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Gestão Educacional AULA 2

Josali do Amaral

INSTITUTO FEDERAL DE
EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA
PARAÍBA

Democratização do espaço
escolar e qualidade da educação

1 OBJETIVOS DA APRENDIZAGEM

„„ Compreender o processo de democratização da escola brasileira;


„„ Identificar os avanços na democratização do espaço escolar alcançados
na primeira década do século XXI;
„„ Entender a importância do Conselho Escolar para os rumos da escola.
Democratização do espaço escolar e qualidade da educação

2 COMEÇANDO A HISTÓRIA

Figura 1

Caro aluno, falamos bastante em democracia na primeira aula. Agora, vamos


tentar entender o funcionamento dela na forma como a educação está organizada
e se transmite no interior do espaço escolar. Algumas palavras são chave para
este nosso encontro: diversidade, inclusão e participação.

Ao longo das disciplinas pedagógicas desta licenciatura, vimos que, apesar dos
problemas que enfrentamos, muitas coisas foram conquistadas. Nesta aula,
veremos como os espaços democráticos foram criados e a sua importância para
o desenvolvimento de uma educação voltada para a formação da cidadania.
Veremos também que migramos de um modelo centralizador e elitista para
a criação de um sistema de ensino que busca alcançar a unidade por meio da
aceitação da diversidade, da cooperação e da utilização do espaço público como
lugar de debate e deliberação.

Como afirmamos na primeira aula, estamos em fase de vislumbrar caminhos


para atingir a qualidade do ensino, então, vamos conhecer as instâncias criadas,
com a finalidade de pensarmos esse problema e entendermos como podemos
entrar no debate.

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AULA 2

3 TECENDO CONHECIMENTO

Instituir a democracia num país gigantesco como o Brasil é um trabalho hercúleo.


Passar da criação das instituições democráticas à prática da democracia é um
desafio. Como já repetimos ao longo de todo o curso, a Constituição de 1988 é
o grande marco desse processo e, no que tange à educação, representa o signo
dos avanços conquistados e o parâmetro para a avaliação e a busca de resolução
para os problemas detectados. Portanto, embora pareça repetitivo, precisamos
começar os assuntos sobre o processo de democratização da educação sempre
relembrando o que está estabelecido na Carta Magna.

Ao prescrever a criação de um sistema nacional de ensino, os debatedores que


viabilizaram a consecução da Carta de 1988 consideraram o Brasil na circunstância
de uma República Federativa, democrática, o que determinou que as diversas
instâncias educacionais fossem concebidas a partir desse parâmetro. Isso significa
que não se trata de uma organização que privilegia a centralização das decisões
e uma organização hierárquica da cadeia de decisões acerca das práticas de
ensino. Ao contrário, implica construir uma organização que garanta a plena
participação da coletividade.

Nossa fala pretende que você, caro aluno, se afaste de uma concepção de
educação autoritária, uma vez que a ideia de um modelo educacional nacional
pode sugerir que, num país diverso como o nosso, a educação seja pensada
como um modelo rígido ou norteado pelas decisões de uma elite, como ocorreu
em momentos anteriores da história da educação brasileira, seja no período
imperial ou no governo militar.

Concebida como uma federação, a nação brasileira é entendida como a reunião de


unidades administrativas que conservam autonomia relativa e que compartilham
do sistema de poder instituído na União. Por isso, em cada ramo das atribuições
do Estado (segurança, saúde, justiça etc.), devem ser criadas instituições que
garantam a participação das unidades federadas no âmbito da tomada de
decisões e que sejam definidas as suas competências, haja vista que é no interior
das unidades federativas (estados e municípios) que as práticas efetivamente
se realizam.

É com base nessa conceituação que a administração da educação brasileira


deve ser compartilhada em atribuições da União, dos estados e dos municípios,
cabendo a cada um deles as competências em relação às modalidades e níveis
de ensino, já conhecidas por você, caro aluno. Esse modelo visa garantir, além
da participação efetiva das unidades federativas nas decisões sobre os rumos
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Democratização do espaço escolar e qualidade da educação

da educação, a pauta das diversidades econômicas, sociais e culturais de cada


região, de modo que, por via do debate e da decisão coletiva, os problemas
sejam compartilhados e encaminhados racionalmente.
Percebe-se, pois, que ao invés de um sistema hierárquico
ou dualista, comumente centralizado, a Constituição federal
montou um sistema de repartição de competências e
atribuições legislativas entre os integrantes do sistema
federativo, dentro de limites expressos, reconhecendo a
dignidade e a autonomia próprias destes como poderes
públicos.

A Constituição fez escolha por um regime normativo e


político, plural e descentralizado no qual se cruzam novos
mecanismos de participação social com um modelo
institucional cooperativo e recíproco que amplia o número
de sujeitos políticos capazes de tomar decisões. Por isso
mesmo a cooperação exige entendimento mútuo entre
os entes federativos e a participação supõe a abertura de
arenas públicas de decisão. (CURY, 2002, p. 172).

Como podemos perceber a partir do esclarecimento proposto pelo professor Cury,


a ideia de um sistema de ensino nacional supõe muito mais a ideia de garantia
da cooperação mútua entre as entidades envolvidas no processo educacional
do que uma centralização coercitiva. Neste sentido, a palavra “nacional” invoca a
ideia de que, por meio de normas oriundas de deliberações coletivas, a educação
brasileira apresente coesão, entendida como a intencionalidade de atingir
finalidades comuns à comunidade de brasileiros reunida na forma de nação.

Solicitamos que você, caro aluno, recorde-se de que até 1996, ano de publicação
da Lei de Diretrizes e Bases, houve um debate muito intenso sobre a centralização
e a descentralização do ensino, o que implicou discutir problemas relativos à
diversidade da cultura brasileira nos currículos, às diferenças socioeconômicas
existentes entre as regiões e à dualidade entre cidadania e preparação para o
trabalho, enquanto finalidades da educação. Essa discussão propunha que fossem
evitadas distorções que, em outros modelos adotados no Brasil, privilegiavam
aspectos culturais e sociais da região sudeste, por exemplo, em detrimento das
dificuldades de adaptação que poderiam ocorrer em regiões muito afastadas,
como a região norte. Outro exemplo que podemos trazer é a concentração das
entidades de ensino superior, prioritariamente, nas capitais litorâneas do país,
enquanto que as demais localidades mal dispunham de um ensino secundário
estruturado. Isso relegava às populações interioranas a interrupção de sua formação
e conduzia a que somente os herdeiros de famílias com posses pudessem enviar
seus filhos às universidades.

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AULA 2

O modelo cooperativo instituído supõe que os agentes educacionais passem


a exercer um papel efetivo no desenvolvimento das estratégias que devem
ser traçadas, no intuito de ofertar uma educação de qualidade a todo o país,
considerando a diversidade da realidade brasileira.

3.1 Educação e democracia: participação, debate e deliberação

A forma encontrada para garantir a participação da sociedade e a coesão do


sistema de ensino foi a criação de conselhos, reunidos nas diversas instâncias da
federação, os quais garantem a representatividade no processo deliberativo. Desse
modo, a construção de uma educação de qualidade, minimamente igualitária
em todo o país, passou pela criação de diretrizes gestadas no interior desses
conselhos que proporcionem certo grau de coesão nas práticas educativas, sem
que se perca a diversidade das realidades locais.

Em resumo, foram criados os conselhos municipais e estaduais de educação e,


na instância federal, o Conselho Nacional de Educação (CNE), esse último com
a finalidade de garantir a participação da sociedade no desenvolvimento do
processo educacional e cultivar o diálogo entre os sistemas de ensino estadual
(prioritariamente responsável pelo ensino médio), municipal (responsável pelo
ensino infantil e fundamental) e o ensino técnico e superior (de responsabilidade
da União).

Foi no período imperial que se pensou em gestar um modelo nacional de ensino,


sem que isso implicasse um tipo de centralização que omitisse as diferenças
regionais. Foi por meio do Ato Institucional de 1834 que o Império reconheceu
a autonomia das províncias para tomar decisões sobre a administração pública
local. Essa medida gerou iniciativas como a da província da Bahia, que, em 1842,
propôs a criação do Conselho Geral de Instrução Pública. Mas já sabemos que
a educação não foi prioridade no Império e que os debates não foram adiante.
Ao longo da história de nossa República, várias tentativas de criar uma entidade
que mediasse a relação entre a autonomia regional e a unidade nacional foram
realizadas, conforme consta no portal do MEC:
O Conselho Nacional de Ensino (Decreto nº 16.782-A, de
13/01/1925), o Conselho Nacional de Educação (Decreto
nº 19.850, de 11/04/1931), o Conselho Federal de Educação
e os Conselhos Estaduais de Educação (Lei nº 4.024, de
20/12/1961), os Conselhos Municipais de Educação (Lei nº
5692, de 11/08/1971) e, novamente, Conselho Nacional de
Educação (MP nº 661, de 18/10/94, convertida na Lei nº
9.131/95).
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Democratização do espaço escolar e qualidade da educação

Na primeira metade do século XX e durante o período militar, os conselhos


tiveram funções essencialmente administrativas e burocráticas. Mas a decisão de
recriar o Conselho Nacional de Educação em 1994, no momento em que estava
em pauta a elaboração da nova LDB, partiu de uma iniciativa democrática, com
função política e não meramente executiva, como um órgão de assessoramento
do Ministério da Educação e Desporto, para assegurar a participação da sociedade
(Lei nº 9.131, de 24/11/1996, art. 7º). Essa participação é feita pela composição de
seus membros, escolhidos mediante consulta a entidades da sociedade civil, e
deve incluir representantes de diversas regiões e níveis de ensino. Estruturalmente,
o CNE se compõe de duas câmaras:

Figura 2

Ainda que o conselho esteja subordinado ao Presidente da República, que nomeia


a sua presidência e aprova o nome dos conselheiros indicados, metade de seus
membros deve ser selecionada por meio de listas elaboradas por categorias, as
quais indicam pessoas que atuam na área educacional, no nível da educação
básica e da educação superior. O CNE é essencialmente uma entidade política,
de caráter representativo e democrático, cuja finalidade é auxiliar e supervisionar
a prática educativa por meio de normas e pareceres.

Figura 3

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AULA 2

No endereço eletrônico http://revistaescola.abril.com.br/pdf/cne-tabuleiro-de-


tarefas.pdf, da Revista Escola, você encontra a discriminação de cada uma das
tarefas do CNE. Visite o site e entenda um pouco mais sobre o papel do CNE na
condução das políticas públicas de educação. Não podemos perder de vista que a
entidade tem por finalidade primeira e última pautar a qualidade da educação. Isso
tem funcionado por meio da elaboração de pareceres sobre diversas temáticas,
que vão desde balizar, avaliar e criar meios de executar as metas estabelecidas
pelo Plano Nacional de Educação até aprovar cursos universitários, sistemas de
avaliação de ensino, políticas públicas etc.

A partir da criação do CNE, embora a LDB não deixe claro a obrigatoriedade da


criação de outros conselhos, tornou-se implícita a necessidade de criação dos
conselhos localizados, de modo que o modelo participativo garanta a efetivação
do modelo democrático de desenvolvimento da educação. Desse modo, a
partir de 1996, deu-se início à criação de conselhos estaduais e municipais de
educação, embora esse ato dependesse da iniciativa local e não fosse determinado
por uma lei federal. Vemos, portanto, que a criação do CNE desencadeou um
processo de criação de espaços de participação, abrindo a possibilidade da real
democratização do sistema de educação.

Se, por um lado, o CNE visa contribuir para com a qualidade da educação,
buscando estratégias para manter o sistema de ensino coeso diante da diversidade
da realidade brasileira, os conselhos estaduais e municipais pretendem obter
o mesmo resultado nas vivências locais. Isso implica os conselhos terem a
finalidade de pensar o modelo pedagógico que deve reger o conjunto de escolas,
definindo propostas e práticas de ensino e observando as demandas oriundas
das comunidades.

A crítica recorrente ao modelo de sistema participativo instaurado no Brasil


incide na preocupação de que, embora ocorra a instituição dos espaços de
participação, a partilha de competências entre município, estado e federação
ainda mantém certo grau de hierarquização que confere maior grau de decisão
à União. Essa preponderância torna-se ainda mais evidente quando tratamos das
questões financeiras relativas ao planejamento da educação, já que, embora os
conselhos procurem exercer os seus papéis, que são da ordem do planejamento
educacional, a sua execução depende do repasse de verbas para que os planos
saiam do nível teórico e sejam efetivados. Nem sempre isso acontece e, na
verdade, diversos autores constatam que grande parte daquilo que é previsto
em lei e necessário, segundo os pareceres dos conselhos, não chega de fato às
administrações locais (CARNIELLI, 2000 apud WERLE et al., 2008).

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Democratização do espaço escolar e qualidade da educação

Esse é um dos maiores entraves para o alcance da tão desejada qualidade de


ensino, pois sem recursos, dificilmente as demandas comunitárias são atendidas.
Conforme afirma Werle et al. (2008), possibilitar a participação não implica
assegurá-la. Se, por um lado, o funcionamento dos conselhos permite garantir a
autonomia das unidades da federação e a participação efetiva da sociedade, por
outro, a efetividade de suas decisões está cerceada por ações centralizadas em
instâncias do poder executivo, que de fato decidem o que será implementado.

Seria então esse modelo uma farsa?

Não se trata disso, caro aluno, mas de um problema que ainda precisa ser
solucionado. Como vimos na primeira aula, a primeira providência para estender
o direito à educação a todos os brasileiros foi criar vagas nas redes de ensino,
movida pela construção de escolas e pela abertura de cursos de licenciatura, e
motivar a permanência das crianças e jovens no sistema por meio de incentivos
financeiros. No que tange à democratização, a criação dos conselhos permitiu
a ampliação dos espaços de participação. Cabe ainda reforçar uma segunda
finalidade desses espaços, que é, em parceria com as instituições fiscais, ampliar
a observação da gestão dos recursos financeiros, de modo a garantir que os
meios para que a escola de qualidade seja implantada sejam distribuídos em
conformidade com as deliberações democráticas oriundas dos conselhos.

Afinal, a democracia não se constrói apenas por meio da participação, mas


ainda da fiscalização, que se efetiva quando acompanhamos a atuação dos
representantes que são responsáveis pela condução dos meios necessários à
execução dos planos elaborados.

3.2 Democracia na escola: os conselhos escolares

O exercício da democracia é, antes de tudo, um aprendizado. E não há segmento


de atuação do Estado mais significativo para reunir essas duas atividades que
a educação. O espaço escolar, precisamente, é o lugar em que os indivíduos
podem aprender e exercitar o uso dos instrumentos democráticos, tornando-se
cidadãos participativos. Isso significa aprender a importância do espaço público
para o provimento da vida privada; capacitar a comunidade a tomar decisões
que afetam o coletivo; assumir responsabilidades. Além disso, é preciso aprender
a escolher formas de representação e fiscalização, o que envolve abrir mão de
convicções particulares e analisar pessoas e ações de acordo com a finalidade
de atingir o bem comum.

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AULA 2

Se mantivermos nossa atenção ao fato de que a Constituição de 1988 atrela à


finalidade da educação a construção da cidadania, não perderemos de vista
todo o esforço feito para criar um sistema de ensino que incorpore instâncias
normativas de participação coletiva. Disso se segue que a Lei de Diretrizes e
Bases da Educação criou mecanismos para que esse processo de democratização
chegasse ao espaço escolar, garantindo que ele também se transformasse num
lugar de autonomia e decisão, amparadas nas demandas da comunidade.

Os artigos 12, 13, 14 e 15 da LDB tratam especificamente da criação de mecanismos


de participação da comunidade na escola. Como a LDB é nossa velha companheira,
temos certeza de que você a tem à mão e pode consultá-la para recordar as
atribuições conferidas à escola, aos docentes e aos órgãos de gestão financeira
do sistema de ensino no qual a escola está inserida.

Dentre as principais medidas que têm sido tomadas para democratizar o espaço
escolar, destacamos a criação dos Conselhos Escolares e dos movimentos para
eleição da diretoria da escola.
Os Conselhos Escolares são órgãos colegiados que
representam as comunidades, escolar e local, atuando
em sintonia com a administração da escola e definindo
caminhos para tomar decisões administrativas, financeiras
e político-pedagógicas condizentes com as necessidades e
potencialidades da escola.

(...) a razão determinante da opção pela eleição, como


mecanismo de seleção de diretores, é a crença de que, por
um lado, pode-se escolher um profissional que se articule
com os interesses da escola, e por outro, o próprio método
de escolha, condiciona, em certa medida, seu compromisso,
não com o Estado, como fazem as opções do concurso e
da nomeação, mas com os servidores e usuários da escola.
(RODRIGUES; SANTOS, 2011, p. 125).

A criação dessas formas de participação coletiva está atrelada à organização


do sistema de ensino municipal e do seu conselho, por sua vez subordinados
ao Conselho Estadual de Educação, órgão ligado à Secretaria de Educação do
Estado, de modo semelhante ao que acontece na composição do CNE. Perceba
que a instauração dos conselhos em diversos níveis e redes de ensino articula
uma teia de comunicação e cooperação que pretende garantir a participação
da sociedade desde a base até as instâncias superiores.

Nesse ínterim, o Projeto Político Pedagógico (PPP) é o documento norteador da


forma de funcionamento e atuação do Conselho Escolar e do processo eleitoral,
bem como deve ser parâmetro para as deliberações do Conselho e da direção,
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Democratização do espaço escolar e qualidade da educação

uma vez que a escola deve esforçar-se para atingir as metas e finalidades definidas
no sistema de ensino. Em última instância, esses mecanismos democráticos
devem colaborar, assessorar e fiscalizar ações e recursos com vistas à melhora
da qualidade da educação ofertada pela escola.

Nessa cadeia, o papel dos profissionais de educação, professores e técnicos


em educação, é fundamental, na medida em que eles devem colaborar para a
organização desses mecanismos de participação, encaminhar demandas coletivas
e fiscalizar a atuação de seus representantes. Vale salientar que os próprios
funcionários da escola e seus usuários, enquanto membros da comunidade escolar,
podem e devem ser escolhidos ou nomeados representantes da comunidade,
como membro do Conselho Escolar ou órgão equivalente. Cabe também
ao docente, por meio de projetos pedagógicos, estimular a participação da
comunidade do entorno nas instâncias deliberativas.

Concebida como entidade autônoma, cada escola tem a possibilidade de decidir


o funcionamento de seu conselho ou entidade equivalente e a forma como será
escolhida a direção da escola, desde que sejam respeitados os documentos que
balizam o sistema nacional de ensino, a legislação estadual e municipal.

É importante ainda lembrar que qualquer membro da comunidade escolar


pode e deve participar das instâncias deliberativas, conforme os critérios de
representatividade. Isso quer dizer que alunos, pais, professores, funcionários
e entidades comunitárias podem constituir membros no Conselho Escolar,
conforme regras de proporcionalidade definidas em regimentos específicos. Já
para o cargo de diretor de escola, em geral, exige-se que o candidato seja um
profissional de educação, com experiência na área.

No intuito de estimular o funcionamento dos Conselhos Escolares, o portal do


MEC tem ofertado cursos de formação de Conselheiros Escolares e de Gestão
Educacional. Isso não implica a profissionalização de conselheiros e gestores,
mas a capacitação objetiva das pessoas envolvidas com o espaço escolar. A
finalidade é aproximar o conselheiro, ou candidato, ao cargo de gestão no
trato com a legislação, problemas pedagógicos, gestão de pessoas e gestão
financeira. Afinal, para participar efetivamente dos processos deliberativos, é
necessário conhecer o funcionamento do ensino e da administração pública, a
fim de não só trazer os problemas vivenciados para o debate, mas refletir sobre
a viabilidade de resolvê-los.

Mas como se efetiva a participação? No dia a dia da escola. Os alunos exercitam


a participação quando aprendem a se organizar para enviar suas demandas aos
Conselhos de Classe, elegem seus representantes e selecionam suas reivindicações
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AULA 2

e demandas. Os pais, quando são convidados a participar das reuniões e da


organização das atividades escolares. Os professores, por meio das reuniões
pedagógicas e na composição de comissões para elaboração do PPP, dos
regimentos, das revisões curriculares, dos cursos de capacitação etc. Nesses outros
espaços de participação da escola é que se aprende sobre a organização dela, e,
a partir da exposição e da troca de ideias, surgem as lideranças. A comunidade
aprende a depositar confiança em pessoas que poderão, em processos eleitorais,
compor os colegiados e equipes gestoras.

Você pode estar pensando que isso é uma utopia, já que os alunos mal participam
dos Conselhos de Classe, que os pais não vão às reuniões, que os professores estão
desinteressados ou não têm tempo para participar das atividades pedagógicas... E
você tem razão. Mas nesse momento de aprendizagem do exercício democrático,
em que a escola e seus gestores ainda estão oscilando entre o direito à participação
e práticas autoritárias, a participação é pequena e pouco efetiva, mas ela não
pode deixar de ser estimulada. É como o trabalho da formiguinha que, mesmo
só podendo carregar uma folhinha, sabe que seu papel é fundamental para a
manutenção do formigueiro. Note que a formiguinha carrega até 100 vezes o seu
próprio peso. Por analogia, podemos dizer que aqueles que participam carregam
um peso enorme: o de decidir por aqueles que não participam.

Carvalho Luz (2007, p. 49) informa que a participação da comunidade no espaço


escolar tem sido alvo preferencial dos debates acerca das reformas educacionais
em todos os países que buscam a democratização dos espaços sociais. Isso não
só por motivações de ordem política, mas precisamente porque os estudos
apontam que a proximidade entre a comunidade e a escola contribui para a
melhoria do desempenho escolar.
(...) os trabalhos sobre escola eficaz mostram que, quando
há, no grupo familiar da criança, o reconhecimento da
importância da educação para sua vida, ainda que esse
grupo não tenha a constituição de uma família nuclear,
cria-se um ambiente que encoraja a aprendizagem, fazendo
com que o aluno se saia melhor na escola.

Essa percepção da autora citada reforça a importância da reafirmação dos espaços


de participação na escola. Eles são difíceis de ser construídos porque nosso país
tem pouca experiência no exercício da democracia. Nesse sentido, o momento
de elaboração do PPP pode funcionar como um espaço de discussão com o
intuito de criar estratégias que atraiam a comunidade escolar para os espaços
deliberativos da escola. O rol de ações pedagógicas pode incluir atividades que
abram os portões da escola e convidem à participação. Feiras culturais, festas
populares, campanhas ambientais, de saúde pública de melhoria do ambiente
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Democratização do espaço escolar e qualidade da educação

escolar podem ser planejadas com a consulta à comunidade de entorno, de


modo a estimular que pais, comerciantes, entidades públicas se tornem parceiros
da escola na execução de suas tarefas. Isso implica uma mudança de postura,
pois essas atividades escolares incluem a comunidade apenas como convidados
para uma festa, enquanto que eles podem ser ativos nos processos de decisão
e organização das práticas escolares.

Dá trabalho? Muito! Mas é o caminho que melhor expressa a democratização.


Só falta você se convencer e se engajar nessa luta!

Exercitando

Uma vez que você já está fazendo o estágio supervisionado, procure se informar,
na escola em que estagia, se há um Conselho Escolar ou órgão equivalente
e como ocorre a escolha da direção. Procure saber como funcionam essas
instâncias democráticas, se elas existem ou por que não estão funcionando.
Elabore um texto em que você descreva minimamente como a democracia e a
representatividade ocorrem na escola em que estagia e poste no AVA. Utilize
esse texto para estimular uma discussão com seus colegas de curso sobre como
funciona, na prática, a democratização do espaço escolar.

4 APROFUNDANDO SEU CONHECIMENTO

O livro organizado pelas professoras Lucilia


Augusto Lino de Paula e Lia Maria Teixeira
de Oliveira reúne uma série de textos que
abordam a criação dos Conselhos Escolares
e relatam experiências de participação em
diversas modalidades de ensino, passando
inclusive pela questão da tutoria em ensino a
distância. Os textos partem da discussão sobre
a importância que a legislação teve na criação
e ampliação dos espaços de participação e as
Figura 4 dificuldades encontradas paraw colocá-la em
prática nas diversas realidades de ensino.

A obra está disponível no portal do MEC e você pode acessá-la pelo endereço:
http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=36731-
conselho-formacao-participacao-pdf&Itemid=30192

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AULA 2

5 TROCANDO EM MIÚDOS

Nesta aula vimos que o processo de democratização do espaço escolar tem


origem na elaboração da Constituição de 1988 e da LDB de 1996. Ao indicar a
organização do sistema de ensino nacional, considerando o aspecto federativo
da nação brasileira, os documentos propuseram a partilha de competências
entre estados, municípios e a União, bem como a organização de instâncias de
participação para diversos segmentos da sociedade, de forma a garantir que o
modelo centralizador e autoritário que foi consagrado na história da educação
brasileira seja efetivamente substituído por um ambiente democrático. A criação
do Conselho Nacional de Educação permitiu que houvesse um órgão de caráter
representativo e normatizador atuando junto ao Ministério da Educação e
Desporto. A criação do CNE conduziu à criação dos Conselhos Estaduais e
Municipais de Educação, com papel similar junto às Secretarias de Educação,
o que permitiu que representantes locais contribuíssem para a elaboração dos
sistemas de ensino locais. A LDB determinou a criação de Conselhos Escolares
que garantissem a participação da comunidade na organização da escola, com
a finalidade de aproximar a realidade escolar das demandas reais da sociedade.
Esses espaços funcionam como ambientes de exercício da cidadania e ampliam
a capacidade da escola de compreender as dificuldades que deve enfrentar
para cumprir as metas pedagógicas. Embora de difícil execução, em virtude de
questões de gestão financeira da União, os espaços de participação estão criados
e cabe aos profissionais da educação desenvolver propostas que estimulem a
participação efetiva da comunidade.

6 AUTOAVALIANDO

Caro aluno, ao término desta aula, é necessário que você faça uma reflexão,
tentando responder aos questionamentos abaixo:

„„ Consegui compreender o processo de democratização da escola brasileira?

„„ Sei identificar os avanços democráticos alcançados na primeira década do


século XXI?

„„ Entendi a importância do Conselho Escolar para os rumos de uma escola?

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Democratização do espaço escolar e qualidade da educação

REFERÊNCIAS

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