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SISTEMA DE ENSINO PRESENCIAL CONECTADO

SERVIÇO SOCIAL

ELIANA MARIA DA SILVA NEIVA

A INTERFACE DO SERVIÇO SOCIAL NA ÀREA


SÓCIOJURÍDICA

Paracatu
2016
ELIANA MARIA DA SILVA NEIVA

A INTERFACE DO SERVIÇO SOCIAL NA ÀREA


SÓCIOJURÍDICA

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à


Universidade Norte do Paraná - UNOPAR, como
requisito parcial para a obtenção do título de bacharelado
no Curso de Graduação em Serviço Social.

Orientadora: Professora Maria Angela Santini.

Paracatu
2016
Dedico este trabalho...
Ao Deus de minha vida
Ao meu filho, meu maior
tesouro,
À minha mãe e amigos.
Agradecimentos

Aos tutores que me acompanharam nesses anos.


À minha irmã Edna Inês por todas as ações que possibilitaram a
finalização dessa conquista.
Aos colegas, pela parceria e cumplicidade.
À assistente social Mariúcha Coppola que, com um acervo de livros
e publicações sobre o assunto, facilitou o acesso ao tema.
Epígrafe

“Nenhuma criança será objeto de qualquer


forma de negligência, discriminação,
exploração, violência, crueldade e opressão,
punido na forma da lei qualquer atentado, por
ação ou omissão, aos seus direitos
fundamentais”.

Artigo 5º Estatuto da Criança e do Adolescente


NEIVA, Eliana Maria da Silva. A Interface do Serviço Social na Área
Sóciojurídica. 2016. 62 folhas. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em
Serviço Social) – Universidade Norte do Paraná, Paracatu, 2016.

RESUMO

A importância de depoimentos dos envolvidos diretamente em casos de exploração


infantil sempre dividiu opiniões, tanto dos profissionais psicólogos quantos dos
assistentes sociais e ainda dos profissionais do judiciário. A preocupação com os
danos psicossociais na vida dos envolvidos fomentaram o assunto trazendo grandes
debates, seminários, artigos e publicações de vários autores e profissionais. De um
lado, a figura da justiça que busca os culpados para responsabilizá-los pela ação
hedionda e de outro lado, profissionais que se preocupam e precisam resguardar a
garantia de direitos da criança e do adolescente em situação de risco, sem aumentar
ainda mais sua exposição e revitimização no decorrer do processo investigativo, se
necessário se tornar. O presente estudo tem no cerne da atuação sóciojurídica do
Assistente Social a preocupação com a criança e o adolescente que teve seus
direitos violados e precisa ser conduzido de forma que não invadam mais ainda o
seu âmago e piore ainda mais o seu lado sócioemocional, deixando ainda mais as
marcas indeléveis em sua vida. Será realizada a pesquisa bibliográfica com alguns
dos principais autores que se manifestaram sobre a Violência Sexual, “Projeto
Depoimento Sem Dano”, que trouxe apontamentos importantes para entender o
funcionamento e as possíveis consequências destes à vida da criança e do
adolescente e principalmente ao seu meio. O objetivo deste estudo, que conta com a
metodologia de pesquisa bibliográfica e documental é analisar a posição da
Assistente Social que reconhece a importância de sua práxis profissional no que
concerne ao tema abordado, mas sabe que deve seguir acima de tudo, o que lhe é
devido no Código de ética e sempre viabilizando a garantia de direitos dos que estão
em situação de vulnerabilidade.

Keywords: Sexual Violence. Revictimization. Ethic.


NEIVA, Eliana Maria da Silva. The Social Service Interface Sóciojurídica area.
2016. 62 leaves. Work Completion of course (Diploma in Social Service) - North
University of Parana, Paracatu , 2016.

ABSTRACT

The importance of the testimonies directly involved in cases of child exploitation has
always divided opinions, both professional psychologists how many social workers
and even of legal professionals. Concern about psychosocial damage in the lives of
those involved fomented it bringing great debates, seminars, articles and publications
of several authors and professionals. On the one hand, the figure of justice that
seeks the culprits to blame them for the heinous action and on the other hand,
professionals who care about and need to protect the child's rights protection and
adolescents at risk, without further increasing its exposure and victimization during
the investigation process, if necessary become. This study is at the heart of
sóciojurídica role of the social worker the concern for children and adolescents who
had their rights violated and must be conducted in a manner that does not encroach
further its core and further deterioration of their socio-emotional side, still leaving the
most indelible marks in your life. the literature with some of the authors who have
spoken on Sexual Violence will be held, "Project Testimony Without Harm," which
brought important notes to understand the operation and the possible consequences
of the child's life and adolescents and especially to their environment . The purpose
of this study, which includes the bibliographic and documentary research
methodology is to analyze the social worker position that recognizes the importance
of their professional practice regarding the topic discussed, but knows to follow
above all, what is it because the Code of ethics and always making it possible to
guarantee rights of those in vulnerable situations.

KEY-WORDS: Justice; sexual Violence; Victimization; Inquisition; Ethic.


LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

ABRAPIA Associação Brasileira de Multiprofissionais de Proteção à Infância e à


Adolescência

ASI Auso Sexual Infantil

CFESS Conselho Federal de Serviço Social

CONANDA Conselho Nacional de Direitos da Criança e do Adolescente

CREAS Centro de Atendimento Especializado de Assistência Social

DSD Depoimento Sem Dano

ECA Estatuto da Criança e do Adolescente

IML Instituto Médico Legal

MEC Ministério da Educação e Cultura

MP Ministério Público

OMS Organização Mundial de Saúde

ONGs Organizações Não Governamentais

ONU Organização das Nações Unidas

SINAN Sistema de Informação de Agravos de Notificação

UNICEF Fundo das Nações Unidas

UNOPAR Universidade Norte do Paraná


SUMÁRIO

INTRODUÇÃO............................................................................................................10

2 Considerações sobre o Abuso sexual contra crianças e adolescentes..........14


2.1 Violência e Abuso Sexual da Criança e do adolescente na
contemporaneidade....................................................................................................
14
2.1.1 Dados Estatísticos da Violência no Brasil.........................................................16
2.1.2 Definindo os Tipos de Violência Sexual............................................................18
2.1.3 Apresentando as Formas de Violência Intrafamiliar.........................................19
2.1.4 Conceituando Abuso Sexual.............................................................................22
2.1.5 O Comportamento do Abusador Sexual............................................................23
2.1.6 Impactos na Vida das Vítimas em Potencial.....................................................25

3 A QUEBRA DO SILÊNCIO......................................................................................28
3.1 Fluxo da Notificação do Abuso Sexual.............................................................31
3.1.1 Garantia de Direitos da Criança e do Adolescente.....................................33

4 A METODOLOGIA DEPOIMENTO SEM DANO.....................................................38

5 O ASSISTENTE SOCIAL E SUA PRÁXIS PROFISSIONAL NO ÂMBITO


SÓCIOJURÍDICO.......................................................................................................44

CONSIDERAÇÕES FINAIS.......................................................................................52

REFERÊNCIAS...........................................................................................................54
10

INTRODUÇÃO

A violência acompanha a história da humanidade e durante séculos


foi considerada como um aspecto da organização das sociedades, e, portanto, não
recebia nenhuma ação externa ao contexto doméstico, já que qualquer evento que
ali surgisse deveria contar com a privacidade familiar. E mesmo sendo tratado como
problema social e de atenção em saúde pública, desde o século XX, e com os
avanços na coibição da Violência Doméstica, por meio da criação de políticas
públicas específicas e das ações de órgãos públicos, Organizações Não
Governamentais (ONGs) e casas de abrigo, o número de crianças e adolescentes
que sofrem ou sofreram maus tratos é cada vez maior.
A violência intrafamiliar, é um problema multicausal, constituído por
uma diversidade de variáveis, que afeta todos os níveis socioeconômicos e culturais
da sociedade. E quando praticada contra um vulnerável, além de se constituir em
uma realidade dolorosa, ao revelar os maus-tratos, traz prejuízos a curto, médio e
longo prazo, tanto de ordem física como psicossocial, que podem ser devastadores,
já que as experiências vividas na infância refletem na vida adulta.
Devido aos transtornos gerados pela violência sexual é de vital
importância a intervenção de uma equipe multiprofissional e interdisciplinar, cujos
procedimentos possibilitem um atendimento integral da vítima, principalmente
quando o vulnerável necessita ser interrogado durante o processo judiciário. O que
gera a inquietação de conhecer qual seria a intervenção do Serviço Social frente à
Violência Sexual contra a Criança e o Adolescente nesta questão social no Brasil?
Será realizada uma abordagem bibliográfica quanto a atuação do Serviço social no
âmbito sóciojurídico, desvelando sua importância, assim como sua posição no
desenrolar de um processo jurídico em que envolve a criança/adolescente em
situação de violência sexual. Para que sejam resguardados os seus direitos e para
que não haja nenhuma forma de violação dos direitos adquiridos conforme consta no
ECA - Estatuto da criança e do Adolescente e essas crianças e adolescentes
recebam um tratamento pautado no respeito, na dignidade, na ética e no sigilo
profissional e ainda venha trazer segurança aos pais, familiares e a sociedade que
por ventura vivencie essa problemática da violência em nossos dias.
Para que ocorra a conscientização da família, da sociedade e de
todos os envolvidos, sobre as leis de proteção, dos direitos humanos, da atuação do
11

judiciário e da intervenção do Serviço Social na defesa dos direitos e dos direitos já


violados a essa problemática no Brasil. As Crianças e os Adolescentes necessitam
de atenção e cuidado de sua família, da sociedade e dos seus cuidadores contra
qualquer forma de violência, sendo garantida mediante as políticas sociais e as leis
vigentes a proteção necessária contra qualquer violação de direitos e principalmente
contra a violência sexual. As crianças, adolescentes, famílias, cuidadores e a
sociedade precisam se tranquilizar quanto à violência sexual praticada contra as
Crianças e Adolescentes.
Este trabalho tem como objetivo Geral analisar a intervenção do
Serviço Social na área sóciojurídica frente à violência contra a criança e o
adolescente. E para o alcance desse objetivo será necessário: Proporcionar uma
discussão sobre as decisões sóciojurídicas na investigação da violência sexual da
criança e do adolescente tendo como base o projeto Depoimento Sem Dano;
Compreender de forma clara qual é posição do Serviço Social diante de um assunto
ainda polêmico e considerado invasivo por tantos profissionais; Identificar os
elementos técnico-operativos da práxis do assistente social como auxilio e
intervenção nos casos de violência sexual contra a criança e o adolescente.
Para que haja uma maior compreensão do assunto em pauta e
importante conhecer e compreender a atuação do Serviço Social (assistentes
Sociais) no Depoimento sem Dano e ainda: uma análise da base teórica para a
construção dos direitos da criança e do adolescente a partir da perspectiva da Teoria
da Proteção Integral; uma abordagem acerca do conceito de abuso sexual,
destacando as consequências físicas e psicológicas que ele traz à criança e
adolescente, bem como as consequências da negação quando o abusado não é
revelado; analise das características da inquirição, no que se refere ao relato da
criança abusada e dos procedimentos utilizados atualmente pelo sistema de justiça;
com os novos modelos de inquirição e o modo adequado de perguntar acerca do
abuso; Se ao atuar neste processo, o assistente social estará resguardando o
código de ética da profissão e assegurando a proteção do vulnerável.
Para obtenção do conhecimento quanto a esta questão social foi
realizada pesquisas bibliográficas extraídas de livros, artigos, encartes, cartilhas,
sites confiáveis e direcionados para o assunto que deve sempre ser tratado com
seriedade e responsabilidade, por se tratar de assunto que mereça sigilo e ética.
Dentre o material pesquisado destacam-se obras de grandes autores das áreas de
12

Serviço Social, Psicologia, Juízes, Promotores de Justiça e ainda os órgãos


representativos que respondem por um todo, no que concerne aos envolvidos direta
ou indiretamente no Projeto Depoimento sem Dano. Vale destacar, que a obra mais
importante, trata-se do livro “Depoimento Sem Dano”, do próprio desenvolvedor do
projeto supramencionado.
O profissional assistente social encontra-se hoje em lugar de
destaque e pode em diversos campos de trabalho. Essa conquista não foi fácil e a
cada dia surge uma área que precisa da política de assistência social e para isso é
necessário preparação profissional e principalmente exercer a profissão com ética,
pautada na defesa da democracia e dos direitos humanos, sempre.
A autora Fraga (2010), em seu artigo publicado, discorre a finalidade
do trabalho do assistente social e pontua:

Desta forma, a finalidade do trabalho do assistente social está


voltada para a intervenção nas diferentes manifestações da questão
social com vistas a contribuir com a redução das desigualdades e
injustiças sociais, como também fortalecer os processos de
resistências dos sujeitos (materializados em organizações sociais,
movimentos sociais, conselhos de direitos...), na perspectiva da
democratização, autonomia dos sujeitos e do seu acesso a direitos.

Essa é a finalidade do trabalho do assistente social, onde houver a


necessidade da intervenção do profissional do Serviço Social no sentido de efetivar
e contribuir com garantia de direitos e das injustiças sociais em todos os
seguimentos inseridos na sociedade capitalista, ali ele estará inserido.
Dessa forma, para melhor entendimento, este estudo foi dividido em
quatro capítulos assim dispostos: O capitulo primeiro trata do envolvimento da
família nos conflitos de violência sexual que foi classificada como violência sexual
intrafamiliar e ainda a extrafamiliar que se trata de um vínculo social mais próximo
em que a vítima está inserida, que discrimina onde ocorre e quais os níveis de
afetividade que implica cada uma delas. Trata-se ainda de dados estatísticos que
corroboram o crescente aumento deste aumento de violência sexual, sem perder o
foco do tema violência sexual em sua essência inicial.
O capítulo segundo diz respeito aos direitos constitucionais que são
embasados pelos direitos universais, Estatuto da Criança e do Adolescente - ECA,
Convenção das Nações Unidas sobre o direito da criança e do Adolescente,
13

Constituição Federal/1988 (CF/88), com todos os aspectos relevantes aspectos


comprobatórios da efetiva garantia de direitos da criança e do adolescente em
situação de vulnerabilidade.
Dentro do capítulo terceiro, será discorrida a trajetória da descoberta
do fato até a inquirição da vítima, que trata especificadamente do DSD.
No capítulo quarto será abordado às atribuições do assistente social
junto ao sistema judicial, especificamente no âmbito de atuação inserido dentro
“Depoimento sem Dano”, incluindo a Lei que regulamenta a profissão (Lei 8.662/93),
o Código de Ética Profissional, artigos com pareceres do Conselho Federal de
Serviço Social (CFESS), análises da atuação do Assistente Social com a criança e
adolescente em condições de vulnerabilidade, que é realmente a direção principal
deste estudo, e é com o olhar crítico pertinente à sua atuação que isso será
desmembrado e considerado, sempre fundamentando o projeto ético-político, na
garantia e efetivação de direitos.
14

2 CONSIDERAÇÕES SOBRE O ABUSO SEXUAL CONTRA CRIANÇAS E


ADOLESCENTES

2.1 Violência e Abuso Sexual da Criança e do Adolescente na


Contemporaneidade

Desde a antiguidade, existem relatos sobre a violência dispensada


às crianças em nome da “educação”, são espancamentos e maus-tratos que
resultam em marcas indeléveis no caráter e no psicológico do ser em
desenvolvimento.
A autora Minayo (2006), descreve o termo violência como não sendo
uma, mas múltipla, traça sua origem como sendo latina, designando o significado de
força e com percepção de constrangimento e com determinante de uso de
superioridade física infligida a outro indivíduo. (MINAYO, 2010, p.13).
“Desde os primórdios a violência é um fator que mais gera angustia
no homem, talvez pelo ato de lhe causar dor, sofrimento e marcas que o tempo
dificilmente apaga”. (OLIVEIRA, 2006, p.7).
Violência conforme Oliveira (2006) significa o abuso de força, tirania,
opressão, ação violenta dentre outras e reflete que, quando o mesmo que sofre
agressão está na condição também de ser agressor, e que a negligência contra a
criança e adolescente na historia da humanidade foi ponto marcante da cultura
humana, neste período em que a infância era pouco discutida e não havia política de
proteção.
Tal como descreve Mynayo (2001) em sua obra, a violência é a
testificação do poderio dos pais sobre a vida dos filhos:

A violência contra criança e adolescente, no transcorrer da


civilização, além do caráter arbitrário dos pais de decidirem sobre
sua vida, sempre esteve muito vinculada ao processo educativo. Ela
tem sido considerada, em todos os tempos, como um instrumento de
socialização e, portanto, como resposta automática a desobediências
e rebeldias (MINAYO, 2001, p.92).

Em sua tese, Airès (1981), defende que desde a idade média os


cuidados que se dispensava à infância, era somente até que esta não pudesse agir
15

sozinha, a partir do momento em que ela pudesse desenvolver fisicamente


pressupunham que andar, comer e realizar suas necessidades fisiológicas estariam
aptas para se misturar com os adultos, deixava de ser criança e já era considerada
como homem ou mulher sem passar por nenhuma fase.
Ainda segundo Airès (1981), quanto à criança e adolescente depois
de serem considerados aptos a serem inseridos no meio dos adultos sendo que
assim podiam se comportar:

Assim, em relação à vida cotidiana, logo que fosse passado o risco


de morte, ela estava misturada com os adultos, seja em reuniões de
trabalho, passeio ou em jogos. Em qualquer lugar, mesmo nas
tavernas mal-amadas, lá estava a criança junta com os adultos.
Assim ela “aprendia a viver” para mais tarde se tornar adulta. E um
dos fatores mantenedores deste sentimento correspondia ao fato que
desde cedo ela ficava separada dos pais, entregue a famílias
estranhas, para que estas lhe ensinassem como se tornar um
homem digno, portanto, os pais estavam impossibilitados de nutrir
um sentimento existencial profundo com os seus próprios filhos
(ARIÈS, 1981, p. 10).

O autor Brayner (2001) em seu artigo correlaciona a linha de


pensamento do francês Airès sobre a infância na idade média com um novo conceito
que surgiria no século XVI, dizendo que em uma reviravolta surpreendente saí de
cena o ser, que era considerado independente, para entrar um com todas as
necessidades e cuidados, mimos, proteção, disciplina, sendo que, com todos esses
aparatos, as atitudes para com eles se voltariam para o lado protetor, permissivo,
maternal e ainda mais moderna. (BRAYNER, 2001, p. 204).
A concepção dada à criança de acordo Frota (2007) é que existem
conceitos de que as crianças vivem o melhor momento da vida. No que diz respeito
ao adolescente é sempre considerado, como uma fase difícil para aqueles que
convivem com ele e para ele próprio.
De acordo a autora discorre quanto às concepções dada a criança e
o adolescente da seguinte forma:

As distintas concepções de criança e de adolescente são, portanto,


construídas a partir de olhares em nada neutros. Os saberes vêm
sendo produzidos a partir de discursos dominantes, localizados nos
limites do projeto da modernidade, por nós incorporados, sem
maiores críticas. Enquanto são incorporados, passam a fazer parte
16

da formação desse panorama em destaque, trazendo influências


sobre a compreensão teórica e sobre as práticas com esses grupos
etários. Torna-se necessário saber mais sobre esse panorama e
saberes para podermos compreendê-los de modo contextualizado
(FROTA, 2007, p.01).

Sobre a infância nos séculos XVI e XVII, “... esboçam uma


concepção de infância centrada na inocência e na fragilidade infantil. O século XVIII
inaugurou a construção da infância moderna, assumindo o signo de liberdade,
autonomia e independência”. (FROTA, 2007 apud ARIÈS, 1978, p.5).
Outro ponto discorrido pela autora é sobre o cuidado com a infância
ter começado no XIX, e que a história do preconceito, exploração e do abandono
havendo diferenciação entre as crianças e diversificação de acordo com sua classe
social, direitos e lugares. E conclui que a desigualdade social, assume múltiplas
expressões como: distribuição de terra, de renda, do conhecimento, do saber, e do
exercício da própria cidadania. E ainda que as crianças no Brasil moderno,
conceituadas como desvalidas (menores) designando uma faixa etária pelo código
de menores de 1927, uma conotação negativa às crianças pobres “resultado social
negativo”, pertencente a famílias diferentes da convencional.
A Família “diferente” da convencional citada por ela era composta
pelo pai e mãe presentes, onde os pais eram trabalhadores, com boa estrutura
financeira e emocional. Os demais chamados “menores” eram considerados como
passíveis de se tornarem marginais, por se encontrarem em risco social e de
colocarem em risco a eles próprios e à sociedade, tornando assim uma norma ao
atendimento, à infância abandonada, pobre e desvalida, mais como forma de um
“adestramento”.

2.1.1 Dados Estatísticos da Violência no Brasil

O Disque-Denúncia 100 registrou, no período de 2003 a 2010, um


crescimento de 683% no número de denúncias. De acordo com as estatísticas,
desse serviço, de janeiro a julho de 2010, nas porcentagens de registros por
macrocategorias de violência nas denúncias categorizadas, a violência sexual
encontrava-se em primeiro lugar, empatada com as violências física e psicológica
(36%), seguidas de negligência (28%). Dos 36% de casos de violência sexual
17

registrados, 65,08% referiram-se a casos de abuso sexual, 34,02% a exploração


sexual, 0,60% a pornografia e 0,30% a tráfico de crianças e adolescentes. (BRASIL,
2011, p.12).

Em seu artigo, Morilha (2016) relata que segundo pesquisas


realizadas em parceria com o Ministério da Justiça foram constatados os seguintes
dados:

Pesquisas mais recentes feitas por entidades que trabalham em


parceria com o Ministério da Justiça indicam que a cada 8 minutos
uma criança brasileira é vítima de abuso, ou seja, 60 mil crianças por
ano são vítimas de abuso sexual no Brasil: 80% dos casos são
contra meninas; 82% são crianças entre 2 e 10 anos; 90% dos casos
a criança é abusada por alguém que conhece e ama, pela ordem: o
pai biológico, o padrasto, tios, avôs e irmãos; 60% (estimativa) dos
casos envolvem pessoas de classes média e média alta. (MORILHA,
2016, p.111)

Esse resultado é preocupante para a integridade da criança e do


adolescente, como impacto na socialização da sociedade e na urgência do Governo
brasileiro em empenhar-se mais nas políticas de combate e prevenção do abuso
sexual infantil.
Acredita-se que estes números não representam a realidade do
fenômeno, uma vez que, muitos dos casos de abuso sexual são denunciados, pois
ainda há a dinâmica da “síndrome do silêncio” nos casos de abuso sexual
intrafamiliar, como se houvesse um “muro de silêncio”, também entre os vizinhos e
profissionais que cuidam das denúncias. Os dados apresentados assustam e
colocam em xeque a importância que está sendo dispensada a essa situação tão
delicada, urgente em providências cabíveis.
Tal síndrome pode ser explicada pela complexidade e
particularidades que envolvem a dinâmica do abuso sexual intrafamiliar, e das
consequências para a saúde mental da criança, fatores que justificam tanto a
dificuldade que ela enfrenta para expressar ou revelar a situação do abuso no
contexto familiar, quanto os entraves obtidos pelo judiciário em comprovar a culpa do
abusador.
18

2.1.2 Definindo os tipos de Violência Sexual

De acordo com a OMS (Organização Mundial de Saúde) a violência


caracteriza-se pelo uso intencional de força física ou do poder, real ou em ameaça,
contra si próprio, contra outras, contra um grupo ou uma comunidade que resulte ou
tenha a possibilidade de resultar em lesão, morte, dano psicológico, deficiência de
desenvolvimento ou privação (DAHLBERG; KRUG, 2002, p. 1165).
Esta concepção de violência é a realidade dos fatos, pois, de acordo com
as estatísticas que se tem acesso, são tantos dados que chocam à sociedade no dia
a dia, que mesmo assim, ainda não dá para ter a dimensão do crescimento da
violência seja ela inserida em qualquer modalidade, porque existe muita supressão
de informações.
Segundo um estudo desenvolvido por Azevedo, Guerra e Col.,
para o Fundo das Nações Unidas para a infância (UNICEF) [201_?],

A violência relacionada à infância faz parte da cultura brasileira, mas


não há registros históricos comprovando esse fato. A escassez de
dados obrigou-nos a uma incursão pela literatura brasileira, a fim de
se buscar evidências indiretas sobre a ocorrência de violência de
natureza física contra crianças e adolescentes. As muitas faces
desse fenômeno estão vividamente descritas em relatos
autobiográficos que nos legaram escritores brasileiros.

Como descrito anteriormente, é como se a sociedade estivesse


retrocedendo, quando volta a não cuidar e maltratar suas crianças. Algumas estão
perdendo a alegria de viver e estão sendo vitimizadas pela ignorância e maldade
dos adultos, quando têm seus direitos violados e ou os deixam de ter. Hoje, muitas
crianças que passaram por violência de maus tratos e abuso sexual, perdem o
medo, a vergonha e se declaram como vítimas de abuso, seja ela sexual ou de
espancamentos, etc. Quando se entra neste mérito, sabe-se que são vários tipos de
violência e como descrito pelo autor acima, ainda bem existem tais relatos para um
melhor entendimento de onde, com quem e como surge esse fenômeno na
sociedade e principalmente, no seio familiar.
Como descrito por Sanchez e Minayo (2004), “violência sexual
intrafamiliar é aquela que ocorre no lar. As pesquisas sobre o tema têm mostrado
que, geralmente, a violência é uma forma de comunicação e de relação
19

interpessoal”.
Dessa forma, o ambiente familiar em que a vítima está inserida,
deixa de ser o espaço destinado à rede de socialização, segurança e proteção
social, para se tornar um ambiente opressor, de violência emocional, física e sexual.

2.1.3 Apresentando as Formas de violência Intrafamiliar

Para os autores (Day, et tal., 2003), existem quatro formas que são as
mais comuns de violência intrafamiliar: física, psicológica, negligência e sexual e
eles as discorrem como sendo Violência física, psicológica, sexual e a negligência.
Como já se sabe, a violência física ocorre quando a intenção de causar qualquer
dano a outrem, usando qualquer objeto que inflija lesões que possam causar a
morte ou ferimento leve ou profundo. A violência psicológica como já indica, causa
dano à autoestima, à sua identidade ou até o desenvolvimento da pessoa em
formação. A violência sexual, diz respeito a pratica sexual com menores de 14 anos,
que por consentimento (configura abuso do mesmo jeito, por ser incapaz), que a
chamada “violência presumida”, ou não das mesmas. E por último, a chamada
negligência, que ocorre quando o guardião legal ou outro membro da família deixa
de assumir as responsabilidades, por aqueles que por algum motivo não se
enquadram no item capaz, seja por questão da idade, seja por condição física,
permanente ou temporária.
E de acordo com alguns estudos, a violência contra a criança em
sua maioria começa dentro de casa, e o abuso sexual intrafamiliar na modalidade
“incesto”, constitui a forma mais comum que desponta como fator corriqueiro nas
estatísticas apuradas. Essa categoria de abuso é caracterizada por abuso sexual
sistêmico, a criança é levada com o consentimento da própria família, sendo
abusada sexualmente várias vezes e por vários abusadores. A família incentiva e
acoberta as ações que a criança vitimizada, chega até a fase adulta sem ter a
consciência que foi abusada, considerando normais suas vivências. (AMAZARRAY;
KOLLER, 1998 apud WATSON 1994).
Em relação ao incesto pode-se encontrar o seguinte esclarecimento:

Este tipo de violência vem sendo praticado com maior frequência no


20

ambiente intrafamiliar, refletindo uma realidade ocorrida em diversos


países, independente da classe social. O incesto pode ocorrer em
até 10% das famílias, sendo praticado, principalmente, pelo pai,
padrasto, tio avô, ou alguma pessoa íntima da família. Ou seja: por
alguém que a vítima conhece, confia e ama. (BAPTISTA et. tal,
2008).

O incesto basicamente insere-se nas características da chama


família “incestogênica”. Em estudos antropológicos foi levantada a hipótese de que
os autores desse tipo de agressão não conseguem aceitar o conceito de infância e
continuam a pensar na criança como propriedade dos pais. É costume em algumas
regiões do País escutar pais dizendo que serão os primeiros a ter relações sexuais
com a filha, configurando ser o primeiro homem da vida dela. Essas práticas
reveladas costumam acontecer mais em locais isolados onde os mesmos não
possuem qualquer tipo de recursos ideológicos e/ou psíquicos para controlar a
vazão da fantasia ou do desejo sexual por crianças e adolescentes. Já quando
ocorre o encesto pelo padrasto ou pelo namorado da mãe o que não deve
configurar, pois não nenhuma vinculação biológica e consanguínea, para eles não
há qualquer barreira que impeça a relação sexual. (BRASIL, 2004).
Continuando com os aspectos da violência intrafamiliar, Faleiros
(2010), apresenta nove dimensões interligadas entre si que explicam alguns pontos
importantes sobre a violência intrafamiliar e os explica para melhor esclarecimento.
O segredo familiar é um problema da violência intrafamiliar, são as relações de
família, com sua complexidade, sendo que os abusadores são pessoas próximas
das vítimas, tem relação consanguínea e caracteriza-se pela proteção da “honra” do
abusador. O que diz respeito às pessoas vitimizadas, essas são envolvidas pelo
medo, pela vergonha, pelo terror. Evitam tocar no assunto e as consequências
aparecem em forma de depressão, dificuldade de concentração e nos estudos,
problemas digestivos, medo de qualquer coisa, e sensação de sujeira e nojo. Esses
problemas podem levar à tentativa de suicídio. Alguns dos abusadores são
reincidentes, ou seja, podem estender o abuso para outras pessoas, chegando a
praticar fora do âmbito familiar. Quanto à vítima, por não se conformar com a sua
situação, tende a praticar violência com outras pessoas, repetindo o abuso que foi
dispensado a ela. Existe a presença da violência em todas as classes sociais, isso
significa que não se separa qual delas praticará o ato, seja a classe pobre, média ou
rica. Mas o autor esclarece que, a classe pobre constitui uma situação de risco pelas
21

inúmeras condições de desigualdade social a que está inserida a saber, a falta de


moradia, a miséria e suas tendências, o desemprego, a falta de cultura e de
conhecimento, o uso e abuso de drogas e etc. Não há padrões a seguir em relação
à idade para as crianças e adolescentes serem vitimizados, mas as reações podem
ser diversas, pois qualquer uma delas pode sair da condição imposta e se rebelar,
agindo, contando, resistindo e buscando apoio com organizações, membros da
comunidade e outros. No tocante, ao abusador, a família sempre o perdoa, tanto por
razões culturais, quanto pelo autoritarismo que o mesmo exerce no seio familiar.
Algumas vítimas reagem e fogem de casa, esse fato é corroborado através de
depoimentos colhidos de crianças de rua e os mesmos relatam os mais diversos
tipos de agressões e por último, a nona dimensão, esclarece a necessidade de
terapia tanto para o abusador, para a vítima e ainda para a família que devem ter
acompanhamento de forma multiprofissional ou interdisciplinar, para se ter a
dimensão do problema em sua alta complexidade.
Ao caracterizar a Violência sexual extrafamiliar o mesmo autor a
retrata como qualquer caso em que envolva situações em ocorrem no âmbito
extrafamiliar, ou seja, sem qualquer grau de parentesco, de conhecimento remoto e
nem de socioafetividade entre os envolvidos.
No que diz respeito à exploração sexual de crianças e adolescentes, embora
apresente relação com situações de violência doméstica, seja sexual ou não,
enquadra-se na categoria violência sexual extrafamiliar. São várias as formas de
exploração sexual, dentre elas destaca-se a forma explorada pelo turismo e funciona
de forma organizada e criminosa em vários países.
A violência sexual intrafamiliar e extrafamiliar praticada contra a
infância e a adolescência, sem diferenciar das demais formas de violência, tem o
mesmo enfoque: a síndrome do segredo. Esse segredo só será revelado se alguém
descobrir, denunciar ou de outra forma, não ocorrendo o desvelar da situação, esses
abusos se estenderão até a fase adulta.
Para Sanchez e Minayo (2004), “o abuso sexual configura como
qualquer ato ou jogo sexual por possa estimular sexualmente a criança e o
adolescente com o intuito de satisfazer desejos sexuais”.
Como descrito pelas autoras supramencionadas, essa categoria se
aplica tanto nas relações heterossexuais quanto nas homossexuais, sempre que os
agressores estão inseridos em uma classificação etária superior, será considerado
22

abuso sexual.

2.1.4 Conceituando Abuso Sexual

Falar sobre o assunto “abuso sexual” é entrar no universo da


complexidade do relacionamento intrafamiliar e extrafamiliar e se debruçar em um
assunto que preocupa e faz parte das políticas públicas do País, bem como de
outros seguimentos multidisciplinares. Quando se diz que é “complexo”, não se sabe
ainda a dimensão do contexto apresentado, um assunto que traz revolta, sede de
justiça e que necessita de medidas mais urgentes que o sistema judiciário pode
empregar. Para que se tenha um pouco de conhecimento do tema, é preciso
conceituar, anotar as diferenças de um conceito e outro, como dito anteriormente
são assuntos complexos.
Em sua obra Gabel (1997) cita a classificação da Organização
Mundial da Saúde em relação ao abuso sexual:

A exploração sexual de uma criança implica que esta seja uma vítima
de um adulto ou de uma pessoa sensivelmente mais idosa do que
ela com a finalidade de satisfação sexual desta. O crime pode
assumir diversas formas: ligações telefônicas obscenas, ofensa ao
pudor e voyeurismo, imagens pornográficas, relações ou tentativas
de relações sexuais, incesto ou prostituição de menores. (GABEL,
1997, p.11).

Assim, essas formas são divididas em abuso sexual sem contato


físico e com contato físico, sendo que o primeiro pode se projetar como abuso
sexual verbal, telefonemas de caráter obsceno, exibicionismo (tem o escopo de
chocar as vítimas) e o voyeurismo que se dá pela observação dos atos ou órgãos
sexuais de outras pessoas. Como exemplo desse abuso, pode se citar a internet que
configura como vitrine para este ato. Já o segundo é com contato físico que é o ato
físico usando os órgãos genitais, podendo ocorrer relações sexuais, com
penetração, as investidas sexuais, carícias nos mesmo, masturbação, sexo oral e
penetração oral. Já a pornografia e prostituição de crianças e adolescentes são os
caso de exploração sexual que visam lucros. (BRASIL, 2002).
O abuso sexual segundo a definição da Abrapia (Associação
Brasileira Multiprofissional de Proteção a Infância e à Adolescência (2002) é uma
23

situação em que uma criança ou adolescente é usado para gratificação sexual de


um adulto ou mesmo de um adolescente mais velho, baseado em uma relação de
poder que pode incluir desde carícias, manipulação de genitália, mama ou ânus,
exploração sexual, “voyeurismo”, pornografia e exibicionismo, até o ato sexual com
ou sem penetração, com ou sem violência física. (ABRAPIA. 2002, p. 08).

2.1.5 O Comportamento do Abusador Sexual

Para Libório, Sousa e org. (2004), o combate à exploração


sexual, deve ser combatido com um discurso ético, sempre de acordo com as
normativas nacionais e internacionais vigentes, sempre com a preocupação com os
direitos da criança e do adolescente que foram atingidos por qualquer de tipo de
violência sexual.
Em sua obra o autor Paulino (2012, apud SALTER, 2003) conceitua o
abusador sexual como alguém que surge como amigo ou vizinho ou chefe de um
grupo de escuteiros, sacerdote, diretor da escola, professor, médico ou treinador, e
que muitas vezes é figura de confiança para os pais, dando-lhe autorização para
levar o filho para alguma atividade.
Nestas caraterísticas acima, pode se incluir a Violência Intrarrede Social que
classificada pela Secretaria de Direitos humanos como o abuso cometido por
pessoas da rede de sociabilidade da família.
Segundo o autor o abusador é um membro da vizinhança, amigo ou
conhecido e por ele estar sempre junto à rede social da família, a criança ou
adolescente acaba desenvolvendo uma relação de confiança, chegando até a
admirar a pessoa. Como há um grau de proximidade com a família essa forma de
ASI pode ser considerada mista por apresentar características dos abusos
intrafamiliar e extrafamiliar
O autor César Daltoé afirma que a principal característica de um
abusador é que a prática do abuso funciona como adição, ou seja, não se trata do
prazer em si, e sim do alívio para os momentos de tensão, assim como o álcool
funciona pra o etilista e a droga para o viciado. (CEZAR, 2007, p.50).
Existem muitas divergências no que concerne à idade dos
abusadores e alguns autores, conforme Paulino (2012), assim se manifestam:
24

De acordo com Costa (2003), o abusador sexual tem uma idade


situada entre os 36 e os 45 anos de idade. Nos estudos de López e
colegas (1994, citados por Fávero, 2003), o intervalo de idades mais
comum vai dos 31 aos 50 anos. Quanto às conclusões de Moura
(1998, citado por Fávero, 2003), o intervalo oscila entre os 26 e os 45
anos. Hanson (2002, citado por Smallbone, 2006) reportou que a
idade média para o abuso sexual para agressores incestuosos
canadianos, ingleses e americanos ronda os 40 anos, e para os
agressores extrafamiliares cerca dos 37 anos. PAULINO; ALMEIDA,
(2012, p. 373).

Existem outros autores que realizaram estudos inerentes à idade


dos abusadores, mas, o certo é que, tudo dependerá das circunstâncias
apresentadas no decorrer da vida de cada um, ou seja, alguns podem começar até
com a idade de 12 anos.
E o principal de tudo, precisará de acompanhamento psicológico. O fator
punição é o que a justiça e a sociedade querem imputar por uma questão de
punição pelo ato, mas claramente é necessário que o abusador tenha ajuda
psicológica, pois quando terminar o tempo de punição retornará às atividades
anteriores.
Não se pode afirmar que abusar sexualmente de uma criança ou de um
adolescente é inerente somente de jovens e adultos do sexo masculino. De acordo
com fatos ocorridos, sabe-se que as mulheres e até mesmo crianças maiores podem
assumir o papel de abusadores.
A cartilha intitulada “Orientações Para o Combate ao Abuso Sexual em Crianças e
Adolescentes” (2006), orienta que as principais características observadas nessas
pessoas são:

 Algumas já sofreram abuso sexual quando criança;


 Apresentam dificuldades relativas à sexualidade;
 São, geralmente, pessoas "acima de qualquer suspeita", não
havendo, aparentemente, nada em seu comportamento que chame a
atenção. São amáveis em sua maioria e até mesmo sedutoras;
 São, geralmente, pessoas "acima de qualquer suspeita", não
havendo, aparentemente, nada em seu comportamento que chame a
atenção. São amáveis em sua maioria e até mesmo sedutoras.

Engana-se quem pensa: “criança conta tudo, conta a verdade.”, nem


sempre ela consegue se desvencilhar da situação de opressão e medo a que lhe é
imposta e por isso, prefere o silêncio.
25

Conforme afirma a autora Braum sobre a criança e a denúncia:

Outro mito é de que a criança denuncia quando se sente ameaçada


pela violência. O fato é, muitas vezes, o oposto: as crianças podem
não falar por medo de violência contra si ou contra alguém que
amam. Elas também não rompem o silêncio quando temem censura
e/ou têm medo de acarretar a ruptura da família. (BRAUM, 2002,
p.17).

2.1.6 Impactos na Vida das Vítimas em Potencial

Para Azevedo (2001), quem passa por esse tipo de experiência, que
traz para sua vida muito sofrimento, vergonha e até descrédito das pessoas que, no
momento de desespero, pede ajuda, as marcas serão indeléveis. Insta lembrar que
muitas das vezes a vítima por uma questão de cultura, deixa de ser a abusada para
se tornar a sedutora, ou seja, são tratadas como culpadas, como responsáveis pela
agressão por ser jovem, pelos trajes, pela sensualidade, pelo olhar.
Os estudos as consequências do abuso sexual para a criança
podem ser divididas em físicas, emocionais, sexuais e sociais. Cabe dizer que várias
são as consequências apresentadas e que se manifestam tanto fisicamente,
socialmente, quanto psicologicamente como disposto a seguir: É preciso anotar que
os sintomas podem surgir a curto, médio e longo prazo e também podem apresentar
formas diferenciadas conforme a personalidade e idade das vítimas. Dentre esses
sintomas, pode-se enumerar: lesões genitais, anais, gestação precoce ou não, DST
(doenças sexualmente transmissíveis), consequência psicológicas, agressividade,
condutas sexuais inadequadas, dificuldades nos relacionamentos interpessoais
(ligação afetiva e amorosa), dificuldades escolares, distúrbios alimentares, os
afetivos (apatia, depressão, crises de choro, vergonha, culpa, baixa estima e
desvalorização pessoal), dificuldades de adaptação, insônia, envolvimento com
prostituição, mudanças de comportamento e de vocabulário, queixas de ordem
psicossomática, e uso de drogas,
Do ponto de vista de Vieira (2016), o caminho percorrido pela
criança e adolescente abusado sexualmente configura como árduo e longo e ainda
incerto:
26

O caminho percorrido pela criança e adolescente, vítima de violência


sexual, é um caminho longo e com diversos obstáculos a serem
superados, principalmente, no que se refere ao processo de
revitimização a que as vítimas são expostas, por terem que relatar a
violência para diversos sujeitos sociais, ou mesmo, pela saída dessa
criança de seu lar, quando esse se apresenta como um risco para
sua segurança.

Qualquer vítima, haja vista que realmente ao ter que expor todos os
fatos novamente, faz com que lembranças sejam retomadas e consequentemente o
sofrimento revivido. Sabe-se que esta exposição não será rápida, pois, a vítima não
será ouvida apenas por um e sim por vários profissionais, onde será montado um
processo investigativo, em que novas situações podem surgir, mudando o curso dos
fatos, alterando inclusive, a sua rotina, podendo chegar até a uma ruptura de laços
de família.
Dentre as consequências advindas do abuso sexual, é possível
definir que as respostas estarão presentes pela vida toda. Cada pessoa reagirá de
uma forma, mas pode-se dizer que nada será como antes, na vida de quem foi
abusada sexualmente. As palavras abaixo sintetizam de forma concisa todas as
reações presumíveis:

Ter um trauma físico e psicológico faz com a vítima questione sua


capacidade de se defender...Ela aprende a odiar seu corpo porque
ele a faz lembrar de más experiências. Ela tem respostas
dissociadas, apresenta dificuldade de intimidade e é emocionalmente
distante. Ela aprende que não pode controlar seu corpo e que outra
pessoa pode tocá-la sem consentimento... Ela não confia na sua
memória, nos seu senso realidade. Essas consequências afetam não
só a vítima, mas também a sociedade em geral porque a criança
traumatizada torna-se eventualmente um adulto que pode adotar
comportamentos agressivos ou passivos para resolver as situações e
ou estresse. (AMAZARRAY; KOLLER, 1997 apud BLANCHARD,
1996, p.7).

Este apontamento retrata sobre as sequelas que o abuso sexual


deixará para uma vida toda. São consequências que merecem um cuidado especial
e que talvez, dependendo das ações ou falta de ação de uma organização, da
sociedade, da família e outros serão máculas no caráter e na personalidade do
adulto formado.
Os autores Santos e Costa em sua obra analisam o impacto do
exame médico nos casos de abuso sexual de crianças e concluem:
27

Mas ainda que a principal preocupação do sistema judicial resida na


produção de prova suscetível de conduzir uma acusação e eventual
condenação do autor do crime, a intervenção pericial não pode
ignorar uma outra dimensão, de natureza psicossocial, porventura
mais importante, na medida em que o abuso sexual pode ter
consequências devastadoras para a saúde física e mental da criança
e daqueles – pais e outros encarregados de educação – que lhe são
próximos. (SANTOS; COSTA, 2014, p.183).

Essa ressalva deixa clara a preocupação da Medicina Legal no que


concerne ao exame médico. Sabe-se que este é obrigatório e constitui um meio de
prova para auxiliar o processo de investigação, mas, o autor pondera sobre os
efeitos causais no momento do exame e pós-exame, pela natureza invasiva e
constrangedora, ainda mais se o caso em questão for de natureza verdadeira.
No dizer de Viodres Inoue e Ristum (2008), pela literatura já
apresentada não há incidência de muitos dados a respeito do papel da escola no
que diz respeito à violência definindo-a como espaço de proteção, socialização e
formação infanto-juvenil. [...]. Por isso faz-se mister que haja um envolvimento da
escola com as vítimas de violência, promovendo grupos de discussão sobre o ECA,
buscando esclarecer sobre as práticas educativas prejudiciais, violentas e abusivas,
o que levará que todos se integrem, desenvolvam e quebrem as diferenças
existentes no grupo. (VIODRES INOUE; RISTUM, 2008, p.16),
Continuando as suas considerações, elas ressaltam a necessidade
da escola garantir e promover a cidadania, tudo em conformidade da legislação,
sobre todos os direitos da criança e ainda capacitar seus membros dentro da
instituição. Não para delegar responsabilidades para Educação e sim, no intuito de
reconhecer o papel fundamental da escola neste processo.
Escola é lugar de adquirir conhecimento e apreensão de saberes, de
crescimento intelectual e principalmente de educação para a vida.
28

1 A QUEBRA DO SILÊNCIO

Chegará um momento que para alguns, o segredo será revelado, o


silêncio será quebrado, e, muitas das vezes ela chega através de denúncias, que
podem partir do abusado, de um membro da família ou até mesmo de pessoas
próximas à ocorrência.
Do ponto de vista de Faleiros (2010), “a sociedade vem adquirindo
mais consciência do problema. Muitas pessoas têm utilizado com mais frequência o
numero telefônico oferecido pelo Estado destinado às denúncias, porque a ligação
permite-lhes o anonimato”.
Na verdade, ninguém quer se envolver diretamente. A violência hoje
se faz presente em todos os seguimentos da sociedade e as pessoas preferem se
calar, temendo qualquer tipo de represália devido à violência crescente. O fato é
que, se a vítima procurou para conversar e expor a situação, com certeza não foi
fácil e se a forma que os sinais foram percebidos levou à suspeita, não tem como
deixar para trás e seguir em frente como se nada tivesse acontecido. Os caminhos
que comumente recebem a chamada “revelação”, são: as Escolas, Disque
Denúncia, os Serviços de Saúde, a igreja, dentre outros, portanto, cada um desses
caminhos deve procurar dar seguimento à investigação, para que a revelação não
se perca e a vítima não continue sendo abusada.
No ano de 2003, foi implantado pela Secretaria de Direitos Humanos
da Presidência da República, o Disque Denúncia. É um serviço gratuito e de
discagem direta, disponível através do número 100, ativo em todos os estados
brasileiros, com o objetivo de acolher as denúncias de violência contra crianças e
encaminhá-las aos órgãos competentes. Este serviço é tão importante que, somente
no ano de 2010, foram recebidas um total de 10.385 denúncias de abuso e de
exploração sexual de crianças e adolescentes (WERNECK; GONÇALVES;
VASCONCELOS, 2014).
Dando voz ativa à responsabilidade da notificação pelos envolvidos
e conhecedores da situação do abuso sexual, existe o documento legal, que é o
Estatuto da Criança e do adolescente (ECA, 2015), em seu artigo 13, que institui:
“[...]
Os casos de suspeita ou confirmação de castigo físico, de tratamento
cruel ou degradante e de maus-tratos contra criança ou adolescente
29

serão obrigatoriamente comunicados ao Conselho Tutelar da


respectiva localidade sem prejuízo de outras providências legais. [...].

Neste seguimento, o artigo 245 considera infrações administrativas quando ocorrer


tais situações:

“[...]
Deixar o médico, professor ou responsável por estabelecimento de
atenção à saúde e de ensino fundamental, pré-escola ou creche, de
comunicar à autoridade competente os casos de que tenha
conhecimento, envolvendo suspeita ou confirmação de maus-tratos
contra criança ou adolescente:
Pena: multa de três a vinte salários de referência, aplicando-se o
dobro em caso de reincidência. [...]. (ECA, artigo 245).

Ao orientar os educadores, o MEC (Ministério da Educação e


Cultura), através do Guia escolar, explica que as notificações poderão ser
caminhadas aos órgãos competentes de quatro maneiras: por telefone, por escrito,
em visita a um órgão competente, ou por solicitação da própria escola. Essa
denúncia poder ser realizada de forma declarada (pública) ou sigilosa. (BRASIL,
2011)
Do ponto de vista legal, é necessário que haja um seguimento de
ações para se proceder a uma denúncia junto ao órgão e autoridades competentes,
a saber:
O primeiro passo para que o abuso sexual infantil ingresse no
sistema de justiça é a realização da notificação. Há que se distinguir,
desde logo, revelação, notificação e denúncia. As duas últimas, no
contexto legal, têm significados distintos. A notificação é o
comunicado formal da suspeita ou da prática do abuso sexual ao
Conselho Tutelar, conforme determina o art. 13 do Estatuto da
Criança e do Adolescente, de julho de 1990 (ECA, 1990) ou para
outra autoridade como, por exemplo, Juiz de Direito, Promotor de
Justiça, Delegado de Polícia, que não devem se escusar em recebê-
la, encaminhando a vítima para instituição ou autoridade mais
apropriada, porque isso pode servir de desincentivo para a
notificação (DOBKE; SANTOS; DELL’AGLIO, 2010 apud
ROZANSKY, 2005, p. 91-115).

A responsabilidade do Conselho tutelar em receber a criança e o


adolescente que passou por situações de ameaça ou violação de direitos. É preciso
com urgência, se criar e instalar em todos os municípios para que os casos de
30

suspeita ou confirmação de maus-tratos praticados contra eles sejam encaminhados


aos órgãos competentes para que estes tenham assegurados os direitos básicos em
pro da formação de sua cidadania. (AZAMBUJA, 2006 apud CARVALHO, 1992, p.
419-420).
Para viabilizar o desenvolvimento de ações de vigilância e
prevenção de violências em qualquer modalidade, o Governo Federal ampliou a
Rede de Núcleos de Prevenção de Violências e Promoção da Saúde. Estes núcleos,
por meio das secretarias de saúde, programam ações de vigilância e prevenção de
violência, identificar e estruturar serviços de atendimento e proteção ás crianças e
adolescentes em situação de vulnerabilidade. Unificar as notificações de violências
doméstica, sexual e outras agressões para todos os serviços de saúde, incluindo-as
na relação de doenças e agravos, ao Sistema de Informação de Agravo de
Notificação – SINAN possibilitou a melhora da atuação da rede. (BRASIL, 2011).
Esta obrigatoriedade a todos os estabelecimentos de saúde do
Brasil quanto às notificações relativas à frequência e a gravidade das agressões,
visam a efetiva busca em identificar a violência doméstica, sexual e as outras formas
que se apresentam de forma física, sexual, psicológica e negligência/abandono.
Para Gabel (1997) é necessário que a rede de serviços esteja com
profissionais altamente qualificados para o atendimento nas redes de serviços e
proporcionem prioridade na gestão das políticas públicas para o processo de
desconstrução da violência intrafamiliar.
E em seus apontamentos ela continua, atestando que no contexto institucional o
primeiro passo, para essa desconstrução da violência é dar visibilidade ao
fenômeno:

Esse momento exige, por um lado, programas de recepção de


denúncias (SOS-criança, Conselhos Tutelares, ONGs) e, por outro,
um sistema da “retaguarda” articulado, via as políticas públicas,
existentes na sua localidade (segurança, assistência, saúde,
educação, trabalho e esporte e lazer).

Com a implantação do SUAS – Sistema Único de Assistência Social,


programa Sentinela foi inserido como serviço do CREAS (Centro de Referência
Especializado de Assistência Social).
O CREAS é uma unidade pública da política de Assistência
31

Social onde são atendidas famílias e pessoas que estão em situação de risco social
ou tiveram seus direitos violados. O público alvo dessa unidade são as famílias e
indivíduos em situação de risco pessoal e social, com violação de direitos, como:
violência física, psicológica e negligência; violência sexual; afastamento do convívio
familiar devido à aplicação de medida de proteção; situação de rua; abandono;
trabalho infantil; discriminação por orientação sexual e/ou raça/etnia;
descumprimento de condicionalidades do Programa Bolsa Família em decorrência
de violação de direitos; cumprimento de medidas socioeducativas em meio aberto de
Liberdade Assistida e de Prestação de Serviços à Comunidade por adolescentes,
entre outras. (ZART: VIEIRA E AMARAL, 2011)

2.2 Fluxo de Notificação do Abuso Sexual

O MEC divulga através da Guia de identificação instruções sobre os


sinais de abuso da criança e do adolescente e traz para conhecimento do corpo
docente, as principais etapas do fluxo de notificação para posterior averiguação.
Esse guia serve para qualquer outro setor profissional que tenha sobre a sua
responsabilidade crianças e adolescentes.
O primeiro passo é o lavramento do BO (Boletim de Ocorrência)
documento para a instauração do inquérito, seguido do encaminhamento ao IML
(Instituto Médico Legal), nessa etapa obtém-se as provas da ocorrência através do
laudo pericial e prova testemunhal sob a orientação pelo delegado em exercício, o
Conselho Tutelar também encaminha as vítimas ao IML. O seguinte passo é
proteger a vítima de abuso sexual. Nas cidades onde há Conselho Tutelar, esse
órgão deverá aplicar outras medidas, tanto as de proteção à vítima quanto as
pertinentes aos pais ou responsáveis previstas no ECA, nos Art. 101 e 129 (BRASIL,
1990). Nas cidades onde não existe Conselho Tutelar, cabe ao juiz aplicar as
medidas de proteção pertinentes, entre elas o afastamento do autor da violência
sexual, caso este seja um membro da família que vive sob o mesmo teto da vítima,
ou o abrigamento da criança ou adolescente, ou o seu encaminhamento para o
serviço psicológico, quando este for necessário e existir na cidade. (BRASIL, 2011).
Caso o autor da agressão mora na mesma residência da criança ou
do adolescente sexualmente abusado, o Art. 130 do ECA determina que seja
imediatamente afastado do lar (BRASIL, 1990). Para que isso aconteça, o Conselho
32

Tutelar pode representar o caso ao Ministério Público (MP), que instaura um


inquérito solicitando o afastamento do autor de violência sexual e encaminha o
processo para o juiz, que determina à polícia o cumprimento do procedimento legal.
Na impossibilidade de a criança ou adolescente ir para a sua residência, deve ser
providenciado seu encaminhamento para um abrigo. Se a medida de abrigamento
for aplicada pelo Conselho Tutelar, esta deve ser comunicada oficialmente a um juiz
da comarca ou ao juiz da Vara da Infância e Juventude, nas comarcas onde existir a
especialização da justiça para crianças e adolescentes.
Após os primeiros trâmites começa a nova fase que se dá com a
apuração dos fatos. O suspeito é chamado para depor, o delegado faz o relatório e o
encaminha ao MP (Ministério Público) para a central de inquéritos. Após o MP
oferecer denúncia e qualificar o crime, o relatório segue para a Vara Criminal da
Justiça Comum. Na Vara criminal pode, caso seja necessário chamar os
envolvimentos para maiores esclarecimentos e depoimentos, todos com direito a
advogados dativos ou não. Por fim, o juiz profere a sentença (fase final) ou para ir a
julgamento, o que pode resultar em pena ou multa para o autor do abuso sexual.
(BRASIL, 2011).
Considerando-se a morosidade da justiça, o tempo satisfatório para
a ocorrência de todo esse procedimento deveria ser em torno de três meses. Por
esse motivo, é crucial haver acompanhamento permanente e cobrança firme na
agilidade do seu trâmite pelas partes interessadas.
Morales e Schramm (2002) discorre sobre a dificuldade do
desenrolar de uma investigação de abuso sexual quando se encontra pelo caminho
os seguintes entraves, que podem traçar os resultados da punição do agressor se
proceder ou não: o relato tardio do abuso sexual, não há interesse na investigação
por parte dos mantenedores da lei e as provas e indícios se perdem e o agressor sai
impune, local inadequado para apuração da verdade dos fatos, investigações
deficientes, em função de informações desencontrada, sem indícios que corroborem
a denúncia ou ainda que são mal interpretados, Não á conivência da família na
punição do suspeito, tornando ineficaz a continuidade da investigação.
Esses esclarecimentos são superimportantes, pois apontam falhas
no processo da descoberta do abuso sexual, desde o inquérito até a efetivação do
processo penal. A sociedade tem dificuldade em seguir Leis, regras e ainda respeitar
qualquer direito que o ser humano venha a conquistar, conforme eles mencionam
33

em sua obra, até mesmo as convenções internacionais, ela deixa de respeitar.


Continuando a sua argumentação, os autores acima, relacionam que
existe uma baixa efetividade dos meios probatórios que auxiliariam no processo de
abuso sexual, os quais são pontuados:
1Prova testemunhal, são provas que devem ser produzidas por
testemunhas, ou ainda por relato de pessoas, que tem o escopo
de comprovação do delito ou ainda identificar o autor deste;
2Prova documental, trata-se de registro, verificável, do fato
delituoso, com fotografias, vídeos, gravações, etc. [...];
3Confissão, quando o autor do delito, confessa sua culpa, o que
é considerado inédito por os acusados de abuso sexual
intrafamiliar tendem a negar e até mesmo racionalizar o falto é a
negação e a racionalização do fato;
4Inspeção é a coleta de provas periciais (evidências) direto da
cena do crime que podem ser: fotografias, restos de sêmen,
registros de signos de violência etc. O que, deixa de ser eficaz,
dependendo do tempo transcorrido;
5Prova pericial, que pode ser também o exame médico forense,
que configura o exame de corpo delito que se procede através de
exame físico, por meio de anamnese, análise física, análise das
roupas ou amostras biológicas (sangue, sêmen, cabelos etc.),
para concluir que houve o delito. O que também pode configurar
ineficiente devido ao tempo transcorrido. (MORALES e
SCHRAMM, 2002, p.268-269).

3.1.1 Garantia de Direitos da Criança e do Adolescente

Para Minayo e Souza (1999), “(...). Pelo contrário, a violência é um


problema da sociedade, que desde a modernidade o tem tratado no âmbito da
justiça, da segurança pública, e também como objeto de movimentos sociais”.
As autoras analisam que não há como tratar a violência como
responsabilidade da saúde, da educação, ou seja, desse ou daquele setor. Isso é de
responsabilidade de um todo, da sociedade, da saúde, segurança pública e outros
seguimentos. Claro que tem alguns tipos que basicamente estão inseridas e podem
ser prevenidas por alguns setores especificadamente, mas todos levam a um só
objetivo a garantia de direitos e proteção à criança e adolescente.
A declaração de 1924 foi o instrumento jurídico internacional que
faria a primeira referência a “direitos” da criança, quando a Assembleia da
Sociedade das Nações adotou uma resolução endossando a Declaração dos
Direitos da Criança promulgada no ano anterior pelo Conselho da União
Internacional de proteção à Infância (Save the Children International Union). Os
34

membros da Sociedade das Nações são chamados a guiar-se pelos princípios deste
documento, que posteriormente passou a ser conhecido por Declaração de
Genebra, a saber:

[...]. A Declaração reconhece que a criança deve ser protegida


independentemente de qualquer consideração de raça,
nacionalidade ou crença, deve ser auxiliada, respeitando-se a
integridade da família e deve ser colocada em condições de se
desenvolver de maneira normal, quer material, quer moral, quer
espiritualmente. Nos termos da Declaração, a criança deve ser
alimentada, tratada, auxiliada e reeducada; o órfão e o abandonado
devem ser recolhidos. Em tempos de infortúnio, a criança deve ser a
primeira a receber socorros. A criança deve ser colocada em
condições de, no momento oportuno, ganhar a sua vida, deve ser
protegida contra qualquer exploração e deve ser educada no
sentimento de que as suas melhores qualidades devem ser postas
ao serviço do próximo. [...]. (ALBUQUERQUE, 2004, p.27).

O documento da autora descreve que em 1946, logo após a


Segunda Guerra Mundial, o Conselho Econômico e Social das Nações Unidas,
recomendou que a Declaração de Genebra fosse adaptada para unificar as
atenções do mundo pós-guerra para tomar providências para os problemas
relacionados às crianças, nesse mesmo ano foram fundados no mesmo ano o
Fundo de Emergências das Nações Unidas (UNICEF), o que era para funcionar em
caráter emergencial, passa em 1950 de acordo com a Assembleia Geral das Nações
Unidas a ter aval para desenvolver suas atividades por tempo indefinido e com isso
retirou a palavra Emergência, passando a se chamar Fundo das Nações Unidas
para a infância.
Ainda neste documento, a autora fala sobre a Convenção das
Nações Unidas sobre o Direito das Crianças que entrou em vigor a 2 de Setembro
de 1990, nos termos do seu artigo 49.º , sendo que a data que corresponde a de
adoção da Convenção que é o dia 20 de novembro de 1989 é a mesma do trigésimo
aniversário da Declaração dos Direitos da Criança. Sendo que a Organização das
Nações Unidas (ONU) decretou no mesmo dia como sendo o Dia Universal da
Criança.
Dessa forma, é importante definir que, a convivência entre os membros da família é
considerada um direito da Criança e do adolescente e segundo o Artigo 227, caput:
“[...]
É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao
35

adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à


saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à
cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar
e comunitária, além de coloca-los a salvo de toda forma de
negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e
opressão [...]”. (Redação dada Pela Emenda Constitucional nº 65, de
2010).

Neste sentido a proteção integral do vulnerável está intimamente


ligada à revelação do abuso em algum processo judicial, fazendo com que a criança
precise envolver-se com o Sistema de Justiça. Reviver os fatos através da revelação
gera sentimentos de culpa, vergonha, medo, além de sentimentos ambivalentes em
relação ao agressor, possibilidade de desintegração da família e/ou
institucionalização da criança (AZAMBUJA, 2006; AZEVEDO, 2001; FERREIRA;
SCHRAMM, 2000).
No dizer de Sanchez; Minayo (2004), é necessário que os
profissionais da área de saúde, sejam constantemente capacitados para enfrentar
qualquer condição de violência que vier a acometer dentro das unidades de saúde,
desde a unidade de atenção básica até os serviços emergências. E ressalta a
importância do profissional ser intersetorial e multiprofissional, sempre com enfoque
interdisciplinar, de modo a romper o ciclo de violência, que por ventura esteja
inserido no atendimento e ainda alerta para as raízes profundas da cultura patriarcal
do século. (SANCHEZ; MINAYO, 2004, p.36).
Assim vem aumentando o reconhecimento do importante papel dos
profissionais e serviços de saúde, no qual o Assistente Social ocupa lugar de
destaque, para seu enfrentamento, porque estes são espaços privilegiados que,
além de identificar e tratar podem criar estratégias de ação e prevenção (MOURA;
REICHENHEIM, 2005).
Os autores continuam sua argumentação dizendo que é preciso
compreender a situação da infância e da adolescência como expressão da questão
social, portanto, em inteira conexão com as determinações estruturais e conjunturais
e os demais desafios societários do país, e o papel do conjunto de sujeitos sociais
vinculados à luta pela garantia dos seus direitos assegurando-lhes a centralidade e
visibilidade devidas.
Continuando na efetivação de direitos:
36

Nenhuma criança ou adolescente será objeto de qualquer forma de


negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e
opressão, punido na forma da lei qualquer atentado, por ação ou
omissão, aos seus direitos fundamentais. (ECA, Lei nº 8.069/90,
artigo 5º).

O Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei Federal nº 8.069,


de 13 de julho de 1990), em seu artigo 28, § 1º, assegura à criança e ao adolescente
o direito de terem sua opinião devidamente considerada e de ser previamente
ouvido por equipe interprofissional, respeitado seu estágio de desenvolvimento e
grau de compreensão sobre as implicações da medida. O Conselho Tutelar foi
criado para dar suporte ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), sendo o
órgão responsável e encarregado de receber as notificações de suspeita ou
confirmação de maus-tratos praticados contra a criança e o adolescente, e
encaminhá-las ao Ministério Público. (BRASIL, 2015).
Ainda sobre os Direitos da criança, a Convenção Internacional, que
assegura à criança e adolescente o direito de serem ouvidos em todo processo
judicial que possa afetar seu interesse, institui em se artigo 12:

1. Os Estados Partes assegurarão à criança que estiver capacitada a


formular seus próprios juízos o direito de expressar suas opiniões
livremente sobre todos os assuntos relacionados com a criança,
levando-se devidamente em consideração essas opiniões, em função
da idade e maturidade da criança.

2. Com tal propósito, se proporcionará à criança, em particular, a


oportunidade de ser ouvida em todo processo judicial ou
administrativo que afete a mesma, quer diretamente quer por
intermédio de um representante ou órgão apropriado, em
conformidade com as regras processuais da legislação nacional.
(BRASIL, 1990).

Assim, é importante definir até que ponto a criança/adolescente está


essa ouvida ou somente está sendo induzida a responder questões pertinentes ao
processo a ser investigado.
Para corroborar a efetivação da notificação e encaminhamento da
violência contra a criança e adolescente em concomitância com o Estatuto da
Criança e do adolescente foi promulgado o decreto nº 99.710, de 21 de novembro de
1990, que ainda determina que sejam elaborados programas sociais que permitam
37

dar assistência, bem como se proceda a investigação do caso. De acordo com o


artigo 12 do respectivo decreto ficam decretados as seguintes medidas:
[...]

1. Os Estados Partes adotarão todas as medidas legislativas,


administrativas, sociais e educacionais apropriadas para proteger a
criança contra todas as formas de violência física ou mental, abuso
ou tratamento negligente, maus tratos ou exploração, inclusive abuso
sexual, enquanto a criança estiver sob a custódia dos pais, do
representante legal ou de qualquer outra pessoa responsável por ela.

2. Essas medidas de proteção deveriam incluir, conforme


apropriado, procedimentos eficazes para a elaboração de programas
sociais capazes de proporcionar uma assistência adequada à criança
e às pessoas encarregadas de seu cuidado, bem como para outras
formas de prevenção, para a identificação, notificação, transferência
a uma instituição, investigação, tratamento e acompanhamento
posterior dos casos acima mencionados de maus tratos à criança e,
conforme o caso, para a intervenção judiciária. (BRASIL, 1990).

O código Penal Brasileiro Lei 12. 015 de 2009, em relação ao


estupro de vulnerável, determina:

Art. 217-A. Ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso com
menor de 14 (catorze) anos:

Pena - reclusão, de 8 (oito) a 15 (quinze) anos.[...].

Devido à precoce iniciação sexual, muitos têm a falsa ideia que não
tem violência porque a criança já sabe tudo sobre sexo, portanto, já está preparada,
mas conforme o artigo 217-A será imputado pena nos rigores da Lei para faixa etária
mencionada acima se houver estupro.
Mas, no entendimento de Nucci (2009) [...]. “O legislador brasileiro
encontra-se travado na idade de 14 anos, no cenário dos atos sexuais, há décadas.
É incapaz de acompanhar a evolução dos comportamentos na sociedade”. [...].
O autor faz um comparativo entre o Código Penal e o ECA ao
demonstrar que o Estatuto da Criança e do Adolescente coloca o adolescente como
maior de 12 anos e a proteção penal ao menor de 14 anos continua sendo rígida.
Sua manifestação dá-se favorável à unificação do entendimento, estendendo ao
maior de 12 anos a capacidade de consentir ou não aos atos sexuais. Continua o
autor que a proteção à criança menor de 12 anos merece ser considerada absoluta
no cenário sexual. (NUCCI, 2009, p. 37-38).
38

2 A MEDOLOGIA DEPOIMENTO SEM DANO

Partindo do pressuposto que a Lei deve punir severamente o abuso,


a violação, a exploração sexual da criança e do adolescente responsabilizando os
infratores tanto na esfera criminal quanto na civil (Constituição Federal, art.227, §
3º), o único caminho, quando já se perdeu a evidência médica forense, é a escuta da
vítima. (BRASIL, 2010).
Para que a vítima se sinta mais segura, é necessário que ela sinta e
tenha a certeza de que o abusador será punido e que não ficará impune. Dessa
forma é importante que:

[...]. Um dos mais importantes fatores para a restauração da saúde


mental da criança abusada é de compelir o abusador a assumir
reponsabilidade pelo que foi feito. Isto apenas pode ser feito se for
publicamente reforçada a verdade da palavra da criança em sentido
algum deve se vista como culpada e veemente se colocar o peso da
culpa no ofensor. (MELO, 2014 apud MORGAN e ZEDNER,
2003, p.13),

O juíz dr. Daltoé, idealizador do projeto “Depoimento sem Dano”,


também chamado de “Redução de Danos”, discorre sobre o despertar do seu
interesse sobre este projeto ao ler uma obra da então Promotora de Justiça do Rio
Grande do Sul, especialista em Processo Penal e professora na Universidade
Luterana do Brasil. Nesta publicação a autora sugeria que a inquirição da criança
poderia ser realizada através de profissional habilitado, com o uso da câmara Gesell
(sala de vidro espelhado unidirecional utilizada em algumas ações da psicanálise).
Com isso, as crianças e adolescentes vítimas de abuso sexual, seriam retiradas do
ambiente austero e formal e transferidas para uma sala especial, sendo que ao lado
estariam o Magistrado, Promotor de Justiça, Advogado, réu e serventuários da
justiça, podendo interagir durante o depoimento. Na sala contígua, a presença de
profissionais técnicos que seriam o Assistente Social e/ou psicólogo. Após o
depoimento, que é gravado na memória de um computador, sua íntegra, além de ser
degravado e juntada aos autos, é copiada em um disco e juntada na contra capa do
processo. Estes procedimentos facilita que o magistrado e as partes tenham acesso
ao depoimento se restar dúvidas e também para sanar qualquer dúvida e caso de
recurso da sentença, bem como para alcançar os três principais do projeto que são:
Redução de danos, durante a produção de provas em processos judiciais, nos quais
39

a criança/adolescente é vítima ou testemunha; Garantia dos direitos da


criança/adolescente, proteção e prevenção de seus direitos, quando ao ser ouvida
em Juízo, sua palavra é valorizada, bem como sua inquirição respeita sua condição
de pessoa em desenvolvimento; Melhoria na produção da prova produzida.
(CESAR, 2007, p. 61-62).
Neste contexto, o Dr. Daltoé, ressalta que, como o abuso sexual
praticado com as crianças e adolescentes, ocorrem sempre às escondidas e
raramente tem outra testemunha, quando da inquirição, só se tem e se pode contar
com o depoimento da vítima. E continua que, neste ambiente, formal e frio, não há
interação entre o juiz e a vítima/testemunha o que pode levar à impunidade do
violador. E nessa busca por essa aproximação é que foi idealizado este projeto, que
tem o intuito de mudar esse quadro, que, segundo o Dr. Daltoé, poderá reduzir a
revitimização e chegar ao possível culpado mais rapidamente. (CESAR, 2007, p.
59).
Para o efetivo desenvolvimento da inquirição o técnico, deve estar
preparado e são inúmeros os conhecimentos que deve desenvolver e aprender.
Compreensão da dinâmica do abuso sexual e da violência intrafamiliar/doméstica,
conhecer as políticas públicas de atendimento à criança e adolescente e suas
formas de encaminhamento, bem como durante os procedimentos do “Depoimento
sem Dano” passar para a criança que ela não deve se sentir culpada com o ocorrido
e que a responsabilidade é do adulto; É preciso estar atento para não ficar alheio às
emoções, sempre utilizando das técnicas de compreensão e apoio no depoimento;
Dominar a doutrina inerente aos temas de exploração sexual e trabalho infantil; Ter
domínio das normas legais que dão providência às questões ligadas à criança e
adolescente (ECA, Constituição Federal, Código de Processo Penal e Civil entre
outros); O técnico deve adequar seu vocabulário para que entenda e se faça
entender; Deve estar a par de todo o desenvolvimento do processo, desde a
denúncia até a parte do depoimento/inquirição. Esta parte engloba as perguntas a
serem realizadas e o Laudo Social realizado no ambiente. (CEZAR 2007, p.73).
Alguns desses conhecimentos já fazem parte da área de atuação
do Assistente Social. As deficiências de entendimento do assunto em questão falta
de informação e preparo técnico, dificulta sobremaneira uma ação efetiva em
situação em que há necessidade de intervenção do profissional. É preciso que o
profissional identifique corretamente os indicadores de violência, estes podem ser
40

percebidos através da linguagem corporal, nas expressões e outros.

[...]. Para que os objetivos do projeto sejam alcançados com maior


facilidade, importante é que o técnico entrevistador social ou
psicólogo facilite o depoimento da criança. Para isso, é desejável que
possua habilidade em ouvir, demonstre paciência, empatia,
disposição para o acolhimento, assim como capacidade de deixar o
depoente à vontade durante a audiência. (CEZAR, José Antonio
Daltoé, 2007, p.66).

Na inquirição, é preciso que vários profissionais avaliem a vítima e


isso que dizer que por várias vezes ela terá que repetir sua experiência, mental e
física. E segundo experiências relatadas em livros e trabalhos científicos, ela vai
mudando tanto a ordem dos fatos, quanto a ocorrência dos fatos reais.
Estudos demonstram que a obrigatoriedade de repetir o ocorrido
pode fazer com que a criança ou o adolescente se sinta novamente vítima. Algumas
autoridades aceitam laudos psicológicos para dar suporte às denúncias de violência
sexual que não deixa marcas corporais. Caso a notificação tenha sido bem feita, a
autoridade competente pode optar por não ouvir o educador que a realizou. Uma
atitude cooperativa do notificador pode minorar o sofrimento da criança ou do
adolescente sexualmente abusado, evitando que o processo se “arraste”
indefinidamente. (BRASIL, 2011).
Neste ínterim, vários seminários, simpósios e conferências
ocorreram envolvendo os profissionais das áreas de psicologia, assistentes sociais,
magistrados, advogados, promotores de justiça, todos participando, debatendo
sobre o impacto deste projeto junto à Constituição Federal, nos Direitos Universais
Humanos e no Estatuto da Criança e do Adolescente.
No Seminário de Psicologia, na cidade de Brasília/DF/2010,
reuniram-se os representantes de vários Conselhos Regionais de Psicologia com o
propósito de debaterem sobre a implantação do Projeto “Depoimento sem Dano”,
idealizado por Dr. Daltoé e foi dito o seguinte:

Não é função de o psicólogo colocar seu saber a serviço de uma


inquirição na qual uma verdade judicial deve ser extraída com um
único objetivo de obter provas para penalização de determinadas
pessoas. E reafirma que, o compromisso do profissional é com a
escuta das demandas e dos desejos das crianças ou adolescentes
41

envolvidos. (VERONA, Humberto: 2010, p.15).

Este posicionamento reflete que não há concordância com o


método, por caracterizar uma violação de direitos e ainda uma sensação de
culpabilidade por parte da criança em relação ao vínculo afetivo, visto que a maioria
dos casos ocorre no âmbito intrafamiliar.
O Sistema judicial deve, além de tudo respeitar a opinião da criança
e do adolescente, sempre buscando e primando pelo entendimento de garantia de
Direitos da Criança e do Adolescente. Este deve estar preparado para se expressar
e que realmente sinta que é hora de falar, a vítima não dever ser considerada como
um mero instrumento de um processo judicial e sim o núcleo da proteção. Nesse
processo o abusador deixa de ser o alvo e a vítima se torna ainda mais violado nos
seus mínimos direitos. Nesse aspecto, pode-se se questionar:

Sob o prisma da nova ordem constitucional, inúmeras ações


praticadas pelo Sistema de Justiça passam a merecer urgente
revisão. Exigir da criança a responsabilidade pela produção da prova
da violência sexual, por meio da inquirição judicial, como
costumeiramente se faz, não seria uma nova violência contra a
criança? Estaria a criança obrigada a depor? (AZAMBUJA, 2011,
p.156).

Na realidade, para os profissionais envolvidos na inquirição, numa


análise primária, melhor seria, se as provas periciais médicas fossem mais
esclarecedoras e contundentes do que o depoimento da vítima em si. Mas, apesar
dessa excessiva confiança no exame médico, o relato da vítima em questão tem
mais confiabilidade e constitui elemento importante para corroborar o ato do abuso
sexual. (MARCELINO; ALMEIDA, 2014).
Sabe-se que quando o abuso é praticado em família, geralmente
não há testemunhas. Mas há que se intentar em proteger a vítima, independente da
dificuldade em juntar as provas matérias. É necessário que se estabeleça as
intervenções diretivas e a sociedade não deve se calar diante de práticas abusivas
contra as crianças e adolescentes. É necessário interromper esse ciclo vicioso de
abusos, mesmo que as testemunhas se calem. (HABIGZANG; KOLLER, (2012).
Em um estudo de caso de abuso sexual realizado por Dobke;
42

Santos; Dell”glio (2010) elas utilizam-se da argumentação que, apesar de todos


afirmarem que Tribunal não é lugar de criança ou adolescente, no momento em que
ela se torna vítima de praticas contrárias ao sem bem estar, que essa tenha seus
direitos universais garantidos e respeitados, que possa expor todo seu sofrimento,
angústia, medo e que principalmente, tenha a possibilidade de ter seu agressor
punido. Melhor ainda, que a justiça criminal a receba e a trate como sujeito de
direitos, sempre fazendo valer a doutrina da proteção integral adotada pelo ECA.

O sistema legal é detentor da justiça. [...]. Portanto, deve tal sistema


penalizar de maneira imparcial, pública e desapaixonada o
delinquente e respeitar o máximo possível os sentimentos e emoções
da vítima, compreendê-la e tentar evitar uma revitimização mais
grave do que a vitimização primária. MENEGAZZO (2011, nº 2854).

O autor acima expõe que é preciso se preocupar com a


revitimização enquanto não se determina culpados e principalmente cuidar da
vítima, tratando-a com respeito e compreendendo o emaranhado de emoções
advindas desse processo tão invasivo.
O Conselho Nacional de Direitos da Criança e do Adolescente
(CONANDA, 2014) órgão colegiado que integra a estrutura básica da Secretaria de
Direitos Humanos, resolve em relação ao Depoimento sem Dano através da
Resolução nº 169, que dispõe sobre o Atendimento e Garantia de Direitos da
Criança e do Adolescente em 13 de novembro de 2014, em seu artigo 2º, §§1º, 2º e
3º e ainda o artigo 3º, §§ 1º, 2º e 3º:

[...]
Art. 2º O atendimento deverá proporcionar à criança e ao
adolescente a escolha e a oportunidade de expressar livremente
suas opiniões e demandas sobre os assuntos a eles relacionados,
levando-se em consideração os fatores idade, maturidade e
interesse.
§ 1º Será garantida à criança e ao adolescente o tempo e o lugar
condizentes com sua condição de pessoa em fase especial de
desenvolvimento para a realização do atendimento, garantindo-lhes a
privacidade necessária.
§ 2º O atendimento deverá ser uma prática ética e profissional, de
acordo com a regulamentação dos respectivos órgãos profissionais,
não podendo agravar o sofrimento psíquico de crianças e
adolescentes vítimas ou testemunhas de crimes, devendo-se
respeitar o tempo e o silêncio de quem é ouvido, prevalecendo-se as
43

medidas emergenciais de proteção.


§ 3º Recomenda-se que sejam asseguradas à criança e ao
adolescente todas as informações acerca dos casos em que estejam
envolvidos para que possam melhor opinar.
Art. 3º Recomenda-se que o atendimento contemple os meios
técnicos e metodológicos necessários à preservação da integridade
física, psíquica e moral da criança e do adolescente, respeitando
suas vulnerabilidades e o desenvolvimento progressivo de suas
capacidades.
§ 1º O atendimento deverá ser realizado, sempre que possível, por
equipe técnica interprofissional, respeitando-se a autonomia técnica
no manejo das intervenções.
§ 2º O atendimento deverá proporcionar o devido acolhimento à
criança e ao adolescente, promovendo a atenção e o suporte às suas
necessidades e peculiaridades.
§ 3º O compartilhamento de informações entre os diversos órgãos
deverá ser feito nos limites da lei, resguardado o direito à privacidade
e ao sigilo.
44

5 ASSISTENTE SOCIAL E SUA PRÁXIS PROFISSIONAL NO ÂMBITO JURÍDICO

Ao longo do tempo, o trabalho do Assistente Social foi intimamente


associado ao contexto da realidade social da infância e nesse percurso, busca
ações que possam efetivamente garantir a proteção e a consolidação de sua
cidadania, rompendo com ciclos abusivos a que a criança e o adolescente possam
estar sendo submetidos ao longo dos anos.
A inserção do Assistente Social nos âmbitos jurídicos (Tribunais,
sistema prisional, Ministério Público e Defensorias Públicas) demonstram que essas
são somente áreas ocupacionais em que o Serviço Social pode atuar e que não
configuram como necessidade de se criar um campo de atuação, propriamente dito.
O objeto em questão diz respeito à intervenção do assistente social
nas audiências de inquirição em que se encontra criança e adolescente vítima de
violência sexual. As opiniões se divergem quando há um conjunto multidisciplinar
que emitem um aglomerado de opiniões e pareceres sobre o assunto inquirição de
vítimas de abuso sexual, sendo elas a criança e o adolescente.
Para Fávero; Melão e Jorge (2005), os profissionais de Serviço
Social e de Psicologia não contam com uma organização interna responsável pela
coordenação de seus trabalhos, por orientação e capacitação, nem se vinculam
diretamente a nenhum dos setores [...], no que diz respeito a questões de natureza
técnico-profissional.
Para Dall’Agnol (2015) [...], “a que se levar em conta que a oitiva da
vítima é um direito dela. Então, as vítimas continuarão s serem ouvidas em juízo,
seja por um juiz, ou pelo psicólogo, ou, ainda, pelo assistente social.”
A autora acima, conclui que para que a vítima não continue a achar
que deve continuar sem falar nada, porque nada acontecerá com seu agressor,
melhor será que os profissionais a ouçam, e que a mesma tenha ajuda profissional,
diminuindo assim, os danos psíquicos.
Em 2008 o Conselho Federal do Serviço Social solicitou às
assistentes sociais Eunice Teresinha Fávero CRESS 8295 – 9ª Região e Maria
Palma Wolff CRESS 2070 – 10ª região que emitissem pareceres quanto à
participação do Assistente Social na Equipe de Atuação da Metodologia Depoimento
Sem Dano (DSD). Será feito uma breve síntese referente aos mesmos assuntos em
que foram abordados para a emissão dos pareceres focando nos tópicos mais
45

importantes.
Eunice Teresinha Fávero: Possui graduação em Serviço Social pela Pontifícia
Universidade Católica de Campinas (1979), Mestrado em Serviço Social pela
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1995) e doutorado em Serviço Social
pela Pontifícia Universidade Católica/SP (2000). Atualmente é professora do
Mestrado Acadêmico em Políticas Sociais, e líder do grupo de pesquisa Políticas e
Práticas Sociais com Famílias, da Universidade Cruzeiro do Sul - São Paulo. Atuou
como assistente social no Tribunal de Justiça do Est. São Paulo de agosto de 1985 a
fevereiro de 2012. Participou da diretoria executiva da Associação dos Assistentes
Sociais e Psicólogos do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo - AASPTJ-SP,
nas gestões 2001/2005 e 2009/2011. É pesquisadora CNPq PQ2. Tem experiência
de atuação, docência e pesquisa na área de Serviço Social, com ênfase em
Fundamentos do Serviço Social, principalmente nos seguintes temas: família,
infância e juventude, área sóciojurídica, questão social, trabalho, prática profissional,
rompimento de vínculos sociais e familiares. Emitiu parecer desfavorável e apontou
como pontos principais:

1. O Código de Ética Profissional do Assistente Social, ao dispor


sobre o sigilo profissional como medida de proteção ao usuário,
refere que ele poderá ser revelado quando em trabalho
multidisciplinar, desde que se prestem tão somente as informações
estritamente necessárias. Dispõe também sobre a possibilidade de
quebra do sigilo em caso de situações graves, que poderão trazer
prejuízos aos usuários.

2. No caso do DSD, coloca-se, desse modo, uma importante


questão em relação aos limites do sigilo: a exposição da criança a
uma situação de inquirição, em um ambiente aparentemente
protegido de invasão à sua privacidade, pode contribuir para que
revele particularidades de sua condição ao profissional, com vistas à
garantia de seus direitos, não necessárias ao processo judicial
diretamente. Portanto, não caberia sua revelação, do ponto de vista
dos princípios ético-profissionais. Por outro lado, na ausência de um
efetivo compromisso de respeito aos limites do trabalho do outro
profissional e à própria condição especial da criança, por parte de
“operadores jurídicos”, como fica o direito profissional e o direito da
criança à proteção, inclusive quanto a possíveis danos emocionais?
Tal situação, pela sua complexidade, exige maiores debates e
análises, inclusive do ponto de vista jurídico.

3. Essa questão necessita ser pensada também em relação à


subordinação hierárquica/administrativa do assistente social ao juiz
(existente geralmente no espaço sócioocupacional do Judiciário). Tal
46

subordinação não implica subalternidade, ainda que no dia a dia esta


possa se fazer presente, especialmente em uma instituição
extremamente hierarquizada, na qual o exercício do poder faz parte
da sua “natureza”.

4. Em princípio, a justificativa da interdisciplinaridade parece não


caber ao DSD, na medida em que, se o técnico for assistente social,
não é solicitada a ele uma intervenção profissional – na verdade,
uma outra atribuição lhe é imposta, uma atuação como “intérprete”,
ou como “porta-voz” de alguém que tem o poder de decisão em
relação às perguntas e ao destino da criança e/ou familiares.

5. A avaliação técnica por assistente social, realizada por


diversos meios pertinentes ao trabalho profissional, dentre eles o
estudo social, supõe uma base teórica, técnica e ética que possibilite
que tal trabalho, de fato, contribua para a garantia de direitos dos
sujeitos envolvidos – considerando sujeitos tanto a criança e/ou
adolescente vítima como o suposto abusador. É necessário clareza
de que o seu papel profissional deve dar-se estritamente de acordo
com as prerrogativas profissionais, não cabendo a ele atribuições de
caráter inquisitorial, com vistas à busca da confissão ou da “verdade”
para subsidiar eventual punição ao acusado de um crime. [...].

6. No DSD, que verdade se busca ou se prioriza? A verdade


“descoberta” pelas disciplinas – para a garantia de direitos da criança
e/ou adolescente ou para a punição do abusador? A fronteira entre a
inquirição policial para a busca da “verdade” ou da “prova” e a
investigação científica para esclarecimento de uma situação pode ser
tênue, daí a necessidade do norte dado pelos princípios éticos. Uma
avaliação técnica, se considerada como uma “verdade científica”,
exige análise crítica, portanto, exige conhecimentos fundamentados
para não dar margem a interpretações com base em juízos de valor.
[...].

Em sua conclusão, pede que o CFESS/CRESS, articule, juntamente


com o Conselho Federal de Psicologia, Conselho Regional de Psicologia, Conanda,
Fóruns, Conselho Nacional de Saúde, o Legislativo etc., um amplo debate sobre o
tema, sendo que após essa participação do assistente social ele emitirá o seu
posicionamento frente a sua participação como técnica no Depoimento Sem Dano.

Maria Palma Wolff: Possui graduação em Serviço Social pela Pontifícia Universidade
Católica do Rio Grande do Sul (1980), especialização em Supervisão e mestrado em
Serviço Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (1990) e
doutorado em Direitos Humanos e Liberdades Fundamentais pela Universidade de
Zaragoza/ES(2003) e pós-doutorado pela Pontifícia Universidade Católica de São
Paulo. Foi presidente do Conselho Penitenciário do Estado do RS e Diretora Geral
47

do Instituto Psiquiátrico Forense Maurício Cardoso; Coordenou o Observatório de


Direitos Humanos da Penitenciária Feminina madre Pelletier e foi consultora da
Subsecretaria de Promoção dos Direitos da Criança e o Adolescente para a
elaboração do relatório da Convenção dos Direitos da Criança da Organização das
Nações Unidas. Atualmente é membro da Comissão Nacional de Fomento aos
Conselhos de Comunidade do Ministério da Justiça e Professora da Faculdade de
Serviço Social da PUCRS. Tem experiência como docente da área de Serviço
Social, atuando principalmente nos seguintes temas: Serviço Social, direitos
humanos, políticas sociais, penais e violência, sobre os quais possui pesquisas e
trabalhos publicados. Emitiu parecer favorável e apontou os pontos principais:

1. Em relação ao Código de Ética Profissional do Serviço Social,


ressaltam-se os princípios do reconhecimento da liberdade como
valor ético central, a defesa intransigente dos direitos humanos; a
ampliação e consolidação da cidadania e o compromisso com a
qualidade dos serviços prestados à população.

2. O Código de Ética disciplina também questões que estão


relacionadas ao trabalho do Serviço Social no DSD, como o
artigo 2º, alínea ‘h’, que discorre sobre autonomia profissional. O
artigo 5º aborda os deveres do assistente social em relação ao
usuário: a alínea ‘b’ refere o dever de garantir plena informação
e discussão das possibilidades e consequências das situações
trabalhadas, da prestação de informações sobre o trabalho
desenvolvido, seus objetivos e amplitude (alíneas ‘f’ e ‘h’); ainda
neste artigo encontra-se o dever do profissional de contribuir
para a criação de mecanismos que desburocratizem a relação
com os usuários (alínea ‘g’). Verificou-se também estarem
implementados os deveres previstos pelo artigo 10 quanto à
relação com outros profissionais, especialmente nas alíneas ‘d’,
sobre o incentivo da prática interdisciplinar, e ‘e’ que refere o
necessário respeito às normas e princípios de outras profissões.
No estudo realizado não foram constatadas situações de não-
observância aos demais preceitos do Código de Ética
Profissional do Serviço Social.

3. Quando ao sigilo profissional previsto nos artigos 15 a 18 do


Código de Ética, foram constatadas duas situações. Uma foi
referente ao depoimento propriamente dito, que é gravado e
passa a fazer parte do processo criminal. Mesmo quando tratar-
se de processo penal, o processo com depoimento de crianças e
adolescentes corre em segredo de justiça, para a proteção das
mesmas; assim, o depoimento fica acessível às partes. A outra
situação se relaciona com os procedimentos da etapa do
acolhimento e retorno, que diz respeito somente ao profissional, à
criança, ao adolescente e ao familiar.

4. Quanto à Lei de Regulamentação Profissional, o trabalho


48

realizado responde diretamente aos artigos 4º, inciso III _


“Encaminhar providências, prestar orientação social a indivíduos,
grupos e populações; V: Orientar indivíduos e grupos de
diferentes segmentos sociais no sentido de identificar recursos e
de fazer uso dos mesmos no atendimento e na defesa de seus
direitos” _ e os incisos VII e VIII, que se referem à elaboração de
pesquisas sobre a realidade social e à realização de assessoria
no âmbito dos temas pertinentes às atividades realizadas pelo
Serviço Social. É importante referir a proximidade existente entre
algumas competências profissionais definidas no artigo 4º e
atribuições privativas contidas no artigo 5º sobre as atribuições
privativas do assistente social. (IAMAMOTO: 2002).

5. As diretrizes curriculares referem que a formação profissional


deve possibilitar a capacitação “teórico-metodológica e ético-
política, como requisito fundamental para o exercício de
atividades técnico-operativas”, com vistas, entre outros aspectos,
a “desvelar as possibilidades de ação contidas na realidade” e a
“identificação das demandas presentes na sociedade, visando a
formular respostas profissionais para o enfrentamento da questão
social”. As competências e habilidades previstas pelas Diretrizes
Curriculares definem um profissional que tenha capacidade para
“orientar a população na identificação de recursos para
atendimento e defesa de seus direitos” e “realizar visitas, perícias
técnicas, laudos, informações e pareceres sobre matéria de
Serviço Social”.

6. Não menos importante é o fato de o ECA disciplinar nos artigos


nº 150 e 151 o trabalho das equipes interprofissionais junto ao
Poder Judiciário, destinadas a assessorar a Justiça da Infância e
da Juventude, com vistas a fornecer subsídios na audiência e de
desenvolver trabalhos de aconselhamento, orientação, prevenção
e outros. Dessa forma, tanto a legislação específica da profissão,
como o ECA que fornece toda a referencialidade para o trabalho
com crianças e adolescentes, fornecem elementos que legitimam
a intervenção do Serviço Social no DSD.

E em sua conclusão afirma que o Serviço Social vem ampliando a


sua intervenção no campo sóciojurídico, tanto pelo aumento do número de
profissionais no mercado, tanto pela qualidade destes. Principalmente nos espaços
de defesa de direitos, tais como o Ministério Público, participando de programas de
execução de Medidas Sócioeducativas e também junto a Lei Maria da Penha, entre
outros. Complementa ainda, que essa história confere legitimidade e identidade para
os profissionais suficientes para que possam assumir novas posições profissionais
conforme disposto no atual projeto ético político da profissão.
Vale ressaltar que em cada um dos pareceres existem muitos pontos
principais que foram largamente debatidos, por se tratarem de pautas importantes e
49

merecedoras de considerações.
Mas, conforme resolução 554/2009, o Conselho Federal de Serviço
Social, artigo 1º, não reconhece o uso de atribuição legal e nem competência dos
Assistentes Sociais para atuar na metodologia do projeto “depoimento sem dano”.
E continua no artigo 2º que, conforme os artigos 4º e 5º da Lei 8662/93, fica vedado
vincular ou associar ao exercício de Serviço Social e ao Assistente Social a
participação em metodologia de inquirição especial. Também no artigo 3º, explicita
que o descumprimento dos termos da Resolução em questão, implicará, em
apuração de responsabilidades disciplinares e/ou éticas, nos termos do Código de
Ética do Assistente Social.
Afirma categoricamente, em documento publicado, que a sua
posição em relação à participação do assistente social na inquirição Especial, ao
projeto “Depoimento Sem Dano” é contrária, pois existem dois aspectos
fundamentais que devem ser levados em conta, que seriam principalmente o direito
à proteção integral da criança e do adolescente que configuram como vítimas e que
esta metodologia de intervenção não faz parte das atribuições privativas e
competências do assistente social. (CFESS).
Para Azambuja (2010, p.74), “Lamentavelmente, carece a iniciativa
de elemento essencial e que se constitui em um dos pilares do novo direito da
criança, a tão falada, mas tão pouco praticada, interdisciplinaridade”.
E ela continua em oposição ao método, com indagações pertinentes
e deixando claro a sua posição frente aos chamados “técnicos” pelo judiciário, no
que diz respeito às atribuições do assistente social e do psicólogo como mediadores
(?) nas situações jurídicas. E indaga ainda, como conciliar essa interdisciplinaridade
com a autoridade judicial, e ainda não garantir direitos:

Estaria entre as atribuições do assistente social, do psicólogo, dar


outra voz, dar um tom maternal às perguntas vindas da autoridade
judicial? Será que o Serviço Social e a Psicologia não disporiam de
outras ferramentas para auxiliar as práticas judiciárias no que se
refere ao atendimento à infância, sustentadas nos princípios éticos
norteadores de sua práxis? Qual o sentido e função da
interdisciplinaridade? A interdisciplinaridade, base do novo direito da
criança, pressupõe o “abandono de posições acadêmicas
prepotentes unidirecionais e não rigorosas, que fatalmente são
restritivas, primitivas e tacanhas, impeditivas de aberturas novas,
camisas de força que acabam por restringir alguns olhares,
tachando-os de menores. AZAMBUJA (2010, p.74-75).
50

Para BORGIANNI (2013), Existe uma diferença muito grande entre o trabalho
do judiciário e o escopo do trabalho do Assistente social.

O mesmo ocorre quando estamos lidando com problemas


relacionados a uma denúncia de abuso sexual. Para um juiz da área
criminal, o que estará em seu foco de atenção será a reconstituição
de uma verdade jurídica para a incriminação do suposto abusador.
Por isso, para eles são tão importantes as provas. Já o foco de
trabalho de um assistente social terá que ser muito mais amplo e
profundo, para que possa atuar visando a proteção de direitos de
todos os envolvidos. (BORGIANNI, 2013, p. 407- 442).

Para o Conselho Federal de Serviço Social essa metodologia do


“Depoimento sem Dano” ou (inquirição especial de crianças e adolescentes),
constitui função própria da magistratura do Poder Judiciário e não possui relação
com a formação ou conhecimento profissional de Assistentes sociais, de acordo com
a Lei nº 8.662/93 (artigos 4º e 5º) que regulamenta o Serviço Social no Brasil. E
ressalta ainda, que não foi um posicionamento reservado e sim coletivo,
representado por mais de 120 mil profissionais em todo o Brasil.
Com esse número significativo, o CFEES apoiado por um conjunto
de profissionais de várias modalidades expressam suas convicções e opiniões ao se
manterem contrários a esse método. Pela pesquisa ficou claro que, este assunto é
delicado em todo seu teor. De um lado, conforme é cediço, há que se apurar os
fatos, para que o abuso não continue e de outro lado a vítima que deve ser
preservada e protegida. O Código de ética profissional deve estar sempre pautado
na garantia dos direitos humanos e sempre respeitando a legislação vigente que
faça valer os direitos em sua magnitude.
Essa Resolução foi suspensa em todo país por determinação da
sentença em 30 de abril de 2014, pelo Juiz da 1ª Vara Federal da Seção Judiciária
do Ceará, determinando que a paralização de qualquer procedimento ou processo
administrativo destinado a apurar o descumprimento por parte dos assistentes
sociais pela Resolução 554/2009. Mas apesar disso, o conjunto CFEES-CREES,
ainda não reconhece como atribuição e competência de assistentes sociais a
inquirição de crianças e adolescentes, vítimas de violência sexual, no processo
judicial.
51

Assim como CFEES o Conselho Federal de Psicologia perderam a


batalha contra a justiça e tiveram que suspender qualquer ação contrária ao projeto
Depoimento Sem Dano e consequentemente o Assistente Social e o Psicólogo,
funcionários públicos do Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul.

Entretanto, apesar das opiniões diferentes, em agosto de 2010, foi


impetrado, pelo Estado do Rio Grande do Sul, o mandado de
segurança 5017910-94.2010.404.7100/RS contra o Conselho
Regional de Psicologia da 7ª região - CRP/ RS e contra o CFP,
objetivando a suspensão da resolução número 10/2010. Da mesma
forma, havia sido impetrado outro mandado de segurança, em
novembro de 2009, com relação à resolução do Conselho Federal de
Serviço Social (número 2009.71.00.031114-1/RS). Ambos os
mandados de segurança garantiram aos profissionais da Psicologia e
do Serviço Social a atuação na metodologia do Depoimento Especial,
assegurando o exercício de suas profissões, conforme preceito
constitucional (CF, 1988). Assim, os referidos conselhos ficaram
impedidos de aplicar quaisquer penalidades a estes profissionais no
Estado do Rio Grande do Sul. PELISOLI; DOBKE; DELL’AGLIO
(2014).

O Conselho Nacional de Justiça enfim, reconhece a autonomia da


participação dos psicólogos e assistentes sociais no DSD e reafirma a atribuição dos
Conselhos na regulamentação do exercício profissional. O Pedido de Providências
nº 0001056-89.2014.2.00.0200, de 05 de maio de 2015, considera que a
regulamentação do exercício profissional é de competência dos Conselhos de classe
e que o Poder Judiciário deve solicitar a participação técnica de outras profissões,
desde que respeite o conhecimento e formação dos profissionais em questão,
quando houver, a necessidade da intervenção do especialista. (CNJ, 2015).
O ECA traz à profissão do assistente social uma vertente que
consolida o respeito pela garantia de direitos à criança e ao adolescente e que diz
respeito tanto ao enfrentamento da violência sexual quanto aos seus direitos de
serem sujeitos de direito. Os desafios são muitos, é complexo por ser violação de
direitos, o processo não é de curta duração e requer do assistente social as
competências de inerentes à profissão que são as: teórico-metodológica, técnica-
operativa e ético-política.

Considerações Gerais
52

Dentre as perspectivas deste estudo, a acadêmica espera conhecer


o impacto do Projeto Depoimento sem Dano na vida das vítimas de Violência Sexual
e entender seu funcionamento no sistema jurídico. A importância do Assistente
Social cada vez mais se amplia e o profissional deve se preparar para novos
desafios que surgirão de acordo com as demandas apresentadas pelo seu campo
de trabalho, sempre respeitando o projeto ético-politico que lhe é conferido através
do Código de Ética do Serviço Social.
O estudo foi deveras interessante, por vezes a acadêmica pensou
em mudar de tema face à complexidade do tema em questão. Autores famosos, com
currículos impecáveis sobre o conhecimento do assunto, frente às das questões
levantadas de forma coesa e preocupadas com a saúde física, psicossocial, com a
revitimização, na violação de direitos da criança e do adolescente e também com a
ética profissional que norteiam sua práxis profissional.
A problematização do assunto, a necessidade do diálogo por
envolver a multidiciplinaridade em uma só garantia de direitos da criança e do
adolescente vítima de abuso sexual, foi um assunto deveras interessante para o
exercício da profissão.
No combate à Violência Sexual da Criança e do Adolescente, deve-
se priorizar a prevenção e isso significa desenvolver campanhas que priorizem em
massa, pois reverter danos é muito difícil e pode chegar ao impossível.
De acordo com essa pesquisa, sabe-se que as controvérsias frente
a essa metodologia ainda não acabaram e haverá ainda muitas discussões sobre o
tema em questão. Os profissionais envolvidos neste processo, não chegaram a um
consenso e o que mais se espera, é que o centro de tudo seja levado em conta,
garantindo seus mínimos direitos. Mais ainda, que todas as informações pertinentes
devem chegar à comunidade, a família que participa da rede social deve ser
instruída sobre todas as formas de evitar e se prevenir contra qualquer violação de
direitos.
No decorrer do estudo foram pesquisados vários textos, livros e
qualquer literatura que envolvesse o tema, e o que mais chamou atenção e deve
ficar para reflexão, foi a conclusão dos autores Dobke; Pelsole e Dell’Aglio (2015).
Eles sugerem que todas as críticas apresentadas por inúmeros autores de vários
seguimentos profissionais, sejam transformadas em mudança e que as posições
53

contrárias conduzam ao aperfeiçoamento. Coloca a criança e o adolescente em


primeiro lugar, mas deixa claro que a proteção e benefício em prol das mesmas, não
deverá ficar somente na defesa de argumentos e seus próprios posicionamentos e
sim, que só haverá avanço e proteção, quando houver troca de conhecimentos e
compartilhamentos de informações, num conjunto interdisciplinar, deixando de lado
áreas e ciências específicas em prol do fortalecimento de saberes e opiniões no
intuito de verdadeiramente proteger a criança e o adolescente.
No entendimento dos autores e da acadêmica o ideal para todos os
envolvidos nesse processo estejam unidos. As opiniões e as contraposições jamais
devem ser deixadas de lado. Sem diálogo, sem envolvimento, os objetivos tornam-
se sem sentido e o real foco da problemática deixa de ser analisado, ponderado e
resolvido. O que se espera é que objetivos sejam unificados e soluções sejam
apresentadas, sempre no escopo de resolver de forma pertinente, sem visar que a
qualificação profissional esteja acima dos interesses da vítima de abuso sexual.
Na leitura da resolução do Conselho Nacional de Justiça no qual o
órgão, reconhece a primazia profissional dos Assistentes Sociais e dos Psicólogos,
respeitando a ética profissional e o seu conhecimento, demonstra que a justiça
reconhece a importância destes como peças importantes no desenrolar de sua
intervenção.

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