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Lugar de Fala: onde fica?

“Eu acho que o lugar de fala, nesse sentido, acaba sendo uma postura ética. Como
que eu, do grupo que é localizado no poder, posso contribuir para uma sociedade
menos desigual” – Djamila Ribeiro

Não vejo forma melhor de começar esse texto senão pela citação acima.
Não é segredo que, frente à grande polêmica que a discussão sobre lugar de
fala trouxe, fiquei apreensivo sobre escrever sobre o tema. Talvez não seja
minha culpa, afinal, como homem branco, antes mesmo de começar a debater o
assunto, já me foi dito que eu não tenho lugar de fala algum, que não devo
palpitar em outras lutas – curiosidade, até da luta LGBT, grupo do qual faço
parte, já fui excluído, mas isso é assunto para outro texto.

Partindo, então, desse ponto, propus-me a discutir o livro O que é Lugar


de Fala, da escritora brasileira Djamila Ribeiro. Esta é pesquisadora da área de
filosofia política e ex-secretária adjunta de Direitos Humanos do Estado de São
Paulo. Sua experiência como ativista, principalmente na luta feminista e na luta
racial, junto às suas pesquisas acadêmicas, deu a ela o lugar de fala de onde
ela fala.

O que é Lugar de Fala? é o primeiro livro da coleção Feminismos Plurais


da Editora Letramento, que visa, por meio dessa seleção de livros, a levar o
movimento feminista ao público geral de forma acessível e didática. No livro de
Djamila, em especial, ela selecionou a bibliografia de seu texto de forma
acadêmica, procurando embasar-se em publicações de autoras feministas já
conhecidas. De fato, as referências desse livro são, no mínimo, inspiradas.

Dessa forma, a obra foi engendrada para que o leitor entenda o lugar de
fala de uma maneira pedagógica. O texto é iniciado por meio de uma
contextualização histórica, mostrando a trajetória da mulher negra durante os
séculos. O objetivo dessa estratégia, acredito eu, é “descontemporanizar” a luta,
ou seja, mostrar que a luta da mulher negra é antiga, que não é um capricho do
mundo moderno. Estudar os eventos passados é necessário para compreender
os eventos que levaram ao presente e é a chave para saber como mudá-lo.
Mulheres como Sojouner Truth, Francis Gage, Judith Butler, Giovana
Xavier fazem parte da seleção de autoras e feministas negras que contribuíram
para a obra de Djamila. É interessante dizer que a escolha de autoras não serviu
somente como aporte teórico para os argumentos, mas também para dar
visibilidade a essas autoras. Pessoalmente, não conhecia muitas delas e tenho
certeza que a maior parte do público também não.

Em seguida, ela dá o foco à questão da mulher negra. Esse capítulo,


intitulado Mulher Negra: O Outro do Outro, inicia-se já falando sobre a visão da
mulher negra no mundo, destacando como já existe um olhar colonizador para
elas, mesmo nos dias de hoje. Djamila fala sobre como a mulher é vista como
um objeto nas mãos dos homens. É também ressaltado que se a mulher, como
o Outro frente ao homem, já é minimizada, já não possui reciprocidade do
homem, a mulher negra se encontra numa situação mais delicada ainda, mais
difícil de se lidar.

Ao finalizar essa parte, Djamila, enfim, chega ao ponto principal do livro:


o que é o tão falado lugar de fala? A autora, na sua discussão sobre o assunto,
é muito feliz e evoluída. Não é visto no capítulo ataques a ninguém e, com polidez
e clareza, ela defende seu ponto de vista e sustenta seus argumentos com base
em outros teóricos. Ao meu ver, o capitulo mostra como diferentes posições nas
hierarquias sociais provocam formas diferentes de significar o mundo,
quebrando a monopolização da interpretação homem-branco-cis dos eventos
contemporâneos e históricos que domina meios de comunicação modernos.

Ainda nos ideais da autora, é necessário realizar uma distinção entre o


lugar de fala e a representatividade. É destacado no livro que todos os indivíduos
possuem um lugar de fala, afinal, não há ninguém que esteja fora da teia tecida
pela hierarquia social humana. Aliás, ela afirma que o indivíduo que está numa
posição privilegiada pode sim compreender o lugar de fala, participar do debate,
refletir sobre a posição do outro a partir da sua própria e adotar uma postura
ética frente às desigualdades.

No entanto, não cabe a esse indivíduo representar uma luta da qual ele
não faz parte. Nas palavras da autora, uma travesti negra pode não se sentir
representada por um homem branco, mas isso não o impede de teorizar sobre a
realidade dela e contribuir, do seu lugar de fala, para uma maior igualdade.
Defender a inserção todos os indivíduos na discussão, de forma que cada um
exerça o seu papel na luta por direitos iguais a todos, é um grande passo em
direção à igualdade e um dos grandes diferenciais dessa obra. Esta integra
pessoas ao invés de criar barreiras entre elas.

Partindo para a questão da produção e distribuição do livro, é decerto que


ele cumpriu seu papel de popular, afinal, seu preço é 19,90 na maioria das
livrarias, o que permite a maior parte da população adquiri-lo. Entretanto, outros
questionamentos podem ser feitos sobre a escrita do livro. Se a proposta deste
é de popularizar e tornar acessível o conhecimento, por que ele tem
características tão acadêmicas? Francamente, duvido que um indivíduo de baixa
escolaridade compreenda a mensagem que Djamila procura propagar.

Durante a leitura do livro, termos complexos como ontologia,


epistemologia, interseccionalidade e dissonante são usados. Para um
acadêmico de nível superior, compreender essas ideias é uma tarefa fácil,
porém, para as massas, para os grupos que sofrem de forma mais pesada com
a hierarquização social, talvez a mensagem do livro não possa ser absorvida. É
um pouco contraditório propor-se a escrever um livro para o povo e usar uma
linguagem que o povo não entenderia.

Destarte, fica evidente os aspectos principais da obra bem como as


impressões que tive durante a leitura. Não apenas recomendo que todos leiam,
mas afirmo que as informações do livro são necessárias a todos os indivíduos,
em especial àqueles que procuram combater a hierarquia social excludente que
hoje domina. A mim, o livro ensinou que, embora privilegiado, eu possuo um
lugar de fala e que adotar uma postura ética frente às desigualdades presentes
na sociedade é uma forma de combate importante e necessária.

Que fique como lição: diferentes lugares de falas implicam diferentes


papeis na luta por direitos iguais. Ninguém deve ser silenciado e ninguém deve
ser negligente no seu papel como agente de mudança social.

Ricardo Bibiano Dias Filho