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POSSIBILIDADES DE SOFRIMENTO PSÍQUICO DO PROFESSOR UNIVERSITÁRIO DE


UMA LICENCIATURA

Kelly Cristina Tesche Rozendo1, Carmen Lúcia Dias2


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Universidade do Oeste Paulista – UNOESTE. Curso de Psicologia, Mestrado em Educação, Presidente Prudente – SP.
Agência Financiadora: Pibic/CNPq. E-mail: kellytesche@hotmail.com

RESUMO
O trabalho docente tem revelado processos de adoecimento no âmbito laboral. Pensando nisso,
esta pesquisa teve como objetivo geral analisar o sofrimento psíquico de professores
universitários das licenciaturas, buscando destacar aspectos que compõem seu ambiente de
trabalho. Especificamente, verificou-se a concepção que professores do curso de licenciatura em
Pedagogia têm sobre a docência; identificou-se características do ambiente de trabalho dos
professores universitários; investigou-se a saúde física e mental destes profissionais. Com
abordagem qualitativa, do tipo estudo de caso, a metodologia envolveu a coleta de dados, por
meio de questionário e entrevista semiestruturados com quatorze professores do curso de
licenciatura em Pedagogia de uma Instituição de Ensino Superior particular do estado de São
Paulo. A análise organizou-se por eixos e categorias. Os resultados revelaram que aspectos do
ambiente laboral acadêmico podem repercutir em sofrimento psíquico e produzir efeitos
negativos na saúde dos professores universitários.
Palavras-chave: Sofrimento Psíquico; Trabalho; Professor Universitário; Pedagogia.

POSSIBILITIES OF PSYCHIC SUFFERING OF UNIVERSITY PROFESSOR OF UNDERGRADUATE

ABSTRACT
Teaching work has revealed cases of illness in the workplace. Thinking about it, this research has
the general objective to analyze the psychic suffering of university professor of undergraduate,
seeking to highlight aspects that make your work environment. Specifically, was checked the
conception that Pedagogy undergraduate professors have about teaching; was identified
characteristics of the working environment of university professors; was investigated the physical
and mental health of these professionals. Using a qualitative approach and case study type, the
methodology involved the collection of data, through a questionnaire and interviews semi-
structured with fourteen professors of the undergraduate in Pedagogy course of a particular
Higher Education Institution in the state of São Paulo. The analysis was organized by axes and
categories. The results revealed that aspects of the academic work environment may impact on
psychic suffering and adversely affecting the health of the university professors.
Keywords: Psychic Suffering; Work; University Professor; Pedagogy.

INTRODUÇÃO

Colloquium Humanarum, Presidente Prudente, v. 11, n. 3, p.126-144, set/dez 2014. DOI: 10.5747/ch.2014.v11.n3.h178
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O ambiente laboral pode desencadear A Psicodinâmica do Trabalho tem


queixas de comprometimento na saúde dos como suporte o conhecimento e a descrição
trabalhadores por condições laborais das relações entre trabalho e saúde mental,
precárias que levam ao desgaste mental e podendo contribuir para a análise das
repercutem negativamente em todos os relações entre trabalho e subjetividade. De
âmbitos da vida. Por sua vez, o trabalho acordo com Dejours (2004, p. 30) “Trabalhar
contemporâneo nas universidades pode não é somente produzir; é, também,
funcionar como fonte de exaustão e transformar a si mesmo e, no melhor dos
adoecimento, desestabilizando e colocando casos, é uma ocasião oferecida à
em risco a saúde física e psíquica dos subjetividade para se testar, até mesmo para
trabalhadores. No entanto, o contexto se realizar”. Essa corrente considera o
acadêmico propriamente dito não possui trabalho no âmbito objetivo e subjetivo. A
literatura vasta referente a esta temática. carga laboral divide-se em carga física e
Lima e Lima-Filho (2009) afirmam que psíquica, englobando visões singulares de
investigações sobre a dinâmica de produção cada ser humano de vivenciar o trabalho,
do desgaste mental no âmbito do trabalho cujo fator se relaciona com desgaste mental
podem viabilizar prevenções para diminuição e pode produzir insatisfação, irritação,
da carga psíquica. Para Araújo et al. (2005) exaustão, sofrimento e adoecimento
aprofundar estes estudos permite analisar os (DEJOURS, 1991; 2004).
processos laborais e descrever o perfil de Na Psicologia Social, Codo (1999, p.
adoecimento dos trabalhadores e as 31) afirma que “Ser Humano significa ser
associações entre o trabalho e a saúde. Logo, Histórico”. O que faz o homem ser histórico é
na tentativa de cooperar para ampliação a possibilidade de permanecer apesar de si, e
destes conhecimentos, este estudo, revestido isso ocorre através do trabalho, no qual os
de preocupações e indagações apoiadas na gestos são imortalizados. Segundo Codo,
proposição central de que o trabalho dos Sampaio e Hitomi (1993) o trabalho é parte
professores universitários pode desencadear da história dos seres humanos. Para Codo e
sofrimento psíquico nesses profissionais, Sampaio (1995, p.209) “o trabalho é o modo
apresentou como referencial teórico de ser do Homem, como tal invade e se
contribuições da Psicodinâmica do Trabalho e permeia com todos os níveis de sua
da Psicologia Social, além de artigos atividade, seus afetos, sua consciência”.
científicos coletados nas principais bases de Nesta perspectiva, o trabalho, principal
dados brasileiras. atividade humana, produz efeitos sob o

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trabalhador, determinando o processo de Cabe salientar ainda que o ambiente


saúde e de doença mental nos indivíduos. educacional e sua configuração nas últimas
À luz destas teorias, o trabalho é décadas sofreram uma intensa
destacado como fator de importância capital transformação que alterou sua condição e
na produção de sofrimento psíquico e de organização laboral. Trata-se do movimento
adoecimento nos trabalhadores. A partir de globalização e reestruturação capitalista,
disto, investigações indicam que o trabalho o qual promoveu intensas reformas que
de docência se destaca ao evidenciar influenciam na estruturação e valorização
sofrimento psíquico em seu âmbito laboral social da atividade docente. Essas
(MENDES et al., 2007; VEDOVATO; transformações favorecem um significativo
MONTEIRO, 2008; GARCIA; OLIVEIRA; quadro de desgaste biopsíquico nos
BARROS, 2008; RIBEIRO; MARTINS, 2011). profissionais da educação, podendo afetar a
Decerto o cotidiano e a situação saúde física e psíquica desses trabalhadores
laboral das instituições acadêmicas possuem (ARAÚJO et al., 2005; GUIMARÃES; MARTINS,
elementos que podem desencadear 2010; XAVIER, 2011; JILOU, 2013).
problemas de ordem psíquica e potencializar Nesta mesma linha, Gradella (2010)
vivências depressivas nos professores afirma que o processo de sofrimento psíquico
universitários. Servilha e Arbach (2011) decorre das relações de dominação e
relatam que na especificidade das tarefas desumanização impostas pelo capitalismo, o
desses profissionais encontram-se contidos qual se encontra no centro da organização do
fatores de risco capazes de promover mundo, influenciando um processo de
sofrimento psíquico e influenciar a saúde dos alienação que não possibilita objetivação e
docentes. Entre esses fatores, Gradella realização do trabalhador na atividade que
(2010) destaca o compromisso com a exerce. Dejours (2004) aponta que o trabalho
formação dos sujeitos humanos de maneira não é somente uma atividade, senão uma
contínua. Garcia, Oliveira e Barros (2008) forma de relação que se desdobra em um
enfatizam as responsabilidades além desse mundo caracterizado por relações de
compromisso, pois os professores devem desigualdade, de poder e de dominação. Por
preocupar-se inclusive com a própria certo, a lógica de produção influencia nessas
formação. Destaca-se ainda, conforme Codo relações podendo gerar vias dolorosas e,
(1999), o conteúdo afetivo submerso na segundo Gradella (2010), causar desajustes
atividade docente como fator de sofrimento no plano psicológico e sofrimento psíquico
psíquico. aos trabalhadores.

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Esse sofrimento refere-se a uma características que compõem seu ambiente


descompensação que se origina na de trabalho. Como objetivos específicos,
organização do trabalho produzindo pretendeu-se verificar a concepção que os
angústias, desgostos, ansiedades, frustrações professores do curso de licenciatura em
e infelicidade. Para Codo (1999, p. 311) “O Pedagogia têm sobre o exercício da docência;
fator nocivo do trabalho não está na identificar os aspectos que compõem o
dedicação, no empenho, mas nas condições, ambiente de trabalho dos professores
na organização e na relação com o trabalho”. universitários; e investigar a saúde física e
Dejours (1991, 2004) indica que a mental destes profissionais.
organização laboral pode promover um
agravamento das patologias mentais. METODOLOGIA
Apesar destes desgastes mentais, Com o objetivo de analisar as
Dejours (1991) explica que no trabalho o possibilidades de sofrimento psíquico dos
sofrimento precisa ser mantido de maneira professores universitários das licenciaturas,
invisível, para que se mantenha o ritmo esta pesquisa, inscrita na Coordenadoria
laboral e um suposto equilíbrio mental. Na Central de Pesquisa (CCPq/UNOESTE) sob
organização do trabalho apenas o sofrimento protocolo número 1601, agência financiadora
físico é reconhecido, desconsiderando a PIBIC/CNPq, foi realizada segundo a
possibilidade de que doenças somáticas abordagem qualitativa, do tipo estudo de
podem ser desencadeadas pelo sofrimento caso. A coleta de dados foi realizada por
psíquico. meio de questionário e entrevista
A expectativa ao realizar este estudo semiestruturados com quatorze professores
foi oferecer elementos de base e orientação, que ministram aulas em um curso de
que contribuam para deflagrar um processo licenciatura em Pedagogia de uma Instituição
de reflexão a respeito do relevante papel e de Ensino Superior (IES) particular do estado
da ação dos profissionais da educação de São Paulo. O critério de escolha dos
perante a sociedade, bem como da relação participantes foi por sorteio, ou seja, 60% do
do trabalho com o sofrimento psíquico e com total de professores do referido curso,
a saúde física e mental desses trabalhadores. garantindo a representatividade, a não
Para tanto, esta pesquisa delineou como identificação e o sigilo dos sujeitos.
objetivo geral analisar o sofrimento psíquico Após aprovação do Comitê de Ética
dos professores universitários de uma em Pesquisa e assinatura do Termo de
licenciatura, buscando destacar aspectos e Consentimento Livre Esclarecido (TCLE) pelos

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sujeitos, os questionários foram entregues e na interpretação do significado das respostas


deixados em posse dos professores, em (escrita ou oral). As diferentes fases da
função da comodidade para o preenchimento análise se organizaram em torno de polos
do mesmo. Todos os sujeitos sorteados cronológicos, a saber, pré-análise, exploração
receberam o questionário proposto pela do material, tratamento dos resultados,
pesquisa, porém três deles não devolveram e inferência e interpretação. Os dados foram
não contestaram a qualquer tipo de tentativa organizados por eixos e categorias, as quais,
de contato para recolhimento do material. podendo ser agrupadas de acordo com
Logo, a fim de enriquecer e aprofundar o afinidades temáticas para a discussão, foram
estudo, foram sorteados três sujeitos para relacionadas com os objetivos propostos por
realização de entrevistas, para efeito de esta pesquisa.
compreensão e assimilação do sentido das
perguntas propostas. Durante as entrevistas, RESULTADOS
tal como proposto por Oliveira (2008), o Os participantes desta pesquisa foram
entrevistador limitou-se a ouvir e não denominados Sujeitos 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9,
interferiu nas respostas dos entrevistados. 10, 11, 12, 13, 14, cujos dados pessoais e
Os dados obtidos foram analisados e profissionais encontram-se dispostos na
trabalhados por meio da análise de conteúdo Tabela 1 e na Tabela 2.
apresentada por Bardin (2011), que consiste

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Tabela 1. Identificação do Perfil Docente (Dados Pessoais)

Sexo Idade Estado Civil Residência


Sujeito 1 Feminino 55 Casada Pres. Prudente/SP

Sujeito 2 Feminino 40 Divorciada Pres. Prudente/SP

Sujeito 3 Masculino 38 Solteiro Pres. Prudente/SP

Sujeito 4 Masculino 56 Solteiro Pres. Prudente/SP

Sujeito 5 Feminino 47 Casada Pres. Prudente/SP

Sujeito 6 Feminino 53 Casada Pres. Prudente/SP

Sujeito 7 Feminino 49 Casada Pres. Prudente/SP

Sujeito 8 Masculino 52 Solteiro Pres. Prudente/SP

Sujeito 9 Feminino 69 Divorciada Pres. Prudente/SP

Sujeito 10 Feminino 53 Casada Pres. Prudente/SP

Sujeito 11 Masculino 53 Casado Pres. Prudente/SP

Sujeito 12 Masculino 46 Solteiro Pres. Prudente/SP

Sujeito 13 Feminino 69 Viúva Pres. Prudente/SP

Sujeito 14 Feminino 54 Separada Pres. Prudente/SP


Fonte: Dados trabalhados pelo pesquisador.

A Tabela 1 traz informações sobre os residem na cidade de Presidente Prudente no


dados pessoais de identificação do perfil estado de São Paulo.
docente e permite entender que a idade dos A seguir apresenta-se a Tabela 2,
participantes variou de 38 a 69 anos, sendo cujas informações se referem aos dados
cinco masculinos e nove femininos. Destes, profissionais de identificação do perfil
sete são casados, três solteiros, dois docente.
divorciados, um separado e um viúvo. Todos

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Tabela 2. Identificação do Perfil Docente (Dados Profissionais)


Formação Tempo de Contrato com a Disciplina que Exerce a Exerce outra
Acadêmica Docência Instituição de ministra docência em atividade
Ensino Superior - outra laboral
IES instituição
Sujeito 1 Especialista 16 anos Integral História da Não Não
Mestre Educação;
Didática;
Avaliação
Educacional
Sujeito 2 Doutora em 7 anos Parcial Psicologia da Sim, em Sim
Psicologia Educação Universidad
e Pública
Sujeito 3 Mestre em 8 anos Parcial Filosofia; Não Não
Filosofia História (Arte)
Sujeito 4 Mestre 30 anos Parcial Não citado Não Não
Sujeito 5 Especialista em 11 anos Parcial Fundamentos e Não Sim
Gestão diretrizes da
Educacional; Educação
Mestre em infantil;
Educação Organização
pedagógica.
Sujeito 6 Mestre em 1 ano Parcial Letramento e Sim, no Não
Educação alfabetização;M Ensino
etodologia do Fundamental
ensino de
Matemática.
Sujeito 7 Mestre 6 anos Parcial Não citado Não Não
Sujeito 8 Mestre em 21 anos Integral Ciências Sociais; Sim, na Sim
Educação Filosofia; Educação
Sociologia; Básica
Geografia.
Sujeito 9 Mestre 26 anos Parcial Não citado Não Não
Sujeito 10 Doutora 13 anos Integral Não citado Não Sim
Sujeito 11 Especialista em 28 anos Integral Não citado Não Não
Ciências
Humanas e
Sociais;
Mestre em
Educação
Sujeito 12 Especialista 12 anos Parcial Não citado Não Não
Sujeito 13 Mestre em 30 anos Parcial Não citado Não Não
Educação
Sujeito 14 Doutora em 16 anos Parcial Não citado Sim, no Sim
Educação Ensino
Médio
Fonte: Dados trabalhados pelo pesquisador.

As informações da Tabela 2 indicam mestres, sete mestres e um especialista. O


que todos os sujeitos possuem graduação, tempo de docência no ensino superior variou
sendo três doutores, três especialistas e de um a trinta anos. Quatro participantes

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possuem contrato integral com a IES e dez Educação; Didática; Avaliação Educacional;
possuem contrato parcial. O número de Psicologia da Educação; Filosofia; História da
horas destes contratos varia de quarenta e Arte; Fundamentos e Diretrizes da Educação
oito a dez horas de trabalho. Alguns Infantil; Organização do Trabalho
participantes exercem a docência em outras Pedagógico; Letramento e Alfabetização;
instituições. O Sujeito 2 atua em outra IES. Os Metodologia do Ensino de Matemática;
Sujeitos 6 e 8 exercem a docência na Ciências Sociais; Sociologia; Geografia. Alguns
Educação Básica e o Sujeito 14 no Ensino sujeitos não citaram as disciplinas cujos
Médio. Os demais participantes não exercem conteúdos lecionam aulas.
a docência em outras instituições, porém os A seguir, a Tabela 3 apresenta eixos e
Sujeitos 2, 5, 8, 10 e 14 atuam em outras categorias, os quais foram organizados com
atividades laborais. Entre as aulas que os base no roteiro do questionário/entrevista
participantes ministram encontram-se aplicados aos participantes da pesquisa.
disciplinas referentes à: História da

TABELA 3. Eixos e Categorias


EIXOS CATEGORIAS
1 Concepção sobre docência (Q1)
2 Inserção na carreira docente (Q2)
I – Concepção sobre o
exercício de docência 3 Importância da docência para vida do professor (Q3)
4 Requisitos necessários para o exercício da docência (Q4)
5 Interesse em trabalhar com a Educação Superior (Q5)
6 Requisitos necessários para trabalhar com universitários (Q 6)
7 Importância dos professores universitários para a sociedade (Q7)
1 Impacto das leis de mercado nas universidades e na profissão (Q1)
2 Influências dos avanços tecnológicos na atuação profissional (Q2)
3 Ambiente de trabalho (Q3)
4 Condições e organização laboral (Q4)
II – Ambiente de trabalho
na universidade 5 Liberdade e autonomia no trabalho (Q5)
6 Sobrecarga laboral (Q6)
7 Competição laboral (Q7)
8 Remuneração da profissão (Q8)
9 Reconhecimento do trabalho (Q9)
10 Satisfação laboral (Q10)
11 Pontos favoráveis e desfavoráveis da docência (Q11)
12 Mudanças no ambiente laboral (Q12)
1 Relação trabalho/saúde (Q1)
2 Problemas de saúde após ingressar na docência (Q2)

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3 Sintomas físicos ou mentais e saúde (Q3)


4 Episódios de fadiga física e/ou mental (Q4)
5 Anseios e aspirações no trabalho e na vida privada (Q5)
III – Saúde física e mental 6 Gostar do que faz (Q6)
do professor universitário 7 Prazer e desprazer no trabalho (Q7)
8 Relações sociais no trabalho (Q8)
9 Situações de lazer (Q9)
10 Separação da vida profissional e privada (Q10)
11 Trabalhos da IES realizados em casa (Q11)
12 Ingestão de bebidas alcoólicas e tabaco (Q12)
13 Prática de esportes (Q13)
14 Tempo de lazer (Q14)
15 Relação da docência com o sofrimento psíquico (Q15)
16 Motivações e desmotivações no exercício da docência (Q16)
Fonte: Dados trabalhados pelo pesquisador.

A Tabela 3 indica que o Eixo I, laboral; pontos favoráveis e desfavoráveis da


concepção sobre o exercício de docência, docência; mudanças no ambiente laboral. O
verificou por meio de categorias aspectos Eixo III, saúde física e mental do professor
relacionados à concepção sobre docência; universitário, verificou a relação
inserção na carreira docente; importância da trabalho/saúde; problemas de saúde após
docência para vida do professor; requisitos ingressar na docência; sintomas físicos ou
necessários para o exercício da docência; mentais e saúde; episódios de fadiga física
interesse em trabalhar com a educação e/ou mental; anseios e aspirações no
superior; requisitos necessários para trabalho e na vida privada; gostar do que faz;
trabalhar com universitários; importância dos prazer e desprazer no trabalho; relações
professores universitários para a sociedade. sociais no trabalho; situações de lazer;
O Eixo II, ambiente de trabalho na separação da vida profissional e privada;
universidade, investigou mediante categorias trabalhos da IES realizados em casa; ingestão
o impacto das leis de mercado nas de bebidas alcoólicas e tabaco; prática de
universidades e na profissão; influências dos esportes; tempo de lazer; relação da
avanços tecnológicos na atuação profissional; docência com o sofrimento psíquico;
ambiente de trabalho; condições e motivações e desmotivações no exercício da
organização laboral; liberdade e autonomia docência.
no trabalho; sobrecarga laboral; competição
laboral; remuneração da profissão;
reconhecimento do trabalho; satisfação

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DISCUSSÃO participantes a profissão além de permitir o


No Eixo I – Concepção sobre o processo de ensino e aprendizagem e de
exercício de docência – é importante frisar contribuir para a formação dos cidadãos
que para Codo (1999, p. 418) a docência “é sociais e de outros professores, possibilita a
um trabalho completo, artesanal, desses que manifestação do amor e o desenvolvimento
são raros em mundo de hoje.” Na categoria de vínculos significativos. Codo (1999) alerta
1, concepção sobre docência, os Sujeitos 3, 5, que há uma tensão entre vincular-se e não
7, 8 e 14 descrevem que ser professor vincular-se afetivamente no trabalho
consiste numa troca, num compartilhamento, docente. Conforme a intensidade dessa
compreendendo a docência como um tensão pode instaurar-se um quadro de
processo mútuo capaz de mobilizar sofrimento nos professores.
transformações e construções. Nas palavras As categorias 4, 5 e 6 correspondem
do Sujeito 7 ser professor é construir o aos requisitos necessários para o exercício da
conhecimento com o aluno. Tal docência e para trabalhar com universitários
posicionamento remete a Masetto (2003) e a e, ao interesse em trabalhar com a educação
Freire (2011), cujas visões apontam os superior. Percebe-se que diferentes fatores
professores do ensino superior como levaram os professores desta pesquisa a
parceiros que compartilham e aprendem atuarem na docência superior, entre eles, as
saberes com os outros. Esse processo de oportunidades de empregos e a vontade de
transmissão e aquisição de conhecimentos contribuir para a formação de novos
foi mencionado na categoria 2, inserção na professores. Para os Sujeitos 2, 3, 4, 5, 6, 8,
carreira docente, como um dos fatores 10, 11, 12, 13 e 14 a docência exige
motivacionais para o ingresso dos persistência, competência, paciência e
participantes desta pesquisa na profissão de principalmente, conhecimento teórico e
docência. técnico, formação adequada e boa relação
As categorias 3 e 7 se referem a professor/aluno. Tardif (2010) salienta que o
importância da docência para a vida do saber docente se define pela formação mais
professor e a importância dos professores ou menos coerente de conhecimentos
universitários para a sociedade. Tais oriundos da formação profissional e dos
categorias instigaram os sujeitos a refletirem saberes disciplinares, curriculares e
sobre sua prática. A partir desta reflexão, o experienciais. Para Tardif (2010, p. 130) os
valor da docência adquiriu entonações professores devem “fazer com que as ações
afetivas e práticas, no sentido de que para os

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dos alunos se harmonizem com as suas, ao IES em questão, em geral é agradável,


invés de se oporem a elas.” prazeroso, bom e gratificante. Porém, os
No Eixo II – Ambiente de trabalho na recursos físicos e materiais oferecidos são
universidade – deve-se considerar que o escassos e as salas não são preparadas para
sistema capitalista instalou um novo modelo acolher a atividade docente, o que gera
de configuração nas universidades, sobrecarga laboral. Segundo os participantes
remetendo-as às novas leis de mercado e a falta de equipamentos didáticos instalados
promovendo deterioramento e precarização nas salas de aula faz com que os professores
nas condições laborais (LIMA; LIMA-FILHO, tenham que carregar peso em demasia,
2009; GRADELLA, 2010). As categorias 1 e 2 preparar e instalar aparelhos quando
ao se referirem ao impacto das leis de necessários, bem como, exige deslocamentos
mercado nas universidades e na profissão de constantes. Tais situações vão de encontro
docência e às influências dos avanços com estudos de Araújo et al. (2005), nos
tecnológicos na atuação profissional, revelam quais são apontadas as mesmas deficiências
exigências de profissionais cada vez mais no ambiente laboral dos professores
competentes e com habilidades múltiplas. universitários. Dejours (2004) afirma que a
Além disso, os sujeitos desta pesquisa pior organização laboral se caracteriza, entre
salientam que as novas leis de mercado são outros fatores, por infraestrutura precária e
instáveis, apresentam interesse elevado pelo pela falta de conforto oferecido pelas
lucro e oferecem infraestrutura precária e instituições.
desvalorização. Para Jilou (2013) o contexto As categorias 5 e 10 referem-se à
laboral dos professores universitários liberdade e autonomia no trabalho e à
encontra-se revestido com instabilidade, satisfação laboral. Gradella (2010), Xavier
ameaças, precarização, valorização excessiva (2011) e Suda et al. (2011) ressaltam que
do capital e desvalorização da imagem entre os fatores desencadeantes dos
docente. problemas de ordem psíquica encontram-se
As categorias 3 e 4, se referem ao a falta de autonomia, de liberdade e as
ambiente de trabalho e as condições e cobranças psicológicas no mundo do
organização laboral, englobando aspectos trabalho. Por sua vez, os Sujeitos 1, 3, 4, 5, 7,
referentes aos recursos dispostos no 9, 10, 11 e 13 consideram o trabalho
contexto e na organização do trabalho na satisfatório e afirmam que possuem
universidade. Neste sentido, a maioria da liberdade e autonomia para desempenhar
amostra afirma que o ambiente humano na suas funções na IES, porém demonstram

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certas insatisfações com relação a diversos 6, 7, 8, 12 e 13, para os quais sempre há


aspectos. Nas palavras do Sujeito 2 na competição no ambiente laboral docente.
universidade não há tanta liberdade, os Nas categorias 8 e 9 apresentam-se
prazos são rígidos [...] o trabalho é cerceado temáticas referentes a remuneração da
e há conflitos. Quiçá decorrente disto, o profissão docente e ao reconhecimento do
Sujeito 12 não sente satisfação em seu trabalho. Segundo Codo (1999) ser professor
trabalho. Para Codo (1999) e Mendes et al. deixou de ser compensador, pelos salários
(2007) quando os professores universitários baixos, pela falta de status social e pela falta
não obtêm satisfação e são afetados pela de reconhecimento dos profissionais da
organização do trabalho colocam em risco educação. A maioria dos participantes desta
seu equilibro psíquico e sua saúde mental. pesquisa concorda que a docência não possui
Nas categorias 6 e 7 – sobrecarga remuneração adequada. Apesar disto, os
laboral; competição laboral – cabe salientar Sujeitos 1, 4, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 13 e 14 sentem
que alguns aspectos do mundo do trabalho que seu trabalho é reconhecido pela IES em
acadêmico promovem sensações de questão. De acordo com Codo (1999) o
esvaziamento e descontentamento, entre reconhecimento e a valorização dão sentido
eles, as intensificações do ritmo de trabalho e ao trabalho. Para Guimarães e Martins (2010)
a competição acirrada (GRADELLA, 2010; a falta de reconhecimento laboral ameaça a
SUDA et al., 2011; XAVIER, 2011). integridade dos professores, determinando o
Corroborando, os Sujeitos 2, 3, 5, 8 e 14 sofrimento psíquico.
garantem que há sobrecarga laboral na As categorias 11 e 12 se referem aos
universidade. Em contrapartida, a pontos favoráveis e desfavoráveis da
competição laboral é tida por alguns docência e as mudanças no ambiente laboral.
participantes como inexistente no mundo do Dejours (2004) revela que o trabalho pode
trabalho acadêmico, sendo este o corresponder a um processo negativo ou
posicionamento dos Sujeitos 1, 3, 4, 9 e 10, positivo, ou seja, pode apresentar aspectos
os quais confrontam inúmeros autores que favoráveis e desfavoráveis. Diante dos
embasam esta pesquisa, uma vez que a fatores negativos, Mendes et al. (2007)
competição acirrada é considerada fator afirmam que os professores se deparam com
inerente ao contexto da universidade (LIMA; a incapacidade de mudança. Para Codo
LIMA-FILHO, 2009; GRADELLA, 2010). Para (1999) esta incapacidade se associa ao
legitimar tais perspectivas, tornam-se desânimo e as sensações de derrota nos
relevantes os depoimentos dos Sujeitos 2, 5, professores.

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Entre os pontos favoráveis da que os Sujeitos 5, 6 e 14 relataram sintomas


profissão de docência os professores de cansaço físico, desgaste na voz,
universitários apontaram a contribuição para inquietação e nervosismo após o ingresso na
a educação, o conhecimento e as relações carreira acadêmica. Além disso, os sujeitos
interpessoais que se entrelaçam em sala de afirmam que a profissão de docência pode
aula. Os fatores adversos foram relacionados fazer emergir sofrimento psíquico. Opiniões
à falta de reconhecimento e remuneração estas que corroboram Codo (1999) e Gradella
adequada, estresse, trabalho excessivo, (2010), os quais descrevem uma tendência
cansaço e conflitos. Para Lima e Lima-Filho para que o trabalho docente desencadeie
(2009) e Xavier (2011) entraves do ambiente sofrimento psíquico e, em casos extremos,
laboral dos docentes permitem vivências de psicopatologias. As queixas e os efeitos do
conflitos intensos, desvalorização e ambiente organizacional do trabalho
sobrecarga laboral. Estes fatores negativos refletem negativamente nas esferas física,
representam os desejos de mudanças dos psíquica e social (ARAÚJO et al., 2005;
professores universitários quanto às MENDES et al., 2007; GRADELLA, 2010;
condições de trabalho que permeiam a RIBEIRO; MARTINS, 2011; IWATA et al.,
universidade. 2011).
No Eixo III – Saúde física e mental do As categorias 3 e 4 buscaram
professor universitário – buscou-se verificar informações a respeito dos sintomas físicos
por meio de categorias aspectos relacionados ou mentais dos professores universitários e
à relação do trabalho com a saúde. As investigaram episódios de fadiga física e/ou
categorias 1, 2 e 15 se referem à relação mental nestes profissionais. A despeito disto,
trabalho/saúde, aos problemas de saúde os Sujeitos 2, 4, 5, 6, 7, 8, 11, 12 e 14
após ingressar na docência e a relação da descrevem episódios de estresse, cansaço
docência com o sofrimento psíquico. Estas excessivo, dor de cabeça, queimação
categorias foram vinculadas para a análise e estomacal, ansiedade e depressão. Jilou
interpretação dos dados. (2013) constatou que o sofrimento dos
Segundo Araújo et al. (2005) e professores universitários esta relacionado à
Gradella (2010) os professores universitários ansiedade, estresse, cansaço, frustração,
evidenciam enfermidades após o ingresso na desconforto, entre outras queixas que levam
carreira acadêmica. Na presente pesquisa, os profissionais da educação a quadros
grande parte da amostra considera que o enfermos. Enfermidades crônicas como
trabalho possui relação com a saúde, sendo hipertensão, distúrbios gastrointestinais,

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depressão, mialgias e infarto agudo do pode gerar sofrimento psíquico e prejudicar a


miocárdio são acarretadas pela omissão do saúde física e mental.
sofrimento do trabalhador. Codo (1999) As categorias 6, 7 e 16 dizem respeito
alerta que o indivíduo que sofre pode não se a gostar do que faz, prazer e desprazer no
dar conta por tratar-se de um sofrimento que trabalho e motivações e desmotivações no
se passa a nível psicológico. Ao ignorar o exercício da docência. Guimarães e Martins
problema, podem surgir diferentes tipos de (2010) indicam que os valores relativos ao
dores, perda da voz, cansaço, irritabilidade, trabalho e variáveis do ambiente laboral
entre outras dificuldades que amiúde podem contribuir para a predição do prazer e
acometem os trabalhadores. do sofrimento no âmbito do trabalho
A categoria 5 – anseios e aspirações acadêmico, podendo servir de motivações ou
no trabalho e na vida privada – buscou desmotivações para os profissionais. Na
investigar se o trabalho dos docentes na presente pesquisa, todos os participantes
educação superior corresponde aos desejos garantem gostar da profissão que exercem,
particulares de cada profissional. De acordo apesar de citarem inúmeras insatisfações.
com Dejours, Dessors e Desriaux (1993) os Com relação ao prazer e às
trabalhadores possuem histórias individuais motivações no trabalho foram apontados
que envolvem aspirações, motivações e vários fatores, entre eles, a interrelação e o
necessidades psicológicas. No trabalho, interesse dos alunos, o amor, a liberdade
ocorre um embate entre essa história e a para organizar o trabalho, a remuneração
realidade externa que promove sofrimento adequada, o reconhecimento merecido, o
psíquico (DEJOURS, 1991; CODO; SAMPAIO; processo de ensino e aprendizagem e a
HITOMI, 1993; LIMA; LIMA-FILHO, 2009). contribuição para a formação da sociedade.
Neste sentido, os Sujeitos 1, 4, 6, 9, 10, 12 e Porém, estes fatores tidos pelos sujeitos
13 garantem que seus desejos e anseios como impulsionadores do exercício da
correspondem à atividade laboral realizada docência, por vezes não se encontram
na universidade. Já os Sujeitos 2, 3, 5, 7 e 8 presentes no trabalho desta categoria.
revelam que não há coincidência entre o Dentre os aspectos relacionados ao
trabalho e seus desejos pessoais. Para desprazer e às desmotivações foram
Mendes et al. (2007) e Ribeiro e Martins mencionados o desinteresse dos alunos, a
(2011) o trabalho que não coincide com o correção de provas, a remuneração
ritmo biológico e psicoafetivo do trabalhador inadequada, o estresse, o trabalho excessivo
e a burocracia. Mendes et al. (2007) afirmam

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que o quadro de sofrimento psíquico dos Iwata et al. (2011) vincular-se as relações de
professores universitários é potencializado trabalho de forma ilimitada prejudica a saúde
por angústias e insatisfações na instituição e psíquica dos profissionais. Não obstante, os
por aspectos relacionados a convivência com Sujeitos 1, 3, 4, 5, 7, 8, 9, 10,11, 12 e 13
os alunos, relações sociais, sobrecarga afirmam que conseguem separar a vida
laboral, burocracia e alienação. profissional da vida privada, no entanto
A categoria 8 aborda aspectos todos os participantes assumem que levam
concernentes as relações sociais no trabalho. trabalhos da instituição para fazer em casa. O
Para Guimarães e Martins (2010) o trabalho é Sujeito 8 afirma [...] sempre ocorre uma
um importante fator de inserção social que extensão do ambiente de trabalho ao
implica fatores psíquicos e físicos. Na ambiente doméstico. Para Codo (1999) o
presente pesquisa, as relações sociais com os trabalho do educador requer dedicação as
colegas de trabalho e com os alunos foram atividades e exigências que vão além da sala
descritas por todos os participantes, como de aula. Ao estender o trabalho para o
boas, munidas de cordialidades, respeito e ambiente pessoal, este profissional derruba
integração, revelando um clima agradável e as barreiras entre o mundo pessoal e o
amistoso na universidade, entretanto estas profissional, que deveriam permanecer para
relações são distantes. A título de exemplo, a diminuição da carga psíquica e para
os Sujeitos 5, 7 e 8 declaram que a relação preservação da saúde dos trabalhadores
com os colegas de trabalho não ultrapassa os (CODO, 1999; ARAÚJO et al., 2005; GARCIA;
corredores e acontecem somente dentro do OLIVEIRA; BARROS, 2008; LIMA; LIMA-FILHO,
limite de trabalho. De acordo com Codo 2009).
(1999, p. 296) “cerca de 18% dos As categorias 9, 12, 13 e 14 –
profissionais em educação reclamam da falta situações de lazer; ingestão de bebidas
de suporte social nas suas vidas”. A falta alcoólicas e tabaco; prática de esportes;
deste suporte leva a uma fragilidade tempo de lazer – foram vinculadas para a
emocional e provoca sofrimento intenso, pois análise e discussão dos dados aportados.
o apoio social é importante para o bem-estar Lima e Lima-Filho (2009) afirmam que a
emocional e para a manutenção da saúde ocupação do professor vincula-se a redução
mental no trabalho. do lazer e da vida social. Isto pode
As categorias 10 e 11 referem-se à desencadear transtornos na vida destes
separação da vida profissional e privada e a trabalhadores, podendo gerar sofrimento
trabalhos da IES realizados em casa. Para psíquico. Apesar disto, as descrições

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unânimes dos sujeitos desta pesquisa licenciaturas, buscando destacar aspectos e


indicam que os professores universitários características que compõem seu ambiente
dispõem de momentos variados de lazer. de trabalho. Especificamente, buscou
Este dado é extremamente importante, visto averiguar a concepção que os professores do
que o lazer é um dos aspectos estruturantes curso de licenciatura em Pedagogia têm
da saúde mental. O tempo dedicado à sobre o exercício da docência, identificar
realização destas atividades variou entre os aspectos que compõem o ambiente de
sujeitos, porém geralmente acontecem em trabalho dos professores universitários e
fins de semana. investigar a saúde física e mental destes
Ainda do estilo de vida dos profissionais.
participantes, o Sujeito 4 é o único fumante Para este fim, foi realizada uma
da amostra e a ingestão de bebidas alcoólicas pesquisa de abordagem qualitativa, do tipo
ocorre apenas socialmente. Com relação às estudo de caso, aplicando
atividades físicas, a maioria dos sujeitos questionário/entrevista semiestruturados em
costuma fazer caminhadas. Além desta, quatorze professores que ministram aulas em
foram apontadas outras atividades como um curso de licenciatura em Pedagogia de
natação, corridas, pilates, yoga e aeróbica. uma Instituição de Ensino Superior particular
Estudos de Bachion et al. (2005) revelam que do interior de São Paulo. Para a compreensão
o estilo de vida influencia no estresse e no da temática contou-se com aportes teóricos
desgaste mental. Servilha e Arbach (2011) da Psicodinâmica do Trabalho e da Psicologia
consideram que o trabalho dos professores e Social, bem como de contribuições
a qualidade de vida mantém relação entre si. relevantes de artigos científicos. Após a
Posto isto, enfatiza-se o papel importante da leitura minuciosa deste referencial, os dados
prática de esportes, atividades físicas e de coletados foram organizados por eixos e
momentos de lazer para redução das categorias para a análise e discussão,
dimensões do sofrimento e para aumentar a respeitando os objetivos propostos por esta
qualidade de vida dos profissionais da pesquisa.
educação. O Eixo I verificou por meio de
categorias a concepção que os professores
CONCLUSÕES do curso de licenciatura em Pedagogia têm
Esta pesquisa delineou como sobre o exercício da docência. Os resultados
propósito central analisar o sofrimento revelaram que os professores universitários
psíquico de professores universitários das possuem uma perspectiva consciente e

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abrangente da ação docente nas e deprecia este profissional, que muitas


universidades e que isso influi em suas vezes, trabalha em condições precárias e sem
práticas laborais diárias. O Eixo II ao abordar infraestrutura, tendo que despender esforços
aspectos e características do ambiente de em demasia. Esses fatores compõem o
trabalho dos professores universitários sofrimento e refletem na saúde dos
apontou precarização e deterioração do professores universitários.
ambiente laboral acadêmico, sendo que os Embora os questionamentos não se
sujeitos demonstraram vivenciar sensações esgotem, esta pesquisa espera ter atendido
de instabilidade, ameaças, insatisfações, as expectativas pretendidas. Aliás, propõe-se
frustrações, sobrecarga e desvalorização no a realização de novas investigações no intuito
mundo do trabalho. O Eixo III investigou a de agregarem possíveis soluções para o
saúde física e mental dos professores problema que norteou este trabalho.
universitários e revelou que a maioria dos
participantes concorda que a profissão de REFERÊNCIAS
docência é capaz de desenvolver sofrimento ARAÚJO, T. M.; SENA, I. P.; VIANA, M. A.;
ARAÚJO, E. M. Mal-estar docente: avaliação
psíquico. Grande parte da amostra apresenta
de condições de trabalho e saúde em uma
sintomas e problemas relacionados a instituição de ensino superior. Revista Baiana
de Saúde Pública, v. 29, n.1, p. 6-21, jan./jun.
estresse, fadiga excessiva, desgaste da voz,
2005.
nervosismo, inquietações, dores variadas,
BARDIN, L. Análise de conteúdo. Tradução
ansiedade e depressão.
Luis Antero Reto, Augusto Pinheiro. São
Estes resultados permitem, com Paulo: Edições 70, 2011.
prudência, afirmar que o trabalho dos
BACHION, M. M.; ABREU, L. O.; GODOY, L. F.;
professores universitários possui elementos COSTA, E. C. Vulnerabilidade ao estresse
entre professores de uma universidade
capazes de desencadear sofrimento psíquico
pública. R Enferm, UERJ, Rio de Janeiro,
e trazer consequências negativas para a 13:32-7, 2005.
saúde física e mental destes profissionais,
CODO, W.; SAMPAIO, J. J. C. HITOMI, A. H.
pois há evidências de problemas de carga Indivíduo, trabalho e sofrimento: uma
abordagem interdisciplinar. Petrópolis:
mental e sofrimento no trabalho acadêmico.
Vozes, 1993.
Para amenização e superação desta situação,
CODO, W.; SAMPAIO, J. (Orgs.). Sofrimento
aspectos como compreensão, respeito,
Psíquico nas Organizações. Petrópolis: Vozes,
autonomia, reconhecimento social e 1995.
flexibilidade são fundamentais. Sem
CODO, W. (Org.). Educação: carinho e
embargo, a sociedade desvaloriza o docente trabalho. Universidade de Brasília,

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Recebido para publicação em 11/08/2014


Aceito em 26/08/2014

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