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A Lógica da Submissão

“A verdade não é um índice do verdadeiro,


mas um índice do falso.”
Theodor W. Adorno
(1903-1969)
Wilson do Nascimento Barbosa
Professor de História – FFLCH - USP

Os momentos do vir-a-ser dialético do conhecimento passam inevitavelmente pelo ajuizamento,


ou seja, o juízo. Aí, as diversidades entre o particular e o universal se ultrapassam em uma nova
unidade, capaz de suprimir a oposição que antes havia. Ou seja, a supressão ultrapassante da
oposição produz a determinação do que é existente. No entanto, o aparente não é um relativo da
coisa. A coisa pode se repetir pelas suas condições, apresentando um leque de variações de grau
que parece – parece! - nunca terminar, assumindo uma “aparência do eterno da mesmice” de
uma contradição que parecia posta. Afinal, estaria posta a contradição? Ou as gradações da
mesmice são na verdade mediações necessárias, negações na particularização do fenômeno? Será
possível apreender tantas variações que não superam a coisa, num discurso corrente; ou
estaremos falando cada vez sobre a mesma coisa que não se vê resolvida?
As grandes oposições sociais nos oferecem dificuldades para determinação do juízo,
especialmente quando os conceitos que intervém em sua enumeração colocam dificuldades para
sua identificação quantitativa. Que grau de variação se impõe na estrutura fenomênica que nos
permite avaliar a direção para que se move? A conexão funcional dos conceitos “deveria” nos
fornecer a chave da reciprocidade de sua inversão…
As contingências próprias do ser e do pensamento colocam dificuldades para a escolha do
método adequado da investigação de um fenômeno, pois muitas vezes seguimos cacoetes de
raciocínio que se estabeleceram com o acerto de um momento inicial e daí a dificuldade de não
seguir insistindo no mesmo caminho que nos trouxe àquele êxito. Às vezes dá-se a dificuldade de
lograr expor os elementos compreendidos; às vezes a dificuldade está em livrar-se da falsa
consciência, que nos leva à fascinação pelos pequenos brilhos emanados do fenômeno estudado.
Não é só a consciência que pode ser falsa. A gradação das variações do fenômeno pode também
levar a que seus pequenos brilhos prometam uma iluminação verdadeira, mas que ela seja apenas

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falsa, um movimento tão pequeno que não afeta o conteúdo do fenômeno. Enfim, a sucessão de
pequenas verdades pode se ver a acumular em coisa nenhuma.
A falsa conciência pode se manifestar seguramente em formas múltiplas. Pode-se, por exemplo,
perceber o pós-colonialismo como algo diferente de si mesmo, ou seja, o neocolonialismo que
efetivamente é. Nesse caso, o grau em que difere de si mesmo pouco antes não é suficiente para
que se haja tornado outra coisa. A essência de um automóvel é ainda uma carroça, embora que,
em sua condição de carroça, seja algo diferente.
A negação do posto pela dominação não é ainda a negação da dominação, embora possa se
prever que até com esta coisa venha a se parecer. A falsa descolonização não é ainda a
descolonização que quantitativamente seria de esperar-se de ser. Aliás, desenhar o futuro que
deve resultar da superação dos contrários pode facilmente verificar-se o contrário da superação
daqueles contrários.
Na situação do antigo “Terceiro Mundo” tem-se observado o processo de descolonização, mas
há particularidades que expressam mais do que seria a diversidade com o universal. Caso se
admita a hipótese, por exemplo, de uma falsa descolonização, ela traria alguns traços como esses:
(1) seria dirigida por uma das classes dominantes, gerada ou associada na colonização;
(2) não apresentaria reformas estruturais positivas, ou seja, negadoras do colonialismo;
(3) ao se transformar, apresentaria uma crescente dependência das importações das antigas
metrópoles, etc.
Tudo indica que semelhante falsa descolonização se possa haver dado em alguma parte do
antigo Terceiro Mundo. Isso reafirmaria por certo, o caráter de globalidade do colonialismo, viesse
ele a apresentar-se como algo novo (que ainda não é), em relação ao neocolonialismo ou pós-
colonialismo.
A personalidade exonerada não é ainda a personalidade. A falsa consciência pode estabelecer
um rol de verdades sobre si mesma. No entanto, sua narração parcial e mítica do que é o destino
não é ainda o destino das afirmações quantitativas. A falsa consciência é apenas faiscação com seu
rol de pequenas verdades. Ela não é substantiva. Nem pode oferecer o movimento da consciência
em desdobramento. O lugar do Outro nas mediações sociais não pode pela falsa consciência ser
alcançado.
Nesse caso, poder-se-ia estar a percorrer todo o trajeto das desafeições do colonialismo, seu
processo de destruir vidas de pobres e de trabalhadores como uma etapa necessária de
reconstrução da história. Estaríamos alinhados com a lógica da submissão.

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O Lugar do Outro nas Mediações Sociais

Embora o discurso dominador tenha o desejo de apresentar a si mesmo como mero otimizador
de oportunidades, é facilmente observável enxergar-se, por detrás do véu de donzel com que se
disfarce, a triste caveira de sempre, o colonialismo, o racismo, e variadas formas de acumulação
primitiva. A exploração e a dominação não conseguem estabelecer com o tempo outra relação que
não seja o extermínio do próximo. Dos projetos de cristianização e de colonização “produtiva”,
caminhou-se apenas para o narcotráfico e o “uso das vocações naturais”, como o “destino agrícola”
do Brasil. Em cada anúncio, em cada proposição neocolonizadora, a marca da caveira vem à tona,
como “escola sem partido” ou o aumento da produção de soja, pela destruição do capeamento do
cerrado ou da Amazônia. As bandeiras do “homem branco” e do neocolonizador continuam sendo
as mesmas e são desfraldadas pelas mesmas mãos. Trata-se sempre de fragmentar a vontade
nacional das sociedades locais e empurrá-las – se possível – para a guerra civil. O ódio
indiferenciado contra a maioria dos pobres, dos escuros e dos “perdedores” é vociferado em cada
discurso e em cada novela da Era Trump.
D. Pedro II dizia que o desejo dos EUA era fragmentar o Brasil em quatro países, ficando, é claro,
com a Amazônia submersa. Talvez se pudéssemos consultar os alfarrábios ocultos em Forte Bragg
ou na Virgínia, chegássemos hoje à mesma conclusão do ilustre imperador português. Os conceitos
de “Ocidente”, “Europa”, “EUA” e “raça superior” certamente não se alteraram muito no
computador central do “homem branco”. Certamente, há ali um algoritmo capaz de chavear e
deschavear palavras, tornando atual o discurso de Theodore Roosevelt. Não é mesmo possível
elaborar uma crítica sistemática ao eurocentrismo, sem apossar-se da monocórdia dos discursos
metropolitanos que mudam todas as palavras, para entregar a mesma mensagem que sempre
elaboraram.
O pior é que semelhantes ideias de Tarzan e dos Go-Mangani; as teses fundamentais de Kipling e
Livingstone, continuam a ser ensinadas em cada país da periferia com toda sua força, mascaradas
porém, com roupagens novas. Esta é a maldade do pós-colonialismo. Em nada pode ele se
transformar, apesar do apelo a mercados culturais. E o resultado visível é a saúde, a educação, os
transportes, a habitação e o saneamento básico que possuímos. É um contraditório que não
permite a mudança…
É fácil entender a causação. A lenta agonia e destruição do Império Romano não produziu uma
vitória das classes trabalhadoras, mas o afundamento de cada parte daquele Império numa

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barbárie particular, a qual caminhou por centenas de anos por uma via de conflitos, miséria,
exploração e violência. Na verdade, cultura a esmagar a cultura da véspera, a formidável bagunça
de mil anos encontrou sua saída através do crime e da violência, através da produção e
aperfeiçoamento de armamentos novos. O “ocidente” nada mais tem sido do que o crime bem
sucedido. No ocidente, o crime compensa. O criminoso sempre volta ao local do crime, para
cometer novos crimes e fica tudo por isso mesmo. A não ser quando apanhado por um acidente da
natureza, como o “azar” de Duguay-Trouin (1673-1736), o aventureiro que representa o processo
de ocidentalização sempre se dá bem abaixo da linha do Equador, ontem ou hoje (a expedição de
René Trouin deu lucro de “apenas” 92%, pela perda em tempestade de dois navios, com 600 mil
libras em ouro e prata…).
A aparente formação de uma ótica que se desinteressa pelos valores de dominadores e
dominados, a qual expressaria “necessidades” da globalização, trata-se de farsa metropolitana
muito mal dissimulada. Na verdade, os metropolitanos já não conseguem sequer tolerar o idioma
próprio dos colonizados, a que taxa de “ignorantes”, quando não falam inglês. Na América Latina,
por exemplo, vê-se claramente o achincalhe dos valores e práticas (principalmente as positivas)
deixadas pelos espanhóis e portugueses. A precificação de tudo e de todos, importada desde fora,
torna as sociedades neocolonizadas verdadeiras pocilgas do demônio, mergulhadas
quotidianamente no crime e na violência.
O fato de a “ordem ocidental” buscar escudar-se por detrás das “necessidades de mercado”, de
modo algum obscurece a decadência moral e até material dos países periféricos. O desemprego, a
incerteza, o colapso da moral pública, etc, deixam a nu quais são suas verdadeiras causas: a
destruição do desenvolvimento social e nacional, por exigências excessivas de saqueadores desde
o exterior, que se apoiam para tal em camadas sociais parasitárias de dominadores coloniais locais.
O arruinamento de todos os protocolos que haviam tornados nacionais os Estados periféricos
antecede um descarte global de proporções apocalíticas, num futuro que, na verdade, não se
encontra assim tão distante. A Guatemala tornou-se o horizonte para onde navega o antigo
Terceiro Mundo.

A Globalização Como Desastre Social


O término da segunda revolução industrial (1880-1973) nos países mais industrializados trouxe
consigo uma correlação de efeitos cuja negativação significou o fim de uma etapa da civilização
autoclassificada como ocidental e empurrou o mundo para uma nova sombra, o aprofundamento

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do neocolonialismo ou do pós-colonialismo (1973-2008). Este processo continua, embora a grande
crise econômica recente (2008-2014), haja trazido à luz novas excepcionalidades, ainda pouco
examinadas.
A constituição de um novo arco de transformações conhecidas como pós-fordismo (1973-2008)
trouxe consigo (a) a reconcentração da produção industrial, pelo sucateamento de grande parque
(de produção industrial) fora do centro do sistema; e (b) a refinanceirização das economias, com
nova expansão do capital financeiro, valendo-se este das novas tecnologias de comunicação e
produção (“terceira” e “quarta” - revoluções industriais). Este novo arco propiciou o avanço da
política neocolonialista conhecida como “globalização”, a qual existia apenas no mundo dos sonhos
até 1973 e daí tornou-se possível. E o que era ou é a “globalização”? De fato, trata-se de um
realinhamento da divisão internacional do trabalho, em que são traços: (1) forte precarização do
trabalho industrial, em condições de novos equipamentos programados, que dispensam
fortemente trabalho vivo; (2) controle dos monopólios locais e das estruturas produtivas locais
pelos monopólios do centro do sistema, com completa imposição de seus métodos de trabalho e
estratégias; (3) eliminação de programas de bem-estar e elevação de renda na periferia do
sistema; (4) integração dos mercados locais monetários e financeiros sob a batuta dos monopólios
no centro do sistema; (5) eliminação física seletiva de grupos locais opositores de corte
nacionalista ou socialista, por “procedimentos” internacionalizados; (6) açambarcamento dos
patrimônios locais significativos (terras, estruturas empresariais, etc); (7) … e muito mais.
Neste “muito mais” inclui-se aquilo que se designa como dominação “suave” (“soft”), que
consiste na captura de “corações e mentes” (expressão de relatório da C.I.A), através da imposição
de hábitos e atitudes do “American way of life”, controle da Mídia monopolista, imposição de
religiões externas e dissolventes e outras formas culturais cuidadosamente planificadas no centro.
Veja-se, por exemplo, os quatro ou mais milhões de brasileiros que vão anualmente “passear” nos
EUA, lá deixando boa parte de nosso ganho em divisas, com passeios na Disneylândia e
“comprinhas” em Miami e Nova Iorque.
A velha divisão internacional do trabalho, um híbrido herdado da introdução de salários no
sistema anterior de servidão das “plantations” e pequenas fábricas urbanas, não se viu por isso
capaz de arruinar fronteiras étnicas na periferia e construir sociedades de mercado,
particularmente dentro das exigências fordistas de proliferação de renda monetária e “sociedades”
de consumo. O “outro lado” do capitalismo metropolitano mostrou-se demasiado denso para
permitir substituir relações semicoloniais por mecanismos complexos de enriquecimento mútuo,

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que se viram assim restringidos a um punhado de “colônias” “brancas”, como Canadá, Austrália e
Nova Zelândia. O óbice deste desenvolvimento tornado impossível foi a luta anticolonialista (1933-
1973) e o movimento nacionalista das regiões vitimadas que, durante algum tempo (1945-1975),
incomodou as potências centrais e seus principais beneficiários enquanto sistema. A drenagem
sistemática de todos os recursos positivos da periferia para o centro, “compensada” pelo
movimento inverso, a drenagem de tudo de negativo do centro para a periferia, esgotou por
completo – até no nível de discurso” - a hipótese da evolução conjunta do Bem e do Mal, a
oportunidade para uma humanidade integrada, convergente e mais humana. Caminha-se a passos
rápidos para mais um mergulho nas trevas, do tipo daquele que se seguiu à decadência e ulterior
colapso do mundo romano.
É hoje o rendimento e o poder de compra mais concentrado do que nunca na história do sistema
capitalista. Alguns analistas, devido aos avanços da ciência que são negados à imensa maioria,
particularmente no campo do aprendizado e da saúde, já especulam para breve a hipótese da
diferenciação biológica da humanidade em dois patamares distintos. Muitas teorias se interrogam
porque o desenvolvimento capitalista não teria dado certo, ou pelo contrário, o ser humano se
constitua apenas um tipo de animal que degenerou, e, por isso, se constitui apenas uma doença
diante da natureza planetária.
Qualquer que seja o grau de otimismo da abordagem, é evidente que o mundo pós-colonial é a
antessala de um desastre maior que aquele esperado na década de 1901-1910. Visto hoje o
panorama da ponte, a colonialidade revela-se implacável, persistente, enquanto lugar, enquanto
cultura e enquanto esvaziamento de perspectivas, face ao oposto que lhe pode ser permitido ou
ofertado. O cinismo, a hipocrisia e a mentira pura e simples alcançaram o espaço doutrinário e
tornou-se certamente impossível responder, pela redução fenomênica, com uma linguagem que
seja comum a opressores e oprimidos. Nos últimos trinta anos, a tentativa de imposição de um
Estado único, através das políticas centrais de extermínio seletivo e globalização material e
econômica, eliminou qualquer espaço para o jogo político de acordo com as regras de uma
democracia de tipo burguês, mergulhando-se por completo na imoralidade impudica de um
cesarismo sem senado, onde Tibério e Calígula, renascidos, desfilam a sua ideologização “soft”. O
condomínio das prerrogativas sobre o Outro praticamente eliminou a virtude e a esperança. Pode-
se sem esforço assistir a grupos monopolistas estrangularem o pescoço de certas nações, sob o
manto protetor de que representem eles próprios alguma outra nação. Caminha-se para o colapso
da sociedade civilizada, fato em que alguns poucos representem a si mesmos e às suas ideias em

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encontros “internacionais” (na verdade “globalizados”), fingindo falar em nome de maiorias que
não consultam nem representam. Na verdade, essas centenas de milhões de excluídos são apenas
“bárbaros sem cavalo”, que apodrecem em acampamentos com televisão nas fronteiras do império
e que, por algum acidente, poderiam despertar de súbito da letargia em que vegetam. Tais milhões
não são conduzidos pelo Papa Leão, não obedecem às regras do “Allemen”, nem têm o “Paizinho”
Átila a conduzi-los. Não é previsível forma alguma de diálogo ou negociação. Corre-se apenas para
o imprevisível.
No entanto, muitos julgavam, até quarenta anos atrás, que a acumulação primitiva se houvesse
encaminhado para um fim, que se tratava agora da inclusão e que a população excedentária
marcharia para o desaparecimento. Antes de o narcotráfico erguer-se como a principal fonte de
acumulação, tais discursos sobre o avanço do trabalho livre assalariado (uma contradição em
termos) faziam o sucesso de geração de escritores. Certamente esta antinomia (livre e assalariado)
era uma identidade que caminhava para sua destruição como negativo do negativo, ou seja, em
sua destruição fundaria uma outra identidade e remissão.
Alguém mais pede a palavra sobre o assunto? Avance, por favor. A brecha entre ricos e pobres
aumentou em tal proporção que a “classe trabalhadora” vê-se agora dividida em uma sucessão de
camadas que parece mais uma escadaria rumo ao paraíso. Lembramo-nos com saudade daquela
declaração social-democrata de 1890 que dizia que o trabalhador que se confunde e pensa
pertencer à classe patronal está perdido para a ação consciente. Este tipo de ação quase
despareceu no mundo do trabalho. Os trabalhadores hoje aceitam ser chamados “colaboradores”,
numa confrontação desnecessária e repulsiva. Tem-se assim a impossibilidade moral e filosófica
para exercer a liberdade e daí que não se possa dar vida à antinomia “livre e assalariado”. Na
verdade, essa impossibilidade chega a ser física, porque “colaboradores” (da Gestapo?) não ousam
exibir um discurso próprio. Foi invertido o mundo do trabalho,num mundo que conhecidamente
sempre se conheceu invertido, e dá-se a exibição despudorada do poder imperial, com a
consagração midiática do cinismo, da aventura, onde prevalece o rol, a infinitude das mentiras.
Estamos no outro mundo: vivemos a gargalhada demencial de uma classe que se perdeu a si
mesma, enquanto ente social dominador. Enquanto isso, uma parte dos trumpetistas criticam a
outra parte que sabiamente tem o topete de ter o Trump, numa farsa, a mais prodigiosa do
“hitlerismo sem Hitler”.
É claro que está facultada a legiões de teóricos a análise dos “frutos” da globalização,
observados daqui e dali como pequenas verdades, como uma distribuição das razões parciais ou

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incompletas das mentiras da exploração, do saque e da pilhagem, mentiras que são todas formas
conducentes do Mal. Faz parte do mundo invertido tomar o aparente pelo essencial. Contudo,
semelhante abordagem do localizado e do parcial não pode lograr demonstrar que cada pequeno
prisma sob análise, em sua verdade pequena, oculta a grande mentira que o gera e que o torna
possível, porque o que esta mentira socialmente se torna é algo que ela já era – com todas as suas
propriedades – em embrião. Trata-se de uma pequena reforma autorizada pelo capital, trata-se de
um pequeno discurso em defesa da pobreza “abandonada” ou em defesa do “meio ambiente”,
defesa que é feita, como violência prometida enquanto libertação, pelos geradores do mal a que
condenam. Ao “distribuir” pobreza, os monopólios hoje ousam apresentá-la como uma
necessidade do respeito ao meio ambiente…
Há quarenta anos, Kindleberger caracterizou como limitada uma sociedade em que o capital é
querido por imigrar, mas o trabalho é mal visto quando o faz. Ante a premissa da “liberdade dos
fatores”, porque deve o capital convergir para remunerações iguais e o trabalho para
remunerações desiguais? O resultado foi uma corrupção nunca vista, a legalização em toda parte
do governo das máfias e a redução da cidadania a bandidos de terceira classe. A violência passou a
ser a regra esperada de um Estado que assaltou os pobres e seus súditos. Não por acaso fala-se já
em que se vive hoje a quarta guerra mundial…
A eliminação dos elementos regulatórios internacionais tem conduzido rapidamente ao
sucateamento das condições de vida da maioria em toda parte, mas com maior severidade no que
sobrou do chamado “Terceiro Mundo”. Neste, a vida da maioria consiste apenas em sobreviver até
o dia seguinte. Há uma clara tendência para a marginalização de povos inteiros da vida econômica
em prosperidade.
Recusado o caráter de sociedade para as antigas nações menos industrializadas, códigos de
comportamento produzidos no centro do sistema são impostos em toda parte, reforçando práticas
racistas e contrárias à população local, sob a desculpa da necessidade de ganhos do turismo. Até
mesmo a qualidade da alimentação se divide hoje em dois vetores, em que os portadores de renda
se encontram no “mercado um” e o “resto” se encontra no “mercado dois”. As divisas da revolução
francesa (liberdade, igualdade e fraternidade) foram completamente varridas da educação central
do caos, defendido pela propaganda da dominação e sua expressão midiática. Não seria um
exagero dizer que, ser livre hoje, é ser um estúpido e um drogado. O comércio de drogas e a
exploração do próximo em todas as suas formas consagra montantes crescentes de rendimento do

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lumpen que se consolida fora do trabalho como interesse social. A magia do entretenimento e a
sufocação da probidade constituem a regra para o êxito dos falsos heroísmos.
A ideologia da colonialidade fantasia o “terceiromundista”, o pobre, como perdedor e, por isso,
merecedor de todos os despejos negativos da vida social. O turismo dos dominadores vê inclusive
os dominados como animais de caça, ou objeto que pode ser submetido a todas as perversões. O
turismo sexual e o “tráfico branco” indicam bem a conivência entre dominadores nos dois lados do
sistema global. A filmografia, por exemplo, está completamente contaminada, apresentando a
violência como o melhor caminho para a convivência social. Um dos maiores defeitos da
dominação burguesa é a naturalização da violência e a glamourização do crime. Enquanto os 10%
mais pobres da população mundial paga 42% dos impostos e taxas, os 10% mais ricos pagam
apenas 21%. Para cada novo dólar de riqueza criado em 2017, o 1% mais rico da população
mundial ficou com 82 centavos do mesmo.
Dessa forma, a chamada globalização neoliberal se revela apenas uma nova etapa na
escravização e imiseração da maioria absoluta da humanidade. Suas manobras políticas e
econômicas visam somente aumentar a dependência das neocolônias, recrutando para o modelo
de vida central a camada de cima, em rendimento, de cada sociedade periférica, com o abandono
e o desprezo por qualquer projeto que vise melhorar as condições da maioria dos viventes. O
rebaixamento da política tem-se efetuado com duas vertentes: (a) de um lado, criminaliza-se
qualquer medida favorável ao povo de qualquer país periférico, qualificando-a de “demagógica”,
“populista” ou “irracional”; (b) do outro lado, entrega-se o poder político local a máfias
organizadas, especializadas em assaltar os cofres públicos e promover o narcotráfico. Essas máfias
colocam parte da riqueza assaltada nos chamados “paraísos fiscais”, entidades à margem da lei
que servem à política dos monopólios e dos Estados maios poderosos.
Um punhado de monopólios se apossou da agricultura em escala internacional, na prática,
privatizando suas estratégias para servir a minorias ínfimas, enquanto definem a natureza como
“um capital de longo prazo”, que deve ser “poupado” do assalto e consumo “desorganizado”, da
parte dos pobres do mundo. Na visão desses exploradores de discurso “cosmopolita”, o único bem
existente é o capital, que se identifica com a própria natureza e aqueles que dela se apropriaram,
constituindo sua prática social a melhor maneira de fazer “progredir” o mundo…
Na verdade, o discurso dos partidários da globalização indicam – como sempre – que “o meu é
meu” e o “seu é também meu”, no melhor espírito da velha pirataria e do flibusterismo, da
bandeira da caveira e das tíbias cruzadas.

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A Lógica da Submissão

Sabe-se, portanto, que o neocolonialismo, como força e violência, tende a bloquear os processos
locais de desenvolvimento da consciência social. As forças sociais locais tendem a se perder – da
mesma forma que ocorreu na Europa – da sua realidade étnica e exibem traços não-nacionais
difundidos pela ideologia social da dominação. O processo da consciência não se desdobra, mas
tende a se bloquear. O primeiro chamamento da análise sociológica quanto a este fenômeno deu-
se com o fim da primeira revolução industrial, o avanço da chamada segunda revolução industrial e
a difusão maciça do trabalho de “colarinho branco” (1890-1914). Surgiu ali uma geração de
mentecaptos que se declaravam – contra toda a objetividade – burgueses ou “classe média”,
quando eram na verdade trabalhadores. O bloqueio da consciência em desdobramento, facultado
por processos superestruturais da dominação, torna-se fonte da formação de falsa consciência,
onde o indivíduo (ou a camada social) prefere se enxergar como seu todo alienado, com o espelho
da classe que lhe é hostil. A cegueira de classe é uma doença largamente difundida nas condições
do mundo neocolonial. É a “catarata” do espírito…
Nas condições do mundo neocolonial, o monopólio da leitura educacional e midiática pela
dominação estabelecida leva ao bloqueio da consciência social efetiva, e à descolagem entre
realidade material e interpretação de mundo. Nesses espaços sociais de dependência se geram
processo claramente alucinatórios, em que a ficção midiática ou de entretenimento é entendida e
apresentada como projeto de vida ou liberdade individual. Esses processos de alienação coletiva
não são exclusivos do “Terceiro Mundo”. Antes que tais perversidades houvessem alcançado escala
de massa no Terceiro Mundo, elas tomaram força na plasmação de dezenas de etnias e camadas
sociais, num movimento colossal de negatividade que gerou o chamado “Ocidente”, entre 1760 e
1890. Nesse período histórico, certas forças de dominação europeia destruiram numa voragem
demoníaca inúmeras culturas locais, gerando o vazio de determinações e lugares próprios que veio
a se chamar “mercado capitalista” e, sobre o escombro que ele é, a sociedade agressiva e
destrutiva por excelência que se chama eufemisticamente “civilização ocidental”. O fascismo e o
nazismo são assim uma doença que se dissolve no mercado, e não uma ocorrência extraordinária e

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incompreensível, uma espécie de “catapora dos povos”. Trata-se de Mefistófeles, libertado por
Deus para suas brincadeiras…
Os limites postulados por Hegel para sua dialética não nos obriga a limitar os limites para a
dialética de Hegel. Vamos para além dali, para entender os limites da geopolítica do discurso.
Torna-se compreensível que, nas condições do Terceiro Mundo, com a necessidade de a
dominação local ossificar para sempre as estruturas de um mercado que se volta circularmente
sobre si mesmo, a desempenhar como um oligofrênico sempre o mesmo papel, o fascismo seja
uma superestrutura cujo uso e recurso periódico se estendam sempre para lá do discurso. Na
verdade, o “ocidente” foi objeto de si mesmo, isto é, foi criado pela perversidade de seus
propósitos e defeitos. A maldade que o “ocidente” faz a seu mundo neocolonial é a maldade da
qual nasceu, é a maldade que sua essência faz a si mesmo. Não podemos pretender que um
pedófilo se corrija por uma predicação moral. Não se pode pretender, portanto, que o ocidente
não resulte dele mesmo. Suas afirmações subescondidas estão depositadas no seu recôndito. Dali
emergem em suas configurações de mundo, entre os quais, o mundo neocolonial.
É evidente que semelhante mancha não pode apenas caracterizar o processo de pensamento
“norte-americano”, ou “europeu”, mas também outros processos de pensamento, como o “latino-
americano”. Trata-se aqui de uma assembleia de pedófilos, em que todos se criticam e ninguém se
entende. Não se pode superar um discurso, quando se possuem apenas as palavras daquele
discurso. Trata-se do “roto” falando do “esfarrapado”. Estão todos presos no mesmo círculo.
Ficaram encerrados pelo mesmo risco de giz.
Não há nada a colher do que está dissolvido enquanto “mercado”. Não há negação da negação
na “cultura ocidental”. Como disse em certo momento Gore Vidal, a última oportunidade que o
ocidente teve para continuar dominando o mundo foi o marxismo. Como o ocidente resolveu
rejeitá-lo (ao marxismo), o que resta é negar a diferenciação. O que lhe resta hoje é a violência
colonial e pós-colonial.De modo cada vez mais aberto.

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