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RAUL SEIXAS COMO LEITOR DE SCHOPENHAUER:


CONSIDERAÇÕES SOBRE AS COISAS DO CORAÇÃO

George Felipe Bernardes Barbosa Borges


Universidade Federal de Goiás – UFG

RESUMO: “O anelo do amor, que os poetas de todos os tempos estão continuamente


ocupados em expressar de mil formas, sem esgotar o seu objeto e mesmo sem poder dar conta
dele de modo extenuante (...)”. A frase pertence a Arthur Schopenhauer, filósofo alemão que
em sua Metafísica do Amor analisa a manifestação do amor entre seres humanos, e sua
relação com a Vontade, cerne de todo seu sistema. O presente artigo se trata da interpretação
de uma das milhares de poesias elaboradas – como denunciou Schopenhauer – ao longo dos
tempos sobre o amor, – mais precisamente de uma canção de Raul Santos Seixas intitulada
“Coisas do Coração”. Nas páginas subsequentes, a partir da teoria da indestrutibilidade da
espécie, pretendo fazer uma análise da música com o objetivo de estreitar a relação entre a
música de Raul Seixas e a filosofia schopenhauriana; mostrar como o compositor, que se
enxergava um estudioso da área, se apoderou da filosofia do pessimista alemão para compor
uma das mais belas músicas de sua discografia.
PALAVRAS-CHAVE: Raul. Seixas. Schopenhauer. Interpretação. Filosofia.

ABSTRACT: “The longing of love, the illepoq, that the poets of all ages are for ever
concerned to express in innumerable forms, a subject which they do not exhaust, in fact to
which they cannot do justice (...)”. The phrase belongs to Arthur Schopenhauer, german
philosopher que in your Metaphysics of Sexual Love analyzes love manifestation among
human beings, is his relationship with will, the heart of all his system. The presence this
article if the a interpretation of thousands of poetry elaborate - as reported Schopenhauer -
along times about love. More precisely from a song of Raul Santos Seixas entitled "Coisas do
Coração". On subsequent pages, the from the kind of indestructibility theory I intend to make
a music analysis with the objective of strengthening the relationship between the music of
Raul Seixas and philosophy of Schopenhauer; Show as the composer, which it saw hum
scholar area, seized the german pessimist philosophy to compose one of the most beautiful
songs of your discography.
Keywords: Raul. Seixas. Schopenhauer. Interpretation. Philosophy.
ESTUDOS| A MARgem, Uberlândia, v. 13, n. 2, ago-dez. 2017
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INTRODUÇÃO
Raul Santos Seixas (1945-1989) é o grande nome deste artigo em conjunto com o
filósofo Arthur Schopenhauer (1788-1860), – o que logo deve suscitar dúvidas nos leitores:
qual a relação entre o rockeiro baiano e um dos mais notáveis seguidores de Kant? Pois bem,
– é precisamente a genialidade de suas obras que consegue unificá-los no decurso do tempo.
Na canção “Senhora Dona Persona”1, Raul faz uma referência direta a Schopenhuaer,
quando canta na música: “os homens passam, as músicas ficam”. Este filósofo, ao diferenciar
honra de glória, dividiu ainda a categoria glória em duas modalidades – os feitos e as obras2.
Raul Seixas segue essa trilha na frase da última estrofe da música, em que se coloca como um
homem de glória e suas músicas como obras, com arranjo similar com que Schopenhauer
elaborou sua teoria3.
Este foi apenas um dos vários pontos de convergência que pode-se observar entre Raul e
Schopenhauer, – perceptível na própria confecção das músicas, no processo de composição,
gravação e de veiculação. Raul Seixas, ao compô-las, deu material permanente para devaneio
e reflexão. Esse mérito, por assim dizer, é totalmente dele. Na outra ponta da história está a
contribuição de Schopenhauer, que muniu muito bem Raul com belíssimos escritos
metafísicos acerca da morte (tema tão caro em toda discografia do Maluco Beleza), liberdade,
estética, mas sobretudo, no caso do presente artigo, sobre o amor.
Na filosofia de Schopenhauer, podemos especular algumas respostas e intepretações
para muitas músicas de Raul. E, por conseguinte, ao fazer isso, tracei um elo mais firme entre
a relação de Raul Seixas com a filosofia. Aqui se finda a proposta do presente artigo:
explicitar o movimento de apropriação do músico brasileiro pelo pessimista alemão,
particularmente por meio da música “Coisas do Coração”4, lançada no álbum “Raul Seixas”
pela gravadora Eldorado em 1983.

1
“Senhora Dona Persona (Pesadelo Mitológico n º 3)”. A Pedra do Gênesis. Philips e Copacabana Polygram,
1988.
2
Para mais sobre a discussão entre a honra e a glória em Schopenhauer a bibliografia recomendada são
Aforismos para sabedoria de vida, 2009, Trad. Jair Barboza, Martins Fontes; e A arte de se fazer respeitar, 2004,
Trad. Mária Lúcia Cacciola, Martins Fontes.
3
“[...] os feitos passam, as obras permanecem. Dos feitos, permanece apenas a lembrança, que se torna cada vez
mais fraca, desfigurada e indiferente, e que está até mesmo fadada a extinguir-se gradualmente, caso a história
não a recolha e transmita para a posteridade em estado petrificado. As obras, ao contrário, são imortais e podem,
pelo menos as escritas, sobreviver em todos os tempos.” (Schopenhauer, 2009, p.117)
4
“Quando o navio finalmente alcançar a terra/ E o mastro da nossa bandeira se enterrar no chão/ Eu vou poder
pegar em sua mão/ Falar de coisas que eu não disse ainda não/ Coisas do coração!/ Coisas do coração!/ Quando a
gente se tornar rima perfeita/ E assim virarmos de repente uma palavra só/ Igual a um nó que nunca se desfaz/
Famintos um do outro como canibais/ Paixão e nada mais!/ Paixão e nada mais!/ Somos a resposta exata do que
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A MÚSICA EM SCHOPENHAUER
A relação entre Schopenhauer e a música ficou registrada nas preleções lidas na
Universidade de Berlim em 1820. Depois, em 1859, quando foi lançado o livro que o deixou
famoso, Parerga e Paralipomena, essa preleção foi publicada no capítulo 19 do Tomo Dois
da obra, entre os parágrafos 205 e 234.
Nesse pequeno capítulo, intitulado Metafísica do Belo e Estética5, o filósofo alemão
descreve com mais detalhes e faz a análise de como a estética pode ser assimilada em seu
sistema filosófico. Ele parte do ponto de que o Belo, seja qual for sua categoria artística
apreende a Ideia do mundo e a descreve, e todo esse processo é feito com a completa
destituição de interesse. “Se devemos conceber a essência íntima de alguma coisa, a Ideia que
nela se expressa, não podemos ter o mínimo de interesse por essa coisa, isto é, ela não pode
ter relação alguma com a nossa vontade” (SCHOPENHAUER, 2003, p. 450).
No fundo, para um artista fazer arte, segundo Schopenhauer, ele precisa perder sua
individualidade – nisto consiste a destituição de interesse – e apreender a coisa-em-si do
objeto que lhe serve de inspiração. Por exemplo, quando Degas pintava as bailarinas, ele não
estaria pintando-as como “fenômeno” ou “representação” da Vontade no mundo, e sim
captava a essência contida nelas e, através da ponta de seus pincéis eternizava essa essência
apreendida.
Pois bem, esse modelo estético funciona em graus de abstração da Ideia. No nível mais
baixo está a arquitetura e a hidráulica; num segundo nível, a jardinagem e a pintura de
paisagem; acima destes, a pintura dos animais; depois, a escultura; e em penúltimo grau está a
poesia; por fim, a música é o mais alto e mais belo meio da arte.
Todas as outras artes são a cópia da Ideia da essência das coisas; a música, não.
Segundo Schopenhauer, a música é a própria Ideia, ou seja, expressão direta da Vontade.
De fato, a música é uma cópia e objetidade6 tão imediata de toda Vontade
como o mundo o é, até mesmo como o são as Ideias, cujo fenômenos
variados constituem o mundo das coisas singulares. A música, portanto, não
é de modo algum, como as outras artes, cópia de Ideias, mas cópia da própria

a gente perguntou/ Entregues num abraço que sufoca o próprio amor/ Cada um de nós é o resultado da união/ De
duas mãos coladas numa mesma oração!/ Coisas do coração!/ Coisas do coração!”, Raul Seixas.
5
Para mais sobre este tema a bibliografia recomendada é Metafísica do Belo, 2003, trad. Jair Barboza, Martins
Fontes.
6
Objetidade é um conceito traduzido por Jair Barboza. Segundo ele “o termo Objektität, neologismo de
Schopenhauer costuma provocar confusão entre tradutores, que às vezes o vertem por ‘objetividade’, termo
inadequado, pois faz perder de vista o caráter inconsciente de imediatez do ato da vontade, anterior ao seu
tornar-se fenômeno consciente na intuição do entendimento”.
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Vontade, da qual as Ideias também são objetidade. (SCHOPENHAUER,


2003, p. 230)

É nesse patamar que se situa a música no sistema filosófico schopenhauriano. Como


uma entidade metafísica, ela subordina a matemática e a razão em seus domínios para fazer
lograr a melodia e submete os conceitos para que as letras sejam criadas e cantadas. Por isso,
Schopenhauer afirma que “a música em seu todo é a melodia da qual o mundo é o texto”
(SCHOPENHAUER, 2003, p. 235).
A partir desta pequena introdução, percebe-se que Raul e Schopenhauer não estão tão
distantes um do outro, pois conservam alguns interesses em comum, em especial a música. A
música, como já supracitado, pretendida como objeto de estudo para o presente artigo é a
“Coisas do Coração”. Pode-se enxergar uma relação plausível no processo de composição da
música por Raul, Cláudio Roberto e Kika Seixas e a filosofia exposta em Metafísica do Amor.
Sob a luz deste livro, tentarei dar uma interpretação mais sólida para a música. Para
cumprir tal intento, primeiramente irei expor nos parágrafos subsequentes informações
básicas, a fim de suprir o leitor menos familiarizado com a construção filosófica de
Schopenhauer.

A FILOSOFIA DE SCHOPENHAUER
Schopenhauer, em sua obra magna, O Mundo como Vontade e como Representação,
divide o mundo em dois espectros: Vontade e Representação. O primeiro espectro é a forma
que o filósofo vê a coisa-em-si kantiana. A vontade é um ímpeto cego, eterno que está no
cerne do mundo. A Representação, no entanto, é o que o sujeito cognoscente7, isto é, o sujeito
que conhece o mundo, que é capaz de enxergar objetidades dessa Vontade, o faz segundo o
princípio de razão8. Em resumo, Schopenhauer acredita que o mundo é a Representação dos
fenômenos que se expressa em diferentes graus, regida sempre pela Vontade.
Tudo que Schopenhauer escreveu após O Mundo... foi a partir desse pensamento
fundamental. Toda sua filosofia está em perfeita harmonia com as teses de sua obra-prima
publicada no ano de 1819. A partir disto, pode-se entender com mais facilidade as ideias que
ele postulou na Metafísica do Amor.

7
“Aquele que tudo conhece mas não é conhecido por ninguém é o SUJEITO. Este é, por conseguinte, o
sustentáculo do mundo, a condição universal e sempre pressuposta de que tudo oque aparece, de todo objeto,
pois tudo que existe, existe para o sujeito” (Schopenhauer, 2006, p.45).
8
Sobre o princípio de razão suficiente consultar a nota de Jair Barboza em O Mundo como Vontade e como
Representação, 2005, p. 48, Editora Unesp.
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Basicamente, este capítulo, publicado como livro no Brasil9, trata acerca da


indestrutibilidade da espécie. Como o que governa o mundo é a Vontade, o impulso do
enamorar-se presente nos menores e nos maiores amores nada mais é que a expressão
orgânica do ímpeto irracional schopenhauriano. In summa, “o que aí é decidido não é nada
menos do que a composição da próxima geração” (SCHOPENHAUER, 2000, p. 8). Segue-se
disso que todo romance é na verdade um vislumbramento da procriação perfeita de um
determinado indivíduo. “Que esta criança determinada seja procriada, eis o verdadeiro fim de
todo romance de amor, apesar de ser inconsciente para seus participantes: a maneira de atingi-
lo é secundário.” (SCHOPENHAUER, 2000, p. 10).
Schopenhauer, assim, conclui que como os homens são a objetidade da Vontade e o
enamorar-se um impulso desta em se perpetuar, tão logo o amor se baseará em amor sexual.
Esse amor sexual pode se manifestar de vários modos – por exemplo, de maneira bela, como
dois indivíduos que se apaixonam à primeira vista e permanecem juntos até findarem; de
maneira trágica, tal como conta Shakespeare em Romeu e Julieta; e de maneira violenta,
como os casos de estupros presentes em todos os tempos. Essa é a primeira lição dada na
Metafísica do Amor – a espécie faz com que os homens se impulsionem a procriar para sua
própria autoconservação, independente das circunstâncias ou das consequências.
O arrebatamento vertiginoso que toma o homem quando ele vê uma mulher
cuja beleza é para ele das mais adequadas, e lhe preludia a união com ela
como o sumo bem, é justamente o sentido da espécie, que, reconhecendo sua
estampa nitidamente expressa, gostaria de perpetuar-se com ela. (...) O que,
portanto guia aqui o homem é realmente um instinto, orientado para o
melhor da espécie, enquanto ele imagina procurar apenas o supremo gozo
pessoal. (Schopenhauer, 2000, p. 17).

Esse “instinto” do qual fala o pessimista alemão é a ilusão de que o homem em questão
está fazendo uma escolha deliberada e livre ao procurar uma mulher que julga lhe apetecer.
Todavia, o que realmente acontece é a espécie se fazendo imperativa e impondo-se diante do
homem. Por conta desse apoderamento que a Vontade, na roupagem de espécie, faz do
indivíduo, Schopenhauer afirma:
[...] a perda da amada para um rival, ou para a morte, é também sentido pelo
amante apaixonado como uma dor que supera qualquer outra, justamente
porque é de tipo transcendente, já que afeta não apenas o indivíduo, mas o
atinge em sua essentie aerterna [essência eterna], na vida da espécie, para
cuja vontade especial e missão ele estava aqui ocupado.
(SCHOPENHAUER, 2000, p. 40).

9
O capítulo 44 do Tomo II de O mundo como Vontade e como Representação, recentemente traduzido por Jair
Barboza, antes foi publicado pela Martins Fontes em 2000 com tradução de Cacciola.
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Para comprovar a tese de que esse arrebatamento que afeta todos tem fundamento, o
autor lança mão de argumentos que irão ressoar, mais tarde, na teoria de Freud. Em primeiro
caso, ele dividirá o amor em duas ordens: o amor sexual, como já falado anteriormente e o
amor apaixonado, que será apresentado logo mais.
O amor sexual é alicerçado nas considerações absolutas. Essas considerações são os
elementos básicos que fazem com que dois seres humanos se unam. A maioria esmagadora
dos relacionamentos é baseada nesse princípio. Atributos vitais como saúde, força e beleza
são levados em contam preliminarmente porque garantem à espécie maior longevidade.
Num segundo nível, quando o enamorar-se se torna amor apaixonado entra em cena a
ideia de neutralização:
Para que nasça uma tal inclinação realmente apaixonada exige-se algo que só
se deixa expressar mediante uma metáfora química: ambas as pessoas têm de
se neutralizar mutuamente, como ácido e álcali num sal neutro.
(SCHOPENHAUER, 2000, p. 29).

A neutralização se justifica porque o que se tem em mente em um relacionamento é a


espécie vindoura, ou seja, os filhos. O que influencia no processo do amor sexual ao
apaixonado é a necessidade de se ter o oposto de si. “Aqui, pois, cada um ama o que lhe falta”
(SCHOPENHAUER, 2000, p. 29). Assim, segundo Schopenhauer, o indivíduo busca em seu
parceiro as perfeições que ele não tem.
Essas perfeições singulares que o indivíduo percebe que não tem em si e se esforça em
achar em outrem são chamadas de considerações relativas. O filósofo foi minucioso ao listar
no livro e explicar observações referentes à altura, ao cabelo, à idade, ao esqueleto, beleza do
rosto etc. Notações como estas têm como objetivo retificar a espécie, corrigindo as
imperfeições presentes nos indivíduos que agora são e logo deixaram de ser para que os
indivíduos que virão venham melhores.
Manifestando-se nos dois tipos de amor que apresentei acima (sexual e apaixonado), a
espécie se torna indestrutível. Por conta de tudo isso, é-me lícito concluir que a espécie toma-
nos de uma ilusão para que possa se perpetuar, ilusão esta chamada pelo filósofo alemão de
amor, paixão.
Ao final do livreto, Schopenhauer faz um resumo do tema e nomeia como “assuntos do
coração10” (SCHOPENHAUER, 2000, p. 53), que serve de ensejo para uma aproximação

10
Em inglês o termo foi traduzido como “affair of the heart” por Payne. Em alemão o próprio Schopenhauer
descreve o tema como “Die Herzensangelegenheit wird”.
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com Raul Seixas, já que, além da música em questão11 ter praticamente o mesmo nome, o seu
conteúdo apresenta, ao menos nesta interpretação, como irei expor a seguir, um traçado bem
schopenhauriano.

RAUL SEIXAS E A FILOSOFIA


Não é possível estabelecer com absoluta certeza se Raul leu de fato a Metafísica do
Amor e se o que influenciou o trio a compor a música foi o conteúdo trazido nessas páginas,
mas tampouco minha tarefa aqui é determinar isso. Este artigo não trata de um
empreendimento biográfico e sim interpretativo. Todavia, para fins de harmonização e uma
maior consistência no diagnóstico tentarei expor alguns elementos que levantam uma
suspeita, para dizer o mínimo, de que Raul era um conhecedor de filosofia e de Schopenhauer.
Eu sou muito dado a filosofias, eu estudei muito filosofia, principalmente a
metafísica, a ontologia, essa coisa toda. Sempre gostei muito, me interessei.
Minha infância foi formada, vamos dizer, por um pessimismo incrível, de
Augusto dos Anjos, de Kafka, Schopenhauer. (SEIXAS, 1990, p. 86)

Raul gostava de se enxergar como um estudioso de filosofia. Existem no imaginário


popular algumas histórias sobre isso que o próprio incitou. Em uma entrevista, Raul afirmou
que havia ido ao Rio de Janeiro para lançar seu tratado de metafísica 12. Chegando lá, segundo
ele, percebeu que ninguém gostava de ler e passou a se dedicar à música. A história real não é
bem essa. Ele teria ido ao Rio em 67 junto com a família, os Panteras e Jerry Adriani em
busca de um lugar na capital cultural do país. Raul havia preterido a filosofia em virtude do
Rock n’ Roll há muito tempo. Como conta ele, quando conheceu Elvis Presley por intermédio
de seus vizinhos americanos sua vida adquiriu um novo significado.
A música e a literatura se misturaram; poderia ter sido escritor, mas canalizei
para o rock. Troquei a filosofia pela música porque um microfone é mais
importante do que qualquer outra coisa. (...) É isso: eu uso a minha música
para passar minhas ideias, para colocar adiante o que eu aprendi com a
filosofia. (SEIXAS, 1995, p. 59)

Raul se enxergava e se colocava como um estudioso de filosofia, um intelectual. No


livro A trajetória social de Raul Seixas, Lucas Souza faz uma análise bem interessante desse
comportamento. De acordo com ele, Raul teve que aceitar e entrar nos personagens para

11
“Coisas do Coração”. Raul Seixas. Eldorado, 1988.
12
“É, eu sou professor de filosofia. Não, quando eu vim pro Rio de Janeiro em 67, eu vim com aquele idealismo
todo, eu vim lançar um tratado de metafísica, chamado o Verbalóide, que é assim uma visão do ser humano
olhada por uma entidade de outro planeta. É a maneira que eu coloquei a coisa, onde se usa o verbo ser, eu sou,
nós somos né!”. Raul Santos Seixas em entrevista concedida à Rádio Cultura AM de São Paulo. Programa
Música Popular Brasileira, 19/01/1976.
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conseguir atender as exigências da época; era uma necessidade que o mercado musical de
1970, com o movimento intelectual da tropicália, e de 1980, com a profissionalização do
Rock no Brasil, impunham sobre ele13.
Entretanto, mesmo levando em conta essa tese da subserviência da cultura, da filosofia e
da erudição, que, de fato, é bastante razoável, Raul tinha certa familiaridade com esse campo
do saber. Talvez tenha sido muito influenciado por seu pai neste ponto. Raul Varella Seixas
era um homem de família rica, portanto, tinha acesso à cultura e educação que poucos tinham
em sua época. E a partir dos próprios relatos de Raul, seu pai era dono de um acervo de livros
aos quais pôde ter acesso ainda muito jovem.
Meu pai sempre teve uma influência muito grande sobre mim. Ele era
engenheiro. Sempre foi um cara muito lido, tinha muitos livros e lia para
mim desde que eu era pequeno. Me impressionei com Dom Quixote de La
Mancha, o Tesouro da Juventude, O Livro dos Porquês. Muitos livros de
astronomia, sobre o universo, que me fascinavam. Meu pai sempre gostou de
mistérios, de coisas estranhas, e me meteu nesse mundo estranho, de tudo
que é inexplicável na face da Terra, debaixo do mar, no céu. (SEIXAS,
1990, p. 14)

Em razão desses apontamentos é que tento fundar os alicerces da minha interpretação.


Saliento novamente, o caráter do artigo não é biográfico, mas as informações que trazem
delimitações mais claras entre a relação de Raul com a filosofia ajudam a traçar com mais
confiança interpretações de viés mais filosófico.
Ao longo de toda discografia de Raul aparecem menções muito explícitas a livros de
filosofia e poesia. Na música “Mosca na Sopa”14, feita no primeiro LP solo, Raul certamente
busca inspiração em Schopenhauer. O compositor brasileiro cantou:
E não adianta vir me dedetizar
Pois nem o DDT pode assim me exterminar
Porque 'cê mata uma e vem outra em meu lugar15

Já Schopenhauer escreveu sobre a mosca em duas oportunidades com contexto muito


semelhante. Primeiro, na Metafísica da Morte – sobre a morte e sua relação com a
indestrutibilidade de nosso ser em si16:

13
“A fama de contraventor, incompreendido e excêntrico que nutriu a construção imagética do cantor durante
toda sua trajetória artística, e também após sua morte, não é, portanto, mero produto de suas escolhas
deliberadas, ou marcas de uma “genialidade” artística que o caracterizava. Essas rupturas foram, na realidade,
moldadas pelas exigências que sobre ele recaíam ao longo de sua trajetória”. (Souza, 2013, p. 79).
14
“Mosca na Sopa”. Krig-há, Bandolo!. Philips Records, 1973.
15
Ibidem.
16
Para mais sobre este tema a bibliografia recomendada é Metafísica do Amor e Metafísica da Morte, 2000, trad.
Jair Barboza, Martins Fontes.
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Se a mosca, que agora zumbe em torno de mim, adormece esta noite e


amanhã de novo zumbe, ou se morre à noite, e na primavera zumbe uma
outra mosca nascida do seu ovo; isso é em si a mesma coisa. Daí que o
conhecimento, que apresenta tudo isso como duas coisas fundamentalmente
diversas, não é incondicionado, mas relativo; é um conhecimento do
fenômeno, não da coisa-em-si. A mosca existe de novo pela manhã; ela
também existe de novo na primavera. Na fisiologia de Burdach, v.1, § 275,
lemos: “Até 10 horas da manhã ainda não se vê (na infusão) nenhuma
Cercaria efemera (um infusório): e às 12 horas toda água formiga delas. À
noite morrem, e na outra manhã nascem outras de novo. Assim observou
Nietzsche seis dias seguidos. (SCHOPENHAUER, 2000, p. 86)

Também em Senilia17, livro que contém as meditações do filósofo: “Quando apanho


uma mosca, é óbvio que não mato a coisa em si, mas apenas sua aparência”
(SCHOPENHAUER, 2012, p. 59). Schopenhauer, quando diz que a mosca nunca morre
porque se mata apenas a aparência, remete àquela teoria exposta mais acima acerca da
indestrutibilidade da espécie. Você pode matar apenas o fenômeno, mas jamais conseguirá
aniquilar completamente a espécie, porque esta é a própria expressão da Vontade no mundo –
e está em constante renovação.

COISAS DO CORAÇÃO
Começarei, pois, então, a analisar a música que foi o motor de todo esclarecimento
preambular. Não há como definir com precisão quando a música foi composta, todavia, como
Raul a compôs com a dupla Cláudio Roberto e Kika Seixas, pode-se ter noção de ao menos
um período de tempo em que ela aflorou – entre 1979 e 1982.
Kika foi a quarta mulher que Raul teve ao longo de sua vida. Esteve com ela entre 1979,
ano em que a conheceu, e 1984. Com ela, teve a terceira filha, Vivian. Sylvio Passos e
Toninho Buda contam que o casal compôs junto quatro músicas: “Geração da Luz”18,
“DDI”19, “Quero mais”20 e, por fim, o nosso objeto de estudo – “Coisas do Coração”21.
Já com Cláudio Roberto, sua parceria se inicia em 1977, após romper com Paulo
Coelho. Raul com “o rosto sem barba nem bigode”, com “um novo parceiro e antigo vizinho
dos tempos do Rio” (PASSOS e BUDA, 1974, p. 84) lança o LP O Dia em que a Terra

17
As meditações contidas neste livro foram publicadas no Brasil pela Martins Fontes com o título Arte de
envelhecer, Trad. Karina Jannini, 2012.
18
“Geração da Luz”. Metrô linha 743. Som Livre, 1984.
19
“D.D.I. (Discagem Direta Intestrelar)”. Raul Seixas. Eldorado, 1988.
20
“Quero mais”. Raul Seixas. Eldorado, 1988.
21
“Coisas do Coração”. Raul Seixas. Eldorado, 1988.
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Parou22. No álbum Abre-te Sésamo23 Raul segue a parceria com o professor de ginástica.
Juntos neste disco fizeram oito das doze músicas. Em 1983, Raul ganha o disco de ouro pela
tiragem de 100 mil vendas. Neste álbum, além de “Coisas do Coração”, a dupla também
compôs mais duas músicas. E nos próximos três discos lançados, Cláudio, juntamente com
Raul, compuseram oito músicas.
Ainda sobre o LP de 83, Raul afirma:
Coloquei o nome do disco apenas de Raul Seixas porque quase todos os
meus trabalhos são feitos dentro de um ponto de vista filosófico, algo como
se fosse uma faixa única, com todas as músicas concebidas de dentro de um
certo prisma. Este já é uma coleção de momentos diversos que não fogem ao
meu estilo, mas também não fecham uma concepção filosófica. (SEIXAS,
1974, p. 86)

Ao explicar o nome do novo disco Raul afirma implicitamente o teor filosófico deste
álbum. “Aquela Coisa” composta pelo mesmo trio pode ser vista como uma dessas músicas
que “não fogem” do seu estilo. A outra música que emana uma concepção filosófica seria a
“Coisas do Coração”.
Quando o navio finalmente alcançar a terra
E o mastro da nossa bandeira se enterrar no chão
Eu vou poder pegar em sua mão
Falar de coisas que eu não disse ainda não24

É possível que na primeira estrofe da música haja uma referência direta à noção de
Schopenhauer de amor sexual. A menção do navio alcançar a terra e do mastro fincar no chão
pode ser lida como uma metáfora alusiva à proposição orgânica schopenhauriana. Mas que
proposição seria esta? A de que a espécie sempre, ao possuir determinado indivíduo, e este
indivíduo, imbuído da ilusão, chamada pelo autor alemão de “Véu de Maia”25, buscará a
melhor correspondência que estiver ao seu alcance. Tal correspondência visa primeiramente
atender às considerações absolutas da natureza com o intuito de perpetuar a espécie.
Tanto Raul como Schopenhauer quase resgataram o “telos” aristotélico, de que cada
coisa busca seu lugar natural e se empenha em atingir sua “causa final”. Da mesma forma que
o objetivo do navio quando está no mar é chegar a terra, que o mastro, ao ter como finalidade

22
LP lançado pela gravadora WEA em 1977.
23
LP lançado pela gravado Discos CBS em 1980.
24
“Coisas do Coração”. Raul Seixas. Eldorado, 1988.
25
“Trata-se de MAIA, o véu da ilusão, que envolve os olhos dos mortais, deixando-lhes ver um mundo do qual
não se pode falar que é nem que não é, pois assemelha-se ao sonho, ou ao reflexo do sol sobre a areia tomado a
distância pelo andarilho como água, ou ao pedaço de corda no chão que ele toma como uma serpente.”
(Schopenhauer, 2005, p.49)
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a garantia da bandeira tremular exige um ponto fixo, a espécie suplica ao indivíduo a máxima
satisfação dos critérios a priori das considerações absolutas.
Todo enamorar-se, por mais etéreo que possa parecer, enraíza-se unicamente
no impulso sexual, e é apenas um impulso sexual mais bem determinado,
mais bem especializado e mais bem individualizado no sentido rigoroso do
termo. [...] O que, por fim, atrai com tal força e exclusividade dois
indivíduos de sexos diferentes, um para o outro, é a vontade de vida que se
expõe em toda a espécie, e que, aqui, por uma objetivação de acordo com
seus fins, antecipa sua essência no indivíduo que ambos podem procriar.
(SCHOPENHAUER, 2000, p. 12)

No mais, como afere a citação acima, esta primeira estrofe, principalmente as duas
primeiras linhas, sugere apenas uma correspondência de Raul com o amor sexual, tão
importante para a estruturação que Schopenhauer faz a fim de sustentar que a espécie é
indestrutível. Já os outros dois versos são uma preparação para a estrofe seguinte, em que
Raul anuncia, em conformidade com a filosofia exposta na Metafísica do Amor, a segunda
etapa que o indivíduo galga visando a perdurar em um novo ser.
Quando a gente se tornar rima perfeita
E assim virarmos de repente uma palavra só
Igual a um nó que nunca se desfaz
Famintos um do outro como canibais26

No início da segunda estrofe, logo no primeiro verso, vislumbrei o Raul usando todo
seu talento poético de maneira admirável para simbolizar o outro patamar que o
relacionamento daqueles dois indivíduos conduzidos pela espécie chegou – o amor
apaixonado. Ao falar de uma “rima perfeita”, a ideia que o cantor de Salvador passa é de
harmonia, equilíbrio, cadência, conciliação e, principalmente, neutralização.
Quanto mais perfeita, então, é a adequação mútua de dois indivíduos em
cada um dos vários aspectos a serem considerados mais adiante, mais forte
será a sua paixão mútua. Como não há dois indivíduos totalmente iguais, é
preciso que cada homem determinado corresponda, do modo o mais perfeito,
uma mulher determinada – sempre tendo em vista a criança a ser procriada.
(SCHOPENHAUER, 2000, p. 14)

Depois dessa “adequação mútua”, que seria justamente a satisfação das considerações
relativas, Schopenhauer salienta qual é o verdadeiro objetivo deste enamorar-se – a criança, a
próxima geração. E Raul segue o pensamento do filósofo religiosamente. No segundo verso
da estrofe, diz: “E assim virarmos de repente uma palavra só”. Em toda música, mas
principalmente aqui, Raul mostra sua genialidade e a capacidade de sintetizar e poetizar o que

26
“Coisas do Coração”. Raul Seixas. Eldorado, 1988.
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lhe salta aos olhos. A “criança a ser procriada” da qual fala Schopenhauer foi reduzida a essa
única palavra que o casal irá virar.
Ora, quando os indivíduos têm um filho, colocam um nome nele – é rigorosamente disto
que Raul está falando – a “palavra só” pode ser interpretada aqui como o nome da nova
criança. Ulteriormente da passagem dos estágios de amor sexual, e agora no amor
apaixonado, a espécie se perpetua em um novo nome, em um novo ser; ou, se melhor, nas
palavras de Raul: “Igual a um nó que nunca se desfaz”.
E, por fim, o último verso possivelmente representa de forma poética o método que os
dois indivíduos irão recorrer para alcançar tal intento. “Famintos um do outro como canibais”
mostra a embriaguez e a incandescência que estes dois seres têm um por outro. Advindo da
ideia de Raul, de que o sexo é um ritual simbólico, pode-se pensar aqui que envolve não
apenas o ato físico, mas todo um cortejo, jogo de olhares e estímulos que precedem, durante e
após a ocasião carnal voluptuosa.
Da mesma forma acontece principalmente nas tribos indígenas, onde a antropofagia é
uma forma ritualística, simbolizando elementos da cultura da tribo. O exemplo disso é história
de Gonçalves Dias, em que as tribos rivais comiam os guerreiros mais fortes do inimigo a fim
de ficarem com suas forças27. Em suma, pode-se entender este trecho como uma referência à
convenção que foi estabelecida pela civilidade ao longo dos tempos entre os cortejos de
mulher e homem.
Também há outro possível prisma para interpretar o último verso da segunda estrofe.
Partindo do ponto de vista fisiológico, a espécie engole a individualidade do casal.
O fato de um homem estar enamorado produz frequentemente fenômenos
tão cômicos, e às vezes trágicos; em ambos os casos porque ele, possuído
pelo espírito da espécie, é agora dominado por este e não mais se pertence:
assim, sua ação é inadequada à do indivíduo. (SCHOPENHAUER, 2000, p.
44)

Desse modo, pude fazer a leitura de que tanto o amor apaixonado, em que o indivíduo é
dominado e subjugado pela espécie, quanto o canibalismo28, podem ser colocados no mesmo
estatuto – como uma doença. Partindo do ponto de vista do expectador, o homem moderno
não entenderia as razões do ritual antropofágico, da mesma maneira ocorre com a visão
exterior em relação ao amor apaixonado; quem não é possuído pela espécie jamais

27
Juca Pirama, 1997, L&PM POCKET.
28
Segundo Freud, a antropofagia pode ser categorizada como uma psicose. Trata-se de uma manifestação
patogênica na fase oral. Para mais sobre o assunto a bibliografia recomendada é História de uma neurose infantil
e outros trabalhos, V.XVII, 1917-1919, Rio de Janeiro, Imago, 1996.
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compreenderá as loucuras de amor e, não as entendendo, chegará a taxá-las de doença.


Evidentemente, é uma interpretação mais radical e problemática; no entanto, nem mesmo
Schopenhauer, quando postulou e escreveu essas ideias acerca da manifestação do amor,
deixou de lado a face perversa, que pode culminar até em suicídio29, estupro e assassinato.
Somos a resposta exata do que a gente perguntou
Entregues num abraço que sufoca o próprio amor
Cada um de nós é o resultado da união
De duas mãos coladas numa mesma oração!30

Finalmente, é chegada à última parte da música. Esse trecho sugere um reforço por parte
de Raul à tese de Schopenhauer do amor apaixonado. Em a toda estrofe, nota-se que Raul
abandona os elementos eróticos e foca, sobretudo, em palavras mais afetuosas e espirituais,
como “abraço”, “união” e “oração”, em contraposição nítida às primeiras duas estrofes.
Pude entender, a partir disso, que Raul estaria falando do casamento daqueles dois
indivíduos. A forma como ele coloca a “resposta exata” sugere o “sim” respondido por ambas
as partes ao padre ao pactuarem com o sagrado matrimônio. O último verso da música parece
reforçar isso. Raul insere elementos religiosos para falar do amor, e este só pode ser
concretizado na religião mediante o casamento. Já no tocante a Schopenhauer, ainda o que
está em jogo aqui é a espécie:
Os casamentos de amor são contraídos no interesse da espécie, não dos
indivíduos. Os envolvidos presumem promover sua própria felicidade, mas o
seu verdadeiro alvo é alheio a eles mesmos, na medida em que reside na
produção de um indivíduo apenas possível por meio deles.
(SCHOPENHAUER, 2000, p. 50)

De certa forma, Raul segue essa linha, pois da forma como organizou a música, colocou
primeiro a constituição da criança para perpetuar a espécie e depois o casamento. O “abraço”
que está presente no segundo verso sugere uma amizade que possa surgir mediante a esse
casamento:
[...] ao amor apaixonado se associa um sentimento de origem bem outra, a
saber, uma amizade efetiva, baseada na concordância de mentalidades, que,
todavia, na maioria das vezes só aparece quando o amor sexual propriamente
dito se extinguiu na satisfação. (SCHOPENHAUER, 2000, p. 52)

Ou, simplesmente, nos moldes de Raul, pode-se dizer que o abraço sufocou o próprio
amor – a amizade sufocou o próprio amor. Aqueles dois indivíduos de outrora, que se

29
“Nos graus supremos da paixão essa quimera é tão radiante que, se ela não pode ser realizada, a própria vida
perde todo encanto, parecendo tão vazia de alegria, insossa e intragável que o desgosto ultrapassa os terrores da
morte; por isso às vezes é voluntariamente abreviada”. (Schopenhauer, 2000, p. 45)
30
“Coisas do Coração”. Raul Seixas. Eldorado, 1988.
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corresponderam entre si apenas por força da espécie, agora são unidos com “traços espirituais
em relação de complementariedade mútua, fundando assim uma harmonia de ânimos”
(SCHOPENHAUER, 2000, p. 52), ou se optarem pela linguagem a música de Raul, o casal se
tornou “duas mãos coladas numa mesma oração”.

CONCLUSÃO
A proposta do artigo era fornecer uma interpretação sólida da música “Coisas do
Coração” de Raul Seixas sob a luz da filosofia de Schopenhauer. Pude chegar com mais
clareza e precisão até a interpretação da música, por meio de três movimentos distintos:
aproximação da música por Schopenhauer pela sua estética; explicitação da teoria geral
schopenhauriana e da sua Metafísica do Amor; e, por fim, as demonstrações de
correspondência de Raul com a filosofia e com o próprio filósofo alemão.
As hipóteses sugerem fortemente a conclusão da afluência de apropriação de
Schopenhauer por Raul e o grau de penetrabilidade que a filosofia teve no cenário musical
brasileiro dos anos 70, especialmente por intermédio da dupla retratada aqui, que muitos
estudiosos de comunicação atribuem ao boom intelectual gerado pela tropicália, liberados por
Caetano Veloso e Gilberto Gil.

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RECEBIDO EM: 19/10/2017 | APROVADO EM: 04/12/2017

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