Вы находитесь на странице: 1из 553

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.

indd 1 29/05/12 19:11


Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 2 29/05/12 19:11
Lara Parker

A vingança de Angelique

traduçÃo :

William Lagos

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 3 29/05/12 19:11


Título original:
Dark Shadows: Angelique’s descent
Copyright © 2012 by Lara Parker
1ª edição – Maio de 2012
Grafia atualizada segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa
de 1990, que entrou em vigor no Brasil em 2009
Editor e Publisher
Luiz Fernando Emediato
Diretora Editorial
Fernanda Emediato
Produtor Editorial
Paulo Schmidt
Assistente Editorial
Diego Perandré
Capa e Projeto Gráfico
Alan Maia
Diagramação
Kauan Sales
Preparação
Marcia Benjamim
Revisão
Josias A. Andrade

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Parker, Lara
Sombras Noite: A vingança de Angelique / Lara Parker ;
tradução: William Lagos. ‑­‑ São Paulo :
Geração Editorial, 2012. -- (Coleção dark shadows)
Título original: Angelique’s descent
ISBN 978­‑85­‑8130­‑065‑8
1. Ficção norte-americana I. Título. II. Série.
12-05733 CDD: 813
Índices para catálogo sistemático
1. Ficção : Literatura norte-americana 813

Geração Editorial
Rua Gomes Freire, 225/229 – Lapa
CEP: 05075­‑010 – São Paulo – SP
Telefax.: (+ 55 11) 3256­‑4444
Email: geracaoeditorial@geracaoeditorial.com.br
www.geracaoeditorial.com.br
twitter: @geracaobooks
2012
Impresso no Brasil
Printed in Brazil

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 4 29/05/12 19:11


PARA MINHA MÃE E MEU PAI
com amor

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 5 29/05/12 19:11


Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 6 29/05/12 19:11
Agradecimentos

esejo agradecer com grande apreço a algumas daquelas pessoas


cujo trabalho tornou possível este livro.
Inicialmente, a Jim Pierson, o campeão e protetor que iniciou
esta série de romances, Sombras da Noite. Foi ele que produziu os
vídeos da série Sombras da Noite e promove o Festival Anual Som‑
bras da Noite, em um esforço constante para manter o programa
fora das sombras.
Sinto‑me grata a todos os fãs de Sombras da Noite que me transmi‑
tiram seu carinho e apoio, especialmente a Marcy Robin e a Kathleen
Resch, editoras de shadowgram, que generosamente compartilharam
comigo suas pesquisas sobre o ano de 1795 e seu próprio romance
sobre Angelique, intitulado Inícios: a Ilha dos Espíritos.
Gostaria de agradecer do fundo de meu coração a minhas amigas
escritoras, Trudy Hale, Celeste Fremon e Carolyn Lowery, que gene‑
rosamente leram partes deste livro, fizeram sugestões e se demons‑
traram dispostas a conversar comigo durante horas nos períodos

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 7 29/05/12 19:11


Lara Parker

em que eu me sentia confusa ou perdida. Foram aves de arribação


que deixaram ovos em meu ninho e estes descascaram na forma de
ideias fabulosas.
Contudo, minha gratidão mais calorosa vai para minha editora
paciente e inteligente, Caitlin Blasdell, cuja orientação me alimen‑
tou e me deu coragem para escrever este livro e por sua gentil suges‑
tão de que “metáforas são como joias: um colar é suficiente”.
Os roteiristas deste período para o programa de televisão Som‑
bras da Noite, Sam Hall, Ron Sproat e Gorden Russell, foram uma
fonte de inspiração contínua, do mesmo modo que Kathryn Leigh
Scott, que foi a primeira a publicar os meus escritos em O Compa‑
nheiro das Sombras da Noite. Constantemente me referi aos muitos
livros que ela publicou com base nos episódios da série a fim de sa‑
cudir a poeira de minhas lembranças e sempre me descobri atraída
novamente para aquele mundo mágico delineado por ela.
Estou profundamente agradecida ao meu marido Jim Hawkins e
à minha filha Caitlin por seu constante amor e entusiasmo.
E estarei para sempre em dívida com Dan Curtis, cuja visão ins‑
piradora originou Sombras da Noite e que deu ao mundo esses per‑
sonagens imortais que nunca cessam de nos exasperar e encantar e
que, para mim, deu o papel de Angelique.

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 8 29/05/12 19:11


Minha Senhora abandonou o Céu, abandonou a Terra
E desceu para o mundo inferior.
Inana abandonou o Céu, abandonou a Terra
E desceu para o mundo inferior.
Abandonou o domínio, abandonou a senhoria.
Ela desceu ao mundo inferior.
Mito sumério , 2000 a .C.

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 9 29/05/12 19:11


Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 10 29/05/12 19:11
Um

arnabas acordou tremendo, seu coração batendo forte, a respi‑


ração descompassada e saindo aos arrancos. Um enorme peso
parecia esmagar seu corpo e era como se seus membros estivessem
desprovidos de força e acorrentados. Ele enfiou os dedos no traves‑
seiro que o estava sufocando, ergueu­‑o de cima do rosto e saiu do
sonho com um esforço violento, como se precisasse transformar
suas mãos em garras para se firmar na realidade. Por longos instan‑
tes permaneceu ofegante na escuridão, a flutuar lentamente para
fora de seu pesadelo, sentindo­‑se às vezes deslizar por instantes e ser
de novo puxado para baixo, ao encontro das visões apavorantes que
iam descendo em espiral para um vórtice cada vez mais profundo.
Girou o corpo, ficando agora de costas sobre a cama e soltou um
suspiro. Estendendo as mãos para os lençóis, esfregou a superfície
com a ponta dos dedos; depois se retorceu para um dos lados, em
direção à janela, a fim de contemplar no céu o brilho da falsa aurora.
Pensamentos aberrantes corriam ao redor de seu crânio enquanto
ele lutava para se libertar do pânico que o havia dominado. Imaginou

11

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 11 29/05/12 19:11


Lara Parker

se deveria acordar Júlia e pedir que lhe aplicasse outra injeção. Ela
conservava o frasco com o medicamento sobre o tampo de seu tou‑
cador e teria prazer em ser acordada por ele, feliz por poder ajudá­‑lo.
Seu olhar correu pelo quarto, em busca de segurança. Raios de
luz se refletiam vacilantes sobre a madeira da coluna da cama, os
entalhes da cômoda, o brilho do espelho. Do outro lado da janela,
os galhos do carvalho retalhavam a lua com suas sombras espessas.
Sentou­‑se com dificuldade, movendo os pés para fora da cama, as
solas alfinetadas pela textura espinhosa do tapete grosso. Enquanto
contemplava a escuridão, as gavinhas do pesadelo retornaram ondu‑
lantes para sua mente. A mulher de seu sonho demonstrara avidez,
gemendo ao encontro de seu abraço, erguendo sua boca para en‑
contrar a dele, seu corpo cálido apertando­‑se contra ele. Seus cabe‑
los eram fragrantes e sua pele recendia a almíscar e ele podia
recordar a pena que sentira dela, uma piedade que se formara tal
qual uma nuvem ao redor da fome que fluía através de suas veias.
Ele praticamente não a conhecia, era uma garota maltratada da Rua
do Rio e ele a havia encontrado como tinha achado todas as outras,
enquanto caçava durante as noites através dos bares mal ilumina‑
dos que se apertavam uns contra os outros na zona do cais. Quanta
confiança ela havia demonstrado quando se curvara para ele... Sua
mão se movera debaixo da capa que ela usava, subindo pela parte
mais funda das costas, onde podia sentir as costuras de seu vestido
ao redor da cintura dela. Ele sentia a dor de uma necessidade irre‑
sistível que lhe enfraquecia o corpo inteiro e sua boca se enchera de
amargor com a recordação de sua própria obsessão desprezível.
— Não consigo respirar... — sussurrou ela enquanto ele a aper‑
tava contra si.
Ele pretendera então, antes que fosse tarde demais, deixá­‑la par‑
tir. Mas ela acariciara a parte de trás de seu pescoço com o toque
leve da ponta de seus dedos e ele estremecera. Ele podia ler os pen‑
samentos dela, do mesmo modo que seus movimentos lhe traíam
os motivos: sua capitosa incredulidade perante seus avanços, suas
fantasias dançando juntas em um amontoado de possibilidades:

12

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 12 29/05/12 19:11


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

“Collinwood — a senhora da mansão rural — a inveja de suas ami‑


gas — posição e vida fácil...” Sua mente provinciana mal conseguia
conceber tal riqueza! Seria possível que ele a amasse? Que fosse ca‑
paz de torná­‑la sua esposa? Ela estava desesperada e imprudente‑
mente disposta a tudo.
Ela desatou o laço de sua capa, revelando o brilho lustroso de seu
colo e ele lhe acariciou a pele. Ela lhe lançou um olhar lascivo, e se‑
gurando sua mão imensa com suas duas mãozinhas bonitas, cobriu­
‑a de beijos. Então, com um suspiro, ela se derreteu em seu abraço.
Ele segurou as madeixas de seus cabelos perfumados e empurrou­
‑as gentilmente para trás. Não eram os seus seios que ele buscava.
Seus lábios roçaram o colarinho de seu vestido e se esfregaram pela
curva de seu pescoço. Sua pulsação palpitava ali como um tambor...
NÃO! Não mais! Com um esforço, Barnabas se arrancara do so‑
nho e retornara à consciência. Sua respiração irregular e ofegante,
ele se levantou, caminhou até a janela e olhou para fora. A lua esta‑
va cheia e se embalava no berço formado pelos ramos do grande
carvalho que se erguia por trás de Collinwood. Refletia­‑se nas te‑
lhas de ardósia do telhado da torre redonda e ao longo das paredes
de pedra, cobertas de trepadeiras grossas que lembravam veias. Sua
luz flutuava pelo pórtico calçado com grandes pedras lisas, a ba‑
laustrada esculpida e as janelas ogivais com caixilhos de chumbo,
retas e verticais no primeiro andar, formando arcos mais acima,
iluminando os quartos em que dormia a família que ele considera‑
va como sendo a sua.
Como sempre, o luar o seduzia e ele ansiava para andar lá fora,
sentindo a prata líquida correndo em suas veias ao invés de sangue.
Mas ele foi tranquilizado pelo primeiro pensamento que lhe per‑
passara a mente, no próprio instante em que acordara, e ainda po‑
dia recordar a voz incrédula de Júlia em um desvão de sua memória:
“Barnabas! Nós conseguimos! Você está curado!” A percepção de
que ele não era mais uma criatura da noite e que, finalmente, podia
retornar ao escurecer para seu leito, com a consciência limpa, e se
levantar ao nascer do sol — essa simples aceitação de um dom

13

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 13 29/05/12 19:11


Lara Parker

ansiado tão profundamente e todavia tão pouco apreciado pelos


homens comuns inundou sua mente com uma alegria desesperada.
Do ponto em que estava parado junto à janela, ele mal podia
distinguir, lá bem distante, além do bosque, a Casa Velha aninhada
em um prado, brilhando com a fantasmagoria de um templo grego.
Ele sentiu um palpitar de nostalgia e, ao mesmo tempo, de uma
fascinação maligna. A casa possuía uma beleza neoclássica gracio‑
sa, mal localizada entre os bordos e cicutas da Nova Inglaterra e ele
imaginou, como já fizera tão frequentemente no passado, um lar
totalmente voltado à música e ao riso, bailes encantadores com can‑
delabros cheios de velas acesas e casais girando, as lindas moças em
suas saias rodopiantes nos braços de jovens cavalheiros elegantes.
As numerosas salas seriam atendidas por escravos bem­‑humorados
que assavam veados com temperos finos, passavam a ferro as rou‑
pas de linho e poliam as baixelas e faziam todas as coisas necessá‑
rias para que a feliz aristocracia rural pudesse prosseguir sem
preocupações no gozo de suas confortáveis vidas de prazeres.
Mas esse não tinha sido o destino daquela mansão condenada,
escondida em uma fria cidadezinha da Nova Inglaterra, ainda que
magnólias pendurassem seus botões de marfim por sobre o grama‑
do. Em vez disso, a lua lançava um brilho gélido sobre o edifício
pálido, apagando a impressão de qualquer ambiente de calor ou
alegria. Abandonado agora, não era um templo, mas um sepulcro,
seus quartos vazios ainda reverberando com os passos de gerações
da família Collins, em que ele mesmo tinha habitado, e onde, mais
tarde, até mesmo se escondera a dormir em um compartimento do
porão, depois partindo, somente para retornar de novo para
Collinwood em outro disfarce, como se fosse um primo ou um
parente distante.
Recordar agora estas lembranças era o mesmo que provar um
fruto passado, muito nojento e podre. “Tão parecido com Barna‑
bas”, diziam sempre. “Ora, você podia ser gêmeo dele!” E igual que
antes, ele era bem recebido pela família incestuosa, abraçado pelos
segredos e as culpas que ninguém mencionava e que isolavam e

14

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 14 29/05/12 19:11


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

distanciavam a família do mundo exterior. “É espantoso. Como ele


é parecido com o retrato...”, eles murmuravam uns para os outros.
E ele, suportando a vergonha e os horrores indizíveis, tinha per‑
manecido entre eles durante sete gerações, pretendendo uma seme‑
lhança de normalidade, morto, mas não morto, suas fomes macabras
crescendo e diminuindo ao longo dos anos de experiências. Suas
esperanças transbordavam em vagas promessas, somente para tom‑
bar vezes sem conta em total desespero enquanto as garras inexorá‑
veis da maldição, como algemas de ferro, se retorciam novamente
ao redor de sua alma.
Até agora.
Agora, final, inacreditável e inconcebivelmente — ele estava li‑
vre. “Barnabas! Nós conseguimos! Você não é mais...” — seu rosto
se contraiu em uma careta somente pela recordação da palavra —
“um vampiro...”. A percepção de que ele estava curado ainda era
difícil de aceitar. Ele tinha vivido por tanto tempo como um prisio‑
neiro de suas fomes abomináveis.
Ele abriu os postigos e respirou o ar fresco da noite. Sentiu o
cheiro do mar, úmido e pungente e o leve nevoeiro que subia dos
amplos gramados da fazenda, adocicado pelo perfume das gardê‑
nias e dos narcisos em botão. Uma coruja piou duas notas trêmulas
e uma outra lhe respondeu à distância. A atração do luar era forte
enquanto revelava o mundo abaixo em detalhes nítidos e brilhan‑
tes. Tudo parecia tão claro quanto o dia, somente vazio de cores. As
tonalidades de cinza eram infinitamente variadas e o conjunto ti‑
nha a textura de um chiaroscuro divino que esculpia cada objeto. Ele
ainda conseguia ver o orvalho sobre a grama, a curva das folhas
grossas da magnólia e a perfeita carnação das flores.
Barnabas percebeu que seu controle retornava enquanto sua res‑
piração se acalmava e seus batimentos cardíacos retomavam seu rit‑
mo normal. Ele estava livre. Curado, finalmente. Humano. Por que
então ele ainda era assombrado por esses sonhos? Quase todas as noi‑
tes ele era acordado por uma corrida febril de lembranças vergonho‑
sas. Se aqueles anos horríveis, aqueles séculos de angústia estivessem

15

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 15 29/05/12 19:11


Lara Parker

realmente atrás de si agora, se sua vida fosse finalmente tornar­‑se


fácil e normal, desdobrar­‑se da maneira mais comum à medida que
ele envelhecesse, ficasse velho e morresse — como qualquer outro
homem — por que então ele ainda era atormentado por essas visões
da vida que tivera antes? Sem dúvida, elas logo acabariam por fene‑
cer e desapareceriam para sempre.
Um cão uivou, longa e melancolicamente e outro respondeu, la‑
mentoso, solitário, prisioneiro da noite e Barnabas reconheceu aus‑
teramente a presença de uma alma irmã. Ele também tinha
percorrido as extensões enluaradas daquele gramado, que abraçava
a escadaria de pedra e o caminho calçado com pedras largas, quan‑
do sua única interação social ocorria após o pôr do sol e as lareiras
eram acesas no grande salão. Somente então ele podia gozar da
companhia humana e começar a conhecer — talvez até mesmo
amar — os muitos membros da família Collins que consideravam
esta casa como seu lar. Fora aqui que tudo havia começado.
Fora quando ele recebera sua noiva que viera de Martinica, a
jovem de olhos escuros, pele de um branco de alabastro e sorriso
radiante, sua amada Josette. Fora também nessa ocasião que sua
criada viajara com ela, a raposa de olhos verdes que havia assom‑
brado e destruído sua vida, a misteriosa e linda Angelique.
Barnabas estremeceu, pensou em fechar a janela, mas se sentia
capturado pela luz do luar a derramar­‑se sobre a mansão distante e
pela melancolia que crescia dentro de seu próprio peito. Porque esta
era, dentre todas as noites, justamente a última em que a velha casa
permaneceria erguida sobre seus alicerces.
Ele e Júlia tinham concordado, depois de muitas discussões com o
resto da família, algumas delas acaloradas, que a casa antiga deveria
ser demolida e arrasada até os alicerces. A companhia de demolição
chegaria na manhã seguinte. Talvez esse conhecimento fosse respon‑
sável pela intensidade de seu sonho e ele esperava que, com a destrui‑
ção da casa, suas lembranças angustiantes também partissem. Júlia
tinha razão. Era ridículo conservar em pé a Casa Velha quando já
fazia dois séculos que a família habitava a nova e elegante mansão, a

16

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 16 29/05/12 19:11


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

Casa Grande de Collinwood, em que agora ele dormia e acordava


para caminhar à luz do sol. A Casa Velha estava mesmo apodrecendo
em seu abandono, tornara­‑se quase uma ruína. Somente o luar lhe
emprestava solidez. Suas salas estavam vazias e desertas. Tinha sido a
residência de fantasmas por um tempo longo demais.
Barnabas estremeceu novamente e agora era de fato devido ao
frio. Os cães que uivavam gemeram novamente, como se prantean‑
do por alguma caverna confortável, perdida quando seus ancestrais
ainda viviam em alcateias, e ele estendeu os braços para fechar a
janela contra o ar da noite. Nesse mesmo instante, uma lufada de
vento correu pelas árvores, sacudindo seus ramos negros para um
lado e para o outro, enquanto a própria lua parecia girar no céu. Ele
lançou o olhar por sobre as águas­‑furtadas do telhado e depois para
o gramado e mais uma vez estremeceu de susto, a respiração tran‑
cada na garganta. Porque havia visto, ou pensara ter visto, o vulto
de uma mulher parada sob a sombra das árvores.
Ele somente vira uma silhueta, mas ela estava vestida totalmente
de branco e a barra de suas saias roçava a grama do chão. Ela usava
uma capa que lhe cobria os cabelos e ocultava­‑lhe o rosto, mas o
ângulo de sua cabeça parecia indicar que ela estava olhando em
direção à janela em que ele se encontrava e ele pensou fitar o brilho
que emanava do olhar dela.
Seria uma visão conjurada por suas reminiscências? Teria ele
permitido a seus sonhos e reflexões invocarem espíritos? Mas não,
aquilo não era nenhum fantasma. Ela permanecia ali, claramente
desenhada contra as janelas compridas da ala ocidental da Casa Ve‑
lha. E então, ela se virou e começou a caminhar, desaparecendo na
escuridão das árvores.
Quem poderia ser essa mulher? Talvez seu carro tivesse sofrido
uma pane na estrada e ela tivesse se aventurado pelo longo cami‑
nho da entrada para a mansão até o ponto em que, intimidada
pelas janelas escurecidas, tivesse ficado com medo de chegar e
bater­‑lhes à porta a essa hora da noite. E agora ela estava perdida,
incapaz de achar o caminho de volta para a estrada. A curiosidade

17

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 17 29/05/12 19:11


Lara Parker

começou a bater as asas como uma mariposa contra a janela da


razão, porque o remorso de suas lembranças estava tão ativo como
sempre estivera. Ele se flagrou calculando se poderia ser alguma de
suas antigas vítimas, talvez a jovem de seu sonho, alguma alma
penada em busca de recompensa, ansiosa por consolo, ainda va‑
gueando pelo purgatório dos não­‑mortos. Enquanto buscava seu
chambre e seus chinelos, ele sorriu amargamente perante os capri‑
chos de sua imaginação. Não havia assombrações vagueando esta
noite. Contudo, quem seria ela? Se estivesse em dificuldades, era
sua obrigação ir ajudá­‑la.
Enquanto se movia através do quarto, ele viu de relance o reflexo
de sua imagem no maciço espelho de moldura dourada que se er‑
guia sobre o toucador. Recordou o tempo em que não tinha sido
mais capaz de ver sua própria imagem nos vidros, e o reflexo o dis‑
traiu por um instante. Ali estava ele, iluminado pelo luar, um cava‑
lheiro elegante, com cabelos escuros levemente crespos e apenas
começando a ficar grisalhos nas têmporas. Era um homem de li‑
nhagem sofisticada, até mesmo aristocrática e seu rosto mostrava
traços de nobreza: malares amplos, nariz aquilino, olhos escuros
como carvão protegidos por sobrancelhas grossas, uma boca deli‑
cada e sensual, lábios que se curvavam em um sorriso secreto e en‑
cantador, erguendo­‑se apenas levemente nas suas comissuras. Era
uma face de sensibilidade delicada, o rosto de um poeta. Contudo,
ainda brilhando como brasas nas profundezas de seus olhos, apare‑
cia um olhar tão intenso que era quase ferozmente hipnótico.
Enquanto caminhava pelo longo corredor até a escadaria, Bar‑
nabas passou pela porta do quarto de Júlia. Por um momento, ele
hesitou, imaginando se deveria acordá­‑la e pedir­‑lhe que fosse in‑
vestigar em seu lugar.
Ele lhe havia feito uma solene promessa de interromper todas as
suas visitas à Casa Velha. Esta tinha sido uma das condições para
sua cura através das longas semanas de convalescência. Ele pensou
em sua paciência e em seu profissionalismo, em suas experiências
incansáveis, nunca cedendo ao desespero, uma cientista em sua

18

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 18 29/05/12 19:11


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

obra, pesquisando, testando, levantando hipóteses, sempre cheia de


otimismo. Querida Júlia... Ele sabia que seu motivo era o amor; ela
era mais devotada que qualquer outra mulher que jamais tivesse
conhecido. Sua força se encontrava em seus conhecimentos. Ela o
salvara e era apenas justo que se tornasse sua esposa. Ela havia fala‑
do com tanta seriedade, suas vistas brilhando sobre as altas maçãs
do rosto: “Você é como um alcoólatra, Barnabas, que não poderá
jamais tomar uma única gota de vinho, percebe? Prometa­‑me que
jamais irá retornar àquele lugar...”
Esta era a razão porque ele hesitava agora, mas então decidiu que
somente iria percorrer o gramado e se adiantou resolutamente até a
grande escadaria que conduzia ao vestíbulo.
O luar envidraçava a entrada com seu lustro gelado. Enquanto ca‑
minhava em direção à porta, ele olhou brevemente — como já fizera
milhares de vezes antes — para seu retrato pendurado na parede, que
todos imaginavam ser somente uma pintura de seu ancestral, o pri‑
meiro Barnabas Collins. Ali estava ele, usando a indumentária de
um cavalheiro do século XVIII, segurando sua bengala e a demons‑
trar grande autoridade, o castão de prata esculpido no formato da
cabeça de um lobo. Sacudindo a cabeça tristemente, abriu a porta e
ingressou no mundo da noite.
Barnabas se deslocou ao longo da relva úmida em direção ao
bosque. O vento sacudia os galhos das árvores e um chuvisco de
folhas se espalhava sob seus pés. O orvalho escorria generosamente
das folhas longas das ervas e o aroma de ameixeiras e cerejeiras em
botão perfumava o ar. A coruja merencória novamente entoou suas
notas em timbre de oboé, e Barnabas ergueu os olhos para ver o
grande pássaro deslizar sobre sua cabeça em um silêncio surpreen‑
dente. Suas amplas asas fecharam uma rápida cortina contra a luz
da lua e deixaram uma sombra móvel sobre a grama. Barnabas qua‑
se teve uma vertigem ao perceber a longa silhueta negra que ele
também lançava sobre o gramado.
Mas ele era o único ser humano a vaguear pela paisagem e sua
antiga solidão amarga doía­‑lhe no coração. A mulher não podia ser

19

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 19 29/05/12 19:11


Lara Parker

vista em lugar algum. Desvanecera­‑se totalmente e ele se indagou se


não a havia simplesmente imaginado.
Contudo, alguma coisa ainda o puxava e o arrastava para mais
além. Ele chegara à orla do bosque. Como em um sonho, ele cami‑
nhou pesadamente por entre as árvores, buscando a alma penada
que lhe fugira, ainda sem nada ver. Somente os troncos escuros o
encaravam, até que ele notou, mais uma vez, a forma inconfundível
do pássaro, desta vez pousado em um ramo longo que se projetava
de um grande carvalho. À medida que se aproximava, a coruja vol‑
tou sua cabeça redonda em sua direção, olhando para baixo, pare‑
cendo cheia de curiosidade. Então alçou voo novamente, como uma
vela enfunada pelo vento, suas asas prateadas pelo luar, enquanto
flutuava acima da copa das árvores.
Barnabas pensou em retornar. Algum pressentimento vago pe‑
sava em seu peito, mas ele prosseguiu, atravessando uma clareira e
depois atingindo a seguinte.
Misteriosamente, seus pensamentos se voltaram para Angelique
e seu último encontro. Nesse momento, sua morte o havia comovi‑
do até a compaixão. Depois de ter causado vidas inteiras de sofri‑
mento, ela parecia estar profundamente contrita e havia tentado
uma última vez retirar a maldição de sobre ele. “Será possível que
você me possa perdoar?”, ela sussurrara. “Tudo quanto eu fiz, foi
por amar você...”
Ele tinha sido atraído mais uma vez por aqueles olhos verde­
‑azulados, marejados de lágrimas e havia fraquejado. Seus lábios pró‑
ximos à sua face, ele murmurara: “Sim, eu te perdoo. Eu te amo. Eu
sempre te amei”. Antes que ela morresse, ele proferira essas palavras!
Que tipo de pacto havia feito através da eternidade que jamais
o libertava de suas garras? Não obstante, ele se maravilhara com a
beleza do rosto dela, mesmo na morte. Encantara-se com o for‑
mato de seus braços e a curva de seus ombros enquanto ela tom‑
bava contra ele.
Mais de um século antes, ele falhara em suas responsabilidades
para consigo mesmo e para com sua família e arriscou tudo quanto

20

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 20 29/05/12 19:11


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

tinha, amor, juventude e a própria vida, somente para permanecer


com ela. Por quê? Ela representava tudo o que ele desprezava: a
identidade de seu pai era questionável, ela mesma traiçoeira, violen‑
ta e despida de virtudes. Mas acendera um fogo dentro dele; mesmo
agora, ele recordava a agonia pura de desejá­‑la…
Naquela primeira noite, depois que ele a mandara embora, An‑
gelique havia caminhado até a porta, suas saias flutuando como
ouro derretido sobre o tapete. Então, ela se voltara para lhe lançar
as vistas sobre um ombro, seu olhar tão firme e direto, tão cheio
com a promessa de abandono, seus olhos opalinos ao mesmo tempo
escuros e luminosos, uma gota de saliva brilhante em seu lábio in‑
ferior, um olhar tão conhecedor e tão conectado ao seu, que ele se
afundou naquele mar. Ela era seda líquida quando lhe estendera os
braços, com um odor totalmente seu, como o de ervas crescendo à
beira­‑mar e seu beijo era como o recordava, tão completo e tão
úmido quanto ele havia imaginado, enquanto seu corpo inteiro
palpitava para ela, pensando que seria capaz de viver dentro de sua
boca. Depois tinha perdido toda a lembrança de si mesmo e mergu‑
lhara na ferocidade daquele abraço, enquanto ela sugava a medula
de seus ossos e os enchia com seu próprio fogo.
Barnabas estremeceu só de pensar nela novamente. Sem dúvida,
ela fora a perseguidora e ele fora hipnotizado pelo poder que fluía
dela. Quantos milhares de vezes ele revirara os fatos ao redor de sua
mente, arranjando e rearranjando os dados, até que se sentira com‑
pletamente sem culpa e inocente. Barnabas perdera sua alma para
Angelique. Pelo menos durante algum tempo isso fora verdade. Ti‑
nha plena certeza disso. Ela fora um êxtase maior do que qualquer
homem podia ou deveria conhecer.
Naquele instante, antes de sua morte, ele falhara na força de sua
resolução e lhe dissera as palavras que ela ansiava por ouvir. Mais uma
vez ele imaginou como poderia ter sido tão infiel à sua terna Josette...
Josette! Sua mente imaculada e sua doçura radiante eram tão
reais para ele agora como tinham sido no dia em que a conhecera.
Ela fora educada com o maior esmero, era cheia de bondade, tinha

21

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 21 29/05/12 19:11


Lara Parker

maneiras deliciosas e uma conversação encantadora. Subitamente,


ele sentiu um desejo avassalador de contemplar o túmulo de Josette,
de ficar em pé ao lado daquele lugar em que sua família a enterrara
após sua fuga desesperada do horror em que ele se tornara.
Ele estava cansado, até mesmo exaurido por sua busca fútil atra‑
vés dos bosques, mas decidiu caminhar até o cemitério. Tinha cer‑
teza de que, caso ficasse junto à sepultura de Josette, aquela sensação
doentia em seu estômago seria aliviada.
Já fazia bastante tempo desde a última vez em que subira o recife
até Widows’ Hill. Estava ofegando em consequência do esforço,
porque raramente se exercitara desde sua cura. Ele se resignou ao
fato de que não mais possuía aquela força com que se acostumara
enquanto era um vampiro, quando a ascensão de um rochedo ou a
travessia de um prado era alcançada pelo voo de um instante sobre
as asas do vento. Quando chegou ao local de onde Josette se lançara
para a morte, sentiu a salsugem do ar e ouviu as ondas se esbatendo
lá no fundo. Contemplou o mar escurecido. A lua pairava agora na
fímbria do horizonte, seu luar pintalgado flutuando através das
águas. Ele se virou e dirigiu­‑se ao cemitério.
Finalmente, chegou à entrada do local de repouso da família
Collins. O portão de ferro estava profusamente entrelaçado pelas
gavinhas de um jasmineiro, o ar docemente perfumado; podia ain‑
da distinguir outro aroma, o de gardênias tropicais, pesado no ne‑
voeiro, suas flores abertas nos galhos dos arbustos que pareciam
negros sob o luar e cresciam ao lado do portão. De onde se encon‑
trava, era possível avistar o mausoléu e as gárgulas esculpidas sobre
a cripta em que passara tantos dias adormecido até o pôr do sol,
escondido por detrás de uma porta de pedra, dentro de seu velho
ataúde. Seu coração batia de antecipação enquanto ele marchava até
o local em que sabia Josette fora enterrada, recordando­‑se de quan‑
tas vezes no passado distante ele se aproximara dali e ficara rezando
por sua alma durante horas.
Mas alguma coisa o confundira. A sepultura de Josette não se
achava no lugar que ele lembrava. Ali havia somente lápides caídas

22

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 22 29/05/12 19:11


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

e marcadores apagados, cabeças esculpidas e uma estátua vitoriana,


que um dia fora elegante, mas que fora desgastada pela passagem do
tempo. Havia sepulcros sobre os restos dos falecidos e aqui e ali um
sarcófago de pedra se erguia acima do solo. Ele começou a vaguear,
procurando entre as pedras tumulares, desorientado e zangado
consigo mesmo. Teria sua mente perdido a força, do mesmo modo
que seu corpo, em consequência de sua transformação? Começou a
ficar impaciente com sua inabilidade de encontrar o lugar de des‑
canso de Josette. Mas como poderia ser possível esquecer de uma
coisa tão importante para ele? Começou a retraçar seus passos, pa‑
rando junto às lápides, limpando a terra e as folhagens com as mãos,
tentando ler os nomes obscurecidos pela escuridão das sombras.
Totalmente frustrado, ele se encontrou parado diante de um gran‑
de anjo de mármore, profundamente desgastado pelas intempéries e
parcialmente amaciado pelo musgo. Barnabas não tinha lembrança
de haver visto esse monumento antes. O anjo pairava sobre a tumba
que guardava como uma figura medieval retirada de uma catedral
gótica, suas asas escuras abertas contra o céu. O luar enganoso brin‑
cava com os traços rasgados pelas chuvas, dando a impressão de que
eram rugas fundas abertas por lágrimas. As dobras de mármore de
sua túnica pareciam mover­‑se levemente e flutuar para longe do cor‑
po. Por um longo momento ele ficou ali, mesmerizado pela visão ce‑
lestial e estendeu a mão para tocar a forma de uma perna oculta pelas
vestes, imaginando como o mármore era capaz de se disfarçar de tal
maneira a parecer macio como carne ou sutil como tecido, quando
não era nada mais que pedra fria e dura.
Então seus olhos caíram sobre a inscrição, claramente visível à
luz agora oblíqua do luar e seu sangue pareceu congelar! “Angelique
Bouchard, 1774­‑1796”. E ainda, um pouco mais abaixo, “o amor
dorme no abraço da morte”. Ficou horrorizado. Era o túmulo de
Angelique! Mas quem colocara aquele memorial sobre ele? Um
anjo! Santo Deus! Sem a menor dúvida, era a mais absurda das re‑
presentações, pensou, baseada superficialmente, talvez, no nome
dela, mas tão incongruente com a vida da mulher que representava.

23

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 23 29/05/12 19:11


Lara Parker

Ele estremeceu inconscientemente, uma vez mais, ao pensar nela


— Angelique — sua amante e sua nêmese, agora falecida, enquanto
ele, que a vencera para sempre, ainda respirava sobre a terra.
Subitamente, a imagem do anjo foi transformada em sua mente.
Não estava mais agraciada por uma santidade gentil, parecia antes ma‑
cabra e ameaçadora. Barnabas recuou, mais perturbado do que curio‑
so e sua busca pelo túmulo de Josette havia perdido toda a importância.
Ele começou a caminhar de volta até o portão, pretendendo retornar a
Collinwood, quando viu de relance a mulher que contemplara um
pouco antes — atrás das lápides mais afastadas. Era ela!
Ela se movia rapidamente, sua forma esfumaçada balançando
entre as tumbas. Sua garganta se apertou e uma nova energia pul‑
sou em seus membros. Desta vez, ele estava determinado a fazê­‑la
parar e correu em direção à sombra como se ela representasse sua
liberdade da escuridão.
Alguns momentos depois, surpreendeu­‑se ao se encontrar fora
do cemitério e no terreno que rodeava a Casa Velha. A mansão pa‑
recia flutuar à luz do luar, como um palácio fantástico. Ele chegou
aos degraus de tijolos desgastados e sua mão tocou um grande pilar
alabastrino. Sentia­‑se ofegante. O pórtico se achava deserto e so‑
mente o vento assobiava por entre as colunas, lançando folhas co‑
bertas de geada pelo longo corredor da entrada. Não podia ver a
mulher em parte alguma, estava intensamente desapontado e fu‑
rioso consigo mesmo por tê­‑la perdido. Sentia um pressentimento
vago de algum perigo e sacudiu­‑o de sua mente com impaciência,
até mesmo com cólera, enquanto subia os degraus.
E ali, de repente, à sombra do pórtico, ele a contemplou mais
uma vez. Alguma coisa em sua postura parecia indicar que ela espe‑
rava por ele. Percebeu a vitalidade em seus movimentos enquanto
ela se virava para a porta. A curiosidade agora queimava suas entra‑
nhas. Tinha certeza de que era um fantasma e que pretendia atraí­‑lo
para o interior da casa.
Novamente ele hesitou. Seria uma temeridade arriscar­‑se a en‑
trar ali? Ele estivera curado somente por um mês, mas a dor de sua

24

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 24 29/05/12 19:11


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

transformação se abatera e desembocara em um conjunto de peque‑


nos desconfortos aborrecidos, cada sinal apontando para o sucesso
da medicação e para a permanência de sua mudança. Contudo, já se
haviam passado muitos anos desde que ele sentira a necessidade de
experimentar aquilo que se costumava chamar de coragem. Ele ti‑
nha sido temerário e arrogante em sua mocidade, antes mesmo de
ser amaldiçoado, demonstrando um desejo intimorato por aventu‑
ras. Agora, mais uma vez, a vida lhe apresentava um desafio. Ele
estava ansioso por correr o risco, para experimentar sua força nova‑
mente contra os perigos do mundo, para retomar sua posição no
mundo dos vivos. E aquela casa lhe trazia tantas recordações! Ele
sentiu uma dor aguda de remorso pelo fato de que seria agora demo‑
lida. Subitamente experimentou um desejo violento de caminhar
através das salas e corredores pela derradeira vez. Empurrou a porta
pesada e deu um salto para trás quando as dobradiças uivaram como
um animal selvagem capturado em uma arapuca e o trinco aberto
caiu de volta no seu encaixe com um clangor metálico.
Barnabas foi saudado por um silêncio tão profundo, que teve a
impressão de que a casa inteira estava envolvida em veludo. Odores
ao mesmo tempo desagradáveis e familiares lhe assaltaram as nari‑
nas: o mofo nos tapetes e cortinados, a poeira acumulada em cama‑
das grossas sobre o mobiliário, as cinzas frias e úmidas na lareira e
o cheiro enxovalhado de coisas abandonadas havia muito tempo,
abrandado e amortecido por um véu de teias de aranha. Havia ain‑
da um outro cheiro, menos sufocante, mas igualmente vil — o fe‑
dor pútrido de decomposição e morte. Pairava no ar como filetes de
fumaça e parecia subir pelo assoalho, como se os ratos que haviam
vivido no porão da casa condenada tivessem morrido de fome e
apodrecido lá embaixo.
Ele atravessou a sala de visitas, o ruído de seus passos como uma
batida oca de tambores e olhou para fora pelas janelas ogivais com
caixilhos de chumbo. Pensou ter ouvido um som roçagante e se virou
para examinar a sala. Estava vazia, exceto pelas sombras. Então escu‑
tou o som novamente e se voltou para a lareira imensa. Percebeu que

25

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 25 29/05/12 19:11


Lara Parker

uma caixa de compridos fósforos de madeira tinha sido aberta e os


palitos jaziam ali contra os tijolos refratários do fundo da lareira,
mas a chaminé estava escura e fria. Acalmou seus nervos, fechou os
olhos e escutou. Fantasiou que o ar estava sendo agitado por cochi‑
chos e murmúrios vagos, mas esperou, até ter certeza de que não
escutava nada senão as batidas abafadas de seu próprio coração.
Moveu­‑se com determinação através do vestíbulo e subiu a larga
escadaria de balaústres pesados até os quartos do primeiro andar,
em que Joshua, Naomi, Jeremiah, Sarah e tantos outros haviam
dormido. Um fantasma entre fantasmas, ele percorreu cada quarto,
seu olhar recaindo sobre alguma textura ou padrão dos tapetes e
colchas que sua memória recordava. Todas as pinturas e artigos va‑
liosos tinham sido retirados dali há muito tempo. Mas ainda havia
papéis e fotografias, peças de roupa descartadas, berloques e artigos
de toalete — os fragmentos indesejados de vidas inteiras — empi‑
lhados sobre as cadeiras desirmanadas ou jogados pelo chão.
Sentindo uma tristeza inescapável, foi olhar o quarto de Josette.
As lembranças relampejaram em seu olhar interior e acariciaram
seus sentidos enquanto ele revivia o frescor e a doçura de seu rosto.
Recordou com uma dor vazia a delicadeza da mão que ela erguia
para ser beijada, a modéstia de seu olhar quando tinham sido apre‑
sentados pela primeira vez e sua voz gentil: “Monsieur Collins. Meu
pai me contou que você veio da América do Norte e que é um cava‑
lheiro de reputação e encanto invejáveis. É um prazer conhecê­‑lo”.
Atraído pelo corredor traseiro, em que ficavam as acomodações
dos criados, ele estava agora parado diante da porta do quarto de An‑
gelique, uma das poucas que estavam fechadas. Seu coração pulou
uma batida enquanto ele imaginava mais uma vez escutar o suave
som de roçagar e alguma coisa que se assemelhava a um suspiro. Fez
uma pausa e então, descartando sua tola apreensão, girou a maçaneta.
O quarto estava gélido, porque a janela fora deixada aberta. Bar‑
nabas recordou­‑se das poucas vezes em que havia entrado neste quar‑
to em dias passados. Era bastante semelhante aos outros, embora
menor e menos refinado e ele percebeu, com um certo desgosto, que

26

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 26 29/05/12 19:11


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

seu relacionamento com Angelique em geral ocorrera no seu próprio


quarto de dormir, na sala de visitas ou em outros pontos da mansão.
Ele sempre sentira uma certa resistência em entrar ali e, das vezes em
que o fizera, tivera simplesmente o propósito de desculpar­‑se.
Com uma dor aguda de remorso, ele se recordou da noite em que
lhe pedira perdão, esperando que pudessem ser amigos, dizendo
que sempre pensaria nela com afeto e ela, com sua sedução diabóli‑
ca, lhe murmurara, dominando­‑o, derretendo sua resolução: “Min‑
ta para mim”, lhe sussurrara. “Se todas as suas palavras bonitas
foram mentiras, então minta para mim de novo.”
Com um estremecimento, ele olhou a cama estreita, de fato mais
um catre que uma cama, mas com travesseiros de cetim; e então gi‑
rou o olhar para o pequeno toucador, um resto ambarino de perfume
seco no fundo de um frasco de cristal. Um roupão verde desbotado,
que ele reconheceu perfeitamente, com rendas meio rompidas ao re‑
dor da gola, estava pendurado no guarda­‑roupa aberto. Uma única
luva enrugada e um chapeuzinho com uma pluma de avestruz frouxa
estavam na gaveta de cima, grossos de poeira.
Ele estava a ponto de se virar para ir embora, quando o frágil
tecido de organdi que ainda meio recobria as vidraças balançou na
brisa e sua franja rasgada se ergueu por um momento, antes de cair
de novo. Ele pensou que esta deveria ser a fonte do som que escuta‑
ra anteriormente porque, mesmo que a noite estivesse agora tran‑
quila, uma lufada de ar ainda sacudia a cortina. Enquanto olhava, a
brisa ficou mais forte e fez correr as páginas de um pequeno livro
que jazia entre a poeira do tampo de uma mesinha ao lado da jane‑
la, quase como se dedos invisíveis o estivessem a folhear.
Barnabas avançou para fechar a janela, percebendo o absurdo de
seu gesto, já que a casa seria demolida na manhã seguinte e come‑
çou a sentir­‑se um pouco envergonhado, ao invadir, depois de tan‑
tos anos, este lugar privado que pertencera a alguém que ele
conhecera havia tanto tempo. Melhor deixar que tudo fosse demo‑
lido com seus segredos, enterrado sob a terra. Este quartinho, pen‑
sou, traía as raízes provincianas de Angelique. Ela nascera, afinal de

27

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 27 29/05/12 19:11


Lara Parker

contas, para não ser mais do que uma criada, apesar de suas preten‑
sões à fortuna e nobreza. Nada havia neste pequeno quarto que fa‑
lasse de uma natureza aristocrática.
E contudo, ela estivera determinada a se tornar sua esposa, até
mesmo tentara forçá­‑lo a se casar com ela. Ela havia retornado in‑
findavelmente, em cada uma de suas vidas, para zombar dele e
persegui­‑lo com seus desejos insaciáveis.
Houvera ocasiões em que o rancor que sentira por ela fora tão
intenso, que ele chegara a planejar sua morte e outras vezes em que
ele ansiara por ela com uma luxúria incontrolável, feroz e incalcu‑
lável. Houvera ocasiões em que ele soubera no fundo de seu coração
que somente ela entendia o seu tormento, por ser a causa dele; e que
somente ela compartilhava com ele seus segredos desesperados e
seu profundo conhecimento do mal. Nesses momentos, ele se per‑
mitira um senso de unidade com ela e mesmo algo próximo de —
caso ele ousasse pensar em tal coisa — alguma coisa semelhante ao
amor. Se o amor é o primo do ódio, a única outra emoção capaz de
consumir tudo o mais, então era verdade que ele sentira por ela um
amor amargo, intenso e sem remorsos.
Ele estendeu as mãos para os postigos. O quarto de Angelique ficava
no lado da casa que dava para o mar e lá, bem distante, o luar ainda
flutuava, reluzente como um regato de prata, sobre a superfície das
águas. Barnabas começou a tremer, porque a casa estava prenhe de re‑
cordações assustadoras. Ele não mais possuía a força de seus vinte anos
ou o poder indomável de um apóstolo do Diabo. Era agora um homem
comum e tão vulnerável quanto qualquer outro, não somente a perigos
físicos, como à praga do terror. Cometera um grande erro em vir aqui.
Ficou parado junto à janela, com medo de se mover, embora a ânsia
que sentia agora de fugir dali fosse tão forte como uma dor física.
Novamente, uma brisa fria varreu o quarto. As páginas do livrinho
se moveram como antes e, inegavelmente, ele escutou um suspiro e
depois um leve gemido — como o gemido do prazer durante o amor
— seguido de outro longo suspiro. Os cabelos de sua nuca se horripi‑
laram e subitamente, teve plena certeza de que ela se encontrava ali.

28

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 28 29/05/12 19:11


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

Ele se virou e a viu, seu sangue virando gelo em suas veias. Ela
estava deitada na cama estreita, que recém-estivera totalmente va‑
zia, suas roupas transparentes espalhadas ao redor dela como o te‑
cido do luar. Sob seu nevoeiro enfumaçado, ele podia ver a
respiração de seu corpo e as curvas graciosas de suas coxas. Ela lhe
estendia seus braços de marfim e ele contemplou de relance o brilho
de seu olhar e o convite em seu sorriso. Com um esforço selvagem,
ele recuou, girou nos calcanhares e se lançou em direção à porta.
Correu como um louco, tropeçando pelo corredor escuro, sem
parar até que chegasse à sala de visitas obscurecida. Ele mergulhou
em direção à lareira, suas mãos tremendo desajeitadamente por so‑
bre os fósforos espalhados, tateando, quebrando, amaldiçoando, até
que, finalmente, conseguiu acender uma chama minúscula. Ele a
segurou entre as mãos em concha, as palmas tremendo, caiu de jo‑
elhos e encostou a flama à fímbria da cortina mais próxima.
O veludo esgarçado pegou fogo imediatamente e reluziu, en‑
quanto uma corrente de fogo subia pela beirada do tecido e hesitava
por um momento abaixo da costura grossa da franja dourada, antes
de explodir em chamas. O fogo chiou até em cima, mais alto que as
janelas, empapando a sala com uma aura dourada, enquanto canta‑
va com o som de um incêndio. Ele arrancou fora a cortina e uma
parte dela caiu no chão, já em chamas, e ele a arrastou em direção a
uma tapeçaria desbotada que também começou a arder. Agora a
sala inteira reluzia com as chamas do Inferno e estava cheia do som
de um rugido, ensurdecedor e implacável. E depois, enterrado nas
profundas desse som — reverberando, pulsando, troçando dele —
escutou o eco do riso enregelante de Angelique.
Barnabas pulou porta afora, fugindo através da noite e só conse‑
guiu parar quando já estava em seu próprio quarto na mansão de
Collinwood. E lá, através da segurança de sua janela fechada, ele
pôde ver o brilho que rasgava a fímbria da noite, enquanto a Casa
Velha ardia como a tocha de um vulcão distante refletida contra a
escuridão do céu.

29

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 29 29/05/12 19:11


Dois

luz do sol corria em serpentinas através das janelas ogivais de


caixilhos de chumbo pelo pavimento da elegante sala de jan‑
tar em que a prataria e as porcelanas cintilavam sobre a toalha de
damasco branco. A matriarca de Collinwood, Elizabeth Collins
Stoddard, seu irmão Roger, sua filha Carolyn e Júlia já se haviam
assentado para o desjejum, falando em voz baixa, e Barnabas perce‑
beu que ocorrera uma pausa abrupta na conversação no momento
em que ele aparecera.
— Está uma linda manhã! — falou alegremente, ignorando a
seriedade da atmosfera enquanto se sentava, estendia a mão para
um guardanapo de linho e o desdobrava sobre suas calças de vinco
impecável. Forçou sua concentração sobre o buquê de junquilhos e
anêmonas na floreira colocada ao centro da mesa, seus alegres tons
de creme e de escarlate flutuando como aquarelas impressionistas
contra o pergaminho trabalhado da toalha de damasco. A noite que
passara sem dormir o deixara exausto; uma dor quente criava es‑
pasmos em seus ombros e seus olhos ardiam como se partículas de

30

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 30 29/05/12 19:11


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

areia tivessem sido capturadas pelas sobrancelhas. Mas estava de‑


terminado a conservar sua compostura e murmurou um “obriga‑
do” polido à Sra. Johnson quando ela serviu o café fragrante em sua
chávena. Foi sua prima Elizabeth que quebrou o silêncio opressivo.
— Barnabas, temos uma notícia terrível para lhe dar.
Ele ergueu os olhos em uma máscara de indagação. Elizabeth ain‑
da era um tipo de beleza. Nesta manhã, seus cabelos negros e lustro‑
sos tinham sido arrepanhados de suas faces e ela usava o colar de
pérolas de que ele gostava tanto. Sua voz trazia a rouquidão dos pri‑
vilegiados, seu sotaque fluente em suas vogais longas, com a entona‑
ção levemente nasal dos norte­‑americanos das classes superiores.
— O que foi? — indagou Barnabas com ingenuidade aparente.
— Temo que você se sentirá devastado por ela — falou, à guisa
de introdução. Ele ainda recordava da debutante que, aos dezessete
anos, entrara tão graciosamente no baile, de braços dados com seu
pai. Sua pele, pensou consigo, era muito semelhante à taça cuja alça
ele trazia entre os dedos, da mais pura porcelana irlandesa, branca
como a neve, fina como seda e translúcida. Neste momento, os cí‑
lios grossos disfarçavam seus olhos de ébano e uma pequena ruga
de preocupação aparecia no centro de sua testa.
— Bem, o que foi que aconteceu? Diga­‑me, Elizabeth, por favor...
— Durante a noite passada... a Casa Velha se incendiou e
queimou­‑se até os alicerces.
— Você não está falando a sério! — exclamou Barnabas, erguen‑
do seu guardanapo até os lábios. Sentia um vaso sanguíneo pulsan‑
do em uma das têmporas.
— Estou surpresa por você não ter acordado.
— Ora, não... não acordei, não escutei nada. Absolutamente
nada. Que coisa mais dolorosa! — seus lábios tocaram a superfície
lisa do guardanapo e ficou abalado com sua tendência imediata
para recair na mendacidade. As mentiras vinham fáceis, como se
fossem a própria substância de seus pensamentos.
— Willie foi o primeiro que viu — continuou Elizabeth. — Ele
acordou antes da aurora, viu a fumaça e foi acordar a Sra. Johnson, que

31

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 31 29/05/12 19:11


Lara Parker

então me trouxe a notícia. Chamamos os bombeiros, naturalmente,


mas quando eles chegaram, a casa estava praticamente destruída.
— Alguma coisa... alguma coisa se salvou? — indagou Barnabas.
— O esqueleto da casa ainda está em pé, as colunas do pórtico...
Mas o interior inteiro desabou, lamento dizer. Oh, Barnabas, eu
lamento tanto...
— Chocante... realmente... — ele murmurou.
— Meu Deus! E por que essa conversalhada toda? — soou uma
voz da ponta da mesa, com evidente desprezo. — Finalmente nos
livramos do velho cadáver.
Roger — o patriarca da família, com aristocráticos cabelos louros
quase embranquecidos — falou com o desdém glacial e os padrões
cultivados da fala de um ator shakespeariano. Suas sobrancelhas pe‑
sadas e ainda louras se curvavam no centro para manter­‑lhe a testa
franzida de forma permanente, a única característica perturbadora
em um rosto perfeitamente cinzelado.
— Eu pensei que você me havia dito, meu caro amigo, que a casa
seria demolida hoje?
— Sim, foi o que eu disse — concordou Barnabas. — A turma de
demolição deverá chegar a qualquer momento desta manhã. Isto
vai tornar bem mais fácil o seu trabalho, suponho — ele surpreen‑
deu a si mesmo pela cordialidade em seu tom de voz. Era como se
fosse outra pessoa falando. — Agora eles simplesmente podem em‑
purrar o que restou com um bulldozer.
— Perfeitamente, o incêndio veio mesmo a calhar — observou Roger.
Nesse momento, um rapaz de mais ou menos quinze anos, cabe‑
los claros e compleição robusta, entrou vigorosamente na sala e des‑
lizou para seu lugar de costume.
— Quero ir ver o que sobrou da Casa Velha! Quando posso ir até
lá, Tia Elizabeth? — exclamou, estendendo uma das mãos para os
pãezinhos cobertos de açúcar e canela.
— Não pode ir enquanto não tivermos certeza de que o fogo foi
totalmente apagado, David — decretou Elizabeth.

32

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 32 29/05/12 19:11


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

— Mas eu quero procurar suvenires no meio das cinzas!


— E eu insisto que primeiro você estude suas lições — disse ela,
severamente; David soltou um gemido de desgosto e afundou em
sua cadeira.
Elizabeth voltou­‑se para Barnabas.
— De que forma você pensa que o incêndio pode ter começado?
— indagou. — Não caíram raios a noite passada. Era lua cheia e o
céu estava claro.
— Talvez a Casa Velha tenha escolhido a maneira como queria
desaparecer — disse Carolyn, meditativamente. Era uma jovem
inquieta, frequentemente se mostrava aborrecida, estragada pelos
privilégios de que sempre gozara e querendo obter mais coisas da
vida. O que a diferenciava das outras garotas da sua idade — além
dos olhos azul­‑pálidos e de uma língua afiada — e lhe conferia
uma beleza tão grande que chegava a doer, eram seus cabelos,
longos e dourados, uma cascata rebrilhante que tombava abaixo
de seus ombros.
— Quanto mais cedo vendermos aquela propriedade, tanto me‑
lhor — continuou Roger — de preferência para um casal jovem que
esteja subindo socialmente, suponho eu, que construirá uma mons‑
truosidade moderna dedicada a um consumo evidente e a festas
deliciosamente aborrecidas.
Seu cenho franzido ficou mais profundo e seus olhos de um gelo
azulado se estreitaram.
— É evidente que todos nós seremos convidados e eles sentirão a
necessidade de tocar essa atroz música moderna. Mesmo que mi‑
nha vida dependesse disso, eu não conseguiria imaginar o que as
pessoas apreciam nesse tipo de baboseira sem tom.
— Bem, Tio Roger, o senhor não precisa ir, precisa? — indagou
Carolyn. Nada lhe teria agradado mais do que uma festa acompa‑
nhada por aquela atroz música moderna. Ela se voltou para Barna‑
bas. — Pois então, primo Barnabas, como você acha que aconteceu?
— Desculpe, não entendi — respondeu­‑lhe.
— O que foi que iniciou o incêndio?

33

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 33 29/05/12 19:11


Lara Parker

— Ora, não faço ideia — comentou Barnabas. Seu colarinho en‑


gomado estava começando a lhe apertar o pescoço e ele lamentou
sua tentativa matinal de se apresentar com todo o esplendor sarto‑
rial que lhe garantira seu alfaiate.
— Você tem certeza de que não foi até lá às escondidas e tocou
fogo na casa, só para economizar o preço da demolição? — pergun‑
tou a jovem.
Barnabas espantou­‑se com a rapidez que a intuição dela chegara
perto da verdade. Podia ver o divertimento brilhando nos seus
olhos e o sorriso malicioso em seus lábios. Hesitou. Não seria me‑
lhor falar a verdade? Mas não conseguiu se forçar a ser honesto.
— Acho que a equipe de demolição será necessária, pelo menos
para carregar os restos da carcaça... — respondeu, sem pensar muito.
— Será que eles têm um desses guindastes legais com uma imen‑
sa bola de aço balançando na ponta do guincho? — indagou David.
Elizabeth o encarou de testa franzida por causa da interrupção.
— Você deve ir até lá imediatamente, Barnabas — disse Roger
— para descobrir qual foi a causa do incêndio.
Júlia ergueu os olhos para ele, alarmada:
— Por que Barnabas tem de ir até lá? — inquiriu.
— Por quê? Porque a última coisa que nós queremos são rumo‑
res de um incendiário à solta, envolvendo visitas do xerife, esse tipo
de coisa — disse ele.
— Mas Willie já disse a Elizabeth que praticamente não restou
nada em pé. Sem dúvida, não é razão para que ele se dê ao incômodo...
— Claramente é responsabilidade de Barnabas assumir um inte‑
resse sobre os assuntos da propriedade. Desde que ela foi posta à
venda, tivemos diversos inquéritos. Qualquer coisa que possa afetar
o preço de venda deve ser também sua preocupação, Júlia, caso...
— falou Roger secamente e com irritação — você realmente venha
a se tornar um membro da família.
Há muito tempo ele vinha esperando com impaciência mal
disfarçada que Barnabas se envolvesse nos negócios, desde que

34

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 34 29/05/12 19:11


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

ele aparecera — um primo perdido havia muito tempo na Ingla‑


terra, com certo direito sobre parte da fortuna da família. E ago‑
ra, esta proposta de casamento dava a Roger razões ainda maiores
de preocupação.
Barnabas sentiu­‑se desconfortável sob o foco agudo das vistas de
Roger. Sua garganta se apertou e seu colarinho restringia sua respi‑
ração como o baraço de um carrasco. As necessidades de sua cura
tinham garantido constantes desculpas e compromissos e, natural‑
mente, suas ausências durante dias inteiros, o que havia simples‑
mente provocado o aborrecimento de Roger e o levado a questionar
tanto a integridade como o senso de propósito de Barnabas.
— Devo insistir que você investigue e então desça até a cidade
hoje à tarde. Faremos uma reunião em meu escritório. Há muitas
coisas que precisamos discutir e não meramente o incêndio da
Casa Velha, mas outros assuntos da maior urgência — declarou
Roger peremptoriamente.
— Mas Roger, Barnabas esteve muito doente — disse Elizabeth
a seu irmão com suavidade. — Ele ainda precisa de tempo para se
recuperar. Não é verdade, Júlia?
— Sim. Sim, isso está inteiramente correto — concordou Júlia,
procurando manter a voz calma e profissional. — A última coisa de
que precisamos é uma recaída. Tempo. E descanso. E o amor e apoio
de sua família...
Ela lançou um olhar em direção a Roger e sorriu genuinamente
em resposta ao brilho irritado que surgia de seus olhos. Roger a ig‑
norou, jogou o guardanapo sobre o tampo da mesa e se levantou.
Virou­‑se para Barnabas:
— Foi você que fez os preparativos para a demolição, contra meu
julgamento, se é que se recorda. Eu achava que a Casa Velha alcan‑
çaria um melhor preço se fosse vendida como um monumento his‑
tórico. Agora não passa de uma ofensa ao olhar. Presumo que os
caminhões devam estar a caminho. No mínimo, eu lhe agradeceria
se lidasse com essas dificuldades ainda hoje. Desde que não seja um
esforço demasiado grande.

35

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 35 29/05/12 19:11


Lara Parker

Ele girou nos calcanhares e saiu da sala de jantar.

* * *

Nervosamente, Júlia conduziu Barnabas estrada abaixo e dobraram


na longa colunata formada pelos vetustos plátanos, suas folhas re‑
centes de um verde brilhante, seus troncos salpicados de negro er‑
guidos em arcos fortes mas graciosos sobre a avenida. Ele sentia
horror pelo que tinha pela frente e tentou limpar a mente de todos
os pensamentos até que, finalmente, chegaram à grande estrutura
ainda fumegante.
Ela estacionou o Bentley e os dois desembarcaram. Era uma manhã
cálida de primavera e o ar estava doce com a fragrância dos botões de
flores. Ao longo do terreno, milhares de junquilhos se balançavam em
touceiras de amarelo amanteigado; os cornisos flutuavam como pelí‑
culas de nuvens, tão delicados que, só de vê­‑los, seu coração doía. Bar‑
nabas ansiara por gozar a luz do dia com todos os seus tons alegres,
mas não se podia furtar à melancolia que parecia residir dentro dele de
forma permanente. Suspirou e Júlia o tomou pela mão.
— Quer dizer que você não ouviu nada? — perguntou. — Você
dormiu profundamente?
— Claro que sim. Sempre tenho sono pesado — explicou ele, em
um tom indiferente.
Ela sabia que o oposto é que era verdadeiro e ele pôde sentir sua
preocupação. Enquanto se aproximavam, Barnabas sentiu a dor de
seus ombros ficar mais forte e sua cabeça começou a latejar.
Um pouco de fumaça ainda subia dos restos carbonizados, mas
ainda se viam pedaços da balaustrada de ferro sustentando o teto
com seu rendilhado e ele podia enxergar as colunas maciças ainda
erguidas, seus troncos cilíndricos e seus capitéis clássicos como
uma longa linha de sentinelas a cercar a casa — tinta e dois gracio‑
sos pilares erguendo o teto do alpendre para proteger os pórticos.
— Barnabas, você deve tentar impedir que isso o perturbe —
aconselhou ela.

36

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 36 29/05/12 19:11


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

— Mas Júlia, eu não estou absolutamente perturbado — decla‑


rou ele, ainda permanecendo desapaixonado, embora seu peito
sentisse o aperto de um torno e o ar parecesse fervente demais
para ser respirado. A frieza de sua atitude era espantosa até mes‑
mo para si próprio, enquanto a recordação daquela noite, com
suas visões e demônios se transformava em um sonho lembrado
apenas fracamente.
Um pássaro cantou em uma árvore ao lado do gramado, um
som de flauta, seguido por um trinado e uma espécie de chocalhar
rápido. Poderiam ter sido três diferentes pássaros, mas Barnabas se
lembrava daquele canto.
— Escute — disse ele —, é um sabiá praticando seu repertório...
Júlia lhe sorriu e segurou­‑lhe o braço enquanto se aproximavam
da casa. Ainda se avistavam brasas fumegantes e um odor doentio
subia das cinzas. Barnabas caminhou desajeitadamente por entre os
destroços, reconhecendo aqui e ali os restos de um móvel, mas ficou
aliviado ao ver que praticamente tudo tinha sido destruído. Era di‑
fícil encontrar os vestígios das paredes, e a imensa lareira de tijolos
havia desabado e se transformado em uma pilha enegrecida. E o
tempo todo, aquele sabiá assobiava e chilreava como se troçasse
dele. Desta vez, Barnabas o avistou pousado no ponto mais alto do
que restara da chaminé arruinada, sacudindo a cauda.
Uma pesquisa de um quarto de hora não revelou nada de signi‑
ficativo e suas mãos estavam sujas de cinzas e fuligem pegajosa,
quando Barnabas finalmente disse a Júlia:
— Como você escutou à mesa do café, sou obrigado a dar uma
passada pelo escritório de Roger hoje à tarde. Há alguma coisa que
você queira fazer na cidade? Se houver, poderá me acompanhar.
— Nada de premente, mas terei prazer em ir com você — disse ela,
caminhando um pouco mais adiante. — E a turma da demolição?
— Parece que eles não vêm mais nesta manhã, não é mesmo?
Vamos embora daqui.
Pensando que provavelmente nunca mais precisaria retornar
àquele local, começou a caminhar de volta para o automóvel.

37

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 37 29/05/12 19:11


Lara Parker

Foi nesse momento que Júlia o chamou e curvou­‑se sobre algu‑


ma coisa caída no solo. Relutantemente, Barnabas retornou até
onde ela estava e olhou para os pés dela. Sentiu um choque ao ver
um livrinho, todo sujo de fuligem, mas intacto, atirado logo ali. Ele
o agarrou e o revirou entre as mãos.
Júlia parecia incrédula.
— É impossível que este livro tenha sobrevivido, quando tudo o
mais se queimou...
— Contudo, ei­‑lo aqui... — ele abriu as páginas de bordas quei‑
madas, que estalaram como em queixa e começou a olhar o que
continham. — Não é um livro de verdade — disse baixinho. — É
um livro de lições, escrito por uma criança em idade escolar...
— Mas de quem era? Dá para dizer? — indagou Júlia, olhando
por cima de seu ombro. As primeiras páginas estavam garatujadas
em uma letra imatura, parecendo mais exercícios de caligrafia. Mal
se podiam decifrar as palavras:

O mar não tem fim. Infinito é o mar. As ilhas ficam muito distantes.
Começa com a maré. Enroscado dentro de mim, sem ritmo, apenas
um empurrão e um fluxo. As ilhas estão muito distantes. Outra e mais
outra. Algumas têm montanhas altas cujo topo chega até as nuvens.
Algumas são arredondadas como o corpo de uma mulher. Algumas
são planas, com as árvores todas inclinadas para o mesmo lado, seus
ramos se estendendo como dedos, esticando­‑se para fugir do vento.

As freiras nos ensinam a escrever, mas a lição deve ser feita em


inglês. A Irmã Luciana diz que eu estou desperdiçando papel.

A ilha em que eu nasci se chama Madinina. O nome significa “Ilha


das Flores”. Mas minha mãe a chama de Pays des Revenants. No diale‑
to Créole1 isto significa “Terra dos Retornados” ou “Terra das Almas Penadas”.

1
A palavra “crioulo”, neste livro, não se refere a negros, e sim a descendentes de europeus
nascidos nos países hispano-americanos. (N. do E.)

38

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 38 29/05/12 19:11


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

Os franceses chegaram a esta ilha em 1684. Saint­‑Pierre foi a pri‑


meira cidade fundada em Martinica. As escunas aportavam para
pegar cargas de açúcar.

Glória seja a Deus, Pai Onipotente, Criador do Céu e da Terra...

Júlia engoliu em seco.


— Santo Deus, eu mal posso acreditar! Este livrinho deve ter
pertencido a Angelique!
— O quê? — murmurou Barnabas vagamente. Um arrepio de
frio percorreu­‑lhe todo o corpo.
— Ela nasceu por lá, no Caribe. Em Martinica. Ela era a criada
de Josette desde antes de elas embarcarem para a América do Norte
— insistiu ela.
— Mas como um diário de infância poderia ter chegado até
a Casa Velha? Mesmo que fosse de Angelique? — murmurou
Barnabas, fingindo indiferença. Uma lembrança, concluiu, sen‑
tindo seus dedos adormecidos como pelo frio, enquanto lia um
pouco mais:

Não posso ver o vento, mas ele está aqui. O que se move com o vento?
Moinhos, pandorgas, guarda­‑sóis, velas, páginas de livro, bandeiras,
saias, vestidinhos de algodão, chapéus, flores, cabelos, nuvens, nevo‑
eiro, brumas, fragatas, árvores, os ramos das árvores.

O Senhor é o meu Pastor; nada me faltará. O que é um pastor?


Um guarda de ovelhas? Por aqui só existem cabras e porcos.

— É um diário — reconheceu Barnabas, movendo as páginas


ressequidas com as pontas dos dedos. — Veja só como é grosso.
— Barnabas, jogue isso fora — disse Júlia. — Não acho que você
deva ler essa coisa. As lembranças são dolorosas demais para você.
O incêndio da Casa Velha já é um choque para sua constituição e
você está muito vulnerável.

39

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 39 29/05/12 19:11


Lara Parker

O sabiá chilreou novamente e Barnabas, embora seu ser inteiro


concordasse com Júlia, se flagrou discutindo com ela.
— Mas, Júlia, é uma coisa notável, você tem de admitir — comentou.
— E eu acho que é a obra de alguma criança totalmente solitária
e triste — ela refutou.
— Mas é impressionante... precoce... escute só.
Atraído pelo livro, ele começou a ler de novo em voz alta:

O mar não tem ritmo. Mamãe fez uma janela de mar, um balde com
fundo de vidro e o colocou sobre a superfície da água. Quando eu
olhei por ele, pude enxergar outro mundo. Pude ouvir os estalos que
faziam os comedores de corais e sentir o movimento das marés. O
vento do mar é invisível, puxando, sacudindo, arrastando.

— Mas é extraordinário, não é? Como uma coisa tão lírica po‑


deria ser escrita por uma criança? — indagou Barnabas.
— Barnabas, jogue isso fora! — insistiu Júlia. — Realmente,
você não deveria ler alguma coisa, qualquer coisa escrita por An‑
gelique, se é que esse diário foi mesmo dela. Sua presença é pode‑
rosa demais, e...
— Espere. Escute...

Os tambores são como o som do céu. São trovões. Os tambores falam


uns com os outros. Falam do vento e da chuva. Falam das tempesta‑
des da África. O ritmo está nos tambores. O pulsar do coração. Os
negros tocam música com o ritmo do trovão.

— Nada de parecido com a Angelique que conhecemos, não é


mesmo? — Barnabas fechou o livro e o colocou em um dos bolsos
de seu casaco.
— Deixe isso aqui! — exigiu ela.
— Eu quero ficar com ele — falou Barnabas —, mas só por mais
algum tempo. Quero examiná­‑lo com mais cuidado. Venha, vamos
voltar. O que você acha que aconteceu com os demolidores?

40

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 40 29/05/12 19:11


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

— Jogue esse diário fora, Barnabas. Ou então, me dê.


— Mas por que, pelo amor de Deus?
— É porque... — disse ela com hesitação — porque eu tenho a
sensação de que é perigoso.
— Mas isso é absurdo. Estou curioso, é só isso. Se causar algum
efeito sobre mim, eu faço isso. Eu jogo no lixo. Além disso, toda essa
história de condenação e melancolia já ficou para trás, Júlia. Os fei‑
tiços terminaram. Ah, não discuta comigo. Veja... olhe como o sol
está brilhando!
Ele a abraçou gentilmente.
Enquanto subiam novamente pela estrada no sedan preto, os
músculos de seu peito e de seu pescoço começaram a relaxar e Bar‑
nabas se afrouxou contra o encosto do banco do passageiro. O es‑
forço para controlar suas emoções e estabelecer uma distância entre
ele e o crime cometido na noite anterior o havia esgotado.
Abriu os olhos e fitou Júlia, como se a enxergasse pela primeira vez
e deixou que sua mente se inundasse com um genuíno sentimento de
afeição. Ela estava usando um conjunto de pele de camelo, a cor com‑
binava bastante bem com seus cabelos louro­‑avermelhados. Seu
rosto havia envelhecido um pouco, é bem verdade, mas o seu tam‑
bém havia. As linhas angulosas de suas faces e queixo adicionavam
severidade a seu semblante, mas ele pensou na ansiosa simpatia que
sempre lia em suas vistas e que lhe comunicava tanto conforto. Sim,
era isso que ele sentia: conforto... e tranquilidade. Ela era sua velha
confidente e nunca cessara de amá­‑lo.
Sua vida futura se desenrolou diante dele como uma longa estra‑
da e podia contemplá­‑la até o seu final: um casamento com Júlia,
respeitabilidade e segurança, tomar parte nos negócios da família
Collins — alguém precisava tomar conta deles havia bastante tem‑
po — alcançar sucesso financeiro... Ela seria uma excelente compa‑
nheira, tão sensata e altruísta. É claro que não poderiam ter filhos,
mas isso não o perturbava em particular. David ainda era jovem e
precisava de um mentor para quando fosse controlar os bens da
família, depois que atingisse a maioridade. Os anos passariam voando.

41

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 41 29/05/12 19:11


Lara Parker

Júlia e ele envelheceriam juntos. Depois de sofrer os crimes do pra‑


zer, depois de provar o significado da imortalidade e descobrir que
seu preço era alto demais, Barnabas tinha certeza de que esta exis‑
tência gentil e humilde era tudo o que poderia desejar.
Júlia sentiu seu olhar sobre ela, virou o rosto para ele e sorriu­‑lhe.
Ele estendeu o braço para uma de suas mãos — porque a outra estava
segurando a direção — e beijou­‑lhe as pontas dos dedos. Nesse mo‑
mento, uma nuvem passou em frente ao sol e os cumes das árvores,
que haviam estado banhadas em luminosidade, se escureceram. Mas
foi apenas um momento passageiro e, no instante seguinte, a nuvem
foi impelida pelo vento e o dia se alegrou novamente.

* * *

Assim que se viu sozinho em seu quarto, Barnabas tirou o livrinho


do bolso de seu casaco. Dissera a si mesmo que o havia guardado
para queimá­‑lo, mas surpreendeu­‑se com um forte senso de anteci‑
pação quando levantou a capa. A língua materna de Angelique era
o francês. Viu realmente muitas páginas em escrita francesa, que
conseguia ler facilmente. Mas de permeio havia igualmente muitas
frases redigidas em um inglês hesitante. Talvez as freiras lecionas‑
sem as duas línguas. Recordou­‑se do sotaque de Angelique adulta,
com as sílabas muito claras e britânicas, o resultado de estar falan‑
do em uma segunda língua aprendida na escola.
Sentou­‑se na cadeira junto à janela e começou a ler. Haveria al‑
guma coisa que pudesse aprender pela leitura da epístola dessa
criança? Alguma coisa que lhe pudesse revelar a verdadeira nature‑
za de sua atormentadora?

Eu fui sereia, da mesma cor castanha das velas de um navio, marrom


como as pétalas de magnólia depois que caem no meio das folhas,
morena como sementes, como as asas de uma gaivota ao pôr do sol.
Só mais tarde é que eu fiquei branca. Depois que elas me conserva‑
ram trancada no quarto. Pedra contra os furacões. Foi o vento en‑

42

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 42 29/05/12 19:11


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

trando pela janela que retirou o moreno de minha pele. Minha pele
ficou cor de arroz. Foi porque elas me enrolaram em roupas e me
deram doces. Meus pés ficaram macios. Eu já não conseguiria mais
caminhar sobre os corais.

Minha mãe segurava­‑me as mãos contra a espuma das ondas. Este


é o berço salgado, o vento inferior invisível que puxa e arrasta e depois
vai embora. Eu amo o mundo que fica embaixo do mar. Mamãe dis‑
se: “Desta vez, você nasceu da água”.

Há pequenas lulas da cor de arco­‑íris que nadam para trás com os


braços cruzados. Eu também sei fazer isso. Hoje eu vi uma tartaruga
com o casco malhado caminhando no fundo do oceano. E ontem eu vi
uma parede curva de minúsculos alevinos prateados, parecendo um
imenso chafariz. Quando eu nadei em sua direção, a parede explodiu
como estrelas, como os borrifos da chuva. E bem lá embaixo, no escu‑
ro, o tubarão estava tão quieto, tão quieto...

Mamãe varre a poeira dos cantos da sala. Ela deixa uma tigela
com água junto à porta para capturar os maus espíritos. Não há espe‑
lhos aqui em casa. Por que ele veio me buscar?

Nossa casinha é pintada de cor­‑de­‑coral com os postigos em lavan‑


da e o teto de capim seco. Todas as janelas dão para o mar. As pessoas
vêm visitar minha mãe quando estão doentes e ela as cura. Ela sabe
como. Ela tem uma bolsa cheia de mágica. Eu sei que ela achou que o
melhor para mim era ir embora com ele.

A Irmã Claire me deixava ler seu livro de poemas depois que eu


completava minhas lições. Este é o que eu gosto mais e foi escrito por
John Milton:

“O mar é tão profundo na calmaria quanto o é na tempestade.”

43

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 43 29/05/12 19:11


Três

ngelique conseguia ver seu coração quando fechava os olhos,


pequenos e acinzentados, polidos como uma pedra carregada
pela arrebentação. Mas hoje seu coração se sentia como um passa‑
rinho tentando fugir e batendo as asas contra as paredes de uma
caverna escura. Sua mente escapou para visitar as outras cavernas
que ficavam na beira da água e era lá que ela queria estar, sob as ro‑
chas altas, com os filetes de luz solar escorrendo para dentro como
serpentinas. Ela sonhava que percorria novamente o caminho até as
lagunas turquesa, ouvia o ruído das ondas batendo contra os penhas‑
cos, em que os caranguejinhos caminhavam de lado com suas garras
encarnadas e ela nadava na água, flutuando através das plantas aquá‑
ticas que subiam desde o fundo, enquanto escutava o barulho dos
peixes estalando seus dentes contra os corais.
Hoje alguma coisa lhe parecia cruel, como se estivesse sendo cas‑
tigada, mas ela não fizera nada que merecesse uma repreensão e tam‑
pouco a havia recebido. Mas ela era uma criança livre que nunca fora
dominada ou ameaçada. Fora o mar que lhe ensinara a ter cuidado
— como flutuar com a corrente sussurrante e como ficar longe dos

44

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 44 29/05/12 19:11


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

corais de fogo, como evitar os peixes­‑escorpiões cujo ferrão podia


significar a morte e como se desviar da mordida das enguias.
A mão de seu pai era áspera como as cracas que se prendiam nos
recifes ou no costado dos navios e suas unhas cortavam a sua pró‑
pria palma. Sua mão parecia a garra de um caranguejo gigantesco
esmagando seus dedinhos, puxando­‑a quando ela se demorava, an‑
dando mais depressa do que suas perninhas conseguiam levá­‑la.
Ela tivera de correr a seu lado pela estrada enlameada, tropeçando
nas poças, sua sacola de livros batendo contra seu flanco. Seus de‑
dos a beliscaram quando ele a levantou para dentro da carroça.
— Eu quero sentir orgulho de você — ele cochichou, seu tom de
voz um aviso. — Não chore.
Mas quando ele olhou para ela, teve a sensação de que não a
estava vendo.
O negro chicoteou o pônei e a carroça avançou penosamente.
Ela olhou seu vestidinho branco, a barra grudada em suas pernas
suarentas, logo aquele vestido que sua mãe nunca a deixava usar,
sempre pendurado em um canto escuro da casa. A saia tinha flores
vermelhas e uma barra de renda. Ela tocou os bordados, as folhas
salientes, a curva acetinada das papoulas e sentiu um arrepio de
orgulho. Já tinha visto vestidinhos brancos usados por outras me‑
ninas, mas o dela era de longe o mais delicado.
— Mas, mamãe, este é o vestido que a senhora guarda para o Car‑
naval... — dissera.
— Tenha cuidado, senão rasga — respondera sua mãe. — É feito
de pano de batista.
Ela olhou para ele. Por que ele viera buscá­‑la hoje? O que ele
quereria dela, esse pai que tão raramente vira? Sua mãe lhe dissera
que ele pretendia levá­‑la para Saint­‑Pierre, a fim de criá­‑la como sua
filha legítima. Mas então por que ele falava tão pouco com ela?

* * *

— Pai? Aonde nós vamos?

45

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 45 29/05/12 19:11


Lara Parker

Ela escutara sua mãe chamando­‑lhe o nome, os tons delicados de


sua voz flutuando através dos penhascos e piscando junto com a
poeira dourada pelo sol. Ela correra através da areia, pensando que
ia ganhar alguma comidinha, um pedaço de abacaxi doce...
— Mamãe! Eu vi o pavão flutuando! — ela exclamara. — Cheio
de manchas azuis e prateadas, e dois grandes olhos na ponta de
cada pena. Eu fui nadando e toquei nele e ele bateu as asas e saiu
voando por cima da água!
Mas sua mãe tirara com um puxão o seu pareu, seu vestidinho
frouxo de algodão com florzinhas desbotadas e passara uma escova
em seu corpo para tirar o suor e a areia. Então ela tirara do cabide o
vestido de festa e o enfiara pela sua cabeça. Depois ela passara vase‑
lina em seus cabelos, que eram amarelos demais, brilhavam feito o
sol e estavam emaranhados como as algas entre as quais ela costu‑
mava nadar e o escurecera com um óleo vegetal.
“Mamãe, dói quando a senhora me penteia!”, ela protestara.
Sua mãe puxara seus cabelos firmemente para trás e os atara
com fitas coloridas. Ela olhara para seu reflexo na janela e sentira­‑se
transformada em alguma coisa exótica, como um peixe dos recifes
com barbatanas transparentes e guelras vermelhas.
“Ai, eu não gosto, é enfeitado demais...”
Então ela erguera o rosto e vira as lágrimas brilhantes nos olhos
de sua mãe.

* * *

Seu pai era uma sombra negra contra o céu, uma peça talhada no
azul, como uma silhueta de papel, seus ombros altos e largos imensos
dentro da sobrecasaca negra, seu nariz um bico pesado, sua barba
parecendo alga de enguia ressecada. Mas ela podia ver claramente
que ele era um blanc, com a pele bem clara, embora os olhos fossem
cor­‑de­‑ébano e seus cabelos pretos como carvão. Era por isso que ele
nunca vinha ver a ela ou sua mãe. Porque elas eram gens du couleur,
gente de cor, e porque sua mãe tinha sido filha de uma escrava.

46

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 46 29/05/12 19:11


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

Certa vez, ele viera, enquanto ela era ainda nenê e a colocara
sobre um joelho e a beijara e escutara o seu riso. Ela tinha brincado
com sua barba e tocado sua testa alta e suarenta.
— Você tem os olhos mais estranhos — ele dissera.
— Olhos tão mutáveis como o mar — respondera sua mãe, com
certo grau de orgulho. — Transparentes como a água da laguna.
Algumas vezes, ficam tão claros como as medusas na areia. Algu‑
mas vezes ficam da cor de turquesas ou de opalas. E em outras, se
tornam tão escuros como as nuvens de tempestade.
Seu pai emitira um som que vinha do fundo de seu peito. Segu‑
rara o pulso de sua mãe e a puxara para bem perto de si.
— De onde ela tirou esses olhos, Cymbaline? — ele sussurrou, sua
voz parecendo mais com um chiado de cobra. — Você me disse que
ela era minha! De onde foi que ela arranjou esses olhos verde­‑mar?
Sua mãe, ainda em pé, olhara para baixo em sua direção sem de‑
monstrar o menor medo. Ela usava seus cabelos presos em um lenço
de um encarnado brilhante, formando o que chamavam então de
trunfa, uma ponta no alto de sua cabeça que parecia uma chama.
— Mas você não consegue notar? — respondera­‑lhe sua mãe,
ofendida. — Ela nasceu de seu orgulho, sem a menor dúvida. Como
você ousa duvidar? Veja que ela traz a sua mesma marca!
Ela ainda estava sentada no seu colo e o pai levantara a barra de seu
vestido, olhando para a parte de trás de uma de suas pernas. Havia ali
uma marca de nascença escura — como um pingo de vinho tinto no
formato de uma serpente enroscada. Ele a esfregara com seu polegar e
dera de ombros. Depois, suspirara fundo e a colocara de volta no chão.
O vento soprava mais forte e a estrada estava cheia de buracos e
valas. As palmeiras ondulavam suas longas folhas como facas gigan‑
tescas. Seu pai suava sob a sobrecasaca pesada. Ela cheirava seu odor
mofado, não como o ar marinho, mas como alguma coisa trancada,
úmida e enxovalhada, igual ao interior de uma torre de pedra. Os sa‑
patos que sua mãe a obrigara a colocar, feitos de couro negro, tinham
começado a lhe arranhar os pés. Ela nunca se calçava e a sola de seus
pés era tão grossa e resistente como a casca de uma árvore e os sapatos

47

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 47 29/05/12 19:11


Lara Parker

machucavam sua pele nos lugares mais macios. Ela já parara de pensar
que suas fitas novas eram bonitas; agora era o seu cabelo que doía por
ter sido repuxado tanto. O que ele dissera para sua mãe?
— Eu quero que ela tenha o melhor — explicara. — Ela tem a
pele clara e pode passar por branca. Mas eu não quero que você
apareça por lá para estragar as coisas.

* * *

A chuva começou a cair como lençóis. Era uma chuva cálida, mescla‑
da ao odor de plumérias. Ao longo da estrada, as flores batidas pela
chuva penduravam­‑se molengas, como se tivessem sido pisoteadas e
suas cores pareciam ter sido lavadas até desaparecer. Ela imaginou se
a tempestade duraria muito tempo, como aquelas que arrancavam
árvores da terra, com raízes e tudo, e destelhavam as casas, lançando
os telhados pelos ares, voando como grandes pássaros. Eram aquelas
tempestades que espatifavam as escunas contra os recifes da baía e
que lançavam ondas da altura de casas contra os penhascos.
— Por que mamãe não pode vir comigo? — indagou.
— Ela... decidiu que chegou a hora de você morar comigo — dis‑
se ele, evasivamente.
A chuva continuava a cair firmemente, o céu de um cinza pálido,
a superfície do mar agitada e cheia de lugares mais fundos que pa‑
reciam ter sido atingidos por pedrinhas. Ela olhou para o porto en‑
quanto a carroça se movia lentamente atrás do pônei exausto,
seguindo a estrada da praia que levava até Saint­‑Pierre.
Angelique estava ansiosa para ver os navios. Algumas vezes, che‑
gava a haver mais de cinquenta ancorados na baía, as velas pesadas,
as proas elevadas pintadas com tinta dourada e as bandeiras de co‑
res brilhantes. Mas hoje só havia uns poucos, encolhidos e empapa‑
dos pela chuva, protegidos pelo pequeno canal interior, alguns com
as velas rasgadas em farrapos, outros as trazendo enroladas e do‑
bradas como as asas articuladas dos grandes morcegos que se es‑
condiam no fundo das cavernas.

48

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 48 29/05/12 19:11


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

Ela espiou seu pai. Ele estava encolhido em um canto da carroça,


a cabeça enfiada dentro do colarinho. Ela reuniu toda a sua cora‑
gem e perguntou:
— A casa é grande, pai?
Ele ergueu os olhos, surpreendido pela pergunta e a fitou com o
cenho franzido. Quando respondeu, o som de sua voz subiu desde
o fundo de seu peito.
— Sim, é grande, suponho eu. Grande o suficiente.
— É feita de madeira?
— Não, é uma casa de pedra.
Ela se decidiu a tentar localizar a casa com os olhos a fim de
acalmar a sensação doentia que brotava de seu estômago. Talvez ela
a reconhecesse quando a avistasse. Imaginou se seria uma mansão
e se a escola ficaria perto. Com os pés, tateou o saco de livros e de
roupas que estava no assoalho da carroça. Estava contente por se
haver lembrado de trazer o diário para mostrar à sua mãe quando
ela viesse visitá­‑la. Então Angelique pensou de novo naquela frase
estranha que ela o ouvira dizer:
“Eu não quero que você apareça por lá para estragar as coisas.”
O pônei puxou a carroça para a estrada nova, pavimentada com
paralelepípedos azuis. A carroça dava pequenos saltos nos interva‑
los entre as fileiras de pedras, mas era melhor que os solavancos das
rodas na lama e nas valetas do caminho de terra. Passaram por ar‑
mazéns de cujas paredes a água da chuva escorria, as portadas com
pilares e arcos olhando lugubremente para as docas vazias.
Sob um toldo ela pôde ver um grupo de escravos recém­
‑trazidos e ainda presos em seus grilhões. Devido a suas peles
negras e aos farrapos sujos que usavam, estavam quase invisíveis
nas sombras e se amontoavam em pequenos grupos. Mas dava
para ver­‑lhes as pernas, algumas musculosas e outras muito pe‑
quenas — pernas de crianças — de mistura com os trapos colo‑
ridos do que tinham sido saias de mulheres. Ela já assistira a um
leilão de escravos. Talvez houvesse um leilão amanhã e ela tivesse
licença para assistir.

49

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 49 29/05/12 19:11


Lara Parker

— O senhor tem escravos? — ela perguntou. Seu pai olhou­‑a


carrancudo, como se estivesse preocupado com outros pensamen‑
tos, mas após um instante, respondeu com um resmungo:
— Escravos... sim, naturalmente.
— Quantos?
— Demais. E nunca o suficiente.
O guarda do armazém estava sentado em uma salinha que dava
frente para o cais, uma lamparina bruxuleando no interior. No mo‑
mento em que sua carroça passava ruidosamente, o homem se lançou
na chuva com o chicote enrolado na mão e gritou ferozmente para
um dos homens negros. Com um grito rouco, ele soltou a ponta da
pesada chibata e o escravo se encolheu para dentro das sombras.
— Ai, aquele homem os está chicoteando! — ela exclamou.
— Sem o chicote, eles viram uns diabos — comentou seu pai.
Ela sentiu uma súbita piedade pelos escravos — aquele trabalho
de quebrar os ossos e a humilhação das correntes. A mãe de sua mãe
tinha sido alforriada porque dera à luz uma filha de pele clara. Que
coisa horrível não ser livre! Então ela pensou nas cavernas e nos
recifes em que ela podia ser uma ninfa sobre as algas do mar, tão
livre quanto a maré irresistível, onde a água era tão morna e clara e
todas as cores tão luminosas. Ela imaginou quantos dias se passa‑
riam até que ela pudesse nadar por lá outra vez.
A carroça sacolejou novamente, ingressando na rua principal de
Saint­‑Pierre. Aqui e ali um postigo não tinha sido fechado e batia contra
o marco da janela sob o impulso das lufadas do vento assobiante, mas a
maioria fora trancafiada seguramente perante a ameaça de um possível
vendaval. Talvez isso significasse que um furacão estava a caminho e ela
imaginou se sua mãe estaria segura dentro de sua minúscula cabana.
Ela esperava que sua mãe tivesse lembrado de amarrar as telas de ma‑
deira com firmeza e de colocar a panela embaixo da goteira do telhado.

* * *

Ela segurou o amuleto que trazia pendurado ao pescoço e esfregou


o saquitel de couro macio com os dedos. Dentro dele, ela podia sentir

50

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 50 29/05/12 19:11


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

a caveirinha da serpente. Fora ela quem a vira primeiro, enroscada


sobre o tampo da mesa, antes que sua mãe a matasse.
— Mas que cobra linda! — ela exclamara. — Posso pegar, ma‑
mãe? Parece a relva em movimento! Será que é venenosa, mamãe?
— É uma fer­‑de­‑lance, uma jararaca, e entrou aqui para fugir da
chuva — murmurara sua mãe. — Venenosa, sim, e muito. Mas é
um bom sinal para você, minha pequenina. Vai servir para fazer
um uangá poderoso.
A grande fita iridescente tinha­‑se retorcido ao redor do pulso
de sua mãe enquanto ela a segurava pela nuca, abria­‑lhe a boca
com a ponta de um dedo e forçava suas presas contra a borda de
um copo. Ela ordenhou as glândulas sob sua mandíbula, até que o
veneno todo escorreu pela beirada do copo como um fio de lágri‑
mas sujas. A seguir, ela arrancou a língua dardejante e a colocou
ao lado do copo. Ainda se retorcia e tremia sobre a madeira es‑
branquiçada, como se fosse um lagartinho. Depois, ela puxara
para trás a cabeça da serpente, expondo­‑lhe a garganta e a cortara
com um único golpe de faca. Angelique não havia ficado nem um
pouco assustada; ao contrário, sentira­‑se fascinada. Os poderes de
sua mãe eram a coisa mais maravilhosa que ela já vira. Cada vez
que ela preparava algum de seus encantamentos, Angelique ob‑
servava e recordava­‑se de todos os passos.
Depois que ela terminara de fazer o uangá, amarrou­‑o ao redor
do pescoço de Angelique.
— Pronto, criança... — ela murmurara. — Isto servirá para
mantê­‑la em segurança.
— Por que suas mãos estão tremendo, mamãe? — ela inquiriu. —
E por que não está cantando? As suas canções trancaram na garganta?
Então sua mãe pusera Angelique em seu colo. Alisara­‑lhe os ca‑
belos e dissera baixinho:
— Eu sempre sonhei com isto, minha querida. Seu pai vai lhe
dar uma vida muito melhor do que eu jamais poderia...
— Eu tenho mesmo de ir embora?
— Sim...

51

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 51 29/05/12 19:11


Lara Parker

— Mas eu gosto de morar aqui, junto do mar, com você, mamãe...


— Você é a filha de um senhor de engenho e será a sua querida,
com um casaco de veludo e uma cama de quatro colunas... Você será
matriculada em uma boa escola, não naquele convento solitário, para
ser educada por freiras velhas. E vai ter amigas bonitas, escutar músi‑
ca... e tomar chocolate... — dissera­‑lhe mansamente. Mas então ela a
puxara em um abraço desesperado e a apertara contra seus seios ma‑
cios. Um soluço reprimido conseguiu sair de dentro dela.
— O que é isso, mamãe? — cochichou Angelique. — Por que a
senhora está chorando?
— Minha querida, minha adorada... minha vida... meu cora‑
ção... se ao menos você não fosse um anjinho assim tão lindo...
E então seu pai viera para levá­‑la consigo.

* * *

Eles subiram a longa avenida ensombreada pelos galhos longos dos


tamarindeiros, que quase se tocavam, formando um longo arco. Esta
parte da cidade era linda, mesmo sob a chuva, toda erguida em pedra,
as ruas calçadas de lajes quadradas, os tetos das casas recobertos com
telhas vermelhas interrompidas pelas janelinhas de telhados pontu‑
dos das mansardas. Passaram pelo teatro, com seus arcos elevados e
a escadaria dupla. Havia cartazes coloridos, pintados em chapas de
madeira, anunciando uma ópera vinda de Paris com um balé orien‑
tal. Seu coração deu um salto. Será que seu pai a levaria para assistir?
Não conseguia imaginar coisa alguma mais maravilhosa.
— Podemos ir ao teatro, pai? — ela pediu. — Ai, quando eu
crescer, quero ser dançarina!
Ele resmungou, mas não respondeu. Ela pensou que ele talvez
estivesse zangado com ela ou então que mudara de ideia quanto a
ficar com ela. Talvez ele pensasse que ela não tivesse gostado de vir
com ele porque tinha ficado tão quieta durante a viagem. Seu estô‑
mago começou a pular como uma poça cheia de peixinhos deixa‑
dos pela maré.

52

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 52 29/05/12 19:11


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

— Saint­‑Pierre é uma cidade tão bonita... Tem tantas cores, é


como os corais — falou o mais alegremente que conseguiu. — Es‑
tou feliz que o senhor me tenha trazido para cá.
Ele não respondeu.
— Qual é a nossa casa, papai? Eu quero adivinhar! Só me diga
quando chegarmos perto...
As casas recobertas de reboco pintado de amarelo-claro, laranja
pálido ou pêssego sugeriam uma promessa de outra vida, coisas que
ela apenas imaginara por meio das histórias contadas por sua mãe:
tesouros de outras terras, móveis marchetados, estátuas de bronze,
vestidos de seda e de veludo, música de violinos e harpicórdios, per‑
fumes, cristais e tortas doces. Sua mãe lhe contara que por detrás
daqueles postigos havia prateleiras de livros grossos com capas de
couro e títulos impressos em letras douradas, as margens igual‑
mente douradas, além de cafeteiras de prata e taças de porcelana e,
acima de tudo, contendo a vida de sonho particular dos ricos pro‑
prietários de plantações e de seus familiares.
Sua mãe também lhe contara que havia mulheres mestiças, cha‑
madas de mulatas, que algumas vezes viviam com os plantadores e
lhes davam filhos bastardos em troca de uma vida de escravidão
muito mais suave. Sua mãe poderia ter feito isso. Ela era uma mu‑
lher bonita e cheia de vida e muitos homens se haviam apaixonado
por ela. Mas fora orgulhosa demais. Não, essa não tinha sido a úni‑
ca razão. Ela havia escolhido um outro caminho, o caminho da
magia da cura e assim mantivera sua liberdade.
— Nossa casa fica nesta rua, papai? — indagara, esperançosa.
— Vamos chegar logo?
A chuva tamborilava nos pavimentos e a água corria como pe‑
quenos regatos pelas sarjetas e ronronava e saltava entre as paredes
baixas que separavam a rua dos prédios. O ar era pungente, as ruas
estavam vazias e mesmo assim, eles não paravam. No momento em
que ela achava não poder mais suportar a expectativa, a carroça
desviou para uma rua lateral que conduzia para fora da cidade.
— A casa não fica em Saint­‑Pierre? — ela perguntou.

53

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 53 29/05/12 19:11


Lara Parker

— Não, não fica em Saint­‑Pierre — disse­‑lhe o pai, lançando


um olhar frio em sua direção. Seu coração afundou em um asso‑
mo de desapontamento.
— Então, para onde nós vamos?
— Para as colinas.
Ela se ajeitou no banco e tentou não se sentir frustrada demais.
Escutava o som das rodas da carroça esmagando a terra, a respira‑
ção opressa do pônei e, algumas vezes, o som baixo de uma canção
trauteada pelo escravo negro que dirigia a carroça, suas costas nuas
reluzindo sob a chuva. Fechou os olhos e lembrou as ocasiões em
que mergulhava no mar em busca de um peixe muito especial, um
peixe­‑anjo azul ou um baiacu malhado, que nunca estavam nos lu‑
gares em que ela os procurava. Mas depois que parava de procurar
e ficava flutuando na superfície, meio sonhando, deixando que as
sombras dos recifes se projetassem sobre o fundo, logo abaixo dela,
então se deparava com alguma criatura tão linda quanto rara, que
nunca havia visto antes. Decidiu que o melhor era parar de fazer
perguntas e esperar para ver o que acontecia. Agora ela pertencia a
seu pai. Depois de algum tempo, adormeceu, sua cabeça encostada
confiantemente no braço dele.
Acordou­‑se ao ouvir as ondas do mar batendo contra as rochas
que ficavam lá embaixo, no fundo dos rochedos, justamente quando
dobraram para fora da estrada e tomaram um caminho lateral em
direção à ponta de uma península. A chuva havia parado e o céu aci‑
ma do mar assumira um tom prateado e reluzente. O pônei tropeçou
em uma pedra frouxa que havia no meio do caminho e ela caiu para
frente, em direção ao fundo da carroça. Seu pai a segurou e a agarrou
firmemente junto dele. Ela ergueu os olhos e ficou surpresa ao ver que
ele estava franzindo a testa em direção a qualquer coisa localizada na
estrada, mas ainda bem distante. Ela seguiu seu olhar, e seu coração
pulou como se um anzol o tivesse capturado e o sacudisse no ar.
Um edifício maciço se erguia sobre um promontório rochoso,
muito acima da superfície da água. Era construído com pedras pesa‑
das, parcialmente recobertas de musgo e cercado por uma parede

54

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 54 29/05/12 19:11


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

alta. Ela conhecia aquele lugar. Podia recordar as histórias de sua


mãe, que escutava à noite, antes de mergulhar no mundo dos sonhos.
“Era uma vez uma grande casa. As pedras tinham sido trazidas por
sobre o mar, desde as pedreiras da França, como lastro no porão de
uma escuna. Juntamente com elas tinham chegado artesãos e carpin‑
teiros. Ah, sim, era um lindo castelo construído por, ai, por um ho‑
mem muito rico, que desejava erguer uma casa para sua terna noiva.
Mas ela morreu, pobre alma, teve um ataque de vapores na véspera de
seu casamento. E então a casa inteira ficou abandonada e se arruinou,
depois se tornou a sede de uma plantação de cana­‑de­‑açúcar. Foi en‑
tão que construíram a torre do moinho e a capela e as senzalas para
os escravos. Os escravos ficavam trabalhando no auge do calor até
morrerem. Suas vidas eram trocadas por sacos de açúcar.”
— O que aconteceu com o homem rico? — perguntara ela.
— Ah, ele foi morto por seus próprios negros. Morreu para pa‑
gar seus pecados, sim, foi por isso que ele morreu. Ai, aquela casa
tem uma história longa e muito feia — concluíra sua mãe.
Angelique foi ficando cada vez mais ansiosa, enquanto a carroça
se movia constantemente na direção da estrutura assustadora.
— Essa não é nossa casa, é? — atreveu­‑se a perguntar.
— É, sim — respondeu o pai, friamente.
— Mas é tão escura e tão triste!
Quando o escravo fez o pônei parar, seu pai pulou da carroça,
deu uma volta e chegou até onde ela estava. Segurou­‑a em seus bra‑
ços e colocou­‑a no chão. Sentiu suas mãos frias como gelo nos pon‑
tos em que lhe tocaram a pele.
Então Angelique viu diversas outras meninazinhas de sua idade
que ela conhecia da escola, vestidas como ela — todas usando seus
vestidinhos brancos de festa —, que pareciam estar esperando por
eles. Por que elas estavam aqui? Todos começaram a caminhar em
direção à grande casa e ela escutou algumas das outras meninas
falando baixinho. A mão de seu pai apertou a dela com mais firme‑
za e ele quase a levantava no ar enquanto avançava a passos largos.
Ela precisava correr para acompanhá­‑lo.

55

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 55 29/05/12 19:11


Lara Parker

Ela reparou que muitas pessoas de sua vila também estavam lá e


entendeu que era por causa delas que seu pai ficara carrancudo, mas
agora ele as ignorou. Elas estavam paradas em grupinhos à beira do
caminho, olhando a sua passagem, como se fosse uma procissão.
Ela olhou por entre as pernas dele, revestidas de pano escuro, e re‑
conheceu algumas de suas amigas, Céline, Marie­‑Thérèse, Sophie
— todas meninas da ilha, todas de pele clara, que moravam em
outras casinhas ao longo das praias. Seguiram em uma longa fila até
um grande portão de ferro que atravessava o paredão de pedra.
Então, ela viu a capela. Era um pequeno edifício junto ao pátio
central, com uma cruz acima da porta. Subitamente, ela recordou
como se um raio frio estalasse dentro dela, que esta deveria ser a
“comunhão” de que as freiras haviam falado, quando as meninas
eram levadas à igreja para serem crismadas. “A Primeira Comu‑
nhão” — era isso! E imediatamente ficou aterrorizada. Ela já tinha
dez anos e não havia decorado o catecismo. Ela tinha obrigação de
aprender tudo, mas a única coisa que começara a aprender mal e
mal era o Salmo 23: “O Senhor é o meu Pastor...” Mas o que era um
pastor? O Senhor era o mesmo Bon Dieu? Ou ele era Damballah?
Ela não conseguia se lembrar direito.
E por que aquela gente da vila parecia tão preocupada? Eles mur‑
muravam entre si, seus rostos sérios e enrugados. Alguns sussurra‑
vam e apontavam em sua direção. Outros sacudiam as cabeças e
faziam o sinal da cruz. Era porque ela era tão pequena? Ela ia rodar
no teste do catecismo porque nunca havia aprendido o quanto de‑
via. Ela era uma pecadora e seria a desgraça de seu pai.
Olhou em direção do castelo, suas torrinhas e paredes arredon‑
dadas. Agora que não plantavam mais cana­‑de­‑açúcar ali, o mato
tinha retomado a península. Trepadeiras subiam pelas balaustradas
e se penduravam nos parapeitos. Enquanto se aproximava, Angeli‑
que viu os troncos retorcidos de que brotavam as lianas serpentean‑
do ao longo das pedras e as folhas caídas e úmidas coladas às paredes
como algas mofadas. Atravessaram o portão de ferro, tão alto como
o mastro dos navios e cruzaram uma ponte sobre um fosso de água

56

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 56 29/05/12 19:11


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

lodosa. A capela escura se erguia à frente deles como um mausoléu.


Subitamente, resolutamente, ela parou e puxou a mão de seu pai.
Ele franziu a testa e olhou para baixo em sua direção.
— O que foi? — disse ele, fingindo gentileza. — Que foi,
meu anjo?
— Eu não quero entrar lá!
Ela mesma se surpreendeu com o som de sua voz, aguda e clara.
Seu som lhe emprestou coragem e ela começou a pensar em correr de
volta, através do portão e estrada abaixo. Aonde ele a estava levando?
O lugar dela era junto de sua mãe. Que direito ele tinha de levá­‑la
aonde quer que fosse? Ela não tinha razão alguma para obedecê­‑lo.
Ela soltou sua mão da dele e a escondeu atrás das costas.
— Me leve de volta! Eu não gosto dessa igreja!
Uma cólera súbita escureceu o rosto de seu pai e seus olhos se
apertaram. Ele fez um esforço para se controlar, a curva de seu lábio
superior brilhava e seus dentes reluziam. Ele se ajoelhou pesada‑
mente para ficar na mesma altura de seu rosto e a encarou.
— Escute­‑me, Angelique...
— Eu quero voltar para casa!
Ela sentia a histeria subindo de dentro dela e pensou no quanto
sua mãe o desafiaria. Ela ia gritar, morder, chutar, fazer o que fosse
preciso. Mas não daria sequer mais um passo em direção àquela
terrível capela. Ela observou a batalha das forças contrárias dentro
de seu pai. Seus olhos pareciam duas ágatas de fogo e seu hálito
começou a sair em jatos quentes contra as faces dela.
Desafiadoramente, ela girou nos calcanhares e correu. Imediata‑
mente, porém, escutou seus passos pesados atrás dela e, num relan‑
ce, ele a agarrou e prendeu entre seus braços, sufocando­‑a contra
sua sobrecasaca pesada.
— Escute­‑me, Angelique! — ele parecia exclamar e sussurrar ao
mesmo tempo, sua voz áspera em seus ouvidos. — Lembre­‑se do
dia em que eu fui visitar sua mãe. Quando eu fiquei tão doente.
Você lembra? Eu tinha pegado a febre, estava delirando e perdera o
controle de minha mente...

57

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 57 29/05/12 19:11


Lara Parker

Era verdade: ela se lembrava muito bem. Ele tinha cambaleado


para dentro de sua casinha à beira­‑mar, balbuciando, os olhos de
um animal selvagem, a língua negra e pesada dentro de sua boca.
Sua mãe olhara impassivelmente enquanto ele se lançara sobre o
catre em que elas costumavam dormir, retorcendo­‑se sobre o acol‑
choado e rasgando o algodão gasto em uma porção de lugares.

* * *

— Cymbaline! Você tem de me ajudar... Minha cabeça está explo‑


dindo! Por favor... por favor... se você jamais gostou de mim... —
seus olhos giraram nas órbitas e o branco das escleróticas ocupou
um lado inteiro deles enquanto as pupilas se fixavam nela. — Pelo
amor da criança, não me deixe morrer! — os passos de sua mãe a
levaram lentamente em sua direção, ela colocara a mão sobre o pei‑
to dele e escutara. Depois disso, fora até a sua cesta e retirara de um
saquitel uma pluma arrancada do peito de uma gaivota.
Angelique observara enquanto sua mãe se ajoelhara ao lado de
seu pai e segurara a pena contra sua boca, enquanto ela balançava
ao ritmo de sua respiração opressa. Depois, ela fechara os olhos e
colocara dois dedos ao lado do pescoço dele, balbuciando para si
mesma. Depois de um momento, a mulher se erguera e o olhara do
alto, as mãos na cintura e um sorriso de desprezo em seu rosto.
— Você não está morrendo, Théodore Bouchard — dissera. — E
essa sua dor é culpa de sua própria tolice. Alguma coisa que tomou,
sem a menor dúvida. Alguma droga para aumentar a sua masculi‑
nidade e deixá­‑lo orgulhoso de seu egoísmo pecaminoso, não foi?
— a voz de sua mãe mostrava um desprezo adocicado. — Alguma
poção mágica para fazer crescer seu membro e deixá­‑lo bem duro!
Não, eu não irei ajudá­‑lo!
Ela lhe dera as costas e recomeçara a fazer suas tarefas domés‑
ticas, ignorando­‑o.
Mas ele gemera ainda mais.
— Mulher amarga e ciumenta — resmungara. — Raposa vaidosa...

58

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 58 29/05/12 19:11


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

— Nesse ponto você tem razão.


— Pelo amor de Deus, me livre desta... agonia... desta dor de
cabeça terrível... — ele suplicou. — Já está me afligindo há dias. Eu
não tomei droga nenhuma. É... é... — seus olhos estavam arregala‑
dos e protuberantes — ... É a febre! Foi um desses negros amaldiço‑
ados que me odeiam. Minha camisa favorita sumiu depois da
lavagem. Eu sei... Eu tenho certeza de que um desses demônios ne‑
gros miseráveis me roubou para usar como mortalha. Está me escu‑
tando, Cymbaline? Há um corpo... um cadáver apodrecendo em
algum lugar escondido enrolado em minhas roupas e eu estou mor‑
rendo também! Faça alguma coisa, o diabo que te carregue! Tire
uma mecha de cabelo... um pouco... um pouco de sangue! Cymba‑
line! Ajude­‑me, sua porca desgraçada!
Estendendo um dos braços, ele se apoderara da faca da cozinha
que estava sobre a mesa e a sacudira para ela, não como ameaça,
mas para que o sangrasse, porém sua mãe lhe dera as costas e come‑
çara a cantar uma canção da ilha para abafar­‑lhe as queixas. De‑
pois, levantando uma cesta sobre a cabeça, levou a roupa lavada
para pendurar na corda enroscada nos estipes de duas bananeiras.
Angelique saíra com ela para a horta. Fileiras verdes de ervilhas e
inhames bem cuidados se estendiam a seus pés. Sua mãe soltara o
cesto da roupa ao lado das gavinhas de um pepineiro.
— Vamos, me ajude na outra ponta, querida... — dissera­‑lhe sua
mãe. Ela adorava ajudar a mãe a pendurar os vestidos para secarem
ao vento. Todos os pareus eram feitos de panos coloridos, como um
campo de flores desbotado, macios e multicoloridos, lembrando os
corais que ela avistava sob o mar. Ela erguera um dos panos que
drapejava ao sabor do vento e se deixara levar para dentro das cores,
tocando­‑as com sua mente.
Seu pai continuava resmungando e gemendo sobre o catre.
— Angelique...
Ele chamara por seu nome. Ela se virara, muito espantada que ele
falasse com ela. Curiosa, largara os prendedores e fora até ele, cami‑
nhando de leve até onde ele jazia. Ela se recordava de como ele parecia

59

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 59 29/05/12 19:11


Lara Parker

negro por debaixo de sua pele branca. Ela não conseguira ver a luz
que pulsava sob o rosto das outras pessoas. Ela ficara pensando para
onde sua luz poderia ter ido e julgara que tinha sido chupada pela dor
que ele sentia. Estendera a mãozinha para encontrar a luz e seus de‑
dos lhe haviam roçado a testa. Ele suspirara tão profundamente, que
ela tirara a mão bem depressa antes que ele a tocasse.
— Nã­‑ã­‑ã­‑ão... — ele sussurrara. — Toque minha testa de novo,
meu anjinho... — hesitantemente, ela tocara de novo em sua cabe‑
ça. — Aaaaah... sua mão é tão fresca e seus dedos... sim, é isso mes‑
mo... seus dedos empurram para longe a dor...
Ainda com hesitação, ela apertara suas têmporas cuidadosamen‑
te, movendo os dedos ao longo dos supercílios, para dentro dos ca‑
belos, depois acariciando­‑lhe o pescoço, repuxando a pela macia,
escavando em busca da luz perdida. E, para seu espanto, com um
longo suspiro gutural, ele adormecera.

* * *

Tudo isto retornara em um só momento, enquanto ele a apertava


contra seu peito. Seus braços esmagavam os ossinhos de suas costas
e seu rosto estava apertado contra o tecido espinhoso de sua sobre‑
casaca, provocando­‑lhe uma comichão. Ela farejou o odor salgado
de seu corpo. Então ele a empurrou para longe de si e a olhou dire‑
tamente no rosto. Sua barba se movia enquanto ele falava e perdigo‑
tos saltavam de seus lábios.
— Eu soube! Naquele dia eu soube! Você não é como as outras
meninas. Elas são fracas e miseráveis! Você tem poder suficiente
para transformar o que verá em breve. Para mudar tudo com o po‑
der de sua mente! — falou, com voz insistente. — Nada disso é real,
a não ser que você queira que seja! — seus dedos apertaram­‑lhe os
ombros como garras, cravando­‑se em sua pele. — Deixe­‑me sentir
orgulho de você... — disse ele, respirando fundo por um momento
e depois sua voz ficou ainda mais baixa, como um sussurro esterto‑
rante. — Minha... filha!

60

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 60 29/05/12 19:11


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

Nesse momento, a pedra em que seu coração se transformara se


abriu um pouco e era como se um fiozinho de água corresse de
dentro dela, como uma lágrima.
— Eu... eu vou tentar.
Ele lhe segurou a mão, agora com delicadeza, e a levou em frente.
Nesse momento, ela teria dado a vida somente para agradá­‑lo.
Mas ao contrário do que ela temera, eles não entraram na capela
e Angelique começou a achar que seu medo não tivera razão de ser.
Em vez disso, a pequena procissão de meninas de branco entrou no
pátio lajeado e se aproximou da parte de trás do edifício. Todos
pararam ali. Angelique viu a textura profundamente granulada da
madeira de uma porta com dobradiças pesadas que se abria como
uma garganta para uma sala localizada no subsolo.
Novamente, ele murmurou no seu ouvido, sua voz sibilando:
— Não chore. Está me escutando? Faça o que tiver de fazer, mas
não balbucie nem grite. O que você vai ver lá dentro não é real. É
apenas um truque!
As outras meninas, subitamente percebendo que iam ser manda‑
das entrar sozinhas naquela sala escura, começaram a gemer. Elas se
agarraram desesperadamente a seus pais ou mães, horrorizadas pela
separação. Um outro som, um uivo melancólico vindo das profunde‑
zas do castelo fez com que todas se arrepiassem de medo. A própria
Angelique sentiu o medo subindo dentro de seu estômago.
Seu pai empurrou a porta pesada e impeliu­‑a para frente, sua
cabeça rodando enquanto ela se sentia lançada para dentro da escu‑
ridão, juntamente com as outras. A porta se fechou, cortando a luz
que vinha de fora, e subitamente ela se percebeu em total escuridão,
seus pés pisando a terra fria. A parede úmida estava atrás dela e ela
colocou as palmas das mãos contra o frescor das pedras. Começou
a respirar alguma coisa crua e familiar. Alguma lembrança de qual‑
quer coisa que ela conhecera antes deslizou para sua mente cons‑
ciente e a seguir sumiu de novo. O fedor de carne morta pairava no
ar e novamente seu estômago deu uma volta, enquanto ela perma‑
necia ali, junto das outras meninas, parecendo suspensas na escuridão,

61

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 61 29/05/12 19:11


Lara Parker

assustadas demais para emitirem um único som. Elas formaram


um bolinho apertado, como cobras enroscadas umas nas outras,
tremendo, as respirações ofegantes, todas com medo de fazerem o
menor movimento. Uma das meninas começou a soluçar baixinho.
Houve um movimento como se algo girasse dentro da escuridão, o
som de alguma coisa a explodir e então os candeeiros escondidos no
alto das paredes trouxeram vida ao cenário. Como se fossem uma úni‑
ca massa, as meninas engoliram em seco e recuaram daquela visão.
No piso, bem no centro da peça, estava a cabeça de um javali,
arrancada de seu corpo. As cerdas negras e grosseiras estavam esti‑
cadas de sangue coagulado. Ossos e cartilagens se projetavam para
fora da garganta e os colmilhos amarelos se curvavam para fora da
boca aberta. Os olhos redondos como contas captaram a luz das
chamas e pareceram olhar fixamente para elas, como se o terror da
morte ainda rebrilhasse em suas pupilas negras.
As meninas berraram histericamente e se jogaram contra a por‑
ta, arranhando e batendo com os punhos cerrados, soluçando por
seus pais. Mas Angelique se separou do grupo. Ela achava que as
outras gurias eram umas bobas, do mesmo jeito que quando estava
na escola e alguma coleguinha gritava de medo ao ver uma aranha.
Uma vaga curiosidade encheu­‑lhe a mente enquanto ela olhava para
a horrorosa careta do animal. Ela sabia que era uma cabeça de ver‑
dade, isso não era truque algum e que seu pai lhe mentira. Mas ela
também sabia que, por mais ferozmente que os olhos brilhassem na
luz bruxuleante das tochas, não havia como lhe pudessem fazer
mal. O bicho estava morto.
Então ela escutou outro tipo de gemido e o som de arranhões,
unhas contra madeira e um coro melancólico de ganidos que fizeram
sua respiração parar e horripilaram todos os cabelos de sua cabeça.
Eram animais — e estavam muito vivos — raspando as garras
contra a madeira de outra porta em uma parede separada, uivando
para entrar. A porta se escancarou e seis cães saltaram selvagemente
para dentro da peça, numa fúria de rosnados e dentes à mostra, ba‑
tendo as mandíbulas e suas costelas se movendo sem parar enquanto

62

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 62 29/05/12 19:11


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

resfolegavam. Eles saltaram sobre a cabeça do javali e, em sua ânsia


faminta, arranhavam e mordiam as costas e os pescoços uns dos ou‑
tros, arrancando pedaços da carne do animal numa selvageria feroz,
ao mesmo tempo em que ganiam e rosnavam cruelmente.
As meninas tinham parado de chorar e se apertavam bem junti‑
nhas, respirando em uníssono, seus olhos imensos, os rostos man‑
chados de rubor, os narizes vermelhos e escorrendo.
Angelique continuou separada e silenciosa, parada à frente do
grupinho. Ela apenas contemplava, fascinada e confusa, enquanto
os cães devoravam sua refeição sangrenta. Ela estava lutando para
entender, mas sua mente se tornara em uma mancha confusa. Seu
pai a tinha ido buscar. Por que ele a levara para lá? Como ele a po‑
deria ter jogado neste lugar?
A raiva cresceu em seu peito e rugia em seus ouvidos como o
zumbido de um enxame de abelhas. Subitamente, ela queria puni­
‑lo, fazer com que ele lamentasse seu cruel abandono. Ele só era seu
pai de nome. De repente, ela odiava tudo quanto ele representava:
suas mãos desajeitadas e desgraciosas enquanto ele a erguia, sua voz
insistente: “Deixe­‑me sentir orgulho de você...”. Ela sentia uma fra‑
queza nas pernas e ansiava pela segurança cálida junto à sua mãe na
casinha à beira do mar. Ela respirou fundo. Ele lhe pedira que fosse
corajosa. Ela só tinha de ficar ali esperando.
Nesse momento, seu coração deu um pulo; o maior dos cães se
virara e estava olhando para ela. Seus olhos brilhavam, sua mandí‑
bula pintada de sangue, seus beiços erguidos até o focinho, expon‑
do as presas lustrosas. Um rosnado baixo começou a brotar de seu
peito e ele começou a se encolher, pronto para dar o bote. Ela sabia
não ter a menor condição de impedi­‑lo, mas permaneceu imóvel,
sua mente enfocada em algum outro lugar obscuro, em outro tem‑
po indefinível. Lentamente, ela ergueu a mão direita para segurar o
amuleto pendurado em seu pescoço e apertou­‑o entre os dedos. Ela
sentiu o formato da caveirinha da cobra dentro do seu uangá.
O cão rosnou novamente, agora bem mais forte, e se firmou nas
patas traseiras, seus olhos dois carvões acesos. Angelique escutava

63

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 63 29/05/12 19:11


Lara Parker

atrás de si o lamento das outras meninas, mas agora se sentia mais


hipnotizada que temerosa. Havia alguma coisa familiar aqui, algu‑
ma lembrança ou o fragmento de um sonho, mas ela não conseguia
trazê­‑la para seu consciente.
O cão começou a se mover em direção a ela, polegada após pole‑
gada. Ela já podia sentir sua respiração quente nos tornozelos e fa‑
rejar o sangue azedo em sua queixada. Esperta o suficiente para não
se mover, ela permaneceu congelada onde estava, imaginando um
meio de se salvar. Se ao menos ela conhecesse melhor a magia de
sua mãe... Havia forças invisíveis por toda parte — ventos que ar‑
rancavam árvores e correntes marítimas no oceano cuja força im‑
pedia que se nadasse contra elas. Se ao menos ela pudesse se tornar
invisível como o vento, misturar­‑se com a parede, perder­‑se nas
frestas das pedras frias...
Escutou o cão rosnar uma terceira vez, mais forte ainda, quase
um rugido, o aviso final antes de dar o bote. Mas não era a dor que
ela temia; era o fracasso — fracasso em corresponder à confiança
de seu pai e ao amor de sua mãe. Ela não soltaria um único grito.
Ela fitou o cão diretamente, disposta a ser devorada, quase ansiosa
por... o quê? Começar sua vida novamente? O olhar do cão estava
agora vago e indiferente. Então, algum demônio interno piscou de
dentro de seus olhos e eles se transformaram em duas chamas. Sua
boca de dentes cruéis e avermelhados pareceu curvar­‑se em um
sorriso demoníaco.
Estive esperando por você...
Sua pele pareceu encolher­‑se com o frio que a invadia. Era só
imaginação ou o animal falara com ela? Não em qualquer língua,
não com a voz, mas por meio de um pensamento negro que flutua‑
ra pelo ar até chegar à sua própria mente. Ou fora somente outro
ronco grosso provindo das profundezas de seu estômago?
Por um longo momento, ele a contemplou como para ver se ela
havia escutado ou sentido a sua mensagem e ela o encarou sem va‑
cilação, diretamente nos olhos de fogo. Então, ele inclinou a cabeça
e farejou um de seus tornozelos com a ponta do focinho. Ela gelou,

64

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 64 29/05/12 19:11


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

esperando que as fauces se abrissem. Mas ao contrário, ele mera‑


mente lambeu­‑lhe o pé, sua língua deixando um rastro de sangue.
Então, lentamente, ele lhe deu as costas e inclinou­‑se novamente
sobre os restos de sua horrorosa refeição.

65

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 65 29/05/12 19:11


Quatro

porta se abriu. A luz inundou a peça. Os cães se encolheram,


temendo chicotadas. As meninas se jogaram nos braços de seus
pais e mães, soluçando de alívio. Angelique caminhou de volta para
a luz do sol. Seu pai estava cercado por outros plantadores e parecia
exuberante enquanto eles o parabenizavam, alguns deles colocando
dinheiro em suas mãos. Todos falavam ao mesmo tempo.
— Bem, essa aposta você ganhou, Bouchard!
— Espantoso! Tenho de confessar. Simplesmente maravilhoso,
ela foi... onde foi que você a encontrou?
— Santo Deus! Eu jamais deveria ter feito essa aposta com
você, Théodore!
— Ora, apenas pense que perdeu em uma briga de galos, Luís
— disse seu pai, com uma gargalhada. — Com a diferença de
que, caso fosse uma briga de galos, você teria perdido muito mais
do que isso!
— Então foi assim que você arranjou tantas dívidas! — brincou
outro homem.

66

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 66 29/05/12 19:11


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

— É a minha cruz, Jacob, o jogo, o maldito jogo. Mas com isto...


— disse ele, erguendo o punho cheio de notas de banco —, eu pa‑
garei todas as minhas dívidas. Mais do que isso, agora eles têm ou‑
tra pequena deusa para mantê­‑los felizes!
— Só não felizes demais, segundo espero...
Um dos senhores de engenho, vestido extravagantemente com
um casaco verde de montaria e botas acima do joelho, cravou os
olhos em Angelique, depois se espreguiçou e deu um tapa amigável
nos ombros de seu pai.
— Muito benfeito, muito benfeito, meu amigo! — exclamou.
— Um pequeno tipo de beleza! Vai conservar suas moedinhas na
pilha, por assim dizer, hein? — seu rosto estava todo manchado
de vermelho pelo excesso de álcool e sua voz soava meio enrolada.
— Vamos supor que agora você é o senhor destas bandas. Pelo
menos, por algum tempo. Muito bom para sua bolsa, esse negó‑
cio. Muito bom mesmo.
— Esperemos que sim, Luís.
Angelique ergueu os olhos para seu pai, esperando ouvir
algum elogio.
— Eu fui corajosa? — indagou. Um dos senhores de engenho
mais jovens olhou para ela com algum interesse. Era atarracado e
robusto e usava uma camisa branca de colarinho aberto e calças de
couro. Sua expressão era séria e suas maneiras diretas.
— Ela tem olhos imensos, um azul que parece uma flor, ora, ela
não deve ter mais de nove ou dez anos... — comentou o rapaz.
— Sim, é uma lástima que sua pele seja tão clara — declarou seu pai.
— Em outra época, poderia ter um destino muito melhor à sua espera.
— E você vai sacrificá­‑la às suas desavergonhadas dívidas de jogo?
— Não, não, é mais do que isso, muito mais... — seu pai se afas‑
tou um pouco. Aparentemente, ele não queria que ela escutasse o
que ele diria a seguir. — Ela tem coisas muito ruins pela frente...
— Não posso acreditar que você esteja ansioso por isso — mur‑
murou Luís, entre dentes.
— Claro que não, mas eles precisam disso, não é verdade?

67

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 67 29/05/12 19:11


Lara Parker

— Como é que eles chamam o sacrifício? Débatement?


— Não, eles chamam de Manje Lwa ou de Mange loá... — disse
Théodore com uma risada.
— Ah, sim, a fonte da juventude e essa besteirada toda!
— Só assim eles se lembram de casa. A carne de uma criança, o
tempo que sai da mente e tudo o mais. Escutem. Eles já estão tocan‑
do os tambores...
Angelique caminhou até ele, com impaciência.
— Fui ou não? — insistiu.
Seu pai respondeu­‑lhe bruscamente.
— Muito corajosa de fato. Você foi escolhida. O que acha disso?
Agora vá preparar­‑se para a cerimônia.
— Quando eu posso voltar para a casa de mamãe?
Ela estendeu a mão para segurar a dele, mas ele enfiou os dedos
na cava do colete e se virou abruptamente para um lado. Foi ime‑
diatamente enfrentado por um padre gordo que usava uma longa
sotaina branca e uma cruz de madeira sobre o peito.
— Bl… bl… bl… blasfêmia! To... to… to… total blasfêmia,
Monsieur Bouchard! — entoou o padre. Ele se voltou para o homem
de rosto vermelho, seu ultraje levando­‑o a gaguejar. — E o... o... o
senhor apoia esse crime, Monsieur Desalles?
Luís Desalles olhou para Angelique com uma expressão marota.
— Ah, tenho certeza de que esta pequena deusa é uma imagem
de escultura! — falou, em tom de troça e a seguir dirigiu­‑se ao pa‑
dre com falsa deferência. — Mas, padre Le Brot, o senhor não pre‑
cisa ter medo, uma vez que tem a proteção da Igreja e os escravos
têm alguma estima por ela! — sua voz estava pastosa de rum. —
Ah, não, o senhor não precisa ter medo de acordar no meio da noi‑
te com sua casa sendo queimada até os alicerces, com sua garganta
cortada primeiro... ou não, já que falamos nisso. Ha! Ha! — ele
balançou de um pé para o outro e deu uma risadinha. — Pelo me‑
nos, eles repetem de cor as palavras da missa!
— Re... re... repetem de cor! Sem dúvida esta é a maneira de lhes
roubar para sempre suas almas imortais! — respondeu o padre Le

68

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 68 29/05/12 19:11


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

Brot, ofendido. Ele parecia sentir­‑se superior aos demais e tratava os


outros com desprezo, quase como se o esforço de conversar com
eles não fosse nada mais que um desperdício de tempo.
— Roubar as almas de todos nós, acho eu! — intrometeu­‑se outro
senhor de engenho. Era um homem mais velho que os outros, cabelos
brancos e um colete de brocado. — Mas o que mais eles todos fazem,
senão nos roubar nossos lucros e nosso rum? Adoecem num dia e no
outro já morreram! — os longos anos que passara na ilha haviam
desenvolvido nele um ar de resignação. — Eles estão sempre conspi‑
rando. Conspirando. Um dia, ainda vão acabar com todos nós!
— Pai? Eu fui corajosa?
Seu pai olhou ao redor ansiosamente, para ver se algum dos ou‑
tros plantadores a havia escutado e então rapidamente voltou­‑se
para o padre.
— Escute, Pai — falou sarcasticamente. — Ela quer falar com você!
O padre observou Angelique com certo interesse. Ele havia nota‑
do seu desapontamento quando, incapaz de fazer com que seu pai a
tomasse pela mão, ela a baixara novamente. Enquanto olhava para
ela, seu rosto se iluminou.
— Mm... mm... mas eu me lembro desta menina! Ela foi ensi...
si... ensinada pelas Irmãs. Uma ótima estudante, se não me engano
e também uma bo... bo... boa leitora! — disse ele, sorrindo. — Você
é a menina que leu todo o livro de poemas, não foi?
Angelique sentiu­‑se grata por lhe falarem com tanta considera‑
ção. Ela corou e sacudiu a cabeça afirmativamente, alegre de novo.
— Sim, padre. E... e também li o Shakespeare.
— E quais são os seus poetas favoritos, minha querida? — inda‑
gou o padre.
— Milton, senhor. E Thomas Gray.
— Ah, sim... Aquele poema: Elegia escrita em um Cemitério Ru‑
ral... Hummm...
O padre se virou para o pai de Angelique e falou­‑lhe em voz baixa:
— Vo... vo.. você seriamente pretende entreg... ga... gar esta me‑
nina para esse ritual atroz, Théodore? É uma coisa brutal, incivilizada.

69

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 69 29/05/12 19:11


Lara Parker

Nós trou... trou... trouxemos os negros aqui para trabalhar para nós
e temos agora o de... de... dever de lhes salvar as almas.
Vamos lá, você realmente acredita que os negros têm alma? —
redarguiu seu pai, com um riso forçado e sem alegria.
— Se... se... sem a menor dúvida, todos os homens têm al... al...
almas. Eles nascem com uma pu... pu... pureza instintiva que lhes
permite conhecer di... di... diretamente a Deus.
— Se isso fosse verdade, então teríamos de fazer tudo o que esti‑
vesse ao nosso alcance para não deixar que eles O descobrissem!
— ele olhou em volta e chamou asperamente. — Ei, vocês? Onde
estão as minhas negras?
Duas escravas se aproximaram timidamente.
— Aqui, sinhô... — murmurou uma delas.
— Onde diabos vocês estavam, suas porcas ignorantes? Peguem
a criança agora mesmo e a preparem para a cerimônia. Pelo amor
de Deus, deem um banho nela. Ela está imunda!
Elas se adiantaram em sua direção, mas Angelique não se
moveu. Ela segurou a manga da sobrecasaca de seu pai e deu­‑lhe
um puxão.
— O senhor está orgulhoso de mim? — perguntou. — Está?
Ele sacudiu a manga.
— Sim, sim, é claro que estou. Agora vá com essas mulheres.
Elas vão prepará­‑la.
— Venha, minina... — sussurrou uma das mulheres. Alguma
coisa em seu tom de voz xaroposo fez com que Angelique se recor‑
dasse de sua mãe. — Vai ser uma grandi felicidadi pra você. Très
gentile. Très bonheur. É um jogo que nóis fazemu. Venha agora. Ve‑
nha cum nóis.
Relutantemente, Angelique acompanhou as mulheres. Olhou
por sobre o ombro para avistar seu pai uma última vez. Ele estava
conversando com os outros senhores de engenho. Naquele momen‑
to, sua alta estatura vestida com a sobrecasaca negra por baixo de
seu rosto barbado e cabelos compridos pareceu assumir o formato
de um tronco de árvore queimado e enegrecido pelo fogo. Seus

70

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 70 29/05/12 19:11


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

gestos pareciam galhos sem folhas se erguendo no vento. Ele já se


esquecera completamente de sua presença ali.
Ela seguiu as duas criadas através do pátio e entrou pela porti‑
nha da torre redonda do engenho. Subiram por uma escura escada
em caracol que dava voltas dentro da estrutura como a parte de
dentro de um velho coral. Os olhos de Angelique estavam fixos na
cabeça enrolada em um turbante e no traseiro grande da escrava
que subia à sua frente, salientado pelo tecido com motivo floral de
sua saia. As paredes tinham sido construídas grosseiramente e os
degraus de pedra eram em forma de triângulos irregulares.
Em determinado ponto, ela encontrou uma janelinha estreita,
através da qual pôde ver um pouco da vegetação verde e as ondas do
mar, mas a seguir o caminho retorcido se escureceu novamente.
Angelique lembrou­‑se das cavernas cheias de água em que entrara
remando quando a maré estava baixa, cada vez mais fundas até que
toda a luz externa se esvaísse. Era uma brincadeira de que gostava
muito, namorar o escuro, que era simplesmente outro amigo, como
a água e a areia, nada que precisasse recear. Ela sabia que a qualquer
momento poderia virar a canoa e voltar para o sol.
Mas aquela escadaria ficava cada vez mais escura e o ar dentro da
torre era quente e úmido. O único som era a respiração ofegante das
duas mulheres e o som de seus pés descalços batendo contra as pe‑
dras, e Angelique pensou novamente na silhueta de seu pai, negra e
esgarçada contra a luz do céu.
Finalmente, elas chegaram a um patamar estreito em que havia
uma porta pesada, com um ferrolho grosso de metal. A porta foi
aberta, mostrando uma sala grande e redonda que ficava no alto da
torre, mobiliada com uma cama de colunas torneadas e um toucador.
Cortinas grandes como tapeçarias estavam penduradas sobre as ja‑
nelas compridas e estreitas e uma luz esmaecida fluía através delas
para se refletir nas paredes de pedra. A cama estava coberta por uma
colcha de veludo vermelho e sobre ela havia um dossel de renda fina.
Angelique percebeu no mesmo instante que toda a decoração era eu‑
ropeia, ornamentada mas gasta. Ela se virou para uma das mulheres.

71

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 71 29/05/12 19:11


Lara Parker

— O que meu pai quis dizer quando falou que eu era a escolhida?
A mulher mais gorda e mais velha parecia de boa índole e mos‑
trava uma espécie de gentileza em que Angelique instantanea‑
mente confiou.
— Eles óia vocês por uma fresta no teiado, lá em riba da parede
— mais alto que o lugá em que os cachorro estava — disse ela, lan‑
çando um olhar para sua companheira.
— E por que eles olhavam?
— Ora, pra vê quem seria a deusa, minina — respondeu a mu‑
lher, sua voz trêmula e Angelique percebeu que ela estava fazendo
um esforço para se mostrar alegre, porque suas bochechas estavam
frouxas e seu corpo inteiro parecia estar carregando um grande
peso. — Agora vem cá tu, docinhu. Nóis temo de ti deixá bunita e
limpinha. Vai sê um bom banhinho para tu, vancê não acha?
Gentilmente, a mulher mais velha levou Angelique para uma
tina grande, redonda e esmaltada. Seu tom de voz era tranquiliza‑
dor, mas suas mãos tremiam quando ela derramava um óleo perfu‑
mado de uma garrafa verde sobre a água morna. Uma fragrância de
avencas surgiu com o vapor úmido. Ela retirou com cuidado o ves‑
tidinho de Angelique e a ergueu para dentro da tina. Angelique
nunca se banhara em água tão cálida e macia e se deixou mergulhar
de boa vontade em seu abraço líquido.
Mas elas não a deixariam gozar daquele conforto por muito tem‑
po. Murmurando alguma coisa em língua crioula, a escrava mais
moça se reuniu a elas e as duas a esfregaram com tanta força, que
ela pensou que sua pele fosse ficar em carne viva atrás das orelhas e
sob os cabelos. Ela se deixou esfregar como se fosse uma boneca de
trapo, completamente frouxa, concentrando­‑se apenas nos dois pa‑
res de pés nus em tonalidades de castanho, que apareciam por bai‑
xo das saias de flores coloridas, pisando o chão molhado enquanto
se moviam ao redor da tina. Elas murmuravam uma para a outra
palavras musicais que Angelique reconhecia por haver escutado an‑
tes, mas que não podia compreender. Era tudo tão estranho e não
completamente desagradável, mais como um sonho em que ela fos‑

72

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 72 29/05/12 19:11


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

se jogada para cá e para lá como uma peteca e depois acariciada e


ninada com acalantos. Ela sentia as mãos fortes massagearem seus
pés e artelhos com óleo perfumado.
Então elas a tiraram para fora da água, puseram­‑na em pé e se‑
caram seu corpo trêmulo com um roupão de algodão macio.
Pentearam­‑lhe os longos cabelos até que ficassem fofos e dourados,
desenroscando­‑lhe os cachos com gentileza. Ela suportava tudo
como se estivesse sonhando acordada. Então baixaram um vestido
branco e transparente por sua cabeça, costurado em camadas de
tule fino. Parecia um vestido de noiva, amarrado com um cinto
cheio de borlas escarlates, mas percebeu que sua bainha estava es‑
garçada. Então a enrolaram em fios e mais fios de joias — colares,
tornozeleiras, braceletes e pulseiras de ouro com moedinhas tilin‑
tantes, pequenas conchas e pérolas.
Elas a conduziram até um espelho erguido no canto da sala.
Quase não reconheceu o reflexo que via nele. O convento em que
estudara não tinha espelhos e ela só vira seu reflexo nas vidraças de
sua casa ou na superfície das lagunas quando a água estava lisa.
Sua pele era mais branca do que ela havia imaginado e seus ca‑
belos dourados explodiam como a aura do sol ao redor de sua cabe‑
ça e de seu rosto delicado e muito pálido. O tecido fino do vestido
estava amontoado ao redor de sua cintura em muitas camadas, en‑
roladas em colares longos ou presas por broches e, de repente, ela se
recordou dos casulos redondos e gordos que pendiam dos galhos
das mancenilheiras, brilhantes sob o sol, cada um escondendo um
verme adormecido. A mulher mais velha trouxe uma tigela e um
pincel e começou a pintar seus olhos com tinta kohl. Comichava e
Angelique empurrou­‑lhe a mão.
— Fica quetinha, meu bem e num pisca — disse a mulher. —
Ansim, isso aí. Num tá linda?
Angelique franziu a testa.
— Por que vocês estão fazendo tudo isso?
— Ora, pra tu ficá bonita, minha nenê — explicou a outra. —
Todus us escravu vêm ti vê hoje.

73

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 73 29/05/12 19:11


Lara Parker

— Vêm me ver? Por quê? Por que eles querem me ver?


— Pra vê vancê de manto e com todas essa coisa bonita usandu.
Pruque tu vai sentá lá em riba, no arto do artar...
— O quê? Um altar?
— É craro. Tu é a deusa agoia, minina. Tudos elis vêm vê vancê e
vão se ajoeiá e rezá pra tu e ti adorá, que tu é a pequena Virge Maria.
Esta descrição dos acontecimentos pareceu uma perspectiva ter‑
rificante para Angelique. Alguma coisa estava para acontecer que a
amedrontava mais do que a peça com os cães famintos ou a frialda‑
de de seu pai. Seus pensamentos começaram a se desenrolar louca‑
mente e ela olhou para as mulheres.
— Eu quero ir para casa! — gemeu. — Por favor, por favor, me
levem de volta! A mamãe está me esperando lá!
— Nã, nã, nenê — murmurou a mulher grande tranquilizadora‑
mente, como se a estivesse embalando no berço. — Vancê fica aqui
agora. Tu mora na torre, viu? Nóis duas cuida de tu, ti damo comi‑
da boa e ti vestimo e te deixemo gorda e reluzenti. Pruquê vancê é
agora a nova deusa viva da prantação.
Sua voz tremeu e Angelique contemplou os olhos da negra como
se fosse a primeira vez. O branco dos olhos estava marcado por
veiazinhas cor de cobre, mas estavam cheios de lágrimas, que escor‑
riam por suas bochechas gordas e brilhavam contra sua pele escura.
— Por que você está chorando? — ela indagou, cada vez mais
confusa. — Está chorando por minha causa?
A mulher sacudiu a cabeça, mas se engasgou quando tentou falar.
A mulher mais nova se aproximou, sua saia cor de ferrugem apertada
ao redor de seu ventre magro e olhou severamente para a que chorava.
— Thaïs. Para cum isso! Tu é boba, ou o quê!? I si elis ti iscuta?
Thaïs ergueu os olhos para ela e disse em voz lamentosa:
— I si iscuitarem? Nóis faiz de novo? Tudo di novo? Óia essa guriazi‑
nha! Suzette? Tão cruel... tão cruel... Teu curação é duro qui nem pedra?
— Ora, i que mais nóis pode fazê? — retorquiu Suzette, austera‑
mente. — Si nóis si recusa, elis nos mata. Tu sabe disso, Thaïs. Tu
sabe disso tão bem quantu o sor desci nos fim de dia!

74

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 74 29/05/12 19:11


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

Ao ouvir essas palavras amargas, Thaïs subitamente pareceu


encolher­‑se e começou a soltar um gemido baixo e agudo, os braços
apertados ao redor do peito, balançando para frente e para trás.
— Ela era minha fia... Minha nenê preciosa...
— Para cum isso! — a voz de Suzette parecia um chiado de co‑
bra. — Ela num era fia tua coisa arguma! Era só outra guria escrava
qui nem esta, só qui esta inté pareci branca. I agora, tu tá loca, ge‑
mendo dessi jeitu? Si elis ti pega, vão ti botá no troncu i ti batê. É o
que tu qué? Cinquenta laço no teu lombu qui nem fogo? E ti man‑
dam logu logu pra trabaiá nos canaviá cum tuas costa feita im pe‑
daçu! Nóis é as duas filiz de trabaiá aqui, na casa delis, aí tu tampa
essa tua boca preta! Tu inté pareci a idiota di uma hiena!
O choro diminuiu um pouco e Angelique, cada vez mais pertur‑
bada, olhou ao redor do quarto. Só conseguiu ver aquela única por‑
ta com o ferrolho de metal e três janelões altos e estreitos, com
caixilhos de chumbo, as folhas trancadas, instaladas bem fundo nas
paredes grossas. No mesmo instante, ela percebeu um odor apetito‑
so, temperado e quente, e Suzette se aproximou dela com uma ban‑
deja de prata, trazendo um prato grande cheio de fatias de bolo e
pastéis doces. Havia frutas cristalizadas e carne moída dentro de
massa folhada, mais uma taça de líquido cor de ouro.
— É para mim? — ela perguntou.
— Sim, minina, é tudo pra tu e u que tu não comê, sobra pra
nóis — a voz de Suzette indicava cobiça e gula. — Vai in frenti,
come uns. Tu vai gostá muito, meu docinhu...
Angelique sentiu um puxão no estômago e só então percebeu até
que ponto estava faminta. Estendeu a mão para um pastel: tinha
cheiro de limão e açúcar, mas por dentro era uma pasta quente de
frango. Deu uma mordida. Nunca tinha provado nada tão gostoso!
Pegou o prato e Suzette observou com uma satisfação austera en‑
quanto Angelique comia até não caber mais, lambendo os dedos e
tomando golinhos do suco doce que havia na taça.
Enquanto isso, Thaïs não parava de olhar para o espaço, com um
punho fechado contra os dentes, embalando­‑se como se estivesse

75

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 75 29/05/12 19:11


Lara Parker

esperando alguma coisa com um pavor contido. Então, abrupta‑


mente, ela ergueu a cabeça e seus olhos se arregalaram. Angelique
escutou um som distante. Thaïs ergueu­‑se, prendendo a respiração
e soltou um uivo tão angustiado que parecia ter levado uma facada.
Suzette, com o rosto contorcido, correu até sua companheira e a
abraçou com toda a força.
O grito vinha da direção da capela — um berro de arrepiar os ca‑
belos, não um grito de medo ou de dor, mas um uivo de terror com‑
pleto e final. Angelique se ergueu e o prato caiu no chão com estrondo.
— Mas o que é isso?
Nenhuma das mulheres se moveu ou respondeu. Thaïs desabou
em uma cadeira com uma resignação inerme. Seu rosto era uma
máscara de tristeza e ela olhava para frente com olhos cegos. Mas
Suzette veio até onde estava Angelique e segurou­‑lhe a mão. Com
um puxão firme, fez com que ela se levantasse.
— Vem cá, vamo — cochichou. — Elis quer vancê agora. Quan‑
du teu tempo acabá, podi sê que tudo isso tenha acabadu e elis vai
ti sortá. Vancê percisa esperá pur isso e conservá teu curação longi
das percupação.
Angelique não fazia a menor ideia do que ela estava falando. Ela
apenas sabia que alguma coisa terrível havia acontecido e que agora
ela teria de descer até aquela igreja. Ela puxou a mão e correu em
direção à porta. O ferrolho era pesado e difícil de erguer e Suzette
já a agarrara pela cintura, impedindo­‑lhe os movimentos e gritan‑
do. Angelique conseguiu dar­‑lhe um coice e se livrar, enquanto
abria o ferrolho e jogava a porta para o lado com um estouro. Ela se
enfiou pela abertura escura e voou escada abaixo, achando que a
cada momento ia perder o pé e mergulhar de cabeça naquela espiral
estonteante. Suzette vinha logo atrás dela, gritando e tentando
agarrar­‑lhe o vestido, mas Angelique era mais leve e mais rápida
que a mulher de passos pesados.
Quando chegou ao térreo, disparou através do pátio e se jogou
contra o portão que dava para fora. O imenso cadeado bateu­‑lhe no
estômago com tanta força, que ela soltou todo o ar dos pulmões.

76

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 76 29/05/12 19:11


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

Vendo que a corrente do cadeado estava enroscada na tranca, olhou


em volta sem saber o que fazer, até que viu uma portinha na parede
que conduzia ao fosso e correu em direção a ela.
Os passos de Suzette ecoavam atrás dela e ela gritava agudamente:
— Angelique! Pare! Elis vai nos matá! Vorta, pur favô!
A porta se abriu com um grunhido e ela desceu por outra esca‑
daria de pedra até um corredor que parecia tão negro quanto um
túmulo. Ela tateou ao longo das paredes, horrorizada pelo medo de
perder o pé e cair, porque as pedras sob seus pés eram escorregadias
de musgo ou limo. Atrás dela, a voz de Suzette ainda chamava seu
nome, mas ela meio que correu, meio que deslizou sobre as pedras
pegajosas, sua respiração aos haustos, seus dedos se arranhando nas
pedras. Subitamente, o chão desapareceu debaixo de seus pés e ela
caiu por sobre uma espécie de beiral áspero e tombou dentro da
água até os joelhos. Ela estava na parte subterrânea do fosso. Levan‑
tou as bainhas de seu vestido e espadanou através da poça, que pa‑
recia ir ficando cada vez mais funda, depois mais rasa outra vez.
Lambeu os lábios e o gosto do ar fétido lhe disse que aquela água
tinha sido empurrada pela maré desde o oceano.
À medida que seus olhos se acostumavam com o escuro, ela per‑
cebeu as paredes de pedra úmida que se erguiam à sua volta. Escu‑
tou um rufar distante e ritmado, que ela pensou ser a arrebentação
da maré contra os penhascos da praia e sentiu uma grande alegria
ao pensar que poderia fugir para o oceano.
Foi então que ela avistou uma luz no alto de outra escada muito
mais estreita que aquela que descera e bastante íngreme, quase
como uma escada de mão subindo da água. Encorajada, ela vadeou
até os degraus e subiu. O som dos tambores estava mais perto e es‑
cutou um gemido trêmulo, como o da arrebentação trovejando no
interior de uma caverna profunda à beira­‑mar.
Atingiu uma porta de madeira e a empurrou para abrir.
Encontrava­‑se em uma peça pequena, as paredes alinhadas de
prateleiras cheias de garrafas. Na outra ponta da sala havia uma
fita de luz cintilante aparecendo por baixo de uma cortina pesada

77

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 77 29/05/12 19:11


Lara Parker

que cobria uma porta muito maior e ela se enfiou cuidadosamen‑


te sob o tecido, pensando que esta poderia ser sua via de escape
para o mundo externo.
A princípio, Angelique não entendeu o que estava vendo. Era
como se estivesse em uma plataforma logo acima de uma caverna e
que o céu noturno tivesse caído e enchido o recinto com estrelas.
Mas não, eram pequenas chamas — fagulhas de luz por toda parte!
O que pareciam brasas semiapagadas eram de fato milhares de velas
bruxuleando através da escuridão. O som, que parecia zumbidos e
murmúrios, provinha realmente das gargantas de dúzias e dúzias
de homens apinhados na igreja, cada qual segurando sua vela e ba‑
lançando ao ritmo de tambores. Ela estava na capela!
Seu ânimo desabou dentro dela e sentiu que suas pernas e braços
doíam de exaustão. Mordeu os lábios e prendeu as lágrimas quen‑
tes. Sua fuga desesperada a conduzira justamente aqui. O ritmo pe‑
sado dos tambores pulsava e sacudia o ar com seu timbre. Ela olhou
horrorizada para uma massa ondulante de corpos suarentos. Os
homens cantavam incompreensivelmente, mesmerizados pela bati‑
da dos tambores.
Seus olhos percorreram o salão, em busca de uma passagem
através da turba. A comida que devorara estava exercendo um efeito
estupefaciente sobre ela. Sua visão ficou embaçada e suas pernas
pareciam água. Ela tentou correr de volta, mas uma tontura fez que
ela girasse e caísse justamente nos braços de Suzette, que chegara
por trás dela. Ela sentiu que seu corpo inerme era erguido sobre
uma alta plataforma de madeira.
Colocada acima do bando de homens, ela mal conseguia discer‑
nir frascos cheios de líquido, frutas e bolos e fatias de hortaliças
cruas através daquele nevoeiro que lhe recobria os olhos. Tudo pa‑
recia polvilhado com farinha branca e emitia um odor azedo. Havia
jarros amarrados com fitas trançadas, que pareciam conter peque‑
nos ossos e outros objetos misteriosos flutuando em líquido. So‑
bre um imenso prato de porcelana ela viu pedaços de carne crua
de algum animal sacrificado e esfolado, cortados em fatias e ainda

78

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 78 29/05/12 19:11


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

pingando gotículas de sangue. A vista lhe provocou um enjoo, sen‑


tiu um engasgo na garganta e olhou para outro lado.
Erguendo os olhos, viu que seu pai estava parado nos fundos do
santuário. Sentiu uma onda de esperança, mas ele não se adiantou.
Ao contrário, ele a observava, mas seu olhar não demonstrava afei‑
ção ou orgulho. Ele parecia ao mesmo tempo raivoso e resignado,
como se simultaneamente rejeitasse e aceitasse um destino maior
do que podia controlar. Moveu­‑se até o centro da massa de homens
ondulantes e ficou parado ali, segurando uma longa espada acima
de sua cabeça, o cabo em uma das mãos e a ponta na outra, como
uma ponte sobre sua cabeça. A lâmina da espada reluzia, refletindo
a constelação de pequenas chamas, mas o centro dela estava escure‑
cido por uma mancha enferrujada.
Então ele se curvou e beijou a lâmina, colocando a espada sobre
o altar, ao lado de Angelique. A seguir, ele ergueu o prato de porce‑
lana. Voltou­‑se para a congregação e se moveu entre as fileiras de
homens ajoelhados, passando­‑lhes pequenos pedaços de carne en‑
sanguentada. Ela viu que cada dançarino colocava na boca um pe‑
daço da oferenda.
O cântico e o rufar dos tambores chegaram a um auge frenético
e os escravos se ergueram e começaram a girar e a se embalar, en‑
quanto Angelique observava a cerimônia através do véu de qual‑
quer derivado de ópio que lhe houvessem administrado. Os corpos
dos dançarinos pareciam agora outros tantos monstros. Cresciam
velas acesas do alto de suas cabeças, das costas de suas mãos e do
peito de seus pés. As luzes saltitantes giravam e traçavam arcos de
fogo através da escuridão. Vários dos homens agora saltavam alto
no ar e gritavam como se tivessem sofrido algum golpe.
Vagamente, ela percebeu que estava no centro da cerimônia. To‑
dos os olhos dos homens a fitavam, eles se curvavam perante ela e
dançavam à sua volta. Seus dentes brancos cintilavam e suas lín‑
guas estavam escarlates.
Um dos homens na primeira fila da multidão entrou em transe,
soltou um grito agudo e então caiu aos pés do altar, balbuciando

79

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 79 29/05/12 19:11


Lara Parker

um fluxo de palavras em uma linguagem incompreensível e Ange‑


lique percebeu que ele estava possuído. Ela tinha visto coisas pare‑
cidas em cerimônias realizadas na vila, mas sua mãe sempre a
afastara delas. “Couchon Gris”, ela murmurara. “Petrô! Não olhe
para isso, é coisa do mal.” Os olhos do homem estavam fixos nela
até que rolaram para cima e para dentro das órbitas e só as escleró‑
ticas amareladas apareciam. Suas costas formaram um arco e ele se
atirou em sua direção, o estômago projetado para frente, enquanto
se retorcia e dava cambalhotas.
Sua cabeça estava cheia daquela fumaceira e um miasma come‑
çou a nadar por entre seus pensamentos até que a inundou comple‑
tamente. Teve a impressão de que caía de uma grande altura e
interrompeu a queda com um estremeção violento, colocando as
palmas das mãos na plataforma. Algum tipo de líquido, pegajoso e
ainda quente, tinha sido derramado ali e ela ergueu as mãos, repu‑
xando a cabeça ao sentir o fedor cáustico. Olhou então para baixo.
Percebeu pela primeira vez que estava sentada sobre uma poça de
sangue que se coagulava lentamente e que fluíra através do altar
para pingar pelos lados da plataforma até o piso, em que se juntara
numa poça de um carmesim fosco.
Ela olhou para a mancha escura por um longo momento, imagi‑
nando qual seria o seu significado e seu olhar correu para uma mas‑
sa arredondada caída junto dela, brilhando de sangue congelado,
como uma anêmona do mar ferida, quebrada de sua haste e carre‑
gada pelas ondas até a praia. Mas os filamentos lembravam mais
algas enroscadas ou ramos de zosteras, e a seguir ela percebeu que
não era nenhum tipo de alga, mas cabelos humanos enroscados e
sob eles divisou o brilho opaco dos olhos vidrados de uma menina
morta! Nesse momento ela desmaiou e perdeu toda a consciência
do que a rodeava.

80

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 80 29/05/12 19:11


Cinco

uando Angelique despertou, estava de volta na sala da torre,


sozinha, sua roupa fora trocada e ela fora deitada sobre a col‑
cha de veludo da cama. Era de dia, mas a chuva caía novamente e ela
ficou ali, quietinha, escutando o pandeiro das gotas sobre o teto
acima de sua cabeça. Algumas vezes golpes violentos de tambores
em staccato reforçavam o som, mas logo diminuíam ao sabor dos
caprichos do vento e então ouvia o gorgolejar constante da água que
escorria dos parapeitos e rugia ao tombar contra o solo. Estalos e
sacudidelas vibravam através das paredes. E por baixo de todos es‑
ses sons, ela escutava o barulho que, sabia agora, fizera com que se
acordasse. Eram os gritos de uma escrava.
Ela afastou o dossel de renda da cama e olhou ao redor. Havia
bancos grosseiros ao longo das paredes e a tina esmaltada em que
tomara seu banho ainda estava cheia com aquela água oleosa. Seu
saquinho de livros e roupas estava atirado no chão de tábuas largas
e manchadas e a seus pés havia um tapete desbotado.
Escutou a voz de novo:

81

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 81 29/05/12 19:11


Lara Parker

— Não, Sinhô, pur favô, num faça isso. Eu não pude pará ela. Ela
corria muito! Pur favô, Sinhô, pur favô, num faça isso!
Angelique pulou até uma das janelas e conseguiu olhar para baixo.
O alto da torre ficava mais ou menos a uns seis metros acima do
nível do chão. O pátio estava vazio. As lajes estavam prateadas com
a água da chuva, enquanto riachinhos desciam pelas calhas para
formar pequenas poças e lançar borrifos ao redor. Havia um poço
de pedra e dois postes cravados no chão, um dos quais com três
cabras amarradas e parecendo inquietas.
Então seu pai e outro homem apareceram ao pé da torre, arras‑
tando a escrava Suzette. O homem desconhecido usava roupas de
trabalhar nos campos, mas era forte e claramente um blanc. An‑
gelique imaginou que fosse o capataz da plantação, porque carre‑
gava um chicote pesado e puxava Suzette por um dos pulsos.
Suzette cravava os calcanhares no piso e arranhava seu braço com
a mão livre, até que ele lhe agarrou o outro pulso. Ele a levou aos
puxões até o poste vazio, arrancou da cabeça dela o pano rasgado
de seu turbante e o amarrou ao redor de seus pulsos, atando­‑a a
seguir no poste.
— Ai, pur favô, Sinhô, num bata numa pobri escrava! Num foi
minha curpa! Ela correu qui nem uma rata, mas eu acabei pur pegá
ela, o Sinhô sabe qui eu peguei! Nunca vai acontecê de novo, nunca,
nunca! Ai, pur favô, Sinhô, num faça isso, não! NÃO!
Angelique se agarrou às barras da janela, tremendo. O calor su‑
biu até seu rosto. Nunca tinha visto antes um escravo apanhar no
tronco e nem ao menos acreditava que essa crueldade acontecesse.
Por um momento, a chibata se retorceu ao longo do solo como
uma cobra em areia quente e então se ergueu, pairou e cantou pelo
ar. Suzette engoliu em seco e quando o açoite a atingiu, arqueou as
costas e berrou como se sua voz tivesse sido arrancada de seu corpo.
Angelique fechou os olhos e virou a cabeça. Mas ainda podia
escutar os estalos do chicote e os uivos lastimosos, até que os gritos
se transformaram em gemidos, depois em silêncio, enquanto o
chiado e estalos da chibata prosseguiam. Quando o silêncio reinou

82

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 82 29/05/12 19:11


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

novamente, Angelique criou coragem para olhar outra vez. Ela viu
o capataz desatar a tira de pano e puxá­‑la. O corpo de Suzette es‑
corregou para o chão molhado.
O pai de Angelique avançou até ela e contemplou a escrava e
então, como se ele soubesse que ela estaria olhando lá de cima, er‑
gueu os olhos justamente para as barras da janela da torre em que
a menina estava.
Ela percebeu com um choque que ele havia querido que ela
assistisse a tudo e seu coração gelou no peito. Imagens relampeja‑
ram dentro de sua mente, recortadas da noite anterior, momentos
daquilo que deveria ter sido um pesadelo: escravos fazendo fila
no santuário escuro, silenciosos e obstinados, cada um parando
um momento diante do grande portal dianteiro. Então, um sa‑
cerdote de manto negro, ai meu Deus, era seu pai mesmo! Ele ti‑
nha administrado o sacramento, tocando em cada testa com
água-benta e colocando alguma coisa dentro de cada boca. Então
a longa linha de homens marchara para dentro da noite e a porta
tinha sido trancada.
Angelique esperou para ver se Suzette se levantava, mas ela per‑
manecia imóvel e frouxa sobre o pavimento. Finalmente, Thaïs se
esgueirou de uma porta, ergueu a escrava nos braços e carregou­‑a
para dentro. Depois disso, o pátio ficou vazio de novo, salvo pelas
três cabras que baliam de vez em quando e empurravam umas às
outras como peixes presos em uma linha de pesca de corrico. A
chuva constante ainda martelava monotonamente a terra.
Angelique se moveu de volta para a cama ainda aturdida. Só en‑
tão percebeu que mordera os lábios até tirar sangue e que eles esta‑
vam inchados. Seu corpo estava pegajoso de suor. De repente, ela
percebeu como era quente na sala da torre, em que não chegava a
brisa do mar. Parou no meio do quarto, apoiando uma das mãos
em um poste tremendamente grosso que atravessava o pavimento.
Olhando para cima, ela percebeu que o poste não servia para
suportar o telhado, mas tinha no alto uma roda denteada que se
encaixava nas imensas engrenagens presas a um caibro horizontal

83

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 83 29/05/12 19:11


Lara Parker

que atravessava a parede. Ela percebeu que a mó do engenho estava


atrelada a este poste e que aquele som contínuo de esmagamento era
provocado pelas asas do moinho forçando as pedras para esmagar a
cana, que deveriam ficar abaixo do nível do solo. Mas as asas esta‑
vam tão rasgadas que somente a armação em treliça oferecia algu‑
ma resistência ao vento; logo entendeu que o moinho estava
abandonado e que seus braços apenas giravam e rangiam em um
eterno vaivém.
Olhou através do quarto. Sobre o tampo do toucador, viu uma
bandeja com fatias tentadoras de abacaxi e manga e pastéis de cre‑
me e morangos em um prato ao lado de uma xícara de chocolate.
Mas seu estômago ardeu em amargor só com a ideia de comer.
Subitamente, ela ouviu o ferrolho se abrir por fora da porta e se
virou para encarar seu pai. Suas botas altas estavam enlameadas até
em cima, usava calças negras bastante gastas e sua sobrecasaca esta‑
va empapada com a água da chuva. Ele ficou parado na porta, sim‑
plesmente olhando para ela e, sob o chapéu disforme, seu rosto
parecia ainda mais maligno que de costume. Ele olhou para a ban‑
deja cheia de comida e reclamou:
— Você não tomou seu desjejum.
— Eu não quero — disse ela, sua voz pouco mais que um sussurro.
— Eu não quero mais ficar aqui. Leve­‑me de volta para minha mãe.
Ela ficou espantada com sua própria ousadia.
Então percebeu que estava em pé atrás de uma cadeira e colocou
as mãos ao redor do encosto de madeira, apertando firmemente.
Ela sentia coceira nas axilas e seus braços pareciam grudados de
seus lados.
Seu pai deu de ombros e sacudiu a cabeça como se não
conseguisse entender.
— Você não está cansada de viver naquela choupana com sua
pobre mãe, sem nunca ter o suficiente para comer?
— Nós não somos pobres! — protestou Angelique. A horta e o
mar forneciam tudo o que ela e sua mãe precisavam. Ela nunca se‑
quer pensara em passar fome.

84

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 84 29/05/12 19:11


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

— Você não iria preferir morar aqui? Pode ter tudo quanto dese‑
jar e as escravas cuidarão bem de você. Vai viver como uma prince‑
sa... — argumentou ele.
— E você vai mandar bater nas escravas que não me cuidarem
direito? — ela indagou, o rubor do desprezo colorindo­‑lhe as faces.
Ele hesitou por um único momento antes de lhe responder:
— Sim. Caso você tente fugir.
Ela sentiu uma onda de pânico. Ele a havia enganado. Os sonhos
de sua mãe eram somente mentiras de seu pai. Ela se firmou no
encosto da cadeira para não vacilar enquanto lutava contra o calor
que subia de dentro dela e se esforçava para prender as lágrimas.
Mas seu pai parecia incapaz de entender o que se passava com ela e
um sorriso retorcido irrompeu através da carranca com que a havia
contemplado antes.
— Se ao menos você tivesse conseguido olhar para si mesma
a noite passada... — comentou em um tom de voz que quase pa‑
recia de reverência. — Eles ficaram escravizados por sua presen‑
ça. Eu mesmo mal podia acreditar. Realmente, penso que você é
um tesouro...
— Você prometeu uma boa escola! — ela gritou. — Disse que eu
ia ter a vida de uma filha de senhor de engenho. Você mentiu!
Seu pai suspirou profundamente e caminhou até uma das janelas.
— Eu sou... um senhor de engenho — declarou, olhando para
fora e soltando outro suspiro.
— Onde estão as suas plantações de cana? Onde está sua linda casa?
Ele riu de novo, um riso sem a menor alegria, quase uma tosse.
— Todas as manhãs eu me acordo pensando exatamente nisso...
Passou a mão pela boca e esfregou os olhos como se esti‑
vessem doendo.
— É um negócio amaldiçoado... — afirmou, inclinando­‑se con‑
tra as barras. Falava em uma voz tão baixa, que parecia estar falan‑
do sozinho. — Tem sido uma luta difícil, diversas vezes pensei que
estivesse arruinado. Ano passado, um furacão destruiu a colheita.
Duas vezes os escravos conspiraram e iniciaram revoltas — fúteis,

85

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 85 29/05/12 19:11


Lara Parker

naturalmente — mas revoltas, não obstante. Houve muitas... situa‑


ções... Bem, vamos dizer que eles entendem de venenos... Alguns se
matam enchendo o estômago de terra. Outros fogem e pulam pelo
promontório ali adiante, pensando que podem nadar através do
mar de volta até a terra deles e ficarem livres...
Sua voz cessou aos poucos, como se ele tivesse pensado em coisas
que não podia dizer. Embora ela não entendesse a maior parte do
que ele falara, Angelique sentiu uma onda de orgulho pelo fato de
que ele estava se confidenciando com ela.
— Há coisas que você não pode conhecer — explicou ele, ainda
olhando para fora. — Os escravos são uns selvagens cheios de ran‑
cor. Tentamos convertê­‑los ao cristianismo, mas eles ainda têm prá‑
ticas antigas que trouxeram consigo da África. Adoram deuses que
assumem muitas formas e todos são extremamente supersticiosos
— com isso, eu quero dizer que eles não são realmente...
— Os loás são reais — cochichou Angelique, baixinho.
Seu pai girou nos calcanhares rapidamente e fitou­‑a:
— O que você sabe a respeito deles? — indagou rudemente.
— Eles entram em sua cabeça — respondeu a menina.
Ele franziu a testa e colocou a mão sobre o peito enquanto a encarava.
— Você já ouviu falar em uma loá chamada... Erzulie?
— É a deusa do amor.
— Ah, então você sabe... Hummm... espantoso. Só posso pen‑
sar que sua mãe... bem, existe uma espécie de adoração depravada
de Erzulie em minha plantação. Muitos dos escravos são devota‑
dos a ela. Você... como posso dizer isso... eles acreditam que ela
retornou em você... em forma humana, que esta deusa voltou à
vida — completou.
— Eu? Mas ela é uma mulher com muitos maridos...
— Eu sei... Você é uma espécie de Erzulie criança. Eles acreditam
que você aparece magicamente no final da cerimônia e lhe trazem
ofertas e em troca, você lhes atende os desejos. Tudo não passa de
tolice, naturalmente, eu sei muito bem disso. Mas enquanto eles

86

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 86 29/05/12 19:11


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

acreditarem que você irá aparecer perante eles, acho que irão se
contentar com seu trabalho e permanecer... manejáveis...
— Mas por que eles acreditariam em uma coisa assim?
— Porque eu mesmo contei para eles.
— Mas eles não vão acabar descobrindo?
— Essa é a dificuldade. A fim de que o ritual possa ser realizado,
você precisa permanecer escondida. Se eles a virem andando por aí,
percorrendo a terra, ou junto com sua mãe, iriam perceber que ti‑
nham sido enganados. A partir de então, eles ficariam ainda mais
inclinados a se revoltar contra mim. E quanto a você, bem, prova‑
velmente eles lhe cortariam a garganta. É muito importante para
eles crerem que você é... um espírito.
— Mas é um monte de mentiras. Eu não sou espírito nenhum.
Ele começou a caminhar pelo quarto. Parou diante do espelho
e olhou fixamente para sua imagem durante um momento, fazen‑
do uma careta e estreitando os olhos. Esfregou as mãos por sobre
o rosto.
— Venha se contemplar — disse ele, segurando­‑a asperamente
por um dos braços e puxando­‑a até o espelho. O toque de seus de‑
dos fez com que ela estremecesse. — Essa menina que você vê refle‑
tida ali... não é uma deusa?
Seus cabelos tinham secado em massas de cachinhos pálidos
que, mesmo naquela luz abafada pelas cortinas pareciam brilhar ao
redor de seu rosto. Seus traços eram delicados, mas dominados por
seus olhos espantosos, imensos e acinzentados. Ela sentiu fiozinhos
de suor escorrendo por seu corpo. Estendeu a mão para o pescoço e
sentiu o amuleto de sua mãe, que ainda estava pendurado por baixo
do vestido e tremeu de novo, porque o rosto de seu pai pairava no
espelho acima do dela. Seus olhos faiscavam enquanto ele lhe con‑
templava o reflexo.
— O que você está vendo — explicou, sua respiração opressa —
é um tipo de beleza. E beleza é coisa muito rara, embora seja um
talismã frívolo. Mas você possui um dom que é ainda mais raro.
Existe uma espécie de encanto em você. Você está acesa com um

87

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 87 29/05/12 19:11


Lara Parker

fogo que eu nunca vi antes, em parte alguma e eu preciso usar este


fogo para atingir meus objetivos. Caso recuse, serei obrigado a des‑
cobrir uma forma... de obrigá­‑la.
Ela sentiu a extensão de sua inermidade e quase não con‑
seguia respirar.
— Mas havia sangue naquela plataforma em que eu estava. O
que aconteceu ali?
Seu pai suspirou novamente, enfiou a mão em um dos bolsos de
seu casaco longo e dele retirou uma garrafa.
— Não era nada — mentiu —, eles sacrificaram uma cabra...
Ele tomou um longo trago de rum e sentou­‑se pesadamente no
banco junto da parede mais próxima. Seus ossos pareciam estar se
desmanchando por dentro do casaco pesado. Angelique sentiu um
assomo de piedade por ele.
— E por quanto tempo eu vou ter de ficar aqui? — perguntou.
Ele tossiu, tirou do bolso um lenço grande e imundo e escarrou
dentro dele. A resposta saiu abafada enquanto ele secava os lábios.
— Não vai ser por muito tempo — resmungou. — Só um pouco
— completou, enfiando o lenço em um bolso do colete.
Os dedos dela apertaram seu uangá e ela experimentou uma rá‑
pida centelha de esperança.
— Minha mãe não pode vir morar aqui comigo, também? — pediu.
Seu pai se ergueu e começou a andar de novo pelo quarto, sua
agitação evidente.
— Sua mãe tem sua própria vida — disse evasivamente.
— Mas ela sabe que eu estou aqui?
— Sim, é claro que ela sabe.
— E ela quer que eu faça isso? — insistiu.
Ele pensou um momento antes de responder e quando o fez, as
palavras pareceram transformar seu coração em pedra.
— Seu tempo com sua mãe acabou, Angelique.
— Mas por quê? Por que você diz isso?
O desespero girava dentro dela e, de repente, começou a sentir­‑se es‑
túpida, como se o choque de sua assertiva a impedisse de compreender.

88

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 88 29/05/12 19:11


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

— Ela sabe que é seu destino. Que é forçada a concordar com ele.
— Mas não é verdade! Ela nunca teria deixado que eu partisse se
você não lhe tivesse mentido! Não era isto que ela queria para mim!
Não foi isto que você lhe prometeu!
Ele se inclinou para frente, agarrou­‑a pelos cabelos e puxou­‑a
para junto de si. Ela sentiu sua respiração quente quando ele baixou
o rosto em sua direção. Sua cólera estava misturada a um certo de‑
sespero, como se emoções conflitantes o estivessem empurrando à
beira da loucura e sua voz saiu furiosa e dura:
— Não me desafie, Angelique! Você já assistiu à minha cólera e
ao meu método de punição. O mesmo destino a espera se você in‑
sistir em sua teimosia!
Ele a empurrou com tanta força, que ela caiu no pavimento. Seus
olhos estavam arregalados enquanto ele a fitava, as pontas dos de‑
dos tremendo:
— Escute, minha menina, e escute bem! Você não é mais a filhi‑
nha da mamãe e nem tampouco minha filha, se quer saber! A vida
em Martinica é difícil para todos nós — falou incisivamente. — Por
que razão você deveria se furtar a essas dificuldades? E agora... —
ele respirou profundamente e forçou sua voz a sair mais tranquila.
— Agora eu preciso de você aqui. Desesperadamente. Você tem um
novo papel a executar em sua vida e pode desempenhá­‑lo com or‑
gulho. Sugiro que o faça. Suplico­‑lhe que o faça.
Caminhou até a porta e trancou­‑a por detrás de si. Ela viu o fer‑
rolho baixar e escutou o clangor do ferro a bater nos encaixes.

89

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 89 29/05/12 19:11


Seis

la não sabia por quanto tempo havia chorado e quão longo


foi o período em que dormiu após isso, porque tinha sido
narcotizada. As escravas a acordavam e alimentavam e ela dor‑
mia de novo. Havia ocasiões em que a lua se erguia acima de sua
janela e ela caminhava silenciosamente até o vão para vê­‑la luzir
sobre a curva do mar. Havia momentos em que o sol enviava raios
para dentro do quarto e transformava a parede de pedra ao lado
de sua cama em um mosaico de tésseras de ouro. Mas a maior
parte do tempo, ela pairava em um crepúsculo cinzento, desolada
demais para se forçar a acordar quando o efeito dos opiáceos pas‑
sava e mais do que disposta a recair em um cochilar inquieto em
vez de ficar plenamente acordada e sofrendo a dor da separação
de sua mãe.
Havia ocasiões em que as escravas a transportavam ou a impe‑
liam a caminhar escada abaixo até o santuário, quando a colo‑
cavam sobre o altar e ela ficava sentada ali, em total estupor,
enquanto os homens dançavam e cantavam ao seu redor. Algumas

90

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 90 29/05/12 19:11


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

vezes, ela tinha a sensação de não estar sozinha sobre a plataforma,


que alguma presença invisível sentava­‑se a seu lado. Ela se lembrava
de ser vestida e adornada com colares e contas, como uma estátua
enfeitada para uma celebração religiosa. Ela vagamente se recorda‑
va de ver seu pai outras vezes, sempre com um ar de repreensão no
rosto, mas isso praticamente não a afetava, por não fazer a menor
ideia do motivo por que ele lhe lançava esse tipo de olhar.
Havia instantes em que sua mente clareava e ela se sentia me‑
nos como um fantasma, enquanto se sentava em uma cadeira do
quarto ao lado da cama, ou quando a banhavam, ou diante do
espelho, mas estes momentos flutuavam por ela e desapareciam
no fluxo dos dias.
Ela sonhava com o mar. Ela se lembrava de como ele era di‑
ferente abaixo da superfície, perto dos recifes em que ela nada‑
va durante horas. Ela sonhava com as criaturas marinhas
pairando em seu mundo de lusco­‑fusco, sem dar a mínima im‑
portância para as mudanças atmosféricas de luz ou de tempo,
balançadas pelo ritmo irregular que as ondulava e empurrava
segundo o fluxo das marés, suas cores cintilando, seus olhos
sempre abertos e brilhantes. Ela sonhava que era uma delas, seu
corpo arredondado e suas pernas encurtadas para assumir o
formato de um peixe. Ela parecia balançar gentilmente dentro
da água enquanto dormia.
Sonhava com sua mãe. Em seus sonhos, sua mãe estava sempre
em movimento, seu corpo ágil como o de uma palmeira que o
vento fazia dançar. Expressões diferentes se alternavam em seu
rosto, como as cintilações da luz do sol sobre a superfície de uma
laguna. Ela parecia tão feliz quanto era bela, amor e profunda
alegria fluindo para fora de seu peito. Angelique sonhava com o
toque das mãos de sua mãe acariciando­‑a e com seus dedos
penteando­‑lhe os cabelos.
Havia dias em que elas prendiam flores nos seus cabelos, pinta‑
vam seus olhos com rímel negro e a colocavam em uma cadeira
coberta por um cortinado e depois quatro negros a carregavam

91

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 91 29/05/12 19:11


Lara Parker

como numa liteira em revista aos alojamentos dos escravos. Bem


protegida dentro de sua tenda móvel, ela podia ver os rostos escu‑
ros, bocas abertas com dentes muito brancos, olhos arregalados
de maravilha, enquanto crianças e suas mães a encaravam com
grande espanto. No piso de seu cadeirão havia pedaços de frutas e
doces, que ela segurava indiferentemente e jogava para os expec‑
tadores, apenas vagamente consciente da comoção causada por
sua presença. Mas do fundo de seu transe, ela sempre vigiava a
algazarra e a confusão.
A cerimônia foi se tornando mais familiar, mesmo que a
assistisse sempre num estado de semi­‑inconsciência. Ela per‑
manecia escondida na peça por detrás do altar enquanto os
tambores trovejavam e a cantilena ia se fazendo mais forte. Ha‑
via ocasiões em que mesmo ela era hipnotizada pelo timbre da
fanfarra, justamente quando mais a recordava dos trovões que
desciam dos céus. Depois, ela surgia sobre o andaime, a dança
selvagem se tornava menos frenética e os escravos pareciam
mais gentis, como se sua tristeza se dissolvesse com sua presen‑
ça. Os homens a rodeavam, seus olhos faiscantes grudados nela
e a menina se sentia revestida pela sua adoração. Muitas vezes
eles estendiam os braços e seus dedos lhe tocavam os pés ou as
mãos. Mas isso nunca a assustava, porque seus músculos se
afrouxavam no momento em que a tocavam e ela sentia que sua
raiva e rancor se dissipavam.
E havia aquelas noites em que ela mesma não conseguia evitar
ser arrastada para o frenesi. O odor das velas e dos perfumes, o
cheiro dos corpos suarentos, a fumaça e as luzes bruxuleantes, o
rufar incessante dos tambores, tudo isso a sugava para dentro do
encantamento que se realizava a seu redor. Ela sentia pulsações de
calor que se derramavam em sua alma e depois saíam dela e ficava
excitada com a gradual necessidade de trazer para dentro de seu
corpo a traição de que eles tinham sido o objeto para coabitar com
a que ela própria sofrera. Então ela mergulhava em um lago de de‑
sespero. Seus punhos se fechavam, seu arcabouço se enrijecia, as

92

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 92 29/05/12 19:11


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

lágrimas escorriam por suas faces e ela gritava de agonia, até que,
finalmente, se afrouxava inteira, desmaiando de tristeza.

* * *

Certa manhã bem cedo, ela acordou com a cabeça bem mais clara
que de costume. Escutou Thaïs erguer o ferrolho cuidadosamente e
entrar em silêncio com sua bandeja de comida. A primeira luz da
aurora brilhava nas janelas e o céu estava da cor de lavanda. O can‑
to matinal dos pássaros ainda soava apenas fracamente através dos
ares. O vestido de Thaïs era feito de um pano cheio de florzinhas
desbotadas e seus cabelos estavam atados com um lenço azul. Ela se
voltou e sorriu meio nervosa, vendo que Angelique estava acordada.
— Bem, minina, vancê ti acordô? É manhã i hoje num vem chu‑
va ninhuma. Vancê vai comê bem agora e botá uma comida gorda
na sua barriga. Hoje vancê vai à cidadi. — Thaïs a contemplou ner‑
vosamente. — Vamo agora, quirida. Eu tem de ti botá no vestido di
rosa. Gosta dele? Vancê está um poco mais alertada hoje que de
costumi, né? Tu vai sê uma guria boazinha hoji, iscuitou?
Angelique empurrou o prato de comida para fora da mesa e ele
ficou girando e estalando contra o chão. Thaïs engoliu em seco.
— Ai, Deus. Pruquê tu feiz isso?
— Porque essa comida me deixa com sono o tempo inteiro.
Thaïs mostrou uma expressão culpada.
— Bem, né, isso pode sê verdade, docinhu — confessou. — Mais
é memo pru teu bem. Sapo dormino num sabe que a cobra tá che‑
gano. Mais vancê tem di cumê, sinão sou eu que vou tê de passá
mal, munto mal memo!
— Mas eu quero ficar acordada. Há quanto tempo estou dor‑
mindo? Semanas? Meses?
Thaïs sentou­‑se ao lado de Angelique e passou um braço ao re‑
dor de seus ombros. Seu corpo pesado fez afundar o colchão e seus
olhos líquidos pareciam pendurados em seu rosto macio. Um chei‑
ro leve vinha dela, não de todo desagradável, parecia uma mistura

93

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 93 29/05/12 19:11


Lara Parker

de fumaça com banha de porco. Ela ia começar a falar, mas em vez


disso, ergueu os dois braços para o alto e olhou em direção ao teto.
— Ai, Sinhô Deus... Meu Sinhozinho... — exclamou, esfregando
as mãos nas coxas redondas e soltando uma série de suspiros.
Angelique subitamente se recordou de um sonho que tivera na
noite anterior. Seu pai tinha estado no quarto e chegara até sua
cama, olhando para ela com raiva. “Ela está drogada demais!”, ele
tinha dito. “Ela precisa estar mais acordada para a cerimônia. Pare‑
ce um zumbi! Uma sonâmbula!”
— Por que vocês me dão essas drogas? — ela perguntou a Thaïs.
— Iscuite, minha minininha, iscuite só. Que mais eu pudia fazê?
Vancê é uma cosinha maluca, tu é memo. Vancê correu da pobri da
Suzette. I tu mi assusta di vredade. — Então as palavras de Thaïs
começaram a sair como uma torrente. — O Sinhô, eli é brabo e
berra cumigo. Eli diz: “pru quê ela tá tão sonada?”, e eu digo: “ela
percisa, sinão ela fogi!” “Mais ela num presta ansim”, eli diz, “ela
num podi i si pendurano dessi jeito, ela num parece cum deusa ar‑
guma nem memo cum nada!” I eu digo: “Bem, o Sinhô me diz para
deixá ela limpinha sempre e num deixá qui ela vá iscapá. O Sinhô
diz qui si ela iscapá vai mi tirá o coro.” — Ela deu um suspiro fundo
e continuou. — Pruque ele vai memo, vancê intende. Quando tu
correu iscada abaixo naquela premera noite eli deu uma tunda na
Suzette. Deu tunda pra valê nela. Aí, ela tem ódio de vancê agora.
Tem um curação muito duro pra tu e é mió vancê se cuidá sempre
quando ela tivé pur perto. Ela diz: “num põe verbena no suco dela,
põe meimendro! Mais eu só ponho a poeirinha, só um poquinho,
só pra deixá tu sonhano...”
Thaïs estava ficando mais agitada.
— Mais o Sinhô, eli num fica filiz di jeito ninhum, tu vê. Eli ti
qué mais remexida. O único motivo pruquê tu tá mais acordada
hoji é qui onti eli mi disse di noiti pra num ti dá nada na tua be‑
bida! I hoji tu tem de i até a cidade e o Sinhô Buchá qué qui tu
esteja mais remexida. Ansim, nóis tem de ti cuidá bem di perto,
só pra tu não fugi!

94

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 94 29/05/12 19:11


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

Então ela soltou outro suspiro e deu um abraço em Angelique.


— A verdadi, verdadi pura é que eu tô filiz di ti vê acordada. —
Ela se ergueu e foi até um guarda­‑roupa de nogueira, de que Ange‑
lique não se recordava, e abriu­‑lhe as portas. — Óia aqui qui
vistidinho bem bunito!
Thaïs tirou um vestido de noite rosa pálido de um invólucro
de papel de seda e o estendeu sobre a cama. Era feito de tafetá de
seda, bordado com folhas e hastes onduladas de um tom de verde
aguado, que se curvavam ao redor da gola e desciam até a barra
da saia. O corpete era formado por pequenas dobras, e rosas de
cetim tinham sido bordadas nos punhos das mangas. Mas o ves‑
tido não era novo. Leves pegões na cintura e os leves traços de
dobras soltas e pregadas novamente mostravam que o vestido já
fora usado por outras. Mesmo assim, era o vestido mais bonito
que Angelique já vira.
— Vancê teve no Carnaval, docinhu? — perguntou Thaïs,
ajudando­‑a a tirar a camisola.
— Carnaval? Ah, claro, minha mãe me leva todos os anos...
— Todo mundo, us iscravo, us sinhô, todos os mulato vão tá lá.
Esti vistidu, tu sabe? Feiz todo o caminhu desdi Paris da França... U
qui é qui tu me diz disso?
O vestido deslizou pela cabeça de Angelique com um som pare‑
cido a um chiado e a seda se colou em sua pele. Ela tocou no tecido
com os dedos, encantada, quase bebendo a cor rosada. Era igual à
primeira cor da manhã.
Thaïs a adornou com esmero. Prendeu braceletes de ouro com
guizos nos pulsos e tornozelos de Angelique. Colocou flores, plu‑
mérias de um rubro cremoso e poliantas brancas como a neve, em
seus cabelos louros. Uma amarílis escarlate caiu em seu colo. Ange‑
lique olhou para o centro da flor e estudou suas frágeis pétalas, suas
partes interiores tão delicadas. Tocou a ponta do pistilo e a poeira
do pólen se grudou em seu dedo.
Ela se voltou para Thaïs.
— Por favor, não me obrigue mais a dormir.

95

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 95 29/05/12 19:11


Lara Parker

— Ai, Jisus, docinhu...


— Eu quero ficar acordada.
— Bem, eu odeio isso, sim, eu faço. Eu fico tão tristi di ti vê des‑
si jeitu e vancê é uma coisinha tão piquena ainda. Mais tu sabi que
seti ano di chuva num lava as pinta das galinha di angola. Vancê, tu
vai fugi di novo, eu sei qui tu vai...
— Não, eu não vou fugir.
— Vancê mi prometi?
— Sim, eu prometo.
— Tu faiz isso pur mim.
— E por Erzulie também.
— Mais qui é qui vancê sabi di Erzulie, docinhu?
— Eu quero que a deusa venha até mim. Se ela pensar que eu
estou fingindo ser ela, então talvez ela entre na minha cabeça, e eu
a conhecerei finalmente.
Thaïs encarou Angelique com um olhar pungente que se lhe es‑
pelhava pelo rosto inteiro e depois sua expressão se suavizou. Ela
puxou a criança entre seus braços e a apertou firmemente.
— Podi até sê qui ela faça isso memo — disse em voz baixa e
respeitosa. — Podi até sê que ela fique cum ciúme, né? I aí ela vem.
É isso memo qui ela costuma fazê. E aí tu fica bem.
Depois de uma longa viagem nos bancos de uma carroça, An‑
gelique e Thaïs chegaram em Saint­‑Pierre. Os sons do Carnaval,
flautas e apitos, tambores e vozes cantando, zumbiam pelo ar.
Havia uma grande quantidade de gente, não somente escravos
fantasiados ou usando suas roupas finas de segunda mão, mas
também os blancs, alguns olhando, outros dançando e partici‑
pando da celebração alegre. Angelique foi escondida em sua li‑
teira e seu pai a surpreendeu quando ergueu a cortina e olhou
para dentro.
— Não apareça para ninguém até que caia a noite e a adoração
comece — falou em seu habitual tom de voz incisivo.
O préstito começou e ela era sacudida por seus carregadores tal
qual se estivesse sendo transportada por um burro manco. Dentro

96

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 96 29/05/12 19:11


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

da liteira estava quente e difícil de respirar. Ela escutava tambores,


maracás, chocalhos e pandeiros, gritos e cantigas e o som de muitos
passos. Ela estava ansiosa para ver tudo. Ela apertou o rosto contra
a estrutura de bambu de sua gaiola e não pôde resistir a espiar por
uma frestinha entre os cortinados. Grande número de escravos cer‑
cava sua liteira, balançando bandeiras e flâmulas brancas com um
coração vermelho atravessado por uma flecha e entoavam em coro:
“Erzulie, nain, nain! ”.
Viu um grupo de escravos que traziam caveiras pintadas em seus
rostos com uma pasta de farinha branca. Eles tocavam flautas de
bambu e eram cercados por dançarinos com ossos pintados pelo
corpo inteiro e os esqueletos vivos dançavam com todo o abando‑
no, cantando uma canção dedicada ao “Deus do Portão”. Uma des‑
sas criaturas macabras enfiou a cabeça por entre as cortinas da
liteira e ela recuou assustada, mas ele soltou uma gargalhada inde‑
cente e saiu dançando rua abaixo.
Passaram pelo grande teatro e, sobre a linda escadaria dupla que
se curvava em direção à entrada, ela viu outro grupo de escravos
usando calças brancas, rufos renascentistas ao redor do pescoço e
chapéus pontudos. Suas faces estavam pintadas de um tom rosado
de ruge e os olhos traziam círculos de kohl. Depois viu uma coisa
espantosa: um lindo grupo de mulatos vestidos com o que pare‑
ciam ser roupas de gala descartadas pelos senhores de engenho e
suas famílias. Eram vestidos de seda europeia, chapéus com plumas
de pavão, sapatos de cetim com laços e coletes listrados e, o que
causava o maior choque: usavam joias reluzentes. Ela não podia
imaginar quem eles eram, mas eram tão belos quanto um quadro
cujos personagens tivessem criado vida.
O som de bombos e gritos anunciou a chegada de outro bloco,
este formado por figuras de túnicas brancas, que carregavam
uma plataforma muito maior que a dela. Balançando no alto do
andor estava uma figura grande, feita de palha e pasta de milho,
mas vestida de preto. Seu rosto imenso era pintado de amarelo e
tinha três chifres vermelhos na cabeça. Ele era o Rei do Carnaval

97

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 97 29/05/12 19:11


Lara Parker

e ela se recordava do susto que havia levado quando havia visto


pela primeira vez este gigante de papel com seu sorriso cheio de
dentes pontiagudos.
Quando chegaram ao bairro da cidade mais próximo ao cais
do porto, tomaram uma estrada lateral que seguia em direção a
um bosque. Ela deu uma espiada nas docas, de onde grupos de
marinheiros e pescadores vinham subindo para participar da
festança. Havia um veleiro alto sacudindo­‑se na baía, ostentan‑
do uma bandeira que ela nunca vira antes, com faixas brancas e
encarnadas e estrelas brancas sobre um canto azul e, perto do
maior dos armazéns, ela avistou um grupo de soldados de casa‑
cas escarlates. Eles gritaram e correram para assistir ao desfile.
Ela tentou acompanhá­‑los enquanto se perdiam na massa huma‑
na, porque lembravam um cardume de peixes vermelhos se ali‑
mentando na corrente, movendo­‑se como uma única criatura,
espalhando­‑se e a seguir se reunindo novamente enquanto sacu‑
diam as algas com sua formação vermelha e brilhante. Os solda‑
dos a deixaram encantada e ela se inclinou um pouco mais por
entre as cortinas para não perder o relâmpago de botas negras e
cintos brancos ou as fagulhas refletidas pelos botões de latão e
pelas espadas prateadas.
O andor carregando a figura gigantesca manquitolava estrada
abaixo à frente dela. Os carregadores deliberadamente se inclina‑
vam para os lados em um movimento balouçante, fazendo com que
a figura desajeitada chegasse perigosamente perto do chão, antes de
endireitá­‑la de novo e virá­‑la para o lado oposto, como se estivesse
dançando, enquanto os da frente gritavam e eram respondidos pe‑
los de trás, para confundir e desencorajar os maus espíritos. E os
soldados, dando tapas nas costas uns dos outros e se empurrando,
corriam atrás da plataforma, gritando “Aaaaahhh!” cada vez que a
figura se inclinava e parecia que ia cair. Ao chegar mais perto, An‑
gelique percebeu que o destacamento era, na verdade, formado por
rapazes adolescentes. Sua gritaria chocarreira traía sua idade e ela
viu que muitos estavam com as fraldas das camisas aparecendo por

98

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 98 29/05/12 19:11


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

baixo das casacas escarlates e tinham os calções brancos enlamea‑


dos. Ela ansiava por contemplá­‑los um pouco mais, mas ficou com
medo da cólera de seu pai e se enfiou no fundo de sua gaiola escura,
puxando as cortinas bem apertadas.
Quando ela percebeu que seu cadeirão era largado no solo, ou‑
sou espiar de novo. A procissão inteira tinha entrado na mata e es‑
tava agora em uma grande clareira em cujo centro fora montada
uma fogueira enorme, ainda apagada. Sua gaiola tinha sido coloca‑
da no meio das últimas árvores e Angelique estava louca para des‑
cer da liteira, achava que ter de ficar fora das vistas era uma tortura
cruel. Afinal de contas, estavam acontecendo tantas coisas ali em
volta que ela não seria a única atração, pensou, e não lhe iriam dar
grande bola se espiasse do meio da escuridão.
Haviam acendido archotes na ponta de postes compridos em
frente às árvores escuras. Um conjunto de tambores se instala‑
ra diante da fogueira e diversos tamborileiros começaram a to‑
car seus ritmos infecciosos, nos diferentes timbres de bombos,
rufos e tarolas.
Gritos de saudação brotaram de repente de um grupo de homens
e ela esticou o pescoço para ver o que causara tanta excitação. No
meio deles, dois galos de penas de um escarlate enferrujado sacu‑
diam as asas e pulavam, suas puas ensanguentadas cortando o ar.
Uma briga de galos! Ela se inclinou um pouco mais para fora e per‑
cebeu que todos os seus acompanhantes tinham ido embora. So‑
mente Thaïs ficara, estendendo um pano branco sobre quatro
pequenos postes para fazer o seu altar. Seu pai não estava à vista.
Ela viu os soldados de novo, a uma pequena distância. Um de‑
les era alto e esguio, com um bigode aparado e uma barbicha. Pa‑
recia mais velho, um oficial pelo jeito, porque seu uniforme estava
em muito boas condições e usava uma espada em uma bainha
dourada, que se balançava com o movimento de seus passos. Os
outros se haviam agrupado a seu redor, gritando de espanto ou
descrença perante cada coisa que viam. Ela ouviu que o chama‑
vam de Jeremiah e constatou que ele estava encarregado de tomar

99

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 99 29/05/12 19:11


Lara Parker

conta daquela turma agitada. Ele sorria e movia a testa em aquies‑


cência, segurando o queixo com uma das mãos e tratando os rapa‑
zes com familiaridade. Um rapaz particularmente bonito parecia
ser o seu companheiro favorito; ela viu quando o oficial sorria para
ele e lhe sacudia de brincadeira os cabelos crespos.
Então os dois se viraram e olharam em direção à sua liteira, en‑
quanto o rapaz a fitava com grande curiosidade. Ele começou a se
aproximar, mas o oficial devia tê­‑lo chamado de volta, porque ele se
virou rapidamente e ela escutou: “Volte para cá, seu patife! Não se
meta lá!” Ela ficou surpresa ao escutar falarem em inglês.
Ela abriu um pouco mais o cortinado. O rapaz estava agora pa‑
rado ao lado do oficial, conversando baixinho com ele e fazendo
sinais com a cabeça em sua direção. O homem mais velho sacudiu
a cabeça em uma negação veemente e passou um braço pelos om‑
bros do rapaz, conduzindo­‑o para longe. Ela ainda estava espiando
quando o jovem olhou para trás e, desta vez, fitou­‑a diretamente
nos olhos. Por um momento, ele entreparou, contemplando­‑a como
se estivesse muito surpreso. Depois o jovem soldado fez uma coisa
muito estranha. Fez um muxoxo com os lábios e, erguendo o quei‑
xo, beijou o ar e acenou em direção a ela.
Nesse momento, uma tocha foi encostada à fogueira, que entrou
numa erupção de chamas, inundando a efígie gigantesca com a luz
das flamas. O rosto pintado de amarelo berrante pareceu emitir um
brilho interno, seus olhos dois carvões, a boca se abrindo aos pou‑
cos em um sorriso diabólico. Corpos segurando tochas saltaram
para dentro do círculo, cantando em coro uma cantilena repetitiva
em ritmo hipnótico, seus membros refletindo a luz e ondulando ao
som dos tambores. Angelique apertou bem o cortinado e fechou os
olhos, até que a cadência penetrou em seu corpo e o pulsar era
acompanhado pelas batidas de seu próprio coração.
— Alô, você, aí dentro...
Ela estremeceu. O cochicho vinha de perto, logo do lado de fora
do cortinado, mas era uma voz de adolescente, ao mesmo tempo tro‑
cista e íntima. Ela se encolheu com o som, escondendo­‑se no canto

100

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 100 29/05/12 19:11


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

mais escuro. Esperou, com medo até de respirar, mas a cortina foi
sendo entreaberta aos poucos e um raio de luz incidiu sobre seu rosto.
Ela estendeu o braço e fechou o cortinado bem depressa, mas no mo‑
mento seguinte, ela foi sendo aberta de novo, lentamente, e desta vez,
ela não tentou impedir.
— Alô... — ele cochichou de novo. — Eu só queria vê­‑la...
Ele estava parado do lado de fora, mas muito perto dela, com
uma expressão impudente no rosto. Era um rosto maravilhoso, de
traços finos, porém másculos, seu olhar aguçado brotando de olhos
que pareciam negros sob as sobrancelhas grossas, uma porção de
sardas a recobrir­‑lhe as faces e o nariz.
— Eu nunca vi uma deusa verdadeira antes... — disse ele, em
tom de brincadeira.
Ela ficou aterrorizada ante a perspectiva de que seu pai retornasse
a qualquer momento e ficou encarando o rapaz, sem saber o que fazer.
Ele sorria com dentes muito brancos, uma leve sugestão de buço em
seu lábio superior. Cachos castanhos com luzes douradas caíam­‑lhe
frouxamente sobre a testa e seus olhos escuros cintilavam em seu ros‑
to como se ele estivesse olhando alguma coisa maravilhosa. Subita‑
mente, ele mostrou um sorriso que teria sido pecaminoso se não fosse
tão brejeiro. Finalmente, ela encontrou sua voz e sussurrou em inglês:
— O que é que você quer?
— Ora, conversar com você, é claro. O que mais ia ser?
— É proibido falar com a deusa.
— Mas você não é uma deusa de verdade, não é mesmo?
O calor subiu­‑lhe ao rosto e ela se ruborizou, sentindo um for‑
migamento na ponta dos dedos. Suas palavras a deixaram zangada.
— Sim, eu sou! Eu sou Erzulie, a deusa do amor! — afirmou.
Ele jogou a cabeça para trás e deu uma gargalhada.
— Mas que armação mais gozada! Melhor do que aquela do ho‑
mem que jogava fogo pela boca! Jeremiah disse que você era perigo‑
sa, que eu não deveria chegar nem perto... — comentou ele. — Então,
é claro, que eu não poderia resistir à tentação. Mas só de olhá­‑la, sei
que não seria capaz de fazer mal a um coelhinho!

101

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 101 29/05/12 19:11


Lara Parker

— Por que você não me acredita?


— Por quê? Porque eu posso ver instantaneamente, mesmo com
toda essa pintura ao redor de seus olhos, que você é uma menina
verdadeira, de carne e osso. Mas você é tão encantadora, que eu não
me importo nem um pouco! Ah, mas que aventura! — exclamou,
com um suspiro de contentamento.
— Vá embora! — ela tentou gritar, mas o que saiu foi mais um
soluço preso em sua garganta. Ele era a primeira pessoa a falar com
ela por um tempo tão longo, com exceção de Thaïs e de seu pai, e ele
era tão familiar e tão ousado, que sua garganta se apertou até que os
músculos do pescoço começaram a doer.
Ao ver que ela parecia estar sofrendo, seu sorriso sumiu imediata‑
mente e uma expressão de grave preocupação escureceu­‑lhe as faces.
— Ah, mas me desculpe, eu estou muito arrependido mesmo.
Não pretendia assustá­‑la. Era eu que deveria ter medo de você! —
explicou­‑se. — Ah, vamos, vamos, vamos, por favor, não chore.
Você não precisa mesmo chorar, só por minha causa!
Mas as lágrimas escorreram por suas faces e ela não as podia
impedir e tentou engolir e prender o choro, só que nada passava
pela bola sufocante que trazia na garganta.
Antes que ela entendesse o que se passava, o rapaz entrara na
liteira e fechara as cortinas por dentro. Por um momento, a es‑
curidão foi completa e ela ficou sentada ali, paralisada, apenas
consciente do calor do corpo dele muito próximo ao seu e de
que seu cheiro lhe recordava o do mar. Então ela pode ver­‑lhe o
rosto ainda mais de perto que antes e ele franzia a testa e falava
aos tropeções:
— Eu... eu... é porque eu sou um soldado? Você não deve se as‑
sustar com este uniforme bobo. É o uniforme de minha escola, eu
sou cadete da marinha. Talvez você esteja pensando que eu estou
querendo insultá­‑la. Bem, é verdade, eu a insultei mesmo, no prin‑
cípio. Eu sou mesmo um diabo!
Ele lhe sorriu de novo e segurando o punho de sua camisa com
os dedos da outra mão, começou a esfregar­‑lhe as bochechas para

102

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 102 29/05/12 19:11


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

limpar os filetes de tinta que haviam escorrido. Ao acabar, ele a con‑


templou de novo, parecendo outra vez estonteado.
— Ora, seus olhos são da mesma cor das centáureas! E tão gran‑
des e assustados. Suponho que você pense que nós viemos combater
os franceses e conquistar sua ilha!
— Vocês... vocês são ingleses? — ela indagou, baixinho.
— Não, somos da Nova Inglaterra, boba! Do belo estado de
Massachusetts! — ele se gabou. — Eu vim com meus colegas da
academia em uma excursão marítima, para aprender tudo em pri‑
meira mão a respeito de barcos e de veleiros. Antes eu quis viajar até
a África, mas meu pai não me permitiu. Ele tem medo da longa
travessia, você sabe...
— E... você já aprendeu alguma coisa? — ela indagou bem baixinho.
— Ah, sim — afirmou o rapaz. — Só que velejar é um tipo de
profissão muito laborioso e aborrecido também, atravessando
aquelas ondas a noite inteira. Eu enjoei a maior parte do tempo.
Jeremiah nos trouxe até as ilhas, mas só as inglesas, naturalmente.
Aí nós ouvimos falar do Carnaval aqui de Martinica e eu lhe supli‑
quei para nos trazer. E estou tão feliz por ter vindo, porque só assim
eu pude falar com você e... — ele pareceu se atrapalhar por um mo‑
mento, enquanto a olhava e então mudou de assunto de repente.
— Quer dizer... O seu vulcão já entrou em erupção? Como é o nome
dele? Piley? Paley?
Angelique, confusa por sua presença, meio afogada naquele
f luxo inesperado de palavras, percebeu que ele aguardava
uma resposta.
— É o Mont Pelée... — corrigiu. — Não... mas quando o Deus
se... acorda, ele se vira para o outro lado e... Pelée ruge e cospe fogo!
— Ah, eu adoraria ver isso! Não seria divertido? — ele falou ir‑
responsavelmente. — Que nem o Vesúvio! Todo mundo por lá fi‑
cou enterrado na lava, capturados instantaneamente, no flagrante
de seja lá o que for estivessem fazendo! Ficaram preservados para
sempre... Pegando bananas, varrendo o chão, usando o penico!

103

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 103 29/05/12 19:11


Lara Parker

Ele riu, feliz com sua própria piada e Angelique sorriu um


pouquinho, porque pensara em Thaïs transformada em pedra
justamente nessa última posição. O rapaz a olhou fixamente
mais uma vez.
— Você quer ver o meu tesouro? — perguntou. Enfiou a mão no
bolso superior da casaca e retirou um saquinho. — Há um navio no
porto de Saint Thomas, que pertence ao Grão Mogol da Índia e traz
uma porção de mulheres! Elas se vestem de seda bordada com fios
de ouro! Meu tio Jeremiah, aquele bandido sortudo, teve permissão
para subir a bordo. E isto... é o que eles têm na Índia... — ele se in‑
clinou um pouco mais perto e derramou um punhadinho de joias
sem engaste no seu colo, suas cores brilhantes, verde­‑maçã, ametis‑
ta, âmbar e vermelho-escuro. — Estas ele me deu. O que você acha?
Angelique, de boca aberta, olhou para as joias e ergueu os olhos
para o rapaz, totalmente maravilhada.
— Olhe só esta aqui — ele mostrou. — Esta chamam de pedra
da lua, mas o nome de verdade é mais complicado, ortósio ou sele‑
nita... Viu só? — ele lhe segurou a mão e colocou­‑lhe uma pedra de
um branco pálido sobre a palma. — Dizem que a luz da lua fica
presa aqui dentro — ele sacudiu a pedra levemente, para que ela
pudesse ver a centelha brilhante. — Está vendo?
— Ah, sim!
Ela olhou para ele com espanto e depois outra vez para a pedra.
Ele dobrou­‑lhe os dedos ao redor da joia.
— Esta é para você — disse ele —, para se lembrar de mim.
E então inclinou­‑se ainda mais perto e a beijou de leve em uma
das faces.
— Barnabas! Você está aí dentro?
O rapaz lhe piscou um olho e pôs um dedo sobre os lábios.
— Saia já daí neste minuto! — gritou uma voz furiosa.
O rapaz arrepanhou suas joias de sobre a saia do vestido dela,
mostrando um sorriso largo enquanto as enfiava novamente
dentro do saquitel e o colocava no bolso do uniforme. Então caiu
de costas, de ponta­‑cabeça para fora da liteira e tombou no solo.

104

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 104 29/05/12 19:11


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

Foi erguido violentamente pelo homem chamado Jeremiah e co‑


locado sobre os pés.
— Meu Deus, Barnabas! Você é um imbecil completo? — sua
voz transparecia mais medo do que cólera. Seus olhos voaram para
o rosto de Angelique, franziu a testa e olhou ansiosamente a seu
redor, antes de repreender o rapaz com um sussurro feroz:
— Eu lhe disse como isso era perigoso! Se eles o pegassem aí
dentro, o teriam matado no mesmo instante sem pensar duas vezes!
E você nem perceberia! Seria como um punhado de poeira invisí‑
vel... E isso acabaria com você!
Barnabas piscou para Angelique, para lhe mostrar como ele
achava essa ameaça absurda. Mas Jeremiah o segurou pelo colari‑
nho e praticamente o levantou no ar.
— Venha comigo, mocinho! De volta para seu lugar no navio
antes que eu perca a calma!
Angelique escutava sua voz enfraquecendo enquanto eles
se afastavam.
— Mas como você pode fazer uma besteira dessas? Santo Deus,
Barnabas, você não sabe que eu sou responsável por você perante
seu pai? Meu irmão me mandaria fuzilar!
Mas as últimas palavras que ouviu eram do rapaz:
— Eles a transformaram em um ídolo idiota e ela é só uma garo‑
tinha... O que vai acontecer com ela depois?
Ela ficou segurando firmemente a pedra da lua em sua palma e
estava grudenta de suor antes que ela fosse capaz de abrir os dedos
novamente e olhar para ela outra vez. Ela ficou movendo a pedri‑
nha até que a lua dançasse dentro dela. Rapidamente, ela enfiou a
outra mão dentro do vestido e puxou seu uangá para fora. Desatou
o nozinho e guardou a selenita junto da minúscula caveira da ser‑
pente. Então amarrou o saquinho firmemente e o colocou de volta
sobre o colo, pendendo outra vez de seu pescoço.
Mais tarde, nessa mesma noite, quando o cerimonial de Erzu‑
lie finalmente começou, ela ficou parada em seu vestido cor­‑de­
‑rosa, seus cabelos dourados drapejando ao redor de seus ombros.

105

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 105 29/05/12 19:11


Lara Parker

Quando milhares de velas estrelaram a escuridão e os escravos


entoaram suas cantilenas para ela e depuseram suas oferendas
polvilhadas de farinha a seus pés, ela ficou imaginando se ele es‑
tava ali por perto assistindo, por detrás da multidão ondulante,
contemplando­‑a com seus olhos alegres de troça, aquele rapaz
cujo nome era Barnabas.

106

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 106 29/05/12 19:11


Sete

arnabas pousou o diário, em absoluto espanto.


Ele se recordava muito bem de sua primeira viagem às ilhas.
Tinha ido com Jeremiah quando ainda era adolescente, pouco mais
que um garotinho — Jeremiah, a quem ele adorava e que o traíra no
final. Recordou­‑se, numa confusão de imagens e de cores, do navio
mercante que estalejava todo o tempo ao sabor das ondas e dos ven‑
tos, das ilhas suntuosamente verdes, das brisas fragrantes que lhe
acariciavam o rosto. Fechando os olhos, ainda podia recapturar a
imagem do Carnaval de Martinica, em que vira fazerem mágicas
pela primeira vez e — mas isso parecia incrível! — seria possível
que fosse verdade? Aquela criatura pagã escondida numa carrua‑
gem — a “deusa viva” que ele achara tão fascinante e tão pungente
— era possível que fosse a própria Angelique? Recordava­‑se agora
de que, durante toda a viagem de volta para casa ele se havia imagi‑
nado perdidamente apaixonado por ela.
Mas sua memória mais nítida da viagem fora outra descoberta
que fizera ao retornar para a América do Norte. Os tombadilhos

107

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 107 29/05/12 19:11


Lara Parker

dos barcos de seu pai estavam atopetados com a carga que fora con‑
tratada, barris de rum. Certa noite, durante a viagem de retorno a
Boston, ele e seus colegas tinham decidido abrir um dos barris e
beber como verdadeiros marinheiros, provando o elixir dourado
que derramava fortunas nos bolsos de seu pai. Fora nessa noite, de‑
pois que os outros haviam adormecido e sua cabeça rodava demais
por causa do rum ingerido para que ele próprio conseguisse dor‑
mir, que ele tinha descido às escondidas para baixo do último con‑
vés. Naquela escuridão úmida e tremulante, ele tinha visto dúzias
de escravos amontoados juntos e gemendo, todos os corpos negros
agrilhoados uns aos outros.
Uma batida leve em sua porta quebrou­‑lhe o devaneio. Era Jú‑
lia. Rapidamente escondeu o diário sob outros livros em sua es‑
crivaninha e se levantou para saudá­‑la no momento em que ela
abria a porta.
— Está na hora de irmos para Collinsport — disse ela firme‑
mente. — Já estacionei o carro lá na frente...
— Sim, é claro... Muita gentileza sua... — ele respondeu
com brandura.
Ela hesitou, examinando­‑o cuidadosamente, sentindo algo de
diferente em sua atitude.
— Você está bem, Barnabas?
— Claro que estou! O que está pensando? — seu tom de voz
soou aborrecido, o que era muito pouco comum quando falava com
ela e os dois se surpreenderam.
— Eu só pensei que talvez nós devêssemos deixar para outro dia...
— Mas não. Nós temos de dar outra passada na Casa Velha. Ver
o que os demolidores estão fazendo. A essa altura, eles devem estar
bem adiantados — insistiu Barnabas.
— Eu mesma posso fazer isso, caso você queira — ofereceu­‑se ela.
— Ora, pelo amor de Deus, não precisa ser tão solícita, Júlia.
Realmente, já estou ficando bastante cansado de ser tratado tão
bem. E de ver esse ar ansioso em seu rosto. Realmente, não lhe fica
bem, detrai um pouco de sua beleza...

108

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 108 29/05/12 19:11


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

— Desculpe... — disse ela, prendendo a respiração, mas contro‑


lando a língua. Barnabas pegou seu casaco e, ao fazer isso, derru‑
bou a pilha de livros no chão. O diário caiu no meio deles e Júlia
franziu a testa.
— Você não estava lendo essa coisa, estava?
— Não! Bem, para falar a verdade... eu dei uma espiada nas fo‑
lhas, sim. De fato, não é lá muito interessante.
— Barnabas, pelo amor de Deus, entregue­‑o para mim. Já afetou
sua disposição e você está ficando irritável...
— Não me afetou em absoluto, minha querida. Não seja absur‑
da. Não estou absolutamente irritável, como você disse... Mas
devo insistir para que você pare de me pressionar. É isso que está
dando nos meus nervos. Quanto ao diário, pretendo queimá­‑lo
assim que voltar...
— Entendo — disse ela, respirando fundo. — Do mesmo jeito
que você queimou a Casa Velha ontem...
— O quê?
— Ora, Barnabas, de que outro jeito o fogo poderia ter começado?
— Júlia, realmente acho que você perdeu a cabeça.
Júlia hesitou por um momento, fitando Barnabas diretamente
nos olhos, antes de desviar os seus, mas não insistiu.
— Desculpe­‑me. Não sei o que me deu para lhe dizer uma coisa
dessas. Vamos?

* * *

Roger falava sem parar. Barnabas percebeu que se tornara a audiência


cativa de um só ouvinte perante um palestrante e também que Roger
estava desesperadamente precisando de um sócio e de um admira‑
dor. Era um homem de opiniões formadas com absoluta segurança,
cheio de um grande desprezo por aqueles que discordavam dele ou
por seus oponentes, dotado de uma energia feroz, filósofo e mora‑
lista à sua maneira, perfeitamente satisfeito em martelar o assunto
que escolhera sem receber resposta. Barnabas contemplava o rosto

109

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 109 29/05/12 19:11


Lara Parker

aristocrático de seu primo, com suas feições finamente cinzeladas e


escutava com atenção seus tons melífluos, mas na verdade já se sentia
terrivelmente cansado enquanto Roger descrevia possíveis oportuni‑
dades comerciais, capitais e investimentos.
Barnabas sabia que deveria valorizar quaisquer oportunidades
que Roger lhe apresentasse. Por que estava ouvindo tão desapaixo‑
nadamente? Seria um sintoma de sua cura?
Seus olhos deslizaram para a janela, através da qual podia ver o
jardim bem cuidado em frente ao escritório de Roger, fronteiro à costa
oceânica, em que a primavera havia derramado sua abundância gene‑
rosa. Ao lado da linha da água, uma cerejeira magnífica se erguia re‑
pleta de botões, seus ramos negros recobertos pelas flores que pareciam
mangas de tecido rosado. As duas texturas opostas, uma como carvão
cheio de arestas, a outra tão delicada como a aurora, lhe causavam um
sentimento peculiarmente semelhante a um espasmo de depressão.
Abelhas haviam descoberto as flores da cerejeira e zumbiam
loucamente, milhares delas, bêbadas de néctar e seu murmúrio
lhe enchia o cérebro com um rugido distante. De súbito, sentiu­‑se
terrivelmente solitário e, com um estremecimento, reconheceu
um velho anseio: ele queria enamorar­‑se novamente.
Forçou­‑se a escutar o discurso de Roger.
— Agora que você se recuperou, Barnabas, devo lhe dizer como
estou ansioso para que você ocupe um lugar na mesa da diretoria.
Temos diversos, como se poderia dizer, “ferros na lareira” e alguns
investimentos a longo prazo que precisam ser tratados com cuidado
de modo a se tornarem mais seguros. Quem há para fazer isso, se‑
não você? Carolyn seria uma executiva de primeira classe, se qui‑
sesse. Contudo, infelizmente, até hoje não demonstrou o menor
interesse na firma da família. Ela se aborrece com o comércio e pa‑
rece sentir, lamento dizer, que as fábricas de têxteis são... ah... pouco
saudáveis e “injustas para com os operários”. Dentre todas as posi‑
ções absurdas para se assumir, ela se volta contra as Empresas
Collins! David se mostra de algum modo um tanto promissor e é de
se esperar que ingresse neste campo quando ficar mais maduro, se

110

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 110 29/05/12 19:11


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

é que alguma vez ele vai amadurecer... Seja como for, você faria
muito bem em investigar todos os investimentos dos Collins e não
esperar que nada esteja garantido. Os tempos mudam. Temos de
garantir o futuro de Carolyn e de David; os investimentos não se
apresentam de vontade própria, requerem planejamento e um certo
risco. Portanto, o que você tem em mente?
Barnabas sobressaltou­‑se com a pergunta súbita.
— O que quer dizer?
— Ora, o que tem em mente para fazer, Barnabas, o que quer fazer?
Sem dúvida, não pretende simplesmente desfrutar de sua fortuna, ou
antes, da fortuna da família Collins... que não é lá tão grande assim...
— Eu... bem, eu pensei, naturalmente, em ingressar na diretoria
e prestar minhas contribuições em nível executivo...
— Mas que tipo de contribuições? — persistiu Roger.
— Desculpe, não entendi bem.
— Quais talentos especiais você pensa possuir? Sei que já viajou
pelo mundo todo. Qual era a sua profissão em Londres, realmente?
Era advogado?
— Eu... bem... eu era negociante, suponho. De fato, nunca preci‑
sei trabalhar todos os dias. Eu tenho uma quantidade substancial
de propriedades — explicou Barnabas.
— Terras?
— Não... joias, antiguidades, móveis e tapeçarias...
— Você tem noção de quão rapidamente esses objetos, por mais
preciosos que sejam, perdem seu valor? Ou você fez investimentos?
— Ora... mas é claro... — subitamente, Barnabas sentiu­‑se abor‑
recido. — Roger, eu me ressinto da implicação de que eu não sou
capaz de fazer a minha parte. Eu possuo uma fortuna bastante
grande na Inglaterra e não tenho a menor intenção de viver à sua
custa, como parece estar sugerindo.
— Ora, meu rapaz, acalme-se — disse o outro tranquilizadora‑
mente. — Eu não quero pressioná­‑lo, mas não existe nada melhor
que um novo envolvimento para fazer correr o sangue, se é que me
entende. O que me diz então?

111

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 111 29/05/12 19:11


Lara Parker

— Sobre o quê? — indagou Barnabas.


— Sobre um novo envolvimento. Ah, por favor, Barnabas, você
não prestou atenção em nada do que eu lhe disse?
— Lamento, Roger, minha mente estava vagueando, estava pre‑
ocupado com outra coisa — desculpou­‑se. — Talvez eu deva retor‑
nar até o que sobrou da Casa Velha e ver se os demolidores chegaram.
Ao meio­‑dia, eles ainda não estavam lá...
— Ora, os demolidores que se enforquem! Agora escute, Barna‑
bas. Tenho uma palavra­‑chave para você: Turismo! Podem­‑se obter
grandes lucros com o turismo, você sabe, os visitantes chegam em
hordas da Alemanha, do Oriente... hoje em dia, todos querem co‑
nhecer o mundo!
Barnabas começou a imaginar se aquela entrevista jamais acaba‑
ria, pois Roger não mostrava o menor sinal de diminuir o ritmo.
— Hoje em dia, a grande ocupação da classe média é viajar. Esses
gorduchos do Centro­‑Oeste usando bermudas ou os comerciantes
japoneses carregados de câmeras caras... sem a menor sensibilidade
para a cultura, sem a menor informação a respeito da história, cole‑
cionando países como se fossem tampinhas de garrafa ou figurinhas
de jogadores! Não obstante, é um poço que pode ser muito bem ex‑
plorado. O que você diria de um hotel quatro estrelas? De uma esta‑
ção de férias de primeira classe?
Roger finalmente fez uma pausa. Barnabas sentia sua cabeça gi‑
rando em consequência daquela avalanche de palavras. Então, Ro‑
ger baixou a voz e falou em tom de conspiração:
— Nós ainda somos donos, embora você talvez não saiba disso,
de uma boa propriedade no Caribe. Uma plantação de cana-de-
açúcar arruinada, mas a casa fica sobre um recife no alto de um
promontório e a vista do mar é espetacular, segundo me disseram.
Barnabas sobressaltou­‑se com a palavra Caribe.
— Realmente? — indagou. — Onde fica?
— Ora, em Martinica, é claro, nas Índias Ocidentais Francesas.
Houve um tempo em que comprávamos açúcar por lá. Tínhamos
navios, mas perdemos todos depois da revolução. A propriedade foi

112

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 112 29/05/12 19:11


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

adquirida pela família Collins no final do século XVIII e nada foi


jamais feito com ela. Segundo acredito, foi comprada por um de
nossos ilustres ancestrais como um presente para sua futura noiva.
Mas o casamento nunca chegou a ocorrer, lamento dizer. Ela mor‑
reu misteriosamente. Mas ainda possuímos a escritura da terra.
Ainda assinada, veja só, pelos ministros do rei da França!
— E nunca fizeram nada com ela? Mas por quê? — indagou
Barnabas, sua atenção agora concentrada inteiramente em Roger.
— Política, meu caro, política. E falta de trabalhadores. Mas re‑
centemente recebi carta branca do atual governo francês. Eles rece‑
berão uma iniciativa por lá de braços abertos. Portanto, precisamos
de alguém que vá até lá, consiga um arquiteto adequado, mais um
mestre de obras, alguém que tome conta da construção e reúna os
operários e... naturalmente, eu pensei em você!
— Primo, eu não sei se seria capaz de assumir uma tarefa
assim monumental...
— Ora, vamos lá, Barnabas! Não deve ser assim tão difícil para você,
meu rapaz! Posso perfeitamente ver que você entende dessas coisas!
Que ama bons móveis, como me disse? Antiguidades! Imagine só?! Um
grande hotel! Você poderia viajar até a Europa para adquirir as artes
decorativas... reconstruir o prédio desde os alicerces... soprar­‑lhe uma
nova vida... aparentemente existem estátuas, ameias com parapeitos...
Ouviu­‑se uma batida na porta e Júlia entrou de repente, sem es‑
perar ser convidada, sua respiração opressa. Seu rosto estava grave
de preocupação:
— Roger! Barnabas! Houve um terrível acidente. Na estrada
para Collinwood. Dois homens morreram!

* * *

Júlia segurava a roda da direção com as duas mãos enquanto eles


dirigiam para o local em que se erguera a Casa Velha, buscando
algum sinal do acidente. O sol estava próximo ao horizonte e ela
estava dirigindo contra a ofuscação de seus raios.

113

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 113 29/05/12 19:11


Lara Parker

— Não pode ser muito longe daqui — disse ela, com um tremor na
voz. — A polícia disse que era antes da encruzilhada, logo depois da pon‑
te coberta. Deve ser nesse trecho que vem logo à frente, você não acha?
Barnabas apertou os olhos e então ergueu uma das mãos para
cobrir a testa, escudando seus olhos do brilho.
— Não consigo evitar de pensar que, de alguma forma, isto foi
culpa minha — balbuciou.
— Barnabas, isso é absurdo!
— Eu sei, mas quem contratou a demolição fui eu e...
— Santo Deus! Não consigo ver nada! — gritou ela, freando o
carro quase até parar. A poeira acumulada no para­‑brisa ampliava
a luz do sol poente, escondendo a estrada. Era como se estivessem
envolvidos em uma nuvem de fogo, um nevoeiro dourado pintando
o vidro. Avançaram metro a metro para frente e, tão logo a cintila‑
ção diminuiu, avistaram o desastre.
Havia dois carros da polícia com suas luzes vermelhas correndo
de um lado para o outro do painel instalado sobre o toldo e uma
ambulância. Diversos policiais estavam reunidos junto à margem
do rio. Júlia parou o carro e saiu junto com Barnabas.
A jamanta que transportava a escavadeira havia capotado para
dentro do rio, suas rodas viradas para o ar, lembrando um elefante
morto. A cabine era uma casca enegrecida, esmagada e achatada;
fora a água do rio que impedira que o fogo se espalhasse quando o
tanque de gasolina explodira. O trator estava caído de lado no meio
dos arbustos, um pouco mais acima, suas rodas retorcidas e a parte
traseira completamente separada, jogada além das árvores, como se
fosse um brinquedo de criança abandonado em uma caixa de areia.
— Mas quando aconteceu isso? — perguntou Barnabas.
— Hoje cedo — disse Júlia. — A polícia não sabia de nada até
uma hora atrás, mas quando chegaram, o metal queimado já estava
frio ao toque.
— Quer dizer que nós passamos diretamente por eles hoje à tar‑
de, quando nos dirigíamos à cidade e simplesmente não vimos
nada? — falou Barnabas, incrédulo.

114

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 114 29/05/12 19:11


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

— E como poderíamos ter visto? A ponte fica no caminho. Eles


estavam dentro do rio... — explicou ela e continuou logo depois, após
fazer uma pausa. — Nós não poderíamos tê­‑los salvo, Barnabas…
— Como você sabe? Poderíamos ter tentado fazer alguma coi‑
sa... — sugeriu, olhando para o caminhão lá no fundo. — Pobres
bastardos... Que desperdício!
Controlando suas emoções, olhou para os dois mortos. Nunca
tinham chegado à Casa Velha. Alguma coisa os interrompera na
metade da estrada, alguma coisa que ele deveria saber que andaria
rondando por ali. Um dos corpos estava sendo carregado em uma
maca, mas era difícil para os paramédicos subir pelo barranco ro‑
choso e eles tropeçavam com o peso. A outra vítima ainda estava na
cabina virada, seu rosto enegrecido pelo fogo apenas visível, sua
boca aberta em um grito silencioso.

* * *

Barnabas pedira licença para se retirar mais cedo. O jantar tinha


sido uma desgraça e a única coisa que sentira fora irritação com sua
família e sua preocupação hipócrita com os homens mortos no aci‑
dente. Elizabeth mencionara a “tragédia”, sem dúvida uma concep‑
ção errônea, porque os motoristas eram inocentes, contratados para
executar um trabalho e não tinham sido castigados pelos deuses
por sua hubris. Se havia alguma culpa, pertencia unicamente a ele.
O manto que pairava sobre a família era o mesmo senso de
destino que ninguém mencionava, mas cuja inevitabilidade to‑
dos percebiam, o mesmo sentimento que Barnabas captara em
outras gerações. Pouco era discutido, não havia um senso de ul‑
traje ou uma busca de explicações racionais para aquecer a con‑
versa. O que fora proferido era uma série de eufemismos mornos
a respeito da morte. Mas todos estavam dolorosamente cônscios
daquilo que não fora dito. A família era amaldiçoada. O infortú‑
nio chegara e sempre havia chegado, paulatina, mas previsivel‑
mente. A família Collins se mantinha à parte da comunidade,

115

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 115 29/05/12 19:11


Lara Parker

guardava seus segredos bem enterrados, mas nunca se libertava


da mão vingadora do Fado.
Por puro aborrecimento ele se havia retirado da discussão superfi‑
cial à mesa, distraído pelos pensamentos de seu próximo casamento.
Diversos dias antes deste último conjunto de eventos, Júlia ti‑
nha aceitado deliciada a sua proposta. Eles iriam marcar uma
data em seguida e já haviam planejado passar a lua de mel em
Singapura, onde Júlia conhecia raros elixires para o sangue que
ela achava que poderiam preservar a cura de Barnabas. Mesmo
assim, ele se sentia perturbado pela ideia da consumação sexual.
Ele abraçara Júlia afetuosamente muitas vezes, segurara sua mão
enquanto conversavam, até mesmo a beijara levemente nos lábios
em saudação ou quando se separavam. Mas ele nunca a tinha re‑
almente beijado apaixonadamente. Algumas vezes ele percebera
sua inquietação quando haviam estado sozinhos, uma urgência
em sua resposta quando ele a abraçava para lhe dar boa-noite, um
sinal tácito em seu olhar. Em breve, ele seria obrigado a fazer
amor com ela.
Ele não se sentia precisamente relutante, embora seu desempe‑
nho como amante lhe desse certo grau de receio. Enquanto era
vampiro, sua excitação tinha sido resposta a estímulos completa‑
mente diferentes e ele se sentia sem prática. Mesmo assim, Júlia era
tão inteligente e tão apoiadora, que ele tinha certeza de que ela faci‑
litaria essa transição também. Ele era, disse para si mesmo, ainda
jovem, vigoroso e faminto pela vida. Ele gostava do corpo ágil e es‑
belto dela, de seu caminhar elegante e de seus movimentos rápidos.
A energia — a paixão — retornaria, disso ele tinha certeza. Ele se
sentia mais como um viciado em recuperação das drogas insidiosas
que haviam feito parte de sua personalidade durante tanto tempo;
agora ter­‑se­‑ia de redescobrir tal qual ele tinha sido sem elas.
Fechou a porta de seu quarto, aliviado por se achar finalmente
sozinho. Os livros estavam caídos no chão onde ele os tinha deixa‑
do cair antes. Acendeu a lâmpada e estendeu o braço para o diário.
Somente quando abriu as páginas para procurar o lugar em que

116

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 116 29/05/12 19:11


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

havia parado, ele relaxou. Percebeu que estivera ansioso para retor‑
nar ao diário desde que havia interrompido a leitura.
Ele descobriu que estava lendo uma lista de encantamentos
mágicos, feitiços e anotações para o que lhe pareceu serem
cerimônias africanas.

Cult des Morts de um sacerdote papaloi

Para invocar os espíritos:


Uma encruzilhada à meia­‑noite,
uma vela feita de cera de abelha e da graxa do fígado de uma gaivota,
uma pistola carregada com um tampão de terra no cano.
O encantamento é:
“Sob o estrondo do trovão, possam todos os Reis da Terra se ajoelharem”.

Para adormecer uma mulher de tal modo que você lhe possa co‑
nhecer os segredos:
Um sapo morto numa sexta­‑feira.
Coloque a cabeça, o coração e o fígado sobre seu seio esquerdo.
Sussurrar:
“Oh, meu amor, meu amor, meu grande amor, paire junto de mim
e me murmure...”

Para invocar os Mortos — Prise du Mort:


Uma bolsa de flores de acácia silvestre,
uma cruz de madeira e duas pedras,
quatro velas brancas — sinalizando os quatro pontos cardeais,
uma pistola totalmente carregada.
Vá até ao túmulo à meia­‑noite e faça este apelo:
“Dos fogos de Mont Pelée, tu deves retornar porque eu necessito de
ti urgentemente”.

Quando o defunto aparecer, não corra, mas dê três passos para


trás e derrame perfume no chão entre vocês dois.

117

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 117 29/05/12 19:11


Lara Parker

Para chamar Erzulie, você precisa de:


Uma bacia esmaltada, sabonete enrolado no invólucro, uma to‑
alha bordada.
Doces açucarados, perfumes e um lenço branco.
Três alianças e colares de ouro e pérolas.
O som do céu e a trovoada. Chuva.

Coisas necessárias para um feitiço:


A língua de um pássaro,
o coração de um sapo,
uma vela de cera de abelha ou de sebo,
um pilão e seu cabo,
uma pistola com cápsulas.

Necessário para lançar um feitiço sobre outra pessoa:


Uma peça de roupa que tenha tocado na pele,
fios longos de cabelo de qualquer lugar do corpo,
sangue,
aparas de unha ou dentes,
excremento, sêmen ou sangue.

Quais as coisas que, ao serem comidas, instilam qualidades desejáveis:


O coração — coragem;
O fígado — destreza e imunidade a facas;
O cérebro — exatidão nos objetivos;
Os olhos — premonição;
Carne de uma criança — imortalidade.

118

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 118 29/05/12 19:11


Oito

ngelique tinha tanta saudade do mar, que pensava que seu


corpo ia se partir em dois. A melhor parte de sua vida tinha
desaparecido com ele: o mergulho frio da manhã, a areia causti‑
cante do meio­‑dia, os arranhões dos corais, a ferroada das mães­
‑d’água. Estava amortalhada no espesso aborrecimento das paredes
acinzentadas e no ar pesado, quente e úmido que se amontoava
dentro daquela torre. Sem que a brisa do mar refrescasse seu quar‑
to, o ar parecia feito de carne, tão palpável e sufocante que sua
pele estava sempre pegajosa.
Os meses foram passando e a solidão de sua vida era cada vez
mais sufocante, depois parecia quase mortal. Ela preenchia as lon‑
gas horas do dia olhando para fora pelas três janelas gradeadas. Lo‑
calizadas fundo nas paredes grossas, cada uma das fendas estreitas
tinha um peitoril largo sobre o qual ela podia sentar e apertar o
rosto contra as grades.
Uma das janelas dava para a estrada que levava de volta a
Saint­‑Pierre. Ela se torturava com o pensamento da longa jornada

119

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 119 29/05/12 19:11


Lara Parker

e de como ela havia adormecido tão confiadamente sobre o om‑


bro de seu pai. Ela imaginava se seria capaz de achar o caminho
de casa caso conseguisse de algum modo descobrir uma saída
através das paredes.
Outra das janelas dava vista para os penhascos que desciam até
o mar. Frequentemente ela pensava em Barnabas e imaginava se ele
tinha velejado em segurança até sua casa. Ela conseguia escutar as
ondas se esbatendo contra as rochas, mas não dava para ver a arre‑
bentação da maré e nem sequer a linha da costa, somente a ampla
extensão do grande abismo, com suas tonalidades mutáveis que os‑
cilavam entre ardósia e anil.
A terceira janela emoldurava uma vista do pátio interno e era
principalmente aqui que ela vigiava. Se ela acordasse bem cedo,
podia ver quando tocavam os escravos para fora da senzala em
grupos de 30 ou 40, para trabalhar nos canaviais, arrastando seus
corpos cansados colina acima até chegarem lá sob as chibatadas do
capataz nos retardatários. Os encarregados dos cães berravam e
amaldiçoavam tão alto que, mesmo à distância, ela podia escutar­
‑lhes as ameaças. Os novos canaviais de seu pai se espalhavam con‑
tra o horizonte, esparsos e irregulares, verdes em alguns pontos,
esfarrapados em outros. Ela imaginou se ele teria uma boa colheita
esse ano e se isto o tornaria mais bondoso para com ela.
Dentro do pátio, ela podia ver o movimento das escravas que
cuidavam dela, Thaïs e Suzette e de outros escravos que traziam
suprimentos, comida e flores. As duas mulheres penduravam rou‑
pas na corda, como sua mãe fizera. Também alimentavam e davam
água para os animais votados para os sacrifícios: galinhas brancas,
cabras, algumas vezes um cachorro. Era desta janela que ela tam‑
bém podia ver os largos braços de treliça desnuda do moinho de
vento abandonado, gemendo com seus fracos esforços para girar.
Mais abaixo, espalhados pelo pátio, havia largos cochos de madeira
para o suco da cana e um galpão para as caldeiras, todos abandona‑
dos. Ela pensou que já se haviam passado anos desde que esta plan‑
tação funcionara plenamente.

120

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 120 29/05/12 19:11


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

Angelique tinha uma nova ocupação que progressivamente


consumia uma parte maior de seus pensamentos. Cada vez que
uma cerimônia era celebrada na capela, ela era mantida no
quarto escuro que ficava por detrás do altar. As longas horas
amedrontadas pelo rufar dos tambores tinham dado lugar à
curiosidade e à descoberta. Davam­‑lhe uma vela para que ela
pudesse suportar a escuridão da peça e, com aquela luz tíbia, ela
começou a inspecionar as prateleiras ensebadas e atopetadas de
uma parafernália espantosa.
Havia muitas panelas de barro com as tampas firmemente amar‑
radas e seladas com cera. Havia também muitos sacos grandes de
poeira branca, que parecia ser uma mistura de farinha com cinzas.
Ela encontrou tigelas esmaltadas, jarros e pratos, uma variedade de
adagas, machetes, facões de cortar cana e até bisturis de diversos
tamanhos; latas cheias de pós, frascos com líquidos que pareciam
salvas e caixas cheias de ervas secas; saquinhos com espinhos de
ouriços­‑do­‑mar, pinças de lagostas e bicos de polvos; pilhas de ga‑
fanhotos, miriápodos e vários outros insetos que ela não reconhe‑
cera; jarros de vidro cheios de um líquido em que flutuavam pedaços
de carne esponjosa, com restos de pele frouxa balançando ao lado;
embriões de pequenos animais; garras e antenas de escaravelhos
gigantes; cadáveres ressequidos de sapos, lagartos, escorpiões e co‑
bras. Alguns daqueles objetos ela já vira entre os guardados de sua
mãe, mas a maior parte era desconhecida e fascinante e ela inspe‑
cionava esta coleção macabra como se estivesse classificando as
joias do tesouro de uma rainha.
Dentro de uma caixa de madeira entalhada, ela encontrou, enro‑
lado em seda, um lindo kriss, um punhal malaio, incrustado de
joias e pedrarias de cores brilhantes, sua lâmina ainda tão afiada
como a de uma navalha. Ela o segurou nas mãos, girando­‑o mara‑
vilhada, antes de enrolá­‑lo de novo com o maior cuidado.
Porém, a descoberta mais excitante de todas foi uma pilha de li‑
vros amontoados em um canto. A maior parte estava mofada e
grossa de poeira, as páginas grudadas juntas pela umidade. Alguns

121

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 121 29/05/12 19:11


Lara Parker

continham estranhos desenhos que ela não conseguia decifrar: es‑


tranhas figuras circulares, cruzes e riscos enovelados uns nos ou‑
tros, desenhados com uma bela caligrafia. Outros eram livros­‑caixa
com listas de propriedades compradas e vendidas — escravos, bar‑
ris de rum, barris de açúcar — com todos os números adicionados
ou subtraídos em colunas caprichadas. Ela se divertia procurando
erros nas contas de somar ou diminuir.
Mas havia um livro que parecia ainda mais precioso que todos
os outros. Tinha capas de couro, a beirada das páginas pintada de
dourado e amarrado com um cordão grosso e quando ela o abriu,
descobriu longas descrições de cerimoniais, cânticos e canções.
Os cânticos eram escritos por muitas mãos diferentes, de tal
modo que o conjunto deveria ter sido coletado ao longo de déca‑
das. Alguns estavam em espanhol, outros em francês e uma gran‑
de quantidade redigida em dialetos africanos, com palavras em
inglês ou frases cristãs de mistura aqui e ali, um conjunto muito
difícil de decifrar.
As palavras africanas eram sempre repetidas muitas vezes, cha‑
mando o loá que deveria realizar a mágica. As cerimônias eram
infindavelmente fascinantes e ela lia as palavras silenciosamente,
vezes sem conta, escutando os sons dentro de sua mente. Também
encontrou penas de ganso e tinta e vidrinhos fechados, ainda uti‑
lizáveis. Já que o livro era pesado e suas páginas grandes e man‑
chadas, ela começou a copiar certos encantos em seu diário, mais
para se divertir, para conseguir ler melhor depois, quando estives‑
se em seu quarto.
Thaïs sempre dormia na torre com Angelique, em um dos ban‑
cos de madeira junto das paredes, mas após algum tempo, a escra‑
va começou a confiar mais nela ou talvez tivesse apenas ficado
menos vigilante e a porta do quarto era algumas vezes deixada
destrancada durante uma parte do dia. Quando os escravos ti‑
nham saído para cuidar de suas tarefas e o castelo estava deserto,
Thaïs dava licença a Angelique descer as escadas e sair, desde que
permanecesse dentro dos limites do pátio interno. Como uma

122

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 122 29/05/12 19:11


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

gata enjaulada, somente solta de vez em quando, ela começara a


explorar o perímetro de sua prisão.
A porta externa da capela estava sempre trancada e o pátio intei‑
ro cercado pela muralha e pelo fosso. Um dos lados do castelo se
erguia diretamente sobre o penhasco de paredes verticais que caí‑
am até o mar, separado dele por uma mureta de cerca de um metro
e meio de altura. Angelique facilmente redescobriu o túnel do sub‑
solo pelo qual ela correra no primeiro dia e que conduzia direta‑
mente à capela. Havia uma passagem alta estreita ao lado da
canaleta central por onde corria a água e ela podia caminhar por ali
em segredo, permanecendo sequinha o tempo todo, para ir até a
peça por detrás do altar, a fim de ler mais coisas naquele livro ou
copiar mais páginas dele. Finalmente, ela contrabandeou o volume
pesado até seu quarto e o conservava escondido embaixo da cama.
Depois disso, quando ela estudava o livro ou escrevia em seu diário,
ficava cuidando pela janela que dava para o pátio para ver se alguém
estava chegando na torre.
Um dia, quando estava sentada no peitoril da janela, viu uma
nova escrava saindo da cozinha. Tinha mais ou menos a mesma
idade de Angelique, era esguia como uma palmeira e sua pele era de
um tom acobreado e reluzente. Ela apareceu com um balde grande
e tirou água do poço. Então ela jogou a água sobre uma das pedras
chatas que calçavam o pátio, ajoelhou­‑se e começou a esfregá­‑la
com um bolo de bagaço de cana, cantando uma simples canção
africana em voz alta e aguda.
Angelique contemplou atentamente a escravinha, suas costas
estreitas dobradas sobre sua tarefa, seus cotovelos magros apare‑
cendo sob as mangas de seu vestido esfarrapado e as plantas rosa‑
das de seus pés voltadas para o céu. Depois de alguns momentos,
a menina ergueu a cabeça e ficou contemplando uma fragata vo‑
ando logo abaixo das nuvens até se transformar em um ponti‑
nho minúsculo e desaparecer da vista. Então ela se sentou sobre
as pernas, com os joelhos dobrados, dando um suspiro e deixan‑
do marcas de suas palmas na pedra enquanto a água secava. Ela

123

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 123 29/05/12 19:11


Lara Parker

começou a dar tapas na água que recobria a pedra, com batidi‑


nhas secas e ritmadas, tal qual se a laje fosse um tambor. Isto a
ocupou for vários minutos até que uma borboleta começou a an‑
dar em círculos ao redor de sua cabeça e ela se ergueu de um
pulo para caçá­‑la ao redor do pátio, uma ação que a seguir se
transformou em uma dança. Ela começou a pular e a rodopiar,
seus bracinhos ondulando acima de sua cabeça e seus braços e
pernas perfeitos pareciam brunidos com ouro.
— Chloé!
O grito de Suzette fez com que a menina recobrasse sua manei‑
ra anterior, desajeitada e caminhando com os pés chatos, e ela se
agachou, começando a esfregar o piso outra vez, mas não por
muito tempo. O próximo balde que ela tirou do poço se derramou
sobre seus pés e ela bateu com os pés na água da pocinha, até que
ela se espalhou para baixo do forno do pão, assustando um lagarto
verde. Imediatamente, ela já estava de quatro no pavimento,
arrastando­‑se em direção ao animal, tocando­‑o com o dedo até
que ele fugiu em disparada. O coração de Angelique doeu, ansian‑
do por se tornar amiga dela.
Angelique adivinhou que Chloé deveria dormir na cozinha.
Bem cedo de manhã ela já estava no pátio, tirando água do poço e
cantando suas musiquinhas monótonas. Então ela passava o dia
lavando as lajotas ou esfregando as panelas sujas e tisnadas pelas
chamas do fogão. Havia dias em que ela ficava lá dentro, talvez
ajudando a fazer a comida, mas quase sempre aparecia à tardinha
para sentar­‑se em um degrau enquanto tomava uma tigela de
sopa, espantava os mosquitos que voavam ao redor de seus olhos
e olhava o sol se pôr no horizonte do mar sobre o muro baixo que
dava para o penhasco.
Certa manhã, quando a menina estava junto ao poço, Angelique
tirou um bolinho de chuva da bandeja que lhe haviam trazido para
o desjejum e estendeu o braço o mais que pôde através das barras da
janela, jogando­‑o no pavimento, lá embaixo. Caiu diretamente
diante dos pés de Chloé e a outra se assustou, largou a corrente do

124

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 124 29/05/12 19:11


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

poço com um estrondo, dando um pulo para trás e olhando para


cima, rapidamente, apertando os olhos.
— Mais qui troço é essi? O céu tá caino? — exclamou. A seguir,
viu o que estava no chão, deu uma olhadela rápida em direção à
cozinha para ver se ninguém a estava espiando e então correu para
pegar o bolinho, tirou a poeira e os grãos de areia que se haviam
grudado nele e deu uma mordida. Um sorriso se espalhou por seu
rosto e ela apertou novamente os olhos, desta vez olhando direta‑
mente para a janela em que estava Angelique. Erguendo a mão, ela
lhe abanou bem depressa.
Nessa noite, Angelique decidiu que iria esperar até que Thaïs
adormecesse e então desceria às escondidas até a cozinha. Guardou
boa parte de seu jantar em um pano. Depois ficou acordada noite
adentro, até que as estrelas estavam tão brilhantes como milhões de
vagalumes e, pelos roncos de Thaïs, teve certeza de que ela estava
ferrada no sono. Quando Angelique abriu o ferrolho da porta e des‑
ceu a escada pisando o mais leve que podia, as pás inertes do moi‑
nho estavam estalando mais do que nunca e abafavam todos os
outros sons, até mesmo o bater de seu coração. Alegrou­‑se ao ver
que a lua ainda não havia saído.
A menina realmente estava encolhida na cozinha escura, deitada
sobre uma esteira enfiada embaixo de uma mesa de tampo largo em
que cortavam as verduras e a carne. No momento em que Angeli‑
que abriu a porta, o chiado leve das dobradiças a acordou, ela sen‑
tou, esfregando os olhos e encarou-a, sabendo muito bem que não
devia se mover ou emitir um som.
— Chloé... — cochichou Angelique. A menina se encolheu apa‑
vorada contra a parede e puxou as pernas para proteger o peito. —
Não tenha medo. Eu só...
— Esprit! — sussurrou Chloé.
— O quê? Não, não sou espírito nenhum — tranquilizou­‑a Angelique.
— Mystère...! Mystère...! — Chloé chiou como uma cobra, seus
olhos largos de medo.

125

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 125 29/05/12 19:11


Lara Parker

— Não tenha medo! — disse Angelique, baixinho. — Eu não lhe


farei mal algum. Olhe para mim. Sou perfeitamente real...
Porém, Chloé se encolheu mais ainda, prendendo os joe‑
lhos com as mãos e formando quase uma bola com seu corpo
e cochichou asperamente:
— Não chegue perto de mim! Suzette disse que eu não devo
jamais falar com você, nunca, nunca mesmo, senão... você vai
me comer...
— Ora, não! É claro que eu não vou comer você. Eu só que‑
ro... só quero...
— Você é Erzulie! Se me tocar, eu morro!
Angelique hesitou e então se sentou no chão, ao lado da mesa de
partir carne, a certa distância de Chloé. Esperou por um minuto ou
dois, escutando sua respiração e a seguir, abrindo a trouxa em que
colocara os restos de seu jantar, tirou um pedaço de porco assado e
começou a dar mordidinhas na carne. Fingia não olhar, mas sentia
perfeitamente os olhos de Chloé sobre ela.
Depois de mastigar por diversos minutos, estendeu cerca de me‑
tade do pedaço de carne para a outra menina:
— Eu trouxe uma coisa para você... — explicou.
Chloé hesitou e então estendeu o braço e arrancou a comida bem
depressa de sua mão. As duas ficaram comendo sem falar, sugando
a gordura dos ossos e fazendo barulhinhos com a boca e a língua,
até que cada uma percebeu os sons vulgares que fazia e as duas co‑
meçaram a dar risadinhas. Angelique ficou com medo de que fos‑
sem descobertas, colocou a mão sobre a boca da outra e mordeu
seus próprios dedos para impedir a si mesma, mas as duas se sacu‑
diram, cuspindo e se engasgando, até que suas gargantas e bocas
doíam de tentar impedir as risadas.
— Seu nome é Chloé, não é mesmo? — cochichou Angelique.
A menina morena hesitou por um momento, depois fez que sim
com a cabeça.
— O meu é Angelique.
— Eu sei quem tu é. Tu mora na torre...

126

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 126 29/05/12 19:11


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

As duas ficaram em silêncio por mais algum tempo.


— Quantos anos você tem? — perguntou Angelique.
— Ah, nem sei... Acho que dez — respondeu Chloé.
— Levante e fique em pé.
Chloé saiu de seu esconderijo, ainda meio assustada e Angeli‑
que fez que ficassem as duas de costas uma para a outra. Angeli‑
que estendeu o braço e tocou em suas cabeças para comparar as
alturas de ambas.
— Acho que você só tem nove — decidiu, sentindo­‑se superior.
— Mas isso é bom.
— Que é que tu quer dizer, que é bom?
— É que nós podemos ser amigas. Mesmo que eu já tenha quase
onze anos.
— Ah, não, eu não posso ser tua amiga. Eu não posso brincar
contigo! — protestou Chloé, seus olhos largos de medo.
— Não seja boba. Vamos nos encontrar de noite, quando todo
mundo estiver dormindo — sugeriu Angelique. — Você não vê? Eu
não tenho ninguém para conversar e já estou aqui há mais de um ano...
— Mas por que tu me escolheu?
— Ai, Chloé, eu queria tanto ter uma amiga — explicou Angeli‑
que. — Eu tenho estado tão sozinha e agora que você apareceu, fi‑
quei tão feliz...
Chloé sorriu, meio para si mesma:
— Eu gostei muito da carne... — disse baixinho.
— Que bom — alegrou­‑se Angelique. — Mas agora eu tenho de
voltar antes que Thaïs acorde.
— Ai, meu Deus! — assustou­‑se a outra. — Vai. Vai logo! Apura!
— Mas amanhã de noite, eu venho outra vez. Vou trazer mais
alguma coisinha para você comer — disse­‑lhe Angelique. — E você
pode me trazer... um pouco de argila.
— Um pouco de quê? — surpreendeu­‑se a outra.
— Um pouco de barro duro. Para a gente fazer uma coisa com ele.
Angelique deu­‑lhe um abracinho, saiu pela porta e correu atra‑
vés do pátio.

127

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 127 29/05/12 19:11


Lara Parker

Na noite seguinte, Angelique convenceu Chloé e as duas desli‑


zaram silenciosamente pela passagem subterrânea até o quarti‑
nho que ficava por detrás do altar. Chloé trouxera argila da beira
do rio. Elas acenderam uma vela e sussurraram e riram durante
horas, fazendo lagartinhos e tartaruguinhas de barro, vaquinhas,
galinhas e cabras.
Depois dessa noite, aquela peça se tornou seu quarto secreto.
Criaram um canavial inteiro de argila, com choupanas para os es‑
cravos, os tetos feitos de galhinhos e de capim seco. Fabricaram a
torre, a casa­‑grande e até as muralhas do castelo. Logo havia tam‑
bém imagens de escravos realizando suas tarefas, plantando cana
ou moendo as varas cortadas.
Cada noite Chloé trazia mais argila, além de sementes e conchas,
folhas e bagas, para tornar sua aldeia cada vez mais requintada. An‑
gelique remexia as gavetas da cômoda e do guarda­‑roupa e encon‑
trava pedaços de tecido e couro, restos de renda ou retalhos de
bordado para vestir o seu povinho. Elas inventavam histórias e de‑
sempenhavam todos os papéis — capataz e senhor de engenho, es‑
cravos e crianças — movimentando as figurinhas para cá e para lá
e fazendo com que dessem pulinhos, numa imitação de pequenos
passos, ao mesmo tempo em que falavam em nome delas.
Chloé não parecia absolutamente sentir o peso de sua existência
de escravidão. Era vivaz e descuidada e seu entusiasmo pela brinca‑
deira com os bonecos de barro não tinha limites; algumas vezes ela
se encarregava do jogo inteiro:
— Tirem esse escravo daqui! — ela gritava, imitando a voz cruel
do capataz.
— Num, num, sinhô, num meti eu nu chão! — suplicava, repre‑
sentando um escravo.
— Abram esse buraco, seus bastardos e enfiem ele dentro! — ela
dizia com uma voz que parecia um rosnado e então enterrava a fi‑
gurinha, fingindo que ela tremia de medo, com terra até o pescoço,
gemendo e gritando todo o tempo:
— Ai, não! AI, NÃO! Num mi põe nessi buracu!

128

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 128 29/05/12 19:12


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

— Deixem sua cabeça para fora e vão buscar o mel! — agora era
a voz do capataz.
— Ai, não, Sinhô! Pur favô, num põe o mer, não! Pur favô, o mer não!
— Derramem o mel inteiro na cabeça dele e vão buscar um bal‑
de de formigas!
— Ai, não, Sinhô, as furmiga não!
— Derramem as formigas para que mordam ele bem, que mor‑
dam os olhos e as orelhas e o pescoço e entrem no nariz e mordam
lá dentro!
Chloé parecia possessa e retorcia o rosto em uma máscara cruel
quando pretendia ser o capataz. Então Angelique entrava na brinca‑
deira e fingia ser o escravo:
— NÃO! NÃO! As formigas estão me mordendo! Elas vão comer
toda a minha cara! — ela gritava, excitada por uma mistura de hor‑
ror e fascínio. Ela nem sequer era capaz de imaginar como seriam
umas torturas tão cruéis. Ela pensava que Chloé inventava esses
dramas e ficava encantada com a imaginação da outra.
Foi ideia de Chloé fazer as bonecas. As duas eram marrons, porque
a argila era marrom, mas uma trazia o cabelo louro de Angelique e a
outra tinha a carapinha preta e curta de Chloé. Elas haviam cortado
um pouco de seus próprios cabelos. Até mesmo as roupas tinham sido
feitas com tiras de seus próprios vestidinhos, costuradas ao redor da
argila, para serem mais autênticas. Os olhos eram feitos de pedrinhas
e as bocas outras tantas fileiras de sementes enfiadas cuidadosamente
na argila ainda mole e elas discutiram sobre quem tinha feito a curva
mais perfeita de uma boca sorridente. Fingiram que as bonecas eram
irmãs e lhes fizeram camas com travesseirinhos e cobertas, para que
elas pudessem dormir lado a lado. Mais adiante, chegaram a erguer
uma tenda com lenços de seda e pareus de algodão e as duas se deita‑
vam ao lado das bonecas e as acalentavam com melodias que suas
próprias mães haviam cantado para elas, até que conheciam bem as
canções uma da outra e eram capazes de cantar todas de cor.
Durante o dia, Angelique lia seu livro. Ela recordava também mui‑
tas coisas que sua mãe lhe havia ensinado e também parte das rezas

129

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 129 29/05/12 19:12


Lara Parker

das freiras na escola, mas queria saber muito, muito mais. Certa vez,
ela perguntou a Chloé se ela sabia alguma coisa sobre os loás.
— Loás? Ah, terem muitos, muitos loás mesmo! — falou, cheia
de importância.
— Ah, por favor, diga­‑me os nomes deles! — pediu Angelique.
— De todos eles? Bem, existe o Brava Guede, que é o melhor de
todos os loás, é ele que vem cuidar das crianças. Mas tem o Guede
Ratalon. Ele cavar os túmulos — explicou a outra.
— Eu me lembro de Legbá. Quem é ele? — quis saber Angelique.
— Papá Legbá é o mesmo Maître Ka­‑Fu. É ele quem abrir os
portões para que todos os outros loás possam entrar! — disse Chloé,
abrindo seus braços delicados e então disse: “A­‑a­‑a­‑a­‑abra!” e fez
uma curvatura até o chão. — Mas quando eles chamar o Guarda do
Portão nessa capela aí do lado, eles dizer... “Kalfu...”
Angelique percebeu que ela estava fazendo um grande esforço
para dizer “Carrefour”, que era “encruzilhada” em francês.
— Sim! Eu já os ouvi dizendo isso! — exclamou Angelique. —
Por que é diferente aqui?
— Porque o vodu daqui é ruim... é angajan! — sussurrou Chloé.
— O que você quer dizer com angajan? — falou Angelique, tam‑
bém baixinho.
— É o baká daqui... alma penada... espírito mau... ele pegar a ti‑
boangue, a alma da gente! — falou Chloé, assustada. — Ele é como
o Cochon Gris — come o porco e bebe o sangue dele!
A imaginação de Chloé ultrapassava as fronteiras do fantástico.
Enquanto a escutava, Angelique pensava nos caranguejinhos ver‑
melhos que entravam e saíam de seus pequenos esconderijos, difí‑
ceis de se ver e ainda mais difíceis de pegar.

* * *

Em certo ponto, Angelique decidiu tentar alguma coisa do seu li‑


vro, mas havia muitos ingredientes de que ela precisava e não tinha
à sua disposição. Uma noite, ela pediu a Chloé:

130

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 130 29/05/12 19:12


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

— Você pode me conseguir um sapo ou uma rãzinha, um coqui?


— Para que tu quer um sapo? — disse a outra, surpresa.
— Quero fazer um encantamento — falou Angelique abertamente.
— O que quer dizer “encantamento”?
— O sapo tem de estar vivo.
Quando Chloé finalmente lhe trouxe o sapinho, Angelique o vi‑
rou de costas e ficou a lhe passar um dedo na barriga até que o bicho
ficou hipnotizado. Então, ela pegou uma das facas menores e lhe
abriu o ventre.
— Olhe —, explicou — aquilo é o coração.
— Aquilo é o coração? — espantou­‑se Chloé. — Mas é mesmo!
Eu vejo que está batendo que nem um tamborzinho!
— E que parte você pensa que é o fígado?
— O quê?
— Nós precisamos do fígado. É para nós duas comermos — ex‑
plicou Angelique.
— Mas para que você quer comer esse... “figo”? — indagou Chloé.
— Porque nos dá coragem e esperteza.
— Ora, eu não vou comer o figo de nenhum sapo, não me im‑
porta pra que serve!
— Mas você precisa! — afirmou Angelique, remexendo nas en‑
tranhas do sapo. — Acho que é isto aqui... — comentou, retirando
um minúsculo órgão úmido e oferecendo­‑o a Chloé, cujos olhos se
arregalaram de desgosto enquanto ela sacudia sua cabeça em uma
negativa veemente.
A seguir, Angelique cortou fora o coração e, segurando os dois
pedacinhos, que sangravam um pouco, cortou cada um em duas
metades minúsculas, recitando as palavras africanas que tinha de‑
corado do livro. Com uma careta, colocou suas porções na boca e
engoliu. Chloé a olhava, seu rosto contraído como um melão seco.
Angelique ofereceu­‑lhe sua parte, mas ela se recusou.
Angelique tentou forçar os pedacinhos para dentro da boca dela,
mas ela recuou, gritando:

131

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 131 29/05/12 19:12


Lara Parker

— Eu não quer nada disso! Fica longe de mim! Tu tá com sangue


e porqueira espalhados por todos os dedos!
— Vamos fazer o encantamento agora — disse Angelique
— mas não vai funcionar para você, porque você não quis co‑
mer o coração.
— Eu não quer comer coração nenhum! — protestou a outra.
— Então pegue só a minha boneca e vamos começar.
Angelique pegou a boneca que representava a amiga e soprou­‑lhe
no rosto:
— Você é Chloé — disse baixinho — e agora está viva.
Virou­‑se para Chloé:
— Agora faça o mesmo com a minha.
Chloé concordou e pegou a boneca de cabelos amarelos:
— Você é Angelique e agora tu tá viva — falou, sem muito entu‑
siasmo. Mas ela adorava seus jogos de “fazer de conta” e tentou
acreditar. Angelique lhe entregou um pedaço de cordão preto.
— Amarre em volta da garganta da minha boneca — ordenou.
— Mas por quê?
— É o encantamento. Anda logo — disse Angelique, pacientemente.
Chloé enrolou o cordão desajeitadamente e conseguiu fazer um
laço de correr ao redor de seu pescoço.
— Agora diga: “Querfur ting­‑in­‑ding gu­‑u. Mi hot mi bêis­‑i.”
— Dizer o quê?
— Diga primeiro: “Querfur”...
— “Querfur”...
— Agora diga: “Ting­‑in­‑ding gu­‑u…”
— “Ting­‑in­‑ding gu­‑u…”
— “Mi hot mi bêis­‑i.”
— “Mi hot. Mi bêis. I.”
— Agora aperte bem apertado o cordão no pescoço da boneca
— explicou Angelique. — Veja se consegue me sufocar.
— Te sufocar? Mas pra que é que tu quer que ele te sufoque?
— Para ver se o encantamento funciona, é claro.

132

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 132 29/05/12 19:12


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

Chloé foi apertando o cordão, enquanto escrutinava o rosto de


Angelique para ver se havia algum sinal de sufocamento.
— Mais apertado — disse Angelique, franzindo a testa.
— Se eu apertar mais, vai cortar fora a cabeça dela! — protestou Chloé.
— Ah, faça logo! E repita as palavras mágicas!
Chloé se esforçou o mais que pôde para resmungar as palavras
que aprendera, enquanto apertava o nó mais firme, até que, confor‑
me ela previra, a cabeça de argila da boneca de Angelique se soltou
e caiu no chão. Angelique suspirou de frustração:
— Não funcionou — disse ela. — É alguma coisa que eu estou
fazendo errado...
— Mas pra que tu quer fazer feitiço? — reclamou Chloé. — Fei‑
tiço quem faz é o hungan! Feitiços são coisa perigosa. Além disso,
primeiro tu tem de fazer o vevé...
— O que é um vevé? — quis saber Angelique.
— É a figura do loá, mas não pode ser de barro, tem de ser de
farinha branca — explicou a outra. — E depois, tu não pediu ao
Papá Legbá para abrir o portão primeiro...
— Deixe­‑me tentar com sua boneca.
— Eu não quer tentar mais coisa nenhuma! Vamos brincar de
outra coisa. Vamos dançar!
Ela largou a boneca sem cabeça no chão e se levantou, come‑
çando a girar. Mas Angelique estava determinada. Ela pegou o
cordão preto e amarrou ao redor do pescoço da boneca que re‑
presentava Chloé.
Colocou a boneca sobre os joelhos e assoprou nela outra vez.
— Você é Chloé — disse baixinho — e agora está viva...
A seguir, começou a entoar o encantamento bem baixinho:
— “Quéri Fúrei... Ting­‑in­‑ding gu­‑u. Mi hot mi bêêêêiss­‑ii.”
Suas mãos ainda estavam pegajosas das entranhas do sapo e
ela enrolou as pontas do cordão nos dedos para segurar melhor.
Chloé ainda estava cantando de boca fechada e girando, e Angelique
começou a apertar bem devagarinho, os olhos fixos na bonequinha,

133

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 133 29/05/12 19:12


Lara Parker

que lhe retribuía o olhar com seus olhos de pedrinhas emoldura‑


dos pelas trancinhas encarapinhadas. Suas mãos começaram a
endurecer e sua boca a se ressequir, mas ela recitou o encanta‑
mento inteiro outra vez, assoprando com toda a força contra o
pescocinho da boneca.
Subitamente, ela sentiu um espasmo como se fervesse por den‑
tro, como o tremor que sentia ao tocar em certo tipo de mãe­‑d’água
e então uma ondulação de calor percorreu­‑lhe as omoplatas e
desceu­‑lhe queimando até as nádegas. Uma centelha de fogo
enroscou­‑se como uma serpente no interior de seu estômago,
retorcendo­‑se e depois engrossando e sua garganta parecia em fogo
ao mesmo tempo que um gosto amargo lhe enchia a boca.
Chloé parou de girar, de repente.
— Tá funcionando! — ela gritou. — Tá funcionando agora!
Seus olhos se arregalaram e ela segurou o pescoço com as mãos
e gritou:
— Tá doendo! Minha garganta tá doendo!
Angelique gelou, cheia de descrença, pensando ser brincadeira,
mas ao olhar para Chloé, percebeu que ela estava realmente sofren‑
do, segurando o pescoço com as mãos e tossindo:
— Para com isso! Para com o feitiço! Por favoooooor! Eu não
posso reeess... pirar!
Angelique tentou retirar as mãos, mas seus dedos estavam en‑
roscados no cordão e seus esforços para puxá­‑lo e retorcê­‑lo só dei‑
xavam o nó mais apertado. Chloé começou a soltar uns gritinhos
que pareciam guinchos de algum animalzinho caçado, engasgada,
arranhando a garganta e atacando o ar com os dedos em garra.
— Aaaaaiiiii, Papá Guede! Eu sinto dooooorrr!!!! — gemeu ela,
sem conseguir respirar, mal podendo emitir os sons. — Papá Gue‑
de! Me salve! — ela sussurrava, tentando gritar. Então se dobrou e
caiu de joelhos, tossindo, uma tosse seca e dolorida, como se esti‑
vesse com ânsia de vômito, mas sem que nada saísse de sua boca.
Angelique tentou freneticamente soltar o nó corrediço do cordão,
mas ele se recusava a afrouxar. Chloé gemia cada vez mais baixo e

134

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 134 29/05/12 19:12


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

balançava o corpinho para a frente e para trás, as mãos tentando ar‑


rancar de seu pescoço um laço que não estava lá, as lágrimas brotan‑
do sem parar de seus olhos.
Angelique se arrastou de joelhos, tateando no chão em busca da
faquinha que havia usado para abrir a barriga do sapo. Seus dedos
encontraram a lâmina e ela agarrou a boneca com a outra mão.
Seus dedos trêmulos, suas unhas escarvando a argila endurecida,
ela conseguiu enfiar a ponta da faca sob o cordão e puxou. Da pri‑
meira vez, escapou, mas da segunda, o cordão foi rebentado! Chloé
caiu no chão, encolhida em um montinho trêmulo e fitou Angeli‑
que com olhos angustiados que lentamente se vidraram, enquanto
ela perdia a consciência.
Angelique arrastou Chloé para seu colo e apertou­‑a com cari‑
nho. Ela sentia seus ossos finos encolhendo por debaixo de sua pele
e farejava seu cheiro cálido e apimentado.
— Sinto muito, Chloé! Ai, Chloé, eu sinto tanto! Chloé, por fa‑
vor, por favor, não morra! — ela soluçou, numa convulsão de espas‑
mos de pavor. — Eu não sabia que ia funcionar mesmo. Mas
funcionou tão depressa! Por favor, Chloé, acorda!
Mas Chloé estava quieta e nem respirava, seu pescoço mole, seu
corpo tão frouxo com as algas das lagunas. Angelique entrou num
frenesi e olhou ao seu redor, sem fazer ideia de como agir, contem‑
plando as prateleiras de garrafas e frascos enquanto esquadrinhava
sua própria mente. Um encantamento! Outro encantamento! Ti‑
nha de haver um! Alguma coisa, havia alguma coisa, o que é que
era? “Para reviver um animal estrangulado.” Era isso!
Ela se esforçou para recordar as palavras. Palavras diferentes,
noutra língua. Palavras dos cristãos. Lembrou só de uma parte, e
depois se recordou de um pouco mais e logo a seguir estava rezando
sobre a forma imóvel de Chloé.
— Deus que nasceu. Deus que morreu. Deus que voltou de novo
à vida. Deus que foi crucificado. Deus que esteve na caverna. Deus
que foi furado pela adaga! Salve­‑a. Salve­‑a! — ela soluçava entre as
palavras, balbuciando vezes sem conta a reza forte, beijando a face

135

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 135 29/05/12 19:12


Lara Parker

de Chloé, molhada de suas próprias lágrimas e soprando dentro de


sua boca. — Você é Chloé. Você está viva!
Ouviu­‑se um leve gemido e Chloé abriu os olhos. Com um gri‑
to, Angelique a apertou contra o peito, chorando lágrimas quen‑
tes de alívio.
— Ai, Chloé! Eu sinto tanto! Por favor, diga que me perdoa!
— Esses… feitiços ser… coisa ruim — murmurou Chloé. E An‑
gelique a beijou de novo.
— Eu te amo, Chloé — suspirou Angelique. — Eu te amo…
Angelique abraçou Chloé enquanto ela dormia, olhando seus pe‑
quenos seios subir e descer. Seus pensamentos giravam como um
pião. O encantamento havia funcionado, fora tão fácil! A força entra‑
ra dentro dela e acendera sua energia. Qual era aquele poder? “Car‑
ga”, era como Chloé o chamava. Uma palavra assim tão simples?
Capaz de impelir a coluna de sua respiração? O livro! Algumas das
regras do livro eram realmente corretas. A boneca usava um pedaço
de pano que tocara a pele de Chloé e o cabelo era mesmo de Chloé.
Mas a outra fracassara ao tentar o feitiço com ela. Por que seria?
Seus pensamentos a confundiam e assustavam. Porque havia al‑
guma coisa mais: Chloé teria mesmo morrido e fora ela que a trou‑
xera de volta à vida? Mas não. Isso não podia ser possível... Contudo...
ela se sentia exultante, assombrada pelo poder que sabia possuir,
mas um dom que ela absolutamente não conseguia entender. Era
aquela “coisa mais” de que falara o seu pai. Mas o que ele realmente
sabia a respeito dela? De fato, o que ela mesma realmente sabia a
respeito de si própria?
Já era aurora quando as duas meninas retornaram às apalpadelas
pela passagem subterrânea e o canto dos pássaros já estava no ar.
Chloé estava bem juntinha a Angelique, recuperada, mas ainda
amedrontada e incapaz de falar, sua garganta profundamente dolo‑
rida. Emergiram do túnel e já estavam na metade da travessia do
pátio, quando escutaram o galope de cavalos que se aproximavam
galopando pela estrada em direção ao portão. Angelique segurou a
mão de Chloé:

136

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 136 29/05/12 19:12


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

— Esconda­‑se! Aqui mesmo!


As duas meninas se enfiaram por trás da parede lateral da capela
justamente no momento em que o grande portão de ferro rangeu e
se abriu e seu pai e outro senhor de engenho entraram a cavalo no
pátio central. Ele recordava o nome do outro. Era Luís Desalles. Ele
estivera lá no dia em que ela fora escolhida.
O ar estava parado, sem a menor brisa e até mesmo os longos
braços do moinho estavam silenciosos. Os cascos dos cavalos in‑
quietos ressoavam contra as lajes do pavimento e os dois homens
falavam em voz baixa, suas vozes pastosas pelo excesso de bebida.
— Você é um puto de Satã, Bouchard! — balbuciava Desalles.
— A música para os negros é o chicote! É só a chibata que faz com
que trabalhem. São uns brutos do inferno!
— Não, você está errado! — contrariou seu pai. — Eles sentem
falta de dançar. Os negros são naturalmente supersticiosos. São
bestas e estão obsecados por ela. Mal consigo impedir que lhe po‑
nham as mãos em cima!
— Mas que diabo você está dizendo?
— Eles chegam a esquecer de que eu estou ali com eles! — disse
Bouchard. — Ou algumas vezes fingem que se esquecem, até que eu
desembainhe a espada! Mas eles sabem em seus cérebros ardilosos
o que está para acontecer e então esperam... — concluiu ele, soltan‑
do um riso amargurado.
Angelique e Chloé permaneciam ocultas na sombra da parede.
Mas o sol já estava a se erguer e uma longa lança de luz começava a
cruzar o pátio. Tinham medo de se mexerem e só se podiam enco‑
lher contra as pedras. O pátio inteiro estava entre elas e a cozinha.
O fazendeiro Desalles prosseguiu com suas palavras indistintas:
— Todos eles são inadequados, tanto na moral como no tempe‑
ramento. Na semana passada, um dos meus negros, Valentin, se
jogou na caldeira grande, justamente quando começou a ferver — a
coisa mais horrível. E ontem mesmo, Bence, o meu novo rapaz que
parecia tão promissor, trepou em uma árvore de fruta­‑pão e se jo‑
gou lá do alto. Quebrou o pescoço, tremendo idiota!

137

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 137 29/05/12 19:12


Lara Parker

Fez uma pausa e prosseguiu:


— Eles são capazes de qualquer coisa para se vingarem de nós!
Outro dia, eu... eu estava chicoteando um escravo e o maluco engo‑
liu sua própria língua! Sufocou a si mesmo!
Chloé tossiu, mas cobriu a boca a tempo e nenhum dos homens
pareceu perceber, porque Desalles não parava de reclamar:
— As mulheres são vilãs ainda piores. Você sabe que elas ab‑
sorvem as crias antes de nascer, como fazem as fêmeas dos antí‑
lopes? Uma das minhas fêmeas estava a ponto de dar à luz; um
dia eu a vi, barriguda da cria; e no dia seguinte puf! Seu barrigão
tinha desaparecido!
O cavalo de Bouchard começou a estalar os cascos nas lajes, irre‑
quieto por estar parado, caminhando aos poucos em direção à ca‑
pela e as meninas se apertaram ainda mais contra a parede. Chloé
encarava Angelique com olhos imensos e assustados.
— Meu maior pesadelo — dizia Bouchard — é que eu tenho de
reinstalar este maldito moinho de vento. As novas engrenagens
para esmagar a cana ainda não chegaram da França. Se a cana ama‑
durecer cedo demais, vou perder tudo.
Os cascos do cavalo estalavam cada vez mais perto.
— Veja só minha situação, estou amarrado dentro do mijo até o
pescoço. É por isso que, neste domingo, eu vou lhes permitir a sua
maldita cerimônia e então... — sua voz soava xaroposa pelo rum.
— Erzulie… meu pequeno tesouro, escondida lá em cima. O que eu
faria sem ela, Luís?
Angelique sentiu um puxão em sua manga e viu que era Chloé.
Ela se virou para ver o rosto de sua amiguinha, contorcido em uma
careta, enquanto ela apontava para sua própria garganta. Angelique
instantaneamente agarrou­‑lhe a cabeça e a enterrou contra sua saia,
mas Chloé explodiu em um espasmo de tosse sufocada.
Bouchard berrou em sua direção, sua voz praticamente um latido:
— Quem está aí?
Angelique e Chloé se esconderam ainda mais fundo nas som‑
bras da esquina e depois deslizaram como duas ratinhas para a

138

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 138 29/05/12 19:12


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

parte de trás do edifício. Os cascos estalaram nas pedras enquanto


o cavalo se aproximava, parava, e batia de novo nas lajotas, mais
lentamente. Houve uma espera agonizante, até que o pai de Ange‑
lique se aproximou e olhou do alto da sela, encarando as duas
meninas trêmulas.
— Mas o que é isso? — ele rosnou para Angelique. — Que infer‑
no você está fazendo aqui fora? Eu não lhe proibi muitas vezes de
mostrar a cara por aqui?
Seu tom de voz tremia de raiva.
— E ainda está metida com uma escrava!
— Por favor, papai, não lhe faça mal. Ela é... minha amiga.
— Amiga? Mas você não sabe que ela vai nos trair — se é que já
não o fez?
— Não! Ela jamais faria uma coisa dessas!
— Mas por que vocês estão aqui? As duas juntas… logo a esta
hora da manhã... Você saiu às escondidas de noite?
— Sim, mas ninguém nos viu. Ninguém mesmo, antes do senhor...
— E por que razão você se escapou da torre?
— Eu só queria… brincar…
— Brincar? Brincar de quê? Brincar onde?
— Brinquedos, pai, faz de conta… na salinha atrás da capela...
O rosto de seu pai ficou roxo de fúria. Inclinou­‑se da sela e
agarrou Chloé pelos cabelos. Ela gritou enquanto ele a colocava
atravessada na sela à sua frente e, firmando­‑a com uma das
mãos pela cintura, galopou com a menina que esperneava atra‑
vés das lajotas do pátio e entrou a cavalo na cozinha. Monsieur
Desalles ficou ali, congelado em seu próprio cavalo, olhando
estupefato para a cena. Finalmente, recuperou­‑se o bastante
para dizer:
— Ôpa, ôpa, Théodore. Não machuque sua barriga. Lembre­‑se
de que vai querer fazê­‑la parir umas crias daqui a alguns anos...
Angelique correu até a porta da cozinha a tempo de ver seu
pai desmontando do cavalo, prendendo Chloé embaixo de um

139

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 139 29/05/12 19:12


Lara Parker

braço, braços e pernas se debatendo. Ele estendeu a mão para


umas tenazes de pegar carvão em brasa que pendiam da parede
acima da pia.
O instrumento de ferro em uma das mãos, ele gritou:
— Luís, me dê uma mão aqui. Segure a cabeça dela!
Angelique puxou o casaco de seu pai:
— Não! Não! Pai! — exclamou. — Por favor, não a machuque!
Por favor, eu lhe suplico! Ela nunca fez nada de mal! Eu vou morrer
se você judiar dela!
Seu pai se virou violentamente para ela, fitando­‑a fixamente,
seus olhos dois buracos negros e os dentes rilhando:
— Morrer você vai, se eu não fizer o que estou pensando! — sua
voz um silvo de cobra. — Sua criança imprudente, temerária! Pare
de choramingar! Então não percebe o que você fez?
Ela saltou sobre ele, arranhando a mão que segurava as tenazes,
mas ele a jogou longe, com um empurrão. Desalles chegara até a
porta e Bouchard gritou­‑lhe:
— Agarre­‑a! Inferno de guria endiabrada!
A esta altura Chloé gritava o mais alto que podia e Angelique,
sua cabeça rodando com o empurrão e o tombo que levara, lágri‑
mas quentes toldando­‑lhe a vista, pôs­‑se em pé novamente, só para
sentir a mão pesada de Desalles segurando­‑lhe o braço firmemente.
— Thaïs! — gritou seu pai pela escrava, tentando em vão segu‑
rar Chloé, que se revirava e escoiceava. — Thaïs! Desça até aqui,
agora mesmo!
Então resmungou entre dentes, tentando em vão firmar a meni‑
na que não parava de se debater em seus braços:
— Para o inferno com seu couro negro, preguiçosa!
Thaïs apareceu na porta da torre, ainda tonta de sono, estupidi‑
ficada de terror.
— Thaïs! Venha me ajudar aqui! Eu quero arrancar a língua
dela! E vou! Vou garantir que ela nunca, mas nunca mais fale
de novo!

140

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 140 29/05/12 19:12


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

Ainda cambaleando de bêbado, ele amaldiçoava:


— Suas desgraçadas de merda, querem me desafiar, é? Eu vou
rebentar a cabeça de vocês duas antes de acabar este negócio!
— Solte­‑me! — gritou Angelique e acertou um pontapé nas viri‑
lhas de seu captor.
Dobrando­‑se de agonia, Desalles a soltou, com uma praga:
— Sua puta amaldiçoada!
Pelo canto dos olhos, Angelique viu seu pai erguer as tenazes
apavorantes e se lançou contra seu braço novamente.
— Solte­‑me, sua criatura infernal, largue­‑me! — ele berrou.
Mas agora tanto ela como Chloé, duas hienas selvagens, começa‑
ram a mordê­‑lo, Chloé nos dedos que tentavam puxar para fora
sua língua escorregadia e Angelique do lado do punho que segu‑
rava a língua. Angelique sentiu seus dentes se cravarem na carne e
o sangue quente escorrer para dentro de sua boca, mas como um
cão raivoso ela continuou com os dentes cravados, mesmo en‑
quanto golpes caíam sem parar sobre sua cabeça e ela escutava as
tenazes estalando no chão.
Então seu pai, agarrando as duas atacantes como um touro as‑
saltado por duas leoazinhas, praguejando e amaldiçoando em fú‑
ria, arrastou os pés para o pátio. Ele sacudiu Angelique para longe
com uma maldição terrível seguida de um pontapé e ela caiu nas
pedras, rolando estonteada, até que levantou a cabeça para vê­‑lo
avançar em direção ao poço no centro do pátio, Chloé ainda presa
debaixo de seu braço.
Ela soube na hora o que ele pretendia fazer.
— Não! — ela gritou. — Ní‑í‑í‑í‑í‑ÃO!!!
Arrastando­‑se pelo chão, tropeçando e caindo, desesperada para
impedi­‑lo, ela lhe agarrou uma perna, depois segurou um braço,
mas já era tarde demais. Ele ergueu a menina, que se debatia e uiva‑
va sem parar, acima de sua cabeça e lançou­‑a por sobre a beirada do
poço. Angelique atirou­‑se contra as pedras da parede do poço, es‑
tendendo os braços e gritando:
— Chloé! Chloé! Chloé!

141

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 141 29/05/12 19:12


Lara Parker

Mas a única coisa que pôde fazer foi olhar agoniada para o bu‑
raco aberto. Escutou um grito agudo vindo lá de baixo e viu a vi‑
bração da corrente ao ser atingida, enquanto ela gritava: “Chloé!”
de novo, seus gritos ecoando os da menina que tombava, reverbe‑
rando, ressoando como dentro de uma caverna — como o croci‑
tar distante de corvos quando voavam sobre as árvores da floresta
— seguindo­‑se um silêncio completo.

142

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 142 29/05/12 19:12


Nove

haïs bem que tentou, mas não conseguiu consolar a tristeza


de Angelique, que pranteava enlutada, sentada no peitoril de
uma janela, firmemente agarrada às suas grades. Suas lágrimas
escorriam livremente, enquanto ela olhava para o poço maldito,
como se pudesse ir buscar Chloé dentre os mortos, puxando a
corrente do balde. Sentia­‑se anestesiada de raiva e desespero e só
conseguia pensar em sua mãe, em como ela precisava vê­‑la outra
vez, sentindo que apenas seu abraço conseguiria levantar de seu
peito aquela dor excruciante.
Foi só no final da tarde que uma carroça atravessou o portão e
foi parar ao lado do poço. Um homem musculoso, todo vestido
de couro, desceu da carroça com um menino escravo a seu lado.
Depois de olharem para dentro do poço e depois de muitas dis‑
cussões e considerações, o homem retirou uma corda de dentro
da carroça e amarrou­‑a ao redor da cintura do menino. Este
postou­‑se sobre o balde e ficou encolhido ali dentro, seus pés des‑
calços projetando­‑se pela beirada e o homem começou a girar o

143

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 143 29/05/12 19:12


Lara Parker

sarilho para baixar a corrente, polegada após polegada, até o fun‑


do escuro do buraco.
Uma esperança fraca e inútil saltitou dentro do coração de
Angelique, mas enquanto o homem esperava, baixando o balde
lentamente, o cavalo batia com os cascos no pavimento e o sol ia
baixando no céu. Nada de som, nenhum movimento vinha do
poço escuro. Após um longo tempo, finalmente a corrente esta‑
lou ao ser sacudida lá de baixo e o homem se debruçou para pu‑
xar a corda, trazendo o menino até o alto da parede do poço. Ele
estava pingando água, totalmente ensopado, agarrando­‑se firme‑
mente à ponta da corda, depois de ter passado uma laçada pela
cintura, até que subiu pela beirada e pulou para o chão. Então os
dois ficaram olhando enquanto o homem girava a corrente no
sarilho, os elos estalando e a máquina gemendo enquanto a ma‑
nivela era girada.
Quando o balde chegou à superfície, a forma inerte de Chloé
aparecia parcialmente acima da borda, como um tufo de algas
marrons enroscadas em uma âncora. O homem puxou­‑a para
fora do balde e atirou­‑a no chão como se fosse um saco de fari‑
nha. Angelique voltou­‑se para Thaïs, que espiava por cima de
seu ombro:
— Por favor, Thaïs, deixe­‑me descer — disse baixinho. — Eu
preciso ir vê­‑la. Tenho de lhe dar adeus...
Mas a mulher sacudiu a cabeça, pegou uma coberta do banco em
que dormia e se moveu em direção à porta.
— Num, sinhazinha, vancê fica aqui im riba. Como divia de tê
ficado sempre — disse Thaïs. E a seguir deixou o quarto, a fim de
ajudar Suzette a preparar o cadáver.
Angelique se virou novamente para a janela. O corpo de Chloé
jazia sobre as lajotas que havia lavado tantas vezes, seu rosto oculto
por um braço, os farrapos do vestido molhado grudados em sua
forma delicada e seus braços e pernas perfeitamente modelados,
como se fossem argila cinzenta arrancada da terra. Angelique
recordou­‑se de Suzette, que tinha caído quase no mesmo lugar, es‑

144

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 144 29/05/12 19:12


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

pancada, mas ainda viva. Ela ficou observando enquanto Thaïs e


Suzette silenciosamente enrolavam o pequeno cadáver e o carrega‑
vam até a cozinha. O homem lhes falou, dizendo a elas que lhe
trouxessem alguma coisa e Thaïs acenou afirmativamente.
Subitamente, ocorreu a Angelique que aquele homem não era
um escravo e tampouco morava na plantação. Seu gibão de couro e
suas botas o marcavam como um trabalhador ambulante, alguém
que tinha sido chamado para retirar do poço o corpo, alguém mais
entendido que os escravos desajeitados, talvez alguém que morasse
em Saint­‑Pierre.
O homem se virou e seguiu as escravas pela porta da cozinha.
Sem pensar duas vezes, Angelique se atirou até a porta e verificou
que Thaïs mais uma vez se havia esquecido de trancá­‑la e correu
escada abaixo até o pátio, ignorando o escravinho, que olhou para
ela muito espantado ao vê­‑la, mas sem esboçar a menor ação. Ele
não disse uma palavra e não fez o menor movimento para impedi­
‑la enquanto ela corria até a carroça, subia pela roda como um ca‑
mundongo e se jogava na carroceria.
Ela viu num relance que a carroça pertencia a um fabricante de
velas, pelas pilhas de lona e de cordas que estavam pelos cantos,
costuradas a argolas e alças de cordame. O odor do mar estava forte
e as velas eram pesadas, mas ela se enfiou embaixo delas, encolhendo­
‑se em um canto o mais ocultamente possível.
Escutou o homem gritar para o menino:
— Venha cá! Isto aqui é soda cáustica e lixívia de milho. Vá até
o poço e derrame tudo!
Ela esperou, com medo de respirar por longos minutos agoniantes,
certa de que sua ausência logo seria notada, até que, finalmente, viu a
carroça se sacudir, então arrancar para frente e o chicote estalou.
Lentamente, as rodas se moveram. O portão de ferro gemeu e o
ferrolho se fechou com um estrondo até que, pelo balouço contí‑
nuo, ela percebeu que haviam chegado na estrada.
O cavalo era vigoroso e galopava em ritmo firme e rápido, para
onde ela não sabia e nem se importava, desde que fosse para longe

145

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 145 29/05/12 19:12


Lara Parker

da plantação. Seu coração batia forte com o pensamento do que


poderia ter à frente: a reunião tão ansiosamente aguardada com sua
mãe, a segurança e o amor de sua infância... e o mar! Ela mal podia
esperar para cair nos braços do mar novamente.
A dor da morte de Chloé, a noite que passara em claro e a exal‑
tação de sua fuga se reuniam em volta dela como fantasmas, en‑
quanto ela permanecia enroscada por baixo da lona de vela,
anestesiada até o estupor, sobrevivendo ainda um único pensamen‑
to — o cálido abraço de sua mãe. Apertava os dedos ao redor do
uangá ainda preso a seu pescoço, o amuleto que lhe dera sua mãe e,
recordando a outra carroça que a trouxera até o canavial, lutou
contra o sono, como se pudesse combater a maré com seus braços
estendidos. Mas finalmente sucumbiu e foi escorregando por uma
chaminé escura, tentando agarrar­‑se com os dedos em garra nas
paredes frias e úmidas, até deslizar totalmente na inconsciência.
Seu sonho foi com Barnabas. O cortinado se abriu, a luz se
derramou para o interior de sua liteira e lá estava ele, completa‑
mente molhado, rindo, subindo para o lado dela, sacudindo­‑a e
empurrando­‑a para um canto do cadeirão. Ele derramou as
joias em seu colo e as arrebanhou outra vez, suas mãos tocando­
‑lhe as coxas, seus dedos descuidadamente se intrometendo en‑
tre suas pernas enquanto reunia as pedras preciosas dentre as
dobras de seu vestido. Parecia demorar para sempre até que
conseguiu pegar todas, mas algumas tinham deixado suas cores
brilhantes entre as pregas e ele tinha de ir buscar de novo e cada
vez que ele conseguia segurar uma, seu toque era como penas
que a confortavam. Então ele a beijava no pescoço e nos lábios e
estava tão perto dela, que ela sentia a batida dos corações dos
dois. Ele sussurrava para ela, chamando­‑a de “Deusa” e depois
sua mão entrava por baixo de seu vestido e a apalpava lá embai‑
xo e seus dedos encontravam lugares que estremeciam e ganha‑
vam vida com seu toque.
Quando Angelique acordou, era noite fechada. Alguém a estava
sacudindo e ela sentou­‑se com um estremeção. A carroça tinha

146

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 146 29/05/12 19:12


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

parado, estava dentro de um galpão vazio e o menino escravo es‑


tava em pé a seu lado, contemplando­‑a.
— Que é que tu qué, guria? — cochichou ele, sua respiração
cálida próxima à sua face.
— Onde nós estamos? — perguntou, endireitando­‑se e olhando
em volta.
— Nós temo em casa. O Sinhô entra na casa e me deixa aqui fora
para enroscar as cordas.
— Em casa... Mas onde é que fica?
— Ora, menina, nós fica nas doca. Em Saint­‑Pierre! Nós trouxe
tu o caminho inteiro. O que é que tu vai fazê agora, hein? — inda‑
gou o menino.
— Por acaso alguém me viu? — quis saber Angelique.
— Eu não contei pra ninguém que tu tava aqui drento — garan‑
tiu o garoto. — Eu não diz uma palavra pra ninguém. Eu vi que tu
tava mesmo querendo ti escapá!
— Estamos realmente em Saint­‑Pierre? — perguntou ela, mal
ousando acreditar.
— Pois temo...
— Ai, que bom! Agora eu tenho de ir embora — disse ela, des‑
cendo da carroça. — Tenho de encontrar minha mãe. Daqui até a
casa, eu sei o caminho.
— Mais tu vai sozinha? — ele indagou, surpreso.
— Ora, é claro. Eu pego a estrada do porto, as cavernas ficam só
algumas braças mais adiante. A casa fica na enseada — disse Ange‑
lique, cheia de confiança.
— Tu não tem medo de ir sozinha? — perguntou o menino.
— E por que eu deveria ter medo?
— Ah, e eu é que sei? Acho que nada te assusta, né? Óia só o jei‑
to que tu pulou pra drento do carroção! Tu não correu feito um
cachorro. Tu correu que nem um porco! Tu correu pra sarvá tua
vida! Mais tem coisas ruim pela istrada. Ladrões e escravos fugido.
E os bucanero! Eu vô só guardá as corda e despois vô contigo um
pedaço do caminho — ofereceu­‑se o menino.

147

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 147 29/05/12 19:12


Lara Parker

— Mas eu não quero esperar por você — disse ela, decididamen‑


te. — É lua nova e ninguém vai me ver. Obrigada!
Com essas palavras, ela saiu apressadamente em direção às do‑
cas. Mas o menino já estava grudado em seus calcanhares.
— O pobrema é — disse ele, ofegante — que eles vê uma menina
branca com um menino preto e eu fico num baita dum pobrema.
Mió mesmo é eu ficá um pouquinho mais pra trais. Tu vai na fren‑
te, mas não se percupeie. Eu vô tá seguindo logo atrais.
O menino não falou nem mais uma palavra durante mais de
meia hora, enquanto marchavam estrada acima através da escuri‑
dão. Diversas vezes, ela disse: “Vá embora!” e tentou correr à frente
e se livrar dele, mas o garoto parecia grudado nela e aumentava sua
velocidade cada vez que ela corria. Finalmente, ela desistiu.
A noite estava quente e bilhões de estrelas se suspendiam no
manto negro do céu, algumas bem alto na cúpula central e ou‑
tras pairando quase sobre a fímbria do oceano. A música da
arrebentação cadenciada das ondas era como um canto de se‑
reia, e quanto mais Angelique caminhava ao longo da orla do
mar, tanto mais ansiava pela doce carícia das ondas. Finalmen‑
te, ela desceu à praia e correu até a beirada da espuma. Quando
viu as próprias estrelas a se banharem nas águas, não conse‑
guiu resistir mais.
— O que tu tá fazendo? — gritou o menino, lá de trás.
Ela o ignorou e mergulhou na primeira onda que se ergueu para
saudá­‑la. O impulso cálido fez correr a areia de sob seus pés e a pu‑
xou para dentro de si, mas ela se deixou levar e balançar nas maro‑
las, enroscada em uma bolinha firme, depois abrindo os braços e
pernas e se lançando para a superfície como uma foca ágil, passan‑
do por baixo da próxima onda. Flutuou, sentindo­‑se finalmente em
casa, ainda mais do que se sentiria ao lado de sua mãe, porque o
mar era o local em que nascera sua alma.
Quando ela finalmente saiu para a areia, ofegante e cheia de en‑
tusiasmo, o menino estava sentado na praia, esperando por ela.
— Tu nada que nem uma toninha — disse ele.

148

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 148 29/05/12 19:12


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

— Você tem nome? — indagou simplesmente, ao sentar­‑se ao


lado dele.
— Césaire — foi a resposta.
— Suponho que você seja escravo do fabricante de velas...
— Não, senhorinha, eu não sou nenhum escravo. Eu tenho mi‑
nha carta de alforria...
— Você é forro? É... livre? — indagou ela, sentindo uma estra‑
nha sensação de inveja ao pronunciar a última palavra.
— Sou, sim, senhorinha. O Amo me deu a liberdade, ou pelo
menos, fui eu que ganhei ela, costurando vela. Eu estive rasgando
os dedo por dez ano, já fiz cem vela e todas ela estão nos navio, se
enfunando nos vento agora mesmo.
— Então você ainda tem de trabalhar para seu patrão até acabar
de se pagar — disse ela, com ar de superioridade. — Foi o que eu
pensei. Você é forro, mas não está livre de verdade.
— Bem, isso mostra o que tu não sabe. Eu já tive até no mar, como
auxiliá do fabricante de velas. E vai tê um dia que eu vô saí que nem tu
— vô viajá pra casa — pra África — disse Césaire orgulhosamente.
— África!? Mas como você sonha alto!
— Eu vim de lá quando era nenezinho, lá no fundo do buraco
negro. Mas eu vou vortá como marinheiro, tu só espera pra vê.
Essa vela que tu tava escondida embaixo, era uma mezena real
superior. E fui eu que fiz essa vela. Amanhã de manhã ela vai
prum barco que tá no porto, uma escuna que vem das América
do Norte.
— América do Norte? — exclamou Angelique. — E esse barco
veio do Maine, você sabe?
— Bem, sabê ao certo eu não sei, mas é um barco de vaivém, ele
vorta todas as estação pra trocá tabaco por rum e armas. E ainda
leva uns escravo de contrabando.
— Eu não acredito que foi você mesmo que fez essa vela para a
escuna — comentou ela —, porque, se fosse, você saberia se ela veio
do Maine. Decerto isso tudo que você me contou provavelmente é
um monte de lorotas!

149

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 149 29/05/12 19:12


Lara Parker

Ela se ergueu, subiu da praia e começou a caminhar de novo es‑


trada acima, seguindo a senda ao redor da laguna. Como já passava
da meia­‑noite e não havia ninguém por perto, Césaire tinha desis‑
tido de segui­‑la de longe e agora caminhava ao lado dela. Mas a
única coisa que conseguiam ver era a espuma brilhante nas praias
do mar, a longa estrada pálida e as dunas que se erguiam do oceano
até a orla da floresta. Tudo quanto escutavam era o barulho de sor‑
vedouro da maré baixa e milhares de sapos cantando no meio do
mato: “Coqui! Coqui!”.
— Por que tu é tão amarga? — perguntou Césaire.
— Isso não é da sua conta — disse ela, com raiva. — E por que
você resolveu ser o meu guardião?
— Ora, eu cá pensei que tu podia tá querendo ti destruí. Tu tá
fugindo, não tá?
— Sim, estou... e daí?
— Tu tá fugindo de quê?
Ela pensou em lhe contar, mas não conseguiu responder. A
dura lição do segredo tinha sido enterrada fundo demais em
sua alma.
— Por que tu tava lá no castelo? — ele persistiu.
— Ele pertence a meu pai, Théodore Bouchard — admitiu ela.
— Tu conheceu a garotinha que se afogô?
— Sim, conheci — disse ela. Após uma pausa, acrescentou: —
Ela era minha amiga.
— E por que ela feiz aquilo? — ele indagou, surpreendendo­‑a.
— Fez o quê?
— Por que ela se jogô no poço?
— Mas ela não...
— Aquele Monsiê Buchá dizeu que ela era cavalo da deusa Erzu‑
lie, que montô nela e a obrigô a fazê aquilo. Que a loá deixou ela
louca e que ela se jogô dentro do poço.
— Não, não foi desse jeito, de maneira nenhuma! Isso mostra
como você é estúpido em acreditar numa coisa só porque lhe dis...
— Angelique começara a explicar, quando subitamente prendeu a

150

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 150 29/05/12 19:12


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

respiração no meio de uma palavra, enquanto seu coração pulava


uma batida.
Bem lá de trás, estrada abaixo, um cavalo se aproximava a pleno
galope. Ela olhou em volta, apavorada, mas Césaire puxou­‑a por
um braço e a arrastou para uma valeta à beira do caminho e a se‑
guir se escondeu ao lado dela, protegidos pelo capim alto.
Os dois ficaram deitados, respirando devagar no escuro, es‑
perando enquanto o barulho dos cascos se aproximava e a se‑
guir trovejava acima de suas cabeças, a uns dois metros de
distância, antes de o som ir diminuindo progressivamente na
distância, estrada acima. Angelique estava tão aterrorizada, que
tinha medo até de se mexer e ficou ali, enterrada embaixo dos
caniços duros, perto de Césaire o suficiente para escutar as bati‑
das dos corações dos dois, como dois malhos em uma bigorna.
Finalmente, ele sussurrou e mesmo aquele leve som fez com que
ela pulasse num sobressalto.
— Ele já si foi. Ele não viu nós nem nada. Nós era que nem pedra
no riacho, mim e tu, mim preto e tu prateada, nós dois escondido
nos fundo das água.
Ela suspirou e deixou o medo escorrer para fora de seu coração.
— Farta muito pra tua casa?
— Não sei — ela respondeu. — Não pode ser muito mais longe,
mas é difícil de dizer, assim no meio do escuro.
— Tarveis tu devia esperá pela manhã. Aí vai tê gente pela estra‑
da, indo e vindo, e tu não vai chamá a atenção. Eu até podia drumi
um pouco agora, tu não?
— Eu não estou cansada — disse ela, sonhadoramente. Seguiu­
‑se uma longa pausa.
— Tu já teve com um rapaiz antes? — ele perguntou baixinho.
— O que você quer dizer, “teve com”? — falou ela, intrigada.
— Quer dizer... sozinha...
Ela estava a ponto de perguntar: “Como estamos agora?”, mas
seu orgulho a impediu e ela se recordou da noite em que Barnabas
tinha entrado em sua liteira.

151

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 151 29/05/12 19:12


Lara Parker

— Bem... sim... Uma vez — respondeu.


— Só uma veiz?
— Sim.
— Bem, foi ansim comigo também. Uma veiz. Ela mora em
Saint­‑Pierre e o nome dela é Tippi. Tippi, a joia da noite...
Os dois ficaram deitados no meio do capim e olharam para as
estrelas luzindo em cortinados de seda e renda fina.
— Obrigada, Césaire, por não ter desistido de me ajudar —
disse Angelique.
— Eu acho que tu merece. Tu é uma guria corajosa — respondeu
o rapazinho.
— Por que você diz isso? — perguntou ela.
— Purque eu vejo tu — disse ele, simplesmente. — Tu tem cora‑
ção pra pegá o que tu pensa que é teu. E essa é a mió coisa que ensiste.
Tu viu tua chance e pegô ela. Foi tua mamãe que te ensinô isso?
— Ah, não sei — disse ela, suspirando.
— Bem, esse teu coração corajoso, ele vai ti dá fortuna e ele vai
ti dá dor — declarou ele, como quem já tem experiência. — Tu já
sabe disso?
— Não...
— Uma porção de coisa vem pra ti e uma porção de coisa tu
perde — explicou ele. — Si tu escoie um coração corajoso, tu tem
de tê coragem o tempo todo, porque é uma carga pesada pra si car‑
regá. O furacão arranca o ninho da fragata e os corvo vêm e mata
seus fiotinho, mas ela continua voando mesmo ansim.
Foram as últimas palavras que Angelique ouviu antes de pegar
no sono e, com Césaire de seu lado, ela se sentiu segura pela primei‑
ra vez em muito, muito tempo.
Subitamente, o rapazinho a estava sacudindo e dizendo:
— Eu tenho de ir agora. Eu tenho de ir antes que descubram que
eu não tô em casa. Tu encontra o caminho de casa?
Ela sentou­‑se. A aurora já começava a jogar listras pelo céu e o
mar se balançava contra a areia dourada, macio e azul, sua espuma
mais limpa que leite fresco.

152

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 152 29/05/12 19:12


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

— Estou vendo a choupana! — gritou ela, levantando­‑se. — Está


lá adiante, do outro lado da laguna!
— É aquela caixinha... Bem lá longe?
— Sim, é ela! Aquela é minha casa! Ah, eu lhe agradeço tan‑
to, Césaire!
Ela passou os braços ao redor do pescoço dele e o beijou no rosto.
— Você me trouxe até a sua casa!
Ele abaixou o rosto para vê­‑la e ela ergueu o dela em sua direção
e os dois se viram claramente pela primeira vez à luz da manhã. Ele
era preto como um carvão e seus olhos eram cor de ébano e então
ele falou com a voz trêmula:
— Me diz teu nome. Quero pensá em ti. Quando eu já tiver
no mar...
— É... Angelique...
— Bem, adeus, Angelique — disse ele — e boa sorte também.
O rapaz girou nos calcanhares e começou a correr pela estrada
de volta a Saint­‑Pierre.
Ela estava preocupada com o cavaleiro da madrugada. Poderia
ter sido o seu pai? Mas lá estava a casinha, solitária sobre a areia e
quando ela fez a curva na praia, não viu cavalo algum. Seu coração
começou a bater de exultação e ela imaginou o rosto de sua mãe,
pensou escutar o seu grito de felicidade, sentir o peito macio de sua
mãe contra suas faces. Nunca, nunca mais ela sairia de perto dela...
Mas quando se aproximou, sentiu uma pontada de desaponta‑
mento. Os estipes lustrosos das bananeiras estavam caídos, frouxos
e quebrados e a horta que sempre estivera tão verde e alegre, estava
seca, só a terra amontoada ainda indicava onde tinham estado os
canteiros. A casa que fora pintada com tinta vermelho­‑coral estava
agora tão desbotada e pálida como a areia sobre a qual se erguia e os
postigos lavanda tinham caído, com a exceção de um só, ainda pen‑
durado por uma única dobradiça. A palha que cobria o teto estava
frouxa e achatada, fosca e cinzenta sobre os postes balançantes do
pequeno alpendre e até mesmo a porta estava aberta, mostrando
uma sala deserta.

153

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 153 29/05/12 19:12


Lara Parker

Ela chegou mais perto e pisou no degrau de entrada. A casa esta‑


va totalmente despida de vida, como se ninguém jamais houvesse
morado ali. Ela caminhou devagar pelas pecinhas e ficou parada
um momento em seu quartinho, que parecia agora tão pequeno,
empoeirado e abandonado. Uma brisa soprou lá fora, atravessou a
porta e varreu uma nuvem de areia pelo piso.
— Mamãe? — ela gritou, incapaz de compreender o nada em que
sua casa aconchegante se tornara. — Mamãe! — gritou. — Mamãe!
Caminhou até a porta dos fundos e abriu­‑a lentamente. Um ca‑
valo relinchou e ela escutou o ruído de seus cascos escarvando a
terra. O animal estava amarrado pelo freio ao estipe de uma bana‑
neira quebrada, movendo a cauda para espantar as moscas, esfre‑
gando o focinho vigorosamente contra uma das patas dianteiras.
Quando ele a viu, ergueu a cabeça para contemplá­‑la melhor, pis‑
cando os olhos. Além da casa, as palmeiras inclinavam suas frondes
de folhas parecidas com longas penas verdes e esgarçadas, como
asas gigantes obscurecendo o mato, tremendo um pouco, depois
ficando imóveis. Ela gelou, ao ver seu pai sair cambaleando do meio
das árvores, abotoando as calças. Ele ergueu a cabeça em sua dire‑
ção num movimento rápido e armou uma carantonha e quando ela
viu a expressão assassina daquele rosto, o sangue correu para aver‑
melhar suas próprias faces.
Havia uma enguia gigante que habitava uma fenda do segundo
recife além das grutas à beira­‑mar, e o animal despertava nela um
medo tão primordial, que ela estremecia cada vez que a avistava. Ela
sentiu a mesma repulsa agora, enquanto olhava para seu pai, que
balançava nos pés, seus olhos avermelhados. Ela sabia qual era a
fenda em que morava a enguia e sempre guardava uma boa distân‑
cia, algumas vezes enxergando de longe seu focinho rombudo e
olhos malignos quando a luz do sol atravessava a água e serpenteava
até sua cova. Sua mãe lhe dissera que enguias eram preguiçosas e
que jamais a perseguiriam, mas ela tinha certeza de que esta a mor‑
deria, porque tinha várias fileiras de dentinhos pontiagudos e um
costume maldoso de mastigar a água ritmicamente, uma ação tão

154

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 154 29/05/12 19:12


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

nojenta, que lhe dava comichão sob os braços e provocava um late‑


jar doloroso no meio de suas pernas.
Essa mesma sensação a acometeu agora, enquanto seu pai dava
um passo desajeitado em sua direção.
Certa vez, no final de uma tarde, quando ela estava flutuando
sobre o grande banco de coral redondo e enrugado que chamavam
de “coral de cérebro”, atrás do qual ficava a cova da enguia, ela vira
a criatura emergir para buscar comida. Primeiro a cabeça, depois o
longo corpo gordo e borrachudo — com três metros ou três metros
e meio de comprimento — deslizaram para fora do buraco e come‑
çaram a escorregar através dos corais brilhantes, espalhando um
cardume de peixes­‑anjo e se movendo mais depressa que uma cobra
pelo fundo arenoso. Ela tinha grudado os olhos na enguia, com
medo de respirar ou de mover as pernas para tomar impulso e na‑
dar para longe, do mesmo modo que estava agora, olhando através
do pátio para seu pai, paralisada por um medo tão grande que nem
conseguia compreender.
Ele piscou para ela, como se pensasse que ela não era de ver‑
dade, então seu cérebro embriagado finalmente concluiu que era
ela mesma que estava parada ali. Seu rosto estava contorcido de
raiva, mas um sorriso mau começou a se espalhar aos poucos
através da careta.
— Quis fugir de mim, não foi? — praticamente grunhiu, sua voz
rouca e estrangulada no fundo da garganta. — Vou te arrancar a
pele dos ossos, ah, se vou! — prometeu, dando mais um passo in‑
certo. — Ao diabo contigo e com tua impudência! Mas o que é ne‑
cessário para te conservar trancada? Tu és uma puta do diabo, ah,
tu és, mas eu vou bater em ti e não vou parar até que o demônio
saia, ah, se vou!
Por um momento, ela pensou que fosse desmaiar e fez um movi‑
mento ineficaz com os braços balançando no ar, como se estivesse
nadando, tentando tomar impulso para trás. Mas ele saltou em sua
direção e a prendeu nos braços como se fosse um torno, antes que
ela pudesse se mover ou gritar. Ela percebeu que ele era mais uma

155

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 155 29/05/12 19:12


Lara Parker

besta­‑fera que um homem no momento em que a apertou contra


seu peito, forçando a respiração para fora de seus pulmões e
sufocando­‑lhe o rosto contra o tecido grosso da camisa. Ela o sentiu
tremer como se o medo que ela mesma experimentava nesse instan‑
te se tivesse derramado e entrado no corpo dele e sob seu peito ofe‑
gante ela sentiu a angústia da frustração que seu pai sentia.
— Por que você me desrespeita? — ele gritou, sua fala pastosa
por causa do rum. — Por que me trai? Por que me desafia? Você
quer me matar?
Ele a empurrou para longe de si, mas sem largar e cravou­‑lhe os
dedos no pescoço e depois os enroscou em seus cabelos, empurrando­
‑a para o chão.
Ela gritava de terror, seu coração trovejando. Então ela escutou o
cinto dele silvando no ar e ela era Suzette, enquanto o relâmpago
quente lhe escaldava as costas e ela era Chloé, enquanto mergulha‑
va no negror antes que chegasse o golpe seguinte e ela viu a enguia
de novo, suas mandíbulas imensas se abrindo e fechando, saindo
centímetro após centímetro de sua fenda no coral, um momento
antes que as águas escuras a engolissem inteira.

156

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 156 29/05/12 19:12


Dez

ngelique foi enfeitada com o vestido branco para a cerimônia.


Os tambores estavam ressoando há horas, mas Thaïs não apa‑
recia para levá­‑la e já estava quase na hora em que deveria aparecer.
Finalmente, foi Suzette que veio buscá-la — Suzette, que a odiava.
— Ti mexe logo, sua pesti i num mi cria pobrema!
Elas desceram a escada compassadamente e seguiram pelo subter‑
râneo até o quartinho por detrás do altar e Angelique se surpreendeu
ao ver que, depois de todos esses meses, as figuras de argila ainda es‑
tavam ali. As pequenas pessoas, árvores e choupanas da plantação,
tudo estava no mesmo lugar em que ela e Chloé as tinham deixado.
A boneca que representava Angelique ainda estava caída sem cabeça
no piso sujo, com a boneca de Chloé a seu lado, o cordão negro reben‑
tado ainda por trás do pescoço. Ela olhou para os brinquedos, sem
sentir nada, nem remorso, nem tristeza. Parecia­‑lhe estranho que ti‑
vesse brincado tanto tempo com uma coisa tão boba.
Quando ergueu a boneca que representava Chloé, os olhos de
conta a contemplaram e ela sentiu um impulso súbito. Arrancou

157

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 157 29/05/12 19:12


Lara Parker

uma mecha dos cabelos pretos e encarapinhados e estendendo a


mão para o cordão de couro ao redor de seu pescoço, desatou o nó
que prendia seu uangá. A selenita brilhou dentro do chumaço de
ervas ao lado da caveirinha da jararaca. Ela enfiou a madeixa de
cabelos enroscados dentro do saquitel, apertou o cordão bem firme
e colocou tudo de volta ao redor de seu pescoço.
— Qué qui vancê tá fazeno cum issu? — indagou Suzette,
cheia de suspeita. — Vê si vancê si senta agora quieta e num si
mexe mais.
— Não! — disse Angelique com raiva. — Você não é ninguém
para me mandar fazer coisa nenhuma! — exclamou, enquanto es‑
magava os brinquedos debaixo dos pés, jogando­‑os de um lado
para o outro, destruindo as figurinhas de argila até que todas se
transformassem em poeira.
Os tambores da capela pulsavam e o som inundava a peça em
que estavam. Começou a ouvir os gritos da congregação de escra‑
vos, cada vez mais altos e insistentes, invocando os mistérios e con‑
jurando os espíritos.
— Carrefour! Saint­‑Michel! Grand Père Eternel! Luc! Marc! Lou‑
is! Baron Cimetière! — repetiam os adoradores em uma cantilena
infindável, cada nome repetido como um grito sonoro. Eles canta‑
vam a litania monótona sem pausa, até que de repente, ela percebeu
que os nomes haviam mudado. Agora eram “Elá Fredá! Sainte
Vierge­‑Marie! Erzulie gê Rouge!”
— Vancê entra agora — disse Suzette. — Tá na hora.
De má vontade, Angelique passou por baixo da cortina. Sua
mente estava confusa esta noite e sentia­‑se aborrecida com a ceri‑
mônia. Observava tudo friamente, impassível, considerando se de‑
via expor aos negros todos os seus segredos.
Chloé lhe falara a respeito do hungan, que era o líder e ela procu‑
rava entre os corpos ondulantes qual deles poderia ser. Seu pai não
estava à vista, mas ela percebeu um homem mais velho, de cabelos
grisalhos, que jogara um saco de farinha de trigo no chão e cravava
nele uma agulha puxando linhas finas entrelaçadas até criar um

158

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 158 29/05/12 19:12


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

desenho fantástico. Ele ergueu um vaso de barro e espalhou um lí‑


quido amarelado por sobre os quatro cantos do padrão que dese‑
nhara. Instantaneamente, os tambores que haviam silenciado por
um momento retornaram à vida, agora com um ritmo novo, vivo e
palpitante e o hungan começou a cantar, enquanto sacudia acima de
sua cabeça uma cabaça comprida, de que tombavam contas e ossi‑
nhos. Ela reparou que os corpos dos escravos que dançavam esta‑
vam recobertos por uma pasta branca e espessa, mas o suor abria
sulcos brancos pelo meio dela e suas peles negras brilhavam, refle‑
tindo a cintilação das velas.
Uma fogueira já em brasas fora acesa junto à base de sua plata‑
forma e inhames recobertos de farinha estavam sendo jogados nela
para cozinhar. A fumaça de cheiro acre subiu­‑lhe até as narinas.
A seguir, ela escutou um guincho amedrontado que se erguia
acima do barulho dos tambores pulsantes e um dos dançarinos sal‑
tou para frente, carregando uma galinha de penas brancas pendu‑
rada pelas patas e batendo as asas em vão. Ele segurou­‑lhe as patas
com as duas mãos e as quebrou com um estalo nauseante, depois
colocou a galinha sobre a cabeça, em que ela se debateu por alguns
instantes, mas depois ficou imóvel, seus olhos fixos e vermelhos.
Era um espetáculo quase cômico, ele parecia estar usando um cha‑
péu de penas, até que o hungan se inclinou para a frente, estenden‑
do os braços, pegando a ave e lhe arrancando a cabeça com as mãos
nuas, que se soltou do corpo tão facilmente como se tivesse sido
cortada com uma faca aguçada e invisível. O sangue escorreu pelo
rosto do dançarino.
Angelique dobrou­‑se para frente, escutando com toda a atenção,
tentando entender o balbuciar do feiticeiro. Todos os loás estavam
listados em seu livro e ela imaginou se seria capaz de reconhecer
qual era o que estava a possuir o corpo do dançarino, “montando”
nele como se fosse um cavalo e produzindo aquela algaravia incom‑
preensível por meio de sua boca.
Ela o contemplou com uma fascinação fria, tentando decidir se
ele estava só fingindo ou se realmente tinha sido tomado por algum

159

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 159 29/05/12 19:12


Lara Parker

espírito. Quando ele se aproximou dela, viu que seus olhos tinham
rolado para dentro de suas órbitas e ele a encarava com fendas de
um amarelo cremoso. O sangue escorria por sua testa lustrosa e lhe
descia até a boca macia, enquanto a pasta branca se amolgava com
o suor descendo em torrentes pelo seu peito.
Subitamente, ela teve um sobressalto quando uma pedrinha
tombou sobre a plataforma à sua frente. Instintivamente, ela es‑
tendeu um dos braços e a segurou. A pedrinha estava quente, era
cor de cobre e, embora os olhos do homem estivessem vazios e
agora parecessem tão amarelos como uma ferida cheia de pus e
ainda que seus lábios não se movessem, ela o escutou sibilar:
“Chloé, Chloé, Chloé...”
Um suspiro pareceu ser emitido em coro por todos os outros
adoradores. Eles recuaram, como se o companheiro fosse uma
criatura maligna e o medo era palpável no ar, como um cheiro
real. Ele ondulava e estendeu os braços para ela, seu rosto uma
máscara sem olhos. Um som como o coaxar de um sapo abriu
passagem pela sua garganta e seus longos dedos tocaram de leve
suas pernas. Mesmo ao se afastar de seu contato, ela sentiu uma
espécie de comichão viajar por todo o seu corpo, como se peque‑
nos insetos estivessem caminhando por debaixo de cada centíme‑
tro de sua pele.
Subitamente, ele estremeceu e pulou sobre o altar e os tambores
trovejaram como ondas de tempestade a se quebrar contra os pe‑
nhascos e a penetrar pelas grutas submarinas, ecoando, enfraque‑
cendo e, no momento em que ele se inclinou sobre ela, seus olhos
ainda cegos, como se fosse um namorado a ponto de beijá­‑la, de
seus lábios brotaram chamas!
Ela engoliu em seco e recuou, sentindo inesperadamente que as
chamas eram frias, como fitas, fragrantes de perfume, envolvendo­
‑a em vagas de carmesim e ouro. Eram folhas — pétalas — em tal
profusão, que ela pensou que sufocaria sob a massa de botões cas‑
cateantes. Então riu, erguendo­‑se da pilha de delicados odores. Es‑
tendendo os braços para baixo, ela apertou braçadas de pétalas

160

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 160 29/05/12 19:12


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

contra o peito e as lançou como chuva pelo ar. Ela viu que as pétalas
flutuavam no ar e caíam sobre os adoradores amontoados, que esta‑
vam agora totalmente passivos e a encaravam, enquanto ela notava,
de repente, que cada rosto era belo e elegante, tal qual tivessem sido
todos esculpidos em madeira de ébano.
O rufar dos tambores entrou em seu corpo e ela começou a dan‑
çar, primeiro do jeito que havia dançado com Chloé, balançando
lentamente como uma criança a brincar de dançarina, depois mais
sensualmente, convidativamente, como se, pela primeira vez em
sua vida, ela percebesse as curvas de seus quadris e os pequenos
botões de seus seios. Ela estava dançando sem tirar o tecido frouxo
de seu vestido, mas era como se estivesse nua diante deles.
Nesse momento, o espírito entrou nela, enrolando­‑a em um ne‑
voeiro cintilante. Erzulie cantou sons estranhos com sua boca e An‑
gelique se retorcia e tremulava, esfregando seus próprios seios e
soluçando com uma tristeza profunda enquanto caía, tremendo
sob o poder da loá. Um a um, os adoradores se aproximaram e se
inclinaram sobre ela, debruçados sobre a plataforma, tocando­‑a,
beijando­‑a, seus lábios percorrendo os arcos de seus pés e suas per‑
nas tensas, suas mãos a lhe acariciar as coxas.
Ela não era mais a Angelique adolescente, pouco mais que uma
criança, mas efetivamente se tornara a própria deusa Erzulie, que
recebia ansiosamente suas bocas macias e as línguas que entravam
nela. Sobreveio um silêncio espiritual, enquanto os amantes encan‑
tados provavam sua inocência exuberante e eram escravizados pela
fonte da vida. Ela erguia os quadris e gemia, ansiando por alívio,
mas estava presa entre a possessão da deusa e as devoções dos ho‑
mens e o movimento de suas línguas e as leves mordidas apenas a
tantalizavam ainda mais.
Finalmente, com um grito de angústia, ela juntou os joelhos ou‑
tra vez, seus punhos se cerraram e seu rosto se contorceu com uma
dor tão aguda como punhaladas. Ela chorou baixinho, como uma
criança de colo, as lágrimas escorrendo­‑lhe dos olhos extremamen‑
te apertados e seu corpo se retorcendo de tormento. Os adoradores

161

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 161 29/05/12 19:12


Lara Parker

lhe murmuraram palavras de consolo, cochicharam uns para os


outros e a acariciaram até que adormeceu.
Quando emergiu do transe, tinha perdido toda a lembrança de
sua possessão, salvo por uma espécie de comichão adejando dentro
de seu cérebro como a lembrança de um sonho misterioso.

* * *

Na manhã seguinte, Angelique sentou­‑se junto à janela, olhando


através do pátio para os alojamentos dos escravos. O dia estava
cruelmente quente, o céu mostrava um azul cegante. Ela olhou mais
além para os canaviais que pareciam ondas de espuma, os pés de
cana mais altos que os homens, os quais desapareciam no meio de‑
les. Nesta manhã, uma ideia excitante como um passarinho se ba‑
lançava nos galhos de sua mente.
Os espíritos eram reais. Ela nunca duvidara de sua existência,
desde que sua mãe falara deles pela primeira vez, mas agora aceitava
totalmente a existência corpórea dos loás. Ela ansiava por conhecer
mais. Sentia um parentesco espiritual com os escravos, porque, do
mesmo modo que eles, era uma prisioneira da violência e do medo.
Invejava­‑lhes a natureza volátil, seu fácil acesso aos deuses, enquan‑
to ela só podia agora voltar­‑se para dentro de si mesma como sua
única válvula de escape.
Depois daquela noite, a cerimônia se transformou em uma ob‑
sessão. Por longo tempo ela recitava e repetia baixinho para si mes‑
ma a encantação que escutara; aqueles cânticos melancólicos se
haviam transformado em melodias firmemente gravadas em sua
mente. Todo o tempo em que se achava sozinha era gasto com o
Livro dos Mistérios, lutando para traduzir as diversas línguas em que
se achava escrito a fim de decifrar todos os feitiços. As páginas reve‑
lavam os segredos da antiga magia africana. Angelique estudava
cada conjunto de regras até decorar as sílabas e os sons.
No quartinho que ficava atrás do altar, ela estudava as fórmulas
das poções e procurava nos frascos e garrafas das prateleiras, em

162

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 162 29/05/12 19:12


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

busca dos ingredientes corretos. Ela os colocava em ordem e os en‑


tesourava, ainda incerta sobre suas propriedades e propósitos.
Suzette a observava sem compreender.
— Qué qui tu tá fazeno, minina? Dexa essas coisa im paiz...
— Se você não gosta, olhe para o outro lado — falava Angeli‑
que com impaciência, continuando a cheirar e a provar todos os
pós e líquidos.
— Vancê é uma criança teimosa e impertinenti.
— Eu não sou mais criança.
A própria ideia da presença de seu pai a apavorava. Frequente‑
mente acordava durante a noite, quando os estalos das pás do moi‑
nho lhe invadiam os sonhos. Os guinchos das engrenagens eram
como a voz de algum demônio: ela ficava coberta de suor frio, seu
coração aos pulos, pensando que era o rangido da porta e que seu
pai havia subido até ali.
Depois de trazê­‑la de volta para o canavial, contudo, ele sim‑
plesmente a havia ignorado, exceto durante as cerimônias. Ela es‑
perava que, ao menos enquanto ela permanecesse fora das vistas
de todos e simplesmente executasse seus deveres de deusa, ele a
deixaria em paz.
Ela tinha agora plena consciência de como era valiosa para ele e
também para outros senhores de engenho, que haviam igualmente
começado a se envolver com o vodu africano dentro do maior se‑
gredo. Aos domingos, eles iam rezar na Igreja Católica, mas à meia­
‑noite, vinham assistir às danças.
Um dia, em que ela estava imersa em seus estudos, escutou a voz
de um homem na escada e sentiu um súbito medo, pensando que
fosse seu pai. Rapidamente enfiou o livro embaixo do colchão, mas
quando a porta se abriu, ela foi surpreendida pela presença de um
estranho. Mas logo a seguir reconheceu o padre jesuíta, o padre Le
Brot, que conversara com ela no primeiro dia de sua chegada, de‑
pois da experiência com os cães.
— Angelique — disse ele, com bondade — po... po... po...
posso entrar?

163

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 163 29/05/12 19:12


Lara Parker

Ela simplesmente olhou para ele, confusa, incapaz de responder.


Parecia um emissário de outro mundo. Fez um sinal com a cabeça
para que Thaïs os deixasse a sós e caminhou até o lugar em que
Angelique estava sentada e, para seu espanto ainda maior, segurou­
‑lhe as mãos. Era um homenzinho gorducho e meio careca, com
um rosto vermelho sobre um pescoço carnudo, uma de cujas do‑
bras se projetava sobre seu colarinho. Seus olhos brilhantes e seu
sorriso jovial não podiam esconder como ele se julgava importante
a seus próprios olhos e ela recordou de que, quando ele falava, apre‑
sentava tendência a gaguejar.
— Co... co... co... como você está, minha querida? Eu esti... ti...
ti... tive pensando muito em você e imaginando como você estava
su... su... su... suportando sua provação.
O uso da palavra provação a encolerizou e imediatamente des‑
confiou dele. Caso seu pai tivesse mandado este homem para testá­
‑la, então era um tolo, porque ela nada revelaria.
— Não é uma provação ser Erzulie — disse ela, friamente, rejei‑
tando a condescendência detectada no tom de voz do padre.
O padre Le Brot suspirou profundamente e lhe fez um sinal
para que se sentasse na cadeira que ficava junto da mesinha em
que ela fazia suas refeições. Ele mesmo ocupou uma cadeira do
lado oposto e Angelique percebeu que ele estava perscrutando
seu rosto em busca de traços de tristeza ou debilidade. Ela não
mostraria nada.
— O que você quer de mim? — indagou, finalmente. — O que
veio fazer aqui?
— Eu vim para rez... rez... rez... rezar com você — disse­‑lhe.
— E por que quer rezar comigo? — pressionou ela.
Sua lembrança das freiras na escola católica junto ao convento já
estava meio apagada, mas ela sabia que suas preces melancólicas
sempre a haviam feito sentir­‑se culpada sem qualquer motivo. As
freiras a haviam ensinado a ler e a escrever, mas também a haviam
oprimido com suas ideias sobre religião como se ela estivesse con‑
denada desde seu nascimento.

164

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 164 29/05/12 19:12


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

— Porque eu tenho grande preocupação com sua alma imortal,


minha filha — entoou o padre, cessando de gaguejar. — Você está
vivendo em um antro de iniquidade e participando de rituais pa‑
gãos que são a obra do Diabo! — concluiu, com firmeza.
— O Diabo? — ela engoliu em seco. — Mas eu nunca vi o Diabo!
— Aquelas danças, aquele frenesi, aqueles deuses falsos, os
horríveis sacrifícios... Minha querida — insistiu ele — você deve
saber que tudo isso é obra do Diabo e que eles são demônios saí‑
dos do Inferno!
— Eu não sei absolutamente nada disso! — exclamou ela, com
raiva. — Você acha que o Diabo está em toda parte!
Ele se acalmou, retornando à gagueira:
— Vo... vo... vo... você quer se confessar? — perguntou,
com gentileza.
— Não. Eu não tenho nada para confessar — respondeu­‑lhe. Ela
não confiava naquele homem e já estava ficando impaciente.
— Então rez... rez... rez... reze comigo — falou o padre, nova‑
mente lhe tomando as mãos.
— Eu não quero rezar coisa nenhuma! — respondeu ela, atrevi‑
damente e se levantou da cadeira, dando­‑lhe as costas e caminhan‑
do até o outro lado do quarto.
O padre Le Brot ficou meio atrapalhado, mas compôs seu rosto.
— Não, não, não, é cla... cla... cla... claro que você não quer —
aceitou ele. — Como eu sou bo... bo... bo... bobo. Vo... vo... vo... você
sempre reza junto com os escra... cra... cra... escravos, não é mesmo?
Mas me di... di... di... diga, minha querida, as pre... pre... pre... pre‑
ces deles são respondidas alguma vez?
Ela considerou a pergunta. Qual seria a natureza das preces de‑
les? Só podia imaginar. Será que os escravos rezavam pela liberdade
e por um retorno seguro até sua terra de origem? A impressão que
ela tinha era a de que eles nem pediam nada, só rezavam pela vida e
pelo êxtase da dança e pela oportunidade de se perderem de si mes‑
mos enquanto dançavam.
— Bem, eles rezam para mim — explicou.

165

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 165 29/05/12 19:12


Lara Parker

O padre Le Brot pareceu totalmente aparvalhado e sacudiu a ca‑


beça. Ela ficou satisfeita por tê­‑lo confundido.
— E fique sabendo que os seus ricos senhores de engenho
também vêm à capela só para rezar para mim — ela acrescentou,
com um toque de arrogância. Ela pensou ver uma luzinha pis‑
cando nas pupilas do padre, como se ela tivesse confirmado uma
velha suspeita.
— Os plan... plan... plan... plantadores também vêm a estas...
estas dan... dan... dan... danças? — ele indagou, tartamudeando
mais que nunca.
— Algumas vezes — disse ela. — Erzulie concede seus desejos,
caso ela queira.
O padre Le Brot se ergueu e começou a caminhar pelo quarto.
Angelique ficou olhando seu hábito preto flutuando a seu redor e
percebeu o suor que se acumulava nas dobras de sua papada. Ela
imaginou que aquela sotaina e o mais que tivesse por baixo dela
deveriam ser muito pouco confortáveis no calor. Mas ele estava
imerso em pensamentos e custou a falar, sua voz mais cadenciada e
quase sob controle.
— Estes plantadores que vêm assistir a esses rituais, bem... de
muitas ma... ma... ma... maneiras, eles são tão... tão ignorantes
quanto seus es... es... es... escravos. As franquias da civilização não
os dotaram nem de com... com... com... compaixão, nem de humil‑
dade e eles se voltam para estas cel... cel... cel... celebrações primiti‑
vas por puro des... des... des... desespero!
— Eles sabem que Erzulie lhes poderá dar algumas coisas que
Deus nunca lhes dará — contestou Angelique firmemente.
O padre cruzou os pulsos por baixo de sua barriga redonda e
esticou bem as costas, como se estivesse a ponto de fazer uma pro‑
clamação de seu púlpito.
— Minha querida criança, você entende muito pouco dessas coi‑
sas — asseverou, sua voz quase totalmente controlada. — O maior
dom de Deus é a vida eterna. Para aqueles que têm fé, mil tesouros
os aguardam nos céus. Estes homens ga... ga... ga... gananciosos são

166

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 166 29/05/12 19:12


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

jogadores que cruzaram o oceano, porque outros iguais a eles fize‑


ram grandes fortunas no passado, apenas vendendo açúcar. Não
eram nobres e nem sequer cavalheiros de classe média na França.
Eram renegados ou, no má... má... má.. máximo, filhos mais moços
que não tinham terras e não dispunham de fortuna sequer para
comprar uma patente de ofi... fi... fi... oficiais no exército. Na cabeça
deles, Martinica era um lu... lu... lu... lugar em que eles poderiam
viver como reis!
Embora o seu sermão a aborrecesse, Angelique ficou intrigada,
vendo o suor escorrer­‑lhe pela face, imaginando novamente que
tipo de roupas ele usava por baixo da sotaina e que o deixavam as‑
sim tão acalorado. Mas o que estava por trás de sua prédica, ela
entendia perfeitamente. Ele tinha medo dos negros, como todos os
demais brancos.
— Ora, esses plantadores de cana vêm assistir à missa e fingem
ser devotos e... ah, sim, estão sempre prontos para condenar as he‑
resias, mas, para falar a verdade, têm pouca lealdade verdadeira
para com Deus Todo­‑Poderoso e não sentem o mínimo interesse
pela vida que há de vir. Os únicos tesouros que desejam são os ma‑
teriais, para serem obtidos aqui e agora! — continuou ele. — Mas
de uma forma ou de outra, o único jeito de obterem riquezas de‑
pende das mãos de seus escravos! Os plantadores, os senhores de
engenho, como você diz, podem ver isto e ao mesmo tempo, se re‑
cusam a ver. Eles temem os escravos, mas precisam deles, tanto de
seu suor como de suas superstições pagãs. Sem trabalhadores, eles
ficam inermes. E é por isso que os negros chegam em enxames para
as ilhas, seus números crescendo a cada dia que passa!
O discurso do padre Le Brot estava ficando apaixonado e, espan‑
tosamente, ele havia perdido totalmente seu gaguejar. Angelique
pensou que o padre parecia um baiacu malhado que acabara de le‑
var um susto.
— Chegam mais a toda hora! E eles ainda querem mais! — o
homem discursava. — Eles trazem as pobres criaturas para sua
condenação apertadas como lastro no porão de navios! Só para

167

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 167 29/05/12 19:12


Lara Parker

plantar mais cana­‑de­‑açúcar! E para esmagar as canas e produzir


mais açúcar! E esses pretos infelizes não querem trabalhar e assim
eles os espancam até matar e mandam buscar mais! Esses brancos
inconscientes já são superados de vinte ou trinta para um! E no fi‑
nal, Deus não vai possuir estas ilhas, elas vão pertencer aos negros!
Esse é o plano do Diabo e foi o Diabo que plantou a ambição no
coração dos homens brancos!
Ele parou, recuperando o fôlego e ficou a encará­‑la, seus olhos
arregalados, quase se projetando das órbitas. Então pareceu recupe‑
rar sua compostura e, demonstrando um certo embaraço, quase
envergonhado, lhe falou com voz gentil:
— Lamento muito, minha filha, sei que essas coisas todas não
são mais do que um mistério para você e que você é incapaz de mo‑
dificar a menor parte delas. Se eu vim aqui, foi por sua própria
alma. Você tem de cuidar de sua alma imortal, Angelique.
— Onde fica minha alma, padre? — ela indagou, sem malícia.
— No meu coração ou dentro de minha cabeça?
— Minha filha, a alma é essa parte invisível de você que sobrevi‑
ve após a morte — disse o padre, sem lhe responder diretamente.
Uma nuvem caiu sobre sua disposição de ânimo. Por que este
padre inventara de lhe falar de morte? Aqui, bem ou mal, ela estava
protegida por seu pai e alimentada pelas escravas. Ninguém a ame‑
açava. Até mesmo as paredes da torre eram grossas e lhe garanti‑
riam a segurança, em caso de furacões. Ela decidiu que o padre Le
Brot estava somente repetindo aquelas palavras que ela já escutara
muitas vezes durante a missa, palavras que sempre a advertiam so‑
bre o castigo e a condenação que a aguardavam e, naturalmente,
falavam do Diabo. Então, notou que, passado seu entusiasmo, o pa‑
dre estava gaguejando de novo.
— Você está em um grave pe... pe... pe... perigo — advertiu-a.
— Por quê? Que tipo de perigo?
— Por causa da cerimônia.
Então era isso, suas suspeitas eram verdadeiras. O padre se sentia
ameaçado pelos rituais do vodu porque nunca havia assistido um,

168

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 168 29/05/12 19:12


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

caso contrário, teria percebido que ela era o centro da dança e a


incorporação do espírito. Ele tinha vindo aterrorizá­‑la porque ele
mesmo andava amedrontado, mas não seria aquele homenzinho
que a assustaria.
— Não corro perigo algum — disse ela. — Meu pai tomou as
devidas providências. Ninguém ousaria me fazer mal.
— Seu pai? — inquiriu o padre Le Brot, erguendo as sobrance‑
lhas. — Quem é seu pai?
— Monsieur Bouchard.
O padre ficou espantadíssimo.
— Mas eu... eu... eu não percebera isso! — balbuciou, o tarta‑
mudeio voltando em plena força. — Como po... po... po... poderia
imaginar que Théodore er... que você é fi... fi... fi... filha dele!
Ergueu os braços para os céus:
— Oh, meu Senhor dos Céus, preservai­‑nos!
Com esta última exclamação, ele girou nos calcanhares para ir
embora. Mas voltou­‑se para ela ao chegar na porta.
— Eu vol... vol... vol... voltarei para vê­‑la — disse às pressas. —
Mas pense em tudo o que eu lhe disse. Eu vou rezar por você. E...
ora, eu... eu... eu... eu quase me esqueci! Misericórdia divina, o que
vai ser de mim se minha cabeça não melhorar? Eu lhe trou... trou...
trou... trouxe isto!
Ele retornou, enfiou a mão num dos bolsos da sotaina e retirou
um livrinho que colocou no tampo da mesa.
— Achei que você poderia gostar disto — falou e saiu rapidamente.
Curiosa, ela foi até ali e olhou para o livro. As palavras da capa
diziam: “William Shakespeare, Peças e Sonetos”.

169

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 169 29/05/12 19:12


Onze

odas as manhãs, quando escutava soar o sino, Angelique se


levantava e corria até a janela. Observava os escravos arras‑
tarem seus corpos cansados até os campos, os mesmos escravos
que, algumas vezes, a haviam adorado na noite anterior. Ela re‑
cordava do rufar de tambores que dava vida às suas almas. Havia
pensado sobre as coisas que o padre Le Brot lhe havia dito e
sentia­‑se envergonhada por sua própria altivez. Ela nunca real‑
mente acreditara ser a fonte daquele poder, ela sabia que a ceri‑
mônia se teria realizado da mesma forma sem ela. O que a
transformava era a adoração dos escravos. Os tambores haviam
chegado da África, juntamente com sua profunda fé nos espíritos.
Era deles que provinha a magia invocada.
Ela sabia que era somente uma das corporificações da deusa do
amor e que os loás flutuavam pelos ares, ansiando para serem in‑
vocados, do mesmo jeito que Chloé havia chamado Guede, na noi‑
te em que morrera e ressuscitara só para morrer de novo pelas
mãos de seu pai. Eles voavam em círculos, esperando para descer,

170

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 170 29/05/12 19:12


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

tentados por comida ou sacrifícios e, quando chegavam, cavalga‑


vam um dos dançarinos e falavam por intermédio dele. Angelique
começou a ansiar outra vez por receber o espírito de Erzulie.
Erzulie me protegerá, dizia para si mesma todas as noites, antes
de adormecer e novamente de manhã ao despertar e à meia­‑noite,
quando marchava para a capela. Ela começou a planejar sua própria
invocação. Seria simples e implorante. Ela apenas queria que a deu‑
sa entrasse nela mais uma vez, que a abraçasse, que a envolvesse
com suas ondas de prazer.
Certa noite, uma noite nublada em que o céu não mostrava qual‑
quer estrela, esperou que Thaïs adormecesse e então desceu pela
escada até o pátio, inclinou­‑se para traçar o vevé sobre as lajotas do
pavimento e acendeu as velas. Ela conseguira trazer flores da capela
— amarílis e poliantas — para lhe emprestarem suas cores e fra‑
grâncias, além de bolinhos de carne que havia separado de seu jan‑
tar e juntado durante dias.
Tinha também um prêmio, um pombo branco que capturara
em uma de suas janelas depois de espargir migalhas no peitoril du‑
rante semanas. Finalmente, ele ficara tão manso, que arrulhava
para ela a fim de acordá­‑la todas as manhãs e ela podia estender a
mão para lhe acariciar as penas trêmulas. Naquela manhã, ela o
acariciara de novo e dissera baixinho: “Venha, pombinho, não te‑
nha medo...”. Quando ele demonstrara a maior confiança, ela
apertara os dedos com firmeza, trouxera a ave para dentro e a em‑
brulhara em um retalho de pano de veludo.
Agora, ela o trazia dentro do vestido, apertado contra o peito,
pronto para Erzulie. Ela observava a cabecinha, virando­‑se rapi‑
damente para um lado e para o outro, os olhos brilhando e sentia
a vida morna pulsando dentro dele. Esperava que esta oferenda
fosse o bastante.
Segurou uma faquinha que contrabandeara do quartinho do
altar e, com o maior cuidado, cortou a garganta do pássaro vivo e,
enquanto ele ainda esperneava e se debatia, recolheu o fluxo de
sangue em um copo. Parando no centro do vevé com uma vela em

171

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 171 29/05/12 19:12


Lara Parker

cada canto, ela começou a cantarolar, baixinho e ardilosamente:


“Erzulie Sévérine, Belle­‑Femme, La Sirène, Erzulie Bumbá, Fredá
Dahomin, Gê Rouge...”.
Depenou as plumas do pássaro, ainda macio e quente e as
lançou pelo ar como se fossem sementinhas de pólen. Balançan‑
do e se retorcendo, ela espalhou a poeira de uma poção que ela
mesma fizera, com ervas e farinha de osso trazidas do santuário
e então, fechando os olhos e tremendo, ela ficou bem ereta e be‑
beu todo o sangue do copo.
Ergueu os braços para o céu e clamou:
— Erzulie, Deusa, eu te invoco de dentro do rugido do trovão,
de dentro dos fogos de Mont Pelée. Eu te suplico que penetres em
mim quando eu me ajoelhar perante ti, Mystère, Madoná, Mbabá,
Muaná, Uaresá...
Com esta última invocação, ela caiu de joelhos e esperou de ca‑
beça baixa.
A princípio, foi só o silêncio, depois somente as flautas sopradas
pelos sapos e rãs do banhado e, lá bem distante, os sons do mar.
Sentia­‑se frágil e despreparada, depois inteiramente indigna. Subi‑
tamente, seu corpo começou a tremer com um calor formigante,
que subia desde seus pés e chamejava através de seu torso. Sua men‑
te se fixou na imagem de uma minúscula flama e a centelha foi
crescendo e cintilando, como se a atmosfera estivesse fraturada em
enxames de cores e ela podia ver as nuances das moléculas do ar
dançando a seu redor em arco­‑íris rachados.
Houve um som como de um zumbido anasalado, como se o éter
estivesse vivo, uma coisa com vida própria, pulsando e respirando e
seus dedos a acariciavam, cantando e gemendo. O murmúrio foi
crescendo, pungente e vibrante, até atingir uma altura de som agu‑
da e excruciante, uma trovoada que reunia forças, subindo de tom,
expandindo­‑se, explodindo no estrondo esmagador de um trovão
tão ensurdecedor, que ela pensou que lhe esmagaria o cérebro.
Um nevoeiro encheu o pátio e vozes gemiam ao vento, dissonan‑
tes, fantasmagóricas. Ela sentiu o odor de peixes mortos e apodrecidos

172

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 172 29/05/12 19:12


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

no sol. Havia agora uma figura, com formato humanoide, mas não
feminina, certamente não era Erzulie, que oscilava na obumbração,
a silhueta de um homem, usando uma longa vestimenta e ao mes‑
mo tempo desnudo, magro e musculoso, seus tendões e músculos
protuberantes ensombrecidos, cintilando como uma chama negra,
mas denso, com aspecto plenamente corpóreo: braços e pernas e
uma face tão lisa quanto alabastro. Cabelos cor de ébano desciam
em ondas por sua testa e pela nuca, recobrindo­‑lhe os ombros.
Ele estava parado dentro de uma carruagem oscilante, as pernas
abertas, segurando as rédeas com as mãos, enquanto, flutuando
diante dele como se fossem arcos voltaicos, cavalos aveludados,
musculosos e tão escuros quanto o mar à meia­‑noite, pareciam su‑
bir e descer como num carrossel. A visão piscava, assumia uma for‑
ma nítida, depois desaparecia, somente para retornar uma vez mais.
Angelique sussurrou:
— Quem é você? Por que foi você quem veio?
Sua voz ressoou como o vento correndo sobre as águas.
— Porque tu me chamaste. Tu me arrastaste de meus sonhos
após séculos de sono. Mas tu ainda és uma criança, Angelique, jo‑
vem demais. Vejo como teu talento floresce e anseio para capturá­‑lo
e trazê­‑lo para dentro de mim até o centro do mundo, mas não ain‑
da, menina, ainda não.
E ele subia e descia enquanto falava, no mesmo ritmo criado pe‑
los cavalos, sua voz escovando­‑lhe o interior dos ouvidos e então se
dissipando nos canais da escuridão.
— Quem é você? — ela perguntou de novo, mas sabia, dentro da
parte mais profunda de si mesma, com um conhecimento que per‑
tencia à carne e ao sangue e não à sua mente, que ele era Lúcifer ou
algum outro Deus do mal e que ela o invocara por engano.
— Tu não te lembras? — sussurrou ele, sua respiração como fios
de fumaça.
— Não! Não foi você que eu invoquei! — disse ela, num mur‑
múrio. — Por que você veio? Eu não quero você aqui! — protestou,
tomada de pânico.

173

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 173 29/05/12 19:12


Lara Parker

— Vir? — disse ele, sua voz um suspiro. — Vir, minha querida?


Sim, vem comigo, deixe­‑me... te tocar, te sentir...
Ele saltou da carruagem ondulante e caminhou sobre as lajes
do pavimento e, por baixo das vestes escuras, Angelique divisou
os pés divididos como os cascos das patas de um bode e uma cau‑
da espinhenta. Ele chegou cada vez mais perto, pairando agora
junto dela, flutuando sobre ela. Ela sentiu uma punhalada fria
como um dedo de gelo, rasgando­‑a, penetrando­‑a e seu beijo era
como areia congelada.
Ela recuou.
— Não! Não me toque! Me deixe em paz! — gritou. — Eu não
quero você! Eu nunca quis você! Deixe­‑me!
Porém, ele suspirou como uma onda retornando, chupando a
espuma rodopiante e seu rosto se escureceu.
— Eu nunca mais te deixarei — avisou­‑a, sua voz agora como os
rugidos do Mont Pelée — mas tu és ainda jovem demais para esco‑
lher. Mas lembra­‑te de que eu estou contigo e somente eu te prote‑
gerei. Só eu te amo. Eu sempre te amei.
Sua imagem se foi dissolvendo, sua voz fraca e distante.
— Eu jamais te desapontarei — chegou o eco amortecido. — E
jamais te abandonarei!
Veio então uma última palavra, profunda como um tremor
de terra:
— Nuuuun­‑nun­‑nun­‑nuncaaaa...
E então, ele sumiu.

* * *

A partir dessa noite, Angelique perdeu toda a paixão pela cerimô‑


nia. Um pavor mortal permeava sua mente e ela não mais ansiava
por receber Erzulie e nem tampouco queria mais aumentar seus
conhecimentos sobre os loás. Ela não mais respondia ao rufar dos
tambores ou às invocações dos escravos quando subia à plataforma
e seus gemidos continuados não lhe davam nem terror nem alegria,

174

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 174 29/05/12 19:12


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

mas puro aborrecimento e indiferença. Contudo, ela passava os


dias no temor de que seu pai viesse vê­‑la e repreendê­‑la por sua fal‑
ta de interesse e todas as noites ela dormia e acordava continuamen‑
te, imaginando o retorno do misterioso Espírito Negro.
Certa manhã, ela acordou com o movimento de Thaïs, que esta‑
va em pé sobre o banco, logo abaixo de uma das janelas, fechando
as pesadas tapeçarias e cortinados.
— Por que você está fazendo isso? — perguntou. — Eu gos‑
to do sol.
— Chegô o tempo di si cortá as cana! — disse Thaïs. — Nóis
temo de ti movê pra fora da torri. Tem uns iscravu qui vêm conser‑
tá u muinhu e instalá us novo ismagadô que troxero pur todo u
caminho, desdi a França!
— Mas por que você precisa cobrir as janelas?
— U sinhô diz que vancê tem de continuá iscondida. Nem pensi
im chegá perto das janela agora, intendeu? Eli num qué essa genti
toda ti vendo.
— Você disse que eu vou sair daqui?
— Tá certu.
— Para onde?
— Ora, praqueli lugá qui vancê mi preguntô umas quantas veiz
— disse a escrava. — U sinhô dizeu pra botá vancê nu quartinhu
qui fica nu tercero andá.
— Ali na casa da plantação?
Um arrepio correu pela espinha de Angelique. Ficar mais perto
de seu pai, fosse em que lugar fosse, era seu maior medo.
Thaïs pareceu perceber sua inquietação.
— Mais num é hoji, minina. Tem genti dimais andano às vorta
pur aí. Nóis vai amanhã. Aí vancê tem tempo de juntá tudo u qui
quisé levá junto com vancê.
Mais adiante, nesse mesmo dia, Angelique escutou gritos no
pátio e, como Thaïs não se achava à vista, trepou no peitoril da
janela para espiar para fora por uma fresta entre as cortinas,
sem ser vista. Havia uma grande comoção lá embaixo. Alguns

175

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 175 29/05/12 19:12


Lara Parker

escravos descarregavam um grande carro de boi e um imenso


conjunto de rodas de madeira com sulcos profundos foi sendo
colocado ao lado da torre. Seu pai, montado a cavalo, dirigia um
outro grupo de escravos que estavam carregando a terceira peça
da esmagadora para dentro e Angelique pôde ver uma enorme
roda dentada ainda dentro do carroção, sob diversos panelões
de cobre brilhante.
De repente, ela sentiu uma vibração dentro da torre e percebeu
que o grande poste localizado no centro de seu quarto estava come‑
çando a girar. Como estivera sem uso por um tempo longo demais,
gemia estridentemente como se estivesse a queixar­‑se e só lenta‑
mente começou a revolver, sacudindo a estrutura inteira como se
um terremoto estivesse fazendo estremecer as paredes espessas.
Do lado de fora, dava para escutar o barulho dos escravos que
haviam subido até o alto da torre do moinho e agora martelavam
a estrutura quebrada. Uma das enormes pás girou para baixo e
cobriu a janela, escondendo a luz. Através das cortinas, ela viu a
figura esguia e ágil de um rapaz negro. Ele estava esticando um
novo pano de lona sobre o braço da ventarola. Angelique estava
admirando sua agilidade enquanto ele se pendurava na imensa
armação em treliça, com a lona ainda drapejando ao vento, quan‑
do percebeu que era Césaire.
Ela afastou a cortina um pouquinho mais, só para ter certeza. O
braço da ventarola do moinho cobria completamente a janela, obs‑
curecendo o pátio e ele se agarrava ao arcabouço igual a uma rã
arbórea, sem dar a mínima para a altura, habilmente dando nós em
um pedaço de corda.
— Césaire! — ela chamou, em um cochicho de teatro. Ele girou
a cabeça e olhou em volta. — Aqui! Na janela!
Ele se balançou para mais perto da torre e prendeu um pé no
parapeito de pedra, aparentemente para se equilibrar melhor, mas
de fato para enxergar o interior do quarto escuro, apertando os
olhos, escondido pela imensa pá pendurada. Quando a viu, seu ros‑
to se iluminou com um sorriso.

176

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 176 29/05/12 19:12


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

— Meu Deus! Angelique! É mesmo tu?


— Sim!
— O quê... por que tu tá aqui? — ele indagou, surpreso.
— Eu não consegui escapar.
— Que quer dizer? Tu não achou tua mãe?
— Não. E meu pai me encontrou e me obrigou a voltar.
— Ah, foi? Então tu tá... sozinha? Posso entrar para te ver?
— Ah, não! De jeito nenhum! — ela sussurrou. — E agora vá
para longe da janela. Ninguém pode ver você falando comigo. Nin‑
guém pode saber que eu estou aqui.
Ele franziu a testa:
— Quer dizer que tu é...
— Prisioneira. De novo.
Seu rosto se ensombreceu e ele mudou a posição na parede, ten‑
tando achar um jeito de chegar mais perto dela. Agarrou as barras
da janela pelo lado de fora e ficou pendurado precariamente ali, um
dos pés ainda apoiado nos caixilhos da treliça.
— Como é que eu posso falar contigo?
— Você não pode.
Ela começou a ficar assustada.
— Por favor, me deixe agora, Césaire, saia desse lugar, antes que
alguém o veja. Meu pai é um homem muito cruel. Ele...
Uma voz áspera subiu do pátio e Césaire rapidamente tomou
impulso contra a parede e firmou­‑se no arcabouço da treliça, mari‑
nhando por ela abaixo, até chegar ao chão. Correu para uma carro‑
ça e retirou outro pedaço de lona. Enquanto a erguia, espiou para
sua janela, piscando um olho e continuou com sua tarefa.

* * *

Mais tarde, nessa mesma noite, ela escutou um estranho som do


lado externo. Césaire tinha trepado outra vez pela pá do moinho e
estava batendo nas grades da janela. Thaïs estava dormindo, mas
Angelique não queria se arriscar a acordá­‑la com uma conversa e

177

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 177 29/05/12 19:12


Lara Parker

lhe fez um sinal de que desceria a escada até o térreo. Segundos de‑
pois, estava no pátio.
— Césaire? — indagou em um cochicho abafado.
— Tô aqui!
Ela olhou para a extremidade do pátio calçado, onde ele era in‑
terrompido pela mureta que o separava do rochedo que descia ver‑
ticalmente até o mar. Ele estava sentado no alto da amurada.
Ela correu até ali e afundou no chão a seu lado.
— Eu não posso ficar — disse­‑lhe. — É perigoso para mim
falar com você.
— Olhe! — disse Césaire, apontando para uma pequena en‑
seada diretamente abaixo deles. A noite estava quente e as estre‑
las do céu tão luminosas, que pareciam uma nuvem de vapor. Ela
se arriscou a ficar em pé e olhou. Dali ela enxergava toda a exten‑
são do mar. Uma península longa e estreita se esticava como um
braço ao redor de uma curva, mantendo uma laguna em seu
abraço. Mesmo à luz das estrelas, ela podia ver as ondas batendo
e rebentando no recife exterior, mas o pequeno porto estava cal‑
mo junto dos penhascos que mergulhavam diretamente nas
águas profundas.
— Olhar o quê? — sussurrou.
— Lá embaixo — disse o rapaz. — Lá está a tua escuna do Maine.
Ela apenas conseguia divisar uma forma na escuridão, o sufi‑
ciente para reconhecer que era um barco ancorado, com duas pe‑
quenas luzes de bordo acesas, brilhando como estrelas que tivessem
caído nas profundezas.
— Tem certeza?
— Ah, sim. Eu conheço todos os barcos. Nenhum deles aporta
sem que eu saiba.
— Mas por que esse está aqui? Por que não está no porto de
Saint­‑Pierre?
— Ora, porque tá escondido. Esta enseada é boa ancoragem para
esperar durante a maré alta, que vai ser de manhã cedo. Ele atraves‑
sou a Passagem e agora tá esperando a hora de voltar ao mar com a

178

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 178 29/05/12 19:12


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

baixa­‑mar. Nenhum dos navios grandes vem aqui. São fundos de‑
mais e teriam um baita pobrema para cruzar aquele recife lá adian‑
te. Mas esse barco tem fundo raso e veleja fácil com o vento. Ele
corre por cima das ondas que nem um passarinho!
— Gostaria de estar nesse barco — disse Angelique, com
um suspiro.
— Não, tu não gostaria de estar a bordo dele — contestou Césai‑
re. — Esse barco é roubado e mesmo que se mova que nem uma
guria inocente, é de fato uma puta velha.
— Por que você diz isso? — quis saber Angelique.
— Porque transporta escravos escondidos no porão — respon‑
deu o rapaz, com a maior naturalidade.
Angelique se esticou por cima do parapeito, olhando para baixo.
— Eu não me importo — disse ela. — Eu também não passo de
uma escrava.
— Guria, tu não sabe o que tu tá dizendo. Um dia desses tu sai daqui.
— Meu pai não vai me deixar sair nunca. Além disso, não tenho
mais nenhum lugar para ir. Não sei o que aconteceu com minha
mãe, nem onde ela está.
Ela encarou o rosto de Césaire, cuja testa estava franzida.
— E... e eu nem tenho com quem conversar — disse ela,
abaixando­‑se novamente, seu coração doendo enquanto olhava em
volta. — Se meu pai nos encontrasse conversando deste jeito, ele
iria... — interrompeu­‑se com um estremecimento. — Você lembra
a menina no poço?
Césaire assentiu, seus olhos brilhando.
— O nome dela era Chloé. Nós brincávamos juntas, mas em se‑
gredo. Uma noite, o pai nos pegou e ele... e ele...
Ela se ergueu de repente.
— Não posso mais ficar aqui, Césaire. Eu nem devia ter descido...
— Espera — disse ele. — Eu tenho uma coisa para te contar. Tu
sabe o que vai acontecer? Tu pode sentir no ar? Escuta...
As ondas se quebravam contra os penhascos e mais longe, na
mata e nos banhados, ouvia­‑se o flautear dos sapos e das rãs. Bem

179

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 179 29/05/12 19:12


Lara Parker

mais longe, ela escutou o som de tambores, mas isso não era nada
fora do comum. Rara era uma noite sem tambores.
— Está falando dos tambores?
— Sim. Os tambores tão cantando todas as noites. Sobre a revolta.
— Revolta?
— Têm escravos fugidos morando nas cavernas da montanha,
chamam eles de maruns e eles ganham força da cratera do Mont
Pelée. Eles descem às escondidas para as senzalas de noite e di‑
zem aos escravos: “Revoltem­‑se!” Eles dizem que devem lutar
pela liberdade.
— Liberdade?
Ela amava o som dessa palavra: era a mais bela que conhecia.
— Quando chegar a revolta, todos os blancs vão ser mortos. Eles
vão queimar as casas-grandes — todos os prédios — até os alicer‑
ces. Foi mais por isso que eu vim te contar.
— E os amos não suspeitam de nada?
— Quando a raposa não consegue saltar e pegar as uvas, diz que
tão verdes. Escute! São tambores Ibos. Os escravos do teu pai são
todos Ibos. Tu sabe de onde eles tiram esses olhos amarelos deles?
Angelique recordou­‑se de Chloé, sua pele acobreada e seus olhos
de um amarelo­‑esverdeado e assentiu com a cabeça.
— Aqui eles são gente tímida, melancólica, porque se sentem
desolados por terem sido arrancados para longe de casa. Mas na
África? Eles são canibais!
Ela estremeceu e ele riu ao ver como ficara assustada, seus dentes
brancos ao luar.
— E você é... Ibo?
— Não, guria! — disse ele, orgulhosamente. — Eu sou Mandin‑
go! Veja o meu cabelo, como é macio e sedoso. Claro que não, eu
não sou Ibo de jeito nenhum!
— Então você não sabe o que dizem esses tambores...
— Sei o suficiente — contrariou­‑a. — Escuta o que te digo. É a
história deles. Eles se levantam uma noite e tocam os fogos. Quan‑
do o tempo chega, eu te conto. Aí tu pode avisar o teu pai, e...

180

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 180 29/05/12 19:12


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

— Avisá­‑lo? — ela exclamou, sua respiração presa na garganta,


um bolo de dor quando tentou engolir. — Mas eu jamais o avisaria!
Espero que os escravos venham e toquem fogo no canavial!
— O quê? — falou ele, espantadíssimo.
— Só quero mesmo é que o matem! Adeus, Césaire! — ela gri‑
tou, dando dois passos para trás. Depois, girou nos calcanhares e
correu de volta para a torre.

181

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 181 29/05/12 19:12


Doze

uando Angelique acordou na manhã seguinte, custou­‑lhe um


momento para recordar onde estava. Thaïs a acordara no co‑
meço da madrugada, levara­‑a até a casa­‑grande e a trancara em um
quartinho do terceiro andar.
Angelique olhou em volta de seu novo ambiente: uma cama gros‑
seira, um toucador e um piso de tábuas sem tapete. Correu até a úni‑
ca janelinha e olhou para a torre e para os galpões de armazenagem.
Havia uma grande atividade no pátio, muitos escravos trabalhavam.
Seu pai andava para cima e para baixo como uma pequena tempestade
— praguejando, queixando­‑se disto ou daquilo, sacudindo os braços e
volta e meia apontando para a torre. Ela ficou espantada ao ver que os
braços da ventoinha que deveria impulsionar as mós estavam girando
rapidamente e que as portas que davam para a bagaceira estavam aber‑
tas de par em par. Escravos estavam instalando as grandes rodas no lu‑
gar de tal modo que suas engrenagens superiores se encaixassem.
De repente, um dos homens soltou um grito e diversos trabalha‑
dores dentro da sala térrea da torre berraram com força em resposta.

182

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 182 29/05/12 19:12


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

Nesse instante, o moinho de vento estremeceu e guinchou. Movia­


‑se pesadamente sob a carga e as grandes rodas sob ele começaram
a girar. Uma grande exclamação de entusiasmo correu através da
equipe e todos os presentes se amontoaram dentro do salão térreo
para verem o mecanismo poderoso em funcionamento. Até mesmo
seu pai pareceu estar alegre, ou pelo menos, aliviado. Mas ele não se
adiantou para a porta como os demais, ficou parado sozinho, de
braços cruzados, já que podia ver as mós girando umas contra as
outras pela parte superior da abertura da porta.
O pensamento de ter de encarar de novo seu pai, agora que esta‑
va morando mais perto dele, fez com que ela estremecesse de medo.
Decidiu­‑se a permanecer tão quieta quanto um ermitão dentro de
uma concha nova, observando tudo ao seu redor com o máximo
cuidado. Ela imaginou quando seria a próxima cerimônia e subita‑
mente pensou que deveria trazer do quarto secreto vários pós de
que poderia precisar para sua própria proteção.
Enquanto o dia ia passando, Angelique começou a imaginar
se alguém viria buscá­‑la ou atendê­‑la. Fora acordada e trazida
às pressas e, apesar da sugestão da escrava, não trouxera seus
livros ou qualquer muda de roupa e até essa hora, ninguém
tampouco lhe trouxera comida. Foi até a porta experimentar a
fechadura e, para sua surpresa, descobriu que era uma coisa
primitiva, fácil de forçar com um grampo ou alfinete. Mas não
foi mais além do corredor escuro e deserto. Descobriu, ainda
mais espantada, que havia uma tranca de ferro pendendo de
um gancho na parede interna ao lago da porta e percebeu que
poderia se trancar por dentro.
Nesse momento, escutou gritos vindos do pátio e correu de volta
até a janelinha para vir dois carros de boi atravessando pesadamen‑
te o portão, carregados de cana­‑de­‑açúcar recentemente cortada.
Um grupo de vinte e poucos escravos descarregou as varas frouxas
e desajeitadas e as carregou até a moenda em que, com muitos gri‑
tos e movimentos desajeitados, forçaram as canas para o meio das
rodas de esmagar.

183

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 183 29/05/12 19:12


Lara Parker

Ela olhou para o céu e viu uma longa coluna de fumaça escura
subindo de um dos galpões. Através das janelas da casa do engenho
ela enxergou as chamas refletidas nos fundos arredondados de
imensas caldeiras de cobre. No excitamento daquele primeiro dia
da colheita da cana, ela havia sido completamente esquecida.
Finalmente, já no fim da tarde, Thaïs apareceu com uma bande‑
ja de comida. Ela parecia exausta, suas roupas estavam imundas e,
depois de lhe entregar a bandeja, ela desabou em um banquinho
que encontrou num dos cantos do quarto, deixando cair a cabeça
contra o peito.
— Thaïs? O que aconteceu com você? — indagou Angelique.
— Elis mi mandô cortá cana, minina, i isso acabô comigu.
Ela ergueu as mãos inchadas com cortes e vergões rubros de san‑
gue coagulado. Angelique prendeu a respiração.
— Mas por que você foi mandada para os campos? Sua função
não é cuidar de mim?
— Tudo nóis fumo; tudo nóis tá imbaixo du chicoti agora... —
explicou ela, erguendo um olhar triste para Angelique.
Angelique percebeu então que as exigências da colheita consu‑
miriam todo o tempo e energia de todos os moradores do canavial
e que ela seria ignorada durante esse tempo.

* * *

Antes que muitos dias se passassem, ela já começara a explorar a


mansão vazia. A maior parte dos quartos estava deserta, salvo por
uma ocasional mesa torneada ou um banco de madeira esculpida
encostado a um canto. A poeira se acumulava nos cantos, os espe‑
lhos estavam baços de fuligem e grumos de poeira; velas pela meta‑
de, com lágrimas longas de cera derretida grudadas nos flancos,
encolhiam­‑se em candelabros apagados; e todos os postigos esta‑
vam trancados por dentro, sem permitir a passagem do sol. Mas ela
pôde perceber que, em tempos passados, aquele tinha sido um cas‑
telo aristocrático e elegante. Os assoalhos eram marchetados com

184

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 184 29/05/12 19:12


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

parquete em figuras complicadas, recortados de madeira de lei ou


de madrepérola, havia vitrais coloridos com caixilhos de chumbo
instalados em janelas ogivais colocadas a meia distância das espes‑
sas paredes de pedra e, em algumas das salas, até mesmo grandes
tapeçarias desbotadas e sujas pendiam das paredes.
Em contraste com a tristeza e abandono reinantes nas salas do
castelo, o pátio era uma colmeia de vida, em que enxameavam os
trabalhadores negros. Desde uma hora antes do romper da alva,
quando alguém assoprava em uma grande concha à guisa de cla‑
rim, até muito além da meia­‑noite, os escravos labutavam. O traba‑
lho seguia um padrão inexorável. Os carros de boi vinham dos
canaviais com as rodas guinchando pela estrada e estrondando nas
lajotas do pavimento até perto do moenda acionada pelas pás do
moinho de vento, carregados de cana­‑de­‑açúcar empilhada até duas
vezes a sua altura, os bois mugindo com o esforço de transportar a
carga. As pilhas se amontoavam a grande altura contra as paredes
da torre e da casa­‑grande; as rodas de esmagar roncavam e as canas
gemiam ao serem esfaceladas; as pás do moinho resmungavam ao
sabor do vento; e a chaminé alta das caldeiras vomitava seus gases
escuros e venenosos contra o céu cor de turquesa.
Thaïs se revelara fraca demais para o labor nos canaviais e fora
agora designada para alimentar as fogueiras. Quando ela subia ao
quartinho de Angelique, de seu corpo ainda pingava suor, suas rou‑
pas estavam empapadas e um cheiro doce de melado emanava de
sua pele. Mas todas as noites ela lhe trazia uma refeição simples,
mas substanciosa e sempre aparecia arrastando os pés de cansaço.
Certa noite, ela se movia tão lentamente, que Angelique a contem‑
plou com um certo grau de preocupação.
— Thaïs? O que está errado com você? — indagou.
A pobre escrava começou a chorar.
— Eli mi bateu... — disse numa voz quase inaudível.
— O quê? Onde?
Thaïs ergueu lentamente a camisa até o pescoço e lhe mostrou as
costas. Estavam entrecruzadas de faixas ensanguentadas.

185

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 185 29/05/12 19:12


Lara Parker

— Mas por quê? Por que ele fez isso com você?
— Elis deu orde pra pará as caldera, mas era tardi dimais. O
xarope ficô duro qui nem pedra e si estragô. Bem qui eu dizeu, tá na
hora de fechá us fogo, mas u homi encarregadu, o Lazaire, eli tinha
a várvula nas mão e eli dizeu num tá na hora ainda. Sim, eu diz
preli, tá na hora, sim! Agora! Mais o Lazaire mi mandô calá minha
boca preta i num feiz! Aí as ispuma ficaro tão arta di fervê, qui sai‑
ro por fora das caldera i eu miscapei, mas o Lazaire ficô todo que‑
mado! I u Sinhô mandô batê em mim pur estragá a fervura!
O coração de Angelique sentiu uma piedade indizível e ela foi até
Thaïs e se sentou no chão ao lado dela, colocando a cabeça no seu colo.
— Pobrezinha da Thaïs — disse ela —, estou com tanta pena de
você! Ele é um homem duro e cruel e eu tenho ódio dele!
Um pensamento percorreu sua mente e ela achou que poderia
servir de algum modo para consolar Thaïs.
— Thaïs, você sabe que há revolta no ar? O som dos tambores...
A escrava não lhe deu resposta; mas ela sentiu como seus múscu‑
los se enrijeciam e viu como ela prendia a respiração. Angelique a
contemplou em expectativa, mas Thaïs apenas soltou o ar dos pul‑
mões e deu um longo suspiro.
— Num, minina, num tem revolta ninhuma. Us escravu si rebe‑
la, uns morre a tiro, otrus são inforcado ou coisa pior. Quando us
iscravo de Trinité si rebelaro, elis chamaro as milícia. Num tem es‑
perança contra us backrá. Num tem orguio mais forti que mosque‑
tis. Tá tudo mortu agora, vinte iscravo corajosu, tudo massacradu.
I us úrtimo marum qui elis pegaru, vancê sabe u qui fizeru? Pusero
elis pindurado numas gaiola até secá no ventu.
— Mas os tambores? Você não sabe o que eles dizem? Eu os es‑
cutei de novo durante toda a noite passada.
— Tambores canta como a montanha pelada resmunga, fala
muito i num isplodi. Minina, us iscravu tá tudo condenado a tra‑
baiá inté morrê i fica tudo interradu nu meio dus pé di cana.
Angelique ficou ali sentada, seus braços estendidos sobre o colo
de Thaïs e sentia seu coração encolher aos poucos. Ela teve uma

186

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 186 29/05/12 19:12


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

lembrança súbita de um peixe­‑pedra, um sinanceja, tão venenoso e


tão difícil de ver, manchado e coberto de muco e parecendo ser
apenas limo no fundo do mar. Ela pensou em como eles ficavam
enfiados na areia, no meio de pedras verdadeiras, cobertos pelos
mesmos coraizinhos e anêmonas escamosos, invisíveis até o mo‑
mento em que algum camarãozinho incauto aparecesse por ali.
Então um espinho fino como uma adaga se projetava do chão, uma
agulha prateada proveniente do corpo da pedra falsa e a morte
vinha rápido, antes que o sinanceja se movimentasse lentamente
para devorar sua presa. Ela decidiu que, doravante, seu coração se‑
ria como o peixe­‑pedra. Ela esperaria e a adaga que trazia ao cora‑
ção permaneceria oculta.

* * *

Certa manhã, Angelique escutou seu pai sair a cavalo pelo portão
bem cedo e, imaginando porque o dia estava tão quieto, ela correu
para a janela e viu que a porta da moenda estava fechada e que as
pás estavam girando lentamente no ar parado. Os escravos estavam
sentados em grupinhos, pelo pátio ou encostados nas paredes,
exaustos e desanimados. Àquela hora, já estava mortalmente quente
e ela se sentia inquieta e ainda mais aborrecida que de costume.
Ela decidiu aproveitar a oportunidade para vaguear pelo castelo e,
depois de procurar por mais ou menos uma hora, descobriu que esta‑
va diante da porta que dava para os aposentos de seu pai. Tentada pela
possibilidade de descobrir alguma pista quanto ao desaparecimento
de sua mãe, ela empurrou a porta pesada, que se abriu facilmente.
Viu um quarto grande e escuro com uma imensa cama de dos‑
sel. Lençóis sujos e amontoados se enroscavam sobre o colchão e,
chegando perto, viu que o cortinado era de veludo esgarçado, pen‑
durado em um ângulo frouxo da armação superior. Uma poltrona
estava enterrada sob uma pilha de roupas imundas e o casaco mal‑
cheiroso que seu pai costumava usar estava colocado no seu encos‑
to. Mas havia uma escrivaninha imponente, coberta de papéis.

187

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 187 29/05/12 19:12


Lara Parker

Ela percorreu as cartas, sentindo uma leve esperança de desco‑


brir o paradeiro de sua mãe.
Um bilhete curto se queixava: “O açúcar não está sendo vendido.
Não há navios no porto. Sugiro que você fabrique melado para desti‑
lar rum”. Havia outra mensagem, esta assinada por seu pai, pedindo
“paciência” e dizendo que “a cana está velha demais e tem pouco
suco”, que estava “extremamente quente” ou que “fora cortada tarde
demais e empilhada diante do moinho, onde se acumula, perdendo o
açúcar. Os operários ainda não aprenderam a trabalhar direito”.
Um pouco mais abaixo, ela leu: “O pivô de uma das rodas se soltou
e tive de parar o moinho...” “Preciso desesperadamente de novas rodas
grandes...” “Um conjunto foi encontrado em Saint­‑Pierre pela horren‑
da soma de 1.300 francos.” Ela jogou a carta para um lado com indife‑
rença e continuou a procurar, mas não achou nada sobre mulheres
vendidas como escravas, nenhuma palavra a respeito de sua mãe —
somente as queixas solitárias de um homem empenhado no agora in‑
grato comércio de açúcar, tão lucrativo há apenas algumas décadas.

* * *

O terror começou uma noite depois que a moenda fora novamente


colocada em operação. Durante dias, os escravos tinham sido obri‑
gados a trabalhar a noite inteira, alimentando as mandíbulas insa‑
ciáveis das mós com uma quantidade infindável de canas.
Naquela noite em particular, Angelique foi acordada por gritos e
correu para a janela para escutar os berros de vários escravos: “Parem
o moinho! Parem o moinho!” Eles correram para ajudar um escravo
que sacudia um braço em desespero, o outro preso de alguma forma,
apertado entre os cilindros das caldeiras. Provavelmente, ele adorme‑
cera em pé, pensou ela, assombrada, e ao cair para frente, estendera a
mão para se firmar e ela se prendera nas engrenagens.
Seu pai chegou cambaleando ao pátio, os braços erguidos acima da
cabeça, sua voz pesada de sono, amaldiçoando e gritando ferozmente pa‑
lavras enroladas, mas compreensíveis, enquanto fazia pausas para escutar:

188

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 188 29/05/12 19:12


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

— O que foi? O que aconteceu? Mas por que diabo ele fez isso?
— Sinhô, ele tá preso! Nóis tem de separá as roda!
— O quê? Mas não! — decretou furiosamente. — Eu não vou
deixar pararem a moenda! Continuem trabalhando, seus imbecis
amaldiçoados! Achem um machado! Cortem fora!
O moinho continuou trovejando e as mós guinchavam, mas os
uivos do escravo se escutavam ainda mais alto e Angelique viu através
da porta aberta o machado subir e descer. O coto ensanguentado
sacudiu­‑se para os lados e pareceu golpear o ar em vão, enquanto o
homem em agonia apertava o braço contra o peito e caía ajoelhado,
seus companheiros reunidos a seu redor em um bando aterrorizado.
Angelique ficou olhando enquanto carregavam o mutilado e,
quando retornou para sua cama, permaneceu horas acordada, sua
mente um delírio de terrores entrecortados. O ar vibrava com o
calor e o som agudo das pás do moinho ou cavernoso da moenda,
como uma enorme prensa roçando em escamas aguçadas, parecia
arranhar­‑lhe a pele e esmagar seus próprios ossos.
Subitamente, ela escutou alguém caminhando pelo corredor em
direção à sua porta e seu coração deu um pulo. Alguma coisa estava
arranhando a madeira do assoalho, deslizando e se movendo para
frente e ela conseguia escutar sua respiração fraca e laboriosa. Ela
caminhou em silêncio até a porta e encaixou a tranca na alça de ferro
aparafusada na parede do lado oposto da porta, depois se deitou no‑
vamente, louca de medo, olhando para a porta trancada, sem se mo‑
ver ou ousar emitir o menor som, até que seus músculos contraídos
doessem sem alívio. A respiração parecia fanhosa e o trinco externo
foi sacudido por mão invisível. Pela primeira vez desde que fora apri‑
sionada, ela estava feliz por estar trancada, porque a porta não cedeu
e, após um longo momento, ela escutou o som de passos afastar­‑se.

* * *

Depois daquela noite, Angelique percebeu que os escravos estavam


mudados; pareciam ao mesmo tempo inquietos e mal­‑humorados.

189

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 189 29/05/12 19:12


Lara Parker

Por mais que o capataz não lhes poupasse a chibata, parecia que
toda a sua energia tinha sido esvaziada. Eles se moviam lentamente,
arrastando os pés e as pilhas de cana­‑de­‑açúcar se acumulavam
contra as paredes, sem serem moídas. Os tambores palpitavam até
antes da aurora, só parando quando a lua se punha e o céu assumia
aquela escuridão mais profunda que vem antes do amanhecer.
Houve uma ocasião em que, por volta da meia­‑noite, ela foi acor‑
dada por uma cavalgada furiosa; o portão foi aberto e seu pai entrou
às pressas no pátio, acompanhado por um grupo de outros senhores
de engenho. Foram até uma peça por trás da sala das caldeiras, cuja
porta de metal ela sempre vira trancada com cadeados e correntes
grossas e, quando saíram, cada um deles trazia um mosquete e um
saco de munição, berrando uns para os outros, sem tentar manter
controladas suas vozes enlouquecidas de rum e de raiva:
— Eles mataram a família inteira!
— Sua mulher e as três filhas!
— Cortaram­‑nas em pedaços!
— Tocaram fogo no canavial!
Entre pragas terríveis e o tinido dos cascos sobre as lajes do pavi‑
mento, eles partiram novamente, outros tantos trovões estrada abaixo.

* * *

Mais tarde, Angelique acordou com um assobio abafado, correu até


a janela e olhou para fora. Césaire estava sozinho, em pé no meio do
pátio, parcialmente iluminado pelas chamas sob as caldeiras man‑
tidas a todo o vapor.
— Angelique! — ele chamou. — Desce!
— Não posso — ela respondeu. — Eu não me atrevo!
— Tá tudo seguro — gritou, sem se preocupar em controlar o
som. — Teu pai tá na outra plantação, ele e os outro buscando vin‑
gança. Mas eu preciso falar contigo!
Poucos momentos depois, ela tinha descido em silêncio, cami‑
nhando às apalpadelas pelos longos corredores e descendo as escadas,

190

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 190 29/05/12 19:12


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

apoiada nos corrimões e saindo para a noite. Era a primeira vez que
ela se aproximava da moenda e ficou abalada pelo tamanho da má‑
quina e o ruído que ela produzia. Escravos exaustos, nus até a cin‑
tura, músculos tremendo de cansaço, enfiavam as hastes frouxas
entre os cilindros e o suco escorria para um cano de chumbo que o
conduzia até a sala das caldeiras.
— Vem cá! — gritou Césaire, puxando­‑a para a sala das caldei‑
ras. Thaïs e outra escrava ainda mais velha estavam debruçadas so‑
bre uma grande caldeira de cobre, mexendo o xarope dourado com
longas pás de madeira grossa. Estavam tão amortecidas pelo cansa‑
ço, que nem sequer ergueram as cabeças. Bolhas subiam e estoura‑
vam na superfície do melado e uma espuma branca se amontoava
em um círculo ao redor das beiradas. O ar estava pingando vapor.
Césaire olhou em volta e finalmente conduziu Angelique até o can‑
to mais distante.
— A rebelião está começando! — disse ele, com um olhar selva‑
gem e ela podia ver o suor se acumulando em sua testa.
— Meu pai saiu para se reunir às milícias — respondeu ela. —
Ele veio buscar mosquetes e a munição que tinha escondido.
— Não, não, isso não é nada — disse ele. — Aqueles escravos
idiotas de Sainte­‑Marie planejaram tomar o canavial de lá. Tavam
loucos de ódio. Que nem idiotas, eles foram em frente! Invadiram a
casa­‑grande para roubar a prataria! Ah, sim e vão pagar por ela com
suas vidas, as pobres almas!
— Eles vão morrer todos?
— Sim, é claro, todos, até o último. Mas foi um golpe de sorte.
Os soldados vão massacrar eles e pensar que apagaram o fogo.
— Mas então não haverá revolta alguma...
— Ai, guria, mas tu nem sonha como vai ser essa! Os maruns da
montanha estão armando escravos pela ilha inteira. A conspiração
ronca fundo, que nem o fogo no coração de Mont Pelée. Amanhã de
noite, eles vão incendiar Saint­‑Pierre! Vão matar centenas, milha‑
res, talvez todos os grands­‑blancs. Chegou a hora do homem negro.
Ele finalmente vai ganhar o que é dele!

191

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 191 29/05/12 19:12


Lara Parker

— E eles vêm até aqui depois? Para esta plantação?


— Tu tá condenada, guria, a não ser que o teu pai consiga con‑
vencer os escravos dele a defender a casa­‑grande. Tu acha que eles
lutariam por ele?
— Nunca na vida. Ele os trata pior que animais.
— Então esta plantação também vai acender as estrelas do céu.
Tu tem de avisar ele.
— Eu nunca irei avisá­‑lo!
— Escuta — disse ele, pacientemente. — Tem um caminhozi‑
nho que desce até a baía e eu vou te esperar num bote lá embaixo.
Mesmo que Mont Pelée escorra lava pelos lados e solte fogo pelo ar,
tu fica segura na água.
— Você tem certeza? Não vai ser perigoso?
— Angelique, guria, eu só tô parado aqui neste lugar te contan‑
do tudo isso porque eu não quero que nada de ruim te aconteça.
Aqueles escravos enlouquecidos vão te estuprar, dúzias deles, e de‑
pois te matar. Tu tem de fazer o que eu te digo. Avisa o teu pai.
Assim que tu puder. Mesmo que tu odeie ele muito, tu não quer
ver ele morto, quer?
Ela não respondeu, mas pensou que talvez ele tivesse razão.
— Vou te esperar amanhã de noite — disse ele. — Não tenha medo.

192

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 192 29/05/12 19:12


Treze

ão parecia possível para Angelique pegar no sono depois destas


notícias assombrosas, mas de algum modo ela foi escorregan‑
do para o nível mais profundo da consciência, um sono sem sonhos
no fundo das cavernas da noite. Só acordou quando a sombra de
seu pai pairava sobre ela.
Seus olhos se arregalaram ante a visão de seu sorriso embriaga‑
do. Ela já tinha idade suficiente para perceber que sua expressão era
de lascívia e sua respiração fedia a rum. Desajeitadamente, ele ten‑
tou tocá­‑la e ela se encolheu ante seu toque no momento em que
sentiu a mão grosseira arranhar­‑lhe o braço. Ele riu como se fosse
um relincho de cavalo e se ergueu, as mãos nos bolsos, as pernas
bem separadas.
— Levante, bonequinha — ele falou, roucamente.
— O que você quer?
— Eu vim para lhe contar que seu velho pai ainda é um grande
lutador e que você deveria ter orgulho de mim! Orgulho de ser a
filha de seu pai! Olhe! Olhe para isto em minhas mãos e me diga o

193

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 193 29/05/12 19:12


Lara Parker

que está vendo! — seu rosto foi dividido por um sorriso de satisfa‑
ção maligna. — Você sabe o que é isto? É morte, menina, morte de
gente! Estas mãos é que causaram!
— Não me toque — disse ela, com nojo. — Nem chegue per‑
to de mim!
— Ora, Angelique, meu anjo — protestou ele —, por que você me
odeia tanto? Eu não fui bom para você? Não lhe dei uma porção de coi‑
sas bonitas? — queixou­‑se, seu estado de ânimo mudando rapidamente.
Ela não respondeu, mas encolheu­‑se no canto mais distante da
cabeceira da cama, abraçando os joelhos em posição fetal e o en‑
carou. A única coisa de que tinha consciência era das ondas de
rancor que fluíam através dela, que a enchiam como uma poça
escura da água que escorria para fora de uma gruta quando a maré
baixa recuava.
— Eu só queria te dizer, bonequinha, que salvei tua vida esta
noite. Isso não faz com que você goste um pouco mais de mim?
Aqueles bastardos iam vir te pegar, mas eu interrompi a marcha
deles — eu e meus homens — e torci os pescoços dos desgraçados
com as mãos nuas. Deus, que coisa excitante é matar um homem,
sentir seu coração parar abaixo de teus pulsos!
Ele baixou os olhos para as próprias mãos, girando­‑as no ar
diante das vistas, maravilhado pelo poder que haviam demonstra‑
do. Depois riu de novo para ela.
— Venha me dar um beijo pelo meu esforço — disse ele, dando
um passo em sua direção.
— Fique longe de mim! — sua voz saiu sibilante, tão mortal que
ele gelou onde estava.
— Mas o que te deixa tão rigorosa? — indagou ele, meio surpre‑
so. — Ah, mas... eu sei! É que você tem meu sangue e com ele her‑
dou a minha raiva! Mas por Deus, eu gosto desse temperamento!
Ele me enraivece, mas também acende um fogo dentro de mim, ah,
acende! Vamos, lute comigo, minha bela, quero sentir você lutar!
Ele mergulhou em direção dela e agarrou­‑lhe um dos braços,
puxando contra ele o corpo que se debatia, rindo e mergulhando a

194

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 194 29/05/12 19:12


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

cara em seus cabelos. Ela se defendeu, os dedos em garra, as unhas


lhe arranhando as faces, tentando furar­‑lhe os olhos.
Ele recuou, surpreso, a respiração trancada na garganta, mas
apenas por um momento, já que estava embriagado demais para
sequer sentir dor. Ele levou a mão direita para trás, tomou impulso
e acertou­‑lhe um golpe tão furioso no rosto, que a deixou cega por
um momento. Ela caiu no chão com um grito abafado, sua cabeça
girando e ele lhe mostrou um novo sorriso maligno.
— Você é uma cadela orgulhosa, claro que é, mas é preciso mais
do que isso para me impedir de fazer o que eu quero...
— Eu não preciso lhe impedir — disse ela, a voz cheia de despre‑
zo. — Porque mesmo que você me mate — e vai ter de me matar
para fazer o que quer ou mesmo para me machucar de novo — por‑
que não vai ver mais a luz da manhã daqui a dois dias! Você pensa
que ganhou a batalha em Sainte­‑Marie, mas não passa de um idio‑
ta! Eles virão! Vão chegar aos milhares! Amanhã de noite! E vão
queimar seu precioso canavial e mais esta casa, até os alicerces, com
você dentro dela e eu terei o prazer de encontrá­‑lo no meio dos fo‑
gos do Inferno!
Ele olhou para ela de boca aberta, sem compreender, mas impe‑
dido por sua veemência.
— O que faz você achar isso, menina?
— Porque eu sei! — declarou ela com firmeza. — A matança de
hoje só serviu para deixar vocês cheios de falsa confiança! Vocês
pensam que triunfaram sobre eles, mas estão errados!
— Quem te disse isso?
— Césaire. O auxiliar do fabricante de tendas.
— Esses negros forros! — gritou seu pai, com um tom de voz
escaldante. — São eles que estão por trás disso tudo! Mas... — ele
parou de repente, desconfiado, seus olhos grudados nela. — Como
foi que você falou com ele?
— Eu não falei — mentiu ela, sabendo que o havia vencido.
— E não é tampouco o que você pensa. Eu escutei pela janela e
ouvi quando ele falou para os escravos que estavam trabalhando

195

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 195 29/05/12 19:12


Lara Parker

na moenda. Ele lhes disse que, caso não o defendessem, você es‑
taria condenado!
— Você escutou tudo isso? — indagou ele, o efeito da be‑
bida subitamente escorrendo de seu rosto, sua expressão dura
e ansiosa.
— Amanhã de noite — disse ela, calmamente. — Os escravos de
toda a Martinica vão incendiar Saint­‑Pierre!
Sentiu uma grande satisfação ao ver como o rosto de seu pai em‑
palidecia ao ouvir suas palavras e seus lábios tremerem. Ele a enca‑
rou por mais um momento e então girou nos calcanhares e saiu do
quarto aos tropeções.

* * *

Na manhã seguinte, a porta da moenda estava fechada e os escra‑


vos não estavam em seus postos de trabalho. De fato, o pátio es‑
tava deserto e ela podia escutar música vindo da direção das
cabanas da senzala. Ela entendeu que seu pai dera um dia de folga
aos trabalhadores. Thaïs lhe trouxe cedo o desjejum, depois
sentou­‑se em seu mochinho do canto, sacudindo a cabeça de
amargura e tristeza.
— Noiti passada ser ruim... — disse ela, baixinho.
— Eu sei — respondeu Angelique. — Sainte­‑Marie.
— Muito, muito morto, otros na cadeia. Tanto sangue corrido.
U que nóis faiz agora? Ansim que os home encontra força pra luitá,
nóis é cortadu qui nem cana pelus soldadu.
— Você sabe o que vai acontecer esta noite? — perguntou Angelique.
— Sim. Eu sei qui tem otra ceremônia — respondeu Thaïs. An‑
gelique levou um susto.
— Como assim, hoje de noite? Não! Hoje de noite não!
— Sim, o Sinhô mi acordô bem cedo di manhã, antis di saí a
cavalo — explicou ela. — Eli mi diz pra deixá vancê perfeita di tudo
qui é jeitu. Eu vou na torri agorinha memo pra buscá u vestidinhu
branco pra vancê.

196

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 196 29/05/12 19:12


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

— Esta noite eu não faço — disse Angelique firmemente.


— U quié qui vancê tá dizeno? Vancê num vai fazê o quê? Vancê
tá louca, minina? Ai, purquê vancê é sempre tão boba!?
— Quando ele retornar, diga­‑lhe simplesmente que se ele preten‑
de que eu seja Erzulie de novo, eu vou sair para o pátio e me mostrar
para todos e dizer quem eu realmente sou. Eu vou dizer a todos os
escravos que tudo isso não passa de uma farsa!
Thaïs abriu a boca e ficou de queixo caído, olhando para Angeli‑
que em total estupor. Depois se ergueu e saiu correndo porta afora,
embora lembrasse de girar a chave na fechadura antes de ir embora.
Angelique ficou imaginando se as coisas que Césaire lhe conta‑
va eram verdade. Preocupações conflitantes lhe martirizavam o
cérebro. Haveria realmente um levante dos escravos? Ela imagina‑
va se realmente deveria ter revelado o plano a seu pai. Esta poderia
ser a sua oportunidade de finalmente escapar dele, mas não se os
escravos rebelados a pegassem primeiro e a tratassem como a filha
de um senhor branco de engenho. Seu pai conseguiria mantê­‑la
em segurança? Lutaria para salvar­‑lhe a vida? O que ele estaria
fazendo agora? Teria ido alertar as milícias? E nesse caso, será que
acreditariam nele?
Sentiu um súbito anseio para retornar ao quartinho por detrás
do altar. Foi até a janela e viu que tanto o pátio como as oficinas
estavam desertos; até mesmo Thaïs tinha desaparecido. Angelique
abriu a fechadura com um grampo de cabelo e saiu às pressas pelo
corredor para depois descer as escadas sem ser percebida.
Assim que chegou ao quarto secreto, percebeu que já se haviam
passado meses desde que ela realizara o ritual em que fracassara
na invocação de Erzulie. Parecia estranho sentir a pulsação fa‑
miliar latejando através dela quando seus dedos tocaram os pós
sagrados do vevé. Enquanto ela remexia na parafernália das prate‑
leiras empoeiradas, ela sentiu que alguma coisa se modificara
dentro dela. De repente, uma série de objetos não mais pareciam
misteriosos, mas ao contrário, perfeitamente úteis para os fins a
que se destinavam.

197

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 197 29/05/12 19:12


Lara Parker

Inconscientemente, ela começou a reunir os itens necessários —


pedaços de insetos e de folhas secas, os potes cheios de sálvias, as
caixas de ervas, saquitéis cheios de criaturas marinhas, até mesmo
aquelas massas carnudas que flutuavam nos líquidos dos grandes
vidros enfumaçados — ao mesmo tempo em que proferia as pala‑
vras das cantilenas e seguia as instruções que enchiam as páginas
do livro e que agora sabia de cor. Em uma parte de seu coração, ela
sentia tristeza por ter perdido Erzulie e imaginava se era agora in‑
digna da deusa.
Alguma coisa cintilou em um canto de sua mente. Estendeu a
mão para o uangá que sua mãe lhe fizera, que até hoje pendia do
cordão de couro ao redor de seu pescoço. Dentro dele estava a mi‑
núscula caveira da fer­‑de­‑lance, a selenita e a mecha de cabelos de
Chloé. Estas coisas a conservavam em segurança. Hoje eu não par‑
ticiparei da cerimônia, ela garantiu para si mesma. A lembrança da
figura negra era terrificante demais, porém sabia que, de um modo
ou de outro, ambos estavam inextrincavelmente entrelaçados.
Ela se sentiu atraída mais uma vez pelo grosso volume encader‑
nado em couro, novamente enfeitiçada pelas palavras que conti‑
nha. Parecia sentir que algo pairava sobre ela, como se fosse um
grande pássaro e ela sentiu conforto e paz embaixo de suas asas.
Cada vez mais profundamente ela mergulhou nos sons das cantile‑
nas, acalentando as canções e litanias dentro de sua mente. Pare‑
ciam uma escrita secreta derivada dos primórdios das eras.
Cansada finalmente, ela se levantou para partir, mas interrompeu­
‑se, novamente retirando o kriss incrustado de joias de dentro de
seu estojo, girando­‑o entre as mãos para ver os reflexos da vela cin‑
tilando nas pedras. Depois de correr a polpa de um dedo por sua
lâmina fina, ela enrolou o punhal malaio novamente e o guardou
dentro da caixa. Um pedaço de papel negro ou cinza-escuro balou‑
çava no canto mais elevado da peça e o movimento captado pelo
canto de um de seus olhos lhe prendeu a atenção. Chegando mais
perto e erguendo a vela, ela prendeu a respiração ao reconhecer­‑lhe
a natureza: era um morcego pendurado de cabeça para baixo em

198

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 198 29/05/12 19:12


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

uma das traves que sustentavam o teto. Suas asas enrugadas esta‑
vam dobradas às suas costas, sua pele reluzia à chama da vela e seus
olhos vermelhos como duas contas de coral a encaravam com um
reconhecimento tranquilo. Estremecendo, ela deixou o animal
onde estava e saiu do quarto sem fazer ruído.

* * *

Mais tarde, nesse mesmo dia, quando ela escrevia em seu diário,
alguém lhe bateu à porta. A chave girou e, quando a porta se abriu,
seu pai estava parado ali. Seus músculos se contraíram, mas para
sua surpresa, a atitude de seu pai era contrita, até mesmo demons‑
trando remorso. O inferno que fervia nas profundezas de seu peito
parecia estar tranquilo agora e ele estava em pé diante dela com os
ombros erguidos como para proteger a cabeça e suas mãos imensas
balançavam frouxas de seus lados.
— Posso falar com você, Angelique? — ele pediu.
— Eu não vou representar essa cerimônia hoje — disse ela, sem
rodeios. — É uma coisa estúpida e falsa e eu estou completamente
enjoada disso. Nem pretendo fazer mais nada por você, nunca, ja‑
mais em minha vida.
— Eu decidi deixar você partir — foi a resposta dele.
— Como assim? — ela redarguiu, estupefata.
— Você tem toda a razão — prosseguiu ele. — Eu a tratei muito
mal e realmente estou arrependido. Você tem toda a razão do mun‑
do para estar ressentida comigo. Mas eu tenho muita coisa a temer
hoje e só lhe peço que me ajude mais uma vez.
— Não! — recusou­‑se firmemente. — Eu o odeio! Você é cruel e
não passa de um assassino! Você não pode me obrigar.
— Escute, Angelique. Eu descobri o paradeiro de sua mãe. Ela está
trabalhando em um canavial de Trinité, como médica no hospital
dos escravos. Prometo que a levarei amanhã até onde ela se encontra.
Angelique mal conseguia crer nas palavras dele. A alegria corria
por todo o seu corpo.

199

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 199 29/05/12 19:12


Lara Parker

— Minha mãe? Realmente?


— Eu lhe suplico para fazer isto por mim — disse ele, sua voz
firme e sem traços de álcool. — Estive em Saint­‑Pierre para alertar
as autoridades. Talvez esta conspiração possa ser evitada. Mas os
escravos estão inquietos... obviamente... ansiosos por vingança.
Suspeito que isso que você escutou possa ter um fundo de verdade.
Ele fez uma pausa e lhe deu as costas. Ela conseguia ver as gotas
de suor que lhe escorriam da testa. Enfiou a mão no bolso e reti‑
rou dele um lenço, que apertou contra a testa, seus movimentos
lentos e pesados.
— Eu lhes prometi uma cerimônia — disse ele — e vou sacrifi‑
car um bode. Prometi­‑lhes também barris de tafiá, tudo quanto
eles puderem beber. Suas mentes são tão simples e depravadas, que
entretenho a esperança de que eles serão hipnotizados por suas pró‑
prias danças e não se voltarão contra mim, mas ao contrário, luta‑
rão contra a própria gente deles.
Nesse instante, ela escutou o começo do rufar dos tambores e
reconheceu o ritmo da cerimônia, o Maman profundo, seu som
mais grave que o bater do coração; e o Catá, mais alegre e com um
ritmo mais rápido que a canção dos passarinhos. Ela sentiu algu‑
ma coisa voltando à vida dentro dela. Surdamente, ela escutou os
compassos da cantilena e o chamado de Papá Legbá; fios de fuma‑
ça do fogo ritual pareciam se enroscar pelo ar até encontrar o ca‑
minho de suas narinas.
Ele ergueu os olhos para ela, como dois carvões polidos.
— Se você aparecer na cerimônia de hoje — disse ele —, eu lhe
dou minha palavra. Amanhã eu a devolverei para sua mãe.
— Tudo bem — disse ela, com simplicidade. — Eu encarno Er‑
zulie mais uma vez.

* * *

A noite estava calma, o ar quente e úmido. Já era quase meia­‑noite


e os tambores batiam ainda mais frenética e insistentemente do que

200

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 200 29/05/12 19:12


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

nunca por detrás das portas fechadas da capela. Thaïs a preparou


para a cerimônia e Angelique olhou para a cabeça grisalha e os om‑
bros caídos da escrava.
O espírito de Thaïs foi quebrado, pensou Angelique, enquanto
Thaïs se debruçava sobre ela para abotoar as pressões e amarrar os
laços de seu vestido.
O corpo da mulher estava pesado e ela gemia cada vez que preci‑
sava se erguer e ficar em pé. O trabalho na colheita a havia alque‑
brado, depois as longas horas diante da caldeira, mexendo sem
parar, tirando a espuma branca com a escumadeira, derramando o
líquido nos recipientes, respirando os vapores quentes. Angelique
começou a considerar um pensamento passageiro de levar Thaïs
com ela para Trinité, para cuidar dela, do mesmo modo que agora
teria liberdade de cuidar de sua própria mãe.
O pensamento de sua mãe inundou­‑lhe a mente e ela sentiu as
lágrimas a lhe marejarem os olhos. Já se haviam passado três anos
desde que a vira pela última vez. Ela tinha crescido e sua mãe
talvez nem a reconhecesse. Ela estava alta agora, com quadris que
se curvavam suavemente acima de suas pernas longas. Seus pe‑
quenos seios já se erguiam no peito e seus ombros eram ossudos,
mas largos. Uma penugem fina começara a crescer sob seus bra‑
ços e entre as pernas.
Enquanto ela alisava o vestido branco sobre seu estômago liso,
sentiu o vestido apertado logo abaixo das axilas, como se tivesse
sido feito para uma menina muito menor. Angelique foi atingida
subitamente por uma ideia que sempre tivera, mas a que nunca dera
grande consideração. Houvera outras deusas antes dela.
— Eles vão escolher outra Erzulie? — perguntou a Thaïs.
— Sim, minina, despois qui to fô muié.
— Mas esta é minha última vez — disse ela. — Meu pai pro‑
meteu que vai me deixar ir embora amanhã se eu me apresentar
hoje à noite.
— Qui qué dizê, úrtima veiz? — exclamou Thaïs com voz aguda.
— Ele prometeu que vai me levar de volta para minha mãe.

201

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 201 29/05/12 19:12


Lara Parker

O rosto de Thaïs sofreu uma súbita transformação e ela se er‑


gueu, esquecida de suas dores, para agarrar Angelique firmemente
com ambos os braços.
— Quié qui tu qué dizê? Quié qui tu qué dizê, ti deixá i embo‑
ra? Eli nunca vai ti deixá i embora! — exclamou ela, erguendo os
braços para o céu e soltando um gemido agudo. — Ai, Sinhô Deus
du céu, nos ajuda hoji! — continuou, um soluço sufocado cortan‑
do sua súplica.
— Ai, Thaïs, eu vou sentir saudade de você, juro que vou! — ex‑
clamou Angelique. — Por favor, não chore. Por que você ficou desse
jeito? Ai, Thaïs, você não deve ficar tão triste... Eu estou tão feliz que
isso tudo tenha acabado...
— Mais, minina, tu num sabe. Vancê num faiz ideia du qui vai
ti acontecê agora!
— Sim, eu sei. Eu vou ver minha mãe de novo. Quero tanto ser
livre outra vez, caminhar pelas ruas da vila — conversar com ou‑
tras meninas, correr na areia da praia, nadar através das ondas e
entrar em minhas grutas — talvez até encontrar algum rapazinho
gentil e mexer com ele e fazer com que ele ria! Ai, eu estou tão feliz!
Você não faz ideia de como eu me sentia solitária! E agora, tudo
acabou! Thaïs, o que há com você?
Thaïs estava sentada de novo no mochinho do canto, seus braços
ao redor da barriga, olhando fixamente para o ar e abraçando a si
mesma, balançando como se estivesse sentindo alguma dor. Ela er‑
gueu o rosto para Angelique e seus lábios formaram palavras sem
emitir qualquer som: Le sacrifice!
Nesse instante, Angelique escutou uma carroça entrando no pá‑
tio, suas rodas trovejando contra as lajes do pavimento. Correu para
a janela e viu o padre Le Brot descer desajeitadamente da carroça,
carregando uma lanterna de praia com o braço estendido e avançar
até a porta da casa­‑grande. Seu corpo rechonchudo enchia todas as
dobras de sua sotaina e, refletindo as chamas da lanterna, ela viu sua
cruz de madeira pulando sobre seu peito. Sem pensar, ela estendeu a
mão para o amuleto em seu pescoço e apertou­‑o entre os dedos.

202

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 202 29/05/12 19:12


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

Quase imediatamente, seu pai estava à porta:


— O que você está fazendo? — encarou Thaïs furiosamente. —
Traga­‑a imediatamente!
Thaïs simplesmente o encarou com uma expressão de tanto
desprezo e recusa mal-humorada, que Angelique pensou que
ela enlouquecera.
O rosto enrugado de seu pai se escureceu de raiva.
— Venha! — rosnou, puxando Angelique pelo braço.
Já estavam na metade das escadas quando encontraram o padre
Le Brot, que subia os degraus bufando. Praticamente colidiram com
o sacerdote, que ergueu então sua lanterna para revelar seu rosto
redondo e suarento.
— Oh, Bouchard! — exclamou, cheio de consternação. — Eu...
eu... eu... eu vim para lhe dizer que você não po... po... po... pode
fazer essa coisa horrível!
Mas o pai de Angelique passou por ele com completa indiferen‑
ça, quase derrubando­‑o escadas abaixo. Puxando­‑a por um braço
através do vestíbulo, ele a arrastou pela porta aberta.
O padre rotundo correu atrás deles, gritando:
— Bla... bla... bla... blasfêmia! Sacrilégio! Você invo... vo... vo..
voca o Diabo para satisfazer suas fo... fo... fo... fomes co... co... co...
covardes e vis e o Diabo virá atrás de você! Ele virá para bus... bus...
bus... buscá­‑lo, eu lhe prometo, Théodore Bouchard! Sua alma já
está perdida! Não sa... sa... sa... sacrifique sua própria fi... fi... fi... fi‑
lha aos poderes do mal!
Angelique estava estupefata perante a veemência do padre e ima‑
ginou como poderia ser uma fé tão temerosa e tão resistente aos
outros espíritos que havia pelo mundo. Mais uma vez, ela pensou
como era grande o terror que o padre sentia dos loás.
— Saia do caminho, seu velho tolo e intrometido! Volte para
suas missas fedorentas com o corpo e sangue de Cristo sobre o al‑
tar! Qual é a diferença, só me diga! Sua hipocrisia me faz rir!
— Théodore, eu lhe suplico! — gritou o padre, sem qualquer
medo aparente, lançando­‑se no seu caminho e erguendo as mãos

203

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 203 29/05/12 19:12


Lara Parker

em uma súplica que mais parecia uma prece dirigida a eles. Angeli‑
que ficou espantadíssima ao ver as lágrimas que lhe escorriam dos
olhos. Sem largar seu braço, seu pai recuou no ar um pé calçado de
bota e acertou um pontapé violento na cabeça do padre, atirando
no chão o pobre homem. Sua lanterna saltou e se quebrou contra as
pedras e a chama se apagou.
— Pai! — gritou ela, assombrada com sua crueldade, enquanto
fiapos de medo começavam a se estender ao redor de seu coração.
Mas ele levou Angelique aos puxões através do pátio escuro e em
direção à capela.
Os adoradores já estavam imersos na cerimônia e ela foi assalta‑
da pela onda de calor que emanava de seus corpos retorcidos e da
ressonância dos tambores, que dentro daquele espaço fechado pare‑
ciam lhe amortecer os próprios ossos. Os corpos negros e desnudos
dos dançarinos a envolveram num casulo escuro e ela tremeu com
o poder de sua adoração. Ela sentiu uma lascívia controlada ema‑
nando deles, mais fria e mais assustadora do que jamais sentira an‑
tes. Seu pai arrastou­‑a até o altar e obrigou­‑a a se encostar nele.
O fogo estava reduzido a carvões brilhantes, o prato de porcelana
postado a seu lado, limpo e brilhante e ela pensou no bode que deve‑
ria estar atado ali à espera de ser sacrificado, mas que não estava lá.
Ondas de pânico começaram a adejar em seu peito. A cantilena se
ergueu numa dissonância lamentosa, as melodias melancólicas e re‑
petitivas. As chamas de mil velas lançavam sombras nas paredes. Su‑
bitamente, seu pai agarrou­‑lhe as mãos e puxou­‑lhe os dois braços
para as costas. Ela gritou de dor enquanto ele lhe amarrava os punhos
com uma rápida volta de corda, dando um nó seguido de outros.
Um cálice foi erguido até seus lábios, mas ela apenas provou e
cuspiu de volta o líquido escaldante para dentro do recipiente. Ela
não queria ser drogada. Estremeceu, sentindo os nós se apertarem
mais e mais. Por que ela estava assim atada? E então, com um estre‑
meção que a sacudiu até a alma, ela finalmente entendeu. Um medo
mais frígido que qualquer coisa que sentira até então a prendeu en‑
tre seus dedos gélidos.

204

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 204 29/05/12 19:12


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

Percebeu então os olhos deles como nunca os vira antes, quei‑


mando de fome, seus rostos congelados em expressões de expecta‑
tiva estonteada. Ela sentia seus dedos arranhando­‑lhe as pernas e
sondando­‑lhe as coxas e... alguma coisa mais estava ali, alguma ou‑
tra presença escura, mãos geladas tocando­‑lhe a nuca e deslizando
espinha abaixo, por baixo de sua saia... Algum ser estava perto dela,
mais próximo que sua própria pele e uma voz como o vento gemeu­
‑lhe ao ouvido: “Eu estou aqui...”. Mas o latejar de seu coração afo‑
gava aquele som.
Nesse instante, através da fumaça, ela viu um estojo de madeira
familiar se abrir e a mão de seu pai enfiar­‑se dentro dele para retirar o
kriss. Enquanto os tambores trovejavam, o punho incrustado de joias
captou a luz do fogo e explodiu em vívidas lascas de cor. Ela se sentia
hipnotizada pelo punhal, sua lâmina dura e relampejante, flutuando
acima de sua cabeça e então, ao mesmo tempo que a cantilena se er‑
guia a um nível de uivos, ela sentiu uma súbita ferroada de dor aguda.
Incompreensivelmente, ela escutou gritos aterrorizados — se‑
melhantes àqueles que ela escutara naquela primeira noite em que
esperara na torre, os mesmos gritos que lhe haviam assombrado os
pesadelos — só que desta vez, eram seus próprios gritos. Abrupta‑
mente, ela viu o rosto de seu pai, retorcido de fúria, seus traços re‑
torcidos e esmaecidos até ficarem irreconhecíveis, enquanto a faca
descia de novo, falhando em lhe rasgar a carne.
Imediatamente, ela sentiu que o chão abaixo de seus pés se abria
e que um ar congelante subia da fenda e a envolvia em uma bainha
de gelo. Visões de páginas manchadas de tinta correram pelo seu
olhar interno. Sua mente se fechou sobre si mesma. Por debaixo de
seu amor mesclado de ódio por seu pai e da angústia de sua traição,
ela invocou o poder que sabia ter dentro de si, uma força antiga e
temperada na fornalha das idades. Lá do fundo de sua infância per‑
dida, ela arrancou a magia, a um só tempo cintilante e escura, que
estivera adormecida no lugar mais íntimo de sua alma.
Ela não precisou falar quaisquer palavras mágicas ou proferir as
fórmulas rúnicas de antigos encantamentos, mas sentiu que cada

205

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 205 29/05/12 19:12


Lara Parker

nervo de seu corpo se enrijecia e ela se tornou o kriss, afiado, face‑


tado, como flutuando no ar. Escutou o grito de terror de seu pai e
viu seus olhos se arregalarem de pavor enquanto o punhal ganha‑
va vida e se retorcia em suas mãos. Ela contemplou seu horror
enquanto ele tentava forçá­‑lo de volta, lutando contra sua descida
inexorável, mas era a mesma coisa que se ele tivesse tentado impe‑
dir o golpe de um relâmpago através do céu. Ela era como uma
flecha lançada de um arco, ela era o kriss e ela se enfiou inteira
dentro do coração dele.

206

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 206 29/05/12 19:12


Quatorze

ngelique! — chamava uma voz e um raio de luz perfurou


a escuridão. — Você ainda está aí?
— Sim! Césaire?
— Ai, que bom! Eu tava preocupado contigo. Não te mexe! Eu já
volto! — falou o rapaz, sua voz entrecortada.
— Césaire! Espere! O que aconteceu? Estamos em segurança?
— Sim. Não, não sei. Fica quietinha aí. Eu volto logo.
Era difícil saber exatamente onde ela se encontrava. Estava tre‑
mendo da cabeça aos pés, enroscada em uma bola e estivera espe‑
rando pelo que lhe haviam parecido horas, escondida abaixo do
convés. Os estalos do barco e os leves tapas da água empurrada
pelas ondas contra o casco se escutavam misturados com os gru‑
nhidos da corrente da âncora. O vento era um rugido incessante
e a pequena escuna se erguia e descia sem sair do lugar. Havia
outro som, próximo e abaixo dela, os gemidos e resmungos de
cativos humanos, escravos agrilhoados nas paredes do porão do
barco. O fedor de dejetos humanos era pútrido, quase mais forte

207

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 207 29/05/12 19:12


Lara Parker

do que ela podia suportar, mas o cheiro de infelicidade que ema‑


nava deles era ainda pior.
Ela empurrou o chapéu que Césaire lhe tinha dado mais para
baixo em sua cabeleira, enfiando os cachos em seu interior. A cami‑
sa e calças esfarrapadas que estava usando traziam o cheiro dele e
ela agarrou com as mãos uma dobra do tecido e puxou­‑a para en‑
volver seu nariz, a fim de apagar os outros odores imundos.
Imagens recortadas de sua fuga, cada uma projetada em alto­
‑relevo, como se tivessem sido iluminadas por um relâmpago de
luz, se sucediam por detrás de suas pálpebras ou nos escaninhos de
sua mente. Recordou da visão de seu pai caindo a seus pés e de sen‑
tir o santuário ficar mortalmente silencioso quando os tambores
pararam de tocar. Ela viu os escravos recuarem, apavorados pelo
seu poder, com medo de serem apunhalados e mortos também. E
então, como se aparecesse de lugar algum, Césaire desatava os nós
que lhe prendiam as mãos, sua mão forte agarrava uma das suas
firmemente e ela estava correndo com ele pela capela subitamente
esvaziada e através de suas portas escancaradas.
Era qual em um pesadelo, seus pés pareciam pesar como chum‑
bo e ela estava certa de que os negros enlouquecidos, seus desejos
inflamados e frustrados, já lhe tocavam os calcanhares enquanto
eles a perseguiam através do pátio. Ela e Césaire subiram até o
parapeito detrás do pátio, empoleirados por um instante sobre ele,
as águas escuras redemoinhando dezenas de metros lá embaixo,
antes que ele gritasse: “Pula!”. E então lá estavam os dois, quase
voando, caindo durante o mais longo dos segundos, até mergu‑
lhar nas águas do oceano.
Empurrada de volta por nuvens de bolhas, ela subiu com as mãos
em concha empurrando as águas até a superfície. Césaire estava a
seu lado, batendo desajeitadamente com as mãos e os pés, mas con‑
seguindo permanecer flutuando.
— O barco tá lá! — ele gritou e ela enxergou o longo casco negro
recortado contra as ondas, balouçando na maré, os altos mastros
desnudos perfurando o céu.

208

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 208 29/05/12 19:12


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

Ela nadou, puxando Césaire com uma das mãos. Ele cuspia água:
— Ainda bem que tu nada bastante pra nós dois!
E eles flutuaram numa corrente invisível, protegidos pelas ma‑
rolas, enquanto as luzes de bordo da escuna balouçante subiam e
depois desciam, desaparecendo da vista por alguns segundos.
Eles nadavam um pouco, depois flutuavam abraçados, até o mo‑
mento em que finalmente tocaram a madeira coberta de cracas
do casco da escuna. Exaustos, encontraram uma escada de corda
e subiram a bordo.
A quietude do tombadilho era inesperada.
— Onde está todo mundo? — cochichou Angelique.
Césaire estava atirado nas tábuas do tombadilho, respirando
com dificuldade. Então eles escutaram risos grosseiros subindo do
refeitório do barco.
— Eles estão jogando com o Velho Papai Rum — resmungou o
rapaz. Finalmente, ele sentou no piso, olhou para ela e viu que esta‑
va tremendo, seu vestido arrancado pelas vagas. — Olha, é melhor
tu botar estas roupas — falou, retirando as suas e ficando desnudo.
— Melhor eu ficar pelado do que tu. Os marinheiros não gostam de
mulheres a bordo, para um marinheirinho experiente feito eu tá
tudo bem, mesmo que seja preto. Esconde o teu cabelo pra tu virar
rapaz — completou, estendendo­‑lhe a touca de lã tricotada que
guardava no bolso.
Ela tentou não olhar para o pequeno pênis de Césaire, encolhido
e acinzentado pela água, mas ficou surpreendida ao ver como era
magro o resto de seu corpo, tremendo na brisa enquanto esperava
em pé ao lado dela.
— Vem logo! — disse ele, e a moça se levantou para acompanhá­
‑lo ao longo do tombadilho até que encontraram uma pequena es‑
cotilha que dava para o convés inferior.
— Entra aqui! — disse ele, baixinho. — Vou ver se encontro o
capitão. Ele estava esperando que eu chegasse num bote, com uma
lanterna na proa e escutaria teu pai gritando um “Ô de bordo!” bem
alto. O teu velho ia pagar pela travessia dele.

209

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 209 29/05/12 19:12


Lara Parker

Ela penetrou na escuridão. Ele fechou a escotilha por fora e sumiu.


Ela esperou por longos minutos, que se foram arrastando até se
transformarem em horas incertas. Novamente estava escondida da
vista dos outros, forçada a suportar a impotência da prisão, mas fi‑
nalmente teve tempo para pensar a respeito de tudo quanto lhe ha‑
via sucedido e sentiu­‑se torturada pelo remorso. De algum modo,
ela havia assassinado seu próprio pai — mesmo com as mãos ata‑
das, ela empurrara o punhal até se lhe cravar no coração — um
crime impensável. Ela o fizera para se salvar, mas depois havia fugi‑
do. Quem acreditaria nela, agora que estava totalmente sozinha?
Não fazia a menor ideia se o seu pai lhe falara a verdade a respei‑
to do paradeiro de sua mãe em Trinité, mas estava apavorada pela
ideia de retornar a Saint­‑Pierre. Diversos senhores de engenho sa‑
biam de sua parentela; o padre também sabia. Seria acusada de as‑
sassinato e o julgamento resultaria em sua execução — por
enforcamento? Ou, coisa ainda pior, seria submetida à tortura?
Contudo, talvez ninguém tenha percebido o que acontecera. Se os
escravos realmente se revoltassem, a morte de seu pai seria atribuí‑
da aos seus próprios escravos rebelados e ela teria liberdade para
continuar vivendo em Martinica. Mas como? Para onde poderia ir?
Havia ainda outro pensamento que a assombrava desde as pro‑
fundezas de sua mente. Seus poderes, ainda tão novos e pouco
familiares, a deixavam estupefata. Percebeu que não havia sinal
de feridas em seu pescoço, apesar das dores agudas que sentira.
Seria ela realmente uma bruxa? Algumas vezes, ela se sentira se‑
duzida pelo cerimonial dos escravos, arrastada pelo fervor dos
adoradores e os loás lhe tinham parecido espantosamente reais.
“Temo por sua alma imortal”, dissera­‑lhe o padre Le Brot. Aquele
poder que ela possuía provinha de um deus ou do lado obscuro, o
lado do mal? Seria ela, como o padre Le Brot a havia advertido,
uma serva do Diabo?
Ela podia senti­‑lo agora, ali mesmo no convés inferior, com seu
fedor abominável. A escuridão estava imbuída de sua presença e o
odor imundo era o mesmo que ela recordava, o fedor pútrido de

210

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 210 29/05/12 19:12


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

carne apodrecida. Bastava pensar nele para sentir como pairava a


seu redor, e caso ela ficasse quieta e se concentrasse, seu toque se
fazia palpável... até mesmo íntimo.
Os gemidos dos escravos acorrentados, magoados e lamuriosos
eram como a música dos largos tubos ocos do grande órgão da
Catedral de Saint­‑Pierre — os sons mais graves, aqueles tão pro‑
fundos, que mal se ouviam, mas que vibravam através dos ossos.
Aquela elegia lamentosa e melancólica se transformou na voz dele
— uma queixa mais entristecida do que poderia ser qualquer
pranto humano e, através do ar tão quente e grosso que parecia
lama flutuante, ela viu a curva da proa se abrir e a água do mar
invadir o convés inferior, erguendo­‑se em uma onda negra que
entortava o espaço, enchendo­‑o com o som de um rugido tremen‑
do que se quebrava em torno dela como se ela fosse um penhasco,
antes de ser sugado pelo retorno da maré e se mesclar novamente
com a escuridão da noite.
Ela fechou os olhos e escutou o som de seu coração latejan‑
te, rápido e agudo. Então ouviu outro ruído, profundo e pul‑
sante, subindo de dentro dela, como se dois corações estivessem
batendo juntos.
— Não — ela ofegou baixinho, os pelos se erguendo em seus
braços. — Não faça isso...
— Angelique — ele sibilou, sua voz como unhas arranhando
uma tábua. — Venha comigo agora, venha comigo...
— Quem é você?
— Fui eu que a salvei... Eu estava lá com você...
Ele estava muito próximo dela agora e ela sentia a água fria do
oceano penetrando pelas fendas mal calafetadas do casco em que
ela apoiava as costas, espalhando­‑se entre suas coxas, os dedos con‑
gelantes viajando por baixo de suas roupas, subindo entre suas per‑
nas. Ela se contraiu e esperou enquanto ele a explorava por toda
parte, circulando ao redor de sua cintura, beliscando seus seios ain‑
da minúsculos, suas carícias como ferrões de gelo, até que, final‑
mente, ela escutou um suspiro frio e leve.

211

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 211 29/05/12 19:12


Lara Parker

— Venha comigo...
— Diga­‑me quem você é... — sussurrou em resposta.
Um riso paciente e sem alegria, que poderia ser o som dos elos da
corrente da âncora se esfregando uns contra os outros, ecoou em
seus ouvidos, enquanto ele murmurava:
— Mas você sabe quem eu sou. Você sempre soube, minha linda.
Então, por que pergunta? Se quiser, posso dar­‑lhe um nome, mas
isto a satisfará?
— Sim...
— Eu sou Aquele que Vive para Você, que anseia só por você, o
Deus de Chifres...
Ela estremeceu.
— Obscuro, deixe­‑me.
Sua respiração era como os gases sufocantes do vulcão Mont Pe‑
lée, que às vezes a atmosfera carregada impelia para as praias, oleo‑
sa e pungente, e agora ela podia vê­‑lo, enquanto aquele mar de
veludo preto se transformava em vestes esvoaçantes e seus braços
possantes abraçavam as tábuas que firmavam a carena. Seus olhos
eram carvões em fogo e sua pele tão macia quanto obsidiana polida,
mas sua voz era o flutuar espumante da escuna enquanto a maré se
esbatia contra seu casco.
— Fui eu que lhe dei o poder. Você agora é minha serva. Mais
uma vez.
— Não foi você. Fui eu mesma que fiz aquilo — insistiu Angelique.
— Como você conseguiu matar seu pai?
— Eu senti o poder dentro de mim. Eu mesma fiz a escolha.
— De me usar.
— Eu sei quem você é de verdade! O Mal personificado! Te esconjuro!
O barco estalou e estremeceu como se tivesse batido em um ban‑
co de areia e o casco se encolheu às proporções de antes. A forma
musculosa e brilhante se misturou às tábuas da carena e era agora
novamente o gemido dos escravos, retorcendo­‑se em suas cadeias.
Mas a voz chiou novamente em seus ouvidos:

212

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 212 29/05/12 19:12


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

— Você jamais poderá fugir de mim. Eu permaneço em seus


pensamentos. Para sempre.

* * *

Ela estava irrequieta agora, sua pele começara a comichar. Quanto


mais tempo teria de permanecer neste buraco? A espera começou a
roer­‑lhe a paciência e ela estava a ponto de empurrar a escotilha,
para ver se a podia abrir por dentro, quando escutou passos e vozes
acima de sua cabeça. Imediatamente, sua coragem a desertou e ela
se encolheu por trás dos grossos fardos de tabaco com seu odor de
terra argilosa. Pelas frestas entre as tábuas já era possível divisar os
raios da aurora a espiar para dentro do convés inferior.
Nesse momento, ela escutou o guincho da âncora sendo erguida
e o suspiro asmático do cabrestante. A água pululava e latejava sob
a quilha e ela escutava gritos mais altos que o som das roldanas ge‑
mendo pelo esforço de puxar a lona das velas que estalejavam ao
vento. O navio começava a velejar! A escuna se moveu, ergueu­‑se e
caiu espadanando enquanto cortava as ondas como um arado e ela
sentiu seu coração batendo excitado. Para onde estariam indo? E
onde estava Césaire?
Quando ela pensou que não mais podia suportar o suspense, a
escotilha se abriu com um estalo súbito e um estremeção, e lá estava
Césaire, que se jogou no piso a seu lado. Ele trazia uma pequena
lanterna, a chama minúscula sacudida pelo movimento, depois
aquietada pelo ar parado. Ela ficou contente ao ver que ele conse‑
guira um par de calções e uma camiseta de jérsei, mas a melhor
parte era que ele ostentava um sorriso que lhe ia de orelha a orelha.
— Césaire! Finalmente! O que aconteceu?
— Tamos indo para o mar! — ele exclamou. — Guria, nós tive‑
mo uma sorte danada!
— Para o mar... mas para onde?
— Para a ilha grande — Hispaniola! Para a cidade mais linda
— Port­‑au­‑Prince! E lá, nós fiquemo gordos e ricos!

213

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 213 29/05/12 19:12


Lara Parker

— Quanto tempo leva a viagem?


— Dez dias — duas semanas...
— Mas por quê? — indagou ela, desconfiada. — Pensei que ía‑
mos ficar no porto da enseada até de manhã. O que aconteceu? —
indagou, batendo com os dois punhos nas coxas. — Ai, eu odeio ter
de ficar aqui embaixo, sem poder saber o que está acontecendo! Por
favor, não posso ir até o tombadilho?
— Mas é justamente isso! Tu pode! Tu pode subir agora. Só tem
uma coisinha.
— Qual é?
— Tu tem de cortar esses cabelos. Se eles veem que tu é uma
guria, eles te levam de bote e te deixam solta na primeira ilhota de‑
serta que encontrarem na viagem!
— Cortar meus cabelos? Mas com o quê?
— Com isto! — disse ele, brandindo um cutelo, um facão
de marinheiro.
Instantaneamente e sem discutir mais, ela tirou o gorro de lã
e deixou os cachos dourados caírem até abaixo de seus ombros.
Pegando uma mecha, Césaire foi serrando com a lâmina rombu‑
da até que ficou solto em sua mão. Jogou­‑o no colo dela e come‑
çou a cortar outra. O tempo todo, ele tagarelava com um
entusiasmo irreprimível.
— Acabei de subir ao mastro principal, para desfraldar o ga‑
lhardete lá em cima. Santo Deus, esta é a melhor escunazinha em
que já estive!
— Conte­‑me tudo o que aconteceu. Você desapareceu a noite
inteira. Conseguiu encontrar o capitão? — indagou ela.
— Ah, consegui! Foi meio difícil, mas eu me salvei pela mi‑
nha esperteza! E também porque eu sei marinhar pelos mas‑
tros muito bem!
— Ah, não! Você arriscou sua vida por mim de novo, Césaire?
— Primeiro eu me esgueirei pelo tombadilho e escutei pela vi‑
gia que dava para a cabine do capitão. Eu escutei quando ele dizia
aos oficiais que os escravos estavam incendiando Saint­‑Pierre e

214

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 214 29/05/12 19:12


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

que não iam mais poder comerciar ali por uns tempos. Eles não
podiam mais descarregar e vender o tabaco que trazem a bordo
no porto grande da cidade e então decidiram levantar âncora e
partir para o outro lado do Mar das Caraíbas... Eles querem pe‑
gar mais escravos por lá, os que já têm não acham suficientes para
pagar a viagem. Eles discutiram durante horas e finalmente se
decidiram a velejar.
— Mas quando você conversou com o capitão? — indagou An‑
gelique, enquanto via outra madeixa de seu cabelo cair em seu colo.
Césaire estava agachado junto dela e esfregava a lâmina em seus
cachos como se estivesse serrando madeira.
— Uau, essa foi a parte mais assustadora. Eu tava lá agachadinho
na janela, escutando tudo e pensando em qual seria o melhor plano
a tomar, quando um marinheiro me apareceu por trás e me agarrou
pela orelha! “O que é que tu tá fazendo aqui, guri? E nu em pelo,
ainda por cima?”, ele gritou, como se tivesse pegado uma cabra da
montanha e pretendesse enfiar num espeto para assar. Aí eu disse:
“Eu tenho permissão para subir a bordo, senhor!”, e ele diz: “De
quem?” E eu digo: “Do capitão”. E aí ele me arrastou, pelado como
um urubu, escada abaixo e até o alojamento do capitão. Ele disse ao
capitão que eu era um clandestino!
— Deus do céu! O que eles fazem com clandestinos? — inter‑
rompeu Angelique.
— Bem, o capitão já estava pensando em mandar me jogar pela
amurada, quando eu disse: “Senhor Capitão, eu teria o maior pra‑
zer de subir pelo seu mastro principal e consertar aquela vela real
que tá rasgada, patrão!” Eu nem sabia se havia alguma vela rasgada,
mas achei que podia tentar a sorte, porque... Ora, sempre tem uma
vela rasgada! — explicou Césaire. — Ele não acreditou que eu pu‑
desse subir até lá em cima e disse que os rapazes de cor têm medo
das alturas e aí eu disse: “Experimente pra eu ver!” Assim que a luz
se abriu, todos vieram ao tombadilho para me ver tentando, ou pro‑
vavelmente para me ver cair, o que seria um baita divertimento
para eles. Eles mal sabiam que eu trepo nas escadas de corda melhor

215

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 215 29/05/12 19:12


Lara Parker

que um macaco! — completou ele, com uma risada, balançando­‑se


nos calcanhares.
— Por que você não desceu para me contar antes?
— Eles me deixaram trancado no quarto dos beliches até de ma‑
nhã e aí é claro que eu não pude vim te ver...
— Bem, e você conseguiu? Você subiu até o alto? — ela pergun‑
tou, seus olhos vibrando de entusiasmo.
— Ai, guria, mas que pergunta é essa? Tu ainda não me conhece?
Até sem as escadas de corda, eu podia ter subido agarrado no mas‑
tro tão fácil que nem um coqueiro e deixava eles todos de boca
aberta até que o vento entrasse... — gabou­‑se o rapaz. — Mas eu fiz
o melhor que podia para melhorar o espetáculo. Quando eu che‑
guei no topo, vi que a vela principal não estava rasgada, mas toda
frouxa e eu amarrei de novo todos os nós e firmei as cordas nas ar‑
golas e quando eles estavam todos de pescoço virado para cima me
olhando, eu me soltei e caí! Eu caí no travessão logo abaixo e me
agarrei com uma mão só! Claro que foi tudo faz de conta, mas colou
muito bem! Eles ficaram tão espantados, que o capitão disse que eu
podia ficar a bordo.
— Mas, e eu? — falou Angelique, ansiosa. — Quanto tempo eu
ainda vou ter de ficar encerrada aqui embaixo, no meio do escuro?
Eu já não aguento mais!
— Vai com calma, guria — riu­‑se ele. — Eu me virei por ti
também... Depois eu disse a eles que havia outro rapaz da minha
idade escondido no convés inferior e o capitão riu e me deu um
tapa de brinquedo na orelha, zapt! Bem assim... E me disse que eu
era o sujeitinho mais insolente que ele já tinha encontrado! Aí um
dos oficiais se meteu na conversa e disse pra ele que eles estavam
precisando de um garoto na cozinha e ele disse que era verdade e
vamos conhecer esse outro rapaz que deve ser tão temerário quan‑
to você! Ele disse: “Assim que tivermos começado a navegar, me
leve esse outro a meu alojamento”. Pronto! Tu tá bem assim! Ago‑
ra põe o meu gorro de volta para não parecer que o teu cabelo tá
espetado demais!

216

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 216 29/05/12 19:12


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

Césaire e Angelique subiram pela escada íngreme até o tombadi‑


lho oscilante e ela piscou com a luz da aurora. O navio estava vivo,
cheio de marinheiros atarefados, uns no cordame e outros nas li‑
nhas, gritando e puxando com força. Um ou dois dos homens os
olharam pelo canto dos olhos, mas a maior parte simplesmente os
ignorou, concentrados em seu trabalho de ajustar as velas para o
timoneiro conduzir o barco na direção desejada com o apoio dos
ventos. Eles já estavam tão longe de Martinica, que ela pôde ver o
alto da ilha seguinte, Dominica, aparecendo no horizonte distante
e o brilhante Mar das Caraíbas se expandia em todas as direções, o
sol nascendo à direita e o vento em popa. Todas as velas estavam
enfunadas e empuxando, e o oficial que ela pensou ser o capitão
estava parado na ponte, olhando para o timoneiro que segurava a
roda do leme, com uma das mãos no quadril e seu casaco azul de‑
sabotoado no colarinho.
Um momento depois, lá estava ela, de pé diante do homem im‑
ponente, imunda e descalça, a touca cobrindo seus cabelos tosados
e a cabeça baixa.
— Quer dizer, então, meu rapaz, que vocês dois decidiram viajar
como clandestinos em meu barco, não é verdade? — disse ele, seve‑
ramente. — Você sabe que isso é um crime, não sabe?
Angelique estava com medo de erguer o rosto, assustada de‑
mais para falar. Simplesmente concordou com a cabeça e con‑
tinuou olhando para as tábuas que formavam o assoalho do
castelo de proa.
— O que eu deveria fazer era levar vocês dois de volta para
Saint­‑Pierre — continuou o capitão — e entregá­‑los às autorida‑
des locais, mas não dá para fazer isso, não com essa rebelião in‑
fernal. Só Deus sabe se eu poderia encontrar a milícia... Olhe
para trás de você.
Ela obedeceu e, sem a menor dúvida, diversas nuvens de fumaça
escura se erguiam das colinas acima do porto. Então, eles tinham
mesmo se rebelado! Os maruns tinham organizado a revolta e os
escravos incendiado Saint­‑Pierre! Seu coração pulou uma batida.

217

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 217 29/05/12 19:12


Lara Parker

Eles teriam destruído o canavial de seu pai? Como estaria Thaïs?


Esperava que sua mãe estivesse em algum lugar seguro.
— Agora escute aqui, rapazinho — prosseguiu o capitão. — Eu
tinha feito uns arranjos lucrativos para tomar a bordo uns cavalhei‑
ros com suas famílias e os levar para um lugar seguro, mas decidi
que não era conveniente arriscar minha carga durante esse maldito
levante e assim velejamos com a maré matinal e, como você bem
pode ver, já atravessamos metade do canal, o vento está ajudando
nosso leme. Eu devia jogá­‑lo no mar, mas você está com sorte. Pre‑
cisamos de um ajudante na cozinha. O que me diz? Está de acordo?
— Sim, senhor — disse Angelique baixinho, falando pela pri‑
meira vez. Ela arriscou uma espiada ao rosto do capitão. Ele era um
homem alto e usava uma barba completa, já grisalha, com rugas
profundas ao redor dos olhos. Ela viu de relance que sua mão direi‑
ta havia perdido os três dedos médios e que ele apertava o polegar e
o mínimo contra o cabo de uma espada.
— Pois muito bem — concluiu o capitão. — Trabalhe bastante e
ajude o cozinheiro no que ele precisar, faça tudo que ele mandar,
não lhe crie problemas, e terá uma viagem segura até Hispaniola,
gratuita ainda por cima, eu poderia dizer. O que eu vou fazer com
você depois que chegarmos lá vai depender de seu desempenho du‑
rante os próximos dez dias. Agora saia da minha vista! — ordenou
e fez um sinal com a testa para Césaire. — Esse macaquinho vai lhe
mostrar o caminho. Temos uma porção de panelas para esfregar,
tenho certeza, e o porco salgado tem de ser bem batido para poder
cozinhar. E você vai nos servir o chá no tombadilho. Ei, espere um
minuto! O que é que você tem de me dizer, rapaz?
— Obrigado, senhor — ela conseguiu balbuciar.
O capitão olhou­‑a com as vistas apertadas e respondeu:
— Hum!
Ela correu atrás de Césaire.
— Apura! — cochichou Césaire. — Antes que ele mude de ideia!
Correram pelo tombadilho, passando pelo grupo de jovens ofi‑
ciais, que estavam parados junto ao gradil, olhando para Martinica,

218

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 218 29/05/12 19:12


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

falando com entusiasmo e fazendo gestos em direção aos incêndios.


Um jovem alto e bem apessoado, com cabelos castanhos crespos, lan‑
çou um olhar em sua direção. Nesse momento, o barco afundou na
depressão formada por uma onda imensa que se aproximava e o tom‑
badilho estremeceu e se inclinou. Césaire agarrou Angelique pelo
braço a fim de conservar­‑lhe o equilíbrio, mas ela gritou, escorregou
e caiu, batendo diretamente contra um par de pernas uniformizadas.
— Ah, mil perdões, senhor!
— Ôpa! Que foi isso? — disse o jovem, porém ao ver que ela esta‑
va toda amontoada no chão, sorriu e estendeu o braço para ajudá­‑la a
se erguer. Enquanto ela se levantava desajeitadamente, ergueu os
olhos para ele. Ficou espantadíssima ao ver­‑lhe o rosto. Ela o conhe‑
cia! Para seu total espanto, reconheceu o rapaz que havia visto naque‑
la noite de carnaval, o rapaz com que havia sonhado tantas vezes e
que conservara vivo dentro de sua mente durante três longos anos.
Inconscientemente, ela segurou seu amuleto, dentro do qual
ainda se achava a selenita, a pedra-da-lua, e abriu a boca, formando
em silêncio o nome do jovem oficial: “Barnabas...”
Ele franziu­‑lhe a testa e se inclinou mais para perto:
— O que você disse, rapaz?
— Eu... eu não falei nada, senhor...
— Pensei que tivesse dito meu nome... Eu o conheço de algu‑
ma parte?
— Nã... nã... não, senhor — gaguejou ela.
— O que está fazendo a bordo?
— Sou o auxiliar do cozinheiro, senhor...
— Ah, sim, fui eu mesmo que o recomendei. Estava com medo
de que o capitão o jogasse na “bebida” — comentou com um sorri‑
so agradável. “Ainda não tem pernas de marinheiro, já vi...”
— Não, senhor.
— Bem, então se cuide para permanecer o mais tempo possível
abaixo do tombadilho, no seu devido lugar. Podemos pegar uma
tempestade e é possível que as ondas o joguem por cima da amurada.
— Sim, senhor. Obrigado, senhor.

219

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 219 29/05/12 19:12


Lara Parker

Césaire puxou­‑a pelo braço, mas o jovem a fitava diretamente


nos olhos. Ela lembrava de seus olhos, escuros e alegres de conten‑
tamento e da fileira de sardas que lhe cruzava o nariz. Seus modos
corteses e delicados também eram familiares.
— Que idade você tem, rapazinho? — indagou Barnabas.
— Treze, senhor...
— Uma boa idade, mais jovem do que eu quando saí para o mar
pela primeira vez. E a propósito, você não tem motivo para ficar
envergonhado. Nessa minha primeira vez, eu me segurava a uma
corda de segurança o tempo todo — com medo de cair de cara no
tombadilho e porque eu precisava do oceano inteiro para vomitar,
pois enjoei a viagem inteira!
Ele deu uma gargalhada cordial, como de um camarada para
outro e bateu­‑lhe gentilmente no ombro, partilhando de uma brin‑
cadeira, de homem para homem.
— Eu não enjoo, senhor... — ela se aventurou a dizer, por mais
que Césaire lhe fizesse sinais para apurar.
— Ah, não? Ora, pois então eu tenho inveja de você, rapaz. Quem
sabe, alguma vez no futuro, você me possa contar o seu segredo...
Ela se virou para descer a escada que dava para a cozinha, mas o
oficial a chamou de novo.
— Espere um minuto, rapaz!
Ela olhou para trás, meio assustada. Ele olhava para ela com
maior atenção agora e sua mão subiu até os lábios.
— Sinto que há alguma coisa familiar em você. De onde você é?
— De Martinica, senhor!
— Sim, mas de que parte?
— Basse­‑Pointe, senhor!
— Hummm... mas o que será? Esses seus olhos... azuis como
ásteres selvagens... Ah, está bem, a memória nos passa a perna al‑
gumas vezes. Não posso tê­‑lo conhecido antes, de jeito nenhum.
Mas boa sorte em sua primeira viagem. Espero que se torne um
ótimo marinheiro!
Césaire puxou­‑a para o interior da cozinha.

220

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 220 29/05/12 19:12


Quinze

arnabas! Acorde! Preciso falar com você!


Batiam incessantemente à sua porta e Barnabas foi ar‑
rancado com violência de seu devaneio. O diário estava em seu
colo, onde o deixara, completamente espantado pela última pas‑
sagem que lera.
— Barnabas! Você está aí? — era a voz de Carolyn.
Ele foi abrir a porta e encontrou­‑a em pé, usando um chambre,
os cabelos despenteados e uma expressão de pavor no rosto.
— Carolyn, o que foi?
— Ai, Barnabas, é a mãe. Ela levou um tombo!
— Está muito ferida?
— Eu não sei. Ela acordou no meio da noite, tentou sair da cama,
mas ao se erguer, sentiu uma tontura forte. Ela disse que teve a im‑
pressão de que todo o sangue descia da cabeça...
— Onde ela está agora?
— Está deitada. Júlia está com ela e me pediu para vir buscá­‑lo.
Ela precisa de sua ajuda!

221

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 221 29/05/12 19:12


Lara Parker

— É claro, fico feliz — quer dizer, vou imediatamente. Diga­‑lhe


que já vou.
Ele trancou a porta e tentou concentrar­‑se em onde deixara
seus chinelos. Então achou que não devia colocar o chambre sobre
o pijama, decidindo que o melhor seria se vestir antes de descer.
Seu cérebro estava girando com as histórias do diário. Aquela ter‑
rível viagem! Ele era ainda tão jovem! O ataque dos piratas... uns
corta­‑gargantas impiedosos, que o haviam posto a ferros. Havia
aquele com a cicatriz no rosto, que dera uma gargalhada e dissera
que poderiam conseguir um bom resgate em troca de um
“Collins”, caso conseguissem levá­‑lo vivo de volta até o Maine.
Havia aquele vilão de coração negro que queria matá­‑lo só para
ver se ele tinha mesmo sangue azul. Sua certeza total de que iria
morrer. Então, aquele pedacinho de gente, o rapazinho imundo
da cozinha, que o havia libertado! Ele jamais soubera seu nome
— era só o grumete que trabalhava com o cozinheiro e que fugia
também para salvar a própria vida — tão rápido como mercúrio
— ele o libertara e depois sumira!
Ele enfiou as calças e sentou­‑se na cama para atar os sapatos.
Arrancado das fauces da morte. Os patifes que o guardavam mor‑
talmente doentes, em uma agonia de vômitos, incapazes de impedir
seu jovem resgatador, que era... impossível! Uma coincidência ab‑
surda demais sequer para ser considerada. Seria possível que sua
vida e a dela tivessem se desdobrado uma sobre a outra, como se
houvesse a mão de algum fado a dirigi­‑las assim, antes que ele se‑
quer a conhecesse e... a desejasse? Incompreensível!
Foi neste estado de mente confuso que Barnabas se apresentou
no quarto de Elizabeth. Júlia estava sentada ao lado dela, vigiando
a dama idosa, seu próprio rosto enrugado de preocupação.
— Ai, Barnabas... Obrigado por vir. Odeio pedir, mas você não
se importa? Willie já está com o carro no portão e nós precisamos
que você vá até a cidade comprar alguns remédios. Ela não tem to‑
mado seus remédios — para a pressão sanguínea — e eu temo que
ela tenha tido uma queda repentina...

222

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 222 29/05/12 19:12


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

— Culpa minha — disse Elizabeth fracamente, erguendo a ca‑


beça do travesseiro. — Minhas pílulas acabaram e...
— Fique quietinha agora, minha querida, continue deitada e
descanse. Está tudo bem, Barnabas pode ir buscar seu remédio ago‑
ra — disse Júlia, tranquilizadoramente.
— A farmácia está aberta a esta hora? — indagou ele.
— Sim — disse Júlia. — Aquela que fica em Main Street — a
Pierson’s. Eu já telefonei e eles já aviaram a receita e estão com o
medicamento preparado para pronta entrega.
— Vou até lá agora mesmo.
— Muito obrigada, primo — murmurou Elizabeth das profun‑
dezas do leito.
— Ela vai ficar bem, tão logo tome os remédios...
— Não precisa dizer mais nada. Estou satisfeito em poder ajudar
— garantiu­‑lhes Barnabas e saiu do quarto.

* * *

A aurora já quase despontara quando Willie ajudou Barnabas a subir as


escadas de volta para seu quarto. Júlia, que estivera frenética de preocu‑
pação, saiu correndo de seu quarto no momento em que viu Barnabas
cambaleando pelo corredor, um dos braços ao redor do ombro de Willie.
— Barnabas! Meu Deus! O que aconteceu?
Ele se virou para contemplá­‑la com olhos inexpressivos e aver‑
melhados. Sua camisa estava coberta de sangue coagulado, mas um
fio de sangue recente continuava a correr de seu pescoço. Ele gemeu
e desabou entre seus braços. Suportando seu peso o melhor que
podia, ela olhou em súplica para Willie:
— Mas o que foi que aconteceu?
— Eu não sei — respondeu Willie. — Ele não conseguiu me di‑
zer. Acho que foi atacado por algum tipo de animal.
Barnabas dobrou o braço e tocou com a ponta dos dedos no pes‑
coço, que ainda sangrava dolorosamente. Enquanto os dois o colo‑
cavam na cama, Barnabas gemia e sacudia a cabeça.

223

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 223 29/05/12 19:12


Lara Parker

— Ele vai ficar bem? — perguntou Willie.


— Tenho de examiná­‑lo primeiro — disse Júlia, lutando para
manter a voz calma. — Você tem o remédio da Sra. Stoddard?
— Está bem aqui.
Willie lhe estendeu um saco de papel amassado, também man‑
chado de sangue.
— Eu... eu tive de trocar um pneu depois que estourou e... e o
carro estava numa ladeira... eu tive de procurar uma pedra para
colocar atrás da roda traseira e...
— Está tudo bem, Willie, depois você me conta. Apenas leve de‑
pressa o medicamento para a Sra. Stoddard. Ah, sim, jogue fora esse
saco primeiro.
— Tudo bem, pode deixar — disse ele, seus passos pesados soan‑
do no corredor.
Júlia dobrou­‑se sobre Barnabas, desabotoando­‑lhe a camisa, que
estava empapada de sangue. Ele gemeu e abriu os olhos.
— Barnabas, você pode me dizer o que aconteceu?
Ele a fitou, estonteado e sem piscar, como se estivesse olhando
para um lugar muito distante.
— Barnabas...
— Júlia... Eu fui seguido por alguma criatura — ele sussurrou.
— Eu... eu... eu nem sei o que era — parecia um homem — mas não
era um homem — era forte demais — algum tipo de demônio...
— Ele... estava... usando roupas de homem?
— Um terno, acho eu... não... uma capa. E tinha a força de um...
de um... — ele balbuciou, sua voz se extinguindo e então ele recaiu
no travesseiro com um estremecimento.
Júlia foi até o banheiro e retornou com uma grande bacia esmal‑
tada e diversas toalhas de rosto, que ela colocou na mesinha de ca‑
beceira. Seu pé bateu em um pequeno objeto caído no chão,
semiescondido sob a cama e se inclinou para ver o que era. Ela er‑
gueu o diário e o manteve por um momento à luz do abajur.
— Você andou lendo isto a noite passada? — indagou em um
tom de voz que traía sua desaprovação.

224

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 224 29/05/12 19:12


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

— Que foi... que você disse?


— Você estava lendo o diário de Angelique?
Ele encarou o teto.
— Eu já lhe disse que não me despertou o interesse.
Ela colocou o livro sobre a colcha, nos pés da cama e gentilmen‑
te começou a limpar o sangue do pescoço de Barnabas, com medo
do que poderia encontrar. Lavou­‑lhe as feridas com um pano úmi‑
do, mergulhou­‑o na água da bacia, torceu o pano e limpou seu pes‑
coço novamente.
Barnabas começou a falar em um murmúrio que parecia quei‑
mar de intensidade.
— Ele apareceu assim, do nada...
— Onde vocês estavam?
— Perto das docas. Fui eu que disse a Willie que tomasse o ca‑
minho da margem. Estávamos na parte mais funda da Rua do Ca‑
nal, quando passamos por cima de alguma coisa — alguma coisa
afiada, como um caco de garrafa — e o pneu furou.
— Ah, mas esse é um lugar muito perigoso, só armazéns, não é?
Ela encontrara um corte irregular, logo abaixo da clavícula de
Barnabas e ele se encolheu de dor quando ela o tocou com a toalha.
— Sim eu vi vários vagabundos — homens sem­‑teto debruçados
sobre um fogo aceso numa lata de lixo — e então eu disse para mim
mesmo, ora, se eu sair do carro, pelo menos este lugar não está
completamente deserto.
— Você nunca deveria ter saído a caminhar por lá sozinho.
— Pode ser, mas eu estava ansioso para comprar o remédio, você
sabe. Elizabeth dependia de mim e eu tenho a sensação de que a
família acha que eu sou... irresponsável.
— Isso não é verdade — contestou Júlia. — Roger é condescen‑
dente com todo mundo — é a sua maneira de ser. Não há motivo
para você tomar isso pessoalmente.
Júlia era sempre tão calma e simpática, pensou ele, sempre capaz de
confortar e tranquilizar. Mas havia alguma coisa diferente em sua atitude
neste momento, parecia distante... removida. Ele fez uma careta de dor.

225

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 225 29/05/12 19:12


Lara Parker

— Vamos, continue deitado. Não se esforce. Você nem precisa


falar mais.
— Parecia uma tarefa tão simples — disse ele, impacientemente.
— Ir até a cidade com Willie, apanhar o medicamento e retornar. E
era uma tarefa necessária, Elizabeth precisava do remédio. Nem me
passou pela cabeça ficar parado dentro do carro, esperando que
Willie trocasse o pneu.
— Claro que entendo. Então, o que houve?
— Eu deixei Willie ali, enquanto ele tirava o macaco da mala do
carro. Você sabe, há uma ladeira ali, a rua sobe em um ângulo agudo...
— Subindo das docas...
— Pois é. Bem, eu fui subindo pela calçada, pensando que, quan‑
do atingisse a rua principal, era somente uma questão de dobrar a
esquina à direita e caminhar até a farmácia, que fica apenas a três
quarteirões de distância...
— Você pode sentar­‑se, para que eu remova sua camisa?
Barnabas sentiu uma leve irritação pelo fato de que Júlia não
parecia estar prestando atenção ao que ele dizia, quase como se
pensasse que o que lhe ocorrera fora culpa sua.
— Seja como for, eu estava subindo a ladeira e cheguei a um tre‑
cho da calçada em que as lâmpadas dos postes estavam apagadas.
Estava extremamente escuro, mas eu percebi que havia diversas
aberturas em formato de grandes arcos que entravam profunda‑
mente pelas paredes laterais.
— Sim, antigamente ali ficava uma cocheira — disse ela.
— Realmente? Sim, está certo, agora que você mencionou, as
aberturas eram grandes o bastante para a passagem de carrua‑
gens puxadas por cavalos — arcos de tijolos e portões de madeira,
bem lá no fundo. Quando eu passava por uma das aberturas, en‑
xerguei um sem­‑teto adormecido ali, sob uma pilha de jornais.
Passei para o meio da rua, dando distância suficiente, não por
receio, mas para não perturbar o infeliz, mas quando olhei de
volta para ele, percebi que seus olhos estavam abertos e arregalados,
olhando em frente sem ver e havia uma grande poça de sangue

226

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 226 29/05/12 19:12


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

sobre os jornais em que descansava a cabeça. De repente, percebi


que estava morto.
— Santo Deus! Você acha que alguém o assassinou?
— Ah, não sei. Eu estava tão determinado em ir buscar o remé‑
dio, que simplesmente passei por ele às pressas. Foi uma coisa tão
impiedosa de minha parte, tanta indiferença, apressar­‑me daquele
jeito, mas notei imediatamente que não havia nada que pudesse fa‑
zer por ele e pensei que Elizabeth estava viva, mas podia estar pre‑
cisando desesperadamente de mim. Decidi que chamaria a polícia
tão logo retornasse a Collinwood.
— Provavelmente ele esteve em alguma briga de bar.
— Talvez, mas estava deitado no meio de jornais.
— Ele tinha sido atirado ali na entrada do portão?
— Sim, é possível. Bem, seja como for, eu finalmente cheguei em
Main Street e, mesmo que não houvesse trânsito a essa hora, pelo
menos as vitrines estavam abertas e bem iluminadas. Eu estava an‑
dando rapidamente em direção à farmácia — podia ver o sinal lu‑
minoso da Pierson’s acendendo e apagando — quando pensei que
estava escutando alguém atrás de mim.
— O que quer dizer?
— Alguém caminhando. O som de passos. Porém, passos to‑
talmente em sincronia com os meus, porque quando eu parava,
paravam também; e quando eu recomeçava a caminhar, lá esta‑
vam eles de novo.
— Quem sabe foi um eco. Algumas vezes isso ocorre em uma
rua deserta.
— Foi exatamente o que eu decidi que era, porque quando escu‑
tei o som de passos ficando mais fortes, girei nos calcanhares. E não
havia ninguém ali!
— Deve ter sido aterrorizante — sugeriu Júlia.
A essa altura, a bacia de água estava vermelha de sangue e Júlia
ainda continuava a retorcer o pano e a passá­‑lo de novo pelo peito e
pela parte superior de um de seus braços. Ela voltou ao banheiro,
esvaziou a água tingida de vermelho­‑escuro na latrina e encheu de

227

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 227 29/05/12 19:12


Lara Parker

novo a bacia na pia. Quando retornou, ela começou a trabalhar nos


rasgões feios que lhe marcavam a pele do pescoço.
— Seja como for — prosseguiu Barnabas, ainda mais agitado
— eu cheguei até a farmácia e, por sorte, Pierson me esperava, com
a sua prescrição já preparada. Parece que o empregado que em geral
ficava no turno da noite estava doente. Ele me entregou as pílulas e
indagou a respeito do estado de Elizabeth e fez comentários sobre a
possibilidade de chover amanhã. No momento em que ele estava
registrando a compra na caixa, aquelas campainhas tocando a cada
volta da manivela, ele ergueu os olhos para a vitrine da loja e estre‑
meceu involuntariamente. Juro por Deus que todo o sangue sumiu
de seu rosto e ele ficou pálido como um cadáver.
— Mas o que foi?
— Foi o que eu lhe perguntei imediatamente: “Você viu alguém
pela vitrine?” Mas no mesmo instante, a palidez o deixou, ele reco‑
brou o controle e sacudiu a cabeça. “Não foi nada, só uma alma
penada que às vezes anda por aí...” — comentou rindo, como se
fosse uma piada. Mas eu notei uma mudança abrupta em seus mo‑
dos, porque logo depois que eu paguei e recebi o troco, ele me levou
às pressas até a porta e assim que eu saí, fechou­‑a por dentro sem a
menor cerimônia, passou a tranca e baixou o cortinado da vitrine.
Quase imediatamente, apagou as luzes e eu o vi caminhar de volta
rapidamente para os fundos da loja, em que, suponho eu, existe
uma porta traseira dando para alguma travessa.
— Claramente ele se assustara com alguma coisa — sugeriu Júlia.
— Decerto. Um momento mais tarde eu escutei lá atrás o som de
um motor sendo acionado e imediatamente pensei em lhe pedir
uma carona — concordou Barnabas.
— Mas é claro! Se ele havia decidido trancar a loja e ir embora,
poderia perfeitamente tê­‑lo levado de volta até onde estava seu car‑
ro! — afirmou ela.
— Um velho automóvel Packard saiu da travessa e Pierson en‑
trou na rua principal com tanta rapidez, que chegou a passar por
cima da esquina da calçada com o pneu dianteiro e disparou em

228

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 228 29/05/12 19:12


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

grande velocidade — explicou Barnabas. — Eu nem tive oportuni‑


dade de lhe acenar.
— Mas que pena!
— Contudo, eu falei com meus botões e disse que eram só uns
três ou quatro quarteirões e que, a essa altura, Willie provavelmen‑
te já trocara o pneu e assim eu caminhei, ou melhor dito, comecei
uma corrida de resistência, tipo um cooper, de volta para a Rua do
Canal e dobrei na esquina, sem maiores problemas. Foi nesse ponto
que escutei os passos novamente.
— Você não passou pelo corpo do morto? — indagou Júlia, to‑
talmente entretida pela história.
— Não, eu intencionalmente desci pela calçada oposta, olhan‑
do o tempo todo por cima do ombro e tentando ver de relance o
meu perseguidor infernal e suponho até ter dado uma olhada ou
duas para o cadáver — continuou ele —, mas eu estava mais pre‑
ocupado com o que tinha à minha esquerda, alguns edifícios es‑
curos de madeira...
— Estábulos — informou­‑o Júlia.
— O quê?
— São os velhos estábulos, esses prédios de madeira que você viu...
— explicou­‑lhe. — Ficam justamente em frente das cocheiras...
— Exatamente. Tolamente, eu não percebi se havia alguma por‑
ta aberta ou um canto escuro entre os prédios, quando, surgindo
aparentemente de parte alguma, surgiu este... diabo!
— Ai, meu Deus!
— Ele usava uma capa negra e... saltou sobre mim pelas costas
ou, pensando bem, pareceu até pular do alto. Sim, ele caiu de algum
lugar e montou­‑me nas costas...
Júlia não sabia o que dizer, seus lábios entreabertos.
— Sua força, Júlia, estava tão fora de proporção para seu tama‑
nho, que era de um ser humano normal, não era em absoluto um
gigante, ainda que me desse a impressão de flutuar acima do solo
como se voasse e caísse de novo sobre mim, rasgando meu pescoço
com unhas longas... unhas aduncas ou, pior ainda, com seus dentes.

229

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 229 29/05/12 19:12


Lara Parker

— O que você pensou que fosse?


— Ora, um ladrão, um assaltante, na hora eu não fazia ideia do que
fosse. Tentei derrubá­‑lo e me livrar dele, mas ele estava pendurado em
minhas costas como um grande... macaco... sua respiração sibilante,
seus dentes rangendo. E então, naturalmente, eu soube do pior.
— Barnabas — você não quer dizer — que deve ter sido...
— Um vampiro.
— Ai meu Deus, e ele?
— Ele fez escorrer meu sangue, mas não... se alimentou.
— Então não houve...?
— Não houve penetração — garantiu­‑lhe Barnabas. — Ele só
me sangrou, eu nem cheguei a perder a consciência, não senti suas
presas penetrarem em meu pescoço. O que foi que você descobriu?
Ela virou Barnabas para a janela, em que um solzinho triste se
apresentava amortalhado em nuvens espessas e inspecionou na luz
as diversas feridas, agora limpas de sangue.
— Há cortes profundos, rasgões na pele, quer dizer, arranhões,
mas não há marcas de presas. Você foi afortunado. Como conse‑
guiu escapar?
— Não sei. Ele parecia desajeitado... Era como se fosse...
novo... inexperiente.
— Ou talvez tenha sido justamente... o seu sangue — o elixir
misturado a suas veias — o sabor ou o cheiro... que o repeliu.
— Mas é claro. Você tem toda a razão. Deve ter sido isso.
Subitamente, Barnabas sentia­‑se muito cansado. Suspirou pro‑
fundamente e seus ombros se afrouxaram. Júlia colocou uma ban‑
dagem sobre os cortes.
— Acho que, desta vez, você se salvou. Mas vou lhe administrar
uma injeção, só para garantir — decidiu­‑se.
Ela se virou para sua maleta médica, retirou a hipodérmica, dre‑
nou uma cápsula de fluido através da agulha e voltou para o lado de
Barnabas. Enquanto ela injetava o soro, disse­‑lhe:
— Você precisa descansar agora. Eu ficarei aqui, velando por
você. Não sairei enquanto não tiver adormecido.

230

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 230 29/05/12 19:12


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

— Deus a abençoe, Júlia — disse­‑lhe, seus olhos cheios de grati‑


dão. — É só você que eu tenho no mundo. Você sabe disso.
Ele relaxou no colchão e no travesseiro e ela puxou o lençol de
cima e as cobertas até seu queixo e o beijou. Então assentou­‑se a seu
lado, até que ele recaiu em um sono agitado. Mais de uma vez ele ge‑
meu e se debateu ou gritou alguma coisa sem nexo e ela foi obrigada
a acalmá­‑lo com palavras gentis e sua mão a lhe acariciar a testa.
Enquanto estava sentada a seu lado, ela viu de relance o diário
que deixara aos pés da cama, no mesmo lugar em que o pusera.
Hesitando um momento, ela se inclinou e segurou­‑o com a mão
direita, endireitou­‑se e o abriu em uma página ao acaso, depois em
outra, estremeceu e colocou o livro na mesinha de cabeceira. Mas
após um momento, ela reconsiderou e, após verificar que Barnabas
agora dormia profundamente, pegou­‑o de novo, colocando­‑o em
um bolso de seu casaco e saiu do quarto na ponta dos pés.

231

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 231 29/05/12 19:12


Dezesseis

apturado pelo lusco­‑fusco entre a vigília e o sono, Barnabas foi


perseguido por relâmpagos de lembranças torturantes, en‑
quanto era transportado de volta ao verão de seu décimo oitavo ano
de vida. Eles viram uma fragata movendo­‑se rapidamente na fím‑
bria do horizonte, seus três mastros propelidos por velas enfunadas.
Enquanto ela se aproximava, eles enxergaram através da luneta a
bandeira da Frota Real Espanhola flutuando acima da vela princi‑
pal, porém logo abaixo dela drapejava a temida bandeira negra da
caveira e tíbias cruzadas. Foi como se uma loucura se instalasse a
bordo de seu próprio navio, os marinheiros preparando os canhões
e rolando barriletes de pólvora. Mas os canhões da escuna estavam
mal calibrados por falta de uso ou os canhoneiros não sabiam mirar
e todas as balas caíram no mar. A fragata avançava constantemente
em direção a eles e, embora o capitão desse ordem para virar de
bordo e fugir sob o impulso do vento, ela rapidamente os alcançou
e os piratas acabaram por subir a bordo, gritando pragas, brandin‑
do cutelos e adagas, rindo como demônios.

232

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 232 29/05/12 19:12


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

Ele tinha lutado com bravura? Acreditava que sim, porém te‑
merária e desajeitadamente. Guardava uma lembrança feroz de
ter feito um talho na cara de uma das bestas e escutar seu uivo de
surpresa. O combate era uma mistura incompreensível de espa‑
das e cutelos cintilando, gritos de dor e sim, naturalmente, ele
recordava de haver pensado que os bucaneiros não eram cava‑
lheiros, porque não ficavam em pé para combater como soldados,
mas atacavam pela frente só como distração, enquanto um de
seus camaradas depravados se esgueirava por trás e apunhalava
um honesto marinheiro pelas costas. Ele recordava o tombadilho
traiçoeiro, feito escorregadio pelo sangue derramado e um braço
cortado, e depois... será que tinha sido mesmo verdade? Uma ca‑
beça cortada rente por um único golpe de uma lâmina prodigio‑
sa. Ele permanecera determinado a manter as costas coladas ao
mastro principal, para proteger­‑se de um ataque por trás e se de‑
fender melhor dos rufiões. Também recordava talhar o ar à sua
frente com sua espada, em suas fúteis tentativas de repelir aqueles
experientes lutadores.
Eles tinham sido numerosos demais, lançaram longe sua espada
e o amarraram ao mastro, de onde ele foi forçado a assistir enquan‑
to seu capitão arguto e cheio de recursos, aquele mesmo cavalheiro
corajoso que perdera três dedos para outro bando de flibusteiros e
mesmo assim vencera aquela outra batalha, era desta vez massacra‑
do pelos bastardos sedentos de sangue, como um touro sacrificado
em um antigo holocausto.
Inicialmente, ele não tivera qualquer explicação para o fato de os
piratas se decidirem a poupá­‑lo. Mas depois que o barco fora toma‑
do e a maioria de seus camaradas estavam mortos, ele escutou os
fora da lei discutindo entre si. Um de seus companheiros oficiais se
havia rendido após negociar seu resgate, somente para perder a vida
logo depois, porque não havia honra entre esses ladrões, por meio
da informação de que havia a bordo o filho de um rico negociante,
que pagaria uma bela soma por ele, caso fosse poupado e entregue
ileso. Alguns deles tinham acreditado no que ele lhes dissera.

233

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 233 29/05/12 19:12


Lara Parker

Os piratas o haviam posto a ferros no porão, lado a lado com os


escravos cativos. Fora obrigado a deitar­‑se junto deles, encadeado a
seus grilhões, mergulhado nos seus dejetos imundos, escutando
seus gemidos. Tivera de suportar tanta humilhação e vergonha e
um remorso tão estarrecedor, que acreditara terem sido suficientes
para transformá­‑lo de uma vez por todas em um homem íntegro,
com um irrefragável senso de justiça.
Mas de que lhe servira na ocasião? Ele estava convencido de que
morreria com pleno conhecimento de que o negócio corrupto de
sua família, o comércio de vidas humanas, tinha trazido esta puni‑
ção sobre todos eles.
Por quanto tempo ele estivera prisioneiro? Os dias se haviam
mesclado em uma única noite longa de fome, sede e miséria corpo‑
ral e espiritual. Até que, finalmente, ele tinha percebido que o barco
se movia para águas calmas e lançava âncora em algum porto. Eles
desceram para soltar os escravos, levando­‑os para o tombadilho en‑
tre as troças e zombarias mais cruéis, certamente para venderem os
infelizes, mas o haviam deixado sozinho lá no fundo do porão, cer‑
tamente para morrer.
Então o inesperado ocorrera. Ainda podia lembrar do rapazote
curvado sobre ele, dizendo­‑lhe que o protegeria e que ele não ti‑
nha nada a temer. Mas o que ele fizera de fato? Esforçou­‑se para
recordar. Estaria sua memória corrompida? Ele havia realmente
visto o rapaz andar lentamente pelo meio da água imunda acu‑
mulada no porão até capturar... um rato? Ele realmente se arras‑
tara pelo meio das traves da carena mergulhando os braços na
salsugem pútrida do porão até pegar a criatura que tentava fugir
nadando? Por trás das pálpebras, ainda podia ver a figura esguia
do rapaz em silhueta contra a abertura da escotilha, carregando o
corpo castanho e frouxo em sua mão...
Mais tarde, quando o rapaz retornou com um companheiro,
um escravo jovem, ele trazia a chave e lhe abrira os grilhões. De‑
pois disso, seu jovem resgatador o fizera passar por dois guardas,
jogados no piso do tombadilho e vomitando, canecões de rum

234

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 234 29/05/12 19:12


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

derramado ao lado deles. Enquanto o escravo observava, o rapaz


branco o fizera descer por uma escada de corda para um bote equi‑
pado com um remo, que estava à sua espera.
Mas isso era incrível! Fora ela que lhe salvara a vida. Barnabas
estava totalmente acordado agora e seu espírito queimava de curio‑
sidade. As lembranças que ele arrastara do fundo de sua mente for‑
neciam muito poucos detalhes. De que maneira ela fizera isso? O
rum! Só podia ter sido! Aos treze anos, ela já era uma feiticeira e
fizera uma poção para envenenar o rum!
Ele tinha de saber se estava certo. Sentou­‑se contra a cabeceira
da cama, franzindo a testa com a dor que sentia no ombro e olhou
ao seu redor em busca do diário. Mas não estava sobre a escrivani‑
nha, nem aos pés da cama e nem na mesinha de cabeceira. Júlia
dissera qualquer coisa a respeito dele antes de lhe lavar as feridas.
Ela lhe perguntara se ele andava lendo aquele diário. Ela o teria
guardado em algum lugar?
Ele se levantou do leito, pôs­‑se de joelhos e, quase desabando de
fraqueza, procurou embaixo da cama, entre os lençóis e as cobertas,
em cima da colcha... Tinha desaparecido!
Cambaleou ao redor do quarto, suas dores protestando ao menor
movimento, desesperadamente procurando no toucador, na mesi‑
nha junto à janela, sobre o assento da poltrona, nas gavetas da escri‑
vaninha. Nada! Não estava em parte alguma! Furioso porque não o
podia encontrar, arrancou fora os lençóis e cobertas da cama,
amontoando­‑os no assoalho. Mas como o diário poderia ter desapa‑
recido? Júlia! Mas é claro, só podia ter sido ela. Júlia o levara consi‑
go! Ele conseguiu chegar até a porta e gritou através do corredor:
— Júlia! — e berrou novamente — Júlia!
Ela saiu de seu próprio quarto, uma expressão preocupada evi‑
dente em seu rosto, mas ele a conhecia demasiado bem e reconhe‑
ceu facilmente a culpa que palpitava por trás da preocupação.
— O que foi, Barnabas? Você está bem?
— Júlia, o que aconteceu com o meu diário? O que você fez com ele?
— Perdão?

235

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 235 29/05/12 19:12


Lara Parker

— O diário de Angelique. Onde está?


— Ora, eu pensei... Você disse que não estava interessado nele e
como eu... eu não queria que ficasse no seu quarto, perto de você,
você sabe muito bem, eu... eu...
— Você o quê? — exigiu ele.
— Eu o removi.
— Onde está agora?
Ela hesitou por um momento, contemplando­‑o com uma mistu‑
ra de ansiedade e de censura.
— Então, você o esteve lendo — afirmou.
— Sim, é claro que estive — ele respondeu com irritação. — E
daí, que é que tem?
— Barnabas... esse diário é maligno.
— Tolice.
— O rancor de Angelique e seus ciúmes motivaram a maldição
que você sofreu há quase duzentos anos. Foi você mesmo que me
admitiu isso. Hoje à noite você foi atacado... por um vampiro. Não
posso imaginar que você queira qualquer força do mal perto de si,
a influenciá­‑lo...
— Como você ousa...
— Barnabas, escute...
— Como você ousa se intrometer onde não é chamada? — ele a
repreendeu. — Decidir por sua conta o que eu posso e o que eu não
posso ler? Não percebe que isso é uma violação de minha privacidade?
— Mas você disse...
— Você não acha que eu sou perfeitamente capaz de determinar
se o diário de uma criança pode ter o menor poder sobre mim?
Você não sabe que, a esta altura, eu sei perfeitamente o que é e o que
significa a malignidade?
— Eu somente acho que você se encontra vulnerável em sua situ‑
ação presente. Lembre­‑se de que eu sou a sua médica e eu decido...
— Você não decide coisa nenhuma! Você é minha médica, como
não, mas não é minha mãe!
Ele viu que ela se encolhia ao ouvir­‑lhe as palavras.

236

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 236 29/05/12 19:12


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

— Você o queimou?
— Não. Fiquei com medo de queimá­‑lo — confessou Júlia.
— Então, onde ele está?
Ele mal se podia controlar. Incrivelmente, ela fincou o pé.
— Não tenho a intenção de lhe dizer.
— Mas você não entende? Eu tenho de saber!
Uma frustração, totalmente desproporcionada com a situação, o
envolveu. Subitamente, estava tão enraivecido, que se descobriu de‑
bruçado sobre ela, seus dedos cravados em seus ombros, sacudindo­
‑a e apertando cada vez mais forte.
— Onde é que está? Onde?
— Barnabas, pare! Por favor...
Abruptamente, ele a soltou, estupefato com sua própria reação.
O que estava acontecendo com ele? Contemplou suas mãos com
incredulidade.
— Júlia — ele falou com voz trêmula —, sinto muito, sinto
muito mesmo. Não sei o que deu em mim, porque eu me zan‑
guei tanto...
Caminhou de volta para a cama desarrumada e sentou­‑se, dei‑
xando pender o rosto entre as mãos. Quando ergueu os olhos nova‑
mente, sua expressão estava faminta e miserável.
— É só porque eu... por favor, entenda... eu preciso dele de vol‑
ta... por favor... Perdoe­‑me.
Júlia suspirou.
— Está certo — confessou. — Já que precisa tanto saber, eu lhe
direi. Eu enterrei a coisa, lá no cemitério, sob a lápide dela.

* * *

Sua mente obnubilada pela dor, Barnabas cambaleou no gramado.


A chuva estava caindo havia horas, numa precipitação contínua.
Ele saíra porta afora, sem sequer pegar um guarda­‑chuva e logo
ficara empapado até os ossos. Caminhou encolhido, a centelha de
determinação constituindo o único fogo brilhante dentro dele.

237

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 237 29/05/12 19:12


Lara Parker

Estava desesperado para ler o relato de Angelique sobre a bata‑


lha. Ela o descreveria, revelaria suas ações e como ele fora valente e
generoso. Suas palavras o recuperariam, restaurariam seu vigor e
sua coragem. Ele seria capaz de ver a si próprio outra vez, através de
seus olhos, jovem, otimista, “alegre”, como ela o chamara e “cor‑
tês”, o jovem que ele tinha sido tanto tempo atrás, antes de suas
décadas de depravação. Seu coração doía. Maldita Júlia!
Suas roupas estavam agora molhadas a um ponto que se lhe gru‑
davam à pele, mas havia certo conforto em não mais resistir à força
da chuva e em deixar que fizesse nele o que tinha vontade. O esforço
tinha aliviado a contração de suas feridas e o dilúvio de gotas cain‑
do constantemente se tornara agradável. Ele pensou em Angelique.
Sua primeira paixão transcorrera sob a chuva, aquela cálida chu‑
va tropical de Martinica que parecia feita de seda. Ele recordou os
traços de seu rosto enquanto a beijava, macia e úmida, seus lábios
cheios de água doce. Ele a apertara contra si, sentindo­‑lhe os ossos
por dentro das vestes molhadas de pingar e ela era inteiramente
uma carne líquida que o envolvia. Recordou­‑se de se deitar com ela
entre aqueles lençóis de água morna, um riacho flutuando por bai‑
xo deles e o céu se abrindo acima para banhá­‑los. Seus seios esta‑
vam úmidos e escorregadios, os mamilos duros como sementes
novas e suas mãos nadaram em sua umidade cálida, enquanto seus
corpos flutuavam em um rio de correntes, seus membros deslizan‑
do juntos. Ainda podia sentir a chuva martelando em suas costas,
enquanto um redemoinho o sugava e seus corpos e a chuva e o rio
eram todos uma coisa só.
Ele alcançou o portão do cemitério. Nesse instante, o céu foi
rasgado por um imenso relâmpago esgalhado e um estrondo tro‑
vejante que sacudiu o solo a seus pés. A estátua do anjo ficou
iluminada naquela fração de segundo, pairando sobre sua sepul‑
tura do outro lado do cemitério. Uma única batida de coração e
já Barnabas estava parado diante de sua figura suplicante e, naquela
terra encharcada, ele descobriu facilmente o local em que a gra‑
ma tinha sido perturbada.

238

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 238 29/05/12 19:12


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

Caiu de joelhos e escavou com os dedos nus, arrancando fora


uma touceira frouxa de capim e algumas pedrinhas e galhos secos
facilmente deslocáveis. Então sentiu por baixo das unhas: o diário
estava mesmo ali. Ele quase chorou quando viu o livro jazendo no
meio da lama, uma poça de água se juntando a seu redor enquanto
a chuva caía sobre ele, as páginas empapadas, a capa de couro escu‑
recida e desmanchada.
Uma centelha de esperança lhe sugeriu a possibilidade de que
algumas das páginas ainda pudessem ser salvas e ele abriu os de‑
dos em garra para puxar o livro para fora da terra. Mas nesse ins‑
tante, ele percebeu em que se tornara. Sua resolução, sua fortaleza,
sua devoção à sua nova vida, haviam desaparecido tão facilmente
quanto a lama que escorria sob seus joelhos e ele ficou abismado
ao perceber como se deixara dominar novamente por sua detestá‑
vel obsessão. Mais uma vez, ela o conquistara! Mais uma vez, ele
fora capturado pelo feitiço de uma ligação irresistível e mais uma
vez estava disposto a sacrificar todas as virtudes, até mesmo o co‑
ração generoso daquela mulher que o amava, em troca de seus
desejos desprezíveis.
Fora Júlia que o libertara de tudo isso. O que, em nome de
Deus, ele estava fazendo ali? No mesmo instante em que final‑
mente tivera a oportunidade de viver novamente como um ho‑
mem íntegro, ele estava de novo disposto a jogar tudo fora? Já não
fora torturado o suficiente? O que ele poderia possivelmente ga‑
nhar da leitura daquele diário senão uma nova fantasia de praze‑
res ilícitos? Júlia estivera tentando lhe dizer justamente isso e ele
não se dispusera a escutá­‑la.
A infância de Angelique fora trágica, mas ela era má desde o ber‑
ço, era impossível negar a sua malignidade e enquanto ela vivera,
ele passara lutando contra ela. Ele sempre continuara a se debater,
envolto em um absoluto desprezo por si mesmo, contra aquilo em que
ela o tornara. Como ele poderia agora estar considerando qualquer
outro caminho? Resistir a ela tinha sido a única força de bondade
dentro dele e o que ele mais ansiava agora, com todas as forças de

239

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 239 29/05/12 19:12


Lara Parker

seu ser era pela bondade, a paz que somente um coração livre de
remorso poderia conceder.
Que fique aí mesmo! Subitamente, um sentimento de grande alí‑
vio lhe percorreu o corpo inteiro e uma onda de pura felicidade
inundou­‑lhe o peito. Tremendo em consequência de sua decisão,
careteando ao sentir nas mãos a terra pegajosa, limosa e fria, ele
colocou a lama e as pedrinhas de volta em cima do livrinho e as
cobriu com a touceira de capim que havia arrancado outra vez. En‑
tão ele se ergueu, apertou a terra firmemente com a sola de suas
botas, girou nos calcanhares e, seu passo incerto mas determinado,
caminhou para fora do cemitério.

240

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 240 29/05/12 19:12


Dezessete

ort­‑au­‑Prince! Os loás pairavam sobre a cidade como se o próprio


ar fosse a respiração dos espíritos. Eles lhe sussurravam: Liberdade!
A cidade estava cheia de negros, maruns, mulatos, quadrarões com ape‑
nas uma avó negra, homens e mulheres de cores esplêndidas e brilhan‑
tes, seus corações cheios de raiva. A cólera galopava pelas ruas e
travessas. Não havia nenhum deus cristão por aqui. Era a África que
reinava com seu poder pulsante, seus ancestrais vingativos, seus deuses
sanguissedentos. Em cada porta se avistavam despachos desbotados, de
cada peito suarento pendia um amuleto de ossos amarrado com um fio
de tendão humano. Os altares se erguiam com sangue em suas pedras,
penas e cabelos ressecados nas paredes, guardando todos os pátios.
Eu o vi na doca, um bando de negros ao redor dele. Aproximei­
‑me, como se estivesse sendo atraída por um ímã. Ele fazia fogo. Ele
dançava, seu corpo negro brilhante de suor e dos lugares em que
pisava subia fumaça e quando ele se virava e estendia seu braço para
o chão, as chamas surgiam exatamente como ele havia ordenado.
Fiquei com inveja. Permaneci com ele o dia inteiro.

241

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 241 29/05/12 19:12


Lara Parker

Essa noite eles acenderam os fogos do sacrifício e ele iniciou a


cerimônia que eu pensava conhecer tão bem. Mas não era absoluta‑
mente a mesma coisa. Ele é um verdadeiro canal para os espíritos.
Eles descem nele instantaneamente. Assim que entrou em transe
profundo, ele pegou a espada. Os tambores soavam como tambores
no céu. Ele tremia em pé, sem sair de onde estava. Sua longa saia de
capim balançava e se sacudia para cima e para baixo, como as algas
movimentadas pelas marés. Assim que a espada ficou vermelha em
brasa do contato com os carvões, ele encostou seu fio de navalha em
um braço e depois no outro. Ele desenhou com delicada precisão
em seu próprio peito, pelo pescoço e na língua. Ergueu a lâmina e
cortou em dois um de seus olhos totalmente aberto. Nenhum san‑
gue correu de parte alguma. Não ficaram feridas, nem inchaços,
muito menos cicatrizes. Seu olho permaneceu intacto.
As páginas estavam começando a se separar agora, sob o calor
delicado do secador de cabelos. Júlia deixara o livro secar durante
diversos dias, enrolado em toalhas e depois, finalmente, começara a
separar as páginas com precisão cirúrgica. Era uma obra lenta, tedio‑
sa, frustrante. Uma boa parte do diário estava perdida. A tinta desbo‑
tara ou formara manchas como riachinhos aguados do mesmo modo
que lágrimas apagariam parcialmente as palavras escritas em uma
carta de amor. Algumas das páginas haviam se tornado como um
tecido fino, mole e frágil, rasgando­‑se facilmente em tiras grudentas
e esfarrapadas como o pano de algodão rasgado para fazer curativos
em feridas. Mas ainda havia seções que ela podia ler claramente.
Abruptamente, ele saltou para dentro do fogo. Olhei fascinada en‑
quanto ele caminhava devagar sobre os carvões, não apenas andando,
mas enterrando os pés entre as brasas brilhantes, enquanto os tambo‑
res ribombavam em fúria. Ele girava e dava cambalhotas, depois co‑
meçou a andar sentado em uma vassoura cuja palha logo estava em
chamas, mas o cavalo realmente era ele, galopando sobre as flamas em
um doido frenesi, até que eu tive certeza de que seus pés deveriam
estar assados, e o tempo todo meu próprio corpo era percorrido por
uma comichão formigante. Finalmente, ele saiu da fogueira, agora

242

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 242 29/05/12 19:12


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

pouco mais do que tições fumegantes, caindo sentado no chão ao lado


do que restara, exausto, seu peito subindo e descendo rapidamente, as
pernas cruzadas sob o corpo. As solas de seus pés estavam grisáceas
das cinzas, mas pareciam perfeitamente firmes e saudáveis, sem bo‑
lhas ou sinais de queimaduras. Incapaz de resistir, eu me aproximei e
toquei­‑lhe um dos pés e percebi que a pele estava fria e seca. Ofereci­
‑lhe água e ele a recebeu na concha das mãos e me sorriu.
Júlia estremeceu. Mas nem por um momento duvidou da veraci‑
dade do que lera. Ela simplesmente tinha medo daquilo. Nada em
sua natureza ansiava por magia de qualquer tipo, nem respondia
aos poderes que permitiam sua ocorrência. Ela ficava fascinada era
pelas possíveis explicações médicas. O homem tinha calos grossos.
O suor repelia o calor. A fé em si mesmo e a velocidade eram aliados
poderosos. Sempre era possível algum tipo de prestidigitação. Feiti‑
ceiros eram gente muito esperta.
Segui­‑o até sua casa, pois não tinha mesmo nenhum outro lu‑
gar para ir, porque eu queria ser sua escrava e ainda porque ele me
atraiu e conduziu até lá. Ele mora em uma choupana no meio de
choupanas, numa favela erguida nas faldas de uma colina, piso de
terra e um capacho áspero lhe serve de cama. Ele não guarda co‑
mida nem água. Os outros vêm alimentá­‑lo, porque ele é um
grande hungan. Mais ainda, porque ele é um bokor famoso. Eu
sabia que ninguém questionaria a presença de uma menina bran‑
ca em sua casa, desde que eu conseguisse convencê­‑lo a me deixar
ficar e morar com ele.

Eu lhe disse:
— Ensine­‑me a fazer fogo.
Ele me perguntou por que eu pensava que ele deveria me ensinar.
O que eu havia visto. E eu lhe contei tudo o que sabia. Eu lhe falei de
Chloé e de Erzulie e da última cerimônia em que eu tinha revirado a
faca nas mãos de meu pai. Recitei­‑lhe os cânticos do livro de despa‑
chos e relatei quais feitiços já dominava. Ele escutou em silêncio até
que eu terminei. Então me disse: “Você não sabe nada, criança. Seu

243

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 243 29/05/12 19:12


Lara Parker

conhecimento é apenas da cabeça, você não possui habilidades instin‑


tivas. Não posso perder meu tempo com você”.
Porém, me disse que podia ficar em sua choupana essa noite, mas
que depois teria de ir embora. Eu lhe perguntei onde deveria dormir e
ele apontou para o chão de terra, junto à parede dos fundos. Eu pedi
água e ele sacudiu a cabeça. “Não há água”, afirmou. Os negros não
tinham permissão de usar o poço da praça. Tinham de caminhar vários
quilômetros em busca de água, saindo das favelas até o campo aberto.
Acordei logo após a meia­‑noite com o som de uma corrente mur‑
murante. A princípio, era um som bem fraco, mas depois se tornou
perfeitamente claro.
Quando o dia clareou, disse ao hungan que eu havia achado
água. Ele disse que não era possível, que eles haviam tentado cavar
vários poços nas colinas, mas sem sucesso. Eu lhe disse: “A água está
bem aqui, atrás desta parede, onde você me mandou dormir esta noi‑
te. Cavem aqui”.
Ele chamou diversos homens e começaram a cavar. Encontraram o
regato subterrâneo logo no primeiro dia. A água jorrou como uma
chama de prata e o hungan disse: “Pois muito bem, esta noite você
virá conosco”.
O lugar de encontro ficava em uma encruzilhada, numa peque‑
na aldeia negra erguida no meio dos canaviais. Havia diversas
choupanas com tetos de palha e milhares de velas tinham sido colo‑
cadas nas beiras dos caminhos, seguindo as quatro direções. O povo
se juntou depressa, cruzando as plantações de cana ou trilhas atra‑
vés do mato. Usavam fantasias brilhantes, representando o Sou‑
cougnan ou Sucunhã, que trocava de pele e o Loup­‑Garou, ou
lobisomem. O Bokor disse: “Esta cerimônia é um Bizangô, um sa‑
crifício de sangue”. Cada um dos ofertantes dançou com os movi‑
mentos de seu animal, galos vaidosos e vigilantes, cães latindo, porcos
grunhindo, alguns representando demônios com rabos e chifres. Eu
não sei se eram fantasias ou se eles realmente se transformavam. Eles
invocaram Carrefour e não Legbá e, depois que o primeiro foi ali‑
mentado, chamaram o Baron Cimetière.

244

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 244 29/05/12 19:12


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

Eu fui puxada para o centro do círculo, junto com um cabrito assus‑


tado e pensei que ele fosse o sacrifício. Eu comecei a balir com ele e
alimentei­‑o com folhas presas em meus próprios lábios, a fim de
acalmá­‑lo, mas seus olhos refletiam seu medo. Os tambores pararam e
todos eles se afastaram furtivamente como leopardos. Eles tinham lon‑
gas cordas em suas mãos, que o Bokor disse serem intestinos curtidos e
que eram muito fortes. Quando a vítima foi trazida de volta, era um
homem, mas ele foi transformado em uma vaca antes que o matassem.

Júlia foi virando página após página cuidadosa e habilmente.


Usava como ferramentas seu bisturi de cirurgiã, tesouras e peque‑
nas pinças, que retirava de sua maleta de médico. Mas uma parte
bem grande do diário estava perdida! Ela temia que, caso devolves‑
se o diário nestas condições arruinadas para Barnabas, somente
conseguiria perturbá­‑lo ainda mais. De algumas páginas, ela só
conseguia salvar alguns trechos.

O Bokor tem olhos brilhantes e ele gosta de uma brincadeira. Ele é um


fiapinho de homem, muito preto e mal chega a um metro e meio de
altura. Ele é magro e tem ossos finos, com pés e mãos minúsculos e seu
rosto é tão enrugado como um pepino do mar abandonado na areia
pelo recuo da maré.

Os ombros de Júlia doíam pelo esforço e seus olhos ardiam de


tentar ler as palavras borradas. Ela esperava poder salvar mais.
Talvez se ela o deixasse secar por mais alguns dias, mais páginas
se separariam.

Ele me disse que o vodu veio da África, mas que os franceses o chamam
de voire — ou seja, “ver” e Dieu, “Deus” — “voir Dieu” ou “ver a
Deus”, mas eu lhe disse que já escutara dizer “voir dans”, que significa
“ver dentro”. Pensei que era muito importante saber qual era o verda‑
deiro significado, mas ele disse que não tinha a menor importância. Ele
me perguntou por que eu tinha decorado as invocações africanas.

245

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 245 29/05/12 19:12


Lara Parker

— Você não é negra.


— Eu tenho um pouco de sangue africano.
— Use sua própria língua. As palavras não importam realmente.
A Magia vem de dentro da alma.

“Olho de girino e dedo do pé de sapo;


Pelo de morcego e língua de cão;
Vampiro, trasgo, chupador de sangue, parasita,
Tambores, rum e sangue.”

— Diga­‑me o nome dos três tambores.


— Catá, Séconde, Maman.
— Por que eles têm esses nomes?
— Eu não sei.
— O Catá é traiçoeiro, uma criança arteira e desobediente. O
Séconde é o do meio e representa todos os aspectos da vida humana.
Essa é a vida comum. O Maman é que representa mesmo o vudum.

Júlia estava profundamente envergonhada por ter tirado o diário


de Barnabas. Achava que o mínimo que poderia fazer era recuperá­
‑lo e devolvê­‑lo a seu noivo, na esperança de que ele a pudesse per‑
doar. Além disso, logo na manhã seguinte, ainda acordada em seu
leito, antes de se levantar, ela começou a ponderar as explicações
científicas para a feitiçaria — do mesmo modo que se havia imergi‑
do em sua investigação até a descoberta da solução final para o
vampirismo. Uma curiosidade peculiar lhe instigava a mente. Ela
tinha de admitir para si própria que era fascinada pelo sobrenatural
e sua antítese, suas explicações “naturais”.

Eu perguntei a ele: “Você pode matar alguém?” Ele respondeu: “Ma‑


tar é fácil, mas é contra a lei”. E eu lhe indaguei: “Você pode fazer com
que alguém o ame?”. Ele disse: “Você me paga seu dinheiro e depois
aguenta as consequências”. Então eu inquiri: “Você pode invocar os
mortos?” Ele retorquiu: “Posso, se eles estão inquietos. Os mortos

246

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 246 29/05/12 19:12


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

adoram ser invocados. A não ser, é claro, que sejam zumbis. Então
você consegue um escravo que nunca se revolta”.

Zumbis! Ora, este era um fenômeno interessante. Os mortos­‑vivos.


Os ataúdes são abertos e o cadáver não se corrompeu. O cabelo e as
unhas cresceram. A pele ainda tem vigor, mais rosada que em vida, há
sinais de rejuvenescimento, algumas vezes até mesmo um pênis ereto.
Por que eles usavam as pedras tumulares desde os tempos mais remo‑
tos? Para impedir que os corpos se levantassem. E por que essa imen‑
sidão de cerimônias pelos mortos? Para que eles pudessem descansar
em paz nos seus túmulos. Cada época com seus rituais: com os obje‑
tos necessários, eles poderiam se dispor a ficar em repouso eterno:
ânforas de vinho, tigelas com cereais, moedas para Caronte dentro
das bocas, sementes de papoula para um sono sem sonhos.

Um senhor de engenho veio ao Bokor, querendo comprar alguns es‑


cravos e o Bokor aceitou­‑lhe o dinheiro. Então, seu rosto, uma másca‑
ra distorcida, montou um cavalo de costas, segurando­‑se na cauda e
fez com que cavalgasse até a porta da vítima. Colocou os lábios em
uma fresta da porta e sugou a alma para si. Após alguns dias, a víti‑
ma morreu. O Bokor me levou até o cemitério à meia­‑noite, até o
ponto em que o morto jazia em sua sepultura. Ele havia guardado a
alma da vítima em uma vasilha de barro lacrada com cera e quando
lhe chamou o nome, o morto foi obrigado a responder, porque o Bokor
estava em posse de sua alma. Então, ele passou a vasilha pelo nariz do
morto, para que ele pudesse farejar sua alma e o homem se ergueu e o
seguiu. Na casa do Bokor ele recebeu um elixir vermelho, que é a fór‑
mula secreta e se transformou em um zumbi. A partir de agora, ele
trabalhará sem descanso para o seu amo afortunado.

PÓ PARA CRIAR ZUMBIS:


Obtenha uma placenta após o parto, a bolsa inteira ainda com
uma parte do cordão umbilical presa nela. Enrole em folhas de man‑
cenilheira, deixe secar bem e depois moa com um pilão;

247

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 247 29/05/12 19:12


Lara Parker

Sapo bugá ou mandioca crua;


Miriápodos ou tarântulas;
Sementes e folhas de plantas venenosas;
Ferrões de baiacus;
Restos humanos retirados de um cadáver fresco.

Um homem que roubou o segredo do Pó de Zumbi foi morto pelos


huncis do Bokor. Ele nunca chegou a saber que tinham encontrado a
bolsinha com o pó que ele achara ter escondido muito bem. Eles o le‑
varam de bote mar adentro e então, bem longe da praia, amarraram­
‑lhe as mãos às costas e bateram em sua nuca com uma pedra,
deixando uma ferida aberta. Esfregaram um veneno de ação rápida
na ferida. Ele soube que estava morto antes de bater na água ao ser
jogado pela amurada.
O Bokor me disse que fez o Pó de Zumbi porque era mais fácil que
chupar almas através de frestas ou fechaduras.

Barnabas não lhe falara uma palavra racional desde sua discus‑
são; ele estivera tão doente, que tudo quanto dizia era efeito da
febre. Ele parecia oscilar entre uma culpa penitente e uma determi‑
nação furiosa. “Nunca mais! Nunca mais!”, ele gritava, ao sair de
um sono agitado. Ou ele tomaria uma de suas mãos nas dele e com
olhos esgazeados lhe suplicava que o perdoasse, dizendo: “Júlia, fi‑
que comigo, não me abandone!”. Momentos depois, ele olhava fixa‑
mente para o ar e berrava o mais alto que podia: “Saia de perto de
mim! Fique longe de mim!”. Ela se encolhia de medo, certa de que
ele manifestava a raiva que estava sentindo dela.

O Bokor me disse: “Eu não lhe mostrarei assassinatos ou mortes. Dis‑


to você já viu o suficiente. Eu lhe mostrei como a vida retorna para os
mortos. E esta noite, eu vou lhe mostrar como matar a própria Morte.
Esta noite, você vai cravar a estaca em um vampiro”.
“O vampiro tem dentes de marfim, compridos e aguçados, para su‑
gar a força da vida e deixa suas vítimas exaustas. É um ser absorvido

248

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 248 29/05/12 19:12


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

em si mesmo, sem a menor simpatia pelos demais. Eu já lhe disse que


todos os deuses nascem de nossa imaginação e, de forma semelhante,
o vampiro nasce dos reinos de nossos pensamentos mais íntimos. Ele é
a manifestação de nossos anseios mais profundos e de nossos medos
mais arraigados. Está morto e não está morto. O sangue ainda corre
dentro de seu corpo. O cheiro do vampiro é como o guano das caver‑
nas em que os morcegos se reproduzem. Ele tem olhos ocos e cheios de
loucura, com os quais pode ver as cores em intensidade muito mais
rica. Ele tem a audição de um predador e suas capacidades de sobre‑
vivência vão muito além do humano. Ele não pode ser morto enquan‑
to estiver desperto, portanto, você não o poderá acordar. Ele só pode
ser morto dentro de sua tumba.”
— O que o torna assim?
— Um morcego vampiro o mordeu e se alimentou dele, deixando
envenenado o resto de seu sangue.
— E por que vem o morcego?
— Por maldição. Um inimigo lhe roga uma praga, que é o su‑
prassumo da vingança. Mas é necessário dispor de um enorme po‑
der para rogar esta praga. É preciso ter uma grande energia e um
grande ódio combinados.
Os sons da noite estavam amortecidos e as velas geravam uma luz
fraca. O céu estava amortalhado de nuvens enquanto caminhávamos
para o cemitério. Eu escutava o som de nossos passos como se fossem
os cochichos dos mortos. O Bokor me conduziu até a sepultura em que
dormia o vampiro. Havia uma cruz branca e um caixão estava dentro
da cova que já havia sido aberta antes de nossa chegada. Os huncis
estavam conosco, porque desejavam tirar partes do corpo, mas fica‑
ram para trás, por estarem amedrontados. “Você não pode ficar as‑
sustada”, disse­‑me ele, “porque todo medo é fraqueza.” Ele colocou a
estaca em minha mão.
Quando olhei para o vampiro, fiquei maravilhada, porque podia
sentir seu mistério e sua força. Seu rosto era muito branco, como se
fosse esculpido em marfim, do mesmo modo que suas mãos, cruzadas
sobre seu peito. Eu podia ver o formato de seu crânio, e os ossos de suas

249

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 249 29/05/12 19:12


Lara Parker

mãos eram visíveis sob a pele. Suas unhas eram longas e amareladas
e era realmente possível cheirar o odor de guano de morcego que ema‑
nava de seu corpo. Seu casaco estava coberto de terra e seu colarinho
em forma de rufo pregueado cheio de mofo e de manchas de ferrugem.
Estava dormindo tão pacificamente, que eu até mesmo senti uma cer‑
ta relutância em lhe fazer mal.
Os huncis se aproximaram. “Hoje você vai matar a própria Mor‑
te.” Eu coloquei a ponta da estaca sobre o peito dele e pensei somente
em como eu era magra, imaginando de onde tiraria a força para o
perfurar e cravar a estaca em seu coração. Eu só dispunha do peso de
meu próprio corpo e assim me ergui e empurrei com toda a força a
ponta de madeira aguçada, sentindo que ela perfurava o tecido de seu
casaco e as diversas camadas de pele, cada seção dando passagem
com um pequeno estremecimento. O monstro gemeu. A estaca bateu
em uma costela e eu a desviei para encontrar uma entrada onde o
tecido fosse mais mole.
Nesse momento, o vampiro abriu os olhos. Seu olhar hipnótico
provocou um tremor aterrorizado através de meu corpo. Podia sentir
como ele drenava minha força com o poder de sua vontade, enquanto
seus olhos me queimavam até a alma e então ele ergueu as mãos po‑
derosas para segurar a estaca. Sua boca se abriu para proferir as pa‑
lavras que me fariam parar e seus lábios se arreganharam para
mostrar as presas, ao mesmo tempo brilhando de brancura e cobertas
de uma espécie de lodo. Eu não conseguia mais empurrar a estaca.
Então o Bokor pulou­‑me nas costas e todo o ar saiu de meus pul‑
mões, enquanto ele punha todo o seu peso no cabo da estaca. Nossos
corpos se chocaram com o cadáver vivo do vampiro e quando a estaca
lhe atravessou o coração, o sangue jorrou em jatos e me cobriu. Eu caí
sobre ele, minha face junto de seu rosto, minha respiração sugando o
estertor prolongado de uma traqueia afogada em sangue.

Júlia estremeceu. Ela se recordou de como Barnabas retornara


sem trazer o diário, suas roupas em um estado horrível, tiritando e
empapado até os ossos. As feridas se haviam reaberto e ele estava

250

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 250 29/05/12 19:12


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

fraco pela perda de sangue. Ela teve medo que a mordida do vampi‑
ro lhe causasse uma recaída, pois Barnabas parecia estar travando
uma batalha interior entre demônios opostos, suas emoções em um
torvelinho, sua própria natureza se alimentando de si mesma.
A maior parte do tempo, ela tinha certeza de que ele não sabia
quem era ou onde estava, e delirava a respeito de um navio atacado
por piratas e dele próprio deitado em um porão, onde fora posto a
ferros. Em outros períodos, ele parecia mais calmo e falava com al‑
guém em um tom de voz gentil, alguma pessoa a quem amava.
Incapaz de se impedir, Júlia continuou a secar e a ler parte do diário.

O Bokor conversa muito comigo e sempre me desencoraja. Ele gosta de


brincar comigo e de me torturar com seus enigmas:
— Você ainda quer se tornar uma vudum mambô?
— Sim.
— A escolha não é fácil e depois que a jornada começa, é impossí‑
vel retornar. Você quer seguir o caminho até o fim?
— Eu não quero ficar para trás atolada em lamaçais e mistérios.
— Mas por que você quereria uma coisa dessas?
— Eu creio que é o meu destino.
— Destino é só aquilo em que você acredita — disse ele, com uma
risadinha infantil. Ele gosta de pronunciar frases de efeito só para
escutar o som da própria voz. Mas desta vez, eu estava determinada
a fazer com que ele me escutasse.
— Quero dizer que tenho dons e conhecimento.
— Todo mundo tem.
— Você vai me ensinar o que sabe?
— O vudum te provoca confusão e peso. Não vai tornar melhor a
tua vida.
— Preciso de alguma coisa para me proteger.
— O vudum só te deixará mais vulnerável.
— Mas não vai me dar poder?
— Esse poder não te obedece. Você quer controlar coisas, mas o vu‑
dum não é controle. É por isso que eu sei que você nunca vai conseguir

251

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 251 29/05/12 19:12


Lara Parker

se tornar mambô. Você é uma jovem branca. Como poderá olhar para
dentro da alma africana? Você simplesmente quer fazer a sua vonta‑
de, como todas as mulheres vaidosas. Você quer truques, encanta‑
mentos simples e bobos. Você quer brincar com os outros como se
fossem bonecos de trapo. Isso não é poder, é apenas uma interferência
tola, uma baboseira infantil.
— Eu vou lhe confessar por que tenho tanto medo. Tenho começa‑
do a pensar que estou presa ao Diabo.
— O Diabo?
— Sim.
— E você se quer ver livre dele.
— Sim... livre...
— Mas o Diabo é somente outro loá e nem ao menos é muito in‑
teressante. É só um outro espírito luminoso. Os loás nunca lhe farão
mal algum, a não ser que você lhes permita. Alimente­‑os e dê­‑lhes
bebida e eles nunca a incomodarão. Bata sobre o vevé com o asson e o
loá é obrigado a descer. Você sabe disso. Todos os deuses são somente
o resultado de nossa própria imaginação e o Diabo não é diferente.
— Tem certeza disso?
— Eu nunca tenho certeza de nada.
— Mas eu já o enxerguei e já falei com ele.
— Eu nunca disse que ele não existia.
— Então, como é que eu posso me libertar?
— Tudo bem, responda­‑me isto: o que é a feitiçaria, se é que já sabe?
— Você sempre me disse. É interferência, transformação.
— Como é que funciona?
— Encontra­‑se o ponto mais fraco e é nesse lugar que se lança o poder.
— Bem, você acabou de responder sua própria pergunta. É assim
que você poderá se libertar seja do que for.
— Mas o Diabo tem um ponto fraco? E qual é?
— Mas ele não é o Deus de Chifres?
O Bokor deu nova risadinha infantil, seu corpo de pepino­‑do­
‑mar, sacudindo­‑se todo com o seu divertimento.
— Mas o que quer dizer isso?

252

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 252 29/05/12 19:12


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

— Ah, você ainda é criança demais para entender. Quer dizer


que ele não passa de um corno, de um marido enganado... Você não
pode ter medo dele. Enquanto tiver medo dele, está lhe dando domí‑
nio sobre você.
— Então, por que ele me diz que meu poder provém dele, quando
eu sei que me ensinei sozinha todas essas coisas e sofri muito para
conseguir aprendê­‑las?
— Essa é fácil. Pense no que acabou de dizer.
— Ah, sim! Este é meu ponto fraco!
— Exatamente. Ele sabe quão orgulhosa você é. Ele está tentando
lhe dizer alguma coisa que você já sabe. Você tem várias escolhas.
Quais são elas?
Pensei a respeito por algum tempo, depois respondi:
— Viver uma vida normal e nunca me tornar aquilo para o que
nasci. Fazer pequenos feitiços. Ou escolher seguir o vudum.
— No momento em que escolher seguir o vudum não terá nunca
mais uma vida normal. Mas isso você já sabe.
— E se eu escolher apenas a magia branca, a magia boa, como
fazia minha mãe? Ela era curandeira e só fazia o bem.
— Ah, sim, a magia “branca”, como eles chamam... A magia boa...
Só que não existe magia boa... Toda magia é interferência e, portanto,
é má. Mas isso não quer dizer que não seja divertida! — completou
ele, com outra risadinha.
— Pare com esses enigmas ridículos! Diga­‑me a verdade!
— Mas a verdade é o enigma!
E dessa vez, as risadinhas se transformaram em ruidosas garga‑
lhadas. Bem, pelo menos um de nós estava se divertindo.
— Portanto, se eu virar feiticeira...
— Feiticeira você já é...
— Se eu praticar somente o que já conheço e não me mostrar or‑
gulhosa, será que ele vai me deixar em paz?
— Não, não vai. Porque o que você já conhece não tem significado.
E agora nós retornamos ao começo de nossa conversa. Escute­‑me, An‑
gelique, pois eu vou lhe contar a verdade, conforme você a chama.

253

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 253 29/05/12 19:12


Lara Parker

Tudo o que eu lhe disser, você esquecerá, porque não vai conseguir
entender nada. Mas eu vou lhe dizer de qualquer maneira, porque
talvez um dia consiga lembrar. A Morte é o único poder e o Diabo é a
morte. Todo o vudum gira ao redor da morte. A morte é o centro do
vudum. Quando você aceitar a morte e não se prender a nada mais
na vida, então o seu poder emergirá e o vudum a guiará.
“Você é capaz de fazer isso agora? Consegue alcançar a indiferença?
Eu penso que não. Eu acho que você vai passar a vida inteira obcecada
por alguma coisa. Você não tem o caráter de uma mambô. Você irá
prender­‑se à vida e ignorar a morte de onde ela provém. Você buscará o
amor e ele se transformará em ciúme e o ciúme em rancor e este busca‑
rá vingança, porque por baixo de todas as suas cores do arco­‑íris existe
uma poça escura de desespero e porque o seu caminho é o caminho do
desejo. Você diz que Erzulie é sua deusa, mas o seu lado especular é a
Erzulie Rouge. Qual o lado que você escolherá? O lírio ou a rosa? A
perfeita inocência ou a profunda compreensão? A grande deusa do
vodu tem a Morte sentada do seu lado. O momento que cerca o mo‑
mento. A magia que está dentro da magia. O poder que está no reflexo
do espelho. Muitos anos se passarão até que você perceba, se é que um
dia perceberá, que está condenada por sua obsessão e que o maior de
todos os poderes consiste em não se querer mais nada.”

254

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 254 29/05/12 19:12


Dezoito

ngelique estava tão imunda que parecia impossível que por baixo
da sujeira tivesse pele clara. A imundície tinha entrado em seus
poros e sua pele inteira se tornara cor de cinza. Havia fuligem alojada
sob suas unhas e seus cabelos amarelos estavam bem escondidos, en‑
rolados em um pano esfarrapado e oleoso. Ela estava tão magra que se
dobrava ao se deitar no chão de terra, seus ossos soltos, quase balan‑
çando dentro de seu vestido de algodão esfiapado e cheio de buracos.
Césaire jamais a teria reconhecido se os seus olhos não tivessem dar‑
dejado em sua direção, como opalas de fogo cintilando na poeira.
— Eles me disseram que eu te encontraria aqui — disse ele,
franzindo o nariz por causa dos cheiros de fumaça e de ervas quei‑
madas. — Eu não queria acreditá neles.
— Que mais eles lhe contaram?
— Que eles treme de medo por causa do teu hounfort. Que tu
não é cruel, mas que tu é cruelmente boa. Que tua magia é como o
relâmpago, nunca se sabe quando chega, nunca se sabe qual o alvo
que irá atingir. Dizem ter visto centelhas saltando de teus dedo e

255

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 255 29/05/12 19:12


Lara Parker

que tuas poções não são segura, porque algumas vezes curam e ou‑
tras vezes aleijam.
— Erzulie dorme comigo agora, Césaire — revelou ela. — A cor
de minha pele não é mais uma barreira para sua vinda. A loá entra
dentro de mim quando eu respiro.
— A Erzulie? A deusa amada por sua pureza?
— Ah, não, a outra Erzulie. A sua imagem no espelho. Erzulie
Rouge, que é muito mais poderosa e se alimenta de almas humanas.
Césaire franziu a testa e caminhou para mais perto de onde ela
se assentava.
— O que tu tá fazendo no meio dessa gente toda, Angelique?
— O que quer dizer? Eu moro aqui.
— Por quê?
— E aonde mais eu iria? Eu cuido dos houncis e eles cuidam de
mim e me trazem comida.
— E é tão importante pra ti sê uma pequena deusa? Vivê neste
lugar imundo? As maçãs podre de um barril não deixam escolha
para as sãs.
Seus olhos cintilaram ante seu insulto.
— Você pensa que eu sou vaidosa e orgulhosa. Você não sabe de
nada! Não é por essa razão que eu agora sou a Bizangô. Erzulie Rou‑
ge me protege dele.
— De quem? Do Bokor?
— Não, não é do Bokor — disse ela, com desprezo. — É do outro!
Angelique se ergueu e caminhou até o altar. Rolos de fumaça
subiam de suas roupas, como se elas fossem feitas de cinzas. Ali fi‑
cou ela, seu corpo esguio como um salgueiro, embora com um as‑
pecto estranhamente real, olhando para a mesa sagrada. Uma
comprida cobra cor de cobre ondulava lentamente ao redor dos po‑
tes de argila e panelas de barro cheias de comida azeda ou transfor‑
mada em pó, seu corpo sinuoso circulando sem tocar as velas acesas
e fluindo sobre pilhas de ossos secos.
— Eu lhe farei um amuleto, Césaire, um uangá de amor — disse
ela. — Se você quiser, é claro. Esta manhã eu peguei um beija­‑flor e

256

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 256 29/05/12 19:12


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

preciso mesmo usá­‑lo antes que esfrie. Um uangá de amor só para


você. Gostaria disso? Há alguma garota bela que você deseje?
Ela se virou para seu lado e ele viu o minúsculo pássaro em sua
mão, suas penas iridescentes e seu peito escarlate.
— Mas eu vou precisar de um pouco de seu sangue e do seu sê‑
men — disse ela, sugestivamente. — Venha...
Césaire sacudiu a cabeça.
— Eu não preciso de que você me faça nenhum amuleto
hoje — afirmou e, com um esforço, afastou os olhos dela e os
firmou sobre a pintura acima do altar. Mostrava uma mulher
nua, com grandes seios, a parte inferior de seu corpo recoberta
de escamas de peixe. Em toda a sua volta havia pinturas da
Virgem Maria.
De qualquer modo, Césaire se aproximou de onde Angelique
estava parada. Ele viu que ela estava segurando uma boneca fei‑
ta de pele seca e que a estava embelezando descuidadamente ao
enfiar­‑lhe ao pescoço um colar formado por uma fiada de dentes
humanos. Tinha uma cabeça minúscula e encolhida, em que re‑
luziam os olhos de conta e diversos alfinetes apareciam cravados
em seu peito ressequido.
— Angelique, o que eu vim fazê aqui é te levá de volta pra Martinica.
— Não, não quero ir. Não posso voltar para lá.
Césaire estremeceu e olhou de novo para o quadro central.
Ao lado da mulher­‑peixe, um barco de vela branca balançava
sobre ondas azuis e encapeladas. Abaixo do barco, havia um cálice
cheio de flores escarlates e acima dele, o céu estava pintado de negro
e recamado de estrelas. A mulher segurava alguma coisa e, quando
Césaire olhou mais de perto, viu que era uma cabeça humana. Foi
só então que ele percebeu que o altar inteiro de Angelique era feito
de caveiras sorridentes.
— Só me escuta, guria, eu tenho notícias da tua mãe.
Seus olhos dardejaram para o rosto dele, escrutando, revelan‑
do alguma indicação de que ainda havia uma criança escondida
dentro dela.

257

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 257 29/05/12 19:12


Lara Parker

— Ela tá com um tremendo pobrema — ele continuou. — Achei


que tu gostaria de saber.
— Onde ela está?
— Na cadeia.
— Na prisão? Mas por quê?
— Ela foi julgada por bruxaria e foi condenada — revelou o rapaz.
Angelique o encarou, como incapaz de acreditar em suas pala‑
vras, enquanto lágrimas lhe enchiam os olhos.
— Eu tenho um barco — disse ele. — Tu vem comigo?

* * *

O tempo estava calmo, mas as marolas estavam altas, pesadas e in‑


cessantes e o vento mudava de direção, obrigando a nave a correr à
sua frente. Uma exalação sulfurosa emanava do mar e mais de uma
vez Angelique inclinou­‑se sobre a amurada e murmurou palavras
estranhas, contemplando a superfície que parecia ferver.
Césaire estava em pé do outro lado do tombadilho e ela sabia que
o rapaz estava assustado com o seu comportamento e pensou que
ele não mais a conhecia, que ela se transformara para ele em um
espectro negro contra o céu cinzento e que, embora ela tivesse sol‑
tado os cabelos em uma nuvem amarelada, eles não a dotavam de
qualquer luz. Ela podia estender a mão e tocar o Espírito Negro
quando as águas se erguiam a seu alcance. Ele não fazia parte do
mar, mas se encontrava nas profundezas do abismo e ela lhe disse
calmamente: “Não me persiga”.

* * *

Ela abriu o portão da prisão e entrou no pátio coberto de capim


maltratado. O tempo estava mudando e lufadas intermitentes e car‑
regadas de premonição agitavam as palmeiras meio desfolhadas
que ficavam junto à porta da cadeia e as faziam agitar­‑se em uma
dança macabra. O carcereiro estava sentado justamente do lado de

258

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 258 29/05/12 19:12


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

dentro da porta, cochilando em uma cadeira de pernas finas equi‑


librada nas patas de trás, sua cabeça jogada para trás sobre o encos‑
to e roncando. Ela pigarreou e ele acordou, espreguiçando­‑se e
erguendo­‑se sem firmeza sobre os pés para se dirigir a ela.
— O horário de visita acabou uma hora atrás — disse abrupta‑
mente. Era um homem grande, meio mulato, usava uma barba rui‑
va e um de seus olhos era cego, de uma coloração azul opaca que lhe
percorria a pupila, emprestando­‑lhe uma aparência lúgubre, como
se ele tivesse apenas metade de uma alma.
— Eu viajei desde Port­‑au­‑Prince em Hispaniola para ver a mu‑
lher que foi condenada por feitiçaria. Por favor, me deixe entrar —
pediu ela, cortesmente.
A tirania dos pequenos funcionários lhe dava um sentimento de
poder e ele sorriu com desprezo e malícia:
— Minhas ordens são para não deixar entrar mais nenhum visi‑
tante. Volte amanhã.
— E se eu lhe disser que a mulher que desejo ver é minha mãe?
— Eu não tenho nada a ver com isso — respondeu­‑lhe friamen‑
te. — Todos os dias alguém é enforcado, tem os ossos quebrados no
pelourinho ou é executado a tiros pela milícia. Eu só guardo os pri‑
sioneiros e, caso esteja disposto, lhes jogo um pedaço de pão. Agora
dê o fora daqui. Tenho de fazer o meu trabalho.
Relutantemente, ela se virou para ir embora, mas nesse momento
seu olhar passou além de sua escrivaninha e se fixou em um quarto
pequeno, que ela deduziu ser o seu alojamento. Enxergou um catre e
uma cadeira com roupas espalhadas e uma mesa com pão, queijo, uma
garrafa de rum pela metade e uma grande vela de sebo que queimara
até o tampo da mesa, mas com o pavio ainda aceso, que espalhava uma
pocinha de espermacete semiendurecido em uma camada fina e ama‑
rela, cujas beiradas já se achavam ressequidas. Ela encarou a chama
azulada e ainda bruxuleante no pavio que ardia quase deitado.
— Aquele é o seu quarto? — indagou e, quando ele grunhiu
uma afirmativa, farejou o ar e lhe disse tranquilamente: — Acredi‑
to que alguma coisa aí dentro pegou fogo...

259

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 259 29/05/12 19:12


Lara Parker

O guarda soltou um gritinho infantil, quase um ganido, segui‑


do de uma corrente de pragas, quando se voltou e viu as chamas
subindo do assoalho. Ele se lançou contra a fogueira incipiente,
dando patadas com a sola das botas, mas sem resultado, porque
assim que apagava em um ponto, ele se erguia em outro e em ou‑
tro mais. Já estava subindo pelas roupas de cama quando ele ati‑
nou em pegar uma bacia cheia de água e jogá­‑la sobre o fogo.
Angelique passou por ele e entrou no corredor sem que o homem
lhe prestasse a mínima atenção.
Quando ela atravessou a passagem estreita e olhou pelas barras
de uma cela, sentiu seu coração subir até a garganta. Já fazia qua‑
tro anos desde a última vez em que se haviam visto, mas Cymba‑
line não mudara em nada. Estava sentada em um mochinho,
cantarolando para si mesma. Seus cabelos lustrosos pendiam sobre
seus ombros e sua pele dourada brilhava até mesmo no interior da
cela, como se a luz proveniente da única janelinha gradeada
emanasse realmente dela.
Quando ela viu Angelique parada do lado de fora das grades,
seus olhos castanho­‑escuros inicialmente cintilaram de suspeita,
depois se arregalaram de descrença enquanto ela sacudia a cabeça
lentamente e uma expressão profunda de completa emoção lhe
suavizava os traços do rosto. Ergueu os braços e, ao mesmo tempo
que Angelique estendia os seus através das barras, ela a apertou
contra si, soluçando:
— Anjo, ai, meu anjinho, minha filha... minha filha preciosa!
— Mamãe, ai, mamãe, eu pensei que nunca mais iria vê­‑la! —
tornou Angelique. — Senti tanto a sua falta. Por que está aqui presa
desse jeito? O que aconteceu?
Mas Cymbaline estava incapaz de responder. Simplesmente se‑
gurava o rosto de Angelique entre as mãos e beijava tudo o que
podia alcançar através das grades — faces, queixo, testa, lábios —
quaisquer palavras que tivesse para dizer aprisionadas em sua gar‑
ganta. Seus dedos percorriam o rosto e os cabelos de Angelique
como se não pudesse confiar em seus próprios olhos e precisasse

260

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 260 29/05/12 19:12


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

tocar nela para realmente crer que a filha estava ali. E suas lágri‑
mas lhe escorriam pelas faces sem parar.
— Ai, como você está encantadora! — sussurrou finalmente.
— Tão alta, magra, mas com o corpo tão forte — você já virou
mulher, posso ver.
— Estou só com quatorze anos, mamãe — contestou Angelique.
— E já aprendeu muitas coisas a respeito da vida?
— Sobre a vida eu ainda sei muito pouco, mamãe, somente o
que você mesma me ensinou — disse ela. — Mas estive em Port­‑au­
‑Prince, na Hispaniola — e lamento dizer que por lá só aprendi os
segredos da morte.
— A Ilha do Diabo. Lá os espíritos são muito poderosos. Mas
sente­‑se aqui, o mais perto de mim que puder e me conte tudo —
pediu a mãe. — Eu quero escutar. Só sei que você fugiu de Basse­
‑Pointe durante a rebelião...
— Mamãe, meu pai tentou me matar durante a cerimônia. O
tempo todo era para fazer isso que ele me levou. Ele lhe mentiu. Ele
jamais pretendeu me criar como filha dele.
— O bastardo me enganou. Ah, como eu fui idiota em acreditar
nele! Lamento muito, lamento tanto por tudo o que você sofreu!
— Eu o matei com sua própria adaga.
— Isso é verdade?
— Sim.
— E então você navegou para Hispaniola?
— Dez dias em um navio mercante — relatou Angelique. — Na
metade da travessia, fomos abordados por esses mendigos do mar,
que chamam de piratas, ansiosos para saquear nosso barco. Suas
roupas tinham manchas de sangue e traziam facas e cutelos. Ma‑
mãe, eles mataram quase todos a bordo — oficiais, marinheiros, até
o cozinheiro! Eles só pouparam meu amigo Césaire porque ele é
negro e sabia governar o navio...
— Como você conseguiu escapar?
— Eles só me deixaram viva porque eu trabalhava como auxiliar
do cozinheiro, estava disfarçada de menino e eles queriam alguém

261

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 261 29/05/12 19:12


Lara Parker

que lhes preparasse as refeições — explicou ela. — Aquele monte de


idiotas bêbados nunca conseguiu pensar que eu fosse capaz de pre‑
parar um caldo com pelo e rabo de rato, que depois derramei den‑
tro do barril de rum, aquela poção que rói as entranhas por dentro
e deixa as pessoas cegas.
— Ah, sim, vômitos fatais provocados por pelo de rato — co‑
mentou Cymbaline. — Percebo que você se tornou feiticeira.
— Que mais a senhora queria que eu fizesse?
— Não mais e nem menos do que eu mesma fiz.
— Eles a chamaram de bruxa.
— Eles disseram que foi bruxaria e me acusaram, mas não foi
bruxaria — explicou ela. — Foi causado pela mancenilheira.
— Mas todo mundo sabe que a mancenilha é venenosa... O que
foi que você fez?
— Vamos dizer que eles finalmente conseguiram me pegar —
suspirou a mãe. — Eu passei três anos trabalhando no hospital dos
escravos, em Trinité, uma plantação realmente muito grande. Eu
partejava nenês, reduzia fraturas, curava as doenças quando esta‑
vam começando. Muita gente foi chamada de bruxa, e não era mais
que uma curandeira dedicada.
— Mas o que causou sua infelicidade?
— Havia um capataz, um homem egoísta e lascivo que não me
deixava em paz. No princípio, eu nem me preocupei, achava que
minha posição no hospital me dava segurança — disse ela. — Eu
era necessária. Precisavam de mim lá. Mas quando o capataz come‑
çava a insistir demais comigo, eu punha o verme verde em sua be‑
bida para reduzir sua luxúria.
Ela deu um suspiro e continuou:
— Só que uma noite ele estava bêbado, com uma dessas bebedei‑
ras malvadas que dá o rum, e me encontrou no pátio do hospital.
Ele me puxou para o mato, não consegui me desvencilhar mas, na
passada, eu arranhei as unhas na casca de uma mancenilheira.
Quando ele me derrubou no chão, eu cravei as unhas nas costas
dele. O patife do bode lascivo pensou que eu o estava arranhando

262

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 262 29/05/12 19:12


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

de prazer até que o veneno correu por dentro dele. Eu o escutei ui‑
vando de agonia enquanto estertorava até morrer.
— E eles acusaram a senhora do assassinato?
— É isso que torna tão injusto aquele tribunal corrupto. Eles não
me acusaram de matar, disseram que eu era culpada por não tê­‑lo
salvo. Eu não podia ter feito isso de qualquer modo, mancenilha
não tem cura que eu saiba, mas eles sabiam que eu não lhe daria
nenhum remédio, mesmo que houvesse. Tu sabes, eles querem me
ver morta. Por uma porção de razões.
— E qual foi a sua sentença?
— Ah, minha doce querida, você não queira saber!
— Qual foi? Diga­‑me!
— Tudo pensado, não foi tão ruim assim. Eles me sentenciaram
a uma morte rápida e praticamente indolor, por causa dos serviços
que eu havia prestado...
— Qual foi?
— Enforcamento.
Angelique sentiu o sangue rodando dentro da cabeça.
— Quando?
— Daqui a dois dias.
— Ai, mamãe...
Angelique prendeu a respiração, incapaz de falar, mas seus
olhos chamejavam. Cymbaline a abraçou novamente através das
barras da cela.
— Angelique, minha querida, não fique assim tão triste. Eu não
poderia pedir nenhuma bênção tão grande quanto esta, de poder
vê­‑la de novo antes de morrer...
Embora seus olhos estivessem marejados de lágrimas, ela sorria
e agarrou uma das mãos da menina, segurando­‑a bem firme. O
peito de Angelique doía com uma pressão surda, como se ela esti‑
vesse prendendo a respiração embaixo d’água por um tempo longo
demais. Ela hesitou e depois falou, com uma voz trêmula.
— Mamãe, eu trouxe comigo um pó secreto, lá de Port­‑au­‑Prince.
Se eles soubessem que eu havia pegado um pouco, teriam me matado.

263

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 263 29/05/12 19:12


Lara Parker

— Que negócio é esse?


— É um pó que induz a um sono profundo, tão profundo, que
parece a morte.
— Você não está falando de... Pó de Zumbi?
— É, sim.
— Feito de cadáveres? Eu não vou tomar Pó de Zumbi! — disse
Cymbaline, recuando, horrorizada.
— Mamãe, mamãe, volte! O pó não produz a morte, somente o
sono da morte!
— Mas o zumbi é uma criatura infeliz e doida, porque sua alma
foi retirada! Ele caminha pelo mundo em um transe sem vida, ten‑
tando obter sua alma de volta. Morrer enforcada é de longe melhor
do que um destino desses!
— Não, a retirada da alma é um ritual realizado pelo Bokor...
— E como é que você sabe disso, Angelique?
— Eu já vi fazerem, muitas vezes. O pó somente provoca o sono,
e a loucura surge porque a vítima acorda dentro da sepultura, é
causada pelo horror de estar enterrada viva! Mas eu posso lhe des‑
pertar do sono. Eu irei acordá­‑la sozinha e a senhora nem ao menos
sentirá que esteve encerrada dentro de um túmulo. Eu já vi isto
acontecer vezes sem conta. A senhora tem de confiar em mim —
insistiu ela.
— Você quer que eu use esse pó?
— É sua única saída, mamãe. Veja só, eu tenho até o antídoto,
o contraveneno — disse ela, mostrando­‑lhe os saquinhos com os
dois pós, um branco e o outro encarnado. Cymbaline se enco‑
lheu de nojo.
— Mas o que aconteceu com você, minha filha? Quem foi
que lhe deu essa coisa maligna? Quem lhe pode ter ensinado
como usá­‑la?
— Mamãe, eu morei com um famoso Bokor em Port­‑au­‑Prince.
Eu vi o jeito como o pó é fabricado e tenho até a receita — confes‑
sou Angelique. — Eu vi os homens se erguerem dentre os mortos. A
senhora só precisa derramar um pouco na palma, soprar e respirar

264

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 264 29/05/12 19:12


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

do ar o pó bem depressa. Basta uma inspiração e a senhora perde a


consciência. Vai cair num sono tão quieto e sem vida, que eles terão
certeza de que a senhora morreu. Eles vão levá­‑la ao cemitério dos
condenados, que fica atrás do cemitério comum e enterrá­‑la direta‑
mente no chão.
Cymbaline só escutava, tremendo de nojo.
— Não! É uma coisa horrível demais! Você quer que eu seja en‑
terrada viva? Eu não tenho coragem. Jamais poderia fazer isso!
— Assim que todos tiverem ido embora, eu venho, desenterro o
caixão e a acordo. Você nem vai saber — tudo vai parecer um so‑
nho. E nós escaparemos juntas — insistiu. — Eu a levarei comigo
de volta para Port­‑au­‑Prince...
Cymbaline olhou para sua filha como se não a conhecesse mais
e sacudiu a cabeça, seus olhos cheios de preocupação e piedade.
— Mamãe, não há outro jeito...
— Dê­‑me o pó, então — falou com um profundo suspiro. — Eu
vou pensar nessas coisas todas que me contou. Eu realmente amo a
vida com todo o meu coração.
— Mamãe, eu lhe prometo que irei salvá­‑la!
Cymbaline tocou o rosto de Angelique novamente e a con‑
templou detalhadamente, como se quisesse decorar­‑lhe os tra‑
ços do rosto.
— Antes que você vá embora — disse­‑lhe. — Eu devo...
Existe uma coisa que eu pensei que jamais teria oportunidade
de lhe contar.
— O que é, mamãe?
— Théodore Bouchard, aquele monstro vil. Estou tão contente
em saber que foi você que o matou... Ele... — interrompeu­‑se, hesi‑
tando. — Ai, Angelique, eu lhe fiz um mal tão grande! Foram meus
sonhos ambiciosos para você que me levaram a fazer isso.
— O que há com ele?
— Eu lhe menti. Ele não era o seu pai.
— O quê!? Mas como você pode me dizer isso? A marca de nascen‑
ça em minha perna é igual a uma que ele tinha! — protestou a jovem.

265

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 265 29/05/12 19:12


Lara Parker

— Minha filha, uma marca de nascença é muito fácil de falsifi‑


car por alguém como eu.
— Mas por que você me disse que eu era dele?
— Eu pensei que ele iria se transformar em um senhor de engenho
rico e poderoso e que gostaria de você e lhe daria uma bela vida. Ele me
jurou que estava disposto a criá­‑la como uma dama. Tenho vergonha
de dizer que ele foi meu amante, um vilão de coração tão negro quanto
o dele e de que me deitei com ele muitas vezes. Ele chegou a me propor
casamento, mas eu disse que não — afirmou­‑lhe. — Não obstante, eu
lhe disse que ele era seu pai e ele me acreditou. Eu nunca soube que ele
era um Couchon Gris. Eu deixei que ele a levasse... logo você, uma cria‑
tura tão doce, um verdadeiro anjo. Ai, eu fiz uma coisa muito má ao
inventar aquela falsidade e meu coração está amargurado por isso. As‑
sim, você percebe, eu realmente mereço essa sentença triste.
— Nem diga isso!
— Foi um crime tão grande, que eu tenho de pagar por ele.
— Não fale desse jeito!
Angelique olhou para suas mãos, flexionando os dedos.
— Mamãe, nesse caso, quem foi o meu pai?
— Eu não sei. Eu realmente acredito que ele veio do mar. Você se
lembra do que eu lhe costumava dizer? De que nascera da água?
— Sim. E eu sempre achei que fosse verdade. Que eu era filha do
mar, porque me sentia tão feliz quando estava dentro dele.
— Eu vou contar­‑lhe agora a história do dia em que seu pai apare‑
ceu e você mesma decide. Era uma manhã muito estranha e não subia
qualquer brisa do oceano. O vento descia do vulcão, de Mont Pelée,
escaldante e áspero; o céu estava tão azul que parecia ferver; a espuma
do oceano estava grossa como creme. Eu estava juntando siris, mas
estava vendo o ar ao meu redor, todo fraturado em arco­‑íris e a areia
parecia composta de grãos de ouro. Foi nesse momento que eu pensei
que havia um feitiço no ar, porque ele estava tão quente e parado e
então eu vi aquele pássaro branco, imóvel, me olhando diretamente no
rosto e então tive certeza de que era isso mesmo que eu havia pensado.
— O pássaro lhe contou?

266

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 266 29/05/12 19:12


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

Cymbaline anuiu.
— Eu fiquei andando um pouco pela praia, mas estava difícil encon‑
trar siris, porque todas as conchinhas brancas da praia tinham ganhado
vida e estavam se movendo — prosseguiu ela. — Então eu vi a grande
tartaruga, muito verde e malhada, como um animal marinho subindo
à praia durante o dia. Ela tinha aberto ali o seu buraco, em plena luz do
dia, numa hora que ela não devia estar ali, porque não havia lugar ne‑
nhum para se esconder e eu cheguei perto e vi que estava soltando seus
ovos redondos e perolados por uma abertura abaixo de sua cauda. Ela
se virava para cá e para lá, para cima e para baixo, sacudindo a cauda e
esfregando as patas e eu soube na hora que era um feitiço.
— O que aconteceu?
— Ora, sem a menor dúvida, um homem saiu da água — doura‑
do como um deus, seus olhos pareciam caquinhos do céu.
— Então, foi ele?
— Ele ficou comigo cinco dias. Nós fizemos amor, amor de ho‑
mem com mulher, muitas vezes. E quando ele partiu, você estava
dentro de mim.
Angelique fechou os olhos e imaginou uma visão de sua mãe
caminhando através da espuma e usando um pareu de tecido floral
— esguia, cabelos longos, lisos e escuros, corpo ágil e curvilíneo, o
vestido grudado a seu corpo, como se ela fosse uma corbelha de
flores. Acima de tudo, ela percebeu sua timidez e seus movimentos
desajeitados de menina, a mulher que um homem veria, não a sua
mãe, tão sábia e amorosa, que a amamentara em seu peito, mas a
garota ondulante caminhando sobre a areia, recatada, mas sorri‑
dente, sorrindo como sorriria para um amante, movendo­‑se como
se tivesse música nos ossos.

* * *

O morto pendia do laço da forca. Girava lentamente, preso à corda


pelo pescoço, seus olhos arregalados na máscara da morte. O ar
estava quente e empapado de umidade, mas o céu estava acinzentado

267

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 267 29/05/12 19:12


Lara Parker

como chumbo e não havia a menor lufada de vento. O sol se punha,


uma esfera vermelha e enferrujada e ao longe se escutavam roncos,
ecoados por um rugido subterrâneo que significava que havia um
furacão a caminho da ilha.
Angelique esperou fora da prisão, no meio de uma multidão de mu‑
latos e bequês, os brancos naturais da ilha, que viviam na zona portuá‑
ria, todos vindos para apreciar as execuções e tentou acalmar o pânico
que lhe surgia no coração. Os guardas removeram o corpo do escravo
que acabara de ser enforcado e lançaram o baraço vazio novamente
para cima, onde fez a volta pela trave e ficou balançando pelo seu pró‑
prio peso até se aquietar. Uma fila de caixas de madeira verde que servi‑
riam como caixões estava em pé contra a parede da prisão sob a arcada.
Diversos enforcamentos já haviam ocorrido aquele dia e ela per‑
cebeu que a turba estava demonstrando sinais de impaciência. Ela
viu apenas um punhado de blancs, mercadores e comerciantes, mas
os juízes estavam parados em uma plataforma, usando vestes tala‑
res negras e havia um destacamento desorganizado da milícia fran‑
cesa; ela localizou o padre Le Brot perto do patíbulo, administrando
a extrema­‑unção para os condenados. Ela recuou um pouco, com
medo de que ele a reconhecesse.
— Tu conhecia a bruxa?
A voz a assustou e ela virou o rosto para uma mulher de pele
marrom e rosto gentil, que trazia seu nenê encaixado em um dos
quadris. Respondeu baixinho:
— Ela é minha mãe.
A mulher prendeu a respiração e a seguir soltou um suspiro bai‑
xo de comiseração, depois se virou e cochichou para uma compa‑
nheira. Todas olharam para ela com expressões lamentosas, e outra
mulher, um pouco mais escura, aproximou­‑se dela, seu rosto mar‑
cado de compaixão:
— Tua mãe não faiz mal argum — disse­‑lhe gentilmente. —
Essa sentença é muito injusta. Ela é uma boa curandeira. Ela feiz o
parto de meu filho. Todos os escravo de Trinité amavam ela.
Outra mulher falou baixinho:

268

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 268 29/05/12 19:12


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

— Foram os senhores de engenho de Grande Anse que queriam


vingar aquele capataz — os que se embebedavam junto com ele em
Saint­‑Pierre. Desde a rebelião aumentou a tirania, a suspeita e a
crueldade. Muitos são executados sem motivo nenhum.
O céu escureceu e ameaçava chover quando Cymbaline surgiu
no arco que conduzia ao portão da prisão e começou a caminhar
lentamente até o patíbulo. Angelique sentia seu coração batendo
violentamente e olhou com ansiedade para as nuvens baixas no ho‑
rizonte, porque temia que as gotas de chuva lavassem o pó do ar.
Sua mãe estava vestida com uma longa túnica branca e solta que
não conseguia disfarçar seu corpo esguio e seus cabelos negros caíam
em ondas por suas costas. Não usava quaisquer ornamentos, mas sua
beleza brilhava através do lustro de sua pele e de seus olhos cintilantes
como os de uma tigresa, que percorreram a multidão e se pousaram
em Angelique. A sombra de um sorriso perpassou sua face.
O trovão estrondou como um bombo profundo e o ar parecia
palpável, espesso e quente, pairando como um toldo sobre sua ca‑
beça. Cymbaline subiu ao patíbulo com a cabeça bem erguida, deu
apenas um leve tropeção no último degrau porque olhava para o
alto, depois ficou ereta sobre o assoalho da plataforma, somente um
leve tremor em seu lábio inferior a lhe trair o medo. Um sopro bem­
‑vindo de brisa atravessou a praça como uma alma penada, ergueu­
‑lhe a barra da túnica longa, mas fugiu antes de refrescar o
ambiente e o ar ficou parado novamente.
Angelique esperava que Cymbaline estivesse trazendo o pó em
uma das mãos. Mas alguma coisa estava errada. Alguma coisa não
era como ela havia imaginado. Angelique estremeceu com a súbita
constatação de que as mãos de sua mãe estavam atadas nas costas!
Como ela poderia levar o pó até as narinas para cheirá­‑lo?
Um juiz de toga negra leu a sentença, sua voz anasalada ressoan‑
do solene e firme no ar empapado de umidade.
— Cymbaline Harpignies, você foi acusada do crime de bruxa‑
ria, julgada, considerada culpada e condenada à morte por enforca‑
mento. Tem alguma coisa a dizer?

269

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 269 29/05/12 19:12


Lara Parker

Cymbaline contemplou o povo reunido a seu redor. Seus cabelos


negros emolduravam­‑lhe o rosto e seus olhos estavam esgazeados.
— Eu suplico ao povo aqui presente que me escute uma última
vez — falou com a voz perfeitamente controlada. — Eu não cometi
crime algum e somente defendi minha honra contra uma humilha‑
ção que mulher alguma deve ser forçada a suportar.
Angelique viu a velha cólera crescer dentro dela:
— Os juízes dizem que ele era um homem branco e como eu
tenho sangue africano em minhas veias, não tinha qualquer direito
de feri­‑lo. Ele era branco, admito isso, mas era uma besta vil e licen‑
ciosa, não era um homem em absoluto. Eu não o chamarei de ho‑
mem e quaisquer que busquem vingança por sua morte tão bem
merecida são monstros tão brutais quanto ele!
Correu um murmúrio pela multidão, enquanto os juízes confa‑
bulavam uns com os outros e então um fez sinal ao sacerdote. O
padre Le Brot subiu ao cadafalso.
— É uma bruxa! — gritou um homem. — Ela não precisa tomar
a comunhão!
O padre se voltou para o homem que gritara e lhe disse com gentileza:
— Todos são iguais aos olhos de Deus e todos os que recebem os
sacramentos ascendem aos Portões do Céu.
Angelique não podia esperar mais. Esperando que ele não a re‑
conhecesse, avançou para frente da multidão enquanto o padre pu‑
nha a hóstia na boca de Cymbaline e quando ela avançou até o
centro do patíbulo, ela gritou:
— Padre, dê­‑lhe um crucifixo para segurar!
O padre Le Brot virou­‑se e franziu a testa levemente ao escutar a
voz, mas não olhou para baixo em sua direção.
— Ela precisa de uma cruz, padre! — insistiu Angelique
com urgência.
Em vez disso, o padre olhou para os juízes, questionadoramente.
O juiz principal hesitou, depois deu de ombros e Angelique soltou
um suspiro de alívio ao ver o guarda desatar os pulsos de sua mãe e
o padre lhe estender o crucifixo. Cymbaline olhou para a cruz de

270

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 270 29/05/12 19:12


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

madeira por um longo momento, depois seu olhar se desviou e ela


viu Angelique na primeira fila, diante do cadafalso. Seus olhos se
fitaram e Angelique anuiu lentamente.
Cymbaline estendeu a mão rapidamente para o crucifixo,
segurou­‑o, apertou­‑o rapidamente contra os lábios, soltando um
bafo de fumaça branca no ar. Então apertou o crucifixo contra o
peito. Suas narinas se abriram, seus olhos se arregalaram, ela
olhou para Angelique de novo e então respirou a plenos pulmões
enquanto o carrasco erguia o baraço. No instante seguinte, seus
olhos se vidraram, ela vacilou, desmaiou e caiu, amontoada sobre
as tábuas imundas do patíbulo. Seu braço se abriu para fora, a
mão ainda segurando firmemente o crucifixo. Enquanto os cir‑
cunstantes surpresos se amontoavam a seu redor, sua respiração
foi cessando, até que parou.
Como em resposta, o céu escureceu. As nuvens vomitaram chu‑
va, empapando a populaça. As bátegas martelaram o corpo imóvel
de Cymbaline enquanto um dos guardas a endireitava e estendia de
costas sobre a plataforma para lhe examinar o rosto.
— Está morta? — a voz que fez a pergunta parecia estar cuspin‑
do em vez de falar.
— Morta, sim — disse o guarda, com uma finalidade cheia de
indagações, sacudindo a cabeça em descrença, gotas de chuva a
pingar­‑lhe do nariz.
A multidão explodiu e exigências furiosas e contraditórias foram
lançadas aos juízes.
— Ela era mesmo uma bruxa! O crucifixo a destruiu!
— Não! Isso prova que ela era uma mártir! A cruz salvou­‑a do
nó do carrasco!
— Enforquem ela mesmo assim!
— Sua sentença foi injusta!
— E se ela era mesmo uma bruxa? Ela vai voltar para nos atormentar!
— Isso não é verdade! — gritou o padre acima das outras vozes,
sua gagueira esquecida. — Cristo a levou consigo no momento em

271

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 271 29/05/12 19:12


Lara Parker

que ela colocou o crucifixo contra o coração! Ela merece ser enter‑
rada no campo santo!
— Essa bruxa tem de ser é queimada! Senão, vai “envivescer”
de novo!
Mas o padre Le Brot impôs sua autoridade e o corpo de Cymba‑
line foi erguido e carregado de volta para a prisão. Lá dentro, ela foi
envolta em uma mortalha limpa e colocada no último ataúde vazio,
ainda em pé contra a parede, sob a arcada da galeria. Lençóis de
chuva estouravam contra as pedras do calçamento da praça.
A procissão funerária começou lentamente, seguindo pelas ruas
curvas e estreitas até a beira da cidade. Os caixões foram empilha‑
dos em um pesado carroção puxado por dois cavalos de tiro e An‑
gelique pôde notar que havia muitos pranteadores, a maioria das
famílias dos condenados que haviam sido executados, alguns cho‑
rando, outros caminhando pesadamente, um remorso baço evi‑
dente em seus olhos. Ela olhou com o maior cuidado e teve certeza
de que o caixão de sua mãe era o último a ser colocado na traseira
do carroção, ainda melhor identificado porque o padre Le Brot ti‑
nha amarrado o crucifixo à corda que prendia a tampa do caixão,
já que nenhum deles fora pregado ou aparafusado. Angelique ca‑
minhava logo após o veículo, algumas vezes estendendo a mão
para tocar no ataúde de madeira áspera, como para se assegurar de
que tudo estava bem.
A chuva incessante caía como em cortinas, impulsionada agora
por um vento traiçoeiro que parecia não brotar de direção alguma,
mas soprar de todas ao mesmo tempo, impulsionando a chuva de
lado através da estrada, dobrando as árvores quase até o chão e de‑
pois girando e arrancando o capim do chão em feixes enovelados.
O rugido que descia do céu se tornara constante, agora acompanha‑
do por um estrondo que subia do mar e Angelique percebeu que a
maré estava sendo reforçada pelo vento e que ondas de grande altu‑
ra se atiravam com grande violência contra a praia.
Angelique observou enquanto o ataúde era baixado até o fundo da
cova escura, que parecia cheia com a água que fluía de mil riachinhos

272

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 272 29/05/12 19:12


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

recém­‑criados pela inundação. Outras gotas de chuva explodiam


contra a tampa de madeira lisa.
Os coveiros não puderam palear a terra para dentro da sepultura,
mas foram obrigados a raspar a lama para cobrir o buraco, lutando
finalmente para cobrir a cova com leivas de terra encharcadas. A força
do vendaval tornava difícil permanecer em pé, e os dois homens se
curvavam sob seu impulso enquanto labutavam. Finalmente, eles de‑
ram o serviço por terminado e um dos homens se apoiou com uma das
mãos contra o cabo da pá enquanto tirava a água do rosto com a outra
mão. Depois ele se ergueu e olhou para Angelique que se surpreendeu
ao reconhecer o carcereiro, com sua barba ruiva e crespa e o olho de
azul nublado que emprestava uma malevolência obtusa a seu olhar.

* * *

Quando o furacão estava soprando em seu assalto mais furioso,


Angelique retornou ao cemitério deserto com uma pá, firmou os
pés bem separados para resistir contra a fúria das rajadas uivantes
do vento e começou a cavar. Copas de palmeiras voavam pelo ar e
longas folhas escuras de coqueiros voavam ao redor de sua cabeça
enquanto ela se curvava para realizar a tarefa. Logo seus braços do‑
íam de cima a baixo, desacostumados com o trabalho e suas costas
sofriam espasmos de dor. Ela sentia o vento como um corpo físico,
empurrando sua estrutura óssea tão enfraquecida pelos meses de
desnutrição em Port­‑au­‑Prince e ela cambaleava a cada nova lufada.
Frequentemente sua pá subia apenas com meia dúzia de pedrinhas,
porque o vento e a chuva empurravam a lama de volta para a mi‑
núscula abertura que conseguira cavar. Finalmente, ela se pôs de
joelhos e começou a atirar para fora a lama com as mãos em con‑
cha, pouco se importando com o sangramento nos dedos e nas jun‑
tas quando encontravam calhaus aguçados que lhe quebravam as
unhas e rasgavam e arrancavam a pele das mãos.
O vento girou em redemoinho e o galpão junto ao portão do
cemitério explodiu e depois desabou com um som ensurdecedor

273

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 273 29/05/12 19:12


Lara Parker

enquanto cacos de tijolo se esfarelavam em pedaços e as paredes


de pau a pique se desfaziam em lama. Parecia que o mundo intei‑
ro estava se desmanchando. Não conseguia respirar direito pelo
nariz, mas cada vez que abria a boca para inspirar, ela se enchia de
água e Angelique recordava as muitas vezes em que fora derruba‑
da pela arrebentação da maré e perdia o senso de direção, nadan‑
do para o fundo ao invés de subir à superfície das águas. Só que
agora não havia qualquer superfície para ser atingida e lhe aliviar
o afogamento neste oceano de ar espumante que batia nela com
punhos pesados, e mesmo assim as rajadas de vento lhe enchiam
os olhos com fragmentos de cal ou madeira a um ponto em que
não conseguia mais enxergar.
Mas ela persistiu escavando a sepultura, logo conseguiu meter­‑se
dentro dela e suas beiradas começaram a protegê­‑la da fúria do ven‑
to, embora a água e a lama persistissem em se juntar a seu redor, até
que, finalmente, seus dedos arranharam a madeira áspera da tampa
do caixão grosseiro. Ela começou a rezar baixinho: “Mamãe, não
acorde, eu estou aqui, eu vim buscá­‑la, vou tirá­‑la daí de dentro e
sua morte será lavada pelo furacão e tudo o que recordaremos de
sua fúria será sua ressurreição...”.
Finalmente, ela conseguiu limpar a lama de sobre a tampa do
ataúde, pois agora a chuva até a ajudava, lavando os torrões de
terra restantes de cima da tábua e escorrendo para o fundo da
cova e fazendo o ataúde começar a flutuar, até que, com um ím‑
peto de alegria, ela arrancou o crucifixo, rebentando a corda que
amarrava frouxamente o caixão e se ergueu, esforçando­‑se por
enfiar os dedos sob a superfície de madeira escorregadia a fim de
levantar a tampa.
Seu primeiro pensamento foi que a água havia enchido o ataúde,
porque a mortalha era tão fina e parecia grudada no fundo, mas
quando ela arrancou o tecido empapado, um pavor enjoativo se en‑
roscou ameaçadoramente ao redor de seus ossos. Ela olhou para o
receptáculo aberto em pura incompreensão. O caixão estava vazio!
— Mamãe! Mamãe!?

274

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 274 29/05/12 19:12


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

Não! Mas como podia ser isso? Onde ela estava? Cambaleando
através do cemitério, tropeçando, caindo na lama e se erguendo no‑
vamente, ela saiu em busca de outro túmulo cavado recentemente,
mas os detritos soprados pela tempestade cobriam cada centímetro
da terra e não havia nada senão lama embaixo dos galhos arranca‑
dos e destroçados. Ela gritou: “Mamãe!” mais de uma vez. Mas o
vento arrancava os sons de sua garganta antes mesmo que pudes‑
sem sair e a única resposta eram os rugidos do furacão. Ela caiu de
joelhos, soluçando.
— Em algum lugar... por minha culpa... em algum lugar nessa
escuridão amarga... ela vai se acordar e terá de morrer... uma segun‑
da vez... e deve estar sofrendo agora, deve estar gritando por mim
para me avisar... e eu não consigo escutar­‑lhe a voz... Eu não consigo
encontrá­‑la... não... ai, meu Deus, por favor... não!
Ela ergueu os braços histericamente para os uivos do vento e seu
grito saiu tão agudo, que superou o rugido da tempestade.
— O que você fez comigo? Você me traiu! Responda­‑me! Diabo!
Atormentador! Assassino!
Os uivos da ventania foram sua única resposta, mas ela conse‑
guia percebê­‑lo em algum ponto do ar turbulento, tão seguramente
como conseguia escutar dois corações batendo dentro de seu peito
e ela soube que ele descobrira a maneira de destruí­‑la para sempre.
Ela olhou para o céu tumultuado e o invocou com toda a sua força:
— Salve­‑a! Mostre­‑me onde ela está, Demônio! Satã! Onde es‑
tás? Por que me abandonaste? Vem para mim!
E finalmente, a voz lhe respondeu dentre o rugido anestesiante.
— Aqui estou...
Ela girou e esquadrinhou a escuridão em busca dele, mas só con‑
seguiu divisar o dilúvio furioso que a cercava.
— Salve­‑a!
— Você é um desapontamento para mim, Angelique — disse a
voz, em seu tom monótono, rascante e profundo. — Não fui eu que
roubei o corpo dela. Foi o carcereiro caolho quem fez isso. Você
sofre por causa de seu orgulho e dos medos que a aleijam. Você

275

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 275 29/05/12 19:12


Lara Parker

acredita somente em seus próprios poderes. Você me rejeitou e ago‑


ra, quando lhe convém, está me invocando. Estou cansado de você.
Quando seu coração se tornar em pedra, então eu a buscarei. Até
então, você nunca saberá quando seus poderes lhe falharão!
— Eu renuncio a meus poderes! Está me escutando! Não quero
mais saber deles, agora e para sempre! Não me servem para nada!
Somente me trazem desespero e me partem o coração! Vá para lon‑
ge de mim, para sempre e os leve consigo quando for!
Se os gritos do vento pudessem rir, um assobio agudo e de furar
os tímpanos soou qual uma gargalhada maléfica e ele disse então:
— Como queira, minha filha, como queira! A escolha foi total‑
mente sua!
E a entidade foi sugada pelo holocausto e desapareceu a distância.

276

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 276 29/05/12 19:12


Dezenove

arnabas olhava pela janela de seu quarto em um dia que de‑


monstrava toda a beleza que surge após a passagem da tempes‑
tade. Nuvens pesadas ainda pairavam baixo no céu, mas a luz se
derramava ao redor delas, formando halos de prata ao redor de suas
sombras escuras e raios brilhantes iluminavam o chão para se refle‑
tirem nas gotículas que pendiam dos ramos. O ar fora lavado pela
chuva e, quando o sol finalmente apareceu, a grama mostrava todas
as nuances de um verde­‑esmeralda encantador.
Fazia duas semanas desde que ele entrara em colapso e agora
tanto ele como Júlia acreditavam que o ataque do vampiro não fora
suficiente para lhe reverter a cura. Os longos dias passados na cama
o haviam deixado impaciente. Estava tão tenso que era agora im‑
possível dormir e, embora ainda se sentisse fraco, não poderia per‑
manecer no quarto sequer por mais uma hora.
Júlia estava sentada em sua escrivaninha, trabalhando para recupe‑
rar as páginas do diário. Finalmente havia conseguido afrouxar um tre‑
cho particularmente grosso, quando escutou uma batida à sua porta.

277

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 277 29/05/12 19:12


Lara Parker

— Sim? Quem é?
— Sou eu, Barnabas. Posso entrar?
Ela correu para abrir a porta.
— Barnabas, você não devia ter saído da cama!
Ele estava encostado no marco da porta, sorrindo, e ela percebeu
que seu rosto já adquirira alguma coloração.
— Ah, Júlia, eu estou chateado. Queria te perguntar se eu podia
sair para dar um passeio e se você estava disposta a caminhar comi‑
go. Eu não acho que vá precisar que empurre minha cadeira de ro‑
das — brincou. — Mas talvez eu tenha de me apoiar no seu ombro...
Ela se ruborizou levemente.
— Mas é uma ideia encantadora! — ela exclamou. — Vou com
você agora mesmo!
Enquanto ela pegava seu casaco, ele divisou o livro sobre a escriva‑
ninha, brilhando à luz do abajur. Ele franziu a testa inicialmente, mas
quando percebeu o que de fato era, pareceu ficar bastante perturbado.
— Júlia... que negócio é este aqui em cima?
— Ai, Barnabas! É... é o diário de Angelique...
— Mas... você o havia enterrado!
— Eu sei que o enterrei. Lamento tanto... Foi uma ação egoísta
e estúpida...
Ele ficou olhando para ela, mais espantado que reprovador e
ela prosseguiu:
— Eu estava planejando devolvê­‑lo a você, Barnabas. Estive traba‑
lhando nas páginas. Salvei delas o quanto pude. Mas... temo que toda
a parte central esteja perdida, salvo por trechos e frases isoladas...
Ele caminhou até a superfície em que jazia o livro e o contem‑
plou como se não pudesse acreditar que estivesse ali.
— Você esteve lendo o diário?
— Sim... E devo admitir que ela teve uma infância fascinante. Mas
tão envolvida com o sobrenatural. Definitivamente, ela era uma feiti‑
ceira, uma feiticeira treinada, tornara­‑se uma sacerdotisa vodu já aos
quatorze anos. As partes que eu li foram muito perturbadoras.
— E você ainda acha que seja... maligno?

278

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 278 29/05/12 19:12


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

— Devo dizer que sim. Percebo que é somente um registro de


suas experiências, mas elas foram depravadas e espiritualmente
corruptas. Contudo, ela sofreu tanto que eu quase senti pena dela.
Ela nunca conheceu seu pai verdadeiro e... coisa de partir o cora‑
ção... sua mãe sofreu uma morte horrível por culpa dela. Eu acho
que, depois disso, ela tentou desistir de seus poderes e passar a viver
uma existência normal.
— Mas você ainda acha que o livro é perigoso.
— Bem, eu sinto que pode ser, sim — ela concordou. — Contu‑
do, há várias noites eu venho lendo partes dele e... sobre mim não
causou efeito algum... salvo repugnância, uma sensação de que al‑
gumas partes dele eram totalmente repulsivas...
— O que está a me dizer é que agora você pensa que não há pro‑
blema em que eu volte a ler o que sobrou dele.
— O que eu penso... é que eu não devia ter tentado impedir que
você o lesse...
— Bem, a verdade é, Júlia, que eu absolutamente não estou mais
interessado nesse diário. Preferia que você o tivesse deixado lá onde
estava, enterrado no cemitério.
Júlia sacudiu a cabeça e soltou um risinho amarelo.
— Por que está rindo?
— Só porque eu passei longas horas secando as páginas e as se‑
parando com o máximo cuidado. Pode ter sido uma tolice de mi‑
nha parte, mas eu queria lhe devolver o livro para que você não
ficasse mais zangado comigo...
— Mas, Júlia, eu nunca me zanguei realmente com você! Eu lhe
sou devotado e tenho uma grande dívida para consigo. Vamos, dei‑
xe essa coisa aí. Vamos dar nosso passeio e não mencionar mais esse
diário ridículo.

* * *

Mais tarde, nessa mesma noite, como acontecia quase sempre com
ele, Barnabas não conseguia dormir. Bateu de leve à porta de Júlia,

279

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 279 29/05/12 19:12


Lara Parker

antes de abri­‑la. Ela dormia profundamente e ele achou melhor


não incomodá­‑la. O diário de Angelique permanecia aberto sobre
a escrivaninha. Seu formato tinha mudado. Estava mais grosso do
que antes, porque as páginas estavam empenadas. A capa de couro
estava mais negra e mais pesada, mas um luar gentil entrava pela
janela e caía sobre o volume danificado, imbuindo­‑o com uma cin‑
tilação fantasmagórica. Depois de hesitar um momento, ele o pe‑
gou e, após fechar a porta silenciosamente, retornou com ele para
seu próprio quarto.
Suas mãos tremiam quando ele abriu o livro e começou a ler.
Subia um odor peculiar das páginas, de um mofo concentrado, sal‑
gado como a água do mar, porém quase imediatamente uma série
de imagens começaram a se formar em sua mente, qual tivesse sido
capturado por um sonho.

* * *

Césaire encontrou Angelique, prostrada e quase afogada pela


chuva, ao lado da sepultura meio cheia de lama e conduziu­‑a,
estonteada e incapaz de resistir, para o lugar em que morava, o
galpão do fabricante de velas. Assistiu enquanto ela emitia um
longo gemido e carpia por sua mãe, chegando à própria fímbria
da loucura e somente sua simpatia e constante vigilância impe‑
diram que cometesse suicídio. Durante o dia, quando estava
acordada, sentia­‑se escaldada de remorso, durante as horas de
sono era perseguida por pesadelos formados por um emara‑
nhado de visões horríveis. Não tinha para onde fugir, salvo
para uma semi­‑inconsciência drogada, que Césaire lhe induzia
com chá de camomila misturado a umas gotas de tafiá, a ca‑
chaça dos escravos.
Um dia, ela pareceu estar um pouco melhor ao acordar. Olhou
pela janela para o novo dia com um rosto pálido e emagrecido.
Virou­‑se para ele e indagou:
— Diga­‑me uma coisa, Césaire. O que aconteceu com Basse Pointe?

280

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 280 29/05/12 19:12


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

— Ora, tá entregue pros ratos, guria. Todo mundo foi embora.


Os escravos rebeldes... tão todos morto. A casa­‑grande tá aban‑
donada. O povo todo tem medo de ir lá, dizem que tá cheia de
almas penadas.
— Você vai comigo até lá?
— Por que tu quer ir até lá, guria?
— Quero meus livros.
Assim, Césaire arranjou emprestada uma égua velha e cavalga‑
ram juntos até as colinas, ela na garupa, agarrada às suas costas.
Sentia consolo na proximidade de seu corpo magro, mas que pare‑
cia feito de aço e ela enfiou o rosto em seus cabelos, que eram ma‑
cios e tinham cheiro de rosas secas. Ela prendeu as pernas nos
flancos da égua e deixou seu passo lento embalá­‑la, afrouxando os
nós de dor que retorciam seus ossos.
Ela nunca havia percebido que a mata era tão luxuriante, árvo‑
res imensas cujas copas pareciam chegar até as nuvens, o mato
rasteiro ostentando folhas largas de um verde-escuro, lianas en‑
feitadas com orquídeas e helicônias brilhantes arqueadas como
pássaros escarlates. Havia zumbidos e farfalhadas entre as espes‑
sas touceiras de avencas e um calor intenso subia de poças fétidas
entre as sanguinárias, cujos grandes troncos, cheios de projeções
em leque semelhantes a arcobotantes subindo desde as raízes, se
espalhavam pelos brejos.
De vez em quando, um trecho de céu surgia por entre as copas
das árvores ou ela observava de relance o imenso Mont Pelée su‑
bindo até um teto de névoas, seus lados íngremes afogados em um
pelame verde e Angelique sentiu uma ânsia que não podia compre‑
ender. Era como se a montanha a estivesse chamando.
Teve uma sensação estranha ao atravessar o portão pesado, as folhas
escancaradas e meio pendentes das dobradiças que começavam a enfer‑
rujar, que foi ficando mais forte enquanto ela cruzava o pátio cheio de
ervas daninhas. Césaire estivera certo ao dizer que a plantação estava
deserta. As pás do belo moinho revolviam lentamente, como as velas de
um navio fantasma, mas estavam separadas das engrenagens e as

281

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 281 29/05/12 19:12


Lara Parker

pedras de moer a cana estavam silenciosas. Pilhas de canas secas ainda


estavam amontoadas contra as paredes, desmanchando­‑se aos poucos
em palha e moinha, enquanto a brisa leve roçagava entre suas hastes
que pareciam feitas de folhas de papel seco enroladas.
Enquanto Angelique subia as silenciosas escadas de pedra para
seu antigo quarto, as imagens se sucediam rapidamente dentro de
sua mente. Tudo estava igual, seus livros exatamente onde os havia
deixado mais de um ano antes, jazendo na poeira acumulada em‑
baixo de sua cama e ela retirou dali o seu diário, alguns livros esco‑
lares e o Shakespeare que lhe dera o padre.
O quartinho por detrás do altar parecia menor e mais esquálido
do que ela recordava, mas ela cuidadosamente escolheu uma varie‑
dade de ervas e pós curativos guardados em pequenos recipientes e
colocou­‑os dentro de um alforje que havia trazido para esse fim. O
livro de feitiços estava caído em um canto, coberto de fuligem e ela
deixou que ficasse ali mesmo.
Erguendo a cortina esfiapada, ela entrou no santuário. Ficou pa‑
rada vários minutos diante do altar, escutando o som do vento as‑
sobiando do lado de fora das paredes de pedra e o silêncio completo
e implacável que reinava no interior. Pela última vez ela deu adeus,
como já o fizera ao lado da sepultura de sua mãe, a todos os seus
poderes das trevas.

* * *

— Mas eu não quero ser dama de companhia!


— Angelique, me escuta, tu tem de seguir em frente. O que mais
tem na vida que uma nova aventura? Tu não pode rodá um moinho
despois que a água do rio secou! — falava Césaire, pacientemente,
sentado ao lado dela, enquanto a moça comia o peixe seco e os bis‑
coitos que ele lhe trouxera.
— Não posso ficar aqui contigo?
— Não tem nada pra ti aqui — disse Césaire firmemente, en‑
quanto lhe mostrava um pedaço de papel que trazia na mão, no

282

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 282 29/05/12 19:12


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

qual estava escrito um nome: Condessa Natalie du Prés. — Olha pra


isto e pensa na tua cabeça. Isto é um bom sinal. Uma senhora im‑
portante, que veio de Paris e tu é um pouco educada, modesta e
sensata, justo o que ela vai querer...
— Mas, Césaire, serei uma criada...
— Guria, todo mundo é criado de alguém. A gente que a gente
obedece nos conserva respirando e nos dão razão pra viver...
— Não. Eu quero ficar aqui.
— Tu é boa demais pra esta vida. Tem mais, eu também tô
indo embora...
— Você vai? Você vai embora?
— Tu sabe que meu sonho é sair pro mar e é o que eu pretendo
fazê daqui a pouco, guria. Os porco não se importa com a lama em
que vive, mas os pássaro têm de voar no ar.

* * *

A plantação de Trinité era mantida com esmero e os canaviais eram


imensos. Enquanto Angelique se aproximava da casa­‑grande, ficou
quase cega com o brilho do sol refletido no teto de telhas vermelhas
da varanda. Era um prédio muito bem construído, com dois anda‑
res e rebocado de cima a baixo, com os postigos pesados pintados
de verde. Uma gigantesca roda de madeira girava em uma corrente
veloz para acionar o moinho e as águas cintilantes do rio ondeavam
através das pastagens. Ela avistou quatro ou cinco escravos decente‑
mente vestidos — trabalhando no jardim, cuidando das árvores
frutíferas espalhadas pelos gramados e levando lenha para a cozi‑
nha em carrinhos de mão. As colinas estavam cobertas de canaviais
até o horizonte, pintalgando a terra com manchas multicores de
mogno, esmeralda e ouro.
A Condessa Natalie du Prés estava sentada em uma poltrona de
vime em sua ampla sala de visitas, bebericando chá de uma taça de
porcelana. Usava um vestido de tafetá magenta e seus cabelos des‑
ciam em cachos vermelhos. Seu rosto era anguloso, com maçãs

283

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 283 29/05/12 19:12


Lara Parker

salientes como as de uma cobra e seu nariz era aquilino com nari‑
nas grandes. Seus olhos de um castanho-escuro fixaram­‑se desde‑
nhosamente sobre Angelique e ela apertava os lábios ao falar.
— Angelique, é o seu nome? — comentou ela sem a menor sim‑
patia. — Mas você não passa de uma criança malvestida, sem graça
e desinteressante. Por que eu iria querer contratá­‑la? Obviamente
você é uma filha de camponeses e não tem nada para me oferecer.
Quem é sua mãe?
— Ela está morta, Madame. Mas trabalhava no hospital dos seus
escravos. Seu nome era Cymbaline — respondeu Angelique.
— Ah, sim, eu me lembro dela, foi condenada por ser bruxa —
disse a senhora, suas sobrancelhas se apertando no meio da testa.
— Você é que nem ela?
— Oh, não, Madame...
— Você não mexe com venenos ou pratica bruxaria?
— Não, Madame. Essas coisas me assustam.
— Não, é claro que não. Você é ordinária demais para se meter
com qualquer coisa que se refira ao oculto...
— Mas eu trabalho com afinco, Madame. E aprendo depressa.
— Não, não, a questão não é essa. Eu preciso é de uma moça
que possa fazer companhia à minha sobrinha em seus estudos.
Você não serviria de maneira alguma. Garanto que nem sequer
sabe escrever!
— Mas eu sei, Madame e posso declamar Shakespeare de cor.
— Realmente? Você recita Shakespeare? Acho muito difícil acre‑
ditar nisso.
— É verdade, Madame.
— Sem dúvida... Declame alguma coisa para mim.
Angelique pensou por um momento.
— Qual é a sua peça favorita?
— Está tentando pretender que conhece todas? Ou está ganhan‑
do tempo porque mentiu?
— Vou dizer­‑lhe alguma coisa de A Tempestade, se a senhora
gosta dessa...

284

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 284 29/05/12 19:12


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

— Vá em frente.
Angelique respirou fundo e começou a recitar baixinho, sua
voz assumindo a cadência melodiosa à medida que sua cora‑
gem aumentava.

“A cinco braçadas jaz teu pai


E os corais são feitos de seus ossos;
Estas pérolas foram um dia seus olhos,
Nada de seu corpo desapareceu,
Porém tudo foi transformado pelo mar
Em algo mais rico e mais estranho.
As ninfas do mar dobram finados de hora em hora.
Escutai! Eu ouço agora o tilintar do sino...”

A condessa ficou espantadíssima.


— Onde foi que você aprendeu isso?
— Eu ganhei um livro com as peças de Shakespeare, Madame,
quando era pequena.
— Bem, sim, hummm, está bem. Embora a capacidade de me‑
morização não seja um sinal de inteligência. A imaginação e a per‑
cepção é que são as marcas de uma mente arguta.
— Sim, Madame.
— Contudo, é impossível encontrar criadas educadas nesta ilha.
Uma vez que estou precisando de uma criada aceitável, talvez possa
treiná­‑la. E Josette precisa de uma companheira. É um verdadeiro
inferno obrigá­‑la a estudar suas lições.
— Eu estudarei junto com ela, Madame. Farei o que estiver a
meu alcance para ajudá­‑la.
— Ela é mais moça que você e muito mais bonita. É por isso
que o pai dela lhe faz todas as vontades. Mas nós vamos só fazer
uma experiência com você, entenda­‑me bem. Já lhe aviso desde
agora, o menor sinal de preguiça ou de insolência de sua parte e eu
a ponho no olho da rua! Você vai morar no alojamento dos cria‑
dos, mas vai se apresentar com Mademoiselle Josette na biblioteca

285

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 285 29/05/12 19:12


Lara Parker

sempre que seu tutor vier e, caso se demonstre uma estudante


mais ou menos decente, quem sabe? Posso até permitir que você
permaneça conosco.
E assim começou o longo período de Angelique como dama de
companhia. Ela viveu uma vida comum, totalmente sem aconte‑
cimentos marcantes, embora estivesse empregada e gozasse de
um certo conforto. Tarefas inumeráveis a ocupavam da aurora ao
crepúsculo e somente quando estava sozinha em sua cama de
noite é que tinha tempo de pensar em si mesma, em suas lem‑
branças e nos seus sonhos.
A condessa era uma patroa exasperante, mutável e imprevisível e
sempre de mau humor. Sempre exigia mais do que Angelique podia
realizar e insistia em uma devoção completa a seus deveres. Assim
que uma nova exigência era satisfeita ou uma habilidade desenvol‑
vida, ela não lhe dava mais a mínima importância, mas começava a
se queixar de falta de cuidado ou de jeito em uma habilidade que
não lhe fora ainda ensinada e muito menos desenvolvida, seus olhos
como contas brilhantes girando em torno dela por cima dos mala‑
res parecidos com os da caveira da jararaca em seu amuleto. Ela
nunca ficava satisfeita e jamais fazia um elogio. Mas mesmo que ela
não o admitisse, sequer para si própria, começou a depender gran‑
demente de Angelique, porque ela era, apesar de todos os seus ares
de grande dama, singularmente preguiçosa.
A condessa tinha de ser acordada às nove em ponto pela abertu‑
ra dos cortinados e, uma vez que ela detestava o sol quente, estava
sempre de mau humor a manhã inteira. Ela esperava sua bandeja
com chá e bolinhos de leite ao estilo inglês, mas se achasse o chá
muito frio ou muito fraco ou os bolinhos secos demais, mandava
tudo de volta com duras palavras de reprovação. Insistia que a ban‑
deja de prata estivesse perfeitamente polida e que os guardanapos
de linho tivessem sido passados sem a menor dobra. Caso contrá‑
rio, nem sequer permitiria que fossem dispostos sobre seu leito. Ela
se queixava incessantemente de Martinica, “esta jângal monótona
cheia de pestilência e flores nojentas”.

286

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 286 29/05/12 19:12


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

Sua toalete matinal consistia em um banho, a água batizada


com óleos perfumados e esperava que Angelique a esfregasse, mas
sem violência demais. Depois do banho, tinha de ser empoada e
seus cabelos penteados de uma forma complicada, que ela rein‑
ventava a cada manhã.
A Condessa du Prés se considerava como membro da realeza e o
verdadeiro lar de sua alma era Versalhes. Deste modo, os únicos
padrões que aceitava eram os parisienses. Mesmo no calor pegajo‑
so de Martinica, ela usava um vestido de seda com todos os seus
detalhes e várias anáguas por baixo dele, preferindo sofrer o des‑
conforto do clima a vestir­‑se como uma “camponesa”, segundo
sua expressão favorita.
Assim que a condessa se achava ataviada e seu quarto fora arru‑
mado, Angelique era dispensada para ir à biblioteca. Lá encontrava
o tutor de Josette a esforçar­‑se por ensinar à menina alegre mas
desatenta suas novas lições. Os temas oscilavam entre poesia e lite‑
ratura, as artes da linguagem, música, matemática básica e um pou‑
co de geografia, tudo ia sendo apresentado aos poucos e Angelique
achava uma tarefa fácil tornar­‑se o modelo de uma estudante apli‑
cada. De fato, sentia­‑se fascinada por todas as matérias e se aplicava
a seu estudo com grande energia. Apreciava especialmente a litera‑
tura e sempre ficava desapontada quando as lições terminavam.
Josette, por sua parte, estava muito mais interessada em brincar
de esconde­‑esconde, fantasias e faz de conta. Aquilo de que ela mais
gostava eram as instruções sobre as formas de se comportar como
uma dama. Suas obsessões eram roupas e boas maneiras e ela falava
constantemente em ir a Paris para ser recebida na corte do rei.
Contudo, Angelique era forçada a admitir que ela tivesse certo
encanto. Sua natureza era generosa e sua tagarelice incessante esta‑
va cheia de observações gentis e comentários alegres sobre as pesso‑
as e o mundo que a rodeava. Era afetuosa e se inclinava para tocar
nas pessoas com quem conversava, garantindo assim sua atenção
constante, suas frases jorrando como de uma fonte cristalina. Ti‑
nha talento musical e, apesar de uma recusa cansativa a estudar,

287

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 287 29/05/12 19:12


Lara Parker

tocava o harpicórdio com facilidade, lembrando as melodias ou as


tirando de ouvido, martelando as teclas com delicadeza, enquanto
cantava com voz aguda e graciosa as frases cadenciadas.
Josette amava a todos e logo estava enamorada de Angelique, que
devolvia o sentimento com alguma relutância. Mas como ambas
precisavam de uma companheira mais ou menos de sua idade, no
devido tempo se tornaram muito íntimas. Embora a condessa nun‑
ca permitisse a Angelique esquecer qual era o seu lugar, Josette se
demonstrava totalmente inconsciente do contraste social entre elas
e tratava Angelique como se fosse sua irmã.
Ela era generosa em excesso e teria dado todos os seus brinque‑
dos e roupas para Angelique caso a condessa o permitisse. Mas Jo‑
sette estava sempre ganhando novos vestidos e enfeites, de modo
que algumas de suas roupas usadas eram repassadas. Contudo, ela
não tinha ciúmes nem orgulho de nada, salvo de sua pele imacula‑
da, que ela guardava religiosamente dos assaltos do sol tropical. Ra‑
ramente era vista ao ar livre sem uma sombrinha e quando passeava
pelos jardins, era quase como se fosse outra flor, seus cachos de um
castanho­‑avermelhado cascateando pelos seus ombros e sua figura
delicada movendo­‑se graciosamente sob a curva do guarda­‑sol.
O almoço era no jardim coberto, junto com a condessa e, natu‑
ralmente, Angelique era obrigada a servir à mesa. A Condessa du
Prés instruía Josette às delicadezas do decoro apropriado à mesa,
completas com a maneira educada de conduzir a conversação tanto
em referência ao assunto quanto à modéstia dos comentários. A
postura de Josette era corrigida a cada trinta segundos e o uso e
manejo de cada tipo de talher, pires e taça era considerado com só‑
bria atenção. Angelique, por sua vez, era educada nos temas especí‑
ficos de servir uma mesa aristocrática. A intenção da condessa era a
de preparar cada uma das meninas para os papéis adequados que
deveriam desempenhar ao longo de suas vidas.
Durante as tardes, Josette era obrigada a fazer suas lições ou,
na falta delas, a praticar bordado, enquanto o tempo de Angeli‑
que era dedicado a lavar, passar, engomar e fazer pequenos consertos

288

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 288 29/05/12 19:12


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

nas roupas. Os cuidados e a limpeza de todas as roupas de uso e


de cama da condessa e de Josette estavam a seu cargo. Caso vies‑
se um professor de música ou um instrutor de danças cortesãs,
as duas meninas assistiam às lições. Naturalmente, Josette rece‑
bia a atenção especial da jovem dama da mansão, enquanto An‑
gelique servia somente como acompanhante ou assumia o papel
de um par masculino.
A condessa insistia em jantares formais, mesmo que a necessi‑
dade de se vestir a rigor algumas vezes irritasse o pai de Josette,
André du Prés. Angelique gostava muito de André, que era um
homenzinho corpulento e de coração generoso, ainda que o de‑
monstrasse de uma forma distraída e desajeitada. Ele se devotava
à gestão da propriedade, que lhe causava um sem­‑fim de preocu‑
pações e ansiedades. Mas ele a gerenciava bem e, em sua maioria,
os escravos pareciam satisfeitos.
André respeitava à risca o Code Noir da colônia, as leis referentes
à escravatura, e não espancava seus escravos. Ele lhes dava alimen‑
tação suficiente, dias de descanso e até pequenos pedaços de terra
para as famílias plantarem hortas. Fora ele que criara e mantinha
um hospital só para eles e até mesmo demonstrava uma tendência a
perdoá­‑los quando lhe traíam a confiança, tratando­‑os como crian‑
ças arteiras ou malcomportadas. Ele tinha o bom-senso de reco‑
nhecer que não podia produzir o seu açúcar sem eles e de que toda
a sua fortuna dependia de seu trabalho. Nas tardes de domingo, ele
lhes dava permissão para suas danças, mas o som de seus tambores
nunca era macabro ou ameaçador, como fora nas terras de seu pai,
mas se mantinha em tons alegres e era acompanhado por cantorias
que entravam noite adentro.
Desde que a mãe de Josette morrera e Natalie havia concordado
em se mudar para Martinica a fim de se encarregar da educação de
Josette, André se sentia em dívida para com sua irmã e lhe atendia
aos menores desejos, entre eles o dever desagradável de aparecer
para jantar em trajes cortesãos noturnos de casaca e colete. Tinha
cabelos louros e rebeldes e usava suíças grossas sobre as faces rubentes

289

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 289 29/05/12 19:12


Lara Parker

que resultavam de horas a fio andando a cavalo ao redor dos cana‑


viais. Seu traço mais proeminente era um par de olhos azuis e riso‑
nhos, que cintilavam de cada vez que ele sorria ou franzia a testa,
porque ele ao mesmo tempo gostava de frases espirituosas e mos‑
trava uma tendência a se zangar com facilidade.
Não era Angelique que servia à mesa do jantar, já que dispu‑
nham de um mordomo. Mas ela comia na cozinha com os demais
criados. Era na hora do jantar que ela mais se ressentia de sua posi‑
ção. A família comia alegremente em porcelana de Limoges com
taças de cristal Waterford, enquanto a criadagem comia em louças
baratas ou em gamelas de madeira com talheres de ferro. Angelique
fechava os olhos e fingia estar equilibrando um garfo de prata em
sua mão e que sua cidra amarguenta era um vinho fino francês ser‑
vido em uma taça delicada.
Enquanto os meses se passavam, Angelique lutava para manter o
Espírito Negro afastado de si. Nunca mais ela empregara sequer a
mais simples mágica. Quando adoecia, esperava pacientemente até
que os recursos de seu próprio corpo a curassem novamente. Se a
condessa se demonstrasse particularmente exigente em suas ordens
e reclamações, Angelique empurrava para o canto mais obscuro de
sua mente qualquer tentação de empregar algum feitiço. Ela execu‑
tava muito bem as suas funções de criada. Seguia suas habilidades
naturais e se aplicava diligentemente às lições ministradas pelos tu‑
tores de Josette, adquirindo tanto ou mais pela experiência do que
sua jovem ama pelo estudo.
E tudo para quê? Quando a condessa decidira a respeito da con‑
tratação de Angelique, ela a havia chamado de “sem graça e desin‑
teressante”, mal suspeitando das paixões que fervilhavam logo
abaixo da superfície controlada. E embora estas paixões fossem
muito bem escondidas, elas ainda se inflamavam e tornavam Ange‑
lique vulnerável a desejos dolorosos. Uma vez que ela não tinha
amigos verdadeiros, nunca revelava seus sentimentos e sentia­‑se
muito solitária. Nenhuma das outras criadas eram suas confiden‑
tes. Ela mantinha sua reserva, não somente para nada revelar, como

290

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 290 29/05/12 19:12


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

porque era simplesmente orgulhosa demais para se associar com


aquelas que considerava suas inferiores. Mesmo que ela tivesse des‑
cartado a feitiçaria, o tempo que passara em Port­‑au­‑Prince fazia
com que a conversa das demais criadas parecesse trivial e vazia.
Contudo, suas paixões tinham de ser canalizadas para alguma
saída, precisavam alimentar e nutrir algum fruto. O ciúme cresceu
em seu coração como uma árvore cheia de flores de perfume vene‑
noso. Embora soubesse perfeitamente que o ciúme era um pecado
mortal e conduzia a terríveis resultados, especialmente através de
sua releitura de Otelo ou de Macbeth, ele se tornara em uma raiz de
loucura que aprisionava sua razão. Por mais que tentasse, ela não
conseguia resistir à sua influência insidiosa.

* * *

Aos domingos, a família assistia à missa na capela de sua plantação


e se esperava que todos os criados e escravos participassem da ceri‑
mônia. Algumas vezes, a celebração era dirigida pelo padre Le Brot.
Se ele a percebera sentada junto com a família du Prés, nunca admi‑
tira tê­‑la reconhecido, mas ela não podia olhar para seu corpo pe‑
queno e rotundo e seu rosto jovial sem sentir uma profunda gratidão
pelo fato de que ele tentara lhe salvar a vida.
Somente uma vez ela imaginou que o padre a encarava do alto do
púlpito e estremecera ao escutar o tema da homilia escolhida para
aquele domingo: “Não cobiçarás a casa de teu próximo. Não cobiçarás a
mulher de teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi,
nem o seu jumento, nem coisa alguma que lhe pertencer”. (Êxodo 20:17).
E o padre parecia estar se dirigindo diretamente a ela, enquanto
prosseguia em sua leitura do Livro do Êxodo: “Todo o povo presenciou
os trovões e os relâmpagos e o clangor das trombetas e o monte fumegan‑
te; e o povo, observando, estremeceu e ficou de longe...” continuando até
“... Moisés, porém, se chegou até a nuvem escura em que Deus estava”.
Angelique muitas vezes vira o Mont Pelée fumegando e cheirara
os vapores sulfurosos que se erguiam das fissuras no cone calvo

291

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 291 29/05/12 19:12


Lara Parker

perto do topo do vulcão, um ar tão fétido, que os pássaros se sufo‑


cavam e caíam do céu. Os aldeãos sempre diziam que era só o Deus
que se estava virando para outro lado enquanto dormia, mas Ange‑
lique sempre tinha medo, porque ela acreditava no fundo da alma
que o Deus da montanha somente poderia ser o Maligno. Aquela
manhã, o sermão inteiro parecia dirigido diretamente a ela. Como
o padre poderia saber que Angelique invejara Josette desde o pri‑
meiro dia em que a conhecera?

* * *

Os sábados eram dias de mercado e os mais excitantes da semana.


Angelique saía com o carroceiro em uma pequena charrete antes
do romper da alva, o Atlântico ribombando contra a praia ao pé
dos penhascos elevados sobre os quais se erguia Trinité, enquanto
todos os demais ainda dormiam. Ela nunca se cansava de descer
as colinas bem cedo de manhã e sempre prendia a respiração
quando finalmente enxergava o mar e o porto em forma de lua ao
redor da enseada de águas da cor de turquesas, com seu colar de
areias brancas como pérolas enfeitando Saint­‑Pierre. Mas olhan‑
do para trás, ela podia ver o anfiteatro altaneiro das montanhas,
com Mont Pelée ao centro, subindo do coração da floresta, seu
pico alcançando as nuvens.
Sua garganta se contraía de antecipação sempre que a charrete se
aproximava da cidade e todos os seus sonhos de infância renasciam
ao se mover ao longo das ruas tortas e cheias de ladeiras de Saint­
‑Pierre. Eram ruas estreitas, mas cheias de cores brilhantes e nas
esquinas de ângulos agudos, os raios do sol penetravam para bri‑
lhar nos tetos de telhas vermelhas.
Tempo houve em que a cidade fora um refúgio de bucaneiros e
ainda oferecia sua enseada para a ancoragem segura de navios mer‑
cantes provindos de todas as terras. Ela sempre percorria a flotilha
em busca de uma escuna com a bandeira dos Estados Unidos: um
campo azul com faixas brancas e vermelhas. Havia navios de todas

292

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 292 29/05/12 19:12


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

as classes e tamanhos circulando pela enseada e o cais se azafamava


em atividade. Saint­‑Pierre era o centro cultural de Martinica, e as
vitrines das lojas mostravam joias finas, sedas, couros curtidos e
taxiados e móveis e tapeçarias luxuosos.
O que Angelique mais amava era a imensa praça calçada de para‑
lelepípedos chamada de Place­‑Bertin, com suas fontes graciosas e can‑
teiros elegantes. Seu coração sempre se elevava com a visão do lindo
teatro de três andares, com sete arcos formados por colunas jônicas e
cobertos de baixos­‑relevos, dando acesso às escadarias duplas de már‑
more trabalhado com gradis de aço forjado. Frequentemente havia
companhias de atores ambulantes ou um corpo de balé, em geral vin‑
dos da França e os cartazes pintados à mão anunciando os espetáculos
lhe davam água na boca, muito mais que os alimentos mais delicados.
Foi para ela, portanto, um dia magnífico, aquele em que André du
Prés anunciou que havia adquirido uma casa de tijolos na cidade,
localizada em uma linda avenida arborizada. O que fora uma vida
relativamente estável no campo adquirira agora uma promessa reno‑
vada. Os arranjos necessários à mudança para a cidade ocuparam a
família inteira durante meses. Na primeira noite em que Angelique
dormira na casa nova, ela passara quase a noite inteira acordada
olhando para o teto de seu pequeno quarto no andar térreo.
Ela se sentia torturada pela consciência de que havia muito mais
na vida. Desde que ela renunciara a seus poderes, convivia com a
lembrança do potencial intocado que jazia dentro dela. De que
lhe servia ter mantido, por engenhosidade e perseverança, uma
disciplina tão firme contra o uso da feitiçaria, se o futuro não
lhe guardava qualquer promessa? Sua alma estava aprisionada e
frequentemente ela sentia que nunca havia realmente saído de seu
quarto solitário na torre do moinho de Basse­‑Pointe.

* * *

Mas a vida em Saint­‑Pierre renovara um passatempo que trazia


grande alegria à vida de Angelique. Nas tardes de domingo, em

293

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 293 29/05/12 19:12


Lara Parker

que era dispensada de seus deveres, ela descia a pé pela praia que
saía de Saint­‑Pierre e andava muito além do porto atarefado para
ir nadar no mar. Ela despia suas roupas e se dirigia novamente aos
recifes, mergulhando nas lagunas mais profundas para explorar
os horizontes misteriosos do fundo do oceano. Os corais pare‑
ciam ainda mais belos do que nunca, em miríades de formatos,
chifres­‑de­‑veado, dedos­‑de­‑afogado, cérebro, estrela e flores, em
suas ricas nuances de cobre e ocre, malva e marrom-claro. Ela re‑
descobriu as correntes submarinas, respirando e mergulhando de
novo, girando em torno, as marés puxando e curvando os póli‑
pos, as anêmonas e as algas e os recifes de coral curvos que se er‑
guiam quase até aflorar à superfície, arredondados em colônias de
um verde­‑acinzentado, como se tivessem sido esculpidos em mi‑
núsculos labirintos.
Ela descobriu uma ponta de terra larga e arenosa que se projeta‑
va mar adentro, coberta de uma multidão de estrelas­‑do­‑mar en‑
carnadas, milhares e milhares delas, espalhadas até onde sua vista
alcançava, ventosas como pérolas vermelhas e delicadas pontilhan‑
do seus braços pontudos. Nadou de permeio a um cardume de tan‑
gues, peixes espinhosos e azuis com olhos falsos nas barbatanas,
como se troçassem dela enquanto se esfregavam em sua pele. Sentiu
um anseio doloroso no peito enquanto vigiava as criaturas vivazes
e livres, que pareciam acariciar os corais de que se alimentavam e
novamente recobrou sua antiga felicidade.
Havia uma praia oculta em que nadava algumas vezes, na qual
um canal profundo se abria entre a margem e os recifes. Se ela
quisesse chegar aos canteiros de coral, partindo dessa praia, era
obrigada a nadar por este braço vazio do mar, por onde passava
uma forte corrente. O fundo descia rapidamente e ela contempla‑
va as águas turvas, que pareciam estender­‑se para sempre, com
somente pequenos redemoinhos e marolas junto à superfície a re‑
fletir a luz do sol. Ela precisava de longos minutos para cruzar o
canal, o negror aumentando progressivamente à medida que as
águas ficavam mais profundas, cada vez mais escuro e cheio de

294

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 294 29/05/12 19:12


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

premonição, antes que os brilhantes recifes de corais novamente


saltassem perante suas vistas.
Nas noites que se seguiam a essas visitas, quando ela repousava
em seu leito, algumas vezes sentia que estava atravessando o canal
novamente, nadando e flutuando através de um purgatório líquido
cujas profundezas indiscerníveis se acumulavam abaixo dela e as
correntes traiçoeiras lhe puxavam os pés.

295

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 295 29/05/12 19:12


Vinte

erta tarde, Angelique caminhou tanto ao longo da praia, que


divisou a distância a velha cabana em que morara. Hesitou por
um momento, submetida a uma confusão de sentimentos doloro‑
sos e então começou a correr sem parar e só parou quando pôde ver
o alpendre, o pátio ao seu redor e o teto que havia sido recentemen‑
te coberto com palha nova.
Inicialmente lhe pareceu que a casa estava cercada por gigantes‑
cas teias de aranha, até que percebeu que aquilo era uma cobertura
de redes de pesca colocadas a secar ao sol, finamente tecidas ao pon‑
to de recordarem gaze e que estavam de fato pendentes de diversos
postes altos. Enxergou cestos e grandes bacias espalhados pelo pátio
ao redor de uma horta bem cuidada, de um forno ao ar livre e, per‑
to dele, uma cadeira de madeira grosseiramente esculpida.
Foi pé ante pé até a porta aberta e espiou para dentro. O interior
não lhe era familiar, embora certamente a casa estivesse habitada. O
quarto de dormir tinha uma pilha de acolchoados e a maior parte
da peça da frente estava atravancada com equipamentos de pesca,

296

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 296 29/05/12 19:12


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

varas, rolos de linha, redes, agulhas longas para costurar velas, pe‑
sos usados como boias, outros maiores que talvez servissem como
âncoras improvisadas, chamarizes esculpidos manualmente. Na
cozinha havia algumas panelas de cobre, frigideiras de ferro pendu‑
radas em pregos às paredes e latas de biscoitos ou de carne salgada
colocadas sobre a mesa. Roupas de homem — um casaco e diversas
camisas simples — estavam penduradas em uma cadeira de encos‑
to reto. Surpreendeu­‑se ao ver uma prateleira com alguns livros e
papel para escrever em um canto da mesa.
Quando ela saiu de novo pela porta da frente e olhou para o mar,
viu o pescador. Ele tinha puxado seu barco para a praia e estava
agora dobrando a vela, que ainda drapejava e ondulava ao vento. Ela
ficou parada ali, admirando, enquanto ele amarrava a vela ao bota‑
ló e cuidava de suas linhas, enrolando­‑as e retorcendo as pontas
para firmar os rolos por meio de movimentos fluidos. Então ele se
inclinou por baixo da barra do leme, puxando uma corda grossa,
enquanto a enrolava ao redor do ombro esquerdo. Era uma linha de
corrico, e presos a ela estavam três ou quatro tarpões, seus lados
prateados refletindo a luz do sol da tarde como se fossem realmente
feitos de metal. O pescador estava descalço e de peito nu e, quando
se aproximou dela, a jovem se espantou ao perceber que ele só tinha
um ano ou dois mais do que ela.
Ele se interrompeu quando a viu parada junto de sua porta e
olhou para cima e para baixo ao longo da praia para ver se ela es‑
tava sozinha. Convencido de que ela não tinha acompanhantes,
cumprimentou­‑a de cabeça e se aproximou da casa. Soltando sua
pesca dentro de um balde de água salgada, ele lavou o sal de suas
mãos em uma bacia.
Ela percebeu que ele era forte, seu corpo esguio e bem formado.
Sua pele era escura, mas dava para ver que estava queimada de sol e
deveria ter sido branca. Ele estava coberto com leves restos de espu‑
ma da água do mar e seus músculos eram fluidos e definidos. Seus
cabelos eram louros como a areia, seu rosto bronzeado pelo sol e
finamente cinzelado e seus olhos, quando ele finalmente a olhou

297

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 297 29/05/12 19:12


Lara Parker

diretamente, eram de um tom verde que lembrava musgo, muito


parecido com a tonalidade de suas redes de pesca.
— O que você deseja? — indagou, por fim. — Está perdida?
— Não — ela respondeu com simplicidade. — Eu estava passe‑
ando pela praia quando vi a casa a distância.
— Pode chamar de casa agora — disse ele, defensivamente,
como se desconfiasse que ela tinha vindo para tirá­‑la dele. — Quan‑
do eu a encontrei, não era mais que uma pilha de tábuas espalha‑
das. O que está vendo aqui, eu construí sozinho. Só “quinchei” o
teto a semana passada.
Ela contemplou os pés dele, que eram compridos e cheios de veias
salientes e observou o movimento dos ossos sob a pele queimada en‑
quanto seus dedos se encravavam nervosamente na areia do chão.
— Sabe que eu já morei aqui? — ela indagou, sem esperar res‑
posta. — Quando eu era pequena. Quer dizer — acrescentou às
pressas — aqui já foi minha casa — antes de desabar e você a re‑
construir completamente.
— Você morava em um lugar mágico — disse ele ingenuamente.
— Então você conhece as cavernas? — indagou ela.
— As cavernas? Mas é claro. Vou lá com frequência...
Ela ficou espantada pelo sentimento de alegria que estava expe‑
rimentando por encontrar uma alma semelhante à dela.
— E aquelas salas em que o sol entra aos poucos...
— Em que a chuva marcou os rochedos com longas marchas
de ferrugem...
— E as lagunas tão claras que a água parece ser apenas um sus‑
surro de luz...
O rapaz contemplou­‑a por um minuto, deu de ombros e falou:
— Tenho de limpar os peixes. Entre, você pode me ajudar.
O rapaz entrou na casa e retornou com uma faca pequena e uma
cesta de limas. Chamou­‑a para perto com um aceno da cabeça e ela
caminhou até a bacia grande, que tinha uma grande prancha irre‑
gular de madeira trazida pelo mar e ao lado dela, uma faca de esfo‑
lar. Ele lhe entregou o cesto de limas e a faquinha.

298

Livro_SombrasdaNoite_CAP_CONV.indd 298 29/05/12 19:12


Sombras da Noite: a Vingança de Angelique

— Você pode esguichar o suco para mim — foi dizendo o rapaz.


Ela esperou enquanto ele jogava o primeiro tarpão sobre a
prancha e usava a sua lâmina longa para cortar ao longo da barri‑
ga cremosa e abrir­‑lhe o ventre. Os miúdos vermelhos se espalha‑
ram pela areia. Um leve odor de ovas subiu a suas narinas
enquanto ele raspava as entranhas do peixe e retirava a espinha,
girando­‑o entre as mãos com a facilidade que vem de longa práti‑
ca e cortando­‑lhe fora a cabeça com um único talho contra as
guelras. Seus movimentos eram destros e concisos e ela se encan‑
tou com a delicadeza de seus pulsos e braços, apesar dos músculos
fortes e ágeis e seus dedos longos e esguios enfiados no corpo do
pescado para tirar fora o coração e os pulmões de um vermelho
vivo de dentro de suas entranhas escorregadias. Ela observou os
movimentos fáceis de seus ombros e de suas costas enquanto ele
mergulhava o tarpão novamente em água salgada. Então ele des‑
lizou o peixe limpo para o lado em que ela estava, como tendo
certeza de que ela saberia o que fazer.
Ela cortou uma lima ao meio e apertou as metades uma após
outra entre suas palmas, deixando o suco fluir sobre a pele do peixe,
saboreando o olor fresco e delicado que se espalhava pelo ar.
— Assim está bem — diss