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resenha

LAZZARINI, S. G. Capitalismo de laços – Os donos do Brasil e suas conexões. São Paulo:


Campus, 2011.

Capitalismo monopolista
dependente-associado de laços no Brasil
Angelita Matos Souza*

A obra Capitalismo de laços, de Sérgio estrangeiras e nacionais. Na divisão do


Lazzarini, foi bastante comemorada nos mercado o capital estrangeiro
meios de comunicação à predominou no setor de
época do seu lançamento duráveis; o capital privado
e, de fato, resultado de nacional predominou na
uma pesquisa que indústria de bens de
pareceu-nos bastante consumo leve, no setor da
interessante sobre o construção civil, indústria
“mundo dos negócios” no cultural/empresas de lazer
Brasil pós-reformas dos e turismo, além do setor
anos 1990. Não obstante, bancário; o grosso da
gostaríamos de tecer infra-estrutura ficou com
breves considerações o Estado, sendo a
críticas, levantando indústria de bens de
algumas dúvidas, sobre o capital vinculada às
que denominaríamos encomendas do setor
“capitalismo monopolista estatal dividida entre o
dependente-associado e de capital nacional e o
laços”, conforme resumiríamos a estrangeiro, com dominância do
interpretação do autor sobre o primeiro.1
capitalismo brasileiro neste início de Inspirados em Tavares, denominaríamos
século. de desenvolvimento capitalista
A noção de capitalismo dependente- dependente-associado, por exemplo, o
associado sempre careceu de definições capitalismo sul-coreano, com sua
precisas. Maria da Conceição Tavares, geração de grandes grupos nacionais –
por exemplo, afirmou em alguns textos de automóveis, eletrônicos,
que, ao longo do processo de eletrodomésticos etc. – nos quais o
industrialização no Brasil, nunca houve capital estrangeiro seria sócio
propriamente associação entre importante mas não majoritário.
expoentes do capital nacional e capital Partindo deste parâmetro, interessa-nos
estrangeiro, sendo mais correto falar em retomar a tese de Sérgio Lazzarini
negócios comuns, parcerias ocasionais e (2011), em Capitalismo de laços, sobre
divisão de mercados, pois raras foram a suposta geração de um capitalismo
as fusões/associações entre empresas “associado” nos governos FHC:
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(...) uma obra muito citada por insucesso do capital penetrante nas
teóricos da dependência é, na últimas décadas, devido à forte presença
verdade, precursora da discussão de bancos locais – Banco do Brasil,
aqui presente sobre capitalismo de Itaú, Bradesco –, que dificultaria a
laços: O livro Dependência e entrada de grupos internacionais,
desenvolvimento na América
especialmente no segmento de varejo.
Latina, de Fernando Henrique
Cardoso e Enzo Faletto, de 1969. Centralidade dos grupos nacionais na
Os autores vão além da noção de economia local que, segundo o autor,
dependência estrita, pela qual expandiu-se nas privatizações dos anos
empresas e governantes de países 1990, com os grandes bancos
em desenvolvimento se curvam às adquirindo empresas e participações
demandas e agendas dos países acionárias diversas. Neste cenário, as
industrializados, para propor um investidas de grupos estrangeiros – por
contexto de associação exemplo, a compra do Real pelo
interdependente entre capital Santander - foram prontamente
estrangeiro e nacional. Em vez de respondidas localmente – fusão do Itaú
ficarem passivos à entrada do
e Unibanco que elevou o grupo a 2ª
capital externo, os atores locais
agem estrategicamente para se posição no mercado brasileiro, atrás
beneficiar de ligações com apenas do Banco do Brasil.
empresas estrangeiras. Formam-se
alianças, consórcios e emaranhados Ninguém contestaria a força dos bancos
comerciais entre governo, grupos nacionais no sistema financeiro local,
privados domésticos e herança do regime militar que, nos anos
multinacionais em torno de 90, impediu uma desnacionalização
projetos empresariais nascentes. expressiva no setor (como se deu, por
exemplo, na Argentina). Mas a despeito
Cerca de 25 anos após a publicação
do processo intenso de concentração no
do livro, Fernando Henrique
Cardoso iria eleger-se presidente setor financeiro durante o regime
do Brasil e executar esse modelo militar, o capital bancário não se voltou
associativo durante os leilões de para as atividades produtivas buscando
privatização. Os já citados o controle acionário destas. O mercado
consórcios mistos envolvendo de ações permaneceu pouco
grupos domésticos, multinacionais, desenvolvido e o financiamento de
BNDES e fundos de pensão longo prazo à produção seguiu
ilustram bem esse ponto. Fernando dependente das agências estatais. Ou
Henrique, longe de “esquecer o que seja, o processo de desenvolvimento
escreveu”, na realidade ajudou capitalista não logrou a conformação de
sedimentar o capitalismo de laços
um capital financeiro a partir da fusão
no Brasil. E criou as bases para o
seu reforço no governo entre capital bancário e produtivo
subseqüente (Lula). (Lazzarini, segundo o modelo das economias
2011:140) centrais.

Embora alinhada à noção de associação Entretanto, a julgar pela análise de


de Cardoso e Faletto 2 , o autor adverte Lazzarini (2011), o cenário teria se
que sua análise do “capitalismo de alterado a partir dos anos 1990, pois
laços” no Brasil (a partir dos anos 1990) naquilo que o autor denomina
atribui peso menor ao capital “capitalismo de laços” seria comum os
estrangeiro. Fato que seria evidente no grandes grupos formados a partir de
setor bancário, marcado por casos de associações/parcerias envolvendo
140
capital nacional de bancos públicos e/ou “mista” associada?), atuante em várias
privados, fundos de pensão de estatais e firmas (diversificado?) e passível de
capital estrangeiro na acusações de imperialismo. Enfim o
propriedade/gestão de grupos do setor capital monopolista moderno (mais à
produtivo (num emaranhado “mundo maneira européia devido à presença
pequeno”). Lazzarini destaca o caso da estatal via BNDES e fundos de pensão).
Vale, que com a privatização passou ao
controle de um consórcio de Não apostaríamos muito nisto, a
proprietários heterogêneo, sendo seus empresa Vale pode até ser caracterizada
dois acionistas diretos a BNDESPAR como um grupo nacional de capital
(do BNDES) e a Valepar. Esta última misto (público & privado) em
constitui o bloco de controle da associação com o capital estrangeiro
companhia, cujos sócios são a (minoritário), porém atua
Bradespar (do Bradesco, com pequena predominantemente no setor primário,
participação acionaria de um grupo com investimentos em logística
português), a multinacional japonesa subordinados ao ramo de atuação
Mitsui e duas empresas chamadas principal e pequenas participações em
Eletron (uma firma de investimentos do firmas variadas. E não constitui exceção
banco Opportunity) e Litel (que envolve dentre os 20 maiores grupos
um grupo de fundos de pensão de econômicos no Brasil, todos bastante
estatais, com destaque para Previ, do especializados independentemente do
Banco do Brasil). setor de atuação3, sendo que de nenhum
se poderia afirmar “capital financeiro”.
Além da complexa associação entre Agora, a hipótese da desnacionalização
proprietários, o grupo tem da propriedade do grande capital com as
investimentos e participações em várias privatizações dos anos 1990, a partir
firmas e, diante da dificuldade em dos dados levantados pelo autor, parece
mapear todas elas, o autor indica quatro mesmo insatisfatória:
exemplos: Minerações Brasileiras
Reunidas (MBR) e Samarco que atuam No conjunto das 10 maiores,
encontramos apenas uma empresa
com minério de ferro (a última em
estrangeira (Telefônica). Esse
parceria com um grupo australiano); retrato, embora limitado aos
Albrás (indústria de alumínios); MRS maiores grupos, reforça a nossa
Logística (que atua no transporte de conclusão anterior sobre a
minério e outras commodities e reúne persistente importância do governo
CSN, Vale, Usiminas, Gerdau, tendo os e de alguns grupos locais, a
dois primeiros com 43,8% e 22,9%, despeito dos eventos de abertura e
respectivamente do capital total da privatização ocorridos na década de
empresa). 1990. Com tantos grupos estatais e
domésticos de destaque, fica
Se acrescentarmos à descrição de novamente difícil aceitar o
Lazzarini o expansionismo da empresa argumento de que a economia
pela América do Sul e alhures, teríamos brasileira teria se
“desnacionalizado” e que o Estado
então um grupo internacionalizado (2º teria se enfraquecido após esses
maior produtor mundial de minério de eventos de reestruturação. A
ferro), reunindo capital local, banco marcante presença de grupos
público e privado, fundos de pensão de familiares também confirma
estatais, com participação minoritária analises anteriores ressaltando a
do capital estrangeiro (uma empresa importância de famílias locais nas
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redes corporativas brasileiras. mais do que isso o que precisa ser
(Lazzarini, 2011: 62) superado, pois por toda parte o mito da
separação entre poder político e poder
No entanto, a dimensão inconclusa do econômico nunca foi tão questionável
capitalismo monopolista no Brasil não pelo “entrosamento” entre elites
foi superada com os “eventos de políticas (incluindo a alta burocracia de
reestruturação”, pois as carreira) e os detentores da riqueza
associações/parcerias estudadas por privada.
Lazzarini (2011) não devem ser
entendidas propriamente como fusão Também muito se tem falado da
entre capital bancário e capital participação dos fundos de pensão como
produtivo rumo à geração do moderno acionistas de empresas privatizadas, a
capital financeiro. E ainda que este fim de denunciar a ingerência estatal
capitalismo que o autor denomina “de por meio destes atores, ou devido à
laços” possa ser “associado”, pois da estranheza que a transformação de
sua análise podemos depreender a fundos de pensão em acionistas provoca
existência de associações “sólidas” que – com suposta cooptação pelo mercado
justificariam a definição, mereceram de representantes das entidades dos
pouco destaque as alianças “fluídas”, trabalhadores. Todavia, dos males o
parcerias ocasionais abertas por menor, a participação dos fundos de
oportunidade de negócios, bastante pensão como acionistas de empresas
freqüentes após reformas dos anos privatizadas constitui um canal de
1990. Investigações mais exaustivas controle/pressão de governos sobre
sobre a participação do capital essas empresas que pode servir aos
estrangeiro nos grandes grupos interesses estratégicos (de
nacionais são necessárias a fim de se desenvolvimento) e à manutenção da
constatar que tipo de “articulação” tem propriedade em mãos nacionais.
predominado.
Ademais, a “classe dominante” deve ser
De certo, consideramos que o definida a partir da condição comum de
capitalismo brasileiro segue periférico- proprietários dos meios de produção e
dependente e, cada vez mais, das da riqueza. Assim como não é possível
exportações de commodities para a definir como “classe dominante” os
China. Acrescentando que é um tanto altos executivos das grandes
problemática a noção “de laços” corporações mundiais – investidores em
(articulada à idéia de associação) à ações da empresa –, o mesmo dá-se com
caracterização das redes de relações os gestores destes fundos. Uma
entre essas empresas e entre elas e o diferença básica e esclarecedora, tantos
Estado mais capital estrangeiro, pois altos funcionários de empresas privadas
não deixa de operar com a idéia de como gestores de fundos públicos
sobrevivência do “patrimonialismo” no podem ser destituídos das suas posições
Brasil. Com foco nas relações entre os de comando, deslocados de suas
detentores da riqueza e aqueles que posições “proprietárias”, enquanto só a
exercem poder político, denuncia-se as revolução depõe a classe dominante
transferências de recursos públicos para (quer dizer, não existe capitalismo sem
o setor privado segundo critérios capital, que pode ser estatal, como na
patrimoniais (não racionais), num país China). Por certo que, do ponto de vista
marcado por práticas “atrasadas” que da atuação política, são forças que pela
precisam ser superadas. Quando é bem concepção de mundo/estilo de vida
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podem ser denominadas “burguesas”, Efetivamente, o que parece tão
mas isso não faz delas uma brasileiro é um fenômeno mundial e,
classe/fração de classe dominante.4 cada vez mais, intrínseco ao modo de
funcionamento do capitalismo à era da
Finalmente, o capitalismo é “de laços” e
globalização financeira. Breves
ainda que traços específicos possam ser
considerações que não devem reduzir o
identificados na análise dos casos
interesse pela obra, cuja leitura é
empíricos - que devem ser estudados e
instigante e mesmo prazerosa (embora
denunciados - a patente não é nacional,
triste).
nem a “racionalidade” um patamar que
o Brasil ainda vai alcançar.

*
ANGELITA MATOS SOUZA é
Doutora em Economia Aplicada pela
Universidade Estadual de Campinas e
professora junto ao DEPLAN da UNESP de Rio
Claro /SP.
1
Ver, por exemplo, Maria da Conceição
Tavares. Brasil: estratégias de conglomeração.
In: José Luís Fiori (org.). Estados e moedas no
desenvolvimento das nações. Petrópolis: Vozes,
1999.
2
Fernando Henrique Cardoso e Enzo Faletto.
Dependência e desenvolvimento na América
Latina. Rio de Janeiro: Zahar, 1970.
3
O autor assim os classificou: 1) estatais
(Petrobras, Banco do Brasil, Caixa, Eletrobras);
2) privados familiares (Itaú, Gerdau, Odebrecht,
Votorantin, JBS-Friboi, Ultra); 3) privados
amplos (Vale, Bradesco, Oi); 4) estrangeiros
(Fiat, Santander, Bunge, Volkswagen, Shell
Brasil); 5) a AmBev, um grupo privado
doméstico/estrangeiro. Ver tabela dos grupos
por ramo de atividades e suas controladoras (p.
61-62).
4
O papel político dos gestores destes fundos,
pós-privatizações, precisa ser estudado mais
profundamente – na sua condição de investidor
e “intermediário” (entre mercado e governo). A
atuação “conservadora” ou “progressista”
dependerá dos rumos da luta política em
conjunturas concretas, sendo qualquer
caracterização de “classe” aos gestores destes
fundos, no mínimo, exagerada.

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