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DOS

· COLECTANEA DE ARTIGOS, CONFEReNCIAS E TRABALHOS INIIDITOS DO

ALMIRANTE GAGO COUTINHO

organizada e prefaciada pelo


COMANDANTE MOURA BRAZ

EDIÇÃO COMEMORATIVA DO PRIMEIRO CENTENÁRIO


DO NASCIMENTO DE GAGO COUTINHO
A NÁUTICA
DOS
DESCOBRIMENTOS

a
A NÁUTICA
DOS

La edição: 1951 DESCOBRIMENTOS


OS DESCOBRIMENTOS MARÍTIMOS VISTOS POR UM NAVEGADOR

COLECTÂNEA
DE
ARTIGOS, CONFER1?.NCIAS E TRABALHOS INÉDITOS DO
ALMIRANTE GAGO COUTINHO

ORGANIZADA E PREFACIADA
PELO
COMANDANTE MOURA BRAZ

EDIÇÃO COMEMORATIVA DO PRIMEIRO CENTENARIO


DO NASCIMENTO DE GAGO COUTINHO

AG~NCIA-GERAL DO ULTRAMAR
L ISBO A I MCMLXIX
-

O almirante Gago Coutinho observando com o astrolábio


VOLUME I

a
PREFÁCIO

a
Carlos Viegas Gago Coutinho é oficial de marinha
e, no pleno vigor dos seus oitenta e dois anos, lídimo
representante das gerações que ainda viveram o verdor
da juventude e a pujança da idade viril naquele
ambiente de transição que marcou a passagem dos
tempos da vela e dos navios de sistema misto - casco
composto de ferro e madeira, máquina de vapor com
a hélice, por vezes, de içar e aparelho e manobra à moda
antiga - para o que, na gíria naval da época, se cha-
mava o «metálico moderno». Ainda andavam no mar
ou exerciam autoridade e davam exemplo em terra
oficiais do saber e da têmpera de Costa Carapinha,
Baptista de Andrade, Tomás Andrea e outros de m enos
nomeada mas de nítida proficiência náutica, acompa-
nhada de prestígio militar e profissional. O ambiente
naval era o de um passado então muito próximo, dada
a lentidão do progresso no material e na técnica,
característica dos tempos que imediatamente precede-
ram o evolucionar vertiginoso das épocas mais recen-
tes: os tempos do Marquês de N isa e da cooperação
com unidades de Nelson em manobras e em acções
navais no Mediterrâneo. O espírito e os hábitos pouco
ou nada se diferençavam dos de então e a arte de
A NÁUTICA DOS DESCOBRI ME NTOS PREFÁCIO
12 I3

navegar seguia ainda os mesmos processos primitivos tia, ao tempo, de relações frequentes e directas com
e elementares, mas complicados, que a técnica e os o mundo europeu mantinha as populações indíge-
recursos modernos não tinham tido tempo ainda de nas -para não falar nos próprios colonos-, no
melhorar. O ponto no mar firmava-se nas velhas mesmo primitivismo, sensivelmente, em que aqueles
fórmulas do horário e da meridiana pelo Sol e a regu- foram encontrados pelos primeiros navegadores e
lação da marcha dos cronómetros, de que dependia estes se foram por lá deixando ficar como degreda-
o chegar com segurança ao porto de destino, era dos, aventureiros ou empregados do Governo. Quem
preocupação aflitiva para quem tinha a seu cargo o chegasse, por exemplo, à Guiné aqui à volta de qua-
serviço da pilotagem comparado com a simplicidade renta ou cinquenta anos atrás, e, depois, mais tarde,
e a certeza que actualmente oferece a radiotelegrafia. lesse o manuscrito da Biblioteca Pública de Munique
Daí resultava uma aplicação . sôfrega ao estudo da dado à estampa por Valentim Fernandes - um de-
navegação, dos roteiros e da astronomia náutica, em poimento que há quem, com bons argumentos, atribua
que a necessidade desenvolvia uma espécie de sexto ao autor do «Diário da Primeira Viagem de Vasco da
sentido que caracterizava e distinguia os bons pilotos Gama à l ndia» -, julgar-se-ia ter lá estado também
da época. Ao mesmo tempo a v1da a bordo de um
na sua companhia, de tal forma nele se nota a identi-
grande número de navios e a maneira como o serviço
dade do meio e dos costumes. Quem entrasse pelo antigo
se fazia nas estações navais não diferiam essencial-
Reino de Benguela dentro ou pela Zambézia acima ia
mente das que desfrutavam os homens das naus e
lá dar com um ambiente que não era essencialmente
das caravelas das velhas navegações de outrora.
diferente daquele com que deparavam os primitivos. Na
Aparte o modernismo do salmão e da ervilha em lata,
a carne salgada - agora chamada pomposamente costa de Moçambique encontrava os mesmos pangaios,
corned beef - , e a bolacha com bicho eram sensivel- nas bocas dos rios as mesmas almadias, por toda a
mente as mesmas e, se os navios mais algum conforto parte os mesmos pilotos mouros, cabindas ou man-
davam, era em lanchas a remos ou à vela, tal-qualmente jacos; em Gabo V erde aprendia com os lugres ame-
como no tempo de então, que se faziam os cruzeiros ricanos comandados por pilotos da terra como se
contra os negreiros na costa, angras e estuários de navegava entre o arquipélago e o continente ociden-
Moçambique, que se demandavam barras difíceis, que tal, sem cronómetros, apenas à feição dos ventos
s e realizavam desembarques em terra, que se fazia gerais, correndo no fim, na altura ou latitude em que
hidrografia. Mas esse ambiente do passado, hoje em a estima e as conhecenças davam terra próxima. sobre
dia remoto, mas então de tal forma vincado e vivo o paralelo do porto de destino, tal-qual como faziam
que só a reflexão fazia sentir a distdncia em tempo, os pilotos da balestilha e do astrolábio quando o pro-
tornava-se mais sensível quando, no mtramar, o ofi- blema da longitude não tinha ainda encontrado solu-
cial travava as primeiras relações com a terra. A cares- ção possfveZ.
-------------------~------- ,

A NÁUTI C A D OS D ESCOBRIM ENTOS PREFÁCIO


I5

O oficial de marinha vulgar vivia esse ambiente das Ciências de Portugal, vogal da Academia Portu-
com mais ou menos entusiasmo ou interesse, mas guar- guesa da História e do Instituto Histórico e Geográ-
dava apenas dele a recordação de tempos difíceis, o fico do Brasil, nasceu em 17 de Fevereiro de 1869,
ressaibo de aventuras acres, ou o tédio de uma esta- alistou-se na Armada, como aspirante de marinha,
ção monótona, ou de uma viagem longa e sempre igual em 15 de Novembro de 1886 e seguiu para a Estação
nos trópicos. Gago Coutinho, porem, espírito infatigà- Naval de Moçambique, na «Afonso de Albuquerque»,
velmente curioso e activo, embebeu-se nele e viveu em 13 de Dezembro de 1889; foi promovido a guarda-
intensamente esse meio, primeiro no mar, depois no -marinha em 21 de Janeiro de 1890 e a segundo-tenente
mato, e essa escola explica a lucidez quase divinató- em 7 de Março de 1891, depois do que seguiu normal-
ria das suas deduções luminosas sobre a náutica dos mente a sua carreira profissional, cumprindo todos
Descobrimentos. Recebeu desde novo aquela espécie os tirocínios e deveres próprios da arma até atingir
de cultura que é necessária a quem se propõe inter- o posto de capitão-de-mar-e-guerra. Foi promovido
pretar actos ou circunstâncias que envolvam deter- por distinção ao posto de almirante em 30 de Março
minada técnica especializada. Foi piloto, navegou à de 1922. Fez todo o serviço de embarque e de estação
vela em navios que não tinham T. 8. F., sentiu à flor no Ultramar segundo as normas ao tempo em vigor,
da pele e no íntimo da alma momentos semelhantes intercalado porém de várias comissões fora da arma
àqueles cujo estudo e interpretação, à falta de documen- que lhe absorveram 18 anos de actividade geográfica
tos, que não existem, por motivos de sigilo que a polí- intensa com uma boa dezena de vida no mato, de que
tica do Estado ou o interesse individual mandavam, resultaram a demarcação de cerca de 2000 km de
ou da ignorância do narrador coevo, mais literato do fronteiras no mtramar) o levantamento expedito de
que sabedor de factos -obriga à conjectura, que só milhares de quilómetros quadrados de território ultra-
tem lógica quando se alicerce em ciência certa e pro- marino, itinerários de longas travessias do continente
fissional. tanto em Angola como em Moçambique, uns 800 km
Basta ler a «No ta de Assentos» do almirante para de triangulação geodésica nesta última província, a
reconhecer como a prática do mar e do mtramar lhe da ilha de S. Tomé, vários pontos geográficos por
deu especial competência para se dedicar como mestre observações astronómicas, instruções várias de campo
à interpretação e ao estudo crítico da Náutica dos para trabalhos geodésicos e, na Comissão de Carto-
Descobrimentos. grafia, de que foi presidente, uma tradição e uma
escola de que vive e continuará a viver o organismo
• oficial que lhe sucedeu .
Como todos os oficiais do seu tempo e da sua
Carlos Viegas Gago Coutinho, socw efectivo da escola, embarcou em vários navios da Armada como
Academia das Ciências de Lisboa, vogal da Academia aspirante e guarda-marinha, na qualidade de oficial


A NÁUTiCA DOS DESCOBR I ME NTOS
16 PREFÁCIO
17
de guarnição, de imediato e de comandante, tanto de Castilho, com quem igualmente fez, em grande parte
no serviço da Metrópole, com nas estações navais do à vela, na «Mindelo», a travessia do Atlântico Sul de
Ultramar, ou em viagem por portos estrangeiros. Luanda ao Rio de Janeiro, quando dos históricos
A bordo do navio-escola de aspirantes «Duque da acontecimentos de 1893 (1) ; como encarregado da
Terceira» e do navio-escola de marinhagem «Pero pilotagem, na «Pero d' Alenquer:., comandante José
à'Alenquer», foi oficial instrutor. Maria da Silva, imediato o grande mestre de nave-
De toda essa actividade, porém, e no sentido de gação à vela Eduardo Macieira, fez depois, sem auxí-
acentuar a sua sólida, extensa e profunda preparação lio nem esperanças de recurso a qualquer espécie de
para a critica fundamentada da técnica da náutica força motriz que não fosse a do vento, a grande tra-
dos Descobrimentos, destacaremos aquela que decor- vessia de Lisboa a Lourenço Marques pela clássica
reu a bordo de navios exclusivamente de vela ou daque- Volta de Oeste, inaugurada e ensinada ao mundo por
les que ao tempo, na classe de mistos, utilizavam de Vasco da Gama na sua primeira viagem à lndia, que
preferência, por economia ou por gosto profissional foi também a de toda a históiia...
dos comandantes, este último sistema de navegação. Isto sem contar com um longo tempo de embar-
Esta actividade e experiência verificaram-se em que nos mares da Metrópole e do Ultramar , como
embarque e serviço no mar a bordo das canhoneiras comandante da lancha-canhoneira «Loge» no Congo,
«Zaire» «Zambeze» e «Douro», das corvetas «Min- como oficial de guarnição da canhoneira «Limpopo:.
'
delo», «Duque da Terceira» e «Rainha de Portugal», em Angola e da «Liberal» na costa portuguesa, no
do transporte navio-escola de marinhagem «Pero comando da «Pátria» em Timor, etc. E por fim, em
d' Alenquer», galera afamada do tempo dos «Clippers» viagem de estudo por conta própria, nova travessia
que até no seu naufrágio, de novo ao serviço da mari- do Atlântico, em sentido contrário à feita anterior-
nha mercante, manteve com garbo e com eficiência mente na «Pero d' Alenquer», a bordo da barca de
as suas lídimas características de bom veleiro. quatro mastros «Foz do Douro», ainda sem motor
Na «Zaire», por exemplo, fez parte da travessia auxiliar ...
à vela da ilha de Santa Helena para Santiago de Nesta viagem, feita em condições id~ticas àque-
Cabo Verde; na «Zambeze» vele jou pelo golfo da Guiné las em que se navegava há séculos, teve ocasião, num
entre S. João Baptista de Ajudá e a ilha do Príncipe; período de tempo de 105 dias, de avaliar a precisão
na «Douro» e na «Rainha de Portugal» correu à vela que o astrolábio permitia nos navios de vela. Havia
parte ·do Atlântico Sul; a bordo da «Duque da Ter-
ceira», onde fizera a sua aprendizagem náutica de
aspirante de marinha, serviu como oficial de guarni-
ção e encarregado do aparelho do navio sob o comando (1) Regressou do Rio em paquete, escapo da febre ama-
rela, de que foram atacados seis oficiais, três dos quais lá
do grande oficial e marinheiro excelso que foi Augusto morreram.
I8 A NÁUTICA DOS DESCOBRIMENTOS

uma dezena de anos que o vinha experimentando mas


a bordo de navios de vapor, em que as condições de
observação não são precisamente as mesmas.


e na prática da navegação à vela que se adquire
o sexto sentido do mar, que o espírito se integra na
complexidade dos elementos que caracterizam o am-
biente em que o navio procura o seu caminho utili-
zando, ao mesmo tempo, as forças que lhe servem de
impulso ou se opõem à sua marcha.
Na prática da vela aprende-se o regime normal
dos ventos reinantes nas diversas zonas marítimas
para as diferentes épocas do ano e, simultâneamente,
os fenómenos meteóricos que o perturbam e o alte-
ram. O traçado da derrota não é nela uma simples
operação geométrica na carta, tendo em atenção apenas
os escolhos que barram o caminho ou as correntes
marítimas que ajudam ou prejudicam a economia da
viagem.
Salvo casos peculiares, como é o da navegação dos
pangaios no Indico à feição das monções, as rotas de
vela são, em regra, indirectas, não já prõpriamente
.
em bordadas de bolina para vencer ventos contrários
em tiradas curtas ou dentro de mares apertados, mas
em volta larga, a tornear, quando se trata de nave-
gação . oceânica, em cujas zonas específicas reinam os
ventos gerais que lhes são próprios. Isso, que na
actualidade se regula pelo exame das cartas de ventos
e correntes, que para cada mês do ano fornecem os
elementos nect.ssários ao traçaao da derrota, era
outrora governadn mais que tudo pela ciência de expe-

Capa do «Livro de De rrotas» ( «Diário de Navegação») do primeiro-tenente


de marinha . Carl os Viegas Gago Coutinh o, da guarni ção do transporte
à vela «Pero de Alenquer», em viagem de Lisboa para Louren ço Marques
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Diario nnut1~o do. M,..?,...u• "* ~~ para -~~JJ.a...t"'U
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r-ªº- -· .,. .. --- ........ . .. . . --- ....... 1-- ! - - - ---.........._________, ___
24

Rosto de uma das folhóls


PREFÁCIO 19

nencw feita. A quem a tem, ou a quem sabe inter-


pretar aquelas cartas, não surpreende que os pilotos
primitivos, depois de se aproximarem do equador,
costeando, e de terem regressado de bolina penosa nas
suas caravelas de latino embolsando por fora da enxár-
cia, descobrissem a Volta da Mina e a do Sargaço (2)
própria mesmo até para as naus redondas e que, atin-
gido o Cabo, e reconhecidos os gerais do hemisfério
sul, concluíssem como coisa óbvia que o processo de
lá chegar mais depressa e em naus redondas era cin-
girem-se à feição dos ventos reinantes, rodando
segundo a grande volta de oeste, que nunca mais dei-
xou de ser rota batida para o cabo de Boa Esperança
nem deixará de o ser, enquanto no Atlântico Sul se
navegar à vela (S). Ora isto, que é intuitivo para quem
algum dia cultivou a arte, foi o que serviu de base
certa para as interpretações e conjecturas náuticas do
almirante quanto aos Descobrimentos e às navegações
atlânticas dos pioneiros do século de 500 e foi preci-
samente no mar e na prática rude da vela, e não no
remanso, para ele muito confortável, da sua cadeira
de convés de lona às riscas e da sua biblioteca da Rua
da Esperança, que ele o aprendeu e sublimou em ter-
Q) ~€~"-,eY~lAOJ~IA(") J ~~yM" ~ mos positivamente geniais.
O exame desta fase da vida do almirante, impor-
~~ ~ q~~~ 'r"''t--t -~'· tantíssimo para o da sua vida e da sua personalidade,

('2) A Volta da Mina e a Volta do Sargaço são pràtica-


mente a mesma volta; simplesmente a primeira é mais longa do
que a segunda.
(B) É a Volta do Brasil, a viagem larga das ilhas de
Cabo Verde ao cabo de Boa Esperança, a contornar por oeste
o Geral do Sueste.

Verso da mesma folha


20 A NÁUTICA DOS DESCOBRIMENTOS PREFÁCIO 21

porque foi nela que recebeu a preparação necessária A primeira derrota registada tem a data de 16/11
e essencial para a realização da obra como geógrafo, de Janeiro de 1891 e é feita a bordo da canhoneira
como navegador aéreo e como criador de uma dou- cZaire», do comando do capitão-tenente Álvaro Ferreira,
trina tecnicamente segura quanto à náutica dos des- em viagem de Lourenço Marques para Table Bay, de
cobrimentos marítimos e respectiva historiografia, cuja guarnição jazia parte, como oficial mais mo-
torna-se fácil porque ele, com o cuidado meticuloso e derno, o guarda-marinha Gago Coutinho, encarregado
paciente que empresta a todos os assuntos que toca, da bateria e embarcações. O navio largou do porto
e em que afinal se cimenta a sua vasta reserva de às 22.30 h (tempo astronómico) com o pano ferrado
noções adquiridas pela experiência e de invocações e seguiu viagem a vapor sob as ordens do comandante.
criteriosamente coordenadas, conserva, em miniatura No verso Zê-se o registo típico que dá ideia do estilo
que abrange três volumes em 1,.0 , a cópia integral dos dos subsequentes: - «Bom tempo. Preparou-se o navio
diários náuticos de todas as suas viagens em navios para viagem, ferrando-se toldos, atracando-se embar-
de guerra, substituindo apenas no verso de cada folha cações. Suspendeu às 10.30 h da manhã, seguindo a
de derrota o registo individual dos quartos de cada sair da baía de Lourenço Marques. Vivas na enxárcia.
oficial por um resumo com o título de «Novidades», Segue nas nossas águas o vapor cMac-Mahon:., que
em que condensa os incidentes meteorológicos e de vai limpar e consertar as hélices ao Natal.~
navegação que neles é de uso registar (4 ) . A viagem até ao Cabo (8 dias), dali a Santa
Desses quatro volumes interessam-nos particular- Helena (9 dias) e até doze horas e meia após a lar-
mente, para o fim que nos propomos, os três primei- gada deste porto, foi feita a vapor, mas a seguir, por
ros, respectivamente de 241, 253 e 51 folhas preen- espaço de oito singraduras a caminho de Santiago
chidas, visto que os restantes já se referem à fase de Cabo Verde, de caldeiras apagadas e à vela. Ao
da sua vida ao serviço vivido em navios mais recen- oitavo dia de viagem as caldeiras foram novamente
tes de moção exclusivamente mecânica e de contacto acesas para destilar água para a guarnição e depois
íntimo com o mar, consequentemente mais limitado o navio continuou a vapor até ao porto da cidade da
e menos sugestivo, se bem que as costas visitadas e Praia, aonde chegou com 16 dias de mar.
os mares percorridos não tenham, evidentemente, dei- Durante a primeira parte da viagem feita à vela
xado de ser fontes imensamente ricas de noções e o diário regista os ventos normais entre E e SE e
suge.stões utilíssimas. depois ESE, diz que foi largo o pano todo, incluindo
cutelos e varredouras, mas que ao quinto dia se ferra-
ram as velas auxiliares cpor se temer salto de vento
(4) Eram quatro os livros de derrotas do almirante, mas em consequência do movimento de algumas nuvens
o primeiro, correspondente aos tempos de aspirante e guarda- (talvez o contra-alisado do NW ):.. Ao oitavo dia o
-marinha, perdeu-se no incêndio da Escola Naval. vento começou a divagar pelo SW e S até que por
22 A NÁUTICA DOS DESCOBRIMENTOS
PREFÁCIO 23

fim, por E, se fez N fraco com algumas calmas de a mais leve ideia de qualquer espécie de cobardia
princípio. A latitude era 2° .S, acenderam-se as cal- subserviente e menos própria de quem se preza.
deiras e no resto da viagem até .Santiago navegou-se O navio, após a largada de I..tuanda, soltou rumo
em franco regime de alisado do NE. Na derrota ao Rio, navegando a vapor com ajuda de latinos e
correspondente à lat. obs. 10° 46',9 regista-se ter-se velas de proa, com ventos fracos de entre .SW e .S,
distinguido a estrela polar. Foram 916 milhas corri- até que, três singraduras passadas, o fogo foi reche-
das na barca patente, correspondentes a 975 de cami- gado e o pano largo, havendo que arribar a .Santa
nho verdadeiro no geral de .SE com a passagem para Helena por avaria no destilador, que o balanço não
o do NE, tenteando o regime de ventos no Atlântico permitiu reparar no mar. A entrada em James Bay no
.Sul e em contacto à flor da pele com esse regime dia 24/25 de Julho fez-se com o auxílio da máquina,
naquela primeira experiência, que jamais esquece. após sete dias de navegação à vela entre a costa da
Regressado o navio a Lisboa, em Março de 91, Ãfrica e .Santa Helena, à feição do geral de .SE com
encontramos, em Março de 92, o segundo-tenente Carlos cerca de 606,5 milhas contadas pela barca e 685 de
Coutinho a comandar a lancha-canhoneira cLoge», no caminho verdadeiro. No dia 21/28 largou o navio de
rio Chiloango; depois como imediato na cLimpopo» James Bay sob fogo, que rechegou horas depois para
(comandante primeiro-tenente A. Pinto Bastos) e, mais apagar ao terceiro dia, passando a navegar à vela na
tarde, oficial de guarnição e encarregado da pilotagem travessia do Atlântico .Sul para a costa do Brasil até
da canhoneira «Zambeze», comandante capitão-tenente ao dia 4/5 de Agosto em lat. obs. 16° 22' .S, long. 24°
Antas Ribeiro, em que teve ocasião de percorrer demo- 1' W Gr., em que acendeu de novo, depois de ter per-
radamente o golfo da Guiné, entre .S. Tomé e .S. João corrido um total de 910 milhas à vela em 111 h , não
Baptista de Ajudá. A viagem deste porto para a ilha longe da ilha da Trindade, de que passou depois à
do Príncipe foi feita à vela, sob tempo tempestuoso tro- vista. Dali até ao Rio, onde fundeou no dia 11/12 de
pical, tornados e calmas do golfo da Guiné até ao quinto Agosto, o navio nqvegou a vapor e vela, largando pano
dia, com 166 milhas na barca e 197 de caminho ver- conforme a feição do vento.
dadeiro. Depois de um largo período de embarque em
Ainda nessa mesma estação de Angola desembar- mares da Metrópole, na canhoneira «Liberal», coman-
cou da «Zambeze» em Julho de 93 para a corveta dante capitão-tenente João Miguel Rosa, que em todas
cMindelo», comandante capitão-de-fragata Augusto as viagens, como era da tabela, largou pano em ajuda
de Castilho, em que seguiu para o Rio de Janeiro à máquina, encontramos no dia 1/2 de Maio de 1895
naquela comissão de serviço que passou à história como o segundo-tenente Gago Coutinho encarregado do apare-
momento dignificante para um país que soube honrar-se lho do navio e da respectiva instrução aos aspirantes,
e dignificar-se honrando e dignificando o direito de que acompanhava na faina de borda acima, a bordo
asilo, sem que pela cabeça de alguém a bordo passasse da corveta eDuque da Terceira», navio-escola, coman-
A NÁUTICA DOS DESCOBRIMENTOS PREFÁCIO 25

dante capitão-de-mar-e-guerra Guilherme Brito Capelo, vento cruzada com ondulação larga do NW que faz arfaJC
em manobra de largar da bóia no Tejo para cru- muito o navio. Às 21 h virei de bordo em roda. Durante
zeiro de imtrução de Lisboa para a ilha de 8. Mi- toda a singradura capeou~se com o navio. Caminho total
guel. 24 horas após o navio passou a trazer o fogo percorrido pelo vento aparente, 1:80 milhas.» '
rechegado ou encostado, navegando exclusivamente à
vela para só voltar a pôr as máquinas em funciona- Contudo só no dia seguinte as caldeiras se acen-
mento ao demandar o fundeadouro em Ponta Del- deram para destilar, a destilar continuou em parte do
gada, passados nove dias e meio, sob vela, com cerca outro, até que com vento de força 8, impróprio em
de 852 milhas andadas nas águas entre a costa por- qualquer das amuras, o navio meteu de capa com polaca
tuguesa e os Açores. O resto da navegação foi feita e rebeca e, auxiliado pela máquina, foi demandar o
a vapor e à vela. porto de Ponta Delgada com «mar largo e cavado de
A passagem do regime de vela para o de vapor, arrebentação. Vento de rajadas e salseiras cantando
quatro dias antes da chegada a 8. Miguel, foi moti- no aparelho», largando ferro para o fundo no dia 15/16.
vada por no dia 9I 10 o registo da respectiva sin- Após a experiência sob vela dos gerais sem
gradura dizer assim: tempestades do Atlântico Bul, a do regime ciclónico
do mar dos Açores.
«Tempo com mau aspecto. Alguns aguaceiros de SW, No dia 26/ 27 o navio iniciou uma série ininterrupta
um dos quais de arco, dando vento e muita chuva. Almas-de- de cruzeiros por entre as ilhas e de ilha para ilha entre
-mestre ( ~) na esteira do navio. Algum balanço. Céu for- Santa Maria e o Corvo que se prolongou até ao
rado. Envergaram-se a polaca e a mezena de tempo. Cor~ dia 12/15 de Agosto, em que voltou a fundear em
diaram-se a gata e a seca. PassaréNTI-se contrabraços às Ponta Delgada, cruzeiros que se destinavam à imt~
v.ergas dos ppff.' As 3 horas virou-se em roda pondo na ção dos aspirantes, abrangendo portanto todos os
amura de E.B., mais vantajosa no caso de se tratar de ramos da marinharia e da arte de navegar, parti-
um ciclone ou tempestade. A tarde clareou o céu, mas ao cularmente à vela.
pôr do Sol estava outra vez forrado. De noite continuaram Nestes cruzeiros foram navegadas 1913 milhas
os aguaceiros, limpando o céu por vezes. De manhã mais com pano largo. Foram 1913 milhas sob vela em
aguaceiros do SW, não alcançando o navio. Vaga de regime de imtrução de manobra e náutica, no fulcro
principal da meteorologia atlântica com bom tempo,
calmas e aguaceirada.
( 1) Na gíria dos navios de vela d'enominavam-se almaa-
De regresso a Lisboa a viagem de 8. Miguel à
-de-mestre as andorinhas, que, nas suas migrações, os tomam Gran Canaria foi feita sob vapor, de princípio, mas
como apoio, acompanhando-os. Constituem, por outro lado, uma depois do primeiro dia o fogo foi encostado e mais
cconhecença» náutica. tarde apagado e o resto da viagem feito sob vela até
26 A NÁUTICA DOS DESCOBRIMENTOS

fundear em Puerto de la Cruz com mais 696 milhas


contadas pela barca patente exclusivamente à vela,
em regime de alisado no NE que chegou a jazer dar
à eDuque da Terceira» oito nós em gáveas e joanetes.
Estamos agora na zona oceânica das navegações
dos primitivos.
De Puerto de la Cruz à Madeira e do Funchal
a Lisboa as viagens foram feitas sob máquina.
No dia 26/21 de Janeiro de 1896 encontramos o
primeiro-tenente Gago Coutinho encarregado do apare-
lho do navio e da instrução de pano, manobra e marinha-
ria, largando do Tejo na mesma corveta eDuque da Ter-
ceira», comandante capitão-de-mar-e-guerra Augusto
de Castilho, mas agora de caldeiras apagadas, tirando
voltas ao virador do arganéu da bóia a seguir sob
vela até à barra e dali, depois, com todo o pano largo
numa exibição de mestria profissional que jaz recor-
dar com saudade esses belos tempos da marinha em
que ao panache próprio do ofício se aliavam o saber,
a . competência e o prestígio que a superioridade ver-
dadeira, e não a imposta com estupidez, com cupidez
e com maldade, desperta e mantém.
O navio acendeu para demandar o porto do Fun-
chal, aonde chegou com 431,5 milhas na barca sob vela.
Do Funchal à ilha de Tenerife, trabalhando a má-
quina apenas na saída e entrada dos portos, foram
contadas sob vela 606,5 milhas na barca patente. De
Santa Cruz de Tenerife o navio seguiu a vapor
para Puerto de la úuz, na Gran Canaria, donde largou
de novo em 22/23 de Fevereiro para Santiago de
Cabo Verde, indo fundear no porto da Praia em 28/29.
Acendeu apenas para a saída e entrada dos portos.
Foram 164,5 milhas navegadas pela estima à feição
PREFÁCIO

do geral do NE que a corrente de feição aumentou


para 918,5 de caminho verdadeiro. Seguiu-se depois
um cruzeiro entre as ilhas do arquipélago em que o
navio navegou sob vela e pela estima cerca de
556 milhas.
No dia 22/23 de Abril fez-se novamente de vela
para S. Miguel, acendendo apenas para entrar no porto
artificial de Ponta Delgada no dia 415 de Maio com
1551 milhas na barca.
Foi nesta viagem de S. Vicente de Cabo Verde para
8. Miguel que houve oportunidade de fazer a Volta
do Sargaço em 13 dias de navegação (um record), na
qual para não faltar matadouro algum lá aparece o
do «cutelo do velacho fora», como era de preceito em
bolina folgada.
Após duas semanas de um cruzeiro a vapor entre
ilhas, o navio largou de S. Miguel no dia 30/31 de
Maio e, navegados dois dias à vela e vapor, apagou
as caldeiras, chegando ao Funchal no dia 5/6 de Junho
com 506 milhas pela barca.
No dia 10/11 seguiu dali para o porto de Cádis,
aonde chegou a 16/ 17, com cinco dias à vela em que
navegou pela barca 407 milhas. O resto do cruzeiro
completou-se por Cartagena, Marselha e Gibraltar, a
clássica volta em viagens de instrução que deu, ao
tempo, a preparação náutica aos oficiais de marinha das
gerações passadas antes de completarem a sua forma-
ção profissional na estação de guarda-marinha, que, em
regra, se prolongava por mais dos dois anos da tabela.
Esta parte da viagem, que já não oferecia oportuni-
dade para a manobra larga de um navio de vela e além
disso se prestava à prática, então a tornar-se mais
corrente, da navegação exclusivamente a vapor, foi feita
28 A NÁUTICA DOS DESCOBRIMENTOS

sempre sob máquina até ao Tejo, onde o navio amarrou


à bóia em 15/16 de Julho, depois de ter feito pràti-
camente sob vela a volta primitiva de Santiago pelos
Açores.
A «Duque da Terceira», já de há muito desapa-
recida da Lista dos Navios da Armada, foi o navio
em que recebeu o baptismo do mar e a primeira pre-
paração profissional, ainda na rude escola que fez
grande a Marinha" uma série de gerações de oficiais
que agora igualmente se vão sumindo da respectiva
lista mas que viveram um dos períodos mais intensos
e de mais lustro para ela.
O esquema (fig. 1) mostra a viagem prõpriamente
dita, excluindo o cruzeiro entre ilhas dos Açores, via-
gem que pràticamente abrange o triângulo fundamen-
tal da actividade dos nossos primeiros navegadores,
que tem como vértices Lisboa" Canárias, nas alturas
do cabo Bojador, e as ilhas dos Açores .


No dia 7/ 8 de Outubro de 1896 está em faina
geral de largada da bóia no Tejo o transporte «Pero
d'Alenquer»" comandante capitão-de-fragata José Maria
da Silva" imediato primeiro-tenente Henrique Eduardo
Macieira" encarregado de pilotagem primeiro-tenente
Gago Coutinho.
A «Pero d' Alenquer », ex-galera inglesa de casco de
ferro, 1528 toneladas de arqueação e 263' X 38',2 X 23',
«Thomas Stephens», antigo «Clipper» da carreira da
Austrália para carga geral e passageiros, cuja imagem
ainda hoje figura em todas as obras que se referem
àquela classe de navios em que se sublimou a nobre

A «Duqu e da T erceira» e m 18911


PREFÁCIO 29

e subtil arte da con8trução naval e da navegação do


mar alto nos tempos em que a vela era ainda o seu
motor exclusivo e suficiente, embandeirara havia pouco
tempo em português para a Marinha de Guerra, jun-
tamente com outro navio da mesma classe, mas de
casco de madeira, o c.Termopilae », aqui baptizado
c.Pero Nunes ». Este, que pouco serviu, por trazer o
casco já minado de taredo, não tardou a armar em
pontão e acabou em 1901, na baía de Cascais, com um
tiro de torpedo Whitehead lançado pelo «Torpedeiro
n.o ~1», em fogos reais de exercício, numa explosão
perfeita e espectaculosa. A c.Pero d' Alenquer», abatida
em 1911 ao serviço da Armada e incluída no da Mari-
nha Mercante, desapareceu no Atlântico Norte, sem
deixar vestígios, quando, durante a primeira Grande
Guerra, vinha em viagem da América para Lisboa com
um carregamento de gasolina. Como a eDuque da Ter-
ceira», a «Pero d'Alenquer», que foi o símbolo de uma
época na vida do mar, não sai do sentido daquelas
gerações de oficiais que na primeira aprenderam a
profissão e nesta se tomaram de paixão por ela.
No diário náutico do almirante aparece agora,
pela primeira vez, na casa que tem a rubrica: «Má-
quina», e atravessando pomposamente as suas colu-
nas miudinhas, a nota:- Não hã.
O navio largou da Mia a reboque, na manhã de
1/8 de Outubro de 1896, em viagem para Lourenço
Marques, principiando a largar pano às ! h de 8/9,
marcando o ponto de partida pela Guia e Bugio
às 4.45 h. No dia 12/ 13, às 24 h, marcou a Ponta do
Rabaçal, na ilha da Madeira, por 15° SW a 50' de dis-
tância, no dia 18/ 19 de Outubro, por 28° 9' N e 19° 41'
W Gr., meteu de capa rigorosa debaixo de mar grosso
PREFÁCIO
A NÁ UTICA DOS DESCOBRIMENTOS 31

e mau tempo que pela noite amainou. No dia 20/21 Sul, segundo a mesma rota que os nossos navegadores
declarou-se o alisado de NE por 25° 16' N e 21° 46' primitivos inventaram no século de 500 e por onde
W Gr. e pelas 5.15 h, «tendo-se desfeito a mão de arame navegaram, com as variantes próprias da estação do
da ostaga da gávea, a verga alta caiu em peso sobre o ano e não fazendo ou fazendo escala em cporto seguro»
peão da baixa, partindo-o, ficando esta verga aguen- na costa a oeste conforme as conveniências da política
tada sobre o estai grande, pelas testas da gávea alta, do tempo, V asco da Gama na sua primeira viagem
que são de arame, e talha de lais e escotas do joanete à lndia e Pedro Alvares Cabral naquela em que oficial-
f~
grande. Logo subiu gente que abraçou a gávea alta mente descobriu o Brasil. Desta vez, como nos tempos
com a ostaga, passou cosedura da gávea baixa para posteriores mais modernos era de uso para os navios
o mastro real, passou uma talha ao terço da gávea de vela da volta do Cabo, a escala foi o porto da Baía.
baixa e desenvergou as duas velas». No dia 5/ 6 de Novembro, por 6° 23' N e 21° 14' W Gr.,
A «gente» que subiu «logo» foi o imediato Ma-
tomou o navio o primeiro contacto com o alisado
cieira, o primeiro-tenente da pilotagem Gago Coutinho, o
de SE. N o dia 11/ 12 de Novembro, por 4° 42' N e
primeiro-tenente do destacamento Albano Morais de Car-
35° 28' W Gr., passava em 21 bb., sobre o parcel de
valho, o guarda-marinha Jaime de Sousa e o gajeiro
S. Roque, no dia 15/ 16 marcava o Cabo, seguindo depois
grande.
à vista de terra brasileira com mar chão e ventos
O comandante, em conselho de oficiais, resolveu
bonançosos ou fracos até que no dia 20/21 foi fun-
orçar para S. Vicente de Cabo V erde, enquanto, com
dear, debaixo de tempo de aguaceiros, no porto da
os recursos de bordo, se ia reparando a avaria. O tempo
porém abonançou e a avaria reparou-se no mar, sem Baía, em arribada decidida, ouvido o conselho de ofi-
necessidade de arribada. Em 22/ 23 fez-se a nova ostaga ciais, «por falta de medicamentos e para melhorar as
de arame «Com a costura como deve ser, isto é, com condições de vários doentes, um dos quais perdeu um
os cordões engaiados em torno de um mesmo cordão». dedo quando rebentou a ostaga da gávea».
Avistaram-se vários navios de vela que a cPero» ultra- S que naquele tempo visitar um porto estrangeiro,
passou quando no mesmo caminho e no dia 28/ 29, com subsídio em ouro, era obra!
por 17° 46' N e 23° 50' W Gr., o diário nota que todos Foram navegadas até aqui 4609 milhas, corres-
nessa altura à vista governavam ao S. No dia 29 I ~O pondentes a 4386 de caminho verdadeiro em 45 dias
de Outubro avistaram-se as ilhas de Cabo Verde, mar- contados de viagem.
cando-se depois o ponto pela de Santo Antão a 8'. Preparado o navio para sair no dia 25, s6 o faz
No dia seguinte perdia-se a ilha de vista pela popa. em 29/ 30 porque surgiu mau tempo de aguaceiros
O caminho que o navio agora seguia era o da volta pesados e vento duro com que o navio, no entanto,
da costa do Brasil, em demanda do cabo de Boa Espe- se aguentou com um s6 ferro e 60 bb. de amarra em
rança, contornando os gerais contrários do Atldntico 10 de fundo.

-
32 A NÁUTICA DOS DESCOBRIMENTOS
PREFÁCIO 33

No dia 29/30 de Novembro largou do porto da mitindo ganhar norte e marcar finalmente o ponto
Baia para ir fundear no de Lourenço Marques, com de chegada pelo farol da Inhaca e Monte Colato no
35 dias contados de viagem, no dia 2/ 3 de Janeiro dia 1/2 de Janeiro de 1891 com 5565 milhas no udóme-
de 1897, depois de ter velejado pela barca 5565 milhas tro e 5212 de caminho verdadeiro em 35 dias de
viagem.
em 5272 de caminho verdadeiro. Em 2/3 de Dezem-
bro entrava em franco regime dos alisados com sin- Ap6s uma passagem de poucas semanas pela
graduras seguidas quase sempre ao mesmo rumo e canhoneira cZaire:., fundeada no porto de Lourenço
em regra pano todo largo, em que o caminho nave- Marques, comandante J. G. Xavier de Matos, o almi-
gado se confunde com o estimado entre cada dois rante embarcou na corveta «Rainha de Portugal», o
pontos sucessivos ao meio-dia com uma singradura mesmo comandante e imediato o primeiro-tenente Gago
de 257 milhas e o máximo de 13 n6s apenas com peque- Coutinho, navio que encontramos em faina de largada
nos interregnos de calmarias ou ventos fracos e variá- para Table Bay no dia 13/14 de Março de 1891. Esta
veis, até à longitude do Cabo, que cortou no dia 20/21 viagem, bem como parte da do porto de Cape Town
cerca de 80 milhas ao sul. para o de Moçrimedes, foi feita a vapor, apenas com
No dia 21/22 e já por 24° 59' E Gr. e 41° 53'S, o pano como auxiliar, mas ao quinto dia de viagem
mas ainda no caminho entre E 4 1/ 2 SE e E 1 / 2 SE, para este último o fogo foi rechegado e depois encos-
nasceu a bordo uma criança «que vinha clara», a tado, s6 voltando a funcionar as máquinas para deman-
quem deram o nome de Tétis. O navio levava, entre dar o fundeadouro no dia 14/15 de Abril. Neste per-
outros um carregamento de degredados de ambos os curso foram carteadas em navegação à vela 511 milhas
sexos, 'a quem o diário chama modestamente «colonos». oorrespo'IÍdentes a 591 de caminho verdadeiro. Dali
O tempo que até então estivera, em regra, bom, para Luanda a viagem foi a vapor.
tornou-se' sujo chuvoso, de vento de rajadas, aguacei- Neste porto passaram para a canhoneira «Douro"
radas saltos de vento à proa, com mar grosso, corrido, o mesmo comandante e o mesmo imediato. Este navio
de rebentação, e o navio a 12 n6s. No dia 23/24,. já largou de Luanda para as ilhas de Cabo Verde a vapor,
no caminho do E 4 NE, a entrar francamente no lndwo, com pano auxiliar, mas no 5.0 dia de viagem , 415 de
com bom tempo entremeado de algumas rajadas de Junho de 1891, apagou as caldeiras e até ao porto da
vento e aguaceiros pesados, o navio chegou a deitar, Praia, esta fot feita exclusivamente 80b vela, com
com joanetes largos, mais de 15 n6s. A maior singra- ventos largos do8 quadrantes do sul, no fio da corrente
dura regista-se no dia 14/15 de Dezembro de 1896 da costa ocidental de Africa até cerca do equador.
com 262 milhas. Foram 1468,5 milhas carteadas para um caminho
Depois, com tempo variável, calma, nordestes de 1123. No dia 19/20 acendeu de novo para de8tilar
fracos , aguaceirada, o navio foi-se fazendo leste ao e voltaram as máquinas a trabalhar no dia 23/24,
máximo de 39° 14' E Gr., até que o vento rondou, per- entrado que foi na zona de vento8 fracoa variávei8,
s
PREFÁCIO 35
34 A NÁUTICA DOS DESCOBRIMENTOS

calmiços e depois nortes. No dia 28/29 de Junho fun- A arrebentação está cavada, mas como já por várias
deou no porto da Praia. Dali para a Gran Canaria vezes se tem ido à praia em más condições, vai lá a
baleeira salva-vidas buscar a carta que mostram, como de
e depois até à Madeira e, por fim, a Lisboa a viagem
costume, na ponta de um pau, acompanhada da ban-
foi concluída sob máquina.
deira nacional. A ida partiu-se o remo de esparrela, o
Depois, em 1912, com o seu embarque de comandante
patrão foi ao mar, mas tudo chegou à praia. A volta,
na canhoneira c Pátria», em serviço em Timor, a nave-
a meio da rebentação deixaram voar a carta; têm que a
gação à vela passou a ser para o almirante uma recor-
apanhar; o mar pega na baleeira e leva-a, sem a virar.
dação saudosa, prenhe de ensinamentos úteis e de para a praia, em um sítio não manejável, tentam de novo
invocações sempre oportunas nos seus trabalhos vir ao mar, mas rebentam-lhe mares sucessivos, já estão
posteriores. cansados e de novo são atirados à praia. Como estamos
Este comando da cPátria» foi exercido no decor- a menos de duas amarras, tenta-se dar a sondareza acres-
rer de uma daquelas guerras com o gentio que ao centada para. os arrancar para bordo à força' mas não se
tempo ainda eram o pão nosso de cada dia nas Esta- consegue, por causa da corrente, que um homem nadando
ções Navais e em que a Marinha tomava, em regra, leve uma linha à costa. Escurece, e como a calema está
um bom quinhão. Se bem que não venha muito a pro- muito cavada, o navio suspende às 6.25 h e vai fundear
pósito para o objectivo específico que nos propusemos, duas :amarras mais fora às 6.33 h em 6 bb. de fundo e
mas porque também ilustra como exemplo a formação 30 de amarra de B.B., que o ferro de E. B . veio encepado.
integral do pessoal da Marinha da época e a sua pre- De noite funcionou o projector para animar a guarnição da
disposição ao esforço em qualquer campo físico ou baleeira, que ficou em terra sem comer e sem beber e receo-
mental, transcrevemos o que se lê no verso da folha 48 sos dos Manufays, que estão por aqui, tendo os moradores
do último volume do «Livro das Derrotas-., corres- conado duas cabeças e, de manhã, à vista do navio, mais
pondente à do dia 1/2 de Junho de 1912, em viagem outra. De noite chove por vezes: a guarnição da baleeira
de Costa Manufãe para Bétano: tentou lançá-la na preia-mar sem o conseguir. A calema
está altíssima, tendo o n'a.vio dado balanços de 28° para E .B.
c Bom tempo. Calema cavada do sul. Vento SE3, e 22° para B.B., principalmente à meia-noite. Terra!. De
que à tarde acalmou. Tendo de Marmunera vindo sinal manhã a calema está abatendo. Mudou-se o fundeadouro,
de que seguiu esta manhã carta para Bétano, provAvel- indo fundear às 6.46 h em 5 braças de fundo e 15 de
mente' resultado da viagem do tenente Mesquita ao acam- amarra, em boa posição para se poder alar a embarc&-
pamento do governador, tocou-se à ~aina às 2.06 h e seguiu ção para bordo, em 3 braças de fundo na popa. Com a
o navio para E com algum balanço e vaga do vento, fun- outra baleeira e um timor nadando consegue-se finalmente
deando em Bétano às 4.16 h em 5 bb. de fundo e 15 d e dar uma linha para a terra, eles alam a embarcação de
amarra de B.B. cerca de uma amarra ab longo da costa e por fim saem

.
A NÁUTICA DOS DESCOBRIMENTOS
PREFÁCIO 37
fora da arrebentação, alados de bordo. Chegam fracos
e com fome, mas sem lhes ter acontecido outro mal além sempre fazeT a projectada viagem à volta do Mundo,
de se molharem ... ~ paTa timcínio de guaroas-marinhas e confoTto moral de
16 000 colonos poTtugueses das ilhas de Sandwich. A vi~
11 com pena que cerrámos na fol. 51. 4 o 3. 0 volume do gem tinha-se atTasado bastante: faltaram-nos os alisados
«Livro de Derrotas» do almirante. Nela termina pràti- do nordeste, e só duzentas milhas ao norte de S. Vicente
camente uma vida dada às actividades profissionais no de Cabo Verde se declararam as brisas, separando-nos
mar, para depois, com o mesmo fervor, a continuar então de uma conseTva de cinco ou seis galeras que nos
no mato e no ar, sempre no mesmo ritmo de bem tinham acompanhado desde as Canári<tS. trazendo todos
servir, como aliás foi timbre de uma geração que não na vela umas leves aragens de entre sudoeste e noroeste.
conheceu a forma reflexa da conjugação do verbo. Neste dia, já o serviço de bordo. tinha entrado na sua
Be algum ganho extra havia era pago, e bem rotina monótona. Na véspera. o meu quarto das 4 às 8 da
repago, em esforço físico e mental, em sacrifício pró- tarde passara-se em calma completa, estando à vista. tam-
prio e em devoção pelo dever cumprido. bém desgovernado. um pequeno lugre-patacho.
Por entre as folhas do «Livro das Derrotas-. Como íamos a três quartos de alva, às 8 horas, pois,
encontram-se dispersas, mas intercalas na devida da manhã de 6 de Novembro, recebia eu o quarto do
altura, várias recordações de viagem, como recortes imediato Macieira, que me entregou o navio mareado de
de jornais, cartões de visita com nomes exóticos de bolina. levando tudo largo. com aragens de lesnordeste;
oficiais estrangeiros, gráficos da máquina ou da regu- eram os primeiros sintomas do geral de sueste que nós
lação da agulha, etc. Numa certa altura aparece o começávamos a cortar. Pela nossa popa. muito perto. a
recorte de um jornal de Lisboa com um conto de Gago uma ou duas amarras, navegava ao nosso rumo e mareava
Coutinho. Por ele revelar o espírito da época, do navio como nós o mesmo lugre da véspera, que agora já se
e da pessoa, aqui se intercala também. via ser um pequeno navio de umas 300 toneladas. A vista
da «Pero d'Alenquer» era quase um bote; e a meia dúzia
de homens que o tripulava não mostrava dar importân-
cia a esta espécie de regata no. alto mar. Não tinha içada
cUMA REGATA NO ALTO MAR bandeira, talvez para a não coçar, mas pelo casco e apa-
relho parecia sueco ou norueguês. N ad~ mais se avistava.
No dia 6 de Novembro de 1896 navegava a e neste canto do oceano reinava aquele sossego que só
«Pero d' Alenquer» com o seu pano todo largo, se encontra no mar.
por 7 graus de la'titude norte e 27 graus de lon- Aí pelas 8 e meia apareceu em cima o comandante.
gitude oeste de Greenwich. Havia vinte e nove dias Deram-se-lhe os bons dias, e ele deixou-se ficar, a passear a
que largármnos de Lisboa embalados na esperança de barlavento, no tombadilho, onde era necessário dar segu-
ramente umas trinta voltas para andar um quilómetro.
A NÁUTICA DOS DESCOBRIMENTOS

Parecia enfadado por o navio não andar; e, depois de


olhar demoradamente para as nuvens e para, o lugre, per-
guntou-me:
- ó seu Coitinho. quanto tem andado?
- Deitou, às oito, duas milhas, comandante/
Perto das 9 horas entreguei o quarto ao guarda-
. . marinha, e fui dar corda aos cronómetros. Depois agsrei
no sextante, e maquinalmente. como um empregado que
vai para a repartição, subi ao tombadilho, li a barca, e do
canto de barlavento dei os cinco foras usuais. descendo
logo a verificar a hora do cronómetro, a que tinha con-
tado um outro guarda-marinha, talvez o Brandão ou o
A co rveta «Mindel o» no Rio A galera «Pera de Alenquer»
Peixoto. Ecoaram ainda muitos outros foras, das alturas
de Janeiro, em 1893 em Lourenço Marques, em 1893
dos guardas-marinhas, e eu, depois de me ter demorado
a reparar no vento, no pano, na agulha, no lugre, e nos
colonos que na tolda se entregavam a serviços de ménage,
com mulheres a coser e crianças a brincar, desci à câmara
logo que tocou a sineta para o almoço.
Perto de uma hora levámos a almoçar. Falava-se
de tudo: das toneladas de manteiga e queijo que ainda
nos faltava devorar para dar cabo do imenso rancho
que tínhamos levado de Lisboa, e em que avultava o porco,
em todas as suas formas: em metros cúbicos de banha, em
hectares de toucinho, em toneladas de presunto, em quiló-
metros de chouriço ... e até vivo, em rebanhos/ Também se
discutiu se a Aida era mais agradável que a Verbena de
la Paloma, havendo quem se pronunciasse por Breton e
mesmo por V erdi. Comparou-se Camões a Dante, lendo-se
trechos de um e de outro, para confronto. Rememoraram-se
os bons tempos da viagem de instrução da «Terceira~.
com os temporais de levante em Cádis. que tantas vezes
nos não deixaram recolher a bordo, o que a outros des-
pertava reminiscências de fome que na mesma «Terceira~

A can honeira «Douro»


PREFÁCIO 39

Ânham passado na longa viagem de Cabo Verde para o


cabo de Boa Esperança.
E enquanto alguns. aparentando indiferença pela
vida do mar, conversavam de cenas de vindima e lavoura.
com emprego inconsciente de termos do vocabulário mari~
timo, ao fundo da mesa o imediato Macieira, mais con~
centrado, recordava~se talvez com saudade do tempo em
que cornaJndava a barca «Cabinda», na costa de Angola,
em luta com os terrais e viração.
Todos ·levávamos, pois, a viagem a rir; encarávamos
filosoficamente as calmas e ventos contrários. que desde
Lisboa nos vinham demorando a viagem, e. no fundo,
comparávamos favoràvelmente a nossa vida a bordo deste
navio de vela com a dos cam!Bt'ada:s que viviam aborreci~
dos na estação, fundeados em Luanda ou mesmo em Lou~
renço Marques.
E depois de muito discutir levantámo~nos da mesa sem
ter concluído n·ada .

.Mal o tenente Newton tinha tomado conta do quarto


que eu lhe entregara, aí ao mei~di~ e meia hora, quando
muito, ouvimos~lhe, cá de baixo do tombadilho, gritar:
- Obras de sobres e giba!
Qua:se todos corremos à tolda para ver o que era que.
indo o navio a andar tão pouco. nos obrigava a diminuir
de pano. E vimos, pela amura de barlavento, formado um
aguaceiro muito escuro. que prometia dar vento.
A aragem de leste, que ainda estava correndo, tinha
agora abonançado um pouco. E . pela nossa popa. talvez
à mesma distância que às 8 horas. se não mais perto, con~
tinuava o lugre mostrando-nos, com a caturrada. algumas
carreiras do forro de cobre, muito limpo e brilhante. E lá
A NÁUTICA DOS DESCOBRIMENTOS PREFÁCIO 41

a bordo não pareciam ter notado o arco que o aguaceiro A «Pero d' Alenqueu, debaixo daquele esforço, llfHV'
já formara , nem a mancha escura que no mar já vinha renremente insignificante, de talvez só um grama por
perto. centímetro quadrado das suas velas, deitou~se a sotavento
Mal os sobres e giba foram carregados, o comandante, e começou a correr inclinada como um bote catraio em dia
que também largara o roteiro em que estava estudando os de nortada. Maravilhados pela cena empolgante que está-
temporais do cabo Hom, e viera acima, disse para o ofi~ vamos presenciando, muitos nos deixámos ficar em cima,
cial de quarto: à chuva, vendo correr o navio deitado e quase sem dar
- Ande, seu Newton, meta~ me também os joanetes na balanço, como se fosse a navegéJII' em um lago.
gaxetal E, enquanto a chuva nos não cerrou completamente
E imediatamente se ouviram as vozes: o horizonte, ainda pudemos ver o lugre, que finalmente
- Obras de joanetes, bujarrona de [oral tinha tomado a regata a sério, e também lá vinha cor-
-Ala a barlavento, arria, carrega/ tando a água, ajoujado debaixo de todo o seu pano, não
- Arria o estai de joanete/ Carrega a vela ré/ tendo arriado uma única vela.
- ó do leme/ Chega~te ao vento/ ... Não arribar/ A pequena distância a que estávamos via-se-lhe ao
leme, de sueste e casaco de oleado, um velho marinheiro,
No meio da aparente confusão~ a que o apitar do
talvez o contra-mestre, que se divertia a coar pelas testas
contra-mestre dava um ar de desordem, cada um estava
do pano este aguaceiro. E os companheiros, que de manhã
contudo no seu posto e as velas foram carregadas, ao passo
aplfl'entavam indiferença, agora não aproveitavam a ines-
que os marinheiros que tinham partido, correndo, pela
perada distribuição de água doce, pat1a lavar roupa, como
enxárcia acima estavam agora a uma altura de mais de
os nossos, e mostravam as cabeças por cima da borda de
40 metros (a do telhado de uma casa de 10 andares}
barlavento, donde estavam gozando este extraordinário
procedendo à faina de ferrar os joanetes, imensas velas
de 150 metros quadrados. envergadas em vergas de 15 me- espectáculo gratuito em meio do oceano, esta luta entre
tros de comprimento. a força do vento e a tensão da lona e dos cabos e mastros
e vergas de ferro, a bordo desta galera, para eles decerto
O aguaceiro continuara no entanto a correr para nós:
o céu já estava completamente forrado, e a escuridão tinha misteriosa, porque carregava os seus três joanetes à uma,
portanto aumentado. O vento começou a refresclft' do e ao meio4ia precisara apontar para o Sol, de cima do
sueste ·com grossas gotas de água, ao passo que o mar se seu tombadilho, uns trinta sextantes, para poder saber e<Ssa
cobria de carneirada; e ainda a gente dos joanetes estava coisa tão simples: a la·t itude meridiana/
na mastreação a ajeitar o pano, quando nos caiu em cima a Mas em breve os perdemos de vista. O nosso navio
pancada do vento. Vinha mais fresco do que parecera e continuava a correr, no meio de um lago branco de espuma,
fizera a alguns mais esturrados julgar excesso de pru~ ouvindo-se só o grosso sussurro que fazia o cachão vindo
dência o ter carregado joanetes. bàter de encontro ao costado. E não parecia sentir falta
A NÁUTICA DOS DESCOBRIMENTOS PREFÁCIO 43

do pano que se lhe tinha cortado, pcKque deitava '$egu~ quilha do navio, mas o das navegadas foi de 811,0 em
ramente mais de 12 milhas/ 105 dias de navegação exclusivamente à vela, segundo
o clássico duplo arco com reversão nas alturas do equa-
Passada a chuva, clareou o horizonte. O lugre, que, dor à feição dos gerais em cada hemisfério como os
evidentemente, tinha perdido a regata, por falta de rabono, nossos pilotos de Quinhentos ensinavam que se fizesse.
era agora um ponto escuro pela nossa popa, a umas duas
milhas de d<
istância. Continuava com o seu pano todo em
cima, mas, como o vento tinha ficado mais fresco, nós, •
já ~ambém com tudo largo, íamos andando muito mais, e,
antes de o Sol se pôr, quando as velas e o convés secaram Resumindo: Além de extensas e demoradas via-
da chuva, já ele tinha desaparecido no horizonte. gens em navios de motor ou em navios mistos navegando
E nunca mais o tornámos a ver. a vapor com auxílio de pano, em navegação exclusiva-
mente à vela nos mesmos navios mistos ou em navios
Lisboa, Março de 1903 puramente de vela, o almirante percorreu no mar, ao
Gago Couti.nlho.» serviço da arma, abrangendo todo o Atld.ntico Sul de
costa a costa e mais o Indico Sul ocidental até ao norte
da costa do Natal, 22 091 milhas correspondentes a
22 251 contadas na barca patente, ou, juntando àquelas
Mas não contente com a experiência adquirida no as navegadas em viagem de estudo e prática do astro-
serviço e no mar, o almirante aplicou os métodos pri- lábio a bordo da «Foz do Douro», cerca de ~O 8~7
mitivos que estudava e praticou-os no mar em condições milhas em 314 dias de navegação exclusivamente à
idênticas ou semelhantes, pelo menos. Observou como vela pelo Atlantico Sul e volta do cabo de Boa Espe-
qualquer Pero de Alenquer com o astrolábio em singra- rança.
duras sucessivas durante meses e fê-lo em navio à vela, Perdeu, por consequência, uma bela, uma mara-
não seguindo exactamente as mesmas rotas, mas nat,'e- vilhosa ocasião de estar calado o escritor americano
gando nas mesmas regiões atld.nticas por onde vele- que falou em poltrona e biblioteca referindo-se a um
jaram o Gama e Alvares Cabral. Para isso aproveitou, confrade que, além de uma vasta cultura servida por
no regresso de uma das suas habituais visitas ao Brasil, uma vivacidade mental pouco vulgar, dispõe, s6 ele,
embarcar na barca sem motor cFoz do Douro», recen- de mais experiência náutica em condições idênticas
temente adquirida para a marinha mercante portuguesa. àquelas em que agiram os primitivos navegadores
Falta-nos o registo das derrotas desta viagem da oced.nicos, e pelos mesmos caminhos que eles singravam
barca e portanto não é possivel dar uma nota do depois de os terem inventado a poder de tentativas e
número de milhas realmente percorridas no mar pela de ciência igualmente de experiência feita, do que talvez
-

44 A NÁUTICA DOS DESCOBRI MENTOS

todos os historiadores náuticos em conjunto, incluindo


nesse me81n0 número o referido autor, claro está.
No esboço (fig. 2), o mesmo de que Gago Couti-
nho se serviu para traçar a rota mais provável da
primeira viagem de Vasco da Gama à lndia, junta-
.
~I-

mente com as rotas conjecturadas de Pedro Alvares


Cabral e Bartolomeu Dias e da Volta da Mina ou do
Sargaço, estão lançadas as viagens pelos mares em que
tais rotas se desenvolveram, viagens por ele feitas
como oficial de . guarnição ou imediato nas corvetas
eDuque da Terceira:. e cRainha de Portugal», nas
canhoneiras cMindelo », «Zambeze» e «Douro:. e na
galera cPero d'Alenquen , bem como a de turismo, que
realizou ultimamente na barca sem motor cFoz do
Douro», cuja navegação acompanhou com a prática
diária do astrolábio e a recapitulação do que já sabia
sobre o regime de ventos e correntes no Atlântico,
sempre o me81n0 desde que o mundo é mundo e que,
por consequência, ditou a arte de navegar à vela, que
uma demorada e paciente experiência ensinou aos
Portugueses da era de Quinhentos.
Mas não foi só a prática do mar que lhe preparou
o subconsciente para a lógica que marca as suas con-
jecturas e as suas deduções quanto à Náutica dos Des-
cobrimentos. A 'Vida de aventuras, regrada e racioci-
nada, que levou no mato e no ar, deu ao seu espírito, já
de si predisposto para uma actividade febril mas de
características essencialmente práticas, uma formação
mental muito peculiar e própria para, espontânea ou . 11
~r-
deliberadamente, personalizar em si as situações e acti-
vidades que, dadas determinadas circunstâncias de f'.
problemas profissionais e de aventura a resolver,
assumiriam aqueles a quem era dada a responsabilidade ..
~ :,..

... ~

l
PREFÁC IO 45

de lhes achar a solução mais própria e conveniente.


Embarca-se, em espírito, na mesma situação de
e8008sos recursos mas 861"Ve-se da8 cPilots-Oharts»
para ver os ventos e as correntes marítimas que enqua-
dravam tais situações e actividades.
E assim consegue, com o ar mais natural deste
mundo, esclarecer pontos obscuros ou omissos na nossa
História dos Descobrimentos Marítimos, tão rica de
tradições e de realizações vi8ivei8 mas tão pobre de
documentação ou de fontes autênticas originais e, ao
mesmo tempo, tão abundante de erros de palmatória
e de fantasias por vezes delirantes em que a literatura
e o estro, temperados por uma lamentável imprepa-
ração técnica, se sobrepõem prodigiosamente ao natural
e ao racional desde que, por assim dizer, os primeiros
cronistas principiaram a traçar no papel a epopeia
marítima nacional em prosa própria ou de propaganda
e dirigida.


Fora do serviço da arma o almirante aplicou-se,
a partir de 1898 até 1918, a trabalhos geodé8icos, geo-
gráficos e de demarcação de fronteiras do território
português no mtramar.
Em 1898 trabalhou na fronteira de Timor e no
levantamento geográfico parcial da ilha; em 1900 fez
a de Moçambique com a British Central Africa; em
1901 a do Norte de Angola para leste de Noqui; em
1904 e 1905 as de Tete; de 1907 a 1910 chefiou a
Missão Geodésica da Ãfrica Oriental; em 1913-1914 fez
a demarcação da fronteira do Barotze, e finalmente
em 1917 e 1918 a triangulação e levantamento da ilha
A NÁUTICA DOS D ESCOBRIME NTOS PREFÁCIO 47
de 8. Tomé. De caminho para o Barotze fez o reconhe- navegador à solução dos problemas que interessam à
cimento do caminho por onde depois seguiria o caminho actividade marítima nacional na época dos Descobri-
de ferro do Lobito à Catanga~ então na primeira fase mentos.
da sua construção, com determinação de numerosas Nunca foi governador no Ultramar, nem deputado
latitudes e longitudes por estrelas~ e durante a inter- da Nação, nem director de companhias.
rupção forçada dos respectivos trabalhos concluiu ·uma No mato, como demarcador de fronteiras e como
dupla travessia da A/rica (5200 quilómetros a pé), geógrafo, compôs regimentos para lhe facilitarem deter-
fazendo no entretanto a determinação da longitude da minações de coordenadas por observações astron6micas
Beira e de Quelimane~ esta de colaboração com Saca- e~ quando se propôs navegar -ele o primeiro-, pelo
dura Cabral e o Dr. Manuel Peres~ ao tempo director ar, de uma costa à outra do Atldntico~ adaptou o seu
do Observatório Campos Rodrigues. sextante~ como os primitivos fizeram ao astrolábio~ às
Mais tarde a camaradagem com Bacadura Cabral~ novas condiÇões de observar e compôs seu regimento
seu adjunto na M. G. A. O. e no Barotze e então em também para novas condições em que ia determinar o
serviço na Aviação Naval, e o seu infatigável espírito ponto no ar.
de investigação e aventura levaram-no a ensaiar no De resto o seu entusiasmo pelas coisas da profissão
ar a sua prática de homem do mar e de astrónomo no foi sempre exclusivo e apaixonado. Ainda conserva um
mato. Adaptou o sextante às novas condições de obser- caderno em que nos vagares das divisões no Tejo~ ao
var~ provendo-o de um nível de raio de curvatura próprio domingo, se entretinha a desenhar mastreação~ velame
para respeitar o princípio fundamental de dngulo e aparelho dos navios que na época ainda eram a
medido independente da posição do sextante na mão, expressão orgulhosa do domínio dos mares, em que
construiu tabelas de pré-calculação de uma rota aérea traçava projectos de aparelho para embarcações de
de costa a costa do Atldntico Sul e, após uma viagem de vários tipos e fazia o risco de cascos destinados a rece-
ensaio à ilha da Madeira, que resultou positiva~ realizou, berem determinado tipo de aparelho. A bordo da cPero
como navegador, a célebre primeira rota aérea atldn- d~ Alenquer» ~ onde pontificava o último abencerragem
tica de longo curso navegada ponto a ponto~ como se da arte da vela~ o comandante Macieira, autêntico
faz no mar. representante, no carácter, no saber e nos modos~ desse
Por direito próprio foi, por último, presidente da tal passado~ ao tempo ainda bem próximo no espírito
Comissão de Cartografia, onde desde o início da sua e na mente do pessoal da marinha, entrou logo de estu-
carreira geográfica marcou indelevelmente~ cargo que dar-lhe o aparelho e de discutir a vantagem ou a des-
acabou por abandonar, deixando lá porém bem firmados vantagem do buraco a meio do painel das velas redon-
os alicerces de que se aproveitou a instituição que lhe das da época preconizado por qualquer te6rico da arte
sucedeu. Agora~ sem fadigas, sem desdnimo~ continua para melhor aproveitamento da acção do vento sobre
incansàvelmente a aplicar a sua larga experiência de o pano.
A NÁUTICA DOS DESCOBRIMENTOS
PREFÁCIO 49
• veio preencher de maneira lógica e perfeita, tanto
quanto o pode entender um profissional do mar criado
Todas estas coisas se referem aqui, não para e:ml- e educado no mesmo ambiente naval.
tar a pessoa em si, mas única e simplesmente para E essa lacuna era de facto bem difícil de preencher
justificar a compeMncia do crítico numa especialidade por falta absoluta de documentação directa e pelos
em que se aprimorou por tendência natural e amor vícios de origem das informações indirectas. Os cro-
da profissão e, consequentemente, para ptrr em des- nistas, de uma forma geral, eram excelentes literatos,
taque a rara competência do autor dos trabalhos de homens de saber e de experiência da corte ou da admi-
investigação e crítica em relação à8 navegações portu- nistração, mas escreviam por encargo do soberano, a
guesas no tempo dos Descobrimentos, neste volume quem interessava particularmente o segredo dos cami-
coligidos, e a genuinidade indiscutível da sua doutrina nhos seguidos no mar, no sentido da vanglória pessoal
sobre a Náutica dos Descobrimentos. e dos interesses da política nacional, para as novas
Outros camaradas de marinha se dedicaram, com terras donde vinham pingues rendimentos para a coroa
rara competência também, e inestimável proveito para e a propaganda adrede orientada e que, por outro lado,
a história da acção portuguesa no mtramar, ao estudo em regra, não percebiam nada de náutica, além das
dos Descobrimentos Marítimos, entre os quais se des- noções que têm, ou presumem ter, os letrados sobre
tacam os nomes inesquecíveis de Fontoura da Costa, todas as artes e sobre todas as ciências, de modo que,
que, por assim dizer, esgotou o assunto interessantf8- nos seus escritos, nada se encontra, em geral, sobre
simo da marinharia dos Descobrimentos no que se as rotas seguidas, a não ser aquele estigma, que foi
refere ao instrumental náutico e aos processos de sempre característica da mentalidade nacional, do exa-
navegar neles seguidos, e Quirino da Fonseca, mais gero e do absurdo romântico e ingénuo em que as tor-
dedicado ao estudo da arquitectura naval da época, mentas, a «sola de molho» e outras fantasias do mesmo
sem esquecer Morais e Sousa, que já bosquejara, magis- género predominam. Aqueles mesmo que participaram
tralmente, aquela doutrina. nas primeiras viagens, ou nas que se seguiram imedia-
Quanto à náutica, prõpriamente dita, ao traçado tamente, fizeram-nas naquela santa ignorância dos
das derrotas seguidas pelos navegadores de antanho passageiros de todos os tempos, sem ao menos gozarem
e à crítica, igualmente conjectural, dos conhecimentos já a vantagem do mapa emoldurado numa antepara do
dos ventos e correntes ao tempo em Portugal e ao apro- spardeck dos paquetes modernos com a rota riscada a
veitamento prático daquele instrumental de navegação vermelho e o ponto de cada dia marcado com alfinete
e desses conhecimentos, mantinha-se uma lamentável de cabeça preta. Suportavam, com maior ou menor
lacuna, envolta, por vezes, em concepções erradas e fortaleza de ânimo, os incómodos e os perigos da via-
absurdas, arquitectadas por pessoas eruditas mas não gem, admiravam em arroubos de poesia amaneirada
. versadas em navegação à vela, lacuna que o almirante e convencional as belezas do céu e do mar, mas era em

50 A NÁUTICA DOS DESCOBRIMENTOS PREFÁCIO 51
perfeita ignorância, natural ou superiormente deter- prático e mais afastado do alcance da acção eficaz do
minada, da rota seguida que iam desembarcar e mesmo Turco, de carrear para Lisboa esse comércio
curar-se do enjoo e da monotonia dos alisados certos ou precioso e apetecido, e a sua solução dependia essen-
dos mares banzeiros dentre os trópicos no porto do cialmente dos dados meteorológicos, do conhecimento
destino. Documentação original não existe. Não há dos regimes dos ventos e correntes nas regiões a
«diários de navegação», nem livros de derrotas, nem transpor, do registo dos perigos de natureza hidrográ-
relatórios autênticos das viagens realizadas que sobre fica a evitar, do tipo de navios e respectivo aparelho a
tal ou tal ponto elucidem. Esses relatórios e diários adaptar, dos processos de navegação e pilotagem a pôr
desapareceram, consumidos no incêndio da Casa da em prática que permitissem atingir, de facto, esse
India e Mina, ou nunca mesmo foram conservados por objectivo e fazê-lo pelo caminho mais favorável. Evi-
virtude da rigorosa censura que mantinha imperiosa- dentemente, por isso, se tornava legítima a Razão de
mente o segredo contra a concorrência do vizinho, e Estado que levou à destruição ou guarda a bom recato
eterno rival, que era Castela, e contra as indiscrições de tais diários náuticos ou documentos idênticos e,
prejudiciais aos interesses da Nação da parte de outros no último caso, a sua concentração em arquivo único
países marítimos da Europa, alguns dos quais, logo sujeito a destruição integral provocada por incêndio
de princípio, se pretenderam imiscuir no descobrimento ou terramoto.
e exploração da rota da Guiné. E que essa defesa se Havia ainda a considerar o ciúme e reserva indi-
impunha depreende-se logo do facto de se ter redigido vidual. Qualquer piloto, como hoje em dia se pode veri-
e subscrito um tratado, precedente para o de Tordesi- ficar, reservaria ciosamente para si os conhecimentos
lhas, em que se definiam as «esferas de influência» adquiridos na prática, registaria as suas conhecenças
entre os dois países dominantes da Península, destinado em apontamentos de existência e duração precária, ou
a pôr termo à disputa que de longe vinha, a prOpósito nem mesmo isso faria, guardando-as na memória, então
da posse das ilhas Canárias, aonde o próprio Infante mais intensa, naqueles tempos da infância da palavra
chegou a mandar, por sua conta e risco, navios armados escrita ou impressa ( 8 ) . O interesse na divulgação de
numa expedição propositadamente organizada para conhecimentos técnicos pessoais é muito moderno para
garantir a sua posse. E para além da Guiné era a India, que se admita numa época de ética boçal, em que o
a conquista do comércio que enriquecia Veneza e privilégio dominava a vida social e profissional. Era
Génova e uma caterva de mercadores levantinos para necessário, para vencer nela, tornar-se indispensável,
não falar dos Mouros, súbditos do Turco odiento, que
traficavam em exclusivo próprio e do seu soberano, 8
( ) Esta ccaixinha>, como se lhe chama na gíria pro-
para além do Mar Vermelho e Golfo Pérsico, como era fissional nota-se nos roteiros da carreira da índia que mal se
bem sabido e notório. Mas o problema estava em lá referem 'aos ventos gera.i.s e às r otas de bordada Íarga a con-
chegar por mar, que era o meio mais económico, mais torná-los.
52 A NÁUTICA DOS DESCOBRIMENTOS PREFÁCIO 53

e daí o guardar cioso dos conhecimentos e dos registos como todos os outros do mesmo género, esteve sujeito
de carácter pessoal. Só mais tarde, quando já não havia a conjecturas mais ou menos fantasistas ou indife-
o perigo da concorrência individual entre os pilotos por rentes, até que o almirante agora acabou por concluir
virtude da publicação impressa de regimentos, outras que o caminho estava intuitivamente indicado pelo
tabelas úteis à navegação, roteiros, cartas marítimas canal «dos nove graus», tanto mais que sabido é que
e compêndios de náutica é que se começaram a divulgar os pilotos do Indico de há séculos navegavam pelo
pela escrita e pela imprensa as derrotas seguidas e os largo com determinações de latitude, elemento que
processos adaptados na navegação. observavam com a suficiente exactidão e que lhes servia
Esta circunstância torna-se particularmente notá- mesmo até para acertar os portos de destino e traçar
vel no único documento de genuinidade comprovada que a derrota a seguir para os alcançar. O «diário» nunca
nos instrui, por via de uma informação directa, sobre a fala em rumos ou sondas, nem por sombras se refere
primeira viagem de Vasco da Gama à lndia, facto às estações de astrolábio para determinação da lati-
crucial na senda dos Descobrimentos Marítimos de que, tude em Santa Helena, nos Bons Sinais, na ilha de Goa
até ao seu aparecimento, nada ficara que não fossem a e em Angediva.
tradição e as narrativas fantasiadas, romanceadas ou Foi para a realização plausível e lógica de tais
de encomenda dos cronistas. Alvaro Velho, natural do conjecturas que ao almirante serviu, além dos seus
Barreiro, terra que foi sempre de barqueiros e pesca- talentos e predisposições próprias, a preparação técnica
dores do alto, se de facto foi ele o seu autor, descreve profissional, no decorrer da qual teve ocasião de cul-
a viagem como o faria o comissário de bordo, o médico tivar o capítulo da navegação em condições ainda bem
ou capelão dado à curiosidade e às letras, marujo próximas das dominantes na época dos Descobrimentos.
apenas de embarque e mais nada. Transpõe o oceano A actividade de investigação histórica do almi-
no que pareceria a santa ignorância de um passageiro rante, sob o ponto de vista náutico, em relação aos
bisonho se não fosse aquela indicação das «800 legoas Descobrimentos Marítimos no século de Quinhentos
em mar» que por acaso lhe escapou, e que levou vários vem de há mais de vinte anos, desde que deixou de se
escritores modernos à conjectura e à dúvida mas que aplicar aos serviços da sua profissão e aos trabalhos
serviu de base, pela sua interpretação luminosa, à de geografia e de astronomia no mato, em que fez
certeza da derrota em duplo arco pelo ocidente, tal- escola. Esta fase da sua vida culminou com a aplicação
-qual~ente se pratica hoje em dia. O interesse do da competência adquirida, à navegação aeronáutica,
narrador concent·rava-se exclusivamente nos portos em que realizou qualquer coisa espectacular e brilhante,
visitados, nas gentes das terras descobertas, na política além de particularmente utilitária, no período que pre-
específica local. Nem mesmo depois de serem embar- cedeu o recurso prático à radiogoniometria. Foi a apli-
cados pilotos mouros no Indico ficamos sabendo a cação, no ar, da prática da navegação no mar, bem
forma como esse oceano foi atravessado, facto que, diferente do ooo em foguete de Lindbergh, apenas
54 A NÁUTICA DOS DESCOBRIMENTOS PREFÁCIO 55

ba.~eado na audácia e na reserva de combu..~tível eficaz cobrimentos· e à interpretação náutica das viagens
para cobrir determinada distância em linha recta a portuguesas de descobrimento, o faz não apenas com
velocidade capaz de vencer o efeito dos deslocamentos a autoridade de uma vasta cultura e o vigor que lhe
atmosféricos. Mas essa investigação, no que diz res- emprestam as suas excepcionalíssimas faculdades de
peito à valorização patriótica da prioridade nacional trabalho e o sentimento patriótico definido pela signa
na descoberta da Terra, teve sempre um objectivo espe- do Infante, que o anima, mas também, e principalmente,
cífico e determinado de carácter científico: o objectivo sob o ponto de vista concreto e positivo, com o saber
de desfaze?· erros prejudiciais, esclarecer pontos histó- profissional que uma tal interpretação, para ser certa,
ricos duvidosos, sem entrar pelo exagero ou por minú- exige e impõe. Navegador e antigo oficial de catavento
cias que por vezes prejudicam a te~e e nada acrescentam ele próprio, pioneiro no ar como aqueles que estuda e
à cultura e menos ainda ao prestígio do passado. Com cuja actividade pretende pôr a claro o foram no mar,
outros trabalhos contemporâneos, é este o complemento não merece portanto senão o respeito pelo estudioso e
necessário do que se fez por necessidade premente da o acatamento pela sua doutrina náutica da parte de
defesa dos interesses nacionais na época da Conferência todos os «navegadores de poltrona e biblioteca» nacio-
de Berlim, na qual, quanto a determinados pormenores, nais e estrangeiros, daquém e dalém-mar.
se deveria ter ficado, deixando na alma nacional o que
nos factos ocorridos houve de heróico mas genuíno, •
com prejuízo daqueles que divulgam os aspectos por
vezes lamentáveis que o acompanharam e lhe suce- Alguém, nos Estados Unidos da América do Norte
deram. -em face das conjecturas formuladas por um prático
Por isso estes seus trabalhos de investigação e da vela e do mar como é indiscutivelmente o almi-
' J
crítica revestem um carácter de pureza e superioridade rante, provàvelmente, ou, antes, certamente, movido
científica, académica e educativa, que mais os valo- pela ignorância própria dessas artes, que não se apren-
rizam e justificam a sua coordenação e vulgarização dem a conhecer em travessias atlânticas confortáveis
por intermédio do presente estudo e colecta em conjunto e divertidas a bordo de paquetes modernos a motor,
com o fim de organizar e sistematizar uma doutrina nem mesmo naquele sport actualmente muito em voga
com bases de natureza técnica e formação de carácter do romântico navegador solitário, tão apreciado na
científico. página desportiva dos periódicos, ou então pelo despeito
causado pelos golpes justos e certeiros que ele tem
• aplicado à fama desvirtuada de Colombo, que não se
contenta com o encontro por engano dessa maravilha
Revista a biografia do almirante reconhece-se que se tornou o continente americano, mas usurpa uma
irrefutàvelmente que, dedicando-se ao estudo dos Des- competência náutica original que lhe não pertence de
A NÁUTICA DOS DESCOBRIMENTOS PREFÁCIO 57

forma alguma, pois que a recebeu dos navegadores por- das navegações de outrora resultou, no espírito do almi-
tugueses com quem privou e aprendeu tudo o que sabia rante, um Corpo de Doutrina Náutica, baseada em
de náutica atlântica-, classificou-o de navegador de determinados pontos de vista fundamentais sobre a
poltrona e biblioteca. :e imbecil tal apreciação e, além navegação antiga e a prática dos Descobrimentos Marí-
disso, provadamente infundamentada em face do record timos na era de Quinhentos de que nos parece interes-
naval do autor em navegação à vela, do «clima de água sante e útil arquitectar uma súmula geral. Esta foi
salgada», em que passou grande parte da sua vida, e revista, em rascunho, pelo próprio almirante, e dos seus
da sua experiência final de uma viagem de cento e cinco comentários, que não foram utilizados para uma ou
dias pelas zonas das rotas que estudou, de «astrolábio outra correcção ou esclarecimento da matéria, juntam-se
na mão», em que não fez mais do que honestamente como notas aqueles que seria imperdoável não trans-
confirmar a doutrina formulada na sua longa e extensa crever na íntegra, tal é o seu vigor incisivo e luminoso,
experiência profissional. ainda que por vezes se refiram a pormenores que
S de esperar que, prestada mais cuidada atenção ao adiante aparecerão num ou noutro ponto do corpo
homem e à sua obra, agora aqui posta em forma integral da obra.
e mais compreensível para os estranhos à vida do mar
A história dos Descobrimentos Marítimos tem sido
e à navegação à vela, justiça lhe seja feita pelos seus
feita, em regra, ou, antes, conjecturada no que diz
detractores mal humorados, a cegueira columbiana se
respeito à navegação, por pessoas não versadas na arte
desvaneça e o acto do seu herói, inquestionàvelmente
de navegar nem possuídas da ideia da importância que
valiosíssimo, se integre no verdadeiro ambiente histó-
tal conhecimento assume no sentido de emprestar lógica
rico que lhe pertence, confessando o quanto deveu, para
e verosimilhança a tais conjecturas.
a sua realização e preparação, à ciência náutica orga-
nizada em termos práticos para as navegações da época São exemplos bem frisantes de tal deficiência e
pelos Portugueses, que tão bom e útil gasalho lhe deram dos seus efeitos prejudiciais, quanto à crítica e apre-
nos tempos que precederam a sua gloriosa viagem, cujo ciação da obra realizada pelos navegadores dos Desco-
paralelo com as do Gama e Cabral apenas a faz sobres- brimentos, a interpretação até há pouco corrente da
sair pela audácia intimorata e a sorte sem precedentes, rota do Gama na sua primeira viagem à lndia, o desco-
mas não pela ciência própria ou arte de navegar ori- brimento dos Açores, a viagem de Cabral, quanto à
ginal,, nem mesmo, talvez, pela originalidade da con- escala que fez na costa do Brasil na sua rota batida
cepção primitiva. para a lndia, e até, em coisas mínimas de acção
essencial na interpretação de textos históricos, que
• desgraçadamente não abundam, como seja aquela de
De um passado assim tão rico de actividades no ingenuamente tomar no sentido de «amainar» o termo
mar e do seu aproveitamento para o estudo sistemático .. «escassear», referindo-se ao vento.
A NÁUTICA DOS DESCOBRIMENTOS

Se o crítico histórico de factos de natureza náu-


tica tivesse alguma vez passado pelo catavento de um
navio de vela7 jamais basearia as suas deduções no dis-
parate, jamais poria a frota da 1ndia7 a seguir a rota
dos paquetes da Companhia Nacional de Navegação (1)
e melhor compreenderia a razão por que Cabral aportou
ao Brasil depois de a hábil diplomacia do tratado de
TorQ,esilhas ter produzido o extraordinário acaso (II)
de o meridiano de pólo a pólo nele fixado cortar a costa
sul-americana em grossa talhada a favor dos navega-
dores da 1ndia7 então mais do que dos interesses impe-
rialistas da coroa portuguesa, dando-lhe a necessária
escala na rota do Cabo, que então7 como agora7 os ventos Lancha ca nh oneira «Loge» (no Congo)
impõem sem remédio nem outro recurso desde a cria-
ção do mar oceano7 e cujo regime não é lícito a quem
saiba qualquer coisa de navegação à vela duvidar que
já fosse conhecido dos Portugueses antes de qualquer
daquelas viagens, após décadas e décadas de prática
de andar no mar na volta da Mina, na volta do
Sargaço ... (III ).

(I) Trata-se do mapa com rota costeira que acompanha


a edição nacional d'«Os Lusíadas», publicada pela Imprensa
N acionai. - G. C.
(II) Depois do tratado de Tordesilhas até os Espanhóis
ficaram desconfiados de que D. João II queria alguma coisa sem
ser água salgada. É de crer que o nosso r ei estava mais que des-
confiado.- G. C.
(III) A viagem de regresso da Guiné pelo largo já era
conhecida em 1446, quando o cescrivam» Tinoco passou dois
meses sem ver terra. O que prova que até os leigos, como ele, já
sabiam que a volta da Mina era rota de regresso, segura e
menos trabalhosa.- G. C.
Canhoneira «Pátria» (em Timor)

O primeiro e o último nav io que o almirante co mando u


PREFÁCIO 59
Da mesma forma se evitaria o dar crédito às lendas
à sensation dos literatos históricos da época, na sua
maioria artistas das letras cõmodamente instalados em
terra ou meros passageiros mal adaptados ao mar dos
transatlânticos de então, que nos falam, e com efeitos
determinantes, de tempestades nos trópicos, como por
exemplo foi deturpada a «cerraçam» (Cantanhede) na
viagem do Gama, o temporal sofrido por Cabral no
mar de Cabo Verde ... onde nunca os há, a nortada de
Bartolomeu Dias no hemisfério sul, etc., sem contar
aquela história fantástica da tormenta sofrida pela
esquadra do Gama, na sua primeira viagem à lndia, na
volta do Cabo, onde até admite que tivesse chegado a
ter dias de seis horas ( 1V) e do dramático lançamento
ao mar de cartas e astrolábios ...
Exageros literários do género daqueles rque sempre
a literatura explorou para deleite da curiosidade mór-
bida do leitor e que o eterno romance da vida do mar,
estranha e ignorada do vulgo apegado à terra, justifica
e ilustra como o são as fantasias do mar tenebroso,
das trevas para além do Bojador, da água quente, dos
baixios e golfões, das calmarias eternas, dos monstros,
da terra em forma de disco e do abismo que lhe servia
de borda, que nunca ninguém viu mas que se imaginava
haver e que os escritores coevos davam à estampa ou
por convicção ou para explorar o gosto do público.
Evidentemente é de presumir que essas histórias, à

(IV) Trata-se de uma fantasia das «Lendas da índia»,


que alguns historiadores, como Sophus Ruge, aceitaram, apesar
de no Roteiro de V. da Gama se ler claramente que o Cabo
foi passado com bom tempo, embora bordejando uma semana
contra o vento de sueste, ali dominante. - G. C.
6o . A NÁUTICA DOS DESCOBRIMENTOS
PREFÁCIO 61

parte as que se consubstanciavam na massa confusa de E, ao mesmo tempo, que bela justificação, perante
lendas vindas do crepúsculo da humanidade e criadas quem o mandara, do insucesso da jornada, sem refe-
pela imaginação exacerbada nos terrores da ignorância rência talvez à impossibilidade técnica, que seria des-
e da luta com a natureza hostil fossem espalhadas primoroso confessar. Mas a técnica, maravilhoso sexto
pelos próprios navegadores das primeiras viagens pela sentido da humanidade, ia ruminando no subconsciente
C08ta da Ãfrica, que numa certa altura a que chegavam e a vela latina da caravela acabou por afastar tudo o
não viam forma de voltarem para trás por os ventos que era tenebroso, abrindo à acção dos navegadores
nessa direcção lhes passarem a ser contrários e não insipientes campo largo para bordejar e para ganhar
disporem de recursos para manobrarem os navios de barlavento em largas e contínuas singraduras de bolina,
forma a fazê-los avançar para barlavento (V). O marujo, permitindo assim o regresso ao porto de armamento de
como o caçador de feras e o aventureiro em geral cul- qualquer ponto da costa pelo mar largo e, o que é mais
tiva com agrado o palão que lhe engrandece o pre;tígio para o interesse do crítico histórico das navegações de
e lhe justifica os falhanços. Calcule-se a grandeza antanho, campo ainda mais largo de experiências de
olímpica a que, no meio familiar, na roda de amigos rotas mais favoráveis e do regime de ventos e correntes
e no parlatório da Ribeira, não subiria todo aquele que, nas diversas partes de mar largo para o navio redondo.
sem poder ser contraditado, contava os perigos teme- Aprendeu-se tudo isso na navegação a costear o conti-
rosos a que escapara, as trevas, os abismos, os mons- nente africano e no regresso pelo largo, aprendeu-se
tros de que se livrara! (VI). finalmente por um processo que não foi revelação
alguma mas simplesmente o resultado de uma incomen-
surável massa de experiências mínimas e daquele
(V) As velas usadas pelas galés e caravelas, triangulares, género de intuição que o marujo adquire na prática da
eram como as dos pangaios e como as de outros barcos do Medi-
faina do mar. Ao alcançar o Cabo o regime diferente
terrâneo. Permitiam bolinar e ganhar barlavento. Mas contra a
vaga cavada e correntes dominantes na costa africana como de ventos no Atlântico Sul sugeriu a rota intuitiva em
contra as nortadas da costa de Portugal, seria muitas' vezes arco pelo ocidente, de modo a aproveitar primeiro 08
impraticável ir ganhando norte, a bordejar. Daqui a necessidade gerais do norte e depois os do sul de feição favorável
de verificar se, ao largo, haveria outros ventos. Isso se verificava para o ir dobrar. E esse recurso que Bartolomeu Dias
na costa de Portugal, onde as nortadas, em geral, não vão a
mais de 100 léguas ao mar. O que aconteceu nas viagens aos
poosivelmente indicou (VII) e que foi logo aproveitado
Açores iniciadas em 1431. De resto a possibilidade geral de
ganhar barlavento era, com certeza, conhecida dos nossos pes-
cadores da costa, descendentes dos mareantes mouros e não dos
judeus. - G. C. (VII) Bartolomeu Dias não sabia se pelo largo da costa
(VI) Foi o que aconteceu a Vespúcio, que, nas suas cartas, de Africa ·s eria possível ir contornar o vento sueste do Atlântico
mostra acreditar nas lendas que lhe contaram os pilotos, por Sul. Só veio informar que a rota costeira seria impraticável para
ele ser lá nova.to; embora se intitule astrónomo.- G. C. n~us, e sugerir a necessidade de se explorar a possibilidade de
62 A NÁUTICA DOS DESCOBRIMENTOS PREFÁCIO

pelo Gama e por Cabral, nunca mais dei:rou de ser bório porque em toda a parte o aspecto era o mesmo
seguido desde então precisamente à letra e sem desvio mas que de forma alguma daria a ideia de um disco
ou correcção sensível até aos tempos áureos nossos com um abismo na borda (VIII). Eles não saberiam
contemporâneos ainda da navegação à vela, sistema- aonde ia ter o mar, mas que não acabava em cascata
tizado nos tempos modernos pelas Cartas de Ventos para as profundas do inferno é que não teriam certa-
e Correntes, de Maury, que pràticamente nada vieram mente dúvida alguma. Não haveria uma ideia- bem
acrescentar ao sentido marítimo dos navegadores de definida sobre a existência dos antípodas, mas Afonso,
outrora mas oferecem elementos preciosos de consulta o Sábio, no seu livro de Astronomia, já se referia à
a quem as saiba ler na crítica das rotas atlânticas dos esfericidade da Terra.
navios portugueses dos Descobrimentos. Porque os E, quanto ao que se ia buscar, como de resto já
ventos e as correntes não mudaram desde então nem nas primeiras décadas após 1500 António Galvão nos
tão-pouco mudaram os princípios fundamentais da arte conta no seu «Tratado dos Descobrimentos», o que se
de manobrar e de navegar um navio de pano redondo sabia era muito, o que se sabia entre as classes cultas
ou latino. e o que certamente corria na lenda e nos contos das
Nem também aquelas patranhas da terra em disco, ignaras. O contacto entre o Ocidente e o Oriente e a
das trevas, do buraco para o inferno eram de acreditar lndia jamais se perdera desde tempos recuados da
na mentalidade, por mais tacanha, dos navegadores história e, modernamente em relação à época, além
da época que se aventuravam para além dos pesqueiros de missões diplomáticas enviadas a potentados asiá-
mais próximos da costa portuguesa. A esfericidade da ticos que constituíam uma ameaça ou um risco para
Terra não era já ao tempo nenhum mistério e ao
marujo mais boçal certamente impressionava a
maneira como a terra ou outro navio lhe ia surgindo (VIII) Isto já fora verificado até no Mediterrâneo. E como
à vista ou desaparecendo na linha do horizonte, o que se observara em todas as direcções, concluía-se que a Terra não
certamente lhe dava mais ideia de uma superfície era cilíndrica, mas esférica, como aliás o provava a sombra que
côncava, que dificilmente seria de admitir como zim- a Terra projectava sobre a Lua, nos eclipses. Também se notara
que a vertical continuava normal à superfície terrestre, desapa-
recendo assim o receio de, nos antipodas, a gente ter de andar
de pés para o ar ... Da sua prolongada experiência de navegação
em latitude, já os Portugueses, combinando o caminho norte-sul
o contornar pelo sudoeste, em arco análogo àquele que se pra- navegado com o estimado, tinham conhecido que o grau terrestre
ticava no Atlântico Norte. É natural supor que foi da sequente varia entre 17 e 18 léguas marítimas. Colombo não apresenta
exploração, em que talvez Dias ou Dalenquer colaborassem, que base alguma para supor que o grau tivesse s6 1:1 léguas. Trata-se
se reconheceu aquela possibilidade. Mas era preciso montar a de uma desculpa com a qual pretendia justificar a sua afirmação
terra a sotavento - o Sargaço do Atlântico Sul - , tema que o de que a Terr-a era pequena e que a índia ficava perto pelo
tratado de Tordesilhas nos :revela. - G. C. ocidente. - G.c.
A NÁUTICA DOS DESCOBRIMENTOS PREFÁCIO

a Europa, vários viageiros aventurosos, levados pela Porque na crítica histórica das navegações de
curiosidade do desconhecido mas também pela ganância antanho é imperativo atender, não somente ao regime
comercial, percorreram e noticiaram sobre essas terras dominante dos ventos na zona navegada e na quadra
longínquas donde as preciosidades vinham caríssimas do ano em que a navegação se fez, mas também aos
'
através dos rapaces intermediários levantinos , e até' recursos materiais de que ao tempo se dispunha para
o Cristianismo lá chegara ao tempo com S. Tomé, sob as levar a cabo.
a forma de uma nova seita oriental, a dos cristãos Quanto aos navios, de princípio, eram as galés. Se
nestorianos. E também de várias expedições havia notí- bem que mal pareça, sendo como foi desde as épocas
cia, todas encarreiradas para a lndia. Como nós em históricas mais recuadas a vida mediterrânea essen-
face do negócio pingue de Génova e Veneza, os Fenícios cialmente marítima por virtude da forma a dar às suas
não viam certamente com bons olhos os lucros adua- comunicações mais fáceis e económicas, da expansão
neiros que encheram na época bt'blica a abarrotar os para outras terras onde se formaram colónias que nunca
cofres de Salomão pela passagem através da terra dos perderam o contacto directo por mar com a mãe Pátria,
Hebreus das preciosidades vindas dos portos do Oriente da actividade militar também fatalmente a desenvol-
pelo Golfo Pérsico. O célebre périplo não é verosímil, ver-se em parte apreciável sobre o teatro de operações
mas foi provàvelmente tentado e viveu sempre na marítimas, pela circunstância geofísica do profundo e
memória das gentes (IX). A viagem dramática dos largo recorte e parcelamento das terras banhadas pelo
irmãos Vivaldos ainda bem mais escaldava as imagi- mar e precisamente onde o progresso e a civilização
nações da época, e a do catalão Ferrer também não caíra humana nunca mais foram excedidas em determinados
no esquecimento. Todos eles iam em busca do caminho aspectos, a galé manteve-se até ao alvorecer dos tempos
marítimo para a lndia, mas o propósito era tecnica- modernos com a vela apenas como elemento auxiliar
mente irrealizável. Com galés de marcha lenta e uma insipiente. e que o Mediterrdneo é um mar estreito e
chusma de remadores a comer e a beber a aventura não fechado e é precisamente mais estreito e fechado quanto
poderia, certamente, acabar em bem (X). ' mais penetramos nos seus recessos levantinos. As dis-
tdncias entre as costas recortadas da Grécia e das suas
inúmeras ilhas e as da Asia Menor são curtas e a nave-
(IX) A viagem dos Vivaldos, que não puderam voltar, é
que é autêntica. Uma viagem do Mar Vermelho para 0 Mediterrâ-
gação, costeando em grande parte e com abundantes
neo, a contornar a África pelo Sul, é inverosímil. Mas, enquanto surqidouros onde enxurrar os barcos durante o extenso
se supôs que a África se não estendia muito para o sul do equador, período que mediou até à invenção da dncora (XI), não
era fácil acreditar nela. Hoje não. - G. C. era proibitiva feita a remos, tanto mais que os caprichos
(X) Nem o almirante Pessanha, contratado s6 para ser-
vir em galés, para combate, pensou em ir aos Açores. S6 lá
fomos à vela, e no tempo do Infante. Hoje é que lá se vai a motor, (XI) No Mediterrâneo não havia receio de se perderem!
até mesmo pelo ar .. . - G. C. Havia escalas que os corsários e mercadores conheciam. - G. C.
66 A NÁUTICA DOS DESCOBRIMENTOS PREFÁCIO

meteorológicos momentâneos daquele mar, em regra a lndia directamente era de difícil solução, essas rela-
ameno, mas que de uma forma geral, então como na ções pelo mundo árabe e muçulmano eram correntes e
actualidade, fogem ao mais elementar sistema de pre- constantes. Foram eles que trouxeram para o Mediter-
visão de tempo, não tornava realmente de apetecer o râneo a navegação à vela usada no Indico, e, com ela,
uso e o aperfeiçoamento da vela. Foram cgalees» os a vela latina, que se tornou de uso clássico no decorrer
barcos que nos trouxe o genovês Pessanha, que nos veio dos tempos (Xlll ). Foi dela, segundo o padrão usado
ensinar, por contrato, a combater no mar mas não a pelos marítimos mouros, que derivaram as das cara-
navegar. No entanto a infiltração da vela no Mediter- velas.
râneo, e, dali para cá do estreito, ao longo da nossa As naus redondas usadas ao tempo das primeiras
costa, ia-se dando e, curioso é notar, trazida do próprio viagens ultramarinas não eram próprias para velejarem
Oriente, que por intermédio dela e do seu mais sábio com ventos que não fossem largos ou, quando de bolina,
aproveitamento se foi buscar. O comércio da lndia e muitíssimo próximos do través. Não eram próprias
do Extremo Oriente, incluindo a China e as ilhas do para bordejar, se bem que, apesar de tudo, conse-
Indonésia , vinha-se fazendo desde tempos imemoriais guissem ganhar 10 % de caminho para barlavento e
pelo Golfo Pérsico, costa da Arábia pela região do que se verifique o caso de Vasco da Gama ter bordejado
Aderamaute, donde partiam as estradas do incenso e com elas durante três dias até Santa Helena (XIV).
do Extremo Oriente , incluindo a China e as ilhas da Mas não eram navios para isso nem para reconheci-
«Mohit», colectânea de roteiros seculares no Indico mento costeando, por virtude também do seu calado
e nos mares da China e Indonésia, séculos ante- excessivo.
riores à passagem do Cabo por Vasco da Gama, As caravelas com aparelho de origem oriental e
e essa navegação, em regra em cascos construí- adaptação moura- aos olhos sagazes do almirante não
dos na lndia, onde a madeira própria abunda, de
que ainda nos resta o pangaio em serviço corrente (XIII) Há que distinguir entre a vela chamada latina,
trans-índico ao sabor das monções, era feita, em regra, usada antigamente pelos barcos do Mediterrâneo, triangular,
por pilotos e capitães persas, turcos ou mouros (XII). e a vela moderna latina, que é quadrangular, result2do da
amputação da vela triangular, usada agora nos caíques e canoas,
Ora sabido é, ou de presunção bem certa, que enquanto que anda por dentro das enxárcias e que tem a beta da ostaga
para o mundo ocidental o comunicar com o Oriente e por entre avante do mastro.- G. C.
(XIV) As antigas velas quadrangulares permitiam boli-
(XII) Os desenhos antigos, como um que vi e foi publicado nar a seis quartas do vento; o abatimento dos cascos curtos
pela primeira vez nos anais do Clube Militar Naval, todos pro- e de formas cheias era de quarta e meia. Total: sete qua1tas
vam que as velas usadas pelos barcos latinos antigos eram exac- e meia. Aproveitavam, pois o vento, meia quarta, ou seja, um
tamente como aquelas que vemos n os pangaios, embolsadas por décimo do caminho. Os navios redondos de hoje braceiam mais e
fora das enxárcias e mastros. As betas das suas ostagas ficavam abatem menos. De modo que os clippers - como eu via a bordo
por entre a ré dos mastros.- G. C. da cPero d'Alenquer>- aproveitavam 20 por cento.- G. c.
68 A NÁUTICA DOS DESCOBRIMENTOS PREFÁCIO

escapou o pormenor, visível ao profissional em gravuras em viagens sucessivas e sucessivamente mais alongadas
coevas, de a ostaga dizer e laborar para vante de forma pelo mar dentro e em diferentes épocas do ano, contor-
a permitir o cambar do lais da amura da verga por navam-se esses ventos gerais procurando-se-lhes a feição
entre a ré do mastro, ao mesmo tempo que o latino favorável e ajustada para mais possivelmente atingir o
caça por fora da enxárcia, o que mais se apropria à ponto de destino em navegação indirecta traçada em
navegação mais corrente com ventos para ré do tra- grande arco sobre o mar.
vés -, podiam aproveitar 20 % do caminho andado de Isso foi-se conseguindo por tentativas sucessivas,
bolina (XV). Eram barcos maneiros, de menor calado depois do Infante, em cujo tempo a navegação se fazia
de água, mais manobreiros, próprios portanto para toda ao longo da costa, se bem que não fosse ignorada
andar contra o vento em bordadas mais ou menos largas então a arte de bolinar (xvu ). A necessidade do regresso
e para reconhecimentos costeiros ou entre parcéis e fora da vista da costa em conquista de barlavento foi
ilhas. As naus o que tinham era maior capacidade de grande mestra que ensinou a aproveitar e a aper fei-
carga, de armamento e de acomodação para passageiros çoar não só essa arte mas também, em tentativas labo-
e guarnição. O velame da época, influenciado certa- riosas e sucessivas, que se prolongaram por um largo
mente pela moda do Indico, pois que na China ele foi período de tempo, suficientemente largo para ser adqui-
direito e bem esticado por virtude do seu fabrico em rida a necessária experiência, a prática das voltas
esteira (XVI) , era enfunado e não plano, como o são as indispensáveis para aproveitar ou contornar os ventos
velas de hoje em dia. Por todos os motivos e porque as gerais e os de carácter permanente e regular em cada
naus constituíam afinal a base utilitária da navegação época do ano para cada região do mar. Essa experiência
de longo curso, não era prático bordejar em viagens foi-se adquirindo sucessivamente com uma prudência
longas. Descobertos os ventos gerais e o seu regime, digna de registo:- o cabo Bojador, em 1434, o de
primeiro no hemisfério norte, depois no hemisfério sul, Boa Esperança, em 1487, com 53 anos (meio século)
de intervalo, até ao encontro da Volta do Cabo, cuja
(XV) Eu vi em Moçambique os p angaios, apesar de qun.se aproximação escreveu o último capítulo da sabedoria
sempre virarem em roda, facilitando assim o cambar da verga, do regime de ventos do Atlântico no que dizia respeito
bordejarem e ganharem barlavento. Até vi eles fazerem cami-
nho bordejando pelo canal rle Dar-es-Salwm, que é bastante à banda de cá do continente africano. Quanto ao Indico
apertado.- G. C. e ao seu regime metódico e pendular das monções, as
(XVI) Não esquecer que as velas chinas das lorchas são
esticadas pelos bambus, de modo que se aproximam muito das
velas planas, que são as latinas modernas. Tais barcos frequen- (XVII) É certo que, quando o Infante começou, a navegação
tavam os portos indianos do Malabar, como aqueles em que se era toda costeira. Mas desde que, em 1431, fomos aos Açores,
retirou Marco Polo da China. Mas os mareantes indianOS' nunca começou-se a r econhecer que a viagem larga, em arco, ou indi-
copiaram essas velas, como afinal não copiaram as latinas dos recta, era praticável e, sempre, sem o penoso e demorado tra-
nossos dias. - G. C. balho de bordejar, cambando as vergas. - G. C.
70 A NÁUTICA DOS DESCOBRIMENTOS PREFÁCIO 71

rotas de muito longe trabalhadas pelos pilotos persas, de Tordesilhas não sugere a salvaguarda dessas terras,
turcos, indiarws e árabes} desde o Mar Vermelho e o não pelo que valiam em si} mas como escala necessária
Golfo Pérsico até Sofala e Madagáscar até Ceilão a para o prosseguimento económico e seguro na rota da
Samatra} às Molucas} às costas da I:UWchina e J da lndia} para a qual oferecia o necessário porto de escala
China (XVIII)} era tudo já bem do conhecimento dos e reaprovisionamento de mantimentos e de aguada}
responsáveis portugueses pelas navegações por inter- sendo como era a lndia a preocupação dominante} e a
médio dos enviados especiais que foram, por terra} até vontade de distrair o concorrente espanhol, evidente-
Calecute. mente obcecante Y
E, quanto às voltas a que o regime de ventos Não será também defensável a hipótese de que
no Atlântico obrigava para romper caminho nas Colombo, quando se deitou à cega aventura de navegar
viagens de regresso e nas de ida de rota batida para a para oeste, em busca da lndia} fosse levado pelo conhe-
zona do cabo de Boa Esperança} no decorrer das quais cimento da existência de terras próximas que acaso
fora"': encontradas as ilhas de Cabo Verde} os Açores tivesse surpreendido aos Portugueses durante o largo
e ma'I.S tarde as ilhas de Tristão da Cunha e povoados tempo que aqui serviu? (XIX). Os rumos seguidos na
os Açores logo de seguida} por que não ad~itir o conhe- sua segunda viagem assim levam a crer e a certeza
cimento da costa do Brasil antes de 1500 cuidadosa- em que dizem ter morrido de haver encontrado a
mente guardado o necessário sigilo até à ho~a favorável índia nas Antilhas bem podia ser fingida para
da sua revelaçãoY Por que não admitir que a rota tão não confessar o fracasso da sua expedição quanto
sàbiamente traçada da primeira viagem do Gama com ao objectivo oficialmente prescrito. De resto o
um repiquete à Serra Leoa, de maneira} que muito exame, mesmo superficial, do mapa de Tosca-
parece intencional, a não se deixar ensacar na costa ao nelli (XX) J então de conhecimento geral entre os
norte do cabo de S. Roque, o que fatalmente sucederia
se deitasse para lá directamente de Santiago de Cabo
(XIX) Colombo sabia, tão bem como os aventureiros por-
Verde, não sugere, além do conhecimento do regime de tugueses que talvez já tivessem ido às terras ocidentais antes
ventos no Atlântico Sul, o da existência de uma terra dele,, que de lá iam dar aos Açores r estos de vegetais que não
em pro jecção para o mar sobre o Oriente a interpor-se eram conhecidos dos Europeus.- G. C.
no caminho dessa rota Y A última redacção do tratado (XX) Há que distinguir entre o m apa de Toscanelli,
reconstituído segundo o Globo de Behaim e, portanto, tão falso
( XVIII) N- . . como o globo, e o mapa autêntico do mesmo T oscanelli, encon-
ao esqueçamos que os Chmeses eram antiquís-
simos homens do mar. O barco é para eles o seu «Home~. Lá se trado há poucos anos em Itália pelo professor Crinó. Neste
geram, lá nascem, casam e morrem. O que ainda agora vemos último mapa, Portugal dista da costa da China pelo oriente,
nos barcos de catraiar das tancareiras de Macau. Foi em barcos dois quintos da volta completa e, é claro, uns três quintos pelo
chinas que Marco Polo contornou a índia, indo a Calecute e a ocidente. Ver o que a este respeito escrevi, h á alguns anos,
Ormuz.-G. C. no semanário «Arquivo Nacional>. - G. C.
72 A NÁUTICA DOS DESCOBRIMENTOS PRE FÁCIO 73

técnicos da política e da navegação coevos, bem mos- de alta importância. Ali se efectuavam trocas de
trava, medido à mão travessa, que a lndia, buscada pelo impressões com os mareantes experientes, no seu
ocidente, não podia de forma alguma estar da Penín- regresso do mar, se estudava a navegação em latitude
sula à distância percorrida por ele na travessia a pelo largo, se organizavam os necessários Regimentos
direito do Atlântico. da Polar e do Sol (XXII). O manual de Mestre Jácome
Ora o que é facto é que, com o Infante, se iniciou de Maiorca ensinava a construir os instrumentos e expli-
uma preparação sistemática para a viagem do mar cava o seu uso, ao mesmo tempo que se construíam
largo, quer criando a caravela segundo modelo dos cartas com o norte verdadeiro, que é o que joga com
barcos de pesca dos Mouros, quer adaptando o astrolábio a latitude.
ao uso do mar, simplificando-o. Do astrolábio havia a Ao mesmo tempo os caravelistas do Infante, depois
experiência em terra para observações com o Sol e a de adaptado e melhorado o aparelho mouro já empre-
estrela do Norte, mas chegara-se à conclusão de que o gado à bolina, mas agora em cascos de maior porte,
Sol era preferível para o mar, ficando as estrelas para navegando em várias estações do ano, iam estudando os
o uso em terra e para orientação geral. De princípio o ventos gerais nas suas várias modalidades e dando
astrolábio no mar só foi empregado com o Sol. A Polar forma definitiva à caravela portuguesa, elemento a que
servia mais particularmente para determinar a variação o mundo deve em grande parte que lhe pudessem ser
da agulha magnética (XXI). dados novos mundos.
Entretanto, o grupo de cientistas reunidos em No entanto, quanto à navegação astronómica, e à
Sagres pelo Infante realizava trabalhos de gabinete, medida que as bordadas pelo largo, as voltas, se iam
desenvolvendo em amplitude e em penetração para o
sul, ao Regimento da Polar e do Sol acrescentava-se
(XXI) Notemos que, do Diário de Colombo, só se conclui o do Cruzeiro.
que os seus pilotos, tendo marcado a estrela Norte, apenas Restava o problema das longitudes, que havia de
repararam que as agulhas já não nordestavam, como na Penín- le'Var séculos a resolver, mas que não era tão estranho
sula, mas tinham passado a noroestar, meia quarta, quando cem
na prática corrente que a implantação de limites de
léguas para além do meridiano dos Açores. Não há notícia de
eles se terem servido do astrolábio no mar. Nem mesmo em terra. esferas de influência no tratado de Tordesilhas não
Tanto do Diário de Colombo, como do mapa do piloto La Cosa, tivesse como base um meridiano que haveria até que
datado de 1500, conclui-se que supunham Cuba situada na
mesma latitude da P enínsula Ibérica - com cel Norte tan alto
como en Castilla» - , declaração esta que prova que as suas (XXII) í: assim mesmo. Não existiu uma Escola Náutica
latitudes não resultavam de observações astronómicas, mas só de de Sagres, mas apenas reunião de cientistas com homens do mar.
estimarem o caminho como se as agulhas sempre tivessem Naturalmente, estes últimos lá teriam aprendido o fácil uso do
nOTdestado. Assim, erravam umas duzentas léguas em lati- astrolábio com o Sol. E teriam reconhecido a contingência das
tude.-G. C. observações da estrela do Norte, mesmo sem balanço. - G. c.
74 A NÁUTICA DOS DESCOBRIMENTOS
PREFÁCIO 75
assinalar nas terras por sobre as quais passasse por meio Verde, a 100 léguas da costa~ foram descobertas por
de marcos, como se faz modernamente em qualquer Diogo Gomes~ em viagem de regresso. A volta larga da
fronteira e segundo a mesma base geográfica. Para Mina com navios de pano quadrangular~ muito menos
essas havia o recurso primitivo da estima pelo rumo e chegado ao vento do que o latino, foi uma revelação e
distância navegada, ou, mais correctamente, depois de com ela surge de jacto o conhecimento dos gerais no
dispor do astrolábio e do Regimento do Sol e da Polar, Atlântico Sul. Não foi Colombo de forma alguma o
pela latitude e rumo verdadeiro. São processos intui- primeiro navegador cau long cours:., como há quem
tivos e adequados ao instrumental e aos conhecimentos pretenda afirmar.
astronómicos e geográficos da época. E~ ao ponto de vista do almirante~ acrescentaremos,
Contudo, o grande auxílio veio do astrolábio, que como comentário favorável, que Colombo deve apenas
tanto podia ser de latão como de pau, como era um dos a sua aura ao facto de ter revelado ao mundo, tomado
que levou F. de Magalhães, muito apropriado para as de espanto~ terras completamente desconhecidas, cuja
observações em terra destinadas a determinar a posição existência nem por sombras era sonhada pelo homem-da-
das terras encontradas (XXIII). -rua europeu e que mais tarde se revelaram fascinantes
A primeira viagem «engolfando pelo pego do mar» de pitoresco e riqueza, terras cujo conhecimento os
foi aquela que levou aos Açores em 1431, com mares Portugueses possivelmente já tinham pelas suas siste-
tempestuosos. Na passagem do Bojador, em 1434, já se máticas e progressivas navegações «au long cours» e
navegou pela certa, apesar dos ventos e correntes. Passa- descobrimentos atlânticos no sentido do ocidente em
ram a ser rotina normal os regressos pelo mar largo locais onde indícios vulgares na água e no céu estavam
por virtude do conhecimento sucessivo dos ventos mesmo a dizer a qualquer marítimo insipiente que ali
gerais, dos ventos dominantes do Nordeste e as viagens perto, mais para o ocidente, havia terra mas que manho-
«direitamente» de Zurara (XXIV). As ilhas de Cabo samente ocultavam na sua obcecação de guardar bem
para si a verdadeira lndia e os caminhos «direitos» que
(XXIII) Dos documentos publicados conclui-se que Magar
lhães levava, <além de vários quadrantes, seis astrolábios de
lá haviam de levar (XXV). Porque (permita-se-nos alon-
metal e um <astrolábio de palo», só para uso em terra, como gar um pouco mais este interlúdio) o que caracteriza
aquele de que se serviam os Portugueses. - G. C. o mérito das expedições marítimas dos Portugueses é
(XXIV) É possível que algumas vezes o regresso da Guiné a sua preparação sistemática e preconcebida, sem a
tivesse sido feito pela costa, aproveitando terrais, viração, reves- preocupação do espalhafato mas apenas a do seu apro-
sas da corrente, e fundeando por vezes junto à costa. Mas isto
era por demais trabalhoso, como é fácil de compreender a quem
tenha navegado por própria conta e não em paquete. De modo
que o caso geral seria a vinda, descansada e segura, pelo largo,
(XXV) Desde 1453, vanos aventureiros portugueses pre-
volta que, segundo o cronista Resende, D. João li pretendia
tendiam lá ir, o que é comprovado pelos alvarás ainda exis-
conservar em grande segredo.- G. C.
tentes.- G. C.
A NÁ UTICA DOS DESCOBRIMENTOS
PREFÁCIO 77

possivelmente mais curto mas na certeza certa de que


ueitamento prático, depois de levadas a bom êxito, o a Terra é redonda (XXVI).
feitio mais de reconhecimento de terras e de caminhos
cuja existência era já mais que conhecida do que pro- •
priamente de descobrimento, regulado pelo acaso e
pela sorte que tanto fere e exalta as imaginações do Feita esta distinção, que nos parece essencial e
vulgo, sempre à espera do maravilhoso e desdenhoso característica do aspecto nacional dos Descobrimentos,
da realidade prosaica. Descobriram os Portugueses, de prossigamos na análise e comentário da doutrina náutica
facto, no seu velejar pelo mar alto em busca de caminhos que sobre eles o almirante professa.
que melhor se'T"VÍ8sem o seu propósito, os arquipélagos Nessas viagens sistemáticas a contornar os gerais
dos Açores e Cabo Verde, mas o que lhes interessava do nordeste, o alisado do nordeste, à feição das cara-
era fazer o reconhecimento das Guinés, de que o Infante, velas e também das naus que representavam a parte
além de outras fontes de informação, ouvira falar em utilitária do armamento marítimo da época, foi encon-
Marrocos, quando lá esteve, donde já desde séculos, trado em 1436 o mar do Sargaço cxxvn), rota que de
como ainda hoje, faziam para lá as suas viagens de todo o sempre e desde então se tem seguido e que
catequização maometana e negócio através do deserto, ainda hoje é a que segue quem navega à vela no
e -principalmente - da lndia, aonde se dizia que os Atldntico com o mesmo destino. São 400 léguas da
costa de Africa até lá, a meia largura do Atldntico
Fenícios tinham querido ir, pela volta do cabo de Africa,
( 40 graus W Gr.). Não foi preciso realmente para isso
em cujo caminho os irmãos Vivaldo pereceram tràgica-
mente, de que os Marco Polo contavam maravilhas
pormenorizadas e onde se sabia que 8. Tomé fora pregar
(XXVI) Não é fácil saber-se verdadeiramente o que pre-
e catequizar, a lndia, que depois de ter alimentado o tendia F. de Magalhães. Ele não ignorava que as Molucas esta-
fausto do Salomão das escrituras enriquecia as cidades vam perto do equador, mas é certo que, ao aproximar-se delas,
maritimas da península italiana e, com elas, uma horda cortara para noroeste, buscando uma latitude cerca de 13 graus
norte. Assim, foi dar às Filipinas. Se a partir de meados de
inumerável de intermediários levantinos. Colombo, de Fevereiro de 1521, ainda a um milhar de léguas das Molucas.
facto, descobriu, os Portugueses reconheceram, reve- não tivesse rumado deliberadamente para noroeste, teria ido
laram os meios de alcançar econômicamente o que já descobrir a Nova Guiné. Pelo seu contrato ele t inha direito à
era conhecido, como igualmente aconteceu com Maga- participação nas ilhas que descobrisse. Tal era o seu interesse,
de preferência a chegar às Molucas ou a dar a volta ao
lhães, que em busca de uma réplica a esse caminho Mundo.- G. c.
pelo sudoeste não fez mais do que ir ao encontro do O Mar do Sargaço já aparece no mapa de
seu. amigo Ferrão, ao tempo e de há muito estabelecido Bianco, datado de 1436, que eu vi em Veneza, e está publi-
t1a8 Molucas, que ali o esperava por via de um caminho
cado: é o chamado cMar de baga». - G. C.
A NÁUTICA DOS D ESCOBRJMENTOS PREFÁCIO 79
recorrer à8 caravelas e ficou em plena e:ristência a obrigaram a retirar, tanto mais que levava de regresso
e:x;pressão simbólica de Volta da Mina ou Volta do à Pátria a notícia mais importante - que era a da pos-
Sargaço (xxvrrr). sibilidade de ir à lndia por mar. Do Cabo a Sofala eram
O conhecimento final do regime de ventos no apenas umas centenas de léguas e depois dali os prá-
Atlântico Sul veio com a viagem de Bartolomeu Dias ticos do Indico levariam qualquer frota a Calecute.
ao dobrar pela primeira vez o Cabo. Segundo a norma Voltou depois de ter sentido as águas quentes, vindas
seguida nas viagens de reconhecimento ao longo da de entre os trópicos, na rota da lndia, mas trazendo
costa e no prosseguimento do trabalho realizado por consigo a noção precisa da e:ristência de ventos favo-
Diogo Cão até 22 graus de latitude sul, para além dos ráveis para ganhar Leste desde umas trezentas léguas
quais se viu que a Terra continuava ainda, largou em a oeste do Cabo até São Brás e a informação de que pelo
1486 apenas com duas caravelas e uma naveta que seu caminho não passariam fàcilmente as naus. Daí,
deixou em Angra. Pequena, continuou a costear só com naturalmente, a sugestão da volta de Oeste seguida pelo
as caravelas até 30 graus de latitude sul, e o vento Gama. que consigo levou Pêro de Alenquer como piloto.
persistente do SSE obriga-o a meter na volta do mar. Da prudência com que se caminhou para sul-
Assim, foi provàvelmente pelo sudoeste dentro até onde
Bojador em 1434, Cabo em 1487, 53 anos (meio sé-
começam a sentir-se os gerais do oeste. Deitou-se então
culo) -resulta o objectivo de investigar a possibi-
na bordada da terra e depois em direcção ao norte, para
lidade de passar por SW, apesar de ventos e terras
concluir que a A/rica acabara ali. Estava-lhe aberto o
(estas pelo menos suspeitadas desde 1494).
caminho da lndia do Rio do Infante para NE, mas o
cansaço das tripulações e as correntes contrárias, cuja Na viagem do Gama seria mais praticável ir na
violência ainda é a preocupação, naquelas paragens, dos volta do mar partindo da Mina, em cuja volta se conhe-
navegadores da actualidade, os de navios a motor pelos cia o regime dos ventos, mas isso não se fez porque
atrasos e consumo de combustível resultante, os de havia melhor. Ter-se-ia feito se se seguisse à aventura,
navios de vela, que acaso ainda andam no mar, pela ou então rumaria ao S ao largar de Santiago e ia parar
dificuldade de romper caminho para o norte em certas ao Amazonas. A viagem foi precedida de um reconhe-
zonas do percurso perto da costa como Bartolomeu cimento que concorreu para a demorar de 10 anos e só
Dias naturalmente pretendia navegar, certamente o depois dele concluído é que se construíram as duas naus ·.
adequadas- a «Gabriel» e a «Rafael».
A viagem do Gama foi planeada em rota especial:
(XXVIII) Volta do Sargaço é a expressão que se lê n a - bordada a leste. acompanhando Bartolomeu Dias até
c:Etiópia Oriental>. Nas c:Sendas da índia», escritas cerca à Mina, ir com su1l (vento), rumando para sudoeste.
de 1520, lê-se que V. da Gama, em 1499, encontra, antes de
chegar aos Açores, c:huns limos ruivos>, tendo a c:folha como Levou naus e não caravelas, que se impunham se fosse
çaragaço:..- G. C. em viagem de reconhecimento.
8o A NÁUTICA DOS DESCOBRIMENTOS

A viagem do Gama não foi de aventura. Foi defini-


tiva e acabou por levar à lndia, após décadas e décadas
de preparação técnica e experiências pelo mar. Colombo
nunca lá chegou. Foi à aventura, menos quanto à
técnica náutica aprendida na mesma escola.
H ouve tentativas de viagens particulares às terras
suspeitadas do Ocidente, mas com resultados precários,
como foram as viagens dos Corte-Reais, que nunca
pretenderam ir à lndia. Teriam como sequência a des-
coberta da Terra Nova, da Groenlândia, da Florida.
No mapa de Cantino aparece nomenclatura portuguesa.
Do que fizeram os Corte-Reais só se sabe o que foi para
a Itália. Não se pensava então que fosse fácil ir por
aquele lado à lndia. O mapa de Cantina considera a
Groenlândia «parte da Asia», passando por cima do
pÓlo (XXIX) •
Quando foi do descobrimento do Brasil, Cabral
conhecia uma rota diferente da seguida pelo Gama,
porque ia no Inverno e não no Verão, como aquele fora.
Navegou direito a sul até ao equador; quando o vento
se tornou escasso e ao mesmo tempo fraco, guinou para

(XXIX) O mapa de Cantino (1502) apresenta claramente


a Gro~nlândia como descobrimento português. Na sua parte sul
lê-se na carta a nota: c:se crê ser esta a ponta dasia~. A terra
viria do Norte, ligada à Sibéria conhecida, por sobre o pólo.
Mas não há a mínima indicação de que os Portugueses jul-
gassem que a outra terra situada mais a oeste fosse também
Ásia. É a nascente da Groenlândia, onde de facto existe Ásia,
A bordo do «Serpa Pinto» (1950)
que se lê a inscrição: c:parte de Asia~.- G. C.
Comparando as observ ações do Sol por meio do astrolábio
com as do sextante moderno
PREFÁCIO 81

BW e não para BE, conforme as tnstruções. Montou a


parte mai8 perigosa da costa do Brasil sem a ver (xxx ).
Da viagem de circum-navegação dos navios de F. de
Magalhães não resultou a medida da Terra. Essa via-
gem, além de única, fot irregular. Também não fot
Colombo nem ninguém que mediu o meridiano. Foram
muitos mareantes portugueses, que, pela repetição das
viagens sucessivas, concluíram que o grau tinha 11,5
léguas marítimas, sendo o raio da Terra equivalente a
um milhar delas. (Grau equivalente a 11,46 léguas).
A primeira viagem de que possuímos um diário
náutico regular fot a de D. João de Castro (1538)~
Refere-se aos processos antigos e aos modernos em uso.
Faz uma minuciosa determinação da variação da agu-
lha, mas é difícil traçar a sua rota numa carta moderna.
Colombo, como se di8se, deveu, a nosso ver, a fama
que o seu nome desfruta ao facto de ter esbarrado,
num hipotético caminho para a lndia por ocidente,
com terras de cuja exi8tência ninguém no Mundo sus-
peitava sequer, facto que encheu a Espanha, ao tt rtpo,
de orgulho e sati8fação e, nos tempos modernos, mo-
cionou o velho mundo em progressão crescente por
virtude da importdncia que esses territórios assumiram
no conjunto social, político e econ6mic0, precedida da
vibração que ainda perdura nos espíritos, provocada
em épocas sucessivas pelo romance dos Portugueses no

(XXX) O mesmo fez v. da Gama em 1497: mas como sabia


que entre a ilha de Santiago e o equador iria encontrar o vento
do sul da monção do Verão, ele foi tomar barlavento à Serra Leoa
para ficar seguro de montar, também, a parte da costa do Brasil
que ia mais a leste, ou, contra o vento a costa entre os cabos
São Roque e Santo Agostinho. Este é qu: era o Sargaço do Atlân-
tico Sul... - G. C.
6
82 . A NÁUTICA DOS DESCOBRIMENTOS
PREFÁCIO

Brasil, a tragédia brutal dos Espanhóis no Centro e


no Sul do novo continente e o drama pungente e gran-

dioso da colonização e metamorfose do Norte em nações A obra do almirante encontra-se dispersa por um
modernas. grande número de artigos de revistas e diários da
O almirante tem igualmente, a respeito de imprensa portuguesa e brasileira e, bem assim, por
Colombo, a sua doutrina em oposição a muitas afir- conferências proferidas em diferentes agremiações
mações correntes absolutamente injustificadas e, em culturais ou alocuções em solenidades destinadas a
regra, resultantes de um quase fetichismo pelo nome comemorar ·feitos da nossa história marítima, além de
do herói (XXXI). outros trabalhos ou simples notas inéditas que é dever
A doutrina náutica dos Descobrimentos, que serve aproveitar pelos ensinamentos e pontos de vista origi-
de base a todos os estudos do almirante sobre a maté- nais que encerram. Desta forma de publicidade resulta,
ria, assenta, afinal, no seguinte princípio elementar: como é natural, o defeito inevitável da repetição ou da
« •.• as viagens de descobrimento, seja das ilhas, do con- maneira por vezes demasiado subjectiva, talvez menos
tinente americano, ou do caminho marítimo para a adequadas a uma obra de tomo em que, para compreen-
lndia, foram realizadas em navios de vela, dependentes são da doutrina que envolve, indispensável se torna a
das rotas oceânicas que aos navios impõem os ventos unidade e sequência lógica e natural. Por isso a sua
gerais, tanto no passado como actualmente aos nossos colecta se torna operação particularmente espinhosa e
veleiros.» ('G aspar Corte-Real, Julho 33) « ... para cheia de riscos, entre os quais avulta como fundamental
estt lar as viagens de descobrimento temos que nos o de desvirtuar uma ideia ou opinião essencial ou o de
imc 1inar dentro delas, dispondo apenas dos recursos truncar ou deixar incompleta determinada teoria.
da Jpoca.» (Idem). Uma e outra coisa procurará evitar a todo o custo
o coordenador, cuja única vantagem é compreender e
estimar o trabalho, as ideias e doutrina a que vai dar
corpo e forma e, além disso, o seu autor, o que, para o
caso, tem feição de vantagem de maior valia.
(XXXI) Nada justifica a sério a crença dos «colombianos ~ Por uma questão de método e sistematização
em que Colombo foi o primeiro navegador c:au long cours». Logo começamos por dividir o quadro da exposição em partes
em urna única viagem ele não poderia, de golpe, ter descoberto definidas, nas quais cada um dos elementos se integre
os ventos gerais do Atlântico. Até já li que Colombo descobriu como capítulo específico e elo necessário para a conso-
c:el fenómeno no menos importante dei movirniento diurno della
estrella Polan! Como tão-pouco é crível que ele ao atingir, com
lidação da estrutura total.
um milhar de léguas de navegação para ocidente, umas ilhas- as De entrada apresentam-se plaquettes concisas e
Antilhas, a que chamou lndias- se julgasse de facto em terras lapidares pronunciadas pelo almirante em determina-
asiáticas.- G. C. das ocasiões, as quais sintetizam uma ideia específica
A NÁUTICA DOS DESCOBRIMENTOS PREFÁCIO

e ao mesmo tempo ilustram o espírito de entusiasmo pertence a um modesto discípulo, com a consciência
e devoção patriótica que a animam. Tais são aquelas plena das suas limitações, que apenas aceita a função
que se referem, uma ao Infante D. Henrique, o grande amiga de coordenar, deixando aquela ao cuidado dum
espírito que acendeu e manteve acesa por tempos além mestre, par do autor.
o fogo sagrado de combustão profunda e lenta que levou A arrumação do texto põe completamente de lado
à progressão metódica e prudente de uma expansão a ordem cronológica da publicação anterior das suas
oceânica baseada no estudo da Arte Náutica e da obser- partes, ordem que se ignora por completo para haver
vação e experiência do ambiente dos ventos e correntes apenas a preocupação da sequência lógica e natural das
marítimas em que teria que pôr em prática a.<~ suas noções a coordenar em corpo de doutrina. Primeiro a
regras escolásticas, e outra que define o significado forma de localização dos mareantes no mar alto -
patriótico da palavra equador, como fronteira entre determinação do ponto no mar-, depois o estudo do
dois hemisférios, pela primeira vez cortada por velas regime dos ventos e dos processos de navegação seguidos
e asas portuguesas em rotas dirigidas pelas normas em conformidade e, por fim, os resultados da aplicação
da Astronomia Náutica. de uma e de outra coisa nas viagens levadas a cabo,
traçadas agora as rotas respectivas à luz de uma dou-
Segue-se o texto da obra, com o título «A Náutica trina sistemática e de alicerces firmes.
dos Descobrimentos», que compreende oito capítulos,
a saber: I - A técnica na Náutica dos Descobrimentos,·
11- A escola do Mar Largo- Atlântico e Costa CoMANDANTE MOURA BRAZ
de África,· Il i - América,· IV -lndia,· V- Brasil,·
VI- América do Norte,· V l i - Passagem do BW,·
Vlll- Austrália. O texto é completado com uma série
de notas, em número de Xlll, destinadas ao esclare-
cimento ou desenvolvimento de determinados pontos.
Como apêndice, não porque caibam propriamente
dentro do título da obra, mas porque ajudam a definir
a personalidade descrita a traços largos no prefácio
- e seria pena perderem-se por virtude dos ensinamen-
tos que encerram - , incluem-se ainda dois artigos
isolados, um sobre a viagem de Lacerda de Almeida,
outro contendo notas de travessias da Africa.
Têm estes trabalhos do almirante jus à discussão,
à crítica e ao comentário erudito, mas tal função não
ABERTURA

Infante Dom Henrique


O Monumento do nhéu àa8 Rola8
INFANTE DOM HENRIQUE
(1394-1460)

Depms de, em 1415, apenas com 21 anos de idade,


ter oombatido na conquista de Ceuta, D. Henrique
passou a preocupar-se com o descobrimento de cami-
nhos para a Guiné e India, só por mar, obra esta que,
quer pelo lado cristão, como pelo comercial, tanto inte-
ressava a Portugal e a todos os povos.
Naquela época a navegação não passava para o
sul das Canárias nem ia ao mar largo, chamado Mar
Tenebroso.
Para criar a nova navegação, teve o Infante de
convocar homens práticos, com quem foi estudada a
adaptação de navios, de instrumentos e de mapas, a
fim de, no alto mar, se poderem orientar por observa-
ções astronômicas. Foi com estes elementos que, nave-
gando ao largo, se foram descobrir os ventos gerais do
Atlântico, reconhecendo-se que eles permitiam tanto as
viagens de ida para o sudoeste, como a volta pelo
largo, contornando-se a região daqueles ventos, então
contrários. O mar _precedeu as terras.
ABE RT U R A INF ANTE DOM H ENRIQUE 9I

Como se vê, as viagens portuguesas de descobri- brimento dos caminhos marítimos para a Guiné, para
mento não foram tentadas ao acaso - a acertar- pois a lndia, para a América e , enfim, pelo oceano Pacífico,
tiveram, a par da inevitável audácia dos mareantes, para a Asia.
uma prévia preparação científica.
Mercê da intervenção do Infante, sucessivamente
os Portugueses foram devassando o alto mar: chegaram Lisboa - MCMXL - Agosto
à Madeira em 1418, aos Açores em 1431, passaram além
do Bojador em 1434 e descc>briram a Guiné em 1444.
Cortámos o equador em 1470, enrtrlámos no grande rio
Zaire em 1484, dobrámos o cabo de Boa E sperança em GAGO COUTINHO
Presidente da Comissão Infante D. Henrique, da Sociedade de Geografia de Lisboa
1488, tendo Vasco da Gama chegado à lndia em 1498
e Pedro Alvares Cabral ao Brasil em 1500. Já antes, em
1492, Colombo -que com os Portugueses aprendera
a navegar- tinha atingido as Antilhas, e também
Corte-Real chegara ao continente norte-americano
muito antes de 1500. Finalmente, em 1521, Fernão de
Magalhães, navegando para ocidente, atingira as Fili-
pinas, na Asia.
Tudo isto resultou do esforço do Infante, cuja inter-
venção pernritira inventar a navegação de a~to mar.

Esta actuação nacional, iniciada pelo Infante


D. Henrique, será vulgarizada no futuro monumento a
erig,i r na ponta de Portugal, que é a península de
Sagres, constituindo um registo simbólico da inter-
venção portuguesa na abertura de todos os oceanos à
Navegação e Expansão Europeias. Ali, um mapa esque-
mático de toda a Terra traduzirá a evolução do Desco-
O MONUMENTO DO ILHSU DAS ROLAS (1)

Este pequeno monumento não regista apenas a


passagem do equador por aqui. Eile, concretamente,
significa que nesta ilha se procedeu a uma sequência
de operações geométricas de precisão. Porque a defi-
nição deste ponto representa trabalho mais complexo
do que aquilo que alguns poderão supor.
Certo, à primeira vista, julgar-se-á que bastaria
observar a latitude de um ponto destas proximidades
- digamos neste ilhéu das Rolas - , reduzi-la a metros,
marcá-los no terreno para norte ou para sul, e esta-
riamos na latitude zero, isto é, no equador, conforme
1

ele se deduzia dessas observações astronómicas locais.


Mas um tal equador diferiria quase um quilómetro do
equador rea:l, ou seja daquele circulo único segundo o
qual a Terra é cortada pelo plano que a divide nos seus
dois hemisférios: o norte e o sul.

(1) Discurso que o Sr. Almirante Gago Coutinho devia


pronun~iar n a cerimónia do lançamento da primeira pedra do
«P adrão de Gago Coutinho», cerimónia que não se chegou a
realizar, por motivos de força maior. O original-autógrafo deste
discurso será depositado na Torre do Tombo.
~----------------------------------~----------------------~--------------------------------------~~--~~--------- ----------

94 AB E RTURA O MONUMENTO DO ILHÉU DAS ROLAS 95

Para conhecermos, com mais propriedade, quais os festas de passagem da linha, pretexto para interessan·
pontos destas ilhas cortados por esse círculo máximo, tes diversões dos passageiros, com baptismo, banquetes
não bastaria a operação simplista a que me referi, a e bailes, tudo mais ou menos acompanhado do jazz-band,
observação astronômica local. Porque as observações quero dizer, de uma adequada música tropical.
astronômicas dependem dos níveis dos instrumentos, Não! Equador é muito mais que tudo isso!
os quais obedecem à vertical local. Ora esta direcção Para os Europeus -ou, pelo menos, para os Por-
do fio do prumo, devido à irregularidade das monta- tugueses- o equador tem alta significação. Porque
nhas, está geralmente muito errada: aqui pende muito essa fronteira entre os dois hemisférios foi, indiscuti-
para o norte, noutros lugares para o sut damente, primeiro cortada no mar Atlântico -como,
Assim, é preciso proceder a uma série de determi- já neste século, pelo ar- por navegadores portugueses.
nações de latitude, em vários pontos das ilhas, ligados E não se trata apenas de bater records desportivos, mas
entre si, para se conhecer por onde passa aquele plano da primazia de um acontecimento que foi de grande
geral do equador, que ·c orta toda a África, como o alcance prático para a descoberta das grandes rotas
Atlântico e a América, vindo completar a sua volta à marítimas. Por essa razão, o equador simboliza a aber-
esfera terrestre pelo oceano Pacífico e pelo Indico. tura do oceano Atlântico e, portanto, da América do
Essas determinações geométricas das quais resul- Sul à navegação mundia!l. Foi obra que exigiu um século
tou o conhecimento aproximado dos pontos segundo os de navegação de alto mar, para, desde que se dobrou
quais aquele equador geodésico, ou abs01luto, corta esta o cabo Bojador, se completar aquela abertura- ain'd a
dependência da ilha de S. Tomé, passando por este por portugueses- com a passagem de Bartolomeu
marco -exigiram, portanto, determinações da latitude Dias, pelo sul da África, para o oceano Indico, e com
astronômica em cerca de uma dezena de estações, exigi- a de Fernão de Magalhães, pelo sul da América, para
ram a medição de duas bases de precisão, a flios de o Pacífico. E não deixemos de notar que foi desta ilha
invar, e, enfim, várias outras operações geodésicas de S. Tomé que, em 1740, partiram aqueles mareantes,
em ~cerca de meio ·c ento de vértices. Foi trabalho que os quais, ·c ortando o equador, foram, em 1 de Janeiro
aqui consumiu 14 meses no campo, e que, em Portugal, de 1471, descobrir a pequena Hha de Ano Bom, aqui
me ocupou ainda. mais dois anos. a uma centena de milhas ao ·s udoeste, já no hemis-
Tudo foi relatado em um volume, que tornou essas fério sul.
operaç~s perduráveis e, portanto, definitivas. Da importância e dificuldade de todas estas via-
Mas equador não quer dizer apenas este cfrculo gens podemos ajuizar, reflectindo que o mar foi tão
imaginário que, geometricamente, envolve a Terra. apertadamente sulcado que àqueles navegadores portu-
O equador não é, tão-pouco, aquela linha vulga- gueses •lhes não escapou ilha alguma do Atlântico Sul,
rizada a bordo dos paquetes que navegam na região no triângulo formado pela ilha de Fernando Pó com a
bonançosa do Atlântico Central, e que se traduz nas de Fernão de Noronha e as de Tristão da Cunha. Eis
AB E RTURA

as divagações históricas que nos sugere este marco,


erigido neste ponto do ilhéu das Rolas, ligado à ilha
de S. Tomé, ilha que, descoberta pelos nossos antepas-
sados, vem também sendo, durante mais de quatro
séculos, colonizada por portugueses. Estas terras, estas CAP1TULO I
gratas, estes cava letes têm, assim, sido teatro fecundo
do labutar de colonos, cujo espírito progressivo quis
completar essa obra de civilização, conhecendo cienti-
ficamente qual a forma rea:l destas ilhas e quai a sua A TÉCNICA NA
posição a respeito dos continentes.
Mas, com esta ocupação geométrica, que tanto NÁUTICA DOS DESCOBRIMENTOS
honra os habitantes do arquipélago, e que, simbólica-
mente, aqm fica registada neste mar co, cuja importante
significação procurei acentuar, não cessará aquele
paciente esforço secular.
Essa obra tenaz continuará, e eu termino fazendo
votos por que o vosso espírito, inteligente e empreen-
dedor, meus bons amigos, aqui encontre a tão merecida
compensação! SUMÁRIO:

São Tomé -1933- Julho- 5


I - A técnica náutica e a história dos
Descobrimentos
11 - A Astrologia m Península

m- O início da navegação astronómica

IV- Astrolábios e quadrantes

V - Oartas rectangulares

VI- As caravelas
l - A TBCNICA NAUTICA E A HIBTORIA
DOS DEBCOBRIMENTOB

1!: sabido que os diários das navegações pioneiras


desapareceram. De modo que, para analisar e recons-
tituir as ·s uas rotas, tornou-se preciso conjecturar. O que
nem sempre se fez obedecendo à técnica marítima.
Acontece que essa reconstituição foi apresentada,
de inicio, por estranhos às ccoisas do man, como eram
quase sempre cronistas e historiadores. Incapazes de
se imaginarem navegando dentro dos navios antigos,
eles fiaram-se nas versões que corriam, contadas por
mareantes românticos, que acrescentavam um «ponto»
ao seu «Conto». Tal é o exemplo flagrante das Lendas
da lndia, onde a nossa primeira passagem além do
Cabo está romantizada de maneira absolutamente
oposta à possfvel realidade, pois foi feita em 1487 e não
em 1497 como lá se lê.
Assim, os cronistas, sem elementos para criar con-
jecturas verosfmeis, recorrem a fantasias, como cal-
marias ou tempestades, correntes, revoltas, etc., que
não aconteceram.
E, lamentàvelmente, alimentaram na op1mao
comum insistentes falsidades, que se tornaram tabos
sagrados, dos quais ninguém se atreve a duvidar.
I OO A TÉCNICA NA NÁUTICA DOS D ESCOBRIMENTOS [ CA P.
I, r] A TÉCNICA NÁ UTICA E A HIST. DOS D ESCOB. IOI
Enfim, vítimas da sua insuficiência técni·ca, foram
levados a atribuir a arrojo aquilo que tinha explicação não lhe bastou a «çarraçam» apontada no Roteiro, e
na evolução metódica de uma Arte Náutica, só criada, acrescenta-lhe uma «tormenta:. «atravez do rio do
e por nós, no tempo do Infante D. Henrique. ouro», da qual não há noticia, e que até é inverosímil.
Eis o que, apoiando-me na experiência, minha e de Depois da partida de Santiago, ainda sem apoio no
outros, vou tentar elucidar com alguns exemplos. Roteiro, o mesmo cronista cria «muytas tormêtas de
vêtos, chuvas e çarrações», das quais tão-pouco há
• notícia, porquanto, entre trópicos, as cartas :q1odernas
só prevêem, e em casos raros, apenas um dia de tem-
Alguns desses historiadores, quando, por carência pestade em cada cem!
de técnica náutica, não encontram explicação para as Nem vale a pena tomarmos a sério - como alguns
rotas seguidas nas viagens de descobrimento, feitas à fizeram- o que se lê nas Lendas da India sobre uma
vela, vêm-se apoiando em uma bóia de salvação, a tem- fantástica passagem do Cabo, que de facto só custou
pestade. E com tanta firmeza que chegam a duvidar a Vasco da Gama nove dias com bom tempo, o que as
das informações prestadas por aqueles que foram nas Lendas transformaram em mais de seis meses de luta
viagens e só viram bom tempo. contra tempestades que ali ocorrem, em média, durante
Tal é o caso flagrante da tempestade que teria o máximo de uma dúzia de dias em cada cem, e, em
levado Ca,bral ao Brasil, a qual, apesar de única naque- geral, com ventos de oeste, favoráveis à passagem para
las viagens, fez carreira contra as informações con- além do Cabo como Gama pretendia!
cretas de uma testemunha de bordo, Vaz de Caminha, Pois de tão pouco prováveis contrariedades- cujo
que escreveu: «Sem hy a ver tempo forte ne contairo» fim foi justificar uma duvidosa e precoce partida de
«seguimos nosso caminho per este mar delomgo». Foi Lisboa em Março, ao passo que Gama realmente só
certo que Cabral, muito depois, «perdeu de uma vez partiu em Julho-, dessa invenção fez-se eco o histo-
quatro navios», já ao largo das ilhas de Tristão da riador moderno Sophus Ruge, que até cita o romântico
Cunha, mas isso nem foi devido a tempestade, e só episódio da «conspiração», a que Gama teria respondido
a um brusco «peganho de vento», tão «furioso que não atirando ao mar artigos essenciais à navegação, para
deu tempo para amainar». Assim o conta Castanheda. não poderem voltar atrás!
Do Roteiro de Vasco da Gama, escrito por quem Outro historiador, recente, explica a rota larga,
ia nos barcos, só consta em toda a viagem uma «tor- em arco, que Gama traçou no Atlântico Sul, a contor-
menta», que apenas durou um dia, já muito para além nar ventos contrários, como empreendida «talvez para
do Cabo. Contudo, Castanheda. apesar de ter seguido escapar às calmarias e correntes do golfo da Guiné»;
o Roteiro, cria-lhe outras. Para explicar a separação navegando «em pleno mar», «todos se viram em assaz
dos navios da esquadra do Gama antes de Cabo Verde de perigo», e «já desanimavam os menos corajosos
quando avistaram terra», etc. Outra invenção, porque
102 A TÉCNICA NA NÁUTICA DOS DESCOBRIMENTOS [ CAP.
I, I] A TÉCNICA NÁUTICA 8 A JUST. DOS DESCOR. 103

o que aconteceu foi que Vasco da Gama, não tendo ido Seja-me ainda permitido notar que, pela minha
tanto ao sul como Bartolomeu Dias, ao cortar para experiência pessoal de viagens pelo mar, sou levado a
leste encontrou ainda o vento alisado de sueste, e só duvidar de certas tempestades históricas, que documen-
pôde ir demandar costa de África cerca de meio cento tos ou fontes não confirmam.
de léguas ao norte do Cabo. Mas eles conheciam as Já passei o cabo das Tormentas uma dezena de
latitudes, sabiam que existia terra de África pela proa, vezes, sempre com bom tempo, sem conjurações das
e não havia portanto razão para irem desanimados ... tripulações. Daquela vez em que fomos mais ao sul a
'
43 graus, em 1896, as passageiras iam passando a nossa
E, de resto, como teria Gama sabido que, ao largo de
África, haveria menos ccalmarias e correntes» do que roupa a ferro no convés, sobre as capoeiras de galinhas.
na Guiné se alguém não tivesse lá ido ao largo antes Sem poesia ... Só uma ou outra vez, em todo aquele mar
dele? do. sul, apanhámos trovoadas, aguaceiros, vento fresco,
Ainda no regresso desta mesma viagem, em 1499, coisas de pouca duração, que se não podiam notar no
alguns historiadores inventaram outra tempestade- Livro dos Quartos como tempo tormentoso, à maneira
daquelas que não há em Maio perto das ilhas de Cabo do que se lê nas «Lendas da India». E o que conta a
Verde-, tentando com ela explicar o facto de Nicolau «História Trágico~Marítima» é tudo para além do Cabo.
Coelho se ter separado do Gama, indo chegar a Lisboa Em bem mais de meia centena de vezes que cortei
dois meses antes dele. os trópicos não vi por lá nem uma única tempestade.
Põem assim de parte a explicação mais natural, e Apelo para o testemunho dos que têm repetido viagens
que se impõe, qual é a de que o próprio capitão-mor, ao Brasil. Ah! As cartas de ventos, que ali marcam
tendo fechado em Santiago a parte original da viagem, menos de um dia de tempestade em cada cem, estão
tivesse mandado para Lisboa Nicolau Coelho na sua certas ... De resto, o mesmo se verifica na primeira
caravela, mais rápida do que a nau cSão Gabrieb- travessia atlântica da qual temos Diário regular a de
onde, para mais, a doença de seu irmão Paulo, de que D. João de Castro, feita na nau cGrifo», em 153S.
veio a falecer, o impedia de seguir sem escalas. Gama E agora, na barca cFoz do Douro», que veio tra-
fez assim aquilo tão natural, e que os recursos moder- çando uma longa rota de mais de 2500 léguas em 15
nos melhor nos permitiriam fazer, como seria telegrafar semanas, tão-pouco vimos um único dia de tempestade.
É certo que isto foi pouco romântico ... Porque, de
a D. Manuel a extraordinária e feliz noticia do Desco-
brimento do Caminho da lndia. facto, apesar da grande demora da viagem- mais
Ademais, aquelas tempestades tropicais, tão gratas devida a calmarias do que a tempestades- não houve
aos historiadores, e que provocariam conjurações e incidentes marítimos que valha a pena ·c ontar.
separações dos navios, nunca mais ninguém viu. As Ah! Vão longe os tempos heróicos das regatas
actuais cartas de ventos as desacreditam. oceânicas dos clipperB de vela com passageiros, cujos
104 A TÉCNICA NA NÁUTICA DOS DESCOBRIMENTOS ( CAP. I, r] A TÉCNICA NÁUTICA E A HlST. DOS DESCOB.

capitães podiam indicar pitorescamente aos novatos lá tivesse estado e as ilhas continuassem cobertas. De
qual a rota a seguir: resto, navegadores que tivessem avistado os verda-
- Olha! Onde, pelo mar fora, fores encontrando deiros Açores viriam antes exagerar a distância do
rasto de vergas e paus partidos, por ai é o caminho para que reduzi-la a menos de metade. Tal é o caso do globo
o Mar da lndia! construído por Behaim, porque ele, tendo vivido na
Porém, esta anedota não indica tempestades, mas ilha do Faial, contudo exagerou a distância a Lisboa,
só traduz o facto de os clippers navegarem sempre a afastando a ilha para poente mais de quinhentas léguas,
puxar, a fim de verem quem chegava primeiro. dobro da distância real.
Para confirmar a importância que a prática da A versão náutica mais natural não é que os Açores
navegação à vela- mesmo restringindo-a ao uso de tivessem sido buscados pela carta- e para quê?- mas
bússola e astrolábio -tem na formação das conjectu- que foram encontrados, por acaso, pelos caravelistas
ras acerca da origem e evolução dos Descobrimentos do Infante em alguma viagem larga de regresso da
Marítimos, seja-me permitido analisar algumas das Madeira ou das Canárias, como aquela citada por Diogo
versões que correm, eriadas por historiadores que puse- Gomes.
ram de parte aquela prática do mar. E, como se vai ver,
essa prática pode explicar, nàuticamente e sem necessi-
dade de criar tempestades aà hoc, ou inspirações

geniais, a evolução dos Descobrimentos Marítimos, rea-
lizados com navios de vela. Apesar de já em 1431 se ter ido aos Açores- em
mar reconhecidamente aberto e tormentoso - sabe-
• mos que só três anos depois se começou a navegar
naquele mar, sem dúvida mais bonançoso, que se esten-
Descobrimento dos Açores. :m corrente ler-se- até dia para além das Canárias. Foi em 1434 que se passou
na obra de Prestage - que os Açores, incluindo Flores o cabo Bojador, tendo-se, nos anos seguintes, <Conti-
e Corvo, foram apenas redescobertos pelos Portugue- nuado a exploração para o sul.
ses, porque já vinham apontados em mapas do século Esse mar não tinha sido correntemente navegado
de 1300, nos quais aparece um grupo de oito ilhas, ali- até então. Parece que lhe chamavam o Mar Tenebroso.
nhadas de norte a sul e arrumadas a cem léguas da Há quem explique tal relutância em lá ~r pelo receio
costa de Portugal. Como os autênticos Açores ficam que aos mareantes causavam certos perigos imaginários
entre duzentas e trezentas léguas ao largo da nossa - que «ninguém não vira» ___,. e que, parece, só depois
costa, e orientados E- O, há tão grande divergência do Infante mereceram citações dos historiadores.
na posição dos dois grupos que, para náuticos, as Insiste-se em que havia receio de dobrar ou con-
coisas se passaram como se de facto ainda ninguém tornar uma restinga de cmais de seis léguas:. . . . Mas
Io6 A TÉCNICA NA NÁUTJ CA DOS DESCOB RIMENTOS [ CAP. I, I] A TÉCN ICA NÁUTICA E A H!ST. DOS DESCOB. 107

tal restinga só se estende uma légua ao mar do cabo genovês Vivaldo como ao catalão Ferrer: nenhum
Bojador. deles voltou.
Para mostrar o absurdo daquela crença por parte Tão-pouco tem apoio marítimo a versão de que foi
dos mareantes do século de 1400 basta citar que se só no tempo do Infante que se descobriu, mas em Por-
conta que- •a pesar do céu claro que se avistav>a para tugal, que os navios de vela podiam ganhar contra o
o sul das Canárias- se acreditava haver por lá contf- vento, bolinando. Ficara assim garantida a volta da
nuos temporais que escureciam o céu; e daí as trevas. Guiné, ainda mesmo que persistissem correntes e ventos
As águas seriam tão quentes que coziam os peixes e, contrários.
evaporando-se, deixavam a descoberto o fundo do mar Para isso, o velame da caravela portuguesa teria
irregular, em baixios. Esse mar não terminaria em de ser plano, como o dos actuais caiques e barcos de
costas, mas em um abismo, por onde as águas se despe- recreio.
nhavam, arrastando os navios. E acreditar-se-ia ainda Ora, ao contrário, as velas das caravelas embol-
na fábula do buraco onde os mareantes, perdidos no savam, exactamente como as dos barcos mouros do
alto mar por falta de recursos que só Colombo veio a oceano Indico, dos quais tinham sido copiados os navios
conhecer, seriam atraídos por sereias e entregues a um do Mediterrâneo. E visto que no Mar da tn:dia nunca
se navegava contra ventos dominantes, como eram as
piloto que era Satanás. Este os pilotaria a um porto, que
monções, deduz-se que não se podia confiar em que as
era afinal aquele buraco, isto é, a caverna de entrada
caravelas regressassem da costa de África bordejando
para o Inferno! Ora, se ninguém voltara do abismo ou
em ziguezague, contra vento e corrente.
do buraco, para o contar, como teriam sido .r evelados Por outro lado, surge uma explicação náutica. :m
tais perigos? sabido que as viagens de regresso da Guiné, à vela, se
Tão pueris lendas só são citadas pelos historiado- tornaram práticas e seguras, não tentando acompanhar
res para realçar a intervenção, não dos Portugueses, a costa de África, mas metendo na volta do largo, visto
mas de Colombo, que teria sido ele vainqueur de la Mer que, por lá, o vento se faz de leste e permite ganhar
Ténébreuse:.. Teriam sido os Mouros quem as espa- norte até que, na altura dos Açores, outros ventos favo-
lhava para assustar os Cristãos. recem a bordada para Portugal. Esta rota, que era
Ora o que de facto haVlia era um receio, definido praticada mesmo pelos finos clippera do século passado,
na sentença popular, a respeito de quem passasse além era segura; foi o descobrimento deste recurso que per-
das Canárias, que cou tornaria ou não:.. Esta sentença mitiu às caravelas a navegação para além das Canárias.
traduzia uma razão náutica: a dificuldade estava no Porque, quando vento ou vaga não lhes permitiam a
regresso contra ventos e correntes - de que já fala viagem costeira, regressavam pelo largo.
Zurara -, os quais, indo para o sul, dificultavam a E para terem a garantia de lá se não perderem, no
volta para norte. Fora isto o que acontecera tanto ao alto mar, interveio outro descobrimento, qual foi a
I, •] A TÉCNlCA NÁUTICA E A HlST. DOS DESCOB. 109
ro8 A TÉCNICA NA NÁUTICA DOS DESCOBRIMENT OS [cAP.
Começou-se no Atlântico Norte, e análogo foi o
utilização das observações de astros, a bordo dos navios, que se passou no Atlântico Sul. Como se vai ver.
apesar do balanço no mar.
O que deve ter sido descoberto em viagens de •
exploração anteriores a 1434 e que parece terem atin-
gido cdoze annos continuados:., nos quais se passou Os historiadores concordam que Barto1lomeu Dias
pelos Açores. conseguiu, com duas caravelas, dobrar a ponta sudoeste
Não pode haver dúvida de que tais viagens de da África, o cabo das Tormentas. Seria em 1487. Mas
regresso, em arco, pelo ocidente- ou seja na chamada Dias reconheceu que, a bordejar ao longo da costa, as
Volta do Sargaço- se praticaram winda muito em VJiagens eram ali como no Atlântico Norte, também
tempo do Infante, e mesmo antes de 1446. muito contingentes. Restava averiguar se haveria pas-
Enfim, está aceite que foi numa dessas viagens sagem pelo quadrante sudoeste do Atlântico.
largas, de regresso da Guiné, que se descobriram, a cem Já, em viagens largas de regresso da Mina, fora
léguas da ,c osta, as ilhas de Cabo Verde. reconhecido que para além do equador dominava vento
Em resumo, apesar de os Mouros conhecerem a sueste, o qual só daria bordada para sudoeste, a afas-
navegação por altura praticada na India, e apesar de tar-se indefinidamente de Ãfrica.
os seus barcos serem capazes de bolinar, é certo que no Felizmente, entre 1487 e 1497, um reconhecimento,
Atlântico, onde não havia as monções, eles não nave- demorado porque tinha de ser repetido em várias épocas
gavam para além do cabo Bojador, contentando-se em do ano, mostrou não só que, mais ao sul, aquele
comerciar entre Marrocos e Guiné por meio de cara- vento de sueste ia rondando para leste, permitindo
vanas, por terra. ganhar-se sul, como também que bas,t aria ir cortar o
Certo, havia trevas, romantizadas por alguns lite- equador cerca da longitude das ilhas de Cabo Verde,
ratos, dominados pelo preconceito de que fora necessá- para ficar garantida a passagem para sul, apesar de
ria a intervenção do génio de Colombo para as dissipar. existir a sotavento uma terra- já prevista em 1494
Ora tais trevas só consistiam, porém, na ignorância no Tratado de Tordesilhas - , a qual se esten<lia para
dos mareantes acerca da possibilidade de «tornar» das nascente.
terras além das Canárias. E foi ainda antes de Colombo Se Vasco da Gama, de Santiago, tivesse adoptado
nascer que se descobriu o truque de contornar, pelo rota cpelo sub, idêntica à seguida por Cabral, como ele
mar largo, as correntes e ventos contrários, da costa. ia no Verão, teria encontrado, cem léguas ao sul o
Assim, foi a criação de uma Nova Arte, apoiada vento contrário da monção. Foi o que, no Verão
no estudo da Astrologia e no dos ventos gerais do seguinte, impediu Colombo de ir ao equador. Então
Atlântico, o recurso que permitiu ao Infante D. Henri- Gama, na cvolta do mar», iria esbarrar na costa norte
que impulsionar, a cem por cento, os Descobrimentos do Brasil. A sua viagem à India estaria comprometida.
Marítimos.
IIO A T ECNICA NA NÁUTICA DOS D ESCO BRJMENTOS ( CAP. I, I] A T ÉC NICA N Á UTICA E A HIST . DOS DESCOB. II I

O que não lhe aconteceu, porque Gama ia informado de Assim, só um estudo preparatório dessas duas rotas
que, no Verão, era preciso ir tomar barlavento à costa pode explicar a demora de uma dezena de anos entre as
de África, bastando fazê-lo na Serra Leoa. viagens de Dias e Gama, apesar de o êxito de Colombo
O facto concreto de, tanto Gama como Cabral, nos dever apressar.
não terem ido em caravelas de reconhecimento, mas em
naus, como o facto de as suas rotas terem sido dife- •
rentes- Gama foi no Verão e Cabral no Inverno-
tudo prova que eles iam prevenidos acerca dos ventos Quanto a Colombo, são raros os historiadores
que iriam encontrar no Atlântico. Estas foram pois que acentuam que ele se aproveitou de uma Arte de
viagens definitivas. ' ' Navegar desconhecida em Génova, e que sagazmente
Donde, para náuticos, ressalta incontestável que, copiara dos Portugueses, levando-a para Espanha. E,
antes de 1497 e talvez mesmo antes de 1494, já era assim, ao notarem que Colombo traçou as suas rotas
conhecida a existência do Brasil. Torna-se, assim, ane- de 1492 e 1493 sempre com ventos a favor- indo pelo
dótica a versão paradoxal de que o Brasil já tinha sul e voltando pelo norte -, talvez par a dissimularem
fronteira antes mesmo do seu descobrimento. a simplicidade das travessias, alguns comentadores são
Mesmo a leigos, a complicada rota atlântica em levados a atribuir a Colombo, de golpe, descobrimentos
duplo arco, seguida por Vasco da Gama, dá uma suges- extraordinários. Tais seriam: uma medida do meri-
tiva impressão de que ele não fora à toa. Porém , os diano, os ventos gerais, a variação das agulhas, o Mar
primitivos comentadores, suprimindo a bordada cem do Sargaço e, quase, uma confirmação definitiva da
leste», do Roteiro, imaginaram que, como Cabral, Gama redondeza da Terra. Isto tudo, além de «novas estrellas».
teria, de Santiago, rumado «para o sul directamente». Outros lhe atribuem o ter sido informado por um
Assim o lêmos na «História de Ruge»! teórico, Toscanelli, o qual, ignorando a posição das
Não! Ainda ninguém considerou a viagem do Gama terras ocidentais, e quais os ventos dominantes no
tão simples como pôr um ovo em pé, esmagando a Atlântico, nada poderia adiantar a um homem prãtico
casca na ponta. Porque, tendo que contornar ventos do mar, como julgam Colombo.
contrários, não se pode dizer que foi o vento que Nem, ao contrãrio do que escrevem alguns fanã-
o levou. ticos, a sua viagem de 1492 foi a primeira cau long
Enfim, no entender dos marftimos, estã transpa- cours». Porque de longo curso era a Volta da Mina, que
rente que só uma detalhada exploração do mar- no passava a meio Atlântico; e foi a sua prática a bordo
Atlântico, de norte a sul- poderia ter permitido aos de navios portugueses que sugeriu a Colombo e a seus
Portugueses a sua criação da navegação larga, oceânica. precursores a generalização, para oeste, do regime de
Nem Gama nem Cabral partiram de Lisboa ignorantes ventos, do qual ele se aproveitou, e que já era conhecido
da possibilidade de dobrarem o cabo de Boa Esperança. antes de Colombo nascer. E « O vento o levou».
II2 A TÉCNICA NA NÁUTJCA DOS DESCOBRIMENTOS ( CAP.
I, I] A TÉCNICA NÁUriCA E A lUST. DOS DESCOB. 1!3
Enfim, no fundo, Colombo só deveu o seu êxito a aos pilotos portugueses da expedição de 1501, em que
uma novidade, não técnica, que foi o ter navegado por de facto foi, não como chefe, nem como capitão ou
conta de Reis. Aqueles que antes dele - desde Teive, piloto, mas como explorador comercial. Enfim, depois
em 1452, até Corte-Real, em 1500- projectaram ir, de o terem a ceitado como descobridor do Brasil apro-
à vela, às terras ocidentais nada poderiam ter lá encon- veitaram-lhe o nome, dando ao Novo Mundo o nome
trado de interessante para os particulares que finan- de América. Diz-se que foi por ser uma palavra sonora,
ciaram essas expedições. fonogénica ...
Quanto a Vicente Pinzon, a quem correntemente
• se atribui uma chegada ao Brasil em Janeiro de 1500 -
portanto anterior à de Cabral-, só sabemos o que
Veio depois América Vespúcio, o favorito do des- consta de declarações não documentadas. Como delas
cobrimento da América. Só o conhecemos pelas suas se conclui que, das ilhas de Cabo Verde, rumaram pelo
cartas, que, para navegadores, são pura literatura de sudoeste da agulha e este rumo, contando com varia-
ficção. Começou por inventar uma grande viagem pelo ção, abatimento e corrente para oeste, vai dar muito
. golfo do México, da qual não ficou o menor vestigio para além do cabo de São Roque, há que inferir que
nos arquivos de Espanha. Pinzon não esteve, em 1500, no cabo Santo Agostinho,
Nas suas outras viagens reais, à América do Sul, como declarou, mas em um ponto vago, na costa nor-
com Hojeda, em 1499, e com os Portugueses, em 1501 e, deste da América do Sul.
talvez , em 1503' Vespúcio nunca foi o chefe. Mas inti-
tula-se descobridor. Para quem conheça as rotas de
vela as suas cartas denunciam a invenção de um

igndrante das coisas marítimas. Duvidou da necessi- Como se vê, são correntes os equfvocos náuticos
dade de, no Verão, se ir à costa de Ãfrica tomar bar- dos que escrevem a História dos Descobrimentos Marf-
lavento, para poder montar a costa brasileira, como fez timos, erros cometidos porque, faltos de documentação
Vasco da Gama. Tão-pouco compreendeu a rota em arco - como seriam mapas ou diários-, aceitaram explica-
que impõe o regresso do Sul do Brasil para a Europa. ções conjecturais teóricas que, aos navegadores práticos
Conclui-·se que Vespúcio foi burl<ado com informações de vela, não podem deixar de fazer sorrir.
ficticias pelos pilotos, como eles costumavam fazer aos
leigos:
Apesar dos seus transparentes dislates náuticos,

que o desclassificam como mareante, há quem declare Com estas minhas divagações sobre os erros náu-
Vespúcio cum dos primeiros cosm6grafos do seu ticos com que se tem tentado explicar, ou deduzir, a
tempo:., tendo dado lições de navegação astronômica evolução dos Descobrimentos Marítimos só pretendi
8
114 A 'ffiCNICA NA NÁUTICA DOS DESCOBRIMENTOS [cAP. I, I] A 'ffiCNICA NÁUTICA E A JnST. DOS DESCOB. 115

fazer ressalrbar que algumas das ·c onjecturas a que a ocidental, já prevista em 1494, no Tratado de Torde-
carência de documentação levou os ·c ronistas - não silhas. Donde se conclm que, tanto a Terra como o vento,
navegadores- são, por vezes, fantasias de espiri:tos já ambos haviam sido estudados, e em várias épocas
pouco técnicos. E com essa falsif~cação da Hi·s t6ria dos do ano, antes de 1497.
Descobrimentos- repito- tem-se afinal deprimido a
orientação prática e científica com que neles interveio •
Portugal.
Demorei-me, nas minhas reflexões marftimas, a Se esses escritores, em lugar de seguirem versões
desfazer o grande equívoco de que s6 nos últimos anos literárias, como as de Vespúcio ou Gaspar Correia, pru-
do século XV e, talvez, na época de Colombo é que os dentemente consultarem técnicos de vela, logo se con-
cDoutores acharão» a maneira de se determinar a vencerão de que os Descobrimentos Portugueses não
posição dos navios no mar por meio das observações resultaram de felizes golpes de génio de chefes autori-
do Sol. tários mas ignorantes, capazes de mandar os navios
Também, entre outros erros históricos capitais, para o mar, por 'Cima de toda a folha, com ordens de
tem avultado o descobrimento do Brasil- ao qua:l eu fugir às calmarias ...
não podia deixar de me referir. Insiste-se nas escolas Não. Os nossos dirigentes obedeceram à norma
em o explicar pelo a!caso, sem se reparar que uma esqua- .r acional de começar pelo estudo de navios e mares, para,
dra de treze navios, quase todos naus, não podia ter com tais principias básicos, se reconhecerem as possi-
sido mandada autoritàriamente para a tndia sem baver bilidades que ventos e terras concediam para as suas
segurança de que havia mar livre, isto é, de que a terra rotas. Se, ao contrário, os navios tivessem largado
a ocidente não impediria a passagem. Porquanto Cabral para o ma;r arrojadamente, às cegas -'Como por vezes
ia seguir rota diferente daquela que Gama abrira. Tal se conta de Colombo -, ou se perderiam, ·como o geno-
aventura seria inverosímil Sabiam da existência daquela vês Vivaldo, ou pouco adiantariam. Vasco da Gama teria
terra ocidental! ; e, quando ela surgiu, tanto ao sul, o ido esbarrar, ao sudoeste de Santiago, na costa norte
facto de logo arribarem para lá prova que não havia do Brasil. Etc. Porque tudo dependeu de uma inteli-
receio de que ela impedisse o caminho para o cabo de gente orientação, derivada daquela cooperação de cien-
Boa Esperança. tistas e caravelistas a que ·se deu o nome simbólico
· De resto, qualquer navegador de vela afirmará de Escola de Sagres. A qual também aproveitou ao
que as rotas adoptadas por Gama e por Cabral - dife- próprio Colombo. Fazem-nos essa justiça.
rentes, como •se sabe -denotam firme certeza de que Desprezando tão lógicas conjecturas, é certo que
os ventos dominantes, em várias estações do ano, vários autores modernos têm divagado. Mas não devem
sempre permitiriam montar a terra saliente entre os eles por isso afligir-se, porque erraram em boa compa-
actuais cabos São Roque e Santo Agostinho, da costa nhia, na de Barros, como na de Humboldt, Varnhagen,
II6 A TÉCNICA NA NÁUTICA DOS DESCOBRIMENTOS ( CAP.
I, I] A TÉCNICA NÁUTICA E A IDST. DOS DESCOB. II7
Herculano, Ruge, Vignaud, e outros ingénuos admira- ambos se aproveitaram de um anterior reconhecimento
dores do cvanglorioso» Vespúcio, o falso cosmógrafo. português dos mares que os seus navios de velas qua-
Ah! Não me cega o nacionalismo. Mas entriste- drangulares iam atravessar. Não é, pois, lícito escre-
ce-me a falta geral de compreensão a respeito da natu-
ver-se que navegaram ao acaso. Eles não eram santos,
reza do esforço inteligente dos nossos antepassados
capazes de milagres. Ambos eram, como nós, apenas
que, com tão escassos recursos, laboriosamente desbra- criaturas humanas!
varam oceanos revelando aos outros povos as suas
Enfim, quando for seguido o alvitre de um velho
complicadas rotas, nem sempre costeiras, nem direc-
corredor de mares- alvitre que é, apenas, romper com
tas, apesar do que alguns críticos afirmam. Repare-se
que os Portugueses não lindbergharam o Atlântico à tabos e ouvir praticantes da navegação à vela -, aqueles
maneira simplista atribuida a Colombo, porquanto só que assim fizerem logo reconhecerão, em princípio, cris-
a exploração do mar entre os cabos Bojador e Tor- talinamente, que os Portugueses, com o «feito magnífico
mentoso nos levou mais de medo século! Foi precisa de V. da Gama:., não se limitaram a «personalizar a
ainda uma dezena de anos para se atingir Moçambique, audãcia dos Europeus», inspirados pelo canimador
apenas 500 léguas além. Um século se levou para ir da Colombo». Estas palavras de Licinio Cardoso são refor-
Madeira ao oceano Pacífico! çadas em enciclopédias, onde se lê que, sem Colombo,
Gama não teria ido à índia! Ora, que poderia Colombo
ter ensinado àqueles que, cinco anos antes de ele chegar
• às Antilhas, jã levavam o astrolábio ao oceano Indico?
Pois assim fez, em 1487, o nosso hãbil piloto Pero
Dalanquer, representante histórico da Arte Portuguesa
Aqueles que classificam de inspira~ão genial a de Navegar no 'Século xv. Ah! Se deste, como de muitos
travessia colombiana do Atlântico, na qual Colombo outros mareantes, nos não ficaram diários, ou roteiros,
teria tido que descobrir, de golpe, ventos e correntes, foi porque eles sabiam mais de navegar que de escrever.
a esses crentes ocorre-me perguntar: Não! Os Portugueses fizeram alguma coisa mais
- Que adjectivos teriamos de inventar para clas- que navegar à aventura, cindo a acertar». Se assim
sificar a viagem de Vasco da Gama, se ele tivesse atra- tivesse sido, se os Descobrimentos só dependessem de
vessado o Atlântico Sul também ao acaso de ventos e arrojo, então outros navegadores jã teriam ido à Guiné,
correntes- o que não fez- em uma bordada directa ao Cabo, ao Mar da tndia, mesmo à Austrália. Nem se
de cinco semanas, 'Como Colombo, mas indirectamente, teria esperado até 1492 para consumar a fácil travessia
em quatro bordadas, com as quais evitou as terra8 a do Atlântico: aqueles mesmos misteriosos aventureiros
sotavento, passando treze semanas sem ver terra? - árabes, cartagineses ou outros- que alguns julgam
Só há a responder que tanto Gama como Colombo capazes de ter ido ao Açores cdans la premiêre moitié
u8 A TÉCNICA NA N ÁUTICA DOS DESCOBRIMENTOS ( CAP. I, n] A ASTROLOGIA NA PENíNSULA Il9

du xrvême siêcle», esses mesmos já tedam ·com certeza ll-A ABTROWGIA NA PENINBULA
ido às Antilhas, à Terra Nova, ao Brasil, e até antes
de terminar o século de 1300.
Enfim, indicações náuticas convincentes denunciam A versão de que foi Colombo, a bordo de navios
a marcha metódica seguida pelos Portugueses no «Des- espanhóis, quem violou o Mar Tenebroso, sendo ele o
cobrimento do Mar:.. Eles dissiparam as trevas dos primeiro navegadÇ>r que se atreveu a fazer viagem de
oceanos passo a passo, a pulso, à medida que criavam dongo curso:. - porque até então todos teriam charto
e aproveitavam, como outros ainda não tinham feito, cuidado en no perder de vista la costa» - , tal lenda
uma Nova Arte de Navegar, fruto do labor de uma ainda não morreu. Tudo teria sido pura cabotagem até
geração que soube tornar grande um pais que mal que, «como consecuencia al primer viaje de Colón y los
contava um milhão de almas. Pinzones, le entró a Europa la comezon de descubir
nuevas tierras». Assim o escreveu há. pouco, no sema-
E, embora isto arrepie os fanáticos admiradores
nário cEl Espaíiob, um publicista hispano-colombiano,
de Colombo e Vespúcio, resumirei estas divagações, em
Fernando de Cambra.
que me limitei a seguir o critério dos rudes homens do
Este estranho conceito apoia-se em manifestos
mar, insistindo em que a análise conscienciosa dos
erros náuticos, só próprios de quem conhece muito por
Descobrimentos Marítimos- portugueses ou outros- alto a História e a Evolução da Arte de Navegar.
impõe prévio conhecimento das travessias de mar largo,
feitas em barcos de vela puros, sem motor. Porque o
navegador de vela- como o nio pode fazer o simples •
escritor de História, mesmo que seja grande viajador
terrestre - o navegador de vela, dizia eu, sente que, Foram, é certo, os Mouros quem «popularizou:. na
por detrás dos acontecimentos marítimos definitivos, Península os estudos de Astrologia. Já em meados do
houve uma essencial preparação marítima. A qual pode- século de 1200 Alfonso el Sábio os deixou consignados
mos concretizar em duas expressões simbólicas - indis- em um conhecido manuscrito, que se ocupa de alguns
cutíveis, embora por vezes esquecidas: o astrolábio astros, como Sol e estrelas, e descreve o instrumento de
náutico e a Volta do Sargaço. observação então usado - o astrolábio - , de que apre-
Foram estas as chaves com que se abriu o Mar senta desenhos. Entre os astros estudados avultava a
Tenebroso. Mas, para que a neblina do tempo não acabe Estrela Pol•a r, estrela que naquela época descrevia
de encobrir esta verdade, deveremos- enquanto a não em torno do pólo uma circunferência com amplitude
registamos em monumento- divulgã,-la em um quadro azimutal de uma dezena de graus. Por isso lhe chama-
decorativo nas nossas Escolas Náuticas, que agora reali- vam a Estrela do Norte, embora não se ignorasse que
zam a ideia da chamada Escola de Sagres. ela não apontava ao norte direito.
120 Afi'ttCNICA NA NÁUTICA DOS DESCOBRIMENTOS [cAP. I, n] A ASTROLOGIA NA PENÍNSULA 121

Ora, logo no tempo do Infante D. Henrique se reco- dado de ccolgan o astrolábio cdel paio mesana::.. Seria
nheceu que a navegação da Guiné, costeira à ida para absurdo.
o sul, impunha navegação larga na viagem de regresso, Não. Usavam o instrumento suspenso da mão
a contornar conhecidos ventos e correntes, que iam de pelo seu anel, e esperavam a posição instantânea de
norte para sul. Sabemos que, já em 1431, os carave- equilíbrio, no ponto do navio mais próprio, que não era
listas do Infante chegaram aos Açores, tendo, ainda csobre alcázares», mas junto do mastro grande. Assim
antes de cColón y los Pinzones::. serem nascidos, des- o sabemos pela leitura do «Roteiro da Viagem de
coberto a ilha das Flores, trezentas léguas ao largo da D. João de Castro», em 1538, livro que, publicado há
costa de Portugal. Também é sabido que o próprio pouco pela nossa Agência-Geral das Colónias, não é
Colombo, cerca de 1483, praticou com os pilotos portu- decerto desconhecido em Espanha.
gueses, a bordo dos nossos navios, a viagem de volta Nem sempre Cambra está em erro. Ele tem razão
da Guiné, pelo Mar do Sargaço - a que se •começou por quando acredita que, com o astrolábio, se erravam
chamar de chaga:.. Colombo conheceu assim o vento ccuatro grados» nas alturas de estrelas. Mesmo sem
alisado do nordeste, que o impedia de ctrazer rumbos o pendurarem no mastro da mezena. Já Mestre João,
directos::.. Este principio, claro para os náuticos de vela, na sua carta de 1500 a D. Manuel, declarou, depois de
tem sido posto de parte por alguns historiadores ... o ter tentado muito, que considerava impossível tomar
A navegação indirecta, pelo Atlântico Central só alturas de qualquer estrela no mar - mesmo as estre-
foi praticada quando os mareantes passaram a ter a las brilhantes do Sul- porque, por pouco que o navio
certeza de se não perderem fora da vista de terras. O balance, «·se yerran quatro, o cinco grados». E recorria
que se conseguiu recorrendo à única coisa que se via à caltura dei sob.
no alto mar -os astros -, especialmente o Sol e a Além disto, a minha experiência pessoal, por mar,
Estrela do Norte. :m sabido que a posição, no céu, destes à vela, com astrolábio, provou-me que, usando-o sus-
dois astros principais já era conhecida em Lisboa no penso na mão e observando, não estrelas mas o Sol
tempo do Infante, por cá haver cuma Academia:., ou -que se cenfila», não a olho, mas pela sua sombra ao
seja um cCurso de Astronomia:., onde se estudavam longo da alidade-, poucas vezes se atingirá erro supe-
astrolábios e regimentos. rior a meio grau. Isto mesmo se conclui do já citado
~go se compreendeu a necessidade de recorrer, no Roteiro de D. João de Castro. Nunca observavam a
mar, a um astrolábio mais simples do que os já conhe- Estrela do Norte nem o Cruzeiro. Estes astros teriam
cidos, desde pelo menos dois séculos, pelos astrólogos servido algumas vezes para indicar o norte verdadeiro,
peninsulares. Mas seria impossível usá-lo da maneira porque tal observação não dependia de alturas a astro~
fantástica descrita por Cambra, que era cenfilar un lábio. De resto, o próprio Sol servia para indicar a
astro con su alidada::., tendo tido previamente o cui- direcção norte-sul.
122 A TÉCNICA N A NÁUTICA D OS DESCOBRIMENTOS (CAP. I, u] A ASTROLOGlA NA PENíNSULA 123

Desta sorte, falta base para se afirmar, com Pessoalmente conjecturo que os mareantes por-
Cambra, que foi só no tempo de cFelipe ll» que cun tugueses do século xv recorriam à Estre·l a Po·l ar para
espaiíob encontrou cun instrumento que servia para obter o norte verdadeiro e que, quanto à:s latitudes,
medir alturas de astros y se llamava balestilla:., capaz só confiavam no Sol. Nos dois casos usavam regi-
de evitar os grandes erros do astrolábio. Não se espe- mentos, indicando a posição destes dois astros no céu.
rou .t anto na marinharia de Portugal, nem há razão para Por outro lado, Cambra está mal informado
se escrever que, ·a inda na última metade do século XVI, acerca da criação das cartas de navegar.
os mareantes espanhóis confiavam mais em csu fino Se, no tempo do Infante, cen Sevilla imprlDllan
instinto» que nas latitudes determinadas pela altura las primeras cartas de navegar verdaderamente úti-
do Sol, «con errares de uno e dos grados, y mayores les», elas não seriam desconhecidas em Portugal.
con mar de fondo ». O Roteiro citado prova que já Usá-las-iam, e não é licito afirmar-se, a respeito dos
em 1538 era possível obter do astrolábio muito mais nossos mareantes, que ctodos tenian harto cuidado en
precisão. no perder de vista la costa». Porque é incontestável
:1!: certo que no Diário da travessia Colombo-Pin- que os Portugueses já então iam ao mar largo, onde
zon-Lacosa, em 1492, não se fala em astrolábios : colhiam elementos cartográficos desconhecidos em
rumavam cal Oueste», apesar de julgarem que as Sevilha.
agulhas, que em Espanha declinavam meia quarta Não é lenda o facto de, em 1431, os nossos
parte leste do Norte do Mundo, já, no meridiano mareantes terem ido aos Açores, havendo depois com-
pletado o descobrimento do arquipélago até à ilha das
passando cem léguas além dos Açores, elas noroes-
Flores, 300 léguas, ou 22 graus em longitude, ao mar
teavam cuna cuarta de viento todo entero:.. Tudo
de Lisboa. E há notícia clara de, ainda antes - em
somava uma oscilação total de 17 graus, a qual, apesar
1445, pelo menos-, ser comum a viagem de regresso
de tão apreciável, não foi atendida. Continuaram
da Guiné em volta larga, visto que então a praticou,
rumando para oeste.
não um piloto, mas o «escrivam Tinoco», tendo levado
Quanto às latitudes deste mesmo Diário, é bem cdous meses continuados» em que cnunca ouveram
certo que todos as ignoravam, porquanto, nas Anti- nhüa vista de terra», até que chegaram a Portugal.
lhas, supõem o cNorte tan alto como en Castilla:., Ora é claro que tais viagens largas se apoiavam
errando . assim uma dúzia de graus, sinal este de que em cartas de navegar, desenhadas segundo latitudes
só navegavam pela estima, e não por Astronomia nem e rumos verdadeiros, e não da agulha, cartas que não
pelas cartas impressas em Sevilha. fomos copiar a Sevilha, se é que lá as construíam.
Donde concluo que Colón se fiou mais na sua Assim, engana-se Cambra quando afirma que foi
agulha que em um recurso tão vago como seria csu «Fernando de Magallanes, al servicio de Espaiía:., cel
instinto:.. innovador de este sistema, tan esencial y revolucio-
124 A TÉCNICA NA NÁUTICA DOS DESCOBRIMENTOS [ CAP. I, n] A ASTROLOGIA NA PENfNSULA 125

nario:., de mapas sem «meridianos curvos:., visto as ção suficiente para as necessidades da sua navegação.
latitudes serem indicadas em paralelos traçados per- Já no citado Roteiro de D. João de Castro se refere,
pendicularmente aos meridianos. entre outras, a passagem além do «meridiano de
De resto, nem mesmo a carta de Mercator cfué Lisboa».
producto exclusivo de su ingenio:.: porquanto já, em Nem a longitude das Molucas ficara mais bem
1437, Pedro Nunes, ao analisar as cartas quadradas, conhecida depois da viagem de drcum-navegação de
então usadas }lelos mareantes portugueses, sugere a cDelcano y Magallanes», porque, na parte da travessia
mesma ideia que teve Mercator em 1460, propondo para o sul das Filipinas, uma navegação errática
que se passasse a usar cartas rectangulares, onde fosse tornou muito vagas as indicações tiradas da estima.
respeitada a proporção real entre graus de meridiano De resto, esta foi apenas uma viagem única, ao passo
e os graus, diferentes, dos paralelos. que os Portugueses já tinham praticado várias viagens
pelo Cabo até à Insulíndia. E tanto assim era que as
• ideias da época sobre a longitude de Molucas eram
suficientemente aproximadas, pois em Lisboa a supu-
Quanto ao famoso csecreto de la Longitud», nham para oeste do meridiano-raia combinado em
também correm bastantes equívocos. É certo que a Tordesilhas em 1494. Ora, de facto, aquelas ilhas estão
solução absoluta só se pôde atingir quando, em mea- uns cinco graus ainda dentro do hemisfério português.
dos do século de 1700, o sextante permitiu medir Não f<i, pois, tão-pouco nas longitudes que os navega-
distâncias lunares com aproximação suficiente para a dores portugueses receberam a cLección espafiola del
navegação. Outra solução mais aproximada foi atin- Arte de Navegar:..
gida meio século depois, logo que o cronómetro se Tão-pouco é de crer que o espanhol Medina tivesse,
tornou de uso corrente. Definitiva é aquela que hoje em 1545, base para negar da existencia:. da variação
temos, pelos horários da T. S. F. da agulha, que já os pilotos de Colombo haviam veri-
Contudo os navegadores do século de 1500 não
ficado em 1492. Só podemo3 crer que essa variação
estavam tão grosseiramente informados sobre as lon-
fosse tão bem conhecida em Espanha como o era em
gitudes como Cambra supõe. Certo, eles bem sabiam
Portugal, de modo a não errar a navegação. As pala-
que a caltura máxima de sol dei lugar:. por astrolábio
vras nordestear e noroestear são anteriores a 1492.
só daria ideia por demais grosseira da hora local.
Mas recorriam a processo mais aproximado que a Enfim, os pilotos práticos bem sabiam que a
estima, combinando o rumo verdadeiro- ou da agu- variação da agulha não podia fornecer indicação
lha, correcto da variação - com a diferença entre alguma sobre longitudes: porque lhes faltava um pro-
latitudes observadas; e, assim, depois de reiteradas cesso absoluto para a ter determinado previamente
viagens, faziam ideia da longitude com a aproxima- nos lugares de variação da agulha conhecida.
126 A TÉCNICA N A NÁUTICA DOS D ESCOBRIMENTOS ( CAP. I, m] O INÍCIO DA NAVEGAÇÃO ASTRONÓMICA 127

Assim, a distância leste-oeste, pela agulha de Colombo não foi aprender a sua Arte Náutica em
marear, não passa de uma fantasia em que só acredi- Espanha, mas a levou de Portugal. ~ certo que ainda
tariam aqueles que, navegando em teoria, acreditavam não se rompeu com alguns tabos ...
em segredos do mar e na navegação por instinto. Não. Não há razão para, no pais vizinho, se
escrever que c:En tanto que las carabelas espaiiolas
• no se lanzaron a través dei Océano Incógnito, la nave-
gación discurrió en mares interiores o a longo de
Em resumo, ainda se continua a escrever que, no costa». Ah! Se assim fosse, tudo teria sido iniciado
século de 1500, os «otr os mar inos europeos» - excep-
em Espanha, onde seria corrente uma Arte de Nave-
tuados os Espanhóis e incluidos os Portugueses -
gar suficiente para as necessidades dos mareantes do
«anda'ban reducidos al cabotaje. E speraron varios
século de 1400, sem ter sido necessário confiar no
lustros, y cuando nuestras gentes trazaron el camino,
génio super-humano de Colombo.
se lanzaron a seguirlos, con más ansias de botin que
deseos de ensanchar los limites dei mundo». ~verdade
que Colón só falava de «Oro y perlas:..
Ora não é bem essa a verdade. Os que cortaram o
equador em 1470, passaram o Cabo em 1487 e foram
i l l - 0 INICIO DA NAVEGAÇAO ABTRONOMICA
à autêntica lndia em 1498 não «seguiram» os marean-
tes espanhóis, para quem o Atlântico Sul era comple-
tamente desconhecido.
A data em que os Portugueses começaram a
Embora possa parecer ocioso insistirmos na afir-
praticar Navegação Astronômica é desconhecida. E
mação de que o Mar Tenebroso já não tinha trevas
quando os Pinzones, COm Colón, o a travessaram para
1
faltam-nos elementos para definir quando se teriam
poente .. ., embora já t ecnicamente t enha sido demons- iniciado as determinações de latitude, em terra, para
trado que os Portugueses, no século XV, dispunham rectificação das cartas de marear.
de recursos astronômicos suficientes para se não De modo que, a par daqueles que crêem que esse
perderem no alto mar - demonstração feita por recurso data do tempo do Infante - ·como o Prof. An-
autores. como Peretira da Silva, Bensaúde, Morais de tônio Barbosa - , outros, como o Doutor Duarte Leite,
Sousa, Prof. Duarte Leite, e outros, incluindo o espa-- opinam que só começou no século XV. Uns e outros
nhol Ga.r los Pereyra - , contudo há que reconhecer apoiam-se em indicações, como aquela que se lê nas
que o estado de adiantamento da Arte Náutica em «Décadas», de que foi só «em tempo delRey dom João
Portugal antes de Colombo ainda não foi suficiente- o segundo» que «professores:. de Astronomia cacharão
mente vulgarizado. Esquece-se quase sempre que esta maneira de navegar per altura do sob.
I, m] O INICIO DA NAVEGAÇÃO ASTRON0MICA 129
! 28 A TÉCNICA NA NÁUTICA DOS D ESCOBRIMENTOS [ cAP.
de acordo com o que se lê em Barros, procuraram
• desfazer «quantos enganos recebião na estimativa:.,
recorrendo à única coisa que se via no alto mar os
Há quem pretenda que a abertura dos oceanos
astros. E assim iam seguros de pela altura 'não
só pôde ser realizada desde que os caravelistas portu-
falharem os pontos da costa q~e, do largo: iam
gueses reconheceram que era possível, à vela, ganhar
demandar.
caminho contra o vento. De facto, assim se faz, embora
Por outro lado, a determinação da latitude -ou
à escassa. Mas é absurdo supor que foi só nos tempos
seja a distância do equador- não era coisa nova no
de Sagres que, de golpe, se teria revelado essa extraor-
século XV. Porque já emm conhecidos, e muito ante-
dinária faculdade. Seria então a bordejar em zigue-
r~ormente, os dois elementos necessários para tal
zague, contra as correntes e ventos do norte que se
. podido fazer as viagens de regresso das' costas
teriam
calc_ulo, como eram o astrolábio- ou a sua simplif4-
caçao, o quadrante- e as tabelas de declinação do
de África. Ora é muito duvidoso que as caravelas o
Sul, para os diferentes dias do ano. Alguns desses
pudessem sempre fazer; e é certo que nem mesmo os
instrumentos até a traziam gravada.
finos veleiros modernos, como os lugres de vela's só
Natural é, portanto, supormos que, logo que se
latinas, o tentam sequer. Quando há ventos gerais
alongaram as navegações pam o sul se pensou em
contrários limitam-se a ~contorná-los.
aproveitar a astrologia conhecida na éÍ>oca, para poder
Como a explicação do bolinar me não satisfez,
arrumar em cartas as novas terras, com uma distância
procurei conjecturar qual teria sido a razão pela qual,
a Portugal menos grosseira do que aquela que resul-
durante tantos séculos, tinha permanecido vedado aos
tava da simples estima a olho do caminho andado
audaciosos navegadores da Europa o alto mar. E con-
pelos navios, tanto de dia como de noite. De resto,
venci-me de que só não passavam além das Caná-
foram as próprias observações de latitude que permi-
rias por ignorarem que, ao largo da Europa e da
tiram criar uma légua marftima tal que, 18 ou 17 e
Mrica, dominam ventos diferentes dos que sopram
meia, perfaziam um grau.
nas costas. E é, pois, com esses ventos do largo que
Eu creio que logo que se fizeram tais observações
sempre é possível aos veleiros, sem bolinar em zigue-
em terra- digamos no Rio do Ouro - intuitivo era
zague, o seu regresso da Guiné. Foi só no tempo do
experimentá-las no mar, onde é sabido, pelo menos
Infante que se descobriu esse útil regime de ventos.
pelos Roteiros de D. João de Castro, que tal tentativa
Mas não o foi de golpe, em uma viagem, mas só depois
daria bom resultado. Também, da minha experiência
de sucessivas viagens de exploração, cada vez mais
pessoal no mar, conclui que o astrolábio permite ao
largas.
navegador uma precisão suficiente e tal que, em
Para melhor justificar esta conjectura fui levado
metade das suas observações, os caravelistas não
a imaginar que esses novos navegadores só se teriam
deveriam errar mais que a quarta parte de um grau.
acostumado a «engolfar-se no pego do mar:. quando,
A TÉCNICA NA NÁ UTICA DOS DESCOBRIMENTOS ( c AP. I, m] O INICIO DA NAVEGAÇÃO ASTRON0MICA 131
130

Atingida esta tão útil noção ter-se-ia depois imposto com certeza, eles existiram até no século xv, como
o cálculo de tábuas, ou Regimento do Sol, já detalhadas existiram as cartas, quadriculadas ou não, por onde
para os quatro anos do ciclo, em que se conta um ano se navegou.
bissexto. O que teria sido feito em Portugal, talvez, Enfim, o facto, notado pelo Dr. Duarte Leite, de
antes do reinado de D. João TI, embora só se impri- não h a ver na relação das viagens de Cadamosto refe-
misse depois. rência a observações astronômicas não me parece
De modo que a navegação pela latitude, a qual se prova definitiva de os pilotos as não praticarem. Cada-
não impunha no Mediterrâneo - onde as viagens mosto não era piloto. A sua corrida, com «temporal
norte-sul eram pouco extensas e balizadas por ilhas e do sudoeste», pava oés-noroeste do cabo Branco até
terras conhecidas-, passaria, no Atlântico, a impor descobrir «duas grandes ilhas:. - que lhe fic~vam
novas cartas de navegar pela altura. O que, como é mais de cem léguas a sudoeste, exactamente contra o
reconhecido, já era praticado no oceano Indico pelos vento -assim o prova, porque é uma absurda inven-
Mouros, muito antes de, em 1498, lá ir Vasco da Gama. ção. Também, por não ser piloto o autor do Roteiro
de Vasco da Gama, da mesma maneira se explica o
facto de lá não virem citadas observações de latitude,
• apesar de podermos garantir que foram feitas, tanto
no mar como em terra.
Visto não se tratar da aplicação de um principio Quanto ao «quadrante», que «tinha:. Diogo Gomes
novo - -como no caso dos espelhos, que permitiram na sua caravela, em viagem de regresso da Guiné, e
passar da balestilha para o sextante - não vejo razão tão larga que foram descobrir Santiago, quer ele de
para que uma tão intuitiva aplicação da Astrologia à facto o usasse, quer tenha sido só fruto da coordena-
Navegação não tivesse sido tentada logo que ·se sus- ção de Martin Behaim, a conclusão a tirar é a mesma
peitou da sua vantagem prática no alto mar. Assim, em ambos os casos: o autor do globo, tendo navegado
a meu ver, a chave da criação de navegação de longo com Portugueses para a Guiné, tinha razões práticas
curso pode ser simbolizada por aquilo que se chamou para acreditar que já, em 1462, eles se serviam de
«a volta do Sargaço:., com «astrolábio na mão:.. Não quadrantes a bordo. Assim o conjecturou o saudoso
encontro melhor explicação. Prof. Luciano Pereira da Silva.
~rto, não temos documentos sobre esta tão natu-
ral conjectura, a respeito da época em que, de facto, •
a Astronomia começou a ser utilizada no mar. Nem
sequer nos ficaram quadrantes ou astrolábios náuticos Terminando, em contrário com a opinião geral
do século XVI, como tão"'{>Ouco os primitivos regi- -sugestionada pela aparente facilidade de apontar
mentos manuscritos, tanto da Polar como do Sol. Mas, instrumentos à Estrela do Norte, para obter a altura
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132 A TÉCNICA NA NÁUTICA DOS D ESCOBRIMENTOS ( CAP.

I, rv] ASTROLÁBIOS E QUADRANTES 133


do pólo -, acrescentarei que não creio que fosse pre-
ciso esperar pela aproximação do equador para se O astrolábio fora introduzido na Península pelos
recorrer a observações do Sol. Qualquer experimen- Mouros, de modo que já era utilizado antes de o
tado marítimo concluirá que a pontaria à Estrela Infante D. Henrique iniciar os seus trabalhos prepa-
Polar com astrolábio é muito mais contingente que a ratórios da grande navegação. E tanto assim é que
do Sol, porque este astro, com a sombra que faz, se
aponta, por assim dizer, a si mesmo. A estrela, que é
só de segunda grandeza, raro se vê nas latitudes
baixas, e seria preferida para correcção das agulhas,
visto que as cartas de alturas impunham meridianos
verdadeiros.
Assim, continuando a admirar o minucioso cri-
tério de rigidez geométrica com que o Prof. Duarte
Leite procede aos seus interessantes estudos da Histó-
ria dos Descobrimentos, não encontro justificação
para, nos meus cesforços:. ou tentativas de vulgari-
zação - e até que seja feita prova em contrário -,
deixar de me enfileirar ao lado dos que estão persua-
didos de que foi ainda em vida do Infante D. Henrique
que os seus cfisicos:. habilitaram os mareantes a
recorrer aos processos rudimentares de Astronomia
Náutica, tão úteis no alto mar.

IV- ABTROLABIOB E QUADRANTES

o· astrolábio é um instrumento antiquissimo, que


servia para estudar a geometria da esfera celeste. Foi
imaginado ainda antes de Cristo, tendo-se começado
por criar um astrolábio esférico, do qual depois derivou
o astrolábio plano, muito conhecido. Astr olábio árabe do século x
Biblwteca N acional de P~
I, IV] ASTROLÁBIOS E QUADRANTES 135
134 A TÉCNICA NA NÁ UTICA DOS DESCOBRIMENTOS [ CAP.

centro, destinado a marcar na graduação a altura


no século de 200, nos cLibros dei Saber de Astrono-
observada do astro e duas pínulas sobre o lado corres-
mia:., no capítulo:- «Libro del Astrolabio Plano:.-
pondente aos noventa graus do limbo, ambas furadas
ele aparece descrito.
e das quais constitui a ocular a que está montada do
Este astrolábio plano é constituído por uma roda
lado da graduação. No caso do Sol era o feixe de raios
de metal, graduada e suspensa por um anel, percorrida
solares que, passando pelo furo da pínula superior,
pela declina~ alidade de pontaria ·a os astros. Na roda
ia bater na inferior.
encaixavam-se, não só vários discos cheios, graduados
Era fácil com ele apontar a uma estrela. Não se
e tracejados -cada um dos quais servia para dar
via o fio de prumo mas sentia-se com o dedo. No
latitude- , como também um outro disco recortado,
caso do Sol era preciso atender simultâneamente à
chamado aranha.
pontaria e ao fio de prumo, ao passo que no astro-
Os apêndices referidos, tendo, bem como a ali-
lábio é o próprio peso do instrumento que substitui
dade centro comum com o eixo da roda, permitiam
o prumo e basta seguir com os olhos a oscilação da
resol~er gràficamente vários problemas de Astrologia,
sombra da mira. 1!:: claro que isto permite maior apro-
problemas que não interessavam ao navegador que
ximação do que com o quadrante, com o qual só seria
apenas pretendia conhecer a altura do pólo ou seja
possível medir alturas em graus.
a latitude. Para este fim prático bastava observar
O quadrante era de madeira, por consequência
a altura sobre o horizonte de certos astros, geralmente
leve e de mais fácil construção, mas não permitia as
a Estrela do Norte e o Sol. Mais tarde pensou-se em
mesmas verificações que o astrolábio de que descendia,
utilizar o Cruzeiro do Sul. Era da simples observação
como eram a leitura da alidade em pontos opostos da
do ângulo que o astro fazia com o horizonte que se
divisão circular completa, como também a verifica-
deduzia a latitude do lugar, independentemente dos
ção da coincidência entre a graduação e a direcção
citados apêndices : aranha e discos.
da vertical. Esta operação fazia-se com o astrolábio
Era portanto intuitivo simplificar o CJ8trolábio
reiterando a pontaria aos dois lados do diâmetro ver-
para os usos marítimos. ·
tical da graduação.
Uma primeira simplificação, cuja data desconhe-
O quadrante só bastaria aos navegantes enquanto
cemos, estava realizada já no conhecido quadrante~
eles se contentaram com a aproximação do grau na
descrito no cLibro del Quadrante:., um dos capítulos
latitude.
dos ~itados cLibros del Saber:. de Afonso o Sábio,
A primeira referência ao uso náutico do qua-
cujos princípios não são de supor desconhecidos em
drante - se a bordo ou em terra é de pôr em dúVJida
Portugal, no tempo do Infante, por aqueles que pro-
- regista-se em 1462. A não ser a de Cadamosto e
fessavam a Astrologia.
depois a de Vespúcio, não há relação de viagem que
Este instrumento compõe-se de um quarto de
se lhe refira, naturalmente por ser de uso tão corrente
círculo graduado com um fio de prumo pendente ao
I, IV] ASTROLÁBIOS E QUADRANTES 137
A TÉCNICA NA NÁUTICA DOS DESCOBRIMENTOS [cAP.
:m licito conjecturar que a chamada a Portugal,
como a bússola e não merecer por isso menção espe- pelo Infante, de Mestre J ácome de Mallorca - c perito
cia'L Nem no Roteiro da primeira viagem de Vasco em instrumentos e cartas» - teria tido por fim, entre
da Gama à lndia se faz referência a observações astro- outros, a construção de astrolábios para uso dos
nômicas, que sabemos terem sido feitas pelo menos mareantes, mais simples, como disse, que os astrolá-
uma vez na baia de Santa Helena, com toda a proba- bios da época. Possivelmente, > talvez de início só
houvesse ideia de os utilizar nas novas :terras.
Poderíamos hesitar se se tratasse de passar de um
astrolábio elementar para o astrolábio completo; mas
a operação inversa, uma simplificação, era elementar,
e não se compreende que fosse só depois de se chegar
à Guiné que essa ideia simplista tivesse ocorrido a
sagazes cdoutores:., como aqueles que o Infante- tão
interessado em tornar prática a navegação pelos astros
- consultava, em colaboração com os seus ccarave-
listas:., homens práticos do mar.
Não é, pois, de admirar que nem tivessem ficado
os nomes daqueles que se lembraram de uma tão intui-
tiva adaptação, visto· não se tratar de inventores de
instrumento novo, como o sextante. Assim nasceu o
astrolábio náutico.

Astrolábio
Conheceriam os mareantes mouros a navegação
astronômica? Se a conheciam, porque a não trouxeram
para o Atlântico?
bilidade em terra, e na ilha Angediva, na costa da :m sabido, tanto pelo Roteiro de Vasco da Gama,
lndia. como por outras fontes, que no oceano Indico eram
Pelos motivos acima referidos o uso do astrolábio usados instrumentos- talvez como o quadrante ou a
suplantou o do quadrante nos usos da navegação. Foi balestilha - assim como cartas quadriculadas, com
importante o papel que lhe pertenceu na prossecução que se navegava até pelo Mar Vermelho.
dos descobrimentos marítimos.
A TÉCNICA NA NÁUTICA DOS DESCOBRIMENTOS ( CAP.
I, IV] ASTROL ÁBIOS E QUADRANTES 139
~ conhecida a perícia com que o piloto de Melinde
levou as naus do Gama a Calecute, depois de cerca de São dois os astrolábios (de latão) de que me
r
três semanas de viagem, em que passou no canal entre tenho servido. Um deles, o astrolábio puramente náu-
dois grupos de ilhas, as Laquedivas e as Maldinas, sem tico - segundo creio, o único para serviço de mar
nunca avistar terra. Ora uma tal navegação de 700 existente em Portugal-, não é da época dos Descobri-
léguas, para destino certo, nunca poderia ter sido feita
só à bússola. Foi pelos astros que o piloto indiano se
guiou, demandando o chamado c:canal dos nove graus
e meio:.. I
,,'
' *
Porém, no oceano Indico navegava-se sempre a ,' '
favor das monções, ao passo que, no Atlã.ntico, os ,,
I

ventos do norte, da costa de África, só davam nave-


gação de norte para sul, não ignorando os Mouros
que não era seguro, à vela, o regresso para o norte, a
bordejar contra tais ventos dominantes. Assim , neste
caso, as observações astronômicas nada lhes poderiam ,
I
adiantar. · I
I

I
Contudo, é de crer que, por tradição, os doutores
da Península estariam informados de que aqueles que
,
cá tinham trazido o astrolábio -os Mouros- o apro- I
I
veitariam na navegação do oceano Indico. I
I
Esta possibilidade da prática de observar astros ,I
,,
I
no alto mar não teria sido esquecida, repetimos, em
Sagres, quando se reconheceu a necessidade de nave- ll~: ______ -----------
gar fora das vistas da costa.
Esquema do uso do quadrante na observação astronómica

Pá.ra me pronunciar a tal respeito, com melhor mentos: tem um palmo de diâmetro e foi construído
conhecimento de causa, tenho recorrido a observa- pelos hábeis operários do Instituto Superior Técnico.
ções feitas com astrolábios, em viagens por mar, com- Foi reduzido, simplificando-o, de um outro astrolábio
parando-as com as observações a sextante praticadas -este do século XVI - que está completo, com seus
pelos oficiais de bordo. discos e aranha. Os outros astrolábios conhecidos em
Portugal, ou são completos, como o meu primitivo,
A TECN LCA NA NÁUT!CA DOS DESCOBRiMENTOS [ cAP. o o o

DII PTHOLOMEl
que me foi oferecido pelo meu antigo amigo Dr.
Augusto Prestes, residente no Rio de Janeiro, ou são l1DRII1t CO.St'\0
de dimensões só próprias para experiências em obser-
vatório, não podendo ser usados a bordo.
:6: claro que o astrolábio era destinado a observar
qualquer astro. Mas um ensaio em terra teria indicado,
logo às primeiras experiências, que mesmo usando-o
- como indica Barros -suspenso de cuma cabrea de
tres paos», a operação de observar uma estrela era bem
mais precária que a observação do Sol. Porque, com
este astro, basta ajustar-lhe a pontaria de modo a
ver-se que o feixe de raios solares, que passa pelo furo
da mira superior, vá bater na outra mira da declina:
em poucas palavras, o Sol aponta-se a si mesmo.
Se esta operação for feita a bordo, não haverá o
apoio da cábrea, e o astrolábio terá de ser suspenso
com uma das mãos, enquanto a outra mão tenta parar
as oscilações que o carfar» do navio imprime ao
instrumento, a fim de mantermos o seu plano de
graduação no plano vertical do astro.
Neste caso a observação do Sol permite-nos sus-
pender o instrumento baixo, em posição suficiente-
mente firme; e a sombra sobre ,a mira inferior da
declina será fàcilmente vigiada, esperando-se o ins-
tante em que o instrumento deixe de oscilar, para então
rectificarmos a pontaria da .alidade ao astro.
No caso da observação de uma estrela não há
sombra, e teremos de suspender o instrumento pelo
seu anel, à altura dos olhos - como se faz com o sex-
tante -, em posição pouco firme. A esta instabilidade
juntar-se-á a acção do balanço do navio; então, em
lugar de a pontaria ao astro ser - como no caso do Sol
-definida automàticamente pela projecção da mira
Ptolomeu empunhando o quadrante. Estampa reprodu zida
do mapa-mundi de W aldseemüller, de 1507
I, IV] ASTROLÁBIOS E QUADRANTES I 4I

superior, já será preciso tentar manter a aüdade cons-


tantemente apontada a olho à estrela, esperando um
momento de repouso. Esta delicada operação é muito
pouco praticável a bordo, mesmo que o observador
tivesse três mãos, uma no anel, outra na alidade, e a
outra a travar as oscilações do instrumento. E, afinal,
a observação ainda resultaria grosseira, por não ser
possivel, ao mesmo tempo, visar o astro e vigiar as
oscilações do instrumento. Ora isto é praticável com
o Sol.
Porém, nem é preciso tentar observações com a
Estrela do Norte: basta ensaiar com o astrolábio uma
pontaria directa ao Sol, quando o céu enevoado evita
que o astro nos fira a vista. E logo neste caso, apesar
das facilidades que nos dá a luz do dia, concluir-se-á
imediatamente como são proibitivas as condições que
apresentará a observação de qualquer estrela, por bri-
lhante que ela seja.
Tais são as razões práticas que me levaram a
conjecturar que, reconhecida pelo Infante a necessi-
dade absoluta de os navios se «engolfarem no alto-
-mar» - o que arrastava a navegação pela caltura do
Polo» - , logo às primeiras tentativas de determmação
da latitude teriam os mareantes previsto que tal ope-
ração a bordo dos navios, no mar, s6 seria utilizável
pelo Sol.
E isto, ainda mesmo que a Estrela do Norte não
fosse, como é, de segunda grandeza, e se visse tão
distintamente como os brilhantes astros Vénus ou
Júpiter.
Por outro lado, é sabido que a Estrela do Norte
não coincide com o pólo norte do céu, pois descreve
14.2 A TÉCNICA NA NÁUTICA DOS DESCOBRIMENTOS [ CAP.
I, IV] ASTROLÁBIOS E QUADRANTES 143
em torno dele uma circunferência que, no século XV,
pelo Calafate, por marinheiros e por outras «pessoas»
atingia sete graus de diâmetro.
que ccarteavam::..
Assim, a sua altura oscilava dentro dos sete graus
Nos antigos roteiros nota-se que, quando não
e, no cálculo da latitude, havia que se aplicar à altura
havia sol aberto ao meio-dia, não se pensava em
observada uma correcção dependente da posição da recorrer a estrelas nem mesmo às de primeira gran-
estrela no céu, a qual era indicada em um regimento. deza, como Sírios ou Canopo, que se distinguem logo
A estrela passava, pois, metade do seu tempo mais ao crepúsculo, e cuja posição era definida pela sua
baixa que o pólo. Além disso, ·s endo ela de segunda distância ao pólo, fixa. Na falta do Sol esperava-se
grandeza, era difícil de observar em alturas baixas, para o dia seguinte.
por causa da nebulosidade do horizonte. Nem era fácil
distingui-la mesmo em noites de luar. •
Tais são as reflexões que me levam a crer que,
logo de principio, foram preferidas as fáceis observa- Aquele falso prestígio da Estrela do Norte deriva
ções solares. ~ certo que estas observações também do que J. de Barros escreveu nas Décadas, onde conta
dependiam de um regimento que indicava, por assim que foi só no tempo de D. João II que uns seus dois
dizer, a latitude dos lugares sobre os quais passava o «médicos», com Behaim, cacharão esta maneira. de
Sol em cada um dos dias do ano. navegar por altura do Sol». O que teria sido imposto
Este regimento já era conhecido no tempo do pela necessidade de se perder ca vista da costa», nave-
Infante, pois o encontramos nos «Livros dél Saber», gando pelo «pego do mar», e não - como alguns
coligidos no século de 1200. E, além disso, a decli- julgam- só por se ter passado, em 1470, para sul
nação do Sol vinha indicada em alguns astrolábios e do equador.
quadrantes. Para tal efeito eles teriam criado o «astrolábio
Assim, conhecida a latitude do ponto sobre o qual .ie pao de tres palmos de diametro», que suspendiam
estava o Sol na ocasião da observação, o astrolábio de uma ccabrea de tres paos».
indicava-nos o quanto estávamos para norte ou para Barros não se refere ao recurso anterior à Estrela
sul desse ponto e, portanto, qual a nossa latitude. Polar, nem ao seu uso exclusivo ao norte do equador.
Trata-se de uma geometria do céu, tão rudimentar Resta concluir, com Barros, que o Sol foi usado
que, para calcular a latitude , bastava saber ler, somar logo que se navegou fora da vi,s ta da terra, o que é
e subtrair. E tanto assim era que, segundo o «Roteiro certo ter sido ainda em tempo do Infante, pois já desde
da Viagem de D. João de Castro», sabemos que ta1 astro- 1431 se ia aos Açores sem recear «perder a vista da
nomia era praticada em 1538, não só por ele e pelo costa».
d)outor::. , como também pelos pilotos, pelo Mestre, Assim, é lícito só deduzir das Décadas que foi no
tempo de D. João II e, portanto, depois de 1481 que
I, IV] ASTROLÁBIOS E QUADRANTES 145
144 A TÉCNICA NA NÁUTICA DOS D ESCOBRJ MENTOS ( C AP·

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cTabula declinationis:. e cTabula equationis:., do cAlmanach


Página da «Tabula tertia Solis:., do cAlmanach Perpetuum:., Perpetuum:., de Zacuto, edição de Leiria de 1496
de Zacuto, edição de Leiria de 1496 10
A rtcN!:CA N A NÁUTICA DOS DESCOBRIMENTOS ( cAP.
I, IV] ASTROLÁBIOS E QUADRANTES 147
se apuraram as observações de latitude, usando-se as
tabelas da declli.nação do Sol mais correcta:s, e apro- E era intuitivo o tentar as observações a bordo, onde
veitando, em lugar dos conhe·cidos astrolábios cde seriam bastante úteis para a navegação. A experiência,
latão mais pequenos:., um astrolábio grande. Como aconselhada pelos cdoutores», teria revelado o facto
neste instrumento cada grau atingia 12 milímetros, de a bordo, com o «arfar:. dos navios, só ser praticável
ou meia polegada, era praticável em terra observar as a observação do Sol.
latitudes com a aproximação do décimo de grau, ou ~ certo que desses tempos primitivos nos não
sejam duas léguas. resta documento algum - como seriam regimentos
Uma opinião semelhante, a respeito do Sol, mani- manuscritos do Sol- para prova da minha conjectura.
festa «O bacherel mestre Johan fisico:., na sua carta Mas tão-pouco os há da Estrela do Norte, como não há
a D. Manuel, datada de 1500, onde declara que lhe cartas ou diários das navegações reais do século xv,
parece impossivel observar no mar a «altura de nin- documentos estes que com certeza existiram. Tudo se
guna estrella:., sendo preferivel observar o Sol, e com perdeu. E, assim, faltam também elementos para se
cestrolabio:.. justificar a conjectura sugestiva de que a altura do
Ainda, para se fazer ideia da precisão atingida no pólo seda, de preferência, inclicada pela Estrela Polar,
século XV nas observações de latitude, citarei que, no e tão fielmente que só a teriam abandonado quando, à
Roteiro de Vasco da Gama, se lê que Pero Dalanquer aproximação do equador, ela se sumiu no horizonte.
depois de, em 1487, ter passado o Cabo com Barto-
lomeu Dias, ao observar, em 1497, alturas do Sol na
bafa de Santa Helena, afirmou que não poderiam estar

a mais de ctrinta legoas a rree do Cabo». Ora, segundo O Prof. Ant6nio Barbosa, no seu arti~:ro de «0 Ins-
os mapas modernos, Pero Dalanquer s6 errou cerca tituto», intitulado História da Ciência Náutica. relata
de uma légua! E não se via lá a Estrela do Norte .. . os resultados das suas interessa!ltes experiências em
Coimbra, tanto com o astrolábio como com o quadrante
• e balestHha. E , entre outras conclusões, acentua que
a Estrela Polar dá erro dobrado do erro obtido pelas
Desde que, em Portugal e no tempo do Infante o'b servações do Sol, apenas um décimo do grau. Há
D. Henrique, já havia astrolábios e tabuadas com a a notar que, como a estrela se via dara, por estar
declinação do Sol, é intuitivo que, nas navegações da muito ,a lta, a sua observação era em Coimbra mais
Guiné, se pretendia saber quanto se tinha avançado fácil que na Guiné. E , como indiquei, se contarmos
para sul. eom o balanço a bordo, o erro na latitude pela estrela
As experiências em terra teriam, como disse, indi- seria mais exagerado.
cado ser mais prático recorrer ao Sol do que à Polar. No caso das observações de astros a bordo, no
mar, são de esperar erros maiores do que os atingidos
A TÉCNICA NA NÁUTICA DOS DESCOBRIMENTOS [CAP.

pelo Prof. Antônio Barbosa em terra. Mas é certo que,


nos navios de vela, as velas amparam o navio quando
há vento, atenuando-lhe o balanço. Assim, citarei que
a bordo da barca «Foz do Douro:., no total de 72 obser-
vações do Sol, o meu erro máximo foi de dois terços
do grau. Donde se conclui que o erro provável foi
apenas de um sexto do grau. E, de facto, verifiquei
que metade das minhas observações não diferiam da
verdade mais de dez minutos, umas três léguas.


Resumindo:
Foi partindo da prática com instrumentos no
campo, tendo observado astros, tanto em terra com
o «astrolábio grande», do Museu da Marinha, como
ainda praticando no mar com outros astrolábios- com
os quais já naveguei, tanto à vela como a vapor, mais
de quarenta mil milhas, ou cerca de duas vezes o meri-
diano terrestre - foi, não teõricamente, mas só depois
de prolongada experiência, que cheguei a uma conjec-
tura, que documento algum contraria e que se concre-
tiza nos seguintes pontos: . ·,
-Os resultados que a Estrela do Noite poderia
ter fornecido no mar seriam raros e, por demais,
grosseiros para a navegação.
-Apesar do balancear dos navios, é praticável
lfZratabot\CI.I2fpberarbelar
observar alturas do Sol a bordo com astrolábio. As te.txlJnarear:conel rc~ínliêrooc
latitudes assim obtidas, embora menos precisas que
em terra, raro terão erro superior a meio grau, ao
lasalruras:cõalgú~e rcgh1s nuc
qual corresponde o erro provável de -+- 1 I 6 de grau, o
que equivale a dizer-se que há tanta probabilidade de
uamêreefcríra~ tnu~ ncccffilnas.
JCon ~">illllcgio Jmpeti~l.
d
~ -. ~)
se errar mMs como menos de dez minutos de arco.
~~Z}f~:-g-~!;..co~. ~
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Rosto do «Tratado da Esfera», de Francisco Faleiro ( 1535)


I, v] CARTAS RECTANOULARES 149

-Enfim, desde que pelos nossos mareantes foi


compreendida a cnecessidade da determinação da
altura do pólo» no alto mar- elemento essencial já
nas viagens de volta da costa de África -logo teria
sido reconhecido que, de preferência às observações
de estrelas, só seria aproveitável a observação da
altura - ou distância zenital- do Sol, cuja posição
no céu já nem era desconhecida quando, em 1431, os
caravelistas do Infante foram aos Açores.
Em conclusão, concordando com aquilo que se lê
na carta de Mestre João, e discordando em absoluto
do critério corrente, mal apoiado em Barros, conjec-
turo que datam de tempo muito anterior ao reinado
de D. João ll as determinações de latitude no mar,
por meio de observações do Sol com astrolábio.

V- OARTAB REOTANGULAREB

A evolução da carta de latitudes reduzidas, hoje


usada na navegação marítima, é atribuída ao holandês
Mercator, desde 1569. Mas nem sempre a sua origem
tem sido bem interpretada.
Não se acentua que tal ideia se encontra origi-
nalmente sugerida no cTratado da Sphera::., publi-
cado em 1537 por Pedro Nunes.
Em principio, representar a superfície da Terra,
que é esférica, sobre o plano de papel é absurdo.
Teremos que aceitar uma convenção. Mas a deforma-
ção das terras é inevitável.
Logo que as calturas» ou latitudes, intervieram
na navegação, impôs-se a criação de mapas adequados,
150 A TÉCNICA NA NÁUTICA DOS DESCOBRIMENTOS (cAP.
I, v] CARTAS RECTANGULARES 151
cujos meridianos teriam de ser linhas rectas repre-
sentando a lmha norte-sul da Terra, que passa peios A distância a navegar, se a medíssemos sobre o
pólos. Us rumos teriam que ser os verdadeiros, e não meridiano, tornar-se-ia 161 léguas, em lugar das 150
os da agulha, dos mapas anteriores, porque estes não reais. Este erro geométrico desapareceri·a se a dis-
jogavam com os caminhos ao longo da mesma latitude, tância fosse obtida pela operação de cálculo chamada
ou seja ao rumo leste-oeste verdadeiro. cartear, que era, afinal, aquela praticada pelos pilotos.
Daqui surgiu - e ainda muito em tempo do

r
Infante D. Henrique - a c carta portugueza» chamada
quadrada~ porque ela era quadriculada segundo meri-
dianos e paralelos, de modo que as duas naturezas de
graus eram iguais. Não se ignorava, porém, .q ue na
esfera terrestre os graus de longitude, no equador
iguais aos de latitude, iam decrescendo até aos pólos,
onde se anulavam. Assim, aceitando, como era corrente M
no século xv, que o grau de latitude tinha 17 e meia
léguas marítimas, já na latitude de Lisboa o grau de
longitude media apenas 13 léguas e dois terços. Trata-se da resolução de figuras de geometria plana,
Daqui resultava que a medição de distâncias sobre a qual se praticava sem ter à vista uma carta. D. João
a carta quadrada tinha de contar com a latitude em de Castro, no seu Roteiro, até por vezes se refere a
que eram medidas (o mesmo acontece na cCarta de ctodos os marinheiros que carteavão:..
Mercaton). E havia também apreciável divergência No seu cTratado da Sphera:., PeQ.ro Nunes
entre os rumos verdadeiros, e os ângulos com os meri- cestuda» a carta quadrada. Nota a diferença entre os
dianos, medidos na carta. rumos, que lã se traçam, e os reais do cGlobo onde
Consideremos, por exemplo, o que se passa entre tudo he certo e sem falencia» (pãg. 129), assim como
Lisboa e a Madeira. A distância directa, ao rumo ver- compara gràficamente, cho caminho que se faz per
dadeiro 225 graus- rumo sudoeste da época- , era hüa rota:. -ou rumo constante - o qual cnam he per
de 150 léguas. Isto correspondia a 106 léguas em circulo mayor que he ho dereito e continuo:. (pãg. 124).
latitudeJ e a outras tantas em longitude. Assim, o Este defeito também se nota na própria carta de
caminho do navio teria de ser de seis graus em lati- Mercator.
tude, e de uns sete e meio em longitude, ao que, na Apesar de Pedro Nunes- que não cpraticou no
carta quadrada, corresponderia o rumo, não de 45 mar:. {pãg. 126)- pretender que, por vezes, cenga-
graus sudoeste real, mas de 51 graus, rumo este nados andam logo os pilotos e hos que presumem que
errado, portanto, de meia quarta. ho sam:. {pãg. 130), não nos é licito supor que eles
A TÉCNICA NA NÁUTICA DOS DESCOBRIMENTOS (CAP. I, v] CARTAS_RECTANGULARES I 53
desconhecessem aquelas rudimentares cregras de geo- do met1idiano ao pa.rello do meo, como f.az P tolomeu nas
metria.-. (pág. 118). l:iavOiéiiS eLas provincias, porque assim ficaruoa.m todas as
De resto, a carta 8Ó lhes servia para indicar a l.onguras a lturas e rotas no C'el'iLO , ao menos nam a Vielra .e rro
posição das terra8 e o ponto do navio, tudo definido notiavel; e traz.ersea a ca:rta em livro.»
por latitudes e longitudes. Mas a navegação não era
lá traçada geometricamente, porque era feita car- Como se vê, Pedro Nunes, reconhecendo em prin-
teando as léguas, ou seja calculando, trigonometrica- cípio os defeitos das carta8 de marear então usadas
mente, qual o caminho, em latitude . e em longitude, - que aliás defende - , propõe a divisão do grande
correspondente à estimativa (pág. 131) da distância pla.Diisfério em cquarteyrões» - como afinal hoje se
navegada sobre a esfera, a um rumo reduzido a ver- faz- mapas parciais que já não seriam mais divi-
dadeiro pela variação da agulha, que sabiam deter- didos em quadrtados, mas em rectângulos, nos quais
minar. E havia gráficos simples- como o indicam seria respeitada cha proporção» que há entre os graus
João de Lisboa (1514) e Pedro Nunes (1537) -por em que dividimos a esfera.
onde se reduzia o caminho percorrido leste-oeste, para Assim, no exemplo apresentado da Madeira, à
diferença de longitudes. distância de dez graus, entre os paralelos de 30 e 40 gr.
Algumas cartas- e não todas- tinham, para de latitude, corresponderia para os outros dez graus
~ste mesmo efeito, cvários troncos ou petipés de de longitude, do quadrado, apenas uma distância igual
legoas.-., isto é, escalas em diferentes latitudes. O que a 8,2 graus de latitude. E o rumo verdadeiro de
não era muito essencial, porque se não pretendia pre- sudoeste iria bater cerca de 12,2 graus em longitude,
cisão comparável à dos navegadores modernos, visto da mesma carta.
que estes navegam por graus, ao passo que os antigos Contudo, na prática da navegação, tais erros-
só consideravam quarta8, ou meias quartas, que são a bem conhecidos dos pilotos -não tinham importân-
quarta parte do meio quadrante, 45 graus. Além disso, cia: os rumos para grandes distâncias não se soltavam
o navio a motor conta com maiores 8ingradura8 que pela carta, mas pelo cálculo.
at:J naus. E, quanto às direcções verdadeiras, afinal as rosa8
Reconhecendo os defeitos da carta quadrada, de ventos- que ainda se notam na carta Mercator de
Pedro Nunes, no capitulo da sua obra intitulado cEm 1569 - só indicavam meias partidas, isto é, duas
defensam de carta de marear.-. (pág. 138), foi assim quartas ou 22 graus e meio.
levado a propor uma nova solução: Naturalmente, na confecção dos cquarteyrões.-. de
grande compasso, ou folhas separadas, ter-se-ia que
«·M~ ho milhor seria pera escusarmos todos. estes t:ra- escolher qual a escala mais conveniente para a prática
balhOIS, que fizesemos a carta de muitos qua.rte'yl"ões, de dos navegadores. Em cada folha seria indicada a escala
. bom comp81S0 grande, nos quaes guardemos ha proporção de ZégUa8, marcando-se 175 léguas em cada dez graus
154 A T ÉC NICA NA NÁ UTICA DOS D ESCOBRIMENTOS [ cAP. I, v] CARTAS RECTANG ULARES 155
de latitude. Esta distância seria dividida em 3õ espa- Há ainda a notar que estas folhas só se podem
ços de 5 léguas. ligar no espaço, e não em plano.
Na concorrência das diferentes folhas da carta
haveria que discutir se conviria mais adoptar o cri-
tério de igualdade entre os graus de latitude, ou entre

os graus de longitude. :m
certo que o alvitre de Pedro Nunes não entu-
Como até ao cabo Verde- onde começava a ser siasmou os nossos pilotos- nem mesmo o seu discí-
pràticamente indiferente usar carta quadrada (erro pulo D. João de Castro, que a tal se não refere no seu
1 %) ou rectangular- as nossas navegações se esten- «Roteiro» - provàvelmente porque a adopção da carta
diam principalmente em latitude, seria lógico começar rectangular não tinha para os antigos navegadores a
por aceitar coincidência entre a dimensão dos graus importância que, à simples vista, somos levados a
de longitude nos vários quarteirões, porque assim se atribuir-lhe. Os erros em distâncias e rumos, notados
facilitava a sequência no traçado dos rumos, de umas na carta quadrada, pouco influíam no traçado das
para outras folhas. curtas singraduras dos navios, mesmo no século de
De resto, se logo de principio tivesse havido hesi- 1700. Não eram então, como agora, frequentes os
tação na escolha da identidade na dimensão dos graus, rumos directos para grandes distâncias, os quais, de
é incontestável que a vantagem de preferência pela resto, são sensivelmente diferentes da linha recta, e
dos graus de longitude teria ressaltado, logo que os isto tanto na carta quadrada como na rectangular.
navegantes começassem a praticar com a nova carta Além disso, para os navegadores, era indiferente a
rectangular. E a associação de diferentes quarteirões, deformação das terras, bastante marcada nas altas
em folhas completas, teria saltado aos olhos como latitudes, em ambas as cartas.
passo intuitivo para o planisfério geral, conforme o Por estas razões, a concepção de Pedro Nunes
apresentou Mercator. não foi desde logo preferida. Os pilotos, criados com
Vem ainda a propósito notar que, aceite o prin- a primitiva carta, sem estarem «enganados», ou a
cípio da divisão da carta em cquarteyrões», se reco- terem cmal entendida» - como Pedro Nunes preten-
nhece como prático usar em cada um deles a projecção dia (pág. 134) - , sabiam utilizá-la sem errar a nave-
cónica ou de trapézios, na qual também se nota pro- gação, não operando sobre ela como o fariam sobre
porção correcta entre os graus de latitude e longitude. uma carta rectangular.
Preferindo a carta cónica-secante, a um quinto, a Continuaram < a servir-se da carta quadrada,
deformação não é m uit o apreciável. Como tais cartas mesmo muito depois de ser divulgado o uso da carta
têm a vantagem da escala constante, e de os círculos de clatitudes crescidas», criada por Mercator- um
máximos serem sensivelmente rectas, elas têm, por não navegador- em 1569. Assim o podemos concluir
isso, sido utilizadas em viagens aéreas transoceânicas. do que se lê na cArte de Navegar», de Pimentel, mesmo
A TÉCNICA NA NÁUTICA DOS DESCOBRIMENTOS [cAP. I, v) CARTAS RECTANGULARES 157

nas edições do século de 1700 - e até na de 1819 - , esta novidade, ainda de acordo com aquilo que se lê
onde são descritas as duas qualidades de cartas: a no «Tratado da Sphera», tinha a vantagem de apre-
«carta portugueza:. de cgráos iguaes», e a ccarta redu- sentar longitudes, latitudes, rumos, sem cerro nota-
zida», de cgráos crecidos::.. De modo que apesar de esta veb. Por isso ela é usada agora exclusivamente na
última ser lá reconhecida como ca zwti.s certa:., con- navegação marítima, em especial desde que os navios
tudo, dois séculos depois de apresentada uma carta a vapor perm~tiram rumos directos entre os portos,
rectangular, ainda se não tinha- como agora- aban- sem a inconstância de rumo que, em geral, os ventos
donado completamente o uso das cartas ccommuns:. impunham aos antigos navios. Porém, não deixou de
de que o «Infante foi inventor». Não lhe ignorando' ser preciso estudar processo prático de, pelo cálculo,
as csuas culpas e erros:. (pág. 124), os pilotos conta-
vam com eles. Porque, como ficou dito atrás, só a -:-----+-----+--/, •.
utilizavam levando-lhe já o ponto do navio em latitude
e longitude, «carteado pelas taboadas dos 'rumos:..
Isto mesmo é, afinal, o que ainda hoje se pratica.
Os pilotos não operam sobre mapas, mas carteiam as +------1----+-•1!"
milhas pelas tábuas do ponto. Era por tais tabuadas
que antigamente se soltavam rumos largos, evitando
assim os erros das cartas, porquanto os pilotos não
navegavam geometricamente, como se pode fazer nos
aotua:is navios a motor. E, assim, para tal efeito, alguns
livros de Navegação, como a «Arte de Navegar:. e as l
velhas «Tábuas de Norie:., apresentavam desenvolvidas 6o·
~· 4" 10
listas das latitudes e longitudes, dos cportos, cabos e
ilhas principaes:..

• 59"

A carta reduzida, criada pelo holandês Gerardo


Mercator- possivelmente sem ter conhecimento do 51:
alvitre do português Pedro Nunes- era também divi- o•
fO 10
dida em rectângulos, em cada um dos quais se guar-
dava a «proporção do meridiano ao paralello do meo», Esquemas do traçado da quadrícula, aconselhado por Pedro
como Pedro Nunes propusera trinta anos antes. E Nunes para a Carta de Marear (1537)
A 'ffiCNTCA NA NÁUTICA DOS DESCOBRIMENTOS (CAP.

traçar na nova carta de marear os caminhos «mays


curtos», segundo círculos máximos, que lá não são
linhas rectas, como o não são na carta quadrada,
sendo-o só nos quarteirões da carta cónica.
Ignoramos quando seria que os pilotos portugue-
ses começaram de facto a navegar por cartas dese-
nhadas em Portugal, segundo a projecção das latitudes
crescidas. Não conheço a data da mais antiga carta
de marear portuguesa, rectangular. Deve ser muito
posterior a 1569, porquanto, na edição de 1699 da
«Arte de Navegar», ainda se lê: «este livro he princi-
palmente para os Portuguezes que estão acostumados
á carta plana de graos iguaes».

Em resumo, da necessidade de a ca:rta de marear


jogar «CÔ o regimêto da altura» {,p ág. 117) resultou
a criação da carta quadrada. Depois surgiu lõgica-
mente a ideia da carta rectangular. Mas quando, em
1569, Meroator apresentou as cartas reduzidas, o prin-
cipio nelas aproveitado, vulgarizado ou não, não era
original. Fora sugerido, estudado e publicado por Pedro
Nunes, na obra «Tratado da Sphera», impressa em
1,537. Tão interessante alvitre só não tivera sequência
entre nós, por não ser ainda considerado essencial, na
prática da navegação, pelos pilotos da época.
Enfim, embora isto não venha sendo acentuado,
há bem mais analogia entre as cartas rectangulares,
de Pedro Nunes e de Gerardo Mercator, do que entre
o nónio português e o vernier francês.

NOTA. -Todas as cartas de navegar do século XVI


eram desenhadas com as rosas de 32 ventos. Assim o
vemos nas cartas de La Cosa e de Cantina, e ainda na

«G lobo t errestr e loxodrómico», de M ercator,


em fusos de 30" ( 1541 )
I, VI] AS C ARAV E LAS I 59

de Mercator (1569) e Hakluyt (1598), ambas redu-


zidas. Assim, tanto meridianos como paralelos tinham
de ser linha·s rectas, cruzando-se a ângulo recto.
Isto também foi aceite por Pedro Nunes. E tanto
Consultando Nordeuskiold, encontrámos lá cartas
de tais mapas. Enfim, quando propõe os cquarteyrões»
e cita as cartas de Ptolomeu- estas cónicas, isto é,
com meridianos convergentes - ele insiste em que nos
quarteirões ficariam cao ·c erto» ctodas as longuras,
alturas, e rotas». cE rotas» significa que os rumos
leste-oeste seriam traçados perpendicularmente aos
meridianos, sendo estes também rectas paralelas.
Trata-se, portanto, de cartas rectangulares, e não
cartas obedecendo ao principio cónico.
Consultando Nordeuskiold, encontrámos lá cartas
de projecção rectangular e, por vezes, com latitudes
de dimensão inferior à das longitudes. ~ rectangular e
ruma:da a carta de navegar de Berteli, 1565 (Periplus,
pág. 183). O mesmo se passa com a ccharta navigatoria»
de Nicolaus, 1560 (Periplus, mapa XXVII). A carta
marina de 1598, 1621, é rumada e rectangular, corres-
pondendo os seus 90 graus de latitude a 130 em longi-
tude. Não é Mercator. (Periplus, pág. 79). As cartas
de Diogo Ribera, 1529 (Periplus, XLVIII) e de
Ducelliers, 1546 (Periplus, LII) são ·a mbas rumadas
e quadradas.

VI- AS CARAVELAS

Com a reconhecida tenacidade e inexcedfvel com-


petência de que dispunha o comandante Quirino da
Fonseca, publicou este falecido oficial um volumoso
r6o A TÉCNTCA NA NÁUTICA DOS DESCOBRIMENTOS (CAP.

livro· no qual está condensado tudo o que pôde averi-


guar sobre a misteriosa caravela portuguesa. Nestes
pequenos e interessantes barcos foram iniciadas, no
princípio do século xv, as navegações portuguesas
que abriram ao Mundo todos os mares.
Primitivamente apenas pouco mais que um grande
barco de pesca- como aquela caravela figurada com
uma vela grande e uma mesena no quadro do Con-
vento da Madre de Deus- , a caravela foi-se aperfei-
çoando, recebendo artilharia pesada e tornando-se
mais própria para o alto mar, até atingir o tipo de 180
tonéis, que descreve o «Livro Náutico», do século XVII,
com quatro mastros (além do goroupez), tendo no
mastro do traquete duas velas redondas, além da
sevadeira.
Foi a caravela primitiva, como navio simbólico
dos Descobrimentos, escolhida para distintivo, ou tim-
bre, da representação portuguesa na Exposição de
Sevilha. Mas o seu desenho, devido ao grande artista
português Roque Gameiro, repetia os desenhos do
mesmo autor feitos para a «História da Colonização
Portuguesa no Brasil», segundo os quais a caravela
usaria, como os actuais caíques, as velas entaladas
entre os mastros e as suas enxftrcias, e portanto impe-
didas de se levantarem embolsadas {ou enfunadas) ,
como se nota nos desenhos antigos, copiados pelo
artista que esculniu os baixos-relevos no monumento
a Afonso de Albuquerque. A caravela do qu a dro da Igrej a da Madre de Deus
Convencido de que estarfamos em presença de um
erro técnico inacreditável num pafs em que mais se
usou a caravela, e. à falta de outro protesto, pare-
ceu-me que o deveria apresentar em nome da Com~ssão
de Cartografia. Esta entidade não é tão terrestre e
I, VI] AS C ARAV E LAS r6r

leiga em marinha como se afirma na pág. 521 do 'livro


cA Caravela Portuguesa:. : ela era composta quase
exclusivamente de oficiais com prática de mar nos
antigos navios de guerra que usavam velas; ocupa-se,
além das cartas - onde antigamente eram desenhados
navios de vela- , também das cartas hidrográficas, e
da marinha mercante das ·colônias.
Certo, não seria a Comissão de Cartografia a enti-
dade mais competente para se ocupar de caravelas;
mas o seu protesto teve como resultado, pelo menos,
o chamar a atenção para o assunto e provocar o for-
midável trabalho de compila~ão e estudo que é incon-
testàvelmente cA Caravela Portuguesa:..
O meu alvitre sobre as formas das uelas latinas
antigas não foi aceite pelos ·arqueólogos, tendo-se
levantado, rontra o que chamam uma suposição, a auto-
rizada opinião de Henrique Lopes de Mendonça, que
apoiava Roque Gameiro. Como esta opinião, debaixo
de vários pontos de vista, se me afigurava pouco
náutica, propus-me, em uma conferência realizada em
1929, no salão da Sociedade Nacional de Belas-Artes,
explicar os meus pontos de vista, chamando a atenção
dos artistas portugueses para os desenhos feitos no
tempo em que havia caravelas no mar, dos quais dese-
nhos unânimemente se conclui que a caravela, com as
suas velas muito enfunadas, difere visivelmente do
desenho escolhido para o timbre de Sevilha.
O meu antigo companheiro das escolas e cama-
rada de marinha, Quirino da Fonseca, em vários actos
públicos, e depois no seu livro, mostra discordar fun-
damentalmente das ideias que expus por várias vezes,
pretendendo demonstrar que não só as caravelas não
usaram velas semelhantes às que ainda hoje usam
11
r62 A TÉCNICA NA NÁUTICA DOS DESCOBRIMENTOS ( CA P. I, VI] AS C ARA VELAS

os pangaios indianos (e alguns barcos de pesca), como gando que as suas velas triangulares seriam já como
também que era pouco náutica a explicação que eu as dos cafques. Ora da inspecção dos modelos de autên-
apresentara do Descobrimento dos Açores, o qual teria ticos chebeks existentes no Museu do Louvre, e repro-
sido feito a cidentalmente pelos navios do Infante, em duzidos tanto nos cSouvenirs:., do almirante Paris,
viagem de voUa da costa de África, pelo ocidente. Ao como no livro moderno cNavires et Marins:., conclui-se
contrário, o comandante Quirino da Fonseca pretende que as suas velas eram análogas às dos pangaios india-
que as caravelas usavam velas tão planas como as dos nos. Naque'le erro, provàvelmente por minha culpa,
caíques do Algarve, velas que lhes permitiam cingir-se também caiu Quirino da Fonseca ( cA Caravela Por-
ao vento, que lhes seria praticável voltar da costa de tuguesa», pág. 602).
África a Lisboa bordejando contr a ventos e corren-
tes par a sul, sem necessidade de ir ao mar dos Açores m- Também errei afirmando que as caravelas
em busca de ventos favoráveis. viravam sempre em roda; fá-lo-iam quase sempre;
Não tendo até agora publicado a minha confe- mas, da mesma maneira que os pangaios, embora raras
rência de 1929, não só por falta de algumas fotografias vezes e com vento fraco, viram por davante, as cara-
de pangaios, como ·por esperar o resultado da contro- velas podê-lo-iam fazer assim também. Contudo, tanto
vérsia a que venho aludindo, procurarei concentrar as para os pangaios, como para as caravelas, o cambar
minhas objecções e respostas às afirmações de Quirino das vergas e velas teria de ser sempre feito por
da Fonseca. anteavante do mastro (por causa das betas das adri-
ças), operação esta que muitas vezes vi fazer aos
l!l este o intuito das Notas que seguem: pangaios.

I - Penso, como Quirino da Fonseca, que pas IV- Empreguei a palavra embolsar (as velas) ,
de documents, pas d'histoire (cA Caravela Portu- por formar grande bolso. Era uma formação análoga
guesa», pág. 221). Para estudarmos as navegações à de outras palavras portuguesas: embandeirar,
portuguesas, tão pobres de documentação, teremos embravecer, emagrecer, empolar, etc. Mas só me
pois que recorrer frequentemente a conjecturas,· mas prendo com ideias e não com palavras; adoptarei antes
estas têm que ser tecnicamente verosfmeis. A simples a palavra enfunar, que Quirino da Fonseca propõe.
opini,4o não justificada não é argumento histórico,
nem mesmo arqueológico. V - Só por equívoco eu poderia ter dito, na con-
ferência, que as velas embolsadas em balão se não
I I - Devo confessar, de início, que, por falta de podiam aproximar do plano da mediana dos navios
nitidez da fotografia do chaveco mouro que existia («A Caravela Portuguesa», pág. 89) , pois eu não igno-
na Escola Naval e se perdeu no incêndio, errei jul- rava que, por exemplo, os pangaios navegam assim de
A TÉCNICA NA NÁUTICA DOS D ESCOBRIMENTOS [ CAP.
I, Vl] AS CA R A V E L AS 165
bolina, ganhando francamente barlavento. Há na tndia
até barcos de recreio com as mesmas velas, chamadas e 15 centímetros de espessura, o que não admitiria o
as suas vergas prõximamente ao plano longitudinal propositado !orçamento da curvatura por meio duns
simples cabos.
por meio das ostas (ou guardins), e amuradas as velas
a meio. Naturalmente, elas enfunam para sotavento, Ora vergar é próprio das vergas~ devendo vergar
e tanto mais quanto mais fresco for o vento, não impe- as compridas vergas latinas das caravelas; mais
dindo que o barco de regata se chegue ao vento. grossas sê-lo-iam decerto as vergas dos panos redondos
das naus, e contudo, para não vergarem, tinham que
VI- :m natural que as velas enfunadas, à maneira ser aguentadas para cima por amantilhos. As vergas
das dos pangaios, não permitissem às caravelas o latinas não usavam amantilhos, como não usava a
chegar-se tanto ao vento, como fazem os actuais caí- caravela da Madre de Deus («A Caravela Portuguesa::.,
ques, e os barcos de recreio com fundas quilhas e vel.as pág. 94, fig. 11) nem nenhuma das figuradas em mapas
planas, à moderna. Com as suas velas de pangato, antigos, com os de Pedro Reinei ( cA Caravela Portu-
D. João de Castro virava em cerca de dose quartas. guesa», pág. 408); tão-pouco os usam os caíques com
De resto, é sabido que para a navegação de mar largo as velas içadas, como não estão figurados nos dese-
não está reconhecida vantagem em os navios aperta- nhos de caravelas de Roque Gameiro ( cA Caravela
Portuguesa», pág. 493).
rem muito a bolina. Chegavam então a levar fora o
cutelo do velacho. As vergas dos caíques são possantes, compridas
e flexíveis varas («A Caravela Portuguesa», pág. 477),
VII- Chamei caravelas transocednicas àquelas sujeitas, como as das caravelas, a vergar.
que se destinavam, não prõpriamente à navegaç~o
costeira mas também a ir ao mar largo, às qua1s IX- Os pangaios. No oceano tndico, ·como no
atribui ~ traquete redondo. Quirino da Fonseca não Mar Vermelho, são, de há muito, usadas velas especiais
propõe expressão mais adequada. triangulares, as quais, prõpriamente, não merecem o
nome de redondos nem o de latinos modernos~ porque
VIII- A págs. 611 de cA Caravela Portuguesa» andam mareadas constantemente por fora do mastro
afirma-se que no aparelho das caravelas não se com- e enxárcias, como o pano redondo. Do seu mastro pen-
preendiam cabos especiais, destinados a fazer curvar dem duas driças que vêm à poupa («Lendas da tndia»,
as vergas, para que o pano embolsasse. Estes cabos pág. 122), as quais ajudão a soster o mastro, o qual
ou ostas serviriam, pelo contrário, para amparar as é muito inclinado para vante. Quando mudam de
penas das vergas, limitando a sua curvatura com um amura tirão pola verga até que a imitão com o masto~
amantilho . Notar-se-ia que as vergas da caravela de e a passão a outra banda. Como as ostagas vêm à popa
180 toneladas tinham a meio comprimento ( sic) 25, 17 (c Lendas da tndia»), a verga só pode ser cambada
por antavante do mastro; assim, para facilitar esta
166 A TÉCNICA NA N Á UTICA DOS DESCOBRIMENTOS [ cAP.

passagem da vela, buscam ter o vento na popa, razão


pela qual em geral viram em roda, excepto em casos
de ventos muito bonançosos, nos quais, às vezes, viram
por davante. Aquela manobra, que ainda hoje vemos
praticar- na lndia continuam a não usar velas lati-
nas como as dos caíques-, era a mesma que Vasco
da Gama viu praticar às naos~ bogala8 e zambucos (da
palavra árabe zambuk) indianos, a que os Ingleses
dão o nome geral de dhows~ e os Portugueses chama-
ram pangaios, palavra esta que também se encontra
nos cronistas. Para Gil Vicente já são equivalentes as
palavras zambuco e caravela:

Hou lá~ não tombe o zambuco ...


E arrumar a caravella ... Pa ngaio

De acordo com o que se lê nas cLendas da lndia:.


(pág. 123), os pangaios têm uma entena lançada pela
proa, na qual às vezes amuram a vela. Assim, longe
de, como supõe Quirino da Fonseca, serem ronceiros~
grosseiramente rotundos~ bojudos, toscos~ primitivos
na fábrica e na serventia~ deficientes de qualidades
náuticas («A Caravela Portuguesa:., pág, 160), os pan-
gaios apontam muito pela bolina~ e correm muito à
vela ( cLendas da lndia»). Nos «Comentários», de
Afonso de Albuquerque, lê-se que um zambuco conse-
guiu fugir aos navios portugueses por andar mais do
que eles. Já o mesmo acontecera a Vasco da Gama em
Moçambique ( cLendas da lndia:., pâg. 32). Enfim,
Camões traduz a mesma ideia acerca das boas quali-
dades náuticas dos pangaios na est. 92.a do canto de
«Os Lusíadas» :

Outro aspec to do pangaio india no


f1IG. 2- Pangaio, visto por barlavento

FJG. 3- Pangaio, visto por sotavento


I, VI] AS C ARA V E LA S

Os pangaios sotis da bruta gente.

Notar-se-á que, na descrição da manobra dos pan-


gaios, que as cLendas da lndia» nos apresentam, se
não cita o facto de estes barcos virarem geralmente
em roda. Como o aspecto das velas, segundo os dese-
nhos de todos os barcos, tanto indianos como caravelas
e ga!lés, é o mesmo, concluiremos que também provà-
velmente todos eles viravam em roda, como os pan-
gaios. Tal é a explicação da falta de reparo de Gaspar
Correia.
De resto, os hábeis mareanteE! mouros do oceano
Indico ·c ontinuam tão satisfeitos experimentalmente
com as suas velas, que ainda não pensaram em as
passar para dentro das enxárcias, à maneira das lor-
chas da China, ou dos caíques. O que será, talvez, por
pensarem que seria navio mesturado aquele que empre-
gasse casco de pangaio - como o da caravela- com
velas de caíque, cujo casco raso é diferente dos que
vemos atribuídos às caravelas.
Não deixarei ainda de acentuar que as linhas de
água do pangaio são finas e ligeiramente convexas,
como só há meio século se usa na Europa; além disso
a casa-mestra fica bastante à ré da metade do compri-
mento, e o calado de água é a ré maior que a vante,
sendo a roda de proa lançada. Tudo isto, que vemos
agora nos modernos barcos de regata, teria feito sorrir
o carpinteiro mouro de Damão quando construiu, à
moda da Europa, a fragata cD. Fernando:. e a galera
«Viajante:..
De modo que, embora conheçamos os pangaios
por os vermos em Moçambique só depois de atraves-
sarem o Indico com a monção, não devemos esquecer
!68 A TÉCNICA NA NÁ UTICA DOS DESCOBRIMENTOS ( cAP. I, VI] AS C A RAV EL AS

que eles também iam a Suez, não remando, mas borde- seria inteiramente diferente das velas enfWladas por
jando contra os ventos do noroeste, dominantes no fora das enxárcias.
Mar Vermelho, talvez porque lá se não encontram as No «Livro das Armadas» idênticamente se vê que
correntes e o mar grosso da costa ocidental de África, as caravelas usavam sempre as suas velas triangulares
ao sul das Canárias, (figs. 2 e 3). à maneira dos pangaios. ~ certo que, como nota
Adiante veremos surgir grande analogia entre o Quirino da Fonseca, o cLivro» foi desenhado em mea-
velame das caravelas e galés e o velame mouro. Nota- dos do ~século XVI por quem nunca vira, nem talvez
rei desde já que todas essas velas conhecidas têm as pintadas, caravelas do Infante. Mas como, um século
vergas ostagadas mais ao meio do que os caíques, depois, no tempo de Fernando Oliveira ainda a cara-
sendo içadas por ostagas cujas betas ficam por antaré vela, de vela grande latina e redonda' avante, era a
dos mastros, e sendo aguentadas para barlavento e mesma do «Livro», há daqui a deduzir que, no fim do
para baixo pelas ostas, sem amantilhos a fazer de século XV, poderia ser que já houvesse caravelas
retenida, evitando a curvatura das vergas que se vê daquele mesmo tipo, como parece que eram as duas
na caravela da Madre de Deus (cA Caravela Portu- de Colombo, antes de transformadas. E se no tempo
guesa», pág. 94). do Infante se usaram velas planas diferentes das dos
Mouros, como são as do caíque, temos que aceitar que
X- Velas das Caravelas. Como se mareariam as elas evolucionaram desse tempo para o das velas enfu-
velas triangulares das caravelas? Só o podemos dedu- nadas, que o cLivro:. nos apresenta. O que seria uma
zir dos desenhos antigos, nos quais, como é notório, conjectura bem pouco provável.
invariàvelmente todas as velas, tanto redondas como Mais antigo é o quadro do Convento da Madre de
latinas, estão muito enfunadas por fora dos mastros Deus («A Caravela Povtuguesa», pág. 94, fig. 11), no
e enxárcias- e isto tanto com vento largo como com qual está pintada uma caravela semelhante, em casco
vento de bolina- exactamente como agora se vê nos e vela, ao pangaio indiano. As suas velas, ambas por
veleiros indianos. Tal aspecto é diferente do das velas sotavento do mastro e enxárcias, com as suas vergas
triangulares dos caíques e canoas, que hoje conhe- curvadas e ostagadas a meio, não são, absolutamente,
cemos em Portugal. comparáveis a velas de · caíque. Deveriam ser assim
Apesar de Quirino da Fonseca classüicar os dese- então as caravelas de cabotagem ou pescareza8.
nhos antigos como toscos, esboçados sem propósito, Enfim, no capitulo 150.0 da cCrónica de D. João ll»
ou de duvidosa fidelidade, bem característicos são, o Rei equipara as suas caravelas aos galeões de Roma;
entre out ros, aqueles que nos apresentam os cRotei- ora estes, segundo a gravura da pág. 96, de «Navires
ros» de D. João de Castro (figs. 4 e 5). De resto, os et Marins», ou como a da pág. 748, de Jal, usavam
artistas não poderiam ter sempre confundido a figura velas mareadas em balão, como as dos pangaios
da vela metida entre o mastro e as enxãrcias, o que (figs. 8 e 12).
!70 A TÉCNICA A NÁ UTICA DOS DESCOBRIMENTOS ( CAP.

Como disse, eram tais barcos indianos os que


transportavam as mercadorias da lndia a Suez, pelo
Mar Vermelho. Por esta via, e pelos mareantes mouros,
que viviam no Norte de África e na Península, cá teria
vindo a sua arte de vela. Ela se te·r ia conservado no
Mediterrâneo, como o prova um mosaico do tecto de
S. Marcos, em Veneza (fig. 6), no qual se nota uma
pura vela de pangaio.
Mas não é só dos desenhos antigos que poderemos .E.S fRITO, .
' ....

inferir a diferença entre as velas latinas antigas e as


dos ·c aíques: os Espanhóis («A Caravela Portuguesa»,
pág. 37) consideravam a caravela um barco perigoso:
csi no se sabe manejar com destreza y prontitud al
cambiar las velas, porque si no van uniformes, se
vuelca fácilmente:.. Ora esta referência não se pode
aplicar aos caíques, cujo virar de bordo é manobra
sem perigo; porque as suas velas fazem porta para um
e outro bordo, ao passo que aqueles barcos que, como
os pangaios, usam as velas por fora das enxárcias,
quando dão sobre, fica a vela aplicada sobre os cabos,
sem ,se poder cambar para sotavento nem arriar.
Assim se explica, segundo o desenho do «Livro das
Armadas», a perda da caravela de Bartolomeu Dias;
o vento lhe deu de csupito:. «COm as velas sôbre os
mastros e enxarceas por davante, com que as vêrgas
nom poderão vir abaixo, posto que prestesmente lhe
largarão as driças; e foy o pé de vento tão forte que
logo sossobrou quatro naos ... » («Lendas da índia»,
pág. 153). Tal não aconteceria com velas de caíque.
Embora haja divergência sobre se Bartolomeu Dias ia
em uma nau, ou em um dos navios redondos, de Casta-
nheda (e não na caravela que lhe atribui o «Livro»),
é de supor que Bartolomeu Dias, antigo prático de \
.·-"'-:-;-...~. <I

. ~.--· -.. -
FIG . 4- Desenh o do «Roteiro do Mar Roxo», de O. João de Cas tro
I, VI] AS CA RA V ELAS

caravelas, nas quais fora ao Oabo, destinando~se em


1500 a explorar a costa de Sofala, tivesse natural-
mente escolhido uma caravela, embora não tão exígua
como aquela em que, em 1497, foi para a lndia, contra
o que supõe Quirino da Fonseca (c A Caravela Portu-
guesa», pág. 146). Porquanto a caravela era, pelo seu
reduzido deslocamento e calado, o navio próprio para
reconhecer terras novas. Magalhães levou uma cara-
vela.
De resto, desde que a caravela derivou dos caravos
mouros, que frequentavam o Mediterrâneo, é intui-
tivo supor- até uma prova em contrário- que ela
usava as mesmas velas preferidas sempre pelos
Mouros: as velas dos caravos seriam como as que
conhecemos do oceano índico, ou as dos chavecos de
Argel. Mouros, ou descendentes de Mouros, foram
também aqueles hábeis marinheiros algarvios que tão
importante papel desempenharam nos Descobrimentos
Portugueses.
E, de facto, a comparação entre o aparelho e o
velrune dos caíques e as velas dos pangaíos, ou dos
desenhos antigos, não nos deixa iludir:
Os mastros das caravelas inclinavam-se para
vante ( cA Caravela Portuguesa:., pág. 334), embora
não tanto ·como os dos pangaios; as vergas eram osta-
gadas mais próximo do meio que as dos cafques; estes
não têm as ostagas dos pangaios, galés e caravelas,
às quais se não opõem amantilhas; as ostagas eram
duas e ambas sempre por barlavento, por a beta da
ostaga, a ré, impor o cambar da vela 'Sempre por fora
e por sotavento das enxárci•a s (sobolomasto).
Ainda hoje vemos velas à indiana nos barcos de
pesca de Argel, no buque (beta da ostaga a ré, cA Cara-
I, VI] AS CA RA VEL A S 173
A TÉCNICA NA NÁUTICA DOS DESCOBR IMENTOS [cAP.
Aceitando a conjectura natural de que as velas
vela Portuguesa:., pág. 442), nas muleta8, nos barcos
das caravelas não diferiam das dos pangaios e galés,
de pescadores da Madeira e de Vigo, nos barcos de
não se deve contudo supor como Quirino da Fonseca
vela do Nilo, etc.
(pág. 90) que o seu velame embolsado se não podia
Eis as .r azões concretas em que apoiei a minha aproximar da mediana: os desenhos antigos mostram
conjectura, ou suposição («A Caravela Portuguesa:., as vergas na mesma posição que as dos calques, sujeito
pág. 80), pretendendo que os antigos panos latinos o carro pela orça e a pena pelas osta8~ exactamente
eram concretamente diferentes dos latinos que usam como nas velas indianas. Assim, as velas das galés,
os caíques, modelo que se adoptou no timbre portu- apesar de enfunadas, não impediam bolinar plus prés
guês de Sevilha. Não se trata contudo apenas de uma du vent que o navio redondo (Jal, pág. 749). :m isto o
ideia nova, c tão credulamente sustentada:. (c A Cara- que ainda hoje se verifica com o pangaio.
vela Portuguesa:., pág. 80). Apoio-me nos vários mode- Enfim, é certo que nos museus- como ainda no
los do Louvre, e também em desenhos antigos de galés modelo de chaveco que havia na Escola Naval- as
(figuras 1, 7, 8 e 12), como no desenho da pág. 744, vergas estão içadas entre os mastros e as enxárcias:
de Jal, e ainda nos cSouvenirs de Marine». Em todos assim as içavam e assim as usavam algumas vezes
esses desenhos se verifica que as vergas não usavam nos portos, com as velas ferradas pelos moços~ caval-
amantilhos, mas guardins, assim como que as beta8 gando as vergas. Mas os ovens terminavam em mãos
das ostagas ficavam a ré a dos mastros, sendo as ver- e ·eram fixados às betas de tezar por meio de cavirões,
gas suspensas por antavante. Tudo como se encontra o que tudo tinha por fim facilitar o passar a vela
no aparelho do pangaio. para fora das enxárcias, quando a largavam para nave-
Não me inclino a aceitar, como faz Quirino da gar, de acordo com os antigos desenhos, tanto portu-
Fonseca ( «A Caravela Portuguesa», págs. 91 e 493), gueses como estrangeiros. Ao contrário, quando
que, no mar, as caravelas folgavam as enxárcias de arriavam as velas teriam de passar as vergas para
sotavento para, com vento largo, deixar enfunar as dentro das enxárcias.
velas à maneira do desenho de J. Brás de Oliveira
(«A Caravela Portuguesa:., pág. 479), o qual afinal XI- O cambar das vela8. Confirmando o que
concorda com os desenhos antigos. Ao contrário, as sabemos pelos desenhos antigos, que apresentam
enxárcias eram folgadas só para deixar que a troça sempre as vergas pelo mesmo bordo (sotavento do
mastro), temos ainda as seguintes informações
da verga a apertasse ·c ontra o mastro - como no dese-
nho da pág. 749 de Jal-, ficando assim o mastro históricas:
1.•- D. Jerônimo Osório conta que as caravelas
aguentado tanto para barlavento como para sotavento,
bolinavam em direitura e, para virar de bordo, muda-
não se correndo o risco de desarvorar com o balanço
vam o velame, sendo os Portugueses mUiito ligeiros
(figura 8).
174 A TÉCNICA NA NÁ UT ICA DOS DESCOBRIMENTOS [ C AP. I, VI] AS C ARA VELA S 175

passando o couto (carro?) das vergas de um para cido (figura 9), mostra a mezena francamente por
outro lado. Tudo o que Osório diz das caravelas se sotavento do mastro e enxárcias, como as velas redon-
pode aplicar à manobra de cambar a verga dos pan- das e como as velas dos pangaios.
gaios, quando viram de bordo. A única conclusão definitiva que há a tirar destas
2. a - Fernando Oliveira, escrevendo em 1555, informações é que as caravelas, de acordo com o que
conta que as vergas latinas eram trocadas de hum diz Escalante, nunca podiam mudar de amura Bin virar
bordo pero o outro sobolomastro; que os navios lati- las vergas, ou sem far el carro (Jal). E, nesta imposi-
nos requerem a tolda mais recolhida para ré, porque ção, as caravelas diferem dos caíques, que viram sem
dê lugar ao carro de ir a ré quando virão («A Caravela cambar as vergas, não lhes permitindo mesmo o com-
Portuguesa», pág. 134); que, de construção se previa primento do carro cambar a verga grande.
uma xareta, ou pavimento ligeiro, desde o chapiteu Se essa manobra de cambar as velas ao virar,
até avante o mastro grande, por respeito de virar as obrigatória para os navios latinos de então, tivesse
vergas; enfim, refere-se ao virar da verga, que he de se efectuar por ante-a-ré do mastro - o que a sua
latina. Todas estas referências se aplicam também inclinação, 10 a 15 graus para v·a nte («A Caravela
ao cambar das vergas dos pangaios, as quais vêm a ré Portuguesa», pág. 443) , muito dificultaria- teriam as
quando se vira, ficando pendentes sobolo mastro, por betas das ostagas que andar por anteavante do mastro,
causa da inclinação que ele tem para vante, como a como nos caíques, podendo o mastro ser aguentado
tinham as caravelas. Não tem aplicação aos caiques. para vante por um estai, cabo que não tem a caravela
3.a- Enfim, o espanhol D. Escalante de Men- («A Caravela Portuguesa», pág. 335). Além disso, a
donza, no «Itinerário », escrito em 1575, conta que os vela usada entre o mastro e a enxárcia, à maneira dos
navios latinos, ao virar de bordo, tienen necessidad caíques e canoas, não impõe a necessidad de cambar
de traer al pié deZ arbol el car y pasarlo por de dentro a verga.
de la xarcia, como se hace en todas las caravelas. :m Por outro lado, examinando os modelos de galés
este o argumento principal de Quirino da Fonseca e chavecos que nos ficaram, e estão reproduzidos nos
para defender a sua crença em que as caravelas portu- «Souvenirs» do almirante Baris, como a galéasse La
guesas usavam as vergas sempre entre o mastro e as Royale, os chebeks, o navio «Le Royab, a galé da
enxárcias. Ma·s, segundo se conclui da leitura do mesmo pág. 754 do «Gl.ossaire» de Jal, e os desenhos que re-
«<tinerário» de Escalante, ele 'só navegou em naos redon- produzo (figs. 1 e 7) , conclui..se indiscutivelmente que os
das e só· essas conhecia, sendo possível que nas naus, antigos navios latinos tinham as betB~s das ostagas por
visto elas virarem por davante, em 1575 já a mesma ante-a-ré dos mastros. Desta maneira, cambando a
vela sem importância, se cambasse por ante-a-ré do verga por ante-a-ré do mastro ~a-se morder a ostaga,
mastro. Contudo, pelo menos em 1492, a nau de e a verga não se poderia arriar nem içar em uma das
Colombo, segundo um desenho da época, multo conhe- suas posições. Por este argumento decisivo, só pode-
A TÉCNICA NA NÁUTICA DOS D ESCOBRIMENTOS [ CAP.

mos concluir que, pelo menos as velas latinas usadas


no século XVIII, eram exactamente como as das galés
de Roma (gravura da pág. 96 do livro cNavires et
Marins», fig. 8), de ·a cordo com o que afirmou
D. João ll a Pero de Alenquer, e com o que mostra a
reconstituição italiana da caravela cNiíia:., com a beta
da ostaga por ante-a-ré do mastro grande (c A Cara-
vela Portuguesa», pág. 365).
De resto essa disposição das betas chegou até
nós: vê-se nos barcos de pesca de Argel, nos buques
espanhóis (c A Caravela Portuguesa:., pág, 443) ; e,
quanto a ostagas içando de ré, assim as usam os
barcos de pesca de Vigo e da Madeira.
O autorizado Jal reconhece que as manobras das
velas das caravelas seriam idênticas às das galés; ora
como estas não podiam cambar as vergas por ante-a-ré
dos mastros, como mostrei, o que ·h á a concluir é que
J al ao dizer que as vergas eram cambadas derriere le
mât, sous le vent, ele se quererá referir a vento à popa,
posição esta do navio na qual atrás do mastro, ou a
sotavento dele, seria por anteavante.
Notarei ainda que a caravela (c A Caravela Por-
tuguesa:., pág. 334) que Quirino da Fonseca recons-
tituiu, segundo as indicações de F. Oliveira, não
poderia cambar a verga grande por ante-a-ré do mas-
tro, porque o mastro grande fica encostado ao pavi-
mento que dele corre ra té à popa.
Idênticamente, as caravelas latinas desenhadas
por Roque Gameiro ( cA Caravela Portuguesa:., pág.
493) admitem uma séria contestação: as suas velas,
inverosimilmente planas, estão, como de facto se
usava, todas por sotavento dos mastros; teriam pois
de as cambar ao virar de bordo; mas são tão compridas
FIG. 5 - Desenho reproduzido do «Roteiro de Goa a Oiu»,
de O. João de Castro
'

I, VI] AS CARAVELAS 177

que a verga grande, para ser cambada, teria de passar


por antavante não só do mastro, como também da roda
de proa. Apesar de a verga grande estar ostagada,
como a dos pangaios e as das caravelas do cLivro das
Armadas:., sensivelmente a meio, tal desenho não me
deu nunca a impressão de uma caravela, como as que
vejo nos desenhos antigos. Contudo, é esta, segundo
Quirino da Fonseca, uma «Crítica vaga que impressiona
o vulgo inconsciente:. ( cA Caravela Portuguesa:.,
pág. 494).

XII- A manobra de virar de bordo. :m sabido que


o cafque ao virar de bordo não camba as vergas (c A
Caravela Portuguesa», pág. 484), passando o vento
pela · proa, e ficando com as vergas, quando a barla-
vento, sobre os mastros, sem que a beta moa a vela,
por estar por anteavante do mastro. A rapidez com
que o caíque passa na linha do vento, não daria tempo,
sequer, a cambar o traquete. Quanto à verga grande,
ela não se poderia cambar porque a distância da ostaga
ao carro é maior do que o mastro acima da enora.
Quirino da Fonseca afirma que o cafque só acidental-
mente camba o traquete, para o pano preparar melhor
em bordadas longas; com vento fresco, ou mau tempo,
nunca o fazem («A Caravela Portuguesa:., pág. 167).
Ao contrário do cafque há, a respeito da caravela,
numerosas referências sobre a manobra de virar de
bordo (todas citadas por Quirino da Fonseca), de onde
se conclui que a caravela cambava as vergas sempre
que virava de bordo. Esta informação combina-se com
os desenhos antigos, que, como venho dizendo, mos-
tram sempre todas as velas por sotavento do mastro
e enxárcias.
11
A TÉCNICA NA NÁUTICA DOS DESCOBRIMENTOS [cAP. r, vr] AS CARAVELAS 179

Como tal impof!dção não existe para o caíque, Idênticamente uma das caravelas de Colombo, que era
mas existe para o pangaio - visto que a sua driça vem latina, foi feita redonda, trocando para redonda la vela
à popa- conclui-se materialmente que as velas trian- de en medio, ficando dois dos navios aparelhados como
gulares das caravela·s eram como as dos pangaios as naus («A Caravela Portuguesa», pág. 257), com uma
indianos- ou como as das galés de Roma- , barcos vela grande redonda. Assim, apesar do traquete redondo
estes que, pela disposição das ostagas e pela inclina- à proa- como na da figura 10- as caravelas espa-
ção do mastro para vante, viravam quase sempre em nholas, que não tinham gávea,. eram chamadas latinas,
roda, aproveitando o vento à popa para impelir o por causa de a vela grande ser latina. O mesmo acon-
punho da escota para vante, facilitando o cambar da teceu com as cinco caravelas latinas, que Vasco da
verga por anteavante, quando a cimitão com o mastro:. Gama levou consigo desde Lisboa, em 1502, as quais
( cLendas da India», pág. 124). Eis explicado o equi- levavam velas redondas armadas (c Lendas da lndia»,
voco de Quirino da Fonseca (pág. 140) quando julga pág. 270) , tornando, na índia, a meter velas latinas
irrealizável a manobra da caravela virando em .r oda (pág. 288).
para cambar a vela ·com vento na popa. Parece que Quirino da Fonseca crê que estas cara-
velas seriam primitivamente só de panos latinos, e que
XIII- Caravelas latinas e caravelas redondas. O a substituição seria da vela do mastro de proa - grande
que seria uma oaravel·a redonda? À falta de informa- ou traquete. Ora não há memória de caravelas com o
ções concretas- pois não há documentos a defini-la traquete latino; as caravelas de quatro mastros, das
- parece-me que se deveria seguir o critério moderno, «Lenda's da India» («A Caravela Portuguesa», pág. 409),
tão natural, chamando redonda à carave'la em que pre- por causa do gurupés e do seu estai, teriam o traquete
dominava o pano redondo e latina àquela em que o redondo sem gávea. Além disso, contra a opinião de
velame principal fosse latino. Quirino da Fonseca, a caravela meã, de F. Oliveira
Esta versão está de acordo com a figura da pág. (c A Caravela Portuguesa», pág. 321) , tinha dois redon-
69 da «Memória» em que Lopes de Mendonça, o cmais dos, o traquete e a cevadeira, não tendo gávea. Mas a
abalizado conhecedor do assunto» (c A Caravela Por- todas Quirino da Fonseca considera latinas (c A Cara-
tuguesa», pág. 520), classifica como redonda uma cara- vela Portuguesa», pág. 338). Não há memória de
vela cuja vela grande é redonda (fig. 10). Desta caravelas puramente latinas com mais de três mastros
suposta caravela redonda («A Caravela Portuguesa», ( cA Caravela Portuguesa», pág. 606).
pág. 692) Quirino da Fonseca discorda, sem argu- Quanto à caravela de Armada, Fernando Oliveira
mentos (pág. 608). claramente a define, não como barco exclusivamente
Sabemos que, para viagens largas, era corrente redondo ou latino, mas como um barco mesturado e
as caravelas chamadas então latinas içarem no mastro neutro, tomando dos latinos a vela (·a vela grande) e
grande um pano redondo, em lugar da vela triangular. dos redondos o casco: ficava assim um modelo no género
180 A tiCNICA NA NÁUTICA DOS DESCOBRIMENTOS [cAP.

das caravelas do «Livro das Armadas:. («A Caravela


Portuguesa», pág. 182) , cujo alteroso caste'lo lhes dá
casco semelhante ao das naus do mesmo cLivro».
A caravela de Armada seria pois diferente daquela
que Quirino da Fonseca reconstituiu («A Caravela Por-
tuguesa», pág. 334) cingindo-se fielmente aos aponta-
mentos do mesmo F. Oliveira para hua caravela de 150
a 180 toneis, a qual tem vela latina e casco de caravela,
e não de nau.
Não é a esta caravela nem à caravela de Armada
que F. Oliveira chama navio redondo, ao contrário do
que, insistentemente, mas sem argumentos, faz Quirino
da Fonseca; o que ele chama navio redondo (Lopes de
Mendonça, pãg. 164) é a caravela que, conservando a
sua forma própria do casco, toma do navio redondo a
forma da vela: «nunca me pareceu bem fazer da ca~a­
vela navio redondo . . . porque, mudando-se a forma da
vela cumpre mudar a fábrica do fundo». :m intuitivo que
ele se refere aqui, como no caso anterior, sempre à vela
grande. Assim a sua caravela de 150 a 180 tonéis, como
a caravela meã, apesar do traquete e cevadeira redon-
dos, seriam ambas consideradas barcos latinos. Caravela
redonda, para F. Oliveira, como para o arqueólogo, seria
a da pág. 69 de Lopes de Mendonça, já citada, a qual em
um casco de caravela, sem castelo, içava uma vela
grande redonda. Certo, com as suas palavras, F. Oli-
veira não pretenderia que a adopção do pequeno traquete
redondo significasse mudança na forma da vela que
impusesse uma alteração tão profunda na fábrica do
casco da caravela. De resto, como é sabido («A Caravela
Portuguesa», pág. 87) , tal vela levava-se por vezes
ferrada, desaparecendo o fútil pretexto para o pro-
testo contra a vela redonda. Portanto há a aceitar que

fiG . 6 - Mosaic o da Igreja de San Marco, em Veneza


I, VI] AS CARA VELAS 181

F. Oliveira se refere a uma caravela redonda por ter a


vela grande redonda.
Todas as caravelas desenhadas no cLivro das Arma-
das:. usam redondo no mastro do traquete: dificilmente
se poderá pois compreender que em meados do
século XVI, já tivesse sido esquecido que muitas das
caravelas das esquadras da lndia- às quais os cro-
nistas várias vezes chamam latina8- fossem de panos
só latinos, como aquelas caravelas exclusivamente lati-
nas que sabemos terem sido empregadas no século XV,
mesmo para ir à Guiné. De resto, é para duvidar que
tais barcos, destinados a montar o cabo de Boa Espe-
rança, passando-lhe cem ou mais léguas ao sul, usassem
na travessia desses mares tormentosos somente latinos,
no género das caravelas de três mastros, do Infante
D. Henrique. AB cinco caravelas da esquadra de 1502,
como as quatro de 1524 e as dez de 1533, todas cha-
I .
madas latina8, teriam sido, com toda a probabilidade,
navios de traquete redondo, como as caravelas de
Colombo- antes da modificação con la vela de en medio
redonda- ou como as duas de F. Oliveira, ou como as
que estão figuradas no cLivro das Armadas:.. Quem
poderá aceitar que as corenta caravelas latina8 que,
em 1539, partiram de Lisboa com socorros para Diu
eram todas de velas exclusivamente latinas?
Além disso se, no fim do século XV, Colombo e
os Espanhóis tinham reconhecido a utilidade de um
traquete redondo, como o das naus, nas caravelas tran-
soceânicas, não devemos conjecturar que tal progresso
só muito depois tivesse sido reconhecido pelos Portu-
gueses. O desenho conhecido da esquadra de Vasco da
Gama, em 1497, mostra a caravela de Nicolau Coelho
com três mastros, sem cesto de gávea, devendo içar à
1
182 A TÉCNICA NA NÁUTICA DOS DESCOBRIMENTOS (CAP.

proa um redondo, e no mastro grande, provàvelmente,


a vela grande latina. Seria, assim, o c..t:Sérrio», navio
análogo às caravelas .:Niõa» ou cPinta», de Colombo.
E de pres·ll.Ill.ir que, logo depois da viagem de Barto-
lomeu Dias, em 1487, se tivesse reconhecido que na
passagem do cabo de Boa Esperança eram preferíveis
os navios redondos, como a cS. Gabriel» e a cS. Rafael»,
construídos de propósito para a viagem de Vasco da
Gama («A Caravela Portuguesa», pág. 607).
Quanto às caravelas de Dias e Infante é aceitável
que já usassem, como as espanholas, um traquete
redondo: o que se induz das cDécadas» (1.0 vol.,
pág. 43), onde se lê que Bartolomeu Dias correu treze
dias com a vela a meio mastro, o que nàuticamente, se
não deve referir às grandes vergas das caravelas com
a vela grande latina a vante. Em todo o caso, desta
experiência de 1486 a 1487 resultou reconhecido que
a caravela seria imprópria para largas travessias por
mares tempestuosos (cA Caravela Portuguesa», pág.
607); donde resulta que as caravelas latinas, destinadas
à viagem da índia, não poderiam nunca ser puramente
lat:inas, como as do Infante, mas aquelas de redondo à
proa, que o «Livro das Armadas» nos apresenta.
Não há, nem os apresenta Quirino da Fonseca,
argumentos que nos indu~am a concluir ( «Repr. Artís-
tica», pág. 56) que se tivesse chamado latina só à cara-
vela de velas exclusivamente latinas, ou que tivessem
feito parte das Armadas da lndia- a não ser uma
desarmada em peças, a «Pomposa» -caravelas de panos
só latinos, às quais se teria dado o nome exclusivo de
caravelas latinas.
Eis as razões pelas quais, apesar de Quirino da
Fonseca repetir que as caravelas (assim como as galés

FIG . 7 - Figuração técnica de uma galé


I, VI] AS C ARA V E LAS

que usav•a m traquete redondo) eram só por isso consi-


deradas caravelas redondas, mantenho a conjectura de
que, no século XVI, como hoje, só era chamado latino
àquele barco em que predominava o pano latino de então
- anàlogamente aos chamados hoje navios latinos.
Assim não iríamos considerar redonda a galé de D. João
de Castro (fig. 5), que tinha traquete redondo, mas
só aqueles navios, como a caravela redonda de Lopes
de Mendonça, ou as de Colombo, cuja vela principal
era redonda: é o que fazemos com a barca de agora,
apesar de nela o pano latino ser tão importante que a
sua área se aproxima da área total das velas redondas.

XIV -A volta da Guiné pelo mar dos Açores. O


comandante Quirino da Fonseca admite que os navios
-ou pelo menos as caravelas- em viagem de volta a
Portugal da costa da Africa Ocidental pudessem vir
bolinando para o norte, contornando ·a costa; ao passo
que considera que as viagens em arco, pelo largo, seriam
viagens atribuladas em sacrifício inútil, as quais, se
as não praticavam, não era por falta de «conhecimento
do mar largo». Reconhece documentalmente (sic), na
pág. 615, que aquelas caravelas, de ordinário, vinham
directamente à ilha da Madeira e depois a Lisboa; e não
considera forçoso («A Caravela Portuguesa:., pág. 616)
que um caíque actua!l, vindo da costa ocidental de
Africa para o Algarve, prolongue a sua derrota até ao
mar dos Açores.
Apoiado nesta sua opinião, Quirino da Fonseca não
aceita a conjectura de que as ilhas de Cabo Verde, como
as dos Açores, foram descobertas acidentalmente por
caravelas- das que navegavam por toda a parte («A
A TÉCNICA NA NÁUTICA DOS DESCOBRIMENTOS (cAP. I, VI] AS CA RA V ELAS

Caravela Portuguesa», pág. 616) -no seu regresso a Não basta, portanto1 declarar sem documentos que
Portugal por oeste. as viagens de retorno, ainda no tempo do Infante
Mas a resposta é simples: o facto da existência D. Henrique, de ordinário se faziam àirectamente à ilha
das correntes e ventos gerais do norte era conhecido àa Madeira e depois a Lisboa, bordejando contra a vaga
já no princípio do século xv, impedindo a abertura do - por vezes tão cavada que já fez arribar vapores de
caminho da Guiné; este mesmo factor impõe ainda hoje maior tonelagem que as caravelas- e ainda contra
a volta pelo largo, como caminho mais prático para fortes correntes -que já Zwara (pág. 51) julguva
os navios de vela redondos ou latinos, de alto mar; «tamanhas, que navyo que l·a passe, jamais nunca
enfim, ainda no século XV, Diogo Gomes contava: podera tornar» - , e isto em barcos de duas dezenas de
metros de comprimento e cujo calado era reduzido («A
«E eu tinha um qwadrente ... » Caravela Portuguesa», pág. 239). Porque, para os náu-
«Eu e Antônio de Noli, do porto de Zaya, fomos dois ticos, mesmo que as caravelas de guerra artilhadas
dias e uma noite caminho de Portugal, e Vlimos ilhas no fossem navios idênticos aos actuais caíques (em velas
mar ... Chamamos Santiago à ilha ... » e casco) tais viagens directas só seriam possíveis aci-
«E depois vimos a .ilha de Palma, e em seguida fomos dentalmente, indo-se, junto de uma costa então mal
à ilha Madeira. E querendo ir a POI'ltugal, com o v·emto conhecida, aproveitar revessas e terrais; ainda que
ccmtrário fui às ilhas dos Açores ... » algum caíque tivesse pretendido voltar de Mossâmedes
a Portugal- ào que não há memória- o seu piloto
Já o P.e Antônio Cordeiro, na pág. 342, escreveu: não correria a aventura da atribulada viagem costeira,
e teria certamente preferido ir ao mar dos Açores,
«Como as ilhas de Cabo V •e.rde se desoobm,ram em como há séculos praticam invariàvelmente todos os
1543 (?) ... é de crer que destas vindo navio para Portugal navios, cujas derrotas deixaram rasto conhecido.
.deu no Norbe da Terceira ... » Por lá veio Colombo, por o ter aprendido em Por-
tugal, de onde partiu antes de Bartolomeu Dias voltar
Quintela, na pág. 75, .c onfirma a idei·a das viagens do cabo de Boa EJsperança: é certo que, se tivesse
pelo mar largo quando escreve que, «pela posição geo- tentado bordejar em demanda da Espanha contra o
gráfica das Canárias e a navegação que fazem os navios, vento alisado favorável, que em 1492 o levou às Anti-
na sua volta à costa de Portugal, ou de França, é moral- lhas, Colombo -como também os tripulantes do cafque
mente impossível que um deles não descobrisse a de Mossâmedes! -teria morrido de fome no caminho.
Madeira:.. E mais adiante, na pág. 127, observa, ares- Foi também pelos Açores que Vasco da Gama
peito de Cadamosto, ser indubitável que cna volta para regressou em 1499; e quanto ao seu piloto Pero de
Portugal não podia ser a sua viagem de simples cabo- Alenquer, se é que morreu na viagem ( cA Caravela
tagem:.. Portuguesa», págs. 233 e 616), ele provara antes conhe-
186 A TÉCNICA NA NÁUTICA DOS DESCOBRlMENTOS [cAP.

cer bem essa volta da Mina pelo largo, quando, com a


larga experiência que lhe atribui Lopes de Mendonça,
na pág. 51, afirmou a D. João II que era praticável
trazer da Mina a Lisboa qualquer navio redondo ou nau,
por mau de vela que fosse. Mas o Rei apenas queria que
se acreditasse que só navios latinos, como as caravelas
de Portugal e do Algarve, ou «OS galeões de Roma» - e
não os navios redondos, entre os quais julgamos que
não incluía a caravela de pequeno traquete redondo
-poderiam voltar da Guiné, contra os conhecimentos
dos ventos e correntes dominantes.
Enfim, é conhecido que, em 1487, Bartolomeu Dias,
cansado de lutar contra os ventos contrários da costa
sudoeste de Ãfrica, se decidiu- apesar de levar cara-
velas! - a meter-se no bordo do mar, em um golfão,
desconhecido, até que dobrou o cabo de Boa Esperança
sem o ver. Praticou assim uma rota análoga àquela
que se deve atribuir aos caravelistas que voltavam da
Guiné a contornar o alisado de nordeste, como Barto-
lomeu Dias, em 1487, contornou o alisado de sueste, de
cuja existência tanto ao sul ele deve ter sido o revelador.
Tudo isto a história indica que o próprio D. João ll
firmemente o sabia, apesar de não ser navegador, pois
fazia crer que «navios redondos não podião tornar da
Mina por ca·SO das grandes correntes, somente navios
latinos».
Há ainda outra indicação de que os Portugueses
visitaram os mares dos Açores na primeira metade do
século xv: na carta de Andrea Bianco, datada de 1436,
e existente em Venem- na qual aparecem as ilhas
dos Açores na sua posição real ao noroeste da Madeira,
o que resultou de linformações portuguesas-, está, um
cento de léguas a oeste do arquipélago, a indicação

Fw. 9 - A caravela de Colombo, segundo gravura de 1493


I, VI] AS CARAVELAS

cMar de baga:. (ou sargaço). Contra o que Quirino da


Fonseca supõe (c A Caravela Portuguesa:., págs. 232 e
616), não foram, portanto, nem Colombo nem Vasco da
Gama os primeiros a frequentar esse mar de sargaço:
verosimilmente os primeiros navios a passar tanto ao
largo foram as caravelas de retorno da costa de África
pelo caminho mai8 breve, o qual era uma rota em arco,
a cortar a região do alisado do nordeste, a proveitando
depois os ventos variáveis para ganhar a latitude de
Lisboa, e vindo de lá em demanda da serra de Sintra,
embora o vento norte fresco reinasse na costa de Por-
tugal.
Como consequência do seu equívoco sobre a proba-
bilidade de as caravelas do Infante só fazerem de ordi-
nário viagens directas, da costa de Africa para Lisboa,
cbolinando com vento por bombordo:. ( cA Caravela
Portuguesa», pág. 219); e apesar de ser conhecido que
Diogo Gomes, em regresso -não da costa ou das
Canárias, mas mesmo da Madeira-, teve neeessidade
de passar pelos Açores, como já passara por Santiago,
em caminho de Portugal, Quirino da Fonseca põe de
parte a versão (que não 'Criei) de que as primeiras
ilhas dos Açores, descobertas pelos Portugueses cerca
de 1432, o foram por acaso, em uma dessas viagens
de regresso de África.
Contudo, por um lado, a busca de ilhas problemá-
ticas ao ocidente pouco deveria interessar o Infante
D. Henrique, preocupado na passagem além do cabo
Bojador, que lhe abriria o caminho do conhecido
comércio da Guiné, tão compensador que valia então a
pena i)azê-lo por terra com a's caravanas de Marrocos.
Por outro lado, certas ilhas fantásticas arrumadas
nos portulanos do século XIV, ao norte da Madeira e
I88 I, vr] AS CARA VELAS
A TÉCNICA NA NÁUTICA DOS DESCOBRIMENTOS (CAP.

na latitude de Portugal, poderiam excitar a curiosidade Esta conjectura explica ainda a hesitação, tantas
dos aventureiros portugueses, a quem mais tarde tentou vezes secular, na passagem para o sul do cabo Bojador:
ignorando-se a possibilidade da volta da Guiné pelo
a América; mas, logo que tivesse sido reconhecido que
mar largo, receava-se que, contra vento e corrente,
nem às cem léguas da costa de Portugal, marcadas nos
nem as galés de Génova nem as caravelas portuguesas
portulanos - como nem cem léguas em torno - , não
pudessem voltar da Guiné à Europa bordejando ao
havia terra alguma nova (por os Açores ficarem a mais
longo da costa de África. E aqueles mareantes que,
de 200 léguas de Portugal), tal pesquisa de ilhas, cuja
durante tantos séculos, a limentaram tal receio não
existência era ignorada, teria sido sem hesitar abando- podiam deixar de ter razão!
nada. Quirino da Fonseca- a quem reconheço não estar
iSolado nesta sua inverosímil versão da descoberta pro-
positada- argumenta ainda com a identidade do nome CONCLUSÃO
corvo, «um tanto relacionado» ( cA Caravela Portu-
guesa», pág. 229). Ora a antiga ilha dei corvi é das :m conhecido que as velas dos calques, usadas sempre
maiores e das mais próximas do arquipélago fantástico; entre o mastro e a enxárcia e indiferentemente pelos
ao passo que, ao contrário, a ilha a que os Portugueses dois bordos do mastro, nos apresentam aspecto muito
deram o nome de Corvo está não a 100 mas a 300 léguas diferente daquele que notamos nos desenhos antigos
da costa de Portugal, e é a mais pequena do arquipé- de ,c aravelas, sempre de velas enfunadas. Tanto desses
lago. Onde está a relaçãof desenhos como de outres informações deduz-se que
Eis as razões pelas quais a conjectura de que os tanto caravelas como galés, pelo facto de usarem sempre
Açores foram descobertos no decurso de uma viagem todas as velas pelo mesmo lado de mastros e brandais,
de regresso a Portugal- com vento contrário, como eram obrigadas a cambar todas as vergas sempre que
aconteceu a Diogo Gomes- é nàuticamente muito mais viravam de bordo. O que não acontece com o calque.
aceitável do que aquela que admite que os navios do Tal manobra obrigava a passar a verga de um para
Infante podiam voltar da costa de Mrica bordejando, e outro lado por anteavante do mastro; para esta opera-
que os Açores, apesar de estarem ao mar largo, e não ção, quando a verga ficava prolongada com o mastro,
mais perto e à costa, como está o cabo Bojador, foram a vela era cambada com a escota, pela proa. Como a
buscados em viagens directas ao ocidente, anteriores esta manobra convém vento pela popa, o virar de bordo
à passagem para o sul do mesmo cabo. tinha de ser feito geralmente em roda. Assim se faz na
Não há documento algum que desfaça a conjectura fndia. Dos modelos de barcos antigos conhecidos, os
da descoberta acidental; o estudo dos ventos gerais do quais têm -como os pangaios- as betas das ostagas a
Atlântico -hoje tão fácil nas cartas de ventos publi- ré dos mastros, conclui-se que era geral nas velas latina8
cadas mensalmente- plenamente a justifica. antigas 'a imposição de virar em roda para as cambar.
A TtCNICA NA NÁUTICA DOS DESCOBRIMENTOS [CAP.

Tal tipo especial de velame continua, mesmo em


barcos de 400 toneladas, a ser o favorito dos experientes
marinheiros mouros da tndia, de onde vieram os avós
dos caravelistas do Infante D. Henrique, embora essas
velas árabes não permitam aos navios o chegar-se tanto
ao vento como o fazem os caiques e outros barcos lati-
nos modernos . . . Embora essas velas fossem perigosas,
porque, quando o vento saltava ao lado que tinha sido
antes sotavento, não havia tempo de arriar •a verga, e
como a vela não podia cambar por si folgando a escota
--como fazem ·a s dos caíques-as velas latinas •a ntiga·s ,
dando sobre, podiam causar a perda da embarcação ... P.IG. I O- Ca ravela
Apesar de todos estes inconvenientes, havia vantagens redo nda, do «Livro
superiores no uso das velas indianas; porque é certo das Fortalezas de
ei-Rei O. Manuel»
que se notam os mesmos defeitos nas velas redondas,
e elas foram contudo o pano favorito do período áureo
do navio de vela, no tempo em que havia naus de três
pontes, e grandes corredores de alto mar, os clippers
do chá.
Acrescentarei que se não encontram documentos
nem argumentos que se oponham à versão de que nos
fins do século XV e, provàvelmente, antes de Bartolo-
meu Dias voltar do Oabo já os mareantes portugueses
tinham experimentalmente reconhecido, como os espa-
nhóis, as vantagens do pequeno traquete redondo, vela
esta que tornava a caravela de cabotagem mais própria
para o longo curso. Assim o podemos inferir do facto
de o Tratado de Tordesilhas prever uma esquadra inter-
nacional de quatro caravelas, portuguesas e espanholas,
para a demarcação da raya.
Foi só muito rp.ais tarde que da combinação da
vela da caravela com a vela da lorcha chinesa - que
faz porta em torno do mastro - se originaram as velas

FIG. 12- Galé de Malta, segun do uma es ta mpa do século xvru


I, VI] AS CARA VELAS I9I

dos calques, como também as outras a que moderna-


mente se chama pano latino; mas o calque ficou sendo,
como a caravela primitiva, apenas barco de cabotagem.
E ra caravela, apesar do traquete redondo, foi banida
do alto mar pelos navios redondos.
Não era por puro capricho, nem para realçar as
faculdades decorativas dos trabalhos de artistas incons-
cientes, que a,s caravelas, como as galés e os chavecos,
usavam as velas muito enfunadas em balão, por sota-
vento dos mastros e enxárcias.
Por um lado, fora reconhecido que as viagens de
mar largo - e não de cabotagem -não impunham
barcos que chegassem tanto ao vento como os moder-
nos barcos latinos: conhecidos os ventos gerais, cujo
regime os Portugueses descobriram no século XV. con-
cluira-se que havia maneira segura de o navio de vela
ir a toda a parte, contornando os ventos contrários, em
derrotas indirectas, que evitavam a penosa e proble-
mática faina de bordejar contra o vento.
Por outro l'ado, nos antigos navios, ra ltos de borda
e de estabilidade deficiente ou mal conhecida, a vela
em balão tinha a vantagem de se ir levantando à medida
que o vento refrescava; o esforço do vento, tornando-se
de baixo para cima, não fazia inclinar tanto o barco,
como o fazem as velas planas actuais, e, diminuindo
assim o risco de o barco se virar, ele podia continuar a
reger o pano, sem necessidade de rizar, ou de tirar as
monetas, como se fazia com o pano redondo. Eis o que
ainda agora notamos, tanto n~s pangaios como em
alguns barcos de pesca, os quais nos surpreendem pela
sua moderada inclinação, mesmo quando sopra vento
fresco.
192 A TÉCNICA NA NÁUTICA DOS DESCOBRIMENTOS [cAP.

Em resumo, quer pela sua origem moura e medi-


terrânea, quer pelos desenhos antigos, e ainda pela
disposição das ostagas, há a concluir que as velas lati-
nas- como as das caravelas, galés e chavecos- se usa-
V'am sempre excessiV'amente enfunadas. De onde tam-
bém se conclui que será erro náutico o facto de alguns
portugueses atribuírem às velas das caravelas uma
representação artística que as faça assemelhar ao cafque
do Algarve, ou às canoas da picada, como se fez no
timbre da Exposição de Sevilha. Para não errar dever-
-se-ia antes copiar o tipo do «Livro das Armadas~, ou
das galés de Roma (fig. 8), ou do pangaio indiano
(fig. 3), ou dos desenhos .r eproduzidos na «Raccolta
Colombiana», figurando todas as velas das caravelas,
como as das naus, artisticamente enfunadas, por fora
Figura I
das enxárcias. Desenh o téc nico de uma galé
Eis as razões pelas quais continuo convencido de
que, com as conjecturas desenvolvidas na conferência
da Sociedade de Belas-Artes, fiz alguma coisa mais
do que tentar «impressionar o vulgo inconsciente» com
vagas críticas, «sem longos estudos prévios» («A Cara-
vela Portuguesa», pág. 494). Porquanto não há segredo
nem mistério na explicação das vantagens técnicas das
velas enfunadas das caravelas portuguesas: não se
trata, como acabo de mostrar, duma sugestão arbitrária,
«apoiada em argumentos que se possam pôr de parte»
(«A Caravela Portuguesa», pág. 625).
Enfim, ao pretender que o velame da caravela
portuguesa difere dos ligeiros caíques de nossos dias,
sendo ela neta do subtil pangaio, eu não deprimo o notá-
vel baixel dos ousados caravelistas algarvios: já há três
md.l anos que pangaios da India, seus av6s, cruzam o
oceano Indico com o mesmo velame usado agora. Foram

Figura 8
Duas ga lés, segundo gravu ra do sécul o XVI , existente em Bruxelas
I, VI] AS CARAVELAS 193

os ·s eus hábeis ·t ripulantes mouros quem trouxe ·ao Medi-


terrâneo as suas vela·s enfunadas. Certo, elas e11am
impotentes para vencer, directamente, os ventos e as
correntes da costa de Mrica além-Bojador. Admirável
foi, portanto, a inteligente acção dos colaboradores do
Infante D. Henrique, que conseguiram com as caravelas
contornar aquela dificuldade milenar, tornando-as
barcos de alto mar e descobrindo que as viagens de
volta da Guiné- como do largo do Atlântico -pode-
riam ser praticadas à vela, pelo Mar do Bargaço, como
o fazem os mais finos veleiros modernos. Eis as razões
nãuticas que explicam como foram descobertos os
arquipélagos dos Açores e de Cabo Verde, e afinal todas
as tantas ilhas do Atlântico que ainda conservam nomes
portugueses.
CAPITULO II

A ESCOLA DO MAR LARGO

ATLÂNTICO E COSTA DE ÁFRICA

SUMÁlUO:

I-Açores. A Volta do Mar Largo


li-Cabo Bojador. A Volta do Mar de
Baga ou do Sargaço
m- Cabo de Boa Esperança. A Volta
do Cabo
IV- Tratado de Tordesilhas
I - AÇORES. A VOLTA DO MAR LARGO

Ao estudarmos a Histór1a da Descoberta dos


Açores~ reconhecemos de início que são escassos os
elementos que nos restam para poder deduzir, com segu-
rança, detalhes sobre essa primeira revelação da capa-
cidade dos Portugueses como navegadores do alto mar.
O incêndio dos arquivos da Casa da lndia, em 175~,
tira-nos a esperança de se virem a encontrar novos
documentos sobre a época das nossas descobertas geo-
gráficas.
Até cerca de 1830 acreditava-se, como sendo a
mais provável, na versão da descoberta portuguesa dos
Açores há proximamente cinco séculos. Era o que-
por motivos que adi•a nte apontarei - se podia deduzir
da reserva significativa dos ·c ronistas, como Zurara e
Barros, e também do cEsmaraldo:.; e era o que se
apurara no dndice Cronológico:..
Foi por essa época que, com D'Avezac-tão hostil
aos navegadores portugueses-, ·se começou a suspei-
·t ar que os Açores teriam sido conhecidos já antes do
tempo do Infante D. Henrique, pretendendo-se que
os mapas do século XIV a:presentavam aquele arqui-
pélago desenhado com cnotável exactidão, salvo um
defeito geral na orientação:. ; o que era confirmado por
um manuscrito da mesma época. Tudo teria resultad9
li, t] AÇORES. A VOLTA DO MAR LARGO 199
198 A ESCOLA~DO.MAR LARGO-ATLÂNTICO E COSTA DE ÁFRICA ( CAP.
portugu~ses empreendedores e constituindo, ainda hoje,
de viagens ao Ocidente, das quais, inexpl.icàvelmente, se uma parte importante do território metropolitano.
perderam outros vestígios.
Tem-se discutido se estes documentos teriam sido
actualizados no século xv, depois das descobertas por- O cLIBRO DEL OONOSÇIMIENTO:.
tuguesas. Direi desde já que, pelo que se refere aos
Açores, tais retoques, se os houve, não revelam influên- O argumento capital que tem sido aproveitado
cia das ·v iagená portugliesas, pois o desenho daqueles contra 'a versão da descoberta portuguesa dos Açores
mapas opõe-se nitidamente à realidade geográfica, que é um manuscrito espanhol do século XIV, publicado em
1877 por D. Marcos de la Espada, cujo titulo é:
os pilotos do Infante provaram ter sido os primeiros
cLibro del Conosçimiento de todos los Reynos y
a conhecer.
Tierras y rSefioriOS».
:m certo que há professores modernos, como o O seu autor anónimo, um frade mendicante de
Dr. Jules Mees, que aceitam que as ilhas do grupo
Sevilha, pretende ter percorrido todo o mundo conhecido
central dos Açores, separadas por canais de menos de
na sua época, a Europa (incluindo a Inglaterra e a
seis léguas, podiam ter sido descobertas em anos dife- Islândia), a Rússia, a tndia, a China, Java, ·a África
rentes, ~sendo-o o ra lto Pico depois do Faial -professo- até ao golfo da Guiné (e talvez a Serra Leoa) e, enfim,
res esses que apesar de não mostrarem os conhecimentos 25 ilhas do Atlântico, compreendendo todas as Canárias
elementares de náutica, necessários para discutir via- e a Madeira, que são aquelas que se têm pretendido
gens de navios de vela, concluem com convicção que os identificar com os Açores.
Açores já tinham sido visitados antes daquilo a que Esta viagem, para cver las islas perdidas que llama
chamam a redescoberta ou o reconhecimento por- Tolomeu las islas de la caridab, teria sido feita a
tuguês. Contudo, é certo que dessa visita, em data bordo de un lefío (embarcação pequena de vela e remos,
ignorada, por navegadores ignorados, nem ao menos como a fusta) «Con unos moros»; depois de terem
ficaram, nos mapas geográficos, indicações que pudes- atingido a ilha mais afastada da África, a de los Cuervos
sem orientar outros navegadores. Tal visita resulta, Marines, voltaram ao cabo Bojador, donde tinham
assim, extremamente improvável. saido. ·
Com esta minha comunicação vou tentar demons- Ora, naqueles tempos não poderiam tão longas via-
trar que o critério dos antigos historiadores, do tempo gens por ~terra ter sido realizadas por um só homem,
em que era comum a prática da navegação à vela, pode andando a pé, mesmo que tivesse recursos. O pobre
continuar a ser seguido, como o propôs Pinheiro Chagas: frade foi, pois, mais geógrafo compilador que viajante.
porquanto não há fundamento técnico para deixar de Estudando ra sua viagem atlântica nota-se logo
de considerar entre as grandes navegações portuguesas claramente que o frade enumera as ilhas, que d~ cter
a Descoberta do Arquipélago dos Açores, povoado por
~ 200 A ESCOLA DO MAR LARGO-ATLÂNTICO E COSTA DE ÁFRICA ( CAP. li, r] AÇORES. A VOLTA DO MAR LARGO 20I

ido ver:., segundo o que leu nas antigas cartas catalãs, Enfim, tratar-se-ia de uma viagem não comercial,
caindo no mesmo erro de chamar Balvage e Desierta mas de exploração ou recreio, que naquele tempo um
a grupos de ilhas, e falhando, no grupo . de oito ilhas navio isolado não faria, porque as ilhas como a
ao norte da Madeil'a, as mesmas duas ilhas que falta.m Madeira- só com excepção das três Canárias orien-
nas cartas para aquele arquipélago dos Açores estar tais - eram todas desertas e sem recursos.
numericamente completo. Tão-pouco o frade mendi- Assim, se tentarmos ajustar esta viagem à ver-
cante nos conta alguns detalhes inéditos que, em uma dade geográfica, que hoje conhecemos, não será neces-
visita real às islas de la caridat, não poderia deixar de sário perspicácia para concluir que o frade não visitou
ter notado: não nos fa11a nas grandes alturas de Tenerife toda a série de i'l has que cita, e se limitou a imaginar
(3700 m) ou do Pico (2300 m), nem nos diz que a ilha de um cruzeiro, fi·ado nos portulanos do século XIV, de
8. Miguel é alongada e a maior do grupo, nem que a onde copiou, pela sua ordem, os nomes das ilhas. Om,
com mapas assim errados, nem mesmo um náutico,
do Corvo é a mais pequena. Enfim, não notou que a
conhecedor da navegação de vela e dos ventos do
ilha mais a sul do grupo, a Looo, não está a 25 léguas,
Atlântico, poderia inventar uma peregrinação marítima
e portanto perto de Porto Santo, como nos portulanos,
verosímil.
mas, pelo menos, a 150 léguas.
Portanto, o Libro- espécie de compêndio das
O frade conta a viagem como se, sem dependência tradições geográficas correntes da época- não passa
dos ventos -isto é, em navio motor-, tivesse suces- de um argumento infantil contra a versão da descoberta
sivamente avistado as ilhas pela ordem em que elas portuguesa dos Açores no século XV. Ele não prova
estão desenhadas nos portulanos! Ora, a remos, a sua mais que as cartas do século XIV; mas, visto que
viagem seria impraticável. elas apresentam outros deta:lhes, há que discuti-las
Tal viagem autêntica, embora não fosse feita pelo como se o manuscrito, delas copiado, não existisse ou
frade, exigiria que a bordo houvesse outras cartas tivesse sido composto no nosso tempo.
de navegar, diferentes daquelas tão erradas em que ele O Libro- que se provou ter sido acrescentado
acreditou, com distâncias e rumos aproximados para depois de 1400 - conta uma peregrinação inverosímil,
ser possível ir demandar ilhas tão afastadas umas das esmolando entre Java e a Serra Leoa, e prolongando-se
outras. Além disso a viagem entre as Canárias e a pelo mar fora até à ilha Cuervos Marines; a crença
ilha do Corvo está projectada contra os ventos domi- nesta testemunha ,t raduz, simbõlioamente, ·a facilidade
nantes: a ida deveria ser directa pelo largo, ao passo com que alguns publicistas aceitaram argumentos
que a volta seria sucessivamente de ilha em ilha. Esta contra a ideia da descoberta portuguesa dos Açores.
volta, que o Libro liquida com cinco palavras, ctorneme De facto, não há em documento algum, anterior
ai cabo de buyder:., conesponde ·a uma navegação de à descoberta portuguesa, séria referência ao arquipé-
mais de mil milhas! lago dos Açores.
, 202 A ESCOLA D O MAR LA RGO-ATLÂNTiCO E COSTA DE ÁFRICA [ CAP. li, 1] AÇORES . A VOLTA DO MAR LARGO 203

OS PORTULANOS DO S:mCULO XIV podem avistar, com tempo claro, a mais de cem milhas,
havendo exemplo de, no mar, se terem visto as duas
A MADEIRA ilhas ao mesmo tempo. · Pessoalmente, eu já vi Tenerife,
e a Córsega, e Santo Antão, a mais de cem milhas.
Passemos a estudar os portulanos e cartas do De resto, a Madeira fica a cerca de cem milhas
século XIV. Na parte em que eles dizem respeito .à do caminho directo de Lisboa para as Canárias;
ilha da Madeim (Legname dessas cartas), é certo que pode-se pois admitir que os navios antigos - talvez
já em 1351 a apresentam, com as Selvagens~ Deserta ainda do tempo em que Lisboa era moura- ao vol-
e Porto Santo, todas com os seus nomes modernos, tarem de Marrocos, com vento pontedro, passassem à
convenientemente ,aiTUmadas. A ilha está desenhada vista da Madeira.
em uma posição aproximada, segundo a distância e .A!ssim, os portulanos do século XIV revelam um
rumo -não magnético mas verdadeiro! - a que fica conhecimento náutico indiscutível sobre a existência
de Lisboa. Assim, na carta catalã de 1373, o erro em da ilha da Madeira (como de resto sobre a das Caná-
direcção é apenas de um grau. Tem a forma alongada rias), não se podendo contudo saber quando ·a ilha teria
de leste 1a oeste, e um por.to aberto ao sul, como está sido visitada pela primeira vez. A descoberta de Porto
o Funchal. Sómente se não explica o nome Deserta Santo e da Madeira, em 1418, a que se refere Barros
dado a uma ilha especial, quando é certo que, no tempo nas cDécadas», não foi uma verdadeira descoberta,
das cartas, todas aquelas ilhas eram desertas de gente; mas o reconhecimento de ilhas, embora mal conhecidas,
que o Infante D. Henrique pensou ocupar.
as Desertas emm então, como ainda hoje, habitadas
por pássaros e por focas.
Tais informações, tão cor.rectas, não as podemos OS AÇORES
atribuir ao acaso, nem mesmo à arribada, debaixo de
temporal, do inglês Machim: elas denunciam viagens Quanto ao arquipélago dos Açores, o caso é intei-
reais, de náuticos hábeis, talvez mouros ou portugueses ramente diferente do da Madeira, e tanto que a nomen-
- vista a exactidão do rumo e distância entre a clatura das ilhas dos portulanos não foi conservada: as
Legname e Lisboa-, navegadores esses anteriores ao cartas posteriores a 1339 - data do portulano de
InfantEl D. Henrique, que as mandou povoar, e até Dulcert, que ainda está limpo das ilhas ao ocidente
mesmo ao rei D. João I. -apresentam ao norte do grupo da Madeira uma se-
Recordemos que a descoberta da Madeira seria quência de oito ilh'a s- Lovo, Caprara, Brasil, Colombi,
elementar, porque as Canárias se avistam da costa de Ventura, San Zorzo, Conigi, Corvi Marini- cujos rumos
África e, ·s ucessivamente, umas da:s outras; além disso, e distâncias a que demoram, tanto de Lisboa como da
tanto Tenerife como a Madeira são muito altas e se Madeira, ~iferem fundamentalmente dos rumos a que
- 204 A ESCOLA DO MAR LARGO-ATLÂ NTICO E COSTA D E ÁFRICA [ CAP.
II, I] AÇORES. A VOLTA DO MAR LARGO 205

demoram os Açores. Estes ficam, não ao norte, mas de Lisboa, isto é, apesar de ser a mais afastada de
ao noroeste da Madeira. Aquele arquipélago dos por- todas! Notemos que este grupo Flores-Corvo, por estar
tulanos antigos, que se pretende identificar com os de facto isolado das outras ilhas, só foi descoberto
Açores - os quais seriam assim conhecidos desde vinte anos depois das primeiras -em 1450-, sendo
meados do 1século XIV-, tem com eles, como vou mos- portanto extremamente improvável o seu conhecimento
trar, mais incompatibilidades que semelhanças. anterior, que pretendem agora criar.
De uma manei·r a geral, as ilhas estão arrumadas Nos portulanos o grupo mais sul é formado por
segundo um alinhamento, prolongando o grupo da duas Hhas, das quais a maior, e a mais próxima da
Madeira pelo seu meridiano, que passa a cem léguas Madeira no Portulano Normal de 1351 é entre todas
J ' ' '

da costa de Portugal. Aparece já aqui uma profunda a mais afastada de Lisboa, tendo o nome Lovo (de lobo
divergência da verdade- apesar de confessada sem ou de ovo?). Como a ilha de Santa Maria, ·c om 570 m
importância por D'A vezac - porque a orientação real de altura, é em mesa, ao passo que a do Corvo, muito
do arquipélago dos Açores é ONO, pràticamente do mais pequena, tem de altit ude máxima 750 m, somos
nascente para poente, estando todas as ilhas, não a cem assim levados a considerar a ilha real, mais afastada
léguas, mas entre 220 e 310 léguas de Lisboa. de Lisboa, a do Corvo, que tem a forma de ovo, como
O desenho antigo apresenta dois grupos extremos, devendo corresponder à Lovo; mas o nome Corvi, da
de duas ilhas cada um, os quais correspondem aos ilha do norte, impedia esta identificação e, por isso,
grupos S. Miguel-Santa Maria e Flores-Corvo; há lá os criticas geográficos, condescendentes tiveram de
também um grupo central de quatro ilhas, que teria aceitar que o grupo ma:is sul seria o da maior ilha dos
de corresponder ao grupo de cinco ilhas: Terceira, Gra- Açores, S. Miguel. Contudo, a ilha do grupo que
ciosa, S. Jorge, Pico e Faial. assim lhe corresponde - a Caprara - é, nos portu-
Neste grupo central aparece uma ilha com o mesmo lanos, das mais afastadas de Lisboa, e das menores,
nome aotual, 8. Jorge, ao passo que no grupo do norte ao contrário do que se passa com S. Miguel!
a ilha Corvi Marini seria, dizem, a actual do Corvo. Enfim, o grupo central, formado da ilha destacada,
O grupo das duas Hhas ma:is ·a o norte está figu- Brasil (que seria a: actual Terceira), e de três enfiadas,
rado apenas a cem léguas de Portugal; como a sua ilha que se pretende serem S. Jorge, Pico e Faial, tem um
do norte é .a maior de todas e a mais próxima de desenho impossível de confundir com o das cinco ilhas
Lisboa; teríamos por isto que reconhecer nela a ilha centrais dos Açores, como se vê na carta.
de S. Miguel, realmente a maior dos Açores. Mas como A ilha mais norte deste grupo, San Zorzo, foi,
ela, nos portulanos, é a mais afastada da Madeira e por causa da coincidência do nome , identificada com
tem o nome Corvi, preferiu-se identificá-la com a do S. Jorge actual; mas a sua posição extrema no seu
Coroo, apesar de esta ser exacta.mente a ma:is pequen·a grupo só a poderia identificar com a Graciosa ou
de todas, e não estar a cem mas a mais de 300 léguas melhor, com a ilha do Faial, que é a mais próxima d~
~o6 A ESCOLADO MAR L ARGO-ATLÃ NTLCO ECOSTA D E ÁFRICA ( CA P. li, 1] AÇOR ES. A VOLTA D O MAR LARGO 207

Corvo, como a San Zorzo é a mais próxima da Corvi riedade do critério com que se pretendeu que os portu-
Marini. Nunca poderíamos identificar a San Zorzo dos lanos reproduziam com exactidão os Açores.
portulanos com a actual S. Jorge, cercada pelas outras Não há analogia no agrupamento das ilhas, nem
quatro do grupo, e tendo uma forma característica na orientação, nem nas distâncias à costa e à Madeira:
muito alongada. há apenas coincidência de três grupos e de dois nomes,
Quanto à ilha dei Corvi Marini, este nome é a que se conservaram acidentalmente, como se poderiam
única vaga parecença que ela tem com a ilha actual repetir mais outros, sem que isso denunciasse crença
Corvo, chamada em 1460 Santa Iria ou Santana, e a
em uma descoberta anterior. Os portulanos, com a
mais afastada de Lisboa. grosseria do seu desenho das ilhas ocidentais, têm
tanto valor como as referências antigas à Descoberta
Trata-se, pois, apenas de dois nomes repetidos,
da América no século XI pelos Vikings (nas suas 'l anchas
dados a ilhas em condições muito diferentes: a Corvo
a remos e sem coberta) , ou pelos Normandos, sem que
recebeu este nome, provàvelmente, por lá aparecer
essas referências tão pouco fundadas como o próprio
algum corvo, como há em muitas outras ilhas; e a
nome A nt í lia tenha m sido acatadas: tal ·a rgumento
S. Jorge por lá terem aportado no dia do Santo, ou
seria tão pueril que nem os mais acintosos detractores
em um dia ainda vago, e os marítimos terem devoção de Colombo o apresentaram. E dá-se a coincidência de
especial por S. Jorge, tão venerado dos Portugueses; ter sido a mesma Nova Ciênóa Náutica que levou os
análogo é o caso da baía de Santa Helena ao norte Portugueses ao mar largo e às ilhas do Atlântico, como
do Cabo, onde Vasco da Gama aportou em 7 de Novem- os Açores, aquela que, incontestada e aprendida por
bro, que não é o dia de festa da Santa. Colombo, lhe permitiu ir às verdadeiras Antilhas.
Idênticamente se poderia explicar a conservação
do nome menos vulgar - Antüia - dos antigos mapas,
a qual, sendo uma terra que nunca existiu, deu poste- OS AÇORES EM MAPAS DO S~CULO XV
riormente o seu nome às ilhas descobertas por Colombo,
as actuais Antilhas. A par dessas cartas com indicações tais que só
Enfim a ilha Ventura acusa vestígios do nome uma fantasia t endenciosa poderá pretender adaptar
antigo «<slas de los Bienaventurades», que estas ilhas à verdade geográfica temos, em cartas posteriores à
já t inham antes de aparecerem i)antasiadas nas cartas. passagem portuguesa pelos Açores, argumentos de
De todo este embaraço em decalcar sobre os mais · peso:
Açores verdadeiros, que conhecemos desde o tempo A carta de Bianco, datada de 1436 - quando
do Infante, as ilhas apresentadas pelos diferentes ainda não tinha sido completada a descoberta dos
portulanos ao norte da Madeira - que tanta dificuldade Açores -, apresenta a inda os fialsos Açores e a Antüia
tive em conciliar no meu desenho - ressalta a arbitra- na sua posição a nterior. Mas a oeste lê-se Mar de
208 A ESCOLA DO MAR LARGO-ATLÂNTICO E COSTA DE ÁF RICA ( CAP. Jl, 1) AÇORES. A VOLTA DO MAR LAaGO 209

Baga, que eorresponde ao ·a ctual Mar.~ Sargaç~., Es~ VALOR NÁUTICO DOS PORTULANOS
informação não poderia ter sido adiVInhada; Ja nao
se trata de uma conjectura sobre a existência de ilhas, Consideremos agora a questão debaixo do ponto
mas de uma vli.agem rea.'l a oeste, provàvelmente das de vista propriamente técnico, isto é, náutico.
caravelas do Infante, que, antes de 1436, teriam veri- Como se sabe, os portulanos ou cartas de marear
ficado naquelas paragens a abundância de ervas ma- tinham um fim essencialmente prático, qual era o de
rinhas flutuando. facilitar aos marítimos a sua navegação entre as dife-
~ de notar que, em uma outra carta de Bianco, rentes terras; eles deviam, portanto, ser só o resultado
datada de 1448 se encontram já os verdadeiros Açores, das informações de outros marítimos.
' .
a par dos falsos, sinal evidente de .que Bianco. consi- Ora aqueles navegadores, de cujas informações
derava as duas informações como mcompativeis. teriam resultado as ilhas ocidentais dos portulanos,
Na carta de Valsequa, datada de 1438, também ainda mesmo que não conhecessem cartas nem bússolas
os Açores aparecem na sua posição aproximada, ao não poderiam deixar de ter conservado uma ideia apro-'
noroeste da Madeira anotados com a. seguinte legenda: ximada sobre as distâncias e rumos da sua grosseira
'
navegação, à semelhança do que se passa com os Negros
cA questas illas for~am trobades per Diego de
no sertão africano : apesar de estes não disporem de
Guullen (ou SéviUe) pelot del Rey de Portogall an instrumentos, sabem indicar-nos com aproximação os
lany 1432» (ou 1427 ou 37). rumos pelo Sol e dias de viagem ~a que ficam as dife-
rentes terras.
Sobre o nome do descobridor têm-se levantado
dúvidas se seria Séville ou Sénill (Velho); mas sobre De resto, é conhecida a antiga tendência dos
pilotos para exagerar as distâncias navegadas: se real-
os descobrimentos não: é o das caravelas portuguesas,
mente se tivessem arrojado a ir 300 léguas em mar, até
do Infante D. Henrique.
Enfim, o globo de Behaim, datado de 1492, fixa avistarem a ilha do Corvo, com mais facilidade a arru-
ano de 1431 como o da Descoberta dos Açores, no mariam nos portulanos ,a 500 léguas de Lisboa do que
0
total de 10 ilhas, contando como uma as Formigas. apenas a 100! Assim teria acontecido com aqueles
Todas estas informações, por datarem da época pilotos de navegação tão larga que se ;a fastassem mil
em qu,e os Açores já eram realmente conhecidos, têm milhas da costa, para irem aos mares dos Açores, e
incontestàvelmente mais peso que o Libro do frade ainda tendo por lá tanta demora que 'n ão lhes esca-
mendicante, que pretendeu ter corrido - dig~os param as duas ilhas do extremo ocidente - identifi-
co-reporter! - todo o mundo conhecido desde a China cadas com Flores e Corvo; em algumas eles teriam
até aos Açores. Elas traduzem a data em que os Açores mesmo desembarcado, visto que lhes deram os nomes
foram, de facto, descobertos. sugestivos de coelhos, cabras, pombos ...
2!0 A ESCOLA DO MAR LARGO-ATLÂNTICO E COSTA DE ÁFRICA ( CAP. II, I] AÇORES. A VOLTA DO MAR LARGO 2II

Os portulanos não deviam, pois, estar errados; até uma ilha extrema, a Corvi, que seria das maiores,
por isso os cartógrafos confiaram cegamente nas suas como outros detalhes a que já me referi. Os geógrafos
indicações e uns dos outros foram copiando as ilhas. não podem deixar de .r econhecer, pela falsidade destas
Descobertos ' 'os verdadeiros Açores,
' 150 'l éguas a oeste, indicações, que as ilhas ocidentais dos portulanos não
consideraram os dois arquipélagos ocidentais como resultaram de descobertas reais, mas da fantasia de
terras diferentes, e por esta razão chegaram a dese- um charlatão, que a topografia fantãstica da Antília
nhá-los simultâneamente, como fez Soligo em 1455. faz ressaltar.
Outros, melhor informados, suprimiram as ilhas antigas,
para só aceitarem as descobertas pelos Portugueses.
Mas todos aceitaram os nossos nomes, postos pelos CONJECTURAS NÁUTICAS
pilotos do Infante, considerando-os assim os únicos SOBRE A DESCOBERTA MAIS PROVÁVEL
descobridores. Se outros lá tinham estado também, DOS AÇORES
a verdade é que dessa descoberta não ficaram provas,
porque as ilhas continuaram perdidas ou cobertas.
Conclui-se daqui que houvera pouco escrúpulo no Em presença da pobreza de fontes que, aos olhos
desenho do portulano original, que todos foram copi- de um náutico, possam ser indicio de uma viagem real
ando, sem terem a certeza da existência das ilhas aos Açores - visto que os portulanos não pesam mais
ocidentais- daquelas a que João de Lisboa chama do que a viagem do Frade, espécie de viagem maravi-
«<lhas não Descobertas»- como a ilha Mayda e a lhosa, escrita por um Júlio Verne da época, mais lido
Antília. Especialmente esta última ilha, quase tão grande que viajado -passarei a conjectUI'ar como, debaixo
como Portugal, aparece desenhada com tal detalhe nos do ponto de vista da navegação à vela, poderia maAs
contornos que sugere - mais que a forma geral das provàvelmente ter sido feita a descoberta do arqui-
outras, em triângulo ou semicírculo -uma prolon- pélago dos Açores.
gada visita real. Por isso, descobertos os Açores no A hipótese de D'Avezac- derivada dos nomes
mar que ela ocupava, não se atreveram a apagá-la, italianos das cartas - atribuindo a descoberta dos
e afastaram-na 200 léguas para o ocidente das Canárias, Açores aos navios de guerra portugueses do século XIV,
no caminho de Colombo! dos quais o genovês Pessagna era almirante, deve ser
}yfas hoje, conhecida a verdadeira posição geográ- posta de parte: esses navios eram só cgalees», pró-
fica das ilhas do Atlântico, já não podemos seguir tal prias para navegação costeira e para combate. Pode-
critério ; somente não-náuticos imprudentes poderão riamos admitir que, com esses barcos, cujo motor
aceitar que as ilhas ocidentais dos portulanos resul- principal e11am o braço humano e o remo, se tivesse ido,
taram de visita de descoberta a um •a rquipélago, quando muito, a cem léguas da costa, aportar à ilha
próximo e rao norte da Madeira, correndo para o norte dei Corvi Marini, se ela lá estivesse; mas a 8. Miguel,
212 A ESCOLA DO MAR LARGO-ATLÂNTICO E COSTA DE ÁFRICA [ CAP.
li, 1] AÇORES. A VOLTA DO MAR LARGO 213

a 230 léguas de Lisboa e em um mar batido dos tem- ~ certo que nesse tempo já se usavam navios de
porais do oeste, não se poderia tentar ir em barcos vela capazes de irem ao mar largo. Mas a versão de
de baixo bordo e pequeno calado, como emm as galés, Frutuoso traduz, da parte do Infante, uma confiança
nem mesmo havendo certeza de lá encontrar os recur- cega em que havia, ao largo de Lisboa, certas ilhas
sos do actual porto artificial. marcadas em um mapa, não decerto mais correcto que
De resto, as ilhas ocidentais não tinham ainda aqueles portulanos do século XIV, que chegaram
então tal importância para os marítimos que justi- até nós.
ficasse essa aventlH'a: se as vissem logo as abando- Ora se, no tempo do Infante, os portulanos lhe
nariam. Para que ir buscá-las tão longe, então? Se marcavam essas ilhas- tão misteriosas como a das
D'Avezac fosse náutico não teria abraçado estas ver- Bete Oidades - e se ele acreditou na sua existência,
sões, tão inverosímeis como é a do cruzeiro do Frade, apenas a cem léguas da costa, as suas pesquisas teriam
que ele aceitou por ler mal os mapas geográficos. que falhar, porque, como disse, só a mais de duzentas
Pouco ma:is de um 'século depois da descoberta léguas de Lisboa poderiam começar a aparecer ilhas.
do Infante, no tempo de João de Barros portanto, Fiado nos mapas antigos, um navegador apenas pode-
escrevia Gaspar Frutuoso as «Saudades da Terra». Já ria ir às ilhas Canárias ou à Madeira. Mas como a ilha
nessa época aparecia disfarçada a verdade acerca da mais sul dos falsos Açores, a Lovo, estava marcada a
descoberta dos Açores. Como corria que, em 1428, menos de trinta léguas de Porto Santo e a vinte da der-
fora trazido a Lisboa um mapa-mundi que tinha ctodo · rota directa de Lisboa para a Madeira, era desta ilha
o ambito da terra» - incluindo já o estreito de Maga- que se devia começar a busca. Assim, depressa os nave-
lhães e o cabo de Boa Esperança, como resultado de gadores se teriam convencido de que os portulanos
viagens dos Fenicianos! - , Frutuoso conjectura que estavam falseados.
deste mapa se teria cajudado» depois o Infante para Esta conjectura de Frutuoso é tão improvável
o descobrimento dos Açores, «se é que não o fez por como a ida às Formigas~ sem ter conseguido avistar
revelação divina, como alguns escreveram». Assim, na Santa Maria ou S. Miguel, e, enfim, como o conheci-
época em que Gil Eanes conseguiu passar o cabo Boja- mento do cEstreito de Magalhães»; se este estreito
dor, o Infante teria mandado descobrir terras ao Mar estava no 1Jelho mapa, fora lá desenhado tanto ao
de Oeste, ainda mais longe que o Oabo, o que é inve- acaso como os falsos Açores, a Mayda e outras ilhas
rosímil. Tendo falhado uma primeira tentativa, o do Atlântico!
Poderiam essas ilhas ter sido avistadas pelos
Infante, seguro da existência das ilhas, insistiu, e, da
navios que, ainda antes do Infante, faziam viagens
segunda viagem, teria Gonçalo Velho chegado às For-
entre a Península e o Norte da Europa?
migas; por fim, entre 1430 e 32 ele teria encontrado,
~ sabido que os ventos fortes do norte, da costa
em 15 de Agosto, a ilha de Santa Maria.
de Portugal- as nortadas- só se estendem a meio
214 A ESCOLA DO MAR LARGO-ATLÂNTICO E COSTA DE ÁFRICA ( CAP. II, I] AÇORES. A VOLTA DO MAR LARGO 215

caminho dos Açores. Assim, os navios que, para con- na:l que, sugestionando Colombo em Lisboa causaram
tornar essa .r egião de ventos contrários, se atrevessem a descoberta da América, seis anos depois do ' projecto
a afastar-se da · costa de Portugal não precisariam ir de Dulmo. De resto não era só nas cartas que vinham
a oeste do meridiano da Madeira para encontrar os indicadas várias Hhas a oeste: também a elas se refere
ventos variáveis, que servissem para montar o cabo o «Livro de Marinharia» do princípio do século XVI,
Finisterra. que se ocupa das ilhas de S. Francisco, S. Brandam,
Quanto às viagens de volta da Biscaia, quando Maydas-, etc., as quais só muito tarde se verificou não
soprassem ventos contrários, do sul, como eles se existirem.
estendem para o largo, nada ganhariam os navios de Mas, empenhado o Infante D. Henrique no traba-
vela em se afastar da costa: essas viagens para o sul, lhoso reconhecimento da costa de África, que se ·s us-
pràticamente, seriam directas. peitava de resultados práticos imediatos, e conhecendo
Donde se conclui que os navios empregados na a falsidade dos portulanos no que se referia às ilhas
navegação de alto mar, no tempo do Infante, não indo ao norte da Madeira, não é crível que ele ocupasse os
ao mar dos Açores, ignoravam a existência destas seus mareantes em viagens duv1idosas ao largo, de
ilhas. A'lguns, quando muito, teriam já verificado que preferência a tentar a passagem parn o sul do cabo
não existiam as ilhas, marcadas nos portulanos por forn Bojador, que lhe abria o caminho das terras lendárias
da costa de Portugal. Como poderiam os pilotos con- do ouro e marfim, que, por terra, se ·s abia virem a
cluir que, se navegassem para fora ainda mais outras Marrocos.
cem léguas, começariam a avi·s tar terras? E, de resto, se o Wante de facto mandou- como
Eis a razão pela qual o frade não nos contou a crêem alguns - reconhecer as ilhas que os mapas indi-
sua viagem a bordo de um «lefio» cristão do Mediter- cavam a oeste de Lisboa, por que razão, depois de
râneo, preferindo sujeitar-se a ser maltratado a bordo encontrar as duas primeiras do grupo oriental, não
de um barco de mnfiéis muçulmanos ... continuou logo o reconhecimento para oeste, à busca
Enfim, não há documentos, nem sequer memória das outras seis conhecidas, até atingir a Oorvi Marini,
de que- mouros, ou navegadores do Mediterrâneo- que era das maiores? O Corvo só foi achado em 1450.
tivessem empreendido viagens platónicas de explora- Afigura-se-me nitidamente que há toda a proba-
ção no Atlântico Ocidental. bilidade de tal busca geográfica, tão difícil, nunca ter
Certo, podemos acreditar que, de tempos imemo- sido praticada, por nada prometer_ Assim, eu sou
riais, corriam em Portugal lendas vagas sobre terras levado a uma outra conjectura mais natural, debaixo
ao ocidente -talvez as ilhas Afortunadas- •análo- do ponto de vista náutico.
gas à velha lenda da Atlântida. Elas teriam, em 1486, Tendo-se, em 1416, chegado ao cabo Bojador, que
motivado o contrato com Dulmo parn navegar mais já fica ao sul daJS Canárias, e reconhecido que ao longo
de quarenta dias além dos Açores- e foram elas afi- da costa de África dominavam os ventos e correntes
216 A ESCOLA DO MAR LARGQ-ATLÁNTICO E COSTA DE ÁFRICA ( CAP. li, 1] AÇORES. A VOLTA DO MAR LARGO 217

para sul, tornando a volta à Península, com os navios roteiros e cronistas, quando se referem ao segredo da
de vela, demorada e aborrecida, à mercê de revessas e
.
I Volta da Mina: fazia--se correr que os navios de velas
terrais, e pouco praticável, por muito larga, com as redondas, que se não podiam chegar muito ao vento,
galés, natural é terem os mareantes do Infante reco- e:vam incapazes para essa viagem, só possível às cara-
nhecido uma sug~stiva necessidade de praticar a nave- velas portuguesas, porque as suas velas latinas lhes
gação por fora da costa. permitiam chegar-se mais ao vento, e bordejar ao longo
Com esta orientação se teria imposto ao Infante da costa de Ãfrica, para norte. Assim, os náuticos,
D. Henrique a criação da chamada Escola de Bagres que hoje conhecem os ventos e correntes do Atlântico,
- ponto escolhido ao abrigo dos nortes da costa de compreendem bem as dificuldades encontradas pelos
Portugal, e com largo horizonte de mar- , na qual os raros navegadores que, naquela época, passaram para
cientistas da época, na sua maioria doutores judeus, o sul das Canárias: encontravam tão difícil a navega-
combinavam a prática das cartas hidrográficas e da ção de volta à Europa, · contra ventos contrários, que
navegação astronómica, isto é, a. maneira de, com o abandonavam a ideia de repetir as viagens.
auxílio geométrico dos astros, se conhecer, tanto o Não, aqueles aventurosos marinheiros não acre-
erro das agulhas como a altura, ou latitude. E é intui- ditavam na lenda das águas equatoriais a ferver, nem
tivo que lá se ensinava a levantar as cartas das regiões no mar todo coberto de baixios, nem na água a subir,
novamente achadas. ao aproximarem-se do Paraíso, em que nos fala
Habilitados com estes recursos geométricos, e Colombo: os verdadeiros monstros marinhos, do Mar
conhecendo experimentalmente o regime de ventos do Tenebroso, quais marcas vermelhas de direcção proi-
Atlântico, os pilotos das caravelas do Infante, para bida nas nossas cidades, não eram as 27 mil ilhas
tornar mais breves e menos trabalhosas as suas via- inabitávcis, mas o vento norte, contrário para quem
gens, afastavam-se da vista das costas. Iam no bordo queria voltar à Europa!
do noroeste, até que, esgotados os ventos contrários Daquela navegação, tão larga que, com os ventos
do norte, e caídos na região dos ventos variáveis, mais insistentes do norte e noroeste, que sopram de
enchiam a latitude, até atingirem, pelo astrolábio, no verão, poderia desviar os navios a mil milhas da costa,
mar largo, a altura de Lisboa. Tendo assim tomado s6 há vestígios de ela ter então sido praticada pelos
barlavento, faziam caminho directo para Portugal sem navios do Infante: foi fiados nesse recurso que, nas
receio de, com o norte da costa, chegarem sotaven- suas navegações, eles se puderam ir afastando de
teados. Lisboa, até à Guiné, à costa da Mina, ao Congo. E a
Esta navegação indirecta era conservada em própria viagem de Bartolomeu Dias, que passou para o
sigilo, e tanto que, ainda hoje, é corrente ler-se que, oceàno Indico, pelo largo, sem avistar o cabo de Boa
nessa época, toda a navegação dos mareantes era ao Esperança, denota a generalização daquele mesmo
longo da costa. Ela nos é revelada mais tarde pelos principio - contornar os ventos gerais - aplicado ao
2 18 A ESCOLA D O MAR LARGO-ATLÂNTICO E COSTA DE ÁFRICA ( CA P. II, I] AÇORES. A VOLTA DO MAR LARGO 219

Atlântico Sul. Era isto cinco anos antes de Colombo dade da ilha Corvi da nossa costa, era então tão
também o aproveitar, quando ele, em 1493, fez a volta pouca a fé nos portulanos, que Flores e Corvo só foram
das Antilhas à Europa, não pelas Canárias- por onde descobertas em 1450, como se disse.
tinha ido -mas pelos Açores. Desembarcando nas ilhas, e averiguada a sua
Ainda hoje os navios de vela praticam a mesma fertilidade, que se aliava a uma óptima posição geo-
derrota em arco, sem ser por uma espécie de capricho, gráfica para abastecimento dos navios que voltavam
mas porque ela lhes é imposta pelos ventos dominan- da África- ou do Ocidente - seguiram-se expedições
tes, cujo conhecimento as cartas modernas vulgarizam. de reconhecimento e colonização dos Açores.
Tal derrota tinha fatalmente de levar as caravelas do Quanto ao ano em que terira sido descoberta a pri-
Infante até os Açores. Assim foi sem dúvida encon- meira ilha, como ao nome do descobridor- apesar de
trado o Mar do Sargaço de Bianco, e é verosímil que Gaspar Fructuoso, nas cSaudades da Terra:., indicar
o fossem as ilhas desse mar, embora o segredo polí- como tal Gonçalo Velho, em 1431-, não temos ele-
tico na navegação impedisse que se contasse como lá mentos para discutir se ele foi como capitão de cara-
tinham chegado os Portugueses. velas, de facto, o primeiro a avistar a ilha de Santa
Nestas viagens largas encontra, pois, justificação Maria, ou se foi apenas o chefe da primeira expedição
a conjectura de que - fosse directamente, fosse por de ocupação.
indicação dos pássaros, a que Colombo, no seu Diário, Em resultado do segredo politico em que, com
atribui algumas descobertas portuguesas - na volta · astúcia, ,se conservavam reservadas as viagens largas,
da costa de Áfr ica os navios do Infante tivessem os falsos Açores ainda duraram um século em algumas
topado com algumas das ilhas do Sueste dos Açores- cartas, depois da descoberta portuguesa. Não convi-
Santa Maria, ou Formigas- muito afastadas da posi- nha contar que as ilhas tinham sido descobertas por
ção fixada nos portulanos à ilha Lovo, que moderna- navios que voltavam da .África, porque isso denun-
mente alguns dizem confundir com Santa Maria. ciaria as derrotas indirectas: Barros limitou-se a
Esta descoberta seria ainda mais autêntica que a escrever que cjá eram descobertas em 1449»; de resto,
da América, porque aqui não havia sequer nome de as cartas de navegar , muito guardadas, não puderam
anterior descobridor, ao passo que se citam, como pre- chegar até nós. E daqui ressalta a razão pela qual os
cursores de Colombo, os Vikings e o príncipe Madoc. cronistas como Fructuoso e como até o cEsmeraldo:.
Naturalmente, achadas as primeiras ilhas (antes e o «Livro de Marinhania» caiaram- ou desconhe-
do ano em que primeiro se montou o cabo Bojador) , ceram- esta explicação da descoberta dos Açores, tão
sucessivamente, à medida que as caravelas recolhiam natural para todos os náuticos, e à qual já se refere
de portos novos, mais ao sul da costa de África, a «História Insulana», de Cordeiro, publicada em 1717.
foram sendo descobertas as outras ilhas mais oci- Enfim, é certo que não conhecemos hoje, com
dentais. Apesar da identidade do nome, e da proximi- segurança, detalhes sobre a descoberta das Ilhas. Mas,
220 A ESCOLA DO MAR LARGO-ATLÂNTICO E COSTA DE ÁFRICA [ CAP.

em lugar de a atribuirmos a uns navegadores proble-


máticos-cartagineses, normandos, genoveses, mouros
ou catalães- que, se jamais fizeram navegações lar-
gas, e passaram pelos Açores, não nos deixaram outra
informação a não ser que havia a cem léguas da 008ta
de Portugal umas ilhas com mamíferos., o que é falao,
mais aceitável é seguir o critério dos geógrafos do
século XV: estes adaptaram a vemão de uma desco-
berta portuguesa - que a esses indiscutíveis mari-
nheiros de alto mar levou 20 anos a completar- e da
qual resultou o conhecimento definitivo dos Açores e
sua posição.
De resto, não há documentos, nem indício algum,
que nos levem a acreditar que os mareantes do Medi-
terrâneo, nos séculos XIV ou xv, soubessem navegar
no mar largo: eles não precisavam praticar navegação
astronómica e ignoravam o regime dos ventos no
Atlântico. Se o soubessem teriam descoberto a Amé-
rica. Somente sabemos que já antes de Cristo os
pangaios de mouros atravessavam à vela o oceano
Indico; mas esta navegação larga, única conhecida dos
antigos, era feita só à mercê das monções, que no nosso
Verão sopram do sudoeste, e no Inverno do nordeste.
Ao contrário, os Portugueses no século xv, obrigados
a J)azer navegação larga, tiveram que criar, no Atlân-
tico, essa Ciência Náutica. Foi procurando a oeste
ventos favoráveis para virem a Lisboa que chegaram
ao Mar das llhas. E fizeram-no primeiro que outros
navegadores.
Podia D'Avezac, na época em que não havia cartas
de ventos, ignorar esta técnica da navegação à vela;
mas hoje já não há essa desculpa para se acreditar em
viagens maravilhosas, de Catalães, Mouros, ou até Por-
li, 1] AÇORES. A VOLTA DO MAR LARGO • 221

tugueses, à procura de terras cuja existência fosse


incerta. A conjectura mais aceitável é, portanto, a da
descoberta acidental dos Açores, embora alguns cro-
nistas, para exalçar a obra do Infante D. Henrique,
tivessem preferido a versão mais nobre, a que hoje
chamaríamos a mais elegante: as Ilhas foram desco-
bertCJB por ordem do Infante!

Em resumo:

Não há certeza sobre quando e por quem foram


descobertos os Açores, mas temos bons elementos para
conjecturá-lo.
~ certo que há professores- dos que acreditam
que os pilotos do Infante não sabiam navegar fora da
vista de terra! - que se precipitaram a identifjcar os
Açores com algumas das ilhas ocidentais dos portu-
lanos do século XIV, visitadas por navegadores des-
conhecidos, e enumeradas no «Libro dei Conosçi-
miento:., embora tão diferentes da realidade geográfica.
As ilhas de oeste dessas cartas- chamadas Biena-
uenturadas no portulano catalão, de 1375- , tanto pela
sua proximidade da Madeira e da costa de Portugal,
como pelo seu agrupamento e dimensões relativas,
divergem tanto dos Açores que provam ser o produto
da fantasia do cartógrafo. Navegadores reais, capazes
de ir tão longe da costa, se as tivessem visto, em lugar
de trazerem detalhes tão errados, dariam informações
que facilitassem a redescoberla das ilhas. Conclui-se
que estas ilhas foram tão vistas como o foi a grande
ilha 'lendária Antília, que, com os seus cabos e balas,
s6 existiu naqueles mesmos mapas antigos! Contudo,
o seu nome foi aproveitado para as actuais Antilhas,
222 A ESCOLA DO MAR LARGO-ATLÂNTICO E COSTA DE ÁFRICA [ CA • U, r] AÇORES. A VOLTA DO MAR LARGO 223

como o foram os nomes 8. Zorzo e Corvi~ sem que, celosos do Atlântico, não passou de cartografo-inventor
entre as ilhas antigas e as modernas com o mesmo aquele que primeiro desenhou o alinhamento de seis
nome, seja possível estabelecer identidade. Enfim, sus- ou oito ilhas ocidentais, no mapa donde foram levia-
peitava-se a exdstência de ilhas a oeste, das quais se namente copiados os portuhmos d·os séculos xrv e XV,
ignoravam detalhes: a 8U8peita, por acaso, foi con- com a mesma fé cega com que o sábio ToscanelH
firmada. copiou, para a sua carta de 1474, algumas ilhas fan-
Por estas razões alguns cartógrafos, ainda do tásticas, como a Antilia e 8. Brandam.
século xrv, deixaram de apresentar as ilhas fantás- Desse invento efémero de umas ilha&, prolonga-
ticas, ao passo que outros, do século xv, atribuíram a mento para o norte do grupo da Madeira, e de que
descoberta dos Açores aos Portugueses, considerando só sabemos estarem especializadas zoolõ~camente em
estas ilhas, com outros nomes, diferentes das ilhas lobos, cabras, pombos, coelhos ou corvos, nada resultou,
antigas. como se tais ilhas- à semelhança da nha Misteriosa,
Em presença da escassez de documentos sobre de Júlio Verne- tivessem sido subvertidas por algum
primitivas viagens aos Açores- documentos que se cataclismo, restando, para memória, a grande ilha dei
limitam a uns portulanos, copiados uns dos outros, Corvi Marini, reduzida à pequena ilha actual, de uma
onde, a par de ilhas verdadeiras, se encontram outras légua, o Corvo, e arra·s tada 200 léguas para o ocidente
impossíveis de identificar, e portanto falsas - con- onde terminam os Açores! Tal !invenção, ainda que
clui-Se que são frágeis os argumentos para provar
tivesse excitado a curiosidade dos homens do mar, da
prioridade de outros sobre as viagens reais dos Portu-
Península Ibérica, não poderia originar descobertas
gueses ao Mar do 8argaço, cerca de 1431, das quais
porque, cem léguas em torno das ilhas dos portulanos,
tivessem resultado conhecimentos concretos. Para os
não havia outras terras além da Madeira e da costa
náuticos não há vestígios sérios de os marinheiros do
de Ãfrica ou da Espanha.
Mediterrâneo se terem jamais aventurado ao largo das
costas, na incerteza de encontrarem terras que, de Contudo, •a queles mesmos que negam aos pilotos
resto, lhes seriam inúteis. A fuga dos Cristãos, perse- do Infante competência ou audácia para navegar fora
guidos «em sete naus para a ilha das Bete Cidades», das wstas da terra partilham a opinião de D'Avezac
ao mar da Ibéria não passa de uma lenda romântica! sobre pretensas descobertas de oito das ilhas dos
Enf~m , as galés eram impróprias para extensas via- Açores- não se sabe por quem- antes dos Portu-
gens de mar; e os navios de vela do comércio para a gueses. Ao lado desses fanáticos dos portulanos resta-
Flandres não precisavam nunca afastar-se mais de -nos fazer ressaltar a independência de critério com
cem léguas das costas. que um historiador moderno, Prinheiro Chagas, se pro-
Somos ·a ssim levados, em boa fé, a reconhecer que, nunciou pela probabilidade de os Açores serem desco-
à falta de informações de navegadores dos mares pro- berta portuguesa.
224 A ESCOLA DO MAR LARGO-ATLÂNTICO E COSTA DE ÁFRICA ( CAP.
li, 1] AÇORES. A VOLTA DO MAR LARGO 225

De facto, se os portulanos são falSos, não é falsa cimento português que a Humanidade deve registar
a ciência náutica dos pilotos do Infante: praticavam, com letras de ouro, porque simboliza a primeira grande
sem dúvida, a navegação larga, e tanto que foram com viagem europeia de mar largo, a qual veio demonsh-ar
as suas caravelas aos Açores, que estão mais longe de a possibilidade de outras grandes travessias funda-
Lisboa que o cabo Bojador. Seguiam as derrotas lar- mentais oo Atldntico, como a de Bartolomeu Dias a
gas que os ventos do Atlântico impõem, na viagem de de Colombo, e a de Vasco da Gama. A descoberta dos
regresso a Portugal. Açores foi, portanto, de extraordinário alcance prático.
Mais natural é aceitar, pois, que os Açores foram Esta foi obra incontestável de navegadores, não
descobertos em uma dessas viagens - cujo roteiro se lendários mas re&s, que, sem o terem adivinhado nem
conservava secreto -do que em resultado de busca copiado, com a sua longa e penosa experiência desven-
das ilhas perdidas no imenso Atlântico: porque é anve- daram o segreoo oos ventos do Atldntico- co sentido
rosimil uma tal viagem de exploração, tanto ao largo, único» das ~otas à vela- e assim estenderam as
com incert0za de encontrar terra, e isto na época em suas navegações até ao mar dos Açores. São estas via-
que ir ,ao longo das costas, ,a té dobrar o Bojador jã gens as únicas que, como História, se podem tomar a
era uma façanha. Falta-nos, de resto, provas de tais sério.
pesquisas: ,a s ilhas de oeste tental'I8.Ill tanto o Infante Esses descobridores compreenderam a utilidade
D. Henrique, como mais tarde o projecto análogo de prática daquelas ilhas, e logo as ocuparam e povoaram.
Colombo não tentou Génova, nem D. João II. Eram Pela sua posição, elas continuam sendo passo obrigad,()
todas terras de lenda! da navegação à vela, como é provável que o venham a
Assim, da mesma maneira que se reconhece a ser das aeronaves. Toda esta sequência não derivou de
prioridade da's descobertas de Colombo e Cabral- viagens de navios corridos por inverosímeis tempesta-
apesar de o planisfério de ToscanelH já indica.r terras des atldnticas de ventos de leste - os levantes do
a oeste - , porque foram essas viagens aquelas de que Mediterrdneo ... Essa sequência inteligente foi obra
há provas, e aquelas que tiveram sequência e impor- de navegadores auMnticos, que deram à8 suas ilhas o
tância, originando o brilhante futuro das duas Amé- nome actual, Açores, e que ficaram definitivamente
ricas, idênticamente. apesar da existência dos portu- sabendo que elas se encontravam não ao norte _,.o
' ' """"""
lanos, com ss suas ilhas ocidentais (e aM, talvez, com «cento e setenta léguas ao noroeste da Madeira-.. Eram
o cabo .d e Boa Esperança e o estreito de Magalhães), hábeis mareantes, que iam ao mar largo sem ser por
legitimo é aceitar e celebrar a Descoberta Portuguesa um desporto de romance de aventuras, escrito por
oos Açores. quem nunca lá foi. Eles, de todas as terras que acha-
Tivesse ela sido intencional, à procura das ilhas ram, ficaram sabendo como lá se voltava!
fantásticas, ou, como é mais provável, tivesse ela sido Podemos pois aceitar que esses, os primeiros que
por acaso, à volta da África, el•a constitui um aconte- de facto se revelaram capazes de navegar no Atlântico
15

226 A ESCOLA DO MAR LARGO-ATLÁNTICO E COSTA DE ÁFRICA ( CAP. II, I] AÇORES. A VOLTA DO MAR LARGO 227

Ocidental, são os mais prováveis descobridores dos iSOilt pas 1oin .en mer, lsidore 'le dit a:iMii dans 150n xv•
Açores: livre. 1Ces Iles ISOilt appe:lées Fortunées, C8il' dles sont ebon-
Os mareantes das caraoolas do Infante D. Hen- dantes en :tous bien, en blés, en :f ruits et arbres . .Les paiens
rique/ suppose:nt que là 50i:t :)e 1P•adis, en ~raison de ·l a doutt
<:ihaleur du solei] et de ·l a :f.ertiüté de Ja t«re.
·l sidooe dit aussi que :les erbres y croissent eu moins
NOTAS: de 140 p:ieds et portent beeucoup de fruits et d'oiselwx.
On y :t:rourve :d u miei et du :]!tit, surtout dans l'IJ.e. de Ca.pl'lie,
INPORMAÇAO SOBRE A OARTA OATALA DB 1375 a.iinsi appelée ·de 1la multitude de chêvres qui l'habitent.

L'dnsu'la de iMan:. est plade au sud ~ flrland. GROUPB >DB MADBR.B (DU NORD AU SUD)
•En :faoe du 1Portugal C'ODllmencent ~les iles Beneven:tu-
111111des. Voiid leur Oidre ldu nord au su:d: tP orto Santo
•l nstde de ·lJegname
lnsu'l a de Corvi Ma.rini IMula de:sante ·( desert~e?)
U tCon:igi lnsuia Salvat~.
San Zorzo
Insula (ie la Ve:n.rtwe :('l a plus grande). L'AB'l'RoNOMII!l NAU'l'IQUE AU PoRTUGAL, por Josquim
Li Colombi &n.saúde, pág. 85.
lnsula1 de 'Brazfl.

A iJ.'ex~ OCIC:ilcfentta!e de ~ carte et à ·l a hauteur


des deux .Hes septentrionales (Col'VIi Marini et Li Ccmigi)
commence un:e 1lanigue note qui s'~d jusqu'a.u dessous
:Cks Oanades. 0n y :trouve d'a'bord d:es ll~s Beneventu- ...1legu:e la ·l a tien:oa de los negros a vn cabo qUe dizen
rsdes et plus ~oin tires lles Fortunacles. Buchon et Tastu de :buydetr que le:S dre1 Rey de guynoa çerca de ia mar
ll'éuznlissent :ees :deux ~gna't!ions dalns de seul ttit!re dtlles y :ally 'faille moros y j u'd4os y sabet que desdetl .oabo de
Fortunêes. buyder lfasta d ·R io de'l oro son ochoçi:entas y sessenta
m.illas !toda :t ierra desehitad&J y d~tste Jogar se tnmo d
ILBS BBNBVBNTURA>DBS pan'filo Je yo &que ally Vin tiempo y 'ruy 'Wil' las listM
perdidas que Hama :toldm:e o 1las islas Ide la caridat y stabed
,~,;es i Jes...Fortu.n&s sont SUlr 'l a tgrandie ~. du côté d:e que d.:es:dJe e1 cabo de buider tfasta ptime:ira isia soo
,Ja main gauc::he, toudumt ·l a limite de .f~: elles ne XC millas.
228 A ESCOLA DO MAR LARGO-ATLÂNTICO E COSTA DE ÁFRICA ( CAP. li, 1) AÇORES. A VOLTA DO MAR LARGO 229

Sobi en Vtn leíio oon Vtnos moros y Ue-gamos a la Le portula:n méldJi.OOen ne td onne point 'l e nom de CJhacoo.e
primel1a isla qUJe diZielll g.res.a y apres della es ~a iisla de des iles, ma:is tiJl .leur att.rilbue, ;par -groupe, une appeJ,l ation
']anç:a:rote y <lizen de asi porque 1las gentes desta isl.a •COmmUlne, c.omme Insula de Cabrera pour 1-es deux rles de
mataron á vn gin•a oes que ldezian lançaroite y dendre fuy Saint.,Mard.e, et Saint-·M icllel, insule de V enture sive de
a otra isla que d~Zielll bezimarin y otra que dizen ·R achan. Colombis, pour ,Jes ·tlrois iles de Sa:in:t Geooge, Faya.l e t
Y lden:d:e 1a1 ollra que di:ren ail~ça y otra que dizen Pico, d insule de Corvirvis Marinis, poU!r les deux illes de
Uegimar y otra qwe diz·en .forte V/e:lltum y ottra que di:ren Corvo ;e!(: .F lores; Tlelrieêre seule lét son dénominatlion propre
ca.naria y ;fuy a otra que diizen .tenttetfiz y a otra que !diZielll de insula de Brasil. Mlalis les ca.1'ltes ·ul~eUttS nous oUren.t
la isla deil mfilerno y fuy a o1tra que di:ren iQ'ODlerB Y a otlrlar une nomte<ncla'tU!re oomplete, qm ronse'r'Ve ISiél phy&ionomie
que dizen .Ja :isla :de ~o fero y a dllra qUie diZielll lélll1algau:ia i;tlalli~e mêm.e sU!r 'res oart1es mtalanes de ;P aris (:1375)
y a Ot:M que :diz.en saluaje y a otra 1q ue dizen la .is11a dresiertla eJt de Naploes, et ·q ui se :retrou~ e:ncore sur Ja carte d' Antl.ré
y 1a dt.ra que ld:izen 1ecmane y lal otlra el puerto santo y a Bianoo dJe '14<36, bien que dé.fi.g,wree dans 'l'~n!hal»le ldéch'i!f-
dtra ,}a ds1a :d:e1 !lobo y a ()t:ra la :i sla de rias cabras y a otra :I a ,freune:nt de Forma.léoni.
isla dei masil y la otlra ·l a oolunrba!ria y a otra la lisll a de ~a Petii!Je e ll"'OIl'de, Sa.int-!Marie apparut comme un oeuf
VIOO'tura y a otra :} a :isia de ISianlt jooge y a otra la ysla de ios à 's eiS premie.rs d1écouvreurs, qwi l'aJllpelerentt en consé-
oonejos y a otra la lislla .de 'los cueruos marinei'S Y en tail que:noe l'Uovo, l'Ovo ou fObo swvant la lectlulre dout.eu-
.manrera que son :veyn.ltle y cilllK:o y.slas. s e~ment .ex·a cte ·de F.ormaléoni. Saàn!t-iM-íclte'l qui ·I eur offrit
Tomelme al cabo d:e rbuyder donde ~sat'ly y ,fuyme por ISiaillS doute Ides itroupeaux de dhêV!l'leS, .reçut d'eux ~e nom
iLa za'ara con vnos moros que Ueua.u:a.n oro aJ Rey de gu:inoa eLe Cabrera, Cabraria ou peut-être Chaprera, que Forma-
en Cl81Dl.ellos ... léond a Ju Cha.pesa. Teoce.re, ou 1a ltroisieme, que .J.es
IPortugais appela'i.etnt auparavant ile de Jê>sus ou du Bon
LIVRQ DEL ICoNOBÇIMiiENTO DE TODOS LOS ~EYNOS Y 'Jésus, est .fameuse par son non pr.imi,tif d'insula de Brazil,
TIERRAS -Madrid, JW- pág. 49. ou !Oelr.balillls ll"êv'eurs ·c royaient tlrourver, COD1Jire dans cdu1
d'Antilia, 'la revélation de qru:elque notion a:nticipée de
l'Am'érique, tandis qu'i'l s'agissadt uniquement ici d'\1'111 bois
de 'te'inture, qui abonda&t dans l'ile, comme il abonde sur
,Ia t~e~rre-fernre du B.re.si!l.
lil est .oe:rta:in que l'eiS (:l8ll.'ltes du quatorz.ieme Sliecle, en Saint. . George garde encotre sa denomina.'tion origd-
remorutant j'UISiqu'eu portula:n ~dioéen de 1:3<511, nous tnaiire, Sain-Zorzo, San-Zorz:i, ou Sancto-Zorzi, due sans
dffrent .t out l'arch~pel des Açore5 dess inê aJVec précision doote i8IU patxon du jour ou elle Lf,u t !albordée pour la pr.e-
'e t ~tail, :e t éWe'C Ulllle r emarquable .e xaotitude dans :te gxou- miere lfois.
:pemen.t Ides iles, saU'f ·u:n délfaut glénléral d'orienltation, qui Fayal, qJUe SJeS 1foretr.s .de ihêh"es ont fa:it ainsi appeler
~:es a'ligne :du nord au su:d au 'lieu du n.ord-ouest au sud.-est. 'V'er'S .Je mirlieu du quinzieme siede, <Wait été vis:ttée plus
li, 1] AÇORES. A VOLTA DO MAR LARGO 2.31
2.30 A ESCOLA DO MAR LARGO-ATLÃNTICO E COSTA DE ÁFRICA ( CAP.

européenne que les iles a.ctueHes, avec un ~fa.Uit gênéra•l


d'.un Stiede a.upacazvant, et peut-être la prem.iere de toutle:s,
d'orien.ltaltlion IIWl"<kmL Les premiêres cartes ol1 il est tiracé,
sous i'.influenc.e d'une rtempête qui y conduisit léiiCciden~
son:t l'atllas med.icéen ( B511}, la C&l1te catallane de 1375 et
•telle:ment qudque 'Vaisseau: c'oes:t :du moins 'Cie que semble
i'atllas Pmell:i~Walcltenaer ·(c. B84}.
oon.stlater Je nom qu:i ~ui 1fut primittivemen.t donn~. ~ qui
.si lit uniformémmt insula de Ventura ou de la ventura sur
toutes 1~ GLr.te:s anciennes, même sur <:Jelle d~e Sianoo, On 'l e ;voWt, !le moine !kancisca:in pialá du cap Bojador
disons~le hardiment, 1bi;en que 'l a •légêre'fé de Formaléoni e1t !Visite suc~wment les ·Can:a:rie:s, .) es !Marlére et le:s
ait 'b urlesquemen•t transfOil'lmt Ventura en .Se:ntuifJ.a, ICOmJllle Açores. Les hWt demiers noms se rapportent à oe demier
'j)Our •s usci.ter à pla:isir les éluculbra·tions des étymolo-g:istes, ·~: c'est J:a preuve qu'!tl étla.it traC'é sur de:s c.arte:s
:qui se soot fait ifiatute d'expl:iquer gra'Vem.ent par 1l'ara.be tia .J:Jlalri.ttes, 1fort proba:b.llement 81\Wlt l'a111née 1350, et ce!la
-billevesée :du libraire vén.itien. :SOUJS dies noms qu:i n'léllppa.I'éllist que 30 ·a ns plus ;tard sur

L'ile de Pko off.rit sans doute à soes découvr:euT'S des portulans ~us jusqu'à nous.
qua:ntité de .pig•eon•s sau'V'él·ges, si ,J'on en jwg.e par .}a deno-
mination d'insula de Colombis ou di Colonbi, ou h1en Bien que ·1e .~g!llage du moitne ne 'Vaille pas Cleilui
s~mpleme:nt li Columbi, 1nscrite sur les c:a.rtes du qua. tor~ d'un lécrivain contempot"éWl, son travai:l en effet n'est
ziême et du oommmoement du quinz.iême siede. .Ce ifut qu'une .géogmphie en action reposant sur quclque mappe--
probablement 1' abondance eLes ,Jap'ins qui va:lut à .l'ile :de ....moode, oomme: M. M. Morlei.-Fatio et Hamy •l 'ont mont.re
Flores son nom primit:if de li Conigi, défigure :en Coriios à toute lévl'denoe, ·le ~oignta!ge :du moine, d:isons.-.nous,
par Foi'JDialiéoni . .Enf:in Corvo, •la .p lus éloi'gnée des Açores, n'en est pas moins ~eux pou.r ,Jes lftaits qu'il revele.
:g aroe encore, sous cette lform'e, ,Je ·n om que ,Jui ava.ioent
ldonné les tpl'le!miers décou'VreUJrS, lesquels, à .raison du Ses prétendus voya:ges sont de ceux que tOUJt le mond:e
1

lllbmhre d'oiseaux de cette espece qu'!i'is y aJVa'iffit rencon - peut lfa:ire du hout ides dt:rigts sur un:e oa:rte.
tft:s, l)'a.ppel.alient insule de Corois !Malrinis ou de Corvi
Marini. que Formalêoni a 1u Corbo Marinos sur ~a CJa!rltie
11 est .i'mlploSsible de determiner la ISOUII'Ce à ·laquelle ~e
.d',André Biaiilco. Gra:ziosa ne pa.rait su:r •a ucune de ces
.r eligieux 1fmnci8caln a puisé; mais oi! semble ratiOIIllilel de
cartes.
sUJPPOLSielr que c'est à des pomrlans C81tialélllSI, ca- com.:ment
'NOTJCE DES DtOOUVERTES :FAlTES AU IMoYEN~GE
odes cartes marines Í't!aHennes !ui seraient~eHes parvenues?
DANS L'Ocú.N IATLAN'l'lQUB, por !D~Avezac,
.Oe d:e:miiler poilllt n 'es~t pas saru; importance pour
pag. 32.
fdxer la na:tionali:té d'eS premiers découvreurs des !Açores. &
elflfert:, & :l'on am~dbuai-t .génréra.lemetn:t la ldérouvert de ces
itles à -d es •ltal'iens, c'esit ;parc.e qu'on CI'O}'lélli>t 'troover leur
Varchi~l eçorêm, ~ seu! quií nous m~. se
;premier :tracé -sur J'atlas médic.éen de 1351 c'est~à-di·re
trouve à qu.atre deg.rés de longitude plus p.rà de mcOte
232 A ESCOLADO MAR LARGO-ATLÂNTICO E COSTA DE ÁFRiCA ( CAP.
II, t] AÇORES. A VOLTA DO MAR LARGO 233

sur une carte ita'.lienn.e. Or voila.i qu'a!Vaiilt cette da.te, des ,tJres étlendue rparce qure ~·on $Uppo5élit 1iaJ .c onbiguité de
pootwlaru !SallS dou:ve cata:léllliS donna:i.ent des Açor.e s Ul1l CÕites appart.enlllanlt à d.i:f·f érentes iles. C'est 50U:S ce .rap-
llracé bien plu:s •rompil:et. Ne peurt~on rpas 'COnclure av,e c port, •je petns·e que il'arch~peil entier des Açor.e s a donnlé
·bearucoup de 'l:a.ison que c'est à des marJns cata:léllliS que ·l'i eu de 1f•i x•e r ·l a position de l'Antiha ou i•l e des Sept-ili-veques
sont dues ces donn:ées? et des Sept-Vlji.J.les; Clél/1" je ne saurais conjeoturer a'VIeiC
.................................... M. .B uache que •l'An.ti1ilai de Bíanco, ~arge comm.e L'&~
QUia!lld et dans queUes rircon:stances ~es !Açores onrt- pagne, soit l'He de Sain.t--MicheL
~el1es été il'econnues rpour •l a premier:e fois? L'lhdstdi-r<e ne
le dit pas, mais Jes rportulans prouvent que cette premiêre HISTOIRE llE LA GÉOGRAPHIE, por Humboldt.
reconna.issanoe êtait un rfa.it accompli idans e premiêre
·m oitié du XIV" rsiecle.

DISCUSSÃO SOBRE A !DEsCOBERTA 008 !AÇORES, pelo , P~elo q•ure o meu parecer lhe, que IC'OmO a5 lil.has de
Dt. Jules Meu, publicado em 1901. Oabo Vrerde se des'OUibr.iirão em 1543(?) re a rv.inda d'ellas
parra Pootugal, re a ida d.est:e pla!rla e!llas, he pelo rumo dia
T ·e rceym; e oomo esta ,foy ~ pdo Norte, para
Cette carte (Bianco) (jffre à Ia rfois d'e:s noms a~rabes onde ficão alem, as de Ca:bo Verde, he de c·r er que drestas
~ cluétiens, c:eux de Bentufla et de San Zorzi. Elle vinJdo IIllaiWo :pam Portuglall, deo no NOl'lte da Treooeyra, e
d:ispose a&Sez corvectemenrt les neulf iles ·ettl ltrois ·grourpers por aspero o deyxarrão, COillben~ ·Com trazer as novas
partiels, mais ces ·groupes, rau rlieu d'ê'tre omentés SE--NO, ao lnlfarntJe ...
sont pre:sque placés du sud au nord. L'ilot le pltJ:SI éloigné
HISTORIA [NSULANA, ~ pe')o Padre !Antônio
s'appelle déjà Corvos Marinos. Les noms de San Jorge
Cr:JitkUo, Uaboa. ·1~1~.
et de Corvo n'ont donc pas été donn'és par 1le:s :Portuga:is
en 1H9; ÜS appartienn1ent à d'au'tres .peuples de 1'Europe
llatine. Dans 1e m~~âge, ce sont sans doute les ldeux
rJlllltions rrivales letl aventureuses des Normands et des
Arabes qui ont répandu ~es •pre'Dlieres notions oertain:es A mudez dos arquivos e o tesrt<imenro do Infante
sur les ·.groupe des Açooes. Quelques historiell!S' (Murr) Dom Henrique J,UISfti,fic:am o
a:sserif:o: não se sabe quem

font ~remonter la découverte des Normands au neuviemie descobriu o arquipélago dos Açores, e, com cerrtf!za. não
&ecle. foi Frei Gonçalo Velho.

Les Açores dlécouvertes, ou plutôt retrouvées rplusmeurs E se nenhum documento o diz, Iorça fé oondu:i:r que
rois, pouvaient lfai-re naitre J'idée de ,}'exJste:nce d'une ter.re .... a ·tal respeitb nada se sabe, que não houve tal a:chado.
234 A ESCOLA D O MAR LARGO-ATLÂNTICO E COSTA D E Á F RICA [ CAP.
li, u] CABO BOJADOR. A VOLTA DO MAR DA BAGA 235
por tais rdesoobridores, de que não f~la:m Z-urara e Diogo século de 1300. O nome foi transformado pelos Porl:u-
Gomes, OIS oroni&sltlas .ma4s SleQUil"'OS do que f01.1aJm no mar os gueses em Bojador, e passou a aplicar-se o dito
•Portugueses do século XV. popular:
Pall.1él que, pais, manter de pé wna 1lenda .ideada no
século XVI, cerca de 160 •a nos d:epois do imaginado, do cQuem passar o cabo Não ou voltará ou não! »
M.n.tas'iado descobrimento em 1431?
Qtre Uitilidalde há le:Dl pellp'e'tUiall' o erro, o ·q ue é .!a:J&- Só em 1434 a navegação da costa de Ãfrica se
fioa.r 1a h..istórúa, continuar a ~? estendeu para além do Buyder, tendo iniciado esta
Conlfessemos a verdade: manda-o a probidade cien- navegação corrente, por mandado do Infante D. Hen-
,t!iJfioa: rique, o português Gil Eanes, natural de Lagos.
Está por enc:cmtrar o descobridor dos AçOl'e.sl A maneira heróica como os historiadores têm
interpretado este acontecimento não nos pode elucidar
CloNCLUSÃO SOBRE O DEsCOBRiMENTO IDOS •AÇORES, por
sobre quais teriam sido as dificuldades reais que,
Ant<Wo Ferreira de Serp&
durante tantos séculos, impediram de facto os marl-
timos- e não só os do Mediterrâneo, como também
aqueles que conheciam os procelosos mares da costa
de Portugal e da Biscaia - de se lançarem nos seus
IT-OABO BOJADOR. A VOLTA DO MAR navios para o sul do arquipélago das Canárias.
DE BAGA OU DO BARGAÇO Porque os cronistas, ao escrever sobre os Desco-
brimentos, esquecem que, por eles terem sido reali-
zados em navios cujo motor principal era o vento -
Na mesma latitude de Santa Cruz de Tenerife, isto é em navios de vela- , seria preciso ter em ·c onta
I
do grupo das Canárias, está, na costa de África, um as possibilidades desses navios, porquanto antigamente
cabo a que os •a ntigos chamaram cabo Nam, porque não havia, como há hoje, à disposição dos não-náuticos,
durante muitos séculos terminou ali a navegação mapas com as correntes maritimas, os ventos e as
normal dos povos do Mediterrâneo. A costa continua derrotas gerais. Tudo o que a tal respeito então se
para o ·s udoeste até que, nos mapas datados do século sabia era conservado no maior segredo, para evitar
de 1300, que chegaram até nós, figura outro cabo, que outros concorrentes o aproveitassem.
logo do outro lado do canal entre a ilha Forteven- Estando, assim, pouco divulgada a técnica espe-
tura e a terra firme. A esse cabo, algumas cartas do cial da navegação à vela, os cronistas supuseram que,
século XIV- feitas depois de reconhecidas as Canã- nos navios do século de 1400, quem dispusesse de
rias- dão o nome de Buyerer ou Buyeder. Tinha-se alguma audácia poderia navegar, como se faz hoje, por
alargado :até lá a navegação, no fim daquele mesmo todos os mares. Ora isto só aconteceu depois que a
II, u] CABO BOJADOR. A VOLTA DO MA R D A BAGA 237
236 A ESCOLA D O MAR LARG O-ATLÃNTlCO E COSTA D E ÁFRlCA [ CAP.

o descobridor da América do Sul, dando o seu nome


existência dos ventos gerais foi descoberta Com tal até à América do Norte, por onde nem sequer passou!
critério, nos casos mais embaraçantes- ~mo foi o Enfim, vemos correntemente os historiadores con-
do descobrimento do Brrusil - ·a llistóri•a Antiga criou jecturarem derrotas de navios de vela, a navegar
correntes e ventos tendenciosos, ou «tempestades:. a direitos contm o vento, como só fazem os barcos a
propósito, por mares onde quase as não há, como são motor.
em geral os das regiões tropicais. ·E is a razão por que não tem sido devidamente
:m com este fraco ·c onhecimento da Náutica que apreciada a viagem que fez Gil Eanes em 1434; supõem
se tem deduzido de certas Hhas ocidentais, desenhadas que, ao passar além do Bojador, cuja navegação se
nos mapas do século XIV, uma prova do pr~escobri­ sabe de facto fácil, ele •s e limitou a desprezar antigos
mento dos Açores, apesar de ser inverosímil que qual- preconceitos e superstições de marinheiros ignorantes.
quer navegador, que tivesse passado pela pequena ilha P.ara reconstituir esse capítulo de história, no
do Corvo, a qual fica a mais de 300 léguas da costa de qual se atribuem as hesitações nas passagens dos cabos
~ortugal, viesse amesquinhar a sua própria navegação Não e Bojador àqueles perigos imaginários- que nada,
informando que ela -que dizem ser já a chamada no mar das Canárias, os fazia sequer suspeitar dos
dei Oorvi nos portulanos - se ·a chava apenas a cem marítimos - , limitar-me-ei pois a aproveitar o conhe-
léguas de Lisboa, e que era a maior do grupo dos cimento dos ventos gerais do oceano Atlântico, que
Açores! Enfim, pretende-se que, deste arquipélago, os hoje já não são - como há quatro séculos - mandados
Portugueses só acharam os ilhéus que não foi possível conservar em segredo entre os chefes: com esse ade-
desencantar nos mapas anteriores a 1400; tais são os quado recurso técnico analisaremos as viagens além
penedos das Formigas! das colunas de Hércules, e fácil será deduzir qual foi
, _Foi ainda ~m ~sta mesma ligeireza de juízos o verdadeiro obstáculo que, até ao tempo do Infante
t~cm~ que a HlStória fez de América Vespúcio um D. Henrique, impediu materialmente o estabelecimento
pioneiro das navegações ocidentais, quando é certo que, de uma navegação regular, tanto para o sul do arqui-
exactamente dos documentos da época- as suas cartas pélago das Canárias como para as ilhas do mar 'largo
literárias- , sem referências a nomes de navios ou de e, enfim, para as terras que se encontram no Atlântico
chefes, nem indicações sobre ventos ou velas como Ocidental.
até das suas críticas náuticas absurdas, os m~itimos
concluem q~e Vespúcio nem sequer foi um navegador,
ten_do, por tsso~ desastradamente inventado a sua pri-

mema navegaçao, se não também a quarta. Pois este Vem de muito longe a tradição sobre viagens rea-
mesmo Vespúcio- que conta nas suas cartas ter sido lizadas, rodeando a África ou só à sua costa ocidental,
chamado pelos Portugueses para lhes ensinar a desco- nas quais o cabo Bojador t eria sido passado.
brir terras!- foi ele, acima de Colombo, proclamado
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De todas essas viagens, a mais antiga e da qual qual só navegaram até ao Golfo do Sul, mais ·t rês
há notícia menos nebulosa é a que fez o capitão Hanão, dias. Esta conjectum ooncorda com a antiga opinião-
partindo de Cartago com sessenta galés, cerca de cinco divulgada em Ramúsio -de um piloto português.
séculos antes de Cristo. Leva.V18., dizem, trinta mil pes- Assim poderemos aceitar que Hanão teria passado
soas- o que faria quinhentas por barco ... -além de para o sul do cabo Verde, e portanto além do Bojador,
mantimentos e outros recursos, tudo destinado a fun- mas nunca além do cabo de Palmas.
dar colónias na costa de África. Não é fácil apurar até Desta noticia primitiva- que constava de uma
onde teria chegado Hanão: a História narra que ele inscrição lapidar num templo de Cartago - acerca de
chegou a um golfo - chamado o Corno do Bul- , de uma primeira passagem para o sul do cabo Bojador,
onde, por os mantimentos começarem a escassear, conclui-se, pelo menos, que as dificuldades encontradas
voltou as velas para Cartago. pelas galés de Hanão não animaram outras viagens
Segundo alguns historiadres - como se lê no «Tra- à Guiné. E passaram dois mil anos até que tal nave-
tado dos Descobrimentos:., de António Galvão- nesta gação se tornou corrente, ou em série, como hoje
viagem foi atingido o eabo de Boa Esperança; outros, se diria.
como o moderno La Ronciere, limitam-na no pico dos Há ainda outras noticias antigas sobre passagens
Camarões; e há quem julgue que Hanão nem sequer do mesmo cabo Bojador, embora mais vagas.
passou além do Bojador. Conta Galvão que, ainda antes de Cristo, os Fení-
Estudada a relação da viagem de Hanão, debaixo cios, partindo do Mar Vermelho- provàvelmente nos
do ponto de vista náutico, e atendendo a que, das mesmos zambucos, ou bogalas, que ainda hoje lá se
alturas das Canárias, ele ainda navegou bastantes dias usam - , foram contornando a eosta de África por
-sendo só de uma vez doze -mas considerando que Melinde e Bofala, 'a té que dobmram o cabo de Boa
a Relação se não refere às dificuldades naturais do Esperança. Depois «fizeram ao Norte seu caminho
golfo da Guiné, quer no desembarque, por causa da pela Costa da Guiné, e mar Mediterrâneo até tornar ao
alterosa calema, que rebenta na praia - a qual ainda Egipto donde partiram, e puseram dois anos neste
hoje impõe botes especiais de praia, tripulados por descobrimento:..
negros acrás - , quer nas fortes correntes que abriga- Ora, no estudo geral de todas estas viagens em
riam o capitão cartaginês, do fundo do golfo da Guiné, torno de África, não devemos esquecer que, quer indo
a ir ao sul do equador buscar ventos e correntes favo- pelas Canárias, quer pelo cabo de Boa Esperança, os
ráveis para oeste, o que tudo está longe de corres.. ventos e correntes ajudam os navios até ao equador;
ponder à ligeireza da expressão «voltar velas para dai, a volta à Europa seria trabalhosa e exigiria
Cartago».. . por todas estas considerações náuticas, conhecimentos prévios da Arte de Navegar muito fora
ressalta, como de maior probabilidade, que o seu «Carro da vista de terra, conhecimentos estes de que os anti-
dos Deuses:. deveria ter sido a Berra Leoa, além da gos não dispunham. Porquanto é sabido que, assim
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como no Atlântico Sul sopra o alisado do sueste, que Zurara - é que «nunca mais tornaram» para poder
afronta os navios- tendo obrigado Bartolomeu Dias explicar quais as dificuldades de uma viagem que con-
a ir contornar o cabo de Boa Espernnça muito pelo tinuou sem sequência imediata.
largo parn o poder dobrar- , também a volta da Guiné Segundo uma legenda da conhecida carta catalã
para o norte, em navegação costeira, é dificílima, por da Biblioteca de Paris, datada de 1375, um catalão,
ser tanto contra correntes como contra o alisado do Ferrer, partiu em 1346 para o Rio del Oro; não houve
nordeste, que sopra para o sul das Canárias. Por estas mais notícia do seu barco, sendo certo que, se voltou
razões- como se induz da «Crónica de D. João Il» -os à Espanha, não o fez por mar, mas por terra.
navios que vol1JaVI8.m do golfo da Guiné tinham que Chegamos agora às categóricas conclusões de
ir ao sul do equador buscar ventos e correntes fa·vo- D'Avezac. Este geógrafo francês, empenhado em uma
ráveis e, de lá, de~revendo um arco por oeste das ilhas polémica contra a fundada opinião do Visconde de San-
de Cabo Verde, iam então- como hoje- rao mar de tarém sobre a descoberta da costa ocidental da África,
Sargaço e Açores, de onde tomavam rumo da Europa. afirma que esta costa já e.r a conhecida por mar no tempo
Er·a assim a chamada Volta da Mina; e , pelos Açores, dos navegadores portugueses. E , assim, pretendeu pro-
vieram Vasco da Gama e Colombo, como é sabido. var que outras nações nos precederam na Guiné.
A volta completa, ou périplo da África, que se D'Avezac começa por aceitar como verídica a nar-
atribui aos Fenícios, é pois uma viagem bastante duvi- rativa que um frade mendicante apresenta no conhecido
dosa, por eles não disporem de tais conhecimentos dos «Libro dei conosçimiento de todos los reynos», acerca
ventos e correntes, nem talvez de bússolas, para se das suas extraordinárias viagens por todo o Mundo
poderem afastar muito das costas. então conhecido na Europa; çntre essas viagens conta
Da mesma maneira que a de Hanão, as viagens um inverosímil cruzeiro circular, visitando no século
dos Fenícios não tiveram sequências. de 1300, sem fim prático, todas as ilhas Canárias, a
Muitos séculos decorreram até haver noticia de Madeira, com as Selvagens, Porto Santo e Deserta e,
outra viagem além do Bojador: é essa de uns genove- ainda alguns acreditam, oito ilhas do arquipélago dos
ses- os irmãos Vivaldo - , os quais, talvez preten- Açores. Este frade conta também que, em uma «ga-
dendo recon:hecer o ·c aminho para a fndia pelo ocidente leota de unos moros de Gazula», passou os cabos Não
da Mrica, cerca de 1285, empreenderam uma viagem e Bojador, indo até ao então chamado Rio del Oro,
pelo Atlântico, em duas galés. Parece que teriam che- metendo-se no golfo da Guiné. Mas desta viagem, ape-
~ado a·t é à Guiné- o que os ventos do norte lhes facili- sar de ter sido tão fàci mente feita só no papel, tão-
tariam - , porque, segundo Usodimare, que foi um dos ~pouco há notícia da volta por mar. Assim, nem o Libro
navegadores italianos apoiados pelo Infante D. Hen- ensina como se .navega a lém do Bojador, nem- contra
rique, os Vivaldo foram morrer nra Guiné, tendo lá a opinião de D'Avezac- ele traduz um reconhecimento
deixado descendência. Mas o que é certo - e conta marítimo da costa de África. O que naquele tempo se
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sabia pelas caravanas que, por terra, iam de Fez à 1874), apresenta como incontestáveis as navegações
Guiné comerciar, é o que nos conta Barros na «Primeira normandas à Guiné, muitos anos antes das portugue-
Década». A costa de África «pela informaçam dos sas. Nesta mesma introdução ao livro antigo, referindo
Alarves», sabia-se ser ccontinua hua a outra, té se as viagens em que o fidalgo normando João de Béthen-
meter debaixo da linha equinocial», não havendo «no- court, «Conquesteur» das Canárias, visitou de facto
ticia da navegação da sua c~sta». estas ilhas em 1402 e 1405, Gravier acrescenta que
Com o mesmo critério simplista, D'Avezac aceitou Béthencourt iniciou assim a era das grandes nave-
também ·a s estranhas afirmações contidas no livro gações- apesar de nem ter sido o primeiro navegador
a visitar as Oanárias-, porquanto, «Com a bússola e
cRelation des costes d'Afrique», o astrolábio na mão, ele se dirigiu com segurança,
abrindo à Arte Náutica novos horizontes, a Gama o
publicado em 1669 pelo «Sievr Villaulb, onde pela caminho do Cabo e a Colombo o da América»!
primeira vez aparece a revelação de antigas viagens Em resumo, todos repetem que há «des apparences
francesas à costa da Guiné, afirmando~se que esta três bien fondées » das viagens dos Normandos à Guiné,
glória é devida aos franceses de Dieppe, que «Y ont embora isso fosse ignorado em Fvança enquanto Vil-
navigé plus de soixante ans avant que les Portugais lault não foi à Guiné descobri-lo!
en eussent eu la connoissance» (pág. 410). Contudo, acontece que no mesmo livro eLe Oana-
Porque, segundo Villault, os Normandos, já desde rien» (pág. 101) se conta que Béthencourt tinha apenas
o ano 1364 e até cerca de 1410, traficavam para a a intenção de abrir o caminho do Rio do Ouro, apesar
Serra Leoa e Guiné, tendo até deixado no local onde de, segundo Gravier, esse caminho já estar aberto pelos
foi depois construído o castelo português da Mina uma Normandos, que se pretende terem lá andado desde
cBateria Fmncesa». Teria, além disso, havido na Guiné quarenta anos antes ... Além disso, Béthencourt, ani-
feitorias fundadas por eles, como o «Petit Dieppe» e o mado desse propósito, esteve, em 1405, em um cabo
cPetit Paris». Na viagem que Villault fez em 1666 e 67, «qui siet au royaulme de la Guynoie, à XII lieus prês
por ordem de Colbert, à costa de África, ele teria en- de nous» , isto é , a 12 léguas da ilha Forteventura.
contrado lá seguros vestígios de uma ocupação nor- Béthencourt chama a este cabo Bugeder, mas é fácil
manda, três séculos antes: a nora de um príncipe indí- de ver em um mapa que o tal cabo, que fica do outro
gena ainda lhe soubera dizer em francês: cMonsieur, lado do canal, a 12 léguas, é o actual cabo Juby, ao
je vous remercie». passo que o verdadeiro cabo Bojador fica ainda umas
Embora tais afirmações apareçam com Villault 35 léguas mais a sudoeste. Assim, desta viagem de um
pela primeira vez, sem confirmação de documentos normando conclui-se que o caminho do Rio do Ouro
anteriores, repetem-nas Labat e outros. Gravier, na não estava ainda aberto pelos Normandos em 1405,
sua informação do livro «Le Canarien» (publicado em nem tão-pouco ficou então aberto, visto que Béthen-
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II, n] CABO BOJADOR. A VOLTA DO MAR DA BAGA 245
couzt nem sequer passou uma légua além do Bojador de África aos navegadores que lá mandou o Infante
(como tão-pouco esteve na Guiné), contm o que D'Ave- D. Henrique!
zac e os seus outros admira_d ores pretenderam. As pretensões francesas respondeu detalhada-
De resto, não há documento algum que confirme mente o Visconde de Santarém na sua «Memória sobre
estas pretensas viagens francesas anteriormente às a prioridade dos descobrimentos portugueses na costa
dos Portugueses. Nenhum livro anterior a Villault as da África Ocidental». Deste livro se deduz, como seguro
cita, e elas eram pràticamente ignoradas em França. e irrespondível, que de todas as problemáticas viagens
Tão-pouco mapa algum anterior ao Infante D. Henri- além do cabo Bojador, anteriores a 1434, desde a de
que mostra conhecimento da costa ocidental de África Hanão às dos Fenícios, Romanos, Catalães ou Nor-
para o sul do actual cabo Juby, ou fiaz sequer uma refe- mandos, só resultou na tradição popular a sentença
rência ao «Petit Dieppe». Só os nomes portugueses,
postos no tempo do Infante, são lidos nas cartas «Quem passar o cabo Não ou voltará ou não:..
modernas da África Ocidental. Nos livros franceses
anteriores a Villault é reconhecido que foi pela dili- Esta frase traduz claramente que a dificuldade
gência dos navegadores portugueses que se dilataram capital da navegação além do Cabo não estav,a na sua
os limites da navegação. E ainda hoje podemos repetir passagem mas na voita, a qual, por ser contra ventos
que, se os Normandos visitaram de facto a Guiné entre e correntes, era afinal aquilo que propriamente se
1364 e 1410, eles abandonaram esta terra tão comple- poderia chamar «dobrar o cabo Bojador». Ora de todas
tamente que, poucos anos depois, os Portugueses já lá aquelas viagens antigas não resultou explicada qual
não encontraram vestígio algum da passagem de outros a dificuldade dessa navegação além do Cabo, nem a
europeus. Ao contrário, segundo se lê em Cadamosto, maneira de a vencer: tratava-se apenas de tentativas
os indígenas da costa mostravam nunca ter visto, quer acidentali.s que em nada, absolutamente, aproveitaram
outros navios, quer os mouros ou os portugueses. ao Infante nem aos outros navegadores europeus. A
Enfim, todos os países, incluindo a própria Frn.nça., última tentativa, a de Béthencourt, foi ainda impo-
aceitaram como boa a ocupação portuguesa da Guiné. tente, como ele conta, para abrir a navegação da Guiné.
Apesar de todas estas razões, D'Avezac- pondo Mas os cronistas, desconhecendo as dificuldades
a par das viagens dos Fenícios, e da que o frade conta reais, que todos tinham encontrado em estabelecer
no seu Libro à Júlio Verne, as viagens dos Normandos essa cobiçada e proveitosa navegação, foram levados
- conclui definitivamente que os Franceses, os Cata- a aceitar explicações maravilhosas: por eles se encon-
lães, os Mouros e os Genoveses já, antes dos Portu- tra contado que, no princípio do século de 1400, a
navegação para além do cabo Bojador - no Mar
gueses, tinham todos navegado para o sul do cabo
Tenebroso- não estava sendo sequer tentada, por
Bojador, desbravando o caminho ao longo da costa
que os homens do mar eram dominados por supers-
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tições, que a sua experiência da navegação no Embora os próprios cronistas não pudessem acre-
Atlântico não justificava. De resto, os cronistas, ape- ditar nestas fábulas pueri<s, atribuíram a sua crença
sar de tão pouco poderem acreditar nesses contos àque1les homens práticos da navegação do Mediterrâneo
fabulosos, que navegador algum testemunhara, escre- e das costas da Península que, ao chegarem ao mar das
veram: Canárias, ali começavam já a sentir a acção modera-
O mar para o sul das Canárias é, com razão, dora dos trópicos, em cuja-s águas as tempestades,
chamado o Mar Tenebroso. Vai bater na costa de quando as há, são de pouca força e duração! Contudo,
Ãfrica, «areal desabitado:. por causa do muito «fer- nas crónicas que nos deixaram, lemos que «O temor
vor» do sol, calor este tão forte que os homens brancos desta passagem do Cabo, que se chama do Bojador:.,
que de lá voltassem «viriam queimados tão negros já vinha desde os antepassados, que nunca «se antre-
como os guineos:., «vizinhos a esta quentura». Embora meterom de passar». Ora entre esses antepassados
lã se não estivesse navegando, corria que no Mar Tene- estavam os Mouros, marinheiros de experiência muitas
broso a água era tão quente que cozia os peixes, e, em vezes ·s ecular, pois é sabido que os seus «pangaios
1498, ainda Colombo receara que o calor tropical cque- subtis da bruta gente» - como lhes chamou Camões- ,
masse los navios y gente»; e, por causa desse insu- os quais ainda hoje se encontram em Moçambique e
portável calor, a evaporação das águas era quase nos outros portos do oceano Indico, e~am aqueles
completa, a ponto de descobrir em parte o fundo do mesmos pequenos barcos de vela com que há três mil
mar, formando muitas ilhas e baixios, de modo tal anos os Mouros iam da fndia, a Sofala, em busca do
que a uma légua de terra não haveria de fundo mais ouro do interior de África. E quando Vasco da Gama
que uma braça. chegou à costa de Moçambique, a navegação para a
Com o mar assim caparcellado:., o «fervor da tndia era ainda feita por pangaios mouros.
aguagem sorvia os navios!:. Nos lugares onde havia Pois apesar de tudo isto, nem mesmo entre esses
água, esta era muito espessa, por muito salgada, sendo marinheiros houvera quem, na passagem do Bojador,
as tempestades frequentes, os ventos violentos e as «Ousasse tomar tal atrevimento, sob tão certa ameaça
vagas alterosas. Havia também monstros marinhos, de morte, como lhe ante os olhos apresentavam:.!
serpentes do mar ou talvez aqueles que agora chama- Enfim, Zurara compa~a este receio ao justo temor
mos ictiossauros. .. Enfim o ar não era ·s ó quente, mas das virgens sacerdotisas ao entrarem cna cova de
também · venenoso, e as trevas eram profundas. Chei- Apolo para lhe esquadrinhar os segredos:.!
rava mal. )(
Não! O que se escreveu sobre as viagens além do
Eis, em resumo, as razões pela-s quais- segundo cabo Bojador não é História Marítima, é apenas
os cronistas - «todos tinham receio de passar aquele romance de ficção. Se se hóuvesse tratado apenas de
cabo Bojadon, «termo que Deus pusera nos mares à um esforço comparável ao das «Virgens de Apolo», ou
ambiciosa temeridade dos homens:.! àquele que as crianças fazem para entrar em um
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quarto escuro - que neste caso seria o Mar Tene- conta Barros, então todos praticavam: ctoda sua nave-
broso - , se se tratasse apenas, digamos, de um rasgo gação era por singraduras à vista de terra:..
de audácia, já outros o teriam praticado, muito antes De resto, tanto Barros como Zurara já descobrem
dos ccriados do Infante:. : nem teria sido preciso espe- uma parte do véu que encobria a verdade, quando alu-
rar pelos marítimos que atravessavam a Biscaia ou dem às «grandes correntes», ctamanhas que navyo que
por aqueles que, em 1432, se não antes, foram ao mar la passe jamais nunca podera tornar:.. Barros, bus-
aberto dos Açores, incomparàvelmente mais temeroso cando uma razão marítima, acrescenta que no rosto
que o mar da costa ocidental de África, onde os fracos do cabo Bojador havia uma «restinga que lançava
temporais nada podem contra os reduzidos molhes para !oeste obra de seis legoas:., onde as águas cpare-
com que deles se defendem agora os portos artificiais cem saltar e ferver», o que produzia nos marinheiros
das Canárias. Para aquele rasgo de audácia bastariam um tal temor que os «cegava», a ponto de «não enten-
os marinheiros do Mediterrâneo. derem que, afastando-se do cabo o espaço das seis
O náutico de agora, conhecedor da meteorologia legoas que ocupava o baixo, pod~am passar além»,
da costa ocidental de Ãfrica, não poderá deixar de por não saberem cortar tão largo que salvassem o
espaço da restinga. E ainda «concebiam que o mar
sorrir ao ler os perigos pueris que os antigos cronistas
daly por di•a nte era todo aparcelado, e que nam se
atribuíam à passagem de um cabo, sem dúvida menos
podia navegar». Ora, em realidade, ·a restinga do
perigoso que os cabos Finisterra e de B. Vicente, já
cabo Bojador não vai além de uma légua da praia!
frequentados no século de 1300. Por isso hoje, que os
O certo é que a sentença popular, que o Infante
não-náuticos conhecem as facilidades da navegação no ainda encontrou, c ...ou tornará ou não!:. não se apoiava
mar ex-Tenebroso- cujas águas não são negras mas em temores fantásticos: tinha um fundamento náutico
azuis!-, não se poderá repetir que os antigos marí- real, qual era a dificuldade material de os barcos de
timos hesitavam em navegar além das Canárias em vela, ou mesmo galés, depois de se afastarem muito
razão daquelas tão vagas quimeras: temos que lhe •
para o sul do Cabo, voltarem para o norte, contra o
encontrar outra explicação mais verosímil e esta res- vento e corrente. A vaga cavada por esse vento afron-
salta naturalmente quando, pelas actuais cpilot-charts:. taria de tal modo os pequenos navios do século XV,
Illensais, notarmos que ao longo da costa da África, que só por um paciente e incerto trabalho, esperando
entre o Bojador e a Guiné, domina todo o ano o alisado, bonanças e aproveitando revessas, junto a uma costa
com os seus ventos e correntes para sul. Assim, a não hidrografada, eles poderiam ganhar as Canárias,
navegação para a Guiné seria aquela navegação para fazendo a navegação de cabotagem que então sabiam
sotavento que sempre os marítimos receiam, porque a fazer. Porque aquele vento e corrente ainda hoje
volta se tornaria aventurosa contra o vento se recorres- afrontam tanto os pequenos vapores como os mais
sem apenas aos processos de navegar que, segundo finos veleiros; os próprios rápidos clippers do sé-
250 A ESCOLA DO MAR LARGO-ATLÂNTICO E COSTA D E ÁFRICA [ CAP. II, u] CABO BOJADOR . A VOLTA DO MAR D A BAGA

culo XIX largavam a costa e, a rumo de noroeste, dos Alarves», que a costa de .Ãfrica, para o sul do
abertos ao vento, iam tomar barlavento ao mar dos Bojador, era «'Continua hua a outra, té se meter
Açores. Assim praticavam até alguns navios mistos, debaixo da linha equinocial». De resto, o caminho pelo
isto é, onde o vapor de fraca potência era acompa- mar era o único acessível aos Portugueses.
nhado de velas auxiliares. Conhecedor o Infante das dificuldades práticas,
já apontadas, e nada podendo aproveitar da experiên-
• cia dos seus predecessores - desde os Cartagineses até
aos Mouros de Marrocos - , segundo uma e~pressão
Tal era o estado da questão quando o Infante conhecida, teve o Infante que inventar a navegação
D. Henrique, movido por todos ou alguns dos fins que para a Guiné, isto é, teve que buscar a maneira prática
lhe ra tribui Zurara: de em navios tanto lá ir como voltar, sem grande
porque tinha vontade de «saber a terra» que ia '
incerteza, '
ou demora, nas viagens.
além das Oanárias e do cabo Bojador, a qual, «deter- Para resolver este problema, bem sabia o Infante
minadamente», não era conhecida; que nenhuns, dentre os marítimos da sua época, tinham
ou porque considerou que de alguns portos que conhecimento de navegação de alto mar, porquanto, de
lá houvesse se poderiam trazer mercadorias; acordo com o que se lê em Barros, «OS marinheiros
ou para conhecer até onde se estendia o poder não eram costumados a se engolfar tanto no pego do
dos infiéis; mar e toda sua navegaçam era por singraduras sempre
ou para ver se se achava «em aquelas partes» á vista de terra» isto é, ao mar e à terra.
alguns príncipes cristãos que o quisessem ajudar con- ' .
É certo que, um rs éculo antes, em 1317, fora o almi-
tra os inimigos da Fé; rante Pessanha encarregado de organimr a Marinha
fosse para buscar mais alguns crentes do cris- Milirbar Portuguesa, para o que trouxera consigo outros
tianismo ... genoveses, todos práticos na arte de fazer a guerra
... ou fosse, enfim, movido por motivos mais mate- das galés; saberiam talvez servir-se dos portulanos,
riais que sentimentais, o certo é que o Infante, pouco mas, limitada a sua navegação ao Mediterrâneo e às
antes de 1418, começou a trabalhar para abrir aos costas de Espanha, desconheciam a navegação de alto
Portugueses o caminho marítimo para a Guiné, a qual, mar. Se a ·conhecessem teriam ~sido eles, Gerroveses, e
pelas informações colhidas em Marrocos, se sabia ser não os Portugueses, quem primeiro teria ido ao Atlân-
rica em ouro e outras mercadorias, e tanto que valia a tico Sul e à índia.
pena ir buscá-las atravessando o deserto com camelos. Também, por vários cronistas, consta que, em
Preferível ·s eda vazer esse mesmo comércio em navios 1428, o Infante D. Pedro trouxera do estrangeiro, pro-
portugueses, se isso fosse praticável, visto já se saber vàvelmente de Veneza, aquele mapa-mundi, muito
então - segundo Barros - , pela «~nformação que tinha citado, em que já estava «todo o âmbito da Terra, a
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11, u] CABO BOJADOR. A VOLTA DO MAR DA BAGA 253

fronteira ( ?) de África, o cabo de Boa Esperança e mais simples entre o muito que se encontra coorde-
até a Cola do Dragão», a que depois se chamou o nado nos cLibros dei saber de Astronomia:., onde não
estreito de Magalhães ... Acrescenta-se que este cPadrão:. há segredos ou revelações, mas apenas a compilação
teria ajudado o Infante D. Henrique nos seus desco- dos conhecimentos gerais correntes na Península no
brimentos. século xrv; e conta-se que ele passava noites a_ con-
Ora, quando tal mapa chegou a Portugal, já os templar o céu para lhe arrancar o segredo da orienta-
Portugueses tinham estado no arquipélago da Madeira, ção dos navios no alto mar, quando não houvesse à
tendo Zarco, quando lá foi, cerca de 1418, conservado vista outra coisa ...
à ilha mais ao norte o nome de Porto Santo, que ela Nesse cogitar sobre a maneira de realizar nave-
já tinha nos outros mapas do século de 1300. gações largas, que lhe permitissem mandar navios à
Donde se deduz que já antes da viagem de Guiné, e mais tarde à India, sucessivamente se deve
D. Pedro haveria em Portugal outros mapas daqueles, ter apresentado ao Infante a necessidade de dar solu-
semelhantes ao catalão, de 1375, nosso conhecido. ção aos seguintes quesitos:
Todos esses mapas apresentam, é certo, uma indicação
da costa de África para o sul do actual cabo Juby- e a) Haveria, no mar largo, ventos que permitissem
não do actual Bojador; mas tz,ata-se apenas de uma tornar mais breve a navegação?
linha comida para o sul, ,s em nomes, não traduzindo, b) Determinação da posição do navio em relação
portanto, visita por mar, isto é, sendo apenas o resul- à terra, fora das vistas dela, seja só pela
tado de informações vagas colhidas dos habitantes estima geométrica, seja pelo Sol ou pelas estre-
africanos, ao sul do Deserto. las·, e ' como consequência, .
De resto, a dificuldade principal em passar além c) Determinação do erro das agulhas, ou seJa a
das Canárias não estava na falta de mapas com o diferença entre o seu norte e o norte verda-
âmbito da Terra; os mapas não indicavam aquilo que deiro, recorrendo à Estrela Polar;
mais importava conhecer, que eram os ventos gerais, d) Levantamento das cartas hidrográficas, a fim
elemento essencial para se poder projectar ,a navegação, de facilitar a navegação pelo mar largo, entre
tanto de ida como de regresso. os diferentes portos, quando os ventos não
Assim, nem os Genoveses nem os mapas cajuda- permitam uma navegação costeira;
ram:. o Infante na sua invenção . e) Adaptação à navegação do mar largo dos
navios conhecidos, de remo ou à vela.

Embora nos não restem documentos a comprovar
Dispunha o Infante, naturalmente, de conhecimen- estas conjecturas pelo facto de, depois da ida aos
tos pessoais de astronomia elementar, isto é, da parte Açores e da pass~gem do cabo Bojador, se ter iniciado
254 A ESCOLA DO MAR LARGO-ATLÂNTICO E COSTA DE ÁFRICA ( CAP. II, n] CABO BOJADOR. A VOLTA DO MAR DA BAGA 255

uma série de viagens para sul, os náuticos concluirão de Sagres que oje em dia aly esta fundada:.. Na angra
intuitivamente que aquelas operações essenciais da que fica ao nascente do actual cabo de São Vicente, abri-
navegação foram conhecidas no tempo do Infante. gada dos ventos do norte, «afastado das fadigas deste
Para a resolução do problema da navegação de Mundo», teria ele formado aquilo a que chamamos hoje
alto mar bastaria o conhecimento de geometria ele- uma Estação Naval, e se teria criado, não uma Aca-
mentar, assim como o da astronomia elementar, tanto demia Naval, com aula:s e cursos regul-ares- como se
do Sol como da Estrel-a Polar. E, embora o quadrante chegou a pretender- , mas, mais naturalmente, aquilo
e o astrolábio não tivessem, provàvelmente, sido usados que conjectura Sousa Viterbo, ou seja um ponto de
por Béthencourt, em 1403, como os seus admiradores reunião frequentado de contínuo por pilotos e outros
pretendem, estes ~nstrumentos já eram conhecidos na homens do mar, onde se praticaria acerca da marcha
Península, e a sua aplicação a bordo não dependia de dos Descobrimentos e maneira de os prosseguir.
conhecimentos teóricos, mas só de prática no mar. Nessa espécie de Escola de Aplicação, aprovei-
Quanto ao Regimento do Sol, embora dele não nos tando-se a ciência dos doutores, como Jácome de Ma-
ficasse cópia alguma, contemporânea do Infante, nada lhorca, e também a arte dos hábeis marítimos mouros,
mais intuitivo do que aceitar que havia tais tabelas que ficaram em Portugal, se teria, por um lado, melho-
manuscritas, onde estivesse a ·l-atitude dos lugares rado os processos de navegação, quer copiando os
sobre cujo zénite o Sol paJSsava nas diferentes épocas
regimentos astronómicos, quer desenhando os portu-
do ano. li: sabido que é elementar deduzir assim, da
lanos- ou cartas de navegar- das regiões novamente
distância meridiana do Sol ao nosso zénite, qual é a
nossa latitude. navegadas; por outro lado, se teria estudado a adap-
tação dos barcos então empregados, tanto galés como
Seria preciso, principalmente, praticar em via-
os só de vela, de modo a poderem afrontar os temporais
gens de mar esses ensinamentos elementares da Astro-
nomia e da Geometria de então. do alto mar, para o que era elementar aumentar aos
Posto o problema desta maneira tão nítida pode-se seus cascos a altura da borda.
aceitar como conjectura bastante provável que o In- Desta troca de impressões teria resultado tanto
fante D. Henrique, possuído da ideia de abrir o cami- a nova Arte Náutica, como a «Caravela portuguesa:.,
nho da Guiné- e, logo que fosse possfvel, o do Oriente, que tão importante papel teve nas viagens de desco-
vri.sitado por Marco Polo - , ·começou por se ir esta- brimento.
belecer junto daquele cabo, onde, segundo Zurnra, Certo, não temos, nos arquivos, provas concretas
acaba o Mediterrâneo e começa o oceano, e que, de tais estudos terem sido realizados em Sagres,
segundo o «Esmeralda», «por outro nome antigamente havendo até quem escreva que, no tempo do Infante,
sacro promontório se chamava», fundando ali o In- se continuava a só praticar navegação costeira, quer
fante «a sua villa de Terçanabal, situada sobre angra para a ida como para a volta da Guiné, de acordo com
II, n] CABO BOJADOR. A VOLTA DO MAR DA BAGA 257
256 A ESCOLA DO MAR LARG O-ATLÂNTICO E COSTA D E ÁFRICA [ CAP.

Assim, a passagem do cabo Bojador, que sabemos


a versão que, meio século depois - no tempo de
ter sido feita por Gil Ea-nes em uma cbarcha:. - que
D. João II - , ainda se fazia tendenciosamente correr.
não era barco latino-, terá de ser considerada uma
Mas o facto de antes da passagem do cabo Boja-
demonstração clara de que os colaboradores do Infante,
dor terem os caravelistas do Infante ido aos Açores,
tanto cientistas como homens do mar, tinham conse-
e ·a té de, na carta de Bia nco, datada de 1436, já guido descobrir a maneira de navegar sem receio pelo
figurar o Mar de Baga, ou de Sargaço, que flica ao Mar Tenebroso, porque tinham a certeza de lá poder
sudoeste das mesmas ilhas, denunciando assim via- voltar- se a sua famosa cquentura:. tropical não quei-
gens muito mais extensas e mais de mar largo que a masse os homens! - , apesar da conhecida persistência
viagem de Lisboa às Canárias, esses factos provam- dos ventos do norte ao longo da costa de África.
-nos que a solução completa do problema da navegação Esta passagem do Bojador não foi pois, apenas,
do alto mar- mais dependente, como disse, da expe- como se pretendeu, um rasgo de audácia ou uma aven-
riência das viagens, do que de um curso de náutica tura bem sucedida, que outros não pudessem repetir.
teórica- fora encontrada antes de, em 1434, se ter Eis a versão náutica mais verosfmil, que se opõe ao
passado o oabo Bojador e , portanto, muito antes de que contam alguns cronistas sobre as já referidas
Colombo vir a Portugal. lendas dos monstros, que durante tantos séculos teriam
Porquanto o descobrimento português dos Açores, assustado os marítimos, mouros ou europeus, infes-
ainda que t ivesse sido um «redescobrimento» (sic) , não tando o Mar Tenebroso: para vencer esse temor secu-
poderá deixar de ser considerado como um evidente lar não fora preciso aperfeiçoar a Náutica ... teria
testemunho do <adi< a ntamento da Arte Náutica Portu- bastado, dizem, que Gil Eanes, intimidado pela pre-
guesa em 1432: foram encontradas algumas ilhas que sença imponente do Infante e pelas suas ordens impe-
estavam mais de duzentas léguas ao largo da costa de riosas, desprezando o perigo, fizesse um último esforço
Portugal. Tivesse esse descobrimento sido por a caso, e conseguisse c dobrar o cabo aliem:.!
ou tivesse sido inspivado no mapa de D. Pedro- onde Tal versão não passaria de uma continuação da
estariam umas ilhas, que se t êm identificado como os lenda. Porque, em verdade, bem sabemos hoje que se
Açores, mas que lá estão só a cem léguas da costa - , tratava de um arrojo comparável aos trabalhos de
o certo é que já em 1431 se sabia ir ao mar largo, sem Hércules : bastava um aproveitamento bem orientado
receio de os navios se perderem; já portanto se conhe- de recursos que, no tempo do Infante, já não era pre-
ciam 'os ventos que lá dominam. Se, à volta das terras ciso inve-ntar, a Geometria, a Astronomi,a , o ~tro­
além do cabo Bojador, se encontrassem a queles ventos lábio.
e correntes, que impossibilitam uma viagem directa A aplicação experimental destas ciências, em
viagem de mar largo- como foi a dos Açores- , era
para o norte, voltar-se-i'a pelo então conhecido mar
suficiente para se descobrir que as viagens de volta
dos Açores, como hoje se pratica.
17
258 A ESCOLA DO MAR LARGO-ATLÂNTICO E COSTA D E ÁFRICA ( CAP. li, n) CABO BOJADOR. A VOLTA DO MAR DA BAGA 259

da costa de África a Portugal podiam ser feitas con- portuguesa aquela que teve sequência, por ter sido o
tornando em arco, pelo Atlântico Central, o alisado resultado de uma sistemática preparação. Essas via-
do nordeste, vento este que sopra todo o ano para o gens constituíram uma conquista definitiva: nunca
sul das Canárias. Com esta derrota indirecta, em arco mais elas foram interrompidas, pois no século dos
pelo noroeste, se atingiria a região dos ventos variá- Grandes Descobrimentos o Atlântico foi tão minucio-
veis; chegados ao mar dos Açores, e reconhecida a samente explorado pelos navegadores portugueses que
altura ou latitude de Lisboa, quer avistando as ilhas, lhes não escapou nenhuma das ilhas que lã se encon-
quer recorrendo ao astrolábio e à mencionada astro- traram. E, assim, receberam nomes portugueses os
nomia elementar, bastava correr pela latitude para se Açores, Cabo Verde, S. Tomé e Príncipe e Ano Bom,
chegar a Lisboa, não varando o porto, mesmo que Noronha (a que primitivamente se teria dado o nome
soprasse o ~onhecido vento do norte. Assim fizeram de São Ma teus), Trindade, Santa Helena Ascensão
Colombo e Gama, e assim praticam ainda hoje todos Tristão da Cunha ... ' '
os navios de vela. E até na Terra Nova, como nas Antilhas, perdu-
Só um tal conhecimento de navegação de alto mar, ram nomes portugueses, porque, pelo menos, a nossa
sem receio de se perderem - por muitos dias que pas- ciência náutica concorreu para o seu descobrimento.
sassem cengolfados no pego do mar» à mercê de ven- Canadá é' o antigo nome português canada.
tos e correntes, sem o recurso da «vista de terra» para Havia, naturalmente, um poderoso interesse em
se orientar- , só uma tal e~iência, de que nenhum manter a lenda do exclusivo das misteriosas caravelas,
outro povo da Europa então dispunha, poderia ter conservando em segredo a nossa maneira de traçar
animado os Portugueses a frequentar o mar largo, por as derrotas - como se deduz do conhecido episódio
onde sabemos que tinha de ser feita a viagem à vela, de Pero de Alenquer ter sido desmentido por D. João II,
de regresso da costa de Africa. Foi mercê da acção quando afirmou que lhe seria fácil trazer da Guiné
inteligente do In:f:iante D. Henrique que os mareantes a Lisboa qualquer nau, por ronceira de vela que ela
de Portugal aprenderam a Nova Arte Náutica, que fosse. Eis a explicação provável de não terem chegado
lhes permitiu a navegação do alto mar, a qual nenhum :a té nós diários, cartas de navegação do século xv, ou
outro povo fazia na primeira metade do século de 1400. outros documentos- como seriam os regimentos do
Devassado assim o Mar Tenebroso, por onde se Sol, manuscritos, por então não haver ainda imprensa
traçavam as derrotas de volta, sucessivamente se foi em Portugal. Os próprios cronistas, como também o
invadindo o ·oceano Atlântico com os navios portu- c:Esmeraldo», eram cúmplices deste intuitivo segredo;
gueses: foi-se à Guiné, ao Atlântico Sul e, além do de resto, conhecessem-no ou não, não era permitido
cabo de Boa Esperança, ao oceano Indico. Se, antes publicá-lo.
de Gil Eanes, alguns outros navegadores frequenta- E foi tal segredo tão bem mantido no decorrer do
ram o mar largo, é indiscutfvel que foi só a viagem século de 1400 que, embora sem documentos, podemos
260 A ESCOLA DO MAR LARGO-ATLÂNTICO E COSTA D E ÁFRICA ( CAP.
II, n] CABO BOJADOR. A VOLTA DO MAR DA BAG A 2ÓI
garantir que os Portugueses estiveram nos Açores em
1432, cortaram o equador em 1470, e dobraram o cabo Fenícios ou Normandos, isto é, o descobrimento da
de Boa Esperança em 1486. Donde- sem necessidade costa ocidental da África, continuou passo a passo,
de outras provas- se pode inferir com segurança que oom segurança, a ser feito só pelos mesmos marean-
esses mareantes sabiam perfeitamente navegar no pego tes - os Portugueses-, que, meio século depois, ainda
do mar, a que se refere Barros. Tais navegações reper- eram os únioos a navegar no Atlântico Sul, tendo pas-
cutem-se na tradição sobre a existência da Escola de sado já para o nascente da ponta mais austral da
Sagres, onde tal possibilidade fora criada. África - o cabo Tormentoso - e atingido o oceano
~ certo que os cronistas não mostram ter com-
lndioo, mar onde os recursos da navegação eram conhe-
preendido a importância e alcance náutico que teve a cidos, havia séculos, de outros navios de alto bordo.
passagem do cabo Bojador: limitam-'se a contar que Com esta passagem de Bartolomeu Dias feita muito
pelo sul e por fora do Cabo, em uma volta ' indirecta,
este cabo foi passado e repassado eem dizer oomo.
Zumra apenas regista que Gil Eanes, dobrando o cabo semelhante à da viagem de retorno do cabo Bojador,
c a aliem:., achou as coisas cmuyto pello contrairo do deixou de ser lendário o périplo da Ãfrica; tornam-se
que elle e os outros ateelly presumyram». E , como sinal realização, embora dela apenas nos restem indicações
da terra que ficava algumas dezenas de léguas para o vagas, como a de Pero de Alenquer, ou a de Diogo
sul do Oabo, trouxe a Portugal umas ervas chamadas Gomes: cEu e Antonio No li, do porto de Zaia, fomos
no Reino crosas de Sancta Marya:., em que se conver- dois dias e uma noite caminho de Portugal, e vimos
teram os famosos espinheiro das praias do Mar Tene- !ilhas no mar .. . » «E eu tinha um quadrante quando
broso. Não fala , sequer, das pegadas dos monstros, que fui a estes paizes ... ». kssim, em viagem de 'regresso
ele estava bem seguro de lá não enoontrar ... da oosta de África, feita pelo largo, fora descoberta
Mas, embora o não tenham feito notar os cro- a ilha de Santiago, de Cabo Verde.
nistas, outro testemunho mais eloquente trouxe Gil Para se alcançar um tal progresso definitivo sobre
Eanes: apesar dos ventos e oorrentes para sul, que ele a navegação que, havia tantos séculos, era praticada
e os outros cpresumyram:., resultava provado que- no Mediterrâneo, não bastara audácia em uma ocasião
mesmo em uma barca, que não era navio latino como de sorte feliz: fora preciso que de Sagres surgisse a
'
as caravelas- se podia, só à vela, fazer as viagens invenção de uma Nova Arte de Navegar. Foi confiados
de ida e volta à Guiné, primeiro alvo a que o Infante nela que os caravelistas, antes de descobrirem as terras,
apontara: deste principio a passagem pelos Açores como disse Camões, foram
fora uma prova de ensaio, ao passo que a do Bojador «descobrindo os mares inimigos ... :.
era uma prOVIa prática definitiva. Em resumo:
De facto, a partir desse ano de 1434, aquilo que
não pudera ser realizado pelos Cartagineses, nem pelos A História tem ignorado as dificuldades reais e
a importância da passagem pam o sul do cabo Boja-
262 A ESCOLA DO MAR LARGO-ATLÂNTICO E COSTA D E ÁFRICA ( CAP.
li, TI) CABO BOJADOR. A VOLTA DO MAR D A BAGA

dor, julgando, literàriamente, que o único obstáculo seg.redo que Pero de Alenquer ia deixando escapar ... E
a essa navegação residia apenas na superstição de esta viagem de algumas centenas de léguas, sem ver
marinheiros tímidos, apesar de já práticos de mares terra, pôde atingir depois milhares delas, como foi a
bem mais procelosos. de Vasco da Gama entre Santiago e a .Africa do Sul.
Como os portulanos do século de 1300 não reve- Aqueles «e& doze annos continuados durou o
laram conhecimento da costa ocidental de África, iffante:. consumidos a insistir com os seus marinheiros
deduz-se que, das viagens de Cartagineses, Fenícios, para se atreverem a passar a!lém do Bojador, ven-
Mouros ou Normandos- se as houvesse -nada ficou cendo apenas obstáculos, literàriamente imaginários,
que pudesse ter concorrido para facilitar aos carave- em um mar que se suspeitava ter parte do fundo a
listas do Infante D. Henrique a sua navegação defi- descoberto, não poderiam ter sido consumidos apenas
nitiV'a no mar ao sul das Canárias; porquanto os mapas em hesitações de navegar para ·além de um cabo cuja
anteriores a 1400 nem sequer mostram conhecimento restinga de arrebentação não passa - como é sabido -
da costa de .Africa até ao verdadeiro cabo Bojador dos de uma légua: é uma navegação fácil e elementar
Portugueses: a costa conhecida terminava no ·a ctual com vento e corrente a favor. Mas era necessário
cabo Juby. Todos ·aqueles navegadores lendários como garantir a continuidade das viagens, quer de ida quer
o próprio Béthencourt, deixaram confirmada ~ sen- de volta, para estabelecimento de relações permanentes
tença popular com as feitorias ultramarinas. Ora é intuitivo que a
maneira prática de realizar a volta da costa de África
«Quem passar ... ou tornará ou não:. ! - a qual talvez os cronistas ignorassem- em uma
Porém, as dificuldades reais não eram puras navegação indirecta pelo largo não convinha ser divul-
superstições, eram de ordem náutica. Aquela navegação gada, para conservar o monopólio comercial das terras
só poderia ter sido conquistada por aqueles que, depois novamente descobertas.. . Fazia-se por isso correr que
de uma preparação de muitos anos, em terra e no mar, só os navios de panos 'l·a tinos - como os portugueses,
descobriram a maneira de se poder voltar da Guiné, se é verdade que todas as caravelas só os tinham ... -
terra esta que se sabia ficar cerca de 300 léguas para poderiam realizar a viagem da Guiné.
além das Canárias. Destes estudos, realizados no tempo Tal é como, aos homens do mar, se apresenta com
do Infante, concluiu-se -de acordo com os factos, bem verosimilhança náutica aquele acontecimento marí-
conhecidos hoje - que tal volta da costa ocidental da timo a que os antigos náuticos ligaram tanta impor-
África não era praticável bordejando contra o vento, tância, qual é a passagem definitiva do cabo Bojador
ao longo da praia: era preciso contornar deliberada- em 1434. Porque ela exigia a ciência de cengolfar-se
mente a zona dos ventos contrários, pelo largo, em busca no pego do mar», que nenhuns outros navegadores
de outros ventos favoráveis. A dificuldade da volta da conheceram e praticaram correntemente antes dos
Guiné estava pois nesta travessia do alto mar no Portugueses.

264 A ESCOLA DO MAR LARGO-ATLÂNTICO E COSTA DE ÁFRICA ( CAP, II, 11] CABO BOJADOR. A VOLTA DO MAR DA BAGA

Não! Esta passagem do cabo Bojador- di-lo-ei cobertas. Ao contrário, não foram os Normandos mas
ma4s uma última vez- não foi ·a penas, como se pre- só os caravelistas do Infante D. Henrique quem, cde
tendeu, um acto de audácia de Gil Eanes, espécie de bússola e astrolábio na mão», e depois de larga expe-
salto por cima de preconceitos fúteis, que nada nos riência de alto mar, «abriram à Arte Náutica hori-
pode levar a crer que os marítimos tenham tomado a zontes novos:., mostrando os camlinhos marítimos da
sério. Esta passagem, conjugada com a passagem dos África, da lndia e da América; por fim, com o portu-
mesmos navios do Infante pelos Açores- que flicam guês Magalhães, ficou aberto o mar que ainda faltava,
ainda mais longe de Portugal, mais de 200 léguas em o Pacifico. E as cartas de navegar, então levantadas,
mar - , simboliza uma conquista definitiV'a da Huma- eram cmais exactas que as da velha Europa:. (Morais
nidade. Aquela passagem não foi o resultado da boa e Sousa).
sorte, no encontro acidental de condições meteoroló-
gicas propicias: foi o resultado das demoradas e inte- •
ligentes !investigações dirigidas pelo Infante D. Hen-
rique sobre a maneira de evitar os ventos contrários, Ã semelhança da inscrição lapidar com que, em
aproveitando os favoráveis. Ca.rta.go, se regtstou a viagem de Hanão além do cabo
Não foi necessãrio descobrir a maneira de bor- Bojador, a passagem portuguesa deste mesmo cabo-
dejar contra o vento, porque isso era uma vantagem a definitiva - será perpetuada, à maneira de agora,
conhecida de todos os que andavam à vela - o próprio pelo Monumento ao Infante D. Henrique, o Navegador,
vento no-la ensina!; ao contrário, foi preciso des- e aos seus mareantes.
cobrir a maneira de vencer as regiões de ventos No ano de 1934, em que se comemorou o meio
contrários sem o penoso e contingente trabalho de milénio desse inicio capital da moderna expansão
bordejar. europeia, foi também decidida a criação desse monu-
Com o auxílio da geometria dos astros, para os mento. Para ele foi escolhida uma situação universal:
navios se não perderem depois de navegar muitos dias a península de Sagres, local donde se iniciaram
sem avistar terra, a passagem do cabo Bojador foi a
prova final da possibilidade de os navios da época do «As navegações grandes que fizeram:.
Infante, os veleiros, poderem atravessar a vastidão dos
oceanos. os Portugueses, seguidos por outros povos europeus.
Deste progresso da Arte Náutica, tão útil à expan- Ali, melhor do que na praça monumental de
são e hegemonia da Europa, resultou aquilo que a lguma cidade, à beira-oceano, naquele cabo de Sagres,
D'Avezac e outros atribuem aos Normandos escre- «onde se combatem ambollos mares, scilicet, o grande
'
vendo que Béthencourt mostrara ( !) aos Portugueses mar Occiano com o mar Medyoterreno», naquele marco
o caminho que eles depois seguiram nas suas des- de separação entre o Mar Conhecido e o Mar Tene-
266 A ESCOLA D O MAR LAR GO-ATLÂNTi CO E COSTA D E ÁPRJ CA ( CAP. II, 11] CABO BOJADOR . A VOLTA D O M AR D A BAGA

broso... ali, em Sagres, melhor do que o estaria no nem o Cabo: eles apenas teriam tido a sagacidade de
próprio cabo Bojador - cuja passagem, tão fácil, o se aproveitar dos descobrimentos dos outros ...
torna um local pouco sugestivo - ficará o Monumento Mas, ao contrário deste critério humorístico, eu
em posição de ser todos os di~s contemplado pelos creio firmemente que se a passagem ra lém do Bojador
numerosos navegadores modernos -tripulantes e pas- - e a sequente abertura das grandes rotas oceânicas-
sageiros- que o passam a bordo de palácios flutuantes nã:o fosse obra nacional não nos teríamos sabido apro-
dotados de todos os confortos da terra. Esses fáceis veitar das descobertas alhei·as, e a História de Portu-
navegadores dos barcos de motores de agora serão, gal teria sido invertida. Certo, a Civilização Europeia
sugestivamente, levados a admirar a memória do In- não teria, pela nossa falta, deixado de se estender para
fante D. Henrique, em cujas pequenas caravelas, sem fora do Mediterrâneo; mas, para Portugal, não teria
frescos, sem conforto, sem deck sequer para passear, havido, nem os famosos
aqueles pioneiros do Mar Oceano, Gil Eanes e os seus
cmares nunca dantes navegados ... :.
sucessores foram ao Mar Tenebroso abrir as portas
que, durante tantos séculos, fecharam aos europeus- nem Ai;rica Tropical, nem lndias e Oriente, nem Brasil.
prisioneiros da Europa! - os camdnhos marítimos para Camões não t eria escrito «Os Lusíadas». A nossa acti-
o resto do Mundo, caminhos tornados agora tão fáceis vidade se teria limitado ao Norte de Africa. Desapa-
de trilhar. recida a razão de ser de um Portugal Europeu, hoje
. Assim, o Monumento do Infante recordará, sen- não se falaria português na América ... nem mesmo na
timentalmente, o local onde se forjou aquela chave Europa!
libertadora, a qual, apesar de a reconhecermos uma Quando muito estaríamos agora, ao calor de
criação simples, não foi achada por inspiração súbita fogueiras, explicando ao povo - em língua árabe, espa-
ou acaso: não é demais repetir que anos foi necessário nhola ou francesa - como tinham os nossos avós sido
consumir em estudos e navegações de mar, até que a banidos do outro •l•a do do estre!i.to, da saudosa Penín-
sentença, tantas vezes secular sula Hispânica, por não terem compreendido a imensa
vantagem de passar com as suas caravelas além do
... ou voltará ou não,
cabo Bojador.
se pôde transformar em Compreendeu esta verdade o Infante D. Henrique,
como depois D. João ll. Porque não a compreendemos
Quem passar o Bojador voltará pelo Golfão! nós agora, ao recordar o inicio dos Descobrimentos?!
Tal é, a meu ver, o significado -mais geográfico
• que romântico - da passagem do cabo Bojador, pri-
Há quem pretenda que os Portugueses nada desco- meiro passo capita1l dos Descobrimentos, realizado por
briram. . . nem os Açores, nem a Guiné nem o Brasil Gil Eanes em 1434, há meio milhar de anos.
, '
II, n] CA BO BOJADOR . A VOLTA DO MAR DA BAG A
268 A ESCOLA DO MAR LAR GO-ATLÂ NT ICO E COSTA D E ÁFRICA ( CAP.

hervadas:., de modo que já a bordo foram morrendo os


NUNO TRISTÃO E O MAR DE SARGAÇO feridos, !incluindo o chefe, Nuno Tdstão. Dos que tinham
largado nos batéis só dois escaparam, apesar de com
Depois de ter praticado viagens pela costa afri- a «peçonha» terem chegado «acerca da morte». Na
cana, na sua viagem final- a de 1446 em que perdeu caravela só tinham ficado cinco almas, sendo «dous
a vida- o aventureiro «nobre cavalleiro Nuno Tris- moços ·a ssaz pequenos», um «moço gineu», «huü
tam», concretizando o «grande desejo e vontade» do grumete assaz pouco avisado na arte de marear» e o
Infante D. Henrique, prossegllli.u no descobrimento da «moço da câmara do Iffa nte, que se chamava Aires
Guiné, província ultramarina que se nos devia tornar Tinoco, que hya por scrivam».
tão útil, sem ter havido a má sorte de a perdermos Embora Barros informe que este rio «Üra té o
como aconteceu a outra·s terras úteis na mesma costa. nome de Nuno», a distância concreta de 60 léguas nave-
Desta última aventura de Nuno Tristão resultou tam- gadas pa.ra sul do cabo Verde leva-nos antes ·a crer
bém uma prova técnica de que os «caravelistas do que o caso se deu no então «Rio Grande», segundo
Infante», longe de terem navegado «a acertar», já em Barros, vis to que o .a ctual rio Nuno imporia um reco-
1446 estavam familiarizados com as rotas indirectas nhecimento de mais meio cento de léguas por fora das
atlânticas, como vou tentar mostrar. ilhas Bijag6s.
Com a guarnição t ão reduzida da caravela não
• era possível «guindar» e meter dentro os batéis, nem
«levar as ancoras», tendo-se tido que «COrtar as amar-
Combinando o que nos conta Zurara, na sua ras ». 1!: mesmo de crer que não tivessem arriado a
«Chrónica de Guiné», com o que lemos nas «Décadas», verga grande, tendo a vela sido ferrada com moços
de Barros, deduzimos que «Nuno Tristam:., depois de cavalgando a verga, como era corrente nos cafques do
viagens, tanto à costa moura como à «terra dos Ne- AlgaTVe em fins do século passado. Qu'c!!ndo muito
gros», partiu de Lisboa para sul em uma caravela, na teriam largo, além da maior, também a pequena «COn-
Primavera de 1446. tm-mesena» a ré, para compassar a mareação.
Tendo passado umas sessenta degoas:. além do Com tripulação, pano e recursos tão Umitados
cabo Verde, entrou em costa ainda desconhecida, «onde não seria praticável empreender a retirada em viagem
achou huü ryo» que resolveu expio~, fundeando a costeira, a aproveitar revessas da corrente e ventos
caravela «na boca delle:., e entrando-o nos dois batéis terrais, bordejando com vento contrário ou fundeando
com um total de 22 homens. Mas encontrou-se logo com nas calmarias.
«treze almadias», nas quais haveria uns «oitenta ne- Por outro lado, o grumete «nom sabia rotear». Mas
gros», guinéus combativos, a rmados de arcos e frechas , Barros e Zumra concordam em que, sepultados no
que cercaram os batéi·s, forçando-os, depois de todos mar Nuno Tristão e seus companheiros do desastre, a
feridos, a retirar para bordo. Mas «as frechas erão
270 A ESCOLA DO MAR LARGO-ATLÂNTICO E COSTA DE ÁFRICA [ CAP.
II, 111] CABO DE BOA ESPERANÇA. A VOLTA DO CABO

caravela se fez de vela para o largo, por onde, «enca- De sorte que, da fatal aventura de Nuno Tri8tão,
minhada a vyagem daquelle navyo» pelo escrivão não nos ficou só o descobrimento do Rio Grande mas
Aires Tinoco, durante «dous meses nunca ouveram também uma confirmação de que aquele Mar de Baga
nhüa vista de terra», tendo ido demamdar a costa de da carta de Bianco, datada de 1436, jã fora descoberta
Portugal «'a traves de huü lugar do meestrado de dos mareantes portugueses por essa época. Era o Mar
Sanctiago, que se chama Sines», apenas umas vinte de Sargaço.
O Atlântico Central não estava pois, ainda então,
léguas a barlavento de Lagos, onde foram contar ao
envolto naquelas trevas que muitos lhe atribuem. A
Infante o fim daquela «humanidade» que por ctantos
possibilidade de aproveitar os ventos que lã dominam
anos fora criada».
não teve que esperar pelo cgénio descobridor:., geral-
O facto concreto de a caravela, «seguindo assy
mente atribuído a um excepcional navegador: jã por
per sua vya», ter praticado uma navegação de cdous
lã navegavam as «Caravelas do Infante» meio século
meses continuados» sem ver terra, passando, portanto,
antes de o sagaz Colombo atravessar o Atlântico para
por fora da costa e das Canãrias e Madeira, e do arqui- as Antilhas, revelando conhecimento prévio dos ventos
pélago de Cabo Verde, prova-nos que fizeram navega- que teria de aproveitar, tanto à ida como à volta. E
ção larga a contornar os ventos dentre norte e leste aquele «segredo » da Volta da Mina, que D. João II
que dominam no Atlântico Norte. A anãlise das cartas recomendam. a Pero de Alenquer jã em conhecido em
de ventos dd.z-nos que, jã iniciada a monção de sul, 1446 por um leigo de nãutica, «nado e criado em OU-
tiveram de ir passar com ventos variãveis a sul das vença, que he hii.a villa do sertaão muy ,a fastada do
ilhas de Cabo Verde, sem delas terem tido vista. Cor- mar», o escrivão Tinoco.
tado o Mar de Sargaço, e aproveitados os ventos dentre Como vamos, pois, insistir em negar aos Portu-
sudoeste e oeste, dominantes no Verão no Mar dos gueses a prioridade das rotas atlânticas? Só o poderão
Açores, puderam passar-lhes pelo sul sem os avistar . escrever aqueles que apenas conheçam o mar por o
O pano reduzido que levavam largo, e a época favorãvel verem do promenade deck dos barcos de agora, e não
do ano- foi depois, ainda em 1446, a viagem de cAl- do desabrigado convés de navios que, como a caravela
varo Fernandez a Guiné» -, permitiram àquelas sete de Aires Tinoco, só confiam nas suas velas para ir a
almas levarem o navio a Lagos. Porém, tendo-se per- toda a parte.
dido também o piloto, este acontecimento nãutico
revela-nos que as viagens de retirada da costa da Guiné, m- OABO DE BOA ESPERANÇA.
seguindo em largo arco a rota indirecta, jã em 1446 não A VOLTA DO OABO
eram mistério: tanto o grumete como o escrivão conhe-
ciam essa rota, e, •a ssim, forçados pela necessidade, ·se O descobrimento do caminho marítimo para a
atreveram a praticá-la. tndia não dependeu de um golpe, como o que corren-
272 A ESCOLA DO MAR LARGO-ATLÂNTICO E COSTA D E ÁFRIC A ( CAP.

temente se atribui a Colombo no descobrimento da


América.
As primitivas tentativas de ir à India pelo Atlân-
tico tinham falhado sempre. Mas só se tratava a sério
da rota a contornar a África, porque os mapas do
século xv - como o de Martellus e o autêntico de
Toscaneli -todos apresentavam a India mais próxima
de Portugal pelo oriente do que pelo ocidente. Nos
antípodas estaria, quando muito, a China. Não se podia,
pois, deixar de considerar absurda a opinião dos que
dimam que lá se teria de andar de cabeça parn baixo.
Também era anterior a D. João II, vindo rflalvez
muito do tempo do Infante D. Henrique, o cplano» por-
tuguês de ir à India contornando a África pelo sul.
E em 1492 já tínhamos bases para considerar praticá-
vel este caminho, ao passo que se ignorava quais as
dificuldades de um caminho pelo ocidente, se o
houvesse.
De facto, tendo-se chegado à Guiné em 1445, con-
tinuou-se para sul a exploração da costa africana. Em
1470 - se não antes - fora cortado o equador; mas
perdera-se a esperança de poder passar ao Oriente
com facilidade, por a costa de Ãfrica se estender para
sul, ao contrário do que alguns opinavam.
Só em 1482 a explornção para s ul atingiu a boca
de um grande rio, o Zaire. Depois, em outra viagem, o
mesmo descobridor - Diogo Cão - , seguindo ainda a
costa, conseguiu em 1485 atingir um cabo- o actual
Cape Cross dos mapas-, assim chamado por lá
terem debmdo um padrão, que foi levado para museu,
em BeT'lim. Esta expedição interrompeu-se pouco além,
cerca da latitude 22° 10', por ter morrido o chefe. Mas
viu-se que a costa continuava para sueste.
Efígie de Bartolomeu Dias
(Escultura no alto da fachada da Casa da
África do Sul, na Praça Trafalgar, Londres)
11, m) CABO DE BOA ESPERANÇA. A VOLTA DO CABO 273
Mantinha-se a crença em que Diogo Cão chegara
c·a té perto» do extremo sul da costa africana. :m pois de
crer que sem demora-, portanto, logo no ano de 1486,
e não de 1487- D. João ll tivesse mandado prosseguir
na exploração do caminho para o oceano Indico.
Não se tratava de construir navios novos, como se
fez para Vasco da Gama, pois serviam bem as carave-
las que havia, talvez mesmo as que Diogo Cão tinha
levado.
Foi então enviada uma expedição a prosseguir nos
trabalhos. Mas, por motivos que desconhecemos, pare-
cendo provável a reserva dos resultados de uma viagem
tão interessante- medida 'a preciada por D. João ll -,
escasseiam, ou são contraditórias, as informações sobre
a nova e~pedição. Sabemos que ela se realizou, faltando
elementos até para se saberem as datas da partida e
chegada a Lisboa, depois de ter sido descoberta a parte
mais sul da África, tendo-se dobrado um cabo ao qual
puseram o nome de cabo Tormentoso, depois mudado
por D. João ll para cabo de Boa Esperança.
De facto, a par da escassez de fontes directas a
respeito desta viagem, as narrativas dos cronistas não
correspondem à importância decisiva que a viagem do
Cabo teve para o descobrimento definitivo da rota para
a lndia.
O conhecido manuscrito cEsmeraldo», de Duarte
Pacheco, escrito em 1505, limita-se a nos indicar o ano
de 1488, para a passagem de um cabo, tendo-se reco-
nhecido que a ccosta e Ribeira do mar voltava daly
em diante ao norte e ao nordeste:.. A latitude deste
cabo era 34 graus e chum meo graao:..
18
274 A ESCOLA DO MAR LARGO-ATLÂNTICO E COSTA DE ÁFRICA [ CAP. II, m] CABO DE BOA ESPERANÇA. A VOLTA DO CABO 275
Dos dois cronistas, Pina e Resende, só este último outro navio, «a nao que levava os mantimentos», ou
faz uma ligeira referência a Bartolomeu Dias, sem «uma naveta», como depósito de sobresselentes.
acentuar a importância da viagem. (V. nota A).
Nas «Décadas», João de Barros 13!presenta uma A largada do porto de Lisboa teria sido em meados
narrativa desenvolVIida da viagem de exploração, a qual de Agosto de 1486 (1) .
teria sido iniciada «no fim de Agosto do dito anno», Seguiram a rota corrente, costeando a África a
1486, tendo a viagem terminado em Dezembro de 1487, favor de correntes e ventos conhecidos, provàvelmente
e durado «demsseis meses e deZ'assete dias ». A narra- até à Mina, onde se teriam abastecido.
tiva não é isenta de outros erros. Natural é supor que daqui, em lugar de se ensa-
Enfim, as «Lendas da India» aJtribuem a chefia dra carem no golfo, rumassem para sueste, aproveri tando
expedição a um «estrangeiro», «Janinfante», absten- ventos variáveis, e indo passar a oeste da ilha de São
do-se de sequer citar o nome do rc hefe real, Bartolomeu Tomé, donde foram demandar a costa na altura do
Dias. Teriam consumido «quatro meses» em bordadas rio Zaire.
ao mar e à terra, e ·s ofrido «gra.IIldes temporais» e ventos Então com terrais, viração, e revessas da corrente,
contrários, «sem nunqua fazerem mudança», pelo que foram acompanhando a costa já reconhecida por Diogo
foi forçado a «arribar» para Portugal. Não consegui- Cão, até à latitude de 22 graus sul, como disse.
ram assim descobrir o Cabo, ao qual as mesmas Na sequência da exploração iriam lutando contra
«Lendas» chamam de Boa Esperança, quando em os conhecidos ventos de sul, por vezes muito frescos (2),
1499 foi avistado pela primeira vez, e por Vasco da dominantes da costa.
Gama! São tão claros os erros, que a narrativa das Pelo Natal (3 ) -com quatro meses de viagem-
«Lendas» tem de ser compiletamente posta de parte. teriam chegado à angra Pequena, agora Luderitz
Uma tão grande deficiêncila, ou confusão, de infor- Bay, definida pela latitude 26° e 38' sul. A'l guns con-
mações fundamentais leva-nos a apoiar a narra.tiw fundem esta angra com a «das voltas», da qual, segundo
da viagem em conjecturas, de acordo com aquilo que J. Barros, a persistência de ventos fortes e contrários
hoje conhecemos, tanto 1a respeito das costas como dos obrigou Bartolomeu Dias a meter-se «na volta do mar».
ventos dominantes nas diferentes épocas do ano. (V. nota B).
E temos, em princípio, de aceitar que a chefia da
expediç~o foi confiada ao «cavalleiro da casa d'ElRei»
(Barros, f. 42) «Bartholomeu Dias», que comandava (1) Lopes de Mendonça e Fontoura aceitaram o ano de 1487.
uma das duas caravelas. A outra era comandada por ( 2) É conhecido o caso da canhoneir a «Salvador Corrêa»,

João Infante. O piloto principal era o hábil e conhecido que, em J aneiro de 11896, sob o comando do experiente João Cou-
tinho, teve de arribar depois de, durante «seis dias», ter lutado
Pero Dalanquer, o mesmo que depois, em 1497, acompa- contra um vento de sul «Com proporções de verdadeiro temporal».
nhou Vasco da Gama. Além das duas caravelas ia um ( 3 ) De acordo com a versão de Fontoura.
276 A ESCOLA "DO MAR LARGO-ATLÂNTICO E COSTA DE ÁFRICA ( CAP.
li, m] CABO DE BOA ESPERANÇA. A VOLTA DO CABO 277
Pelo facto de haver nesta angra um portinho fundo,
abrigado, ignorando-se se, para a frente, apareceria ~ sabido, pelos roteiros, que em Janeiro sopra ali
outro melhor, tem-se aceitado que teria sido na angra vento dominante entre sul e sueste, sendo absurdo
Pequena o porto onde Bartolomeu Dias deixou a naveta supor-se - como alguns pretendem __:_ que Bartolomeu
dos mantimentos, guardada por alguns homens insu- Dias tivesse continuado ao crumo do sub, proa ~
ficientes para a navegarem e, naturalmente, menos vento. {V. nota C).
aproveitáveis para a manobra das duas caravelas com Esta «Volta» larga teria, sem dúvidaI sido a rumos
as quais se continuou a ' exploração (4 ) . entre oeste e sudoeste, levando as velas latinas arria-
Pelo nome de São Silvestre, que se lê na carta das «a meio masto», por o vento ser violento.
de Cantino (1502) e que, segundo Fontoura, foi dado Naqueles «treze dias» de volta do mar citados nas
a uma «terra» avistada no último dia do ano- e arru- «Décadas.», as caravelas ter-se-iam afas~o cerca de
mada na niesma carta cerca da latitude de 28 graus-, três centenas de léguas da costa africana. Entraram
é de crer que Bartolomeu Dias tivesse entrado no assim na zona dos ventos variáveis, os quais já permi-
ano de 1487 ainda bordejando contra ventos de sul. tiram ~r ganhando sul. Atingida uma latitude entre
Por fim teria sido ·a tingida um·a outra angra for- 35 e 40 graus, onde dominam ventos entre norte e sul,
mada por um cabo que, nas cartas e roteiros, ainda por oeste, foi então tomado rumo de leste, em demanda
conserva o nome. de cabo das Voltas , na latitude real da costa de Africa.
de 28° 4f5' sul, fundeadouro chamado Peacock Mas a terra não aparecia. Navegadas cerca de uma
Roadstead, o qual fica duas léguas 'além do rio Orange. centena de léguas para nascente do meridiano da angra
. Foi provàvelmente . aqui que os ventos contrários, das Voltas, surgiram fortes suspeitas de que a costa
muito frescos. obrigaram Bartolomeu Dias a abando- africana não corria mais para o sul, e Bartolomeu Dias
nar o reconhecimento da costa. Esperava, talvez, que foi buscá-la csobre o rumo do norte».
y}or ali acontecesse o mesmo que na costa de Portugal, Até que, na latitude de cerca de 35 graus, avista-
onde as nortadas raro se estendem para além de meio vam um cabo, ao qual chamaram dos Vaqueiros, por
éaminho dos Açores. Pelo que, como último recurso e terem notado perto da praia muito gado vacum guar-
de acordo com o que se lê nas «Décadas», foi tomada dado por pastores.
«a volta do mar», desde a angra das Voltas, que Pouco a norte a?ria-se uma baia, onde fundearam,
«está ~m vinte nove graos da parte do sub, e onde e à qual puseram o nome de São Brás, naturalmente
:nartolomeu Dias se «deteve cinquo dias com tempos por lá terem chegado no .dia do Santo, que cai a 3 de
que lhe não leixavão fazer caminho:.. Fevereiro. Hoje é Mossel Bay p).

( 4 ) O Rev. Sidney Welch aceitou que a naveta foi deixada


em Porto Alexandre, o que é menos provável.
(~) Opinião seguida por Fontoura.
278 A ESCOLA DO MAR LARGO-ATLÂNTICO E COSTA D E ÁFRICA ( CAP.
li, m] CABO DE BOA ESPERANÇA. A VOLTA DO CABO 279

Felizmente a costa continuava correndo para nas- encontrar na parte da costa, ainda desconhecida, que
cente. De modo que, não se tendo obtido dos indígenas ficam para trás, para ocidente de ·São Brás.
informações nem auxílios materiais ( 6 ) , a exploração Em vista disto, Bartolomeu Dias reuniu em terra
foi continuada para leste. - talvez no ilhéu da Cruz - conselho dos principais.
Nesta continuação de reconhecimento da costa E, considerando que já «levavão a maior novidade»,
foram navegadas mais 60 léguas, indo-se fundear em concordaram em interromper a exploração. Somente
outr a angra, cha.omada da Roca, por o seu cabo ter Bartolomeu Dias obteve a concessão de um prazo de
semelhança com o conhecido cabo da Roca da costa «maes dous ou tres dias» de navegação pela costa, a
portuguesa. qual seria terminada se não encontrassem novidade -
Havia dentro um ilhéu, a que puseram o nome como, por exemplo, um porto já frequentado por navios
de ilhéu da Cruz -hoje St. Croix lsland- sendo de indianos, onde se pudessem abastecer e prosseguir na
'
crer que o nome seja devido a lá terem arvorado, não exploração.
um padrão de pedra, mas uma cruz de madeira (7). Continuando a navegação para nordeste foi atin-
Este fundeadouro identifica-se com Algoa Bay, não gida a boca de um rio -que ficava «25 legoas» além
só pelos ilhéus, como por a distância estimada desde do ilhéu da Cruz, e na altura de «trinta e dous graos e
São Brás, umas 60 léguas, pouco diferir da verdade. dous terços» - , rio ao qual foi dado o nome de rio do
Já ali todos estariam convencidos de que a terra Infante, repetido nos roteiros antigos. O que, segundo
africana se não e"Stendia mais para sul e que a·s sim o Barros, foi devido a ter sido Infante «O primeiro que
'
caminho para o Mar da tndia estava enfim '
aberto. ' sahio em terra»; mas, mais natural é a conjectura de
Teria sido nesta baía que «a gente cançada e mui que foi ele quem, no seu batel, entrou para dentro do
temerosa dos grandes mares ·que passarão » começou a rio, por a barra não dar entrada fácil às caravelas, que
«requerer» que se não fosse mais avante, com receio de teriam ficado ao largo.
que os mantimentos faltassem para o regresso até ao Perestrelo, que em 1575 reconheceu esta parte da
navio-depósito, o qual não haVJi.a certeza de ter sido costa de África, atribui à barra do rio a latitude de
respeitado pelos negros. De resto, ainda eram igno- «32 gr. e meyo». O estudo desta questão faz-nos hesitar
radas quais as dificuldades de navegação que se iriam sobre a identificação deste rio, que, já desde 1838-
data em que o Dr. Kopke publicou o «Roteiro de Vasco
( 6) N o «Roteiro de Vasco da Gama » lê-se que, tendo os
da Gama» -tem sido identificado com o Great Fish
negros de São Brás defendido «às pedradas» a aguada, Bartolo- River das cartas modernas, cuja boca está em 33 graus
meu Dias se viu obrigado a atirar-lhe «com uma besta e matou e meio. (V. nota D).
um deles». Na «Arte de Navegar», de Pimentel, lê-se que
(7) BarrO'S afirma que f oi neste ilhéu «onde puseram o «adiante» do rio do Infante há outro rio, «que se chama
padrão chamado da Cruz», o que não é verdade. A latitude que
lhe assina, 33• 45',, não difere mais de uma légua da realidade. S. Christovão», o que, por ser este o nome do navio
280 A ESCOLA DO MAR LARGO-ATLÂNTICO E COSTA DE ÁFRICA ( CAP,

de Bartolomeu Dias, sugere outro descobrimento coito


léguas» para nordeste.
Nada se tendo achado de interessante, foi então
decidida a «volta», 'a gora com a corrente a favor.
É natural supor que foi só neste regresso que Bar-
tolomeu Dias levantou· um «derradeiro padram:., em Escavações donde foram retira dos fragmentos
um ponto notável, um «ylheo peguado na terra:. ( 8 ) , do Padrão de S. Gregório implantado por
hoje chamado False Islande-, o qual estimaram f~car Ba rtolomeu Dias, a gora expostos no Museu
de Cape T own
dez léguas além do ilhéu da Cruz. Como lhe puseram o
nome de São Gregório, é de crer que o padrão fosse
erigido no dia deste Santo, que cai a 12 de Março.
Desta pedra ainda há poucos anos foram encontrados
na False I slande claros vestígios, alguns com letras
gravadas.
Tinha sido notado um detalhe importante: a costa
corria francamente para nordeste, vindo de lá uma
corrente forte- que hoje sabemos correr normalmente
uma milha por hora - , corrente que era apreciàvel-
mente quente, indicando caminho aberto def!de a região
equatorial.
Naturalmente, o regresso tinha agora de ser feito
com urgência, não só pelo interesse de comunicar a
D. João li o importante resultado da viagem- a «Che-
gada às portas da lndia» - como também para lhe
atenuar o aborrecimento por não terem continuado o
reconhecimento pelo costa africana, até ao encontro
de um porto já em relações comerciais com a lndia.
Havia também urgência em voltar ao navio de
abastecimento, com o qual se não podia contar em
absoluto, e tanto mais que em São Brás pouco se tinha
obtido dos nativos.

( 8} «Livro de Marinharia:., de J. de Lisboa.

False lsland, vista do la do da praia


«llh eo do padrão de sam greguoreo» in «Livro de Marinha ri a
de João de Lisboa», fi. 46 v .•
.
li, m] CABO DE BOA ESPERANÇA. A VOLTA DO CABO 281

Nesta navegação para ocidente, passado um cabo


que ainda hoje tem nas cartas o nome de Cabo do In-
fante -vestígio desta viagem- , foi enfim atingida
a parte mais a sul do continente africano, à qual- não
sabemos bem porquê- foi dado o nome de Cabo das
Agulhas, não citado no «Roteiro de Vasco da Gama»,
mas indicado em 1502 na carta de Cantino. Decerto
ali observaram a latitude, 35 graus. Junto deste cabo
lê-se na mesma carta «angi"a de sam Jorge», o que
sugere o terem lá estado em 23 de Abril. Seria aqui
que, como era natural, deixamm um padrão? (V.
nota E).
Faltavam apenas 25 léguas para contornar a ponta
sudoeste de África, distânci'a fàcilmente navegável em
um dia, com os ventos favoráveis em metade dos dias
do ano, que hoje sabemos ali dominarem.
Passada uma «angra muito grande que entra pela
terra bem seis legoas» - a actual False Bay- foi
então finalmente descoberto aquele cabo-, tão famoso
Padrão de S. Gregório
primeiro e o mais afas~
que é conhecido pelo nome simples de Cabo - ao
tado erigido por Barto- qual os primeiros europeus que o avistaram «poserão
lomeu Dias sobre a False nome Tormentoso» por causa dos perigos e tormentos
lsland das cartas do que em dobrar delle passarão». O que provàvelmente
Almirantado Britânico_ teria sido durante a anterior passagem para leste,
promontório que faz
parte do grupo de ilhas
pelas latitudes altas, onde se encontram temporais, ao
conhecidas pela designa- passo que junto ao Cabo são comuns ventos frescos de
ção de «Kwaai Hoek» . sueste, favoráveis à passagem para o Atlântico. Jul-
O padrão é uma reconsti- ga~se que o nome actual - cabo de Boa Esperança-
tuição formada de acordo lhe foi dado por D. João II. (V. nota F).
com os fragmentos (5000)
e n c o n t r a dos por Eric Para norte, Bartolomeu Dias continuou acompa-
Axelson na Universidade nhando a costa, mas sabemos que a foi correndo ràpi-
de Witwaters Rand damente - apesar de a não ter reconhecido à ida para
joanesburgo. ' o mar- , porquanto, pelo depoimento de Pero Dalan-
(Foto gentilmente
cedida pela Sociedade
de Geografia de Lisboa)
282 A ESCOL A DO MAR-LARG O ATLÂNTICO E COSTA DE ÁFRICA [CAPt
Il, m) CABO D E BOA ESPERANÇA . A VOLTA DO CABO

quer, que se :tê no «Roteiro de Vasco da Gama», menos de dois centos de léguas, com vento e corrente
sabe~se que t endo partido um dia pela manhã do Cabo, a favor, que é lícito preferir-lhe para a chegada à
passar.aJm de noite a baía de Santa H elena, que fica Angra o dia 1 de Maio, em que também era festejado
trinta léguas a norte. Santiago, Apóstolo {1°).
De modo que, contando com os ventos favoráveis Desta a ngr a continuaram para norte, lendo-se nas
que ali dominam todo ano - e que tinham sido con- cDécadas» que foram escalar na ilha do Príncipe, onde
trários à ida- é lícito conjecturar que a distância de encontram Duarte Pacheco - autor do manuscrito
cento e meio de léguas «per costa», que vai do Cabo à cEsmeraldo», que não apresenta a menor referência a
angra Pequena, teria sido navegada em uma semana, este interessante detalhe (V. notas I, J) - «mui
para o que bastaria ir à velocidade de uma légua por doente», tendo naufragado o navio em que estava
hora. (V. nota G) . explorando a costa da Guiné.
Na Angra já Bartolomeu Dias só foi encontrar Bartolomeu Dias teria feito ainda duas escalas -
três dos nove homens que lá tinha deixado a guardar no Resgate e em S. Jorge da Mina- inúteis para a
o navio-depósito de mantimentos. Os outros tinham finalidade das viagens, e demor adas por se ir ensacar
sido mortos «peilos negr os da terra», quando desem- no golfo da Guiné, donde era trabalhoso recuar uma
barcaram para obter água, lenha, frescos. Depois de centena de légu,a s para o equador, a fim de por lá
abastecidas as ca11avelas, a naveta foi queimada. iniciar a co!Ilhecida Volta da Mina, a caminho de Por-
A esta angra foi também dado o nome de São tugal.
Cristóvão, que se lê na carta de Cantino, possivel- Mesmo aceitando as três escalas, citadas por
mente por ser o do navio que Bartolomeu Dias capi- Barros, a navegação da angra Pequena para Lisboa
taneava (9 ) . deveria levar cerca de três meses. Dando ainda um
Foi aqui que Bartolomeu Dias deixou o seu ter- mês para as demoras devidas às escalas, não é natural
ceiro padrão, na ponta noroeste da terra, a qual hoje conjecturar para esse regresso de Bartolomeu Dias, da
tem nas cartas o nome de Dias point . (V. nota H). Angra a Lisboa, mais de quatro meses.
O padrão tem o nome, incontestado, de Santiago, o que E tan to assim é que se, com Fontoura, aceitarmos
Fontoura atribui ao facto de lá ter ido a 25 de Julho, os quatro meses normais de ida de Lisboa à Angra,
dia do Santo. Mas é tão demorado o prazo de sete demorados pelo reconhecimento da costa desconhecida
semanas, que ele atribui à viagem desde o Cabo -de por Diogo Cão ( 11 ) , ou ,s eja aceitando a passagem na
6 de Junho a 24 de Julho - , para uma navegação de Angra pelo Natal, e os somarmos aos «nove meses
justos» que, segundo Barros, Bartolomeu Dias se
(9) Segundo a versão F ontoura, explica-se o nome São
Cristóvão por as caravelas terem chegado à Angra em 24 de ( l O) Regimentos de Évora e de Munique.
Julho de 1488. (11 ) Fontoura, «Às Portas da fnd ia », pág. 31.
li, m] CABO DE BOA ESPERANÇA. A VOLTA DO CABO
284 A ESCOLA DO MAR LARGO-ATLÂNTICO E COSTA D E ÁFRICA ( CAP.

capitães· com o mesmo nome -Bartolomeu Dias- , um


demorou fora da Angra, a chegada lá ter-se-ia dado dos quais estaria em l!.isboa em 23 de Novembro de
em fins de Setembro. Assim, até à chegada a Lisboa, 1487 comandando a nau cFiga», enquanto o outro
cem Dezembro:. (1 2 ) , restariam apenas três meses. cvel~java por águas africanas» , comandando a cara-
De resto, atendendo à lógica imposição de levar vela cSão Cristóvão ». (V. nota K).
a D. João II a extraordinária cnovidade:.- qual era a Torna-se assim licito acatar a versão de Ba.r:ros
cboa esperança:. de se poder navegar até à índia-, de que Bartolomeu Dias partiu de Lisboa em Agosto
surge como pouco provável que Bartolomeu Dias, de «quatrocentos e oitenta e seis», e ainda não voltara
tendo-se abastecido na angra Pequena, tivesse neces- a Lisboa em Maio de 1487, quando Paiva e Covilhã
sidade de outras escalas, só pelo capricho fútil de cnão foram «despachados» para a India (14 ) . O Oabo teria,
virem com as mãos vazias:. (18 ) . Porquanto eles as pois, ,sido descoberto em 1487. E a viagem teria durado
levavam bem cheia8 com a certeza de estar aberta a pouco mais de um ano. (V. nota L).
porta entre os oceanos Atlântico e Indico. . De resto, neste caso a data não tem importância
Na falta de documentação é pois lícito duvidar de capital ao lado do resultado final atingido pela e~­
tais escalas - como seria a da ilha do Príncipe - no dição de Bartolomeu Dias. A qual, de facto, abnu o
fundo do golfo da Guiné, onde ventos e correntes já caminho da autêntica India alguns anos antes de 1492,
eram bem conhecidos. ano em que Cristóvão Colombo declarou - convencido
Teriam ido, quando muito, a um porto para fazer ou não - que estivera às portas do Mar da India,
aguada, tomando lá, possivelmente, carga para Por- quando apenas descobrira o arquipélago das Antilhas.
tugal. (V. nota J). (V. notaM).
Daqui teria sido praticada a usual retirada em arco
pelo Mar de Sargaço, bem simples até para navegado-
res menos experientes que Dias ou Dalanquer, pionei-

ros do Mar do Sul. Enfim das dificuldades de navegar ao longo da
Assim, mesmo contando que a passagem em Angra costa de África, para sul, por causa da insistência de
Pequena se tivesse realizado, não em Maio mas em ventos contrários, maus de vencer mesmo com cara-
Julho - como aceitou Fontoura - , é verosímil a che- velas ressalta a natural conjectura de a Bartolomeu
gada a Lisboa menos de quatro meses depois, ou seja Dias ' e Pero Dalanquer ter sido aproveitada a expe-
em princípios de Novembro de 1487. riência para a exploração de outra rota, a passagem
Deixa pois de se impor a hipótese de uma pouco do Atlântico pelo sudoeste. O que teria sido feito reser-
provável coexistência, no fim do século xv, dos dois

(12) cDécadas:., Livro III, cap. IV. (H) «Décadas>, Livro III, cap. V.
(1') cDécadas:., idem.
286 A ESCOLA DO MAR LARGO-ATLÂNTICO E COSTA DE ÁFRICA ( CAP. li, m] CABO DE BOA ESPERANÇA. A VOLTA DO CABO

vadamente, ainda em vida de D. João II. Os cronistas padram» de Bartolomeu Dias. Mas, uma posterior
são omissos a tal respeito, como afinal o são também carência de pilotos no regresso da índia faz-nos crer
a respeito da própr ia vi'a gem de Bartolomeu Dias além que ele foi uma das vítimas do escorbuto, que reduziu
do Cabo. Dessa natur al exploração se teria concluído a um terço as tripulações da esquadra de Vasco da
a possibilidade de atravessar de Lisboa para o Cabo Gama. Terna Pero Dalanquer sido sepultado no Mar da
em navios de velas quadrangulares, as naus. (V. índia?
nota L).
Do grande navegador Bartolomeu Dias temos Resumindo:
ainda informação de ele, em 1497, ter acompanhado Foram vários os resultados da expedição de Bar-
Vasco da Gama até ao largo da Serra Leoa, onde se tolomeu Dias.
separaram. Dias i1a em viagem comercial para a Mina, COnseguiu dobrar o extremo sudoeste da costa
enquanto que Vasco da Gama tomou a volta do mar africana- um cabo ao qua!l D. João II, esperando ter
largo. aberta a «pOrta» do oceano Atlântico para os portos
Depois, em 1500, Bartolomeu Dias acompanhou a do Mar da tndia, deu o nome de cabo de Boa Espe-
· esquadra de Cabral, comandando uma caravela, espe- rança, que ainda conserva.
cialmente encarregado de descobrir- ou seja explorar Navegando para nascente, Bartolomeu Dias con-
- a .reglião de Sofala, famosa pelo comércio de ouro. cluiu que a Mrica se não estendia mais para sul e, no
Mas, lamentàvelmente, esta sua viagem acabou tràgi- termo da sua viagem, até reconheceu que a costa virava
camente. Pelas alturas das ilhas de Tristão da Cunha a nordeste. Uma corrente quente, que de lá vinha, era
-ainda então por descobrir- , no dia 23 de Maio, forte indicação de haver caminho aberto até à região
«armou-se uma negrur'a no mar», acalmando o vento, tropical, onde se sabia ficar a lndia.
que depois saltou ao outro bordo, de modo que, encos- Bartolomeu Dias trouxe outra informação impor-
tando os panos sobre enxárcias e mastros, não deu azo if:lante: depois das dificuldades que encontrara na sua
a amainar vergas. Assim se viraram e afundaram rota para sul, apesar de só levar navios maneiros, de
quatro navios da esquadra. Um deles foi a caravela de pouco porte- caravelas-, foi reconhecido que a rota
Bartolomeu Dias, que, «tendo passado tantos perigos costeira era pouco praticável para navios de velas qua-
de mar nos descobrimentos que fez », esta «fúria de drangulares - as naus - e que, em lugar da rota pelo
vento>~ lhe deu sepultura naquele mesmo Mar do Sul sueste, convinha explorar uma outra- se a houvesse
que ele começara a desbravar. ~pelo sudoeste. Mas sempre para o Cabo. Ainda se
Quanto a Pero Dalanquer, só temos notíci'a de que ignorava se aquele vento que, na Volta da Mina, ao
foi como piloto-mor na viagem de Vasco da Gama. longo do equador, vinha soprando de sueste se esten-
Ainda estava vivo na baía de Santa Helena. A ele deria muito para sul ou oeste. Se 'a ssim fosse, a bor-
seriam devidas as informações sobre o «derradeiro dada larga teria de prolong·ar-~se para sudoeste, talvez
288 A ESCOLA DO MAR LARGO-ATLÂNTICO E COSTA DE ÁFRICA [ CAP. 11, m] CABO DE BOA ESPERANÇA. A VOLTA DO CABO

indo esbarmr em alguma terra que, eventualmente, em viagem definitiva. E ia tão seguro de poder romper
por lá houvesse. pelo sudoeste, para o Cabo, que, em lugar de ir iniciar
A prudência impunha, pois, a exploração desse a volta à Mina, ou mesmo ao cabo das Palmas, se con-
outro caminho. Estava indicada uma volta do mar, tentou em não passar para leste da Serra Leoa.
como aquela que Bartolomeu Dias traçara desde apep.as Não é preciso ser técnico náutico para concluir que
um cento de léguas a norte do Cabo, mas iniciada de foi de reconhecimentos, só tenninados alguns anos
um porto ao norte, como seriam a Mina ou a ilha de depois do regresso de Bartolomeu Dias, que resultou
São Tomé. a norma de procurar, em todas as estações do ano ir

Tratava-se assim de tentar uma volta em arco, cortar o eauador cerca do meridiano das ilhas de Cabo
pelo largo de África, a contornar aquela região de Verde. O q ue também fez Cabral • em 1500 • na sua
ventos contrários, que Dias encontrara a poente do viagem definitiva para a tndia.
Cabo, e que se receava dominarem no Atlântico Sul Um tão indispensável reconhecimento prévio
até ao equador. Seri·a uma volta- à qual depois cha- explica cabalmente a demora de uma dezena de anos
maram do Brasil - análoga àquela que os navios entre a chegada de Bartolomeu Dias com as c:boas
em retorno da Guiné traçavam no Atlântico Norte, esperanças>> e a partida de Vasco da Gama em 1497
também em arco, pelo largo da costa africana. Mas com as naus, em viagem definitiva por caminho dife-
nada fazia prever tal possibilidade e, de facto, esta rente, a «passagem do sudoeste». As informações de
outra rota tinha de ser traçada mais chegada à África, P. da Covilhã, sobre as posibilidades de navegação no
por causa do vento da monção de sul, que há no Verão Mar da lndia, tinham chegado a Lisboa cerca de 1492,
entre as ilhas de Oabo Verde e o equador. Também se indicando que as travessias deste mar se faziam a
verificou depois que ao passo que, no Atlântico Norte, favor das monções, para o que eram preferíveis os
a Volta do Sargaço se podia alargar para ocidente dos navios de panos redondos, também naus.
Açores, no Atlântico Sul existiam terras a barrar o Enftim, a provada prudência que deu o sucesso
alargamento da volta para ocidente. Tratava"'se da aos navegadores portugueses - concretizada pelo
costa de Pernambuco, cujo conhecimento o Tratado de espaço de meio século que nos exigiu a exploração
Tordesilhas, assinado em 1494, fazia prever. entre os cabos Bojador e Tormentoso- confinna a
Esta costa teria sido achada durante as inevitá- versão de Pedro Nunes de que os Descobrimentos Marí-
vei& viagens de exploração em busca da possibilidade timos se não fizeram «indo a acertar», ou seja ao
da passagem pelo quadrante sudoeste do Atlântico. acaso. Avançava-se passo a passo, à medida que se
:1!: sabido que essa volta larga, passando a barla- iam adquirindo informações novas.
vento - a leste -da costa brasileira, foi praticada Conhecemos os nomes de alguns dos pioneiros
em 1497 por Vasco da Gama, navegador que, visto não dessa longa campanha maritima, como Gil Eanes,
levar caravelas, como Bartolomeu Dias, mas naus, ia Dinis Dias, Diogo Cão, Bartolomeu Dias. Mas a res-
19
290 A ESCOLA DO MAR LAROO-ATLÃNTICO E COSTA DE ÁFRICA [ CAP. II, m] CABO D E BOA ESPERANÇA. A VOLTA DO CABO 291

peito de muitos outros nada sabemos. E até nos faltam Ba.rttolomeu Üias a1banidonou a costa e tomou a V01ka do
informações regulares sobre as rotas seguidas pelos 'Mal' - a'V'Ult a o facto de a sua !La:ti·t ude real, 26• 38' ser
navegadores conhecidos. 'inconJfundívcl com os 29 'gll"aus que são alt:rilbuídos nas
Somos assim levados a, interpolando entre as via- «IDécald:as», como as 29• 20' do «E s·m eraldo», à ang1'a das
gens conhecidas algumas outras prováveis, deduzir um V oitas, ainda registlada nos .m apas modernos com o nome
lógico encadeamento das viagens de descobrimentos, cabo das Vol~s . Foi na cra t i-twte 218• 412:' . segundo o
segundo conjecturas nàuticamente prováveis. ((IA,frica .Pilo t» .
Foi assim que procedi nesta tentativa de recons-
tituição da rota seguida por Bartolomeu Dias. Espe- C ___.O desvio de ·Bartol~eu Oi·a s paira o ma:r largo1

remos que outros investigadores, obedecendo a inter- não ·tem :Sfdo bem interpretado pelos historiadores moder-
prestações mais seguras, se dêem ao trabalho de-tanto nos, que não repMaram na insistêncl'a de 'V'e:Iltos entre su~
a esta como a outras versões- as discutir e modificar. e suest ~ . na cos!la a:frk ana para norte do Cabo. Tanto
Não começámos cedo. Dias oomo Gama; jâ os ~encontraraim. Apesar de IS'e es'talr
A Bem da História dos Descobrimentos. então no V erão do hemisfério sul, alguns admitem «grandes
&ios:. . .:E, desde o C&rdeal Saraiva, tanm Sophu:s Ruge
NO TIAS oonm IPil"eSta!ge, Sidney e outros ·m ais modemos, rtoidos
d·n siste m no «rumo 180 sub , o que s-eria oontre o vento. E é
A - Na !Versão - di~tivel - da rota seguid:a. por IC<m'tra a dn'formação de Barros aoeroa do ven,t o, que ldetE!'Ve
'Bartolomeu ,Dias, que apr:esento, procurei combinar a IVer<>- .Ba.r't()lomeu !Dias «cinquo dias:. bordej1811ldo, a~ que se
's imilhança 1n'âutica com aquilo que demos nos cronistas e, decidiu a :r uma·r pa!ra poente «na vo]itJa do ma:r». Só assim,
em especial, nru~ «Décaldas:., de João de Barros. 1Bm aJgUID.s :por causa do 'Vte:llto !forte IOO.Iltrir:io, e não por tempesta:die
.pon'b)s afasteii-me Slelrullve'lmente Ida ~VerSão akloptada pelo de norte, se e xplica nàutkam en.te o 'facto de ter sido
Prof. 1F on:toura dl8l Costa ( 18 ), especialmente na 'V'lagem de alban&maldo o ll"'ellOOlhecimento da costa.
regresso, à qual atribui uma natura1l urgênda de ~eva1r a
10. João U a boa nova de se: ter .p e:nmado .franC81Dlen'te com D- São vagas a;s notícias a~erca do rio do Infante,
os ID.Avios pottugu'es'eiS no Mar dia fndia. Oo que peço 85 quais nos ,farem hesitair sobre a sUJa' identificação.
humilde d.eis.cutpa à memócla Ide tão !ia:roaiD.sâVIell1n~tigador. Barrt>s ait:rlbui..Jhe a latit ude de «trin~ e deus -greos
e dbus tletrços:. (a rme:sma do Re:gim:ento de Svora), ao
B- :E ntre OUit1Ms r az6es para negu a lide:nti'da'd~ passo que 1Perestrelo, que, em 1575, percorreu a costa,
en:tt:e a l!llnlgra Pequena e a angra das Voltas - na qual tendo :aJlltles n:au:fragado perto do mes·m o rio, atribui à sua
boca «32 graus e meyo».
'A mais antiga iilnÍormação COinlhecida a tal .r espeito é
(••) «À8 Portas da lndia em 1484:.. aquela que consta do «IRote:iro de Vasco da Ga·m u, natu-
292 A ESCOLA DO MAR LARGO-ATLÂNTICO E COSTA DE ÁFRICA ( CAP. II, m] CABO DE BOA ESPERANÇA. A VOLTA DO CABO 293

rafm~mte ~devida ta 1Pero de Alenqu.er, que :ia na 'Via·gem e das T onnentas, apesa:r dle Barros taim'bém con.tu que co
que antes tinha chegado com Ball'tolomeu Dias à entrada itleimpo•lhe não deu :lugar a 5aic em ttel'lra». O que teria sido
do mesmo rio, «a ldeell"radei·ra terra que Bartolomeu Dias iato etm 6 de Junho, dia de S • •Filipe. Assim, a pequena
ide&Cobriu:.. FicaiVa «quynze 1egoas» aiém do «d:errade:ko ·distância de 24 rl éguas entre os dois mbos .teria ex1g:i do
padram:., o qual •Pero Ide Alenquer bem conhecia, o oons~ tirês semanas às Clalravelas, o qUJe é .i.mprovãvel, por a cor~
picuo roch·e do de São Gregório, ·h oje definitilvaJmm.te toe. rente ser a favor, e as 'Vellltos lfaiVOiáV'eiis ISOpl'arem a!li
~zado. dUil"ante metla!de das kilas do 18no.
1Em outro dOICUJmle.:nto d'a répoclal. a carta porrugue:sa ,Demais, não ,a_pl8lreCie: v.estigib âe padrãb no Cabo.
(te IC:antino. a ldistãnda mleidida entre o padrfto e o mesmo pelo q·ue é ilíCito a<:lei1:1a!r que t:al rv:ersão de Barros é t!o
rio anda por trinta léguas. Ao passo que, nos mapas moder~ Mctíci:a oomo a dos outros padrões qUJe ele 'CiOD.ta tJe:re'm sido
nos a distância entre o mesmo padrão ·e a boca do Great erig·i·dos na «Serra Parda» e no «ilhéu da Cruz». Segundo
Fish River nã·o dheoga a dez <léguas. Como esta boca tem o «Roteiro de Vasco da Gama», Pero Dalanquer a.ftirmou
no «A.f!.OOa Pilob a ~atitude de 33° 311 '. coru:lt.lli.-se que a que tinham partido do Cabo um dia «pdla manha:m», e que
sua iden•ti>ficação com o Rio do Infante d:e Per-estrelo
«de noute passara per al'ly»- a baía de Santa Helena -
mvolVie um erro de um .g rau !pléllra uma latitude OOsell"V&f:a
«<:Om -vento a popa», não t endo por isso notado a baía,
~ terra, oomo é pouco prováv:el. O que nos leva a supor
•vis·to que venceram aquela distância - 30 léguas - em
que o verdad·e iro rio do Infante é mais a nor.te que o Great
1menoo de .um dia.
Fish Rivet.
Só :um ~ 1oc:al p!Oiderã, didfimtiv8Diiellllt2', dleoídk
G _, Fontoura da Costa, OOimallldo como base os :nom~
esta questâo.
de santos que se lêem .nas ca.rt:as antigas, aceitou que o
E - Fontoura ace5.tou que o nome de «•P onta de São ·c ento .e meio de léguas, que vão do Cabo à angra Pequena,
Bran!dlatm:.. qwe se lê na atrta de Gantino, ·t raduz uma tleria exigido uma nawgação die sete semanas _,entre 6 de
passagem no dia 16 de Maio. Ora o prazo de mais de dois }unho e 2·4 de Ju1ho - , ape:sa•r dos ventos favoráveis que
meses desde o padrão de S. Gregório parece ex•oessivo por ali dominam, sendo frequ•e ntemen•t e fre:siC.OS.
palta a navegação de uma distânda de um cento !de légum;, 1Asstim explica o nome de Santiago que, Ide !.facto, foli
das quais 60 jã tmham sido ;reconhecidas. Mas, no lm'e!SIIDO dado ao padrão de Bartolomeu Dias, encon.tredo na ponta
mapa :de Cantino e Junfto do cabo das Agulhas, está a re x•terio.r da angra Pequena . Como porém Santiago era
«angra :de sa:n J(jt\ge:., santo 1festejado a 23 de Abril, o que itlaimbém ·~ado em 1 de Maio, é 1íd'to aceitar esta daJta
:indica wn:a palSS8gem. por aquele caJbo mU'ilto 181ll'teriôr a 16 iplll1'l8l o .regresso dle &mo.lODlle:U Dias à Angra. onde ficara
•de Maio. a naveta de mantimentos. Assim ra distância a navegar
F- Seguindo a informação de Barros, Fontoura desde o padrão São Gregório, plantado ao. 12 de Março
areitou que o padrão de S§o Filipe foi erigído no cabo - menos de tT'ezentas léguas - , col'responderia a,penas a
294 A ESCOLA DO MAR LARGO-ATLÂNTICO E COSTA DE ÁFRICA ( CAP. 11, m] CABO DE BOA ESPERANÇA. A VOLTA DO CABO 295

wna m~ de 6 1léguas por di:a. ou menos de I\JIDlla millha ] - As a.c'tui84s CIBir.tlas de ventas m05t.ralm que, 8()

por hora. lar.go da costa 18/fricanJa. os ventos facilitam a navegação,


:De II'eS'to, este regl'leSSO das caraV'elas não lfoli feito ~a da An·Qll'a, seja de Moçâmedes, lelDl l"UDlO di:recto para
como à lida, em vd.agem em parte i}la.rga, mdirectlai. Iam a Mina. Não se ;vê, pois, qu~ ;van<ta'gelll Dias e Dallanquer
cog.te ando a terra, aproveitando terrais e viração, e, pelo •v eriam em ir esoala·r no fun-do do golfo da Guiné, como
menos para norte do Cabo, já se não preocuparam em ·r eco-
seria no Príncipe. Al'ém :disso, tratando-se de um mar aiiinlda
nhecer a costa. O que se con.cluli da citada declaração de
mal ccmhooido. havlla vantlaig.em .em lhe estudar as possibi~
Pero de Alenquer, acerca da ;viagem de ll'egresso pelo larigo,
liidadies die n:avegação p81l"a 105 navios que, ide tuturo, wl~
oom <vento a ·p opa:..
tJalsSem da costa de A'frica a !Portugal, indo ou não à Mina.
Há ainda que .insistir em que, tanto a urgênda de
chegar :a Lisboa <XliDl lai boa nOVIa, ctmro o receio de não A naturalidade ·com que no «Rotei•r o de Vaoco da Gama» se
'e ncontrarem a naV'eta na Angra, impunham aproveitar o o:mta que db Cabo para o Rio Grande corta:ra:m direct:aJ..
mais possível vento e pano. m:en•te - «seguymos nosso camynho» - é in-dício forte de
&tas considerações .torn1Bl1alm tpouco !V'el'OISímlil IU'Dll8 que se tra1laiva Ide uma rota jã exploradlal a.nterinrmenre,
grande ausência da Angra, sejam os <nove mezes:. de rprovàve.l.menme por Bartoldm:eu Dias.
Barros, sejam oo sete da versão Fontoura. Embora n·a s «ii)éoa.das:. se a'e'.ia que Ba:rtoilom'e'U Da
fui !eSCala:r DJai lilha do Príncipe, onde enoon'tlrou D. Pachect>
H - O padrão da angra Pequena foi vJsitado em muito d.olenltie:, ttle!lldo-se perdido o n:avio em qu:e esta'VIa
·1'825 pelo apt. Owen, IS'ellldo-lhe lfi:mlda a llatitude dle
26° 38'. Estava partido, o que parecia ter sido feli•to pro-
.
:exploratndo a cos:ta da Guinê ' é certo que de no «Es.m.e-
·r aldo», poucos deta•lhes apresenta sobre a interessan•t e
positadamente ( «evidendy by deSiign », pág. 270) . viagem 'de Bartolomeu Üia:s. Até erra a mformação sobre o
padrão mrus avançado, que diz ter sido no !ilhéu da Cruz ;
1 - O prazo «nove meses justos» que, segundo Barros, e não em São Gregório, <:orno decerto o iln:formaria Dias.
<Dias esteve ausente da Angra, é mani•festa.m.ente exagerado.
D. P ·aoheoo limita-se a oeon•tar vagamente que Bé!ll'tolomeu
Aoe:i:tando a provável passa,gem, à ~da, petlo N atai, o
Dias descobriu o Cabo «no ano de 1488», V'emdo que a
regresso à Angra .teri'a sido fe:itn em lfins de Setembro.
·«costa e ·R iheira db mar vo1ta!V&m daly em d.i ante ao nor·te
Restariam só três m<eses para a viagem até Lisboa, onde,
.segundo Barros, Dias chegou <em Dezembro», prazo esse :e ao nordeste cuja costa fazia caminho» da Btiópia. Não se
msuficiente, ;Visto que o mesmo autor ainda .fixa três esca~ refere, poi•s , ao seu encontlro com Dias, em que sem
•las, Príncipe, Resgate, Mina . Toma-se, pois, lí.cito duv:i- dúvild:a 'tleirliial ouvkio dele detalh•es m~tes e méditos.
darmos ido ;prazo de «desaselis mes·es e dez.ase:te dlias» , Donde há a <:on.cluir .que a bordada de Dias ao gol·fo da
que Barros marca para 181 duração tota1 da viagem de Bar~ Guin~. múti1 para quem se t.in:ha a:bastec:i:do na. Angra, é
tolom.eu Dias. Jl1le:Jl06 ~.
29<} A ESCOLA DO MAR LARGO-ATLÂNTICO E COSTA DE ÁFRICA [ CAP.
II, 1H] CABO D E BOA ESPERANÇA. A VOLTA DO CABO 297

K -Segundo B81rl01S, Bartolomeu Dias Chegou 181 l.Jis.. d) Em 1501, Julho, 2 - Quitação de BartotlOim.eu D.W.,
boa em >Dezembro de 1487, :tendo descoberto «.t:rtezentas re falecido ma viage-m à lrn.d.ia de 1500, como «rece-
cinquoenoa legoas per costa que he outro tanto como Diogo tb edor do l8!1m:asem da Gumé» IDOIS anos de 94 a
Cam de:scobrio per duas vezes». Trata,..se die wna mfor~ 97. Este é o g~rande nav.egllldolr.
mação que poclemia •ter ~esultado só de inspecção em m1apa,
e não .Jida tem documento. O que explica o erro de &m:os, Em prilncipio há que notar que o :faoto de nós não
que atribui aos padrões de Bartolomeu Dias postições erra~ eru:ontratrmOS expUcaçâo paiM Clel"ttas mformaçõe:s mebm~
das: um no Ilhéu Santa Cruz e não em São Gregório; pletas não é :prova de qrue as não haja, ·e rn.atturais.
outro na serra Parda - larti.tude 15 graus - e não na g sabido que, tê<:lnibamelnte, rwma n~u é W:onifrundiwl
angra Pequena; e, enfim, um outtro no «notável cabo de· tcom uma ·c aravela. Mas é certo que, na linguage m cor-
Boa Esperança», do rq ual não hã 'V'e:stígio, o que o toma rente em escritos antigos, como nos cronistas, se not·a
muito duvidoso. Lã :teriam, quanto muito, arvorado uma OOJllfusão 100 nome dado aos rnavüos, oittan'do-se ~ferat~
cruz de madeira, re não um mastro «.com bandeira», que o teme!Il:te nau, navio, •caravela. Al•g uns chamam canwd a
;vento logo .rasgaria. á «•Santa 1M:aria» de Cdlombo, navio em qrue pr.e/domJ.n;a~
vam as veJas qwadran:gulares das naus.
'Thlm:bém é ISiaibido que a!lguns dos illla'Wbs antlip
L - São conhecidas quatt ro referêooas documentais a tinham mais dre um IIlOIIIl~ sendo IDl:&s conhecidas por uma
um capitão de navios cham·ado Bartnlomeu Dias: ~eSpécie de alcunha. tAssim, ·a oaravda que .foi oom VlllSIOO
da Gama é sempre ohamada c:Bétmio:., nome do dono 111
a) Em 1486, Outubro, •10- Gitaça e mercê a Ba:rto-- qU~em tfoi comprada, jmganido-se que o seu nome of:icia:J.
tl omeu Dias, «patmm Ido nau Sam Chistovam:. s er:i·a o .d.e um .santo, ·como «São .Miguel ». En.Hm Quirino
desde Janeiro de 1485, pelo serviço que ·cd:ele da Fonseca citou casos análogos de alcunhas, ~orno Ta-
espramos :receber:.. Este é, provàvelmente. o ·g rande noeíra e Barrileira.
navegador, ·q ue jâ estaria em tviagem para AfriOal;
M- Tte:m &do cons~ «documento:. •prova.ti.'Vo
b) Em 1487, Novembro, 23-Recibo de bolacha pas- do ano da passagem do Cabo um romentá1~io que s:e lê na
sado por Bartolom,eu .D ias a quem a fornecera ao obra ..:!mago Mundi:. que pertJenceu a Cdlombo. e que
, «pa.tram da rn•a u Figa». Este nome não é citado este 101avegador muito manuseou, rench·end.o-<a de notas. Lá
por Bartolomeu Dias no !lecibo; se •lê qure BM!tolomeu Dias, «ca·p itão rdre tires C~a~ravelas»,
c!hegou a Lisboa te!m Dezembro do cano de 88:.. !Ele teria
c) Em H98, Fevereiro, 26-Carta de quJtaçAo a . contado a O. João U oomo navegara c600 •l éguas para
Bartolomeu Dias, capitão da nau «São Cristó- ail<ém do qu•e já .e:stava na<vegado, a saber - 450 pare sul
vão», que foi «nos anos de 90 a~ 95:.; I' ·e 250 para norte - até um .p romontório que ele mesmo


298 A ESCOLA DO MAR LARGO-ATLÂNTICO E COSTA DE ÁFRICA ( CAP. II, m] CABO DE BOA ESPERANÇA. A VOLTA DO CABO 299
pôs o nome de Cléllbo Ide Boa Esperança », o qual «viu Não é, pois. 'VIelro5ími!l que reste sagaz rei ~ con-
achl8ir.JSe pelo astrolábio à distância die 45 <g.taus pa:1'f8l irlém vOICiél.ldo tais tOOIIOC'Orl1'eDtles paiM «ass.isltWrem.:. à audiêru:lia de
da l~nha equinociail», distante de Lisboa 3 100 léguas. Es:ta Ba·rtolomeu D1as. As in,for:mações que a tal ~respeito l emos
·~ lterla sildo d.escrtiJta a n. João 11 à 'V'istlai ·«de <}'égua no «<<m'a go = MUIIld:i» de 'Colombo estão do 'fía!lsas como
em légua l1liUDla carta de nawgação:.. Nestas «quais coisas ·o u·t:véi!S anotações que lá se lêem, impre ssas ou :e scri,t;as à
todas eu tomei parte» (ou «assisti » ) . (Fontoura, pág . 52) . ·mão. 'Comb 'vamos .pois :deduzir que este «documento:. .C bn-
Tlail nota 1Dl18!1"gilnall :de 1Colombo ,tem em"OS mdiscutí- C011rle leiDl algum ipOD.'to pa.Ifa! nos elucidar sobre a iW!agem
vieiis: :Bartolomeu Das não tnavegou «pam 'éclém:. do último de Bartolomeu Dias?
pad·r ão de D:iogo Cão, a1té ao Caib o, 450 léguas «pa:ra A conclusão a ÜIIair é a poosbJ.idalde de o mesmo Bar-
:Suh, mas só metade desta cldstânc,ia: a ,t'e ma mais sul, tolomeu Dias, que passou o Cabo, l!llelr aquele «pa'tmm»
:alti.n!g'dla por 'Dias. não está ,«r45:.. mas ro 35 g·J.'BIUS <pam que comandou o navdo «São Cristóvão», desde 1485 alté
aJlém da ~a equ:inociab, e a sua na.veg~ação para além 1495, IIllaiV'io que !piCllder:ia :ter sildo de facto uma camV'eiLa,
ido Ca>bo não .fo[ de léguas «Q50 para norte», mas de embora iflenrdb IU!Dlla veJ.a redonda no :mast-ro de p:roa. Assim
Uollli8S 150 para nascente do Cabo. se ex:pliCia que o ill'a~o de 1Bairtolomeu Dias- DJau ou Q~~M,.o
Tão-,pou.co aquele «prom.on.tório», ao qual Bartolomeu v.e!la - tiiVes's e o mesmo nome, «Sã o CriJStóvão», o qual
Dias pós o nome de cabo Tormentoso, es1tá a «leuohe se mctm~t.ra citado !tanto na costal omenrtal de Á'&ic:a - um
31100» de Lisboa, mas a menos de duas mil ·!léguas pela rio - como na cos'tla oddentlal - um ,golfo.
costa, mesmo 00111/tJando oo g·r.a.us a 1·8 ~léguas, e não às ~tli Ser.ia a 'e sse mesmo mwtto qUJe lfai ,f ornecida !bolacha
que Colombo pretenideu ter medido por pu. em Novembro de 14'87, :d.anlclo-ise-Ihe, por Jdson,j a, a clas-
'De resto, no mês de Dezembro dle 1488 -ou mesmo 5Wfioaçãb de «noo:., e sendo ma:is conhecido pelo nome
Janeiro de 1489 - , em que D . João 11 't eria recebido Barto- popu181r de '«IF[ga:..
,Jomeu Dias, para este lhe mostrar a «carta de na;vegan , ·.Apesar das clatros erra; que se notam na narrativa
deta·lb;ada. <de 1égua em l'égula », não h'á n~tíoia de 181gum de Damos. SOillOO ass;im. levadas' a a'Oe!illéllr a sua ldlalta,
dos iirmãos de Colombo lt!Stlair em Lisboa. Mas. ra!ink:la que 11487, emiboi1a Di'a s não ltlV!e5Se ~regressado do Cabo com
esti>V'eSSe, tm'tllwa..se de .u ma mformação muito mtJeres.- «desaseis meses » de viagem, mas com pouco mais de um
sante. que c:mvmhlai :J.'Ie5ieii:!Va, especialm.e:nte de quem, cbmo a1no - como é mais natural - , chegan/do a Lisboa antes
cle, andava fora de !Portugal O!CUtp8do em promov.e1' o do mês Ide Nov;emhro de 1-4'&7.
Descobrimmto :do Cam:inho da lndia. Além disso. Barto- Também é 1lkd,t o supor que o niM'io de Bartolomeru
Iomeu Dias, d-epoiiS de ter ent:r<ado no oceano fndlico , lAias tivesse !ficado em Lislboa. sem nJaveg'811', ttll8. situação
ooconhJeoer.a. a nJeoess'iidlalcre k:l.e se exploM~r uma lllOVIél. l[(rt'a a que :agora se chama de «meJi.o lél1'iiilléllmeto:.. embora a
sul-'atllânti!C'a, pe!lo sudoesite da Gu.inlé. O que tudo COJlS.- Clarta de qU:i'tação só ISie ll.'lelfilra ao serviço desde o ano de
tituia uma IDOVIidade capital, que não oon<vmha a D. João 11 1490. •Ba:rtolomeu Dias teria sido conservado nessa função
«espalhar». marítima s·e dentária, pelo menos desde 1494, assistindo à
II, IV] TRATADO DE TORDESJLHAS 30!
300 A ESCOLA DO MAR LARGO-ATLÂNTICO E COSTA DE ÁFRICA ( CAP.
previsão dos Reis- terem sido descobertas terras até
.oonst~rução dos lli8Jvios destlin•ados a V asco da Gama. E, 20 de Junho daquele ano de 1494, tais terras (decerto
como não tnoavegarva. ele poderia ta.mlhém ser «ll"te'CiebeJdor», não asiáticas) ficariam pertença de Espanha. Hoje
cargo rendoso, como recQmpensa pelo «serviço» qu.e pres~ sabemos que, de facto, havia por ceá» uma extensa
ta:re mdo ao ()1Ce:a410 lnrdiro. «terra firme », que imporia muitas ctorres» ...
Afigul.'a~se~me que esta explicação .m arítima não é O Tratado detii.nia, pois, os limites interiores do
menos verosímil que a conjectWiél dre, na última dêoada do Brasil, pais que, para alguns autores, começara pelo
século de 1400, 1:1erem ex•i stido do.is ou três oapitães, o dia «fim:., pela sua fronteira terrestre, mais por obra de
« P.~ga•», o do «São Cristóvão», e o das IOéllfavelas de 1497 letrados do que de mareantes. Não foi assim, como se
e 1500, todos ·c om o nome «Bartolomeu Dias». Enif.iim, o verá.
nome «São Cristóvão», f·r equente nos nos·sos na'Vios, pode~ Segundo o critério dos Espanhóis, que começavam
ria ser, ao mesmo tle:mipo, o de uma nau .e o de uma car·a vela. :a contagem das 250 léguas a partir da ilha de San-
tiago, se Colombo já tivesse ·a chado as ter:ra.s ·a dentro
das últimas 120 léguas, o Brasil teria como limite o
IV-TRATADO DE TORDESILHAS actual meridiano de cerca de 39 gmus W Gr., o qual
segue uma linha que, cortando o Ceará pouco a oeste
:msabido que, em Junho de 1494, foi assinado, de Fortaleza, -y;ai sair a sul, em Belmonte. Nem o
entre o Rei de Portugal e os Reis de Espanha, o famoso Monte Pascoal, como tão-pouco a Guanabara, teriam
Tratado de Tordesilhas, pelo qual, em princípio, di~­ assim ficado brasileiros. Como Colombo, apesar de
di•a m o Atlântico em duas zonas para seus descobn- prevenido, não tinha em 1494 dado com tais terras, a
mentos, delimitadas por uma craya~ que ia cderecha nossa fronteira ·alargou--se então até à:s 370 leguas
de Polo a Polo», passando 370 léguas a poente cde fixadas no Tratado de Tordesilha:s.
las yslas dei Cabo Verde:.. Parece clen~», co~o as do Em 1493 Colombo, à sua passagem por Lisboa, de
Mar Tenebroso, ma:s não é. Porque amda existem os regresso da primeira viagem, tivera demorada confe-
dois exemplares do Tratado, um em Lisboa, outro em rência com D. João 11. Ao contrário do que alguns
Sevilha. escrevem, ele decerto não pretendeu que aqueles nati-
Este maravilhoso documento previa a existência, vos que trazia, morenos e de cabelo corredio, fossem
tanto de cyslas» como de c:tierra firme», as quais, se cnegros de Guiné» . Eram habitantes das terras oci-
0 c~eridiano-raya.» as cortasse, seriam balizadas com dentais, a que chamou dndias:.. Ter-se-i~. talvez, gabado
«torres». Para oeste ficaw o hemisfério de Espanha. de vir cdas ilhas de Cypango», as quais nunca tinham
Contudo havia no Tratado certa restrição contra interessado os Reis de Portugal, convencidos de que
Portugall: como Colombo ainda não voltara da segunda a Ásia, pelo ocidente, ficava tão longe que era preferí-
viagem de descobrimentos, iniciada em 1493, no caso vel explorar o caminho marítimo da ctndia:., contor-
de nas 120 léguas mais a •p oente - e de acordo com a
302 A ESCOLA DO MAR LARGO-ATLÂ NTICO E COSTA DE ÁFRICA ( CAP. li, rv] TRATADO DE TORDESILHAS

nando a costa africana, em lugar de a buscar para tou-se com a delimitação segundo um meridiano.
além da China. Este facto nos leva, intuitivamente, a crer que se con-
Porque, de facto, já seis anos antes de 1493, Bar- tava com terras na parte sul-ocidental do Atlântico
tolomeu Dias, dobrando o cabo tormentoso, e nave- comum àquelas duas soluções. '
gando para leste cento e meio de léguas, entrara no Sabemos hoje que, no ramo completado pelos anti-
oceano Indico, ·a té onde a costa já vinha franca de podas, o circulo meridiano ia passar pelo Japão, dei-
nordeste. Ao mesmo tempo, outro enviado de D. João II, x>ando as Filipinas e, portanto, a lndia muito den-
Pero da Covilhã, tinha atravessado o Mar da India, tro do hemisfério português. Como se vê, D. João II
de Calecute «para Sofala», também na costa oriental já estava em 1494 tão firmemente informado sobre a
sul-africana, que Bartolomeu Dias reconhecera. posição lndia que não receou perdê-la no hemisfério
Não é, porém, de crer que D. João ll informasse espanhol, ao deslocar para ocidente de Cabo Verde o
Colombo sobre o progresso feito nesse sentido, porque meridiano que, inicialmente, distava das ilhas só 250
havia interesse em manter o sagaz navegador espe- léguas. Não contava, assim, ir atingir terras asiáticas.
rançado naquelas terras ocidentais, onde, aHás, ele Foi só nas lndias, em Outubro de 1494, que
poderia exercer de «Visorrey», que lhe garantia a «Capi- Colombo foi informadó, por carta dos «Reys•, da com-
tulacion de Santa Fé». O que lhe não aconteceria nas binação com D. João n. E como as terras descobertas
terras civilizadas, como China e Japão. estavam muito fora das 120 léguas, concedidas no
Fosse por esta razão, fosse também por as ilhas Tratado, prosseguiu na exploração das ilhas. Só regres-
descobertas em 1492 terem sido consideradas só como sou à Espanha em 1496.
úteis «escalas» para a Ãsia, o certo é que, na sua via- Assim a «raya• - «ho marco» do mapa de Can-
gem a seguir, iniciada em Setembro de 1493, Colombo tino - ficava fixada definitivamente pelas 370 léguas;
continuou a exploração das terras tropicais a que os contando-as à portuguesa, que era para oeste de «todas»
Portugueses chamaram «has Antilhas». Foi abordá-las as ilhas de Cabo Verde, ela ia passar cerca do actual
a sul, cerca da actual Guadalupe} donde rumou para meridiano 47 graus W Gr., o qual corta o Brasil do
noroeste, para a sua já conhecida ilha de São Domin- Pará ao Paraná.
gos, onde deixara um «forte» com espanhóis. De declarações de Colombo deduz-se que ele estava
Por outro lado, é natural conjecturar que D. João ll, conve~cido de que o seu «rival» em sagacidade,
ao insistir com os «Reys» de Espanha sobre uma fron- D. Joao ll, sabia que «·a i Austro habia tierra firme ».
teira amigável, passando a meio entre as Uhas de Cabo Ademais, suspei.t ava-se que o Rei estava seguro de
Verde e as Indi·as, nada contava dbter no Atlântico q.ue «dentro de sus limites habia de hallrar ·c osas y
Norte. Porquanto é sabido que, ao principio, D. João II tierras famosas». Não se tratava pois de «yslas» fan-
pretendera que a «raya» fosse um «paralelo•, traçado tásticas no Mar Tenebroso. Assim, Colombo julgara
entre as Antilhas e o equador. Mas, por fim, conten- que D. João ll não pretendera garantir-se, dentro do
304 A ESCOLA DO MAR LARGO-ATLÂNTICO E COSTA D E ÁFRICA ( CAP. II, IV] TRATADO DE TORDESU.HAS

quadrante sudoeste do Atlântico, só léguas quadradas que, pelo Tratado, pertencia à Espanha. Para o que
de água salgada. precisava navegar meio milhar de léguas ao citado
Também os cReys:. de Espanha tinham idêntica rumo, «sudoeste verdadeiro».
opinião; e tanto que já em 1493, em carta, preveniram Se Colombo em 1498 conhecesse- como o pro-
Colombo de que os Portugueses pensavam cque podria varam os pilotos de Vasco da Gama no Verão do ano
habe.r lislas, y aun Tierra firme», emas ricas que todas anterior- o regime de ventos para além do cabo
las otras», para além das ilhas de Oabo Verde. Mas Verde, ou se tivesse tido a sorte de navegar no Inverno
convinha manter D. João 11 desinteressado das An- - como Pizon em 1500 - , ele teria encontrado até ao
tilhas. equador ventos favoráveis, os do conhecido calisado
O certo é que Colombo, na viagem empreendida de nordeste», que o levariam à terra firme equatorial.
logo a seguir ao Tratado- a de 1498-, foi, diferente- Como, porém, partiu de Santiago em Julho, navegadas
mente do que· praticara nas duas viagens anteriores, cal ·s udueste 480 milhars , que son 120 leguas», foi encon-
fazer escala em Santiago, do grupo de Cabo Verde, trar, em cerca de dez graus de latitude, o vento
ilha donde os Espanhóis pretendiam contar as léguas contrário da conhecida «monção de sub.
para oeste, até ao cmeridiano-raya». Quando partiu, Esse vento e calmarias o forçaram a carribar:.
ele já não ia mais em busca das lndias, nem da costa para poente, interrompendo seu inteligente cplano».
asiática, que os mapas da época, como Ptolomeu e Em fins de Julho era avistada a ilha da Trindade.
Martellus, arrumavam a dois milhares de léguas do Junto de uma costa nova, a qual, por causa das águas
cabo Verde. Nesta viagem «al Austro » Colombo pre- caudalosas que ali iam dar, foi considerada cterra
tendia cdescubrir el secreto dei Rey Don Juan», tra- firme».
duzido no Tratado. Embora tendo em Cabo Verde Ficava apenas 250 léguas para oeste da «raya».
·c onfirmado suas suspeitas, por lá ter ouvido que cel Colombo não esquecera que Marco Polo, quando
rey don Juan tenia gran inclinacion de enviar gente a retlirara de Cathay - a China-, fora eontornando a
descubrir al suroeste» o seu programa já fora ante- costa oriental asiática, até passar para o oceano Indico,
riormente concebido, c~mo sequência do Tratado. (Ma- tendo deixado a nascente uma grande ilha, chamada
dariaga, págs. 450 a 452). «Java Major», que hoje identificamos com cBornéo».
Assim, indo rumando para sudoeste , ele obe- Ora mesmo entrando nos mapas da época com a
decia. ao processo mais prático na época para definir noção errada de Colombo sobre uma Terra muito curta
a craya», qual era o de cencher» as 370 léguas em -se era sincera .. . -, aquela costa asiática ainda lhe
·latitude - de fácil determinação astronômica em ficaria um milhar de léguas além da craya». De resto,
terra-, às quais, por aquele rumo, corresponderiam como as ilhas descobertas por Colombo não corres-
outras tantas léguas em longitude, ou para ocidente. pondiam à tradição do cCypango» , civilizado e tão rico
S6 então teria, academicamente, entrado no hemisfério de coro» que era com chapas deste metal inoxidável
!O
3o6 A ESCOLA DO MAR LARGO-ATLÂNTICO E COSTA DE~ÁFRICA [ CAP. li, xv] TRATADO DE TORDESILHAS

que telhavam das casas», a grande ilha de Cuba Colombo, aproveitando um recurso inédito - o
seria, quando muito, a Java dos mapas antigos. apoio de Reis-, as atingira perto do trópico em 1492.
.A!Ssim a terra descoberta em 1498 ·a sueste de Cuba, Mas, apesar do que veio contar, não se via razão para
'
e correndo leste-oeste, nunca poderia confundir-se com identiflicar as suas lndias com as civilizadas terras
aquela outra costa da China, que Marco Polo ·acompa- asiáticas, que Marco Polo conhecera dois séculos antes.
nhara navegando de norte para sul, e que demorava, A tal respeito, os pilotos portugueses tinham,
não a na·s cente, mas a poente da ilha Java Maj<Yr. Foi como disse, já antes de 1492, plena convicção de que
levado por esta forte razão que, na viagem seguinte a costa oriental da Ásia distava de Portugal, pelo
- a de 1502 - , Colombo t ão trabalhosamente buscou ocidente, bem mais do que pelo oriente. E pelas suas
o cestrecho:., que tinha de separar a nova terra do sul, navegações em latitude ficara reconhecido que a volta
da .a utêntica costa asiática. Atingiu Verágua, 400 léguas da Terra, no trópico, andava por seis milhares de
além da Trindade. E a costa ainda continuava para léguas. Assim, de Cabo Verde à costa da China haveria
oeste.. . Não era com certeza Ásia. que navegar m:ais de três mil.
Enfim, a terra firme achada em 1498, apenas 250 Nunca estas terras ocidentais tinham interessado
léguas além da c:raya», e que vinha «corrida:. de nas- os Reis de Portugal. As propostas de Colombo tinham
cente só poderia corresponder àquela terra prevista sido desprezadas: concediam-se c alvarás:., mas não
'
no Tratado. Colombo a fora buscar de propósito. ·a sul, navios, nem gente. E tanto que as abandonámos em
levado pelas ideias da época acerca das razões que o Tordesilhas, apesar de não serem consideradas asiá-
sagaz D. João ll tivera para insistir na delimitação dos ticas. Embora o mapa português de Cantina apresente
hemisférios. a Groenldndia como «ponta da Ásia:. - a qual entra-
ria no Atlântico por cima do pólo, e na longitude dos
Açores-, é certo que, no mesmo planisfério, datado
• de 1502, as costas da China já são distintas das costas
do continente americano, estando deste afastadas para
Por certos detritos vegetais que ventos e corren- oeste cerca de milhar e meio de léguas. São realmente
tes de oeste :J.evawm aos Açores concluira-se a exis- dois e meio.
tência de terras - Antília, ou outras- no Atlântico E o facto é que, depois do Tratado de 1494, os
Ocidental. Seriam asiáticas, ou não. Pretenderam lá ir Reis de Portugal continuaram a não mandar navios
alguns aventureiros- um deles, Dulmo, decidido a a ocidente. A Torre Nova, que está um cento de
navegar 40 ou mais dias para ocidente- e sabemos léguas para além da craya:., foi descobrimento par-
que lá chegaram, tanto João Caboto em 1497, como ticular.
Corte-Real em 1500. Se alguns por lá passaram antes, Ora, no hemisfério sul não havia, como a poente
não há disso cprova:. afirmativa ou negativa. dos Açores, aquela indicação natural sobre a existên-
308 A ESCOLA DO MAR LARGO-ATLÃNTICO E COSTA DE ÁFRICA ( CAP. II, IV] TRATADO DE TORDESILHAS

cia de terras, estas a ocidente da costa africana. Mas mente, até às altas latitudes onde Bartolomeu Dias veri-
aqui o Tratado de Tordesilhas parece intuitivamente ficara que eles cessavam.
inspirado na crença de sua existência. Porém, com tal rumo para sudoeste aonde se iria
Por outro lado, uma análise náutica da questão d ar. Haver1a
? . terras pela proa que cortassem
' a bordada
revela interesse especial português em terras a sudoeste «na volta do mar» ? Mudaria o vento de direcção?
das ilhas de Cabo Verde e a sul do equador. O qual Haveria calmarias?
interesse raro tem sido devidamente considerado. Tratava-se de considerar a possibilidade de, pelo
Porquanto, no prosseguimento da exploração do quadrante sul-ocidental do Atlântico, traçar uma .r ota
caminho maritimo para a fndia, naturalmente indicado «indirecta», em arco, semelhante àquela que, já desde
a contornar a costa africana conhecida dos Portugue- o tempo do Infante, se vinha praticando no regresso da
ses e que se prestava a cescala» de abastecimento, já Guiné, a contornar o vento alisado de nordeste, do
Bartolomeu Dias conseguira, em 1487, passar além do Atlântico Central. Mas aqui havia mar livre, onde se
seu extremo sudoeste, entrando no oceano Indico. topava com csargaço». Faltavam indicações de que, no
Mas Dias reconhecera também a insistência de
Atlântico Sul, fosse praticável uma rota semelhante, a
correntes e ventos contrários- principalmente a sul contornar a região do vento geral de sueste. Era pois
do trópico - , os quais o obrigaram a tomar a bordada inevitãvel investigá-lo.
do largo, em busca de ventos favoráveis. Tal insistência
A exploração desse novo caminho largo para o
mostrara que a rota «costeira» seria pouco praticável
oabo de Boa Esperança não era por demais compli-
para os navios de mais porte da época- as naus,
cada. Tanto a poderiam realizar os navios que regres-
com as suas velas quadrangulares- e até mesmo para
savam da Mina (prolongando para poente a usual
as caravelas de panos latinos, ou triangulares, únicos
bordada equatorial a favor de correntes e ventos conhe-
navios que Bartolomeu Dias levara.
Impunha-se, portanto, o reconhecimento de uma cidos) como a pode.riam tentar caravelas partidas direc-
outra rota, larga, mas para o Cabo, e não a romper tamente de Cabo Verde para sul e sudoeste, nave-
para sudoeste segundo o critério colombiano, partindo gação esta que, com meio milhar de léguas, os teria
de um ponto na costa ocidental africana, talvez só da levado a terra firme.
Só de repetidas viagens de exploração, em várias
Mina.
Pel,a s viagens de regresso da Guiné, praticadas em épocas do ano- e realizadas antes de 1497, ano em que
largo arco, por vezes iniciado pelo equador, já se sabia Vasco da Gama por lá navegou-, é que se poderia ter
que no Atlântico Sul dominavam ventos de sueste. verificado que, no Atlântico Sul, as terras iam muito
Eram os mesmos que Bartolomeu Dias tivera de evita.r, mais a nascente que no Atlântico Norte. Mas feliz-
ventos que imporiam indefinidamente rumos para mente, a meio caminho do trópico, o vento do~inante
sudoeste, afastando-se os navios da .Ãfrica, possivel- de sueste - que só daria bordada para sudoeste-,
li, IV) TRATADO DE TORDESILHAS 311
310 A ESCOLA DO MAR LARGO-ATLÃNTICO E COSTA DE ÁFRICA ( CAP.

norma justifica a necessidade da exploração prévia de


passado o cabo Santo Agostinho~ eomeçava cde hir um mar onde havia terras csuspeitas:., podendo ~mpor
alargando até ventar da banda do Ponente», permi-
c~scala:. na costa africana. Só assim teria sido adqui-
tindo assim rumos de sul e de sueste, até se dobrar o
nda a certeza com que os pilotos investiram em 1497
cabo de Boa Esperança. Além disso, a costa, reco-
com o Atlântico Sul, não em viagens cdirectas» eomo a
lhendo-se ali para sudoeste, reduzia o risco de os
de Colombo, miS.S cindirectas», e levando naW: navios
navios lá se irem censacar», no caso de vento escasso,
impróprios para reconhecimento de novos mar~s.
contrário.
Deste modo, nem era preciso -imitando a bor- Eles praticaram as mesmas rotas em arco, agora
dada larga de Bartolomeu Dias- «ir tomar barla- re~mendadas nos cRoteiros», e diferentes, conforme

vento» a algum porto da costa africana, como seria a se 1a em Agosto - como fez Vasco da Gama- ou em
conhecida Mina~ porquanto bastava procurar cortar Março, como Cabral, sem terem precisado ir ctomar
o equador pelo meridiano das ilhas de Cabo Verde badavento à Mina». Em ambos os casos se conseguiu
para ter garantida a travessia do Atlântico para o passar para o Cabo~ depois de cmontar» a parte da
Cabo. Enfim, se no Verão ventos de sul impunham costa brasileira que vai mais a nascente, ou a leste _
uma bordada inicial para sueste de Santiago - como a de Pern'a mbuco - , apesar do vento contrário, de
fez Vasco da Gama-, no Inverno bastava navegar logo sueste. Ainda hoje os Roteiros previnem os navegantes
pelo sul, até ao equador. contra o risco de se ir dar na costa que fica para oeste
Esta complexa informação sobre terras e ventos do famoso Cabo São Roque~ além do qual ventos e
não poderia ter sido c adivinhada» pelos cosmógrafos: correntes tornam muito contingente a navegação dos
resultara de uma exploração do mar, da qual, como veleiros para nascente, corrente a prolongar ·a costa
de outras viagens reais, nos não ficou documentação. do Ceará e Rio Grande, e que só nesse cabo inflecte
Tal é, por exemplo, o caso da primeira viagem ao para sul.
Cabo~ contada bem diferentemente pelas cLendas da 'l'ais reflexões náuticas sobre as rotas confirmam
lndia» e pelos cronistas. a forte indicação de que o Tratado de 1494 foi feito
A reforçar tais conjecturas marítimas temos a mais para dividir terras do que mar. Ele provocou, como
indicação da viagem da ccaravela secreta», como as é notório, a primeira visita de Colombo ao 'Novo Con-
da ilha São Mateus e do cabo São Jorge~ nomes pri- tin~nte. E t~do nos indica que a costa ocidental já
mitivos da ilha F. Noronha e do cabo São Roque, o ~na conhe~1da dos pilotos portugueses na parte que
que tudo sugere um anterior descobrimento. mteressava a travessia do Atlântico Sul. Ah, em 1497
Enfim, a característica prudência dos descobri- o Mar Tenebroso não tinha mais mistérios nem ctre-
dores portugueses, que levaram meio século entre as vas:.! Estava desbravado.
passagens dos cabos Bojador e Tormentoso, essa
312 A ESCOLA DO MAR LARGO-ATLÂNTICO E COSTA DE ÁF RICA ( CAP. II, IV] TRATADO D E TORDESILHAS 313

Em resumo: na costa pernambucana, também se deduz que seria


essa cuma» das terras citadas no Tratado.
O Tratado de Tordesilhas não foi documento só E tanto assim é que, ao passo que em 1497 Vasco
concebido no gabinete. Obedeceu à orientação de quem da Gama a «deixou» para. sotavento com a sua bor-
conhecia o Mar do Sul. ' a foi «buscar»
dada inicial à costa da Guiné, Colombo
Não foi cao acaso» que D. João n insistiu na deli- no ano seguinte. Tanto este, como D. João n- duas
mitação dos hemisférios. Mas tão-pouco o foi em resul- autoridades da época- ambos esperavam que a «raya»
tado de informações prestadas por Colombo, que só se fosse cortar novas terras, deixando as costas asiáticas
gabava de ter atingido a Ásia, e não de ter cortado a mais de 370 léguas a poente de Cabo Verde e, por-
o equador. Os Portugueses- que, às lndias, deram tanto, no hemisfério espanhol.
o velho nome ·a tlântico de Antilhas- continuaram De tudo ressalta intuitivamente uma fundada
convencidos de que a •c osta asiática ficava tão longe crença na existência de terras no hemisfério portu-
que o caminho prático para a autêntica lndia não seria guês, e a sudoeste de Cabo Verde.
pelo mar ocidental - livre que ele estivesse - mas só Não há prova nem indicação em contrário. Mas
· pelo cabo de Boa Esperança. as coisas passaram-se como se os pilotos levassem os
O exame técnico desta questão sugere-nos pré- mapas modernos, onde, a par das costas, estão indi-
-descobrimento de terras no quadrante sudoeste do cados, mês a mês, os ventos dominantes. E nem foi da
Atlântico: experiência de Vasco da Gama, em Julho de 1497, que
- Pela reserva espanhola das 120 léguas da ctd.erra se pôde concluir que seria «mais favorável» Cabral
firme » que Colombo buscava em 1493, na sua viagem partir em Março. O Tratado de 1494 o explica.
cal suroeste» das Canárias ( cMad.», pág. 376) ; Qual teria sido, então, o interesse de D. João ll,
- Porque as terras a ocidente dos Açores não ao propor uma convenção?
interessavam os Reis, nem de Portugal nem de Espa- Aquelas «yslas y tierra firme », mencionadas no
nha, como se deduz da sua indiferença pelas viagens Tratado, teriam sido achadas quando se investigou a
de João Caboto dentro da zona de Espanha; possibilidade do caminho para lndia pelo Cabo, a
- Porque se sabia não haver ilhas importantes ·passar em arco muito ao largo da costa africana.
nem terra firme, a poente dos Açores, e adentro das E, conforme os «Reys» comunicaram a Colombo,
duzentas léguas ali delimitadas pela craya»; alguma coisa lhes teria constado.
-Porque D. João n começara por reclamar uma Como só depois de Vasco da Gama é que se reco-
zona definida por um «paralelo» passando a sul das nheceu a praticabilidade de travessias de alto mar de
Antilhas. três ou mais meses, é lícito conjecturar que, conhecida
· Enfim, da prudência com que Gama e Cabral a posição da costa ocidental que ia mais contra o vento
traçaram suas rotas diferentes, evitando «ensacar-se» sueste, D. João n teria pensado na ceonveniência» de
314 A ESCOLA DO MAR LARGO-ATLÂNTICO E COSTA DE ÁFRICA

lá se «escalar:.. E assim, além de não convir ter terra


espanhola a menos de meio mühar de léguas da Guiné, r
surgia ·a possibilidade de nessas novas terras haver
algum porto de abastecimento, preferível aos d:a. costa
africana, para a travessia do Atlântico. CAPITULO m
Ademais, é cristalinamente gratudta a hipótese de
que, apesar da previsão de 1494, e mesmo depois de
Colombo ter em 1498 atingido o continente americano,
ainda os pilotos portugueses - por « intuição ~ ? - con-
fiassem em que o Atlântico Sul fosse mar tão livre à AMÉRICA
navegação como o Atlântico Norte. Ou banhasse terras
da Ásia e índia. Só Colombo teria compreendido o
espírito do Tratado, melhor que seu próprio promotor,
o arguto D. João 11 .. . Enfim, estão também errados
aqueles que aceitam que se esperara pelo advento do
sagaz Vespúcio, o qual teria sido, em 1501, quem pri-
meiro «descobrira» que as costas da Terra de Banta
Cruz já não eram asiáticas! SUMÁRIO:
Certo, uma tal concepção acerca do conhecimento
das terras sul-ocidentais, anteriormente a 1500, pre- I - A inte1"00nção portuguesa no de8cobri-
judica tecnicamente o interessante paradoxo geométrico
mento da América do Norte
de o Brasil - digamos, por profecia de astrólogos, ou
pelo Destino- ter começado pelo fim, pela sua fron- 11- Crist61Jão Colombo
teira interior. Ora não foi ·a ssim: a defind.ção inicial
deu-se na costa atlântica, conhecida em resultado da m- Aménco Vespúcio
mtervenção lógica de mareantes, precursores do «clás-
sico Cabral~ .
Só a ampliação a mais de três vezes do que seria
o Brasil se o Tratado de Tordesilhas tivesse sido
cumprido à risca, só ela é que foi mais obra de diplo-
matas do que de navegadores, cuja actuação pioneira.
neste capitulo da «História de Portugal-Brasil~ , com
estas notas, eu pretendi esclarecer.
I - A INTERVENÇAO PORTUGUESA
NO DESCOBRIMENTO
DA AMSRICA DO NORTE

Aquele acontecimento capital da História que


permitiu a expansão dos Europeus- o descobrimento
da América- tem sido considerado, em geral, fruto
do cgénio» luminoso de Cristóvão Colombo- e, às
vezes, até de Américo Vespúcio -, julgando-se que tudo
fora obra maciça de um só homem. Deixa-se, assim,
IÍgnorada, obscurecida, a importante preparação ini-
cial, que exigiu labor de meio século, e cujos pioneiros
foram os Portugueses. Certo, eles não criaram a pro-
gressiva América aclual, mas tão-pouco Colombo a
criou!
Pois foi em Portugal que Colombo se possuiu
daquela febre de descobrimentos, cujo sucesso então
dominava os Portugueses. Foi também em Portugal-
e não em Génova nem em Espanha- que Colombo
aprendeu a navegar no alto mar, adquirindo o prestfglio
de piloto português, que decidiu os Reis de Espanha a
entregar-lhe - como mais tarde a outros portugueses
-uma esquadra. Foi, enfim, em Portugal que ele adqui-
riu o conhecimento da existência de terras no Atlântico
Ocidental. E, embora Colombo afirmasse que elas eram
318 AMÉRICA [cAP. III, I] os PORTUGUESES NO DESCOBRIMENTO DA AMÉRICA 319

Asia, não está a'bsolutamente provado que ele o acre- barcos só de vela. Eis a técnica que não seria possível
ditasse - exactamente como o não acreditavam os ma- descobrir só com uma viagem de exploração, como foi
reantes portugueses-, havendo quem creia que a 'Visão a de Colombo, em 1492: o sucesso de uma travessia
da opulência das lendárias terras orientais, reveladas única poderia ser um acaso, difícil de repetir. Aquela
pelo viajante Marco Polo, foi apenas um engodo para possibilidade geral exigia múltiplas viagens, sucessi-
tentar a Espanha, naturalmente empenhada em não vamente mais largas, até se descobrirem os ventos
deixar que o seu pequeno vizinho da Peninsula se gerais- se os havia- e a maneira de os aproveitar.
engrandecesse, reservando-se um exclusivo de terras
ultramarinas.


Repetidas vezes se tem escrito que a navegação
Ora uma anMise técnica dos acontecimentos marí- do Atlântico -ao qual, no ·principio do século XV, ·a inda
timos do século XV prova que os Portugueses, se não se dava o nome de Mar Tenebroso- não era conside-
estiveram na América antes de Colombo, dispunham rada possível: os raros navios que lá tinham ido não
de todos os elementos necessários para lá ir, e lá teriam puderam voltar. · As dificuldades de tal navegação
ido mesmo que nem Colombo nem o seu imitador Ves- estariam na crença em temporais que cobriam o céu,
púcio tivessem existido. Colombo só lá pôde ir apro- bai.rios, calores t6rridos, monstros marinhos, ou outras
veitando-se dos conhecimentos portugueses do alto lendas- como aquela do buraco onde os navios, pilo-
mar. De resto, fo:ram os Portugueses quem ·a briu as tados pelo Diabo, caíam, indo parar ao inferno. Mas
saídas do Atlântico, tanto para o oceano Indico ·como os mareantes que chegavam até às Canárias não viam
para o Pacífico. Colombo nunca esteve em terras dos indicação alguma de que para o sul houvesse trevas
actua.is Estados Unidos. ou contínuos temporais : eles conheciam a verdadeira
Vem pois a propósito insistir na divulgação mun- dificuldade material, que estava na viagem de volta,
dial da importância que teve a intervenção portuguesa contra ventos e correntes contrários, de norte, que
no descobrimento da América, intervenção esta que dominam no mar para o sul das Canárias. E sabiam
começou muito antes de 12 de Outubro de 1492. Mais ainda, por informação de Marrocos, que a Guiné era
de .meio século antes. habitada.
Porque esse grande dia só chegou depois de demo- Foi o Infante D. Henrique quem, desprezando as
rados trabalhos marítimos peninsulares, durante os trevas lendárias, se dedicou a estudar a maneira de
quais se reconheceu a existência das terras ao ocidente dominar essas dificuldades meteorológicas. Para o que,
da Europa, como também que os ventos dominantes no retirado em meditação em Sagres, consultou livros e
oceano Atlântico permitiam ir lá, e de lá voltar, em m8ipas antigos e ouviu não s6 os doutores judeus e
Jll, 1] OS PORTUG UESES N O DESCOBRIMENTO DA AMÉRICA 321
320 A~RICA [ cAP.
Guiné e com a India, e das suas dificuldades, por causa
mouros que havia na Península Ibérica, como também da necessidade de recorrer a caravanas, a baldeações,
outros homens práticos dos navios e do mar. e a navegar o Mar Vermelho e o Mediterrâneo. O que
Esta intervenção portuguesa fora pois iniciada no tudo se simplificaria com um caminho só por mar.
princípio do século xv, quando o Infante -de quem Enfim, o Infante contava também com a forte dispo-
alguns historiadores se limitam a apresentar o inte- sição que os Portugueses tinham para a árdua vida
ressante retrato- se propôs criar, ou «inventar», a do mar.
navegação de alto mar, diferente da navegação de cabo- D. Henrique não foi induzido a buscar no Atlân-
tagem, usada no Mediterrâneo e nas viagens costeiras tico ilhas novas- como os Açores- mas só caminhos
para as Canárias, como para a Biscaia e Flandres. marítimos para a Guiné e, depois, para a India, acei-
Ah! Se Venezianos, Catalães ou Genoveses conhe- tando a tradição, corrente, de que a África terminava
cessem tão bem como as especiarias, essa Arte de em latitude baixa, ao sul do equador. Não se pensava
Nave~r fora de vistas da te'r ra, esses hábeis nave- então, pois, em ir às terras do Ocidente. Na continua-
gadores não teriam esperado nem por Bartolomeu Dias ção daquele «plano», os Reis de Portugal só pensavam
nem por Colombo : eles teriam, antes, ido ao oceano na India; o próprio descobrimento do Brasil teve ainda
Indico e à América. Ma s não o poderiam fazer nas como causa final a busca de portos de escala para ir
suas galés do Mediterrâneo: teriam de se confiar a à India.
navios só de vela! Para poder realizar com segurança viagens à
Que concepção ideal teria levado o Infante D. Hen- Guiné, e costa de Mrica que ficava c além», o Infante
rique a tal criação? D. Henrique tinha de encontrar a solução do problema
Documentos e raciocínios levam-nos a admitir que de navegar no alto mar. Tratava-se de aproveitar pro-
o moveram quatro factores principais: cessos e barcos diferentes dos usados no Mediterrâneo,
cuja impotência para as viagens além das Oanárias
-Desejo de propag·a r a fé cristã, «estender a fora demonstrada pelo insucesso da tentativa- não
Cristandade»; repetida pelos Genoveses- das galés dos Vivaldo, que,
-Curiosidade de csaber de outras terras» ; em fins do século de 1200, partiram já em demanda
-Extensão do domínio português em Marrocos; da India.
- Desenvolvimento do comércio de Portugal apro- Impunha-se, pois, a necessidade de recorrer a
veitando o Mar. barcos práticos no alto mar, só à vela, navios de longo
curso, como hoje diríamos. A solução foi a caravela
Para o último factor devem ter influído não só as portuguesa; depois veio a nau. Além disso, para, no
informações trazidas do Oriente pelo Infante D. Pedro, mar, os navios se não perderem, tinham de recorrer à
como também o conselho dos negociantes judeus de única coisa que lá se via, os astros. Para os observar
Lisboa conhecedores do opulento comércio com a
' 21
322 AMtRICA [cAP. III, I] os PORTUGUESES NO DESCOBRIMENTO DA AMt RICA

foi aligeirado o astrolábio, conhecido havia séculos, e soprando nas latitudes baixas dentre norte e leste
foram coligidas - talvez calculadas - as tábuas da permitiam a navegação directa para o sul, ao longo da'
.posição no céu, a que se chamava regimentos, tanto costa de África, com vento e corrente favoráveis, e a
para a Estrela do Norte como para o Sol, pois bem se volta pelo largo, contornando essa região de ventos
sabia que a Polar deixaria de se poder ver logo que se contrários. Foi assim criada a rota indirecta, de volta
aproximassem do equador. de África para Portugal, em arco pelo Atlântico Cen-
Era também essencial preparar cartas de marear, e, tral. Era chamada a Volta do Bargaço.
a:ssim, surgiu a ideia dos portulanos quadrados, isto é, Como se vê, antes de se descobrirem terras foi
divididos em graus de latitude e longitude iguais, em- preciso descobrir o mar, faina mais dificil, que levou
bora não fosse mi,s tério que, ao passo que a dimensão anos. Assim ficava garantida a posSIÍ.bilidade de nave-
do grau de 'latitude se conservava constante, a do gar no chamado Mar Tenebroso, com a certeza de que
grau de longitude lia decrescendo do equador para os os navios, indo além do cabo Bojador e mesmo per-
pólos, visto a Terra ser esférica. dendo por muitos dias ·a terra de vista, sempre pode-
Vem aqui a propósito notar que o Regimento da riam de lá voltar, até com a certeza de irem a Lisboa,
Estrela Polar não permitia só o conhecimento da altura, e não, sotaventeados, a Bagres. Colombo terá desco-
ou latitude, mas também o da direcção para o norte berto a América: mas, antes dele, os Portugueses
da Terra, ou verdadeiro, indicando assim o erro da agu- descobriram o oceano Atlântico!
lha, isto é, o ângulo que o seu norte fazia rcom o norte
verdadeiro -ou da carta-, erro esse que, no tempo
do Infa..nte, em Portugal, era de cerca de me'ia quarta •
(seis graus) para nordeste. O conhecimento desse
erro da agu1ha era evidentemente essencial para
se poderem continuar a:s indicações da estimaçam A primeira indicação prática sobre viagens de alto
da rota, com a:s latitudes astronômicas, e figurar na mar, em ·r esultado de tais investigações do Infante,
carta as terras e os caminhos navegados. resulta da passagem das caravelas portuguesas pelo
Reunidos todos esses elementos, fora enfim preciso arquipélago dos Açores, em 1431, três anos antes da
começar por realizar numerosas viagens de exploração passagem além do Bojador.
do alto mar, praticando a bordo dos pequenos navios O que tudo revela navegações de alto mar, as
com o astrolábio, e reconhecendo-se que, no oce'a.no quais sobrelevam a todas as que até então foram reali-
Atlântico, dominavam ao largo ventos que permitiam zadas por navegadores europeus, provando que, já em
viagens em todos os sentidos e durante todo o ano. 1431, havia em Portugal um desenvolvimento da Arte
Assim se chegou ao descobrimento dos ventos gerais Náutica que permitia, com segurança, a navegação
de leste - a que hoje chamamos alísios-, os quais, mesmo nos mares tormentosos dos Açores.
AMÉRICA [cAP.
III, 1] os PORTUGUESES NO DESCOBRIMENTO DA AMÉRICA
Foi apoiadas nessa nova Ciência Náutica que as
caravelas se lançaram resolutamente na exploração da carta de Bianco, de 1436, a primeira carta em que os
costa de Mrica para o sul das Canárias. Açores, depois da viagem de 1431, aparecem de facto
Assim, em 1434, um navio europeu, chefiad~ pelo conhecidos, pois estão aiTUmados ao noroeste da
português Gil ffianes, passava além do cabo BoJador, Madeira.
já com a certeza de de lá poder voltar a Portugal. Como se vê- apesar das fantasias de certos auto-
Colombo ainda nem nascera, mas havia já anos res colombianos-, passado o Bojador em 1434, já não
que os Portugueses atravessavam o m_ar largo,. ~m era mais preciso esperar por Colombo para devassar o
receio dos Feus buracos ... Tal navegaçao fora, Indis- Mar Tenebroso, descobrindo os ventos alísios, e mos-
cutivelmente, obra de um português genial, o lnfan~e trando ao Mundo que cum navio podia avançar pelo
D. Henrique, a quem lJatino Coelho chamou « O pn- oceano dentro sem perigo de cair em um buraco».
meiro inventor da navegação no oceano».
Esta navegação de alto mar, praticada exclusiva-
Vieram a segW.r outras dificuldades, naturalment_e
mente pelos mareantes portugueses, ficou constituindo
mais financeiras que náuticas. Por isso o reconheci-
uma espécie de monopólio Atlântico, porque das rotas
mento dra costa de Mrica só se foi continuando len-
oceânicas - como até dos processos usados pelos pilo-
tamente mas com segurança.
tos, alguns dos quais, em 1537, o próprio Pedro Nunes
Assim, só em 1445 se passou o cabo Verde, che-
gando-se à Guiné. Em 1470 cortava-se. o equador. Em prova ignorar - se fama segredo. Espalhava-se a
1484 Diogo Cão descobriu um grande ri~ -co~o ou~
notícia falsa de que a volta da Guiné e do Atlântico
Sul só era possível às caravelas portuguesas, porque
não havia na Europa-, o Zaire, e subira-o até às P.I'!l-
meiras cataratas. Enfim, em 1487, Bartolo~eu Dias elas, com os seus cascos finos e os seus panos latinos,
passava além do extremo sudoeste da Mrica - o faziam navegação contra ventos contrários, como o
cabo de Boa Esperança, hoje chamado The Cape -, não podiam fazer as naus de velaa redondas, ou qua-
drangulares.
e saindo do Atlântico, navegava em outro oceano
n~vo 0 Mar da lndia. Assim, o caminho maritimo da Esse monopólio só foi quebrado quando Colombo,
lnd~, em que o Infante acreditava, tornara-se franco. em 1492, atingiu as Antilhas. Ora se ele não tivesse
Tinham os Portugueses apagado de vez as lendas praticado alguns anos em Portugal e navegando com
do .M ar Tenebroso, e já eram conhecidos os seus mons: os Portugueses, Colombo nunca se teria atrevido a
tros _ os ventos dominantes - , os quai~ eram at.? atravessar o Atlântico, como o não atravessavam
aproveitados nas viagens largas, tan:o. à Ida como a outros homens do mar que -sem dúvida! -havia no
volta a Portugal. No regresso da Gume contornava-~ Mediterrâneo, tanto ou mais arrojados e hábeis que
a. região do alisado de nordeste, e passa~-sc: a meio Colombo, o qural, ao chegar a Lisboa, era apenas, como
do Atlântico pelo Mar do Sargaço, que Já figura na eles, marinheiro de galé. Ao sair para Espanha já era
piloto português ...
III, I] os PORTUGUESES NO DESCOBRIMENTO DA AMÉRICA
AMÉRICA (cAP.
firme na existência das terras no Atlântico Ocidental,
• e, enfim, o prestigio de piloto de alto mar, que Jevou
Como se viu os descobrimentos maritimos portu- os Reis de Espanha a entregar-lhe o comando de uma
gueses exigiram 'uma demora;da preparação, tanto em esquadra. Tê-lo-iam feito se ele fosse um simples
terra como no mar. Tem absoluta .r azão Pedro Nunes mareante genovês? Não! Nem Colombo se aproveitou,
quando, em 1537, desenvolve esta ideia, afirmando que sequer, de todos os recursos técnicos de que dispunham
a·s navegações do «Ramo de Portugal» foram cmais os Portugueses. Não há noticia de ele, no mar ou em
maravilhosas» que as de cnenhuma outra gente do terra, ter observado o Sol_, não tendo passado para o
Mundo», e que os descobrimentos de novas ilhas, terras, sul do equador. E quanto à famosa descoberta da irre-
mares, povos, estrelas, baixos, cou sequer algum gularidade na variação da agulha- que os seus admi-
penedo», não ·se fizeram indo a acertar; partiam os radores lhe atribuíam -, é erro supor-se que, apesar de
nossos mareantes cmui ensinados e providos de estro- a palavra noroestear ser portuguesa e não genovesa,
mentos e regras de astrologia e geometria» como de os Portugueses tivessem navegado meio século no
cartas, com as alturas e longitudes correctas, apesar Atlântico, e até além do Cabo, sempre acreditando que
de os graus dos paralelos parecerem lá iguais aos da o norte da agulha diferia do norte verdadeiro em toda
cequinocial~. a parte, a mesma meia dezena de graus que' acusava
Não é pois justo que toda a glória dos Descobri- em Portugal. De resto, dos diários até se conclui que
mentos Atlânticos recaia em quem, como Colombo, só não foi Colombo, mas os novatos pilotos espanhóis,
chegou atrasado, limitando-se a aproveitar aquilo que quem, a oeste dos Açores, notou ta:l diferença, logo
outros trabalhosamente tinham adquirido. na viagem de 1492. Contudo, Colombo continuou
E, contudo, é corrente escrever-se que Colombo aproado a oeste da agulha - como se ela estivesse
descobriu a América apenas confiado em .r ecursos
certa -e, por isso, nas Antilhas declara estar na
cosmográficos, de que os outros não dispunham. Será mesma altura de Castela. Ora aquele noroestear da
em parte verdade, mas esquece-se acentuar que tais
agulha, que ele desprezara, levara-o à latitude do tró-
recursos - entre os quais avulta o conhecimento dos pico. Assim o repetem cartas da época. Colombo não
ventos gerais do Atlântico -foram resultado não da reparara que tinha descaído duzentas léguas para sul.
experiência de m:areantes genoveses, como tão-pouco
Trata-se de um caso idêntico à singradura das
foram criados- ou adivinhados. Foram sagazmente
caravelas, que se afirma ter sido Colombo o único que
apreendidos por Colombo na dezena de anos em que
sabia apreciá-la, reduzindo-a, para não alarmar os com-
conviveu com os Portugueses. :m preciso repeti-lo.
panheiros ... Chegam a atribuir-lhe a descoberta de
E foi com os mesmos mareantes que Colombo
cnouvelles étoiles~!
adquiriu a febre de descobrir novas terras, a crença
AMÉRICA [ CAP. III, 1] os PORTUGUESES NO DESCOBRIMENTO DA AMÉRICA
329
• ~ativo de negação, porque há indicação de outras
VIage~ que foram realizadas, as quais se conservaram
1!: indiscutível que foi a ocupação dos Açores que o m~s secretas possível: tais foram as real4za.das ao
revelou, não só a possibilidade de navegação pelo Brasil logo a seguir a 1500, das quais só conhecemos
Atlântico Central, como a existência das terras de d~talhes pelo que conta Vespúcio nas suas cartas. Da
oeste donde lá i1a m dar detritos vegetais desconhe- VIagem de volta da nau dos mantimentos que Cabral
cidos' na Europa. E a navegação para essas terras apre- mandou regressar a Portugal, talvez reconhecendo
sentava-se mais simples que a viagem de ida e volta ·c osta para norte, nada tão-pouco se sabe.
à Guiné. Também, da falta de documentos sobre a viagem
Várias foram as propostas conhecidas de parti- de Bartolomeu Dias, além do Cabo em 1487 há razões
culares, para lá irem, todas menos onerosas que a de par~ se ~itir que se quis conse~ar secreta tal rota.
Colombo -que até pedia navios-, e, contudo, foram Seria :ntao essa a caravela traiçoeira de D. João II?
sempre desprezadas pelos Reis. Mas ninguém poderá Ela nao foi: certo, ao Ocidente, mas foi investigar 0
duvidar de que não faltavam em Portugal mareantes mesmo cammho da índia em que falava Co.Jombo. De
capazes de fazer aquilo mesmo que Colombo propunha. facto, da combinação da viagem de Bartolomeu Dias
Os Reis de Portugal limitaram-se sempre à con- - que já na costa SE da Ãfrica encontrou fortes cor-
cessão de autorizações platônicas. E é sabido que ao :entes de água quente, vindas do equador- com as
próprio Gaspar Corte-Real, depois de ter de facto Informações enviadas por Pero da Covilhã _ 0 qual
estado nessas terras do Ocidente, tão-pouco D. Manuel, esteve em Sojala- desligados só por uma solução de
em 1501, quis auxiliar materialmente, e isto apesar de u.mas 300 léguas, resultou para D. João II a convicção
a Terra Nova ser então considerada- nos mapas, pelo firme de que era por lá o caminho prático da tndia.
menos - como ao abrigo dos limites impostos pelo Essas duas viagens secretas condenavam o esquema de
Tratado de Tordesilhas. Colombo, o qual, mesmo que o mar estivesse livre para
1!: certo que os Reis de Portugal nunca viram nas oeste, até à índia, representava uma navegação de
terras ocidentais, apesar de mais próximas de Lisboa, quatro .milhares de léguas, sem porto conhecido para
vantagem comparável àquela que se esperava do ab~stecimento. E D. João II tinha razão, porque, mesmo
co~ércio da Guiné e da lndia. E, de faoto, até o pró- hoJ~, com o canal de Panamá aberto, o caminho da
prio descobrimento e ocupação do Brasil só tiveram por índia, pe.lo ocidente, seria muito longo e trabalhoso
fim, de inicio, garantir bases para evitar às naus da para navios de vel1a como os do século xv.
lndia as escalas na Ãfrica do Sul. _E~im, qua~do, em 1492, Colombo largou das
Não deixa, pois, de ser natural supor-se que algu- Cananas para orndente, o caminho marítimo da fndia
mas viagens ao Ocidente tivessem sido feitas em fins estava pràticamente aberto havi·a cinco anos Por isso
do ·século xv. O ignorarem-se os resultados não é mesmo, depois de Colombo ter descoberto as. Antilha8,

--~
AMÉRICA [CAP. III, I] os PO RTUGUESES NO D ESCOBRIMENTO DA AMÉRICA 33I
330
o critério português não mudou. SOmente D. João ll os não poderia interessar. Só tarde houve conheci-
r
teve possivelmente receio de que Colombo tivesse, no mento do ouro do Peru e da prata do México.
, '
Atlântico Sul, tomado posse, para Espanha, de portos Mas não quer isto dizer que, em Portugal, se duvi-
na carreira da lndia, pelo Cabo. Mas, depois da entre- dasse dia sua existência. E tanto assim é que entre
vista com o grande navegador- à sua passagem em outras, há noticias claras das explorações às terras
Lisboa, em princípios de 1493-, tais suspeitas ter-ee- ocidentais, projectadas por aventureiros. Entre estas
-iam desvanecido : Colombo não teria ocultado a avultam as tentativas de Diogo de Teive -1452 -, a
D. Joã:o n a ·s ua convicção- que se lê no seu Diário de Fernão Teles -1475- e a de Dulmo -1486. Igno-
-de ter estado na mesma altura de Castela e de, ramos completamente os resultados colhidos: teriam
portanto, não ter cortado o equador. Como se sabe, ele, reconhecido que as terras não eram aproveitáveis, ou
nas suas viagens, nunca esteve fora da vista da Estrela teriam desistido? Mas não é de admirar que, sendo as
Polar. viagens por custeio particular, eles conservassem em
De resto no ano seguinte, ao insistir em afastar segredo os resultados.
para oeste, ~ mais possível, os limites do hemisfé~o Essa mesma crença na existência das terras oci-
espanhol de Tordesilhas, D. João ll provava que nao dentais levou um veneziano -João Caboto- a uma
havia o menor receio de que essa metade da Terra idêntica tentativa de chegar à ilha das Sete Cidades.
fosse ao ·s eu ocidente a quase quatro mil léguas de Partido de Brístol, em Maio de 1497, com um pequeno
Lisboa,' comprometer a' posse da co'biçada lndia, donde navio só de 18 tripulantes, Caboto começou por rumar
vinham as especiarias. a norte, encontrando ge,los flutuantes; desceu depois
Também é de elementar probabilidade conjectu- a climas temperados, no Verão, costeando 300 léguas
rar que, entre 1487, em que Bartolomeu Dias foi ao de terras. De volta a Inglaterra, organizou em 1498
oceano Indico, sem se afastar muito da Africa, e o outra expedição com cinco navios, dos quais nada se
ano de 1494, em que foi assinado o Tratado, D. João ll sabe. Mas os resultados não foram interessantes, por-
se tivesse certificado da existência das terras ociden- que as viagens de Caboto não tiveram sequência, como
tais e da ·s ua pouca utilidade. Teri!a sido esse o fim da a não tiveram algumas expedições portuguesas a oeste.
viagem da caravela secreta de Júlio Verne? Ignora-se, até, onde estiveram; sõmente no mapa de
La Cosa- datado de 1500 -aparece em latitude alta
uma costa, corrida de leste a oeste, a qual não é de
• fácil identificação pela falta de pontos característicos,
como a ilha da Terra Nova e as penínsulas Nova Escó-
Não pode restar dúvida de que, aos Reis de Por- cia e Florida. A costa traz a indicação cMar desco-
tugal, absorvidos pela ideia inicial de abrir um ~~o berto por ingleses:.. Trata-se apenas de informações
por mar até à lndia, a exploração das terras oCidentais vagas. E aquelas informações que, muito posterior-
r---

III, I] os PORTUGUESES NO D ESCOBRIMENTO DA AMÉ RICA 333


332 AMÉRICA [ cAP.
porto moderno já aparece indicada, em 1502, na carta
mente o filho Sebastião Caboto prestou são conside-
de Cantino, à qual mais própriamente devemos chamar
radas', pelos criücos, como destituídas de fundamento. a carta de navegar portuguesa.
Era um charlatão, afirmou Harrisse.
Enfim, a par da carta de La Cosa, e datada de
Maio de 1500, existe uma carta de doaçam, pela qual Em resumo:
D. Manuel concede a Gaspar cCorterreal» jurisdição
sobre as ilhas ou terra firme que, pela cobra que quer
ainda agora comthenvar», novamente achar. A doação :1!: certo que os primeiros documentos decisivos
apoia-se, pois, em trabalhos de exploração anteriores sobre a descoberta da América são os que se referem
à de 1500 na qual Corte-Real teria descoberto terras a Colombo. Nenhuma outra data pode poi~s substituir
e ilhas, ~resumivelmente supostas a leste do Me~­
a de 12 de Outubro de 1492.
diano-raya de Tordesilhas, irs to é, adentro do her~ns­ Mas é erro atribuir a Colombo um descobrimento,
fério português. Com este alvitre concordam Harr1sse por assim dizer, ~ntegral, mesmo quando se queira pôr
e Larsen. de parte - ao contrário do que se faz com os Açores-
Combinando estas indicações com aquelas que as indicações de ilhas ocidentai8, como a Antília,
resultam da carta portuguesa - o conhecido planis- nos mapas do século XIV. Porque está provado que
fério de Cantino- desenhada em Lisboa em 1502, na Colombo não foi o descobridor absoluto, a cem por
qual pela primeira vez aparecem, com nomes ~rtu­ cento, como agom. se diz. Outros a:té, muito possi-
gueses, detalhes importantes da terra norte-~eriCana, velmente, 'l á estiveram, no Ocidente, antes dele. E
como a Groenlândia a Terra Nova e a Florida, ~somos quando Colombo concebeu a sua viagem wspunha dos
levados a concluir ~ue essas terras, só 'COnhecidas em seguintes elementos fundamentais, que não criou:
Lisboa, foram exploradas por navios portugueses -Mar Tenebroso aberto pelos Portugueses, que
antes de 1500. nos seus navios iam a meio do Atlântico havia
Mas nem por isso é lícito desconhecer que, entre muitos anos.
os pioneiros do descobrimento da América do Norte, -Certeza absoluta da existência de terra a oeste
os Portugueses figuram e avultam concretamente, por dos Açores.
serem aqueles que de lá trouxeram as primeiras infor- -Confiança em uma Arte de Navegar no alto
maçõés geográficas regulares. Eles passaram ao largo, mar, que não era praticada nem pelos Genoveses nem
por fora de Long Island; e, se não entraram no can~l e pelos Espanhóis, mars só em Portugal.
não descobriram e ocuparam a ilha de Manhatan, Isso
-Certeza de poder atravessar o Atlântico à vela,
fm devido a essa terra - aliás fora da zona atlântica indo pelas latitudes baixas, a favor dos ventos conhe-
portuguesa - não ter nessa época valor total superior cidos, sem receio de que esses ventos ~mpedissem a
a uma onça de ouro. Contudo, a entrada para o grande
334 AMÉRlCA [ cAP.
III, I] os PORTUGUESES NO DESCOBRIMENTO DA AMÉRICA
335
volta~ que seria feita pelas latitudes altas, à mercê
de outros ventos conhecidos, favoráveis. ~ferência mais sugestiva que a simples palavra Corte-
- ::IDstímulo na imitação dos descobrimentos marí-
- e~l que, no Labrador, figura no mapa parietal da
Natwnal Geographical Society, de Washington.
timos dos Portugueses, buscando, como eles, caminho
da lndia.
-Enfim, prestígio de ter navegado com os Por-

tugueses no Mar ex-Tenebroso, o qual lhe dava auto-
O descobrimento da América resultou incontes-
ridade para dirigir uma exploração do Atlântico. tAvelmente da iniciativa do Infante D Benn'q d
Semelhante preparação, no fim do século XV, só des b . . ue, o
co n~ento dos Açores, e da abertura do alto
existia em Portugal, como o demonstram as viagens aos naVIos rt . mar
d . po ugueses, CUJas rotas de volta da costa
de descobrimento do caminho para a verdadeira lndia, e Ãfnca passavam pelo Atlântico Central na Volt do
de Bartolomeu Dias e de Vasco da Gama, as quais se Sargaço. • a
não podem comparar, nem em trabalhos de alto mar • ~do .isto é tão dntegralmente português como o
nem em arrojo, com a fácil travessia atlântica de e a pn~eira carta regular da América do Norte - o
Colombo, em cinco semanas. ,pZa_.nt8[érw Oantino -onde se identifica a actual costa
Foi assim que Colombo -fosse ou não genovês, atlantica dos Estados Unidos Há alem' d' "'
' d' - ' ' ISSO, LOrtes
mas sendo português pela sua Arte Náutica, fruto dos In Icaçoes da passagem de navegadores portugueses
trabalhos que o Infante D. Henrique promoveu- antes de Colombo, pelo menos, pela própria Améri~
Colombo, iamos dizendo, pôde chegar às Antilhas, nome do Noz:e. Os aventureiros que empreenderam tais via-
que simbdliza as antigas ilhas ao ocidente do Atlântico, gens. n~o puderam delas tirar o resultado material·
povoadas de índios, outro símbolo tirado do nome dado eles Imitaram o Rei, reservando as narrações das sua~
aos habitantes da 1ndia. Se Colombo, em 1498, não av~n~as, e, por isso, delas não há documentos. Con-
tivesse ido à América Continental, ela não teria tardado tudo, amda mesmo que os marea.ntes portugu -
t' eses nao
a ser descoberta por outros mareantes, dispondo dos Ivessem passado pela América antes de 1492
mesmos meios, os Portugueses. De resto, nos seus d~ lhes ser fácil lá ir, em qualquer dos ca~:petaisar
VIa·g ens
. ,só nao
- ti veram sequência por ter aparecido
' s
escritos, jamais Colombo desdenhou dos seus colegas,
os na'Vegadores de Portugal: apesar da sua fama de no _üz:ente, um campo exclusivo de operações o quaÍ
mais Interessava os Reis de Portugal. ,
«falador:., nunca afirmou ser ele o descobridor da
navegação de alto mar ou do8 ventos gerais.
Colombo jamais viu terra da actual América do •
Norte. Por isso a intervenção portuguesa no descobri-
mento dessa parte do continente ocidental merece uma . O .des~brimento de terras ao ocidente do Atlân-
tico foi pois uma sequência dos trabalhos portugueses,
AMÉ RI C A [cAP.
III, u] CRISTOVÃO COLOMBO
para descobrimento do caminho marítimo para Guiné 337
e índia. O golpe feliz de Colombo, em 1492, não fora o n- ORIBTOVAO OOLOMBO
primeiro, nem o mais largo, dos passos importantes
que deram aos Europeus um campo de acção ultrama- 1 . «Para la execution de la Empresa de las
~las no me aprovecho razon, ni matemat.
rina, no total -África, América, Oceânia -oito vezes n~ mapa mundi.:. tca
mais extenso que a própria Europa. E o seu sonho de
D . Ch:RISTOBAL CoLON (1501)
abertura de um caminho marítimo para a Asia, nem
era original, nem Colombo o real~zou. Realizaram-no, «Si Christophe Col~b eut éti b
graphe, il n'aurait pas découvert l'Aon c~smo­
pelo oriente, Vasco da Gama, em 1498, e, pelo ocidente, menque.:.
Fernão de Magalhães em 1520. Ambos portugueses, os VICTOR HUGO
«eternos espoliados:. das glórias dos descobrimentos «Cristobal Colon en el arte de
ed · · navegar
maritimos. Certo, a viagem de Colombo vem dando «te . w, atn alguna duda, a todos cuantos m
8U twmpo en el mundo havia.>
mais brado; filas os seus fanáticos ignoram que não foi
Colombo quem abriu as portas do Mar Tenebroso para LAs CASAS
os três oceanos, e que a sua viagem às Antilhas foi
apenas um quadro excitante da teatral epopeia que
foram os descobrimentos marítimos. Os seus realiza- b :Assim tem sid~ românticamente explicado o des-
dores, Dias, Colombo, Gama, Corte-Real, Cabral, Maga- :a:e~cul:lombtan~ da ~érica, realizado há
lhães, só completaram a concepção Henriquina, dis- Colo , e meto. Crtou-se uma denda de
pondo dos meios que o Infante lhes criara. a Po=\ clí.~mbre sobrehumano:., que teria chegado
ga pe o mar, a nado, e que calculara cientifi-
Não será pois por cegueira nacionalista, nem por camente a largura do Atr ti
fundam an co, lenda que não tem
fantasia literária, que poderemos repetir- com o sau- ento.
doso hd.rs toriador Lopes de Mendonça- que o «desco- rai:ar~ue para atravessar o Atlântico de praia a
brimento da terra ocidental deriva em absoluto da ~ . . nao era necessária supercosmografia. Bastou
influência portuguesa, tendo o seu início no pensamento mststAr no rumo oeste da agulha durante po .
genial do Infante D. Henrique:.. de um mês; e isto tanto podia ser feito por uco mats
como po bo um mau
te r um « n cosmographe». Sabia-se que havia
NOTA - A rota de 1.1,92, de Colombo, ·c onstitui com rras a oeste, mas desconhecia-se a
exacta. sua posição
as de Vasco da Gama e Magalhães, uma trindade bem
portuguesa, de natural aproximação no planisfério das Tão-pouco a História Crítica pode atribuir o
grandes viagens portuguesas. :US:, d~ ~bo
e
à sua santidade, por ele ser-
gues - um embaixador divino. Se
n
(cAP. III, n] CRISTÓVÃO COLOMBO 339
A~RICA

esab'd
cinco léguas da CI·da de d e Lisboa.
. Colombo tê-lo-ia
assim fosse, como poderia ele confundir a América com I o por uma carta e um ma d T
a China'? Ou tudo teria sido audácia 1 de outros enviados ao rei D Afo~:O e oscanelli, cópia
Não. O descobrimento da América não foi milagre aquela possibilidade Ora
ram, perderam-se e. .
ta.
d V, onde se revelava
Is- ocu~entos, se existi-
nem tão-pouco acaso. Foi um :acontecimento humano,
realizado por um sagaz navegador, favorecido por uma dedução teórica, a q~a~~~a!iv~:; seria m~is ~ue uma
anterior preparação técnica, apoiado por um governo, veitada pelos h, b . e base, tena sido a pro-
a eis navegadores italianos
e exaltado em vista das maravilhosas consequências ela não seria segredo (1). , para quem
que teve para a Humanidade. A verdade
O estudo técnico das viagens de Colombo prova cabilidade de até que Colombo nao
- adivinhou
. a prati-
ravessar o mar para oeste com a cer-
que ele não criou os recursos de que se serviu, e que
é delirio supor que, em 1492, ainda os mareantes por-
tugueses receavam ir ao alto mar. Embora Charcot
(1) Há poucos anos foi
chamasse a Colombo «le vainqueur de la Mer Téné- século xv, original dos ma encontrado um planisfério do
breuse», é eerto que, aind·a antes de 1492, já estavam nelli. Neste mapa a distân~;: ddo t::a!o florentino Paolo Tosca-
1~ graus de longitude. esta d~st~s .a costa da China anda por
esquecidas as Lendas do Mar Tenebroso. através do Atlântico s'er, d'f nela, mas contada pelo poente,
. , a a 1 erença par 360
- mais de dez mil milhas - ' pr6XIma . daa verdade
' ou 220 ~graus
• graus. N ota-se mais que 0 Jap- . , 1,
costa da China
, , que " 232
ao Ja a está arrumado, perto da
O exagero dos admiradores de Colombo levou-os
seria Ora, segundo
de «26 espac'a carta de T ascanelh,. a referida distância
a afirmar que ele, dotado de «audaciosa imaginação», Cypango 1500 milha
lOS > -OU 6500
te d
'Ih ·
. mi as -, ficando a ilha
depois de, em confirmação da esfericidade da Terra, s an s a Chma D d h,
que o mapa autêntico agora d be . on e a a concluir
ter efectuado a medição do grau meridiano, descobriu .. , escortoéi til
mdlcações da carta atribuída a ' . ncompa ve com as
os ventos alisados, a declinação da agulha, o Mar de cida cópia, faltando-lhe o ma Toscanelh,. da qual s6 é conhe-
refere. Este facto f' pa «per navigare> a que ela Sei
Sargaço, a corrente do Golfo e, até, «novas estrelas».
não escreveu a. Colombo>. A cart t . ~a~ • e que cToscanelli
con 1rma a versão Vi t d
Outros, pretendendo simplificar o descobrimento segundo informações colhidas da Benha ~Ido mventada pelo irmão,
da América, mas excluindo a intervenção portuguesa, e e a1m com f' d .
com a responsabilidade d , , o Im e cobrir,
qão-lhe explicações inverosímed.s: tal seda a informa- cepção colombiana sob e um geografo co.nhecido, o erro da con-
ção, particular a Colombo, de um piloto misterioso, ~tlântico. Teria sido co: i:ênii :u;: distância à Ásia, pelo
que lá teria ido, corrido por um inédito temporal de mventou o seu tendencl·oso pl . f' . que Bartolomeu Colombo
ams er10 o qu 1 -
tad o de expedições marítimas d ' , a, nao sendo resul-
levante, ou a de um geógrafo florentino-Toscanelli-, Behaim, Martellus e La C . , ~scorda dos mapas conhecidos, de
que, em teoria, escrevera que o caminho «brevissi- o Brasil. Não foi, pois, por oess~~ ~e alonga a !-sia,. ligando-a com
mo» da tndia não era pela Guiné, mas pelo ocidente, de Toscanelli, que Colombo d f atopa, com~ nao fol pelo autêntico
e ac se gu1ou.
por onde a China distaria apenas mil 's eiscentas e vinte
~RICA
[CAP. III, n] CRISTOVÃO COLOMBO
340 341

teza de poder lá voltar, à vela, e com navios como aqueles pavimentado com ladrilhos de ouro maciço de cdous
que preparou, em que predominavam as velas quadran- dedos» cem grosso:. - , Colombo não podia iludir-se:
gulares, isto é, menos próprios para ventos escassos, esta.~a n~ ilh·a s de escala, e ainda não tinha atíngido
porque não se podiam chegar tanto ao vento como as a Asta, C1tada por Marco Polo. Nunca mais a buscou.
caravelas latinas. Colombo, tendo navegado com os Apesar de Colombo sempre ter afirmado que che-
Portugueses na viagem da Guiné, à volta reco~ecera ga~ àa ln:!ias_· não podemos esquecer que, de prin-
quais os ventos que dominam a meio do Atlântico: de cipio, ele nao tinha elementos práticos para ter opinião
'l este nas latitudes baixas, de oeste ao norte. Já se náutica diferente da dos Portugueses-de quem nnnca,
. portanto que para ter sempre vento favorável, nos seus escr~tos, desdenhou. Não poderia, pois, supor
sabla, ' ' .d te que a travessia para a Ãsia, pelo ocidente, fosse mais
estava naturalmente indicado navegar para o oc~ en .
pelo sul e voltar pelos Açores. Assim fez. E ·a sstm fot fácil que a outra, aquela que os Portugueses buscavam
descobr~ a América, sem necessidade de ser, como o pelo sul da Ãfrica, a qual, ao princípio, se julgara
considera Las Casas, o supernavegador. Formara-se estender-se poucos graus para além do equador.
cen Portugab, escreveu Blasco Ibaiiez. A verdade é que, possuído da sua ideia ocidental
Mas erram também aqueles que julgam que Colombo apresentou ao Rei de Portugal e depois ·ao~
Colombo descobriu a América por acaso, a caminho da de Espanha, projectos de viagem. Mas ign~ramos quais
tndia falhando assim a rota e sendo, portanto, mau as bases, náuticas ou outras, com que poderia apoiar
ccos~ographe » . Colombo não tinha razões para :supor as suas propostas, como ignoramos se elas seriam,
que a travessia da Europa para a Asia fosse vtage~ segundo alguns julgam, para cir ao Oriente pelo Oci-
tão simples. Os cosm6grafos do seu U:mpo - CUJa dente:..
opinião geral está traduzida no conhectdo globo. de Se se apoiasse em alguns mapas da época como
Behaim --consideravam que entre Portugal. e~ ~hma, aquele atribuído a Toscanelli, já citado, e que tlvesse
pelo ocidente, havia no Atlântico uma dtstâncta de sido antes enviado ao Rei de Portugal, esta anterior
1800 léguas, 128 graus no Globo. Mas, entre os Açores informação não estaria cá esquecida, e o Rei teria logo
e a costa asiática, haveria ilhas para escala, ~o era a posto de parte uma análoga proposta de Colombo.
grande ilha Oypango- ou Japão~ , ~ue ficana a 1400 Do~de se conclui, como mais provável, que s6 se tra-
léguas de Portugat Colombo nao dts_Punha de expe- taria de uma viagem de exploração ocidental, anâloga
riência que lhe permitisse alterar ta1s detalhes geo- àquela que Dulmo projectou em 1486 sem pedir como
Colombo, uma esquadra, ou honras d~ vice-rei. '
gráficos. .
Assim, Colombo, em 1492, tendo descoberto tlh~s Para tais viagens ao Ocidente, se elas interessas-
s6 a um milhar de léguas da costa de Africa, e nao sem D. João ll mais que a da lndia pela África, sabe-
encontrando lá a opulência e a civilização que Marco mos que o Rei dispunha de mareantes conhecidos,
Polo atribuíra ao Japão- onde o palácio real seria como Diogo Cão, Bartolomeu Dias' Pero Dalanquer,
III, o] CRISTÓVÃO COLOMBO 343
(CAP.
AJ,{ÉR!CA

342 . à argumentos fariam sorrir ma.reantes práticos como


upor infenor Colombo. A verdade é que os mapas da época, como
A • não há razão para se s . . s
cuja •competencia . 1 tes nem havl'a receio os de Martellus, Behaim ou Toscanelli, arrumavam a
de Colombo. Não faltavam tnpu an
E tanto que, em
1487 eles contor-
, costa da China a mais de dois milhares de léguas de
de se ir ao alto mar. o oceano Indico. Mas Portugal, ignorando-se se haveria terras de permeio.
naram a Africa e passara~!:~es do Atlântico Norte Além disso, Colombo não dispunha de ·a rgumentos iné-
é sabido que as nossas exp . ç 6 foram objecto de
ditos para provar que a Terra era redonda e de exíguas
-como as dos Corte-Rerus;:-~ a particulares deci- dimensões, como não podia alegar experiência de nave-
co ncessão régia quando era . ei sta Eles não falavam
à própria cu · l' gação além do Mar de Sargaço- onde passara (em
dA

didos a empreen e- as 1 à Asia, enfim. E,.~ .a 1483 ?) no regresso da Guiné- da qual se concluísse
em ir à China, a eypango, foi considerado mutil. que havia passagem livre, ocidental, para a Ásia. E a
foram o que lá encontrar: tanto em Portugal como verdade é que a não havia.
As propostas de Coloro ' sido submetidas a Dos . escritos deixados por Colombo não se pode
anha ·
tenam- conta-se - de compreender
em Esp ' incapazes deduzir quais as bases .novas em que se apoiava. Seria
cJuntas de Doutores»,
um visionário sincero? Ele nunca se referiu concreta-
Colombo. ·untas uns, por fana· ' mente, nem às infovmações de pilotos, nem a. mapas
Entre os membros .dess~ Jredondeza da Terra e como o de Toscanelli, nem às correntes, que traziam
. ·
tismo re1iglOso, duvidanam
, d a
Outros, . do-a, J·ul-
aceitan cmaderos» e ccafias» aos Açores. Só declarou não se
da existência de antipo as.
. h para o oci
'dente seria a descer,
b' ter aproveitado de «matemática ni mapamundos::. .
gariam que o camm o . un·possível aos navios su i- Podemos contudo deduzir que, pela sua convivência de
se tornaria . e do
e que, à vo lta' Estes esqueciam qu ' uma dezena de anos com Portugueses- com quem
rem outra vez para a ~urop~~zidos por ventos e cor- navegara e para quem desenhara cartas de navegar,
Ocidente, vinham detrl~~s 'lmente também de lá pode- consultando cDiários»-Colombo teria, provàvelmente,
rente e que, portanto, acl to J'á era sabido que os ideias práticas idênticas às dos mareantes portugueses,
·os Deres , e
riam voltar os navt . sul do equador e qu como era a de atravessar para as terras ocidentais,
vam para o · ti
muito ao longe do Atlan ~·
A

Portugueses navega não indianas, ideia antiga portuguesa, pois já em 1452


de lá voltavam, passand~· Ora na verdade, o m~s Teive buscara a ilha Antília, ou a das Sete Cidades.
sem necessidade de s~ ~r. con~luir que o Atlân~CO Além disso, as navegações portuguesas em lati-
natural era, ao co~trarlO, visto que as águas corrlam tude provavam, como se sabe, que a volta da Terra,
Ocidental ficava mals i:to~té haveria quem sup~esse pelo equador, passava de seis milhares de léguas, tendo
de lá para cá ... Enf. ' b' o onde os navlOs se o grau entre 17 e 18 léguas.
istla um a lSID
que, ao P?ente, ex do Atlântico não! . Por estas razões, •se Colombo ·a presentou a
precipitariam, e as águas razões menos puens par.a . D. João n projecto para se ir à lndia, pelo ocidente,
Certo, há que prsfocura~vel das juntas, porque taiS
explicai o parecer de avor
344 AMÉRICA [cAP. III, u] CRISTÓVÃO COLOMBO
345
tal proposta asiática não poderia merecer ao Rei maior P~ o armamento dos navios e tornaram a expedição
atenção que aquelas análogas que, por documentos, mais popular, ou nacional.
sabemos terem-lhe sido sugeridas em 1493 por um _ Foi ent:ão assinada uma capitulacion cujos termos
doutor alemão -Monetário - a instâncias de Behaim, sao conhecidos. Colombo seria reconhecido «Visorey
as quais foram desprezadas. Y .gobernador general en todas las dichas islas y tierras-
Nada tendo obtido de D. João II- e até, segundo -firmes:. que descobrisse. Não há nela referência directa
alguns, tendo sido atraiçoado por certa cperfidie à·s terras civilizad~s da Ásia - como a China e a
royale» - , Colombo partiu para Espanha, onde tenaz- ~ndia- , on?e, de .r esto, não seria fácil a ·E spanha
mente insistiu junto dos Reis Católicos, solicitando 1mP?r um cwsorey», de modo que, se a Junta de facto
recursos - cdinero, buques y hombres:. - que em duVIdou da possibilidade de se ir cao Oriente pelo Oci-
Portugal lhe tinham sido negados. dente:. - no que estava com a justa crazon» - o fiacto
Submetido a exame dos cientistas espanhóis o ~~ereto é que a ccapitulacion» não contraria tal opi-
projecto de Colombo, apoiado menos em factos do que mao da Junta de cientistas espanhóis.
na leitura de livros conhecidos em Espanha, como o Enfim, Colombo partiu de Espanha no princípio
de Marco Polo e o de Mandeville- que não ensi- de Agosto de 1492.
navam 'a navegar no mar- , as propostas de Colombo ~erendo exaltar as dificuldades vencidas pelo
não foram aprovadas. De resto ignoramos os seus própno Colombo nessa sua primeira viagem, como
termos: teria Colombo algum segredo? Apoiar-se-ia chefe, alguns escreveram que ele não foi só descobridor
na opinião atribuida a Toscanelli, ou nos craisonne- de novas terras mas, também, de golpe, teria desco-
ments scientifiques:. que lhe atribui Charcot? Tratar- berto um auxiliar essencial - os ventos gerais do
-se-ia de ir à Ásia ou só à margem ocidental do Atlântico- que aos Portugueses tantos anos levaram
Atlântico? Só podemos concluir que Colombo sabia que a. desco~rir, por dependerem, não de uma, mas de repe-
a lndia ficava muito longe, e que ele contaria com tidas VIagens em várias estações do ano. Ora, :há um
escalas intermédias. de.talhe técnico que prova que Colombo jã conhecia
Foi sõmente em 1492, depois de vencidos os Mou- tais ventos, e não os adivinhara: logo nas Canárias
ros na Península, mercê da colaboração de alguns ele começou por transformar o velame da caravela
espanhóis, e pela intervenção da Rainha de Castela «Pinta:., fazendo-a «redonda:., porque era clatina:..
- não-acadêmica, mas ambiciosa e estimulada pelo Redondo era também, pelo menos, o navio-chefe, a
sucesso das navegações portuguesas- , que Colombo «Santa Maria:., de um cento de tonéis. Como os navios
conseguiu os três pequenos navios de que precisava. latinos são os mais próprios para navegação com ven-
Diz-se que, para financiar a empresa, a aventureira tos contrários, vê-se que, no tempo de Colombo, jã
Rainha até tivera que empenhar as jóias ... Outros eram conhecidos os ventos favoráveis que ele iria
aventureiros, os irmãos Pinzon, concorreram também encontrar no Atlântico: à ida teria ventos de leste-
AMÉRICA [cAP. III, u] AMÉRICA 347

a que hoje chamamos o alisado; e, encontrasse ou não estavam «tan alto como en Oastilla», isto é, muito a
terra, a volta estava garantida pelos Açores, onde norte das Canárias. Ora não é licito atribuir tal erro
dominavam ventos de oeste, também favoráveis. Tais a Colombo.
eram, de resto, os ventos que Colombo sabia que os A travessia de 1492 foi tão simples como o faz a
mareantes portugueses aproveitavam nas viagens de tradicional anedota: pôr cum ovo em pé:. sobre a
regresso da Guiné, que não eram costeiras, mas a con- ponta machucando-lhe a casca. Foi viagem directa,
tornar, centenas de léguas ao largo da Africa, os ventos rumando a poente com ventos a favor. Navegadas
do norte, dominantes na costa. assim novecentas léguas, em cinco semanas de bom
Ah! Se Colombo, antes de largar das Canárias ~mpo, sem vista de ter·r a, a 12 de Outubro, Colombo
para cel Oeste», não tivesse conhecimento concreto atingiu uma ilha, das mais pequenas de um numeroso
desta Arte de Navegar no Atlântico, ele, só pela sua arquipélago ao qual ele deu um nome artificial, o de
descoberta dos ventos dominantes no alto mar, que lndias; são as actuad.s Antilhas, nome derivado dos
alguns lhe atribuem, teria merecido o título de cgénio mapas antigos. O encontro de terras era fatal porque
inspirado por Deus», título que De Lorgues .n ão con- elas barravam o caminho.
cedeu ao tão religioso Infante D. Henrique. Nesta primeira exploração Colombo teve a sorte
Mas Colombo era, afinal, um navegador prático. de ir 1a tingir a maior das ilhas, Cuba. Julgou ser terra
Ele não se riria fiar em palpites ou adivinhação de firme, que ficaria a um milhar de léguas da costa de
ventos ... como os não •a divinhou Va·sco da Gama quando~ Africa. Mas, em lugar de prosseguir para o ocidente,
em 1497, se meteu a cortar o Atlântico pelo goZfão. em busca da China, Colombo voltou para trãs, para
Ambos tinham segurança de, tanto na ida como na leste, para outra ilha grande, a •a ctual Haiti. A gente
volta, ·encontrarem ventos manobráveis. E ambos vol- andava cdesnuda», era simples, desconhecia o ferro, e
taram à Europa pelos Açores. contentava-se com presentes de ccuentecilhas de
A sequência é de fácil compreensão, embora o vidrio». E era tão sociável que deixaram lá um forte
cDiá.rio» atribuído a Colombo não passe de um extracto, - la Navidad - com 39 espanhóis. No regresso
feito por um seu admirador- Las Casas- , no qual Colombo começou por ganhar norte e, pelas latitudes
se notam inverosimilhanças, que só o documento ori- altas, com ventos do oeste, veio aos Açores, a Lisboa,
ginal poderia esclarecer. Tal é a explicação do cnOI'Oes- à Espanha.
tar» da agulha pelo movimento da Polar. Mas a maior Colombo declarou então ter atingido a Asia.
delas está nas latitudes, pois tendo Colombo navegado Porém, alguns críticos históricos duvidam de que
das Canárias cal oueste» da bússola, a qual na maior Colombo, apesar das suas repetidas afirmações, esti-
parte do ·Caminho declinava para oeste do Norte do vesse intimamente convencido de, logo na sua primerira
Mundo, ele sabia que iri-a parar a uma 1latitude a ·s ul tentativa, ter chegado às lndias. Ele nunca poderia
das Canárias. Como foi. Mas no c-Diário» ·lê-ee que confundir aquelas ilhas, de que foi cgovernador:., com
AMtRICA [cAP.

as opulentas terras de Cathay ou Cypango- China e


Japão- terras civilizadas, já então conhecidas pelas
narrativas de Marco Polo, Conti e outros. Nem tinha
razão para acreditar que, entre a Europa e a .Asia,
havia apenas o milhar de léguas navegadas.
A viagem de Colombo, iniciada em 1493, foi
·sequência natural da primeira. Indo mais pelo sul, em
procura de outras terras, e talvez a confirmar a ausên-
cia das ilhas Cypango e das Sete Cidades~ Colombo foi
avistar, a 700 léguas apenas das Canárias, uma ilha
nova, junto da actual Martinica e uma das mais pró-
ximas de Ãfrica. Daqui, passando por outra ilha maior,
Porto Rico~ seguiu para o cforte Navidad:.. Mas os
espanhóis que lá deixara não puderam encher o
ctonel de oro», em que lhes falara Colombo, porque os
lndios os tinham trucidado.
No prosseguimento desta expedição só se navegou
pam oeste, pe1o ·s ul de Cuba, mais uma centena de
léguas que da primeira vez. Colombo contentou-se em
tornar a alegar, gratuitamente, que já chegara à .Ãsia,
do que, quando muito, só poderia estar desconfiado.
Porém, daquilo que contava, continua a concluir-se
que o interessava mais o descobrimento de coro y per-
las:. do que o do caminho para a lndia.
Ainda no ano de 1492, um alemão- Monetário -
enviou, em carta a D. João n, um alvitre, já citado,
sobre a possibilidade teórica de se ir a Cathay cem
poucos dias», navegando pelo ocidente. Mas, apesar
das afirmações asiáticas de Colombo sobre a sua desco-
berta, é certo que D. João n não tomou a sério tal
proposta. E tanto que promoveu o Tratado de Tor-
desilhas- éoncluido em 1494, antes de Colombo vol-
tar da sua viagem - , pelo qual Portugal abandonava

Modelo da na u «San ta Ma ri a » (capitâ nia de Cris tóvão Colombo)


qu e em 1892 repetiu a viage m da original
III, n] CRISTOVÃO COLOMBO 349

à Espanha o hemi8fério terrestre que começava 370


léguas além das ilhas de Cabo Verde e ia terminar 218
graus ao ocidente, ou cerca de 3000 léguas de Lisboa,
próximo do extremo do Japão real. Vê-se que, apesar
de a primeira viagem de Colombo em nada ter concor-
rido para provar a redondeza da Terra, todos em Espa-
nha acreditavam nela. Até um cardeai, o D'Ailly.
Era pois manifesto que D. João ll estava absoluta-
mente convencido de que a «verdadeira fndia:. ficava
muito mais ao largo de Portugal do que se poderia
concluir das narrativas de Colombo. E tanto que, sem
receio de a perder, ele conseguira alargar o limüe
atlântico do domínio português, 370 léguas para além
das ilhas de Cabo Verde. Esperava assim abranger,
no quadrante sudoeste do Atlântico, terras não asiá-
ticas, o futuro Brasil, sem o menor receio de que o
limite oriental do seu hemisfério deixasse de fora a
lndia.
Tal seria, embora inconfessada, também a opinião
de Colombo. Foi por esta razão que, logo na viagem
que fez depois do Tratado-em 1498-, ele foi procurar
aquelas mesmas terras cuja existência julgava conhe-
cida de D. João n, não havendo a mínima razão para
as considerar já como Ãsia.
Com esse fim claro, Colombo foi fixar a sua lon-
gitude na ilha de Santiago, de Oabo Verde, e de lá
nunou a. sudoeste. Com este rumo, se, à chegada a
terra, a. latitude fosse inferior a 6 graus sul, ele teria
ganho, para sul, menos de 370 léguas e só outras
tantas para oeste : estaria, pois, ainda no hemisfério
português. Mém daquelas latitudes já estaria mais de
370 léguas para oeste das ilhas de Cabo Verde, e a
terra pertenceria a Espanha. Assim, teria sido traçado,
350 AMÉRICA [cAP. III, n]
CRISTOVÃO COLOMBO
35I
pela maneira mais prática, o meridiano-raia, que, levante», para onde Ga . .
segundo o Tratado de 1494, passava 370 léguas- oü 1502 trA ma partira no mesmo ano de
, es meses antes de Co! b0
21 graus em longitude - a poente daquelas ilha·s. Nesta via . om largar de Cádis.
Contudo, pelo facto de esta tentativa de Colombo quatro - a qu:::n: mais longa e trabalhosa das
ecemos por uma conf
t ensiosa narrativa de Co!
ter sido feita no Verão, a monção de sul não lhe per- bo . usa e pre-
mitiu, sequer, atingir o equador, ao contrário do que de Jamaica e Cuba d dom -, e'le foi passar ao sul
fez, em 1500, Pinzon, por ter ido no Inverno, sem mon- gadas umas 150 Ié' on e' .rumando. a sudoeste e nave-
de T ··na . guas, atmgm terra firme- o porto
ção. Mas Colombo explica a falha do seu acertado TUJ't - apenas um grau ar .
esquema imaginando um exagerado ca:lor, tal que receou mais ocidental de Cuba e 400 I, p a oeste da parte
que se lhe «quemasen navios y gente». De facto, nave- da Trindade ' egu•a s para além da ilha
, que Colombo .descobrira na .
gadas só 120 léguas, arribou para oeste, indo desco- anterior. VIagem
brir a ilha da Trindade e, junto dela- denunci~da Esta terra firme era tu I
pelo grande rio Orenoco - , finalmente a ctierra-firme» da Améri do ' na ra mente, continuação
Hojeda de:rita Sul, explorada anteriormente por
prevista na cCapitulacion de 1492:. e no «Tratado de
Verág~ nú ma :~cartas de Vespúcio, e indicada até
1494». Não a explorou porque, apesar de se declarar p e La Cosa, desenhado em 1500 ( ")
já cen Oriente:., bem sabia que ela não era A8ia. E Como a nova costa ago · ·
conia lest t ra encontrada por Colombo
ooriou logo para noroeste, para a sua conhecida ilha e-oes e, e como se ign
Espafíola, ou Haiti. México impedia a saída do Af!Iâ:z;va que o golfo do
era intuitivo ue Ico para o poente,
onde estava ~as~~: ~:~c;-sse ~e facto aquela fndia
O facto de o hemisfério português só recomeçar
três mHhares de léguas para poente da Trindade con- nova costa • tena de acompanhar a
vencera Colombo de que, ainda que houvesse mar livre · para oeste Porém ,
afirmado que a terra fi d ' apesar de Colombo ter
até à lndia, o caminho regular para ·l á ir não seria por
ali. E tinha razão porque, nesse mesmo ano de 1498, junto da Trindade já e:eÀ.s:co~;:: ;;or;I~ em 1498,
não um Novo Mund e r1ente:. _e
e dois meses antes, já Vasco da Gama chegara a favorece . o, e_ apesar de ventos e correntes
Calecute. ocidente ~~:dC:~!~~~a~a~:.aexploraç~o da costa para
Tão convencido ficara Colombo de tal dificuldade aleD'tlndo . y, a Cluna- Colombo
que, a seguir, na viagem de 1502- a sua última- e......... uma Inverosímil tabl ' '
durante 88 d" . «espan e tormenta»
ainda menos procurou atingir terras indianas, já então a.ff d Ias seguidos, vo!Jtou para trás para lest
mtan o que a terra atin "d 0: • ,• e,
também visitadas, pelo Cabo, por Cabral. E isto apesar nas a 19 · d gi a, anag ficava ape-
de, desta vez, Colombo levar instruções dos «Reys» para JOrna as do rio Gan E '
busca de um «estr h ges. xplicava ir em
ir até à autêntica lndia, pois elas prevêem encontro poderia estar para e~áo», o qual, se existisse, tanto
amigável com os Portugueses enviados ca la parte ·de a Asfa. s como para diante, cortando
352 ~RICA [cAP. III, n] CRISTÓVÃO COLOMBO
353
Por outro lado, por causa das múltiplas travessias po_: «mi~as de oro» do que pelos Impérios do Oriente.
do Atlântico já realizadas, havia a certeza de não ter Nao podia acreditar ter encontrado mais que portos de
ficado para trás uma ilha real- a Cypango, que, escala, ou abastecimento, para se poder ir cao Oriente
segundo Marco Polo, era rica e civilizada, e estaria pelo Ocidente:..
cerca de 1500 milhas antes de se chegar à Ásia. Assim, da narrativa que Colombo fez das suas
resto, ser a da China - Cathay - , frequentada por duas últim~ viagens, deduz-se claramente que, pelo
resto, ser a da Chinra- Cathy-, frequentada por menos depois do Tratado de Tordesilhas e da chegada
grandes naus de quatro mastros, nas quais se fazia dos Poz:tugueses à lndia, Colombo ficara logicamente
o comércio com a lndia. Nem é licito confundir as convencido de que ela estava tão longe ao ocidente
cabanas dos lndios, vistas por Colombo, com os palácios que caia sem dúvlida dentro do hemisfério europeu,
que vários viajantes descreviam no Oriente. Também desaparecendo as vantagens de tentar lá ir pelo oci-
se sabia que lá era usado o ferro. Como Colombo ainda dente.
não encontrara vestígios de semelhante civilização, não As suas ideias s6 poderiam ser idênticas às do seu
havia razão para supor que aquela terra era Ãsia, piloto La Cosa, que, no mapa de 1500, prolonga a costa
cortada por um canal, invenção a que nenhum viajante do Novo Mundo até uma longitude semelhante àquela
se referira. Enfim, se na Ãsia havia cminas de oro:., atingid~ ~r Colombo em 1502, apesar de ele pretender
estariam ocupadas e Colombo não levava força para ser o um co a con~ecer a posição de V erágua, para
as conquistar. poder lá ~oltar. Enfim, mostrava-se convencido de que,
Há ainda a notar que Colombo, nos seus entrela- tanto as tlhas como a terra firme, descoberta por ele
çados reconhecimentos, abandonara a exploração de e por outros, como Pinzon e Hojeda, era tudo Ásia,
Cuba- que declarara ser terra firme da Ãsia- e não houvesse ou não cca.nab do oceano Atlântico para
passara, nunca, mais de 200 léguas para ocidente do o Mar da lndia.
primeiro ponto atingido em 1492, a ilha Guanahani,
a que chamara São Salvador. Ora esta ilha, no mapa •
do piloto La Cosa - companheiro de Colombo em
1492- , está apenas a 60 graus da costa da Guiné, Como se vê, a discussão náutica das rotas de
ao passo que no Globo de Behaim, que traduZiia as ideias Colombo, e o seu decalque sobre os mapas da época,
·da época, repetidas no mapa de Toscanelli, reconsti- que conhecemos, revelam que, em 1500, já nem marean-
tuído, a costa sul da China ·a parece 150 graus a oeste tes nem outros poderiam acreditar na chegada dos
da mesma costa da Guiné. Faltavam, pois, 90 graus- a navios de Espanha às terras civilizadas do Oriente
quarta parte da volta da Terra- para Colombo se onde a Espanha não teria forças para impor um «vice~
poder supor na Ãsia. E, de facto, dos escritos que dele rey e governador:., de acordo com aquilo que a letra
ficaram conclui-se que Colombo se interessava mais da cCapitulacion::. garantia a Colombo.
23
354 AMaRICA [cAP. III, n] CRISTÓVÃO COLOMBO 355

1!: pois transparente que, apesar de o g:rande nave- que permitam recusar a Colombo a sua primazia na
gador até à hora da morte ter dado a impressão de chegada ao continente americano em 1498.
que acreditava no seu descobrimento das lndias Asiá-
ticas, ele só podia estar convencido de ter atingido, Resumindo:
a menos de um milhar de léguas das costas de Ãfrica,
Hhias e terra firme de um Novo Mundo, aquelas que, O descobrimento da América, realizado definiti-
já em 1486, D. João TI concedera a Dulmo e que, docu- vamente há 450 anos- quatro séculos e meio - , foi
mentalmente, sabemos terem sido cobiçadas por aven- um acontecimento universal que, pelas suas conse-
tureiros portugueses. Tal é a opinião, já citada, de quênoias mais do que pelo esforço de 1492, surpreen-
alguns americanistas ·como H. Harrisse. deu os cronistas, que, desconhecendo a sua evolução
De resto, ainda que o Atlântico se estendesse desde náutica, deliraram.
a Guiné até à costa oriental da Ásia - mais de três miJ Foi consumado em 12 de Outubro de 1492 por um
léguas pelo trópico - , nunca Colombo dispusera de hábii e arrojado navegador- Cristóvão Colombo-
navios ou homens para poder n 1avegar até lá. Ele mesmo favorecido por um conjunto de circunstâncias em
o previra, pouco passando além de Cuba. E viu-se, grande parte políticas. Mas ele não criou a Arte de
poucos anos depois, a luta formidável que Fernão de Navegar que lhe deu o sucesso, não tendo sido- como
Magalhães teve de travar contra homens e elementos alguns escreveram -o primeiro navegador cau long
para chegar às Filipinas, que ficam ainda antes da cours:..
China.
Para se ir às terras ocidentais com a certeza de
Mas, perguntar-se-á, porque não confessava
poder voltar bastava, em ambas as .r otas, generalizar
Colombo a verdade? Temia que ela pudesse levar os
para oeste aquele regime de ventos, já conhecidos no
cReys» a abandonarem, por demasiado aventurosa, a
século xv, pelo menos até meio Atlântico, onde pas-
cempresa de las Indias», cujos cnavios carregados de
savam os navios portugueses em regresso do golfo da
oro» não eram mais que ficções, com que Dulmo e
outros, se lá foram, se não iludiram. Guiné, pelos Açores. Se houvesse lenda do Mar Tene-
broso entre os mareantes, o certo é que Colombo sabia
Contudo, da mesma maneira que a exploração da
caravela que se conta ter D. João TI mandado em que já lá não iria encontrar trevas, mas céus de nuvens
segredo partir de Cabo Verde para sudoeste, em veri- soltas.
ficação dos planos de Colombo, ficou viagem secreta, Sem esta essencial preparação peninsular, que
também se pode considerar secreta a viagem de 1497, Colombo desconheceria se só tivesse navegado no
na qual Vespúcio atii.rmou ter atingido cterra ferma » Mediterrâneo ou nas costas, ele não poderia ter conce-
na latitude norte 16 graus (Honduras?). Assim, em bido o seu plano, provàvelmente idêntico aos dos ante-
presença destes e outros segredos, não há documentos riores concessionários portugueses das terras ociden-
A~RICA [CAP.
III, u] C RISTÓVÃO COLOMBO 357
tais, porque ele foi fruto de um meio -ou clima-
onde tais descobrimentos marítimos eram preocupação séculos. E, embora o centenârio da primeira viagem de
geral. alto mar - a dos Açores, em 1431- tivesse passado
Teria Colombo, talvez, pensado em ir à tndia pelo despercebido, é incontestável que foi o Infante o homem
ocidente, sugestionado por leituras como a do livro genial - digamos - cuja intervenção no «Descobri-
de viagens de Mandeville. Mas logo de principio se mento do Mar:. tornou possíveis as grandes travessias
teria convencido de que ela ficaVIa de facto muito oceânicas, aproveitando o prévio conhecimento dos
longe, de acordo com todos os mapas conhecidos. Sendo seus ventO& dominantes.
cartógrafo, nada lhe poderia ter sugerido a leitura de Mas a História, desprezando indicações técnicas,
uma carta teórica, como a de Toscanelli, porque ela julgou instinto, inspiração, milagre, ou acaso, os des-
só se referia a terras e distâncias na latitude de Lisboa, cobrimentos de Colombo. Romantizou demasiado o
e Colombo sempre procurou terras mmto mais ao sul feito, porque ele não revela, nem o cexcessivo:. cosmõ-
entre o trópico e o equador. De facto, a-chadas as ilh~ grafo de Las Casas, nem um tão cmau:. como o fez
de e$cala, passou a e;xplorã-las, só buscando cel oro Victor Hugo. O próprio Colombo, quando escreveu que
excelentisimo:., sem procurar romper para o ocidente. para lir às tndias não se aproveitara de crazon, mate-
Não esteve, nem teve motivos para acreditar ter mática, ni mapamundos», levanta o véu e encobre a
estado, na Ásia. Tudo parece indicar que Colombo, verdade: não se fiou em mapas- como o de ToscaneUi
apesar do que contava a respeito das tndias, pensara ou outros, verdadeiros ou reconstituídos - porque a
-como se lê em Barros- que cainda que maes não sua. ideia era ir às ter:ras suspeitadas ao ocidente
achasse que algúa ilha herma, segundo logo erão man- -as cylhas e terra firme:. de Dulmo -as quais não
dadas povoar: ella bastava para satisfazer a despeza vinham nos mapas. Colombo não buscara pois as lon-
que com elle fizessem:.. Mas achou muito mais, um gínquas cCipangu» ou cCathaia:., que aqueles mapas,
Nooo Mundo - a futura Ambica- para a qual foi oomo o de Martellus, arrumavam cerca dos antípodas,
adoptado este nome sonoroso, fiados no que se contava segundo as ideias da época.
a respeito de Vespúcio e do Brasil, e também conven- Para esse fim simples não era precisa santidade
cidos de que fora Gama o único a atingir as tndias. ou cgénio:., nem «matemática:. : bastava aquele espí-
De resto, sem Colombo, o descobrimento defini- rito de aventura que não faltava aos Portugueses.
tivo do continente ocidental não iria além do fim do Assim Colombo buscou e encontrou aquelas terras inter-
século XV. Porque este descobrimento não foi mila- médias, já suspeitadas. Se elas não existissem, a expe-
groso, nem imprevisto rasgo de génio de um super- dição de 1492 não dispunha de recursos para, além do
-homem, mas uma obra natural, humana, sequência milhar de léguas, continuar aproada cal Oueste:.. De
fatal da exploração do chamado Mar Tenebroso, impul- resto, apesar de ele ignorar - como todos então - que
sionada pelo Infante D. Henrique hâ mais de cinco elas fechavam o Atlântico ao poente, cem cercoyto por
toda a Redondeza:., Colombo nem sequer tentou inves-
~------------~~r
~ --------------- .----------------.
zo ______

IAGENS DE COLOMBO
AMÉRICA (CAP. E MAPAS DA ÉPOCA
rtigá-lo, nunca tendo passado mais de 1200 léguas A ORES
além da costa de Africa. 1493
Em 'Suma, erram aqueles que consideram COlombo
descobridor cintegrab da América. Ele acompanhou
uma ideia corrente na sua época. Porque, como se sabe, /
a existência de te·r ras a oeste, não asiáticas, não era 1492
novlidade, como já então não era novidade o processo
de navegar à vela no alto mar, de que Colombo se
----- --
aproveitou. Outros, que o praticavam, pensaram tam-
bém em ir àquelas mesmas terras, e lá chegaram talvez
-- .. · .··

antes de Colombo, só não insistindo por lhes ter faltado


o apoio de um governo. \ /
··. /
Certo, este «homem falador e glorioso em mostrar 1496 \,..../
suas habilidades»-como Barros classificou Colombo- ·-·-·-·-·- ·- '··.
a escrever era sibilino, confuso . . . e tanto que nem
nos deixou elementos claros para identificarmos a
primeira ilha a que aportou, a São Salvador. Exa-
gera o seu saber. Prevê o fim do Mundo para 1656, - ··- ··· - ··· ···-···-···./.
intitula-se escolhido divino em luta com Satanás,
afirma gratuitamente -porque não indica a base iné-
dita em que se apoiaria- que a Terra não é esférica,
mas em «pera», e muito mads pequena do que o «vulgo»
a julgava, chega às portas do «Paraíso terrena!:.. )>
Enfim, escreveu cfantesias:. em que não sabemos se
acre<li.tava ou não.
Porém, em compensação destes seus incontestá-
veis defeitos, no especial trabalho de navegador, que o
tornou famoso, não temos razão para supor Colombo
um sonhador. Ele o confessou: não foi a «razon» que
lhe indicou a existência das terras ocidentais e a
maneira de lá ir à vela. Foi a sugestão. CoEB ESPERANÇA
Aceitar que Colombo acreditava estar a China
só a um milhar de léguas da costa de África é duvidar

COMPILA EM 194-2 POR


UI, u] CRISTóVÃO COLOMBO 359

do seu génio ou, pelo menos, do seu espirito prático de


homem do mar. Ah! Ele não se iludiu supondo as
índias apenas a umas centenas de !l éguas da África.
Começou por buscar as terras ocidentais - em que
tanto se falava em Portugal- como porto de escala
para, eventualmente, depois atingir o Oriente. E se,
navegando aquele milhar de léguas, as não encontrasse,
só lhe restaria voltar à Europa.
Assim, conclui-se como extremamente provável
que o descobrimento de ilhas e terra firme ao ocidente
-que, tanto o seu piloto La Cosa como seu irmão Bar-
tolomeu, consideraram Novo Mundo -não foi acaso.
Foi intencionalmente que Colombo descobriu as Anti-
lhas, como depois, em 1498, buscou e descobriu ao
sudoeste as terras em que D. João 11 acreditava.. . e
que, nem geométrica nem politicamente, se poderiam
confundir com a ilha Cypango ou com terra firme
asiática. Viu-se que Colombo não revelou, depois, inten-
ção de as ir outra vez visitar.
Tudo isso ele o pôde fazer em navios de Espanha,
apoiado no seu prestígio de mareante de escola
portuguesa - «indirectement un élêve de Henri le
Navigateun, concluiu o Dr. Charcot. E, como tal, o
navegador e cosmógrafo, que era Cristóvão Colombo,
não podia duvidar de que a Asia lhe ficara sempre
demasiado longe para os seus recursos. Porque ele sabia
que as repetidas viagens dos Portugueses em latitude
não davam ao grau só 14 léguas, mas uma dimensão
entre 17 e 18 léguas, e, ao circuito da Terra, por entre
os trópicos até aos antipodas, cerca de três milhares
de léguas.
Colombo e os seus companheiros só podiam, pois,
acreditar ter abordado a uma vasta e prometedora terra
AMÉRICA [CAP. III, m] AMÉRICO VESP ÚClO

virgem, susceptlvel- como o não era a Ãsia- de ser não era mais praticável. A lndia ficava fora do hemis-
ocupada e civilizada pelos Europeus, e para a qual fério que o Tratado de Tordesilhas reconhecia à Espa-
nunca é demais repetir que não se deveria ccon harta nha: Colombo teria que navegar, além de Cuba, mais
injusticia e ~mpropriedad » ter preferido o nome de trê8 milhares de léguas para poente, antes de atingir
América ao de Colômbia. o seu projectado destino.
E assim, tendo então as tentativas de Colombo
perdido importância, aconteceu que a glória dos Des-
m- AMSRICO VEBPOCIO cobrimentos Ocidentais foi recair em um navegante
florentino -América Vespúcio -, o qual, em cartas
A 12 de Outubro de 1492 aportou a uma ilhota ao particulares a seus amigos, contara ter precedido, de
largo das Antilha8, uma esquadra de três pequenos ' um ano, Colombo no descobrimento da terra firme oci-
navios, que a Espanha tinha confiado a Cristóvão dental. Ele foi geralmente acreditado e, mesmo ainda
Colombo, a fim de t entar, pelo ocidente, abrir caminho hoje, é corrente ler-se que foi Vespúcio quem cprobably::.
para a lndia. descobriu o Brasil. Assim se explica que nos mapas
A análise náutica dos acontecimentos leva-nos a primitivos o Brasil tivesse o nome de cAmérica» -de-
deduzir que já anteriormente se tinha tentado atingir rivado de Amerigo - , nome depois estendido a todo
as terras que se sabia existirem ao ocidente dos Aço- o continente.
res. E, até, do estudo da nova rota atlântica seguida Ora, que sabemos nós sobre Vespúcio? Quais foram
por Vasco da Gama pelo largo da .Africa se deduz, as suas navegações? Teria ele, alguma vez, como chefe
como extremamente provável, que a posição da terra de expedição, direito a ser, tanto como Colombo, consi-
firme no Atlântico Sul já fora conhecida pelos Portu- derado um descobridor? Deu ele, sequer, informações
gueses antes de Colombo lá chegar, em 1498. Mas não correctas acerca das viagens dos pioneiros ocidentais?
há documentação.
Por isso, à falta de outro nome, e de uma data •
concreta, é bem que o descobrimento da parte da Terra
cujas consequências foram de tão poderoso alcance para
a Humanidade seja festejado neste dia 12 de Outubro. A respeito de Vespúcio nada contam os nossos cro-
Já o mesmo bem se não pode dizer a respeito do nistas. Se embarcou em navios do Rei de Portugal,
nome posto ao Novo Mundo -América- talvez só fê-lo apenas em um cargo secundário, mais em relação
definitivamente adoptado por ser ceufónico », como lhe com os negócios do que com a navegação. Nesta espe-
chama um autor inglês. Mas sê-lo-ia menos Colômbia? cialidade ele seria um amador, ao passo que Colombo
Logo que Vasco da Gama chegou à lndia, em 1498, -este citado nas crónicas portuguesas - foi sempre
compreendeu-se que um outro caminho, pelo ocidente, chefe e navegador.
AMÉRICA (cAP. III, tu] AMÉ R1CO VESPÚC!O

Quanto ao embarque em navios espanhóis, s6 sabe- •


mos que, em 1499, Vespúcio acompanhou de facto a
expedição de Hojeda. Só mais tarde, quando ele já era Da leitura das ca:rtas - na:s quais há, como se
chefe dos pilotos de Espanha, é que, em 1512, lhe cha- disse, absurdos- deduz-se que Vespúcio pretendeu ter
maram «piloto». Mas, na História das lndias, por reailizado quatro viagens, todas ao continente ocidental,
Herrera, só se lê que Vespúcio embarcou como «mer- ou Novo Mundo.
cador:.. A sua primeira viagem teria sido iniciada em 1497,
Tudo o mais que consta a respeito das viagens de por ordem do Rei de Espanha. Teriam atravessado por
Vespúcio é só o que se lê nas suas cartas particulares, entre as Antilhas, sem as notarem, e atingido uma terra
onde, naturalmente, ele encarece a própria importância. firme, até então, desconhecida; depois costeando a
Aconteceu, porém, que os seus patrícios as julga- parte norte do golfo do México, teriam de lá, pilotados
ram tão interessantes que, como propaganda naciona- por índios, abordado a uma ilha Atlântica- Ity- da
lista- como hoje diríamos-, ·l hes deram publicidade qual se omite a latitude. Vespúcio não menciona, nem
em numerosas edições. Elas correram mundo e chega- o grande rio Mississipi, nem a península da Florida,
ram até nós. Como os originais desapareceram, aquilo donde pretende que os índios, nas suas canoas, faziam
que hoje lemos não constitui documento, e nem sequer excursões àquela ilha, navegando uma semana por mar
é depoimento do próprio Vespúcio. Não é, pois, de aberto! Um dos seus jans até alvitrou que se trataria
admirar que algumas contradições, que até se notam das Bermudas, que ficam um milhar de milhas ao
entre as suas duas cartas datadas de 1502 e de 1504, largo da Florida ... Ora, é evidente que os lndios não
sejam atribuídas a retoques, introduzidos com o fim o poderiam fazer.
de enaltecer a intervenção de Vespúcio nos Descobri- Nem dos arquivos de Sevilha, nem do inquérito
mentos. contra Colombo, feito em 1512, consta a menor infor-
Contudo, quem promoveu a publicação das cartas, mação acerca dessa inverosímil viagem de 1497, a qual
decerto não lhes mudou detalhes técnicos e, quando seria mais importante que qualquer das viagens de
muito, é de crer que se tivesse limitado a omitir os Colombo, que, em 1497, ainda não encontrara terra
nomes dos orientadores das expedições. Mas não se firme.
atreveu a apresentar claramente Vespúcio como chefe Concluiu-se que esta primeira navegação foi !nven-
ou capitão-mor das esquadras. ção total de Vespúcio, com o fim de, no descobrimento
Desaparecem, assim, motivos para considerarmos do continente ·a mericano, arrebatar a Colombo a sua
Vespúcio um descobridor americano, comparável a precedência, pois ele só lá chegou em 1498.
Colombo, ou a outros capitães. O que vou tentar mos- Esta falsificação corta às cartas todo o seu valor
trar ràpidamente. provativo. Ademais, o conhecimento que hoje temos
III, m] AMÉRICO VESPÚCIO
AMÉ RICA [cAP.
Partiram de Lisboa em 1501, com três navios.
da geografia local denuncia outras mentiras de Ves- Vespúci.o não cita o nome do chefe, que considera
púcio ou, pelo menos, das suas cartas. incompetente. Escalaram em Oabo Verde e, depois de
67 dias de navegação errática -em que lhes teria
• vaJd.do a perlcia de Vespúcio com «quadrante, astrolá-
A viagem a que Vespúcio chama csegunda» cor- bio e carta» - , foram dar a uma costa que ficava 700
responde à viagem real do navegador Hojeda, realizada léguas a sudoeste, e na latitude de 5 graus sul, como
em 1499, e comprovada pelos arquivos espanhóis. Ves- em 1499. Estas duas indicações são incompatíveis: a
púcio ia nela em cargo subalterno, abaixo de La Oosa. latitude estimada está errada.
Sabemos de Hojeda foi dar ao continente americano Mas Vespúcio só nota a «ignori.nci.a» do capitão-
em um ponto a norte das bocas do Amazonas, visto -mor, ·s em reparar que a navegação era dirigida por
que só reconheceu ccasi doscientas leguas» de costa, pilotos já conhecedores dos ventos e correntes da região
antes de chegar à ilha da · Trindade, descoberta por equatorial, pelo menos desde que o equador fora cor-
Colombo no ano anterior. tado em 1470, e que por lá praticavam a viagem de
Contudo, Vespúci.o- sem nomear o chefe Hojeda- regresso da Mina. Ora, isto não se dava com Vespúcio.
também falseou esta navegação. Conta que a terra
Desembarcaram. Teriam determinado a latitude,
foi avistada na latitude 5, ou 6, ou 8 graus sul, isto é,
mas a carta de 1502 só conta que lá ouviram cmissa
cerca do actual cabo São Roque. O reconhecimento até
à ilha da Trindade teria, assim, de oompreender uma cantada•.
extensão não de cdoscientas•, mas de mais de 500 Seguiram depois ao longo da costa cpara o oriente»,
léguas de' costa, às quais, na sua carta, Vespúcio se tendo comunicado muitas vezes com a terra e os seus
refere apenas com uma dúzia de palavras. Por onde se habitantes. «Navegadas trezentas léguas• - sempre
confirma a versão de Hojeda só ter ido abordar, como pela costa norte do Brasil -chegaram a um cabo, no
disse, ao norte de tão grande rio. «Oitavo grau•, para além do qual ca costa propendia
Vespúcio mente quando afirma ter, em 1499, cor- para o sul». (São Roque está nos cinco gll'8.Us!).
tado o equador. Não estiveram na costa brasileira, e Desde este cabo foram «baixando muitas vezes em
julgaram só ter ido avistar terra além da raya luso- terra•; e , navegadas c quase 600 léguas» ao longo do
-espanhola. continente, atingi-r am ca altura de 50 graus», o que só
• poderia ter sido no alto mar
Vespúcio acentua que esta latitude, somada com
A terceira viagem de Vespúcio é aquela que mais a de Lisboa, perfazia 90 graus, ficando assim os habi-
nos interessa por ter sido, de facto, realizada à costa tantes das duas terras em um interessante ângulo recto.
brasileira. Vem contada nas suas cartas de 1502 e 1504.
AMÉRICA [ cAP. III, m] AMÉRICO VESPÚC10

Pa:ssados três anos, ,a1gumas das informações erra- gações de 1449 e 1501, os quais estão separados por
das desta carta de 1502 são emendadas em uma nova cerca de trezentas léguas de costa.
carta, datada de 1504. A crença de Vespúcio na quebra da costa em um
A aterragem teria ainda sido em 5 graus. Mas, só cabo, «no oitavo grau:., denuncia que ele nem ia
em lugar da «missa cantada», teria havido um mau acompanhando a navegação real dos navios, e que as
encontro com os lndios, que teriam «morto, assado e suas cartas foram decalcadas sobre um mapa errado.
comido três cristãos». Ao contrário do que contou a Tal seria o mapa de La Cosa - que não conhecemos-,
carta de 1502, os habitantes eram «piores que feras », cujo autor, não tendo nunca estado na costa para
e não houve comunicação com eles. leste do Amazonas, também reduziu aqueles dois cabos
A citada navegação de 300 léguas pela costa norte a um só em latitude alta, apoiando-se na ilusão de
do Brasil foi, nesta carta, reduzida a metade, de modo Pinzon, sobre a sua navegação do cabo Santo Agos-
que, assim, já não é de estranhar que Vespúcio não tinho «para ocidente», a qual é ~mpossivel, por ter de
repa,r asse no rio Amazonas. Tendo partido da mesma ser a cortar por cima da terra. :m sabido que, pelas
latitude de 5 graus, navegaram «entre leste e sueste», próprias declarações de Pinzon, se prova que ele, em
até ao mesmo cabo de 1502, em 8 graus, ao qual desta 1500, só veio abordar terra muito para oeste do cabo
vez deram o «nome de Santo AgQstinho». São Roque, donde pôde de facto navegar «para
Naquela navegação de 300, ou mesmo só de 150 ocidente:..
léguas, pela costa do Brasil, Vespúcio não notou deta- Ambas as ca.rtas de Vespúcio concordam em que,
lhe algum, nem mesmo a forte corrente, que contra- em 1501, do cabo Santo Agostinho continuaram cor-
riaria a sua navegação para «levante». Além disto, rendo a costa e fazendo «muitas escalas:.. Assim teriam
Vespúcio confunde em um único os dois cabos, São
reconhecido «quase 600 leghe» de costa para sudoeste.
Roque -onde, de facto, a costa «quebra para o sul»
Mas, dir-se-ia que Vespúcio não navegava com atenção
(1502) - e Santo Agostinho, onde, de acordo com a porque, entre tantas «escalas», nos não menciona algum
~ retocada de 1504, a costa «volta para sudoeste».
dos portos visitados, nem outros detalhes interessan-
Como o cabo São Roque está na latitude da terra
tes: não cilta os recifes do norte, nem rios grandes,
abordada em 1501, ressalta que, entre as latitudes 5 e 8
como o São Francisco, nem a vasta Baía, nem uns
graus sul, Vespúcio não poderia ter navegado 150
bancos que se estendem muito ao mar- os Abrolhos -
léguas «para oriente», como afrirmou, mas só as 50
léguas para sul, que há entre os dois cabos. nem o cabo Frio, onde a costa quebra para oeste
De tudo isto há a concluir que a navegação de nem ilhas da costa, como a ilha Grande. Tão-pouco ~
Vespúcio pela costa norte do Brasil foi inventada. Ele refere a Porto Seguro, onde decerto teriam entrado em
nada lá vira, e só teve o fim claro de suprimir a solução 1501, para ouvir os portugueses, que lá ficaram no ano
de continuidade entre os pontos de inicio das suas nave- anterior.
AMÉRICA ( cAP. III, ru] AMÉRICO VESPÚCIO

Marcando no mapa real a extensão de costa .reco- púcio foi arvorado em chefe desta tão frfvola excursão,
nhecida - 600 léguas segundo ambas as cartas - foi esse o seu único descobrimento, ao qual não deu o
conclui-se que essa navegação s6 poderia levar os navios nome mas que bem mereceria o de América.
à latitude de c32 graus». Mesmo contando as 600 Vespúcio prova ignorar a explicação náutica da
léguas directamente a sul - de acordo com a carta de bordada ao largo, a qual teve por fim ir entrar na
1502 mas não com a realidade da costa brasileira - região do alisado do sueste, vento favorável para nave-
só s~ chegaria a 42 graus, e nunca aos 50 graus da garem para o equador.
mesma carta. Embora esta viagem de 1501 não conste nos arqui-
:m transparente que só ao escrever a carta de vos, crê-se que ela foi realizada como sequência do
1504 é que Vespúcio reparou que a distância de 600 reconhecimento, feito talvez por Lemos, na cnau dos
léguas era mncompativel com a inventada latitude de mantimentos:.. Em ·l ugar de a quemmar - como fez
50 graus, tão clarament e acentuados na carta de 1502~ Gama em 1497-, Cabral mandou-a regressar a Lisboa.
De modo que, para emendar tão flagrante erro, foi Tanto esta viagem de 1500, como a de 1501, foram
preciso inventar outra explicação, a qua.l, de resto, não ambas reservadas, e, por isso, da última só conhecemos
é verosfmil. os detalhes contados por Vespúcio, e nada sobre a
Vespúcio ainda nos não contara ter chefiado navegação.
alguma expedição. :m sõmente em 1504 que ele pretende Lamentàvelmente, ele pouco adianta. Depois da
que, em 1502, atingida na costa do Brasil aquela lati- sua narrativa, a costa norte do Brasil ficou tão por
tude de 32 graus- boca do rio Grande e lago dos descobrir como estava antes. E quanto à parte da costa
Patos- os Portugueses o teriam incumbido c absolu- realmente reconhecida para sul do cabo São Roque,
tamente do comando da Armada:.. Seria isto no AtlA.n- Vespúcio não nos deixou mapa ou indicação detalhada.
tlco Sul, que Vespúclo desconhecia absolutamente, ao Ele nem sequer, como seria próprio de um cosmógrafo,
passo que os Portugueses já lá tinham ido com Dias, faz referência ao trabalho de levantamento da carta
Gama e Cabral, e lhe conheciam os ventos dominantes. das novas terras que iam descobrindo, o que só muito
De modo que, ainda que a carta de 1502 já falasse em ràpidamente teria sido feito em 1500.
tal comando, não o poderiamos acreditar.
Então o novo chefe florentino teria tido a fan- •
tasia de mandar rumar entre sul e leste, para o mar Vespúcio fala-nos ainda de uma quarta 'Viagem,
largo. Navegadas assim 500 léguas, levantou-se grande com portugueses, a qual poderia ter sido a da costa
cborrasca» e na tal latitude de 50 graus, passaram à do Brasil, em 1503, e de que não hã documentação
vista de u~a ' ccosta brava» - que, segundo a carta de além de uma lacónica referência de Damião de Góis
1502, Vespúcio teria julgado ser ainda cdo conti- provàvelmente por se tratar de expedição mais comer:
nente»-, da qual se não fez caso. Se, de facto, Ves- clal que geogrãfica.
370 AMÉRICA (CAP. 111, m] AM~RICO VBSPÚCIO 371

Segundo conta Vespúcio, levaram o «propósito prudentemente omite, apesar de lã se terem demorado
de ir ao Oriente descobrir uma ilha chamada Malaca:.. cinco meses e deixado um cforte:. com 24 homens.
Tal destino, ainda para além da lndia, é in~rosímU. Combinando a ·l atitude da Baía' 13 graus , com
Vespúcio iria jã a comandar um pequeno navio, aquela navegação de 260 léguas pela costa chegar-se-ia
cujo nome não cita, como tão~pouco refere o nome do ao porto de Guanabara, cuja latitude não é os 18 graus
chefe, que classifica de «cavezzuto:. e incompetente, de 'Vespúcio, mas 23 graus. Não hã, portanto, elementos
como fez ao chefe da sua anterior expedição. E, por para se saber onde foi que Vespúcio se demorou com o
isso, estranha a sua bordada à Serra Leoa- jã pra- navio de seu comando.
ticada por Vasco da Gama-, a qual tinha, como é Desse porto regressaram a Lisboa, sem que Ves-
sabido, um fim que Vespúcio prova ignora.r, qual era púcio aluda mais à li.deia inicial de se ir descobrir
o de ir tomar barlavento contra a monção de sul. Malaca. Ficamos na ignorância sobre se tencionavam
Entre a Serra Leoa e a Baía teriam navegàdo lã ir pelo sul do Brasil, ou pelo sul da Africa. Nem
600 léguas, e esta distância pouco difere da verdade. Vespúcio o saberia ...
Porém, a meio do caminho, teria sido descoberta, em Nesta viagem de 1501 repete-se o facto de Ves-
três graus ao sul do equador -que é a média das púcio, de preferência àquilo que poderia ter visto,
latitudes-, uma ilha pequena, mas tão alta, que se mesmo sem ser piloto, se ter fiado em mapas errados.
avistou ca 22 léguas:., a qual tinha ca 4 léguas um A sua ilha, a meio entre a Baía e ·a Serra Leoa, não
cachopo:., onde por ignorância do chefe ele perdeu a existe. O porto 260 léguas ao sul é igualmente miste-
sua nau. Vespúcio ainda se demorou alguns dias na rioso. E, do descobrimento vespuciano em 1503 nada
ilha - cujo nome não cita-, na qual abundavam uns mais se apurou. Vespúcio não foi descobridor do Brasil.
«lagartos de duas caudas:..
Têm alguns crentes identificado tal ilha nova como •
a de Noronha. Mas esta lilha jã estava conhecida, não
fica a ctrezentas léguas:. da Baia, mas a duzentas, e Uma idêntica confusão de ideias se nota nas fan-
não tem «Cachopos» a mais de meia légua. tasias astronómicas das cartas de Vespúcio, apesar de
Deve pois tratar-se só de outra li.lha, a de São Humboldt lhe ter concedido a função de castronome
Mateus, que não existe, mas que Vespúcio teria visto de l'expédition:.. Portanto, ele limita-se a contar que,
desenhada nos mapas antigos, onde ela figura mais perdidas de vista as Ursas, se governaram por cumas
encostada à Africa que ao Brasil. vinte estrelas:. do hemisfério sul de brilho anãlogo ao
Navegadas outras «trezentas léguas•, entraram de Vénus e Júpiter. Ora, nem em todo o céu as hã.
na Baía de Todos-os-Santos, jã conhecida de viagens Havia, contudo, no céu austral, jã conhecida dos
anteriores. Daqui foram a outro porto, cma4s para mareantes, uma famosa constelação - o Cruzeiro ào
diante 260 léguas e em 18 graus:., cujo nome Vespúcio Sul- que o astrônomo Vespúcio nem sequer cita.
372 .uffiRICA
III, rn] .uffiRICO VESPÚCIO 373
Tão-pouco cita as observações do Sol, das quais os
Portugueses correntemente se serviam, como sabemos direitos - cnavicazione vera:. - como em navio a
que se fez em Porto Seguro em 1500. motor e só confiar no quadrante.
Os pilotos preferiam, assim, um astro de uso Vespúcio nunca alude àqmlo que mais interessaria
tão fácil, à confusão das inventadas cvinte estrelas:.. um navegador. Dos absurdos náuticos das suas narra-
Nem podemos, sequer, conjecturar que Vespúcio tivesse tivas deduz-se que ele se fiou em indicações falsas -
sido um dos vários observadores do Sol ao meio-dia, talvez blagueB dos pilotos - e que, no fundo, ele era
como sabemos que, em 1538, eram alguns marinheiros mais «mercador:. que navegador. A análise das cartas,
e o calafate de D. João de Castro, sem que, por isso, os teóricas e não práticas, prova que a primeira navega-
possamos considei'M' castrónomos da expedição:.. Como ção foi inventada, e que a quarta parece contada por
vamos, pois, tomar a sério a pretendida astronomia quem nela não embarcou. Isto, eu não o descobri vem
náutica de quem nunca nos diz que astros ou que alturas sendo escrito por outros. '
observou, nem de que Regimento concluiu as suas posi- Nunca Vespúcio se atreveu a intitular-se capitão-
ções no céu? Um professor de Astronomia, o Dr. Duarte -mor das expedições. Nada justifica, pois, a sua vaidade
Leite, classificou Vespúcio como cmentiroso:. castró- de aludir aos seus descobrimentos. Só o teriam sido
nomo improvisado:., ccharlatão:.. ' um cabo duplo, S. S. Roque-Agostinho, uma ilha a meio
Enfim, da leitura das cartas de Vespúcio ressalta do Atlântico e uma costa 50 graus ao sul do equador.
que, da mesma maneira que ele, nas suas narrativas, Nenhuma destas terras se pôde identificar.
inventou terras e astros, também inventou os convites Além disso nada nos revela Vespúoio a respeito
que os Reis de Espanha e Portugal lhe teriam feito do Brasil, de modo a poder ser considerado um dos seus
para ir cajutare a discoprire» um Novo Mundo, e isso descobridores. Conta-nos informações pitorescas, mas
mesmo ainda antes de ele se tornar conhecido e célebre, em parte falsas, sobre os costumes dos índios, exacta-
devido às cartas romantizadas, nas quais, mistificando mente como o poderia fazer qualquer tripulante, igno-
os leitores, se gaba das suas habilidades. rando por onde tivessem navegado e como poderiam lá
voltar. Sobre o Brasil, bem mais sérira é a carta de
Ranmindo : Oaminka, como o é o cDiário» de Pero Lopes de Sousa.
Mas nenhum destes foi considerado um descobridor,
As narrativas das famosas cquatro navegações» como tão~pouco o fod. o mareante que escreveu o deta-
de Vespúcio pecam, tanto por contradições geográficas, lhado cDiário:. da viagem de Vasco da Gama.
como pelo desconhecimento da náutica praticada em Vespúcio nada adianta sobre a geografia ou nave-
1500. As rotas são descritas por quem ignorava as gação da costa bmsileira: não fala de ventos ou oola8,
imposições dos ventos dominantes, e julgava que, para nem de correntes, bancos ou sondas, nem de terra baixa
se atravessarem os mares à Tela, bastava soltar l'1UD.08 ou alta- como é a Serra do Mar. Ignora cabos, rios,
portoa. Como nomenclatura da terra nova, limita-se a
374 AMÉRICA [CAP. III, m] AM~RICO VESPÚCIO
375

citar o cabo Santo Agostinho e a Baía. Depois da que permita compará-lo a um Colombo, que não ~nventou
leitura das cartas de Vespúcio- que poderiam ter quatro viagens, nem trezenta8 léguas de costa, nem
sido escritas por quem, em Lisboa, se tivesse limitado 'Vinte estrelas. Colombo nunca desdenhou dos marean-
a entrevistar autênticos mareantes- o Brasil fica-nos tes portugueses e foi, de facto, convidado por um R~i
tão coberto como estava antes das suas navegações .. de Portugal para vir a Lisboa.
Enfim, ainda que Vespúcio, que não observava o Colombo tivera preparação náutica. Tendo pra-
Sol' tivesse sido, como escreveu Vignaud, «O primeiro ticado no mar foi conviver com os experientes navega-
cosmógrafo do seu tempo», ou se, como se lê na Enci- dores portugueses. Com eles realizou viagens de mar
clopédia Americana de 1940, ele fosse o mais «expert largo, como era a de regresso da Mina, na qual os
in calculation of latitude and longitude», esta superio- ventos de nordeste impunham passar no Mar de Sar-
ridade astrológica em nada influiu no descobrimento gaço, a m~o Atlântico, entre África e América. Além
da América. Contudo, ainda hoje se mantém a lenda disto, encarregado de coordenar cartas de marear,
vespuciana, sendo Vespúcio por vezes citado como «des- Colombo teve de compulsar numerosos diários de
cobridor do Brasil», encaixado entre os nomes de navegação. Foi assim que tomou conhecimento dos
autênticos navegadores, como o de Cão, B. Dias, ventos gerais e pôde prever suas rotas novas. Enfim
Colombo, Caboto, Corte-Real, Gama, Pinzon, Cabral, Colombo foi de facto chefe de todas as expedições: era
Magalhães. Ora, a verdade é que, mesmo aceitando-se piloto e sabemos por onde navegou. Ora, a Vespúcio
tudo o que se conta nas cartas, Vespúcio não foi um faltaram semelhantes bases e, por isso, embora tivesse
descobridor. E, ao criar as suas mentiras, ou ilusões,
c:génio sublime:. e fosse c:uomo ingegnoso::. - como
nunca esperou que elas o elevassem tão alto.
Assim se vem esquecendo que foi devido a infor-
msse Canovai -,não era um navegador. A sua prepa-
ração fora terrestre, e, como confessa, deixou-se c:della
mações vulgarizadas depois do desaparecimento de
mercanzia::. para ir navegar. Faltava-lhe, pois, a base
Colombo, que nada publicara, que um jovem e ~nexpe­
para criar mentiras náuticas verosfmeis.
riente geógrafo derivou de c:Amerigo::. uma palavra, a
qual, em 1513, ele mesmo repudiou. Mas ela já tinha Das quatro navegações de Colombo resultaram
entrado no uso corrente e era fonogénica. O erro per- terras novas, cartas, documentos. Mas é só pelas carta8,
petuou-se e o Novo Mundo ficou-se ·c hamando Amé- mais literárias que de mareante, que podemos deduzir
rica. E este erro, por uma espécie de reflexão sônica, que Vespúcio figurou em duas das suas quatro nave-
veio confirmar a Vespúcio o imprevisto titulo de gações, com as quais, como até com a invenção do
pioneiro dos Descobrimentos Ocidentais. intento de c:ir a Malaca», pretendeu igualar-se ao autên-
Em suma, os únicos elementos que nos permitem tico navegador que foi Colombo. Supôs-se superior aos
apreciar a intervenção americana de Vespúcio são as experientes mareantes portugueses, e até- evitando
suas carta8. Delas- autênticas ou não -nada resulta falar em Porto Seguro, onde observou Mestre João-
376 AMÉRICA [CAP. III, m] AMÉRICO VESPÚCIO 377
pretendeu exaltar-se como astrónomo pioneiro do Novo Os radJJllilradores de Vespúcio dh~gam a inventar que eilJe.
Mundo. jã desde Cádis, ia ooman.dando wna esquadra ae duas
Mas os cronistas nunca o puseram ao lado de caravelas -sem dela ha'V'e!r VleiSitigio nos Arquivos·- inde.-
Colombo, a quem chamam calmirante:., título jamais .pe:ndente da dle Hoj'eida, na qwa!l V~eSpúdo só •fali como
concedido a Vespúoio. observador comeroial ... Ademais Vespúc:io, no seu t"egresso
Assim, nesta data convencional de 12 de Outubro, para ,poenrte, só passou em oosta espanhola já antes per~
ao comemorarmos o descobrimento de uma Nova Parte .corrida pelo chefe Hojedla; o que não !impediu que, em
do Mundo, não esqueçamos que o seu nome, América, outra carta, mmbérm considerada «81U'têntJioa:. - a de Oalbo
é também convencional: ele concretiza uma injustiça Verde, 1501 - , escrevesse que ·i a pa:ra a «mesma /terra q,ue
flagrante, a ccem por ·cento», fruto da fantasia de eu descobl'li .p ara o Rei de Ca:stela:..
-digamos- um tão grande leigo das coisas de nave- 1Bm .uma rterc.eWra c81111a, 1:1a:mbém cautênt:i.oa:. - a de
gação que talvez lá na Alsácia tivesse esquecido que Lisboa, 1602 - . Vespúcio, que de facto foi na 'Vli81Qem
a água do mar é salgada ... portuguesa dle 11501, mas sem se mtitulair capitão de Ciéllr'a-
vela, aih111D18 que a tCX>Sta lfoi atingida em wn pon.'t:o CUJja
latitude não defme, mas que sabemos te!r sido cen:a do
NOTAS FINAIS cabo São Roque. Mas, segu111do a «iM·UIIldw; NOVIUS>, a
alte:rragem teria sido «ltrezeil!tas ~eguas» a •poettlite, donkLe
IAo examinarem, com atenção modernista, as «cartas teriam navegado contra vento e corrente até àquele rcabo.
de Vespúdo», tanto o 1Prof. Magnla·ghi oomo outlros, para rPositeriormente, na ~a», Vespúóo oorr.igiu ltail cüs~
desfazer o 1mrau efeito das cnn:tradjções e ahsurdos, que rtânoia para c:150 'l~uas», .mas dé ao cabo São Agostinho.
nelas se notam, alegaram :q ue algumas seriam «apócrifas». A:.ssim telescopa OS' dois Clalbos, separada; por rm W IOelllto
Assim, ·pusertam de parte a.s cartas ·mais interessantes e de ~guas. Estas duas rear:tlals !foram COllSideradas -«apó-
detalhadas, como são •a cMundus Novus» e a « Let~» crifas:. peilOis professores que class'iifi10a11"<l1Dl oomo cautên~
( 1504). Mas não II'epararam :em que, :nas out.ras três cartas, ticas» as outras três já dtadas.
aceites comó cautênticas», também hã absurdos náuticos. ·Acontece, porém, qu:e, na dre 1502, Vespúdio dk!:clma
Se:não vej-amos: que, cpela quai tet~ra cor.remos oorca de 800 1legU18S em di~
recção a 14 do sudoeste para ooidenlte» -em ii.t ailiano, ·«r800
Na sua carta de Sevilha, '1500, Vespúcio afirma que, leghe tu1itla volta allla 14 a di ~·ilbeocio :verso iPooente» - ,
desde que em 1499 abordaram na costa - com o chefe ·r wno que cooresponde a S040. Asswm, segUJndo a carta,
Hojeda-, como é sabido-. navegaram sempre «para o sub teria sido atinJgjda a latitude Ide «50 IQrad:i», a qu&, fSIO.mada
até calem dos 6 graus» . .Mas teria sido por uma costa léii06 40 graus da Península, compl'etaria «uma quar.ta parte
fantástica, • porque a ll'ea:1, desde o equador até ao cabo do mundo:., ou seja c à pairte dos antípodau, wn iinftelr.e ssanrte
São Roque- que fica nos 5 gr. - , eola corre para nascente. cang.ulo reato» <:0111 os halbitantes de 'POl'itugall Contudo
AMÉRICA [cAP. III, rn] AMÉR!CO VESPÚCIO 379

os fans d:e Vespúoio não notaram que aquellas 800 J~uas, macio da rverdade. Ora Madalena, rpoillto m;a1is ooide~ntal
rao r umo C'OllCireto de -«sudoesrte rq uarta de .Poente», ~riram ra'tiilng~do por Hoj.elda em .1500 - 1quandn levarva Vres,..
co.r:ta.r pela terra dentro, passando :pela Bolívia, e termi~ rpúoio - ~ica nos 75 g·rau:s de long:ituide, e, sem obset"V'ao--
nrarndo na latitude rtr'inrta •gr81US, em rpleno oceano Pacifico/ ções astronóm!icas, o pi·l oto La Cosa não er.rou itaMo como
Como se 'Vê, os a!bsu:r:dos· cumulam~se nas três «cartas Vespúdo. Contuido, OSo seus a.dtnúradorres contJinwam a
autênticas», de sorte qu.e, se pusermos de ,parrt~e a det:a~ l8lfirmar qwe Vespúcio dlesoobr.iu o prooesso da 1ongdíude
iLhalda «'Leittera:. ICOm as suas Quatuor Navigationes, pelas «distâindas JUiJl1811'1eS:.- só prta/t:icávre:l de:sdre que, cerca
~ de, ·oom o m~mo croitér.io, abandonm todas as de 11.7 00, Newton criou um ·Wstll'Umen!tx> de dupla reflexão.
ou:tras, e nalda fu,ca:r.emos sraben·d o a respeliilx> das «quartro Que poderia .t er limra.gina.do VieSpúcio só oom astrolábio ou
vria.gretn5t» de V es:púrc:io, a :primlelilrra dias quraás é 'e'Wk:IJelnrte,.. qwadran'te, oomo preoonldre rPoM? De tresto, mesmo acei~
menote uma rf.alsi:fucação. tando as suas c<U~tas .como autênticas, nada se pode con~
Tlaimibé:m algualS a:dm~r.adores de Vte!Spúcio se têm exta~ clu:itr sobxe a oompertênlcia de V es,púcio como 1p:iloto, pelo
s!irardo com os seus rmm1X:lls, como «cientista» d:a expedição menos enqwanto iilOS con•tou as suas navegações.
de 1501, e «COS:móg•r afo de merito, perito prim:irp;aiLmen.rtle IBm COlllOlusão, se nos rpreocupa.I~mOIS com os absurdos
•em cakwlm as J:afitudoes». Assim o tomam a s~rio como das CJal11!as de Vrespúcio, todas soerão excluídas, e n:ada ~
«nJaMeg:ackn- ra5•t ronómico». 01'18 VespúC'io na.s sUJaS célt'tas tatrá a ·r:espe:ito Ida sua mterv:enção mas ms.vegações, seja como
na:d:a nos revela a tall respeito: só :se rrefer.e a determinações na'Vegador, piloto ou cartógralfo. Resta a:indra ·llelf.lectir qwe,
ode latitude por •es'Íil'le'las. - uma das quads tell".iiaa ide ser a se os seus amigos de Folooetnça, !p81l"a o en!&tecer, rl he retoca~
·PoJ.a:r do Sucr, invi·sível à vista desa:mnadrar- e n.U!Ilca se Mm as cartas - das quais nenhuma nos •f icou orrif~ -,
·r ef•eil'le à obse:J.Wlação corr·e!Ilte entre ·o s pi1otos po!litugueses, não é d.e crer que s·e at.t'1eMeSsem a altera!!' detalhes técnicos,
a úndca Ide conlfiançra, que era a de alturas do Sol. nos qUiads s•e apc»a a opin:ião p.ejoralfivra 1a1 respeito da lin't:Jeir~
Adle ma!is, tilra sua Clalr!ta de Semlhra, 1500- oonside.- venção de Vespúcio nos Desoobr.irmen1X:lls. Tal é, por exrermr-
rrada «autêntica»- Vrespúcio n18.i1'11'1a uma obser:vaçã:o da .p lo, a sua inverosími•l cllegalda à latitude swl, 50 ou 52
·«Conljunção da Lua com 1Mra•r te:., dia qual, por um aitlculo graus.
simplista., teria dedUZ'Ido ,p ara um rponto da oos:ta, que não rSiml A deficiência tlécnica, denU!Ilcialda por todas as
especifica, a lon:g:itude dJe «r&2 rgu:aus e meio pall'a ~este de cartas atribuídas a Ves:púcio, atesta a sua incompetência
Cádis» . iEste va;lor, que oorres,ponlde a·o s a'Cituaris 90 graus, como na'V'egador, pois nrem ahes oompreendeu OIS! rabsurrdas
deEine. um ponrto na OOSitra de Yukatan, ondle Hajeda não
chegou. Nem sequ:er ColO!D11bol
];: prolixo record:ar que tliii1 profesSIOr de Astronomia,
náwtioos. Humiboldlt oOai1'leiCeU lere base parra o supor «rastlr~
i!l'Ome de ·l'exopré'dition», oomo ca:rec:ia V~gnaud ao classi~
ficá~.lo OO!JDO astrônomo re cosmógrafo, «JSupérrieUtr ~ oes
-
181Dialisa!lldo as rfuln.ol:'asi•as de Vespúoio, concluiu que ele não mat'iê~ a.ux rnra.VIiga.tewrs de S(m .t emps». Contudo, Vrignrauki
d!ispU!Il!b.a de elementos para a swa determinação da aOillg:i,.. •rterconhece não só não ll'lestarr prova da a.ut·e nt:icidade Idas
twde pela Lua, e que só por acarso Se' poieLeria !ter aprox·i~ cartas, oomo tramrblém que V~espúcio ll!U!IlCB se ra.presenrta
III, m] AM~RICO VESPÚCIO
AM:é.RJCA [cAP.

como «ayant -oommande •l es ~oyiliges dont hl rend ~». J)UbllicaJdas !e!Dl 1504. Cltl'jla leitu!Ia inspir'oU o mgén.uo oosmó-
gralfo alsaciano, levamdo-o a criar, pél'1'la a Terra de Santa
Mras é ~elrltlo que nunca nos ci'bai o IJlODl·e do .o hde...
Enf.ian, otentando elevar o florentino acima ido geno- Cruz, o rpseu:dón:imo de AMÉRICA. O qua:J.- talrv.e:z por
vês, os fam de Vespúoio lél!fi!rmaram que de «supemra» ser cdle fazer cartas» ou cbest sellm·g » - fez C1811'111elÍ1I',
sendo depois tt'ansferido pa:ra o continente a nOl.'ltle das
Colombo, por rte:r ctdesooberto» que a .terra ·firme, ~Jsitad.a
em •1501, não era «a:.sdát!ioa», oomo .eile lai!Dda a cansidieraNa Antilhas. .em cwj·a·s costas V ersrpúcio nem seq·u er jamais
pôs 05 olhos. E ra:irndla lSie insiste em e:sc.rever que «la priori-
quando, no attl.O anteroior, IIl/éWieiQ'Oll oom Hojeda.. Ora lé
certo q.UJe os Portugueses, com quem Vespúc:io, a seguir, dade Ido desoobrimento do Brasil ~he pemtence»l
ruwe:gou, já sabDan1, pelo menos desde ·1500, que o Adân-
ltJioo ·Su:l não tb aoh.ava rterra ·aSiática. Só a Groenlândia seria,
ltia:liV'eZ, uma «ponta da Asia», mas ligada à Sibérila pdo
norte. .Porem •V espúcio rem Cabo Verde, em J•u nho de
1501, l8linidta eSIOIIeVlia que a expedição portJugUieSléll, em que
lia, !Se tdir.iglia, pelo ociden!te, para a <mfmi>tissima .temra
ddl'.A sia», tdesoobetrtla «IJlOr V:e~Stpúcio» IIlO lélliilo tanlterior, da
.quail ouv.i!ra fa.Latr na esquadra de :Gahral, aili en.cx:mtrada.
rF oi só depois de chegar à Terra de Santa Cruz, e
por lá naMe:gar com os .Portug•weses, .que Vespúc:io desco-
briu que est:alva errado, e que se: lt!raitarVa de um N~
Mundo, com o :quaJ não é Hcilto supormos que Colombo.
desde que em 11498 descobrira terra rm·r me ainda estaiiTia
.i:luldido: Ibero. sen.sarta é a opinião de Thacher, que 'C()OllSá-
dlera «hwni<liating» para~ Colombo a v.ell"São de ele oon-
fundlirr Cuba com «<terra lfoimne dJe Ásia».
Foi só ~ dos marrearnt!es rport.ugweses e kJe
Colomrbo que 'V espúcio escreveu que se rtratai\Ta de uma
lll.OVa pa.rtte .do Munido, dWferen'te da !Visitada por Marco
rPdlo, .t:eN"a :tão .rlica que os pallácios se:ri.aan cobertos de
cihapa onrdoui1adra, !feita de UliD m•e tal abundattt!te, e próprlio
por ser :inoxlidávd, o ouro ...

Não foi pois originar! ressa oonrepção ~uClÍiéliilia do


crMUID.dus N10VU51», lSÓ expressa por ele IIliBS SUIBS cartas
CAPlTULO IV

Í NDIA

SUMÁRIO:

I - O descobrimento do caminho marí-


timo para a lndia
n - Discussão sobre a rota seguida por
V asco da Gama entre Santiago
e São Brás
m- o diário da primeira 'IJiagem de
Vasco da Gama à lndia
IV- A rota de Vasco da Gama nas «Len-
das da lndia:.
Vasco da Gama, segundo o desenho à pena, realçado a aguarela,
de Gaspar Correia, feito cerca de 1550- I 555, para o manuscrito
do original das Lendas da fndia . É dos mais antigos retratos que
se conhecem de Vasco da Gama
In •A s assinaturas de Va sco da Gama•• , de Luiz K eil
I - O DESCOBRIMENTO DO CAMINHO
MARITIMO PARA A INDIA

No dia 20 de Maio de 1498, domingo, os navios de


Vasco da Gama encontravam-se cjuntos com huuas
montahas as quaes sam mais altas que os homens
nunca viram». Havia já dois dias que, depois de uma
travessia de duas mil e quinhentas milhas desde a
costa de Africa, sem se avistar terra, tinham chegado
à costa indiana. Era cterra alta» que por causa dos
cmujtos chuyveiros e trovoadas», comuns ali naquela
época do ano -monção de sudoeste - , não a tinham
podido logo reconhecer.
Foi pois sõmente no domingo que o piloto, tendo
o tempo clareado e chegando-se mais à terra, a reco-
nheceu, por ter distinguido o característico pico duplo
da cordilheira dos Gates, chamado Boosa de Camelo,
pico tão alto que tem quase cinco vezes a altura da
serra de Bintra, muito vista dos mareantes. :Este pico
fica c·s obre a cidade de Calecute», de acordo com o que
se lê no cRoteiro » da viagem de Descobrimento da tndia
e com o que sabemos.
Navegaram então para a costa, indo Vasco da
Gama enfim fundear perto da ccidade de Calecute», a
qual, desde Lisboa, se projecta.ra demandar, visto ser
c& terra honde nos desejavamos dir», como diz o
25
ÍNDIA (CAP. IV, I] O CAMINHO MAIÚTIMO PARA A ÍNDIA

«Roteiro». Estava finalmente descoberto o caminho propriedade de metal inoxidável para cobrirem os .
marítimo para a autêntica India, e ninguém poderia palácios.
mais ter ilusões sobre a maneira prática de atingir :m certo que alguns historiadores literários acei-
por mar terras de Ásia, tanto mais que foi no ano de tam que o Rei D. João 11, tendo, cerca de 1483, ouvido
1498 que Colombo descobriu finalmente terra firme, Colombo sobre certas propostas de ir à India pelo
a costa de um novo continente, em absoluto diferente ocidente, consultara a tal respeito uma Junta de
da conhecida China. Matemáticos. Tais cientistas só poderiam informar
Para chegar à India Vasco da Gama não realizara que, visto a Terra ser credonda», em teoria tan·t o se
uma navegação tão simples que se lhe pudesse aplicar poderia ir a Cathay e à lndia pelo oriente como pelo
a anedota colombiana do truque do ovo, ao qual basta ocidente. Porém, sobre a possibiMdade de o realizar
esmagar-lhe parte da casca para o poder ·e quilibrar com os barcos de vela da época, a Junta nada poderia
sobre a ponta. Não bastara aos pilotos portugueses o adiantar, porque essa fase prática dependia de ventos
truque de navegar oitocentas léguas para além das e dos mareantes. Colombo, se alguma coisa de novo
ilhas Canárias, rumando durante cinco semanas a
sabia, seria por o ter ouvido a algum português que
oeste da agulha, para se atingirem terras da 1nd~a.
tivesse navegado pelo Atlântico Central.
Porque só a preparação da rota que Gama deveria
Já havia meio século que não era segredo a exis-
seguir exigira meio século de explorações, mais do
mar do que de terras. tência de terras - «Ylhas ou terra-firme» - ao oci-
dente, reveladas pelos restos de plantas desconhecidas
E, afinal, foi dessa mesma preparação que resul-
tou o descobrimento do Brasil. na ·E uropa que as correntes levavam aos Açores.
Apesar de não se tratar de pimenta, ou especiaria, já
vários aventureiros portugueses lá tinham tentado ir
• à própria custa. Contudo, alguns contam que D. João li
Já anteriormente, em 1493, quando Colombo fez teria hesitado, a ponto de mandar ao Ocidente, em
sua passagem em Usboa, de regresso das ilhas a que segredo, cuma caravela» - tornarei a falar nisto -
dera o nome de lndias, D. João li, ao ouvi..1lo, não em exploração. Certa história acrescenta que aqueles
teria deixado de sorrir. pilotos portugueses, capazes, como .s abemos, de passar
Porque este «homem sagaz» já estaV'8. seguro da além do cabo Tormentoso, nada teriam conseguido
di·s tância à lndia, e não .p odia acreditàr que aquelas descobrir al·é m de «tempo torbolento», o qual os fizera
illÍa:s, povoadas de gente nua, desconhecendo seda e arribar a Lisboa, dizendo que não tinham encontrado
ferro, fossem já Ásia ou, sequer, o Cypango, que ficava fim àquele mar. Tinham recuado por falta cde cou-
antes das costas da China, e onde se sabia viver gente ra:ge» e cd'énergie»! Mais uma tempestade inventada
civilizada, tão rica de ouro que lhe aproveitavam a pela História .. .
ÍNDIA (CAP.
IV, 1] O CAMINHO MARÍTIMO PARA A ÍNDIA
Pois a História também não pode ignorar que,
mesmo depois do sucesso das duas primeiras viagens porém, que a corrente era de águas quentes, o que indi-
de Colombo os Reis de Portugal insistiram na prepa- cava que o caminho estava aberto para além do trópico.
ração da vi~gem da tndia, a contornar a .Africa, e isto Pela mesma época, um emissário secreto de
apesar de já saberem que essa viagem indirecta exigi~ D. João li, Pero da Covilhã, disfarçado em mercador,
navegação de mais de três mil léguas. Como se va1 conseguira passar, por Alexandria e Mar Roxo, para o
mostrar. oceano Indico, por onde navegara. Estivera em Calecute,
importante centro comercial, e, na costa de Ãfrica, em
• Mo~ambique e Sofala, terras governadas por chefes
mouros, os dois pontos extremos então atingidos na
costa oriental da África. Sofala e o r1o do Infante, de
Quando, ainda em vida do Infante D. Henrique, em Bartolomeu Dias, já só estavam separados por menos
1445, passado o cabo Verde, se notou q~e a ~sta de de trezentas léguas.
Africa já não corria mais a sul, mas inflectia p~a De resto, a posição da própria lndia já vinha indi-
nascente, ganharam crédito as esperanças de a Ãfrlca cada nos mapas conhecidos da época, como o de Mar-
se não estender pelo hemisfério sul. De facto, nave- teUus, com alguma aproximação: a sua costa ociden-
gadas 250 léguas, a costa já corria francamente a tal era arrumada, em longitude, distando de Portugal
nascente em latitude sensivelmente a norte do equa- cerca de uma quarta parte da volta da Terra.
dor; porêm, meio milhar de léguas além daquele .ca~, Eis as razões pelas quais podemos crer que
a costa tornava a virar para sul. Desfizera-se a 1lusao D. João li, em lugar de «hesitar:., sorria quando, seis
de ser fácil passar do Atlântico para o Mar da tndia anos depois, Colombo se lhe foi gabar de ter descoberto
com uma rápida navegação costeira. um caminho marítimo para a lndia. Porque já então
. Contudo isto não foi bastante para animar os nossos mareantes estav-am informados acerca da
D. João II ~ aceitar o esquema de tentar ir à lndia maneira prática de vencer as dificuldades de navega-
·c ortando o Atlântico para poente. Tinha-se prosseguido ção, que impunha a rota portuguesa pelo Cabo. Do que
na exploração da costa de Africa para sul. Cortou~se se faria segredo, por não convir distrair os Espanhóis
0 equador em 1470 e, enfim, em 1487, Bartolomeu Dias das suas tentativas ocidentais.
dobrou a ponta sul-ocidental da África, um cabo a que Certo, talvez os Portugueses, em 1493, não sou-
chamou Tormentoso, nome que D. João li mudou para ·b essem ainda que um novo continente, a. que depois se
cabo de Boa Esperança. · DiaiS navegara ainda umas chamou América, ba11rava de norte a sul a passagem
150 léguas para nascente, mas o cansaço geral e uma ocidental para o oceano Indico. Porém eles estavam
forte corrente contrária impediram a continuação do seguros de que, ainda mesmo que esse cam~nho oci-
reconhecimento da costa, para nordeste. Notara-se, dental estivesse completamente livre de terras e ventos,
a distância a navegar através de oceanos desconheci-
392 ÍNDIA [ CAP. IV, I] O CAM INHO MARÍTIMO PARA A INDIA 393

são as mesmas que os roteiros agora aconselham, este então havia em se chegar à India- indica-nos que
facto concreto revela um conhecimento regular da houve, de facto, um estudo prévio da rota a segui·r .
posição de terras e de vent08 do Atlântico Sul, em Esta exploração teria sido realizada, tanto partindo
várias estações do ano, adquirido anteriormente a 1497. das ilhas de Cabo Verde, como alargando para oeste
Outro facto concreto, o de ambas as esquadras as viagens de regresso da Mina7 que se ·f aziam pelo sul
serem quase completamente compostas de MU8, e não do equador, a aproveitar a conhecida corrente equato-
de navios próprios para reconhecimento, como seriam rial, favorável.
caravelas7 confirma nàuticamente esta versão. Podemos, pois, arrumar a invenção histórica da
Apesar disto, uma obra recente não deixa de alvi- viagem de Gama à mercê de ventos e calmarias, ao
trar, teõricamente, que a conjectura de uma tal explo- lado de uma outra, muito mais antiga e também falsa,
ração ou estudo da ·r ota a seguir é menos provável, mas nem sempre abandonada pelos historiadores: tal
porquanto os pilotos portugueses se contentaram com é a lenda de que Vasco da Gama, para dominar a
a suspeita de que no Atlântico Sul reinava analogia repugnância que os seus tímidos mareantes manifes-
ceólica:t -ou de ventos- com o regime de ventos do tavam em passar além do cabo Tormentoso, teria
Atlântico Norte. Ora, faltava base para tal dedução, teatralmente lançado ao mar «astrolábios, cartas,
visto que ao norte do equador domina no Verão a bússolas», a fim de cortar os crequerimentos» de arri-
conhecida monção de ventos de sul, a qual nunca se bada a Portugal! Contaria comprar outros na India,
manifesta no Atlântico a sul do equador. Fiarem-se se lá conseguisse chegar? ...
em tal crença seria cir a acertar•, contra o que lemos Resta pois aceitar que aquele inevitável reconhe-
no cTratado da Sphera• , de Pedro Nunes. cimento - realizado secretamente, como o tinham sido
De resto, ainda que houvesse tal csimetria:. de os de Bartolomeu Dias e de Covilhã - se concluiu entre
ventos, também era suspeitada a. existência de terras, 1487 e 1497. Dele se apurava que o vento geral sueste
as quais, se não fossem simétricas com as terras do se estendia no Atlântico Sul muito para poente, mas
Atlântico Norte - e não o eram - , poderiam impedir que a sul, na:s alturas da actual Baía, esse vento
o traçado de uma rota análoga à Volta do Bargaço, começava alargando7 a soprar de leste7 de modo a
que leva os navios até cerca do meridiano 40 graus a permitir navegação para sul, até ganhar latitude supe-
oeste de Greenwich. Ora este mesmo meridiano corta rior a trinta graus, em que demorava o cabo de Boa
francamente terras no Atlântico Sul, ou seja a. parte Esperança.
mais oriental do Brasil. Nesta exploração ocidental fora encontrada a
Como se vê, a nova conjectura iria contra a reali- sotavento uma terra corrida a do futuro Brasil a qual
dade de ventos e de terras. ' cerca de oito graus
seria preciso montar7 até que, ' de
A dezena de anos que medeiam entre as viagens latitude, ela se «inclinava:. para sudoeste. Para tal
de Dias e de Gama- apesar do grande interesse que fim impunha-se o cuidado de não cortar o equador
394 ÍNDIA [CAP. IV, 1] O CAM INHO MAIÚTIMO PARA A fNDIA 395
muito além do meridiano das ilhas de Cabo Verde, o Enfim, ·s egundo as informações do mesmo via-
que no Verão, por causa da monção de sul, obrigava ja'll.te, havia a contar com a travessia do oeeano lndi·co,
os navios a irem tomar barlavento a nascente. Só de viagem que os nawos trafegando entre a lndia e a
várias viagens de exploração é que se poderia ter con- Ãfrica - como depois as nossas naus- só realizavam
cluído que não era preciso alongar a bordada li.nicial, a favor dos ventos dominantes, os das duas monções.
pa.ra sueste, indo mai•s a oriente que o cabo das Pal- Estes ventos sopravam de nordeste, de Novembro
mas, que ficava um cento de léguas antes da Mina. Com a Abril, e era nessa época que os navios indianos pas-
esta bordada já os navios conseguiriam sempre, na savam da lndia para a Mrica Equatorial. Os regressos
volta do mar, ir montar aquela parte da costa que à lndia só se faziam nos meses de Maio a Outubro, em
vinha mais a nascente - hoje chamada de Pernam- que naquele oceano dominam ventos opostos, os da
buco - , donde depois se podia ganhar sul sem ter de monção de sudoeste.
costear Mrica, tanto como fizera Bartolomeu Dias. Estas informações concretas teriam sido forne-
Tal é, muito provàvelmente, a origem técnica da cidas ainda por Pero da Covilhã.
versão das «caravelas secretas», que D. João 11 man- Também se teria sabido que o oeeano Indico
dara partir de Cabo Verde- não a «atraiçoar Colombo» não era tão lrinnpo como o Atlântico. Haveria
como contam os eolombia'llos, mas para sudoeste, pelo meio várias ilhas, e até meio cento de léguas
onde convinha verificar qual a posição e efeito das em mar da costa i'lld~ana, chamada do Malabar,
terras, se por ali as houvesse. corria de norte a sul um rosário de ilhas e reci-
O próprio Colombo nos infonnou de que D. João 11 fes -as Laquedivas e as Maldivas -, cujos canais
afirmara que «al Austro habia tierra firme», e tanto de passagem só os pilotos indianos conheciam. Natu-
ralmente, Covi•l hã, que não era náutico, nada poderia
que este rei «tenia gran incldnacion de enviar gente a
ter informado sobre latitudes, seja dos portos africa-
descubrir a suroeste» da ~lha do Fogo, do arquipélago
nos, seja de Calecute, de resto avaliadas pelos Mouros
de Cabo Verde. (Madariaga, pág. 451). :m sabido que
em certa unidade angular, diferente do grau dos pilo-
Colombo o imitou em 1498.
tos europeus. Mas Covilhã, que atravessara o Indico
Por outro lado, para além do cabo de Boa ·E spe-
várias vezes, com certeza informara que a travessia
rança, surgia a dificuldade das correntes contrárias,
daquele oceano era realizada aproveitando observa-
que lá encontrara Bartolomeu Dias em 1487. Mas elas ções de .a stros, exactamente como os pilotos portugueses
podiam ser contornadas, indo-se pelo largo da costa praticavam no Atlântico.
como fez Cabral em 1500. Como se vê, a viagem de Portugal à lndia estava
Depois, ao longo da África Oriental, a navegação longe da simplicidade colombiana, embora fruto de um
já poderia ·s er costeira, como Pero da Covilhã a vira «plano» misterioso. Ela só pôde ser realizada depois
lá fazer aos pangaios, em que chegara até Bofala. de uma exploração marítima que levou mais de meio
396 fNDIA [cAP. 'iOV E ~ ADOJ.\'1 RGE CA bR ALL·MAMD<W}A"S[RJ.1CM0
R IA DAS · 1\ RMAD A S·Q.VE ·PORTV G ALL· PA ARAM'AEITA)
século, só concluída em tempo de D. João 11. Não se PAR T ES·E:,TA·PRlM EIRA·COM'G..'·lEVASC. O · DA .
pode dizer, dos navios de Vasco da Gama, que co vento .G AMA · C OM·~vE DARTJo·REII'v OA NO· DE·497
os levou~ como se diz dos de Colombo .


Vasco da Gama largou de Lisboa no Verão de
1497. Começou por rumar directamente para a ilha de
Santiago, passando entre as Canárias e a costa de
África, como os ventos favoráveis permitiam.
Das ilhas de Cabo Verde, por ser em Agosto, época
da monção de sul, foram tomar barlavento a sueste,
ao mar da Berra Leoa. Daqui meteram na cvolta do
mar~, indo cortar o equador pouco a nascente do
penedo de Bão Pedro, do qual só tiveram noticia vaga
pelas caves feitas como garções» que, à tarde, talvez
para lá voassem. Seguindo na bordada de sudoeste, que
o vento geral de sueste lhes permitia, foi atingida a
latitude do cabo de Santo Agostinho. Assim consegui-
ram passar ao largo da costa brasileira, sem sequer
dela ter havido sinais. Se Vasco da Gama tivesse
rumado logo de Santiago para sul - como o vento ali
lhe permitia, e como Cabral fez em 1500, mas em
Março - , Gama, depois de navegar ·a ssim uma centena
de léguas, teria encontrado vento sul da monção. Já
não poderia mais rumar a sul, e teria metido pam
sudoeste na cvolta do mar~. Assim as suas naus teriam
ido esbarrar na costa norte do Brasil, e a viagem para
a lndia estaria comprometida, por se lhe tornar impos-
sível, contra os ventos e correntes para oeste, que aJ4
dominam, conseguir dobrar o conhecido cabo de Bão
~.

1\ Arm ada de V asco da Ga ma na I ." viage m à fndi <I


lu ~< Dicí rio tf,· V. lSco d 1 .z·• V o/. 1
G~..!m . plÍ,Ef. 9 1
t
IV, 1] O CAMINHO MAlÚTJMO PARA A INDIA 397

Como venho acentuando, este interessante deta-


lhe da rota de Vasco da Gama- que os primitivos
comentadores do seu cRoteiro:. não notaram, apesar
de também estar nas cDécad81S», de Barros, e em
«Üs Lusíadas», escritos por um navegador da tndia-
este detalhe prova materialmente que em 1497 já os
pilotos dispunham de informações claras sobre os
ventos e terras do quadrante sul-ocidental do Atlân-
tico. Essas terras, previstas em 1494 no Tratado de
Tordesilhas, já estavam, pois, localizadas, porque só
assim se compreende que Vasco da Gama tivesse adop-
tado uma rota indirecta em dupla bordada, que é a
mesma praticada pelos veleiros modernos quando pre-
tendem montar o cabo de São Roque.
Continuando para sul, Gama foi entrar na região
dos ventos oeste que, nas altas 'l atitudes, sopram todo
o ano. Eles lhe permitiram desfazer para leste o cami-
nho com que inicialmente se afastara de África. Mas
o conhecimento, ainda incompleto, desse regime de
ventos não lhe permitiu o ir de rumo feito dobrar o
Cabo, e Gama foi ainda encontrar vento ,s ueste, com
o qual foi avistar costa de África, cerca de meio cento
de léguas a norte, e a sotavento, do mesmo cabo.
Entrou depois na baia, que ainda conserva o nome de
Santa Helena, que Vasco da Gama lhe pôs.
Esta travessia do Atlântico Sul, em quatro bor-
dadas, exigiu três meses de navegação sem avistar
terra, facto aJté então inédito na História.
Depois, tendo bordejado uma semana contra o
vento cSull Susoeste», ali dominante, em 22 de Novem-
bro de 1497 a esquadra portuguesa passava o famoso
Cabo, penetrando no oceano tndico. Até aqui não
houvera tempestade alguma.
ÍNDiA (CAl'. IV, I] O CAMINHO MARÍTIMO PARA A ÍNDIA 399

Para abastecimento de água, lenha e frescos, ainda 1498 teria •s ido muito contingente sem a intervenção
Vasco da Gama tocou em vários portos da costa afri- do piloto indiano.
cana, como São Brás, Boa Paz, rio dos Bons Sinais (o A viagem de regresso a Lisboa não foi isenta de
rio Zambeze), e Moçambique. Já aqui passavam navios dificuldades. Só a travessia do Mar da India custou
da India -os pangaios -, de modo que, desconhecida três meses, em que muitos morreram de escorbuto.
em detalhe a técnica da navegação do oceano Indico, Não houve, é certo, tempestades. Mas os ventos, espe-
do qual não tínhamos ainda carta de marear, e sabidas cialmente depois do Cabo, impuseram rota diferente
as dificuldades da travessia desse mar, começou logo da de ida: directa pelo Atlântico Sul, e na Volta do
Sargaço pelo Atlântico Norte.
a tentar obter piloto indiano. Porém, os Mouros, para
quem o comércio com a tndia constituía uma espécie
de monopólio, fizeram a Gama toda a oposição possí- •
vel. E, mais ao norte, em Mombaça, até tentaram a
destruição dos navios. Já a carência de pilotos causara
Vasco da Gama partira com três naus e uma cara-
encaJlhe de uma das naus, em uns baixos perto da costa
vela de apenas cinquenta tonéis. Doenças e privações
e a norte da ilha Zanzibar, donde o navli.o se safou na dizimaram as tripulações a tal ponto que, daqueles
preia-mar. Às «baixas» deram o nome de San Rrafaell. que em 8 de Julho de 1497 embarcaram na «praia de
Fina:lmente, recebidos com condescendência rpor Restello» confortados pela Igreja como cse fossem a
«El-Rey» de Melinde- porto ainda a sul do equador-, sepultar:., desse cento e meio de homens, apenas um
conseguiu-se obter aqui um piloto hábil para levar terço tornaram, no Verão de 1499, com dois anos de
os navios à tndia. Como já começara a monção de viagem, àquela mesma praia de Belém. Dos principais
sudoeste, vento favorável à travessia directa do oceano faltavam o capi.t ão da nau «São Rafael» e o piloto-mor
Indico, a costa indiana foi atingida depois de «vinte da esquadra. E, dos quatro navios, dois dos maiores
e três dia's que não viramos terra», como lemos no foram abandonados e queimados, por falta de gente
«Roteko:. desta viagem. para os marear. Só a nau «São Gabriel» e a caravela
Examinados os mapas de agora deduz-se ·q ue o «Bérrio» regressaram a Portugal.
piloto foi passar no canal entre as ilhas Laquedivas e Enfim, este descobrimento do «Caminho marítimo
Maldivas- as quais não avistou-, donde -romou para para a tndia» teve na época tão forte repercussão que,
Calectite. Para traçar esta ~longa rota de setecentas para o comemorar, foi erguido em Belém um templo
léguas de alto mar não seria suficiente a bússola, tendo m:onumental. Ainda lá está, porque até o terramoto
a navegação imposto recurso a alturas do Sol. Assim, de 1755 respeitou aquelas pedras lavradas que docu-
ignorando os Portugueses a existência daquele canal, mentam a importância do acontecimento. Dir-se-ia que
·como até a latitude de Caleoute, a travessia de Ma4o de El-Rei D. Manuel previu a indiferença- ou lamentável
iNDlA [ CAP. IV, I] O CAMINHO MAIÚTIMO PARA A fNDlA 401

desconhecimento de Arte Náutica- com que a Poste- Terra, a variação das agulhas, os ventos alisados, a
ridade chegaria a apreciar a vliagem da tndia. corrente do Golfo, o Mar do Sargaço e, até, novas
estrelas. Ora tudo isto os Portugueses já conheciam,
• encontrado pelos numerosos navegadores que prece-
deram Colombo no Atlântico CentraJ.
A complicação geométrica do traçado da rota Outros historiadores não navegados tentam des-
seguida por Vasco da Gama exclui a aplicação por vendar os mistérios do sucesso do c:plano de Colombo~,
golpe de génio de um super-homem, de um c:santo», por ele ter sabido sagazmente interpretar um certo
eleito pelo Destino. Certo, tal traçado correcto, em mapa, que um cosmógrafo !italiano, Toscanelli, teria
mapa, não poderá deixar de impressionar mesmo os enviado para Portugal, no qual revelava a maneira
leigos de navegação, sugerindo mais ciência que aven- prática de se ir à Ásia e tndia atravessando o Atlân-
tura, mais o estudo de D. João 11 que o c:plano» de tico segundo c:camino de la mar más corto» que o c:de
Colombo. Mas, lamentàvelmente, aquela rota t em, por Guiné». Este mapa, que Colombo teria consultado no
vezes, sido desenhada errada, mesmo como decoração Arquivo secreto de D. João 11, não tinha sido com-
de edificios públicos. preendido em Portugal, nem mesmo pelos doutores
Não se explica, pois, que alguns historiadores se da c:Junta de Matemáticos», mas s6 por Colombo, que
não tenham dado ao trabalho de a investigar e .recons- o copiara e, até, o fora aproveitando durante a sua
tituir. Bem superficialmente a comentou, na edição travessia de 1492 ( c:C. Colon», por Madariaga, págs.
de 1861 do «Roteiro », o próprio Alexandre Herculano. 123, 167, 231, 245, 292, etc.). Pois de tão famoso mapa
Dir-se-ia acreditarem que Vasco da Gama, quando do Atldntico Central- um tabo -ninguém viu mais
traçou a sua rota a montar a costa de Pernambuco, o que uma moderna reconstituição fantasiada, extraída
fez ao acaso, obedecendo apenas a uma espécie de do Globo de Behaim -outro que o não compreen-
instinto náutico ... dera! - , e tecnicamente inútil para realização de
Tais são as reflexões técnico-marítimas pelas quais, viagens novas ao ocidente, porque erra as terras e
longe de reiterar o sorriso de D. João 11, eu entristeço não indica os ventos.
quando verifico a flagrante injustiça com que publi- São estes mesmos autores superficiais quem des-
cistas didácticos, por vezes portugueses, apreciam e conhece, ou disfarça, a importância que, tanto para a
comparam a viagem de Vasco da Gama com outras viagem de Vasco da Gama, como pa.r a a de Colombo,
viagens de descobrimento, e especi9Jlmente a de tiveram outros mapas e informações náuticas, resul-
Colombo. Pois esta viagem de 1492, sem aflição de tantes de uma anterior exploração do Mar, exclusiva-
escorbuto, foi tão fácil que os colombianos procura!'lam mente portuguesa. Obedecendo àquele tão condenável
ilustrá-la atribuindo ao grande navegador descobri- critério, a viagem de Vasco da Gama entre 1497 e
mentos complementares, como são as dimensões da 1499, a primeira em que de facto navios ' europeus
26
402 íNDIA [cAP. IV, n] ROTA ENTRE SANTIAGO E SÃO BRÁS

conseguiram ir até à tndia, raro interessa publicistas além do cabo Bojador - até ao piloto-mor, Pedro
literários. Dalanquer, que já antes de 1492 entrara no oceano
Sim. As nossas edições do cRoteiro::. da viagem Indico com Bartolomeu Dias. Entre eles avultam
da tndia ainda se contam pelos dedos da mão. São só obscuros precursores que antes de 1497, e portanto
quatro. O esforço colectivo que a sua preparação e do advento de Colombo e de Vespúcio, localizaram
realização .r epresentam, essa incontestãvel cfaçanha aquela parte do continente sul..americano que mais
marítima», coroada pela apoteose da chegada à autên- se aproxima da costa africana, o Nordeste do Brasil.
tica tndia continuará a ser ·Cla:ssificada abaixo da Tais são as razões sentimentais que me levam a
famosa viagem ' às Antilhas, que até teria sido a pri- aproveitar a oportunidade para insistir mais uma vez
meira de clongo curso». Um autor moderno, cde pol- -que não terá de ser a última- nas tentativas jorna-
trona», esquece até a primitiva Volta da Mina, ou dt> listicas de vulgarizar e comentar, nàuticamente, as
Sargaço e classifica a Vli.agem do Gama como grandes travessias marítimas. Entre elas avulta uma
c costeira:. ! Seria por ele só ter deixado junto das Vli.agem ideal, a da tndia, utopia com que os Europeus
costas, e não no mar, os seus cinco padrões, agora sonharam muitos séculos e que, por vezes, tentaram
desaparecidos? ao acaso- indo c a acertar» -até que esse sonho foi
Enfim chegou-.se a escrever- talvez para impres- levado a cabo em 1498, mercê do esforço bem orien-
sionar a galeria- que, sem a excitação que em Portu- tado daqueles autênticos desbravadores do Mar Tene-
gal provocou o sucesso colombiano de 1492, Gama não broso que foram os navegadores portugueses. São
teria sido mandado à tndia, e o negócio ficaria em estes nossos comuns antepassados os descobridores
meio, nt> Caho. Colombo, violando o Mar Tenebroso, da tndia.
teria sido o «animador» da travessia definitiva, por-
tuguesa. Ele - afinal, como mareante, mais português
que genovês ou espanhol - , se não descobriu caminho
11- DISCUSSAO SOBRE A ROTA SEGUIDA
ocidental para a Ásia, teria, digamos, indirectamente,
POR V ASCO DA GAMA
·concorrido para o desC!Obrimento do caminho (ia tndia!
ENTRE SANTIAGO E SAO BRAS
E assim o nome de Cristóvão Colombo - que se não
deve omitir sempre que se trate da viagem