Humana é uma
obra de referência para análise modernidade por levantar questionamento sobre a
vida activa dos seres humanos no sentido de buscar o resgate do que estes tem de
mais digno e nobre no mundo - o espaço da política.
32

REFERÊNCIAS

ARENDT, Hannah. A condição humana. 13. ed. Rio de Janeiro: Forense


Universitaria, 2016.

ARENDT, Hannah. Entre o passado e o futuro. São Paulo: Perspectiva, 2014.

ARENDT, Hannah. Origens do totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras,


2012.

CORREIA, Adriano. A vitória da vida sobre a política. Revista Cult. São Paulo:
Editora Bregantini, n. 9, p. 36 - 39, 2018.

CORREIA, Adriano. Hannah Arendt e a modernidade: política, economia e a


disputa por uma fronteira. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2014.

CORREIA, Adriano. Quem é o animal laborans de Hannah Arendt? Revista de


Filosofia: Aurora, Curitiba, v. 25, n. 37, p. 199 - 222, jul./dez. 2013.

CORREIA, Adriano. Hannah Arendt. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2007.

FRY, Karin. Compreender Hannah Arendt. Rio de Janeiro: Vozes, 2009.

MAGALHÃES, Theresa Calvet. C. A atividade humana do trabalho (labor) em


Hannah Arendt. In: Revista Ensaio, nº 14 (1985), p. 131-168, 1985.

MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. livro I, vol. I, 27a edição, Rio de
Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.

MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. livro I, vol. II, 23a edição, Rio de
Janeiro: Civilização Brasileira, 2009.

OLIVEIRA, Luciano. 10 lições sobre Hannah Arendt. Petrópolis: Vozes, 2012.

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