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JOHN WESLEY E AS MANIFESTAÇÕES DO ESPÍRITO

NO METODISMO PRIMITIVO
Wesley anota em seu Jornal, em 13 de fevereiro de 1760, um relato extraordinário. Um grupo
de mais ou menos 30 pessoas se reuniu em Otley, às 8 horas da noite, para, como de
costume, orar, cantar hinos e “estimular uns aos outros no amor e nas boas obras” (Hb 10, 24,
um dos versículos favoritos de Jonh Wesley). Finda a oração, algumas pessoas, entre suspiros
e gemidos, se queixaram da carga sentida pelo pecado que ainda tinham.

Depois da reunião, a maioria continuou ainda de


joelhos, gemendo e suspirando pelas grandes e preciosas promessas de DEUS. Um dos
participantes nem bem começou sua oração, quando o “Espírito Santo foi derramado sobre
cada um deles, com gemidos que não podiam ser expressos”. Estalaram de todos os lados
prantos fortes e ardentes, não havendo dúvida alguma a respeito do favor de DEUS. Só lhes
restava permanecer ali, aguardando a ação purificadora do Espírito Santo. Um deles gritou em
meio à agonia: “Senhor, livra-me de minha natureza pecaminosa”. Em seguida, bradou um
segundo, um terceiro e um quarto, ao passo que o primeiro clamava: “DEUS de Abraão, de
Isaque, de Jacó, escuta nos por causa de Teu Filho Jesus Cristo”. Outro disse: “Bendito seja,
Senhor Deus, para sempre, porque limpou meu coração. Louva ao Senhor, minha alma. Todas
as minhas estranhas louvem o Teu santo nome”. E ainda outro: “Agarro-me a Ti com mãos
tremendo, mas não Te deixarei ir”, afirmando pouco depois: “Louvem o Senhor comigo, porque
Ele limpou o meu coração do pecado”. Mais um exclamou: “Estou amarrado sobre o fogo do
inferno por um fio muito delgado”.

O grupo continuou ali por mais de duas horas, uns louvando e magnificando a Deus, outros
clamando por perdão ou pela pureza de coração, com a mais profunda agonia de espírito. Na
manha seguinte, voltaram a se reunir e o Senhor esteve novamente presente para sarar os
quebrantados de coração. Um recebeu a remissão dos pecados e três creram que Deus os
limpou de suas faltas.

Wesley conta a experiência crendo firmemente que a ação de Deus naquele lugar e na vida
daquelas pessoas foi uma ação legitima. Foi lá conhecer o grupo, ouviu os relatos, reconheceu
que eram pessoas simples, pobres na maioria analfabetos e incapazes de falsear os fatos.
Para ele, foi fácil perceber que o lugar e as pessoas haviam recebido a visitação do Espírito
Santo de Deus.

18 de Janeiro - Os frutos não nascem sozinhos


Em janeiro de 1762 John Wesley vai à Irlanda. Depois de passar alguns anos em Dublin,
dirige-se à Newry encontra a sociedade metodista em situação muito precária. As ofensas e
brigas haviam despedaçado a sociedade. Do grupo de mais de cem pessoas, sobravam
apenas 32. No culto de quarta-feira à noite poucos participaram. A chuva tinha afugentado os
ouvintes curiosos e, depois do sermão, organizou o ágape, a festa do amor. Apesar do grupo
pequeno, foi uma experiência maravilhosa.

Wesley assinou que Deus derramou seu espírito com abundância. Muitos saíram cheios de
consolação, particularmente alguns vindos de Lisburn, a mais de 32 quilômetros de distância,
para participar do culto. Uma jovem de dezesseis anos de idade passou por uma experiência
muito bonita. Deus restaurou a luz da sua face e lhe deu clara evidência de seu amor. Tudo
ocorreu de forma tão extraordinária que a sua alma parecia ser toda amor.

Por que o trabalho metodista na Escócia estaria passando por aquelas dificuldades? Meses
depois, em julho, ele se dirigiu até Portarlington, onde havia uma sociedade pobre e morta. Não
poderia ser diferente, pois seus pregadores se fechavam em um quarto com 20 a 30 ouvintes.
Achavam que o trabalho pastoral consistia em cuidar apenas de um grupinho. Para que
houvesse crescimento na obra, seria necessário muito trabalho. Os frutos não nascem
sozinhos. È preciso trabalhadores que lancem as sementes, que as plantem.

Incomodado com aquela situação, Wesley dirigiu-se diretamente ao mercado da cidade. Ali,
bem no centro, ele proclamou com voz forte e segura: “Eis que o semeador saiu a semear” (Mt
13,3). Com coragem e determinação, proclamou a Palavra de Deus e uma verdadeira multidão
o rodeou. Na manhã seguinte, às 5 horas, o salão metodista estava repleto de pessoas,
totalizando mais que o dobro de sua capacidade. Às 8 horas, ele retornou ao mercado e
pregou sobre o texto “Como te deixaria, ó Efraim? Como te entregaria, ó Israel?” (Os 11,8).
Solenemente, a multidão escutou a proclamação da Palavra de Deus. Muitos atenderam ao
chamado e se converteram ao Senhor.

12 de março – Ação do Espírito Santo


Algumas manifestações diferentes começaram a ocorrer durante as pregações de John
Wesley: pessoas gritavam, levantavam os braços, caíam ao solo e choravam. Na primeira
semana de março de 1742. Ele esteve pregando na região norte de Kingswood. Dia 12,
avaliando seu trabalho, conversando sobre todos os casos, cuidadosamente, e se certificando
da procedência das pessoas envolvidas com aquelas manifestações, concluiu que:

1. todas elas tinham perfeita saúde e nunca haviam sofrido convulsão de nenhuma natureza;

2. as ocorrências se deram de forma imprevista, sem aviso, quando as pessoas escutavam a


Palavra de Deus ou refletiam sobre o que tinham ouvido;

3. no momento em que caíram no chão, elas perderam as forças e se viram, cada uma a seu
modo, tomadas de forte dor, expressa de maneiras diversas: uma espada atravessando o
corpo, um grande peso comprimindo-as contra a terra, uma tal asfixia que as impedia de
respirar, um inchaço no coração prestes a rebentá-lo e a sensação de que o coração, as
entranhas e o corpo todo estivessem sendo despedaçados. Desse modo, os sintomas
observados não podiam ser creditados a qualquer causa natural, mas ao Espírito de Deus.
Wesley não podia duvidar que Satanás estivesse despedaçando aqueles que se aproximavam
de Cristo.

Ainda naquele ano, ele comentou, em seu Journal (30/dez), certas manifestações ocorridas
nos cultos, tendo examinado meticulosamente todos os casos. Alguns não eram capazes de
descrever o que lhe acontecia, apenas que, a certa altura do culto, se viam caídos no chão,
gritando e sem controle do que falavam. Wesley estava convencido de que aquilo tudo era obra
de Deus e, portanto, não cabia nenhuma repreensão: “Que sabedoria é essa que se atreve a
repreender essas pessoas, dizendo que devem permanecer silenciosas? De modo algum!
Deixem que clamem por Jesus de Nazaré até que Ele responda ‘Tua fé te salvou”’.

18 de março - Avivamento Necessário


O Journal (18/mar./1761) de John Wesley descreve uma porção de acontecimentos
importantes, confirmando a maravilhosa ação de Deus em Wednesbury.

Em conversa com vários moradores, ávidos por testemunhar a realização de Deus em suas
vidas, Wesley concluiu que ocorria ali um avivamento semelhante ao da cidade de Londres.
Ficou muito feliz ao reconhecer que o movimento metodista produzia frutos admiráveis em
todos os cantos e tinha motivos de sobra para esperar que tais sinais significavam apenas o
início de uma grande obra.

Em todos os cultos, havia libertação. No de domingo de manhã, um prisioneiro de Satanás foi


posto em completa liberdade durante o sermão. No sábado à noite, outro se derramou e
aceitou Jesus Cristo. Diversos receberam o perdão de seus pecados. Na segunda e na quarta,
pessoas creram que “o sangue de Jesus Cristo os limpou de todos os pecados” (1 Jo 1,7).
Naquela quarta-feira, 18 de março, a graça misericordiosa de Deus esteve presente e muitos
suplicaram: “Senhor, se quiseres, podes purificar-me” e ouviram resposta idêntica àquela
oferecida por Cristo ao leproso: “Quero, sê limpo!” (Mt 8,3). Muito feliz ao verificar que o Senhor
honrava o seu ministério, Wesley disse: “A presença de Deus foi tão maravilhosa até a meia-
noite, como se tivesse curado toda a congregação”.

3 de abril – Deus Continua Agindo


Às 9 horas da manhã de 3 abril de 1764, Wesley pregou em Scotter, povoado situado um
pouco mais de 10 quilômetros a leste de Epworth. Assim que iniciou o sermão, surgiu uma
chama do Espírito Santo e muitos se convenceram de seus pecados quase imediatamente,
sendo justificados.

Muitos adversários do evangelho, incitados por um homem maldoso, que afirmava não haver
lei para os metodistas, organizaram motins e tumultos, visando a atrapalhar o trabalho de
Wesley. As confusões só terminaram quando um juiz daquela comunidade, procurando por
Wesley, acatou a causa e impediu a atividade dos baderneiros, que ficaram mansos como
ovelhas.

Após o trabalho em Scotter, Wesley se dirigiu a Grimsby, povoado antes extremamente


indiferente ao Evangelho, mas agora transformado no mais vivo e atuante da região. Ele ficou
muito feliz com a descoberta do grande e rápido aumento na sociedade. Havia uma multidão
na casa de reuniões e, mesmo com o acréscimo das galerias, o espaço não era suficiente para
tanta gente. Wesley falou sobre a natureza da perfeição cristã, que muitos indecisos quanto a
doutrina passaram a ficar completamente satisfeitos. A questão segundo ele é experimentar o
que se crê. No culto da noite, todos os líderes do povoado estavam presentes e viram a ação
maravilhosa do Espírito Santo. Alguns participantes caíram ao chão como mortos e, logo
depois, se alegraram com gozo inefável (1 Pd 1,8). Uma mulher foi acometida por violentos
ataques. Depois do culto, Wesley foi visitá-la e a viu em tremendas convulsões dos pés a
cabeça e tremedeiras espantosas. Na manhã seguinte, ela já se encontrava plenamente
liberta, reconhecendo a bondade e a misericórdia de Deus.
4 de abril - Evitando Falsas Ilusões
Wesley não se iludia com certas manifestações durante os cultos. No dia 4 de abril de 1748,
em Holyhead, no país de Gales, ele pregou para uma assistência numerosa. O culto foi
bastante inspirado e grande parte da congregação derramou-se em lágrimas, comovida e
desejosa de alcançar a salvação.

O que, para muitos pastores, poderia ser compreendido como um trabalho evangelístico de
sucesso, para Wesley, exigia uma avaliação mais serena e cuidadosa. Apesar de todas as
mostras visíveis de aquela comunidade estar preparada para a obra do Senhor, Wesley se
mostrou reticente, achando que muito trabalho havia a ser feito. Muitos o procuraram
desejosos de contar as suas experiências. Tudo bem bonito, um sucesso, mas Wesley sabia
ser apenas o inicio da caminhada. Início promissor é verdade, no entanto, achava que quando
“as águas se esparramam demais, não são profundas”.

Em 11 de maio de 1765, a presença de Wesley é divulgada na cidade de Derry, na Irlanda do


Norte. Na manhã seguinte, domingo, às 7 horas, ele pregou, na praça principal, para a maior
platéia que já havia visto naquela região. Após o culto, ao ver o entusiasmo das pessoas, ele
mais uma vez se mostrou reticente: “As águas se estendem tão largas como em Athlone. Deus
permita que sejam igualmente profundas!”.

30 de abril - Valorizando o Jejum


John Wesley aconselhava muitos pastores a seguir o exemplo de Samuel Meggot, que por
meio do jejum, conseguira dinamizar um circuito capenga. Com base em Mateus 6, 16 – 18,
explica como deve ser o jejum: Em primeiro lugar, é fundamental que se volte exclusivamente
ao Senhor e que os nossos olhos estejam sempre fixos Nele. Que nossa intenção seja
glorificar nosso Pai que está nos céus, expressar nossa vergonha e dor pelas transgressões
cometidas contra Sua santa Lei, aguardar o aumento da graça purificadora, fixar nossos afetos
nas coisas do alto, acrescentar seriedade e honestidade às nossas orações, apartar a ira de
Deus e obter as grandes e preciosas promessas que Ele nos fez por meio de Jesus Cristo.

É preciso tomar cuidado e evitar que o jejum se converta em prática para alcançar o
reconhecimento das pessoas. Contra isso há a admoestação do Senhor: “Quando jejuardes,
não vos mostreis contristados como os hipócritas, que desfiguram o rosto com o fim de parecer
aos homens que jejuam (Mt 6,16).

Outro risco freqüente é transformar o jejum em obra meritória. Muitos imaginam que, jejuando,
se tornam merecedores d alguma coisa. O desejo de estabelecer nossa própria justiça, de
procurar a salvação por mérito, e não por graça, é algo profundamente arraigado nos corações
humanos. Não devemos imaginar que o mero e formal cumprimento do jejum atrairá
inevitavelmente a benção divina. O jejum não é uma armadilha com vista a alcançar algum
fruto, por mais honroso e necessário que seja. Também não é uma prova de resistência. A
saúde, dom de Deus, deve ser preservada. Qualquer esforço extraordinário, comprometedor da
saúde, transforma o jejum em sacrifício, em obra humana.

O jejum é um precioso meio de graça, devendo ser realizado em todas as oportunidades


possíveis, acompanhado de ardente oração, do derramamento da alma diante de Deus e da
confissão, ao Senhor, dos pecados, necessidades, culpabilidades e desamparos. Que sejam
feitas orações por nós mesmos, por nossos irmãos, pelo povo de Deus e por toda humanidade.

Para que o jejum seja completo, é necessário estar associado a obras de misericórdia, como
disse o anjo do Senhor a Cornélio, em seu jejum e oração: “Suas orações e suas esmolas
elevaram-se para memória diante de Deus” (At 10,4).

28 de maio – O Espírito Santo Continua Agindo


John Wesley copia em seu Jornal (28/mai/1759) páginas do diário de outra pessoa,
provavelmente a Sra. Elizabeth Blackwell: O Sr. Blackwell e eu fomos ouvir o Sr. Hicks em
wrestlingworth, a seis quilômetros de Everton. Primeiramente, ficamos felizes em saber que Ele
havia se entregado completamente ao trabalho de Deus e que o poder de Deus se manifestava
sobre seus ouvintes. Enquanto ele pregava, 15 ou 16 ouvintes sentiram as flechas do Senhor,
caindo ao chão. Alguns clamaram com força, durante horas, ao passo que os demais
permaneciam silenciosos. Pude ver, ao lado, uma menina profundamente convencida do
pecado e um menino com 9 ou 10 anos, que, como muitos outros, ao serem levados à casa
pastoral, estenderam-se como mortos ou lutavam com todas as forças. Em pouco tempo, seus
gritos aumentaram descontroladamente, de modo que o canto mais forte mal podia ser ouvido.
Por fim, alguém me chamou para orar e, por algum tempo, todos se acalmaram. Mas o barulho
recomeçou. O Sr.Hick orou e, depois dele, o Sr. Berridge. Ainda assim, apesar de alguns terem
recebido consolação, outros permaneciam em profunda tristeza.

A luta violenta de muitos na igreja acabou com vários bancos quebrados. É comum as pessoas
permanecerem imóveis e depois cair, ao regressar aos seus lares. Alguns foram encontrados
estendidos como mortos pelo caminho e nos jardins de Berridge, sem poder caminhar de volta
à casa. De Forma geral, noto que poucos anciãos e apenas alguns ricos experimentam essa
obra de Deus. Eles geralmente a desprezam ou até se indispõem contra ela. Na verdade,
chegando a negar os sacramentos para aqueles membros de sua paróquia que fossem ouvir o
Sr. Berrdge. Nenhum desses cavalheiros, nem o Sr. Hicks, nem o Sr. Berrdge, eram
eloqüentes, e até pareciam débeis no falar. O Senhor, por este meio, demonstrou claramente
que esta é Sua própria obra.

Um dos personagens citados, John Berridge, foi pregador metodista em Everton. Não foi muito
tranqüila a relação deles com os irmãos Wesley, especialmente por causa da sua teologia
calvinista e da ligação estreita com a condessa de Huntingdon e com George Whitefield. O
pomo da discórdia ocorreu em 1760, quando El publicou Collection of Divine Songs, incluindo
hinos de Charles Wesley modificados conforme sua teologia calvinista.

FONTE: BARBOSA, José Carlos. Adoro a Sabedoria de Deus. Itinerário de John Wesley o
Cavaleiro do Senhor. Piracicaba: Editora UNIMEP, 2002

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