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D E N I S E M O U R A

“Já aprendi há muito tempo que não sei narrar simplesmente os


fatos. Tenho necessidade de assumi-los, vivendo-os. Assim, não
distingo o que é do passado ou do presente – eles não se contêm?”
(Jorge Andrade, Labirinto, 1978).

Noite de
autógrafos do
livro Velhas
Fazendas do Vale
do Paraíba.
Roseiras, SP, 1975

DENISE MOURA
é doutoranda do
Departamento de
História da FFLCH-USP
e autora de Saindo das
Sombras: Homens Livres
e o Declínio do
Escravismo (CMU-
Unicamp/Fapesp).

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Sérgio Buarque
de Holanda
e seus mundos
desvelados
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oi como escritor já consagrado por Assim, o método em que se apóia não pa-

F
Raízes do Brasil (1936), Monções rece ser o do estudioso que observa e tira
(1945) e Caminhos e Fronteiras conclusões do seu objeto, mas daquele que
(1957) que Sérgio Buarque de o incorpora, compartilhando e usando com
Holanda ingressou em 1958 na Uni- maestria expressões de época e de sua gen-
versidade de São Paulo, na condição te. Era uma maneira de se aproximar da-
de professor catedrático de História da Ci- queles que no passado mourejaram com
vilização Brasileira do Departamento de cangalha nas costas, ceifaram picadas na
História da Faculdade de Filosofia. A mata densa, arriscaram-se galgando pe-
obra-prima Visão do Paraíso (1958), estu- nhascos escorregadios, pelejaram com fe-
do magistral sobre a mentalidade portugue- bres, flechas, feras e atravessaram rios com
sa e o mito do paraíso terrestre em suas água à metade do corpo (2).
conexões com a cultura, a sociedade e os Esse esforço aproximou-o também das
prelúdios da colonização do Brasil, viria disposições de espírito dos seres, ao captar
referendar, no âmbito acadêmico, uma con- as emoções daqueles que devassaram os
dição já plenamente reconhecida no meio caminhos fluviais para Cuiabá. Para com-
intelectual que pulsava ao redor dos muros pensarem o tempo e a monotonia da via-
da universidade (1). gem de volta para o povoado, procuravam
Os estudos desses anos expressam o formas familiares da terra natal na barra do
pesquisador exaustivo que foi Sérgio Tietê, manifestando grande gritaria de con-
Buarque, sua preocupação em dialogar com tentamento (3).
documentação vasta, variada e original sem O estilo de Sérgio Buarque de Holanda,
cercear suas múltiplas possibilidades em ao enveredar-se pelo mundo colonial
modelos teóricos fechados ou métodos ci- paulista, envolveu, portanto, uma narrati-
entíficos preestabelecidos. Ao assumir as va de interiorização, humanizadora dos
realidades históricas de que tratou, ao in- sujeitos históricos e parece reatar nossos
vés de simplesmente analisá-las, desenvol- elos com a terra, com nossas raízes rurais e
veu um estilo narrativo que lhe permitiu culturais, reelaboradas no correr do tempo
percorrê-las com intimidade. e nos enfrentamentos cotidianos.
É assim que parece fazer o movimento A partir da década de 60 iniciou a orga-
do sertanista de desbravar o território em nização da obra coletiva História Geral da
direção a Minas Gerais e Goiás, conhecen- Civilização Brasileira, participando com
do e descrevendo pormenorizadamente os vários ensaios que apontavam seus novos
modos e técnicas adventícias e indígenas rumos de pesquisa. Tratava-se, naquele
das bandeiras e monções. momento, de acompanhar as conjunturas
Ao tratar com detalhes minuciosos e sociais, econômicas, políticas e demo-
densos da pelota ou da canoa de casca, ti- gráficas, captar as contradições políticas
pos de embarcações que dilataram os ca- do regime monárquico que se instaurara no
minhos fluviais em direção a Goiás, da país após a independência e as persistên-
1 Sérgio Buarque de Holanda, pisadura de índios e adventícios ao cruzar cias coloniais no tecido histórico, social,
Raízes do Brasil, 23a ed., Rio
de Janeiro, José Olympio, os sertões ou dos expedientes empregados cultural e político brasileiro.
1991; Monções, 3a ed., São
Paulo, Brasiliense, 1990; Ca-
pelos do planalto para lidar com as hostili- No estudo de vários aspectos ligados à
minhos e Fronteiras, 3a ed., São dades e as benevolências do meio natural, vida no Império, a sensibilidade aguçada
Paulo, Companhia das Letras,
1994; Visão do Paraíso: os Mo- revelou um esforço de interiorização ao para recompor processos sociais mais am-
tivos Edênicos no Descobrimen- mundo colonial paulista. plos à luz de particularidades deixou o ca-
to e Colonização do Brasil, Rio
de Janeiro, José Olympio, Sua prática de historiador faz o difícil minho aberto para a renovação da his-
1959.
exercício de fundir-se ao período que evo- toriografia sobre esse período. É o que
2 Jorge Andrade, Labirinto, Rio ca, habitando-o, comungando com os seres parece apontar um ensaio pouco citado
de Janeiro, Paz e Terra, 1978,
p. 174. suas experiências de viabilização da vida como “As Colônias de Parceria”, publica-
numa terra generosa, mas impiedosa, como do em 1967 na História Geral da Civiliza-
3 Sérgio Buarque de Holanda,
Monções, op. cit., p. 69. era a dos primeiros tempos da colônia. ção Brasileira, mas já esboçado na intro-

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dução de 1941 ao livro de Thomas Davatz, estreitamento entre homens que outrora
mentor do motim de colonos suíços na devassaram os sertões em busca de metais
colônia de Ibicaba. Ao palmilhar o mundo preciosos e os que nesse momento
cafeeiro paulista através dessa experiência interiorizavam-se nesse mesmo sertão, di-
particular e pioneira do senador José latando as forças do progresso, pois enten-
Vergueiro, Sérgio Buarque abriu caminhos dia que o “bandeirismo do ouro e o
que conduzem aos meandros da vida social bandeirismo do café” pertenciam a “uma
e cotidiana desse período de declínio do só família” (4).
regime escravista. Seguindo as trilhas desse ensaio, o lei-
As colônias eram propriedades agríco- tor defronta-se com a possibilidade de,
las dedicadas ao cultivo do café e a parceria desde os ensaios de colonização realizados
envolvia o sistema de trabalho e remunera- pelo governo, ter o forasteiro do norte e
ção. Ao colono parceiro cabia uma porcen- centro da Europa se ressentido da incapaci-
tagem do café colhido e o direito de plantar dade de travar um diálogo com a geografia
em uma porção de terra verduras, frutas e e a ecologia das terras brasileiras, algo que
legumes para sustento e pequeno comér- se mostrou fundamental no povoamento
cio. O sistema de parceria envolvia, assim, paulista e revelou nos forasteiros ibéricos
a combinação entre remuneração e possi- seu potencial de gerar formas criativas de
bilidade de produção independente. existência em meio à apropriação da ad-
Em 1857, as primeiras famílias suíças versidade e dos imprevistos oferecidos
aportaram em Santos e, extenuadas pela pelas asperezas do meio (5). Essa inapti-
longa travessia do Atlântico, concluíram o dão em ajustar-se ao ambiente natural fez
resto do percurso por terra até a colônia do com que colonos açoritas não chegassem a
senador, em Limeira. Apreensivos e toma- fincar pé em Casa Branca, amedrontados
dos pela expectativa da chegada numa nova com o tamanho das árvores que teriam de
terra, só o correr do tempo lhes revelaria os derrubar (6). Iludidos com a riqueza das
vícios de um regime que adotavam: o terras, muitos europeus acreditavam que
avolumar das dívidas de viagem e estabe- poderiam amealhar muitas vantagens com
lecimento inicial, o autoritarismo dos dire- sua uberdade, mas o entranhamento no mato
tores das colônias, a incompreensão dos mostrou a teimosia de uma vegetação que
cálculos de seus ganhos, a insistente sen- só os métodos da agricultura indígena eram
sação de estar sendo lesado e as precárias capazes de amansar.
condições materiais a que se viam sujeitos. Chegavam os colonos a alarmarem-se
Tal situação favoreceu a eclosão da sedi- com as inúmeras queimadas que devora-
ção de 24 de setembro de 1866, conhecida vam os roçados, fazendo subir nuvens de
como a revolta dos parceiros. fumaça que ofuscavam o sol, mesmo em
Muitos dos estudos anteriores de Sér- dia muito claro. O trato da terra visando
gio Buarque ecoam sutilmente nesse en- preservar-lhe o vigor, conforme muitos
saio, enfeixando indícios relevantes para o tentaram praticar, mostrou-se ineficaz, prin-
estudo das tensões e entrosamentos entre cipalmente diante do hábito tradicional de
os seres da época. Em seu percurso pelo gastar o solo de cultura em plantas e fogos
cotidiano do mundo cafeeiro paulista, cha- repetidos. O próprio senador José Vergueiro
ma a atenção para o espírito discreto e con- “mandava derrubar as matas, aproveitava 4 “Prefácio”, in Thomas Davatz,
Memórias de um Colono no
tido dos senhores em lidar com a crise do as terras durante alguns anos para outras Brasil (1850), tradução de
Sérgio Buarque de Holanda,
regime escravista que se anunciava e suas comodidades, e deixava crescerem capoei- São Paulo/Belo Horizonte,
formas de convivência com as personagens ras; só ao cabo disso fazia plantar as pri- Edusp/Itatiaia, 1980, p. 33.
miúdas do dia-a-dia. meiras mudas de café”, expressando o quan- 5 Sérgio Buarque de Holanda,
A partir da sua leitura é possível acom- to técnicas agrícolas tradicionais tiraniza- Caminhos e Fronteiras, op. cit.

panhar persistências coloniais em iniciati- ram por longo tempo as práticas dos ho- 6 Saint-Hilaire citado em “Pre-
fácio”, op. cit., p. 16.
vas longamente tidas como símbolo de mens, demorando para se dissiparem (7).
avanço e modernidade, desvelando o Essa dissonância com o meio revelou- 7 Idem, ibidem.

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se na pouca habilidade do colono europeu transitório”, uma maneira de atenuar os
em lidar com o clima e a vegetação dos desajustamentos que o fim da escravidão
trópicos, no medo de expor a cabeça des- poderia trazer (12).
coberta ao sol, quase não suportando an- Colocar homens do sul e centro da Eu-
dar descalço sob a terra quente, que acre- ropa, ombreando o trabalho nas fazendas
ditava e dizia queimar os pregos das solas com escravos, criaria uma fase intermedi-
dos sapatos, desprendendo-as à imposi- ária da abolição, capaz de conter quadros
ção do calor. As florestas virgens brasilei- de tensão desenfreados. Para alguns, já antes
ras seduziam pela opulência, mas qual da independência, trazer imigrantes para
fruto proibido intensamente desejado pre- torná-los parceiros parecia o “meio mais
nunciavam martírios. Outra praga a acen- seguro de chegar-se à abolição do trabalho
tuar-lhe os sofrimentos era o bicho-de-pé. escravo, que [lhes] parecia coisa inevitável
Intrometia-se pelas plantas dos pés, prin- e próxima, sem uma catástrofre de propor-
cipalmente sob as unhas e acomodava-se ções incalculáveis” (13). Esse espírito re-
à carne, aninhando seus ovos. Se não fos- ceoso de mudanças e contido nas ações ino-
se extraído logo, com um alfinete, gerava vadoras faz lembrar a sensibilidade portu-
“protuberâncias do tamanho de uma caro- guesa da conquista, mapeada em Visão do
ço de cereja” (8). Paraíso: o apego exacerbado ao passado
Esse mesmo bicho-de-pé seria razão de medieval e por isso mesmo o desafeiçoa-
gozo para sertanistas e trabalhadores dos mento às especulações e aos vôos imagina-
tempos do café. Destemidos da quentura da tivos do humanismo renascentista.
terra, andavam continuamente descalços e O mesmo espírito apaziguado em ima-
assim se embrenhavam pelo mato, preferin- gens miríficas, ao contrário dos castelhanos,
do extrair o bicho das unhas a evitá-los, dado fazia parte de uma maneira própria de apre-
o entorpecimento dos sentidos que a sua ender a realidade, apoiando-se em evidên-
presença e extração causavam (9). cias e em imagens amplamente ambienta-
Principalmente Caminhos e Frontei- das aos seus referenciais, a ponto de os fo-
ras e Monções evocam a interpenetração rasteiros ibéricos adotarem o hábito de
das forças da natureza e dos seres como nomear plantas e bichos com nomes fami-
substrato fundamental na constituição da liares que prolongavam nos trópicos a mãe
sociedade e da cultura paulista, levando pátria (14).
8 Thomas Davatz, op. cit., pp. o leitor a cogitar que as práticas e com- A sensibilidade de Sérgio Buarque em
55-6 e 78. portamentos dos colonos europeus vi- alcançar “níveis de experiência e de cons-
9 Sérgio Buarque de Holanda, nham de encontro a costumes acalenta- ciência dos homens de outros tempos” (15)
Caminhos e Fronteiras, op. cit., dos num longo processo de maturação e permitiu-lhe captar o impacto de valores
pp. 102-3.
imprescindíveis para a vida em terras tradicionais portugueses e seu pionerismo,
10 “Prefácio” ao livro de Thomas
Davatz, op. cit., pp. 20-1. brasileiras. Essa experiência tensa dos sua personalidade voltada a cotidianizar o
imigrantes com o meio natural perpassou mito e os monstros imaginários. O forte
11 Idem, ibidem, pp. 23-4.
o cotidiano do trabalho num cenário de apego luso à formas antiquadas revelou-se,
12 Sérgio Buarque Holanda, “Co- escravidão moribunda (10). por exemplo, na ação colonizadora propa-
lônias de Parceria”, in História
Geral da Civilização Brasileira No prefácio ao livro de Thomaz Davatz, gada em colônias dispersas, compondo uma
(em colaboração com Pedro
Moacyr Campos), 6a ed., São Sérgio Buarque atribuiu um papel inova- paisagem brasileira dos primeiros tempos
Paulo, Bertrand Brasil/Difel, dor e moderno aos fazendeiros de café mais de feitoria do que propriamente de
1987, tomo II, vol. III, p. 246.
paulistas que parece ter recolocado em colonização.
13 Idem, ibidem. outros moldes, vinte e seis anos depois, no Na obra Visão do Paraíso, conforme já
14 Idem, Visão do Paraíso, op. cit., ensaio “Colônias de Parceria”. Se antes os sensivelmente notado, o autor trabalhou
especialmente o capítulo
“Atenuações Plausíveis”. percebia como homens da cidade que se com “as ambigüidades e as hesitações dos
emancipavam das formas tradicionais ru- portugueses, que tergiversavam nas fím-
15 Maria Odila Leite da Silva Dias
(org.), Sérgio Buarque de rais (11), agora encarava a iniciativa parti- brias do desconhecido, relutantes em en-
Holanda, São Paulo, Ática, cular em trazer imigrantes para trabalha- frentar novidades”. Era uma maneira tam-
1985 (Col. Grandes Cientis-
tas Sociais, n. 51), p. 34. rem nas lavouras como um “compromisso bém de acompanhar a mudança em meio às

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continuidades, identificando nas novas novidade, de conseqüências talvez Sérgio Buarque
experiências persistências de formas tradi- imprevisíveis, e suavizando a transição do de Holanda no
cionais de existência (16). trabalho escravo para o livre. Era também Central Park.
Essa necessidade de apegar-se ao con- uma maneira, pelo menos aparente, de tor-
Nova York, 1965
creto, de apropriar-se do desconhecido e nar a situação acessível aos sentidos e pas-
de manifestações vagas e traduzi-las em sível de ser controlada.
feições cotidianas aponta para uma perso- Essa despreocupação em repensar o
nalidade ansiosa por manter o controle da regime de trabalho em vigor e inseri-lo
situação com que se defronta. Mas essa efetivamente em novos moldes revela-se
resistência à novidade não redundou em no fato de a maioria dos colonos trazidos
condutas fixas, gerando um espírito mode- pelo senador Vergueiro, comumente vis-
rado e contido, realista o suficiente para to como personalidade inovadora, “só ex-
apropriar-se da adversidade e viabilizar a cepcionalmente procederem de zonas ru-
vida através dela. Tais traços podem ser rais”. De um conjunto de 87 pretensos
vistos na vitória do português sobre um lavradores para trabalharem nas colônias
meio hostil ou na necessidade dos senhores de parceria de São Paulo, o viajante
do café em sentirem segurar nas mãos Tschudi constatou que apenas 13 vinham
mudanças que se mostraram prementes no de origens rurais, sendo o restante operá-
regime de trabalho já secular. rios de fábrica, sapateiros, carpinteiros,
O mesmo temperamento comedido e alfaiates, pedreiros e outros ofícios essen-
16 Idem, ibidem, pp. 32-40.
relutante se revelaria na iniciativa dos fa- cialmente urbanos (17). Não é admirável
zendeiros em trazer imigrantes para a faina que o meio natural que encontraram nos 17 Sérgio Buarque de Holanda,
“Colônias de Parceria”, op.
de suas lavouras, atenuando o impacto da trópicos lhes tenha parecido algo cit., pp. 249-50.

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invencível e a cidade se mostrasse cada sistiram da empreitada, tal o deboche a que
vez mais promissora. se viram submetidos. Nos idos de 1870, um
Ao apontar a inadequação dos imigran- lavrador de Bragança ofereceu boa recom-
tes europeus às concepções de trabalho li- pensa a quem localizasse e trouxesse de
vre em vigor no Império, motivo de volta um seu colono de origem germânica.
desajustamentos de toda ordem, Sérgio O anúncio foi estampado no Correio
Buarque propõe a retomada da peculiar Paulistano, com dizeres semelhantes aos
constituição sociocultural brasileira, que habitualmente advertiam sobre escra-
erguida sobre valores de fidalguia, princí- vos fugidos (19). Aclimados de longa data
pios orgânicos e sentimentais, que se na relação com cativos, dificilmente os
reelaboraram no tempo e impregnaram to- senhores do café conceberiam prontamen-
das as esferas sociais. Assim, a convivên- te em novos moldes a convivência com os
cia tensa estabelecida com os primeiros imigrantes.
colonos europeus que vieram “preparar a As formas de convivência tecidas des-
lavoura para receber sem graves perturba- de a colônia na intimidade dos casarios e
18 Idem, ibidem, p. 247.
ções a abolição da escravidão” esbarrou a sítios, nas roças e no correr da sociabilida-
19 Idem, ibidem. todo momento com os “entraves criados de diária parecem ter se constituído em
por essa mentalidade e apoiados em longa modelo fixo para o cotidiano do trabalho
tradição” (18). no mundo rural paulista, resistente em se
Lembra o autor, a partir de leitura de dissolver na relação com os colonos. Os
A família cronistas conhecidos que, em 1839, alemães princípios de vida doméstica, na qual o
Buarque de contratados para os serviços de construção patriarca se desmanchava em esforços para
Holanda de pontes e calçadas em Pernambuco de- agradar e proteger, mas também para tira-

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nizar e fazer prevalecer sua vontade, pros- amoldar-se às formas de convivência do-
seguiram no Império, de forma que no in- méstica, como foi o caso do diretor da fa-
terior das propriedades cafeeiras, senho- zenda Boa Vista, no município de Amparo,
res, seus familiares mais próximos, escra- um jovem prussiano extremamente
vos e os livres de poucos cabedais manti- malvisto entre os colonos dado o seu modo
nham-se ligados por uma cumplicidade áspero de tratamento. Aconselhado o fa-
afetiva e familial. zendeiro a demiti-lo, este recusou-se sua-
Ina von Binzer, uma educadora alemã vemente, dizendo que o diretor ensinava
que esteve no Brasil numa época em que seus filhos e à noite o distraía ao piano,
o regime de trabalho escravo agonizava, sendo “difícil substituir tal homem” (22).
surpreendeu-se com o trato que conside- Casos como esses foram exceção.
rou exageradamente frouxo e afeiçoado Assim, o motim dos colonos suíços que
na fazenda em que se hospedava. A caçula teve lugar na colônia do senador Vergueiro
dos senhores costumava guardar um pou- não pode ser entendido exclusivamente à
co de sobremesa para sua ama, lembrando luz de critérios econômicos, como
sempre de pedir algo para seu “irmão-de- endividamento, sujeição aos valores
leite”. A filha mais velha, sabedora que pecuniários impostos pelos fazendeiros e
sua velha aia apreciava enfeites, não me- desmandos. Na perspectiva de Sérgio
dia esforços para agradá-la com fitas Buarque, é preciso atentar para a perma-
multicor (20). nência das formas tradicionais de convi-
Também entre os escravos, mesmo vência e, portanto, para a difícil integração
quando desconhecidos, era hábito os mais entre colonos europeus.
moços chamarem os mais velhos de “tio”, Apontando caminhos de pesquisa a se-
num gesto expresso de tornar a relação com rem trilhados, “Colônias de Parceria” inci-
o outro mais próxima do coração. Para a ta o leitor a imiscuir-se no correr dos dias
mesma educadora, pareciam feios e do mundo cafeeiro paulista e a acompa-
deselegantes os diminutivos e apelidos com nhar diferentes situações que denotavam
os quais se dirigiam as pessoas umas às essa quase impossibilidade de diálogo. A
outras: sinhazinha, nhonhô, nhanhá, diferença de idiomas era fator agravante,
sinhara, nenê, nhonhozinho, bebê. Expres- gerando situações confusas, como a de um
sões comuns e que se desmanchavam em fazendeiro que teve seu nome estampado
dengos e mimos. Na mesma fazenda, Ina na Revista Comercial de Santos sob acusa-
disse nunca ter conhecido o verdadeiro ção de intolerância religiosa e recusa em
nome de um empregado chamado João do fornecer madeira suficiente para os caixões
Chapéu. O próprio fazendeiro assim o cha- mortuários de seus colonos. Ao serem in-
mava e dessa maneira o fazia constar no dagados, estes argumentaram “que o pa-
livro de pagamentos (21). trão não fala alemão e nós não sabemos o
A família patriarcal serviu de modelo brasileiro, portanto ele não nos podia falar
para a vida política do país e para as rela- de tais cousas” (23).
ções entre governantes e governados, con- O difícil diálogo entre princípios cultu-
20 Ina von Binzer, Os Meus Ro-
forme escreveu Sérgio Buarque em Raízes rais distintos também endurecia as relações. manos: Alegrias e Tristezas de
uma Educadora no Brasil, trad.
do Brasil. O ensaio “Colônias de Parceria” Muitas vezes os próprios colonos Alice Rossi e Luisita da Gama
viria indicar a influência desse mesmo prin- incompreendiam modos de convivência Cerqueira, 3a ed., Rio de Ja-
neiro, Paz e Terra, 1982, p.
cípio nas relações de trabalho, embaraçan- que se afrouxavam em concessões mútuas. 22.
do os senhores no trato mais objetivo e A permissão ampliada para que os colonos
21 Idem, ibidem, p. 19
pessoal com os colonos europeus. Estes, de uma fazenda se entregassem a seus
22 Johann Jakob von Tschudi, Vi-
por sua vez, compartilhavam de uma folguedos aos domingos fez o viajante agens às Províncias do Rio de
incompreensão explicável a certas práticas Tschudi defini-las como “verdadeiras or- Janeiro e São Paulo, trad.
Eduardo de Lima Castro, São
fundamentais e hábitos gerados em lento e gias” que degeneravam em desentendimen- Paulo/Belo Horizonte,
longo processo de ambientação. tos, chegando inclusive um português a Edusp/Itatiaia, 1980, p. 169.

Não faltaram imigrantes que souberam apunhalar um brasileiro. Também enten- 23 Idem, ibidem, p. 167.

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dia que a generosidade alargada dos fazen- sindicâncias.
deiros incitava os colonos a inúmeros ex- Esse princípio de confiança bastante
cessos, tendo inclusive um deles tentado acomodado à convivência com a gente do
assaltar o fazendeiro e sua família em plena país prevaleceu nos seus ajustes de traba-
estrada, quando retornavam da cidade numa lho com os fazendeiros, atenuando tensões
tarde de domingo (24). e impedindo explosões de ânimo mais vio-
Confundia os colonos europeus essa lentas, como aconteceu com o motim de
relação movediça, entranhada nos costu- Ibicaba.
mes da gente do país. De maneira explicá- Nossas populações livres rurais, portan-
vel não souberam tecer as malhas das to, não se mantiveram segregadas no cená-
afetividades fundamentais que entorpeci- rio de declínio do escravismo e de introdu-
am as tensões e desentendimentos. Basta ção forçada do trabalho livre nas fazendas
pensar na própria maneira como os colo- de café paulistas. Ao lado de colonos euro-
nos europeus concebiam e organizavam a peus e escravos, viveram intensamente
moradia, procurando criar uma situação de comprometidas com os fazendeiros, forta-
conforto, mesmo em meio à simplicidade lecendo uma economia moral de fio de
material, que favorecia a sua permanência barba e empenho da palavra. Mais por ro-
no interior da casa. tina do que por resistência consciente às
Tschudi considerava as moradias brasi- condições formais de trabalho, as pessoas
leiras extremamente desconfortáveis: “uma livres e pobres do país mantiveram-se ape-
esteira no chão, para a família toda, um gadas a princípios orgânicos e sentimen-
banco tosco a um canto, uma sela velha e tais no modo de se ajustarem às proprieda-
uma espingarda dependurada em um pre- des. Nem os senhores seriam capazes de
go; na cozinha algumas pedras faziam as imprimir rumo mais pessoal nos tratos de
vezes de fogão, e duas ou três tigelas” (25). trabalho com gente que mantinham íntima
Dava ampla margem, assim, ao exercício cumplicidade, estreitando seus vínculos
das sociabilidades imprescindíveis nas afetivos nas prosas intermináveis nas ven-
vendas, nos caminhos e nas longas con- das, nos caminhos, nos momentos de tra-
versas, que reforçavam a vinculação or- balho, no filho que se batizava, no casa-
gânica e afetiva entre senhores de maiores mento que se apadrinhava (27).
recursos e aqueles que nasceram isentos Esses arranjos fluidos, bastante distan-
de fortuna, favorecendo ajustes que ate- ciados de qualquer pretensão em fixar-se
nuavam os conflitos. em colônias, também eram bastante con-
Conclui Sérgio Buarque que um dos venientes para a continuidade dessa voca-
pontos mais vulneráveis do sistema de par- ção para o movimento, herança luso-bra-
ceria foi a completa ausência de permis- sileira dos tempos da colônia e que ao
são de fiscalização da parte dos colonos longo do tempo foram amalgamando-se
sobre as operações realizadas entre a co- às múltiplas esferas da vida. Mantinha-se,
lheita do café e o ajuste de contas. “Todo assim, a mobilidade necessária para a
o seu fundamento está no pressuposto, viabilização da sobrevivência material
resíduo de concepções antiquadas, de uma com negócios próprios, para empenhar-se
absoluta confiança do colono no empre- em tarefas impossíveis de recusar em pro-
sário” (26). priedade do compadre fazendeiro ou do
24 Idem, ibidem, pp. 163-4.
Diante dos freqüentes erros de cálculo vizinho e parente mais apertado em suas
25 Idem, ibidem, p. 165. dos diretores das colônias e da impossibi- lides. Também permitiam ampla margem
26 Sérgio Buarque de Holanda, lidade dos fazendeiros, mesmo bem in- de tempo para o exercício das sociabilida-
“Colônias de Parceria”, op. cit.,
p. 258. tencionados, em explicar aos colonos as des fundamentais.
numerosas despesas que implicavam a la- Embora os senhores de café tenham
27 Denise Moura, Saindo das
Sombras: Homens Livres e o voura de café, prorromperam queixas con- expressado uma perturbadora inabilidade
Declínio do Escravismo, São tínuas, às vezes exageradas e outras jus- em lidar com relações de trabalho mais
Paulo, Campinas, CMU/Uni-
camp/Fapesp, 1998. tas, como vieram comprovar muitas formais, Sérgio Buarque não deixou de

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reconhecer que “o mérito do sistema “estudar o passado de um povo, de uma
Vergueiro, com todos os vícios a que deu instituição, de uma classe, não basta acei-
margem sua aplicação defeituosa, terá sido tar ao pé da letra tudo quanto nos deixou a
o de dar o primeiro exemplo do apelo em simples tradição escrita”, sendo fundamen-
escala apreciável a trabalhadores livres na tal “fazer falar a multidão imensa dos figu-
lavoura cafeeira”, contribuindo para que rantes mudos que enchem o panorama da
alguns de seus traços dominantes se incor- história e são muitas vezes mais interes-
porassem em “caráter definitivo ao regime santes do que os outros, os que apenas es-
28 Sérgio Buarque de Holanda,
das fazendas… servindo para suavizar a crevem a história”, não esquecendo de “Colônias de Parceria”, op.
transição entre a escravidão e o trabalho ponderar, de espírito relativista que era, que cit., pp. 255 e 260.

livre” (28). este “exercício difícil e cheio de seduções 29 Idem, “Prefácio”, op. cit., pp.
44-5.
O ensaio “Colônias de Parceria”, por- perigosas onde faltam pontos de apoio se-
tanto, vem frisar o compromisso de Sérgio guros levará facilmente a aceitar seus re- 30 Ver também e especialmen-
te o capítulo “São Paulo”, em
Buarque com o estudo da civilização brasi- sultados como a única verdade digna de História Geral da Civilização
leira em todas as suas nuances e momentos respeito” (29). Brasileira (em colaboração
com Pedro Moacyr Campos).
históricos. De espírito inquieto, cada uma Mesmo em obras e ensaios nos quais se
de suas obras parece conter a necessidade enveredou pelos estudos de política e soci-
de experiências novas, apresentando cami- edade brasileira, tratando de mudanças
nhos inesgotáveis de pesquisa que têm pro- socioeconômicas e eventos políticos, não O professor com
piciado às gerações atuais de historiadores deixou de aludir e abrir fendas que chegas-
seus alunos da
imprimirem novos rumos às interpretações sem aos destinos desses “figurantes mu-
Faculdade de
da nossa sociedade passada. dos” (30) e é nesse sentido que o ensaio
Em seus trabalhos Sérgio Buarque en- “Colônias de Parceria” parece apontar no- Direito da
volveu-se pelas vozes e pela sabedoria das vos vislumbres para o mundo cafeeiro das Universidade do
pessoas comuns, admitindo que, para se décadas finais da escravidão. Brasil

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