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12/01/2018 FoMO não é frescura, é mal estar que pode gerar ansiedade, angústia e até depressão

Do UOL
12/01/2018 04h00

Quantas vezes você checa o celular por dia? Quantas delas são para conferir
redes sociais dos outros? Aliás, acompanhar a (boa) vida alheia já te causou
angústia? Se sim, saiba que o mal tem nome e “data de nascimento”. FoMO:
sigla cunhada em 2004 por Patrick J. McGinnis em um artigo na revista “The
Harbus”, da Harvard Business School, vem do termo “fear of missing out”, que,
em português, quer dizer algo como “medo de ficar de fora”.

"A inquieta sensação de que você está perdendo algo que os outros estão
fazendo; provavelmente algo melhor do que você está fazendo.”

Fato: em tempos nos quais a megaexposição é quase uma regra social na


internet, não é raro que todo mundo --exceto você-- pareça viver muitíssimo
bem, obrigada. Só no último fim de semana, por exemplo, é provável que você
tenha visto (aos montes) fotos de festas imperdíveis, drinks na praia, pés na
areia, crianças fofas e gatinhos meigos. Isso sem mencionar a multidão de
famosos passando férias em Fernando de Noronha e outros retiros
paradisíacos.

A vida nas redes sociais, com direito à curadoria, filtros e edição tem
cara de perfeição.

Imagem: Reprodução @gio_ewbank

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12/01/2018 FoMO não é frescura, é mal estar que pode gerar ansiedade, angústia e até depressão

Basta estar conectado para se deparar com esse tipo de informação. Aliás,
basta estar conectado para cair na armadilha de acreditar que o mundo inteiro
está se divertido muito mais do que você.

FoMO não é frescura

Do mesmo jeito que é possível ter acesso ao que o outro vive, é possível sofrer
por não ter a vida que ele ostenta. “Hoje, estamos expostos a muito mais
informação do que há poucas décadas. Os estímulos e a importância que
damos a eles estão potencializados. FoMO não é frescura, é mal-estar, pode se
agravar e gerar de ansiedade a depressão”, explica Sylvia van Enck psicóloga
do Programa de Dependências Tecnológicas do Hospital das Clínicas da
Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

Segundo um estudo divulgado em 2016 feito pelo departamento de Psicologia


da Universidade de Essex, no Reino Unido, 75% dos indivíduos adultos já
passaram pelo incômodo. “Não podemos afirmar que todos eles chegaram ao
estágio da depressão, mas é legítimo que tenham sentido desconforto, angústia
e ansiedade em diferentes níveis”, diz Sylvia, que apesar de ver a FoMO como
uma tendência potencializada pelos nossos tempos, acredita que o sentimento é
inerente à existência humana. “Eu diria que é um novo nome para algo que
sempre existiu.”

Imagem: Reprodução @kendalljenner

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Leda Spessoto, psiquiatra e psicanalista, membro da Sociedade Brasileira de


Psicanálise de São Paulo, concorda. “FoMO não é um fenômeno tão novo
assim. Estamos lidando com sentimentos muito arcaicos da humanidade. Um
dos dez mandamentos já dizia: ‘Não cobiçarás’. Na verdade, o que
presenciamos agora só é inédito pelo cenário e pelas plataformas. A internet,
especialmente através das redes sociais, moldaram esse ‘medo de estar
perdendo’.”

Mas a partir de quando a FoMO deixa de ser um fenômeno


comportamental inofensivo para se tornar uma disfunção com contornos
de patologia? Leda esclarece: “O problema é instalado quando cobiçar o que
outro faz passa a te paralisar. Aí, é preciso fazer uma autoanálise, olhar para si
com atenção e até ouvir o que as pessoas próximas de você dizem do seu
humor. Às vezes a gente não enxerga problema, mas amigos e familiares
enxergam”.

“Se mergulho totalmente meu olhar no outro, fico extasiado e nada mais; se me
torno apenas uma criatura infeliz que não está naquela praia linda e não sou
capaz de agir e criar na minha própria vida, então tenho sinais de que posso
estar sofrendo de FoMO”, completa.

“Quanto mais coloco o foco no outro, no que ele tem e eu não tenho, menos fico
criativo em relação a minha vida. Fico impedido de criar qualquer coisa que seja
boa pra mim. Ok, eu não estou em Fernando de Noronha, mas o que eu posso
fazer, que está ao meu alcance, e que pode ser tão gostoso quanto estar
naquele lugar?”, questiona Leda. “Precisamos nos concentrar em encontrar
satisfação no que é nosso e no que construímos. O outro até pode ser
inspiração, e isso é saudável, o que não pode é ser apenas alvo de cobiça que
gera angústia.”

Viver não basta

Uma pesquisa da agência de marketing Tecmark conclui que o usuário médio


verifica o celular aproximadamente 1.500 vezes por semana. Ou seja, uma
pessoa costuma gastar 3 horas e 16 minutos por dia olhando para a tela de um

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smartphone. A grande preocupação dos pesquisadores nesse cenário é a de


que as pessoas não estão de consciência presente em lugar nenhum mais.
Logo, o mundo das idealizações ganha força em detrimento da vida offline.

Imagem: Reprodução @gio_ewbank

O britânico Tom Chatfield, autor de “Como viver na era digital”, lançado pela
editora Objetiva com o selo da The School of Life, bota luz no outro lado dessa
história, em quem exibe com abundância a vida nas redes. “Tentar mostrar a
melhor imagem de si mesmo é um pouco como se dedicar a um trabalho: você
desenvolve habilidades, escolhe melhor as palavras e aparências que vai usar e
obtém satisfação quando vê que seu produto teve sucesso”. O produto, no caso,
é você mesmo. “Vender-se como um objeto é uma espécie de busca imperfeita
pela audiência e pela validação do outro. Mas essa busca pode te levar para
longe do que você é, e para longe da felicidade e das relações honestas”, diz.

“Hoje em dia, viver não basta, tenho que mostrar que vivo. Se eu tiver público,
melhor ainda”, acrescenta Sylvia.

Aqui, vale ressaltar: a perfeição vendida online só se mantem online, por mais
que seja em Fernando de Noronha. De perto, vida alguma é normal - quanto
mais perfeita. "O medo de perder está em nós desde que o mundo é mundo. É
importante que saibamos lidar com ele sem que nos machuquemos. Aí está o
equilíbrio, em tempos de internet ou não", comenta Leda.

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