Вы находитесь на странице: 1из 218

Da parte de Deus e na presença de Deus

Um guia para a pregação expositiva


Traduzido do original em Espanhol
De Parte de Dios y Delante de Dios: Una Guía de Predicación Expositiva
por Sugel Michelén
Copyright ©2016 por Sugel Michelénn

Publicado por B&H Publishing Group.


Nashville, TN 37234
Copyright © 2018 Editora Fiel
Primeira Edição em Português: 2018

Todos os direitos em língua portuguesa reservados por Editora Fiel da Missão Evangélica Literária

PROIBIDA A REPRODUÇÃO DESTE LIVRO POR QUAISQUER


MEIOS , SEM A PERMISSÃO ESCRITA DOS EDITORES ,
SALVO EM BREVES CITAÇÕES , COM INDICAÇÃO DA FONTE .

Diretor: James Richard Denham III


Editor: Tiago J. Santos Filho
Tradução: Leonardo Gonçálves
Revisão: Shirley Lima - Papiro Soluções Textuais
Diagramação: Rubner Durais
Capa: Rubner Durais
Ebook: João Fernandes
ISBN: 978-85-8132-498-29
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
M623p Michelén, Sugel
Da parte de Deus e na presença de Deus : um guia para
a pregação expositiva / Sugel Michelén;
prólogo de Paul David Washer ; [tradução: Leonardo Gonçalves]. –
São José dos Campos, SP : Fiel, 2018.
2Mb ; ePUB
Tradução de: De parte de Dios y delante de Dios : una guía de predicación
expositiva.
Inclui referências bibliográficas.
ISBN 978-85-8132-498-29
1.Pregação. I. Washer, Paul David, 1961-. II. Título
CDD: 251

Caixa Postal, 1601


CEP 12230-971
São José dos Campos-SP

PABX.: (12) 3919-9999


www.editorafiel.com.br
Existe um crescimento mundial entre os cristãos no interesse pela pregação
expositiva. A razão é simples: a pregação expositiva, mais do que qualquer
outra, traz diante do mundo e da igreja as verdades reveladas na palavra de
Deus. Ela se baseia e se fundamenta na autoridade das Escrituras para
confrontar a todos com a verdade inspirada por Deus. Num mundo corroído
pelo relativismo, pragmatismo e indiferença, esse tipo de pregação é a que
melhor se adequa à tarefa da igreja de anunciar ao mundo todo o conselho de
Deus de maneira relevante e clara. Como eficiente expositor das Escrituras,
Sugel Michelén oferece nesta obra uma ajuda inestimável aos pastores que
querem ser fiéis no ministério da pregação. Da parte de Deus e na presença
de Deus chega em momento oportuno.
Rev. Dr. Augustus Nicodemus Lopes , pastor presbiteriano, autor de
Apóstolos
Esta obra de Sugel Michelén é uma sólida afirmação teológica da necessidade
da pregação, assim como um ótimo guia passo a passo para a exposição da
Escritura Sagrada centrada em Cristo Jesus crucificado. Todo aquele
compromissado com a pregação será muito beneficiado se estudar esta obra
clara, simples e direta sobre a arte de pregar. Será de ajuda não apenas para
iniciantes, mas também para veteranos relembrarem princípios e direções
para o anúncio do evangelho com fidelidade à Palavra de Deus.
Franklin Ferreira , diretor e professor no Seminário Martin Bucer e pastor
da Igreja da Trindade, em São José dos Campos-SP
Se há um tema sobre o qual sempre desejei que o pastor Sugel escrevesse, é a
pregação. Durante quase 35 anos, escutei suas pregações, e sou testemunha
da obra que o Senhor fez e continua a fazer por intermédio dele. Posso
garantir que Sugel proclamou o evangelho “da parte de Deus e na presença de
Deus”, como um obreiro diligente (2Tm 2.15). Acredito que este livro será
referência obrigatória por muito tempo. Aqui está: agora mergulhe nele!
Salvador Gómez-Dickson , pastor da Iglesia Bíblica del Señor Jesucristo
em Santo Domingo
Nossos sermões pregados agradam a Deus ou estamos satisfeitos apenas com
o fato de agradarem aos homens? Se queremos que nossos sermões agradem
a Deus, a primeira providência é refletir neles aquilo que Deus diz. Como
vamos agradar a Deus com o que pregamos se distorcemos sua Palavra,
acrescentamos algo ou a interpretamos mal, se deixamos de lado aquilo de
que não gostamos e chamamos a atenção para nós mesmos em vez de chamar
a atenção para seu Filho? O conceito simples de que “a pregação que agrada a
Deus é aquela que reflete com fidelidade o que Deus mesmo diz” é o cerne
desta excelente introdução à pregação expositiva. O ensino com que Sugel
nos brinda provém de seus muitos anos de serviço fiel e frutífero no
ministério.
D.A. Carson , escritor e diretor do ministério The Gospel Coalition
Este livro de Sugel Michelén, expõe os fundamentos de que precisamos hoje
para uma verdadeira pregação bíblica, validada por uma compreensão do
Evangelho que permeia toda a Escritura. Estou certo de que esta obra guiará
toda uma geração a ser fiel ao Evangelho.
Brian Chapell , pastor e escritor de Pregação Cristocêntrica
É uma grande condescendência que Deus mostre sua misericórdia ao dar à
sua Igreja pastores e mestres que nos ensinem com ciência e inteligência. O
pastor Sugel Michelén é um dom de Cristo para a Igreja. Por meio dele,
muitos de nós temos sido auxiliados, edificados e abençoados, e agora ele nos
torna participantes de seu trabalho, reunindo, neste livro, mais de três décadas
de experiência pastoral. Tomando, em várias ocasiões, o exemplo do Príncipe
dos Pastores, nosso Senhor Jesus Cristo, esta obra nos exorta a manter estrita
fidelidade à Palavra de Deus — um princípio que deve reger, no ministério
da Palavra, os pastores que foram chamados por ele, para que possam exercer
com honestidade e integridade seu dever. Agradecemos a Deus por nos dar,
em nossa época, o pastor Sugel Michelén, para o benefício de nossa geração e
também para aquelas que virão depois de nós.
Boni Lozano , pastor da Iglesia del Pacto de Gracia em Madri, Espanha
Se você já prega, ou se quer aprender a pregar, precisa ler este livro. Expor
uma passagem bíblica é caminhar em terreno santo. Nesta obra, Sugel
compartilha essa verdade conosco e nos lembra que nossa função como
pregadores é servir o pão que Deus tem preparado para alimentar as almas
famintas. O pastor Michelén guiará você não apenas para que entenda a
importância da pregação, mas também para que possa praticá-la. Ele escreve
porque conhece profundamente a Palavra e porque já viu os resultados do
poder da Palavra em ação.
Miguel Nuñez , pastor da Iglesia Bautista Internacional em Santo Domingo
A primeira vez que escutei o pastor Sugel Michelén pregando não foi diante
de um grande auditório, mas para um pequeno grupo de pastores. Foi um
sermão claro, poderoso e cheio do Espírito Santo. Agora, um dos pregadores
mais claros, poderosos e cheios do Espírito Santo da América Latina escreve
um livro sobre pregação. Em Da parte de Deus e na presença de Deus ,
Sugel estabelece a teologia da pregação, define a pregação expositiva e nos
ensina como preparar um sermão do princípio ao fim. O que você tem em
mãos é um curso completo sobre pregação. Leia e pratique o que ele diz. Que
o Senhor te abençoe ao pregar a Palavra da parte de Deus e na presença de
Deus!
Juan Sánchez , pastor principal da High Pointe Baptist Church, Austin,
TX
O leitor interessado em pregação expositiva encontrará diferentes opções que
poderão orientá-lo, de maneira teórica e prática, em seu santo chamado, que é
comunicar a Palavra de Deus. Porém, acredito que este valioso trabalho de
Sugel Michelén é único por várias razões: em primeiro lugar, está escrito em
uma perspectiva latino-americana; em segundo, ele é um exemplo de pastor
que prega expositivamente; e, em terceiro, trata-se de um livro agradável, no
qual o autor combina simplicidade com erudição. Esta obra é uma jóia para
mim e eu sei que também será para todos os seus leitores.
Otto Sanchez , pastor da Iglesia Bautista Ozama em Santo Domingo
A Gloria,
por me dar 34 anos de
sua vida para deleitar e abençoar
abundantemente a minha.
Sumário
Agradecimentos
Prólogo
Introdução
Capítulo 1
Deus falou e atua falando
Capítulo 2
Deus fala hoje por meio de sua Palavra escrita
Capítulo 3
Deus nos ordena pregar sua Palavra para que sua voz seja publicamente
ouvida
Capítulo 4
O que é um sermão expositivo?
Capítulo 5
O que é pregar?
Capítulo 6
Pregando sob a dependência do Espírito Santo
Capítulo 7
Cristo e este crucificado: o centro de nossa pregação
Capítulo 8
Escolha o texto
Capítulo 9
Estude o texto
Capítulo 10
Estruture o sermão
Capítulo 11
Prepare o sermão
Capítulo 12
Aplique o sermão
Capítulo 13
Prepare a introdução e a conclusão
Capítulo 14
Pregue o sermão... da parte de Deus e na presença de Deus
Capítulo 15
Deus no banco dos réus1
Epílogo
Livros recomendados
Notas
Bibliografia
Agradecimentos
Escrever é um empreendimento solitário, mas, ao mesmo tempo, em
muitos aspectos, depende de várias pessoas. Ninguém é completamente
original e é difícil escrever um livro que valha a pena sem a ajuda de outras
pessoas. Por isso, não seria justo da minha parte deixar de agradecer a todos
aqueles que, de uma forma ou de outra, contribuíram para que este livro fosse
escrito e publicado.
A Cristopher Garrido, diretor editorial da B&H Publishing Group, por me
apresentar a proposta de escrever este livro e por sua paciência comigo todas
as vezes que tive de mudar a data de entrega.
A Boni Lozano, José (Pepe) Mendoza, Giancarlo Montemayor e María
Silvia Chozas, por suas correções e recomendações. É um privilégio poder
contar com leitores tão diligentes e argutos. Estou convencido de que este
livro será um recurso muito melhor por causa da ajuda que eles me deram.
Acerca das debilidades e limitações desta obra, assumo total
responsabilidade.
Aos meus pastores: Eduardo Saladín, Lester Flaquer, Salvador Gómez,
Marcos Peña, Miguel Linares, Leopoldo Espaillat, Rafael Alcántara e Eric
Sigfrido Guillén, por me apoiar neste projeto, apesar do impacto causado em
minha agenda nestes últimos meses, assim como pela fidelidade de cada um
em avaliar, a cada semana, o sermão apresentado no púlpito de nossa igreja.
Essa avaliação constante tem sido uma verdadeira escola para todos nós que
temos a responsabilidade de “administrar os mistérios de Deus” em nossa
congregação.
Aos membros da Iglesia Bíblica del Señor Jesucristo, pela atenção que dão
à exposição das Escrituras a cada domingo, pela notas constantes de alento e
por orar regularmente por seus pastores. É um verdadeiro gozo pastorear uma
congregação que tem em tão alta estima a pregação da Palavra.
A Eduardo e Cisnely Álvares, bem como a José Ramón e Marisol Díaz,
pela generosa disposição com que me emprestaram suas respectivas casas,
para que eu pudesse escrever em um ambiente tranquilo. Essas oportunidades
a sós com minha esposa na montanha foram os momentos mais produtivos
em todo o processo de escrita deste livro. Obrigado, de todo o coração!
A Paul Washer, por reservar um tempo de sua agenda para ler o manuscrito
e por aceitar escrever o prólogo.
De maneira muito especial, à minha esposa, Glória, por me apoiar
integralmente durante todo o tempo que dediquei a essa tarefa, por ser a
primeira a ler e avaliar cada capítulo, mas principalmente por ser um
instrumento nas mãos de Deus para me ajudar a ser um crente melhor, um
pastor melhor e um pregador melhor. Você é o presente mais lindo e valioso
que o Senhor me concedeu, depois de conhecê-lo.
Acima de tudo, ao único e sábio Deus, aquele que, desde antes da fundação
do mundo, me escolheu por pura graça para ser salvo e para proclamar: “O
evangelho da glória de Cristo”. A ele, e somente a ele, sejam toda a glória,
todo o louvor e toda a honra pelos séculos dos séculos!
Prólogo
Nas últimas décadas, a Igreja se afastou gradativamente do ensino claro das
Escrituras, deixando-se levar sem direção, sacudida “pelas ondas” e levada
“ao redor por todo vento de doutrina” (Ef 4.14). Deus e sua glória foram
removidos do centro do cenário, e a busca do homem por realização pessoal e
autossatisfação se apoderou da cena. O evangelho e seu chamado ao
arrependimento e a fé foram substituídos por uma frágil declaração de fé e
por um convite para que o homem repita uma oração. A clara exposição das
Escrituras tem sido silenciada por homilias astutas, histórias pitorescas e uma
fervorosa súplica destituída de substância e que não contém nutrientes
verdadeiros. A genuína obra do Espírito tem sido falsificada por emotividade
e entusiasmo, fogo sem calor, espiritualidade sem piedade e supostas
revelações que contradizem a infalível revelação das Escrituras inspiradas
pelo Espírito (2Tm 3.16). Em consequência, a missão da Igreja no mundo
tem sido frustrada. Seu testemunho ficou manchado pelo mundanismo e pela
carnalidade; sua mensagem perdeu a unidade e se tornou até mesmo
contraditória. Dessa forma, o mundo se encheu de opiniões contraditórias
acerca da pessoa e da obra de Cristo, e do que significa segui-lo.
A Igreja, cujo propósito é ser “o sal da terra”, “a luz do mundo” (Mt 5.13-
16), além de “coluna e baluarte da verdade” (1Tm 3.15), transformou-se em
uma coleção frágil, impotente e obscura de opiniões e condutas em conflito.
Contudo, em meio a toda essa escuridão e confusão, a luz brilha. Em muitas
partes do mundo, a Igreja parece estar retornando às doutrinas fundamentais
sobre as quais foi estabelecida. Muitos estão começando a descobrir que não
podemos curar a Igreja ou o mundo com estratégias e novas invenções dos
homens; devemos nos voltar a Deus e nos submeter completamente à sua
vontade do modo como é revelada nas Escrituras. Assim, muitos cristãos
estão novamente prestando atenção à exortação que o Senhor nos deixou por
meio do profeta Jeremias:
Assim diz o SENHOR: Ponde-vos à margem no caminho e vede, perguntai pelas
veredas antigas qual é o bom caminho; andai por ele e achareis descanso para a vossa
alma; mas eles dizem: Não andaremos (Jr 6.16).

O ano de 2017 marcou o 500º aniversário da Reforma Protestante, que


arrebatou a Igreja das trevas mediante o redescobrimento do sola scriptura , a
doutrina que afirma a inerrante e infalível Palavra de Deus como a única
norma de fé e prática. Graças a essa doutrina fundamental e aos homens que
sustentaram essa verdade, toda a Europa e, com o tempo, todo o mundo foi
influenciado para melhor. O Renascimento e o Iluminismo não mudaram a
conduta dos homens nem transformaram o mundo; o que mudou tudo foi a
preciosa e clara exposição das Sagradas Escrituras de Deus. E, se a Igreja dos
nossos dias vai ocupar novamente o lugar que lhe é de direito, como sal da
terra, luz do mundo e coluna e baluarte da verdade, seus ministros devem,
uma vez mais, deixar de lado aquilo que é trivial e dedicar-se à excelente
tarefa de estudar, praticar e ensinar as Escrituras às igrejas que estão sob seus
cuidados. Devemos ser como Esdras, que dispôs “o coração para buscar a Lei
do SENHOR, e para a cumprir, e para ensinar em Israel os seus estatutos e os
seus juízos” (Ed 7.10). Devemos obedecer às contínuas exortações de Paulo
ao seu jovem discípulo Timóteo: “Procura apresentar-te a Deus aprovado,
como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra
da verdade” (2Tm 2.15) e “prega a palavra, insta, quer seja oportuno, quer
não, repreende, exorta com toda a longanimidade e doutrina” (2Tm 4.2).
Somente então, seremos como o fiel Levi no livro de Malaquias, de quem
Deus diz: “A verdadeira instrução esteve na sua boca, e a injustiça não se
achou nos seus lábios; andou comigo em paz e em retidão e da iniquidade
apartou a muitos” (Ml 2.6).
É por tais razões que, com todo o meu coração, recomendo este livro aos
ministros e às igrejas de Cristo. Todo aquele que se esforça para comunicar a
verdade de Deus aos outros será muito abençoado pela simples e, ao mesmo
tempo, profunda instrução que se encontra nestas páginas.
Quer já tenha pregado por décadas, quer esteja ensinando à sua primeira
turma infantil na escola dominical, este livro guiará você pelos elementos
essenciais da preparação e da pregação da Palavra de Deus.
Para concluir, considero apropriado que, nas proximidades do 500º
Aniversário da Reforma, seja publicado um livro que estabelece e promove a
mesma disciplina que tornou a Reforma uma realidade: a fiel exposição das
Escrituras.
É meu desejo e minha sincera oração a Deus que ele use esta obra para
trazer aos nossos dias uma verdadeira reforma.
Soli Deo Gloria ,
Paul David Washer
Este púlpito será recordado com sentimento de amargura pelos milhões de perdidos!
Muitos pecadores empedernidos exclamarão na prisão do desespero: “Este santuário e este
homem de Deus me advertiram desta espantosa eternidade, mas eu não prestei atenção na
repreensão. Este púlpito sagrado me falou da redenção através do sangue de Cristo, mas eu
desprezei a mensagem e pisoteei o sangue do Pacto com os meus pés... Agora estou
perdido — perdido — perdido! Ó, que terrível é este inferno eterno! Ó, aquele púlpito!
Quanto agrava a minha desgraça! Não me fala outra coisa, exceto aquilo que serve de
combustível para estas chamas!”.
Por outro lado, estarão aqueles — “uma grande multidão, que ninguém pode contar” —
que se lembrarão da influência deste púlpito com um louvor grato e adoração àquele que se
esforçou para “salvar os crentes pela loucura da pregação”. Dessa casa de Deus, quantos se
lembrarão no céu! “Esse púlpito, que me buscou quando eu ainda era criança, me ensinou
quando eu era ignorante e me encontrou quando eu estava perdido; que me lembrou da
minha maldade e me disse tudo o que eu tinha feito; que me falou da imortalidade e me fez
tremer e chorar, esse púlpito nunca poderá ser apagado da minha memória. Esse púlpito,
que me falou do amor do Salvador e de como ele sangrou, morreu e esperou até o
sofrimento para que eu pudesse aceitar sua misericórdia salvadora; que me confortou
quando eu estava desanimado e me animou em meu cansaço; que dissipou meus erros e me
ajudou a escapar da armadilha do caçador; que me deu o pão da vida quando eu estava
faminto e me deu as águas da salvação quando eu estava sedento; que me trouxe a
mensagem da paz quando eu desfalecia no leito, aliviando minha cabeça dolorida; e,
quando eu estava morrendo, me disse que não afligisse meu coração.” Esse púlpito,
milhões na glória dizem: “me advertiu daquela terrível prisão e me dirigiu a estas mansões
na casa de meu Pai!” (Gardiner Spring, 1785-1873; traduzido pelo autor).¹
Introdução
Imagine a cena. Você está em um auditório e alguém está discursando sobre
um tema que você conhece bem. O expositor não sabe que você está ali na
última fileira e, de repente, menciona seu nome. Ele está citando algo que
você disse em uma conferência apenas alguns dias antes! Se antes você
estava um pouco distraído, agora concentra toda a sua atenção. É difícil
reconhecer, mas a verdade é que você se sente importante. Mas a sua reação
inicial começa a se desvanecer quando você percebe que essa pessoa está
tirando uma frase de contexto aqui e distorcendo outras ali, de modo que, no
final, ele parece dizer coisas que você não disse. Você não sabe se o orador
está sendo mal-intencionado ao fazer isso ou se o faz por ignorância, mas,
francamente, você fica irritado. Agora você tem de fazer um verdadeiro
exercício de paciência e aguardar até o final da conferência para se aproximar
dele, pedir-lhe uma explicação e, se possível, uma retratação.
Agora, imagine outra cena. É você quem está diante do auditório pregando
sobre uma passagem das Escrituras e o Senhor está sentado na primeira fileira
escutando com atenção! De que forma essa realidade impactaria seu
ministério de pregação? A verdade é que, exceto pelo fato de estar sentado na
primeira fileira, essa não é uma mera ilustração: o Senhor está presente a cada
domingo na igreja escutando a pregação. Paulo diz, em 2Coríntios 2.17, que
os ministros do evangelho falam “da parte de Deus e na presença do próprio
Deus ” (grifo aposto). Que grande privilégio e responsabilidade!
Mesmo pregando para a edificação dos crentes e a salvação dos perdidos,
há uma só pessoa no auditório que deve concordar com a nossa pregação,
apenas uma a quem devemos procurar agradar e cuja opinião vale mais que a
do mundo todo. Em sua Primeira epístola aos Tessalonicenses, Paulo
argumenta que sua “exortação não precede de engano, nem de impureza, nem
se baseia em dolo; pelo contrário, visto que fomos aprovados por Deus, a
ponto de nos confiar ele o evangelho, assim falamos, não para que
agrademos a homens, e sim a Deus , que prova o nosso coração” (1Ts 2.3-4,
grifo aposto). Foi Deus quem lhe deu o ministério de proclamar o evangelho;
ele é quem prova ou pesa os corações; portanto, era somente a ele que o
apóstolo queria agradar. Para Paulo, essa convicção foi uma muralha de
proteção que o guardou do erro e das más motivações.
Escrevi este livro com o propósito de promover a mesma convicção que
dominava a consciência de Paulo: nós pregamos da parte de Deus e na
presença de Deus. Mesmo quando eu procurar demonstrar que a pregação
expositiva é o melhor alimento, no longo prazo, para edificar a Igreja de
Cristo e o meio por excelência para a salvação das almas, ainda insistirei em
que a pregação não é um fim em si mesmo. Devemos nos esforçar para expor
fielmente as Escrituras porque Deus se glorifica na realização da obra através
de sua Palavra.
Essa perspectiva da pregação, ao mesmo tempo que coloca um grande peso
de responsabilidade sobre os pregadores, também é muito libertadora, pois
nos lembra que somos meros porta-vozes de Deus, que se agradou de usar
instrumentos humanos para trabalhar no coração dos homens por meio de sua
Palavra. Portanto, a obra de Deus não depende de nossa oratória, muito
menos de nossa astúcia ministerial; depende inteiramente do poder de sua
Palavra. Por outro lado, essa perspectiva da pregação nos conforta no
desempenho de nosso labor, ao mostrar que os pregadores não falam em seu
próprio nome, mas em nome daquele que nos deu a missão de ser seus
embaixadores. É um solene e alegre privilégio pregar da parte de Deus e na
presença de Deus!
Este livro está organizado em três partes. Na primeira, estabelecemos o
fundamento teológico que sustenta a pregação expositiva: Deus fala e leva a
cabo sua obra falando (capítulo 1); Deus fala hoje por meio de sua Palavra
escrita (capítulo 2); e Deus nos ordena a pregar sua Palavra para fazer ouvir
publicamente sua voz (capítulo 3).
Na segunda parte, definimos o que é um sermão expositivo (capítulo 4) e
em que consiste o ato de pregar (capítulo 5); logo constatamos a importância
de pregar dependendo do Espírito Santo (capítulo 6) e quão grande tema de
pregação é Cristo, e este crucificado (capítulo 7). Os sete capítulos que
compõem este livro tentam estabelecer a doutrina da pregação expositiva.
Como eu sei que muitos não gostam de teorizar, espero que você não ceda à
tentação de pular essa parte e ir diretamente para a parte prática. Lembre-se
de que a prática deriva da doutrina, e que a doutrina será um grande incentivo
para a tarefa de pregar fielmente as Escrituras, apesar do desafio que isso
implica na prática.
Na terceira parte, os capítulos 8 a 14, vemos como preparar um sermão
expositivo passo a passo: a eleição de uma passagem (capítulo 8), o estudo da
passagem (capítulo 9), a estruturação do sermão (capítulo 10), a preparação
do sermão (capítulo 11), a aplicação do sermão (capítulo 12), a preparação da
introdução e da conclusão (capítulo 13) e alguns conselhos relativos ao ato de
pregar (capítulo 14). Ao finalizar os capítulos 8 a 13, acrescentei uma seção
na qual podemos trabalhar juntos na elaboração de um sermão expositivo
com base em Êxodo 17.1-7, que se encontra na parte final do livro, o capítulo
15. Desse modo, espero que você possa ver um exemplo concreto dos
princípios práticos aqui enunciados.
Alguns aspectos importantes relacionados à pregação não serão abordados
em profundidade nesta obra, mas apenas de maneira incidental, como, por
exemplo, o chamado de Deus ao ministério da pregação, o caráter e os dons
do pregador, sua vida devocional, seus hábitos de leitura e outros temas
semelhantes. Por isso, incluí, no final, uma lista de livros recomendados que
complementam o que não conseguimos abordar aqui, devido ao enfoque
particular deste livro.
Embora eu tenha escrito visando principalmente aos pregadores, eles não
serão os únicos que poderão beneficiar-se da leitura deste livro. Espero,
portanto, que este guia seja útil para professores de escola dominical, líderes
de pequenos grupos e para todos aqueles que têm a responsabilidade de
ensinar a Escritura, independentemente do contexto em que trabalham. Por
outro lado, fico animado em pensar que alguns membros de igrejas locais
poderão ler este livro e crescer em seu apreço pela pregação expositiva;
afinal, a pregação deficitária está por todo canto, entre outros motivos, porque
muitas pessoas estão satisfeitas em escutá-la.
Minha oração é para que Deus use esta obra para animar e ajudar muitos
pregadores no árduo e extraordinário trabalho de expor as Escrituras, com o
propósito de levar os homens a Cristo, que é o “poder de Deus e a sabedoria
de Deus”, de maneira que possam conhecê-lo, amá-lo, adorá-lo e deleitar-se
nele. Se, em sua bondade, nosso Deus atender a esse clamor, apesar das
limitações e imperfeições deste livro, estarei profundamente agradecido ao
meu Senhor e Salvador por, de alguma forma, haver contribuído para a
disseminação da pregação expositiva no mundo hispano.1*

1 * O livro foi originalmente publicado em espanhol (Nota do Editor ).


Capítulo 1
Deus falou e atua falando
“O Deus que fala é o Deus que atua através da sua Palavra.”
Peter Adam
“A verdadeira pregação começa com esta confissão:
pregamos porque Deus falou.”
Albert Mohler

Há alguns meses, um casal de nossa igreja nos contou algo que aconteceu na
escola com um de seus filhos. A professora perguntou o que eles queriam ser
quando adultos, e um menino, de pronto, respondeu que queria ser pastor.
“Por quê?”, indagou, emocionada, a professora. “Para ter mais tempo livre”,
respondeu ele. Se algum dia esse menino chegar a ser pastor, espero que o
faça com outra motivação, pois os pastores não costumam ter muito tempo
livre, e um dos aspectos que mais pesam sobre nós é a preparação para pregar
a Palavra de Deus.
Pregar é uma tarefa que exige muito esforço e que pode chegar a ser
esmagadora. Você dedica horas e horas ao estudo das Escrituras, a fim de
entender o significado do texto bíblico, e depois passa horas orando e
pensando na melhor maneira de comunicar aquela verdade de maneira eficaz.
Depois de pregar no dia do Senhor, você fica física e emocionalmente
exausto e talvez até mesmo um pouco frustrado porque o sermão não saiu
conforme o esperado. Na segunda-feira, você deve começar do zero mais
uma vez, preparando-se para o próximo domingo. É sempre a mesma rotina,
semana após semana, mês após mês, ano após ano.
Uma definição popular de loucura é que consiste em “fazer a mesma coisa
sempre, porém esperando resultados diferentes”. Por isso, para pregar a
Palavra fielmente durante anos a fio, você deve ter um chamado celestial ou
estar um pouco maluco. E, com o passar do tempo, o trabalho não fica mais
fácil, porque você vai adquirindo mais consciência do que significa a tarefa
para a qual Deus chamou você. Penso que John Chapman, o famoso pregador
australiano, tinha muita razão ao afirmar que a etapa mais difícil do
ministério são os primeiros cinquenta anos!
Acrescente a isso a hostilidade ou a indiferença que muitos sentem hoje no
tocante à pregação, e a pressão que muitos pastores e líderes sofrem para se
adaptar ao espírito da época e buscar formas “inovadoras” de atrair pessoas
para a igreja, e você se dará conta de que permanecer em sua posição,
fazendo o que Deus quer que você faça, exige ter fortes convicções
enraizadas em uma correta teologia da pregação.
Como bem disse John Stott:
Em um mundo que, aparentemente, não está disposto a escutar ou não é capaz de
fazê-lo, como poderemos estar certos de continuar pregando, e aprender a fazer isso
de modo eficaz? O segredo essencial não é dominar certas técnicas, e sim estar
dominado por certas convicções. Em outras palavras, a teologia é mais importante
que a metodologia (...) As técnicas podem nos converter em oradores; mas, se
queremos ser pregadores, precisamos de teologia.²

Durante todo o tempo, surgem novas ideias sobre como atrair as pessoas à
igreja e mantê-las lá. Tais ideias não são avaliadas com base na verdade de
Deus revelada em sua Palavra, mas no resultado que produzem. Isso é
pragmatismo. John MacArthur, conhecido expositor bíblico e pastor da Grace
Community Church na Califórnia, aponta para o pragmatismo como uma das
razões pelas quais a pregação “está sendo minimizada em favor das
inovações, tais como teatro, dança, humor, variedade, atrações histriônicas,
psicologia popular e outras formas de entretenimento. Os novos métodos
supostamente são mais ‘efetivos’, ou seja, atraem um público maior”.³
Quando o principal critério para aferir o êxito de uma igreja é o número de
membros, qualquer coisa que traga mais gente é aceita de braços abertos. Se a
heresia matou milhares, o pragmatismo matou dez milhares.
Nos próximos três capítulos, vamos examinar uma espécie de âncora
teológica de três pontas que poderá manter o barco de nosso ministério no
devido lugar, mesmo quando os ventos do pragmatismo, ou qualquer outro
vendaval, soprem contra ele com o intuito de nos levar a praias mais
populares.
“A força mais poderosa do universo”
Por que insistir em pregar a Palavra de Deus, esforçando-nos para fazê-lo
cada vez melhor, se o mundo não parece nem um pouco interessado em
escutá-la? Poderíamos responder: “Porque Deus nos deu uma ordem”. Essa é
a resposta correta. Paulo, inspirado pelo Espírito Santo, deu a Timóteo a
ordem de pregar a Palavra (2Tm 4.2). No capítulo 3, vamos abordar esse
tema de forma mais ampla. Mesmo assim, podemos insistir na pergunta: Por
que Deus ordena que preguemos sua Palavra? Uma das melhores respostas
que já li é a frase que encabeça esta seção: “Porque a Palavra de Deus é a
força mais poderosa do Universo” (tradução do autor), como bem afirma
Jonathan Leeman, editor do ministério 9Marcas.4
Olhe ao seu redor e observe tudo aquilo que não foi criado pelas mãos
humanas. Então, você verá uma demonstração do que Deus é capaz de fazer
por meio de sua Palavra. Ele age falando. “Disse Deus: Haja luz; e houve
luz” (Gn 1.3, grifo aposto). Simples assim. Ele falou, e uma quantidade
ilimitada de seres e coisas vieram à existência, de estrelas gigantescas a
partículas minúsculas. Recentemente, li que, na selva tropical amazônica, há
cerca de vinte milhões de espécies de insetos;5 e não de insetos individuais,
mas de espécies! E toda essa variedade foi criada originalmente pela voz de
Deus. “Os céus por sua palavra se fizeram — diz o salmista no Salmo 33.6 —
e, pelo sopro de sua boca, o exército deles.” No extenso capítulo acerca da fé
no Novo Testamento, Hebreus 11, o escritor afirma que “pela fé, entendemos
que foi o universo formado pela palavra de Deus, de maneira que o visível
veio a existir das coisas que não aparecem” (Hb 11.3; compare com Jo 1.1-3).
O apóstolo Pedro acrescenta que os céus e a terra, que foram formados pela
Palavra de Deus, também são preservados por essa Palavra (2Pe 3.6, 7).
Dessa maneira, a pregação é uma prova contundente do imenso poder que
emana da Palavra de Deus quando é pronunciada. E não deixe de considerar
que o universo, tão grandioso quanto é, não é outra coisa senão uma pequena
mostra do que ele é capaz de fazer ao falar. Depois de descrever alguns
aspectos da incrível e incompreensível majestade da Criação, Jó declara: “Eis
que isto são apenas as orlas dos seus caminhos! Que leve sussurro temos
ouvido dele! Mas o trovão do seu poder, quem o entenderá?” (Jó 26.14). Se a
Criação é produto do sussurro de Deus, não podemos sequer imaginar o que
ele teria produzido se tivesse gritado!
Deus se comunica com o homem por meio de palavras
Mesmo revelando-se por meio de sua criação (Sl 19.1-6; Rm 1.18-21), ele
não deixou Adão e Eva livres em sua própria lógica para interpretar o que foi
criado, mas decidiu falar-lhes (Gn 2.15-17; 3.8). Adão e Eva escutavam a voz
de Deus no jardim do Éden e tinham o dever de responder em adoração e
obediência. Lamentavelmente, não passou muito tempo sem que outro
intérprete da realidade entrasse em cena, e foi nesse momento que nossos
primeiros pais tomaram a decisão de desobedecer à voz de Deus. Na mesma
ocasião em que Adão e Eva comeram o fruto proibido, Deus fez com que sua
voz fosse novamente ouvida no jardim, trazendo juízo sobre o pecado e
prometendo a bênção de sua graça (Gn 3.9-19).
Deus prometeu a Adão e Eva, em Gênesis 3.15, que lhes enviaria um
Redentor, nascido de mulher, um ser humano que feriria mortalmente a
cabeça daquele que um dia os tentara para se rebelar contra ele. Mais adiante,
em cumprimento a essa promessa, Deus criou um povo e, mais uma vez,
vemos Deus atuar por meio de sua Palavra.
Deus cria seu povo por meio de sua Palavra
Deus chamou Abraão para deixar sua terra e seus parentes e, assim, fazer dele
uma grande nação, por meio da qual todas as famílias da terra seriam
abençoadas (Gn 12.1-3). Esse chamado marcou o início da nação de Israel na
história. Anos mais tarde, Deus fez um pacto com Abraão, prometendo-lhe
uma descendência mais numerosa que as estrelas do céu (Gn 15.5). Abraão e
Sara não podiam ter filhos, mas Deus falou, e isso foi suficiente para tornar
realidade o nascimento da criança. Da mesma forma, o povo de Deus é criado
pela Palavra de Deus. Ele cria e recria por meio de sua Palavra. “Pois,
segundo o seu querer, ele nos gerou pela palavra da verdade, para que
fôssemos como que primícias das suas criaturas” (Tg 1.18). Foi por meio da
semente incorruptível da Palavra de Deus que nós nascemos de novo (1Pe
1.22-23).
Poucas passagens das Escrituras mostram essa realidade de uma forma tão
memorável quanto o capítulo 37 do livro do profeta Ezequiel. Estando no
exílio babilônico, Deus lhe mostrou, em uma visão, a terrível condição
espiritual em que a nação se encontrava naquele momento de sua história.
Veio sobre mim a mão do SENHOR; ele me levou pelo Espírito do SENHOR e me
deixou no meio de um vale que estava cheio de ossos, e me fez andar ao redor deles;
eram mui numerosos na superfície do vale e estavam sequíssimos (Ez 37.1-2)

Esse é um cenário de completa desolação. É como um grande campo de


batalha cheio de cadáveres, sem nenhum sobrevivente que pudesse enterrar
os ossos de seus companheiros.6 Se você já viu as imagens das valas
comunitárias descobertas nos campos de concentração da Segunda Guerra
Mundial, então tem uma ideia aproximada do que Ezequiel viu naquele dia.
Mas, nesse momento, Deus colocou à prova a fé do profeta. “Filho do
homem, acaso poderão reviver estes ossos?” (Ez 37.3). Humanamente
falando, só havia uma resposta possível: “Com certeza, não!”. Não havia
esperança alguma de que os ossos voltassem à vida para se transformar
novamente no esquadrão do exército do Deus vivo. Mas Ezequiel conhecia
Deus e o que ele era capaz de fazer, então respondeu humildemente:
“SENHOR Deus, tu o sabes” (Ez 37.3). Era impossível que esses ossos
voltassem à vida, a menos que Deus interviesse com seu poder, e foi
exatamente isso que Deus decidiu fazer.
“Disse-me ele: Profetiza a estes ossos e dize-lhes: Ossos secos, ouvi a
palavra do SENHOR” (Ez 37.4). Deus mandou Ezequiel pregar aos ossos!
Embora estivessem “sequíssimos”, esses ossos escutariam a voz de Deus se
ele decidisse falar por intermédio do profeta.
Assim diz o SENHOR Deus a estes ossos: Eis que farei entrar o espírito em vós, e
vivereis. Porei tendões sobre vós, farei crescer carne sobre vós, sobre vós estenderei
pele e porei em vós o espírito, e vivereis. E sabereis que eu sou o SENHOR (Ez 37.5-
6).

A ordem de Deus parecia uma loucura. Qual é o sentido de pregar em um


vale de ossos secos? Mas Ezequiel obedeceu e o poder vivificante da Palavra
de Deus entrou em ação imediatamente:
Então, profetizei segundo me fora ordenado; enquanto eu profetizava, houve um
ruído, um barulho de ossos que batiam contra ossos e se ajuntavam, cada osso ao seu
osso. Olhei, e eis que havia tendões sobre eles, e cresceram as carnes, e se estendeu a
pele sobre eles; mas não havia neles o espírito. Então, ele me disse: Profetiza ao
espírito, profetiza, ó filho do homem, e dize-lhe: Assim diz o SENHOR Deus: Vem
dos quatro ventos, ó espírito, e assopra sobre estes mortos, para que vivam. Profetizei
como ele me ordenara, e o espírito entrou neles, e viveram e se puseram em pé, um
exército sobremodo numeroso (Ez 37.7-10).

Ezequiel transmitiu a mensagem de Deus e os ossos começaram a se


mover; ouviu-se um ruído estrondoso no vale enquanto milhares de ossos se
moviam em busca de sua contraparte, até se juntar “cada osso ao seu osso”.
Em seguida, cresceram sobre eles os tendões e, logo, a carne e a pele.
Contudo, ainda eram cadáveres, porque não tinham vida, até que Ezequiel
profetizou de novo e clamou ao Espírito que viesse dos quatro ventos para
soprar sobre eles o fôlego de vida, assim como acontecera com o primeiro
homem no Éden; “e o espírito entrou neles, e viveram e se puseram em pé,
um exército sobremodo numeroso” (Ez 37.10).
Esse provavelmente é o quadro mais dramático que encontramos em toda a
Escritura sobre a condição espiritual do homem e o poder da Palavra de Deus
para trazê-lo de volta à vida. Talvez Ezequiel se sentisse desconsolado diante
do pouco impacto visível de seu ministério: meses e meses chamando o povo
ao arrependimento, sem nenhum resultado aparente. Mas, então, ele recebeu
essa visão para renovar sua confiança no poder da Palavra de Deus. Quando
ele fala, os mortos voltam à vida, como aconteceu com Lázaro quando Cristo
ordenou que saísse da tumba (Jo 11.42-43). Deus cria seu povo com sua
Palavra.
Nossa relação com Deus se fundamenta em que respondamos à sua Palavra
com fé e obediência
Já vimos que Deus falava com Adão e Eva no jardim do Éden e que o homem
deveria responder à voz de Deus em adoração e obediência. A relação de
intimidade que tinham com Deus no jardim não estava fundamentada em
alguma coisa que eles tivessem visto dele, mas em escutar o que ele dizia.
Precisamente, esse foi o foco de Satanás, ou seja, levar nossos primeiros pais
a ignorar a voz de Deus e desconfiar de sua Palavra: “Foi assim que Deus
disse...?”. Satanás sabia que a relação deles dependia de que continuassem
escutando e obedecendo à voz de Deus. Quando nossos primeiros pais
decidiram escutar outra interpretação da realidade, precisamente aquela que a
Serpente lhes ofereceu, quebrantaram a relação com Deus e se transformaram
em traidores rebeldes.
No restante da história bíblica, vemos esse padrão diversas vezes. Deus fala
e o homem deve escutar e obedecer. Isso foi o que aconteceu com Abraão em
Gênesis 12, como já vimos, e também o que aconteceu com o povo de Israel
quando foi resgatado da escravidão no Egito. Eles se transformaram em povo
de Deus quando receberam a Lei do Senhor pelas mãos de Moisés:
Aplicai o coração a todas as palavras que, hoje, testifico entre vós, para que ordeneis
a vossos filhos que cuidem de cumprir todas as palavras desta lei. Porque esta palavra
não é para vós outros coisa vã; antes, é a vossa vida; e, por esta mesma palavra,
prolongareis os dias na terra à qual, passando o Jordão, ides para a possuir (Dt 32.46-
47).
Em um dos sermões de Moisés, registrado no livro de Deuteronômio, é
enfatizado o enorme privilégio que Deus lhes concedeu como nação ao lhes
enviar sua Palavra:
Algum povo ouviu falar a voz de algum deus do meio do fogo, como tu a ouviste,
ficando vivo; ou se um deus intentou ir tomar para si um povo do meio de outro
povo, com provas, e com sinais, e com milagres, e com peleja, e com mão poderosa,
e com braço estendido, e com grandes espantos, segundo tudo quanto o SENHOR,
vosso Deus, vos fez no Egito, aos vossos olhos. A ti te foi mostrado para que
soubesses que o SENHOR é Deus; nenhum outro há, senão ele. Dos céus te fez ouvir
a sua voz, para te ensinar, e sobre a terra te mostrou o seu grande fogo, e do meio do
fogo ouviste as suas palavras (Dt 4.33-36).
Moisés havia guiado o povo pelo deserto durante quarenta anos e, agora, se
encontrava do outro lado do Jordão, a ponto de entrar na terra prometida.
Como líder da nação, qualquer pessoa esperaria que ele os tivesse treinado
militarmente para empreender a conquista que eles teriam pela frente. Mas,
em vez disso, Moisés lhes recordou que eles eram a única nação do planeta
que havia escutado a voz de Deus. Isso, sem dúvida, era um grande
privilégio, mas também uma grande responsabilidade. Deus se encarregaria
de lhes entregar a terra como herança, conforme a sua promessa, mas eles
deveriam responder a essa Palavra que haviam recebido com obediência e fé.
Este é um dos temas centrais do livro de Deuteronômio: “Deus falou.
Vocês devem escutar e obedecer”. Esse era um assunto de vital importância
porque a sobrevivência da nação dependia de escutar e obedecer à voz de
Deus.7 E isso não mudou. Se o Deus do universo falou, então suas criaturas
devem escutar e obedecer; esse é o fundamento que sustenta nossa relação
com ele.
Essa realidade alcança o ponto máximo na história redentora na encarnação
da Palavra de Deus, nosso Senhor Jesus Cristo. Como bem demonstra
Graeme Goldsworthy: “A Palavra de Deus, por meio da qual todas as coisas
foram criadas, é a mesma que estabelece um pacto com um povo redimido e
que finalmente entra em nosso mundo como o Deus Homem: Emanuel”.8 No
capítulo 1 do Evangelho de João, Jesus não apenas é apresentado como o
Verbo de Deus que encarnou (Jo 1.1, 14), mas também como aquele que nos
provê a mais completa revelação e interpretação de Deus: “Ninguém jamais
viu a Deus; o Deus unigênito, que está no seio do Pai, é quem o revelou”
(João 1.18; o verbo grego traduzido por “revelou” é exegéomai , de onde
deriva a nossa palavra exegese , em português).
É somente por meio dessa Palavra encarnada que Deus pode chegar a ser
conhecido tal como é, e é apenas por meio dessa Palavra encarnada que
podemos nos relacionar com ele (Jo 14.6, 1Tm 2.5). Nestes últimos dias,
Deus nos falou por intermédio do Filho, como diz o escritor aos Hebreus (Hb
1.1-2). Jesus provê, ao mesmo tempo, revelação e mediação porque ambos os
conceitos se encontram intimamente relacionados entre si; não é possível ter
uma coisa sem a outra.
Porque Deus falou, nós pregamos
A pregação existe porque Deus falou e porque atua por meio de sua Palavra.
Se fôssemos adoradores de um ídolo mudo, não teríamos nada do que falar,
ou talvez pudéssemos dizer aquilo que bem entendêssemos. Mas, uma vez
que somos tomados pela convicção de que Deus atua falando, não podemos
fazer outra coisa senão também falar, mas apenas para que sua voz possa ser
escutada ao expor a Palavra, como veremos adiante. “Rugiu o leão, quem não
temerá? Falou o SENHOR Deus, quem não profetizará?” (Am 3.8).
Como bem afirma Mark Dever, pastor da Igreja Batista Capitol Hill, em
Washington, e Greg Gilbert, pastor da Terceira Igreja Batista em Louisville:
ainda que muitos vejam a pregação como uma tirania que despersonaliza e
desumaniza os ouvintes (um homem fala enquanto todos escutam), o sermão
é, na verdade, um precioso e poderoso símbolo “do nosso estado espiritual e
da graça de Deus. O fato de um homem falar a Palavra de Deus enquanto
todos escutam é uma representação da bondosa autorrevelação de Deus e de
nossa salvação como um presente. Sempre que Deus fala com amor aos seres
humanos, trata-se de um ato de graça. Não merecemos nem contribuímos em
nada para isso. O ato de pregar é um símbolo poderoso dessa realidade”
(traduzido pelo autor).9
Você deseja ver Deus atuar, salvando os perdidos e edificando os crentes?
Então deixe que sua voz seja ouvida por meio da pregação. É loucura tentar
fazer a obra de Deus usando programas e atividades atraentes como
substitutos para a Palavra, e muito mais absurdo usar o tempo da pregação
para compartilhar nossas próprias opiniões, em vez de sermos instrumentos
para que o texto tenha voz e fale por si.
É por meio da Palavra que os pecadores são regenerados, trazidos à fé e
acrescentados à Igreja (1Co 1.21; Tg 1.18; 1Pe 1.23); e é por meio dessa
mesma Palavra que os crentes são santificados e levados à maturidade (Jo
17.17; At 20.32; Ef 4.11ss; 5.25-26; 1Pe 2.1-3). Lembre-se de que a Palavra
de Deus é a força mais poderosa do universo (tradução do autor).10 Se cremos
verdadeiramente, então devemos deixar que ele fale, e não nós. E Deus
continua falando através de sua Palavra escrita. Essa é a segunda ponta de
nossa âncora teológica, que veremos no próximo capítulo.
Capítulo 2
Deus fala hoje por meio de sua Palavra
escrita
“Se queres escutar a voz de Deus de forma audível,
leia a Bíblia em voz alta.”
John Piper

“Se você diz que é um pregador da Palavra de Deus, e acredita que tudo o que Deus
falou pertence ao passado, então renuncie e dedique-se a outra coisa.”
Albert Mohler

“A Bíblia foi escrita por homens.” Não sei quantas vezes já ouvi essa frase
ao longo de minha vida cristã como um argumento contrário à nossa fé. Na
verdade, esse é um argumento favorável. O cristianismo não se baseia na
suposição de que um livro caiu do céu, mas sim em que temos em nossas
mãos uma revelação de Deus escrita por homens sob a inspiração do Espírito
Santo. Mais de quarenta escritores humanos escreveram um livro de
coerência perfeita, sem erros, abordando temas que costumam ser muito
polêmicos, em um lapso de tempo de mais de 1.500 anos! A próxima vez que
alguém desafiar você a provar que a Bíblia é a Palavra de Deus, use o
seguinte argumento: “Prove que ela não é”.
Portanto, a Bíblia foi escrita por homens, mas eles foram guiados de tal
modo pelo Espírito de Deus que os escritos que saíram de sua pena podem
ser chamados, com toda a propriedade, de Palavra de Deus (2Tm 3.16-17;
2Pe 1.19-21). Ainda que a inspiração não anule a paternidade literária nem o
estilo dos escritores humanos, a paternidade literária não altera em nada a
perfeição do que eles escreveram. Dessa maneira, a Bíblia é a Palavra de
Deus escrita por homens.
Imagine um músico exímio, capaz de tocar com perfeição todos os
instrumentos de sopro que existem, interpretando em cada um deles a mesma
melodia. A execução é impecável, mas o som que cada instrumento produz é
diferente dos demais. Isso é o que acontece quando Deus “exala” suas
próprias palavras por meio de instrumentos humanos.1 Percebemos a
diferença no som, mas a execução evidencia a maestria do artista.
Inspiração, não fossilização
Nem todas as palavras de Deus ficaram registradas nas Escrituras, mas
apenas aquelas que ele quis preservar para as gerações futuras. Dessa
maneira, quando Deus disse o que está registrado na Bíblia, “ele tinha dois
auditórios em mente: a geração que estava presente ali e as gerações futuras”
(traduzido pelo autor),2 as quais viriam depois (compare com Rm 15.4; 2Tm
3.16-17)
Tomemos como exemplo o chamado de Deus a Abraão, em Gênesis 12.1-3.
Quem foi o receptor original desse chamado? É evidente que foi Abraão. Foi
esse chamado divino que sustentou e deu conteúdo à sua fé. Porém, essas
palavras seriam ainda mais relevantes para as gerações futuras: “A
descendência física e Abraão no Antigo Testamento, o Senhor Jesus Cristo, e
todos os que chegariam a crer nele, vindo a ser descendentes espirituais de
Abraão” (Gl 3.6-18)” (traduzido pelo autor).3 A inspiração torna possível que
as palavras vivas de Deus continuem falando e operando em todas as épocas,
muito além do marco histórico no qual foram originalmente pronunciadas.
Portanto, nas Escrituras, não só temos um registro do que Deus falou há
milhares de anos, como também do que ele continua falando. O fato de
escrever a Palavra de Deus não fossiliza essa Palavra. É a Palavra de Deus
escrita que “é viva, e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois
gumes” (Hb 4.12). Sobre o tema, John Stott diz: “As Escrituras são muito
mais que uma coleção de instrumentos antigos em que se preservam as
Palavras de Deus. Não se trata de um museu no qual a Palavra de Deus é
exibida atrás de um vidro, como um fóssil ou uma relíquia. Pelo contrário, é
uma Palavra viva, dirigida a pessoas vivas, e que provém do Deus vivo”.4
“Se ouvirdes a sua voz”
Nos capítulos 3 e 4 da epístola aos Hebreus, encontramos um exemplo
impressionante da permanência viva das palavras de Deus. Aqueles crentes
de raízes judaicas corriam o risco de ceder diante da pressão de seus irmãos
de raça e voltar ao judaísmo. Por isso a advertência do autor a partir de 3.7:
Assim, pois, como diz o Espírito Santo: Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais o
vosso coração como foi na provocação, no dia da tentação no deserto, onde os vossos
pais me tentaram, pondo-me à prova, e viram as minhas obras por quarenta anos. Por
isso, me indignei contra essa geração e disse: Estes sempre erram no coração; eles
também não conheceram os meus caminhos. Assim, jurei na minha ira: Não entrarão
no meu descanso. Tende cuidado, irmãos, jamais aconteça haver em qualquer de vós
perverso coração de incredulidade que vos afaste do Deus vivo; pelo contrário,
exortai-vos mutuamente cada dia, durante o tempo que se chama Hoje, a fim de que
nenhum de vós seja endurecido pelo engano do pecado (Hb 3.7-13).
A cena histórica descrita nessa passagem aconteceu na época de Moisés,
pouco tempo depois de cruzar o Mar Vermelho (Êx 17.1-7). O povo pecou
gravemente contra Deus em Refidim, acusando-o de tê-lo tirado do Egito
com falsas promessas, para, em seguida, matar a todos de sede no deserto.
Essa é uma séria acusação contra Deus! Os israelitas estavam chamando
Deus de mentiroso e genocida apenas uma semana depois de ele tê-los
libertado da escravidão no Egito! Mas Deus decide assumir o castigo do
pecado; coloca-se em cima de uma rocha em Horebe e ordena a Moisés que
bata nela com a vara. E, com o golpe na rocha, emana tanta água que o povo
consegue saciar sua sede! Diz o Salmo 78.20 que a torrente de água era tal
que inundou a terra, enquanto o Salmo 105.41 diz que as águas “correram
como correntes pelo deserto”. Que impressionante! O povo tem a culpa, mas
é Deus quem recebe o castigo que eles merecem e, por meio desse ato de
amor, provê toda a água de que eles precisam.
Muitos anos depois, o salmista recorda novamente esse incidente para fazer
uma advertência ao povo de Israel de sua própria geração: “Hoje, se ouvirdes
a sua voz, não endureçais o coração, como em Meribá, como no dia de
Massá, no deserto” (Sl 95.7b-8). O risco de se afastar de Deus continua a ser
uma ameaça para o povo nos dias do salmista, e esse acontecimento histórico
deveria levá-los a uma reconsideração. Mas agora o autor da epístola aos
Hebreus cita o Salmo 95 para advertir os israelitas de sua própria geração que
professavam crer em Cristo, afirmando que o Espírito Santo continuava
fazendo a mesma advertência de centenas de anos atrás, nos dias do salmista:
“Assim, pois, como diz o Espírito Santo : Hoje, se ouvirdes a sua voz, não
endureçais o vosso coração” (Hb 3.7-8a, grifo aposto). O Espírito Santo
continua falando por meio das palavras do salmista!
Dessa maneira, o “hoje” do Salmo 95 e o “hoje” do autor da epístola aos
Hebreus estão conectados com o “hoje” da experiência de Israel no deserto:
“Tende cuidado, irmãos, jamais aconteça haver em qualquer de vós perverso
coração de incredulidade que vos afaste do Deus vivo; pelo contrário,
exortai-vos mutuamente cada dia, durante o tempo que se chama Hoje , a fim
de que nenhum de vós seja endurecido pelo engano do pecado” (Hb 3.12-13,
grifo aposto). Passaram-se quase dois mil anos desde que a epístola aos
Hebreus foi escrita, e mais de 3.500 anos desde o incidente original no
deserto, mas Deus continua nos advertindo, por meio de sua Palavra
inspirada, para que não nos afastemos dele. É por isso que John Stott afirma
que “a Bíblia é Deus pregando”.5
“A Bíblia é Deus pregando”
A inspiração não fossiliza a Palavra de Deus, como acabo de dizer; preserva-
a para que Deus continue falando por meio dela. Se não temos essa
convicção, qual seria o sentido de pregar? Pregamos porque acreditamos que
o que Deus quer nos dizer hoje, ele diz por meio de sua palavra escrita, que é
infalível, inerrante e suficiente. Esse é o instrumento que Deus usou, está
usando e usará para trabalhar em sua Igreja e no mundo até a segunda vinda
do nosso Senhor Jesus Cristo. Se você acredita nisso, então permita que o
texto bíblico fale, pois a Bíblia é Deus pregando, e ele atua por meio de sua
Palavra.
Pense nas figuras que a Bíblia emprega para se referir a si mesma. Ela é
como um martelo que parte os corações de pedra (Jr 23.29), como fogo que
queima a escória em nosso interior (Jr 5.14), como uma espada aguda que
traspassa nossa consciência (Hb 4.12), como uma lâmpada que ilumina nosso
caminho (Sl 119.105), como um espelho que mostra o que realmente somos
(Tg 1.23), como uma semente que produz o novo nascimento (Lc 8.11; 1Pe
1.23), como o leite que serve de alimento espiritual (1Pe 2.2), como o mel
que adoça (Sl 19.10; 119.103), como o ouro que tem um valor incalculável e
que enriquece nossa vida espiritual (Sl 19.10; 119.72, 127).
A Bíblia é tudo isso e muito mais porque é a palavra viva e eficaz do Deus
vivo e todo-poderoso. “Porque, assim como descem a chuva e a neve dos
céus e para lá não tornam, sem que primeiro reguem a terra, e a fecundem, e a
façam brotar, para dar semente ao semeador e pão ao que come, assim será a
palavra que sair da minha boca: não voltará para mim vazia, mas fará o que
me apraz e prosperará naquilo para que a designei” (Is 55.10-11).
Deus falou e continua falando por meio de sua palavra escrita. Essas duas
convicções devem atar nossas consciências para resistir à pressão
“antissermônica” de nossa geração. Mas essas convicções ainda não são
suficientes para que sigamos pregando. Agora devemos dar um passo à frente
e afirmar que Deus nos ordena a pregar sua palavra para fazer ouvir
publicamente sua voz. Essa é a terceira ponta da nossa âncora teológica que
veremos no próximo capítulo.
Capítulo 3
Deus nos ordena pregar sua Palavra para
que sua voz seja publicamente ouvida
“Exaltamos a Bíblia porque queremos dar a Jesus seu lugar
de preeminência sobre tudo, e exaltamos a pregação da Bíblia porque, inicialmente,
essa é a maneira de torná-lo conhecido, e é ele quem nos manda fazê-lo.”
Alec Motyer

“Quem tem ouvido, ouça o que o Espírito diz às igrejas.”


Apocalipse 2.7

A pregação não está na moda. Ela tem fama ruim. Quando algumas pessoas
escutam a palavra “sermão”, a imagem que lhes vem à mente é de uma mãe
falando sem parar, repreendendo sua filha, até o ponto de ela, desesperada,
dizer: “Por favor, mãe, deixa de dar sermão!”. No dicionário imaginário
dessas pessoas, a palavra sermão significa “falatório interminável, de
conteúdo altamente recriminatório, que, em geral, ‘tira do sério’ quem o
escuta”.
Ainda que muita gente continue visitando as igrejas regularmente, semana
após semana, desconfio que não são muitas pessoas que vão com a
expectativa de ouvir um bom sermão. Algumas são atraídas pelo fato de se
sentir parte de uma comunidade; outras vão porque gostam do louvor, ou por
causa dos ministérios disponíveis, especialmente o de jovens e de crianças; e
ainda é possível que muitas estejam em busca de resposta para seus
problemas pessoais nas ministrações terapêuticas que são pregadas hoje em
dia, em muitos púlpitos. Mas vir escutar um monólogo no qual a Palavra de
Deus é exposta não é algo muito atrativo. Daí a necessidade de uma âncora
teológica que mantenha firme o barco de nosso ministério de acordo com o
chamado que recebemos da parte de Deus como ministros do evangelho.
Nos dois capítulos anteriores, examinamos duas pontas de nossa âncora
teológica: Deus falou e continua falando, e esse Deus que falou continua
falando hoje por meio de sua palavra escrita. A terceira ponta, que veremos
neste capítulo, é que Deus nos ordena a pregar sua palavra para que sua voz
seja publicamente ouvida. Por isso a pregação foi uma prioridade para o povo
de Deus ao longo de toda a história da redenção.
A prioridade dos profetas do Antigo Testamento
De certa forma, a história da pregação é quase tão antiga quanto a história
humana. Sabemos, pela epístola de Judas, que Enoque, sétimo depois de
Adão, profetizou contra os ímpios de sua geração (Jd 1.14-15); e o apóstolo
Pedro se refere a Noé em sua segunda carta como “arauto da justiça” (2Pe
2.5). Mas é Moisés quem tem o privilégio de ser o primeiro pregador cujo
ministério é descrito em detalhes nas Escrituras. Quando Deus chamou
Moisés no monte Horebe, deu-lhe a tarefa de voltar ao Egito, a fim de libertar
o povo da escravidão, falando em seu nome.
Não é preciso dizer que esse não era o plano original de Moisés. Já se
passara muito tempo desde que ele fugira do palácio de Faraó, sendo
obrigado a levar a vida comum de um pastor da terra de Midiã. Esses
quarenta anos em que viveu entre as ovelhas, sem poder conversar com
alguém que tivesse o mesmo nível intelectual, minaram por completo a
confiança de Moisés em suas capacidades naturais. Ainda que Estêvão o
descreva em Atos 7.22 como “poderoso em palavras e obras”, Moisés estava
convencido de que sua oportunidade de se tornar herói fora enterrada no
Egito, no dia em que ele saiu correndo para escapar da ira de Faraó.
Então, disse Moisés ao SENHOR: Ah! Senhor! Eu nunca fui eloquente, nem outrora,
nem depois que falaste a teu servo; pois sou pesado de boca e pesado de língua.
Respondeu-lhe o SENHOR: Quem fez a boca do homem? Ou quem faz o mudo, ou o
surdo, ou o que vê, ou o cego? Não sou eu, o SENHOR? Vai, pois, agora, e eu serei
com a tua boca e te ensinarei o que hás de falar. Ele, porém, respondeu: Ah! Senhor!
Envia aquele que hás de enviar, menos a mim (Êx 4.10-13).
Moisés entrou em pânico por causa da natureza da tarefa que Deus estava
lhe entregando. Mas o Senhor o fez ver que aquele que fez a boca também
pode fazê-la funcionar corretamente. Mesmo assim, Moisés continuou
recusando a responsabilidade, até que Deus o repreendeu com dureza por sua
falta de fé:
Então, se acendeu a ira do SENHOR contra Moisés, e disse: Não é Arão, o levita, teu
irmão? Eu sei que ele fala fluentemente; e eis que ele sai ao teu encontro e, vendo-te,
se alegrará em seu coração. Tu, pois, lhe falarás e lhe porás na boca as palavras; eu
serei com a tua boca e com a dele e vos ensinarei o que deveis fazer. Ele falará por ti
ao povo; ele te será por boca, e tu lhe serás por Deus (Êx 4.14-16).
Novamente é preciso ressaltar a estratégia de Deus para o grande
empreendimento que estava recaindo sobre os ombros de Moisés e Arão. A
missão deles não era formar células secretas de subversão para promover uma
rebelião contra Faraó, nem tentar conseguir um acordo bilateral satisfatório.
Eles não foram enviados ao Egito como revolucionários nem como
negociadores, mas como arautos do Deus Altíssimo.
Mais adiante, em Êxodo 7.1, o Senhor diz a Moisés: “Vê que te constituí
como Deus sobre Faraó, e Arão, teu irmão, será teu profeta”. Moisés tinha
autoridade sobre Faraó porque o Deus do céu lhe dera a tarefa de falar em seu
nome. O papel de Arão nessa estratégia era transmitir a mensagem divina tal
como se havia revelado diretamente a Moisés. Mesmo reconhecendo que
Arão falava bem, sua capacidade de oratória não lhe dava o direito de
transmitir sua própria mensagem ao povo, ou de retocar as palavras de Deus
recebidas por intermédio de Moisés. Arão era simplesmente um porta-voz.
Essa passagem é importante porque nos revela a natureza do ofício de
profeta no Antigo Testamento. Sua função primordial não era prever o futuro,
mas transmitir fielmente a mensagem de Deus ao povo. Mais de 3.800 vezes
aparece no Antigo Testamento a frase “veio a Palavra do Senhor”, ou alguma
similar, associada ao ministério profético. Eles eram os pregadores de sua
geração que diziam ao povo que se convertesse de seus pecados; caso
contrário, eles colheriam as consequências de sua rebeldia.
Dessa forma, a pregação desempenhou papel de suma importância no
antigo pacto. Os profetas comunicavam ao povo as palavras de Deus, em
nome de Deus. E essa metodologia não mudou no novo pacto.
A prioridade de João Batista
O ministério de João Batista serve de transição entre o Antigo e o Novo
Testamento; ele foi “a voz do que clama no deserto”, da qual tanto o profeta
Isaías como o precursor anunciado pelo profeta Malaquias falaram. E sua
tarefa primordial era preparar o caminho para a chegada do Messias (Is 40.3;
Ml 3.1; compare com Mc 1.2-3). Desse modo, o ministério principal de João
não era o batismo, mas a pregação; o batismo era um símbolo visível da
pregação recebida:
Apareceu João Batista no deserto, pregando batismo de arrependimento para
remissão de pecados. Saíam a ter com ele toda a província da Judeia e todos os
habitantes de Jerusalém; e, confessando os seus pecados, eram batizados por ele no
rio Jordão (...) E pregava , dizendo: Após mim vem aquele que é mais poderoso do
que eu, do qual não sou digno de, curvando-me, desatar-lhe as correias das sandálias.
Eu vos tenho batizado com água; ele, porém, vos batizará com o Espírito Santo (Mc
1.4-5, 7-8, grifo aposto).
Ele deveria proclamar como um arauto a chegada do Messias. O ritual do
batismo estava condicionado à aceitação de sua mensagem. Não havia
nenhum sentido em que uma pessoa tomasse a decisão de ser batizada, se não
havia aceitado primeiro o testemunho de João sobre a pecaminosidade
humana e acerca de Jesus.
E pregava, dizendo: Após mim vem aquele que é mais poderoso do que eu, do qual
não sou digno de, curvando-me, desatar-lhe as correias das sandálias. Eu vos tenho
batizado com água; ele, porém, vos batizará com o Espírito Santo (Mc 1.7-8).
É por isso que a figura de João desaparece quase completamente da
narrativa dos evangelhos quando o Senhor Jesus Cristo inicia seu ministério
público, logo após o batismo. Assim como João Batista, Jesus mantinha a
pregação como o centro de seu trabalho ministerial.
A prioridade de Jesus
O Senhor fez muitas coisas extraordinárias durante seu ministério: expulsou
demônios, curou doentes, ressuscitou mortos, caminhou sobre as águas,
acalmou a tempestade; em duas oportunidades, alimentou uma grande
multidão com poucos pães e alguns peixes. Mas, quando Marcos quis resumir
o cerne de seu ministério na Galileia, simplesmente nos diz que ele pregava o
evangelho do reino (Mc 1.14). Jesus não viu como prioridade ser um
“curador” ou alguém que faz prodígios, mas, sim, um pregador, e não
permitiu que nada o impedisse de realizar esse trabalho.
Essa foi uma das decisões difíceis que os apóstolos tiveram de aprender
assim que começaram a seguir Jesus. No capítulo 1 do Evangelho de Marcos,
o Senhor se encontra no meio de uma atividade quase frenética, com um
imenso ministério de cura e expulsando demônios, de tal forma que “toda a
cidade estava reunida à porta”, à espera de algum benefício (Mc 1.32-34).
Devemos supor que os apóstolos estivessem assistindo, com entusiasmo, ao
“êxito” evidente de seu mestre. Mas, no dia seguinte, “tendo-se levantado alta
madrugada”, o Senhor foi para um lugar deserto para ter comunhão com seu
Pai em oração (Mc 1.35). Em algum momento da noite anterior, Jesus foi
descansar e muitas pessoas não puderam ser curadas, o que trouxera outra
avalanche de pessoas apinhadas à porta daquela casa.
Os apóstolos entraram em estado de pânico (e, se eu estivesse ali, teria
reagido da mesma forma que eles). Uma multidão de pessoas necessitadas
invadiu a casa pedindo ajuda, mas Jesus havia desaparecido! “Procuravam-no
diligentemente Simão e os que com ele estavam. Tendo-o encontrado, lhe
disseram: Todos te buscam” (Mc 1.36-37). Quase podemos escutar o tom de
reprovação por trás dessas palavras, algo como: “A casa está lotada de
pessoas, e elas estão cheias de problemas. Isso certamente requer atenção, e o
Senhor decide afastar-se para ter um tempo devocional? O que nós vamos
fazer com toda essa gente?”. A resposta de Jesus é clara e contundente:
“Jesus, porém, lhes disse: Vamos a outros lugares, às povoações vizinhas, a
fim de que eu pregue também ali, pois para isso é que eu vim ” (Mc 1.38,
grifo aposto). Jesus não podia permitir que as necessidades das pessoas o
impedissem de cumprir o ministério que o Pai lhe dera: pregar o evangelho
do reino. Essa era a sua prioridade.
Um expositor inglês do início do século XX, chamado Dick Lucas, pregou
uma mensagem baseada nessa seção do Evangelho de Marcos, intitulada:
“Como arruinar o seu ministério”. A fórmula era muito simples: primeiro,
obtenha o poder de curar todas as doenças; depois, reúna, à sua volta, uma
multidão de doentes; mas, em vez de curar todas as pessoas, saia dali dizendo
que vai fazer uma viagem para se dedicar à pregação da Palavra.1 Estou certo
de que, para qualquer “pragmático sensato” daqueles dias, estava mais do que
evidente que Jesus deveria analisar melhor quais eram as suas prioridades.
Mas o Senhor sabia que todos os que fossem curados iriam para o inferno do
mesmo modo, “a menos que a Palavra pregada e a graça salvadora de Deus
interrompessem a depravação deles” (tradução do autor).2
Como um homem compassivo ou, para ser mais preciso, sendo ele mesmo a
compaixão encarnada, Jesus nunca permitiu que as necessidades temporais
do ser humano desviassem sua atenção da maior de todas as necessidades.
Como disse o famoso pregador galês do século XX, Martyn Lloyd-Jones:
“Ele não veio ao mundo para curar os enfermos, coxos e cegos, ou para
acalmar as tempestades do mar. Ele podia fazer estas coisas, e as fazia com
muita frequência; mas tudo isso era secundário, não era o principal”.3 Sua
prioridade era pregar a Palavra (Mc 1.21-22; 2.2, 13; 4.1-2; 6.2).
A prioridade dos apóstolos
Aquela que foi uma prioridade para os profetas do Antigo Testamento, para
João Batista e para o Senhor Jesus Cristo também foi para os apóstolos.
Desde o momento em que foram separados pelo Senhor, ficou claramente
estabelecido que o propósito de sua eleição era “para estarem com ele e para
os enviar a pregar ” (Mc 3.14, grifo aposto). Logo após a Ressurreição, Jesus
os encarregou solenemente de pregar em seu nome “arrependimento para
remissão de pecados a todas as nações, começando de Jerusalém” (Lc 24.47).
Basta dar uma olhada no livro de Atos para ver a seriedade com que os
apóstolos levaram a cabo essa comissão. Para demonstrar isso, trago o
seguinte exemplo: o incidente que deu lugar à eleição daqueles que muitos
consideram os primeiros diáconos. A história é muito conhecida. Os judeus
de origem grega começaram a murmurar alegando que as viúvas dos hebreus
recebiam tratamento preferencial na distribuição diária de alimentos. Esse era
o segundo incidente interno que a Igreja sofria após a morte de Ananias e
Safira, e certamente era muito sério. Essa crise deveria ser resolvida com
urgência, com muita sensibilidade e tato pastoral. O que os apóstolos
fizeram?
Então, os doze convocaram a comunidade dos discípulos e disseram: Não é razoável
que nós abandonemos a palavra de Deus para servir às mesas. Mas, irmãos, escolhei
dentre vós sete homens de boa reputação, cheios do Espírito e de sabedoria, aos quais
encarregaremos deste serviço; e, quanto a nós, nos consagraremos à oração e ao
ministério da palavra (At 6.2-4).

Pergunto-me como muitos líderes cristãos de hoje teriam reagido diante de


uma crise dessa natureza. Afinal, a igreja não deveria ser sensível às
necessidades das pessoas, especialmente as dos membros mais vulneráveis?
Para que serve pregar a Palavra se o povo tem fome e se sente descuidado?
Mas os apóstolos tiveram o discernimento necessário para ver o perigo por
trás do perigo. Por isso, sob a orientação do Espírito Santo, buscaram uma
solução para o problema das viúvas, ao mesmo tempo que preservavam os
dois aspectos mais importantes de seu ministério: a oração e a pregação da
Palavra... nessa ordem. E qual foi o resultado? “Crescia a palavra de Deus, e,
em Jerusalém, se multiplicava o número dos discípulos; também muitíssimos
sacerdotes obedeciam à fé” (At 6.7). Deus abençoou a determinação dos
apóstolos de manter a oração e a pregação como máxima prioridade.
A prioridade da Igreja ao longo dos séculos
No restante do Novo Testamento, vemos a recomendação de que a Igreja
mantenha a prioridade da pregação ao longo dos séculos. Um dos requisitos
indispensáveis que todo candidato ao ministério pastoral deve cumprir é ser
“apto para ensinar” (1Tm 3.2; compare com Tt 1.9). E, em 2Timóteo 2.15,
Paulo lhe ordena buscar diligentemente apresentar-se “a Deus aprovado,
como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra
da verdade”. Mais adiante, no capítulo 4, depois de estabelecer a inspiração e
a suficiência das Escrituras, Paulo encarrega solenemente Timóteo de pregar
a Palavra (2Tm 4.1-2). Muita gente não iria querer ouvir isso, mas ele deveria
fazê-lo mesmo assim (2Tm 4.3-5). Esse trabalho deveria consumir a maior
parte do seu tempo: “Medita estas coisas e nelas sê diligente, para que o teu
progresso a todos seja manifesto” (1Tm 4.15).
Paulo também ordena a Timóteo, e por meio dele a toda a Igreja,
reconhecer e honrar com dupla honra os anciãos que governam bem,
principalmente “os que se afadigam na palavra e no ensino” (1Tm 5.17),
porque o trabalho deles é vital para a salvação dos perdidos e o
fortalecimento dos crentes. A Deus, aprouve “salvar os que creem pela
loucura da pregação” (1Co 1.21).
Porque tanto os judeus pedem sinais como os gregos buscam sabedoria; mas nós
pregamos a Cristo crucificado, escândalo para os judeus, loucura para os gentios;
mas, para os que foram chamados, tanto judeus como gregos, pregamos a Cristo,
poder de Deus e sabedoria de Deus. Porque a loucura de Deus é mais sábia do que os
homens; e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens (1Co 1.22-25).

Então, não pregamos apenas para manter uma tradição evangélica, mas
porque Deus nos deu a ordem de fazer ouvir sua voz por meio de nossa voz.
Esse é um dos aspectos mais misteriosos da pregação, ou seja, que, através da
exposição da Palavra, o povo de Deus possa escutar a voz do Espírito de
Cristo falando a seus corações.
A voz de Cristo através de nossa voz
Deus comunicou-se com os homens de diversas maneiras ao longo da história
redentora (Hb 1.1-2). Isso incluiu fazer ouvir sua voz de maneira audível,
como acontecia no jardim do Éden e depois no monte Sinai (Êx 19.9); mas,
nesse último caso, a experiência dos israelitas foi tão assustadora que eles
pediram a Moisés para servir de mediador entre eles e Deus (Êx 20.18-19).4
Deus cedeu a esse pedido e fez ouvir sua voz de maneira indireta, por
intermédio de seu servo Moisés. Desde então, assim tem sido. “Deus usa
pregadores, em vez de enviar o estrondo de sua voz e afugentar-nos”, disse
João Calvino, o famoso reformador do século XVI. Desse modo, “é um
privilégio singular que e se digne a abençoar para si a boca e a língua dos
homens, para que sua voz ressoe através deles”.5
Portanto, a pregação, em mais de um sentido, é uma provisão de graça.
Nós, os pregadores, falamos aos homens “da parte de Deus e na presença de
Deus” (2Co 2.17). Isso foi evidente em todo o Antigo Testamento, mas
tornou-se ainda mais notório no ministério do novo pacto.
No Novo Testamento, as ovelhas de Cristo são descritas como aquelas que
escutam sua voz e o seguem (Jo 10.1-5,16, 27-28). Talvez, por algum tempo,
elas caminhem desviadas, ouvindo outras vozes, porém, cedo ou tarde, as
ovelhas que o Pai lhe deu reconhecerão a voz de seu pastor e virão a ele com
arrependimento e fé. Mas como isso acontece nos dias de hoje? Qual é o
meio pelo qual o bom pastor fala ao coração de suas ovelhas? O apóstolo
Paulo responde a essa pergunta em Romanos 10.17, dizendo: “E, assim, a fé
vem pela pregação, e a pregação, pela Palavra de Cristo”. Esse texto é tão
conhecido que facilmente podemos passar por cima da dificuldade de sua
interpretação.
Se Paulo tivesse escrito que a fé vem ao ouvir a Palavra de Deus, a lógica
desse texto seria evidente: ao escutar a Palavra de Deus, o incrédulo pode
chegar a crer. Porém, o texto diz mais do que isso. O que Paulo ressalta em
Romanos 10.17 é que a fé vem pelo ouvir, e o ouvir vem por meio da Palavra
de Deus, ou, para sermos mais precisos, por meio da pregação da Palavra.
Pois bem, o que, então, temos de ouvir, e que vem por meio da pregação?
Para entender essa declaração, devemos considerá-la à luz do contexto.
Paulo já dissera, nos versos 8 a 13, que “se, com a tua boca, confessares Jesus
como Senhor e, em teu coração, creres que Deus o ressuscitou dentre os
mortos, serás salvo. Porque com o coração se crê para justiça e com a boca se
confessa a respeito da salvação (...) Porque: Todo aquele que invocar o nome
do Senhor será salvo”. Depois ele introduz uma série de perguntas que nos
levam à declaração que encontramos nos versículos 14 e 15: “Como, porém,
invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem nada
ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue? E como pregarão, se não
forem enviados?”.
A Almeida Revista e Atualizada traduz a segunda parte da pergunta: “E
como crerão naquele de quem nada ouviram?”, dando a entender que devemos
ouvir acerca de Cristo para chegar a crer nele. Mas o texto grego diz
literalmente: “Como crerão naquele a quem não ouviram?”.6 Precisamos
ouvir Cristo para poder crer. Assim, a fé vem por ouvir Cristo, e o ouvir
Cristo vem por meio da pregação da Palavra de Deus. Como disse John Stott,
os incrédulos “não crerão em Cristo até que o tenham ouvido falar por seus
mensageiros ou embaixadores”.7
Quando a Palavra de Deus é exposta com a fidelidade e o poder do Espírito
Santo, é Cristo quem fala ao coração de suas ovelhas (Jo 10.29; 17.6). “Quem
vos der ouvidos ouve-me a mim”, diz o Senhor em Lucas 10.16; e quem vos
rejeitar a mim me rejeita; quem, porém, me rejeitar rejeita aquele que me
enviou”. Essa verdade levou Paulo a dizer aos crentes de Éfeso que Cristo,
“vindo, evangelizou paz a vós outros que estáveis longe e paz também aos
que estavam perto” (Ef 2.17). Mas, se o Senhor Jesus Cristo mal saiu dos
contornos da Palestina, como é possível que Paulo afirme, nesse texto, que
ele anunciou o evangelho na cidade de Éfeso?
O puritano inglês do século XVII Paul Bayne comenta o seguinte acerca
desse texto:
Portanto, vemos que Cristo está presente e tem uma participação na pregação quando
os homens pregam (...) porque este é o ofício de Cristo, nosso grande Profeta, não
apenas nos fazendo conhecer a vontade do Pai (...), mas aquele que também está
presente e ensina internamente, em nosso coração, com essa Palavra, que soa aos
nossos ouvidos por meio dos homens. (...) Assim, vemos que Paulo pregou aos
ouvidos de Lídia, mas Cristo pregou ao seu coração (tradução do autor).8

John Stott diz algo semelhante: “O próprio Cristo, que uma vez fez a paz
mediante a cruz, agora prega a paz por meio dos seus arautos”. O falecido
teólogo sueco Gustaf Wingren afirma a mesma coisa: “É a pregação que
oferece os pés sobre os quais Cristo caminha para se aproximar de nós e
alcançar-nos (...) a pregação tem um único objetivo: que Cristo possa vir até
aqueles que se reúnem para escutar”. Dessa maneira, “a pregação não é uma
palestra sobre um Jesus do passado, mas, sim, a voz através da qual o Cristo
do presente nos oferece vida hoje”.9
Como já dito, esse é um aspecto misterioso da pregação, mas, no Novo
Testamento, fica claro que, para ser salvo, o pecador deve ouvir a voz de
Cristo, e que essa voz é ouvida, em primeiro lugar, quando o pregador expõe
a Palavra com sua própria voz. Deus decretou agir nas almas dos homens
fazendo que ouçam a voz de seu Filho através de almas humanas. “A
pregação dá pés e voz ao Cristo vivo”, diz John Stott.10 Quando a Igreja prega
a Palavra, une sua voz à voz do Espírito Santo e chama os pecadores a se
reconciliar com Deus. “O Espírito e a noiva dizem: Vem! Aquele que ouve,
diga: Vem! Aquele que tem sede, venha, e quem quiser receba de graça a
água da vida” (Ap 22.17).
Poucas vezes essa gloriosa doutrina foi expressa de modo mais formoso e
memorável do que em um de meus hinos favoritos, composto por Isaac
Watts, o reconhecido teólogo e compositor inglês de meados do século
XVIII:
Quão solene e doce é aquele lugar onde mora Cristo, o Senhor!
Ali, de manjares se desdobra o melhor.
Saboroso banquete! O coração, admirado, clama assim:
Por que, Senhor? Por que será que convidaste a mim?
Por que me fizeste ouvir sua voz, entrar e ver tua bondade?
Pois milhares de famintos morrem recusando tua verdade.
Pois o próprio amor que serviu o manjar me levou docemente a entrar.
Se não fosse isso, eu ainda estaria em meu pecado.11

Resumindo o que vimos até aqui, Deus atua por meio de sua Palavra; Deus
fala hoje por meio de sua Palavra escrita; e Deus nos ordena a pregar sua
Palavra para que sua voz seja publicamente ouvida. Essas três convicções
teológicas deveriam atar nossas consciências para continuarmos pregando,
mesmo quando muitos ao nosso redor decidem fazer outra coisa e,
aparentemente, estão obtendo melhores resultados.
A pregação é muito mais que a exposição de uma passagem das Escrituras;
é também um dos instrumentos primordiais escolhidos por Deus para realizar
sua obra no mundo, fazendo com que sua voz seja publicamente ouvida por
meio daqueles que foram chamados e qualificados por ele como ministros do
evangelho. Paulo escreve aos tessalonicenses:
Reconhecendo, irmãos, amados de Deus, a vossa eleição, porque o nosso evangelho
não chegou até vós tão somente em palavra, mas, sobretudo, em poder, no Espírito
Santo e em plena convicção, assim como sabeis ter sido o nosso procedimento entre
vós e por amor de vós” (1Ts 1.4-5).
Paulo expôs o evangelho com palavras, mas tinha convicção de que sua pregação
era mais do que palavras, pois o poder do Espírito Santo estava presente ali, levando
vida em meio a um vale de ossos secos. A pregação, como diz Paulo em 2 Coríntios,
é Deus rogando por meio de nós (2Co 5.20). Nós, os pregadores, falamos “da parte
de Deus e na presença de Deus (2Co 2.17).
É assim que você se vê quando está atrás de um púlpito pregando a
Palavra? Você tem consciência de que, por meio de sua pregação, Deus fala
aos corações dos homens para que creiam em Jesus e sejam salvos? “Afinal
de contas, pregar não é trazer uns pensamentos aqui e acolá acerca de Deus
ou da Bíblia. É a proclamação de uma mensagem que vem com autoridade,
da sala do Trono nos céus” (tradução do autor).1 Que o Senhor levante mais
pregadores em nossa geração que tenham esta convicção; que a voz de Deus
continue ressoando nos púlpitos por intermédio de expositores fiéis à sua
Palavra, para que continuemos a ver seu poder salvando os pecadores e
edificando as igrejas.
Capítulo 4
O que é um
sermão expositivo?
“O problema atual não está na escassez de pregação. Não, a questão reside na total
decadência de muito do que hoje em dia se considera pregação.”
Steven J. Lawson

“A pregação bombeia o sangue da Palavra de Deus nas artérias, veias e vasos


capilares dos órgãos vitais da Igreja.”
Mike Abendroth

É domingo de manhã e o culto de adoração está prestes a começar. Os


membros da congregação estão com grandes expectativas porque o pastor
anunciou, no culto de oração, no meio da semana, que no domingo próximo
iria pregar sobre a conhecidíssima batalha de Davi e Golias. Todos na igreja
reconhecem a habilidade pouco comum que o pastor tem para pegar
passagens históricas do Antigo Testamento e extrair surpreendentes
aplicações práticas para a vida do homem contemporâneo, e essa manhã não
seria uma exceção.
O pastor subiu ao púlpito, abriu sua Bíblia no capítulo 17 do primeiro livro
de Samuel e, de forma impressionante, levou a todos, em sua imaginação, ao
campo de batalha no qual Davi teve de enfrentar aquele aterrador gigante
filisteu. Os três pontos do sermão eram muito fáceis de lembrar: 1) um
grande desafio; 2) uma grande atitude; e 3) uma grande vitória. Davi
enfrentou um grande desafio naquele dia, mas o fez com uma atitude valente
e cheia de confiança; assim, como resultado, teve uma grande vitória sobre o
inimigo.
Os irmãos da igreja se sentiam muito animados enquanto o pastor os
admoestava a seguir o exemplo de Davi ao enfrentar os gigantes que operam
neste mundo caído: o gigante da tentação, o gigante do temor e da ansiedade,
o gigante da depressão e da dúvida, e muitos outros inimigos que parecem
invencíveis. Mas, assim como Davi, nós só precisamos enfrentar nossos
problemas com uma funda e cinco pedras: a pedra da fé, da coragem, da
oração, da determinação e da constância.
No final do culto, todos agradeceram ao pastor por ter trazido uma
mensagem tão pertinente. E isso, obviamente, dava ânimo ao pastor para
continuar pregando sermões dessa natureza, ou seja, sermões que
espiritualizam o ensino sem expor o real significado do texto. Essa história
fictícia ilustra o círculo vicioso que se repete em muitas igrejas, vez após vez,
por falta de um entendimento claro do que é um sermão expositivo.
Esse é precisamente o tema que vamos abordar neste capítulo. Mas, antes
de definir esse tipo de sermão, quero considerar as três figuras mais
esclarecedoras do Novo Testamento que nos dizem o que é um pregador.
Como espero mostrar em algum momento, a natureza de nossa mensagem
deriva da natureza de nosso chamado. Em outras palavras, o que somos por
vocação determina tanto o que fazemos como o que dizemos ao realizar
nosso trabalho.
Administradores dos mistérios de Deus
Paulo usa esta figura em sua primeira epístola à igreja de Corinto, uma cidade
grega de grande importância nos dias do Novo Testamento, e também muito
depravada (tanto que os gregos criaram o termo corintizar para se referir ao
estilo de vida licencioso de seus habitantes). Na segunda viagem missionária
de Paulo, e apesar da imoralidade reinante em Corinto, Deus levantou uma
igreja naquele lugar e, durante um ano e meio de ministério ali, muita gente
se achegou a ela.
Lamentavelmente, muitos membros arrastaram consigo alguns dos aspectos
dominantes daquela cultura. Os gregos eram amantes da filosofia e da
retórica, ou seja, da arte da eloquência e da argumentação eficaz; e as pessoas
costumavam alinhar-se aos mestres de sua predileção. Agora, o mesmo
estava acontecendo na igreja (1Co 1.10-12). Começavam a se formar partidos
alinhados à figura de certos pregadores que eram vistos como celebridades, e
isso provocou divisão interna dentro da igreja. Uns afirmavam ser seguidores
de Paulo, outros de Apolo e outros ainda de Pedro. E é claro que não
faltavam os superespirituais, que se gloriavam de não seguir homem algum,
mas unicamente a Cristo, e a verdade é que esse último grupo era tão
problemático quanto todos os demais.
Essa situação penosa levou Paulo a lembrá-los da verdadeira identidade dos
pastores do rebanho: “Assim, pois, importa que os homens nos considerem
como ministros de Cristo e despenseiros dos mistérios de Deus” (1Co 4.1).
Com essas poucas palavras, Paulo deu um golpe certeiro tanto nos que eram
fãs de certos pregadores como naqueles que pretendiam seguir Cristo
ignorando aqueles que o próprio Cristo havia chamado para pregar sua
Palavra. Os ministros do evangelho desempenham papel de suprema
importância para a saúde da Igreja, mas não como celebridades, e sim como
administradores dos mistérios de Deus.
Em seu livro Imágenes del predicador en el Nuevo Testamento [Imagens do
pregador no Novo Testamento ], John Stott diz o seguinte acerca dessa
figura:
O administrador é um mordomo e um administrador dos bens alheios. Do mesmo
modo, o pregador é um administrador dos mistérios de Deus, ou seja, da
autorrevelação que Deus deu aos homens e que agora está preservada nas Escrituras.
Desse modo, a mensagem do pregador cristão não deriva diretamente da boca de
Deus, como se (...) ele fosse um profeta ou apóstolo, nem tem origem na sua própria
mente, como no caso dos falsos profetas, nem procede da mente e da boca de outros,
como no caso do charlatão, mas da Palavra de Deus revelada uma vez e registrada
agora, da qual o pregador é um privilegiado administrador.1
O que se requer de um administrador não é a originalidade, mas que ele
seja fiel administrador daquilo que lhe foi confiado — nesse caso, “os
mistérios de Deus” (1Co 4.1-2). A palavra traduzida como “mistérios” não é
usada no Novo Testamento para se referir a certo tipo de conhecimento que
está disponível apenas aos iniciados, mas, sim, a um conjunto de verdades
que só podemos conhecer se Deus tomar a iniciativa de revelá-las. Nesse
caso, os mistérios de Deus são “a soma total da revelação que ele fez de si
mesmo, e que agora está contida nas Escrituras”.2 Esses são os “bens” que o
pregador é chamado a administrar, para, com eles, edificar o povo de Deus.
Arautos do Deus Altíssimo
Atualmente, quando um governante quer dar uma mensagem ao povo,
organiza-se uma coletiva de imprensa. No entanto, na antiguidade, era
enviado um arauto ou pregoeiro com a responsabilidade de comunicar
fielmente, em voz alta e com autoridade, os anúncios ou decretos do rei (Dn
3.1-6). A voz do arauto devia ser escutada e obedecida, como se fosse a voz
do próprio rei, porque o arauto não falava por iniciativa pessoal, nem
transmitia suas próprias palavras. Ele tinha a responsabilidade de proclamar a
mensagem do rei com bastante clareza, sem tirar ou acrescentar coisa alguma.
Essa é uma das figuras mais recorrentes do Novo Testamento para fazer
referência aos pregadores e à pregação. Ao escrever aos coríntios, Paulo lhes
recorda que Deus determinou salvar os crentes “pela loucura da pregação”
(literalmente, “a proclamação nos moldes de um arauto). Aqui está a
explicação de Paulo para esse procedimento de Deus: “Porque tanto os judeus
pedem sinais como os gregos buscam sabedoria; mas nós pregamos a Cristo
crucificado” (1Co 1.22-23). Em suas cartas a Timóteo, Paulo lhe diz em duas
oportunidades que Deus lhe havia constituído “pregador” (ou seja, “arauto”)
e “apóstolo e mestre dos gentios” (1Tm 2.7; 2Tm 1.11); e, ao mesmo tempo,
instrui solenemente seu filho na fé que pregue ou proclame como um arauto a
Palavra (2Tm 4.1-2).
Ainda que a função de administrador e de arauto tenha pontos em comum
(ambos devem comunicar integralmente a mensagem que lhes foi confiada), a
ênfase do arauto está na proclamação vocal de uma notícia ou de um decreto.
Mais ainda, a proclamação do arauto demanda de seus ouvintes uma resposta
à mensagem que está sendo proclamada da parte do rei. Por isso, o teólogo
americano do Novo Testamento Robert Mounce
enfatiza que a pregação apostólica consistia basicamente de duas ações:
proclamar e apelar, ou seja, fazer um chamado à ação que deriva diretamente
da verdade que foi proclamada.3
O objetivo é avaliar as diferenças fundamentais entre a pregação e outras
formas de comunicação, pois pregamos “para chegar a um veredicto”, como
bem assinala John Stott. “Proclamar não é o mesmo que dar uma conferência.
Uma conferência é algo objetivo, acadêmico. Dirige-se à mente. Não busca
nenhum resultado, a não ser simplesmente compartilhar determinada
informação e talvez fazer com que o estudante investigue, em seguida, por
sua própria conta. Mas o arauto de Deus vem com uma proclamação urgente
de paz mediante o sangue da cruz e com o desafio a que os ouvintes se
arrependam, que deponham suas armas e aceitem humildemente o perdão que
se lhes oferece.”4
Isso nos leva à terceira figura utilizada no Novo Testamento para fazer
referência aos pregadores...
Embaixadores em nome de Cristo
Na conclusão da epístola aos Efésios, Paulo refere-se a si mesmo como
“embaixador em cadeias” (Ef 6.20) e, em sua segunda epístola aos Coríntios,
assinala que os ministros do evangelho são embaixadores que rogam em
nome de Deus, chamando os homens à reconciliação:
Ora, tudo provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo e
nos deu o ministério da reconciliação, a saber, que Deus estava em Cristo
reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões, e
nos confiou a palavra da reconciliação. De sorte que somos embaixadores em nome
de Cristo, como se Deus exortasse por nosso intermédio. Em nome de Cristo, pois,
rogamos que vos reconcilieis com Deus. Aquele que não conheceu pecado, ele o fez
pecado por nós; para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus (2Co 5.18-21).

Isso deveria tirar nosso fôlego! O Deus dos céus, que foi seriamente ofendido
por nossos pecados, não apenas provê a salvação por meio da morte de seu
próprio Filho, como também toma a iniciativa de enviar embaixadores que
anunciem e ofereçam os termos da reconciliação. “Somos embaixadores em
nome de Cristo, como se Deus exortasse por nosso intermédio” (2Co 5.20).
Merecemos a ira e a condenação, mas Cristo recebeu, na cruz do Calvário,
o castigo que nós merecemos e, em troca, oferece-nos sua justiça perfeita, a
qual é depositada em nossa conta por meio da fé (Rm 4.1-8; 2Co 5.21). Oh,
mistério dos mistérios! O ofendido tomou a iniciativa de se reconciliar com o
ofensor, tendo como preço a vida de seu Filho! Sobre as bases dessa obra
redentora que inicialmente operou em nós mesmos, nós, como embaixadores,
convidamos os homens a se reconciliarem com Deus, vindo a Cristo em
arrependimento e fé.
Fidelidade e precisão
Somos administradores, arautos e embaixadores. Essas três figuras não
deixam espaço para dúvida no que diz respeito à natureza do nosso trabalho.
Devemos ser cuidadosos ao administrar os bens do Dono, fiéis e precisos ao
proclamar a mensagem de nosso Rei. Essa é a razão da exortação de Paulo a
Timóteo em sua segunda epístola: “Procura apresentar-te a Deus aprovado,
como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra
da verdade” (2Tm 2.15). A palavra procurar é a tradução de uma palavra
grega que significa ‘faça o teu melhor esforço’, ‘trabalhe duro’, ‘seja
diligente’. Paulo deseja que seu filho na fé possa comparecer diante de Deus
como um obreiro aprovado; a outra opção seria sofrer a vergonha da “fatal
desaprovação de Deus” (traduzido pelo autor).5 Timóteo deveria trabalhar
arduamente, até o esgotamento, se fosse necessário, com o propósito de
manejar bem a Palavra da verdade.
O pregador deve assegurar-se, tanto quanto seja possível, de que está
entregando fielmente a mensagem de Deus revelada em sua Palavra, e não
citando um texto aqui e outro acolá, com o intuito de respaldar suas próprias
ideias, mas, por meio de um estudo diligente, desentranhar o verdadeiro
significado da passagem (ou das passagens) das Escrituras que está expondo.
Pedro diz, em sua Primeira Carta, que, “se alguém fala, fale conforme as
palavras de Deus” (1Pe 4.11). Quando nos colocamos atrás do púlpito, é para
transmitir o que Deus realmente diz em sua Palavra, e não o que nossa
congregação gostaria que disséssemos ou o que nós mesmos gostaríamos de
dizer. Nossa mensagem deve vir do texto, porque o texto tem autoridade
sobre nós.
Acerca do Senhor Jesus Cristo, é dito em João 3.34: “Pois o enviado de
Deus fala as palavras dele”. Em João 7.16-18, o Senhor diz acerca de si
mesmo: “Respondeu-lhes Jesus: O meu ensino não é meu, e sim daquele que
me enviou. Se alguém quiser fazer a vontade dele, conhecerá a respeito da
doutrina, se ela é de Deus ou se eu falo por mim mesmo. Quem fala por si
mesmo está procurando a sua própria glória”.
Aquele que usa a pregação para dar a conhecer suas próprias opiniões
acerca das coisas está buscando a própria glória, mas quem busca a glória de
Deus preocupa-se unicamente em proclamar os decretos de Deus. Jesus diz
mais adiante: “Porque eu não tenho falado por mim mesmo, mas o Pai, que
me enviou, esse me tem prescrito o que dizer e o que anunciar. E sei que o
seu mandamento é a vida eterna. As coisas, pois, que eu falo, como o Pai mo
tem dito, assim falo” (Jo 12.49-50).
Isso deve levar os pregadores a uma grande responsabilidade. Se nosso
Senhor Jesus Cristo teve o cuidado de dizer exatamente o que ouviu do Pai,
quanto mais nós! Seja ao nos colocarmos atrás de um púlpito, assumindo a
postura de mestres da Palavra de Deus, ou ainda em qualquer outro contexto,
precisamos ter integridade ao dizer: “Não falo nada por mim mesmo; estou
ensinando o que aprendi de Deus ao esquadrinhar sua Palavra”.
Não é necessário dizer que o estudo cuidadoso de uma passagem não é um
fim em si mesmo, nem muito menos um meio de alardear erudição no
púlpito. Existe o risco de transformar a pregação em um mero exercício
acadêmico; podemos estar tão preocupados com a boa interpretação e a
estrutura do sermão a ponto de esquecermos que nossa tarefa é usar os
instrumentos que temos para conhecer a mente e o coração de Deus revelados
nas Escrituras, para, só depois, transmitir, de modo eficaz, à mente e ao
coração de nossos ouvintes.
O que, então, é um sermão expositivo?
Quero começar dizendo que um sermão expositivo não é pegar uma
passagem da Bíblia e explicar o significado de cada versículo e de cada
palavra importante que vamos encontrando no caminho. Quando isso
acontece, o pregador deixa de ser um expoente da Palavra para se transformar
em uma espécie de comentário bíblico ambulante. Também não é usar o
púlpito para dar uma aula seca e pouco fértil de interpretação bíblica que
deixa os ouvintes confusos e irritados, tentando discernir qual é a mensagem
de Deus para eles. Pregar é proclamar uma mensagem que extraímos das
Escrituras por meio de um trabalho árduo e que transmitimos pela pregação,
buscando a glória de Deus em Cristo e o proveito espiritual de nossos
ouvintes.
Voltemos, então, à nossa pergunta inicial: O que é um sermão expositivo?
Dito de maneira simples e concisa, é o tipo de sermão que ajuda os ouvintes a
entender o significado do texto bíblico e o que Deus quer que façamos à luz
do que esse texto ensina. Mark Dever define como o tipo de pregação “em
que o ponto principal do texto bíblico que está sendo ensinado vem a ser o
ponto principal do sermão pregado” (tradução do autor).6 O teólogo britânico
J.I. Packer define com as seguintes palavras: “A pregação cristã é a atividade
em que Deus mesmo, através de um porta-voz, traz a uma audiência uma
mensagem de instrução e direção acerca de Cristo, tendo impacto em suas
vidas, e que está baseada nas Escrituras” (traduzido pelo autor).7 A minha
definição é: Um sermão expositivo é aquele que expõe e aplica o verdadeiro
significado do texto bíblico, levando em consideração seu contexto imediato,
assim como o contexto mais amplo da história da redenção, que gira em
torno da pessoa e da obra de Cristo, com o propósito de que o ouvinte ouça a
voz de Deus através da exposição e de que seja transformado.
Um dos documentos da Assembleia de Westminster (1645) declara que “o
pregador deve ser um instrumento com relação ao texto, abrindo-o e
aplicando-o como Palavra de Deus aos seus ouvintes (...) para que o texto
possa falar (...) e ser ouvido, elaborando cada ponto do texto de tal forma que
a sua audiência possa discernir a voz de Deus”.8 Em outras palavras, o
pregador expõe; não impõe. Como diz o teólogo escocês Sinclair Ferguson,
“o pregador cria o sermão, mas não cria a mensagem. Ele proclama e explica
a mensagem que recebeu” (traduzido pelo autor).9 Paulo coloca as coisas da
seguinte forma em 2Coríntios 4.1-2:
Pelo que, tendo este ministério, segundo a misericórdia que nos foi feita, não
desfalecemos; pelo contrário, rejeitamos as coisas que, por vergonhosas, se ocultam,
não andando com astúcia, nem adulterando a palavra de Deus; antes, nos
recomendamos à consciência de todo homem, na presença de Deus, pela
manifestação da verdade.
Essa expressão que a Almeida Revista e Atualizada traduz por
“manifestação da verdade” é muito mais impactante no original. A ideia que
transmite é a de tornar uma coisa amplamente conhecida ao revelá-la com
cuidado em cada detalhe. Por causa disso, o pastor australiano Gary Millar
afirma que “a chave da pregação é tornar evidente a mensagem do texto.
Ajudar as pessoas a vê-lo (...) senti-lo (...) entendê-lo”. E, mais adiante,
acrescenta: “Estou totalmente convencido de que o tipo de pregação que
muda os corações das pessoas é aquele que permite ao texto falar por si
mesmo” (traduzido pelo autor).10
Nesse sentido, toda pregação deve ser expositiva; do contrário, deixa de ser
pregação. Quer se trate de uma série sobre um livro da Bíblia, versículo por
versículo, quer se trate de uma passagem longa ou curta das Escrituras, o que
diferencia a pregação expositiva é que ela expõe e aplica o que o texto
realmente diz, e não o que o pregador quer que diga. John Stott afirma:
Expor as Escrituras é extrair o que se encontra no texto e deixá-lo ao alcance da vista.
O expoente emprega esforço para expor o que parecia estar oculto, confere clareza ao
que parecia confuso, desfaz os nós e desmonta o que parecia um assunto difícil. O
oposto da exposição é a imposição, ou seja, impor sobre o texto algo que não está
incluído nele. O “texto” em questão pode ser um versículo, uma oração gramatical ou
ainda uma só palavra. Do mesmo modo, pode tratar-se de um parágrafo, um capítulo
ou um livro inteiro. O tamanho do texto não tem importância, desde que seja tirado
da Bíblia; o importante é o que vamos fazer com ele. Seja curto ou extenso, nossa
responsabilidade como expositores é fazer com que o texto seja exposto de tal modo
que transmita uma mensagem clara, simples, exata, de forma pertinente, sem adições,
subtrações ou falsificação.11
A maioria das pessoas aprecia um bom truque de mágica. Perguntamo-nos
como é possível que o mágico tenha tirado um coelho de uma cartola
aparentemente vazia. Mas o pregador não é um mágico; é um expositor; ele
foi chamado a tirar da cartola (o texto bíblico) um coelho que já está
previamente ali (o conteúdo do texto).
O texto dita e controla o que falamos,12 como bem assinala John Stott. Isso
é pregação expositiva ou, para ser mais preciso, isso é pregação! Quando é
algo menos que isso, deixa de ser pregação para se transformar em outra
coisa. Não se trata tanto de um método, mas de uma convicção. Se realmente
cremos que “toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a
repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o
homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra”
(2Tm 3.16-17), porque iríamos querer fazer outra coisa a não ser expor a
Bíblia com fidelidade?
É possível que você nunca venha a ser um pregador popular fazendo isso,
mas lembre-se de que o “êxito” ministerial não é medido pela quantidade de
reproduções do seu sermão no YouTube, ou pela quantidade de conferências
em que você prega, mas pela fidelidade ao transmitir o que Deus quer nos
dizer nas Escrituras. Espero que estas palavras do Senhor Jesus Cristo, em
Mateus 24.45-46, ajudem você a seguir adiante com seu trabalho, buscando
unicamente a aprovação dele, e não a dos homens: “Quem é, pois, o servo fiel
e prudente, a quem o senhor confiou os seus conservos para dar-lhes o
sustento a seu tempo? Bem-aventurado aquele servo a quem seu senhor,
quando vier, achar fazendo assim”.
Capítulo 5
O que é pregar?
“Conjuro-te, perante Deus e Cristo Jesus, que há de julgar vivos e mortos, pela sua
manifestação e pelo seu reino: prega a palavra.”
2Tm 4.1-2a

“Foi pelos ouvidos que perdemos o paraíso, quando nossos primeiros pais escutaram a
Serpente; e também é pelos ouvidos, por escutar a Palavra pregada, que alcançamos o
céu.”
Thomas Watson

No capítulo anterior, tentamos responder à seguinte pergunta: O que é um


sermão expositivo? Neste capítulo, nosso foco será maior no ato de pregar.
Existe alguma diferença entre um ensaio e um sermão? Ou entre o sermão
lido no púlpito e uma mensagem que é entregue diretamente pelo pregador ao
auditório? Existe diferença entre dar uma aula na escola dominical, ensinar
uma disciplina teológica e pregar expositivamente as Escrituras?
Em um nível pessoal, esse tema tem mexido com meu coração nos últimos
anos. Sou pregador e quero estar certo de que o que estou fazendo no púlpito
é aquilo que Deus me chamou para fazer. Ao mesmo tempo, sou um crente
que precisa ser edificado por meio da pregação. Nesse sentido, sou muito
abençoado ao ouvir outros pregadores, mas também posso perceber, em
alguns casos, que a linha que separa a pregação de outras formas de
comunicação parece estar apagando-se em muitos púlpitos. Algumas vezes, é
difícil saber se o homem atrás do púlpito está realmente pregando ou apenas
dando uma palestra com conteúdo bíblico. Portanto, vale a pena o esforço
para definir o que é pregação, mesmo sabendo que essa definição representa
um verdadeiro desafio.
Acredito que Haddon Robinson, professor de pregação no Seminário
Gordon-Conwell, tem razão quando nos adverte que “muitas vezes
destruímos o que definimos. A criança que disseca uma rã para averiguar por
que ela pula, destrói a vida do animalzinho para aprender algo a seu respeito.
Pregar é um processo vivo que envolve Deus, o pregador e a congregação, e
nenhuma definição deve pretender ‘amarrar’ essa dinâmica. Mesmo assim,
devemos tentar alguma definição”.1 Por isso, trataremos de entender como a
rã pula, mas sem destruí-la nesse processo!
O meio afeta a mensagem
Na década de 1960, o filósofo canadense da teoria da comunicação Marshall
McLuhan cunhou a seguinte expressão: “O meio é a mensagem”. Com essas
simples porém poderosas palavras, McLuhan nos lembra que o meio
escolhido para comunicar a mensagem afeta seu conteúdo. “O modo é o
assunto”, já dissera o pastor estadunidense do século XIX Henry C. Fish, o
que o coloca à frente de McLuhan uns cem anos.2 Aqueles que leram nos
jornais as notícias sobre o desembarque das forças armadas nas praias da
Normandia, no final da Segunda Guerra Mundial, não tiveram a mesma
experiência daqueles que assistiram à primeira cena do filme de Steven
Spielberg, O Resgate do Soldado Ryan. No primeiro caso, trata-se de uma
notícia; no segundo, é tanto notícia como espetáculo. 3
Essa realidade deve levar-nos a pensar seriamente no meio que usamos para
comunicar a verdade de Deus revelada na Palavra. Escutar um pregador
expondo a Palavra é diferente de assistir a um videoclipe, uma peça de teatro
ou até mesmo ler um livro ou um folheto evangelístico. Com isso, não quero
minimizar a importância da página impressa. Creio, de todo o coração, que os
livros são um instrumento poderoso para propagar a verdade e combater o
erro. A Reforma Protestante deve muitíssimo à invenção da imprensa. Mas,
mesmo assim, a proclamação oral continua a ser o meio por excelência que
Deus usa para salvar as almas e fortalecer a fé dos crentes.
Entre milhares e milhares de pessoas que podem testemunhar que se
converteram por meio da pregação da Palavra de Deus, encontramos poucas
que afirmam ter-se convertido lendo algum livro ou folheto que explicava a
mensagem do evangelho. E ainda é provável que muitas dessas poucas
tenham sido previamente expostas à pregação da Palavra.
Dizia o puritano inglês do século XVII Thomas Watson que “foi pelos
ouvidos que perdemos o paraíso, quando nossos primeiros pais escutaram a
Serpente; e também é pelos ouvidos, por escutar a Palavra pregada, que
alcançamos o céu” (traduzido pelo autor).4 Se a Bíblia enfatiza a necessidade
de ouvir, é porque pressupõe-se que seus servos cumprirão o mandamento
que lhes foi dado, pregando a Palavra.
Falamos “da parte de Deus e na presença de Deus” (2Co 2.17). E não
apenas a mensagem que transmitimos, mas também a forma como fazemos,
deve enviar esse sinal à mente e ao coração daqueles que nos escutam. Somos
“embaixadores em nome de Cristo, como se Deus exortasse por nosso
intermédio”, chamando os homens a se reconciliar com ele (2Co 5.20).
A pregação humilha e persuade
Dessa maneira, a pregação da Palavra não surge nos tempos bíblicos como
produto do atraso tecnológico daqueles dias, mas, sim, por ser o meio mais
apropriado para comunicar a natureza da mensagem. O Rei Soberano do
universo, que tem direito pleno sobre todas as suas criaturas, deu-nos a ordem
de transmitir seus decretos. Esse é o sinal que os pregadores estão enviando
aos homens quando se colocam atrás de um púlpito para proclamar em bom
som a Palavra de Deus. Somos mensageiros do Deus Altíssimo, e não seus
negociantes. Ele é o Rei dos reis e o Senhor dos senhores; e nós viemos em
seu Nome para proclamar que há salvação em Cristo para todo aquele que
crê. A pregação é o formato mais idôneo para mostrar a realidade de que o
homem não está em posição de se sentar com Deus a uma mesa de
negociações, e que precisa humilhar-se diante da voz de Deus. Por outro lado,
a pregação é o veículo ideal para persuadir corretamente os homens,
informando, de maneira adequada, o entendimento do pecador e movendo-o a
levantar a bandeira branca da rendição. O livro de Atos dos apóstolos diz que
Paulo falava, “persuadindo tanto judeus como gregos” (At 18.4).
Será a nossa argumentação aquela que vai vencer a obstinação dos perdidos
e trazê-los ao arrependimento e à fé? É claro que não. Somente Deus pode
fazer isso. Mas ele atua levando em consideração a maneira como ele mesmo
nos criou. O entendimento deve ser iluminado pela apresentação clara e
persuasiva da verdade, para que sejamos levados a abraçar Cristo por meio da
fé (Rm 6.17). Como, em certa ocasião, disse o puritano Thomas Watson: “Os
ministros batem às portas dos corações dos homens, e o Espírito vem com
uma chave e abre a porta” (tradução do autor).5 É surpreendente pensar que o
Espírito opera nos corações humanos por meio de vozes humanas, mas isso é
exatamente o que ele faz, como vimos no capítulo anterior: “O Espírito e a
noiva dizem: Vem! Aquele que ouve, diga: Vem! Aquele que tem sede,
venha; e quem quiser receba de graça a água da vida” (Ap 22.17).
Devemos proclamar, de forma audível, a Palavra de Deus, mas devemos
fazê-lo de certa forma, para que o resultado possa ser chamado de pregação.
Lembre-se de que o meio afeta a mensagem. Não basta ter um conteúdo
bíblico, a pregação bíblica apresenta um formato próprio e deriva de nossa
vocação como arautos e embaixadores do Deus Altíssimo.
Pregue com autoridade
O maior pregador da história foi, sem sombra de dúvida, nosso Senhor Jesus
Cristo. Ainda que muitos deem ao pregador batista inglês Charles Spurgeon o
título de “Príncipe dos pregadores”, estou certo de que até mesmo ele
concordaria com o fato de que, com toda a justiça, Jesus merece esse título.
Existem muitos aspectos que poderíamos ressaltar na pregação de Jesus, mas
o que Mateus assinala em seu Evangelho é que ele pregava “como quem tem
autoridade, e não como os escribas” (Mt 7.29).
Os escribas tinham uma autoridade de “segunda mão”, baseada no ensino
de outros rabinos ou de outros escribas que eles citavam o tempo todo. Mas
Jesus era um Mestre diferente. Ele falava com a plena convicção de que as
suas palavras eram as palavras do próprio Deus: “Ouvistes o que foi dito (...)
Eu, porém, vos digo” (Mt 5.21-22). Em outras palavras: “Isso é o que os
rabinos ensinaram até agora, mas eu trago a vocês a interpretação correta das
Escrituras, a única que é realmente válida”. Isso é falar com autoridade. E,
ainda que o Senhor tenha uma autoridade intrínseca que não é compartilhada
com ninguém, ao proclamar com fidelidade sua Palavra, nós, ministros,
devemos estar conscientes de que temos uma autoridade delegada por ele
mesmo. É uma autoridade delegada, mas continua a ser autoridade.
Ao escrever a Tito, Paulo lhe ordena que exorte e repreenda “com toda
autoridade” (Tt 2.15). É importante perceber quais são os tópicos que Tito
deveria ensinar dessa forma: que as mulheres se sujeitem aos maridos, que
cuidem de suas casas e que criem seus filhos, temas que, como apontou Don
Kistler, mestre e pregador, fundador da editora Northampton, “muitos
pregadores nem sequer sonhariam em abordar... E Tito deveria pregá-los com
toda autoridade!” (traduzido pelo autor).6
É claro que não devemos confundir autoridade com autoritarismo. “Alguns
pregadores se transformam em ‘pequenos pontífices’, ditadores espirituais
que fazem do púlpito um trono; da igreja, seu reino; e, da Bíblia, uma
ferramenta de manipulação.”7 Isso é o que, inevitavelmente, acontece quando
o pregador deixa de lado o verdadeiro significado do texto bíblico e o
emprega para impor suas próprias opiniões. A Bíblia tem autoridade porque é
a Palavra de Deus. Ao expor seu texto de modo fiel, colocamo-nos sob a sua
autoridade, portanto podemos proclamá-lo com autoridade. Quando nos
separamos da Palavra, transformamo-nos em senhores das pessoas e caímos
no autoritarismo.
Mesmo sendo pecadores salvos pela graça, quando estamos atrás do
púlpito, somos embaixadores e devemos honrar essa nomeação. Começar a
pregar pedindo desculpas pela falta de preparo de maneira satisfatória, ou
tentar ganhar a simpatia do auditório apelando para a falta de experiência ou
algo semelhante, são as piores formas de começar uma mensagem da Palavra
de Deus.
Se você foi chamado a pregar “da parte de Deus e na presença de Deus”,
seria totalmente contraditório e contraproducente fazer isso sem autoridade.
Não estamos falando de um assunto que está aberto ao debate. Se, por meio
de uma exegese cuidadosa e meticulosa, você entendeu que a Palavra de
Deus o está levando a determinada conclusão, então ensine isso com
autoridade. Certamente, essa autoridade delegada pode ser fortalecida ou
enfraquecida proporcionalmente ao comprometimento que temos em
obedecer à Palavra de Deus que pregamos. Por isso, Pedro exorta os anciãos
da Igreja a que apascentem “o rebanho de Deus que há entre vós, não por
constrangimento, mas espontaneamente, como Deus quer; nem por sórdida
ganância, mas de boa vontade; nem como dominadores dos que vos foram
confiados, antes, tornando-vos modelos do rebanho” (1Pe 5.2-3).8
Pregue com ousadia
Se existe um elemento distintivo na pregação apostólica, é a ousadia
(compare com At 2.22-23, 36; 3.13-15; 4.13, 29, 31). A palavra grega
traduzida como “ousadia” é parresía , que, literalmente, significa
“confiança”, “sem medo”, “com coragem”. No grego clássico, o termo era
usado para fazer referência ao direito que os cidadãos tinham de falar de
maneira franca e aberta. Quando usado no livro de Atos no que diz respeito à
pregação, denota a coragem e a ousadia dos discípulos em anunciar o
evangelho, apesar da oposição.
Existem verdades nas Escrituras que as pessoas não querem escutar, e há
pessoas que demonstram completa hostilidade em relação a tudo que diz
respeito ao evangelho (2Tm 4.1-4). Por isso, um pregador que não tenha
ousadia não poderá anunciar “todo conselho de Deus” (At 20.27). Mas o
pregador que é prisioneiro da verdade de Deus revelada em sua Palavra não
ficará com a boca fechada; falará tudo o que deve falar (compare com 1Ts
2.2, 4). Nem mesmo nossas próprias debilidades e pecados, os quais muitas
vezes são expostos quando estudamos a Palavra, devem impedir-nos de
anunciar a Palavra com coragem.
Nesse sentido, o apóstolo Pedro é um bom modelo a seguir. Um homem
manco é milagrosamente curado em nome de Jesus, uma multidão de pessoas
se amontoa no pórtico do Templo de Salomão, e Pedro aproveita a
oportunidade para anunciar o evangelho com toda a ousadia: “Vós, porém,
negastes o Santo e o Justo e pedistes que vos concedessem um homicida.
Dessarte, matastes o autor da vida, a quem Deus ressuscitou dentre os mortos,
do que nós somos testemunhas” (At 3.14-15). Você ouviu a acusação de
Pedro? Será que ele esqueceu que, quarenta dias antes, ele também havia
negado o Senhor? Como ele se atreve a apontar o dedo para os judeus e dizer
que eles haviam negado o Santo e Justo? Pedro negou Cristo, mas também
chorou amargamente e foi restaurado pelo próprio Cristo, a quem ele traíra
(Jo 21.15-17), e agora pode dirigir essa acusação à consciência daqueles
homens, pois era isso que eles precisavam ouvir.
Comentando acerca desse ocorrido, o pastor e pregador irlandês Ted
Donnelly diz o seguinte: “Relutaremos em aplicar o evangelho por causa de
nossa indignidade? Pregaremos com mais suavidade com medo de que nos
considerem arrogantes ou mais santos que os demais? Isso não parece
orgulho mascarado de humildade? Quando pregamos, só uma coisa importa:
que a mensagem de salvação seja transmitida àqueles que a escutam. Não
podemos permitir que nada interfira no impacto daquilo que estamos
falando”.
E logo acrescenta: “Devemos examinar nossos próprios corações. Devemos
sentir a dor profunda do nosso pecado. Mas o lugar para isso é aquele lugar
secreto, e não o púlpito. O arrependimento profundo e a humilhação da alma,
quando genuínos, nos tornam mansos e gentis. Nossa atitude mostrará
claramente se estamos nos colocando ou não em um pedestal. Mas é um erro
trágico pregar timidamente por causa de nossa imperfeição. Cristo, o nosso
tema, é perfeito. Proclamemos sem restrição” (traduzido pelo autor).9
Um pregador claudicante não é um pregador humilde; é um homem sem
convicção. Gilbert K. Chesterton, escritor, jornalista e apologista do início do
século XX, chamou esse problema de “deslocamento de humildade”:
Hoje estamos padecendo de uma transposição de humildade. A modéstia se transferiu
da esfera da ambição para sentar-se na esfera da convicção, onde nunca deveria estar.
Um homem deveria duvidar de si mesmo, e não da verdade; mas isso está invertido.
Estamos a caminho de produzir uma raça de homens mentalmente modestos demais
para crer na tabuada.10

“Devemos ser sempre humildes”, dizia o pastor e pregador escocês James


Stewart, “mas jamais devemos mostrar insegurança ou tratar de dar desculpas
quando se trata de apresentar o evangelho”.11
Pregue com paixão
Nossa pregação deve dirigir-se ao intelecto de nossos ouvintes. Eles devem
entender a verdade que pregamos e, para isso, devemos apresentar a
mensagem de forma lógica e ordenada, com ideias coerentes e
compreensíveis. Basta ler as cartas do Novo Testamento para encontrar bons
modelos desse tipo de exposição. Falaremos mais a respeito no capítulo em
que abordaremos a preparação do sermão.
Um bom sermão deve ser coerente, para que possa ser entendido e
assimilado, porém a pregação é muito mais do que lógica; é a entrega
apaixonada de uma mensagem divina. Se entregarmos a mensagem de forma
incoerente, ela dificilmente será entendida e, portanto, será de pouco
proveito; mas, se a entregarmos sem paixão, sem fogo, nossos ouvintes terão
razões para perguntar se o que estamos dizendo é verdade, e se estamos
sendo sinceros.
Por isso os puritanos costumavam dizer que a pregação deve ter luz e calor.
Ambos os elementos são necessários quando queremos fazer o bem às almas.
Devemos oferecer luz para o entendimento e, por meio do entendimento,
aquecer o coração. “A luz sem calor não afeta ninguém”, dizia Martin Lloyd-
Jones, “e o calor sem a luz não tem valor permanente”.12 Por isso Lloyd-
Jones definiu a pregação como “lógica em chamas!”.13
Não se trata da técnica, por mais importantes que sejam alguns elementos
mecânicos da pregação. Também não depende da personalidade do pregador.
A personalidade de cada um influencia a maneira como percebemos e
manifestamos a paixão. John MacArthur e John Piper são homens
apaixonados pela verdade; isso é evidente na pregação deles, mas também
está clara a grande diferença de personalidades que transparece na pregação
de cada um.
A paixão não reside na personalidade, mas na convicção da mente e no
fervor do coração. Creio que o apóstolo João aborda esse ponto de maneira
incidental em sua primeira carta, quando escreve: “O que temos visto e
ouvido anunciamos também a vós outros” (1Jo 1.3). O conteúdo da
mensagem apostólica não era mera informação, mas a convivência pessoal
com uma pessoa extraordinária. Eles tinham “visto e ouvido” o Senhor Jesus
Cristo por mais de três anos, estavam transbordantes dele e de suas Palavras,
e isso transformou seus ministérios.
Byron Yawn, pastor da Community Bible Church de Nashville, Tennessee,
define a paixão no púlpito como “a sinceridade da evidente convicção, que
amplifica, por meio dos dons, a disposição e as características do pregador”.14
Dito isso, ele acrescenta:
A emoção e o ânimo não são necessariamente paixão. Essa é uma ideia que devemos
compreender, principalmente aqueles pregadores que possam considerar-se menos
dinâmicos, ou aqueles membros da congregação que têm expectativas pouco reais do
seu pregador. (...) A paixão não adota uma única forma. Suas manifestações são tão
díspares quanto o número de homens que são chamados a pregar. (...) A paixão
preenche o pregador. É orgânica, não artificial. A paixão surge de um homem
alcançado por uma passagem, quebrantado pela cruz, irado por seu pecado, eufórico
pela graça, jogado ao evangelho, impulsionado por seu chamado e desesperadamente
entregue aos seus. É um homem que, ao mesmo tempo, aceita uma mão traspassada
por um cravo e um púlpito.15
Se o que você está pregando não o subjuga ou produz efeito em sua própria
vida cristã, como consegue pregar com paixão? Todos nós temos uma luta
para obedecer a Deus, mas você está lutando? Você está levando a Palavra a
sério? Porque, se não for assim, sua pregação precisará de paixão genuína; e,
se não há paixão, não há pregação. O reconhecido pastor e teólogo norte-
americano R.C. Sproul chegou a dizer que a pregação que carece de paixão é
uma mentira.16
Quero citar novamente Martin Lloyd-Jones a respeito desse ponto:
“Novamente digo que um homem capaz de falar dessas coisas sem paixão
não tem o direito de estar em um púlpito, e jamais deveriam permitir que ele
se aproximasse de um”.17 Em outro lugar, ele disse: “Eu diria que um
‘pregador apagado’ é uma contradição de termos; se ele é apagado, não é
pregador. É impossível ser apagado quando se trata do grandioso tema e da
mensagem da Bíblia. É o mais interessante, emocionante e mais absorvente
tema do universo; e a simples ideia de que ele possa ser apresentado de
maneira apagada e entediante me faz duvidar seriamente de que o homem
responsável por apresentá-lo dessa maneira realmente tenha entendido a
doutrina que diz crer e defender”.18
Como poderemos comunicar com indiferença a mensagem do amor de
Deus aos homens? Como poderemos contar com indiferença a história da
encarnação ou falar acerca da morte do Salvador na cruz do Calvário? Como
podemos advertir essas pessoas com indiferença a escapar do fogo do
inferno? Isso me leva ao próximo assunto, que diz que devemos pregar com
urgência.
Pregue com urgência
Isso decorre do que já dissemos até agora. Por causa da natureza da comissão
que nos foi dada e da mensagem que temos de proclamar, não podemos
pregar sem senso de urgência. Qual deve ter sido o tom usado por Pedro ao
pronunciar as palavras que Lucas escreveu em Atos 2.40: “Salvai-vos desta
geração perversa”? Que mensagem tremenda! “Esta geração é má, e será
destruída por causa dessa maldade. Fujam dela enquanto podem!”.
Nossos ouvintes, assim como nós, caminham com passos firmes para o dia
do juízo, no qual escutarão os veredictos: castigo eterno ou vida eterna. Essa
realidade deve levar-nos a pregar com senso de urgência, com o desejo de
persuadir os homens para que escapem da ira vindoura. “Porque importa que
todos nós compareçamos perante o tribunal de Cristo, para que cada um
receba segundo o bem ou o mal que tiver feito por meio do corpo. E assim,
conhecendo o temor do Senhor, persuadimos os homens” (2Co 5.10-11).
A pregação não é um fim em si mesmo. Sua meta não é haver pessoas
opinando acerca da beleza do discurso, ou sobre o fato de a exposição bíblica
ter sido boa. A mera transmissão de informação, por mais correta que seja em
sua exegese ou teologia, também não deve ser a meta. Nós estamos tratando
de persuadir os homens, e não sabemos quanto tempo mais teremos para
fazê-lo. Como disse Richard Baxter, o famoso puritano inglês do século
XVII: “As pessoas não abandonarão seus deleites por causa de um pedido
tímido de alguém que não parece falar sério, nem se importar com os
resultados”.20 Poucas pessoas foram tão eloquentes ao falar desse tema
quanto Gardner Spring, ministro norte-americano do século XVIII:
Nenhum pregador pode manter a atenção das pessoas a menos que sinta o tema: nem
pode manter por muito tempo, a menos que o sinta profundamente. Se quer tornar
solene a outros, ele mesmo precisa ser solene, e deve ter comunhão com as verdades
que proclama. Ele deve pregar como se estivesse sob o olhar de Deus, e como se a
sua própria alma estivesse unida às almas daqueles que o escutam. Deve pregar como
se estivesse diante da cruz, ouvindo os gemidos do poderoso e sofredor Salvador do
Calvário; como se a sentença de juízo tivesse sido ditada e como se os livros fossem
abertos; como se a sentença que decide os destinos dos homens estivesse a ponto de
ser declarada; como se tivesse contemplado o poço do desespero, como se tivesse
descortinado o véu e enxergado a glória inefável.21

Você pode ver a diferença entre um homem que está dando uma palestra
sobre suicídio, mostrando estatísticas e explicações sobre as diferentes
formas de tirar a própria vida, e outro que está tentando dissuadir alguém que
está com o cano do revólver dentro da boca, pronto para disparar? Temos
uma mensagem urgente para comunicar, a mais urgente de todas, e não
sabemos por quanto tempo mais teremos a oportunidade de fazê-lo, nem
quanto tempo nossos ouvintes terão para escutá-la. Preguemos como homens
moribundos a outros moribundos.
Pregue com compaixão
Há pouco tempo ouvi a história de um pastor que foi despedido de sua
congregação. Quando alguém perguntou a um dos membros de sua igreja o
motivo da demissão, o homem respondeu: “Porque ele mandava seus
ouvintes para o inferno o tempo todo”. Ao escutar a resposta, voltou a
perguntar: “E como vai a relação com o novo pastor? Ele não manda vocês
ao inferno?”. “Ah, sim, ele também faz isso!”, respondeu-lhe. Surpreso com a
resposta, atreveu-se a perguntar: “Então, qual é a diferença?”. Sem hesitar, o
membro respondeu: “É que o anterior parecia deleitar-se nisso”. Não creio
que essa história precise de comentário adicional. Os pregadores do
evangelho devem pregar com compaixão.
Acerca do nosso Senhor Jesus Cristo, é dito no Evangelho de Mateus:
“Vendo ele as multidões, compadeceu-se delas, porque estavam aflitas e
exaustas, como ovelhas que não têm pastor” (Mt 9.36). Jesus era muito mais
que um mero pregador profissional. Ele é o Bom Pastor que veio dar sua vida
pelas ovelhas, e a mesma compaixão que o levou à cruz podia ser vista em
sua pregação. Como podemos pregar sobre esse Cristo com um coração frio e
carente de sentimentos por aqueles a quem ministramos? Um pregador
anglicano do final do século XVIII pronunciou algumas palavras que são
como um golpe em minha consciência: “Uma coisa é amar a pregação e outra
muito diferente é amar aqueles a quem pregamos”.22
“Culpam-me por chorar”, dizia o grande pregador inglês do século XVIII,
George Whitefield, “mas nada posso fazer se vocês não choram por si
mesmos, mesmo quando suas próprias almas imortais estão prestes a ser
destruídas; e talvez estejam escutando seu último sermão; talvez nunca mais
tenham a oportunidade de ver Cristo sendo oferecido”.23 Pergunto-me o que
sentia o apóstolo Paulo quando rogava aos coríntios “pela mansidão e
benignidade de Cristo” (2Co 10.1); ou quando escrevia aos gálatas: “Meus
filhos, por quem, de novo, sofro as dores de parto, até ser Cristo formado em
vós” (Gl 4.19). Como eu gostaria de experimentar mais esse sentimento em
minha própria pregação!
Pregue com sua própria voz
Esse título pode soar óbvio demais. “É claro que devo pregar com a minha
própria voz! Com que outra voz eu poderia pregar?” Porém, o que quero
dizer é que cada pregador deve ser autêntico quando prega, em vez de imitar
outras pessoas. Do contrário, terminaremos frustrados e nunca poderemos
alcançar no púlpito o nível de liberdade requerido para pregar de modo
eficaz. Uma coisa é admirar um pregador e outra bem diferente é ir contra
nossa própria personalidade tentando nos igualar a ele.
Pessoalmente, sou um grande admirador de Martyn Lloyd-Jones. É meu
pregador falecido favorito. Creio que seu impacto sobre mim e sobre minha
pregação é mais profundo do que eu mesmo sou capaz de perceber de forma
consciente. Mas não sou galês, nem médico, nem ministro em Londres, e
também não sou Lloyd-Jones! Se eu tentasse pregar como ele, em vez de
causar o impacto que ele causou, terminaria sendo uma caricatura patética de
um grande pregador. Obviamente, eu posso ser patético mesmo sem tentar
imitá-lo! Mas, sem dúvida, minhas possibilidades de fracasso seriam maiores
se, no púlpito, eu fosse alguém que não sou. Voddie Bauchan, reconhecido
pregador e pastor da Grace Family Baptist Church no Texas, diz o seguinte a
esse respeito:
O aspecto mais importante do estilo de um pregador é a autenticidade. Quando
comecei a pregar, achava que meu “estilo” deveria caber em alguma categoria
determinada. Como resultado disso, imitava meus pregadores favoritos. Eu vivia me
reinventando. Em última instância, eu tinha de encontrar meu próprio “estilo” e
depois mantê-lo. Supunha, assim, que eu tinha uma coisa a menos para fabricar. Eu
precisava descobrir que Deus me deu uma personalidade única, a qual ele pretendia
usar de maneira única.25
Por acaso você leu a última frase enquanto sua mente divagava em meio à
leitura? Vou repeti-la: “Eu precisava descobrir que Deus me deu uma
personalidade única, a qual ele pretendia usar de maneira única”. Todo
pregador deve progredir em sua pregação. Paulo disse a Timóteo que ele
deveria ocupar-se de tal maneira do exercício de seu dom como pregador que
seu proveito pudesse ser visto por todos (1Tm 4.15). Mas Timóteo nunca
precisou mudar sua personalidade tentando ser uma versão de Paulo! Isso não
significa que tenhamos de fazer um esforço consciente para que nosso estilo
não se pareça com o de nenhum pregador conhecido; fazer isso pode
transformar-nos em pregadores bizarros. O que estou dizendo é que você
deve aceitar a personalidade que Deus lhe deu, e usá-la para sua Glória, em
vez de tentar ser uma “imitação servil de outra pessoa”.25 Sinclair Ferguson
faz uma advertência que deve ser levada a sério por todo pregador:
Não devemos transformar-nos em clones. Alguns homens nunca crescem como
pregadores porque o “terno de pregador” que pegaram emprestado não combina com
eles ou com seus dons (...) A combinação entre nossa personalidade e a forma de
pregar de outra pessoa pode tornar nossa mensagem tediosa e sem vida. Portanto, no
que diz respeito aos nossos pontos fortes e fracos, vale a pena investir tempo para
avaliar quem nós somos como pregadores.26
A definição do pregador norte-americano do século XIX Philips Brooks é
muito conhecida. Para ele, a pregação é “a verdade mediada pela
personalidade”.27 Há muita verdade nisso. Se você tentar pregar com o estilo
de outras pessoas, vai acabar soando como uma fraude. Sabe por quê? Porque
será uma atuação fraudulenta. Um pregador sem integridade nunca chegará a
ser um pregador eficaz, pois não poderá pregar com a bênção do Espírito
Santo. Matt Chandler, pastor da Village Church, não duvida ao qualificar
como “pecado” o fato de um pregador tentar ser alguém que não é: “É preciso
ter um coração perverso e ingrato para dizer: ‘Quero que este seja o meu
papel’ (...) ou ‘Quero que meus seguidores sejam assim’. O coração perverso
não corre a corrida que lhe foi proposta, nem se sente confortável com o que
Deus lhe chamou para fazer. Também não está confortável com o modo
como Deus o fez”.28
Certamente, existem elementos comuns em toda boa pregação: a
interpretação da passagem é correta, a entrega é clara e simples, as aplicações
são adequadas. “A combinação desses elementos produz um tom parecido em
cada sermão genuinamente expositivo. Mas isso não quer dizer que todo
sermão e todo pregador expositivo soem da mesma forma. Se isso acontece,
então alguma coisa está errada.”29 Se Deus chamou você para pregar, ele
usará toda a sua personalidade redimida para tornar conhecida a Palavra dele
por intermédio de você.
O que é, então, pregar?
Após lutar por um tempo longo tentando elaborar uma definição do que é
pregar, e ainda à luz do que vimos até aqui neste capítulo, esta é a minha
proposta: trata-se da comunicação, em forma de discurso oral, de uma
mensagem extraída das Sagradas Escrituras, por meio de uma cuidadosa
exegese; transmitida com autoridade, convicção, coragem, paixão, urgência
e compaixão; através da personalidade de um homem redimido, chamado e
qualificado por Deus; sob a influência e o poder do Espírito Santo, para a
glória de Deus em Cristo, a salvação dos pecadores e a edificação dos
crentes.
A pregação é proclamação; não pode ser menos que isso, porém é muito
mais que isso. É um monólogo, mas não é um mero discurso. Contém ensino,
porém é mais do que ensinar teologia, aplicar uma aula de Escola Dominical
ou ministrar uma palestra bíblica. A pregação é persuasiva, mas nunca
manipuladora. É uma forma singular de comunicação que envolve todo o
nosso ser enquanto falamos “na presença de Deus e da parte de Deus”.
O relato da conversão de Charles Spurgeon ilustra-nos esse tipo de
pregação. Quando Spurgeon tinha 15 anos, caiu em uma condição espiritual
angustiante porque sabia que não era crente, mas, ao mesmo tempo, estava
muito confuso sobre o que deveria fazer para ser salvo.
Num domingo, 6 de janeiro de 1850, Spurgeon se dispôs a ir à igreja na
qual seu pai iria pregar a Palavra, mas caiu uma nevasca tão forte que sua
mãe o aconselhou a participar do culto em uma pequena capela metodista
local. Assim, sem muito entusiasmo, Spurgeon dirigiu-se à capela, onde
encontrou umas 12 ou 15 pessoas congregadas. O pastor que deveria pregar
nesse dia também não pôde chegar, certamente por causa da nevasca, e por
isso um irmão daquela congregação, um homem simples, sem muita
instrução ou oratória, subiu ao púlpito e abriu sua Bíblia em Isaías 45.22:
“Olhai para mim e sede salvos, vós, todos os limites da terra; porque eu sou
Deus, e não há outro”.
Spurgeon relata, em sua autobiografia, que o pregador desconhecido
começou a expor o texto dizendo: “Meus queridos amigos, esse, na verdade,
é um texto muito simples. Diz: ‘Olhai’. Vejam bem, olhar é uma tarefa que
não exige muito esforço; não se trata de levantar o pé ou o dedo; é
simplesmente ‘olhar’. Um homem não precisa ir ao colégio para aprender a
olhar. Você pode ser o maior ignorante de todos e, mesmo assim, é capaz de
olhar... Qualquer um pode olhar; até uma criança pode fazer isso. Mas então
o texto diz: ‘Olhai para mim’. Ah, muitos estão olhando para si mesmos, mas
não há sentido em olhar para si. Nunca encontrarão consolo em si mesmos...
Jesus Cristo diz: ‘Olhai para mim’. Alguns de vocês dizem: ‘Estamos
esperando que o Espírito Santo opere em nós’. Esse não é o ponto agora.
Olhe para Cristo. O texto diz: ‘Olhai para mim’”.
Em seguida, continuou dizendo: “Olhai para mim, que estou suando
grandes gotas de sangue; olhai para mim, que estou pendurado numa cruz.
Olhai para mim, pois fui morto e sepultado. Olhai para mim, pois ressuscitei.
Olhai para mim, pois subi aos céus. Olhai para mim, que estou sentado à
destra de Deus. Oh, pobres pecadores! Olhai para mim! Olhai para mim!’”.
Após dez minutos de exposição do texto desse modo, o pregador colocou a
vista sobre Spurgeon e, olhando-o bem nos olhos, disse: “Jovem, você parece
miserável”. “Aceito que isso era verdade”, diz Spurgeon, “mas eu não estava
acostumado a falarem da minha aparência pessoal lá do púlpito...”. O
pregador continuou dizendo: “... e sempre será um miserável, miserável na
vida e miserável na morte, se você não obedecer ao meu texto; mas, se
obedecer agora, neste momento, você será salvo”. Depois, levantando suas
mãos, gritou como somente um metodista antigo poderia fazer: “Jovem, olhe
para Jesus Cristo. Olhe! Olhe! Olhe! Não é preciso fazer outra coisa além de
olhar e viver”.
“Imediatamente, eu vi o caminho da salvação”, diz Spurgeon. “Não sei o
que mais ele disse. Não prestei atenção em mais nada, tão possuído que
estava daquela ideia. Eu esperava poder fazer umas cinquenta coisas, mas,
quando escutei essa palavra, ‘Olhai!’, quão encantadora ela me pareceu...
Então, ali, as nuvens se dissiparam, as trevas se afastaram e eu pude ver a luz
do sol; nesse instante, pude me levantar e cantar como o mais entusiasta
deles, acerca do sangue precioso de Cristo e de uma fé simples que somente
olha para ele” (traduzido pelo autor).30
Aqui está um desses casos em que não houve muito tempo de preparação,
nem mesmo uma profunda análise exegética do texto bíblico. Talvez esse
pregador desconhecido nunca mais tenha voltado a expor a Palavra. Só
saberemos isso lá no céu. Mas, naquele domingo frio de meados do século
XIX, aquele homem transmitiu com tamanha clareza, com tamanha paixão e
com tamanha urgência a mensagem de Deus em Isaías 45.22 que sua
pregação derreteu o coração de um jovem incrédulo e atormentado. Talvez
lhe faltasse eloquência, mas sobravam-lhe compaixão, amor pelas almas
perdidas e o desejo de proclamar nosso bendito Senhor e Salvador. Nunca
saberemos seu nome desse lado da eternidade, nem o que ele disse no
restante do seu sermão; mas o pouco que Spurgeon compartilha em sua
autobiografia é suficiente para dizer que, naquela pequena capela metodista,
todos os que estavam presentes naquela manhã escutaram uma poderosa
exposição da Palavra. É a isso que nos referimos quando falamos de
pregação.
Capítulo 6
Pregando sob a dependência do Espírito
Santo
“Respondeu-lhes: Não vos compete conhecer tempos
ou épocas que o Pai reservou pela sua exclusiva autoridade;
mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas
testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria e até aos confins da
terra.”
Atos 1.7-8

“Ainda Pedro falava estas coisas quando caiu o Espírito Santo


sobre todos os que ouviam a palavra.”
Atos 10.44
“O Espírito deve acompanhar a Palavra com o seu poder.
Tudo o que você fizer será inútil se não tiver o respaldo do Espírito Santo. Minha
missão consiste em ser o tão preciso quanto possível em minha compreensão. Mas não
atribuo impacto a nada disso. Dependo do Espírito. Sem ele, nada surtirá efeito.”
R.C. Sproul

Um dos elementos mais misteriosos da pregação e, sem dúvida, um dos


mais cruciais, é a obra do Espírito Santo no ato de pregar. Há ocasiões em
que nós, pregadores, experimentamos uma liberdade incomum no púlpito; as
ideias brotam de nossas mentes aos borbotões e somos realmente apanhados
pela mensagem que proclamamos; mas, principalmente, somos inundados
pelo desejo genuíno e fervoroso de que nosso Senhor Jesus Cristo seja
glorificado e as almas de nossos ouvintes sejam edificadas e abençoadas.
Alguns chamam isso “unção”, “liberdade no Espírito” ou “sua presença
especial”. Mas, independentemente da nomenclatura que adotemos, o ponto é
que a obra do Espírito em nós é um dos aspectos cruciais para um ministério
de pregação eficaz, mesmo sendo um dos mais misteriosos.
O que é a unção na pregação? O pastor Albert Martin diz que o mais
próximo que ele esteve de ouvir uma boa resposta foi quando alguém fez essa
pergunta no meio de um grupo de pregadores rurais nos Estados Unidos.
Depois de muita discussão, um deles disse: “Bem, meus irmãos, eu não sei o
que é a unção, mas sei o que não é!”.1
Mesmo assim, o pastor Martin oferece a seguinte definição: “A unção é
aquele elemento particular da energia divina que repousa sobre um homem e
sobre suas manifestações, de maneira que, quando ele fala, você percebe que
não está lidando com outro simples mortal; está lidando com Deus (...) A
unção não tem nada a ver com o exterior ou com a forma de falar. A unção é
essa coisa peculiar em Deus que repousa nas palavras de um homem quando
saem de sua boca; e, quando batem em nossos ouvidos e corações, sabemos
que estamos lidando com o Onipotente”.2
O apóstolo Paulo disse aos crentes de Corinto acerca de seu ministério de
pregação entre eles: “A minha palavra e a minha pregação não consistiram
em linguagem persuasiva de sabedoria, mas em demonstração do Espírito e
de poder” (1Co 2.4). Se realmente desejamos fazer o bem às almas que nos
escutam, então devemos anelar por esse poder do Espírito em nossa pregação.
Essa obra do Espírito Santo é indispensável para um ministério de pregação
eficaz.
Tomemos como exemplo o ministério do nosso Senhor Jesus Cristo. A
Escritura diz que, no momento de seu batismo no rio Jordão, o Espírito Santo
desceu sobre ele em forma de pomba. Alguns dias mais tarde, estando na
sinagoga de Nazaré, foi-lhe dada a oportunidade de ler o livro do profeta
Isaías; e, em Lucas 4.18, é dito que o Senhor procurou expressamente o texto
no qual está escrito: “O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me
ungiu para evangelizar os pobres”. Isto foi o que aconteceu nas águas do
Jordão: o Filho de Deus encarnado foi ungido pelo Espírito Santo para
pregar, de modo eficaz, o evangelho da salvação.
Agora pensemos no caso dos apóstolos. Esses homens haviam estado com o
Senhor por mais de três anos, escutado seus ensinos, visto todo tipo de
milagre sendo realizado por ele e, ainda por cima, haviam testemunhado sua
ressurreição. Apesar disso, ainda não estavam aptos para pregar. Precisavam
do poder do Espírito Santo operando neles para poder fazê-lo de maneira
eficaz (Lc 24.49; At 1.8). Muito além de como interpretamos a vinda do
Espírito Santo em Pentecostes e seus resultados permanentes, existe algo
óbvio nos textos: o trabalho de pregar com eficácia o evangelho requer a
capacitação do Espírito de Deus.
Por que precisamos da ajuda do Espírito Santo?
1. Para entender o significado do texto
Já dissemos que a pregação “é comunicação (...) de uma mensagem
extraída das Sagradas Escrituras através de uma exegese cuidadosa”. Mas
como podemos fazer isso sem a obra iluminadora do Espírito Santo de Deus?
Precisamos que o Espírito Santo abra nossos olhos espirituais para que
consigamos compreender o significado do texto bíblico. É dessa obra
iluminadora que o salmista fala no Salmo 119.18, quando pede a Deus que
abra seus olhos para que ele possa ver as maravilhas da Lei. E mais adiante,
no verso 34, ele volta a pedir: “Dá-me entendimento, e guardarei a tua lei; de
todo o coração a cumprirei”. É essa obra de iluminação que Lucas menciona
em 24.45, quando diz que o Senhor “lhes abriu o entendimento para
compreenderem as Escrituras”.
Seria uma pretensão de nossa parte nos achegarmos ao estudo da Palavra de
Deus sem que dependêssemos do Espírito Santo, confiando apenas em nossa
capacidade natural. Existe uma tensão constante no pregador entre o estudo
diligente da Palavra e a dependência do Espírito de Deus a todo instante. Mas
uma coisa não elimina a outra.
Escrevendo a Timóteo, Paulo diz em sua segunda epístola: “Pondera o que
acabo de dizer, porque o Senhor te dará compreensão em todas as coisas”
(2Tm 2.7). Era responsabilidade de Timóteo prestar atenção e ponderar as
palavras de Paulo, enquanto confiava que Deus lhe daria o entendimento
necessário. A obra de iluminação que Deus realiza não elimina a
responsabilidade de Timóteo. Por isso, Paulo o exorta, mais adiante, a
procurar diligentemente “apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que
não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade” (2Tm
2.15).
Como diz Wilber Dayton, falecido teólogo norte-americano especialista em
Novo Testamento: “O intérprete bíblico não pode esperar que um relâmpago
caia sobre ele. É preciso estudar, ler e lutar para se colocar na posição de
receber iluminação do Espírito Santo. Não basta abrir a boca e esperar que
Deus o encha no domingo às onze da manhã”.3 Como diz Martyn Lloyd-
Jones: “A preparação cuidadosa e a unção do Espírito jamais devem ser
consideradas opostas, mas, sim, complementares (...) Essas duas coisas
devem andar juntas”.4 Mas, uma vez que tenhamos destrinchado o significado
do texto bíblico e sua mensagem essencial, ainda haverá muito trabalho pela
frente.
2. Para preparar a mensagem de maneira adequada
Devemos trabalhar arduamente para saber como estruturaremos o sermão,
qual será a ênfase, como poderemos conferir o equilíbrio adequado às
verdades que serão pregadas e o que esperamos que nossos ouvintes façam
com essa informação. Depois devemos trabalhar no conteúdo da mensagem,
para que possamos apresentá-la de uma forma que seja eficaz e fácil de
lembrar.
Com razão, em 1Timóteo 5.17, Paulo se refere aos ministros do evangelho
como “os que se afadigam na palavra e no ensino” (essa palavra traduzida
por afadigar aparece em Apocalipse 2.2 e ali é traduzida como “árduo
trabalho”). Trata-se de um trabalho custoso e que afadiga... mas que será
totalmente ineficaz sem a ajuda do Espírito de Deus.
3. Para pregar a mensagem com liberdade e eficácia
Mesmo após concluirmos nosso estudo e termos o sermão devidamente
preparado e estruturado, ainda precisaremos da ajuda do Espírito Santo para
que possamos entregar a mensagem à congregação. A mensagem é concebida
no estudo da Bíblia, mas o púlpito é a sala de parto, onde damos à luz a
mensagem. Porém, essa criança nem sempre nasce viva. Aqueles que pregam
com frequência a Palavra certamente já passaram pela experiência de chegar
à igreja no domingo com grande expectativa por causa da mensagem que
prepararam e, logo em seguida, sair frustrados porque o parto não correu
como o esperado (eu me pergunto se isso não será o Senhor nos lembrando
da necessidade que temos dele).
Outras vezes, acontece o contrário. Você chega ao púlpito com um
profundo senso de insuficiência; em domingos assim, você gostaria, de todo o
seu coração, que outro pregador assumisse seu lugar. Mas então, ao começar
a expor o texto bíblico, acontece algo inexplicável. O poder do Espírito Santo
falando através de sua pregação é tão evidente que você até se sente como um
expectador que contempla, assustado, o que está acontecendo enquanto
prega.
Paulo pedia aos irmãos de Éfeso que orassem por ele, “para que me seja
dada, no abrir da minha boca, a palavra, para, com intrepidez, fazer
conhecido o mistério do evangelho, pelo qual sou embaixador em cadeias,
para que, em Cristo, eu seja ousado para falar, como me cumpre fazê-lo” (Ef
6.19-20). Em outras palavras, “orem para que eu encontre as palavras
precisas, as melhores ilustrações, os argumentos mais convincentes, de tal
maneira que todos os que me escutem possam entender a mensagem. Orem
para que Deus me livre de temer os homens e para que eu possa pregar com
toda confiança e liberdade, movido unicamente pelo desejo de que os
pecadores sejam salvos e os crentes sejam edificados”.
Por outro lado, essa obra do Espírito se manifesta no púlpito por meio de
um coração movido por amor genuíno, que busca o bem daqueles que o
escutam. Um dos aspectos do fruto do Espírito é o amor — diz Paulo em
Gálatas 5.22. Quando o pregador está pregando sob a influência e o poder do
Espírito de Deus, esse amor está presente em seu coração e provoca nele
motivações santas e um desejo verdadeiro de fazer o bem às almas daqueles
que o escutam.
Paulo descreve essa experiência em 2 Coríntios 6.11: “Para vós outros, ó
coríntios, abrem-se os nossos lábios, e alarga-se o nosso coração”. Existe
uma relação direta entre o coração e a boca que se abrem, o que expõe até
mesmo o pregador ao risco de apresentar verdades incômodas das Escrituras
que podem levar à má vontade de alguns. Mas, pela influência do Espírito
que opera em seu interior, o pregador está disposto a expor “todo conselho de
Deus” (2Co 12.15).
A isso, devemos acrescentar a obra do Espírito no pregador, a qual concede
a ele, enquanto prega, a plena convicção da absoluta autoridade da Palavra de
Deus. Uma vez que o Espírito Santo inspirou os autores das Escrituras (2Pe
1.21), é lógico supor que um homem que prega sob a sua influência o fará
com a profunda convicção de que aquilo que está expondo não são opiniões
humanas, mas a infalível e suficiente Palavra de Deus.
Essas são algumas manifestações da operação do Espírito de Deus ajudando
o pregador no ato da pregação. Será que poderíamos ministrar com eficácia
às almas se não tivéssemos algumas dessas coisas? Com certeza, não! O
Espírito de Deus deve operar em nós; do contrário, iríamos nos lançar na
arena do púlpito com nossas próprias forças, e nossa pregação não faria bem
a ninguém.
4. Para que a Palavra opere com poder naqueles que nos escutam
Tudo o que vimos até agora está relacionado à obra do Espírito no pregador
enquanto ele prega, mas o Espírito de Deus também precisa operar nos
ouvintes para que a pregação possa atuar com eficácia em seus corações. O
Senhor Jesus Cristo define a si mesmo, em Apocalipse 2.1, como aquele “que
anda entre os sete castiçais de ouro”, referindo-se às igrejas locais (Ap 1.20).
Ele prometeu manifestar sua presença onde dois ou três estivessem
congregados em seu Nome. E, por intermédio de seu Espírito, ele aplica a
Palavra à mente e ao coração de cada pessoa enquanto seus servos pregam. É
por isso que, com frequência, muitos na igreja sentem que o pastor pregou
para eles de maneira direta.
Um dos grandes teólogos dessa geração foi, sem dúvida, R.C. Sproul. Deus
agradou-se de usar esse homem de forma excepcional para ensinar teologia
profunda ao homem comum. Alguém o definiu como um teólogo que pensa
em latim, mas fala na língua vernácula.5 Mas Sproul estava consciente de que
seus dons e conhecimento não servem para nada sem a ajuda do Espírito
Santo. “Conheço teologia suficiente para saber que não importa quanto
talento eu tenha. Ele carece de poder. Alguém pode fascinar as pessoas, e
pode até despertar interesse nelas. As pessoas podem responder à pregação,
mas ela não penetrará suas almas a menos que o Espírito a acompanhe.”6
O que impede que recebamos a ajuda do Espírito Santo?
Antes de responder a essa pergunta, é preciso lembrar que o Espírito Santo é
uma pessoa divina que reparte seus dons e manifesta seu poder em nós
conforme sua vontade soberana. Ao falar dos dons do Espírito, em 1Coríntios
12.11, Paulo diz que “um só e o mesmo Espírito realiza todas estas coisas,
distribuindo-as, como lhe apraz, a cada um, individualmente ” (grifo aposto).
Não podemos aprisionar o Espírito de Deus em mecanismos e regras do tipo:
“Se você fizer isso e isso, o Espírito fará aquilo”. Não. Ele é soberano e,
nesse sentido, não podemos prever o que ele irá fazer. Isso tem sido evidente
nos grandes avivamentos da história. Essa realidade deveria livrar-nos das
comparações, pois é óbvio que não é a vontade do Espírito que todos os
pregadores sejam tão eficazes quanto George Whitefield, Charles Spurgeon
ou Martyn Lloyd-Jones.
Porém, isso não quer dizer que o Espírito Santo seja caprichoso. Mesmo
existindo um elemento de mistério envolto em sua obra, podemos identificar
alguns padrões que costumam estar presentes quando sua agência imediata se
refreia ou diminui.
1. O Espírito se restringe quando o pregador não considera sua ajuda
indispensável.
Como já expus, uma das características distintivas do ministério do
apóstolo Paulo era sua constante petição às igrejas para que orassem por ele.
Paulo não confiava em sua experiência ou em seu conhecimento, mas na
ajuda do Espírito de Deus. Mas qualquer pregador é vulnerável a cair na
armadilha de se sentir seguro, seja por causa do tempo que leva ministrando a
Palavra de Deus, seja pelas palavras de afirmação que recebe daqueles que o
ouvem regularmente. Essa confiança carnal pode ser a causa de o Espírito de
Deus restringir sua ajuda enquanto pregamos.
A Bíblia é contundente quando declara, em Jeremias 17.5, que é “maldito o
homem que confia no homem, faz da carne mortal o seu braço e aparta o seu
coração do SENHOR”. Deus quer que dependamos dele pelo simples fato de
saber quão inúteis somos sem ele. Por isso, quando tentamos fazer as coisas
pelas nossas próprias forças, ele nos deixa sozinhos, para que vejamos, na
prática, que, separados dele, nada podemos fazer (Jo 15.5). Ele “resiste aos
soberbos, e dá graça aos humildes” (1Pe 5.5).
Albert Martin, que, durante anos, foi pastor da Igreja Batista Trinity, em
Nova Jersey, disse certa vez: “Geralmente, o Espírito Santo... não costuma
proporcionar afáveis e copiosas medidas da sua agência e operação onde sua
presença e o seu poder não são apreciados como um tesouro que é buscado de
todo o coração e guardado com zelo”.7 Philips Brooks dizia aos ministros do
evangelho: “Nunca permita a si mesmo estar satisfeito com seu trabalho. Se
alguma vez perceber esse espírito crescendo em você, então tema” (tradução
do autor).8 Sabe por que você deve temer? Porque Deus encontrará uma
maneira de quebrantar você (2Co 1.8-9; 12.7).
2. A agência imediata do Espírito na pregação é refreada ou diminuída
quando ele é entristecido pelo pregador (compare com Ef 4.30).
Lembre-se de que o Espírito Santo é uma Pessoa Divina, e as pessoas
reagem de maneira muito particular quando são entristecidas. Uma esposa
triste é uma esposa retraída. Quando elas são entristecidas por nossa rudeza e
falta de consideração, ou porque estamos envolvidos com mil coisas a ponto
de esquecê-las, retraem-se. Se entristecermos o Espírito de Deus, não teremos
razão para esperar que seu poder se manifeste em nosso ministério. Pelo
contexto de Efésios 4.30, podemos ver que Paulo está se referindo aos
padrões de conduta pecaminosa que não estão sendo mortificados como
deveriam (vv. 25-32).
Isso não quer dizer que os pregadores tenham de alcançar a perfeição e
viver sem pecado para que sejam usados pelo Espírito de Deus, pois, se assim
fosse, nenhum de nós jamais poderia subir ao púlpito. Mas, sim, é requerido
de nós que tratemos de manter a consciência limpa diante de Deus e dos
homens, e que não tenhamos nossos próprios pecados como algo superficial
(1Jo 1.8-9).
Com frequência, tendemos a esquecer que o fruto do Espírito é mais
importante para a pregação eficaz do que os dons do Espírito (Gl 5.22-23).
Afinal, não serão poucos, mas muitos, os que, no dia do juízo final, dirão ao
Senhor: “Senhor, Senhor! Porventura, não temos nós profetizado em teu
nome, e em teu nome não expelimos demônios, e em teu nome não fizemos
muitos milagres? Então, lhes direi explicitamente: nunca vos conheci.
Apartai-vos de mim, os que praticais a iniquidade” (Mt 7.22-23).
Esse é um assunto de vital importância em uma época como a nossa, em
que, como bem aponta o pastor e teólogo norte-americano Timothy Keller,
coloca-se “mais ênfase nos resultados, nas habilidades e no carisma do que
no caráter, na reflexão e na profundidade. Essa é uma das razões primordiais
pelas quais tantos ministros exitosos têm falhado moralmente ou caído. Seus
dons prodigiosos mascararam a carência da obra da graça em suas vidas”
(tradução do autor).9
3. O Espírito de Deus é entristecido por nossa preguiça no desempenho do
nosso trabalho ministerial ou pelo excesso de confiança em nosso preparo.
No excelente livro A pregação no Espírito Santo , do pastor Martin, lemos:
“Com toda a certeza, o Espírito é entristecido quando somos preguiçosos e
descuidados na hora de trabalhar. Ele é entristecido quando nos colocamos
diante do nosso povo sem termos feito o labor necessário para poder dizer,
com toda a confiança com que um ser humano, falível e limitado, pode
expressar: ‘Isso é o que Deus declarou e este é o significado’. Fazer uma
exegese descuidada, elaborar a mensagem de qualquer maneira e apresentar a
verdade com pouca clareza e organização são coisas que entristecem o
Espírito Santo. Será que ele deveria abençoar e emprestar seu poder diante de
um agravo ministerial tão grande, e dar sua especial ajuda a quem está pouco
preocupado com ela?”.10
Não obstante, creio que seja necessário manter o equilíbrio porque, se, por
um lado, é certo que a preguiça é um obstáculo para a pregação eficaz, por
outro lado, o trabalho sério e árduo também pode ser, caso o pregador suba
ao púlpito dependendo de sua preparação a ponto de não dar liberdade à obra
do Espírito Santo na pregação. Referindo-se ao poder do Espírito Santo na
hora de pregar, Martin Lloyd-Jones dizia: “A verdadeira glória do ministério
está em não saber o que pode acontecer” quando se sobe ao púlpito.11 Como
já disse antes, em certas ocasiões nos sentimos como espectadores do que
Deus está fazendo enquanto pregamos.
Portanto, prepare-se da melhor forma possível durante a semana; mas,
quando terminar de fazer seu trabalho, suba ao púlpito como alguém
totalmente dependente dele, e não do fruto de seu esforço.
4. O Espírito de Deus é profundamente entristecido quando buscamos
nossa própria glória, e não a glória do Salvador.
Isso é crucial porque o Espírito Santo foi enviado à Igreja com o propósito
de glorificar ao Nosso Senhor Jesus Cristo. O próprio Jesus disse aos seus
discípulos, comentando sobre a vinda do Espírito Santo: “Ele me glorificará,
porque há de receber do que é meu e vo-lo há de anunciar” (Jo 16.14). “O
Espírito arde em desejo de revelar a Cristo”, diz Pierre Marcel, pastor e
filósofo francês do século XX.12 Se queremos contar com a sua ajuda na
pregação, devemos estar seguros de que nossa ministração esteja em
consonância com o propósito de sua vinda. Foi após afirmar que havia
proposto “nada saber entre vós, senão a Jesus Cristo e este crucificado”, que
Paulo pôde dizer aos coríntios que sua pregação havia sido concretizada em
“demonstração do Espírito e de poder” (1Co 2.2-4).
Finalmente, as almas de nossos ouvintes precisam mesmo, com urgência,
sejam eles crentes ou incrédulos, ver a glória de Cristo tal como ela é
revelada no evangelho. O evangelho é a janela dada por Deus para que
possamos vislumbrar sua glória.13 E somente contemplando essa glória é que
somos transformados “de glória em glória” (compare com 2Co 3.18; 4.3-6).
Quando nos aproximamos do púlpito com a intenção de chamar a atenção
para nós mesmos, então não temos nenhum direito de esperar que o poder do
Espírito Santo venha para nos abençoar. Como bem disse John Piper, “aquele
que dá o poder é quem recebe a glória” (tradução do autor), e é o Espírito
Santo quem torna a pregação poderosa e eficaz. Não esqueça que nós,
ministros do evangelho, carregamos um tesouro em vasos de barro, para que
a excelência do poder seja de Deus, e não nossa (2Co 4.7; 10-11). Esse
tesouro não é outra coisa senão a glória de Deus na face de Jesus Cristo. Mas
falaremos mais a esse respeito no capítulo seguinte.
Como dependemos do Espírito Santo?
A resposta é: cobrindo nosso trabalho com orações do início ao fim. Quando
tomamos consciência da dimensão da tarefa encomendada a nós e de nossa
completa inutilidade para realizá-la com nossas próprias forças, somos
levados a clamar incessantemente pela obra do Espírito Santo em nós e por
intermédio de nós.
Por causa disso, John Piper diz: “Toda pregação genuína está enraizada em
um senso de desespero” (tradução do autor).15 Segundo Piper, levantamo-nos
no domingo pela manhã sentindo, de um lado, o cheiro da fumaça do inferno
e, por outro, a brisa suave do céu. Em seguida, olhamos o lamentável
manuscrito que preparamos durante a semana e isso nos faz cair de joelhos
diante de Deus, clamando por sua ajuda. “Senhor, eu me sinto muito fraco e
inadequado. Como posso ficar atrás de um púlpito hoje com essas anotações
e ser cheiro de morte para a morte e perfume de vida para a vida? Oh, Senhor,
tem misericórdia de mim e tem misericórdia daqueles que irão expor tua
Palavra hoje!” (tradução do autor).16
Um dos assistentes pessoais de John Stott contou a um amigo meu, também
pastor, que Stott preparava seus sermões de joelhos. Essa não deve ser a
postura física que todo pregador deva adotar para preparar suas mensagens,
mas, sem dúvida, deve ser a postura de seu coração. Somos como esses
grupos de resgate que saem em alto-mar à procura de cadáveres depois de um
naufrágio, não para lhes dar uma sepultura honrosa, mas para lhes dar vida
por meio da proclamação do evangelho: “Quem, porém, é suficiente para
estas coisas?” (2Co 2.16).
Esse foi o propósito do espinho que Deus deu a Paulo: “Por causa disto,
três vezes pedi ao Senhor que o afastasse de mim. Então, ele me disse: A
minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza” (2Co 12.8-
9). Em vez de remover o espinho como Paulo queria, o Senhor lhe deu a
graça necessária para suportá-lo e, desse modo, mostrou-lhe claramente sua
fraqueza, para que ele tivesse de depender da graça que somente Deus pode
suprir.
Devemos reconhecer que, quando estamos em nossa melhor condição
espiritual, somos muito fracos. Nenhum de nós é capaz de fazer a obra de
Deus nem de lutar, de modo eficaz, contra o pecado com nossas próprias
forças (Jo 15.5). Mas, ainda assim, tendemos a confiar em nós mesmos. E
Deus, em sua bondade, usa esses espinhos para nos lembrar quem realmente
somos, fazendo com que dependamos inteiramente dele (2Co 1.8-9).
O poder de Deus se aperfeiçoa em nossa fraqueza. Quando somos
conscientes de nossos defeitos, clamamos das profundezas de nosso coração,
pedindo a ajuda do Espírito de Deus; então, ele magnifica sua graça em nós e
através de nós enquanto pregamos Cristo, e Este crucificado, não somente
com palavras, mas “em poder, no Espírito Santo e em plena convicção” (1Ts
1.5).
Capítulo 7
Cristo e este crucificado: o centro de nossa
pregação
“E todos os dias, no templo e de casa em casa, não cessavam de ensinar e de pregar
Jesus, o Cristo.”
Atos 5.42

“Porque decidi nada saber entre vós, senão a Jesus Cristo


e este crucificado.”
1Coríntios 2.2
“Um sermão sem Cristo é uma coisa espantosa e horrível. É um poço vazio, uma nuvem
sem chuva, uma árvore duas vezes morta e desarraigada. É abominável dar aos homens
pedras em lugar de pão e escorpiões em lugar de ovos; e, apesar disso, é exatamente
isso que fazem todos aqueles que não pregam a Cristo! Como pode a alma alimentar-se
de uma massa de pão sem farinha? Os homens morrem e perecem porque Cristo não
está presente.”
Charles Spurgeon

A hermenêutica bíblica é a ciência que permite interpretar corretamente as


Escrituras. Uma vez que a primeira tarefa do pregador é extrair o verdadeiro
significado do texto, a hermenêutica desempenha papel vital na pregação
expositiva. Vejamos, se existe algo com que muitos intérpretes das Escrituras
concordariam é que a melhor ajuda que podemos encontrar para interpretar
corretamente um texto bíblico é a própria Bíblia. Por causa da origem divina
das Escrituras, que resultou em um livro com tamanha unidade e coerência
interna, é que podemos encontrar na própria Bíblia a luz necessária para a
correta interpretação de qualquer texto bíblico, por mais complexo e difícil
que possa parecer. Porém, devemos admitir que isso nem sempre é tão
evidente, principalmente quando vemos a maneira como os apóstolos
interpretaram, em algumas ocasiões, certas passagens do Antigo Testamento.
Por exemplo, em Mateus 2, encontramos a narrativa do terrível assassinato
de crianças decretado pelo rei Herodes. O Senhor protegeu Jesus ordenando a
José que fugisse para o Egito, onde deveria permanecer até a morte do rei.
Mas, nesse momento, Mateus comenta que tudo isso aconteceu “para que se
cumprisse o que fora dito pelo Senhor, por intermédio do profeta: Do Egito
chamei o meu Filho” (Mt 2.15). Essa é uma citação de Oseias 11.1, em que se
narra o que Deus fez com o povo de Israel no Êxodo. Então, por que Mateus
aplica esse versículo ao que aconteceu a Jesus nos tempos de Herodes? Será
que o evangelista está alegorizando a Escritura no tocante a esse ponto? Onde
os apóstolos aprenderam a interpretar o Antigo Testamento desse modo?
A resposta é que eles aprenderam com o próprio Senhor Jesus Cristo. Foi
Jesus quem ensinou a interpretar toda a Escritura com os olhos fitos nele.
Dessa maneira, se nossa interpretação do Antigo Testamento não se encaixa
na deles, o problema não está na hermenêutica apostólica, mas, sim, na nossa.
Precisamos aprender a interpretar a Bíblia como eles fizeram. Permita-me,
então, repassar com você algumas das lições de hermenêutica que o Senhor
ensinou aos seus discípulos, especialmente a partir do domingo da
ressurreição.
Uma aula de hermenêutica com Jesus
Dois discípulos vão pelo caminho que leva à aldeia de Emaús: “E iam
conversando a respeito de todas as coisas sucedidas” (Lc 24.14), referindo-se
à crucificação de nosso Senhor Jesus Cristo, na cidade de Jerusalém. No
caminho, encontram-se com Jesus, mas não podem reconhecê-lo, pois “os
seus olhos (...) estavam como que impedidos de o reconhecer”. O Senhor lhes
perguntou sobre o tema da conversa, e do motivo de sua tristeza, e um deles,
chamado Cléofas, respondeu: “És o único, porventura, que, tendo estado em
Jerusalém, ignoras as ocorrências destes últimos dias?” (Lc 24.18).
Esses homens estavam muito decepcionados com a morte de Jesus, porque
esperavam que ele fosse “quem havia de redimir a Israel” (Lc 24.21). Isso era
exatamente o que acabara de acontecer, mas eles eram incapazes de enxergar
porque não tinham um entendimento correto das Escrituras. Jesus os
admoestou pela falta de entendimento, mas, ao mesmo tempo, deu-lhes a
chave necessária para interpretar corretamente as Escrituras:
Então, lhes disse Jesus: Ó néscios e tardos de coração para crer tudo o que os profetas
disseram! Porventura, não convinha que o Cristo padecesse e entrasse na sua glória?
E, começando por Moisés, discorrendo por todos os Profetas, expunha-lhes o que a
seu respeito constava em todas as Escrituras (Lc 24.25-27).
A palavra discorrendo , no versículo 27, significa, literalmente, “interpretar
ou explicar minuciosamente”. Jesus não teve de forçar ou espiritualizar os
textos bíblicos para demonstrar a esses discípulos que todo o Antigo
Testamento fala dele. Ele apenas interpretou as Escrituras de acordo com seu
verdadeiro significado. E o que aconteceu quando os discípulos
compreenderam? Seus corações começaram a queimar em seu íntimo (v. 32)
e seus olhos foram abertos para que reconhecessem Jesus ao partir do pão (v.
31).1 O véu foi removido quando compreenderam as Escrituras e, somente
então, puderam reconhecer Jesus.
Na mesma noite, o Senhor apareceu no lugar onde os apóstolos estavam
congregados, e se desenrolou uma conversa semelhante: “São estas as
palavras que eu vos falei, estando ainda convosco: importava se cumprisse
tudo o que de mim está escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos.
Então, lhes abriu o entendimento para compreenderem as Escrituras” (Lc
24.44-45). Jesus lhes entregou a chave que eles precisavam ter para
interpretar a Bíblia. Se apenas colocassem Jesus no centro da história
redentora, o significado do texto bíblico se abriria diante de seus olhos.2
Pregando o evangelho em toda a Escritura
Pelo livro de Atos, sabemos que, antes de subir aos céus, o Senhor dedicou
quarenta dias a ministrar um seminário intensivo aos seus discípulos “acerca
do reino de Deus” (At 1.3). Se, assim como eu, você também gostaria de
saber o que Jesus ensinou a eles durante todo esse tempo, então eu tenho uma
boa notícia: você só precisa examinar a pregação apostólica no livro de Atos
dos Apóstolos. Ali, você verá um reflexo dos ensinos de Jesus sobre a
verdadeira natureza do Reino de Deus e sua relação com o evangelho, tal
como foi previamente revelado no Antigo Testamento. Em outras palavras,
durante esses quarenta dias, o Senhor ministrou aulas avançadas de
interpretação bíblica aos seus discípulos. É óbvio que os apóstolos souberam
aplicar o que aprenderam.
Em seu sermão do dia de Pentecostes, Pedro citou o profeta Joel e dois
Salmos, o 16 e o 110, para provar que tanto a ressurreição de Cristo como sua
entronização nos céus haviam sido previamente anunciadas nas Escrituras. E,
no capítulo seguinte, Pedro declarou no templo que “Deus, assim, cumpriu o
que dantes anunciara por boca de todos os profetas: que o seu Cristo havia de
padecer” (At 3.18). E, depois de citar o livro de Deuteronômio, ele acrescenta
em Atos 3.24: “E todos os profetas, a começar com Samuel, assim como
todos quantos depois falaram, também anunciaram estes dias”.
Podemos ver a mesma coisa na defesa de Estêvão diante do Concílio, em
Atos 7; o grande argumento de seu discurso é que Jesus é o ponto central da
história do Antigo Testamento. Depois encontramos Felipe, que prega o
evangelho ao eunuco etíope, tendo como ponto de partida Isaías 53 (At 8.32-
35). Em Antioquia de Psídia, Paulo conta a história de Israel, do Êxodo à
monarquia, passando pelo período dos Juízes, para, em seguida, dizer que “os
que habitavam em Jerusalém e as suas autoridades, não conhecendo Jesus
nem os ensinos dos profetas que se leem todos os sábados, quando o
condenaram, cumpriram as profecias” (At 13.27, grifo aposto). A cada
sábado, liam as Escrituras, mas não podiam entendê-las, pois faltava-lhes a
chave da verdadeira interpretação bíblica.
Os apóstolos, tendo sido instruídos por Jesus, entenderam que o propósito
do Antigo Testamento era levá-los a ser sábios “para a salvação pela fé em
Cristo Jesus”, como disse Paulo a Timóteo em sua segunda epístola (2Tm
3.14-15). Sua pregação era cristocêntrica, porque a Bíblia é cristocêntrica.
Por isso as palavras de Paulo na citação que abre este capítulo: “Porque
decidi nada saber entre vós, senão a Jesus Cristo e este crucificado”. Isso não
significa que Paulo fosse pregador de um único tema, ou que em cada
mensagem fizesse um apelo aos incrédulos para levá-los ao arrependimento e
à fé, à luz do que aconteceu no Calvário. Nas cartas do Novo Testamento,
encontramos uma enormidade de temas e uma grande variedade de
mandamentos que formam o marco ético da vida cristã. Mas o evangelho é o
elemento que sustenta e dá significado a todos os temas incluídos na história
da salvação e que, ao mesmo tempo, motiva o crente em sua obediência aos
mandamentos de Deus. Por essa razão, o pastor e teólogo reformado Sidney
Greidanus define “pregar a Cristo” como pregar sermões que integram, de
forma autêntica, a mensagem do texto com o clímax da revelação de Deus na
pessoa, na obra ou no ensino de Jesus Cristo, tal como é revelado no Novo
Testamento” (tradução do autor).3
Graeme Goldsworthy, teólogo australiano e especialista em Teologia
Bíblica, oferece-nos um bom exemplo de como podemos pregar uma
passagem da Bíblia sem pregar a Cristo. Trata-se de um sermão sobre a
paternidade cristã que ele havia escutado em certa ocasião, baseado no texto
de Efésios 6.4:
(...) a exegese do texto imediato havia sido cuidadosa, e os pontos mencionados eram
pertinentes, mas faltavam dois elementos. Em primeiro lugar, não se esclareceu que o
que Paulo mencionou era uma consequência de sua prévia exposição do evangelho.
Em segundo lugar, e como resultado, não havia consolação no sermão para os pais,
que perceberam não terem alcançado essa norma tão elevada: não havia graça para os
pais que haviam falhado. A boa exegese de um texto, restrita por perder de vista seu
contexto maior, transformou o texto em lei, sem graça aparente.4
Spurgeon conta a história de um ministro ancião que ouviu um jovem
pregar e, quando ele lhe perguntou o que havia parecido sua mensagem, o
ancião lhe respondeu: “Se devo dizer a verdade, não gostei nem um pouco,
não vi Cristo em nenhuma parte do seu sermão”.
“Claro que não”, respondeu-lhe o jovem, “até mesmo porque eu não vi
Cristo sendo mencionado em parte alguma do texto”. Então, o velho ministro
exclamou: “Oh, você não sabe que, em cada povo, em cada aldeia, em cada
vila, por menor que seja, há um caminho que conduz à capital? Sempre que
eu tomo um texto, pergunto a mim mesmo: ‘Há um caminho aqui que leva a
Jesus Cristo, e eu continuarei até encontrá-lo (...) Farei o possível para
encontrá-lo, lutarei contra o vento e as marés até chegar a ele’”.5
Um pouso forçado no Calvário
Agora, devemos reconhecer que pregar Cristo a partir da Escritura não é tão
simples quanto pode parecer. Como nos diz outra vez Sidney Greidanus, não
são poucas “as histórias de terror de pregadores que distorcem o texto do
Antigo Testamento para pousar milagrosamente no Calvário. Mas tergiversar
as Escrituras com o propósito de pregar a Cristo consegue tão somente
arruinar a autoridade da mensagem” (tradução do autor).6 Em um tom
semelhante, Sinclair Ferguson nos adverte que “temos de aprender a pregar a
Cristo a partir do Antigo Testamento, mas sem cair no erro comum de uma
exegese simplista”.7 Para fazer isso de maneira adequada, devemos
contemplar o Antigo Testamento em sua própria realidade histórica, mas da
vantajosa posição que nos dá o Novo Testamento.
Você já viu o filme Sexto Sentido , protagonizado por Bruce Willis e Haley
Joel Osment?8 O final é tão surpreendente que leva você a retroceder e
reinterpretar tudo o que você viu. E, se você decidir ver o filme uma segunda
vez, vai perceber que é impossível deixar de pensar no final, à medida que a
história vai se desenvolvendo. O final lança uma luz que é impossível
ignorar, e que muda a interpretação do filme. O mesmo acontece com as
Escrituras. Quando entendemos que todas as linhas da história da redenção
convergem para Cristo, e que ele é o ponto central da história da redenção,
“simplesmente não é possível deixar de ver que todos os textos, no final, são
acerca de Jesus” (tradução do autor), diz Tim Keller.9
Certamente, isso produz tensão no intérprete, ao tentar entender as
passagens do Antigo Testamento sob a ótica que temos agora, mas sem
passar por cima do conceito histórico segundo o qual a trama se desenvolve.
Devemos deixar que o Antigo Testamento fale com sua própria voz, “antes
de recorrer ao seu cumprimento cristológico”.10 Mas, se perdermos de vista
Cristo e o evangelho, é porque nos colocamos novamente na posição de
desvantagem que os santos do antigo pacto tinham para entender sua própria
história. Pedro afirma, em sua Primeira Carta, que “os profetas indagaram e
inquiriram, os quais profetizaram acerca da graça a vós outros destinada,
investigando, atentamente, qual a ocasião ou quais as circunstâncias
oportunas, indicadas pelo Espírito de Cristo, que neles estava, ao dar de
antemão testemunho sobre os sofrimentos referentes a Cristo e sobre as
glórias que os seguiriam” (1Pe 1.10-11). Eles eram incapazes de entender
plenamente seus próprios escritos porque precisavam da luz que agora temos
no Novo Testamento.
Em seu tratado sobre a doutrina da Trindade, Benjamin Warfield, grande
teólogo norte-americano do final do século XIX e princípio do século XX,
compara o Antigo Testamento “a um lugar belamente adornado, porém
escuro. Somente se tivermos luz, poderemos ver tudo o que ele contém. Essa
luz nos foi dada em Cristo e no testemunho que o Novo Testamento nos dá
acerca dele”. Se lermos o Antigo Testamento como se ainda estivéssemos no
escuro, isso “equivaleria a negar a realidade histórica do contexto em que nos
encontramos”, diz Warfield. Mas, da mesma forma, também não devemos ler
o texto como se essa luz já estivesse presente no antigo pacto, iluminando
claramente a história bíblica, porque, então, estaríamos negando a realidade
histórica de cada texto em seu contexto. Como podemos conduzir essa tensão
de maneira adequada?
O Antigo Testamento em estéreo
Quando eu era criança, tínhamos em casa um toca-discos estereofônico. O
som estéreo tenta recriar a música que escutamos de forma mais natural,
reproduzindo as direções da esquerda e da direita de onde provém cada fonte
de som, tal como foi gravada. Hoje em dia, isso é comum, mas, naquele
tempo, a maioria dos aparelhos reproduzia a música em um único bloco, ou
seja, através de um só canal. Ainda lembro o fascínio que senti ao escutar
aquele som, que parecia viajar de um alto-falante ao outro na sala da minha
casa!
De certa forma, isso é o que acontece com as histórias do Antigo
Testamento: elas viajam em duas direções, de frente para trás e de trás para
frente. Se queremos interpretá-las corretamente, a primeira coisa que
devemos fazer é nos mover até elas, a fim de captar a dimensão histórica da
passagem que estamos considerando, e logo mover-nos dela até nós, para ver
como essa história se aplica aos crentes do novo pacto. Isso é o que o
apóstolo Paulo faz no capítulo 10 de sua primeira epístola aos Coríntios:
Ora, irmãos, não quero que ignoreis que nossos pais estiveram todos sob a nuvem, e
todos passaram pelo mar, tendo sido todos batizados, assim na nuvem como no mar,
com respeito a Moisés. Todos eles comeram de um só manjar espiritual e beberam da
mesma fonte espiritual; porque bebiam de uma pedra espiritual que os seguia. E a
pedra era Cristo. Entretanto, Deus não se agradou da maioria deles, razão por que
ficaram prostrados no deserto. Ora, estas coisas se tornaram exemplos para nós, a fim
de que não cobicemos as coisas más, como eles cobiçaram. Não vos façais, pois,
idólatras, como alguns deles; porquanto está escrito: O povo assentou-se para comer
e beber e levantou-se para divertir-se. E não pratiquemos imoralidade, como alguns
deles o fizeram, e caíram, num só dia, vinte e três mil. Não ponhamos o Senhor à
prova, como alguns deles já fizeram e pereceram pelas mordeduras das serpentes.
Nem murmureis, como alguns deles murmuraram e foram destruídos pelo
exterminador. Estas coisas lhes sobrevieram como exemplos e foram escritas para
advertência nossa, de nós outros sobre quem os fins dos séculos têm chegado.
Aquele, pois, que pensa estar em pé veja que não caia (1Co 10.1-12)

Paulo traz alguns episódios da história de Israel para dar uma advertência aos
membros da igreja em Corinto. De todos os adultos que saíram do Egito,
provavelmente mais de um milhão de pessoas, somente duas entraram na
terra prometida; o restante morreu no deserto porque desprezou seus
privilégios. Agora, Paulo diz que essas coisas que aconteceram foram
registradas nas Escrituras como um exemplo para nós. Portanto, devemos nos
mover até eles para poder captar a dimensão histórica da passagem, para, em
seguida, mover-nos deles até nós e, assim, ver como a passagem se aplica aos
crentes do novo pacto, como Paulo faz aqui, lembrando que, ao percorrermos
esse caminho, devemos primeiro passar pela cruz do Calvário.12 Em outras
palavras, antes de caminhar de onde eles estão até onde estamos, devemos,
em primeiro lugar, percorrer os atos redentores do evangelho, que giram em
torno da Pessoa e da obra do nosso Senhor Jesus Cristo. É aqui que a teologia
bíblica vem em nosso auxílio.
A teologia bíblica e sua importância na pregação
Quando falamos de teologia bíblica, referimo-nos a um ramo da teologia
exegética que nos ajuda a ver cada passagem das Escrituras à luz do
panorama geral da história da redenção. Como diz Graeme Goldsworthy, a
teologia bíblica “examina as diversas etapas da história bíblica e a relação
entre elas, proporcionando o fundamento para a compreensão de como alguns
textos de uma parte da Bíblia se relacionam com os demais”.13 David Helm,
por sua parte, define-a como “uma forma de ler a Bíblia que segue o
desenvolvimento progressivo do plano de redenção de Deus em Cristo”.14 A
teologia bíblica nos ajuda a ver a trama dessa história de redenção movendo-
se de maneira progressiva, para o cumprimento da grande promessa que serve
de fio condutor aos pactos de Deus: “Sereis meu povo, e eu serei vosso Deus”
(Jr 11.4; Gn 17.7; Êx 6.7; 2Sm 7.14; Jr 30.22; Ez 36.38; Ap 21.3, 7).
Quando os apóstolos citavam o Antigo Testamento da posição vantajosa do
Novo, não somente viam Cristo nas profecias messiânicas, ou nos tipos e
símbolos abundantes na religião do antigo pacto, como também olhavam para
ele como aquele que “cumpre plenamente o que o Antigo Testamento
anuncia”, como bem aponta Sinclair Ferguson.15 “Partindo de Gênesis 3.15
até o final, a Bíblia é o relato de um Deus guerreiro que parte em socorro do
seu povo para libertá-lo do reino das trevas e estabelecer seu reinado com,
através e em meio de seu povo.”16 Essa ampla perspectiva do Reino
Messiânico é a que nos permite chegar até Jesus a partir de toda a Bíblia, sem
a necessidade de fazer um pouso forçado no Calvário. Como bem aponta
David Helm, em vez de perguntar: “Onde está Jesus no meu texto?”,
devemos “começar com perguntas mais matizadas, como, por exemplo,
‘Como o evangelho afeta meu entendimento do texto? De que forma meu
texto antecipa ou se relaciona com o evangelho?’”.17
Por outro lado, os apóstolos aprenderam de Jesus que ele ultrapassava o
ministério dos grandes líderes de Israel e que as instruções do Antigo Pacto
encontravam nele seu cumprimento. Como assinala Daniel Doriani, pastor e
teólogo norte-americano: “Ele é maior que Abraão, porque é eterno (Jo 8.53-
58), maior que Jacó, porque ele é a escada entre o céu e a terra (Jo 1.51; Gn
28.12). Ele ultrapassou Moisés porque inaugurou o pacto de graça e verdade,
e oferece o verdadeiro pão do céu (Jo 1.17; 6.32-35). Ele ultrapassou
Salomão na sabedoria que atrai as nações (Mt 12.42). Jesus também
completou as instruções do antigo pacto. Ele é maior que o templo, pois é a
própria presença de Deus (Mt 12.6). Ele é o sacerdote final que nos dá acesso
a Deus (Hb 7-10). Ele é o grande Profeta (Lc 7.16, 26), o grande Rei (Mt
21.41-46), o Juiz final (Mt 25.31-46) e a sabedoria de Deus (Lc 7.31-35)”
(tradução do autor).18
Ainda que ler a Bíblia “com os olhos postos em Jesus” não costume ser
uma tarefa fácil, é de grande importância para o expositor das Escrituras,
pois, se perdermos de vista Cristo e o evangelho, iremos nos perder na
interpretação do texto bíblico e nos colocar em uma posição de extremo
perigo, como espero mostrar adiante .
Entre Cila e Caríbdis
A mitologia grega nos fala de dois grandes monstros marinhos chamados Cila
e Caríbdis, que se encontravam em margens opostas de um canal estreito.
Quando os marinheiros tratavam de evitar Cila, era bem provável que se
aproximassem demais de Caríbdis e vice-versa. Nenhum dos destinos era
melhor que o outro, então era necessário ter muito cuidado para evitar o
perigo que havia de ambos os lados. O mesmo acontece na vida cristã com o
legalismo e o antinomismo, com a diferença de que não se trata de dois
monstros mitológicos, mas de dois inimigos reais que devemos manter
distantes se quisermos guardar a pureza do evangelho para a salvação dos
perdidos e a edificação da Igreja.
De uma forma mais simples, podemos dizer que o legalismo consiste em
tentar ganhar o favor de Deus através de nossa obediência a um conjunto de
leis e normas. O legalismo coloca Deus na condição de um devedor que tem
de nos abençoar se fizermos o que devemos fazer. Enquanto o evangelho nos
move à obediência pelo fato de já termos sido aceitos por Deus sobre a base
da obra redentora de Cristo, o legalismo diz que devemos obedecer para que
sejamos aceitos. Tudo depende de nós: de nossa obediência, de nosso esforço
pessoal, de nosso compromisso e de nossos méritos.
Quando partimos dessa premissa, cedo ou tarde começaremos a acrescentar
algumas regras que não estão na Bíblia, porque queremos ter certeza de que
estamos fazendo exatamente o que devemos fazer, e de que estamos
apertamos os botões corretos. Quase certamente o que vai acontecer é que
vamos voltar mais atenção ao aspecto externo do mandamento do que ao
coração da Lei. Esse é um aspecto essencial do legalismo. O legalista está
mais preocupado com a forma do que com aquilo que está no fundo, porque,
no final das contas, é muito mais fácil conformar-se a uma regra externa do
que tratar o coração. Essa é uma das razões pelas quais o legalista costuma
acrescentar regras à lei de Deus: não para amplificá-la, mas para torná-la
manuseável, porque é muito mais fácil apegar-se a um conjunto de regras
externas do que obedecer à intenção da Lei.
Obviamente, tudo isso produz orgulho. Por isso o legalismo parece tão
atraente, embora seja tão opressivo. O legalismo produz soberba e desprezo;
os legalistas se orgulham de seu padrão e desprezam todos que vivem
segundo um padrão diferente. Transformam suas regras em uma lei universal,
que querem impor a todo mundo, em qualquer situação ou circunstância.
Suas regras, na prática, transformam-se na tábua de avaliação que determina
a condição espiritual dos demais.
O antinomismo é o monstro que se encontra na outra margem do estreito
canal da vida cristã. Esse é um vocábulo composto de anti , que significa
“contra”, e nomos , que significa “lei”. O antinomismo assume que podemos
relacionar-nos com Deus sem obedecer à sua Palavra, e desprezando sua Lei
moral. Certamente, muitos antinomistas não veem a si mesmos desse modo,
porque, com frequência, é muito mais uma atitude do que uma crença formal.
É o pensamento: “Deus me aceita tal como sou, porque seu amor é
incondicional”.
O que surpreende é que tanto o legalista como o antinomista podem apoiar-
se na Bíblia para suportar sua posição. A Bíblia contém mandamentos e
exortações em número suficiente para, se expostos sem levar em conta o
restante das Escrituras, aparentemente apoiar a perspectiva dos legalistas.
Outras passagens, porém, apresentam com tanta força a provisão da graça
abundante que Deus nos deu em Cristo, e seu amor incondicional pelos
redimidos, que, se as tomarmos como textos isolados, parecem apoiar os
antinomistas.
Por essa razão, William Perkins, ministro puritano inglês do século XVI,
adverte que “os pregadores precisam conhecer a relação entre a lei e o
evangelho” (tradução do autor).20
Timothy Keller propõe essa questão da seguinte forma:
A lei pode mostrar-nos nossa necessidade do evangelho e, então, uma vez que
tenhamos abraçado a salvação de Deus por meio da fé, a lei vem a ser a maneira de
conhecer, servir e crescer na semelhança daquele que nos salvou. É crucial, em nossa
pregação, que não nos limitemos a dizer ao nosso povo todas as formas como deve
ser mais moral e bondoso, sem relacionar essas exortações com o evangelho. Mas
também não podemos limitar-nos a dizer, uma e outra vez, que eles podem ser salvos
pela livre graça, sem mostrar-lhes como a salvação muda nossas vidas (tradução do
autor).21
Perkins ilustra a importância de conhecer essa relação “entre a lei e o
evangelho”, tomando o ensino de dois textos do Evangelho de João: “Aquele
que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama; e aquele
que me ama será amado por meu Pai, e eu também o amarei e me
manifestarei a ele (...) Se alguém me ama, guardará a minha palavra; e meu
Pai o amará, e viremos para ele e faremos nele morada” (Jo 14.21, 23).
Perkins conclui dizendo:
Esses textos mostram claramente que o evangelho transforma nossa obediência aos
mandamentos de Deus, de um meio legalista para adquirir a salvação, para se tornar
uma resposta amorosa à salvação que foi recebida. A obediência à Lei de Deus, que
flui do evangelho da Graça, vem a ser o meio pelo qual conhecemos, tornamo-nos
semelhantes, deleitamo-nos e amamos aquele que nos salvou pagando o preço
infinito de si mesmo (tradução do autor).22

Caindo nas mãos de Caríbdis ao escapar de Cila... e vice-versa


Apesar das diferentes manifestações externas, tanto o legalismo como o
antinomismo surgem da mesma raiz, ou, como disse o teólogo Sinclair
Ferguson, ambos são gêmeos não idênticos nascidos do mesmo ventre.23 Se
não entendermos isso, de maneira instintiva trataremos de nos esquivar um
desses males, movendo-nos em direção ao outro. Tentando escapar de Cila,
cairemos nas mãos de Caríbdis ou vice-versa.
Para provar seu ponto, Sinclair Ferguson analisa o diálogo entre a serpente
e nossos primeiros pais, em Gênesis 3. Ele afirma que o mandamento de
Deus de não comer da árvore da ciência do bem e do mal não continha
nenhuma explicação acerca do motivo pelo qual não deveriam fazê-lo. Nesse
momento, eles não sabiam que mal poderia haver em comer esse fruto.
Portanto, esse mandamento era um chamado a obedecer a Deus, como um ato
de amor e obediência. Eles deveriam confiar em Deus por quem ele é. Por
isso conclui que o mandamento não somente objetivava que se comportassem
de determinada maneira, mas que também promovessem uma atitude
particular em sua relação com Deus.24 Essa relação foi o alvo de ataque da
serpente.
A ideia que Satanás quis colocar na mente de Eva era que ela não podia
confiar nas intenções de Deus ao lhes impor tais limites, e não deixá-los
aproveitar “de toda árvore do jardim” (Gn 3.1). Ferguson enxerga, por trás
dessas palavras, a ideia malévola de que “Deus é muito restritivo, muito
absorto em si mesmo, demasiadamente egoísta... Se obedecermos a ele
integralmente, sugeriu a serpente, seremos miseráveis” (tradução do autor).25
O ataque de Satanás consistiu em chamar nossos primeiros pais a não crer na
integridade e na generosidade de Deus porque “nem seu caráter nem suas
palavras merecem confiança”.26 Desde então, essa mentira jaz no fundo da
psique de todo pecador e, segundo Ferguson, é a raiz da qual surgem tanto o
legalismo como o antinomismo.
“A essência do legalismo está enraizada (...) É uma perspectiva distorcida
de Deus (...) Deus vem a ser um policial magnificado que nos dá sua lei
porque quer privar-nos de nossa alegria e destruí-la” (tradução do autor).27
Essa perspectiva distorcida leva o legalista a tratar de vencer, por meio de seu
desempenho e de sua obediência, a “indisposição de Deus em nos abençoar”.
O antinomista parte do mesmo pressuposto: assume que os mandamentos que
emanam desse “Policial cósmico” não podem ter a intenção de nos beneficiar.
“Em ambos os casos, a lei de Deus é contemplada, não como uma expressão
de seu amor e de sua graça, mas como um peso, um instrumento necessário
para aplacar uma divindade sem amor” (tradução do autor).28
Nem o legalista nem o antinomista são capazes de entender a alegria da
obediência. “A única diferença entre os dois é que o legalista assume a carga
com pesar, enquanto o antinomista recusa-se a levá-la, tirando-a de sobre si.
Mas ambos enxergam Deus sob a mesma ótica” (tradução do autor).29
Porém, embora tanto o legalismo como o antinomismo surjam da mesma
raiz, é um erro bastante comum tratar de se defender de um, usando uma dose
do outro. Quando pressupomos que o problema do legalista é que ele enfatiza
demais a lei, somos movidos a enfatizar demais a misericórdia de Deus e seu
amor incondicional, deixando de lado a necessidade (e a alegria) da
obediência de seus mandamentos. Mas, da mesma forma, quando
pressupomos que o problema essencial do antinomismo é apenas o desprezo
pela Lei, somos movidos a enfatizar demais a justiça de Deus e suas
demandas de santidade, em detrimento de sua misericórdia e aceitação pela
graça. Ambas as aproximações ao problema fracassam ao perder de vista que
Deus é um Deus de amor que, de maneira sincera, deseja o gozo e a
felicidade de suas criaturas, e que “(...) tanto a lei como o evangelho são
expressões da graça” (tradução do autor).30
Como bem aponta Ferguson, o único remédio eficaz para nos livrar dessa
mentira da serpente é o evangelho de Cristo, ao nos mostrar “(...) o amor do
Pai, que nos deu tudo o que tinha: primeiro, entregou o seu Filho para morrer
por nós e, então, nos deu seu Espírito para que viva em nós (...) Essa é a
única cura genuína para o legalismo. E é o mesmo remédio que o evangelho
prescreve para o antinomismo: entender e experimentar a união com o
próprio Cristo. Isso nos leva a um novo amor e uma nova obediência para
com a Lei de Deus” (tradução do autor).31
Desenvolver um instinto cristocêntrico
Espero que, ao chegar a este ponto, eu tenha conseguido persuadir você da
necessidade de pregar Cristo a partir de toda a Escritura, sendo fiel ao
verdadeiro significado do texto bíblico, assim como à grande mensagem da
Bíblia e ao seu propósito redentor. Como eu já disse, a pregação expositiva é
cristocêntrica porque a Bíblia é cristocêntrica.
Como esse tema requer um estudo muito mais amplo do que podemos
abranger em um só capítulo, gostaria de recomendar algumas obras que
podem ajudá-lo em seu entendimento das Escrituras: El misterio revelado [O
mistério revelado], de Edmund Clowney; Conociendo a Jesús a través del
Antiguo Testamento [Conhecendo Jesus através do Antigo Testamento], de
Christopher J. H. Wright; Cómo predicar de Cristo usando toda la Biblia
[Como pregar a Cristo usando toda a Bíblia] e O Evangelho e o Reino
(Editora Vida Nova), ambos de Graeme Goldsworthy; e El gran panorama
divino [O grande panorama divino], de Vaughan Roberts. Também serão de
grande ajuda o livro Pregação expositiva , de David Helm (Editora Vida
Nova), e um bom capítulo intitulado “Predicando a Cristo desde el Antiguo
Testamento” [“Pregando Cristo a partir do Antigo Testamento”], escrito por
Sinclair Ferguson, que foi incluído no livro El predicador y su relación con
la Palabra [O pregador e sua relação com a Palavra].
A tarefa de interpretar a Bíblia “(...) com os olhos postos em Jesus”,
embora requeira uma perícia que se desenvolve com estudo e prática, também
exige principalmente desenvolver o que Sinclair Ferguson chamou de
“instinto cristocêntrico”, fruto de uma relação de crescente intimidade, amor,
admiração e deleite com a Pessoa do nosso bendito Senhor e Salvador,
porque “a boca fala do que está cheio o coração” (Mt 12.34). Sim,
precisamos aprender a ver Cristo com mais clareza na trama da história da
redenção, usando como ferramenta a teologia bíblica e os princípios sãos de
hermenêutica; mas, “à medida que vamos conhecendo Cristo de forma mais
intima e pessoal, e à medida que nosso amor à sua Pessoa também vai
crescendo... aflorará em nós o instinto de raciocinar, explicar e demonstrar, a
partir da totalidade das Escrituras, das riquezas da graça proclamadas em
Jesus, o Cristo, o Salvador do mundo”.32
Os princípios hermenêuticos são importantes, porém é muito mais
importante termos um coração apaixonado por aquele que deu sua vida por
nós, levando-nos a transmitir essa paixão, através de sua glória, beleza e
majestade, quando proclamamos as Escrituras. No discurso do Cenáculo, o
Senhor Jesus Cristo fala de si mesmo como a videira verdadeira e, de nós,
como os ramos que devem frutificar permanecendo na videira (Jo 15.1-18).
Tenha certeza de levar Cristo aos homens, e não apenas um conjunto de
doutrinas ou de normas éticas, porque ele, e somente ele, é “poder de Deus e
sabedoria de Deus” (1Co 1.24). É contemplando sua glória que “todos nós,
com o rosto desvendado, contemplando, como por espelho, a glória do
Senhor, somos transformados, de glória em glória, na sua própria imagem,
como pelo Senhor, o Espírito” (2Co 3.18).
Queira o Senhor ajudar-nos a desenvolver esse “instinto cristocêntrico” que
nos ajude a chegar até ele a partir de qualquer um dos caminhos oferecidos
por Deus nas Sagradas Escrituras. Somente assim, poderemos dizer como
Paulo, em sua epístola aos Colossenses, que estamos anunciando
diligentemente a Palavra de Deus, “o mistério que estivera oculto dos séculos
e das gerações; agora, todavia, se manifestou aos seus santos; aos quais Deus
quis dar a conhecer qual seja a riqueza da glória deste mistério entre os
gentios, isto é, Cristo em vós, a esperança da glória; o qual nós anunciamos,
advertindo a todo homem e ensinando a todo homem em toda a sabedoria, a
fim de que apresentemos todo homem perfeito em Cristo” (Cl 1.26-28).
Capítulo 8
Escolha o texto
“Portanto, eu vos protesto, no dia de hoje, que estou limpo
do sangue de todos; porque jamais deixei de vos anunciar
todo o desígnio de Deus.”
Atos 20.26-27

“Não posso ver por que o Espírito Santo não poderia guiar um homem a pregar uma
série de sermões de uma passagem ou um livro da Bíblia, como também guiá-lo a um só
texto.”
Martyn Lloyd-Jones

Uma das novelas latino-americanas mais geniais do século XX é Rayuela ,


do escritor argentino Julio Cortazár. Esse livro apresenta a particularidade de
várias possibilidades de leitura. É possível começar pelo capítulo 1 e ler o
livro sequencialmente até o final; ou também começar no capítulo 1, indo
direto para o 56 e ignorar todo o resto. Ou ainda seguir uma ordem de leitura
completamente diferente, sugerida pelo autor no início da obra.
Sem dúvida, é preciso ser um gênio para escrever um livro que possa ser
lido de tantas maneiras diferentes. Cortazár era um gênio; eu não sou. Por
isso recomendo que você leia este livro de maneira sequencial, desde o início.
Acredito que o benefício será muito maior se você assimilar a teoria antes de
chegar à prática. Porém, caso você escolha saltar algum dos capítulos
anteriores, ou ainda pular todos, não apenas respeitarei sua decisão, como
também, apesar disso, ficarei entusiasmado em embarcar com você nessa
aventura de trabalhar juntos na preparação de um sermão expositivo.
Uma metodologia de trabalho feita sob medida
Na preparação de um sermão, devemos dar uma série de passos, e tais passos
devem seguir uma sequência lógica. Contudo, com o tempo, cada expositor
vai desenvolver sua própria metodologia de trabalho. Se você pudesse chegar
perto dos pregadores que mais impactaram sua vida e perguntar-lhes como
preparam seus sermões, talvez descobrisse que a maioria deles trabalha de
forma diferente. E o que é mais desconcertante: trata-se de um trabalho que
tem muito de intuição, motivo pelo qual nem mesmo acharão fácil explicar
como fazem isso. É mais ou menos como perguntar de que forma
desenvolvemos nossa rubrica.
Uma das coisas que tornam difícil explicar o processo de preparação de um
sermão é que se trata de um trabalho mental que requer muita meditação e
pensamento; e, como bem aponta Haddon Robinson, pensar é um processo
dinâmico que pode ser dificultado quando tentamos dar instruções muito
detalhadas a respeito.1 Conta-se a história de um advogado e um médico que
costumavam jogar golfe regularmente. Ambos tinham habilidades
semelhantes e por isso apreciavam competir um com o outro. Mas, em uma
primavera, o advogado melhorou tanto em seu jogo que começou a superar o
médico em todas as partidas. Por mais que tentasse melhorar, o médico não
conseguia superar o advogado. Então, ocorreu-lhe uma ideia brilhante:
comprou três manuais sobre como aprender a jogar golfe em uma livraria e os
enviou ao seu amigo advogado, como presente de aniversário. Pouco tempo
depois, o jogo de ambos voltou a se nivelar.2 Isso se chama “fracasso por
excesso de instrução”.
Certamente, não é meu desejo que este livro tenha tal efeito nocivo em sua
pregação. Ao contrário, meu desejo é ajudar você na tarefa de se preparar
para pregar, destacando os passos que devemos dar para ir da passagem ao
sermão, provendo, ao mesmo tempo, um exemplo concreto que o ajude a
desenvolver sua própria metodologia de trabalho. Mas é importante que
entendamos que, assim como não existe um único estilo apropriado de
pregação, também não existe um método único de preparação para pregar.
Cada um de nós precisa de um manual feito sob medida. Agora,
independentemente da metodologia adotada, é preciso começar sempre pelo
início.
Como decidimos sobre o que pregar?
Uma antiga receita para preparar um prato de coelho diz: “Primeiro, cace o
coelho”.3 Se não há coelho, não há prato. Se não há passagem, não há
sermão. O problema é que a pregação não é tão fácil quanto caçar coelhos. O
pregador se vê diante de uma série de questões cujas respostas dependem de
vários fatores simultaneamente. Devo pregar de forma consecutiva um livro
da Bíblia, versículo por versículo? E, se for assim, qual livro devo pregar?
Não seria melhor expor porções extensas de um livro, como o Sermão do
Monte ou o Discurso do Cenáculo, ou limitar-me a textos avulsos das
Escrituras? E o que há com a pregação temática? Devemos descartá-la
completamente de nosso plano de pregação?
Mesmo preferindo a pregação expositiva consecutiva de um livro da Bíblia,
em algum momento explicarei por que acredito que tanto a pregação de
textos separados como a pregação temática devem ser parte do ensino na
igreja, sempre que se exponha, fielmente, o conteúdo das Escrituras. Irvin A.
Busenitz, professor do Master’s Seminary na Califórnia, afirma com muita
razão que, “assim como a pregação versículo por versículo não é
necessariamente expositiva, a pregação que não é versículo por versículo não
é necessariamente não expositiva ”. É certo que algumas abordagens
temáticas não são expositivas, mas esse não tem e certamente não deveria ser
o caso.4
É possível pregar expositivamente um texto da Bíblia, inclusive uma oração
ou uma frase. Em sua série de exposições sobre a epístola aos Efésios,
Martyn Lloyd-Jones dedicou uma de suas mensagens a duas palavras do
versículo 4 do capítulo 2: “Mas Deus...”. Não acredito que tenha sido um
exagero de sua parte afirmar que, levando-se em conta o contexto, “essas
duas palavras (...) contêm a totalidade do evangelho” (tradução do autor).5
Também devemos ser expositivos quando pregamos um sermão temático,
como veremos adiante.
O fato é que a pregação expositiva consecutiva apresenta grande vantagem
para a vida da igreja. Alguns desses argumentos também se aplicam à
pregação expositiva textual.
Vantagens da pregação expositiva consecutiva
1. Protege-nos de usar os textos bíblicos como pretexto. Quando eu era um
novo convertido, tinha a impressão de que muitos dos pregadores que
escutava primeiro escreviam seus sermões e, em seguida, buscavam os textos
bíblicos que pareciam encaixar-se naquilo que queriam dizer. Talvez fosse
uma impressão subjetiva, mas, alguns anos mais tarde, descobrimos a
pregação expositiva de John MacArthur, e eu pude ver claramente a
diferença. MacArthur expunha o conteúdo da passagem! O impacto foi tão
profundo que abraçamos a pregação expositiva consecutiva como a prática
regular de pregação em nossa igreja até o dia de hoje.
2. Poupa-nos tempo para decidir o que pregar a cada semana. A pregação
expositiva consecutiva nos permite saber, com bastante antecedência, não
apenas o que vamos pregar na semana seguinte, como também nos próximos
meses. Certa ocasião, Charles Spurgeon, um firme opositor da pregação
expositiva consecutiva, comentou sua dificuldade frequente para encontrar a
cada semana o texto que iria pregar no domingo seguinte. “Confesso que,
muitas vezes, eu me sento e vejo as horas passando, enquanto oro e espero
por um assunto, e essa é a principal parte do meu estudo. Tenho dedicado um
árduo e abundante trabalho em lutar com temas, traçar aspectos doutrinários,
fazer esboços dos versículos para, logo em seguida, enterrar todos os ossos
nas catacumbas do esquecimento e seguir navegando por léguas, sobre as
revoltosas águas, até ver as luzes vermelhas distantes e poder pilotar rumo ao
porto desejado.”6 Dito dessa forma, soa muito poético, mas não me imagino
vivendo essa incerteza a cada semana, durante anos a fio.
3. Poupa-nos tempo de pesquisa. Cada novo sermão não requer um novo
estudo sobre o autor do livro, seu pano de fundo, seu contexto, o propósito do
livro etc.
4. Obriga o pregador a abordar assuntos contidos nas Escrituras que, de
outro modo, dificilmente iríamos abordar. Pregando uma série na primeira
epístola de Paulo aos Coríntios, tive de expor o capítulo 5, no qual Paulo
admoesta os membros da igreja pela não aplicação da disciplina eclesiástica a
um indivíduo que estava tendo relações sexuais com sua madrasta. Essa é
uma passagem muito instrutiva, mas incômoda de expor; provavelmente, se
eu não estivesse expondo essa carta versículo por versículo, eu não a teria
escolhido para pregar.
5. Permite a abordagem de temas sensíveis sem dar a impressão de que
estamos escondendo-nos atrás do púlpito para abordar problemas na igreja
que não nos atreveríamos a tratar face a face com as pessoas implicadas.
6. Ensina os membros da igreja a estudar as Escrituras por si mesmos. Esta
é uma das grandes vantagens da pregação expositiva consecutiva: ajuda os
crentes a ver cada texto em seu contexto e discernir a estrutura interna de
cada passagem. A Bíblia, em sua maior parte, não é uma coleção de ditados
sábios em que a ordem não importa muito. “A maioria dos livros da Escritura
está organizada de tal maneira que um capítulo se constrói sobre os anteriores
e estabelece as bases para o seguinte” (tradução do autor).7
7. Reduz o risco de manipular as pessoas. Em vez de controlar o texto para
que este diga o que queremos que diga, na pregação expositiva o texto
controla o pregador, tanto no que ele diz como na forma de dizer.8
8. Lembra o pregador e os ouvintes de que é Deus quem transforma os
corações por meio de sua Palavra. “Reconhece que é Deus unicamente,
através do seu Espírito, o que opera na vida das pessoas, e que não é nosso
trabalho mudar as pessoas através de uma comunicação engenhosa ou
inspiradora” (tradução do autor).9
9. Ajuda-nos a evitar o pragmatismo. Em vez de tentarmos ser “relevantes”,
abordando as necessidades que as pessoas acreditam ter, deixaremos que as
Escrituras supram suas verdadeiras necessidades, permitindo que o texto
bíblico fale por si. A Bíblia tem sua própria relevância.
10. Contribui para a humildade do pregador, ao lembrá-lo de que ele não é
um “guru espiritual” ou o “oráculo de Delfos”, a quem os homens devem
acudir para encontrar sabedoria. Ele é apenas um porta-voz das Escrituras,
por meio de quem os homens são guiados a Cristo, “em quem todos os
tesouros da sabedoria e do conhecimento estão ocultos” (Cl 2.3). Como
dizíamos no capítulo anterior, a pregação expositiva é cristocêntrica porque a
Bíblia é cristocêntrica, e é Cristo, e não nós, quem é apontado nas Escrituras
como “poder de Deus e sabedoria de Deus” (1 Co 1.24).
11. A pregação expositiva reveste a mensagem de autoridade. Crane
menciona que, “quando o pregador fica de pé diante de uma congregação,
sabendo que vai até ela não com especulações próprias, mas com uma palavra
concisa e clara, procedente do próprio coração de Deus, falará com grande
confiança, e o tom de autoridade em sua voz será perceptível”.10
12. Também evitará que o pregador fique esgotado ou se torne repetitivo.
Certa vez, alguém me disse que nenhum pastor deve permanecer na mesma
igreja por mais de cinco anos; caso contrário, começará a repetir sua
pregação. É impossível que isso aconteça com aquele que está comprometido
com a pregação expositiva, pois a Bíblia é um poço inesgotável.
A pregação expositiva consecutiva também apresenta riscos
1. Um deles é que a série seja muito extensa. Esse é um risco que ameaça em
maior medida, ainda que não unicamente, os jovens pregadores. Faz mais de
vinte anos que expus o Sermão do Monte em 93 sermões; e outra série em
Êxodo 20.1-17 durou 54 semanas. Se eu pregasse ambas as séries novamente,
asseguro que seriam muito mais breves. Nem todo mundo tem a capacidade
de Martyn Lloyd-Jones de pregar durante 14 anos sobre a epístola de Paulo
aos Romanos sem perder o interesse dos ouvintes.
2. Por outro lado, as séries consecutivas também podem ser um problema
quando o pregador torna cada sermão dependente demais dos anteriores. Isso
pode desanimar os visitantes que chegam pela primeira vez à igreja; é como
começar a ver uma série televisiva sabendo que já perdemos vários episódios.
Além disso, a situação é agravada quando o pregador abusa de frases como
“a semana passada vimos...” ou, o que é pior, “como vimos cinco semanas
atrás...”; a maioria das pessoas não lembra do que viu na semana anterior,
muito menos o que foi pregado faz tanto tempo! Até mesmo aqueles que
congregam todos os domingos cedo ou tarde ficarão cansados se o pregador
começar com uma recapitulação dos sermões anteriores.
3. Outro risco é manter-se preso ao plano de pregação sem se mostrar
sensível às eventuais necessidades da igreja e que requerem que preguemos
outra coisa. De fato, é recomendável estipular, de antemão, alguns intervalos
no planejamento das pregações; assim, podemos pregar outros textos ou
outros temas, principalmente quando estamos a bordo de uma extensa série
de pregações.
Vantagens e riscos da pregação temática
Antes de abordar esse assunto, é necessário ressaltar que toda pregação deve
ser expositiva, no sentido de que toda pregação deve expor o que o texto
bíblico realmente ensina; do contrário, não é pregação. A diferença entre a
pregação expositiva (seja de um texto ou de uma passagem da Bíblia) e a
pregação temática é que a primeira expõe um texto ou uma passagem das
Escrituras em seu próprio contexto, de tal maneira que o conteúdo da
mensagem é o conteúdo do texto ou da passagem bíblica, enquanto a
pregação temática aborda diferentes temas doutrinais ou práticos, como se
derivassem de diversas passagens das Escrituras. Essa espécie de pregação
apresenta várias vantagens quando não abusamos dela.
Por um lado, permite-nos abordar temas bíblicos, assim como doutrinas
específicas e ensinos éticos contidos nas Escrituras, que podem ser de grande
benefício aos crentes, tais como os atributos de Deus, a doutrina da Trindade,
a importância da leitura diária das Escrituras, o dever de integrar a membresia
de uma igreja local e muitos outros temas. Do mesmo modo, a pregação
temática oferece variedade ao ministro de ensino e pregação na igreja; isso
pode ser muito útil depois de uma série longa de sermões expositivos
consecutivos. Porém, ao abordar a pregação temática, devemos considerar
algumas dificuldades e perigos.
O primeiro é que, contrariamente ao que muitos pensam, a pregação
temática é mais difícil quando o pregador realmente quer expor com
fidelidade o que as Escrituras ensinam acerca do tema em questão. Em vez de
mergulhar no conteúdo de um texto ou passagem bíblica em seu próprio
contexto, será necessário fazer um cuidadoso trabalho exegético, com vários
textos ao mesmo tempo, como afirma muito bem Busenitz: “A tarefa própria
do pregador é entregar os bens, não fabricá-los. (...) Portanto, seu recurso
deve ser o texto bíblico, a fonte de verdade à qual sempre recorre, da qual ele
mesmo bebe continuamente e de onde extrai conteúdo, de maneira fiel, para
saciar a sede de outros. Exercer esse tipo de controle sobre a pregação
temática é um trabalho árduo”.11 Isso nos leva ao segundo ponto com o qual
devemos ter cuidado.
Se o pregador não examina com cuidado os textos bíblicos que usa em sua
exposição, facilmente pode cair na armadilha de citar os textos fora de
contexto. Os exemplos disso são, lamentavelmente, abundantes. Não sei
quantas vezes foram usadas as palavras de Paulo em 1 Coríntios 3.16-17 para
falar contra o uso do álcool ou tabaco, pelos danos que causam ao corpo.
Porém, se considerarmos essa passagem em seu contexto, notaremos que o
templo do qual Paulo está falando aqui é a Igreja, o corpo de Cristo. Mais
adiante, em 1 Coríntios 6.19-20, Paulo usará a mesma figura do templo para
se referir ao corpo humano, e não à Igreja. Obviamente, isso também pode
acontecer ao se pregar expositivamente uma passagem das Escrituras. Há
muitos anos, escutei um pregador repreender com dureza a preguiça, usando
a passagem de Marta e Maria em Lucas 10.38-42, em vez de louvar o desejo
de Maria de aprender os ensinos de Jesus. O pregador voltou-se contra ela
por ter ficado sentada enquanto Marta teve de se ocupar dos afazeres da casa
sozinha!
Por outro lado, os pregadores que costumam pregar sermões temáticos com
frequência, limitam-se a alguns temas preferidos ou àqueles que consideram
mais “relevantes”, em lugar de servir o alimento variado das Escrituras que a
igreja precisa. O resultado, com o tempo, é o estancamento do pregador e da
congregação.
Finalmente, a pregação temática é mais propensa a levar o pregador a cair
na armadilha do legalismo, se ele não tiver o cuidado de expor seu tema à luz
do grande tema redentor que se revela nas Escrituras, mas, a esse respeito, já
falamos detalhadamente no capítulo 7.
Não lembro onde li que deveríamos limitar-nos a pregar apenas um sermão
temático uma vez a cada cinco anos, para logo arrepender-nos de ter feito
isso! Acredito que isso é um exagero. Mas devo insistir em que a pregação
temática dificilmente consegue sustentar uma congregação e levá-la à
maturidade quando se constitui na dieta regular que é servida às ovelhas
durante a maior parte do tempo.
A unidade expositiva da passagem
Já afirmei que uma das vantagens da pregação expositiva consecutiva é que
economiza tempo no momento de decidir o que vamos pregar a cada semana;
isso é verdade, mas não é toda a verdade, porque ainda devemos decidir quão
extensa será a porção bíblica que vamos expor em cada sermão. A resposta é
que devemos buscar o que alguns chamaram de unidade expositiva da
passagem, ou seja, porções das Escrituras, longas ou curtas, que tenham uma
unidade de pensamento que possa ser exposta e aplicada em apenas um
sermão. As divisões que encontramos em diversas versões e edições da Bíblia
podem ser de grande ajuda para a descoberta dessa unidade expositiva, mas
nem sempre é assim. Isso tem de ser determinado depois de se estudar a
passagem.
Há algum tempo, preguei uma série de sermões expositivos sobre o livro de
Eclesiastes. Foi um verdadeiro desafio para mim. Algumas vezes, eu me
sentia como se estivesse escalando o Everest descalço, mas valeu a pena. Um
dos desafios constantes era determinar a unidade expositiva de cada
passagem, com o agravante de que os comentários nem sempre ajudavam
nisso. De fato, algumas passagens me confundiam mais do que outras! O
capítulo 9 foi muito difícil; não estava certo se os versículos 13 ao 18 eram a
conclusão desse capítulo ou o início do 10. No final, depois de lutar por um
tempo com a interpretação dessa porção, preguei um só sermão que abarcou
do 9.13 ao 10.20 com o seguinte título: “Vivendo sabiamente em um mundo
de necessidade”.
Por outro lado, a extensão da passagem pode variar de sermão para sermão,
dependendo do propósito da mensagem, da maturidade da congregação e até
mesmo da experiência e capacidade do próprio pregador. Algumas ocasiões,
é benéfico deter-nos e considerar porções menores das Escrituras, tratando de
extrair delas todos os nutrientes possíveis; mas também pode ser muito
edificante que os irmãos sejam capazes de ver o fluxo de pensamento em uma
porção mais extensa.
Certa ocasião, preguei 1Coríntios dos capítulos 12 ao 14 em um só sermão.
Isso, obviamente, apresenta suas vantagens e desvantagens. A desvantagem
óbvia é que não pude deter-me em muitos detalhes importantes do texto. A
vantagem é que pude expor esses três capítulos à luz de seu contexto, tanto
imediato como mais geral da carta. Isso nos permitiu ver, entre outras coisas,
que 1Coríntios 13 não é um belo hino dedicado ao amor, mas, sim, um “tapa
de luva de pelica”, que os crentes coríntios precisavam receber de forma
urgente. Essa passagem encontra-se no meio de dois capítulos bastante
extensos em que Paulo aborda o tema dos dons espirituais e sua relação com
a maturidade cristã (12.1, 4, 9, 28, 30-31; 14.1, 37), um assunto que Paulo já
havia abordado (compare com 1Co 1.4-7; 3.1-2).
Considerando em seu contexto, vemos com mais clareza qual era o
propósito de Paulo ao introduzir o tema do amor nessa porção da carta. Os
coríntios haviam chegado a pensar, equivocadamente, que o fato de ter dons
espirituais era um sinal de maturidade espiritual, mas Paulo faz com que
vejam que sua falta de amor revelava exatamente o contrário. Eles tinham
muitos dons, mas eram crianças em Cristo. Portanto, esse capítulo deve ter
caído como uma bomba na igreja de Corinto. Certamente, essa não é a única
maneira de expor tal capítulo da Bíblia. É possível pregar uma série completa
de vários sermões considerando cada um dos aspectos que Paulo menciona
ali sobre o amor. Precisamos de sabedoria para determinar se o que mais
convém é ver a paisagem de uma altura razoável, que nos permita considerá-
la em sua totalidade, ou chegar perto o suficiente para ver todos os detalhes
em cada metro quadrado.
Pregue a Bíblia toda e planeje a longo prazo
Dois conselhos mais antes de concluir esse assunto. Pregue sobre os diversos
gêneros literários da Bíblia e ambos os Testamentos, o Antigo e o Novo.
Lembre-se de que “toda a Escritura é inspirada por Deus e útil” (2Tm 3.16).
A Bíblia é bastante variada em seu conteúdo, e os irmãos da igreja precisam
ser expostos a essa diversidade. É aqui que um plano de pregação a longo
prazo pode ser de grande ajuda.
A Igreja Batista de Capitol Hill, em Washington D.C., que conheço
pessoalmente, planeja seu itinerário de pregação de tal forma que lhes
permite mover-se de um gênero a outro, de um Testamento a outro, ao longo
do ano. Uma organização de gêneros que pode ser usada para o Antigo
Testamento é a seguinte: Lei, Livros históricos, Sabedoria, Profetas Maiores
e Profetas Menores. Da mesma forma, o Novo Testamento pode organizar-se
em Evangelhos e Atos dos Apóstolos, epístolas Paulinas, epístolas gerais e
Apocalipse. O itinerário de pregação para uma igreja poderia ser assim:
pregar primeiro um livro da Lei e, em seguida, um dos Evangelhos; depois
um dos livros históricos, seguido por uma epístola paulina, e assim
sucessivamente.
No caso de nossa igreja, os pastores fazem um retiro de três dias no mês de
novembro. Depois de orar e avaliar o que aconteceu durante o ano, fazemos
planos para o ano seguinte. À luz das necessidades que vemos na
congregação, determinamos o planejamento geral de pregação para os meses
vindouros. Isso é de grande ajuda para os pastores que pregam regularmente,
porque nos permite começar a nos preparar, orando, lendo, estudando e ainda
adquirindo os recursos necessários para nosso ministério de pregação no ano
seguinte.
Trabalhemos em nosso sermão expositivo:
visão geral prévia
Como já disse na introdução, a passagem escolhida para trabalharmos
juntos é Êxodo 17.1-7. A unidade expositiva dessa passagem não
representa nenhuma dificuldade. O capítulo anterior nos fala da descida
do Maná, com o qual Deus alimentou o povo de Israel durante quarenta
anos no deserto; e, a partir do versículo 8 do capítulo 17, é narrada a
história da guerra de Israel contra Amaleque. Dessa maneira, os marcos
da nossa passagem estão bem definidos. Além disso, a passagem contém
uma história completa, com a abordagem de um problema, o
desenvolvimento e a solução divina.
Lembre-se de que a primeira coisa que precisamos para cozinhar um
coelho é ter um coelho, mas isso é apenas o começo. Ainda falta
percorrer um longo trajeto antes de tê-lo na mesa, servido e pronto para
comer. Esse é o caminho que começaremos a transitar a partir do próximo
capítulo.
Capítulo 9
Estude o texto
“Tão certo como vive o SENHOR,
o que meu Deus me disser, isso falarei.”
2Cr 18.13

“Fomos chamados para falar no lugar de Deus.


Deixemos que seja ele quem fale, e que o homem escute. Por que não permitir que a
Palavra de Deus me quebre e reconstrua, e logo transmitir essa mensagem
transformadora às pessoas a quem amo e que desejam a mesma coisa?”
Byron Yawn

Para pregar uma passagem das Escrituras, a primeira coisa a fazer é


entendê-la. Isso pode parecer óbvio demais para se dizer em um livro, mas, à
luz do que está acontecendo em muitos púlpitos, penso que é necessário
enfatizar isso mais vezes. Somos administradores dos mistérios de Deus. O
que se requer de nós não é que sejamos relevantes nem populares, mas fiéis
(1Co 4.1-2). Devemos pregar a Palavra e isso significa... pregar a Palavra. É
possível que tenhamos de explicar a outros aquilo que nem nós mesmos
entendemos totalmente. Quando chegarmos a compreender o conteúdo da
passagem, já teremos percorrido um longo caminho na preparação do sermão.
Byron Yawn observa que os foguetes consomem três quartos do
combustível para vencer a gravidade e chegar ao espaço. Mas, depois disso,
um quarto é suficiente para dar a volta e regressar. Essa é uma boa ilustração,
diz Yawn, do que acontece com o pregador a cada semana: “Investimos a
maior parte de nossa energia para escapar da atração gravitacional de nossa
própria ignorância. Uma vez que fugimos do seu alcance, as coisas tornam-se
um pouco mais fáceis”.1 Mas, antes de embarcarmos nessa tarefa, uma
advertência se faz necessária: o estudo sem devoção pode ser letal para o
pregador.
Morte por exegese?
Poucos versículos da Escritura foram tão mal interpretados e tiveram
resultados mais funestos do que 2Coríntios 3.6: “porque a letra mata, mas o
espírito vivifica”. Esse texto se transformou em um esconderijo no qual se
ocultam muitos em sua falta de diligência no estudo. Mas Paulo não está
contrastando “os pregadores frios e secos, que preparam suas mensagens
estudando profundamente as Escrituras”, com aqueles que não têm de estudar
porque “dependem do Espírito”. Na verdade, ele está comparando o
ministério da lei no antigo pacto com o ministério da justificação no novo
pacto (2Co 3.7-11). Os pregadores que realmente dependem do Espírito
sabem que devem trabalhar com afinco para entender as Escrituras, porque o
Espírito não abençoa a irresponsabilidade. É o pregador quem deve procurar
diligentemente apresentar-se “a Deus aprovado, como obreiro que não tem de
que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade” (2Tm 2.15). Se,
por um lado, é verdade que Deus não precisa de nossa sabedoria, como nos
lembra Henry Fish, grande pregador norte-americano do século XIX, “muito
menos precisará de nossa estupidez”.2
Porém, é preciso advertir que o ministério de pregação pode chegar a ser
muito nocivo para o pregador quando ele divorcia a exegese da adoração e a
obediência. Ao transformar a Bíblia em um livro de textos para a preparação
de sermões, e a Jesus em um mero tema de estudo, a vida espiritual do
pregador entra em perigo, assim como a de sua congregação. A exegese
deveria incendiar nossos corações em devoção porque nos abre a porta para
um conhecimento mais profundo de Deus por meio de sua Palavra; quando
isso não acontece, o problema não se deve ao trabalho exegético em si, mas
ao coração do exegeta.
A solução não é o abandono do estudo profundo da Bíblia, mas o
arrependimento de nossos pecados. O reconhecido autor norte-americano
Ken Gire inclui esta oração em um de seus livros devocionais: “Perdoa-me
quando minha relação contigo se deteriora até se transformar em um mero
exercício acadêmico (...). Quando estou mais interessado em encontrar uma
referência cruzada do que em me encontrar contigo. Quando o estudo de
palavras me emociona mais do que a adoração (...). Ajuda-me a entender que
tu te revelas não àqueles cujas mentes são como concordâncias bíblicas, mas
àqueles cujos corações são como uma catedral” (tradução do autor).3 Chegar
diante de Deus em arrependimento pode ser o primeiro passo para um
ministério de pregação que, em vez de levar as pessoas a adorar a capacidade
exegética do pregador ou sua maestria em estruturar o sermão de maneira
lógica e ordenada, as empurra até o abismo insondável da contemplação do
Deus de glória, que se revela em sua Palavra.
Contrapor a devoção e a erudição é uma falsa dicotomia. Não temos de
escolher entre ser pregadores racionais ou pregadores apaixonados. A paixão
por Deus começa com o entendimento; todo o resto é mero misticismo sem
substância. John Piper comentou em uma entrevista que, quando era jovem,
chegou a perguntar “se realmente era possível argumentar com uma lógica
afiada como uma faca e, ao mesmo tempo, deixar-se impressionar pelo que se
está vendo; se aquilo que é compreendido profundamente pode impulsionar a
orar, cantar e saltar”. A vida e o ministério de Piper são uma demonstração de
que isso não apenas é possível, como também desejável.
Comece de joelhos
Estudar as Escrituras é um trabalho bastante árduo que produz uma grande
recompensa, sempre que inundamos todo o processo com oração. Devemos
aproximar-nos do estudo da Bíblia com o Espírito do salmista no Salmo 119:
Ensina-me os teus estatutos (Sl 119.12).
Abre meus olhos, e contemplarei as maravilhas da tua lei (Sl 119.18).
Faz-me entender o caminho dos teus mandamentos (Sl 119.27).
Dá-me entendimento, e guardarei a tua lei; de todo o coração a cumprirei (Sl 119.34).

Devemos ser conscientes de nossas próprias limitações ao tentarmos entender


as Escrituras, tanto em nosso próprio benefício como para beneficiar os
outros por meio de nossa pregação. O exemplo de Paulo é muito instrutivo
nesse sentido. Provavelmente, Paulo foi o pregador mais poderoso e mais
capacitado que a Igreja cristã já teve ao longo da história. Ainda assim,
suplicou em suas cartas às igrejas que orassem por ele, para que lhe fosse
possível proclamar com eficácia a mensagem do evangelho.
Perseverai na oração, vigiando com ações de graças. Suplicai, ao mesmo tempo,
também por nós, para que Deus nos abra porta à palavra, a fim de falarmos do
mistério de Cristo , pelo qual também estou algemado; para que eu o manifeste,
como devo fazer (Cl 4.2-4, grifo aposto).
Paulo não pedia que orassem para que as portas da prisão se abrissem, mas
para que Deus lhe concedesse novas oportunidades de pregar a Palavra,
mesmo estando preso, e para que pudesse fazê-lo com eficácia. Aos crentes
de Éfeso, pediu que orassem para que ele pudesse proclamar Cristo com
ousadia, “como devo fazer” (Ef 6.20). À igreja tessalônica, pediu que
orassem “para que a palavra do Senhor se propague e seja glorificada, como
também está acontecendo entre vós” (2Ts 3.1). Um ministério de pregação
será totalmente ineficiente se não estiver regado de oração do início ao fim.
Devemos pedir em oração que Deus, por seu Espírito, ilumine os olhos do
nosso entendimento (Ef 1.18).
Durante a realização da Assembleia de Westminster na Inglaterra, em
meados do século XVII, Richard Hooker escreveu uma carta apologética em
defesa da postura teológica conhecida como “erastianismo”,5 que sustenta
que o Estado tem o direito de intervir e regulamentar os assuntos da Igreja.
Algumas pessoas pediram ao teólogo escocês George Gillespie que refutasse
seus argumentos, mesmo se tratando do membro mais jovem da Assembleia.
Ele tinha apenas 30 anos quando começaram as reuniões, em 1643 (e morreu
seis anos mais tarde). Gillespe fazia anotações enquanto Hooker falava, mas,
quando seus amigos leram o que ele havia escrito, tudo o que encontraram
foram expressões como “traz luz, Senhor”, “ajuda-nos, Senhor”, “Senhor,
defende a Tua causa”. Com essa mesma atitude, devemos empreender a
tarefa de entender o significado das Escrituras.
Ler e reler: quando seu idioma se transforma em uma poderosa ferramenta
exegética
É recomendável que todo pregador adquira certo conhecimento das línguas
originais, ou que ao menos possa entender o suficiente para fazer uso do bom
léxico que temos disponível. Contudo, há muita coisa que podemos aprender
de uma passagem das Escrituras lendo e relendo em oração, em nosso próprio
idioma. Esse é o primeiro passo que devemos dar para começar a nos
familiarizar com o texto bíblico, e pode lançar muita luz ao nosso estudo,
antes mesmo de fazermos uma exegese meticulosa. Por exemplo, o livro de
Jonas começa dizendo:
Veio a palavra do SENHOR a Jonas, filho de Amitai, dizendo: Dispõe-te, vai à
grande cidade de Nínive e clama contra ela, porque a sua malícia subiu até mim (Jn
1.1-2).
Uma primeira leitura desses versículos mostra várias coisas. Por um lado,
vemos que todas as nações da terra são responsáveis diante de Deus por seu
pecado. Nínive era uma cidade pagã, mas sua maldade havia provocado a ira
de Deus. Vemos ainda que os servos de Deus devem estar dispostos a
obedecer a ele, mesmo naquelas comissões que não lhes sejam agradáveis.6
Outros detalhes serão acrescentados à medida que formos avançando na
leitura do restante do capítulo, assim como do livro.
Nessa etapa da preparação, leia e releia a passagem em várias versões,
dando prioridade às traduções de equivalência formal, porém sem ignorar as
traduções de equivalência dinâmica. Uma tradução de equivalência formal é
aquela que tenta comunicar o conteúdo da passagem da maneira mais literal
possível, palavra por palavra. A João Ferreira de Almeida é uma tradução de
equivalência formal. Já a Nova Versão Internacional e a Nova Tradução na
Linguagem de Hoje procuram transmitir a ideia de acordo com a
interpretação dos tradutores. Este não é o lugar para se discutirem as técnicas
de tradução, mas devo enfatizar que não devemos apoiar-nos nas traduções
de equivalência dinâmica para tomar decisões de interpretação. Porém, essas
traduções podem ser úteis para ver a passagem com outros olhos.
À medida que você for lendo a passagem em diferentes versões, anote os
pontos em comum, assim como as variações. Esse exercício simples mostrará
quais são as partes do texto que demandam maior atenção para você
determinar seu significado.
Eu tive a oportunidade de pregar uma série consecutiva sobre o Discurso no
Cenáculo. Ao chegar a João 14.15, percebi que havia uma diferença entre a
Reina-Valera 1960 e a Bíblia das Américas. Na Reina-Valera, é dito: “Se me
amais, guardai meus mandamentos”; enquanto a Bíblia das Américas traduz:
“Se me amais, guardareis meus mandamentos”. A ideia que transmite a
última tradução é que, se amamos o Senhor, o resultado será que
guardaremos seus mandamentos. Ao pesquisar o texto grego, percebi que a
Bíblia das Américas oferece a melhor tradução, já que o verbo traduzido
como guardar está no futuro do indicativo ativo. Outras declarações no
restante da passagem corroboram essa interpretação:
v. 21: “O que tem os meus mandamentos, e os guarda , esse é o que me ama.”
v. 23: “O que me ama, minha palavra guardará.”
v. 24: “O que não me ama não guarda minhas palavras .”

Qual é, então, o ensino de João 14.15? Todo aquele que verdadeiramente ama
Jesus evidenciará isso guardando seus mandamentos. A leitura da Bíblia em
várias versões pode ser muito esclarecedora para nos aproximar do
significado do texto bíblico.
Deixe que o contexto conduza você à intenção do autor
Há um ditado muito famoso que diz: “Um texto sem contexto é um pretexto”.
O que isso significa, diz o professor de Interpretação do Novo Testamento,
Robert Plummer, é “que um pregador se sentirá inclinado a verter em um
texto seus próprios preconceitos se não permitir que o contexto o direcione à
intenção do autor”.7 Mais adiante, acrescenta: “Eu digo aos meus estudantes
que se mantenham aferrados ao texto bíblico da mesma forma que um peão
se aferra ao touro. E também lhes digo que as únicas pessoas dentro da arena
que não estão montadas nos touros são os palhaços”.8
Muitos erros são cometidos na interpretação da Bíblia ao não se considerar,
cuidadosamente, a conexão de uma declaração, seja com o restante da
passagem, seja com o conteúdo geral do livro em que se encontra, seja ainda
com o restante das Escrituras.
Caso #1: quantos pregadores usaram Isaías 1.5-6 para falar da terrível
condição espiritual em que se encontra o homem pecador? “Toda a cabeça
está doente, e todo o coração, enfermo. Desde a planta do pé até à cabeça não
há nele coisa sã, senão feridas, contusões e chagas inflamadas, umas e outras
não espremidas, nem atadas, nem amolecidas com óleo”. Se observarmos
essa passagem em seu contexto, veremos que o profeta está falando do
castigo que a nação de Israel havia recebido por causa de seus pecados, até o
ponto de ficar parecendo um homem tão golpeado que estava cheio de
feridas.
Mais de uma vez, aproximei-me de uma passagem da Bíblia com uma ideia
preconcebida do que significava, para, logo em seguida, descobrir que eu
estava errado. Com frequência, essa descoberta veio pelo simples exercício
de observar com atenção o contexto da passagem: tanto o contexto imediato
como o contexto geral do livro em que se encontra.
Caso #2: faz pouco tempo, li uma meditação bíblica baseada no texto de
2Timóteo 3.5: “tendo forma de piedade, negando-lhe, entretanto, o poder.
Foge também destes”. O autor do devocional nos diz que este é um sinal de
muitos crentes hoje em dia: conhecem os princípios das Escrituras, mas, na
hora de atuar, negam sua eficácia. Entre os exemplos que ele usa para
demonstrar sua ideia, menciona: 1) a vida devocional: sabem que é
importante começar o dia na presença de Deus, mas não o fazem; 2) o
dízimo: sabem que é a chave para a abundância, mas honram outros
compromissos em vez de ser fiéis a Deus nisso; 3) o trabalho: sabem que
Deus abençoa a diligência, mas não são esforçados, nem cuidadosos no que
fazem; e, assim, continua com suas explicações, as quais, supostamente,
derivam do texto.
Certamente, é muito penoso que nós, crentes, manifestemos tanta
inconsistência entre o que dizemos crer e o que fazemos na prática, mas é
esse o problema que Paulo está anunciando aqui? Quando lemos a segunda
epístola de Paulo a Timóteo do início ao fim, notamos a preocupação do
apóstolo com a permanência do evangelho depois de sua partida (2Tm 4.6-8).
Por isso exorta seu filho na fé a se manter fiel ao “padrão das sãs palavras
que de mim ouviste com fé e com o amor que está em Cristo Jesus” (2Tm
1.13). Timóteo deveria guardar o “bom depósito”, referindo-se ao evangelho,
em dependência do Espírito Santo (2Tm 1.14). Ele deveria guardar o
evangelho como se guarda um imenso tesouro de valor e formosura; e uma
das maneiras de fazer isso é protegendo-o de intrusos, ou seja, de falsos
mestres. Chegando ao capítulo 3, vemos que Paulo contrasta Timóteo com
essas pessoas que somente têm a “aparência de piedade, negando-lhe,
entretanto, o poder”:
“Tu, porém...” (2Tm 3.10).
“Tu, porém, permanece...” (2Tm 3.14).
“Tu, porém...” (2Tm 4.5).
Portanto, Paulo está falando aqui de pessoas ímpias que têm uma mera
aparência de piedade, e não de crentes que manifestam incoerência entre o
que conhecem e o que praticam. Um texto sem contexto é um pretexto para
dizer qualquer coisa. Tanto Jesus como os apóstolos citaram textos isolados
do Antigo Testamento com frequência. Em alguns casos, pode ser muito
esclarecedor considerar o contexto imediato desses textos que eles citaram.
Caso #3: Lembra quando o Senhor Jesus Cristo acusou os judeus de
haverem transformado o templo em um covil de ladrões? O Senhor estava
citando uma passagem que se encontra no capítulo 7 do livro do profeta
Jeremias. No tempo de Jeremias, muitos judeus pensavam erroneamente que
eram imunes ao castigo de Deus porque contavam com a bênção de ter o
templo entre eles (Jr 7.14). Para eles, o templo era uma espécie de talismã
que os protegia da invasão babilônica. Esse falso sentimento de segurança era
um incentivo para continuar vivendo em pecado:
Eis que vós confiais em palavras falsas, que para nada vos aproveitam. Que é isso?
Furtais e matais, cometeis adultério e jurais falsamente, queimais incenso a Baal e
andais após outros deuses que não conheceis, e depois vindes, e vos pondes diante de
mim nesta casa que se chama pelo meu nome, e dizeis: Estamos salvos; sim, só para
continuardes a praticar estas abominações! Será esta casa que se chama pelo meu
nome um covil de salteadores aos vossos olhos? Eis que eu, eu mesmo, vi isto, diz o
SENHOR (Jr 7.8-11).
A cidade de Jerusalém tinha muitos covis em seus arredores que os ladrões
usavam como esconderijo para escapar da justiça. O que Jesus estava dizendo
aos judeus ao citar essa passagem de Jeremias é que eles estavam fazendo a
mesma coisa que seus antepassados: usavam o templo como uma espécie de
covil no qual podiam esconder-se da ira de Deus depois de cometer seus
feitos malvados. E, em vez de ir à casa de Deus para acertar suas contas com
ele, escondiam-se atrás de seus rituais e de suas cerimônias para continuar
vivendo suas vidas como bem queriam. Tinham transformado o templo em
uma cova de ladrões. O uso que Jesus faz dessas palavras em Jeremias 7.11 é
um excelente exemplo do que significa citar cada texto em seu contexto.
A bênção na sintaxe
O Dicionário da Real Academia Espanhola define sintaxe como: “A parte da
gramática que estuda o modo como as palavras se combinam, e os grupos que
essas palavras formam para expressar significados, assim como as relações
que se estabelecem entre todas as unidades”. Não adianta nada entender as
palavras que compõem uma oração se não pudermos captar o significado da
própria oração, e como ela se relaciona com outras orações no mesmo
contexto. Por meio de um estudo gramatical, podemos chegar à compreensão
da passagem, focando nossa atenção nas conjunções, nos advérbios e nas
preposições através dos quais vão se formando as ideias.
Exemplo #1: leia cuidadosamente o seguinte trecho da epístola aos
Romanos, com especial atenção às palavras em itálico:
Por isso , quanto está em mim, estou pronto a anunciar o evangelho também a vós
outros, em Roma. Pois não me envergonho do evangelho, porque é o poder de Deus
para a salvação de todo aquele que crê, primeiro do judeu e também do grego; visto
que a justiça de Deus se revela no evangelho, de fé em fé, como está escrito: O justo
viverá por fé. A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos
homens que detêm a verdade pela injustiça; porquanto o que de Deus se pode
conhecer é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou. Porque os atributos
invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade,
claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio
das coisas que foram criadas. Tais homens são, por isso , indesculpáveis (Rm 1.15-
20, grifo aposto).
O “por isso” com que se inicia a passagem conecta o que vem em
continuação com o interesse que Paulo manifestou de visitar a igreja em
Roma (Rm 1.8-12), que, até aquele momento, não tivera fruto (Rm 1.13-15).
Paulo quer ir a Roma pregar o evangelho porque é o poder de Deus para a
salvação (v. 16b). Esse poder se opera ao revelar que toda a raça humana,
tanto judeus como gentios, pode ser justificada diante de Deus unicamente
por meio da fé em Jesus Cristo (v. 17). Todos precisam dessa salvação
porque todo mundo está sob a ira de Deus por haver detido a verdade pela
injustiça (v. 18). De que verdade Paulo está falando aqui? Das coisas
invisíveis de Deus, que se revelam claramente através da Criação, ou seja,
“seu eterno poder e divindade” (vv. 19-20). Desse modo, ninguém tem
desculpa diante de Deus por sua incredulidade, nem mesmo os pagãos que
nunca tiveram uma Bíblia em mãos, nem ouviram a mensagem do evangelho.
Quer preguemos toda a passagem, quer preguemos algum versículo em
particular, entender o fluxo de pensamento será de grande ajuda para sua
correta interpretação.
Existem diversas formas de estruturar um texto para descobrir seu fluxo de
pensamento, as quais não podemos explicar em detalhes neste livro.9 O mais
importante é discernir como se relacionam entre si as diversas partes que
compõem uma oração ou um parágrafo.
Exemplo #2: a conhecida passagem de Esdras 7.10 nos oferece um bom
exemplo: “Porque Esdras tinha disposto o coração para buscar a Lei do
SENHOR, e para a cumprir, e para ensinar em Israel os seus estatutos e os
seus juízos” (grifo aposto).10 O fluxo de pensamento será visto com maior
clareza se fizermos um diagrama simples:
Esdras tinha disposto seu coração
para buscar a Lei do SENHOR (estudá-la)
e para a cumprir, (obedecer a ela)
e para ensinar em Israel (ensiná-la)
os seus estatutos
e os seus juízos

A palavra para , assim como a frase e para , nos dão a chave para a maior
compreensão do fluxo de pensamento da passagem. Estruturar a passagem
dessa forma será de grande ajuda quando tivermos de estruturar o sermão.
Um possível esboço desse texto pode ser o seguinte:
I. Esdras preparou seu coração para estudar a Lei do Senhor.
II. Esdras preparou seu coração para obedecer à Lei do Senhor.
III. Esdras preparou seu coração para ensinar a Lei do Senhor.

Exemplo #3: vejamos outro exemplo, agora com um texto menor. Em João
8.45, o Senhor diz aos judeus: “Mas, porque eu digo a verdade, não me
credes”. Esse “porque” desempenha papel determinante nessa oração. O que
está dizendo aqui não é apenas que eles não quisessem crer, apesar de Jesus
ter dito a verdade. A acusação é muito mais séria: a razão pela qual eles não
queriam crer era precisamente porque ele dizia a verdade. “Mas, porque eu
digo a verdade, não me credes”.
Mais adiante, em João 14.16-17, Jesus promete aos discípulos enviar-lhes o
Consolador, “o Espírito da verdade, que o mundo não pode receber”. A razão
pela qual o mundo não pode receber o Espírito da verdade é porque ele não
quer a verdade que o Espírito revela.
Preste atenção aos detalhes
A estrutura geral da passagem é muito importante, mas os detalhes também
são: palavras-chave, aspectos culturais em que se desenvolve uma história,
dados geográficos, apenas para citar alguns. Isso não apenas ajuda-nos a
entender melhor a passagem, como também pode ser muito enriquecedor em
sua exposição. Alguns recursos, como os dicionários bíblicos, os comentários
e os léxicos, podem ser de muita ajuda para obter esse tipo de informação.
Exemplo: ao pregar o capítulo 6 do Evangelho de Marcos, chegamos à
segunda metade do versículo 6, onde é dito que Jesus “percorria as aldeias
circunvizinhas, a ensinar” (Mc 6.6b). Esse dado não parecerá interessante até
conhecermos o fato de que a região da Galileia estava composta por mais de
duzentos povos e aldeias disseminadas em uma superfície de uns oitenta
quilômetros de comprimento por quarenta quilômetros de largura, ou seja,
uns 3.200 quilômetros quadrados. Essa era a terceira vez que Jesus
empreendia uma dessas viagens durante seu ministério, pregando e curando
todo tipo de enfermidade. Isso deve ter sido muito cansativo! Esse detalhe
geográfico ajudará nosso auditório a ver com outros olhos a compaixão do
Senhor Jesus Cristo e as implicações de seu ministério de pregação e ensino.
Procure referências cruzadas
Como a Bíblia é sua melhor intérprete, devemos buscar outros textos
contidos nela que possam lançar mais luz, a fim de melhor entender a
passagem que estamos estudando. A maioria das Bíblias vem com essa ajuda
incluída. Também existem alguns softwares que oferecem referências
cruzadas e podem enriquecer o estudo das Escrituras.
Exemplo: Em João 20.21-22, lemos que o Senhor Jesus Cristo apareceu aos
apóstolos no lugar em que estavam reunidos e lhes disse: “Paz seja convosco!
Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio. E, havendo dito isto,
soprou sobre eles e disse-lhes: Recebei o Espírito Santo”. Existem outras
passagens da Escritura que fazem referência a esse “sopro” de Deus:
Gênesis 2.7: “Então, formou o SENHOR Deus ao homem do pó da terra e lhe soprou
nas narinas o fôlego de vida, e o homem passou a ser alma vivente”.
Jó 33.4: “O Espírito de Deus me fez, e o sopro do Todo-poderoso me dá vida”.
Salmo 33.6: “Os céus por sua palavra se fizeram e, pelo sopro de sua boca, o exército
deles”.
Ezequiel 37.9: “Então, ele me disse: Profetiza ao espírito, profetiza, ó filho do
homem, e dize-lhe: Assim diz o SENHOR Deus: Vem dos quatro ventos, ó espírito, e
assopra sobre estes mortos, para que vivam”.
Todos esses textos do Antigo Testamento que fazem referência a esse
“sopro” têm Deus como sujeito. Portanto, Jesus se apresenta nessa passagem
como o Deus vivo e verdadeiro que confere vida espiritual por meio da obra
do Espírito.
O uso de bons comentários... no momento apropriado
Nós, pregadores, sentimos a tentação de ir rapidamente para os comentários,
antes de averiguar por nós mesmos o significado da passagem. Esse é um
erro do qual não estou isento. Se você foi chamado por Deus para pregar sua
Palavra, então deve ser apto para ensinar, o que inclui a capacidade de
entender a Bíblia. Lembre-se de que seu trabalho consiste em pregar a
Palavra, e não o que outros dizem sobre ela. Ore ao Senhor e leia a passagem
que você irá pregar. Leia várias versões, e trate de discernir a estrutura do
texto, medite no texto e continue orando.
Após ter feito seu trabalho, estando a ponto de estruturar seu sermão, este é
um bom momento para abrir os comentários. Os bons comentários podem ser
de muita ajuda para confirmar que você está bem encaminhado na
interpretação da passagem. Também constituem uma boa ferramenta para
resolver as dificuldades exegéticas e interpretativas, para ver se existe algo no
contexto ou no pano de fundo da passagem que não era conhecido por você,
ou ainda alguma conexão lógica da estrutura do texto que tenha passado por
alto, ou simplesmente para perceber que outros se sentiram tão confusos
quanto você sobre o significado do texto bíblico!
E, agora, o que faço com essa informação?
Depois de reunir a informação acerca de uma passagem, ainda não estamos
prontos para preparar um sermão. Precisamos ser capazes de ver a totalidade,
entender o que o Espírito Santo quer dizer nessa porção das Escrituras. Como
bem aponta Byron Yawn: “Independentemente do gênero, cada passagem foi
escrita em uma situação determinada, para abordar uma necessidade concreta,
transmitir uma lição específica ou capturar um momento particular da
providência divina (...). Geralmente estamos tão imersos nesses detalhes da
exegese que não nos damos conta de qual é a ideia que o escritor bíblico nos
transmite”.11 Precisamos ver com clareza qual é o argumento que dá coesão e
significado aos detalhes. Toda informação que pudermos reunir durante a
etapa de pesquisa e exegese é como as peças de uma bicicleta desmontada:
interessantes, mas inúteis.
O presidente do Covenant Theological Seminary, Brian Chapell, escreveu
uma obra monumental de pregação expositiva intitulada Christ-centered
preaching [Pregação cristocêntrica], em que sugere algumas perguntas que
ajudam o expositor a tomar a informação adquirida por meio da exegese para
poder transformá-la em um sermão.
1. Qual é o significado da passagem?
2. Como posso saber o significado dessa passagem?
3. O que motivou a escritura dessa passagem?
4. O que temos em comum com as pessoas para quem foi escrita essa passagem?
5. Como devemos responder às verdades apresentadas na passagem?
6. Qual é a maneira mais eficaz de transmitir o significado da passagem?
As três primeiras perguntas nos ajudam a entender o contexto; as outras
três, a apresentá-lo de forma eficaz. Essas últimas perguntas nos levam àquilo
que Chapell chamou de “enfoque da condição decaída”, que não é outra coisa
do que “a condição humana mútua que de que compartilham os cristãos
atuais com aqueles para quem ou sobre quem se escreveu a passagem,
requerendo a graça de Deus da passagem para glorificá-la ou desfrutar
dela”.13
Byron Yawn reduziu essas perguntas diagnósticas a três:
1. O que o texto diz? (exegese)
2. O que o texto quer dizer com isso? (interpretação)
3. Que efeito o texto pretende produzir em seu público? (intenção)
Essa terceira pergunta é a que nos dá o ponto de partida para ir da
hermenêutica à homilética, da exegese e da interpretação à preparação do
sermão.
Exemplo #1: pensemos na conhecida passagem de 2Timóteo 3.16-17:
“Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão,
para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus
seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra”. Com frequência,
citamos essa passagem para provar a inspiração e a suficiência das Escrituras,
e fazemos isso com razão. Mas o que levou o apóstolo Paulo a abordar esse
tema, nesse ponto da carta? É claro que ele não estava dando uma aula de
bibliologia a seu filho na fé.
Qual é, então, a intenção da passagem? Mais uma vez, encontramos a
resposta no contexto. Já disse anteriormente que, nessa carta, Paulo exorta
Timóteo a proteger o evangelho diante da ameaça dos falsos mestres, homens
que têm “forma de piedade, negando-lhe, entretanto, o poder” (2Tm 3.5).
Timóteo deveria persistir no legado recebido e manter-se apegado às
Escrituras que havia conhecido desde a sua infância, “que podem tornar-te
sábio para a salvação pela fé em Cristo Jesus” (2Tm 3.15). É nesse contexto
que Paulo lembra Timóteo da origem divina das Escrituras e de sua utilidade
para “o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na
justiça” (2Tm 3.16); e é nesse mesmo contexto que, mais adiante, o exorta a
pregar a Palavra (2Tm 4.2), ainda que muitos prefiram os ensinos dos falsos
mestres (2Tm 4.3-4).
Qual é, então, a intenção do apóstolo? Fortalecer a fé de Timóteo na
Palavra de Deus como o único meio para salvar e santificar com o propósito
de que ele mesmo se mantenha apegado a ela, e a ministre a outros.
Ao pregar essa passagem, devemos apontar para o mesmo objetivo do
autor: levar nossos ouvintes a confiar nas Escrituras de tal forma que nenhum
vento de doutrina possa movê-los a descansar em nenhuma outra coisa além
da revelação bíblica para sua própria salvação e santificação, assim como
para a salvação e a santificação de outros. Os membros de nossa igreja
também correm o risco de querer ter os ouvidos acariciados com palavras
agradáveis ou que seus pastores troquem a pregação da Palavra por outras
coisas que pareçam mais suaves e atraentes às pessoas de nossa geração. Eles
também precisam do ensino central dessa passagem da segunda epístola de
Paulo a Timóteo.
Descobrir a ideia central da passagem ajuda-nos a ser claros e focados em
nossa pregação. Não se trata de sermos comentários bíblicos ambulantes,
tentando cobrir cada mínimo detalhe. Pelo contrário, pregamos uma
mensagem, o que o Espírito Santo quer dizer-nos por meio de todas as ideias,
argumentos, mandamentos e ensinos contidos na passagem.
Os irmãos Chip e Dan Heath, dois reconhecidos autores americanos,
descrevem esse processo para encontrar a essência do que se quer dizer com
as seguintes palavras: encontrar a essência significa demonstrar uma ideia até
chegar ao centro crítico. Para chegar a esse centro, descartaremos os
elementos supérfluos e tangenciais, mas essa é a parte fácil. A parte difícil é
descartar as ideias que são realmente importantes, mas que não são as mais
importantes.14
Eles contam a história de um escritor bem-sucedido que, no começo, nas
aulas de jornalismo, havia aprendido a prestar atenção no que realmente
importa. “Um dia, o professor pediu aos alunos que escrevessem uma matéria
jornalística com base em alguns detalhes concretos que ele lhes dera durante
a aula. O trabalho dos estudantes consistia em examinar esses detalhes e, em
seguida, condensar sua ênfase principal em uma frase sucinta.” Estes são os
fatos:
Kenneth L. Parker, diretor da Beverly Hills High School, anunciou hoje que toda a
escola viajará a Sacramento na próxima quinta-feira, para assistir a uma palestra
sobre novos métodos de ensino. Entre os oradores, figuram a antropóloga Margaret
Mead, o presidente do instituto, R. Robert Maynard Hutchins, e o governador da
Califórnia, Edmund “Pat” Brown.
Depois que os estudantes leram as matérias que haviam escrito — muitas
delas consistindo em simples reformulação dos dados que lhes foram
passados —, o professor surpreendeu a todos declarando que a história
central era esta: “Não haverá aula na próxima quinta-feira”. O impacto dessa
experiência foi indelével para esse escritor: “Foi um momento esmagador
(...). Naquele instante, percebi que o jornalismo não consistia apenas de
regurgitar dados, mas de encontrar a ideia subjacente. Não bastava saber
quem, que, quando e onde; era preciso entender o que significava e por que
era importante”.15
Essa última declaração é reveladora, porque é disso que se trata a pregação.
Acredito que o problema de muitos expositores é que se limitam a “regurgitar
dados” em vez de explicar o que a passagem significa e por que é importante.
Uma avenida que passa pelo Calvário
Como já vimos detalhadamente no capítulo 7, Cristo é o grande tema das
Escrituras e, portanto, de uma forma ou de outra, deve também ser o grande
tema de nossa pregação. Para fazer uma exegese correta do texto bíblico, em
primeiro lugar temos de nos mover até os leitores originais, de modo que
possamos entender o texto em seu contexto. Mas, ao fazermos o percurso
contrário, de onde eles estão até chegar a nós, devemos passar, em primeiro
lugar, pelos atos redentores do evangelho que giram em torno da pessoa e da
obra de nosso Senhor Jesus Cristo. Em outras palavras, a avenida que liga a
passagem bíblica até nós passa primeiro pelo Calvário.
David Helm se refere a essa fase da preparação como “a reflexão teológica”
e explica da seguinte maneira: “Em termos simples, é uma disciplina rigorosa
e cheia de oração, que envolve tempo para meditar sobre o texto e ver como
se relaciona com o plano de redenção de Deus. Nesse exercício, devemos
perguntar como a passagem se relaciona com a Bíblia como um todo,
especialmente com os atos salvíficos de Deus em Jesus”.16
Exemplo #1: vamos supor que estamos pregando sobre a história de Moisés
e a forma milagrosa como Deus cuidou dele quando era uma criança, apesar
da ameaça de Faraó. O pregador pode focar nesse acontecimento como
ilustração de uma verdade bíblica: Deus cuida dos seus (Êx 2.1-10). Nesse
caso, estamos pressupondo que o que aconteceu com Moisés nessa situação
específica pode aplicar-se a todos os filhos de Deus em qualquer contexto.
Esse é o tipo de aplicação que escutamos com frequência em aulas de Escola
Dominical. A sorte de muitos professores é que nem sempre aparecem
crianças travessas que perguntam: “O que aconteceu com o restante das
crianças que morreram afogadas no Egito?”.
Ao usar essa história como uma mera ilustração do cuidado de Deus,
estamos ignorando por completo a importância teológica de Moisés e sua
preservação nesse momento crítico da história da redenção. Em última
instância, Deus protegeu Moisés por amor à Igreja, para que o Salvador
pudesse vir ao mundo por intermédio desse povo que seria liberto da
escravidão. Dessa forma, podemos extrair dessa história uma aplicação
relacionada com o cuidado de Deus sobre seu povo. Mas, se interpretarmos
adequadamente, não seremos forçados a declarar que Deus sempre livrará os
crentes de sofrer danos físicos; podemos apenas estar certos de que nenhuma
ameaça humana ou demoníaca levará ao fracasso dos planos que conduzem à
glória do nome do Senhor e à bênção final dos seus.
Exemplo #2: suponhamos que estamos pregando Tiago 3.1-12. Se nos
limitarmos a dizer que devemos controlar a língua, estamos usando o texto
para moralizar. O que Tiago nos diz realmente é que não podemos controlar a
língua com nossas próprias forças. Isso é impossível... sem a graça divina.
Por isso Tiago introduz o tema da sabedoria que vem do alto nos versos 13 ao
18.17
O princípio fundamental que estamos apresentando é que, ao se mover do
texto bíblico até a sua audiência, nenhum atalho deve ser tomado; é preciso
caminhar sempre pela avenida que passa pelo Calvário, onde Deus
manifestou sua graça a pecadores que não podem salvar a si mesmos do
castigo e do poder do pecado.
Trabalhemos em nosso sermão expositivo
O livro de Êxodo pode ser organizado em duas grandes seções: a primeira
compreende os capítulos 1 a 19; ali, narram-se a escravidão de Israel no
Egito e sua libertação pela poderosa mão de Deus. A segunda seção vai
do capítulo 20 ao 40, onde vemos Deus entregando a Lei ao seu Povo
redimido e entregando instruções a Moisés para a construção do
Tabernáculo, o lugar no qual ele manifestaria sua presença especial. Essa
estrutura geral do livro nos mostra que a salvação é pela graça, levada a
cabo por Deus, “pelo beneplácito de sua vontade”, como Paulo dirá
centenas de anos depois em Efésios 1.5. A Lei é dada por Deus no monte
Sinai, para ganhar a “salvação” ou a “libertação”. Deus lhes lembra que,
antes de receber a Lei, eles já haviam sido libertos/salvos (compare com
Êx 20.1-2). Deus declara, de antemão, que é o Deus desse Povo. Eles são
redimidos antes da Lei, de modo que a obediência do povo não deve ser
uma tentativa desesperada para ganhar seu Favor. Esta é a tese que Paulo
defende em sua epístola aos Gálatas: a lei não anula a promessa dada por
Deus a Abraão (Gl 3.17). Os israelitas foram libertos da escravidão no
Egito, não por alguma coisa boa que houvesse neles, mas por causa do
pacto que Deus, em sua soberania, tinha feito com Abraão (Êx 3.13-17).
Nossa passagem encontra-se na primeira seção do livro, no início do
capítulo 17, e mostra, de forma contundente, que esse povo não merece a
salvação que recebeu. Dessa maneira, a história ressalta a Soberania de
Deus na eleição de seu povo e sua disposição de salvá-los, apesar de
seus pecados. A história começa quando os filhos de Israel partiram do
deserto de Sim, “conforme o mandamento do Senhor”, e acamparam em
um lugar chamado Refidim, onde não havia água. Era uma situação
realmente perigosa. Em um lugar como o deserto do Sinai, a
desidratação acontece em questão de horas. Se não encontrassem água
para beber, todos morreriam em pouco tempo. Os israelitas, então,
queixaram-se contra Deus; e não era a primeira vez que faziam isso
depois da saída do Egito (Êx 14.11, 12; 15-24; 16.2). Também não era a
primeira vez que se queixavam por não haver água para beber. Eles já
haviam passado por uma situação semelhante em um lugar chamado
Mara, mas, em cada uma dessas ocasiões anteriores, Deus interviera de
tal forma que eles deveriam confiar no poder e na bondade de Deus, e
clamar a ele, suplicando por sua ajuda. Mas os israelitas decidiram
começar uma briga judicial contra Deus e contra Moisés, como mostram
algumas palavras-chave dessa passagem.
A palavra contendeu (v.2) provém da raiz hebraica rib, que descreve
uma ação legal (compare com Jr 25.31; Miqueias 6.1-8; a palavra Merib
á provém dessa raiz). Tentar significa “pôr à prova”. Ainda que eles
estivessem contendendo com Moisés, na verdade estavam colocando
Deus à prova, para ver se ele cumpriria suas promessas, como vemos no
versículo 7: “E chamou o nome daquele lugar Massá e Meribá, por
causa da contenda dos filhos de Israel e porque tentaram ao SENHOR,
dizendo: Está o SENHOR no meio de nós ou não?”.
Israel está acusando Deus de abandoná-los no deserto e, portanto, de
não cumprir o que havia prometido em seu pacto. Em outras palavras,
estavam dizendo que Deus era um mentiroso e um genocida! Deus os
teria tirado do Egito com falsas promessas para lev á-los ao deserto e
mat á-los de sede. Moisés percebe que o povo está a ponto de apedrejá-lo
(Êx 17.4). Se prestarmos atenção ao significado das palavras contender e
tentar, não devemos imaginar o povo simplesmente como uma multidão
irada, mas como um grupo de homens que executam uma ação jurídica.
Já que não podem aplicar a Deus a pena capital, estão a ponto de aplicá-
la a Moisés.
Deus ordenou a Mois és que tomasse consigo alguns anciãos de Israel,
que exerciam o ofício de juízes, e que se colocasse diante do povo
segurando em sua mão a vara com que havia tocado o rio Nilo. Essa
vara era, ao mesmo tempo, um símbolo de autoridade e de castigo (Dt
25.1-3; Is 30.32). Mas a história teve uma mudança inesperada: “Eis que
estarei ali diante de ti sobre a rocha em Horebe; ferirás a rocha, e dela
sairá água, e o povo beberá. Moisés assim o fez na presença dos anciãos
de Israel” (Êx 17.6).
Apesar do pecado do povo, a vara não se levantou contra eles, mas
contra uma rocha, um símbolo que a Bíblia usa com frequência para se
referir ao próprio Deus (Dt 32.3-4, 15, 18, 31; os dois salmos que
mencionam Massá e Meribá fazem referência a Deus como a “rocha”: Sl
78.35; 95.1). Quando Moisés feriu a rocha, emanou tanta água que
saciou plenamente a sede do povo. Em Salmos 78.20, é dito que a
torrente de água era tal que inundou a terra. E em Salmos 105.41 é dito
que as águas “correram como rio pelo deserto”.
Impressionante! O povo que merece ser castigado por seu pecado
recebe em troca toda a água necessária para saciar sua sede, porque Deus
decidiu receber o castigo que eles mereciam. Centenas de anos mais
tarde, o apóstolo Paulo aludiria a essa história, em 1Coríntios 10.4,
dizendo: “e beberam da mesma fonte espiritual; porque bebiam de uma
pedra espiritual que os seguia. E a pedra era Cristo”.
A estrutura da passagem é a seguinte:
I. Deus prova a fé do povo ao coloc á-los em uma situação de
grande perigo (Êx 17.1)
II. O povo peca gravemente contra Deus, queixando-se contra ele
e colocando em dúvida suas promessas (Êx 17.2-3, 7)
A. Demandaram sua provisão (Êx 17.2)
B. Duvidaram de sua proteção (Êx 17.3)
C. Duvidaram de sua presença (Êx 17.7)
III. O povo começa um processo judicial contra Deus, acusando-o
de haver quebrado seu próprio pacto (isso é evidente pelas
palavras que são usadas na passagem e pela ordem que Deus dá a
Moisés)
IV. Moisés clama a Deus ao ver as intenções do povo, de aplicar a
ele a pena capital (Êx 17.4)
V. Deus toma a decisão de preservar o povo, assumindo o castigo
que eles mereciam por seu pecado (Êx 17.5-6)
Essa passagem mostra-nos, de forma memorável, como Deus perdoa
seu povo ingrato e rebelde, à custa de um grande sacrifício. Agora
estamos preparados para tomar essa informação que vimos de forma
sucinta e transformá-la em sermão.
Capítulo 10
Estruture o sermão
“(...) Ainda que o poder que dá êxito à pregação seja sobrenatural, existem maneiras
eficazes e ineficazes de pregar o evangelho.”
Henry C. Fish

“Sobre Paulo e Barnabé, foi dito em uma ocasião particular que ‘falaram de tal modo,
que veio a crer grande multidão, tanto de judeus como de gregos’ (At 14.1). Mesmo
sendo Soberano, o Ser divino não é um Soberano arbitrário; não se pode negar que
tanto nas operações da graça como nas da natureza, existe uma conexão geral entre os
meios e o fim. Portanto, aquilo que afetará o homem sem o Espírito, podemos esperar
que será empregado pelo Espírito para produzir convicção no coração. De outra
maneira, o tipo de pregação seria um assunto de completa irrelevância.”
Henry C. Fish

Diferente de outros países, na República Dominicana não percebemos as


mudanças nas estações. De fato, bem poderíamos dizer que temos apenas
duas estações durante o ano: verão e “inferno”. Porém, existem alguns
lugares montanhosos em que a temperatura pode cair tanto em certa época do
ano que é preciso acender a lareira. Um princípio fundamental para acender
um bom fogo é colocar a madeira de forma adequada; quando a madeira não
está bem colocada, o fogo acende muito lentamente e produz mais fumaça do
que calor. Algo semelhante acontece com os sermões.
Os sermões mais usados por Deus costumam ser aqueles com uma estrutura
adequada que permite transmitir com eficácia a mensagem das Escrituras, da
mente e do coração do pregador para a mente e o coração dos ouvintes. Um
exército é mais eficaz que uma multidão, mesmo tendo a mesma quantidade
de pessoas. Se apresentarmos ao nosso auditório um conjunto de ideias
desconexas, sem uma ordem lógica nem uma meta clara, o sermão como tal
será ineficiente. Pode ser que os irmãos sejam beneficiados com uma frase
aqui e outra ali, mas, na melhor das hipóteses, esse será todo o bem que
poderemos fazer a eles.
O pregador metodista inglês William E. Sangster admitiu que “um sermão
pode não ter forma e, pela graça de Deus, não ser completamente vazio”. Mas
acrescentou que “isso quase pertence à categoria de milagre. Nenhum sermão
é realmente sólido se a sua estrutura não for bem sólida”.1 E John Stott
comenta o seguinte sobre o assunto: “Assim como ossos sem carne formam
um esqueleto, a carne sem ossos forma uma medusa. Nem os esqueletos
ossudos nem as medusas fazem bons sermões”.2
Devemos lembrar que estamos pregando a Palavra de Deus a homens e
mulheres criados à sua imagem, e nosso Deus é um Deus de ordem. Tudo o
que ele criou tem esse selo. Ele não criou todas as coisas de uma só vez, mas
em uma sequência e uma ordem lógica. A mesma coisa vemos em sua
revelação: existe uma ordem progressiva na Escritura. Toda a Bíblia foi
escrita de acordo com um plano. Se vamos pregar a Bíblia de modo eficaz,
devemos imitar seu Autor.
Exemplo: na introdução de seu evangelho, Lucas diz a Teófilo que ele se
esforçou em desenvolver todo o material em uma ordem determinada.
“Igualmente a mim me pareceu bem, depois de acurada investigação de tudo
desde sua origem, dar-te por escrito, excelentíssimo Teófilo, uma exposição
em ordem, para que tenhas plena certeza das verdades em que foste
instruído” (Lc 1.3-4). Lucas pesquisou as coisas e logo as colocou em ordem.
Ele conhecia a importância de uma boa estrutura para a eficácia do ensino.
Um sermão bem estruturado será de grande ajuda, tanto para o pregador
como para os ouvintes. Em seu livro originalmente escrito em espanhol
Tratado sobre la predicación , Juan Broadus apresenta quatro vantagens de
se estruturar um sermão de maneira adequada. De minha parte, acrescentarei
algumas outras.
Vantagens de uma boa estrutura
Em primeiro lugar, uma boa estrutura é necessária para que o discurso seja
mais compreensível. Como já expus, fomos criados à imagem e à semelhança
de um Deus de ordem e, portanto, captamos melhor as coisas quando são
apresentadas de forma ordenada e sequencial, uma ideia que depende
logicamente de outra, até chegar a uma conclusão. Quando isso não acontece,
nossas mentes imediatamente reagem. E mesmo aqueles que não sabem nada
sobre pregação perceberão que alguma coisa não está indo bem no sermão.
Em segundo lugar, um sermão bem organizado torna o discurso mais
agradável de ouvir e fácil de entender . Quando os ouvintes percebem uma
boa estrutura, deixam-se guiar tranquilamente pelo expositor, pois é evidente
que ele sabe o ponto ao qual deseja chegar. Ainda que nem todos os ouvintes
sejam capazes de perceber os elementos que compõem essa estrutura, e
alguns não poderão dizer-nos nem sequer qual foi o esboço geral do sermão,
perceberão a clareza da exposição e compreenderão a essência da mensagem.
Mas, quando os ouvintes não sabem com certeza para onde o pregador está se
dirigindo, nem o que pretende demonstrar ou explicar, sentem-se frustrados;
e, quando isso acontece, é muito difícil manter o interesse e a atenção do
auditório. Não é agradável escutar um sermão sem ordem ou harmonia.
Devemos reconhecer com tristeza que os filhos das trevas têm
demonstrado, em certas ocasiões, ser mais sagazes que os filhos da luz nesse
assunto. Existem hereges que apresentam melhor suas heresias do que muitos
ortodoxos, espalhando seu veneno de tal forma que se torna fácil entender e
agradável de escutar. Nós temos o dever de proclamar a verdade de Deus, e
precisamente por isso devemos entregá-la “com graça, temperada com sal”
(Cl 4.6); se alguns fecham seus ouvidos à pregação, que seja pelo amor ao
pecado, e não pela maneira descuidada e caótica como apresentamos nossas
ideias.
Em terceiro lugar, uma boa estrutura torna o sermão mais persuasivo . Não
esqueçamos que uma das tarefas do pregador é persuadir seu auditório. Nossa
meta é mover a vontade dos que nos escutam. Sabemos que é Deus quem
opera nos corações; mas Deus usa meios, e um deles é a persuasão por meio
da pregação. Lucas nos diz em Atos 18.4 que, quando Paulo estava em
Corinto, “persuadia judeus e gregos”. E fez a mesma coisa na cidade de
Éfeso: “Durante três meses, Paulo frequentou a sinagoga, onde falava
ousadamente, dissertando e persuadindo com respeito ao reino de Deus” (At
19.8). Paulo era persuasivo em sua pregação, e nós também devemos ser se
quisermos obter algum fruto.
Devemos estruturar o sermão de tal forma que o entendimento seja
iluminado, que os afetos sejam movidos pela compreensão da verdade e que a
vontade seja movida à ação. Nesse caso, a ordem dos fatores altera, sim, o
valor do produto. Nossa meta é chegar à vontade e mover os afetos por meio
do entendimento. Queremos persuadir com a verdade, e não manipular os
ouvintes. Quanto mais clara e organizada for a pregação, mais provável é que
seja persuasiva. Sobre isso, Broadus diz: “Quem quer quebrar uma rocha com
sua marreta não bate onde quer, mas multiplica seus golpes em um só ponto,
ou sobre determinada linha. O mesmo deve passar-se quando queremos
mover a vontade”.3
Em quarto lugar, uma boa estrutura faz com que o discurso seja lembrado
com mais facilidade. Quando um pregador é ordenado e lógico em sua
exposição, os ouvintes poderão seguir com facilidade o fio condutor de seu
pensamento enquanto ele prega e lembrar seus pontos e argumentos
principais quando a pregação termina. Isso não só é de grande ajuda para a
congregação, como também para o próprio pregador. Se o sermão tem uma
sequência lógica, será mais fácil lembrar nosso processo de raciocínio e,
assim, não teremos de depender tanto de nossas anotações. Mais adiante
falaremos detalhadamente sobre esse tema.
Em quinto lugar, a preparação prévia do material nos permite avaliar que
tempo devemos gastar em cada parte do sermão. Nem todos os pontos da
mensagem terão a mesma importância, mas só quando estruturamos o sermão
poderemos distribuir o tempo necessário para cada assunto. Se não temos
uma ideia clara de para onde nos dirigimos, nem do que queremos conseguir
com o sermão, ou de qual será nossa ênfase, pode acontecer que, no calor do
momento, dediquemos muito tempo a um ponto secundário. Quando isso
acontece, é muito provável que nos vejamos obrigados a tratar mais
rapidamente de pontos cruciais, ou a estender a mensagem mais do que é
prudente, para poder apresentar todo o nosso material.
Em sexto lugar, e isso é algo que está vinculado ao tema anterior, somente
quando estruturamos o sermão podemos decidir com certeza o que devemos
incluir e o que devemos deixar de fora. No processo de estudo, acumulamos
muito material que acreditamos ser de grande utilidade para nossa
congregação, mas é possível que algumas dessas coisas tenham de ficar fora e
ser usadas em outro momento, por não se encaixarem bem no processo de
argumentação que utilizaremos, ou no propósito que queremos atingir, ou
simplesmente porque tornaria o sermão grande demais. A esse respeito, John
Stott diz:
Pode ser que, durante nossas horas de meditação, tenhamos inúmeros pensamentos
felizes e ideias mirabolantes, e tenhamos anotado tudo devidamente. É tentador
incluir todas elas à força, de alguma forma. Resista a essa tentação! O material não
pertinente debilita o efeito do sermão. Será útil em algum outro momento.
Precisamos ter a convicção de guardá-los até esse momento.4
Uma boa estrutura será de grande ajuda para determinar o que vamos dizer
— e como vamos dizê-lo. Não podemos querer cobrir tudo em um só sermão;
afinal, nosso auditório não saberá o que fazer com tanta informação.
Espero ter persuadido você acerca da importância de desenvolver uma boa
estrutura no sermão. Mas, antes de passar a considerar como fazê-lo, permita-
me fazer algumas advertências preliminares.
Algumas advertências nessa fase da preparação
Em primeiro lugar, ao estruturar o sermão, lembre-se de que isso não é um
fim em si mesmo. Nosso objetivo não é produzir uma obra de arte para que as
pessoas admirem, mas um instrumento efetivo para transmitir a mensagem.
Um bom esboço é como o marco de um quadro: centraliza nossa atenção na
pintura e realça sua beleza, mas não atrai a atenção para si mesmo. Nossa
função como pregadores é expor, e não esconder; não devemos colocar a
verdade de Deus debaixo dos escombros de uma estrutura complicada e
artificial.
Em segundo lugar, é preciso observar que nem sempre é fácil conseguir
uma boa estrutura. Existem textos das Escrituras que, quando estudados,
expõem-se aos nossos olhos em todos os seus pontos e incisos, de uma forma
simples e natural, mas isso não acontece com frequência. Ou, ao menos, não
é o que acontece comigo todas as semanas! Falando da dificuldade de certos
textos, Spurgeon dizia aos estudantes da Escola de Pastores: “Bata neles com
toda a sua força e energia, mas, mesmo assim, seu trabalho será inútil”.
Outros, porém, “se dividem com o primeiro golpe, e reluzem ao se
despedaçarem, revelando, em seu interior, joias que irradiam seu mais
extraordinário brilho”.5 O primeiro exemplo é mais comum que o segundo,
mas todo esforço vale a pena para o homem que está convencido de que foi
chamado a alimentar o povo de Deus com a Palavra de Deus. Quando estiver
no meio do seu trabalho e preparar o sermão estiver custando sangue, suor e
lágrimas, e se sentir tentado a desistir, apodere-se das palavras de Davi em
2Samuel 24.24: “Não oferecerei ao SENHOR, meu Deus, holocaustos que
não me custem nada”.
O sermão visto por raio X
Ao falar da estrutura do sermão, devemos determinar, em primeiro lugar,
quais são os elementos que o compõem, já que nem todos os expositores
estão de acordo nesse ponto. Alguns dizem que um sermão consta de cinco
partes principais e pode ser que alguém sugira outras mais. Mas eu prefiro
usar o esquema mais simples e organizar o sermão em três partes principais:
introdução, corpo e conclusão. No processo de elaboração, devemos dar
prioridade ao corpo do sermão. Por outro lado, nunca devemos escrever a
introdução até estarmos certos do que vamos introduzir. Pode-se dizer o
mesmo acerca da conclusão.
O corpo do sermão, assim como o nosso, está composto por esqueleto,
carne, músculos e ligamentos. O esqueleto é um arranjo ou o esboço geral
que sustenta o corpo. Em seguida, vêm a carne e os músculos que o cobrem,
e os ligamentos que sustentam as diferentes partes do corpo unidas umas às
outras. Neste capítulo, nosso foco está no esqueleto.
O esqueleto é formado pelos pontos principais e secundários que formam a
mensagem que comunicaremos ao nosso auditório. Os pontos principais são
as vigas que sustentam nosso edifício, enquanto os pontos secundários nos
ajudam no desenvolvimento lógico e ordenado de cada ponto. Sem eles, não
poderemos construir uma edificação sólida e unificada. Assim que tivermos
feito a exegese da passagem, saberemos seu significado, tema e a ideia
principal que queremos transmitir em nosso sermão. Agora devemos
determinar as divisões de nossa mensagem. Vejamos algumas sugestões de
como fazê-lo.
Em primeiro lugar, as divisões devem girar em torno da ideia principal que
estamos tentando comunicar no sermão. Uma vez que conhecemos o
processo de pensamento do autor sagrado e a mensagem que seu texto
comunica, estaremos prontos para formular a proposta que queremos
comunicar a nosso auditório e que desenvolveremos por meio dessas divisões
principais do sermão. Nenhum dos pontos individuais do sermão deve ser
mais importante que o tema que o governa. “Não devemos permitir em nosso
sermão que os ‘sargentos’ ocupem a posição de ‘generais’” (tradução do
autor), diz O. Palmer Robertson.6
Exemplo #1:
O meu mandamento é este: que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei.
Ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a própria vida em favor dos
seus amigos. Vós sois meus amigos, se fazeis o que eu vos mando. Já não vos chamo
servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas tenho-vos chamado
amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos tenho dado a conhecer. Não fostes
vós que me escolhestes a mim; pelo contrário, eu vos escolhi a vós outros e vos
designei para que vades e deis fruto, e o vosso fruto permaneça; a fim de que tudo
quanto pedirdes ao Pai em meu nome, ele vo-lo conceda. Isto vos mando: que vos
ameis uns aos outros (Jo 15.12-17).
Uma leitura rápida dessa passagem pode nos dar a impressão de que o tema
central dessa porção é o mandamento de amar a Jesus como ele nos amou. A
palavra amor aparece várias vezes nesses versículos, e o mandamento de
amarmos uns aos outros inicia e conclui essa seção. Porém, ao olhar a
passagem com mais atenção, percebemos que existe uma ideia mais
importante aqui, que domina todas as demais, e é a relação de amizade que os
crentes têm com Jesus, e como essa amizade deve manifestar-se na prática;
uma dessas manifestações é o amor que os crentes têm entre si por causa de
Jesus. Dessa maneira, o tema do amor está subordinado à nossa amizade com
Jesus.
O contexto imediato da passagem nos ajuda a ver com mais clareza qual é a
ideia central transmitida. Nos versículos anteriores, Jesus havia comparado a
relação que ele tem com seus discípulos com o tipo de unidade que existe
entre a videira e os ramos. Mas, nessa parte do discurso, ele abandona a
metáfora da videira para se referir aos discípulos como “seus amigos”. Esse
detalhe não deve ser tomado como trivial, se considerarmos que, em toda a
Escritura, a única pessoa que Deus chama de amigo é o patriarca Abraão, em
Isaías 41.8. Isso não significa que Deus não tivesse uma relação próxima com
mais ninguém. Moisés falava com o Senhor face a face “como fala qualquer
um com seu companheiro” (Êx 33.11). A mesma coisa podemos dizer de
Davi, Jeremias ou Daniel. Todos eles desfrutaram de uma relação de
proximidade e intimidade com Deus; porém, por alguma razão, o Antigo
Testamento reservou esse título unicamente a Abraão, até chegamos a essa
passagem em João 15.12-17, em que vemos o Senhor Jesus Cristo usando a
mesma terminologia para se referir aos seus discípulos. Mais adiante, na
oração do Senhor, no capítulo 17 de João, todos os crentes, do presente e do
futuro, são incluídos nesse círculo de intimidade (Jo 17.20-21, 23). Os crentes
são amigos de Jesus, o que é, ao mesmo tempo, um privilégio extraordinário
e uma tremenda responsabilidade. Considerando o tema da passagem, agora
podemos passar a estruturá-lo.
I. Os amigos de Jesus amam-se entre si com o mesmo tipo de amor com que são
amados por ele (Jo 15.12-13, 17).
II. Os amigos de Jesus obedecem a ele, não apenas como servos, mas também como
amigos (Jo 15.14-15).
III. Os amigos de Jesus frutificam porque foram escolhidos por ele para ser frutíferos
(Jo 15.16-17).
Em segundo lugar, sempre que possível, as divisões devem ser dispostas de
tal maneira que indiquem uma progressão de pensamento. O auditório deve
perceber que o estamos conduzindo a uma meta. Esse progresso será mais
evidente se dispusermos nossos pontos e incisos em uma ordem lógica e
ascendente: o negativo deve preceder o positivo; igualmente, o abstrato deve
anteceder o concreto; o geral, o particular; a objeção, a refutação; a
abordagem do problema, a solução; o raciocínio, a exortação. Devemos
mostrar progresso em nosso processo de argumentação. Martyn Lloyd-Jones
diz a esse respeito:
A disposição dessas seções ou desses tópicos é um assunto muito importante. Após
dividir o tema e examinar seus respectivos componentes, não devemos colocá-los em
qualquer ordem, à própria sorte. Você tem uma doutrina, um argumento, uma
questão deseja argumentar, raciocinar e desenvolver com as pessoas. Assim,
obviamente, você irá distribuir seus tópicos e seções de tal forma que o ponto número
1 leve ao ponto número 2, e o ponto número 2 leve ao ponto número 3, e assim por
diante. Cada um deve conduzir ao seguinte e levar finalmente a uma conclusão
definitiva. (...) A questão que estou enfatizando é que deve existir uma progressão no
pensamento, que nenhum desses pontos é independente, e, em um sentido, nenhum
tem o mesmo valor que os demais. Cada um deles é parte de um todo e, em cada um,
você deve avançar e levar o assunto mais longe. Não se limite a simplesmente repetir
as mesmas coisas um número determinado de vezes. Sua meta é chegar a uma
conclusão final.
Em terceiro lugar, cada divisão deve conter apenas uma ideia básica.
Devemos evitar que uma invada o terreno da outra.
Exemplo #2:
Vejamos o seguinte esboço de 1Coríntios 13:
I. A preeminência do amor (1Co 13.1-3)
II. As características do amor (1Co 13.4-7)
III. A continuidade do amor (1Co 13.8-12)
IV. A duração do amor (1Co 13.13)
Nesse caso, os pontos III e IV sobrepõem-se porque a ideia de duração já
está incluída na continuidade. Esse é um erro comum que confunde o
auditório e dificulta o progresso do sermão. Algumas pessoas sentirão que
estamos encalhados, que não estamos avançando rumo a uma conclusão.
Outras ainda podem suspeitar que há uma distinção sutil que eles não estão
captando, e isso acabará distraindo-os. O sermão seguirá adiante, mas eles
ficarão pensando: “Que diferença há entre a continuidade e a duração?”. Seria
muito melhor esboçá-lo de tal maneira que cada divisão contenha uma só
ideia que seja independente das demais:
I. A preeminência do amor (1Co 13.1-3)
II. As características do amor (1Co 13.4-7)
III. A permanência do amor (1Co 13.8-13)
Em quarto lugar, as divisões principais devem ser poucas, um mínimo de
duas e, na maioria dos casos, não mais que cinco. Se uma passagem ou tema
requer mais divisões para uma exposição adequada, é possível que tenhamos
de pregar mais de um sermão. Contudo, é pertinente assinalar que essa lei não
é como a lei da Média e da Pérsia, que não possa ser quebrada em algumas
ocasiões.
Em quinto lugar, as divisões principais e secundárias devem estar
estreitamente relacionadas entre si e, na medida do possível, seguir uma
pauta gramatical uniforme.
Exemplo #3:
Para expor as palavras do Senhor aos sedentos em João 7.37-38, este pode
ser um esboço possível:
I. Quando o Senhor pronunciou essas palavras?
II. Os pecadores têm sede.
III. A salvação é pela fé.
IV. Por que a salvação que Cristo oferece sacia o pecador?
Essa divisão é difícil de seguir porque os pontos não têm uma estrutura
uniforme. Tente compará-lo com estes:
I. O contexto do convite: “No último e grande dia da festa”.
II. Os destinatários do convite: “Se alguém tem sede”.
III. O conteúdo do convite: “Venham a mim e bebam”.
IV. A promessa do convite: “(...) de seu interior, fluirão rios de água viva”.
Neste último exemplo, vemos uma pauta uniforme que nos ajuda a ver com
maior clareza a sequência de pensamento e a relação dos pontos entre si.
Talvez não seja necessário dizer que essa fase de preparação do sermão
requer oração contínua e muita paciência. Os bons esboços nem sempre saem
na primeira tentativa. Na verdade, poucas vezes isso acontece. Trata-se de um
trabalho que, em geral, “envolve uma grande quantidade de energia e
determinação”, como bem afirma O. Palmer Robertson: “No princípio pode
parecer que tem um efeito asfixiante na espontaneidade da mensagem. Mas,
uma vez que dominamos os rudimentos, o fato de esboçar somente ampliará a
contundência da verdade da Escritura” (tradução do autor).8
Mais uma coisa. Conheço pregadores muito bons, que pregam sermões
poderosos e que, durante todo o tempo, quebram algumas dessas regras,
principalmente a quinta. Porém, eles são a exceção que confirma a regra. A
maioria dos mortais faria bem em desenvolver a arte de elaborar um esboço,
em total dependência do Espírito de Deus.
Trabalhemos nosso sermão expositivo
A passagem que queremos expor, Êxodo 17.1-7, tem uma estrutura
simples. No versículo 1, vemos que Deus coloca à prova o povo levando-
o a acampar em um lugar no qual não havia água para beber. Nos
versículos 2 e 3, vemos a resposta do povo à crise: eles contenderam com
Moisés e tentaram a Deus acusando-o de tê-los tirado do Egito com
falsas promessas para mat á-los no deserto; no versículo 7, a ideia é
reiterada, e um elemento adicional é acrescentado: “Tentaram ao
SENHOR, dizendo: Está o SENHOR no meio de nós ou não?”. No
versículo 4, Moisés clama a Deus; e nos versículos 5 e 6 vemos a
resposta de Deus ao clamor de Moisés.
Lembre-se da estrutura da passagem que vimos no capítulo anterior:
I. Deus prova a fé do povo ao coloc á-los em uma situação de
grande perigo (Êx 17.1).
II. O povo peca gravemente contra Deus, queixando-se contra ele
e colocando em dúvida suas promessas (Êx 17.2-3, 7).
A. Demandaram sua provisão (Êx 17.2).
B. Duvidaram de sua proteção (Êx 17.3)
C. Duvidaram de sua presença (Êx 17.7).
III. O povo dá início a uma demanda judicial contra Deus,
acusando-o de haver quebrado seu próprio pacto (isso é evidente
pelas palavras que são usadas na passagem e pela ordem que
Deus dá a Moisés).
IV. Moisés clama a Deus ao ver as intenções do povo, de aplicar a
ele a pena capital (Êx 17.4).
V. Deus toma a decisão de preservar o povo, assumindo o castigo
que eles mereciam por seu pecado (Êx 17.5-6).
A estrutura da passagem ajudará bastante na elaboração do nosso
esboço. Unindo os pontos IV e V em um só, podemos esboçar o sermão
da seguinte maneira:
I. A prova (Êx 17.1).
II. O processo judicial (Êx 17.2-3, 7).
III. O juízo (Êx 17.4-5).
IV. O veredicto (Êx 17.6).
Já temos o esqueleto do sermão. Mas agora precisamos revestir esses
ossos com carne e músculos, e dar a eles unidade através dos tendões e
ligamentos. Isso é o que faremos a partir do próximo capítulo.
Capítulo 11
Prepare o sermão
“A clareza é a meta mais importante da vida do pregador. Isso deve-se à própria
natureza das Escrituras. As Escrituras estão desenhadas para revelar. Exigem sua
própria clareza. Consequentemente, o elemento fundamental de toda comunicação
bíblica é a clareza. Sem clareza, nada acontece.”
John MacArthur

“Apresente a verdade diante dos homens de maneira lógica e ordenada, para que
possam lembrar-se dela facilmente. Quanto mais você fizer dessa forma, mais dispostos
estarão e recebê-la.”
Charles Spurgeon
“A diferença entre a palavra correta e a quase correta é a mesma que há entre o
relâmpago e o vaga-lume.”
Mark Twain

Todo cozinheiro experiente sabe que cozinhar bem requer esforço. É


possível cozinhar um bom prato ao acaso, mas isso não costuma acontecer
com frequência. O mesmo pode ser dito em relação aos bons sermões:
raramente são produzidos de forma casual; eles requerem um esforço
consciente por parte do pregador que pode chegar a ser extenuante enquanto
se prepara para pregar semana após semana.
Se é certo que o Espírito Santo opera de forma imprescindível e misteriosa
por meio da pregação, isso não significa que ele seja caprichoso e muito
menos que esteja obrigado a abençoar uma mensagem na qual não se
trabalhou e que não foi apresentada com dedicação e esforço. Portanto, todo
aquele que deseja pregar um sermão de modo eficaz deverá viver com esta
tensão: deve depender do Espírito Santo, ao mesmo tempo que realiza um
grande esforço para entender o significado do texto, para logo apresentar
diante da congregação o conteúdo das Escrituras de forma apropriada.
Com essa consciência, Paulo pede aos colossenses, quase no fim da sua
carta, que orem por ele e por seus companheiros, “para que Deus nos abra
porta à palavra, a fim de falarmos do mistério de Cristo, pelo qual também
estou algemado; para que eu o manifeste, como devo fazer ” (Cl 4.3-4). Paulo
desejava apresentar a Palavra de Deus de forma adequada, e esse deve ser o
desejo de todo pregador. Os ingredientes obtidos no estudo devem misturar-
se com perícia para que o prato seja nutritivo, mas também devem ser
agradáveis aos olhos e satisfazer o paladar. E, ainda que cada pregador
imprima um toque pessoal à sua pregação, os bons sermões costumam
apresentar algumas características que contribuem para sua eficácia.
Jogue uma bola, não um punhado de areia
Como eu já disse, o pregador não é um comentário bíblico ambulante. Ele é o
porta-voz de uma mensagem. Essa mensagem tem suas partes, suas divisões,
mas todas as partes, sejam divisões ou ideias, devem formar um todo. E é
essa totalidade que chamamos de sermão. Robert Dabney, pregador norte-
americano do século XIX, autor de um tratado monumental sobre a pregação,
lembra-nos que um sermão não deve ser como uma estrela, que envia raios
em todas as direções e se perde na escuridão do firmamento, mas como uma
lente que condensa os raios em um ponto. O pregador australiano Phil
Campbell diz isso com uma linguagem contemporânea: “Para nossos
ouvintes, será mais fácil agarrar uma bola do que um monte de areia”
(tradução do autor).1
Há um assunto que domina o sermão, uma mensagem que queremos
comunicar; e todos os pontos, as ilustrações, os tópicos e ideias que
introduzimos no sermão devem servir para transmitir essa mensagem ao
nosso auditório. Como diz Bryan Chapell: “Toda boa pregação requer um
tema. Se o pregador não oferece isso aos ouvintes, eles, instintivamente,
tentarão buscar um pensamento unificador” (tradução do autor).2 Certamente,
quando eles não conseguem encontrá-lo, é provável que se sintam confusos e
deixem de escutar.
Se o propósito do sermão é formar o entendimento para mover a vontade e
os afetos, devemos ter uma mensagem para transmitir, e um propósito claro e
definido em nossas mentes; do contrário, estaremos caminhando em círculos
e não chegaremos a lugar nenhum. Eclesiastes 12.11 diz que “as palavras dos
sábios são como aguilhões, e como pregos bem fixados as sentenças
coligidas, dadas pelo único Pastor”. É melhor martelar bem fundo um prego,
em sermões separados, do que deixar pregos tortos em um só sermão.
Alguns pregadores sentem-se pressionados a tratar todas as doutrinas
relacionadas à passagem que estão estudando e, desse modo, quebram a
unidade do sermão e o debilitam. Além disso, esse comportamento tende a
produzir sermões muito longos. Outros caminham por todas as avenidas que
vão abrindo à medida que o sermão avança, de modo que, numa só
mensagem, falam de maneira longa e detalhada do dízimo, da importância de
criar os filhos na disciplina, das admoestações do Senhor e da necessidade de
frequentar todos os cultos na igreja.
Devemos evitar as digressões desnecessárias ao pregar porque diminuem a
eficácia do sermão. Quando um sermão carece de unidade, é possível que
algumas frases soltas tenham certo efeito na mente de alguns ouvintes, mas o
sermão como tal não será muito eficaz. Como afirma Robert Dabney, um
sermão sem unidade “só pode fazer o bem acidentalmente” (tradução do
autor). 3
Dessa forma, a primeira coisa a fazer é extrair da passagem bíblica a grande
ideia que contém, porque, a menos que cheguemos a esse ponto, não teremos
nada para trabalhar. Nesse sentido, devemos resistir à tentação de começar a
trabalhar muito rápido na preparação do sermão por causa da pressão que
temos de estar prontos para o domingo. Certa vez, Winston Churchill disse
sobre um de seus colegas: “Ele é o tipo de orador que, antes de se levantar do
assento, não temos a menor ideia do que dirá; quando está falando, não temos
ideia do que está dizendo; e, quando, finalmente, ele se senta, não sabemos o
que disse” (tradução do autor).4 Se não quiser que digam isso de você, não
comece a trabalhar no sermão até que a grande ideia unificadora do texto
esteja tão clara em sua mente quanto a luz do meio-dia.
A prova das três da manhã
Para saber se você está pronto para pregar, Bryan Chapell sugere este
exercício simples que ele chama de “prova das três da manhã”. Imagine que
sua esposa se levante às três da manhã no domingo e pergunte, meio
sonâmbula: “O que você vai pregar hoje?”. Se você não for capaz de dar uma
resposta curta, clara e direta, é possível que seu sermão esteja um pouco cru.5
E se você respondesse à sua esposa algo como isto:
Quando a nação de Israel foi enviada ao exílio por causa do seu pecado, sua
esperança messiânica começou a se desvanecer, pois as provas do plano, o propósito
e as intenções do Deus Soberano com respeito ao seu Povo ficaram obscurecidas em
meio às circunstâncias opressivas do exílio babilônico, até que foram libertos durante
o domínio dos persas e tiveram acesso às revelações posteriores, no desenvolvimento
da história da redenção.

Agora sua esposa não só está desperta, como também assustada: “O que
você vai pregar?”. Uma resposta melhor seria: “Deus permanece fiel ao seu
povo infiel”. Quando podemos anunciar o pensamento do nosso texto de uma
forma tão clara, concisa e direta, então, e somente então, podemos apresentar
com clareza o foco, a organização e a aplicação da mensagem. Como disse
Bryan Chapell, o assunto mais importante para uma boa pregação consiste
em manter o assunto mais importante como o assunto mais importante.6
Somente assim, poderemos manter a unidade da mensagem do princípio ao
fim.
A clareza e a simplicidade no sermão
Se tivesse de aconselhar um pregador que está começando no ministério, eu
me limitaria a dizer: “Seja bíblico e claro”. E, se tivesse de aconselhar
alguém que prega há muitos anos, eu lhe diria: “Continue sendo bíblico e
claro”. A menos que sejamos claros e simples em nossos sermões, nunca
seremos compreendidos e, se não formos compreendidos, não faremos bem
algum aos nossos ouvintes. Paulo admoesta severamente os crentes da
Galácia por se haverem desviado do evangelho, apesar da clareza de sua
mensagem: “Ó gálatas insensatos! Quem vos fascinou a vós outros, ante
cujos olhos foi Jesus Cristo exposto como crucificado?” (Gl 3.1). Paulo
esforçava-se para apresentar o evangelho com simplicidade e clareza.
Quando falamos de simplicidade, não nos referimos a uma pregação
infantil. Se o nosso auditório perceber que o estamos tratando como um
grupo de ignorantes a quem devemos falar como a criancinhas, fechará seus
ouvidos ofendidos e perderemos a oportunidade de ministrar às suas almas.
Também não se trata de uma pregação rude ou vulgar, muito menos de uma
pregação superficial que transmite indiretamente a mensagem de que estamos
abordando um assunto que, na verdade, não tem muita importância ou
relevância. Não podemos pregar as Escrituras como se estivéssemos falando
de quem ganhou o jogo de futebol na véspera. A mensagem que estamos
proclamando tem repercussão eterna, e nosso auditório deve perceber essa
transcendência na forma como a transmitimos.
O que quero dizer ao falar de simplicidade na pregação é que devemos
proclamar a mensagem de tal forma que todas as pessoas possam
compreendê-la, inclusive as crianças que estão entre nós. É possível que isso
não pareça atraente para os que vivem perseguindo a eloquência, mas será de
muita ajuda para as almas daqueles que nos ouvem. A mensagem da Palavra
de Deus deve ser clara e transparente para a maioria de nossos ouvintes.
Em certa ocasião, alguém descreveu o Comentário MacArthur do Novo
Testamento como um instrumento útil para o “público leigo”. Em outras
palavras, um erudito não perderia tempo em ler essa obra. Alguém perguntou
a John MacArthur como se sentira diante dessa crítica e esta foi a sua
resposta:
Recebi como um elogio. Passei a vida toda falando a leigos, sem formação teológica.
Não estou falando a alemães mortos, liberais ou eruditos em um programa de
doutorado (...). Falo, principalmente, para mim mesmo. Preciso compreender as
Escrituras com facilidade. Preciso esmiuçá-la em conceitos simples. Acredito que
isso é o que todo mundo precisa.7
Gostei muito dessa resposta. Os pregadores devem ser estudiosos e ter bons
hábitos de leitura. Devem estar familiarizados com a teologia e desenvolver
uma mentalidade analítica. Portanto, se você é capaz de confrontar a teologia
liberal de alguns alemães mortos, fantástico! Mas lembre-se de que, no
púlpito, nos dirigimos a pessoas que, em sua maioria, não vivem no mundo
dos acadêmicos, e lembre-se também de que os eruditos precisam entender a
Bíblia e aplicá-la em suas vidas. Por isso, fale de tal maneira que todos
possam entender você.
Falando da situação da Inglaterra em meados do século XX, o grande
apologista inglês C.S. Lewis fez um comentário que podemos aplicar em
nossos países latinos:
Quem deseja pregar aos ingleses terá de aprender a língua popular inglesa, da mesma
forma que um missionário aprende o idioma banto antes de pregar aos bantos (...). A
prova de ordenação ao ministério deveria incluir a tradução de uma obra teológica de
nível médio, para a língua popular. É uma tarefa árdua, mas tem recompensa
imediata. Quando tentamos traduzir nossas doutrinas para a língua do povo,
descobrimos quão melhor entendimento nós mesmos podemos ter. Algumas vezes,
nossos erros de tradução podem dever-se ao desconhecimento do idioma vernáculo.
Mas, com maior frequência, expressam o fato de que não sabemos exatamente o que
significa (tradução do autor).8
Essas últimas palavras de Lewis me conduzem ao assunto a seguir.
Antes de tentar iluminar os outros, esteja seguro de que a luz esteja acesa
sobre sua própria cabeça
Já falamos do esforço que o pregador deve fazer para esmiuçar a mensagem
das Escrituras, então não repetirei os argumentos que usamos naquela
ocasião. O que estou assinalando agora é que, sem um claro entendimento do
tema ou assunto que será pregado, é impossível tornar a verdade clara para os
demais. A luz deve iluminar primeiro nossa própria cabeça. Um dos maiores
oradores da antiguidade foi Cícero, e ele dizia acerca disso: “Ninguém pode
falar clara e eloquentemente sobre um assunto do qual não entende”
(tradução do autor).9 Você precisa ter bom entendimento do tema escolhido;
caso contrário, não poderá transmiti-lo com simplicidade e clareza. “Ah,
meus irmãos”, dizia James Usher, erudito do século XVI, “é preciso ter muito
conhecimento para tornar as coisas claras”.10
Uma prova que você pode aplicar a si mesmo para saber se
verdadeiramente está entendendo o texto a ser pregado é tentar explicá-lo a
alguém de sua confiança, como, por exemplo, sua esposa. Pergunte com
confiança se ela acha que você está pronto para pregar essa passagem, ou se
deve procurar entendê-la melhor. Certifique-se também de poder dividir a
passagem ou o tema em várias proposições, e de poder apresentá-las de tal
maneira que fique claro para os demais. Cito aqui Ryle: “Se pretendes ser
simples em sua pregação... deves entender cabalmente seu tema. E, se queres
saber se conheces cabalmente seu tema, trata de dividi-lo e organizá-lo”
(tradução do autor).11 Esse é um conselho sábio de um grande pregador.
“Por favor, diga-me isso com palavras simples”
Quando falamos de palavras simples, referimo-nos a palavras que a maioria
das pessoas entende, palavras que são de uso corrente. E, se você sentir a
necessidade de usar alguma palavra pouco usual porque é a que melhor
expressa a ideia que pretende comunicar, então explique-a ou busque um
sinônimo que esclareça seu significado. Eu tive um amigo que adorava
buscar palavras estranhas no dicionário para, em seguida, usá-las em uma
conversa casual, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Isso é
aceitável se a intenção for fazer uma brincadeira, mas não é apropriado para o
púlpito. Se você é capaz de pronunciar sem gaguejar a palavra
supralapsarianismo , e sabe o que significa, meus parabéns! Mas lembre-se
de que, às vezes, o jargão teológico é um estorvo na comunicação. Por que
usar a palavra hamartiologia se você pode dizer simplesmente “a doutrina do
pecado”?
Ao subir ao púlpito, qual é o seu objetivo? A salvação dos pecadores e a
edificação dos santos? Então, fale de modo que as pessoas entendam. Procure
com afã as palavras mais apropriadas para transmitir a mensagem de Deus.
Paulo disse em 1 Coríntios 14.19: “(...) prefiro falar na igreja cinco palavras
com o meu entendimento, para instruir outros, a falar dez mil palavras em
outra língua”. Cinco palavras que sirvam como veículo para transmitir um
ensino são mais valiosas, diz Paulo, que dez mil palavras que não possam ser
entendidas pelos demais. Em certa ocasião, disseram de um político: “É um
retórico sofisticado, embriagado com a exuberância da própria
verbosidade”.12 Seria muito triste se isso fosse dito de um pregador.
Outro erro comum na oratória é abusar dos superlativos. Mais uma vez, vou
recorrer a C.S. Lewis: ele dizia que uma das formas mais comuns de cometer
verbicídio é por inflação. Por exemplo, se dizemos terrivelmente quando
poderíamos dizer muito mal , ou usamos a palavra tremendo para nos referir a
um grande problema . Quando nos acostumamos a falar com tantos
superlativos, as pessoas não acreditarão quando dermos a elas o uso
apropriado. Devemos falar de tal forma que, quando digamos que algo é
terrível, as pessoas acreditem.
Procure desenvolver um estilo simples de composição e uma estrutura
simples
Não apenas nossas palavras devem ser simples e claras, como também nossas
orações. Na maioria dos casos, é melhor usar orações breves, com poucas
frases subordinadas. “Preguem como se fossem asmáticos”, dizia J. C. Ryle.
Evite, a todo custo, o excesso de tópicos e subtópicos, porque tendem a
confundir o auditório. Lembre-se de que seus ouvintes não têm diante de si
seu esboço. Se você usar muitos tópicos no sermão, os quais, por sua vez,
terão outros subtópicos, cada um com seus próprios subtópicos subordinados,
quando o chegar ao ponto 6, subtópico 2, subinciso C, seus ouvintes não
apenas estarão perdidos, como também é bem provável que tenham perdido
todo o interesse em continuar ouvindo. Os sermões mais agradáveis de ouvir
e mais fáceis de lembrar são aqueles cuja estrutura é simples; dois ou três
pontos descritos de forma breve com palavras comuns e correntes.
Devemos preparar nossos sermões tendo em mente este comentário de
Aristóteles: “A força da escrita consiste no máximo de sentido com o mínimo
de palavras”.13 “A brevidade é a alma da criação”, dizia Shakespeare. E
Broadus afirma: “Quanto menor o número de termos com que a ideia é
resumida, mais enérgica será a expressão”.14
O Senhor Jesus Cristo exemplifica esse princípio à perfeição. Nos
Evangelhos, encontramos cerca de 130 aforismos usados por Jesus em seus
ensinos formais e conversas informais. E, para não pecar naquilo que
condenei há pouco, permita-me definir o que é um aforismo. Segundo o
Dicionário da Real Academia , é “uma frase breve e aguda que expressa uma
verdade ou um preceito”. “Dá a César o que é de César, e a Deus o que é de
Deus.” Bam! O que torna essa frase impactante é a capacidade de expressar
muito com poucas palavras e a facilidade de gravá-la. De fato, muitos dos
aforismos de Cristo se transformaram em frases populares. As pessoas
lembram-se delas e as empregam. “Pedi e vos será dado; Procurai e
encontrareis; Batei e a porta vos será aberta”. Não há nada complicado aqui.
São frases curtas, porém cheias de significado, além de bastante enfáticas. A
Palavra de Deus contém uma infinidade de frases desse tipo.
Sejamos simples e fluidos em nosso estilo de composição. Algumas
pessoas são viciadas em orações sonoras e retumbantes; isso pode até
produzir a admiração de alguns por um tempo, mas isso é tudo o que elas
conseguirão. Como diz Broadus: “Há certa verbosidade sonora que causa
admiração nos ignorantes; mas tal admiração não significa um verdadeiro
proveito para eles, nem prova de que o orador tem poder. É comum dizer,
acerca de escritores ou oradores dessa categoria, que eles têm ‘perfeito
domínio da língua’, quando seria mais certo dizer que ‘a língua os domina
por completo’ (...) Dominam o idioma assim como um jóquei domina um
cavalo que corre desenfreadamente com ele”.15
Fale às pessoas
Algumas vezes, somos tão genéricos no púlpito que ninguém se sente como
destinatário daquilo que é pregado. Spurgeon dizia que os sermões de certos
pregadores são como as facas de um malabarista cujo espetáculo consiste em
não acertar nenhuma delas na pessoa que está do outro lado. Isso funciona no
circo, mas não no púlpito. Lancemos nossas facas de tal forma que acertemos
as pessoas. Não tenha medo de usar uma linguagem direta no púlpito. Alguns
pregadores nunca usam o pronome tu, porque acham que é muito direto.
Preferem usar, quase todo o tempo, o pronome nós . Ainda que isso pode ter
seu lugar, não devemos usar com tanta frequência a ponto de diluir o efeito
pessoal e individual da mensagem.
Ao pregar aos judeus no pórtico de Salomão, Pedro não disse: “A raça
humana fez algo terrível contra o Filho de Deus”. Não. Pedro foi tão direto
quanto poderia ser: “O Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó, o Deus de
nossos pais, glorificou a seu Servo Jesus, a quem vós traístes e negastes
perante Pilatos (...) Vós, porém, negastes o Santo e o Justo e pedistes que vos
concedessem um homicida. Dessarte, matastes o Autor da vida, a quem Deus
ressuscitou dentre os mortos, do que nós somos testemunhas” (At 3.13-15,
grifo aposto). Em outras palavras: “Vocês o entregaram; vocês o negaram;
vocês mataram o Autor da vida”. Quando pregamos assim, as pessoas sabem
que o pregador não está falando ao vento, mas está se dirigindo a eles, e que
o que está dizendo se relaciona diretamente com eles.
Há muitos anos na Guatemala, conheci um grupo de pessoas que estava
traduzindo a Bíblia para um dos muitos dialetos locais. E, para ilustrar a
dificuldade que isso implica, um deles nos contou que alguns missionários
estavam pregando a Palavra na aldeia e constantemente dizia frases como
esta: “Porque todos nós somos pecadores. Todos nós somos culpados”, e
assim por diante. Era surpreendente como os indígenas consentiam com
aquelas palavras. Depois eles descobriram que, nesse dialeto, existem duas
palavras traduzidas como “nós”, com uma ligeira, porém muito importante
diferença entre elas. Uma dessas palavras incluía todos os presentes, os
indígenas e os missionários, enquanto outra incluía apenas os que vinham de
fora da aldeia, e essa era precisamente a palavra que estava sendo usada pelo
pregador.
Então, os indígenas não entendiam quando os missionários diziam “todos
nós somos pecadores, todos nós somos culpados”. Suponho que estariam
pensando: “Nós já sabíamos que vocês, brancos, eram pessoas muito ruins”.
Nesse caso, o problema surgiu por causa da ignorância quanto ao idioma,
mas, com frequência, decorre da falha do pregador em aplicar a Palavra
diretamente a seus ouvintes. Devemos falar às pessoas de tal maneira que
entendam que a mensagem tem a ver com elas.
Tenha cuidado com as orações de transição
Muitos não dão a devida atenção às orações de transição, apesar do papel tão
importante que elas desempenham no sermão para lhe conferir um sentido de
unidade e progresso. As transições permitem-nos passar de um ponto a outro
e de uma ideia a outra, de uma forma fluida, suave e natural. Todos nós
usamos orações de transição, ainda que algumas pessoas não estejam
conscientes ao usá-las; mas a comunicação será mais eficaz se as
prepararmos de antemão. Entre os pregadores que não recomendam que o
sermão seja totalmente escrito, alguns aconselham que se anotem as orações
de transição.
O pastor e missionário norte-americano James Braga diz o seguinte a esse
respeito: “O ouvinte, no serviço da igreja, não tem o sermão do pregador
diante de si de forma escrita, a fim de ajudá-lo a acompanhar a mensagem à
medida que o orador vai pregando. A única forma de seguir o fluxo de
pensamento do orador é ouvindo o que ele diz. A transição é uma ajuda nesse
processo”.16
Essas orações permitem que o auditório perceba com clareza o movimento
e o progresso do sermão. Pode ser uma pergunta: “Quais são as
características do homem sem Cristo?”. Ou pode ser uma recapitulação:
“Depois de vermos a problemática particular do homem sem Cristo, vejamos
agora, em segundo lugar, qual é a causa do problema”.
Use as ilustrações de maneira adequada
Ilustrar significa iluminar ou esclarecer. A ilustração é como uma janela
aberta que permite a entrada de luz para iluminar o tema que estamos
pregando. O uso sensato das ilustrações será de grande valor para comunicar
a verdade da Palavra de Deus. Os árabes costumam dizer que um bom mestre
é aquele que transforma o ouvido em olhos. As ilustrações são um bom
instrumento para fazer essa cirurgia ocular. Em sua excelente obra,
originalmente escrita em inglês, Using Illustrations to Preach with Power
[Como usar ilustrações para pregar com poder], Bryan Chapell diz o
seguinte:
As ilustrações não são apenas para dar conhecimento intelectual. Elas fazem a
exegese da Escritura no âmbito da experiência humana, a fim de criar uma
compreensão total da Palavra de Deus. Ao emoldurar as verdades bíblicas no mundo
em que vivemos, nos movemos e existimos, as ilustrações unem nossa personalidade,
passado, presente, emoções, temores, frustrações, esperanças, nossos corações,
nossas mentes e nossas almas na compreensão do divino. Elas são parte integral da
pregação eficaz não somente porque podem entreter ou tornar claro, mas também
porque ampliam e aprofundam as aplicações que a mente e o coração podem fazer.17
De onde vêm as ilustrações? Em primeiro lugar, da própria Escritura. Não
lembro onde li acerca de um pastor que escreveu a outro pedindo que lhe
recomendasse um livro de ilustrações. O outro pastor lhe enviou um cartão-
postal com duas palavras escritas: “A Bíblia”. A Palavra de Deus está cheia
de ilustrações e, ao usá-las, não somente esclarecemos a verdade que estamos
tratando de explicar, como também mostramos aos irmãos como fazer uso
prático das Escrituras, especialmente das partes narrativas. Que história pode
ser melhor que a de Davi e Bate-Seba para ilustrar o processo através do qual
somos apanhados pelo pecado? A história de José, ao contrário, é um
exemplo impactante do efeito do amor de Deus para nos separar do pecado.
No livro de Ester, encontramos várias ilustrações das operações misteriosas
de Deus em favor de seu povo.
Também encontramos boas ilustrações na história da igreja, na ciência, na
literatura e na arte, na natureza, em experiências pessoas, notícias e em uma
variedade de lugares. Se, ao iniciar a semana, você já tiver uma ideia clara do
tema que irá pregar, então poderá ficar alerta para captar as boas ilustrações
que cruzarem seu caminho.
Não obstante, devemos ter cuidado com o uso excessivo ou desnecessário
de ilustrações. Supõe-se que a ilustração deve servir para iluminar uma
verdade, e não apenas para entreter o auditório. Não é sensato, nem é correto
ocupar uma parte enorme do sermão contando histórias enquanto nos
descuidamos da exposição e da aplicação da verdade bíblica. Mas, quando as
ilustrações são usadas de maneira adequada e em sua justa medida, serão de
muita ajuda para transmitir a verdade das Escrituras de uma forma clara e
simples.
Exemplo: faz alguns anos, preguei um sermão sobre o perigo do legalismo
e usei a seguinte ilustração18 para mostrar a diferença entre uma obediência
legalista e outra motivada pelo evangelho. É uma das ilustrações mais
extensas que já usei em um sermão, mas achei que valia a pena abrir uma
exceção pela forma clara e memorável como ilustra o poder santificador do
evangelho.
Existem dois relatos da mitologia grega que ilustram duas formas distintas de viver a
vida cristã. O primeiro gira em torno de um personagem muito conhecido chamado
Ulisses. Segundo o relato de Homero, Ulisses era um modelo de esposo, feliz e
casado com Penélope, com quem vivia na ilha de Ítaca. Mas um incidente tenebroso
lhe enviaria para longe de sua esposa amada durante uns vinte anos. Páris, um
príncipe de Troia, apaixonou-se perdidamente por Helena, esposa de Menelau, rei de
Esparta, e uma das mulheres mais bonitas da época, convencendo-a, então, a fugir
com ele. Portanto, para limpar sua honra, os gregos decidem enviar um grande
exército para atacar Troia, entre os quais estava Ulisses.
Troia foi sitiada por dez anos, até que os gregos conseguiram entrar na cidade
escondidos no interior de um grande cavalo de madeira. Ulisses e seus homens
conquistaram a cidade e resgataram Helena, mas a viagem de volta, que também
durou dez anos, acabou se revelando mais perigosa que a guerra contra os troianos.
Um dos momentos mais perigosos da travessia foi quando tiveram de rodear a ilha
das sereias. Segundo a lenda, essas maléficas criaturas tinham um canto tão lindo que
atraía os marinheiros para a costa e, quando os barcos batiam contra os recifes, elas
aproveitavam para acabar com eles sem misericórdia. Advertido desse perigo, mas,
ao mesmo tempo, cheio de curiosidade, Ulisses ordenou a todos os seus marinheiros
que tapassem os ouvidos com cera e mantivessem os olhos fixos à frente, para que
não pudessem escutar o canto das sereias, nem ser atraídos por sua beleza. Ao mesmo
tempo, pediu que o amarrassem ao mastro da embarcação para poder escutar o canto
sem correr perigo. “Não importa o que eu diga ou faça; não me soltem até que
estejamos a uma distância segura.” Tal como havia sido advertido, Ulisses sentiu-se
enfeitiçado pelo que viu e escutou. Se ele não estivesse amarrado ao mastro,
certamente teria cedido diante da tentação.
Lamentavelmente, a vida prática de muitos que professam ser cristãos é semelhante a
esse episódio da vida de Ulisses. Se não fossem a corda das regras humanas e o medo
de ser malvistos dentro do círculo eclesiástico no qual se movem, sucumbiriam,
contentes, diante das tentações deste mundo. O cristianismo deles não se caracteriza
pela alegria, mas pelo medo e pela vergonha.
O outro personagem mitológico que teve de enfrentar o canto das sereias foi Jasão,
quando retornou de sua busca pelo velocino de ouro. Entre os tripulantes de sua
embarcação, encontrava-se Orfeu, um artista de talento incomparável que tocava lira
e flauta. Sua música era conhecida como a mais linda e harmoniosa do mundo antigo.
Então, em vez de usar a estratégia de Ulisses, Jasão pediu a Orfeu que tocasse as
canções mais formosas e encantadoras de seu repertório; dessa forma, o canto das
sereias ficou completamente ofuscado. As sereias não haviam perdido a capacidade
de sedução, mas esses homens haviam sido cativados por um som infinitamente
superior.
Como bem assinala Sam Storms, Ulisses sobreviveu ao som das sereias,
mas Jasão triunfou sobre elas;19 e é esse tipo de vitória que Deus provê no
evangelho. É a vitória do crente que chegou a entender que nada do que este
mundo lhe promete pode comparar-se com a vida abundante que Cristo
oferece.
Não recomendo usar sempre ilustrações tão extensas, mas acredito que,
nesse dia, todos saíram da igreja entendendo melhor o que eu vinha expondo
até aquele momento, contra o legalismo e a favor da obediência evangélica.
Mais ainda, acredito que a ilustração os impactou no nível volitivo e
emocional para rejeitar o legalismo e abraçar a obediência evangélica de todo
o coração.
Devemos escrever o sermão completo ou fazer apenas um esboço?
No capítulo 14 falaremos mais amplamente sobre o uso das anotações no
púlpito. A pergunta à qual quero responder agora é acerca da extensão das
anotações que escrevemos quando estamos preparando o sermão. Devemos
escrever tudo o que tentamos dizer, palavra por palavra, ou devemos limitar-
nos a um esboço geral? Quando comecei a pregar, há 34 anos, costumava
anotar apenas os pontos principais e suas divisões, caso houvessem, junto
com a introdução e a conclusão. Mas logo percebi que precisava escrever
mais, para ser mais direto e preciso em minha pregação. Com o passar do
tempo, minhas anotações foram se tornando mais extensas até alcançar umas
dez páginas em Times New Roman 14 . Isso, como muitas outras, tem suas
vantagens e desvantagens.
Uma das vantagens é que posso elaborar melhor meus argumentos e minhas
frases, com vistas a ser mais preciso e contundente na apresentação. Outra
vantagem é que posso usar minhas anotações muito tempo depois, até mesmo
melhorá-las, porque, na maioria dos casos, não tenho de voltar a passar o
mesmo número de horas estudando a passagem, como quando o fiz pela
primeira vez.
Uma das desvantagens é que podemos chegar a depender tanto dessas
anotações que não apenas perdemos o contato visual com o auditório, como
também desvirtuamos a natureza da pregação. Ler um sermão não é a mesma
coisa que pregar. Outra desvantagem é usarmos uma linguagem literária no
púlpito, mais próxima de um ensaio que de uma pregação. No entanto, a
maior desvantagem é que dependamos tanto das anotações que não
dependamos do Espírito Santo nem estejamos abertos à sua orientação
enquanto interagimos com o auditório. Quando estamos no púlpito, surgem
pensamentos e emoções que impactam a pregação. Da mesma forma, os
olhares de perplexidade, de assombro e até mesmo de desinteresse que
percebemos nos ouvintes podem desviar-nos a lugares que não havíamos
previsto. O manuscrito do pregador não pode ser uma camisa de força que lhe
roube a liberdade enquanto prega.
Então, o que devemos fazer? “Conheça a si mesmo” e desenvolva uma
metodologia que lhe permita ser um pregador eficaz. Se sua tendência é
divagar muito e se você tem dificuldade para encontrar palavras quando os
olhares do auditório estão sobre você, talvez seja interessante escrever
amplamente um sermão, e não limitar-se a um esboço. Se sua decisão é
escrever, quero dar alguns conselhos que podem salvá-lo das desvantagens de
um manuscrito extenso:
1. Escreva como você fala normalmente, e não como se estivesse
escrevendo um ensaio.
2. Aproprie-se da mensagem em sua mente e em seu coração. Isso não
significa que você não deva memorizá-la, mas, sim, interiorizá-la,
meditando a seu respeito até se transformar em um peso que deve ser
passado adiante. Não obstante, recomendo que sejam memorizados os
pontos principais de seu esboço.
3. Se a intenção é levar o manuscrito ao púlpito, use um tamanho de letra
que permita ler as notas sempre que necessário, sem que tenha de se
esforçar para ler palavra por palavra. Por essa mesma razão, recomendo
que não redija parágrafos muito longos. No meu caso, limito-me a
parágrafos que não excedam cinco linhas.
4. Também considero de grande ajuda terminar cada página de minhas
anotações com uma frase completa. Dessa forma, se tenho de recorrer ao
último parágrafo de uma página, posso visualizá-lo como um todo, sem a
necessidade de passar para a próxima página.
Trabalhemos em nosso sermão expositivo
Não é necessário escrever nada ao final deste capítulo, porque espero que
o sermão incluído no capítulo 15 exemplifique os pontos aqui abordados.
Capítulo 12
Aplique o sermão
“A aplicação é a avenida que liga a cabeça ao coração.
É a ponte que conecta as noções corretas da verdade bíblica com os afetos adequados e
a vontade correta, em virtude da verdade estabelecida. A aplicação é esse aspecto da
pregação mediante o qual seus ouvintes são levados a sentir que não somente você está
declarando coisas verdadeiras e boas, mas também que está proclamando coisas
essenciais para seus corações. Se a verdade é o prego, a aplicação é o martelo com o
qual a verdade é fixada no coração dos ouvintes.”
Albert N. Martin

“O grande propósito do pregador é restaurar o trono e o domínio de Deus nas almas


dos homens.”
John Piper

Um sermão sem aplicação é como uma carta sem endereço: pode até
conter boas ideias, mas não chegará a lugar algum. Cícero, o grande orador
da antiguidade, disse que “um homem eloquente deve falar de tal forma que
ensine, deleite e persuada”. Quanto mais o pregador! O sermão não só deve
mostrar ao auditório como aplicar a verdade pregada, como também deve
persuadi-lo à ação. Porém, aplicar não é tão simples quanto parece à primeira
vista. Por isso decidi abordar esse assunto em um capítulo separado. Não só
pela importância do tema, mas também por sua complexidade.
Como extrair a aplicação do texto bíblico em vez de forçá-la no texto?
Como aplicar a verdade de Deus às diversas necessidades da congregação?
Como aplicar sem cair no legalismo? Algumas pessoas podem ir além e
perguntar: devemos esforçar-nos para aplicar a mensagem das Escrituras? Por
acaso, essa não é a função do Espírito Santo? Não poucas vezes as aplicações
foram censuradas, como se fossem opostas à pregação cristocêntrica. Brian
Borgman diz a esse respeito:
Indubitavelmente, os pregadores bíblicos deveriam denunciar a pregação legalista e
moralista, mas também aquela que suprime a aplicação pelo temor de cair no
legalismo ou no moralismo. Podemos pregar Cristo (sinônimo de pregar todo o
conselho de Deus; compare com Cl 1.28; At 20.27) e aplicar a verdade com poder.
Quando tivermos efetuado a aplicação, poderemos dizer efetivamente que Cristo foi
pregado aos corações dos homens.1
Sabemos que o Espírito Santo é quem aplica a verdade ao coração dos
homens. Mas não podemos dizer a mesma coisa de todos os outros elementos
do sermão? O Espírito é quem ilumina o entendimento, mas nós devemos
esforçar-nos para ser claros e simples ao pregar. Como disse Borgman: “O
mesmo Espírito que aplica a verdade também deixou testemunho nas
Escrituras e na história acerca do tipo de pregação que ele prega!”.2
“Toda a Escritura é inspirada (...) e útil”, diz Paulo em 2Timóteo 3.16 e,
sobre essa base, exorta Timóteo mais adiante: “Prega a Palavra, insta, quer
seja oportuno, quer não, corrige, repreende, exorta com toda a longanimidade
e doutrina” (2Tm 4.2). O expositor bíblico deve não somente mostrar o
significado da passagem, como também sua relevância atual.
A intencionalidade por trás das palavras
Em sua importante obra sobre aplicação bíblica, Daniel Doriani nos lembra
que, “em condições ordinárias, os comunicadores tentam fazer algo com suas
palavras” (tradução do autor).3 Isso quer dizer que, quando falamos ou
escrevemos de acordo com as convenções da comunicação, escolhemos
palavras que transmitam um significado que nossa audiência considerará
relevante para que, assim, possa alcançar algum propósito ou efeito ”
(tradução do autor).4
Mesmo os comentários mais triviais têm a intenção de produzir um efeito
nos ouvintes. Considere os seguintes exemplos utilizados por Doriani para
ilustrar esse assunto.5 O pai sai do seu quarto e, ao passar pelo banheiro, diz a
um de seus filhos: “Há uma toalha molhada no chão”. O filho olha e
responde: “Sim, papai, há uma toalha molhada no chão”. Será que o pai
ficará satisfeito com o fato de o filho concordar com ele quanto à posição e à
condição da toalha? Provavelmente não. Seu comentário tem a intenção de
levar o filho a recolhê-la e colocá-la no lugar adequado. Essa é a aplicação
que o pai espera que o filho tire de suas palavras.
Outra cena comum. A mãe diz em voz alta: “O jantar estará pronto em
cinco minutos”. Não é preciso dizer que todos devem preparar-se a tempo
para o jantar. A aplicação está implícita no contexto. Quando todos se
sentarem à mesa, e tendo terminado de orar, e ela disser a um dos sobrinhos
que veio visitá-los: “Robertinho, aqui está o pato”. Se Robertinho responder:
“Sim, tia, a senhora tem razão, o pato está aí”, ficará evidente que ele não
captou a mensagem, porque a intenção não era confirmar pela boca de duas
testemunhas o paradeiro da ave, mas um convite para que ele se sirva de um
pedaço.
Quando a comunicação integra o diálogo, o processo de entender e aplicar
o que se diz é mais fácil porque podemos esclarecer com a pessoa que fala o
que ela quer dizer realmente. Mas, quando se trata de um documento escrito,
o assunto fica um pouco mais difícil, porque o interlocutor não está presente
“para esclarecer as ambiguidades, interpretar os sinais de expressão, insistir
no que quer dizer ou indicar o significado” (tradução do autor).7 Porém, uma
vez que a Bíblia é a Palavra de Deus escrita, não somente devemos pressupor
que tudo o que ela diz tem significado, propósito e relevância, como também
podemos entender seu conteúdo fazendo uso de uma hermenêutica sã, porque
Deus não está brincando de esconde-esconde conosco; sua Palavra é uma
revelação, e não uma charada.
“Por acaso você não leu?”
Nos Evangelhos, encontramos Jesus em várias ocasiões repreendendo os
líderes religiosos de Israel por sua incapacidade de entender e aplicar
corretamente as Escrituras. Em pelo menos cinco ocasiões, Jesus usa contra
eles a seguinte pergunta retórica: “Acaso não lestes?” ou “Nunca lestes”?.8
Eles conheciam o Antigo Testamento, mas, em muitas ocasiões, perderam de
vista seu verdadeiro significado, principalmente no que concerne à Pessoa e à
obra do Messias. Sua falta de entendimento não lhes permitia aplicar
corretamente a Palavra de Deus.
Exemplo #1: uma das perguntas retóricas encontramos na passagem de
Mateus 19.4. Os fariseus se aproximaram do Senhor para perguntar acerca do
divórcio: “É lícito ao marido repudiar a sua mulher por qualquer motivo?”
(Mt 19.3). Jesus lhes respondeu: “Não tendes lido que o Criador, desde o
princípio, os fez homem e mulher e que disse: Por esta causa deixará o
homem pai e mãe e se unirá a sua mulher, tornando-se os dois uma só carne?
De modo que já não são mais dois, porém uma só carne. Portanto , o que
Deus ajuntou não o separe o homem” (Mt 19.4-6, grifo aposto). Esse
portanto desempenha papel de suma importância nessa passagem, pois nos
mostra a intenção original de Deus ao estabelecer a instituição do matrimônio
como a união de um homem e uma mulher, que deve continuar “até que a
morte os separe”.
Não obstante, eles insistem em perguntar: “Por que mandou, então, Moisés
dar carta de divórcio e repudiar?” (Mt 19.7). Os fariseus aludem a uma
passagem que se encontra em Deuteronômio 24.1-4, em que Moisés regula o
divórcio com a intenção de freá-lo, e não de promovê-lo. Mas alguns fariseus
haviam transformado essa regulamentação em uma permissão para que os
homens se divorciassem de suas esposas por qualquer motivo. Se tivessem
entendido e aplicado de maneira correta a passagem de Gênesis 2.24, não
teriam chegado a essa conclusão. Estavam aplicando mal as Escrituras e Jesus
os repreendeu por isso.
Exemplo #2: outro desses incidentes pode ser encontrado em Mateus 12.1-
8. Era dia de repouso e os discípulos de Jesus estavam arrancando espigas
para comer. Imediatamente, aparece “a Gestapo da santidade”, os fariseus, e
repreendem Jesus por permitir tal “sacrilégio” no sábado: “Eis que os teus
discípulos fazem o que não é lícito fazer em dia de sábado” (Mt 12.2). A
resposta de Jesus deve ter caído sobre eles como uma bomba:
Mas Jesus lhes disse: Não lestes o que fez Davi quando ele e seus companheiros
tiveram fome? Como entrou na Casa de Deus, e comeram os pães da proposição, os
quais não lhes era lícito comer, nem a ele nem aos que com ele estavam, mas
exclusivamente aos sacerdotes? Ou não lestes na Lei que, aos sábados, os sacerdotes
no templo violam o sábado e ficam sem culpa? Pois eu vos digo: aqui está quem é
maior que o templo (Mt 12.3-6, grifo aposto).
Os rabinos aceitavam que os deveres relacionados ao templo
predominavam sobre as regulamentações relativas do dia de repouso. Em
outras palavras, o serviço no templo legitimava o fato de que os sacerdotes
trabalhassem no dia de repouso sem culpa, pois esse espaço representava a
presença especial de Deus com seu povo. Portanto, os discípulos de Jesus
teriam um direito ainda maior de fazer o que estavam fazendo para servir
àquele que é a presença de Deus! A implicação do Senhor é clara: os rabinos
deveriam ter entendido melhor o Antigo Testamento para poder aplicar
corretamente, mas seus preconceitos pecaminosos os impediam disso.
Qual é a relação entre interpretação e aplicação?
Antes de explicar como podemos aplicar as Escrituras, vejamos como a
interpretação da passagem e sua aplicação se relacionam entre si.
Compreender como interagem ambos os elementos nos ajudará na tarefa de
passar da interpretação à aplicação. Doriani resume as possibilidades em três
pontos de vista:
1. A perspectiva tradicional: primeiro a exegese, depois a aplicação
A perspectiva tradicional nos diz que o processo de interpretação tem dois
aspectos. O primeiro é a exegese, que nos ajuda a entender o significado de
um texto bíblico em seu próprio contexto. Em segundo, vem a aplicação, que
nos ajuda a ver quais são as implicações ou a relevância da verdade bíblica
para nós hoje. “Se a exegese descreve, a aplicação prescreve” (tradução do
autor).9 A força dessa perspectiva é óbvia: não podemos saber como aplicar o
que não entendemos.
No entanto, o teólogo e filósofo norte-americano John Frame propõe
“eliminar totalmente esta distinção entre significado e aplicação”, sob a
justificativa de que “o significado da Escritura é sua aplicação” (tradução do
autor).10
2. Uma contraproposta: o significado é a aplicação
De acordo com essa perspectiva, estabelecer uma diferenciação tão
marcante entre a interpretação e a aplicação não faz justiça à Escritura nem à
prática de muitos bons intérpretes. “Somente entendemos a Escritura”, diz
Frame, “quando sabemos como usá-la” (tradução do autor).11 O exemplo a
seguir pode ser útil para visualizarmos a relação estreita entre interpretação e
aplicação.
A Bíblia diz que devemos deixar a mentira e falar “a verdade, cada um com
seu próximo” (Ef 4.25). Uma senhora da igreja que sabia que não devia
mentir usava a seguinte tática para evitar ligações telefônicas indesejadas:
quando alguém atendia o telefone e dizia que era para ela, a mulher saía de
casa e gritava da rua: “Diga que eu saí”. Provavelmente Frame, referindo-se à
atuação dessa pessoa, perguntaria: “Está falhando em aplicar o mandamento
ou em entendê-lo ?”.
3. Uma síntese: unindo significado e aplicação
Como disse anteriormente, os que defendem a posição tradicional afirmam
que ninguém pode aplicar, de maneira apropriada, uma passagem das
Escrituras sem antes entender seu significado, e eles têm razão. “Quanto
melhor entendermos um texto em seu contexto original, com mais precisão
veremos sua relevância atual” (tradução do autor).12 Frame, porém,
argumenta que, se não somos capazes de aplicar o texto bíblico, não
entendemos realmente seu significado.13 O problema é que ambas as posturas
estão corretas.
É por isso que Doriani propõe uma síntese entre as perspectivas,
considerando, por um lado, que “a aplicação sã não pode ocorrer sem uma
correta exegese”; e, por outro lado, que a linha que separa a exegese da
aplicação é “tênue e permeável” (tradução do autor).14 Podemos começar a
entender o significado de uma passagem e, ainda assim, ter dificuldade para
ver sua relevância atual; mas, à medida que vamos entendendo sua aplicação,
compreendemos melhor seu significado. Dessa forma, a exegese e a
aplicação, mesmo sendo aspectos diferentes, com frequência coincidem.
Existe uma linha tênue que as separa, mas, algumas vezes, é difícil discerni-
la.
Aplicar a Escritura conforme a intenção geral da Escritura
Uma das coisas que quase todo pregador aprecia é que as pessoas digam, no
final do culto, que o sermão as ajudou, ou que “era exatamente o que
precisavam ouvir”. Não há nada de mal nisso. Mas devemos lembrar que a
opinião das pessoas não é uma unidade infalível de medida para saber se um
sermão foi realmente eficaz, no melhor sentido do termo. O seguinte
comentário de Graeme Goldsworthy é pertinente:
Muitas vezes o sermão é considerado eficaz porque o pregador nos estimulou e
entreteve; ou talvez nos pareça correto porque confirma nossas ideias preconcebidas
ou nossos preconceitos. O pregador deve ter cuidado, pois as muitas felicitações e
conversas sobre “o bom sermão”, e sobre como o Senhor nos abençoou durante sua
pregação, podem ser sedutoras. Pode ser que as pessoas estejam expressando sua
aprovação mediante argumentos puramente pragmáticos.15
Como avaliar, então, a eficácia do sermão? Um sermão é eficaz quando o
pregador é capaz de aplicar as Escrituras conforme a intenção das Escrituras.
Deus nos fala através de sua Palavra com dois propósitos: para que o
conheçamos como redentor e para que sejamos transformados conforme a sua
imagem. Esta é a meta da redenção: sermos conformados à imagem de Cristo,
o qual, por sua vez, é a imagem de Deus (Rm 8.29; 2Co 3.18; Ef 4.22-24; Cl
3.9-10). Essa deve ser também a meta de aplicação na pregação das
Escrituras. “A meta é conhecer a Deus, amá-lo (Dt 6.5; Mt 22.37), crer nele
(Jo 20.31), caminhar com ele fielmente (Mq 6.8) e nos tornar mais
semelhantes a ele” (traduzido pelo autor).16
As implicações derivadas desse propósito geral das Escrituras são variadas
e, portanto, as aplicações que extraímos das passagens bíblicas também serão
variadas. Mas é muito importante que o pregador entenda o que ele quer
alcançar com seu ministério de pregação a longo prazo, mesmo quando ele
declara as demandas éticas das Escrituras. “Honramos a lei, diz Doriani,
porque exaltamos o Deus que a deu e que se revela nela. Honramos a virtude
porque a virtude está em conformidade com o caráter de Deus (...). Essa meta
dupla de conhecer a Deus e conformar-nos à sua imagem satura a Escritura,
desde o Éden e o Sinai até o ensino de Jesus e de Paulo” (tradução do
autor).17
A Bíblia é relevante porque produz este duplo efeito: de nos levar ao
conhecimento de Deus e de nos conformar a ele. Podemos ser mais
específicos e dizer que amar a Deus e obedecer a ele significam “obedecer a
Cristo, crendo nele, escutando-o, imitando-o e seguindo-o” (tradução do
autor).18 As aplicações do sermão devem estar conectadas com o evangelho,
pois o conhecimento de Deus e nossa transformação à sua imagem “começam
e terminam com sua graça” (tradução do autor).19 O evangelho é o que
determina se a mensagem foi realmente relevante ou não. O seguinte
comentário de Goldsworthy é extenso, mas vale a pena lê-lo com atenção:
Seria mais fácil motivar uma congregação de crentes maduros e esperançosos com
uma Bíblia aberta do que um grupo não comprometido que vive em uma cultura de
gratificação instantânea. Quanto mais longe estiverem de ter um marco mental
orientado pelo evangelho, mais difícil será motivá-los a escutar a exposição da
Palavra de Deus. Assim, muitas vezes começamos pela parte mais difícil.
Começamos por um problema ou necessidade frequente, seja qual for, que pode ser
baixa autoestima, direito dos animais ou ainda o aquecimento global. Não há nada de
ruim em abordar esses temas (...) mas, a menos que o problema seja redefinido pelo
evangelho, corremos o risco de reduzir a mensagem cristã a algo que nos ajude a nos
sentir melhor ou faça do mundo um lugar melhor.
O evangelho não só define o problema e a resposta de Deus a esse
problema, como também define os termos cristãos usados para avaliar os
sermões (...) As primeiras perguntas que devemos fazer não devem ser: “Qual
foi a melhor parte?”, “Isso ajudou?” ou “Fomos abençoados?”, mas: “De que
forma o estudo ou sermão deu testemunho de Cristo e de seu evangelho como
poder de Deus para a salvação?”20
Como já dissemos mais de uma vez neste livro, a pregação expositiva deve
ser cristocêntrica porque a Bíblia é cristocêntrica, e deve manifestar-se
também em nossas aplicações.
Exemplo: vamos supor que estamos expondo a passagem de 1 Timóteo 4.7:
“Exercita-te, pessoalmente, na piedade”. É óbvio que existem algumas coisas
que devemos fazer de maneira regular e intencional se quisermos ver
mudanças significativas e duradouras em nossas vidas; chamamos isso de
“disciplinas espirituais”: ler a Bíblia, orar e adorar a sós, jejuar, ler livros
edificantes. Da mesma forma, devemos participar da adoração e da oração
coletiva, das ordenanças do batismo e da Ceia do Senhor, da comunhão com
os irmãos etc.
Ao aplicar essa passagem, é muito importante entendermos o papel dessas
disciplinas em nosso crescimento espiritual, pois, devido à tendência de
nossos corações ao legalismo, podem converter-se com facilidade em um
meio de encontrar o favor de Deus, como se o simples fato de ler a Bíblia,
orar, jejuar ou frequentar a igreja fielmente sejam obras meritórias que fazem
com que Deus nos ame mais.
Se o crente cair nessa armadilha, logo estará perguntando: quanto devo
investir para chegar a merecer o amor de Deus? Quando comparamos a
magnitude da santidade de Deus com nossos esforços, tão pequenos,
rapidamente percebemos que nosso melhor desempenho nunca poderá
preencher a medida de Deus. Essa forma de abordar a vida cristã sempre
termina em frustração (a menos que enganemos a nós mesmos).
Bryan Chapell nos dá uma perspectiva diferente do amor de Deus que nos
ajuda a ver como essas disciplinas, ou meios da graça, operam em nosso
crescimento espiritual. Em vez de contemplar o amor de Deus como um poço
distante, ao qual só podemos chegar empregando um esforço interminável,
devemos vê-lo como o ar que nos rodeia. Dessa forma, não perceberíamos os
meios da graça como os passos que produzem o amor de Deus por nós, mas,
sim, como o meio para fazer uso pleno da provisão que já nos rodeia por
todas as partes” (tradução do autor).21
O amor de Deus em Cristo é inesgotável. Praticar a disciplina espiritual é
como abrir nossas bocas para respirar todos os recursos de amor que ele nos
deu. “Abrir nossas bocas em oração e louvor não produz mais amor de Deus
por mim, assim como abrir minha boca não faz que o ar exista em maior
quantidade. Os meios da graça apenas me permitem experimentar a plenitude
do amor que Deus já nos deu de maneira plena e completa” (tradução do
autor).22 Ao aplicar a passagem dessa forma, ajudamos os crentes a
enxergarem, através do evangelho, a demanda que ela contém, em vez de
contribuir para a tendência ao legalismo, a qual, certamente, já está operando
em seus corações.
Um foco variado de aplicações
Alguns pregadores tendem a comparar a aplicação com o oferecimento aos
crentes de uma lista de regras às quais devem obedecer. Isso conduz a dois
grandes erros: limitar, de maneira considerável, as diversas formas como a
Bíblia pode ser aplicada, a fim de suprir as variadas necessidades do
auditório, e voltar periodicamente às mesmas afirmações: devemos orar mais,
evangelizar mais, ler mais a Bíblia, ofertar mais, ser melhores esposos,
melhores esposas e coisas desse tipo. Com o tempo, sua pregação se torna
previsível e maçante; e, o que é pior, você fracassará em ajudar os crentes a
seguir avançando até a maturidade cristã, como veremos adiante.
Daniel Doriani sugere as seguintes perguntas como uma ajuda para nosso
enfoque nas aplicações:
1. O que devo fazer? Ou seja, qual é meu dever?
2. O que devo ser? Ou seja, como posso chegar a ser alguém com o caráter que me
permitirá fazer o que é correto?
3. A qual causa devo dedicar minha vida e minhas energias? Ou seja, quais são as
metas que devo perseguir?
4. Como posso diferenciar a verdade do erro? Ou seja, como posso adquirir
discernimento?
Esse enfoque quádruplo não precisa estar presente em cada um de nossos
sermões. Eles nos servem apenas de guia, para que tenhamos uma gama
maior de aplicações na pregação da Palavra. “Se respondermos a essas quatro
perguntas de modo consistente, escaparemos do lugar-comum de alguns
temas preferidos, e nossas mensagens crescerão em variedade e
profundidade” (tradução do autor).23 Por outro lado, contribuirão para a
maturidade das pessoas a quem estamos ministrando, ajudando-os na
formação de um caráter piedoso e no desenvolvimento do discernimento. O
autor da epístola aos Hebreus descreve os crentes que alcançaram a
maturidade como aqueles “que, pela prática, têm as suas faculdades
exercitadas para discernir não somente o bem, mas também o mal” (Hb 5.14).
Princípios para aplicar as Escrituras
Em primeiro lugar, aplique a Escritura a si mesmo . Já dissemos, no capítulo
5, que a autoridade do pregador é fortalecida ou debilitada de acordo com o
compromisso que os demais percebem em sua própria vida de obediência à
Palavra pregada. Ainda que todos nós levemos o evangelho com mãos
contaminadas (tradução do autor),24 como nos lembra o antigo presidente do
Calvin Theological Seminary, em Michigan, Cornelius Plantinga, o homem
de Deus deve estar comprometido com a santidade de sua vida, em
dependência do Espírito Santo. “A eloquência”, diz Richard Dabney, “pode
deslumbrar e agradar; a santidade de vida, por sua vez, convence” (tradução
do autor).25 Nenhum pregador é “impecável”, mas deve ser evidente para
nossa congregação que não nos colocamos acima das Escrituras; somente nos
submetemos humildemente à voz de Deus, que escutamos através de sua
Palavra. A esse respeito, Byron Yawn diz:
Seus ouvintes sentem-se animados quando percebem o impacto da verdade sobre a
vida de seu pastor. Primeiro, ela deve afetar você. Como um som que viaja por um
espaço determinado, o sermão é o impacto da verdade na vida de um pregador que
caminhou sobre ela por uma semana. Quando chega aos ouvidos e corações das
pessoas no domingo, é poderoso.
Mas esse compromisso com a santidade não apenas impacta sua autoridade
diante da congregação, como também seu próprio entendimento das
Escrituras. Paulo exorta Timóteo a combater o bom combate, “mantendo fé e
boa consciência, porquanto alguns, tendo rejeitado a boa consciência, vieram
a naufragar na fé” (1Tm 1.19). Quando o Novo Testamento fala sobre “a fé”,
fazendo uso do artigo definido, geralmente refere-se ao conteúdo de nossa fé,
àquilo que cremos. Timóteo deveria manter-se fiel ao conteúdo de sua fé, ou
seja, às doutrinas nas quais havia crido, mas também deveria manter a
consciência limpa; em outras palavras, deveria esforçar-se para viver uma
vida coerente com as doutrinas que professava crer. Foi por desprezar a boa
consciência que alguns naufragaram quanto à fé, como fora o caso de
Himeneu e Alexandre, que Paulo menciona no versículo 20. Se não nos
esforçarmos para moldar nossas vidas conforme as Escrituras, cedo ou tarde
terminaremos distorcendo as Escrituras para encaixá-las em nossas vidas.
Em segundo lugar, as aplicações devem estar conectadas com a mensagem
de seu texto . David Helm menciona o caso de pregadores que descrevem seu
tempo de preparação das aplicações da seguinte forma:
Sentam-se em seu escritório com os olhos fechados, a cabeça para trás, o rosto
voltado para o teto. Sussurram para si mesmos coisas como: “Agora, eu sei que
Bobby estará ali. Ele tem 13 anos e está enfrentando uma crise de identidade (...)
Como posso aplicar isso ao seu coração? E Billy-Sue estará ali, bendito seja seu
coração, que está lutando contra a depressão...”. Essa estratégia altamente
contextualizada tem um lugar, mas não deve ter um papel principal. O pregador pode
servir melhor ao seu povo com os olhos abertos e com seu olhar fixo no texto .27
Lembre-se de que você está aplicando a mensagem das Escrituras; e
certifique-se de que as aplicações apresentadas à congregação estejam em
consonância com o conteúdo e a intenção da passagem. No entanto, é
importante ressaltar que estamos pregando para pessoas com necessidades
específicas; disso, parte o princípio a seguir.
Em terceiro lugar, aplique as Escrituras com um coração pastoral. Quanto
mais próximo o pastor estiver da vida e do coração das ovelhas, mais bem
equipado estará para aplicar, de modo eficaz, a mensagem das Escrituras.
Como em muitos outros aspectos do ministério cristão, o apóstolo Paulo é um
modelo a seguir. Escrevendo aos cristãos em Tessalônica, ele diz:
Assim, querendo-vos muito, estávamos prontos a oferecer-vos não somente o
evangelho de Deus, mas, igualmente, a própria vida; por isso que vos tornastes muito
amados de nós. Porque, vos recordais, irmãos, do nosso labor e fadiga; e de como,
noite e dia labutando para não vivermos à custa de nenhum de vós, vos proclamamos
o evangelho de Deus. Vós e Deus sois testemunhas do modo por que piedosa, justa e
irrepreensivelmente procedemos em relação a vós outros, que credes. E sabeis, ainda,
de que maneira, como pai a seus filhos, a cada um de vós, exortamos, consolamos e
admoestamos, para viverdes por modo digno de Deus, que vos chama para o seu
reino e glória (1Ts 2.8-12).
Quando a congregação percebe esse tipo de amor em seus pastores, torna-se
mais receptiva e com o coração aberto para receber suas instruções e
exortações.
Em quarto lugar, procure variar em suas aplicações, tanto no conteúdo
como na forma. Como já vimos, devemos evitar repetir os mesmos temas em
nossas aplicações. Mas também devemos variar a forma como introduzimos o
sermão. Alguns pregadores sempre guardam as aplicações para o final,
porém, em algumas ocasiões, é mais conveniente que as apliquemos à medida
que vamos expondo a mensagem, mesmo quando reservamos para o final um
apelo mais forte e contundente. “Inclusive pode-se citar o caso”, diz Brian
Borgman, “de que um sermão comece com uma reflexão ou pergunta como
aplicação. O conselho aqui é simplesmente evitar que o sermão seja
previsível, e manter a novidade”.28
Em quinto lugar, ore ao Senhor para que lhe dê sabedoria na aplicação de
sua Palavra de forma adequada. Aplicar as Escrituras requer sabedoria e
perspicácia. E Deus prometeu dar ambas aos que pedirem (Tg 1.5).
Em sexto lugar, ore também para que possa ver-se livre do temor aos
homens. Todo pregador deve anelar poder dizer como Paulo: “Pois a nossa
exortação não procede de engano, nem de impureza, nem se baseia em dolo;
pelo contrário, visto que fomos aprovados por Deus, a ponto de nos confiar
ele o evangelho, assim falamos, não para que agrademos a homens, e sim a
Deus, que prova o nosso coração” (1Ts 2.3-4). Na epístola aos Gálatas, ele é
ainda mais contundente: “Porventura, procuro eu, agora, o favor dos homens
ou o de Deus? Ou procuro agradar a homens? Se agradasse ainda a homens,
não seria servo de Cristo” (Gl 1.10). Que Deus nos conceda sabedoria,
perspicácia e coragem para aplicar sua Palavra ao coração daqueles que nos
ouvem!
Trabalhemos em nosso sermão
Existem três passagens nas Escrituras que nos ajudam a ver a relevância
de Êxodo 17.1-7, texto no qual estamos trabalhando: Salmos 95, Hebreus
3 e 1Coríntios 10.
No Salmo 95, o salmista aplica a história narrada em Êxodo 17.1-7,
chamando os israelitas de sua geração a vir diante de Deus com uma
atitude de adoração e com o coração submisso, por ter o grande privilégio
de haver sido escolhido como “o povo de seu prado” e “ovelhas de suas
mãos”; e, ao mesmo tempo, mostra o perigo de reagirmos à voz de Deus
com incredulidade e com dureza de coração quando estamos em meio a
provações.
O autor da epístola aos Hebreus cita Salmos 95 para fazer uma
aplicação similar; ao citar os versículos 7 e 11 do salmo, o autor da carta
adverte os leitores: “Tende cuidado, irmãos, jamais aconteça haver em
qualquer de vós perverso coração de incredulidade que vos afaste do
Deus vivo; pelo contrário, exortai-vos mutuamente a cada dia, durante o
tempo que se chama Hoje, a fim de que nenhum de vós seja endurecido
pelo engano do pecado” (Hb 3.12-13).
Paulo também faz alusão a essa passagem, em 1Coríntios 10, não
somente para indicar que Cristo é a Rocha da qual seu povo bebeu, mas
também para advertir que não devemos menosprezar nossos privilégios,
como fizeram os israelitas no deserto, e que nos guardemos da cobiça, da
idolatria e da murmuração.
Esta passagem pode ser usada para:
1. Despertar os cristãos à adoração e à gratidão a Deus, por nos
amar por pura graça e por nos conceder o enorme privilégio de ser
parte de seu povo escolhido (Sl 95.1-7).
2. Produzir nos cristãos apreço pela pessoa de nosso Senhor Jesus
Cristo, a Rocha que foi ferida por causa de nossa salvação (1Co
10.4).
3. Advertir-nos contra a murmuração, a incredulidade e a falta de
mansidão diante das provas de aflição (1Co 10.6-11).
4. Advertir-nos contra a dureza do coração que se recusa a escutar
as admoestações divinas e que procede à apostasia, ao se apartar
completamente do Deus vivo (Hb 3.12-13).
5. Chamar os incr édulos ao arrependimento e à fé.
Capítulo 13
Prepare a introdução
e a conclusão
“A introdução é para o sermão a mesma coisa
que o chute inicial e a corrida são para um jogo de futebol (...); como os disparos
iniciais de uma batalha ou como sair de um porto em viagem pelo oceano. É o tempo
que faz com que todos fiquem atentos e se preparem para o que vem a seguir.”
Richard L. Maybue

Tanto a introdução como a conclusão de um sermão devem ser escritas


quando já temos uma ideia clara do que vamos pregar. Isso não significa que
só devemos redigir a introdução quando o corpo do sermão estiver
completamente pronto, embora isso fosse o ideal. No entanto, devemos ter ao
menos os pontos principais da estrutura antes de nos aventurar a redigir a
introdução. A introdução do sermão é muito importante, razão pela qual não
devemos nos descuidar dela na fase de preparação.
Como alerta John Broadus, os homens têm uma aversão natural ao abrupto
e desfrutam de uma abordagem gradual. Um edifício não terá uma aparência
agradável, a menos que tenha um portal ou uma entrada elegante e
convidativa. Uma boa obra musical sempre terá um prelúdio de pelo menos
algumas notas introdutórias.1
Uma boa introdução não somente introduz; ela também capta a atenção
Uma boa introdução é aquela que contém, no mínimo, três propósitos: 1)
despertar o interesse dos ouvintes para o assunto que vamos expor; 2)
apresentar o tema; 3) preparar o auditório para entendê-lo. O professor de
Homilética James Braga diz que, ao começar o sermão, o pregador deve
assegurar-se de que sua introdução tenha “garras de ferro” para cativar
imediatamente seu auditório.2 Paul O’Neil, escritor da revista Life , é menos
sutil: “Agarre o leitor pela garganta no primeiro parágrafo, afunde os dedos
em sua traqueia no segundo e mantenha-o entre a espada e a parede até a
última linha!”.3
Quando nos colocamos atrás do púlpito, não devemos pensar que todo
mundo está preparado para receber a pregação e prestar atenção. Na verdade,
devemos supor que alguns ouvintes não terão o menor interesse em nos
escutar! A introdução deve persuadir o auditório de que o que vem a seguir é
digno de ser ouvido.
Alguns princípios gerais sobre a elaboração da introdução
Em primeiro lugar, a introdução deve estar intimamente relacionada com o
tema do sermão, mas, ao mesmo tempo, deve ser diferente dele. Não
devemos antecipar o que corresponde realmente ao corpo do sermão. A
introdução prepara o auditório para o que vamos mencionar, mas não pode
entrar no desenvolvimento do assunto.
Em segundo lugar, de modo geral, a introdução deve ser breve. Digo de
modo geral porque existem casos especiais em que o tema requer uma
introdução mais extensa do que de costume, mas esses casos deveriam ser
escassos. Infelizmente, esse erro é bastante comum, especialmente entre os
pregadores jovens. Como diz Broadus: “Para cada sermão que peca por ter
uma introdução abrupta, existem outros cem que pecam por ter um prefácio
longo demais”.4
Em terceiro lugar, a introdução deve conter uma só ideia completa . Deve
levar-nos ao corpo do sermão, e não a outra introdução. O princípio que
estamos aplicando aqui é muito simples: não há motivo para construir um
alpendre que nos leve a outro alpendre.5 Isso é o que costuma acontecer
quando a introdução é longa e complexa; esse tipo de introdução faz com que
o ouvinte sinta que o colocaram em um labirinto do qual não sabe como sair,
nem mesmo em que momento acabará. Os labirintos são bons para
brincadeiras de esconde-esconde; não para os sermões. Assim que tenhamos
conseguido chamar a atenção do nosso auditório, depois de termos orientado
a audiência para o tema a ser exposto, devemos concentrar-nos
imediatamente no corpo do sermão. Se continuamos rodeando o assunto,
teremos uma introdução muito longa e perderemos o interesse de nossos
ouvintes.
Em quarto lugar, a introdução deve ser interessante . James Braga diz o
seguinte: “Os primeiros minutos do sermão são cruciais. Nesse tempo, o
ministro pode ganhar ou perder a atenção da congregação”.6 Haddon
Robinson diz com muita propriedade: “Existem três tipos de pregadores:
aqueles que não podemos escutar, aqueles que podemos ouvir e os outros que
não podemos deixar de escutar. É quase sempre na introdução que a
congregação descobre que tipo de orador tem à sua frente”.7
Em quinto lugar, a introdução nunca deve ser uma apologia . “Pode ser
que o sermão de hoje pareça um pouco técnico, mas acontece que...” Ou o
que é ainda pior: “Não pude me preparar adequadamente esta semana porque
tive muitos contratempos”. Quando um pregador começa seu sermão com
desculpas, não irá ganhar a simpatia das pessoas; apenas perderá a atenção
dos ouvintes. Outro erro comum, semelhante ao anterior, é começar o sermão
dizendo algo como: “Pensando esta semana no que iria pregar, tive a ideia de
falar sobre...”. Ao começar assim, ficará claro para a congregação que o
assunto a ser abordado não é algo tão importante, mas simplesmente uma
“ideia” que o pregador teve. Um bom pregador não é aquele que tem de dizer
algo, mas, sim, aquele que tem algo a dizer. Na introdução, a congregação
deve perceber que temos algo importante para compartilhar com eles.
Em sexto lugar, as introduções devem ser variadas. Se começarmos nossos
sermões da mesma forma a cada domingo, seremos previsíveis e maçantes.
Devemos variar a apresentação de nossas introduções. Podemos começar
com o próprio texto, explicando um pouco do contexto da passagem ou
apresentando alguns detalhes históricos e geográficos que não apenas lancem
luz sobre o texto, mas que também o deixem mais vívido e interessante.
Exemplo #1: se vamos pregar sobre Mateus 11.20-24, podemos introduzir o
sermão trazendo informações sobre alguns desses lugares para onde Jesus se
dirige no texto:
Na margem noroeste do lago da Galileia, há uma bela planície que, nos
tempos do Senhor, era chamada de Terra ou planície de Genesaré. Ela tem a
forma de meia-lua e possui seis quilômetros e meio de comprimento e uns
três quilômetros de largura em sua parte mais ampla. É uma terra muito fértil,
já que ali existem várias fontes de água que descem das montanhas, e por isso
mesmo é uma terra muito linda. Há centenas de anos, encontravam-se
assentadas nessa planície três cidades: Corazim, Betsaida e Cafarnaum, sendo
a última mais importante que as demais. Perto dela, passava o caminho
principal de Damasco a Tolemaida, por onde ocorria o tráfego com o Egito.
Mateus, o evangelista, nos diz que, em Cafarnaum, havia um posto de duas
aduanas (compare com Mt 9.9) e uma guarnição de soldados romanos
(compare com Mt 8.9), o que revela a importância dessa cidade. A uns quatro
quilômetros ao norte de Cafarnaum, encontrava-se Corazim e, mais a
noroeste, Betsaida, o lar natal de Pedro, André e Filipe. Nessas três cidades,
Cristo pregou amplamente durante seu ministério, e foi também contra elas
que dirigiu uma das admoestações mais severas que saíram de seus lábios
durante seu ministério.
Exemplo #2: também podemos começar com algumas histórias
relacionadas ao nosso tema. Quando eu ia começar a pregar sobre a epístola
de Paulo aos Efésios, encontrei uma história da vida real que era perfeita para
introduzir a série.
No princípio do século XX, vivia nos Estados Unidos uma senhora
chamada Hetty Green, que, na hora de sua morte, em 1916, havia acumulado
uma fortuna de cem milhões de dólares. Isso é muito dinheiro hoje em dia,
mas era muito mais naquele tempo. Porém, Hetty Green chegou a ser
conhecida como a mulher mais miserável da América. Era tão avarenta que
preferia comer aveia fria para não gastar esquentando água. Em certa ocasião,
seu filho sofreu uma lesão bastante severa na perna, e essa mulher levou tanto
tempo à procura de uma clínica que o atendesse gratuitamente que o filho
teve de amputar esse membro, devido a uma infecção grave. Aqui está um
caso severo de avareza. Essa mulher tinha recursos vultosos à sua disposição,
mas tomou a decisão de não usá-los. Viveu como qualquer miserável, embora
fosse milionária, e, a longo prazo, de nada lhe valeu possuir tanto. Não
adianta nada possuir muitos bens quando não se quer usá-los ou não se sabe
como.
Lamentavelmente, muitos que professam a fé de Cristo se assemelham a
essa mulher, e não por sua avareza, mas por sua ignorância. Esses crentes
encontram-se em risco de desnutrição espiritual, mesmo tendo à sua
disposição um enorme armazém de alimentos e recursos espirituais, e nada
melhor para corrigir essa anomalia do que estudar de maneira expositiva,
versículo por versículo, a epístola de Paulo aos Efésios.
Existem muitas formas diferentes de começar um sermão. Estas são
algumas sugestões que o livro publicado originalmente em inglês
Rediscovering Expository Preaching [Redescoberta da pregação expositiva],
editado por John MacArthur, oferece:8
1. Estatísticas atuais que assinalam um problema contemporâneo sobre o qual
falaremos na mensagem.
2. Ilustrações históricas que possam familiarizar os ouvintes com o tema.
3. Eventos atuais relacionados com a mensagem.
4. Histórias da vida real.
5. Ilustrações biográficas.
6. Citações contundentes.
7. Perguntas retóricas feitas ao auditório.
8. Experiências pessoais do pregador.
9. Problemas relacionados com a vida para os quais serão oferecidas soluções
bíblicas.
10. Confusão contemporânea sobre ensinos bíblicos, que o pregador irá corrigir e
esclarecer.
11. Correspondência pessoal interessante.
12. Relatos imaginários.
13. Parábolas da vida real.
14. Sugerir uma situação hipotética e, em seguida, perguntar como cada um de nós
reagiria diante de tal situação.
A última parte do sermão que devemos elaborar é a conclusão.

Quando você tiver terminado o que tinha a dizer, conclua!


Como o próprio nome indica, a conclusão é a parte final do sermão. Nela,
conclui-se o tema que o pregador vinha abordando, com o objetivo de
produzir impacto duradouro na mente e no coração dos ouvintes. Como diz
James Braga, “a conclusão é o ponto culminante de todo o sermão, em que o
constante objetivo do pregador chega à mente como uma impressão
poderosa”.9 A conclusão é para concluir, e não simplesmente para
interromper. “Seu único propósito”, diz Braga uma vez mais, “é enfatizar,
reafirmar, estabelecer ou finalizar aquilo que já foi declarado no sermão, com
o objetivo de tornar patente diante dos ouvintes o principal objetivo do
discurso”.10
Essa parte é tão importante para o sermão quanto uma boa aterrissagem
para um avião. Se o avião fica girando em círculos sem poder aterrissar, as
pessoas entrarão em desespero e a mensagem pode perder seu efeito. A
mensagem que já foi proclamada demanda um veredicto, uma ação. Uma
conclusão bem preparada não apenas deixará bem claro na mente dos
ouvintes o que se espera deles, como também os motivará à ação. Por outro
lado, uma conclusão fraca pode debilitar o impacto que o restante do sermão
causou.
Uma boa conclusão apresenta as seguintes características:
1. É dinâmica e contém uma aplicação.
2. Nunca introduz material novo, mas enfatiza o que já foi dito.
3. É breve e, acima de tudo, conclui uma só vez! Se existe algo frustrante para a
congregação, é aquele pregador que dá a impressão de que está a ponto de
aterrissar, mas alça voo de repente, até encontrar outra pista de pouso.
A conclusão nem sempre tem a mesma forma; ela varia de acordo com a
mensagem, o auditório e até mesmo com a personalidade do pregador.
Podemos concluir a pregação revisando as afirmações mais importantes do
sermão em torno da ideia central que se quis comunicar, com uma série de
aplicações práticas, com uma ilustração que lance luz sobre o tema ou suas
aplicações, com algumas diretrizes específicas que indiquem ao auditório o
que deve fazer com a mensagem que foi ouvida; ou com uma boa citação,
que apresente a ideia central do sermão de forma vívida e memorável. Nesse
assunto, assim como em tudo que temos tratado até aqui, a prática nos tornará
cada vez mais habilidosos na hora de redigir a conclusão.
Mais uma coisa. Ainda que devamos escrever a conclusão ao final, o ideal é
desenvolver o sermão com a conclusão já em mente. Se tivermos uma ideia
clara da aplicação central que queremos deixar no coração de nossos
ouvintes, será possível direcionar o sermão para essa meta desde o princípio
e, assim, produzir um impacto mais profundo em nosso auditório. Haddon
Robinson aponta que “a aplicação ou utilidade do sermão começa na
introdução, e não na conclusão”.11

Trabalhemos em nosso sermão expositivo


Na passagem de Êxodo 17.1-7, os israelitas se queixaram contra Deus e
apresentaram sérias acusações contra ele na pessoa de seu servo Moisés.
Atuaram com incredulidade, soberba e ingratidão ao colocar Deus no
banco dos réus, mas ele os preservou, levando sobre si o castigo que eles
mereciam.
Podemos introduzir o sermão mostrando, de alguma forma, a tendência
generalizada de culpar Deus quando as coisas não saem como
esperamos. No caso do nosso sermão, tomaremos uma obra teatral
escrita por um pastor protestante chamado Guenter Rutenborn depois da
Segunda Guerra Mundial, quando as atrocidades cometidas pelo
Terceiro Reich nos campos de concentração começaram a vir à tona.
Como veremos no capítulo 15, essa história nos oferece um bom ponto de
partida para introduzir o tema do sermão, enquanto capta a atenção dos
ouvintes pelo intenso drama humano que apresenta.
No que diz respeito à conclusão, o ensino dessa passagem pode trazer
algumas aplicações práticas para crentes e incrédulos. Como dissemos
no capítulo anterior, tanto em Salmo 95 e 1 Coríntios 10 como em
Hebreus 3, alude-se a esse episódio da história de Israel para advertir os
crentes quanto à dureza de coração por causa da incredulidade e da
ingratidão. Mas também é uma passagem excelente para expor o coração
do evangelho, ao apresentar Cristo como a Rocha que foi golpeada pela
vara da justiça divina para que os pecadores culpados possam ser
perdoados.
Capítulo 14
Pregue o sermão... da parte de Deus e na
presença de Deus
“Agora, pois, estamos todos aqui, na presença de Deus,
prontos para ouvir tudo o que te foi ordenado da parte do Senhor.”
Atos 10.33

“A exegese exaustiva e a organização clara são essenciais


para uma mensagem eficaz. Mas um bom sermão mal pregado
não é melhor do que um sermão ruim bem pregado.”
John MacArthur
“A preparação não é um discurso até ter sido pronunciado.”
John Broadus.

Nunca entenderei por que Deus me chamou para pregar sua Palavra, e
nunca poderei agradecer à altura por esse presente. Não sou um daqueles que
pensam que a pregação é o único trabalho no qual um crente pode glorificar a
Deus. Todo crente pode viver para a Glória de Deus e deve trabalhar para
isso, quer tenha sido vocacionado para ser médico, advogado, carpinteiro ou
qualquer outro profissional. No entanto, fico feliz pelo fato de Deus não ter
me chamado para ser médico, advogado ou carpinteiro, mas, sim, um
pregador. Eu não trocaria meu trabalho por nada neste mundo.
Ao mesmo tempo, devo dizer que a pregação pode chegar a ser um trabalho
estafante para um ser humano comum e normal... como todos nós somos.
Você dedica várias horas semanais ao estudo da passagem bíblica,
preparando o sermão, e não tem a menor ideia do que acontecerá quando se
postar atrás do púlpito para pregar. Esses segundos finais do último hino
congregacional antes da pregação são impressionantes. A congregação
termina de cantar, você se levanta de seu assento e começa a percorrer a
distância que o separa do púlpito com um sentimento de expectativa e, ao
mesmo tempo, de pequenez. Chega o momento de abrir as Sagradas
Escrituras diante de homens e mulheres comprados com o sangue de Cristo
para lhes falar em seu Nome. Cristo os colocou em suas mãos, como diz
Mark Dever, para que, na hora seguinte, ensine a eles e os alimente.1 Outros
estarão ali, mortos em seus delitos e pecados, e para eles você será perfume
de vida para a vida, ou cheiro de morte para a morte. Não é sem motivo que
Spurgeon subia ao púlpito dizendo a si mesmo: “Creio no Espírito Santo,
creio no Espírito Santo”. Não sei quantas vezes eu disse a mesma coisa
enquanto caminhava do meu assento até a plataforma.
E é deste ato divino e tão humano que vamos tratar agora: o ato de pregar.
Sem a obra do Espírito atuando por meio do pregador, o sermão será
totalmente ineficaz. Mas isso não elimina a responsabilidade que o pregador
tem, no sentido de entregar a mensagem de forma apropriada. Não se trata de
aprender certas técnicas de oratória, mas de abraçar algumas convicções
quanto ao que realmente significa pregar. Essas convicções contribuem para
o desenvolvimento daqueles que têm o dom de expor a Palavra, de modo que,
com o passar dos anos, seu aproveitamento será visível a todos (1Tm 4.15).
Pregue com a intenção de agradar apenas a uma Pessoa no auditório
Certa vez, alguém disse que a piedade consiste em fazer o que é certo, com a
vista posta apenas na aprovação de Deus. Esse é, em resumo, o ensino do
Senhor em Mateus 6.1-18. Ao dar esmolas, orar, jejuar, faça isso para seu
Pai, que vê em segredo, e ele o recompensará publicamente. Essa convicção
deve dominar-nos enquanto pregamos a Palavra de Deus. Mesmo se tratando
de um trabalho que realizamos em público, devemos buscar apenas a
aprovação de Deus, e não a dos homens.
No texto que dá título a este livro, 2Co 2.17, Paulo descreve seu ministério
com as seguinte palavras: “Porque nós não estamos, como tantos outros,
mercadejando a palavra de Deus; antes, em Cristo é que falamos na presença
de Deus, com sinceridade e da parte do próprio Deus”. A palavra traduzida
como “mercadejando” era usada para descrever os vendedores ambulantes
que usavam todo tipo de astúcia para vender seus produtos. Tinham a fama
de ser trambiqueiros. “Assim são os falsos mestres”, diz Paulo.
Comercializam a Palavra de Deus; distorcem a mensagem ou a diluem, a fim
de torná-la mais atraente aos ouvidos dos homens. Mas Paulo não pertencia a
esse grupo. Ele via a si mesmo como um homem que falava “na presença de
Deus e da parte de Deus”.
Quando Paulo pregava o evangelho, não se preocupava com a aprovação
dos homens. O que o dominava era o fato de estar sob o olhar escrutinador de
Deus. “Falamos em Cristo perante Deus”, diz mais adiante na mesma carta
(2Co 12.19). Falamos para a edificação dos irmãos, mas o fazemos diante de
Deus. Podemos pregar diante de um auditório de 15 pessoas, ou de 15 mil,
mas, no final, só importa a opinião de Um dos presentes, Alguém que pode
ver o que nenhum homem jamais poderá ver, pois seu olhar penetra as
profundezas do nosso coração.
Isso é o que Paulo parece ter em mente ao dizer que falava “com
sinceridade”; esse substantivo deriva de um vocábulo que significa “examinar
algo à luz do sol”. Paulo era consciente de que todo o seu ser era como um
livro aberto diante de Deus, e essa consciência o movia a ser autêntico e
genuíno. Quando um homem prega com sua convicção, isso afeta a
mensagem e sua disposição ao entregá-la. Por que muitos pregadores evitam
condenar o pecado abertamente ou evitam falar da ira de Deus ou do dia do
juízo? Por que, hoje em dia, muitos púlpitos não proclamam a centralidade de
Deus e sua grandeza, mas fazem tudo para que as pessoas se sintam bem?
Porque não são dominados por essa perspectiva apostólica. O homem que
prega “da parte de Deus e na presença de Deus” não buscará fazer outra coisa
além de pregar a mensagem que o Senhor lhe confiou em sua Palavra.
É claro que não vamos ao púlpito com a intenção expressa de ofender
ninguém. O próprio Paulo exorta os irmãos de Colossos no sentido de que
suas palavras sejam sempre ditas com graça e temperadas com sal. O tato é
uma virtude, não um sinal de debilidade. Mas todo homem que prega a
Palavra com integridade sabe que terá de abordar alguns temas que não são
agradáveis aos ouvidos de muita gente. Se pregamos diante de Deus, não
evitaremos esses temas.
Essa convicção não só influencia a mensagem, como também poupa o
pregador da falta de naturalidade e simplicidade. O homem que prega diante
de Deus não sobe ao púlpito para fazer um espetáculo teatral. Ele sabe que,
diante dos olhos de Deus, é transparente; Deus está vendo os movimentos de
seu coração enquanto ele prega. Por essa razão, o servo de Deus se preocupa
em ter uma consciência limpa e um coração puro, pois, ainda que possa
enganar seu auditório, fazendo-o crer falsamente que tem zelo pela glória de
Deus, que ama a verdade e as almas dos homens, estaria em uma situação
grave, pois sabe que não pode enganar a Deus.
Mais uma vez, Paulo deve ser nosso modelo nesse aspecto. Em sua defesa
diante de Félix, o governador da Cesareia, Paulo pronunciou as seguintes
palavras:
Porém, confesso-te que, segundo o Caminho, a que chamam seita, assim eu sirvo ao
Deus de nossos pais, acreditando em todas as coisas que estejam de acordo com a lei
e nos escritos dos profetas, tendo esperança em Deus, como também estes a têm, de
que haverá ressurreição, tanto de justos como de injustos. Por isso, também me
esforço por ter sempre consciência pura diante de Deus e dos homens (At 24.14-16).
Em outras palavras: “Eu sei que todos nós seremos ressuscitados e nos
apresentaremos diante de Deus. Por isso procuro ter a consciência limpa
diante de Deus e dos homens”. Paulo não se importava com os preconceitos
que outros nutriam sobre ele, pois, no final, a única coisa que importava era o
testemunho de Deus naquele Tribunal (compare com 1Co 4.1-5). Este é o
argumento de Paulo para exortar Timóteo, seu filho na fé, para que pregue
fielmente a Palavra de Deus: “Conjuro-te, perante Deus e Cristo Jesus, que há
de julgar vivos e mortos, pela sua manifestação e pelo seu reino: prega a
palavra, insta, quer seja oportuno, quer não, corrige, repreende, exorta com
toda a longanimidade e doutrina” (2Tm 4.1-2). O comentário de Byron Yawn
acerca desse texto ressalta a centralidade da exortação do apóstolo: “Quando
Paulo exortou Timóteo, não lhe disse: ‘Conjuro-te na presença da tua
congregação’. Também não lhe disse: ‘Conjuro-te na presença dos
professores do seminário’. Não, antes rogo e encarrego você de uma missão
‘na presença de Deus e de Cristo Jesus, que há de julgar os vivos e os
mortos’. Dada a quantidade de vezes que mencionamos essa passagem,
poderíamos acreditar que levaríamos esse mandamento a sério”.2
Lamentavelmente, não é assim. O medo dos homens é um inimigo real de
todo pregador. Eu sei disso por experiência. É um inimigo contra o qual
devemos lutar com todas as nossas forças — e a única arma que temos para
isso é temer mais a Deus que aos homens.
Os pregadores que temem os homens — diz Greg Heilser — estão mais
preocupados com o que as pessoas pensam de sua pregação do que com o que
Deus pensa dela. Preocupam-se mais por não estar à altura das expectativas
humanas em sua pregação do que em desapontar o Espírito Santo.3
O papel das emoções na pregação
Não há dúvida de que as emoções exercem influência determinante sobre nós
na hora de nos comunicarmos com outras pessoas. Diferentes emoções terão
efeitos diferentes em nossa voz, no vocabulário que usamos e em nossas
ações físicas. Imagine um grupo de pessoas em um estádio de beisebol, uma
mãe na funerária velando o cadáver de seu filho e um homem que foi vítima
de uma terrível injustiça. São situações muito diferentes que certamente terão
impacto bem diferente na voz, no vocabulário e nas ações físicas de todas as
pessoas envolvidas.
As emoções impactam profundamente a forma como nos comunicamos
com os outros e também nossos interlocutores. As manifestações emocionais
são contagiosas, especialmente quando experimentadas em grupo. A esse
respeito, Robert Dabney disse: “O Criador formou o homem com esta lei de
sentimentos, de maneira que ser mera testemunha de qualquer emoção
humana colore a alma do espectador com uma emoção semelhante, mesmo
que em menor grau”.4 E, mais adiante, acrescenta:
A emoção de empatia é totalmente irracional; é fortemente influenciada pela
percepção do sentimento em outra pessoa e, habitualmente, se desvanece quando a
pessoa não está mais presente. Como prova disso, podemos assinalar que sentimos
pena quando vemos alguém chorando, mesmo quando não sabemos a causa de sua
tristeza, e se vemos pessoas irritadas ou brigando, participamos de sua excitação
mesmo sem conhecê-las e mesmo sem ter interesse nelas ou na briga em si.
Resumindo, nossos sentimentos de empatia não são provocados por causas racionais
dos sentimentos que percebemos, mas pelo simples fato de percebê-los.
À luz dessa realidade, cabe perguntar-nos: qual é o lugar legítimo das
emoções na comunicação oral em geral e na pregação em particular?
Poderíamos responder a essa pergunta com outra pergunta: como deve pregar
um homem cujo coração foi impregnado com a verdade de Deus, sabendo
que sua mensagem tem repercussão eterna para as almas imortais que o
escutam? Ou como devemos esperar que o auditório reaja diante da
exposição feita por esse homem, que não só está entregando uma mensagem
no púlpito, como também está derramando ali todo o seu coração, reagindo
apropriadamente à mensagem que ele mesmo está pregando? Veja o que diz
Gardiner Spring, pastor e escritor norte-americano do século XIX, sobre esse
assunto:
Nenhum pregador pode manter a atenção das pessoas, a menos que sinta o tema; nem
pode mantê-la por muito tempo, a menos que sinta profundamente. Se deve tornar-se
outros solenes, ele mesmo deve ser solene; deve ter comunhão com as verdades que
proclama. Deve pregar como se estivesse sob o olhar de Deus, e como se sua própria
alma estivesse unida às almas daqueles que o escutam. Deve pregar como se
estivesse diante da cruz, escutando os gemidos do Poderoso Sofredor do Calvário;
como se o juízo estivesse determinado, e os livros fossem abertos; como se a
sentença que decide o destino dos homens estivesse prestes a ser ditada; como se
tivesse contemplado o poço do desespero e como se tivesse descoberto o véu e
contemplado a glória inefável.6
O homem que prega sob a influência dessa realidade nunca poderá colocar-
se diante de um auditório como um robô insensível. Provavelmente suas
palavras e seus gestos manifestarão uma gama variada de emoções coerentes
com o tema abordado e com a personalidade do pregador. O Senhor não deu
a todos a mesma personalidade, nem a mesma constituição emocional,
portanto não temos as mesmas reações e expressões emocionais. Isso varia de
pregador para pregador. Alguns são expressivos e intensos por natureza;
outros são mais calmos. Dois pregadores podem ser capazes de sentir zelo,
fervor, paixão e, ao mesmo tempo, expressar essas emoções de maneira
diferente. Mas, como diz Spurgeon, “se o profeta deixa seu coração atrás de
si quando professa falar em Nome de Deus, o que podemos esperar senão que
os ímpios ao seu redor se convençam de que não há nada em sua mensagem e
de que seu chamado é uma farsa?”.7
Por causa do papel desempenhado pelas emoções no ato de pregar, é nosso
dever cultivar, controlar e expressar nossas emoções de maneira apropriada.
Veja algumas formas práticas de fazer isso.
Em primeiro lugar, conhe ça a si mesmo . Como é sua constituição
emocional? Você é intenso e emotivo por natureza? Então, deve exercer o
autocontrole de suas reações emocionais, pois elas podem traí-lo durante a
pregação, chegando a ser excessivas. Se, em vez disso, você tende a ser frio,
inexpressivo e indiferente, então precisa trabalhar ativamente na expressão de
suas emoções. Os conselhos seguintes podem ser de grande ajuda nesse
sentido.
Em segundo lugar, dedique-se à meditação habitual das Sagradas
Escrituras. Em Salmos 39.3, o salmista diz: “Esbraseou-se-me no peito o
coração; enquanto eu meditava, ateou-se o fogo; então, disse eu com a
própria língua”. Há algo que a Palavra produz em nós, enquanto meditamos
nela, que não só tem a ver com nossa mente, mas também com nossas
afeições. Como bem diz Brian Borgman: “A meditação contemplativa nas
grandes verdades bíblicas pode cultivar as emoções para que a verdade possa
ser sentida. É o experimentar da verdade que impulsiona as expressões
emocionais apropriadas na pregação”.8
Em terceiro lugar, exercite sua imaginação e suas faculdades empáticas . O
dicionário define empatia como “participação afetiva e comumente emotiva
de um sujeito em uma realidade alheia”. Em outras palavras, é identificar-nos
com os sentimentos de outra pessoa em uma situação particular. Essa diretriz
se relaciona estreitamente com a anterior. Enquanto lemos as narrativas das
Escrituras, devemos fazer uso santificado da imaginação. Caminhe junto a
Jairo e tente sentir o que ele deve ter sentido quando se dirigiu com o Senhor
Jesus Cristo para ver sua única filha de 12 anos, que estava à beira da morte;
imagine sua ansiedade enquanto a multidão oprimia Jesus e o impedia de
caminhar com mais rapidez, ou seu embaraço quando Jesus se deteve para
atender a mulher com fluxo de sangue, ou ainda seu total desespero quando
lhe disseram que sua filha estava morta. Deus lhe deu o poder de imaginar o
que você lê. Use isso para sua glória e para melhor entender as Escrituras, de
modo que possa ser aplicado à sua vida e ensinado a outras pessoas.
Em quarto lugar, procure envolver-se emocionalmente com o tema durante
o processo de preparação . Esforce-se para entender as grandes verdades que
serão pregadas e suas implicações. Acaso não foi isso que aconteceu com o
apóstolo Paulo, em Romanos 11.33-36, depois de discorrer extensamente
sobre o maravilhoso plano de salvação projetado por Deus para salvar
pecadores culpáveis sem ignorar sua própria justiça? Seu coração foi adiante
de sua pena, expressando uma doxologia ardente e exuberante:
Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus! Quão
insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus caminhos! Quem, pois,
conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi o seu conselheiro? Ou quem primeiro deu
a ele para que lhe venha a ser restituído? Porque dele, e por meio dele, e para ele são
todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém!
Peça a Deus como o salmista em Salmos 119.18, para que abra seus olhos
e, assim, você possa ver as maravilhas de sua Lei, porque, se o seu coração é
avivado no processo de elaboração do sermão, é bem provável que leve algo
desse fogo para o púlpito.
Em quinto lugar, evite a todo custo fazer uma atuação no púlpito e seja
você mesmo . O pregador não sobe ao púlpito para fazer um espetáculo.
Todas as emoções que ele manifesta ali devem ser genuínas. Cedo ou tarde, o
pregador teatral fechará o ouvido e o coração de seus ouvintes; e o que é
ainda pior: acarretará sobre si o desagrado de Deus.
Nosso foco não deve estar nas manifestações emocionais em si mesmas,
mas no cultivo da relação com Deus, no amor pela verdade e pelas almas dos
homens, as quais produzem uma resposta emocional em nós. Só então,
poderemos ocupar-nos em dar a essas emoções uma expressão apropriada em
nossas vidas em geral e no ministério de pregação em particular.
Essas cinco diretrizes nos mostram a necessidade de exercitar o
autodomínio em todas as áreas de nossa vida, incluindo o domínio de nossas
emoções. Devemos pregar com emoção, mas sem emocionalismo. Uma coisa
é a sã expressão das emoções e outra bem diferente é ser arrastado para um
furacão descontrolado de reações emocionais.
O bom uso da voz
Em comparação com o conteúdo da mensagem e o caráter do pregador, o
bom uso da voz na pregação é algo secundário. Tanto a mensagem que
devemos proclamar como o caráter que devemos cultivar como servos de
Deus são muito mais importantes do que aprender a fazer bom uso de nossas
cordas vocais. Em Lições aos meus alunos , Spurgeon diz:
Nossa primeira regra quanto à voz seria a seguinte: Não pense demais nela.
Já que adquirir a voz mais agradável não adianta nada se não temos algo a
dizer e, por melhor que se module, será como uma carreta bem guiada porém
vazia, a menos que você a utilize para comunicar verdades importantes e
oportunas à sua congregação, qual seria seu valor se a pessoa não tem algo
para pronunciar? O homem com uma voz excelente, mas desprovido de uma
cabeça bem informada e um coração devoto, será “uma voz que clama no
deserto”. (...) Tal homem pode destacar-se no coral, mas será inútil no
púlpito. A voz de Whitefield, sem o fervor de seu coração, não teria deixado
mais efeitos duradouros em seus ouvintes que o violino de Paganini. Vocês
não são cantores, mas pregadores: suas vozes têm importância apenas
secundária.9
Contudo, se, por um lado, é certo que o conteúdo da mensagem e o caráter
do pregador têm importância suprema no que diz respeito à mecânica da
pregação, o bom uso da voz é muito importante. O próprio Spurgeon dirá
mais adiante: “Por outro lado, não despreze sua voz, já que sua excelência
pode contribuir grandemente para que você tenha o resultado esperado. (...)
Algumas verdades de extremo valor podem ser prejudicadas se expressas em
um tom monótono”.10
Devemos aprender a fazer bom uso das diversas dimensões de nossas
capacidades vocais; isso inclui sua extensão, volume, força, vocalização,
velocidade, ênfase e intensidade. Quanto maior for o controle em cada uma
dessas áreas, maior será a eficácia ao proclamar a mensagem da Palavra de
Deus. Aqui, a meta, como em todos os outros aspectos da pregação, é a glória
de Deus na edificação dos ouvintes. Escute o que Paulo diz no capítulo 14 de
sua primeira epístola aos Coríntios:
É assim que instrumentos inanimados, como a flauta ou a cítara, quando
emitem sons, se não os derem bem distintos, como se reconhecerá o que se
toca na flauta ou cítara? Pois também se a trombeta der som incerto, quem se
preparará para a batalha? Assim, vós, se, com a língua, não disserdes palavra
compreensível, como se entenderá o que dizeis? Porque estareis como se
falásseis ao ar. Há, sem dúvida, muitos tipos de vozes no mundo; nenhum
deles, contudo, sem sentido. Se eu, pois, ignorar a significação da voz, serei
estrangeiro para aquele que fala; e ele, estrangeiro para mim. Assim, também
vós, visto que desejais dons espirituais, procurai progredir, para a edificação
da Igreja (1Co 14.7-12).
Independentemente da postura que tenhamos sobre a permanência ou o
cessar do dom de línguas, o princípio geral que o apóstolo Paulo apresenta
aqui é bem claro: no uso de nossos dons, devemos buscar a edificação da
Igreja, e a Igreja não será edificada se os ouvintes não forem expostos a uma
mensagem clara da Palavra de Deus (1Co 14.15-17). Deus nos deu um
instrumento para comunicar sua mensagem: nossas cordas vocais. Se não
fizermos bom uso desse instrumento, a mensagem não será comunicada como
se deve e a Igreja não será edificada. Adiante, apresento algumas diretrizes
que devemos considerar se quisermos tirar o máximo proveito desse órgão de
comunicação que Deus nos deu para a glória de seu Nome e o bem de seu
Povo.
Em primeiro lugar, evite a falta de naturalidade . Mesmo parecendo
repetitivo ao dizer isso, jamais enfatizaremos esse ponto de modo suficiente.
Não subimos ao púlpito para fazer um espetáculo. Assim como devemos ser
genuínos ao expressar nossas emoções, da mesma forma devemos ser
genuínos no uso de nossa voz. Isso não significa que devemos evitar todo
tipo de inflexão ou tom dramático na pregação. Algumas pessoas reagem
com desconfiança quando o pregador faz certa ênfase, ou aumenta o tom de
voz em certo momento de sua pregação. Mas, certamente, em um homem
íntegro, tais ênfases ou impostações de voz serão naturais e coerentes com o
estado emocional de seu coração. Não existe um “tom vocal de púlpito” que
todo pregador deve fazer. Por isso mesmo, existem tantos estilos diferentes
de pregação. O Senhor não espera que todos os seus servos se expressem da
mesma forma. Mas espera de todos eles que sejam genuínos ao se expressar,
e isso inclui o uso da voz.
Em segundo lugar, esforce-se para corrigir todo tipo de distração vocal,
sempre que isso estiver em suas possibilidades. Alguns oradores pronunciam
o s e o c como se fossem um assovio, ou mudam algumas letras por outras.
Outros, tendem a falar em um tom muito baixo ou grave, o que não somente
distrai, como também causa muito malefício às cordas vocais. Qualquer que
seja o defeito, devemos fazer um esforço para corrigi-lo, sempre que estiver
ao nosso alcance. Temos um tesouro em vasos de barro — diz Paulo em 2Co
4.7 —, “para que a excelência do poder seja de Deus, e não nossa”. Somos
pessoas ordinárias, com nossos defeitos e debilidades, e Deus usa pessoas
como nós para que fique claro que é seu poder que atua, e não o nosso. Mas
todos nós temos o dever de cultivar nossos dons e corrigir nossos defeitos,
sempre que possível. “Medita estas coisas”, diz Paulo a Timóteo, “e nelas sê
diligente, para que o teu progresso a todos seja manifesto” (1Tm 4.15).
Em terceiro lugar, cultive um volume de voz que seja suficientemente alto
para ser ouvido . De nada vale transmitir fielmente a mensagem da Palavra
de Deus se a maioria das pessoas no auditório não nos ouve. “Para que serve
um pregador que não pode ser ouvido pelas pessoas?”, indaga Spurgeon.11 De
igual modo, devemos tomar cuidado para não usar um volume alto demais. É
o coração que queremos quebrantar, e não o tímpano. Um bom conselho aqui
é fixar nossa atenção na pessoa que está mais distante no auditório. Se ela
consegue escutar, então todos no público estão escutando bem. É provável
que, em algum ponto do sermão, tenhamos de elevar a voz, mas essa não
deve ser a tônica geral do sermão. Assim como é apropriado dizer algo em
tom enérgico em um momento especial, o Senhor também usa o tom delicado
e aprazível para tratar com os homens.
Podemos “escutar” esses tons vocais quando lemos o Novo Testamento.
Considere esta passagem da carta de Paulo aos Gálatas:
Ó gálatas insensatos! Quem vos fascinou a vós outros, ante cujos olhos foi Jesus
Cristo exposto como crucificado? Quero apenas saber isto de vós: recebestes o
Espírito pelas obras da lei ou pela pregação da fé? Sois assim insensatos que, tendo
começado no Espírito, estejais, agora, vos aperfeiçoando na carne? (Gl 3.1-3)
Em que tom Paulo teria pronunciado essas palavras se, em vez de enviar
uma carta, estivesse ali presente, pregando? Por outro lado, certamente teria
sido muito diferente ao pronunciar as palavras dos versículos 19 ao 20 do
capítulo 4: “Meus filhos, por quem, de novo, sofro as dores de parto, até ser
Cristo formado em vós; pudera eu estar presente, agora, convosco e falar-vos
em outro tom de voz; porque me vejo perplexo a vosso respeito”.
Outro conselho dentro desse mesmo conjunto de ideias: procure não pregar
com a voz elevada desde o início do sermão. Como disse Broadus:
“Geralmente é muito difícil para o pregador trabalhar com o tom de voz do
início; (...) ao chegar às partes mais apaixonadas do discurso, aquelas em que
haja necessidade de elevar a voz, emitirá grunhidos e gritos desafinados”.12
Reconheço com tristeza que cometi esse erro mais do que gostaria. Isso,
contudo, é algo que deve ser evitado.
Em quarto lugar, cultive uma variedade de tons, velocidades e intensidades
. É muito difícil sentar e escutar um pregador monótono. J. Grant Howard
queixou-se com razão de que alguns sermões são tão emocionantes “quanto
observar a pintura da casa enquanto seca nas paredes”.13 Para evitar esse mal,
devemos cultivar uma variedade de timbres em nossa pregação. “Ouvi falar
de um pregador”, diz Spurgeon, “a quem um dos seus comparava com um
campanário que só tinha dois sinos, pois, como dizia, ‘sempre soa ding, dong,
ding, dong...’; ao que seu amigo respondeu: ‘Você deveria estar agradecido
por ter tamanha variedade, pois nosso pastor só tem um sino, e sempre soa
ding, ding, ding, ding’” (tradução do autor).14 Independentemente de sua
personalidade, evite a monotonia a todo custo.
Cultive também a variedade de ritmos na mensagem. Não podemos passar
por todo o sermão com a mesma velocidade. Devemos ter cuidado para não
falar muito rápido ou devagar demais. Alguns falam atropeladamente e não
dão tempo para que o auditório absorva as ideias. Além do mais, isso afeta as
cordas vocais, pois não ventilam bem enquanto pregamos. Mas existem
outros que falam com tanta lentidão que desesperam seus ouvintes. Como
diria Spurgeon: “Uma palavra dita hoje, e outra amanhã, é como um fogo
lento que só é apropriado para os mártires”.15
Em quinto lugar, esforce-se para pronunciar bem cada palavra . Se o Rei
dos Céus nos deu a comissão de falar aos homens em seu Nome, devemos
fazer o esforço de nos comunicar com clareza. Ainda devemos cuidar para
não parecermos excessivos em nosso interesse de ser claros, a ponto de
perdermos a naturalidade ao falar; ao mesmo tempo, devemos fazer nosso
melhor esforço para que as pessoas que nos escutam reconheçam cada uma
de nossas palavras.
Os gestos e as ações físicas
O grande orador Cícero falava de algo que ele denominava sermão corporal ,
ou seja, tudo aquilo que comunicamos sem a necessidade de pronunciar
palavras — através da expressão de nosso rosto, da postura do corpo e de
nossos gestos físicos. Dabney diz acerca do orador: “Não só sua boca fala,
mas também seus olhos, rosto e dedos. Os ouvintes leem seus sentimentos em
sua face e em seus membros antes mesmo de a voz chegar aos seus ouvidos:
são, ao mesmo tempo, expectadores e ouvintes”.16 Aqui vão algumas
sugestões para fazer um uso mais eficaz do corpo durante a pregação.
Em primeiro lugar, devemos prestar atenção em nossas expressões faciais,
já que são como uma janela através da qual mostramos as emoções que
estamos experimentando na alma. O que o rosto do pregador no púlpito deve
refletir? Isso depende do conteúdo de sua pregação. Falar do inferno com
uma expressão alegre certamente será contraproducente. Por outro lado, no
geral, devemos ir ao púlpito com uma estranha mistura de seriedade e alegria.
Deus, a quem representamos, e a mensagem que proclamamos revestem-se
de grande seriedade e sobriedade. Ao mesmo tempo, somos mensageiros de
boas-novas, notícias de grande alegria, como disse o anjo aos pastores em
Lucas 2.10. O pregador não é um palhaço, nem um vendedor de creme
dental. Mas também não é o anjo da morte.
Por outro lado, o rosto do servo de Deus deve refletir boa vontade aos
homens. Apresentamo-nos diante deles como pastores, conselheiros, como
aqueles que querem lhes fazer o bem, e isso deve ser evidenciado por nossas
expressões faciais. Subir ao púlpito com o rosto franzido envia aos ouvintes
uma mensagem sem palavras que talvez criará indisposição no coração de
algumas pessoas, que se recusarão a prestar atenção.
Em segundo lugar, nunca devemos premeditar uma ação física, nem forçá-
la conscientemente no púlpito. Se vamos ser genuínos na hora de pregar, a
linguagem corporal não pode ser premeditada pela simples razão de que não
sabemos o que vamos sentir no momento em que estivermos expondo a
Palavra de Deus. É possível que experimentemos algumas coisas no estudo e
na preparação da mensagem que não vamos experimentar quando estivermos
no púlpito. Nossas ações devem refletir naturalmente o impacto da verdade
em nós enquanto pregamos.
Em terceiro lugar, devemos evitar todo tipo de ação física que possa causar
distração. Cuidado com as manias ou ações repetitivas: tocar o microfone
continuamente, arrumar a gravata ou os óculos. Todas essas coisas podem
distrair nossos ouvintes da mensagem que estamos proclamando.
Em quarto lugar, a ação deve sugerir mais do que imitar. Ao fazermos
referência ao episódio em que Jael crava uma estaca na fronte de Sísera, não
precisamos imitar cada um dos movimentos. Isso caberia em uma obra de
teatro, mas, no púlpito, pode produzir uma reação contrária àquela que
desejamos.
Em quinto lugar, devemos ter cuidado com o excesso de movimentos
físicos, tanto em frequência como em veemência. Paulo diz aos coríntios que,
se todos na igreja falam ao mesmo tempo, os incrédulos pensarão que estão
loucos (1Co 14.22); e o mesmo pode acontecer quando o pregador faz uso
excessivo da gesticulação. Acerca disso, Broadus diz: “A veemência extrema
produz repulsa de sentimentos no ouvinte, que é exatamente o contrário do
que o orador pretende”.17
Por mais que soe paradoxal, a melhor maneira de trabalhar o uso da voz e
do corpo na pregação não é prestando excessiva atenção na voz e no corpo,
mas cultivando o autocontrole e, principalmente, cultivando a piedade e a
devoção. Se tivermos fervor no coração na mesma medida que tivermos
desenvolvido a virtude do autocontrole, é provável que a voz e os gestos
físicos se relacionem às emoções genuínas do pregador.
O pregador e suas anotações
Em um dos capítulos anteriores, falamos das vantagens e desvantagens de
anotar o sermão palavra por palavra, ou de simplesmente fazer um esboço
que inclua ao menos os pontos principais. Agora, falaremos sobre como usar
essas anotações durante a pregação. Não acho que devamos ser dogmáticos
nesse assunto, tentando encaixar todos os pregadores no mesmo molde.
Alguns vão ao púlpito com um sermão escrito do início ao fim; outros
deixam o manuscrito em casa e sobem ao púlpito com um breve esboço.
Outros nem mesmo se dão o trabalho de escrever o sermão completo. A
pergunta à qual cada pregador deve responder é em que proporção depende
de suas anotações durante a pregação. Um grande pregador de nossa geração,
o pastor Albert N. Martin, diz o seguinte a esse respeito:
O caso NÃO é quanta composição escrita tenhamos feito no estudo, ou quanto
material escrito é levado ao púlpito, e sim quanta dependência e preocupação se
manifestam com o material escrito no ato da pregação. Em outras palavras, o assunto
é quanto apego mental e físico existe entre o pregador e o esboço. Pois, no final,
NÃO estamos tão preocupados com papel e material impresso, mas com os olhos e o
cérebro.18
Devido à natureza da pregação, o manuscrito nunca deve impor-se entre
nós e nossos ouvintes. Ler o sermão escrito e pregar são duas atividades
diferentes. Robert L. Dabney, pastor e teólogo norte-americano do século
XIX, é bastante enfático a esse respeito:
O ato de ler o manuscrito para as pessoas nunca pode, para sermos justos, ser
qualificado como pregação. (...) Como poderia aquele cujos olhos estão fixos no
papel que tem diante de si, e que realiza a tarefa mecânica de recitar as palavras
escritas, ter as inflexões, a ênfase, o olhar, os gestos, a flexibilidade, o fogo ou as
ações da oratória? Portanto, a mera leitura deveria ser firmemente eliminada do
púlpito, exceto nos raríssimos casos em que o propósito didático ultrapassa o
retórico, e a precisão verbal é mais importante que a eloquência.19
Existe certa tensão no pregador, entre seu desejo de ser preciso e a
liberdade que se requer para falar às pessoas em vez de recitar o que foi
escrito. No meu caso, costumo escrever o sermão quase por inteiro e levar o
manuscrito para o púlpito. Porém, enquanto prego, procuro estar mais atento
às pessoas do que ao manuscrito. Estou em total consonância com Mark
Dever e Greg Gilbert quando dizem que o importante não é o fato de usar um
manuscrito ou um esboço: “O que realmente importa é que você se esforce
para ser cuidadoso e, ao mesmo tempo, pregue com convicção, paixão e
personalidade” (tradução do autor).20
Se você é capaz de pregar com liberdade e em dependência do Espírito
Santo com um manuscrito diante de si, então leve suas anotações para o
púlpito sem problema de consciência. Mas, se suas anotações são uma camisa
de força que lhe roubam a liberdade de se entregar por inteiro para proclamar
como um arauto a mensagem das Escrituras e o impedem de se comunicar de
coração a coração com aqueles a quem Deus enviou você, a fim de lhes falar
em seu Nome, talvez o melhor é esquecer as anotações em casa. A unção de
Deus não vem sobre os manuscritos, mas sobre os pregadores.
O que fazer depois de terminar de pregar?
Pregar a Palavra de Deus é um trabalho tão desgastante quanto preparar o
sermão. No púlpito, o pregador não apenas entrega uma mensagem; ele
realmente deixa tudo lá: seu corpo, sua mente, seu coração. Estima-se que,
em uma pregação de meia hora, o pregador pode chegar a gastar tanta energia
física quanto em um trabalho manual de oito horas.21 Não tenho ideia de
como chegaram a esse cálculo, mas, por experiência, sei que a sensação é
exatamente essa. Depois de pregar, não somente me sinto esgotado, como
também vulnerável; é uma sensação que costuma estender-se até o dia
seguinte. Por isso, apreciei muito um conselho que ouvi há alguns anos em
uma conferência pastoral, dado por um pastor muito mais experiente que eu
na ocasião: “Nunca renuncie ao ministério nas segundas-feiras”. Às vezes, as
coisas nesse dia parecem mais sombrias do que realmente são.
À luz dessa realidade, deixe-me compartilhar com você alguns conselhos
que podem ser de grande ajuda depois de pregar. Três deles apareceram em
um artigo escrito por Dave Harvey, fundador de Am I Called? (Fui
Chamado?) e pastor da Four Oaks Church, em Tallahasse, Flórida, publicado
no blog de Coalición por el Evangelio;22 o quarto, eu mesmo acrescentei.
Em primeiro lugar, não baixe a guarda . Lembre-se de que a pregação é
uma investida frontal contra as fortalezas do inimigo para roubar os cativos
pelo poder da Palavra. Como bem disse Harvey, “Satanás tem uma opinião
sobre a pregação do evangelho: deve ser detida. Não seja ingênuo pensando
que, após entregar a mensagem, você está fora da mira dele. A preparação da
mensagem, seu estudo, meditação e oração, tudo isso tem benefícios
protetores. Porém, depois do sermão, normalmente você estará cansado e
vazio. Ou seja, vulnerável a um ataque aéreo”. Portanto, esteja atento contra o
orgulho, o desânimo e as tentações em geral. “Antes, durante e depois dos
ataques, fuja para as boas-novas do evangelho. Tenha consciência de que
pregar tem a ver com o poder da Palavra de Deus, não de suas palavras. (...)
Depois de pregar, prepare-se para o ataque, lembrando que Deus é maior que
os seus erros.”
Em segundo lugar, não escute a si mesmo . Se há um momento em que é
difícil sermos objetivos, é depois de pregar. Essa falta de objetividade é como
uma faca de dois gumes: pode levar-nos a ter um conceito de nossa pregação
mais elevado do que deveríamos ter (Rm 12.3) ou levar-nos a pensar que, se
não estamos entre os dez piores pregadores da história, também não estamos
muito longe disso: “Acalme sua alma”, diz Harvey, “confiando os resultados
do seu sermão ao Senhor (...), fixando seus pensamentos em Deus, e não no
desempenho de seu trabalho. Ao se sentir orgulhoso, lembre-se de que sua
mensagem não tem sentido a menos que Deus escolha torná-la poderosa. Ao
se sentir condenado, lembre-se de que a Palavra dele não volta vazia (Is
55.11). (...) Afortunadamente, você não tem o poder de frustrar os planos de
Deus”.
Em terceiro lugar, não saia pescando elogios . Novamente, ouça Harvey,
porque ele diz melhor do que eu:
Como pregar incita tanto a acusação como a admiração, você se sentirá tentado a ir e
“pescar elogios”. Você vai querer fazer perguntas planejadas para obter uma resposta
positiva, como uma forma de reforçar sua identidade. (...) Há poucas coisas mais
vazias que um elogio solicitado. Exceto, talvez, quando está tentando pescar um
elogio e, ao invés disso, recebe uma crítica que sacode o seu barco. Essa é uma
lembrança útil de que, ao pescar, nem sempre sabemos o que podemos pegar.
O problema mais profundo das viagens de pescaria é que elas estão muito
concentradas na entrega da mensagem. Queremos saber como fomos, como eles
“sentiram”, como se isso fosse um barômetro do que Deus realmente estava fazendo
ou do que fará. Nós temos a necessidade de nos elevar mediante a aprovação e o
louvor dos demais, em vez de confiar nele.23
Essas são palavras sábias de alguém que certamente teve de esquadrinhar o
próprio coração muitas vezes depois de pregar. Não obstante, é bem provável
receber retroalimentação de sua mensagem, mesmo sem ter ido pescar. Se for
positiva, em seguida dê a glória a Deus por ter usado você apesar de suas
debilidades, imperfeições e pecados. Se for negativa, então aplique o
conselho seguinte, que eu quis acrescentar.
Em quarto lugar, aceite as críticas com o espírito ensinável . Provérbios
13.18 diz: “Pobreza e afronta sobrevêm ao que rejeita a instrução, mas o que
guarda a repreensão será honrado”. E Provérbios 15.32 acrescenta que “o que
rejeita a disciplina menospreza a sua alma, porém o que atende à repreensão
adquire entendimento”. Em primeiro lugar, ouça o que sua esposa tem a dizer
sobre sua pregação. Lembre-se de que ela é sua ajuda idônea e, ao mesmo
tempo, uma ovelha que se nutre de seu ministério. Não conheço ninguém que
tenha sido mais usado por Deus para me consolar como pregador do que
minha esposa; mas também não conheço ninguém que tenha sido mais usado
para me fazer o bem por meio de críticas construtivas.
Busque cercar-se de homens fiéis e maduros que falem com franqueza
acerca de sua pregação. Escute e pondere cuidadosamente suas observações.
Eu tenho a bênção de pertencer a uma equipe pastoral em que fazemos isso
com frequência. Toda semana, em nossa reunião pastoral, o primeiro ponto
da agenda é, invariavelmente, fazer uma revisão do que se passou nos dois
cultos de adoração anterior, incluindo a pregação. Tanto as notas de estímulo
como as correções têm sido de grande ajuda para continuarmos trabalhando
no desenvolvimento de nossos dons, enquanto pregamos as Escrituras “da
parte de Deus e na presença de Deus”.
Capítulo 15
Deus no banco dos réus1
(Êx 17.1-7)
Introdução
No fim da Segunda Guerra Mundial, quando o povo alemão estava
começando a se dar conta do que havia acontecido nos campos de
concentração, um pastor protestante chamado Guenter Rutenborn escreveu
uma obra de teatro chamada O Sinal de Jonas para responder à seguinte
pergunta: a quem devemos culpar por tudo isso? Quem deve carregar a culpa
desse genocídio? Mais de seis milhões de judeus foram exterminados em
Belsen, Dakau, Auschwitz, sem mencionar todas as atrocidades que os
nazistas cometeram na Europa durante a guerra. Ainda que muitos alemães se
sentissem consternados com as histórias que estavam sendo divulgadas,
ninguém se sentia pessoalmente culpado.
Na peça de Rutenborn, os atores dialogavam com o público para tentar
determinar até que ponto cada um deles era responsável pelo que havia
acontecido, mas todos defendiam sua inocência culpando os demais,
principalmente os de cima. A dona de casa dizia: “Eu estava lutando com o
racionamento de alimentos. Eu não tenho culpa de nada”. O soldado dizia:
“Eu também não sou culpado, apenas obedeci às ordens”. O comandante
também se defendia argumentando que apenas seguia as diretrizes do partido.
E, como era de se esperar, o partido apenas estava seguindo as ordens de seus
líderes. Cada vez subiam mais na escada de autoridades.
Finalmente, um homem ficou de pé e declarou que a verdadeira culpa
estava muito além do exército, muito além do partido e até mesmo muito
além de Hitler: “Deus é culpado! Ele é o único que deve ser julgado aqui.
Não só pelo que os nazistas fizeram durante o Terceiro Reich, mas também
por todas as misérias e calamidades que vemos no mundo”.
Incrível! O homem decidiu dar as costas a Deus, mas, quando colhe os
frutos de sua loucura, começa a projetar sua culpa em outras pessoas, até que,
cedo ou tarde, termina culpando o próprio Deus, com quem nunca se
importaram. De repente, os acusados se transformam em acusadores e
pretendem que Deus se sente no banco dos réus para ser julgado.
Isso foi o que os israelitas fizeram no deserto em um dos episódios mais
surpreendentes do Antigo Testamento, encontrado nos primeiros sete
versículos do capítulo 17 do livro de Êxodo.
Tendo partido toda a congregação dos filhos de Israel do deserto de Sim, fazendo
suas paradas, segundo o mandamento do SENHOR, acamparam-se em Refidim; e
não havia ali água para o povo beber. Contendeu, pois, o povo com Moisés e disse:
Dá-nos água para beber. Respondeu-lhes Moisés: Por que contendeis comigo? Por
que tentais ao SENHOR? Tendo aí o povo sede de água, murmurou contra Moisés e
disse: Por que nos fizeste subir do Egito, para nos matares de sede, a nós, a nossos
filhos e aos nossos rebanhos? Então, clamou Moisés ao SENHOR: Que farei a este
povo? Só lhe resta apedrejar-me. Respondeu o SENHOR a Moisés: Passa adiante do
povo e toma contigo alguns dos anciãos de Israel, leva contigo em mão o bordão com
que feriste o rio e vai. Eis que estarei ali diante de ti sobre a rocha em Horebe; ferirás
a rocha, e dela sairá água, e o povo beberá. Moisés assim o fez na presença dos
anciãos de Israel. E chamou o nome daquele lugar Massá e Meribá, por causa da
contenda dos filhos de Israel e porque tentaram ao SENHOR, dizendo: Está o
SENHOR no meio de nós ou não? (Êx 17.1-7)
Esta história começa em um momento de crise.
A prova
Fazia pouco tempo que os israelitas haviam sido libertados da escravidão no
Egito, e haviam, milagrosamente, cruzado o Mar Vermelho em direção à
Terra Prometida. O caminho mais curto para ir do Egito até a terra de Canaã é
rodeando toda a costa. Mas, em vez de levá-los por esse caminho, Deus
decide interná-los no deserto. O versículo 1 diz, com toda a clareza, que essa
foi a decisão de Deus, não de Moisés. Eles acamparam nesse lugar, onde não
havia água, “conforme o mandamento do Senhor”. Deus os levou ali e, em
Deuteronômio 8.2, Moisés nos diz o seu propósito: “para te humilhar, para te
provar, para saber o que estava no teu coração, se guardarias ou não os seus
mandamentos”. Essa dificuldade foi cuidadosamente planejada pelo Senhor
para revelar a verdadeira condição de seus corações.
O sofrimento nunca nos deixa tal como nos encontra. Alguns se aferram
mais ao Senhor em meio à dor e se tornam mais compassivos com os que
sofrem; outros caem no cinismo, afastam-se dos demais e submergem na
autocompaixão. Isso acontece até mesmo com pessoas que professam a fé.
Durante um tempo, pensam que acreditam, até que têm de enfrentar situações
angustiantes que desafiam seu raciocínio lógico. “Se Deus me ama, por que
estou passando por tudo isso?” Na parábola do semeador em Marcos 4.16-17,
o Senhor diz que muitas pessoas recebem a pregação da palavra com alegria
no princípio, e parecem abraçar com fé a mensagem do evangelho, até que
“vem a tribulação ou a tribulação por causa da Palavra”, e então se afastam
do Senhor “desiludidas”. Algo semelhante aconteceu com o povo de Israel
nessa ocasião. Deus os colocou em uma situação muito difícil e perigosa. Em
um lugar como o deserto do Sinai, a desidratação acontece em questão de
horas. Se não encontrassem água para beber, todos iriam morrer em
pouquíssimo tempo. O que os israelitas deveriam fazer em meio a essa
situação angustiante? O que esperar deles?
Antes de responder a essa pergunta, devemos considerar que essa não foi a
primeira vez que se viram em perigo depois de sair do Egito. Também não
era a primeira ocasião em que se queixavam. No capítulo 15, queixaram-se da
falta de água e, no capítulo 16, da falta de carne. Em ambas as ocasiões, Deus
os ajudou milagrosamente em suas necessidades. Deus tinha cuidado deles
até então. Nessa nova situação, eles deveriam confiar no poder e na bondade
de Deus. Se Deus já os livrara do exército de Faraó, aberto o Mar Vermelho
para que passassem em seco e se já lhes dera água e comida no deserto, por
que não os socorreria outra vez? Mas, em vez de clamar em oração, o povo
de Israel voltou a se queixar contra Deus e contra Moisés, e decidiram
promover um julgamento.
O julgamento
Diz o versículo 2 que o povo contendeu com Moisés. Essa palavra indica
algo mais forte que uma simples queixa. Era o termo que se usava quando
alguém queria apresentar um processo judicial contra outra pessoa. Antes, os
israelitas já se haviam queixado contra Deus e contra Moisés, mas agora
queriam julgá-los por terem quebrado a promessa do pacto que Deus havia
feito com eles! Por esse motivo, o lugar ficou conhecido como Massá e
Meribá, diz o versículo 7. A palavra Massá significa “colocar à prova”.
Meribá , por sua vez, vem de uma raiz hebraica que significa “iniciar uma
demanda judicial ou litígio (como em Jr 25.31 ou Mq 6.2).
Dessa maneira, o que estamos vendo aqui é muito mais que uma turba
irada. Nesse momento, teve início um litígio judicial contra Deus por tê-los
tirado da terra do Egito para matá-los no deserto. Eles tentaram o Senhor, diz
o versículo 2. Em outras palavras, fizeram uma avaliação da atuação de Deus
e chegaram à conclusão de que ele havia mentido. Ele os havia tirado do
Egito por meio de falsas promessas, a fim de matá-los no deserto. Leia mais
uma vez o versículo 7: “E chamou o nome daquele lugar Massá e Meribá, por
causa da contenda dos filhos de Israel e porque tentaram ao SENHOR,
dizendo: Está o SENHOR no meio de nós ou não?”. Em outras palavras:
“Deus prometeu sua presença em nosso meio e também prometeu levar-nos a
uma terra onde flui leite e mel, mas, em vez disso, trouxe-nos a este deserto
para nos matar de sede”. Eles estavam acusando Deus de haver violado a
promessa de seu pacto. “Ele nos traiu e mentiu para nós.” Assim, em vez de
assumir a postura submissa de quem espera na misericórdia e na bondade de
Deus, os israelitas demandaram a Moisés que lhes desse água (v. 2), no
mesmo instante em que se recusaram a ver a proteção de Deus e sua presença
entre eles (vv. 3 e 7).
Se pudessem apedrejar Deus naquele dia, eles o teriam feito. Mas, como
isso era impossível, estiveram a ponto de executar Moisés (v. 4). Se todos
iriam morrer em poucas horas de morte natural, Moisés deveria ser o
primeiro, mas não de sede, e sim executado pelo povo como um traidor.
Dessa forma, a crise no deserto não somente revelou a incredulidade em seus
corações, como também sua ingratidão e insolência. Como puderam esquecer
tão rápido tudo o que Deus tinha feito em favor deles, ao livrá-los da tirania
de Faraó de forma tão surpreendente?
Naquele dia, Israel pecou gravemente contra Deus. As acusações que
estavam fazendo contra ele eram não apenas injustas, como também
blasfemas. O problema é que nós não somos diferentes em nenhum sentido.
Essa é a acusação que Paulo apresenta contra toda a raça humana no capítulo
1 de sua epístola aos Romanos. Paulo diz, em Romanos 1, que a razão pela
qual todos precisamos da salvação anunciada pelo evangelho é porque todos
somos culpados do mesmo pecado: incredulidade, ingratidão e insolência.
Deus revelou sua ira contra a raça humana por haver detido a verdade de
Deus em injustiça, diz Paulo. Deus manifestou seu poder de uma forma muito
clara através das coisas criadas, e deu ao ser humano a capacidade de
interpretar essa evidência. Mas, em vez de glorificar a Deus e agradecer, a
humanidade se envaideceu em seus pensamentos, diz Paulo, “e seu néscio
coração se obscureceu” (Rm 1.18-21).
Toda a raça humana é culpável dos mesmos pecados que o povo de Israel
no deserto: incredulidade, ingratidão e insolência. E é importante esclarecer
que, quando falo da raça humana, estou me referindo a você e a mim. Falar
da raça humana pode soar tão impessoal que é possível que alguns não se
sintam incluídos. Mas o que Paulo diz aqui é que todos somos culpados na
presença de Deus. No mundo inteiro, “não há justo, nem sequer um”, diz
Paulo no capítulo 3 de Romanos, “não há quem entenda. Não há quem
busque a Deus (...) Não há quem faça o bem. Nem sequer um” (Rm 3.10-12).
E, em Romanos 3.23, diz que todos nós pecamos e estamos destituídos da
glória de Deus. Em outras palavras, todos nós somos devedores por não dar a
Deus a glória que ele merece; todos respondemos equivocadamente à sua
bondade e à sua autoridade.
Ele é o Criador dos céus e da terra; é ele quem sustenta sua vida em cada
segundo de sua existência. Todos deveríamos amar e obedecer a Deus com
todo o nosso coração, com toda a nossa alma e com todas as nossas forças.
Mas, em vez de fazer isso, pecamos o tempo todo contra ele. O ser humano é
incrédulo, ingrato e insolente; a insolência do homem incrédulo é tal que ele
se atreve a colocar Deus no banco dos réus quando experimenta as
consequências de viver em um mundo caído ou quando as coisas não saem
como esperavam.
E não pense nem por um segundo que isso não pode acontecer com um
cristão. Quando Deus nos coloca em situações que parecem não ter nem pé
nem cabeça, muitas vezes nos esquecemos por completo de sua bondade e
sabedoria, e nos enchemos de amargura e descontentamento pelas coisas que
ele decretou para nossas vidas. É claro que raramente dizemos que estamos
amargurados contra Deus. Preferimos atacar frontalmente as autoridades que
ele colocou sobre nós, como o povo fez com Moisés no deserto, ou culpamos
as circunstâncias. Mas, se nos aprofundarmos um pouco mais, veremos que
nossa queixa, definitivamente, é contra Deus porque é ele quem governa as
circunstâncias de nossas vidas. Somos tão insolentes que, se fosse possível,
arrancaríamos de suas mãos o script de nossas vidas para fazer algumas
“melhoras”.
Alguma vez você já pensou que nossa falta de contentamento revela uma
tentativa muito sutil de “admoestar” Deus? É como se disséssemos
silenciosamente: “Senhor, eu penso que Tu precisas de ajuda para governar o
Universo que criaste ou pelo menos para governar minha própria vida,
porque, honestamente, o plano que traçaste para mim está cheio de defeitos”.
Já expus anteriormente que o sofrimento nunca nos deixa da forma como
nos encontra. No deserto do Sinai, o povo de Israel revelou sua pior face. Por
mais que soe duro, nesse dia os israelitas acusaram Deus de ser mentiroso e
genocida. Deus os tirara do Egito com falsas promessas para matá-los de sede
no deserto. Como disse um comentarista: “Sua incredulidade é incrível”
(tradução do autor).2 E como foi que Deus reagiu diante de tamanhas
insolência e ingratidão? Essa é a parte mais surpreendente da história.
O juízo
Deus os levou a Refidim para prová-los, mas eles decidiram pôr Deus à
prova, levando-o a julgamento. Como já vimos, os filhos de Israel abriram
um processo judicial contra Deus. Mais adiante, no livro de Deuteronômio,
Moisés faz menção à história de Israel no deserto e lhes diz no versículo 8 do
capítulo 33: “que tu provaste em Massá [referindo-se a Deus], com quem
contendeste nas águas de Meribá”. Mais uma vez, é usada a terminologia
legal que aparece em Êxodo 17.2. Eles acusaram Deus de haver violado seu
Pacto, um crime que merecia pena capital. Como não podiam matar a Deus,
caso fosse julgado culpado, matariam seu representante.
Moisés sabia que o povo estava a ponto de apedrejá-lo, então clamou a
Deus. E Deus lhe respondeu dizendo que se colocasse diante do povo junto
com os anciãos de Israel (v. 5). Em outras palavras, o que Deus estava
dizendo a Moisés era que convocasse um tribunal. Naqueles dias, os anciãos
da nação funcionavam como uma espécie de júri para julgar os assuntos que
eram pleiteados. Portanto, esse litígio entre Deus e o povo deveria ser
executado com todas as formalidades legais que um julgamento dessa
natureza requeria.
Deus também lhe ordenou que tomasse em suas mãos a vara com que havia
tocado o rio Nilo quando suas águas se transformaram em sangue. Deus lhe
dera essa vara no episódio da sarça ardente, como uma prova de sua presença
(Êx 4.1-2). Essa vara era o símbolo do poder e da autoridade de Deus para
julgar. Quando Moisés tocou as águas do Nilo com essa vara, estava
aplicando o juízo de Deus contra os egípcios.
Dessa forma, Deus estava pedindo a Moisés que atuasse como juiz nesse
caso, emitindo o veredicto e executando a sentença. Quando Moisés se
colocou diante do povo com essa vara na mão, todos os presentes sabiam que
alguém estava prestes a ser castigado pelo horrível pecado que haviam
cometido contra Deus. Mas, então, o impensável aconteceu.
O veredicto
Leia outra vez o versículo 6: “Eis que estarei ali diante de ti sobre a rocha em
Horebe; ferirás a rocha, e dela sairá água, e o povo beberá. Moisés assim o
fez na presença dos anciãos de Israel”. A expressão “estarei ali diante de ti”
raramente é usada na Bíblia para se referir a Deus, porque ele não tem de
comparecer diante dos homens. Somos nós que devemos comparecer diante
dele. Mas, nesse momento, Deus decide colocar-se diante de Moisés sobre a
rocha, no monte Horebe.
Todos aqueles que estão familiarizados com o Antigo Testamento sabem
que a Rocha é um símbolo frequentemente usado para se referir a Deus como
aquele que traz salvação ao seu povo. Em Deuteronômio 32.4, é dito que
nosso Deus é a Rocha, “cuja obra é perfeita”. E, em Salmos 18.2, o salmista
se dirige a Deus como “minha rocha, a minha cidadela (...) meu escudo, a
força da minha salvação, o meu baluarte”. Deus é a Rocha de Israel.
O que estava acontecendo em Êxodo 17.6? Deus estava comparecendo ante
o juízo, mas não no tribunal deles, e sim em seu próprio tribunal! Deus, ao se
colocar diante de Moisés para receber todo o peso do castigo divino que seu
povo merece, está prestes a ensinar a todos qual é a única maneira possível de
salvação. Os israelitas mereciam morrer por sua incredulidade e insolência,
mas Deus decide receber os açoites de sua própria justiça.
Quando Moisés feriu a Rocha, saiu tanta água da pedra que todo o povo
pôde saciar sua sede. Em Salmos 78.20, é dito que a corrente de água era
tamanha que inundou a terra. E, em Salmos 105.41, que as águas “correram
pelo deserto como um rio”. Impressionante! O povo, que merecia ser
castigado com seu pecado, recebe em troca toda a água necessária para matar
sua sede, pois Deus decidiu receber o castigo que eles mereciam. Eles foram
salvos naquele dia por causa da ferida de Deus, se podemos dizer assim.
Esta é a grande mensagem da Bíblia: o Deus de toda graça recebeu na
pessoa de Seu Filho a ferida que nós merecíamos, por causa de nossa
rebelião. Por isso, Paulo interpreta esse incidente no capítulo 10 de sua
primeira epístola aos Coríntios, dizendo que todos eles “beberam da mesma
fonte espiritual; porque bebiam de uma pedra espiritual que os seguia. E a
pedra era Cristo” (1Co 10.4). O Senhor Jesus Cristo colocou-se sobre a rocha
no Horebe para receber o golpe da vara de Moisés, como preâmbulo desse
outro dia, no qual receberia sobre uma cruz o castigo que merecem todos
aqueles a quem ele veio salvar.
Quando Cristo estava na cruz, diz o Evangelho de João, “um dos soldados
lhe abriu o lado com uma lança, e logo saíram sangue e água” (Jo 19.34): o
sangue, que nos limpa de todo pecado, e a água viva, que sacia nossa sede.
Graças à sua morte na cruz, os crentes são saciados com a água da salvação.
Você se lembra da conversa do Senhor Jesus Cristo com a mulher
samaritana junto ao poço de Jacó, no capítulo 4 de João? “Quem beber desta
água tornará a ter sede”, diz o Senhor, “aquele, porém, que beber da água que
eu lhe der nunca mais terá sede; pelo contrário, a água que eu lhe der será
nele uma fonte a jorrar para a vida eterna” (Jo 4.13-14). Cristo é a verdadeira
Rocha do monte Horebe, aquele que, ao ser ferido na cruz com a vara da
justiça divina, fez brotar uma corrente de água que sacia plenamente a sede
de todo aquele que venha e beba por meio da fé.
Mais adiante, no capítulo 7 do Evangelho de João, o Senhor Jesus Cristo se
colocou em pé no último dia da Festa dos Tabernáculos e, erguendo a voz no
templo, disse a todo o povo: “Se alguém tem sede, venha a mim e beba.
Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água
viva” (Jo 7.37-38). É por isso que no capítulo 32 do livro de Isaías, escrito
setecentos anos antes da vinda de Cristo, o profeta anuncia a vinda de um
grande Rei que seria, ao mesmo tempo, uma Rocha de refúgio e um
manancial de águas: “Eis aí está que reinará um rei com justiça (...) servirá de
esconderijo contra o vento, de refúgio contra a tempestade, de torrentes de
águas em lugares secos e de sombra de grande rocha em terra sedenta” (Is
32.1-2).
Cristo é a Rocha bendita na qual podemos nos refugiar, e de cujas águas
podemos beber e saciar nossa sede para sempre. Os israelitas haviam
perguntado a Moisés se o Senhor estava ou não entre eles (v. 7). A resposta é
que Deus estava ali de uma forma que eles não podiam sequer imaginar:
suportando sobre a rocha o castigo que eles mereciam por seu pecado e sua
insolência. Essa é a grande história que se revela através de todas as histórias
da Bíblia. O ser humano pecou contra Deus e rebelou-se contra sua
autoridade. Mas, em vez de nos deixar nessa terrível condição, o Deus de
toda graça estabeleceu um plano de salvação que tornou possível o perdão de
pecadores culpáveis sem ignorar sua própria Justiça. A Segunda Pessoa da
Trindade se fez Homem para assumir nossa culpa na cruz do Calvário, “para
que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16).
Na obra de Rutenborn, já citada, o veredicto que a humanidade emite contra
Deus é que ele deve ser condenado a se tornar um ser humano errante na
terra, privado de seus direitos, sem lar, faminto e sedento. E, no final, deve
morrer de tal forma que seja envergonhado e ridicularizado. Esse é o grito da
humanidade rebelde contra o Deus Todo-poderoso, Criador dos céus e da
terra. Mas a verdade é que Deus fez muito mais do que foi pedido nesses
desafios blasfemos. Deus se fez Homem, e não só para sofrer as injustiças e
os maus-tratos dos homens, como também para receber voluntariamente todo
o peso da justa ira de Deus que nós merecíamos por causa de nossos pecados.
“Aquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós; para que, nele,
fôssemos feitos justiça de Deus” (2Co 5.21). “Pois também Cristo morreu,
uma única vez, pelos pecados, o justo pelos injustos, para conduzir-vos a
Deus” (1Pe 3.18a).
Conclusão
Quero deixar duas lições em sua mente antes de concluir a mensagem de
hoje. A primeira é que nós, crentes, não devemos interpretar o amor de Deus
à luz de nossas circunstâncias. Foi isso que os israelitas fizeram no deserto, e
terminaram murmurando e blasfemando contra ele. Vejamos Salmos 95.
Trata-se de um salmo curioso porque começa com um chamado à adoração e
termina com uma advertência solene, tendo como ponto de partida esse
mesmo incidente do Horebe:
Vinde, cantemos ao SENHOR, com júbilo, celebremos o Rochedo da nossa salvação.
Saiamos ao seu encontro, com ações de graças, vitoriemo-lo com salmos. Porque o
SENHOR é o Deus supremo e o grande Rei acima de todos os deuses. Nas suas mãos
estão as profundezas da terra, e as alturas dos montes lhe pertencem. Dele é o mar,
pois ele o fez; obra de suas mãos, os continentes. Vinde, adoremos e prostremo-nos;
ajoelhemos diante do SENHOR, que nos criou. Ele é o nosso Deus, e nós, povo do
seu pasto e ovelhas de sua mão (Sl 95.1-7a).
Porém, a partir da metade do versículo 7, o salmo muda radicalmente de
tom:
Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais o coração, como em Meribá, como no dia
de Massá, no deserto, quando vossos pais me tentaram, pondo-me à prova, não
obstante terem visto as minhas obras. Durante quarenta anos, estive desgostado com
essa geração e disse: é povo de coração transviado, não conhece os meus caminhos.
Por isso, jurei na minha ira: não entrarão no meu descanso (Sl 95.7b-11).
Como conectamos a primeira parte do salmo com a segunda? Qual é o
ensino desse salmo? Um dos aspectos é que nós, que professamos ser crentes,
temos apenas duas opções: ou adoramos a Deus com reverência e gratidão
por todas as bênçãos que ele nos dá sem que mereçamos, inclusive em meio
às provas, ou terminaremos nos queixando e endurecendo nossos corações
contra ele. Não há outra opção.
No Salmo 95, Deus nos adverte que queixas e descontentamento não são
outra coisa senão incredulidade, podendo até mesmo ser um indício de
coração não regenerado. Tanto em 1Coríntios 10 como em Hebreus 3, os
autores do Novo Testamento fazem a mesma aplicação do episódio de Israel
no deserto: “Cuidado com a murmuração e o descontentamento, porque
ambos os pecados são uma afronta contra Deus e são venenosos para a alma”.
Medite sobre o que Cristo fez por você na cruz do Calvário. Medite sobre o
fato de que ele recebeu os açoites que você merecia e derrame sua alma em
adoração e gratidão pelo impactante e incompreensível amor com que Deus
amou e continua amando você. Se você tem a Cristo, então tem o bastante;
não importa quantas coisas deste mundo você precise. Há alguns dias, eu
estava me preparando para ir à igreja e encontrei um excerto que minha
esposa havia enviado a uns amigos, retirado de um livro de orações de Scotty
Smith. Ele começa dizendo que “o desespero e a desesperança foram
sabotados” por Cristo em sua ressurreição. Você ouviu isso? Cristo sabotou o
desespero e a desesperança quando ressurgiu da tumba no terceiro dia. Smith
continua dizendo em sua oração:
Ajuda-me a me preocupar muito mais com os tesouros de dentro do que com as
pressões de fora. Se o teu sublime poder pode mostrar-se de forma mais dramática
por meio de minha debilidade, entrego-me à tua vontade. Se tua incomparável beleza
é revelada mais claramente por meio de minhas dificuldades, entrego-me aos teus
caminhos. Se teus propósitos redentores realizam-se mais plenamente por meio de
meu quebrantamento, entrego-me a ti. Com minhas mãos levantadas, ofereço-te
louvores pelo tesouro do evangelho. Mesmo havendo momentos em que me parece
incrivelmente atraente a ideia de “jogar a toalha”, buscar outra história ou
simplesmente fugir, para onde irei, senão a ti? Só tu me dás palavras de vida, graça
suficiente e esperança de glória. Que tua voz seja dez vezes mais forte que a
murmuração ao meu redor e as queixas dentro de mim. Jesus, nas próximas horas,
dias e semanas, demonstre as maravilhas do teu amor entre nós. Oro a ti com
expectação faminta no teu poderoso Nome. Amém (tradução do autor).3
Mas também gostaria de dirigir algumas palavras àqueles que estão sem
Cristo, aqueles que nunca vieram em arrependimento e fé, reconhecendo sua
culpa e confiando unicamente nele para o perdão de pecados e o dom da vida
eterna. Se esse é o seu caso, rogo que não saia deste lugar sem acertar as
contas com Deus, pois algum dia você terá de se apresentar diante dele para
ser julgado. E acredite: ninguém sairá impune naquele tribunal. Dizem as
Escrituras que “todas as coisas estão descobertas e patentes aos olhos daquele
a quem temos de prestar contas” (Hb 4.13).
A boa notícia é que o próprio Deus nos deu um meio de salvação por
intermédio da Pessoa de seu Filho. A Bíblia diz, em Romanos 6.23, que o
salário do pecado é a morte. O que eu e você merecemos por causa de nossos
pecados não é estar na presença de Deus, desfrutando de sua companhia, mas,
sim, ser lançados em uma condenação eterna, em que ninguém jamais poderá
desfrutar de uma gota de misericórdia sequer. Mas Jesus veio ao mundo,
sendo Deus, para receber, como Homem, o castigo que nós merecemos por
nossos pecados. Ele é a Rocha que foi ferida na cruz do Calvário uma vez e
para sempre, “para que todo o que nele crê tenha a vida eterna” (Jo 3.15).
Não continue desidratando sua alma ao tentar saciar sua sede com a água
que o mundo oferece, quando Cristo chama você por meio do evangelho para
saciar essa sede de maneira plena e permanente, bebendo direto da fonte de
águas vivas que brotou do Calvário. Venha a Cristo, e venha agora, clamando
para receber sua misericórdia e seu perdão; e você receberá gratuitamente
pela graça o perdão de todos os pecados e o dom da vida eterna por meio da
fé. Que o Senhor abençoe grandemente sua Palavra nesta manhã e opere em
todos nós através dela, pelo poder de seu Espírito Santo.
Soli Deo Gloria!
Epílogo
Ler um livro sobre pregação pode ser, ao mesmo tempo, benéfico e
frustrante. Não conheço nenhum pregador que se sinta satisfeito com sua
pregação. Acho que era Spurgeon quem dizia que não atravessaria a rua para
ouvir sua própria pregação. Portanto, quando lemos sobre esse tema, é
provável que nossas debilidades fiquem evidentes e nos sintamos
desconsolados. Se você sentiu um pouco disso ao ler este livro, quero lembrá-
lo de algumas coisas antes de terminar.
Em primeiro lugar, lembre-se de que a obra de Deus não depende, em
última instância, da nossa obra. Se bem é verdade que “aprouve a Deus
salvar os que creem pela loucura da pregação” (1Co 1.21), nosso Deus é
suficientemente poderoso e sábio para completar sua obra no mundo e na
Igreja, apesar de nós.
Em segundo lugar, e complementando o que eu disse no parágrafo anterior,
lembre-se de que a pregação é um dom que deve ser cultivado para que
nosso proveito “a todos seja manifesto” (1Tm 4.15, grifo aposto). Não foi
minha intenção desestimular ninguém com o conteúdo deste livro. Também
não foi minha intenção promover a mediocridade ou, o que é pior, motivar
alguns que não foram chamados a pregar o evangelho. O dom de Deus para
expor em público as Escrituras deve ser evidente à Igreja e a outros pastores.
Por outro lado, aqueles que possuem esse dom não devem descuidar-se dele,
diz Paulo em 1Tm 4.14; esses devem continuar aprimorando-o. Este livro foi
escrito para ajudar aqueles que possuem o dom, para que possam ser cada vez
mais eficazes.
Em terceiro lugar, lembre-se do evangelho . Quando estiver desanimado
por causa de suas limitações como expositor, pregue repetidamente a si
mesmo a mensagem que você prega aos demais. Sua identidade primária não
é a de “pregador”, mas de um “cristão”. Isso significa que sua aceitação
diante de Deus não depende de seu desempenho no púlpito, mas da obra
perfeita de redenção que Jesus levou a cabo com sua vida, morte e
ressurreição. Ao colocar o evangelho no centro de sua vida, seu maior desejo
não será tornar-se um pregador melhor, mas ter uma comunhão cada dia mais
íntima e deleitosa com aquele que entregou a própria vida na cruz do
Calvário. O desejo de ser um pregador melhor não o ajudará necessariamente
a ser um cristão melhor; mas, se Deus chamou você para ser um pregador,
então aproximar-se mais do seu Senhor e Salvador certamente contribuirá
para que você pregue melhor.
Em quarto e último lugar, lembre-se de que o poder de Deus se aperfeiçoa
em nossa fraqueza . Se a leitura deste livro fez com que você enxergasse seus
pontos fracos como pregador, agradeça a Deus por isso, pois agora será
possível trabalhar intencionalmente para melhorar sua pregação...
dependendo totalmente do Espírito Santo. Ninguém é suficiente para essa
tarefa, mas a graça de Deus nos capacita a ser “o grato perfume de Cristo para
os que se salvam e para os que se perdem”, enquanto expomos as Escrituras
“da parte de Deus e na presença de Deus”.
Livros recomendados
Como já mencionei, existem alguns aspectos importantes relacionados à
pregação que não foram abordados em profundidade neste livro, mas apenas
de maneira superficial. Por esse motivo, acrescentamos uma lista de livros
recomendados, que podem ser de grande ajuda para ampliar e complementar
o conteúdo deste livro. Eu as coloquei em ordem de importância.
Martyn Lloyd-Jones
Pregações e Pregadores, 2ª ed. São José dos Campos, SP. Editora Fiel, 2008.
Se eu tivesse de recomendar apenas um livro de pregação, provavelmente
seria esse. Essa obra monumental deve ser lida e relida por todo aquele que
foi chamado ao ofício sagrado de pregar as Escrituras. Lloyd-Jones não
apenas instrui acerca da pregação, como também nos motiva a fazer isso.
Quando terminei de ler esse livro, mal podia esperar até chegar o domingo,
para voltar ao púlpito e expor a Palavra de Deus.
Brian Borgman
Mi corazón por Tu causa (Meu coração pela tua Causa). New Jersey:
Publicaciones Aquila, 2008.
Bryan Borgman fez um excelente trabalho ao sintetizar, nessa obra, a
teologia da pregação do pastor Albert N. Martin. Para aqueles que não
conhecem o pastor Martin, permitam-me contar essa história. Certa ocasião, o
teólogo John Murray foi convidado a pregar em uma conferência para
pastores e esta foi a sua resposta: “Se Al Martin estará lá, penso certamente
que vocês deveriam pedir-lhe que pregue nos três cultos vespertinos que
delegaram a mim. Ele é um dos pregadores mais capacitados e comoventes
que já escutei. Nunca ouvi ninguém que se igualasse a ele”. Nessa época,
Martin tinha 35 anos. Em meu caso, pode-se dizer que, junto com Martin
Lloyd-Jones, o pastor Martin foi uma das maiores influências em minha vida,
não somente como pregador, mas também como crente.
Albert N. Martin
La predicación em el Espíritu Santo (A pregação no Espírito Santo). New
Jersey: Publicaciones Aquila, 2012
Tanto essa obra como a que cito a seguir são breves exposições, porém
muito instrutivas, sobre a piedade e o caráter pessoal do pregador.
Albert N. Martin
Preparados para Predicar (Preparados para pregar). New Jersey:
Publicaciones Aquila, 2004.
Charles Haddon Spurgeon
Lições aos meus alunos. São Paulo, SP. Publicações Evangélicas
Selecionadas, 2003.
Se existe alguém que não requer apresentação entre os evangélicos, é o
pregador inglês do século XIX Charles H. Spurgeon. Em 1905, apenas 13
anos após a sua morte, muitos de seus sermões haviam sido traduzidos para
alemão, sueco, árabe, armênio, búlgaro, chinês, francês, italiano, japonês,
espanhol, tâmil, urdu, russo, polonês e sírio, entre outros; além dos que
haviam sido preparados em braile, para o uso dos cegos. Nesses discursos,
dirigidos aos estudantes da Escola de Pastores, Spurgeon se esforça para falar
da pregação de forma coloquial e familiar, como ele mesmo admite na
introdução, o que resultou em um livro altamente didático e, ao mesmo
tempo, de fácil leitura e assimilação.
John Stott
Eu creio na pregação. São Paulo, SP, Editora Vida, 2012.
Esse livro é um clássico sobre a pregação. Stott pertence à categoria dos
grandes expositores da Palavra do século XX. Vale a pena escutar um mestre
como ele falar do ministério, que foi a paixão de sua vida.
John A. Broadus
Sobre a preparação e entrega de sermões. São Paulo, SP, Editora Hagnos,
2009.
Essa obra, publicada originalmente em inglês, em 1970, foi um dos
manuais que Deus usou para equipar várias gerações de pregadores. Apesar
do tempo que nos separa do autor, esse clássico da homilética não perdeu sua
vigência e pode ser de grande ajuda para todo pregador do século XXI.
John Piper
A supremacia de Deus na pregação. São Paulo, SP. Edições Vida Nova,
2003.
Nesse livro, Piper condensa sua convicção enraizada nas Escrituras de que
pregação é adoração. “A pregação”, diz Piper, “é uma exultação pública
sobre a verdade que traz. Não é desinteressada, fria ou neutra. Não é uma
mera explicação. É manifesta e contagiosamente apaixonada sobre o que
diz”. John Piper é um modelo desse tipo de pregação “que se regozija”. Esse
livro não apenas nos oferece uma clara perspectiva da pregação centralizada
em Deus, como também nos leva a adorar a Deus enquanto pregamos.
Graeme Goldswothy
Pregando toda a Bíblia como Escritura cristã. São José dos Campos, SP.
Editora Fiel, 2013
Essa obra é de grande ajuda para todos aqueles que desejam saber como
pregar Cristo com profundidade, sendo fiéis ao significado de cada texto em
seu contexto. Dela, disse o grande pregador australiano, já falecido, John
Chapman: “Não resta dúvida de que esta obra nos ajudará a mostrar como
cada passagem das Escrituras enriquece nossa compreensão do evangelho”.
Byron Yawn
Clavos bien clavados (Pregos bem pregados). Michigan: Portavoz, 2012.
Tomando como ponto de partida a pregação de John MacArthur, R.C.
Sproul e John Piper, Byron Yawn fez um excelente trabalho para nos mostrar
como pregar com clareza, simplicidade e paixão.
Bryan Chapell
Cómo usar ilustraciones para predicar con poder (Como usar ilustrações
para pregar com poder). Michigan: Editorial Portavoz, 2007.
Como o título indica, esse livro foca em apenas um aspecto da pregação: o
bom uso das ilustrações, e o faz com maestria. Bryan Chapell é um grande
pregador, alguém que entende muito bem a essência da pregação e que sabe
como ensinar isso aos outros.
David Helm
Pregação Expositiva. São Paulo, SP. Edições Vida Nova, 2017.
Essa obra é um tratado conciso de pregação expositiva que pode ser muito
útil, tanto para quem está começando a pregar como para quem já tem muitos
anos fazendo isso. De forma simples, mas não superficial, David Helm nos
mostra em que consiste a verdadeira pregação, ao mesmo tempo que nos dá
conselhos práticos sobre como pregar.
Edmund P. Clowney
El misterio revelado (O mistério revelado). Colômbia: Poiema Publicaciones,
2014.
Mesmo não se tratando diretamente de um livro sobre pregação, eu o incluí
aqui por causa da importância vital de seu conteúdo. Tal como vimos no
capítulo 7, o grande tema das Escrituras é Cristo, e Este crucificado. Edmund
Clowney é um mestre que precisamos escutar para saber como pregar Cristo
a partir do Antigo Testamento sem fazer um “pouso forçado no Calvário”.
Colin Marshal e Tony Payne
A Treliça e a Videira. São José dos Campos, SP. Editora Fiel, 2015.
Esse livro também não fala diretamente sobre pregação. Porém, eu o incluí
nesta lista por ser uma ferramenta útil para nos lembrar que, se, por um lado,
a pregação expositiva é de suma importância para a saúde espiritual da Igreja,
ela não elimina a necessidade de outros aspectos ministeriais, como, por
exemplo, o discipulado pessoal.
Notas
Prólogo
1. Gardiner Spring, The Power of the Pulpit (Carlisle, PA: Banner of Truth,
1986), 35.
Capítulo 1
1. Byron Forrest Yawn, Clavos bien clavados (Grand Rapids, MI: Editorial
Portavoz, 2012), 47.
2. John Stott, La predicación (Grand Rapids, MI: Libros Desafío, 2000), 87.
3. Online. Acesso em fevereiro de 2016. http://evangelio.
wordpress.com/2010/01/21/%C2%BFque-es-el-pragmatismo%C2%BFpor-
que-es-malo/.
4. Jonathan Leeman, Reverberation (Chicago, IL: Moody Publishers, 2011),
19.
5. Jeffrey D. Arthurs, Predicando con variedad (Grand Rapids, MI: Editorial
Portavoz, 2009), 22.
6. Mark Dever y Greg Gilbert, Preach (Nashville, TN: B&H Publishing
Group, 2012), 28.
7. Stott, La predicación , 87.
8. Graeme Goldsworthy, Cómo predicar de Cristo usando toda la Biblia
(Kiama, Australia: Torrentes de Vida, 2012), 61.
9. Dever y Gilbert, Preach , 21.
10. Leeman, Reverberation , 19.
Capítulo 2
1. A palavra traduzida por “inspirada” em 2 Timóteo 3:16 significa,
literalmente, “exalada por Deus” ou “soprada por Deus”.
2. Peter Adam, Speaking God’s Words (Vancouver, Canada: Regent College
Publishing, 2004), 27.
3. Ibid., 28.
4. John Stott, La predicación (Grand Rapids, MI: Libros Desafío, 2000), 96.
5. Ibid., 98.
Capítulo 3
1. Mike Abendroth, Jesus Christ (Leominster, UK: Day One Publications,
2008), 24-25.
2. Ibid., 25.
3. Martyn Lloyd-Jones, La predicación y los predicadores (Moral de
Calatrava, España: Editorial Peregrino, 2003), 22.
4. Compare com Hebreus 12:18-21.
5. R. Albert Mohler, Jr., Proclame la Verdad (Grand Rapids, MI: Editorial
Portavoz, 2010), 43.
6. Sobre a construção gramatical dessa pergunta no original, León Morris diz
o seguinte em The Epistle to the Romans (Grand Rapids, MI: Wm. B.
Eerdmans Publishing, 1988), 389-390: O οὗ genitivo é a construção normal
depois de ἀκούω de pessoas, que significa “quem”, e não “de quem” (que,
como mostra Cranfield, não seria usual no grego).
7. John Stott, El mensaje de Romanos (Buenos Aires, Argentina: Ediciones
Certeza Unida, 2007), 331.
8. R. Bruce Bickel, Light and Heat (Morgan, PA: Soli Deo Gloria, 1999), 10-
11.
9. John Stott, La predicación (Grand Rapids, MI: Libros Desafío, 2000), 103.
10. Ibid.
11. Isaac Watts, “Quão solene e doce é aquele lugar”, El himnario bautista de
la gracia (Alamance, NC: Publicaciones Faro de Gracia, 2000), hino n° 83.
12. Mark Dever y Greg Gilbert, Preach (Nashville, TN: B&H Publishing
Group, 2012), 33.
Capítulo 4
1. John Stott, Imágenes del predicador en el Nuevo Testamento (Grand
Rapids, MI: Nueva Creación, 1996), 12-13.
2. Ibid., 17.
3. Ibid., 33.
4. Ibid., 34.
5. Mike Abendroth, Jesus Christ (Leominster, UK: Day One Publications,
2008), 28.
6. Mark Dever e Greg Gilbert, Preach (Nashville, TN: B&H Publishing
Group, 2012), 36-37.
7. Greg R. Scharf, Let the Earth Hear His Voice (Phillipsburg, NJ: P&R
Publishing, 2015), pos. 294 de 6966.
8. Stephen F. Olford com David L. Olford, Guía de predicación expositiva
(Nashville, TN: B&H Publishing Group, 2005), 70.
9. Sinclair B. Ferguson, “Exegesis”, em The Preacher and Preaching ,
editado por Samuel T. Logan, Jr. (Phillipsburg, NJ: P&R Publishing, 1986),
192.
10. Gary Millar e Phil Campbell, Saving Eutychus (Kingsford, Australia:
Matthias Media, 2013), 29-30.
11. John Stott, La predicación (Grand Rapids, MI: Libros Desafío, 2000), 120.
12. Ibid.
Capítulo 5
1. Haddon W. Robinson, La predicación bíblica (Miami, FL: Logoi, Inc.,
2000), 18.
2. Henry C. Fish, Power in the Pulpit (Edinburgh, Scotland: Andrew Elliot,
1862). Traduzido por Salvador Gomez: “Poder del púlpito” (Santo
Domingo, República Dominicana: manuscrito inédito, 2013), 14.
3. Essa ilustração foi inspirada parcialmente em Jonathan Leeman, The
Church and the Surprising Offense of God’s Love (Wheaton, IL: Crossway
Books, 2010), 15.
4. R. Bruce Bickel, Light and Heat (Morgan, PA: Soli Deo Gloria, 1999), 12.
5. Ibid., 32.
6. Don Kistler, “Preaching With Authority”, em Feed My Sheep (Morgan, PA:
Soli Deo Gloria, 2002), 219.
7. Alex Montoya, Predicando con pasión (Grand Rapids, MI: Editorial
Portavoz, 2003), 81.
8. Compare com 1 Timóteo 4:12; Tito 2:6-7.
9. Edward (Ted) Donnelly, Peter (Carlisle, PA: Banner of Truth, 1998), 78.
10. John Stott, Imágenes del predicador en el Nuevo Testamento (Grand
Rapids, MI: Nueva Creación, 1996), 22-23.
11. Ibid.
12. Martyn Lloyd-Jones, La predicación y los predicadores (Moral de
Calatrava, España: Editorial Peregrino, 2003), 110.
13. Montoya, Predicando …, 9.
14. Byron Forrest Yawn, Clavos bien clavados (Grand Rapids, MI: Editorial
Portavoz, 2012), 104.
15. Ibíd., 105.
16. Steven J. Lawson, La predicación que Dios bendice (Eugene, OR: Harvest
House Publishers, 2013), 93.
17. Lloyd-Jones, La predicación …, 111.
18. Ibid., 99.
19. Daniel M. Doriani, Putting the Truth to Work (Phillipsburg, NJ: P&R
Publishing, 2001), 97.
20. Richard Baxter, El pastor renovado (Carlisle, PA: Banner of Truth, 2009),
130-131.
21. Brian Borgman, Mi corazón por Tu causa (North Bergen, NJ:
Publicaciones Aquila, 2008), 289.
22. Lloyd-Jones, La predicación …, 104.
23. Montoya, Predicando …, 68.
24. Yawn, Clavos …, 36.
25. Ibid.
26. Ibid., 37.
27. Ibid., 40.
28. Ibid.
29. Ibid., 41.
30. Charles H. Spurgeon, Autobiography (Carlisle, PA: Banner of Truth,
1962), 87.
Capítulo 6
1. Albert N. Martin, Preparados para predicar (North Bergen, NJ:
Publicaciones Aquila, 2004), 100.
2. Ibid., 100-101.
3. Wilber T. Dayton, citado por John MacArthur, El redescubrimiento de la
predicación expositiva (Nashville, TN: Editorial Caribe, 1996), 129.
4. Ibid., 336-337.
5. Byron Forrest Yawn, Clavos bien clavados (Grand Rapids, MI: Editorial
Portavoz, 2012), 82.
6. Ibid., 91.
7. Albert N. Martin, La predicación en el Espíritu Santo (North Bergen, NJ:
Publicaciones Aquila, 2012), 40.
8. John Piper, The Supremacy of God in Preaching (Grand Rapids, MI: Baker
Books, 1988), 38.
9. Timothy Keller, Preaching (New York, NY: Viking, 2015), pos. 2368 de
4183.
10. Martin, La predicación …, 45-46.
11. Martyn Lloyd-Jones, La predicación y los predicadores (Moral de
Calatrava, España: Editorial Peregrino, 2003), 173.
12. Ibid., 47.
13. William P. Farley, Hidden in the Gospel (Phillipsburg, NJ: P&R
Publishing, 2014), 8.
14. Piper, The Supremacy …, 39.
15. Ibid., 37.
16. Ibid., 37-38.
Capítulo 7
1. Edmund P. Clowney, “Preaching Christ From All the Scriptures”, em The
Preacher and Preaching , editado por Samuel T. Logan, Jr. (Phillipsburg,
NJ: P&R Publishing, 1986), 164.
2. Ibid.
3. Sidney Greidanus, Preaching Christ from the Old Testament (Grand Rapids,
MI: Wm. B. Eerdmans Publishing, 1999), 10.
4. Graeme Goldsworthy, Cómo predicar de Cristo usando toda la Biblia
(Kiama, Australia: Torrentes de Vida, 2012), 42.
5. Charles H. Spurgeon, Ganador de hombres (Carlisle, PA: Banner of Trust,
1985), 88.
6. Greidanus, Preaching …, 2.
7. Sinclair B. Ferguson, “Predicando a Cristo desde el Antiguo Testamento”,
em El predicador y su relación con la Palabra , por Peter Adam, John
Woodhouse, Peter F. Jensen y Sinclair B. Ferguson (Barcelona, España:
Publicaciones Andamio, 2009), 78.
8. Tremper Logan, citado por Timothy Keller, Preaching (New York, NY:
Viking, 2015), pos. 1.036 de 4.183.
9. Ibid.
10. Goldsworthy, Cómo predicar …, 176.
11. Ferguson, “ Predicando …”, 79.
12. Gary Millar e Phil Campbell, Saving Eutychus (Kingsford, Australia:
Matthias Media, 2013), 79.
13. Graeme Goldsworthy, Estrategia divina (Barcelona, España: Publicaciones
Andamio, 2003), 41.
14. David Helm, La predicación expositiva (Washington, D. C.: 9Marks,
2014), 79.
15. Ferguson, “Predicando…”, 82.
16. Ibid., 84.
17. Helm, La predicación …, 81.
18. Daniel M. Doriani, Putting the Truth to Work (Phillipsburg, NJ: P&R
Publishing, 2001), 280.
19. Timothy Keller, La Cruz del Rey (Barcelona, España: Publicaciones
Andamio, 2013), 67.
20. Timothy Keller, Preaching (New York, NY: Viking, 2015), pos. 608 de
4.183.
21. Ibid.
22. Ibid.
23. Ibid., pos. 630 de 4.183.
24. Ibid.
25. Ibid.
26. Ibid.
27. Ibid., pos. 650 de 4.183.
28. Ibid.
29. Ibid.
30. Ibid.
31. Ibid.
32. Ferguson, “Predicando…”, 94.
Capítulo 8
1. Haddon W. Robinson, La predicación bíblica (Miami, FL: Logoi, Inc.,
2000), 52.
2. Ibid., 52-53.
3. Ibid., 54.
4. Irvin A. Busenitz, “Mensajes expositivos temáticos, teológicos, históricos
y biográficos”, em El redescubrimiento de la predicación expositiva: cómo
balancear la ciencia y el arte de la exposición bíblica , por John
MacArthur, Jr., e a faculdade do Master’s Seminary (Nashville, TN:
Editorial Caribe, 1996), 285.
5. Martyn Lloyd-Jones, God’s Way of Reconciliation (Grand Rapids, MI:
Baker Books, 1972), 59.
6. Charles H. Spurgeon, Discursos a mis estudiantes (Moral de Calatrava,
España: Editorial Peregrino, 2013), 145.
7. Mark Dever y Greg Gilbert, Preach (Nashville, TN: B&H Publishing
Group, 2012), 65.
8. Gary Millar y Phil Campbell, Saving Eutychus (Kingsford, Australia:
Matthias Media, 2013), 40.
9. Ibid.
10. James D. Crane, El sermón eficaz (El Paso, TX: Casa Bautista de
Publicaciones, 1968), 82.
11. Busenitz, “Mensajes…”, 287.
Capítulo 9
1. Byron Forrest Yawn, Clavos bien clavados (Grand Rapids, MI, Editorial
Portavoz, 2012), 47.
2. Henry C. Fish, Power in the Pulpit (Edinburgh, Scotland: Andrew Elliot,
1862). Traduzido por Salvador Gomez: “Poder del púlpito” (Santo
Domingo, República Dominicana: manuscrito inédito, 2013), 22.
3. Ken Gire, Moments With the Savior (Grand Rapids, MI: Zondervan, 1998),
46.
4. Yawn, Clavos …, 108-109.
5. Doutrina que sustenta que o Estado é superior à Igreja, mesmo em temas
eclesiásticos. O nome deriva de Thomas Erastus, teólogo suiço e seguidor
de Zuínglio, que defendia que o Estado deve castigar todas as ofensas,
inclusive as eclesiásticas. O erastianismo surge da defesa da superioridade
secular proposta por Richard Hooker durante a Assembleia de Westminster.
6. Dale Ralph Davis, The Word Became Fresh (Fearn, Scotland: Christian
Focus Publications, 2007), 6.
7. Robert L. Plummer, Preguntas y respuestas sobre cómo interpretar la
Biblia (Grand Rapids, MI: Editorial Portavoz, 2013), 94.
8. Ibid.
9. Veja também Stephen F. Olford e David L. Olford, Guía de predicación
expositiva (Nashville, TN, B&H Publishing Group, 2005), 120, 122.
10. Ramesh Richard, La predicación expositiva (Grand Rapids, MI: Baker
Books, 1995), 54-61.
11. Yawn, Clavos …, 93.
12. Ibid.
13. Ibid., 64.
14. Ibid., 50.
15. Ibid., 94.
16. David Helm, La predicación expositiva (Washington, D. C.: 9Marks,
2014), 71.
17. Ibid., 128.
Capítulo 10
1. John Stott, La predicación (Grand Rapids, MI: Libros Desafío, 2000), 223
2. Ibid.
3. John A. Broadus, Tratado sobre la predicación (El Paso, TX: Casa Bautista
de Publicaciones, 1989), 163.
4. Stott, La predicación , 222-223.
5. Charles H. Spurgeon, Discursos a mis estudiantes (Moral de Calatrava,
España: Editorial Peregrino, 2013), 145.
6. O. Palmer Robertson, Preaching Made Practical (Grand Rapids, MI:
Evangelical Press, 2015), 121.
7. Martyn Lloyd-Jones, La predicación y los predicadores (Moral de
Calatrava, España: Editorial Peregrino, 2003), 86-87.
8. Robertson, Preaching …, 121.
Capítulo 11
1. Gary Millar e Phil Campbell, Saving Eutychus (Kingsford, Australia:
Matthias Media, 2013), 64.
2. Ibid.
3. Robert L. Dabney, Sacred Rhetoric (Edinburgh, Scotland: Banner of Truth,
1979), 113.
4. Millar y Campbell, Saving Eutychus , 63.
5. Bryan Chapell, Christ-Centered Preaching (Grand Rapids, MI: Baker
Academics, 2005), 47.
6. Ibid., 48.
7. Byron Forrest Yawn, Clavos bien clavados (Grand Rapids, MI: Editorial
Portavoz, 2012), 57.
8. C. S. Lewis, God in the Dock (Grand Rapids, MI: Wm. B. Eerdmans
Publishing, 1970), 267.
9. J. C. Ryle, The Upper Room (Carlisle, PA: Banner of Truth, 1983), 39.
10. Henry C. Fish, Power in the Pulpit (Edinburgh, Scotland: Andrew Elliot,
1862). Traduzido por Salvador Gomez: “Poder del púlpito” (Santo
Domingo, República Dominicana: manuscrito inédito, 2013), 10.
11. Ryle, The Upper …, 43.
12. John Stott, La predicación (Grand Rapids, MI: Libros Desafío, 2000), 226.
13. Fish, “Poder…”, 13.
14. John A. Broadus, Tratado sobre la predicación (El Paso, TX: Casa
Bautista de Publicaciones, 1989), 230.
15. Ibid., 231.
16. James Braga, Cómo preparar mensajes bíblicos (Grand Rapids, MI:
Editorial Portavoz, 1986),176.
17. Bryan Chapell, Cómo usar ilustraciones para predicar con poder (Grand
Rapids, MI: Editorial Portavoz, 2007),15.
18. Sam Storms, One Thing (Fearn, Scotland: Christian Focus Publications,
2004), 124-127.
19. Ibid., 127.
Capítulo 12
1. Brian Borgman, Mi corazón por Tu causa (North Bergen, NJ: Publicaciones
Aquila, 2008), 220-221.
2. Ibid., 221.
3. Daniel M. Doriani, Putting the Truth to Work (Phillipsburg, NJ: P&R
Publishing, 2001), 42.
4. Ibid.
5. Ibid., 42-43.
6. Ibid.
7. Ibid., 43-44.
8. Véase Mateo 12:3,5; 19:4; 21:16,42; 22:31.
9. Doriani, Putting the Truth …, 19.
10. Ibid., 20.
11. Ibid.
12. Ibid., 22.
13. Ibid.
14. Ibid.
15. Graeme Goldsworthy, Cómo predicar de Cristo usando toda la Biblia
(Kiama, Australia: Torrentes de Vida, 2012), 95.
16. Doriani, Putting the Truth …, 13.
17. Ibid., 14.
18. Ibid., 280.
19. Ibid., 17.
20. Goldsworthy, Cómo predicar …, 96.
21. Bryan Chapell, Holiness by Grace (Wheaton, IL: Crossway, 2001), 57.
22. Ibid.
23. Doriani, Putting the Truth …, 98.
24. Ibid., 69.
25. Ibid., 68.
26. Byron Forrest Yawn, Clavos bien clavados (Grand Rapids, MI: Editorial
Portavoz, 2012), 41.
27. David Helm, La predicación expositiva (Washington, D. C.: 9Marks,
2014), 124-125.
28. Borgman, Mi corazón …, 226.
Capítulo 13
1. John A. Broadus, Tratado sobre la predicación (El Paso, TX: Casa Bautista
de Publicaciones, 1989), 166.
2. James Braga, Cómo preparar mensajes bíblicos (Grand Rapids, MI:
Editorial Portavoz, 1986), 120.
3. Haddon W. Robinson, La predicación bíblica (Miami, FL: Logoi, Inc.,
2000), 163.
4. Broadus, Tratado …, 171.
5. Ibid., 170.
6. Braga, Cómo preparar …, 122.
7. Robinson, La predicación …, 169.
8. John MacArthur, Jr., e a faculdade do Master’s Seminary, El
redescubrimiento de la predicación expositiva: cómo balancear la ciencia y
el arte de la exposición bíblica (Nashville, TN: Editorial Caribe, 1996), 274.
9. Braga, Cómo preparar …, 282.
10. Ibid., 282-283.
11. Robinson, La predicación …, 166.
Capítulo 14
1. Mark Dever e Greg Gilbert, Preach (Nashville, TN: B&H Publishing
Group, 2012), 119.
2. Byron Forrest Yawn, Clavos bien clavados (Grand Rapids, MI: Editorial
Portavoz, 2012), 35.
3. Ibid.
4. Brian Borgman, Mi corazón por Tu causa (North Bergen, NJ: Publicaciones
Aquila, 2008), 286.
5. Ibid., 286-287.
6. Ibid., 288.
7. Ibid., 289.
8. Ibid., 292.
9. Charles H. Spurgeon, Discursos a mis estudiantes (Moral de Calatrava,
España: Editorial Peregrino, 2013), 187.
10. Ibid., 187-188.
11. Ibid., 195.
12. John A. Broadus, Tratado sobre la predicación (El Paso, TX: Casa
Bautista de Publicaciones, 1989), 278-279.
13. Jeffrey D. Arthurs, Predicando con variedad (Grand Rapids, MI: Editorial
Portavoz, 2009), 18.
14. Charles H. Spurgeon, An All-Around Ministry: Addresses to Ministers and
Students (Apollo, PA: Ichthus Publications, 2014), 228.
15. Spurgeon, Discursos …, 195.
16. Broadus, Tratado …, 283.
17. Ibid.
18. Borgman, Mi corazón …, 313.
19. Ibid.
20. Dever e Gilbert, Preach , 123.
21. R. C. Sproul, “The Whole Man”, em The Preacher and Preaching ,
editado por Samuel T. Logan, Jr. (Phillipsburg, NJ: P&R Publishing, 1986),
106.
22. Online. Acesso em 9 de março de 2016.
http://www.thegospelcoalition.org/coalicion/article/3-cosas-que-no-hay-
que-hacer-despues-de-predicar.
23. Ibid.
Capítulo 15
1. Esse título foi emprestado do conhecido livro de C.S. Lewis, God in the
Dock [Deus no banco dos réus],embora o conteúdo desse sermão tenha
pouca relação com o conteúdo daquela obra.
2. Phillip Graham Ryken, Exodus (Wheaton, IL: Crossway, 2005), 450.
3. Scotty Smith, Everyday Prayers (Grand Rapids, MI: Baker Books, 2011),
206.
Bibliografia
Abendroth, Mike. Jesus Christ: The Prince of preachers . Leominster, UK:
Day One Publications, 2008.
Adam, Peter. Speaking God’s Words: A Practical Theology of Preaching.
Vancouver, Canadá: Regent College Publishing, 2004.
Arthurs, Jeffrey D. Predicando con variedad . Grand Rapids, MI: Editorial
Portavoz, 2009.
Alexander, James Waddel. Thoughts on preaching: being contributions to
homiletics . Carlisle, PA: The Banner of Truth Trust, 1988.
Baxter, Richard. El pastor renovado . Carlisle, PA: The Banner of Truth
Trust, 2009.
Bickel, R. Bruce. Light and Heat: The Puritan View of the Pulpit . Morgan,
PA: Soli Deo Gloria, 1999.
Borgman, Brian. Mi corazón por Tu causa . North Bergen, NJ: Publicaciones
Aquila, 2008.
Braga, James. Cómo preparar mensajes bíblicos . Grand Rapids, MI: Editorial
Portavoz, 1986.
Bridges, Charles. The Christian Ministry: With An Inquiry Into the Causes of
Its Inefficiency . Carlisle, PA: The Banner of Truth Trust, 1983.
Broadus, John A. Tratado sobre la predicación . El Paso, TX: Casa Bautista
de Publicaciones, 1989.
Busenitz, Irvin A. “Mensajes expositivos temáticos, teológicos, históricos y
biográficos”. Em El redescubrimiento de la predicación expositiva: cómo
balancear la ciencia y el arte de la exposición bíblica , por John MacArthur
Jr. e Master’s Seminary, 285-304. Nashville, TN: Editorial Caribe, 1996.
Carrick, John. The Imperative of Preaching: A Theology of Sacred Rhetoric.
Carlisle, PA: The Banner of Truth Trust, 2002.
Carson, Donald A. La cruz y el ministerio Cristiano: una exposición de
pasajes de 1 Corintios . Barcelona, España: Publicaciones Andamio, 1983.
Chapell, Bryan. Christ-Centered Preaching: Redeeming the Expository Ser-
mon . Segunda edición. Grand Rapids, MI: Baker Academics, 2005.
_____. Cómo usar ilustraciones para predicar con poder . Grand Rapids, MI:
Editorial Portavoz, 2007.
_____. Holiness by Grace: Delighting in the Joy That Is Our Strength .
Wheaton, IL: Crossway, 2001.
Clowney, Edmund P. El misterio revelado: descubriendo a Cristo en el
Antiguo Testamento . Medellín, Colombia: Poiema Publicaciones, 2014.
_____. “Preaching Christ From All the Scriptures”. Em The Preacher and
Preaching , editado por Samuel T. Logan, Jr., 163-191. Phillipsburg, NJ:
P&R Publishing Company, 1986.
_____. ¡Predica! La centralidad de Cristo en la predicación. Guadalupe,
Costa Rica: Editorial CLIR, 2011.
Crane, James D. El sermón eficaz . El Paso, TX: Casa Bautista de Pu-
blicaciones, 1968.
Dabney, Robert L. Sacred Rhetoric: A Course of Lectures on Preaching .
Edinburgh, Scotland: The Banner of Truth Trust, 1979.
Davis, Dale Ralph. The Word Became Fresh: How to Preach from Old
Testament Narrative Texts . Fearn, Scotland: Christian Focus Publications,
2007.
DeYoung, Kevin. Taking God At His Word: Why the Bible is Knowable,
Necessary, and Enough, and What That Means for You and Me . Wheaton,
IL: Crossway, 2014.
Dever, Mark. Una Iglesia saludable: nueve características . Wheaton, IL:
Crossway, 2004.
_____ e Greg Gilbert. Preach : Theology Meets Practice. Nashville, TN:
B&H Publishing Group, 2012.
_____, J. Ligon Duncan III, R. Albert Mohler Jr. e C. J. Mahaney. Preaching
the Cross . Wheaton, IL: Crossway, 2007.
Donnelly, Edward (Ted). Peter: Eyewitness of His Majesty . Carlisle, PA: The
Banner of Truth Trust, 1998.
Doriani, Daniel M. Putting the Truth to Work: The Theory and Practice of
Biblical Application . Phillipsburg, NJ: P&R Publishing Company, 2001.
Ellsworth, Wilbur. The Power of Speaking God’s Word: How to Preach
Memorable Sermons . Fearn, Scotland: Christian Focus Publications, 2000.
Farley, William P. Hidden in the Gospel: Truths You Forget to Tell Yourself
Every Day . Phillipsburg, NJ: P&R Publishing Company, 2014.
Ferguson, Sinclair B. “Exegesis”. Em The Preacher and Preaching , editado
por Samuel T. Logan, Jr., 192-211. Phillipsburg, NJ: P&R Publishing
Company, 1986.
_____. “Predicando a Cristo desde el Antiguo Testamento”. En El predicador
y su relación con la palavra , por Peter Adam, John Woodhouse, Peter F.
Jensen e Sinclair B. Ferguson, 76-96. Barcelona, España: Publicaciones
Andamio, 2009.
Fish, Henry C. Power in the Pulpit . Edinburgh, Scotland: Andrew Elliot,
1862. Traduzido por Salvador Gomez. “Poder del púlpito”. Manuscrito
inédito: Santo Domingo, República Dominicana, 2013.
Gire, Ken. Moments With the Savior: A Devotional Life of Christ . Grand
Rapids, MI: Zondervan, 1998.
Goldsworthy, Graeme. Cómo predicar de Cristo usando toda la Biblia: cómo
aplicar la teología bíblica en la predicación expositiva. Kiama, Austrália:
Torrentes de Vida, 2012.
_____. Estrategia divina: Una teología bíblica de la salvación . Volume 10
da série Colección Cristianismo Contemporáneo. Barcelona, Espanha:
Publicaciones Andamio, 2003.
Greidanus, Sidney. Preaching Christ from the Old Testament: A
Contemporary Hermeneutical Method . Grand Rapids, MI: Wm. B.
Eerdmans Publishing Co., 1999.
Helm, David. La predicación expositiva: cómo proclamar la Palabra de Dios
hoy . Washington, D. C.: 9Marks, 2014.
Hughes, Jack. Expository Preaching with Word Pictures: With Illustrations
from the Sermons of Thomas Watson . Fearn, Scotland: Christian Focus
Publications, 2001.
Keller, Timothy. La Cruz del Rey: la historia del mundo en la vida de Jesús.
Barcelona, Espanha: Publicaciones Andamio, 2013.
_____. Preaching: Communicating Faith in an Age of Skepticism . Edición
digital de Kindle. New York, NY: Viking, 2015.
Kistler, Don. “Preaching With Authority”. Em Feed My Sheep: A Passionate
Plea for Preaching , compilado por Don Kistler, 117-122. Morgan, PA:
Soli Deo Gloria, 2002.
Lawson, Steven J. La predicación que Dios bendice . Edição especial por
Grace Community Church, em Sun Valley, CA: Harvest House Publishers,
2013.
Leeman, Jonathan. The Church and the Surprising Offense of God’s Love:
Reintroducing the Doctrines of Church Membership and Discipline .
Wheaton, IL: Crossway Books, 2010.
_____. Reverberation: How God’s Word Brings Light, Freedom, and Action
to His People . Chicago, IL: Moody Publishers, 2011.
Lewis, C.S. God in the Dock . Grand Rapids, MI: Wm. B. Eerdmans
Publishing Co., 1970.
Lloyd-Jones, Martyn. God’s Way of Reconciliation: Studies in Ephesians 2 .
Grand Rapids, MI: Baker Books, 1972.
_____. La predicación y los predicadores . Moral de Calatrava, España:
Editorial Peregrino, 2003.
_____. Los puritanos: sus orígenes y sucesores . Carlisle, PA: The Banner of
Truth Trust, 2013.
MacArthur, John, Jr., e a faculdade do Master’s Seminary. El
redescubrimiento de la predicación expositiva: cómo balancear la ciencia y
el arte de la exposición bíblica . Nashville, TN: Editorial Caribe, 1996.
Marcel, Pierre-Charles. The Relevance of Preaching . Seoul, Korea: West-
minster Publishing House, 2000.
Martin, Albert N. La predicación en el Espíritu Santo . North Bergen, NJ:
Publicaciones Aquila, 2012.
_____. Preparados para predicar . North Bergen, NJ: Publicaciones Aquila,
2004.
Mawhinney, Bruce. Predicando con frescura . Grand Rapids, MI: Editorial
Portavoz, 1998.
Millar, Gary y Phil Campbell. Saving Eutychus: How to preach God’s word
and keep people awake . Kingsford, Australia: Matthias Media, 2013.
Mohler, R. Albert, Jr. Proclame la Verdad: predique en un mundo post-
moderno . Grand Rapids, MI: Editorial Portavoz, 2010.
Montoya, Alex. Predicando con pasión . Grand Rapids, MI: Editorial
Portavoz, 2003.
Morris, Leon. The Epistle to the Romans . Parte da série The Pillar New
Testament Commentary, editado por D. A. Carson. Grand Rapids, MI: Wm.
B. Eerdmans Publishing Co., 1988.
Motyer, Alec. Preaching? Simple Teaching on Simply Preaching . Fearn,
Scotland: Christian Focus Publications, 2013.
Murray, David. How Sermons Work . Edição digital de Kindle. Faverdale
North, England: EP Books, 2012.
Olford, Stephen F. eDavid L. Olford. Guía de predicación expositiva .
Nashville, TN: B&H Publishing Group, 2005.
Piper, John. The Supremacy of God in Preaching . Grand Rapids, MI: Baker
Books, 1988.
Plummer, Robert L. Preguntas y respuestas sobre cómo interpretar la Biblia .
Grand Rapids, MI: Editorial Portavoz, 2013.
Richard, Ramesh. La predicación expositiva: siete pasos para la predicación
bíblica . Grand Rapids, MI: Baker Books, 1995.
Robertson, O. Palmer. Preaching Made Practical . Grand Rapids, MI:
Evangelical Press, 2015.
Robinson, Haddon W. La predicación bíblica . Miami, FL: Logoi, Inc., 2000.
Rhodes, Jonty. Covenants Made Simple: Understanding God’s Unfolding
Pro- mises to His People . Phillipsburg, NJ: P&R Publishing Company,
2013.
Ryken, Philip Graham. Exodus: Saved for God’s Glory . Parte da série
Preaching the Word, editado por R. Kent Hughes. Wheaton, IL: Crossway,
2005.
Ryle, J. C. The Upper Room: Being a Few Truths for the Times . Carlisle, PA:
The Banner of Truth Trust, 1983.
Scharf, Greg R. Let the Earth Hear His Voice: Strategies for Overcoming
Bottlenecks in Preaching God’s Word . Edição digital de Kindle.
Phillipsburg, NJ: P&R Publishing Company, 2015.
Shaddix, James. The Passion-Driven Sermon: Changing the Way Pastors
Preach and Congregations Listen . Nashville, TN: B&H Publishing Group,
2003.
Smith, Scotty. Everyday Prayers: 365 Days to a Gospel-Centered Faith .
Grand Rapids, MI: Baker Books, 2011.
Spring, Gardiner. The Power of the Pulpit: Addresses to Ministers of the
Gospel and Those Who Hear Them . Carlisle, PA: The Banner of Truth
Trust, 1986.
Sproul, R. C. “The Whole Man”. Em The Preacher and Preaching , editado
por Samuel T. Logan, Jr., 105-126. Phillipsburg, NJ: P&R Publishing
Company, 1986.
Spurgeon, Charles H. An All-Around Ministry: Addresses to Ministers and
Students . Apollo, PA: Ichthus Publications, 2014.
_____. Autobiography: Volume 1: The Early Years . Carlisle, PA: The Banner
of Truth Trust, 1962.
_____. Discursos a mis estudiantes . Moral de Calatrava, España: Editorial
Peregrino, 2013.
_____. Ganador de hombres . Carlisle, PA: The Banner of Truth Trust, 1985.
Storms, Sam. One Thing: Developing a Passion for the Beauty of God . Fearn,
Scotland: Christian Focus Publications, 2004.
Stott, John. El mensaje de Romanos . Buenos Aires, Argentina: Ediciones
Certeza Unida, 2007.
_____. Imágenes del predicador en el Nuevo Testamento . Grand Rapids, MI:
Nueva Creación, 1996.
_____. La predicación: puente entre dos mundos . Grand Rapids, MI: Libros
Desafío, 2000.
Watts, Isaac. “Cuán solemne y dulce es aquel lugar”. Em El himnario bautista
de la gracia . Alamance, NC: Publicaciones Faro de Gracia, 2000.
Wright, Christopher J. H. Conociendo a Jesús a través del Antiguo
Testamento . Barcelona, España: Publicaciones Andamio, 1996.
Yawn, Byron Forrest. Clavos bien clavados . Grand Rapids, MI: Editorial
Portavoz, 2012.
O Ministério Fiel visa apoiar a igreja de Deus, fornecendo conteúdo fiel às
Escrituras através de conferências, cursos teológicos, literatura, ministério
Adote um Pastor e conteúdo online gratuito.
Disponibilizamos em nosso site centenas de recursos, como vídeos de
pregações e conferências, artigos, e-books, audiolivros, blog e muito mais. Lá
também é possível assinar nosso informativo e se tornar parte da comunidade
Fiel, recebendo acesso a esses e outros materiais, além de promoções
exclusivas.
Visite nosso site
www.ministeriofiel.com.br

Похожие интересы