Вы находитесь на странице: 1из 27

Edição

Especial
VEJA
Outubro de
1929
• ampliar
capa

Irrefreável onda de vendas derruba o preço de


ações, causa pânico na Bolsa de Nova York e
leva milionários à falência. Para onde vai a
economia da mais rica nação?

ENTREVISTA
Herbert Hoover, o 'senhor prosperidade'
Em meio à frenética agitação dos mercados, o
presidente dos EUA garante que a economia ainda
segue em ritmo acelerado.

EM IMAGENS
O fim da década dourada dos americanos
Na era apelidada de 'roaring twenties', americanos
navegaram em maré de enorme euforia, otimismo e
progresso econômico.

A RESPOSTA DOS MAGNATAS O ORÁCULO DA TEMPESTADE O BRASIL É A BOLA DA VEZ?


Rockefeller e Billy Durant compraram Quem é Roger Babson, o analista que Crise americana aprofunda queda do
ações na crise previu o crash setor cafeeiro
INTERNACIONAL POLÍCIA ESPORTES
O recém-criado estado 'Scarface Al' passa Preparativos para a
do Vaticano 'férias' na cadeia Copa do Mundo
Com poderes ilimitados O mafioso de Chicago Rivalidade de europeus
e indenização em caixa, conta com regalias e sul-americanos causa
Pio XI molda estrutura jamais vistas dentro da indefinição para o novo
de seu país. cela, na Filadélfia. certame.

LITERATURA ARTE PONTO DE VISTA


Guerra em romance de Um museu de arte O indiano Gandhi
Hemingway moderna em NY procura a verdade
Americano brilha em A MoMA deve abrir suas O líder espiritual e
Farewell to Arms, portas na primeira político indiano lança
romance inspirado em semana de novembro uma autobiografia. Leia
experiência militar. (apesar da crise). trecho da obra.

BRASIL AVIAÇÃO ENTRETENIMENTO


Chapa Getúlio e João Graf Zeppelin após a Cinema e televisão
Pessoa em 30 volta ao mundo agora em cores
Articulada pela Aliança Companhia alemã terá Salas americanas
Liberal, oposição linhas comerciais com exibem o primeiro filme
escolhe nomes à fabuloso dirigível feito na totalmente colorido e
sucessão presidencial. Alemanha. falado, um sucesso.

GENTE HOLOFOTE DATAS


Groucho Marx Enzo Ferrari Rockefeller Center
Rivera e Frida Kahlo Henry Ford Norman Pritchard
Jimmy Doolittle Giuseppe Martinelli Convenção de
Francisco Alves Joe Kennedy Genebra
NYRBA Lines
EXPEDIENTE: EDIÇÃO: Giancarlo Lepiani | REPORTAGENS: Celso de Campos Jr. | ARTE: Alexandre Hoshino e André Fuentes | VÍDEOS: Carlos Eduardo Jorge
IMAGEM DA CAPA: 'Sold Out', ilustração do cartunista Rollin Kirby, ganhador de três prêmios Pulitzer e colaborador dos jornais 'New York Mail' e 'New York Post'
Uma irrefreável onda de vendas derruba o preço das ações,

causa pânico na Bolsa de Nova York e leva milionários à bancarrota.

Para onde vai a economia do país mais rico do mundo?

Um terremoto em Manhattan: investidores e curiosos amontoados diante da Bolsa


de Valores de Nova York na 'quinta negra'

Um alvoroço incomum nos arredores da Bolsa de Valores de Nova York chamou a atenção do comissário
de polícia da cidade, Grover Whalen, na última quinta-feira, dia 24. Por volta das 11 horas, um rugido cavernoso
começou a escapar do edifício. Alguns minutos depois, já não era possível identificar se o bramido vinha de dentro
ou de fora da Bolsa; uma multidão estrepitosa tomara as cercanias de Wall Street e Broad Street, como formigas
rodeando um torrão de açúcar esquecido na pia da cozinha. Alarmado, o comissário logo enviou um destacamento
especial para a região. A turba, contudo, não representava uma ameaça à ordem pública, como o oficial perceberia
mais tarde. Com olhares horrorizados e incrédulos, os nova-iorquinos, espremidos uns aos outros, estavam inertes.
Eles apenas esperavam, não se sabe ao certo quem ou o quê. Era o pânico.
Dentro do prédio, a consternação era semelhante, e estava ainda mais evidente na agitada face de corretores
e operadores, protagonistas e testemunhas do acontecimento que pode mudar os rumos da economia mundial.
Símbolo maior da pujança econômica dos Estados Unidos, o mercado de ações, que se tornou verdadeira mania
nacional nesta década gloriosa para os americanos, via seu baluarte, a rica e poderosa Bolsa de Nova York,
despedaçar-se em poucos minutos naquela que já entrou para os anais como a "quinta-feira negra". Uma onda
súbita e sem precedentes de vendas tomou de assalto o pregão nova-iorquino. Ações outrora valorizadas
simplesmente não encontravam novos
compradores, nem mesmo por verdadeiras
ninharias. Os preços dos papéis, fossem eles da
United States Steel ou da American Telephone
and Telegraph, caíam vertiginosamente,
arrastando com eles as economias, esperanças
e sonhos de milhares de americanos levados à
bancarrota instantânea.
Desde então, Wall Street presenciou
outras duas jornadas calamitosas – em 28 e 29
de outubro, "segunda-feira negra" e "terça-feira
negra", este último o dia mais nefasto de toda a Vendendo a qualquer preço: operadores tentam se livrar
história do mercado mundial em volume de
dos papéis por ninharias
vendas e queda de preços –, que fornecem a
incômoda impressão de que a incerteza e o temor vieram para ficar. As palavras otimistas dos políticos, banqueiros
e magnatas, que deram um alento aos investidores após o crash do dia 24, já não surtem mais tanto efeito, ainda
que insistam em anunciar uma suposta solidez da economia. Especialistas concordam que os últimos dias de
outubro criarão seqüelas não só no mercado financeiro e na economia americana, mas também, por conseqüência
direta, em todo o mundo. A real extensão do estrago, porém, só será dimensionada quando a poeira baixar.
Ninguém, por enquanto, ousa dizer quando isso poderá acontecer.

Nos últimos anos, o fenomenal desempenho das ações parecia desafiar o adágio de que tudo que sobe deve
descer. Há pouco mais de um mês, em 3 de setembro, o índice de ações industriais publicados pelo diário The New
York Times atingia seu ápice histórico, com 452 pontos. Em 1925, o mesmo indicador registrava 159 tentos. A
facilidade da compra de ações seduziu milhares de investidores, que colocavam todo o dinheiro que tinham, e
especialmente o que não tinham, em pedaços de papéis certificados. Comprar ações "na margem" – pagando uma
pequeníssima parcela do valor e tomando o restante emprestado do corretor ou do banco – era, até dias atrás,
prática absolutamente comum e aparentemente segura. Afinal, como as ações não paravam de se valorizar, bastava
vendê-las, quitar o débito com o credor e embolsar o lucro. A euforia era infinita.
Por trás dela, entretanto, escondia-se uma realidade para a qual os otimistas faziam vista grossa. Enquanto
os preços das ações subiam, disparavam também os empréstimos dos corretores – no final do verão americano, o
montante chegara a sete bilhões de dólares –, tornando a especulação a grande alavanca desse crescimento. Não
havia, assim, segurança ou liquidez nessa enxurrada de capital que desembarcava em Nova York. Mas a aparência
firme do mercado fazia dissipar qualquer preocupação com os empréstimos, e a especulação encontrava campo
aberto e convidativo para se alastrar e aumentar ainda mais o valor das ações.
Algumas vozes já vinham predizendo, nos últimos
População alarmada: nos arredores de Wall meses, um estouro da bolha especulativa que alimentava os
Street, expectativa pela recuperação estratosféricos índices da Bolsa de Nova York. E não havia
nesses oráculos nenhum tom sobrenatural – apenas o escrutínio dos fatos e as lições de quebras passadas. Contudo,
alertar para essa situação significava ser tachado de destrutivista ou anti-patriota. O teórico Roger Babson, que, no
início de setembro, cunhou seu agora célebre vaticínio – "mais cedo ou mais tarde, o crash virá, e poderá ser
tremendo" –, foi ironizado, desacreditado e assacado pelos guardiões de Wall Street. Entretanto, uma análise
minuciosa mostra que, desde então, no restante dos meses de setembro e outubro, o mercado já vinha se mostrando
demasiado irregular, com ligeira curva decrescente, apesar de o entusiasmo com o bull market (o mercado altista)
ainda caracterizar a Bolsa de Nova York.
A situação ganhava contornos mais alarmantes e dramáticos quando se notava que também outros
indicadores econômicos nos Estados Unidos vinham apresentando declínio acentuado neste ano. Os índices da
produção industrial e fabril estavam em queda desde junho, bem como a produção de aço. A construção de casas
seguia o ritmo decadente dos últimos anos. Ainda assim, o banqueiro Charles E. Mitchell, presidente da diretoria
do National City Bank, garantiu numa visita à Alemanha, no último dia 15, que nada seria capaz de deter o
vigoroso movimento ascendente. "Os mercados em geral estão em uma condição salutar. Os valores têm uma base
sólida na prosperidade geral do país", festejava. Já o professor Irving Fisher, catedrático da Universidade de Yale e
respeitadíssimo economista, foi mais direto. "O preço das ações alcançou o que parece ser um nível
permanentemente elevado. Espero ver, dentro de poucos meses, o mercado de valores bem mais alto do que está
hoje." Como se constataria em poucos dias, não apenas o provérbio sobre subir e descer se fez valer, ainda que de
forma tardia. Outro ditado também mostrou sua força: quanto maior a altura, maior a queda.

As primeiras horas do pregão de 24 de outubro em Wall Street passarão às páginas da história como
responsáveis por abrir o alçapão em que sucumbiu a Bolsa de Nova York neste fim de década. Não se chegou, até
agora, a uma explicação plausível sobre o frenesi que levou os investidores a se desfazerem, literalmente a
qualquer custo, de suas antes preciosas ações naquela quinta-feira. Mas desde o início da semana as vendas já se
mostravam significativas, e os índices desciam escadaria abaixo. Com o grande volume de negócios,
os tickers instalados nas corretoras ao redor do país – máquinas que imprimem em fita as cotações dos papéis
selecionados – não davam conta de atualizar as cotações em tempo real. Ainda na segunda-feira, o ticker só
terminou de trazer o péssimo resultado daquele dia uma hora e quarenta minutos após o fechamento. Quando os
investidores percebiam que poderiam estar arruinados, já era tarde demais para
tomar qualquer providência. Mesmo assim, 6.091.870 títulos mudaram de mãos,
no que se tornou o terceiro maior volume de negócios da história da Bolsa.
Na quarta, véspera do primeiro colapso, depois de um começo tranqüilo,
vendas massivas de ações de acessórios de automóveis foram registradas; pouco
depois, toda a lista entrava na dança. Apenas na última hora do pregão, 2.600.000
ações foram vendidas. A média industrial do Times despencou de 415 para 384, o
que representou, na prática, a anulação de todo lucro registrado desde o fim de
junho. Para piorar, a queda levou à convocação de um sem-número de
investidores para pagamento do aumento da margem. Muitos não tinham
nenhuma economia; todo o dinheiro estava aplicado nas ações. Não havia outra
alternativa, então, senão se desfazer dos papéis para recuperar o investimento –
ou o que restava dele. A essa altura, milhares de pessoas já haviam decidido O 'ticker' pifou: cotações atrasadas
abandonar o barco enquanto, imaginavam, ainda havia uma saída viável. Ela não
existia.
Foi quando veio, finalmente, a quinta-feira negra. O volume de vendas no início do dia foi
inacreditavelmente grande, o que fez os preços cederem com notável rapidez. Novamente, o ticker atrasava,
retardando a revelação da catástrofe iminente. Dominadas pelo medo, mais e mais pessoas decidiam vender suas
ações. As que não conseguiram atender às chamadas para o pagamento do aumento da margem estavam
simplesmente liquidadas. Por volta das 11h30, os reflexos do pânico já haviam se alastrado: onze conhecidos
especuladores haviam cometido suicídio. As bolsas de Chicago e Buffalo fecharam. O clima dentro da Bolsa de
Nova York era desesperador: pouco depois do meio-dia, funcionários cerraram a galeria dos visitantes para que
nenhum curioso testemunhasse as cenas de agonia que se descortinavam no salão abaixo.
Ao mesmo tempo, os banqueiros
convocavam uma força-tarefa emergencial
para agir de imediato. Em uma reunião no
escritório do J. P. Morgan, na mesma Wall
Street, diversos mandarins do dinheiro –
entre eles Charles E. Mitchell, do National
City Bank, Albert H. Wiggin, do Chase
National Bank, e Thomas W. Lamont, do
Morgan – decidiram despejar caminhões de
verdinhas na Bolsa para escorar o mercado.
Finda a reunião, Lamont recebeu os
repórteres para uma série de declarações
apaziguadoras. "Houve uma pequena
Efeito devastador: fila para saque em um banco do estado de Massachusetts aflição na Bolsa de Valores, devido a um
requisito técnico do mercado. Mas as coisas
são suscetíveis de melhorar", garantiu, impávido, o célebre banqueiro. Pouco tempo depois, Richard Whitney,
chefão da Richard Whitney & Co., apareceu no salão da Bolsa e ofereceu 205 dólares por 10.000 ações da United
States Steel, cotadas naquele momento a míseros 190. Whitney fez encomendas semelhantes de diversas outras
empresas. Em um piscar de olhos, a recuperação desabrochava.
Boa parte do fervor das vendas era determinado por investidores que queriam apenas parar de perder, e
estavam dispostos a se desfazer de suas ações por qualquer valor. Com isso, os papéis desprezados retornavam ao
mercado e faziam os preços caírem mais ainda. O dinheiro dos banqueiros e a
nova alta interromperam essa reação em cadeia, substituindo o medo de perder
pela vontade de ganhar. Os preços então voltaram a subir, e o balanço do dia
registrou uma recuperação notável – a média industrial do Timesfechou apenas 12
pontos abaixo do dia anterior. O que fez o dia 24 de outubro tão significativo – e
trágico – foi o volume total de vendas: 12.894.650 transações, recorde absoluto
da história de Wall Street. Nessa dança, para inúmeros americanos já não
adiantava mais que o mercado tivesse se recuperado: ao vender suas ações na
baixa, estavam quebrados

Sexta-feira e sábado, 25 e 26 de outubro, foram dias de relativa calmaria


nos mercados. Os preços se mantiveram firmes. Corretoras seguiam trabalhando O banqueiro Lamont: 'pequena
diuturnamente para colocar os negócios em dia. Representantes das 35 maiores aflição'
firmas do mercado tiveram uma reunião nos escritórios da Hornblower and Weeks na sexta e emitiram um
comunicado para a imprensa. "O mercado está fundamentalmente sólido e tecnicamente em melhores condições
do que estivera durante meses." Uma mensagem da corretora anfitriã completou o panorama animador: "A
começar com as transações de hoje, o mercado deve iniciar o assentamento das fundações para o progresso
construtivo que, acreditamos, caracterizará 1930." Como essa, houve no fim de semana uma série de análises e
perspectivas favoráveis ao mercado altista. Mas a chegada da segunda-feira trouxe uma ducha de água gelada a
todas elas, e solidificou a percepção de que o bear market, o tão temido mercado baixista, era inevitável e
irreversível.
O volume de vendas do dia 28 foi bem menor que o da quinta-feira: cerca de 9.250.000 ações. O grande
problema foi o tombo: as médias industriais do Times despencaram 49 pontos. Os banqueiros reuniram-se outra
vez no escritório da J. P. Morgan, desta vez no fim da tarde, num encontro que durou duas horas e que, para
desespero dos corretores, não culminou em nenhuma ação de resgate ou salvamento. Ao contrário: o resumo da
reunião fornecido à imprensa relatava que os abastados executivos decidiram não agir, porque não estava "dentro
da finalidade dos banqueiros manter qualquer nível determinado de preços ou proteger o lucro de quem quer que
fosse". Os magnatas estavam preocupados apenas em que não existissem "vácuos" – ações sem compradores –,
para que assim o mercado mantivesse sua ordem. Já estava claro, a essa altura, que a situação já fugia a qualquer
controle. Não havia mais promessas a serem feitas. A ruína se avizinhava.
Toda a tragédia, assim, se convergiu para a terça-feira negra, 29 de outubro de 1929, data devastadora para
a Bolsa de Nova York e todos os mercados mundiais. Logo no início da manhã, uma enxurrada de papéis foi
colocada à venda – e em muitos casos, lotes e lotes não encontraram compradores, pesadelo mais temido pelos
banqueiros. As ações da White Sewing Machine Company, que nos meses anteriores chegaram a 48 e fecharam na
véspera a 11, foram negociadas a 1 dólar. A United States Steel, socorrida por Richard Whitney na quinta-feira
anterior a 205 a ação, fechou em 174. Na média, os piores desempenhos da jornada foram os dos papéis dos
consórcios de investimentos, cuja trajetória nos últimos anos era de dar inveja a qualquer indústria. A Goldman
Sachs, que terminara a segunda-feira cotada a 60, fechou a 35. Seu fundo de investimento Blue Ridge, que no
começo de setembro era negociado por 24, prostrou-se a ínfimos 3 dólares a ação no fechamento da terça negra.

Mais uma vez, os banqueiros


acharam por bem não enviar missões de
resgate à Bolsa. Pior: correram boatos de
que os magnatas estavam na verdade
vendendo suas ações – o que foi
desmentido de forma oficial por Thomas W.
Lamont, da J. P. Morgan. Mesmo assim, o
prestígio dos bancos, tão em alta na quinta-
feira, havia desmoronado junto com as
ações. A população contava novamente
com eles para a salvaguarda financeira do
mercado, mas a decisão já estava tomada.
Naquele dia, os piores pesadelos se
Turbulência de outubro: apesar dos discursos otimistas, reuniram em um pregão: o volume de
nervosismo persiste em NY vendas foi superior ao da quinta-feira-
negra, com 16.410.030 ações trocando de dono, sem contar aquelas que não conseguiram ser vendidas mesmo com
preços no atoleiro. As médias industriais do Times caíram quase nos mesmos patamares da véspera: 43 pontos, o
que, na prática, anulava o lucro dos doze formidáveis meses precedentes.
Depois dessa terça-feira, entre mortos e feridos, ninguém se salvou. Se na primeira semana os cidadãos
comuns foram as maiores vítimas da carnificina acionária, na seguinte, pelo tamanho dos lotes colocados à venda,
pôde-se perceber que também os muito ricos perderam dinheiro ao se livrarem de seus papéis a preço de banana.
Atordoados, especuladores à beira da bancarrota vagavam pela metrópole. O clima era soturno e melancólico,
como a ressaca de uma inebriante celebração que acabara subitamente. A polícia de Nova York resgatou o corpo de
um agente comercial das águas do rio Hudson. Além da roupa do corpo, seus únicos pertences eram 9,04 dólares e
alguns avisos para pagamento do aumento da margem.

Em uma ironia dos infindáveis mistérios do mercado financeiro, as ações registraram surpreendentes
ganhos no dia 30, com as médias industriais do New York Times tomando o elevador e subindo 31 pontos – e sem
nenhum apoio organizado para tanto. Talvez o discurso de tranqüilização, repetido em coro por todos os mandas-
chuvas, tivesse surtido efeito. O subsecretário de Comércio dos Estados Unidos, Julius Klein, foi ao rádio na noite
do dia 29 para lembrar à população que o presidente Herbert Hoover dissera que os negócios elementares do país
ainda resistiam. "O ponto principal que eu quero destacar é a solidez fundamental da maior parte das atividades
econômicas", defendeu. O homem mais rico do mundo, John D. Rockefeller, quebrou um silêncio que já durava
várias décadas e reapareceu em público para dizer que estava comprando ações (leia reportagem nesta
edição). No último dia do mês, em pregão de apenas três horas, nova alta permitiu um respiro ao mercado.
O nervosismo, porém, ainda é latente em Wall Street e nas outras Bolsas ao redor do planeta. Já se provou
nos últimos dias que a vontade do mercado é incontrolável, e seu furor, devastador. Os escritórios de corretagem já
anunciaram que não darão folga aos funcionários no primeiro fim de semana de novembro, quando a Bolsa,
mesmo com o mercado suspenso, abrirá seus salões para a conclusão de negociações e correção de erros gerados
pela turbulência do crepúsculo de outubro. A gravidade da situação pode ser percebida até mesmo na curiosa e
atabalhoada tentativa do jornalista Arthur Brisbane, editor da cadeia de jornais Hearst, de levantar o moral dos
americanos. "Para se consolar, se você perdeu, pense na gente que vive perto do monte Pelée, que recebeu ordem
para abandonar suas casas", escreveu o colunista, citando o furioso vulcão que já matou 30.000 pessoas no Caribe
desde o começo do século. Não seriam poucos os investidores falidos, de ventas ao chão, que prefeririam estar na
calorosa vizinhança do vulcão da Martinica – mas ainda com dinheiro para comer um cachorro quente com Coca-
Cola.

Em meio à frenética agitação dos mercados, o presidente


americano garante que a economia do país segue em ritmo acelerado e
recusa-se a falar em recessão: "Não tenho medo do futuro"

O cenário mudou: Hoover, que assumiu em meio à calmaria, agora tem de lidar com a tempestade nos mercados

Quando assumiu o posto de comandante-em-chefe dos Estados Unidos, no início deste ano, o engenheiro
de mineração Herbert Hoover previa céu de brigadeiro nos próximos quatro anos. A idéia do triunfo final sobre a
pobreza e a promessa de um carro em cada garagem eram parte do idílico imaginário criado pela campanha
republicana, que ajudou o "Senhor Prosperidade" a chegar à Casa Branca com facilidade (Hoover deu uma surra
no democrata Al Smith na eleição do ano passado). Mas a chuva torrencial que ensopou os convidados de seu
discurso de posse, no dia 4 de março, mostrou-se apenas a primeira das tempestades que o presidente enfrentaria
em seu mandato. Seus radares meteorológicos falharam em captar os índices descendentes da atividade industrial
no país, que chegam a níveis alarmantes, bem como o aumento do desemprego. E agora, nos últimos dias de
outubro, com a quebra da Bolsa de Nova York, a tormenta pode ter tomado proporções colossais, de acordo com as
previsões de alguns especialistas. Mas para Hoover, 55 anos, natural de West Branch, Iowa, não há o que temer no
campo econômico. Na tentativa de minimizar a importância da crise financeira, o presidente fez um curto e rápido
pronunciamento sobre o crash do mercado de ações, assegurando aos americanos a solidez da economia do país –
apesar dos indicadores que mostram o contrário. Nesta entrevista a VEJA, o presidente Hoover volta a defender o
não-intervencionismo estatal nos mercados e diz que sua proposta de redução de impostos federais, anunciada três
dias antes da quinta-feira negra, segue fazendo parte de seus planos.
***
Após o crash da Bolsa de Nova York, um desespero generalizado tomou conta da população americana.
Alguns especialistas já falam em recessão. Qual a real situação da economia dos EUA neste momento?
O negócio fundamental do país, ou seja, a produção e distribuição de mercadorias, encontra-se em situação
bastante sólida e próspera. A maior prova disso é o fato de que, apesar de produção e consumo estarem em nível
muito alto, a média dos preços dessas mercadorias, como um todo, não apresentou aumento nos últimos 12 meses,
e não houve aumento considerável nas ações de bens manufaturados. Por isso, não houve especulação em
mercadorias. E temos visto uma tendência para o aumento de salários, bem como da produção por trabalhador,
indicando uma situação muito saudável. As indústrias de material de construção vêm sendo um tanto afetadas
pelas altas taxas de juros produzidas pela especulação em Nova York, e houve certo declínio sazonal em duas ou
três outras indústrias, mas esses movimentos são de caráter secundário quando avaliados à luz da situação geral.
A baixa súbita e colossal no preço das ações levou à bancarrota milhares de americanos. Para muitos
economistas, agora parece claro que a especulação desenfreada foi a grande responsável pelo colapso. Como o
governo reagirá a isso? A administração federal pode intervir no mercado financeiro para evitar novas
surpresas?
Não. O maior propósito de nosso pensamento econômico é instituir estabilidade e segurança para os negócios e
empregos, e, assim, afastar ainda mais a pobreza de nossas fronteiras. Nosso povo desenvolveu nos últimos anos
uma recém-descoberta capacidade de cooperação entre si para alcançar propósitos maiores no bem-estar público. É
um avanço em direção à maior noção de autogoverno. O progresso nasce da cooperação na comunidade, e não de
restrições governamentais. O governo deve dar assistência e encorajar esses
movimentos de auto-ajuda coletiva, cooperando com eles. Pela cooperação, os
negócios avançaram muito em serviços, em estabilidade, na regularidade do
emprego e na correção dos próprios abusos. É isso que deve acontecer também
agora.
Três dias antes da turbulência em Wall Street, o senhor acenou com a
real possibilidade de um corte nos impostos, declarando que esperava um
superávit no orçamento dos próximos dois anos. Andrew Mellon, seu Secretário
do Tesouro, garantiu que a redução nos impostos estimularia os negócios e
resultaria em mais ganhos no ano subseqüente. Esse plano será mantido?
Estamos estudando com atenção a possibilidade de redução de impostos. Todos
esperamos que a situação se encaminhe para um superávit seguro, a fim de que o
corte tarifário possa ser realizado, mas precisamos determinar algumas coisas
antes que possa haver qualquer conclusão sobre esse assunto. Primeiro,
precisamos saber qual será o efeito da legislação dos últimos doze meses, que
'O progresso nasce
aumentou os gastos no presente ano fiscal para muito além do orçamento original. da cooperação
O novo e ampliado programa para armamentos navais, o aumento nos gastos com na comunidade, e
a aviação do Exército e da Marinha, a reconstrução das guarnições do Exército e não de restrições governamentais'
o aumento nos gastos com os serviços oferecidos aos veteranos, tudo isso
interferiu desde que o orçamento passou no Congresso. Segundo, precisamos saber em quanto conseguimos
reduzir os gastos do governo em outras direções, para compensar parcialmente esses aumentos que apareceram nos
últimos 12 meses.

O senhor conseguirá fazer essa conta fechar?

Sabemos que os recém-aprovados gastos para o ano fiscal excedem o orçamento original em 200 milhões de
dólares, e muitas das leis que ampliam os gastos não entraram ainda em vigor. A conclusão do orçamento para o
ano começando em 1º de julho de 1930 ajudará a determinar a medida desse aumento de gastos. Também
precisamos saber quanto esse aumento de receita se deve às atividades temporárias de venda de ações. No caso da
situação se encaminhar da melhor forma possível, como espero que aconteça, trata-se de um plano para ser
executado o quanto antes. O corte de impostos promove crescimento do consumo e de serviços, e movimentará a
economia.
Seu discurso de calmaria e tranqüilidade não é compartilhado por alguns analistas, que indicam o
começo de uma recessão nos EUA. O que leva o senhor a ver a situação com olhos tão otimistas?

Fazendo um levantamento da situação do nosso país tanto interna quanto externamente, descobrimos muitas
satisfações e alguns motivos para preocupação. Emergimos das perdas da Grande Guerra e da reconstrução que se
seguiu com maior vigor e força. Nossa terra é uma terra rica em recursos, estimulante em sua gloriosa beleza,
cheia de milhões de lares felizes, abençoada com conforto e oportunidade. Em nenhuma nação as instituições do
progresso estão tão avançadas. Em nenhuma nação os frutos da conquista estão tão seguros. Em nenhuma nação o
governo merece mais respeito. Nenhum país é mais amado por seu povo. Tenho uma fé permanente na capacidade,
integridade e determinação desse povo. Na visão geral, atingimos um nível mais alto de conforto e segurança do
que jamais existiu na história do mundo. Não tenho medo quanto ao futuro do país. Ele está radiante de esperança.

Campeões do capitalismo se arriscam na bolsa e tentam


devolver otimismo ao mercado de ações. Rockefeller, o homem mais
rico de todos os tempos, promete continuar comprando

O pânico dos operadores em meio à queda: à espera de sinais positivos dos grandes magnatas americanos

Na contramão do mercado e até do bom-senso, alguns figurões que já


inscreveram seu nome na história do capitalismo americano entraram na linha
de frente contra a crise para tentar chacoalhar a economia nacional.
Declarações, investimentos, promoções: vale tudo no apoio organizado para a
reestruturação financeira da ainda baratinada Wall Street. Como o presidente
americano, Herbert Hoover, ainda se mantém parcimonioso em seus
comentários sobre o mercado de ações, ressaltando apenas o que chama de
"solidez econômica", a Bolsa encontrou dois porta-vozes de peso nos últimos
dias.
O primeiro deles, o magnata filantropo John D. Rockefeller, 90 anos,
da Standard Oil, saiu de um silêncio de décadas ao emitir uma reconfortante
John D. Rockefeller: investimento
sólido
mensagem diretamente de sua majestosa propriedade de Pocantico Hills, em Nova York. "Como acreditamos que
as condições fundamentais do país são sólidas e que não há nada na situação financeira que garanta seqüência da
queda de preços verificada nas bolsas na semana passada, meu filho e eu estamos há alguns dias adquirindo ações
ordinárias de firmas sólidas", disse o homem mais rico do mundo em todos os tempos. "Continuamos e
continuaremos nossas compras em quantias substanciais em níveis que, acreditamos, representem investimentos
sólidos", avisou o primeiro bilionário americano. A declaração levou o famoso comediante Eddie Cantor,
apelidado "olhos de banjo", a retrucar, de bate-pronto, apresentando-se como "cômico, escritor, estatístico e
vítima": "É claro, quem mais tem dinheiro neste país?"
A dupla de defesa convocada para transmitir calma nestes momentos iniciais é completada pelo admirado
William "Billy" Durant, de 67 anos, fundador da General Motors. O visionário e criativo homem de negócios,
desde 1920 afastado do comando da montadora, já anunciou que pretende investir em ações neste momento de
baixa. O agora proprietário da Durant Motor Co. tentará usar seu prestígio - e especialmente sua fortuna, estimada
em 120 milhões de dólares - para levantar o mercado. Se quiser, Durant poderá começar o resgate pelos papéis de
sua antiga companhia: cotados a 73 dólares em setembro, fecharam o mês de outubro a 36 dólares. Curiosamente,
Alfred P. Sloan Jr., o atual presidente da GM Corporation, é outro que repete que os negócios estão "sólidos". A
entrada de Durant nesse front, porém, é mais emocional do que racional.
O veterano, para quem grandes
fortunas parecem ser feitas para ser
perdidas, não esconde um trágico encanto
pelos mistérios do mercado financeiro. Sua
experiência como investidor na Bolsa não
lhe traz boas recordações. Em 1918,
tentando alavancar as ações da General
Motors em um momento de crise
automobilística, Durant perdeu 12 milhões
de dólares do próprio bolso. Desta vez, a
aposta deve ser ainda maior.

Billy Durant: um fascínio incurável pelos mistérios da Bolsa de Valores


Antes atacado e ridicularizado por Wall Street, o teórico
Roger Babson, que anunciou com dois meses de antecedência a
ocorrência do crash, é o novo guru financeiro americano

Agora eles acreditam na quebra: investidor falido coloca seu Cadillac Fleetwood à venda por 100 dólares em Wall Street

Via de regra, depois de tragédias ou catástrofes, surgem finórios que garantem ter anunciado a calamidade
com semanas ou até meses de antecedência – são os chamados profetas do acontecido. Estes, porém, não têm
encontrando muito espaço para apregoar seus supostos feitos no caso do crash da Bolsa de Nova York. Tudo
porque, há pouco menos de dois meses, diante de uma platéia de peso, rodeado por lentes e microfones, um
homem já havia monopolizado as atenções ao antecipar, com todas as letras, o colapso que se avizinhava de Wall
Street. O teórico econômico Roger Babson, na ocasião ridicularizado pela maioria de seus pares, é agora,
consumado o sinistro, visto e ouvido como autoridade inconteste pela
população americana, que lamenta apenas não ter dado mais atenção quando
ele, em 5 de setembro, disparou sua previsão: "Mais cedo ou mais tarde,
o crash virá, e poderá ser tremendo".
Era a Conferência Anual das Empresas Nacionais, em pleno mês em
que as médias do jornal The New York Times disparavam aos céus. O discurso
sombrio de Babson teve, a bem da verdade, uma pequena reação no mercado
– os índices do Times caíram 10 pontos e o volume de vendas foi alto
(5.565.280 ações negociadas). O solavanco daquela quinta-feira foi apelidado
de "Baixa de Babson". O mercado, contudo, recuperou-se na sexta e no
sábado, e a patrulha de Wall Street, triunfante, tratou de rebater e até ironizar
as palavras do teórico. A corretora Hornblower and Weeks emitiu a seguinte
declaração: "Não vamos começar a vender ações descontroladamente por
causa da previsão injustificada de um estatístico". O Barron’s, semanário
econômico publicado pela Dow Jones, garantiu que o "sábio de Wellesley"
não deveria ser levado a sério, até por conta da "notória inexatidão" de suas Sábio de Wellesley: 'notória
inexatidão'
previsões anteriores. De fato, Babson, 54 anos, formado pelo Instituto de
Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês) e sócio-fundador da Organização Estatística Babson –
empresa que fornece boletins sobre ações a bancos e investidores –, vinha tropeçando ao lustrar sua bola de cristal
ultimamente.
Polêmico, é autor de um trabalho que gira em torno de uma premissa muito discutível: o Babsonchart,
índice econômico que criou em conjunto com o professor de engenharia George F. Swain. Fã de Isaac Newton,
Babson acredita que as leis de ação e reação apresentadas pelo cientista podem explicar também o ciclo
econômico, e criou um indicador, de acordo com seu conceito, supostamente capaz de prever o futuro na
economia. Até agora momento, não havia tido grande sucesso. Mas seu instrumento o permitiu não apenas
anunciar, em setembro, o iminente crash como também, no dia 22 de outubro – logo, dois dias antes da quinta-
feira negra –, aconselhar os investidores a venderem suas ações. "Comprem ouro!", exortou. Depois desses
arrebatadores acertos, o controverso teórico começa a ser tratado como um guru econômico, e os cursos do
Instituto Babson – escola de administração e negócios fundada por ele em 1919 – recebem inúmeros pedidos de
matrícula. Entretanto, para o bem de toda a sociedade, seus novos discípulos precisam torcer para que outra das
previsões de Babson, sentenciada também na Conferência Anual das Empresas Nacionais, seja um equívoco
estrondoso. Vaticinou o professor: "As fábricas fecharão, os empregados serão demitidos, o círculo vicioso entrará
em plena ação e o resultado será uma séria depressão econômica".

Turbulência americana acentua a crise do café no Brasil


e causa temor de quebras em cadeia na economia nacional.
País está atolado
com produção e estoques muito maiores do que a demanda

Não se sabe o que fazer com tanto café: com demanda insuficiente, produtores brasileiros começam a
queimar estoques
A periclitante situação da economia cafeeira já era assunto obrigatório em quase todas as esquinas paulistanas.
Com a diminuição das exportações e a queda no preço do grão, chegam à ordem de centenas as empresas levadas a
registrar falências e concordatas neste ano – apenas em setembro, foram 72, de acordo com o Correio da Manhã.
Mas o amaldiçoado mês de outubro nos Estados Unidos tornou mais dramática a conjuntura do café no Brasil. Em
primeiro lugar, ainda na quinzena inicial do mês, o preço do grão caiu 200 pontos em dois dias na Bolsa de Café e
Açúcar de Nova York – de 19,25 dólares passou a 16,65. A queda vertiginosa no comércio futuro do café nacional
foi explicada pelo vice-presidente da instituição, Benjamin B. Peabody, por "rumores inquietantes a respeito da
situação do Brasil". Para completar o cenário funesto, ocrash na Bolsa de Valores de Nova York, que colocou a
economia americana à beira de um colapso, deve inviabilizar o empréstimo de 50 milhões de dólares que a Casa
Branca planejava ceder ao governo brasileiro para ajudar os fazendeiros via Instituto do Café.
Os bons tempos de ouro negro estão mais distantes do que nunca. O Brasil não tem mais para onde escoar
sua pantafaçuda produção, que deve chegar neste ano a mais de 21 milhões de sacas, superando e muito as
previsões iniciais, que falavam em 13 milhões. São Paulo, orgulhoso de ser o "estado com um bilhão de pés de
café", é responsável por quase dois terços da produção mundial da rubiácea. Tudo isso seria excelente se a
demanda mundial crescesse em igual proporção. Mas as exportações seguem caindo – 15 milhões de sacas em
1927, 13,8 milhões em 1928. Pior: o café exportado hoje pelo Brasil é da safra de dois anos atrás, o que significa
que ao menos 20 milhões de sacas estão estocadas. A diminuição massiva da venda do café tem tudo para
desencadear um rombo na economia brasileira, baseada três quartos na exportação do grão. Quando a notícia da
queda em Nova York chegou ao Rio de Janeiro, os operadores da bolsa local, também em acentuada baixa, não
enviaram os resultados do fechamento diário para os Estados Unidos, como de costume, temendo que os números
no vermelho ampliassem ainda mais o
derrocada do café no hemisfério norte.
Especialmente depois da debacle de
Wall Street, o governo do presidente
Washington Luiz encontra-se em uma
sinuca de bico. O consumo mundial de café
é estimado hoje em 22 milhões de sacas. O
Brasil está atolado com uma produção e um
estoque muito maiores do que a demanda –
isso sem falar na quase certa recessão de
um de nossos principais compradores, os
Estados Unidos, e na concorrência de
países que, atraídos pelos lucros obtidos
aqui com a rubiácea, investiram na Plantação da rubiácea no interior paulista: o 'estado com um bilhão de
cafeicultura e começam a colocar no pés de café'

mercado grãos de qualidade a preços módicos. Manter o café nos armazéns para valorizá-lo, como foi marca
registrada da política cafeeira paulista durante a década, já não surte efeito. O governo não tem mais dinheiro para
comprar a produção e manter os preços em patamares razoáveis. Em compensação, simplesmente abrir a porta dos
armazéns e despejar a produção no mercado faria depreciar ainda mais os valores já rasos do grão, e causaria
certamente uma quebradeira em cadeia na economia paulista e nacional. Impulsionar a indústria e diversificar a
produção são as saídas óbvias, mas ambas são soluções a, no mínimo, médio prazo, e não aliviam a pressão sobre
a economia. A bolha especulativa do mercado financeiro já estourou, causando a quebra da Bolsa de Valores de
Nova York. Será o precioso ouro negro o próximo alvo?
Articulada pela Aliança Liberal, oposição vai de
Vargas e Pessoa contra os candidatos de Washington Luís em 1930. Fala-se
até em movimento armado em caso de derrota nas urnas

O gaúcho Getúlio Vargas, cabeça da chapa oposicionista: programa de governo preparado pelo conterrâneo
Collor

A apenas cinco meses da eleição para presidente e vice-presidente da


República, a chapa oposicionista formada pelos
candidatos Getúlio Vargas e João Pessoa vai
ganhando alma e corpo no cenário político brasileiro.
A recém-criada Aliança Liberal, liderada pelo Partido
Republicano Mineiro e pela Frente Única Gaúcha
(composta pelos partidos Libertador e Republicano
Rio-Grandense), já espalha suas tenazes
contestadoras por todo o país. Além do apoio vindo
de Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraíba, o
movimento já recebeu adesão da maioria das O presidente: Prestes é o
oposições estaduais, incluindo o Partido Democrático escolhido
de São Paulo e o Partido Democrático do Distrito Federal, e promete uma
reviravolta na eleição de 1º de março de 1930. Já o presidente Washington
Luís mantém firme a indicação do presidente de São Paulo, Júlio Prestes, para
sua sucessão no ano que vem– indicação essa, justamente, a causadora de toda
a celeuma que hoje anima a política naciona e a contagem regressiva paa a
eleiçãol, por romper subitamente a política do café com leite e conclamar
mineiros e gaúchos contra os paulistas.
No final do mês passado, em convenção no Rio de Janeiro, os
articuladores das candidaturas Vargas e Pessoa homologaram a chapa e
aprovaram seu programa de governo, preparado e redigido pelo republicano
gaúcho Lindolfo Collor – que também é diretor do jornal A Pátria, porta-voz
oficial da coligação. Entre as principais diretrizes aliancistas estão a criação de
uma Justiça Eleitoral, a representação popular pelo voto secreto, a
independência do Judiciário e a anistia para os revolucionários de 1922 e
1924. A plataforma prevê também uma ampliação das medidas protecionistas
para bens de exportação para além do café. Além disso, traz uma série de
regulamentações para proteger e beneficiar os trabalhadores, como regras para
trabalho do menor e da mulher, uma lei de férias e a extensão do direito à
aposentadoria.

Em meio ao fogo cruzado, contudo, Getúlio


Vargas e Washington Luís estabeleceram nos
bastidores um acordo de cavalheiros. Foi acertado
que, em caso de derrota da oposição, o gaúcho
aceitaria o resultado e apoiaria o novo governo de
Júlio Prestes. Em contrapartida, o governo federal
assumia o compromisso de reconhecer a vitória dos
candidatos aliancistas na eleição para a Câmara dos
Getúlio e Pessoa: a chapa está
formada
Deputados e não apoiar a oposição gaúcha. Mas não
são todos os integrantes da Aliança Liberal que
comungam dessa idéia. Uma corrente mais radical do movimento, que conta
com políticos como Oswaldo Aranha, Virgílio de Melo Franco e João Neves
da Fontoura, já começa a alardear que, na hipótese fatídica de derrota nas
urnas, um movimento armado seria a solução. Já teria sido feito até um
contato com os tenentes, que ainda gozam de prestígio nas fileiras do Exército
e que têm em seu histórico notório pendor às revoluções. Novidades poderão
surgir a qualquer momento.
INTERNACIONAL

Com poderes ilimitados e polpuda indenização em caixa,


Pio XI molda a estrutura do recém-criado estado do Vaticano. E já
incomoda seu vizinho, o ditador fascista Benito Mussolini

Autonomia e compensação financeira: a assinatura do tratado, em fevereiro último, com representantes do papa e o Duce

Em setembro de 1870, quando as tropas de Vittorio Emanuelle II, proclamado rei da recém-unificada Itália,
subjugaram e anexaram a cidade de Roma, o papa Pio IX enclausurou-se nos muros do Vaticano. A essa altura,
o Risorgimento italiano já havia tomado a maioria dos estados papais, e o pontífice, para não se submeter à nova
ordem política na Velha Bota, rompeu relações com a monarquia e declarou-se um prisioneiro do poder laico. O
mal-estar entre o estado e a Igreja finalmente chegou ao fim em fevereiro deste ano, quando o papa Pio XI e o
ditador fascista Benito Mussolini, o "Duce", assinaram o Tratado e o Concordato de Latrão, que determinaram a
criação do estado soberano do Vaticano, reconheceram o catolicismo como religião oficial da Itália e ainda
garantiram à Santa Sé uma polpuda compensação financeira pelas anexações dos rincões papais. Livre depois de
quase seis décadas, é o Santo Padre que agora se esbalda com seus poderes de chefe-de-estado, literalmente
mandando prender e mandando soltar dentro do Vaticano.
Com a garantia da indenização da administração italiana, de 750 milhões de
liras, à vista, e de um bilhão de liras em títulos do governo, o chefe da Santa
Sé começa a estruturar uma respeitável aparelhagem estatal – boa parte dela, a
seu serviço imediato. Já existe um diário oficial, o L’Osservatore Romano, e
Pio XI, de acordo com seus assessores próximos, planeja estruturar no futuro
próximo uma rádio oficial para alardear o cristianismo e, claro, a palavra
papal. O maior candidato para tocar a empreitada é Guglielmo Marconi. Está
em circulação a moeda corrente do Vaticano, a lira vaticana, com a efígie do
sumo pontífice, também aceita na Itália e que tem valor parelho ao da lira
italiana. O serviço postal do Vaticano foi inaugurado em fevereiro. Já o Corpo
da Gendarmaria Pontifícia e o Corpo da Guarda do Papa, com suas coloridas
fardas desenhadas por Michelangelo, ganham ainda mais liberdade dentro do
O Santo Padre: rádio e jornal próprios Vaticano para assegurar a proteção do agora chefe de estado Pio XI.
Para completar, em junho último, foi promulgada a Lei Fundamental do Estado do Vaticano, que dá ao sucessor de
São Pedro a plenitude dos poderes Legislativo, Executivo e Judiciário no enclave de 0,44 quilômetro quadrado ao
norte de Roma e em mais doze edifícios espalhados pela cidade, incluindo o Palácio de Castelgandolfo. Os bens da
Santa Sé, sua administração, a biblioteca, o arquivo, a livraria e a tipografia do Vaticano também estão diretamente
subordinados à vontade do pontífice. Tal lei criou a figura do governador, que pode criar regras para a ordem
pública na cidade-estado, com a anuência do Conselho. Porém, a escolha do governador é exclusiva do papa, e
pode por ele ser revogada a qualquer momento, sumariamente. Qualquer
semelhança com os plenos poderes de Mussolini não é mera coincidência – ao
menos para os cartunistas locais, que não se cansam de produzir caricaturas
retratando Pio XI envergando a camisa negra do fascismo e o Duce com a
tiara papal em sua careca.
Os dois manda-chuvas, aliás, trocaram algumas farpas há alguns meses
– Mussolini dizendo à Câmara dos Deputados que "a Igreja é soberana apenas
no reino da Itália, e não no estado italiano", com a resposta de Pio XI
lamentando as declarações hereges do fascista. As arestas ainda não foram
completamente aparadas. Para acabar de vez com a animosidade, no fim do
ano, de acordo com informações extra-oficiais, o Santo Padre deve receber
pela primeira vez no Vaticano o rei Vittorio Emanuele III, em um encontro
simbólico para selar a paz entre a monarquia e a Igreja. Mas também aí se
descortina um problema diplomático. Pelas rígidas regras cerimoniais do
Vaticano, todo soberano católico deve ajoelhar-se ao pé do papa e beijar seu
O rei Vittorio: encontro simbólico
dedão. Benito Mussolini, porém, é radicalmente contra o ósculo, preferindo o
tradicional aperto de mão entre dois chefes de estado. Fontes ligadas ao príncipe Umberto garantem que este
prefere o cumprimento da formalidade. Este beijo ainda dará muito o que falar.

Mafioso de Chicago conta com regalias inéditas em seu


cárcere 'voluntário' na Filadélfia. Mas o governo federal já procura
uma alternativa para tirá-lo de circulação definitivamente
O capa-preta pescando perto de Palm Island, na Flórida: agora, descanso e regalias também atrás das grades, na
Filadélfia

Muitos comemoraram quando, em maio, o temível Alphonse Capone, manda-chuva da máfia de Chicago,
finalmente foi preso. A captura ocorreu na Filadélfia, em frente a um cinema, por posse ilegal de uma pistola
calibre 38. De acordo com os rumores que se espalharam pelo mundo do crime organizado e da polícia, o próprio
Capone foi um dos que festejaram a detenção. Cinco meses depois, está mais do que claro o motivo pelo qual o
chefão apressou-se em declarar-se culpado da acusação e aceitou sem pestanejar a sentença de um ano de reclusão
na Penitenciária Eastern State, dispensando a liberdade que poderia ser comprada pela fiança de 35.000 dólares.
De dentro de sua incrivelmente equipada e
confortável cela na cadeia, "Scarface Al"
segue ditando ordens para seus
subordinados no perigoso submundo de
Chicago – e, o que é melhor, agora
contando com proteção máxima e gratuita
fornecida oficialmente pelo governo
americano.
A estadia no recanto prisional
realmente veio a calhar. Desde o Massacre
do Dia de São Valentim, em fevereiro,
quando sete homens da gangue de George
"Bugs" Moran foram metralhados –
carnificina atribuída ao italiano do
Brooklyn –, a guerra entre gangues em O horrendo Massacre do Dia de São Valentim: foras-da-lei irlandeses querem o
Chicago tomou proporções assombrosas e troco
perigosas para Al Capone. O capo, que muito convenientemente se fez ver e notar na Flórida no dia dos
assassinatos, conseguiu escapar da polícia, de mãos atadas por não conseguir ligá-lo ao crime. (O sistema ainda
tentaria capturá-lo em março, na saída de seu depoimento perante o Grande Júri: o homem da cicatriz recebeu voz
de prisão por desacato, acusação que resulta em um ano no cárcere ou 1.000 dólares de multa. Com a generosidade
de um bom cristão, "Al" deixou de uma vez 5.000 verdinhas para o Tio Sam e foi liberado.) Sedentos por
vingança, porém, os gatilhos dos rivais irlandeses continuavam a procurá-lo em Chicago. Era chegada a hora então
de um período sabático – que o capa-preta resolveu passar na Filadélfia.
Desde então, as paredes da Eastern State são testemunhas das gostosas
regalias que nenhum outro condenado jamais recebeu na história dos Estados
Unidos. Sua cela foi transformada em uma espécie de quarto de hotel, com
macios tapetes, cortinas de chita, uma confortável poltrona, um requintado
abajur, uma escrivaninha e um portentoso rádio que povoa com acordes de
valsa o ar da câmara do mafioso. Quadros de extremo bom gosto disfarçam as
paredes cinza da célula. Ao menos por enquanto, não há telefone no recinto –
mas o fora-da-lei está autorizado a fazer chamadas de longa distância da sala
do diretor. Também estão liberadas as visitas, e os escudeiros Frank Nitti e
Jack Guzik, além do mano Ralph Capone, já são figurinhas fáceis na
Filadélfia. A mordomia é tanta que "Scarface Al" já encontrou tempo até para
remover suas amídalas no hospital da penitenciária. O período de resguardo
pós-operatório foi deveras tranqüilo. A pressão da opinião pública, no entanto,
Prisioneiro de bom gosto: rádio e
poltrona
está levando o governo dos Estados Unidos a buscar outra saída para manter
Capone fora de circulação de forma definitiva. Uma força-tarefa de cem
investigadores já está funcionando a pleno vapor a fim de buscar uma possível condenação por sonegação de
impostos – especula-se que, de 1924 até agora, o capo tenha amealhado uma receita de mais de 100 milhões de
dólares, sem nunca ter declarado um centavo sequer ao leão. Aos seus asseclas, o chefão do banditismo em Illinois
garante não derramar uma gota de preocupação com a investida. "Afinal, o governo não pode legalmente recolher
impostos de dinheiro ilegal", desafia.

Na esteira do sucesso do vôo ao redor do mundo, empresa


alemã anuncia linhas comerciais com o fabuloso Zeppelin. Brasil será
um dos destinos, mas o preço é para poucos: mil dólares

Um meio de transporte espetacular: com 213 metros de comprimento, o Graf Zeppelin já realizou um vôo ao redor do
mundo
Parece interminável a estupefação internacional com a façanha do Graf Zeppelin LZ 127 no último mês de agosto.
O colosso alemão de 213 metros de comprimento, com formato que lembra os salsichões típicos de seu país de
origem, tornou-se a primeira nave da história da humanidade a realizar um vôo ao redor do planeta, epopéia de 21
dias e 34.600 quilômetros. Com escalas nos Estados Unidos, Alemanha e Japão, o dirigível arrastou multidões em
suas paradas, despertando admiração e curiosidade generalizadas. Aproveitando o sucesso de sua empreitada, o
comandante Hugo Eckener, diretor da
Luftschiffbau-Zeppelin, empresa alemã
que fabricou a aeronave, apresentou os
novos planos envolvendo o gigantesco
cilindro mais leve que o ar. E, para júbilo
dos fãs nacionais, muito em breve o
Zeppelin poderá ser visto nos céus
brasileiros.
A companhia tedesca pretende implantar
linhas comerciais entre a Europa e as
Américas –num primeiro momento, com
Mais leve que o ar: funcionários e curiosos recebem o 'salsichão' em mais um
destino aos Estados Unidos; pouso
posteriormente, rumo ao Brasil e à
Argentina. Para isso, deverá construir quatro novos dirigíveis por conta própria. Além disso, estão previstos mais
um ou dois em sua parceria com a empresa americana Goodyear – eles farão a travessia entre a costa oeste dos
Estados Unidos e o Havaí e as Filipinas. Os cilindros voadores deverão também transportar correspondências e
encomendas. Um contrato com o correio alemão já é dado como certo, e nos Estados Unidos os representantes da
companhia já se mobilizam para acertar acordo semelhante. O dinheiro advindo desses contratos deverá ser
investido na construção de novas aeronaves.
Apesar de toda a aclamação, Eckener diz que o Graf Zeppelin que desfilou
pelo mundo não será usado nos vôos comerciais – foi construído para
demonstrações e ficará reservado para tanto. De acordo com ele, o melhor
produto da empresa é ainda o LZ 126, batizado Los Angeles, de 200 metros,
aerodinamicamente perfeito. A partir do ano que vem, a empresa pretende
realizar quatro viagens transatlânticas por semana, duas em cada sentido. Nos
EUA, os dirigíveis deverão fazer pousos em Baltimore, Washington ou
Richmond; no lado europeu, serão estações-base Friedrichshafen (sede da
empresa, onde até o final do ano será inaugurado um moderníssimo hangar) e
Berlim, além de uma cidade na região central da França, ainda indefinida. A
fantasia de se embarcar no Zeppelin, porém, será para poucos, muito poucos.
As tarifas, de acordo com as estimativas iniciais, custarão uma pequena
fortuna: mil dólares por passageiro. Sorte que olhar o vôo elegante dessa
Só para demonstrações: Graf não
voará
majestosa invenção não custa nada.
A pena afiada do americano Hemingway, o maior expoente
literário da atualidade, brilha intensamente em ‘A Farewell to

Arms’, romance inspirado na experiência militar do autor

O escritor, de apenas 30 anos, aqui retratado pelo pintor americano Henry Strater: estilo direto, objetivo e nada floreado

Por fruto de uma curiosa coincidência, uma vaga de bons romances e novelas ambientados na Grande
Guerra tem aparecido neste ano de 1929, mais de uma década depois do final do conflito – entre eles, Good-Bye to
All That, de Robert Graves, Death of a Hero, de Richard Aldington, e All Quiet on the Western Front, de Erich
Maria Remarque. Em uma fictícia batalha literária, entretanto, todos os anteriores capitulariam perante A Farewell
to Arms ("Adeus às armas", em tradução livre, Scribner, US$ 2,50), de Ernest Hemingway, de longe o mais
poderoso da safra. Celebrado pelos críticos dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha, o livro já vendeu 80.000
exemplares em seus primeiros quatro meses na praça e consagra o autor como ícone da chamada "Geração
Perdida", composta pelos escritores americanos que serviram na guerra.
Hoje com 30 anos, Hemingway já havia chamado a atenção do público com
suas coletâneas de contos – In Our Time (1926) e Men Without Women (1927)
Motorista de ambulância: – e seu primeiro romance, The Sun Also Rises (1926). Sobre ele, a
ferido na perna revista Time vaticinara, há três anos: "Temos aqui um escritor, um jovem
escritor americano que instintivamente faz a distinção entre viver e existir. Tenham certeza, Ernest Hemingway é
alguém. Um novo, verdadeiro, não-literário escriba da vida – um escritor". O estilo direto, objetivo e nada floreado
da prosa deste jornalista, que trabalhou em Paris como correspondente do jornalToronto Star no início da década,
aproximou-o de uma legião de leitores, apresentados aos fatos com uma crueza impressionante. É essa mesma
receita que explica o sucesso notável de A Farewell to Arms, que se serve das experiências militares de
Hemingway para traçar um panorama áspero e aflitivo do cotidiano dos homens e mulheres envolvidos no
conflito. Na Europa, o autor serviu na Cruz Vermelha como motorista de ambulância no front italiano até ser
atingido na perna por estilhaços de um morteiro austríaco, em 1918, o que forçou seu retorno aos Estados Unidos.
No papel, o romance traz a história de Frederic Henry – assim como Hemingway, um jovem americano motorista
de ambulância que combate ao lado do exército italiano no front austro-húngaro até ser atingido na perna por
estilhaços de um morteiro. Levado a um hospital de Milão, passa a receber os cuidados de Catherine Barkley,
enfermeira americana da Cruz Vermelha. A personagem foi inspirada em
Agnes von Kurowsky, que cuidou de Hemingway na Itália.
O romance da vida real ficou pelo caminho: Agnes se apaixonou por
um oficial italiano e não retornou com Hemingway aos Estados Unidos, como
o autor planejava. Na ficção, o autor trata de corrigir esta falha do destino.
Mas não vai tão longe a ponto de mudar o que a humanidade, a duras penas,
vem experimentando ao longo dos séculos. Há poucos finais felizes em uma
guerra – aliás, acrescentaria o escritor, há poucos finais felizes na vida. No
ano passado, o suicídio de seu pai, médico honrado em dificuldades
financeiras e com saúde precária, foi mais uma demonstração de tal
frustração. Em A Farewell to Arms, não há como virar a face para isso. As
palavras de Frederic Henry são definitivas: "Aos que trazem muita coragem
neste mundo, o mundo quebra a cada um deles e eles ficam mais fortes nos
lugares quebrados. Mas aos que não se deixam quebrar, o mundo mata-os. A capa do novo romance: sem final
Mata os muito bons, os muito meigos, os muito bravos – imparcialmente. Se feliz
não pertenceis a nenhuma destas categorias, morrereis da mesma maneira, mas não haverá pressa nenhuma em
matar-vos".

http://veja.abril.com.br/historia/crash-bolsa-nova-york/mahatma-gandhi-ponto-de-vista-autobiografia.shtml