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1ª Edição

Rio de Janeiro
2006
Copyright © 2006
por Salvador da Silva

Coordenador:
Jonas Lemos

Projeto Gráfico:
Deborah Telles
e Jonas Lemos

Revisão:
Célia Cândido

Impressão e Acabamento:
1ª edição, 2006;
por Salvador da Silva

CIP-BRASIL – CATALOGAÇÃO NA FONTE


Silva, Salvador da
Vencendo as Batalhas em Cristo/ Rio de Janeiro; 2006.
Salvador da Silva –164p.
ISBN 85-906425-0- X
1.Índice. 2. Ficção. 3.Religião. I.Título.
1ª edição, 2006;

CONTATOS
Salvador da Silva
Estrada Austin, 732 – Santa Cruz
Rio de Janeiro – RJ
Cep: 23.570-360
e-mail: salvador2121@click21.com.br
salvador42@oi.com.br
www.vencendobatalhas.v10.com.br
Sumário
Agradecimentos..................................................................................... 7
Prefácio................................................................................................. 9
Apresentação....................................................................................... 11
Introdução........................................................................................... 13
I – Começo de uma nova vida............................................................... 17
II – Minha vida pode mudar?................................................................ 29
III – Recebendo armas para lutar......................................................... 49
IV – A primeira vitória.......................................................................... 63
V – Entrando no campo inimigo........................................................... 81
VI – Um grande susto.......................................................................... 93
VII – Intermináveis batalhas .............................................................. 101
VIII – Furiosa investida inimiga ......................................................... 119
IX – Eu e a minha casa serviremos ao Senhor ................................... 153
Agradecimentos

Se eu dissesse a Deus: “Obrigado, Senhor, por tudo o que tens feito por
mim”, não estaria expressando o suficiente de minha gratidão e seria
apenas uma fração de como sou grato a Ele.
O Amoroso Pai Eterno, além de Se importar conosco, tem nos coberto, por
toda a vida, com Seu manto de amor. A esse maravilhoso Deus, que tanto
fez por mim, sempre serei grato, mas, somente na eternidade, terei tempo
suficiente para agradecer a Ele e louvá-lO para sempre.
Agradeço também à minha querida esposa, que tanto me incentivou, e a
todos os irmãos que oraram e me ajudaram com seu apoio.
Prefácio

A imaginação humana é semelhante a um solo fértil, necessita somente de


uma pequena semente de inspiração para viajar por lugares e situações
inimagináveis. Se não conseguirmos ver com nossos olhos naturais;
estaremos buscando ver com os olhos da imaginação. É isso que propõe o
autor desta obra, ao trazer, em forma de ficção, a estória do drama pessoal
de uma senhora.
Não por simplesmente imaginar, mas com a intenção de ministrar lições de
fé aos leitores.
Acredito que aqueles que estiverem realmente desejosos de ter uma vida de
comunhão com o Senhor Jesus Cristo, durante a leitura da obra,
vivenciarão as situações idealizadas, e reagirão com determinação como foi
proposto; os que estiverem prostrados, levantarão para lutar; os
desanimados se esforçarão e terão animo; os de pouca fé, entenderão que
podem sim alcançar a benção que parece impossível.
Recomendo a todos os que desejam, com sinceridade, ler uma história
diferente, mas que não exclua os valores reais da vida cristã autêntica. Que
leiam este livro com o coração contrito, com anseio de chegar mais perto do
Pai. Pois com certeza o autor não pretende polemizar pontos teológicos de
difícil elucidação sobre a verdade acerca dos anjos ou outros assuntos
semelhantes, mas sim, a partir do imaginário proporcionar a recreação e a
edificação da fé dos que lerem este livro.
Pr José Pedro Teixeira
Pastor Presidente CADESC - Santa Cruz-RJ
www.cadesc.com.br
assista aos cultos ao vivo.
Apresentação

Esta obra é uma ficção, a qual desejo que desperte em você, caro
leitor, o anseio da comunhão com o nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo
por meio da oração. Os personagens não são reais, por isso, qualquer
semelhança com fatos verídicos terá sido mera coincidência.
Usei, dentro do que imagino, propostas de como pode ser o mundo
invisível que nos cerca, embora você possa, ao ler esse livro, imaginar de
uma outra forma. Não pretendo, com esta história, fazer com que minhas
idéias sejam recebidas como reais, apenas escrevi e oro a Deus que, do
mesmo modo que os personagens buscaram as respostas para seus
anseios, você também possa fazê-lo.

O autor
Introdução

Enquanto os céticos são descrentes e seguem o pensamento de que o


espírito humano não pode atingir nenhuma certeza a respeito da verdade,
os agnósticos, por sua vez, crêem na possibilidade de haver alguma forma
de vida em algum lugar fora da conhecida raça humana.
Em geral, céticos, agnósticos, estudiosos, leigos, dentre outros,
desejam descobrir formas de vida em algum lugar do Universo. Os
evolucionistas buscam respostas, sem terem em conta que não é por acaso
que tudo veio a existir. Deixam de lado a idéia de que, sem dúvida, houve
um grande Arquiteto na criação. Tenho certeza de que Ele não criou tão
vasto Universo, para que não pudéssemos explorá-lo. No entanto, quando
usamos a expressão anos-luz, para medir as distâncias intergalácticas, e a
confrontamos com a nossa existência, percebemos o quão breve ela é.
Observamos que a ciência humana, em relação à locomoção, ainda está
engatinhando, pois mal conseguimos ultrapassar a velocidade do som.
Diante de toda a magnitude do Cosmos, o homem precisa perceber
que ele é apenas uma partícula de poeira na imensidão do infinito.
Imaginemos o seguinte: se chegássemos a nos locomover na velocidade da
luz, nosso corpo não suportaria e iria desfragmentar-se, virando pó, pelo
atrito de tamanha velocidade. Caso conseguíssemos uma maneira de
suportar tal impacto, morreríamos de velhice antes mesmo de sair do nosso
pequeno quintal de recreação; nem chegaríamos às galáxias vizinhas a
milhões de quilômetros anos-luz do nosso planeta.
Como supor, então, que estamos sozinhos no tão imenso Universo?
Surgem outras perguntas: para que tudo isso, se não há quem consiga
explorar? Será que existem criaturas habitando outros planetas? O que
está acontecendo na imensidão do Universo agora? Se existem tais
criaturas ou se está acontecendo algo em algum lugar do Cosmos, quem
são esses seres?
Onde eles habitam? São eles os extraterrestres de que ouvimos falar,
os quais conseguem viajar em tamanha velocidade, com corpos capazes de
suportar o atrito em velocidades inimagináveis, não sofrem, como nós, a
ação do tempo e vivem tempo suficiente para vasculhar o Universo?
Realmente, seria tolice imaginar que estamos sós e ainda pensar que,
com nossas limitações, nossa fragilidade e falta de conhecimento, podemos
entender esses seres, que são invisíveis aos nossos olhos, mas estão
presentes em nosso meio, convivendo conosco no dia-a-dia. Se pudéssemos
vê-los, compreenderíamos que eles são muito mais sábios, fortes e
evoluídos do que nós; seríamos surpreendidos em descobrir que alguns
querem destruir-nos e nos atacam constantemente, e vislumbraríamos as
batalhas que se travam com aqueles que são nossos defensores, enviados
pelo Maravilhoso, Amoroso e Insondável Deus. Se pudéssemos ver o
inefável, como viu o servo do profeta Eliseu, teríamos muitas respostas
para nossas perguntas. Somente, assim, a humanidade deixaria de
acreditar em vãs filosofias, as quais afirmam que os homens são deuses,
importantes, fortes e sábios, e compreenderia que ela precisa muito da
ajuda do grandioso Artífice e Arquiteto do Universo, o qual, em Sua infinita
sabedoria, criou todas as coisas pelo Seu eterno poder. Humildes e gratos
retornaríamos para Ele, pois, mesmo sem merecermos, Ele ainda se
importa com Suas criaturas.
O Seu maior desejo é receber-nos com alegria para entregar tudo o
que Ele tem preparado para aqueles que O amam. Sim, Ele tem planejado
coisas que nossos olhos nunca viram, sons que nossos ouvidos nunca
ouviram, e tudo o que o homem não consegue imaginar (1 Co 2.9), em um
lugar que
Ele separou para todos os que quiserem (Jo 14.1,2). No entanto, é
somente pela fé em Jesus Cristo que poderemos ter acesso a tudo o que Ele
proveu para nós. Devemos amá-lO não pelo que recebemos dEle, mas, sim,
por causa daquilo que Ele é; para isso, é preciso buscar uma comunhão
sincera com o Pai.
Tomé ouviu o Senhor dizer: Bem-aventurados os que não viram e
creram! (Jo 20.29b).Para explorar o tão extenso Universo, Ele irá munir-
nos de ferramentas necessárias, corpo glorioso e vida imortal (1 Co
15.51,52). Basta vivermos em comunhão sublime em nosso viver,
agradando-Lhe, para que Ele Se agrade de nós.

O autor
I
COMEÇO DE UMA
NOVA VIDA
Eram 7h30 daquela manhã de sexta-feira, quando Jorge – um jovem
de apenas 22 anos, 1,76m de altura, cabelos pretos encaracolados, pele
levemente bronzeada, olhos castanhos escuros – novamente começou a
sentir-se mal. Ele já havia tomado alguns comprimidos durante a
madrugada para aliviar a dor, mas aquela dor excruciante, que parecia
rasgar o seu peito, voltava a incomodá-lo. Ele já havia ido muitas vezes ao
médico por aquele mesmo motivo. Havia feito baterias de exames e nenhum
deles pôde revelar a causa daquele incômodo.
Enquanto se retorcia, Jorge questionava em sua mente qual seria o
motivo do mal que o assolava. Ele imaginava que seria aquela dor um
câncer, uma tuberculose ou um problema de coração.
Qualquer que fosse, ele precisava da cura, porém, naquele instante,
era necessário voltar ao hospital. A intensa dor em seu peito aumentava, e,
mesmo com grande dificuldade, apressadamente, ele conseguiu trocar de
roupa. Com a ajuda da mãe, que o apoiava, pegou um táxi até a
emergência mais próxima.
D. Áurea era uma senhora de 68kg, distribuídos por 1,61m de altura.
Com 49 anos, cabelos pretos cortados acima dos ombros, que começaram a
ficar grisalhos e sem brilho, era uma mulher que amava muito seus três
filhos. No entanto, naquele momento, sua atenção estava toda voltada para
o bem-estar de Jorge.
Ao chegarem ao hospital, ela se dirigiu até a recepção da emergência
e fez a ficha com nome e endereço do filho, que ficara prostrado em uma
cadeira em um grande salão repleto de pessoas, à espera do socorro.
Enquanto aguardava a consulta, com o rapaz apoiado em seu ombro, D.
Áurea olhou ao redor e se perguntou: “Por que tanta dor e sofrimento?”.
Eram muitas as pessoas que também esperavam o atendimento, e, como os
médicos de plantão naquele dia eram poucos para o número de doentes, a
espera seria longa e penosa. Mesmo muito apreensiva, não havia outra
solução senão aguardar.
Já se haviam passado 1h40 que ela havia chegado com Jorge, e ainda
não chegara sua vez. Aqueles momentos pareciam uma eternidade. Muitos
dos que haviam chegado antes deles já haviam sido atendidos. Alguns ela
vira sair a fim de retornar para os lares, outros continuavam lá dentro.
Haviam passado por aquelas portas, que, ao balançarem com a entrada de
alguém, mostravam a frieza e a dureza do material de que eram feitas.
Naquele instante, ela notou a entrada de três pessoas, as quais, pela
aparência e saúde que demonstravam, não estavam ali para serem
consultadas.
Era um homem de 1,75m, aproximadamente 38 anos, cabelos
castanhos escuros, olhos castanhos claros, pele clara, vestindo um terno
bege, que lhe caía perfeitamente, e uma gravata com estampas
quadriculadas de cor azul; uma mulher de 1,65m, aproximadamente 35
anos, cabelos pretos longos, que estavam soltos e caíam por cima dos
ombros. Tinha olhos castanhos escuros e pele clara, e trajava um vestido
com estampas florais, com muitas cores mescladas. A outra era uma
senhora de 1,56 cm, aparentando 56 anos, cabelos pretos crespos, presos
em um coque no alto da cabeça, olhos pretos e pele escura. Vestia uma
blusa marfim e uma saia florida verde. Aquelas três enigmáticas
personalidades se aproximavam das pessoas que estavam naquela enorme
sala de espera da emergência do hospital e, ao conversarem com elas,
podia-se notar que algumas faziam um sinal de consentimento com a
cabeça e eles estendiam sobre elas as suas mãos e falavam algumas
palavras em voz muito baixa, quase inaudível. Ao saírem, entregavam-lhes
um papel e falavam mais algumas palavras e saíam.
Observando as características daquelas três pessoas, D. Áurea não
podia deixar de notar que elas tinham algo diferente: embora muito sérias e
compenetradas naquilo que estavam fazendo, sorriam o tempo todo. Elas
mostravam um grande contentamento, quando aquele de quem se
aproximavam levantava a mão para o alto. Curiosamente, esse simples
gesto fazia com que elas se regozijassem de alegria.
Enquanto D. Áurea observava aquelas personalidades tão
enigmáticas, seu filho, Jorge, sussurrando, quase ináudivelmente,
disse:
– Mãe, mãe, não agüento mais! A dor está cada vez mais forte, está
insuportável!
Ela ficou mais aflita e, quase em desespero, respondeu-lhe:
– Calma, meu filho, espere só mais um pouquinho. Vou ver se consigo
falar com algum médico para ele socorrer você depressa.
Ela recostou-o na cadeira e saiu em direção a uma atendente do
hospital, que estava sentada em uma cadeira atrás do balcão, fazendo o
controle das fichas de atendimento. D. Áurea, muito nervosa e derramando
as lágrimas de uma mãe preocupada pelo estado de seu filho, temendo o
pior, dirigiu-se para aquela mulher em voz suplicante:
– Moça, por favor! Estou ali com o meu filho, aguardando o
atendimento há mais de uma hora. Ele está muito doente, está sofrendo
muito! Ajude-me a ver se o médico pode atendê-lo. Ele não está suportando
tanta dor!
Aquela mulher que ouvira tal súplica não se comoveu nem um pouco;
ficou como se fosse uma pedra, alheia aos sentimentos dos doentes que
padeciam diante dela. Já estava acostumada a trabalhar naquele lugar,
onde o que importava era organizar a ordem dos pacientes pela gravidade
do estado clínico, e não pelas súplicas dos parentes. Muitas vezes, as
pessoas ficavam tão nervosas e desesperadas, que faziam menção de
agredi-la. A atendente, simplesmente, respondeu para D. Áurea de forma
desdenhosa e sem sentimento:
– Sinto muito, minha senhora, só quando chegar a vez dele. Lá
dentro, existem pessoas em estado muito mais grave do que o dele, e eu
não posso fazer coisa alguma.
Diante dessa resposta, em seu interior, D. Áurea recusou-se a
aceitar, mas, exteriormente, apenas agradeceu e compreendeu a situação
daquela funcionária, mesmo sem entender por que seu filho tinha de sofrer
tanto. Ela voltou para ficar ao lado dele. Quando se aproximou, notou que
ele parecia piorar.
Então, ela sentou-se na cadeira, ergueu-o, encostou-o em seu ombro
e falou:
– Meu filho, espere só mais um pouquinho. Já está quase chegando a
sua vez.
Quando terminou de falar, olhou ao redor e viu que quase todos os
que estavam ali já haviam sido atendidos; com isso, percebeu que faltava
pouco para Jorge ser socorrido. Ela acariciou-lhe a cabeça, e ele somente
gemia por causa da dor lancinante que lhe estava tirando a paz.
D. Áurea inclinou a sua cabeça, já cansada da espera, que
ultrapassava duas horas. De repente, ouviu uma voz, suave e mansa:
– Bom dia!
Enquanto levantava a cabeça, pensava com que forças responderia
tal saudação, visto que seu dia estava sendo um dos piores. Quando viu
quem a interpelava, quase não conseguiu responder. Surpresa, viu aquele
homem e as duas mulheres em pé, à sua frente, e, meio sem jeito, disse:
– Bo... Bom dia!
Agora que eles estavam diante dela, ela poderia saber, então, o que
faziam naquele lugar, indo de pessoa em pessoa, e o que falavam.
Aquele homem de voz tão suave e mansa prosseguiu:
– Meu nome é Matheus. Essa é Margarete – falou, apontando para a
mulher de cabelos pretos sobres os ombros e pele clara. E essa é Sarah –
apontando em direção à mulher de coque, de pele escura.
– Estamos em missão de socorro aos cansados, oprimidos e
sobrecarregados. Somos servos do Senhor e queríamos falar-lhe um pouco
sobre a salvação em Jesus Cristo. Mas somente se a senhora nos permitir?
D. Áurea estava muito aflita e, como aquelas pessoas transmitiam
paz, respondeu:
– É claro, podem falar.
– Como é o seu nome?
– Áurea.
Matheus olhou para o jovem que se contorcia de dor, alheio à
presença deles, pois seu estado havia piorado e se achava quase
inconsciente.
– D. Áurea, quem é esse rapaz ao seu lado?
– É meu filho Jorge.
Antes de continuarem a conversa, Sarah interrompeu:
– Seu filho está com dor no peito, não é? Ele tem-se consultado, mas
os médicos não podem diagnosticar, mesmo fazendo muitos exames, não é
mesmo?
Diante de tais palavras, D. Áurea emudeceu e, estupefata, apenas
consentiu, balançando a cabeça.
– Sabe por que, D. Áurea? Essa doença não é de origem física, mas,
sim, espiritual. A senhora lembra-se daquela promessa feita antes de ele
nascer? Que o seu nome seria Jorge em favor daquele santo de mesmo
nome? Essa promessa tem causado esse mal na vida de seu filho.
D. Áurea, atônita, olhou para aquela mulher e, dentro de si,
perguntou-se: “Como ela soube de todas essas coisas sobre sua vida se não
lhe havia dito coisa alguma”.
Naquele instante, D. Áurea voltou ao dia 27 de setembro de 1984,
naquele terreiro de macumba, em uma festa a São Cosme e Damião, onde
ela havia consagrado o filho a São Jorge.
Aquele “santo”, a quem ela havia feito tal consagração com a intenção
de levar sua oferta – seu filho, Jorge, o qual pertencia à entidade por direito
de pacto –, estava ali, naquele momento, para tirar a vida do jovem.
Ninguém podia vê-lo, mas ele estava presente. A lança que trazia nas mãos,
que aparece nos quadros pintados e nas estátuas, retratando o ataque ao
dragão, estava sobre aquele rapaz, tentando ceifar-lhe a vida. Estava
atravessando o seu peito. Mas, naquele instante, o inimigo desfigurou-se,
tirando seu disfarce, na presença de três seres, de fulgor brilhante como o
sol em sua plenitude. Estes desembainharam suas espadas e se
prepararam para a batalha, enquanto aquela figura se transformava em
uma grotesca criatura de garras afiadas, com a pele que parecia ter sido
queimada, toda enrugada, de cor acinzentada. Ele começou a ameaçar os
seres angelicais, que estavam ali, acompanhando aquelas pessoas em sua
missão.
Sem saber que atitude tomar, D. Áurea perguntou:
– O que posso fazer para que esse mal vá embora da vida do meu
filho?
– Nós podemos orar por ele, nesse momento, se a senhora permitir –
disse Matheus.
D. Áurea apressadamente consentiu, olhando para o filho que estava
convulsionando de dor.
Quando aquelas três pessoas impuseram as mãos em direção a
Jorge, ele começou a se retorcer de maneira mais intensa, revirando os
olhos. Começou a ranger os dentes, como se tivesse algo entre eles que
necessitasse ser esmagado. Mas o que eles não podiam ver era aquele ser,
que, naquele momento, havia-se transfigurado. Ele ficou eriçado como um
gato quando se depara com um cão. Enfiou as afiadas garras em Jorge e,
com imprecações e blasfêmias, gritou:
– Eu não vou sair, e vocês não podem me expulsar.
No entanto, quando Matheus, Margarete e Sarah começaram a orar,
alguma coisa aconteceu. D. Áurea só podia contemplar seu filho
convulsionado fortemente e rangendo os dentes, dizendo: “Eu não vou
sair”. Estava com uma voz grave horrível, que não era a sua. Enquanto
isso, ela ouvia Matheus com as mãos sobre a cabeça de Jorge dizer em tom
firme:
– Espírito maligno, eu quebro esse pacto feito contigo, desfaço toda a
tua autoridade sobre a vida desse jovem e ordeno, em Nome de Jesus
Cristo: sai da vida dele agora!
Enquanto eles oravam, os três anjos brandiam suas espadas, as
quais brilhavam em fulgor e glória em direção àquele ser horripilante, que
tentava defender-se com sua lança cor de chumbo. O Nome pronunciado
por aquelas pessoas que oravam causavam uma dor excruciante aos
ouvidos do inimigo, e, diante de todo aquele ataque, o ser demoníaco
abandonou sua vítima. Totalmente ferido e derrotado, retornou para o seu
covil. Depois dele, outro ser o acompanhou. Este foi tão covarde, que
resolveu nem lutar, saindo antes da batalha ter começado.
Ficou de longe, observando a derrota de seu comparsa.
Nesse mesmo instante, Jorge voltou a si e, sem saber o que
acontecera naqueles instantes, abraçou a mãe e falou:
– Mãe, não estou sentido mais dor alguma.
Muito feliz e grata às três pessoas que intercederam pelo filho, D.
Áurea não se constrangeu ao ver que a cena era curiosamente observada
por aqueles ao redor. Contou tudo o que sucedera a Jorge, e os dois
agradeceram o que fora feito por ele.
Após ouvirem sobre a obra que Jesus Cristo realizou por toda a
humanidade, ambos levantaram as mãos, como alguns, naquele dia e
naquele mesmo lugar, haviam feito.
Margarete entregou-lhes um papel, com uma mensagem bíblica, onde
continha o endereço da igreja e os dias de reuniões.
D. Áurea, muito desejosa em rever aquelas pessoas tão amáveis,
pegou um pedaço de papel e escreveu nele seu endereço:
Alameda do Forte no 114, Jardim das Rosas. Como não havia mais
necessidade de médico, ela e Jorge se despediram e retornaram para casa,
com uma alegria na alma e uma paz de espírito nunca antes
experimentadas.
Ao chegarem a sua humilde casa, foram recebidos por Isabela, uma
jovem muito bonita, de 17 anos, de 1,66m de altura, 56kg, pele morena
clara, cabelos pretos longos e cacheados, olhos cor de mel. Ela, que mal os
esperou entrar em casa, perguntou o que haviam resolvido no hospital. Era
a filha mais jovem de D. Áurea.
– Então, o que aconteceu? E você, Jorge, parece que está muito bem.
Foi medicado?
Um pouco cansada, a mãe respondeu:
– Isabela, espere. Já, já, vamos contar tudo depois que nós comermos
alguma coisa.
Eles almoçaram juntos alegremente na mesa da cozinha.
Ao terminarem, Isabela mal podia se conter para perguntar o que
havia ocorrido. Nas outras vezes em que sua mãe e Jorge saíram para o
hospital por causa daquela dor, demoravam muito mais tempo e não
resolviam coisa alguma, mas, desta vez, ali estava Jorge, à mesa, comendo
com muito apetite, sem deixar escapar um gemido de dor.
Enquanto Isabela retirava os pratos da mesa, dirigiu-se a D. Áurea:
– Mãe, não posso esperar mais. Conte-me tudo o que aconteceu!
– Está bem, agora já da para lhe contar tudo.
Minuciosa como sempre, D. Áurea narrou os fatos, com riqueza de
detalhes, para sua filha, a qual a ouviu atentamente, até o momento em
que a mãe lhe falou que havia recebido Cristo em sua vida.
Isabela mudou a fisionomia e ficou muito irritada com aquilo que sua
mãe acabara de dizer a respeito de ter aceitado Jesus.
Enquanto ela, atentamente, olhava para a mãe, um ser se recostou ao
seu lado. Ele tinha a aparência de uma mulher, cheio de enfeites coloridos,
de uma extravagância desmedida.
Se pudesse ser visto, chamaria a atenção de todos os que estavam ali
naquela sala. Ele sussurrou no ouvido de Isabela, em um tom enervante:
“Você não pode aceitar essa história de que eles agora são crentes”.
Isabela, sem pensar no efeito que causaria suas palavras para a mãe
e Jorge, por um impulso, falou:
– Não acredito que vocês, agora, vão querer ser iguais a esses tais
crentes, fanáticos, quadrados e ridículos, que eu vejo andando por aí, com
uma Bíblia debaixo do braço!
Tais palavras, saídas dos lábios da filha caçula, chocaram tanto D.
Áurea quanto Jorge, que, até aquele momento, estavam sentido uma
alegria profunda pela decisão tomada naquela tarde.
– Milha filha, não acredito que você esteja agindo dessa maneira.
Seu irmão estava morrendo e ficou livre daquela doença, que,
conforme aquelas pessoas disseram, era provocada por um espírito maligno
que o estava matando, e você reage assim?
Novamente, aquele ser sussurrou no ouvido de Isabela:
“Isso não passa de uma ilusão desses crentes, não existe essa coisa
de espírito maligno”.
Mais uma vez, com impetuosidade, Isabela disse:
– Vocês acham que existe esse negocio de espírito maligno?
É tudo conversa fiada desses crentes para enganar as pessoas.
Muito irritado com as palavras de sua irmã, Jorge respondeu
grosseiramente:
– Bela, você é uma ignorante! Está falando do que não sabe! O mais
importante é que me livrei daquela dor terrível.
Mesmo sem entender a reação de sua filha, D. Áurea, com muita
paciência e compreensão, que lhe são peculiares, retrucou:
– Filha, não entendo muita coisa, mas lhe digo que, um dia, você
também vai entender e querer ser uma dessas pessoas “quadradas e
ridículas”.
Ao ouvir a mãe falar isso, tanto Bela quanto aquele ser menearam a
cabeça com desprezo e, quase simultaneamente, responderam:
– Isso nunca vai acontecer!
Irritada com aquelas palavras, Isabela saiu da cozinha, e aquele ser
maligno asseverou: “Não vou deixar isso acontecer.
Há! Há! Há!”. Enquanto gargalhava, ele olhou para aqueles dois seres
angelicais, que presenciaram aquele diálogo sem serem notados e se
entreolham como se dissessem: “Veremos!”.
Eles haviam começado uma missão muito importante. Ambos usavam
roupas de trabalho. Um deles era mui alto, cabelos encaracolados cor de
ouro, fisionomia complacente. O seu companheiro tinha cabelos escuros,
mas refletiam a cor do ouro, e olhos radiantes de fulgor. Com semblantes
entusiastas, haviam sido incumbidos de guardar aquelas duas vidas que
haviam mudado para o outro lado da batalha. Tudo estava apenas
começando, e eles sabiam disso.
II
MINHA VIDA
PODE MUDAR?

Naquela tarde, Jorge não mais iria trabalhar. Não dava mais tempo.
Ele resolveu ir para o seu quarto estudar, pois tinha uma prova muito
importante. D. Áurea, após descansar alguns minutos, pôs-se a arrumar a
casa. Isabela havia saído para o colégio. Enquanto estava envolvida em
seus afazeres, D. Áurea refletia sobre tudo o que havia acontecido naquele
dia.
Ela olhava pela janela e tudo parecia estar mais bonito. Os pássaros
que cantavam nos galhos de uma mangueira, em frente à sua casa, nunca
haviam cantado tão harmoniosamente. O verde daquela árvore, como era
belo! Ela parou por alguns instantes e sussurrou baixinho:
– Como Deus fez tudo tão bonito!
A tarde vinha caindo, e não demoraria muito a que seu esposo, Almir,
chegasse do trabalho, com Damião, o filho mais velho. Após fazer uma
faxina rápida na sala, D. Áurea foi apressadamente para a cozinha a fim de
preparar o jantar.
Enquanto cortava os legumes, ela pôs-se a imaginar como seu esposo
receberia a notícia daquela decisão que, com Jorge, havia tomado naquele
dia. Absorta em seus pensamentos, imaginou se eles teriam motivo para
reagir pior do que Isabela. Ela caprichou na comida e preparou tudo para
que, naquela noite, quando todos chegassem, pudesse estar à mesa um
jantar como há muito tempo eles não haviam experimentado. Com todos
juntos, ela poderia contar o que sucedera naquela manhã.
Jorge saiu do quarto, espichando-se, e comentou com a mãe:
– Ainda não chegou ninguém?
– Não – respondeu D. Áurea.
– Eu vou tomar um banho e começar a me preparar para ir para a
faculdade, antes que Bela volte do colégio, entre no banheiro e só saia de lá
amanhã – comenta Jorge, rindo.
– Então, vá logo! Já são seis horas da tarde. Ela está para chegar.
D. Áurea estava apressada, e as horas se passavam rápido.
Ela tinha de terminar o jantar e preparar a mesa. Seu Almir e Damião
estariam com muita fome quanto retornassem do trabalho.
Eles correriam para o banheiro para tomarem um banho, isso se
conseguissem resistir à fome. Então, em seguida, correriam para a cozinha.
Chegavam aproximadamente entre as 18h50 e 19h20. Isabela sempre
retornava antes e, às vezes, ainda ajudava a mãe a pôr a mesa. D. Áurea
terminara de fazer o jantar. Tranqüilamente, organizou tudo, sem perceber
que horas eram. Jorge saiu do quarto e perguntou:
– Mãe, o jantar já está servido? Está quase na hora de eu sair para a
faculdade.
D. Áurea ficou surpresa quando Jorge disse que estava quase na hora
de sair e perguntou:
– Já? Mas que horas são, meu filho?
– São 19h20.
Ao saber a hora, ela ficou com o ar de preocupação. Seu esposo,
Isabela e o outro filho já deveriam ter chegado. Mas, antes que ela pudesse
terminar de pensar, ouviu o ranger do portão. Aquele barulho era a
campainha da casa. Toda vez que alguém passava por ele, não chegava
sem que ela o soubesse.
D. Áurea, então, olhou para a porta esperando que fossem as três
pessoas de sua família que faltavam para o jantar.
Quando a porta se abriu, entrou um jovem de 24 anos,
aproximadamente 58kg distribuídos por 1,76m de altura, cabelos longos
encaracolados, barba por fazer, olhos castanhos escuros, quase pretos,
pele bronzeada pelos raios solares, um blusão xadrez em verde escuro e
ocre, e uma calça jeans, que faziam transparecer que seu dono fora mais
robusto algum tempo antes. Era Damião, o filho mais velho de D. Áurea.
Ela se aproximou dele e o cumprimentou, mas ele, mostrando-se irritadiço,
afastou-se e não falou coisa alguma. Foi para o sofá da sala e deixou o
corpo cair sobre ele. D. Áurea o acompanhou até o sofá e perguntou:
– O que aconteceu e onde está o seu pai?
Damião respondeu em voz baixa, como se não quisesse falar:
– Não está acontecendo nada, e papai ficou lá no bar.
Pelas palavras de Damião, ela sentiu que, novamente, alguma coisa
não ia bem, e tornou a perguntar:
– O que aconteceu? Pode falar, meu filho.
Damião olhou fixamente para sua mãe, abaixou a cabeça e resolveu
contar o que havia ocorrido.
– Eu e meu pai discutimos novamente, só faltou trocarmos socos e
pontapés.
Essa confissão fez com que D. Áurea fechasse os olhos e os abrisse
como alguém que está clamando por ajuda em meio ao desespero. Damião
continuou contando os fatos:
– Novamente, ele me chamou de drogado, preguiçoso e inútil, e eu
não pude ficar calado. Respondi, e ele quis bater em mim, mas não aceitei.
– Meu filho! – interrompeu D. Áurea – Você podia ter ficado calado.
Tente entender que eu e o seu pai só queremos o bem de vocês.
– Bem nada, mãe! Sou maior de idade e sei o que faço com a minha
vida. Vocês inventaram esse negócio de trabalhar com o meu pai, mas não
quero ser peão de obra e ganhar uma mixaria por mês. Quero continuar
junto com os meus companheiros.
Lá, sim, ganho muito mais.
Jorge, já arrumado para sair para a faculdade, apareceu no corredor
e, de longe, interrompeu a conversa:
– Oi, Damião!
Seu irmão mais velho apenas gesticulou, e Jorge perguntou:
– Mãe, já posso jantar?
Ela, então, levantou-se para pôr a comida no prato de Jorge, olhando
no rosto de Damião, como se estivesse pedindo que ele permanecesse ali, a
fim de continuarem aquela conversa...
Parecia que não haveria outra chance naquele dia. Mas ele se
levantou e entrou no quarto.
D. Áurea deixou transparecer em seu rosto a preocupação que lhe
assaltava a alma, o que fez Jorge notar e perguntar:
– O que a senhora estava conversando com o Damião?
Está acontecendo alguma coisa?
– Nada não, meu filho, não preocupe essa sua cabecinha.
Hoje, você tem uma prova para fazer e tem de manter seus
pensamentos livres para ser bem-sucedido.
Essas palavras saíram um pouco espremidas de seus lábios, pois seu
coração estava apertado. Em sua garganta, parecia haver um nó.
Enquanto Jorge jantava, ela, sentada no sofá, esperava por Almir e
Isabela, e olhava para a porta do quarto de Damião, que estava fechada.
Ela queria ir até lá para continuar aquela conversa, mas sabia que, se
fizesse isso, preocuparia Jorge. Se ele ouvisse as coisas que estavam
acontecendo... Só lhe restava esperar.
Apressadamente, Jorge terminou o jantar, foi ao banheiro escovar os
dentes, saiu e pegou os livros. Fez um gesto para a sua mãe, como se lhe
mandasse pelo ar um beijo e partiu.
Quando ouviu o ranger do portão, D. Áurea se levantou e foi até o
quarto de Damião, para ver se ainda havia tempo de terminar aquele
diálogo, antes que...
Ao abrir a porta, já era tarde. Damião olhou para ela como se olhasse
para algo muito distante, com olhos avermelhados, fixos no nada.
Rudemente, ele disse:
– A senhora não bate mais na porta? Um dia, ainda vou sair dessa
casa ou colocar uma fechadura nessa porta.
Sabendo que já não falaria com alguém em seu raciocínio normal, ela
fechou a porta, vendo aquele pedaço de papel branco, que trazia as marcas
das dobras, como um pequeno envelope, o qual guardava dentro de si um
pó branco e podia transformar uma pessoa. Quando deu as costas para o
quarto de Damião, ela não pôde ver a companhia de seu filho, que o estava
prendendo naquele vício. Era um ser esquelético, que não podia ser
definido claramente de tão magro. Parecia ter somente pele e ossos, se os
tivesse. Tinha uma pele avermelhada como se fosse coberta de escamas.
Seus braços eram muito longos, seus dedos compridos, suas unhas eram
amareladas e comprimidas. O prazer daquela criatura era aprisionar suas
vítimas com os objetos que carregava entre os dedos, alguns eram
arredondados e fumegavam. O seu hálito, quando expirava, enchia o
ambiente de uma fumaça amarelada. Ele estava ali, divertindo-se. Damião
não havia resistido à sua sedução. A criatura se sentia forte, porque tinha
dominado a vontade do rapaz.
D. Áurea se assentara no sofá e, em sua mente, repassava todos os
problemas que existiam em sua família, como se fosse um triste filme.
Damião havia chegado a um estado insustentável, pois passara a se drogar
dentro da própria casa, e a mãe já não tinha mais forças para proibir
aquilo. Quantas vezes ela havia tentado, por meio do diálogo, demovê-lo da
idéia das drogas! Mas, como ele não decidiu abandoná-las, ela achou
melhor que o filho se drogasse em casa, em vez de na esquina.
Os colegas estavam seduzindo-o para ingressar no tráfico e cometer
assaltos, e, a qualquer hora, a polícia poderia prendê-lo novamente. Ela
recordou-se dos dois anos e seis meses em que teve de visitá-lo no presídio.
Aqueles foram períodos difíceis em sua vida.
Essa tentativa de fazer com que ele trabalhasse honestamente,
mesmo que em um serviço humilde, com o pai, não estava dando certo,
porque os dois brigavam constantemente.
Ele sempre foi um menino rebelde, que abandonou os estudos antes
mesmo de começar a cursar o Ensino Médio. Seus colegas de rua eram
aqueles que só pensavam em ganhar dinheiro fácil, sem estudar nem
trabalhar. Estes o iniciaram nas drogas quando ainda era adolescente.
Quanto mais ele se afundava nelas, aumentava ainda mais a preocupação
da mãe, que sempre recorria ao “santo” protetor de seu filho. Ela havia
pedido a São Damião que fosse o protetor de seu filho. A ele D. Áurea fizera
muitas promessas e oferendas. Tudo o que ela ouvia da boca desse “santo”,
no centro espírita que freqüentava, era que o rapaz tinha de passar por
isso, mas, em breve, ele seria um homem de bem.
Quanto mais ela repassava os problemas em sua mente, mais
deprimida ficava. Suas forças se esvaíam, quando ela sentiu como se uma
brisa suave entrasse pela janela da sala.
Ela olhou para a janela, mas estava fechada. Alguém se aproximou
dela e olhou ternamente para ela, mas, sem ser visto, disse-lhe em tom
manso e suave: “Está na hora de você começar a orar”.
Era aquele soldado guardião chamado Adiel, que estava
constantemente ao seu lado. Esse ser tinha cabelos encaracolados cor de
ouro, fisionomia complacente, como um guarda-costas, sempre atento e
pronto. Ele estava ali resplandecendo em glória, quando recebeu direto do
Trono a ordem para ajudá-la.
Instantaneamente, D. Áurea sentiu um impulso que surgiu em seu
interior:
– Eu preciso orar.
Esse desejo despertou nela uma ansiedade de falar com Deus para
que a ajudasse naquele momento tão difícil. Mas, como orar, ela não sabia.
Havia aprendido muitas rezas, que sempre eram repetidas diversas vezes
em terços e novenas.
Contudo, naquele momento, precisava conversar com Deus e expor os
seus problemas, pedindo ajuda. Naquela sala, sentada no sofá onde seria
no futuro o lugar das intercessões, bastante sem jeito, ela começou a falar,
enquanto aquele anjo em pé, bem ao seu lado, começou a brilhar mais
intensamente e descortinou as asas. Ele as estendeu sobre ela, cobrindo
sua cabeça.
– Deus, sei que és bem maior que nós, e acho que não Se importa
conosco, mas eu preciso da Sua ajuda. Olha, Deus, sei que fui uma pessoa
muito má, mas, agora, preciso de Ti.
Enquanto D. Áurea orava, aquele anjo recebeu a ordem que veio
direto do Trono por intermédio de um mensageiro, que lhe disse: “O
Altíssimo ordenou: verta o bálsamo”.
Ao ouvir tal ordem, aquele poderoso soldado sorriu, regozijando-se
pela misericórdia do Senhor. Recebeu da mão do mensageiro uma taça de
ouro puro e, jubiloso, derramou o conteúdo sobre a cabeça de D. Áurea. O
líquido brilhante transformou-se em gotas com a aparência de fogo
misturado ao ouro, que desciam sobre a cabeça e cobriam todo o corpo.
D. Áurea, naquele mesmo instante, começou a chorar.
Ela não se expressou mais com palavras, mas apenas com soluços e
suspiros pelo forte choro que fluía de sua alma. O choro não era de
tristeza. Era como se algo estivesse lavando seu interior e transmitindo
alívio e conforto à alma. Ela se esqueceu das horas e tudo mais ao redor.
Só foi despertada quando ouviu o portão ranger. Segundos depois, a porta
da sala se abriu, e ela contemplou aquele homem, de cabelos grisalhos, dos
seus 57 anos, de 1,72m de altura, pesando 76kg, o qual tinha
sobrancelhas grossas, olhos cor de mel, e trazia uma mochila nas costas.
Era Almir, seu esposo. Quando a viu sentada no sofá, dirigiu-se a ela como
se tropeçasse nos próprios pés. Cambaleava quase caindo. Quando chegou
bem perto, disse, com a língua pesada:
– Oi, meu amor, cheguei. Tive um dia muito duro hoje.
Enquanto falava, D. Áurea pôde sentir o cheiro do álcool, que
impregnava o ambiente. Seu Almir estava totalmente embriagado. Ela
olhou para o relógio que estava na parede da sala. Eram 21h48. Retornou o
olhar para seu esposo e, sem conseguir esboçar um gesto de carinho,
comentou:
– No seu estado, não dá nem para eu dizer uma palavra sequer. Você
bebeu novamente, Almir. Você havia prometido que iria parar de beber.
Prostrando-se no sofá, ele respondeu:
– Realmente, eu havia prometido... Bebi para esquecer o que aquele
sem-vergonha do seu filho fez; por pouco, quis bater em mim. E tem mais:
não quero que ele more mais nessa casa, nem que fique aqui dentro, por
mais nem um minuto. Vai morar na cadeia se ele quiser, mas aqui, não!
Notando que prolongar aquele diálogo só pioraria a situação – pois
Damião poderia ouvir de seu quarto, e, no estado em que Almir estava,
talvez, houvesse uma tragédia dentro daquela casa –, ela, simplesmente,
ajudou o marido a se levantar do sofá e pediu:
– Almir, tome um banho, para ver se você melhora, e volte para
jantarmos.
Ele se levantou com dificuldade, cambaleante, balbuciando palavras
incompreensíveis, e foi para o quarto do casal.
Apesar de haver, naquela noite, experimentado algo totalmente novo e
maravilhoso, D. Áurea ainda tinha muitas preocupações.
Isabela ainda não havia chegado. Aquela não seria a primeira vez que
ela retornaria tarde para casa, mas qual seria a justificativa desta vez? O
que teria acontecido? Já estava passando das dez horas da noite. Voltando
ao mesmo lugar, ela sentou-se e pôs-se a esperar. Voltou novamente a
pensar que alguma coisa precisava ser feita imediatamente por sua família.
Eram 22h30 quando o portão avisou que alguém chegara.
Isabela abriu a porta e entrou. D. Áurea, quando a viu entrando em
casa, teve uma sensação de alívio. Isabela estava sã e salva. Ao ver a mãe
no sofá, olhando para ela fixamente, Isabela parou um instante, como se
pensasse o que diria se ela lhe perguntasse onde esteve até aquela hora. E,
realmente, sua mãe perguntou, com um tom bastante rude e severo:
– Onde a mocinha esteve até essa hora?
Como se escondesse algo, ela respondeu:
– Saí do colégio e fui à casa da Fátima pegar o meu livro de História,
que havia emprestado para ela. Ela tinha-me prometido que traria de volta
hoje, porque, amanhã, vai ter prova, mas esqueceu, e eu fui até a casa
dela. Chegando lá, ela tinha alugado um filme e insistiu para que eu
assistisse com ela. O filme era muito grande e, quando terminou, foi que eu
vi que já era muito tarde.
Muito aborrecida, D. Áurea passou-lhe um sermão e disse-lhe que
não houvesse uma próxima vez. Isabela olhou para a mãe como se fosse
responder, impulsionada por aquela malévola criatura, mas, diante da
espada na mão daquele anjo – o qual estava ao lado de sua mãe,
ameaçadoramente brilhante em direção ao ser empoleirado na cabeça da
jovem –, ela se calou, consentindo com a bronca, e foi para o quarto pegar
roupas limpas para se trocar após o banho. D. Áurea levantou-se do sofá e
foi para a cozinha esquentar o jantar que, naquela hora da noite, já estava
frio.
Quando terminou de esquentar o jantar, foi ao quarto chamar o
esposo, Almir, mas ele estava dormindo com a mesma roupa que havia
chegado do trabalho. Não havia nem tirado os sapatos. Olhou e constatou
que não valia a pena tentar acordá-lo. Saiu e foi chamar Isabela, que ainda
estava no banheiro. Ela ouviu o barulho do chuveiro que ainda estava
ligado, bateu à porta e disse:
– Isabela, saia logo daí para jantar, já esquentei a comida.
A resposta que recebe lhe tira todo o ânimo:
– Eu já jantei na casa da Fátima.
Na esperança de que não houvesse esquentado a comida somente
para ela, foi ao quarto de Damião e bateu à porta, e como não houve
resposta, ela entrou no aposento, mas ele não estava mais lá. Havia saído
pela janela, como em outras vezes, para que ela não o visse sair. D. Áurea
sabia onde ele tinha ido: encontrar-se com os colegas da rua. Desolada,
começou a jantar sozinha, mas não conseguiu comer a metade daquele
pouquinho de comida que havia colocado no prato. Uma tristeza profunda
começou a afligir-lhe a alma. Pode uma pessoa sofrer tanto? Ela lavou a
louça do jantar, que era pouca, e colocou as sobras de toda a comida que
fizera na geladeira.
Olhou o relógio de parede na sala. Eram 23h10... Quase na hora em
que Jorge costumava chegar da faculdade. D. Áurea sentou-se no sofá, à
espera do filho. Damião estava fora, mas ela havia resolvido que tentaria
dormir naquela noite. Estava muito cansada para vigiar a hora em que ele
voltaria, na esperança de que ele retornasse cedo. Assim que Jorge
chegasse, ela iria para o quarto dormir. Quando Jorge chegou, o relógio da
sala marcava 23h25. Quando viu a mãe esperando-o, sentada no sofá. Ele
meneou a cabeça e disse:– Mãe, a senhora não perde essa mania de não
dormir enquanto todos não estejam em casa, seguros.
– É, meu filho, não dá para não me preocupar com vocês.
Em tom terno, Jorge lhe respondeu:
– Vá dormir, mãe, descanse. Vou tomar um copo de leite e dormir
também.
Ela foi para o quarto, sem nem comentar com Jorge que o irmão
havia saído.
Naquela noite, D. Áurea conseguiu dormir, mas o sono não havia
reparado suas energias. Ela sonhara que coisas terríveis aconteciam com
Damião. Levantou-se às 6h50 daquela manhã de sábado, embora desejasse
descansar um pouco mais, mas o costume de longos anos em acordar cedo
fez com que ela não conseguisse permanecer por mais tempo na cama.
Antes mesmo de fazer o café, foi até o quarto de Damião, para ver se ele
havia voltado. Bastante aliviada, caminhou para cozinha e comentou
baixinho: “Que ele durma até tarde como sempre, mas, ao menos, esteja
em casa”. Naquele dia, ninguém sairia para trabalhar ou estudar. Todos
dormiriam até mais tarde.
Era quase nove horas da manhã quando seu Almir apareceu e olhou
para D. Áurea, que estava no tanque lavando roupa. O dia estava muito
bonito, o sol forte, com poucas nuvens no céu azul. Ela perguntou:
– Você não quer tomar café, Almir? Está fresquinho, acabei de coar e
colocar na garrafa térmica.
– Vou tomar, sim, depois vou ter de sair para resolver um negócio.
Como sabia o que ele iria fazer, ela seguiu-o até a cozinha e
comentou:
– Estão faltando algumas coisas em casa. Você precisa deixar algum
dinheiro para eu fazer compras.
Ele fitou-a e, com as sobrancelhas levantadas, perguntou:
– Cinqüenta reais dão para fazer a feira da semana?
– Não, essa semana está faltando muita coisa dentro de casa, desde
produtos de limpeza até os de mercearia, são necessários uns 200 reais.
– Toma cem reais, e não tenho mais que isso.
Entregou para ela duas notas de 50, que tirou da carteira, sem deixar
que ela visse se existia ou não mais algum dinheiro lá dentro. D. Áurea
pegou aquela quantia e sentou-se à mesa para conversar com ele,
enquanto ele tomava o café. Ela tinha muitas coisas para falar, inclusive,
sobre seu estado na noite passada:
– Almir, por que você bebeu? Você havia prometido, fez até promessa,
mas voltou a beber.
Ele respondeu rudemente, mostrando-se bastante irritado por ela
trazer aquele assunto à tona.
– Eu faço da minha vida o que quero, e me dá licença que estou de
saída.
Ela tentou fazer com que ele voltasse a participar do diálogo, mas,
inutilmente, ele saiu pela porta da sala, sem olhar para trás. Ela sabia que,
como ele havia terminado a obra que estava fazendo, tinha recebido um
valor considerável, o qual daria para resolver algumas coisas das muitas
que precisavam ser feitas em casa.
Embora tivessem quatro quartos, as paredes deixavam à mostra os
tijolos avermelhados. Dava até para ler o nome do fabricante neles. O piso
da casa era áspero, por ser somente recoberto com uma massa de areia e
cimento. Essas eram as prioridades para ela. Além disso, desejava a
comodidade de uma lavadora, em vez de lavar roupa no tanque, esfregando
com as mãos. Seria uma maravilha! Havia tantas outras necessidades que
poderiam ser supridas, se o dinheiro que seu Almir ganhava não fosse
desperdiçado em uma mesa de bar.
Quantas não foram as ocasiões em que ele havia chegado do
trabalho, cambaleando, sem um tostão no bolso, embora momentos antes
tivesse recebido o pagamento da semana, ou até do mês inteiro! Ela havia
tentado de tudo. Quantas obrigações não haviam sido oferecidas aos guias,
para que eles fizessem seu Almir parar de beber! Mas eles não puderam
fazer coisa alguma.
Sábado era o dia que havia trabalho no Grupo Espírita Paz e Luz,
onde ela fazia parte como filha-de-santo. No entanto, não sentia mais
vontade de ir àquele lugar. Ela ficaria em casa. Aquela decisão do dia
anterior ainda refletia em sua alma.
Achava que só aquela atitude era suficiente para continuar
experimentando a paz interior.
Os dias se passaram, os problemas continuavam. Parecia, às vezes,
que tudo estava bem, mas aconteciam situações no meio da família que a
faziam ver que as coisas não iam bem.
Eles haviam continuado na mesma rotina.
Dois meses se passaram desde aquele dia em que ela havia recebido o
convite de aceitar Cristo como Salvador em sua vida. Jorge não havia mais
sentido dor, estava muito bem, trabalhando durante o dia e fazendo
faculdade à noite. Contudo, D. Áurea sentia um vazio muito grande em sua
vida, alguma coisa estava faltando.
Naquela segunda-feira, ela acordara cedo. Como sempre fazia,
arrumou a comida para seu Almir levar para o trabalho e fez o café da
manhã. Seu Almir foi o primeiro a tomar o café e sair para o trabalho.
Alguns minutos depois, Jorge também saiu para o serviço. Damião, mais
uma vez, não havia dormido em casa, e Isabela só se levantava depois das
nove horas. D. Áurea começou a arrumar a casa, mas uma sensação
horrível começou a roubar-lhe a paz. Ela sentiu um desespero, um vazio,
uma angústia, como se pressentisse que fosse acontecer algo de muito
grave com alguém de sua família. Ela começou a respirar profundamente,
com dificuldades para isso. Olhou para uma imagem de Nossa Senhora que
estava no canto da sala, e seu desejo foi de se dirigir a ela, acender uma
vela e fazer uma petição. Na frente da imagem, estava alguém, que ela não
via, mas gesticulava com as mãos, como se a chamasse. O anjo que a
estava acompanhando naqueles dois meses não esboçou qualquer atitude,
pois sabia que a decisão era somente de D. Áurea. Aquele ser maligno
estivera muito tempo controlando-a e queria novamente se tornar o senhor
da vida dela. Somente ela poderia decidir se deixaria que ele fizesse isso.
Adiel havia pedido reforço, mas será que chegaria a tempo?
Naquela manhã, no momento em que D. Áurea levantava-se da cama,
Adiel havia recebido a visita de um mensageiro celestial, o qual lhe havia
avisado que estivesse de prontidão.
Naquele dia, ele teria de resistir a uma grande investida dos inimigos
e deveria aguardar o reforço, o qual ele havia sido incumbido de buscar.
Aquele mensageiro saiu como um relâmpago, transformado-se em luz pela
velocidade de sua partida em direção ao sul.
Eram cinco horas da manhã quando uma senhora, que estava orando
de joelhos, levantou a cabeça e ouviu alguém dizer: “Levante-se e vá agora
ao endereço que está dentro de sua Bíblia”. Ela se levantou e saiu como se
estivesse atrasada para um compromisso urgente.
Na casa de D. Áurea, ela continuava a olhar para aquela imagem,
como se esta continuasse a convidá-la para se prostrar diante do seu altar,
voltando a ser como era antes. Seduzida por uma força estranha, ela foi até
a cozinha, pegou uma caixa de velas e fósforos na gaveta e dirigiu-se ao
altar. Mas, antes que começasse, alguém bateu palmas no portão de sua
casa. Uma pergunta lhe sobressaltou a mente: “Quem poderia ser às 7h40
da manhã? Ela não sabia que era o reforço tão esperado por Adiel. Olhou
pela janela e viu uma senhora de 1,56m de altura, aproximadamente 56
anos, cabelos pretos crespos, presos em um coque no alto da cabeça, olhos
pretos e pele escura. Vestia um conjunto de blazer e saia bege. D. Áurea
tentou lembrar-se de onde conhecia aquela mulher, enquanto se dirigia
para o portão para atendê-la. Chegando lá, sem conseguir saber quem era,
D. Áurea perguntou:
– O que a senhora deseja?
– Minha querida, vim visitá-la para saber como você está.
Ainda sem conseguir lembrar-se, D. Áurea, um pouco atônita,
indagou:
– De onde é mesmo que nos conhecemos?
– Não se lembra daquele dia no hospital, quando oramos por você e
seu filho?
– Ah, sim! Vamos entrar. Eu estava tentando lembrar-me de onde a
conhecia, mas não consigo guardar muito bem a fisionomia das pessoas.
Ao entrarem, o ambiente já não estava como antes, encontrava-se
hostil. Aquela figura, que há pouco convidava D. Áurea para aquele altar,
já não estava sozinha. Estava acompanhado de dezenas de seres de
aparência grotesca, criaturas que provocariam medo e pavor em qualquer
humano que pudesse enxergar as garras longas e afiadas, os olhos
amarelados, a pele enrugada de cor cinza e as tortuosas lâminas negras
que empunhavam. Todos cuspiam blasfêmias e maldições diante de outra
fileira de seres angelicais, que, contemplando o desenrolar dos
acontecimentos que se seguiriam, entre aquelas duas senhoras,
preparavam-se para a batalha.
Sarah foi convidada por D. Áurea a sentar-se no sofá, mas ela
recusou o convite e sentiu o impulso do Espírito de Deus para começar a
orar imediatamente. Dirigiu-se para D. Áurea e, sentindo o corpo arrepiar,
explicou:
– Irmã Áurea, estou aqui porque hoje, pela manhã, Deus me enviou
para essa missão. Quero orar por você, sua família e pelo seu lar.
A irmã Áurea consentiu, e ambas se ajoelharam à beira do sofá.
Sarah iniciou uma oração fervorosa, e D. Áurea somente a ouvia. Sem
saber orar, apenas concordava em pensamento.
Aqueles seres bizarros começaram a se eriçar, a rosnar como animais
ferozes e a jogar uns objetos pequenos pontiagudos, semelhantes a flechas
negras de pura maldade. Quase todas ricocheteavam nos escudos de dois
guerreiros celestiais que protegiam aquelas duas mulheres que clamavam
incessantemente.
Em um impulso, Sarah pôs-se de pé, e virando-se em direção ao altar
onde estava aquela imagem, começou a repreender, como se estivesse
vendo aqueles seres malignos ali em frente, retorcendo-se e gritando
impropérios, para que ela parasse.
Resistindo, aquela mulher de oração passou a expulsá-los em Nome
de Jesus Cristo. Então, ao soar de uma trombeta, uma voz de comando
bradou: “Atacar!”.
A situação dentro daquela casa mudou e se tornou um verdadeiro
campo de batalha. As criaturas tentavam resistir, enquanto a pronúncia
daquele Nome lhes queimava os ouvidos.
As espadas de puro fulgor de fogo, nas mãos dos poderosos guerreiros
celestiais, rasgavam o ambiente de um lado para o outro e eram defendidas
por aquelas lâminas negras e tortuosas, nas mãos das horrendas criaturas,
que tentavam não ceder ao impacto da força dos ataques desferidos. Como
não puderam resistir, bateram em retirada, sendo perseguidos por luzes
brilhantes que rasgavam os céus em uma velocidade nunca vista por
nenhum ser humano.
Ao sentir dentro de si que obtivera a resposta, Sarah parou de
clamar, voltou ao sofá onde estava Áurea, que admirava a autoridade com
que Sarah orava. Aliviada, ela sentou-se. Tudo estava diferente; o
ambiente, agora, estava em paz. As duas começaram, então, a conversar,
relembrando o dia em que Deus havia resgatado Áurea. Sarah fazia
questão de chamar de irmã e, ao perguntar em que igreja Áurea estava
freqüentando, a fim de participar da comunhão dos santos – todos aqueles
que haviam, assim como Áurea, aceitado Cristo, tornando-se filhos por
adoção em Jesus Cristo –, houve uma resposta negativa. Ela não estava
freqüentando uma igreja. Desde aquele dia, no hospital, ela não havia mais
ouvido falar de Jesus. Sarah parou por alguns instantes para refletir. Ela
não poderia levar Áurea para a igreja onde freqüentava, por ser muito
distante. Para estar ali, naquele dia, havia tomado duas conduções e
gastado 1h20. Por isso, perguntou-se como fazer com que Áurea pudesse
ser ajudada a dar os primeiros passos para estar com os santos,
aprendendo a crescer espiritualmente. Naquele momento, Áurea pediu
licença para preparar um café. Levantou-se e foi para a cozinha, deixando
Sarah, sentada no sofá, sussurrando baixinho:
– Como posso ajudar a irmã Áurea a freqüentar uma igreja, para que
ela possa aprender a ser verdadeiramente uma cristã e não se afastar de
Cristo?
Um anjo robusto, que ainda brilhava pelo fervor da batalha travada,
falou: “Lembra-se da missionária Elza?”.
Sarah lembrou-se de Elza, uma verdadeira guerreira na causa do
Evangelho. Se ela ainda morasse naquele bairro, poderia pedir-lhe que
auxiliasse aquela família.
Irmã Áurea voltou da cozinha, trazendo uma bandeja com café e
biscoitos. Enquanto tomam o café, conversaram muito, e Sarah
testemunhou para Áurea os muitos milagres que ela tem presenciado, e
Deus tem realizado na vida das pessoas. Enquanto conversavam, Sarah viu
uma jovem que se aproximava.
Ao vê-la, irmã Áurea a apresentou:
– Essa é minha filha caçula, Isabela.
Isabela permaneceu recuada e disse apenas:
– Oi!
Como era muito amável ao lidar com as pessoas, Sarah comentou,
tentando quebrar o gelo:
– Isabela, como você é bonita. Eu queria ter olhos assim, cor de mel.
Isabela esboçou um sorriso de agradecimento pelo elogio, mas não
falou uma palavra. Apenas pediu licença e saiu em direção à cozinha para
tomar seu café da manhã.
Sarah sentiu o Espírito de Deus comunicar ao seu espírito que a luta
seria muito grande. Então, convidou a irmã Áurea para ir com ela à casa de
uma amiga, que morava ali perto, e explicou-lhe que aquela pessoa poderia
ajudá-la bastante na luta para restaurar o seu lar e firmá-la na fé.
Irmã Áurea reagiu bastante entusiasmada, ao saber que havia
alguém próxima da sua casa que poderia auxiliá-la a superar os
problemas, os quais assolavam sua família. Ela avisou a Isabela, que ainda
estava na cozinha, que sairia por alguns minutos.
As duas mulheres desceram a rua, dobraram à direita, na esquina da
rua, andaram alguns metros e chegaram a um sobrado, o qual havia sido
pintado de amarelo há muito tempo e se encontrava um pouco esverdeado
pela ação das chuvas e do sol, que desgastaram a cor. Havia um muro ao
redor de toda aquela residência. Sarah ia tocar a campainha, quando
observou uma senhora, que vinha subindo a rua e parecia ser a Elza.
Tinha cerca de 1,55m de altura e era um pouco corpulenta.
Devia pesar uns 70kg. Tinha cabelos louros escuros, presos em um
rabo de cavalo, olhos verdes claros, e aparentava, mais ou menos, 60 anos.
Ainda distante, observou que aquelas duas senhoras estavam paradas bem
em frente à sua casa, apressou-se em se aproximar. Quando chegou mais
perto, abriu os braços e, com um largo sorriso no rosto, abraçou Sarah,
que correspondeu com carinho e entusiasmo. Após se abraçarem,
Sarah apresenta:
– Elza, esta é Áurea, uma recém-chegada ao nosso meio, fruto de um
trabalho missionário no hospital.
Elza também a abraçou com um caloroso e apertado abraço de boas-
vindas e as convidou para entrar. Sentadas na sala de estar, começaram a
relembrar os dias em que Sarah estava começando a caminhar com a
ajuda de Elza, a qual, um dia, havia-lhe falado da salvação em Cristo,
resgatando-a de um hospital para tratamento psiquiátrico. Se não fosse a
ajuda de Elza, talvez, Sarah ainda estivesse lá. Ela havia sido mais do que
uma amiga. Tinha sido sua irmã mais velha, que muito chorou com ela nos
momentos de tristeza.
Sarah olhou para o relógio e, ao ver que horas eram, apressou-se em
terminar a missão, a qual fez com que ela estivesse ali, naquela manhã.
Naquela tarde, ainda teria um outro compromisso. Ela contou todo o
motivo de sua visita no lar daquele tão amada irmã. Elza se mostrou
pronta e muito alegre em poder ajudar Áurea a dar os primeiros passos na
vida cristã e combinou com ela de irem juntas a um culto de libertação
naigreja, naquela noite. Elza passaria na casa dela às 18h50, por isso,
anotou o endereço e a referência da casa em que Áurea morava. As três
oraram juntas e, no portão, despediram-se enquanto Elza permaneceu no
portão. Sarah subiu a rua até o ponto de ônibus que ficava na outra
quadra, e D. Áurea foi para casa aguardar aquela que prometia ser a sua
companheira nessa caminhada que desejava conhecer mais de perto.
III
RECEBENDO ARMAS PARA LUTAR
Naquela tarde, irmã Áurea estava sozinha em casa. Ela estava
correndo para arrumar a casa e preparar o jantar um pouco mais cedo,
pois queria estar pronta às 18h50, quando a missionária Elza a chamasse
para irem à igreja. Ela estava tão alegre e radiante, embora houvesse
experimentado momentos de angústia na alma. Mas tudo havia passado.
Quando estava arrumando o canto da sala, ela se deparou com o
altar e aquela imagem imóvel sobre ele. Momentos antes, havia desejado
prestar homenagem a ela e fazer-lhe um pedido, mas, naquele instante,
tinha o desejo de jogar tudo aquilo fora.
Naquele dia, Isabela chegou mais cedo do colégio e agia
estranhamente. Estava inquieta, como se procurasse algo a fazer. Ela não
estava só. Aquele ser encontrava-se novamente empoleirado em sua cabeça
e vinha com um comparsa, agarrado nas costas dela. Suas garras grandes
e afiadas estavam cravadas em seu corpo, mas nem ela nem a mãe os
viam. D. Áurea deixava transparecer sua alegria, e isso incomodava
Isabela, que, depois de caminhar de um lado para o outro, curiosa,
perguntou:
– O que está acontecendo com a senhora, até parece que viu o
“passarinho verde”?
– Estou muito feliz, minha filha. Aquela irmã que esteve aqui, hoje,
pela manhã, orou comigo, e isso trouxe uma paz muito grande ao meu
coração.
Sem ter consciência do que estava acontecendo, Isabela, sob o
controle dos dois seres, tentava achar algum meio de causar tristeza na
mãe. Em tom sarcástico, falou:
– Cuidado com esse negócio de irmandade. Essas irmãs, não sei,
não...
– As que conheci hoje são pessoas muito boas.
– Não sei, não, mas andar com essas crentes não vai dar certo.
Inocentemente, sem saber com o que estava lidando, irmã Áurea fez
um convite à filha:
– Hoje, vou à igreja. Quer ir comigo?
Aqueles seres gargalharam, soltando um hálito amarelado, e Isabela
fez a mesma coisa. Impulsionada por uma força externa, em tom rude,
começou a dizer palavras que feriram a mãe:
– Deixe de ser boba, mãe. Olha, esse negócio de igreja não vai levar a
senhora a lugar algum. Esses pastores só querem saber de dinheiro, e
essas irmãs querem é fofocar.
Irmã Áurea, aborrecida com as palavras de Isabela, respondeu
também com rispidez:
– Eu vou para a igreja, sim, e você, Isabela, deveria respeita-me mais.
Ainda sou sua mãe e ainda posso dar uma surra em você.
Aqueles seres debocharam, e Isabela, em tom de deboche, disse:
– A senhora pode até me dar uma surra, mas vou avisar para a
senhora: cuidado para o pastor não tentar agarrar a senhora.
Ao ouvir tais palavras de sua filha, irmã Áurea caminhou em direção
a ela e lhe deu uma bofetada no rosto, o que fez Isabela sair correndo,
chorando para o quarto.
No mesmo instante, irmã Áurea arrependeu-se de ter feito aquilo e
sentou-se em uma cadeira, no canto da sala. Um daqueles seres, que
estava agarrado à Isabela, ficou ao redor daquela senhora, acusando-a:
“Você não pode ir à igreja hoje. Tem de desistir. Veja o que você fez”. Adiel,
que observava o que acontecia, não podia agir, somente esperar o momento
certo. Eram 18h20. Na rua Imperial, no 60, no lar da missionária, Elza
sentiu um impulso do Espírito Santo para orar por Áurea.
No mesmo instante, dentro do quarto, começou a clamar, sentindo
um impulso de repreender o acusador. Enquanto fazia isso, a cinco
quadras dali, na casa de Áurea, Adiel retirou do cinturão a espada, abriu
suas asas e, em milésimos de segundo, passou a brandir sua espada
contra aquele ser, o qual tentava desviar-se dos potentes golpes. Contudo,
diante do oponente, que havia recebido uma força muito grande, retirou-se
depressa, deixando um rastro acinzentado de fumaça no ar. Áurea ergueu
a cabeça e afirmou:
– Não posso deixar que coisa alguma me impeça de ir à igreja hoje.
Na hora marcada, Elza estava à porta da casa de Áurea, batendo
palmas. Resoluta, Áurea pegou o casaco e encontrou aquela senhora no
portão. As duas desceram a rua rumo à igreja.
Ao chegarem ao templo, antes de entrar, elas pararam alguns
instantes, enquanto a irmã Áurea olhava e pensava quantas vezes havia
passado em frente daquele lugar. Ela conhecia as cores dos vitrais das
janelas, o formato da porta, as paredes laterais, as suas quatro janelas em
cada parede, mas, hoje, seria diferente. Ela entraria e poderia saber como
era lá dentro. Alguns passos adiante, já na porta de entrada, encontraram
duas pessoas: um homem e uma mulher bem vestidos. Eles sorriam ao
cumprimentarem as pessoas que chegavam, anotavam os nomes dos que
não eram conhecidos, a fim de serem apresentados como visitantes e,
depois, levavam-nas a um lugar vago, onde as acomodavam.
Ao entrar, Áurea olhou ao redor para se familiarizar com o ambiente.
Viu as fileiras de bancos perfeitamente colocados, um atrás do outro; os
ventiladores que pendiam do teto; bancos menores colocados em outra
linha de arrumação, formando um ângulo de 90O em relação à fileira em
que ela se assentara.
Bem na parte interior, notou que era um pouco mais elevado e
existiam várias cadeiras, todas em madeira envernizada, com os detalhes
dos assentos e encostos de um tecido aveludado cor vinho. Atrás daquelas
cadeiras, um extenso cortinado como um véu, que estava aberto e deixava
à mostra uma linda paisagem como se fosse a réplica do jardim do Éden.
Muitas pessoas estavam chegando e, se continuasse naquele ritmo, o lugar
ficaria cheio logo. Ela observou que todos, antes de se sentarem,
ajoelhavam-se e, durante alguns minutos, moviam os lábios como se
falassem com alguém.
Elza a deixara ali e tinha ido para o interior, a fim de se ajoelhar em
uma cadeira, que estava mais abaixo de um lugar que parecia uma
tribuna. Um jovem ligou a aparelhagem de som, fez alguns ajustes rápidos
e passou o microfone para as mãos de Elza, que fez uma breve saudação e
convidou todos a ficarem em pé e orarem naquele momento. Todos
prontamente, sem hesitar, levantaram-se. Após a oração, todos tomaram
novamente assento nos bancos. Elza passou o microfone para outra irmã,
que estava assentada ao seu lado, para que cantasse juntamente com as
pessoas que ali se encontravam. Naquele momento, Áurea olhou ao redor e
pôde contemplar aquele lugar, o qual já se encontrava lotado. Havia mais
de 200 pessoas.
Áurea seguiu atentamente o desenrolar daquilo que eles chamavam
culto de libertação. Pessoas eram chamadas à frente para testemunharem
e contavam como foram no passado e como haviam mudado. Outras
apenas cantavam. Um conjunto de umas 30 senhoras lhe chamou a
atenção quanto entoou uma canção. Ela se maravilhou com as músicas tão
suaves, que lhe tocavam a alma.
Em um certo momento, Elza disse a todos os presentes que passaria
o restante da direção daquele culto para o Pr. Joel, dirigente daquela igreja,
e entregou o microfone para um homem moreno, de 1,80m
aproximadamente, cabelos pretos, que vestia um terno marrom, com uma
camisa amarela clara, uma gravata em tom avermelhada, com detalhes em
bege.
Com um sorriso no rosto, ele saudou toda a igreja e, pedindo a todos
que se colocassem em pé, convidou um senhor de cabelos grisalhos, que
vestia elegantemente um terno azul marinho e uma camisa azul celeste, e
usava uma gravata azulada com detalhes em branco. Todos, novamente,
em pé, oraram juntos, e o Pr. Joel passou o microfone àquele senhor. Ele
pediu a todos que lessem um texto na Bíblia. Áurea não tinha Bíblia, mas
outra senhora, ao seu lado, abriu uma e lha entregou, mostrando o lugar
que devia ser lido. Olhando aquela página, ela viu o nome do livro: Efésios.
O capitulo era o 6, e o número que estava no canto da frase era o 10. Em
cima, em negrito, estava escrito:
A Armadura de Deus. Ele leu um pequeno trecho e disse a todos que
se sentassem.
Áurea estava curiosa para saber que armadura de Deus era aquela e,
atentamente, ouviu o sermão. Cada palavra penetrava em sua alma e fazia
arder seu coração. Ela não conseguia segurar as lágrimas que se formavam
em seus olhos e eram vertidas na face. Parecia que aquele homem estava
falando diretamente para ela; os problemas que enfrentava em casa eram
iguais aos que ele citava.
Quando ele terminou a pregação, as pessoas foram convidadas a irem
à frente, a fim de receberem a oração da libertação, por meio da imposição
das mãos. As pessoas iam até o interior e se ajoelhavam. Áurea sentiu um
grande desejo de ir e, movendo-se do lugar onde estava, ajoelhou-se com os
demais.
Antes que alguém chegasse até ela, ela viu pessoas que, quando as
mãos daqueles homens e mulheres se posicionavam sobre suas cabeças,
começavam a se contorcer, a ranger os dentes e a falar com uma voz
estranha e grave; como no dia em que seu filho havia sido curado. Sem
serem vistos pelos presentes, figuras negras distorcidas e pavorosas se
retiravam, abandonando suas presas. Uma senhora, de cabelos grisalhos,
aproximou-se, pôs as mãos sobre sua cabeça e passou a orar. Áurea sentiu
como se uma tocha de fogo pousasse sobre ela. Naquele momento, sabia
que estava ali, mas era como se estivesse nas nuvens. Aquela irmã disse no
seu ouvido:
– Eis que o Senhor lhe dá autoridade e sabedoria, e a reveste das
armaduras para você lutar. A batalha dentro do seu lar será muito grande,
mas permaneça firme em oração para alcançar a vitória.
Aquelas palavras despertaram em Áurea um vigor muito grande.
Quando ela se levantou e voltou para o lugar, sentiu uma alegria nunca
antes experimentada.
O Pr. Joel, já com o microfone na mão, fez os agradecimentos a todos
os visitantes. Entretanto, irmã Áurea não queria ser visita, por isso, decidiu
que ali seria o lugar que ela freqüentaria e estaria com aquelas pessoas. O
secretário da igreja leu os avisos da semana e o Pr. Joel encerrou a
reunião. As pessoas se retiraram alegres, cumprimentando umas as
outras. Áurea saiu do meio de um emaranhado de pessoas. Chegando ao
portão da igreja, ela parou e esperou por Elza, que ficara bem mais atrás.
Enquanto a aguardava, algumas pessoas se aproximaram dela e, com um
sorriso no rosto, disseram que estavam felizes com sua presença, e ela
seria muito bem-vinda outras vezes.
Depois de alguns minutos, apareceu Elza, que saudava um irmão e
conversava com outro, até chegar até Áurea. Antes de saírem, Áurea olhou
para trás. Depois, as duas desceram a rua conversando. Elza perguntou:
– Minha querida, você gostou do culto?
– Gostei tanto, que não quero perder nenhum!
Aproveitando a empolgação de Áurea, Elza a convidou para entrar na
campanha de oração que estava sendo realizada todos os dias, às 6h30 da
manhã. Como Áurea sempre acorda cedo, prontificou a ir com Elza.
Aproximando-se do portão da casa de Áurea, antes de se despedir, Elza lhe
disse:
– Quando a irmã notar algo de estranho acontecendo dentro do seu
lar, use a autoridade do Nome de Jesus.
Áurea indagou, querendo saber:
– Mas como é isso... Usar a autoridade do Nome de Jesus?
– No momento em que alguma coisa ruim acontecer, você deverá falar
com convicção e fé: “Seja repreendido em Nome de Jesus”.
Elas se despediram, e a irmã Áurea pensou: “Nunca vou precisar
disso”.
Quando ela retornou às 21h25, seu Almir já estava em casa, na sala
assistindo um jogo de futebol. Ela cumprimentou-o e lhe deu um beijo, ao
que ele correspondeu. Ela pôde perceber que ele não havia bebido. Ela
sentou-se ao lado dele. Ele olhou para ela e, mesmo sabendo de tudo por
intermédio de Isabela, perguntou:
– Aonde você foi?
– Fui àquela igreja, que fica perto da associação de moradores...
Aquela dos vitrais coloridos.
Sem entender o que estava acontecendo com sua esposa, ele indagou:
– Que negócio é esse de, nessa idade, você resolver ir à igreja de
crente? Você nunca gostou disso.
– Almir, nesses dois dias, eu quis contar o que aconteceu comigo e
com Jorge, mas, como você só voltava bêbado para casa, não tive como.
Irmã Áurea, depois de muitos dias, conseguiu conversar com seu
esposo. Ele a ouviu, mas com a atenção dividida entre o que ela falava e o
jogo a que assistia. Às vezes, meneava a cabeça e fazia um som
entreabrindo a boca, em sinal de que estava ouvindo. Após falar tudo o que
guardara por dias a fio, a mulher se levantou e foi até o quarto de Damião.
Ela queria saber se ele estava em casa. Bateu levemente à porta e, em
seguida, abriu-a vagarosamente. Damião encontrava-se deitado na cama,
com os braços estendidos sobre a cabeça, dormindo profundamente. A mãe
entrou no quarto somente para cobri-lo. A noite estava fria. Ela saiu,
fechando a porta atrás de si, e foi até o aposento de Isabela, mas antes
percebeu que tinha alguém no banheiro, pois ouvira o barulho da água do
chuveiro caindo profusamente. Parou em frente ao banheiro e se perguntou
por que Isabela começou a passar muito tempo no banho.
Como a sua pergunta não teve resposta, Áurea se encaminhou até a
cozinha, preparou uns biscoitos, cobrindo-os com um pano de prato, e
colocou um pouco de leite quente na garrafa térmica. Indo para o quarto,
falou para Almir:
– Meu bem, já vou me deitar.
O marido, que cochilava enquanto assistia à partida de futebol,
despertou e respondeu:
– Já estou indo também. O jogo já vai terminar. Faltam apenas 20
minutos.
Quando o jogo terminou, seu Almir levantou-se resmungando, como
se alguém o estivesse ouvindo:
– Esse time tá mal demais; precisa trocar todos os jogadores.
Ele desligou a TV e foi para o quarto. Olhou para o banheiro, e
Isabela ainda está lá dentro, com o chuveiro ligado.
Ele tornou a murmurar:
– Ainda bem que previ isso e construí um quarto com suíte, para
evitar ficar gritando com filho para sair do banheiro.
Irmã Áurea, deitada na cama, ouviu quando Isabela saiu do banheiro
e entrou no quarto, mas, para que ela pudesse dormir em paz, só faltava
Jorge retornar da faculdade. Seu Almir dormia profundamente. Enquanto
esperava Jorge, ela meditava naquela noite. Parecia que descansaria em
paz. Ela ouviu o barulho da porta da sala abrindo-se e, pelo barulho das
chaves, perguntou:
– É você, Jorge?
– Sim, mãe, sou eu... E como sempre a senhora está acordada.
Em tom muito terno e carinhoso, ela disse:
– Deixei leite quente na garrafa térmica e biscoitos para você em cima
da mesa.
Jorge sorriu, pensando como sua mãe se preocupava com seus filhos.
D. Áurea suspirou aliviada e relaxou, esperando o sono chegar. Logo
adormeceu.
Damião, em seu quarto, sonhava com um ser que, em um lugar
paradisíaco, chamava-o com voz suave e doce. Ele podia observar todos os
detalhes daquela figura que ao longe o chamava, enquanto caminhava
naquela direção. Ele conseguiu ver que aquela pessoa tinha uma comprida
veste como uma estola, a qual ia até os pés. Era toda azul, com detalhes
dourados em toda a sua borda. Seus cabelos eram pretos, longos, que
caíam sobre os ombros, e tinha uma coroa sobre a cabeça. Sua face, como
a de um santo, semelhante às imagens que ele conhecia de São Damião,
sorria e trazia nas mãos um ramo. Havia outros dois que eram muito
parecidos com aquele ser. Enquanto, no sonho, Damião via aquele jardim,
em seu leito, esboçava um sorriso de felicidade. Quando se aproximou
daquela figura tão bela e iluminada, esta o abraçou, e o abraço foi
lentamente se tornando mais apertado e começou a sufocá-lo. Damião
tentou livrar-se daqueles braços que o esmagavam, que já não eram belos.
Estavam longos, esqueléticos e rijos como o aço. Eles o estavam apertando
de maneira que não podia respirar. Damião se debatia sobre a cama, sem
conseguir gritar por socorro. Enquanto, em seu sonho, estava apavorado e
suava – tentando libertar-se, convulsionando sobre um piso cheio de
espinhos e ossos humanos, onde antes havia sido um paraíso –, ele fazia
barulho em seu quarto.
O barulho de Damião despertou Áurea, Jorge e Isabela.
Seu Almir, como tinha o sono pesado, continuou dormindo. Os três,
quase que simultaneamente, saíram dos seus quartos e se encontraram em
frente à porta do quarto de Damião. Sem pensar em bater, irmã Áurea
abriu a porta e entrou apavorada. Ela encontrou Damião debatendo-se
sobre a cama, com as mãos no pescoço, como se quisesse estrangular-se a
si próprio. Enquanto Jorge e Isabela estavam atônitos, como duas
estátuas, à porta do quarto, D. Áurea tomou Damião nos braços, tentando
acordá-lo, sem sucesso. Ele estava gélido e parava de se debater como se
estivesse perdendo os sentidos. Naquela instante, ela se lembrou do que
lhe havia dito Elza, e, em voz alta, disse:
– Em Nome de Jesus Cristo, eu repreendo todo o mal!
Essas palavras fizeram com que Damião estremecesse e abrisse os
olhos um tanto assustado, enquanto uma criatura, cor de chumbo, de
olhos esbugalhados, em tom amarelo, e de corpo esquelético, fugisse,
tapando os ouvidos diante dos golpes firmes e rápidos de Adiel, que
brilhava mais intensamente do que a luz.
Arfando pelo cansaço de todo aquele sofrimento, Damião, olhando
para a mãe, que o observava assustada, perguntou:
– O que houve, meu filho?
Recuperando-se do susto, Damião respondeu:
– Foi um pesadelo horrível, mãe. Eu vi São Damião me chamando e,
junto dele, estavam São Cosme e Doum também me esperando. Mas,
quando cheguei perto dele, ele me abraçou, transformou-se em um
monstro e quis me matar.
Ela o acalmou e trouxe-lhe um copo de leite morno, pedindo, em
seguida, que voltasse a dormir. Isabela e Jorge já haviam retornado para
seus quartos. Enquanto voltava para o aposento, irmã Áurea percebeu que
todas aquelas coisas que fizera no passado estavam refletindo em sua
família. Aquele que, outrora, ela achava ser o protetor das crianças, hoje,
havia mostrado o seu lado oculto. Ela julgava que ele podia proteger seu
filho, bastasse ser-lhe oferecido e receber o mesmo nome em sua
homenagem, mas a realidade era outra. Antes de entrar, ela olhou aquelas
imagens lá no canto da sala, em seu altar. Apesar de estarem imóveis, ela
sentiu todo o seu corpo arrepiar-se. Ficou sem entender o que era. Lá,
naquele canto, na penumbra, estava aquele ser que havia retornado. Ele
reivindicava o direito de ficar ali, diante de Adiel, que apenas lhe disse:
“O Senhor te repreenda”.
Aquele ser gargalhou e se recolheu naquele canto, onde estavam as
imagens de S. Cosme e Damião, e ficou a espreitar.
O dia amanheceu e, antes do sol surgir, tudo começou novamente.
Almir saiu para o trabalho, logo após Jorge. D. Áurea olhou o relógio:
6h15. Como Isabela e Damião não iriam levantar-se tão cedo, ela vestiu o
casaco. Quando saiu em frente à casa, olhou para a rua e contemplou
algumas pessoas que passavam apressadamente para o ponto de ônibus,
rumo a mais um dia de trabalho. Ela desceu a rua em direção àquela
igreja, que trazia a lembrança de sentimentos tão bons e ternos da noite
anterior. Quando alcançou a esquina, Elza vinha subindo a rua. Quando
viu Áurea, Elza sorriu largamente e foi em sua direção. As duas se
abraçaram, e Elza disse:
– Vamos batalhar, minha querida. Temos muitas lutas pela frente.
A palavra batalhar parecia não combinar com aquele povo, tão manso
e pacífico.
Chegando à igreja, Elza, que trazia a chave, abriu a porta e, antes de
entrarem, viram mais pessoas, as quais foram, naquela manhã, àquele
lugar com um único propósito: oração.
Todos entraram. Elza explicou tudo para Áurea, que ainda não
conhecia como era realizada aquela reunião. Todos começaram a entoar
um cântico que dizia: Lutemos todos contra o mal e vamos a Jesus seguir/
Ele é o nosso General e a glória do porvir.
Uma senhora forte, de pele escura, com os cabelos pretos, presos em
um coque na cabeça, mantinha uma postura séria na direção daquela
reunião. Ela sabia da gravidade da situação. Quando terminaram de
cantar, a dirigente convidou os presentes a se ajoelharem e orarem. Todos,
quase simultaneamente, obedeceram-na e começaram a clamar. Áurea
olhou ao redor e observou que alguns não moviam os lábios quando
oravam; outros sussurravam, balbuciando palavras, e havia aqueles que se
faziam ouvir. Não importavam rituais nem métodos. Cada um, com as
próprias palavras, falavam com Deus a seu modo. Ela não seria alguém
alheia a essa necessidade e também iniciou a sua oração, mesmo sem jeito
para falar com o Altíssimo. Os minutos se passaram, e logo Áurea sentiu o
joelho doer. Levantou a cabeça e percebeu que somente uma senhora idosa
estava sentada, mas, mesmo naquela posição, não parava de orar. Como
não tinha o costume de ficar de joelhos por muito tempo, Áurea sentou-se
e, como aquela outra irmã, continuou a interceder. Soou, então, uma
campainha, e todos pararam os clamores no mesmo instante.
Aquela senhora que liderava a reunião convidou as pessoas a irem
para mais perto da mesa onde ela estava. Ela chamou pelo nome uma
pessoa. Era um homem magro, de pele clara e cabelos pretos. Vestia calça
social preta e uma camisa de manga longa, de listras amarelas e brancas.
Era o irmão Francisco. Naquele dia, estariam todos orando unânimes em
favor daquele irmão, que estava enfrentando grandes lutas.
Todos intercederam a uma só voz. Enquanto oravam, eles sentiram
que uma presença gloriosa enchia o ambiente. Não puderam ver, mais um
anjo mensageiro voou e se posicionou bem em frente à dirigente da
reunião. Ele tinha na mão um pergaminho dourado, com selo celestial.
Abriu-o e começou a lê-lo em voz alta: “Meu filho, ouvi sua oração hoje de
madrugada.
Abrirei a porta de emprego para ti e, então, verás como eu cuido dos
meus”.
Enquanto ele lia, essas mesmas palavras saíam dos lábios daquela
senhora.
Áurea observava, sem entender muito bem o que estava acontecendo
ou quem estava falando com o homem, mas permaneceu atenta. O anjo
fechou aquele pergaminho dourado e abriu outro, no qual estava escrito
por fora: Áurea. Naquele momento, a líder do culto virou-se em direção à
Áurea, estendeu as mãos sobre ela e começou a falar as mesmas palavras
lidas por aquele anjo naquele pergaminho dourado:
– Minha filha, eu te escolhi para trabalhar em minha obra, e tu verás
que os da tua família estão em minhas mãos. Eu operarei, ainda que seja
impossível para o homem. Para mim não é. Minha serva, esta noite, verás
que Eu estou contigo, e como será dura a batalha, mas não tenhas medo.
Eu estou contigo na peleja, a minha graça e a minha paz sejam sobre ti.
Áurea sentiu o impacto daquelas palavras, que tocaram fundo o seu
coração, como pessoa nenhuma podia tocá-la, por mais lindas que fossem
as suas palavras.
Ao retornar daquela reunião, irmã Áurea rememorou as palavras que
lhe foram proferidas naquela manhã. Todos os dias de manhã e algumas
vezes à noite, Áurea fazia o mesmo percurso até aquela igreja, que era uma
grande família da qual passara a fazer parte. Aquelas visitas constantes à
casa do Senhor estavam mudando a sua vida. Ela andava, agora, com uma
Bíblia que ganhara, a qual tinha a dedicatória da secretária de missões
daquela denominação.
IV
A PRIMEIRA VITÓRIA

Certa manhã, irmã Áurea sentiu um desânimo muito forte. Fazia


meses que ela ia à igreja constantemente, mas, em sua família, não havia
quem quisesse ir com ela. Pelo contrário, eles queriam distância daquele
lugar, embora notassem que ela havia mudado muito, e para melhor. Até
Jorge – que, meses antes, havia recebido um milagre, a libertação do mal
por meio da oração e imposição das mãos de irmãos abençoados – não
queria saber de ir à igreja, e não era por falta de convite de Áurea, que
sempre o convidava.
A promessa que ouvira meses anteriores, a qual tanto lhe dera ânimo,
não era mais lembrada. Era como se ela estivesse sozinha na luta em seu
lar, sem que pudesse compartilhar tudo o que estava acontecendo em sua
vida. Sentindo-se enfraquecida na fé, resolveu que, naquele dia, não
participaria da oração.
Como havia muita roupa para lavar, ficaria em casa para terminar
mais cedo aquela tarefa.
Áurea se colocou laboriosamente no tanque e, pensativa, começou a
longa atividade. Eram ainda 6h35 da manhã, fazia apenas alguns minutos
que ela iniciara seu trabalho, quando ouviu um barulho na sala. Ela parou
um pouco e pôs-se a escutar, imaginando ser Isabela, a qual, naquele dia,
havia acordado cedo. Áurea ficou esperando ouvir mais alguma coisa, mas
o barulho cessara. Talvez, fosse sua imaginação, por isso, voltou à tarefa.
Novamente, após alguns minutos, ela ouviu o mesmo ruído. Dessa
vez, Áurea enxugou as mãos na orla da saia e se dirigiu à sala. Não viu
ninguém, mas sentiu uma presença naquele lugar. Teve a impressão de ter
visto um vulto negro, passando velozmente à sua frente. Era como se uma
presença maligna estivesse naquele ambiente, mas, como não a viu,
retornou ao tanque. Embora procurasse terminar cedo, estava sendo
diferente dos outros dias. Ela não estava rendendo a contento, e a lentidão
fazia-se notar. Quando terminou de estender a roupa no varal, já eram
10h20. Isabela já se havia levantado, tomado o café e saído, dizendo que ia
à casa de uma amiga pegar um livro.
Estava quase na hora de começar a preparar o almoço, mas, antes ela
faria algo muito importante. Áurea foi até o quarto, a fim de orar de
joelhos, para que pudesse continuar os seus afazeres. Orou por alguns
minutos, embora sentisse que, apesar de todo o esforço, tinha algo que
precisava ser modificado.
Ela fez uma pergunta em oração, que ficou no ar:
– Senhor, por que sinto que algo de estranho está permitindo que o
inimigo ainda entre em minha vida e perturbe tanto os meus pensamentos?
Ajuda-me a vencer. Mostra-me o que está acontecendo de errado, para que
eu possa fazer algo.
Ela se levantou e, antes de sair do quarto, suas recordações voltaram
ao tempo em que freqüentava aquele terreiro de macumba, quando fizera o
voto, raspando a cabeça e deitando-se para o “santo”. Na época da
ignorância espiritual, foram muitos sacrifícios, muitas maldades e
vinganças daqueles que se colocavam em seu caminho. Cada objeto, por
menor que fosse, tinha um significado. Era oferecido a uma divindade, a
quem muitos que estavam ali obedeciam e ficavam aprisionados por puro
medo. Ela se lembrou das roupas e dos colares da época de trevas
espirituais.
Naquele momento, Áurea decidiu vasculhar a casa em busca
daqueles objetos. Ela precisava quebrar todo o vínculo com o passado. No
fundo de uma gaveta do guarda-roupa, estava um vestido, o qual havia
sido sua indumentária para incorporar aquele que, um dia, fora seu “guia”.
Minutos depois, saiu do quarto com lenços e colares que estiveram por
anos dentro de sua casa. Naquele momento, havia decidido que deveria
fazer algo com eles.
Quando passou pela sala, olhou para onde estavam aquelas imagens,
as quais pareciam zombar dela, embora não se movessem. Então, uma
pergunta lhe sobressaltou com intensidade: o que elas estavam fazendo
ainda na sala do seu lar? Algumas delas foram presentes de sua mãe,
antes de sua morte; outras ela própria havia comprado. Antes de
freqüentar as reuniões na igreja, ela tinha muito respeito por aquelas
imagens, mas, agora, ela precisava agir urgentemente. Havia algo naquelas
imagens que lhe causava uma sensação ruim e fazia arrepiar seu corpo.
Irmã Áurea levantou a mão e faz uma oração veemente, repreendendo toda
a eficácia e obra do diabo.
Depois, recolheu todas aquelas imagens e seus altares, e levou-as até
o quintal, amontoando tudo em um canto. Sem saber o que faria com tudo
aquilo, apressadamente, foi à casa da missionária Elza, a qual poderia
dizer-lhe, com certeza, como proceder.
Chegando lá, tocou a campainha. Um jovem louro e alto veio atendê-
la ao portão. Era Jacó, o filho mais velho de Elza:
– A paz, irmã Áurea. O que a senhora deseja?
– Gostaria de falar com irmã Elza.
– Só um minuto, vou chamá-la.
Em poucos instantes, Elza apareceu, sorridente como sempre, e
cumprimentou-a:
– Minha querida, a paz do Senhor seja com você.
Irmã Áurea respondeu, já envolvida pelos braços de Elza, que a
apertava com carinho.
– A paz do Senhor, irmã Elza.
– A que devo a honra da sua visita em minha casa? Está acontecendo
alguma coisa?
– Eu estava em casa, hoje, e, depois de orar, senti-me direcionada a
fazer uma limpeza na casa e achei vários objetos que eram da época da
macumba. Preciso de alguém que saiba o que fazer com tudo aquilo.
Elza olhou para ela, demonstrando surpresa – muito boa – com
aquela atitude, e, sorridente, respondeu:
– Só um minuto, minha querida, que já volto.
Elza entrou apressadamente em casa e saiu com a sua companheira
inseparável, a Bíblia.
Elas chegaram à casa de Áurea e se dirigiram ao quintal, onde
estavam os objetos. Elza explicou para a irmã em Cristo:
– Todos esses objetos não podem fazer mal algum a você, mas os
espíritos malignos, aos quais são consagrados, estão tendo livre acesso à
sua casa por causa deles. Sua atitude foi acertada.
Abrindo a Bíblia, ela leu um texto, que dizia: “Não terás em tua casa
nada que esteja debaixo de maldição”.
Elza, então, convidou Áurea para orarem, a fim de desfazer toda a
autoridade dos espíritos malignos. Quando terminaram, ela pediu fósforo e
um pouco de álcool, e derramou sobre aqueles objetos. Com uma pedra,
quebrou as estátuas e ateou fogo. Enquanto o fogo ardia, juntamente com
a fumaça, subiam vultos negros e pavorosos, que se retiravam sabendo que
perderam a autoridade de agir livremente dentro daquele lar. Quando o
fogo terminou de consumir tudo aquilo, aquelas mulheres pegaram as
cinzas e a enterraram bem no fundo do quintal. Irmã Elza voltou para casa,
e Áurea sentiu que o ambiente de seu lar estava muito mais sereno. Aquela
sensação de que havia alguém lhe espreitando havia passado.
Quando Isabela retornou, irmã Áurea estava na frente da casa, em
pé, perto da porta. Ela observou como Isabela havia crescido tão depressa.
Há pouco tempo, era uma menina, mas havia-se tornado uma mulher, que,
ao passar, provocava os olhares dos homens. Seu andar era de pura
sensualidade. Suas roupas eram minúsculas, não cobriam o suficiente do
corpo para uma moça decente. Isabela usava muitos colares, correntes e
anéis, e nunca saía de casa sem se maquiar e passar bastante tempo em
frente ao espelho arrumando-se. Ela já havia notado como Isabela gostava
de chamar para si a atenção dos homens por onde passava. Quando a filha
se aproximou, Áurea, disse:
– Eu estava esperando você para almoçar, pois não queria comer
sozinha.
– Que bom! Estou mesmo com muita fome.
Naquela tarde, Áurea tinha um compromisso marcado. As irmãs da
igreja iriam reunir-se na casa da irmã Maria da Glória para um encontro de
oração. Após almoçar, ela deixou Isabela aprontando-se para ir ao colégio
e, animadamente, dirigiu-se àquele lugar. Ao chegar a uma casa humilde,
de apenas dois cômodos, ela fez menção de bater palmas, mas duas irmãs
que já tinham chegado abriram o portão e, alegremente, saudaram-na. Ela
entrou e se acomodou em uma cadeira, das muitas que estava na varanda
da casa, porque, no interior, não acomodaria todas as pessoas que
estariam ali naquela tarde.
Uma senhora de 1,50m de altura, cabelos crespos, castanhos
escuros, olhos também castanhos, pele morena, que aparentava 26 anos e
exibia uma enorme barriga sob um vestido longo de gestante, falou com a
irmã Áurea e se sentou próximo a ela. Áurea virou-se e perguntou:
– Irmã Maria da Glória, você está com quantos meses de gravidez?
– Ah! Estou com oito meses. O médico marcou a data provável do
parto entre os dias 10 e 24 de fevereiro.
– Você sabe o sexo? – indagou Áurea.– É um menino.
Com a presença de muitas irmãs reunidas naquele local, elas
começaram a cantar e, em meio aos cânticos, fizeram intervalos de orações
pelas famílias e por aqueles que precisavam de uma intercessão especial.
Naquele mesmo momento, estava acontecendo uma outra reunião em
outro lugar. Um ser muito grotesco, com olhos amarelados e escamas na
pele, como as de um crocodilo, bufava uma fumaça acinzentada pelas
largas narinas. O ambiente onde estava era fétido. Ele empunhava uma
espada comprida como uma lança, a qual era totalmente tortuosa, e sua
lâmina não brilhava. Ele se assentara na cabeceira de uma mesa,
totalmente negra, e, ao redor, estavam outros seres de aparência bizarra e
igualmente pavorosa. Aquele ser que presidia a reunião, começou a falar
com voz grave e trêmula, fazendo as seguintes cobranças:
– Lacaios, exijo de vocês uma atuação mais eficaz em nossa batalha,
em nossa última investida contra o inimigo.
Fomos derrotados em todas as frentes. O nosso plano foi um
verdadeiro fracasso. Perdemos muito terreno, e são muitas as baixas nas
tropas. Muitos dos nossos foram acorrentados, e alguns deles só poderão
ficar livres novamente naquele grande dia para pelejar na derradeira
batalha.
Gritando irritadiço, ele chamou três lacaios pelo nome:
– Fúria, Tropeço e Assolador?
Os três, trêmulos diante do tom de voz do chefe, apresentaram-se.
– Quero que os três ataquem maciçamente a casa dessa novata
Áurea. Façam com que ela pare de ir a essas reuniões na casa dAquele lá
de cima. Precisamos dela de volta, antes que se torne uma guerreira,
preparada para lutar nas fileiras do Senhor dos Exércitos, e nos cause
muitas baixas. E você, Tropeço, que a iludia disfarçando-se de Maria
Padilha, como guia dela, tem o dever de reassumir seu controle na vida
dela, pois conhece muito bem as fraquezas de sua vítima.
Em coro, os três responderam:
– Sim, príncipe Astarote!
Novamente, gritando irritadiço, chamou mais oito nomes.
– Inveja, Contenda, Luxúria, Ira, Orgulho, Mentira, Fofoca e
Formalismo! O príncipe da mentira quer que, a qualquer custo, fechemos
as portas daquela igreja. Os clamores de lá têm atingido até mesmo o seu
trono, e ele não suporta mais isso.
Ele abriu sobre a mesa um papel todo escrito e apresentou-lhes todas
as estratégias recebidas e como eles deveriam atuar.
Cada subchefe convocou suas hostes, e todos, em um brado,
gritaram:
– Matar, roubar e destruir!
Enquanto isso, na casa da irmã Maria da Glória, as irmãs oravam
fervorosamente. Um anjo poderoso, voando rápido, posicionou-se no meio
da reunião. Ele estava cheio de luz e glória, e abriu o selo de um rolo que
trazia em sua mão. Em voz alta, em frente à irmã Maria da Glória, leu o
texto, que foi repetido por ela para que todas as pessoas presentes naquele
lugar ouvissem.
– Igreja, vigiai! O inimigo de vossas almas anda furiosamente em
busca de tragar alguns de vós. Vigiai e orai! Ele está furioso e sabe que tem
pouco tempo. Nestes dias, ele batalhará furiosamente contra vós. Estai
apercebidos. A minha paz e minha graça sejam convosco.
Aquele anjo fechou o rolo e se retirou, voando em alta velocidade e
deixando atrás de si um rastro de pura luz.
A reunião terminou, e todas as pessoas alegremente retornaram para
suas residências, guardando em seus corações aquele alerta.
Irmã Áurea ficou tentando decifrar o que significava aquela profecia.
O inimigo já não batalhava continuamente? E as coisas poderiam ficar pior
ainda? Essas perguntas ecoavam em sua mente, sem saber o que poderia
acontecer. Pensativa, ela retornou para casa.
Naquela noite, não haveria reunião na igreja. Áurea, simplesmente,
ficaria em casa, com a família. Ela foi à cozinha a fim de começar a
preparar o jantar. No horário de sempre, Isabela chegou do colégio e,
animadamente, depois de tirar o uniforme, foi para a cozinha ajudar a mãe
a arrumar a mesa.
Irmã Áurea estava intrigada com o fato de que sua filha nunca havia
comentado coisa alguma sobre namoro. Então, curiosa sobre o assunto,
questionou:
– Isabela, você não tem namorado?
– Tenho, por quê?
– Você nunca trouxe aqui em casa algum namorado.
Como se quisesse arrumar uma justificativa para nunca ter
apresentado à sua mãe um namorado, respondeu:
– É que tenho vergonha de trazer alguém nessa casa, toda
desarrumada, que nem piso decente tem.
– Minha filha! Você não deve envergonhar-se disso. Ser humilde não é
doença.
– É, mais tenho vergonha e, enquanto essa casa não estiver
arrumada, não vou trazer ninguém aqui, nem mesmo minhas amigas.
Irmã Áurea se calou, triste, por saber que sua filha tinha tal visão da
vida. Tudo estava preparado, e ela aguardava sentada no sofá, enquanto
Isabela se fechava em seu quarto.
Jorge chegou, cumprimentou a mãe e logo se dirigiu ao quarto a fim
de se preparar para ir à faculdade. Alguns minutos depois, seu Almir
também chegou. Eles se cumprimentaram, e ele reclamou:
– Hoje, estou morto de cansado, trabalhei como um burro de carga –
falou, dirigindo-se para o quarto, com o objetivo de tomar banho e, logo
após, jantar.
Somente Damião não estava em casa. Raramente, ele jantava com a
família. Mesmo sendo advertido por seus pais, continuava com aqueles
amigos que o haviam levado para o mundo da criminalidade. Áurea
suportava isso do filho, só não queria que uma notícia chegasse a sua
casa: a de que seu filho tivesse morrido.
Todos, um após outro, sentaram à mesa e serviram-se.
Jantaram juntos, mas conversaram pouquíssimo. Jorge foi o primeiro
a se levantar. Saiu apressadamente, pois já estava na hora de sair para a
faculdade. Ao terminarem, Isabela retirou os pratos da mesa. Seu Almir
levantou-se e foi para o sofá da sala. Olhando, agora, mais atentamente
para o ambiente, ele notou que faltava alguma coisa. Quando percebeu o
que era, perguntou:
– Áurea, cadê o altar e as imagens dos “santos”, que estavam ali no
canto?
Sem saber qual seria a reação de Almir, a mulher respondeu
sinceramente:
– Quebrei e, com outros objetos da macumba que eu tinha, coloquei
fogo em tudo.
Seu Almir tinha acessos repentino de revolta, sem perceber que Fúria
e os lacaios daquela hoste sob o seu comando, estavam inflamando-o.
– Mulher, você ficou doida! Aqueles eram os “santos” de nossa
devoção. Você, com esse negócio de crente, está perdendo a razão.
Naquele instante, aquele homem estava tão cheio de fúria, que
avançou em direção a Áurea com os punhos cerrados, pronto para agredi-
la. Ela pronunciou uma frase, a qual fez com que ele parasse subitamente:
– O sangue de Jesus tem poder!
Ela falou e olhou para ele sem conseguir entender por que Almir
havia reagido daquela maneira. Ele, que não era religioso, jamais se
prostrara diante daquelas imagens. Parecia nunca notá-las, mas, naquele
dia, havia sido a primeira coisa que notara. Sem se contentar em não poder
agredir a esposa, ele foi ao quarto e pegou a Bíblia de Áurea, que estava
sobre o criado-mudo, perto da cama. Áurea, que o seguiu até o quarto,
quando o viu com a Bíblia na mão, perguntou:
– O que você vai fazer?
– Vou rasgar e queimar essa Bíblia, junto com as suas roupas, para
você não ir para essa igreja.
Áurea estava em pé, à porta, tendo atrás de si Isabela, atônita,
parada atrás da mãe, sem entender por que o pai gritava com sua mãe.
Áurea notou que não estava falando com Almir; alguém estava por trás de
tudo aquilo. Realmente, havia vários seres que sobrevoavam a cabeça dele
e gritavam xingamentos.
Todos estavam com couraças cheias de pontas agudas e rangiam as
presas como animais ferozes. Suas asas estavam infladas, como bandeiras
negras tremulando no ar. Áurea olhou fixamente para o marido e, com
autoridade, ordenou:
– Em Nome de Jesus, repreendo todo o mal na vida do meu esposo, e,
nesse Nome, mando que saia da vida dele todo e qualquer espírito maligno.
Com um leve balançar de corpo, como se sentisse um choque, Almir
parou o que estava fazendo e, sem entender o porquê daquela fúria tão
intensa que lhe havia possuído, mudou o tom da voz, tentando aliviar a
reação anterior. Ainda segurava a Bíblia com uma das mãos e uma página
que havia arrancado na outra, enquanto Áurea falava sobre a necessidade
que ele tinha de receber Cristo em sua vida. Ele estava tranqüilo e recebia
as palavras de Áurea sem esboçar atitude de rejeição. Todos aqueles seres
foram presos a correntes de ouro puro e levados para um lugar muito
distante. Naquela noite, uma tropa havia sido vencida, mas duas ainda
estavam por atacar.
Depois que se acalmou, Almir foi para a sala assistir ao seu time em
uma partida de jogo de futebol, que seria televisionado.
Sem compreender muito bem o que ocorrera entre seu pai e sua mãe,
Isabela foi para o quarto ouvir música e escrever em seu diário. Enquanto
isso, irmã Áurea ficou no aposento do casal, lendo a Bíblia. Ela estava tão
ansiosa por aprender tudo o que estava escrito naquele livro, que, nos
momentos que podia, parava para absorver algum conhecimento nele
escrito.
Ela ainda estava lendo quando seu Almir entrou no quarto e deitou
ao lado direito da cama e, sarcasticamente, declarou:
– Cuidado para não ficar doida. Quem se aprofunda muito na leitura
da Bíblia acaba ficando doido.
Ela respondeu, sem se importar:
– Essa é a melhor leitura que existe e não deixa ninguém doido. Muito
pelo contrário, faz a pessoa ficar mais sábia.
Áurea fechou a Bíblia e tentou dialogar com o marido, que ficou
somente escutando o que ela falava. Empolgada, testemunhou para ele
como sua vida estava mudando, mas, em poucos minutos, notou que ele
adormecera. Ela se levantou e foi para o sofá da sala. Lá, sentada, ficou
olhando pela janela as estrelas que brilhavam lá fora, no límpido e imenso
céu. Começou a orar, principalmente por Damião, que fazia dois dias não
voltava para casa. Ele estava cada vez mais envolvido no crime, e a maior
petição de Áurea era:
– Senhor, salva o meu filho! Guarda-o onde ele estiver, livra-o da
morte e traze-o para casa a salvo.
Enquanto clamava, ela ouviu o barulho do portão. Esperou e, quando
a porta se abriu, entrou Jorge.
– Não tem jeito! Todo o dia, quando chego da faculdade, a senhora
está aí, esperando.
– Você sabe, meu filho, eu não consigo dormir até você chegar.
– Tá bom, mas, agora que eu cheguei, pode ir deitar-se, que me viro
na cozinha. Vou fazer um lanche e já vou dormir.
Ela se levantou bastante sonolenta e se despediu de Jorge,
recolhendo-se ao quarto, pensando em onde estaria Damião.
Ela não sabia, mas Damião, naquela noite, estava com três amigos,
todos armados. Um deles, o Dino, carregava um revólver calibre 38. Outro,
o Neco, estava com uma faca. Tião Baixinho, uma pistola; e Damião, que
estava comandando, portava uma pistola 45mm. Eles planejavam assaltar
um banco. Por dias a fio, maquinavam tal ação. Já haviam marcado o dia e
a hora.
Tudo estava cuidadosamente planejado, mas, naquela noite, eles
precisavam de dinheiro e não podiam esperar até o dia do assalto ao banco.
Tinham dívidas de drogas e precisavam comprar mais.
Os quatro foram para o ponto de ônibus, à espera do próximo que
passasse por ali. Eles pegaram um coletivo que não estava muito cheio.
Quando o veículo entrou na Rua Uranos, gritaram: “É um assalto!”. Dois
estavam na frente do ônibus, e os outros ficaram na parte traseira. Dois
deles, um vindo de trás e outro pela frente, usurpavam dos passageiros
carteiras, jóias e tudo o que fosse de valor. Eles usavam palavras
ameaçadoras.
Em tom áspero, diziam que matariam se fosse preciso. Essas palavras
faziam as pessoas se encolherem de terror e entregavam tudo o que tinham
de valor. O ônibus, ainda em movimento, dobrou à esquerda, na esquina
que era o itinerário daquela linha. Parado bem próximo à esquina estava
um carro da polícia.
Os policiais faziam, naquela noite, uma ronda habitual e, ao
perceberem que estava acontecendo um assalto dentro daquele ônibus,
ligaram as sirenes e, pelo rádio, pediram reforços. Saíram em perseguição
ao ônibus. Damião, que havia ficado na frente do ônibus, deu voz de
comando para o motorista:
– Pára, pára logo esse ônibus.
Assim que veículo parou, ele gritou para seus companheiros:
– Vamos embora rápido, sujou geral.
Os quatro, nervosos e em pânico, tentaram sair dali da maneira que
podiam. Damião foi o primeiro a descer e, logo atrás dele, veio o Dino. Eles
olharam para trás e viram que Tião e Neco ainda corriam pelo corredor do
ônibus com muita pressa para descer. Nesse momento, escutaram os
estampidos dos tiros, que vinham do carro de polícia que estacionara atrás
do ônibus. Os dois, como estavam do lado de fora, começam a atirar contra
os policiais, esgueirando-se na frente do ônibus. Quando Tião desceu
apressado, olhou para o carro da polícia. Antes de se virar para fugir, foi
atingido por um tiro na barriga, e, ainda de pé, outro tiro atingiu-lhe o
peito, e ele caiu ao chão. Neco, que estava saindo do ônibus, quando viu o
companheiro caindo ao chão, desceu e correu desesperadamente e foi
atingido na coxa. Ele berrou:
– Fui baleado! Socorro, ajudem-me!
No entanto, o medo de ser baleado novamente fez com que ele
continuasse correndo, arrastando a perna. Damião e Dino, temendo pelo
pior, correram, atravessando a rua para o lado oposto que Neco fugia. Os
policiais saíram em perseguição a Neco, que estava baleado. Como não
podia atirar contra os policiais, Neco só podia correr, enquanto, atrás de si,
ouvia os estampidos, e cada tiro o fazia temer o pior. Poderia ser fatal.
Os policiais se aproximavam rápido dele e, sabendo que não
conseguiria fugir, em desespero, parou. Virando-se para os policiais,
começou a gritar:
– Por favor! Não me matem, estou desarmado.
Os policiais pararam, olhando atentamente as mãos dele, e como não
viram coisa alguma, aproximaram-se e algemaram suas mãos para trás.
Enquanto voltavam para o local do crime, ouviam-se várias outras viaturas
da polícia que chegavam ao local. No mesmo instante em que receberam o
chamado para aquela ocorrência, saíram em diligência à procura dos
outros dois elementos que fugiram a pé, em direção ao Morro do Mutirão.
Uma ambulância chegou ao local para socorrer as duas vítimas que
estavam baleadas, mas, para sua tristeza, Neco soube que seria o único
naquela ambulância, juntamente com dois policiais.
Tião estava no chão imóvel, sendo coberto com jornais velhos.
No dia seguinte, quando irmã Áurea voltava da campanha de oração
na igreja, como era o seu costume diário, viu um carro da polícia
estacionado em frente à sua casa. Os piores pensamentos lhe
sobressaltaram o coração. Quando chegou, pôde observar que vários
policiais estavam dentro de seu lar à procura de alguém. No portão, estava
um homem de óculos escuros e jaqueta preta. Era um homem moreno
claro, robusto, rosto comprido, que deixava transparecer toda sua sisudez.
Ela se dirigiu a ele e perguntou:
– O que está acontecendo? O que a polícia está fazendo na minha
casa?
Ele respondeu com ar grave e firme:
– A senhora é a mãe de Damião Cavalcante Freitas?
Já aflita e angustiada, ela confirmou:
– Sim, eu sou.
E aquele homem se identificou:
– Eu sou o investigador Borges. Nós estamos à procura de seu filho.
Ele e mais três comparsas tentaram roubar um ônibus ontem, às 23h.
Como havia uma viatura da polícia perto do local do assalto, houve troca
de tiros. Um deles, de apenas 19 anos, morreu, senhora. Outro foi ferido na
perna, mas seu filho e um tal de Dino estão foragidos.
Irmã Áurea colocou as mãos sobre a cabeça e, aflita, exclamou:
– Jesus Cristo! Tem misericórdia!
Aquele homem, em tom zombeteiro, retrucou:
– Misericórdia nada! Eles vão ter de pagar pelos crimes que
cometeram.
Quando os policiais se retiraram, toda a vizinhança estava na rua
observando. Envergonhada, irmã Áurea entrou, com Isabela, que estava em
casa e recebera os policiais no momento em que chegaram. Bastante
abatida, ela trancou-se no quarto, ajoelhou-se e começou a orar
fervorosamente por seu filho.
À noite, quando chegaram do trabalho, Almir e Jorge souberam do
ocorrido e ficaram bastante apreensivos. Para Isabela, era uma vergonha
ter um irmão criminoso. Jorge se esforçava estudando, porque desejava ter
uma vida melhor. Seu Almir, embora não fosse um bom exemplo para os
filhos, sempre foi
um homem trabalhador, que dera muito duro, para que os filhos se
tornassem pessoas de bem. Naquela noite, toda a família questionava-se
por que Damião era assim.
Irmã Áurea, mesmo com todos aqueles problemas, iria para a reunião
na igreja. Ela tinha um compromisso lá. Havia sido incumbida de ler o
texto bíblico na abertura do culto daquela noite. Estava bastante aflita com
a situação, mas, na casa de Deus, seria a primeira vez que ela iria fazer
algo onde estariam todos com a atenção voltada para ela. Ela, mais uma
vez, fez um convite a todos:
– Vamos todos à igreja hoje?
Todos estavam bastante sensíveis com a situação de Damião, por isso
resolveram aceitar.
Aproximava-se a hora de se arrumarem, quando os tropeços
começaram a surgir:
– Áurea, onde está a minha meia? Só achei um pé até agora?
Irmã Áurea começou a ficar nervosa. Era uma meia que sumia de um
lado, uma roupa do outro... Todos estavam ficando atrapalhados e perdidos
dentro da própria casa, inclusive ela própria. Seu Almir queria desistir de ir
e Isabela também.
Jorge já estava com cara de aborrecido. Em um momento em que
ninguém estava olhando, irmã Áurea levantou as mãos para o alto e falou
firmemente:
– Eu repreendo e expulso todo o poder do inimigo que está tentando
colocar tropeço e impedimento. Que saia agora, em Nome de Jesus Cristo.
Diante daquela oração, seu Almir logo exclamou:
– Achei a meia. Estava no fundo da gaveta. Quando ela entrou no
quarto e saiu, viu Isabela, já pronta, e perguntou:
– Achou sua blusa, que você tanto procurava?
– Achei! Estava pendurada no guarda-roupa debaixo da jaqueta.
Sem que eles vissem, toda uma horda havia-se retirado, com o chefe
Tropeço, o qual, acorrentado por um anjo forte, era arrastado, enquanto se
lamuriava daquele fracasso.
Quando chegaram à igreja, irmã Áurea, que já conhecia quase todas
as pessoas, apresentou sua família ao recepcionista, que estava em pé, à
porta. Aquela estava sendo uma noite de vitória para Áurea. Após
sucessivas tentativas de fazer com que sua família visitasse a igreja, lá
estavam eles: Almir, Jorge e Isabela. Só faltava Damião, mas o que
realmente importava naquele momento era aqueles três, os quais estavam
ali. Ela se perguntava: “O que eles devem estar achando?”.
Aquela pergunta não podia ser respondida naquele momento, mas,
podia-se ver que estavam atentos a tudo o que acontecia ao redor deles.
Como era costume em todas as reuniões, Pr. Joel, ou um dos pastores
auxiliares, fazia um convite, que se estendia a todos os visitantes de
qualquer outro credo religioso:
– Gostaria de fazer um convite a você, que está aqui, nesta noite, e
sentiu em seu coração o desejo de ser um cristão diferente. Se, hoje, você,
amigo visitante, quer mudar de vida, recebendo Cristo Jesus em sua vida,
faça um sinal com a mão, e oraremos por você.
Pr. Joel parecia falar com uma ternura nunca antes ouvida por
Áurea, que, cabisbaixa, esperava, bem como toda a igreja, que alguém se
decidisse por Cristo naquela noite. Ela ouviu o pastor dizer:
– Aquela senhora, lá atrás. Aquele jovem, ali no canto.
Aquele senhor mais lá atrás. Aquele outro rapaz, ali no meio.
Os auxiliares, por favor, tragam essas pessoas aqui à frente, porque
quero, com a igreja, orar por eles.
Aquelas pessoas haviam feito um sinal com a mão, e alguns
auxiliares traziam-nas à frente. Áurea levantou a cabeça e olhou as
pessoas que haviam passado no meio do corredor de bancos a fim de
chegar próximo à tribuna, onde ficavam os homens do ministério da igreja.
Em seus olhos, começaram a brotar lágrimas. Oito pessoas haviam
recebido o Senhor Jesus em suas vidas, e ela não pôde conter as lágrimas e
a alegria, porque entre elas estavam Almir e Jorge, ambos chorando,
recebendo, como ela, a salvação em Cristo. Isabela havia permanecido
imóvel e resistente ao convite no mesmo lugar em que estava assentada.
Áurea foi em direção a Almir e Jorge, e abraçou, aos prantos, os dois,
sentindo um contentamento inefável. Naquela noite, eles voltaram para
casa mais leves, sentindo-se de alma lavada; menos Isabela, que ficou um
pouco distante, em relação àquela atitude de seus familiares. Ela parecia
não fazer parte daquele mundo que eles estavam vivendo. Talvez, ela
estivesse pensando que erguer a mão e ir à frente de uma tribuna receber
oração era pouco para transmitir alguma alegria a uma pessoa.
Naquela noite, irmã Áurea dormiu mais tranqüila, embora sua alegria
não pudesse ser total. Contudo, sua vitória havia sido dupla.
V
ENTRANDO NO
CAMPO DO INIMIGO
A rotina na casa de Áurea havia mudado. Ela já não saía sozinha, à
noite, para ir à igreja. Dois “guarda-costas” a acompanhavam, embora um
deles só pudesse estar com ela nos finais de semana, por causa da
faculdade. Visivelmente, Jorge demonstrava alegria quando estava na casa
do Senhor. Seu Almir mal começara a participar dos cultos e já
demonstrava um interesse profundo e um desejo enorme de estar ali.
Naquela semana, ela havia recebido um recado de Damião.
Ele havia pedido a um de seus colegas que fosse até sua casa avisar
sua mãe que ele estava bem. Só não podia dizer onde estava, até que tudo
se acalmasse. Isso, vindo da parte de Damião, era estranho, pois ele não
gostava de dar satisfações.
Talvez, ele estivesse querendo redimir-se com a mãe.
A igreja estaria em festa naquele final de semana. Havia uma extensa
programação missionária, e todas os membros haviam sido convidados
para visitar os lares, convidando as pessoas para irem à festividade.
Naquela manhã de sábado, alguns irmãos saíram com panfletos, contendo
os horários do evento. Eles se dividiram em grupos para o sul, norte, leste
e oeste. Áurea tinha ido com a irmã Francisca e o casal de irmãos,
Júlio e Neuza. Em cada casa que passavam, entregavam o panfleto e,
gentilmente, faziam o convite. Ao chegarem à casa 25 da Rua Almeida – de
muros altos, todo pintado de branco, que não permitia que se visse nada lá
dentro –, tocaram a campainha. Pelo barulho, dava para entender que
havia várias pessoas ali. O portão era totalmente fechado. Quando este se
abriu, surgiu uma mulher, morena clara, vestida de branco, com um
turbante na cabeça. Ao ver as quatro pessoas ali em pé, olhou fixamente
para irmã Áurea e, demonstrando surpresa, disse:
– Áurea, o que você estava fazendo por aqui?
Reconhecendo a amiga Teresa, Áurea respondeu:
– Estamos visitando e convidando as pessoas para uma festa. E você,
Teresa, mora nesta casa?
– Sim, eu me mudei para cá faz pouco tempo, vamos entrar.
Para a surpresa dos mais de 30 visitantes que estavam no quintal
daquela casa, os irmãos da igreja aceitaram o convite para entrar. Aquelas
pessoas estavam todas de branco, preparando-se para a cerimônia que eles
chamavam de “deitar o santo”. Quando entraram, o desejo, no primeiro
momento, foi recuar. Sabiam que estavam em um território hostil à
Verdade que eles pretendiam anunciar. Sentiam presenças estranhas, um
certo peso no ar, como se este se tornasse mais denso. E, realmente, o
clima estava tenso. Muitas criaturas negras, de olhos amarelados, que
expeliam uma fumaça acinzentada e tinham garras longas e afiadas,
presas em seus hospedeiros, começaram a se agitar e, com blasfêmias e
xingamentos, dirigiram-se aos quatro seres brilhantes altos e poderosos, os
quais, em pé, ao lado dos seus protegidos, não esboçavam reação. Um
deles se aproximou de Adiel e perguntou:
– Vamos pelejar?
Calmo e sereno, Adiel respondeu:
– Se a ordem vier do trono do Altíssimo, teremos muito trabalho aqui,
e será necessário reforços. Vamos apenas aguardar.
Teresa perguntou para Áurea:
– Essa festa para qual você nos convida é aquela de Ogum, do terreiro
que você freqüentava?
Esboçando um sorriso, Áurea respondeu:
– Não! Agora sou uma cristã autêntica. Eu me converti ao Senhor e
estou convidando as pessoas para a festa na igreja onde freqüento.
Naquele instante, Teresa compreendeu por que Áurea já não estava
com aquela fisionomia de antes, mais irradiava um brilho diferente em sua
vida. Percebendo o equívoco na atitude de convidá-los a entrar, desculpou-
se:
– Desculpe-me, eu não sabia que você agora é crente. Eu a convidei
para entrar sem saber.
Júlio, que estivera boquiaberto, pois nunca estivera em uma situação
tão delicada, resolve quebrar o silêncio.
– A senhora não precisa se preocupar. Nós queríamos convidar todos
para a festa. Podemos?
Sem jeito de dizer não, Teresa permitiu que eles falassem para as
pessoas ali presentes. Eles foram a cada uma delas e as convidaram, mas
as que estavam com seu lado humano totalmente imerso nas trevas
rasgavam o convite, demonstrando no rosto toda a indignação. No entanto,
os quatro, demonstrando valentia, não desanimavam, indo de um em um.
Após terminarem, não deixaram de convidar a própria Teresa, que
prometeu:
– Qualquer dia desses, apareço por lá para fazer uma visita.
Despediram-se e prosseguiram em sua tarefa, conscientes de que
estiveram em um lugar onde poucos cristãos gostariam de ter entrado.
Muitos temeriam e não entrariam. Para eles, havia sido uma grande vitória.
Desceram a rua. Enquanto isso, naquela casa, a qual haviam deixado
para trás, as pessoas começaram um ritual, no qual rodopiavam e
gargalhavam, enquanto vários seres se divertiam.
Como um gato que está farto, mas pega o rato somente para brincar,
assim estavam aqueles seres, brincando com aquelas pessoas, sem que
elas soubessem que aquilo que eles queriam era afastá-las da luz, a qual
não suportavam, e levá-las para as trevas, seu habitat natural.
Ali, uma mulher de aproximadamente 26 anos, alta, magra, pele
morena, cabelos castanhos escuros, aproximou-se de um homem que
estava assentando em uma cadeira, tendo as costas arqueadas, embora
não tivesse mais de 40 anos. Fazia gestos e desfigurava seu rosto, fazendo
parecer que tinha quase cem anos. Fumava um cachimbo e soltava muitas
baforadas de fumaça. Quando ela chegou diante dele, em reverência,
pediu-lhe sua bênção e beijou-lhe a mão. Seu nome real era Sandro, mas,
naquele momento, ela o chamava de Preto Velho. O assunto que fazia com
que estivesse ali era embaraçoso, mas ela, sem constrangimento, expôs-lhe
seu problema. Havia-se apaixonado por um homem casado, e ela queria, de
qualquer jeito, que aquele homem fosse dela. Não importava o que tivesse
de ser feito. Aquele ser, aproveitando a credulidade da mulher, solicitou
uma extensa lista de coisas, as quais eram anotadas por outra mulher, que
estava de pé com um caderno e caneta nas mãos. Ele lhe perguntou:
– Como sunsê se chama, misê fia?
– Nádia.
– Se sunsê, minha misê fia, fizer tudo direitinho, dentro de 30 dias,
ele será teu homem.
Ela agradeceu e, de posse daquela lista, levantou-se e saiu, enquanto
outra pessoa já vinha para também conversar com aquele homem.
Enquanto aquela pessoa se aproximava, uma criaturinha enrugada dirigiu-
se à figura grotesca, que se transformava em um velho negro, de barba
branca, chapéu de palha, camisa branca e calça de tecido de linha crua, já
gasta pelo tempo. A outra era um ser alto, forte, de pele enrugada
acinzentada, de braços longos esqueléticos, olhos amarelados grandes, que
expirava baforadas de pura fumaça. Aproximou-se e disse:
– Chefe, tenho atrapalhado a vida desse que está chegando.
Tudo o que faz não dá certo. Tenho feito com que ele se desentenda
com o vizinho da frente.
Ele gargalhou, orgulhoso do serviço que estava realizando.
Seu chefe olhou para ele e declarou:
– Deixe comigo e veja só o que vou fazer.
O Preto Velho usou aquele homem, que servia como um aparelho
transmissor para que aquele ser brincasse com as pessoas. Crédulas, elas
iam até aquele lugar, tentando resolver seus problemas. O “santo” disse:
– Misê fio, tem alguém fazendo trabaio contra sua vida.
Você precisa fazê um banho de descarrego.
Usando aquele homem, o ser maligno transmitiu para o seu
consulente a necessidade de vingança. Falou que o trabalho retornaria
para a mesma pessoa que o fez. Ele ditou uma receita com várias coisas a
serem compradas e a maneira de oferecê-las no ritual. Tudo foi, mais uma
vez, anotado por aquela mulher que permanecia em pé. A lista passou para
aquela pessoa, que se foi satisfeita.
Aquela reunião era totalmente diferente daquela que aconteceria
algumas horas depois na igreja. Ali, naquele lugar, apregoava-se a mentira,
o desentendimento, a inveja, a separação.
Na outra reunião, que ocorreria à noite, seria totalmente o oposto.
Era para desfazer as obras do inimigo que eram semeadas.
Naquela noite, a templo se enchera de tal maneira, que muitos não
podiam entrar. Ouviam e viam por meio de um telão que havia sido
colocado do lado de fora. Áurea participou entusiasmada.
Aquele culto fora muito maravilhoso. Muitas pessoas foram salvas,
libertas, curadas e cheias do Espírito Santo.
O ponto alto da festa aconteceu no domingo pela manhã – o batismo
nas águas. Irmã Áurea e mais 16 pessoas, vestidas com túnicas brancas,
aguardavam ansiosas por aquele ato solene, a fim de se tornarem membros
da denominação. A cerimônia foi realizada pelo Pr. Joel, e estavam
presentes parentes e amigos, bem como os membros da igreja. Os 17
candidatos ao batismo entraram um de cada vez e foram submergidos em
um tanque com água, simbolizando a morte deles para o mundo e o
nascimento para uma nova vida em Cristo Jesus. Almir e Jorge haviam
dito que estava muito recente a conversão deles para também se batizarem,
mas, ao assistirem a cerimônia, comentaram entre si que estavam
desejosos de passarem pelas águas.
O evento havia sido maravilhoso, mas passara muito depressa. Para
irmã Áurea, que teve, nos dois dias, a companhia de Almir e Jorge, aquela
havia sido a melhor festa de que havia participado. Só faltavam Damião e
Isabela para a felicidade ser completa.
Quando a festividade terminou no domingo, à noite, o secretário leu
os avisos da semana. Tudo voltaria à rotina, no entanto, aqueles momentos
felizes ficariam na memória, além do forte desejo de que logo outra festa
semelhante fosse organizada.
Na manhã de segunda-feira, na igreja, às 6h30, os irmãos voltaram a
se reunir para orarem durante uma campanha.
Áurea, que já se batizara e se tornara membro ativo da igreja, fora
convidada a ajudar a Francisca na direção da campanha e aceitara com
alegria. Agora, participava intensamente daquele trabalho, cantando,
orando e lendo a mensagem. Naquela manhã, cada pessoa expôs a sua
necessidade de oração, e irmã Sueli, uma jovem muito bonita, de 23 anos,
cabelos pretos longos, 1,63m de altura, magra, pele clara, olhos verdes
escuros, muito elegante, chorou muito desesperada e pediu que clamassem
por ela e seu esposo.
Quando terminou a oração, irmã Francisca convidou Áurea para,
juntas, conversarem com Sueli. Todos haviam saído da nave do templo, e
aquela jovem irmã, ainda chorando, contou-lhes o que acontecera:
– Eu e Rafael estamos casados há três anos e, até ontem, nunca
havíamos brigado seriamente. Nosso casamento sempre foi tão abençoado,
que os nossos desentendimentos sempre foram resolvidos com oração e
diálogo. Entretanto, ontem, por causa do almoço que ficou um pouco
salgado, começamos a discutir, e tanto ele quanto eu ficamos muito
irritados e falamos até em separação. Hoje, ele saiu para trabalhar sem
falar comigo e disse que não voltaria mais para casa. As irmãs ouviram o
desabafo de Sueli e se comprometeram a ajudá-la em oração.
Consolada, ela voltou para casa.
Quando Sueli chegou a sua casa, passou a cuidar das tarefas do dia,
até que ouviu alguém bater palmas em frente ao portão. Ao sair para
atender, viu Nádia, uma amiga de infância, que morava há anos na mesma
rua, na casa 36. Ela a cumprimentou e a convidou para entrar. Nádia
entrou, sentou-se no sofá da sala e, bem à vontade, perguntou como se
quisesse sondar algo:
– Está tudo bem com você? Seus olhos estão vermelhos como se você
tivesse chorado muito.
– Como você é minha amiga há muito tempo, posso contar-lhe. Eu e
Rafael brigamos feio ontem.
Nádia demonstrou surpresa com a notícia e questionou:
– Como pode ser? Vocês sempre viveram tão bem. Rafael é tão
educado e gosta tanto de você...
– É, mas aconteceu.
– Não se preocupe. Isso acontece, mas vai passar logo.
Após conversarem bastante, Nádia se despediu e foi para casa,
enquanto Sueli continuou em suas atividades rotineiras.
À tarde, Sueli preparou-se para sair, pois precisava comprar algumas
verduras e carne para fazer o jantar de Rafael. Ela queria caprichar.
Quando ele retornasse à noite para pegar suas roupas, ela pretendia fazer
as pazes com ele. Ela pegou a bolsa e saiu a fim de ir ao mercado próximo
de sua casa.
Naquele mesmo instante, simultaneamente, três pessoas sentiram o
desejo de interceder por Sueli – Neuza, Francisca e Áurea. Elas deixaram
tudo o que estavam fazendo, ajoelharam-se e começaram a interceder por
Sueli, que, sem saber o que estava para ocorrer, atravessava a rua
tranqüilamente. Velozmente, um caminhão descia a rua em sua direção.
Era um veículo grande, modelo caçamba, que estava com a carroceria
carregada de areia. O motorista, sem conseguir frear, desesperou-se ao ver
que iria atropelar alguém. Ele não percebia, mas vários seres controlavam
aquele veículo para que atingisse Sueli. De repente, como relâmpagos
cruzando os céus, vários seres angelicais começaram a batalhar contra
aquelas criaturas negras, as quais saíram em fuga, quando viram o porte e
a magnitude dos seres angelicais que ali chegaram.
Com os pés ainda movendo freneticamente sobre o pedal do freio, o
motorista se surpreendeu quando este funcionou e travou as rodas, que,
fazendo um barulho muito grande, despertaram a atenção de Sueli. Não
daria tempo para o caminhão parar antes de atingi-la em cheio, por isso,
Sueli saltou, tentando desviar-se. Ela não soube como, mas seu salto foi
digno de um atleta em uma olimpíada. Jabneel, um anjo que tinha um
brilho mais intenso que o do ouro polido, de cabelos encaracolados em
cachos dourados de mesmo brilho, havia-lhe dado uma mãozinha. Parando
mais à frente, o motorista desceu e correu para socorrê-la. Ele imaginava
que iria encontrá-la morta, pois não a havia visto escapar da morte por
poucos centímetros.
Quando se deparou com ela em pé, na calçada, aproximou-se trêmulo
e perguntou:
– Dona, a senhora está bem? Machucou-se muito?
– Não, moço, está tudo bem!
Ele pôs a mão sobre a cabeça sem entender como ela tinha
conseguido ser tão ágil. Como tanta coisa havia acontecido em tão pouco
tempo, tentou explicar-se:
– Eu não sei por que o freio falhou. Ontem, estive no mecânico,
fazendo uma revisão geral no caminhão.
– Não se preocupe, moço, está tudo bem.
– É, dona, mas somente por um milagre.
Ao voltar para casa, naquela tarde, Sueli tinha uma certeza:
Deus lhe havia poupado a vida.
No mesmo instante em que Sueli retornava, Neuza, Francisca e Áurea
se levantaram, como se tivessem cumprido uma missão. Neuza e Francisca
sentiram a necessidade de ir à casa de Sueli. Eram 17h20, e Sueli
relembrava o ocorrido quando recebeu a visita. Ela tomava um copo com
água e se apressava para preparar o jantar, quando ouviu alguém batendo
palmas.
“Quem será a esta hora?”, pensou. Olhando pela janela da cozinha,
reconheceu irmã Neuza. Ela se apressou em atendê-la.
– Irmã Neuza, a paz do Senhor! Entre.
Elas entraram, e Sueli perguntou, curiosa, o motivo da visita. Antes
que Neuza começasse a explicar, outra pessoa chamou no portão. Quando
Sueli saiu para atender, ficou surpresa:
era a irmã Francisca. Ao ouvirem o relato do livramento de Deus, elas
ficaram convictas de que a oração que fizeram, naquela tarde, foi o meio
pelo qual Deus pôde agir para livrar Sueli. Após o relato e algumas
palavras a mais, sabendo que Sueli estava apressada para preparar o
jantar, elas se colocaram de pé para orar, agradecendo ao Senhor pelo
livramento.
Naquele momento, um mensageiro do Trono do Altíssimo se
posicionou no meio das três mulheres e entregou um pergaminho às irmãs
Neuza e Francisca, que receberam uma revelação, na qual ficava claro que
alguém havia feito um trabalho de macumba para destruir a vida de Sueli
a fim de ficar com o marido dela. Elas clamaram fervorosamente,
desfazendo toda a obra do maligno, e citaram um texto bíblico: Pois contra
Jacó não vale encantamento, nem adivinhação contra Israel; neste tempo
se dirá de Jacó e de Israel: Que coisas Deus tem feito! (Nm 23.23).
Logo depois, despediram-se, sabendo que a vitória havia sido
completa.
Naquela noite, quando subia a rua, Rafael passou em frente à casa de
Nádia. Ela estava parada no portão da casa, e ele a cumprimentou,
seguindo seu caminho. Contudo, Nádia o deteve, chamando-o pelo nome:
– Rafael, Rafael.
Ele parou, e ela comentou:
– Fiquei sabendo que você e Sueli brigaram.
– É, realmente, nós brigamos ontem.
– Ela me disse, mas, se as coisas não estiverem dando certo para
vocês, é melhor se separarem. De repente, tem alguém muito mais perto,
que o ama muito mais que ela e pode fazer você mais feliz.
Rafael olhou atentamente para Nádia, sem entender por que ela, que
sempre foi muito amiga de Sueli, estava dando-lhe aquele tipo de conselho.
Isso o aborreceu, por isso, apressou-se em sair dali.
– Não pretendo separar-me, a única pessoa que amo é Sueli. Tchau,
Nádia. Estou com pressa para estar em casa.
Ele deixou Nádia em pé, sozinha, e ela sussurrou:
– Veremos, você ainda vai ser meu.
Naquela noite, Rafael e Sueli dialogaram e oraram juntos, sem a
intervenção daqueles seres que, na tarde do dia anterior, estiveram
acampados ao redor daquela casa.
Na mesma noite, irmã Áurea jantava em sua casa, e, com ela à mesa,
estavam somente Almir e Jorge. Isabela não havia chegado do colégio.
Damião ainda estava foragido, e ela não tinha notícias dele. Após o jantar,
irmão Almir ficou sentado na sala, lendo a Bíblia, e, depois, recolheu-se ao
quarto. Jorge tinha saído para a faculdade e ainda não havia retornado.
Eram já 23h05, quando Isabela voltou. Dessa vez, depois de tantas
desculpas que não soavam como verdadeiras, irmã Áurea falou duramente
com ela:
– Minha filha, temos de conversar seriamente.
– Sobre o que a senhora quer conversar?
Demonstrando que não acreditava mais em suas desculpas, a mãe
pressionou-a para saber a verdade:
– Você está escondendo algo muito sério de mim.
– Não estou escondendo nada. O que eu poderia esconder da
senhora?
– Então, por que você tem voltado tão tarde para casa, vem com essas
desculpas esfarrapadas; depois, entra no banheiro e fica quase uma hora,
tomando banho?
– Não estou escondendo coisa alguma. A senhora é que fica com
desconfianças. Se quiser acreditar, acredite. Se não, não posso fazer nada.
Irmã Áurea sentiu que a filha estava ocultando algo:
– Você já vai fazer 18 anos, mas ainda mora nessa casa e precisa
prestar conta de suas atitudes.
Isabela, mostrando-se aborrecida pela pressão da mãe e sem querer
muita conversa, foi para o quarto resmungando:
– Ah! Não quero saber de sermão.
Diante da reação de Isabela, irmã Áurea não podia fazer mais coisa
alguma. Uma surra naquela idade não era a saída; a solução era continuar
orando por sua filha.
VI
UM GRANDE SUSTO

Na terça-feira, o dia amanhecera frio, nublado, com um certo ar de


tristeza. Quando acordou, irmã Áurea sentiu um aperto no peito e um
impulso para interceder por Damião.
Como era sua rotina nas manhãs de todos os dias, iria ajoelhar-se na
igreja e clamar fervorosamente, mas, naquela ocasião, gastaria muito mais
tempo rogando por ele. Tudo parecia normal, a rotina era a mesma; porém,
sentia uma angústia no coração como se algo estivesse para acontecer com
Damião.
Ela não sabia que, durante a noite, a polícia havia feito um cerco ao
morro do Mutirão, onde seu filho Damião havia-se escondido. A polícia
tinha prendido oito bandidos e matado quatro durante uma troca de tiros.
Naquela tarde, irmã Áurea estava em sua casa. Às 13h30, um amigo
de Damião bateu palmas à porta. Ela estava no sofá, lendo a Bíblia.
Deixando-a aberta no sofá, foi atender. Enquanto irmã Áurea se
aproximava, ele se mostrava bastante preocupado, como se estivesse sendo
observado. Sem rodeios, foi logo dizendo:
– A senhora é a mãe de Damião?
– Sim, sou – respondeu, já se preocupando com a notícia que viria.
– Olha, dona, houve um tiroteio lá, no morro do Mutirão, e a polícia
prendeu uns companheiros. Quatro morreram, e Damião estava no meio
deles. Não tenho certeza se ele morreu ou se foi preso, mas sei que estava
lá. Saí voado de lá. Era bala pra todo lado, e eu não quis saber de ficar.
Áurea pôs a mão na cabeça, enquanto aquele rapaz, sem se despedir,
saiu apressadamente em uma bicicleta. A mulher se arrumou e saiu de
casa, deixando as chaves e um recado com a vizinha. Foi ao ponto de
ônibus para pegar um ônibus até o local do confronto. Se ela pudesse, iria
correndo, por ser tamanha a aflição em seu coração. Não pensou em ligar
para Almir ou Jorge. Apenas fechou a casa e saiu. Chegando ao local, que
estava cercado pela polícia, procurou imediatamente saber onde estavam
os corpos. Ela queria identificar Damião, se estivesse ali, mas já haviam
sido removidos pelo rabecão.
Desesperada, procurou saber entre os policiais se alguém sabia o
nome dos que haviam morrido, porém, ninguém sabia informar com
certeza. A única coisa que disseram foi o local para onde levaram os que
foram capturados. Ela desceu o morro e se informou sobre qual o ônibus
passava na 59a DP. Na delegacia, entrou, orando em pensamento, pedindo
a Deus que seu filho estivesse vivo ali. Ela se dirigiu a um policial que
estava no atendimento:
– Com licença! Ontem à noite, trouxeram uns presos para essa
delegacia, que estavam no morro do Mutirão?
– Sim, dona, vieram oito para cá.
– Por favor! O senhor pode ver para mim se tem um rapaz com o
nome de Damião Cavalcante Freitas?
Aquele policial demonstrou uma certa indisposição para se levantar
da cadeira a fim de verificar a identificação daqueles presos, mas, ao ver a
aflição daquela mãe, que, certamente, não sairia dali sem alguma notícia,
levantou-se e pegou uma listagem com oito nomes. Ele procurou o nome,
mas não o encontrou:
– Sinto muito, minha senhora. Esse nome não está nesta lista.
– Tem certeza, moço, que não está aí?
– Tenho. A senhora mesmo pode olhar.
Ela verificou um a um, os nomes e apelidos, e, realmente, não viu o
nome do filho. Só restava a pergunta mais sofrida que uma mãe podia
fazer:
– Para onde levaram os mortos?
– Foram todos para o Instituto Médico Legal, da Ferreiro Braga.
Irmã Áurea agradeceu a ajuda do policial e saiu cabisbaixa.
Ela conhecia o Instituto Medico Legal da Ferreiro, mas nunca
imaginou que teria de entrar em um local como aquele para tentar
reconhecer o corpo de seu filho, o que seria a maior perda da sua vida.
Na porta do necrotério, sentiu um calafrio. Era um lugar onde as
pessoas só queriam ver bem de longe. Quem entrava por aquelas portas já
o fazia com um sentimento de perda, e a confirmação da suspeita sempre
era dolorosa. Áurea se informou sobre os quatro corpos que haviam
chegado naquela tarde, vítimas do tiroteio do morro do Mutirão para a
necropsia. Como aqueles corpos haviam acabado de chegar, os
funcionários ainda não haviam feito a perícia e a identificação.
Ela teria de olhar um por um. Um homem a conduziu até um
corredor e, de lá, a uma sala, onde havia vários mortos cobertos, esperando
a autópsia para, depois, serem postos em um gavetão gelado. O homem e
Áurea se aproximaram das vítimas da troca de tiros. Ele retirou o pano que
estava sobre o rosto de um deles e perguntou à Áurea:
– É esse?
– Ela olhou, mas não reconheceu.
Quando aquele homem levantou o pano do segundo rosto, o coração
da irmã Áurea bateu mais forte. Ela conhecia aquele jovem, pois estivera
muitas vezes em sua casa e sempre andava com seu filho. Era chamado de
Dino. Com a negativa, eles passaram para o corpo seguinte. Também não
era aquele.
Só restava o último, que, de repente, ela desejou nem olhar, pois, com
certeza, seria Damião. No entanto, como era necessário o reconhecimento,
o homem ergueu o pano, e Irmã Áurea ficou surpresa ao constatar que não
era Damião. Perguntou para o homem:
– Moço, o senhor tem certeza de que esses são realmente os que
morreram no tiroteio lá no morro do Mutirão?
– Claro, minha senhora. Eles chegaram faz pouquíssimo tempo.
Atônita, questionou:
– Não tem mais nenhum corpo que veio de lá hoje?
– Não, minha senhora. Foram só esses quatro.
Áurea voltou para casa sem entender o que havia acontecido.
Eram 18h05 e já estava escurecendo. Ela entrou e, no chão, próximo
à porta de entrada, viu um envelope fechado. Áurea pegou-o. Dentro, havia
uma carta, que dizia:

Querida Mãe,
Escrevi esta carta, porque sei que a senhora está preocupada.
Estou bem. Não sei como aconteceu, mas eu estava com Dino e uns
companheiros, ontem à noite, quando a polícia invadiu o morro.
Desci correndo, passei perto dos policiais e entrei em uma igreja pela
janela. Quando amanhecia, vi que o morro estava ainda todo cercado.
Como não podia sair, permaneci escondido em um canto daquele
templo. Eu tinha de esperar. Foi quando avistei um livro de capa preta que
brilhava, como se irradiasse luz. Quando me aproximei, notei que era uma
Bíblia que alguém havia esquecido no banco da igreja. Eu a peguei e comecei
a folhear suas páginas e a lê-la. A cada palavra lida, uma lágrima rolava em
meu rosto. Eu permanecia ali assustado, com medo de morrer. Dois amigos
meus haviam morrido naquela noite.
Enquanto lia alguns trechos daquela Bíblia, notei que minha vida
estava toda errada. De repente, eu me assustei. Às 6h30 da manhã de hoje,
uma senhora abriu a porta da igreja e me viu escondido atrás de um banco.
Ela olhou fixamente para mim e me disse que, naquela noite, Deus lhe havia
mostrado, em sonhos, que ela encontraria alguém dentro do templo, o qual
eu deveria ajudar. Ela me aconselhou e falou de Jesus Cristo para mim, e
como a senhora havia feito eu também fiz. Aceitei Cristo e vou mudar de
vida. Não vou mais dar tristezas para a senhora e minha família. Por um
milagre, saí daquele morro hoje, pela manhã, sem ser capturado pela polícia.
Aquela senhora me disse que eu fizesse exatamente o que Deus havia-
lhe mostrado em sonhos. Várias mulheres se reuniram ali e oraram de
joelhos. Depois que terminou aquela oração, ela me deu uma Bíblia e falou:
“Vamos comigo para minha casa”. Eu disse para ela que não podia. por
causa da polícia, mas ela insistiu: “Não tenha medo, Deus agora vai
trabalhar na sua vida”. Por causa disso, saí com aquele grupo de senhoras.
Passamos por vários policiais, e ninguém suspeitou de mim. Pude notar a
diferença. Se eu estivesse com uma arma na mão, eles iriam matar-me, mas,
como eu estava com uma Bíblia na mão, fui respeitado como um homem de
bem.
Mãe, estou na casa dessa senhora, que se chama irmã Lourdes, mas
irei entregar-me para a polícia. Tenho de pagar pelos erros que cometi, mas
lá, na prisão, falarei do amor de Cristo pela humanidade.
Continue orando, porque sei que a senhora está sempre intercedendo
por mim. Antes de me entregar, vou até aí para me despedir da senhora.
Um beijão do seu filho, Damião

Obs.: Diga ao meu pai que me perdoe por tudo o que fiz de errado.
Dê um abraço no Jorge e na Isabela.
Áurea terminou de ler aquela carta em lágrimas, não de tristeza, mas
de felicidade. Seu filho dera o maior presente que uma mãe poderia
receber: mudar de vida.
Quando Almir e Jorge chegaram à noite, ela contou tudo o que havia
sucedido e quanto sofrimento ela havia passado, achando que Damião
havia morrido. Ela leu para eles a carta e queria testemunhar na igreja, no
culto daquela noite. Tinha de falar sobre como Deus havia livrado seu filho.
Os dias corriam, e ela sentia muitas saudades de Damião.
Todos os dias, esperava ansiosamente pelo filho. Vinte e três dias
depois, no domingo de manhã, Áurea, como sempre, levantou-se cedo, fez
café e, depois, como era sua rotina cotidiana, orou alguns minutos de
joelhos. Sempre orava, mesmo quando não ia para a campanha na igreja.
Todos na casa ainda dormiam, e irmã Áurea foi retirada de sua oração pelo
barulho do portão, que rangia ao ser aberto. Quem estaria entrando em
sua casa sem bater palmas? Ela se levantou e foi até a porta da sala.
Quando a abriu, mostrou um amplo sorriso e deu um abraço no invasor:
– Damião, meu filho! Que saudade!
Ela, chorando, pendurou-se no pescoço do rapaz, como se ele tivesse
ressuscitado dentre os mortos. Quando o largou, olhou atentamente para
ele. Como ele estava diferente! Cabelo cortado, barba bem feita, a roupa
não era familiar, mas estavam bem-ajustada ao seu corpo. Damião logo
perguntou:
– Mãe, e papai, Jorge e Isabela?
– Ainda estão dormindo.
– Hoje, ficarei com vocês durante todo o dia, e, na segunda-feira, irei
apresentar-me na delegacia.
Irmã Áurea lembrou-se dos dias em que tinha de visitá-lo na cadeia e,
em dúvida quanto à decisão de Damião, questionou:
– Meu filho, será que realmente é necessário você se entregar?
– É sim, mãe. Não vou poder viver fugindo. Preciso quitar minha
dívida com a justiça terrena, pois, pela celestial, já fui perdoado pelo
Senhor Jesus Cristo.
Mesmo sem poder concordar muito com a decisão do filho, ela
aceitou:
– Você pode tomar essa decisão, mas eu vou orar por você.
Durante todo aquele dia, eles mataram as saudades de Damião, que
relatou tudo o que lhe havia acontecido. Ele contou como, por várias vezes,
irmã Lourdes intercedera por ele e como havia demorado mais de uma
semana para que ele ficasse totalmente liberto de um espírito maligno que
o atormentava.
Naquela noite, irmã Áurea foi para a igreja, acompanhada de quase
toda a sua família. Só faltava Isabela, que apesar dos convites de cada um
de seus familiares, não quis ir. Havia saído para a uma festa. O culto foi
muito alegre e, ao voltarem para casa, Áurea comentou:
– Eu não sei o porquê, mas sinto que Isabela está muito estranha.
Nunca falou sobre namorado, apesar de dizer que está namorando.
Jorge comentou:
– Achei estranho, pois, um dia desses, Isabela desceu de um carro,
olhando assustada para os lados, como se estivesse escondendo-se.
Damião também falou:
– Não entendo por que ela fica de segredinhos com a Mônica, que”não
é flor que se cheire”.
– Só espero que ela não esteja aprontando algo de grave
– acrescentou Almir.
Áurea, como o pilar de oração de sua casa, afirmou:
– Agora, que Deus nos resgatou, temos de orar unidos por ela.
Eles chegaram a casa e, como tinham muitas coisas para conversar,
ficaram acordados até um pouco mais tarde naquela noite.
VII
INTERMINÁVEIS
BATALHAS

Segunda-feira logo cedo, todos acordaram quase na mesma hora.


Áurea preparou, como de costume, o café, e todos participaram daquela
refeição. Almir, que, agora, era mais calmo e manso, falou para Damião:
– Se você não quiser entregar-se para a polícia hoje, nós vamos
compreender. Afinal, você poderá passar vários anos na prisão.
– Tenho certeza do que devo fazer, pai. Sou considerado um fugitivo.
– Damião, não quero desanimá-lo, meu filho, mas estou sentindo um
aperto muito grande no coração – acrescentou irmã Áurea.
O filho estava resoluto e respondeu com segurança:
– Tenho de fazer isso, ainda que seja difícil. É para o bem de todos da
família. A polícia vai sempre rondar nossa casa à minha procura.
Após o café da manhã, o casal Almir e Áurea acompanharam o filho
até a delegacia. Lá, ele se apresentou ao delegado, e sua ficha criminal foi
levantada. Verificaram que ele já havia cumprido pena por assalto a mão
armada e constava, em sua recente ficha, que era um suspeito, procurado
pelo assalto a um ônibus. Um policial o encaminhou para uma cela, onde
havia outros presos, e o trancaram.
Na volta para casa, Almir e Áurea, estavam como se um pedaço deles
tivesse ficado naquele lugar. Apesar de tudo, aquilo era necessário. Irmão
Almir não iria trabalhar, pois havia tirado o dia de folga. Haviam deixado
todo o caso do filho nas mãos do advogado, Cláudio Bastos, que havia sido
um grande auxílio na primeira vez que Damião esteve na prisão, e, com
certeza, faria o mesmo esforço para tirá-lo de lá.
Não fazia muito tempo que eles haviam chegado da delegacia e
tinham ido para o quarto orar, quando ouviram alguém bater palmas.
Isabela, que estava na sala, foi atender, e, depois de alguns instantes foi
até o quarto dos pais para chamá-los. A visita era para os dois. Quando
foram atender, ficaram surpresos. Era o Pr. Joel, sua esposa, Nadir, e as
irmãs Francisca, missionária Elza e Neuza. Estavam ali com um bom
número de irmãos. Eles se cumprimentavam quando o pastor, muito
amável, disse-lhes:
– Meus amados irmãos, estamos aqui em solidariedade com a dor de
vocês, como nos manda as Escrituras: Alegrai-vos com os que se alegram e
chorai com os que choram (Rm 12.15).
Irmão Almir, emocionado com aquelas palavras, agradeceu:
– Muito obrigado pela visita. Fico muito comovido com todo esse
amor.
– Não viemos apenas visitar, mas também orar por todos –
acrescentou o pastor.

Em uníssono, eles oraram fervorosamente naquele lar.


Todos os presentes sabiam da dor que aquela família estava sentindo.
Isabela recusou-se a receber a oração daqueles irmãos e trancou-se no
quarto.
Ao saírem, Neuza e Francisca resolveram ir até a casa de Sueli,
porque queriam saber como ela estava desde aquele dia em que estiveram
lá. Ao chegarem ao portão da casa da jovem irmã, elas, de longe, puderam
contemplá-la e ouvi-la. Estava no quintal estendendo as roupas no varal e
entoava hinos com uma voz muito linda e muita unção. Enquanto cantava,
seres angelicais voavam ao seu redor como se bailassem no ar ao som
daquela melodia, que dizia: Santo, Santo, Santo é o Senhor; só Ele pode
livrar do perigo o pecador. Enquanto louvava, não podia contemplar a
presença daqueles seres e a luz que irradiavam.
Só sentia uma paz muito grande em seu coração. Enquanto isso, um
outro grupo de seres fétidos, sujos e maltrapilhos, horríveis em aparência,
tentava resistir a uma dor lancinante que aquela melodia causava em seus
ouvidos.
Aquelas duas irmãs pararam em frente ao muro baixo, de um metro
de altura, com a parte superior em tela de aço, que deixava à mostra todo o
quintal da casa. Irmã Neuza chamou:
– Oh! Irmã Sueli, amada e abençoada!
Sueli se aproximou com certa surpresa pela visita daquelas mulheres.
– Oi, irmãs, como vão? Está tudo bem?
Irmã Neuza respondeu com muita alegria, principalmente, por ver o
ânimo de Sueli.
– Tudo bem!
– Vamos entrar – convidou Sueli.
Irmã Francisca, vendo que ela estava ocupada, respondeu:
– Não, obrigado, querida. Estamos com um pouco de pressa. Viemos
aqui porque estávamos preocupadas com você e Rafael.
– Obrigado por se importarem conosco, mas está tudo bem.
Irmã Francisca expôs o motivo da inquietação.
– Sueli, não nos vemos muito, porque você congrega em outra igreja,
mas, mesmo assim, nós nos preocupamos com vocês. Viemos ver se estão
resistindo bem para quebrar a força do inimigo contra vocês.
Demonstrando toda sua felicidade, Sueli respondeu:
– Irmãs, desde aquele dia, eu e Rafael entramos em uma batalha de
oração. Começamos a orar pela manhã, à tarde – quando ele chega do
trabalho – e à noite. Graças a Deus, temos vencido.
Enquanto as irmãs estavam conversando no portão de Sueli, Nádia,
“amiga” de Sueli, observava tudo em pé, no portão da sua casa, que ficava
um pouco mais abaixo na rua. As irmãs puderam notar, pelo ar de
felicidade de Sueli, que ela estava realmente bem. Quando desceram a rua,
passaram em frente à casa de Nádia, que ainda estava parada no portão.
Como a conheciam da casa de Sueli, cumprimentaram-na e, sorridentes,
convidaram-na para visitar a igreja no domingo, à noite. Nádia agradeceu o
convite e prometeu que estaria lá. Após passarem, ela permaneceu no
portão, perguntando-se: “Por que não está acontecendo nada? No sábado,
vou saber o porquê”.
Quando chegou o sábado, Nádia foi até o quintal e desenterrou algo.
Era um embrulho todo amarrado com barbante.
Ela colocou-o dentro de uma sacola e subiu a rua. Depois de andar
algumas quadras, entrou na rua Almeida, número 25.
Ali, cumprimentou a todos os presentes e ficou aguardando a vez de
sua consulta. Quando chegou a vez dela, antes que se aproximasse, o ser
que a acompanhava voou rápido em direção ao outro que estava pousado
nas costas de Sandro:
– Chefe Preto Velho.
Com uma voz grave e apavorante, soltando um hálito de fumaça
acinzentada, Preto Velho esbravejou:
– Diga logo, lacaio, quais são as informações.
Aquela criaturinha pavorosa se aproximou meio trêmula e disse:
– A missão que essa daí nos mandou fazer não foi realizada.
Aquela “crentinha” de meia tigela entrou com firmeza na batalha, e o
cara lá de cima mandou reforços que acamparam na casa dela. Foi
impossível realizar a missão.
Vociferando e soltando muito mais fumaça com algo que parecia
labareda de fogo, deu uma bofetada naquela criatura, que caiu a uns 20m
de distância e, choramingando blasfêmias, retirou-se. Nádia se aproximou
e, com a mesma reverência da última vez que ali estivera, saudou aquele
homem. Ele perguntou:
– Então, misê fia, conseguiu o seu homem?
Ela, aborrecida, respondeu:
– Não consegui coisa alguma. Eles brigaram uma única vez, mas,
depois, passaram a viver melhor do que antes. Eu quero saber por que o
trabalho não pode ser feito, já que eu fiz tudo certo. Aqui está o embrulho
com uma peça de roupa dele e outra dela.
Aquele ser transfigurado em velho ia usar de engano quando começou
uma grande batalha. Ele se transfigura para sua verdadeira aparência. Era
alto, forte, de pele enrugada acinzentada, de braços longos esqueléticos,
olhos amarelados grandes, e expirava baforadas de pura fumaça. Antes que
pudesse esboçar uma reação, dois anjos muito fortes, os quais traziam
correntes douradas nas mãos, acorrentaram-lhe. Um deles, em tom severo,
ordenou-lhe:
– O Senhor te ordena que diga a ela a verdade.
Com aqueles olhos amarelos bem arregalados, olhou para as espadas
nuas, que refletiam fulgor nas mãos daqueles anjos, o quais o encaravam
ameaçadoramente. Então, começou a transmitir a verdade para Nádia por
intermédio de Sandro:
– Aquele casal pertence ao outro lado. Eles são do cara de cima, e
todas as vezes que enviamos tropas para atacá-los, eles estão orando ou
louvando. Sempre há proteção de Deus ao redor deles, guardando-os; por
isso, não podemos fazer o serviço.
– Como assim? Como não pode completar o trabalho?
Cadê o seu poder?
Ele tentou não responder, mas o anjo colocou em seu pescoço a
espada, e ele prosseguiu:
– O homem lá de cima é muito mais forte que eu, e eu não posso fazer
coisa alguma.
Tentando assimilar o que ouvira, Nádia saiu decepcionada da
consulta. Afinal, aquele casal de crentes, o qual parecia insignificante,
tinha um grande valor, a ponto de fazer com que ela desacreditasse
naqueles a quem ela considerava fortes.
Aquelas entidades não eram poderosas o bastante para lhe dar o que
ela mais queria. Rafael não poderia ser dela.
Naquela tarde, na casa da irmã Áurea, Isabela se vestiu com um
vestido curto, bem ajustado ao corpo e colocou um sapato alto, de correias
finas. Ela havia feito uma escova nos cabelos castanhos, deixando-os bem
soltos, que caíam como caracóis pelos ombros. Ela fez uma maquiagem
com tons fortes, e, em seus lábios, pôs um batom vermelho vivo. Ela não
via, mas, no espelho, havia o reflexo daquela criatura toda enfeitada, que
tinha o nome de Pombajira, parada atrás dela, controlando-lhe a vontade.
Quando Isabela passou pela sala, sua mãe reparou como estava bem
arrumada e perguntou:
– Aonde você vai, Isabela, tão arrumada e perfumada desse jeito?
– Vou sair com meu namorado.
Áurea, dificilmente, vira Isabela tão arrumada assim, apesar de saber
que ela sempre fora vaidosa, e acrescentou:
– Não demore nem volte de madrugada. Quero que você aqui, no
máximo, até as 23h.
– Nós vamos ao cinema e, depois, a uma boate. Não sei se vai dar
para chegar a essa hora.
Áurea sabia que seria inútil tentar impedi-la. Ela olhou para o relógio
e estranhou o fato de ela sair tão cedo de casa.
Então, comentou:
– Mas você não acha que está cedo demais para sair? São apenas
15h40.
Ela respondeu agressivamente:
– A senhora não acha que está querendo controlar demais a minha
vida?
Isso fez com que Áurea alterasse também o tom de voz:
– Você é minha filha, e tenho de cuidar de você.
Isabela, cada vez mais rebelde, respondeu com desprezo:
– Já vou fazer 18 anos, estou bem grandinha e sei o que é melhor
para mim.
Ela se virou e saiu de casa, batendo forte a porta da sala.
Áurea ficou estática, pensando como Isabela estava diferente.
Desde os 13 anos, ela vinha agindo muito estranhamente. Passara a
ter vários segredos com as amigas de colégio, e, principalmente, com uma
jovem chamada Mônica, a qual tinha uma má reputação. Áurea havia
perdido o domínio sobre a filha e já não tinha mais como coibir os excessos
dela.
Na esquina da rua de casa, havia um carro que esperava Isabela.
Dentro, um homem de 38 anos, cabelos e olhos pretos e uma barba bem
aparada. Ao ver Isabela aproximar-se, abriu a porta do carro. Ao entrar, ela
disse:
– Oi, Fábio! Consegui fugir – e, depois, deu-lhe um beijo.
Ele deu a partida no carro, e saíram sem que ninguém os visse.
Áurea, depois de pensar nos problemas que tinha de resolver, ergueu
os olhos aos céus e clamou: “Meu Deus, ajuda-me, tem misericórdia de
mim”, e começou a preparar o jantar.
Almir havia saído com Jorge. Ao menos, ela tinha certeza de que eles
estavam fazendo algo de bom. Encontravam-se na reunião que o Pr. Joel
convocara para a reforma da igreja.
Naquela noite, Almir, Áurea e Jorge jantaram juntos. Após a refeição,
Jorge foi para o quarto estudar, e o casal ficou na sala.
Enquanto assistiam ao noticiário, eles conversaram sobre tudo o que
estava sucedendo em suas vidas, quantas mudanças haviam ocorrido.
Irmão Almir, com um sorriso no rosto, relembrou:
– Minha querida, há um tempo atrás, não poderíamos estar assim.
Eu estaria na rua bebendo e jogando fora todo o dinheiro do salário. Mas,
agora, podemos estar assim, pertinho um do outro.
Ele olhou para ela, sorriu, abraçou-a e beijou-a. Enquanto isso,
interiormente, ela agradeceu a Deus por ter transformado o seu cônjuge.
Quando o noticiário terminou, Almir foi para o quarto, enquanto Áurea
permaneceu no sofá e, com a Bíblia na mão, ficou esperando que sua filha
retornasse segura para casa.
Acabou cochilando e só acordou com o ranger do portão. Ao
despertar, ela olhou o relógio, que marcava 2h da madrugada.
Com certeza, ela teria de falar com Isabela sobre esse horário.
Ela esperou a porta da sala abrir e estranhou a demora. Havia
alguém do lado de fora, mas, se fosse Isabela, estaria demorando demais a
abrir a porta. Quando, finalmente, a porta se abriu, Isabela entrou,
cambaleando. Irmã Áurea se aproximou rapidamente dela, temendo o pior,
e perguntou, tomando-a em seus braços:
– O que houve, minha filha? O que aconteceu?
Isabela estava estranha. Seu corpo parecia não poder firmar-se. Ela
balançava com um certo desequilíbrio, como se não tivesse domínio do
corpo. Isabela respondeu, com uma voz gaguejante e palavras quase
indecifráveis:
– Não... precisa... se preocupar. Não foi nada.
Pela resposta de Isabela, a mãe notou que o estado da filha era grave,
mas não de uma gravidade que não pudesse ser superada de um dia para
outro, com um banho frio e café amargo.
Pela primeira vez, Isabela havia-lhe decepcionado naquilo que mais
afligia o coração de Áurea: a bebida alcoólica. Ela levou Isabela até o
banheiro e lhe deu um banho frio. Depois, arrastou-a até o quarto e a
colocou na cama. Ela queria falar, mas não adiantaria. Isabela, naquele
estado, mal havia conseguido chegar em casa.
Na manhã de domingo, Áurea levantou-se cedo, preparou o café e,
enquanto aguardava o restante da família levantar-se, adiantou o almoço,
preparando os ingredientes. Ela não queria faltar à escola dominical. Jorge
havia pedido que ela o acordasse às 8h, porque ele não queria também
deixar de ir. Seu Almir estava com tanto desejo de estar na igreja, que
havia colocado o despertador para acordá-lo às 7h30. Eram 8h15, e Almir e
Jorge já se haviam levantado e estavam à mesa, tomando café, quando
alguém bateu palmas no portão. Áurea levantou-se e foi atender. Era uma
mulher de 32 anos, loura, alta, de aproximadamente 1,75m de altura,
magra, olhos verdes escuros, pele clara, mas a quantidade de sol a que
havia sido exposta tornava-a morena. Estava vestida elegantemente, com
uma saia lisa em tom pastel, uma blusa cinza e um sobretudo preto. Irmã
Áurea, ao se aproximar, cumprimentou-a:
– Bom dia! O que a senhora deseja?
Ela respondeu com rispidez:
– Bom dia! É aqui que mora uma moça chamada Isabela.
Sem entender do que se tratava, Áurea respondeu:
– É sim, ela mora aqui. É minha filha.
– A senhora podia chamá-la, por favor?
Em outra situação, Áurea chamaria Isabela, mas percebeu que o
rosto daquela mulher estava desfigurado pelo nervosismo e ódio que
deixava transparecer.
– Ela está dormindo. Por favor, posso saber o que a senhora deseja
com ela?
A resposta daquela mulher causou um impacto nela:
– Eu vim para matar aquela sem-vergonha.
Irmã Áurea, com voz trêmula, questionou:
– Por que a senhora quer matar minha filha?
A mulher, já derramando lágrimas de ódio, respondeu:
– Sua filha é uma sem-vergonha, descarada. Ela tem saído com o
meu marido. Ontem, ele voltou para casa às 2h20 da manhã. Perguntei
com quem ele havia saído, e ele me disse que tinha sido com uns amigos.
Eu estava desconfiada, porque alguém já me havia dito que ele estava
saindo com uma moça morena. Depois, encontrei o nome e endereço, e
obriguei-o a confessar. Como ele estava embriagado, acabou confessando
tudo.
Atônita, Áurea tentou justificar:
– Não pode ser Isabela. Ela ainda é uma jovem, e tenho certeza de que
não namoraria um homem casado.
Aquela mulher estava trêmula ao falar e demonstrava todo o seu ódio:
– É ela sim! Preciso conversar com ela. Não vou embora sem acertar
as contas com ela.
VIII – Furiosa investida inimiga ........................................................
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IX – Eu e a minha casa serviremos ao Senhor ..................................
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lançamentos:
• A grande conspiração
• Valentes missionários
• A última chance

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