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DESENVOLVIMENTO
E SUSTENTABILIDADE
 
 
 

Conselho Editorial EAD 
Dóris Cristina Gedrat (coordenadora) 
Mara Lúcia Machado 
José Édil de Lima Alves 
Astomiro Romais 
Andrea Eick 
 
 
Obra  organizada  pela  Universidade  Luterana  do 
Brasil.  Informamos  que  é  de  inteira  responsabilidade 
dos autores a emissão de conceitos. 
A  violação  dos  direitos  autorais  é  crime  estabelecido 
na Lei nº .610/98 e punido pelo Artigo 184 do Código 
Penal. 
 
 
ISBN: 978‐85‐7838‐217‐9 
Edição Revisada 
 

 
 

APRESENTAÇÃO

Este livro tem o objetivo de subsidiar a discussão contemporânea sobre 
o desenvolvimento e a sustentabilidade. Temas centrais que surgiram 
no século XX (o primeiro, em meados dos anos 1940 e 1950 e o segun‐
do,  por  volta  de  1970),  têm  sido  considerados  dois  grandes  desafios 
para  o  século  XXI.  Estes  ganham  novas  interpretações,  sobretudo, 
quando conjugados na expressão desenvolvimento sustentável. No entan‐
to, o que vem a ser o desenvolvimento sustentável? Antes de colocar o 
qualificativo sustentável, talvez devêssemos indagar o que seja o desen‐
volvimento. 

Os  dez  capítulos  aqui  desenvolvidos  procuram  elucidar  de  forma 


objetiva  como  foi  tratado  o  tema  do  desenvolvimento  até  o  momento 
pelas  ciências  sociais  e  pela  economia,  além  de  demonstrar  de  que 
forma a ideia de sustentabilidade abalou a compreensão que tínhamos 
sobre o assunto. Isso significou repensar o desenvolvimento à luz dos 
limites que são impostos pelo meio ambiente, mas fundamentalmente 
também  significou  recolocar  o  debate  sobre  o  desenvolvimento  refle‐
tindo sobre a sociedade, a cultura, o território, a política e a ética. 

Embora  o  tema  do  desenvolvimento  sempre  gravite  em  torno  dos 


processos  econômicos,  a  abordagem  perseguida  neste  livro  sustenta 
que ele não pode ser tomado como uma esfera autônoma da sociedade. 
Até  que  uma  visão  integrada  de  desenvolvimento  seja  efetivamente 
consolidada,  pouco  conseguiremos  avançar  para  uma  postura  mais 
democrática, ambientalmente sustentável e que valoriza a diversidade 
cultural. 

Considera‐se  que,  para  uma  boa  compreensão  acerca  do  estado  atual 
do debate sobre o desenvolvimento, esta necessita de uma visão histó‐
rica que privilegie o curso dos acontecimentos no plano internacional, 
sem perder a especificidade da situação brasileira. Assim, o livro está 
organizado de um modo que o leitor possa transitar entre os diferentes 
contextos,  observando  que,  no  período  mais  recente  da  história,  os 
 
 
6
processos de globalização passaram a exercer efeitos mais expressivos 
no modo de condução das iniciativas de desenvolvimento. 

Mas é preciso estar atento para o fato de que o desenvolvimento é um 
tema  em  disputa.  As  diferentes  apropriações  do  debate  marcam  as 
distinções  disciplinares  e  as  perspectivas  teóricas,  de  um  lado,  e  as 
visões de mundo e as percepções sobre quais tipos de mudanças soci‐
ais são relevantes e como estas devem ser realizadas, de outro. Dessa 
maneira,  um  dos  objetivos  primordiais  desta  obra  é  oferecer  ao  leitor 
uma gama de pontos de vista, experiências e teorias sociais para que o 
debate  seja  ampliado  e  enriquecido.  Mais  do  que  proporcionar  uma 
apreensão restrita e limitada sobre um assunto tão complexo, a finali‐
dade  do  livro  é  situar  o  debate  e  mostrar  que  a  riqueza  encontra‐se 
justamente na amplitude de perspectivas que demarcam o tema. 

Boa leitura! 

 
 

SOBRE OS AUTORES

Guilherme Francisco Waterloo Radomsky

Adriana Paola Paredes Peñafiel

Guilherme  Francisco  Waterloo  Radomsky  é  graduado  em  Ciências 


Sociais  (2003)  pela  Universidade  Federal  do  Rio  Grande  do  Sul  − 
UFRGS − e mestre em Desenvolvimento Rural (2006) pela mesma uni‐
versidade, com a dissertação intitulada “Redes sociais de reciprocidade 
e  de  trabalho:  as  bases  histórico‐sociais  do  desenvolvimento  na  Serra 
Gaúcha.”  Em  2006,  foi  agraciado  com  o  Prêmio  SOBER  de  melhor 
dissertação de mestrado em Sociologia e Extensão Rural pela Socieda‐
de  Brasileira de  Economia  e Sociologia  Rural  (SOBER). Atualmente,  é 
doutorando no Programa de Pós‐graduação em Antropologia Social da 
UFRGS.  Tem  trabalhado  como  consultor  e  ministrante  de  cursos  na 
área  de  desenvolvimento  territorial  e  rural  e  desenvolvido  pesquisas 
sobre  diferentes  temas,  destacando‐se  a  antropologia  da  propriedade 
intelectual,  certificação  e  acreditação  na  agroecologia  e  de  produtos 
orgânicos,  agricultura  familiar  e  desenvolvimento.  Suas  principais 
publicações incluem produções “Reciprocidade, redes sociais e desen‐
volvimento rural” (texto incluído no livro “A diversidade da agricultu‐
ra familiar”, organizado por Sergio Schneider, pela editora da UFRGS), 
além dos artigos  “Tramas da memória e da identidade: as relações de 
reciprocidade e as especificidades históricas de uma região de coloni‐
zação italiana no sul do Brasil” (na revista “Humanas”, IFCH/UFRGS, 
n. 28, v. 1 – no prelo) e “Atores sociais, mercados e reciprocidade: con‐
vergências entre a nova sociologia econômica e o ‘paradigma da dádi‐
va’”, em coautoria com Paulo Niederle (na revista “Teoria & Socieda‐
de”, UFMG, n. 15.1, 2007). 

Nascida no Peru, Adriana Paola Paredes Peñafiel é graduada em Ad‐
ministração de Empresas (2001) pela Universidad del Pacífico, Lima – 
Peru.  É  mestre  em  Desenvolvimento  Rural  (2006)  pela  Universidade 
Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS – com a dissertação intitulada 
“Modos de vida e heterogeneidade das estratégias de produtores fami‐
 
 
8
liares  de  pêssego  da  região  de  Pelotas”.  Desde  2006,  trabalha  como 
assessora  de  projetos  da  Cooperativa  de  Habitação  dos  Agricultores 
Familiares  –  COOPERHAF  –,  cuja  matriz  localizada  em  Chapecó,  SC, 
atende  a  13  estados  do  Brasil.  Entre  as  funções  desenvolvidas  pela 
cooperativa, pode‐se citar as seguintes: a) identificar as demandas dos 
agricultores  familiares,  assentados  da  reforma  agrária  e  de  outros 
grupos sociais da área de abrangência da COOPERHAF; b) planejar e 
elaborar projetos de acordo com as demandas identificadas e os requi‐
sitos das entidades financiadoras; c) acompanhar as negociações entre 
os órgãos financiadores e os coordenadores responsáveis pelas negoci‐
ações  dos  projetos  elaborados;  d)  prestar  assessoria  aos  profissionais 
vinculados  à  execução  do  projeto  de  modo  a  orientá‐los  da  melhor 
forma  possível  na  execução  do  mesmo;  e)  a  sistematizar  as  ações  de‐
senvolvidas pelos projetos.  
 

SUMÁRIO

1 O QUE É O DESENVOLVIMENTO? ..................................................................... 13

1.1 Definição do conceito de desenvolvimento ................................................... 13 

1.2 Desenvolvimento como um processo, não como um estado ........................... 16 

1.3 O desenvolvimento e suas raízes sociais, culturais, políticas, econômicas e


ambientais ....................................................................................................... 17 

1.4 Desenvolvimento e ação .............................................................................. 18 

1.5 Desenvolvimento e participação .................................................................. 19 

1.6 Desenvolvimento e ética ............................................................................. 20 

Atividades ........................................................................................................ 22 

2 O PÓS-GUERRA E AS TEORIAS DO DESENVOLVIMENTO .................................... 23

2.1 O contexto do pós-guerra ............................................................................ 23 

2.2 O desenvolvimentismo, o paradigma produtivista e a “Revolução Verde” ....... 25 

2.3 Teorias do desenvolvimento no pós-guerra ................................................... 27 

Atividades ........................................................................................................ 35 

3 O DEBATE BRASILEIRO SOBRE O DESENVOLVIMENTO NOS ANOS DE 1950 A


1970 ............................................................................................................... 36 

3.1 O processo de substituição de importações e a dualidade estrutural do Brasil


 ....................................................................................................................... 36 

3.2 O pensamento de Celso Furtado .................................................................. 38 

3.3 Dilemas da modernização: projeto nacional de desenvolvimento versus modelo


dependente-associado ..................................................................................... 40 
 
 
10
3.4 Resultados do modelo de desenvolvimento adotado no Brasil de 1950 a 1970:
crescimento econômico sem distribuição de riqueza .......................................... 42 

Atividades ........................................................................................................ 45 

4 LIMITES DO DESENVOLVIMENTO ..................................................................... 46

4.1 Crises econômicas do capitalismo nos anos 1970 e 1980 ............................ 46 

4.2 A modernização conservadora da agricultura ............................................... 48 

4.3 A década “perdida” .................................................................................... 51 

4.4 Persistência da pobreza e agravamento da concentração de renda .............. 52 

Atividades ........................................................................................................ 55 

5 A GLOBALIZAÇÃO E OS ESPAÇOS DO DESENVOLVIMENTO ................................ 56

5.1 Globalização e neoliberalismo: o contexto dos anos 1990 e 2000 ................. 56 

5.2 A globalização e a implicação de novas funções aos territórios ..................... 60 

5.3 Brasil: do desenvolvimento regional ao desenvolvimento territorial ............... 63 

Atividades ........................................................................................................ 66 

6 O PARADIGMA DAS CAPACITAÇÕES: AMARTYA SEM E O DESENVOLVIMENTO


COMO LIBERDADE ............................................................................................ 68

6.1 Amartya Sen e a crítica ao paradigma do desenvolvimento medido pela renda


 ....................................................................................................................... 68 

6.2 O desenvolvimento humano no Programa das Nações Unidas para o


Desenvolvimento (PNUD) .................................................................................. 73 

Atividades ........................................................................................................ 80 

7 A ATUALIDADE DO DEBATE CONTEMPORÂNEO SOBRE O DESENVOLVIMENTO NO


BRASIL ............................................................................................................ 81

7.1 Liberalismo e desenvolvimentismo no Brasil atual ........................................ 81 

7.2 Qualificativos do desenvolvimento ............................................................... 89 

Atividades ........................................................................................................ 93 

8 SUSTENTABILIDADE: ANTECEDENTES HISTÓRICOS .......................................... 95


 

11
8.1 Ambientalismo e ecologia ........................................................................... 95 

8.2 Os alertas globais sobre a sustentabilidade ambiental ................................. 97 

8.3 O Relatório Brundtland e a ECO-92 .............................................................. 98 

Atividades ...................................................................................................... 104 

9 DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL ............................................................... 105

9.1 O que é desenvolvimento sustentável? ....................................................... 106 

9.2 Limites e alcances da sustentabilidade ..................................................... 108 

9.3 Indicadores de desenvolvimento sustentável e de sustentabilidade ambiental


 ..................................................................................................................... 109 

Atividades ...................................................................................................... 115 

10 DIRETRIZES PARA PROJETOS DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL ............ 116

10.1 O que é um projeto social? ...................................................................... 117 

10.2 Orientações práticas para elaborar projetos sociais de desenvolvimento


sustentável .................................................................................................... 119 

Atividades ...................................................................................................... 131 

REFERÊNCIAS POR CAPÍTULO ......................................................................... 132

REFERÊNCIAS ................................................................................................ 135

GABARITO ...................................................................................................... 139


 
 

1 O QUE É O DESENVOLVIMENTO?

Guilherme Francisco Waterloo Radomsky

Este capítulo apresenta a definição do conceito de desenvolvimento tal 
qual ele tem sido elaborado no pensamento contemporâneo. Portanto, 
antes  de  realizar  um  percurso  relativo  ao  modo  como  o  tema  do  de‐
senvolvimento foi introduzido nas ciências sociais e como ele foi trans‐
formado  em  política  pelos  Estados,  optou‐se  aqui  por  introduzir  o 
leitor nas questões mais atuais que dizem respeito ao debate sobre esse 
tema. Para tal, serão abordadas no capítulo as diversas dimensões do 
desenvolvimento,  tais  como  a  sua  natureza  processual,  as  suas  raízes 
sociais, culturais, econômicas, políticas e ambientais, o desenvolvimen‐
to e as conexões com a ação social e a participação (temas essenciais no 
pensamento sociológico e político) e sua recente discussão em relação à 
ética. 

1.1 Definição do conceito de desenvolvimento


O que é o desenvolvimento? Como defini‐lo? Durante muitas décadas, 
o desenvolvimento foi entendido como sinônimo de crescimento econô‐
mico.  Para  observar  se  um  país  ou  uma  região  eram  desenvolvidos, 
bastava apenas observar se a renda per capita da população ou o Produ‐
to  Interno  Bruto  (PIB)  da  nação  era  considerado  satisfatório.  Sob  esse 
ponto  de  vista,  desenvolvimento  era  realmente  um  estado  que  podia 
ser medido por meio do progresso material de uma sociedade. 

José Eli da Veiga, economista e professor da Universidade de São Pau‐
lo, mostra que, até meados do século passado, não se sentia a necessi‐
dade  de  diferenciar  desenvolvimento  de  crescimento  econômico.  Em 
seu  livro  intitulado  Desenvolvimento  sustentável,  Veiga1  afirma  que,  de 
um lado,  havia os países chamados de desenvolvidos, que tinham atin‐
gido  um  grau  elevado  de  industrialização;  de  outro  lado,  existiam  as 
nações  em  que  a  industrialização  era  muito incipiente  até 1960  e  que, 
portanto, apresentavam um Produto Interno Bruto muito baixo.  
 
 
14
Entretanto, Veiga mostra que  as diversas políticas de industrialização 
ocorridas  desde  os  anos  1950  nos  países  semi‐industrializados  –  tais 
como o Brasil e diversos outros países da América Latina – acabaram, 
ao  longo  do  tempo,  por  não  se  traduzir  em  acesso  a  bens  materiais  e 
culturais  por  parte  de  suas  populações.  Essas  nações  apresentaram 
crescimento econômico durante anos, porém grande parte da socieda‐
de não tinha acesso a serviços básicos como educação e saúde. 

Começou a se perceber os limites de se compreender o desenvolvimen‐
to  unicamente  observando  o  progresso  material  e  o  crescimento  eco‐
nômico dos países. Entretanto, para o cientista social Ignacy Sachs, não 
se pode menosprezar o papel do crescimento econômico, que continua 
sendo importante. 

Sachs,  que  fundou,  na  França,  um  Centro  de  Estudos  sobre  o  Brasil, 
afirma em seu livro, Desenvolvimento: includente, sustentável, sustentado, 
que os aspectos econômicos do desenvolvimento são muito relevantes, 
tais  como  a  possibilidade  das  pessoas  terem  um  trabalho  digno,  de 
possuírem  renda  para  viver  com  dignidade,  bem  como  de  obterem 
acesso a bens materiais de consumo e habitação. Contudo, Sachs2 mos‐
tra que analisar apenas a dimensão econômica é insuficiente para per‐
cebermos o desenvolvimento. Para ele, é absolutamente necessário que 
o desenvolvimento inclua as dimensões social e ambiental. Esse autor 
nos adverte que o crescimento, mesmo que seja acelerado, não é sinô‐
nimo  de  desenvolvimento  se  ele  não  amplia  o  número  de  vagas  de 
trabalho, se não reduz a pobreza ou ainda diminui as desigualdades. 

Na  realidade,  Sachs3  afirma  que  o  crescimento  econômico  pode  até 


mesmo  alimentar  um  “mau  desenvolvimento”.  Isso  pode  acontecer 
quando um país possui um nível de crescimento da economia em que 
só uma parte da população obtém acesso às benesses materiais e cultu‐
rais.  Isso  seria  um  “mau  desenvolvimento”,  pois  as  desigualdades 
sociais aumentariam nesse processo, o que poderia gerar outras formas 
de exclusão social, tais como o desemprego e a pobreza. 

Por essas razões, Sachs4 nos apresenta uma diretriz muito lúcida sobre 
como compreender o desenvolvimento. Para ele, o desenvolvimento: 

(... )” é um processo em que duas vertentes devem ser compatibilizadas: em nível 
ECONÔMICO,  trata‐se  de  diversificar  e  complexificar as  estruturas  produtivas, 
logrando,  ao  mesmo  tempo,  incrementos  significativos  e  contínuos  de 
produtividade de trabalho, base do aumento do bem‐estar; em nível SOCIAL, deve‐
se, ao contrário, promover a homogeneização da sociedade, reduzindo as distâncias 
abismais que separam as diferentes camadas da população.” 
 

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Cabe fazermos alguns esclarecimentos quanto à frase de Sachs exposta 
anteriormente. Primeiro, ela chama a atenção para a dimensão produ‐
tiva, que deve ser expandida com acréscimos contínuos. Aqui é preciso 
que nos lembremos de uma ideia interessante do autor: não basta que 
a economia cresça em um período e volte a se retrair no ano seguinte; é 
necessário que o desenvolvimento seja economicamente sustentado ao 
longo do tempo. 

Um segundo aspecto a se sublinhar é que promover a homogeneização 
da  sociedade  não  significa  dissolver  as  diferenças  culturais,  mas  tão 
somente  diminuir  as  disparidades  sociais,  isto  é,  as  diferenças  econô‐
micas que separam grupos ou classes sociais. 

Para além de uma perspectiva economicista e substantiva, o desenvol‐
vimento nos incita a um ponto de vista fundado no humano e na ética, 
na  conjugação  necessária  (e  difícil,  muitas  vezes)  entre  as  dimensões 
social, econômica, cultural, política e ambiental. Em um artigo, Veiga5 
afirma  que  o  desenvolvimento  é  “um  processo  sistêmico  mediante  o 
qual  uma  economia  consegue  simultaneamente  crescer,  reduzir  desi‐
gualdades sociais e preservar o meio ambiente”. 

Entretanto,  essa  afirmação  de  Veiga  ainda  nos  coloca  no  campo  da 
economia,  ou  seja,  a  preocupação  com  a  economia  e  seus  efeitos  na 
sociedade e  no  meio  ambiente.  Apesar  de  serem  extremamente  valio‐
sas  as  definições  de  desenvolvimento  propostas  por  Sachs  e  Veiga,  o 
desenvolvimento  também  pode  ser  entendido  como  a  expansão  das 
liberdades  pessoais  e  das  capacidades  humanas  (é  importante  frisar 
essa  afirmação,  pois  nenhum  autor  possui  um  conceito  definitivo), 
como  prefere  o  economista  indiano  e  ganhador  do  prêmio  Nobel, 
Amartya Sen. As contribuições de Sen para uma compreensão renova‐
da do desenvolvimento serão apresentadas especialmente no capítulo 
6.  Por enquanto, apenas recuperaremos essa definição geral de desen‐
volvimento que o autor propõe. 

Mais recentemente, Veiga6 tem sido influenciado de forma significativa 
por  Sen,  pois  propõe  uma  perspectiva  sobre  o  desenvolvimento  bas‐
tante  rica:  “o  desenvolvimento  tem  a  ver,  primeiro  e  acima  de  tudo, 
com a possibilidade de as pessoas viverem o tipo de vida que escolhe‐
ram,  e  com  a  provisão  dos  instrumentos  e  das  oportunidades  para 
fazerem as suas escolhas”. 

E  a  sustentabilidade?  Voltaremos  ao  desenvolvimento  sustentável 


mais adiante. Por ora, vale ressaltar uma palavra que pode ter passado 
despercebida na afirmação de Sachs: desenvolvimento como um PRO‐
CESSO. 
 
 
16

1.2 Desenvolvimento como um processo, não como um


estado
É muito comum encontrarmos discursos a respeito de que o desenvol‐
vimento  é  um  estado  a  que  todos  (pessoas,  grupos,  regiões  e  países) 
devem  chegar.  Essa  concepção  errônea  de  desenvolvimento  compre‐
ende que existem etapas pelas quais todos devem passar, além de um 
momento  conclusivo  em  que  se  poderia  considerar  definitivamente 
algo como desenvolvido. 

Porém,  diversos  pesquisadores  nas  áreas  das  ciências  sociais  e  das 


ciências  econômicas  têm  advertido  que  o  desenvolvimento  é  muito 
antes  um  processo  do  que  um  estado.  Sobre  esse  aspecto,  Veiga  nos 
apresenta  o  pensamento  de  um  dos  maiores  intelectuais  brasileiros: 
Celso  Furtado.  Para  Furtado,  citado  por  Veiga7,  o  desenvolvimento 
deve ser compreendido como um processo de transformação da socie‐
dade,  não  só  em  relação  aos  meios,  mas  em  relação  aos  fins,  o  que 
implica  uma  visão  qualitativa  e  valorativa  do  desenvolvimento,  em 
detrimento de uma visão material e econômica do tema. E Veiga insis‐
te  nesse  ponto,  pois,  na  sua  concepção,  o  desenvolvimento  deve  ser 
visto como uma mudança qualitativa significativa. O desenvolvimento 
não  é  uma  “coleção  de  coisas”  –  fábricas,  barragens,  escolas,  tratores, 
rodovias e outras –; por isso, ele não é um estado. É preciso salientar, 
entretanto, que essa coleção de coisas pode auxiliar no desenvolvimen‐
to, mas não significa que todos os lugares devam ter as mesmas coisas. 
O significado que o termo desenvolvimento pode ter para as populações 
da Amazônia difere do que vem a ser desenvolvimento para regiões do 
Nordeste brasileiro ou para o Rio de Janeiro. Veiga8 é bastante claro ao 
afirmar que o crescimento pode implicar mudanças quantitativas, mas 
o desenvolvimento implica mudanças qualitativas.  

Por isso, Veiga afirma que criar a expectativa de que certos espaços se 
tornarão desenvolvidos por simplesmente “importarem” ou implanta‐
rem  esse  conjunto  de  bens  e  infraestruturas  é  falso.  Elas  podem  vir, 
porém  o  que  importa  realmente  é  o  processo.  E  o  “processo  exige”, 
como afirma Veiga9, “[...] pessoas criativas; e pessoas com criatividade 
e vontade de construir mudanças existem até mesmo nos lugares mais 
inesperados”. 

Outros  estudiosos  e  pesquisadores  também  apresentam  raciocínio 


semelhante. Zander Navarro10, cujos estudos incluem tanto o tema do 
desenvolvimento  rural  como  da  participação  política,  afirma  que  o 
desenvolvimento é uma ação que induz mudanças. Sergio Schneider11, 
sociólogo  que  se  dedica  também  ao  tema  do  desenvolvimento  rural, 
 

17
explicita que o desenvolvimento tem expressiva relação com processos 
que  visam  gerar  mudanças.  Assim,  embora  possa  existir  um  núcleo 
comum  e  compartilhado  entre  diferentes  pesquisadores  de  que  o  de‐
senvolvimento geralmente implica melhorias nas rendas, na qualidade 
de vida e do ambiente, no modo de participação política e no acesso à 
cultura, está no caráter processual uma de suas características‐chave. 

1.3 O desenvolvimento e suas raízes sociais, culturais,


políticas, econômicas e ambientais
As características sociais, culturais, políticas, econômicas e ambientais 
de um país ou de uma região são essenciais para a compreensão do seu 
desenvolvimento. Desse modo, fica mais evidente o motivo pelo qual o 
desenvolvimento é considerado um processo que visa mudanças. Efe‐
tivamente,  nenhum  país  ou  região  pode imitar  o  desenvolvimento  de 
outro, uma vez que as características internas de cada país são diferen‐
tes, conduzindo cada um, dessa forma, a trajetórias diferentes. 

Já  nos  anos  1960,  Furtado  era  enfático  em  afirmar  que  os  países  da 
América Latina não deveriam tomar o modelo de desenvolvimento da 
América do Norte ou da Europa como algo a ser reproduzido na sua 
integralidade.  Na  realidade,  esses  modelos  eram  perniciosos,  pois 
geravam uma dependência extrema dos países da América do Sul em 
relação  às  nações  americana  e  europeia.  No  capítulo  3,  aprofundare‐
mos o pensamento de Furtado. Agora, veremos os processos de desen‐
volvimento em suas raízes e o que podemos apreender por meio delas.  

A  cultura  sempre  foi  vista  com  alguma  suspeita  pelos  estudiosos  do 
desenvolvimento.  Muitos  ainda  pensam  que  considerar  o  seu  papel 
nos processos sociais pode levar a uma visão de que certos povos estão 
destinados  a  viverem  na  pobreza  e  na  miséria  social,  como  nos  fala 
Guy  Hermet.  O  autor12  mostra  que  essa  desconfiança  a  respeito  do 
lugar da cultura se confunde  com o CULTURALISMO, no qual todas 
as explicações sobre uma sociedade são determinadas pela cultura. Na 
realidade,  como  nos  fala  Hermet,  desenvolvimento  e  cultura  estão 
intimamente  ligados.  Mas  isso  ocorre  em  uma  perspectiva  positiva, 
pois  sugere  que  devemos  refletir  sobre  a  diversidade  do  desenvolvi‐
mento  ou  mesmo  sobre  uma  diversidade  de  rotas  para  o  desenvolvi‐
mento, como aposta Schneider13. 

O  mesmo  vale  para  as  características  sociais,  econômicas,  políticas  e 


ambientais. De nada vale a criação de um projeto de desenvolvimento 
que não tenha nenhuma relação com o local, pois ele será vazio e sem 
sentido para as pessoas que dele devem participar. Por isso, o processo 
 
 
18
de desenvolvimento deve ser pensado em conexão com o local, gesta‐
do de modo que faça sentido para as pessoas, isto é, em concomitância 
com as características particulares da sociedade. 

Do ponto de vista ambiental, se o que foi exposto anteriormente não é 
determinante,  é,  ao  menos,  bastante  influente.  O  ambiente  não  é  de‐
terminante  no  sentido  de  que  regiões  com  características  similares 
muitas vezes apresentam maneiras de se desenvolver muito diferentes; 
e, da mesma forma, regiões distintas podem ter iniciativas muito pare‐
cidas, como, por exemplo, na produção de vinhos na Serra gaúcha e no 
Vale  do  Rio  São  Francisco,  produção  esta  que  tem  se  mostrado  tão 
importante  para  essas  regiões  consideravelmente  distantes  entre  si. 
Mas o ambiente tem sua parcela de influência, pois ele dará as condi‐
ções iniciais para se decidir quais caminhos o desenvolvimento poderá 
tomar. 

Obviamente,  considerar  que  o  desenvolvimento  deve  ser  pensado 


como  um  processo  que  possui  raízes  sociais,  históricas,  ambientais  e 
culturais  não  significa  negar  experiências  positivas  de  outras  regiões 
ou  países  que  podem  ser  úteis  como  pontos  de  reflexão.  Entretanto, 
mais do que tentar copiar os modelos que são exteriores, os processos 
locais  de  desenvolvimento  precisam  filtrar  e  selecionar  os  elementos 
centrais com vistas a sua própria experiência. 

1.4 Desenvolvimento e ação


Essa postura descrita permite perceber que o desenvolvimento necessi‐
ta de uma postura pró‐ativa por parte das pessoas. O Estado é um ente 
fundamental para o desenvolvimento, no entanto, limitar a capacidade 
de ação e escolha das pessoas é danoso. Sen14 defende a ideia de que o 
desenvolvimento  pode  ser  visto  como  um  processo  de  expansão  das 
liberdades reais de que as pessoas desfrutam e explica que a realização 
do desenvolvimento depende da condição de agente dos indivíduos.  

Assim,  as  políticas  de  desenvolvimento  que  partem  do  Estado  são 
essenciais, se interagem com os desejos e expectativas das pessoas, que 
são  alvo  dessas  mesmas  políticas.  Aqui  é  preciso  entender  que,  em 
certas  situações,  os  sujeitos  podem  ser  privados  de  tal  maneira  em 
relação às condições mínimas de existência (saúde, educação, trabalho 
e  rendimentos),  que  é  muito  difícil  estes  terem  capacidade  de  empre‐
enderem  projetos  por  si  sós.  Assim,  tornam‐se  cruciais  os  programas 
estatais  ou  coordenados  por  Organizações  Não  Governamentais 
(ONGs).  Porém,  mesmo  as  pessoas  que  estão  em  condições  mais  gra‐
ves  de  miséria  e  vulnerabilidade  são  capazes  de  compreender  sua 
situação e de realizarem escolhas. 
 

19
Recentemente, gestores de políticas públicas têm se dado conta de que 
as políticas de desenvolvimento estilo top‐down (que em inglês significa 
“de  cima  para  baixo”)  possuem  alta  probabilidade  de  falharem  em 
seus objetivos. Muitas vezes, essas propostas ou programas de desen‐
volvimento eram desenhados e gestados por grupos que não possuíam 
o  mínimo  conhecimento  dos  lugares  em  que  eles seriam implementa‐
dos. 

Todavia,  essa  maneira  de  pensar  o  desenvolvimento  vem  perdendo 


sua força e abrindo espaço para as iniciativas conhecidas como bottom‐
up (que na língua inglesa significa “de baixo para cima”). Isso equivale 
dizer que as macropolíticas pensadas pelos gestores têm muita valida‐
de, mas somente se possuírem sintonia com os desejos e perspectivas 
das pessoas para as quais elas serão destinadas.  Por essa razão, o de‐
senvolvimento  não  pode  ser  pensado  como  algo  que  somente  as  pes‐
soas  organizadas  pudessem  levar  adiante,  o  que  equivaleria  a  um 
voluntarismo  sem  recursos  humanos  e  materiais  para  efetivar  as  mu‐
danças  aspiradas.  Os  processos  de  desenvolvimento  são  melhor  colo‐
cados em prática se houver um “bom casamento” das ações do Estado, 
das ONGs e das próprias pessoas. A palavra‐chave para isso é partici‐
pação. 

1.5 Desenvolvimento e participação


Sachs  adverte  que  uma  das  armadilhas  do  crescimento  econômico 
excludente  é  a  fraca  participação  política  de  uma  grande  parcela  da 
população.  Muitos  autores  já  demonstraram  a  força  simbólica  que 
exerceu o populismo na América Latina, cujo fundamento era ludibriar 
a  maior  parte  dos  contingentes  populacionais,  fazendo‐os  crer  que 
participavam  ativamente  da  vida  política  da  nação,  quando,  na  reali‐
dade,  estes  não  passavam  de  uma  massa  governada  pelas  elites  que 
visavam preservar seus próprios privilégios, em detrimento da coleti‐
vidade. 

Na proposta de Sachs15 em relação ao conceito de desenvolvimento, o 
autor  inclui  necessariamente  os  direitos  civis,  cívicos  e  políticos:  “A 
democracia  é  um  valor  verdadeiramente  fundamental  e  garante  tam‐
bém a transparência e a responsabilização necessárias ao funcionamen‐
to  dos  processos  de  desenvolvimento”.  E  Veiga16  completa  essa  ideia, 
afirmando  que  enquanto  os  pobres  e  marginalizados  não  tiverem  a 
capacidade de influenciar as decisões políticas em âmbito local e naci‐
onal,  é  provável  que  não  obtenham  vagas  no  mercado  de  trabalho  e 
benefícios básicos, como saúde, educação e segurança. 
 
 
20
Mais recentemente, podemos verificar uma compreensão, impulsiona‐
da pelas diferentes formas de participação, das transformações por que 
têm passado os atores sociais e políticos. A democracia apenas se forta‐
lece  quando  os  cidadãos  percebem  que  devem  sair  de  um  estado  de 
passividade  em  relação  à  política,  assumindo  atitudes  mais  ativas  de 
participação,  independentemente  de  quaisquer  que  sejam  os  âmbitos 
(nas  questões  comunitárias,  no  planejamento  regional,  nas  dimensões 
que envolvem a economia, a cultura ou o meio ambiente). 

Tal como argumentado anteriormente, o planejamento do Estado para 
o desenvolvimento é uma ferramenta essencial. Mas Sachs sugere que 
o planejamento nacional deve surgir gradualmente por meio do diálo‐
go  a  ser  conduzido  entre  todos  os  atores  do  processo  de  desenvolvi‐
mento, tanto no nível local como no nacional. 

1.6 Desenvolvimento e ética


Em  um  ensaio  publicado  após  a  realização  do  seminário  Novos  para‐
digmas do desenvolvimento, em São Paulo, os professores Glauco Arbix e 
Mauro  Zilbovicius  fazem  questão  de  reconhecer  que  uma  das  marcas 
mais  fortes  das  políticas  públicas  contemporâneas  é  o  seu  espírito 
utilitarista. O mais saliente, dizem os autores, é que grande parte des‐
sas  políticas  públicas  é  feita  por  pessoas  que  reduzem  a  sociedade  a 
um  conjunto  de  números  e  se  recusam  a  pensar  naquilo  que  não  po‐
dem  ver.  Essa  mesma  economia,  concluem  Glauco  Arbix  e  Mauro 
Zilbovicius17,  citando  a  obra  de  Sen,  “desdenha  sistematicamente  al‐
gumas  preocupações  básicas  de  seres  humanos  e  cidadãos  em  uma 
sociedade moderna”. 

Sachs18 também se apoia em Sen para mostrar que houve um distanci‐
amento  paulatino  entre  a  economia  e  a  ética,  cuja  ligação  data  dos 
textos clássicos de Aristóteles. Sachs afirma que esse vínculo é central, 
pois traz à cena o problema da motivação humana (como deveríamos 
viver?) e a avaliação das conquistas sociais. 

Para além da ideia de crescimento econômico, a noção de desenvolvi‐
mento  pode  colocar  novamente  a  preocupação  com  a  ética  no  centro 
do debate. Isso porque, como já afirmamos, o desenvolvimento não se 
reduz à mera “multiplicação da riqueza material”. A ética diz respeito 
a refletir e agir em relação às desigualdades sociais e à pobreza.  

Existem  proposições  que  afirmam  vivamente  que  o  crescimento  eco‐


nômico  é  a  única  maneira  das  classes  menos  favorecidas  desfrutarem 
das benesses do desenvolvimento, demonstra Veiga. Essas proposições 
são realmente surpreendentes, pois não admitem qualquer hipótese de 
 

21
distribuição  de  renda  que  venham  a  promover  um  processo  de  dimi‐
nuição das desigualdades: os ricos teriam que ficar mais ricos para os 
pobres  ficarem  menos  pobres!    Conclui  Veiga19  que  uma  reaproxima‐
ção entre a economia, a política e a ética faz‐se muito necessária, pois a 
postura ética implica pensar no outro, assim como refletir sobre o de‐
senvolvimento  também  impõe  pensar  no  outro.  E  esse  preceito  deve 
ser  ampliado  em  toda  a  sua  magnitude,  à  medida  que  o  processo  de 
desenvolvimento  seja  formulado  com  foco  na  capacidade  de  atuação 
dos atores sociais, na possibilidade de participação das camadas popu‐
lares,  na inclusão  do  outro. Para  Veiga20,  Sachs  é  um  dos autores  que 
melhor pontua o rol de requisitos para que a ética e o desenvolvimento 
sejam conjugados, pois ele 

(...)  “está  cada  vez  mais  convicto  que  o  desenvolvimento  pode  permitir  que  cada 
indivíduo  revele  suas  capacidades,  seus  talentos  e  sua  imaginação  na  busca  da 
autorealização  e  da  felicidade,  mediante  esforços  coletivos  e  individuais  [...] 
Maneiras  viáveis  de  produzir  meios  de  vida  não  podem  depender  de  esforços 
excessivos  e  extenuantes  por  parte  de  seus  produtores,  de  empregos  mal 
remunerados  exercidos  em  condições  insalubres,  da  prestação  inadequada  de 
serviços públicos e de padrões inadequados de moradia”. 

Embora  Sachs  considere  que  o  trabalho  e  a  economia  sejam  cruciais 


para  atingir  um  desenvolvimento  com  liberdade,  observa‐se  que  sua 
proposta  possui  sintonia  com  as  ideias  de  Sen  e  Veiga,  isto  é,  ela  se 
assenta na aposta por uma visão aberta e ampla do desenvolvimento, 
que  inclua  as  capacidades  de  escolha,  a  liberdade  de  imaginação,  a 
concretização dos talentos, em suma, a possibilidade de uma vida mais 
feliz. 

Ponto final
Vimos até aqui que, para ultrapassar uma visão economicista, é neces‐
sário não aceitarmos a afirmação de que o desenvolvimento possa ser 
sinônimo de crescimento econômico. Embora o crescimento econômico e 
o  progresso  material  possam  trazer  benefícios  para  uma  sociedade, 
eles  não  são  suficientes  se  não  houver,  juntamente  a  estes,  um  com‐
promisso  social  e  ambiental. É  o  que  Veiga reitera,  quando  busca  nas 
análises  de  Furtado  a  confirmação  de  que  o  projeto  social  subjacente 
demonstra ser uma característica crucial para o desenvolvimento. 

Vimos  ainda  que  o  desenvolvimento  possui  raízes  sociais,  culturais, 


econômicas, políticas e ambientais que não podem ser anuladas. Signi‐
fica  reconhecer  que  o  desenvolvimento  sempre  possuirá  os  matizes  e 
as  características  particulares  dos  locais  onde  emerge,  e  será  um  pro‐
cesso  de  mudanças  eminentemente  qualitativas.  Além  disso,  o  desen‐
 
 
22
volvimento nos designa a tarefa de pensar as relações sociais e políti‐
cas, uma vez que ele não existe se não atribuirmos às pessoas a capaci‐
dade  de  mudar  e  escolher  seu  futuro,  tampouco  se  não  houver  um 
projeto  participativo  que  possua  relevância  em  uma  dada  sociedade. 
Por  último,  e  não  menos  importante,  o  desenvolvimento  enseja  uma 
postura ética, que priorize o diálogo e o bem‐estar, a preocupação com 
o outro, a autorrealização e a felicidade. 

Nos próximos capítulos, alguns desses temas serão aprofundados. De 
modo  geral,  serão  recuperados  a  história  e  o  modo  como  o  debate 
sobre o desenvolvimento e a sustentabilidade foi conduzido até hoje. 

Atividades
1) Realize  uma  enquete  com  pessoas  nas  ruas  utilizando  a  seguinte 
pergunta: “O que significa desenvolvimento para você?”. Procure 
entrevistar  pessoas  com  características  distintas  (idade,  gênero, 
profissão,  classe  social,  escolaridade).  Perceba  as  diferentes  res‐
postas, compare com os tópicos apresentados neste capítulo e re‐
flita a respeito. 
 
2) Por que motivo as raízes sociais, culturais, econômicas, políticas e 
ambientais do desenvolvimento são tão importantes para explicá‐
lo? Faça uma reflexão com base no item 1.3, deste capítulo. 
 
3) Qual  a  razão  para  a  ética  voltar  ao  centro  do  debate  sobre  o  de‐
senvolvimento? 
 
 

2 O PÓS-GUERRA E AS TEORIAS
DO DESENVOLVIMENTO

Guilherme Francisco Waterloo Radomsky

As  teorias  do  desenvolvimento  têm  seu  surgimento  localizado  no 


tempo. Foi depois da 2ª Guerra Mundial que o debate sobre as possibi‐
lidades  de  desenvolvimento  dos  países  ditos  atrasados  ganhou  fôlego. 
Elas acompanharam um conjunto de medidas estatais para que o cres‐
cimento econômico daqueles fosse impulsionado. Na realidade, pode‐
se  afirmar  que  as  ciências  sociais  contribuíram  tanto  para  a  análise 
dessas iniciativas governamentais como para a própria fundamentação 
das políticas econômicas.  

Neste  capítulo,  serão  apresentados  os  principais  fatos  históricos  que 


cercaram o momento em que o desenvolvimento começou a ser discu‐
tido, bem como as teorias mais relevantes do pós‐guerra. 

2.1 O contexto do pós-guerra


Com  o  fim  da 2ª  Guerra  Mundial,  inicia‐se um  processo de  recupera‐
ção da Europa, que dura cerca de dez anos. Nesse período, os investi‐
mentos  econômicos  (contribuições  oferecidas  pelos  Estados  Unidos  e 
pela União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, URSS) serviram para 
dinamizar  as  nações  europeias,  entre  as  quais  muitas  haviam  sido 
destruídas  durante  o  conflito.  Após  1955,  o  capitalismo  já  vivia  sua 
“época  de  ouro”  e  os  aumentos  nos  padrões  de  vida  das  populações 
dos países da Europa, dos Estados Unidos e do Japão passaram a ser‐
vir de modelo para aqueles países que estavam aquém dele (na Améri‐
ca  Latina,  África  e  parte  da  Ásia).  Segundo  o  professor  de  economia 
Nali de Souza1, os governos latino‐americanos desejavam que os EUA 
estendessem o plano de desenvolvimento primeiramente implementa‐
do na Europa para a América Latina, o que significaria, segundo Her‐
met2, uma reorientação da política norte‐americana preocupada com a 
Guerra  Fria  e  em  trazer,  por  meio  da  “arma  econômica”,  os  povos 
“deserdados” para o seu lado. 
 
 
24
Os países centrais apresentavam crescimento dos índices de empregos, 
da  renda  per  capita  e  dos  padrões  de  consumo.  Para  os  processos  de 
desenvolvimento  dessas  nações,  o  Estado  desempenhava  um  papel 
crucial,  pois  dele  vinham  investimentos  fundamentais  (infraestrutura, 
energia) e financiamento de diversas atividades econômicas. É preciso 
recordar  que  o  sistema  fordista  de  produção  é,  nesse  momento,  um 
mote para toda a economia: o processo de acumulação de capital leva‐
do a cabo pelos países centrais tinha como condição tanto a produção 
dos meios de produção (máquinas) como a produção de bens de con‐
sumo para os indivíduos e para as famílias. Para tanto, os salários não 
poderiam ser tão baixos, o que inviabilizaria, dessa forma, o consumo 
que alimentava a economia como um todo, mas não poderiam, igual‐
mente, ser tão altos a ponto de tornar oneroso o processo de produção 
para os empresários. 

Uma  das  condições  fundamentais  para  equilibrar  essa  dinâmica  foi  a 


manutenção  dos  preços  dos  alimentos,  que  permitia  que  os  salários 
dos  operários  e  trabalhadores  urbanos  fossem  gastos  em  produtos 
manufaturados e serviços. Isso somente foi possível porque os agricul‐
tores  modernizaram  seus  processos  produtivos,  por  estímulos  exter‐
nos, e os custos da produção tenderam a cair, posto que o Estado asse‐
gurou  aos  produtores  do  campo  a  obtenção  de  crédito  e  aumento  do 
capital mobilizado em benfeitorias e máquinas. 

Para Ricardo Abramovay3, professor da USP, o fordismo caracteriza‐se 
por  uma  articulação  entre  o PROCESSO  DE PRODUÇÃO  e  o  MODO 
DE CONSUMO da sociedade. Para esse fenômeno ocorrer, foi essenci‐
al a criação de uma “massa” de consumidores e uma situação geral de 
assalariamento  nas  sociedades.  David  Harvey4,  pesquisador  norte‐
americano  contemporâneo,  atenta  para  o  fato  de  que  o  fordismo  pre‐
sumia  o  crescimento  econômico constante, pois  a  produção  industrial 
era sólida, com alta produção e produtividade, além de acumulação de 
estoques. 

Esse  período  também  marca  a  criação  das  agências  multilaterais  e  do 


Acordo  Geral  das  Tarifas  Aduaneiras  e  Comércio  (o  GATT,  que,  em 
1994,  passou  para  o  âmbito  da  Organização  Mundial  do  Comércio, 
OMC).  O  Banco  Mundial  e  o  Fundo  Monetário  Internacional  (FMI) 
foram criados em 1944, enquanto a ONU foi criada em 1945. O Banco 
Interamericano  de  Desenvolvimento  (BID)  é  fundado  um  pouco  mais 
tarde,  mas  ainda  no  período  aqui  analisado,  mais  precisamente  em 
1959,  sendo  estabelecido  com  o  objetivo  de  auxiliar  na  reconstrução 
dos países da Europa pós‐guerra. Com o passar do tempo, seu foco de 
ação passou a ser o provimento de assistência financeira e técnica para 
 

25
países  em  desenvolvimento  –  e,  hoje,  a  principal  razão  para  o  BID 
existir  consiste  na  concepção  de  subsídios  para  a  redução  da  pobreza 
nessas nações. 

A criação das agências multilaterais no pós‐guerra não foi por acaso. É 
nesse período que as disparidades entre os países da América do Nor‐
te, Europa e Japão aumentam consideravelmente em relação às nações 
da  América Latina,  África  e parte  da  Ásia. É  evidente  que,  de  acordo 
com Hermet5, se observou, na época, uma clara política mundial lide‐
rada no bloco capitalista pelos Estados Unidos, que tinham a intenção 
de favorecer a implantação do modelo de crescimento da América do 
Norte  e  da  Europa  –  quando  estes  estavam  em  suas  fases  iniciais  de 
industrialização nos moldes fordistas – na América Latina. 

A  ideologia  do  progresso  é  a  característica  básica  que  moverá  gover‐


nantes  e  formuladores  de  políticas  públicas  nos  países  considerados 
subdesenvolvidosa.  O  paradigma  produtivista  se  tornou  uma  fórmula 
que nortearia o desenvolvimento, visto nessa época como sinônimo de 
crescimento econômico. 

2.2 O desenvolvimentismo, o paradigma produtivista


e a “Revolução Verde”
Vimos que o fordismo foi a força motriz do desenvolvimento industri‐
al, depois de 1945, nos países do hemisfério norte. É muito importante 
perceber  que,  nesse  período  após  a  2ª  Guerra,  o  ideário  do  desenvol‐
vimento  para  as  nações  “atrasadas”  aliou‐se  a  ideia  de  crescimento 
econômico – dessa junção surge o desenvolvimentismo.  

O  desenvolvimentismo  se  caracteriza  como  uma  política  econômica 


cuja ênfase recai no crescimento industrial, na ampliação da infraestru‐
tura  e  no  aumento  do  consumo,  com  a  participação  ativa  do  Estado. 
Mas  ele  não  pode  ser  entendido  apenas  como  política  econômica  – 
conforme  Hermet,  o  desenvolvimentismo  baseia‐se  em  diagnósticos 
realizados  nos  países  ditos  subdesenvolvidos,  nos  quais  os  resíduos  de 
uma sociedade arcaica seriam passíveis de um processo de moderniza‐
ção social e cultural a ser comandada pelas elites, o qual não se limita‐
ria ao aparato da produção. 

                                                                  
a Guy Hermet (2002, p. 33) escreve que o conceito de subdesenvolvimento surge pela primeira vez no 

discurso sobre o estado da União , pronunciado por Harry Truman (ex‐presidentre dos EUA), em 1949. O 
discurso apelava para a obtenção de esforços em favorecer o crescimento econômico e a melhoria das 
condições de vida de regiões “subdesenvolvidas”. Os termos subdesenvolvido e subdesenvolvimento serão 
utilizados aqui conforme os autores analisados os empregaram. 

 
 
 
26
O  desenvolvimentismo  teve  seu  auge  nos  anos  1950  e  1960,  tendo  o 
Estado  um  papel  central,  sendo  este  comandado  por  elites  políticas  e 
econômicas  que  desdenhavam  a  participação  social.  Hermet6  afirma 
que a insistência na industrialização assegurava que o desenvolvimen‐
to não se faria apenas pela substituição das importações, mas também 
por  uma  expansão  crescente  da  indústria  −  um  aparelho  complexo, 
completo  e  de  desenvolvimento  vertical,  que  geraria  a  transformação 
das condições de vida da população, requisito básico para a democra‐
cia.  Não  são  necessários  muitos  argumentos  para  verificar  como  essa 
pretensão era falaciosa e veio a consolidar um modelo de desenvolvi‐
mento excludente e deficitário, elemento para o qual voltaremos mais 
adiante. 

A  produção  industrial  em  larga  escala  viabilizada  pelo  consumo  em 


massa acabou por repercutir na produção agrícola, que também pode‐
ria  passar  por  um  processo  de  otimização.  A  chamada  revolução  verde 
consistiu inicialmente em um programa criado pela Fundação Rockfel‐
ler dos Estados Unidos, entre os anos 1943 e 1965, conforme nos apon‐
ta  Marcelo  Conterato,  professor  da  Universidade  Federal  de  Pelotas 
(UFPel).  Segundo  Conterato7,  essa  foi  a  fase  pioneira  da  revolução, 
primeiramente  conduzida  no  México,  posteriormente  ampliada  e  que 
possuía como objetivo “contribuir para o aumento da produção e pro‐
dutividade  agrícola  do  mundo  através  de  experiências  [...]  no  campo 
da genética”. Baseada na produção de sementes melhoradas e tecnolo‐
gias  modernas  para  a  agropecuária,  a  “revolução  verde”,  já  nos  anos 
de  1950,  tornou‐se  um  receituário  para  os  países  do  terceiro  mundo 
obterem  melhorias  significativas  nos  sistemas  de  produção  agrícola, 
via  adoção  do  uso  intensivo  de  químicos  e  de  equipamentos  mecâni‐
cos. 

O interessante é compreender que havia um discurso (ainda presente, 
mas menos pujante) de que a produção agrícola moderna erradicaria a 
fome no mundo. Por esse motivo, o paradigma produtivista foi central 
na “sedução” promovida por esse ideário de progresso tecnológico. Na 
realidade,  não  é  difícil  perceber  que  a  disponibilização    dos  pacotes 
tecnológicos concernentes à “revolução verde” para agricultores aten‐
deu  a  interesses  de  mercado  das  grandes  indústrias  produtoras  de 
fertilizantes, pesticidas e máquinas de trabalho agrícola. 

Conforme  Navarro8,  a  “revolução  verde”,  administrada  pela  introdu‐


ção  dos  pacotes  tecnológicos  na  agricultura,  “rompeu  radicalmente 
com o passado por integrar fortemente as famílias rurais a novas for‐
mas  de  racionalidade  produtiva  [...]  quebrando  a  relativa  autonomia 
que em outros tempos a agricultura teria experimentado”. Com o novo 
 

27
padrão  de  produção  agrícola  moderno,  as diversas  regiões  rurais  que 
vieram a aplicar o modelo de desenvolvimento de ímpeto modernizan‐
te e produtivista subordinaram‐se a interesses majoritariamente urba‐
nos. 

2.3 Teorias do desenvolvimento no pós-guerra


O tema do desenvolvimento alçou a um campo de singularidade histó‐
rica  nos  anos  1950,  como  afirma  Navarro.  Ele  se  tornou  uma  ideia‐
força  capaz  de  mobilizar  atores  sociais  diversos,  orientar  políticas, 
fundamentar  debates  intelectuais  e  constituir  elementos  para  a  mu‐
dança  social,  sobretudo  de  grupos  sociais  “interessados”  nas  mudan‐
ças. Conduzido por uma intenção de transformação social, econômica 
e  cultural  vigorosa  e  por  uma  esperança  de  romper  com  um  passado 
considerado  pré‐moderno  nos  países  pouco  desenvolvidos,  Navarro9 
afirma que o lema em voga, naquele momento, era o da possibilidade 
de  desenvolvimento  para  todos.  Um  conjunto  de  teorias  foi  forjado  e 
criou  qualificativos  aos  países:  os  desenvolvidos  e  os  subdesenvolvi‐
dos. Vejamos as principais teorias que embasaram o debate no período 
– a teoria da modernização, a teoria cepalina e a da dependência.  

Teoria da modernização

Esse paradigma teórico apoiou‐se fortemente na dicotomia tradicional‐
moderna,  seguindo  o  modelo  sociológico  das  variáveis‐padrão,  do 
sociólogo  norte‐americano  Talcott  Parsons.  Para  o  economista  chileno 
Cristóbal Kay10, esse paradigma estava impregnado, além do dualismo 
tradicional‐moderno, de uma visão etnocêntrica, pois tomava os países 
desenvolvidos como modelo para os países em desenvolvimento. Jorge 
Larrain,  professor  da  Universidade  de  Birmingham,  afirma  que  foi 
Hoselitz  quem  construiu  os  tipos‐ideais  “tradicional”  e  “moderno”, 
sendo fortemente influenciado pela leitura que Parsons fez dos textos 
clássicos de Max Weber. Jorge Larrain11 explica que, enquanto as soci‐
edades tradicionais possuíam uma estrutura social baseada na afetivi‐
dade,  na  difusão,  no  particularismo  e  na  orientação  para  interesses 
coletivos,  as  sociedades  modernas,  ao  contrário,  caracterizariam‐se 
pela  neutralidade  afetiva,  pela  especificidade,  pelo  universalismo  e 
pela orientação para os interesses privados. O desenvolvimento é per‐
cebido  como  a  mudança  de  um  estado  (tradicional)  para  outro  (mo‐
derno). 

Larrain  também  demonstra  que  algumas  vertentes  internas  da  teoria 


da modernização enfatizavam a natureza endógena da transformação, 
isto é, a capacidade que cada sociedade possui de mudar seus padrões, 
 
 
28
enquanto  outras  enfocavam  os  fatores  exógenos,  tais  como  a  difusão 
de valores, de tecnologia, de especialização e de formatos de organiza‐
ção  tipicamente  modernos.  Cristóbal  Kay12 corrobora  o  argumento  de 
Larrain, afirmando que os países ricos deveriam difundir conhecimen‐
tos, tecnologia e capital para os países pobres até que estes se conver‐
tessem em “variantes dos países do Norte”. 

Estava  implícito  nesse  paradigma  de  desenvolvimento  que  as  nações 


do  terceiro  mundo  deveriam  seguir  o  mesmo  caminho  trilhado  pelos 
países  desenvolvidos.  Walt  Rostowb,  economista  norte‐americano, 
citado  por  Larrain13,  acrescentou  a  versão  econômica  à  teoria  da  mo‐
dernização,  propondo  que  a  evolução  das  sociedades  se  daria  por 
etapas  de  crescimento  econômico,  argumentando  que  todas  as  socie‐
dades passariam pelas mesmas etapas e que, para os países subdesen‐
volvidos,  o  melhor  seria  que  estes  procurassem  refazer  o  caminho 
trilhado pelos países ricos. 

O  sociólogo  argentino  Gino  Germani  foi  o  intelectual  mais  destacado 


dessa  corrente  de  pensamento  na  América  Latina.  Tendo  como  ele‐
mento central de análise o conceito de marginalização, Germani, citado 
por  Kay14,  propôs  que  a  marginalidade  possuía  um  caráter  multidi‐
mensional. Nas sociedades não‐modernas, grande parte da população 
estaria inserida no subsistema produtivo (em situação de desemprego 
ou exercendo funções em empregos precários e pouco produtivos), no 
subsistema de consumo (acesso limitado a bens e serviços) e nos sub‐
sistemas  cultural  e  político.  A  marginalidade  surgiria,  de  acordo  com 
Germani,  nos  processos  de  transição  para  a  modernidade  −  algumas 
sociedades  ficam,  por  assim  dizer,  “para  trás”  no  processo  de  desen‐
volvimento,  haja  vista  que  as  mudanças  sociais  podem  desencadear 
uma falta de sincronismo entre os grupos que se transformam, geran‐
do, por consequência, o processo de marginalização. Para o sociólogo, 
a  modernização  conduziria  as  sociedades,  necessariamente,  de  um 
estado de indiferenciação relativa de instituições para um momento de 
diferenciação e especialização. 

A  própria  modernização  tinha  como  pano  de  fundo  uma  complexa 


transformação social, pois a passagem da sociedade tradicional para a 
sociedade moderna implicava que os sistemas sociais evoluíssem a tal 
ponto  que  obtivessem  diferenciação  funcional  (e  estrutural)  e  meca‐
nismos  de  integração.  Conforme  Henry  Bernstein15,  “a  diferenciação 

                                                                  
b Rostow argumentou que haveria cinco etapas: sociedade tradicional, pré‐condição para o 
desenvolvimento autossustentado , o caminho da maturidade e a era do elevado consumo de marcas. 

 
 

29
abrange complexa divisão social do trabalho e uma racionalidade que 
produz  inovação  e  crescimento”,  enquanto  a  integração  garante  a 
estabilidade social. 

O  conceito  de  marginalização  que  Germani  enfatizou  nos  seus  traba‐


lhos foi central para que os teóricos pudessem sustentar que as socie‐
dades  atrasadas  (sobretudo  as  latino‐americanas)  faltava  integração 
dos  diferentes  setores  e  grupos  sociais.  Enquanto  as  regiões  rurais 
eram,  quase  em  sua  totalidade,  “marginais”,  a  sociedade  global,  no 
mundo  urbano,  eram  os  trabalhadores  desempregados,  os  desqualifi‐
cados  ou  os  trabalhadores  em  ocupações  autônomas  que  possuíam 
esse rótulo. Kay16 também mostra que, de um certo modo, se usava a 
palavra marginal como sinônimo de pobreza. 

Tendo em vista esse tipo de diagnóstico que os autores realizavam, não 
é de se surpreender com os modelos produtivistas para a agricultura. 
A “revolução verde” foi defendida como a forma principal pela qual os 
grupos marginais poderiam acessar mercados e alçar patamares tecno‐
lógicos viáveis para o crescimento econômico. A ideia é que, sem uma 
integração social (promovida pelos mercados), as sociedades permane‐
ceriam  fraturadas,  com  setores  atrasados  e  outros  modernos,  e  esses 
mesmos grupos não‐modernos seriam responsabilizados pela inviabi‐
lização do desenvolvimento pleno das sociedades.  

As  críticas  às  teorias  da  modernização  são  diversas.  Larrain17  mostra 
que  é  um  erro  de  perspectiva  histórica  tratar  o  subdesenvolvimento 
como  uma  situação  pela  qual  todas  as  nações  passaram.  Outro  pro‐
blema comum é que essa teoria tende a assumir um caráter prescritivo 
geral,  em  vez  de  se  analisar  os  processos  particulares  históricos  das 
nações.  Na  sequência,  veremos  como  as  teorias  elaboradas  no  âmbito 
da  Comissão  Econômica  para  a  América  Latina  (Cepal)  se  contrapu‐
nham à teoria da modernização. 

A Cepal e o problema do desenvolvimento

Com  o  término  da  2ª  Guerra  Mundial,  as  Nações  Unidas  criaram  em 
1947  a  Cepal,  com  sede  em  Santiago,  capital  do  Chile.  Raúl  Prebisch, 
então presidente do Banco Central da Argentina, foi o pensador mais 
destacado  e  original  nas  primeiras  décadas  de  trabalho  da  Comissão, 
cujos  preceitos  tornaram‐se  uma  corrente  teórica  denominada  teoria 
cepalina.  Prebisch  questionou  fortemente  as  teorias  econômicas  em 
voga,  postulando  que  elas  não  podiam  servir  de  esquema  explicativo 
das sociedades e das economias periféricas. Além do já citado Prebisch, 
Hans Singer também prestou grandes contribuições a essa corrente de 
pensamento.  Celso  Furtado,  por  sua  vez,  é  tido  geralmente  como  um 
 
 
30
seguidor de diferentes teorias (as formuladas pela Cepal e a teoria da 
dependência). 

Aliás,  a  terminologia  utilizada  pelos  autores  da  Cepal  se  modifica 


radicalmente, comparada aos teóricos da modernização, pois não está 
mais  em  questão  considerar  as  sociedades  com  base  na  dicotomia 
tradicional‐moderna.  O  que  existe  no  sistema  econômico  mundial  é 
uma  estruturac  de  posições  que  os  países  ocupam,  sendo  que  alguns 
são “centrais” e outros são “periféricos”. Conforme Kay18, os principais 
temas  que  atraíram  a  atenção  dos  pesquisadores  da  Cepal,  naquele 
momento, foram as relações de comércio internacional, a industrializa‐
ção  na  América  Latina  por  meio  da  substituição  de  importações,  a 
inflação e o desenvolvimento rural. 

Souza19  mostra  que  uma  das  críticas  mais  expressivas  de  Prebisch  ao 
pensamento  econômico  ortodoxo  recaía  sobre  a  teoria  das  vantagens 
comparativas, de David Ricardo, um dos “pais” da ciência econômica 
clássica inglesa do séc. XVIII. Conforme David Ricardo, os países deve‐
riam se especializar naquilo em que apresentassem vantagens compa‐
rativas de custos. Por exemplo: enquanto a Inglaterra, nesse período, já 
possuía fábricas de produção têxtil e grandes criações de ovelhas para 
a obtenção de lã, Portugal era um ótimo produtor de vinho. Ora, para 
David  Ricardo,  a  equação  era  simples:  a  Inglaterra  exportaria  tecidos 
para  Portugal  e  os  portugueses  comercializariam  vinho  com  os  ingle‐
ses,  pois  ambos  teriam  vantagens  na  produção  de  seus  respectivos 
produtos.  Acontece  que  os  produtos  industrializados  ingleses  teriam 
preços  maiores,  uma  vez  que  a  incorporação  de  tecnologia  e  trabalho 
na  indústria  são  efetivamente  mais  intensos,  enquanto  os  produtos 
agroindustriais portugueses permaneceriam com preços menores. 

Prebisch  criticou  duramente  essa  teoria,  ainda  que  a  proposição  das 


vantagens  comparativas  mostrasse  que,  ao  longo  do  tempo,  poderia 
haver uma acumulação de capital por parte dos países exportadores de 
produtos  primários  e  que  essas  nações  poderiam  reinvesti‐lo  interna‐
mente. 

Prebisch, citado por Souza20, não aceitava essa proposta e mostrou que 
ocorreria, ao longo do tempo, uma deterioração dos termos da troca. O 
pesquisador analisou um ciclo longo de relações comerciais entre paí‐
ses desenvolvidos e subdesenvolvidos e observou que havia uma ten‐
dência de queda dos preços dos produtos primários frente aos preços 
dos produtos industriais. 

                                                                  
c  Por essa razão, Kay (2004) denomina o pensamento da Cepal como paradigma estruturalista. 
 

31
Kay21 escreve que os pensadores ligados à Cepal percebiam claramente 
que a especialização dos países periféricos em produtos agrícolas limi‐
tava  a  capacidade  de  crescimento  econômico,  uma  vez  que  este  de‐
pendia  das  exportações,  ou  seja,  das  trocas  no  mercado  internacional 
com os países centrais. Para Prebisch, citado por Kay22, era visível que 
os níveis de renda alcançavam patamares maiores nos países centrais, 
comparados aos acréscimos nos padrões de renda das nações periféri‐
cas. O fundamento desse fenômeno estava assentado na própria carac‐
terística  de  relações:  a divisão  internacional  da  produção e  do comér‐
cio, na qual os produtos primários eram majoritariamente produzidos 
pelos  países  subdesenvolvidos  e  os  produtos  industrializados  eram 
originários das nações desenvolvidas. 

Para  poder  mudar  essa  situação,  a  perspectiva  cepalina  dava  forte 


ênfase  ao  processo  de  substituição  de  importações.  Souza23  apresenta 
que, na visão de Prebisch, o desenvolvimento latino‐americano deveria 
consistir  em:  (1)  compressão  do  consumo  supérfluo,  sobretudo  dos 
importados;  (2)  incentivo  ao  ingresso  de  capitais  vindos  do  exterior, 
com  finalidade  de  aumentar  os  investimentos  em  infraestrutura;  (3) 
realização de reforma agrária, para aumentar a produção agrícola e (4) 
aumento da participação do Estado na economia. No capítulo 3, vere‐
mos  em  detalhes  em  que  consistiu  o  processo  de industrialização  por 
meio da substituição de importações no Brasil. 

Souza24  também  mostra  que,  para  os  pesquisadores  vinculados  à  Ce‐


pal,  o  desenvolvimento  dos  países  periféricos  dependia  de  fatores 
externos  e  internos.  No  plano  externo,  dependiam  do  dinamismo  das 
economias  centrais,  para  onde  exportavam  produtos  primários,  além 
de  depender  da  importação  de  máquinas  e  de  outros  produtos.  No 
plano  interno,  os  fatores  que  determinavam  a  condição  de  subdesen‐
volvimento dos países tidos como atrasados era a concentração de ter‐
ras,  o  mercado  interno  reduzido  e o  crescimento  demográfico  expres‐
sivo. 

No ponto de vista de Kay, o enfoque da Cepal negava o economicismo 
estreito,  pois  havia  uma  preocupação  significativa  com  a  dinâmica 
política  interna  dos  países  periféricos  aliada  à  ideia  de  que  o  Estado 
deveria  intervir  fortemente  na  economia.  Em  um  primeiro  momento, 
pareceu muito sedutora a ideia de desenvolvimento endógena à nação 
– com a industrialização via substituição de importações – mas logo a 
situação foi tomando contornos não desejáveis. Esse modelo de desen‐
volvimento,  cujo  processo  era  monopolizado  pelas  elites  e  pelos  go‐
vernantes  desses  países,  teve  como  resultado  um  crescimento  econô‐
mico  concentrador  (social  e  geograficamente  falando),  no  qual  os  fru‐
 
 
32
tos do progresso tecnológico ficaram nas mãos de grandes capitalistas, 
exacerbando as desigualdades sociais no interior dos países. 

Teoria da dependência

A teoria da dependência possui duas variantes, uma marxista e outra 
estruturalista,  ambas  surgindo  na  ciência  social  latino‐americana  no 
final dos anos 1960. Segundo Kay25, a vertente marxista tem uma con‐
tribuição  mais  distintiva,  motivo  pelo  qual  somente  ela  será  tratada 
aqui. Baseado em um artigo de Theotonio dos Santos, o cientista social 
José  Guilherme  Merquior26  explica  que  a  relação  de  dependência  se 
configura quando o crescimento econômico de alguns países só se dá 
como reflexo da expansão dos países dominantes. Isso significa que as 
situações de subdesenvolvimento seriam resultado das múltiplas rela‐
ções  de  dependência  e  dominação  que  o  sistema  mundial  gera.  Na 
verdade, essa teoria surgiu com o propósito não apenas de compreen‐
der a situação de dependência dos países subdesenvolvidos, mas tam‐
bém com o objetivo de encontrar uma forma de dirimi‐la. Os principais 
autores da teoria da dependência são Andre Gunder Frank, Fernando 
Henrique Cardoso, Theotonio dos Santos e Samir Amin. Celso Furtado 
e Osvaldo Sunkel também são citados, embora tenham posições relati‐
vamente mais moderadas. 

A  teoria  da  dependência,  ao  menos  na  sua  vertente  marxista,  sofreu 
forte influência do pensamento leninista e de suas críticas ao “imperia‐
lismo  capitalista”.  De  certo  modo,  os  autores  latino‐americanos  se 
fundamentaram  no  conceito  de  imperialismo,  porém  atualizando‐o 
para  compreender  o  sistema  mundial  no  qual  a  condição  dos  países 
desenvolvidos implicava a existência do subdesenvolvimentod. 

A ideia de dependência nasce como reação à teoria da modernização e 
a  sua  interpretação  dualista  dos  aspectos  tradicional/atrasado  e  mo‐
derno/avançado  de  desenvolvimento,  que  existiriam  concomitante‐
mente  nos  países  subdesenvolvidos.  Em  vez  de  ver  essa  situação  de 
subdesenvolvimento  como  uma  etapa,  os  intelectuais  da  teoria  da 
dependência  a  observavam como  uma  posição  na  economia  mundial. 
Conforme Merquior27, a teoria da dependência concordava em muitos 
aspectos  com  a  teoria  cepalina,  mas  não  aceitava  que  o  programa  de 
substituição  das  importações  fosse  a  receita  para  o  desenvolvimento 
dos países. Merquior28 mostra também que outro sociólogo, o mexica‐
no  Rodolfo  Stavenhagen,  procurou  sustentar  que  a    industrialização 
                                                                  
d Embora não seja muito citado pelos teóricos da dependência, Cristóbal Kay (2004) afirma que o 
intelectual peruano e marxista José Carlos Mariátegui foi um dos seus grandes inspiradores. Mariátegui 
escreveu entre os anos 1920 e 1930 e foi um dos primeiros a aplicar criticamente o marxismo à realidade 
latino‐americana. Seu livro mais conhecido intitula‐se Sete ensaios de interpretação da realidade peruana. 
 

33
nem sempre difunde um progresso geral. Stavenhagen mostrou que a 
estruturas de classes e as relações de dominação eram essenciais para a 
compreensão das situações de dependência dos países subdesenvolvi‐
dos,  devido  ao  fato  de  que  a  burguesia  não  se  opõe  aos  senhores  de 
terras, assim como os operários e os camponeses não possuem interes‐
ses em comum e as classes médias não são empreendedoras e tampou‐
co progressistas.  

A essa altura, a teoria da dependência já tomava contornos claramente 
marxistas,  pois  mostrava  que  a  estrutura  de  classes  no  interior  dos 
países  tinha  efeitos  cruciais  na  maneira  como  eram  conduzidos  os 
processos  de  mudança  social.  Além  do  fato  de  que  não  era  apenas  o 
sistema  mundial  a  causa  da  perversidade  dos  termos  das  trocas  no 
comércio internacional (ideia difundida pelos cepalistas), os dependen‐
tistas  enfocavam  especialmente  o  modo  como  o  capitalismo  produzia 
os efeitos danosos às sociedades menos desenvolvidas. Para tanto, não 
bastava sugerir que a estrutura das relações internacionais polarizava 
os  países  e  os  interesses,  mas,  acima  de  tudo,  seria  concluir  que  as 
elites no interior dos países subdesenvolvidos se voltavam para fora. 

Esse  processo  se  torna  claro  ao  se  analisar  mais  detidamente  a  obra 
Dependência e desenvolvimento na América Latina: o ensaio de interpretação 
sociológica  (1967)  escrita  por  Fernando  Henrique  Cardoso,  sociológo  e 
ex‐presidente  do  Brasil,  em  parceria  com  o  historiador  chileno  Enzo 
Faletto. Nesse livro, que teve um grande impacto na sociologia da sua 
época, os autores mostram que as nações latino‐americanas possuíam 
condições  econômicas  para  um  crescimento  sustentado  no  período 
pós‐guerra,  pois  o  processo  de  substituição  das  importações  já  havia 
sido  iniciado.  As  outras  condições  para  tal  feito  eram  o  estímulo  ao 
mercado interno, a diferenciação do sistema produtivo e a redistribui‐
ção de renda. Constatou‐se, porém, que fatores condizentes unicamen‐
te à política econômica não conseguiram determinar que fato contribu‐
iu para que o desenvolvimento não tenha se dado da forma esperada. 
Cardoso e Faletto fazem uma análise sociológica do desenvolvimento, 
considerando as alianças de classe e os sistemas de dominação econô‐
mica. 

De acordo com Cardoso e Faletto29, o conceito de dependência é o mais 
adequado para atender as necessidades dessa análise, haja vista a ideia 
de subdesenvolvimento está estreitamente ligada aos fatores econômi‐
cos,  por  desejar  enfatizar  o  sistema  de  dominação  que  ocorre  entre 
nações centrais e de periferia no capitalismo mundial, bem como suas 
relações  com  as  formas  de  dominação  e  alianças  de  classe  no  interior 
dos países dependentes. Ao contrário da teoria cepalina, os diferentes 
 
 
34
matizes da teoria da dependência darão expressiva ênfase ao processo 
histórico. 

Uma das questões centrais do livro de Cardoso e Faletto diz respeito à 
forma como as economias de países periféricos se vincularam de forma 
dependente  ao  o  desenvolvimento  dos  países  centrais,  quando  estes 
expandiram  mercados.  Grupos  dominantes  no  interior  dos  países 
periféricos se constituíram e definiram relações orientadas para o exte‐
rior.  A  dominação  realizada  por  grupos  internos  ao  país  dependente 
enfatiza  que  não  há  determinismo  de  controle  dos  grupos  externos, 
mas que grupos internos aliam‐se e orientam‐se para o exterior.  

Uma das críticas feitas à teoria da dependência, listada por Merquior, 
faz  a  seguinte  indagação:  Por  que  certos  países,  como  o  Canadá,  por 
exemplo, que é consideravelmente dependente da economia dos Esta‐
dos  Unidos,  consegue  obter  níveis  consideráveis  de  riqueza,  em  con‐
traposição  ao  penoso  desenvolvimento  de  outros  países,  tais  como  o 
México, que possui a mesma dependência? Essa é uma questão à qual 
os  dependentistas  não  possuem  resposta  e  cuja  explicação  talvez  fuja 
do escopo da teoria da dependência. 

Ponto final
Foi  no  período  do  pós‐guerra  que  surgiu  um  conjunto  de  esforços 
direcionados ao desenvolvimento dos países considerados subdesenvol‐
vidos,  lembrando  sempre  que,  nesse  período,  desenvolvimento  e  cresci‐
mento  econômico  eram  tratados  como  sinônimos.  Tanto  na  criação  das 
agências multilaterais, como a ONU, quanto na criação dos tratados de 
diminuição  de  tarifas  para  o  comércio  internacional,  pressupunha‐se 
que  uma  ordem  de  relações  cada  vez  mais  globais  se  impusesse  aos 
países. O paradigma produtivista, a “revolução verde” na agricultura e 
o  processo  de industrialização  por  substituição  de  importações  foram 
vias  pelas  quais  se  tentou  construir  os  caminhos  do  desenvolvimento 
do  terceiro  mundo,  almejando  um  crescimento  econômico  constante 
que livraria essas nações de um suposto subdesenvolvimento. 

Com  essas  iniciativas,  as  ciências  sociais  e  econômicas  se  envolveram 


nessa dinâmica, criando diferentes escolas de pensamento em torno do 
tema do desenvolvimento. Com elas, um rol de teorias surgiu, dentre 
as quais pode‐se destacar a teoria da modernização, a teoria da Cepal e 
a teoria da dependência, cada uma com distintos matizes. Enquanto a 
teoria  da  modernização  postulava  que  as  nações  deveriam  seguir  os 
passos  trilhados  pelos  países  já  desenvolvidos  e  industrializados, 
transformando  o  sistema  social,  tornando‐o  mais  moderno,  as  teorias 
cepalina  e  da  dependência  mantinham  uma  postura  mais  crítica,  ad‐
 

35
vogando que o subdesenvolvimento não era um problema de etapa de 
desenvolvimento, mas de posição na estrutura econômica mundial. Os 
teóricos da Cepal defenderam a substituição de importações como via 
de desenvolvimento para a América Latina, procurando acentuar tam‐
bém os fatores econômicos internos que impossibilitavam o crescimen‐
to.  Já os pensadores da teoria da dependência mostravam que os fato‐
res  internos  de  obstáculos  para  o  desenvolvimento  eram  de  natureza 
política  e  econômica,  sustentando  que  as  elites  nacionais  dos  países 
dependentes se aliaram e se orientaram para o exterior, formando uma 
estrutura histórica de dominação. 

Atividades
1) Discorra sobre a relação entre a teoria da modernização e a “revo‐
lução verde”. 
 
2) Compare  a  teoria  desenvolvida  no  âmbito  da  Cepal  com  a  teoria 
da  dependência  e  verifique  diferenças  e  semelhanças.  Destaque 
apenas os pontos principais. 
 
3) Por que razão Fernando Henrique Cardoso e Enzo Faletto preferi‐
ram  utilizar  o  conceito  de  dependência  em  lugar  do  conceito  de 
subdesenvolvimento na obra Dependência e desenvolvimento na Améri‐
ca Latina? Revise o item 2.3.3 para esta atividade. 
 
 

3
O DEBATE BRASILEIRO SOBRE
O DESENVOLVIMENTO NOS ANOS
DE 1950 A 1970

Guilherme Francisco Waterloo Radomsky

O  debate  brasileiro  sobre  o  desenvolvimento  assume  características 


próprias, resultado das disputas entre projetos distintos que visavam a 
modernização e a industrialização do país. A política de industrializa‐
ção  por  substituição  de  importações  adquire  hegemonia  logo  após  a 
República Velha (1889‐1930), sendo combatida a partir dos anos 1950. 
A discussão sobre a natureza dualista da economia brasileira, o papel 
do  Estado  nas  políticas  econômicas  e  o  novo  caráter  da  dependência 
demanda grande energia dos intelectuais. 

Destacam‐se aqui os pontos de vista de dois pensadores brasileiros que 
tiveram expressiva participação na discussão teórica sobre o desenvol‐
vimento  −  Celso  Furtado  e  Fernando  Henrique  Cardoso.  Ao  final, 
poderemos vislumbrar os resultados da concepção de desenvolvimen‐
to adotada no Brasil até os anos 1970. 

3.1 O processo de substituição de importações


e a dualidade estrutural do Brasil
Até 1930, o Brasil mantinha uma economia baseada nos produtos pri‐
mários,  com  esparsas  instalações  industriais  pelo  território  nacional. 
Era  uma  economia  exportadora,  porém  os  resultados  obtidos  pelo 
comércio internacional de café e outros produtos agrícolas eram mas‐
sivamente concentrados e usufruídos pelas elites rurais que comanda‐
vam  a  política  nacional.  A  quebra  da  bolsa  de  Nova  York,  em  1929, 
abalou  a  economia  cafeeira  e  mostrou  a  vulnerabilidade  da  monocul‐
tura exportadora. Com o golpe de 1930, pode‐se dizer que a burguesia 
brasileira assume o poder e, em consequência disso inicia‐se uma fase 
de  industrialização. Isso  não significou,  entretanto,  que  as elites  agrá‐
rias  tenham  perdido  seus  privilégios,  sendo  mais  plausível  encontrar 
alianças, em vez de conflitos, entre as diferentes classes sociais. 
 

37
O  modelo  de  industrialização  seguiu  o  processo  de  substituição  de 
importações.  Essa  estratégia  significava  produzir  internamente  o  que 
antes  era  importado.  Conforme  Argemiro  Brum1,  a  evolução  desse 
processo obedeceu a três fases de produção: bens de consumo imedia‐
to (não‐duráveis), bens de consumo duráveis e bens de capital. 

A substituição de importações demanda uma série de medidas gover‐
namentais,  tais  como  o  aumento  de  tarifas,  no  intuito  de  controlar  o 
ingresso de produtos importados e a desvalorização da moeda, objeti‐
vando inibir tal ingresso. Esse processo se tornou uma política econô‐
mica  amplamente  aplicada  nos  países  considerados  subdesenvolvidos, 
cuja meta foi a proteção da indústria nascente. Uma das justificativas é 
a de que esse tipo de política favorecia a diversificação de atividades, 
bem como o aprendizado da comunidade local a médio e longo prazo, 
mesmo que os custos fossem elevados, até que as empresas atingissem 
patamares  razoáveis  de  produção,  tornado  a  economia  do  país  mais 
dinâmica. Por isso, a participação do Estado na economia foi essencial. 

No início dos anos 1950, o Brasil já vivia um intenso processo de indus‐
trialização e de urbanização. Era o momento no qual as indústrias de 
base cediam, aos poucos, seu espaço para as indústrias de bens durá‐
veis  e  de  consumo,  principalmente  a  automobilística  e  a  de  eletrodo‐
mésticos.  O  processo  de  industrialização  sentia  uma  mudança  funda‐
mental:  a  entrada  do  capital  estrangeiro  e  a  diminuição  relativa  da 
participação  das  indústrias  nacionais,  principalmente  a  partir  do  go‐
verno de Juscelino Kubitschek, de 1956 a 1961. 

O  Brasil  se  urbanizava,  porém  grandes  contingentes  populacionais 


continuavam a povoar o meio rural. Tanto as grandes como as médias 
e  pequenas  propriedades  tinham  sua  importância  na  economia  do 
país, mas essa sociedade rural era bastante diferenciada internamente, 
possuindo  setores  tradicionais  e  setores  modernos.  Para  Brum2,  as 
últimas fases da substituição de importações consolidam um mercado 
nacional e vêm a demandar a ampliação e o aperfeiçoamento da infra‐
estrutura  de  comunicações  e  dos  transportes.  Porém,  o  crescimento 
econômico concentrado em São Paulo e no Rio de Janeiro já mostrava 
sinais  de  que  o  Brasil  se  desenvolvia  de  modo  bastante  irregular  e 
descompassado. 

Embasados nas teorias da modernização, alguns pensadores tentaram 
mostrar que o país possuía duas economias − uma, atrasada e tradicio‐
nal, e outra, moderna e avançada. Considera‐se que Ignácio Rangel3 foi 
um  dos  proponentes  da  dualidade  estrutural  do  Brasil.  Para  ele,  no 
Brasil conviviam os latifúndios ineficientes e as propriedades capitalis‐
tas;  o  coronelismo  no  meio  rural  junto  às  gestões  democráticas  das 
 
 
38
cidades; o latifúndios também se contrapunham às pequenas proprie‐
dades rurais, uma vez que estas se caracterizavam pela impossibilida‐
de  de  empregar  o  contingente  excessivo  de  trabalhadores,  e  aqueles 
pela escassez de mão de obra. 

Esse  argumento  foi,  em  parte,  desconstruído  por  estudos  sociais  e 


econômicos  que  observavam  não  haver  duas  economias,  mas  apenas 
uma que era extremamente desigual e que combinava setores relacio‐
nados. 

A  diferença  na  interpretação  está  na  maneira  como  os  setores  “arcai‐
cos” e “modernizados” se relacionavam. Enquanto parte da intelectua‐
lidade analisava o país como “dois Brasis” que pouco se comunicavam 
no campo econômico, outros mostravam a relação intrínseca entre eles. 
Francisco  de  Oliveira,  sociólogo  brasileiro,  escreve  no  início  dos  anos 
1970  um  ensaio  intitulado  Economia  brasileira:,  que  marca  a  produção 
das  interpretações  sobre  o  Brasil.  O  autor  critica  a  visão  dualista  de 
Rangel,  destacando  que  o  atraso  de  setores  menos  desenvolvidos  do 
país é funcional para os setores avançados. Não é negado o caráter pré‐
capitalista  de  certos  rincões,  mas  sim  a  contradição  entre  os  setores 
díspares.  Oliveira4  mostra  que  a  agricultura  tradicional  e  a  economia 
urbana marginal são funcionais ao processo de acumulação capitalista, 
pois rebaixam os custos gerais de produção. 

Porém,  antes  de  apresentar  os  dilemas  da  modernização  brasileira 


nesse período, convém introduzir o pensamento do economista Celso 
Furtado, um dos intelectuais brasileiros que mais se destacou na refle‐
xão sobre o desenvolvimento, tanto no Brasil como no exterior. 

3.2 O pensamento de Celso Furtado


Celso Furtado, citado por Souza5, defendia a industrialização por subs‐
tituição  de  importações  e  reiterava  a  importância  da  participação  do 
Estado, não apenas corrigindo desequilíbrios estruturais e eliminando 
o  estrangulamento  do  crescimento,  mas  também  da  atuação  das  em‐
presas estatais em projetos de base como mineração, energia, transpor‐
te  e  telecomunicações.  O  Estado  teria  papel  central  na  transformação 
de estruturas arcaicas da sociedade, tais como na situação da agrope‐
cuária  e  a  sua  falta  de  produtividade.  No  entendimento  de  Furtado, 
essa era uma das causas da inflação. 

Na  realidade,  a  rigidez  na  oferta  das  economias  subdesenvolvidas, 


tanto na agricultura como na indústria, provocaria a inflação, visto que 
a heterogeneidade da economia se caracterizaria por estrangulamentos 
na produção, no pensamento de Furtado, citado por Souza6. A inflação 
 

39
seria um fenômeno próprio do subdesenvolvimento, contornado com a 
criação de oferta agrícola e eficiência da industrialização. 

O  subdesenvolvimento,  para  Celso  Furtado,  não  é  uma  etapa  entre 


dois  polos contínuos  que  vão  do  “não‐desenvolvido”  ao “desenvolvi‐
do”.  O  fenômeno  do  subdesenvolvimento  não  consiste  em  uma  se‐
quência  de  fases,  mas,  sim,  em  um  produto  histórico  das  relações  es‐
truturais  de  poder  entre  as  nações  e  em  uma  criação  do  capitalismo. 
São essas relações que criam centros e periferias do capitalismo.  

Assim  sendo,  o  subdesenvolvimento  não  pode  ser  compreendido  co‐


mo  uma  falta  de  desenvolvimento,  olhando‐se  para  as  nações  da  Eu‐
ropa e da América do Norte. Para Furtado, citado por Alvaro Comin7, 
é preciso pensar o subdesenvolvimento não como “maquetes inacaba‐
das  das  economias  desenvolvidas  à  espera  de  um  futuro  que  já  lhes 
estava  prefigurado”.  A  consequência  disso  é  a  imperiosa  necessidade 
de um pensamento autônomo para o desenvolvimento brasileiro, não 
visando  a  incorporação  forçada  de  valores  e  elementos  encontrados 
nos países desenvolvidos, mas a criação de um modo próprio de con‐
ceber a rota de desenvolvimento particular calcada nas origens sociais 
e culturais da nação. 

De acordo com Furtado8, os países subdesenvolvidos podem apresen‐
tar duas formações distintas. No modo mais simples, a economia dual 
em que existe a coexistência de empresas exportadoras com setores de 
subsistência. O caso que Furtado considera mais complexo é o da com‐
binação de três setores: o de subsistência, o setor direcionado às expor‐
tações e ainda o setor industrial dirigido ao consumo interno do país. 
Esse  terceiro  setor  se  constitui  por  meio  da  substituição  de  importa‐
ções. Por isso, é fundamental que ele possa oferecer ao mercado inter‐
no  um  produto  similar  ao  importado.  Disso  resulta  que  esse  setor  se 
direciona  para  a  reprodução  dos  artigos  importados,  sem  levar  em 
conta os processos econômico‐produtivos que transformam o setor de 
subsistência. Com o crescimento desse setor, voltado para substituição 
de importações, grandes parcelas da população podem ficar à margem 
do desenvolvimento, pois o setor mais atrasado tecnologicamente não 
participa  do  processo.  Com  isso,  a  percentagem  populacional  que  é 
beneficiada  pelo  desenvolvimento  mantém‐se  reduzida.  Desse  modo, 
as  economias  subdesenvolvidas  podem  percorrer  longos  períodos  de 
crescimento  sem  que  a  dependência  externa  e  as  disparidades  econô‐
micas do país sejam eliminadas, completa o autor. 

Ainda segundo Comin9, Furtado diferenciava, com muita perspicácia, 
MODERNIZAÇÃO  de  DESENVOLVIMENTO,  pois  considerava  a 
modernização  uma  atitude  mimética  (sobretudo  das  elites  nacionais) 
 
 
40
em  relação  aos  países  desenvolvidos;  ela  implicava  uma  importação 
direta dos modelos hegemônicos que, quando implantados nos países 
subdesenvolvidos, resultavam em efeitos inesperados.  

Por isso mesmo, embora tendo uma influência do pensamento econô‐
mico keynesianoe, Furtado adequou as reflexões do economista inglês 
ao contexto econômico do Brasil e da América Latina. Não somente um 
planejamento econômico deveria ser realizado pelo Estado, mas, junto 
à  dimensão  econômica,  fazia‐se  necessário  um  complexo  plano  de 
integração  social,  no  intuito  de  eliminar  as  desigualdades,  bem  como 
investimento  em  processos  de  incorporação  de  ideais  democráticos. 
Portanto,  Furtado  possuía  um  conceito  de  desenvolvimento  em  um 
sentido amplo. 

3.3 Dilemas da modernização: projeto nacional de


desenvolvimento versus modelo dependente-associado
É sobretudo a partir do governo de Juscelino Kubitschek, em 1956, que 
o  modelo  de  desenvolvimento  nacional  passa  a  entrar  em  crise.  Os 
projetos  dos  governos  de  Getúlio  Vargas  que  visavam  a  implementa‐
ção  de  uma  indústria  de  base  com  capital  nacional  são  abandonados 
em favor de uma atitude de abertura ao capital estrangeiro.  

Como  a  Europa  e  o  Japão  já  haviam  sido  reconstruídos  nos  dez  anos 
que  se  seguiram  à  2ª  Guerra  Mundial,  havia  um  considerável  capital 
disponível  nas  mãos  de  grandes  grupos  e  corporações  internacionais 
interessados em aumentar seus lucros em mercados ainda pouco estru‐
turados.  É  o  que  acontece  com  o  Brasil,  pois  Brum10  mostra  que  se 
estabeleceu  uma  sintonia  entre  os  propósitos  desenvolvimentistas  do 
governo  e  a  ânsia  das  multinacionais  em  investir  capitais  nas  regiões 
periféricas. Na opinião do professor, essa mudança de atitude foi estra‐
tégica  por  parte  das  empresas  estrangeiras,  pois  elas  já  exportavam 
para os consumidores das nações subdesenvolvidas; agora, elas podi‐
am  produzir  nos  mesmos  países  para  os  quais  vendiam  a  produção, 
com custos menores de mão de obra, de matéria‐prima e com incenti‐
vos locais.  

Parte do empresariado nacional foi contra essa política, pois antevia a 
concentração industrial nas mãos de grupos do exterior e, mais do que 
isso, temia a possibilidade do desmantelamento da indústria brasileira. 

                                                                  
e Referência ao economista britânico John Maynard Keynes, forte defensor de uma política econômica 
intervencionista. 
 

41
Furtado  defendia  a  consolidação  das  indústrias  do  país,  um  projeto 
nacional  de  desenvolvimento  para  qual  o  Estado  teria  papel  especial 
na regulação dos desequilíbrios e na implantação de estatais. A política 
de  industrialização  por  substituição  de  importações  é  de  fato  uma 
proteção à indústria nacional, embora não signifique o fechamento da 
economia para o exterior. Tanto os empréstimos como a exportação de 
produtos  estratégicos  são  fundamentais  para  a  inversão  de  capitais 
(investimentos)  no  país,  além  da  importação  de  tecnologias  que  não 
são ainda produzidas internamente. 

Contudo,  a  partir  do  golpe  militar  de  1964,  a  abertura  do  país  para  o 
capital  estrangeiro  continua,  ainda  que  a  participação  do  Estado  na 
economia também cresça. No governo Kubitschek, já havia problemas 
para  a  obtenção  de  recursos  para  investimento  em  infraestruturas 
necessárias  à  expansão  da  industrialização,  principalmente  para  as 
indústrias  de  bens  de  capital.  O  governo  tinha  a  opção  de  procurar 
refrear o consumo interno para aumentar a poupança interna, mas isso 
iria contra os interesses das elites e seria contraditório devido à política 
de  criação  de  indústrias  de  bens  de  consumo  (automóveis,  eletrodo‐
mésticos).  A  possibilidade  de  um  saldo  favorável  na  balança  era  difi‐
cultada  pela  perda  de  valor  de  muitas  mercadorias  exportadas  pelo 
Brasil naquele momento, que pagava mais pelos produtos importados 
do  que  ganhava  com  as  exportações.  Conforme  Brum11,  o  governo 
decidiu  obter  créditos  no  exterior  para  financiamento  das  atividades 
industriais  e  realizou  o  aumento  das  emissões  de  moeda.  As  duas 
estratégias elevaram a inflação, que era repassada principalmente para 
os trabalhadores, bem como a dívida externa. 

De acordo com Souza12, durante a década de 1970, a dívida externa só 
fez  aumentar.  A  economia  crescia,  porém  os  militares  asseveraram  a 
inserção dos grupos industriais estrangeiros no país, agora com a asso‐
ciação das elites empresariais nacionais e forte apoio estatal. 

Os  defensores  da  abertura  ao  capital  estrangeiro  percebiam  que  essa 
era uma possibilidade concreta para o desenvolvimento do Brasil. Esse 
é o ponto de vista, por exemplo, de Fernando Henrique Cardoso, que 
até  então  não  participava  diretamente  na  vida  política  do  país.  Kay13 
afirma  que,  para  Cardoso,  a  dependência  não  era  contrária  ao  desen‐
volvimento, pois uma das vias para o desenvolvimento dos países da 
América  Latina  seria  o  modelo  “dependente‐associado”.  Apesar  da 
situação  de  dependência  comercial,  tecnológica  e  financeira,  capitais 
internos e externos associados poderiam promover o crescimento eco‐
nômico por meio da industrialização. 
 
 
42
Em  seu  livro  de  1967,  Cardoso  e  Faletto14  consideram  inconsistentes, 
dadas  as  condições  de  dependência  e  da  estrutura  política  e  social 
interna, as medidas para manter o desenvolvimento sem a abertura do 
mercado  interno  para  fora,  isto  é,  para  o  capital  estrangeiro.  Além 
disso, esses autores mostram que, por volta de 1960, havia uma busca 
de novos mercados por parte de grupos estrangeiros de investimento, 
sobretudo na área da indústria, o que seria uma oportunidade para as 
nações  não‐industrializadas.  Quando  o  desenvolvimento  está  na  fase 
de substituição de importações, o capital estrangeiro exerce um efeito 
nos setores nacionais da indústria, até mesmo estimulando‐a e dinami‐
zando‐a, concluem os autores. Somente em um período posterior é que 
os investimentos estrangeiros precisarão de tecnologias posteriormente 
desenvolvidas  ou  matérias‐primas  que  não  são  encontradas  no  país. 
Mesmo  assim,  esse  modo  de  industrialização  que  permite  a  abertura 
de  investimentos  é  capaz  de  incorporar  setores  operários  diversos  e 
outros técnicos‐profissionais no mercado de trabalho. 

Cardoso  e  Faletto  são  enfáticos  em  sustentar  que  existia,  a  partir  dos 
anos  1960,  um  novo  modelo  “centro‐periferia”,  caracterizado  pelos 
investimentos diretos controlados via matriz, ou seja, pela abertura de 
mercados  para  capital  estrangeiro  (multinacionais).  Uma  das  grandes 
questões  para  a  análise  sociológica  daquele  período  referia‐se  aos  lu‐
cros que as indústrias estrangeiras obtinham nos países periféricos. A 
matriz poderia escolher se o lucro gerado nos países dependentes seria 
transformado em capital e reinvestido no país onde foi gerado ou em 
outro lugar qualquer. 

Portanto, na visão de Cardoso e Faletto15, há interesses que permitem 
conciliar  objetivos  protecionistas,  a  pressão  das  massas  e  os  investi‐
mentos  estrangeiros.  Esse  sistema  de  industrialização  intensificou  a 
exclusão social, mas não deixou de converter‐se, no ponto de vista dos 
autores, em uma forma de desenvolvimento (acumulação de capital e 
transformação da estrutura produtiva em direção a uma complexidade 
crescente). 

3.4 Resultados do modelo de desenvolvimento adotado


no Brasil de 1950 a 1970: crescimento econômico sem
distribuição de riqueza
Não é difícil perceber a estreiteza do conceito de desenvolvimento que 
grande  parte  dos  intelectuais  e  formuladores  de  políticas  públicas 
brasileiros  compartilhavam  entre  os  anos  1950  e  1970,  sendo  Furtado 
caracterizado como uma exceção. Se o desenvolvimento é excludente, 
como pode ser efetivamente desenvolvimento? Note‐se que o principal 
 

43
objetivo das  iniciativas  da  época  priorizava o  crescimento econômico, 
acreditando‐se  que  depois  que  o  país  houvesse  alcançado  patamares 
razoáveis de industrialização e complexificação da economia, a distri‐
buição de riqueza e a democracia seriam “quase uma consequência”. 

O período, entretanto, foi marcado pela concentração econômica, tanto 
de propriedades e de bens nas mãos de poucos como da industrializa‐
ção  centralizada  nos  centros  urbanos  da  região  Sudeste  do  Brasil. 
Brum16 conclui que havia  uma crença na capacidade de que os inves‐
timentos concentrados principalmente em São Paulo formariam círcu‐
los  cada  vez  maiores  de  industrialização,  espalhando  o  desenvolvi‐
mento econômico para todas as regiões. O que aconteceu foi justamen‐
te o inverso: as regiões não favorecidas estagnaram‐se em consequên‐
cia do crescimento do Sudeste. Tal processo se assemelhava, em âmbi‐
to  nacional,  ao  modelo  “centro‐periferia”  no  plano  internacional.  As 
demais  regiões  perpetuavam‐se  como  produtoras  de  matérias‐primas 
que  alimentavam  a  industrialização  concentrada  nas  capitais  de  São 
Paulo e do Rio de Janeiro. 

É evidente que esse fenômeno não é novo, pois, desde o período colo‐
nial, a região Sudeste apresentou maior dinamismo, seja pela antigui‐
dade da colonização e pelo escoamento da produção, seja pelo fato de 
a capital do Brasil localizar‐se no Rio de Janeiro. No entanto, pouco foi 
feito para reequilibrar a balança. A criação de organismos como a Su‐
perintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam), a Superin‐
tendência  do  Desenvolvimento  do  Nordeste  (Sudene),  assim  como 
outros  programas  de  descentralização  econômica,  só  se  deu  em  um 
momento  em  que  a  centralização  econômica  do  país  já  era  uma  reali‐
dade há muito estabelecida. 

Devido  a  alianças  diversas  sucessivamente  criadas,  o  crescimento 


econômico favoreceu as elites nacionais e os grupos internacionais que 
aqui  instalaram  empresas  multinacionais.  Durante  o  final  dos  anos 
1960  e  início  dos  anos  1970,  o  Brasil  administra  um  crescimento  da 
economia  consideravelmente  acelerado,  com  uma  taxa  média  acima 
dos  10%,  período  este  conhecido  como  milagre  econômico  brasileiro. 
Advogava‐se  que  o  país  necessitava  manter  o  crescimento,  por  isso, 
uma possível política de distribuição de renda foi protelada. A justifi‐
cativa  era  a  de  que  as  classes  mais  abastadas  poderiam  poupar  com 
mais  facilidade,  o  que  se  reverteria  em  recursos  para  investimentos, 
enquanto se supunha que as classes mais baixas estariam mais predis‐
postas  ao  consumo  (pelas  suas  necessidades).  Ocorre  que  houve  a 
expectativa de uma “futura distribuição de renda” que jamais vingou. 
 
 
44
É preciso não perder de vista o clima político da época para entender o 
que realmente ocorria − embora empresas estrangeiras se instalassem e 
a dívida externa aumentasse, o regime militar divulgava uma imagem 
de  um  “Brasil  potência”  (a  seleção  nacional  de  futebol  tri‐campeã  em 
1970),  um  sentimento  nacionalista  que  procurava  inculcar  na  popula‐
ção  que  as  transformações  ocorridas  no  Brasil  (industrialização,  cres‐
cimento econômico e urbanização) eram muito rápidas e inéditas. No 
próximo capítulo, veremos como essa empolgação se esvaziou com as 
sucessivas crises econômicas e com o aumento da repressão política. 

Ponto final
Observou‐se que o processo de substituição de importações dinamizou 
a  industrialização  brasileira,  exercendo  efeitos  diretos  no  crescimento 
econômico  experimentado  no  país.  Já  a  partir  de  meados  dos  anos 
1950, o capital estrangeiro passa a entrar no Brasil, com a implementa‐
ção de indústrias de bens duráveis e de consumo. 

O  debate  sobre  a  dualidade  da  economia  brasileira  alimenta  disputas 


em  torno  de  uma  interpretação  da  realidade  brasileira.  Enquanto  al‐
guns percebiam um Brasil dividido em duas economias (uma dinâmica 
e  moderna,  outra  atrasada  e  arcaica),  outros  observavam  que  os  dois 
setores  eram  fortemente  ligados  e  que  a  acumulação  capitalista  no 
setor  moderno  dependia  da  marginalidade  urbana  e  da  agricultura 
tradicional. 

Dois  projetos  de  desenvolvimento  entram  em  disputa:  o  nacional  au‐


tônomo  e  o  aberto  ao  capital  estrangeiro.  Embora  fosse  crítico  das 
relações  “centro‐periferia”,  Fernando  Henrique  Cardoso  propôs  o 
modelo  “dependente‐associado”,  pois  achava  inconsistente  manter  o 
fechamento do mercado, dadas as condições de dependência comerci‐
al, tecnológica e financeira que o Brasil vivia. 

Depois que o capital estrangeiro passa paulatinamente a fazer parte da 
industrialização do país nos anos 1950 e 1960, o crescimento econômi‐
co é expressivo, mas que tem como resultado uma forte  concentração 
econômica  regional,  o  aumento  da  inflação  e  da  dívida  externa.  Do 
ponto de vista político‐econômico e social, os esforços para a realização 
de distribuição de renda foram amainados com a justificativa de que o 
Brasil precisava antes crescer para, posteriormente, dividir as riquezas. 
 

45
Indicações culturais
FURTADO,  Celso.  O mito do desenvolvimento econômico.  3.  ed.  Rio  de 
Janeiro: Paz e Terra, 2001. (Coleção Leitura). 

OLIVEIRA,  Francisco  de.  Pensar  com  radicalidade  e  com 


especificidade. Lua Nova: Revista de Cultura e Política, São Paulo, v. 1, 
n.  54,  p.  89‐95.  2001.  Disponível  em:  <http://  www.scielo.br/ 
scielo.php?pid=S0102‐64452001000100005‐  &script=sci_arttext&tlng=>. 
Acesso em: 27 nov. 2008.  

A  primeira  indicação  é  uma  publicação  com  o  extrato  da  primeira 


parte  do  livro  homônimo  de  Celso    Furtado,  cujo  tema  é  uma 
advertência  sobre  os  limites  do  desenvolvimento  econômico  e  suas 
possibilidades nos países subdesenvolvidos.  

A  segunda  indicação  é  uma  exposição  de  diferentes  intelectuais 


brasileiros  sobre  a  situação  histórica  brasileira  e  o  problema  do 
desenvolvimento, com a participação de Francisco de Oliveira, Carlos 
Nelson  Coutinho,  Fábio  Konder  Comparato,  Marco  Aurelio  Garcia  e 
Octavio Ianni. 

Atividades
1) Descreva por que a explicação dualista da economia brasileira foi 
questionada. Qual a importância dessa crítica para uma análise do 
capitalismo no Brasil? 
 
2) Os  teóricos  da  dependência  propuseram  que  seria  possível  o  de‐
senvolvimento econômico brasileiro com base no modelo “depen‐
dente‐associado”. Explique essa afirmação com base no item 3.3 e 
reflita sobre as consequências dessa estratégia. 
 
3) Ainda  que  o  Brasil  tenha  experimentado  um  crescimento  econô‐
mico  vigoroso  entre  os  anos  1950  e  1970,  dele  não  decorreu  um 
processo  de  distribuição  de  renda  igualitário  na  sociedade.  Co‐
mente essa afirmação. 
 

 
 
 

4 LIMITES DO DESENVOLVIMENTO

Guilherme Francisco Waterloo Radomsky

Como visto no capítulo anterior, os projetos de desenvolvimento base‐
ados no crescimento constante da economia, principalmente estimula‐
dos  pela  industrialização,  demonstraram  forte  desempenho  até  mea‐
dos  dos  anos  1970.  O  objetivo  deste  capítulo  é  apresentar  alguns  ele‐
mentos  que  evidenciem  os  limites  do  desenvolvimentismo.  A  análise 
se  inicia  com  o  entendimento  dos  principais  aspectos  das  crises  do 
capitalismo nas décadas de 1970 e 1980, em âmbito mundial, passando‐
se, em seguida, para alguns de seus efeitos no Brasil, sobretudo enfati‐
zando o “milagre econômico brasileiro”, a modernização da agricultu‐
ra e seus resultados. O capítulo é finalizado com um balanço das prin‐
cipais  consequências  sociais  do  modelo  de  desenvolvimento  adotado 
no país até os anos oitenta, quando se esgota o processo de substitui‐
ção  de  importações  e  o  crescimento  econômico  declina  significativa‐
mente. 

4.1 Crises econômicas do capitalismo nos anos 1970


e 1980
Ainda  no  início  dos  anos  1970,  a  economia  capitalista  mundial  sofre 
um duro golpe: o choque do petróleo. Ocorrido em 1973, esse choque 
foi  uma  estratégia  dos  países  produtores  de  petróleo  de  elevar  subs‐
tancialmente  o  preço  do  barril  no  mercado  mundial.  A  justificativa 
para  o  aumento  foi  de  que,  naquele  momento,  houve  uma  percepção 
de que o petróleo é um bem finito e central para a economia global. As 
motivações políticas também foram significativas, pois os países árabes 
queriam retaliar os EUA por este ter apoiado Israel na Guerra do Yon 
Kippur.  Em  1979,  acontece  o  segundo  choque  do  petróleo,  desta  vez 
pela  morte  do  Xá  Reza  Pahlevi,  no  Irã  e  pela  ascensão  do  Aiatolá 
Khomeini  (adversário  político  dos  EUA,  usa  o  petróleo  como  uma 
arma, duplicando seu preço). Tal fato causou um impacto significativo 
no  comércio  mundial  de  petróleo  (sobretudo  nos  EUA,  que  eram  os 
 

47
maiores  consumidores  mundial  do  produto)  e  fez  nações  apostarem 
em novas formas de geração de energia, tais como o álcool e a energia 
nuclear. 

Ainda  nos  anos  1970,  inicia‐se  uma  outra  crise  econômica,  sobretudo 
nos  países  centrais,  desencadeada  pelo  aumento  do  desemprego  e  da 
inflação.  O  fordismo  e  as  políticas  keynesianas,  cuja  característica  co‐
mum consistia no apoio à intervenção estatal, não conseguem conter as 
contradições  do  capitalismo.  No  ponto  de  vista  de  David  Harvey1, 
ocorre,  nesse  momento,  uma  crise  de  superprodução.  Esforços  são 
empreendidos  para  a  diminuição  da  produção  em  massa,  gerando 
grandes custos aos Estados, que, com a crise fiscal, passam a ser pres‐
sionados a diminuir os investimentos sociais. 

A  partir  do  momento  em  que  o  excesso  de  produção  não  encontra 
mercados  para  o  seu  escoamento,  o  que  se  segue  é  um  período  de 
estagnação  (recessão  econômica) com  desemprego  combinado  à  infla‐
ção. O Estado de bem‐estar social dava sinais claros de que estava em 
crise; governos e sindicatos não conseguiam mais conter o desemprego 
e o sistema de produção rígida do período fordista perdia espaço para 
os métodos de produção japoneses, que introduziam formas de traba‐
lho flexíveis (caracterizadas pela automação da produção, pela capaci‐
dade de respostas e inovações rápidas e pelo subemprego, bem como 
por um maior controle sobre o trabalho e pela desconstituição de sin‐
dicatos).  O  Estado  perde  gradativamente  o  papel  de  interventor  na 
economia e da intermediação entre capital e trabalho, relegando‐se ao 
direito de exercer a regulação dos setores econômicos. 

O modelo de crescimento econômico mostrava os limites do desenvol‐
vimentismo.  É  também  nos  anos  1970  que  são  dados  os  primeiros 
alertas sobre a sustentabilidade do planeta, assunto sobre o qual volta‐
remos  a  tratar  no  capítulo  8.  As  economias  tinham  dificuldade  para 
crescer,  pois  qualquer  aumento  na  demanda  por  produtos  fazia  au‐
mentar  a  inflação.  Além  disso,  os  trabalhadores  mostravam  haver 
empecilhos  para  encontrar  uma  ocupação  em  um  sistema  em  que  o 
emprego industrial diminuía e as ofertas de trabalho no ramo de servi‐
ços se tornavam mais importantes. 

No  Brasil,  o  “milagre  econômico”  definha  a  partir  de  1974,  o  cresci‐


mento decresce drasticamente e a inflação aumenta a cada ano. O mer‐
cado interno apresenta sintomas de saturação e esgotamento, enquanto 
na  balança  comercial  o  petróleo  se  torna  mais  caro  (principalmente  a 
partir de 1979), junto a outras matérias‐primas importadas. Seria uma 
crise  econômica  expressiva  que  o  Brasil  experimentaria  até  os  anos 
noventa. 
 
 
48
No  campo  político,  a  ditadura  militar  se  tornou  mais  repressiva  no 
governo Médici, de 1969 a 1974, quando os protestos aumentaram. Seu 
mandato  ficou  conhecido  como  os  anos  de  chumbo,  referência  à  forte 
perseguição  aos  opositores  do  regime.  No governo  do  general  Geisel, 
de 1974 a 1979, apesar das intenções de abertura “lenta e gradual” do 
regime,  a  morte  do  jornalista  Vladimir  Herzog,  na  sede  do  comando 
do  2º  Exército,  em  1975,  causou  uma  onda  de  protestos  na  sociedade 
brasileira  contra  a  ditadura.  O  regime  militar  alegou  o  suicídio  do 
jornalista, apesar dos sinais evidentes de homicídio. As crises políticas 
e  econômicas  do  Brasil  do  final  dos  anos  1970  enfraqueceram  tanto  o 
regime  militar como  o  modelo  de  desenvolvimento  econômico adota‐
do até então, com o descontrole da inflação e com os planos de desen‐
volvimento e integração nacional frustrados. 

4.2 A modernização conservadora da agricultura


Tal  como  foi  visto  anteriormente  no  capítulo  2,  a  modernização  da 
agricultura brasileira foi um processo alimentado por políticas estatais 
que  tinham  o  objetivo  de  introduzir  a  “revolução  verde”  no  país.  A 
moderna agricultura brasileira deveria obedecer aos parâmetros que os 
países centrais possuíam, com a transformação da base técnica no que 
diz respeito ao uso de máquinas e equipamentos, de insumos agrícolas 
e da racionalidade da produção.  

Para  tal  feito,  os  governos  brasileiros  ofereceram,  a  partir  da  metade 
dos  anos  1960,  crédito  rural  subsidiado  na  tentativa  de  acelerar  esse 
processo.  Para  muitos  analistas,  o  crédito  foi  o  mais  importante  ins‐
trumento,  pois,  além  de  subsidiado  e  farto,  fazia  parte  de  uma  quota 
específica  para  a  produção  agrícola,  o  que  impediu,  até  o  início  dos 
anos 1980, que ele fosse captado para outros fins. Alguns detalhes do 
modo como ocorreu a modernização no Brasil são explorados aqui. 

Procurando  definir  em  que  consiste  a  modernização  na  agricultura,  o 


professor  José  Graziano  da  Silva2,  da  Unicamp,  mostra  que  ela  é  um 
processo  no  qual  a  indústria  procura  melhorar  as  condições  naturais 
de  produção  −  se  na  agricultura  tradicional  dependia‐se  da  chuva, 
podia‐se  agora  irrigar;  se  não  havia  solos  em  boas  condições,  agora 
seria  viável  adubá‐los;  se  existiam  pragas,  pesticidas  seriam  ministra‐
dos  nas  plantações  para  a  sua  eliminação.  Portanto,  a  modernização 
nada  mais  é  que  o  uso  intensivo  de  produtos  oriundos  da  indústria 
para otimizar a produção. 

Já a partir de 1953, ainda no último governo de Getúlio Vargas, houve 
uma  substituição  de  importações  de  fertilizantes  para  a  consolidação 
 

49
de uma indústria nacional desse setor, mas as importações de máqui‐
nas e produtos químicos para a agricultura ainda eram elevadas.  

Para Silva3, foi a internalização da indústria voltada para a agricultura 
que tornou possível a modernização, fato que deslanchou no governo 
de Kubitschek e que se efetivou nos anos seguintes. Setores industriais 
mostravam‐se favoráveis à necessidade da modernização para elevar a 
oferta  de  alimentos  e  matérias‐primas.  Do  mesmo  modo,  as  elites  ru‐
rais  desejavam  a  industrialização  e  a  modernização  agrícola,  pois  se 
sentiam temerosos quanto a uma possível reforma agrária. Assim, com 
a industrialização em andamento no país, a produção agrícola passou 
a constituir um elo numa cadeia, ou seja, tornou‐se funcional à econo‐
mia brasileira, que se urbanizava e se industrializava.  

Em poucos anos, o número de tratores, o uso de defensivos e adubos 
químicos,  a  área  plantada  e  a  produtividade  agrícola  aumentaram 
fortemente, como indica o Gráfico 1 a seguir. 

Gráfico 1 − Evolução do número de tratores no Brasil entre 1950 e 1985

 
Fonte: Silva, 1998, p. 123. 

O crescimento do número de tratores que o gráfico salienta é espanto‐
so, passando de pouco mais de 8 mil unidades, em 1950, para mais de 
660 mil em 1985. Não somente os tratores, mas o crescimento da pro‐
dução e do consumo de agrotóxicos e adubos químicos foi vertiginoso 
entre os anos de 1965 e 1985. 
 
 
50
É preciso perceber que essa modernização levada adiante pelo Estado 
brasileiro não atingiu todas as populações que viviam no meio rural; a 
maior parte apenas sentiu os efeitos colaterais do processo. Portanto, é 
necessário destacar que a modernização foi, em primeiro lugar, seleti‐
va,  em    termos  de  condição  social  dos  produtores,  pois  os  grandes 
proprietários  de  terra  tiveram  acesso  fácil  a  crédito  e  conseguiram 
implementar  mudanças  técnicas  com  mais  facilidade.  Em  segundo 
lugar,  a  modernização  se  concentrou  nas  regiões  Sudeste  e  Sul  do 
Brasil, pois já eram regiões com maior produção, especialmente o Su‐
deste, com a produção de laranja e de café para exportação. Em tercei‐
ro  lugar,  foram  favorecidos  alguns  cultivos  que  eram  considerados 
mais lucrativos e que eram base das exportações, deixando à margem a 
produção de alimentos básicos para o consumo interno (feijão, batata e 
outros).  

Os resultados da modernização foram diferenciados, pois, se economi‐
camente  a  agricultura  foi  (pelo  menos  parcialmente)  modernizada, 
socialmente, os efeitos foram “perversos”, como escreveu Silva4. 

Como  consequência  disso,  cabe  destacar  a  manutenção  da  concentra‐


ção de terras. Com a modernização do padrão produtivo e a fundação 
do  Instituto  Nacional  de  Colonização  e  Reforma  Agrária  (Incra),  em 
1970,  a  reforma  agrária  foi  deixada  de  lado.  A  justificativa  dada  pelo 
governo era a de que o Brasil necessitava do avanço tecnológico para 
produzir  matérias‐primas  em  quantidade  suficiente  (para  o  setor  ur‐
bano e para exportação) e que a colonização das regiões Centro‐Oeste e 
Norte  seria  mais  importantes  do  que  realizar  a  reforma  agrária  nas 
outras regiões. Com isso, a distribuição de terras para fins de reforma 
agrária foi algo irrisório no período e a concentração de terras condu‐
ziu‐se paralelamente à concentração de renda. 

Outro  efeito  a  se  considerar  foi  a  intensa  migração  rural‐urbana  do 


período. A transição para uma sociedade urbana no Brasil foi realizada 
a custos altos, pois o êxodo rural foi vigoroso e rápido. A transforma‐
ção foi nefasta, criando bolsões de miséria no campo (setores estagna‐
dos),  migração  significativa  para  os  centros  urbanos  e  o  crescimento 
demasiado da pobreza nessas áreas.  

No que tange à questão do meio ambiente, o impulso à modernização 
teve  um  efeito  consideravelmente  danoso.  Além  de  se  destruírem 
matas, florestas e cerrados, o uso de insumos e equipamentos também 
contribuiu  para  o  agravamento  da  situação  de  solos  e  mananciais 
d’água, já prejudicados pelo processo de urbanização das cidades. 

De acordo com Silva5, o projeto modernizante comandado pelo Estado: 
 

51
que  ao  mesmo  tempo  que  os  viabilizava  não  proveu  mecanismos  compensatórios 
sobre  seus  efeitos  sociais  na  estrutura  agrária,  nos  recursos  naturais,  nos 
desequilíbrios  do  abastecimento  alimentar,  na  concentração  de  renda,  nas 
disparidades  regionais,  no  êxodo  rural.  Assim,  os  resultados  contraditórios  da 
inserção  da  agricultura  no  novo  padrão  de  acumulação  manifestaram‐se  com 
rapidez  e  intensidade  alarmantes,  agravando  a  crise  agrária  e  rebatendo‐a 
perversamente na crise urbana. 

Essa  síntese  de  Silva,  citada  anteriormente,  demonstra  claramente  os 


efeitos propriamente rurais (sociais, econômicos, demográficos e ambi‐
entais) e também urbanos (crise de abastecimento alimentar e proble‐
mas sociais crônicos) do modo como foi conduzida a modernização do 
setor rural brasileiro. 

4.3 A década “perdida”


Hermet6  mostra  que  os  anos  1980  deveriam  representar  um  grande 
salto  qualitativo  para  os  países  latino‐americanos,  mas  não  são  consi‐
derados  desse  modo.  E  por  quê?  Os  regimes  militares  no  continente 
cediam espaço aos processos de redemocratização, a liberdade política 
estava de volta no horizonte das pessoas. A preocupação de Hermet é: 
“Por que considerar perdida a década que marcou a volta da democra‐
cia?”.  Ele  mesmo  responde  que,  após  ter  iniciado  com  grandes  espe‐
ranças,  a  década  de  1980  foi  frustrante  para  aqueles  que  acreditavam 
numa nova etapa de desenvolvimento que viria a reduzir desigualda‐
des. Ainda que os regimes autoritários tenham caído, os males econô‐
micos herdados das décadas anteriores não só permaneceram como se 
agravaram, sobretudo para as populações de baixa renda. 

A  hegemonia  neoliberal  que  marca  de  fato  o  período  a  partir  de 


1989/1990  foi  se  legitimando  lentamente  desde  a  ascensão  de  Marga‐
reth Thatcher e de Ronald Reagan para os governos da Inglaterra e dos 
Estados  Unidos,  respectivamente  em  1979  e  1981.  O  governo  de 
Thatcher impôs medidas duras no intuito de diminuir os custos sociais 
do Estado, promovendo o desmantelamento de sindicatos, de políticas 
públicas e a diminuição da produção industrial. Para Thatcher, o con‐
trole  inflacionário  era  a  principal  meta,  o  que  fez  o  desemprego  na 
Inglaterra  subir  drasticamente  durante  seus  dois  mandatos.  Reagan 
também  modificou  radicalmente  o  papel  do  Estado,  afirmando  que 
este deveria ser enxuto, para  que a economia saísse da recessão (Rea‐
gan  também  teve  dois  mandatos).  Os  dois  governantes,  sobretudo  a 
“dama  de  ferro”  britânica,  inspiraram  muitos  líderes  políticos  a  esti‐
mular outros tipos de conduta quanto à economia de seus países, pri‐
vilegiando a estabilidade monetária por meio dos ajustes estruturais e 
deixando de lado as metas de desenvolvimento. 
 
 
52
No Brasil, o crescimento econômico foi bem abaixo do que se almejava 
e a inflação elevou‐se durante o período. Resultado das políticas ante‐
riores,  a  dívida  externa  brasileira  manteve‐se  expressivamente  alta. 
Sobre esses três problemas, Silva7 informa que, no final dos anos 1970, 
os  sinais  de  que  uma  enorme  crise  se  aproximava  eram  bastante  ób‐
vios: a inflação havia superado os 40% ao ano, as taxas de crescimento 
do PIB declinavam e a dívida externa já chegava a 60 bilhões de dóla‐
res. Já em 1983, a dívida havia passado para quase 100 bilhões de dóla‐
res  e  as  políticas  visavam  conter  tanto  o  consumo  interno  como  os 
cortes  nas  importações.  Os  objetivos  dessas  ações  eram  liberar  exce‐
dentes  para  exportação  e  gerar  saldos  na  balança  comercial  para  o 
pagamento dos serviços da dívida.  

Sucessivos  planos  para  reequilibrar  a  economia  foram  testados  no 


Brasil nessa época. Em 1986, o governo Sarney lança o Plano Cruzado, 
na esperança de conter o grande inimigo da economia do momento: a 
inflação.  Com  o  plano,  visava‐se  congelar  preços  e  aumentar  salários 
apenas quando a inflação saísse do nível estimado. Entretanto, o plano 
foi  um  fracasso  (assim  como  os  outros  que  o  sucederam),  visto  que  a 
inflação continuou elevada, e houve um desequilíbrio do abastecimen‐
to de produtos no mercado interno, ou seja, a instabilidade econômica 
foi enorme.  

Tornou‐se  evidente  que  a  crise  fiscal,  o  desequilíbrio  na  balança  de 


pagamentos  e  a  inflação  em  crescimento  colocavam  o  Estado  numa 
posição  muito  difícil  para  implementar  projetos  de  desenvolvimento 
vultuosos  como  estes  implantados  entre  as  décadas  de  1950  e  1980, 
explica o economista Luiz Augusto Faria8. O Estado era cada vez me‐
nos potente no seu papel de indutor do crescimento econômico. De um 
lado, o próprio Estado se via impedido de comandar o processo, devi‐
do à instabilidade econômica provocada pela inflação e pelo desequilí‐
brio  na  balança  de  pagamentos;  de  outro,  o  regime  de  acumulação 
intensiva,  característico  do  fordismo,  transformava‐se  e  a  política  de 
industrialização por substituição de importações conheceu seu fim. 

4.4 Persistência da pobreza e agravamento


da concentração de renda
Com a mudança no regime de acumulação capitalista (que passava da 
forma  rígida  e  industrialista  do  fordismo  para  sistemas  flexíveis  e 
amparados  no  valor  da  informação  e  do  setor  de  serviços)  e  com  a 
dificuldade  crescente  do  Estado  de  gerenciar  os  processos  de  cresci‐
mento  econômico,  o  desenvolvimentismo  entra  em  colapso.  Veremos 
 

53
mais adiante que ele não é abandonado como um ideário e como um 
objetivo, mas que suas características se modificam expressivamente. 

Hermet9  mostra  que  o  Estado  desenvolvimentista  foi  deficitário  em 


muitos  aspectos,  pois  não  produziu  os  resultados  esperados.  Citando 
uma análise feita por Prebisch, em 1978, o fracasso do desenvolvimen‐
to na América Latina se deu pelo fato de que as camadas trabalhadoras 
não tiveram seus ganhos realmente incrementados, como ocorreu nas 
economias  desenvolvidas.  Na  visão  de  Prebisch,  citado  por  Hermet10, 
os Estados perderam força monetária e colocaram em andamento um 
processo inflacionário espantoso; isso dava impressão fictícia de que as 
massas  trabalhadoras  tinham  ganhos  salariais,  mas  a  perda  do  valor 
do  dinheiro  era  muito  significativa.  O  crescimento  econômico  não 
conseguiu atingir aquilo que seria essencial para que o desenvolvimen‐
to fosse alcançado: a distribuição de renda e a diminuição da pobreza.  

Os resultados positivos do crescimento econômico brasileiro se manti‐
veram concentrados no grande empresariado e nas classes sociais mais 
abastadas. Para tal, o salário mínimo não era aumentado como deveria 
para acompanhar a inflação, ao passo que as poupanças – geralmente 
um  instrumento  das  classes  médias  e  altas  –  eram  protegidas  pela 
correção monetária.  Tal como visto no capítulo anterior, a intenção de 
“crescer para depois dividir a riqueza” foi efetivada por estes e outros 
meios.  Acrescente‐se  a  isso  que  o  nível  de  desemprego  no  Brasil  nos 
anos 1970 era ainda baixo, o que fornecia os elementos de que o gover‐
no  e  as  elites  precisavam  para  sustentar  o  argumento  de  que  o  país 
estava bem economicamente. 

Em  um  estudo  publicado  logo  no  início  dos  anos  1970,  o  economista 
Paul Singer11, da USP, observou que a concentração de renda aumen‐
tou na década de 1960. Enquanto os 5% mais ricos tiveram sua partici‐
pação na renda aumentada em 9%, os 80% mais pobres diminuíram a 
participação em  8,7%. Portanto,  os  que  já eram  ricos  em 1960  ficaram 
ainda mais abastados na década de 1970 e os que já eram pobres fica‐
ram com menos recursos ainda. 

Mais  recentemente,  Ricardo  Paes  de  Barros,  Ricardo  Henriques  e  Ro‐


sane Mendonça publicaram um estudo que demonstra que a pobreza e 
a  desigualdade  percorrem  décadas,  sem  que  sejam  diminuídas.  Entre 
1977 e 1989, o Índice de Ginif, para a renda, teve uma elevação discreta, 
passando  de  0,62  para  0,64,  concluindo  que  a  concentração  de  renda 
                                                                  
 O Índice de Gini é uma medida de desigualdade. É bastante utilizado para calcular a desigualdade de 
f

renda, embora possa ser aplicado para outros tipos de distribuição. O coeficiente é um número que varia 
entre zero e 1; quanto mais próximo de zero, menor é a desigualdade, quanto mais próximo de 1, maior é a 
desigualdade. 
 
 
54
aumentou  no  período.  A  pesquisa  conduzida  pelos  autores  apontou 
elementos  cruciais  para  compreender  a  situação  econômica  brasileira. 
Primeiro: o Brasil não é um país pobre, uma vez que não há escassez 
de  recursos.  Barros,  Henriques  e  Mendonça12  concluíram  isso,  obser‐
vando que 64% dos países do mundo possuíam, em 1999, a renda per 
capita inferior à brasileira. Segundo: a renda per capita brasileira é muito 
superior à linha de pobreza nacional e o padrão de consumo das famí‐
lias  que  têm  renda  em  torno  da  média  é  satisfatório.  Terceiro:  se  a 
renda média é bem acima do nível de pobreza e o padrão de consumo 
é satisfatório, a pobreza jamais poderia ser o resultado da falta de re‐
cursos. Estes três elementos acima citados pelos autores deflagram que 
a  concentração  de  renda  no  Brasil  é  um  problema  diretamente  envol‐
vido na existência da pobreza do país. 

A conclusão dos autores é muito interessante − o Brasil não é um país 
pobre, porém é um país com muitos pobres. Tendo condições suficien‐
tes  de  recursos,  pois  a  renda  per  capita  média  brasileira  não  pode  ser 
considerada baixa (comparando‐a com a de outras diversas nações), o 
problema da pobreza está diretamente associado à má distribuição de 
renda,  ou  seja,  a  estrutura  da  desigualdade  é  determinante  para  os 
elevados índices de pobreza urbana e rural do Brasil. 

O  processo  de  desenvolvimento  brasileiro  que,  dos  anos  1950  a  1970, 


era estimulado por um crescimento econômico intenso, nos anos 1980 
perde seu ritmo, apresentando problemas crônicos, como a inflação e a 
dívida  externa.  Impossibilitado  de  ser  o  ator  principal,  o  Estado  se 
converte  no  regulador  das  atividades  e  tenta  incansavelmente  encon‐
trar uma forma de controlar a instabilidade econômica. Se o crescimen‐
to  econômico  não  conseguiu  romper  com  as  mazelas  da  sociedade 
brasileira no período de maior pujança, a década de oitenta represen‐
tou  o  fim  dessa  possibilidade,  asseverando  a  desigualdade  social  e 
mantendo estável a pobreza. 

Ponto final
Este capítulo procurou mostrar que as crises econômicas do capitalis‐
mo  entre  os  anos  1970  e  1980  foram  fundamentais  para  uma  inflexão 
no  regime  de  acumulação  de  capital.  O  Brasil  havia  consolidado  um 
ritmo de crescimento econômico invejável entre 1967 e 1973, até que o 
primeiro  choque  do  petróleo  passou  a  afetar  as  economias  mundiais, 
combinando‐se com as mudanças nos processos produtivos e no con‐
sumo.  Entretanto,  o  crescimento  econômico  impulsionado  primeira‐
mente  pela  substituição  de  importações  e  depois  pelo  modelo  de  de‐
senvolvimento  dependente‐associado  sentiu  os  impactos  econômicos 
 

55
da  crise  mundial  e  do  modo  como  a  captação  de  recursos  financeiros 
foi  acionada  no  exterior:  a  dívida  externa  crescente  e  a  escalada  da 
inflação foram os efeitos mais agudos.  

Sem  que  os  problemas  de  pobreza  e  desigualdade  no  Brasil  tenham 
sido  resolvidos  no  período  de  1950  e  1970,  quando  a  industrialização 
alcançou  seu  patamar  mais  expressivo  e  quando  o  Estado  intervinha 
fortemente na  economia, os anos 1980 conheceram a desesperança do 
desenvolvimento,  haja  vista  o  aprofundamento  da  concentração  de 
renda e a permanência da pobreza. É nesse momento que o desenvol‐
vimento como conceito começa a passar por uma radical redefinição. 

Indicação cultural
BRASIL.  Presidência  da  República.  Núcleo  de  Assuntos  Estratégicos  – 
NAE.  Instituto  de  Pesquisa  Econômica  Aplicada  –  Ipea.  Ipeadata. 
Disponível em: <http://www.ipeadata.gov.br>. Acesso em: 22 jul. 2008.

O  site da  internet  anteriormente  citado  demonstra  a  base  de  dados 


econômicos,  sociais  e  regionais  do    Instituto  de  Pesquisa  Econômica 
Aplicada  (IPEA).  Fácil  de  utilizar,  a    ase  é  riquíssima  em  informações 
sobre  a  situação  brasileira  e  das  regiões  do  país,  fornecendo  tabelas  e 
gráficos. 

Atividades
1) Comente  as  principais  características  do  processo  de  moderniza‐
ção da agricultura no Brasil. Por que ela foi considerada “conser‐
vadora”, para muitos estudiosos? 
 
2) De que modo a pobreza no Brasil se relaciona com a desigualdade 
social? 
 
3) Entreviste pessoas nas ruas, usando a seguinte questão: O Brasil é 
um país pobre ou um país com muitos pobres? Peça uma justifica‐
tiva para as respostas e compare com a discussão do item 4.4. 
 

 
 
 

5 A GLOBALIZAÇÃO E OS ESPAÇOS
DO DESENVOLVIMENTO

Guilherme Francisco Waterloo Radomsky

A  partir  dos  anos  1990,  duas  palavras  combinadas  se  tornaram  uma 
das  mais  indicativas  expressões  da  época:  globalização  e  neoliberalismo. 
Contudo,  é  preciso  não  confundi‐las  ou  entendê‐las  como  sinônimos. 
Este capítulo tem como ponto de partida a compreensão da globaliza‐
ção e do neoliberalismo, elementos que passaram a ter influência deci‐
siva  no  modo  como  o  desenvolvimento  passou  a  ser  estimulado.  O 
processo de globalização induziu novas funções aos espaços e, por sua 
própria  lógica  de  transformação  veloz  e  desigual,  implicou  diferentes 
reconfigurações dos territórios. 

5.1 Globalização e neoliberalismo: o contexto dos anos


1990 e 2000
O  ano  de  1989  representou  um  marco  na  história  mundial  recente. 
Quando ruiu o muro de Berlim, o sinal de que novos tempos iniciavam 
estava mais evidente para as pessoas. A queda do muro foi o colapso 
do  socialismo  até  então  conhecido,  representando  a  falência  de  um 
sistema social e econômico dirigido por um Estado centralizador, auto‐
ritário e, ao mesmo tempo, deficitário na provisão de bens de consumo 
modernos.  Poucos  anos  depois,  a  União  das  Repúblicas  Socialistas 
Soviéticas  (URSS)  conheceu  seu  fim.  Embora  esses  fatos  não  tenham 
significado o fim do comunismo real, esse sistema se tornou cada vez 
mais  raro  no  globo,  permanecendo  em  umas  poucas  nações  (Cuba, 
Coreia do Norte). 

O  simbolismo  da  queda  do  muro  não  pode  ser  considerado  sem  im‐
portância.  A  falência  progressiva  do  mundo  socialista‐comunista  ex‐
pressava  um  sentimento  de  que  o  capitalismo  era  a  único  caminho, 
uma  rota  “natural”  do  desenvolvimento  histórico  humano.  Embora 
essa  perspectiva  não  tenha  fundamento  na  história  e  desconsidere  os 
povos  que  vivem  em  outros  sistemas  econômicos  (como  os  indígenas 
da América do Sul, as populações nativas da Melanésia e Polinésia, os 
 

57
povos autóctones australianos, as tribos mongóis e muitos outros), ela 
levou o economista norte‐americano Francis Fukuyama a afirmar que 
o capitalismo era o “fim da história”. 

No entanto, o ano de 1989 também possui outro significado histórico. 
Para  as  economias  do  Ocidente,  o  ano  marca  o  conjunto  de  medidas 
para  o  ajuste  macroeconômico  dos  países  em  desenvolvimento,  fato 
que ficou conhecido como Consenso de Washington. O Consenso adqui‐
riu esse nome por ter sido proposto pelas instituições financeiras loca‐
lizadas  na  cidade  de  Washington,  EUA,  tais  como  o  Banco  Mundial 
(Bird) e o Fundo Monetário Internacional (FMI). 

As nações que passavam por crises sistemáticas desde o fim dos anos 
1970  deveriam  obedecer  aos  planos  de  reestruturação  preconizados 
pelo Consenso, cujas medidas incluíam ajustes fiscais, diminuição dos 
gastos públicos, juros de mercado, eliminação das barreiras para inves‐
timentos  estrangeiros,  privatização  de  empresas  estatais,  abertura 
comercial, entre outras. 

A  abertura  comercial  foi  um  dos  principais  objetivos  das  discussões 


entre os países nesse período. Desde meados dos anos 1980, as nações 
debatiam  a  possibilidade  de  maior  abertura  no  âmbito  do  Acordo 
Geral de Tarifas e Comércio (GATT) que, no encerramento da Rodada 
do Uruguai, resultou na criação da Organização Mundial do Comércio 
(OMC), em 1994. Desde a criação da OMC, a redução das tarifas alfan‐
degárias tem sido um dos principais objetivos da instituição, o que se 
traduz  em  maior  volume  de  transações  econômicas  entre  os  países 
signatários da Organização. 

Em verdade, o que conhecemos como globalização pode ser entendido, 
em parte, como um aumento substancial das relações econômicas entre 
os países do mundo a partir do fim dos anos 1980. Mas isso é insufici‐
ente, pois é necessário observar que a globalização implica uma inten‐
sificação  dos  fluxos  que  ocorrem  em  diversas  dimensões,  como  na 
cultura, na política, na economia e no âmbito social. 

É muito difícil encontrar um conceito de globalização que seja unísso‐
no  e  amplamente  aceito.  Alguns  autores  observam  que  aquilo  que  se 
chama de globalização é um processo de intensificação das relações em 
escala  mundial,  que,  na  realidade,  já  ocorre  há  séculosg.  O  que  há  de 
novidade  é  a  intensidade  dessas  relações,  as  múltiplas  dimensões  em 

                                                                  
g  Sobre isto, veja‐se, por exemplo, as obras de Karl Marx, que já expressavam o aumento dos fluxos de 
comércio entre os países desde o século XV. Outro autor importante que salienta esse fenômeno é Norbert 
Elias (1994), que mostra em seus diversos livros a intensificação da interdependência entre atores sociais 
ao longo da história ocidental.  
 
 
58
que  ela  ocorre  e  o  surgimento  de  aparatos  supranacionais  de  gover‐
nança  e  regulação  (como  as  instituições,  organizações  e  agências  de 
âmbito  global).  McLuhan1,  na  década  de  1960,  já  havia  proposto  que 
uma  das  marcas  do  nosso  tempo  seria  a  viabilização  da  comunicação 
instantânea  ao  redor  do  globo;  fato  que  repercuteria  na  cultura  e  na 
economia,  criando  uma  possibilidade  histórica  na  qual  as  pessoas 
passariam a viver em uma só sociedade, a “aldeia global”. 

Analisando‐se  as  diferentes  dimensões,  percebem‐se  características 


distintas  para  cada  uma.  Na  economia,  há  um  aumento  dos  fluxos 
financeiros,  dos  investimentos  estrangeiros  nos  países  e  do  comércio 
mundial. No que tange à política, a criação de organismos, agências e 
instituições  supranacionais  que  passam  a  afetar  profundamente  a 
soberania  dos  Estados  nacionais.  Um  dos  aspectos  mais  relevantes 
disso é a criação de instâncias para a construção de consensos mundi‐
ais em torno de direitos humanos, dos direitos da criança, a criação de 
tribunais internacionais de guerra, deliberações a respeito da preserva‐
ção ambiental e da regulação das relações de trabalho. 

Do  ponto  de  vista  cultural,  a  globalização  implica  a  integração  em 


termos de valores e atitudes, hábitos de consumo e de estilos de vida. 
Nessa  esfera,  não  existem  consensos  sobre  o  fenômeno,  pois  alguns 
estudiosos afirmam que ocorrem a uniformização e a homogeneização 
de práticas ao redor do mundo (com a mundialização dos esportes, das 
músicas, do cinema, das religiões, por exemplo); outros pesquisadores, 
de acordo com Marshall Sahlins2, procuram mostrar que a globalização 
é  internalizada  em  todos  os  lugares  de  modo  diferenciado,  pois  as 
culturas locais sempre funcionariam como lentes frente à realidade do 
fenômeno. Portanto, não haveria uniformização e sim uma diversidade 
de práticas. 

Na  dimensão  social,  pode‐se afirmar  que  a  globalização  aumentou  os 


fluxos de pessoas, de imigrantes que se deslocam em razão de melho‐
res  condições  de  trabalho  ou  que  fogem  de  calamidades  ou  guerras. 
Entretanto, é preciso perceber que as distintas dimensões da globaliza‐
ção não são simétricas, isto é, os fluxos econômicos (comerciais e finan‐
ceiros) e culturais (valores e hábitos) são muito mais intensos e velozes 
que  a  circulação  de  pessoas,  que  encontram  muitas  restrições  para 
cruzarem fronteiras. 
 

59
Neoliberalismo

É  necessário  certo  cuidado  para  não  se  confundir  globalização  com 


neoliberalismo.  É  bastante  comum  ouvir  e  ler  essas  duas  palavras 
conjuntamente, como se uma sempre estivesse ligada à outra. 

No  entanto,  elas  não  significam  a  mesma  coisa.  O  neoliberalismo  é 


uma  recuperação  das  ideias  liberais  que  surgiram  entre  filósofos  e 
economistas na Grã‐Bretanha, entre os séculos XVII e XVIII. A doutri‐
na liberal desse período tinha como fundamento o liberalismo político 
de  John  Locke.  Para  Locke3,  o  ser  humano  nasce  na  sociedade  e  tem, 
como única propriedade, somente o seu próprio corpo. É apenas com o 
trabalho  que  o  ser  humano  se  apropria  de  algo.  Portanto,  aquilo  que 
cada  um  conseguiu  com  o  fruto  de  seu  esforço  pode  ser  considerado 
como sua propriedade.  Essa doutrina postula que o ser humano é livre 
para  agir  e  criar  regras,  normas  em  coletividade  para  melhorar  sua 
vida  social.  Uma  das  criações  do  ser  humano  é  o  Estado,  que,  para 
Locke, é resultado de um contrato entre as pessoas, para garantir efeti‐
vamente em forma de propriedade aquilo que indivíduos já possuíam: 
suas posses. 

No  século  XVIII,  o  liberalismo  foi  recebido  pelos  economistas  como 


uma  base  para  romper  com  as  práticas  mercantilistas  dos  Estados 
europeus. Os liberais, como Adam Smith, considerado um dos funda‐
dores da ciência econômica, defendiam menor participação do Estado 
na economia e postulavam que as riquezas seriam geradas com maior 
eficiência se as condições de mercado livre fossem respeitadas. Ricardo 
Abramovay4,  professor  da  USP,  observa  que  a  visão  de  Adam  Smith 
concebia o ser humano como um ser ambicioso e inclinado à permuta, 
com propensão à barganha e ao lucro. 

Esse ideário foi resgatado no século XX sob a forma do que se chama 
hoje  de  neoliberalismo.  Os  economistas  Friedrich  Hayek  e  Milton  Frie‐
dman,  cada  um  a  seu  modo,  são  reconhecidos como dois  dos  autores 
que lideraram a recuperação da liberdade de mercado ou o que alguns 
denominam de fundamentalismo de livre mercado. 

Os  economistas  neoliberais  são  críticos  ferrenhos  da  intervenção  do 


Estado  na  economia  e  de  qualquer  controle  sobre  as  empresas.  Suas 
teorias  procuraram  desconstruir  o  arcabouço  keynesiano,  que  fora 
amplamente utilizado pelas nações, no período 1945‐1980, para desen‐
volver  setores  industriais  e  para  o  crescimento  econômico.  No  ponto 
de vista dos neoliberais, o Estado de bem‐estar criou um sistema inter‐
vencionista que acabava com a liberdade das empresas e com o dina‐
mismo próprio dos mercados. Por isso, esse Estado se apoiava em altos 
 
 
60
impostos  e  tributos  e  a  rigidez  da  produção  e  a  levou  ao  seu  próprio 
esgotamento e à inflação. 

Não  é  sem  razão  que  se  costuma  associar  globalização  e  neoliberalis‐


mo. A recuperação dos ideais neoliberais se deu concomitantemente ao 
surgimento do fenômeno da globalização, ainda que Hayek5 já tivesse 
escrito,  em  1944,  uma  de  suas  principais  obras,  O  caminho  da  servidão,  
considerada como umas das bases do pensamento neoliberal. O neoli‐
beralismo  foi  adotado  como  política,  a  partir  dos  anos  1980,  como 
saída para a reestruturação das economias − o Consenso de Washing‐
ton, por exemplo, possuía um ideário marcadamente neoliberal. Entre‐
tanto, essa estratégia não era a única possível, pois ela apenas se com‐
binava com os interesses de elites empresariais do momento.  

Não  demorou  muito  para  o  mundo  presenciar  inúmeras  crises  que 


assolaram  os  países  que  adotaram  o  receituário  de  Washington.  A 
quebra  das  economias  asiáticas,  as  crise  da  Rússia,  em  1998,  e  da  Ar‐
gentina,  em  2001,  levaram  a  um  profundo  questionamento  sobre  a 
estabilidade  que  tais  medidas  propunham.  A  Argentina,  apenas  para 
citar  um  exemplo,  experimentou  níveis  crescentes  de  pobreza  e  de 
desemprego,  levando  grupos  do  país  a  adotarem  moedas  paralelas 
para aquecer a economia e possibilitar as trocas. Por conseguinte, tor‐
nou‐se cada vez mais evidente que o livre mercado tinha limites claros 
e  que  nações  inteiras  poderiam  ser  solapadas  sem  que  algum  tipo  de 
intervenção e regulação fosse ensejada. 

5.2 A globalização e a implicação de novas funções aos


territórios
Embora muitos pesquisadores afirmem com veemência que a globali‐
zação  implica  na  uniformização  e  a  homogeneização  da  economia 
capitalista, dos valores e dos hábitos de consumo, não se pode enten‐
der  esse  fenômeno  de  modo  unilateral.  A  globalização  implica  a  rea‐
dequação econômica dos países e regiões e isso significa que é preciso 
ver nela um movimento dialético que gera, ao mesmo tempo, proces‐
sos de localização.  

Incorporar  a  espacialidade  na  análise  sociológica  é  considerar  que  o 


espaço  adquire  uma  centralidade  para  o  entendimento  dos  processos 
de  desenvolvimento.  Um  dado  espaço  possui  dimensões  sociais  e 
culturais que o diferenciam de outros. Portanto, os recursos econômi‐
cos  não  são  os  únicos  capitais  disponíveis  para  o  desenvolvimento. 
Segundo Guilherme Radomsky6, os espaços se tornam distintos porque 
os sujeitos estabelecem tipos particulares de relações sociais e compor‐
 

61
tamentos, de vínculos de confiança e solidariedade, de hábitos de con‐
sumo e de formas de trabalhar. 

A  dimensão  espacial  do  desenvolvimento  transformou‐se  em  algo 


crucial,  pois,  com  o  advento  da  globalização,  ficaram  mais  fáceis  os 
fluxos  de  capitais  e  as  iniciativas  de  descentralização  industrial.  De 
acordo com Schneider7, outros fatores que influenciam essa situação é 
a criação de tecnologias informacionais e de comunicação, bem como a 
microeletrônica e a automação, que têm modificado a organização dos 
processos  produtivos  industriais  e,  por  consequência,  as  relações  de 
trabalho. 

O  cenário  global  é  diferenciado  para  as  grandes  empresas,  que  agora 


têm  mais  capacidade  de  escolher  em  que  áreas  serão  investidos  seus 
capitais.  Alguns  lugares  são  interessantes  para  o  capital,  enquanto 
outros  não  têm  esse  dinamismo.  Portanto,  regiões  como  a  China  e  a 
Índia se transformaram em locais altamente lucrativos, pois são abun‐
dantes em mão de obra barata e possuem um contingente populacional 
capaz  de  se  transformar  em  um  mercado  consumidor.  A  abertura  co‐
mercial  dos  países  facilita  a  entrada  e  saída  de  capitais,  o  que  pode 
ocorrer tanto nos ramos industriais como no capital financeirob. 

b. José Luís Fiori constata que o desenvolvimento econômico mundial 
não  é  convergente  e  homogeneizador;  o  que  ocorre  é  a  polarização 
crescente entre países industrializados e países periféricos (Fiori, 1998, 
p. 88). 

As  mudanças  regionais  da  indústria  também  se  tornaram  recorrentes 


no interior das nações, fenômeno que tem sido chamado de descentrali‐
zação industrial. João Saboia8, professor da UFRJ, mostra que, nos anos 
1990,  o  emprego  industrial  no  Brasil  decresceu  de  modo  geral;  entre‐
tanto,  observando‐se  somente  a  região  Centro‐Oeste,  percebe‐se  o 
crescimento  das  ocupações  na  indústria.  A  região  Sul  também  possui 
suas particularidades, pois, embora a região como um todo tenha per‐
dido trabalhadores industriais, o Estado do Paraná teve seus níveis de 
emprego aumentados. Portanto, a diferença espacial revela caracterís‐
ticas  distintas  ao  longo  da  década.  Outra  transformação  importante 
referente a esse período revelada por Saboia9 é a perda da participação 
das capitais no nível de emprego industrial do país. Embora o empre‐
go  industrial  ainda  se  concentrasse  majoritariamente  nas  capitais,  os 
anos  noventa  conheceram  mudanças  relevantes:  as  capitais  detinham 
52,8%  dos  empregos  industriais  em  1989;  em  1998,  essa  porcentagem 
passa  para  44,1  %.  A  conclusão  de  Saboia10  é  que  a  década  de  1990 
marcou a abertura da economia brasileira, o que ocasionou o aumento 
da competitividade industrial. O investimento no aumento da produ‐
 
 
62
tividade  e  o  pouco  crescimento  econômico  do  período  resultaram  em 
queda  do  número  de  empregos.  Mas  o  comportamento  do  emprego, 
na realidade, foi diferenciado em cada uma das regiões, pois a guerra 
fiscal, as diferenças salariais e o próprio desenvolvimento local foram 
aspectos  que caracterizaram  as  mudanças das  fábricas,  conforme  afir‐
ma o autor.  

Uma das facetas da descentralização industrial é a migração constante 
de plantas industriais. Estimuladas pela diminuição de impostos e por 
regiões onde a mão de obra não possui alto grau de sindicalização, as 
fábricas  se  direcionam  para  as  pequenas  cidades  e  para  o  meio  rural. 
Assim,  o  espaço  rural  perde  sua  significação  como  um  espaço  típico 
para  produção  agrícola,  comportando  um  conjunto  de  atividades  in‐
dustriais e do setor de serviços. A dualidade cidade versus campo, tão 
marcante e contrastiva nos períodos anteriores, passa a ser questiona‐
da.  Conforme  Silva  e  Schneider11,  entre  outros  autores,  a  abertura  a 
novas  atividades  tem  sido  uma  nova  função  do  espaço  rural.  Pesqui‐
sadores mostram que o ambiente rural deixa de ser uma área específica 
da agricultura e se torna mais diversificado economicamente, por rece‐
ber  em  seu  espaço  iniciativas  ocupacionais  antes  consideradas  tipica‐
mente  urbanas,  como  a  indústria,  a  construção  civil,  os  serviços  de 
transporte e o turismo.  

Apenas  para  finalizar  esta  seção,  cabe  uma  breve  observação  sobre  a 
regionalização.  Verifica‐se  que,  junto  ao  processo  de  globalização, 
surgem  as  iniciativas  de  regionalização  política  nos  continentes.  A 
União Europeia, o Mercosul, a Comunidade Andina, o Nafta (América 
do  Norte)  são  os  mais  importantes  blocos  regionais  que  se  formaram 
nas  últimas  décadas,  cujos  objetivos  foram  a  criação  de  economias 
comuns,  de  moedas de  ampla  circulação  e da  abertura  comercial  gra‐
dativa entre os países. Não deixa de ser um paradoxo que um fenôme‐
no  que  tende  a  uma  integração  e  a  uma  interdependência  mundial 
tenha como consequências a formação de blocos de países aliados. 

Na  realidade,  essa  tendência  explicita,  pelo  menos,  dois  fatores  fun‐
damentais:  o  primeiro  deles  é  o  fator  da  dimensão  espacial,  crucial 
para  as  atividades  econômicas  e  para  as  relações  políticas.  Portanto, 
longe de se pensar que a globalização institui uma “comunidade mun‐
dial”  em  que  a  informática  e  as  redes  de  comunicação  eliminam  as 
distâncias,  é  preciso  entender  os  espaços  como  constituintes  das  rela‐
ções globais. 

Já  o  segundo  fator,  derivado  do  primeiro,  consiste  nas  relações  dos 
países  com  seus  vizinhos  de  fronteiras,  quesito  que  continua  sendo 
essencial  não  apenas  do  ponto  de  vista  econômico,  mas  do  político  e 
 

63
do social, haja vista que os vizinhos de fronteiras devem arranjar mo‐
dos  de  lidar  com  o  trânsito  de  pessoas,  de  mercadorias,  de  drogas 
ilícitas.  Os  problemas  entre  os  Estados  Unidos  e  o  México  são  um 
exemplo  emblemático,  pois,  para  os  EUA,  é  mais  importante  ter  o 
México  como  parceiro  para  que  este  se  obrigue  a  administrar  os  pro‐
blemas de imigração. Outro exemplo típico é o da União Europeia, que 
tem o número de países membros cada vez maior. A inclusão de países 
com  disparidades  de  desenvolvimento  tão  evidentes  (como  França  e 
Turquia, Alemanha e Lituânia, entre outros) justifica‐se na medida em 
que os ricos pretendem resolver os problemas econômicos crônicos das 
nações  contíguas,  sobretudo  a  fim  de  conter  as  migrações  para  seus 
territórios e ampliar os mercados consumidores de seus produtos. 

5.3 Brasil: do desenvolvimento regional


ao desenvolvimento territorial
No  Brasil,  a  dimensão  espacial  do  desenvolvimento  conheceu  trans‐
formações importantes nas últimas décadas e estas foram acompanha‐
das  pelas  mudanças  no  papel  do  Estado  na  condução  das  políticas 
econômicas. 

De  acordo  com  Schneider12,  o  desgaste  da  noção  de  desenvolvimento 


ou planejamento regional esteve ligado à crise da capacidade do Esta‐
do em dirigir a economia por meio de intervenções substantivas. Vale 
lembrar que o ideário neoliberal começa a ter forte influência no modo 
de gestão estatal. Para Aldomar Rückert13, geógrafo da UFRGS, a pala‐
vra‐chave  para  essa  mudança  é  a  reforma  do  Estado.  De  um  Estado 
desenvolvimentista e planejador do desenvolvimento – que utilizava a 
própria noção analítica de região como um recorte dentro do território 
nacional  e  procurava  intervir  nas  economias  regionais  –,  passa‐se  à 
descentralização político‐administrativa na gestão pública, com a cres‐
cente  influência  da  sociedade  civil  nas  instâncias  de  poder.  A  emer‐
gência desse formato de relação entre sociedade civil e Estado vincula‐
se ao surgimento de novos atores sociais (movimentos sociais rurais e 
urbanos e ONGs) no final da ditadura militar no Brasil. 

Assim,  Rückert  afirma  que  uma  das  mudanças  mais  peculiares  foi  o 
estabelecimento  de  escalas  de  poder  no  interior  das  nações.  O  Estado 
centralizador das iniciativas de desenvolvimento do período 1930‐1980 
abriu  espaço  para  atores  territoriais  e  múltiplas  escalas  de  poder,  nos 
níveis  municipais,  territoriais,  estaduais  e  macrorregionais.  Nisso, 
embora seja evidente que o Estado perde poder na condução de políti‐
cas  de  planejamento  econômico,  os  atores  territoriais  não  substituem 
 
 
64
esse Estado. São os atores que detêm poderes locais, são elas que nego‐
ciam e constroem alianças com o Estado. 

Portanto, não é correto afirmar que com a globalização e com o ideário 
neoliberal o Estado deixa de estar investido de poder, pois ele mantém 
o  monopólio  da  violência  e  a  legitimidade na  gestão  das  políticas  em 
geral.  Mas  também  é  necessário  observar  que  a  capacidade  estatal  na 
direção da economia se retrai. Por isso, as parcerias entre o Estado e os 
atores sociais dos territórios se tornam um modo de gerir o desenvol‐
vimento, nesse caso, o desenvolvimento territorial. 

Por essa razão, o surgimento do território como lócus de execução das 
ações do Estado e das políticas públicas implica os recursos de poder 
que cada território possuic. Como salienta Schneider14, os espaços não 
são percebidos como meros suportes das relações sociais, econômicas, 
culturais e políticas que ali acontecem. As instituições, organizações e 
as densas relações que configuram o tecido social dos territórios são os 
recursos  passíveis  de  se  traduzirem  em  projetos  de  desenvolvimento. 
Cada território passa a articular relações entre atores, com a finalidade 
de  construir  projetos  de  desenvolvimento  efetivos  e  alguns  territórios 
serão mais privilegiados outros, devido às potencialidades característi‐
cas de cada um. 

c.  Embora  reconhecendo  a  importância  do  conceito  de  território  de 


geógrafos como Claude Raffestin, Schneider cita a definição do soció‐
logo português José Reis, para quem territórios são “espaços organiza‐
dores  das  funções  econômicas,  onde  se  iniciam,  desenvolvem‐se  e 
potencializam‐se  processos  relacionais  de  estruturação  produtiva, 
originando  materialidades  econômicas  particulares  em  cujo  contexto 
de funcionamento as referências de ordem global podem ser significa‐
tivas” (Schneider, 2004, p. 104). 

Para Rückert15 

Interpretar o poder relacionado ao território significa relacioná‐lo à capacidade dos 
atores  de  gerir,  de  implantar  políticas  econômicas  e  tecnológicas,  com  incidência 
estratégica  no  território,  por  parte  tanto  do  Estado  como  dos  múltiplos  atores 
do/no poder, em alianças ou conflitos na gestão de políticas por capitais privados e 
por  segmentos  da  sociedade  civil  que  representam  as  diferentes  regiões  do 
território. 

Já  o  Estado  se  reserva,  segundo  Rückert16,  a  “gerar  ambiente  favorá‐


vel”  para  a  possibilidade  do  desenvolvimento.  Devemos  recordar, 
mesmo  assim, que  o  Estado  brasileiro  tem  sido  um  grande  entusiasta 
das  iniciativas  de  desenvolvimento  territorial,  criando  inclusive  uma 
secretaria vinculada ao Ministério do Desenvolvimento Agrário (Secre‐
 

65
taria do Desenvolvimento Territorial – SDT). E não apenas esse minis‐
tério  tem  estimulado  as  políticas  territoriais,  como  também  há  uma 
convergência  na  ação  estatal  a  fim  de  proporcionar  meios  para  uma 
visão integrada do desenvolvimento e de sua abordagem territorial. 

Do  lado  dos  atores,  um  conjunto  de  elementos  surge  como  recursos 
que os territórios dispõem, tais como qualificação e disponibilidade da 
mão de obra, recursos ambientais, proximidades de centros para esco‐
ar  produção,  capital  econômico  acumulado  por  pessoas  e  famílias, 
relações  de  confiança  e  identidade  social,  proximidade  entre  atores 
locais  e  redes  de  reciprocidade,  ambiente  institucional  com  regras 
estáveis, maior equidade social. 

Em suma, a noção de desenvolvimento territorial expressa a capacida‐
de  de  ação  e  sinergia  dos  atores  territoriais  investidos  de  recursos  e 
poder  e,  ao  mesmo  tempo,  as  múltiplas  escalas  de  poder,  estando  a 
dimensão  global  presente  no  horizonte  e  sendo  o  Estado  um  ente  es‐
sencial na indução e no aporte das políticas. 

No capítulo 7, veremos outro fator que exerceu efeitos na emergência 
da  abordagem  territorial  do  desenvolvimento:  a  insatisfação  com  a 
visão setorial das políticas públicas e dos ramos de atividade econômi‐
ca. 

Ponto final
Neste capítulo,  foi  visto  o  cenário  em  que  surgiram  as  ideias  neolibe‐
rais  e  a  emergência  da  globalização.  A  globalização  implica  novas 
funções aos territórios, sendo necessário um redesenho das iniciativas 
locais  frente  aos  condicionantes  econômicos,  políticos  e  culturais.  Um 
dos  aspectos  centrais  dessa  situação  global  é  que  o  desenvolvimento 
possui  uma  dinâmica  espacial  complexa,  obedecendo  aos  critérios  do 
capital internacional  (que com  a  abertura  comercial  dos  países  adqui‐
riu maior volatilidade) e às vicissitudes dos Estados nacionais. 

Com  a  reestruturação  capitalista  no  plano  mundial  e  as  crises  econô‐


micas  vividas  pelo  Estado,  o  Brasil  viu  suas  políticas  de  desenvolvi‐
mento sofrerem mudanças radicais. Do Estado planejador e centraliza‐
dor, passou‐se ao Estado que descentraliza as políticas de desenvolvi‐
mento,  um  Estado  que  apenas  fornece  ambiente  favorável  ao  desen‐
volvimento,  resguardando‐se  às  tarefas  de  regulação  e  indução.  Com 
isso, também surgiram os poderes dos atores territoriais; os territórios 
se  tornaram  essenciais,  pois  podiam  mobilizar  recursos  diversos  e 
capitanear projetos de desenvolvimento. Porém, estes não ocorrem em 
 
 
66
todos os espaços, uma vez que nem todos os territórios têm condições 
e poderes suficientes de efetivar os processos de desenvolvimento. 

Indicações culturais
FEATHERSTONE,  Mike  (Org.).  Cultura global:  nacionalismo, 
globalização  e  modernidade.  3.  ed.  Petrópolis:  Vozes,  1999.  (Coleção 
Horizontes da Globalização).  

FIORI,  José  Luís.  Globalização,  hegemonia  e  império.  In:  TAVARES, 


Maria  da  Conceição;  FIORI,  José  Luís.  Poder e dinheiro.  5.  ed. 
Petrópolis: Vozes, 1998. p. 87‐147. (Coleção Zero à Esquerda). 

SAHLINS,  Marshall.  O  “pessimismo  sentimental”  e  a  experiência 


etnográfica:  por  que  a  cultura  não  é  um  “objeto”  em  via  de  extinção 
(parte I). Mana, Rio de Janeiro, v. 3, n. 1, p. 41‐73, abr. 1997. Disponível 
em:  <http://www.scielo.br/scielo. php?script=sci_arttext&pid=S0104-
93131997000100002>.Acesso em: 28 nov. 2008. 

As indicações de Featherstone e de Sahlins são textos voltados para as 
questões  culturais  e  políticas  da  globalização.  A  primeira  obra  possui 
capítulos escritos por pesquisadores consagrados, tais como Immanuel 
Wallerstein  e  Arjun  Appadurai.  A  indicação  de  Fiori  tem  o  viés 
econômico  e  analisa  o  poder  das  moedas  na  construção  das 
hegemonias inglesa e norte‐americana ao longo do século XX.  

Já o texto do antropólogo Marshall Sahlins aborda o problema cultural 
na  modernidade,  questionando  a  possibilidade  do  mundo  ocidental 
“extinguir” as outras culturas. 

Atividades
1) O  que  significa  afirmar  que  existem  assimetrias  entre  as  dimen‐
sões econômica, política, social e cultural da globalização? Pense, 
por  exemplo,  na  diferença  entre  o  fluxo  de  capitais  e  o  fluxo  de 
pessoas no mundo. Reflita sobre o problema e cite exemplos. 
 
2) Qual  a  diferença  entre  conceber  um  território  apenas  como  um 
espaço físico (um suporte) e concebê‐lo como dotado de caracterís‐
ticas ambientais, sociais, econômicas e culturais particulares? Qual 
a importância desse segundo ponto de vista para os processos de 
desenvolvimento territorial? 
 
 

67
3) De que modo as iniciativas de desenvolvimento territorial estabe‐
lecem relações entre os atores sociais e o Estado? Explique o papel 
do Estado nesse cenário. 
 

 
 
 

6
O PARADIGMA DAS
CAPACITAÇÕES: AMARTYA SEM
E O DESENVOLVIMENTO COMO
LIBERDADE
Guilherme Francisco Waterloo Radomsky

Nos dois capítulos anteriores, observamos como a discussão do desen‐
volvimento sofre uma inflexão quando o “período de ouro” do capita‐
lismo  se  esvaece  em  crises  cada  vez  mais  agudas,  resultando  na  des‐
confiança acerca do desenvolvimentismo e da ascensão do pensamento 
neoliberal.  Desde  então,  o  debate  tomou  rumos  diversos,  desde  as 
preocupações  ambientais,  que  entrariam  definitivamente  na  pauta  (e 
que serão abordadas a partir do capítulo 8), até a redefinição do lugar 
da economia e das outras dimensões nos processos de desenvolvimen‐
to. 

O presente capítulo tem dois objetivos: em primeiro lugar, apresentar o 
pensamento de Amartya Sen, um dos economistas mais importantes e 
reconhecidos no mundo atual. Em segundo lugar, introduzir a discus‐
são  sobre  índices  de  desenvolvimento  humano  e  de  desenvolvimento 
multidimensional,  fornecendo  algumas  técnicas  e  métodos  de  utilizar 
os  componentes.  Espera‐se  que  o  capítulo  conceda  subsídios  para  o 
debate atual sobre o desenvolvimento e sobre a abordagem das capaci‐
tações de Sen e que essa perspectiva teórica seja também observada no 
modo como os índices de desenvolvimento são elaborados. 

6.1 Amartya Sen e a crítica ao paradigma


do desenvolvimento medido pela renda
Nascido  em  1933,  Amartya  Kumar  Sen  é  um  economista  indiano  res‐
peitado  como  um  dos  mais  célebres  pensadores  sobre  o  tema  do  de‐
senvolvimento na atualidade. Agraciado com o Prêmio Nobel de Eco‐
nomia,  em  1998,  Sen  é  professor  da  Universidade  de  Cambridge,  na 
Inglaterra,  tendo  publicado  inúmeras  obras  e  artigos  desde  os  anos 
1970, destacando‐se os livros Desenvolvimento como liberdade e Desigual‐
dade reexaminada. 
 

69
Os  argumentos  do  economista  começaram  a  ganhar  eco  exatamente 
quando  as  políticas  desenvolvimentistas  levadas  a  cabo  nos  países 
pobres  (especialmente  nas  nações  da  América  Latina,  em  regiões  da 
África, na Índia e no pacífico), que pretendiam fazer valer a máxima de 
que  o  crescimento  econômico  levaria  ao  desenvolvimento  com  inclu‐
são  social  e  distribuição  de  renda,  entraram  em  profunda  descrença. 
Conforme  visto  anteriormente,  os  anos  1980  experimentaram  o  defi‐
nhamento do  Estado interventor na economia e que “puxava” o cres‐
cimento via industrialização. Naquele momento, a esperança de que o 
crescimento  econômico  poderia  ser  revertido  em  desenvolvimento  foi 
solapada, pois os problemas crônicos de desigualdade e pobreza con‐
tinuaram  a  assolar  os  países,  que,  desde  então,  pouco  viram  os  seus 
Produtos Internos Brutos (PIBs) crescerem como outrora. 

Sen constrói seus argumentos principais com base nesse problema. Se 
fosse tomado o PIB médio per capita brasileiro (nos anos 1970 ou agora) 
poder‐se‐ia encontrar um nível razoável comparado a países de baixa 
renda.  A  renda  média  no  Brasil  não  pode ser  considerada  baixa,  con‐
forme também mostraram Barros, Henriques e Mendonça1. No entan‐
to, a distribuição é deficitária, o que faz da desigualdade um desafio a 
ser  vencido.  Portanto,  contra  as  tendências  amplamente  dominantes 
nos círculos econômicos e nas organizações multilaterais que viam no 
PIB o único (e confiável) instrumento de medida da riqueza, Sen con‐
clui que este tende não apenas a mascarar a desigualdade na distribui‐
ção  de  riquezas  como  também  a  impor  a  noção  de  que  o crescimento 
econômico levaria inevitavelmente a melhorias nas condições de vida 
da população.  

Mas o aspecto mais interessante da argumentação do autor é justamen‐
te  a  razão  filosófica  de  sua  crítica.  Independentemente  de  analisar  o 
PIB de um país ou a renda média per capita para medir o seu desenvol‐
vimento, Sen sugere que, em qualquer dos dois índices, está se olhan‐
do para o ponto errado. Isso porque rendas só podem ser consideradas 
meios para atingir o desenvolvimento, e não os fins. Isso significa que 
as rendas não podem ser medidas para compreender e verificar o bem‐
estar e a felicidade das pessoas; a renda pode muito bem ser um meio 
para atingir bem‐estar, mas por si só não diz muito a respeito da fina‐
lidade para a qual está sendo utilizada (e se de fato está sendo utiliza‐
da  com  liberdade  e  para  um  fim  que  o  indivíduo  considere  satisfató‐
rio). 

Portanto,  Sen2  observa  que  sua  perspectiva  se  opõe  totalmente  às  vi‐
sões mais restritas de desenvolvimento, como aquelas que não somen‐
te identificam o desenvolvimento com o crescimento do Produto Naci‐
 
 
70
onal Bruto (PNB) e das rendas, mas que também enfocam a  industria‐
lização,  o  avanço  tecnológico  e  a  modernização  social.  Embora  esses 
fatores  citados  possam  contribuir  para  o  desenvolvimento,  eles  serão 
sempre meios e não fins. A liberdade é o que realmente importa, é ela 
que deve ser considerada como objetivo. 

O desenvolvimento como liberdade: a abordagem das capacitações

Sen3 procura mostrar, ao longo do livro Desenvolvimento como liberdade, 
que  o  “desenvolvimento  pode  ser  visto  como  um  processo  de  expan‐
são  das  liberdades  reais  que  as  pessoas  desfrutam”.  Concentrar‐se  na 
ampliação das liberdades tem como um dos pontos de partida a elimi‐
nação das privações – são essas privações que limitam as escolhas e as 
oportunidades das pessoas em atingir as liberdades. 

Desenvolvimento  →  um  processo  de  expansão  das  liberdades  reais 


que as pessoas desfrutam. 

Para Sen4, as principais fontes de privação da liberdade são a pobreza e 
a tirania, a falta de oportunidades econômicas, a negligência de servi‐
ços públicos e da assistência social e a intolerância. 

Mas como a liberdade se relaciona com o desenvolvimento e a supera‐
ção  da  pobreza?  O  autor5  mostra  que  a  falta  de  liberdade  rouba  das 
pessoas a possibilidade de saciar a fome, de obter nutrição razoável, de 
obter vestuário e moradia digna, além de inviabilizar o acesso a remé‐
dios,  água  e  saneamento.  Porém,  a  carência  de  liberdade  pode  estar 
vinculada à falta de serviços básicos de assistência social e médica. Em 
outras  situações,  é  a  liberdade  política  que  está  ausente,  o  que  pode 
impedir  as  pessoas  de  participar  da  vida  social,  política  e  também 
econômica do país. A ênfase recai na liberdade das pessoas consegui‐
rem realizar ações que visem o seu próprio bem‐estar.  O autor não é 
ingênuo  a  ponto  de  acreditar  que  as  liberdades  individuais  são  os 
únicos  elementos  que  podem  ser  meios  e  fins  do  desenvolvimento. 
Sen6  afirma  que  “o  que  as  pessoas  conseguem  realizar  é  influenciado 
por  oportunidades  econômicas,  liberdades  políticas,  poderes  sociais  e 
por condições habilitadoras como boa saúde, educação básica, incenti‐
vo  e  aperfeiçoamento  de  iniciativas”.  Existem  dispositivos  institucio‐
nais  e  coletivos  que  proporcionam  essas  oportunidades  e  envolvem 
geralmente o Estado, o mercado, o sistema legal, os partidos políticos, 
a imprensa e outros. 

Um  dos  aspectos  sobre  os  quais  Sen  se  concentra  é  a  relação  entre 
liberdades políticas e econômicas. Conforme o autor nos mostra, existe 
uma tese segundo a qual as liberdades políticas não são benéficas para 
 

71
o crescimento econômico. Essa situação foi vivida pelos brasileiros nos 
anos  1970,  que  experimentaram  o  crescimento  econômico  intenso  e 
pouca  liberdade  de  expressão  no  regime  ditatorial.  Até  hoje,  muitas 
pessoas  pensam  que  pode  existir  uma  relação  entre  a  negação  dos 
direitos civis e o crescimento econômico e alguns defendem um siste‐
ma  político  autoritário,  alegando  que  este  seria  mais  adequado  à  di‐
namização da economia. Sen mostra que essa tese é baseada em dados 
empíricos  muito  rudimentares,  não  havendo  indícios  de  que  isso  de 
fato  ocorra.  Para  Sen7,  o  crescimento  econômico  relaciona‐se  com  um 
clima econômico mais estimulante, e não com um sistema político que 
cerceia as liberdades. E isso também se verifica no caso brasileiro, pois, 
tão  logo  o  capitalismo  entra  em  crise,  no  auge  do  período  militar,  o 
crescimento  econômico  se  torna  cada  vez  menor,  enquanto  a  dívida 
externa e a inflação saem do controle. 

Ainda sobre esse ponto, Sen completa que é preciso estar alerta para o 
fato  de  que  as  liberdades  políticas  e  civis  são  um  fim  em  si  mesmas; 
ainda que possam ter ligação instrumental com as liberdades econômi‐
cas, elas não necessitam de justificação. 

Na abordagem de Sen diferenciam‐se PROCESSOS e OPORTUNIDA‐
DES.  Os  processos  permitem  a  liberdade  de  ações  e  decisões.  Já  as 
oportunidades são o que as pessoas possuem, conforme as situações e 
as  circunstâncias.  A  privação  da  liberdade,  afirma  Sen8,  pode  surgir 
tanto  em  função  de    processos  inadequados,  como  a  supressão  de  di‐
reitos políticos, quanto da falta de oportunidades que possibilitam ao 
indivíduo  que  este  supere  adversidades  que  cercam  a  sua  realidade, 
tais como a fome, por exemplo. 

Outra diferença importante que o autor estabelece é a que faz a distin‐
ção entre funcionamentos e capacitações. Aqui é necessária uma aten‐
ção  maior,  pois,  para  Ely  Mattos9,  doutorando  em  economia  pela 
UFRGS, esses são os dois principais conceitos da teoria de Sen: 

Funcionamentos  relacionam‐se  às  potencialidades  dos  indivíduos 


quanto ao que podem ser (ter acesso aos benefícios de sua sociedade, 
possuir uma profissão bem‐definida) e fazer (o que compreende desde 
coisas  elementares  como  estar  bem  alimentado  até  desejos  mais  com‐
plexos, tais como possuir atuação social). 

Capacitações  são,  de  acordo  com  Mattos10,  “estados  ainda  não  execu‐
tados efetivamente pela pessoa, mas que são passíveis disto”. É o con‐
junto de possibilidades que o indivíduo pode realizar. 
 
 
72
Enquanto  o  termo  funcionamentos  se  refere  às  realizações  de  fato,  o 
vocábulo capacitações refere‐se à habilidade de realizar. Por essa razão, 
Sen11 insiste no aspecto geral da liberdade e na condição de livre agen‐
te dos indivíduos, afirmando que “ter mais liberdade melhora o poten‐
cial das pessoas para cuidar de si mesmas e para influenciar o mundo, 
questões centrais para o processo de desenvolvimento”.  Para Mattos12, 
Sen se ocupa em mostrar que a condição de agente vincula‐se à reali‐
zação de objetivos e valores que o próprio agente tem razão de buscar. 

O  próprio  Sen    coloca  algumas  questões  interessantes  quanto  a  liber‐


dades e privações. Afirma o autor que seu texto foca, principalmente, 
liberdades  muito  elementares.  Por  isso,  reitera  que  existem  outras 
liberdades  também  muito  importantes.  Embora  seja  fundamental  aos 
indivíduos  o  acesso  a  um  núcleo  mínimo  de  funcionamentos,  a  ideia 
mesma de liberdade conduz à noção de qualidade de vida, ou seja, o 
modo como as pessoas vivem e as escolhas que podem fazer. 

Sen13  também  distingue  o  que  denominou  de  papéis  constitutivos  e  pa‐


péis  instrumentais  da  liberdade.  O  autor  é  enfático  em  sustentar  que  a 
liberdade é um fim em si mesma. No entanto, ela também pode ser um 
meio, isto é, um instrumento para o desenvolvimento. O papel consti‐
tutivo da liberdade é aquele que se considera precípuo, pois ela é um 
fim  primordial,  um  enriquecimento  da  vida  humana.  Mas  seu  papel 
instrumental é essencial, pois ela tem efeitos diretos no progresso eco‐
nômico, isso porque diferentes tipos de direitos e oportunidades con‐
tribuem  para  a  expansão  da  liberdade.  No  entanto,  as  liberdades  não 
somente  influenciam  o  processo  de  desenvolvimento  como  um  todo, 
mas também possuem relações entre si, nas quais uma liberdade pode 
influenciar outras. 

No quadro a seguir, são destacados pelo autor cinco tipos de liberda‐
des instrumentais que possuem particular relevância para o desenvol‐
vimento e que se influenciam mutuamente: 

Quadro 1 − Cinco liberdades instrumentais relevantes

LIBERDADES 
ALGUMAS CARACTERÍSTICAS 
INSTRUMENTAIS 

Liberdade de expressão, imprensa sem 
Liberdades políticas  censura, liberdade de escolha de 
partidos políticos, direito ao voto. 

Recursos disponíveis, condições de 
Facilidades econômicas 
mercado, acesso a financiamento. 
 

73

Oportunidades sociais  Educação, saúde. 

Garantias de  Direito à revelação e transparência de 
transparência  contas públicas. 

Benefícios a desempregados, rendas 
suplementares para indigentes, 
Segurança protetora 
distribuição de alimentos em crises de 
fome. 
Fonte: Baseado em Sen, 2000, p. 55. 

Sen14  chama  a atenção  para  o  fato  de  que  as  diferentes  liberdades  ge‐
ralmente apresentam interligações. O autor mostra, por exemplo, que o 
crescimento  econômico  pode  aumentar  as  rendas  das  pessoas,  mas 
também possibilita ao Estado financiar a seguridade social, cujo efeito, 
de  modo  geral,  é  um  aumento  na  qualidade  dos  serviços  sociais.  Da 
mesma  maneira,  a  criação  de  oportunidades  sociais,  como  educação 
básica na rede pública e serviços de saúde, podem contribuir significa‐
tivamente  para  redução  das  taxas  de  mortalidade.  As  reduções  nas 
taxas de natalidade, por outro lado, são influenciadas com a educação 
e  com  a  informação,  pois  a  ampliação  das  liberdades  das  mulheres 
significa sua inclusão em oportunidades sociais e facilidades econômi‐
cas que surtem efeitos na diminuição da fecundidade. 

Observando essas conclusões de Sen, percebemos por que a industria‐
lização simplesmente não conduz ao desenvolvimento. Ainda que ela 
possa  ser  um  fator  importante,  se  não  houver  oportunidades  sociais 
que possam ampliar os níveis educacionais da população, o desenvol‐
vimento (em sentido amplo) dificilmente ocorrerá. 

6.2 O desenvolvimento humano no Programa das Nações


Unidas para o Desenvolvimento (PNUD)
No  rastro  de  uma  mudança  fundamental  de  como  compreender  o 
desenvolvimento,  José  Eli  da  Veiga15  escreve  que,  no  final  dos  anos 
1980,  a  ONU  lançou  um  conjunto  de  indicadores  que  se  tornaram 
referência mundial para a compreensão do desenvolvimento. O Índice 
de  Desenvolvimento  Humano  (IDH)  representava  um  importante 
passo na superação da compreensão do desenvolvimento medido pela 
renda. Esse índice foi formulado com a colaboração de muitos profissi‐
onais,  estes  liderados  por  Mahbud  ul  Haqa,  e  contou  também  com  a 
participação  de  Sen.  Ainda  que  o  economista  seja  crítico  desse  índice 
sintético,  posto  que  sua  característica  é  a  de  fornecer,  em  números,  o 
estado  de  desenvolvimento  de  um  país,  ele  próprio  não  negaria  seus 
avanços em relação às medidas utilizadas anteriormente.  
 
 
74
a. Mahbud ul Haq (1934‐1998) foi o economista paquistanês que mais 
contribuiu para a criação do IDH. Foi professor universitário, ministro 
de finanças de seu país e diretor de planejamento e políticas no Banco 
Mundial. 

O  IDH  mede  o  desenvolvimento  utilizando  como  referência  a  média 


aritmética de três índices específicos: renda (PIB per capita), escolarida‐
de (alfabetização e taxa de matrícula) e longevidade (esperança de vida 
ao nascer). Segundo Veiga16, a ambição dos coordenadores do projeto 
do  IDH  foi  criar  uma  ferramenta  sintética  que  pudesse  expressar  o 
desenvolvimento,  tal  como  era  expresso  no  PIB.  A  ideia  de  formular 
um índice foi vantajosa, uma vez que este é capaz de aglutinar diferen‐
tes componentes (índices intermediários) e suas respectivas variáveis. 

A  ideia  de  desenvolvimento  humano  mostra  expressivos  avanços  em 


relação  à  maneira  como  eram  considerados  sinônimos  o  crescimento 
econômico  e  o  desenvolvimento.  O  pressuposto  do  desenvolvimento 
humano  consiste  em  que  para  se  aferir  o  desenvolvimento  de  uma 
população  não  se  deve  observar  apenas  a  dimensão  econômica,  mas, 
também as características sociais, que têm efeitos diretos na qualidade 
de  vida.  Depois  que  o  IDH  foi  calculado  para  os  países  do  mundo, 
inicialmente  com  referência  ao  ano  de  1990,  ele  foi  aplicado  também 
para  anos  anteriores,  tendo  em  vista  permitir  a  comparação  ao  longo 
do tempo e o acompanhamento dos índices de desenvolvimento.  

No entanto, a ideia da construção de um índice começou a ser questio‐
nada logo no início. Até mesmo Sen, de acordo com Veiga17, mostrou 
algum ceticismo, pois sua proposta teórica implica o exame das liber‐
dades reais das pessoas, aspecto que com dificuldade pode ser medido 
em números. Assim, a própria praticidade e capacidade de síntese têm 
sido consideradas perigosas no que refere à medição de níveis de de‐
senvolvimento. 

Uma  primeira  crítica  que  se  faz  ao  IDH,  de  que  nos  fala  Veiga,  é  a 
participação do componente renda. Apesar do índice ser resultado da 
média aritmética dos fatores, a renda termina sendo o mais preponde‐
rante  entre  eles.  Como  consequência  disso,  países  com  renda  alta  e 
condições sociais insatisfatórios são classificados como desenvolvidos ou 
em  nível  de  desenvolvimento  médio;  de  outro  lado,  nações  com  renda 
média  ou  baixa,  mas  com  boa  distribuição  e  aspectos  sociais  adequa‐
dos ou médios são classificados como pobres. A segunda crítica é a que 
diz  respeito  à  classificação,  pois  enumerar  países  (ou  municípios,  no 
caso  do  IDH  municipal  –  IDH‐M)  com  base  em  índices  pode  não  ter 
muito  sentido.  Nesse  caso,  faltam  qualificativos  para  afirmar,  afinal 
das contas, quais sãos os problemas e as potencialidades daquele país 
 

75
ou município. De acordo com Veiga18, se não forem levadas em consi‐
deração  a  heterogeneidade  e  a  diversidade  do  desenvolvimento,  é 
possível  que  se  torne  a  cair  naquilo  de  que  se  pretendia  escapar:  na 
ideia de unilinearidade do desenvolvimento. Uma terceira observação 
negativa ao índice é sua incapacidade, até o momento, de incluir com‐
ponentes  ambientais,  políticos  e  culturais,  fatores  que  são  cada  vez 
mais  valorizados  quando  se  pensa  na  natureza  multidimensional  do 
desenvolvimento. 

Índices de desenvolvimento após o IDH

O  IDH  continua  sendo  calculado  pelo  PNUD  e  é  amplamente  aceito 


para  a  medição  de  índices  de  desenvolvimento.  Contudo,  após  o  seu 
surgimento,  uma  série  de  outros  índices  passou  a  ser  proposta  e  de‐
senvolvida em fundações de pesquisa e universidades.  

José Eli da Veiga chega a propor que deixemos de lado o IDH, a favor 
dos  outros  indicadores.  Porém,  o  autor  reitera  que,  se  não  houver  al‐
ternativas, melhor isso do que continuar a considerar a renda e o PIB 
como sinônimos do desenvolvimento. 

Um dos exemplos apresentados por Veiga é o Índice Paulista de Res‐
ponsabilidade Social – IPRS. É uma tipologia de municípios com indi‐
cadores  idênticos  aos  do  IDH  (calculados  com  outras  variáveis),  mas 
não privilegia a ordenação dos municípios numa escala e não se baseia 
numa média aritmética de fatores. A ferramenta apresenta os municí‐
pios  em  três  tipos:  DESENVOLVIDOS,  SAUDÁVEIS  e  ATRASADOS. 
A  diferença,  nesse  caso,  é  que  os  melhores  colocados  devem  atender 
satisfatoriamente aos três componentes do índice (renda, escolaridade 
e  longevidade)  e  não  apenas  ser  bons  em  um  deles  e  compensar  nos 
outros.   Aqueles  que  apresentam  disparidades  nos índices  podem ser 
os  saudáveis  (municípios  que  demonstram  uma  boa  qualidade  de 
vida,  mas  não  são  ricos)  ou  os  atrasados  (que  podem  ser  ricos,  mas 
também injustos). 

Esse índice mostra que a renda per capita, indicador utilizado no IDH, 
pode  ser  obtido  de  outros  modos.  O  IPRS  utiliza  como  indicador  de 
riqueza  municipal  o  consumo  de  energia  elétrica  efetuado  nos  três 
setores  da  economia  e  nas  residências,  a  remuneração  média  dos  em‐
pregados formais e o valor adicionado per capita. E isso está relaciona‐
do apenas ao componente renda; ao avaliar os outros componentes, o 
IPRS também se vale de outras variáveis. 

Na  realidade,  o  importante  é  observar  que  os  índices  de  desenvolvi‐


mento, a rigor, são construções e dependem da intenção do pesquisa‐
 
 
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dor,  da  finalidade  do  trabalho  e  dos  referenciais  teóricos  que  funda‐
mentam o uso das variáveis e componentes. Já existe uma gama diver‐
sa de indicadores de desenvolvimento que são elaborados por diversas 
instituições,  cabendo  ao  pesquisador  utilizá‐los  com  cuidado  ou  pro‐
por  a  construção  de  novas  ferramentas  que  venham  a  ser  mais  preci‐
sas. 

Os indicadores de desenvolvimento mais recentes tendem a incorporar 
mais variáveis e componentes, aspectos que ficaram de fora da elabo‐
ração original do IDH. Alguns dos componentes que foram introduzi‐
dos nos novos índices são as dimensões ambiental, cultural, política e 
demográfica,  mantendo  geralmente  as  já  consagradas  dimensões  eco‐
nômica, educacional (que pode ser considerada demográfica ou social) 
e de saúde. Os resultados são índices com muitos componentes e vari‐
áveis intermediárias. 

Esse  é  o  caso  do  DNA  Brasilh,  apresentado  por  Veiga.  Apesar  dos 
avanços do índice IPRS e de outros (tais como o IDESE, no Rio Grande 
do Sul), pesquisadores sentiram a necessidade de qualificar melhor as 
dimensões, além de incluir um grande rol de variáveis. O DNA Brasil 
foi desenvolvido pelo Núcleo de Estudos de Políticas Públicas (NEPP) 
da  Universidade  Estadual  de  Campinas.  Mais  do  que  um  índice,  o 
DNA Brasil é uma figura que se assemelha a uma estrela de 24 pontas. 
De acordo com Veiga19, cada um dos 24 vértices são indicadores refe‐
rentes  a  sete  dimensões:  bem‐estar  econômico,  competitividade  eco‐
nômica,  condições  socioambientais,  educação,  saúde,  proteção  social 
básica e coesão social. Assim, é possível medir o desenvolvimento em 
cada  uma  das  áreas  separadamente  e  observar  em  que  quesitos  um 
determinado país está bem ou mal. Veiga ainda afirma que essa é uma 
forma  de  escapar  da  ideia  de  que  os  índices  expressam  estágios  de 
desenvolvimento, pois cada país, região ou município terá característi‐
cas e problemas distintos.i 

A figura em forma de estrela se caracteriza da seguinte maneira: cada 
indicador (cada ponta) é transformado para expressar um valor entre 0 
e  1:  quanto  mais  próximo  de  zero,  pior  é  a  condição  do  país  naquele 
indicador,  quanto  mais  próximo  de  1,  melhor  sua  situação.  De  modo 
que,  no  conjunto,  a  figura  deve  apresentar  uma  área  e,  quanto  maior 
ela for, mais evidente é o desenvolvimento do país analisado. Mas não 
basta que a área seja grande: para que o país seja considerado desen‐
volvido,  é  preciso  haver  um  equilíbrio,  pois de  nada  adianta  um  país 
                                                                  
  Para mais informações sobre o Índice DNA Brasil e os gráficos de desenvolvimento multidimensional, 
h  

acesse: <http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?pid=50009–67252006000200002&script=sci_arhext>. 
 
 

77
possuir uma renda alta e uma educação deficitária, ou, ainda, competi‐
tividade econômica combinada com péssimas condições socioambien‐
tais (ver Figura 1). 

Outro índice de desenvolvimento foi criado por uma equipe de profes‐
sores  e  alunos  do  Programa  de  Pós‐graduação  em  Desenvolvimento 
Rural da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Atendendo uma 
demanda  específica  do  Ministério  do  Desenvolvimento  Agrário,  a 
equipe  procurou  construir  uma  ferramenta  capaz  de  mensurar  o  de‐
senvolvimento  de  forma  multidimensional  (tal  como  o  DNA  Brasil), 
porém  atendo‐se  ao  fato  de  que  o  indicador  deveria  ser  aplicado  aos 
territórios  ruraisj.  O  Índice  de  Desenvolvimento  Sustentável  (IDS‐
Biograma) incluiu as dimensões e variáveis dispostas no Quadro 2:k 

Quadro 2 − Dimensões e indicadores do IDS-Biograma

DIMENSÃO  INDICADORES 

IDH longevidade, IDH educação, mortalidade 
infantil, número de leitos hospitalares, número de 
Social 
homicídios, famílias atendidas por transferências e 
benefícios 

Taxa de urbanização, densidade demográfica, 
Demográfica  razão da população masculina pela feminina, 
população com mais de 60 anos 

Comparecimento nas eleições, número médio de 
Político‐ conselhos municipais, participação nos conselhos 
institucional  territoriais, acesso à justiça, transferências da 
União 

IDH renda, Índice de Gini (renda), Índice de Gini 
(terra), participação da agricultura no produto 
Econômica  bruto, rendimento médio da produção 
agropecuária, razão de estabelecimentos agrícolas 
familiares e patronais, exportações 

Abastecimento de água, saneamento básico, coleta 
Ambiental  de lixo, drenagem, resistência à erosão e 
fertilidade dos solos 
Existência de bibliotecas, clubes, ginásios, cinemas 
Cultural 
e unidades de ensino superior 
Fonte: Baseado em Waquil et al., 2007. 

                                                                  
j  Para mais informações, consultar o artigo de Waquil et al. em: <http://www.ufrgs.br/ppge/ 
pcientifica/2007_04.pdf> 
 
 
 
78
 

Percebe‐se que a tentativa foi abarcar uma série de indicadores, inclu‐
sive utilizando dados do IDH, que foi subdividido em seus três com‐
ponentes (renda, longevidade e educação). Alguns dos indicadores são 
típicos para medir o desenvolvimento rural, tais como a fertilidade dos 
solos, densidade demográfica e índices que medem a desigualdade na 
distribuição de terras (Gini). 

Com base nesse conjunto de indicadores, a equipe construiu dois mo‐
dos de observar o desenvolvimento dos territórios avaliados. Primeiro, 
um  número  sintético  semelhante  ao  IDH.  No  entanto,  a  diferença, 
nesse caso, foi incluir um panorama amplo de variáveis e dimensões e 
calcular o índice por meio de uma média harmônica. A média harmô‐
nica  possui  uma  importante  diferença  da  média  aritmética,  pois  ela  é 
calculada  harmonizando  os  dados,  no  intento  de  prezar  pelo  equilí‐
brio.  Isso  significa  que  aqueles  territórios  com  muitas  disparidades 
entre as variáveis e as dimensões tendem a apresentar uma média mais 
baixa, ao passo que os territórios mais igualitários tendem a ter médias 
mais  altas.  A  vantagem  disso  é  que  esse  índice  pode  mostrar  as  desi‐
gualdades  existentes  nas  diferentes  dimensões.  Segundo,  a  equipe 
também  forneceu  figuras  semelhantes  a  um  gráfico  de  estrela  para 
cada território avaliado. Temos, na Figura 1, a seguir, uma das figuras 
obtidas pela equipe de pesquisa para o caso do território rural Estrada 
de Ferro, em Goiás. 

Figura 1 − IDS-Biograma do território rural Estrada de Ferro, Goiás

 
Fonte: Waquil et al., 2007, p. 15. 
 

79
 

Tal qual o DNA Brasil, apresentado por Veiga, esse indicador também 
tem como referências mínimas e máximas os números 0 e 1. Por isso, 
as variáveis devem ser padronizadas para serem comparadas. A figura 
mostra  que  o  território  rural  Estrada  de  Ferro,  em  Goiás,  possui  um 
desenvolvimento  melhor  nos  quesitos  cultural  e  social,  apresentando 
condições  piores  nas  outras  dimensões,  especialmente  a  demográfica. 
Quanto maior for a área verde da figura, aproximando‐se dos limites, 
melhor será o desenvolvimento territorial. 

Portanto,  esses  índices  apresentados  aqui  são  ferramentas  úteis  para 


medir o desenvolvimento nas mais diversas escalas geográficas, desde 
comunidades  e  municípios,  até  regiões  e  países.  O  importante  é  que 
eles  sejam  instrumentos  aliados  do  pesquisador  e  do  formulador  de 
políticas públicas e que possam, sempre que possível, serem combina‐
dos com pesquisas qualitativas e históricas. 

Ponto final
Este capítulo abordou o pensamento do economista Amartya Sen e os 
avanços  obtidos  ao  longo  das  últimas  décadas  na  construção  de  indi‐
cadores  de  desenvolvimento  que  ultrapassassem  as  antigas  medidas 
baseadas na renda e no PIB. Para Sen, o desenvolvimento não pode se 
confundir com a análise de agregados econômicos, uma vez que estes 
são meios para atingir o bem‐estar e não fins em si mesmos. Sen pro‐
pôs a abordagem das capacitações, revelando que, para os objetivos de 
desenvolvimento, as pessoas precisam possuir a capacidade de expan‐
dir  suas  liberdades,  o  que  representa  retirar  as  classes  desfavorecidas 
da  situação  de  privações  pelas  quais  passam  e  possibilitar  o  acesso 
destas a bens materiais e sociais. 

Do  ponto  de  vista  institucional,  a  construção  do  IDH  pelo  Programa 
das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), representou um 
grande  avanço  quanto  ao  modo  de  compreender  o  desenvolvimento, 
incorporando à renda e ao PIB outras variáveis sociais. Mas foram os 
índices mais recentes que conseguiram incorporar de fato a abordagem 
multidimensional do desenvolvimento. 

Indicações culturais
PNUD.  Programa  das  Nações  Unidas  para  o  Desenvolvimento. 
Disponível  em:  <http://www.pnud.org.br/home/>.  Acesso  em:  28  nov. 
2008. 
 
 
80
SEN,  Amartya.  Desenvolvimento como liberdade. São  Paulo:  Companhia 
das Letras, 2000. 

_____. Nãoé a falta de alimentos a causa da fome, mas a insuficiência de renda


para comprar comida, diz o economista.  Entrevista  concedida  a  Mônica 
Teixeira. 2001. Disponível em:  

http://www.rodaviva.fapesp.br/materia_busca/32/fernando/
entrevistados/amartya_sen_2001.htm>. Acesso em: 28 nov. 2008. 

A  primeira  indicação  é  o  site do  Programa  das  Nações  Unidas  para  o 


Desenvolvimento  no  Brasil,  no  qual  se  encontram  ricas  informações 
sobre  os  indicadores  da  ONU  (com  dados  do  Atlas  do 
Desenvolvimento Humano no Brasil), os objetivos do milênio, o meio 
ambiente, a pobreza e a  desigualdade, a raça, a educação e a cultura. 

As  duas  últimas  indicações  são  referentes  à  obra  de  Amartya  Sen. 
Sugere‐se  primeiramente  a  leitura  da  entrevista  do  economista 
indiano, seguida da leitura de sua obra mais representativa. 

Atividades
1) Comente  em  que  Amartya  Sen  (2000)  se  diferencia  com  o  seu 
conceito  de  desenvolvimento  dos  outros  autores  até  aqui  estuda‐
dos. Reflita sobre o tema da liberdade nos escritos do autor. 
 
2) Para Sen (2000), qual é a diferença entre funcionamentos e capaci‐
tações?  Quais  as  relações  desses  conceitos  com  a  ideia  geral  de 
“desenvolvimento como liberdade”? 
 
3) Construa  um  índice  de  desenvolvimento  utilizando  múltiplas 
dimensões para um caso que você queira analisar. Não é necessá‐
rio fazer os cálculos, apenas reflita sobre as variáveis e as dimen‐
sões  importantes  para  a  pesquisa  que  irá  propor.  Utilize  as  refe‐
rências do item 6.2.1 (se possível, consulte, pela internet, os textos 
sugeridos) e justifique os indicadores utilizados. (Atenção: alguns 
indicadores são  controversos,  ou  seja,  para algumas  pessoas,  eles 
podem ser positivos e, para outras, eles podem ser negativos. Este 
é o caso do indicador “densidade demográfica”, que, quando mui‐
to elevada, significa um resultado ruim; no entanto, um resultado 
muito baixo também é considerado insatisfatório.) 
 
 

7
A ATUALIDADE DO DEBATE
CONTEMPORÂNEO SOBRE
O DESENVOLVIMENTO
NO BRASIL
Guilherme Francisco Waterloo Radomsky

No  Brasil,  as  mudanças  na  concepção  de  desenvolvimento  ocorridas 


nas últimas décadas são bastante severas, embora a discussão propri‐
amente econômica (sobre como retomar o crescimento e o desenvolvi‐
mento econômico) tenha se mantido relevante. Assim, pode‐se inscre‐
ver o debate recente sobre o desenvolvimento no Brasil sob dois pon‐
tos de vista: o primeiro, mais marcado pela discussão econômica, vol‐
ta‐se  sobre  o  caráter  das  iniciativas  do  Estado,  polarizado  entre  uma 
postura  mais  reguladora  e  alheia  (neoliberal)  e  outra  mais  ativa  com 
políticas de intervenção (desenvolvimentista). 

No  segundo  ponto  de  vista,  a  discussão  sobre  o  desenvolvimento  as‐


sume novos contornos, incluindo temas até então ausentes, tais como o 
capital social, as redes de cooperação, o etnodesenvolvimento e a busca 
da igualdade de gênero. Além desses novos enfoques, e vinculados às 
transformações  que  a  sociedade  brasileira  vive,  o  desenvolvimento 
passa  a  ganhar  qualificativos  que  destacam  aspectos  particulares,  tais 
como as noções de desenvolvimento local, desenvolvimento territorial 
e desenvolvimento rural. 

7.1 Liberalismo e desenvolvimentismo no Brasil atual


O  Brasil  contemporâneo  vive  uma  retomada  da  discussão  sobre  o 
desenvolvimento. Após um período em que experimentou as “impos‐
sibilidades”  do  desenvolvimento  e  os  rumos  da  estratégia  liberal,  o 
país  vem  procurando  restabelecer  o  debate sobre  o  tema,  mesmo  que 
as condições para promover o avanço da qualidade de vida e também 
o crescimento econômico sejam adversas.  

Brasilio  Sallum  Jr.,  professor  da  USP,  escreve  que,  nos  anos  1990,  as 
ideias  liberais  adquirem  grande  expressão  na  condução  da  economia 
brasileira, sobretudo a partir do governo de Fernando Collor, de 1990 a 
1992, e nos primeiros anos do governo de Fernando Henrique Cardo‐
 
 
82
so.  Segundo Sallum Jr.1, a própria noção de estratégia de desenvolvi‐
mento  ficou  restrita  às  políticas  que  procuravam  ajustar  o Estado  (di‐
minuir  seu  papel  interventor)  e  reestruturar  a  economia  por  meio  da 
estabilização monetária. 

Na perspectiva de Sallum Jr., não seria possível, a partir dos anos 1990, 
pensar  em  uma  estratégia  de  dinamização  da  economia  que  buscasse 
um plano de consolidação nacional, tal como no período do desenvol‐
vimentismo  nacional.  A  globalização  da  economia  mundial  implica 
formas crescentes de integração dos Estados à nova ordem de relações 
internacionais, o que não significa que todos os países se vinculam do 
mesmo modo, fato que se deve às suas características sociais, instituci‐
onais e econômicas internas. 

No  entanto,  segundo  Sallum  Jr.2,  é  justamente  nessa  articulação  dos 


Estados ao sistema de relações internacionais que reside a sua capaci‐
dade de regular e administrar certas políticas que podem ser benéficas 
ao desenvolvimento: “a questão central não é tanto se cada sociedade 
integra‐se ou não ao capitalismo transnacionalizado [...] mas como está 
integrada.  Em  face  dessa  nova  situação  estratégica  que  cabe  discutir 
abertura  comercial,  abertura  financeira,  política industrial etc.”  Ainda 
de acordo com o autor, esse panorama favorece a retomada da discus‐
são sobre as estratégias nacionais de desenvolvimento, não mais cerra‐
das sobre si mesmas, mas objetivando diferentes formatos de inserção 
no plano internacional. 

Esse  ponto de vista se  tornou  mais  consolidado  depois  dos  primeiros 


anos do governo de Fernando Henrique Cardoso, sobretudo depois de 
1997,  quando  as  estratégias  de  liberalização  crescente  mostraram‐se 
negativas para o Brasil, tais como a possibilidade de desindustrializa‐
ção  e  da  fuga  de  capitais.  Apesar  de  medidas  típicas  para  destituir  o 
Estado  desenvolvimentista  (fim  da  primazia  das  empresas  nacionais, 
privatização de estatais, abertura comercial, autorização para empresas 
privadas  explorarem  as  telecomunicações,  rodovias,  ferrovias, empre‐
sas  geradoras  de  eletricidade  e  outros),  o  governo  promoveu  outras 
diversas  políticas  a  fim  de  efetivar  o  desenvolvimento  econômico  e  a 
manutenção  dos  níveis  de  emprego  (observe‐se  que  o  desemprego 
aumentou  de  maneira  espantosa  na  década  de  1990  no  Brasil).  Uma 
das  iniciativas  governamentais  mais  importantes  do  período  foi  a 
reafirmação  de  um  programa  de  desenvolvimento  do  setor  automoti‐
vo. Segundo Sallum Jr.3, o programa visava preservar o parque indus‐
trial  já  instalado  no  país  e  também  atrair  investimentos  novos  de 
transnacionais.  Além  dessa  política,  o  governo  implementou  progra‐
 

83
mas de recuperação de infraestrutura em transporte, energia, irrigação, 
armazenagem etc. 

Essas e outras medidas governamentais mostram que o Brasil dos anos 
1990 balançava entre o ideário neoliberal e as políticas que visavam o 
desenvolvimento, agora num cenário de abertura comercial e de globa‐
lização. Para Sallum Jr.4, essa estratégia pode ser nomeada de “liberal‐
desenvolvimentista”,  pois  não  admite  o  “fundamentalismo”  do  mer‐
cado e vê com bons olhos maneiras restritas de intervenção na econo‐
mia:  “são  favorecidas  as  políticas  industriais  setoriais,  mas  desde  que 
limitadas no tempo e parcimoniosas nos subsídios [...]. Esse desenvol‐
vimentismo  continua  industrializante,  mas  seu  foco  ampliou‐se  para 
incluir atividades produtivas em geral, desde a agricultura até os ser‐
viços”. 

Embora  os  esforços  para  a  diminuição  das  taxas  de  juros  e  do  incre‐
mento dos níveis de emprego formal, não se pode afirmar que a estra‐
tégia de desenvolvimento tenha sofrido grandes alterações no governo 
Lula, comparado ao governo anterior. Talvez se possa reconhecer que 
as questões sociais realmente mobilizam o governo, tais como a pobre‐
za  e  a  desigualdade,  o  que  teria  inspirado  os  programas  carros‐chefe 
de  Lula,  como  o  Bolsa  Família  e  o  Fome  Zero.  Entretanto,  apesar  dos 
avanços obtidos na redução da desigualdadel, percebe‐se a dificuldade 
que o Estado tem para conduzir a economia nacional a patamares mais 
elevados de desenvolvimento, sendo esta uma característica geral que 
marca as nações em desenvolvimento desde os anos 1980. 

Essa situação de limitações econômicas do Estado e da persistência da 
pobreza  no  Brasil,  associada  às  novas  perspectivas  sobre  o  que  seja  o 
desenvolvimento, fizeram emergir um conjunto de propostas de outras 
formas  de  se  atingir  o  desenvolvimento  que  se  mostrariam  revelado‐
ras.  Essas  propostas  não  se  concentram  em  elementos  puramente 
econômicos,  pois  é  cada  vez  mais  legítima  na  sociedade  e  nas  esferas 
governamentais  a  abordagem  multidimensional  do  desenvolvimento; 
ainda assim, desejam exercer uma determinada influência na dimensão 
econômica do desenvolvimento. Alguns dos mais relevantes e recentes 
enfoques  sobre  o  desenvolvimento  são  o  capital  social,  as  redes,  o 
etnodesenvolvimento e a perspectiva de gênero. 

                                                                  
 Num trabalho recente, uma equipe do Ipea mostra que, entre 2001 e 2005, houve uma redução expressiva 
l

da desigualdade, atingindo o nível mais baixo em trinta anos. Ainda assim, a estrutura da distribuição de 
renda no Brasil mantém‐se concentrada (Barros et al., 2007)  
 
 
84
Capital social e redes de cooperação

A noção de capital social guarda relações com a de capital econômico 
na  medida  em  que  ambas  expressam  acumulação  de  recursos.  Entre‐
tanto,  enquanto  o  capital  econômico  é  produto  de  relações  sociais  e é 
acumulado  apenas  por  capitalistas,  o  capital  social  possibilita  uma 
espécie de retorno dos benefícios a todos os indivíduos que se inserem 
em relações sociais. Embora possua raízes antigas (vinculada à discus‐
são  da  importância  da  participação  das  pessoas  na  comunidade  em 
que  vivem),  a  noção  de  capital  social  é  relativamente  nova,  oriunda 
dos trabalhos de Pierre Bourdieu, nos anos 1970, e de James Coleman e 
Robert Putnam nos anos 1990. 

Para  Bourdieu,  citado  pelo  professor  Marcelo  Baquero5,  capital  social 


“consiste em redes e conexões sociais, afiliação e contato de grupo que, 
pela  acumulação  de  intercâmbios,  obrigações  e  identidades  comparti‐
lhadas, proporcionam o apoio [...] para ter acesso a recursos valoriza‐
dos  e  à  sociabilidade”.  Já  na  visão  de  Putnam,  citado  por  Baquero6,  é 
importante  levar  em  conta  as  interações  recíprocas  das  pessoas  nas 
comunidades  e  seus  efeitos  para  a  geração  de  valores  como  civismo, 
participação  e  democracia.  Baquero  afirma  que  Putnam  enfoca  as  ex‐
ternalidades  positivas  das  relações  sociais  entre  as  pessoas  e  em  que 
isso resulta em algo benéfico para elas e para a comunidade. 

O capital social ganha destaque nas agendas de desenvolvimento, pois 
ele permite romper com o dualismo das ações estatais e neoliberais. Se, 
de um lado, a intervenção estatal é comprometida em função das limi‐
tações  estruturais  e,  de  outro,  a  ideologia  neoliberal  insiste  no  indivi‐
dualismo e nas forças de mercado como as únicas que devem reger a 
sociedade, a definição de capital social possibilita que a sociedade civil 
se  torne  um  ator  na  condução  do  desenvolvimento.  Na  realidade,  as 
investidas no capital social tiveram êxito justamente quando o Estado 
perdeu sua capacidade de inversões e a matriz de pensamento neolibe‐
ral assumiu o comando das ideologias econômicas.  Assim, a ideia de 
que  é  preciso  revitalizar  a  sociedade  civil  para  que  esta  tenha  papel 
ativo  na  condução  das  iniciativas  de  desenvolvimento  encontra  na 
concepção de capital social um forte aliado. 

Num  momento  em  que  o  crescimento  econômico  se  torna  lento  e  os 
investimentos em industrialização são escassos, restam poucas alterna‐
tivas de criação de formas de desenvolvimento que apostem na coope‐
ração  e  na  vitalização  de  forças  coletivas  presentes  na  sociedade.  Por 
essa razão, o capital social se torna um modo de ativar os laços sociais, 
especialmente  nas  comunidades  pobres.  De  acordo  com  Radomsky  e 
Paredes  Peñafiel7,  a  constatação  de  diversos  estudos  é  de  que  se  os 
 

85
fatores  econômicos  são  raros  nessas  comunidades,  estes  podem  ser 
centralizados,  se  as  pessoas  criarem  um  vínculo  de  confiança  umas 
com as outras e puderem participar dos processos sociais. Desse modo, 
o capital social é um recurso coletivo que depende do grau de confian‐
ça  e  interação  das  pessoas;  ele  pode  ser  fortalecido  e  estimulado  por 
entidades externas (ONGs) e vem a representar uma forma de se apoi‐
ar nas habilidades políticas das pessoas (suas capacidades de se relaci‐
onarem e interagirem positivamente) para que a dimensão econômica 
também seja dinamizada. 

As redes de cooperação possuem estreita relação com o capital social; 
no entanto, existe uma tendência a se considerar que as redes podem 
ter  extensões  maiores  e  envolverem  diversos  atores.  A  noção  de  rede 
também é antiga nas ciências sociais (desde Saint‐Simon, o termo rede é 
usado  como  metáfora  para  indicar  “a  sociedade”),  porém  adquire 
relevância nos estudos antropológicos dos anos 1950 e 1960. Antropó‐
logos  ingleses  como  John  Barnes  e  Adrian  Mayer,  citados  por  Ra‐
domsky8, perceberam que a noção de rede poderia ser utilizada como 
explicação para conexões e relações sociais diferenciadas, ou seja, que 
eram resultado de estratégia deliberada das pessoas. Na perspectiva de 
Barnes9, rede social é um conjunto de relações interpessoais concretas 
que vinculam indivíduos a outros indivíduos. 

Mais  recentemente,  a  sociologia  e  a  ciência  política  têm  buscado,  na 


noção  de  redes,  formas  de  explicar  coalizões  e  grupos,  formação  de 
laços sociais em redes extensas, modos de efetivação do poder local e 
de  políticas  públicas,  redes  de  movimentos  sociais  e  mesmo  grandes 
redes de migração e de trocas, como os estudos de Ilse Scherer‐Warren, 
Eduardo Marques e Ana Luiza Müller10. 

O que é realmente interessante na perspectiva das redes na compreen‐
são do desenvolvimento é que elas possibilitam um grande número de 
atores  de  se  envolverem  em  projetos  sociais.  Diferente  da  ideia  de 
capital social, que geralmente enfatiza os laços comunitários e de pro‐
ximidade  entre  as  pessoas,  a  noção  de  rede  permite  a  articulação  de 
atores em distâncias, ou seja, entidades que não compartilham o mes‐
mo  território,  que  não  são  vizinhas  (ONGs,  instituições  governamen‐
tais, fundações, movimentos sociais, universidades). 

Na realidade, as redes comportam rivalidades e disputas de poder e se 
caracterizam pela heterogeneidade dos participantes: dessa caracterís‐
tica deriva sua riqueza como um modo de organização, pois é no inter‐
câmbio de práticas, conhecimentos e experiências que as forças sociais 
se nutrem. Por essa razão, multiplicam‐se as redes regionais, nacionais 
e até mesmo internacionais (redes de mobilização social, redes para o 
 
 
86
desenvolvimento  sustentável,  rede  de  combate  à  pobreza,  rede  de 
combate à Aids etc.).  

Uma das vantagens da perspectiva das redes sociais é seu avanço em 
relação  às  concepções  endógenas  e  exógenas  de  desenvolvimento. 
Desde que a noção de desenvolvimento se tornou mais flexível e mul‐
tidimensional,  pulularam  teses  sobre  o  caráter  do  desenvolvimento 
local  ou  regional.  O  debate  se  concentrava  na  disputa  entre  aqueles 
que compreendiam que os fatores endógenos (internos) eram os mais 
expressivos e aqueles que advogavam a favor dos elementos exógenos 
(externos  ao  local)  tinham  mais  poder.  Esses  fatores  endógenos  ou 
exógenos poderiam ser capitais econômicos, informação de qualidade, 
educação formal, mão de obra e até valores. Ocorre que a perspectiva 
das redes passou a questionar essa dualidade, mostrando que poucos 
lugares  conseguem  permanecer  isolados  e  ativar  processos  de  desen‐
volvimento unicamente por meio dos fatores internos; do mesmo mo‐
do,  raros  são  os  espaços  que  não  possuem  recursos  sociais  ou  econô‐
micos internos e que possam ser utilizadas na combinação com fatores 
externos. 

Mas não há uma oposição necessariamente entre redes e territórios, já 
que  as  redes  podem  ser  pequenas  e  apenas  alimentar  laços  locais  co‐
munitários; assim como podem ser extensas e integrar distintos territó‐
rios. Scherer‐Warren11 afirma que: 

as redes sociais primárias, interindividuais ou coletivas, caracterizam‐se por serem 
presenciais,  em  espaços  contíguos,  criando  territórios  no  sentido  tradicional  do 
termo,  isto  é,  geograficamente  delimitados;  enquanto  isso,  as  redes  virtuais, 
resultantes do ciberativismo, são intencionais, transcendem as fronteiras espaciais 
das redes presenciais, criando, portanto, territórios virtuais cujas configurações se 
definem  pelas  adesões  por  uma  causa  ou  por  afinidades  políticas,  culturais  ou 
ideológicas. Todavia, elas podem vir a ter impacto sobre as redes presenciais e vice‐
versa,  numa constante dialética entre o local e o mais global, entre o presencial e o 
virtual, entre o ativismo do cotidiano e o ciberativismo, podendo vir a auxiliar na 
formação de movimentos cidadãos planetarizados. Há portanto, um deslocamento 
das fronteiras tradicionais comunitárias, locais, para o plano global. 

Portanto,  as  redes  possuem  uma  flexibilidade  importante  e  são 


também  resultado  da  emergência  da  sociedade  civil  na  promoção 
participativa  dos  processos  de  desenvolvimento.  Com  a  atuação  em 
rede,  possibilitada  pelas  tecnologias  da  informação,  a  autora  mostra 
que a própria ideia de comunidade pode ser ampliada, constituindo‐se 
além das comunidades locais e em outras que seriam regionais, nacio‐
nais e globais. 
 
 

87
Etnodesenvolvimento

O etnodesenvolvimento surge a partir de dois princípios, um ligado às 
teorias  recentes  do  desenvolvimento  e  outro  vinculado  aos  processos 
históricos seculares da sociedade brasileira. No primeiro, a problemáti‐
ca se insere na tentativa de responder aos anseios do desenvolvimento, 
sem que os povos beneficiados pelas políticas e pelos projetos tenham 
suas  características  sociais  e  culturais  destruídas.  Essa  é  uma  preocu‐
pação central das mais recentes perspectivas do desenvolvimento, que 
se  vinculam  à noção  mais  geral,  presente  na  Constituição de  1988, de 
respeito à autonomia dos povos. 

No segundo, apesar de se concentrar no respeito à ancestralidade e ao 
modo  de  vida  particular  dos  povos  (sobretudo  povos  indígenas  e  re‐
manescentes  de  quilombos),  o  etnodesenvolvimento  não  deixa  de  se 
importar com a situação de pobreza e insuficiência alimentar por que 
passam  muitas  comunidades  tradicionais.  Portanto,  é  um  modo  de 
resolver  os  problemas  socioeconômicos  de  segmentos  da  população 
que se encontram historicamente destituídos de poder, marginalizados 
das políticas de bem‐estar – uma forma de resolver uma dívida históri‐
ca com grupos que sofreram intenso preconceito racial e cultural e que 
foram vitimizados com formas de escravidão e expulsão de seus terri‐
tórios. 

Na opinião de Rodrigo de Azeredo Grünewald, foi Rodolfo Stavenha‐
gen,  em  1984,  o  propositor  do  conceito  de  etnodesenvolvimento,  que  o 
define  como  o  estilo  de  desenvolvimento  que  mantém  as  diferenças 
sociais,  culturais  e  étnicas.  Segundo  Grünewald12,  na  definição,  essa 
forma  de  desenvolvimento  precisa  observar  que  os  povos  e  etnias 
detenham o controle de seus recursos e ativos, sua cultura e modo de 
organizar  sua  sociedade,  sendo  o  acesso  à  terra  um  direito  essencial. 
Além  disso,  as  mudanças  sociais  que  visam  o  etnodesenvolvimento 
devem ser pensadas à luz das tradições culturais do grupo em questão, 
aprimorando  a  possibilidade  de  autossustentabilidade,  isto  é,  remo‐
vendo  a  dependência  do  grupo  em  relação  aos  órgãos  do  Estado  e  a 
outras entidades. 

Grünewald13 ainda salienta que o etnodesenvolvimento incorpora uma 
dimensão  ética.  Em  primeiro  lugar,  porque  se  liga  a  ideia  de  que  a 
própria comunidade deve se perpetuar, ou  seja, ela objetiva a susten‐
tabilidade da etnia. Em segundo lugar, ao fato de que não estão apenas 
em jogo os processos de ampliação do bem‐estar pelo trabalho, a pro‐
dução e o consumo, mas também as relações entre os povos autóctones 
e o “mundo dos brancos” (o Estado e instituições diversas). Portanto, o 
etnodesenvolvimento visa a relação entre diferentes e a construção de 
 
 
88
alianças  que  possibilitem  o  desenvolvimento  dos  grupos  conforme 
suas raízes culturais. 

Na concepção de Paul Little14, professor de antropologia da Universi‐
dade  de  Brasília,  o  etnodesenvolvimento  deve  ser  pensado  tanto  na 
acepção de sustentabilidade de etnias (sua preservação) como na ideia 
de  desenvolvimento  econômico  de  um  grupo  étnico.  Isso  porque  a  
preservação  do  grupo,  sem  as  mínimas  condições  produtivas,  apenas 
manteria esse grupo como marginal e empobrecido. 

Assim,  o  etnodesenvolvimento  representa  um  novo  enfoque  sobre  o 


tema  do  desenvolvimento,  visto  que  ele  procura  enfatizar  que  não 
basta falar em  desenvolvimento em geral se  não forem observadas as 
estruturas de dominação e de desigualdade no interior das sociedades. 
Sem isso, as iniciativas em direção ao desenvolvimento podem resultar 
no aprofundamento das desigualdades e na exclusão social de grupos 
étnicos que mantêm modos de vida distintos. Em outra perspectiva, o 
etnodesenvolvimento  também  chama  a  atenção  dos  pesquisadores  e 
dos  formuladores  de  políticas  públicas  para  o  fato  de  que,  mesmo 
quando os países vivem períodos com crescimento econômico lento e 
dispõem  de  recursos  escassos,  é  possível,  por  meio  de  políticas  dife‐
renciadas para segmentos sociais, promover o bem‐estar dessas popu‐
lações.  Esse  também  é  o  caso  das  iniciativas  de  gênero  e  desenvolvi‐
mento. 

Gênero

A  discussão  sobre  o  gênero  assume  características  peculiares  quando 


associada às políticas de desenvolvimento. Embora seja derivada tam‐
bém da primazia que adquire a ideia da participação da sociedade civil 
nos destinos do país e nos caminhos que devem conduzir ao desenvol‐
vimento, a dimensão de gênero está associada à luta pela igualdade. A 
igualdade de gênero tem razão de existir devido à opulência da domi‐
nação masculina que tem assolado as mulheres ao longo de séculos. 

Jussara  Prá15,  professora  de  ciência  política,  afirma  que  as  iniciativas 
em  prol  da  cidadania  de  gênero  se  assentam  no  contexto  geral,  perti‐
nente ao fim do século XX, de ampliação dos direitos coletivos e indi‐
viduais. Por isso, a equidade de gênero tem forte relação com a conso‐
lidação  democrática.  Prá  também  escreve  que  a  literatura  feminista 
mostra um consenso de que a busca das mulheres por um maior espa‐
ço de atuação tem obtido grandes conquistas, seja pela crescente parti‐
cipação na esfera pública, seja na intensificação da sua capacidade de 
intervir nas decisões políticas. 
 

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As  iniciativas  em  torno  de  gênero  e  o  desenvolvimento  são  enfáticas 
em  mostrar  que  esse  mesmo  acesso  às  esferas  do  poder,  apesar  de 
parecer  consolidado,  tem  sido  dificultado  não  apenas  na  participação 
das decisões políticas (por exemplo, para ocupar cargos públicos), mas 
também em obter independência econômica. Em razão disso, algumas 
ações  básicas  são  essenciais  para  promover  a  igualdade  de  condições 
entre homens e mulheres, tais como prover documentação às mulheres 
(em  muitas  regiões  do  Brasil  as  mulheres  não  possuem  Carteira  de 
Identidade ou CPF), criar linhas próprias para financiamento de ativi‐
dades econômicas (por exemplo, o PRONAF Mulher) e fornecer titula‐
ção  de  propriedades  em  seu  nome.  O  caso  da  documentação  é  tão 
elementar que, sem ela, as mulheres não podem comprovar que traba‐
lham e, dessa forma, ficam excluídas da possibilidade de obter a apo‐
sentadoria.  

A  herança  da  dominação  patriarcal  no  Brasil  é  tão  forte  que,  mesmo 
quando o país implementa políticas de distribuição de recursos como a 
reforma  agrária,  geralmente  é  o  homem  o  beneficiário  (porque  ele  é 
reconhecido como chefe de família). Portanto, tal qual as iniciativas de 
etnodesenvolvimento vistas anteriormente, os projetos de desenvolvi‐
mento necessitam de um recorte de gênero para que seja promovida e 
preservada a justa equidade entre homens e mulheres. 

7.2 Qualificativos do desenvolvimento


O período em que vivemos nos mostra que as iniciativas e as políticas 
para o desenvolvimento se tornaram muito diversificadas e com obje‐
tivos diferenciados, desde projetos para inclusão de segmentos sociais 
discriminados,  passando  por  programas  de  igualdade  de  gênero,  de 
fortalecimento  da  cooperação  social  e  de  ativação  de  independência 
econômica,  até  ações  de  sustentabilidade  ambiental  e  regularização 
fundiária.  Presencia‐se  também  a  criação  de  qualificativos  para  o  de‐
senvolvimento,  tais  como  o  desenvolvimento  local,  territorial,  rural, 
urbano, sustentável etc. 

Algumas  dessas  noções  se  tornaram  bastante  utilizadas  e,  portanto, 


cabe uma breve explanação a respeito delas. Como o tema da sustenta‐
bilidade  será  analisado  em  detalhes  nos  próximos  capítulos,  o  foco 
principal aqui estará em três qualificativos do desenvolvimento: local, 
territorial e rural. 

Zander  Navarro16  mostra  que  o  surgimento  da  noção  de  desenvolvi‐


mento  local  é  resultado  de  duas  transformações  contemporâneas  im‐
portantes.  A  primeira  está  ligada  à  emergência  e  à  multiplicação  das 
organizações  da  sociedade  civil  e  ONGs,  que  se  dedicam  a  intervir  e 
 
 
90
realizar  ações  localmente,  pois  seu  raio  de  atuação  é  relativamente 
pequeno.  A  segunda  está  vinculada  ao  processo  mais  amplo  de  des‐
centralização das decisões políticas, nas quais o Estado delega respon‐
sabilidades aos atores locais, para que promovam formas de regulação 
e gestão de recursos. Essas duas transformações passaram a valorizar 
crescentemente as ações de âmbito local. 

Conforme  Sergio  Buarque17,  consultor  na  área  do  planejamento  de 


políticas públicas locais, “desenvolvimento local é um processo endó‐
geno  registrado  em  pequenas  unidades  territoriais  e  agrupamentos 
humanos capaz de promover o dinamismo econômico e a melhoria da 
qualidade de vida da população”.  

Para  ser  efetivo,  o  desenvolvimento  deve  ser  capaz  de  transformar  a 


economia  e  a  sociedade  local,  porém  sendo  conduzido  pelas  forças 
sociais daquele espaço, com o objetivo de elevar os níveis de renda das 
pessoas, incrementar as oportunidades sociais e assegurar a preserva‐
ção da biodiversidade. 

Para Navarro, entretanto, as iniciativas de desenvolvimento local aca‐
bam  por  apresentar  dois  problemas  para  sua  consolidação  −  em  pri‐
meiro  lugar,  sua  própria  natureza  local  tem  como  consequência  uma 
atuação  relativamente  restrita  e,  apesar  das  boas  intenções,  a  ação 
nesse nível muitas vezes não consegue implementar mudanças sociais 
eficazes. Em segundo lugar, ela parte da premissa que os atores locais 
são preparados para lidar com os recursos e com as decisões, o que, em 
muitos lugares, é uma realidade bastante distante. 

É  possível  que  um  dos  entraves  dos  processos  de  desenvolvimento 


local  seja  justamente  a  ênfase  no  localismo.  Navarro18  mostra  que,  no 
Brasil, o qualificativo local associado ao desenvolvimento significou a 
municipalização  das  políticas  e  das  iniciativas.  Nesse  sentido,  não 
foram  poucos  os  críticos  que  perceberam  que  a  fragmentação  dos  re‐
cursos nos municípios surtia poucos efeitos para o desenvolvimento. 

Essa  foi  uma  das  razões  para  a  emergência  da  noção  de  desenvolvi‐
mento territorial. À medida que a descentralização das políticas públi‐
cas  e  das  decisões  valorizava  os  municípios  e  pulverizava  recursos 
para  projetos  muito  restritos,  observou‐se  que  essa  estratégia  poderia 
ser ineficiente. Portanto, a ideia de que deveria existir uma escala geo‐
gráfica  de  atuação  maior  que  o  município  e menor  que  os  estados  da 
federação se tornou mais preponderante.  

Uma outra razão pra o surgimento da noção de desenvolvimento terri‐
torial foi a crescente importância dada às relações dos territórios com o 
 

91
ambiente  externo,  especialmente  o  global.  Schneider19  mostra  que  o 
“território emerge como processo vinculado à globalização, sobretudo 
porque a nova dinâmica econômica e produtiva depende de decisões e 
iniciativas  que  são  tomadas  e  vinculadas  em  função  do  território”. 
Portanto, não obstante a importância que assumem os locais nos pro‐
cessos de desenvolvimento, a revelação de que o local jamais permane‐
ce  circunscrito  modificou  a  compreensão  das  articulações  entre  os 
ambientes interno e externo. 

Vale  lembrar  ainda  que,  como  visto  no  capítulo  5,  a  noção  de  desen‐
volvimento territorial vem também a ser resultado do esgotamento da 
abordagem regional, que alcança seus limites quando a capacidade do 
Estado de intervir e investir no planejamento econômico das regiões se 
esvaece. 

Um  outro  importante  componente  que  possibilitou  a  introdução  da 


abordagem territorial do desenvolvimento foi a compreensão de que a 
dinâmica  setorial  dos  ramos  da  atividade  econômica  passava  por  um 
questionamento. Foi então que a percepção de que os sistemas produ‐
tivos  locais,  as  sinergias  dos  territórios,  a  articulação  das  entidades 
territoriais, as redes de cooperação entre empresas e a efetividade das 
relações de proximidade entre os atores para os objetivos do desenvol‐
vimento  respondiam  melhor  do  que  a  dimensão  setorial.  Ou  seja,  o 
tecido social, a capacidade de acumular recursos coletivos e o ambiente 
socioeconômico passaram a ter primazia na análise do desenvolvimen‐
to, elevando a categoria TERRITÓRIO como algo central para entender 
as dinâmicas particulares e a capacidade de agência. 

Já  a  noção  de  desenvolvimento  rural  tem  uma  tradição  teórica  mais 
antiga, sendo oriunda das políticas de desenvolvimento do pós‐guerra. 
Entre os anos 1950 e 1975, Navarro20 escreve que a noção de desenvol‐
vimento  rural  era  alimentada  por  um  “espírito  de  época”,  pois,  se  a 
iniciativa  visava  o  bem‐estar  econômico  das  comunidades  rurais,  a 
condução  se  dava  por  meio  do  ímpeto  modernizante,  procurando 
otimizar a produção e a produtividade do trabalho agrícola. 

Navarro21 afirma que é necessário diferenciar o desenvolvimento rural 
do  desenvolvimento  agrícola  e  do  desenvolvimento  agrário.  DESEN‐
VOLVIMENTO AGRÍCOLA refere‐se exclusivamente às condições de 
produção e produtividade da agropecuária, em seu sentido realmente 
produtivo,  isto  é,  o  uso  da  mão  de  obra  na  agricultura,  a  tecnologia 
empregada, a produtividade da terra etc. Por outro lado, DESENVOL‐
VIMENTO  AGRÁRIO  diz  respeito  a  interpretações  sobre  o  mundo 
rural  e  sua  relação  com  a  sociedade,  observando  as  diversas  institui‐
ções e fatos sociais implicados, tais como o acesso a terra, os aspectos 
 
 
92
políticos,  as  instituições,  os  conflitos  sociais,  os  mercados  e  a  disputa 
de  classes.  A  expressão  desenvolvimento  agrário  tem  expressiva  relação 
com  as  interpretações  marxistas  do  desenvolvimento  do  capitalismo 
no meio rural, conforme Navarro22. 

Já  o  DESENVOLVIMENTO  RURAL,  na  perspectiva  contemporânea, 


seria uma “ação previamente articulada que induz (ou pretende indu‐
zir) mudanças num determinado ambiente rural”, segundo Navarro23. 
Veja‐se  que  a  noção  não  implica  que  apenas  as  atividades  agrícolas  e 
pecuárias  sejam  alvo  das  iniciativas,  mas  é  o  espaço  rural  como  um 
todo,  comportando  a  heterogeneidade  de  atividades  (agrícolas  e  não‐
agrícolas) e de atores sociais. Assim, embora a definição de desenvol‐
vimento rural possa variar ao longo do tempo, geralmente ela tem tido 
o  Estado  como  o  mais  importante  (não  o  único)  ator  na  condução  do 
processo  e,  usualmente,  as  propostas  destacam  a  melhoria  das  condi‐
ções de vida das populações rurais. 

Para  Schneider24,  existem  algumas  condições  mínimas  de  consenso 


acerca dos motivos que levaram à retomada do debate sobre o desen‐
volvimento  rural  nos  últimos  anos:  a  necessidade  de  erradicação  da 
pobreza rural, a questão do protagonismo dos atores sociais na parti‐
cipação, o território como unidade para pensar o desenvolvimento e a 
preocupação geral com a sustentabilidade ambiental. O ponto de vista 
de  Schneider  é  que  o  desenvolvimento  é  um  processo  resultado  de 
ações  articuladas  que  visam  induzir  mudanças  no  espaço  rural,  tais 
como a melhoria nas rendas das famílias e o incremento da qualidade 
de vida e do bem‐estar da população. Para o autor, o desenvolvimento 
rural  sempre  seria  um  processo  que  depende  das  características  soci‐
ais, econômicas, tecnológicas e ambientais dos espaços, manifestando a 
complexidade e a diversidade que se encontram nos territórios. 

Ponto final
Este  capítulo  ofereceu  uma  visão  sobre  o  debate  recente  acerca  do 
desenvolvimento  no  Brasil.  O  início  dos  anos  1990  marcou  um  novo 
período para a sociedade brasileira, no qual as ideias neoliberais impu‐
seram  sua  hegemonia.  Entretanto,  governantes  do  país  logo  percebe‐
ram que a ausência total do Estado na condução do desenvolvimento e 
no  estímulo  a  atividades  econômicas  era  deficitário.  Segundo  autores 
citados,  o  Brasil  mostra  iniciativas  liberais  e  desenvolvimentistas  no 
período  recente,  sendo  que  a  articulação  no  sistema  econômico  inter‐
nacional é uma condição imperativa.  

As mudanças no modo do Estado conduzir e implementar políticas faz 
emergir  atores  da  sociedade  civil  que  dão  novos  contornos  ao  desen‐
 

93
volvimento,  cujas  variadas  perspectivas  enfocam  o  capital  social,  as 
redes de cooperação, o etnodesenvolvimento e as iniciativas pela equi‐
dade de gênero. Outros qualificativos para o desenvolvimento surgem 
nesse cenário, sendo os principais os desenvolvimentos local, territori‐
al e rural. 

Indicações culturais

ABRAMOVAY, Ricardo. O capital social dos territórios: repensando o 
desenvolvimento  rural.  Revista  de  Economia Aplicada,  v.  4, n.  2,  p.  379‐
397, abr./jun. 2000. 

GRÜNEWALD,  Rodrigo  de  Azeredo.  Etnodesenvolvimento  indígena 


no Nordeste (e Leste): aspectos gerais e específicos. Revista Anthropoló‐
gicas,  Recife,  v.  14,  n.  1‐2,  p.  47‐71,  2003,  Disponível  em: 
<http://www.ufpe.br/revistaanthropologicas/internas/volume14/Artigo
%203.pdf>. Acesso em: 28 nov. 2008. 

NÚCLEO  DE  ESTUDOS  DE  GÊNERO  PAGU/Unicamp.  Disponível 


em: <http://www.pagu.unicamp.br/>. Acesso em: 18 nov. 2008. 

A  primeira  indicação  é  um  artigo  que  analisa  a  territorialidade  do 


capital social e sua capacidade para efetivar o desenvolvimento rural. 
Existem outras versões desse texto, que foram incluídas em coletâneas 
e revistas. A segunda indicação é um artigo de Rodrigo A. Grünewald 
sobre o etnodesenvolvimento, enfocando povos indígenas no Nordeste 
brasileiro. A terceira indicação é o site do Núcleo de Estudos de Gênero 
PAGU. Nele, encontram‐se diferentes informações e materiais, especi‐
almente  os  vários  números  dos  Cadernos  PAGU,  conceituada  revista 
científica que publica textos sobre as relações de gênero em seus múl‐
tiplos aspectos. 

Atividades
1) Qual o papel das mudanças sociais vividas no Brasil recente para 
a emergência dos novos enfoques do desenvolvimento, tais como 
o  capital  social,  o  etnodesenvolvimento  e  a  perspectiva  da  igual‐
dade de gênero? 
 
2) Por  que  razão  o  etnodesenvolvimento  e  as  iniciativas  para  igual‐
dade  de  gênero  podem  ser  consideradas  políticas  de  desenvolvi‐
mento? Qual a importância delas no Brasil? 
 
 
 
94
3) A  noção  contemporânea  de  desenvolvimento  rural  pode  ser  con‐
siderada distinta da ideia que se tinha sobre desenvolvimento ru‐
ral entre os anos 1950 e 1970? O que ela apresenta de novidade em 
relação à antiga? 
 
 

8 SUSTENTABILIDADE:
ANTECEDENTES HISTÓRICOS

Guilherme Francisco Waterloo Radomsky

O fenômeno da globalização teve repercussões nas mais diversas esfe‐
ras  da  vida  social,  segundo  Fredric  Jameson1,  professor  norte‐
americano e teórico da literatura, da pós‐modernidade e das mudanças 
sociais globais. Grande parte dos críticos sustenta que  os efeitos do tal 
fenômeno  são  especialmente  sentidos  na  econômia  e  na  cultura  e  al‐
guns cientistas sociais chegaram a admitir que essas duas dimensões se 
combinaram de tal maneira que a própria cultura se tornou mercado‐
ria, sendo vendida em marcas, grifes e produtos mundo afora.  

Mas também é verdade que a globalização teve efeitos diretos no que 
diz respeito ao ambiente. A mesma constatação de que a economia se 
tornou  globalizada  já  é  um  diagnóstico  de  que  os  sistemas  sociais  e 
ambientais  locais  sentiram  os  impactos  de  um  sistema  de  relações 
internacionais,  alterando  seu  funcionamento  interno  e  engendrando 
novas formas de relação e exploração dos recursos para a produção e o 
consumo.  

Citando  o  teórico  político  britânico  David  Held,  Veiga2  esclarece  que 


existe uma faceta da globalização que nem os piores céticos colocariam 
em dúvida: o reconhecimento do caráter planetário da apreensão sobre 
a  deterioração  das  condições  ambientais.  No  entanto,  como  se  inicia 
essa  inquietação?  Quais  são  as  origens  da  indagação  sobre  os  limites 
do meio ambiente nos processos de desenvolvimento? 

8.1 Ambientalismo e ecologia


É  justamente  no  momento  em  que  muitos  dos  países  do  mundo  de‐
monstravam  crescimento  econômico  sem  precedentes  que  o  tema  do 
meio  ambiente  emergiu  de  forma  particular.  O  ambientalismo  é  uma 
forma de pensamento e crítica social que adquire contornos depois da 
2ª Guerra Mundial e, conforme Ted Benton3, “cobre todo um âmbito de 
movimentos  sociais  e  políticos  e  de  perspectivas  de  valor  que  parti‐
 
 
96
lham  da  preocupação  em  proteger  ou  melhorar  a  qualidade  dos  con‐
textos rural, urbano, doméstico ou de trabalho na moderna vida soci‐
al”. 

Benton  mostra  que  foi  a  partir  desse  período  que  se  instaurou  uma 
angústia  relacionada  à  deterioração  do  meio  ambiente  e  sua  relação 
com  o  modo  de  vida  baseado  na  industrialização  e  na  urbanização; 
isso significa que a onda de expansão econômica que alimentou tanto o 
fordismo  nos  países  desenvolvidos  como  o  sonho  desenvolvimentista 
nas  demais  nações  veio  a  apresentar  sua  face  perversa:  a  destruição 
das bases ecológicas que sustentavam esse estilo de desenvolvimento, 
visto naquele período como o crescimento da economia. 

É preciso perceber que um olhar diferenciado para a natureza já havia 
sido  construído  desde  os  séculos  XVIII  e  XIX,  sobretudo  na  Europa  e 
nos Estados Unidos, localidades nas quais a ideia de ecologia, extinção 
das espécies e ecossistema foram elaboradas. Eram os primeiros pano‐
ramas  sobre  a  relação  existente  entre  economia  e  meio  ambiente,  ser 
humano  e  natureza.  No  entanto,  os  anos  1950  e  1960  mostram  toda  a 
força dos movimentos e da ideias em prol de um mundo menos agres‐
sivo  à  natureza.  No  final  dos  anos  1970,  é  fundado,  na  Alemanha,  o 
Partido Verde, que aglutinava membros do movimento estudantil e da 
esquerda marxista, junto a uma gama de ativistas, tais como os ligados 
aos  direitos  dos  homossexuais,  feministas  e  militantes  antinucleares. 
Uma década após, quase todos os países europeus já tinham “partidos 
verdes”. 

Benton4 afirma que o ambientalismo assumiu três formas principais: os 
grupos  de  pressão  propondo  reformas  ambientais  dentro  de  partidos 
políticos dominantes, os partidos políticos propriamente chamados de 
verdes e os grupos não alinhados politicamente. Estes últimos se carac‐
terizaram  por  formar  organizações  que  pretendiam  chamar  a  atenção 
das pessoas para os problemas ambientais diversos. 

Benton  também  mostra  que  são  três  as  principais  condições  que  têm 
servido de fundamento para a ação dos grupos e partidos verdes e, de 
um  modo  geral,  para  uma  agenda  política  ambiental:  a  primeira  diz 
respeito aos inúmeros desastres ambientais que ocorrem mundo afora, 
desde catástrofes nucleares até derramamento de petróleo por navios. 
A isso se alia à percepção crescente de que o mundo tem sofrido cons‐
tantemente  com  desastres  naturais,  tais  como  tufões,  alagamentos  e 
desertificação.  A  segunda  vincula‐se  aos  efeitos  do  desenvolvimento 
industrial  acelerado  e  caótico  sobre  a  qualidade  de  vida,  incluindo 
questões  como  contaminação  e  envenenamento  de  alimentos,  conges‐
tionamento  de  trânsito,  barulho  e  poluição.  A  terceira  é  ligada  aos 
 

97
impactos  globais  no  planeta,  tais  como  as  incessantes  divulgações 
sobre a deterioração da camada de ozônio, o aumento do aquecimento 
global, o perigo das fontes nucleares de energia e a contaminação dos 
solos pela chuva ácida. 

Deve‐se  recordar  que  as  iniciativas  e  políticas  do  desenvolvimento 


estimuladas no pós‐guerra traziam no seu bojo a imaginação ocidental 
de que o progresso é o caminho natural que a sociedade deve percor‐
rer. Jalcione Almeida5, professor de agronomia, mostra que essa ideia 
esteve estreitamente ligada ao ideário desenvolvimentista; o progresso 
seria  inevitável  e  conduziria  a  um  melhoramento  constante  da  vida, 
efetivado  pelo crescimento  econômico  que  se  traduziria  em  uma  evo‐
lução  social.  Ora,  esse  imaginário  ocidental  –  que  transforma  o  pro‐
gresso num mito – foi colocado em xeque pelos diversos movimentos 
sociais dos anos 1960, desde os manifestos dos hippies e a contracultu‐
ra, até os movimentos estudantis e ecológicos.  

Tal  como  visto  nos  capítulos  anteriores,  o  surgimento  de  uma  nova 
ideia  de  desenvolvimento,  não  identificado  exclusivamente  com  o 
crescimento econômico do PIB dos países, foi resultado de um conjun‐
to complexo de fatores, incluindo os movimentos sociais, a insatisfação 
com  os  resultados  do  crescimento  econômico  (aprofundamento  da 
desigualdade),  as  iniciativas  políticas  e  de  grupos  intelectuais  para 
mudanças  nos  parâmetros,  tanto  da  forma  de  se  compreender  o  de‐
senvolvimento  como  no  modo  do  ser  humano  se  relacionar  com  o 
meio ambiente. 

8.2 Os alertas globais sobre a sustentabilidade


ambiental
Em 1972, ocorreu em Estocolmo, na Suécia, a Conferência das Nações 
Unidas  sobre  o  Meio  Ambiente.  A  Conferência  foi  um  marco,  pois 
trouxe à tona a gravidade da questão ambiental. Motivada pela discus‐
são que se realizava nos Estados Unidos, desde a década de 1960, so‐
bre o crescimento econômico como algo que colidia com a preservação 
ambiental, conforme Veiga6, a Conferência foi um dos primeiros gran‐
des  encontros  em  que  o  futuro  do  meio  ambiente  era  debatido  em 
âmbito mundial.  

Essa  conferência  resultou  em  uma  declaração  sobre  o  meio  ambiente, 


cujo  objetivo  consistia  em  forçar  os  países  a  adotarem  medidas  para 
que a conservação da natureza fosse primordial. É interessante obser‐
var  que  a  declaração  tem  como  preocupações  temas  então  em  voga, 
tais  como  as  possíveis  guerras  nucleares,  o  crescimento  demográfico 
 
 
98
intenso  e  o  papel  das  nações  subdesenvolvidas  para  a  deterioração 
ambiental. 

Cabe destacar que esse último ponto é bastante enfático na declaração, 
haja vista que uma de suas afirmações contundentes diz que o subde‐
senvolvimento  é  a  causa  maior  dos  problemas  ambientais  dos  países 
em desenvolvimento. O papel das nações desenvolvidas para a polui‐
ção  é  pouco  destacado  na  Conferência,  sendo  afirmado  apenas  seu 
dever de procurar fazer com que as nações subdesenvolvidas alcanças‐
sem os patamares que as desenvolvidas já haviam alcançado. Isso, de 
certo modo, traria consequências à redução da pobreza e ao crescimen‐
to populacional. 

Apesar  de  a  Conferência  possuir  diagnósticos  que  não  se  concretiza‐


ram efetivamente algumas décadas depois (o crescimento populacional 
diminuiu gradativamente e os riscos de guerras nucleares se tornaram 
menores)  e  ainda  ter  como  um  dos  parâmetros  o  desenvolvimento 
eloquente  das  nações  pobres  por  meio  de  transferência  tecnológica  e 
financeira, ela trouxe uma importante questão para o horizonte huma‐
no  naquele  período.  A  declaração  afirma  como  o  primeiro  princípio 
que o ser humano tem direito à liberdade, à igualdade e a desfrutar do 
meio  ambiente;  além  disto,  ele  tem  o  dever  de  proteger  e  melhorar  o 
meio ambiente, tanto no presente como para as gerações futuras. Esse 
artigo inicial é emblemático para salientar o acordo das Nações Unidas 
como uma tentativa de compreender o meio ambiente como um direi‐
to, mas a sua preservação se impõe como um dever com vistas ao futu‐
ro. 

Essa dupla preocupação, tanto com as gerações presentes como com as 
gerações futuras, tornou‐se o lema que passou a nutrir o debate sobre o 
desenvolvimento  e  a  sustentabilidade  e  se  tornou  divulgado  de  fato 
com a publicação do Relatório Brundtland. 

8.3 O Relatório Brundtland e a ECO-92


Cerca de vinte anos depois da Conferência de Estocolmo, a ONU pro‐
põe uma nova conferência que venha a implementar ações mais efeti‐
vas e pontuais quanto aos problemas ambientais. Entretanto, antes de 
a reunião ser realizada na cidade do Rio de Janeiro, em 1992, a entida‐
de  constituiu  uma  comissão  intitulada  Comissão  Mundial  sobre  Meio 
Ambiente  e  Desenvolvimento,  a  fim  de  preparar  um  documento  que 
pudesse  viabilizar  a  Conferência.  Publicado  em  1987,  o  documento 
ficou conhecido como Relatório Brundtland, pois a comissão foi liderada 
pela então primeira‐ministra da Noruega, Gro Harlem Brundtland. 
 

99
 

Veiga7  mostra  que  o  relatório  lançado  na  ocasião  recebeu  o  título  de 
Nosso futuro comum e ressaltava o caráter político da ideia de sustenta‐
bilidade. Nele, afirma Veiga, a presidente da comissão enfatizou que o 
desenvolvimento sustentável é um conceito que adquiriu, desde então, 
uma legitimidade e institucionalização normativa.  

Apresentada naquele relatório, a ideia de desenvolvimento sustentável 
aparece nos termos que seguem: é o desenvolvimento capaz de garan‐
tir  as  necessidades  presentes,  sem  comprometer  a  capacidade  das 
gerações  futuras  de  suprir  as  suas  necessidades.  O  relatório  destaca 
que existem incompatibilidades entre o desenvolvimento sustentável e 
os  padrões  de  consumo  e  produção  dos  países  centrais,  cujo  modelo 
industrialista  e  predatório  dos  recursos  naturais  é  reproduzido  nos 
países periféricos. 

Entretanto, no ponto de vista de Almeida8, a ideia de futuro comum é 
pouco  precisa  nos  termos  do  relatório.  Embora  o  conceito  procure 
enfatizar  uma  integração  entre  a  exploração  dos  recursos  naturais,  o 
desenvolvimento tecnológico e a mudança social, há dúvidas sobre os 
parâmetros valorativos e políticos, pois se trata, exatamente, da susten‐
tabilidade  de  quê?  De  quem  e  para  quem?  Segundo  o  autor,  nessas 
questões reside o principal motivo de conflitos. 

Outra  crítica  que  é  feita  ao  Relatório  Brundtland  diz  respeito  ao  modo 
como  o  conceito  de  desenvolvimento  sustentável  se  ampara  numa 
visão  utilitarista.  Veiga9  sugere  que  as  gerações  presentes  não  têm 
apenas necessidades, elas possuem valores também. Citando Amartya 
Sen, Veiga10 conclui que as pessoas valorizam sua capacidade de agir, 
pensar,  avaliar  e  participar.  Por  essa  razão,  ver  os  seres  humanos  em 
termos de necessidades é uma redução absurda do que seja a humani‐
dade. 

Mesmo assim, o texto traz avanços, pois é resultado da insistência de 
uma discussão global sobre o futuro do planeta. Alguns dos pontos do 
relatório são: preservação da biodiversidade, diminuição do consumo 
de  energia  e  desenvolvimento  de  fontes  energéticas  renováveis,  au‐
mento  da  industrialização  nos  países  não‐industrializados,  por  meio 
de  tecnologias  ecologicamente  adaptadas,  consumo  racional  de  água, 
diminuição do uso de produtos químicos para a produção de alimen‐
tos e estratégias internacionais para o desenvolvimento sustentável, tal 
como a proteção da Antártida. 

 
 
 
100
Cinco anos após o lançamento do documento, ocorre a Eco‐92, a Con‐
ferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento e o Meio Ambien‐
te, que teve palco na cidade do Rio de Janeiro, em junho de 1992. Foi 
nesse  encontro  que  a  expressão  desenvolvimento  sustentável  ganhou 
consagração. 

Durante o encontro, uma série de documentos foi elaborada, tais como 
a Carta da Terram, as convenções da diversidade biológica, da desertifi‐
cação e a das mudanças climáticas e a Agenda 21. A Agenda 21 é con‐
siderada o principal documento resultante da Conferência de 1992 e foi 
acordada  por  179  países;  nela  está  contido  um  amplo  programa  de 
ação que propõe um novo padrão de desenvolvimento que seja ambi‐
entalmente sustentável. n 

Esse importante documento estipulou ações que deveriam ser tomadas 
em diversos níveis e dimensões, porém as grandes diretrizes já tinham 
sido  expostas  nas  conferências  anteriores  e  no  relatório  Nosso  futuro 
comum.  Algumas  das  questões  essenciais  da  Eco‐92  foram:  o  reconhe‐
cimento  efetivo  de  que  a  degradação  ambiental  era  responsabilidade 
principalmente dos países desenvolvidos, a constituição de um conjun‐
to de documentos específicos das respectivas convenções (diversidade 
biológica,  desertificação  e  mudanças  climáticas),  a  necessidade  de 
compatibilizar  desenvolvimento  econômico  e  social  com  conservação 
dos  recursos  naturais,  o  fomento  do  desenvolvimento  rural  sustentá‐
vel, a gestão racional das biotecnologias, as medidas em favor da mu‐
lher, o fortalecimento das ONGs nas ações de preservação ambiental, o 
reconhecimento  do  papel  das  comunidades  tradicionais  e  indígenas, 
entre outras. 

A  Eco‐92  se  diferencia  também  das  conferências  anteriores  no  modo 


como  estabeleceu  metas  e  formas  de  controle,  propondo  novas  reuni‐
ões no âmbito da ONU dentro de cinco e dez anos, para examinar em 
que medida os programas foram implantados nos países. Além disso, 
mais  do  que  princípios  norteadores,  os  documentos  e  convenções  da 
Eco‐92 detalharam os pontos em que deveriam haver atuações especí‐
ficas  (mares,  água  doce,  matas,  desertos,  zonas  montanhosas,  ecossis‐
temas frágeis etc.).  

A partir da Conferência do Rio, a verificação da deterioração ambiental 
se  tornou  prática  frequente,  gerando  novas  convenções  e  protocolos, 

                                                                  
 
m Para  ver  a  Carta  da  Terra,  na  íntegra,  acesse  o  site:  <http://www.mma.gov.br/estruturas/agenda21/ 
_arquivos/carta_terra.doc> 

 
 

101
tais como o protocolo de Kyoto, de 1997 (acordo assinado pela maioria 
dos países, exceto pelos EUA, para diminuir as emissões de gás carbô‐
nico na atmosfera). 

No entanto, a realidade é que pouco foi feito pelos países para a dimi‐
nuição  dos  impactos  ambientais,  mesmo  depois  da  Cúpula  Mundial 
sobre  Desenvolvimento  Sustentável,  chamada  de  Rio  +  10  (referência 
aos dez anos que se passaram desde a Eco‐92). Trata‐se de um conjun‐
to de boas intenções, é verdade, mas também verificou‐se muitas dis‐
córdias  quanto  aos  prazos  que  as  nações  possuiriam  para  atender  as 
exigências  e  as  responsabilidades  estipuladas.  Alguns  pontos  foram 
atendidos,  mas  estes  representaram  o  mínimo  necessário  para  as  gra‐
ves necessidades do planeta. 

A Convenção da Diversidade Biológica

A Convenção da Diversidade Biológica (CDB) foi um dos mais impor‐
tantes resultados da Eco‐92. Ela veio a responder a uma série de trans‐
formações  que  ocorriam  nas  formas  de  apropriação  da  natureza  por 
parte  de  empresas  de  biotecnologias  e  aos  conflitos  entre  distintos 
atores sociais envolvidos na produção, uso e consumo de sementes.  

Ao longo das décadas de 1960 e 1970, a modernização da agricultura, 
com  a  introdução  do  paradigma  produtivista  no  campo,  alterou  pro‐
fundamente  o  modo  como  os  agricultores  se  relacionavam  com  as 
espécies biológicas. Antes da modernização, as variedades de sementes 
essenciais à produção agrícola eram majoritariamente trocadas e man‐
tidas entre os agricultores, sem que estes precisassem despender mon‐
tantes de dinheiro para obtê‐las.  

Com  a  introdução  da  “revolução  verde”  e  o  processo  intenso  que  re‐


sultou  na  modernização  (conservadora  no  Brasil)  da  agricultura,  as 
sementes  foram  transformadas  em  bens  passíveis  de  compra.  Isso 
ocorreu com o desenvolvimento da agrobiotecnologia, mas foi impul‐
sionada com a concentração de capitais que passaram a ver no campo 
um espaço atrativo para o investimento (outro resultado desse proces‐
so  foi  o  crescimento  vertiginoso  das  grandes  agroindústrias).  Com  a 
biotecnologia, a produção de sementes híbridas se torna constante e os 
agricultores  já  não  conseguem  realizar  as  antigas  trocas,  visto  que 
agora  essas  sementes  só  servem  para  um  único  plantio  e,  para  a  pró‐
xima  safra,  os  produtores  terão  que  comprá‐las  novamente  junto  às 
empresas. 

Durante os anos 1980, a FAO, órgão das Nações Unidas para a agricul‐
tura  e  a  alimentação,  começou  a  demonstrar  preocupação  com  essa 
 
 
102
tendência. Ao longo dessa década, a FAO realizou conferências especí‐
ficas sobre o tema, mas foi durante a Eco‐92 que o principal documento 
relativo  às  espécies  vegetais  foi  elaborado  e  ratificado  na  forma  de 
convenção, a CDB. 

Conforme Manuela Carneiro da Cunha11, a CDB é um instrumento de 
direito internacional cujos objetivos são a conservação da diversidade 
biológica, o uso sustentável de suas partes constitutivas e a repartição 
justa e equitativa dos benefícios que advém do uso dos recursos gené‐
ticos. Até 1992, os recursos genéticos eram considerados patrimônio da 
humanidade;  entretanto,  os  lucros  advindos  da  exploração  desses 
recursos por grandes empresas não eram repartidos, ou seja, um mate‐
rial  biológico  que  era  patenteado  por  uma  corporação  deveria  ser 
comprado  (pagar  royalties)  por  parte  dos  usuários,  mas  as  próprias 
empresas  não  pagavam  nada  aos  Estados  e comunidades  tradicionais 
das quais retiravam a matéria bruta. Essa situação se modificou com a 
CDB, que passou para o âmbito da soberania dos Estados – que, para 
exploração,  devem  obter  consentimento  das  populações  tradicionais 
ou locais – e cuja compensação para o seu acesso poderia vir na forma 
de transferência de tecnologia dos países desenvolvidos para as nações 
em desenvolvimento. 

A CDB representou para esses marcos um grande avanço para a manu‐
tenção dos direitos dos Estados, sobretudo dos países mais pobres que, 
em  situação  de  não  poder  explorar  os  recursos,  podem  acordar  com 
grandes corporações e receber transferências tecnológicas; foi também 
crucial  para  os  direitos  de  populações  tradicionais  e  comunidades 
indígenas  que  viram  a  possibilidade  de  receber  compensações  em 
forma financeira por conhecimentos valiosos que estavam fornecendo 
à humanidade. É lógico que a CDB não conseguiu eliminar os conflitos 
entre comunidades, agricultores e empresas, ainda mais considerando 
o  poder  das  grandes  corporações  depois  que  o  Acordo  TRIPS  foi  fir‐
mado em 1994o. Porém, ela representa um avanço quanto aos parâme‐
tros anteriores. A CDB impôs limites à apropriação e à privatização da 
natureza,  qualificando  diretrizes  para  a  manutenção  da  diversidade 
das espécies animais e variedades vegetais. 

                                                                  
o TRIPS: Trade‐Related Aspects of Intellectual Property Rights (Tratado Sobre Direitos de Propriedade 
Intelectual Relacionado ao Comércio Internacional). Acordo que estipulou a proteção à propriedade 
intelectual da produção de sementes, recursos genéticos processados e patenteados 
 

103
Ponto final
Este capítulo buscou analisar e pontuar os principais eventos relativos 
a  uma  consciência  ambiental  global  que  emergia  junto  ao  questiona‐
mento crescente do paradigma produtivista e da concepção de desen‐
volvimento  como  crescimento  econômico.  Os  principais  marcos  no 
pós‐guerra foram o surgimento de movimentos sociais de caráter am‐
biental e a criação de partidos políticos “verdes” (inicialmente na Eu‐
ropa),  ambos  criticando  o  modelo  de  desenvolvimento  que  não  se 
atentava à gravidade da situação ambiental. 

Em  1972,  a  ONU  realiza  a  Conferência  de  Estocolmo,  que  alinhou 


princípios  para  o  desenvolvimento  e  o  meio  ambiente  e,  quinze  anos 
depois, o Relatório Nosso futuro comum (também conhecido como Rela‐
tório Brundtland) estabeleceu as alianças e estratégias para a Conferên‐
cia do Rio e trouxe uma definição de desenvolvimento sustentável que  
até  hoje  é  a  mais  aceita.  A  Eco‐92  foi  um  marco  na  discussão  sobre  a 
sustentabilidade  em  âmbito  mundial,  pois  diversos  documentos‐base 
foram  elaborados  e  três  convenções  de  extrema  importância  para  o 
controle dos recursos naturais: a Convenção da Diversidade Biológica, 
a  Convenção  sobre  Desertificação  e  a  Convenção  sobre  Mudanças 
Climáticas. 

Indicações culturais

CUNHA,  Manuela  Carneiro  da.  Populações  tradicionais  e  a  Conven‐


ção da Diversidade Biológica. Estudos Avançados, São Paulo, v. 13, n. 36, 
ago. 1999, p. 147‐163. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php? 
script=sci_abstract&pid=s0103‐400141999000200008&Ing=pt&nrm=iso 
&tlng=pt>. Acesso em: 20 maio 2008. 

RIO  +  10.  Site  oficial  em  português  da  Cúpula  Mundial  sobre  Desen‐
volvimento  Sustentável.  Disponível  em:  <http://www.ana.gov.br 
/AcoesAdministrativas/RelatorioGestao/Rio10/Riomaisdez/index.php.
40.html>. Acesso em: 19 nov. 2008. 

A primeira indicação é um texto da antropóloga Manuela Carneiro da 
Cunha  sobre  a  CDB  e  as  populações  tradicionais,  e  analisa  especial‐
mente a relação da CDB com o problema do sistema internacional de 
propriedade intelectual. 

A segunda indicação é relativa à cúpula sobre meio ambiente da ONU, 
realizada no Rio de Janeiro. Possui várias informações relevantes sobre 
o contexto histórico e os resultados desse encontro. 
 
 
104

Atividades
1) Quais  são  as  razões  para  o  surgimento  do  ambientalismo?  Quais 
são as suas principais críticas em relação ao modelo de desenvol‐
vimento vigente em meados do século passado? 
 
2) Comente  o  conceito  de  desenvolvimento  sustentável  do  Relatório 
Brundtland. Mostre os seus avanços e as críticas feitas a ele. 
 
3) Faça uma enquete com pessoas nas ruas sobre o tema da sustenta‐
bilidade. Dica: pergunte a elas qual seu grau de preocupação com a 
degradação  ambiental  (reduzido,  médio  ou  elevado)  e  indague 
que tipos de atitudes elas tomam com vistas a diminuir a poluição 
e os impactos ambientais (desligar as luzes de casa, usar automó‐
vel próprio com menos frequência, separar o lixo doméstico etc.). 
Inclua no questionário um espaço para anotar nome, idade, esco‐
laridade,  escolaridade  dos  pais  e  outras  informações  relevantes 
das pessoas entrevistadas. Depois, cruze as respostas para consta‐
tar  se  há  grupos  mais  preocupados  e  que  tipos  de  atitudes  esses 
grupos tomam. 
 

 
 
 

9 DESENVOLVIMENTO
SUSTENTÁVEL

Guilherme Francisco Waterloo Radomsky

Uma  recente  publicação  de  Flávio  Tayra  e  Helena  Ribeiro,  profissio‐


nais que se dedicam a estudar indicadores de desenvolvimento susten‐
tável, faz uma interessante analogia para se compreender os impasses 
em  torno  da  ideia  de  desenvolvimento  sustentável.  Tayra  e  Ribeiro1 
afirmam que, em qualquer habitat ocupado apenas por animais, quan‐
do um excesso de consumo dos recursos naturais ocorre motivado pelo 
crescimento  dessa  população,  o  resultado  será,  num  momento  próxi‐
mo, a diminuição das espécies que ali vivem, pois não haverá matéria 
suficiente para alimentá‐las. Essa diminuição pode causar morte dessa 
população  ou  a  migração  de  seus  membros.  Ao  contrário,  em  grande 
parte das comunidades humanas, continuam os autores, se há proble‐
mas  nos  recursos  naturais  locais,  é  feita  a  “importação”  destes  para 
atender as demandas. A sociedade moderna desenvolveu essa prática 
ao  máximo,  sem  a  qual  as  cidades  não  poderiam  existir.  Ocorre  que 
um duplo problema é sentido nessas condições: primeiro, a população 
poderá  crescer  até  que  os  recursos  sejam  aniquilados  em  sua  origem. 
Segundo, os dejetos desse intenso consumo criam transtornos enormes, 
pois  esse  ambiente  não  tem  capacidade  para  suportá‐los.  De  certo 
modo, esse é o problema que cerca a ideia de desenvolvimento susten‐
tável que será vista neste capítulo, cujo impasse principal é a sua rela‐
ção com o crescimento econômico e os níveis de consumo na socieda‐
de.  

Por  outro  lado,  este  capítulo também  se  concentra  no  desafio  que  é  a 
construção de formas de mensuração do desenvolvimento sustentável. 
Embora um conjunto enorme de iniciativas esteja em curso no mundo 
inteiro, a maior parte dos indicadores sofre grandes críticas e passa por 
muitas revisões. Começamos por definir o desenvolvimento sustentável. 
 
 
106

9.1 O que é desenvolvimento sustentável?


No capítulo anterior, observou‐se que o Relatório Brundtland, escrito em 
1987, também conhecido pelo título Nosso futuro comum, forneceu uma 
definição  de  desenvolvimento  sustentável  que  é  considerada  válida  e 
importante até hoje. Nele, desenvolvimento sustentável é aquele capaz 
de  suprir  as  necessidades  presentes,  sem  comprometer  a  capacidade 
das gerações futuras de suprirem as suas.  

Embora seja uma definição sintética e que capta as preocupações quan‐
to  à  existência humana  e  não‐humana  de  hoje  e  de  amanhã,  ela  pode 
ser muito simplista. Percebe‐se que essa definição se assenta com mais 
acuidade  no  que  seja  a  sustentabilidade,  mas  deixa  a  ideia  de  desen‐
volvimento tacitamente aceita como “a satisfação de necessidades”. 

Um ponto a ser destacado no debate sobre o desenvolvimento susten‐
tável  é  a  disputa  sobre  a  importância  da  esfera  econômica  na  condu‐
ção.  Almeida2  mostra  que  existem  duas  concepções  principais  nesse 
campo, cuja discussão se encontra polarizada por visões antagonistas − 
a primeira considera que o desenvolvimento sustentável deve ser pen‐
sado  dentro  da  esfera  da  economia  e,  com  isso,  o  social  e  a  natureza 
são  geridos  conforme  os  desdobramentos  do  campo  econômico.  É  o 
caso,  por  exemplo,  quando  Veiga3  mostra  uma  gama  de  economistas 
interessados em valorar monetariamente o meio ambiente. As verten‐
tes  da  economia  ecológica  e  da  economia  do  meio  ambiente  são  as 
mais  recentes  perspectivas  na  tentativa  de  incorporar  e  examinar  o 
discurso  e  a  prática  da  sustentabilidade  vistos  de  dentro  da  própria 
economia. 

A  segunda  concepção  tenta  destituir  a  hegemonia  do  discurso  econô‐


mico, mostrando, de acordo com Almeida4, que pensar a sustentabili‐
dade  e  o  desenvolvimento  por  meio  das  ciências  econômicas  é  estar 
preso a uma visão instrumental que essa área do conhecimento impõe. 
A crítica dessa linha de pensamento incide no modo como as questões 
relativas à sustentabilidade têm sido tratadas no âmbito dos mecanis‐
mos  de  mercado.  O  desenvolvimento  sustentável,  dentro  dessa  con‐
cepção, procura incluir aspectos tais como justiça social, respeito ambi‐
ental, aceitação cultural e viabilidade econômica. 

Mas  a  pergunta  que  fica  é:  Como  conciliar  crescimento  econômico, 


inclusão  social  e  sustentabilidade  ambiental?  Mais  precisamente,  se 
fôssemos  nos  basear  na  definição  de  desenvolvimento  de  Sen,  citado 
por  Veiga5,  como  ampliação  das  liberdades  substantivas  das  pessoas, 
como  realizar  essa  expansão  sem  comprometer  a  liberdade  das  gera‐
ções futuras? 
 

107
Esse é o nó da questão. Veiga afirma que é um dilema que ainda está 
longe  de  ser  resolvido,  embora  haja  posições  diferentes  também  a 
respeito  desse debate.  Uma  das  posições  afirma  que  esse  conflito  não 
existe, pois, com o andar do desenvolvimento tecnológico, as economi‐
as  adquirem  cada  vez  mais  potencialidade  para  não  agredir  o  meio 
ambiente.  Esse  ponto  de  vista  expressa  uma  confiança  na  capacidade 
do sistema se autorregular como um todo, no qual os recursos naturais 
podem  ser  renováveis  e  substituídos,  graças  às  políticas  de  ciência  e 
tecnologia.  

Uma  segunda  posição  se  coloca  de  forma  diametralmente  oposta  à 


anterior.  Ainda  que  as  tecnologias  sejam  capazes  de  prover  maneiras 
de se diminuir o impacto ambiental ao longo do tempo, sempre haverá 
algum  efeito  no  ambiente,  por  mínimo  que  seja.  E,  diga‐se  de  passa‐
gem, as novas tecnologias bem que tentam minimizar as consequências 
ambientais,  mas  o  modo  como  a  economia  mundial  produz  ainda  é 
bastante danoso. 

Veiga salienta que existe um “caminho do meio”, que não se contenta 
em  preservar  os  recursos  naturais  às  custas  de  manter  a  pobreza  e  a 
desigualdade  e  que  também  não  acha  satisfatório  reduzir  as  mazelas 
sociais por meio de políticas desenvolvimentistas inconsequentes com 
as  gerações  futuras  e  com  as  espécies  naturais  do  planeta.  É  verdade 
que  esse  “caminho  do  meio”  admite  que  algum  impacto  ambiental 
continuará  a  existir,  mas  se  fundamenta  na  possibilidade  de  que  ele 
seja cada vez menor. Isso poderia ocorrer caso os países estimulassem 
economias baseadas em energias renováveis, diminuição constante de 
poluentes  do  ar  e  das  águas  e  cuidado  na  manutenção  da  biodiversi‐
dade de vegetais e animais. 

Novamente,  é  Sachs  quem  fornece  uma  das  melhores  pistas  para  se 
chegar ao que seja desenvolvimento sustentável. Para que o desenvol‐
vimento seja sustentável, é necessário que se acrescente a sustentabili‐
dade  social  e  ambiental  à  sustentabilidade  econômica.  Sachs6  afirma 
que a sustentabilidade ambiental é fundamentada 

no  duplo  imperativo  ético  de  solidariedade  sincrônica  com  a  geração  atual  e  de 
solidariedade diacrônica com as gerações futuras. Ela nos compele a trabalhar com 
escalas  múltiplas  de  tempo  e  espaço,  o  que  desarruma  a  caixa  de  ferramentas  do 
economista  convencional.  Ela  nos  impele  ainda  a  buscar  soluções  triplamente 
vencedoras,  eliminando  o  crescimento  selvagem  obtido  ao  custo  de  elevadas 
externalidades negativas, tanto sociais quanto ambientais. 

 
 
 
108
Portanto, Sachs destaca a ideia de solidariedade que remete a ideia de 
desenvolvimento  a  um  conteúdo  ético,  tanto  no  presente  quanto  no 
futuro.  O  autor  ainda  delineia  cinco  pilares  do  desenvolvimento  sus‐
tentável, tal como elaborado no Quadro 3, a seguir: 

Quadro 3 − Cinco pilares fundamentais do desenvolvimento sustentável

PILARES  MOTIVOS 

Fundamental por, motivos tanto intrínsecos quanto 
Social  instrumentais, devido à perspectiva de disrupção social 
que paira de forma ameaçadora sobre muitos lugares. 
Com suas duas dimensões – sistemas de sustentação da 
Ambiental  vida como provedores de recursos e como “recipientes” 
para deposição de resíduos. 
Relacionado à distribuição espacial dos recursos, das 
Territorial 
populações e das atividades. 
A viabilidade econômica, a condição para que as coisas 
Econômico 
aconteçam. 
A governança democrática é um valor e um 
Político  instrumento necessário para fazer as coisas 
acontecerem; a liberdade faz muita diferença. 
Fonte: Baseado em Sachs, 2004, p. 15‐16. 

Desse modo, desenvolvimento sustentável pode ser definido como um 
processo  de  expansão  das  liberdades  das  pessoas,  de  modo  que  isso 
não comprometa as liberdades das gerações futuras, combinando soli‐
dariedade com a geração atual e com as futuras, de modo que se com‐
patibilize viabilidade econômica, superação da pobreza e da desigual‐
dade,  preservação  da  biodiversidade,  limitação  de  uso  de  recursos 
não‐renováveis e governança democrática. 

9.2 Limites e alcances da sustentabilidade


Apesar  das  mudanças  em  curso  que  atestam  a  crescente preocupação 
do ser humano com ambiente em que vive, não se pode afirmar que a 
ideia de desenvolvimento sustentável é isenta de críticas ou que forne‐
ça um cabedal de princípios inquestionáveis. 

Uma das questões fundamentais é a dificuldade que existe em torno de 
uma  definição  do  que  seja  desenvolvimento.  Almeida7  mostra  que  a 
noção é tão elástica que facilmente se torna ponto de discórdia, sobre‐
tudo quando se propõe definir como deve ser o crescimento econômico 
(mesmo  que  sustentado  e  sustentável)  e  de  que  maneira  a  gestão  dos 
recursos  naturais  será  feita.  Almeida  completa  que  os  organismos 
oficiais  se  esforçam  para  conceituar  o  desenvolvimento  sustentável  e 
para propor um consenso a respeito do termo. Contudo, essas tentati‐
 

109
vas têm esbarrado em entraves de ordem política e econômica, pois a 
definição de desenvolvimento sustentável mais amplamente aceita é a 
do Relatório Brundtland. 

Portanto,  um  dos  limites  está  na  própria  forma  em  que  a  economia  é 
projetada,  pois,  caso  se considere  que  as  gerações  futuras deverão  ter 
as mesmas dificuldades ou até mesmo mais necessidades que as atuais, 
isso  se  torna  um  problema.  Por  isso,  Veiga8  insiste  que  na  ideia  de 
crescimento  com  qualidade  e  não  quantidade.  Nesse  sentido  é  que  a 
própria noção de desenvolvimento sustentável deve incluir uma preo‐
cupação  com  a  economia,  porém  sem  ser  dominada  por  uma  razão 
instrumental,  ou,  como  afirma  Almeida,  sem  que  se  permita  uma  ex‐
pansão  desmesurada  da  esfera  econômica.  O  desenvolvimento  deve 
ser pensado, acima de tudo, a partir de uma diversidade democrática, 
para o autor, aliado às ideias de liberdade e participação de Sen. 

Essa diversidade democrática não será possível sem que uma variável 
seja  incluída  e  transformada  num  elemento  central  da  discussão:  a 
diversidade cultural. Mas uma diversidade cultural que não signifique 
a  incompatibilidade  de  ideias  e  o  solapamento  do  diálogo;  ao  contrá‐
rio,  como  propõe  Veiga9,  o  desenvolvimento  sustentável  não  se  reali‐
zará sem que exista a UNIDADE NA DIVERSIDADE, que ele mesmo 
considera que talvez seja o mais difícil objetivo a ser alcançado. Nesse 
ponto,  Veiga10  assume  que  ações  que  favoreçam  atitudes  de  coopera‐
ção e competição não‐violenta entre distintas tradições culturais serão 
fundamentais para o futuro, bem como uma atitude ética de responsa‐
bilidade  e  coexistência  com  todos  os  organismos  que  compartilham  a 
biosfera com o ser humano. 

9.3 Indicadores de desenvolvimento sustentável


e de sustentabilidade ambiental
A  literatura  especializada  em  indicadores  sugere  que  há  diferenças 
muito grandes entre os indicadores de desenvolvimento e os que men‐
suram  sustentabilidade  ou  desenvolvimento  sustentável.  Isso  se  dá 
porque  os  indicadores  de  desenvolvimento,  tais  como  o  Índice  de 
Desenvolvimento  Humano,  do  Programa  das  Nações  Unidas  para  o 
Desenvolvimento  (IDH do  Anud),  são  bem  mais  antigos. Além  disso, 
eles  já  passaram  por  diversas  revisões  e  críticas,  o  que  gerou  certo 
consenso no seu uso, malgrado os problemas que podem ser intrínse‐
cos em medir o desenvolvimento baseado num número ou índice. 

Do  mesmo  modo,  é  preciso  atentar‐se  para  o  fato  de  que  é  diferente 
medir  desenvolvimento  sustentável  e  sustentabilidade  ambiental. 
 
 
110
Como  já  visto  aqui,  o  desenvolvimento  sustentável  incorpora  não 
apenas o meio ambiente, mas, em conjunto, os aspectos sociais, políti‐
co‐institucionais,  culturais  e  econômicos;  portanto,  é  razoável  supor 
que um indicador de desenvolvimento sustentável deva incluir esse rol 
variado  de  dimensões.  Em  ambos  os  casos,  de  acordo  com  Tayra  e 
Ribeiro11, as principais experiências desenvolvidas são classificadas em 
dois  tipos:  os  sistemas  de  indicadores,  que  mantêm  esses  indicadores 
separados,  e  os  indicadores  síntese,  que  fornecem  um  número  para 
agrupar as diferentes dimensões. 

Já  os  indicadores  de  sustentabilidade  ambiental  procuram  se  concen‐


trar  nas  variáveis  propriamente  ligadas  ao  ambiente.  Veiga12  mostra 
que  existe  um  movimento  internacional  liderado  pela  Comissão  de 
Desenvolvimento  Sustentável  da  ONU,  que  objetiva  construir  esses 
indicadores. Reunindo especialistas em todo o mundo, esse movimen‐
to tem por finalidade pôr em prática as diretrizes contidas na Agenda 
21. Um dos principais passos nessa execução foi o lançamento de um 
documento  (Indicadores  de  desenvolvimento  sustentável)  em  1996,  que 
ficou  conhecido  como  Livro  azul.  Primeiramente  abarcando  143  variá‐
veis, foram estas depois reduzidas a 57 e, para Veiga, esse documento 
foi essencial para estimular países e cidades a proporem novos indica‐
dores  e  utilizarem  as  especificações  ali  contidas  –  com  base  nele,  o 
IBGE lançou os primeiros indicadores brasileiros de desenvolvimento 
sustentável. 

Segundo  Veiga13,  pesquisadores  de  universidades  norte‐americanas 


lançaram,  em  2002,  o  índice  de  sustentabilidade  ambiental  para  142 
países  e  o  apresentaram  no  Fórum  Econômico  Mundial,  o  ESI‐2002. 
Contendo  vinte  indicadores  principais,  esse  índice  considera  cinco 
dimensões:  sistemas  ambientais,  estresses,  vulnerabilidade  humana, 
capacidade social e institucional e responsabilidade global, como apre‐
sentado no Quadro 4, a seguir. 

Quadro 4 − Dimensões e indicadores do ESI-2002


INDICADOR 
DIMENSÕES 
(cada um possui uma ou mais variável para sua construção)
Sistemas  Qualidade do ar, quantidade e qualidade da água, 
ambientais  biodiversidade, qualidade dos solos. 
Redução da poluição do ar e da água, ecossistemas, 
Estresses 
consumismo e desperdícios, pressão demográfica.  
Vulnerabilidade   Subsistência básica, saúde ambiental. 
Ciência & tecnologia, capacidade de debate, 
Capacidade 
governança ambiental, setor privado: capacidade de 
socioinstitucional 
resposta, ecoeficiência. 
 

111

Responsabilidade  Participação em esforços multilaterais, redução de 
global  “transbordamentos”, emissão de gases, efeito estufa. 
Fonte: Veiga, 2006, p. 177. 

O quadro demonstrado anteriormente mostra que, mesmo procurando 
fornecer um indicador de sustentabilidade ambiental, os autores inclu‐
íram  dimensões  e  indicadores  sociais,  tais  como  níveis  de  consumo  e 
desperdício,  capacidade  de  debate,  resposta  do  setor  privado,  partici‐
pação nos esforços globais de redução da deterioração ambiental. Isso 
demonstra que se, por um lado, é difícil a construção de um índice de 
desenvolvimento  sustentável  (pois  é  uma  tarefa  complexa  agrupar 
variáveis muito distintas e sintetizar os resultados), por outro, também 
é  difícil  falar  em  sustentabilidade  ambiental  sem  levar  em  conta  pro‐
blemas como a pobreza, carência de participação social, pressão demo‐
gráfica e outros indicadores sociais e econômicos. 

Mas é interessante perceber que esse índice de sustentabilidade ambi‐
ental incorpora uma série de indicadores e variáveis específicas sobre o 
ambiente,  algo  que  os  índices  de  desenvolvimento  geralmente  não 
fazem. Veiga compara o ESI‐2002 com o DNA‐Brasil, visto no capítulo 
6, cuja dimensão ambiental é irrisória, comportando apenas dados de 
instalação e tratamento de esgoto e lixo. Para Veiga, esses três indica‐
dores dariam, no máximo, uma situação das condições de saneamento, 
pois nada dizem sobre atmosfera, mares e rios, solos e biodiversidade.  

Algumas críticas feitas ao ESI‐2002 afirmam que o índice mistura vari‐
áveis‐causa com variáveis‐efeito, criando uma confusão entre causas e 
consequências. Do mesmo modo, o ESI‐2002 incorre no mesmo erro do 
IDH, ao gerar tabelas de ranking para países. Tayra e Ribeiro14 susten‐
tam que esse índice não pondera entre as variáveis, ou seja, considera 
poluição do ar e qualidade dos solos do mesmo modo, além de que ele 
pouco contribui para estimativas em longo prazo. 

Existem  diversos  outros  índices  de  sustentabilidade  ambiental  que 


estão  sendo  construídos  e  aperfeiçoados  no  mundo.  O  trabalho  de 
Tayra e Ribeiro15 revela que, em 2004, existiam catalogadas 624 experi‐
ências de construção de índices no site do Instituto Internacional para o 
Desenvolvimento Sustentável .q  p

Quanto às iniciativas de constituir índices de desenvolvimento susten‐
tável, também existem importantes experiências. Lançado pela primei‐
ra  vez  em  2002,  os  Indicadores  de  Desenvolvimento  Sustentável  do 
IBGE  têm  sido  bastante  relevantes  para  o  acompanhamento  da  situa‐
                                                                  
p  Para um maior aprofundamento sobre as construções de índices, acessar o site: <http://www.iisd.org> 
 
 
 
112
ção ambiental, social e econômica do país, pois o Instituto atualiza os 
dados ao longo dos anos. A última versão é do ano de 2008, e se encon‐
tra disponível no site do IBGE.  

O  IBGE  proporciona  os  indicadores  em  quatro  dimensões:  ambiental, 


social, econômica e institucional (na atual edição, são 60 indicadores). 
A  seguir,  no  Quadro  5,  estão  sintetizadas  as  dimensões  e  variáveis 
utilizadas pelo IBGE e, pela importância desse documento para a men‐
suração do desenvolvimento sustentável brasileiro, justifica‐se o tama‐
nho do quadro apresentado a seguir. 

Quadro 5 − Dimensões, componentes e variáveis dos Indicadores de


Desenvolvimento Sustentável do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística –
IBGE, 2008

DIMENSÃO COMPONENTE VARIÁVEL


Emissões de origem antrópica dos 
gases associados ao efeito estufa; 
Atmosfera  consumo industrial de substâncias 
destruidoras da camada de ozônio; 
concentração de poluentes no a; 
Uso de fertilizantes, de agrotóxicos, 
terras em uso agrossilvipastoril; 
queimadas e incêndios florestais; 
desflorestamento da Amazônia; área 
Terra 
de remanescente e desflorestamento 
da 
Mata Atlântica; desertificação e 
Ambiental 
arenização; 
Água doce  Qualidade das águas interiores; 
Balneabilidade; produção de 
Oceanos, mares 
pescado; população residente em 
e áreas costeiras 
áreas costeiras; 
Espécies extintas ou ameaçadas; 
áreas protegidas; tráfico e comércio 
Biodiversidade 
de animais silvestres; espécies 
invasoras; 
Coleta de lixo e destino do lixo; 
Saneamento  abastecimento de água; acesso e 
tratamento de esgoto sanitário; 
Taxa de crescimento da população; 
População  taxa de fecundidade; população e 
terras indígenas; 
Social  Índice de Gini renda; taxa de 
Trabalho e 
desocupação; rendimento familiar 
rendimentos 
per capita; rendimento médio mensal; 
Saúde  Esperança de vida ao nascer; taxa 
 

113
mortalidade infantil; desnutrição; 
imunização contra doenças 
infecciosas infantis; serviços de 
saúde; doenças relacionadas ao 
saneamento ambiental inadequado; 
Taxa de escolarização e de 
Educação 
alfabetização; escolaridade; 
Habitação  Adequação de moradia; 
Coeficiente de mortalidade: por 
Segurança  homicídios e por acidentes de 
transporte; 
PIB per capita; taxa de investimento; 
Quadro 
balança comercial; grau de 
econômico 
endividamento; 
Consumo de energia per capita; 
intensidade energética; fontes 
Econômica 
Padrões de  renováveis na oferta de energia; 
produção e  consumo mineral per capita; vida 
consumo  útil das reservas minerais; 
reciclagem; coleta seletiva de lixo, 
rejeitos radioativos; 
Quadro  Ratificação de acordos globais; 
institucional  existência de conselhos municipais; 
Gasto com pesquisa & 
Institucional  desenvolvimento; gasto público com 
Capacidade 
proteção ao meio ambiente; acesso 
institucional 
aos serviços de telefonia; acesso à 
internet. 
Fonte: IBGE, 2008, p. 4‐6. 

O Quadro 5, anteriormente exposto, mostra uma longa lista de compo‐
nentes  e,  para  cada  um,  há  um  conjunto  de  variáveis.  O  IBGE  optou 
por não sintetizar os indicadores num índice síntese, haja vista a varie‐
dade de componentes e a dificuldade de combinar as variáveis.  

É  preciso  perceber  que  esses  indicadores  não  são  consenso  entre  os 
pesquisadores.  Vale  a  pena  destacar  alguns  exemplos:  na  dimensão 
ambiental,  no  componente‐oceanos,  mares  e  áreas  costeiras,  há  uma 
variável  chamada  de  população  residente  em  áreas  costeiras.  Ora,  o  que 
isso  diz  a  respeito  de  sustentabilidade?  Será  que  a  importância  de 
existir  uma  população  nessa  área  não  depende  de  que  área  seja?  Na 
dimensão  social,  no  componente  habitação,  o  que  são  condições  ade‐
quadas  de  moradia?  E,  por  fim,  na  dimensão  institucional,  ambos  os 
componentes mostram poucas variáveis. É difícil de comparar a situa‐
ção dessa dimensão com outra dimensão que o IBGE elencou em uma 
gama maior de variáveis. 
 
 
114
Ainda  assim,  o  documento  do  IBGE  representa  um  avanço  tremendo 
para  a  avaliação  das  condições  sociais,  econômicas  e  ambientais  do 
Brasil,  resultado  de  um  esforço  para  buscar  dados  diversos  que  con‐
templem criativamente as diferentes dimensões. 

No entanto, o caso é que esses indicadores de desenvolvimento susten‐
tável  ou  de  sustentabilidade  ambiental  aqui  relacionados  mostram 
resultados  muito  gerais,  usualmente  construídos  pensando  em  forne‐
cer  a  situação de  um  ou  mais  países. São  necessários indicadores  que 
deem conta das dinâmicas territoriais e municipais no que diz respeito 
à sustentabilidade. Embora a dimensão ambiental seja reduzida, tanto 
o  DNA‐Brasil  quanto  o  Índice  de  Desenvolvimento  Sustentável  da 
equipe do PGDR/UFRGS, apresentados no capítulo 6, são ferramentas 
úteis.  Com  elas,  é  possível  buscar  informações  disponíveis  nas  fontes 
de dados usuais (IBGE, Ipeadata e outros) e caracterizar municípios e 
territórios, oferecendo um panorama do desenvolvimento sustentável. 
Para  enriquecer  essas  ferramentas  de  mensuração  em  âmbito  local,  é 
possível  procurar  incorporar  variáveis  incluídas  nos  Indicadores  de 
Desenvolvimento  Sustentável  do  IBGE  ou  mesmo  no  ESI‐2002,  desde 
que  os  dados  estejam  disponíveis  ou  que  seja  possível  coletá‐los  por 
meio de pesquisas.  

Ponto final
A noção de desenvolvimento passou por uma reformulação quando se 
sentiu a necessidade de incorporar a dimensão ambiental na sua defi‐
nição. Essa necessidade surge da constatação de que os recursos natu‐
rais vinham sendo agredidos de forma intensa e prejudicial para a vida 
na Terra. Desde as primeiras formulações da ideia de desenvolvimento 
sustentável,  o  grande  debate  consiste  em  como  conciliar  crescimento 
econômico,  preservação  ambiental  e  inclusão  social,  três  objetivos 
difíceis de serem atingidos.  

Com  o  avanço  da  discussão  sobre  o  desenvolvimento  sustentável, 


tornou‐se  cada  vez  mais  premente  construir  formas  de  mensurar  a 
sustentabilidade ambiental. Junto a isto, organizações, universidades e 
centros  de  pesquisa  têm  empreendido  esforços  para  elaborar  índices 
ou  indicadores  de  desenvolvimento  sustentável  que  unam  em  uma 
única  ferramenta  as  dimensões  sociais,  econômicas,  político‐
institucionais  e  ambientais,  fornecendo  instrumentos  para  o  planeja‐
mento, a pesquisa e as políticas públicas. 
 

115
Indicações culturais

GUERRA,  Lemuel  Dourado  et  al.  Ecologia  política  da  construção  da 
crise  ambiental  global  e  do  modelo  do  desenvolvimento  sustentável. 
Interações. Revista Internacional de Desenvolvimento Local. v. 8, n. 1, p. 
9‐25, mar. 2007. 

IBGE.  Indicadores  de  desenvolvimento  sustentável  –  Brasil  2008.  Rio  de 


Janeiro: IBGE, 2008. (Estudos e pesquisas, informação geográfica, n. 5). 
Disponível  em:  <ftp://geoftp.ibge.gov.br/documentos/recursosnaturais 
/ids/ids2008.pdf>. Acesso em: 5 ago.  

VEIGA,  José  Eli  da.  Como  pode  ser  medida  a  sustentabilidade.  In: 
VEIGA, José Eli da. Desenvolvimento sustentável: o desafio para o século 
XXI. 2. ed. Rio de Janeiro: Garamond, 2006. p. 173‐184. 

O texto de Lemuel Guerra traça um panorama sobre a crise ambiental 
global e traz diretrizes para pesquisas na área ambiental, enfatizando o 
papel das ciências sociais. O documento do IBGE aqui indicado apre‐
senta os indicadores de desenvolvimento sustentável do Brasil para o 
ano de 2008, contendo explicações das variáveis e dimensões, comen‐
tários, justificativas e vários dados. A terceira indicação é um capítulo 
da  obra  de  José  Eli  da  Veiga,  aqui  citada  constantemente,  na  qual  ele 
mostra formas atuais de mensuração da sustentabilidade. 

Atividades
1) Que conflitos de ideias existem entre os cinco pilares do desenvol‐
vimento sustentável propostos por Ignacy Sachs (2004) e a propo‐
sição, por parte de alguns autores, de que o tema do desenvolvi‐
mento sustentável deva ser conduzido pelos pressupostos das ci‐
ências econômicas? 
 
2) Conforme Amartya Sen (2000), o desenvolvimento é um processo 
de expansão das liberdades reais que as pessoas desfrutam. Quais 
os dilemas e as possíveis alternativas para conciliar essa visão so‐
bre o desenvolvimento sem que o meio ambiente e as gerações fu‐
turas sejam fortemente prejudicados? 
3) Com  base  nos  indicadores  de  desenvolvimento  sustentável  ESI‐
2002 e do IBGE 2008, que dimensões e variáveis poderiam ser uti‐
lizadas  para  se  construir  um  indicador  de  desenvolvimento  sus‐
tentável do seu município? Que outros indicadores seriam impor‐
tantes de serem incluídos? Justifique o seu uso, informe como você 
o  mediria,  mostre  se  ele  é  um  indicador  positivou  ou  negativo. 
 
 

10
DIRETRIZES PARA PROJETOS
DE DESENVOLVIMENTO
SUSTENTÁVEL

Adriana Paola Paredes Peñafiel

Guilherme Francisco Waterloo Radomsky

Conforme  Domingos  Armani1,  consultor  e  especialista  em  projetos 


sociais, desde o final do regime militar e da promulgação da Constitui‐
ção  de  1988,  percebe‐se,  no  Brasil,  um  maior  protagonismo  da  ação 
social  autônoma  na  sociedade  civil  brasileira.  A  década  de  1990  foi 
caracterizada pela discussão entre a sociedade civil, as instâncias polí‐
ticas  e  acadêmicas  sobre  a  democratização,  as  relações  de  gênero,  a 
autonomia dos povos, o direito à cultura, as relações entre gerações, as 
redução  das  desigualdades,  a  participação  local  (capacidade  de  ser 
ouvido),  entre  outros  assuntos.  Esse  amplo  aspecto  de  temas  e  ques‐
tões  nos  obriga  a  reexaminar  o  conceito  de  desenvolvimento  de  um 
modo amplo, tal como vimos nos capítulos anteriores. 

Como o Estado perde, em parte, sua posição de ente principal na con‐
dução  das  iniciativas  de  desenvolvimento,  uma  forma  de  expressão 
desse novo protagonismo tem sido concretizada por meio de projetos 
sociais.  Tem  crescido,  nos  últimos  anos,  o  número  de  organizações 
sociais que realizam suas ações e obtêm recursos por meio de projetos 
e, ao mesmo tempo, os programas institucionais que os financiam. Um 
detalhe é perceptível: devido ao fato dos recursos serem disputados, o 
nível de exigência com relação à qualidade do projeto e da ação social 
é  bem  maior  que  nas  décadas  passadas.  Disso  advém  a  importância 
dos técnicos responsáveis estudarem as formas de elaborar, gerenciar e 
avaliar os projetos. 

Nesse sentido, este capítulo visa conduzir o leitor ao tema da elabora‐
ção  de  projetos  sociais  de  desenvolvimento  sustentável.  Faz‐se  neces‐
sário  reconhecer  que,  aqui,  o  leitor  encontrará  somente  uma  introdu‐
ção  ao  tema,  uma  vez  que  o  assunto  é  amplo  e  possui  uma  grande 
diversidade nas formas em que se apresenta. Mas, de um modo geral, 
pode‐se  dizer  que  o  marco  para  a  elaboração  de  projetos  sociais  tem 
 

117
uma  estrutura  em  torno  da  qual  existe  um  certo  consenso.  Para  um 
aprofundamento do tema, sugerimos as obras de Armani e Peter Pfeif‐
fer que constam nas referências. 

10.1 O que é um projeto social?


Existem  várias  definições  sobre  projeto.  De  forma  geral,  um  projeto 
compreende um conjunto de atividades planejadas a serem executadas 
a fim de alcançar determinados objetivos, dentro de uma abrangência 
definida, de um limite de tempo e com recursos específicos. Os proje‐
tos podem ter finalidades diferentes − eles podem estar voltados para a 
criação  de  um  novo  produto  ou  almejar  a  mudança  de  uma  situação 
problemática. Considerando esse último caso, Pfeiffer2 opina que, se o 
projeto pretende alcançar a transição não só com a instalação de bens e 
serviços,  mas  também  buscando  a  participação  dos  envolvidos,  este 
pode  ser  considerado  um  projeto  social  de  desenvolvimento.  Social 
porque envolve a participação dos beneficiados e do desenvolvimento, 
posto que procura uma mudança direcionada para o seu bem‐estar. 

Quando se trabalha com projetos sociais de desenvolvimento, uma das 
diretrizes  fundamentais  é  a  praticidade.  Isso  não  significa  que  a  dis‐
cussão  sobre  as  opções  teóricas  não  ocorra,  mas  que  os  projetos  de‐
mandam objetividade e facilidade de entendimento. Por essa razão, as 
definições devem ser claras. 

Para Armani3, projeto social é “uma ação social planejada, estruturada 
em  objetivos,  resultados  e  atividades  baseados  em  uma  quantidade 
limitada de recursos (humanos, materiais e financeiros) e de tempo”.  

Segundo  Pfeiffer4,  “programa  é  um  conjunto  de  projetos homogêneos 


ou semelhantes, coordenado de tal maneira que o esperado benefício é 
maior  que  a  sua  execução  individual”.  Dessa  forma,  o  projeto  social 
deve  ser  articulado  a  programas  e  políticas  mais  amplas  que  são  im‐
plementadas pelo poder público e por outras organizações. 

Por isso, o projeto não deve ser isolado. Em junho de 2008, por exem‐
plo, foi lançado o Plano Safra Mais Alimentos, pelo Ministério do De‐
senvolvimento  Agrário  (MDA).  O  Plano  Safra  Mais  Alimentos  é  um 
programa  que  visa  reforçar  a  oferta  de  alimentos  do  Brasil  diante  do 
encarecimento  dos  produtos  alimentícios.  Dado  que  a  agricultura 
familiar responde por 70% dos alimentos que chegam à mesa da famí‐
lia  brasileira,  esse  plano  foi  lançado  para  que  esse  segmento  social 
possa ter acesso a créditos especiais, tendo por finalidade obter ativos 
(maquinarias) para dinamizar a produção. 
 
 
118
 

Atualmente, muitas organizações estão elaborando projetos específicos 
diante  dessa  oportunidade  para  os  segmentos  rurais.  Somente  para 
citar  um  exemplo,  algumas  organizações  estão  elaborando  projetos 
sociais  que  visam  a  participação  de  pequenos  agricultores  em  cursos 
de capacitação para a elaboração de projetos de investimentos (instru‐
mento imprescindível para o acesso ao crédito) para que, dessa forma, 
os produtores tenham acesso ao crédito conforme as suas necessidades 
de produção.  

De acordo com Pfeiffer5, um projeto que visa o desenvolvimento deve 
almejar mudar uma determinada situação, na qual se encontram mui‐
tos problemas, para outra situação em que esses problemas diminuam 
sensivelmente.  Os  projetos  de  desenvolvimento  visam  não  apenas 
produzir algo tangível, mas, especialmente, promover transformações 
intangíveis e significativas.  

Armani6 mostra que há seis vantagens em se atuar por meio de proje‐
tos sociais: 

a. Ações objetivas, bem definidas e gerenciadas de forma participati‐
va têm maiores chances de eficácia. 

b. Essas  ações  mobilizam  maior  número  de  pessoas  a  participar  e 


facilita a transparência, ou seja, a eficiência. 

c. As ações por meio de projetos que conseguem resultados a baixos 
custos geram confiança por parte da sociedade, isto é, os projetos 
adquirem credibilidade. 

d. A reflexão coletiva sobre a experiência é essencial, o que possibili‐
ta que o conhecimento seja gerado coletivamente e que ele seja uti‐
lizado para outras experiências. 

e. Ações planejadas favorecem a participação dos envolvidos, sobre‐
tudo  dos  beneficiados;  surge,  assim,  a  possibilidade  de  inclusão 
daqueles que quase sempre são excluídos. 

f. As  ações  desenvolvidas  no  âmbito  dos  projetos  possuem  consis‐


tência técnica, o que aumenta a chance de parcerias e envolvimen‐
to organizado das pessoas, o que se traduz em impactos efetivos. 

No entanto, Armani também cita os limites de se trabalhar por meio de 
projetos:  dificuldade  de  intervenções  em  temas  complexos,  certa  rigi‐
 

119
dez  que  os  projetos  assumem,  limitações  de  ordem  temporal  e  finan‐
ceira etc. 

10.2 Orientações práticas para elaborar projetos sociais


de desenvolvimento sustentável
Um projeto social de desenvolvimento é concebido, em primeiro lugar, 
a partir de uma demanda ou de uma situação problemática que coloca 
em risco o bem‐estar ou a qualidade de vida de um grupo social. Por 
exemplo:  existe  uma  cooperativa  de  habitação  cuja  matriz  localiza‐se 
na  região  Oeste  do  Estado  de  Santa  Catarina  que  operacionaliza  os 
programas habitacionais do Governo Federal, a Cooperhaf. 

O objeto da cooperativa é garantir uma moradia digna aos seus associ‐
ados.  No  entanto,  percebeu‐se  que,  em  alguns  Estados  de  atuação,  as 
matérias‐primas eram inacessíveis para muitas famílias e precisava‐se 
de técnicas de construção que minimizassem o uso de materiais caros.  

O uso de técnicas baseadas na bioarquitetura representou uma respos‐
ta diante dessa situação. Ao mesmo tempo, com as primeiras capacita‐
ções,  surgiu  uma  demanda  de  se  aprender  essas  técnicas  na  região. 
Nesse  sentido,  o  projeto  objetivou  ações  de  capacitação  sobre  essas 
técnicas para a construção de moradias para esse público. 

No entanto, a fase entre a demanda e o projeto em si envolve uma série 
de  passos  que  devem  ser  minuciosamente  estudados.  É  importante 
considerar que os projetos podem contribuir para o enfrentamento dos 
problemas sociais, mas não podem solucioná‐los por si só. Os projetos 
podem contribuir em vários aspectos, porém se precisa igualmente de 
políticas públicas adequadas, com recursos suficientes. 

Todo  projeto  social  passa  por  um  ciclo  que  compreende  diferentes 
fases:  identificação,  elaboração,  aprovação,  implementa‐
ção/monitoramento,  avaliação  (e  replanejamento,  se  for  o  caso),  do 
modo como está disposto na Figura 2, a seguir: 
 
 
120
Figura 2 − Ciclo de um projeto

 
Fonte: Armani, 2001, p. 30. 

Armani chama a atenção para o fato de que a elaboração nunca cessa, 
ela permanece durante as outras fases e é importante para reformula‐
ções em curso. O mesmo ocorre com a avaliação, que geralmente se dá 
no fim do projeto, mas os envolvidos precisam estar atentos para sem‐
pre  avaliarem o andamento  e monitorarem as ações. O esquema que 
segue é baseado em Armani e Pfeiffer7. 

Identificação

São três os elementos principais da fase de identificação: 

a. A oportunidade de intervenção: aqui é essencial que seja identifi‐
cada a oportunidade, que pode surgir de avaliações anteriores ou 
projetos existentes ou por delegação de instâncias superiores. Nes‐
se momento, devem ser delineadas hipóteses explicativas sobre os 
problemas em questão e avaliado o potencial de sensibilização dos 
atores sociais a serem mobilizados para o projeto. 

b. A  sustentabilidade  da  ideia:  deverão  ser  analisados  os  tipos  de 


apoio que terão o projeto (político e financeiro) e qual seria a sus‐
tentabilidade  técnica,  ou  seja,  se  os  promotores  têm  capacidade 
para desenvolvê‐lo. 

Algumas perguntas‐chaves podem ajudar: 

 Exame de sustentabilidade política (Haverá apoio das lideranças, 
dos parceiros?); 

 Exame  de  sustentabilidade  técnica  (Temos  recursos  técnicos  e 


know‐how?); 
 

121
 Exame de sustentabilidade financeira (De quantos precisaríamos? 
Teríamos contrapartida?). 

O diagnóstico do problema: depois da formulação de um conjunto de 
hipóteses  básicas,  recorre‐se  efetivamente  ao  diagnóstico  da  situação. 
Deve‐se  realizar  a  busca  de  dados  e  informações  que  caracterizem  a 
situação  e  os  envolvidos,  procurar  entender  as  dinâmicas sociais,  cul‐
turais, econômicas e políticas que explicam a situação, além de obser‐
var  as  questões  ambientais  concernentes  ao  problema.  Realizar  uma 
avaliação  das  percepções  e  expectativas  dos  potenciais  beneficiários  e 
dos atores envolvidos efetivamente no processo. Recorrer à bibliogra‐
fia sobre o tema. 

Armani8  sugere  a  técnica  do  Diagnóstico  Rápido  Participativo  para 


avaliar os problemas. Ela consiste em um conjunto de técnicas e ferra‐
mentas que permite que os próprios agentes confrontem sua realidade, 
realizem  o  seu  próprio  diagnóstico  e  contexto  social,  iniciando  um 
processo  de  conscientização  sobre  os  diversos  problemas  que  os  afli‐
gem.  Utilizando‐se  de  técnicas  de  dinâmicas  coletivas,  procura‐se 
identificar  os  principais  problemas,  desejos  e  soluções  indicadas  pela 
própria comunidade. A metodologia se caracteriza por gerar algumas 
questões  que  devem  ser  previamente  esclarecidas.  No  entanto,  o  pro‐
cesso  de  levantamento  da  realidade  dos  diferentes  grupos  em  cada 
município  e  a  elaboração  de  um  “plano  de  ação”  não  ocorrem  com 
tanta rapidez. 

Armani  mostra  que  um  dos  pontos  mais  importantes  dessa  fase  é  a 
identificação  dos  problemas  centrais,  buscando  suas  causas  diretas  e 
essenciais,  depois  passando  às  consequências  correspondentes.  Isso 
significa ter objetividade e ir direto ao ponto. 

Elaboração

Nessa fase, formulam‐se os objetivos gerais e específicos do projeto. O 
primeiro passo é definir o objetivo geral, cuja característica é apresen‐
tar  sob  que  perspectiva  o  projeto  será  desenvolvido.  Ele  expressa  os 
efeitos mais amplos do projeto, os impactos que ocorrerão mesmo fora 
do  alcance direto  dos  beneficiários,  como,  por  exemplo,  reduzir  a  po‐
breza no território melhorando o aproveitamento de materiais recicla‐
dos.  Os  objetivos  específicos  dizem  respeito  aos  impactos  diretos  nos 
beneficiários  do  projeto  que,  com  base  no  exemplo  acima,  poderia  se 
possibilitar que os moradores de rua obtenham ocupação e rendimento 
utilizando materiais recicláveis que se encontram disponíveis no terri‐
tório.  Uma  dica  importante:  é  essencial  a  participação  do  profissional 
que irá gerenciar o projeto nessa fase. Pela sua experiência, essa pessoa 
 
 
122
poderá colaborar de forma que não se coloquem metas inviáveis (fora 
da realidade) no projeto. 

Nessa fase são planejados os resultados imediatos e de médio prazo a 
serem  alcançados;  eles  são  as  situações  concretas  a  serem  atingidas 
pelo projeto, com base nas ações e atividades. Depois, estas são elabo‐
radas. As atividades e ações devem ser capazes de satisfazer as metas e 
resultados propostos. Logo após, é feita a análise lógica da intervenção, 
isto  é,  a  possibilidade  de  se  atingir  as  ações‐chave  com  as  atividades 
listadas, bem como o exame da viabilidade de se chegar aos resultados 
e objetivos esperados. Aqui, é preciso verificar se cada ação correspon‐
de a um conjunto de atividades e se cada atividade está em consonân‐
cia com os objetivos e metas do projeto, ou seja, é a checagem da con‐
sistência. 

Uma estratégia importante para ordenar de forma lógica os principais 
elementos  estratégicos  para  ser  executados  e  monitorados  é  o  Marco 
Lógico.  O  Marco  Lógico  consiste  em  um  instrumento  que  permite 
ordenar  em  forma  de  matriz  aqueles  elementos  importantes  que  de‐
vem ser atingidos durante a implementação do projeto.  

No Marco Lógico, a primeira coluna deve incluir o objetivo geral, obje‐
tivo do projeto, os resultados e as atividades. Também nessa fase iden‐
tificam‐se  os  fatores  de  risco  do  projeto.  Esses  fatores  devem  estar 
sempre  presentes,  pois  são  fundamentais  para  prevenir  problemas. 
Nos projetos de desenvolvimento sustentável que envolvam a agricul‐
tura, é necessário observar os fatores climáticos, por exemplo. Naque‐
les que envolvam novas formas de saneamento básico, deve‐se pressu‐
por que fatores políticos e econômicos podem afetar a iniciativa. 

Ainda  nesse  momento  de  elaboração  do  projeto,  devem  ser  definidos 
os indicadores para o monitoramento e avaliação (elementos que pos‐
sam dizer, no futuro, como o projeto está sendo implementado e quais 
resultados estão sendo alcançados). Aqui, é preciso que os indicadores 
possam dizer sobre o andamento do projeto. Portanto, se o projeto visa 
redução da pobreza, os indicadores devem dizer algo sobre o aumento 
das  liberdades  das  pessoas,  aumento  das  rendas,  melhoramento  dos 
níveis  de  consumo  etc.  Se  o  projeto  tem  por  objetivo  a  participação 
social, é preciso medi‐la em percentual de participação das pessoas em 
conselhos  ou  outras  entidades,  índice  de  sindicalização  dos  trabalha‐
dores,  quantidade  de  organizações  na  comunidade  etc.  Portanto,  é 
razoável combinar mais de um indicador para que seja possível moni‐
torar as ações do projeto. 
 

123
Armani9 mostra que, no Marco Lógico, haverá quatro tipos de indica‐
dores: de impacto (para o objetivo geral), de efetividade (para objetivos 
específicos), de desempenho (para os resultados) e operacionais (para 
atividades e recursos). 

 Indicadores  de  impacto  apresentam  benefícios  mais  amplos  e  de 


mais longo prazo. Eles indicam a contribuição do objetivo especí‐
fico para alcançar o objetivo geral. 

 Indicadores de efetividade mostram as mudanças mais gerais, tais 
como  na  qualidade  de  vida  dos  envolvidos,  nos  seus  comporta‐
mentos. Eles têm o objetivo de demonstrar se os objetivos do pro‐
jeto foram atendidos. 

 Os indicadores de desempenho informam se os resultados imedia‐
tos foram atingidos. Eles especificam quais situações é preciso ge‐
rar para satisfazer os efeitos esperados. 

 Os  indicadores  operacionais  informam  se  os  recursos  previstos 


foram  obtidos,  além  de  indicar  se  há  concordância  entre  as  ativi‐
dades previstas e as realizadas. 

Além  do  Marco  Lógico,  como  será  visto  no  Quadro  6,  a  seguir,  aqui 
será fundamental elaborar o orçamento do projeto e o plano operacio‐
nal, dois instrumentos que, por sua importância para a implementação 
e o monitoramento, serão apresentados mais adiante. 

Quadro 6 − Marco Lógico do projeto Promoção de Competitividade, da Cooperativa


de Produção da Agricultura Familiar

INDICADORES
FONTES SUPOSIÇÕES
OBJETIVAMENTE
  DE COMPROVAÇÃO IMPORTANTES
COMPROVADOS
Objetivo geral: 
promover  ‐ A existência de 
‐ Aumento da 
competitividade  ‐ Relatórios de  políticas de 
renda anual de 
da Cooperativa  vendas mensais  desenvolvimento 
cada família 
de Produção da  da Cooperativa.  rural por parte do 
associada. 
Agricultura  Governo Federal. 
Familiar‐PR. 
‐ Pelo menos  ‐ O Governo 
Objetivo do 
três produtos  ‐ Visitas técnicas  Federal está 
projeto: ampliar 
diferentes  de  apoiando as 
o portfolio de 
cultivados por  acompanhamento  iniciativas de 
ingressos do 
unidade de  das unidades de  diversificação por 
agricultor 
produção  produção familiar.  meio da 
familiar. 
familiar.  Secretaria da 
 
 
124
Agricultura 
Familiar − SAF. 
‐ Existência de 
‐ Relatórios  demanda de 
Resultados  ‐ Regularização 
mensais das  mercado; 
almejados:  da renda mensal 
visitas técnicas de  ‐ Existência do 
vendas regulares  média das 
acompanhamento  programa de 
durante o ano  famílias 
das unidades de  aquisição de 
todo.  associadas. 
produção familiar.  alimentos pelo 
Governo. 
‐ Assistência de 
pelo menos 95% 
Atividades  do total de  ‐ Possibilidades 
‐ Relatórios dos 
efetivadas: ações  horas teóricas  de realizar 
técnicos ATER 
de capacitação  realizadas.  parcerias com as 
(Assistência 
em assistência  ‐ Assistência de  instituições que 
Técnica e 
técnica e  pelo menos 95%  oferecem serviços 
Extensão Rural). 
extensão rural.  do total de  ATER no Estado. 
horas práticas 
realizadas. 
 
Após  a  realização  da  elaboração  do  projeto,  deve‐se  submetê‐lo  às 
instituições financiadoras e aguardar que este seja aprovado. Para tal, a 
redação deve ser clara, estruturada e objetiva. 

Redação do projeto

Quando o diagnóstico, a elaboração e os instrumentos (o Marco Lógi‐
co,  junto  ao  orçamento  e  ao  plano  operacional,  a  serem  apresentados 
mais adiante) estiverem prontos, redige‐se o projeto para submetê‐lo a 
uma  organização  ou  entidade  que  possa  financiá‐lo.  Armani10  afirma 
que  os  itens  de  um  projeto  são  geralmente  os  seguintes:  abertura  (ca‐
pa),  contexto  (antecedentes  e  justificativas),  intervenção  (objetivos 
geral  e  específico,  resultados,  atividades,  metodologia  e  fatores  de 
risco),  programação  (recursos  humanos,  materiais  e  cronograma), 
viabilidade  (política,  técnica,  econômica,  ambiental,  cultural  e  institu‐
cional), sistemas de monitoramento e avaliação (indicadores, organiza‐
ção e procedimento, revisões e avaliações) e orçamento (com a propos‐
ta de financiamento), anexos (Marco Lógico, Plano Operacional, diag‐
nóstico, informações adicionais sobre os proponentes). 
 

125
Aprovação

Essa  também  pode  ser  considerada  uma  fase,  pois  a  aprovação  dos 
recursos  é  essencial  para  a  implantação  do  projeto.  Armani11  sugere 
que o projeto só tenha início quando houver certeza da aprovação dos 
recursos  financeiros.  Assim  sendo,  inicia‐se  propriamente  a  fase  de 
implementação e gerenciamento. 

 
Implementação e gerenciamento

Aqui  é  o  momento  de  desenvolver  as  atividades  e  ações  previstas, 


embora possam ser feitas avaliações parciais nessa fase. É essencial que 
se  possa  gerenciar  todas  as  atividades  e  monitorar  os  resultados  e 
objetivos. Em virtude de se tratarem geralmente de projetos coletivos, 
espera‐se que o gerenciamento seja feito de modo participativo.  

Nessa  fase  de  implementação  e  gerenciamento,  uma  das  questões 


primordiais  é acompanhar  o  andamento  do  projeto  de  forma  monito‐
rada. Para Armani12, monitoramento é definido “como um conjunto de 
procedimentos  de  acompanhamento  e  análise  realizados  ao  longo  da 
sua implementação, com o propósito de checar se as atividades e resul‐
tados correspondem ao que foi planejado [...]”. Destaca‐se que o moni‐
toramento é constante e regular. Já a avaliação se caracteriza de modo 
um  pouco  distinto:  é  a  análise  crítica  do  andamento  do  projeto  con‐
forme objetivos e utiliza o monitoramento como base.  

É  fundamental  que  o  monitoramento  e  a  avaliação  possam  fornecer 


bases para se saber se há mudanças da realidade ao longo da execução, 
evolução  do  próprio  projeto  e  avanço  do  aprendizado  individual  e 
coletivo.  Utiliza‐se  por  base  três  instrumentos  para  monitoramento  e 
avaliação:  Marco  Lógico,  Orçamento  do  Projeto  e  Plano  Operacional 
(prazos). 

Existem outros fatores importantes para o gerenciamento: controle da 
equipe,  encontrar  no  andamento  uma  forma  de  reflexão  e  aprendiza‐
do, conceder espaço para autonomia da equipe e dos membros. 

Recorde‐se que é ainda na elaboração do projeto que se deve estipular 
como  será  o  monitoramento  e  a  avaliação,  ou  seja,  o  gerenciamento; 
portanto, esse planejamento é anterior à implementação. O bom geren‐
ciamento  de  um  projeto  de  desenvolvimento  conta  com  a  antecipada 
definição de atividades e responsabilidades, a organização do fluxo de 
informações e com a constante procedência em prol da transparência. 
O instrumento vital para atingir essa finalidade é o orçamento. 
 
 
126
a. Orçamento:  A  transparência  no  uso  dos  recursos  é  vital  para  o 
projeto; a formulação de planilhas com atividades, ações e custos 
discriminados se faz necessária não apenas com o objetivo de ga‐
rantir  transparência,  mas  para  o  próprio  controle  da  execução  e 
gestão  do  projeto.  O  orçamento  desenvolvido  pela  organização 
proponente e já aprovado pela organização concedente é de suma 
importância  para  observar  que  as  despesas  relacionadas  às  ativi‐
dades  propostas  não  podem  ultrapassar  o  orçamento  estipulado. 
O orçamento apresenta as despesas com relação aos recursos hu‐
manos,  materiais  e  financeiros  que  serão  utilizados  ao  longo  do 
prazo do projeto. O Quadro 7, na página seguinte, mostra em de‐
talhes um exemplo de orçamento de projeto social de desenvolvi‐
mento. 
 

Ação Prioritária QUALIFICAÇÃO TÉCNICOS
META 1
ATIVIDADES
DESCRIÇÃO DAS ATIVIDADES INDICADORES FÍSICOS CUSTOS (R$ 1,00)
DIS CRIMINAÇÃO DA  PERÍODO DE 
ITEM
ATIVIDADE EXECUÇÃO EXECUTOR Localização Duraç ão Unidade Quant. Públic o Quant Unitário Total
OFICINAS  DE QUALIFICAÇÃO  Janeiro de  Porto Alegre, Caxias, 
1.1
S OBRE O CRÉDITO POPULAR 2009 Proponente Veranópolis 9 dias Oficinas 3 Téc nic os 70 694,29 48.600,00
S ub‐ Valor 
item Discriminaç ão das despesas Unid. Quant. Unitário Proponente Concedente Total

Despesas c om horas ‐ instrutoria para qualific ar a elaboração dos projetos de investimento. (01  Hora ‐ 


11.1 dia x 08 horas x 03 municípios). instrutoria 24          80,00 0 1.920,00      1.920,00

Despesas c om horas ‐ instrutoria para qualific ar a avaliaç ão dos projetos de investimento. (01  Hora ‐ 


11.2 dia; 08 horas x 03 municípios). instrutoria 24          80,00 0 1.920,00      1.920,00

Despesa c om horas ‐ instrutoria para qualificar a avaliaç ão do c rédito a c onceder (01 dias x 08  Instrutoria 


11.3 horas x 03 munic ípios). Hora 24          80,00 0 1.920,00      1.920,00

Despesas c om diárias (alimentação + alojamento) do instrutor para 09  dias de qualific ação nos 


11.4 três munic ípios.  Diárias 9          60,00 0 540,00         540,00
11.5 Despesas c om diárias (alimentação + alojamento) dos 70 téc nicos Diárias 210 60,00 0,00 12600,00 12600,00
11.6 Despesas c om deslocamento de 70 téc nic os Km 56.000 0,45 0,00 25200,00 25200,00
Quadro 7 − Orçamento: oficinas de qualificação em crédito popular

11.7 Despesas c om aluguel de sala equipada para os 09 dias de instrutoria Diárias 9 500,00 4500,00 0,00 4500,00


Obs e rva ç õ e s : O ra io de de s lo c a m e nto do s té c nic o s da s c o o pe ra tiva s a té o s m unic ípio s o nde o c o rre rã o a s o fic ina s é e m m é dia 400 km . 4.500,00 44.100,00 48.600,00
 
127
 
 
128
Dos  três  instrumentos  de  elaboração,  execução  e  monitoramento  dos 
projetos citados anteriormente, já foram apresentados o Marco Lógico 
e  o  Orçamento.  Resta  introduzir  o  Plano  Operacional  e  demonstrar 
como ele é utilizado nos projetos sociais. 

Plano  operacional:  apresenta  detalhadamente  os  principais  constituti‐


vos do projeto, tais como resultados, atividades, ações, prazos, respon‐
sabilidades  e  recursos.  Segundo  Armani13,  sua  função  é  servir  como 
instrumento para o andamento do projeto. Armani ainda observa que 
um plano operacional precisa conter: estrutura baseada nos resultados, 
descrição  das  atividades  necessárias  para  alcançar  os  resultados,  des‐
crição das ações e tarefas concretas, registro dos prazos para a realiza‐
ção de cada atividade, divisão de tarefas, descrição e quantificação de 
recursos  humanos,  materiais e  financeiros  para  a  realização  das  ativi‐
dades.  O  plano  operacional  deve  estar  em  concordância  com  o  orça‐
mento de maneira que o gasto previsto na execução de uma atividade 
qualquer  não  ultrapasse  o  valor  colocado  no  orçamento.  Ao  mesmo 
tempo, serve para verificar a execução das atividades nos prazos pre‐
vistos, evitando o atraso no andamento das atividades. 
 
Vejamos um exemplo no Quadro 8. 

Observe que no Quadro 8, posteriormente exposto, há a discriminação 
de um conjunto de atividades, relacionadas aos seus prazos, os produ‐
tos que tais atividades devem gerar, os recursos para cada uma delas e, 
na última coluna, a entidade responsável pela sua execução. Assim, o 
projeto  fica  detalhado  no  plano  operacional  desde  seu  começo  até  a 
última atividade. Após sua execução, o projeto será avaliado. 

Avaliação

A  avaliação  pode  ser  feita  ao  longo  do  projeto  ou  no  seu  fim.  É 
usual que os envolvidos no projeto façam avaliações periódicas mesmo 
durante a implementação, geralmente após um certo período de tem‐
po.  A  avaliação  final  distingue‐se  do  monitoramento,  entretanto,  por‐
que  o  período  avaliado  é  maior  e  os  impactos  são  mais  visíveis,  e  é 
comum se recorrer a avaliadores externos. Caso o projeto venha a ser 
continuado (com novos recursos ou prorrogação para o uso dos recur‐
sos não‐gastos), é comum um replanejamento do mesmo. 
 
Replanejamento

Essa fase ocorre apenas se o projeto continua depois da avaliação. 
Por  isso,  é  importante  replanejar,  verificar  novos  objetivos,  utilizar  a 
experiência  anterior,  reavaliar  os  riscos.  Entra‐se,  desse  modo,  na 
 

129
mesma sequência de fases apresentadas anteriormente. A diferença é o 
acúmulo de experiência dos participantes e os novos objetivos a serem 
atingidos. Isso terá por consequência a reformulação dos instrumentos 
principais de elaboração, execução e monitoramento. 
Quadro 8 − Plano Operacional: Construção de moradias em assentamentos de
reforma agrária

 
(continua) 
 
 
130
(Quadro 8 ‐ Conclusão) 

 
Ponto final
Este capítulo teve como objetivo central introduzir os passos prin‐
cipais  na  elaboração,  execução  e  avaliação  de  projetos  sociais  de  de‐
senvolvimento  sustentável.  Os  diversos  exemplos  apresentados  são 
importantes para que o leitor observe na prática como a elaboração de 
um projeto é feita e como são utilizados alguns dos instrumentos usu‐
 

131
ais  na  sua  condução.  É  preciso  que  fique  claro  que  este  capítulo  final 
tem  uma  função  prática,  mas  ele  não  pode  ser separado da  discussão 
teórica  e  normativa  sobre  o  desenvolvimento  e  a  sustentabilidade. 
Todo  projeto  social  traz  uma  concepção  sobre  o  desenvolvimento  e, 
mesmo que essa concepção não seja colocada em debate na execução e 
na  gestão  do  projeto,  ela  é  fundamental  para  sua  elaboração,  para  a 
justificativa  das  ações  e  na  avaliação  final,  aspectos  que  terão  conse‐
quências nos efeitos propriamente sociais e ambientais do projeto. 
 
Indicações culturais
BROSE,  Markus.  O  marco  lógico:  instrumento  de  gestão  e  comunica‐
ção. In: BROSE, Markus (Org.). Metodologia participativa: uma introdu‐
ção a 29 instrumentos. Porto Alegre: Tomo Editorial, 2001. p. 279‐286. 
(Coleção Participe). 

REVISTA ELETRÔNICA PORTAS. v. 2, n. 2, jun. 2008. Disponível em: 
<http://www.acicate.com.br/portas/portas2.html>.  Acesso  em:  25  set. 
2008. 

A primeira indicação é relativa ao instrumento chamado Marco Lógico. 
Nessa  publicação,  organizada  por  Markus  Brose,  também  se  encon‐
tram  outras  diversas  ferramentas  comentadas  e  trabalhos  sobre  dife‐
rentes técnicas de condução e elaboração de projetos sociais de modo 
participativo. A segunda indicação é a publicação de junho de 2008 da 
revista eletrônica Portas, que dedica esse número ao tema da avaliação 
de projetos e programas sociais.  

 
Atividades
1.   Reflita sobre o conceito de projeto social de Domingos Armani e 
relacione‐o ao tema da sustentabilidade. 
 
2.   Qual o papel de um bom diagnóstico da situação para a elabo‐
ração de um projeto social? 
 
3.   Elabore  um  projeto  de  desenvolvimento  sustentável  (apenas 
como  exercício)  baseado  em  um  problema  social  de  seu  muni‐
cípio.  Pense  no  modo  como  você  faria  o  levantamento  dos  da‐
dos,  a  identificação  dos  problemas  essenciais  e  o  diagnóstico. 
Reflita  sobre  as  formas  de  monitoramento  e  avaliação;  escolha 
ferramentas para o acompanhamento, os tipos de parcerias pos‐
síveis e as contrapartidas. Redija‐o.
 

REFERÊNCIAS POR CAPÍTULO

Capítulo 1  7 CONTERATO, 2004, p. 80. 

1 VEIGA, 2006.  8 NAVARRO, 2001, p. 84. 

2 SACHS, 2004.  9 NAVARRO, 2001. 

3 SACHS, 2004, p. 71.  10 KAY, 2004. 

4 SACHS, 2004, p. 117.  11 LARRAIN, 1996. 

5 VEIGA, 1998.  12 KAY, 2004. 

6 VEIGA, 2006, 81.  13 LARRAIN, 1996, p. 478. 

7 VEIGA, 2006, p. 31.  14 KAY, 2004, p. 5. 

8 VEIGA, 2006, p. 56.  15 BERNSTEIN, 1996, p. 198. 

9 VEIGA, 2006, p. 55.  16 KAY, 2004. 

10 NAVARRO, 2001.  17 LARRAIN, 1996. 

11 SCHNEIDER, 2004.  18 KAY, 2004, p. 7. 

12 HERMET, 2002.  19 SOUZA, 2005. 

13 SCHNEIDER, 2004, p. 89.  20 SOUZA, 2005, p. 157. 

14 SEN, 2000.  21 KAY, 2004. 

15 SACHS, 2004, p. 39.  22 KAY, 2004. 

16 VEIGA, 2006.  23 SOUZA, 2005, p. 158. 

17 ARBIX; ZILBOVICIUS, 2001, p. 65.  24 SOUZA, 2005, p. 159. 

18 SACHS, 2004, p. 13.  25 KAY, 2004. 

19 VEIGA, 2006.  26 MERQUIOR, 1996. 

20 VEIGA, 2006, p. 80‐81.  27 MERQUIOR, 1996. 

  28 MERQUIOR, 1996, p. 187. 

Capítulo 2  29 CARDOSO; FALETTO, 2000, p. 24. 

1 SOUZA, 2005, p. 156.   

2 HERMET, 2002.  Capítulo 3 

3 ABRAMOVAY, 1998.  1 BRUM, 1997. 

4 HARVEY, 2006.  2 BRUM, 1997. 

5 HERMET, 2002, p. 33.  3 RANGEL, 2000. 

6 HERMET, 2002.  4 OLIVEIRA, 1972. 
 

133
5 SOUZA, 2005, p. 170.  11 SILVA, 1999; schneider, 2003. 

6 SOUZA, 2005, p. 171.  12 SCHNEIDER, 2003, p. 100. 

7 COMIN, 2001, p. 227‐228.  13 RÜCKERT, 2004. 

8 FURTADO, 2000.  14 SCHNEIDER, 2004. 

9 COMIN, 2001.  15 RÜCKERT, 2004, p. 150. 

10 BRUM, 1997.  16 RÜCKERT, 2004, p. 151. 

11 BRUM, 1997.   

12 SOUZA, 2005, p. 166.  Capítulo 6 

13 KAY, 2004, p. 23.  1  BARROS;  HENRIQUES;  MENDONÇA, 


2000. 
14 CARDOSO; FALETTO, 2000, p. 120. 
2 SEN, 2000, p. 17. 
15 CARDOSO; FALETTO, 2000, p. 123. 
3 SEN, 2000, p. 17. 
16 BRUM, 1997. 
4 SEN, 2000, p. 18. 
 
5 SEN, 2000, p. 18. 
Capítulo 4 
6 SEN, 2000, p. 19. 
1 HARVEY, 2006. 
7 SEN, 2000, p. 30. 
2 SILVA, 1998. 
8 SEN, 2000, p. 31. 
3 SILVA, 1998, p. 49. 
9 MATTOS, 2006. 
4 SILVA, 1998. 
10 MATTOS, 2006, p. 40. 
5 SILVA, 1998, p. 35. 
11 SEN, 2000, p. 33. 
6 HERMET, 2002. 
12 MATTOS, 2006. 
7 SILVA, 1998, p. 106. 
13 SEN, 2000, p. 52. 
8 FARIA, 2004. 
14 SEN, 2000. 
9 HERMET, 2002, p. 39. 
15 VEIGA, 2006. 
10 HERMET, 2002, p. 40. 
16 VEIGA, 2006, p. 83. 
11 SINGER, 1972. 
17 VEIGA, 2006, p. 84. 
12  BARROS;  HENRIQUES;  MENDONÇA, 
2000, p. 26.  18 VEIGA, 2006, p. 92. 

  19 VEIGA, 2006, p. 99. 

Capítulo 5   

1 MCLUHAN, 1972.  Capítulo 7 

2 SAHLINS, 1997.  1 SALLUM JR., 2001, p. 312. 

3 LOCKE, 1994.  2 SALLUM JR., 2001, p. 321. 

4 ABRAMOVAY, 2004.  3 SALLUM JR., 2001, p. 333. 

5 HAYEK, 1990.  4 SALLUM JR., 2001, p 340. 

6 RADOMSKY, 2006.  5 BAQUERO, 2001, p. 32. 

7 SCHNEIDER, 2004, p. 91.  6 BAQUERO, 2001, p. 33. 

8 Saboia, 2001, p. 9.  7 RADOMSKY; PAREDES PEÑAFIEL, 2007. 

9 Saboia, 2001, p. 13.  8 RADOMSKY, 2006. 

10 Saboia, 2001, p. 36.  9 BARNES, 1987, p. 167. 
 
 
134
10  SCHERER‐WARREN,  2005;  MARQUES,  Capítulo 9 
2006; MÜLLER, 2007. 
1 TAYRA; RIBEIRO, 2006. 
11 SCHERER‐WARREN, 2005, p. 39. 
2 ALMEIDA, 1997. 
12 GRÜNEWALD, 2003, p. 51. 
3 VEIGA, 2006. 
13 GRÜNEWALD, 2003, p. 52. 
4 ALMEIDA, 1997. 
14 LITTLE, 2002. 
5 VEIGA, 2006, p. 146. 
15 PRÁ, 2001, p. 173. 
6 SACHS, 2004, p. 15. 
16 NAVARRO, 2001. 
7 ALMEIDA, 1997. 
17 BUARQUE, 1999, p. 9. 
8 VEIGA, 2006. 
18 NAVARRO, 2001, p. 90. 
9 VEIGA, 2006. 
19 SCHNEIDER, 2004, p. 102. 
10 VEIGA, 2006. 
20 NAVARRO, 2001. 
11 TAYRA; RIBEIRO, 2006, p. 87. 
21 NAVARRO, 2001, p. 85. 
12 VEIGA, 2006. 
22 NAVARRO, 2001, p. 86. 
13 VEIGA, 2006, p. 175. 
23 NAVARRO, 2001, p. 88. 
14 TAYRA; RIBEIRO, 2006. 
24 SCHNEIDER, 2004, p. 99. 
15 TAYRA; RIBEIRO, 2006. 
 
 
Capítulo 8 
Capítulo 10 
1 JAMESON, 2002. 
1 ARMANI, 2001, p. 14. 
2 VEIGA, 2006, p. 145. 
2 PFEIFFER, 2005. 
3 BENTON, 1996, p. 10. 
3 ARMANI, 2001, p. 18. 
4 BENTON, 1996. 
4 PFEIFFER, 2005, p. 22. 
5 ALMEIDA, 1997. 
5 PFEIFFER, 2005, p. 21. 
6 VEIGA, 2006, p. 115. 
6 ARMANI, 2001, p. 19. 
7 VEIGA, 2006. 
7 ARMANI, 2001; PFEIFFER, 2005. 
8 ALMEIDA, 1997. 
8 ARMANI, 2001. 
9 VEIGA, 2006. 
9 ARMANI, 2001. 
10 VEIGA, 2006, p. 166. 
10 ARMANI, 2001. 
11 CUNHA, 1999. 
11 ARMANI, 2001. 
 
12 ARMANI, 2001, p. 69. 
 
13 ARMANI, 2001, p. 76. 
 

 
 

REFERÊNCIAS

ABRAMOVAY,  RICARDO.  Paradigmas  do  capitalismo  agrário  em  questão.  2.  ed.  São  Paulo/Rio  de 
Janeiro/Campinas: Hucitec/ANPOCS/Ed. da Unicamp, 1998. (Estudos Rurais 12). 

_____.  Entre  Deus  e  o  diabo:  mercados  e  interação  humana  em  ciências  sociais.  Tempo  Social:  Revista  de 
Sociologia da USP, São Paulo, v. 16, n. 2, p. 35‐64, nov. 2004. 

ALMEIDA,  JALCIONE  PEREIRA.  Da  ideologia  do  progresso  à  ideia  de  desenvolvimento  (rural) 
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GABARITO

Capítulo 1 
1. Ideias muito distintas vão aparecer nessa atividade. Pessoas com características sociais econômicas 
diferentes apresentam diferentes respostas. Observe a importância disso para a análise sociológica. 
2. O foco dessa atividade é um exame global do desenvolvimento, assim como as considerações 
históricas e espaciais em que os processos ocorrem. 
3. Essa atividade destaca a importância de um debate sobre a ética como condutora do pensamento na 
formulação de estratégias. Embora a ética tenha sido comentada por último neste capítulo, ela deve 
ser um aspecto presente desde o início da discussão no momento em que as estratégias de 
desenvolvimento estão em questão. 
 
Capítulo 2 
1. Solicita‐se aqui um exame de relação entre um processo geral (modernização) e outro particular (a 
introdução de técnicas modernas na agricultura); portanto, a análise dessa relação mostra, entre 
outras coisas, como teorias podem influenciar decisões políticas. 
2. A atividade tem como objetivo compreender os pontos comuns e de diferença entre duas teorias do 
desenvolvimento. Há muitas semelhanças, mas também algumas diferenças importantes, sobretudo 
no uso de conceitos e nas influências teóricas e disciplinares de cada um. 
3. Como consequência da segunda atividade, a terceira é mais específica. Portanto, observe a 
importância dos conceitos para teorias. Tratar países como subdesenvolvidos não é o mesmo que 
analisar sua dependência, conceito que implica com mais acuidade a ideia de relacionalidade e 
dominação. 
 
Capítulo 3 
1. A análise sociológica se torna mais complexa e completa quando se procuram entender processos 
sociais como um todo. A crítica operou no sentido de compreender o capitalismo como um 
processo que era mais avançado em certos setores, mas os outros setores eram funcionais à 
economia capitalista nacional. 
2. A importância dessa atividade é refletir sobre as estratégias de desenvolvimento que podem ser 
deletérias para a sociedade em questão. O modelo “dependente‐associado” não deixou de se 
converter em desenvolvimento, mas com custos sociais altos. 
3. Basicamente, o crescimento econômico foi acompanhado de mecanismos políticos para evitar a 
distribuição de riquezas. Esses mecanismos foram diversos, desde fatores que inibiam a 
transferências de renda para classes mais baixas até políticas desenvolvimentistas que favoreceram 
algumas regiões do Brasil. 
 
Capítulo 4 
1. A agricultura se modernizou, mas foi seletiva; favoreceu regiões, grupos sociais, cultivos específicos 
para exportação e procurou dispensar a necessidade de uma reforma agrária. 
2. O Brasil não é um país pobre, mas possui muitos pobres. O Brasil tem recursos e o padrão de 
consumo das famílias que têm renda em torno da média é satisfatório. A distribuição de riquezas 
no país é tão desigual que poucos (as classes altas) ficam com muita riqueza e muitos permanecem 
com uma pequena parcela da renda. 
3. Veja a importância de se saber o que a população pensa sobre o Brasil: se o país é pobre (tem 
poucos recursos) ou é um país que possui muitos pobres. A opinião pública pode exercer 
consequências diretas na formulação de políticas, tais como as elaboradas para a superação da 
pobreza. 
 
 
140
Capítulo 5 
1. A globalização não ocorre da mesma maneira nas dimensões social, econômica, política e cultural. 
Há maior fluxo nas dimensões econômica e da cultura, enquanto as pessoas são muitas vezes 
impedidas de cruzar fronteiras e, mesmo com os acordos e disposições internacionais, a soberania 
nacional ainda é um elemento fundamental do ponto de vista político.  
2. As teorias recentes mostram que o território não é um suporte. O leitor deve observar que o 
território possui profundidade histórica, laços sociais, materialidades econômicas e elementos 
culturais que o constituem. 
3. A importância dessa atividade é observar uma nova visão do Estado nos processos de 
desenvolvimento, pois os atores territoriais não são passivos, são sujeitos que implementam ações e 
podem construir parcerias com o Estado. O Estado tem cada vez mais o papel de gerar um 
ambiente favorável ao desenvolvimento. Os sujeitos territoriais utilizam recursos ali presentes (mão 
de obra, recursos econômicos, qualificação recursos ambientais, relações de confiança, redes de 
reciprocidade, ambiente institucional com regras estáveis) para implementar iniciativas para o 
desenvolvimento. 
 
Capítulo 6 
1. O desenvolvimento, para Sen, é um processo de expansão das liberdades reais que as pessoas 
desfrutam. Portanto, o desenvolvimento não é uma coleção de coisas, ou industrialização 
combinada com modernização, ou seja ele não se mede pelo PIB ou PNB de um país ou pela renda 
de uma população. 
2. Funcionamentos significam coisas que as pessoas podem ser e fazer e vão desde os mais 
elementares até outros mais sofisticados. Capacitações são condições ainda não executadas pelos 
sujeitos, mas que são passíveis de serem realizadas. Ambos se vinculam com a perspectiva da 
liberdade, vinculam o desenvolvimento com a capacidade de realização. 
3. Nesse exercício, o leitor terá a chance de construir um índice hipotético para analisar um caso 
qualquer. O importante é a reflexão sobre que indicadores a se utilizar e fundamentados numa 
perspectiva sobre o que seja o desenvolvimento, o que eles dizem sobre a realidade. 
 
Capítulo 7 
1. Outros elementos e demandas sociais passam a fazer parte da arena de discussão do 
desenvolvimento. Mudanças na sociedade e na atuação do Estado são essenciais para se 
compreender os novos temas e enfoques sobre o desenvolvimento. 
2. As duas iniciativas atuam diretamente nos problemas de desigualdade de gênero e de raça/etnia e 
inspiram ações específicas para grupos sociais muitas vezes excluídos da maior parte das políticas 
públicas. 
3. Basicamente, ampliou‐se a noção, deixando de lado o foco produtivista e agrícola. A atenção é para 
o espaço rural e suas múltiplas manifestações e atividades, comportando melhorias no uso dos 
recursos naturais, na qualidade de vida, no bem‐estar das populações. 
 
Capítulo 8 
1. O ambientalismo surge em função das mudanças drásticas experimentadas no ambiente, sobretudo 
depois da intensificação do processo de industrialização e urbanização que a expansão econômica 
alimentou. As diversas críticas incidem, em geral, no modo de condução do crescimento econômico 
desmesurado levado a cabo principalmente pelos países do Norte, o que acarreta inúmeras 
consequências ambientais danosas. 
2. O leitor deverá atentar‐se para o fato de que o conceito de desenvolvimento sustentável 
apresentado no Relatório Brundtland, que, apesar de controverso, é o mais mencionado e aceito. É 
considerado inovador para a época, mas inspirou muitas críticas quanto ao modo como considera 
as pessoas tendo apenas necessidades e também quanto às imprecisões de certas definições. 
3. Realize a pesquisa com vistas a compreender o grau de preocupação com o ambiente. Porém, 
observe que aquilo que as pessoas entendem por ambiente e degradação, assim como 
desenvolvimento e sustentabilidade, pode ser muito diverso. 
 
Capítulo 9 
1. A discussão que envolve essa questão é sobre o lugar da economia (e das ciências econômicas) na 
condução dos processos de desenvolvimento. Sachs propõe pensar além da economia, mas 
incluindo‐a. Outros autores mantêm o ponto de vista de que a economia seja a mais importante e 
que dela devam derivar as ações programáticas e os pontos de vistas teóricos sobre o problema. 
2. Se o desenvolvimento deverá rever suas premissas expansionistas, a expansão das liberdades reais 
pode ficar comprometida tanto agora como no futuro. Veiga apresenta alguns modos possíveis de 
conciliação, tais como pensar um crescimento econômico com qualidade, tecnologias cada vez 
menos impactantes ao meio ambiente etc. 
3. Essa atividade se justifica na medida em que é um modo de colocar em prática alguns dos 
elementos vistos no capítulo. A importância é que o leitor possa fazer uma “leitura” da realidade do 
 

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desenvolvimento em seu município, utilizando dados sobre a (possível) sustentabilidade desse 
processo. 
 
Capítulo 10 
1. Armani define projeto social como uma ação social planejada, estruturada em objetivos, resultados 
e atividades baseados em uma quantidade limitada de recursos (humanos, materiais e financeiros) e 
de tempo. Para que um projeto tenha sucesso, é preciso pensá‐lo em termos de sua sustentabilidade 
de modo amplo. Contudo, mais especificamente relacionado à sustentabilidade ambiental, um 
projeto deve ter como ponto de partida essa condição, para que todas as ações, atividades e 
objetivos desse projeto não causem efeitos danosos ao ambiente. 
2. Um diagnóstico deve ser embasado em pesquisa social. Apenas quando se conhece a realidade 
social que se almeja transformar é que se podem estabelecer metas e objetivos com exatidão. Um 
diagnóstico impreciso levará a ações pouco eficazes e trará pouca credibilidade ao projeto. 
3. A importância desse exercício é que o leitor possa ensaiar uma elaboração de um projeto social de 
desenvolvimento sustentável. É uma aproximação ao tema, mas necessita investimento de tempo e 
seriedade para fazê‐lo. Pense no acúmulo de conhecimentos obtidos durante as leituras e aulas e 
procure fundamentar o projeto nas concepções teóricas desenvolvidas. Esse exercício, embora seja 
um ensaio, servirá como um aprendizado para trabalhos práticos futuros.