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SUMÁRIO

CARTA-PREFÁCIO

AO LEITOR:

COMPLETA REPORTAGEM DO QUE FOI EM CAMPINA GRANDE A


MEMORÁVEL PUGNA ENTRE O PASTOR PROTESTANTE SYNÉSIO
LYRA E O RELIGIOSO CATÓLICO FREI DAMIÃO

REPAROS À “COMPLETA REPORTAGEM DO QUE FOI EM CAMPINA


GRANDE A MEMORÁVEL PUGNA ENTRE O PASTOR PROTESTANTE
SYNÉSLO LYRA E O RELIGIOSO CATÓLICO FREI DAMIÃO”,
PUBLICADA PELO PADRE JOSÉ DELGADO, NA "A IMPRENSA", DE
JOÃO PESSOA E TRANSCRITA POR ESTE VIBRANTE MATUTINO, (*)
EM SUA EDIÇÃO DE ONTEM:

RESPOSTA AOS REPAROS QUE O SR. LYRA QUIZ DAR À


REPORTAGEM DA CONTROVÉRSIA RELIGIOSA DE CAMPINA
GRANDE.

RESPOSTA A FREI DAMIÃO DE BOZZANO

A este artigo fulminante, Frei Damião deu a resposta que se segue, declarando,
assim de público, sua completa derrota.

Ao seu artigo despedida, respondi assim:

ANEXO
[01]

CARTA-PREFÁCIO

Meu caro Rev. Synésio Lyra:


Trago-lhe os meus parabéns pela lembrança feliz e oportuna, que
você teve, de enfeixar em folheto a sua memorável polêmica com o
notável missionário católico-romano Frei Damião, o furibundo e
tronitoante Golias romanista que ameaçava, à frente de uma horda de
fanáticos, de completo extermínio as vidas e os bens dos humildes e
pacatos evangélicos da Paraíba.
Tão rápida, tão cabal e brilhante foi, porém, a sua vitória sobre o
campeão papalino que, torná-la amplamente conhecida de quantos se
interessam pelas cousas religiosas e espirituais, não só é um dever
cristão como ainda um inestimável serviço prestado à Causa do
Evangelho no Brasil.
E a sua vitória é tanto mais notável e digna de admiração, quanto
você a obteve das mãos do um sacerdote arrogante, soberbo e
presunçoso que, para cobrir a você de ridículo e humilhação perante os
homens cultos da Paraíba, publica e ostensivamente, alardeou ser doutor
em filosofia e teologia, enquanto que você, afirmava ele, só tinha a seu
favor a sua grande audácia e a sua desmedida ignorância...
Ter-lhe-ia sido bem melhor silenciar, guardar recato e reserva
sobre os seus altos títulos culturais, para não ter a desventura de
verificar, pouco depois, descoroçoado e triste, envergonhado e confuso,
que as armas apologéticas da sua panóplia romanista tinham o brilho do
ouro, é verdade, mas a resistência delas era de latão; aparentavam força
invencível, mas eram

[02 – CONTROVÉRSIA RELIGIOSA]


fracas; arremetiam napoleonicamente contra você; mas acutilavam
dãoquixotescamente o ar; ostentavam a arrogância soberba da vitória,
mas conquistaram-lhe, afinal, o prêmio irrisório da mais ridícula derrota.
Tentar justificar e impor como verdades divinas, à luz celeste e
eterna das Sagradas Escrituras, os dogmas, os erros e as monstruosas
heresias da Igreja de Roma, é tarefa tão impossível, e causa tão inglória
que, para os defender os mais eminentes luminares da hermenêutica
romanista e os mais graduados da teologia e da filosofia papalinas
encontram sempre, no campo raso da polêmica pela imprensa, o seu
triste e sombrio Waterloo1.
É que essa Igreja, que outra cousa não é senão um híbrido
conúbio entre a religião e o poder secular; construiu o edifício das suas
incongruências doutrinárias sobre os alicerces instáveis das meias-
verdades, sobre os fundamentos da areia movediça de passos bíblicos
truncados, sobre as bases falsas de mandamentos de homens, sobre o
solo aluvial dos decretos conciliares, e não sobre a verdade divina,
completa, integral e absoluta — Jesus Cristo — Rocha inamovível dos
séculos.
Daí se depreende porque fracassou tão ruidosa e
surpreendentemente a orgulhosa e alardeada sapiência com que Frei
Damião procurava intimidar e humilhar a você, cobrindo-o de um
ridículo que, na última fase da luta, ricocheteou, em cheio, sobre ele
próprio.
O seu triunfo sobre Frei Damião, tanto pelas circunstâncias como
pelas aparências, muito se assemelha, ao meu ver, com a vitória de
David sobre Golias, tão surpreendente, total e fulminante foi ela.
***
Sua ideia, pois, de dar à publicidade a sua polêmica além de
enriquecer o patrimônio da literatura evangélica do Brasil com mais essa
contribuição apo-

1 Confronto militar ocorrido a 18 de junho de 1815 perto de Waterloo, na atual Bélgica , entre as
forças francesas do imperador Napoleão Bonaparte e uma coligação de britânicos e alemães,
terminando com a vitória desta última, o que resultou na deposição e exílio de Napoleão.
[SYNÉSIO LYRA – 03]
logética de caráter eminentemente prático e real, tem ainda o mérito de
elucidar os católicos romanos a respeito do erro fundamental da doutrina
"mater" do seu culto — a "transubstanciação".
A argumentação por você aduzida em defesa da tese bíblica e em
oposição á tese romanista, é, incontestavelmente, irretorquível,
inelutável, lógica, dentro de cujas premissas constritoras Frei Damião
marchou e contramarchou, coçou a barbaça e agitou o pesado hábito,
contorceu-se em espasmos de cólera e esperneou em desespero, mas
terminou vencido e esmagado pelo apertão formidável da sua lógica de
aço.
Com efeito, se Cristo está na hóstia e esta é conforme ensina a
Igreja de Roma, o corpo do Cristo, e, portanto, Deus transubstanciado,
uma de duas cousas deveria acontecer, inevitavelmente, ao que
manducasse a Deus:
1ª) ou o homem se tornaria divino, santo, impecável e
eternamente perfeito, disso tendo plena consciência (o que o católico
romano absolutamente não tem), mesmo porque ninguém pode
alimentar-se fisicamente de Deus sem deixar também de fisicamente
viver para sempre, de vez que a substância divina, assimilada pelo
fenômeno da nutrição, não pode morrer como o homem, pois a tanto nos
leva a concluir a interpretação literal romanista das palavras do Jesus:
"Isto é o meu corpo", "se alguém comer deste pão, viverá eternamente,
e o pão que eu darei pela vida do mundo, é a minha carne" (Luc. 22:19;
João 6:51);
2ª) ou teria de morrer instantaneamente, como fulminado por um
raio, de vez que não podendo ninguém ver a Deus sem morrer, muito
menos poderia continuar a viver comendo-o e pecando; mas nem uma,
nem outra cousa se verifica; logo Cristo ou Deus não está na hóstia, nem
esta, portanto, pode ser o corpo real de Cristo, o que vale por dizer que a
doutrina da transubstanciação é uma reverendíssima heresia da igreja
Romana.
Além disso, seria absurdo admitir, em face da pureza, da moral e
da santidade intangível da doutrina

[04 – CONTROVÉRSIA RELIGIOSA]


cristã, que homens inconversos, irregenerados, mil vezes pecadores,
alheios ao conhecimento experimental da comunhão pessoal com Deus,
possuam o dom mágico e sobrenatural de transubstanciar uma oblata de
farinha de trigo, que se deteriora com tempo, que é comida pelos ratos e
raptada pelos ladrões, num Deus santo, puro e onipotente!
Não! A doutrina evangélica, que você tão lógica e brilhantemente
defendeu, é que é a verdade: o pão e o vinho da Ceia são símbolos, são
figuras, são imagens do corpo e do sangue do Senhor Jesus, oferecidos
sacrificialmente por nós sobre o altar ignominioso da cruz para eterna
remissão dos nossos pecados!
Parabéns, pois, a você e a Causa Evangélica do Brasil, pela sua
inconcussa vitória sobre o ilustre campeão romanista,
incontestavelmente uma das mais belas culturas do clero pernambucano.
Do sou colega, amigo e admirador,

MUNGUBA SOBRINHO2.

2José Munguba Sobrinho (1895-1972), pastor batista natural de Murici, Alagoas, foi reitor do
Seminário Batista do Norte (1937-1939) e pastor da Igreja Batista da Capunga (1930 a 1967), no
Recife. Serviu também como Presidente da Convenção Batista Brasileira em 1926, em 1932, em
1936 e em 1947.
[05]

AO LEITOR:

Este opúsculo é o resultado de uma controvérsia entre mim e Frei


Damião de Bozzano, iniciada verbalmente em Campina Grande, no dia
23 de Abril do corrente ano [1935], e concluída pelas colunas do
“Diário da Manhã”3, desta capital [Recife].
Frei Damião vinha, já há longos meses, no interior da Paraíba,
lançando desafio após desafio aos pastores evangélicos, para uma
discussão pública com ele. Para isso ele tinha o ambiente preparado,
pois que dispunha da massa fanática que, ao seu primeiro aceno,
“vaiaria” o contendor adverso, impedindo-o de falar. Assim Frei
Damião teria uma vitória líquida e fácil.
Mas a coisa se deu de modo contrário. O cartel do desafio foi
aceito, para Campina Grande. Providências foram tomadas. As bases da
discussão estabelecidas. E no tempo aprazado foi a mesma realizada,
sob a sábia direção do Dr. Vergniaud Vanderlei, então chefe de Polícia
da Paraíba.
Isto posto, não foi possível a Frei Camião conquistar a palma da
vitória, pois que lhe faltou o concurso formidando e eloquentíssimo das
“vaias merecidas” adrede preparadas.

3 O jornal Diário da Manhã foi fundado em 16 de abril de 1927 pelos irmãos Carlos e Caio de Lima
Cavalcanti, filhos de Arthur de Lima Cavalcanti, proprietário da Usina Pedrosa, em Cortês. Carlos
de Lima Cavalcanti, à época da controvérsia religiosa entre Synésio Lyra e frei Damião de
Bozzano, era o interventor nomeado para Pernambuco (1930-1935) pela ditadura varguista,
retornando novamente ao cargo de governador com eleição de forma indireta (1935-1937) pela
Assembleia Legislativa do Estado de Pernambuco, sendo posteriormente deposto.
O Diário da Manhã sofreu com a oposição política feita por Agamenon Magalhães após a
deposição de Carlos de Lima Cavalcanti, seu rival, reduzindo gradativamente seu número de
páginas e tiragens, até se transformar em semanário, em julho de 1941. Após várias mudanças de
proprietários, chegou a fechar por algum tempo as suas portas em 1950.
Realizada a polêmica num ambiente de calma, devido a atitude
enérgica do Dr. Chefe de Polícia, a multidão dispersou-se em ordem.
Dias depois aparece no “Diário da Manhã” uma reportagem da
polêmica, feita pelo padre Delgado, a qual opus alguns reparos, em
artigo publicado no mesmo jornal, tendo posto os fatos no seu
verdadeiro lugar. Surge então em tom agressivo Frei Damião — surge
como leão bravio — tentando respon-

[06 – CONTROVÉRSIA RELIGIOSA]


der o meu artigo, mas o faz desastradamente. Armado com a Espada do
Espírito — a Palavra de Deus — corri ao encontro de meu opositor em
apuros, e publiquei o meu segundo artigo, fulminante que impressionou
fundamente a quantos o leram.
O público aguardava ansioso a resposta de Frei Damião — mas, ó
tremenda decepção! — o fogoso frade abandonou de modo doloroso o
campo da honra, dizendo que estava “missionando no Interior do
Estado” e que não tinha “tempo para perder com queres se obstina em
negar a verdade”.
Respondi a esta despedida precipitada de Frei Damião com o
artigo que encerra este opúsculo.
Por um princípio de lealdade, resolvi enfeixar neste opúsculo os
artigos do Padre Delgado, os de Frei Damião o os meus. Assim os
leitores poderão confrontar os argumentos evangélicos com os
romanistas e concluir do que lado está a verdade.
Ao meu mestre, colega e amigo, Rev. Dr. Jerônimo Gueiros4 meu
espontâneo agradecimento polo auxílio inestimável que me prestou,
esclarecendo-me sobre a melhor forma do orientar o debate, já
fornecendo-me argumentos, já sugerindo-me pensamentos e finalmente,
pondo livros à minha disposição.

4 Jerônimo de Carvalho da Silva Gueiros (1880-1953) foi um pastor presbiteriano, natural de


Quipapá, em Pernambuco, assumindo o pastorado da 2ª Igreja Presbiteriana do Recife (atual Igreja
Presbiteriana da Boa Vista) entre 1921 e 1953.
Como estava em jogo, não a minha pessoa, mas a Causa de Deus,
não podia prescindir de tão precioso contingente. Devemos este triunfo
magnífico do Evangelho às milhares de pessoas que vinham orando de
há muito, por esta almejada vitória.
Entregando este opúsculo ao leitor, esperamos seja lido
calmamente, sem paixão e que o Espírito da Deus ilumine a mente e o
coração do cada um, de sorte que a Verdade triunfe.

SYNÉSIO LYRA5

5 Synésio Artiliano Pereira de Lyra (1895-1993), pernambucano natural de Timbaúba, foi pastor,
dentre outras igrejas, da Igreja Evangélica Pernambucana (1925-1938), em Recife, e da Igreja
Evangélica Fluminense (1938-1956), no Rio de Janeiro, e da Igreja Bíblica Evangélica do Rio de
Janeiro, entre 1956 e 1993, (todas Congregacionais). Serviu também como Presidente da ALADIC
(1951-1954), Vice-Presidente da ALADIC (1954-1956), Secretário-Executivo da CIEF (1956-
1960), Vice-Presidente da CIEF para o Sul do Brasil (1960-1966); Membro da Comissão Executiva
do CIIC (1958-1979). É pai do pastor presbiteriano Synésio Lyra Júnior.
[07]

CONTROVÉRSIA
RELIGIOSA

COMPLETA REPORTAGEM DO QUE FOI EM CAMPINA


GRANDE A MEMORÁVEL PUGNA ENTRE O PASTOR
PROTESTANTE SYNÉSIO LYRA E O RELIGIOSO
CATÓLICO FREI DAMIÃO

Padre JOSÉ DELGADO6


Vigário de Capina Grande.

Eram as 16 horas de 23 de abril [de 1935] no RINK PARK de


Campina Grande. Estavam presentes os Srs. chefe de polícia e o diretor
da “A União”7, Drs. Vergniaud Vanderlei e Orris Barbosa, como
príncipes da Ordem e da harmonia, pois que, aliás, bem desempenharam
cada um com as suas qualidades de caráter e temperamento, e com eles
inúmeros sacerdotes e pastores protestantes, cabeceando duas massas de
fiéis católicos e evangelistas respectivamente. Este encontro foi uma
repercussão das missões populares pregadas na vila de Esperança.
A disputa foi presidida pelo Dr. Hortênsio do Souza Ribeiro.
Iniciou-a Frei Damião com uma pergunta ao pastor Synésio Lyra sobre
o que era a Bíblia. Apesar de justifica-la como preâmbulo quase
necessário numa discussão bíblica a pergunta foi julgada extra
programa. Synésio Lyra, entretanto, tentou uma resposta. Disse que a
Bíblia é o livro da palavra divina inspirada. Frei Damião exigiu que
S.S.ª. indicasse na Bíblia aquela definição. Não o pode fa-

6 José de Medeiros Delgado (1905-1988) foi um padre católico romano, natural de Pombal, na
Paraíba, formado em Teologia pelo Seminário da Paraíba e pela Pontifícia Universidade Gregoriana
de Roma, ordenado sacerdote em 1929. Veio a ocupar, posteriormente, altos cargos eclesiásticos:
bispo de Caicó (1941-1951); arcebispo de São Luís do Maranhão (1951-1963); e arcebispo de
Fortaleza (1963-1973).
7 O jornal do Governo Estadual “A União”, baseado em João Pessoa, foi fundado em 03 de
fevereiro de 1893, sendo um jornal estatal oficial de orientação política pró-Integralismo.
[08 – CONTROVÉRSIA RELIGIOSA]
zer o contendedor desde que Frei Damião estendia as suas exigências,
com uma sob questão, ao ponto da determinação numérica de livros e
autores, das partes e do todo da Bíblia. Esta verificação realmente não se
obterá jamais pelo exame das Sagradas Escrituras. O católico não ignora
e é justamente para derribar pela raiz, o sistema cristão reformado, que
atira uma pergunta daquelas a um pastor protestante. No limiar do seu
edifício cristão, com efeito, está a tese: Só a Bíblia é regra de fé cristã,
fora da Bíblia não há verdadeira revelação.
Não é pouco importante uma verificação negativa daquele
tamanho. Só ela bastaria para converter todo o mundo protestante. Nós
católicos respondemos com a definição dogmática tridentina: O Sr.
Synésio procurou sair do evidente embaraço em que todos o viam com a
passagem de São Paulo (II Tim. II, 16 “toda a escritura. divinamente
inspirada...”). Ora, é patente que o texto não esclarece plenamente a
questão. Não diz: — “toda escritura, que é composta de tantos e tais
livros, divinamente. Inspirada”, ele.
Entrou-se no programa da discussão. Frei Damião que dera aos
pastores a faculdade de impor todas as condições, para que a mesma se
realizasse, sujeitou-se a tudo. Ficou determinado que nem o diálogo se
permitiria sob a alegação de que uma das condições impostas era a de
não se apartear o orador que estivesse com a palavra. Frei Damião
tomou o primeiro tema da lista oferecida pelos pastores — a
transubstanciação à Luz das Sagradas Escrituras. Seguiu a forma
clássica das exposições dogmático-católicas. Demonstrou cabalmente
com as palavras da promessa, no capítulo VI do Evangelho de São João,
e as da instituição nos textos paralelos de S. Mateus (26, 17 a 29), São
Marcos (14, 12 a 25), São Lucas (22, 19 e seguintes), aproximando-os
de São Paulo (I Cor. 11, 23 a 26) a presença real de N. S. Jesus Cristo na
Eucaristia.
O Sr. Synésio Lyra criticou a interpretação da-
[SYNÉSIO LYRA – 09]
aquelas passagens, explicando-as em sentido figurado. Firmou-se nas
palavras “em memória de mim" (I Cor. 11, 24 e 25) para sustentar que
estas afastavam a ideia da presença real. Não se memoriza o que está
presente. Logo Jesus Cristo não se acha real na hóstia, mas lembrado.
Foi adiante. Tomou as palavras da promessa nas alturas “eu sou e pão
vivo que desceu do céu”8 e como se tivesse achado a chave de um
enigma argumentou assim: “o corpo e o sangue de Jesus Cristo não
vieram do céu, mas do seio da Santa Virgem Maria, logo não estão no
pão eucarístico”. Com as palavras paulinas: “todas as vezes que
comerdes este pão e beberdes o cálice, anunciareis a morte do Senhor,
até que ele venha” (I Cor 9, 1-20), achou o Sr. Synésio o seu argumento
amiúdes. Não se anuncia como vindouro aquilo que está presente logo
não está realmente presente Jesus Cristo na hóstia dos altares romanos.
Terminou sua oração com a promessa de que depois apontaria a data da
criação do mistério da transubstanciação pela igreja romana.
Novamente com a palavra frei Damião reforçou seus
argumentos. Comentou a apostasia havida entre os discípulos por
ocasião do sermão da promessa (S. João, cap. VI). Disse que Jesus
Cristo seria um criminoso se as suas palavras naquele sermão e nos
textos eucarísticos clássicos não fossem tomados literalmente, Jesus
Cristo cometera o crime do precipitar na apostasia uma massa de fiéis o
que sem qualquer incômodo teria evitado com simples declaração de
que falava figuradamente. Respondeu ao Sr. Synésio que se pode fazer
memória sensível daquilo que está invisivelmente presente, disse que
Deus está em toda parte e que manda constantemente que se tenha nele
o pensamento e a lembrança. Esqueceu-se realmente frei Damião de
acrescentar, logo ali, que o mesmo se entendesse das outras palavras
“até que eu venha”. Nosso Senhor reportava-se a sua vinda triunfante e
visível do último dia. Desta omissão gloriou-se Sy-

[10 – CONTROVÉRSIA RELIGIOSA]

8 João 6,51.
nésio duas vezes sem que Frei Damião se desse por achado nem
respondesse senão implicitamente.
Frei Damião primou na sua discussão por não deixar de vista o
assunto e o contendor. Veio — de cheio ao texto “eu sou o pão que
desceu do céu”9 para explicar ao Sr. Synésio que as Escrituras estão
cheias destas comuns atribuições do suposto à pessoa e da pessoa ao
suposto. Mostrou como, se diz — “eu sou imortal” e “eu sou mortal”,
falando da mesma pessoa e atribuindo-lhe totalmente qualidades que são
somente de uma ou de outra parle do ser. Aplicou a doutrina ao acaso,
salvando toda a surpreendente força dos seus argumentos, todos de pé.
Uma vez novamente com a Palavra; o Sr. Synésio desviou a
discussão da transubstanciação, que asseverou ter sido inventada no
século XIII, por Inocêncio III10, para o sacrifício da missa e comunhão
sob uma única espécie. Foi sobremodo infeliz agora quando afirmou que
não se gostava, não se cheirava, não se via, não se tocava acidentes do
corpo de Jesus na hóstia e que o objeto se identificava pelos acidentes,
quando afirmou que uma prova das corruções cristãs feitas pela igreja
romana estava patente no caso da comunhão sob uma espécie, contra o
costume secular do princípio, quando finalmente disse que o sacrifício
da missa era um sacrifício de morto porque incruento, isto é, sem
sangue. Perorando, asseverou que a vida vem ou está no sangue, ao que
um rapaz das Obras Contra as Secas aparteou em voz pouco ouvida:
“Isto já é materialismo”.
Frei Damião falou a última vez. Estranhou como o Sr. Synésio
pudesse dizer que a Igreja inventou a transubstanciação pelo simples
fato de ter dado este nome ao divino mistério cristão da transformação
do pão em corpo e do vinho em sangue do N. S. Jesus Cristo. Em
seguida deu uma bela lição de gramática ao Sr. Synésio Lyra. Mostrou
como a igreja apoiada em São Paulo, no mesmo texto aos Coríntios,
acima referido, justifica-se perfeitamente da alteração disci-

9 João 6,51.
10 Nascido Lottario dei Conti di Segni (1160-1216), eleito papa Inocêncio III (1198-1216),
convocou o IV Concílio de Latrão (1215) que definiu a transubstanciação como dogma de fé da
Igreja Católica Romana.
[SYNÉSIO LYRA – 11]
plinar na comunhão, realmente depois de séculos introduzida para uma
só espécie em vez de duas. Eis o texto: “quem comer o pão ou beber o
cálice do Senhor indignamente será réu do corpo e do sangue do
Senhor”11. A conjunção alternativa ali esconde toda a luz que a miopia
interpretativa não via. Num auditório mais culto uma réplica fulminante
desta acabaria, uma discussão, sagraria uma vitória, esmagaria um
contendor. Mas, nada se passou. Continuou-se serena a disputa, dentro
da mais perfeita ordem e do mais completo silêncio.
A parte culta do auditório pasmou no momento em que o Sr.
Synésio negou a presença real; alegando não se ver, não se gostar na
hóstia a carne e o sangue, sacrificados. Frei Damião mostrou-lhe a
doutrina da filosofia perene. Disse-lhe como não era pelos acidentes,
mas, pelas substâncias, de sua própria natureza invisíveis e intangíveis,
que se especificavam os objetos. Disse-lhe como maior peso ou o menor
peso, a cor tal e o gosto qual não fazem as cousas tais ou quais. De
substância e acidente falou, apenas, assim de passagem, Frei Damião e
isto mesmo veio escandalizar o Sr. Synésio. Frei Damião para maior
edificação do povo e valorização mais edificante da missão divina de
ensinar as verdades reveladas, publicou que se o Sr. Synésio Lyra
ignorava os preceitos e conquistas mais universais da filosofia, ele lhe
asseverava que é doutor em filosofia e teologia.
Pela última vez com a palavra para concluir a discussão, findas
as duas horas que o Sr. chefe de polícia marcara, o Sr. Synésio começou
por dizer que não sabia filosofia, que só se gloriava de Jesus crucificado
que não viera discutir palavras humanas, que pregava a Sagrada
Escritura e que aquela discussão, terminando sem vencidos nem
vencedores, apenas tivera a finalidade de mostrar a concepção romana e
a concepção evangélica de uns mistérios cristãos.

11 1Coríntios 11,27.
[12 – CONTROVÉRSIA RELIGIOSA]
Não quero deixar sem uma referência o argumento do Sr.
Synésio Lyra contra a presença real pregada nas palavras de São João
(6, 63); “a carne... nada vale”. Com este modo de interpretação da
Sagrada Escritura seria fácil negar que o verbo de Deus se fez carne e
habitou entre nós. Aceitam as consequências? Ressuscitem o
maniqueísmo.
Aí fica uma reportagem criteriosa que não tem a pretensão de
ser completa. Penso não ter sido injusto nos meus juízos. Muitos não
viram o que eu vi. Não admira. O tema da discussão foi eminentemente
elevado. Não houve originalidade nas exposições e respostas católicas.
Apenas se viveu, em duas grandes e memoráveis horas, um grande
mistério cristão afirmado em sua plenitude sobrenatural pelos católicos
e diminuído para um arremedo caricato dos irmãos separados. Os da fé
ficaram com mais fé, os indiferentes e os incrédulos continuaram mais
frios e secos. Frei Damião pediu-me que registrasse o desprezo que o Sr.
Synésio parece votar à filosofia. Mandou que exalte o amor que nós
dedicamos a todas as conquistas das ciências e das artes. Passados foram
os tempos em que se sustentava que há conflito entre ela e a religião. As
verdades não se repelem. Verdadeiras, porém, ao mesmo tempo a
afirmação da presença real evangélica e da presença simbólica é que não
se concebe, se de um sim e de um não, ao mesmo tempo e sobre a
mesma cousa.
Se alguém julgar falha, complete-o; errado, corrija-o. Aguardo
sereno o juízo dos outros.
(Da A Imprensa de João Pessoa12).

12O jornal “A IMPRENSA”, era o jornal semanal da Diocese da Paraíba, fundado em 27 de maio
de 1897, por Dom Adauto Aurélio de Miranda Henriques (1855-1935), 1º Bispo (1894) e 1º
Arcebispo da Paraíba (1914), era um jornal católico doutrinário e noticioso que alcançou
importância na imprensa paraibana, tornando-se um órgão de projeção. Em 1903 o jornal para de
ser produzido por questões financeiras e volta a circular entre os anos de 1912 a 1943. O primeiro
redator-chefe foi o padre José Tomaz, que trabalhava em conjunto com outro religioso, Manoel
Paiva. Este jornal teve grande aceitação por parte da opinião pública, sendo um jornal totalmente
anticomunista. Existiam também colunas de propaganda abertamente pró-Integralismo.
[13]
CONTROVÉRSIA RELIGIOSA

REPAROS À “COMPLETA REPORTAGEM DO QUE FOI


EM CAMPINA GRANDE A MEMORÁVEL PUGNA ENTRE O
PASTOR PROTESTANTE SYNÉSLO LYRA E O RELIGIOSO
CATÓLICO FREI DAMIÃO”, PUBLICADA PELO PADRE
JOSÉ DELGADO, NA "A IMPRENSA", DE JOÃO PESSOA
E TRANSCRITA POR ESTE VIBRANTE MATUTINO, (*)
EM SUA EDIÇÃO DE ONTEM:

Meu bom amigo, padre José Delgado, testemunha ocular e


auricular do prélio religioso entre mim e Frei Damião publicou “uma
reportagem criteriosa que não tem a pretensão de ser completa”.
Desejando completa-la e tendo ele me oferecido ensanchas para corrigir
o que estiver errado, quando escreveu: “Se alguém Julgar... errado
corrija-o” tomo a liberdade de fazê-lo destas colunas.
Estabelecidas as bases da discussão entre mim e Frei Damião, o
Exmo. Sr. Dr. Chefe de Polícia e os Drs. Orris Barbosa e Hortêncio
Ribeiro, ficou assentado que seriam discutidos os assuntos constantes de
uma lista já em poder de Frei Damião; que a polêmica seria realizada no
espaço improrrogável de duas horas, falando cada orador 20 minutos,
alternadamente, sem qualquer aparte.
Iniciada a discussão às 10 horas e 14 minutos, sob a presidência
do Dr. Hortêncio Ribeiro, Frei Damião levantou-se, interpelando-me
com esta pergunta: “‘Seu’ Lyra, diga- me que é a Bíblia?” Permaneceu
calado, cumprindo o que havíamos antes convencionado. Frei Damião,
porém, insistiu na sua pergunta. Levantei-me e disse-lhe que aquele
assunto não entrara em o número dos convencionados, mas visto sua
insistência ia responder-lhe: “A Bíblia, disse-lhe eu, é a Palavra de
Deus; revelação de Deus es-

[14 – CONTROVÉRSIA RELIGIOSA]


crita à Humanidade, dividida em duas partes: primeira constante
do Velho Testamento, revelação de. Deus ao povo de Israel, por
intermédio de seus santos profetas; a segunda constante dos Santos
Evangelhos, Atos, Epístolas e Apocalipse dirigida a todos os povos
da terra”.
O meu amigo, padre Delgado, não expressou fielmente o meu
pensamento ao registrar minha resposta nestes termos: “... a Bíblia é o
livro da palavra divina inspirada”. Eu não diria tal.
Frei Damião exigiu que eu “indicasse na Bíblia aquela
definição”, Respondi-lhe que a Bíblia se defina a si mesma, como divina
e citei II Tim. III, 16.
O Dr. Chefe de Polícia, bastante contrariado com a atitude do
frade, chamou-lhe a atuação para os assuntos convencionados
encerrando-se este "preâmbulo QUASE necessário” segundo a opinião
do padre Delgado.
Se a definição que eu dei da Bíblia não é verdadeira, peço licença
ao padre Delgado para inserir aqui a definição do abade Bergier13, bem
conhecido, por certo, de S.S.ª. No seu Dictionnaire de Théologie, tomo
1°, titulo BÍBLIA: — “Esta coleção de livros sagrados ou escritos pela
inspiração do Espírito Santo se divide em duas partes, a saber: o
Antigo e o Novo Testamento. Os primeiros são os que foram escritos
antes da vinda de Jesus. Crista. O Novo Testamento contém os livros
que foram escritos depois da morte de Jesus Cristo, por seus apóstolos
ou por seus discípulos”.
Lê-se em The Century Dictionary, universalmente conhecido,
Vol. 1º, título: BÍBLIA: “consta de duas partes: o Velho e o Novo

13Nicolas-Sylvestre Bergier (1718-1790), sacerdote e teólogo católico-romano francês, conhecido


por seu trabalho no campo da apologética e da teologia. Foi cônego da Catedral de Notre-Dame de
Paris (1769-1790). Sua obra “Dictionnaire de Théologie” (1788), surgiu como expansão de sua
colaboração como corretor na “Enciclopédia” de Denis Diderot (1713-1784) e Jean le Rond
d'Alembert (1717-1783), sendo publicado na primeira vez em três volumes. As edições posteriores
desta obra, com a segunda edição, em doze volumes, publicada pela "Sociedade tipográfica de
Liège”, em 1789; edição por Jacques-Paul Migne (1800-1875), em 1859, com quatro volumes;
edição expandida de Jean-Joseph Gaume (1802-1879), com comentários de Thomas-Marie-Joseph
Gousset (1792-1866), em 1854, dividindo-a em oito volumes; e com adições de Jean-Marie Doney
(1794-1871), em 1858; tornaram-na uma obra de referência.
Testamento. O V. Testamento, contendo a Lei, os Profetas e os
Sagrados Escritos ou Hagiografia; e o Novo Testamento, os 4
Evangelhos, os Atos, Epístolas de São Paulo e de outros escritos
apostólicos e do Apocalipse ou Livro da Revelação, o único livro
estritamente profético que ele contém”.

[SYNÉSIO LYRA – 15]


Mas, deixemos lá este caso de definição da Bíblia. Este assunto
entrou na discussão como Pilatos no Credo.
Iniciada, propriamente, a polêmica, Frei Damião citou grande
parte do discurso de Jesus, registrado no capítulo VI de São João dando
ênfase às palavras de Jesus: “A minha carne verdadeiramente é comida
e o meu sangue verdadeiramente é bebida”14. Citou estas outras
palavras de Jesus: “Eu sou o pão vivo que desceu do Céu”15. Mostrou
que muitos dos discípulos, escandalizados com este discurso,
abandonaram a Jesus e que os crentes fazem a mesma coisa e ficam
escandalizados com a doutrina da transubstanciação. Frisou as palavras:
“Isto é o meu corpo, isto é o, meu sangue, afirmando que a hóstia se
transubstancia no corpo, sangue, alma e divindade de Jesus”. Falou
apenas por 10 minutos e, dirigindo-se a mim, disse: “Agora o Sr. pode
falar”. Respondi-lhe que logo que chegasse a minha vez, falaria.
Com a palavra, demonstrei que as Palavras de Jesus não deviam
ser tomadas ao pé da letra, mas figuradamente, pois, tanto não queria
dizer que sua carne teria de ser manducada, ou comida, que, ao se
retirarem escandalizados muitos dos seus discípulos, ele se dirigiu aos
que ficaram, explicando-lhes o sentido figurado de suas palavras: —
“Isto escandaliza-vos? Que seria se vísseis subir o Filho do homem
para onde primeiro estava? O Espírito é o que vivifica A CARNE
PARA NADA APROVEITA; as palavras que eu vos digo são Espírito e
vida”16. Interroga-os, em seguida: “Quereis vós também retirar-vos?”17

14 João 6,55.
15 João 6,51.
16 João 6,61-63.
Simão Pedro, porém, falando om nome dos companheiros, responde:
“Senhor, para quem iremos nós? Tu tens as PALAVRAS DA VIDA
ETERNA e nós temos crido e conhecido que tu és o Cristo, o Filho de
Deus”18. Provei, destarte, que as palavras de Jesus tinham um sentido
figurado e dada a deserção de alguns discípulos, porque as tomaram em
sentido literal, o Salvador, pacientemente, esclarece o sentido de

[16 – CONTROVÉRSIA RELIGIOSA]


suas palavras aos que ficaram com Ele. Citei mais as palavras da
instituição eucarística, — “Fazei isto em memória de mim”19
demonstrando à luz da razão que aquilo que se faz em memória de
alguém é porque este alguém não está presente... Afirmei que a
expressão de São Paulo: “... até que ele venha”20 era um golpe
fulminante na pretensa transubstanciação do pão eucarístico no corpo de
Jesus, e que, se temos de celebrar a Ceia do Senhor até que ele venha, é
porque ele não está corporalmente presente. Logo, não tem razão de ser
a transubstanciação. Pedi a Frei Damião que explicasse a expressão de
Jesus: “Eu sou o pão vivo que desceu do céu”21, visto que o corpo de
Jesus não desceu do céu, mas foi gerado no ventre da bendita virgem
Maria. Ora, disse eu, se temos de nos alimentar com o pão vivo que
desceu do céu, é claro que não temos do comer sua carne nem beber o
seu sangue literalmente.
De novo com a palavra, Frei Damião afirmou que “se pode fazer
memória sensível (sic!) daquilo que está invisivelmente presente e que
Deus está em toda parte e que manda que se tenha nele o pensamento e
a lembrança”.
Mostrei ainda ser impossível a transubstanciação, porque forçoso
era admitir-se que Cristo ao instituir a Eucaristia tinha dois corpos: o

17 João 6,67.
18 João 6,68-69.
19 1Coríntios 11,24-25 (Cf. Lc 22,19).
20 1Coríntios 11,26.
21 João 6,51.
corpo resultante da transubstanciação do pão eucarístico que ele detinha
em sua mão e o seu próprio corpo gerado no ventre da Virgem Maria.
Abro aqui um ligeiro parêntesis: Se a hóstia se transubstancia no
corpo de Jesus, este não deveria em hipótese nenhuma, “estar
invisivelmente presente”, mas visivelmente. Deus é Espírito e como tal,
pela Onipresença, está invisivelmente em toda parte, porque Elo enche o
céu e a terra, mas o mesmo não sucedia com o corpo humano do Cristo.
Como HOMEM, Ele ocupa um lugar apenas no espaço, podendo ser
observado por nossos sentidos cor-

[SYNÉSIO LYRA – 17]


porais. Se Ele está invisivelmente na hóstia; não o está corporalmente.
Frei Damião; esgotados todos os recursos de sua dialética,
avançou esta afirmativa gratuita: “‘Seu’ Lyra, o Sr. nunca estudou
filosofia, não conhece filosofia. Eu sou doutor em filosofia, doutor em
teologia”22. Com este autoelogio, julgou S.S.ª. levar, perante seus
adeptos, a palma da vitória.
Não pronunciei as palavras que Padre Delgado pôs nos meus
lábios, quando disse: “o Sr. Synésio começou por dizer que não sabia
filosofia... que não viera discutir palavras humanas”. Eu nunca disse
tal. Houve aí um lapso de memória de S.S.ª, desculpável, é bem do ver.
Declarei de começo que não estava ali para revelar sabedoria
humana, pois com São Paulo: “não me propunha saber outra coisa,
senão a Jesus Cristo a este crucificado”; que Frei Damião se gloriava em
ser doutor em muita cousa e que eu ainda com o apóstolo dizia: “Longe
esteja de mim gloriar-me a não ser na cruz do nosso Senhor Jesus
Cristo”23. Não gosto de fazer propaganda de meus conhecimentos.
Estudei filosofia não para gloriar-me de que a estudei, mas para usa-la
quando necessário.

22Frei Damião de Bozzano possuía apenas a formação de teólogo, com doutorado em Teologia
Dogmática, conferido pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, em 1925.
23 Gálatas 6,14.
Mostrei em seguida que meus argumentos se mantinham de pé e
que Frei Damião não respondera a nenhuma de minhas perguntas.
Tomando a expressão: “Isto é o meu corpo”, citei vários textos análogos
em que aparece o verbo “Ser” com a significação de: representar,
simbolizar, tipificar. Vão aqui alguns deles: “Filho do Homem, disse
Deus a Ezequiel, estes ossos são toda a casa de Israel” (Ezeq. XXXVII,
11). Apocalipse 1: 20 “... os sete castiçais que viste são as sete Igrejas”.
Jesus: “EU SOU a videira verdadeira”24. Perguntei, então, ao frade, se
aqueles ossos da visão do profeta se transubstanciaram mesmo na casa
de Israel; se os sete castiçais se transubstanciaram nas sete igrejas vistas
pelo vidente de Patmos; se Jesus mesmo se transubs-

[18 – CONTROVÉRSIA RELIGIOSA]


tanciou numa parreira. Afirmei, em seguida, que é um princípio
filosófico axiomático que os nossos sentidos nunca nos enganam e que
nós é que somos enganados, interpretando mal os objetos dos sentidos;
que na hóstia depois de consagrada permanecem os mesmos acidentes
ou qualidades sensíveis, existentes antes da consagração e os nossos
sentidos, que não nos enganam, confirmam a existência na hóstia de
farinha de trigo mal cosida.
Cristo — convém observar — sempre apelou para o testemunho
dos sentidos corpóreos, dizendo aos seus discípulos, no dia de sua
assunção: “VEDE as minhas mãos e os meus pés, que sou eu mesmo;
apalpai-me e vede, pois um Espírito não tem carne nem ossos, como
vades que eu tenho” (Luc. XXIV, 39). Vede também João, XX: 27-29.
Sentei-me e Frei Damião bastante desconcertado, tentou
responder a uma pergunta minha, sobre a expressão: “Fazei isto em
memória de mim”. Disse que na Eucaristia se fazia memória era da
morte e não do corpo de Jesus... E eu intimamente lhe disse: “muito
obrigado!, porque sua-resposta veio em. apoio do meu argumento”.
Antes eu já havia demonstrado que a Igreja Romana alterara a
instituição divina da Eucaristia, negando o vinho aos fiéis. E perguntei a

24 João 15,1.
Frei Damião com que autoridade a Igreja fez isto. E li, abrindo um
compêndio de “Curso de Instrução Religiosa”, de Monsenhor Cauly25,
este trecho: “Verdade é que nos primeiros séculos, costumavam
receber a Eucaristia debaixo das espécies do pão e vinho, mas
ninguém cuidava que este uso fosse necessário. A contar do SECULO
XIII o costume de dar Eucaristia aos fiéis somente debaixo da única
espécie do pão, prevaleceu”. A leitura deste trecho foi uma verdadeira
bomba, deixando o antagonista mais uma vez visivelmente
desconcertado.
Para uma igreja que faz tanto alarde das tradições este fato é bem
grave.
Uma nota curiosa. Frei Damião, procurando uma

[SYNÉSIO LYRA – 19]


situação sobre a Eucaristia e não a achando, pedia que os padres (8 ou 9)
que estavam presentes, a procurassem, mas os bons dos padres não a
acharam.
Então, gentilmente, eu disse a Frei Damião: “Veja Lucas,
XXII:19”. Logo depois, novo embaraço: o auxílio dos padres falhou, e
eu disse: “Veja 1ª aos Coríntios de XI:23 em diante”. Frei Damião outra
vez estava desconcertado... E, sem mais argumentos, lançou-me de novo
a pergunta: “‘Seu’ Lyra, pela sua honra de pastor, diga-me que é a
Bíblia? Diga-me, diga-me”. Afastando-se de novo do assunto, Frei
Damião declarava-se implicitamente derrotado. E de fato estava
derrotado.
Demonstrando que o sacrifício de Cristo não pode ser repetido;
citei Hebreus IX:11; 12, 25-28, em que o apóstolo afirma que “Cristo
foi UMA SÓ VEZ IMOLADO para esgotar os pecados de muitos”.

25 Eugène-Ernest Cauly (1841-1912), vigário geral de Reims, França. Sua obra possui o seguinte
título original “Cours d'instruction religieuse, à l’usage des catéchismes de persévérance, des
maisons d'éducation et des personnes du monde”, publicada inicialmente em 1885, em Paris. Em
1913, foi traduzida e publicada em português.
Logo, o concílio de Trento errou, quando dogmatizou que no
“sacrifício” da missa Cristo é imolado.
Agora, a história da “lição de gramática”, que diz o padre
Delgado ter me dado Frei Damião. É sobre a conjunção “ou” do texto:
“quem comer pão ou beber o cálice do Senhor indignamente será réu
do corpo e do sangue do Senhor”. Muito ancho, o padre Delgado
afirma: “Num auditório mais culto uma réplica fulminante desta
acabaria uma discussão, sagraria uma vitória, esmagaria um
contendor”. Devagar, Padre Delgado! Sua afirmativa está delgadinha,
para resistir a uma análise mais acurada às provas.
No texto citado (1ª aos Cor. XI:27), a conjugação é de fato a
disjuntiva “hê” [ἢ], no grego o “ou” em português, mas o que isto quer
dizer e de fato o diz é que aqueles que profanarem a Eucaristia, seja
tomando o pão ou o vinho, será réu do corpo e sangue do Senhor.
Mal aplicando este texto à mutilação da Eucaristia, os teólogos
romanistas caem neste dile-

[20 – CONTROVÉRSIA RELIGIOSA]


ma: “Ou a Igreja Romana estava certa, quando durante 13 séculos
distribuiu a Eucaristia aos fieis nas duas espécies (pão e vinho), ou
estava errada; se estava certa, por que enveredou por outro caminho,
sonegando o vinho aos fiéis? Se estava errada, porque só descobriu o
seu erro depois de 13 séculos? Onde estavam os seus teólogos?...”
Onde sua infalibilidade dogmática?
Agora vamos ao versículo 26 do mesmo cap. e Epístola. “Porque
todas as vezes que comerdes este pão e BEBERDES este cálix,
anunciais a morte do Senhor até que ele venha”.
Padre Delgado, a conjunção empregada no texto acima é no grego
—“kái” [καὶ], que só se traduz, em português, por “e” e “também”, mas
nunca por “ou”. E deve S.S.ª. notar que no versículo o versículo 26 vem
antes do 27 e ali a conjunção é “e” e não “ou”. No vers. 28 ainda se diz:
“Examine-se o homem a si mesmo e assim coma deste pão e (kái) BEBA
deste cálix”. Veja também o vers. 29 onde “kái” aparece duas vezes...
“o que come e (kái) BEBE indignamente, come e (kái) BEBE para si
mesmo o juízo”.
Está satisfeito o meu douto mestre de gramática sobre a
conjunção do texto? Sinto não poder ser mais extenso, pois só hoje à
tardinha li a reportagem criteriosa.
Passe bem e disponha do seu amigo e servo em Jesus Cristo.
SYNÉSIO LYRA.
(*) — Diário da Manhã, do Recife.
[21]

RESPOSTA AOS REPAROS QUE O SR. LYRA QUIZ DAR


À REPORTAGEM DA CONTROVÉRSIA RELIGIOSA DE
CAMPINA GRANDE.

Peço ao Sr. Synésio Lyra que seja mais sincero, se quiser publicar
algum artigo sobre a controvérsia de Campina Grande. Eu aqui
responderei aos pontos principais da sua reportagem publicada
anteontem neste DIÁRIO.
As primeiras palavras que dirigi ao meu ilustre contendor, foram
as seguintes: “discutir sobre o conteúdo de um livro sem saber o que é,
parece-me tempo perdido. Portanto, antes de começarmos a discussão,
peço ao Sr. Pastor que tenha a bondade de dizer-me o que é a Bíblia”.
Isto não era desviar a discussão: era somente um preâmbulo, um
prólogo que todos os bons professores fazem antes de explicar um livro.
E o Sr. Lyra deu a definição da Bíblia mais ou menos exata: mas
teria sido mais exato, se tivesse dito: — “A Bíblia é a palavra de Deus;
revelação de Deus: escrita à humanidade sob o influxo sobrenatural do
próprio Deus, pois, somente desta maneira Deus se torna autor
principal dos livros sagrados”.
Mas a esta definição se seguem naturalmente outras perguntas: —
“Quais são os livros sagrados?”.
O Sr. Lyra respondeu mostrando-me os livros do Velho e do
Novo Testamento.
— Quem lhe disse que todos estes livros foram escritos sob o
influxo divino e que por isso mesmo fazem parte da Sagrada Escritura?
— o Sr. Lyra respondeu a esta pergunta citando estas palavras de São
Paulo (2 Tim. 3, 16): “toda a Escritura divinamente inspirada é também
útil para ensinar, para repreender, para corrigir”.
— E com esta passagem, acrescentei, podemos
[22 – CONTROVÉRSIA RELIGIOSA]
saber quais são os livros sagrados?”. Façamos uma suposição; sabendo
que o Sr. Lyra é professor de português, digo ao povo: — “todas as
obras do Sr. Lyra são muito úteis para aprender a língua Portuguesa”
— com isto o povo já sabe quais são as obras que o Sr. escreveu?
Não, meu amigo: é necessário que as conheça por outro meio.
Pois bem, do mesmo feitio é a proposição de São Paulo: — “toda
a Escritura divinamente inspirada é útil para ensinar, para repreender,
etc.”. Com estas palavras inda não posso saber quais são os livros
inspirados e quantos são. Além disso, lembre-se o Sr. que São Paulo
aqui fala somente da Escritura que Timóteo aprendeu na infância, isto é,
do Velho Testamento, pois Timóteo era hebreu de origem e por isso
mesmo na sua infância aprendeu somente o Velho Testamento.
E assim, por meio deste texto, nem por meio de outros, que se
podem achar na divina Escritura, é possível dizer quais são os livros
inspirados e quantos são. Era isto que pedia e peço ao Sr. Lyra, disposto
a abraçar o protestantismo, se me responder. Não diga que nós católicos
nos achamos nas mesmas condições, como de fato me disse durante a
discussão. Isto seria verdade se a nossa regra de fé fosse a mesma dos
protestantes: Ora, pelo contrário, é muito diversa. Esta regra de fé para
os protestantes é a Bíblia explicada, por cada qual para si próprio; para
nós católicos é um magistério vivo, autêntico, infalível, isto é, a Igreja
docente constituída por Jesus Cristo depositária do patrimônio das
verdades. E as fontes aonde essa Igreja vai beber, sem possibilidade de
erro, os ensinamentos de Jesus, são a Bíblia e a tradição. Portanto, nós
podemos dizer quais e quantos são, os livros inspirados, ouvindo o que
ensina a Igreja; mas os protestantes, que não admitem senão a Bíblia,
como podem dize-lo, se isto não se acha na Bíblia?

[SYNÉSIO LYRA – 23]


Compreendeu, Sr. Lyra, a questão? Se devemos aceitar como
verdade revelada somente o que encontramos na Bíblia, conforme a
doutrina protestante; deveremos achar nela também quais são os livros
inspirados e quantos são, pois também estas são verdades reveladas. Se
o senhor resolver esta questão, lhe asseguro que todo Recife amanhã se
tornará protestante.
Entrando a criticar o que o Sr. diz a respeito da nossa discussão
em Campina, visto que se quer apresentar ao público como vencedor,
eu, aqui repetirei todos os argumentos em favor da presença real de
Jesus Cristo na Eucaristia e o senhor, durante estes dias destrua cada um
destes argumentos com razões fortes e esmagadoras.
— Argumentos deduzidos das palavras da promessa — (Jo. 6,
48 e seguintes).
1 — Comer as carnes de alguém no sentido figurado, metafórico,
significa na linguagem da Escritura: — fazer injúria a alguém; calunia-
lo, (cf. Salm. 27:2 — Micheas 3,3 — Jer. 10,25 — Gal. 5,15).
Logo se as palavras de Jesus devem ser interpretadas em sentido
figurado como querem os protestantes, deverão ser traduzidas desta
maneira: “Se não me caluniardes, não tereis a vida em vós”. O mesmo
se pode dizer da fórmula “beber o sangue” que, entendida
figuradamente, exprime uma péssima maldição. (cf. L. 3,17; Isaías
40,26; — Apos. 16,6). Isto, porém, repugna.
Portanto, as palavras de Jesus devem ser entendidas no sentido
real.
2 — Os ouvintes entendem que Jesus quer dar a comer o seu
corpo verdadeiro e real, e não somente uma figura dele; por isso
exclamam: “Como pode este dar-nos a sua carne a comer?”26. Jesus,
porém, não os desengana, dizendo que é somente uma figura de seu
corpoque dará; pelo contrário, confirma com juramento o que acaba de
declarar (5, 4).
A estas insistências do divino Mestre muitos dos

26 João 6,52.
[24 – CONTROVÉRSIA RELIGIOSA]
discípulos se revoltam e exclamam: “É duro este discurso e quem o
pode ouvir?”27. E abandonam a Jesus. E Ele não os detém. Teria podido
impedir a apostasia com uma simples explicação de suas palavras, e
pelo contrário, permite que o abandonem. Mas então não foi Jesus um
criminoso?
Explique isto Sr. Lyra; se quiser lhe posso propor o argumento
sob forma sensível:
Alguém está para afogar-se. Eu posso salvá-lo facilmente,
estendendo-lhe apenas a mão, e não o faço.
Peco contra o preceito da caridade, que me obriga a ajudar,
quando me é possível, ao meu próximo nas suas necessidades espirituais
e temporais. Da mesma forma Jesus teria pecado, não explicando no
sentido figurado as suas palavras, se deveras devia falar de uma
manducação espiritual e metafórica.
Muito mais que Ele mesmo tinha dado a ocasião.
Explico-lhe melhor o meu pensamento. Muitos dos discípulos
estavam para cair na apostasia, por terem compreendido em sentido real
as palavras de Jesus. Ele podia com uma simples palavra impedir este
mal, dizendo que era em sentido figurado que falava. Não o fez. Logo,
ou Cristo faltou à caridade ou queria falar em sentido real.
3 — O discurso de Jesus provoca discussão gravíssima entre os
discípulos
E afinal permanecem fiéis a Jesus somente os que creem nas suas
palavras, a saber: Os que creem ser necessário comer a sua carne e beber
o seu sangue para ter a vida eterna. Abandona-o os que não podem
admitir tantos milagres e que por certo não teriam achado dificuldade
em ficar e em crê, se se tratasse duma simples figura de corpo e do
sangue de Jesus.

27 João 6,60.
Ora se Jesus tivesse falado em linguagem figurada, qual teria sido
a consequência? Esta e não outra: teria detido junto a si como seus
discípulos,

[SYNÉSIO LYRA – 25]


os que não compreendiam as suas palavras e caíam num erro
gravíssimo; teria permitido que se separassem dele os que tinham
compreendido a sua linguagem e se afastavam para não admitir isto.
Podemos dar lugar a uma hipótese tão ímpia e tão absurda?
Todavia esta seria a consequência inevitável, aceitando a
interpretação protestante: Ficaram com Jesus os enganados e o
abandonaram os que repeliam o erro.
Estes foram os argumentos que deduzi das palavras da promessa.
Sr. Lyra, não tendo respondido durante a discussão, responda pelo
menos agora, por escrito, e provem que não valem nada.
— Argumentos deduzidos das palavras da instituição. — Mt
26, 16 — M. 14, 22 — Lc 22, 19 — 1 Co 11, 23.
1 — Jesus, instituindo a S. S. Eucaristia, queria deixar a sua
Igreja um penhor do amor que nutria para com ela, amor que lhe fez
aceitar a morte de cruz.
Ora, parece-vos que um pedaço de pão fosse o penhor de um tal
amor e um presente digno de Deus? Não por certo. Portanto a Eucaristia
não é um simples pedaço de pão, como querem os protestantes, mas sim
o corpo verdadeiro e real de Nosso Senhor Jesus Cristo.
2 — S. Lc. (22, 13) diz que o que se derrama pela remissão dos
pecados é o cálix, tomando o continente pelo conteúdo.
Ora, Cristo não derramou por nós senão o seu sangue. Logo,
somente podia dizer que o cálix era derramado por nós, enquanto
continha o seu sangue e não vinho.
3 — O texto evangélico (Mt 26, 27) é perfeitamente paralelo ao
do Êxodo (21, 8). De fato, em ambos se institui um testamento e se
sancionará com o sangue; em ambos são usadas as mesmas palavras.
Ora, no Êxodo (24, 8; trata-se de verdadeiro san-

[26 – CONTROVÉRSIA RELIGIOSA]


gue. Logo também no texto correspondente de S. Mt (26, 27) se trata de
verdadeiro sangue.
[4] — O texto grego em que foi escrito o Evangelho, assim refere
as palavras de Jesus: “Este é o meu corpo, o meu próprio corpo, o
mesmo que é dado por vós... Isto é o meu sangue, o meu próprio sangue
da nova aliança, o sangue que é derramado por vós pela remissão dos
pecados”. Como é possível entender em sentido figurado estas palavras?
5 — São Paulo (1 Cor. 23) diz: “Quem come esse pão ou bebe o
cálix do Senhor, indignamente, é réu do Corpo e do Sangue do Senhor".
Ora, se a Eucaristia fosse somente uma figura do Corpo e do
sangue de Jesus, isto não seria verdade.
Seria porventura réu do corpo do chefe da Nação o que ultraja seu
retrato? Não. Portanto, a Eucaristia não é simples figura do Cristo.
6 — S. Paulo (1 Cor. 23 e seguintes) diz também: “Quem come e
bebe indignamente o pão e o cálix, come e bebe para si a condenação,
não discernindo o corpo de Senhor”.
Ele afirma aqui, evidentemente, a presença real do Jesus na
Eucaristia, pois que, declarando a razão pela qual é réu quem comunga
indignamente, diz: “Porque desta maneira não discerne o corpo do
Senhor”, isto é, não considera a Eucaristia o que é na realidade, a saber,
o Corpo do Senhor.
Sr. Lyra, estes foram os meus argumentos para defender a
presença real. E o Senhor, como os refutou?
Procurando textos de significado ambíguo e dizendo asneiras
filosóficas. Teria sido multo melhor que deixasse de parte a filosofia
para não cair em paradoxos, que merecem cinquenta vezes palmatória, e
também para manter as condições que o próprio Senhor impôs, entre as
quais havia também esta: — A discussão será á luz da Escritura.
Mas deixemos isto de parte. Vejamos o que va-

[SYNÉSIO LYRA – 27]


lem os seus argumentos. Sigo a ordem que o Senhor manteve durante a
discussão e não a que inventou no artigo.
[1] — O seu primeiro argumento foi este: Jesus, instituindo a S.
S. Eucaristia, disse: “fazei isto em memória de mim”. Ora não se faz
memória do que está presente.
Logo, o corpo de Cristo não está presente na Hóstia. — Respondi
que, para fazermos memória de alguma coisa, não é absolutamente
necessário que esteja ausente; basta que esteja invisivelmente presente.
Ora, o Corpo de Cristo está invisivelmente presente na Hóstia —
Acrescentei que o texto estava fora de debate, porque na celebração da
Eucaristia fazemos memória da paixão e morte do Nosso Senhor,
conforme o que diz São Paulo.
2 — Diz S. Paulo: “Todas as vezes que comerdes deste pão e
beberdes deste cálix, anunciareis a morte do Senhor até que Ele venha”.
Cristo ainda não veio. Logo, na celebração da Eucaristia fazemos
memória de Cristo ausente.
Note bem, senhor Lyra: digo sinceramente diante de Deus que eu
não sei quando alegou este argumento ou não se expressou bem; do
contrário me teria sido fácil refuta-lo.
Refiro-o porque o encontrei na reportagem do Padre Delgado. Se
houvesse apartes, como eu desejava, não se data isto.
Em todo o caso, já tinha respondido, de alguma maneira, a este
argumento, pois afirmei que o Corpo de Jesus está presente
invisivelmente na Hóstia; ao passo que S. Paulo fala da vinda gloriosa
de Nosso Senhor.
3 — Cristo diz: “Eu sou o pão vivo que desceu do Céu”. Ora o
corpo de Cristo não desceu do Céu. Logo, na Eucaristia não comemos o
corpo de Cristo.
Respondi que as Escrituras estão cheias destas

[28 – CONTROVÉRSIA RELIGIOSA]


comuns atribuições do suposto à pessoa, e da pessoa ao suposto.
De resto, Sr. Lyra, responda a este argumento que é do mesmo
feitio do seu: Cristo (S. Jo. 6, 62) diz: “Que seria, se vísseis o filho do
homem subir aonde estava antes?”.
Ora, Cristo antes do seu nascimento não estava no Céu com o
corpo. Logo, o corpo de Cristo não está no Céu.
Aprova o senhor este modo de argumentar? Penso que não.
Portanto, deixe de abusar da divina Escritura.
4 — Cristo dizendo: “Eu sou a porta, a via, a videira...” não quer
afirmar que é uma via, uma videira. Logo, também quando diz: “Isto é o
meu corpo” não se transubstancia na hóstia.
Lembre-se bem V.S.ª. que não disse essa asneira no decurso, e
sim no fim da discussão, quando não pude mais responder, por se terem
esgotado as duas horas convencionadas.
Semelhante argumento não honra a um professor. Como é
possível considerar iguais estas proposições?
Cristo diz: “Eu sou a porta” mas não diz, “Eu sou esta porta”,
pois quando uma cousa se torna como figura de outra, não se toma em
indivíduos, mas em gênero. Além disso, quando a divina Escritura fala
em sentido metafórico o dá a conhecer. Mas nas palavras eucarísticas
tudo impele a toma-las em sentido próprio e literal.
5 — Jesus em S. Jo. (6, 62 e seguintes) afirma abertamente que
fala em sentido metafórico; que dará a figura de seu corpo e de seu
sangue. — Lembre-se V.S.ª. que também essa estultice foi pronunciada
nos últimos 20 minutos; por isso não me fui permitido responder.
No artigo que publicou anteontem V.S.ª. contrafez o texto
evangélico. Quero pensar que o tenha feito incorretamente. Leia melhor
o capítulo VI

[SYNÉSIO LYRA – 29]


de S. João e verá que as palavras: “Isto vos escandaliza?” Jesus não as
dirigiu aos que ficaram, mas a todos em geral; a que os discípulos
escandalizados o abandonaram depois dessas palavras. Portanto
compreenderam que Jesus ainda insistia na manducação real do seu
corpo. De fato, apelou para a sua futura ascensão para dar crédito às
suas palavras, ou melhor, segundo outros, em lugar de diminuir a
grandeza do mistério eucarístico, aumentou-a ainda mais predizendo a
sua ascensão. Como se quisesse dizer: “Custa-vos a crer que eu possa
dar-vos minha carne em alimento e meu sangue em bebida, agora que
estou no meio de vós; quanto mais não vos parecerá isso incrível,
quando, depois de me terdes visto subir de novo ao céu, vos for preciso
crer que esta carne, ao mesmo tempo em que está no céu, é dada na
terra em alimento?”. — A palavra — “carne” — no inciso: “a carne
para nada aproveita” não tem o mesmo significado que tem nos outros
passos em que Jesus fala da manducação de sua carne. Aliás, se teria
contradito, pois antes afirmou que, para termos a vida eterna, é preciso
comer a sua carne, agora diz que a carne para nada aproveita: Como
devemos, pois, entender essas palavras: “a carne para nada aproveita.
As palavras que Eu vos digo são espírito e vida”28? Ei-lo. De duas
maneiras se podem explicar:
a) — A palavra “espírito” quando se opõe à carne não significa
sentido espiritual e metafórico, como querem os protestantes, mas o
elemento espiritual ou divino de Cristo; e, assim, o significado das
palavras acima é este: “Somente a carne não pode verificar, mas, unida
à minha divindade vivifica”.
b) — A palavra “espírito”, quando se opõe à carne,
frequentemente na divina Escritura significa a inteligência do homem

28 João 6,63.
iluminada pela graça: ao passo que a carne significa o homem
considerado na sua corrução nativa.
(Cfr. Mt 16, 17; 1 Cor. 2, 14 e 15). E assim, o sentido das
palavras acima é este: “As minhas pa-

[30 – CONTROVÉRSIA RELIGIOSA]


lavras não se devem explicar carnalmente; isto é, segundo a
inteligência natural, enferma e escrava dos sentidos, pois o homem
carnal não pode compreender as cousas de Deus; e sim espiritualmente,
[para] isto é necessária a ilustração do Espírito Santo, para
compreender e crer nas minhas Palavras, as quais não se podem
tornar salutares senão pela fé”. Nesse sentido Jesus disse a Pedro: “A
carne e o sangue não te revelou, e sim meu Pai que está no céu”.
Sr. Lyra, satisfazem-lhe essas explicações?
Se não lhe agradam e quiser ainda sustentar que, por aquelas
palavras, Jesus declarou que tinha falado em sentido figurado, então
explique porque, apesar dessa declaração, os discípulos o abandonaram;
explique a contradição em que caiu Nosso Senhor, que afirma várias
vezes que a sua carne dá a vida a quem a come; e depois diz: — “a
carne Para nada aproveita”.
Esses foram todos os argumentos escriturísticos que V.S.ª. alegou
para provar que Jesus não está realmente presente na hóstia. Quase
todos foram rebatidos durante a discussão e se não dei a resposta a
alguns deles, foi porque foram apresentados no fim da discussão; e
quando eu ia começar a refutação o Sr. Chefe de polícia deu a mesma
por terminada.
Mas, respondeu V.S.ª. a um só dos meus argumentos? Não: apelo
para o testemunho de Deus e de todas as pessoas que assistiram a
discussão. Portanto, tenha a bondade de responder agora a cada um
deles.
Quanto aos argumentas filosóficos não me digno responder, pois,
lendo o vosso artigo, cada vez mais firme se tornou a minha persuasão
de que V.S.ª. nem se quer conhece os primeiros elementos da filosofia.
Já os respondi durante a discussão, ainda que estivessem fora do
debate, uma vez que o assunto versava sobre — a transubstanciação à
luz das Escri-

[SYNÉSIO LYRA – 31]


turas — Li no vosso artigo estas palavras que V.S.ª refere como ditas
por mim: — “a hóstia se transubstancia no corpo, no sangue, alma e
divindade de Jesus”.
Sr. Lyra, eu nunca disse semelhante paradoxo — quem fala desta
maneira sobre a transubstanciação merece palmatória e a excomunhão
da Igreja. Por transubstanciação entendemos: — a conversão de toda a
substância do pão na substância do corpo, e de toda a substância do
vinho na substância do sangue de Cristo, ficando somente os acidentes
— Por concomitância, como se diz em teologia, sob os acidentes do pão
se torna presente também o sangue, e sob os acidentes do vinho se torna
presente também o corpo de Cristo. Pela união hipostática, tanto sob os
acidentes do pão, como sob os acidentes do vinho, se torna presente a
divindade de Jesus. Não ridícularize esta doutrina: acha-se na Escritura.
O apóstolo São Paulo diz: “Quem comer desse pão ou beber o
cálice do Senhor indignamente é réu do corpo e do sangue do Senhor”.
— Ora se na hóstia estivesse presente somente o corpo e no cálix
somente o sangue, não seria verdade que, alguém, comendo
indignamente o pão, fosse réu do corpo e do sangue de Cristo.
Sabemos tombem que o corpo de Cristo é inseparável da
divindade. Portanto, se na Eucaristia está, o corpo do Cristo, está
também a sua divindade.
— Li também no seu artigo que, tendo eu esgotado os meus
argumentos, desviei a discussão, pedindo ao Sr. que pela sua honra de
pastor me dissesse: — “o que é a Bíblia?” — Sim, Sr. Pastor, fiz
novamente esta pergunta; mas quando? No fim: depois que o chefe de
polícia mandou por terminada a controvérsia sobre a transubstanciação.
Pode dizer que isto não é verdade? Se ousar nega-lo dentre de poucos
dias será publicado o testemunho de pessoas insuspeitas... Além disso,
eu posso invocar o testemunho do próprio Deus em meu favor; e V.S.ª,
pode?

[32 – CONTROVÉRSIA RELIGIOSA]


Fiz esta pergunta para mostrar ao povo católico que os pastores
protestantes explicam um livro que não conhecem. Portanto, nunca
desviei a discussão.
Só no princípio, como preâmbulo, perguntei: — “O que é a
Bíblia?”. V.S.ª, sim, foi quem desviou a discussão começando a falar da
distribuição da comunhão sob uma espécie e da missa. Então,
transubstanciação, distribuição da comunhão sob uma espécie e missa
para V.S.ª são a mesma coisa? — Li também no artigo um conceito
muito errado sobre a tradição da Igreja Católica. Porque se atreve a
combater uma doutrina que jamais conheceu?
Quanto à nota curiosa a que se refere V.S.ª, por não ter
encontrado o passo da Santa Escritura, respondo-lhe que isto não me
desonra e sim a V.S.ª, pois dá a conhecer que cheguei ao lugar da
discussão sem nada preparar, tendo recebido a lista de assuntos meia
hora antes da discussão, ao passo que V.S.ª teve um mês inteiro para
estudar o assunto; e não se julgando devidamente preparado, trouxe uma
mala de livros.
Passe bem, Sr. Lyra, quisera continuar, mas espero vossa
resposta.
Frei Damião de Bozzano29.

29 Pio Giannotti, conhecido como Frei Damião de Bozzano (1898-1997), nome que tomou para si
ao ingressar na Ordem dos Capuchinhos em 1914, foi um sacerdote católico romano. Convocado
pela Força Militar do Exército da Itália para serviu na frente de batalha da I Guerra Mundial (1914-
1918), período que lhe marcará profundamente. Voltando da guerra, ingressou no Seminário, sendo
ordenado sacerdote, obtendo posteriormente o doutorado em Teologia Dogmática, desempenhando,
após, o cargo de professor. Em 1931, Frei Damião aceitou o convite de seus superiores para ser
missionário no Brasil, vindo a celebrar sua primeira missa no Brasil em 05 de abril de 1931, na
cidade de Gravatá, agreste pernambucano.
[33]
CONTROVÉRSIA RELIGIOSA

RESPOSTA A FREI DAMIÃO DE BOZZANO

Folgo em defrontar-me de novo com Frei Damião e desta vez em


tribunal mais amplo: o da imprensa pernambucana.
Lamento, apenas, o modo rude e agressivo com que o ilustrado
corifeu católico atira-se contra mim, com afirmativas gratuitas do que eu
disse asneiras.
Não retribuirei, por uma questão de educação, a descortesia da
linguagem. Acho até natural a explosão do ânimo exacerbado do meu
opositor em apuros.
Mesmo classificado, indelicadamente, como asno, não tema Frei
Damião, pois não costumo dar coices... Continuarei a acatar a pessoa,
para mim sempre respeitável, de Frei Damião. Combatendo erros, como
o faço, não viso à pessoa do adversário. No caso vertente ponho apenas
em confronto o erro da tradição católica sobre a Eucaristia, com a
verdade das Santas Escrituras, a Bíblia, que, mais uma vez, afirmo ser a
única e infalível regra de fé e conduta do verdadeiro cristão.
Sobre a tecla já muito batida: “Que é a Bíblia?”, Frei Damião diz,
em seu artigo, o que não quis dizer na polêmica em Campina Grande —
que “o Sr. Lyra. deu a definição da Bíblia mais ou menos exata...”. Sou-
lhe grato por esta confissão espontânea.
Insiste, porém, V.S.ª em considerar pertinente à nossa discussão a
sua pergunta sobre a Bíblia. E, agora, considerando “mais ou menos
exata”, nossa resposta, levanta novas perguntas, com novos becos de
saída. Com efeito, já agora V.S.ª quer saber quem escreveu estes livros,
como se prova sua inspiração, e nessa fuga, perguntará, como se prova a
existência daquele que os inspirou...
Que evasivas ilustrado Sr.!
[34 – CONTROVÉRSIA RELIGIOSA]
Quererá V.S.ª porventura, com a nova pergunta, repetir o
costumado círculo vicioso dos que dizem derivar-se a autoridade dos
livros sagrados da Igreja Romana; porque ela, nalgum tempo, os
guardou e que a autoridade da Igreja “como regra de fé”, se, deriva do
santo volume”?
Basta que desde logo lhe diga que ainda [que] ficasse provado
que foi sua Igreja que exclusivamente guardou os divinos oráculos, não
ficaria ela em posição melhor do que a dos judeus a quem — diz Paulo
— “foram, por certos, confiados os oráculos de Deus” (Rom. 3: 22);
mas de quem Jesus tomou a velha Bíblia por eles guardada para dizer-
lhes “Errais não sabendo, as Escrituras...”30.
À sua pergunta sobre quais são os livros sagrados, respondo que
são todos os que a Igreja Primitiva aceitou como oriundos direta ou
indiretamente dos apóstolos e que sobre o número destes livros foi
muito tardia a palavra de sua Igreja nos Concílios de Florença e de
Trento. Ouça o que a respeito confessa, honestamente, o tradutor da
Bíblia católica em português, padre A. P. de Figueiredo: “Se me
perguntam agora donde procedeu duvidar-se por tantos séculos entre
os mesmos católicos da divina autoridade de certos livros sagrados
respondo que isto foi porque até os tempos do concilio Florentino não
tinha a Igreja Universal publicado algum decreto que decidisse afinal
esta matéria e obrigasse os fiéis a convirem todos no mesmo; o que é
fácil de mostrar discorrendo por todos os concílios ecumênicos e gerais
que por todo o decurso de tantos séculos se celebraram no Oriente e no
Ocidente, entre os quais até o Florentino se não achara nenhum que
definisse terem os livros deutero-canônicos a mesma e igual autoridade
que os proto-canonicos” (Bíblia Sagrada, trad. de. A. P. Figueiredo,
aprovada pelo arc. da Bahia, 2.ª ed., 1881, tom, 1º, p. 3). Quero; agora,
saber para quando V.S.ª marca a

30 Mateus 22,29 // Marcos 12,24.


[SYNÉSIO LYRA – 35]
solenidade de sua profissão de fé protestante, já prometida.
Agora, vejamos se Frei Damião, de fato, não se afastou do
assunto convencionado quando me fez a pergunta: Que é a Bíblia?
Suponhamos que nossa discussão versasse sobre uma questão
jurídica à luz da Constituição. Pressupõe-se, desde logo, que ambos
aceitávamos a Constituição. Ora, para discutirmos a mencionada
questão jurídica, seria, por ventura, preciso que um dos contendores
respondesse à pergunta do outro: “Que é a Constituição?”. De modo
nenhum. Se devemos aceitar como verdadeira expressão jurídica
fundamental o que se acha na Constituição, será preciso buscar nela
também declarações a respeito de quais e quantas são as partes que a
constituem? Certamente não. Os dois casos são idênticos.
Não nos propusemos discutir o que é a Bíblia ou a Escritura: sua
origem; seus autores, sua inspiração e sua constituição — mas “A
Transubstanciação à Luz das Escrituras”.
Lamento que Frei Damião esteja estragando sua alardeada
filosofia, na defesa de uma causa indefensável, como esta em que
precisa de preâmbulos que a natureza do assunto não exige.
Ainda, neste caso de definição da Bíblia, Frei Damião cai
realmente num círculo vicioso, coisa bem grave para um filósofo,
quando afirma que “a Igreja docente” é a regra de fé dos católicos e que
“as fontes onde essa igreja vai beber, sem possibilidade de erro, os
ensinamentos de Jesus, são a Bíblia e a tradição”.
Aprendam os filósofos esta lição. Sócrates, Platão e Aristóteles
onde estais?
Vejamos, agora, a que absurdo o argumento de Frei Damião
conduz.
Se “a Igreja docente” é a regra de fé, como afirma S.S.ª, esta
Igreja se constituiu sem regra de fé, pois antes de ser constituída não
podia ser regra de
[36 – CONTROVÉRSIA RELIGIOSA]
fé de si mesma. E, neste caso, mediante que fé se constituiu ela?
Aceita V.S.ª as consequências de seus argumentos filosóficos?
Agora, vamos à “crítica” com que V.S.ª tentou mais uma vez,
inutilmente, destruir meus argumentos indestrutíveis.
Começarei parodiando seus próprios argumentos “deduzidos das
palavras da promessa".
Comer a carne de uma pessoa no sentido literal, significa na
linguagem da Escritura, como em qualquer linguagem, devorar essa
pessoa. Veja-se 2ª Reis 6: 28-29. Jesus, porventura, ensinou tal
monstruosidade?
O mesmo se pode dizer do “beber do sangue” que, entendido
“literalmente” exprime uma péssima maldição. Veja-se Apocalipse
16:6, texto citado por, V.S.ª: “visto que derramaram o sangue dos
santos e dos profetas, também tu lhe deste o sangue a beber, porque
disto são merecedores”. Portanto, as palavras do Jesus devem ser
interpretadas não no sentido literal, que é monstruoso, mas
figuradamente.
Afirma V.S.ª, em seu segundo argumento: “Os ouvintes entendem
que Jesus quer dar o seu corpo verdadeiro e real e não somente uma
figura dele...”.
É possível que assim o entendessem os que se escandalizaram. Os
fiéis, porém, entenderam, como Pedro, que o que alimenta ou dá vida à
alma são as palavras de Cristo: “Tu tens as palavras da vida eterna”. E
Cristo mesmo ensinou: “Não só de pão vive o homem mas de toda a
palavra que sai da boca de Deus” (Mateus 4: 4), “A carne, diz Cristo,
para nada aproveita” (João 6: 63). E, realmente, o alimento da alma
deve ser-lhe correlato, isto é, deve corresponder à sua natureza, deve ser
espiritual. E daí, dizer Jesus: “As palavras que eu vos digo são espírito e
vida”.
De passagem, como contendor leal, aceito o reparo feito por V.S.ª
de que os discípulos só abando-
[SYNÉSIO LYRA – 37]
naram a Jesus depois do esclarecimento dado nestas palavras: “Isto vos
escandaliza?... O Espírito é o que vivifica, a carne para nada
aproveita: as palavras que eu vos disse são espírito e vida”. Agradeço-
lhe a lembrança porque ela trouxe novo contingente ao meu já
inabalável argumento. Vamos às provas, V.S.ª diz que Jesus seria um
criminoso por deixar tantos discípulos se precipitarem na apostasia
quando com uma palavra teria evitado tal coisa. Exemplifica sua
asserção, dizendo: “Alguém está para afogar-se. Eu posso salvá-lo
facilmente; estendendo-lhe apenas a mão, e não o faço. Peco contra o
preceito da caridade...”.
Ora, se Jesus disse que a carne para nada aproveita, que o espírito
é o que vivifica, porque suas palavras são espírito e vida, tinha feito
tudo quanto era necessário para evitar a apostasia daqueles obstinados
no erro, os quais revelaram este triste estado da alma próprio de tanta
gente recalcitrante neste mundo que prefere continuar no erro, como
Frei Damião, mesmo tendo conhecimento da verdade, com todas as suas
evidencias, V.S.ª é, realmente, um exemplo vivo disto, pois diante dos
lampejos da verdade tão claramente exposta por mim, neste prélio
incruento, prefere afogar-se no erro de uma interpretação ao pé da letra,
sobre a Eucaristia — Interpretação que atenta contra a razão, contra o
testemunho dos sentidos e ainda contra os princípios mais elementares
da Hermenêutica que manda interpretar um texto à luz de seu contexto e
das passagens paralelas. Jesus não constrangeu aqueles discípulos a
ficarem com ele, pois a salvação é dom gratuito de Deus (Romanos 6:
23), e tem de ser aceita voluntariamente.
Passo, agora, a usar sua ilustração: “Alguém está para afogar-se”.
Mas, por um princípio de caridade, eu lhe conhecendo as intenções,
antecipo razões que revelam a loucura desse ato. Esse pobre
recalcitrante, entretanto, atira-se ao abismo. Terei

[38 – CONTROVÉRSIA RELIGIOSA]


eu, porventura, culpa na morte desse louco? Não, mil vezes não! Ele era
livre para atirar-se no abismo ou não.
Não foi isto justamente o que se deu? Os discípulos murmuravam
e Jesus docemente explica-lhes o sentido figurado de suas palavras.
Mostra-lhes que não está se referindo à sua própria carne, em sentido
literal, pois “a carne para nada aproveita" e o espírito é o que vivifica.
Mostra ainda em que sentido teríamos de nos alimentar espiritualmente
dele, pois disse: “Eu sou o pão da vida: o que vem a mim, não terá
jamais fome, e o que CRÊ em mim não terá jamais sede. E a vontade de
meu Pai.... é esta: que todo o que vê o Filho, e crê nele, tenha a vida
eterna” (vers. 35 e 40). Finalmente, Jesus realça a verdade preciosa de
que a salvação é pela fé e não por se comer materialmente sua carne
dizendo: “Em verdade, em verdade vos digo: O que crê em mim, tem a
vida eterna” (vers. 47). Pela sua natureza espiritual, a alma não pode
alimentar-se com um corpo humano, no sentido material. E, pois, o
pecador salvo recebe a vida eterna, é alimentado espiritualmente,
CRENDO em Jesus. Ora, todos os vers. acima citados, sobre cujo
sentido não pode haver a menor sombra de dúvida, fazem parte do
sermão “da promessa”.
Mas há coisa bem grave naquele discurso, se admitirmos o
sentido literal. Frei Damião ensina com todos os teólogos de sua igreja,
que a transubstanciação é “a conversão de toda a substância do pão na
substância do corpo, e de toda a substância do vinho na substância do
sangue de Cristo, ficando somente os acidentes” do pão e do vinho.
Prestemos toda a atenção a estas palavras de Jesus: “Se qualquer comer
deste pão viverá eternamente” (Jo. 6:52). Perguntamos agora, quando
um católico come a hóstia ou o pão eucarístico, come a Cristo, segundo
ensina a Igreja Romana. Mas quando este católico abandona a fé e a
própria igreja, para onde

[SYNÉSIO LYRA – 39]


vai? Não irá diretinho para o inferno, segundo a teologia católica?!
Então, meu bom frade, este ex-católico vive ou não vive eternamente?
Pois Cristo disse que o que come deste pão vive eternamente. Aconteceu
em tempos idos — o V.S.ª não o ignora — ter um rato audacioso
devorado a hóstia consagrada. Este rato vive eternamente? Ou Cristo,
neste caso, destransubstanciou-se e fugiu? Esta blasfêmia é a conclusão
lógica, admitida a transubstanciação. Não vê Frei Damião que, quem se
afogou foram seus argumentos ilógicos! Sua decantada filosofia falhou
mais uma vez, meu caro.
Seguindo os passos de V.S.ª vamos agora ao caso do pão como
penhor, referido em seu artigo. Não se deve confundir um penhor
deixado por uma pessoa com a pessoa que o deixa. Frei Damião fez-se
protestante neste argumento, pois ensinamos que a Eucaristia é, de fato,
um sinal do amor de Cristo, é um penhor de sua volta — Apenas, S.S.ª
acha que “um pedaço de pão” não é “um penhor”: desse amo, nem “um
presente digno de Deus”. O presente digno do Deus — caro Sr. — é
Cristo. E Cristo nos deixou como lembrança, como penhor deste
presente divino, não “um pedaço de pão”, mas o pão e o vinho
eucarísticos. Mas que fosse um pedaço de pão... Um pedaço de pano,
uma bandeira não representa a pátria, não é a imagem representativa, da
nação? E quem ultrajar a bandeira, no todo ou em parte, não ultraja o
país que ela representa? O pedaço de pano não vale por si, mas pelo que
representa. O pão é uma coisa comum, mas na eucaristia ele tem alta e
grande significação, porque representa, simboliza ou tipifica o corpo de
Jesus, e nossa comunhão com ele. E todas as vezes que comemos o pão
e bebemos o vinho eucarísticos, lembramo-nos do sacrifício de Cristo,
por nós, na cruz. Anunciamos sua morte e aguardamos sua vinda.
“Todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálix,
anunciareis a morte do Senhor até que Ele

[40 – CONTROVÉRSIA RELIGIOSA]


venha” (1 Cor. 11: 26). E isto fazemos com toda reverência, compunção
e solenidade.
V.S.ª fez lamentável confusão, citando Luc. 22:13, quando devia
ser 22:20. E ainda, pelo sentido de suas palavras, me parece que queria
citar Mat. 26:28. Mas qualquer dos textos é contra a teoria da
transubstanciação. O texto de Luc. 22:20 — “Este cálix, é o Novo
Testamento em meu sangue” e o de Luc. 22:19 — “Este é o meu corpo”,
por um princípio de coerência deviam ser, tomados no mesmo sentido:
literal ou figurado. Não agem, porém, assim os teólogos romanistas.
Para o primeiro dão um sentido figurado, isto é, o cálix não se
transubstancia em o Novo Testamento, pois testamento não tem
substancia... Para o segundo dão o sentido literal, porque melhor se
adapta ao seu erro dogmático.
Que hermenêutica de dois pesos e duas medidas! Diz mais o
ilustre campeão romanista: “O texto grego, em que foi escrito o
Evangelho, assim refere as palavras de Jesus: ‘Este é o meu corpo, o
meu próprio corpo o mesmo’...” etc.
Falso! Falsíssimo, Frei Damião! O texto grego jamais disse tal
coisa!
As palavras “próprio” e “mesmo” não estão, em absoluto, no
texto grego, mas na cabeça de V.S.ª. Examinei os textos, no original
grego, referentes à Eucaristia os quais translitero aqui: “Toutó esti tó
sôma mou” (Mat. 20:26). “Toutó ésti tó sôma mou” (Mar. 14:22).
“Toutó ésti tó sôma mou” (Luc. 22:19). Na 1ª Epist. aos Coríntios,
11:24, temos a mesma expressão grega, com uma construção diferente
significando, porém, a mesmíssima coisa: “Toutó mou ésti tó sôma”. A
tradução exata destes textos é: “Este é o meu corpo”.
Veja como foi traduzido o texto, nas versões que tenho à mão:
Versão francesa: Luc 22:19 — Ceci est mon corps.

[SYNÉSIO LYRA – 41]


Versão inglesa: Luc. 22:19 — This is my body.
Versão italiana: Luc. 22:19 — Quest’ é iI mio corpo.
Versão Espanhola: Luc. 22:19 — Esto es mi cuerpo.
Versão de Frei Joaquim de N. S. do Nazareth: Luc. 22:19 — Isto
é o meu corpo.
Vulgata Latina: Luc. 22:19 — Hoc est corpus meum (Veja-se 1
Cor. 11:24, como também Mat. 22:20; Marc. 11:22).
Introduzir as palavras “próprio” e “mesmo”, nestes textos é agir
de má fé e demonstrar que está à serviço de uma causa insustentável. E
agir assim é incorrer na maldição divina (Apocalipse 22:18).
Não falsifique, Frei Damião, a Palavra divina!
Afirma V.S.ª que não ouviu, em Campina Grande, um argumente
meu, referido fielmente pelo padre Delgado em seu artigo — argumento
alusivo à expressão paulina: “... até que ELE venha”. Refiro logo aqui,
ter V.S.ª renovado a pergunta sobre a Bíblia, nos seus últimos 20
minutos de discussão e não após esgotado o prazo de duas horas. Não
preciso do testemunho de pessoas, como prometeu dar-me, porque lhe
poderia opor outras tantas. Do mais, V.S.ª tem-se revelado tão
desmemoriado nesta discussão... Admitida, porém, a hipótese de a ter-
me feito depois, V.S.ª fica na mesma situação esquerda, porque,
voltando a falar, V.S.ª devia responder aos meus últimos agourentos e
não fugir do assunto, para me fazer nova pergunta sobre a Bíblia. V.S.ª
não afirmou que não respondeu a certos argumentos meus, a que chama
asneira e estultícia, “por terem se esgotado as duas horas
convencionadas”? A pergunta foi, portanto, de um contendor vencido.
Não estrebuche. Conforme-se com a derrota, que é mais decente...
Sobre o texto que citei: “Eu sou o, pão vivo que desceu do céu”,
V.S.ª responde apenas “que as Escrituras estão cheias destas comuns
atribuições do

[42 – CONTROVÉRSIA RELIGIOSA]


suposto à pessoa e da pessoa ao suposto”. Esqueceu-se V.S.ª de dizer
qual, no caso vertente, é o suposto e qual a pessoa. Diga-o agora...
V.S.ª foi muito infeliz, quando quis explicar o sentido das
palavras: “a carne para nada aproveita”. Creio que não queria escrever
o que escreveu. Porque é coisa horrível! Senão vejamos. Diz V.S.ª:
a) A palavra “espírito” quando se opõe à carne; não
significa sentido (sic!) espiritual e metafórico, como
querem os protestantes, mas o elemento espiritual ou
divino de Cristo; e, assim, o significado das palavras acima,
é este: “Somente a carne não pode vivificar, mas, unida à
minha divindade, vivifica”.
b) A palavra “espírito”, quando se opõe a “carne”,
frequentemente na divina escritura significa a inteligência
do homem iluminada pela graça; ao passo que a carne
significa o homem considerado na sua corrução nativa.
Ora, meu caro frade, a que propósito iria Cristo falar, no texto que
estudamos, do “homem considerado na sua corrução nativa”, se a carne
a respeito da qual vem ele falando aos discípulos é a sua carne e não a
do homem “na sua corrução nativa”? V.S.ª admite que havia “corrução
nativa” no Homem ideal e singular, concebido sem pecado, pela
operação do Espírito Santo, no ventre da bendita Virgem Maria, aquele
Homem que podia dizer: “Qual de vós me pode arguir de pecado”? A
que propósito o Divino Mestre, explicando como se podia comer a sua
carne, introduziria a ideia da carne do homem em sua natureza
corrompida?
E, se a carne em contraste com o espírito tem aí essa significação
tão má, como então dá V.S.ª a entender que Cristo quis dizer que
“Somente a carne não pode vivificar, mas unida à minha, divindade,
vivifica?”. Então, “o homem considerado na sua corrução nativa”,
vivifica unido à divindade? Quanta balburdia! Quanta heresia, Frei
Damião! Lembre-se de que não está escrevendo apenas para mim, mas

[SYNÉSIO LYRA – 43]


para um grande público inteligente que saberá distinguir a verdade do
erro. Cuidado com essas asserções disparatadas e heréticas!
Como V.S.ª passou de largo por vários argumentos meus, vou
reproduzi-los, sumariamente, aqui, esperando a devida resposta:
1 — As palavras do Jesus: “Fazei isto em memória
de mim” e as de São Paulo: “... até que ele venha”, indicam
claramente que o pão e o vinho eucarísticos não se
transubstanciam no corpo, sangue, alma e divindade de
Nosso Senhor Jesus Cristo. O que se faz em memória de
uma pessoa supõe não estar essa pessoa corporalmente
presente. E se a Eucaristia tem de ser celebrada “até que
Ele venha” é porque Ele não veio e, portanto, não está
corporalmente presente. Salvo se é o caso de “fazer
memória sensível” (sic!) como Frei Damião imaginou.
2 — Admitida a transubstanciação, forçoso é aceitar-
se que Cristo ao instituir a Eucaristia tinha dois corpos: um
corpo sentado à mesa e outro levantado e partido pelas
mãos do-que estavam sentados.
3 — Sobre a expressão: “Este é o meu corpo”, citei
vários textos análogos em que aparece o verbo “Ser” com a
significação de — representar, simbolizar, tipificar, etc.
ex.: “Filho do homem, disse Deus a Ezequiel, estes ossos
são toda a casa de Israel” (Ezeq. 37:11). “Os sete castiçais
que viste são as sete Igrejas” (Apoc. 1:20). “Eu sou a
videira verdadeira”.
Frei Damião não pôde explicar os dois primeiros versículos acima
citados, porque são análogos a este outro: — “Este é o meu corpo”, e
seria obrigado, por coerência, a interpreta-los ao pé da letra e lá teríamos
os ossos transubstanciados em toda a casa

[44 – CONTROVÉRSIA RELIGIOSA]


de Israel e os sete castiçais nas sete Igrejas da Ásia. Procurou dois
outros textos e apresentou-os, falsamente, como citados por mim: “Eu
sou, a porta, a via”. “Seja mais leal”, meu amigo!
4 — A respeito da sonegação do cálix aos
comungantes, propus em meu artigo, o seguinte dilema:
“Ou a Igreja Romana estava certa, quando durante 13
séculos distribuía a Eucaristia aos fiéis nas duas espécies
(pão e vinho), ou estava errada; se eslava certa, por que
enveredou por outro caminho, sonegando o vinho aos fiéis?
Se estava errada, por que só descobriu o seu erro depois de
1.300 anos? Onde estavam os seus teólogos? Onde sua
infalibilidade dogmática?
Não sou eu quem quer a resposta. São os católicos que estão
perguntando, por que não tomam o vinho na comunhão, não obstante o
Salvador dizer: “Bebei dele todos”31. Diga, de público, Frei Damião, por
que é isso assim?
5 — Demonstrei que o sacrifício de Cristo não pode
ser repetido, citando Hebreus 9:11, 12, 25-28. Registrei
esta expressão do apóstolo: “Cristo foi uma só vez
imolado, para esgotar os pecados de muitos” e mostrei que
o Concílio de Trento errou, quando ensinou que no
“sacrifício” da missa Cristo é imolado.
6 — Sobre a conjunção “ou”, contrapus a conjunção
“e”, no grego “kái”, em vários textos que mostram que a
Eucaristia deve ser distribuída nas duas espécies (pão e
vinho), e não numa só como sacrilegamente faz a igreja
romana.
O público fica esperando que, V.S.ª responda, além dos outros
argumentos, a estes seis enumerados.
Passe bem. Espero sua reposta.

SYNÉSIO LYRA.

31 Mateus 26,27.
[45]

A este artigo fulminante, Frei Damião deu a resposta que se


segue, declarando, assim de público, sua completa derrota.

CONTROVÉRSIA RELIGIOSA
Finalmente alcancei o que desejava pela famosa pergunta: “O que
é a Bíblia?” e por esta outra que naturalmente se segue à primeira —
quais são os livros sagrados e quantos são?
Para que o meu ilustre contendor não procurasse uma evasiva na
resposta, que dele esperava, no meu artigo, propus-lhe a questão nestes
termos exatos: “Se devemos aceitar como verdade revelada, somente o
que encontramos na Bíblia, conforme a doutrina protestante, nela
deveremos também achar quais são os livros inspirados e quantos são,
pois, também estas são verdades reveladas”.
E o Sr. Lyra me respondeu: “Os livros sagrados são todos os que
a Igreja primitiva aceitou conto oriundos direta ou indiretamente dos
apóstolos”.
Muito bem, ilustre filósofo e exegeta, portanto admite com a
Igreja Católica que nem todas as verdades reveladas se acham na Bíblia,
e nega o princípio fundamental do protestantismo, que apenas aceita
como verdade revelada o que se acha na Bíblia.
Quanto ao círculo vicioso, em que segundo o Sr. caí quando
afirmei que “a Igreja docente é a regra de fé dos católicos e que as
fontes onde esta igreja vai beber, sem probabilidade do erro, os
ensinamentos de Jesus, são a Bíblia e a tradição”, ouça a resposta.
Com a autoridade histórica do Novo Testamento, provamos que a
regra de fé estabelecida por Nosso Senhor, isto é, o meio lógico,
objetivo, que escolheu para conservar, ensinar e explicar a sua doutrina,
foi a instituição de uma Igreja infalível (cf. Mat.
[46 – CONTROVÉRSIA RELIGIOSA]
28,18 — Mc. 16,15 — Lc. 10-16); só depois deste preâmbulo
recebemos da Igreja os Evangelhos, e os demais livros da Bíblia, não
como documentos históricos, mas como livros inspirados; e recebemos
também outras verdades que não se acham na Bíblia.
Há nisto círculo vicioso, Sr. Lyra?
Quanto a tudo o mais que diz o Sr. no seu artigo, não merece uma
resposta. Apenas quero observar que o Sr. para refutar a eficácia do
argumento, que eu deduzia do texto grego, traduziu somente o começo
da frase e deixou o resto, acrescentando que as palavras “próprio” e
“mesmo” não estão em absoluto no texto grego.
Está, porém, nele o que equivale às palavras portuguesas,
“próprio” e “mesmo”.
E com isto dou por terminada a minha controvérsia com o Sr.,
pois estou missionando no Interior do Estado e não tenho tempo para
perder com quem se obstina em negar a verdade.
Mais uma palavra Sr. Lyra, e termino. Visto que o senhor é um
exegeta tão profundo, que veio descobrir nas palavras do Jesus um
sentido de que não puderam descobrir, um Santo Agostinho, um S.
Jerônimo, um S. João Crisóstomo, um Santo Ambrósio, um S. Bernardo,
um S. Tomás, um S. Boaventura e nenhum dos outros grandes teólogos
da Igreja, tenha a bondade de resolver também esta questão que, para
mim, foi sempre um enigma.
Passe bom Sr. Lyra. Se quiser ainda discutir comigo pode
apresentar-se, porém, não mais determine o número dos ouvintes, não
impeça os apartes, e não convide o Chefe de Polícia para impedir as
vaias se forem justas.
Quanto à ordem, garantirei sempre.
Frei Damião de Bozzano.
Com esta resposta, Frei Damião declarou-se derrotado nesta
controvérsia. Fugindo do terreno hon-

[SYNÉSIO LYRA – 47]


roso da Imprensa, propõe-se ainda discutir comigo, sem as garantias
legais, sem estabelecermos as bases da discussão, onde ele domina, pelo
fanatismo, a massa ignara. Frei Damião gosta da vitória conquistada
com vaias.

Ao seu artigo despedida, respondi assim:

CONTROVÉRSIA RELIGIOSA
Frei Damião deu por terminada sua controvérsia comigo,
dizendo-se “missionando no interior do Estado” e proclamando-me
obstinado no erro. Tentou, porém, nessa despedida, demonstrar que não
caiu em círculo vicioso, quando fez a autoridade da Igreja Romana,
como regra de fé, derivar-se do Novo Testamento (segunda parte da
Bíblia) e a autoridade da Bíblia, como fonte dos “ensinamentos de
Jesus... sem possibilidade de erro”, da autoridade dessa mesma Igreja.
Para isso, recorreu S.S.ª a outro “PREÂMBULO”... a saber, —
que para provar ser a Igreja regra de fé, socorre-se da “autoridade
histórica do Novo Testamento”.
Ora, a autoridade histórica do Novo Testamento não decide das
questões de exegese resultantes da leitura do sagrado texto. Depois de
certificarmo-nos, não pelo testemunho suspeito da Igreja Romana —
mas por provas internas e externas de quais são os livros do Novo
Testamento e sua ipsíssima verba, não temos, com isto, a interpretação
de seus textos.
Para sabermos o que estes textos, autênticos, genuínos, dizem-
sobre a Igreja, isto é, para interpretarmos a Bíblia, não ternos de recorrer
agora à autoridade histórica, mas aos princípios da Hermenêutica para
uma racional exegese. E, tal é o que faz, livremente, a Igreja Romana,
usando aí o livre exame que ela mesma condena e nega aos protestan-

[48 – CONTROVÉRSIA RELIGIOSA]


tes. Daqui não há fugir. O círculo vicioso aí está.
Mas, por amor ao argumento, admitamos que a autoridade
histórica da Bíblia decidisse de uma questão de exegese em
controvérsia. Neste caso, o direito que tem a Igreja Romana de recorrer
a essa autoridade — antes de ter provado que é regra de fé infalível —
temo-lo nós, a par. E é com essa direito que tomamos a Bíblia, como
livro histórico da Revelação divina, para provar que esse valiosíssimo
documento está em antagonismo com os ensinos da Igreja Romana;
pois, nele encontramos, por exemplo, Deus proibindo, nos
mandamentos, não só adorar, mas “dar culto ás Imagens” (“... não as
adorarás, nem lhes dará culto” Êxodo 20:5); enquanto a Igreja Romana
preceitua e pratica esse culto, e, para encobrir sua transgressão, altera o
decálogo em seus catecismos, omitindo aquela proibição. Encontramos,
ainda, nesse precioso documento histórico Jesus dizendo: “Ninguém
vem ao Pai senão por mim” (João 14:6) e São Paulo: “Só há um Deus e
só, só há um mediador entre Deus e os homens” (1 Tim. 2:5), enquanto
a pretensa “Igreja infalível” diz, pelos seus exegetas, que há tantos
mediadores quantos são os santos e os anjos — “mediadores
secundários e imperfeitos” (Padre A. P. Figueiredo).
E diante disso, já se vê por que a Igreja Romana tanto condena o
livre exame da Bíblia e se arroga, no círculo vicioso de Frei Damião,
regra de fé ou única autoridade a dizer o que é que a BÍBLIA diz...
É que essa Igreja reconhece o grande perigo existente para o seu
interesse, no livre exame do sagrado volume que, como disse Roberto
Boile32, “é entre os livros o que o diamante é entre as pedras: o mais

32 Robert Boyle (1627-1691) foi um cientista anglo-irlandês, conhecido por enunciar a Lei de
Boyle-Mariotte, que descreve o comportamento dos gases em função da pressão e temperatura.
Incentivou financeiramente algumas sociedades missionárias, além de publicar obras de teologia,
tais como “An Essay upon the Style of the Holy Scriptures” (1663), de onde Synésio Lyra retirou
precioso e o mais brilhante, o mais apto para refletir luz e, todavia, o
mais forte para fazer impressões”.
E eu digo — fazendo minhas as palavras do Rev. Dr. Jerônimo
Gueiros — “A Bíblia é, entre os livros,

[SYNÉSIO LYRA – 49]


o que o sol é entre os astros. Para termos a evidência do brilho do sol,
basta que o contemplemos. Os astrônomos podem descrevê-lo em
pormenores: seus elementos constitutivos, seu núcleo, sua fotosfera, sua
camada de inversão, sua cromosfera e coroa, seu tamanho, sua
distância da Terra, suas protuberâncias e fáculas, seus movimentos, etc.
Mas o seu poder iluminante é para todos os que tiverem olhos e os
quiserem abrir. Não é necessário ser astrônomo para perceber a
influência iluminadora e calorífica do astro rei”.
Se Frei Damião prefere fechar os olhos ao esplendor do livro de
Deus ou contempla-lo com os óculos turvos da interesseira exegese
romana, lamento, mas isso é lá com S.S.ª...
Fique ele ensinando o que lhe ensina Roma, e eu, o que aprendo
no mais célebre dos documentos históricos da humanidade: A BÍBLIA,
a inspirada regra de fé e conduta que Deus ofereceu aos homens,
dizendo-lhes nela mesma: “Buscai diligentemente no livro do Senhor e
lede...” (Isaías 34:16).
E passe bem Frei Damião e não me queira mal, pois eu continuo a
prezá-lo, desejando-lhe, não vaias que forem merecidas, mas muita
felicidade na sua viagem e sincera fé em Cristo Jesus, o suficiente
Salvador, o único Mediador — o Caminho, Verdade e Vida: Deus que
tudo pode a nosso favor e Homem, que todo amor sentiu por nós, que
nos convida a si, assegurando-nos: “... e o que vem a mim não o lançarei
fora” (João 6:37).

SYNÉSIO LYRA

sua citação. No original: “... The Bible is indeed, amongst books, what the diamond is amongst
stones, the preciousest, and the sparklingst, the most apt to featter light, and yet the solidest, and
the most proper to make impressions”.
ANEXO

SYLVESTRE, Josué. Fatos e personagens de perseguições a


evangélicos – antes que as marcas apaguem. Curitiba: Editora
Mensagem, 2014, 344 p.

Excerto das páginas 63 a 65; 69.

CAPÍTULO 5
POLÊMICA DE FREI DAMIÃO COM O REV. SYNÉSIO
LYRA EM CAMPINA GRANDE-PB
A iniciativa do encontro de frei Damião com um pastor
protestante para uma discussão doutrinária nasceu na cidade de
Esperança, vizinha a Campina Grande, PB, no primeiro trimestre de
1935.
As provocações partiram do vigário da cidade e do próprio frei
Damião, que, no dia 22 de março, enfatizou o desafio, chamando para a
“arena” o missionário norte-americano Carleton F. Mathews 33. Ficou
acertado então o confronto para o domingo 29 daquele mês, às 17 horas,
no Paço Municipal.
Os pastores congregacionais da região, sobretudo o rev. João
Clímaco Ximenes34, titular da Igreja Evangélica Congregacional de
Campina Grande (a maior do Estado), depois de uma avaliação,
concluíram que o debatedor deveria ser um obreiro nacional, com pleno

33 Carleton F. Mathews (-1966), missionário americano formado pelo Instituto Bíblico Moody,
chegou em 1932 à Paraíba, enviado juntamente com sua esposa, Mary Adelaide (-1996), enviado
pela missão União Evangélica Sul Americana (UESA).
34João Clímaco Ximenes (1895-1963), pernambucano natural do distrito de Camela, município de
Sirinhaém, dedicou 33 anos e 6 meses ao ministério pastoral na Igreja Evangélica Congregacional
de Campina Grande, no Estado da Paraíba.
domínio do idioma. O escolhido foi o rev. Israel Gueiros 35,
presbiteriano, que veio do Recife para a polêmica marcada para o início
de abril.
Quando chegaram a Esperança, os pastores constataram que o
clima era de guerra. Milhares de pessoas, da cidade de Esperança e de
outros municípios, fanáticos por Damião, estavam lá para apoiar o frade,
vaiar e certamente espancar os ministros evangélicos.
Era fácil verificar também que o reduzido contingente policial
não seria capaz de assegurar plenas garantias aos pastores. Responsáveis
e prudentes, os ministros comunicaram ao pároco que não iriam
comparecer ao encontro. Este, conhecido perseguidor, passou a
desqualificar os líderes evangélicos espalhando que eles "ficaram com
medo da barba de frei Damião e correram do debate.”
A Imprensa, jornal católico de João Pessoa, divulgou a versão
na sua edição de 6 de abril de 1935, comentando inclusive que pedir
garantias e a presença de autoridades era uma "corriqueira evasiva dos
senhores protestantes quando se acham em aperturas.” E mais adiante:
“Nada faltou. Até o povo, as 15 mil almas que estavam em frente ao
prédio da prefeitura prometeram ao Revmo. frei Damião toda a ordem
possível. Coibiram até as mofas, caso os senhores pastores perdessem a
discussão (o que era certíssimo).” E ainda: “Fugiram vergonhosamente
sob o balofo pretexto de que a ordem não seria mantida.”
(...)

35Israel Furtado Gueiros (1907-1997), foi pastor da 1ª Igreja Presbiteriana do Recife (1932-1984),
era sobrinho do Rev. Jerônimo Gueiros. Em 1956, liderou uma campanha contra o Seminário do
Norte sob a acusação de modernismo. Gueiros fundou outro seminário e foi deposto pelo
Presbitério de Pernambuco em julho de 1956. Serviu também como Presidente da CIEF em 1958,
por ocasião da II Assembleia Geral da CIEF, no Rio de Janeiro, e Presidente da ALADIC em 1960,
por ocasião do V Congresso da ALADIC, em Buenos Aires, Argentina. Em 1962 foi eleito Vice-
Presidente do CIIC para o Norte do Brasil, por ocasião do V Congresso Mundial do CIIC, em
Amsterdam, Holanda; e Primeiro-Vice-Presidente do CIIC, por ocasião do VIII Congresso Mundial
do CIIC, em Cape May, Nova Jersey, EUA, em 1968. Ocupou a Presidência do CIIC em 1975,
quando o Presidente, Dr. CARL McIntire, foi deportado do Quênia, País Africano em cuja capital,
Nairóbi, ocorreu o IX Congresso Mundial do CIIC, ocasião em que foi eleito Vice-Presidente da
Associação Internacional Presbiteriana e Reformada.
O CONFRONTO EM CAMPINA GRANDE

Tendo chegado ao Brasil em 1931, frei Damião envolveu-se


rapidamente de corpo e alma em peregrinações pelo interior nordestino,
iniciando, também, junto com suas pregações, a outra “missão especial’’
da sua vida: perseguir os evangélicos.
Dava continuidade, com maior ênfase ainda, ao exemplo de
outro capuchinho italiano, seu antecedente no Nordeste, frei Celestino
de Pedavoli, responsável por sucessivos absurdos contra os evangélicos
no Estado de Pernambuco, nos últimos anos do século XIX e início do
século XX, conforme relatado no capítulo 2.
Em poucos anos, a triste fama de Damião permeou o reduzido
universo evangélico nordestino. Sua sanha fazia escola entre muitos
clérigos da região. Até que, em 1934, começou a surgir a oportunidade
de um confronto de ideias entre o pertinaz perseguidor e um ministro
evangélico. Damião fazia desafios por onde passava, chamando um
pastor para debater com ele. Segundo relato do pesquisador rev. Júlio
Leitão Neto, o contendor protestante seria o rev. João Clímaco Ximenes
(pastor da IEC de Campina Grande, de 1926 a 1960).
Com o decorrer dos preparativos e articulações para o
confronto, acertou-se entre os pastores da denominação que seria mais
apropriado entregar a responsabilidade ao rev. Synésio Lyra, que já
havia alcançado maior renome na região pelo fato de pastorear uma
igreja da tradição da Igreja Evangélica Pernambucana, a mãe de todas as
comunidades congregacionais do Nordeste.
Assim, efetivaram-se as preliminares. A cidade seria Campina
Grande, o local, um cinema existente na época — o Rink Park —, e os
mediadores do enfrentamento, o chefe de Polícia do Estado, Vergniaud
Wanderley; o advogado radicado em Campina Grande, Hortênsio de
Souza Ribeiro e o jornalista da capital do Estado, Orris Barbosa. O dia,
23 de abril de 1935.
(...)
A INTENSA REPERCUSSÃO
Após o debate ocorrido na cidade de Campina Grande, a
polêmica entre o rev. Synésio Lyra e frei Damião de Bozzano continuou
durante algum tempo, através de artigos de ataque e defesa, assinados
pelos dois e publicados pelo Diário da Manhã, da capital pernambucana,
cidade onde ambos residiam.
A discussão pela imprensa ampliou a repercussão do fato e
atraiu a atenção e o envolvimento de padres, pastores, homens públicos,
intelectuais e pessoas do povo que não haviam tido a oportunidade de
assistir ao encontro dos dois líderes religiosos ocorrido no Rink Park no
dia 23 de abril de 1935. Jornais do Recife, de João Pessoa, de Natal,
abriram espaço para que defensores das ideias expostas pelos polemistas
emitissem também suas opiniões. À imprensa secular, juntaram-se,
evidentemente, periódicos evangélicos e católicos.
Encarregavam-se, assim, de aprofundar a repercussão de um
acontecimento notável ocorrido numa época em que não havia
emissoras de rádio em Campina Grande e muito menos televisão, que só
chegaria ao Brasil e à Paraíba duas décadas depois.
(...)