Вы находитесь на странице: 1из 78

PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE MINAS GERAIS

INSTITUTO DE PSICOLOGIA
CAMPUS CORAÇÃO EUCARÍSTICO
ORIENTAÇÃO DE MONOGRAFIA II

O QUE É A PSICOLOGIA TRANSPESSOAL

Selene Zaidan Leite

Belo Horizonte
2008
Selene Zaidan Leite

O QUE É A PSICOLOGIA TRANSPESSOAL

Monografia apresentada à disciplina de Orientação de Monografia II, do 10º Período do


Curso de Psicologia da Puc Minas BH.

Orientadora: Márcia de Mendonça Jorge

Belo Horizonte
2008
AGRADECIMENTOS

Quero expressar minha profunda gratidão a meu marido, meus filhos e minha filha,
que sustentaram horas incontáveis de minha ausência para dedicação ao estudo deste
trabalho.
Quero agradecer à professora Márcia Mendonça Jorge, em especial, que se
prontificou para juntas conhecermos a Psicologia Transpessoal, dando suporte e
credibilidade a meus esforços.
Agradecer à Regina Brostel, médica homeopata, que há quinze anos incentivou-me
a fazer o curso de Psicologia.
Agradecer à professora Joanna Darc por ter-me presenteado com uma obra de
Psicologia Transpessoal na ocasião em que cursei a disciplina que ela ministra atualmente
na Puc Minas.
Agradecer ao professor Douglas, que me forneceu algumas das referências
bibliográficas para esta pesquisa.
Agradecer à sábia colega Mary Jane, psicóloga formada pela Puc Minas, no ano de
2007.
E, enfim, agradecer a todos os autores que me permitiram conhecer a Psicologia
Transpessoal.
“As hipóteses são redes: só quem as lança colhe alguma coisa.”
Novalis
RESUMO

Através desta pesquisa, comprova-se que esta ciência prima por trabalhar com diferentes
níveis de consciência e os concebe como fazendo parte da natureza da mente, porque a
emergência desses níveis de consciência atesta fins terapêuticos. Atesta-se que, com o
estudo da história dessa nova ciência, há muitas contribuições com a Psicologia, pelo
motivo da Psicologia Transpessoal estar inserida dentro de um contexto de mudanças e
ampliações do conceito de paradigma holístico da ciência contemporânea. Reconhece-se
que a ciência clássica, a ciência do racionalismo científico, circunscreve-se apenas ao
estado da consciência de vigília, aquele em que predomina o raciocínio lógico e das
sensações físicas, e também do reducionismo. A ciência do paradigma newtoniano-
cartesiano baseia-se por inteiro nesse estado de consciência. A Psicologia Transpessoal não
se enquadra nos moldes da ciência clássica, pois que estuda as funções intuitivas, a
criatividade, os diversos estados alterados de consciência, onde a realidade vivenciada é a
do mundo psíquico e essa, ligada com todos os seres viventes intra, extracorpóreos ou
extraterrenos, a região onde ocorre uma variedade de experiências difíceis de serem
coordenadas com o plano físico e com as chamadas leis naturais e ligada ao Universo. Daí,
a importância desse trabalho no sentido de apresentar a Psicologia Transpessoal à
comunidade científica da Puc Minas, abrindo espaço para discussão, troca e crescimento.

Palavras-chave: Psicologia Transpessoal; estados alterados de consciência; Psicologia e


Ciência; paradigma holístico.
ABSTRACT

Through this research we have been able to prove that this science works with different
levels of consciousness and conceives them as part of the mind nature. The emergence of
such levels helps therapeutic purposes. We can also attest that the study of Transpersonal
Psychology contributes to Psychology as this new science is inserted within a context of
changes and enlargements of the holistic paradigm of contemporary science. We
acknowledge that classic science, the science of scientific rationalism embraces only
consciousness states of vigil in which the logical reasoning and physical sensations prevail
as well as reductionism. The Newtonian-Cartesian paradigm science is entirely based on
this state of consciousness. Transpersonal Psychology does not fit into the patterns of
classic science as it studies the intuitive functions, creativity and altered state of
consciousness in which the reality experienced is the one of the psychic world. Such reality
is linked with all living beings, intra, extracorporeal or extraterrestrial, the region where a
variety of experiences occur which are difficult to be coordinated with the physical plan
and the so-called natural laws of the Universe. Hence the importance of this work as a way
to introduce Transpersonal Psychology to the scientific community of PUC Minas, opening
a space for discussion, exchange and growth.

Key words: Transpersonal Psychology; altered states of consciousness; Psychology and


Science; holistic paradigm.
SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO ......................................................................................................................8

2 BREVE HISTÓRIA SOBRE A CIÊNCIA.......................................................................10

3 HISTÓRIA DA PSICOLOGIA..........................................................................................32

4 A PSICOLOGIA TRANSPESSOAL ................................................................................46

4.1 Sistematização Integrativa Transpessoal..................................................................53


4.1.1 Aspectos Estruturais ou Corpo Teórico oa Psicologia Transpessoal .................54
4.1.2 Conceito de Unidade Fundamental do Ser ou de Não-fragmentação................54
4.1.3 Conceito de Vida.......................................................................................................54
4.1.4 Conceito de Ego........................................................................................................55
4.1.5 Estados de Consciência ...........................................................................................56
4.1.6 Cartografia da Consciência.....................................................................................58

4.2 O Aspecto Dinâmico Formado pelos Eixos Experencial e Evolutivo da Psicologia


Transpessoal .........................................................................................................................60

4.3 Classificações das Técnicas Transpessoais ................................................................61


4.3.1 Intervenção verbal...................................................................................................61
4.3.2 Imaginação ativa.....................................................................................................62
4.3.3 Reorganização simbólica........................................................................................62
4.3.4 Técnica interativa....................................................................................................63
4.3.5 Regressão de memória ............................................................................................63

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS..............................................................................................65

REFERÊNCIAS ......................................................................................................................74
8

1 INTRODUÇÃO

Este trabalho é a realização do desejo pessoal pelo saber. Foram a emoção e o


sentimento de prazer que me levaram à investigação e à busca de conhecimento.
Meu interesse tornou-se mais aguçado a partir do contato com a primeira obra que li
sobre Psicologia Transpessoal: A Psicoterapia Transpessoal, de Vera Saldanha.1
A presente monografia é o resultado da pesquisa bibliográfica efetuada como trabalho
de conclusão de curso de graduação em Psicologia. Através dela, torna-se possível levantar as
seguintes hipóteses: a) o fato da não inclusão da Psicologia Transpessoal na grade curricular
do Curso de Psicologia da Puc Minas será em razão da produção científica se inserir no
conjunto de interesses materialistas da sociedade e a Psicologia Transpessoal, ao abarcar
aspectos espiritualistas, ultrapassar os paradigmas comumente aceitos e reconhecidos pela
ciência? b) Será que no esforço de objetividade, a ciência exclui quaisquer referências à
experiência subjetiva, individual ou coletiva da Psicologia Transpessoal? c) Esse ramo da
Psicologia estará acompanhando as transformações vividas pela ciência moderna? d) Será que
a Psicologia, longe de qualquer viés planfetário de novas teorias, esquiva-se para se proteger
de práticas esdrúxulas como a da utilização de drogas psicodélicas ou se acautela por haver
poucos pesquisadores nesta nova área? e) Quais serão os motivos pelos quais se conhece tão
pouco ou quase na da 4ª Força da Psicologia na Puc Minas?
Mas, tentar afirmar essas hipóteses não é o único objetivo desta monografia. Outros
objetivos também foram traçados. São eles: conhecer o estudo da consciência na concepção
da Psicologia Transpessoal, seus estados superiores ou ampliados e o reconhecimento dos
significados das dimensões espirituais da psique, além daqueles estudados na Universidade;
conhecer por quais motivos a Psicologia Transpessoal prima por trabalhar com diferentes
níveis de consciência e os concebe como parte da natureza da mente humana; identificar os
critérios que garantam a cientificidade da Psicologia Transpessoal, reconhecendo seu papel
fortalecedor dos sentimentos de espiritualidade, embora não possua vínculos com qualquer
religião.
Para atingir seus objetivos, este trabalho é dividido em quatro partes: a primeira,
consiste de um breve percurso na história da ciência, a segunda parte teve como objetivo o
estudo da história da Psicologia enquanto ciência. A terceira parte da pesquisa apresenta a
história da Psicologia Transpessoal, sua epistemologia, objeto, método e aplicação. A última
parte trata da análise das hipóteses apresentadas.
9

Além de satisfazer a um desejo pessoal pelo saber, a pesquisa do tema proposto poderá
trazer ganhos para terceiros, a começar pela Puc Minas, uma vez que este estudo possibilitará
a configuração de uma formação universitária mais completa ao gerar conhecimentos novos.
Finalmente, escrever uma monografia não significa tão-somente atender à exigência
do curso de Psicologia, mas principalmente buscar novos construtos e produzir
conhecimentos a respeito de um tema pouco conhecido, a Psicologia Transpessoal.

1
SALDANHA. Vera. A psicoterapia transpessoal. Campinas: Editora Komedi, 1997.
10

2 BREVE HISTÓRIA SOBRE A CIÊNCIA

Como afirma Chauí (2001), o vocábulo ciência, no singular, refere-se a um ideal de


conhecimento. Ciências, no plural, refere-se às diferentes maneiras de realização do ideal de
cientificidade, segundo os diferentes fatos investigados e os diferentes métodos e tecnologias
empregados.
Ciência ou Scientia, que em latim significa sabedoria, caracteriza-se pela busca de
conhecimento sistemático e seguro dos fenômenos do mundo. Um de seus objetivos básicos é
tornar o mundo compreensível, proporcionando ao ser humano meios de exercer controle
sobre a natureza. (COTRIM, 2002, p. 239).
De acordo com Bachelard (1977), ciência e filosofia falavam a mesma linguagem.
Mas, o que é a ciência?
Desde os primórdios, o homem se preocupou com o conhecimento. O mito era a forma
de conhecimento que o homem primitivo utilizava para compreender o mundo. Essa forma de
buscar o conhecimento era baseada na fé e dispensava provas, sendo que somente os iniciados
tinham acesso a ele.
Dessa forma, por volta de 3.800 a.C., a ciência emerge sob o aspecto do deus Jano,
em que sacerdotes caldaicos apresentam uma tradição astronômica através de suas
observações que, verificáveis, permitiam-lhes predições corretas dos acontecimentos
astronômicos.
Os horários fazem-se calendários que regulam a atividade organizada, desde o
crescimento das colheitas até as cerimônias religiosas. Era a ciência exata daquele povo.
(KOESTLER, 1959, p.4.).
Vale saber que Koestler em 1967, criou o termo “hólon” de holos: todo; on: parte,
referindo-se a um sistema aberto e auto-regulável que apresenta simultaneamente
propriedades autônomas de um todo e dependentes de uma parte. (WEIL, D’AMBROSIO,
CREMA, 1993, p. 149).
O símbolo para hólon é a divindade romana, Jano, porteiro do céu, dotado de uma
qualidade de prudência, com dois rostos voltados em sentido contrário. Jano presidia o
primeiro mês do ano, januarius.
A face voltada para frente representa o futuro, e a outra, para trás, o passado. Olhando
em direções opostas, a face do todo é voltada para os níveis subordinados, enquanto a face
voltada para o ápice é a de uma parte dependente, característica principal do hólon.
11

À medida que a ciência crescia e os homens começavam a dominar o mundo, essa


vontade de dominação converteu-se na força motriz das grandes realizações científicas.
A partir da filosofia, sabe-se que a vida é estruturada pela combinação dos quatro
elementos fundamentais: água, ar, terra e fogo. Toda a matéria é feita de várias combinações
desses quatro elementos.
Assim, os filósofos pré-socráticos fazem uma ruptura com o mito e introduzem a
filosofia da natureza: na China os taoístas (filósofos naturalistas), na Europa antiga, os
estóicos, os epicuristas e os adeptos do atomista Demócrito. Todos os filósofos praticavam
filosofia e ciência, inclusive os pitagóricos, platônicos, aristotélicos, cristãos, etc.
O sexto século antes de Cristo, o milagroso século de Buda, Confúcio e Lao-Tsé, dos
filósofos jônicos e de Pitágoras, foi o século do despertamento do pensamento racional, das
explicações naturais e causas racionais. Na escola jônica de filosofia, o pensamento racional
ia emergindo do mundo de sonho mitológico onde as explicações naturais e causas racionais
se prendiam às causas naturais. Tales de Mileto, Anaximandro, Anaxímenes, Xenófanes e
Pitágoras de Samos, todos foram filósofos desse período.
A respeito de Pitágoras, Koestler (1989) escreve: Pitágoras foi quem abriu caminho
para que a ciência viesse a ser, além de um deleite intelectual, o caminho para o alívio
espiritual, para a união mística entre os pensamentos da criatura e o espírito do criador.
Na mitologia, Orfeu é uma aparição tardia no cenário grego em data desconhecida,
provavelmente muito antes do século VI.
Ele é vítima da fúria de Dionísio-Baco, o devastador, deus-bode da fertilidade e do
vinho. Os bacantes de Eurípedes, adoradores do deus chifrudo, com o tempo perceberam que
os excessos não conduziam à união mística com Deus, nem tampouco à natureza.
(KOESTLER, 1989, p. 14).
Assim, surge a figura de Orfeu, que é vítima da fúria de Baco, quando, após perder a
esposa, decide dar as costas ao sexo:

O orfismo é o culto da primeira religião universal no sentido de não ser considerada


monopólio tribal ou nacional, e sim aberta para todos os que lhe aceitassem os
regulamentos. O homem tem o poder de redimir o pecado original, purificar-se da
parte má da herança, levando uma vida diversa da terrena e executando certos ritos
ascéticos. Desse modo, logra libertar-se da roda do renascimento, seu
aprisionamento em sucessivos corpos animais e até vegetais, espécie de túmulos
carnais de sua alma imortal e readquirir a perdida condição divina. Praticavam-se
ritos órficos de purificação com muitos tabus primitivos, como não comer carne nem
feijão, não olhar para o espelho ao lado da luz [...]. (KOESTLER, 1989, p. 14).
12

Conforme Koestler (1989), Pitágoras foi quem deu ao orfismo um novo significado,
marcando a intuição religiosa e a ciência racional, unindo-as no conceito de katharsis.
Katharsis que era o conceito central no baquismo, no orfismo, no culto de Apolo de
Delos. Havia um anelo de libertação de várias formas de escravatura; de paixões e tensões do
corpo e do espírito; da morte e do vazio espiritual que tendia a criar explosões emocionais; do
legado dos titãs aos homens e do reacender a divina centelha.
Pitágoras substituiu os ritos purificadores da alma de seitas rivais por uma elaborada
hierarquia de procedimentos catárticos. Foi ele quem purificou o próprio conceito de
purificação.
Nesse contexto, em um nível mais elevado, a catarse da alma se realiza pela
contemplação da essência de toda a realidade, da harmonia das formas, da dança dos números.
(Koestler, 1989, p. 15).
É interessante saber que a palavra theoria deriva-se de theorio “olhar, contemplar”
(thea: espetáculo, theoris: espectador, assistência). Mas, no uso órfico significava “um estado
de fervente contemplação religiosa, no qual o espectador se identifica ao deus sofredor, morre
na morte dele e ressurge na sua ressureição”. (KOESTLER, 1989, p. 15).
À medida que os pitagóricos canalizavam o fervor religioso em fervor intelectual, o
êxtase ritual em êxtase do descobrimento, theoria foi alterando gradativamente o seu sentido
para teoria na acepção moderna.
Acredita-se que, com o progresso do método científico, as teorias passaram a ser mais
objetivas e dignas de fé.
Pelo fim do terceiro século antes de Cristo, estava terminado o período da ciência
grega. De Platão e Aristóteles para a frente, a ciência natural vai decaindo, e os feitos gregos
só irão ser redescobertos um milênio e meio mais tarde na Idade Média.
Sócrates, Platão e Aristóteles irão marcar o próximo período em que ciência e filosofia
ainda não se distinguiam. Surge a racionalidade, a matemática puramente abstrata e a
racionalidade lógica.
Foi Platão (427-347 a.C.) quem afirmou que o processo de conhecimento se
desenvolve por meio da passagem progressiva do mundo das sombras e aparências para o
mundo das idéias e essências. Não há intelecto que não seja fora da alma. (PLATÃO, 1996, p.
20).
Aristóteles de Estagira, pelo contrário, repisava a importância da experiência, empiria,
diante da aperia intuitiva. (KOESTLER, 1989, p. 69).
13

Aristóteles elaborou uma visão científica da realidade, desenvolvendo a lógica para


servir de ferramenta do raciocínio. A indução, que é a operação mental que vai do particular
para o geral, representa o processo intelectual básico de aquisição do conhecimento.
(ARISTÓTELES, 2003, p. 97).
Para Chalmers (1993), a ciência começa com a observação, e o processo denominado
indução, baseado no raciocínio indutivo, parte do particular para o todo. O observador pode
conferir sua verdade pelo uso direto de seus sentidos. Não é permitida a intrusão de nenhum
elemento pessoal, subjetivo.
A objetividade da ciência indutivista deriva do fato de que tanto a observação como o
raciocínio são objetivos. (CHALMERS, 1993, p. 8).
É lícito supor que o pensamento europeu do século XVI era controlado por duas forças
poderosas, quais sejam, a Igreja Católica, liderada pelo papa, e a antiga filosofia, dominada
pelas idéias de Aristóteles.
O maior erro de Aristóteles foi pensar que a Terra mantinha uma posição fixa no
espaço. Ele acreditava que ela era o ponto central do Universo. Em sua concepção, a Terra
não girava nem fazia qualquer espécie de movimento, ao contrário: o Sol, a Lua e todos os
planetas conhecidos giravam em torno dela.
Percebe-se que essa visão egocêntrica que a humanidade tinha a respeito da existência,
o modelo de universo de Aristóteles era muito popular entre os membros da Igreja. Como o
homem havia sido feito à semelhança de Deus, seguia-se ser correto que a Terra tomasse o
devido lugar como centro do Universo.
Conclui-se que os clérigos tornaram-se sucessores dos filósofos da antigüidade. A
Igreja Católica passou a determinar todo o clima cultural e o curso de ensino.
Em toda a Idade Média, os mosteiros eram considerados os oásis de cultura. Havia
deficiência, mas não disputa entre teologia e filosofia, concordando ambas em que a natureza
era digna de ser conhecida. Não havia a divisão entre o teólogo e o cientista, pois este último
ainda não existia. (KOESTLER, 1982, p. 365).
A Igreja controlava as pessoas pela proibição completa de se ensinar qualquer coisa
que se desviasse da Bíblia. Ela criou a Ordem dos Jesuítas, que trabalhava em questões
científicas, ensinando uma versão própria da verdade. A filosofia e a ciência jesuítas nada
mais eram do que a repetição daquilo que Aristóteles havia ensinado. (WHITE, 1991, p. 10).
Cabe, pois, concluir que as discussões metodológicas dos filósofos medievais seguiam
o modelo fixado pelos gregos e estavam estreitamente ligadas ao modo pelo qual Aristóteles
14

tratava do problema da ciência com o método indutivo e dedutivo em suas Segundas


Analíticas. (KOYRÉ, 1982, p. 60).
Os ensinamentos concretos da ciência aristotélica, elevados a dogmas, paralisaram o
estudo da natureza. (KOESTLER, 1982, p. 69).
Koestler (1982) afirma que o universo cristão medieval possuía limites rígidos e
firmes no espaço, no tempo e no conhecimento. A história do Universo se limitava a trezentas
gerações do começo ao fim, e havia limites ao progresso do conhecimento, à ciência, tendo
sido todos eles completados demoradamente. A verdade sobre a religião estava revelada nas
Escrituras.
O edifício do conhecimento estava completo. Se a resposta não se adequava aos fatos,
o erro era atribuído aos escribas copiadores do antigo manuscrito. A autoridade dos antigos
não se apoiava na idolatria, mas na crença da natureza finita do conhecimento. Daí os limites
ao progresso do conhecimento. (KOESTLER, 1982, p. 145).
Assinala Koestler (1982) que, por volta de 1600, a ordem dos jesuítas era a ponta de
lança intelectual da Igreja.
Discutia-se o sistema copernicano livremente, mas era favorável não apresentar as
hipóteses dele como verdade, por serem contrárias à corrente de interpretação da escritura,
salvo e até que se lhe apresentasse em favor provas definidas.
Koestler (1982) marca que nem os filósofos nem os estudiosos tinham motivos para
temer a perseguição de suas idéias, desde que evitassem desafiar, direta e explicitamente a
autoridade da Igreja. Se soubessem ter o mínimo de discrição na escolha das palavras, era-
lhes lícito dizer o que lhes aprouvesse.
Koestler (1982) ressalta também que a noção de não-limitação ou de infinidade
intrínsecos ao sistema copernicano, destinava-se a ocupar o espaço reservado a Deus nos
mapas astronômicos medievais e isso incomodou a Igreja.
Mas, para Koestler (1982), o primeiro conflito entre a Igreja e a ciência foi o
escândalo Galileu, que levou a imagem da divindade a sofrer sutil e gradual alteração,
libertando-se da rígida estrutura escolástica e recuando além do dualismo de Platão até a
mística inspiração pitagórica de Deus como principal matemático.
Foi através da revolução científica do século XVII, iniciada por Galileu, que a história
da ciência moderna teve início, sendo um setor independente da filosofia e da religião.
Para Galileu, o livro da natureza está escrito na linguagem matemática, sem cujo
auxílio é impossível compreender-lhe uma palavra sequer. Mas, o principal matemático de
Galileu chama-se natureza e não Deus. (KOESTLER, 1982, p. 367).
15

Os séculos XV e XVI foram marcados por importantes mudanças.


Com o enfraquecimento da Igreja pelas idéias renascentistas e a Reforma religiosa, as
idéias da escolástica, que aproximavam a filosofia da religião, ainda predominavam. Mesmo
nas universidades, já havia a crença de que a chave para se poder trilhar o caminho do
conhecimento era a razão.
A partir do século XVII, promoveu-se um avanço importante: a razão articulava-se a
um método. Esse século ficou conhecido pelo século do método.
Como conseqüência da Revolução Científica, o filósofo Francis Bacon (1561-1626)
foi um dos primeiros a tentar articular o que é o método da ciência moderna.
No período em que viveu, na passagem do século XVI para o XVII, Bacon já
acumulava conhecimentos e se tornou entusiasta das conquistas científicas.
Percebendo as vastas possibilidades do método como novo tipo de conhecimento,
Bacon planejou um programa de desenvolvimento da ciência em todos os níveis,
denominando-o A Grande Instauração.
Seu intento de criar uma instituição governamental que conduzisse o avanço da ciência
experimental foi em vão, sendo seu objetivo concretizado somente em 1662, com a fundação
da Royal Society por Carlos II. (CHALITA, 2006, p. 224).
A meta da ciência moderna, para Bacon, é o melhoramento da vida do homem na terra
e, essa meta seria alcançada através da coleta de fatos com observação organizada e derivando
teorias a partir daí. (CHALMERS, 1993, p. 20).
Desde então, a teoria de Bacon tem sido modificada e aperfeiçoada por alguns e
desafiada por outros.
O século XVII foi o século do racionalismo e da metafísica (discussões metafísicas
sobre Deus e o mundo) e racionalista.
Como esse século foi composto de grandes matemáticos, estes buscaram aplicar o
método matemático como um instrumento da razão, conduzindo-a a um conhecimento
verdadeiro e certo. O racionalismo moderno é a doutrina que atribui exclusiva confiança na
razão humana.
É importante saber que não seria o método matemático em si o usado e sim o
procedimento dedutivo da geometria, ou seja, o modo da matemática de encadear as razões ou
afirmações segundo uma certa ordem. (CHALITA, 2006, p. 232).
Os filósofos desse século passaram a acreditar que o conhecimento do mundo poderia
ser alcançado pelo uso exclusivo da razão, pois haveria uma racionalidade, uma explicação,
nas coisas correspondentes à racionalidade das pessoas.
16

Conforme Chalita (2006), essa racionalidade se expressaria do modo, lógico, dedutivo,


o que caracterizaria a visão específica do racionalismo moderno, que considerava que os
sentidos são uma fonte confusa, obscura e provisória da verdade, o que levará a experiência
sensível dos sentidos a um segundo plano como fonte de conhecimento.
Chalita (2006) afirma que o racionalismo constitui-se como um dos pólos de discussão
fundamental na história da filosofia, aquela que trata das origens do conhecimento. O outro
pólo dessa discussão é o empirista do grego empeiria, experiência.
Por seu racionalismo, René Descartes (1596-1650) é o filósofo que sintetiza o espírito
do século XVII, sendo o que mais contribuiu para o paradigma desse século com uma
formulação extrema do dualismo absoluto entre mente (res cogitans) e matéria (res extensa),
que resultou na crença de que o mundo material pode ser descrito com objetividade, sem
referência ao observador humano. Mas, essa objetividade tinha como base a percepção
constante de Deus. (GROF, 1988, p.13).

[...] Descartes prescreve como recurso para a construção da ciência e também para a
sabedoria da vida seguir os imperativos da razão que, a exemplo de sua
manifestação, opera por intuições e por análises. [...] A dinâmica inerente às séries
de termos dispostos racionalmente (como as progressões matemáticas) leva à
inevitável explicitação do que está contido no “Se duvido, penso”. Leva ao cogito:
“Penso, logo existo” (Cogito ergo sum). (GRANGER, 1983, p. XVI).

Para Descartes, a existência de Deus, a espiritualidade da alma ou a definição da


matéria como pura extensão são verdades apreendidas diretamente pelo entendimento humano
e cuja certeza não depende nem da observação dos fatos, nem da experiência, nem do cálculo
das probabilidades ou valor dos testemunhos. (CHÂTELET, 1974, p. 76).
Japiassú (1976) ressalta que o cogito cartesiano inscreveu-se no inconsciente coletivo
da filosofia clássica ao possibilitar ao homem conduzir bem sua razão e procurar a verdade
nas ciências.
Foi Isaac Newton (1642-1727) quem levou a termo a revolução científica iniciada por
Galileu:

físico, matemático e astrônomo, Newton concebe o mundo como uma grande


máquina, cujas partes podem ser conhecidas através da observação e da
experimentação. Esse grande mecanismo ou mundo é obra de um Ser inteligente, de
um “Regente Universal”, que não podemos conhecer, porque só nos é possível
conhecer Deus através de nossos sentidos. Daí ser somente possível afirmar Sua
existência, a partir da ordem presente no Universo. (COTRIM, 2002, p. 149).
17

Isaac Newton (1642-1727) foi quem conferiu a Deus uma dupla função como Criador
do mecanismo universal e como seu Supervisor no tocante à manutenção e reparo. (Koestler,
p. 367)
De acordo com Grof (1988), Newton acreditava que o mundo fosse material por
natureza, mas não pensava que sua origem fosse explicada por causas materiais. Deus, a seu
ver, foi quem criou inicialmente as partículas materiais, as forças entre elas e as leis que
governam seus movimentos.
O Universo, uma vez criado, continuaria a funcionar como uma máquina e poderia ser
descrito e compreendido como tal.
Graças a essa revolução, a expressão “Filosofia Natural”, expressão usada até então
para a busca do conhecimento no sentido da conquista da natureza, foi substituída pelo
vocábulo “Ciência” ou “Nova Filosofia”.
Isso ocorreu porque a revolução tecnológica ocasionada pelos seus descobrimentos
não tinha como objetivo a conquista da natureza, mas sua compreensão. (KOESTLER, 1989,
p. 13)
De acordo com Japiassú (1976), é tomada a consciência de que o conhecimento
científico não é, propriamente falando, filosófico.
Com a revolução científica, a filosofia tendeu a desaparecer nas classificações
científicas, assim como as técnicas. Com pequenas variações, a classificação do saber que
havia sido mantida até esse século foi simplificada em: tipo de objeto estudado, tipo de
método empregado e tipo de resultado obtido. (CHAUÍ, 2001, 260).
É importante ressaltar que, sob a influência do paradigma newtoniano-cartesiano,
houve uma fragmentação do conhecimento em disciplinas.
Disciplina, nesse sentido, é usada como sinônimo de ciência, muito embora o termo
disciplina seja mais empregado para designar o ensino de uma ciência, ao passo que ciência
designa mais uma atividade de pesquisa. (JAPIASSÚ, 1975, p. 61).
Chauí (2001) afirma que a classificação do saber costuma ser usada até hoje como a
classificação sistemática das ciências: ciências matemáticas, ciências naturais, ciências
humanas ou sociais, ciências aplicadas. Cada uma das ciências subdivide-se em ramos
específicos com nova delimitação de seu objeto de estudo e do método de investigação.
Nesse nível de compreensão, a idéia de um legislador divino que rege as leis da
natureza e não a Igreja, promoveu um demasiado respeito e autoconfiança à ciência européia.
18

Se o universo foi criado por Deus, então é compreensível e pode ser analisado como
uma máquina, para ver como funciona. Ao revelar esse plano, a ciência presta
homenagem ao Criador. O paradigma da ciência ocidental foi tomado para explicar a
ordem da natureza não por ter sido a única ciência, mas porque foi a mais bem
sucedida na combinação de hipóteses matemáticas, seguidas por uma tradição
experimentalista. (KNELLER, 2001, p. 20).

Segundo Koestler (1989), o fator transcendental não estava incluso no universo


mecânico:

A teologia e a física separaram-se por se enfadarem uma da outra e nada mais terem
que dizer-se. Separada do que antes se chamava filosofia da natureza que hoje
recebe o nome de ciência exata, a teologia continuou o seu rumo especializado,
doutrinário. A era do comando beneditino, franciscano, tomista e jesuíta, em
questões de pesquisa, havia passado. (KOESTLER, 1989, p.365).

À outra parte divorciada, a ciência, com a separação dos caminhos, beneficiou-se por
completo. Livre do lastro místico, pôde se desenvolver de forma estrondosa.
Vale saber que tanto para Newton quanto para Descartes, o conceito de Deus era
elemento essencial em suas filosofias e visão de mundo.
Já no século XVIII, há uma tendência epistemológica e empirista. Tendência
epistemológica no sentido de investigação sobre como as idéias se formam na mente humana
e como as pessoas podem obter conhecimento verdadeiros das coisas
Chalita (2006) descreve que as preocupações dos pensadores do século XVIII eram
diferentes daqueles do início da era moderna. Eles se afastaram das discussões metafísicas e
buscaram aplicar a nova metodologia emprestadas das ciências da natureza em outros campos
de investigação como a moral, a política e a estética. Esses pensadores denominaram a própria
época de Século das Luzes, e o movimento intelectual do qual faziam parte, de Iluminismo ou
Ilustração.
Havia a pretensão de se iluminar as trevas da ignorância, tendo por instrumento a luz
natural a todos os homens, ou seja, a razão.
De acordo com Japiassú (1976), com o advento da ciência moderna há o início de uma
nova antropologia complexa que faz a associação de uma visão objetiva do homem como ser
deste mundo terrestre, ser de natureza material e física, e de uma visão subjetiva da relação do
homem com o conjunto da natureza e consigo mesmo.
Designava-se por antropologia o conjunto das ciências humanas até o século XIX.
Antropologia tem suas raízes do grego. Antro significa homem e logus, razão, pensamento. A
antropologia vai oscilar entre um conhecimento organicista e materialista do ser corporal e
biológico do homem, e um saber espiritualista da vida psíquica, intelectual e moral da “alma”
19

humana, ligando os dois de modo mais ou mesmo bastardo no plano da objetividade. Ela se
divide em antropologia social e física. (JAPIASSÚ, 1976, p. 30).
O outro pólo da estrutura do pensamento no desenvolvimento da ciência moderna do
século XVII foi o empirismo, que significa a valorização dos sentidos como fonte primordial,
defendendo que o processo de conhecimento depende de experiência sensível.
Os empiristas criticavam idéias filosóficas baseadas em conceitos abstratos,
intangíveis como os metafísicos. Isso promoveu grande avanço em muitos campos do
conhecimento, instaurando definitivamente as bases da ciência moderna.
Foi a Inglaterra o berço do empirismo moderno. Entre seus principais representantes
estão Bacon, Thomas Hobbes, Johan Looke, George Berkeley e David Hume. (COTRIM,
2002, p. 161).
Sob o ponto de vista de Reale e Antiseri (2005), é na base do positivismo que a ciência
moderna se desenvolve.
Segundo Abbagnano (2007), o positivismo é a romantização da ciência, sua devoção
como único guia da vida individual e social do homem, único conhecimento, única moral,
única religião possível. Esse termo foi empregado pela primeira vez por Saint-Simon, para
designar o método exato das ciências e sua extensão para a filosofia.
O positivismo foi adotado por Auguste Comte para a sua filosofia e passou a designar
uma grande corrente filosófica que, na segunda metade do século XIX, teve numerosíssimas e
variadas manifestações em todos os países do mundo ocidental. (ABBAGNAMO, 2007, p.
376).
O positivismo de Comte possuía idéias do Iluminismo, ou seja, através de um
conhecimento progressivo do mundo, conseguir-se-ia ordená-lo de acordo com a vontade.

Esse pensamento reivindica o primado da ciência: o único método de conhecimento


é o das ciências naturais, que não somente vale para o estudo da natureza, mas
também para o estudo da sociedade, que é fruto qualificado do programa filosófico
positivista. A era do positivismo foi perpassada por otimismo geral e também
considerada como parte integrante da mentalidade romântica por alguns estudiosos,
pois a positividade da ciência leva a mentalidade positivista a combater as
concepções idealistas e espiritualistas da realidade, concepções que os positivistas
rotulavam como metafísicas, embora mais tarde tenham caído em metafísicas
igualmente dogmáticas. (REALE e ANTISERI, 2005, p. 288).

De acordo com Chalita (2006), na década de 1890, também na França, surgiu um


importante ramo dissidente do positivismo de Comte, denominado sociologismo. Émile
Durkheim foi seu expoente.
20

É importante assinalar que com o positivismo social de Durkheim, a sociedade


representa uma entidade genérica superior aos indivíduos, e o sociologismo consistia numa
doutrina positivista voltada para o âmbito social que buscava compreender os mecanismo que
orientaram os homens a viver em sociedade. (CHALITA, 2006, p. 361).
Abbagnamo (2007) afirma que o positivismo presidiu à primeira participação ativa da
ciência moderna na organização social e constitui até hoje uma das alternativas fundamentais
em termos de conceito filosófico, mesmo depois de deixadas as ilusões totalitárias do
positivismo, expressas na pretensão de absorver na ciência qualquer manifestação humana.
Pelo estudo da história, nota-se que a ascensão do positivismo ocorreu numa época
concomitante ao advento da física quântica e da teoria da relatividade de Einstein que não se
conciliavam entre si. (CHALMERS, 1983, p. 21).
Para agravar o cenário da ciência no século XIX, Charles Darwin (1809-1882) com
sua teoria evolutiva das espécies biológicas, pôs em crise a idéia de homem que predominava
há séculos: a espécie humana está sujeita aos mesmos processos de evolução da dos animais.
(REALE E ANTISERI, 2005, p.333).
Sua obra: A Origem das espécies, em 1859, introduziu um novo paradigma evolutivo
na ciência desse século.
A partir da destruição da idéia de Cosmo, surgindo a idéia de Universo infinito e
geométrico ou matematização da ciência, as leis do Céu e as leis da Terra se fundem.
(KOYRÉ 1982, p. 154).
Com esse fato, o otimismo em relação às ciências naturais dominou a Idade Moderna,
estendendo-se às chamadas ciências humanas que, nascidas no século XIX, procuraram
atingir um patamar de cientificidade próximo ao da física, considerada então como modelo de
ciência.
De acordo com Japiassú (1976), o destino das ciências humanas estava vinculado ao
destino da filosofia. Eram consideradas como ramos da antropologia filosófica. Devido
sobretudo à predominância do positivismo, a antropologia filosófica vê-se numa situação
idêntica à da filosofia da natureza no século XVII: seu objeto, o homem, é anexado pelas
ciências experimentais.
A física no século XIX levou ao apogeu a imagem mecanicista do universo para
depois criar, antes do fim do mesmo século, os dados e pressupostos que levarão essa imagem
a uma crise irreversível. (REALE e ANTISERI, 2005, p. 333).
21

De acordo com Chalita (2006), durante as primeiras décadas do século XX, surgiu
um movimento de reação ao positivismo em diversos países da Europa, denominado
Espiritualismo.
Esse movimento pretendia reacender o debate sobre as questões éticas e metafísicas
suprimidas pela doutrina positiva.

A corrente espiritualista afirma que somente por meio da consciência pode-se extrair
os dados da investigação filosófica ou científica, rejeitando o materialismo da época.
Esses dados seriam compostos não só pela reflexão interior do indivíduo, mas
também por seus sentimentos, ideais, morais e religiosos. Henri Bergson (1859-
1941) foi o filósofo de maior destaque desse movimento ao valorizar a intuição
como forma de captar o pleno sentido da realidade. (CHALITA, 2006, p. 362).

Mas, o positivismo ainda teria desdobramentos no século XX, principalmente como


resposta aos avanços científicos.
O desenvolvimento das pesquisas sobre eletrodinâmica fizeram surgir contradições
que abalaram a concepção determinista do universo físico e, ao final do século XIX, levaram
ao início da física quântica, com a formulação do princípio da incerteza.
Desde o início do século XX, a física passou por profundas e radicais mudanças,
transcendendo a visão de mundo mecanicista e todas as premissas básicas do paradigma
newtoniano-cartesiano.
Max Karl Ernst Ludwig Planck (1858-1947), físico teórico alemão, criador da teoria
quântica, que, juntamente com a teoria geral da Relatividade de Albert Einstein, forma os
fundamentos da física do século XX. Por sua realização, Planck recebeu o prêmio Nobel de
Física, em 1918. (BENTON, 1995, p. 97)
Foi no início do século XX que Planck apresentou à Sociedade Alemã de Física sua
nova teoria que iria operar completa revolução na física. Essa teoria afirma que a energia é
algo descontínuo, isto é, seu crescimento se faz por acréscimos constantes. (BENTON, 1995,
p. 97).
O ano de 1905 foi o ano de Albert Einstein (1879-1955). Em pouco tempo, ele
completou sua tese de PhD, publicou dois artigos científicos (o esboço de sua Teoria da
Relatividade Especial, que trata do tempo na vastidão do espaço) e escreveu outros dois
artigos que também foram muito bem recebidos pela comunidade científica da época.
(MACDONALD, 1992, p. 23).
Nesse mesmo ano, Einstein aplicou a hipótese quântica ao efeito fotoelétrico, obtendo
uma explicação ao efeito fotoelétrico. Admitindo que cada elétron é liberado por um quantum
22

de luz, denominando-o fóton, a que está ligada uma energia proporcional à respectiva
freqüência. (BENTON, 1995, p. 98).
Macdonald (1992) assevera que a teoria de Einstein lançou luz à ciência, chegando a
uma lei geral capaz de substituir a explicação de Newton para a maioria dos problemas mais
importantes da física.
Em 1907, Einstein prosseguindo em suas descobertas, publicou um dos primeiros
artigos sobre o assunto que foi a maior descoberta da Física do século XX: a Teoria Quântica.

Diferentemente da teoria da relatividade, a Mecânica Quântica descreve como se


comportam as menores unidades da matéria que se conhecem – o quantum e as
partículas subatômicas, como elétrons, prótons e outras. Mas, o entendimento da
Mecânica Quântica também envolve o uso de uma teoria conhecida como Princípio
da Incerteza de Heisenberg, segundo a qual é impossível medir-se, simultaneamente
e com precisão absoluta, a velocidade com que uma partícula (de luz ou energia)
está se movendo e o ponto exato em que se encontra no espaço. (MACDONALD,
1992, 44).

A teoria dos quanta fornece a Niels Bohr (1885-1962) os fundamentos teóricos para
interpretar o problema da estrutura do átomo e de hidrogênio.
Bohr propõe o termo complementaridade derivado da física quântica. A
complementaridade é a solução do paradoxo partícula-onda. Possui a virtude da inclusividade
e evita a polarização extremista: isto ou aquilo dá lugar a isto e aquilo.
Mas, foi Werner Karl Heisenberg (1901-1976), um dos fundadores da física quântica,
com o princípio da incerteza, que estabeleceu a impossibilidade de determinar com precisão a
velocidade e localização do elétron. (COTRIM, 2002, p. 246).
Capra (1982) relata que uma das principais lições que os físicos tiveram que aprender
no século XX foi o fato de que todos os conceitos e teorias usados para descrever a natureza
são limitados.
Heisenberg afirmou, conforme Capra (1982), que toda palavra e todo conceito, por
mais claros que possam parecer, têm apenas uma limitada gama de aplicabilidade, e as teorias
científicas não estarão nunca aptas a fornecer uma descrição completa e definitiva da
realidade. (HEISENBER apud CAPRA, 1982, p. 74)
É importante saber que, de acordo com Machdonald (1992), Einstein mostrava-se
muito interessado na Teoria Quântica, mas não simpatizava, particularmente, com o elemento
sorte subentendido no Princípio da Incerteza. “Deus não joga dados”, dizia ele.
Para Capra (1982), enquanto a nova física se desenvolvia no século XX, a visão de
mundo cartesiana e os princípios da física newtoniana mantinham sua forte influência sobre o
23

pensamento científico ocidental, e ainda hoje muitos cientistas aderem ao paradigma


mecanicista.
De acordo com Stewart (1997), grande parte da história foi dominada pela matemática
linear em que os efeitos são proporcionais às causas e o todo literalmente é equivalente à
soma das partes.
Stewart (1997) também afirma que a maior parte da ciência tradicional se baseia na
filosofia do reducionismo, segundo a qual um sistema é compreendido pelo detalhamento da
estrutura que o constitui e pelo estudo de como cada componente influencia os demais.
(STEWART apud LIVRO DO ANO: CIÊNCIA e FUTURO, 1997, p. 123).
Diante de tais fatos, muitas certezas foram abaladas, e foi a filosofia da ciência que se
debruçou sobre os novos questionamentos e novas reavaliações dos critérios de verdade e da
validade dos métodos e teorias científicas.
Um grupo de cientistas marcou a filosofia científica, isto é, a filosofia ligada à ciência
e que pretendia dar conta dela no chamado Círculo de Viena. Com a tomada do poder por
Hitler, esse mesmo Círculo teve seu fim na metade de 1930.
O princípio fundamental do neopositivismo, que é a filosofia do Círculo de Viena, é o
de verificação, segundo o qual têm sentido apenas as proposições que podem empiricamente
ser verificadas [...]. (REALE e ANTISERI, 2005, p. 113).
De acordo com Abbagnamo (2007), pelo nome de positivismo lógico ou empirismo
lógico, indica-se a orientação instaurada pelo Círculo de Viena e depois seguida e
desenvolvida por outros pensadores, especialmente na América do Norte e na Inglaterra.
É importante ressaltar que o positivismo lógico foi uma forma extrema do empirismo.
(CHALMERS, 1993, p. 20).
Como característica dessa corrente tem-se a redução da filosofia à análise da
linguagem sendo entendida como linguagem científica ou linguagem comum.
(ABBAGNAMO, 2007, p. 381).
Essas duas tendências têm em comum um arsenal negativo e polêmico, qual seja, a
negação de qualquer metafísica, que elas compartilham com todo o empirismo moderno e que
justificam com a tese de que todos os enunciados metafísicos são desprovidos de sentido,
porque não verificáveis empiricamente.
Como conseqüência desse princípio de verificação, nasce a antimetafísica dos
neopositivistas vienenses, ou seja, as afirmações metafísicas junto com as religiosas são
simplesmente não sentidos, justamente pela razão de não serem verificáveis. (REALE e
ANTISERI, 2005, p. 113).
24

Em 1934, Karl Raimund Popper (1902-1994) em Viena e Gaston Bachelard (1884-


1962) na França tinham ambos publicado obras que continham refutações conclusivas ao
positivismo lógico, mas foram quase totalmente negligenciadas, recebendo a atenção que
mereciam apenas em épocas recentes. (CHALMERS, 1993, p. 21).
Popper admite em sua autobiografia que fora responsável pela morte do
neopositivismo. Ele deu uma interpretação diferente daquelas de alguns membros do Círculo
de Viena a respeito dos fundamentos empíricos da ciência. (REALE e ANTISERI, 2005, p.
141).
Para Popper, a ciência deveria progredir pela proposta de conjecturas audaciosas,
altamente falsificáveis, como tentativas de resolver problemas, seguindo-se tentativas
impiedosas de falsificar as novas propostas. (CHALMERS, 1983, p. 83).
O empreendimento da ciência consiste na proposição de hipóteses altamente
falsificáveis, seguidas de tentativas deliberadas e tenazes de falsificá-las.
As falsificações, isto é, os fracassos das teorias em passar por testes de observação e
experimento, foram retratadas como sendo de importância chave porque, segundo Popper,
essa é a maneira pela qual pode-se aprender com os erros, e porque ao se descobrir que a
conjectura é falsa poder-se-á aprender muito sobre a verdade, podendo chegar-se mais perto
dela. (POPPER, 1975, p. 231).

A base empírica da ciência objetiva nada tem, portanto de “absoluto”. A ciência


repousa em pedra firme. A estrutura de suas teorias levanta-se, por assim dizer, num
pântano. Semelha-se a um edifício construído sobre pilares. Os pilares são
enterrados no pântano, mas não em qualquer base natural ou dada. Se deixarmos de
enterrar mais profundamente esses pilares, não o fazemos por termos alcançado
terreno firme. Simplesmente nos detemos quando achamos que os pilares estão
suficientemente assentados para sustentar a estrutura – pelo menos por algum tempo.
(POPPER, 1975, p. 119).

Gaston Bachelard (1884-1962) também foi outro filósofo no campo da ciência a


destacar a importância do estudo da história da ciência como instrumento de análise do
racionalismo. Bachelard foi quem falou em rupturas epistemológicas causadas por obstáculos
epistemológicos.
Para Bachelard (1977), quando se procuram as condições psicológicas do progresso da
ciência, chega-se logo a essa convicção de que é em termos de obstáculos que se torna preciso
apresentar o problema do conhecimento científico. Os obstáculos sugerem rupturas.
Toda cultura científica deve começar por uma catarse intelectual e afetiva. Resta
depois a tarefa mais difícil: pôr a cultura científica em estado de mobilização permanente,
25

substituir o saber firmado e estático por um conhecimento aberto e dinâmico, argumentar


todas as variáveis experimentais, dar à razão razões de evoluir. (BACHELARD, 1977, p.
151).
De acordo com Reale e Antiseri (2006), Paul Feyeranbend (1924-1994) foi quem
reagiu à percepção de que as teorias científicas não podem ser conclusivamente provadas ou
desaprovadas.
Feyeranbend fez a crítica mais radical da metodologia científica e suas práticas
correntes formulada até então.
Em sua obra Against Method: Outline of an Anarchistic Theory of Knowledge (1978),
Feyeranbend argumentou que a ciência não é nem pode ser governada por um sistema de
princípios firmes, imutáveis e absolutos. (GROF, 1987, p. 10).
O anarquismo epistemológico de Feyerabend consiste na tese de que a idéia de um
método que contenha princípios estáticos, imutáveis e absolutamente obrigatórios como guia
para a atividade científica se defronta com dificuldades consideráveis quando é posta diante
dos resultados da pesquisa histórica. (REALE e ANTISERI, 2006, p. 168).
Reale e Antiseri (2006) relatam que foi Imre Lakatos (1922-1974), aluno de Popper,
quem desenvolveu uma descrição de ciência como tentativa de melhorar o falsificacionismo
popperiano e superar as objeções a ele.

Para Lakatos, a ciência é, foi e deveria ser uma competição entre programas rivais
de pesquisa, lançando sua concepção que caracteriza o falsificacionismo
metodológico sofisticado. Este se distingue do falsificacionismo dogmático e do
metodológico ingênuo. A saber que o falsificacionismo dogmático consiste na idéia
de que a ciência se desenvolve por meio de conjecturas ousadas e falsificações
infalíveis, e o falsificacionismo metodológico ingênuo corrige o erro dos
falsificacionistas dogmáticos, sustentando que a base empírica da ciência não é
infalível, como não são incontrovertíveis as hipóteses auxiliares. (REALE e
ANTISERI, 2006, p. 166).

Thomas Kuhn (1922-1996), historiador americano da física, que voltou sua atenção
para a história da ciência, percebeu que os relatos tradicionais da ciência, fosse indutivista ou
falsificacionista, não suportam uma comparação com o testemunho histórico. (CHALMERS,
1993, p. 123).
Grof (1987) explica que cada período da história das idéias e métodos científicos é
reconhecido como um passo lógico de uma aproximação cada vez mais apurada de uma
descrição do universo, como sendo a última verdade a respeito dele.
No entanto, uma análise detalhada da história e filosofia da ciência revela que esta é
uma imagem distorcida e romântica do curso atual dos acontecimentos.
26

A teoria da ciência de Kuhn foi desenvolvida como uma tentativa de fornecer uma
teoria mais corrente com a situação da história tal como ele a via. (CHALMERS, 1993, p.
123).
Uma das características chaves de sua teoria é a ênfase dada ao caráter revolucionário
do progresso científico, em que uma revolução implica o abandono de uma estrutura teórica e
sua substituição por outra, incompatível. A progressão da ciência para Kuhn segue-se: pré-
ciência – ciência normal – crise-revolução – nova ciência normal – nova crise. (CHALMERS,
1993, p. 124).
Kuhn afirmou em sua obra A Estrutura das Revoluções Científica que não há uma
comunidade científica sem um paradigma. (REALE e ANTISERI, 1997, p. 162).
Paradigma quer dizer modelo, padrão e exemplos compartilhados. É muito mais que
uma teoria, pois, implica uma estrutura que gera teorias. (CREMA, 1989, p. 18).
Nos dizeres de Kuhn, as revoluções científicas são episódios de desenvolvimento não
cumulativo, nos quais um paradigma mais antigo é total e parcialmente substituído por um
novo, incompatível com o anterior. (KUHN, 1978, p. 125).

Nessa perspectiva, a passagem de um paradigma a outro é justamente a revolução


científica. No entanto, após uma revolução científica, muitas manipulações e
medições antigas tornam-se irrelevantes e são substituídas por outras. A ciência pós-
revolucionária invariavelmente inclui muitas das mesmas manipulações, realizadas
com os mesmos instrumentos e descritas nos mesmos termos empregados por sua
predecessora pré-revolucionária. (KUHN, 1978, p. 126).

Kuhn diferencia ciência normal de ciência extraordinária.


A ciência normal significa uma pesquisa estavelmente fundada sobre um ou mais
resultados alcançados pela ciência do passado, aos quais uma comunidade científica
particular, por certo período de tempo, reconhece a capacidade de constituir o fundamento de
sua práxis anterior. Ela é cumulativa e o cientista normal não procura novidade. (KUHN,
1978, p. 30).
A ciência extraordinária surge quando há uma crise de paradigma. O paradigma é
submetido a um processo de desfocamento, os dogmas são postos em dúvida e suavizam-se as
normas que governam a pesquisa normal.

[...] um novo paradigma consegue emergir, e sobre ele se articulará novamente a


ciência normal, que por seu turno, depois de um período de tempo talvez bastante
longo, levará a novas anomalias, e assim por diante. (REALE e ANTISERI 1997, p.
163).
27

Para Kuhn (1978), as transformações de paradigmas da óptica da física do século XX


em relação à óptica newtoniana são revoluções científicas, e a transição sucessiva de um
paradigma a outro, por meio de uma revolução, é o padrão usual de desenvolvimento da
ciência amadurecida.
É importante ressaltar que, embora a atividade científica tradicional propicie com sua
dinâmica o caminho para sua auto mudança, não é fácil e simples a transição de um
paradigma para outro. (CREMA, 1989, p. 20).
Ilya Prigogine (1917-2004), prêmio Nobel de química de 1977, foi o cientista que, no
fim do século XX trouxe a questão do futuro da ciência. Para ele, o homem assiste ao
surgimento de uma ciência que não mais se limita a situações simplificadas, mas o coloca
diante da complexidade do mundo real, uma ciência que permite que se viva a criatividade
como a expressão singular de um traço fundamental comum a todos os níveis da natureza.
É importante introduzir na história da ciência Ian Stewart, que é professor de
Matemática no Instituto de Matemática da Universidade de Warwick na Inglaterra e co-autor
de The Collapse of Chaos.
Stewart afirma que a teoria da complexidade concentra-se em comportamentos
simples nos sistemas complexos. Essa teoria desafia o saber convencional e aponta falhas nas
teorias tradicionalmente aceitas, que não conseguem demonstrar como proceder para superar
essas limitações. (STEWART apud LIVRO DO ANO: CIÊNCIA e FUTURO, 1997).
A teoria da complexidade é intrinsecamente interdisciplinar, ou seja, permite a troca
de conceitos de uma área científica para a outra. Embora ela objetiva compreender fenômenos
complexos, faz da simplicidade uma virtude.
Houve a emergência da ciência da complexidade, que é a escola filosófica que vê o
mundo como um todo indissociável e propõe uma abordagem multidisciplinar para a
construção do conhecimento. Contrapõe à causalidade por abordar os fenômenos como
totalidade orgânica.
A ciência de hoje não pode mais dar-se o direito de negar a pertinência e o interesse de
outros pontos de vista e de recusar compreender os das ciências humanas, da filosofia e da
arte. (PRIGOGINE e STENGERS, 1997, p. 41).
Em 1926, J. C. Smuts, de acordo com Weil, D’Ambrosio e Crema (1993), mostrava
que uma força era responsável pela criação de conjuntos, desde o átomo, até o universo,
passando pela célula, a pessoa e a sociedade. Ele chamou essa força de “holismo” e criou a
palavra “holístico”. (SMUTS apud RUMO À NOVA TRANSDISCIPLINARIDADE, 1993).
28

Considerando o princípio único do holismo, Smuts substitui o conceito de vida pelo de


todo, e aponta para o aspecto individual e universal da mente, como um órgão do todo, cuja
nova ordem se caracteriza pela liberdade, flexibilidade e criatividade. (CREMA, 1989, p. 61).
Crema (1989) ressalta que foi Alfred Adler (1870-1936) quem redescobriu o
paradigma holístico sendo influenciado por ele e concebendo que, inerente a todo corpo, há
uma batalha para se tornar um todo.
Arthur Koestler foi quem desenvolveu o conceito de hólon, que leva em conta a
dinâmica do todo e as partes, podendo ser considerado um dos pioneiros da abordagem
holística. (KOESTLER apud INTRODUÇÃO À VISÃO HOLÍSTICA, 1989, p. 62).
É importante saber que o a expressão “a parte contém o todo” vem das descobertas dos
físicos quânticos em termos da conexão de Einstein e do holograma.
Wolf e Toben (1982) afirmam que o holograma é uma invenção que utiliza uma
propriedade muito sofisticada de todas as ondas, a de possuírem amplitudes e fases.

A amplitude de uma onda mede sua intensidade. A fase da onda determina seu
relacionamento íntimo com todas as outras ondas. Quando ondas em fase
adicionam-se corretamente, elas formam uma onda única, mais intensa. Duas ondas
de igual amplitude e em fase criam uma onda cuja intensidade é quatro vezes maior
que a de uma só onda. Três ondas em fase criam uma onda única de intensidade
nove vezes maior que a de uma das ondas, e assim por diante. Usando ondas de luz,
os cientistas puderam registrar em película fotográfica os padrões de interferência
produzidos por um objeto quando ele reflete a poderosa energia de um feixe de raios
laser. O registro, em chapa fotográfica, do padrão formado quando as ondas
refletidas no objeto e as ondas do feixe original se combinam no espaço, denomina-
se holograma. Ao se olhar através da chapa de emulsão plana, ver-se-á a imagem
como se estivesse a olhar para o próprio objeto através de uma janela. O objeto real
não se encontra mais presente, isso é que é surpreendente.
(WOLF e TOBEN, 1982, p. 146).

Ainda mais extraordinário é o que ocorre quando se destrói o holograma, quebrando-


em pedaços menores, como os de uma vidraça quebrada. Ao se olhar através de qualquer um
desses pedaços, novamente a imagem inteira do objeto será vista reconstruída. É uma imagem
fraca, mas que reconstitui completamente a figura do objeto. (WOL e TOBEN, 1982, p. 146).
A visão holística, conforme Crema (1989), consiste em aceitar as duas verdades como
partes da mesma realidade: a verdade relativa da existência do sujeito e do objeto, do
conhecedor, do conhecido e do conhecimento, e a verdade absoluta da identidade entre sujeito
e objeto.
A psicóloga francesa Monique-Thoening, em 1980, postulou a visão holística como
um paradigma que surge como resposta à crise global da consciência. Ela afirma que esta
transcorre nas mais diversas localidades do globo. A visão holística é produto de um saber e o
29

experenciar do novo paradigma holístico. É o surpreende encontro entre ciência e consciência.


(THOENING apud INTRODUÇÃO À VISÃO HOLÍSTICA, 1989, p. 15).
Dessa forma, surge uma nova racionalidade, um novo paradigma, que tem sido
denominado holístico do grego holos: todo, totalidade. (CREMA, 1989, p. 15).
Para Weil (1995), o paradigma holístico representa uma revolução científica e
epistemológica que emerge como resposta ao fragmentário e reducionista do antigo
paradigma. A visão holística tem como objetivo dissolver toda espécie de reducionismo como
o científico; somático; religioso; niilista; materialista; racionalista; mecanicista,
antropocêntrico etc.
Crema (1989) postula que as aplicações da abordagem holística estendem-se a todas as
esferas do saber, do atuar humano e da dimensão corpo-mente-espírito.
Como observou Japiassú (1975), quanto mais se desenvolvem as disciplinas do
conhecimento, diversificando-se, mais elas perdem o contato com a realidade humana. É
preciso buscar a totalidade do saber, única que possibilitará a promoção da humanidade.
Para Japiassú, (1975), o fenômeno interdisciplinar tem dupla origem, quais sejam, a
interna que se caracteriza pelo remanejamento geral do sistema das ciências que acompanha
seu progresso e sua organização e, a externa, que tem como característica a mobilização dos
saberes convergindo em vista de ação.
Crema (1989) afirma que a fase interdisciplinar, movida pela força holística, cria
progressivamente o que chamamos de interdisciplinas.
Piaget nos faz lembrar através de Weil (1989) que:

[...] no estágio das relações interdisciplinares, podemos esperar o aparecimento de


um estágio superior que seria transdisciplinar, que não se contentaria em atingir as
interações ou reciprocidades entre pesquisas especializadas, mas situaria essas
ligações no interior de um sistema total sem fronteiras estáveis entre as disciplinas.”
(WEIL, 1989, p. 30).

Edgar Morin (1921-) postula que o desenvolvimento da ciência ocidental, desde o


século XVII, não foi somente disciplinar, mas também um desenvolvimento transdiciplinar.
Não se pode falar de ciências, mas também, da Ciência, e afirmar que a Ciência jamais seria a
ciência se não fosse transdiciplinar. (MORIN apud RUMO À NOVA
TRANSDISCIPLINARIDADE, 1989, p. 32).
É imperioso diferenciar transdisciplinaridade e holística.
30

A transdisciplinaridade é aquela definida na Declaração de Veneza de 1986, da


Organização das Nações Unidas para a educação, a ciência e a cultura - UNESCO: a
axiomática comum entre ciência, filosofia, arte e tradição. (CREMA, 1989, p. 34).
Como a transdisciplinaridade inclui as tradições espirituais, esse fato leva à visão
holística através da abordagem holística, desde que praticada. O termo holístico é ligado a
uma força ou a um sistema energético, enquanto a transdisciplinaridade refere-se às
disciplinas do conhecimento científico, de acordo com Morin.
Levando-se em consideração o estudo da história da ciência, percebe-se que a ciência
não é um sistema de enunciados certos ou bem estabelecidos, nem é um sistema que avance
continuamente em direção a um estado de finalidade.

O velho ideal científico da episteme - do conhecimento absolutamente certo,


demonstrável – mostrou não passar de um “um ídolo”. A visão da ciência se trai a si
mesma na ânsia de estar correta, pois não é posse do conhecimento, da verdade
irrefutável, que faz o homem de ciência – o que o faz é a persistente e arrojada
procura da crítica da verdade. (POPPER, 1975, p. 305).

De acordo com Bronowski (1974), a verdade é o estímulo no centro da ciência; é


preciso ter o hábito da verdade, não como dogma, mas como processo. A discordância é a
marca da liberdade, tal como a originalidade é a marca da independência de espírito. Ninguém
pode ser um cientista, se não possuir independência de observação e de pensamento.
O Houaiss (2006), dicionário da língua portuguesa, sugere vários significados para o
verbo progredir, entre eles estão: fazer novas descobertas, inventar novas técnicas, evoluir,
avançar. Para o verbo evoluir, o mesmo dicionário propõe: passar por processo gradual de
evolução ou transformação; evolver, evolucionar.
Conclui-se que os dois vocábulos se mesclam em sentido, e a história da ciência é um
inexaurível campo de pesquisa que evolui e progride sob acepções diversas.
O poder é conferido a quem detém o conhecimento científico: os cientistas. Esses
podem dedicar-se unicamente ao desenvolvimento das teorias nas diferentes áreas de
conhecimento ou a paradigmas que orientam a atividade científica, relacionada ao sistema
social vigente, demonstrando que a produção científica insere-se no conjunto de interesses da
sociedade.
Observou-se que o positivismo criou o mito do cientificismo, a idéia de que esse
conhecimento é perfeito, e a discussão entre os cientistas e os filósofos da ciência permanece
porque não há certezas absolutas em relação à validade de nenhuma teoria científica.
31

E como Ian Stewart (1997) apropriadamente afirmou: a ciência deve ser ousada,
destruidora de imagens, autosuficiente, mas também, sedutora, fascinante e inovadora.
32

3 HISTÓRIA DA PSICOLOGIA

A palavra psique remonta a fontes antigas há vários milênios antes de Cristo. Nessa
época, ela em geral significava a força ou o espírito que animava o corpo ou veículo material.
(WILBER, 2000, p. 8).
O Microsoft Thesaurus conforme Wilber (2000) define psique como “eu”: alma,
espírito; subjetividade; eu superior, eu espiritual, espírito. (MICROSOFT THESAURUS apud
WILBER , 2000, p. 8).
No século XVI, psique foi conjugada a logos, que significa palavra ou estudo, para
formar psicologia: o estudo da alma ou do espírito, conforme aparecem nos seres humanos.
Não se sabe ao certo quem foi que a usou pela primeira vez.
Por volta de 1730, Wolff, na Alemanha, Hartley, na Inglaterra, Bonnet, na França,
todos usavam a psicologia com o significado que a New Princeton Review em 1888 a definia:
a ciência da psique ou da alma. (WILBER, 2000, p. 8).
Nos termos de Foucault (1999), o campo epistemológico que percorre as ciências
humanas não foi prescrito previamente, e nenhuma ciência empírica jamais encontrou nos
séculos XVII e XVIII alguma coisa como o homem; pois o homem não existia.
Conforme Japiassú (1976), as ciências humanas ingressaram na “era da positividade” a
partir de Dilthey que as chamou de “ciências do espírito” .
Japiassú (1976) cita que para Dilthey, a partir do momento em que as ciências
humanas existem como ciências, é inútil discutir sobre seu caráter de cientificidade em nome
de uma teoria preconcebida da ciência.
Sabe-se que, até o século XIX, o destino das ciências humanas estava vinculado ao
destino da filosofia.
Inicialmente, as ciências humanas estavam marcadas por uma mentalidade naturalista.
O homem era visto como ser vivo regido por leis biológicas. Era visto como ser que fala e que
institui uma civilização: a cultura.
Em seguida, a antropologia tendeu a considerar o homem, ao mesmo tempo, do ponto
de vista da natureza que o precede, que o cerca, que o subentende e, do ponto de vista da
ruptura que ele introduz, ultrapassando-a.
Isso contribuiu para que a filosofia passasse do estudo da consciência humana ao
estudo do intercâmbio entre a consciência e o mundo.
33

Devido à predominância do positivismo, o homem foi o objeto anexado pelas ciências


experimentais: o homem das ciências biológicas, sociológicas, psicológicas e históricas. E ele
não foi capaz de compor todas as fisionomias de homem esboçadas por cada uma das
disciplinas.
De acordo com Bernard (1974), a psicologia, como ciência, foi rejeitada pelos moldes
positivistas de Comte, e o veto deste pesou sobre a história da psicologia desde a metade do
século XIX até hoje, disseminando dúvidas sobre sua legitimidade de figurar como ciência ao
lado das matemáticas e das ciências da natureza.
Para Comte, a psicologia, considerada como metafísica, deve ser eliminada do
pensamento humano e a psicologia empírica, recambiada para o seio da psicologia animal.
(JAPIASSÚ, 1976, p. 78).
Comte recusava a observação interna ou introspecção, pois, para ele, a pretensa
contemplação direta do espírito pela própria pessoa não passa de pura ilusão. A ciência da
alma era para ele pura metafísica.
Focault (2002) afirma que foram necessárias novas normas impostas pela sociedade
industrial aos indivíduos para que, lentamente, no decurso do século XIX, a psicologia se
constituísse como ciência.
A Revolução Industrial trouxe ameaças que pesaram sobre o equilíbrio social,
atingindo a burguesia. Esse fato forçou o aparecimento de uma reflexão do tipo sociológica.
Dessa forma, era necessário que o conhecimento do homem despontasse com seu
escopo científico.
De acordo com Foucault (1999), a necessidade de interrogar o ser homem como
fundamento de todas as positividades não podia deixar de produzir um desequilíbrio: o
homem tornava-se aquilo que autoriza o questionamento de todo conhecimento do homem.
Permanece então o eterno debate entre as ciências que têm a pretensão de fundar as
ciências humanas, e estas que, sem cessar, são obrigadas a buscar seu próprio fundamento, a
justificação de seu método e a purificação de sua história.
Foucault (1999) afirma que, a partir do século XIX, o campo epistemológico se
fragmenta ou, antes, explode em direções diferentes.

Dificilmente se escapa ao prestígio das classificações e das hierarquias lineares à


maneira de Comte; mas buscar alinhar todos os saberes modernos a partir das
matemáticas é submeter ao ponto de vista único da objetividade do conhecimento a
questão da positividade dos saberes, de seu modo de ser, de seu enraizamento nessas
condições de possibilidade que lhes dá, na história, a um tempo, seu objeto e sua
forma. (FOUCAULT, 1999, p. 477).
34

Dessa forma, a psicologia científica, para Foucault (1999), nasce e se desenvolve por
ocasião das transformações científicas, técnicas, econômicas e políticas da sociedade
industrial.
Para Japiassú (1976), a psicologia é uma das mais influentes ciências humanas,
apresentando-se em diversas escolas.
Segundo Schultz e Schultz (1981), no curso da história da psicologia, desenvolveram-
se diferentes escolas de pensamento e, cada uma delas desempenhou um papel vital no
desenvolvimento da ciência psicológica.

O termo escola de pensamento refere-se a um grupo de psicólogos que se associam


ideologicamente e, algumas vezes, geograficamente com o líder de um movimento.
Geralmente, os membros de uma escola de pensamento compartilham da mesma
orientação sistemática e teórica e investigam problemas semelhantes. O surgimento
de várias escolas de pensamento, seu posterior declínio e a conseqüente substituição
por outras são características marcantes da psicologia. (SCHULTZ e SCHULTZ,
1981, p. 30).

Foi relatado no primeiro capítulo desta monografia, que o historiador americano da


física, Thomas Kuhn, salientou que uma das características-chave de sua teoria sobre as
revoluções científicas é a ênfase dada ao caráter revolucionário do progresso científico, em
que uma revolução implica o abandono de uma estrutura teórica e sua substituição por outra,
incompatível.
Schultz e Schultz citam Kuhn (1981), dizendo que o estágio do desenvolvimento de
uma ciência em que ela ainda se encontra dividida em escolas de pensamento tem sido
denominado estágio pré-paradigmático.

O estado mais maduro e mais avançado do desenvolvimento de uma ciência é


alcançado quando ela já não se caracteriza por escolas de pensamento, isto é, quando
a maioria dos membros dessa disciplina chega a um consenso acerca de questões
teóricas e metodológicas. Nesse estágio, um paradigma comum define todo o
campo, e deixam de haver facções concorrentes. (Kuhn apud SCHULTZ E
SCHULTZ, 1981, p. 30)

A psicologia ainda não atingiu o estágio paradigmático, de acordo com Schultz e


Schultz (1981), pois, durante os mais de cem anos de sua história, ela tem buscado, acolhido e
rejeitado diferentes definições, mas nenhum sistema ou ponto de vista individual conseguiu
unificar as várias posições.
35

Bernard (1974) cita Canguilhem: a psicologia científica do século XIX originou-se de


uma ruptura deliberada com uma filosofia espiritualista, sob a pressão e com o auxílio de uma
teoria positivista da ciência. (CANGUILHEM apud Bernard, 1974, p. 20).
Para demonstrar tal fato, faz-se necessário saber que a primeira obra de psicologia
experimental surgiu em 1860: Elemento de Psicofísica2 de Gustav Theodor Fechner, médico e
físico alemão, que consagrou a psicologia como ciência experimental e ciência no sentido
estrito, embora isso somente se oficializasse a partir do momento em que ela tornara-se
institucional. (BERNARD, 1974, p. 17).
Embora origine-se de preocupações filosóficas, esta obra rompia com a tradição da
psicologia filosófica, empregando, para o estudo dos fenômenos psíquicos, o mesmo método
das ciências da natureza e da vida.
Todavia, a consagração da psicologia como ciência foi somente no momento em que
ela se institucionalizou pelo lançamento, em 1862, por Wilhelm Wundt (1832/1920), de um
ensino cursivo de “A Psicologia do Ponto de Vista das Ciências Naturais”, concretizado pelo
lançamento, em 1873, do primeiro tratado de psicologia científica: Elementos de Psicologia
Fisiológica 3 e pela fundação do primeiro Instituto e Laboratório de psicologia em Leipzig,
Alemanha, em 1879. (BERNARD, 1974).
Japiassú (1976) ressalta que coube a Wundt desempenhar um papel decisivo para a
constituição da psicologia experimental. Ele foi o primeiro psicólogo na história da
psicologia.
Em seu ensino cursivo, Wundt também usou pela primeira vez o termo “Psicologia
Experimental”. Ao lado de “Elementos da Psicofísica” (1860), de Fechner, o livro é com
freqüência o marco do nascimento literário da nova ciência.
A psicologia de Wundt recorreu aos métodos experimentais das ciências naturais,
particularmente às técnicas usadas pelos fisiologistas, e a escola de pensamento a que Wundt
se situou foi o estruturalismo.
O estruturalismo foi a primeira posição sistemática ou escola de pensamento da
psicologia, que consiste na análise da consciência em partes separadas com o objetivo de se
descobrir a estrutura da consciência.
Conforme Capra (1982), Wundt permaneceu durante quatro décadas a figura mais
importante da psicologia científica.

2
Elemente der Psycohophsik
3
Grundzüge der Physiologischen Psychologie
36

O objeto de estudo da psicologia de Wundt era a consciência, cuja concepção inclui


muitas partes ou características distintas e pode ser estudada pelo método da análise ou
redução.
Como a psicologia de Wundt é a ciência da experiência consciente, o método
psicológico deve envolver a observação dessa experiência através da introspecção,
denominada por ele como percepção interior. O uso da introspecção não foi um método
inventado por Wundt, ele remonta a Sócrates. A inovação de Wundt foi a aplicação do
controle experimental preciso às condições da introspecção.
O emprego da introspecção na psicologia veio da física, onde o método tinha sido
utilizado para estudar a luz e o som, e da fisiologia, em que fora aplicado ao estudo dos
órgãos dos sentidos.
Os estruturalistas estudaram a mente através da introspecção e tentaram analisar a
consciência em seus elementos básicos, contribuindo bastante com a psicologia moderna.
Vale saber que na atualidade ainda vigora o relato verbal da experiência, a partir da
introspecção, como modelo utilizado nas psicoterapias.
Outra escola de pensamento da psicologia foi o funcionalismo.
A psicologia funcional interessa-se pelo funcionamento da mente ou como ela é usada
na adaptação do organismo em seu meio ambiente. Os funcionalistas não se opuseram à
introspecção, nem contestaram o estudo experimental da consciência, mas se opuseram à
definição de psicologia dos estruturalistas, que excluía qualquer consideração das funções
úteis e práticas da mente, as atividades ou operações em curso da consciência.
Vale saber que de acordo com Schultz e Schultz (1981), o funcionalismo teve William
James (1842-1910) como seu expoente. Ele privilegiava os aspectos funcionais da
consciência, buscando compreender o que fazem os homens e o por que o fazem.
Para Saldanha (1997), James definiu a psicologia como sendo a descrição e
explanação sobre estados de consciência. O mundo usual da consciência de vigília era apenas
um dos estados do mundo da consciência. Sob certas condições, esses diferentes estados
poderiam unir-se e dali emergirem energias mais elevadas.
Ele afirmava que a mente possui um manancial de possibilidades inimagináveis e
repletos de potencialidades. Estabeleceu, assim, critérios para a constatação das diferentes
manifestações da consciência, como experiências místicas e manifestações paranormais.
Esse critérios são: a inefabilidade: as palavras são limitadas para descrever a dimensão
da experiência; o caráter noético: há uma convicção inabalável do sentido de realidade para o
sujeito que teve a experiência; ausência do medo da morte e a mudança posterior de valores
37

para valores mais éticos, voltadas para a evolução de todos os seres. (SALDANHA, 1997, p.
22).
James considerou que a psicologia teria como objetivo o estudo da adaptação do
homem ao ambiente e enfatizava o pragmatismo.
É importante ressaltar que no decorrer do século XIX, muitos psicólogos pensavam
como Comte, retendo dele o anátema lançado contra as psicologias metafísicas, travestidas,
graças à introspecção, em psicologias pseudo-empíricas.
Nesta perspectiva, desenvolveram-se a partir de 1850, os estudos de psicologia
experimental. As pesquisas de Weber, Fechner e Helmholtz culminam com Wundt na
constituição da psicologia experimental como disciplina realmente independente.
A partir de 1860, a psicologia organiza sua aparelhagem e durante alguns decênios não
pára de progredir nos moldes positivistas até a época do behaviorismo, embora os psicólogos
não compreendessem a significação do “veto positivista”, interditando a constituição de uma
psicologia fundada sobre a observação interna. (JAPIASSÚ, 1976, p. 80)
Ribot e Binet foram os autores que caracterizam o período da psicologia pós-comtiana
e anterior ao surgimento do behaviorismo propriamente dito.

Quanto ao método a ser empregado pela psicologia, Ribot diz que ele consiste na
reflexão e na observação interior. Contrariando Comte e fisiologistas da época,
Ribot acredita que, em psicologia, nada pode substituir o testemunho da consciência.
Embora a reflexão por si só seja incapaz de nos fazer penetrar no espírito do outro,
mostrando a necessidade de se fazer um apelo à observação exterior. Por isso, o
método da psicologia deverá ser ao mesmo tempo subjetivo e objetivo, sendo
aspectos complementares de um mesmo método. (JAPIASSÚ,1976, p. 83).

Ribot concebe o método de observação do comportamento exterior, interpretado à luz


da observação interna e introspectiva do fato mental, que fornece ao psicólogo o princípio e
os meios de sua interpretação.
Mas, ainda o problema epistemológico da psicologia continua e, Binet tenta resolvê-lo
através da mediação da linguagem e de seu papel em psicologia.
Foi somente depois de Binet que o método psicológico conseguiu ascender a um certo
estatuto científico quando este não limita seu estudo ao problema da introspecção,
interessando-se pela questão da mediação expressiva do próprio fato mental pela questão da
linguagem.
Com a prática dos relatórios comparados de introspecções individuais ou das respostas
aos questionários sistematicamente organizados, Binet tabula o conjunto das tarefas
inteligentes que o sujeito executa com maior êxito.
38

O sistema de testes Binet-Simon destinado à avaliação do grau da inteligência e da


idade mental dos escolares, continua a ser praticado até hoje.
Conforme Capra (1982), é importante recordar que, do mesmo modo que a biologia e
a medicina, a psicologia foi moldada pelo paradigma cartesiano.
Enquanto organismo material, o corpo é reduzido a uma máquina que não exige
explicação do funcionamento biológico e vegetativo do corpo, senão aquilo que serve para
fornecer uma explicação do comportamento físico-mecânico do universo. (JAPIASSÚ, 1976,
p. 24).
Os psicólogos adotaram, como Descartes, a divisão estrita entre a res cogitan e a res
extensa, substância pensante e substância material, o que lhes dificultou extremamente
entender como a mente e o corpo interagem mutuamente.
Essa divisão fez com que o corpo humano, perecível, fosse estudado por um método
diferente, ou seja, pelas ciências naturais. E a alma ou mente, indestrutível, deveria ser
estudada por introspecção, ou seja, o exame do próprio estado mental.
Os behavioristas concentraram-se exclusivamente no estudo do comportamento, e
assim foram levados a ignorar ou negar a existência pura e simples da mente.
Para ser ciência, a psicologia behaviorista teve que aceitar pelo menos o princípio do
veto positivista à introspecção, a fim de que, em seguida, poder definir um campo de
aplicação legítimo para os métodos científicos comprovados.
Surge então uma escola psicológica, denominada 1ª força em psicologia por Abraham
H. Maslow, o behaviorismo, que se propôs, como objetivo essencial, proscrever toda e
qualquer referência à consciência, para ater-se única e exclusivamente ao comportamento
exterior observável.
Para adquirir o estatuto científico, a psicologia, como qualquer outra ciência, visa
exclusivamente fazer uma análise sobre os fatos observáveis.
Piaget afirma, conforme Japiassú (1976), que foi no confronto entre o
introspeccionismo e o behaviorismo que a psicologia científica marca sua linha divisória.
(PIAGET apud JAPIASSÚ, 1976).
De acordo com Japiassú (1976), o behaviorismo visa à proscrição absoluta e radical de
todo uso da observação interna e de todo apelo direto ou indireto ao conhecimento fornecido
por ela.
Para o behaviorismo, a observação interna não existe e, essa primeira força em
psicologia condena todas as psicologias pseudocientíficas, ou seja, as de Wundt, Ribot e
Binet.
39

O behaviorismo surgiu nos Estados Unidos da América, no século XX, com John
Broadus Watson (1878-1958), psicólogo norte-americano, que acreditava que analisando
determinados comportamentos dos animais seria possível compreender determinados
comportamentos humanos. (SCHULTZ E SCHULTZ, 1981, p. 233).
Watson utilizou métodos de investigação em seu laboratório como a observação, com
e sem o uso de instrumentos; os métodos de teste; o método do relato verbal e o método do
reflexo condicionado.
Ivan Petrovitch Pavlov (1849-1936), fisiologista russo, famoso por suas descobertas
acerca dos reflexos condicionados e Burrhus Frederic Skinner (1904-1990), psicólogo norte-
americano foram os que contribuíram para o desenvolvimento e pesquisa dessa teoria.
(SCHULTZ e SCHULTZ, 1981, p. 222).
Conforme Figueiredo e Santi (2003), outra escola psicológica surgiu no início do
século XX com o nome de psicologia da gestalt, cujo método consiste na descrição dos
fenômenos da percepção e memória tais como aparecem na consciência antes de serem
analisados.
De acordo com Shultz e Shultz (1981), os gestaltistas acreditavam que a psicologia
deveria abordar a consciência a partir da perspectiva da totalidade.
Seus fundadores foram M. Wetheimer (1880-1967), Koffka (1886-1941) e W. Köhler
(1887-1967). O conceito de “gestalt” permite unificar todas as ciências físicas, biológicas e da
cultura, de forma que a psicologia não precisa repartir-se entre elas para existir.
De acordo com Saldanha (1997), a rapidez com que se seguiram os avanços na
psicologia fez emergir, através de Sigmund Freud, a segunda grande força no campo dos
estudos mentais, a psicanálise.
Segundo Schultz e Schultz (1981), num curso de tempo mais ou menos paralelo,
embora sem analogia quanto ao objeto de estudo, aos métodos ou aos objetivos, a psicanálise
decorreu da reflexão filosófica sobre a natureza do inconsciente e das tentativas da psiquiatria
no sentido de tratar dos doentes mentais.
É importante saber que a psicanálise perpassa por entre as escolas de pensamento
estruturalista e funcionalista, ou seja, não havia vínculos de discordância ou concordância
entre Freud e essas escolas.
Freud cria o conceito de inconsciente para dizer daquilo que é fundamental na
subjetividade humana e que não pode ser observado pelos métodos da ciência positivista.
Schultz e Schultz (1981) escrevem que, para se viabilizar a psicanálise como ciência
nos moldes positivistas, vários conceitos de Freud foram submetidos a testes experimentais
40

que obtiveram resultados questionáveis. Isso ocorreu entre as décadas de 1930 e 1940 e, anos
mais tarde, foi realizada uma pesquisa de maior valor, comprovando que nem tudo pesquisado
confirma a teoria psicanalítica como ciência positivista.
Figueiredo e Santi (2003) confirmam que Freud define o inconsciente como o objeto
da psicanálise, o que seria um contra-senso do ponto de vista positivista: o inconsciente por
definição não é um fenômeno positivo no sentido de que “dado diretamente à observação”.
De acordo com Saldanha (1997), Freud teve inúmeros seguidores, sendo que seus
conceitos são amplamente aceitos e dão suporte às outras escolas da psicologia que se
desenvolveram a partir da psicanálise.
Mas também, ressalta-se que Freud teve dissidentes que procuraram evidenciar outros
aspectos da psique. Entre eles, Carl Gustav Jung (1875-1961), que afirmou que além do
inconsciente pessoal, havia também o inconsciente coletivo atuando e influenciando na
manifestação da personalidade do indivíduo.
Jung foi quem resgatou o sentimento do sagrado de um ponto de vista científico, ao
formular o conceito de arquétipo central ou self, responsável na mente pela representação da
totalidade, tanto através da imagem de Deus, quanto da imagem do Universo da física teórica.
(BYINGTON apud COLEÇÃO MEMÓRIA DA PSICANÁLISE, [200 - ?], p. 8).
O conceito de arquétipo de Jung propiciou a abertura dos estudos das culturas antigas
da Índia, da China, do Tibete e do Japão para a psicologia do Ocidente. (BYINGTON apud
COLEÇÃO MEMÓRIA DA PSICANÁLISE, [200 - ?], p. 13).
Sua descoberta reuniu a emoção e a razão na busca da totalidade, característica do
fenômeno humano em todas as expressões da cultura.
É importante ressaltar que o humanismo junguiano transcende permanentemente a
unilateralidade para vivenciar a dualidade na unidade.
Jung foi quem levou em conta as questões sociais da “era traumática englobada na
modernidade industrial” que trouxeram novas doenças da alma. O indivíduo moderno vivia
um fragmento de si mesmo aderido à cultura coletiva, tornando-se frágil e incapaz de pensar
por si próprio. (MARONI apud COLEÇÃO MEMÓRIA DA PSICANÁLISE, [200 - ?], p.
30).
Jacob Levy Moreno (1889-1974) foi outro autor a contestar Freud, Saldanha (1997)
relata, ao afirmar que Freud cometeu um grande erro ao misturar a idéia da divindade com a
imagem do pai na família humana, num referencial antropomórfico de Deus. (MORENO
apud SALDANHA, 1997, p. 27).
41

Moreno foi o criador da psicoterapia de grupo, do psicodrama, sociodrama, sociatria, e


sociometria usadas nas dinâmicas de grupos.
Esse autor veio integrar a filosofia humanista com a arte de corporificar as emoções,
onde focalizava o homem como um ser biopsicossocial e cósmico. Ele era contrário às
religiões instituídas, mas dizia haver uma natureza religiosa no homem e, desconsiderar a
religiosidade natural do ser é tirar-lhe a esperança e a possibilidade de cura. (SALDANHA,
1997, p. 27).
De acordo com Maslow [196 - ?], as duas teorias da natureza que mais influenciaram a
psicologia até meados do século XX foram a freudiana e a experimental-positivista-
behaviorista. Todas as outras teorias são menos abrangentes e os seus adeptos formaram
numerosos grupos dissidentes e minoritários.
De acordo com Saldanha (1997), entre os anos 50 e 70, a ciência cognitiva evoluiu e
colocou à margem os fatores afetivos e emocionais. Contudo, os humanistas reagiram à essa
visão ao considerar a emoção inerente e fundamental no ser humano.
Eles se juntaram rapidamente numa terceira, cada vez mais abrangente, teoria da
natureza humana, conhecida como “Terceira Força”.
Dessa forma, a 3ª Força da Psicologia, Psicologia Humanista, surge de um movimento
de várias teorias e autores, como e Carl Rogers (1902-1987) e Abraham Maslow (1908-1970),
psicólogos norte-americanos, sendo o primeiro considerado seu representante.
Maslow e Anthony Sutich (1907-1976) foram os fundadores da Associação de
Psicologia Humanista, escola denominada por 3ª Força da Psicologia. (GROF, 1987, p. 13).
Abraham H. Maslow defendia a psicanálise como o melhor sistema de compreensão
psicopatológica disponível na época, mas via o sistema psicanalítico bastante limitado para o
entendimento total do comportamento e pensamento humanos. (SALDANHA, 1997, p. 29).
Maslow declarava, conforme Saldanha (1997), que sem o transcendente o homem
adoeceria, violento e niilista, vazio de esperança. (MASLOW apud SALDANHA, p. 29).
Carl Rogers, de acordo com Schwartzman (1986), estabelece a marca diferenciadora
de sua teoria em oposição à psicanálise. Para a Psicologia Humanista, o foco é o cliente, o
objetivo é o estudo do fenômeno psíquico e, o método clínico, a não-diretividade do terapeuta.
(SCHWARTZMAN apud JORNAL BRASILEIRO DE PSIQUIATRIA, 1986, vol. 35 nº 3).
De acordo com Schwartzman (1986), os conceitos da teoria rogeriana são o de
organismo e self. O primeiro representando o conjunto das tendências espontâneas de cada um
em direção ao melhor desenvolvimento de suas potencialidades e, o segundo, a compreensão
42

que cada indivíduo tem de si próprio. (Schwartzman apud Jornal Brasileiro de Psiquiatria,
1986, vol. 35, nº 3).
O sofrimento emocional, para Rogers, é entendido como decorrente das discrepâncias
entre organismo e self.
Focalizando as divergências, de acordo com Figueiredo e Santi (2003), em Freud, não
há lugar para se pensar num self, num “eu” verdadeiro ou numa natureza íntima.
Em elaboração posterior, os primeiros princípios normativos da práxis terapêutica de
Rogers sofisticam-se, colocando-se em primeiro plano não mais a questão da diretividade do
cliente, mas a centralidade da pessoa do cliente no processo terapêutico.

Ele formula seus primeiros postulados em nível da teoria da técnica, em oposição


àquilo que seria diretivo na interpretação psicanalítica. Sua abordagem denomina-se
terapia centrada no cliente. “Num terceiro momento, faz-se a inserção, no trabalho já
então amplamente difundido, dessa teoria da prática clínica, de princípios filosóficos
advindos da filosofia existencial e a denominação de psicoterapia existencial passa a
predominar” (JORNAL BRASILEIRO DE PSIQUIATRIA, 1986).

Vale ressaltar que Maslow e Anthony Sutich, mesmo tendo sido bem recebidos nos
meios intelectuais da psicologia humanista, sentiam a falta do aspecto espiritual entre
organismo e self.
É importante saber que conforme Capra (1982), em nível existencial, o dualismo entre
corpo e mente foi superado, mas dois outros dualismos subsistem: o dualismo sujeito versus
objeto, ou self versus “o outro”, e o de vida versus morte. As questões e os problemas
decorrentes desses dualismos são uma importante preocupação das psicologias existenciais .
De acordo com Wilber (1977), com o despertar do conhecimento simbólico, parece
ter surgido uma cisão no universo entre o conhecedor e o conhecido, o pensador e o
pensamento, o sujeito e o objeto; e a consciência mais íntima do ser, conhecedora do mundo
externo, escapa do próprio domínio e continua como o desconhecido, o não mostrado e o
indominável.
A resolução da questão do dualismo sujeito versus objeto requer um estado mental em
que os problemas existenciais individuais sejam percebidos em seu contexto cósmico. Tal
percepção surge em nível transpessoal da consciência. (CAPRA, 1982, p. 362).
Ao tomarem contato com as idéias sobre os aspectos alterados da consciência e
estruturas diferentes, como o estado de vigília de Stanislav Grof (1931-), Maslow e Sutich
tornam-se dissidentes da escola humanista, juntam-se a este e fundam, em 1967, a Psicologia
Transpessoal, chamada por eles de a 4ª Força em Psicologia.
43

Essa nova visão científica começou sua evolução surgindo na década de 60,
impulsionada pelos trabalhos de Jung, Maslow, Roberto Assagioli, Antony Sutich, Stanislav
Grof, Ken Wilber, Pierre Weil entre outros.
Saldanha (1997) afirma que a visão de mundo, na transpessoal, é a de um todo
integrado, em harmonia, onde tudo é energia, formando uma rede de inter-relações de todos
os sistemas existentes no Universo.
Para Capra (1982), o nível transpessoal é o nível do inconsciente coletivo e dos
fenômenos que lhe estão associados, tal como são descritos na psicologia junguiana. É uma
forma de consciência em que o indivíduo se sente vinculado ao cosmo como um todo e pode,
assim, ser identificado com o conceito tradicional de espírito humano.
De acordo com Weil (2003), historicamente, diferentes definições vêm sendo dadas à
Psicologia Transpessoal. A expressão transpessoal significa “além da pessoa” e, pode-se
dizer, genericamente, que ela estuda os estados de consciência, lidando mais especialmente
com a “experiência cósmica” ou os estados ditos “superiores” ou “ampliados de consciência”.
Segundo Saldanha (1997), essa nova ciência tem um caráter transdisciplinar
encontrando ligações com a física quântica e relativista; nas observações de Max Planch,
Albert Einstein, Fritjof Capra e David Bohm, com a teoria dos sistemas de informação; com
os estudos das estruturas dissipativas de Ilya Prigogine, com os campos morfogenéticos do
biólogo Rupert Sheldrake e com os estudos em neonatologia, embriologia, genética e
psiconeuorimunologia.
Sabe-se que no seio da sociedade ocidental, há uma associação direta entre o
materialismo e a ciência, e tudo que concerne ao Espírito é atribuído como sendo uma esfera
de abordagem da religião.
É preciso fazer uma diferenciação entre o espiritual e o religioso, porque a
incompatibilidade que se julgou existir entre essas duas ordens de idéias provém de uma
observação defeituosa de que a ciência fez uso para fugir da superstição e do poder religioso.
De acordo com Rank ((1961), no século XIX, os cientistas quiseram fazer a vida
interior do homem uma área sem mistério e sujeita às leis da causalidade. Foram abandonando
gradativamente a palavra “alma” e começando a falar do “eu”, a estudar como esse eu se
desenvolve no relacionamento inicial da criança com a mãe. (RANK apud BECKER, 218).
A Quarta força da Psicologia surge no sentido de apresentar o paradigma holístico-
transpessoal, que vai ao encontro do vazio existencial no qual a civilização ocidental
encontra-se atualmente, que nasce do distanciamento da própria espiritualidade que foi
lançada pelo paradigma materialista.
44

De acordo com Japiassú (1976), toda psicologia que não leve em conta o homem
como presença no mundo, como subjetividade, como um existente cujo sentido precisa ser
manifestado, só pode ignorar o homem. Conclui-se que haverá tantas psicologias quantas as
perspectivas sobre o homem.
Como a psicologia está sempre sendo tentada a ir além da experiência imediata,
conforme Figueiredo e Santi afirmam (2003), a atualidade pode assistir ao nascimento da
Psicologia Integral, criada por Ken Earl Wilber Jr. (31/01/1949), nascido em Oklahoma
(EUA).
Nesse sentido, conforme Capra (1982), Wilber elabora uma proposta que unifica
numerosas abordagens, ocidentais e orientais, num espectro de modelos e teorias psicológicas
que reflete o espectro da consciência humana. Para ele, os níveis associados a correspondentes
níveis de psicoterapia são: o nível do ego, o biossocial, o existencial e o transpessoal.
O nível transpessoal está localizado na extremidade do espectro da consciência onde
as faixas transpessoais fundem-se no nível do Espírito. É o nível da consciência cósmica, em
que a pessoa se identifica com o universo inteiro.
Embora as tradições místicas e espirituais estejam cônscias dos outros níveis e os
tenham mapeado em grandes detalhes, elas sempre enfatizaram que as identidades associadas
a todos os níveis de consciência são ilusórias, exceto quando se trata do nível final do
Espírito, onde a pessoa encontra sua identidade suprema.
Wilber (1977) assevera que nas faixas transpessoais encontram-se as ocorrências
percepção extra-sensorial da clarividência e da clauriaudiência. Nelas pode-se reviver “vidas
passadas” ou a mente projetar-se em ocorrências futuras. Acontece que o estudo dessas faixas
apavora a maioria das pessoas; a psiquiatria as considera como sinais de uma psique
conturbada.
É interessante saber que, mesmo sendo considerado um fundador da escola da
Psicologia Transpessoal, Wilber se dissociou dela. Em 1998, ele fundou o Integral Institute,
organização que reúne os inúmeros pensamentos nas questões sobre a ciência e a sociedade de
maneira integral.
O jornal alemão Die Welt em 4 de janeiro de 1997, declarou Wilber como "o maior
pensador no campo da evolução da consciência". Segundo muitos formadores de opinião em
filosofia, psicologia e espiritualidade, Wilber seria o maior filósofo da atualidade, ainda não
compreendido em seu tempo, uma vez que desenvolve estruturas e idéias que, quando
reconhecidas e aplicadas, tendem a ampliar a futura visão de mundo, ciência e religião em um
novo paradigma "integral". (http://pt.wikipedia.org/wiki/Ken_Wilber ).
45

De acordo com Schultz e Schultz (1981), a história da psicologia desvela que, quando
um movimento se formaliza numa escola, ganha um impulso que só pode ser sustado seu
próprio êxito em derrubar a posição estabelecida. Tal fato pôde ser mostrado neste capítulo.
Esse é o progresso constante de qualquer ciência, ou seja, uma busca de níveis cada vez mais
altos de desenvolvimento em contínuo crescimento.
Sendo assim, como Saldanha (2008) assevera, foi necessário um tempo de
amadurecimento da própria psicologia a fim de que a Psicologia Transpessoal pudesse
manifestar-se, trazendo uma dimensão espiritual como parte inerente ao ser humano.
(http://www.alubrat.org. br/artigo_transpessoal.pdf).
46

4 A PSICOLOGIA TRANSPESSOAL

Neste início do século XXI, presenciam-se exatamente as inquietações de Abraham


Maslow, que teve papel central no surgimento da Psicologia Transpessoal, as quais, no final
dos anos quarenta, giravam em torno da questão de como seria o mundo no ano 2000.
Garcia e Saldanha (2008) referem-se às previsões assertivas de Maslow sobre uma
sociedade altamente tecnológica, industrializada, modernizada e com capacidade bélica de
destruição em massa. Maslow afirmava que a destrutividade é uma reação violenta do homem
contra a frustração de suas necessidades, emoções e capacidades.
Passaram-se quase setenta anos e Leloup (2008), PhD em Psicologia, filósofo e
dominicano afirma que não há oposição entre o que é interior e o que é exterior, porque o
exterior mostra o interior do indivíduo. Ouve-se o ruído das torres desmoronando, mas não se
escuta a consciência que desperta. (LELOUP apud www.alubrat.org.br/artigos.php).
Maslow [196 -?], referiu-se em sua obra Introdução à Psicologia do Ser que estava
surgindo uma Psicologia da Saúde que proporcionaria mais possibilidades para controlar e
aperfeiçoar a vida e fazer do ser humano uma pessoa melhor.
Os pressupostos desta nova psicologia estão baseados no fato de que cada um de nós
tem uma natureza interna essencial, biologicamente alicerçada, a qual é, em certa medida,
“natural”, intrínseca, dada e, num certo sentido limitado, invariável, ou pelo menos invariante.
Essa natureza interna não é forte, preponderante e inconfundível, como os instintos
dos animais. É frágil, delicada, sutil e facilmente vencida pelo hábito, pela pressão cultural e
pelas atitudes errôneas em relação a ela. [...] Ainda que negada, persiste subjacente e para
sempre, pressionando no sentido da individuação. (MASLOW, [196 - ?], p. 27).
Cabe mencionar que a espiritualidade no sentido transpessoal significa a busca da
essência interior, porque de acordo com Maslow (196 - ?], se esse núcleo essencial da pessoa
for negado ou suprimido, ela adoece de maneira óbvia, sutil, às vezes imediatamente ou mais
tarde. Como seria de esperar, essa investigação interior constitui uma necessidade de todo ser
humano. Esse é o grande papel da psicologia transpessoal, buscar a essência interior.
Em virtude de seus estudos e pesquisas, Maslow acreditava que todas as barreiras da
comunicação, mesmo em grande escala, tinham sido geradas por falta de comunicação dentro
do próprio indivíduo. Quando não se propicia uma interlocução para os aspectos mais
sombrios e mais elevados do inconsciente, inúmeras barreiras são criadas para o
47

desenvolvimento saudável dentro do próprio indivíduo. (MASLOW apud SALDANHA,


2008, p. 3).
Maslow retrata que o ser humano possui uma consciência intrínseca que se baseia na
percepção inconsciente da própria natureza humana, do seu destino e das próprias
capacidades.
Essa consciência intrínseca insiste em que se deve ser fiel à natureza íntima sem
renegá-la por qualquer razão. Aquele que não acredita em seu próprio talento percebe que de
uma forma profunda fez mal a si próprio e se despreza por isso.
No hiato entre o que o homem é e o que gostaria de ser, à primeira vista, pode parecer
um problema de identidade. Há situações em que esse hiato pode ser superado como nos
testes projetivos e nas várias experiências culminantes em que a pessoa se sente no auge de
seus poderes, usando todas suas capacidades e de forma mais completa.
Ao se referir às experiências culminantes ou transcendentes, de júbilo ou êxtase, que
independem da pessoa estar ou não ligada à religião, Maslow revela que naquele momento
testemunhava-se uma expansão da psicologia.
Maslow se refere à teoria do instinto ou teoria as necessidades básicas e como o
homem é exortado a ser fiel à sua própria natureza, a ser autêntico e a procurar as fontes da
sua ação em sua natureza íntima e profunda. (MASLOW, [196 - ?], p. 194).
Ele cria o vocábulo “instintóide” para pontuar a dimensão superior que favorece a
emergência de valores positivos sem os quais as pessoas se tornam fechadas a novas
possibilidades. (MASLOW apud GARCIA e SALDANHA, 2008, p.3).
O fato da pessoa ter passado pelas experiências culminantes faz com que ela mude de
valores e se torne mais autêntica, fazendo a ponte entre o interno e o externo, implicando
numa autotransformação e, por conseguinte, numa nova relação com as pessoas com quem
convive diretamente e com a sociedade em geral. Ela não só se transcende de vários modos
como transcende também a sua cultura, resistindo à enculturação. (MASLOW, [196 - ?], p.
38).
Maslow afirma que a normopatia, ou seja, a patologia em que o indivíduo nega a
própria essência, passa a ser a norma vigente. Perde-se o sentido do “sagrado” em níveis
pessoal e social. (MASLOW apud GARCIA e SALDANHA, 2008, p. 3)
A dimensão superior ínsita no ser é sagrada, mas não se restringe à identidade pessoal,
vai “além” e “através” dela em suas relações. É a dimensão transpessoal.
Ao tomarem contato com as idéias sobre os aspectos alterados da consciência e
estruturas diferentes, como o estado de vigília de Stanislav Grof (1931-), Maslow e Sutich
48

tornam-se dissidentes da escola humanista, juntam-se a este e fundam, em 1967, a Psicologia


Transpessoal, chamada por eles de a 4ª Força em Psicologia.
A 4ª força foi lançada oficialmente em 1968 e Maslow, no prefácio da segunda edição
de seu livro Introdução à Psicologia do Ser [196 - ?], assim se expressa:

Devo também dizer que considero a psicologia humanista, ou Terceira Força em


psicologia, apenas transitória, uma preparação para uma Quarta Psicologia ainda
“mais elevada”, transpessoal, transumana, centrada mais no cosmos do que nas
necessidades e interesses humanos, indo além do humanismo, da identidade e da
individuação. [...]. Necessitamos de algo “maior do que somos (MASLOW, [196 -
?], p.12 ).

Essa nova visão científica começou sua evolução surgindo na década de 60,
impulsionada pelos trabalhos de Jung, Maslow, Roberto Assagioli, Antony Sutich, Stanislav
Grof, Ken Wilber, Pierre Weil entre outros.
De acordo com Weil (1992), em 1969, surge a primeira revista anunciando ao mesmo
tempo o início da revolução transpessoal e a criação da Associação de Psicologia
Transpessoal dos Estados Unidos.
Inúmeros fatores precederam essa revolução e constituíram sua origem, sendo um
deles o progresso dos meios de comunicação que trouxe para o Ocidente o conhecimento dos
grandes mestres do Oriente, cujas escolas possuem metodologias de transmissão de
experiências que permaneceram intactas.
De acordo com Weil (1992), historicamente, diferentes definições vêm sendo dadas à
Psicologia Transpessoal. Genericamente ela trata do estudo de um estado de consciência em
que se dissolve a aparente fronteira entre o “eu” e o mundo exterior, em que desaparece o que
chamamos de pessoa e surge uma vivência que está além.
Para Saldanha (1997), a Psicologia Transpessoal é definida como o estudo e a
aplicação dos diferentes níveis de consciência em direção à unidade fundamental do Ser. Ela
favorece ao indivíduo a vivência da plena luz, de onde emerge o ser integral, vivenciando um
estado de mente mais lúcido, desperto.
A expressão transpessoal significa “além da pessoa” e, pode-se dizer que ela estuda os
estados de consciência, lidando mais especialmente com a “experiência cósmica” ou os
estados ditos “superiores” ou “ampliados de consciência”.
Segundo Saldanha (1997), essa nova ciência tem um caráter transdisciplinar
encontrando ligações com a física quântica e relativista; nas observações de Planch, Einstein,
49

Capra e Bohm, com a teoria dos sistemas de informação; com os estudos das estruturas
dissipativas de Prigogine, com os campos morfogenéticos do biólogo Sheldrake.
Também há ligações da Transpessoal com os estudos em neonatologia, embriologia,
genética e psiconeuroimunologia.
Conforme Weil (1992), a abertura transpessoal leva fatalmente a uma visão global e
integrativa de todas as disciplinas do conhecimento, evidenciando o espírito holístico que
domina atualmente o movimento transpessoal, no qual físicos, médicos, psicólogos, mestres
de Ioga, filósofos, líderes de escolas místicas, entre outros, trocam suas experiências e
aprendem uns com os outros.
Saldanha (1997) afirma que a visão de mundo, na transpessoal, é a de um todo
integrado, em harmonia, onde tudo é energia, formando uma rede de inter-relações de todos
os sistemas existentes no Universo.
Weil (1992) distingue quatro principais etapas na história da Psicologia
Transpessoal: a fase mística, a fase dos precursores, a fase transpessoal e a fase holística.
1) A fase mística engloba na Índia, os textos sagrados como os dos Vedas, Bhagavad
Gita, os Upanischads, os aforismos de Patanjali. Os sutras e textos tântricos hinduístas ou
budistas que contêm várias descrições da iluminação e dos caminhos obtidos graças à Ioga.
Na civilização judaico-cristã, a Bíblia contém inúmeras descrições de estados
místicos. Cristo referiu-se ao reino dos céus, prenunciando a existência de um potencial
contido no ser humano e capaz de provocar transformação interior e iluminação.
Conhecimentos dos egípcios, sumerianos, helênicos, romanos, e também do Islã que
tiveram seus místicos englobam-se nessa fase.
A Cabala judaica e os hassidims de onde provêm o Rosa Cruz de diferentes
tendências, a Teosofia de Madame Blavatsky e a Antroposofia de Rudolp Steiner incluem-se
nessa fase.
2) A fase dos precursores açambarca o estudo comparativo da experiência mística
feita por William James a si próprio.
A R. M. Bucke, psiquiatra canadense, publicou em 1900 um estudo de 43
depoimentos em seu livro Cosmic Consciousness, trazendo à luz traços diferentes desse
fenômeno como: a experiência da iluminação dita subjetiva, o êxtase, as revelações, o
sentimento de imortalidade, a perda do medo da morte, a perda do sentimento de pecado, o
caráter súbito da entrada nessa vivência e alguns dados pessoais, o caráter carismático
posterior e a transfiguração.
50

Jung foi o primeiro psiquiatra a realizar um seminário sobre os centros energéticos da


Ioga, chamados de chakras.
Vale saber que, de acordo com a ciência oriental do Ioga, cada chakra representa um
centro de consciência, de certa forma uma especialidade consciencial dominante que,
holograficamente, contém todos os demais.
De acordo com essa milenar tradição, o Corpo Cósmico, como um organismo vivo
universal, possui sete chakras. Do mesmo modo que o ar é soprado através dos sete orifícios
de uma flauta para ecoar como melodia, o Sopro ou Espírito Santo manifesta-se através dos
sete chakras. ( WEIL, D’AMBROSIO e CREMA, 1993, p. 155).
A palavra Ioga significa união de Jivatma e Paramatma, ou seja, união do indivíduo
com o cosmo, da parte com o todo. Ela é uma escola de psicoterapia ocidental que se utiliza
do conceito dos centros energéticos para explicar o funcionamento energético do ser.
Weil (1992) salienta que a Ioga, através dos chakras, demonstra os diferentes níveis
em que a energia humana circula normalmente e como ela pode ser bloqueada pelo excesso de
perda.
Cada chakra corresponde a uma ramificação de canais de natureza energética dos
quais se encontra correspondentes na acupuntura. A energia circula nesses canais
transformando os programas vitais, psíquicos e mentais. Essa energia inteligente é
denominada em sânscrito por kundalini shakti.
Partindo desse especial modo de compreensão, os chakras representam uma intrínseca
e inata equipe transdisciplinar, em nível intrapessoal e cada um corresponde a uma função
psicológica precisa e o que se pode chamar de finalidade intrínseca. (WEIL, 1992, p. 39).
Os três primeiros centros são aqueles propícios ao desenvolvimento do
comportamento egocêntrico. São eles exacerbados pela sociedade de consumo. Correspondem
às escolas de Pavlov-Sknner, Freud e Adler, baseadas em seus conceitos em termos de
correspondência de energia.
O quarto centro é o do amor e da compaixão. É nesse nível que se situa a escola
“centrada na pessoa” de Carl Rogers. Erick From e Moreno situam-se com suas teorias nesse
aspecto, o primeiro em sua obra Arte de Amar e, o segundo, que dizia que o despertar da
espontaneidade no psicodrama leva-nos a ver “pelos olhos dos outros.
O quinto centro é aquele do espaço aberto onde vibra o som da voz e de onde surge a
criatividade. Jung está associado a esse centro e as escolas ligadas à criatividade.
O sexto centro corresponde ao cérebro cujo lado esquerdo corresponde à razão onde se
inclui as teorias de Piaget de a sistemologia de Lupasco. O lado direito corresponde à intuição
51

e remete a Bergson. O centro no nível da glândula pineal é conhecido pela “terceira visão”
pelos fisiologistas dos batráquios.
O sétimo centro que se situa na parte superior da cabeça, dissolve-se a separação
espaço/exterior e espaço/interior. É, portanto, o centro transpessoal propriamente dito, próprio
das escolas de Maslow, Assagioli, Graf-Durcheim entre outros. (WEIL, 1995, p. 40).
São eles de acordo Wel, D’Ambrósio e Crema (1993):

o mooladdhara: aspecto primordial da inocência, segurança básica; swadhistan:


sensualidade, criatividade, centro gerador; manipur ou nabhi: contentamento,
estabilidade, poder; anahata: centro do Si Mesmo, amor, compaixão; vishuddi:
inspiração, testemunho, comunicação; ajnya: perdão, auto-esquecimento, visão pura;
e sahasrara: integração e realização plena, consciência não dual.

Conforme Ricci (2008), em níveis de compreensão multidimensional do cliente no


atendimento psicoterápico há interações de cada nível, quais sejam: o físico, o energético,
emocional, mental e espiritual. É utilizado o conhecimento dos chakras para trabalhar o
nível energético, no que concerne aos assuntos associados com cada chakra. Para ele, a
vivência da realidade é uma função do estado de consciência atuante no momento dado.
3) A fase transpessoal está ligada à evolução da psicologia com suas revoluções
behaviorista ou comportalmental, psicanalítica e humanista. A revolução transpessoal também
chamada de quarta revolução decorre diretamente do movimento humanista.
4) A fase holística evidencia o espírito holístico que domina atualmente o movimento
transpessoal, no qual físicos, médicos, psicólogos, mestres de Ioga, filósofos, líderes de
escolas místicas trocam suas experiências, pelo perigo que pode representar um ingresso no
domínio transpessoal.
Weil (1995) ressalta que, do ponto de vista metodológico, a abordagem da Psicologia
Transpessoal é holística, porque ela pode ser:

a) descritiva, limitando-se a enumerar e classificar os fatos nas diferentes categorias.


Experimental: pela verificação das hipóteses elaboradas quanto às variáveis causais
ou aos efeitos do estado transpessoal.
b) Experencial: quando o pesquisador coloca-se em condições que lhe permitam o
acesso ao estado transpessoal em si mesmo. Esse fator é indispensável para todos
aqueles que realmente desejam dedicar-se à Psicologia Transpessoal, assim como de
um psicanalista é exigido que tenha passado por uma análise pessoal.
c) Clínica: pela observação direta, colocando-se em prática todas as variáveis da
situação, tal como se apresenta aos sentidos, à razão e à criatividade do observador.
Trata-se, por exemplo, do enfoque dos que observam alguém em estado
transpessoal.
d) Especulativa: que busca refletir nos resultados obtidos, pelos enfoques
precedentes, e, em seguida, reunir os dados entre si, gerando novas hipóteses que
poderão eventualmente ser verificadas a partir de outros enfoques.
52

É de alta relevância o fator experencial em que o psicoterapeuta precisa trabalhar sua


própria sombra e encontrar a luz, trilhando o caminho de autotransformação, para receber os
conteúdos do cliente com certa transcendência dos conceitos de bom ou mau.
Em face de seu aspecto metodológico polivalente e caráter interdisciplinar evidente,
os resultados obtidos pelo Psicologia Transpessoal passam a ter repercussão imediata em
outras disciplinas.
Conforme Garcia e Saldanha (2008), atualmente podemos encontrar o enfoque
transpessoal em distintas áreas como:

a) a Psiquiatria transpessoal, que é a área que se concentra no estudo das


experiências e fenômenos transpessoais, enfocando, particularmente, seus aspectos
clínicos e biomédicos;
b) a Antropologia transpessoal, que é o estudo transcultural dessas experiências e da
relação entre a consciência e a cultura;
c) a Sociologia transpessoal, que estuda as dimensões, repercussões e expressões
sociais dos fenômenos transpessoais, a ecologia transpessoal que aborda suas
dimensões, repercussões e aplicações ecológicas;
d) a Psicologia Transpessoal, que é o estudo e prática psicológica dessas
experiências, incluindo a natureza, as variedades, causas e efeitos das experiências e
do desenvolvimento transpessoal, como também as psicologias, filosofias, artes,
culturas, educação, estilos de vida, reações e religiões por elas inspiradas ou voltadas
à indução, expressão, aplicação ou compreensão. (GARCIA e SALDANHA, 2008,
p. 5).

É importante ressaltar que a visão de espiritualidade da Psicologia Transpessoal como


dimensão legítima de nossa própria humanidade favorece a transformação da pessoa, o
processo de cura e aprendizagem. Ela está contida em seu corpo teórico.
Sabe-se que no seio da sociedade ocidental, há uma associação direta entre o
materialismo e a ciência, e tudo que concerne ao espírito é atribuído como sendo uma esfera
de abordagem da religião.
É preciso fazer uma diferenciação entre o espiritual e o religioso, porque a
incompatibilidade que se julgou existir entre essas duas ordens de idéias provém de uma
observação defeituosa de que a ciência fez uso para fugir da superstição e do poder religioso.
Rank afirma, conforme Becker (1961) que, no século XIX, os cientistas quiseram
fazer a vida interior do homem uma área sem mistério e sujeita às leis da causalidade. Foram
abandonando gradativamente a palavra “alma” e começando a falar do “eu” e a estudar como
esse eu se desenvolve no relacionamento inicial da criança com a mãe. (RANK apud
BECKER, 218).
53

A alma aparece pura e simplesmente como uma atualidade não-física,


inexplicavelmente associada à máquina corporal, em contato com a qual ela se desenvolve de
acordo com os funcionamentos materiais dessa máquina. (JAPIASSÚ, 1976, p. 24).
A proposta de Maslow [196 - ?] com a nova psicologia era a da integração da natureza
dupla do homem, a inferior e a superior, a sua condição de criatura e a sua essência divina.
Ser humano não é corpo sem espírito, ou espírito sem corpo, é corpo e espírito
integrados; é este desenvolvimento pleno e inteireza que a Psicologia Transpessoal deve
favorecer. (GARCIA e SALDANHA, 2008, p. 5)
Para Garcia e Saldanha (2008) , a definição de Psicologia Transpessoal implica em
três aspectos básicos que são, em primeiro lugar, a existência de uma dimensão superior de
consciência, e segundo, o trabalho vivencial através de diferentes estados de consciência com
as polaridades do inconsciente inferior e superior e, em terceiro, a síntese entre níveis
experenciais e evolutivos.
Este enfoque possibilita a atuação desses três níveis de forma harmoniosa para o
indivíduo e o ambiente, ensejando a plena expressão do ser.
Para possibilitar que a dimensão sutil e impalpável tivesse uma visibilidade, uma porta
de entrada acessível à partir do conceito teórico do que é Psicologia Transpessoal, ela exibe
sua metodologia e recursos técnicos, a fim de oferecer de forma clara e coerente com sua
teoria a aplicabilidade de seus postulados no enfoque clínico, educacional e nas instituições.
(GARCIA e SALDANHA, 2008).

4.1 SISTEMATIZAÇÃO INTEGRATIVA TRANSPESSOAL

De acordo com Saldanha (1997), a teoria em psicologia transpessoal compõe-se dos


aspectos estruturais e dinâmicos. O primeiro, constituído por cinco elementos, que formam o
corpo teórico da psicologia transpessoal: conceito de unidade, conceito de vida, conceito de
ego, estados de consciência e cartografia da consciência.
O segundo aspecto, que é o dinâmico, é formado pelo eixo experencial e o eixo
evolutivo.
Aliados os elementos dos dois aspectos às técnicas, é formada a linha de base da
psicologia transpessoal. Todo processo terapêutico visa resgatar essa unidade fundamental.
Cada elemento tem definição própria da teoria ao saber:
54

4.1.1 ASPECTOS ESTRUTURAIS OU CORPO TEÓRICO DA PSICOLOGIA


TRANSPESSOAL

Conceitos de Unidade, de Ego, de Vida, de Consciência e Cartografia da Consciência:

4.1.2 CONCEITO DE UNIDADE FUNDAMENTAL DO SER OU DE NÃO-


FRAGMENTAÇÃO

Unidade é a propriedade do que não pode ser dividido. A unidade cósmica refere-se ao
fim da dualidade, da polaridade, ou/ou. Sujeito e objeto são indissociáveis. Os sentimentos de
tensão e de ansiedade gerados pelo desconhecimento da unidade cósmica levam a uma baixa
da resistência imunológica, a patologias cardíacas, síndromes mentais desde a depressão a
psicose.

4.1.3 CONCEITO DE VIDA

A característica essencial deste conceito é sua dimensão atemporal. Nascer, morrer e


renascer fazem parte de um processo de evolução.
Todo e qualquer conteúdo trazido pelo cliente devem ser acolhidos sem preconceitos,
mesmo que esses conceitos transcendam a lógica.
Em seus aspectos transpessoais, a vida é eterna, ilimitada e sempre existiu, dela
desconhece-se sua origem e nem sequer pode-se imaginar seu fim.
Em nível psicológico, a vida é morte e renascimento. Há muitas mortes e
renascimentos num mesmo dia, mas a essência permanece.
O morrer nessa teoria é a transição de uma forma para tomar outra forma, acrescendo
elementos de maior alcance na escala universal. Cada morte de uma etapa de vida ocorre uma
mudança de valores, atitudes e crenças.
55

Ross assevera, de acordo com Saldanha (1997), que a morte, seja física ou emocional,
é vivenciada através de cinco etapas: negação, revolta, barganha, depressão e aceitação.
(ROSS apud SALDANHA, 1997).

De acordo com Saldanha (1997), para Frankl, um dos fundadores da transpessoal, a


religião contribui para a saúde mental, ao oferecer segurança, sentimento de estar
ancorado no Absoluto. Percebe-se que no processo de psicoterapia, embora o
psicoterapeuta não tente influenciar na vida religiosa de seu paciente, um dos
subprodutos de um bom tratamento psicoterapêutico é o restabelecimento no homem
de um vínculo com a divindade. (FRANKL apud A PSICOTERAPIA
TRANSPESSOAL, 1997).

4.1.4 CONCEITO DE EGO

Na abordagem transpessoal, o ego caracteriza-se como um construto mental, ilusório,


que tem a tendência a solidificar a energia mental em uma barreira que separa o espaço em
duas partes: eu e o outro.
Sua função de operacionalizar a vida instrumenta a realidade da psique.
O eu é uma consciência em evolução que pode manifestar-se além dos elementos
circunstanciais e integra níveis evolutivos superiores.

No nível do ego, a pessoa não se identifica com o organismo total, mas apenas com
alguma representação mental do organismo, conhecido como auto-imagem ou ego.
Pensa-se que esse self desencarnado existe dentro do corpo; assim, as pessoas dizem
“Eu tenho um corpo”, em vez de “Eu sou um corpo”. Em certas circunstâncias, tal
experiência, fragmentada do próprio self pode ser ainda mais distorcida pela
alienação de certa facetas do ego, que podem ser reprimidas ou projetadas em outras
pessoas ou no meio ambiente. A dinâmica desses fenômenos é minuciosamente
descrita na psicanálise. (CAPRA, 1982, p. 361).

A proposta da Psicologia Transpessoal é a de permitir que do homem velho, renasça o


homem novo, sábio, que consegue vivenciar a unidade cósmica.
É uma ruptura com a dualidade aparente que permite redimensionar o conceito de ego.
A auto-imagem é um subprotudo do ego e acredita-se que se é a auto-imagem numa
identificação alimentada pelo ego como se fosse o eu verdadeiro.
De acordo com Saldanha (1997), a morte e o renascimento do ego servem como
oportunidade para o homem voltar-se às experiências interiores, transcendo-o e o
aproximando daquilo que realmente é.
56

Será no setting terapêutico que ocorrerá o acesso ao espaço mental da realidade


absoluta e as emoções, pensamentos reações emocionais automatizadas serão reconhecidas
para possibilitar a morte do ego para que a auto-imagem desapareça.
A energia gasta para mantê-la será redirecionada. Através das técnicas transpessoais,
haverá a comunicação entre as partes fragmentadas da pessoa e o desapego a essas partes, à
auto-imagem, para que haja contato com as experiências e reações verdadeiras.

4.1.5 ESTADOS DE CONSCIÊNCIA

Estados de consciência, estado de expansão de consciência ou estado alterado de


consciência são sinônimos.
Atualmente os termos utilizados são estados modificados de consciência ou
experiências humanas excepcionais, que são os passos que delineiam o processo
psicoterapêutico, ampliam e favorecem a percepção dos diferentes níveis de realidade. É o
caminho através do qual se dá essa psicoterapia e que a diferencia de outras abordagens.
De acordo com Saldanha (1997), estado de consciência é uma alteração qualitativa no
padrão comum de atividade da mente em que o experienciador constata que sua consciência
está radicalmente diferente do seu funcionamento normal.
Os estados de consciências enfocados pela Transpessoal são: a consciência de vigília,
o sono, sonho estado de consciência cósmica ou plena consciência.
Para o trabalho de orientação transpessoal, os estados de devaneio e de despertar são
utilizados como instrumentos de imersão e emergência transpessoal.
a) Estado de consciência de vigília: é o mais comum e é aquele estado onde a pessoa
está acordada.
b) Estado de consciência de devaneio: traz imagens e idéias desconexas e podem
surgir idéias criativas. A atenção é difusa, há total receptividade e disponibilidade para o
momento presente. Esse estado propicia a associação livre. Tais idéias precisam ser anotadas
imediatamente, pois elas tendem a desaparecer.
c) Estado de consciência de sonho: na abordagem transpessoal, a visão sobre sonhos é
muito ampla e pode-se utilizar a vivência onírica de diversas formas tais como: encomendar
sonhos, modificar sonhos, livrar-se de pesadelos, através de técnicas como a de incubação, a
57

do sonho lúcido, reconstrução onírica, grafismo e ampliação de sonhos, também pode-se


vivenciar experiências fora do corpo.
d) Estado de consciência de sono profundo: as recente pesquisas nesta área sugerem
que há um nível de superconsciência durante esse estado. O ego desaparece totalmente, a
consciência retorna a ela mesma, à sua fonte, e o indivíduo é revitalizado.
e) Estado de consciência de despertar: situa-se entre a consciência individual e a
consciência cósmica. É a saída do automatismo. Equivale a despertar um observador de si
mesmo. Ocorre a percepção da essência, a desindentificação de partes, emoções, mente,
papéis e corpo. Relaxamento, concentração, meditação e os exercícios de orientação
transpessoal são as técnicas usadas no processo terapêutico transpessoal.
f) Estado de consciência cósmica ou plena consciência: samadhi, satori, nirvana,
sétimo céu, sétimo paládio (cabala sepher hazolar), sexta morada (Tereza D´Ávila),
experiência de cume (Maslow), experiência transcendental, experiência de êxtase, experiência
transpessoal.
O Estado de consciência cósmica é aquele da vivência da unidade, catologadas por
James e Bucke como inefabilidade (palavras ilimitadas para descrição do sentimento), caráter
paradoxal, desaparecimento da dimensão espaço-tempo, não projeção da mente sobre os
objetos, superação da dualidade, vivência de luz radiante que impregna o espaço, experiência
energética de iluminação interior, vivência da vacuidade plena e de amor indescretível,
sentimento de viver a realidade como ela é, desaparecimento do medo da morte, vivência da
eternidade, descoberta do verdadeiro sentido da vida, sentido do sagrado.
Os sistemas destinados a mudar o estado da consciência para acessar uma Ordem
Mental Superior, a fim de trabalhar conteúdos traumáticos conflitantes e facilitar-lhes as
catarses ab-reativa e a de integração são diversos.
Entre eles destacam-se o isolamento sensorial e sobrecarga sensorial; música e canto;
psicodrama; hipsone e auto-hipnose; meditação zen, budista, tibetana, ioga, seminários a
romper o transe cultural e a abrir o indivíduo a novas escolas; os sistemas de pensamentos
inspirados em Gurdjief; a Psicoterapia Transpessoal; disciplinas como Tai-chi-chuam; I’ai-
kido; visualizações.
À medida que se esvazia a mente de tudo que é disfuncional, ela se abre ao nível
supraconsciente.
Muitos autores estabeleceram um mapeamento da consciência, definindo diferentes
cartografias para possibilitar o conhecimento do território acessado em terapia.
58

4.1.6 CARTOGRAFIA DA CONSCIÊNCIA

Segundo Capra (1982), uma das conquistas da psicologia contemporânea é a


adaptação da abordagem bootstrap para compreensão da psique. Bootstrap significa que pode
não haver uma teoria capaz de explicar o espectro total de fenômenos psicológicos.
Assim como são usados mapas para indicar localizações, são usados mapas para se
conhecer a consciência na abordagem da Psicologia Transpessoal.
Conforme Saldanha (1997), o mapeamento das regiões do inconsciente viabiliza uma
compreensão maior da sua dinâmica. Cada estado de consciência acessa diferentes conteúdos,
viabilizando um entendimento do que acontece nas diferentes dimensões mentais.
A partir do mapeamento feito por Kenething Ring, pode-se observar de forma didática
a cartografia da consciência: consciência, pré-consciência, inconsciente psicodinâmico,
inconsciente ontogenético, transindividual, filogenético, extraterreno, superconsciente e
vácuo.
A região do pré-consciente está intimamente ligada à consciência de vigília normal.
Como exemplo, a experiência de relembrarmos subitamente o nome de uma pessoa é um
contéudo do pré-consciente que passa para a região da consciência comum.
A região do inconsciente psicodinâmico refere-se àquilo que é compreendido como o
inconsciente freudiano. Para a Psicologia Transpessoal, essa região é fonte de memórias,
impulsos e desejos importantes que levam carga emotiva.
A região do inconsciente ontogenético compreendida por Otto Rank é a ligação entre
os aspectos do estado intra-uterino e processo de nascimento e as experiências adultas
posteriores nesta região da mente.
Grof (1987) referiu-se a tais fenômenos como sendo perinatais. Essa região lança
muita luz a experiências de difícil reconciliação com as descrições ocidentais da mente, mas
também porque ele representa uma zona de transição da consciência, entre o pessoal e o
transpessoal.
Ele faz uso de psicodélicos para aclarar o funcionamento da mente e relata que as
experiências que emanam dessa região do inconsciente estão relacionados a problemas
ligados à dor física, à agonia, à morte, ao nascimento biológico, à idade, à doença e à
decrepitude.
De acordo com Grof, uma das razões pelas quais essas experiências são tão
dominantes é o fato de se basearem nas condições intensamente afetivas que cercam o parto:
59

memórias ou resíduos psíquicos do estado intra-uterino e do processo de nascimento. (GROF


apud WEIL 1995, p. 61).
A região do inconsciente transindividual é aquela onde se alcança o primeiro dos
domínios transpessoais da consciência.
Em nível transindividual, existem vários subtipos diferentes de experiências que têm
como elemento comum a transcedência dos limites do ego do próprio indivíduo e a
identificação com outras pessoas com tipos universais, ou seja, aquilo que Jung denominou
arquétipos.
Subtipos das experiências transindividuais: experiências ancestrais; experiências de
encarnações passadas; experiências coletivas e raciais; experiências arquetípicas (repositório
do desenvolvimento histórico e cultural do homem, os arquétipos ou imagens primordiais
como a anima, a sombra, o velho sábio, a mãe dual etc.).
A região do inconsciente filogenético leva o ser humano a experienciar o próprio
desenvolvimento evolutivo e o capacita a delineá-lo até o próprio começo da vida. Há uma
recapitulação de toda a seqüência evolutiva da vida: a consciência planetária, que alcançada
aos poucos, engloba todos os fenômenos deste planeta, tanto os orgânicos quanto inorgânicos.
O inconsciente extraterreno é a região onde ocorre uma variedade de experiências
difíceis de serem coordenadas com o plano físico e com as chamadas leis naturais. Os três
tipos de fenômenos que aparecem aqui são:
1- experiências de estar fora do corpo, incluindo o encontro com entidades espirituais
e guias, e viagens para outros locais do Universo; 2) fenômenos de percepção extra-sensorial,
como telepatia e clarividência; 3) fenômenos mediúnicos, como escrita automática e
possessão por espírito.
O supraconsciente é uma região mais externa do mapa onde se tem pouco a dizer, pois
enquanto se encontra o próprio limite da consciência, as experiências tornam-se sempre mais
inefáveis. As experiências neste domínio envolve um profundo êxtase espiritual. Esta
experiência pode descrita pela forma como o indivíduo sente sua consciência fundida com a
Mente Universal.
Grof (1987) relata que essa experiência é alcançável unicamente sob o emprego
supervisionado do LSD, mesmo assim, sendo muito rara.
Ressalte-se que atualmente Grof acumula quase cinco décadas dedicadas ao estudo dos
estados alterados de consciência.
Embora a natureza dessa experiência seja considerada geralmente sem continuidade
com a experiência humana comum que permita qualquer tradução para o modo verbal, Weil
60

(1995), afirma que pôde conhecer relatos sobre ela. Por detrás desse tipo de experiência
cósmica há o vácuo, o Universo em sua forma não manifestada.
O Vácuo é definido por Grof (1987) pela experiência subjacente a toda a criação: ele
está além do tempo e do espaço, além de qualquer mudança, além das polaridades, do bem e
do mal, da luz e da sombra, da estabilidade e do movimento, da agonia e do êxtase. É um
estado além de qualquer conteúdo.
Para Saldanha (1997), esses conceitos cartográficos levam à uma nova visão
antropológica e gnosológica na qual a vida revela-se como algo infinito e se mostra através de
distintas mortes e renascimentos.
A morte biológica ou psicológica em uma mesma existência são retratadas na
psicologia transpessoal, resgatando um novo conceito de ego.

Um ego bem estruturado, mas flexível, que se expande e sob certas circunstâncias se
dissipa é forte o bastante para se permitir “morrer” em legítimas experiências do
transpessoal e renascer cada vez mais saudável. Todo esse processo converge
naturalmente para a vivência de unidade – o resgate da percepção de que somos
partes do todo e simultaneamente o todo está em nós. A Separação só ocorre na
dimensão mais concreta dos cinco sentidos. (SALDANHA, 1997, p. 8).

4.2 O ASPECTO DINÂMICO FORMADO PELOS EIXOS EXPERENCIAL E


EVOLUTIVO DA PSICOLOGIA TRANSPESSOAL

De acordo com Saldanha e Garcia (2008), esse corpo teórico é representado por uma
linha horizontal e outra vertical que se cruzam. O eixo experencial representa a integração da
razão, emoção, intuição e sensação. O eixo evolutivo representa a expressão da dimensão
superior da consciência, o supraconsciente. A intuição é uma função supra-racional.
Em nível terapêutico, é necessário trazer sempre o eixo experencial para que ele
favoreça a emergência dos níveis superiores da consciência.
O discurso linear racional transformado em experiência se faz através da razão,
descrição do fato relatado; da emoção, sentimento que acompanha; intuição, associações
livres; e sensação, como o corpo sente o fato, qual o sintoma, ser o sintoma.
O eixo evolutivo é denominado por Saldanha (1997) de Ordem Mental Superior.
Há um manancial de recursos interiores situado na região do superconsciente, sendo o
eu superior da pessoa inerente a essa região, sendo parte do indivíduo em evolução. Essa
instância psíquica apreende a realidade de forma lúcida, sabe aquilo que é necessário e melhor
para cada um em sua jornada no processo de cura mental e física.
61

De acordo com Zimmer (2005), Brahman, para a filosofia indiana, é a forma


cristalizada e congelada da mais alta energia divina, latente no homem, suscetível de ser
ativada pela concentração até se converter em vigília criadora, a espontaneidade fundamental
de nossa natureza. É a essência de tudo. Transcende ao corpo denso, mas também o mundo
interior de formas e experiências.
A psicoterapia transpessoal funciona como o centro externo unificador da
personalidade que ajudará a pessoa a acessar através de recursos ou exercícios esse eu
superior ou Brahman. (SALDANHA, 1997, p. 72).
Conforme Saldanha (1997), o indivíduo percebe a totalidade, desenvolve sua
unicidade, sua especificidade: algo que lhe compete e a mais ninguém. É a evolução de sua
consciência. Isso lhe dá um profundo sentimento de comunhão com o todo.
Os dois elementos experencial e evolutivo resgatam a unidade fundamental do ser,
objetivo primordial da Psicologia Transpessoal.

4.3 CLASSIFICAÇÕES DAS TÉCNICAS TRANSPESSOAIS

De acordo com Saldanha (1997), as técnicas em Psicologia Transpessoal classificam-


se em cinco grandes níveis de intervenções terapêuticas. As técnicas também podem ser
denominadas de Terapia Integrativa Transpessoal.
São elas: intervenção verbal, imaginação ativa, reorganização simbólica em nível
interativo, exercícios de dinâmica interativa e regressão de memória.

4.3.1 Intervenção verbal

A intervenção verbal representa toda gama de verbalizações que facilitam estabelecer


o vínculo terapêutico. O rapport, o contrato terapêutico, anamnese e a entrevista clínica
fazem parte desta técnica.
As entrevistas têm duração de 50 minutos, embora sessões especiais para um trabalho
específico de regressão exijam duas horas seguidas de atendimento.
62

Os pressupostos de acordo com Saldanha (1997) para as intervenções verbais


genericamente são:

Confiar no cliente, em sua verdade própria, sem interpretações; dar oportunidade


para que ele evolua no tempo e na medida dele próprio; encaminhá-lo a
especialistas, caso seu problema não se enquadre na tarefa terapêutica, ou caso seja
necessária a complementação através de outros profissionais; desenvolver um
escutar amplo, mais amplo que ouvir, a arte de saber captar, a escuta terapêutica.
(SALDANHA, 1997, P. 105).

4.3.2 Imaginação ativa

A técnica da imaginação ativa, termo da psicologia analítica, é uma possibilidade do


inconsciente desenvolver imagens mentais, aparentemente aleatórias, mas que estão sendo
criadas e contornadas pelas motivações mais profundas dos diferentes níveis do próprio
indivíduo.
Assagioli, conforme Saldanha (1997), foi o criador da psicossíntese, uma psicoterapia
de abordagem transpessoal. Esse autor desenvolveu e aprofundou os estudos sobre os
exercícios de imaginação ativa, estabelecendo correlações entre os níveis do inconsciente
inferior, médio e superior com esses exercícios. (ASSAGIOLI apud SALDANHA, 1997, p.
107).

4.3.3 Reorganização simbólica

Os símbolos da experiência transpessoal são técnicas criadas por Assagioli tidas como
exercícios psico-espirituais ou de meditação, obtendo-se resultados extraordinários.
Para indicar as experiências da via transpessoal, Assagioli utiliza símbolos, quais
sejam: introversão; aprofundamento; elevação; expansão ou ampliação da consciência;
símbolos do despertar; fogo; evolução e desenvolvimento; fortalecimento e intensificação;
amor; caminho, senda, peregrinação; transmutação, sublimação; renascimento-regeneração;
libertação; ressureição e o retorno.
63

4.3.4 Técnica interativa

No nível interativo, há um manejo terapêutico intenso dos exercícios, que articulam


diferentes conteúdos do inconsciente nos vários estados de consciência. Há sete etapas para
que esse nível aconteça: reconhecimento, identificação, desidentificação, transmutação,
transformação, elaboração e integração.
Exercícios da Dinâmica Interativa: transformando imagens internas; diálogo interno.
Nível auxiliar ou adjunto, chamado assim por ser considerado como recurso de auto-
desenvolvimento. As técnicas são utilizadas em exercícios anti-estresse, de autoconhecimento
ou na própria arte da transcendência. Os exercícios englobam recursos milenares como
meditação, concentração, contemplação e as mais recentes como relaxamentos, que
favorecem um estado da mente mais sereno.
A meditação é um estado de inação. De puro ser, de um saber espontâneo, totalizador,
de uma presença plena. Há recursos técnicos para facilitar a entrada e a permanência nesse
estado, embora nenhuma delas é a meditação em si. Todas as técnicas favorecem-na.

4.3.5 Regressão de memória

O acesso à memória é um processo que se dá sob estados modificados de consciência,


de forma espontânea ou induzidos. Num trabalho regressivo, transpessoal, encontram-se em
todo o processo os pressupostos básicos e fundamentais, os aspectos estruturais e dinâmicos
com seu corpo teórico, bem como os eixos experencial e evolutivo. (SALDANHA, 1997, p.
135).

Num enfoque transpessoal, trabalha-se com a origem da rejeição, com o papel da


vítima, com as reestimulações da vida atual, gestação, nascimento, infância,
adolescência, enfim todos momentos marcantes onde ela possa entender o seu papel
ativo em se fazer rejeitada, colaborando para que sua decisão do passado se realize
no presente. (SALDANHA, 1997, p. 137).

É importante saber que, no estado modificado de consciência, o indivíduo tem uma


percepção simultânea e holográfica da dinâmica complexa que ele próprio aciona, percebendo
o que suas experiências têm a lhe ensinar, favorecendo a evolução de sua consciência.
O trabalho de regressão de memória tem como base algumas premissas, dentre elas
estão o conceito de imortalidade, pautado por várias existências.
64

A regressão é considerada uma abordagem interativa que deverá ter os sete passos
dessa modalidade para ser considerada uma psicoterapia de orientação transpessoal.

A conceituação de regressão de orientação transpessoal é a de um trabalho


terapêutico, realizado em estado modificado de consciência que possibilita a
desidentificação e transformação de núcleos de apego ou trauma do passado,
emergindo o ser integral. A responsabilização de criação do próprio mundo mental e
de suas emoções no mundo atual é fator propulsor para transcender suas decisões do
passado.

Saldanha (1997) destaca que o homem ainda não alcançou o limiar de sua evolução, e
os processos de abordagem transpessoal favorecem a emergência dessa nova consciência,
mais ampla, sábia, integrada, plena e desperta.
Belo Horizonte, em 1978, foi palco para o Quarto Congresso Internacional de
Psicologia Transpessoal. Stanislav Grof, ao presidir o comitê organizador, sugeriu retirar o
termo psicologia do título do congresso, por considerar o transpessoal como interdisciplinar.
Por conseguinte, o nome atual da Associação Transpessoal Internacional ter sido consolidada
após essa decisão, o que evidencia o espírito holístico que domina atualmente o movimento
transpessoal.
Atualmente, além de dois semestres dedicados à disciplina Psicologia Transpessoal, a
Universidade Federal de Minas Gerais possui nove disciplinas com orientação transpessoal.
Conforme Weil, D’Ambrosio e Crema (1993), ninguém pode pretender supremacia no
exercício de vivência em redes ou transdisciplinaridade, que parte do reconhecimento da
impossibilidade de abranger a realidade a partir de um só domínio, por mais capacitado que
possa ser o seu porta-voz. É preciso adquirir a ética da diversidade.
65

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Através do estudo da história da ciência como um todo, incluindo a história das


ciências humanas e da Psicologia, pôde-se constatar que existe uma única categoria de
ciência: a ciência moderna. Mas, a pesquisa demonstrou como o fazer científico moderno é
restringido ao método empírico e que não há método que possibilite à totalidade das teorias
serem conclusivamente provadas ou não.
O método para atingir o conhecimento é a dialética. O processo de conhecimento
representa a progressiva passagem das sombras e imagens turvas ao luminoso universo das
idéias ou formas. Estas seriam incorpóreas, invisíveis, impossíveis de serem explicadas pela
razão. O intelecto pode apreender as idéias, porque é incorpóreo como elas. (PLATÃO, 1996,
p. 24).
Segundo Platão (1996), a alma, antes de se ligar ao corpo através do nascimento, teria
contemplado as idéias enquanto seguia o cortejo dos deuses.
Enquanto encarnada, perde o contato direto com os objetos sensíveis. Conhecer então
seria lembrar. A hipótese da reminiscência é que sustenta o mundo das formas, o que implica
na pré-existência e na imortalidade da alma que converte-se numa condição para a ciência,
para a explicação inteligível do mundo físico. (PLATÃO, 1996, p. 20).
Observou-se que as experiências transpessoais podem oferecer insights sobre a
natureza e importância da dimensão espiritual da consciência, sendo que estas envolvem
fenômenos difíceis de serem interpretados dentro da estrutura racional e da análise científica.
Isso foi exatamente o que Platão afirmou sobre o processo de conhecimento do
universo das formas e idéias, que são incorpóreas e invisíveis, impossíveis de serem
explicadas pela razão.
Para se visualizar como se dá a dialética de Platão sobre a modalidade diversa de
conhecimento, a Psicologia Transpessoal apresenta o mundo sensível onde se situa a ciência e
o mundo inteligível em que o universo das idéias transforma-se em objeto de crença quando
se tem condição de percepção nítida.
Conforme Capra (1982), a ciência moderna é inadequada para compreender a natureza
da consciência, sendo que ela é um aspecto central do mundo interior.
Da mesma forma que muitos dos ensinamentos de Aristóteles foram elevados a
dogmas e paralisaram o estudo da natureza, as idéias positivistas que combateram as
concepções espiritualistas da realidade, ditas como metafísicas, igualmente se tornaram
66

dogmáticas, promovendo um atraso do mundo ocidental em relação à ciência oriental que,


milenar, está à frente no conhecimento do estudo do homem como um todo integrado.
As ciências humanas supõem que é necessário desenvolver métodos especiais para o
estudo de seus objetos – o conhecimento organicista e materialista do ser corporal e biológico
do homem e um saber espiritualista da vida psíquica, intelectual e moral da “alma” humana –,
sendo eles diferentes da natureza dos objetos de estudo das ciências naturais, como se a
natureza biológica do homem estivesse apartada de sua natureza espiritual.
Foram Prigogine e Stengers que advertiram a comunidade científica que o resultado
dessa divisão é a inevitável crise emocional, econômica, política e ecológica da humanidade,
quando puseram em circulação, em 1979, em sua obra La nouvelle aliance: métamorphose de
la science os elementos de um novo paradigma: desordem organizadora, auto-organização,
complexidade e caos. (PRIGOGINE e STENGERS apud JAPIASSÚ, 1996, p. 57).
Até mesmo a teoria de Darwin sobre a evolução das espécies entrou em crise com o
paradigma da complexidade, pois esta não consegue explicar os saltos evolutivos observados
nos fósseis, ou seja, não explicação para os elos perdidos. (LIVRO DO ANO: CIÊNCIA e
FUTURO, 1997, p. 122).
Como a física foi considerada como modelo de ciência, esta evoluiu de tal modo que
foi se afastando da subjetividade ao se apoiar unicamente numa realidade objetiva.
Atestou-se através desta pesquisa, que a Psicologia não se enquadra no modelo
positivista-empírico da ciência moderna, a não ser sua primeira força, o behaviorismo. Para
Comte, a psicologia, considerada como metafísica, deve ser eliminada do pensamento
humano e a psicologia empírica recambiada para o seio da psicologia animal. (JAPIASSÚ,
1976, p. 78).
Acompanhou-se uma caracterização geral da ciência de Newton a Descartes, de Bacon
ao positivismo de Comte, do positivismo lógico ao falsificacionismo popperiano, dos
paradigmas de Kuhn aos programas de pesquisas de Lakatos e destas à teoria anarquista do
conhecimento de Feyerabend. Nota-se que há controvérsia no modo de pensar a ciência, seus
métodos de trabalho e seus objetivos, sobretudo após o advento da física quântica, embora
todos tenham buscado a Verdade.
Como Chalmers (1983) afirmou, concorda-se que se deve combater a ideologia da
ciência quando essa envolve o uso do conceito dúbio de ciência e o conceito igualmente dúbio
de Verdade, na defesa de posições conservadoras. O cientificismo, como único meio válido de
compreensão do universo, vê-se inadequado quando se trata da descrição de fenômenos
atômicos, conforme a formulação matemática da teoria quântica.
67

Dessa forma, as forças da Psicologia não deixaram de se afirmar como disciplinas


científicas, mesmo não se enquadrando nos moldes da ciência moderna, ocupando
respeitosamente seu espaço nos meios acadêmicos.
Ressalta-se com o estudo desta pesquisa que a segunda força em Psicologia, a
Psicanálise, influenciou de tal forma a Psicologia, inaugurando o paradigma do inconsciente,
que mudou a visão científica de mundo no início do século XX. Contudo, Freud precavia-se
das questões da metafísica, deixando-a às expensas do Ocultismo.
Viu-se com este estudo que, assim como a psicanálise muda radicalmente o paradigma
científico positivista, o advento da física quântica desestruturou as bases positivistas da
ciência. O que a teoria quântica de Plank descreve sobre o comportamento das partículas
subatômicas explica a maioria dos problemas com os quais a física não consegue lidar, ou
seja, no domínio das partículas não existe observação propriamente objetiva.
E como Chalmers (1983) afirmou: conforme cresce o número de dados estabelecidos
pela observação e pelo experimento, e conforme os fatos se tornam mais refinados e
esotéricos devido a aperfeiçoamentos em nossas capacidades de observação e
experimentação, cada vez mais leis e teorias de maior generalidade e escopo são construídas
[...].
Dessa forma, estamos presenciando uma transformação que está acontecendo nos
meios acadêmicos que, por muitos anos, tiveram seus currículos apenas conteúdos de
produção filosófica ocidental, justificando-se etnocentricamente o pensamento objetivo e
mecanicista da ciência que se calcou numa base extremada de empirismo.
Essa transformação deve-se à abertura à diversidade de saberes de culturas milenares
orientais. Como Zimmers (2005) afirmou, tanto o sistema Vedanta quanto o Budismo, já
reconheciam a presença de um passado que se atualiza e recria, formando padrões de
perspectiva que interditam a percepção da realidade tal como ela é.
Através do princípio da incerteza de Heisenberg, sabe-se agora que todo o
conhecimento sobre a realidade é fruto de uma percepção limitada e definitiva da realidade.
Como, para a Psicologia Transpessoal, a alma aparece pura e simplesmente como uma
atualidade não física, inexplicavelmente associada à máquina corporal conforme Japiassú
(1976), ou seja, ser humano não é corpo sem espírito, ou espírito sem corpo, é corpo e espírito
integrados, a abordagem desta ciência possui suas bases epistemológicas não somente na 3ª
força em Psicologia, a humanista, mas também nas tradições científicas orientais.
De acordo com Zimmer (2005), a característica mais importante da mentalidade
bramânica essencial para a história da civilização indiana foi a descoberta do Eu (atman)
68

como entidade imperecível e independente, alicerce da personalidade consciente e da


estrutura corporal.
Tudo o que normalmente conhecemos e expressamos de nós mesmos pertence à esfera
da impermanência, à esfera do tempo e do espaço, mas esse Eu (atman) é imutável por todo o
sempre, além do tempo, além do espaço e da obnubiladora malha da causalidade, além de
qualquer medida, além do domínio da visão.
Foi Ken Wilber que afirmou que as teorias da física mudam a cada nova descoberta,
enquanto a experiência transpessoal é sempre a mesma. O nível da forma física de energia
talvez não seja comparável às formas energéticas mais sutis, tratando-se de vivências no nível
transpessoal. Este é o ponto de conexão da visão oriental com a Psicologia Transpessoal.
Uma das hipóteses apresentadas neste trabalho foi a de que a Psicologia, longe de
qualquer viés panfletário de novas teorias, esquiva-se para se proteger de práticas esdrúxulas
como a da utilização de drogas psicodélicas ou se acautela por haver poucos pesquisadores
nesta nova área.
Com certeza, cabe à Academia o reconhecimento da validade das pesquisas com seus
métodos ou técnicas não reconhecidas no campo da Psicologia tradicional. Apesar de a
Psicologia Transpessoal em seu princípio, através de Grof, ter utilizado drogas psicodélicas
para formulação de algumas de suas teorias, ela depois substituiu a técnica por outra chamada
respiração holotrópica, cuja prática amplia a consciência e leva a pessoa a uma experiência de
transcendência e inteireza. Não podemos considerar que tais técnicas sejam acientíficas. Não
há do quê se proteger dessa nova ciência, e dependerá da ampla divulgação por parte da
Psicologia para que ela tenha reconhecimento da comunidade científica e não apenas da
conclusão das pesquisas.
Pelo observado na pesquisa, não há por que não se inclua a Psicologia Transpessoal na
grade curricular do Curso de Psicologia da Puc Minas, pelo motivo de ela não seguir o
paradigma das ciências já reconhecidas. A própria Psicanálise conseguiu sustentar que existe
o pensamento consciente e o pensamento inconsciente, instância inteiramente inovadora e
transgressora dos padrões normalmente aceitos pela ciência da época, rompendo com o cogito
cartesiano que, de acordo com Japiassú (1976), inscreveu-se no inconsciente coletivo da
filosofia clássica.
Da mesma forma que a Psicanálise possibilitou ao homem saber que “eu existo
também onde eu não penso”, marcando a descontinuidade com o que foi dito pela ciência
positivista, ela não só afirma que existe a subjetividade como também discorda do próprio
Descartes, com o seu anátema “penso, logo existo”.
69

Também a ciência dos estados alterados de consciência, ou estados transpessoais


baseada no hinduísmo e no budismo, ressalta que a origem principal do sofrimento é a crença
na solidez e na separatividade de um “eu” e de “objetos” exteriores igualmente percebidos
como sólidos, desacreditando Descartes. (Weil, 1995, p. 45).
Não se pode sequer dizer que esse eu dissolveu-se ou que houve a morte do ego.
Como se pode falar de dissolução ou morte de algo que jamais existiu senão como conceito,
pensamento ou idéia?
Dessa idéia ilusória surge o apego e o medo. A raiva e o ódio, o desejo e o ciúme, o
orgulho e a competividade, a tristeza e a depressão, todos são aspectos destrutivos de uma
única energia, que precisa apenas ser transformada e liberada dos entraves da crença em um
“eu”.
Para Weil (1995), o estado transpessoal pode surgir de forma fortuita (crise existencial
do “ter”; sofrimento da privação, experiência estética, intoxicação, morte clínica, esforços
sobre-humanos, no parto, no estado de sonho, no orgasmo sexual) e, uma vez a pessoa tenha
sido tocada por esse estado, ela buscará um caminho, um método, um mestre que a ajude a
desenvolver-se. Isso é levado aos métodos de acesso ao estado transpessoal.
Concorda-se, pelo estudo desta pesquisa, com o relato de Chalmers (1993) a respeito
de como Thomas Kuhn que se refere à ciência, quando este diz que os valores operativos no
processo de uma ciência e que determinam a aceitação ou rejeição de teorias devem ser
discernidos pela análise psicológica e sociológica da comunidade científica.
Kuhn (1993) afirmou que quando isso é tomado conjuntamente com a suposição de
que a ciência contemporânea é o epítome (tratado científico) do melhor da racionalidade, o
que sobra é uma posição conservadora. Para Kuhn, para um campo ser ou não ciência,
dependerá dele se conformar ou não ao relato da ciência oferecido na Estrutura das
Revoluções Científicas. (CHALMERS, 1993, p.134).
O progresso através de revoluções é a alternativa de Kuhn para o progresso
cumulativo característico dos relatos indutivistas da ciência, onde o conhecimento científico
cresce continuamente à medida que observações mais numerosas e mais variadas são feitas,
possibilitando a formação de novos conceitos, o refinamento de velhos conceitos e a
descoberta de novas relações lícitas entre eles.
Um paradigma é mais que simplesmente um modelo teórico útil para ciência; sua
filosofia configura o mundo através de influência indireta sobre o indivíduo e a sociedade.
Pelos estudos de Grof, o paradigma da Psicologia Transpessoal trouxe à luz o modo
mais poderoso de ativar experiências oriundas de todos os níveis do inconsciente com o uso
70

das drogas psicodélicas, no princípio de suas pesquisas e, depois através da introdução da


energização do organismo através de manipulações físicas, através da música evocativa e do
trabalho do corpo num método terapêutico que, em sua visão, representa uma das mais
promissoras abordagens para a psicoterapia e a auto-exploração. (Capra, 1982, p. 377).
Como um novo paradigma, a Psicologia Transpessoal não se enquadra nos modelos
positivistas da ciência moderna, mas se enquadra na estrutura das revoluções científicas, pois
que estuda as funções intuitivas, a criatividade, os diversos estados alterados de consciência,
onde a realidade vivenciada é a do mundo psíquico e esta, ligada com todos os seres viventes
intra, extracorpóreos ou extraterrenos, a região onde ocorre uma variedade de experiências
difíceis de serem coordenadas com o plano físico e com as chamadas leis naturais e ligada ao
Universo.
Foi Jung quem resgatou o sentimento do sagrado de um ponto de vista científico, ao
formular o conceito de arquétipo coletivo, responsável na mente pela representação da
totalidade, tanto através da imagem de Deus, quanto da imagem do Universo da física teórica.
(BYINGTON apud COLEÇÃO MEMÓRIA DA PSICANÁLISE, [200- ?], p. 8).
Como Platão deixou sua obra grandiosa atravessar milênios, a abertura transpessoal
leva fatalmente a uma visão global e integrativa de todas as disciplinas do conhecimento,
inclusive ao pensamento esotérico que tem provas e evidências validadas universalmente.
Estudando a cartografia da consciência na Psicologia Transpessoal, percebe-se que é
na região do supraconsciente, onde o indivíduo sente sua consciência fundida com a Mente
Universal, o ponto de convergência que leva o psicólogo à espiritualização, porque será
dentro de si próprio que encontrará o divino; onde ele poderá escutar a voz do silêncio interior
que manda, consola e extrai do íntimo a graça que excede toda compreensão. (Zimmer, 2005,
p. 59)
A Índia sempre defendeu a idéia de que a sabedoria implica poder se ela transforma e
domina a personalidade. Como exemplo, assistimos a Gandhi, em que o Ser espiritual
arrebatou e dissolveu nele todos os traços do ego, toda aquelas limitações que deformam a
visão do homem acerca dos acontecimentos do mundo, impedindo sua aproximação à verdade
divina. (ZIMMER, 2005,p. 59).
Brahman, para a filosofia indiana, é a forma cristalizada e congelada da mais alta
energia divina, latente no homem, suscetível de ser ativada pela concentração até se converter
em vigília criadora, a espontaneidade fundamental de nossa natureza. É a essência de tudo.
Transcende ao corpo denso, mas também o mundo interior de formas e experiências.
(ZIMMER, 2005, p.66).
71

Como poder que transforma e anima tudo no microcosmo, bem como no mundo
exterior, é o hóspede divino do corpo mortal.
Brahman identifica-se com o Eu (atman) o aspecto superior daquilo que no Ocidente
chama-se de alma de um lado (a esfera mutável da psique – pensamentos, emoções e
elementos similares da consciência do ego) e de outro, o Eu anônimo, o Eu com E maiúsculo,
que não é de nenhum modo o ego limitado). (ZIMMER, 2005, p.66).
A experiência transpessoal, descrita pela Psicologia Transpessoal nesta pesquisa, tem
como uma das suas manifestações essenciais uma vivência segundo a qual o todo está em
todas as partes, o que coaduna com o pensamento de Edgar Morin que, ao anunciar o
princípio holográfico, afirma que o mundo está em nosso espírito, e este está em nosso
mundo. (MORIN apud RUMO À NOVA TRANSDISCIPLINARIDADE, 1989, p. 32).
Como Grof (1987) afirmou, a hipótese holográfica não tem a pretensão de solucionar
toda a fisiologia cerebral nem todos os problemas da Psicologia.
Os fenômenos transpessoais que podem mais facilmente ser relacionados com a teoria
holonômica são aqueles que envolvem elementos da realidade objetiva: identificação com
outras pessoas, animais, plantas e realidade inorgânica do passado, presente e futuro.
Como espaço e tempo estão contidos no domínio holográfico, haveria compatibilidade
com a observação de que experiências transpessoais desse tipo não estão ligadas pelas
limitações espaciais ou temporais comuns.
Viu-se no transcorrer da pesquisa que o corpo teórico da Psicologia Transpessoal foi
construído por psicólogos, psicanalistas, filósofos, psiquiatras e pessoas interessadas
efetivamente em contribuir para a formação do psicólogo em direção a uma espiritualização,
sempre tendo como enfoque as questões científicas e não religiosas, mas que certamente
contribuíram para pensar o homem, a sociedade e a ciência.
A Psicologia Transpessoal, através do estudo da cartografia da consciência, coaduna
seu conhecimento com o pensamento de William James, que definiu a Psicologia como sendo
a descrição e explanação sobre os estados da consciência, criando critérios da inefabilidade
em que as palavras são limitadas para descrever a dimensão da experiência das ditas
experiências místicas.
A partir desta pesquisa comprova-se que a Psicologia Transpessoal prima por trabalhar
com diferentes níveis de consciência e os concebe como fazendo parte da natureza da mente
humana, porque a emergência desses níveis de consciência podem ter fins terapêuticos.
72

Atesta-se que com o estudo da história dessa nova ciência há muitas contribuições
com a Psicologia, pelo motivo da Psicologia Transpessoal estar inserida dentro de um
contexto de mudanças e ampliações de conceitos da ciência.
A partir de todo este estudo, reconhece-se que a ciência clássica, a ciência do
racionalismo científico, circunscreve-se apenas ao estado da consciência de vigília, aquele em
que predomina o raciocínio lógico e das sensações físicas, e também do reducionismo.
Como, pela pesquisa, pôde-se observar que a crise de fragmentação que ameaça a
existência do homem no Planeta encontra-se na dualidade de base sujeito-objeto, própria do
paradigma newtoniano-cartesiano, são citados os principais documentos que encorajaram a
desenvolver uma teoria que constitui hoje a base de pesquisa, ensino e ação da Universidade
Holística Internacional que são: a Declaração de Veneza da Organização das Nações Unidas
para a Educação, a Ciência e a Cultura - Unesco (1986) que afirmou que a ciência chegou aos
confins e recomenda-se o desenvolvimento da transdicisplinaridade; a Declaração de
Vancouver da Unesco (1990), que reforça os termos da de Veneza, evidenciando o caráter
urgente em relação à sobrevivência da vida na Terra; e a Carta Magna da Universidade
Holística Internacional (1986) que anunciou o novo paradigma emergente onde a visão em
que o todo e cada uma das sinergias estão ligados.
Weil, D’Ambrosio e Crema (1993) relataram que a abordagem holística da realidade é
transdisciplinar e que, na Universidade Holística de Brasília, foi definida como
transdiciplinaridade o encontro de várias áreas do conhecimento entre cientistas e artistas,
poetas, filósofos e místicos, todos os “exilados” do império da razão.
O verdadeiro estado transpessoal é de natureza holística, abrangendo o mundo relativo
e dualista pessoal, e o estado absoluto transpessoal, eliminando a última dualidade. Os
mundos interior e exterior são vistos ao mesmo tempo como dimensões sagradas da pessoa e
que vão além de, através delas em suas relações na dimensão transpessoal.
Assim sendo, todos esses princípios expressam a visão holística e levam em conta
tanto as hipóteses advindas das descobertas mais recentes da ciência, quanto das descrições da
vivência transpessoal por seres privilegiados.
Vale ressaltar que, atualmente, além de dois semestres dedicados à disciplina
Psicologia Transpessoal, a Universidade Federal de Minas Gerais possui nove disciplinas
com orientação transpessoal.
Conforme Weil, D’Ambrosio e Crema (1993), ninguém pode pretender supremacia no
exercício de vivência em redes ou transdisciplinaridade, que parte do reconhecimento da
73

impossibilidade de abranger a realidade a partir de um só domínio, por mais capacitado que


possa ser o seu porta-voz. É preciso adquirir a ética da diversidade.
Daí, a importância deste trabalho no sentido de apresentar a Psicologia Transpessoal à
comunidade científica da Puc Minas, abrindo espaço para discussão, troca e crescimento.
Sugere-se, portanto, que a pesquisa possa prosseguir no sentido de investigar-se as
influências da Psicologia Transpessoal no reconhecimento de teorias e práticas psicoterápicas
em processos psicopatológicos.
74

REFERÊNCIAS

ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

ÂNGELIS, Joana de; FRANCO, Divaldo Pereira. O ser consciente. Salvador: Livraria
Espírita Alvorada Editora, 1993.

ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco: texto integral. São Paulo, Martin Claret. 2003.

BACHELARD, Gaston. Epistemologia. Rio de Janeiro: Zahar, 1971.

BENTON, William. Enciclopédia Barsa. Rio de Janeiro: Encyclopaedia Britannica, 1995.


13v.

BERNARD, Michel. A psicologia. In: CHÂTELET, François. História da filosofia: idéias,


doutrinas. Rio de Janeiro: Zahar, 1974. v. IV, cap. 1, p. 17.

BRONOWSKI, Jacob. Ciência e valores humanos. Belo Horizonte: Itatiaia, 1990. p. 66.

CAPRA, Fritjof. O Ponto de mutação: a ciência, a sociedade e a cultura emergente. São


Paulo: Cultrix, 1982.

CHALITA, Gabriel. Vivendo a filosofia. São Paulo: Ática, 2006.

CHALMERS, Alan F. O que é ciência afinal? São Paulo: Brasiliense, 1993.

CHAUÍ, Marilena. Convite à filosofia. São Paulo: Ática, 2001.

CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA (Brasil). Resoluções. [mensagem pessoal].


Mensagens recebidas por < selene@almg.gov.br > em 23 ago. 2007 e 31 ago. 2007.

COTRIM, Gilberto. Fundamentos da filosofia: história e grandes temas. São Paulo: Saraiva,
2002.
75

CREMA, Roberto. Introdução à visão holística: breve relato de viagem do velho ao novo
paradigma. São Paulo: Summus, 1989.

DENIS, LÉON. Depois da morte. Rio de Janeiro: FEB, 1978.

DESANTI, Jean-Toussaint. Galileu e a nova concepção da natureza. In: CHÂTELET,


François (Dir). História da filosofia: idéias, doutrinas. Rio de Janeiro: Zahar, 1974. v. 3, p.
61-80.

DESCARTES, René. Discurso do método: meditações: objeções e respostas: as paixões da


alma; cartas. São Paulo: Abril Cultural, 1983. (Os pensadores).

ECO, Umberto. Como se faz uma tese. 19. ed. rev. São Paulo: Perspectiva, 2004.

FIGUEIREDO, L. C.; SANTI, P. L. R. de. Psicologia: uma (nova) introdução: uma visão
história da psicologia como ciência. São Paulo: EDUC, 2003.

FOUCAULT, Michel. As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas. 8.


ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

GARCIA, Vera P. Saldanha; SALDANHA, Vivaldo P. O que é psicologia transpessoal.


Disponível em <http://www.alubrat.org.br/artigos.php>. Acesso em: 30 abr. 2008.

GILMORE, Robert. Alice no pais do quantum : a física quântica ao alcance de todos. Rio de
Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

GRANDE Enciclopédia Barsa: macropédia. 3. ed. São Paulo: Barsa Planeta Internacional,
2005.

GROF, Stanislav. A natureza da realidade: o alvorecer de um novo paradigma. In: GROF,


Stanislav. Além do cérebro nascimento: morte e transcendência em psicoterapia. São Paulo:
McGraw-Hill, 1987.

HOUAISS, Antônio; VILLAR, Mauro; FRANCO, Francisco Manoel de Mello. Dicionário


Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

JAPIASSÚ, Hilton. Interdisciplinaridade e patologia do saber. Rio de Janeiro: Imago,


1976.
76

JAPIASSÚ, Hilton. A crise da razão e do saber objetivo: as ondas do irracional. São Paulo:
Letras & Letras, 1996.

JUNG: a psicologia analítica e o resgate do sagrado. São Paulo, Ediouro, [200-?].


(Memória da psicanálise. Mente e cérebro, 2.).

KNELLER, George F. A ciência como atividade humana. Rio de Janeiro: Ática, 2001.

KOESTLER, Arthur. O homem e o universo: como a concepção do universo se modificou


através dos tempos. 2. ed. São Paulo: IBRASA, 1989.

KOYRÉ, Alexandre. Estudos de história do pensamento científico. Brasília: Forense


Universitária, 1973.

KUHN, Thomas S. A estrutura das revoluções científicas. 2. ed. São Paulo: Perspectiva,
1978. 262 p. Título original: The estructure scientifc revolutions.

LEIBNIZ, G. Wilhelm. Sir Isaac Newton: princípios matemáticos o peso e o equilíbrio dos
fluidos: a monadologia discurso de metafísica e outras obras. São Paulo: Abril Cultural, 1974.
p. 27. (Os pensadores).

LEPOUP, Jean-Yves. O barulho da floresta que brota. Disponível em


<http://www.alubrat.org.br/artigos.php>. Acesso em: 30 abr. 2008.

LIVRO DO ANO: ciência e futuro 1997. Rio de Janeiro: Encyclopaedia Britannica do Brasil,
1997. p.119.

LUNA, Sérgio Vasconcelos de. Planejamento de pesquisa: uma introdução elementos para
uma análise metodológica. São Paulo: PUCSPEDUC, 2007.

MACDONALD, Fiona. Albert Einstein: personagens que mudaram o mundo, os grandes


cientistas. São Paulo: Globo, 1993.

MASLOW, Abraham H. Introdução à psicologia do ser. Rio de Janeiro: Eldorado Tijuca,


[196-?].

PIERRAKOS, Eva. THESENGA, Donovan. Entrega ao deus interior: o pathwork no nível


da alma. São Paulo: Cultrix, 1997.
77

PLATÃO. Diálogos. São Paulo: Nova Cultural, 1996. (Os pensadores).

POPPER, Karl. A lógica da pesquisa científica. São Paulo: Cultrix, 1975.

PRIGOGINE, Ilya. O fim das certezas: tempo, caos e as leis da natureza. São Paulo: Ed.
Universidade Estadual Paulista, 1996.

PRIGOGINE, Ilya; STENGERS, Isabelle. A nova aliança metamorfose da ciência. Brasília,


Ed. Universidade de Brasília, 1997.

RANK, O. O que a psicanálise realizou até agora. In: BECHER, E. A negação da morte. Rio
de Janeiro, Record, 1992. cap. 9, p. 203-235.

REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da filosofia: volume 1: antigüidade e idade


média. 3.ed. São Paulo: Paulus, 1990.

REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da filosofia: volume 7: de Freud à


atualidade. São Paulo: Paulus, 2006.

RIBEIRO, Bruno Alvarenga. Algumas considerações sobre o fazer científico realizadas a


partir da análise dos modelos de ciência propostos por Taylor, Wundt e Watson. Psicologia:
Ciência e Profissão, Brasília, v. 23, n. 2, p. 92-97, abr. 2003.

RICCI, Louis. Relato de atendimentos. [mensagem pessoal]. Mensagem recebida por


<selene@almg.gov.br > em 14 abr. 2008 .

SALDANHA. Vera. A psicoterapia transpessoal. Campinas: Komedi, 1997.

SEABRA, G. Farias. Pesquisa científica: o método em questão. Brasília: UNB, 2001.

SCHULTZ, Duane; SCHULTZ, Sydney. História da psicologia moderna. Tradução Suely


S. M. Cuccio. 8.ed. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 1981.

SCHWARTZMANS, R. Sataovschi. Jornal Brasileiro de Psiquiatria, Belo Horizonte, v.35,


p. 175, maio/jun.1986.

WEIL, Pierre. A consciência cósmica: introdução à psicologia transpessoal. Petrópolis:


Vozes, 1982.
78

WEIL, Pierre. A morte da morte: uma abordagem transpessoal. São Paulo: Gente, 1995.

WEIL, Pierre. Os mutantes: uma nova humanidade para um novo milênio. Campinas: Verus,
2003. p. 94.

WEIL, Pierre; D'AMBROSIO, Ubiratan; CREMA, Roberto. Rumo à nova


transdisciplinaridade: sistemas abertos de conhecimento. São Paulo: Summus, 1993. p.63.

WEIL, Pierre; DEIKMAN, Arthur J; RING, Kenneth. Cartografia da consciência humana:


pequeno tratado de psicologia transpessoal. Petrópolis: Vozes, 1978. v. I.

WEIL, P. et al. Mística e Ciência: pequeno tratado de psicologia transpessoal. Petrópolis:


Vozes, 1991. p. 29-30.

WIKIPEDIA. Ken Wilber. In: Wikipedia. Disponível em:


<http://pt.wikipedia.org/wiki/ken_wilber>. Acesso em: 20 abr. 2008.

WILBER, Ken. Uma breve história do universo: de Buda a Freud: religião e psicologia
unidas pela primeira vez. Rio de Janeiro: Nova Era, 2001.

WILBER, Ken. O espectro da consciência. São Paulo: Cultrix, 1996.

WILBER, Ken. Psicologia integral: consciência, espírito, psicologia, terapia. São Paulo:
Cultrix, 2000.

WILBER, Ken. Uma teoria de tudo: uma visão integral para os negócios, a política, a ciência
e a espiritualidade. São Paulo: Cultrix, 2003.

WHITE, Michael. Galileu Galilei: personagens que mudaram o mundo, os grandes cientistas.
São Paulo: Globo, 1992.

WOLF, Fred Alan; TOBEN, Bob. Espaço-tempo e além: Bob Toben e Fred Alan Wolf em
conversa com físicos teóricos. São Paulo: Cultrix, 1982.

ZIMMER, Heinrich. Filosofias da Índia. São Paulo: Palas Athena, 2005.