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Louis Althusser

Jacques Ranciere
Pierre Macherey
~ li H' 'I.Ctoo>m. .130. 14.01:330.85 A467L=690
•\utor: Altlnusser. Louis, 19 18- 1990- Z A H A lt
l'ít ulo: Ler o cnpital I .

1111111/JI~ ll/l l~lllll:l//lfil/11~ 1111111111111


10168H8 ti<. 2.18943 EDITORES
._.. t UCF:
(Continuaçilo da 1.• ab<l)
Questões de bist6ria, como se vê, embora LER O CAPITAL
ALTIJUSSER, ao fonnulá-las em meados dos
unos sessenta, tamlbém as inscrevesse no do 4

mínío da epistemofogia. Expressão cujo uso é O título é uma convocação, uma palavra de
apenas uma das marúfestações, ou um dos ordem, como esclareceu ALTHUSSER em um
sintomas de um desvto teonctsta que marca texto mais recente. Mas os autores deste livro
esta obr~ como ele rec.onheceria mais tarde não lêem O Capital como economistas, lógi-
em sua a~tocrítica. E à luz desta última que cos 0\1 historiadores. Fazê--lo significaria pro-
o livro tleve ser lido. Pois assim fazendo po- c urar na obra principal de MARX uma res-
demos também medi-lo, hoje, pelo que há de posta para questões suscitada do âmbito de
melhor em seus efeitos, presentes m•m con- disciplinas cuja problemática, tal como é ha-
junto já respeitá:rel de tra_balhos históricos, bitualmente definida, é por sua vez posta em
políticos e filosóficos que, mcorporando par- questão por aquela obra, se ALTtiUSSER e seus
cial ou. integralmente os pressupostos ou ?~ cornpanlteiros têm razão no que pretendem
demonstrar. Trata-se aqui de uma leitur~ fi-
" resultados desta leirura de O Capttal, dao
vida a alguns dos mais importantes debates losófica:
do marxismo contemporâneo. O que está pr~­ "Somellle uma leitura como essa p~e escla-
sente aqui, portanto, é não um SIStema teó~l­ recer quanto à resposta à questão referente
co. mas o registro aberto de uma mtervençao ao lugar que O Capital oct!f>a n~ : biStória do
na teoria válida essencialmnte por seu esfor- saber. Essa questão formula-se deste modo:
ço audaz no sentido de remover um~ enorme Será O Capital simples prOdução ideológiéa
!I lU,
massa de malentcndidos e preconcettos_ ldecl- entre outras, uma ordenação hegeliana dw
tógicos que obscurecem a compreensao da economia clássica, a imposição ao domínio da
1111' 11
obra de MARX, para liberar toda a fecundi- realidade econômica de categorias antropoló-
'" "
,, l•·f r
dade e a riqueza das questões que esta obra gicas definidas nas "Obras filosóficas da ju-
nos propõe, ou nos permite formular. ventude" a concretização das aspirações idea-
c" p listas da Questão Judia e dos Mamesct:itos de
11 I ~t, ,, 'Esta versão brasileira de Ler O Caoital (oi 44? Será O Ct1pital simples continuação e
traduzida da nova edição francesa _de . 19'75 como que cttlrninação da economia polftica
,. ~"c que difere sob vários aspectos da pt'lmemo de clássica, de q'ue Marx teria herdado tanto o
1968. Trata-se de uma versão revasta e cor- objeto como os conceitos? O Capital distin-
rigida; portanto nova em J>arte: nulller~sas guir-se-á então da economia clássica, não por
páginas. sc>bretudo da colubora~lí.? de B~t.!HAR seu objeto, mas só pelo método, isto é, a dia-
(incluída no volume dois da edtcao bras1leua), lética inspirada em H egel? Ou então, muito
são inéditas. Entretanto, as retificacõe~ (cor- pelo contnírio, constittlirá O Capital uma ver-
tes e acréscimos) feitas no ori~inal não alte- dadeira mutação epistemológica em seu obje-
raram esta interpretação geral da obra de to, em sua leoria em seu método? Represen~
MARX. 1a rr. O Capital a fundação em ato de uma dis-
ciplillll nova, a fuilélaçiio em ato de uma ciên·
cia, o começo absoluto ela história de uma
ciência? 'E ~e essa ·ciência nova é teoria da
Jdstória, acuso não permitirá em recíproca
um conhecimento de sua própria pré-história
ZAHAR EDITORES - e portanto ver cla ro tanto na economia
a cu'tura a serviço do progresso socai clássica como nas obras filosóficas da juven-
RIO DE JANEIRO tude de Marx?"
(Continuo na 2.• aboJ
. III
111111
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IL lll.IÍS J!Uthl.ll :i:!i.~!'lr


() ()bjEdC> d ;! () Capil';cll'

I[ ti,ln.n'''~ IH11Ii I:~ ar


~:;c l::.!n~ o:;; (:o;·'tC!~ ito!;. F:: und é~ r'n ·~:- n·t 1:! :!:;
c'c· l·u~at~!ri.::·,r:. ::iiT~o Hi!;tórico
fiinjpHr Est•í~l:l•i lolt
l;~h~:lr l::d ituJ>~m:!:
,I\ p n! !i::; nt.:H;:J)'o do P J :::f'! O dt:! ( I (:::~p/1~a ,'
Hio a:llu~ .~:m rnu:lirf.:l

1..
Tít1.1lo miginal: Lire te Capital.

Traduzido da edição ftarH~:$a publicada em 19'7 5


por IFntn<;<>is M<~Sp<:ro, d'.: P.nl'is, França,
na :;hi1: Pé•lile CoJia•crio" M"spc·m.

Copyr'ighf @ !968. Librairie Frtlllçois Ma.1pero

T odos o:;. din:itm: l'<::serv<ldos. 1'1·oibida a n:pxodu1;ii~J (l..d nl' 5.\l ll8). A.d. vc:rt:~:nci a . ... . .... . .. . ..... . . . . . . . . . .. . ... . ... . . ... . , . . . 7
f.l
'T'ri~du,;;iio: ,JI :H::ti~ Ut~!· H :m·dl~n: : o C or~<:: l~:ito ele: c:rítica I~
l\lathanad C. Caixeiro a Crítica da Econom ia Polítiça
do:;. J~lafltl~\·c.rfros de 1844 a O C'apital ..r ~­

Capa: ' .J
E rico 1.. A. Critica da Ecnl:lüiTlia PnHti1;:a
,.n,,.,
.11 nos M arwscritos d e !844 . . . . ... . . ... .. . .. . . . . .. . . . . .. . . .
11
·1 ' 11'!" .. .,,,,,. ,• ,. ,.,,,,, ; ;.1-:: J••tnlo •.to•
j...... .. Prel/nún.ar . . . . . . ... .. . .. . . . . ... . . .. . . . . .. . . ... . , .. l i
·• ·'l !;,:·:'l·'
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.1·''·11 t. O nívc:l 'da econornia pol.ili.ca . . . . . . . . . , . .. .. . 8 ·r
. '·' ·····' ,,. _",;'l;:·,-l:l:i
:l. ;\ el. abo r;:~ ,;:ii.o crítica . . . . . . . . . . . . .. . . . .. . ... . . 83
1 A an iTbologia ~~ o seu fuml::u:n~:nlo . . . . . . . .. . . IHi
4. Lk:;;,:~ nvol virw::n to da co ntradiç:~. o: história 1;:
·.'11 : ' :::;:,;... :j subj ,~·l.ivid::~ ck ou rnotores e: t::n oti vos . . . . . . . . . 93

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:'i. J) i ~n:: u rso cd ticn 1:: di:;,çurso ck:ntífico . . . . . . . . 96
.< .. I li t:dt ica ~:: t :i.t:nr.:ia ern O C'apilal , . . . . . . , . . . .. ... . . . . . . .
Pr-elinrinal' .. . . . , . . . , . . . . . . . . . . . . . . . . . . ... . . . . . . .
J. ( l probk:IJl<l d o ponto Cif:: partida r~:
::1 qu~:::;.táo ,;:rít il::a .. , .. . . .. . . . , . . . . . . . ... . . . . . . . JOJ
2. lb>tl'l.il u.r a dlo pr i)Ç•::::;so (::
p1::ro.::,::pçà<C1 ck1 p ro~:,::s :m ... . . . . . . . . . . . .. .. . . . . . . !24
J . A. 1/év'ifr.rs.í'l':rlfclwng (!:
''' çons.titu i1;:ii{l do h::t icl:ri!ano . . . . . . . .. . . . . . . . . l 4';J
Pre!imi'm:rl' . .. . . . . ... , . . .. . . . . . . , . .. . . .. . . . . . . . 147
A ) A ".l'ii('~·;•·w:•.ro..l·i~~keit " da ji:mm:r . . .. . .. . . . . 1.49
IJ) ,·'1 " Verà'l.rs..'>l''l'fichr.mg· " da re/a,;:úo ... ... . . . . U3
C) O desiocm'l•reJ:Ito da or~gem e
r.;1 trrmsgn~ssii'o do l'imUe .. . . . .. . . , . . . . . . . . IIJ I
]) ) O n·wndo ,imc.w11'ado . . . .. . .. . .... , .. . . .. . .. . l 63
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A, n:'ro póú t o do lF~n;:~(:;r;:s~:o d~: E:q11)Sil;ilo
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Din:ito:; pn.r.a a língu:' :portug1.1esa a.dq\l.lrici l):; por I. Pon to doe Part ida <;~ Anál isr;: da IRir.: p.u::za . . . . . . . . . . . . . . . I 83
ZAHI'1R EDlT'O RII':S
üiixa Postal :!07, ZC-00, Rio , 11. An :~il ise da \VIen;:ad oá:t í~·
q t1e s·~ re:H~::t'Yal11l Jl pr<rpri·;~d<u;k d~s l: a v~~r~.~- o. /~. pa r·l::,;:i rn<::nto da (:C:mt:radi1;:Jio . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 190
hrqm::;sc1 no Hr:;~sil
m. Anú lise tl.o V.alor . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 196

lll ( .

Advertência

I . A presente edição de Ler o Cap i ta I difere sob vários aspectos


da primeira.
Trata-se de uma versão revista e corrigida; portmllo, nova em par-
te: numerosas páginas, sobretudo da colaboração de Balibar, sc1o iné-
ditas.
·• Entretanto, as retificações (cortes e acréscimos) que fiz emos no
original não se referem à terminologia, nern às categorias e conceitos
utilizados, nem às suas relaç('Jes inr.ema.s; por conseguime, não altera-
mos a interpretação geral que fizemos da obra de Marx.
Portanto, esta nova versão de Ler o Capital, d1jerente da primei-
ra, aprimorada e menos carregada, reproduz e representa estritamente
as posições teóriccJs do trabalho original.
2. Esse esclarecimento impunha-se. Com efeito, por respeiro ao
leitor e por simples questão de honestidade, respeitamos na íntegra
wna terminologia e posiçc'Jes filosóficas que, no entanto, nos parece
agora indispensável retificar em dois pontos precisos.
Não obstarrte as cautelas tomadas para nos distinguirmos da ideo-
logia ''estruturaUsta" (dissemos muito claramente que a "combina-
ção" que ver!ficamos em Marx "nada tem a ver com uma combinató-
ria" ), e apesar da ocorrência decisiva de categorias estranhas ao .. es·
truturalismo" (determinação em última instância, dominação, sobre-
determinação, processo de produção, etc. ), a terminologia que antes
..

utilizáramos estava, sob vários aspectos, demasiado próxima da termi-


nologia "estruturalista"; isso sem dâvida levou a equívocos. Com raras
exceções (alguns críticos argutos perceberam bem a diferença), nossa
interpretação de Marx f oi de modo geral reconhecida e julgada como
"estruturalista", em homenagem à moda atual.
a
Pensamos que tendência profunda de nossos textos não se liga à
ideologia "estruturalista", não obstante os equívocos de terminologia.
Esperamos que o leitor tenha em mente essa afirmação durante a leitu-
ra, que a comprove e endosse.
Por outro lado, temos agora razões de sobra para pensdr que uma
das teses que apresentei sobre a natureza da filosofia exprime uma
tendência "teoricista" certa, apesar de lodos os esc/arecimentosfeitos.
Mais precisamente, a definição (dada em Pour Marx e invocada no
Prefácio de Ler o Capital) da filosofia como teoria da prática teórica
é unilateral e portanto inexata . De .fato, não se trata de simples equívo-
co de terminologia, mas de erro na própria concepção. Definir a.filoso-
_fta de modo unilateral como t eoria das práticas teóricas (e, por conse--
guinte, como teoria da diferença das práticas ) não passa de uma fór-
mula que só pode suscitar efeitos e ressonâncias teóricas e políticas ou
''especulai ivas' ' ou ''positivis tas".
As conseqiiências desse erro referente à definição da filosofia po-
" Londres, 18 de março de 1872
dem ser reconhecidas e delimitadas em alguns pontos precisos do pre-
fácio de Ler o Capital. Mas a não ser quanto a pormenores insign!fi-
cantes, essas conseqüências não p rejudicam a análise que fizemos de O Ao cidadão Maurice La Châtre
Capital ("O o~ietivo de O C apital", e a exposição de BalihcJr).
Teremos ensejo de retificar a terminologia e com~r;ir a de_finição Prezado cidadão,
da filosoji"a numa série de es tudos próximos. Concordo com sua idéia de publicar a tradução de Das Kapital
t:m fascículos. De!>ta forma, a obra será mais acessível à classe traba-
L Alth ~•sser lhadora e para mim esse motivo sobrepuja qualq uer outro.
Mas, além dessa vantagem, há q ue considerar o reverso da me-
dalha: o método de análise que utilizei e que ainda não fora aplicado
aos problemas econômicos torna bastante árdua a leitura d os pri-
meiros capítulos, e é de temer que o público francês, impaciente por
chegar às conclusões e ávido de con hecer a c~mexão entre os pri~cí­
pios gerais e as q uestões imediatas que o apatxonam, venha a en!as-
tiar-se da obra por não a ter completa, desde logo, em suas maos.
Co ntra essa desvantagem nada posso fazer, a não ser, todavia,
prevenir e acautelar os leitores ansiosos por verdade. Não existe e~­
trada real para a ciência, e só têm probabilidade de chegar ~ seus CI-
mos luminosos aqueles q ue não t emem enfrentar a canseu a para
galgá-los por veredas escarpadas.
Afetuosa mente,
Karl Marx."
Louis Althusser: .

De O Capital
à Filosofia de Marx

As e~posições 11qui feitas foram pronunciadas durante um se-


rnínário de fl:>tudos dedicado a O Ca[Jital, nos primeiros meses de
1965 rm f.Cr;Qle Norma/f:. Ela~ trazem a marca das circunstàncias: não
ar~enas çrr1 SU!l composiçâ~), ritmo, vezo didático OU falado de SUa
clll.pl'e$são, mas ainda e !!Obretudo em sua diversidade, repetições,
hesitaçi>~s e riscos de sua pesquisa,. ~ certo que poderíamos refazê-
las à von~ade, çorr~gir umas e outr{ls, reduzir a margem d1! suas va-
riaçpe~, aperfeiçoar FI terminpl0 gia, as hipóteses .e conclusões, expor
sua matéria na ordem sistemátJca de um único contexto; em suma,
poderiamoli tentar Fl composição de uma obra acabada. Sem visar-
mo~ j;\. estabelecer o ~ue e las deveriam ser, pr.:;ferimos publicá-las
tais qu!li~ siio: precisamente textos inacabados, simples inícios de
uma leltt~rç,.

K•
.,/,
Certamente todos temos lido, todos lemos O Capital. Há mais
o~ menos um século, podenws lê-lo, todos os dias, por transparên-
cia, nos dramas e sonhos de nossa história, em seus debates e confli-
tos, nas derrotas e nas vitórias do movimento operário, que sem d ú-
vida é nossa única ~sperança e destino. Desde que "viemos ao mun-
do", não deixamos de ler O Capita,/ nos escritos e na fala daqueles
12 LER O CAPITAL DE ··o CA I'ITAL'" A F ILOSOFIA DE MARX 13

que o leram por nós, bem ou mal, os mortos e os vivos, Engels, na), mas t<tmbém do objeto das "Obras da juventude" de Marx, em
Kautsky, Plekhanov, Lênin, Rosa Luxemburg, Trotsk)'. Stalin, especial o objeto dos Manuscritos de 44, e, portanto, en1 que o dis-
G ramsci, os dirigentes das organiza~ões operárias. seus partidários curso de O Capital se distingue não só do díscurso da economia clás·
ou adversârios: filósofos, economistas, políticos. Temos lido frag- sica, mas também do discurso filosólioo (ideológico) do jovem
mentos, " trechos"", que a conjunturu "escolheu" para nós. Todos Marx.
nós inclusive chegamos mais ou menos a ler o Livro Primeiro. desde
a "mercadoria" aié a "exproJ>rinção dos expro1u·iadores". Ler O Capital oomo economista teria sido lê-lo propondo a
No entanto, impõe-se um dia ler, no sentido literal, O Capital. questão do conteúdo e valor econômicos de seus esquemas c análi-
Le1· o próprio texto, inteiramente. os quatro Livros. linha ap0s li- ses; equiva leria, pois, a comparar o seu discurso com um objeto já
nha, reler dez vezes os primeiros capítulos, ou os esquemns da repco- definido fora dele sem que.stionar esse objeto. Ler O Capital como
dução simples e da reprodução ampliada, antes de desembocar, dos historiador seria lê-lo sugerindo u questão da relação de suas un:íli-
plnroaltos ári dos e lisos do Segundo livro, nas terras prometidas do ses históricas com um objeto histórico já delinido fora dele, sem
lucro. do juro e da renda. Mais ainda: impõe-se ler O Capilcll não só questionai· esse objeto. Ler O Capital como lógico seria propor a
em sua traduç.fio para o francês (mesmo que seja a de Roy, do Livro questão dos stus métodos de exposição c demonstração, mas em
I, q'ue o próprio Marx nilo só revisou, mas refez), porém no original <tbstrnto, também sem questionar o objeto c<Hn que se relacionam os
alemão, pelo menos os capltulos teóricos f~ndumcntais e todas as m~todos de.1se discurso,
passagens em que a floram os conceitos.chave. Ler O Capital como filósofo é precisamente quesrionur o objeto
Assint é que achamos conven iente ler O Capital. As exposições especifico de um discurso específico, e a relação especllica desse dis-
decorrentes desse pwjeto não passam de protocolos pessoais varia- cul·so com o seu objeto; é portanto propor à unida<Je di.<curso-ohjeto
dos dessa leitura, tendo cada um talhado a seu modo a sua própria 11 questão dos thulos epistemológicos, que disti nguem essa unidade
senda oblíqua na imensa floresta do Liv1·o. B se as apresentamos eltt precisa de outras formas de unidade discurso-objeto. Somente uma
sua forma imediata, sem nada acrescentar, é para produur todos os leitura como essa pode esclare~>e~ quan to à resposta à questão refe-
riscos e vantagens dessa aventura; é para que o leitor encontre nela. rente ao lug.ar que O Capital ocupa na história do saber. Essa ques-
em estado ttascentc, a própriu experiência de uma IGilura; e que o tão formula-se deste mooo: será O Capilal simples produçn o ideoló-
rastro dessa primeira leiuura o arraste por sua vez a mnt..Seguuda. gica enuc outras, urna onlcnuçlio begelia11a dn economia clássica, a
que .nos !~vará mais adiante. • imposição ao domínio da realidade econômica de categorias antro-
pológicas deflnida,q nas l'(i)brusiilo~Mioa& da juventude", a " ooncrc·
tiznção" dns aspirações idealistas da Qu~stão .Judia e dos M clm<scrf.
tos de 44? Se1-á O Capital simples continuação c como que culmina-
Ent1·etan\o· como não existe leitura iuo<>!nte, confessemos cão da econ~mia polftica clássica. de que IIJia~)t teria herdado tanto
aqu ilo de que nos julgamos culpados. o t>bjeto como os conceitos'! O C~pitul disLinguir·se-á então da eco-
~wmos todos lilósofos. Náo lêramos O Capiral como econo- nomia clâssic~. níio por seu objeto, mas só pelo método, isto é , a dia·
rnist<ts. historiadores ou literatos. Nilo questionamos Q Capital léticn inspirada em Heget? Ou então, muito pelo co ntrário, consti·
quanto ao seu oonteúdo oconômico ou bistórioo. nem quanto à sua tuirá O Capital uma verdadeir:l mutação epistemológica em seu ob·
simples "lógica'' internu 1 l~1·amos O Capital como lilósofos, susci- jeto, em sua teoria e em seu método? Rc:rll"esent:lrt. O Capital u fun·
t;u~do -lhe. pois, questão bemdiveJsa. Confessemos, para irmos dh·~ dação eiTI a t o de uma disciplina nova, a fundação em ato de uma
to ao fato: Jevantumos n questão da '"lapio cqm o seu objeto. porlan · çiÇn.çia - ~ porlímlo um vçrdndcirq acontecimento, uma revoluçiio
to. ao mesmo tempo a 9.ues1;lo da "spcciflcidade de seu objeto e a 1cúrica,, deixando 11ara t rlls, na pré-história, a economia poli ricu
q~e:slão da especilícidade da reiaçiio oorn esse objeto; isto ~.a ques- Clássica e as ideologias hegelia1ta efeuer·bachiana- o começo abso-
tão da naturezn do tipo de discurso em ação para trotar desse obje- luto d:~ história de um a ciência? E se essa ciência nova é teo~ia dn
to. a questão do discurso científico. E d<tdo que .nunc<t há det)nicão a hLJ-t6ria, aca.,o ~ão permitirá emJecíproca um oonhccimcnto de sun
não ser de uma diferença, suscitamos a O Capital a questão da dife· própria pré-história -e portanto ve1 claro tanto na econ omja e)ássi·
rença específica, tanto do objeto como do seu discurso- indagando, ca como Itas obtus filosóficas da juventude~ Marx? Tais são as im-
11 c!lda passo de nossa leitura, em que o objeto d~ O Capital se distin· plicncõcs dn questão epistemológica suscitadas a O Capital por sua
gue não somente do objeto da economia clássic:f (e mesmo moder- leitura filosófica.
14 LER O CAPITAL
D E"() CAPtT,\C" A f'I I.OSOPIA D ll MARX 15

C ma leitura filosófica de O Capilal é, pois, o exato oposto de sen) com todas as letras a presenÇ~ da essência "abstrata" na trans·
uma le1tura 1nocente. Trata-se de uma leitura co1p culpa, mas que parênda de sua existência •·concre ta'~. Que nessa leitura imediata da
não absolve sua fltlta pela conFissão. Pelo contrário, ela defende sua essência na existência se exprime o modelo religioso do Sa ber Abso·
falta como "falta boa", c a defende demonstrando-lhe a inevitabili· lut.o hcgelin no. esse Fim da História. em que o conceito se torna en·
dade.. Trata-se, pois, de uma leitura de exceção que a si mesma se fim visível u céu aberto. presente ent re nós em pesson, tangível em
JUStlfiCil! como leitura, suscitando a toda leitura cul pad~ a própria sua existência scn sivcl - onde c?ssc pão. es.W! corpo, es.se rosto e esse
9ues!ílo. que lh~ desmascara a inocência, a sim)>les quesiiTo de sua homem são o próprio Espírito, eis o que nos põe em cond ições de
1nocenc1a: que I ler? compreender que a nostalgia de uma leitura em liwo a/>erw. c do
'
3. ' pró prio "Grande Livro do Mundo" g~lileanu, é mais velha <JUC qual·
que1· ciência, que ela 1·umina ainda surdamente os fantasmas religio·
l'o r mais paradoxal que possa parecer essa expressão, podemos sos da epifania e da parusia~ e o mito fascinnnle das Escrituras, on 4

afirmar que, na história da cullurn humana, nossa época corre o ris- de, vestida t.:Qin as !mas. palavras, n verdade tinha por corpo o Livr<J :
co de aparecer um dia como que assinalada pela provação mais d ra- a Bíblia. lsso é o que nos leva a suspeitar que para t rnt~1r a n;~ turez.a
mática e mais labol'iosa possivel: a descobert:l e o aprend izado do ou o re~ll com o u m l .ivr(), em que, segundo Galilcu, fala o di&OUf.SO
sent ido dos atos mais "simples" da existência: ver, escut'ir, fa~ar, ler· mudo de uma língua ''composta de quadrados. triângulos c círcu~
-atos <tuc põem os homens em relação com as suas ob(as, c essas
obras encerradas em sua própria garganta, que são as suas " faltas de los" , era prcdso ser possuldo de certa idéia do ler, que faz de um dis·
curso escrito a transparência imediata do verdadeiro, e do real o dis·
obras". E contrariamente a todas as aparências ainda reinantes, não curso de uma voz.
é à psicologia- que se.edificn sohre a ausCncia de ~eu c;o nceitp- q ue
devemos esses conbeç1mentos p<:rturbndores, mas a alguns h.omens: Que Spinoza, o primeiro em l odos os tempos a suscihu· o
Marx, Nictzsehe e Freud. De1X>is de Freud é que começamos a sus- problema do ler, c por conseguinte do ~.•crc1·er. tenha sido também o
peitar do que quer dtur o escutar, c po1tanto o falat (e o calar); e primeiro oo nu1ndo a pi'Opor simultanea mente uma teoria da histó-
que o " quer-diur" ~o falar e do escutar revela , sob a inocência do ria e u,na !ilosolia da opacidade do imediato: que nele pela J>rimdra
falar e do c.scutar, a profundid~dedeuma fnla inreiftiiiWI!Ie diver~a. a vez nQ mundo um homem tenha ligado n essência do ler e a esséncia
fal~ do incnnscícnte. 1Eu ousaria alipnar que, desÔ<: Ma1·x, devería- da história n uma teoria da diferença entre o imaginári o e o verda·
mos começar a suspeíta1· do q\le.~elo nlenos mn teoria" ler e pontan- deí t~ -:- eis o que n9~ faz com~r<:endc:r por c;rue é por uma razão ne·
to escrever querem dizer. Nfto fo i por acasn, sem dtívida a)gum a, q ue cçssnna que ).ola!x so pó<h: tolnar-se Ma1x fundarí<h> uma teo ria da
pud,emCJS rcd02ir À inoôência expilei ta de\inut leitrmr toda a prch:n- hist6 r\a e ut\'la Jilo~o lla da distin~ão histórica entre a ideologin e a
sâo ideológica que reina de cima sobre os Manusm'ro,r de 44. e va- ciência, e que em illtima análise essa fundação se ten ha consumado
!:uein aindn dissimuhtdnmente ns tentnçõe:~ l!istoricÁstas dt: reçpida na di~fipação do mil o religioso da leiw ra. Lá 11ndc o jovem Mnrx
de O Capital. Para o jovem Marx , oonhccer n c.ssêncin !las coisas. a do;>s !Yfanuscrlws de 44 lia em livro nbt:rto, imediatamente, a essência
essência do mu ndo histórico humano, de suas produ~ões econô mi- humana njl. transparência de sua alicn~ção. O Capital toma pelo
cas, pollticas, estéticas e religiosas·· é real mente lar (leJ·en, heraurle- contrárip a e~a,ta medida de uma distância. de urn deslocamento in ·
terior ao re;1l. inscritqs ml sua e.<rm rura e de t~l modo que tornam
seus próprios efeitos ilegíveis, c (açam da ilusão de su:~ leitura ime-
diata o úl1 imo ~fi nal de seus efeitos: o fetiallfsmo . E J:>em se impunha
1
A t.s:w: cJrorço te(lriCC), dura!lte loogoJ nnos 5olilirio, intransig.::me e hkido de J. recorrer :l história para aoua~ o m(to do ler na wa cavermt, pois e3<
Laca.n, é que devemo&... l't1>je. tsst rc&ultado qJc wbwne\1. r.os:u. l~ilwa de Freud. parti r da histó:ia, en' que lhe prestavam o culto dns suas religiões e
Numa é~ca. c:n~ <(ibJ o ICgnel<l N'dkabnul).le origina.t dt J. lueun c CJm"ÇH a pas.-;ar patltJ tílosoli~s, q1.1e os homens o haviam p1·ojctado na natureza, para 11ii0
o domfmo pubiJco, ~ 1t1 que cal:ht 1.1 111 poi:le,. a t~tu nmdo, faze( ~=•o o provc:ih> dele dt\'0 perecer 110 audacioso pr(\jeto de a conhecer. É somc11te da história
rrooslhe.:er nossa dívida pare oom umu lição de loitura uemptu . que, tomo vt.~mcs. pens~da, da teorin da história. que se poderia atribuir uma razôo de
ultrJpà.5$H em alguns de: soos creitos. o o2itto de origem. Devo cecoohex:~la de públi-
co: paca que o "trubJiho do alfldatc: rnilc!J de.u.J>areça na roupa." (M:arx), meJrno que ser à l'eligiào histónica d~ leitura: revelando que a histtlria dos ho-
$t1a .J nos~'· l>t:\'0 reconhecer tumblro a dJvida. nutcifeJtll ou secn:ta. que:· nm liga a mens. q ue s>e registra err1 Lívi'OS. não é todavia um texto ~scrílo nas
cs.t.CS mo:$tre~ <tue nos ensinaram 11 ler u obnu do !i<tbW. como o for um Ga~too U:teht>- piginns de um l,ivro; r~velanqo que a verdade da história não se lê
lard e J. Ca.vaillbs, me•tres que sld ;~Inda hoje. O. Gang~.oil h em c M ichd PoucauiL em seu discurso rnanifC<~to, porque o texto da história não é um tex-

,..,
·"·'"·"'·"'·"·'"·'- ·"-.:.: .: .: : : .:~:~_::: : .: :.: ._____ _
_ ____·--··-'- ·-··-· · Ii~;B~~~ti
16 LER O CAPITA l. DE " 0 CAPITA L" A FILOSOFIA DE MARX 11

to em que fale uma voz (o LÓgQ.r), mas a inaudlvd e ilegível anota- teóricas do seu t rabalho de descoberta. Marx lê, pois, diante de nós,
ção dos efeitos de uma estrutura de estrutuws. Ao acompanhar al- em voz alta, nào apenas nas Teoria.• da Mais· Valia 1 (livro que per·
gumas de nossas exposiÇÕes, poder-se-á ter a convicção de q ue, lon- maneceu, no essencial, no estado de anotações), mas em O Capital
ge de manter propósitos metafóricos, tomo literal men te os termos ele lê Quesnay, lê Adam Smith, Ricardo e out ros. E os lê de um
que emprego. R.omper com o mito religioso da leitura: essa necessi- modo que parece perfeitamente límpido: para amparar-se naquilo
dade teórica assumiu ern Mau a forma rigorosa da ruptura com a que eles dissera m de exato c para criticar o gue disseram de fa lso -
concepção hegeliana do todo como totalld.ade "espiritual'', muito em suma. pura se situar em relação aos mestres reconhecidos da
precisamente corno totalidade exprds.riva. :-<ão é por acaso t)uc, le- EConomia Polltica. No entanto, a leitura que Marx faz de Smith e
vantando a fina folha da teoria da leitura , descobrimos soh ela uma R.icardo só é 111lllpida para certa leitura dessa leitur·a: para uma leitu-
teoria da explt'Ssào, e que descobrimos essa teoria da totalidade ex- ra imediata que não interroga o que lê, mas toma por dinheiro à vis-
pressiva (ern que cada parte é par.• tntalis, imediatamente expressiva ta as evi dê ncia~ do texto lido. Na realidade. a leitura que Marx faz
do todo que nela habita em pessoa) como a teoria na qual, pela últi- de Smith-Ricardo (eu os tornarei aqui por exem plos) é, collsiderando-
ma vez, c no terrenb da própria história, em Hegel, se acumularam a de perto, bastante singular. Trata-se de uma leitura dúplice, ou an-
todos o~ mil. os religios~s complementares da voz que fa la (o Lógos) tes, de un1:1 leitura que põe em jogo dois princípios de leitura radical·
nns sequêneras de um dtscurso; da Verdade que habita S\111 Escritura mente diferentes.
- c do o uvido que ouve, o u do olho que lê esse discu rso, para nele Numa primeira IC'itura. Marx lê o discurso de seu predec<!ssor
dese<>hr ir (se forem puros) a fala da Verdade que habita em pessoa (Smith, por exemplo) através de seu próprio discurso. O resultado
cada uma de suas l'alavras. Ser·á preciso acrescentar que uma vez de~sa leitu ra sob retlcula, em que o textp de Smith é visto atrnvés do
rompidu a cumplicidade religiosa e.5t.abelecida entre o Lógos e o Ser; texto de Marx. pr0 jetado nele corno sua med ida. é apen as um ~ csu·
er!trc esse G ~ande Lh-ro que era, em seu próprio ser, o Mundo c IJ mo dns concordâncias e dns 'di.scordáncins, o bnlanço daquilo que
drscurso do conhecimento do mundo; entre a essência das coisas e Srni th desco briu c daquilo em que ele f:~ Ih ou, se.us méritos e seus fra-
sua leitura - uma vez rompidos esses pactos tácitos em que os ho- cassos. das suas presenças e de suas nuséncias. De fato, tt·aw-se de
mens de um a época ainda fr:\gil se protegiam c<nn alianças mágicas urna leitura teórica retrospectiva, na qual o que Smith nào conse-
contra a precariedade da hist.óril). e o t(emor· de suas aud~cias - ser<i gui u ver e compre.énder apal'eee apenas co rno uma fal ta radical. Cer-
preciso acroscentar q1re uma vez rompidos ess.es laços será enfi m tas faltas remetem a o utras. e estas últimas a uma falta o~igi nal ­
posst.veI uma novu concepção do 'fll:rnlrso? ' mas essa própria rcduçfJo oos mantém na verificação das presenças e
das ausências. Qunnto tis faltas em si . essa leitura não nos dá a sua
4. razão. dado que a sua verificação as anula: a continuidade do dis-
curso de Mar~ é q ue mostra no discurso de Smith invíslveis (para
Vol temos a Marx, para observar que podemos justamente Srnith) lacunas, sob a continuidade aparente de seu discurso. Essas
apreender nele, nfto somente no que ele d.i2, mas no que faz, a pró· faltas, MarK não rnro as explica como dis1raçõe.~. no sentido rn·<>prio
prra pnssagem de uma primeira idéia e ptát ica da leitur·a a uma as au.u!nâas de Srnith: ele nilo viu o que no entanto ti nha diante dos
nova prática da leitura e a uma teol'ia da história capaz de nos for· olhos, não 11prcendeu o que entretanto tinha ao alcance da mào. "E·
nccer uma nova teorin do ler. quí,YJcns" tbt;nws), todos mais o u menos relacionados com es$e ·~e~
nurml! equfvuro"' da confusão do capital constante com o ~apitai
Quando lemos Marx, estnmos ao mes mo tempo diante de un1
variável que domina com sua " inacredit:lvel" aben·ação toda a eco-
leitor que lê. c em voz altn, na nossa frenre. lmp<ll1a-n0~ muito me- nomia clâ$síca. Daí, toda a fragilidade no sistema dos conceitos, que
nos q ue Mar~ tenha sido um prodigioso leitor do que o fato de que
oonsti~ui o conhecimento, red uzih~e à fl'aquez~ -rsicológiea do
ele t<!n ha sentrdo a nece.5stdade de nutrir seu texto de leituras em vo:t
alta •. não apenas pelo prazer das citações ou por escrúpulo das refe. "ver''. F-se silo as omissões do ver q ue explicam os seus ~quivocos. do
rénctas ~~le era quanto a isso de um rigor maníaco, e seus adversá- mesmo modo, por uma necessidade peculiar, será a acuidade do
nos devra m sabê- lo à sua custa), não apenas por esse empenho de
hones~idade intelectual que fazia com que ele sem pre, e amplamen-
te, rcconhe~esse o que devia (c como sabia ek o que é uma dívida !), T1<.~du mlo t m lr.tncês sob u IÍtu , 1 lll •l•ff'm Jc~, I >Mn rmu,t Hcml~mitllt, lf:td. ~oli­
mas pol' dtversas razões profundamente enraizadas nas condiÇÕes tor, <.:ostcs l:d.
DE "O CAPITA L" A f'II.OSOPIA DE MARX 19
18 LER O CAI'ITAL

pp. 206 ss.), refietido à socapa pelas extraordinárias observações


"ver" o que há de explica r suas Yisõe.t: de lodos os conhecimentos teó ricas de E ngels no Prcr.ícit) do l-ivro 11 (1. IV, pp. 20-24). •
reco nhecidos. Cilo, pois, Marx , leitor dos_eco nomistas clássicos:
Essa lógica peculiar do equívoco e da visílo revela-nos então o
··T end o tomJdo ingenuamentt; du vida cornqucira sem qua l q u~ r
qu" ela vem a ser: a lógica de uma concepção do conhecimento em est>ícho c riticou categoria ''pre<;o do trabalho'', n cconc:»mm polítíca clà.s-
qu~> todo o trabalho do con hecimento se reduz. em seu princípio, ao sica J n d a.~o u de p oi.~ como esw prtÇo l!fl' deterrr.mado. Reoonhcceulog.o
reconhecimento da simples relação da 1'Í.Iclo; em que lóda a natureza que-, r tra. o 1Uib3lho .;omo para qualquer outm m.:rcadori<t, a rela~;Jo da
de seu objeto se reduz d simples condição do dcufo. O que Smith nilo ofct ta e da ru u Cl\ln.l n1do explica t11( m das csdla-;Qes. d o preço Uo merca·
du acimu ou ub:Ji.Ko d e ctrt.a ma.gnintde. U111a ve7. c.uc procura e o fcriu s.e
~iu •. por uma de~iciência do ver,. Mar~ o vê; o <fUC Smi lh não ~ju era
equil ibrc:m, ce5.sJrn u ' 'JnitQÕC.'i dt prcco que elas p rovoc:~ra m , m a.~. no
on t<>~ramente vtstvcl, e por ser vtsfvcl e que Smn h não oonseguat ver, caso. <.OW:$.53 tarnbl!m todo o tfcito d.t ofuta e d;J t>rocura. Em .seu estado
e que Marx pôde ver. Estamos enlbaraçados: caímos de novo no de .eq uilíb rio o preço do tra halho não m a·s d.:pende d a ac,;<lo d a ofcrla e
mil o especular do con hecimento como visão de. um objeto dad,o, ou du p ro cum e d e..'<:. pois. ser d Mermio:u ln como ~ el..:1s nJn cxisti't$(:1')),
leitura de um lexto estabelecido, que são sempre a próprin lranspn' AqLcle preço, cct:ltO de gravidade dos prcçns d o mc~ca do . 'IJHC:Itl1lll\'3•
se as_o;irn éOI110 o verdadeiro obje\O <1.1 n n.ilif;e cicntificu.
rêncin - já que todo o pecado da cegueira, como to da a virtude da C h ego~~rse ainda ao mesmo rc:sulttdo conMderantlo·Sé llnl pctlodo
clarividência. pertence d.~ pleno direlio ao ver-- ao olho do Homem. de vittios artos. c ca.tcul:mdo-~e ~~~ médit:i a (jllt- se rtdutem 05 lllO'Vimen·
M as como sempre se é t ratado com o lrntmnento com que lra tamos wtt al1.;rnaptw• de a l u~ t buh o, por com()l!n i~.;ões -co ntinuns. Ho<.- cntra·
os otllros, eis Marx redur.ido a Smith, men os u miopia; eis redutido tll lll•:SC Jssim preçoS 1u6dios1 rnagnitti,des mais ou menos -to nstantcs., que
:;e :11icmam nas próprias o.o;d lac;l.íu, dos preços do mtte-ftdQ é conslitucm
a nada l!)llo o gigantesco l;rabul\lo pelo qual Marx se afastou d•IIJre· seus ro~u ln clon: s fn tim6s. Portanh>, ~:i t p r'e~O n1t tlio. o " l>tcço nto:$Sá·
tensa niiopia de Sm il~ ; Í:eduzidó a uma sitnples diferença do ver, r1o'' ·dos fish)C:I'<Jhts ,,, o ''prcçc) n a,tural'' de Ad..1m Sr.1íth - só ppdc :str o
hoje qu:tiido nem todós os galo~ são pardos; reduzidos u nada 11 dis· vulor, ~,.;.~r~sso ~m dínht.iro, IHUR o lrlhn\ho oomu p.ar;1 qualqtJet outra
táncia hist<)iica e o deslocamento teórico em que M!arx pensa ll dife- nHrcndOria, 11\ ruercudorw', di'.! Stnith, ·~crrr,;.ln vcnd,rdn j ustamen te;: p e{o
rença teórica que o separn 11ara semp re de Smith. Eis-nos enfim con· 4Ut YQ/t•' •
IX&..'lf.: rnodu, a ccu no:niu clássic.. acNd tava chegar :to v a l o~ re:tl do
vocados ao mesmo destino da visHo - condetmdos n não ver e m t(ab.! lho mr:m!l du! preços eve:t;u.:Unis. J)epoi'J ~ I n dcter.,nmou C>sse valo r
Mal'x senão o q ue ele >lu. pelo, elo! meill!> dO .:H\bS~1tf-.nc .J ''ccn.<;i ri~ p;tm o Su:iten lo e t't iHOdt.(liO
do II'J haUhtdor. S.'e ''i t't'f('r>);r''· thJ mudmw ttSftm lfr te rnitOr substitu indo
o V8Jlltl t.lo tjabalho. até cnL.i u .1JU1Ct:lllc objeto de ~ a ptOI!um.pdlo vl)llr
' 5, tia f9f'\ll d,c ratcJihCi, rqrçu t1-W que f4 e.:dtto.: na llf;i:SOl do tra balh~•&Qr e
Entr<Hnnto, existe, em 1\f nrx.. uma Ufft!nda Jettw·a. e tola/Hwnln :te •JístHlg;.o;: ck 5,un fur.qà.l, u tntbtlhu, d,ô m ~Ç9.1.) modc> .;o~to u m:1 m4..
cfivusa. sem purah,lo com essa p rimeira. bta. que só se suslentn c1uiu:!'. se dt~ijllUtJP de :;UJ• ~ llertWe!. A ro:u cpa d a J tu\ll ~ levara ~s.1in.~
nccc~r.uritu)lé tte hllo a~c p,t.~s dO;:~ prtçc~~~ de ?lcccJllo do u ubllho a Sé'..
com n dupla e conj ui)IU veriftcaçiio dns presenças e das ausênoins ,
~reço uech.sitf. c ttZU'Valot, :lttS rbdudr~ Q pret.:n~o vulor ~o tmb!lhfl a.
das vistas c dos "qiJív(!cos, torrla·sc clllpnda de um eq uír oco sincu- \ <1101 Ç..l fOif-1 (1~: lrubJih ü, dét)WdO q liC: tl{j\leJe.nJ.~ flevi;t $Cl[ \fiUacJo dô~
11.11': ela nfio ~ê q ue a existência comb inada das \(isões e dos equivocQ~ ra.,arte '' niiQ str c<•~t> for mt upatoenct dt.!lte. O rta 11h1do a q ue chcr.;l\'a
num a utor ~usei ta um problema: o de sua combinacão. Ela não cn- a unállsc. em, pôts, ncio () tlt i'C1tthtr d JI 'O.M.'niU UI/ qWJt f t• Qf,H>.f fii(Ot, 110
Kerg,a esse po·o hlema, p recisamenlc po1que esse problema só é visivel pot'f.(} ele• fli ll11c fa, nmJ lJ ~~~ if1r lrutt.l;fi,•qr wmpl ftame ntt ar l<trt,l (l~
.tf I'O'' m • w rlchf11Wjunta>',, clr~eou u Pf'ltf•bt·t tt-:~t vMPtCJf/146, b.'(t.:l\Jf.j~
en qua~J,to invisÍI-el, flOtiJile esse p1·oblemu dit. respeilo a coisa intei- 'atnenle prcodtrl~t.ht qUe et;wva ~C•'"I n d if<:rcrça.:ntre os p r.:çns.. cQrrc:n·
ramente diversa de objetOs dados, pat·a os q uais bastaria ter vista ~~ cj.., tt\1htltu • t ~ull Vlll()l-. ~oro, ;.1 rc..1ç;ln de5tc ;:um !JS vul-ores. duS m.:r~
cim-a pará ver ; uma 'relação Ínvisivel ncce~sl\ria emrc o çnmpo do ...-adot iu. t:11J1s de p u·,,$, c:~. ()u:•rrto tJIEl.lS elA .lptoro.~Jidou a ;1ru.l li'>e do \ ".t ·
visível e o campo do i ~:~visível. uma relação <JUe define a necessidade lo r f'JH U<'-NI, h.u1tô 1t<1 i~ ó ~li.~)SlU Vtl:l4r .j4) trab1llt4 !I em:uanM u em
do campo obscuro do invisível, como um efeito necessário da estru- <'Otlllfadi.;f~t. 'flt:xln~it\eii'! (1(. 20&<109).
tura do campo visível.
• Na ~mtjJodznda vcuüo de () C'a1Jitai ~rn lit:;tua p~r:ugut;s,J (ttad. de H,.cgmaldo
. Mas pan! m~lhor compreender<> que quero indicar com isso. S<11H' r\llll\1, ~Q Cavilb:u.;tto Brasi: .;:iuü os. trecho s <'ittldój en!lo no ca~. XVII fi o b ·vrq
de1xare1 provosoroa.mente en'\ suspenso es~a. súbita colocação do 1. \ ôl. ~~ 1>1). 6:!0 ,J.!J, ~I A ctr t:l!i ~iforenros letrrwloló;tic.a.S dc·•ili&S ;.lO,fato de que as lt'<l•
rlt11.;õef du tMHi'e l h:yÍ'1tl~o Sa:~t'An9a t n rr.inht parlitnn dC1u1i!i1nais em ~uerolll t
problema e tom;u·e•. para a ele voiLar, o desvio da análi$c do segun- lrand:.-i, rc,•i:.,tu ~rn tpo~us di terente.o; pOI' auwrl.ls ou ir :~lll utçõ:F dircrcntes. (N. !!.)
do glnero de leuura que encontramos em Marx. Durei um só exem- T.)
plo: o admirá vel capitulo XIX de O Caplwl, sobre o salá rio (t. 11,
20 LER O CAPITAL DE "O CA I'ITAL" À FILOSOFIA DE MARX 21

Tomo esse trecho notável pcl I é


ra da economia clássica por Marx o,{"~.e _e :. um protocolo de leílu- não B que ele tem <) que chamaremos de olho cspicaçado por uma
nos crer lixados no d••st,'no d . o c.tso amda, somos tentados a singular propf'iedade dessu resposta: ela é a tesposra jus/a a uma
~ e urna concep~•o d 1··t . questão que apNsenla esse defeito peculiar o não ter sido colocada.
ba Ianço dos acertos e desacen . ~ a.~· ura. que l:~z o
cebeu bem que ..., porém ~ào vi~q~, ec~~~)mt~-p~htlca cl~tssica per· A questão inicial tal qual a formulara o texto da cconomin clás·
Parece ainda que esse ba lnnço do v~i~ eJ<IIllalo c ~gou a'· ver <J ue ... sica era: qunl é o valor do trabalho1 Reduzida a seu conteúdo estrito
bnrtto, as a usências clássicas rev ·I· d· d~ não-v,sto dA-se sob ga. rigorosamente defensável n o próprio texto em que a fez a economia
Há no entanto uma pe uen;t 11 c" ~s pe ~s .Presci.WIIS marxislas. clássica, a re:~posla se redige "8$im: .. O 1•alor de ( ... ) rrabalho é i!Jual
qual cha mo desde logo t?uten~~ot~a ~~q uent!snn;l dtferença para a ao mfor dos mrlo.r de sub.tistém:la tu•ct.'~~·árit7S à mmrutençcio e à repro4

te a intcnçíio de não ver f Ei·la· o eu o r. nao lemo~ absolutnmen- dução de( ...) wabalho''. Hã dois espaços em branco, duas omissões,
vê não é o que ch nã~ vê . ~que a econom ta polillca cltíssica nâo no te;..to da resposta. 1:; Marx quem nos faz ver llssim os espaços crn
mas, pelo contrárlo, aqui!d ~~~~~uqg, ela v~: não é o que lhe falta. branco 110 lcxto da res posta da economia clássica: mas com isso ele
erre, mas. pele> contdrio dq I ' .(alta. não se trata de que ela a penas nos faz ver o que o próprio texto olússico diz não o dizendo e
.. ( • e que ~ a nao e'""' o . , · .. o que não diz IH) dize1·. Não é, pois, Mar.< q uem diz que o texto dás·
nao enxergar o que se vê· 0 eq uívo ~ .. e<IUJvooo e cntao
mas à própria vi.lta. E um'e uívoco co rc .••·e-se ~ão mais ao objeto, sico não diz; n i! o é, pois. Marx quem intervém pura impo1·, de fora,
é então interior ao ver; é U~Ja for ~~e.dtt_r~spe• to ali ''er: o nào ver ao tex.to clássico, um discurso revelador do seu mutismo - é o pró·
prio 1exto cláu ico quem nOJ diz que .te cala: seu silêncio são as suas
ce-ssáriu com 0 ver. m,t c veJ' ogo, numa relação ne>-
própn'as palnvras. Por isso, se suprim irrnos as re.Lioências, os espaços
. Chegamos ao nosso próprio probl . . . . . em b ranco . continuamos a ter o mesmo discurso sempre. a mesma
de, que é suscitado pela idemidade e ~~ad que extste na Jden·tlda- frase aparentemente "plena": "u valor do rraba/110 i igJ.al ao valor
do não-ver no ver. Em outras a lav rn .t .o es~a confusão orgànica
rillcaçfio do não-ver o u do ,g ,' r~. ~ao ffiliiS tratamos, nessa Yc·
clássica sob a retícula apena~ d"a"toco! de uma leitura da economia
dos meios de .rubs/Jrência """~ssários d maJIUWIICào e reproduÇão do
rfllbnllto". Mas essa frase nada quer d i1.er: que vem a ser munuten,
. · , . eona . c Marx • nem <la c omp.~ra- . c;ão do "trubalho"~ Que vem a ser ~eprodução do "trabalho'"! l'ode
çà o <I,t teona classtca com ., t.eo ·.
pois só comparamos a tco;h cl~~:i~~arxJsta ~tomada como medida _ i m~ginar-se que bástará substituir u ma palavra no rim da resposta:
-com o vel' Traiamos o' j. ( com e, a mesma, o.. seu não-Yer "trabalhador" por " trabalh o" - e a questão esta rá resolvida. '' 0 m·
nido num· domínio ;cfcu:f~,< ~~~~~~.rroblema Cn'\ estado p uro, dcfí- lor da rra/Jalh& t! igual ao valor dos m<?ios de subsiyll!llcíaneces.rários cl
1
0
8
Compreende~ essa identidade ne ~r!~o retrospectivo no inlioilo. ma(lullmção e rrprorfuçiicl do rrabul/wdor". Considerando, porém.
do ver no p1·6prio ver é muito 07ssáti.J e paradoxal do nõo-vt;r e q ue o t-rabalhador não e o trabalho, o termo do fim da frase estú
(o da relação necessth·ia 1 ue u,:rec•s.a~en tc col oc~r nosso pro blema agora em des1ocordo com o termo do início: eles não têm o mesmo
o p roblema é obter a l"~babt'l~doadVJSJvlel ao lltv!sJvel) c colocn l· l>cm conteúdo e não se pode escrever a equação. porque não é o tra balha-
1 e <e resolve-lo. dor que q Sllltirlo cofl'lpra , mas ~e" "trf1balho". I! como situar esse
pri!"eiro trabaU;10 no segundo termo: o t(nhalhadOJ'I Há, pnis, no
próprio enunciado da frase. mu ito p recisamente ao nível do termo
6, "rraba/110", no inicio da resposta e no fim da resposta, algo que fal-
Como, ponanto será possível .I . ta, e essa falta está rigo1·osamentc desi~nada pela função do} pró-
o ver no ver? Leiamo; de 110"~ com ,~:~ ~ cllttda~e c\<:> não-ver com prios termos 'lla frase inteira. Suprimindo as reticências- os brancos
sodas questões que a cconornh cl' .. ç. o o trec:ho Citado. No cur- -, apenas estawos rcconstituindo u ma frase que. tomada ao pé da le·
"valor do ll'ab·tlho "
'
, assJca ttnha em mentç quamo ao
, passou-se alguma coisa d . lrli, d~~igna em si mesmu esses lugoTI!l' do m:io, re:~taura esses ponli·
economia política clússic·t "ptotfl 111 , , ~ multo especial. A l hado~ como locais de lima falta, pwduzida pelo "pleno" tlo pró·
liicio do Livro 11. sobre q~lrnica :\~ 1 t\col)'lo o d 1sse Engels. no Prc- prio enunciad.o.
e.a economia ch\ssica "produzindoJ .; •c.a. r;~duzmdo" o oxigênio,
1
cua: o val<>r do "trahnlho'' é igual a~ ~··:IS·\a ta u':'a resposta prc·
Essa falta local izada. pela rcsposra, na p1·6pria resposta, na pt<)·
~i midade imed iata da palavra "rrabalho", nada mais é que a presen-
c•a necessárias à repJoduçiio do " I. b ~I o r,dos meios de subsistên· ça, na respost.a, da ausência de sua questão. nada mais que a falta de
wma resposta justa. o primeiro Jeit~~ ,~ t? · Uma re~posta justa f. sua quemla. Porque a questão colocada n iio contém aparentemente
Smith e Ricardo c não leva em pnmeno modo" dá razão a com que localizar nela essa falta. "Qual!() ve~lor do 1raballto?'' 1: fra-
conta outras verificaçôe.q. Murx,
22 LF.R O CAPITAL D F. "O CAPITAL" À FILOSOFIA DE MARX 23

se idêntica a um conceito; trata-se de uma frase-conceito, q ue se 7.


C<>ntenta com e11unclar o conceito "valor do trabalho", uma frase- Eis de fato o ponto li que del'emos chegar para, pertinen temen-
enunciado. que não designa nela uma falha, a menos que ela me1ma te, descobrir a razào desse equÍI·oco que recai sobre umn ••isão: • im-
nflo seja inteiramente, como conceito. uma questão falha, um con- JlÕe.-se t•ef;tzer totalmente a idéia que se. faz do conhecJrnen to, aban-
«Jto falho, a falia de um conceito. 1:: a fesposta que nos responde donar o mi to especular da visão e da lcatura ameduttas. c conceber o
sobre a questão, dado que a questão tem por todo espaço esse con- conheciment<> como produção.
çelto mesmo de "trabalho'' que é designado pela ~esposta eomo o(,,_
gar da falta. A .resposta é que nos diz que a questão é j'IJO própria fal· O que p os.~i b ili ta o engano da eco nomia politica refere-se com
ta. e nuda mats . efeito it flatrsformação do objeto do seu equívoco. O q ue a economia
Se a re.iposta, inclusive suas faltus, é jusw, e se sua questão polltica 11ão ''ê não é um o bjeto preexistente, que ela poderia ler vis.-
nada ntais é que a falta de seu conceito, é que a resposta responde a to c não viu - mas um objeto que ela mesma produz em sua o pera-
outra questiio. que apresenta essa particularidade de não hal'er sido ção de conh·ccimento e que não lhe preexistia: prccisameAic essa
enunciada em pontilhado em sua resposta, precisamente nos ponli· produção mesma, idêntica a esse o bjeto. O que a economia política
lhados de sua r~sposta. Eis por que Mar:t po de escrever: não ve é o q ue ela faz: sua produção de uma respc)Sia nova sem
·'O tesulwdo a que chegavtl a análise era, pois. nào u de rr.rn/vr•r o q uestão, e no mesmo tempo a produçáo de uma questão nova laten-
problema wl q11al se aprcsemava de iníclo, nws o de lhe modificat tom· te. trauida no vuzio dessa resposta nova. l'o r me10 dos termos lacu-
pfetametl/e os termos". · narcs de sua nova resposta, n economia política produzi u uma nova
questão, mas -~à sua revella". Ela "nu'ldtjlcou compleramenle os tt?r. .
Essa a ral.àO peln qual Mar~ pode coloca r a questân n.~o enun- mo.t do pto/Jltmw '' in icial: ela r>rodu:t.iu desse modo um novq proble-
ciada, simplesmente en i.JncJando o oonceito prcsealte 5ob urna forma ma, mas sem o saber. Em vez de o saber, ela permanr-ee c<mvencidn
nno-<!nunciada nos va~ios da re.tpnsta, presente uessa ;c~posta a de que oonti nua no >erreno do ant igo problern <•, ao passo que, ''ci
ponto de produr.ir e fnr.er aparecer nela e.~ses mesmos vazios, corno stw revelia", ll!)a mudou de terreno. Sua ct::g uci ra~ seu "equívoco'". de--
os vazios de uma presença. Marx rest abelece a continuidade do corre desse mal-entendido entre o que ela produz c o q ue ela 1·ê. de-
en unciado ao introduzir e restabelecer no en tanciado o conceito de corre desse " qU iprtiqu6'', que em outros lugares Marx designa conw
f orça de Jraballro, proscnte nos vazios do cnu n,oiado da resposta da " um jogo de p;tlavtns" 1IVotrspie/J nece.o;sariamente impenetrável a
ec~onomi" política clássica·· u, cs~abeleccn do-rest abele.:endo ~ conli­ quem o prpíerc.
nuidad,e da resposta, pela enun~iação do concei UJ de fb tçn de traba-
lho, ele pr<llluz ao mesmo tern1m a quest<l9 até então não-formulada, J>ot q ue u ecnn,o mia polftica serít necessariamente cega ao que
à qual responde " resposta até então sem questão, produ~ c ao seu uaba)t10 de produçáo? Pwqu~ ela rnantérn os olnos
fi xos em sua antiga quasuio e \)Or<juc da conlltnta a r~l acwnar ~ua
A rt:.~)X)Sta passa ent:lo a ser: ·•o valor cla força J1, tttibaiflo é nova respost a à antiga q uestão; porque ela pcrrnuncce frxa no anuao
igual aq ~·alar do.r '?leios de subsisrénchr 1wcessárlos á ma,uteJ,·ção e â " ho rizonH:" ( O Capital, li, 210). tmde o noyo problema ·'não está
tap rodução da força de lrahallw ., - e sua questão é en1ãu formulada vis(vel" (ihid .). As metáforas com as quai~ Marx pensa esse "q0ipro-
sob '' form~t se~;ui nte: ''qual é o va{ór da j(JI'Ça de rwbalhQ?" qu.6" nece~ositrio propõem·nos assim a irnugem de uma mudanya de
.'\ pam r d~ssa restauração de um en unciado ponad<Jr de vn. terreno c m udar~ça do horizonte correlnto. Sug~cm uma observa-
:\los, c: da forrnuhaçiio de sua q uestão a fllll'lit· da resposta, é possfvel çiio capital, que nos fnz escapar à red11ção psicnlógic~ do "equivo-
trazer a lume as razões que explicam a ce~ueira d,a ~çcmom ia chis.3ica co" ou da " mvolia". O que oco1rc de fato na produçao desse IIOYO
sobre o que ela en tt·etanto v&, portanto dp seu não-ver interior aq problem a, t razido à sua revel in ~ela nova resposta. nâo se. !crere a
se" ver. Em outros 1e~mos. virá ia SUJJcrfície q llé o mecánismo pelo um novo objeto pontulll que surgts.i c dentre outros ob)etosja >dcnt~­
qual )llarx pode l 'el: o que a economia clássica niio vé ao vê-lo c ficados, como um visitante inesperado surge numa reuntão de fam1-
idêntico ao mecanismo pelo qu;tJ Marx vil o que a economia clássica
não vê- c idêntico também, ern principio pelo menos, ao mecanis-
mo P~<lo tjual estamos prestes a refletit"essa operaçüt>da visão de um
nii O-I'isto do visto, ao ler um texto de Marx que é em si uma lâ tura " Nesta d noJtras pa5sJgens.. AlthoSíler joga ;;om :u Ru~av ras bll~lt> (equívuoo) c \ti#
do texto da economia clássica . (vi$i'io). trocadilho irreprodu1ivcl na trudu~l->. ( N. do f .)
24 LER O CAPITAl.
DE "O CAPITAL" 1\ f ilOSOFIA DE MARX 25

lia: muito pelo contr{trio, o que se passa põe em jogo a trans forma- ncme que liga o objeto ou o pr.oblema às suas con?ições ~e exis~ên:
ção de todo o terreno, e de todo o seu horiLonte, no fundo do qual cia, que têm a ver com as cond1ções de suu produça?. A ngor: nno e
esse novo p<oblema é produzido. O surgimento desse novo proble- mais o olho (olho do espírito) de uma pessoa que vc o que ex1ste no
ma .çrftko nada mais é que o índice pontual de uma transformação
campo definido por uma problemática teórica: é esse próprio campo
crítica, e de uma mutação latente posslvcis, que atingem a realídade que se vê nos objetos ou nos p~oblcmas que ele define, ~endo a VI-
desse terreno compreendido em toda a sua extensão, até os lim ites são apenas a renexão necessána do cam po em seus ob;etos. (Pelo
que se pode sem dúvtda compreender o "qUiproquó" das filosofias
extremos de seu "horizonte", .P"ra e~piimii ~sse fato numa lingua-
gem que já empreguei noutra obra,' a produção de um novo proble- clássicas da visão. que se perturbam baslnrtté éi\1 dever afirmar ao
ma dotado desse ca ráter crítico (no sentido em que se fala de umasi- mesmo tempo que a lur. do ver vem do olho e do objeto.)
tuac;ão ct·ítica), é o índice instável da produção possível de uma nova A mesma relação que define o vislvel define tamb~m o invisi1•el,
prol>lemátíca teórica, da qual esse prohlcma não passa de um modo corn o seu aves:;o de sombra. f:. o campo da problemátrca quo define
sintc>mático. Engels o di~ luminosamente no Prefácio ao Segrmd" Li· e estrutura o invisivel como o excluído definido, excluído du campo
vr·r> de O Capital: a simples ··produção" do oxigênio pela química da visibilidade, e clc'}lnido co mo excluldo, pclu existência e peht cs·
flogist ica, ou da mais-valia pela economia clássica, contém em si trutura própria do campo da prublemát!ca; com~ o que mterdnn e
algo com que não apenas mod ificnr em um de seus pontos a teoria recalca a ret1exão do campo s<>bre seu obJeto, Jsto c, <> relae>o~ amen·
ant1ga, mas com <1ue "subverter'• a quí mic.a ou n economia "irueira- to necessário e imanente da problemática a algum de seus ObJetos. O
met~re·· ( IV, 21). O que, pois, está em equilíbrio nesse acomecimento mésmo acontece com o oKigíinio na teoria da química tlogís1icu, é
instáve l de aparência local é uma possível revolução da antiga teo· com a mais-valia c a definição do "l'alor do t rabalho'' - na econo-
ria, portanto da antiga pmblemltticu em sua totalidade. Com isso, mia clássica. Esses novos objetos e problema s são n eces~uriarnent~
colocamo·nos diante desse fato. peculiar à própria existência da invisíwis no campo da teoria exiStente, !X>r<jue não sào ohje!os de~sa
ciência: c:ht só pode formular problemns no terreno e oo horizonte teoria, porq ue são seus inrerdiros ·· obJetos e pro~Jema~ n~~ssarta­
de uma estru turn teórica determinada, sua problemlttica, que consti- mente sem relnçiles neccss:irias com o campo do v1sivel dchn•do por
tui a condiÇ;lo de possibilidade determinada absoluta, e, pois, a de- essa ))tOblemática. São invi~fvei~ porque de ~ireito ~.eieitados, recai·
terminação absoluta dasfomtas de colomrçc1culc rodo problema. nu m cados para fora do campo do ~tsfvcl: c esta e a rn7;ao pel~ 'l'!al sua
momeQ to co nsiderado da ciência. ' presença fugid ia oo campo, quan do acontece (em c!fcuns~ancms sm·
Oom isso atingintos a compreensão da determinação do l'isível tomática~ muito "speciaís) pqs~·a cl~<sperceóida, tornn-sc literalmente
como visfvcl, e conjunt amente do invisível como in-visível, c do uma ausímcin inevcllll'el-· dado qlre tdda a I unção do campo co,nstS·
vínclrlo orgànioo que une o invisfvel no visfvciJ I! visível todo objet o t" em nilo ver esses objeto.~, em ipterditl!r a sua ~i são. No.:aso mnda,
ou r • oblema que se sit ua no tcr(eno, c no hol'izonte, isto é, no cam- o invisfvel assim como o visivcln:lo mur~ ~ funçao da YrSao cl!! ~~~~ !'11-
po estruturado defif\idn d:1 problemáticu teó~ica de determinad:l dis- jciro: o in vi~ível é o não· ver da problcrnauca. teónca:~obre seus nao-
ciplina teórica. Impóe-sc·rws tornar es.ins palavras ao pé da letrà. A objeto~; o invisiv"l é n treva, o olho cego pela reflexa o sol;lrc st mes-
visão já não t eQ.Iiío o fato de uma pessoa individual, dotada da fa. ma da problernlnica teócica, guandc) ela atravessa sem os I'Cr os seus
cu Idade de "ver" a qual é exerc.ida quer na atenção, quer nu distrn- não-objetos, os seus nilo-problemas, para nãu ns olhar.
ç!lo; a 1•ista é o fato de suas condições cstntturais, a vista é a relação
de r~ncxão imanenh: 'do campo da problem{t(ica S(>b'e seus·objetos E dado que (oram evocados, nos tel'ln ps que t•etqmam p~sa­
e seu:.r prob lemas. A visão perde então seus privilégios religiosos da gens notabilíssimas ~o prefácio de :lt1iehel fl)~~ault i• su~ Hrs!o~re de
leitura sagradn: ela nadu mais é que a reflexão da necl!<!sidnde i má· (a f{(J/ie. f IIS COOdÍÇO~S 1\C JlOSSibtltdade d!) VISI~el e do. 1~1Vl$>Vcl, do
intcriN e do cxtel'ior do cal'\lpo teórico que dehne n vtstvcl -}>ode·
mos talvez dat um pa~so a mais, e n~OsLrar que. ent~e esse vtsfv~l e
esse it~vi~(vel assirn definidos, pode cxtshr cerra rl'laçao de nec<•.r.vrclc~­
de. Q invisivel de um campo visivcl nào 6, em geral, 110 desenvolv>-
-' POlv /J;Jaf).:, pp. 40, 63·66 ete. (l!d. brasileira: A f(IW'Jr dt Mar:r, Rio, Zahar. 1919.)
~ Em nã.o pouCJS; ocasibi!S A . CQrntc fm aZêm <fe suspc·t31' dis30l
-' "R dação rlec ro:ne:dío imanente'': es.sa "reflexão" p<)r !Oi mesma a(!artela um problt·
ma tcQrico, que r1iio posso ..:nfocar nestt.trabulho, mas que ser:i C!'iboçado no final • P!on. Puris, 1961.
d.éste ~ref:io;io (parávaro L9).
26 LER 0 CAPITAL
DE "O CAPITAL" A fi LOSOFIA DB MARX 27
me!'t? de urna teoria, o .leja o que for exterior c est ranho ao visil•el
dehn1do por ~5-\e ca.mpo. O invisível é definido pelo visível como sl'tl Para ver esse invisível, para ver esses "equívocos", para identi-
tnvlslvcl, seu 1n terd1to de ver: o invisível não é, pois, simples meme, licur essas lacunas na densidade do discurso, esses espaços em bran-
pura .empregar a metáfora espacial, o exterior do visível , us trevas co na pleni tude do texto, impõe·se coisa diferente de um olhar agu-
exter!orcs da exclusão - mas, isto sim. as Jrevas l!Uerlore.s da e..xc/u. do ou atento: ímpõe·se um olhar lnsrru(do, um olhar renovad<>, pro-
sã~, anterior do próprio visível, dado que definido pela estJutura do dulido por sua vez po r uma reflexão da "mudança de terreno" no
VISJVel. Em outros termos, as metáforas sedutoras de terreno hori- ato dq ver, onde Marx imngina a transformação da problemática.
zonte, c p~rtaqtq de limites de um cam po visível definido po~ um& Tomo aqui essa transformação como um fato, sem pretender a aná-
prob\emá11ca dada, arriScariam dar urna idéia falsa da naturez~ des- lise do mecanismo que a desencadeia c reali~. ~ uma questão que
se cam po, se pensarmos esse campo na literalidade da metáfor·â' es- nno pode ser tratada aqui a dessa "mudaiiÇQ de lerreno" que produz
pacial, ' corn o certo espaço lim ílado por omro espaço de fora dele. como seu efeito essa muda do olhar, não sendo por sua vez produto
Esse out ro cspa~o está também no primeiro espaço, q ue o encerra senão de condições muitq especificas, complexas e não raro dramá-
como sua própn~ denegaçilo; esse outro espaço eo pl'imeíro espaço licas; que essa mudança seja absolutamenle irr·edutível ao mi1o idea-
em pc~soa.• Q,ue so se ?efinc pela denegação do q ue ele exclui em seus lista de uma decisão do es1>írito mudando de "ponlo de vista"; q ue
própnos lrnutes. Eq Uivale a dizer· que só há pura ele limites if;lernos, ela ponha em jogo um processo inteiro que a visão do sujeito, longe
e q ue ele carrega o seu exterior dentro de si. O parndoxo do campo do produzir, apenas rellete en.1 seu luga~ próprio; que nesse processo
teónc::o é, P?rtanto. se qursermos salvar a metáfora espacial, 0 ser de lransfornraçilo real dos mei<•S de produçao do conhecimento, us
~m c~pnço uifimlo por tsso que definido, • isto é, sem limites, sem pretei).Sões de um "sujeito constituinte" sejam tão baldadas como
lront~tms i?XI~rna.r, ~ue o separem de nadn, ju,stamenlc porque ele é silo baldadas as pretensões do sujeito da yisao na produção do visí-
definMo e lun1tado dentro de si, carregandv ern si a línilude de sua vel; que tudo se passe numa crise dlulét.(ca da mutação de u<r~a e.'tru-
dclín1çã.o, que, p~l? fato dee~cluir o.~ue não é, f:12 , 0 m que seja 0 tura teórica em que o "sujeito" desempenha o papel, nãp qu,e ele
que é. Sua defimçao (operação Clenl,tflCa por e~cclilncia} é enlão 0 ac(cdí ta, rnas que lhe 6 atribuído puto mecanismo do processo. Con-
que o faz no mesmo tempo lrJfi.llilo em seu gênero. c marcado por tentamo-nos com ter em mente que é preciso que o sujeito tenha O·
dcnl ro, cn1 todas as suas determinações pelo que dele exclui nele sua c.upado no novo terreno o seu novo lugar, ' em outras palavras, que o
pr·ópqa defi nição. E quando uc(mtece que, em certus circunslància.i sujeito ten ha já estado, até l)'lesmo em pnrte it sua revelia, instalado
crlllcas muito especiais, o de.ienvolvimenlo das queslões p1·odu7.idus nesse novo terreno, para poder levar no antigo invisível o olhar íns-
pela pro blcmátrca (no CiJSO o dcosenvohirncnlo das q uescocs da eco- tnuído q ue lhe lo~n~~ú visível csse invisível. Se Marx pode ver o que
nomia política que i ~dagnm sobre o "v~(o• do trabalho") ch,ega a escapu ao olnar de Smilh é <JUe ele já ocupou esse OOI'<• Icrrcno que a
P~?,du.zir (I ~1/'Mença jil,gidln d~ uhz as{M~Io d~ seu inviMvel no cari1 p0 problcnuíticu antiga havia produtido, embora à sua revcli:t, nu que
Vls~vc l da PfOblemáttca ex1~1ente-csse prqduto só pode então seJIII· ela havia produzido de resposln nova.
V/Jzvcl, d~do que. a. lll2 dq campo o atravessa cegnmence s<:m se ~cfle·
ur nele. Esse ~nv1srvel ~e furla então nn qualidade de lap~o. ausênciu, 8.
!alta ou . , I a teónco~. .Manífesta·se
. Sintom . comooJ o que ele é) precisa-
' Assim é a segunda leitura de Marx: leitura que ousaremos cha-
men te Jnv1~1ve pnr·a n teor1a -e por essa razao é que Adam Smith mar de ''si11tomat', na t;nedlda em que, num mesmo movimento, ela
comel u o seu *'equivoco 11 •
disoernc o indiscernfvel no próximo texto que lé, e o relaciona corn
um oull'() texto. (>resente por uma ausência necessária no pr·imeíi'O.
Assim co rno sua primeira Jeitur:t, a~cgu nda leitura de Mm·x pressu-
põe a existência de dois t;xtos, e a medida do p~hnei~o pelo segundo.
Mas o que distingue essa nova leitura da antiga é que, na novu, o se•

I,
I I ••
' '
28 L8R O CAPITAL DE "O CA t' ITAL" A FILOSOFIA DE MARX 29

grmd'o texw articul~-se n!>S lap~os do primeiro. :'\o caso ainda, pelo nuar que. se bâ sem dúvida em Marx uma rt•sposta importante a
menos quanto ao genero pr<>prro dos textos teóricos (os únicos cuja uma que.rriio que não foi formulada em parte alguma, essa re.~posta
lertura analisamos aqui), apareoe a possibilidade e a necessidade de que Mat'X não chega a formular, a não ser sob condição de multipli-
uma leitura simultânea em doif níveis. car as imagens próprias para .dá-la, a respostn da Darstelhmg e de
Nos trechos que vamos ler, e que não escapam - se é que têm ai· seus avatares. é sem dú1•ida porque Marx não dispunhn, nu época
guns títulos d~gnos de. atençilo~ pelo menos por lamp~jos, como dis· em que vivia, e não se dispôs a isso enquanto viveu, do conceito ndc·
cursos de senttdo teónco- à let que enunciamos, nada fi?.emos salvo quado para pensnr aquilo que produzia: o conceito da eficácia d,.
tent~r aplicar à leitl!ra de Ma~x a leitura "sintoma/" pela qual M11rx uma astJuturtJ .l'ohrp sro.s elementos.
conso:gu1u ler o >leg.vel de Srmt h, medindo sua problemática visível Di r-se-á sem dúvida que nào passa de uma palaVJ".l, e que és{)
no inicio com a problemáticn invislvcl contida no pnradoxo de uma uma palavr« que falta, pois o ol!ieto da palavra lá ~st:l inteiramen te.
ruposta nãq..correspondemc a qualquer que/uão ftrOposla. Veremos Certo, mas essa palavra é um conccilo, e a falta esuutural desse con-
neles ta r~1bén1 que a distância infinita que vai de Marx a Smith e. por ceito irá repercutir em ccl'tos efciLos tcôricos precisos em algumas
consegurnte, o que dtsttngue nossa relação C<>m Marx da relaçfio de formas do discurso de ~I arx, e em algumas de suasfomwlacties iden.
Marx com Smith, é esta diferença radical: enquanto Srn it h produz ti flc;íveis, que não deixam de ter con seqüências. Pelo que poderá tal·
em seu texto uma resposta que nào só não responde a qu~I<JUCr das vez esclarecer-se. mas agora de dentro. isto~. nílo como o resto de
questões imcdiatam?nte an~e~dentcs. como também não respon de um passado. uma sobrel'ivéncia, como uma elegância de "llertc" (as
a qualguer das demats questoe~ formuladas em sua obra, seja em que tàmosas KQokeflieren). ou oomo umn al'tnadilha Jlara tolos (a vanta-
lugar for- basta, pelo cont.rá rl(l, quando aconteoe a Marx fonnuJar gem de mi11h a dhdética é que eu digo as roisas pouco :l pouco - c
unta resposta sem questão, um pouco de vaciéncia ~perspicácia para como eles t.:rCcm que UilOU no fi m. apressam-se em me tefutar, c
descnl>r<r ""' outm lugar, vinte ou cem páginas adiante. ou então a rwda mais fazem do que>e~il:>i r sua asnicc! [ Carta a Eng~ls de 26-6-
prop<'>sito de ouu·o assunto, ou sob o i<w<!>lucro de matéria tolalmcn· 186~)). n presellc'a real de certas formas e rcfcl'ênda~ hegclianas no
te diferente, a própria qtlc1Siâo, 0\1 num ponto da obra de Marx on discurso de O Çapira/. DI' demro, como a medidn exata d~ uma au-
em E!ngcls. porque Engels tem também esses lampejos prodigiosos sên.oja desconcertante mas in~vitável, au:;éncia Cesse conceito (e de
ao comenta r Marx de [Tt!ldo profundo.' E somos ten'.ados a insi· todos os sct<s subconceitos) da eficáaia d~ wna eJ/mlura .tohr1• seu.<
e/mmllo~: que c a base inl'isível·•·ishel. ausente- presente. clt: toda &
sua obta. Niin o! illcito então pensar que>, se Jvlarx "joga" t iiQ bem.
em certas passaltcns, ccun fórmulas h~geli~nas, cs.;e desempenho não
é apen ~1 s clegáncin ou tombaria~ mas no :ibntido ngoroso. u desem-
J'I'IIlto de um dramfJ. real. onde antigos conceitos desempen ham de-
sesperadamente o papel de um auscme. que não rem nome. ph·r a o
chumar em pessoa à c.ena "'ao 11asso que só lltcs ''produzem" a pre-
sençn eru suas falhas. na discordância cnttc as personagens e os pa-
péis.
)~ se. é verdade q_ue haver idelllt ilícado e localizado cs.ia falia .
que c.filosófi~a. pode tamném nos cond uzir ao limia.r da filosofia de
Mar~. podem cspernNe disso outros benefícios J\a própria teoria da
história . Umta fulta c:onceptual. nâ<;>-rcvelada, mas, pelo con1rario,
consagxuda como nâo..falta. e pl'och:umtda~ pode~ em certas cücuns·
tânci as, cntruvur serimncrne o descnvo lvhnento de uma ciência. ou
de certos ra mos se.1s. Pa1·a nos convencermo!- di!'iSO. basta obse1·var
que umn ciência só progride, isto é só vb'C!, mediante uma ~xtrema
1

atenção aos seus pontos de fragilidade ~;eórica. Graças a isso. ela


deve sua vida menos ao que ela sabe do qu~ ao que não sabe: soh a
condição al>solutu, de circunscrever esse niio-sabido,'e de e.iUbele<:ê·
30
DE "O CAPITAL" À FILOSOFIA DE MARX 31
lo no rigor de um problemu. Ora, o não·sabido de uma ciência não é.
aqui lo q ue a ideologia empir ista supõe: seu "residuo", o que ela dei- da FiloJ()j/a"' e no Manijesto Comunista", diz Engels, "nossa concep-
~a fora de si. o que ela niio pode conceber ou solucior,ar; mus por ção passou por um período de incubação, que durou viille anos até a
excelência o que ela traz em si de frágil, sob as aparências das mais publicac;ào de O Capital ..." (ibidem, p. 38). Acreditar também que
fortes "evidências", certos silêncios de !;c!U discurso, certas faltas toda a filosofia de !';farx nos pode ~er dada em pessoa nas fórmulas
conceptuais, certos espaços em branco do seu rigor, em suma. tudo polêmicas de uma obra que leva a batalha ao terreno do adversá rio,
o que dela, a toda escuta atenciosa, "soa oco··, não obstante a sun isttl é, uo terreno da ideologia filosó fica, como não raro o faz o Anti•
plen itude. •• Se é verdade que é de s aber ouvir nela o que "soa oco" diilrri11g (e mais tarde Matedalismo e Empirocritil'ismo), é equivoca r-
que uma ciência progride e vive, alguma coisa da vida da teoria mu r- se sobre as leis da luta ideológica, sobre" na tureza da idenlogia que
é o palco dessa luta indispens(tvel, e sobr·e a distinção uecessária en-
xista da história talvez esteja pendente desse ponto 1'reciso em q ue
M2 rx, de mil maneiras, rios aponta a presença de um conceito essen- tre a ideologia filost\fica em que se dá essa luta ideológica, c a teor ia
c)u r.losofia marxista, que apltrece nesse palco para dar batalha. Li-
cial ao seu próprio pensamento, mas ausen te de sett d iscurso . mita r-se exclusivamente às "obras do corte". ou tão-só aos a rgu-
9. mernos da luta ideológica ulterior, e praticamente cair no "equívo-
co" de n~o ••e r que o lugar por excelência em que nos é dado ler a fi.
Eis, pois. de que e culpada a nossa leilu ~a lilosólica de O Capi- losofia de Mar·x em pe-ssoa é a sua obra-prima: O Capital. Isso, po-
tal: dle termos lido Marx cumprindo as normas de uma leitura cuj!l rém . nós o sabemos desde Qá mui w ; segundo Engels, que com todas
impressionante lição ele nos dá em su a própria leitura dn eco u,)m ia as letras no-lo demonstra . sobretudo nesse extraordinário l'ref{lcio
polltica clássica. Se, pois, confessamos nossa falta , é dclibermlamen- ao Segundo Livro. que u m dia será manual na; salas de a.ula; e se-
te para nela estacar. nela nos ancora!, nela nos pundurarmos selva .. gundo Lênin, ao ~eitera~ tjue a filosofia de Marx estava lotalm~n te
gemente, co,no no p0 nh>em que 6 prccioo a todo custo (jcar para es- contida na " l, ógica de O C'apitctl" , essa Lógica que Marx "não t~•·e
perar nele nos estabelecer um <jia, c reconhecer a extensão infinita tempo" de elaborar.
que seu minúsculo est>aço contém: a extensão dn ftlosofiu de Mm·x. Nilo se ven ha rcdargUir aqui que estamos em nutro século, q ue
Todo~ e.itamos à p rocllra desS<I fi loi\Ofia . J'\ão são os prowcolos muita água já passou sob a ponte. que l} nssos problemas não são
de rupturnlil 0 sóflca de A ldeolof.ia -l l!'mà, que no-la dão em pessó~; mais os mesmos. Falamos precisa mente de U1)'la água viva que ai nda
não são L,af'llhúm. ante~ del~;;. as Tq.~«t sohm fime.rbadt. esses l:unp~ não co~reu. <:orthccemos muitos exem plos históricos. a começ<lr por
jos o li.t.scmnes, em que a noite da untrOJ1ologia filosMica se dilacent aquele de Sp inoxa, em que bomens trabalhara m ferozm ente a fim de
no instantâ neo fuyidto de urn o utro mundo percebido através <ht empareda r pa r~ sempre. c ~nterrat debaixo dns camadas d a terra .
irn agcn• rctinilma do primeiro. não siio. er~fim, pe(o menos em stta fontes destinadas a dessede);ltÍl·los, mas que os apavo ravam . Duran-
fot·ma imedia ta. pot· m ni~ genial que los~ o seu j ulgamen ltl clinico. te qua.se um s éculo a filosofia univcrsit.átiot cobriu Marx com a terra
as críticas do Am r'dühri11g, em que l~n!'jel$ t~ve de "acompanh(tr o Sr. do silêncio, q uc é a terra dos cada veres. D urante esse mesrno tem po,
DUhring pelo vasto terreno em que ele trata de todas a~ cois;!s possí- os companheiros c os sucessores de Man tiveram de enfrentar os
veis e a lgumas o utras mais" (Ed itions Sociales. p p. 36-37), o teueno co mbates mais dra mátkos e mais prementes. e a filosolla de Marx
du id~ologia filosó Dca, ou da com:epçào do mundo, inscrita na ío r·- passo\l inteuramen tc para os seus etppreendirnentos ~ istór·icos. sua
ma de um ''s•slema" (p. 38). l;'orquv acreditar iH•• to da a fílosofia de a tividade econômica, politicu e ideológica. ~ obr as indispensáveis
Mar~ nos é dada em al,g.u rna s frasc:s cdndentes das' 7'o!ses sobre para instruí-la e orient:\-la. Nesse longo periodo de lutas, ll idéia da
Fr•ttNbac/1, ou no discurso negativo de A ldeologicl Alwmi, isto é, nas filo.wfta de M arx. a consciênda de &ua e~ istência e de su a i'unçiio es-
"obras do corte", " é equivocar-se singulanmente sobre as condiçõ~s pecilicas, ir~dispetts:ivei s à purcr.a e ao rigor dos conhecimentos que
indi:; pcntiflvcís ao crescimento de u:m pensamento teórico radjcal~ &usten tavam tod:l a ação. foram salvaguardadas e defendidas contra
mente novo, que com o tempo ba,ia do a madurecer. definir·-se c todas as tentações e t odas us agressões. Dou corno prova tão-
crescer. " Desde que ela foi pob primeira ve7. formulada em Miséria somente ess.e alto grilo da consciência científica que ê Materialismo
e E'mp/l'tlcrilicismo, e a: obra completa de Lênin. esse manifesto revo-
lucionário p ermanente em prol do conhecimf'nlo, da teoria cientifica
' P. '-'tachçrc}: ".'\ pwpos dç Ja rupto1e". L..J No11·-ellf Cdtlq11t, m.alu dl! 196:>, -p. 139. - c em p rol <la "tomada de partido em filosofia" , esse principio <1ue
Cf. .Pmu ,\fat.Y, pp. 26·2.1.
. a tudo domina, e q ue nada mais é senão a consciência mais aguçada
32 I) E "O CA I'tTAL" i\ FILOSOFI ~ DE MARX 3J
~ ER O CA PITA L

t•la, decorrente de uma outra leitura "si nt o ma(". que punha em pre-
da. cientilicidadc em set! rigor lúcido e intransigente. E is 0 q ue nos scnçu. nu1nu questão. uma resposta dada à sun q uestão ausente.
fo~ d :~~o, que define hOJe. ~o~sa Hu·efa: obra.r, umas produzidas pela Para pôr o fato a nu, só nos foi poss ível propor às análises polí·
P~.tt Joa teóncade uma CJcn~m (c n ~ p~uneiro plano O Capiraf), as ticoJs pn'tticas q ue Lênin nos dá das condições d a explosão revolu·
~cmaJs produzidas. pela prática e~ooom1ca e política (todas as trans-
cionária de 11 a questão da espec;fiâdade da dilllét ic.a marxista, a
lormaçóes qu~ a .h•stón a do mo.vmwnto o perário im pôs ao mundo) , partir <;jç uma resposta li qual faltava a proxim idade de sua quesriío,
~lu. pela renexilo so~re essa prátiCa (os textos eoont11Y>iéós. polfticos c resposta situada ~m owro l11gar das o b ras do marxismo de q ue dis·
uleJJ!ógtcos d os maio~es entre os ma,.istas). Essas obras 1razem em pomos , muito precisamente a resposta pela qual Ma rx declarava hn·
SJ na o ~penas a tcona, m~rxista da história, contida na teoria do
ver "invertido" a d ialética hegelinna . Essa resposta de Marx pela
n.>odo de produção capttahsta. e em todos os f ru tos da aç~o rcvolu- "inversão" era uma resposta à questão (ausente): que diferença es-
cwnána ; mas H!mbém a teQriafilosó.fit'(J de M ar~. 'l"e 11s habita pro- pecifica disting ue a dialeLi~.a marxistn da dialética hegeli ana? O ra,
fu~ d amente~ e as ''eles à sua rcvelin. att nas aproxi mações inr·\'ihi- essa resposta pela " inversão", assim como a resposta da econo mia
vets de sua expressão prática.
polític<I clássica pelo " valor do tr abal ho'', é notável na medida em
q ue co ntém em si uma falta i nterior: basta interrogar a met:ifora da
. Qu~ndo~ ~nteríorrnent.c, • ~ alirrnei <J UI! se impunha dnr u essa inversão para veriti~.ar q ue ela não pode pe~sar-se a si mesma , q ue
e.x•stên~ta.~ralt<YJ d~ filosofw !narxis tu, q_u.e exi5te em pessoa, em cs- ela indica, pois , ao m esmo tempo fora dela um problema r eal, umn
t.td?_P~~~~co, na pr.tltct~ cJentJfica d~ analise _do rnodo tlc prod ução questão real. mas ausentes. e nela o vazio, ou o equívoco conL-eptuais
c~~tl.> ilsta que é O Capao/, e na práttca economica e po lltica da bis- correlatos d~ssa ausênria do cor~ceilo sob a palavra. É o haver
tomo do movtmento o~erário, sunformn de e.-ri.rtência Jtourica indis-
trai ndo essru uustnc:a do .conceito sob a presença de um:!: palavra
penstil'e/ às suas nccessuludes e i1s n ossas necessidades, nada propus co mo um sintoma que me pôs no caminho da fo rmulação da ques-
alé~ de u m trabalho de investigação e de elücidação ctftica, que
tão imJ>Iicada e determ inada por sua ausência. M inhn " lei tu r~<" dos
an~l 1sasse un~ pelos oufl·os, segundo a natureM de stut modalidade textos de l.êni n, por mais im per feita e p10visórin que fosse, só foi
propna, os d iferentes grau.r dessa c•istêncin, isto é, essas difet·entcs llO.~sível soh a condição de propor a esses textos a qucsriío teóri7a
obro:. que .~ão a ma~~mt<prt ma de nossa rellexâo.. Nada sugeri alem cuja respúst.a em ato eles representavam, al!l da que seu g rau de eXIS·
da I~Jt11~a smromal d:~' ol~rtt~ d~ Mai'X e do ma(<ismo umas pelas t~f\Cia fosse be.l'll diferente de puramen te teórico (dado q ~e os textos
out~ as, 1~t~1 é, a produçno s tStem atlcà pt'Ogrcssiva dessa t•eflexão tia
descrevem , pâ~J fin~ práticos, a est rutur a d:l conjunt ura em que ex-
P!o~;~lemattcn sobre seus objetos q ue os t orn:~ ,:1 íve~, e " atualizn- plodiu H rc,mluçào soviética) , Bssa '' leitura!' permitiu esclarecer a
çno. ~~ prod~ção da. p~blcm:lti~a mais p)'ot'unda q ue permite ••er 0 questão, e r eformulá-ln a~sim tt ansformada em o utros te;,tos igual-
q~e so ~em atnda exJ~tencta alllsJva o u prática. E:m função dessa c~ i·
mente sintomáti cos P,:.ssuidorcs de um g rau de exist~ncia di ferente.
gcnCHI e que pud~ p,t'c tendeJ·/ar, em sua ex.ist~ncia, diretamen te poli· 1
oo texto de M ao Tsé-Tung, ma~ ao mesmo lempo no te,xto metOdo-
tl~ (c de P_?lil,lca ativa: a ~o dirigente rcvoluciontírio l.ênin imerso lógico de Mar x dn /11trodação dt 18.17. A questão forjada a partit· da
na r.;,voluçao), ~ f~ r':'a teor tca espccífh:a da dialctica rmu·xjsLa: crn primeira rcspostn saiu dela de no vo t ransformada, e pró pria a. per·
rUI~~ao desse priOOlplu é q ue pude Pretender tratar<) texto de Mao mitit a leihlra de o u'-ns o h~ns: hoje O Capira/. Mas no e<JSO a1nda,
r se-Tung de 1937 .sob~c a contradição co mQ a descriçíio refletida recorremos, pata ler O C'apila f, a""'" &~rie de leiturus d uplas, ih10 é,
das es~rutu~·as ~a dtalétt.cn mar~istn na prática política. ~l as essa lei· "si ntoma iS'': lemos O Capital. de modo a t ornar visível o que nele
''1'" n11o f?'· nau pode na ter sido l lfiHI leitu ra a lin<> aberto. <>U cssn
podia ain da persistir de invisível. mas o recuo de~sa ''leit uta" amt·
s tmples letLu!a da ''generaliza~iio"" q ue se redu:tiu tantas vezes n ti·
miu todo o ca mpo que lhe podlumos dar, no estado de noS-ias for-
los~~ marxista, e 51"" não ,é, sob"· p~lavru !lbstl'aqão q ue a en,cobrc, cas. de ttm tu $egunda leitura, cealir.adn no mesmo tempo, c qu e recnfa
senao a eon~r!lluçao dq nnto re!Jgwso ou empirista da leitura , por-
St) bJ'e as Obras de Juventtule de Marx, em partioular os Mànuscriros
q ue o soma tono das letturns de po~menor que eltt resume n ~ o nos li·
"'' 44. e pois sobre a problemática antropológica de Feuer bach e a
bera um só mstante désse mito. Essa lcitur~< era em seu pr incipio du·
prob lemática do idealismo absolut o de Hegel.
Se a questão da fílosofía de Ma•·~. isto é, de sua especificidade
dife(encia l, sai u m tanto tr ansformada e esclaJ·ecida dessa p ri meira
leitura de O Capiwl, ela deveria perm itir outras " leituras", pri meiro
u Cf. l'fJW ' Morx, pp. J~S r.s.
'
34 L ER O CA PITA l. Df. ··() CAI'I TA L" A FILOSOFIA DE MARX 35

o utras leit~ras de O Capital, das <1uais decorreria m no vos eschtreci- 10.


';'~ntos d~le~enct~l~, e~ leitura de outra~. obras do marxismo: por :-leste livro não podemos pretender ir além de dar as coord~na­
eXCIIlplo~ •' lettura c~udll~ de textos fol ost\hcos marxistas (mas toma - da.< teóricas do que a nossa leitura de O Capital nos pi'OJIOrciona.
d_?s n as formas tnev1táve1s da luta ideológica) como 0 Amidühring, a Assim como e;sas exposições não passam de u ma primeim leitura. e
'.J/?sofla da ~Vatureza, a mbos de Engels. e Matniali.wro e Empirocri- daí compreender-se agora, sem dúvida. por que as fazemos na pró·
IICWIIO de Lenrn (e os Cadernos sobre a Dialética); por exem plo ·•in-
pria forma de suas indecisões-, assim os esclarecimentos a presenta-
du, a " lettw u:• de outras o brns prAticas do m,ar> is mo, que noj~ ~ão dos não passam de um primeiro t ra~o do que só pode ser por ora um
~bur)dant~s, e ~ue ex1stem na realidade htstórrca do sociHiismo Gdos esboço.
Jo_vems patses hbertados. em marcha para o socialismo. Fulo de Pf!>·
~osr to com.certt> atraso desses textos filosóficos clássicos, por t.lta Penso. porém, que adquirimos uma questãq de princípio. Se
s~~nple_s r~zao ~c que u_nteriormente à definição dos prindpios es:;cn· não existe lei! ura inocente, é que toda leitura apenas renctc em sua
:•·liS da f•_loso ha !ll'"'xrsta, tst<J e, antes de ha•·er chegado a estabele- liçilo e em suns regras a verdadeira res ponsável: a concepção do co-
cer o mfntm~ mdtspensávcl à existência coerente da filosolia ma rxis· nhecimento q ue. sustentando seu o bjeto. o raz o que ele é. Nós o
ta. em s~a _d rferença co!n quulque~ ideologia líl<tsólíca, era impossí- percebemos a propósito da leitura ''expressiva", essa leitura. a céu e
vel ~~~ es~es _textos clásstcos. q ue nao_siíu de pesquisa, mas de combà· ,r ol hos ahcrtos da essênc1a na existência: e suspeitamos por tni ~ des-
te, <hlerentem~nte da let ra e~tgrnáttca ~c sua C!(pl'essão ideológica. sa prescaça tota l. em que toda opacidade se reduz a nada, a sombra
sem .poder mostrar por qu~ e.'isa expressao dcv1a neccssnriamente ns- do fantasma religioso da tl'ansparência epifânica. e seu modelo de n-
sumtr <• forma da expressao ideológica, portanto sem poder isol ~r xaçilo prh ileg;iado: o Lógos e sua Escritura. O ter recusado as fasci-
r.ssa .~orma .:m su~ ess~néJa pr6pr1a. O me~mn pode dizehsc da " lei- na ões tranqtlilizadorns desse" mílô n<J$ instruiu sobrt: outro vinculo.
tura d:~s.obras amdn11 Lt:Oricnmcnte op;1cas da histciriu do movim en- que deve nece$S:Irianwn~ articular a nova leitura queM arx nos p~o~
to o~ emno, como o CU)to da personaliPadeP, o u esse sério con nito põe. sobre urna no' a conte{•~~io do cmrlrt•cimemn que a. fundamente.
que e_ o nos~o dran!u atual: es~a "l~i}.ura " ta lvez ven ha u ser possível Tomamos, porém, a liberdade de nutra d1gressão. para atingi-la
um dta sob,, condrção de ter Jdentttrcado bem o que 1105 pode da 0 sob o seu ángulo melhor. Sem quc1·er pensar sob u m mesmo concei-
re~ur~~~ ..~e pro,duzJ~.. os c?nceilos indispen~úvc!s pura a cornnrec:n;;~l o to con•:epções d o cor\hecímento cuja relação histó rica ainda niío foi
das r.11.oes de~sa de.sr;tr.~o nas Qbras racronars tio mn q ismo. •• estudadn , nem n [orliwi demonstrada, devemos no entanto aproxi-
S~rti . P?ss~vel re~~.mtr num11 p~lai'Ta __ tudo o que precede'! li~$a mar da ooncc!'çá n qu~ sustenta a leiturn r·eligiosa que nos é proscri-
pala~ r,, desrgn.r U~l cn culo: uma lettu ra ftlo~ólica de O Capila/ só é ta. um a ounccpçilo lltmbérn viva. e que tem todas u~ aparéncitls de
possrvel como a pltcação do que constitui o própriQ ol;>jeto de nossn ser sua tr"anscriçào profana. a conct•pçilo empiri.<ra do conhecimerrto.
~ellexà~: n mo~~ftn de_Mnr:\ .Esse circulo ~ó ~ possivel episte!llologi' Tomamo~ esse tcnno no seu sen tido mais lato, dado que pode
camente pela cxt~lêncra da r•\.osofta de Mar:t na~ obrns do ma"is- Jbr:ll'.~e~ tanto u m c mpirjsrpo Inciot)alisl~ como $Cn~ista, c q ue_,
mo. Trata-se, po>s. de produzrr, no sen tido rigot·os<t da p~lal'f'J que encontl·a mos em açilo no p r6pno pensamento hegeliano, que su
p& rece s•gntllcar: tomar paten te o que csl<i latente; mas que quer di- pode coJ•rr:tamente ton1ar, sob esse aspecto, e com perm issão do
zer. trunsrorrnar (par~ dar a un;oa rnatéria-prin'la prce,, (s\ente 11 fo r- pró!'rio H~gcl, c0 rno conciliação da reliqião com a sua .. verdade"
ma de ~rto objeto ,:•J ustado a um fim) o <JUc. em ce rto sent ido a profann. 1''
e.ns~e~ l!~sa pro duçao_, ~o duplo ~~mido _que dá à operac;-:lo de p~t­ A concepção em pirisut do conhecimento ressuscita sob uma
duçao a ~orma ne~essuna <le um ctrculo. e a produrào de um co111r~ri­ f.wma ~spooial o mito que noa chocou. Para bem comj>reendê·la. im·
mellto. Conceber em sua es pecificidade a filosofia de Mar;t é ois
conceber a e ssência do próprio movimento pelo c:;,ual é prudu~i~o 1; ' ll !>-Jh a. cnn..:icli") rle comprel:ndcr o cmp:n.Srr.ó nrsst w nüdo genl:rku QJc 'lt pOd•!
seu conhecrmento ou conceber o conhecimento como prodr,acia. admitir dn~$illc:~ r !'ob se\.1 oonoch(J q empirismo stnsh:t.a do sewlu XV111. s~ t!i:e nâo
'Miiw ~C'YIJ>rl! o contccirnento 001 51!ll objeto real ::o rnodo que será dt:scrho. st. c!.:
p<!OSa 'IOb ct:1'lO tintulu o ccu)he!.-:imentu oouto pt•oduzido po·· uma h.Js•ó,i.a. J'(•cll::a n
JllC~mQ ~.e b>Ode dite r da "lciHirn" dcsul$ {lbJ'U ll("-·'$ do nwuasmo. que em (oJ'o
1

!unht!C'imenl d m. ff'aUdade dt Um a hi~tQn1 qut C ape~:IS ú dt:SI!Il\'"úiViMCfltO do qt..l!


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tr.:li do
I>O_r \etc' surpr~endcentes, U'au.m em 5i a.lgo d..: tS.'iencinl pom 0 fuU,II'O :w cia.. cl1t .:;: tm~é m na ungtm. l'\~$S.:t f condi(lqcs, o que ~c n'• dao da tlln.ltllm da rclac-Jo reJI
IIS('llo: l~ 'l'll: o ~::u-xurno produ1 llU$ pM.se! de 'lunguarda do ··terceiro mundo" que jo c(lnhu:im:nlo c,,m o ohjeto vale u mbê-m par~t u rel:• ~àu do conhe<:irncnto com a
lut<tm p()r s:u.a hb<:r~ad-:. dos mat.agais elo Vie!nil a Cuba. 8 \'ital que ~t•ibt~mos " ler" l'li~:ó" i a real na. id~Ok>IJ i a ele> sêc\Jio XVItt.
e!Ss.as obras no devtdtl tt<mpo.
\
36 L F. R 0 <;A P11' A L ))ll "O CAPITAL'' A r!LOSOFlA DB MARX 37

põe-se defínir os princípios essenciais da 1>roblemática teórica 'ILe a rimos (termos hegelianos), o essencial e o iocsscncial. O inessencial
sustenta. A concepção cmpirista do conhecimento põe em cena ltm pode ser a ferma da individ ualidade (um fruto, certos fruto> particu-
processo que se passa entre um objeto dado e um sujeito dado. Im- lares), ou a materialidade (o que nào e a " forma" ou essência), ou o
porta pouco neste nível a posição desse sujeito (se ele é psicológico, " nada", ou seja o que for; pouco importa. O falo é que o objeto-real
his<órico ou nào) e desse objeto (se ele é descontí nuo ou con tin uo, contém em si, real mente, d uas partes reais distintas: a essência e o
móvel o u fixo). Essa situação diz respeito apen as ia definição rigoro- in(;lsencial. Dal este primeiro resultado: o çonhecimento (que é ape-
l\a de varlaçõe.<da problemática de base, n uoica que nos interessa na.1 a esstncia essencial) .SI.á córitiiló tealment~ no real como uma de
aqui. SujéiLO e objeto dado.~. portanto anteriores ao processo de co- suas partes. na outrn parte do rcn l, a parte inessencial. O conhcci-
nhecimento, definem já certo campo teórico fundamental, mas que me/111): tem por única função separar, no objeto, as duas partes exis-
nilt>é por enquanto enunciúvel, nesse estado, como empirisra. O que tentes nele: o essencial e o incssencial - mediante processos patlicula-
o dc'1íne como tal é a natureza d,o proce~so do co nhecimealto, em ou- r·es que têm por fim eliminar o reallnessencia/ (por um jogo comple-
tras palavras, certa relação, que deline o conhecimento como tal, em to de seleÇões, peneiragens, raspagens e fricções sucessivas), parn
função do ohjeto reol do qual se considera ser con heci•h~nto. d<!ixar o sqjeito cogooscente apenas diante da segunda parte do real,
Com efeito, todo o processo empirista do conhecimento rdide que é sua esséocia, tmnbérn real. Dal um segundo resultado: a ope-
na operação do sujeito denominada abstl'ação. Conhecer é abstrair H ração da abstraç:lo e todos os seus processos de li mpeza não passam
essência do objeto real, cuja posse pelo sujeito chama-se então co- de processos de depuração e de eliminação de uma ptme do real para
nhccirnent<>. Quaisquer q ue s~iam as variações particulares de que isolar a ou,a. Assim sendo, não deixam qualquer vestlgio na parte
<:SSe conceito de abstraç:lo poss-1 ser afet ado. ele dellne uma cstl'tllU· cxtralda, e todo vestígio de sua operação elimina-se com a parte do
ra ~o varlante, que constitui o índice espccific() do empixismo. A ~bS·· real que eles têm por fim eli minar.
tr·aç:lo empiristn, que extrai a essênciu do objeto real dado. é uma
abs,açrio rt>ol. q ue põe o sujeito na posse da essência roer/. Véremos No ent anto, alguma coisa da realidade desse trabalho de clir~i­
q ue a repetição da catcgorin real a cada momento do processo e dis- nação acha-se representada nas cond., .)es da operação, precisameo-
tintiva da concepção cmpirista. Que significa de fato uma nbstraçào te na csrruwra do objetl) recrl do qual a o peração do conhecimento
real? Eln responde p<>lo que é declarado ll m fato real: n essência é deve extrair a ~ssênciu r~.al, porém de modo nen hum, como se pode-
~bs~raída dos o bjetos reais no sent ido real de uma C!xtra(Jào, como se ria crer, no r<!J'ti/tado dessa opei'UÇàO, dado que este nadam ais é·quc
pode dizer que o ouro é extraiào (ou a bstraído, portanto separado) a essência real pu~a c nftidu . Esse objeto r·eal é para esse fim dotado
da !Ptllga de terna e de ,a;n:iu na qual ele.: tomado c ~nntido. Assim de wna esllutura fi'\Uil.O particuhu·, que já veri,ficamos em lll)Sl;a anâ-
com o o ouro ~ ntcs de sua extraç~\ o existe como o ua·o nilo-separatft> J~~e, n~as que se impilc agora cvid,e11ciar. Essa eb'truturu diz respeito
de sua gan~a em sua Pl<'>pria ga ng'a. Hambérn ~ ess~ncia d,o real existe ll'IUito preCÍ5alflCI'lc à post,-ão respectiva no real dus duas partes
com o ess~nci a tealno real qu,e a cont.!m. O conhecimento é abstru- constitutivas do real: a parte ir1essencial e a parte essencial. A l>a(te
çâo. no sentido próprio, isto é, extração du ~ssêhoia do rea l que a inessencjal ocupa todo o exterior do.objeto, a sua super}Tci<' <'i.síve/;
contém, separação da cMênda do real (lU" a contém e encerra ocul- por outro lado, a parte essencial ocupa a parte imerior do <>bjeto
tando-a. Pouco importa o prc>te-1SO que permite essa ex,t~ção (seja. çeal, o seu n úcleo invisil't!l. A relnção do visível com o invisive) é,
por e,~emplo, a c.omparaç:lo entre os C>hjctos, sua fricção uns contra I'Oi~. idêntica à relação do el.terioz com o inter·ior, a relação da gan-
os outros para desbastar a gunga etc.); pouco impo rta, u figura do ga com o núcleo. Se a essência n:l.o é imediatamente a•i.rívelé que está
real, seja ele composto d~ indivíduos cominuos qu'" c(>nt~m çnd!l enccr,rnda, no sentido estrito, isto é, inteiramentç ~Qt>~na e ÇJ1"91-
qual, sob suu diversidade, uma n\esma essência- ou de um i ~divi­ vjda l>e(a gangn do ine.<tenclcrl. E-is todo o vestigio da openaçãt) do
duo único. Em lodos os casos, <:ssa reparação, no próprio re.:l l, da es- conheci.ment o- mas rccr/lzcu/n na posição respectiva do incsscncial e
sência do real da ganga qu<! encerra a t:jsênoia, impõe-nos, como a do essencial no próprio objeto r~al; e eis no mesmo tempo inaugur·a-
própria condição dessa opernção, uma rc1>rescnta~ào muito pa rticu- da a necessidade da operação de t:!'tração real, c llfOCessos de deso-
lar tnnto do real como do seu co nhecimento. xidação indispensáveis parn a descoberta da essência. A palavra
O real: é estruturado tal como essa ganga de terra que con tem , " descoberta" deve ser tom-ada no sentido real: remc>vcr o que re-
no interior, um gr:lo de o uro puro; isto é, constitui-se de duas essên- cobre, como se ret ir·a a casca q\le en volve a amêndoa, u c-asca que
cias reais: a essência pura c a impura. o ouro cu ganga. o u, se prcf'c· envolve o fl'uto, o véu que envolve a moça, a verdade, o deus ou a es-
38 LER O CAPITAL
A Flt.OSOFIA
DE "O CAPITAL" DE MARX 39
tâtua ," etc. Não procuro nesses exemplos concretos a origem dessa
estrutura- cito-os como imagens e.1pecularos em que todas as filoso· Esse investimento do conhecimelllo, concebido como uma palie
fias do ver refletiram sua complacência. Será ainda preciso mostrar real do objeto real, 11a e.stmtu1a real do objeto tea/, eis o que COIIStiwi
que essa problemática da concepçíl<> cmpirista do conhecimento tem " problemática especifica da co11cepção empirista do collhecimelltO.
como sósia a problemática da visão religiosa da essência na t ranspa- Basta mantê-In sob seu conceito. para dela extrair importantes con-
rência da existência? A concepção em1>irista pode ser pensada como clusões, que ultrapássam naturalmen te o que essa concepção diz,
uma variante da concepção da visão, com a slmple.1 diferença de que dado que ~ecebemos del a a confissão do que elafaz :to negá·lo. Não
a t1ansparéncia não 6 dada nela de súbito, mas.6 separada d~ si "l?s· posso w u.ar aqui da mínima dcssns conclusões. fáceis de ela borar,
ma justa mente por esse 1oéu. por essa ganga de tmpurer.a, do messon- sobretudo no que tange à estrutura do visível e do invisfvel, cujo
cial q\le nos furta a essência, e que a abstração põe de lado, por suas pressentiment o de importância reconhecemos rJqui. Gostaria npenas
técnicas de separação e desoxidação, para nos dar a presença real da de observar de passagem que as categorias do empirismo estüo no
cerne da prob lemática da filosofia clássica; que o reconhecimento
essência pura e nua, da <Jmtl o conllecimento não é mais que a sim·· dessn problemática, sob suas próprias variantes, inclusive sob suas
pies visão. . . . variantes surdas e suas denegações, pode dar um princípio essencial
Consideremos agora essn esrru111ra do conhec1Jl1ento emplflsta
num recuo crítico. 'Podemos carác leriliá.. (a como umn concepção
ao projeto de uma história da filosofia, para esse período, para a ela-
boração do seu conceito; que essa problemntica, conjes,-ada peln sb-
que pensa como uma parte 1ea/ do objeto real a conhecer, o p~óprio culo XV til de Locke e Condillac, está profu ndamente presente, por
con hecimento desse objeto real. Essa purte, por ma1s que sed1ga se1·
csscnciul, intcri<tr, ocuiLa, e portanto jnvisíyel à primeira vista, não mnis paradoxal que isso possa parecer, na filosofia hcnelinna; e que
deixa de ser, e inclusive nessas propriedades, estabelecida corno uma Marx., pOI' motivos que anali&arnos, reve de u rvir-.w ~·la pura ~;>ensar
a falta de um oonceit<l do qual , no ent:mto, ele hav1a p1·odu1.1d0 os
parte 1·eal que compóe a realidade doobjeto real em sua composição efeitos, para formular a qucst!io (ausente), isto é, esse conceito, ao
com a parte não-essencial. O que figura o ~onllec_lmmuo, i~to 6, e.1sa qual, contudo, deu a resposta em suas amíliscs de O Capital; que
operação muito particular que se ex.erce a propóstto do obJeto real a essa problemática sobrevive\' no uso pelo qual ~ar< a torceu. des-
conbecer, e que nndu é, que , muito pel? contrário, acres:entn ao ob- torceu e t~unsformou de fato. ao mesmo tempo que recorrendo aos
jeto <o: ui existente uma IWI'a exisrb1cia, JUstamente a e:ustenc-13. de seu seus termos (aparência e essência• exteriorê interior, essência inrerna
conhecimento (por exemplo. no, mfnimo o discur&o conccptl:lal ver· das coisas, m(lvi ntento apare1~te e movimento l'eal, etc.); que nós a
balou esc1·ito que enuncia es~ conbecirnen,to na fo t•J11f< de uma mc,1 .. enoorllrcrnos em uçãq ~lll n1uitas passagens de Engels e de Lênin,
sa1lem, o que. pois figura esse conhecimento,_ que secxerce c!HrctJ~n­ que t inh,a m mdtivo de se~vir·se dela n:t~ batalhas ideológicas, em
to de fora do objeto -sendo o fato de um SUJeito nttvo), estn por m- que, sob o ataque brutal do advcr.~ ário c no "ternenol' escolhido pot·
teiro inscrfia na esmuura do objeto real, sob a forma da diferença en ..
tr<! o inessencial e a essência, entre 11 superfície e o i undo. entre o e~­ eiF, é p~eciso acc~rrcr ao mais urgcn.t e..c c<>.tlleç't ~ por ~levolve1· no
corpo suas pJÓp!las annus e seus ~;>ropr1os golpes, ISto c, seus argu-
terior c o inh:rior! (j) cot\heeirnen to já está, pois, realmente prc:sentc mentos e seus conceitos ideológicos.
no objeliO real que ele deve conhecer. sob a forma da disposição re-s- Gostal'ia !!penas de insistir aqui em dois pontos precisos: o j ogo
pectiva de suas duas pnrtes reais! O co~IJCcirnen~o ali está na integ1·a de palavras qJJ<: fundamenta essa concepção c que se refere ao con·
realmente pmscnte: não apenas se u ObJeio, q_ue e essa parte re:\1 cha.. ccito de mal llodemos em primeiro lugar cm·acterizar de fato essa
mada essência, mas larnbêm sua operação, que é a distinção, c a pO· concel?ção elnpil'ista do conhecimento po r um jogo de palavras sobre
siçfio rcspe«liYa e1;istcn1e realmente entre as duas l)att~s do objeto ó "real" . Acabamos de ver que todo o conheoimenio, bem como o
real, umn da.s qunis (a inessencinl) é n ~rte _ex!Jerior gue encerra c seu objeto 11ró prio (a essência do objeto real), que u distinção entJ·e o
envolve e a outra (a essência ou parte mteruo~). objeto renl, sob1·e o qual recai sua operação de conhecimento, e essa
operação dec·onhecimento, distinção que é o lugar mesmo da opera-
· N3Qo estou invt-nttl:odo nem fin,&indo. Migudftngt:lo elaborou um;, est~lica inttha ção do conhecimento -acabamos de ver que o objeto como a opera-
d.1 rro clução atlfstica, que rc))<)U!ia nüo na prqducao dl {orma c:sstnc:i.al a partir du ção do conhecimento em sua distinção co m o objeto real do qual ela
:tHattriu do mórmort, rna~ na dt>Jimkào do "-«-ort'o (jU(1 na peera, c:1;1vohc, antts do se pr<tpõe produr.ir o conhecimento, são de pleno direito apresenta-
primeiro lalho, a rorma " extr~!,, 'Uma prlttlcu dn produçl.1o estética sc acl\a af in<Jcsli· dos e pensados co mo pertencendo à estrutuFa real do objeto real.
da num rc:1lbmo ernpírista dn t'.rffccéo.
Para a concepção empirista do conhecimento, o t odo do conhec1-
40 LER O CAPITA L DE "O CAPITAL" A FII.OSOPIA DE MARX 41

menlo é chtão investido no,real, e o conhecimento aparece semplé trelanto, essru via c1·itica prodigiosamente fecunda: deixarei a esse
apenas como 11ma relação, imerior a se11 objeto real. entre parte.S ;eal• jogo de palavras as suas conseqiiências e sua refutação à vigilância
menir dlstlmos dl!.tU objeto real. Se concebermos claramcnteess<l e&- crescente de nossa época. A tenho-me ao jogo de palavras em si.
trutura rundarncntal, ela pode nos sen•ir de chave em numerosas dlr-
cunstâncias, em particular para apreciar os titulas teóricos das fdr•
'I Esse jogo de palavras joga com uma diferença qne ele mata: ao
mas modernas do empirismo que se nos 3present!itl1 s<>b os lítulõs mesmo tempo lhe subtrai Q çn<!:lve1·. Vejamos ligeiramente que
inocentes de urna teoria dos modelos, •• que espero ter mostrado set nome traz a vitimit desse crime sutil. Quando o empirismo designa
fundamentalmente estranha a Marx. Mais distante de n6s, ptlrém na essência o objeto do conhecimento, confessa algo de importante.
mmto perto de M ar~. em Feuerbach, e no Marx das "obras do cor" que nega no mesmo instante: confessa que o objeto do conhecimen-
te" (TesesJohre Fmierbacll e A fdeologio Alemã), ela pode servir-tios to não 1: idêntico ao objeto real, dado que o declara apenas parte do
para compreender esse perpêt~o jo~o de palavras sob1·e o "real" e o objeto •·eal. Mas nega o que confessa, precisamente·ao reduzir essa
"co ncreto" q~e é a raiz de uma seqúência int~rminável de equivocos diferença en tre dois objetos- o objeto do con hecimento e o objeto
cuJaS consequ~ncJas retardudas sofremos tlOJe. " Não tomarei, en- renl- a uma sirnplts dislinçào de partes de um só objeto: o objeto
real. Na a nâlise confessuda. há dois objetos distintos: o objeto real
que "e,, iste fm a do sujeito, indC(ICndentementc do ptOCCSSO do CO-
•• l)c:ve·M atcntac para o f:th> d( quo falo aqui da ctorha do$ modelos tio· somente nhecimento" (Marx) c o objeto do conhecimento (e:;sencia do objeto
comoo id«VJiogm do otmJuuim,lto, 4 para rejeitá·!&. SQt) t:l.ie aspecto, seja qual (OI' o rcul) que é inlciramente distinto do objeto rcul. Na análise negada,
~;ra ll de el:1boraçf,o de suas formu1 (peiQ5 neopositivi5tas oon1tMI)Otltneoo), t ia coa.p...
~ :.J:a ~ se11 u!n,J, metarnorfo:;e da conctp;ç-.1o
. empin!lta, do conhecimento. Mas nem por
não há mais CJUC 11m srl o4idW: o objeto real. Donde nos e lícito con-
lU~ es.'ia NJtlç;)o ac;arrew t~n sua COI"\dcn.:tç:Jo ~urt ouno ~enti do ou em preso dít cnte>- chtil·: o verdadeiro jogo de.palav\:Js nos enganou sobre o seu lugar,
i;Qn~l " modo~'', JHtd:tamc~tc o 5Cotido que CQtrespondt. i!fe.üva:l).'lcnte no emp~go soqre o seu suporte (Trâgel'/, &obre a palnvra que 6 sua sede equívo-
tkn.aco d:ol ''modelor.'', te) mos.: pode vti drn nluittJl cirt-UIIStiluGia:t na prática t«:ni..:t ca. O verdadeiro jogo de pala•·rns níío se •·ofeJ·e à palavra mal, que é
d~ Jl luoiftcaç!o nos J>aisu sooitlist:as. O"Mdddn" ! nc.•uc çld(l un1 meio tlc;ttioo de: sua m~scura, mas it palavra objeto. Não é o assassinato da palavra
compos1çlo tiO$ <hícronun dados com ''uod. à obtc:!'t,ç lo tte oerto lim. O ~mpirismo ,to rl!ol que se díscutu, mas o dn pala"lll objno: é o cO(zcei/() de obieto,
rrod~c:lo ~o caso é aproru iado ntJc, ofio ntt 1wrlo do 00tlhecuuento mas no -aplicaçito
1 cujn d,({eren~a se ilnpÕc produzi r. para d~emburaçá-ln da unidade
Nê.,Uc;a., ~m.o é, Afi ofdem da. té~ica dt rcfltia&citO de.ctl't.O::l fi.l1S t ttl fucçlc> dt vttL<>Il
d.adof, n;a bas-: de <:UrtM d:ulos, :tob~e~ base de e»1tot. oonhtx:lrq~tltcxt fornc:cido1 pela de imp~lttr:J dn palavra objpto.
ct{:ç.caa ~la ccono~lln puhticn. :"'um..1 txptt$:1lO réb!bre.. ttue n!c) tt~t lnfcilbnc:ntc d rb-
~rcut~sao que. t~tt'I!Cut 11a_r!rltti,:a. St:tlin proibi.a. Clllt se confundiu.., a ell!o.ttomiaÜ)o!J. u.
t~;;t! .:om; :t polf11ci1 t~élrnt,ca: u tcmiu co~ 5-Ul'l apll.::açfio l~ni(U. À conc:etx.:l.o emp).
ust.n do m~d"lo oon'o}d~ol;ogta. ~n c-u"'bccunento adquf t da. conl\n.'IP ~ ntrp: o IJtsl!w.- Cc)m isS;o, entr3.wos no ctun,inho que: nos foi aberto, diria cu
ftíYittJ t~C'Il®, que, t etf!11Ytlmt nte ,um .q19cldo, e o po:ncu to eM <:onbt:C'illlt111o, to!im as
1
apry~ênc,as nc::-r:9~:.u tas à sua lmpost.unt.
q11q'e à '00!\511 revct,ia, eo.rqtw 1ia ver~ade não l)'lediti!mOS nele, por
1' ( )i enos geniaJs do Criifn~ dns 1-iuldrVHe!IIOJ da Pjfl':otrfia d~: f'olit~er h:Rou.&am dn d<;Hs fi\óso[os na lust&m: Sp,noza e Marx. Spmozn, conu·a o que
t.randt ))lHiê na f~nqâO Í~oológjct dO OOrU~itO C'l llá tritlt!J.dO dt "conmto":, n;]o roi com ruziio ~!!vemos chamar de empirismo dogmático latente do
f-Ot 8éJSO qu~ ft~htza; JHOCI&moo o udvento da "J,skologia !wtcA!ttl' oom q"Ue di.i.'lô idealismo cartesiano, entretanto nos advertiu de que o obJeto do co-
se t.ón,ha s~gu,do JRI;9ats algum:~ obra. ·roda a \'i,tud.p do tru1no 1•oonmlo" esgotava,.. nhecimento. ou cssênciu, era em si absolutamente distinto e diferen-
se ~e .fntu ~··~:;eu emprego critico, scsro, t>ock:r ina.unurat• o minimu cunb•:ehnento, quo te do oiJjeta r·eol, po•·quc, pata emp1egnr sua eJ<pressão célebre. nil o
só tXtSie nn 'abstraÇ;)o" ddt cooo:ilos. Pod.ia pbsér'Var...se já e.m Ft::.Jc:tha.ch, que ten-
to~ cl~'-pqr,~dar(lentt l!bert:u·s.: da ideologia i.nvoç,,ndo ü '"çopçrç~()... im~ t, Q: c;(lf'l- se deve confundir o$ dois objetos: a idéia do circulo, que é o ohjeto
~eato '.deológtco ~a conl~&;io do c:onhtcel'icdo ;S(.r: a idOQiogta não pode cvi1ic:~11c~cn· e
do connecim.eoto, com Q circulo, q\tC o ()~j~to l'éal. Marx . no capi-
te se ~bor tar da 1d~u iOJJ,1a. Encol'ILtamos o mc.'lrn.o eq,uhroco. o o mesmojoso <te p31a-
vr.n -.m todos os lnt~r.pretes de Mno:.que :te ~fcn:m h ""ol>rm da,juve tllu ~·· lnv(}o
cao_do o buma.nismo "r~I", o humanismo ..e.nncrcto'•, ou humanismo "p~itivn''
.;om~ o fundamento t.oónco do seu ))ensamento. B verdade qut clct. tém do.sculpa.s:
,, . tulb 111 da fntrodttçào d~ 57, retomou essa distinção com toda a for-
Ç".l possível.
Marx rejeita a confusào hegeliana da identificação do objeto
todas M exprc:..uôes do próprio Mll'x, que., na:; ··obrn5 do <:o rle'~ ( Tt!'dS Jobft Ft11tt• real com o objeto de conhecimento, do processo real com o processo
bcJclt. A ldf'.t)lo~~itJ Alcmtill faJa do cor~~::rc:tó , do real. de "horr~~:ns oontl":l«<.. rcait etc de conhecimento: "Hegef caiu na ilusão de C'Onccber o real (das Rea-
Mas, ~fi "obr:u do <:o r! o" ainda ttitlo às voltas. co;m o equivoco de llMà ,1;çardJ quC lel como () l'es11lrado do pensamemo, tlbmç"mlo-se nele mesmo, apro-
t!Slú :amde. presa ao \ltuveroo de com:cito5 qu~ tia rejeita, sent1er podido rormuhu sob (llndantfo,re em si mesmo, e pondo-se em movimemo por , ; melm(), ao
~r~}. ad.equ~ula os conCI!itcu novos e positivos que ola tratem si (cf. Pou1 Múrx. pp.
'passo q11e o método q11e permitee/evaNe do a/Jstroto ao concreto nada
DE "0 CAPITAL" A fii.OSOFIA DE MARX 43
42 LER O <;APITA L

que combina ( Verbindung) o tipo de objeto (matéria-prima) sobre o


mai.t é q11e o modo (die Att) no qual o pensamento se aP'opria do con· qual ele trabalha, os meios de produção teóricos de que dispõe (teo·
ereto e ~ r~produr (reproduzieren) sob a forma de um concreto esplrí·
f~al (getsttl! Ko!1krctes)" (Comriburloll, Editions Socialcs, p. 165.
ria, método e técnicn, experimental ou qualquer outra), c as relnçôes
históricas (ao mesm.:> tempo teóricas, ideológicas e sociais) nas quais
I ex to <llemao Dretz: Zur Krirík ... p. 257). Essa confusão, à <1ua! He- ele produz. Ess.c sistema determinado das condições da prática teóri-
S71 d~ a_forma de um idealismo absoluto da história, em seu prind- ca é que atribui a este ou aquele sujeito (indivíduo) pensant e o seu
l>tO ç tuO·$omentc uma variante da confusão que caracterir.a a
problemática do empirismo. Contra essa confusão Marx defende a lugar e a sua função na produção dos conhecimentos. ESsé !i~tema
distin~·âo entre o objeto real (o c<mcreto-real. a toÍalidade real q ue de produção teórico , sistema material tu rlto q uanto "espiritual".
"subsi~,te em sua ir~dependência no extelior da cabeça (Kopfl antes e
cuja prática se funda e se articula nas práticas econômicas, políticas
depo1s da pr·oduçao do seu conhccirnun to (p. 160) e o objeto do co- e ideológicas c,;istentes, que lhe fo~necem direta ou indir·etamente o
nllectmefllO, produto do pensamento que o produz em si mesmo
essencial de sua "matéria-prima'' .. possui uma realidade objeti,•a
como concreto-de-pensamen to ((Jedankenkonkretrmt /, como totali· determinada. t:; essa realidade determinada q ue define os papéis e
dade-de-pcnsarnen to {Gedaltkemotaliltll l. isto é, como objeto-de· funçõe.1 do " pensamento" dos indivlduos singulares. q ue só podem
pensame11to, absolutamente distinto do objeto-real. do concreto. "pensar" os "problemas" já apresentadO$ o u em condições de ser 1

real , da totulidade-re<l l, cujo concreto·de-pensamento. a t<Jtalidude· nprescntados; ((Uc, pois. fJÔC cmrfuncionamento a sua 'forçn de pen-
de-pensamento, o conhecimento pr<>p<Jrcion<~ . Marx vat ainda mais samento", assim como a estrutura de um modo de produção econô·
além, e. mostra que essa distinção diz >'espeito nào <~penas a esses mica põe em funcionamento a força de trabalho dos produtores
dms ObJetos, mas também a seus próprios pio<Jcs.sos de produçílo. imediatos. mas no seu modo próprio. Longe, pois. de ser uma cssén·
Ao passo que o processo de produção de determinado objeto real, cia cont1·aposw ao mundo rnatel'ial (faculdade de um sujeito trans·
de certa tulahdadc co ncretO· real ~por exemplo. uma ltação histórica cendcntal " puro" , ou de uma "consciêncin absoluta", isto é, esse
dada), se passa inteiramente no real. c se efetua seaundo a Mdem mito que o ide~1 1ismo ptodur. oomo mito para nele se reconhecer e se
r~al_da g~nese real (a ordem de sucessão dos momentos da gênese
assentar), o "pensamento'' é um sistema real próprio, ttsscntado e
lu.rtOI'l<yl), o processo de produçiio do objeto do conhecimento s" pus-· articulado no mundo real de uma sociedade hist ó~i ca dada, que
sa 10 tcu'amcntc no conhcCJrncnto, e se elctua segundo uma ()Utra 0 ,. mantém relações determinadas com a nauu·eza, um sistema e.,pcl'iji-
dem, wn que as <:~*gorias pensadas que "Jeprodincm' ' a$ categorias co, qerinidg pelas condi~ões de sua existência c de sua pnítica, isto é,
··~·eH.is" l);io ocupam'' me:m~o tufar que oc~1pam na ordem da gênese por UR'Ja ustr11t71ra p11ípritJ. U)'n t.ipo·de "combinação" ( Verbindung)
lustorica 1·ea). ma~ lugares rnterramente diversos 11ue lhes sfio atri· determin ada , cxistent~ ent re sua matéria-prima ptópria (objeto da
~.uldo~ po r suu l'uoçà.o no processo de produçiio do ob)cto do çonhc· prática teórica), seus meios de ~rodução próprios c suas relações
c>mento. t:<lln as dt:mals estruturas da sociedade.
~rc~tdmos aLençilo por um momento a todo~ 6.%e~ tefll!l$. 5<: q uist,;mos considerar que devemos assim definir· o " pensa-
Quando Marx nos diz qt1e o processo de produção do col),be'ci .. mento", esse/ termo muito geroll de que Marx ~c serve m• passagem
ment.o, portanto de s~tr objeto, distinto do o~jeto rea l de que o co- qúe analisamos, c! pe( feit~mcnte li~i~o di1:er <lue a pr.oduçáo do co-
nhec>mento quer prec)Samente se aproprun· no "modo'' do conheci .. nhecimento, que~ o peculiar da prau«a teonCll, constitui um proces·
ment o -~ocorre inteiramente no conhecimento. nn hcab~çn", ou no so que $ C passa inteiramente no pettSaJ~ICIIW, do rncsmo lm o~o que
pensamento .. ele não cai por um segundo nÜm idealismo da cons- podemos dizer, mu(atis m11tandis, que o proo:sso du produçao eco·
çiêncin, do ~spirito ou do pensamento. porque o ''pms,wrrmo" de nómica se passa im~iram~nte nn cçvnomi~, muito embora ele impli-
que Marx trata no cns<> não é a faculdade de um stticito transecn- que, c precisaR'JeJ).te nas determ inações esped(icas de sua estrutu ~a,
dental ou de uma consciencia absoluta, que o mundo ren l enfr enta- relações nccessátias cnnt a nature-la, e as dema is cstrutur·as (jurldi-
riu oomo 11Ultéria; esse pensamer1to tumbem não é a faculdade de um ,.. co-política e ideológica) que constiLuem, t.orr:adasem conjunto, a es-
sujeito psicológico, embora os indivíd uos s~jam os ugentes dele. trutura global de uma formaçã.o social pettcncente a um modo de
Esse Rensarnento é o sistema historicamente constituído de um apa- produção determinado. ~ perfeitamente legitimo ( richtig1 dizer en-
relho de pen..amemo, fun dado e articulado na realidade nlltural e so- tão. como o faz Mar~, que "a totalidade-conNela como tora/idade-
cial. li dewrrninado pdo sistema das condições reais(! ue falem dele. de-pe1~samento. como col!cl'eto-dl:-pensamento é em T<!alldade (in der
se me é licito arriscar esta fórmula, um modo de productio determina- Tat) um produw elo pensar e do conceber 1cin Produkt des Denkcns,
do de conhecimentos. Como tal, é cons tituído por uma estrutura

. .. - · - -- - --··--·-···- ................ ~ ....... : ..............:wL............... :.c.::::: ::.:::::::: !~~~: ::,: .:. :.:!:''' " ·"' ' ,, ................ ' ..................... •·
44 I.I:R O Co\PITA L Df "0 CA PITAL" A f' ll.OSOFIA OE MARX 45

des Degreifens)" ( 165); perfeitamente legitimo representm·-se a prá ti- 12.


ca teé>rica, isto é, o trabalho do pensamento sobre a matéria· prima Seda arriscado, por o ra, ir mais além. Só o conceito formal das
(objeto sobre o qual ele trabalha), como um "trabalhe de transfor- condições da produção da prática teórica não nos pode dar os ~on­
maçâ<J ( Verarbeintung) da inlltiçào ( Anshauungl e da repre.<efllacâo ceitos especí ficos que permitam constituir urna hi.<tória da prntrca
( Vorstcllungl em conceitos (in Begriffel" 'I'· 1661. teórica. ncrn , com mais forte ralilO, a histórin dos diferentes ramos
Noutra obra ~ tentel mostrar que essa mat.!ría·prima :;obre a da prática (córioca (m~\em(lr iça, flsica, química, biologia, história e
qual trabalh a o modo de produção dó conhccinwnto, isto é. que o utras "ciências humanas"). Para ir além dO·sim plcs conceito .formal
Marx designa como A. 11schauung e VQrStellung, (a matéria da i~;~ tui ­ da ,,<tmtura dcr prática tecíri<'a. isto é, da produção dos conhecimen-
ção e da representação), devia assumir formas muito di ferentes,~­ tos, devemos elaborar o canceiro de história do coniledmenro, e cla-
gundo o grau de desenvolvimento do conhecimento em sua histó ria; bÓrar os conceitos dos diferentes modos de produção teórica (em
há grande distância, por exemplo, enue a matéria-pri m!l com a qual primeiro piano os co nceitos do modo de. produção Leórico .~a íden·
Aristóteles trabalha e a matérin-prima com que tra balharn Oalileu. Jogia, e da ciência), assim como os concertos pr·ópnos dos drl erentes
Newton ou l?.instein - mas que [01molmertlf essa matéria-ptima fa;; •·amo.<da produção teórica, c de suas relnções (as drferemes crêncms
pari(! das condirôrs da produ(ão de toda ronlrecimemo. Tentei mos- e os típ0 s espcolficos de sun dependência. independência e artic~la­
trar tamb6m qqc, se é cla(o para Lodos q ue essa matéria-prima se ç:io). Esse trabalho de elaboração teórica pressupõe uma rn ve~uga­
toma cnda vez mais r1•quimada, à medida que progride .tm ramo do çào de grt1nde f.Qiego, que deverá amparar-se em trabalhos ." airosos
con'hecimcnto, se a matéria-prima de lHIHl ciência <ksenvolvidn nada já existentes nos domínios clássicos da história das cie~c>as e da
tem a ver· evidentemente com a "pura" intuiç:Joscllsh•ci ou a simples epistemologia- porlant o, um a ínvestigaçãn que se aproprie de toda
"representação", por o utro lado, por mais que ~e recue no pa!,-iado H lll~l ~éria ..p ri ma dos H fatos ...ht coletados e a coletar. bem como dos
de llm ru mo do conhccimelllo, nur1ca estaremos diante de uma intui- primeiros restcllltdos teóricos adquiridos nesses dornhrios. ~o entan"
ção sensível'" ou reprcseo ta~ão ''puras". mas. de uma matéria·pxima lo só a ucum ulaç.ào desses '' f:ttos'\ desses dados (!empíricos>~, que,
semprt•-jci comJ>Icxa, de unp e:ltrutura de "intuição" ou de ''repre- salvo algumas exceções muito noráveis, '1 nos são em geral ofereci-
sentnção" que combina. numa Verbindwtg peculiar, ao mesmo tem- dos apenas sob forma ~e s.imples ~eqiiénciaso~r crônicas, is!o é, na
po ' 'elementos" se nsíveiS, técnicos c ideoló$icost que, por·uwLorja- lbrma de u rna <:oncepçao uleológ>ca da hrstorra, quand o nao no a
rnaL~ o c.onhecimento se acha0 .:onw o quereria dpsespc~radarnerr tc o priQri de uma fi loso lía da história- es&e acum uh> por si só não .P<>de
em pirismo, diante de un;> v/JjcJI<>purv que fbss~er\'iiio idêntico ao nh· ba•tnr l>ur·a constituir ll ma história do conhecimento, da qual c pre-
) <'te! real do qual t> oonhecimento Visa , llstarncn~e produzir'. .. o co-
1
nhecimen to. Trabalhnn do sobre seu " mijcto", c>!Co nhc<:imcnto nã o
ci~o em Jl~imeiro lugar l'ia/n>ror o ~·ollrfÍIO, pelo menos sob f~rrnn
provisól'ia, para poder em pr·eendê-Jn. Se, no cu~so das expos•çó~s
o fu. então com o objeto n•ti}. ma.i com ~ua próJ?ria nralcíria·J>rinw . que se seguem, demos rn ma atenção aos cor.certos com os qu a1s
que constit ui, no scnr idq rigoroso do Lermo, o ·'~'I! "objeto" (ll'a cn- :vlar·x Jl<:ll&a as cond ições gera,is da J)rQducàn econôm ica, c aos co~­
nhrcim~nt(J) que cí, desde as formas mais rudirncntures do co nl\eoi- cciLo:rc1>ril os qtials u pC;n$:.tmento marxina deve pensn~ sua te(?rut
merllo, distinto do objeto real- dado que essa matéria·prima está da história, nüo foi unicamente para hcrn peoetwr a Leona marx ista
s·empre-jcf, no sentido estrito que lhe da M:lr~ em O Capital, matbia- da região ~COIIÔ!III~<l do modo de produção oal'italista, mas par~ es·
primo, isto é, matéria j1í elaborada, H u·ansfor·mnlla, precisamcrne clarecer· ~nt toda a medida do possível conceiros lundamenta>s (o
pel11 imposiç~o da e~lruLU ra complexa (sensível-técnico·ídeológícn) conceito de produção, de e.H ntrura de um modo de produção, o con-
que a consth ui como objew do ~onlrecimrmo, tnesmo o mais falho - ceito de lrmóri.u}, CLUR elabor3çâo J'oTmal c lambem indispensável
co mo o;.bjero que ele vai transrormat, cujas/omrn.- elevar modificar, para a teoria rnarxisla da produç;Jo do oonheci menLo, c para a sua
dur·an1e o seu processo de descnvol\'irllcnLo. P" llll produzir· conheci- h istó ri~. . ,. .
mentos incessanwrnerrtc rrmrsformadru, mas q ue não deixam jamais Desde jic, podemos começar a entrever a •dera do canunh~ em
de recair sobre o seu objl'to no sentido de objeto de ~onhecimenro. que enver·edam essa.; rcnexôes e pelo qual erHrm·ào. Esse camonho

' P ()fu'lv/(1/,\' , Pll. 194· 19S.


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O E "O CAPITA l." A f'lt.OSOFtA DE M ARX 47


46 I.I'R O CAPITAL

inteiramente de umn filosofia vitalísta: '" co•no as que devemos a


leYa-nos a umu revoluçllrl na cr>ncepçilo tradicional da história das Fouc:~ult ao estudar o tran sform ar-se rlcsconccrtantc dessa forma-
cio! ncias, que estil, ai nda hoje, profundamente impregannda da ideo· ção cultural co mplexa que reúne em tomo de um termo sob redetcr-
logia da Filosofia Iluminista, isto é. de um racionalismo teleológico, minado - "loucura"- no~ séculos XV I I e XV I11. um sem-número de
e pois, idealista. Começamos a suspeita r, e me$mO a poder demons· práticas e ideologias médicas,j uridicas, religinsa.i, nwrais c polít icas
trar com base em certo tnímero de exemplos já estudados. <1uc a his· numa comhinação, cujas disposições internas ~. sentido variam em
tórin dit ra~iio n~~ é uma história linear de desenvolvimento cotlti· função da mudança de lugar c do papel desses termos. no contexto
nuo, nem, e.rn sua oontinui dude, n história du manifestuçào ou d:t to· mais geral das estruturas cconúmicas, políticas, jurídicas c ideológi·
mada de consciéncta progressiva de uma Razão, totalmen w pre~ente cas da cpocu:' como a que devemos também a Foucault. ao de-
no germe de suas origens e que sua história npenus revela a céu uber· monstrar que .conju nto de condições aparentemente hctcrogílncas
to. Sabemos que es$c upo de história e de racionalidade nào passam conspirou de fato. :10 cabo de um laborioso "trabalho positivo".
do efeito da il usão rctrospcctivu de umt·esultado histórico dado, que para n produção disso que nos pal'ecc a própria evidência: a <•hser·
escreve sua história no " futuro anterior", que pensa, pois. sua o ri· vaçi:o do doente pelo " olhar" da medici na clín ica."
gem como previsão do seu fim. A r·acionalidade da Filosofia llumi· Nào é até a distinção lcoricamcnte essencial e pralicamentc de ..
ni~ta, a que Hegel deu a forma sistemática do desenvolvimento do cisiva entre a cic!ncin e a ideologia, que não tem de que se precuver
conc-eito, não passa de uma concepcào ideológica tanto da rn~ão dus tentações d6gm atJ$l3$ ou cientificistas que a umeaçurn di reta..
como de sua hi~tória. A história real do desenvolvj1nen10 do conhe· mente- dado que devemos apr~nder, nesse trabalho de investigação
cimento nos aparece hoje submetida a leis ctunpletnn)Cnte diferentes e de conccptunlização, a não fnr.er dcss;• distinção um emprego que
dessa esperança teleológica do triunfÇ> religioso da M~ilo. Çcuncça. res tàurc a idt:ologia <lu Filosofia Ilum inista- mas, pelo co ntrário a
mos n conceber e~s:1 história como assinalada por descominuidJ.des tru tar a idcolol!ia. q~e constitui pot· e~emplo ;1 pré-história de uma
radicais (por e~emplo, qunndo uma cJênda nova ~e destaca sobre o ciêncin, como uma história re.nl. posSUidora de leis próprias, e como
fundo das formações ideológica~ an teriores). por ren1anejamentos a pré- história ren l cujo confronto real com out ras práticas técnicas,
profu ~dos. que. se respeitam a ctllttinuidade da existénc•a das rc· e outras aquis i~ões ideológicas ou cien tíficas, pôde produt.i r, nu ma
giiles do conhecimento (e ainda nelll sempre é o caso), inauguram con)unLur:l teórica uspecll'ica, o atlvcnLo de uma ciência n:Jo como
em sua ruptura 0 reino de urna lógica n,ova, que, longe de ser o sim· seu Jiro , n)as sun su rpresa aumentaria de1 rnuito a nossa tarefa o ser-
pies descnvolv{rncnto, a "verQadc'' ou a " invcr$âof' du antigu, toma mos por isso ob; igndo$ a propor o l'roblt:ma das contl içõ>!S da "rup-
literfJ/IIl!'!ltl' a !'eu lu.{Jw·. tura epistemológ[çn" que inaugul'a toda ciéncÍ&, isto é, para empre-
ga•· a tt:rminologia cl itssicHI•) problemu das condições du descoberta
cient ífica, c que fôssemos obrigados a propô-lt;. aqui 111mhé1n a pro-
Curn isso nos é irniJ0$ta a ob~igação d~ renuucía~ u todff tdco. pósitJ cit• Ma1x. Poderia nos embaraçar qu,e. ao eAscjo do (:studo
logia da l'il.'lÜO. " de conceber a rciH\'âO iliSl<i i1Íca de um resultado desse p~oblema, fússemos convidados a pensar de modo inteiramen-
com a$ sua& condições corno uma relação de produção, c não de ex- te novo:) rcl aç~o da d<!nc.ia COm i! idt-ologia de que d a nasce, e que
pr<lSsào, J>orta11to o que podedamos ch;unar de a ltr<·es,ndai1e de sutl contin ua de certo modo a acompanhá-la surdamente em sua histó-
c•oJIIingéncia. termo que deswa do sistema das categorias clássicas, e ria; que es!<a pcs<iuísa nos pusesse diante dessa verilicação de que
exige n .ml>stiruiçãn delas. J>aru pcne~rar essa nct:r:ssid~dc, d~vemos toda ciência só pode ser pensada (:qmo ''c-éncia da Ideologia", ~ 'em
penctDar a lógica muito purticula~ e muito p:had<i>,~:tl que culmina ··claçào com a ideologia de que ela sai; mas isso se não estil•éssemos
nessa prod~tcclo. •slo é, a 16gicn das cütldicóe~ dã produção dó.~ ctl-
nhecimentos, seja que eles pertençaro à h i~lôriu de um dos rumos do
co nhecimento aindu id!iOirígioo, seja que pertençam a um ramo do
co nhecimento que procura constitui<·Se como ciência, ou que já es- ,.. 1
' G. CtngUJl!tcr.1. lA fo,.mcul~'' rlli cwvant tlt 'IJ1e.m e~u."C XVII'' tt XVfl lt ,o;/êc(t'J.
J>U F, L9SS.
teja estabelecido corno ciência. Nessa ordem, aguardam-nos muitas :• M. FciUcau!'t, Hmoirt• Je lrt FWie à l'âgt> cla.'Uique, Pl~n. 1%1.
su rpresas. como aquelas que nos cuusaram os trabalhos de G. :~ M:chel F'ou<XJnl1 1 Nausa,rce de {a l'liuiqur, ~lon, 1964,
Canghilhem sobre a história da produçã o do conceito de renex.o, a 1•. Machetey, '' .I\ prnpo:. d.: la f\.lpt\mf', Nmnotllt Crltiqut. mat-> de 196:;, pp. 136~
nascido. não como nos le1·am a c1er todas as ap~rência~ (de fato a t4Q.
concepção ideológica dominante), de um a filoso;in mecanicista. mas
48 LER O CAPtT,\L D6 "()CAPITAL" À PI LOSOPIA D F. MARX 49

advert idos da natureza do objeto do conhecimento, que só pode obrigados a violentar certas respostas de Marx, q ue man ifestamente
existir na forma da ideologia quando se constitui a ciência que vai contradizem suas hipóteses. Proponho estabelecer essa questão (esse
pfl)dutir seu conhecimento, no modo específico que o define. Todos prnbl~ma) nào no campo de lima problemática ideológica, mas no
cS$lôS exemplos, na tnedida em que nos dão uma primeira idéiH da campo dn pwhlemãtica teórica mar~ista da distinção entre o objeto
nova conCCI>çiic> da história do conhecimento que devemos produ- · real c o objeto do conhecimen(O, fazendo notar que essn distinc;ão
zir, dão-nos também a medida do trabalho de investigação histórica dos objetos acarreta, por um lado, a distinção radical entre a ordem
e de elaboração teórica que nos ;tguarda. de aparpcimc.,~o dns "categorias" no conheeimento c, por outro, na
realidade hist{lrk u. Basta colocar o pretenso pro blema d;t Mlâ(<iO
13 . entre n ordem da génesc histórica real, c a otdem de desenvo lvimen-
' Passq a uma segunda o bservação decisiva de Murx. O texto;> da' to doij em!CCÍIOS no discurso científico, no campo dessa problemáti-
ca (di~tlnção taMc~l dessas du.as, o.rdcns), para concluir que estamos
iiUYúÚu('â o tle 57, que distingue rigorosamente o objeto real do obje-
to do conhecimento, distingue também seus processos e, o que li fun- d•antc de um prob1ema 1magurano.
damemal, põe em evidência uma direr·ença de ordem na génese des· l!ssu hipótese permite respeitar a va1·iedade das respostas que
Marx nos dá. isto é, ao mesmo tempo os casos de correspondência e
ses dois processos. l';rra falar outra linguagem. que cxorr~ constan· os casp~ de n:lc;>-çorrespondência enlrc a o rdem "lógica" e a ordem
temente em O CtJpilal, Marx declara que a ordem qüe r·~!!C as cate· " real"-· s~ ê verrlndc que não pode haver cor~·tspundêné'ia bitm(l10to
gorias pen.<adas no processo do coo hccimcnto, não coirJCidc com a entre os direrentes momentos dessas d uns ordens distintas. Quand<)
ordem que rêge as categorias reai.t no p1·ocesso da géncsé histórica digo que a dis(iru;ihl entre o objeto real c o objeto do conhecimento
real. Essa distinção toca de perto, evidentemente, uma das questões acurret8< o dCSI\parcçimcnto do mito ideológico (empi1·ista ou idea·
ma.is debatidas de O Capital: a questão de sahcr se há identidade en·
,,.~ a otciC'm tlita "16gi<'a" (ou ordem de "dedução" da.& qatcgorra.s em
lista absoluto) da corr·espon<léncia biunívQC.a entre os lermos das
O ('apita/) e a ordtm "hl.lt6rica" real. Os intérpr~tes, em maioria, niio d uns ordcníl, ~ntendo qualqu~r forma, Inclusive invertido. de eorres-
chegam a ·•sair" verdadeiramente dessa <1uestão, dado que oào con· pondênda hlu nil•oca entre Q S tcl'rnOS das duas ordens: po rqt1e uma
cordam em e.uahl'lecé-la em seus termos adequados, isto é, no cam- oorrespondênciu invertida é uinda umu concspon d~ncia termo a ter·
po da prob/em.lt!M ,exigida por essa questão. Qigam<>s a me•ma coi· mo segundo uma ordem com um (logo, apenas m udun~a de sinal).
sa sob outra forma, que nos ~ hoje familiar: 6J Caf>ital nos d;l um sem- 1\ven\O esta ultima hipchese, porque elu foi mantida. por Della Vol-
pe c suu escoln cc>mo ~sscncial para a compreensão não apenas da
numero de re.<JMia.t sobre ~~ identidade e a n~o·idontldadc !la
ord~.rn 'ilógioa'' com a or·dem ''históricr" . Trata~~c de rU$JX<IÜ!S ~rn
t~onia de O C'afillpf ('1111 tambJm da "teoria do conh~címento" mar·
1
questão explícita: 11cssu q uul~dade elas nos pr'OJ!Õem a <pwstlío de XIIta. •j
r~~~ Inte rpretação repousa em algm)'las fwses de Marx, a mais
sun questão. isto é, o brigam-nos a urgcntell),e(lle fo~mular" questão
n(tíd~ d~s q,lruls cr nsta 4a hti(Cidllçào lld ( (Ed. Soeii<IC~. p. 1711:
não-formulada a que essas questô<!S res.ppnder:n. Claro es!;i queess31
questão refere-se ;l rclaGão da ordem IÍlgica C<l>m a ordem histd ri{la. Setiu 1 pois. iro.possíve~ e fJiso d!uslfiu,ar ~t$ .:-tllenotia.s económicás na
mas ao pronunciar cssns palavras, nada mais l)lz~mos senão r~tomm· Qrdcm tlll que foram historicamcntt "<iétCrmiiHlO.V;s. Sua ordem. é w lo
os próprios termos das respostas: o que·obrjga em última análise a ~ontd.ri~ dcterruintd:' pelo tipo de rolaç-àtl mútua que ( IM rn:nttên) na
sç.~jednde buJ'$Ué.'6a mod.:rna. c C5f' urdem é p:eciiamcQll! o '"'fl'.f() (lm :-
colocnçào (logo. n prod'IIÇâo) da qucst<lo é a definição do campo <In
.t,•4eflltt,1riÇ) qUe p1HOCe s.:n.un o~<h:m natu r,al. ..,u do que oorre~p011de l•
prpblefllltticn no qual essa quustHo (esse prpblemn) dc;ve ser c:<>loca.. ordem çio descnvolvifilento hist órh~).
do . Ora, a maiotia dos in t~rpr·etes situa es~a questã:o no campo de
uma prqblemática empirista, ou (sua ' 'iil'ict$ilo" .no Sei'ltido estrito) 1?. com base nes:;a Umkelmmg. ntl$sa ''lnvers<lo" de sentido. q ue
no campo de Ul!l!l P"lúl~mârica '"weli=a. pfQcurtutdo p~ovar, no a ordem lógica pode ser pet:lnrada I! inverso termo n termo da o r-
primeiro caso, que n ordem ~'lónicn'', :HmdQ por cssêncin idêmica i1 dem histórica. Sühre essa <1uestfio remeto ao comenlário de R<lnoie.
o rdem neal, cxi~terlle 1111 realidade da onlcm real como sua próprin re."' De resto. o seqUi!ncia imedinta do texto de Ma rx não dei~« per-
essencia, só pode acornpaAhar a ordem real: no ~egun<lo caso, que n
ordem real sendo por essi!r\cia idênticn à ordem " logiea", a ord~m
rea l, que não passa entílo de existência real da nrdcm lógica, deve
aoornpan har a ordem lllgica. Em ambns os easos, us intérpretes siio ;I cr. ml i ~ adiáJ'1ll!.
50 LER O CAI'ITAL
DB "O CAPIT,\L" À FILOSOFIA DE MARX 51

~isti r qualquer equívoco. dado que ficamos sabendo que e.~se debate
14
sob re a correspondência direta ou invet·sa dos tet·mos das dttas o r·
dens nada tem a ver com o problema analisado: " l'ào se traw da re· Volto, po is, ao car{ller próprio da ordem dos conceitos na ex·
!ação que se estabelece historicamen te entre :~s relações econômi· posição da análise de Marx. isto é, na sua demon.vtração. Um a coisa
cns ... trata-se de sua Gliederu11g (com bin:tção articulada) no seio da é dizer que essa ordem dos conceitos (ou ordem " lógica' '). sem rela·
sociedade burgucsn moderna" (p. 171). Precisamente essa Gliccle· cão biunívoca de termos com a ordem histórica, é uma ordem f.!·
rung. essa h>talidadc·arliculadn·de·pensamenlo é que se (ra la de pecíjlaa: mas é preciso também dar a raz!io dessa esp~cificidnde, islo
pro duzir no conhecimento como objet<> do conhecimento para che- 6, da nature2a dessn o rdem como ordem. Suscitar essa q uestão é,
gar ao conhcctmcn to da Gliedcrung real. da totalidade-adic~tladn evidentemente, suscitar a questão da forma de ontem exigida em
t•eal , quo constitui a existência da sociedade burguesa. A ordem em dado momento da históriu do conhecimetllo, pelo tipo de cicntiflci·
que a Glieduung de pensamento é produzida é uma ordem cspecffi. da de existente. ou, se o prcfurirmos, pelas normas de validade tcôri·
cn, a própria ordem da a1tá/ise teórica que Marx rea liza em O Capi· ca admitidas pela ci~ncia, em sua própria prát ica, como ciemfficas.
10/. a ordem dn ligação. da "síntese", dos conccitc>s nccessário5 parn Trata-se. no caso, ainda de um problema de gra nde alcance e de
a produção desse todo-de•pcns amcn to. desse conct·eto-de- gra nde comple xidade, que pressupõe a elucidação de certo número
pcns•nnento que ê a teoria de O Ç(lpital. de problemas teóricos prévios. O problema essencial, pt·essuposto
pela questão do tipo de demonstração existente. é o p rob lema da his·
tória da produção das difrr~mes.formas nas quais a pnitica teórica
A ordem em q ue esses conceitos s:lo t1rticuludos na an(llise é a (produzindo conhecimentos, sejam eles "ideológicos" ou "científi -
ordem da demonstração cicntinca de .\ l;;rx: não tem qunlquer rela- cos'') reconhece as normas exigíveis de sua validade. Proponho de-
ção direta~ biun ívoca com a ordem em (llm llSta: ou aquela catcgorin nominar essa história " a história do teórico como ta l" o'u "história
apa receu nn his~óri~L Pode haver encontros proVis6rios, segmen tos da produção (e da t ransi'orn'\açà.o ) daquilo tJUC, CIJ\ dudo momento
de seqüéncias aparentemente ritmHdae; pclu mesma ordem, mas, lon .. da história do conhecimento, constitui a problmtática teórica com a
ge de ser a prova d:1 e,'<iStência dcss:~ correspondência, de ser uma qua,l se ~elacio nam todos os critérios de validade teórica e~isten tes, e
t·esposta à q ucst.ào da correspond~ncia , eles suscitam 1.111m oww Jlortan lo o.sfonnas e~igidus pu ra dar forca e Pa/or d•' dc•mo11stração à
'l"estlio. (; preciso p:lssar pela Leoria d a distinção das dun~ ordens ordem de um dis~urso teórico. Essa lnsló ria do reóric'o, das estrutu·
apen <ts pura 0<1.ilminar se é legitimo susci ~á-ln (o q ue não é ahs<;> luLa- t·as da teoricid.ade e dus !'ornH~ de apodiLicidadc teórica está por l'a·
mer:ate o:!rto: esu1 qutsuia pQtft! nâo ter .h'lllido qlgw'~ - t' tt'nto$1odu o zer-se c no CEt~o ait)da, c9mo o dt~ia ~l arx tu) momento crn que co•
direito ele J!WISC/1' <JUH ela nâ<l 1~11ha semido ai(fllllj}- Muito p~lo conlt·á· meçavtl a sun obro, 1'exisle uma enorme bibliografia" à nossa dispo-
rio, Marx pass:~ o tempo a mqstr~(, não ~em certa nutlícia. que a or- siçàq. Mas uma coisa são os elementos, não rnro de grande valot', de
déttJ rcttl coutrnUiz a ordem•lóuica, c se ele vai na expres$ilo ao pon~o que dispOJ1lOS (llm p nrtir:ular em história da fil osofia LFat ada com o
de di;;.er que exis(c en1re as duas orde11s un)a .J;'c\ação "imoer.m'', niio po.. hi:st óda du uteo(ja do conhecirn.t.ntn'')- c out!ra coisa é a sua dispo~
detnOS JOI\lal \i(craln:tC>llC CSSH palavra por Um COIII't'ÍI/1, isto e. p<lr sição em forma teórica, que pre~supõc prccis:tmente a formação. a
uma afirmação rigorosa que adq·uira seu sen~ido não por have1· sido produção dessa teoria.
pro ferida. mas por pt(tonccr de p leno d ireito a 11111 ca mpo teórico
determinado. 1\ demonstra\•ào de j:: andl!re ll\O!tra pelo t'\llnlrário
que c:> termo •linVt!l'$ilo··, nesse oasot;omo em muitos ouvos, é, em O fliz essa d igrf.~Sào Jão-só p nra volt:tr a lvhrx, e di zer qtlc o carú·
Caprial. o lugar de um emprego analó,~ico. sem rigor teórico, isló é, ler ap? dll iço çlu or<i~m de seu discurso teórico Cou ordem " lógicn "
sem o próprio rigor que nos é imposto pela problemál icn teórica q ue das categori a~ ell'\ Q Capilal) só S<! pode pensar sobre o fundo de
sustenta toda a amilisc de ~!arx, c que se impõe llc antemão hawr uma tllorin da /ri,ltória do reâri<:o. que faria aparecer a relação efetiva-
identilicado c dcttnido, para se ler condições tlc ajuit ltr dos títulos que existe enlc{c ns formas da demonstração no discut·so teórico de O
Capiral. por um lado, e; por out ro. as fMmas da demonstração teó-
legí tim os ou da~ lfagilidad~'i de um têflnq, ou me.sn10 de uma ex.prcs.-
siío . Seria f<icil e-stender com êx1to c~sa dcmonsL~raçãu a todas us pas--
rica que lhe são contemporáneas e Jlrôximas. Sob e.~snllerspectiva. o
estudo compa~ado de \>tarx e de Hegel/; mais urna vez indispensá-
sagens que demmtdcm uma interpretação de CCII'tespondéncla biti!IÍ<'<>-
ca bm?rtida emrt! os termos das duas ordens.
vel. Mas esse estudo oào esgota o nosso objeto. P orque soniJ)s fte·
qüentemente advertidos, por suas referências incessantes a outras
DE ··o CAPITI\L." .J. FILOSOFIA DE MAKX 53
LI!R O CAPITA L

despeito da escrita de Marx, a seqilência e a lógica próprias desse


formas de demonstwçiio além das formas do discurso filosófico "- discurso s ilencioso; se nos nconteceu identilic:lr c preencher seus ~S·
de <lUC Marx recorre wmbém a formas de demon~tração tomadas às paçOs em branco; se tivemos a possibilidade d e substituir a lgumas
maumâticas. :l jí.rfca, a química, à a.ftronomia, etc. Estamos, pois, de $Uas expressões ainda hesitantes por outros termos mais rigoro-
persistentemente advertidos pelo próprio Marx do caráter complexo •os, nào fomos muito lo nge. Se pudemo' c;tabelccer, com provas
e original da ordem de demonstração que ele instaura em econom ia s uficientes para o anrmur. que o discurso de Marx é em seu pl'inci-
polltica. pio estranho ao discurso de Hegel; que sua d ialêtica (o posfácio a
Ele mesmo o declara, em sua carta a La Châtrc: "O método de identi fica com o modo de exposição de que fala mos) é inteiramente
anci/i.<<' qu<' empreguei e que não fora ainda apli<:ado aos ptobleJf<a.r e- diferente da dinléticn l:legeliana, não teremos ido muito longe. Nilo
(0 /IÔmicas, w rnn muito árdua a leiwra do.r prlmelro.t c:aplwlos..." (In-
teremos idn ver onde Marx adquiriu esse método d~ análise que ele
drí com•> p rcc,.istentc. Não nos pror>omos a questão de saber se
trodução à Edição Fritncesa). Es.~e método de análise de que fala j\1n~x, em vez de o tomar emprestado, não terá propTiumente illl"~n­
Marx coincide com o " modo de exposição" ( Darsre/luflg.lwel.re) cit a· uufo e'se método de análise quo supunha ter apenas aplicado, como
do no JlOsfácio d a segunda ediçflo alemã (1 , p. 29), e que ele distin- invel)tou in1egralmcotc ~s~a diult!tka que em vüritis passagens, co-
gue cuidadosamente d o "modo de investigação" ( Fc>r.rclrullgswc/;·e). nl)ecidas e mui tí~inro ruminadas por intéq lretes apressados, ele nos
O "modo de investigaçffo" é a pesquisa concreta que ~1 urx efetuou d~da1·a ter ido buscar em He~el. R se essa anáil.H' e ~.<la cfinlérica ,j<io,
du ran te nnos com buse nos documentos exislentes, e nos fatos que como pensamos, uma $Ó ~· nwnnn coisa, não bosta, para e:cplicar sua
elo:.s atestavnm: essa pesquisa seguiu linhas que desaparecem no re- proo:\ucàS> of'igina J, assinahu que ela só foi possível ao preço de uma
sultado: o conhecimento de seu o njcto, o modo de produçfio capita- rup,urra com Hegel, rnns impõe-se tamb~m exibir as condi1;õcs positi~
lista. Os protocolo.~ da "pcsqui~a'' de Marx estilo em parte contidos >as dessa prodllçíio. os modelos positivos possh·eis, que, refletindo.se
em suas notas de leit ura. Mas em O Cnpitfl/ esta mos di ante de co(sa
na conjuntura teórica pessoal a que sua história conduzira Marx,•
inteiramente diferente dos processos complexos e variados, das produzir-a m em seu pensamento es~u dialética. Isso, não estamos em
''tentatlvas c erros" que toda pesquisa comporta, e que ex.primem, condiçõ"s de empreender·. C-ertamente, as diferenças que ressaltamos
no n(vel da prádca teórica do inventor, a lógica própria do proces.w
de sua dcscpberla. J;m O Capital eshun os dianle da exposição s islc· podem scn ir de índices e de o ricntaçfio teórica para em preender essa
m;ili~-a, da ordenaçà? apqdítica dos conceitos nn próprin forma des-
no"a pesquisa - mas não ~cria csle o conlcxl<> a propriado.
se d iscu rso dc:nHlfiSltalivo que é ; aJ!álwe 'jle que fala ~~arx. Don de Há muit2. ru·obabilldndc d~ qUe, se Mm·~. Gomo eremos poder
vc:m essa, an~Üsc que ~ia r~ devid ad rn ibr como ·pfl!cxistcnle, dado
qu.e (eivindica só a apficacno à econorni11 po lítica? 'T'rala-se de ques- pensar após c~sc prü nbiro esl'orçQ de leitura lilospfh•a, inventou inte.-
gra\rncnle um a forr\la noVa de ordem de a núlise d•!monstrativa, o
lâp que \evant11mos com<;> ,indi&plms;l.v~l)>a.rcy n comprcensào de m.esmo cJcnl,teça f' ~TH1iodn dos grand!!S i.nvenwres 11:1 hi~tóriu do
M nr-.,,. t . ~ q~o~at não1 esta mos e!l'l eond1çm•s de dar IUI\~ re;>I>Osta t~ári1·o: é preoiso tempo p:vu que ;J, des(;oberta deles seja simples·
cxuusttvn. mente l"ecónhcoida, c passe em seguida à rwática cienlífil!a comuin.
Nos~as exposições referem-se freqUen temente a essa análise.
U rn pensado~ <l,lle inaugura c~>Tia ordem nova rro teórico. nou, fo~·
:\ s fonl)as de raciocín,io e de den1onst~ação que ela põe em ação, e ma de upoditidd,ade.. ou de ci<:ntlficidade. solre d•!stino difer~ntc da
c1n primeiro lugar 11 essas e•pressões quase innud~veis, essas pala>TIIS sorte ao 11ensador que inaugUra u ma nova ciértcia. Ele pode ficur
aparentemente neutind, que ~lacherey estuda nus primeil·as frases pur mu ito tempo dcS<lo~hecido, incum pn:enllidp, sobretudo se,
de O C<!flital, e il escuta das quais todoo nós tenl.lu;nos nos oolocur. corno no oasode Marx, o toventor revolucion:\rlo Ira leoTico se áche
Li te1·ahnent.e es~as. p nlnvras transportam, n o d iscurso efetivo d•: O investido e camuflado, no mesmo h omem . pelo inventolr tevolucio-
Capital, o discurso f?Or vezes meio 6ilencioso de sun demonsttação. nMio uu m ramo da ciéncin ln,o caso presenle a oiência da hislória).
Se chegamos a reconsl ituir em certos pontos delicados, a tê mesmo a Corre o perigo de sofrer tanto !).lais essa condição quanto só tenha
parcialmtnle rtfklido o conceito da revolução que ele inaugura 110
H D;~urW instal.lra~o p()r i!>C:St;ft(IC.'i, CfJ)Iicilamente. (;011S&:iento d11 impOttl,nci;.~ c"pi· teó•i"o. Esse ris~o redobra se as relações q ue limitaram a expressão
ta1 da "ordem das tftZÕt:5>'' em lilosoOa comu em ciê:ncilít, e iguJlmente conscient~i:J" cOHceptual de urna revolução que atin.•a o teó,ico atruvês da desc-o-
di;; tin.:;Ão cotr( u Qrdetn do coohceirnento e a. ortlem do li;Cr, nlo ob:;ta:"'le a sua qued11 berta de uma ciência nora, nào se limitem apenas a circunslàr.cias
nurn empirisl'l)o dogmático.
54 l.lm 0 CAPI·l 'Al DE "0 CAPITAL" À FILOSOFIA DE MA RX 55

lodos, dado que essas questões e problema.s foram talhados sob me-
de ordem pessoal, ou à "falta de tempo": elas podem ter a ver antes
dida por ess as resposta e soluções.
de ~~do com o grau de ;~alização das.con_?ições teóricas objetivas,
que comandam a posstbdtdude da fonnulaçao desses conceitos Con. Aludo precisamente ao que está grupado, na história da liloso·
ceitos teóricos indispensáveis não se elaboram magicamente 'por si fia ideológica, sob a rubrica do "problema do conhecimento" ou da
n~cs!l"os por encomenda , quando se tem necessidade deles. Toda a " teoria do conhecimento". Afirmo que se trata no caso de filosofia
h1stor1a dos inícios das ciências ou das grandes fi losolias mostra. ideológica, pois essa posição ideológica do "problema do conheci-
IJUC tl ~OilJun tó e., ato dos eonceiios novos nào desfi la em r>arada, na mento" é q~c dél1n.~ :1\f~di~ão que se confunde com a filosofia idta·
mesma linha: q~te, pelo contrárío. alguns se fazem esperar por mu ito lista ocidental (de Descartes a Husserl, passando por Kant e Hegel).
tempo, ou desf1lam em vestimen tas de empf'<!.stimo an lcs de vestir Afirme> que essa posição do "prob lema" do conhecimento é idenló·
sua roupa aj ustada -pelo tempo que a história não ~enhn fornecido gica na medida mesma em que esse problema foi formulado a partir
ne~ o tecido nem o costureiro. D urante l!~Se jntervalo, o conceito de sua .. resposta' ', como seu exato r·ejlexo, quer dizer, não com() urn
esta bem presente em obras, mas nu ma fonna distinta da do concei· problema real. mas como o problema que era preciso formular para
to- numa forma que se procu1·a no seio de uma forma " iumada de q ue a solução ideol6gica que a ele se queria dar fosse a solução cor·
empréstimo". a outros detentores de conceitos formulados e dispo ní· reta. Nilo posso tratar aqui dessa questão, que define o essencial da
ve1s, ou fascmantes. Tudo isso pa1·a dar a com p1·eendcr que nadn hü ideologia, em sua forma de ideologin, c que redur. em seu principio.o
de mco mpreensívcln o futo paradoxal de que Marx trate o scuméto· conheaímenro ideológico (c por excelência o conhecimen to de que
do de unal is~ originnl como método já existente no próprio momen· fqla a ideoloogia. quando ela rcnctc: o conhecimento sob a forma do
to em que o mventa, c no fato de que pense tomtl·lo n Hegel, no mó· problema do conhecimento, nu da teoria do conhecimcn lo) ~o rcnõ·
mento mesmo em que rompe.sua.s ama eras hegelianas. Esse simples meno qe um r·econlwcimelllcl. No modo de produção leórico da ideo·
parado~o ex1ge um trabalho mtcu·o que aqui mal esboçamos. e que logia (inteiwmente di ferente, sob esse nspecto, do modo de produ·
nos rese,va surp~s as, sem qualquer d(tvida. çào teórico da ciência). a f<>rmulaçãp de um problema nada mai$ é
que a exp~essíío teórica das condições que pcunitcrn u rna solu~·ào já
15. pr<>duóda fora do procc~so de conhecirnc1•to. porque imposta por
instâncias c exigêncins e~trate6rkas (por ' 'interesses'' religiosos,
Entretanto, '!dia~t'll!l;oS bastante esse trabalho de modo a po- morais, políticos e outros). de Je reconhevt'r nurn J>r(>blema artificial,
der el).focar. ,·~lta ndo n d1tercnça "''ordem cnt~e o objeto do con~e-· fnbricndo panl lhe SCI'Vir ao '~!'~mo telfl pc>· de espelho te/iric.o e de
01111ento e o oh]clo real, o p~oblcm~a do qual essa dífc:rcnçu é o fndic·~· justifica.çJo prática. ·~·oàa n filo~olla ocidcnt3,1 moderna. domi ruuJ:~
a.~·eja,çào e?t1·e esse~ dois objetos. (objeto_do c~nhecirncnto e objct~ pelo " problema do conhecimento~>. está assim de fato domi nada
re.tl), relaçao qlte constltlu a JW>Pfln e:w1enc1a do aonheâmento. pela fonn ulaçilo de um "problema·• colocado nps termos e nu ma
Dm•Q ad;jiertil· que cntrn mos cth dornínio de acesso muito dl{!'cil base tc6rícn prodlmidcJs (pouco impocta aqui se consc:ientement.: poc
e.por duas rai.ões. Primeim pocque diSilOil>c>s de poucas balizas inar~ unti c incon scientemente por out.t:os) parn pcrmitiJ os efeitos ieórico·
x~stas para escalonur seu espaço c nos orientar nele: estamos de fato prãticos esperados desse reconheclmelllo em espelho. E.qu ivn le a di·
d111111.e de um problema <l,Ue não só temos d~ l'~olver, ma,s sim pleS· zer que toda a wst.óri~ da filosofia ocident al está dominada não pelo
me.nte ~stabelecer, pqrque nã.o foi até agora •·erdad1•irament~ estabe- "problemn do conhec1mento'', mas pela roluçàfJ ídeológica, que esse
lecidO, 1sto c!, o~o fc>! e~;~unciado s.oore a base da p~oblomálicll e~;igi· "problemn'' d•?Viu receber, isto é. fmposta de unteh'lão por Hint~res ..
d!!!: c nos con~~tos ngorosos t\.\J,_gtdos por essa rroblcmática. Em~e· s~· 1 prátkO!!, çç\igiosos, mornis e polltt~s, estranhos il realida1le do
gcrtdn. - e é. paradoxalmente. a ditkuldnde mais gnwe, porque esta· conhecimento. Oomo o di2 tão profundamente Marx, em A Jd,olo·
mm htc:ralmcnle submersos pela abundânciu de roluções oferecidas gia ,t/emã, " não só na resposta hnvin mistilicação, mas na ~rópria
a esse problema nào ainda rerdadeiramcnte estabelecido em todo o quest•lo".
seu rigor- su hmersos po r essas soluções ecegndos por sua "evicfcin- Nisso encontramos a maior dili.cuJdade. Porque temos de resis·
cia'' . Ora. essas soluções não silo, como as de que failtmos a propcísi· tir~ quase sozinhos nessa empne-..'Hl, às "evidências'' seculares que a
to de Mar!(. respo~tas a questões ausentes. a formular, pn11a ~xprimi r rcpetiç<io. não apenas de umn resposta falsa, mns untes de tudo de
a Eevt>lução teórica contida nas respostas. Trata-se, peto contrário, urnn quesu~o ja/.ra, p1·oduziu nos espíritos. Temos de abandonar o
de respostas a questõe.~ , soluções de problem as perjdtamell/e fo muJ.
56 LER O C.~ PI TAL DE "0 CA PITA L" À FILOSO> IA DE MARX 57

espaço ideológico determinado por essa q uestão ideo lógica, sai( des- ( kUntsterisch), r€/igiosa c pr611co-esplritual (praktischg~i.~tig) de.tte
se espaçO necessariamente fechado (visto q ue esse é um dos efeitos es- li/lendo" ( Ed. Soe. , p . 166. Texto nlcm~o. Dtetz, p. 258) . :\~o se tr~ta
senciais da estn ll ura de reconhecimemo caracatcrísLico do m odo de aqui de penetrnr " mistério des~e con~ett.o de apropnarao ( Anctg-
produção tecirica da ideologia: o círculo inevitavelmente fechado nung) sob o q ual Marx cxprnne a C&jcncu~ d~ uroa r~t~çào flln?~­
daquilo que em o utro contexto. e para outros fins, Laoan chamou de mental de q u e o conh.ecirnen to. a a rte. a rchg1ao c a atn·,dade pr!th-
"re/tJÇào e.rpecular dual"), para abrir, em o utro lugar, u m novo esp:h C<l·espiritual (p11r ~ua vez a dcfínn: mas truta-se pro,·avetm~n te ~n
ço- q ue seja o espaço e:tigido po r uma jus tcl colocação do prnhlema, at ividade ético-politico-ltistcírica) npateocm como modos (\\~~.· s~) ths-
que ittlu prl!]tllgtlt' a Jlla solução. Que esse espnço do "problema do tintos e específicos. A ênfase do te,,to t·ecai de tato na esp.ectllctdade
conheci mento" seja um espnço fechado, isto e. um circulo vicioso do modo de apro priação teór ica (O conhecun en to), relattva mento a
(aqt~ele mesmo da relação especular do reconhecimento ideológico), todos os dema•s tnodos de apropr iação declarados distintos dele em
tocho a história da "teorin do conhecimento" na filosofia ocident al seu princípio :VIas essa distmçào, em sua expr·ess.io, fil~ aparecer
nos dá u vt•r, desde o famoso .. círculo çarte-siano", até o cüculo da precisamcntt! :1 comuritladc de UnlU rclaCáO·C~fO:·O-~JJWUfo re~/. q1,1e.
teleo logia da Razào ltegeliann ou hussetlinna. Que o mais elevado constit u1 o fundo sohr·e o q uul ;e d~sütcu essa chsttnçuo. Com " lO ~s­
pon!o de consdc!ncia e de honestidade sej a precisaluente a ti ngido t~l clnramcnLt:. indh:ado que o conhe<.:imento tem n ver com o mundo
pela filosolia (H usserl) q ue aceiw assumir teoricarnent<:, isto c!, pen· real. através do s~u modo de a pro priação específica do m undo ceai:
sa.t como cssenciul em seu empreendi men to ideológico, H existência com isso e~tá p rcci~amen t e col ocado o problema, do ':!'odo pelo cp~al
necessária desse círculo. nem por isso "/n ,rair desJ·e draulo. nem s.e exerce~~~ pois. do mecwdsmo que assc~urà, a lunç.ao de apropr~n ..
1<1 m bém a livrou de seu <:aliveiro ideológico - como não pôde fazer c;ào dQ mun do real pelo conhc'--jmctt to. tsto 6. por e»C proccs~o de
sair desse círculo aquele q ue q u.is pdnsar numa " abertu ra' ' (que é produ~1o de conhec.imentos qtw, mnbora. ?u ant~ •. dado q11e ele ~e
amtrentmn 1:nte npenas a n fi ~>-dausu ra ide-ológica du clnusul3.), n con-
1
passa imairaJHf'Jdc• rw ~nsauwmo (no se!1~ulo q u~ JU esclure..:cmOSJ .
dição de Jl'l~Sibil idade a bsoluta dessa ' ' clausura" (tln!ure 1, is hl é, efetua no en tanto essa to mada (do conCC:tto: )3egnfl) r o mundo re(Jl.
dn história fechada da " repet ição!' dessa clausllra na rnchlfisicn oci- chamada sua aproprinçào (Aneignung). Com \S.~o csti1 cCJio:nd.h em
dental ; Heider,gcr. Não se sa i de um espaço fechado, ao insl<l lar-se seu verdadeiro terreno, a qu estão de l.illlll teorra d• produçao de um
em seu sirnple.c; exrerior, ninda que esse espm;o scju seu e:nedtw ou conhoo1rr\cn to q ue s~ja. como co nhecitrenlo de !:e.t o bJe!o (ob;ew d e
sua profundidade: na medida t:m q\t!\ es~)adu de {01-a otJ cs.ja pr o" conh~-cimen(o. no sentido que já esclarecemos). capt<tçno. apropr ta-
[undidmlu petlliUIICÇitlll O Seú e~terior' e lttul p{of und!d!ldc, tiicS PCI" .;iio do ob,ieto ""''· do m11ntlo real.
tr.ncem H inca a f'.Js-t círculo. a f.i.)'f ti">IHI<;o fec:hado, cJOmo su,a "'·n~p«!.,
$er:í aca,so l'""css!tr~o o~ser••a r que c..,;n questiio difer~ .•tot!il-
I içao" em .tqu Du: rem . Nilo o! pela rc:pc!IJção, mns pela nii<H4pctiçâo
desse espaçO. l:!\te se ohcg~ 11 escapai desSe cín:ulo : só med iant~> a men tc da q ueltào íueológica do " p ro\> lema d..o _co nhcctme!lln . . !9ue
fuga tecorica montu r~ndnda •. <~,uo p~~>c snmente ,\,Jo s~ja uma ,/itgtl, não se " ata de refletir. de {ora. soore a~ co'i'd tçocs de pos.s •l~tlcdace á
ptiqri q11e .j:War.lwll u possibilidade< do <"Qnhcctmcn \o? S~r~ prectso
;c,npre voltada para ltllllilo de q ue li>ge, m as ljmtt fm tdaçiio ~11dical
no tar <JU< 11ào se tr hta d<>pl> r <rn e<na as persónngons mdtspcnslwets
de urn uo Yo espaç<l, de u ma no\:a pr0 ~ lt:m :i11ca. q ue' pcrtmita cstabc·
a e.~se enred o. uma COilsciência rilosófica (qut ~c ahstcm de pmpor a
leccr o pmblema r eal, desconhecido nu csHutur:a de recnnbedmen to
q ucstiiü dos s.:u~ t(tulos. lugar e fu nção, dailü q ue eln é a seu s pru·
de sua posiçiio ideológica.
pno~ ollt ç.s u RnLàO mesm a, presente dc~de ~ o r,gem em SOIIS ohjC·
tos, e jamais t~r~do a ve1 a não ser cQn~lgu ftlcsmt~ em S\,;a; qutsi:1Q
16.
II'I CSriHt isto é. formulando a questão rlc que ela é de atl\O'V!ÜO a rll.$-
':'l~stu se.;íio dedíN algu mus reflexões a um primeiro esboço flllSIU (;tu·igató r ia). propondd à consci~ncia C1el'ltíl'i ca .11 qucstflc> da~
desse prol;>lemn, sem ocultnr que me ihQit o .a reglstr:í·las tais ~orno cnnd[ç,ôes de possibilidade de sua rela~:lo de con hecuncnt<• 0.0~1 o
são: tão precár ias qttUI)tO i ndispensih•e(i .. seu bbjew? Ser~ necessário ob~erva~ ~ue ~ pe;-;<Jl;agens t~ór1cas
Na l111roduqâo de 57, Yt arx esç, eveu: "O r(>{i". rol como apart•çe postas em c.cnu por esse enredo cdcologtco sao o StlJCitll fl!oso ftco ta
(ersche:nl) !I(J pensammw. " "mo todo de fWIISa!?l<'rrlo ( Gedan"en- co nsciência lílosofnnte), o Süjci lo cien tifico (a con~c•!:ncta sabedo-
ganl.o!s/ é um proclwo da cabeça pensanll·. qu~ s€ apropria (anCJg· ra ) c o Sujeito empí rico (a cnnscíêncin per cebt<lor·a)por um t:c co. c
nct J tio mwrtlo (<lie Well) "" tinico t• pecu/im· !ein7tgJ modo IWciseJ por outro 0 O bjeto q ue se d~fronta com esses ttês SUJ~tt<>.;. o ObJ~t<•
1]11<' fhe seja possível. modo qz,e é di/creme da apropriação ar!í;lico transcendcnLal <lU absoluto. os princlp ios puros da Cl..:n.:la. e 41S ror~
58 LER O CA PITAL
DE "0 CAPil'AL" À FI LOSOFIA DP. MA RX 59
mas puras da percepção: que os três SL(jeitos são por sua ver. defini-
dos sob uma mesma essência, ao passo que os três Objetos são tam- 2) em termos que constituem o concciw da estrutura de conhe-
bém definidos sob umn mesma essência (por exemp lo, como o v~ cimento, estrutura especifica aberta. e que SCJ!IIll ao m.esmo tempo o
mos., sob variantes significativas. tanto em Kant como em Hegel e conceito da questão proposta por si mesma a~ conhccunento- e.•m·
Husserl, essa idemificação dos três Objetos repousa numa identifl- pliquem sejam o lugar e a função dessa questno pel'lsados na postçào
caçâ o contín ua do objeto percebido ao objeto conhecido); que essa da própria q uestão.
distribuição paralela dos atrihuws põe face a face o Sujeito c o Obje· Esla úJ.ti n;a exigência é indispensável para fundamentar a dis·
to; que são por isso disfarçadas, do lado do objeto a diferença de tinçfio entre a teoria da história da produção do conhectme~ lo(ou
estatuto emre o objeto de conhecimento e o objeto real, e do ladb do filosofia), e os conteúd?s existentes. do .cor~h~cunento (as cJen7,1as).
sujeito a dili!rença de estatuto entre o Su.ieito filosofante e o sujeito sem com isso fazer da filosofia essa tnstancra JUridtca que, nas teo-
sabedor, e entre o SL\Ieilp sabedor e o sujeito em pírico'! Que, por is· rias do conhecimento", legisla para as ciéncias em no me de um di-
so, a única relação que seja pensada é uma relação de intel'ioridade e reito que ela a si mesma arrog11. Esse direito nada mais é que ojal?
de contemporaneidade entre um Sujeito e um Objeto míticos, res- consw11ado <la at.uação do reconhecimento especular. que garan~e a
ponsáveis por romar a cm·go. para as submeter a fons religiosos. l:ti· ideologia nlosóhca o rrconhectmemo Judrllco do fato consum,1d0
cos e políticos (salvar a ''fé" , a " mo ral", ou a " li herdade" istq é, vn· dos interesses " superinres" que ela atende.
!ores sociais), de tomar a cargo e se necessário falsi.fkando-as, as con-
diQões reais. isto é, o meca nismo real da história da produção dos Coloc:.i dQ nrssa.r condições rigorosas, o problema que nos ocu-
conhecir]lCntos? pa pode enuncinr·se então sob a forma seguinte:mediamc que meco-
tliSJt~O o pruc~sso do conhecimentQ. que se passa mte,ramente M pen-
A questão que propomos não &e destina a produzir uma respos- Jwnentu. pmduz a apro(lriaç/JQ <'ognili'>'ll de seu oNeto rer1l. que <'Xisre
ta definida de antcmiio por outras instn ncias além do próprio conh~ joffl do pensa_f'<tnto. JW mtmdo real' Ou tntfío, mediante que '."ecmti~­
cimento: Qào se trata de uma questfio fechada de antemão por §ua IIU/ C1 pr<Jdu~a() do objeto da COI!ne~tme/1/0 produz O aprOpfl<1(' <10 cogm -
resposta: não se trata de um a questão de çarantia. Trata-se, pelo liVa di> objno real q ue existe fo ra do pe~samento no "!undo real? A
comrúrio, de uma questão aberta (sendo o próprio campo q ue ela simpl<$ su~stiluição dn que:ltão ideológ<ca das gara1111a.r da po~sl~!·
abre) e que, pQT ser assi111, por escapar à clausu rn preestabelecida qo Jiqade do conl:tec(menlo pela questão do me!'a nil'mo dn apropn açau
círcu lo ideológico, deve recusar, os ;en•ioos das p.;rso nagens teóricas cogn itiva do objeto real por meio d~ t>bjeto de conhecimenll> con -
cqju única funçílo é gn~untir essa cla usut·a ideológica: a.! r ersona- tém ern si <:ssa mulaçã<~ dn ;problemnt(ca que nos hberta do espaço
gens dos diferentes Sujeitos e ObjctQS e as r·eco mcntlaçõcs que clus l'echado da illcolol~(a, c nos proporci ona o espaço aherto da 1eona
1
têm por m issilo respcil:lr para poder·em dcscmpe11 har ~<:us[{>apéis. na filosó fica q ue procunnnos .
cumpltc1dade d? pacto ideológico cele~ ra~~ ent.rc ;•s instâncias su-
preJ"as do SUJCit<• c do ObJeto. sob 11 bénçao da "I.Lbertlude po Ho- 17.
fficml' <)cidenta l. Trata-se de 1111111 q uestão qye se estabelece e de·
monstra como abrrra, em seu principio 'mesmo, isto é, co111q homo- Ames de voltar à nossa q uestão, quei memos ~s eta~as dos mnl-
gêne" em sua<esrrurura de abermra a todas as questões efetivasaprc· c1,tejldidos clássicos, os mesmos que nos fazem em r no circUlo vtcto·
semadas JxlO conhecimento em sua existência cienti ficn: questílo so dn ideo~ugia. . . ..
qup deve exprimir na sua lbrma essa estrutura deabenura , que deve, ,Aeor~·em a rros servir bem <JUente 11 re~post11 a nossa quesl11o.
pQi s, ser proposta 1'\0 cnmpo c no$ termos da pmblemfiticn teórica dir.~ndo-nol. tHI ~oa (ala do pt·agmntlsmo da ·•evi~lênciu" : o tne.ca•
que requer es~a estnpurn de abertura. Em oulraSpaia~'ras, u que~tão nismo pe!Q qt~al a prod ução do objeto do c~nhect~ento_ p l:od uz a
do moda de aprupriação do objeto real, "''P«ífica do conhecimentCI, apropriação cognitiv~ (jo o bjeto real'? ... 0~11, e a P!'\t!Ca! lo la vem o
deve ser proposta: jogo do crjtério da prática! ~se esse pra(o nos dc1xa aind11. com fo-
me, ddo·se <• prazer de variar o cardápio1 e de nos obs~g.u<ar. tanto
~) em termos que excluam o recurso à sol11ção ideológica que quanto necessário p~ra nos satisf3!'er. D1zer:-·n'?s: a pratt~u ca pe..
trazem co nsigo as persooagens ideológicas Sujeito e ObjetQ e a ~s­ dra-de·toqttc, a prát tca du expcrunenta~ã<i> ct~nllfica! a pratica eco-
trutura de rcoonhccimcnto c;specular méttua, no círculo fechado no nômica, pCLIILica, técnica, a prática concreta! pu a1!1da. panl no_:~
q ual eles se movem. convencer <lo Clll'átllr " marxisía'' da resposta: e a prat<ca soawl! 1:,
60 LER O CAPITA l. l)r, " O CAPITAL" A FILOSOI'lll Of. MARX 61

para "colllrnpcso'', a prática social da hunwnidade r~petida milha· a ressurreição de Cristo, a virgindade de Ma ria. todas us "verdades"
rcs c mi lhares de ve~es, duran te milhares de anos! Ou ainda nos set· da religião. todos os preconceitos da "espontane1d~clc" hun1ana.
'em o desastrado pudim de Engels. a quem M anche.ster teria filruc· isto é, todas as Hevidências" adquirida.t, tan to as mats respe1tft~ets.
dde> este argumento altmen tar: "a prova do pudim é q ue n comn· como as menos respeitíwcis dH ide•>logia! Sem falar dn arm~d1 lha
mos.~· !
que idealism o e pragm atismo armam um para o outro, na cumplici·
Devo obserl'ar de inicio que esse gênero de resposta poy~ \Çf dad~ do seu jOgo que obedece ri~ mafl'lllf rfKfll$. Com que direito
suu oelicúciu, e deve, pois, !'>er e111pregado, quandl.) :su tratu dl! comba· afirmas que n pr:ítica é o d ireito? per~ unta o idealismo no pragma-
Ler a ideo logia un terreno da ideologia, c portanto quando ~e trata tismo. ü teu direito não passa de um fato dislarcado. responde o
de lutu idcológi~ no sent1do estrito, porque é umJ resposta idtol6ffi· prngrnatismo. E eis· nos na roda, que é o círculo fechndo da ~uest~o
<'<1. <JUc se situa JUStamente no terreno ideológico do adversúrio. ideológica. Em todos eses casos, a regra comum que pcrrrute esse
Aconteceu cnt g randes circunstâncias históricas. c pode aconwoer jogo é. com efeito. a questão da gantmia do acordo cnttc o conheci·
que sejamos obrigados ou levados a combater no terreno do adver- men1o (ou Sujeito) e seu o bjeto reul (ou Objeto). isto é, a questão
sário ide•>lógico, quando nào o pude<mos atrair ao nosso próprio ideológica em pr.ssoa. • .
terreno o u que ele não esteja maduro para ali C!guer a sua tenda, ou \>tas deixemos ~.qsa r:lllâO geral e passemos às rar.ocs paruculn·
que seja noocssário desoer 110 seu. Mas essa })rát(ca, e o modo de em· res q ue nos cotoca,íio dinnte de twsso objeto. Porque hasta pronun·
preg,o de argumentos ideológicos adaptados a essa luta, dev~ consti · cinr a palavra prárica. que. tomada ern sua acepção ideológica (idea·
tu ir o~jeto de urna 1eor/a, paru que a luta ideológica no domjnio da lista ou emph·ista), é tão·so menle à imagem espelhada, a contraco-
idco lol!ia não S~Ja .IITHI Iuta submetida à; leis e vontades do adversa· no tação da teoria (o par de "oontrllri(ls" prát ica e tcorin compõe os
rio, pat·a qu<! ela 1úo nos transforme em plltos sujeitos da ideologia tennps de um camp<;> especul;u).J?ar~ nwelar <'j<~go ~e_palriVt'as que
que ~emÓs de combater, Mas ac1·escentare1 ao mcso tempo 9ue nã0 é nela. se encerra. Devc·se xcconhecur que n:io ba pratiCa em geral,
surpreendente que esje gênero de t·esposta p;agmariJia nos deixe in· ma.' práliaas di.rlimas. que nâo e&t ilo num relacionamen to maniqueis·
sotost~itos na nossa qut.>tâo teórku. J>Q<Iemos mostr:i·lo mediante ta com nm~ teoria que l~cs seria cmnpletamente oposta e estranha.
uma l'aLiO geral. e llll!dianw ra,:z.óes pnl'iicu lare.s, todas elas hnseadns Pm·que não h ri, de um huJ~. a '·""~ia, 9uescl1ia apenns pur:1 ~isàu in·
no mesmo pri ndp;o. telec~ual sem corpo nem rnntenulnl :tde. e de o lit ro Ul\la prattca mt~J­
De rntp~ <? pu,gmatismo, \C IH $Ua CS$Üneiu, Htz nossa qul!stiit> rnmcntc matc111a,l flUe \'pu s~:Sse a tnil o n:t massa". Ess~ dicotomia
dt$çmnb,J.I na iUcul~ia, da~dp·lhe '"!'", rcs~ns1n ideológica. O nilo pa~sfl de mllo ideol@z,ioo, mn <1'~" lima "~ec·ria do conl!ecime11"
pmg ll'!a\IS!llll '"llldn flla)S (11~ do que ptrU[ ;J ptocurn de IIIIHI gdtrlll· w'l JCI~o:.te rnuitos o u tro~ " mlerc~;scs' eStranhos aos d~ I azao; os <lu
tia. tal COtf\O a idculogía da "h:ol'in <hl COIJJ\ecnnenlo'' ~deall$ta , A (t· divisão social do tndlltll).o, muno preclsiunentc pma dMsilo ~.nh'e o
Jli(la dif~rcnça é que o id~-a!iSJ1,10 clássico não se <:Cinter.tn ~0111 uma poder (poll~i~, religioso, ideológico) :>a o~Hcs~ilo (os_executanh!~,
; .uanda de jàtn: ele quet· U!Y!a gar:mu~ dl' di;eiw (n ~1ual 1ahe111QS que sà<J também os e;<;eoutados). :vtcsmo qurnt~o e:;sa 'dtcotornlll cstú
'n~o passar do revestimento jurídico de uma Situnção de fato), c sua e a ~i!P\(iço Ce um a ,_.j:;fl() tC
!JJoluoiomll'ia qu.: exaltu n causu dos Ltab3.~
funçiio - ao pH!iS<l qllu o pragmnli$1110 parte :1 procura de uma ga. lhndorcs, de S<:u labor, de se\tS solritnentos, de suns lutás u e~periên­
l'llntia de fa to o Pxiw d:t prática. queconSIIIIIÍ n~o raro o Ul).eocon· ci.a. na p roclnmo~íio ~di fcrucc.neiada do Jll'imaqb dn pnátiça, cb1
toúdo ai ribUil'e ao que se <:IHtl)õa de "a:itérin da prática " , s~,a como pcr n;~anece amdn idoolúgicH: •!~lltamcnle como o comun1smo lf,l,a/tJ
ror, s~~·•'tm·nos uma garantia, que é o lndi(lo! irreftll:lvel da resposta r ari~ ta~ ainda urna COilC<:pçal) id«tlúgko do objetivo do movimento
i: da qltc$l!~' lrft•olôgicas, ao passo que esta~o> à prO'éurn de um 11ft'· operário. No sentido próprio. uma co11capriia lgualúatisw da pr(ii/,ia
•'alli~""!U( O oel? tl r{!:'-lmt:n to de que a pJiovn do pudim 6 que o coma- .. e o d igo oom o tcspcilo p1·o rundo q1!e todo tnarxtst:tdel·e à Mpe-
mo$:{) que nos inte-tcS-sà é o me(fa/liJ'mo quu nos Ut:wgtwe que é rtal.. riên~ia e aos pcrlficio~ dos l}"""'"s CUJO trabalho. soft~rncnLOS e 11...
menw pudim o que estamos cmnendo, e não um 11lhote de ekfan tc tas nll tl·em e sustentu m todo o nosso p•·~en tc c 110s~u lut un). thdas
em bunho·ma(ja, quando pen.<cmws comer o nosso pud1m da ma- ns nossas ruzõcs de viver e ter esperança·· urn a concepção igualita·
nhã! A bela. evid~n(')a q1u: a comprova pelll repetição du rllnle cente- rist<~ da pr:ítica é para o malerialisrno d ialético o que o couwnismo
nas ou milhares de >llh>S d:l pnilica ~ocinl da humHrlidnde (essa noite i(1ualitarista é pata o comu uismo cient ilko: uma coucepção a criei·
em que todas ns pt·áticas silo nepus)! Dut-antc centenas ou milhn~s car e a ultrapassar. para inaugurar em seu l ~ga~ cxnto uma cone~·
de anos essa "repeliçâo" produr.iu, por exemplo, "Hrdades" como ção cienlifioa da prâtica.
62 l.P.R O <:APITA L DE "0 C::f\PITAL" À FILOSOFIA DE MARX 63

O ra, não existe concepção cientfllca dn práüca sem uma e• ata cias: uma ve,z que estejam verdadeiramente consti:urdas e de:;cnvol-
disti nção das práticas dislint.as1 e sem uma nova concepção das rela- vidas, não precisam absolutamente ?,a ~omprovaçao de pnlttcas ex-
ções en tr·e a teoria e a p rática. Afirmamos teoricamente o p rimado tu/ores para declarar "verdadeuos , 1sto é, conlrecu!'ento.t, os co-
da prática, mostrando que todos os níveis da existência social sào os nheci mentos que elas produzem. Nenhum .matemátrco 1.1 0 mundo
lugares de práticas distintas: a prática econômica, a prática polltica. espera que a llsica, na qual contudo são aplicadas partes wte1ras da
a práticu ideológica, a prática ttcnica e ;J prática cientflica (ou teóri- matemática, tenha comprovudo um teor~ma para Q çlççlarar demons-
ca). Pensamos o conteúdo dessas diferentes pníticas ao pensar sua trado: a "verdade" de seu teorema lhe é fo rnecida em -100% por ?n·
estr utura própria, que é, em todos os casos, a estrutura de uma pro· térios puramente Internos da ~r~tica da de~onS!J'liC~O matemática,
dução; ao pensar o que distingue entre si essas diferente.~ c~uuturas, e por tanto pelo critério da ptattca '?atemátrca, rsto e, pelas f?rm as
isto ê, a nature1.a diferente do ohjeto ao qual elas se aplicam, de exigidas da cien ti ficidade matemát1c1.1 cxrstente. Podemos d1r.er o
seus .meios de produção e das rcla~ücs nas quais elas pro duzem (es· mesmo dos resultados de q ual quer crênCJa: pelo menos quanto à,s
scs dHerentcs elementos, e s ua combinação - Vetbindrmg - variam mais desenvolvidas, e nas regiões d o conhoc~rnento que elas,dom•·
evidentemcnLe quando passamos da prática econômica à prática nam de modo sulici~nte. elas fornecem, por SI mesmas, o crtteno da
politica, e depois à p rática científica e à pr·ática Leó rico· filosófica). validâde de seus conheci mentos- critério esse que se confunde total·
Pensamos nas r·elaçõe• de f undação c d e articulação dessa~ difcren· mente com as J'orma~ rigorosas do excrcfcio da pnltica cientJiica
tes pdtic;ts u mas sobre as outras ao penS<)r em seu gtau cll! lncl<?pcn· considerada. Podemo~ diu:r o mesmo das ciências "e~perimentars"·
déna/.a, seu tipo de <IIIIQnomia " relativa" por s ua vez lixa das por seu o critério de sua teoria são as experiências, q ue const.t!u"!ll a forma
1
tipo de dependência ern comparaçilo com a prática "determi nan te em de sua práti ca te?, icu. De1•em?s d izer o. mesmo da crencru '!ue no.s
ú.ltint a instftncia" , a prática e0onilrnica. Mas va mos mais além. 0ão interessa ao máximo: o materrahsmo hrstónco. Pel<r fa to de que a
nos cont entamos com o s uprimir o mito igualit!u·ista da prática ;
teoria de Ma~ ern " verdu?eirn" é q\~e ela pôde sor aph~ada cor~ ~­
conce hcmos em bases ro tahnente novas a relação, mist ificada nu xito o nílo por ter sido apltcuda com ex..rto que ê verdadeira. O crllc·
concepção idealista ou empirista, da teoria c da prática. Considera- rio pragmático ~JCide convir bem a uma ttcniC'.a que só tenl~a como
mos <1uc, mesmo sob formas muito rudimentares, um elemento de hori2ontc 0 ~eu ca mpo de excrcfcio ·- mas nào. a conhecimentos
" conheci men to", embora p ro fundamen te rnpre,gnado de ideologia, cicnttncos. Devemos obrigutoriamcnte ir m nis Ul<:m, .e nos r~cusar­
j;í está sempre presente n os primeiros graus da prática, a<t uulc~~ue mos u assimila ~ mais ou m<:ru>s i~;~dirttamente a teona !1':1rx•st n d,a
podemos obscn •a r desde as p rát\t:!tS de sub~iiténcia das socicdade.q histq ria uo modelo empirist1i de uma "bip~te,se" a}c;atorra, de que
mais "prin~it l vas". Cqnside~a m os, no o ut ro extremo da histqr,ia , fosse prto<:)$1) ~spemr 11 comprovaçãO pela prauc;a.Jlolt~rca da lusLór.ta ,
práticas , r:omo as que comu mente se cl:lamam teoria, em suus fonnas ·para )Xlder afirmnr~ua " verdade" . Nilo êa prntrca ll1stór1ca ulterror
mais '' purns' ' 1 parcoeq. pôr em jogo apcn~~ forças do pensamento ·q ue pode dar a o conlwc,imelllo q\•e Ma~x produ?;iu os seus rítulor de
(po r e:<,e mpln ma tel)láticn ou tilosolia), e (o ra de qua lq ú.er rd.~ç.ào conhecimento: 0 critério da verdade dos ~:ouhecrmentos produr.1dos
1
dir·et;• com a •prática concreta' ' , teorin que é no sent ido estrito tm!(l pola pr·á ticlt teórica de Marx é fornecido em s~a própna pr~t~c~ teó,.
·prática, a prática cicnt(fica ou teó~ica, por sua l'ez divisível en\ di ver• rica, i.sto é, pelo valor demonstrativo, pelos lltulos de c!erttrhcrdade
sos ramos (as diferentes do!noia~, a matemática, a (ilosof'\a). l!ssa das formas· que asso:guraram a produção desses conhecrmcntos. E: a
prátiça é te6rü:a: é distinta das demais práticus1 n,ão·teóricus. pelo prátlcH teórica de Ma rx que t:ohstit\ •i o critério d a " vei'Cinde" dos
tipo d e> o bjetp (maté~ia·prima) que ela tr~nsformai 11clo tipo de conhecirnentos produ2idos por M arx: e é porq~c se tratava rculmen·
meios de producílo quu ala JlÕC ern açã(J e relações s6dc>-hist6Jicas
te de conhecimento, e não d,e b.ipóte.~es aleatélrr.as, que eles de•·~ m.os
nas quais ela prpduz; e ent'im pelo tipo de objeto q ue ela produz (co· ro:.quJtados conJ?.<cidos, c não são npenps os l!.xttos, mas os propn?s
nheci mentos).
fracassos 11ue constit\letn "experiê~cias" p~rtrncntes para a refluxao
F ala r d,o erit~rio da pJática em matéria de teoria adquire então, da teoria sobre si e seu desenvolvunento ~,ntcrno.
como de resto em qualquer outra pnítica, seu sentido pleno: porq ue .• Para que não h aja equivoco sobre o. q ue acabo de afir'!'ar. ~ro.
a prática teórica é bem por si mesma seu próprio critério, contém curei em outro lugar dcmon$trar exaust1varnenre que essa 111tenon·
p recisamente ~A) Si protocolos deter minados de valftfaçào da quaoli- dade ~nd ic;ul do critério da prática à prática cientifica não exclUL, ab·
dade de seu pro duto, isto é, os critérios da cientificidado dos produ- soluta mente, nas ciências em que elo vale sem restrição~ relações or·
tos da prittica cicntíficn. O mesmo acontece na Jlrática real das cién-
gfinica s com outDas práticas que fornecem a essas crêncms boa parte
64 l.ER O CAPITAL OE "'O CAI' tTAL" À l'l l.OSOF tA DE MARX 65

de sua mat~ria-prima, e chegam não raro até a provocar rcmaneja· nbecimento. Neste ponto é que os grandes perigos são ameaçadores.
rnentos rna1s.ou menos ~rofundos na estrutura teórica dessas ciên· Há de compreender-se que eu nào possa ter a pretensflo de dar, sob
Clas. Jnd.tqucl en1 termos mcquivocos que nas ciências em gestação, e n mais expressa reserva, muis do que os pnmeiros nrgumentos de
oom rna~~ forte .razã'o n~ regiões ainda dominadas por um "conhc· um esclarecimento da questão proposta, e nã o a sua J'esposta.
cuncnto 1deolog1co, a mtervenção das outras pr:lticas desempen ha
quase sempr~ um papel crítico determinante, que pode inclush·e ser Para formular esses esclarecimentos, devemos começar por
revoh.:~ct?nárto. Ma~ no caso t~mbé m, não se trata de ;~fognr numa uma disli1\çào irnporlantlssirnr.. Qu:tndo Jll'opomos a qut:Stào do
concepça~ ~~uahtaflst~ d:r pr:!Ltca o modo de interYenção específica
mettlnismo <~través do qual o objeto <h> coohecU'ncnto produz a a pro-
de ~tma ~ratwu dctcrnunada no campo de cen a prática teórica. aip· • priaçâo cognitiva do objeto réal, propomos uma questão inteiramen-
da 1deolog~ca, ou em t ransformação científica .. nem n função rign· te diferente da questão das condições da produção dos conhecimen-
~osa dessa rntt:rvcnçâo. nem sobretudo aforma (teórica>na qual essa
tos. Esta liltirna depende de uma Leoria da história da prática teóri-
;ntervenp~o se efetua. Sabemo~ bem, para tomar seu cxcmJ>lo, que
ca, que só ~ possivel, corno VÍJnos, quando se recorre a conceitos <juc
as ~xpe~tcnçuts Jll'állcns mms ardentes c mais pe~sou is de Marx (c~ · permitam pensar a cstrutuw dessa prática e a história de suas t rans-
pcn~nCJa dc polemista ''.obrigado n opinar soqre questões práticas''
formações. A q uestão que propomos é uma questão nova, que pas-
na Gazeta Rena~111; expe~i~ncia direta d as prU'nelras organi2a~õcs de sou em ~ih!ncio na O\ltra. A teoria da história do conhecimento, ou
luta do prolct.arlaclo panSiensc; expenéncia revolucionária nos anos teoria da hrstória da prática teórica, dli-nos a c•>mprecnder t'Onw são
48) •nfl~íram .n:1Sl!a prática teórica, e no transtonno que a fez passar
pr·oduzidos os conhecunentos humanos na históriu da sucessão de
?a prãt1.ca teonca Jdeolóf.lCa à prática tcól'ica cie•" fllca: elas, porém. difercnles modos de pro'dução, primei_rfllllellte sob a forma de ideo-
logia, e depois sob a forma de ciência. Ela nos faz assistir ao apareci-
'"!crfenram na s,t.~a prát~cn le6•·)~a s'lb, r• forma dQ objeto•· " '' '-I< f"''
fl~llaiO, de eJ<j'l'l'l!llei'/IUf(JO, 1St'i' c, Sllp R forma de n ovos ohje/Q.I de
mento do contwcirncnt,os, ao seu desenvolvimento, à sua divcrsifica-
pen.,~memo, de "idéias:·. deRoi~ de conceitos, cujo surgimento CO<l·
çíio. às IUpturas e subversões teóricas inter iores à problurn:ítica <1ue
tr•bu• u. em sua combmaçà(J ( Verbindungl com o utros resultados lhe rege a produção e i• partilha progressiva que se instaura no seu
conceptua1s (onundos da nl<;>~Qfin alemã c da ec<)n~nn ia política in- domínio en tre os conheciment os ideológicos c os conheeimeQ-tos ci-
entllicos. etc. E.~sa histúrin toona os conltecimentos a cadn momento
gle,<;a~ pm·a subverter a base teórica, aindn ideo(6gíctt, sobre a qual
ele l'lvcra, (Isto c, pqnsaru) até QnWo, de uma his:ória, pelo 9ue 1111-s ·"'"· quer se declarem ou não cón hcci·
menlos, quc1· iieia,m (deo(6gicos 0\1 ci~:nlificos, etc.: tomiN I!' par t'o-
18. nhecimenl45. Ela <>f co n~Jd11ra unicnmel)ie co mó f!roduws. como re-
suhnd():>. Esta histor in nos proporciona a e~ ata oorn prcensâo d u me-
. . E.sta c ? ull'as diwcssôe~ tor~aram-sc irdi sre~~·h~i p;l;n remó- caniswo da' produol'âo dos col)~tecimentO$; não nós Clá, parn uln co ..
vel os ohstaoulns das respostas tdeológro-as 3 nossa qucstãll: J paru nlreci l,lellio ex ístllnle em cervo mo mento do processo dn J~istória de
ta nto, exp:tcarmo -nos sobre lumu concepção iP,eológhln da práika sua produção, a compreensão dp mecanismo po!lo q ual esse conheci-
(lue nem sempre poupou o próprio marxismo. r: que reco;)hecidu; mento COnsiderado, realiza para nqueJe que O manipula COmO CO•
mcnt.e pa~ra no alto, ~~m dtjyidil po~ muilo tempo aind~. sobre a fi- nhecímeolo, su(l {.unção de apropriaç;1o cognitiva do objeto real por
losoh<~ contcrnporfiJtea, c sobr~O$ seus •·ep<esentames m:l l$ honei>tos meio de seu o hjc o pensado. Ora, bí ustamcnte esse mecanismo o que
é ma~-; gentt:osos, co mo S;idre. Chegamos - evitando essa enul')I2Í· nos inte-rc-~sa.
lhnda d,a pr:ltrca •gualit:i(iül ou da "prá~i s", como é normal di~er em
Ser:\ pr~ciso esclátéécr ainda u lrtoss:t questão' 'C nia teoriu da
r.JoS<JI1a .. :l !e~<1n hecer qu1: só 1'esta dia nte de nós um ca 111 inhr1, e,~·
lretto. sem duv1du, 111ns a bt;;to. ou pelo mcnos'ern lias de aluir. Vol- história da produção dos conhecimentos 1amnis nos dá rmtis rio que
uma constataçãoo eis med(aptc que rnedanismo os conhccirncnLOs
temos, P<•ís. it 1'\0~sa questão: mediante que m~armfsmu a produçiio são p•·oduzid<•s. Mas essa oonstat~çào toma o conhcci mel\tO contO'
do ohj~t() dq t'fJnJi•cim~lllo p1·oduz n apropriação cognitiva do ~b}<'IO útn fato, do q ual estuda as t ransf<mnações e varinçõcs. oorn() efeitos
•eal CJlle existe fora do pensamento no mun do real'' Falamos de um
mecanismo, mecanismo este que deve fornecer-nos a explicação de da estrutuw da právica teóricn q ue os produz, como outros tantos
um fato especifico: o modo de a propriação do mundo pela prática produtos, guc são conhecimentos- sem jamais re{ietir ti falo de q11c1
esses produtos niltl .1ào produtos quaisquer, mas justamente c:onheci-
especifica do conhectmenbo que recai inteiramente sob re o s~u objet() memos. Uma teoria da história da produção dos cot;thccirncntos não
(nb)eto de conh,eclmento) distil)!to do objero real de que ele é o oo-
66 LF.R O CA I'ITAL
DE "O CAPITA L" A F ILOSOFIA DE MA RX 67

surgido das fo rmas mais concretas do real, da vida, da p rática, isto


explica, pois, o que pro po nho chamar de "~feiro de conhecimenw'', é, perdendo-se nelas, idêntico a elas - um efeito de conhecimento
que é a caracteristica desses produ tos particulaJes que sfio conheci- original de que os objetos cientí ficos mais "abstrato~·· trariam ainda
mentos. l"ossu nova q uestão refere-se precisamente a e.5se tifeilo d~ hoje a marca indelêvel, voltados que estão a seu desuno , condenados
conlu•â mel/lo lo que Marx chama de "modo de apropriação do mun- ao conhecimento. Será preciso situar a problem!ttica q ue pressupõe
do próprio do co nhecimento"). O mecanismt'> que nos pwpo mos esse ·•modelo"" Pressente-se que se imponha para a sua consistência
elucid ~ r é nquçle que prod\lZ esse cfçifQ de c·onhect'menliJ ncSS6S pro·
o auxílio do mito da origem; de uma unidade originária indivisa en-
dutos ontetramente pnrt iCu!ares q ue chama mos de conhedmentos. tre o su}âto c o obJero. entre o real c seu conhecimento (sejnm eles de
No caso ainda, eis-nos diante das ilusões a dissipar c destruir mesmo nascimento, que o conhecimento seja, co-nascimento como
(pois j umai; escaparemos ao destino de termos de constantemel)"te o diziu um homem sobretudo versado nos efeitos de teatro); • de
afastar falsas representações, para desobstruir a via que a bre o esJ>a- uma boa gê11ese. de todas as ab~·lraçii•s e sobretudo me~ia,•iies ind is-
ço de nossa pesquisa). P<nlemos ser tentados, de fmo, a rclaciOI\ai às pensáveis. Teremos reconhecido de passagem um conJunto de con-
origens o mecanismo que procuramos elucidar; dizer que esse efeito cei tos típicos, que a filosofia do século XVIII d ifundi u pelo mundo,
de conheci mento que se cxeroe. a nosso ver. nas formn~ puras de cer-
e que prospcrnm em quase todlt parte, ii1clusive nas o hras de esp~
ta ciência rigorosa. no~ vem, por uma série inifinita de me•dia~ii~.r. da cinlistas marxistas - ma:; que se ~de garantir com certeza St!l'em ta-
própria •·ealidadc. Assim é q ue. em matemática, somos tentados a lhados sob medida para ns funções ideológicus <l ue deles·se esperam
pensar no efeito de conhecimento desta o u daqucln f{n mula sobre- c q ue nada têm a ver com Marx.
modo abstra ta como eco pur illcado e formnlizado ao ext remo desla
ou daquela recaiidade, seja ela o espaço concrc:to, S<!jam ns primeiras E já qu~ chegamos a esse ponto, digumo-lo claramente: não há
maniJ>ulaçõcj e operações conc~etas da pr4tiqa humnna. Há de! ad· de ser na via desse empirismo, quer se declare materialista ou se
miti~·se que em dndo momento intervenha. entre a prnlicn concreta subli me m•m idealismo do pré·prcclicalivo, do "solo origin:i-
dos agrimensores e a abst ração pitagórica o u euclid iann, um "dcs" do", o u da " 1>ráxis" -· nesse idealismo e nesses conceitos q ue ele
locamento" (décult~ge), mas se pcnsar<i nesse deslocamento como fabricou para desempenhar os primeiros papêis no seu tea tro, que o
uma d ecalagem, e urn dcc:alque, no elemento de "idealidade''. das ma r,\Ísmo poderá um só instante se achar ou reencont rar. Os concei·
fo r,ma_s e dos ,g:e~tos c?ncrctos de umn pr~t!<:<t antedor. Mus tod os os to~ de origem, de " solo origin<\rio'' , de gênese: c mediação devem ser
CO!lc.!llO~ j)C)StOS Cll) .Jllg!i) parn e?lp~ca~ O llllCIISO CSpU~O que separa tomados n priori como suspcit0s: !liío s<i porq ue ind uzem sempre à
o c?nt abíli~ta <;3-ldcu c <J ugl'i~nell,1P~ egip~w de: Bourhakjjarnais pds.. ideoloJ!iia q11e os J>roduúu, como porque, produzidos unica.mente
~arao d e conccJIO.~ pelos qum~ se tenttll'â utstnura r, sob as difere nças para uso dessa ideologia, são sens nômades, lrazcndo·a sempre:
incont.esl!iveis dignns ele s.er~m. pens:~das, un;~a cpn ~i nuidade de senti- muis ou rnenos neles. Nào é por ;~cuso q ue Sartre, c w dos os que,
do, qu.e:. a.nc.o1;t em seu pn nc1 p~o ~ e}ll/IQ,de conlr"'·"~'l'(llrl do,~ obj~tos s<:m po~sui ! o seu t alento, tendo necessidade de preenohe( um vazio
matemnllcos moderr!os em u m .el~tode scr11Jdo cmgmário, identi n- entre categorias •--ab.rtrara-s•t e o "concreto'\ cometam cg;ic el;'ro de
cando-se com um obJeto real o~1gmáuo, umn r>rá t1ca concretn, e g~;S­ falar cnl orig~m. gPne.1e e medidções. (l conceito de origem tem por
tos concretos origin ários. H averia <~.ssirn UJ:I'la ''terra natal ". u m "so· funç:lo , oornu no pecado o riginal, assumir numa expressão o que
lo ol'igin:lrio'' do efeito de conhecirncntm seja ele o pi'Óprio objeto nfio se deve ~nsar parn poder pensar o que. se quer pensar. ~~ con-
rea,l, d o qual p cn1pir(smo declara que o conhecimento apenas e~trai ,ceito de geo~e tem por !'unção pór em ação, paru us camuflar. u ma
uma d as pa,rtes, n essência; seja o mu ndo " prb.rellexivo•· hussel'lia- p•·oduçilo o u uma mutacão cujo recon~1ecimento arneaça1·ia a oollli-
no da "vida'\ a síntese pnssiva p rc·prcdiculiva; $eja r.l'lalmente o nuidade vital do esquemn e,mpirista da hi stória. O conceito de me·
conereto das condutas e gestos ekmenllu·es, em que todas as psico· diaçào está investido de uma última.função: assegurat de modo rná·
logias da crinnça, genéticas ou oulms, se dãq a bllixo cusi<J> o luxo de gico, nu m espaço vazio, a terra-dc-nínguél)) (ntr·e prindpios teó ricos
fundar sua " teoria do conhecimento" . Em todos esses casos um o ri·
ginário rea l, cotlcreto, vivCJ, deve nssumir para sem pre a r·es~onsabi·
!idade integ1·al do efeito de conhceim~nto, do qual a~ ciências ape11as
corne:nta m a hera nça, como o têm fe1to e.m toda a sua histó~ia e 0 fa· -11 Ahlll15.st:r rcferc•S~;: ~ c::1prc:ssão de MJf"el. )Jata quc:m o conhecimertlo wriR urn co·

zem ~inda hoje. Assim como na boa teol ogia cristã a humanidade oascu:ncnto. numa anâlise d~l p3Javra coo,~írre (ccnhc.:.;cr) em co-,allrf' tnasoer JUil·
vive no pecado o riginal, haverin um efeiro de conM~irnenro original, to). (N. do T,)
.,
68 l.Rk O CAPITAL D E ..0 CAPITAL" A f'tt.OSOFtA DE MARX 69

e o "concreto''. como os pedreüos fazo:m uma corrente para IHtssar Devemos considerar essa cxigênciu como constitutiva du teoria
uns aos outros os tijolos. Em todos es.~es casos, trat~·Se de funções de ~1 arx, 110 próprio do~>IÍttio da teoria tia hi.rrória. Quero dizer com
de ma$c~tragem e de impostura teó rica - que podem sem dúv dn isso que, ql!a nrl o \-larx estuda a sociedade burguesa moderna. adota
atestar ao mesmo tempo um ombar:-lço e uma boa-\·onladc reais, c o uma atrtude paradoxal. Concebe em primeiro lugar essa sociedade
desejo de não perder o coqtrolc teórico do& acor.;ec.ntcutos. mas existente com,o res1d!ado histórico, portanto como resultado produ-
que rtcm por isso. na melhor tias htpóteses. deixnm de ser lkçócs zido pela histtlrin. Ele dá a im pressão muito natural mente tle nos en·
tétlric~~~ perigosas. Aplicados tl nossa qu<:$tâo. es$'" concd tos nos veredar por urma coocepç~o hcgcli ana. na q,ual o rcsult ad0 é conce-
assegu ram sempre uma S<Jiução a baixo preço: fazem a cndcia enfi e bido como desfecho i risepnr:h~l de suu genese, no ponto de ser ne-
um efeito de conhecimento originário e os efeitos de conheci mctlto ce:>sário concebé·lo como .. o resultado do seu <•ir-a-ser ... N a realida-
atuais - dandn-no~ por solução a simples pn~;ição, ou tt!ltes a nilo- de, Marx torna ao mesmo tempt> urn caminho totalmente diferen te!
posição do problema. .. Não •fe trcua da rtlaçàn que o'H'f t•..trabt-·leac lri.~ toricmmmte (!11Ift! (JS re~
laa<i<"s ecotlríl!lica.• 11a SI/Ctll".rào dtr> diji•r eme.• fnmws de sociedade.
t\1mws aimlo ,-(e sua ordem de suc'e:tsão ""a fdha '' ( Prf'Judhtm, tnncep~
çâu nebulm·a dq 'JU.n'lmt-''110 históriro). Trata·se df sua ('omhinacão ar·
19. tic•!J,/ada (G Jiederungl 110 quadro da s(<dednde hurgu<'.rn moderna" Un·
Tentemos, pois, avnuçar alguns pas:;os ainda no ~spuço que rr odrtr:do, p. ' 7 1). Já em seu .H i.<éná da Fl"lo.w[ia, Marx exprimia ri·
acaba mos de abrir. gorosurncn te a roc.;ma idéia: " Comn é que só a fórmula lógica do
()o mesmo lll odo como havfamos l'isw q u~ o r~cuno a um ob· lllOI'imcnto, da suce!:s~o. do tenq)Q. poderiu ex1>licar o corpo da so-
J<Lo real primiti"o nã<• nos podi u t:xin'iõ d~ pensar " d(fi:rer.çu en:t<! d~:tladc, no qual toUas as relaçibes CO<:xislcm !<.irnult{l.ncamcnte
o objeto do conhccimentq e o objeto real . .:u. <J coni;lec)ll!e(rttl o pri· (fflri<'hieirigl c se apôi:).m umas ;ls qutrJs~·· (Ed. Sue., p. 120). O ob·
melro übjetu rros dá; do m~smo ft1odo. ucub;u,os de ver que nií() jcto êe estudo de Mar~ c, poi~;. a fOdedade bt.rguesa atunl. que é
podiumo; atdhu ir a um ··er~ to de conhet:im<n\<1'. origin1íl'<n o <;ui· pensada co mo um nwitado histqrictl: mas a compreensão desso so-
dado de pensar pOI" ruis o mer.anismn de-;;e ef~ll'l de oonhecimetno cit:dade. lop~c de J);iS~.a r pda t~O(ia da g<!re:;e ~.esse rc~ult~d~, passa.
(1\tHI I. E, ~e fato. Sl!bcrno:> q·;eesses doi> prohkm~s silo ym só, 1<i~1o p<lo conl[un<>. cxdustvtll)lehtc pela teo11a <(o coq1o , rsto e. da e.<·
nào ser o IJl,lto de um eft:il<> orinin:lrio. mns a lll'lÍp~ia "tmlidade do fn(l"rn a,r11nl <lu, S'r'_ciedcde. sem qlle sua gbru:s~ neta intervenha seja
el~it<J d<: c~n hecih->ento atu:li'>'l"e nos pod.:-•~at a rl1íJX>$t~qu~ p~~>· J),f,rU0 (jU~ fOrt. flS!ll atil pde r ar:l.doxal , ll;laS afirmaria enl ~erl)lO~ CU•
cunlm o>, l:~tamos. ntl>tC'"IS«, na me.;n-.a~itu!rQà<l de Mar~, quando wónC<M Pfll' :vl:trNit:<)'l\.{1 a Çlll)~i~>àll M puss bilidade ups!lluút de
nos d iz em t er m o~ claros qt\e é o conhedmen tu da Glierlerwrg (~tllll· su a :ecu·ft, da histórm1 !toe t;m cultwo ;t exu~ncJ,a de d rH:t prqQJwJur~·
)).naciío urt ~:u i~da! hienarHuir,adu, sl~tW'l'ltf~ll) da sqciedadc ,atuo/ {I d1$tint os "'l' $~0 .toid a d~ de di~jtrnqfio. H ~ d., fato unlll!Ob\emn tt:lr.
qt:~ ~~ IIJ'?Oc eh.:01da t. par·a <J<rmp~~ei)CerniO> lor·nw~ urHerr<;> res c, ri~u a (ql)fllular c ~cwlvt•r parn e~plkar o !nccnrrisml) JXlo qual a hr~·
l~ortarn l o, formas :mais. p11imiti\(ns,. A fa rno:HI fcasc: ~·a anntomia do ~(u·ra. prothUI-' com~ rcsuha<lo !I modo •lc pr·,aluç:lo capit:rlrsta
horncrn ú 'I cha ve da anat<Jmi a d~r macacll" . bem co rrtl>reendido. não :lt ual , ~,~ us !):i ao me;rno tempo outro pro blçma tcóríco, abso1uta-
que( d ir.er N rtrn C<.)>l!a ;r:nãt> ist p; bem <;o rriJ?XI:Nidia. ~oi n ~ide c(\m r'IÇn\e d;>t1rrtw. a for mular e resolv~r. Pifrll comprecnd~r c1uc es;;c te,
esta ot rtra f; nst da / lltr(<dur?O! 'iàO ,; " &~llCSl> hi ~tórica da,s ca~ego­ ~tlhndo scju de fato um llllldo J'Q{,"ia ( ~Ic prodftção, q ue esse res1.1ltndo
rhiS. n~em suu combinação c:m rorm;lS :t nte:riores.. o que no& da n ~ua seja preci ~an>Cil\C 11[11:1 forma de cKi!;léncin SOcial, <! /lÜO 3 primcirltl
COII)IlféCII ~fio, i'l'lkS ó sl~lcrll~ de sua combi nação dtt ~;ocicdadc nl1.1al, e~i$t~lj.:.i.l acn1'rida1 é de $~gut~dn problema que lrn ta a lem·ia de O
que 'nC!S ab~c t;u·,1hérrt a compreensão da~ forrn~ç<ics passadas, datr·· Cb.piw l .. sem s.e oonfudir um Stí lno men to cot"' P primeiro.
do- nos o conceit() da ,,.,;a,:l!o dt:sstt Cl}\'nbitmt;ilo. IJ o rr<:smo modo, l'l)den\os eXJ?Iill1ir essa <li~llnçfttl, rigorosamt•nte fundamental
é snmen le 11 elucidnQào co :neronismo du ~fOJIO de conhecimento •' • pa~a a comp•ccusào de Mar~. afirma ndo que Mar':( considera a so-
awal que nos pode dar us luzes so~rc os efeito$ mrteriores. A recusa ci~daclt: atu:r ) (e a mrlquer outra forma de s;;.oiedade pMsnda) ao
do rec urso it origem 6, po1s, correlatu de tlma ~~igência teórica mui- mc~mo tem po conl Q usullad(), e como soait?dade. Trata~:w da tco11ia
to profund11, que fu depend"r a ~xplicaç:io das formas mais primiti - do mecani~n10 da transforrnaçTio de um modo de produção em ou··
vas do modtl de com hin.rção sistem;l.tico cuual das categori>ts, qu.e se trQ, isto é, a teoria das formas de u·ansição entre um modo de pro·
acham em pa1·tc nas formas aotcr:ore~. dudio e r~-quele que o sucede. que deve coloca r e rC$0\,·er o Jlfoblema
I'

70 LER O CAPITA L DE "O CAPITAL" À F ILOSOFIA DE MA RX 71

do rc•·ultado, isto é, da produção histórica de certo modo de produ- pondo-nos problemas novos. :vi as compreendemos, ao mesmo tem-
ção, d e certa formação sociaL Mas a sociedade at<Oaln :lo ê somente po, o alcance absolutamente decjsivo de algumas dessas frases lúci-
resultado ou produto: ela é esse resultado, esse produro, resultado c das de .'Jr:Séria cft1 Filosofia e d a lmrodur;ão de 57, pelas qua is Ma rx
produto peculia res, que funcionam como .t ociedade di ferentemente nos adverte de que ele procura coisa total mente diversa da com-
de outros resultados, outros produtos que por sua ' 'ez funcionam de preensão do m ecanismo de produção d a sociedade como resultado
modo totalmente diverso. f.: u esse segundo problema que ~esponde da história: a comprtensno do mecanismo de produção do efeito ele
a teo1·ia de um modo de prod ução, a teoria de O Capiltlf. X ela a so- sociedade por esse resul tado, q ue é efetil'amente uma sociedade real
ciedade é tomada então como "corpo"; não como u m corpo <mal- existente.
quer. mas como esle corpo que jimclona t:Qi ml sociedade. l!.ssa teo<iu Ao delinir·assim o seu o bjeto com rigorosa cla reza , Marx nos
faz abstração completa da sociedade como resultado- c por essa ra- dá com que roJocar o problema que nos ocupa: o da apropriação
zão Marx a fi rma que qualquer explicação pelo movimen to. pela su- cogni tiva do obj eto real pe lo objeto do co nhecimento, q ue é um caso
cessão, pelo tempo e pela gênese não pode de direito ser adequada pa rticular du apropriação do mundo real por diferentes p râ ticns:
a ess11 problema. que é problema co mpletamente diverso. Para dizer teórica, estética, religiosa, ética, técnica. etc. C ada u rn desses modos
a mesm a coisa numa Jjnguagem rnnis pertinente, p roponho a termi~ de apropriação coloca o problema do mecanismo de piOd ucão de
nologia segui nte: o que lvt a rx estuda em O Capiltlf é o mecanismo seu "efeito" cspec(fico, o efeito de conhecimento pe ln prática teóri-
que faz existir como .rociednd" o resultado da produção de uma his- ca. o efeito estético pela prática estética. o crcito ético pela pr~tica é-
tóJ·in;· é, pois, o mecanismo q!Je dá a esse produto da his tória. q ue é tica, etc. Em nenhu m dos casos se trata de substi tuir uma C>prc$Silo
j ustamente o prodtJto-sociednde q ue ele esttuln. a propriedade d" por outra como o ópio pela viJ·t ude dormitiva. A pesquisa de cada
produ zir o "efeito de sociedade". o q ue faz exis tir esse resultado um desses "efeitos" J:specífícos exige a elucidnção do mecanismo q ue
como sociedade, ·e não como monte de meia , formigueiro, dcpó~i to o produz. e nã o a rcduplicaçâo de uma pnlavra pela magia de out~a .
de ferramen ta~ ou simples grupamento humano. Quando Marx nos Sem prcj ulgar conclusões às quais nos deve cond uzir o estudo desses
dit., pois. que ao e~plica r a ~ociedade por sua gênese perdemos de diferentes cfei tos. con~entemo-nos com a lgumas indicações sobre o
•ViSLa o seu ''co~po" que é precisamen te o que s•: quer explicar, ele
fi~a sUJa atenção toórica na .tltrefa de explicar o mecanismo pelo g~
o
efeit•> que nos. i ntereSsa lHtui, a saber, efeiro de tonhet:t'mento, pro-
duto da exiJtO:,ncia, dcs;~e objeto teórico que é um conhecimefliO. I::S·
esse resulta<l.o opera r~ecjsamertte aqmo SO/Ji~dude, portal\ to do n)eJ s a <:XPI'essno <:/iliro d~ {'()nltecimmw consti ~Ui um objeto genérico.
c:ll>isn}?. que pro.d ur. o "d'efto de sociedade" y rdpri<;> do modq d e que' compreende pelo menos dois subobj•:tos: o efeito de oonhccimen·
p roduçan unp,tailsta. O Jl),ecamsmo da pmduçao desse "e/frw de so~ to ideo/6~rico e o efeito de conhecimento cient({ico. O efeit<> de ...,._
cieda,f,;'! s<i ntingc sua oulmio açào q~a~do todos os e{eitos do Jr.eca- nhecimento ideológico d,ist.ingue-sc por suas propl'icdades (trata-se
nisi'I'IO ~no expostos, até 0 ponto em qu•: se p~;od\1ze~ sob a forma de um r-feito de l'ecqn hecimemo-d~conltooiment o nu ma relação es-
dos pl'ÓIIIios efeitos que t:onstitucm a 1•elaçà,o concreta, consckntc pecular) do efei to d•: co nheciJhento cientítico: mas. ll;i medida em
ou inc0nsciente, dos índivld\I(JS com it sociedade <:olno soci edade, que o efeito ~deológico possui cabnhnente, dependente de o utras
isto é, até os efeitos do fetichismo da ideologia (ou "formas da cQns- funções sociais que nele são dom inantes. urn efeito de conheci mento
ciü nciu social'' - Prcf:ício da Conlrib!firiio) (HJH quais os homens p róp1·io, ele cai. oob esse aspecto, ha categoria gu al que nos ocupa.
vivem como sociais os ~eus projetos, idéias, ações, <:ompnrtameJlt os Essa advert~ocia se impu nha para evitai' qualq uer mal-en tendido
c funções, consciente ou inconscientemente. Sob essa perspectiva. O sobre o inicio da nn:llisc que se scsuc, c que está cent,·ad:t exclusiva-
Cnpilaf deve se)' considerado como a teoria do meca nis1n0 de p rodu- mente no efeito de conhecimento dQ ~on hecimcnto cicnt( llco.
ção dc1efeito de .!ocieda(le no mundo deproducão ca pitalista. Come- cqmo ex,Piicar o mecanismo desse efeito conl1e~i mento'/ Pode-
çamos a suspeitar q ue esse e}~ito d" soeiedade s~il diferente segundo mos, agora , recorrer a uma aquí$içào recente: a intcrioridade do
os dife rentes modos de produç;ào, j á não fosse pelos traba~hos da ei- "critério da prática " ã p rática científica considerad a - e afirmar que
nologia e da história contemporàneas. Teoricamente, temos o direi- a nossa pPescnte questão está re.lacionada com essa interioridade.
to de pensar que o f11ecanismo de produção desses direrenres efeitos Moslramos, de rato, q ue a validação de uma pro posição cientlfica
de sociedade s ej a diferente segundo os diversos modos de produçíio. como conheci mento estava assegurada, numa prática cien tf.fica de-
Começamos a entrever que a consciência ex;ua do prob lema preciso termi nnda, pe lo j ogo de f ormas particulares, q\Je a sseguram a p•·e·
implicado na teoria de O Capilaf nos abre nol'os hori2ontes. pro- se11ça du cientiftcidade na pro duç:lo do conhecimento: em (1 utras pn-
72 LBI\ 0 CA PITA L DE "O CAPITAL" À FILOSOFIA DE MARX 73

lavras. mediante formas específicas que con ferem a um conhecimen- I) que o sistema da hierarquia dos concei tos em sua combina-
to o seu caráter de co nhecimento ("verdudeiro"). Falo aqui das for· ção determina a definição de cada conceito. em função de seu lugar
mas de ctcnufietdade - mas penso tamhém, como eco, nas formas e função no sistema. Essa deJinição do lugar e da função do conceito
que desempen ham o mesmo papel (assegu rar o efeito diferente mas na totalidade do sistema ê que se reflete no .rentido imanente a esse
correspondente) no "conhecimento" ideológico, digamos, em t'odos conceito. q uando o pomos em correspondência biunlvoca com sua
os modos do saber. Essu~fomws sào distintas duquelas nas quais o categoria real;
co~ l'leotment.;> f<?t pt·oduztdo, como resultado, pelo processo da his- 2) que o sistema da hierarquia dos co nceitos determina a or·
tóna_ do con~ectment?: devo lembrar que elas se rc fet·em a um co- dem ''diacrôn ica" de seu apareci ment o no discurso da demonstra·
nhcotmcnto Já produz!do como conhecimento por essa história. Em ção. É nesse sentido que Marx fala do "desem•oMmenro das forma.<"
~utras palavl'as. constderamos o resultado sem seu ~ir-a-ser. com o (do conceito) do valor. da mais-valia, etc.: esse "desenvolvimento
rtsco de n?s vermos acusados do crime de lesa-hegcl ianismo nu de das fo rmas" é a manifestação. no discurso da demonstração científi-
lesa -g~ncttctsmo ,yorque esse duplo crime e um puro beneíício: a li- ca. da dependê-ncia sistem ática que ligâ os conc.:itos entre si no siste·
bertação da htstomt da ideologia ctnpirisla. ~: para es~e resuliado ma da to llllidadc-de-pensamento.
que colocamos n questão do mecanismo de produção de;> efeito c.O- O efeito de conhecimento, pt·oduz,ido no nível das formas de o r-
nheo:tm ento - de um modo sob todos os aspectos semelhantes :1 ma- dem do discurso da dcmo nstt,açào. c depois no nivel desse conceito
netra como Marx interroga uma sociedade dada, to nutda como re- isolado, é. pois. possível sob a condição da st~rrematiddad•• do sfre-
.wlradf,l. para lhe colocar a <Juestão de seu "eleito dQ sociedade" ou ma. que é o funda mento dos concciws e de sua ordem de apareci-
a q ue~:tüo do m~cauismo que produ~ ~ua cxifltência aOmó .toaiad;,de menlo no discurso cien tifico. O efeito de conhecimem o d:i-sc ent?,o
•Ven:tos ~:sns form~ especificas atuar no disour:ltl da demo ns~ na dualidade, ou dupllcidade da exisrêucia <in s/Jtema que se diz "de-
traç-ao ctentthca, ts_lo c, nesse f<,nômeno que impõe às categorias senvolver-se" no discurso científico. c da axis rêuda das formas de or-
pensadas (nu con~>tos)uma Ofti em de aparecimemo ~ de desapateci- dem do d iscurso. precisamente no " jogo'' (no sentido mecânico do
lllrll'l<l r egulada. l'o~e1'0QS clir.er então que<>mecanismo de produção termo) q,ue oonstitu; a w•Mmle de de.<locamemo 1décalage ) do sistema
dr~ e fe>to de conhconnento tem a vcn com o n1ecanis tn0 que sustenta e do discu rso. O efeito de conheci mento é produúdo como efeito do
~.JOgo das formas de ordem no discurso cient illco da demonst.:nçã 0. discurso científico, q ue só existe cot~o discurso do sistema, islo é. do
lJJzcmos que- tC;rn u ver eom o itlt!canismo q\le~mslf,ma c não apc:nas obje,t<! tomado na e.su· u~ura de sua constituicào comrlexn. Se essa
que 1egu/a o jogo dessa,s ~o t·rnnS.. pela ,r nzão seguinte; d~ fato ~li'lS análise tem !i<lntído. ela no~ con(h/z ao limiar dn nova quc~'iio se-
lor~•1as de onlcm nào se maníl'esuun como fort}:làs de ordet)l de apa- guinte: qual c a di fet·ença espc:d lica do di.<l'urso científico como dis·
rl.!cnnt!nto dos cnhccitoS 1;10 discUJ'.SO cientfficG n não ~e.p em funçiio curso'! Em que: p ciiscut·so c\el'\tllko se distingue de out ras fo rmas de
ele o utras forltnus que, sem serem pon sua l'el.~orrna s de orclurn siio discu rso'! Em que os de{llais discursos ~fio produt ores de efeitos d ife-
no en1 a1111o o prindpio a:Uscnte destas (tltimas. !Pur3 falar um~ li~t­ rentes (efeito estético, ideo\ógicu, inconsciente) do ciC!iw de conheci-
guan;m já conhecida, as fortn3s de <>~dcm (formas de demonstntção mento que é produzido pelo dis~>urso cientifico?
no dtscu~~o científico) siio a "dicJcrollia" de umu "siuci'Onia" funda·
mental. b npregamosesses termos no ~ntid<> q ue será escla Ncido (1. 20.
11, cnp. 1). corno os conccítos das duas fo rmas dct c:xistência do obje-
to do conhecll)lento; porta nto, como duns l'o t!pas purarncnle inle- DciXurei a questão em suspcns<l, sob cstn últi mn forma, contcn~
rwr-es.a o :onhecimento. A sincronia, repn;scn(!utdo a estrutu ra de tando-me apt:nilS com o ~embrar-Jhc os termos. Niío procuramos,
co mo a "teoria do wnhccimetuo" da tílosq fi~ ideológica, enundtH
nrgeuuzaq!to dos oonceJtos na totalidnde-de>-pensament<t oü .$-i.!te/1111
(~u , como o dtz M a~. ··s(\ltcse''), c a d iacronia reprcsemando o mo-
vtm.en lo de sucessão dos concuito.i no discurso o rdenado da de-
motilstraçii o. As formus de o rdem do discut·so da demonstração
." uma garantia d~ direito (ou de lato). que ttos assegu re que conhece·
mos bem o que conhecemos, e que podemos relacionar esse acordo a
certa relação entt·e o Stticito e o Objeto. a Consciência e o Mundo.
n:1da mat~ são q~Je ri desenvolvimento da "Giiederwtg", (sto é. CO!O· J>rncuramos el11cidar o meC'anismo que nos ~xplique como um Jesul-
btnaçâ(>lncraqiJizada dos conoenos no próprio rl.flema. Quando di- tado de f;J.tO- produzido pela histó•·ia do conhecimento. a sabet· cer-
zemos que a "si~cronia'' ass~m compreendida é primeir;t e a tudo re- to conh eci mento detcrminndo- funciona como conhecimento. e não
ge, qucre!ilOS d t~er duas cotsas: como o utro rC$Ultado qualquer (seja ele uma sinfonia, um sermao.

L, ___ _ _
14 LER O CAPITAL

uma palavra de ordem polltica, etc.). Procuramos, pois, dcdinl~ seu


efeito específico: o efeito de conhecimento, pela con1preenMto de seu
mecanismo. Se essa questão estiver bem, colocada; ao abrigo de te!das
as ideologias que ainda nos es'magam, e pQrtatlto fora do catTlpo .dos
conceitos ideológicos pelos quais em geral se coloca o "problema do ··.
~on hecimento", ela nos l,evará à q ue,stão do mecanismo pelo qual
formas d~ ordem d etermtnadas pelo sistema do obj eto de t!t:H1h,ed •
mento ext~te r1te, produzem, pelo jogo de sua relação com esse Síste-
ma, b efeito de conhecimento considerad o. Esta última questão 'fld!l
põe em dennitivo d iante da natureza dif'erenciàl do discurso cient/fl•
co. isto é, da natlrrezà especifica de um discurso que não pode i$t!l'
sustentado, corno discurso, a não Ser em rel'erêneia ao que está p re•
sente con1o a usência a cada in~tartté de sua ordem: o sistema cqnstl• O Conceito de Critica
tuti\!o de seu objeto, o qual exige tntra existir cotrtó s~stema tt pré·
sença ausente d o d iscurso cientifico que d "des~,nvolve". e a Critica da Economia l?oHtica
, Se .nos detemos
\
aí, como d iàrlte .d~ u m liltriar q ue no entrtr1to
)
se- dos Manuscritos de 1844
ra prectso tt;anspor, perrnit Hm-hos lembrar qtte a caractenstica t:ló
discurso c\entí!ico é o Ser l!scrito; e que port ahto levanta a questi1o a O Capital
dti fo rma do sua escl'ita. Ora, coh)o talvez nos lemb remos, hávf~tt'los
partido de sua leitura.'
N ão saím os, pois, d o circulo de uma só c tnesmtl ques tão: se pu-
demos, sem sair dele1 não gii'ar tlum círcillo 1 é q ue ele não é o círclrló
fecha do da ideologia, rnus o ulrctr.lo petpehlan1ente at;>eftó pelos Este ensa~o justifica-se pelo subtítulo de O Capital: "Crítica da
seus próp~ios l'cchós, t>cir'culo p<! l.u'rt col1hedttHh\to fuhdall\eni:td~. , Econom ia Política".
I I ' I Esse sub titulo reclama d uas considerações:
Ju~ho ~c 965 I) b lconceito de crítica está presente em toda a obra de Marx.
Ele utiUzou-o em .t!odos os momentos da evolução do seu pensamen-
t o para caracterizar a sua atividade específica.

li Ademais, p resente sempre na obra de M arx, sabemos q ue o


conceito foi explicitamente tematiza do por ele num momento p reci-
so de sua história, a saber, durante os anos de 1842 a 1845. D urante
todo esse pedodo, foi o. cq nceito central do pensamento de M arx.
Donde! a quest ão: que relação m antém esse subtítulo com a temati-
zaçao do conceito de crít ica que encontra mos nas obras da juventu-
de?
í?-) Especiti'q uemos o problema. O projeto de u ma crítica da
e11onomia política foi pela primeira vez formulado por Marx em
1844. Esse projeto é que d a i por diante regerá todo o trabalho de
"' Marx até o fi m de sua vida. Esse projeto dá origem, sucessivamente,
às obras seguintes:
- Manuscritos de /844, q ue se intitulam explicitamente como
crítica à economia política;
- Contribuição à crítica da economia política, de 1859;
76 LER O CAPITAL

- O Capital.
Donde o problema: que JCiação há entre O Capital c o projeto
que era o de Marx em 1344'1
Evidentemcnlc, não pretendo retraçar toda a histó ri a do dcsen·
volvi mcm? d.esse projeto e das elaborações sucessivas as quais ele
enst;IOU. Lo moi<> o meu trabalho a com parar dois textos: O Capiial e
os M anu.<uitos de IS.f4, este úliimo sendo a P!imeira crítica da ero·
nom ia poHtica, cstrítamente dependente da teoria critica do jqvem
Ma1·x.
Na P!imeira parte. l.cntu rei definir a figura de conjulllo dc:sa
teomt cnuca que opew nos ;\danu.writos. Assim far.endo. fixarei ccr-
to_n_úmero ~c J)O".tos de bu liwmento (~?,. exemplo, o problcmu do l. A Crítica da Eçonomia Politica
su;eolo econonHco). Na segunda purtc, )a não mais tra tando de deli· nos .Manuscritos de 1844
ncar essa lígura de conjunto. escolherei em O Capiraf dois o u tres
po·obkm~s. tentando npohtr•me nos pontos de ancoragem fixados
na pnmeora parte e mostrar o deslocamento dos conceitos e de suas
rel:~ções, que constitui ~passagem io cienti flcidade marxista a passa·
gcm do discurso ideolúgico do jovem .'-larx no disCUFSOcie~tífioo de
O Capital.
Neste estudo Hllnarei por base o ar.ervo teórico constituído per
los tnobalhos de L. Althusser (Cf. l'cwr Marx. Maspero, Paris, Preliminar
I W>S). e os conceitos ident ificados e elaborados por J ,·A. Miller, por
o~nsí-ào ~as conferências (inéditas) lida~ durante o nn.o fie 1964. e de·
AOI1Íticn eittlH(da nos MamtscritQS rcpresellla a figura wais siste-
d1cndas a te<! na de J. Lncan e à crilicn da psicologia de G . ),'olitzcr. mát ica da Cfi~ic:o ant topol6gica, emp~t:endidaJ>Ot Marx. nos textos d o
p•:ríodp 1843-l 84{ tendo pot· base nant ropologia feuerbachia na. (J?:..
J.·A . ~hllet moslrou o caráter ct!c:isivo d<:s;;cs C•)OQei.tiJS pm'a,:1 il)tcr..
videntl:menl<:, n~sQ ,objctil'q aqul ymitn.,s•: 11 delinear a figu ra acaba-
pretncao d<: O ·Cu-ljltrtf no seu Hl'lir,j): "li•:>pctioJ?i de la forptnllon da dcj,~a crílio:a; csllí fora do nos.~u escopo neste estudo o l'robluma
théorique" (Cuhlns m(lfxüres-léllim:llel'. n·r 1).
da 1-elação Feue~bach·M arx.)
·~cotemos dt:flnir essa cr(t iCil pela rc:sposta a três questões:
Qual é o objeto dessa crftka?
Qu9,11 é o sujo:ito dela, isto é. 'l_úeon fa:z. a critica?
~ual é o seu ml:todo'l
~ reliPosta nos é dada J?CIO último P'tfÍigrafo da ca•·tn a Ruge de
~ctcmbro de 184\l:

Pod~lOS .;:~pnmh a tendência. de nossa rovit>ta 1 numu só fórmula:


nutCH:A.J)Iicuçí-'o óe noo.a (poc-R sQb~e us !.Utt! lUtas c aspirações. Truta-se
de uma. ture!a lllt'- o mundo.: para r.ós.. St. pode ser CJbra dt forças reuoi-
dlu: lrata-st nnda rnui:l qut. de uma c•>nfiss;lo. h ra ter ut s-eus po:ado5.
JM!tdoados, a humnn,'idacb: tem de C» decla1ar tais quni.s do. ( I.Jm siah 1hrt'

Tru<J•SI! dos AndlJ Ft'dnto·ultmà~.f.


DOS '' MMlllSCRtTOS DF. t$44" A "0 CAPITAL" 79
78 I. ER 0 CAPITAL

homem, exprime os predicados que constiluem a sua essência num


Siiudton l-ergeiMn wlas.tm. braucht dir Men:tchheit .sie mJT für elas z11 erklti· objeto cxlerior . No estágio de alien<tção, esse objeto se lhe torna cs·
rm ~~ds sle siud ).
lrlinho. A essência do ho mc;,, pasS<i para u m ser estra nho . Por sua
Toda a critica repousa no modo como estão reunidos aqui os vvt, esse ser estratlho - q uc <i constituído pela essência alienada do
três termos que mencionei: o sujeito, o objeto e o método. homem - apreser~ta-s.; como verdadeiro sujeito e situa o homem
Falemos primeiro do objeto: de que se trata 0 Trata-sede uma como 0 se11 <;>bje,Q.
experiência cujo sujeíto ê a humanidade. Essa experiência, a huma- !'la uliçnaç~o, o ser próprio do homem exi$W s(lb a formn do
nidude passa por elá há muito tempo de modo cego, mas nós esta- seu ser estranho: o hUIJlano c:xiste sob a forma do in·u rnuno, a razão
mos agora no pon to em que lhe é posslvel comp1·eender-sc a si rpcs- sob a forma da não·rar.áo.
ma. Essa Jcjentldade dn essência do homem e do seu sef estrangeiro
O nós represen ta a consciência critica. Ela é a p ri meira a to mar t que dclíne a situação de contradição. Quer dizer q ue a. contradição
consdênci<J de que chegou o tempo de essa experiência chegar 11<) seu repousa nu cisilo do um sujeito consigo mesm o. Que a contradição
termo que é o conhecimento de si. É a consciência privilegiada na seja ci.,ao, eis o que é fundamental para ~cpmvanh ar toda a articula·
qu~tl essa experiência se torna clara a si mesma, ou, mais precisa- ção do d isçurso crl~ico.
mente, c! o discurso em <(UC se expríme a língua nn qual essa expe- Na experiência, pntre tunto , u estr utura da contradição nfio é
riência hu mana conhece finalmente a sua verdade. dada tnl qual, É expressa sob uma forma part,icular. De fato, a cisão
Todo o método está co ntido nesse erklüten. Esse verbo sigo) ifica do honlem con1 a sua essência tem por resul tado uma divisão. As di·
ao mesmo tempo declarar e explícar. Isso _e quivale li di~er que a expo- fco·entcs esferas de manifestação da e~pc~iência huma o_1a - esferas
siciio dO's fa tos tais quais são f}iir das was sit- .riruf), a exposição ela ex· que correspondeon aos difcrcn1es predicados da essência htmoana-
perií!ncia hurnun a tal qual ela se dá, é já sua explicação. Basta que se. assumem cada uma çe,·th >PIIiidade autônoma. Po r isso. a cont<ad i-
J>ron unci<: a palavru que formula cs.ies fatos (que Ma~x denomi na os cãn se apre~enlJl s~mJU'e Ç(liiiO contradição no interior de uma esfera
pecados da humanidade) . A formulação desses fatos é jã o conheci- particular. Todo cn unciadq !lil contradição q ue se limite a essa for·
mento deles. c esse conhecimen to os supri me como pecados, vois ma partiu 0Jiar s~rít •mí(atfm/, pu rciaJ O t rabalho da crítica é levar a
q ue uquilo <JUe os constituía como pecadcls era 1wecisamente o •JãO contradiç~o ;l sua forma ffcraiJ
serem conhecidos. q sd·em u ma experi~hci u cega. Diferentes <:onccitos exprimem essa mudança de nlvel. Murx
O que é dlto.de funda mental p•:ssn er~lci~·en é que:~ explicação litla em jimna !1"'!11, al111ra dos priltcípios, sigll({icaçiÍQ vndadeir<~ Es·
nào perlcJ\çc báslcame~tc a uma o1·dem distinta dp cnunctud,o, da ses tcl'lnos resumem·sc no conc:J~Itp, gera). que des11!na a operaçao, o
Ct)nstatuçào. oonceito de Verf11~n.wlllicilwll! (literal mente: ltu manizaçilo). Dar à
Podemos exprimir isso median te outra metáfora: diremos11 uc a contradição a sua forma ge•·al é dar-lhe a sua signincação hu mana: a
critica é leitura. O texto dessu leitu ra é a expc•·iência c1tio :mjeito 1: a jepataçf!o er1tl'<! o homem c '' sun csjênc:ia. Es~e sentido l),um<mo do
h\l lll~l nidmhL Que vem u ser esse texto. esse bnunciado~' Esse qnun- qua l a con to·ad ição partic:ulno· é 11 nrani/krta,'(J.a, a c:rltica o enco!Hra
ci:~do constitui-se de con tradições. A forma sob a q ual a experiência exlraindo a forma geral da contradição: a relação entre os dois ter·
hu mana manil'esla o seu desenvolvimento é a forma da contradição. rno ~ euja cisiln está posta na contl·adiçào.
Cada esfera da cxpcriêPda humana (política, religiosa, moral, eco- Tomemos um excrnplo.llm A Questtio .fudai<'t1, Marx critica "
nômica, etc.) apresenta certo nímoe1·o de contradições. Essas con tra, !'laneira pela qtlal l~aucr colocou o probl~ma da..emancipaç~o dos
dicões síio percebidas pelos indivlduos naquilo que Ma rx chama de JUdeus. P<~ra l31tucr. o pj·oblema reduz·se a rclaçao entr~ " Estado
" lulas e aspirações d a nossa Jpoca ''. cristão e a religião j udia. Assim , ele não considJra o E~t•1do e;o sua
A f~nção d.a oribic;J é dizer ou ler·· conforme H metáfo~a esccr forma tteral, llHIS to~rm urn tipo de l'..st.ado particular. l'or o utro la·
Ih ida- a contradição c declnrá·ln pdo que é. Que é q ue estabelece n do , só vê o j ud.aísm o na sua significação religiosa. em vez de lhe dar
d ifc•·ença dela comp<;rada com o enu nciado comum, e que lhe per· a sua signi ficação humana geral.
miL~ ser· CI'Ítica? Marx. por sua vez, o pera essa passagem à forma geral. Da con-
t que ela percebe. por trás dessas contradições, uma contradi- tradição E.stadoj re\igião particular, ele passn à contradição F.sta-
cão mais profunda, aquela que ú expressa pelo conceito de aliena- do/prcssupost~s do Estado, a qual remete à con tradição Estado/
ção. propriedade Jlt ivada.
É conhecida a descrição vulgariznda desse conceito: o sttieito, o
80 LER O CAPITAL DOS "MANCSCR!TOS DE 1844'' A "0 CAPITAL" 81

A esse nível aparece a contradição profunda: o fato de que n es- Abnl'air é escabckcer :1 esséncia da n.atuNr.a/ort~ da natUJ'(7.a, a es..
Wnda do ptn~menlo roca do ato dr pnuar. Fundamentando o seu siste·
'êncía do homem exista fora do ho mem no F..stado. Ull inlc,:o ncnc~ alOS de abMtação. n mosofin de HeHtl ulienou o lromem
Com base nesse exemplo, verificamos que o discurso critico ê: de si mt*.l{í'IO . ~I n identifica ben1 u qut. ela sephra. mn5 de um modo que
- explic<l<;ao do sentido profundo da contradição, oompurtu por s\la vez " ~eparaçtio c a media,cã.o (Tese nt 20).
- tedescoberta da unidade o riginária.
Essa unidade ol'iginar ia é a de um sujeito com :l sua essêncin. Adiantando-nos, podemos dizer que o que é confundido nessa
Essa unidade do sujeito !tomem c da sua essência é que define, nn teoria da abmaçiio silo os dois processos que Marx. na lntrodução
critica feuerbach iana, o conceito de verdade. G•rrtl de 1857, d istinguirá como procesyo úe pc!lj'ruJtellto e proces.ro
Esse conceito de verdade permite-nos situar o discurso oposto repl.
ao discurso critico, o discurso espr•cularil•o. Este últim<> oaracte~iu· Para resumir essas considerações preliminares sQbre o c<:>nceito
se como um discurso abstrnto. 1?4se conceito de abstração. na crítica de crítica. destacaremos três tiJ>Os de discursos possíveis com respei·
antropológica. é o lugar de um eq uívoco fundamental: designa ao lO :) crítica:
mesmo tempo urn processo que ocortc na realidade c o proccdimen· - um discliJ'so que se atém ao nível dos fen!imerl()s , discmso
to próprio de um certo tipo de d iseúrso. unilateral q ue apreende a penas um aspecto particular da contl"J.di·
çiio;
Abstrato é, com efeito, tomado aqui no sentido de S<'pamdo. (\. - dois discursos que se rcstJingem ao nh'el da e.tslnâa: <> dis·
abstração (separação) se pro tluz qua ndo a essência humana estú se- curso crítico O ti reve)ação da essência verdadeira e o di~urso espe·
parada do homem, e seus pred icados lhados em uoi1 ser estrangeiro. culativo ou revelação da essência falsa.
A esJ>eculaç5 0 parte dessa abstração. dessa s~u raq.i!o da n1tidadc Podemos ;ogoru empreender o estudo da crítica nos Manuscrl·
origin,íria. Nesse estado. o predicado existe separado po sujeito. IOJ.
Mas essa cisão da •midade <:>riginá r~a é no mesmo tempo consti ~uí·
ção de nova un idade. em fa\'or (lesse ser estranho em que está alie· 1. O NÍ•el dn Economia. Pollli<:a
nada a essência do suj eito. t. o <1ue permi'e estahcleccr o p1-edicado
como o verdadeiro sujeito . .'l ssim ~que os ~eólogos, fulando da divi· Não I'A111PS desun vo1ver toda a problemática dos Manuscritos.
sito <:ntte o Rtllncm e sua essência alienada em Deus, f:tzcm de Deus lixarninu rexnos o textp ~itural mcllle propondo-o1os a questão: q ual é
o verdadeiro sul~itn. lgualment ~. a; filosofia ~spt:Qu(ut)~a .. H filoso· "o& .vJanur" JI'Íl!)J' o lur,ar da ccntw mia pol,ít ica?
fia hegcliuna .. 1lart.e do pensamento scpa •·ado do sdu sujeito, o .ho· O prc;fíícih <ie M~r~ não dcfln,e o<:o!jloeitn de economia política.
mem , para raz<:r dele a ldéía abstrata, vc~dadciro ~ujeiw da c~pc· Ela apareuc ali como \1111 elemento num índice de matérias. :'vlarx de·
riênci u. clara que aprc:s.entnrá a crítica das diferentes matérias (direi~q. n~o­
ral, políli<:h, \!te .}. c q,t~ n~lllsO·ará crn seg_uida o ~oH:adcamtmlo dt:las,
Desse modo, lemos em fi/,)soji<l cio FU/,uro de Fcucrbat:h (Mom'.. c h~alm enll: COI'M a folosofia cspeculntn·a ut ohwu esses onatelt3JS
;i•stes pTuiosopluqu.;.l. p. 16t }: para operar as suas construções. ;:-ião h:í no caso.loca/izac:iio da éco-
A e~..~uc:í u dt Deur.n ad ~ 11111i:; i cm l legcl que~ a t:~$ênc:ia do Jl~llli: l· nomia polilica. De fato, seriam d uas coisas a localizar: a J'ealidode
fncmo ()li o pcn!iiJUC:l)tQ seJ}JI.1nl4o l'tlu tlb.wnrtJu dq tu ;WIWllllt. t\ lilosp·
nt du lh:t.d fez -O~ p.c-:samentú. do ::(rSobjctivn mas ~t:Mldo SCQ) o SU· económi<:fi e o .discur,!o e-conôtt1ico.
Jcih) e. pui$, repr.!sor.uUo ç-omo, Um :ser dil.tinto dele. cJ $t:t d~vino ~ abftl· a ) Não há lor.aliT.açào da ~ealidade llC(>IIÕ(I'licn.
l uto~ A economia niio apar~.cc aqui no lugar de um fundamento ou
de uma última iJ.'I$tancia. Niio tcm<:>s no caso o posicionamento de
O imporlante aqui é que ;•. abstração, cnquunLq instjn111ento de uma estrutura ccon~micn da sociedade no sentido ern q ue Marx a
pensLLmcnt o, acha-se de.i quahflcada. Qualqlu!r pensamento que ,. eptender:1 a p.1.1li~ de A Tde<'>logJa .~lemã.
queir;o pmceder por ubstraçilcs cientificas (no sentid,o em que ly(arx Ela ~amp<•uco aparece como alienação fundamental obtida pot
o entenderá nu lmroduçâo (}era/ de 1857) é acusado de manter a se· rechu;iio das dem ais alienações (refiro·me nqui ao t<lquema de Cal·
parac;ão dos momentos abs~ratos da ex~eriência human a. vc7.). 1\s alíonaçõcs apresentam-se primeiramente como sendo todas
Assim. nas Teses Provisórios para a Jleforma da Filosofia, de mcsm<> o)ivel.
Feucrbach caracteriza a abstração com<> alicnaçãot Podemos portanU), nu ma primeira localir.a9ào. defi nir a econo·
S2 LER O CAPITAL
DOS "~ANUSC RI TOS DE 1844" A "D CAPITAL" 83

mia polltica. o direito, a moral, a política como esferas diferentes da


experiência humana. (Sublinhemos aqui n importância desse concei· lua I em que se mantém o discurso do economista. A essa ordem de
to propriamente hcgcliano de experiência. Esse conceito não tcmati· fe nômenos C<)rrcsponde uma consciência reflexiva prôpria. Em ou-
z~do ~o r Marx 6 o que torna possível a sua temat.iz.ação. Na explica-
Iras .Palavr~s. essa percepçilo rencx i~a dos fenômenos que Marx em
çao cnttca sobre Hegel, do 3• manuscrito, e o que não está criticado. O (.apllal trá carac.tenzar como "s1mples expressão consciente do
f: a pre.~ença implici ta desse conceito nào·reconheddo nào· mov> mcnto aparente" é aqui validada e <>S conoeitos da economia
crit icado. que constitui a condição de possibilidade do discur;o crfti· clássica. parecem tão-só exprimir essa percepção.
co do jovem Marx c que torna impossível um discu~so científico.) A VeJamos por exemplo no pritneiro manuscrito o que Marx cha·
realidade econômica só aparece como uma das esferas que expri· m11 de lei.• da economia. Traia-se de expressões de uin estado de fato
c~mcspondente ao estágio da economia política. isto é. a certo esta-
mern cada qual :1 sua manei ra o desenvolvimento e a alienação da
~"o do desenvo lvimento da h umanidade.
esstn.cia h.umana.
No cnt:lnto. essa primeira localização é contraditada por uma No ensaio l.,'mrisse : 11 einer Kritik der Nationaliikonomie, escrito
segunda. No terceiro manuscrito (J>. 88), Marx declara que a aliena· alg uns mcstli <tntes. Engels procedia de rn odo diferente: tentava uma
ção econômica c a alienação da vida real (em contraposição à alie· critica dos concei1os da eco nom ia polftica (por exemplo. do conceito
nação religiosa que só se passa na aonstiéncla) . Em conseqUência, a de valor). Fazia da con tradição interna desses conceitos o signo de
supt·essào da alienação econô mica acarreta a supressão de todas as um a contradição mais profunda ligada i> propriedade privada. ~os
demais alienações. Ma11usc•·itos. pelo contrário, nen hum conceito econômico ê critica·
Como será possivel esse desliza mento'? É que temos urnn dilata· do enquanto conceito econômico. Todos esses concei tos são válidos
ção do conceito de economia tal que ele vem :r englobar tod:ts as rc· no nít·e( da eacmomia pol(tit·a. Exprimem adequadamen te os fatos.
lações do homem para com a nature:za (nos conceitos de produção e Si mplesmen te. eles não os compreendem.
consumo ). A economia al;>range então todo o campo da e~periência A ~oon<>m iu poiilica s~rgc 'assim corno o espelho onde se rcfie-
humana, e nada mais é do q ue a r.gurn tomada pelo próprio concei· tem os faws ocortflmtcos. EsS<: conceito de espel ho foi explicitamen·
to de experiancia . te t~matlzàdo p(l! Ma n na Crí1ica da Filosofia do Direito de. Hegel:
A localização da realidnde econômica peca assim, nu(ll caso o Sstado <! o espelho onde vêm se rellt.tir na sua significação verda-
por falia, c no outro por excesso. Mas. dos dois lados, o resultado é detra J.S contradições da sociedade civil. O tema e.~tá igua lmente In·
o mesmo: Marx não constitui um domfltio da economia po!Hica. ten iC. na c~r.ta a Ruge. Nda Ma(x explica que. se o ponto de part ida
b) Nilo há )ocalizaçào do discurso econômico . da ?rtttca e 1ndifertnte, cx<sterp lugares privilegiados onde vêm se to·
~ notável este fnto nos Manu.wrltoJ': o problcm;t du economia llem as C<llltrtldiçôcs: o E~lndo e a religião. Aqui. é a economia políti·
poli tnca com•>discur;o de Jll'etensào científica não é verdadeirumen- ca que de.~empen ha esse papel de ~pclho.
te co locado. Marx fala, no segundo manuscrito, de urn prqgre.~so dn Pod~mos agora compreender essn frase do prefácio dos Manus·
econ<>mia política. Trata-se, P<>rém,de llln progre$SO no cinismo: os c1·11os:
econ·omistas confessa m cada vez tn nis frnncam~nte a inumanidudc ~J s :JlCIJS re:;uhJdos. SJo prodl.lto de. uma artá1ise totultr.cnte empíri·
da economia politica. Cil. Q\11<! scl>o.• sei,l n4111l t<.•Uudo ctítico (!ofl$c:icnéio.su dn tconCJmia politicl\.
De fato, para Mat·x, a ot·dem do discurso só se torna privilegia·
da quando atinge a essêitciu (seja como discurso especulativo ruve- Pelo fato de que o d i~c·~rso da econo mia política é um espelho é
lundo u essência falsa, seja como discurso crítico revelando a e.'s~n· que a te<tUnt tios economtstas pode passar po r unw muílisc empír ica,
ela verdadeira). No nfvel em que nos enconlrum os, o discurso do c que podo ser uma crític;t das çontradições da rculidadeeconõmicu.
econom ista só é tomado como reflexão dos fatos. Não hâ d"sloca-
mcnto entre os ftttos econômicos e a ciência econômica. Essa ausên- 2. A Elabouçiío Critiea
cia de distància é expressa por Marx q uando fala do nível du econq.. " A critica não se situa no. r.tfvcl dos rermos d;~ economia política.
mia política. A expressão n(t>el da economia política define de um E. de fato. ela reh>ma sem cn llca todos os seus conceitos. sobretudo
lado certo estàgio do d~senvol vimento da humanidade, .:stágio de os de Adam Smith, para desig nar ps fenômenos econômicos.
desenvolvimento que se manifesta por fenômenos tais como a con- t?, que a critica é mais pro fundamente critica do texto em seu
corrência, a pauperização, etc. Mas designa também o nível concep· conju nto. Uma v~. formulado o enunciado do dijcurso econômico,
. --- ~

84 ~ER O CAPIT I\ L DOS "MANUSCRITOS DE t844" A "0 CAPITAL" 85

intervem'' crít ica. Vamos nos elevar aâma do nl•·el da economw poli· me a lguma coisa, esse fenômeno exprime uma e$sência. A pauperi-
tica. dar sob a forma geral a contradição enunciada no discu rso do zaç~o patenteia o processo cuja forma geral e humana ea alienação.
economista. O fato eco nômico sofre assi m umn elaboração que lhe permite
Essa mudança de n ível é explicitada por Marx no in icio do tex- desvelar seu ser\tido. Entre os dois parágtufos, temos a transposição
to s.obre o tra balho alienado (Ed . Sociulcs. p. 55). 1:: assiru1lada peln de uma estrutura em outru. Soh o enunciado dos fatos econôm icos
insi nuou-se o texto de referência, texto da crítica ant ropológica que
oposiç.ão en tre os verbosJassetr ehegreiJim:
enuncia o processo da alienacào. A pa uperizacào - econ ômica -
A economia pôl llic;:~ parte da. reahtJnd>: da )>ropricd:ult pri vad~. Ela converteu -se ell'l alienação - antropológica .
niiu no.-Ja <:xplku. E~primc (IU.ut·nJ o prowuo m(;.'erial que n~1 rJ!Jid;ldl! Tudo ocorre no nível de dois enunciados - que dou sob u ma
u propriedade privada dcsc('eve em fémqu'~s r;e1-ais ttabstmtas que de]JOÍ5 fo rma s implific ada:
têm pitm ela \lfllo01' de ltl!l. Eln oJo o:om;>rC'c(ldc (begrt(/f:•JI 1 d:$M leis.. is-to - o homc m pro<fuz Deus,
é. J)ão mQS.trá oomo e~as 'l!is romltam d-1 ~sênc a (ta proprie..lade pth'J•
da. - o trabalhadpr produz um objeto .
O homem produz Deus, isto é, objetiva em Oeus os predicados
A economia pnlitica capta as leis que ma nifestam o movimento que constituem a sua essência. Ora, quando se diz que o trabalhador
da propried ade J?rivada. N ão <'OJ!Ipre•" d" c>$as lei> nn seu encadea- prl!duz um o bjL:to . pa~te·se do conceit o prosaico de produção, mas a
mento interno. e não as co mpreende como exp ressões do mo,imen- passagem opera-se graças a esse conceito que permite pcn~ar a reht-
to du essencia da propriedade privada. çiio ent re o tra balhadot· e seu produto com bas~ no modelo da relu·
ção entre Deu~ e o homem na religião. Assi m, a atividade produtiva
Essa ('omweenrão é qu e se constitui n tarefa pró pria da c~itica. está identificada >Co m a a tividade gcnérk.a (utividade do homem na
Com o irü operar·s~'! Aqui s.e at>re~enla o problcn1:1 do pom o de par- medida em que nela afirma a s uu essência própria), e o objew pro-
tida. Es~e ponto de partida niln podt: ser Ulll <l ab,rtraçâo. Deve s.er da duzidç. idcntifica·se com a objetivaçilo do ser genérico do homem . O
ordem dos fenômenos. l'or o utro lado, esse fenômeno ~ 1!1ll princi- fato de que esse produto vã aumenta r a forca do capital surge então
pio indiferente. Esse ponto de pnrtida será o que Mal'X' chnma, d~ corno o momc nt9 derradeiro da alicn~~ção, aq uele em que o homem
' 'faro .rco11.lmko attltl/". Marx expõe esse fnl<;> e depois lhe lpmwlau se converte em hb,ieto do seu objeto.
concmto: Assim ,; g ue se projctotl na relação trabalhador-produto o CS·
quema aa alienação religiosa. Na alie.naç:io religiosa, há ~fetivamen­
PJJ1Jll10.S deu~ fat!J D.:Cir.ótniN W:odf 0 truhtlhlt~OI' LMllíi·Sll lJnlu tc adequação e nt re <) homem e o ~cu p ro duto. Deus é constit u[do
mtl!ó lmb{c' tJUl l.'lh>rnaiS ra:q~cte. pnuhu, q,annw mni t ~ su« pruuu,n{t au·
lllt llln em potPndu t Voi:.HUf'.. O trntnlhadur cOQ.IIettt--~ o:n rncrcadpliu
apenas dos pr·cdicados do homem. É:, pois, u m objeto uhsnlutamcn ·
tunto nHti;l yil <11.1U,11o .;ri f! çnai• rMrc.adori:u ,(' d~lnoci&;tl-o.f f.)rh••'~HIIll~) te trans pat·entc no q ual o llOnlcJ)l pode reconhecer-se c o fí m da a lk·
do mundodm hdm~ns ~omcr:l:~ na mt'Jo di):eHl <iJ \•doriU:uoJ!l tVé'f l l'l· naçlln surge logicamente Cl)rno a retornada pelo hq mcm do que ele
tllll~ t d(ll'IHtnqo da.s ~oi'SM. O lru~alho ~ pr<:jdl.lil n.lcrcJd(ltiaS, pr'o:.H:hu·se havia objetivndo em Deu$. l!l t·a, a traJ]spat·éncia da relação sujei·
a si rn~~,m e. ptodu.l o trr.b1tlh~d~Jr c-ntllianlo Mt•tc'tJtlcmO, e i$G:ô na mf:di·
d,t C HTI que ele prochl.z lllel'l;f\d.on:u c(ll t,cuh.
to/ objew, dá,do b:lsico da critica da religião j ustificada pela ru·ópria
Hsse fnto eXp.timl! nada ~ais qu(" i !>L~ : u ob~~~ t o q~~~ qt,.(tb ni ~Q. j)t'o-- nature1.a do objeto, é aqui inuodutida por Marx na relação do tra·
<llJI.~ l tY IHtldUb)r dt';.-ro~t':l·fil! 00111 ~l o cQ~O u ~n1"' ..·mvttllh•• .:o rnq ü ma ba lhador com o seu p r·odutol Supõe-se qU,e o produto do lral>al)la-
P•''J:rtwl in(epe"dtmc, df pmdr wr. O pJ1duio dq trltl:lfÍho q~o:c: ~ fi~cU. dor é alguma C(JÍ5a na q ua l 0 trabalhadO I', teria de SC reconhecer.
~.ac $Cl \!(tncrc:\lO" :l\llll Q\'1. çl(l, ~ p. ~j ~l'íçiio Ç() trahp, ho. A :tllil~tza ..
cflo do lrabaUtQ é :t :iu:t llltittiva~à,o. Nu et>t!gíq da ~oono~ia pol(t,ca, ~ssa transposição tornou-se pos~ivcl porq ue se fez umjof(O de
es:;a {tlu:llit.ttc-Jo ( Vi'l'wlrkliduorçl du trab;tlhv s~rgc <:Qttlo t p trd;l, p<lw o palaml.l com o conceito de produção. O mesmo OCO II'e com o con-
trubalhadm. da :tut reJiicla<Jc •(tur•Hndidt~ng}. n ol)jetivaqà.l) cuu;.o a ceito de objew Dizet' que o trabalhador produz um o bjeto pode pa-
pet'dn 00 c;.l,.feuJ c nijt•:'âtb à t•.ttt·. it apcoprhçio cpmq a1itnh~ão(f.i1(/tvm:­ recer coisa mu ito in<>cen te, mas sob esse conceito Indeterminado de
Jtm.r ), como dc3pOJJrncnto (Entdu.'$Strt.;ng t ubjeto introduz-se a conoepçào feuerbnchiana do o bjeto. Esta é as-
sim expressa por Fcucrbach em A r::rsênoia do Cristianismo:
O fato econômico d~ q ue fala Marx e a puuperização: o traba·
lhador torna -se tnnto mais pobre ' lu<nno mais p rodu% riqueza. O obj~lo dl) homem nada tllm.,1 .: que a su;a JHópria t:~sér.cia tQmtdu
como objetu (.\f d tt l/nte$ phi/(}sO!•Juqa.·e,J, p. 71).
Sobre esse fato Marx efetua uma anítliseda essência. Esse fato r.xprf.
86 LER O CAPITAL. D OS "MANIJSCRITOS DE 1844" A "O CAPITAL" 87

O objeto ao qual um sujeito .$C:Riaçiona por w~ncia c ncces$idadc Logo:


nada mais t que a etsência própria dc:s.se sujeito. porém objetivnda (Idem.
p. 61.) Ma nifestação da a tividade a atividade que proporciona ao
genérica do tra bnlhador trabalh ador os meios de
. ü objeto produ:údo pelo trabalhad or surge assim como um ob· subsistência
Jeto íeuerbach1ano, como a objetivação da essência própria do ho·
mem . ou
Manifestaçã o da vida genérica ~ meio de manter a existência
O q ue torna posslv~l a operação crítica é um deslizame-nto ope-
individual
rado nos termos produçao c obJelo. Ao passar do seu sentido cconô·
mico (indetermim.tdo) ao sentido antropológico, esses dois conceitos Verificamos no cnso a inversão meio-fim característica da alie-
trans formam o d1scurso dado no discurso de referência. nação. O conceito de meios de subsistência permitiu o revestimento
A esse processo que permite :l lei econômica tornar-se lei antro- da lei econômica pela estrutura antropológica.
pológk.a (forma g-eral da contradição) chamaremos anjibalogia. Temos aqui um exemplo da operação que não é explicitamen te
desenvolvida por Marx, mM· que funda a pos.~i bilidude do seu d is·
curso. Essa demonstração poderá ser feita com base em certo núme-
3. A Aaflbolonlu e o S<JII Fundamento ro de outros conceitos dos Manuscriro.r. Poderemos então traçar um
quadr·o das nn tibologias e veremos como os termos e os encadea-
Seja, de uma parte, a estrut ura de referência da nlienaçiio. me~;~ tos de termos (leis) d;J. economia clássica s ão imediatamente
N n nlienaçâo produz-se a inversàq seg'-',intc: a vidi' genérica do trunsponlveis para o discurso crítico (antro pológico).
homem torna·sc o mdo de su~ vidn i n~vidual. e sua essência torna-
se o meio da sua existência. As~inl, em 11 Questão Judaica, Marx Quadro da$ anfibolclgios
most w como a Declaração dos Di reit os do H omem far da vida
polftica. que representa n vida genérica do homem, slrrtlllc~ meio
-·--·-··---............--.. __...........---
l iCOIIO!IIiO Crítica
para preservar os iQteress,:s egoístas dos membros <in socieõadebur·
guesa. 'lft~(mlhador Homem
Seja. po r outra pap1:, um conceito ec<lllÔm i~:o, 0 concelto de Trabalho ArMdqde genérica
me1ns de .wbsistênâa. Sa})e..s~ quu, segundo a economia clássibn o Produ lo Objeto
valor do trabal ho~ igual ao vdlo~ dos meios de subsistência neces;á- Capital Serestranho (.frcmdes Wesrn)
rios para o u·abnlha,dor. Sabe-se, por ouq o lado, que.~ O Capira/, M l'ios de .m/Jsl.tléncia M~iru de ~·ida ( t. e/MnsmirreiJ
~~crítica recai sobre o próprio conceito de valor do trabalho,.: Mar.( Vaiar Valor ( Werr J "' dignidade ( Wíirde I
mos~ra que ele n!io pas~n de uma expressão irracional do valor da Circula~M Comunidatfc
força de trabalho. No nlvcl em que nos encol)tra mos , l'!ão se trata Conrércio Comércio ( Verkcllr)
de~sa crítica; por outro lado, é possível estabelo:er a equnçftp se- Riqueza Rigm<ra (Sitmlichkdt feuerbachiana)
gUi nte: --·..--~------· ...·······---·--·-····-····
trabalho do o perário "' ath 1idade que proporcio~a no l~ab~t­
lhatlor os seus meios de subsi~tên­
cin
Ora , na a ntropologia d o jovem ~l arx, o trnbalho é a manifestação
da vida gcnl:rica do homem. remos, pois: Obs~r~·ações
lrabalho do operário = manifestação da atividade genérica a ) A primeira an fibo logia é a anfibologia operário/homem .
do tra balhador No in icio do processo, o sujeito dele é o trabalhador. Poder-se·
88 LER O CAPITAl, OOS "MANUSCRITOS l)E 1844" A "O CAPITAL" 89

ia pensar que se parte aqui de um ponto de vista que é o da luta de separação entre a essência humana e o sujeito humano. Essa separa-
classes. Mas de fato não t assim a bsohliUmtRic. No segundo pará· ção é expressa nos Manuscrilo~ pelo conceito de trabalho alienado.
grafo do texto em q uestão, e:;se trabalhador torna-se um produror. Também o trabalho alienado será o conceito (Begriff ) estabelecido, a
Mais tarde, esse produtor to rna-se sim plesmen te (> homem . solução de todas as equações.
Releiamos o início do texto mencionado (p. 57): Como será possível, a partir dessa determinação do conceito,
constituir o discurso çrltico da economiu política'? Marx nos d(í n in-
O trabulh:lliQr uunà-ílt t:mtn m:tis pobre quanto ma.h; dquczn pro- dicação à página 68:
duz.. quunto mais MUI Jlrt)dução a\l mt ntu em força e Vl)l umc.

1\stiln ~o mo do çonceilo de traballto t'llirnado litMlOS mediRntt amí·


Comparemos agora essa frase com este texto do terceiro n,a- ftsc o çonçcito de prop,lt'dcJ~t p1/1oda. podcrr.os gwcas :1 esses doi' fatn·
rtt- expor todas il:i m tegmiu.r da economia e em cadJ ~tegorla., como,
nuscrito (p. tOO): por exemplo, o ~cMic:o , 3 conc:Qrrê.ncia, o o=np)t;.ll, o dinheiro. rc:cn cun lr~·
remo$ l ii.ó-~(l ml!ntt- uma exprtssâo dctu'm(,t(lda. ~ (Á!$f'nvoMda dc:;5ns JUi·
O homtm tomn~st: tanh') mai>i pobre enq uunto f.o mem. tem t:tntu
muis tacres5ídadc ele dmhetro parn toro:urse sc:nhor do $Cr hbslll, e n (or· meitai bases.
ça du seu dinheiro ca.1ex~tam.:nte na rnio in\'cmt do vo:ume. da. produ·
çào, i$t O I!, su.1 in<figênc.tJ ume.nut M rn.:dida (In que :wrr:l!nta ü (or.;a do Vale dizer: encontraremos em tndas as cntcgorias dn economia
dinheiro. políticn n mesma estrutura de referência. Isso não nos poderia sur·
preender: o estudo do processo da anfibologia mostrou-nos que, a
A alienação convel'lcu-se em alienação do homem ern geral. pnrtir de cada categoria , p<ldlamos encontrar uma expressão da con-
o) A unfibologia do vu lor operceptú•el no pa r Verwnwngt f nr· tradição fundamental: a ci~ão da essência e do sujeito.
Wt'l'ft.mg do Q.Osso tex,to. Superpóe-se ao co11ccito econômico âissico Podemos expri mir de olltra maneira o <1uc vem a ser esse begrei-
de valo •· um conceito de valor que lomctc de fato ao conceito (kan- fen . voltnndo 1> nossa t)'letáforu injcial da linguagem: o hegreifcn con-
tiano) de dignidade. ·siste em revelar a língungem profu~da que ja1 sob o enunciado eco·
c) A an fibologia da circulação está sobretudo exp lícita nos ca- nomiCO. 0 ll).OVilllCiltO do qegrfij'cn, que COillprcende 0 encadea-
dernos de leit ura nos q,uais Marx COrtlclltou os economistas <juc ele mentO dos fatos. vem a ser a elaboraQâo da linguagem em que se ex-
leu un tes de redigir os Mmrusoiros. A circuhtQiio é cnm)lreen dida prime a cxperi~ncia 1 humana.
antro pologica!llcnte coroo intcrsubje-tividude. h' o estágio da econo- Ou , caso se quc:tra, a critica é tradução e o nosso q uadro das an-
mia pollticn, a cireulaçilo a{Htrec<: cqmo a forma aliçntul~ da 1co nw- fibologia,;; é um dicionário. J1,1as esse ~icionário é bnsta nte n~tãv~l.
nidnde lntmnna ( (itmdll"(asen). O Ct>nceito de comércio (V~rkdlr) é Ne(e veriflonmos uma cotrespondêncw termo u termo, c nao sao
tam h~m tomado C<lm essa ressnn:lncia intcrsubjetiva . (Inclusive 001 apena~ os telln(t$ que se corresppndem, m a~ tambem os próprios
A ld<'ologia IIM111ã, (1 conceito de VerkehrJ/Mrr t otua,do cort;to equi- enunciados.
" tl<:nte do conc<:ilo de r.~lcwõ~'·' de produçrio cotlscrvaní uro conleúdo
antro pológi[C>,I Isso só é posslvel med inn~ urn confronto privilegiado: o con -
d) As outras nnfibologius foram já explicadas. co m cxceç\lo da ft·onto de um discurso antronológico e~p Hcito com o discurso antro-
anlíbologia da riquéZll, a q ual voltaremos. pológico impHcito du econowin clássica. De fato, a economia políli-
l'odemos agora defini r o que vem a se~ o b~grelje11 que curacte· ca de que trauunos aqui é a economia "pré-C((ítica". aquela que não
ril.a a crítica. Consiste numa resolução pelaJ substituição de Lermos foi ai nda submetida à critica decisiva que Marx fará em O Copllal.
das ~qu:l ~ões nas quais ~c siLua ~ comrn~ içâo. Trata·&e de uma economia que fula da prodltcão em neral sem poder
Essas C(j UaçO.:.s são, por ex~mpl o: fonnu lnr o conceito da especiflcidade de um modo de produção, que
va)ori~nção do tnundo das coisas= (h:preciação do mun do dos concebe o desen1•olvi11Jento econômko n partir da ação de sujeitos
homens. cccin õm icos.
ou v<tlor do trabalho = valor dos meios de subsistência. Tomemos urna das definições da economia clássica, aquelu que
A soluç;Jo é atingida quando chegan~os ~e q uação fu nd~ment al, determina o capital como trabalho acum ulado. Vê-se facil l'(lente o
:i identidade: esquema antropológico que pode insinuar-se nqui, a anlibologia que
essência humana m ser estranho. só será revelada q uando Marx, em O Capital, definir o capitnl
Essa equação nos indica de fato o principio da contradição, a como uma relacào de produção. operando desse modo a mutação ra-
90 LER O CAI'ITA L DOS "MAI\USCRITOS DE 1844" A "O CAPITAL" 91

dical que fará passar o d iscurso econômico do campo d a amropolo- !ação de pe rtença nada tem de evidente e. tra tando-se do operário
gia para o da ciência. Igualmente, textos como a passagem célebre ela grande indústria. nlío tem muito sentido. Ora. é a sua introdução
de Boisguillebert sobre o d inheiro que deveria ser o servidm· do ho- que permite: no campo dos fenômenos econô micos centrar-se em
mem e que se to rnou o senhor dele oferecem-se por s i mesmos i1 ela- volta de urn sujeit o. Esse sujeiw não é dado no operário. Está na sua
boraç ão da cr·íticn antropológica. A economia politica de que truta ptodução. Em outrus palavras. é a extração do predicado que deter-
M;m c estâ assim eivada por toda uma antro pologia implicita. Ela se mina o sujeito.
apresenta em ger·al de um modo mais'ou menos explicito segundo o l'or qu,e esse sua, essa relação de pertença sujeito /predicado
caso, no âmbito de uma reoria da socil!clude. E.ssa teoria da socied õ!P~ pode ser introduzid n a qui'1 E o pr·óprio conceito de produção 'lue a
remei e a uma teoria da subjetividade humana (que pode npresent'ar- indu r.. I'<H mão ser definido cientilicamenlc como o será em O Capi·
se com o t~ria das necessidades, teoria dos interesses, teoria das pai- tal. isto é, situado num prousso, e.i~e conceito não vai além de indi·
xões. ele.), a uma teoria da intersubjetividade, das relações entre os car u m ato que se passa na esrc,·a de atividade de um sujeito, numa
s ujeitos h umanos. e a uma teoria das rclnções do homem com a na- relação suje itojobjeto. De modo mais gerHl. os conoeitus da eco no·
tureza. Os p róprios conceitos que constituem o seu domínio, os de mia clâssica (socied:Jde. produto, rique~. renda, etc.). pelo fato de
élrcularão, lndrlslfill, etc., longe estão de eslnr llUr<JS de toda implk,l· não seyem criticados, determinam esse lugar de u m suj eíto.
ção psicológica o u ant ropológica. Ora, a teoria antropol9gica do jo·
S~ nos adiantamos e cor;tfr·onta mos u conceito de priX/uçào aqui
vem Marx apresenln-se j usla r:nento como uma teoria gera l das reln-
ções do !:tomem com a nature-za c com o homem. Do mesmo mo do, cnvolvtdo ton) o <:qnccito de pr(Jçe;·so de producào em O Capiral. ve-
há na economia cl;lssicu u rna t~ria mais ou menos implícita du or·
nficam<;>s qu e ern O Capi1al é u conceilp de ;cla~iib de produção que
dem natural e da sua pen •ersão (temos um e~emplo disso no tcxt<>já permitirá revelar ns !ut l'ibolog(as ao operar u dessu'bjet ivHção das ca·
menctonado de Boisguilleben). Ora, u teoria da a liendçiio é a slste· tego~ias eçclllÔ(Oicas. Aq\ri é a sua ausência que de~erm;na <) sujei·
matizuçiío dessa toqria da perver·são. Com isso, a crítica antropoló· to / homem como $~porte neccssál'io dt:ssns categorias.
gica pode uprescntar-se como a explicitação e sistematização do dis- Vemos ngorn por q ue a não· crlticíl do:; termos da econorni:l
curso antrop<>lógico im pllcito na economiu clássica. política é a condição da críçica da economia polilica, e como~ nlio·
( Neste t..aba lho apenM leval)tO esse p roblemn de u)U modo determinaçã,o d~ um dom(/ria da e<:onomiu polltica é a condição da
muito gernl. Serin natu(nlmc<~te p~etiso fnzer-lhe um e~tudo UPíO· determinayã.o do~ fcnôm.e "'os econômicos como expressão de um
fundado. Ta lvez se possa tnm~l cnfocá-Jo di ferenlt:n~e-Q.te ao col<h f)f<)CC~SO RrlljNIXJlógico.
car a que1t.ào de u ma dupla r·91a~o: 11 r·elaçã.o dos <:<J~cci tos tl,e t ça- A esse próp6S,t<J, vale indagar q\1ern, n os .W.m111scrilos, repre-
balho, alienação. etc., nos Mamjscrrtos. com ~ teorrzoçao liess•:s con· senta a cconomin polltica. Se nos referirmos ao~ tex ~os citados no
ccitos em Hegel, e a relação de ~l egcl com a econo(\'Ji'l política,) primeiro rn anu·;crit(l, íremo~s verifiqr que perte ncom " dua~cate,go ·
Tel\temos ago ra disce-Jini ~ mui~ Jlrecisllrl),ente o ~ue permite a r·ins: un~ ~o (O:Iior <\Íimc:ro) pilo extraidqs de Ad;rm Srni th, c os ou-
superposição dos dois discu rsos! Consideremos o <IUad~o das anfl- tro~ são timdos de ll urct ~ is!ftondi (re{' resentundo u crítica.humu-
bologias. O que torna possfvel a traduçào, a passagem d~ uma colu- lla do"ci nisrpo" M Ricardo). D~sscs tcxtqs é <!ue Mar;<; ext"~' as lw ·
na a ouua é a e~isti:ncia de um suporre comum. da ~cOnt.lttlla pqlíl(ca ~ue tJ'anspoe para a tcorru antro pol6g•<:a. Por .
O ~uporle da antíbo lo1r~3\ c urn ,ruJdif<?,. o s ujeito lrqmem. outro lado, podq veri lle~-se .;es~a rues<)Ja co(etânea de lex~os do
J>ara perc~ber como funciona esse suporte, estudemos u frMe primeiro rnanuscrilo uma quasc-uusí:m:iu: a de R icardo. Scrn dawi-
seguinte: da Ricardo s erá meriôión:!d.;> vúJ•in~ vcze.1, sobrentdb no segundo
m~nuscrjto. Ele é que exprirne ci nicumef) te todas as conseqiiências
Partiroos de um fáto !u~rtdmiço: 3 Jliun:t('.àu d.o trot~alhndor e dosun j numanàs dn econom ia p<llittca. Marx. porhn, nã,o retle;e :t u$sa al-
produçilu. Exprimimos o CQnooito dc:sso fato: o trahàlho f{lit' sJ tornüu rt'• t lira sohre o que constit ui n orig inalidadu de Ricardo no contexto da
IIIJ.ttlro, nlif'llado (p. 6S), · ocooomia clássica. R icnr·do é quem cxpr·irne no lmerlor da economia
políriara dililr~nça da es~ér1Ciaem rela~üo ao f~nômeno. O r~. f!ura ~
A condiçíio da tra nsposição critica ê que possa o perar a estru- jovem Marx. essa difcrenç:l situa-se foxa do dtscurso econmn•co. E
tura s ujeito-t>redicado-objeto. lsw se tornou flOssivel graças à in tro- 'rrecis mncnte ela q ue detine ' ' diferença do discurso econômico com
dução do possessivo: sua produção. Por pouco que se reflita, essa re· rclHçflo ao discu rso crítico q ue é o seu sentidQ.
92 LF.R O CAPITAL DOS "MAI'USCRITOS DE IR44" A "O CAPITAL" '13

E m O Capital, Marx irá apreender essa originali dade de Ricar- 4. De$envolvlmento do Conttad[~ão: História e Subjetividade
do e situará nesse nível a sua diferença com a concepção ricard iana 11u :vtotores e Motivos
na medida em que ela representa o que há de mais profundo na oco· A elabo ração critica per·mitiu defin ir a contradição fu ndamen·
nom ia clássicu. No n[vel dos Mmruscriros, Ricardo surge como o ho· tal: a perda do homem em seu objeto, a separação de si mesmo, a
mem da abstração, aquele que, defi nindo a concorrência corno algu- alienação da essência humana no movimento da propriedade pri va·
ma coisa de casual, nega os fenômenos e.:onômicos aparentes para da.
impor as suas abstrações(<> que Murx lhe censura em suas notas de Sab<!·sc como se desenvo lve a seqüência da problemâtica dos
leitura). Manuscritos: o trabalho alienado surge primeiramen te como uma
Igualmente, Ricardo~ quem reduziu a imponânciu dos fatores conseqtiênciu du propriedade privada, mas a análise revela que a
subjetivos. na economia. O jovem Marx não pensa essa redução a propriedade privada é por sua vez conseqllência do trabalho aliena·
não ser <:omo expressão da in umanidadc das leis da e<:Onomia po líli· do. Surge então o problema da origem da alienação do trabalho: ou
ca. a alienação é um acaso e somos então levados a uma problemáticn
Se Marx não npreende no !;eU verdadeiro nível a imporl:ln<:ia de da origem da má história, semelhante à da Filosofia Ilumin ista, ou é
Ricardo. é que lidamos nos Manuscrito.• menos COI'(l uma <:rltioa dos um prO<:esso necessário. inerente ao desenvolvimento da humanida·
prindpios da eco11o111ia (10/ítica do que com uma verdadeira teoria da de. Esta segunda al ternativa é que será escolhidu por Marx no ter·
tiq11eza (veremos mai s adiante o que devemos entender por isso). oeim manuscrito. no qual a alienação da essência humana aparecerá
<:omo u oot1dição da r-ealização de um mundo humano.
Obsnvaç~o No caso ainda, r~ào nos situaremos no oentro da problemática
Coloquei ao lado do quadro das a nlibolo~as <J que ohanlei de expllcita de Marx . _ osso propósito é responder,\ questão seguinte:
quadYo das opofi(iit's pnrinerrie.r: pessoa/coisa e meio/ lim. Essas que vem a ser a relação entre u aLiVidadc dos sujeitos econômicos e o
oposições é> que dào sentido no discurso a,ntropológico. Ao mesmo desenvolvimento histór ico da 1n opricdade privada, desenvolvimen·
tempo. somos levados p(Jr isso ao cnmpo oride se acha localizada a to que per·mite u <:onstituição do campo da economiu politicn?
pertinência dessas oposições. o campo da rnoral kan ti ana. Proporemos esse problema a<:ompanhn ndo as desventuras de
Aqui prclcn d,o apenas oha mar a alcnc;íio para um probler;11a: s<. uma per·sonagem escqlhlda de quem v<:>ltaremos a falar a propósito
por urm lado, ,iá se discutiu abtpr~antcmente o p'roblcmn da relação de O Capital: o 1:apitalistu.
de :.Vl arx com Hegel. náo se perl,SOU uma relao;•;1o <tu e é tal vc~decisi va partiremos de urna frase deSmith , citado por Mar'X (p. 27)l
paru pensar a ruptura ent re a criticn do .iovcrn Marx c a do Ma~x da As o.pcrnçõeS mai!' lmporlul\!es do trabf1l~o ,são ~g.idús I! diri_gid\1$
maturidade. u reluçfio Kunt( Mnrx. • segundo os plilno:~ e as ~spccul a,çõcs da1i..:cle.s que c01prc~111 q!l cupiuiS.
Podemos indaga~ se o terreno no qyal se mantêm oiovcm ~~arx
não estll delineado pelas oposições kantianas (autonomia/ hctcrono· Vemos Marx retornar por sua conlu em v:\rios lugares essa de-
mia, pesso~jcoisa, meioifim) . (:onvitia e~tão estudar ~m. O Capital terminação da subjr:ti vidade cupitalista como o motor do dcscnvol·
o dcslocmnento dessas oposiçÕes, por exemplo. o dc~locmnento da vimenlo da ecohomia, declarando que a marcha desta 1: regida pelo
opo~ içiio !Pessoa/coisa nos Cb1JC~,itos de supqr/,. e de per.rmrijlcaçã,o. arbltrio do capitalista. Dois conceitos exprimem essa fu nç~o da sub-
De1•eriamos inclusivç in<i~gaJ ~n~ <JYÇ nN~idp os conceitos de meios jetividade capitnlista: o de temperamento ( l.Q!Lne) e o de cálculo ( Be·
e de fins do modo de p rodução cupitnlisla opera m essa dessubjetiva- rechn1-1ng). Essa teoria da subjetividade e do cálculo ê sobremodo
ção da orosiçào meios/fins. nítida no texto do tcrcein) manuscrito, ili'titulado; ..Signilicaçilo das
Essas poucas obs~rvações (1odem per·m itir a explicação do mo- necessida<les humanas r\ O regime da p~opriedade ~;>rivada c sob o so·
ciulismo". Ela acarreta nova determinação da economia politica:
tivo pelo qual a superação operada no 1erccim manuSCfito d:l estn surge como a cil:ncia do cálculo. Por e:wmplo, a lei do valor do
problcrn:ítica do primeiro manusc1·ilo 1: uma superucão hcgelina. t rabalh o m.anifesta o fato de que u economia poHtioa calculn para o
t raba lhad0r a vida mais estreita possível. A eoonomia política é aqui
pensada - tal como já o fora no tc~to de Engels- como a expressão
• Cabe lembrar os esludos nt:Jsc $cntido por Locien Goldm:m, (N. de 'ft.) di reta da subjetividade capitu lisla. As leis da ~conomia política sur-
94 LER 0 CAPITAL DOS "MANUSCRITOS DE 1844" A "0 CAPITAL." 95

gern e ntão como os mandamentos que exprimem a vo ntade do capi- Explicitemos aqui a anlibologia estabelecida há pouco. A ri·
ta lista. Essas leis exprimem os fenômenos ccopômicos na medida em queza que é o resultado do cálculo é a riqueza desdobrada das forças
que s.ão elas que determinam o desenvolvimento da propriedade p ri- hum anas . li\epresenta a humanização do mundo scnslvcl que se tor·
vada. nou possivel pela alienação, termo do movímento pelo qual os obje-
Daí, nesse texto, expressões como "obedecer às leis da econo- tos naturais do mundo se tornara m objetos naturais humanos, cons·
mia", "'sujeitar-se aos ensinamentos da cconomiu". Assi m é que o tiluindo u m mu ndo no qu"l o b(lll!ÇIJl poderá reencontrar-se e rcco·
trabalhador obedece às leis da economia ao obedecer aos manda- nhecer a SU!t própria ess~ncia, essa essência alienada que, sob a for-
mentos do cálculo capitalista do qual o economista é o porta-voz. ma do trabalho alienado, constituiu a riqueza.
Mas essa subjetividade capit:~t ista, cuja função acabamos de A anlibologia consiste nisto: o que é posto so,b o conceitó (eco·
ver, deve por sua vez perder-se no movimento da J)I'Opriedude priva· nômico) de riqueza é o concei1o de Sinnlichhil. A Slnn/ichke/1 é
da , no desenvolvimento do estágio da economia pollt ica'' Vale a para Feuerhach a exterioridade scnslvcl em que o homem se reco-
pen a ver como se dá essa perda. nh~-ce. Para Marx, esse reoonhccimcnto, essa identidade da Sinnlich-
Um primeiro modelo o ferece-se a Marx pat·a pensá-lu: trata-se k ril (realidade senslvcl) oom o humano só pode ser um resultado. t:
do modelo smit~i~nu da (0/I<'Orr~ntia que equilibra a ação da~ &uh- resultado d o trabalho alienado criador da ríque-w.
jetivcdades c constitui a harmonia da sociedade co mo resultun~edos S6 gmçoas, b riqceuaobjetivamente. drsdohrnda dt c:ts!tlcia.lnlmana. é
interesses egoístas. ~se model<• é lembrado por Marx (pp. 27/ 28). que a rique-la. da fpc-uldade .tUbjc:tin de ~>< nti c do Aom~,,. ~. antes IJc tu.-
Podemos fur.er uma o bservação quanto a isso: a impo rtância atri- dQ, ou dtflenVdlvid,a O\l mod ~i da, que urn oii:~J id o se toro• mWJidslâ, que
buída nos (l{anu.rcríws- c muito mais ainda no texto de Eng~;ls- à \Ull olho percebe a beleza dn forma, ttn suma;, qnt os se1:tido.t se tornam
<:-ilp;Jzes ® fn.J~çlo humanu, tcm1nm~t sr.mido3 que se OJfarmam Cônto
concorrência assinala bern o cara ter ninda(dtológico da ctíticn deles rorçus cssenc:iais do homem (p. 93).
à economin política, a confusão daquilo que Marx em O G'Cipital dis-
tinguirá como movimento real c movimento a,parcnte. Entl'etanto, o Vemos uqui o que significa essa perdu do Wjéito econômico no
modelo smíthiano não é ma ntido aqui por Marx, q ue critica a te.ic desenvolvimento da pt'OJ>riedndc! privada. No~cu desnpa reclmcnto,
sm ithiana da red"'çào do )uoro pcln concorrência. surg~ o ve tdadeiro sujeito do moVimento, a h11manidade. Atravbl
Ma rx usar~ l:l1nbém ouLro modelo que podemos ver em atua- dos motii'O.r d o capitalismo, (oi o descnvolvi mentb da esséncia h \I·
cão no texto sobre a "Signifi~ção dns ncce.isid~dcs human2•s" \Pr· mana qu.e J.briu 1Im caminho, que desempenhou o papel de moto r.
110,1 111!)<Nesse texto, Ma.rx de;>cnvl)lve a tcor·u• da tra,X)$tçao da r•l· O• que l<erilica\nQS aq ui é o modelo hcgelinno do prefác(o das
queza diss(padorn '' riqueza in~ usttial. O P.timei ro momrnto dcs.•a1 U!'Õe.t sobre a Filosofia da História. O verdudciro sujeito da história
dialêtica é O da fiqU<!Z!I disst'pndor a, do CIIP/t!llisllt que d,e.~frut;l, Ji!;.lC serve-se das su bjetividades ilusórius 1>ara impor a sua lei. O vcrda·
momento vi(â n per<ler-se no sc!gun do n)o mcnto 1q do rálcu{o. O ca· deiro n1qtdr tlu h.i,st.6ria é n essência hurra na. E o momento da rique-
pita Iista do cálculo é o industrial. Ele subord ina o dest~ute ao Cá teu· za é n~tuele ~o qual a humunidade possa retomá·la tcconhccend.rse
lo, subordinação que culminará na sujeição do cálculo i• riqueza. O no mundO! senstvel.
momento do capitalista d o cálculo é o último no dcsem'olvirpento Podemos agora t-sdarecer o que vem u ~cr o n(ve/ da c?~onomia
da pro priedade privada. pollt!C<I. O el~io da ~onomía política IJ nq u,~le em que surge a es·
O 4illrrute (I;;; a •bsi:fO ~o,ubordiWJdO ao c:&pÍt-tl, e IJ ind.lvid\lo que dl!s.-- sênclll sut~clrva da nqu~a. o t rabalho. O (hscurso lia ccono rnt"
fruta (ica ~ubor-dinado ~ l(Ut capittlir..a, ao t>as5o 'tue antigamemecra o pqlltl.ca t-econhece a essência do homem como essência da d quet<l,
cc)ntr(ltio. A dtminui.;lto dojuru :só é, pvls. s .l1ll.)lllfl da .-bni~Ao. Uo ~ap~,.. mas nilo conl\ec:c a alie11açào dessa esséncin, não ~cconhece que o
tàl enqultn,\o ~~nt,Onll, da sua dorr.irut;fío em via de r-:cll.iz~-;ii.o. e purlüntO t rabalho fhntc de riquer.a 6 <> trabalho alienado. 0 que a economia
cl3 alienaç;lo qut co9-~lui t- se aprt!ua no ~cntido da sun 5UJ1rft!SHo (p 1
conhece como e~sencia do homem é. a sua essêncin alienada.
I I fi).
Ao mesmo tempo, compreendemos o fu ndamento dcssu di ficul-
Po r que es.~c momento do .capit<llismo do cálculo~ o que !'reoe- dade que s,u blinhamos na pr imeira parte- ausência de deslocamento
de" supressão do caprtahsta? E que n subJel)vldadc do cap1tahsta (o entre rcalltfade econôt(rica c discurso ~conómicp expresso no conceito
c!t lculo) criou a objetividade na qual ela vai perder-se, n que pcl' miti- de n(ve/ da ~aonomia política: esse conceito uprime certo momento
rá o fim da alienação: a riqueza. d o desenvolvimento dessa e.~periéncla humana de q ue falamos no
96 LER O CAPITAL DOS " MANU SCRITOS DE 1344" A "O CAPITAL" 97

inicio. Exprime certa consciência de si da h umanidade. Mas essa b~t;reifen, produz os conceitos antropo/6gicos de produção, traba-
consciência de s i da humanidade é indireta: a humanidade só conhe- lho, riqueza , ser estranho, etc. Podemos caracteriznr essa t ransfor·
ce a ~ua essência sob a forma da alienação ou, o que exprime a mes- ma~o de deis modos:
m a s1tuação, s6 a conhece sob uma de suas determinações (a econo- - d o po·nto de vista da relaçUo entre genera lidade I e generalida-
m ia políticu, diz M arx, só conhece o homem como capitalista ou de 111. Os conceitos antropológicos silo . como vimos, a rrad11çào dos
!rll\lalhad~>r, só 'conhece o trabalho como atividade destinada a conceitos econômicos. A essa tradução é que se reduz toda a trans-
certo proveito, etc.) Ao fazer da economia uma história a ntropológi- formação. N enh um conceito econômico novo é pro duzido .
ca das relações do homem com a natureza e com o ho mem, e,conhe- - do ponto de vista da relação ent re generalidade 11 e generali·
cendo, p ois, a o bjetividade econômica t ão-só sob a fo rma da inter- d adc 111. Os conceitos da " teoria!' (generalidade 11), os conceitos de
Stlój etil'idade e da sensibilidade ( Sitmlichkeir). Marx to mou possfvel o essência, alienação. atividade genérica. etc.). apenas se reproduzem,
procedimento que faz desvaneoer essa o bjetividade n uma d ialética redup licnm, nos conceitos a ntropológicos da generali dade III.
da experiência humana que nada mais é afina l do IJUe uma dialética O processo de t ransformação da críticu ú assim apenas a carica·
da conscil!ncia de si. tu~a, a begriffslou For111, da prática teórica. 1?: nessa estrutura bem
especial do !Processo de t ransfo rmação que nada transforma que se
S. Discurso Critico e DINtur!IO Cientifico apresenta o dlscu!SO ideo/6gic·o do jovem Marx.
Se retomarmos todos os elementos do discurso crftico , veremos Vê-se tudo o que es tá implicado na teoria da nbs tração que é a
q ue eles do:Jineiam certa figura que é a das contfiçclel' d~ impo.tsibilida· do jovem Marx. Niío é por acaso que, na Jmrodllçcio GN al à Crítica
de do discurso científico. da l::Connmia Polltica, a pedra de toque para distinguir a ciência da
O ponto de partida do discur·so critico t: a recusa da ab.•~ru1:iio. ideologia seja a teoria da absU:ação. E ta mbém não é por acaso que
T'rata-se de fato da Msr61ia de 11m sujeito. Sendo :r abstruçlio de pen·· a maior par te das defopnações da teoria marxista tenham em co-
sa rnento identificada com a separação dos elementos do real a a bs- mum o fundar-se nu ma certa ideologia do concreto.
tração só Pode considerar u.m mo mento SCJl:l~ado dn histór i:; do su- Tarnbém podemos perceber como esse par teoria da a bstra·
j eito. Ela l)fio perll).itc chegar à com~rcchsão dess a ll.istó~ia. çãofteor·ia do sujeito imJ'ede que seja colocado o problema da coiiS·
M as, po r s un ~eoria do co ncreto, a crftica c~nrdcna o seu dis cur· tituiçào do dom ínio da econo mia polftica como o de' um dominlo de
so a. ser ~penas rcduplicação. É r·e~upli~aç~o dq seu ponto de ~rti· objetMdad1·.
da, rsto e, do que: IJile é <iado pela experrênGta con;mm c pelos dis cur-
sos jâ constituídos. Com ~feito:
Para te ntar a demonstra~ão disso, rCjferir-nos-emos ao esq,uema I) A constituição da objetividade é, de fato, reduzida ao desen·
d,ado p or Althusser· para pensar o conceito de prática teórl.,a. 1 vo lvimen1o da Histónla. de u m sujeito.
Como se sa be, a práth:a teóricn é um p rocesso de transl'onua· ()conceito latente de e:rpericltrcia exclui a possibilidade da cons·
ção que produz urn o bjeto especifico: o conhecit)lento. Por meiq dos tituição de u m dom(llio da ciêl).c ia .
conceítqs de uma "teoria" ou generalidade li, ela t ran,sforma o da· 2) Por outro lado. se tratamos sempre a penas dn história da es·
do , isto i;, as generalidades j:l elaboradns ncln pnítica tcó~ica ante- sência hurn.ana, não será p ossível constitui r ohjetil•idade.t especí}lcal
rior (G~nqralidade [ ), p roduzindo nssim novof conccitos, n<)vo CO· !JUe ensejem discurso,! clrmr(fico.s espodficos. De fat o, é sempre a
nhecimenlo (Generulicladc 1ll). . mesma história que se deve reconhece~ por toda a parte. E: por IQda
Aqui, a generalidade I é repre~entnda pelos c;ollceilos económi- 11 p arte a essêncin humana q ue é expressa.
cos da eco nomia pol~tica cilíssicn ( pro dução, t•·abnlho, capital, r~­ 'B o que elt! expresso por Feuerb~ch nns Tese.! Provisórias (n•
da. riqueza .... ). A gcnera liiiade I[ é a teoria>antropológica cujo tra -
balho, designado por termos como Erkliinmg, Vermens~h/íclrung, 62):
St.gundo u língua. o :iUbstantivo h->mem t de falO {'Orticular, ma.~ se·
gu ndo a \'erdadc ~o substantivo de to.d,ps os subs:tantiv?s ·,O homem t~m
diNho a míaltiplos predic:ados. Seja nomeando ou exprmundo. o h~mcro
exprirne sempre apenns a tua própria essência ( Mdnife.tteJ phifu.topJuqlli'S,
l Sobre: a dialhic-J materialista (La Ptml't, n• I 10 , ngosto d-= l963). p. 123).
98 LER O CAPITAL

Do.mesmo modo q ue é o subJtantii'O homem que devemos eA-


contrar em cada objeto, é uma teoria do homem que verificamos em
cada uma dus teses .nas quais se exprime a teoria crítica do jovem
Marx. \
~odemos fazer aqui uma csp6cie de q uadro:
Teona da critica - t~se du indiferença do ponto de partida
- .tese do espelho
- tese dn náo-absuaçllo
Teoria da contradição - ooncepção da oontradição oomo cisão cn·
trc o sujeito e a sua ess<lnda ejnversão do
ato do sujeito
"Teo:ria da objetividade" - a objetividade é constitulda pelo desen -
volvimento da história de um Sl\ieito; H. Crítica e C iência em O Capital
não há domlnios de objetividade de es-
peclficos
.Toda~ essas teses, q ue delineiam a flgUia da teoria critica, refle-
tem-$c umas nas outras c exprimem a mesma to:oria do homem.
Essa teor ia, nos Manu.•critor, atinge o seu li mite. Conclui-se no
texto do terceiro manuscrito sobre o Comunismo.
:Nesse t~xto em que Marx desenvolve uma d ialética proprin·
mente heg~bana, em que o comunismo é definido nos termos que
definem ~m Hegel o sa,ber otb.lofrllo, estamos d iante de UJtl d iscurso
ao mes"?o tempo perfet!<> em seu rigor~ insustentável (insustentável Preli minar
no ftmbrto de uma tcor·ta que tem por fim \ 111111 atividade (Cvolucio· Est;l cx pqsi~ão tem por objetit'O mostrar a partir de a lguns
J)Jlria ~fctiva~. exemplos n r·e<DrganizaÇão do car(\po cí>nceptua l de Ma,rx, que cons-
Es8e dtscurso não te1á ta mbl:rn conti,rJUÍdiJ.de. () obj eto novo tituí a pa~sergem do discurs<> ideológico do jovem Marx ao discurso
enoon rr.ado. pel.a Crítica, a cc<J!tomin po li rica. paJece a essa a ltura cientrrioo de Marx. N íio é nosso propósito aquí fazer uma exposição
ha~e~ SJdo.ll)tcJramente absorvido pela <.":rltica. Em realidade, ele é sistem ática, que suporia se tivesse plen am ente apreendido o concei-
que tmporá u CXJ>~Osâo do modelo cl'itico c n \lestrutur·ao;;1o de toda a to da cicntífic)dnde do marx ismo e q ue se o pu de~se e~p(JT num dis-
problem{rttca de Marx. curso un itário. Por isso, meu mí:todo consi&tirá em partir de diferen-
tes pontos, de d iversos lugares, para tentar determinar por ap roxi·
mações sucessivas c;su especificidade do d iscu rso de Marx em OCa·
pila/.
l!.m geral, Mnr.r.. dc&)gna essa especificidade ~ão maís como crí·
ticn. mas como ciênaia. Uma curtu ll\leb(c a Kugeh:nann classifiçn
O ca,.rral r:ntrc os yensaiqs cientifico~ escritos com o propósito de
revoluci<>nar uma ~1ência'' . ~':sse proj etp de revolu~ão de um doml·
nio cientilko constit uído é in teiramen te diferente do projeto de lei-
tur·a de um subdiscurso implícito a u m discurso <JUe caracteriza a
critica anuopologica. Entretanto, ~ arx utiliza também para desíg·
nar esse projetQ especifico novo- o subtl~ulo de O Capila/al está
para o confi rmar - o termo critica. Assim é q ue escreve a Lnssalle
ern carta de 22 de fevereiro de 1858:
100 LER O CAPITAL D OS "MANUSCRI'TOS DE 1844" A "O CAPITA L" IO I
I

. O t r~lla~ho de q~1 e se 1r.ata em primcir~ Iusar é .a c,ftica das catr-}~ to- e do predicado permite a Hegel efetuar a operação especulativa:
nas eron()tmca.t ou, if ymt hke (se tu prefemes), o SIStema da coonoo11a po~ uma nova separação. ele d istingue a soberunia do Estado real e
burgue-sa :.presenlad.o sob umu lêlfnta critica. Ú. uo mesmo Lempp um a trjlt).sforma em idéia, em um ser autónomo.
quadro do si:nema c a çr(1ica dc.uc 5i5tema pela próprin cxposiçpo.
Esse ser autônomo deve ter um suporte. Esse suporte lhe é dado
_ Ao enf~ar o~ proble.n:'as. suscita~os por esse pro)eto de ~ev~lu· pela Idéia hegeliana, o q ue Marx chama de ldt ia mistica. A sobera·
çuo de umn Ciência, adm111ret conhecidos oer1os tóp1cos; essencial· nia torna·s~ uma d~terminnçiio çie$sa Idéia mística.
menlc: U ma vez realizado e~se movimento de abstração, Hegel deverá
-a locali7.ação do que chamei de 1ea/idtlde econômic-a da " esttu· operar o movimento inverso, descer 110 concreto. O vínculo entre a
tura o:conôrn ica da s~iedade" definida por MarK no prefácio da idéia abstrata e a realid;~de empírica concreta só se poderá fazer por
ContribuiçíirJ de 1859. Isto é, admitirei conhecidos os conceitos do um modo místico, por uma eii~'Ornaçào. Mediante essa encarnaçã o é
materialismo histórico; q ue a determ inação abs trata podeni existir no concreto . A [déia
-a problemática d o método que está exposto na Int10d11çiio Ge· mlstica se encarnará num individuo particular: o monurca. Este sur-
ral de 1857. gir:l en tão, em Hegel , como a existêpcja imediata da soberania.
As questões q ue lentarei colocar serão, pois, us seguintes: Resum!>mos esse movimento no esquema ~eguinte:
Se Marx revolucionou uma ciência e inaugurou um domlnio ( llnO')Iel(Jeoov )
cientí fico novo, q uul ê a configu1·açào desse domínio'? Como se defi- S~eito/prtdlca<i<l
nem os seus o hjctos e as relações ent re esses objetos'! Sujeitos
Se Marx fundou essa ciência novu peln crit.ica, das categorias do Eslado/ Er.plrito do5 sujch0! 1
econô rnkas, o que é que fun da essa diferençn essencial dn obra de do E~tado--- sepmitÇ-Ü o----l,,•Sober.mia
M ar~ em relação à economia clássica? Por outro Indo, o q,ueé que, objelivaçl.o (!!ssência
na sua teo ria, permitirá compreender os Cliscursos econõmioos que ( Vtrgr.gensrlindlicJnmgj do Estodo)
ele refuln, o da econ omia clássica c o d a economia vulgur? . I
.$tpamçiio
Ma nterei ao mesmo tempo, conforme o nnl.lllciei, urna outra autono n om i r.~çi.o
questão: q,ue aoontcce ew O Capitdl com a problem1Ükn antrovoló-
;.
.,,., J!,ÍCa d os Manurcritos de 1844f
Pod~se coloxar e sta Cdtima ques1fio tendo·se p or refer~~cer­
"'
Idéia
(SCJl autônomo)
ln i.nterp retaçâo de Marx, a que s<: desenvolveu na escola d•: Pellu Supont

(apit'u/, para fnzer a crítica da eço,nomia1 clássica, o modelo critico


Volpe . De ncordo con\ essa i~~ot~CJ'fetaçíio Jl;la~K terna uliijzado em O "'
(Tii!R<r)
ldéi•
m!stica
que ele havia ela borado no "M anuscrit o de L843' t Í\ltituludo Ktítik
de~ ilt'gelsc/Jtm Staatsr!!cllls (trnduzido pela M olito r sob o titulo:
I
1;alto
''Crí1 ica da filosofia do Estado de Hegel' ', OEuvres philosophiques.
t. IV).
N esse te~to, Mnr;~;, p ura ruzer a crit ica da lilosofia do direito de
Hcgc.l, utilizuvn o modelo critico fcucrbachiano, o i11 b<lél6 da il\ver.
• llntluna<;l9 (Vcckõ_p<runt)
ou Poc ~o niricü(".ão "'
Monarca

são s ujcitd/predicado. 'J' ra tuvu-se de mo~trar q ue He.gel far.ia sem ·


pre d o predicado toma,do a utônomo b verdadeiro sujcilo,
M:~rx to ma o exemplo do conc.:ito de soberania. A ~oberania Esse movimento é chamado por Marx de hipostatizaçiio. Con-
nada mais é. diz ele, do que o esplrito dos sujeitos do f.1tado. :l!, siste em separar um predicado do seu sujeito, em hipostaziur o sujei-
pois. o predicado de um sujeito substancial (Marx define esse sujeito to para fazer dele uma categoria abstrata que em seguida se encarno
como lnrO')If/i.<fJJOv, como substância). )\a alienação, esse PJCdit:u· numa existê ncia em pírica qualquer. Marx d iz também q ue estamos
do . esse espírito dos sujeitos do Estado, está separado do seu sujeito. diante de uma inversão da empiria em especulação (abstraçíio e au-
Surge corno a essêncin do Estudo . Essa existência separada do sujei- tonomização) c da espec11laçâo em em piria (encarnação). Esse mo·
102 LER O CAPIT1\L DOS "MANUSCRITOS DE t&44'' A "O CAPITAL" 103

delo c~(~ico é assim r~gido por dois pares de oposição: sutl eltO/•ODt~to tui. Teremos aí um indicador que nos permitin\ determinar se esta-
e emplflajespeculaçao. mos realmente d iante de u ma mudança de terreno teórico .
. . De acordo com Dclla Yolpe, esse modelo é o que Marx
utthzado para cnttcar a economia poUtica clássica na e I. O Problema do Ponto de Partida c a Q uestão Críticn
em O Capital. A eco.nomia política clássica separa as categorias eco-
n.ô nuc:ts de seu SUJCtto qu.e é uma sociedade determinada, b ispos1n· A) Valor e forma valor .
zta-as dela~ fa~:endo condt\.)Ões gerais, leis eternas da produçâo. Pas- É conhecida a irnport&ncia ntribuld:t por Marx, na lntroduçBo
sa er~t scgutda d~ especul~ção à empiria fa~:endo das categorias !'.Co· Orral de 1857, no problema do ponto de partida d:t ciência. O caráter
nô~ tcas determmadas. htstóricas, do modo de prod ução capitalista fundamental dessa questão é confirmado em O Capital. Assim 6
a stmples encarnação das categorias gerais que são as de qualquer que, por·exemplo, ao criticar Smith no livro ll. .Marx declaru que a
produção. origem dos seus erros e contradivões deve ser procurada nos seus
Vcrificn-se um exemplo sobremodo nítido da utilização desse "pontos de partidn científicos". ~. pois, nesse nfvel que deve situar-
csquerna na w itica feita por Marx a Stuart ;:\'lill na Introdução Geral se a di ferença entre a economi:t clássica e Marx.
de 1857. Assim. a propriedade privada surge em Stuart Mill como a . O que é, ao ver de Marx. que define a cientifiddade da econo-
ex istélnciít ernpfrica da categoria abstrata da apropriação. 'Não há mia clássica?
A ec:onomll el6.uica p1-ocura rtd,ui;·~mcdinnte ané.Jise M di(er-:ntes
produção, observa Mil!. sem aproptiaçâo da natureza pelo homem. rormu da riquer.a, forma:~ lixtu c estr-ar,hu umns lu outrJ-s, à sua ut1idt*
Portam o , a propn'edade é uma condição gemi de qualquer produ- de íntctlor c d~pqj!·l as dn ap3rêocia crn que elas se mantêm umas ao
çilo. Essa. caLe.g oria absuuta é então encart;tadn nurn tipo de Jlroprie- lado dm outrus de um modd indifeNnte. '
dade mutiO J>:lrticular, n propriedade privada capitalista. Ela quor C'.OillJHt.:entlcr (bc!trti{fm) a cor.exâo interna (iltn~t·t' lusom -
mmrhangJ dhtinguiltdo·a da d(vcnidade de suas formas de manifestaçiio
A partir de textos como este, c n parti r das páginas da Introdu· / 6r'$tht'i,Uing:rj'cmnen)'" ( Tumcu St-Jb,,· a Jfais--Y(t/ia, texto citado na tta·
çào Geral sobre "a abstração detcrminnda'·. Della Volpe resume as· duç5.o Molitor. publicado sob o titulo: Jl itM(rt• dts docrrilte.l émnóml·
sim o trabalho critico operado por Marx: este se oporia à economia qt<PS, I. Vlll . P· t84),
clitssicn ao substituir sempre as abstrações gerais indetel'lni nadas ou
hipóstases por abstr·avões determinadas (históricas). Em O Capital (Ed. Sodalcs, t. VIII, p. 208) ' Marx emprega.
Uma in~eq>retaçi1o como essa pare<:c esquecer um p rob lema cs-- para designar o trabalho da economia cl:issica , o verbo u,uj/o.tC/1 (di~­
set\Ctal: o das amulicôqs r~óric"Js nccessárins pa:rn que o model<r do solver). A, econ orn(a cláss(ca dis~olve as fo rmos fix us da riqueza,
Mamts:tiro d~ 1M3 p~>ssn l'urtcion.a~. t preciso para isso que as duas operação que Marx curacte1iza no rncsroo texto como operação
opostçocs suJet toto~lJCto e cmptnaJ.especuln~iío sejam oposições aítica. Essa dissolução é retorno à unidade interna: a determinação
pc~ttnentes no tnlcrwr do carnpq lcorico de O Capilal. do valor pelo t.crnpo de trabalho.
A econo mia poUtlca clássica constitui-se, pois, como ciência ao
É. preciso r:imcir~ qu: lidemos com um sujeito. Para que o mo- instaurur uma diferença entre a divei'Sidade das formas fenomên icas
d~lo poss~ fu ncronar. unpo~·se que a >Y>Ci~dade desempenhe 11 fun- lo e a unidade interna da essência . .Mas não ela renete sobre o conc~itQ
çao de SUJetLO que a humanidade desempenhava no discurso antro- dessa diferença.
pológico . Efetivamente. dois textos da Inltotluç<lo Geral falam da so-
ciedade como de um s ujeit o. Mas e.~sa dctcrrnin:tção dn soded.ade
I Vejamos a aplicação disso em Ricardo:
como ~ujcitõ kéhk·st.etil ou!no lugar condenada por Marx e veremos O ponto de partidJ de Ricardo t t1 detetmitutçJo dos valore.'J re1nti·
que ela é incom patível cpm os con~eitos que ele põe em jo~o em O vO$ ou va\oN~ de tro.:n d:r~ mt.reudoria! peta quantidade d..: trabalho r.e·
Capite~l. · O:!õSJ.fjQ à produçJo dc:las ... S\1::1 sut)$tÜncia é trabalho. rçr Í!idO é Q\&-1! t lat
_ Por mmo lado. a aplicação do modelo cmpioa(especulnçiio su- s~o vak>r. F.\a$ diferem de 1nagn.itude seg\lndo cunttllhl m menos ou mais
tsS~l sub$hlncia" fHIJ t()iu der d~trúlt:J'lcr.mMtiques, t. IH~ p. 1).
poe certo upo de relação entre realidade econômica e discurso eco·
nômico. Se essa relação não existe mais em O Ccrpiral. esse par deixa
de ser opet·atório.
É no cenário dessa problemática que procura remos definir a es- ' Falem& tc:mpre rtf~rf:ncia à uud. francesa da~; Ed. Sociates, reservando-nos o di-
pecificidade da " crítica dn economia política'' que O C<~pital consti· ~ilo de modif.cé~la quando necesslrío.
104 LER O CAPITAL DOS "MANUSCRI1'0S DE t844'' A "O CAPITAL" 105

Ricardo determina duas coisas: a Jltb.uáncia do nlor que i o valor é tão-só uma relação entre dois objetos, assim como a distân-
traboalho, a magniwde do valor que é medida pelo tempo de traba· cia é uma relação entre dois objetos do espaço.
lho . .Mas esquece um terceiro te~mo:
Umobjc:to não poderi~a tt-r' valor st n.ílo ulivesse em r~l•çào com ou-
Ricnrdo não se oc:upa nem da (orma .. dttermln.1ç!o particular do tro, assim oomo só pode c'tar distanciado em rélaçlo o outro (citado por
tn1balho que cria v&IQr de troca ou se "'presc:nta om valor do troca- nem Marx.. 11/sloirtt dt.f dQc"ints éto,Jtmtlque..,, p. 218).
do cArâl~r dél!ó trabalho.
Eis como Ma rx refuta esse argumento:
Na análise do valor que é o ponto de partida científico <M Ri·
cardo, hü, pois. um termo ausente. Marx, no primeiro capitulo de O Quandu urn objeto est! distanc:i:ulo de outro, u di.'ltltncia <:onstimi
Capital, restabelece o termo ausente: ooWtml!ntc- urna rtlnçUo entro os doil>; m ~ a diu:lnc:ia di~tinguexst d ess~
rclac.;ã o. Truta..ses do oma dhnens.in do espaço1urn co•np1'ime.mo determi-
A subst6\1cia do Ç·alor c a masnitude do valor estiin agoca dctermi· nado que. pode aplioar·se à di.nímcia eutr~C CIUaisquc( objo:tos. M::ts 1r.so
nlo e tudo. Quando ful.arnos da diS-l:lnt:irt como de um <~ relação entre
:wdas, ~est a anàlbar n forma do \'Uior (O Capita(, t. 1. p. 62). duas co1sas. pn:s.tõuporno.i alguma coisa de: tspcci r~t , umt propriedade da:i
wisas qut tu pôc em ~mdições- de serem dist3nciadas unul da outra. Que
B o trabalho que Ricardo nâo fez. Ele se contentou com o re- é~ distância <ntre a lctm A c umu rr)esa? A ques.t.:lo é ab~urda. Quandu
torno i> unidade. A dissoluçilo (A •iflli.<ung) das formas determinadas falam"n da distUncia de dois objetos, t{Eita.Mse dt uma distf\no:ia llQ c:spftç:o.
da riqueza é para ele a solução (Liisung) do p(ol>lema do valor. O Nb! Oj admitimos ·ambos co n t i do:~ no espaço como pontoe; desse es.paço.
proc•edimento de Marx, ao contr.lrio, como o indica Engels no pre- Nll.s o .s c;::;tabclecemos em igu.:ddtdt: como extstênc\a$ do espaoo c :i6 de·
fácio do livro 11, consiste em l'er nessa solução um problema, Mat·x P?is m dtstin,guin•os (Orno p<>ntos dift.rcntes do espaÇo. A unjdude deles
cons::;te ~rn <t U~ nar.l!ll'\ parte do cspà~u (PJ>. 2 18·219).
coloca a questão quer podemos chama~ de questão critica: por que o
conteúdo' do valor :tssume a forma do l'alor'1
Essa passagem parece-me suscetível de urna dupla leitura. Num
A eeunomiu politic3 nnali50U1 f: verdadt. o va.lor e & nHitnitude do primeiro nível, Mar~ defende Ricardo contra a crítica de Bailey,
vaiM, cq~bnru de nuu:cin1 rouito impeilbita1c deoobtiu o contr1irlo que destacando n e;..istência de uma su/mância do valor. A ex istência
csta.,vH utnlto n~u;as forri'J.JS. M at. jamai!> :u col~t:ou n que5-H1o; por que
e:;se çonif-lÍdo as~UR),i! H1l fquna. 'wr qur- o tr.ahnlho S4: rop~twnta (.fltlr dessa substância comum nos <lois termos da relação faz com que não
Uur.Hrl/1) no v;Üot ~.a me~ ida do ll'-tbulho r,tlu ~ua dU,a.Çio nt manni1ude lidemos !:0)1'1 uma relação do tipo: A = mesa. Esta (tltima relação é
rle v~t l ot d oo 1JrOflti<o.<1 absurd:~,. irracional. Ao iles~acar a substância do valor, Ricardo im·
A questão crítica éia problemnb~açãp da rclnçao conteúdd/ i'or- pede a irracionalidnde n.esse nil•eLMns pelo fatll de que não <Iesta'."
ma. Para Ricardo, ( I valor ~ tr(lbo/J/O. l mJ?Ofta pouco a forma l)a a forma do valor, condena..se a cmr na contradtçilo e na trractonah·
dade, quando se tratar d,e f01mus rnnis com1>l•:xas e mais deser\110ivi·
qual aparece essa sutlstáncin.,l?arn Marx. o lrabnlho.re "Pr~·'""'a no
val oT, se reveste d~ fonttn do valor das mercadot·ias. das que h 'rorma mct·cadoria.
Seja a equação: .li mercadorias A ~ y mercadorias 1~. Ricardo a O que Ricardo omite é a .questão critica; u quest:lo do sinal de
resolve simplesmente dedarando que a substancia do valor de A é igtwldade. Como Vt)Tlos, esse stnal é pJoblema~JCO na mcd1da em que
igual à substftncilt do valor de Bl Por sua vez. Marx mostra que essa relaci ona dois te! mos que se apresentat;n sob formas absolutamente
equação .! posta em tcnnos completanlemc particula~cs, I!Jm dos heterogêneas. Ten~os, de u,m Indo, uma flUra cor~•a •:, de outro, uma
termos figur:t apenas como t'(J/o" de uso. o outro como valor de troca pura encamaçdo do •YJ!or.
ou /erma do valor.
É preciso portanto coloca~: t hn exame a~<n1o de expT(S:d.o do va.Jor de A t.rn B mos~rou q\le.
forma d,o valor de A m (olln'!a r aturul d~< B. • nc$Sü relaçJQ, ~ fcrrna natur~'J dJ mtrcud.o-l'ia A só (~g uw com.o formu de
valor de u~;o c :a forma mHurfll da tMrcadoria B só como forma dt vaiOI'
B empresta o S<.u corpo, sua forma natural para a expressao do (O C<~plrol. t. L p. 74).
valor de A. O valot· deve assim ter sua forma de e~istência na forma
natural de B. A idcu~idade estabelecida pelo sinal ~n oculta, pois, a di!erença
N:lo podemos, pois. nos contentar com alírmar a identidade do mais radical. Ela é identidade dos contnírios.
conteúdo de A com B. É o que podemos ver a partir du critica que
,Ma rx dirige a Bailey nas Teorias s~bre a J.fais· Valia. Pa,t:a Bailey, o A forma reluth·a e a ror ma eqUivalente. sâo dois nspecto-s con·elatos.
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106 LER O CAPITAL DOS --~A>lUSCRITOS DE 1344" A "O CAPITAL" 107

ios~ paráveis, mas ao 'n1csmo tempo t.l t~mos Qpostw. txdu.tiwu um do Aqui, nu equação, ou, o que dâ no mesmo, na .contradição: x
outro (p. 63). mercadorins A = y mercadorias B, a causa não está na equa_ç~o. Esta
apresenta uma ligação en tre as coisas, uma conexão dos ~ler to~, de-
Essa identidade dos contrários só é P<JSsível porque uma formu terminad a pela ausência da causa. Essa causa acha-se na Jdentrdade
(a forma natural de BJ torna-se por sua vexa forma de man(festacão do trabalho útil, criador de valores de uso. e do t rabalho cnador de
do se u contrário: o valor. valores do troca do t rabalho concreto com o trabalho abstrato.
Verlticamos, pois, e 6 isso que, num segundo nível, podemos ler Sabe-se que M ar~, numa carLu a Enge~ de 8 dç janeiro de I ~6H, de-
implicitamente no texto sobre H:liley. que as merci1dorias só se igua- clara que a descoberta da naturez.a duphce do trabalho (t~abal!l?
lam no mecanismo mui to particular da t epresemacào ( Darstellwlg). concreto e twiJalho abstrato) é " rodo o segredo da concepçao cnh-
Não se igualam nem corno simples coisas, nem mesmo como exem- ca". E,ssa dist inção é. com efeito, o que pcrrnr ~e ~ roblcm amar a urrt-
plares da mesma substancia: ígualam-se em condi~õcs formais deter- dade das duas determi nações. A econonua chtSSJCá toma o concerto
minadas, impostas pela estrutura na qual se efetua essa relação. de trabalho sem efetuar a disti nção. Não poder:l. pors, compreender
Podemos fazer com q ue essa rcferéncia ao es11aç<>e~pri ma um 0 caráter especifoco da unidade trabalho abstrato/ traba lho co r.lcreto
pouco mais do que M,arx obtém dela explicitamente. As formas nas e cairá em dificuldades ill'e xuic:lveis. Tendo pensado a drstrnção,
quais os objetos são, pela dlnwnsão du valor. rclacionHdos uns com M ar~ pôde pensar a unidade. Esta 6 o res.ullad? de um pr~ce.5so ~~­
os outros são formas determinada~ pela estrutur·a de certo espaço. cia l. A causa ausente á qual somos remcudos sao as ,.,/açaes soctats
As propriedades que elas assumem nu equação devem ser delenni- de prodllctio. .
nadas pclns propriedades do espaço em que se efetua a r·epresen ta· Desse modo, as operações fo<mais que C{tractenz.am o espaço
ção, a DorJiellung. A colocação desse espaQO "'uc possibilita uma em que estão rclacicmados os obJetos econllmrcos manifestam pr~­
equação impossível é eXp1CSS!I por CC(IO numero de OpC!'IÇÕCS J'or- cessos sociais, dissim ulando-os. lio rnms eslamos d1antc de um.1
mais: repr·escntaçilo, e11p ressào. revestimento de forma, uparccimcn· causualidadc anti'OIJOiógicn refe~ida ao ato de uma subJCIJVJd ade.
to sob tal ou quul forma, ele. mas diante de uma causualidade inteiramente nova que.podcmos
Consideremos umn dessas operações: "o valor assume a forma chamar de causalidade metonlm ica , tomando esse concerw a :lac-
de uma coisa". Esse exume nos pcrmitlr{t esclarecer o sen tido da rc· ques-Alain Millcr, que o fo(!nulou na e~postção dedtcada a cnuc~
lação contcudo/l'opna: tr·ata-sc da rc.laçflo enll·e a detennin ~çâo in- de G . Poli tzer . Podemos aqur e.nuncrar eosa ca1rsa ltdade ~o modo se
Lenta c o modo de exlsléncia, aj(m('a d1· apareqimamo ( F:rsdreinfm!(s - guinte: (l que det~mina a <;(JncXiio dos efeitos (ll$ rela_çoes entre IIS
farm) dessa dctermi11açâo. 1 mercadorias) 6 n causa (as ~elações sociais de produça?) cnquanlo
Com efeito. a expressão significa que o valor tem o seu mqdo de ausente. Essa causa ausente não é o trabalho cc>mo SIIJCilO, é~ iden-
c~ÍStência, SUII forma de aparecimento (ou de marifestltQàO). na for• tidade do t rabalho àbst ra,to aorn n ~rabatho concreto na medrda em
ma nal urul da mercaijoria eqrri v:llet\te. O parndo.tcJ cml~iste em que que a sua genera líznção e,~:prímc a cmutura .de um ~-erLo rnodo de
o valor não poderia nem aparec,er ne-m cxislir. Na medida em que produção: o modo de produção oaprtallsta. · . • .. .
npare<:e na forma natural de uma mercadoria , nela dcs:rparececomo Em outr" s palav(aS. a equação: X mercadorras (\ ")' m~rcadort.IS
valor e assume a forma de uma coisa. · H é como vimos. uma equação impos.~i vel. O que Marx I e~ c q.ue o
O valor or.o tem, pois. a sua forma de m:lllifcstacão na rcl:r~ãn distingue radicalmente da econom ia clfrssica fo i n leodn da possJbrh-
de troca. a não set na medidn em que nela nà<>se manifesta. Li da- dade dessa equação impossíveL À falta dessa L~O!l~ a cco nomw
fl!(J~ oom \1111 tipo de causalidade in tciramcnl~ novo em rclaQÍÍo aos clú~$ktl não pôde conceber o sistema no qual ot>Lâ arttculuda ~ pro­
Mcmuscritos. Nos Manuscritos, as <;quaçõcs que &primiam a con- dução capitalista. Ao nflo reconhec.cr· essa causa a usente. ela na.o re-
tradição (por el\e{ll plp. v~lol'itaçào dn mundo das coisn~·· deprecia- conheceu a fo rma mercantil como "~forma matJ' .wuples c' ma_u ge-
ção do mundo dos homens, ou va lor do trabalho= valor· dos meios I' ral" de um IJUJtfo de produçàiJ determrnad?: o modo de produçno ca·
de subsisténcia) remetiam Lodas à equaÇão: essência do homem m ser pitalista. Mesmo que ela tenha reconhccrdo nu análise da mercado-
esr ranho ao homem; isto é. remetiam como causa à c isi\.o entre o su-
jeito humano e sua essência. A soluç:lo da equaç,âq estava num dos
seus membros. Na essênda do homem separada do sujeito humano
eslava dada a causa da contradição e a solução da equação. A causa
era referida no ato da subjetividade separando-se de si mesma. . Veja-se 0 anc \O deste ensaio sQbrc os !)NblemitS susçi~t,clos por ena questão.
108 LER O CAPITAl. DOS "MANUSCRITOS DE 1844" A "O CAPITAL" 109

ria n subft811rla do tr.abalho, condenou-se a não compreender as for- !:, pois, umn "épocu historicamente determinada", isto é, um
mas ma1s descnvotndns do processo de produçiio capitalis1a. modo dr produr8o determinado, que efetua a DarJifllung do traba-
'la crítico do pomo de partida da economia clássica Marx dis- lho na objetividade fantasm:ltica da mercadoria .
tinguiu um problema que é o do modo de manifestação de cerw es- O eslatuiO dessa Gtgtn.!ltindl/chktil é novamente esclarecido
trutura no seio de um espaço que não lhe é homogên~.o. Desse quando Marx fula de uma ilusão da objetividade (gegenstãnd/idtt
problema é que se trata agora de precisar os termos.
BI O problrmo do.J ob)~tos ecotJómicos ~rlltln).
Seja o objeto mercadoria. Três enunciados de Marx permitem O dc:Kol>tuncnlo c.cntiOço... dt que os produto' do uatulho M--
deli nir o seu cardter de objeto. q~J:IntoYU1ort.s do :a nprculo pur.a ~simples do uabalho bum•::o c:m-
I) "Os produtos do trabalho assumem a forma mercadoria " prcaa.do n& &uJ produ,ão at;SirJiu uma tpoc.l na h1.stóril do dese.r.votVJ~
Verilicamos nqut ndo ha•er, propriamente falando, um obj~lo rn<nto \la ttutnatudndt, rnat> nlo diu.ipa n f~tosmaaona que faz aparecer
mercadona. mas uma forma mercadoria. o turu\tr sotial do lr.abalho '-"00'10 um caráter d*5 roiJaJ.. dot próprios
rtod.Jh)l- ( .. thn lf'&•'flfSI4nd!i..:J:~n Stl.tllf dt' gt.urlscfta/tli<htn Cltaraku··
2) "Os produUJs do lrnbalho convertem-se em mercadorias, isto
"' .,,, .i •/><11)" lt. I. p. 86)
~.' e~ coisas ~nslveis·supra-sensl>eis ou coisas sociais (sillnliche-
ubusm/lt-he otfer grull.rchaftlic-hr Dingt)" (p. 85). O curútcr dcs1u Gegellstiillrflichkeit faz com que ela seja conhe-
3) "As mercudorias niio possuem uma objetividade de vulor cidu upenJs pelo que 6- isto é, manifeslr~ção metonímica da ~trUIU·
(Wrrtgtgt11SII111tlilt·hkelt) senão enq uanto são expressões da mcsmn rJ -na ctêncta. Nu pcro:pçJo n llgur ela e tomada como propnedade
unidnde S«ial, o lrubalho humano" (p. 65). ola co•sn enq umtiCJ coisu. O car:lter social dos prod mos do tr~bal ho
Traln·so de dcnnir a <iego•tJstêiltcllichkeil das mercndorius isto é >urge como propriedade nroturul desses prod utos enquanto Simples
u realidade de ohjcto dolus. ' Ena é bastan te particular. A coisidnd~
da~ mercadurins e COJsidadc socia l, a objetividade dclns é urna obje- coisus.
l ov~dndc de vulor. lilur~ diHse ~m.algu m lugar que elas têm uma obje- t!~su lNria do ol>jeto senslvel-supra-sensivcl permite assin ahtr a
tl>~dadt./tJIIICII'IIIÚI/ca. l!ssn .:>bJCIJvodadc só exosLe como expressão de difercnçn da prohlcmdlica do O Cuplral em relaçào aos Manuscrit?'·
uma l.&n idudc soctal, o Jrnbalhu humano. Nos Mttlllll'trfto.t, os c;> bjctos cconómicos eram t ratados de mlutctra
N~o mnis I'Odcnh>s ler II<:Orlanto um pur ~1ljeito-ob_ieto seme- unfi h~lóuicll p tjrquc a teoria olu riqucu. estava recoberta por uma
lhun IC aq uele dos .14nfllt.ll>rilm· N4ssc text0, u Lermo (ief(tn.<11111d c1·a teo ria ['cucr buc titln'l- do ~enslyeJ. (I cartiter .w!ISb·el dos obJ~LOs do
tom~uh> num sonlldo sensuali$tn. Aqui não 11assa de um fantasma a t rabalho o·cnlo tb :1.0 seu drútcr luJmciiiiJ, n seu estatuto de obJetos de
rnu no fostaç:â<• de uma CUJ'IICiorisllc.a da estrutura. O que assum~ a urnu su hjeti vidade cónSLilutivn. Aqui ::os objetos nilo .m~is são t oma·
fornl:l de unw C~l!ll 11-l.o 6 o trabalho como alividndc de um sujeito. dos polo hun o nno-sen~lvcl. São JI!IIStwls-supta·SI'IIJI~ets. Essa co~­
onns. o l'llllÍII't ~·odul d~ rrubttllto. E utmbalh" /oumu11o de q ue se trata lradlçiw no 1111>do de aparecimento deles remete ao upo de obJellvl·
aqut niln é 1r11hulho de nenhuma subjetividttde constitutiva. Ele 1raz dntlc de que decon·em. () cnr:iter sc1~slvel ':. supra--scnslvel dele~ ~a
a mflrca de umu estrutura soei ui deternunada: forma 1111 quul apru·eccm como mantfcstaçao de caracteres soctats.
i\ suhstlltdcfio da relaç-ão humano/sensível pela scnslveljsupra-
Só 1.1111a êr«a hi'-ll>nc,monle C.cterminAC:J que rcprC$CilU (Jcrstrllr)
O I~JbiJ,hu d4l!H'tHJido nu p!'oduçJo de .. ma co·s.a útil .como un'!:a prnpric· sc nslvcl - • St><:iul ~ fun damcn t~l para compreender o que Marx cha-
dndt "ób)<th•J'' (l.'t~rnJhf,'d'ff<'l'tl'• dcHu roi'"· isto b. .:omo v1lor. tr~nl<­ mu de fclichi,.no d.1 mercadoria.
forn11t o produto do llabJiho rot mmadoroJ. ' Paru mostrur isso, examincmol o inicio do le~IO do primei ro
capil ulo: o cur ittcr de fetiche du mercadoria e seu segredo:

A qutstlo f 5.abtr qual e_, llpb th obJt'lil do qua.l tr.atamos e o qut fur.dlln:enla a. :sua
ftftiUt t"U Ô: Ob)fhJ. <!ctptndido 11u puxt~•o dn• Qbj~:los. de uso ~~ ...me o c:~r.hcr de t.lm~ qutlidadt ire·
• Thldt.olii'TW)ll; Jqu1 d:rcla,cnt~ de. ocxt<' altrtllo (Oic:rz, p. 76).. De motd()com 3 \Cr· ftntc I tMit Nb.u. "'\olk>f delas." (1=-d. Soc-aalt$. r 1$),
aJo fran«J.a, O lt\1U c O fClUinlt; O*rvemoJ; o tJ.:fctnrnu r« \tn~. n• cd.tÇil) fl"..tnresa. da SQcução ud\~rbid '"'
·~H&I Uft'la tó fpu.;il dctc:naanaW. no ôesea~otvirmmo hist6riro dt Sôcie.tde. q~ C•''ol E"'ic utri~lf'l'h) tcr1:1rnenlc cn• rtl~ion~:do ('Um J. dir.culdadc que ass:.naltmcn
tr.ant.(oma em aertl n rtodutt> do lr~balho em mcrcoadorit: aq-Jelt: etn qcc o trabalho nc .1nnu dt""t\t uab.ll~o
11 0 LER O CAPITAl. IX IS " MANUSCRITOS J)E 1844" A "O CAPITAL" 111

Uma me~cadoria par(ce à primeira vis. ta algo de tri,•ial e que se com~ ' empenha i' como critica da operação especulativa exercida pela eco·
prccnde por ~J mc:JJ.TIO· No:u a anitlis.: mostrou. pelo contrário. que 1>4: tta- '"'mia política clús.sica. A uni ão do sensivel com o supra-sensivel ex·
Ut d~ u.ma oo•sa muno t:ornpleJ\a, cheia de .suail~7..as meturlsic:u c minúcia5 prime aqui t1 própr·iaflJrma de aparecimento do valor e não a sua tra-
teolog1cas {1, I. p. 8:1).
duçiio especul<ttiva. No .Manuscrito d1· 1M3 essa união era apresentu-
~arece-n os que. p~dc ~er instrutivo tomnr esta última expressão
da como oper~Ição da especulação. Hegel transformava o sensível (a
ao pe da le1r~. Ela signtfica então que a mercadoria(: teológiça, con·
cmpiria) que ele encontrava no ponto de partida para dele fazer uma
ior me o sentido que. esse conceito de teologia tem na antropoloHia abstração supHt-sonsivcl que ele encarnava depois numa existência
de Feuerbach e do JOvem Mnrx. ' ensível. a qu<~l servia de corpo a ess~ abstraçãl).
Acompanhemos esse fio condutor nn auálise da mercadoria: Isso significa que a lígu ra que na critica antropológica, designu-
va o método da especulação designa aqu i o processo que transcorre
Na produ-ç-~o do t:asaco, a rorçs human1:1 foi empregada 4c rato sob no próprio .:arnpo da re;•lidade. Esse conceito de realidade
UHiá forma parucular. Portanto, Wtb:ilho humano tst! acumulado nc:le. (Wirklichkc'ir) deve ser compreendido precisumen tc como o espaço
~e5~c ponco de vistu, o casaco é dcpositdrio de ~·alo r (WNtln1rer: supor· em que se mani festam as determinações da estrutura (espaço da ob-
li d~. vah)~), em bom nà~ se pol'.sa ver ou~ qu.1thdade mnn·és da trans.pa· jetividade fa11tasmagórica). Impõe-se-nos cuidadosamente distin-
rencla dos nos. por nuu:~ surrado que stJa o cmaco (t. 1. p. 66).
guir essa lflirkl/chkeit, real do ponto de vistu da percepção, da
. Não há mais transparência do objetl). 'Toda a teoria do sensível lflirklic/le Bew1•gung (moviment o real) que const itui o real da pers-
c do obJeto l'elac10nados ao sujeito humano cai por terra. o casaco pectiva da cii!ncia.
cnçerra uma qu alidade que não lhe vem do ato de um sujeito, que é Verificamos que as propriedades que delínem a IVitkllchkeir,
o
uma qualidade sobrenatural. E:le é .tuporle (Triiger) de algumu coi- e;paço de aparecimento du~ determinações da estnrturn econômica,
são as que det'i nem para o jovem Marx lls operações da filosofou es·
sa que nada tem a ver com ele.
. Reencomramos aqui o conceito de supo rte <IUC havíamos loca- pccu lativa. A mercadoria é teológica. isto é, a realidade é por si mes·
lizado no esq uema da critica antropológica da especulaçilo e 0 reen- ma especulativH, dad o que se apresenta sob a forma do mistério.
C(>ntrmnos com uma função que corresponde nc> mesmo esquernu à Podemos enconl~tu· outro exem plo dessa mudança de função
função da e_ncarna(ão.l\ coisa empírica (o casaco) torna-se o suporte da estrutu ra dH encarnação no texto intitulado Die Wertform (pri·
da. a ?straçao sohrenaturn l do c'afor, do mesmo modo pelo qual a mciro esboço do primei ro capítulo de O Capiwl):
e" S;tencia do rnonarca se convcrua elfl liegel na encarnação da cate-
goro a abst rata da soberania. Esse movimcmto pc:Jo qual o seJulvel·concreto ''ale apena:~ corno for~
ma do mAnifc$ta(Flo do nb~tmto gcial e nitu pt!IO contráriOo a.bstnto ge~
rui cc>mo J11'ópricd:Jde.du cc>ncrtto {ttrnctoriza a c:r:pres&:ln d;o \'!)()r. T()r·
. O casacó não fU)de Jlnohuamcnlc .((prosenhat e,m suas rel açüt~'i tate· na ~nc!:Jsive diiTcil J sun co mp~cen.slo. St digo: o dirotto qo}nuno e n di~
r1oteS () \..JI~>f 5CQ1 qut-y vahH a~s um:t ao mt&r,no tnnr>o o otpecto de um I Cit~ a l(r~niio :iàO:arnbo!; djr(itos, iuo 'e <nmprtt:r.do por ~i l1l C$mO. Mas
t:t S!h.:O. Anu.n ç QUI! o andiViduo A Aolo podt.ri,a rcp~~ntar par11. o indiv(.. !é diJJO ao ~o nwírio : Q direito. esse abstrato, 1c: rc:alil".& no dirt!ito romono
a
duo um rç~. w aj.)S olho.s de B a realcua não <I$.SUnlhSe o :ts)n:cto corpó- c: r.o díreito alemão, t5$~ (h r~ itot con.crt\.OS, a conc:x;:io é.cntflo tnlnlca
r<:{l de A .
(/fleirre iH:am;mifl'ht• Sthrljrc'>:, p 271).

Não é apena.~ jll)(que se trnta aqui de majestade e de soberania O processo que caracteriza aq ui o nwdl) de existência do valor é
no Manuscnto d~ 1.~43 "que podemos afirmar a homologia el)tre a o que caractt:~izav;J. para o Jovem Marx a or1craçào da especuiHçíío
cstrutUI'R da marufe~(açao do valor C a estrutura da CIICIII'n8ÇâO que hegcliana, tal como a i lu~trava em A Santa Famflla pela dialética do
const~tuia no texto de 1843 um elemento da estrutura geral da espe- fruto abstnato reHiiwnd<j·Se nas pêras c a m~n doas concretas.
cu la.ç!to· O valor encarna-se na existência empll'ica do casaco como Se a rea lidade é especulativa, resulta disso uma conseqUência
a m.aJestade na existência empft·ica de A, como a soberania ~a pes- ext remamente importante: qualquer leit ura crítica que pretenda, no
soa do monarca hegclian o. modelo da carta a Ruge. declarar ou ler as coisas como elas são, fica
Vemos, pois, surgir uma figura idêntica it do ManllsNito de invulidada. A ambição da carta a Ruge c! refutada por esta curta fra-
184:·.M.as/em a f~nç;1o cr(r/t:a que tinha na critica antropológica da se: "O valor niil) traz. escrito na testa o que ele é (Es slcht daher dem
esp~culaç.to. nem a que a escola de De lia Volpc pretendia fazê-la de- Wene nidll auf der Srlm gescltrieben wa.r er isl)'' ,
li] LER O CAPITAL I>OS "M!II<USCRITOS D6 1844" A "O CAPITAL" 113

• Ntlo.lidam~s aqui com um rexto exigindo uma leitura que lhe ,.h> do fenômeno com '' obj~ro traoosccndemal = X. Os fenômenos,
dê o .senud? SUbJucenle, mas temos diante de nÓ$ um hieróglifo ue é m c'hjctos silo formas de aparecimento desse X ausente que é Iam·
rrec•so deco~n!r. Essa decifruçao é tarefa da ciSncia. A estruturi que hhn ''incógnita que resolve as equações. Mas esse X não é um obje·
r:chlt n ~oss!boh~udc dJ le1tura crítica é a mesma que abre a dimcn- h>. ~ o que M(tr:< charnu de uma reluçüo social. O fato de que essa rc·
s:~o da coo!ncta. Esta ciência não se conlentará, como 0 fazia Ricar- hoçlo social deva rtp,.•ytnlui'Jt em alguma coisa que lhe seja radi·
do: o:~m colocar o traba!~o como substância do valor, zombando do <Jimente estrunha. numa coosu. dá a essa coisa o seu caráter sensí·
feuch1smo dos mercttnllh~tas que acreditavam estar 0 valor lig· d •rl·supra·sensi~cl.
ao CO!P~ de urna merc.Jdoria indl\·idu:~l. Ela explicará o fetichis"m~ O que cnracterízu u apar€nrio t que essa coisa nela aparece
constt!Uindo 3 tcona da cMrutura que fundamenta a forma de coisa como coisa simplc$mentc scnslvel, e que suas propriedades apare·
:tssurnod.l p<!lus cnracteri~llcas sociais do trabalho çam como propriedndcs naturais.
Ob.<o·rvrorão I · i\ssim, n constituição dos objetos nào pc"ence a uma subjetivi-
d.lde. O que pertence il subJetividade é a percepção. A diferença en-
Pas.1ando em revost.l os conceitos em jogo nessa problemática tre a constituição dos objetos e as condições da percepção deles é
dos ObJetos. econ6mícos, verificamos que estâ em questão aqui a
que;tào crí.toca dn tfoolblra tron.tcendema/ kanti:~na. Reencontramos que determina 11 aparência.
"!·com .efctto. a probleonât~ca do obJeto (Gegenstand)e os dois pares Observarãu Jl
O que d1s11nguc rudocalmcntc Marx da economia clúsica é a
Fen~uncn ~/ i\purê.ncoa (f. rsdt~lnungfScllt'ill) c sensivcl/ su ra.
S~IISIVI!I (WIII/Irh·tll>er.tlllllliclt). Em Kant, uma linha di,isórill rereri- .tnálísc dJ ror11111 vulor da mer<:adoria (ou formu mercadoria do pro>-
duto do trubulho). Aqui é que se acen tua a diferença entre a concep-
d.o às focrtldfldes de WJJU .!llbjetl>tdad~ separa dois domínios: ~flo clássica du abmaçao c du anlllise em relação à concepçíio mar·
0~.fet1.1/0nd xi<ta. A t~oria da forma trat no pl:~no ela prática teórica esvecifica
rilmlit'lt übersi11111ic!J de O Cnpltcrl unou solução aos problemas levantados na Jrurod11Ctio
I:I~·C'IItlnung Scilri11 Cierul pelo conceito de ab.rtroçtio d••tf•rmln.ada. '
Em Ma rx, lem os umu cstrUIJira tolnlmente divcrs:~: A i uteqm>tu~ilo historicista dessa teoria da nbstração determi·
Ci~~rtnmwd •a '"rsrlteiflumform (formn de aparecimento) nada. tal q unl ~ uncmm~mos sobretudo na escola de I>ella Volpe,

'
••lrrro/irtil ·iiherJitJII//r), --....gt•.rellsc:ltafilich

Scltclill (np3rênoiu o u ilusão).


.. A mercudurlu o! Oegrn.~Mnd enquanlo ro,rna de aparecimento
at~n\-fie 11 uon• ro:lu~ilu nlo-~cl inentc: a relação do a bstrato d,e pen·
snmcnt<• coon o t:oo)ct·cto Kcul. A abstraçiio dctct·minada surge então
como a quo re>t(>rn sólltlnmentc a rique~u do concreto ceai.
l•m· suu vt:r., Mnrx se t>rcocul>a aqiti C<>m a forma valor da mer·
(l:n·~IWIIIIINJI-Ifium) do vu lor. Esse objeto é um objeto sensível-supra· cndoria (forma noel'(adot'ia do produto do trabalho) como p onto de
s~ns,vel enq uuntct suas propriedade.~ são apenas forma de muni festa·
partida cientifico no interior do processo de pensamento. Desse
Ça<) ~c r·e.la('óes sociuis. É o desconhecimento do seu caráter supra·
ponto tle visla, essa form a é cara~terizada como u mais g.eral, u mais
sertSI\el. osto t. o deKonhccimeoto do seu caráter de manifestação simples, a mnis Hhstratu. a menos desenvolvida. N ã o falaremos aqui
do traohulho numu estrutura ~ocial dourminada, que dá 3 aparenc/a da primeira d~tcrmina~ào que, de resto. suscita dificeis problemas
I So·hdn ). de onterpretacAo. Shnplcs c abstrato estão situados nas oposições
:r~mos tm Mur~. c 8obrctudo nesse capítulo I. a relação de uma abmato;concrcto e simplcsfcomplcxo que definem o campo do
":tal!rlro_ com uma dlalt!ricfl, mus c~u relação supõe uma distribui- pensamento nnlmrodurão Ckwl. Mas essas duas oposições têm aqui
c;lt~> ~nteor3mente no\'a dos elementos, uma reorganização do espaço o ;eu sentido esclartetdo pelo conceito de dnetwoMm~nto. Essa for-
tcoroco dcS$cS conceito~ Essa reorganização é 0 que poderíamos
char!tn r de revolu~ao anticoper~oe-.1na de M~rx (unticopernicana no
senudo kan~JJno, •sto o!, copernoc:tna no senudo estrito). Os fenôme- ' Parere quccJ..•u tll'hfiiJr dr (cJm.- dcíi .,c p.aru Man. a forma dacientilicidack. P. i!UC•
nos nilo maos '~m ccn.tr~·se em torno de um sujeito constituinte: no rc:sl.lntt lc:t '-Qbrc dto o sru cM\cntirr.o 50bre AtU161e:lC$; t~te é: c:uacterizado como
problemJ du Clll~<rtluJ('OO dos fenômenos, o conceito de sujeito niio ··o anndt p~Mador que IKIU ptlmelru "Clln;lliJOU I r\)nna \alor assim como outras
ontet\·bn. O que. por outro lado, ê tomado a s.!rio por :v!arx ta rela· rou'"31 ou do,) pon~rnrnle), ou dJ IQCI:dadc o~ da ru.turcz.a" (0 Ccplral. \. 1. p. 13).
114 lER O CAPITAL DOS "MANUSCRITOS DE 1844'' A "0 CAPITAl:.' ' 115

ma é a men?s desenvolvida, e o trabalho dn ciência, trabalho queja· com o termo social que sustenta a contradiçã o senslvel-supra-
ma1s I ora fe1to antes de Ma rx, é desenvolver essa forma simples: lcnsivel.
3) A contradição não consiste também em que o trabalho con·
Trat<J·$e agora de fazer o que a eoonomia hucguosa jamais tentou; ereto se inverta em t ra balho abstra to, à maneira pela qual, em He·
tmta~se de fomcoer a gênese da forma moWrt, isto t;. desenvolver a o~·
pre.'isâo do valor .;ontjda na relação ck valor das mercadori.a5 desde a sua gel , o ser se inverte em nada o u o concreto em u niversal abstrato.
fig.-ura ma i~ simr,les e menos aparente att esta forma moeda que saltA aor; A união contraditória do t,r abalho concreto com o trabalho
olho! de wdo. (1. I, p. 63). lcbstrato não é determi nada por uma dialética que seja inerente a um
dos dois termos. Ela exprime a l'o rma particular que a ssumem, num
Ricardo não foi capaz de fazer esse desenvolvimento. Foi inca· modo de prod ução determinado, as características gerais do trabn·
p~~ de ded~zir a forma dinheiro~~~ sua teoria do valor. 10 que ele lho.
nao captou o conce1to da expressao do valor, o co1..:eito de f ·ma.
O que fa lt.a assim~ o motor do desenvofviment<' das categ?rias Marx mostra, com efeito, como qualquer pr<>dução é: necessa·
eco nônucas, dcsenvolvtmento que permite constitu ir o si.ttema da ria mente determinada pelo tempo de trabalho d isponlvel da socic·
economia política. Esse motor é a contradição. dade e pela divisão do t rabalho social em função das diferentes nc·
Apresenta-se aq ui o problenw du localização do conceito de cessidades. • E~sa regulação deve fazer-se de um modo o u de outw
contradição. da determinação da sua validade teórica. em todas us fo rmas de produção. Ela, p orém, assu me caracteres di·
Em que consiste o que, J)OS primeiros capít ulos de O Capital, é !"crentes em ca da uma dessus formas. Assim é q ue Marx, n o texto
cha mado por Ma rx ora contradição(Wiclerspruch). ora simplcsmen· sobre o fetichismo do capítulo I, mostra no caso de várias form as de
Ie oposição ( o~gensa/2 )? produção diferentes (a de Robinson. a da [dade M6dia, a de uma in·
Niio seria aqui o lugar para oferecer a solução definitivu a c:sse dústria rúst.icu. e patriarcal c fi nalmente a de uma sociedade com u·
pro blema, mas a pena$ o de apresentar certos dados e indicar umu nista) como c~sa lei nat ural utua segundo fo rmas especllicas deter·
direção possível de pesquisa. minadas por cada uma dessus estruturas. No seio do modo de pro·
Estab~leç:unos a relação: x mercadori:i~ A w y mercadorias 13. dução capitalista . em que a produção mercantil domina. a lei regula·
Pode constderar-se uma relação con lradítóxin o.o sentido em que u rn dora do t<mpo de 1rabalho e de sua divisão assume uma ligura bas-
d os termos ~ó figura como valo r de USI) e o outro como va lor de tro- tante particular, aquc:la da identidade contraditória do trabalh.o
ca . Essa contradição remete à con tmdição interior da mercaCioria, 11 concreto com o trubalho abst rato, a qual se acha re11resentada nas
seu desdobramento em valor de uso e valor de troca, de onde somos contradições i 11erenlcs ~ u·oca das mcrcado1·ias.
levadc>s t\ identidade dos contrários que caructedza o lrabalh.o re- A ''cont>rudiçào'' poderia ussim nada mais designar se11ào o
presentado nu forma valor da mcrcndoria- identidude do trahul.b c> modo de e flcridu prÓprio da esti'IUtura. Já vimos q ue o espaço da r~
concreto com o tt·~bul ho abstrato. p resentação ( lJarslelhmg ) da estrutura era um espaço da qo ntntdi·
A esta altura podemos fazer tri s observações. ção em que os objetiJS não era m objetos, en1 que as r«lações !igavam
1) A contradição aqui colocada nào pode ser reduzida à o rdem coisas que nilo tinham qualquer relaçilo entre si, etc. A existência da
da a purência e dn ideologia, como era o caso da pse.u docontradição conl ntdição surgia assim como a pró pria existência da estru tura.
in adjelo implicadu, segundo Uailey. nq conceito de um valor de tro- l'or conscguin.te. impõe-se-nos talvez dar ao conceito de contrad ição
ca intrínseco a certa mercadoria. !'elo contrário, essa contradição só tal como MaTx o e{(l prega na primeira seÇão de O Capilal um valor
apa reee no discurso cien tlfico. Ela não é percebida p~lo$ s«j~i\Q$ da puramente indiciai; Marx teria pensado nos conceitos hcgelianos de
troca, para os quais a relação .t A w yB é inteiramente natural. contrndição e desenvolvimento da contradição a lgo de radic-almente
2) Ela não consiste numa C,isüo. Nas equações que, nos Mt;mus· novo de q ue 11ão chegou u formul ar o conceito: o modo de atuação
cri tos ele' 1844 , exprimitun a contradição, esta se reduzia 'à separação da estrutura enquanto modo de atuação das relações de produção
de uma unidade origi nária. A contradição residia na existência sepa- que a govemam.
rltda de lermos complementares. Aqui, pelo contrário, ela reside na
uniiio de dois lermos exclusivos um du outro.
Essa identidade de dois contnlrios denuncia a existência oculta " Ver sobrcludo a earla a Engcl$ de 8 de janeiro de 18b8 e a .çtu:ta a K.ugelmano tfe ti
de um terceiro termo que s ustenta a união deles. É o que acontece de julho de 1 86 ~ .

-- .t
li!!!?"

116 LER O CAPITAL 005 "MANUSCRITOS DE t844" A "O CAPITAL" 117

O reconhecimento da cont d' il . aná lise da mer-cadoria ou mosfrar a conexão entre a mais-valia e a
da estrutura no interior da qual rr IÇ. O Seria assim reconhecimento
suas relações. a estrutur·, de um unc•onam os obJetos econômicos e wxa de lucro média.)
.~o analisar a forma mer~;~doria tvTodo de produçfio determinado. Veremos esclarecerem-se esses dois elementos ao passarmos ao
e. descobriu que os o bjetos eco : .arx descobrm a contradição. isto estudo de uma mercadoria especial: o trabalho assalariado .
manifestaç:1o de urna estrutur~om•~?s ~stavÔm determinndos como C! O trabalho assalariado e a teoria do irracional
fo rmas será assim descnvolvim~:: f: S"bidÇ> <jUe a Categoria do trabalho assaJnriado apresenta u m
0
1011
ar. de~e~volvimento das
( Lo.wllg ) da c.ontradição efetua-se n da c~~tradiÇao. A resolução problema inso,Júvcl à economia clássica. Com efeito. q ue ocorre nfl
n!as de movimento. As fo rma . o que arx chama as suas for- troca entre o -capitalista e o trabalhador?
sao aquelas em que podenJ dess~aJslcomplexas, ma., desenvolvidas O capitalista compra certa quantidade de trabalho- a jornada
.• d • cnvo ver.,.;e e resolv • .' de trabalho do operário - mediante um sahírio que representa dada
coes as o orma~ m"is simples (i 0 . u cr-se as contradi·
caem relação às con tradi ·õe . . . q e ocorre com as formas da tro- quantidade de trabalho social mínimo. Vemos. pois, q ue são troca-
form>ts da produção capçJ.talJ~s't~',crentesl!l f? rmn mercadoria, com as dns como iguais d uas mercadorias que representam tempos de tra·
• . • em re a~·• o às 'or d .
p rocI uçao mercanti l. .,.. " mas a s•rnple.~ balho social desigua is, o aue subverte a lei do valor trabalho.
Ao mesmo tempo. encontramo-nos diante de um circulo: o sa-
· J:l vimos que: a. tr«a de mercadori · .. . ,
lá•·io surge cvmo o valor do t rabalho. Ora. o trabalho foi apre.scnta-
nos c lll t.tumntnte <:x~lush·os A d'f< ·~ et~éerra tltmcnto.s contntditb- do como criador do va lor. Como determi nnr o valor daquilo que
cl!dorhu e dinheiro nilo r"'"',... ,,.• 1 crcnetaç.ao do.t mercadorins e:rn me,...
1 • ..... -~- .. r cuas vontradi•-A cria o ViJior'!
( t:ntro da quul cluse pod.:mmun:r Eu •, wos, ma~> gera n forma A solução dessa subversii<J e desse circulo acha-se na introdu-
todo <:lc soluciooJr contrado', .J,.., : .,.c ~. afinal de cunt3s. u Unlco mf:..
! . , """"".s roat8. c. vma cont.tttd' i
cr um corpo c~ntmua.mcntc atraldu e ro.pclid0
1'
tç o, p~ exemplo.
ção de uma ca tcgoriu nova, a usen te na economia clássica: a catego-
da.s lormns de movim"nlo <In qu
"' c essa cQnt,tadl por outto. A chp.'Se é uma
. · d1
ria força de t rabalho.
mesmo tC:mJln (t, J, p. I IJ). çao se : c :lt resolve ao O salário representa o valor da força de trabalho. Esse valor,
As c:ontradiçõe.-; !lli <U'Ientts fl roere d • como so s abe, representa, de acordo com a lei do valor. o valor dos
siçào tntrc \'3lor de uso c valor •dt t ~ orm. que :;e Pll~IHdRm tH• opo·
Jó mesmo hmwo de se rc tese r«a. no ll'"dba~ho )Jfll'Jdo, que tem meios de subsistência necessúrios para reproduzir 11 f<rrça ele traba·
..:une reto PIHIÍCulu'r c uc, ao ~nc:-n~~~~~~o~rub ~ho !.QCJiJI , nCJ trnba.lh~
1 1
h) gerJI - .:s&ar; c•-lndi,.t.,1 ., ,, .. . .~, · va ~; como trahRl.bo nbstra·
lho. Essa determi naçiip do vnlor da forca de trabalho. a economia
clássica real mente a form ulou, m:1s corno valor do rraballw. Eln ficou
•i. . , W~ vVll tll" lldliOS • Ul(!"'.;f1d,Q: ·
ç o as ~u~s for mas dt mm·il1lenl<) (p. HU). 11.;1 ttJl1gcm na L
'lr('uJa... ads tritill portanto a u m quid pm <JIIO.
l',o s M<muscriw~ de 1844, t<imbém Marx ~e detinha nes~;e quid
? desen ,•olvimento das formu ·d ·• . d •
<:onst1tu i o objeto próprio q 0 C . ·1 P10 u?ao burguesa - que
pro quo, ligado à não-crítica do conceito de v:1l<;1 r do tmbalho. e do
próprio conceito ele trabalho. Aqui, pelo contrário, Marx a plica-se
desenvo lvinleQto d~s fo rm·•sed , ap!la - é llSSJm pensado como 0 ao próprio conceito e exerce sobre ele, mediante os coJ;~ceitos dcjhr:
• , < C lnOVIIIICI\\0 para a C d' • 1.
m lllva, a Oposição entl·e O trab· Ih 0 b . Olllra IÇao !Jrl· ma e rr/a(:ão, um trabal ho que fa:z. surgir novo conceito, o de fo rça
N o caso ainda, pode-se inda a/se a strat? c o tr~balho concreto . do tr:Jbalho, e q ue pcrmlle comp•·eender na sua inadequação o con-
(c-omradic;ào, desen l'dlvime~t;J os lco~ce·~os utJhl:ados por Jv,lurx
rn<:m adcquaífamentc o q ••e nel'ere~o uçaod a contradição) exp<i- ceito de val<>t do trabalho.
. s c pensa 11 r Mn1·x apreende a difcrcnçu entt·e o valor de troca da força de
0 CJKcmos esse problema e1 su · trabalho (qullntidade de trabalho social necessário à sua nprodu-
lllén tos essenciais que podemos N ~ .spe~s<\ e n~1temos <ls doi~ ele· ção, representado no salário) e o seu valor de uso especifléõ que é o
. l) Essa an:ílise e a teoria da ~~r~:~r a an.áhs_e ~~~ forma valor,
nmem evidenciar a esLJutu•·a con t' t / q~e nela esta Implicada per· de criar valor.
Podem<>s e.stabeleçer os termos do problema nos dois e nunçia-
I) seu modo de atuação ao n ível~ d l au :~)' ki:J's rkela~ões de prod ução e
') dos seguintes;
- • a permJte chegar ao conhec' ''" ICn. e/1 . ,
EJ· · t) A forç" tle trabalho tem um valor de troca, avaliado pelo tem-
e anículação das formas do modo de Jme~to ~Jstem~J.tico da conexão po de trabaltilo necessário para reproduzi-la. e u m valor de uso que é
mia clássica era incap·" de Ie . Ié p ro 1~çao capJ talista. A ccono- criador de valor. que produz um valo r de troca superior ao seu pró·
mns. (f>or exem plo Rlcardov"~ a ·rhn esse esenv<rlvimento da.~ for- pl'io valor (o q ue não acontece com nenhuma outra metcadoria).
, na o c egou a deduru o dinheiro da
118 LER O CAPITAL DOS "MA~USCRI TOS I)E 1&44" A " 0 CA PITA L" 119

2) O trabalho é criador de valor. Ele não tem I'Oior. ., ,~f (d.cdedesigna pm·a Ma rx a posição de uma relação impossível
, Ne~es dois enunciados, podemos. perceber a possibilidade da •(IICl ui<sicn ula a relação verdadeiramente determi nante.
mats-vaha. E o podemos, graças à anáhse do caráter d úplice do tra- l:xi"c certa maneira ingênua de pensar a il'tacionalidade dessa
balho: da distinção do trabalho útil e do trabalho criador de valor ''""Siiio. (!considerá-la como simples abuso de linguagem . Assim
que·~os permite alravessar as· aparências do modo de prod ução ca: ~ •l t•t Proud hon dec la ra:
Pltahsta.
() lr.atia.lho e cor.sid.:rlldo 1n/or não tnqut.nló men:adorill e m si, mas
, , Segundo todas as :tparénoias. ó que o capilulistn paga 6 o valor da em vist3 dos Vlllores que se supõem enoerradus jl()tencialnlenté lttlc. O
utiiJdade que o uubalhador lhe proporcionrt, o valor do trabalha c nâo o \~lot do trabalho é uma exprc.'\são ligurudá. etc. (Chacto pQr M ~n;< , t. 11 ,
da f'?rça d~ lftbfllho que o trabalhador não parece alienar. A cxperiancia p. 208).
da va~a pr:tllro nl~ basto para I'CS5'1Itar a dupla utilidade do trabalho, a
propt!edadc de satu;fa7.t,r. uma nc:ci!S$idude que olt Lem em comum com ()esse modo. de acordo com l'roud hon . lodo o mundo da pro ·
toda, :u mer<udorin e a de çrjar o \1alor que o distinsuo de todas ~u de..
mais mercadoria' e o exclui, como elemento fotm:ador do valor da possl· clu~iio capitalista e.s Jaria baseado numa "exprossão ligurada" , sim·
bilidade do ter vnlo< (t. 11, p. 211). ' pie-; licença poética. Hú nisso um tipo de explicação muito cnrac·
(l'o i~tico: em face de expressões que designam o mistério da produ·
Achamo-nos diante da contradição seguinte: o t rabalho surge \lu capitalista , a sua dclcrrninaçilo estrlllu ral fundamental. declara·
conno mercadoria ao passo que ele não pode absolutamente ser mer- '" que há tão·só expressão ligurada ou d istinção subjetiva. Várias
cadoria. lslo é, estamos diante de uma estrutura que já tornamos pa- vc1os Marx chama u aJe nção em O Çapítal para es~e t ipo de explica·
tente: a existôncia na Wirkli~hkeit de alguma coisa que é lmpo.rs(vel. , ,ltl pelo arb itrário e pela subj cl ividade. (Assim Ricardo declara que
t:;ssn possibilidade de u rna i mpossibilidade nos •·emete à causa nu- 11di " inçüo do capital fixo e do capital drculnnte é in leiJ·amente s ub-
sente, às relações de produção. 1 :-m seguida à acumulação primitiva letiva .)
que sepaJ'(Ju os produtores d iretos dos seus meios de p rodução estes Pa ra Marx, pelo contrário. as ex pressões irracio nais nada têm
são obrigados a vender a sua forca de t rabalho como mercado~in . O , te arbitrário . Elas exprimem umn necessidade rigorosa: a do modo
trabnlho deles t ol'na·sc assalariado e su1·ge então a impressão de que de J çâo das rel aç ôe.~ de produção:
o q~•e é pago pelo capitalista ~o valor do p1·óprio t rabalho, e não a
força de .trabalho de quem o executa. N :1e;< pressão WJim db r n1b~ill o1 o (Ofl<:eito de·VI!. lo r não npenas desn·
A colocao;âo em evidê!1Cia dn Faresoria valor da força de traJ!a. p;ar<:o;cu o;omplt:taJ)·lenlc, mnJ t invertido no seu contrfuio. Tmta..se de
lho, dissimulada por trás da categoria valo'rdo trabalho. é &revelação uma t!.;.pl'(s:,Jo lrraoimutl t:Ofl\0. pot ~ ~e,nplo. w;/ru d~ ferra . Entretanto,
ess.:n c:~:1uc ssôcs irrueiouus lo!m sua orir.cm nas próprias u:lnçõc:t de pro·
do caráter d etcrm iuan te das relações de produç;1o C!lpita listns. duelo. São ç:Uegoriss <t'Yc exprimem for·~t:ts d(- aparecimento de teJaçõcs
Não ~odendo problematizar a calcgod n valor do t rabalho cs.~t! ndllÍ.1. (Sit: .#~ti Ka~t•.t•'rif'lf fi'ir ErscheimmgJ.jiJmJtn wesentfidtet
V.t;rhãft(Jl '.i.SE'.f (t. 11. p. 108).
c~ mo forma de aparecimento do va,tor da fo~ça de lrabal.bÇJ, Ricn~do
n ao teve cond1çíles de fuz~r aparecer o que: sustenta todo o mccanis· Vemos eschcreccr-se aqu i a tco1·ia da forma e do dcsenvolvimen·
mo, a saber, as relações de produção que são o capital c o traballw das fOrtllaS. /1. OX ptCS.iilO valor do t raba lho pressupõe: lllll:l JllU·
lc>
assalariado.
dança de forma: <;> valor da força de tra bal ho a parece, manifcsta·se
num a forma de manifestação f ErsdJeimmg~(orm) que é o valor do
. Em v~t de Jm~alho, ele devi" ter dilo lotcn de trHbalho. illã> então o trabalho. Como fo rma de manif'esl nçfio da fo rça de trabalho. o va·
capllul te_na npàrcctdo como :J e;(ptessão das condiçõc3 m.:ltcriais do tru·
balhl>, .dtaiHt do trabulb;:1doJ, como untn relação wcial determinada. lcH' do trabalh o é por isso forma de manifestação du relação ti~ pro·
Pnrn R•car;ttu• .capitalé trabalho acumulado, ern wmpração com o trabn· tlurão essencial ao modo de p ro duçuo capitalista que é o lrabalho
lho atuul; e 3pehtu um olernento o.o ptoce1so de tuabalho e ltilu $e poderiu ussalaril1do. O mecan ismo de transform ação das formas é assim de·
dedur.ir <fek ü telnção do c!.pitol com o 1mb alho do saJúrio com o luCfo torrninado pelas rehiçôes de produçuo <JUC se manifestam nas Ers·
(Jlisrolre deJ d<)ctrlhr.t i cM()m{que.s, L. Jll , p. 146).
cheinungsformen. dissimula ndo-se. é dessa elic!icia p ró pria, dessa
Po r seu turno, Marx problematiza a categoria valor do trabn· manifestação/ dissimulação das relações de produção. que a irracio·
lho. Trata·se de uma expressão irracional. Esta calcgoria da irracio· nalidade é indicadora.
120 LER O CAI'ITAI. :OOS "MANUSCRITOS DE 1844" A "O CAPITAL" 121

Comprecnde.-se .agora a unpotláncia dec-.isiva da 1rnnsiOnnaçâo do ~cw• determinado de produção. Isso signi fica que os lugares, for·
valo.•· e do preço da força de tt~balho na forma do saJário do tmbillho, ou mns c funções que ele determina devem, por sua vez, servir de supor·
no \alor e_n~ ~reco do própuo u·abalho. Nes.o;3 fornHI de manif-:stuçíio te aos que são deierminados pelas relações de produção característi·
que t orn ~ IMVIS I~I a, re1aç'Q real e cl:cga a exibir u sc:u conlrétio é quere- cus deste o u daquele modo de produção. Estas determinam, de fato,
pous.am t o~ a~ as u:_p:esenta.ções jurfdicou do trabalh:ador c do Cia pit.JIÍ$t:~. luga res e funções novos <iUe dão formas especificas aos elementos do
•?das .as nu !>tJficaç~,~ do modo de produção ccapilahsta. todas 1$ ih1sões
hberous e toda$ a:> tohces at:tOiog!ticas da economia vuJgur (c. 11 . p. 211). processo de trabalho. Na Wlrkllchkeil, essas formas surgem como
propriedades dos çlçm~n\Qs ·materiais que os sustentam, ao passo
que são formas de aparecimento, modos de existência do motor
Di O conceito de processo
oculto do desenvolvimento. É o que acontece com a forma mercado·
No estudo da objetividade fantasmagórica das mercadorias e
riu cortada, na ilusão fetichista , das relações sociais que a fundam
no da expressão irracional: valor do trabalho. deixa-se captar certa
ou com a forma "val or do trabalho" por trás da qual se oculta o va-
estrutura. Vem os que as formas da Wirklicllkeil são formas de ma·
lor da força de trabalho, tlto lí, as relações de produção capitalistas.
nifes taçii.o para as relações sociais de produção que não apn~eccm
Essa estrutura do processo corno objeto da ciência implíca o cu-
c?mo Iaos no ~ mpo dn Wirklichkeir. mas que estruturam as relu·
r:\ter específico dos conceitos da ciência q ue a cxplícam. É o que
çoes qu~ nelu sao dadas. Vemos no mesmo tempo que essas formas
Marx exprime numa oposição q ue determina de um lado a forma
de onanofcstação são o utras tantas formas de di ssimulação. Essa es·
verdadeira da cientilicidadc c de outro o principio dos erros da eco-
trutu ru é que é desconhecida pela ecooomia cl<issica. À fnlta de uma
teoria da forma, ela desconhe.:c o seu própr io objeto. Ela não reco· " om ia cláss ica.
nheoe a objet,il'idade específica com q uo lida a ciência: a de um po·o· Nlo s.e !rata aqui de deriniçõessob 11s quaiu;e 'devJm :sub:sumir • u
çesso de produçíio determinado. <-oisa.s, rMS de funçõt:; dclerminadas que. !;e exprimem mcdi•ntc cutego--
. Pao·a a compreensão desse concei w de processo. lembremos pri· rias detcrminadM (l. IV, J>. 208).
me or amentc a dcfiniçào dada por Mnrx: Coisas (Dittge) F unções
. A ptlavra pt(JCtl..tf.J txprh'M um druenvo·Jvirnt nto coo&idendo , ,, subsumir exprimir
CO~JUI1 10 dt su:ts condições re:ab (Q ('apltQ(, t . I. p. 181). definições categorias
Acreditando lidar com relações Jtaturuis entre coisas estáveis, a
ComJ~Ieter:nos essa definição, mencionapdo as duas <'Mactcr(sti· econo mia c:l:issica desconhecia a estrutura específica do processo de
cHs csscncttus do um ptcxes,So. u sabe~·: produção capitulista. Este processo é, c0m efeito, const ituldo pelo
I) que o ~cu desenvolvimento leva a reproduzir constantemente revestimcn to dt> processo de produção em gernl pela foo·ma de p ro-
o seu po n(o de partida ; dução de me.-cado.-ias e pelas fo rmas pr<iprias do processo capitalis-
2) q ue os elementos são nele defi nido~ n:lo pela sua •oawrcza. ta que se clcsel)'l'olvc em ••!trios níveis (l>roduçâo. re.,rodução, p ro-
mas pelo l11gar que ocupam , pela jim fão que exercem. cesso de co'l)unto). A economia clássica q ue redu~ num 'itnico plano
Essas características vn lem já pura o processo mais simJ>les cs- essa e-s truturu acha-se enredada em com pleta con fusão: con fusão
tudndo por Mar:t: o processo de trabalho em gera l. Marx mosto·a das determinações materiais dos elementos da produção com us s uas
como o mesmo elemento material pode desempenhar nele a função determinações de forma capitalista, confusão entre fo1·mns da sim-
ou de p roduto 'Ou de matéria-p rima ou de meio de traba lho: ples p rodução mercantil e formas capitalislus. confusão,entre as fo r-
mas do çnpital no proces~o o;!~ pr<l~\lçào e no processo de circulação,
. Pode-.u·. r•erce~a JlOts: o c::n:iter de pr"duto. d.; R..l~ll é:lia..))rima ou de
rn ~1u de lraha1ho so se h.~n J um Valor de I.I.SO .:on!otmt! a !Wti(làu Cleter· etc. Verificamos um condensado de todas essus confusões na con-
nHQJda q~1 e JHoenche no processo de trabalho. eonforme-n lugar que ndt~ cepção de Smíth sobre o capital fixo e o cupital circulante criticada
O('!Uj>e. e ;• mudanço de l ag~tr mudá 1t 'Uit ducrrnin3cã'> (t. 1. p. 185).

. Nesse nível. é já possível a confusão que a~sume corno uma pro-


~roe~ade rnateroal dus elementos da produção a sua determlnaçBo Subsurnir (do lu. sub c .sumfur) ;lignilica, ern f~loSQfia, situar log.icamentc um ill·
lunctonal. Mas. de fato, sabemos q ue o proqcsso de produção sem- dividUQ OU C.'>pclciC na C)\lSSe QU g,~ ntf() QUC c)S en(OfUIM . ~ti linguagem kantiana,
pre oçorre em formas sociais determinadas, q ue é sempre um pro- pensar urno.l intu~tio sob um conceito ou categoria do entcndime11to. (N. do t.)
122 LER O CAI'ITAL
OOS " MANUSCRITOS DE t844" A "O CAPITAL'' 12 3
por Marx, no livro li. Sm ith chega a redu~iras determinações doca-
pital fixo e do capital circulante, determinações de forma do capital Mus, uo mesmo tempo, Marx declara que "a forma valor do
empenhado no processo de circulação, à mobilidade ou im obilidade (tr!llluto do trabalho é a rnais abmata e mais geral do modo de pro-
dos elementos materiais do capital. otu\.1 0 alutol que adquire por isso mesmo um caráter histórico" (t. I,
. Pe rcebemos assim como o estudo do ponto de partida de OCa- 11 ~3). e an rma numa carta a Engels de 22 de j unho de 1867 que a
P.'!aln os leva a recon hecer a objetividade própria com a qual lida a 1'1>rma rnuis simples da mercadoria "contêm lodo o segredo da forma
coenaa e a compreender o fundamento dos erros da economia clássica. d111heiro e c om isso in nuu o de todas as formas hurgues·a.r do produto
,,,, lflllwlho" . A metáfora do núcleo assi m corno a da célula no prefá-
Noras adicionais olo da p rimeira e dição indicam q ue as determinações próprias do
Relações mercantis e ulações capitallrtas 1110<10 de produção capitalista não vêm s implesmen te acrescentar-se
.~'ossa.análise da forma valor suscitou a seguinte objeção: para 1\ 8 dclcrm inações simples da mercadoria e da troca de meo·cadorias,
e~plo~ur a odcnudade trabalho abstrato/tnobalho conc:relo que de· lllJS devem de certo modo já estar presentes nelas. Em conseqllên-
termona a forma valor das mercadorias. fazemos intervir as relações clu, teria mos no primei ro capitulo de O Capiral não abso lutamente
de produção capitalistas. Ora, é evidente que a forma mercadoria uma análise das caractcristicas gerais de qualquer mercadoria, mas
tem uma existência bem a nterior ao modo de produç~o capitalista e uma análise da forma mercadoria enquamo forma mais simples de
parece que a análise da mercadoria efetuada na primeim seção de 0 ~eterminado modo de produção. o modo de produção cnpitalista.
Capital não recorre sen ;lo nos caracter~ da produção mercantil em A exatidão dessa interpretação nos~ confirmada do modo onais
geral, independentemente do papel que essa forma d~ produçtio pos- níoido pelo elogio que Marx, no primeiro capítulo da Conl!ibuição,
sa desempenhar em modos de produção diferentes. dirige a Steuart:
Limitemos primci~o o alcance da objeçâ<>: ela não contradiz ab-
solu.tamente o que nos parece ser o ponto fundamental, a.saber, que St~u art 'abia n,atumlrnente muito bc)m que , nas épo<!1.5 pró-
l>urgucslu, também o produto ;u&urne a furma da mercadoria e a men:a-
os fe nômenos du realtdade ( Wirklichkeit) econômica só se com· doria a form• de dinheiro. mas dem orm r~ minuciosamente que a men:a-
preendem n.a medida em que manifestum, muna distorção especifi- cloria, dnquanto ror ma IU nd arnen ~al dl riqueza. e a alienuçfto. enquanto
ca , a :fi~ácoa das relações de produção. llnt.retanto, o que est;l. em fl)rma predClminnntc da ap~;o priação , n;]o pc:rtcnccm sco.ào ao ~tfodo de
questao c o seo:~,todo nato da função de ponto d,e partida que, desem. produção bu.rguês e que, por conWfJJintc. o c3r3tcr do trabulh() criudot
de v~1lor de trota t. e3H«ificamcmte butguês (Ccmulbuciott d la ctitique tle
penha, na teona do proce.1so de produção c~pitaJista, a ~nálise dn tfcoiiONiil' polltlqll<, R· 3;$),
mercad<>ron .
. Parece, de fato, pr imeiramente, que na p~i meira seç;1o de OCa- Entretanto devemos evit ar" Hl'rnadilha de uma leitura hegelia-
pital só se to·ahoda ,rro~uciio mercantil em g<:ral, ua medida em q ue na de O Capitdl, segu ndo a q ual a forma meJcadoria c.onteria em
o m omdo das mercadoroas é um prcssupost<> necessário do modo de germe, na ~ua intcriol'idade, t odas as contradições do modo de pro-
produção capitalista. dução capitalistH de que O Capital seria apenas o desenvolvimen to.
Desse modo, ocupnmo-nos da mercadoria em geral, c não da com o inev itável corolário num discurso de tipo hegeliano de que
mercadona enquan~o elemento de u rn capital mercadoria. A (denti- esse ponto de partida seria por sua vez mediati.z ado pelo ponto de
dudc d,o trabalho 1h1l com o trabalho crwdor de valor define apenas a chegada, de que a mercadoria haveria de pressupor todo o desenvol-
prodt!~ilo .mercanlol, ao passo que a produção capitalista se delíne vimento do proocsso de produção capitalista. . •
pel~ odentidade do trabalho útil com o trabalho <'riador de maf.l· O bservemos qi!Q Marx dá arg umentos para essa mteo'{Jretaçao
valta. .. hegeliana tanto quanto para a interpretação historicista c mencione-
, jEstaría;mos.. p ois, nessa J>rimeira seção num estngio 1111 terior mos o cam inho por o nde nos pafe~ q ue o problem a \!ode se~ coro·e-
(tcónca c ~ostoro~amente) à~ determinações peculiares ao modo de ta onente formulado. Pod•:mos para 1sso nos valer dasondocaçoes q ue
prod~ção capn~hsta. ~ parttr dela é possível uma leitura historicista Marx nos dá no capitulo do livro Jll, intitulado "Relações de pro-
que ~e. na promcora seçao uma exposição genética q ue vai das formas d uç.fio c relações de distribuição" :
P_rn~•lo vas de tr~a ~s formas burguesas, passando pelos ilhéus mcr-
c.ontJs em d~se"'olvuncnto, segundo Marx, nos intervalos das socie- O modo de produçJ.o capitaliSht produz os st:u:; produh>S como mcr·
dades a nteroores ao modo de produção capiía lista. cadorias. Não é o ratQ de produzir mercadoria! que o di$tlngue dO$ d~! ·
mais modos de pl'oduçào; nud é o fa to ck ser uma mercadoriJ que ÇQO$li·
124 l. éR 0 ÇAPITAL DOS "MANt:SCRITOS DE 1844' ' A "O CAPITAL" 125

tu i o c.arJ.!er dominJnte e determinante do seu produ lo. Isso implica que, Es:~a forma de matlirt$taç!o torna invislvel a rclaçio real e inclus)ve
em Jmmetro Jugar. o trabalhador cnu~ em ctna apenas como vendedor mostra o seu çontrário (t. 1(, p. 21l).
de mercadorias. portanto como trabalhndor assalariado livre, c o trabn· Na ~XpJ'(ss.âo: "\•ator do ttabalho'', o conteito de vHior não spcn:)S
lho em geral uomo t rabalho ass.alariadq (t, V I U , p. 254). desapareceu, mas in..,crtcu--se em seu eontrótio (p. 208).
Achnvam-sc j~í incluldas tHt mercadoria c mais Qjnda na mere~.dorh1
con~o produt~ d.o.capital a reifiçação das determinações sociais da pro- Em que consiste essa inversão? O que aparece na forma de salá·
duçao c .a &UbJt-ltVttuÇ"~lo das suas bases materiais. que t.~lractedw todo o rio é que o t rabalhador é pago por toda a suu jornada de lrabalho
modo do produçjo capitalista (p. 255).
A .ror ma determinada na quuiQ tecnpo de tr-t\ba1ho SO<:ial s.: impõe c sem dislinc;;ão. ao passo que o salário corresponde, em realidade, ao
determmu o valor das 111t:t('.adotias .:stó. li)lnda, ~rtamcnio. à form1! 1oor- valo r da força de lrabalho, e, pois, à parlc da jornada de trabalho
respondentc dos meios de produ(iilo enqu:Jnto capital. no :ientido do que durante a q ua l o traba lhador reproduz o valor da sua própria força
\Ultcamt.rttc n-cma b:uc é qt:e a produção de mc:rct dorint torn•~sc a. forma de trabalho. Na forma do salário, u base da compreensão da mais-
ger&l da produção. (p. 256).
vali a (a-divisão da jornada de trabalho) acha-se assim invertida .
Um dos pontos esscnciuis da revolução operada por Marx na .
Só CO';~ base nas relações de produção capitaJista é q ue a fo rma
economia política consislc em ter trazido à tona em seu campo essa
de produçao de mercadonas lorna-se a fo rma de produçilo dorni·
relação de inversão entre a determinação cienHfica e a forma feno-
nallle e que a f~ r ma_ mercadoria se apresenta de modo geral e ·com
rnênica, que é para ele urna lei geral da cienlificidade.
todas us dctcrmmaçoes de que é suscetivel, como forma do produ lo
do lrabalho. Ou, em outros lermos, a identidude do trabalho util Coisa bem conhocid• em todru as ci6ncias 6 que no fenômeno a coi·
c?m o trabalho crindor de va!or só determina o cofl)unto da produ· s.a se.aprcsenle (sra/1 dcust~t/Jtl quase sempre invertida, mas di&So niio 5c
çao soc.al com base na Jden l•dade do trabalho útil com o trabalho di conta a economia politicn (t. 11, p. 208).
criador de mais-valia.
_Com isso afirma-se o cat:iter determinante das 1-elações de pro- A invoersão das determinações estruturais inlernas. q ue ateslam
duçao cap11abstas. o curá ler conslitulivo das relações de' produção, nas suas formas de
A parlit da separaçã o entre produlorcs diretos e meios de pro· manifestação s urge assim como uma característica fundamental do
dução, da conveJSã9 dos meios de wodução em capilal1 operadas no processo. llssa lei é que determi~a o desenvolvimen to das suas for-
pro("eSSO constlluttvo do modo de produção capitnlistn (acumula- mas.
çilo Prim itivn). o t raba lho úlil do trabalhado r, do pr0dutot dir~to 1 Temos um e~emr•lo disso desde o nivcl da simples circulação
so. po(Ic ma o1'1·t:stnr·se como tra balllo criador de vnlor. Com isso vê· monetária . Cóm ofoiL0, tl moeda é forma de e~istência do valor das
se cri :~da a condição que permite à iden tidade do trabalho útilco m o mercadorias. e a circulação monetária. form a de movimento pata as
trabalho criador de valor lornar·sc lei geral \:ia produ~ão. O essa ma· contradições das mercadorias. Ora. se e~ami narmos o movimento
neira é q ue as caraclcristicas d o m·o(lo de produçã o cnp\talistn po· da circulação tal qual é dado na cxperiê,ncia quolidiana, as coisas se
dem achar·se j1i incluidas ( tinge.tahlos.Jim) na simples forma merca· apresentam de n1odo difctente:
doria do produto do lrabalho.
O curso da m~da ~ a repetição constarHe e rnonôlona do mesmo
r:no"imento. 1\ mercndoriJ está sempre do lado du 'o'cndedor. e Q dinheiro
sempre do l(ldo dn oompcudot: ~omo me•/() rft c'fJfHR'a. A~im sendo, sua
fun(';l o t I'Caliur o preçO das mt!rcadorins. A~> realizar o~cu preço, o di-
2.. E:strutor11 do J'rotesso o Pc~cpgão do l"Jocc$So IIIMiro l faz p.a~s.J r d.9 v(mkdQT 'Q OQ 111pr~ut 1 enquanto por $tm v<t p ttl ·
sa deMo àq n c~.;. para rocoineoar il mc.sma nuucha cpm outm rncrctdorht.
A 1 O dcsenvofloimento da.r .formas ~ a inver.;llo À primeira v,su.. tssc mcwimento unih1ttral da mocdót não parece
F ixamos um primeh·o cnnccito q ue exprime a relação da. deter- JJrovir do movimento bilateral ~h mer.:ud()riJ. A ptóptia circulnçilo en·
minaçã o inlerna do p1·ocessc• com ns suas formas de nparecirnenlo gendra :l upJrê.neht contrária ...
(ou de manifestação): o conoeilo da d/ssimulaçàn. Com isso, deixa· E a moeda que parece f:H·..cr ci:eular merCôldorias imóveis por :d mcs-
mos provisoriamente na so mbrn o segundo conceito que define essa mtt.s e tránsf~ti · I M da mão .:m que s.âo n à~valor<s de·U$0 il m,;lo em 'lue
!>ilo valorc~> de uso numa direç!o sempre opOUil à sua pt6ptia. Ela
•·elaçilo: o de imersão ( Verk~hrung). diuancia conslantemenle as tuer<:adorias da esfera da eirculaçlo, J)(Jndo·
Estudando a mudança de forma que converte o valor da fo rça =;e conSlllnternentc no lu~ar delas. e :!hal'tdonudo o seu. Ainda que o mo·
de tra balho em valor do trabalho, declara Marx: vimento da moeda stja apcoJs Q.'(prc:Sslo d1 citcult.çllo das mercado nas.
126 l.ER O CAI'ITAI. DOS "MANUSCR ITOS DE 1844" A "O CAPITAL" 127
é pelo oon1rário a t-ir'l;u)Jção dR$ mercadorias que parec-e !>6 rt&ultllr do
movimento da moeda (L t. p. 123). l) A análise d as razões de compensação apresenta a aplicação
d ~> Kcsuintetexto do livro 1:
Mar. d istingue aqui dois movimentos: um movimento real que
é o do val or, movimento q ue se dissimula na repetição do prooesso As tendeneias gerais t neoe.ssdrios do çapital devem ser dlstlnt;uidas
de circulação. e um movimento aparente, ao qual a experiência q uo- das fotmas sob as quRi.t aptr«em.
tidiana atribui veracidade e que apresenta o inverso do movimento Nilo eabe examinar aqui como tu tend!nclas imanentes da produçio
real. capi1alists se refletem no movimento dO$ capitais )rtdividuols e prevalc·
Vemos confirmar-se essa relação de inversão à medida que,pas· rem como tois cocccitivu da COJloorrt:ncia, e por isso mesMo. se l.mpõenl
aos c3pitaJjsta.s como môvcis de suu op<:rações.
&amos das formas mais abstratas e menos desenvolvidas do p rooesso A an!lise cié ntificn da ooncorr6nci• prou.up&, oom efeito, a análise
capitalista às suas formas mais desenvolvidas e mais concretas. ~o da natureza lntirn do capihtl. Assim é que o movimen1o aparente dos
desenvolvimento dessas "formas concretas às quais dá nascimento o corpos cdc.sh::s só 6 comprc.cn!ijvel pnnt <tuem contcbe o seu movimcrtlO
movimento do capital considerado como um todo", ' formas deter- r"al (t. 11, p. 9).
minadas pela unidade do processo de produção e do processo de cir-
culação no processo d e eonj1.1nto do capital, que constitui o objeto Na relaç.â o desses três tetmos: tendencias imanentes da produ·
do livro 1!1 de O Capital. O termo desse desenvolvimento sào as for· ~no capital ista (movimento real), movimentps dos capitais indivi·
mas que se manifestam à supcrflcie da produção capitalista, sob as dunis (movimento aparente) e móveis dos capitalistas vemos esbo·
quais os diferentes capitais se enl~entam na concorrência e q ue são ~or·se urna teoria da subje~ividade capitalista, uma teoria dos m oto·
percebidos na expetiência quotidiana pelos sujeitos econômicos, nos rus c motivos inteiramente diversa daq ueln d os Manu.tcritos. Não
quais Marx d•\ o nome de agentes da produção. 1no os móveis do capitalist a que se voltam contra ele sob a forma de
O desenvolvimento das fo unas do processo é assim governndo o bjctividad.c; são as tendêncins próprias do capital, as leis estruturais
pela lei da inversão: as formas sob as quais se aw esenin ou apa rece o do modo de produção capitnlistn que, através dos renômcnos da
pt·ocesso de j>rodução capital ista são rigorosamente invertidas em eoneorrênc ia, são interiorizado& como m óveis pelos capitalistas.
relação iJ sua determi nação interna. Apresentam uma conexão das No liv ro l, esse p roblema só podia apresentnr·se incidentemen-
coiJ·a.t (Zu.!tlmmeulumg dar Sache) in versa du conextio i!Jtema'riftfl.err. te. No livro 111, pelo cont rário, a anitlise da nature:ta intirna do capi-
,' Zuyammenhang), 1.1m movimeutQ apat•eute inverso do 11wvimemq real 1111 chega a o ponto ern que Ma1x p ode, sem fazer a análise da con-
da pr~duç1io capitnlist~ , Essa rorma dh m~vin~ento aparente ou d a corrência em 'i mesrna 1 estabelecei' o seu fundamcmro: a determina-
C(IIU!Xuo das cotsas c ~ue é dadn à percepçuo dos agentes da produ- ção da relaÇão ent re movimento real e movimento aparente.
ção. ' '. 2) A a n•\lise dus razões de com pensação faz parte do estudo da
E:studarerhos e sta ~ei t:om buse nu rn c:xernp lo preciso: a tt:oriu igualação da t axa de luc~o pela concorrc!ncia. A compreensão dela
das "rar.õcs de compensação" expostn por Marx no livro Hl (t. VI , e~ige que se t enha em mente nas suas linhas gpraís a passagem da
i>P· 222 ss.). Entretanto, antes de empreo:ndt'! o estudo desse texto , mais-valia ao lucrd c o estabelecimento de uma laxa de lucro média.
irnpõe·se fa;ter d1.1as observações p reliminnres. a) Mais-mlia c lucro
Partamos da ft)rrnula: C (capital constante) + V (capilul variá-
vel) + pl (mais-valia), na q uul se CXi>.Ôil\e o valor d as mercadodas.
Dela extraiJn,OS a taxa de mais-v-Jiia q ue é igual a pl}V. Esta fónn ula

. T. Yl, 1'· 47.


• E.n1 "FOíiCtion de la formotion théotlquo~ · (Calt ien mar.--cfstes-léJ:inftt~,, Q.,. 1), J.•A. A ilusic) f.. a ideologia. se~ as pcm>armos nt cootinuidadr. de urn •ver' ou de um'di·
Milh::r pôs m1 CJVidCrlci.a t..-ssa lei de ilwers:lo q ~ tklc:tm,inu a pcrO:ftÇiio dà t.strututa ter'. C.OI\Slituern d elemento natural de um sujeito rigorosamente qual,ifi,ccado p01 sun
ptlo Sltieito: inserção n~ c.strutum de uma fotmaçilo sociaL
.. No sistema eurulurnl uu que se. articulo ourn modo espoclfico a produção. a a- Precisamente porque ft (-OOnomia é a rtllima í!i.ttOifdn, a situ•r como o ponto de
I'C-11 de dtslocamc,ntc>dosu;dt(l- desde que t-lcne mantenhu no nlvel do atual. isto ô. refnêndu de: tod3$ 1U maoife!lüções da práticft mclal, sua açflo é rndical.mcnte estru 4

na medida em que a <:strutllrn lhe conceda 3 percepç:io do $tu esta-do (do seu nl O\'i .. nba à dil11tl15ãO do att.~al ; c1a dá·te pOI sellS creitOS.,
menLo aparerue) fll111.l ndo~lhe a do seu sistema - d.:fine·se como 1/usiio. A ausencia da c:ausa ~asu para realizar a inve-rsão das determinaçÕes estruturais
Es:t:t, enquanto n sujeito a. renete, lhe d! s-ignificado, em suma. reduplico. p a pc- no nível da c onsdl:ttcia individual. A irw~rsilo oomo J)(rct.pçio 6 ilusão. Co1110 dls·
tua·sc sob a forrna d~ Meol()giu. curso, é idcologi11!'
LER O CAPITAl
DOS "MANUSCRITOS DE 1844" A "0 CAPITAL" 129
128

~xprime o que Marx ~hnm.a de relação concepwal. Ela exprime de Em oortseqüência, capitais de mesma magnitude darão lucros iguais,
lato a ongem da maJs·vahn, como relação do trabalho não-pago Independentemente de sua composição orgânica. A lei do valor
com o traba lho pago. Jcha-se assim invertida, ou. mais exatamente, realiza-se sob a forma
· A mais-valia não apnr~e no nlvcl dos fenômenos concretos do do seu cotltrário. Mas essa determinação pela lei do valor só é co·
processo de conjunto do capital. O que aparece é umafonna de apa- nhecida pela ciência. As formas da concorrência rias quais ela se rea·
recimento da mais-vali u: o lucro. Como qualquer forma d~ apareci· lila a dissimulam . tl o q ue Marx mostra no texto sobre as raroes de
mento, o lucro é ;ro mesmo tempo u ma forma de dissimulação. Con- compreensão.
sidera-se nele. com efeito, não mais a relação c-onceptual da l).lais- O c1ue a concorrência não ,w:mu é a dctcr01inaç.ão dó valot qwe do-
valia com o capital variável, mas a relação não-conceptunl (begriffs- fiT\inn o movimehh> d11 produção, slo <)S valores que $C dis:dmulam por
lose) com o conjunto d<l capital, relação em que de~aparcce a dife.. Utli d(l.s pceço.s dt produção e em Ultit.ut in:uâ.ocia os determinam (t. Vl.
rença entre os elementos componentes, em que se apaga, pois, se- p. 212).
gundo Marx, "a origem da mais-valia c o mistério da sua existên-
I Por o'utro lado, a concorr~ncia mostra três fenômenos que vão
\, cia,.,
i A tax:J de lucro se exprimirá pela 1'6onttla: contra a lei do valor:
--..,.-.:.P_,f!!!.cro} I ) a existência de lucros médios independentes da composição
pr (custo d;-:e.::.pt...ro:-d7'u-ç::-ão-·) orgânica do capital nas diversas esferas da produção, portanto da
massa de ~rabalho vivo de que um ~apitai se a pi'Opria em determina-
que ~presenta em realidade plfV, a mas.!a de lucro sendo igual .à, da esfera;
massa de mais-valia c a s9ma de C + V detcrrnin:ui.do o custo de
produçâo. 2) n .alia e .baixa dos preç-o s de produção consecutivas a uma
b) F;stabelecimento da wxa de /fiCTO média modificação dos salários;
D iferentemente da taxa de mais-valia, a taxa de lucro e determi·
3) a ,gravitação dos 'prec;os de mercado em torno de um preço
nada pelas vuriaçõc.!' do capit<!.l constan le. lndepcndcntet)'l.cnlc da
taxa de mais· valia c da ma.!Sa, do lucro, a taxa <te lucro irá varia1· ern de p rodu~ão'de me,·cado diferente do valor de mercado.
função da imp<lrtlincilt maior ou me~or do cnpitalt:t>J~slaf\tC em re- T"do.s C$5C5 fcnôrllenos wn?(~m contradi~er ta.l1ll) il dcrtcrmínac;lo
laç•1o no capital v:ll'iável (único que P,rod1!ll a mbis-valia). do mlot pd1> b:m po de lr.tba)bo quMLO á oaturca&. da ruah·valia que
Se <J capital tem uma, composição' o rgânica infcl'ior à compos~­ çonsi5tc ern $db«Lrahnlho nlo~l>ago. Pcmanw. na COIJCQnfttda. 11«lo apll·
ção média, isto éj se a parte do capital constante é nele inferior· à mé- r('Ct üu.JrtM()1 A forma acahadu (/errigt Gt,ftalt 1 das teluQôes econômi·

dia, a ~axa de lucro irá aumentar, e vlcc· ~crsa. cas. Utl QUfll 5c e11.i~ à sl.lpcrOcic pn sua existê.ncia reat. c portanto tam~
~m nas cep1-.:5c:n;taçôe.' em quo~ supOttes e 05 agentes dcssa5 rclaç&s
Numa situação de livreconcorrêncin, irá prodU2it-se um aíhtxo . lcntnm exÇ~Iict..Jils é muito dilerenlc: e de htto h1verst , oposta à su.1 foni1a
de capital em direção ôts esferas em ~uea taxa de lucro for superior à nulear (X.trytgtstaft J itllerna. esst.nc:ial, mM oculta, ~ ao cuncei~ (llr~
médiu. Esse ulluxo de capital irá. provoça~ ncss:ts esferas um excesso çrWJ quo lbo corre.<~nde (p. 223).
de oferta em rclaçft'o à demanda. e inv~rsamcnte nas esferas em que
os cltpilais se retiraram . l-la verá assim um ~1uilfbrio: Temos nessa pas.~agcm os c lementlls de uma teotia:
- da, estrutura do prqcc.!So
Modiante cnc ~1ivém perpêcu'ô. pelo modo como $c distdbW entr~ - do lugnr do sujeito nessa estrutura
1u diferentes eSfe~~~ segur.do a ta" a de luc:ro bai:u: aqut a <&ument< lâ, ~ - d!ll possibilidade do discurso ideológico e de sua diterença
capiwl provoca uma ttd a~Jo tt11N t\ oft:rt:l c a procur! tal que ca,n ja a
igualdadC: do lucro médio J)us diferen l e:~ csrens de produçiiu, donde a com relação à ciência.
transfort))OÇi1o dos va.lorc5 cro preços de produção (l. VI, p. 210). t

que ~la adian•ou. h prectso. com cftito, wnsi<ktar que a ma\s·vaJia C produzida p(.(O
col'J,iunto da dasse capitalista. Os movimentos da concorrênda que equilibram 3S ta·
• O preco de produ~iio da mercadoria é ig,unl <lO !S<U cuS-to de JHOdução mais um per'" \as de 1ucrq nas diferentes .esferas 1ê:m como termo a r<-"li:u.çiio desse •'comun;smo
ccntlô.fal d~ lucro calculado conforme a taxa geral de lucro. Ellla repretet'lla a relação cupitalina·~. '
entre a massa totàl d( majs•\'alia extorquida pela clussc capitali5-t.a c o capítal totld
130 LER O CAPITAL DOS "MANl:SCRJTOS !>E 1844" A "O CAPITAL" 13 I

F aça mos um quadro geral dos termos em confron to: m ais·valicr como abstração formal, falsn abstração. abstração insufi-
Vukehrung ciente.
(inversão) Li mita ndo .. se a unHI relação externa entre uma unidade interna
e a diversidade das Erséhelnung.ifnrmen, esse tipo de abstração deixa
fertlge Gestalt Kemgestalt e.~cupar o desenvolvill'lcnto de forma que permite à Kungestalt reali·
z~r-~ç ijªfertigf Gesta// q uç ~ contraçliz, que faz do movimento apa·
Superllcie interna rente un oa função do m<>vimcnto real. Isso se deve a q ue não foram
Existéncia real essencial pensadas as condições de possibilidade dessa u11idade, ao fato de que
o motor do sistema não foi descoberto. Tendo pensado essas condi·
ções de possibilidade, Ma rx pôde fo r mular o conceito da diferença
constitu tiva da ciê11cia e determi nar a fu nção exata da ciência. Se, no
Suportes Representações Begdff · desenvolvimento dlrS formas do p rocesso. a essência interna. a for·
·. ma n uclear desaparece, dissi mulada e invertida nas suas fo rmas de·
Agentes - ( Vorstellungen)
: senvolvidas, se ela se torna o elem em a inYisfvel (como a mais-valia na
erk/ãre11 fo r ma do lucro). a ciência é fu ndada como ciência desse in visível. re·
dução do movimento vislvel ao movimento invisível. É então possí·
•" vel subst ituir a primeira definição da ciência por esta nova defini·
Podemos completar esse quadro mediante certo número de ter- çào, que par«:erá talvez a princípio muito esquemática. mas que
mos equiv:rlentes. O nlvcl dafertige Gesta/1 é também o da conexUo pode explicar-se de modo rigo roso:
d~ coisas, do movimento aparente e da realidade(Wirklicilkeit). ()
mvel da Kemgestalt é o da conexão interna e do moviJ:nento real. t agir eientifkl\mçme cedutir o rnovimento visível. o movimento
Esse q uadro permite·n os em primeiro lugur esclarecer o concei- .shnp1.:smentc aparente, au movimento r~al imerno (t. V). p. 322).
to de cié11cilr. Para isso, lembremos a passagem que define a econo·
mia clássica como ciência: Essa 1·ed ução do movimento ap:lrente não é de fato outra coisa
senão a apresenlaçfio do movimento real. Esta a razão pela qual o
. l\ economia clt~klt, ~el~ ~mlliS.:, pl'cxum rtduUr (ziVIkk.fiilm•ll) l\5 ter mo q ue designa a atividade científica 6. em nosso texto, o Begriff.
dlrtrentn: (orm;u dlt tiquer.:'l, formas fixus c C$tmnhu U:n.Hu tt1 outns. a Tra ta-se. da apreensã o do movimento pelo q ual se manifesta a deter-
$Ua, unidade jJ1tema (i"n~re t,.)'tr);.,lr) t dc$p oj•~Jhs, da flguw na qual cl.u: lõC
minação in tema do p rocesso.
mantêm u.a1uu no l1do dtu ouuau de modo indife~n tc.
. E_Ja ~ucr r.ompre.:nder (ht)lt"f!i/tttJ a cooc.dln iotcrnn separando-~ da Vale a pena s ituar esses conceitos de /Jegriff e begrerfen em
di\lcr$uJe.de (Mumrlgfaltigk,eU) d•s fottnHl de. maoifbsha(.ílo (Er~'dltl• compa raçã o com os Manul·crlto.<. A operação do begreifen de.~igna­
nlUI,fS/()I?UM),
va ali a trad ução num discurso antropológico de referência. A partir
H aviamos o bservado IJUe a dimensão da ciência achava-se ins· dai podiam-se encontrar todas as categorias da economia politica
tau~atbr ne.~se pro)cto da econo.mia clássica pelo :st~belecirl:jent<> de como e~pr·cssões do mesmo cnncelw (o t rabalho alienado). Cada
· u m~ d rfereoça CUJO concetto n ao fora pensado. Esforccmo·nos por uma dci:ls era apenas "expressão determi nada e desenvolvida" des-
v~r ma1s de pe~Jo a ruzão pela qunl não o foi , examinando o sistema sas " primeiras bases" que constituiam para Marx o trabalho aliena-
dos termos q ue defi nem no nosso texto a o peração d o beg~ifen a f i· do e a propriedade privada. Como exemplo dessas calegorias que
gura do Begriff ' podiam desenvolver-se desse modo. ele dava o tráfico, a concorrên-
zurückjlilrren M annigfalrigkelt cia, o capital. o di nheiro.
Elnheit Erschrlnungsformen Temos nessa "expressão determinada e desenvolvida" uma fo r·
T rata·se de reduzir à unidade a diversidade das formas fcnomê- mutação muito próxima daquelas de ú Capiral. Mas o q ue ela desig-
nicas, <> que define um projeto kantiano. Utilizaodo o vocabulário na de falo é uma relação simples da essência (antropológica) com o
kantiano, Marx designa certo tipo de relação da ciência com o seu fenômeno que é a s ua ex pressão particularizada. O bl!g reifen estabe·
objeto de investigação, que ele irã c~racterizar nas Teorias sobre a Ieee uma simples diferença de nível entre uma essência e fenômenos
132 LER O CAPITAL DOS "MANUSCRITOS DI! 1844" A "O CAPITAL" 133

que, por sua vez. são todos do mesmo nível, expressões da essancia 11111) l'crccbcmos toda a distância que, nesse esquema, separa o~~­
na mesma condição. O q ue não está nem desenvolvido nem detcrmi· I• ih• 1cnl, substan cial, que Mar" define como t)no).elj.(EVO~ do su)el-
nad·o n a enumeração das categorias (tráfico, concorrência, capitnl 1 , 11tlltico . desse suporte da idéiu a utônom.a que é a ldé1a m!st!ca.
dinheiro) é precisamente a diferença de nível entre dinheiro e capi: ~~~UI o >ujei to substa ncial vem no lugar do-sufJ{)rte. O con~etto de
tal •. entre movimento do capital e movimento da concorrência, é u •llil•!tt.: que designava um dos termos da operação especulahva pela
articu lação dessas categorias no sistema da produção capitalista. 'I"·'' ern contirm.ada a separação entre o sujeito e sua essência serve
Em O Capilal, o begreifen consiste, pelo contrário, no posicio· ll•t••l pará ~ituar a determinação do sujeito no processo real. ~or um
namento de cada uma dessas categorias, na c•lptação d<>movimento dur•ln movimento, Marx enoerra a estrutura da especulaçao des·
das formas nas quais se efetua o prooesso de produção capitalista. O .t.. tHJndo a estrutura do processo em que o SUJeitO encontra o seu
trabalho co nceptual apreende a a rticulação das formas na medida tu,Jr. . .
em que capta o que determina a articulação delas, a saber, us rela- De uma parte, o sujeito perde a espessura substancial quefaZta
.ções sociais. Desse modo, a relação conceptual da taxa de mais-valia •lote o princípio consütuinte de toda objctivid~de, de toda substan-
permite apreender a relação social que a ligação não-conoeptual da .;lulidade. para conservar apenas a tênue realidade de u~ .s~porte.
taxa de lucro dissimula. 1)e outra parte, se. como mostramos, a especulação e a miStifiCação,
Por essa tomada conceptual a ci~ncia pode captar a articulação l~nge de serem o resultado de uma transfor!naçiio operada a partir da
da estrutu ra. Pode. por isso mesmo, p roporcionar as condições de IVirklichkeit por certo discurso, carncterjzam o modo mesmo segun-
possibilidade dos discursos que podem ser mantidos sobre ela deter· do o qual a estrutura do processo se apresenta na Wirkllchkelr, é no
minando o lugar de onde esse.~ discursos s:lo mantidos, aq uele lugar '"r mistificado que constituil·á o conteúdo essencial da função do su-
onde se e.'eroem as representações ( V11r.rre/lungm) do ~ujeito. Jeito.
B) Função da .rubjerMdade
O sujeito, o agente da produção, é definido aqui e em diversos Poderemos verificar uma transformação da mesma ordem se
outros textos como um .ruptJrtr. (TtiigM). . encararmos o se.gundo conceitO que determina essa f unção de sujei·
.. Ess~ conceitn 6. de fun~umnetal imJ??rtância. Já vimos Marx to: e o conceito de personificaçclo, que encontra também o seu equt·
ut1hzá-lo para defin1r os objetos econôm1cos. O de.qlocnmento de valente no modelo do Manuscriro de 1843. O capitalista e o traba·
concei~o.s que se operou mostra-se bem IHJ fato de que o conceitO lhador se vêem determinados como personificações das relações de
serve pu ..a definir no me.1mo tempo o sujeito e o objeto. Nos Manu.r- prod ução que sao o capital e o t rabalho assalariado. Assim é que
cri/os o par fuQdnmenta l era sujeito-objeto (ou pessoa-coisa). As re- Marx escreve, num text<;> tunto mais interessante quanto nele encon·
lações que definem n realidade econômica mantinham-se nu esfera tramos a pr<>blernática do de~(rum e do cálculo fundada em nova ba·
determinada por esse par sujeitojobjeto: ação do sujeito sobre o ob- se:
jeto, i nvcrsílo da relação sttieitojobjeto, reconhecimento do sujeito
no obJeto. Em O Caplra/, é a posição de excentricidade das relações O C[lpttalista não ~_,m qunlqucr \•tlllr hlnóti.;o. nenhum direito hi$--
de produção que determina o lugar do sujeito e do objeto. O par su- t6rico á Vidot, nenhuma caz.fto de ter sociul • não ser enquanto funciona
jeito/obj eto nãb mais é a mutriz determinante da constituição do .;o mo capiHII pcrsonilic.adn. Só sob e.~ta condiç;1o a noc«tilidade ~ra~sitó-­
tia de ~ua JHópriac~st~nCla est! irnplictdél na ntcts:sidade tr~n~ttórm ~o
c:~mpo da realidade eco~ômica. O sujeito é apenas o suporte das re- m->du th: rnod\lc;lo Capill'llista. O 31vQ dctemllna.ntt de sua a11v1dade nao
lações de produção constitUtivas da o bjetividade eepnômica. é. p<Jil. nem o vuJor de uso nem o d.:sÚ'\Iitc, mas o vtllor de ttoca e o seu
Est••mos diante da seguinte séri~ de tramforrnações: aum~nto •xminu~®.
Sujeito - ugente da produção (supotte) 6 dc!onvohimcnto da produçlo capitalista llClCt.ssita de um a~m~n~
Ato - J>rocesso to cunti.ftuado do capital cm,pr.:gadn llthr'ut ernrresa e i1 c:oncorrênc:11~ •m-
põc: a:. leis Imanentes dn produç.;lo r.ap1t.ali$L:t corno leis roerdtiva.s c,;ter-
Objeto - coisa sensfvel·SI.\pra-senslvel (suporte) nas a çad3 ~apiHtlisl u illdiYidual ( t. JU. p. J.l).
Na primeira ltgu ra o sujeito é o motor; na segunda são as rela·
ções de produção. O agente da produção ê assim delinido como p:rsonificaçã? ?u
Poderemos avaliar a distihtcia ent' e a teoria da subjetividade suporto das rela.ções de produção. Intervém. aqut nao com'? SUJeitO
em O Capital e <I teoria da subjetividade do jo1•em Marx referindo· constituinte mas como sujeito pereebedol', tentando explu·ar a s•
nos ao esquema do Manu.rcrito de 1843 (Veja-se 11• parte prelimi· · mesmo as relações econômicas que percebe. O verbo erkliiren que,
134 LER O <:APITA C DOS. "MANUSCRITOS DE 1844" A "O CAPITAL" \35

no jovem Marx, exprimia a a lividadc críticn designa aqui o modo tais individuais, da massa de lucro constituída pelo total do sobre·
necessariamente mistificado pelo qual o sujeito capitalista tenta ex- 1rnbalho explorado n o conjunto dagsferas.
plicar a estrutura nn qual se acha imers(J (bcfangen). Segundo Marx,
O C3.J)italista esquect. npena$, ou antes. não vê, porque a concottE:n~
as suas represenlnçõe-s sào apenas " a expressiio consciente do movi· da n:âo lhe mostn, quoe todas essas razões de compensaçüo. que os capi-
men to apa rente". Os seus instrumenlos de co nhecimento são a in· calistas fazem prevalecer quando do cálculo rcciptCJOO dos preços das
tuiç:lo e sobretudo a experiência, ligada à regularidade do movimen. mt~ liMri.á' ftóii difti'éi\tts tllniós de produção, rolacionam·se simpleJo.
to aparente, às formas estáveis da ferlige Oesralt. A experiência ensi· mente com e~le f11to de que todos têm , ptopotc:ion&lmenlot a seu eapita.t,
na certas relações regularei, por exemplo, uma relação entre o~ salá· um direito igual na pilhagem comum da muit-valia total. Como o lucro
obtido diroce da 1'\'HliS•Y&.lia qut extorqui(am, por~c~·lhes antes que .as ra·
rios c os p reços das mercadorias. donde se tit·a a conclusão de que a zõa:s ·de conlJ)t:n~I)J.o não strvem pan jguaJM a partidpa.çlo no conj 1111~
alta dos salários faz subir os preços. to da mais-valia. mas que tm·am () pMptlCJ iucro, potq\le considerám que o
Vejamos como esse sistema irá funcionar no caso das razões de lucro vem $implcsmcnte de uo1 t~umc nto. s.c:ja qual for o motivo. d<t custo
compensm;iio; de ptoduçào dn mer.:adoria (p. 224).

Tendo a produção ~:1pitali sto atingido o.:rtu gre.u rle d ~.:nvoJvimo~m· Dessa un.álisc podemos cxtwir três elementos importantes:
to. :1 igu:llaçio C:l)tre- ut di f~rentt-$ tnxa:- de: l ~cro das esCtnu individuais e I) Vemos que, no nivel da consciência do agente da produção,
o estabeleciml!nto tón$c.oçutivo de urna taxa média de lucro nfio .te renli· há percepção ode movimento aparente c conlirn,1ação dn inversão q ue
tam absolu tarnent< pelo simph:l jo&o de &tru~ii() e repulsão dut·antc o lhe ~ constitu t,iva.
G;ual os preQOS de 1tlercado uanem ou r<nt:lcm •> capital. A pó~ 9$ prtvos
mbdius e 1)5 J>rcço~ de mereudo corm.po ndente.' se tcn:m consolidado dv~ No movi mento real, o lucro repousa na mais-valia , i~to é, no
rarttc tertu tempo, ocor1·~ à cbmn'C,a/4 dos capil:tlisl:l-5 ind)viduais. que lra balho não-pago. !!. o volume total do sobretrabalho explorado
durante essa u ni Cormil f1~ào éerta~ dif~renç(J,15t com)>(nsam e não lardum que determi na a massa da mais-valia, que determina, pois, os lim ites
a inclu(olas etn suas contas rcdproc.as. Na reptCient u ~-iio dos c:tpilalistJs,
esSa$ di rc:r~ n çns c:cistem e elc:s as inll-ó lluletn nus seus dlculos a titulo de no inlerior dC>S quais pode ex• rC<!r·&e a disttibuição do lucro. A lei
rJzlo de compensaç;:lo. do valor-trab .. lho atua assim para o conjunto da produção corno lei
A itJC.J fulidamenlai !Q lucro COI sj mesmo. a idliu de que capitah1 reguladora. A catego ria do lucro não se refere à produção da mais·
de ~h:t lila mSJ!n{tude devam necessariamtrlle propmcionar lucros iauais valia, mas :\ su11 repatüçilo. O movimen to aparente far. surgir esse
em ~c:riodos de tempo i&!nllcos (p, ;1Z3).
movimento du repaniçiio da mais-val ia como coostilutivo da mais~
A ilusão do sujei hl capilalista pode decompo1·-se em dois ele· Yalia . A subjc tí~idud•: capilalista que interioriza esses fenômenos a
men tos: tf1•1lo de razõds de compensação pode então instituir os seus móveis
I) Ele- intedorlza como móveis de suas aç<>es os fen ômenos do como conslill1lintes.
movime111o Uparenlc nt[avés dos quais se realiza a lei do movimento 2) VemO<s ao lflesmo tempo o q ue as representaQ(íes (Vors·
real q ue ele ignora . A$sim, as r azões de compensação s1lo a r10nas o rellungen) do .agente da produção reprcsentnm. São as categorias da
fenô meno da unifo,·m izacão da taxa de lucro pela concorrência intc· sua p rática: O capitalista não lern interesse algum em se preoc upar
riorizada pelo capit alista como motivação determinante do seu cál· com a estrutura intema do processo. As categorias de que ele neces-
cu/c>. sita são as que exprimem as formas do movimento aparente nas
qua is vivencia a sua prática e exerce o seu càlculo. As categorias
Neun f !i~i't!.êhU.Çàó é que se ;,~ht o câlcuiO do capiftll$ta que se constit utivas do processo são para ele de algum modo as ru bricas
upro~ri1 a~ mes~o tempo, tecu~ r [U\dl>·t..: por uma alia de preço, do lu· dos seus livros contábeis.
cto q uelhe t:!Ctlpa de futo, p<>r exemplo, dcvidQ • qut um C1J)iUtl eruuu a
t.ua rotaçlo 1t1ais lentamente, 5eja porque a mercadoria se atrase QO ptt>· Por isso o sisiCtJ\a das ilusões ca pitalistas exprime-se numa teo-
O::lSO de produção, sc:ja porque d-eva s.!t vendida ém mcfCJdoo dí:itantes ria das magni'ludes. A delermioação do valor da$ mercadorias pelo
(p. 223). tempo de trabalho é algo que se passa por trás das costas do capita·
lisla; a mais.-v.alia não entra nos seus livros oontâbeis. Para o seu c:il·
2) A part ir disso, o capita lista imagina que as razões de com· c ulo ele 1em necessidade de determinadas grandezas reguladoras.
pensação é que determinam a e)(istênoia do lucro, a o passo q ue elas Ele as encontra nas grandeLas que determina m a distribuição do va-
a penas t raduzem a repartição, em função da importância dos capi· lor produzido: salário. I•Jcro, renda. Na superl1cic da produção capi·
136 LER O CAPITAL l)OS " MANUSCRITO S DE 1844" A "0 CAPITAL" 137

na
talista, e po rtanto experiência do capitalista, esses elementos U(lil ~1ue o capitalista reduz. porque u~im lhe ~praz. a pa.t te de luc:r:o por mer·
recem como os consliluinu.t do va lor das mercadorias. Por isso o,,, c•doria isolada. mas se compensa produ11ndo \lm numero mator ck me r·
pi talista lança-os no seu cálcul o como grandezas constito tivuN ;lo oadodns (t. VI, p. 243).
valor.
\ltmos, ainda aqui, perfeitamente cla ra, a relação dos três ter·
. A e."(l~t'ibu:/4 oo plano da. teoria. o cálculo mtutssado no plauu 14 !til' i tendência s imanentes do capital, movimento aparente e cons·
pr~uca mountm quu os ptt:QO.t~ du merc.l:idoriu llló dét.crminados peito~-~
,,, ··~do capitalista.
l.áno, p(JO lucro e pc:la cerlda, pelo preço do trabalhd, do CJ)>ital e d.i tt td 1
e <1ue esses d emcntos do preço eJt~bdc:cem efetivamente os pttqOIS rtH\•14
dores (t. Vtll. p. 249). A dirninuiçlo da. taxa de lucto ap•reoe aqui como u.mu ctms~qildnda
do ou monto do capital e do c!lcu\o dol c.pitllliJtttS, corolâdo ~'se a~~
mcnto. segun-do o qual o vQiume de lucro que eles embol.sanam 5ena
3) Finalmente, podemos determinar com base no conceito do mai$ elevado o::om umu taxa de lucro menor (p. 238).
cálculo o deslocamento q ue se ,,roduriu em relação aos MaiiU.ICriWJ
Nos .Manuscritos. a teoria do cálculo era indicadora da inversão pel• tJ lugar d!os agentes da produção no p rocesso determina assim
qual n decisão da subjetividade capitalistu se voltava contra ele. () 11 • representações necessárias da sua prática. como simples cxpr~s·
capitalista, c alculando p ara si, servia corno agente de negócios, nilo ~llt1 do movimento aparente do ~apitai, c. po1s, c.oiJlO total m~te 111·
ao esplrito universal hegeliano, mas ao desenvolvimento da essêndu ~~~~ tldus em relação ao seu mov1mento real. Assun es~ .explicado e
hu mana . Aqui, o dlculo do capitalista se situa n o nível do movi. Juntlnmcntado o conceito de inversão ( Verkehrung) utilizado ?esde
mento apa rente da estruturn . O capita lista crÍi que o seu cálculo de· .~ Ideologia Alemã pau definir a ideologia, mas que pcrnwnecta en·
te•· mi na o movimen to d o valor ao passo que é determinado por ele. 11(1 sem fundamento devido a q_ue Marx não estabelecera a ? 1ferenç.!'
A teoria do cálculo capitalista é uma teoria da ilusão necessária a<> o)nl te a Kerngestalr e afertige úeswlr. l::,qutl, e;~ A Ideololf'o ~lema,
capita lista parn que ele ocupe o seu lugar de agente da p rodução, de 1\ilurx estava ainda preso ao concetto ;deológteo da Wrrkl1chk~1t.
su porte da relnção cap italista. t'aru ele, a ci!ncia s ituava-se no nfvel da Wirkllchkeir~ Tratava-~e,
Verificamos aq ui o mecan.i,smo da aparilnâa fSchein ) como des· •I" ele, de estudar a realidade como home~ comu m. Como ele nao
locamento entre a constituição das formas c a percepção delas. O su· J)cnsava a di.fer•:nça da rr;~tli<fade em _relaçao a o m~v;.m.eoto real, a
jeito capitalista, enq uant o sujeito percipiente, toma consciência de tnversão aparc~,a como s1mples funçao de urna sub)et;v;d~de ~ sen -
cedas relações apresentad-as pelo mo vimento ap~ente. Q uand o l'art ~0 a cxplicaç;jo fornecida pela caracterização dessa sub)ellvldade
delas o móvel d as suas ações, l'em a assumir o papel de sujeito cons- ~orno pequeno-burgues~. $ til'ller e Baucr eram pequeiiOS·burgucses,
tituinte. Ele crê encontrar nus Er.rclwinungcn os resultados da sua e en• da essencia da subjetividade pequeno-burguesa - uJ,capat de
a tividade constituinte. Nesse modo de situur·se como constitu inte pnrceher a realidade ·- o refleti-la ao invers~. .
vem os arremata r-se 1t mlstilicnçiio que consideramos constitutil·a do Aqui a inversão ncha-sc fun<lada na propna estrutura do pro·
seu ser. ~csso. I) o mesmo modo acha-se estabelecida a t~iferença desse eon·
Outro exemplo disso é d ado pela baixa da taxa de lhcro, seme· ce ito em relação ao de Verk~lrnmg que caractenzava ·para o JOvem
lhetn tementc tomadn lPOr u ma operação dctcnni nadu ~la vontade Marx a o pera ção cspeculativa. ' .
capitalista. o lugar assim definido d os agentes da produção dcternnna ao
mesmo tempo o lugar de o nde se sustenta certo discur&o sobre a eco·
E unt rtni)meno !~Ukanto dn nli~NZ;t do Módü dó piodoÇão ctpi· nomia: o discurso da economia Vlligo! .
tilista q u~ quando a ptodO.ti~ idtdc do trabalho :~u menta. o Rtt:ço de
~üd,;t mtr<!adoria tomadu à paflc ou de certa quamid a~e de mcerca.dorius
dimlnuj, p número de Qlcroodorias aumenta, ot massa dt. Ju,rc) por mcrca· A o;onon1ia vulgar na rwlidade nada mais faz do Q!JC trad:U:dt no
plano doutri11:ítio e sistemátitnr lS rcpre$eotacócs do$ agentes da prod~­
dorja e a wxa do lucro em relaçilo ã soma da$ mercadorhu diminuem, to
passo que auJUentu a má!.sa db lucro calcull\dll: pelo total das mercado· ção p dtíoneiros d.n telaçõcs de pr<>duçào burgue&as e f11.2er a apologaa
riaN; <-~o;ses, fenômcn<t.t manirestAm·se apenu na superfiéie~ do modo ~ · d elas (t. VIII, p, 196).
guinte: bai~a do volume de lucro por rneu:.a.doriu i~(•ladu, baiJa do preço
desta. auutenlc> do volume de lut:ru c:~ l cul ud o pelo total. em aumento, No terceiro Manuscrito, a economia polltica surgia com o o dis-
dál rnereadori~• s prndu:ddas pelo capital total da sociedade ou em tão pelo curso da subjetividade capitalista . Aqui essa função pertence a ~m
capit.alistn individual. A partir dl!.ssas llO~s. dtdu~-se eot.ào n idéia de discurso particular: o dti economia vulgar. A econonua cláss;ca
tt esewu·'r"Dr . 11

DOS "MAKUSCRITOS DE 1844" A ' 'O CAPITAL" 139


J.JS LER O CAPITA L

t~hwt rac;ilo dete rminada, isto é, abstração representando um estágio


ac hn·se, pois, situa?a no. terreno da ciência e é nesse terreno q ue se ,,,, lhtsenvolvlmeJJto histórico determinado.
esta belece a s ua dife rença com relação ao discurso cientJfico de
Mar;~; .
Ele apóia a sua interpretação nas seguintes passagens:
:) Um texto do livro l1l (t. VI, p . 193):
C) Valor e .preço de produção- .Retorno ao problema rw abstração
~s~a d1fercnça pode ser agora esclartcidn. Vamos esclarecê-la 11 A trocJ de mt.rcudori's pelo seu V<llor ou \'alor uproximndo <xigo
pr'Ü_poSJLo de um problema que deu margem a vasta discussão: a re. um gr-Ju de dtso:nvotvlrMnlo menor que 2 l.I'O<:ap<llo preço de produçdo
laçao entre valor e preço de produção. que e., igt determinado níVel de d~envo1vimen to capilnllsta.
Lem bremos a defin ição do preço de produção.
2) O com plemento ao livro IJI escrito por Engels para respon·
O prec.;o de produção da mercad(HI& e igual no seu ruslO de rodu· •tér ios objeções e interpretações divcrs lls suscitadas pelo nosso
çüo Mais ~'" pe:rcenii.Jal d~ lu-c•:-> caJcuJjtfO de açordo corn a tax~ geral IHtlblema. Nesse trec ho Engels pretende refutar a opinião segundo a
de.l~cro . F..m outras pa.hwtu. é •tu~:~l acJ custo de 'J)rod.Uçào mais o luc:ro
mcdoo (1. IV, p. 114). ''"" I a lei do v.a lor não passaria de "ficção teórica", ou uma abstra·
~Ih> que a nada oorresp onde de real. O que o leYa a escrever:
N o preço de. p~oduç~o acha·se realizada essa inversão que já
eu nunam?s: capo~a~s 1g ums dão llaUs de lucto igunis independente· A lei do vnlm de Mnrx C: wilida de ruo do aen11 na medida. entrotan·
men~e d a composlçao orgâmca do capllal, o que parece subverter a lo. em que o podem ser as leit cc:onó.Qlicas. paru todo o p:ríotl<• da pro·
dução simples de mercadori:1t. ttotlanlo {U~o momento em t)Ut c-.su. úhi-
" teorra do valor.

A t.rMs rorm:a~jo doo n•lojc;o; "!'f'. p1·~ço$ fJc produç.Jo pái'CC'C destruir
...[J
mu sCJ(rc: uma mOllili enção pdo atlnmlO do modo lk JU<Jdução c;a.pitalis·
A lei do valor dti l\f;_u x t pois, ocunôttlicalno:nlc váii<J.a em geral
a prdpn ~ bmo d~> su•t.ema,: a.<lu ernunação do \1<tlor dts mexcndoriaspolo para 'um pccfodo que. vn~ do in ido da troca q1.1e tr:msrorma os produtos
tempo de t.ra.balho que elas contt::!rn (Hlrwire dr.vdtXtr111f'3 dct.mp-m14ut•.t, l. em mercad~1·jns <llê o século XV da nossa era (t. VI, p. J.S).
VIII, Jl· 164).
Se e c orrc\O o comentá.rip de Engels, chegamos ao resultado
};ssa cont mdiçâo ensejou . desde a p-.tblicuçí!o d o Jjv~o 111. dis· •urpreendente de q ue a lei d o va)or- traba lno era válida antes
c.ussocs du {lUUI ternos eco no COII\plemcnto do liwo Ill escrito por ''" rapita/o:rmo, ~~as q~e de~a de SJ:l com o d~scn voll'imento. do
l;l)geli. Ma1s recentemente, encnll~runw·l a vroblcmati~adu num m·· onodo de produçal:> CHJ;nlalosta. N o se10 do capotahsmo desenvolvido,
ll~o d,? ~~onoml~u• ita liuno Pietrunera: " Ua StrutJura logicadel Ca· 11 categoria domi na11te já nào seria d valor. mas o preço da produ·
p otak . 1'1e.b~uner·a tenta dar uma explicuçUo fu ndame.ntada II I)S çtw.
conoe_1tos em atados p or Dclla Volpe para defin ir a cicnt~ficidude do Piet raner.a .tom a por base essa inter pret ação de Engels. Para ele.
marXIsmo. n u ' a tor é uma. al)str3,ç~o deteo·minadu , correspo~tdentc a u m ~stánio
.• Ele ~i bica en:r pr imeiro l ~1gar um lipo de e.1plicaçãq que ~e ba· de desenvoll'imcnto anterior. O preço de produção p ressupõe, p or
se.' a numa ana logoa C?lll a _flsrcu; De acordo com essu explicaçilo, a :.ua vez, a lax a de lucro média; pressupõe a existênciu de diferenles
lei ~o vulo~·Lra.balho c tllÓrJCa, vuloda parn um espaço l'a'llio. Mas: nn raohos de indí•stria caruptcriroados pelu con,posi~ão técnica diferente
reahdade dos len?mcnos pconórnicos. esta mos !iianle de u m espliço dos seus capltai:; e. J>Oitanto, por çomposiçO.:s orgânicas e l;3.'<.as de
pleno. Em '-'1sLa dasso. dão·se certos fenômenos ucidcntais, pqtu rba· lucro d iferen t<>S. (;, assim a abslt ução determi nada q ue explica o es·
dor~s. análogos aos rcnómenos de fricção. A diferença entro vulq.r c
ulgio de desenvolvimento que é ó dó cnpiuilism o in> s~ulo XIX.
p reco de p~odução llXpr)miria a~sim a diferença ent~c uma )ei atuaQ·
do no vácu.o e uma lei ntuaado no ple'lo. A t>aüi! dal, Pie~runern 1ccorre a au;na das teS<:s esscnc.lais de
. Pura Pietra l),emo, es~a oposição vá.:uofplcno recorre: a u ma teo· De! la Volpc. segundo u qua l a cienlificidurl<: do marxismo caracte1i·
nu. da abb1raçiio que não é m ar~ista. Ele a qontrasta com a teoria da 1.11-sc pelo cstaheleqjmentQ de uma ordem lógica das categorias, in·
versa da ordem crono lógica do a pa1·ecimen1o delas. Bssu lese bnseia·
,;c num t recho célebre da fntJ'Oduçiio Geral, onde Marx declara:
Ser~,l impo!':sh·el e ecrdneo ordenar m catogorh•s ecun6micas na or·
dcrn em Qu~ l't.>rJm histurica.mentç determinantes. )J( lo oontd riô, i1 or·
•• Socitl<l. J9j5.
140 LBR O CAI'Il'AL DOS " MANUSCRITOS DE 1844" A "0 CA PITAL" 141

dem ddn& é determinada ~>( l as rt.laçõts que eJ.istem enucelas na SOC1<ll• Jl,ll q ue é ilegítima a aplicação aqui feita do trecho da /mrodu-
do bur·guesa mô&:nHt e! precisamente o in\'c:rso do qve parece ser :i I!I f ,,,, firmP t:: que, no primeiro caso. tratavam os de uma relaçào emre
ordem n atu~:al ou corn:spondcc à sua o1·dem do suces.d.o no curso da t\'CJ
luç:lo hiuóric• (Cclntrlhrllc(ltt. p. 171). '"11" di' exist~ncia do. valor. O capital industrial, forma de cxistên-
1 1 11mdamental no modo de produção capitalista, converte o ca pi-
Essa passagem remete à teoria da Grundform (forma fundamcn· 1 "'mcrcial e o ca pital financeÍio em formas de existência do valor
tal). Ela se esclarece pelo parágrafo precedente, em queM arx declu· ~~~ lhe são surbordi nadas. No segmtdo caso (relação vulor / preço
r a: • fll't>duç;io). tratamos da relação m/ r~ o >alor ,, .tlul.~ forma,s de
\ltlt:lll'ia. da relação entre a x.,nge.troft, a estrutur·a nuclcur do
Hm todns ns fmnuu de sociedade, é uma produção determinada e h •h)Cc~so. e suas formas mais desenvolvidas. as mais con~retas. O l.u~
Nlaçôt..c: cng.endrad'u por d a que atribuem n tod:" as demais. produçõe~o .- ' " uilo representa uma fo rma perturbada ~om resperto à mars-

l~
:\$ rel tt~.õ~ engendrada& por tsta :\ su:1 posição e impon:lncia (p. 170), 1 •h,l Tumbém não representa a forma domrnan tc que sucedera à
rmtl~-vali a. t a sua form'l de manifestação. .
No modo de produção capitalista , a fo~ma fu ndamental é a for· Valor e mais.. vnliu siio os' motores do sistema. Porêm, na medt·
ma do capita l industrial. Esta é a última na ordem de aparecimen to. ol11 em que o sào. constituem <>seu elemento oculto .
I! As formas do capital comercial e do capital Jinanceiro ·sno mais anti-
gas. Elas é <tuc jNrmitiram o surgimento do capital industrial. Mas. A mJi5·Vali:t c a ta,'<tl de nmi:s-valia siío, rtluth•Jmtnte, O ~ lelllt(HO
à medida que o capital industrinl se converte emjormofwrdamemof invisivd e u ponte> t~*'~tn..:lJI q,;.c se irnpôo eludclar• .au pJsso que a taxa de
do modo de prod ução capitalista, ele submete essas ror mas preexis- lucrQ e.. pui$, ;t m~ti5 ~vahJ SUb a (orma de )ucro $AO fcnbtr.éOOS que surw
tentes e as t ransformn em formas particulares do seu processo. g.cm n.a l)'J..p c:rficié ( t. Y l. p. 61)
I
Assirn é qu,e o capital iodu~trial tem, ao ver de Marx, um modo Igualmente. Mur< di:t q ue o preço de p~oduçiio é "u~~·a forma.
pr óprio de submeter u si o capital de empréstimo. É a criação d~ tio "alo r da mcrcadoriu t:ompletamcn te extenonzado lvt"raus~·erllclr-
uma forma que lhe seja própria. o sistema de Cl'édito. Na fo rma do 1•' 1 c :i primeir9 vlsta 11conceptua l /b,;grljfslose}" .
cnhlito. o capital de empréstimo apnrece como ~imples fprma parti· l'assando lia ma is-vali a .ao lucro. do valor a q preço de produ-
cular subordi nada ao capita,l it1dustrial. cito. não passamos a um l'stáglo lristórico mais avançado, mas .a ~~~­
trll 11 ívd do P"'"~~~·~. Est amos no nível dos fenômenos da /l'fl~ge
Dcss•l esquema o! cjue l'aet l•lnera se uti lí~a pa~a a relação yalor/ (i 1·iFalr c nHo íG;J ili'• ll() nível da essência. du ..Kc'~ng€.tralt. ~1 as n.a ltl-
prew de produçllo. !:em hlvrar· em conta, o nlvclno qu:1l se sit uam es· vcrsiio dos fcnôrnenos se n:uliza a lei da essenma : o q ue dclernuna a
sas categorias. Estabelet:e entre l'a)or e preço de produçã_o n mesma
re(açil'j1 qu.e Mar~ e~t.abel~i~ r:ntre capital de empréstiuiO e cap)tal 1, ,;duçào da rnais·\J.lia para o}od? da classe capitali~ta c"· lei do
in.dtrstríal. valor. Lucro e afrcQ<> d•: produçao Slt<J t:atcgopas que so con~·de!am
r distribuição du l''tiiH'alia en tre os'!membros da classe.caprtahsta.
Tomc:mos uma scqU<!nda cronológica: 'jo ~1s fOrn"'as quo a mais~.ovaliu e o vulor assu mem no mvel do proN
pr!>QO de mercado -- valor .~ preço de prodllçào ·-· "preço de ~c$so de conju nto. . .
monopólio" Falta, poís, a Pietranera a difer·ença r;rdtcal que pcrm~te a Marx
ou. o ~ ue é o ut ra J'll•ncira de cxprimi,la: ~xplícar o que permanecia inc•plkável na ecll)~o mra cllrssrcu dev1dn
cxceP,ente ·- mais-valia -- lucco - "renda de monopólio". J urna teo ria irlsuftcicnte da abstr·açào: 11 rt.laçaq do va.lor c d~ m:us·
Invertendo-se css:t seqüência ~ordem de aparecimento histót kil , a)ilt com as suns formas modi.rtcl!das. Cls econo~l~$l<l.S chtSSICOS
das c.ategorias). obteremos u o rde1u teór icu qa subordinação delas .1chavam-se di an te do seguinte pr<>blerna: como conQhar a ler do I'R·
na sociedade capitalista. Oadu categoria subo~dirl31 historicamente a lor-traball:w com os fenômenos da produção burguesa '!uc a negam'!
si a categoria precedente c permi te compreer1dê-la teoricamente. Na lô•s oomo o problema se apresentava i>ara Adam Smrth, segundo
época em que M~rx escreveu, ;i categoria dominante era a de prfCO M <H'C
de ptoduçâo. A categoria valor. dominante dos estágios anteriores,
Sem d~vidJ, ~daro. Smith dlltc:rmírHl o \'nl?r lia merc~doriu pel~
agora lhe está subordinada teórica e historica mente. Também nesse lentp(l!dc trabjJho q.l<: ela tntl!rra. m*s para r~leçar :m .se~:utda ;.1 rcah-
caso, chegamos a um resultado deveras surpreendente e dilicilmcnte dade dt:iiu <!ctcrr.1inu~ão do \';IIm a t~m'J)I>& J>rC·UdamtUs. Em uutrt\S P! ·
conciliir.vel com a teoria das .fomtns de numifestaçcio. lavrm;. 0 qut lhe t>aroce vtrd.tde do ponto de visu da simt>les mcrcudoria
DOS "MANUSCRITOS DE 1844" A "O CAPITAL" 143
142 L ER O CAPITAL

"'' ' 11 u dialét ica abstrata, ele não pode conceber a constituiç.ão de
wrna·sc paru ele obscuro desde que se ponham em sou lugar as mais tl~ llctld " hjctividade que não coincida com o desenvolvimento de uma
v&dM e complexas formai de capital, trabalho walariado. renda da ttlfl1
etc. to Q\lfJ tle exprime ao dizer que o vaiQr dM mercado riu cru avaJIM. , lil,lllciu
do fJoelo tempo de uabalho que elns encerram no ,,atadl$~ lrut dt burgua• t emos ai um desconhecimento da estrutura em nome de um
sia em que: os homens se det'rontavam nilo com() cupitalitttu. a.:aal.adudo.._
proprietários de terras. usurários, etc., mas apenat wmo kimples pruduh>• ' dtctprom isso historicista, ao passo que, precisamente, só a aniÍiisc ·
ces de: mctc~tdoti&& e: simples uocadoRs de m~rca dorias (Comrlbrlfrd" , tl11 ~ tletcrminações da estrutura permite captar indiretamellte n histo·
pp. lS-36). 1 HIJde das formas e das categorias econômicas. é o que ocorre
1 11111 11 anitlise da mercadoria como objeto sensivel·suprn.,;ens)vel
Tenhamos em mente agora o que nos dizia Engels: que a lei do t(lht p.:rmitiu colocá-la como a expressão de certas rcluções sociais, e
valor de Marx era válida "para rodo o per(ododa produção simples dr i'''' lncllo de certo estágio de desenvolvimento histórico.
mercadorias", antes da modificação ~razida pelo "advento do modo
de pro dução capitalista" . Ora, é precisamente essa concepção que Prosseguindo no estudo dessa q uestão, encontraremos o nosso
Marx censura a Smith. Engels e Pietranera pretendem em suma ab- p•I•HO de partida: o desconhecimento por Ricardo da forma valor.
solver Mar~ do pecado ricardi ano da abstJnção, fazendo·o ratificar t~luurdo havia colocado o t rabalho como suhstância do vnlor sem se
a teoria smithiana. Marx, no entanto, niio dei~a dúvida alguma •••Jnpa r do caráter paniculur desse tl'abalho c sem tomar em conside-
'~o hrea sua própria teoria.
t•1 .1 o o fato de que esse t,nhalho se represcmavrtnuma forma intei·
c• men te particular. Ele contentou-se com afirmar a leí do valor.
A ki do vnlor pres,.o;:.apüe pma o seu com)lleto d es-!o~;ol vimtoto a so· 1Ira. sabemos q ue qs fenômenos contradi~cm essa )ei.
ci<:d3do dn produ~iq i n du~t ri el mode rnu e a livre eoncorrl ncia, iJ IO 1!. a
to~eda dt burguesa, tX~od en;m ( C~nllibuiçÕfL , p. 31). Duas possibilid,ades nprescntam-se então: ou abandonar a Lei
el o valor, isto é, abandonar segundo Marx "o fundamento e o chão
O rato de que as mercadorias sào trocadas individualmente chr atitude científica' '. É a solução da economia vulgnr; t tnrnbém a
pelo valor dela~ é uma coisa, a lei do valor é out ra. A teoria do pro- tio Adam Sm ith cxotético, q ue, tendo remetido aos tempos pré·
CC$SO e do desenvolvimento das fo~mas permite compreender q~•e.
1toJ Jmiws a lei do va)or, determina o valm· das mercadorias pela teo·
Til) seu .:omnleh) dcse~;~volvi me~to , 11 lei do valor se rea,li113 no seu
~l u das três fontes (salário , lucro, renda). Ou então mantemos a Lei
contnirio: a troca das mercndotias po:los seus preços de p~od uç~0 . o:mno Ricardo, mas se~i1 nc:ccssúr\o um~olp~ de força para fazer en·
l?.xpl ica~•e mal ,. senilo ~o r uma r'C ação ''renli~l3 " devida às cir- tr11r rw ki dn valor fnlos 'I""
sã<>a sua coc1tradição como n taxa do
cunstil pcias ·· o erro de in terpretação de: Engels q ue (JO/ol'ara o lu~r.? cnédin. Rlca~do executa esíle golpe de f01çu pOJ ul"'a dupla ne·
ru·<•hlc:,na pl:rfeit:hncute no final do preiilcio do livroU . Vê-se, pelo IIIIÇUO:
co n~nírio, oltllilo ~em o que dá m·ige'lfl no erro de .Piptranerfi. Ele deJ .• ne.gaçflo du difcro:no;a e1~tre '~flUis-valia e lucro: pa~a ele, o lu·
d!lrOUque valor C prc;ço de RI'OdUÇÜO COrt'eSpO~diam ~ qois n{,>'eiS de cro nada ma is é do q u,e un~iJ. C:XRre:ssão d ifcr·entc da mais-valia, o
<~b;·lltiÇtil'l difcr~ntes .. que não se deve con.fundJr, dir. ele, com ir,node- l>rcço de produçfio - q ue Ricardo churna de preço natural-, a eX·
los ~bstratos. Trata-se, realmente, de nlveis de abstraçD~ diferet>lcs, pressão em di nheiro do yalor; ·
mas cste.s n1lo são pensado~ por Picu·anera senão como exp ressão de .• negação da ii1Versào: ussim•o lucro rnMio que aparece come)
<•srágivs diferentes do desenvo lvimento histórico. A abst'rnçiío ci pcn- 11 contr·adiçíío da lei d o valor í; em Ricardo a sua contírmação. De
s:~da nqui a penas como mwr~mo desraa11do de uma ltip 61ia linear. modo mais geral, o rnovirnento a purentc apresenta-se em Ricu rdo
Com isso Piet~anern coloca-se num tet:rel)o que é o dos Manu.r· ~umo a conl'i rroação do movimento real.
critos de 1844; os <1uais r·epr·esentam a teoria dn identificaçãp entr·e Nessa d upla opew~fto, mani festa-se o mttodo de Ricardo. o
estrut 11ra de> proocsso como objeto da ciência e desenvolvirttento de tipo de ubstt açào a <rue ele rcc:oncu:
uma história.
Se f>ietranera identifica for·ma de desenvolyjment.o do processo l,):mdo-..'it oonw da J'onun da c:oncortt-ncia, RicndQ renuncia it apa.
com estágio de deset>volvimento ~~lórico, é que ele fica, como Della rêndt"l d:' c-on~Qrrê.noi;a parn esl ud:u as tJh t:rn si. I'OO.erf:\mos censur:í·lu,
pu1um l,1do, por niio ir muito lonue c, pQr nutro, por tomar a forma<~­
Volpc, no terreno de um hrstorrcrsmo e de uma teo(lll da abst ração tcrnà imtdiatemetHe <lPmQ n rcruczen 1a~ã o e çonfirrnaçld da lei ger'.al, cem
como scparaçilo. i~to é, no terreno de um empirismo delineado, Vt7. de a C:l!senvolver. No 1)rimeiro sentido. sua ~traç.ãp cstú incu mplc~
como vimós, pelos pressupostos dos Malru;ulto.t de 1844. Em luta
144 LER O CAPITAL DOS "MANUSCRITOS Dlll844" A "0 CAPITAl.''. 145

ta; no segundo, ela ~ puramente rormal e ralsa em si (Histotre de.t rAl<'tll' ~~~~~ll'ata deve encontrai-se nos Fenômenos. Basta para isso eliminar
nts é''Oil@ilqu.es. t. 111, p. 89). "" elementos perturbadores. Isso pressupõe que o fenômeno seja
l'!lnstituído por:
Quanto à primeira questão. Mar?< toma o avesso da critica ha- - uma essência,
bitual de Ricardo, q ue era também a do jovem Marx. \'{icardo não é - acidentes não-essenciais diversos.
mu ito abstrato, não o é suficientemente. Tudo o que em aparência contradiz a lei é acidente, e cai no
n~o-essencial. E:stabeleccu"se üm lmruiante que é o valor. T"í!o o
S~ria cna:mo ~ensu.r!-lo dt dettHitiado a.bsuaçlo. o çontritio 6 que
so vcnfita: ao oon51ders.r o valor d&!l fné{cadorint, do ni'lo esquece os lu· •Jue não reproduz; esse invarian te pertence ao incsscncial.
~o:~ que a concorrência lhe rcvckt (idem, Jl. 47). Ricardo além-se a uma concepção clássica de abstração q ue se-
da. por sua vez, muito m ais pertinente à teor in da fricção 'que alguns
De fato , no seu l>rimeiro capitulo que deveria tratar ape- pretenderiam aplicar a Marx. Não tendo estudado a mais-valia sob
nas do valor das mercadorias determ inado pelo tempo de traba- 11 forma pura, Ricardo não pode reconhecer que as aparentes pertur-
lllo, Ricardo faz intervir categorias como o salário. o capitnl, o lu- bações da mais-valia sào de fato modos de exi$tência da mais-valia,
cro, a_ taxa g:ral de lucro, etc. Contrarin~tente ao seu princípio (a dLr- 111 0dos de realização da mais-valia soh a forma do seu contrário. 1l,
wluçao da~ lo rmas fixas da nqueza). R1cnrdo toma como dados as pois. forçado a nfastar essas per~urbaç.ões e a firmnr a identidade
.formas particular~s. da mais-valia qu~ ele não disti ngue da forma pu- onde há contra.dição c inversão. c colocar o movimento aparente,
ra. Ass1 m prcssupoe, desde o pnmetro cnl)ftulo, a tax~ geral de lu- contradição do movimento renl, como suu confirmação /mediara.
cro. Marx, ~or sua vez. empreende u mn dissolução rndical. )!is Marx resume o erro de Ricardo dizendo que ele pretendeu " fornecer
como ele defmc, numa carta a E.I'\H;els de 8 de jancir<1 de 1868 um a ciênciua111~s d~ ciência~' (carta~ K ugelmann, li de julho de 1868).
dos "tr~~elementos fundamentalmente novos" de O Capital: ' l>evido a isso, em Ricnrdo aprox1mam-se, sem se articulnr nu.m sis-
tema, de uma patte a determinação científica (a lei do valor). e de
Em c:onlr3ste Cc)mrodq.f o~ ,sittt:n1uJ tnlcriores de eoono.m.ia pollt1c;J, outra as forma·s fi xns da riqueza, formas de aparecim ento do valor
qu~ crNit.e(mn trman~o com? J~ rlados os fragm~ntus ~.atticultues da
ma.t~r...-ul~a I!O~ 1>\la~ l~l'tlH~~ fu:as de renda..r lucro e jurus1 tnaln prirnch.., q ue são tomad us como dudas.
da (o-,;ma gemi da m uiS·Va.llll na qual! :~~ achaoo nind;J 5CW, tjjfc!CCJJc(:l çào Se seguirmos o conselho de procurar a oJigem dos erros dos
todo,i c.iS€?1 eJçm..:ntos (JH)l n~to;im dit.cr em soluçfid),
cconolnistas c;n .seus p ontos de partida, constataremos que a situa-
I
Se R.icar<io não disllinguc .(omu1 g11ral ~Ji,mrzas parritulnre.s, isso ção na qual se acha R~cm·do d•:ve-se a esse desconhecimento que
Marx as~inalou ao nlwc:l do ponto de parti~a. RicaJdo oão oom-·
s~ deve f~mdamcntalmente ao seu desconhecimen to dns delcnltina· prcendc a verd nd~ira 1'1!\ação do lucrp co~ a n~ais-valin pela mesma
ço;•s de jom1a ( For/7Ú!<'Sit'lrl,mullgen). razão ~ue o im pediu de compreender a relaçíi,o da forma valo~ sim-
A~ingimos ~<jlli o segundo ponu?: a a:bstr~ção de Ricardo ~ for· l>les da, me1cad ori" com a forma dinhei ro. É que. após hnvcrcstabe-
mal e lalsn em SI. :VIarx. a cont•·asfu:Yu maiS al:lmnte com a nbstrnciío Jccido a substâ ncia (o trabnlh.o) como invariante. deixou a fo rmava-
ve1'd ade1ra c a caractcríia e~ o~lll'a parte ~o,m o abstraçüp ro~çadu. lo r ca ir no incsscncial. 1:;1e tomou essa ronl)a vulor como algo evi·
O ruuda ment o dessa ahstraçao falsa e anuhsndo p or ele no inicio do
dente por si. Era preciso p roblemu~ar essa, f<mna.il' ropor a q ucs-
estudo sobre Ricurdn das T.-oritls .1obre 11 mtlis•vafia: tiio critica e faze.r assim aparecer "todo o segredo da concepção
lHs emque: coosi$tCu método dt. Ricardo. Ele pacte da· de~rmint~lo crítica": o c.a rãler duplo do trabnllto represell.U\do no valo r da mer·
da$ m ag n it~de.i
de ~alordas merc~OJÍIU pelo tempo de lnlhalho t-llf'ê. cadoria.
c~a. L!!~(: r em segmda 'f. 11.1 dttnalS relações o;on6mir.:if., ~" (:Jtcgon.a5, A pn!lir disso . é p ossivel cOmllreendcr o ~e.1c:nvo1vjmcnto das
contra,:I J~ m, CSSil d~ lCflf!i na~ o do valonou em qu~ wntido a modj,(i,.:am
V lis111in• Ui.u ducu•iltr:r lr:CNwmiqurJ-~. t. Fll. p. 6.) i
forma~ da pi'Odução capitalista , Marx o indica ntlma nota do L•
capitulo: a f<u·m;• valor d1) produ1<1 do t.rnbalho é a forma mais abs-
A abstração de R~cardo niio constitui o elemenio simples cujo trata do modo de produção capitalistn. Sua análise pen,ütc com-
desenvolwme~t.o pcr~u te
a recon~uuçilo do processo con c(eto. Ri- preender o dcseoyo lvimento ulterior das suas form,as (fo1·ma dinhei-
cardo toma d1stnbut1vamenre as categorias econômicas c procura ro, fo rma capital. etc.). l'or outro lado, se cair essa ami lise, se a ques·
em cada uma n determinação do va lor-trabalho. ?ara ele, a essência tào critica da for ma não for pensada, não mais se pode colocar o
146 l.ER O CAPITAL DOS "MAI\USCRITOS DE 1844" A "O CAPITt\L" 147

problema da relação entre a forma n uctear e as formas concretas. M11 rx chega a constituir u m sistema~? senti do kan.tianodo t~rmo .
F ica-se redutido à comparo~ãrJ entre as categorias existentes c 11 ca· ~~~ hã u m modo para a economia poht >ca ser s•stemattcu, 1s1 o e. che-
tegoria q ue exprime a determinução internw. Tem-se uma falsa a~· 111, · a esse tipo de objetividade rudical mcnte novo. que Marx deter-
tração que não é desenvolvlvel. nuna desde o p rimeiro capítulo de O Capiwl.
Se recordarmos o trecho já citudo no qua l o método da eco no·
A revolução de Marx não consiste. pois. em historiciza r as ca te-
rn ia clássica é definido pelo fato de reduzir à unidade di ferentes for·
unrias da economia política. Ela consiste em fazer o seu ststen~a. e
r!llas de riqueza, podertlQ$ ªprççnder a difer~nça do mttodo de Mar:.
no trecho seguinte: >Jbemos que a criiica do sistema é feita med1an te á suà éX~6!1~~o
l'itntífica. is:o c!, q ue esse sistema faz aparecer. uma est rutu ra que só
A cxonomin c:lú.ssica se contn•dit do fato ne.uo análise; eiJ procura p<>de ser compreendida na teoria do desenvolvimento das fo rmações
não operar 3 rcduçiio imediatamentt. sem os rtl(lllbros intermedu...
ra1·~ ..ociais.
tios (Miurlgli~der) e dcmons.trar a idcntidnde dn orig~m du dtfer~ntu O "sistema" de Rica rdo a parece como um golpe de força. Por
f~mnas. hso so Cow ooceuariumente. ao seu 'método un;~lftico pelo qual a
c:ríti(a e a c:cJJnJ'rtendo devc:m como:; ar. Bla r.illo se pn:(.l(·upa em desce.. •ua "abst mçãl> forçada' ' que p retende introduzir à força na lei do
vt)lver a:s diferenLct rorrnas de um, nlltdo gc-n~Lico, rnJ3 apenas redu· valor todos os fenômenos que a contradizem. em vez de desenvolver
1.i·lns mediante análi:it i. sun uníciadc, porque pare e dtJus C(Hno de J>l':SSU• 11 lei para mostrar como esses fenômenos são modos de exis1Cncia.
posições d <~das. Ma~> :1 an1llise 6 a condiçlio noce~slu l a dn e&pol:içio genf>.. •tela (na forma da dissimu lação e da inveçsàb). Ricardo JHCtcnde
lkn, d:t oompcec:nsiio do ver!:hld~i ro pmccno de c:onstituiçl o dts forma5 ullrmar a ciênc ia no interior da niío·ciência. Ele não chega portan to
((j,•,Jta/tt.mg.tprtJ;;ts.tJ nat suus difen:otes fas.cs" (llmoire dt•.t áQctrilw.s Joo.
r.omfquts, t. VIII, p. 18$), utc o termo do projelO de tirar de sua fixidez. de sua indiferenci;•çâo
1edproca, as formas dadas da riqueza. de as ligar à sua essência inle·
Se nos a tivermos literalmente ao texto de Man;, a economih IICH . Devido a iS:it), em Ricul'do. q ue representa a cconomw chJSSlCa

clássica será. a~,>enas incow pleta. Ela desempenharia apenas a p ri· no seu maior rigor. a p<!sslb ilidade do fetichismo contin ua sem p1·e
meira das dtías ta refas da ciencia: a análise, a redução à unidade, e cs· presente. O fetichismo é cx<Jr'cir.ado pelo golpe de força de Ricardo.
q ueceria a segunda: o de.Wm!(}Mmento genético das formas. l)e fato, l'le não é compreendido.
como vimos. 6 nu própt ia análise:, na maneira de pr·<•curar u unid ade
e determinur o seu modo de existência, que Ma~x se distingue de Ri· 3. A Vediusserlichung c a (:onstítuíçio do Fetichismo
c:anlo. Só a a;,PIIse da forma empreendida por Marx permite o ~t•· l'relimin:tr
g:u ndo monu:nto, o desr:nvolvjment:Q genétict>. O c<>llccito de fetichismo e m O Capim/ suscita um pro hh!ma
A partir dai, o de$cnvo)vimento genét.ico permite snil· du ji!Sta· ~ue podemos form ular sob a foxma ing,ent><l: de que se trata?
pqsiçào, da com~araçã9 e da it~raçno q uo ~arac:_terizam na teor:ia de Sabe-se que é o c0 ncejto que cons ti tui p pont o ern que se agar-
R 1card,o as rchlcocs das cutego nas cco nômwas, u to é, só a p!ut u· dai ram os que iqtcrp rctam () C11pira~ a pa•·tir dn antropologia do j ovem
é posslvel constit uir um siJ'ienta da eco nol'(liu polític11 . Mas ~ó é litarx. Pnra, ~:<~sl'>S, <>f.!tidhismo (l ào passa de um 110"0 nome par:• a
possível essa cooslituiçíi o se renunciarmos a comprcenqer esse de.- a lienação. No fctichisrn 0 , as relações ent re os homensc;onvertem·se
se nvolvirnento genético como 11 reprodução d il'e ta, ou invcrsu, de em relações entre as coisas. A,ssi m, n at ivióade dos homens pa ssa
u m procesoo histórico real. l)ara um ser esltntnbo, torrla-se detetmln nçfio.d,a:; coisas e ?S ho nw.ns
hl'JlÜc·se uqui precave>··se cont-~ 11 uma interprc~lçíio historieis· siio dominados por· essas relnçõcs ent re as corsas. O feticlusrno sena ,
ta. De acordo com essa interpretação, a abstt açüo d'e M a,x é áesen- po is. um prnru:ssq amropológit'o. an~tor:o iiC) ria nlicn.açilo.
volvf•VIf porque é hl$t6rica e recebe d;1 hist6riu o seu movimento. O Interprcta çiio jnver.;n con~l.tna em nega r ao fell<:h1smo qua l-
q uc distingue de fato a abstração dell(larx é\ que ela upr~de as pro- quer carac~erística de p1:ooesso real, em di:ter que ele nfl•) passa do
priedades formais de um espaço, 11 constituição de um domínio de .1ma concepçã\0 das rel3,çôes econômicas: uma ;tl.,ologia.
objetividade. Isso é que permite desénvolver as categorias comple- De falo, só compreenderemos o fet ichismo se o pensarmos n a
xas a partir das categot ius s imples. continuidade do que d issemos sobre u estrutura elo processo e. sobre
A diferença ontre Marx e tücard o nilb ~entre um sistema esta- o desenvolvimento de suas f'orma,s.
belecido como eterno e um sistema histó rico no qual as catcgor i11s Vi mos que. à medida que pit$S,ívumos a formas mais concretas
terium sido afetadas de um sinal + (sinal de sua historicidade). Só do processo de prod ução ca r.italisw, a determinação in lcrna q ue
149
DOS "'-1/\l'ICSCRITOS O~ 184•1" A "0 CAPITAL"
148 LER O C,\PJTAL-
O problema da Verlius.<crlichung da rela!ão capitalista - pelo
rege o seu movimento desaparecia, e que a forma nuclear desaparc· qual se deve entender o capital enquanto relaça<1 de p~oduçào - é.te·
CJa na forma acabada. Esse movimento 1: que constit ui o fetichismo. matizado por Marx sobretudo no capitulo XXIV do livro 111 (t. V 11.
Na superfície do processo, apresenta-se certa conexão que podemo1 p. )3). Exrerioriraçlio da relação cnpirqllswna forma do capaal aju·
chamar de estrutura fetichista. O discurso fetichista é a elaboração
ros.
dessa conexão das formas concretas que se apresenta à superficie do
processo capitalista e se reflete na consciência dos agentes da produ· Nesse tl'echo, ;r forma do capital de empr~.sli':"o .(a .iu;o~) é ::•·
.çào. racteri 7.adu coma n forma mais cM~norrzada tausler/Jc/mc I da rei,,~
Marx resum e esse discurso fetichista no que chama de fórmula çào capitalista. Podemos, a punir desse text o e de ou1ro~ pOI)tus dos
trlflirária. Esta é constituída de três pares: livros 111 e. IV, dar a cssé sup<!rlutho ce:to númeto de srn6nrmos. O
- capital/ lucro, capital de e1nprestimo ~nele;; definido como a form.a n~ars cn:tare.u::
• mais m..dialbtda. u J"'RIS jeuc/u:acla. a mats. al:enada en(/rc mel<'·'
- terrajrenda, 1
;., . Sornos ass>m levados a d•Jas ohservaçõe!. int:ressantes: de uma
- trabalho; snlário. 1
Os três elementos, capital. terra c trabalho, :~parec-em aqui parte 0 movimen lo dn fclidli:ta~íio w rgir{l •dénhco ao ~""men to
de exteriori7.UQão 1 e de outnl vemos surgir, como _c~wvalen te d.o
como três fontes que, isoladamente, produ:tel)l uma renda. () capital oonceito de i/eriiW.<I'rfichUnt. (1 conccllo·chuvc da ontlcn antrop?lo·
produz naturalmente o lucro: o trabalho produz u sulário; a terra gica 0 de Emj~emdrmg \ alienação). N'ls livros 111e 1\' cstnm_os dran·
produz. a renda. Essa trindade representa a sistematização do que é lc d~: um par Jrüufremdt,ng ' Jl~rãu$.'Wrlichung _qu~ lcmbw e:,u:~nh~t·
percebido pelos agentes da produção, formas nas quais se inscreve a mente 0 par don)r,nanw dO$ -~!anuscriw~: [,~r;rtmdungt f:'nraus.t:··
sua aç.ão.
11111 ~, ()onde a ncoesst<ladc d( d1s~c:rn11' o >erotrdod ? par de que rr.r·
um~ os ~lqui prlPa, vexitkax ~e el~ contêm a mesm (l ~OlSH que o pu r dos
Obsuvarào
Marx observa que seria preferível substituir o pr~meiro par (ca . A-f UIIW<'r í ro.~ .
\" " I ~" n•iste rc>is " lreriiU5S!'dichrmg? Para definir " CSHU·
pitalf lucro) pelo que ele de fato recobre. a saber, o par en llital/juro, r: m ..,te~. . ., . . - d · h' "
De fato, o lucro é umn f()l·ma de npur·ecimento -·isto é. de dissitl)trla· tura desse nH>V \TTICn lo que pe11n~~e :~ constlt\II<(UO ~ 1:~~~ ~~~o, C:-i.~
çiio - da mais· valia. Mns na'? é ai nda a formn Q'l nis <:Oncreta, mais labcleçamos (')S conçciws pd os qua1~ podemos e" pll c.u " csuutura
medinti~nda da mnis-valip.. Está ainda em rdaçào co1n a ~sr.:ra da do Jj'rOC<!SSO,
prod uçiiu. ()juro, q1.1e ~.por sua ve.z, umn furrnnl de .~pnrecir~ento I S~CI os con(OÍl\'S de:: •
dissi m~lnção do )ucr~ ·• pnm1nt.o üma l'prma de apnrecinlento/dlssÍ. :. re/açJo .. pelo qdul ; <: <lcv~ nat uralmente en tender rdaçao de
mulaçno dn mats-valru em fegu,ndo g~au - representa a formn mais procluc;ào - 1111 mcdid~ Cl'l'\ <IUC ~!,SUS r<:laçôeS SUSlcntU ll' f<>dO C1 prO•
concreta, a ;mnis medinl!i7Ada fia nw~~-Yalia. A pa~cce JP•~n~o f•?!'' da <;essbl ' ~ • ·1 1 • ·r r·ela,...,ân s •
e-sfera da p~od uçâo. Q mecnrlismo c o segui nte: cll11t n sor1,1a d,; di· ··/<>rma . en tcndel\dn-~t: que .cjrma c aqui o em q '. ''' , ' ' c
nhciro .A é adim~tada; retorna no seu possuidor soh a forma ,\ • ~A - manircsta. A<Juilo pelo qua\ ela 6 re-présentada, 11:1 Wrrkl"•hJ;clr.
dA) e 1sso ern vmudc de um contrato. J •l nilo se tr·atn aqui c:\e um - origam e límiu• <1 9 pl<>CC$5<1· •
p roc~sso de p~oduçâo, 11\:lS tão-son\CI}te de urn cn~trato entre duns .. m0 ,;numto o a de,,·em·o/yimewQ dus IOiimas.
pessoas e !ic um ppdcr misterioso que o di nheiro possui de aumcn- .. rj!sultado. ,.
tCISSO ubjeLl\'Q ê estudar as ITilllSftJtllHlÇÜt.:S de~;~eS t:ll!ment0:-:1
tcu .. se a si m es~o.
8 sob tss& fMma <rue o CllJlital nr~:•reec :1 superficie do processa que I><>Ssibill"m1 a figur~ fetichi7.i'da dcl prnce;~o.
capit.,lista. Por isso é a fórmula capil.alJ.i uro que constiiui verdndci- A 1 A "8C'f(TI[Ji1D.rrgk~i(' da {<irp1a . .
ramentc o prime(ro pur da l'órl)'luln irinilá.:ria. !\ extcr ioriznçic(l d:l. relaçrio canitalista rep<ru~~ pqmcll:o no
Pru;a estudar a constitu.içào do fetichismo, examinarei a condi - fatG ele qut u fllrma do cnpital de CI)I!)!Óstimo é uma /Jc•gr~('t:<ltlse
ção de possibilidade de um dos I rés pares. o par capi talflucro (isto é. f'()f/11, forma nàO·COli~Cptulll Otl, se pl'efem mOS, puv:lda de COilCCI·
1
capital/juro). F.ss" condição de possibil id~de é que Marx ch n m a de t<>. 'T ru ta-sc d~ {Mmu t\ - • t\' em qtre A' ~ A • J. (nu .'1 ~· dr\ l. \ ~ •-
Vcriiusserlichung da relação capitn listn . l'ara não nos adiantnrmos gr(IJ~Iôs;gke.ít ~onsistc em qlu~ nesta forma desnp;;u·ecl! i:> processo
sobre a elucidação do sentido desse concei to, vamos tl'aduzi·lo lite· que a possi~ihta.
ral mente por exteriori:açào,
150 LER O CAPITAL
OOS ' MANt.:SCIUTOS DE 1844" A " O CAI'ITAL" 151
Com efeito. <I movimento A- A', que é aqui colocado como
movimento espontâneo de A, só é posslvel se o capital-dinheiro A crn vi.rlude do carllter particular de T e MP, o estágio P que é
entrar num processo de produção no qual seja valorizado. E.%a cn· llroprmmentc o da vulorizaçilo.
tradu no intenor do pr<><:esso de reorodução do capital industrial é 2) Muis purticulannente, o que é decisivo aqui é a natureza da
que permite o aumento dl\. rn~rcadori a T (força de trnbalho). O proces.so de valorização de A
lornou.se posslvcl ~la presença no mercado dessa mercadoria ab-
l'ara ter o verdadeiro ciclo realizado por esse A, é preciso, no solutamente particular que é a força de trabalho. 1\ forma de que
mlcrvalo entre A c A'. colocar todo o ciclo do capital.dinheiro que é tralltmos encerra :US1m u Oposição entre capital e trabalho assalaria-
um dos tres ciclos, uma das tres formas funcionais do capital indus· do; .o seu estudo revela como motor do ciclo as relações de produção
trial estudados por Marx no inicio do livro 11. capttahn a,.
Teremos entRo: Todo CMe ctclo ptc:Mupõc o c:a:itcr capítalitta do própno processo
f · M' A' A'
A- A - M l ~j;'' .....l'.... ······~~~ -;:-;;;) (A +a) . . . do produçJo; tem por b1uc o próprio proccuo de prod:uçto com o e111do
~la npodrioo q~c de a~anc:ta.
Só c8se proccMo pcrrmte a pnssagem de um valor A IniCial para M- M-'1-M{T.
um valor A' J8Unl 1\ ... dA. . MP
A qut<ttilo CJUc nos interessa é saber quais sio, nesse c1clo, as te-
MllJ. A- r ptu ..,up4)e o saU.tio; por con.s.c:tuinte., supõe os meioi de
lnçõcs entre A e A'. Indaguemos primeiramente qual é a forma es- produç.lo como ftuo,do ptr:e t.lu c;nptt.al produti\'o; em oon.k!qilCncia, o
•>cclficn de A no !!stdgio A - M { T. Pf'OC:t.."-10 de trubtlhot- de ve"mztr.o IJtoc:esw de produção corno s,cndo
MP J<l funç.lo .upllnll11a (p S$).
!!iH n rcsr ustu de Murx:
"Su.:nc pnmclto ~:nãc l4. A çirc:ula N mo d.~oheãro. Se f unc:ônu como Conuderurnos ugoru A·. Ncrn se pode dizer que seja produto ue
r,&Jlltat..dmhtiN f: <timpluHn(tltt: pnutut u esu.do dt ~inlich u lhe ~ ntcu.. A. nem mesm<l C(llc o é de P (salvo em certos casos particula res
$1\rlo l)llrfl d ~mcumbl ro-:t.t d., uma runc;lo monct.ána, conve.rttr-st ?os como o prod uçJo do ouro). Ele representa a {orm n convertida de
o!emo:utot l]u 1' " 5.Jher, Tu Mp qut o enfrcnta.rn <:orno mc.rcndont!l.
t'ltt>11 tJrou1Jt,:J~, ck R6 ru"l<:iona oomo dinheiro (L (V I p. •17).
M' . O C'(t<mw i\ formn mo nuhlria ê fu n~ão nio do capital-dinheiro,
m:u do;t o.Jpilul-murcodoria, M', A diferença a, iormu dinheiro du di-
1~3<> sign lli~u <(uc clm s; A niio é capilnl. EJ.c nflo di~põc por si fe(uUQII m lli'O~IIzldo pelo estágio J>, nUo repJesenta um me>vimento
me1111 0, do q.'tltd<(~or· JH>d(( d~ a\lntcnlo. Só des~>rnpcn~a ~una funç~o
i•
que ~e l>r'ôprin tio A.
mnnuldrln (f•ill•!ílo de ootn11tl1) e j)à!. uma fun~ilo e;~pllnhsta (funçílo I) t:np,~t.11·dlnh4iro no Interior do ddo do c;a.pitnl induunnl só ~Kec11~
de vuh>ri7.aç;1.0 do vulor). p que 6 ljlle lransfon;na essa pÜ ra função tl l'unNut monutlrllt: e c:~•a l\ol,nçôe' moncl4rias s6 a ssumem ROmcsrno
monut.irln cnt funçün Clll>i lalista'1 Bn nuturcza do seu vinculo ~om os ttll!llQo wntldo tJc fun~~~ ropita!iStu pela relaçAo que rna.nt,êm (Om c)5
d:cun.,is, ~stdnlo$ dcr;sr çklo.
dcrnui~ CM(If,ÍOS do 1ltll~ll$SU. A rc:protl'!fllnçJo t o,,s/11/IIIJg J<luA ' como rcl-.c;io dt.: a cttm A. corto
rfl n\tiC• c;np ~~lht11, i 1\Ju,;io dJNtn nJo do c•pitnl~dit!hciro, mM do clpi·
l!a,•n " 10\'IMD('IlO [.1\-M] iur.do o primeiro .tstágio d~ proccssu d e) U l· n,lt rcndol'll \i ' quo. por s~..a \'e~. c;omo rdaçâo de l1f com :'\f , allC:nas
\llllo:·enpltal é liO mesmo lt'Jlll)(l runçlo do capuul·d:nhet:'O em \1Ttude .,._,'Pf'trno o reeuJtado do PI'OCrtoso de produç.ão. da valoritação do valor.
du (Pnna dt utucspDCIIka d.as mcrca.don;~s r c: Mp q\le cleoomrw (L IV ctp!l11l que: ~• 11 ílC upcrou (p. '72).
p. •l)
Sesuo-w q1ac nu fórmulu A· •- A + dA, que exprime o resultado
Este último membro da frnse significa duas coisas: . do ciclo, nlo há rc:litção entre A e A'. T rala·s~ de umu equa~o im·
1) A - M 1T 6 f'u.nçào do capital-dinheiro. ele dc~empenha um posslvel. Essa po~iç-ào de uma relação impossh·el t , como sabemo~.
\Mr CXJlrcssa por Mnrx oo ron~to de irrarional.
papel no prO<:Csso cnpitalista de reprodução enquanto possibilita. Xaturalmentc, usse irracional encontra a sua razào na fórmu la
conceptual que exprime a tololidade do ciclo do capitnl...<finhe~to e
~u vinculo com os demais ciclos. A fórmula irracional ~ nfto-
Q va\orodlnharô A pumitr u (Ornpta dat mercadorias l (forçz de t:a.balhoJ " Mp conccplual A' • A + dA ~ explicada pela fórmula completa:
(m e~ de ptodJ(lll). P.IU~ pMi-1m cntAo ao ciclo pt()d\Jlivo ( P)qç e tem por resuh•
do o volor·n<rctd Hla ,.._,lflllodo M', o qual se comcrtc em: A'
A - M { ~~ .........P ............ M'- A'
'"'* li li

DOS " MANUSCRITOS DE 1844'' A "O CAPITAl." 153


152 L ER 0 Ci\Pl1'AL

lucro. mas a d ivisão do lucro em lucro empresarial e j uros. O capita-


Essa fórmula exprime a rela(ào rom·eprual. isto é: lista financeiro que ad ianta o dil)heiro A fica de fora de todo o pro-
I) apreende o conjunto das permutações c t~ansfonnações de cesso de produção c reprodução. Ele tão-somente adianta um a soma
forma que constituem o ciclo e uncn1 esse ddo aos dem ais 110 con· A e retira uma Ho ma A' . O q ue ven ha a ocorr·er enn c e&$CS dois atos
junto do processo de reproduçãv do capit,tl; não lhe interessa.
2) indica o carittc•· determinante dn relação de p rodução que
Dessa maneira, na forma A- A', todo o processo capita lista de·
sustenta todo o processo de valol'ização.
A relação impossível de A' com A só é posslvel por s er su stellla- sapareoeu. A BegnJfsfosigkeit exprime o des:~parecimento de todos os
da pelo que rege lOdo o cicln: o capital como rclaçiiu de produção. termos ituermedií1rios cuja coneJ!.ào possibi lita a relação de A com
A'. Com isso, exJ?rime o desaparecimento do que sustenta essa cone·
com o seu complemento, o rmhallro a.<salariarfo. xão e a torna posslvel, as r~laçõe.r de prorfuçtio capitulisws. Esse de·
Desse modo, o ciclo do capitul-din heiro e aquele que cxpl'ime sal?arecimento das relações de produção na Bl!griff slosigkeil da for-
da melhor maneira o processo capita lista . Q peculiar desse processo ma é o q ue fund:l a cxtel'iorização (Verilusscrlichung) do que Mar~
é de fato o ter por principio a valtu·izaQà(odo valor, o que exprime
clarnmcnte esse ciclo que vai de AnA '. Maiessa forma determina· chama de relaçâ<) capitalista.
da do p rocesso de rcpl'Oduçflo do capital. proc1>sso de valoriznçao Sabemos q ue esse desaparecimento foi possível g(aças a o de·
do •·a lor po~sibtlitndo pelas rcl:tçf1es de produção llo capítal c dn senvo lvimenlo da forma que leva~ forma mais concreta, a ma is me·
trabalho :L~sala riado, tende a de.• arareccr o(• seu f<Wilurdv. diatizadu, a do capital de emprén.imo. Esse de.~envolvimcnto de l'o r·
ma, esse encadeamento das mediaçõe~s dt~sarJa recem por sua vez na
A:uim o! qu-: A· f.l.l)'gcoçomo tJpla Sa>lllfl -::c "tlot clJ~rc~.d~n,Jo·so m~ fo rma que é o se\1 rwultado. essa ft){l)l:l, qu~ e a mais mediatizada
1
teriormentl:, ()~U\ndô ert, l i lf1C$.111U u m_;:t disl in('.ílU dt ord~l runtiOill do processo cal>italistu, apresen ta-se como pura imediatez, pura re·
(cnn~eptl.lill) , rocmà (l\W t;.'(IHimt :1 ~lf.(fi:O ~l\plt1li$lil. laçao de si ti si do capital-dinheiro.
Mas isM> 1.6 w 1.! fprimc coroo rc~u lt-tJd 1 :itlll • mcdiMllo do procus~ A purtiP disso, pod-emos c<ITnl)(cender o conceito de Veriiusser-
de qut é o r'!Sultndo (t, IV. p. -4~) .
lichrmg. De lltro, sabemos que ele assinala uma relação ent re relação
Eise ciclo caracterir.3,-se. p ois, pch> desapnreoirr•erlto do proces- de producào •e formu do proceMo. Já 1•imos tam bém o mecanismo ge-
so em seu result.ado. Ca~o venha a torp~r-sc autónoll'lo, r>resta·sCI J.O ral do vinculo relal:fiolfo rma que cal'acterizamos como vinculo de
w nih.ecitpel;llo equivocado do !Processo t:;tpiLalistn. causalidade metorlln~jca. Na begrij)s/ou Frw111 que pcrde\1 todas as
caractcrístiicas q11e a loc«li~um em certo lugar no desenvolvi mento e
No conjul'\to do Jll'ocesso d" repf!>dUI'~" etfudud o po•· Marx n articulação da~ tonrn;•s do processo, essa t!ausalidade metonímica i1·á
li vru ~1 , não hã o ris~l) de dar·se e~sa autonolm~açiio. {). tluto nomll'
do oiclQ do ca)liUd·dinheiro desaparece no dd o d<• capiWlf- produzil· os seus eleitos mais radicais.
A nt es de e." ll'lli na•· o po~ rnenor desses efeitos, J)Odem os já ob ..
mercadn rin . scrvar (juc os te•· mos do proülcma exchaem <:crto tipo de i11terp1cta-
:() M~ctO doilld-!J)e:\il~O!!Ia CIU~ {li!rtCC\C(; J ({ICfOj rl\1\bcÍ(Odl) ~ai(H· çào da Vu ausserliclfllng (e da E'ntfremdun.r )· Oi termos ero questão
C311ilal na pftnlt.:l~l, fiU~IfJ, dn !itU ('jdJ.q ÜW ciclu ê.o ca pii~J·d in h~ il l.l) <I~ S:l· n ão são sujeito, predicado e coisa, mas relação e formal () tornar-se
pltttct lle&58 ~gunda ~surn. que~ PPI conw1uin1en af1ica da pfimt i1.1 ~ w tran ho de que se trata aqu i não assinai~ a eXteriori~açfi o dos prtr
u redt..z n ~imp\ca f1g Uru pllt:ti~uia.,. fp. b9). dicad<>s d~ um sujeito n unt ser estranho, mt•s designa o q ue acontece
co m a ··elaçào cnpi talista n a forpJn mais mediatiznda do proce.1so.
A crltida dessa figu ra é feita pelo dwcnv!>lvirocnt o d~ todo o
processo de reprodução. Mns esse desenvolvimen ló na.:. !iJHll' CCi! a n) A " VeriitJ.!salidum1t da refaçàa
O conc·eito de Vcrliusserlialw nn b q uase •·itualmente acompa-
não ser na eféncia. nhado de três o utros ponceitos: ps de Verrücklheil (nbsurdidade),
Na realidade, essa nuton<lrnizaQão, cssH J;ercla do conceito (Bt>- Versuchlichung (ooisificnçá o) c Verkehnmg <.'itwctsão). ,
griffslosigke~tl, ~ssa irrncionalicladel vão el'et ivarncnLe rnnnifesta r-l:it: Deixaremos de lado o primeiro termo que não tem s ignificação
:l nn cdida que nos encamin hamo! às formas mais •:oncretas e mais concept\ml pr(Jpria. O conceito de Vcrllehrung suscita um ptob lema.
m«iiatizadas do processo cnpitaliSHL t>or u m lado . designa a illl'ersiiQ já estudada da deter mi nação inte.rna
).(a forma d o capita l de emp réstimo. esse prooe;;s<J aohn-se llCa·
do prooesso ern s uas formas ncabadas. Mas assume aqui nova acep-
bado. De fal o, essa forma é a mais concreta, a ma•s medintiznda do ção que exam inaremos mnis adiante.
cHpitnl. Ela )lressupõe não apenas a transformação tlu mais-va liu em
154 J,ER O CAPITAL
J)OS "MANUSCRITOS DE 1844" A "O CAPrTAL" 155
Ó conceito de Versachlichung deve compreender-se n partir do
- Se co ..siderarrnos A como som:l de vaJor. a relação A- A' se-
que já foi dito sobre a constiLUiçlio da Gegen.niindlichkeit c o mcca· rit a forma 4 m 5, relação incompreensível (imbegreijliclt). Estamos
nismo da Darstel/wrg. Vimos na análise da forma mercadoria que a dianle do rnisLério do aumento.
coisa. o objeto, era o suporte de uma relação, que o desconhecimen- - l'odemos procurar a solução desse mistér·io do lado do val<'r
to dessa função de suporte, do cará ter sensivel-supra-sensivel da de uso dos elementos materia is dn coisa A. Substitulmos então a re--
coisa, transformava em propliedcule natural da coisa o que era ex .. laç;lo incom preensível por uma relação incomensurável: a coisa A
pressão de uma relação social. produz a mais-valia. isto é, uma relação social. Formularemos ade-
Mais precisamente, tudo se dava nu função da .forma. Esta era quadamente esse mistério ao dar a essa relação jncomensurável o
ao mesmo tempo forma (revestimento) da coisa e forma de apareci- seu verdad~iro nome: tra ~a-se de uma relação irl'acional.
mento das relações de produção. Com isso. podemos com preender a possibilidade c a solução
Encontramos o mecan ismo da Damellung esclar·ecido po r desse mistér io. A solução nos ser:í dada pela elucidação do conceito
Marx na relação entre o capital como aoi.w (soma de dinheiro ou de Verkalrrung. Este desjgna o seguinte movimento: a transformação
massa de elementos matel'iais: rnat~rias- primas 1 máquinas, etc.) c o da relação soc i :~l em coisa é também uma trnnsformação da coisa
capital co mo relação de produção ao q ual o primeiro serve de su- em rclaçilo social. A coisa na q ual desapareceu a rc!açiio social her-
porte. dou o movimento que a J'elaçào determina . Esse mov imento está
prcse~tc ncl.a como [ncu ldade nntural ou gualidade oculta da coisa.
O (ftJ)iLill nJo t um,a cois.a, mas uma cel:tçí.lo d\! produç;lo dcterminu 4

da, social, pérlertcentc a oorht fouuaçli.o sodol hi!1ór-ioo, dc:tenninadn. Vemos . pois, csclnrecer-se aqui e cuhn inur o sentido dessa di.rsimufa-
que $e reprcsenht (.1io\ dal'.ltt/11) numa coiM1 e dá :1 c::stu coiu1 um C:ilnHer çãn pela cru<~) M ar~ cara<:tt:rit.u o modo de açiíJJ das relações de pro-
•o<íat esJ)od Oco ( O ('qp/ral. t. VIII, 1" l9J). dução.
O efeito desse modo de ação manifesta-se primeiro em que a
Reencontntmos a oposição Verlwltni.! / J.Jíng, oposit;fio que tem coisa surge como unl autômato. d otado de u m movimento determi~
o seu modo de c<istGnciu nu f)arsre/lwrg. O desconhecimento da nado , A passagem de 4 a 5 e possível porq ue a coisa possui em si
D~rste/lung elimina a oposição e t~ansfor ma o capi111,l etl' simples uma (nziio do 1eu aum emo. E ela possui essa razão porque se acha ,
corsa. como diz Mar~. f~undad a pela presença nela da relação sodal. É,
Os trl!s termos são estes: pois, o itrac~<mal que constitui a tazào do aumento da cojsa . 1" O ir~
.. o capital bomo relação de produçíio 0 racional c<mrinna... ~e as~un , em wdc~s os Séntidos da palavra, como a
.. a forma qaplral que é uqu i a fppha !lão·c•>'I\Cepluul do capital ruziio da 1+'11-k/kh)JPII\ O nwdo de lll'e<~ença da relação socia l na coi-
de empréstimo, sa permite exp licar os dois miStérios: o do aumen(o e o dn produção
.. a coisa (elemento~ materiais do capital) que scriYc de jU'pcu·lc de urna fCiaç:lo;> SOCial ~Ot urna >itn[lleS COÍSU. 0 capilal-coisa pode
ao capital-relação. assurn iojdo a forma do cnpitnl d~ eml?r~s1imo. assirn p!loliL~ziJ· ttatu•·hlmente c de maneira determinada o juro (do
Ora, a ~o~ma do capital de empréslil:llo ll<lrdeu toda u lcmbr:m- meslno '7'0d p comb a terra produz a (enda~ . Podemo~ (e>umil' esse
ca do que fez dela umu forma particular e detenni nadu do capital. movir:?,ento ao dizer CJUe n coisa converteu-se num Jujeito awônomo,
As su~s determinações de for ma irão assim coQ[ur,dir-s•: cOt;(l as de>- o que Marx expri me no conceito de Versubjtktivienmg (subjct ~viza·
terminações roatel'iais da c:oisa. cão).
r>evido :I Begr/ff.!loslgkair. a forQ'la dcixu de exe~cer a sua f~rl­ EstHmO<S, poi~. diante de um duplo movime~ to: coh ilicao;;lo das
ção de forrrm, 1\.s dctermil)ações ~ociais das r~laçôc.i de l>tod.ução d~tern11qaeõcs soc:ía1s da produção e supjctivizaçcro das ~ua~ bases
vão então acha,t")ic tebatidas sobr(< as determimlçõc&materiais da m ateriai~, dns coisas nas qunis essa~ detcrminat;ílcs st;~ciais se rtpre-
coi~;1. _Donde a con fusão t'ltre o que Marx cha ma de ba~•:s mn:•·ríai.! senl nll) e~~ dissil:ptlnm, Marx explica Q\teessc duplo movimento era
(as co1sas que exercem a fun~ão de sup<k te) e as dctcrrlnnaçollS SO· já pcrccr>tí1·el desde a det~>rnlinnção mai ~ simples do modo de pro-
ciais. Estas ítltimas con ve-rtem-se em propriedades nuLuruis dos ele- duçàoca pit<~lis ta: a rorma mercadoril• do J>roduto do traba lho.
me!'llos materiais da produção. Assim é que o CUJ?ital-relaçào tor··
no u ~se umn coisa.
Mas essa coisa tcrn propric:dades muito especiais. O seu caráter Vt:tetr:os nlllL'> .adiunte a infc:l·cidJde 1córkn que acont-:cl:u .t F•ricc {)')r h:tver 1oma·
misterioso pode exprimir-se de duas maneiras: doJ cssJ til.l.â~ pllr u1m raz.lo ge..>mhnca ..
156 LER O CAPITAL
DOS " Mi\Nt:SCRITOS DE t844" <\ " O CA PITAL" 13?

Aehavam·se já inc:htsJs na mercadoria t sobremdo na merc-ador i~


enquanto ptoduto do capital a coisHic:aqào ( VtrdlngUdumg) d011s dcternu- lugar onde awam as relações econôm icas. Essa distância 6 elimina·
naçõt:s ,oc:iais da produção e a subjeüvizaçâo ( VerJ&tbielcti\•itfWI.g) ~ai da no fetichismo , mas pode-se dizer que ela também o era nos Ma·
suas bases materiais que caractt.riu todo o modo de p(oduçào eapuabsu nuscri1os de 18.f4, onde a ~oi.sa era tomada di retamente como objeto
(I. V11, p. 2Sl). de uma subjetividade. Era a s upressão dessa distfinci;t, dessa dimen -
são particu lar da coisa muni {estando a tomada da est rut ura que per-
Esse dv.plo (1\(lvjm~nto é que constitui o segundo sentido.. men- mi tia a antiibologia do ob;Cio e do produto. A V<•rsachlic!Jung da reJa.
cionado mais acima, do conceito de Yerkehnmg, que tradur.tremos çíio capita lista não po de, pois, compreender-se como objetivação
aqui por inver.tào. O resultado dessa inversão é o "~1u~do encantn· dos predicados de um sujeito, exceto suprimindo-se a dimensão es-
do", '' mundo invertido e posto de cabeça para batxo (1. VIII , p. pccíHca em que o capital determi na as relações econômicas.
2 Quanto it ~·u~jetiv1zarão, vem()S que ela não é também a inver-
0'1).Pa!'ece-nos essencial distinguir essas duas funções do conceito são do predicado de um sujeito substancial em sujeito. O que é de·
de Verkchrung porque só a primeira (inversão como função dctermi· signado t>Or Marx como subjeü\'izaç.âo da coisa c a aquisição pela
nada pelo desenvolvimento das formas, pela passagem da K.e:_nsges- coisa daji1nçào de motor do p rocesso. Essa funçilo não pertence no
ta/1 àfmige Geslait) é suscetível de adquirir uma determtmt9ao con- processo a um sujeito ou à ação rt>cíproca de um suje1to c de um ob·
ceptual rigorosa. A segunda funç.1o desempenhada.p.ela Verkelrrung jeto, mas às relações de pr<1duçt1o, as quais são radicalmente estra·
(duplo movimento de coisificação das relações socmts c subJcllvJza· nhas ao. espaço do sujeito e do o bjet o no q uul elas só podem encon-
ção dos auportes !1\atcriais) é a qu~ est<\ ~nv~IVtd~ por u~ halo an- trar .ruporu.<. As propriedades que a coisa ndquire não são qualida-
t ropológico, marcada por urçllt r.eferencw nao-reOehda, não· de~ .de um sujeito , mas o poder mot<ll' das 1·elações de produção. f:
crillcada, a campo conoeptual antel tor. . .. iía med ida crn que herdou movimentO que u coisa se nprosentn como
Impõe-se-nos examinar de perto n<JUt a rela~o dcs.~a1 ltgur~ d~ sujeit o. O conceito de sujeito designn umn função que tem o seu lu-
inversão na medida em quo ela caractel'lza a Verausserlluhung dare· gar num nnovLneni O ilusório.
Iação capitalista e da figura clássica da alien_açào, tal q~al s~ c~pt·tme Podemos concl ui r disso que. se, num campo teórico corno o dos
nos Manu.u:ritos. iodos os termos do movunento aqut descttto por Manuscrilo.v, os conoeitos de subietivização, coisificação c inversão
Marx t>arecem encon trar o seu e<j,uivnlcnte nos Mf!n~m·rit~·· A es· exprimem adequndamen tc certô collleúdo conceptunl, no campo
tnu ura uquí ptcsente, conslitufda pelo par de stnonnuos f.n((r~m· teórico de O Cç1pital eles apenusdesigr.an1 Llm collteúdo conoeptual
dung} Veriiussarlichung e o conceito de Verkel~t'ling corresponcl.~ ~os diferente. Não mais ejlão lá nn l'e,r.istro de uma adc<jua~o concep-
Manuscritos à estnttura constitutda pelo par f.ntfremd~!lg/ [:J~Uw>Se· tuat a seu objt,to. mus no cl,.; analogia. Assim é que termos como cai·
rung e o mesmo conceito de Verkehrw1g. (Essa tnversa? dcs1gna na si(icação, subjcth·izaç;io e inversii<> escO ndem esse lugar em torno dQ
cr~ticn antropológicu a culmil~açâo do processo da a hunaçílo pelo. qtwl t udo se pit!<ia: a hmçào de moto r do processo e a eficúci11 pró·
qual o sujeito se torna o objeto do ~cu objeto e aq m~mo tempo o pria das relações de produção. "
método dn especulação que confirma a separação c n mversão.) Pot· !;;.;primamos em poucas palavras a d(fcrença dos do.ls movi-
outro lado, aqui corno nos Mamlscrllos, n mversão coloca·se no ter· mentos. NQs Manuscritos, o sujeito (o tra balhmlor) põe a sua essên·
l'etno de u ma relação pessoafcoisa. . cia num objeto. Esse objeto ir{luumentar a força do ser estran ho (o
!)onde a necessidade de precisar a sign!ficnç§o dos ~~ncettos ca)'ilal) qu~. no movimento de inversão. se qoloca como sujeito e re·
aqui em jogo. Consideremos primeiro o movnncnto da cms1 (i~ação duz o trabalhador ~ ser objeto do seu objeto.
(Vm ·ac·hllchung ou Verdingliclumg) . O q ue passa para a cotsa .na o l: ~~
essência de uma subjetividade, !l\US uma rclnçiio. Na, Vertiu.r~erll­
chung, não é um sujeito que se separa de si rne~mo.. passat~do os seus
predicados para o ser estranho.~ uma forma que se torna estranha
1
' Ap11r.ecxrâ ~lurutn:ntc Q qtunlo t1 utiJiZtçAOdcs5c c::~qUe:t1ü é inadequnda parn <>.•
r rimar o metani.~mo dn ft.ti<:hizn,üo. se ohsc:r' ;lrtuos que i• "subjetivização" das ;;oi·
à relaç.ão da qual ela é o suporte c, por lhe tornar-se ~stranhn co~­ sa! (autonomia dos st:potti!J materiais) não cor responde ab!.olutam<:nt< uma coisirl~
verte·sc em coisa e acnrreta a c.oisificaçào da relação. Essa defintçao cac;in das pc:s:;:o:u. M\Jito r1tlu contr:irio. o que. l'lôt forma do ç:tp\UI de empl"tstunu.
da Verüusserlichung vale também para a Entfremdung. corresp-ondc i• figura da coisa .iOtôrnlta, t n ri*ur.a dQ ccmrr.atn entr"C duas pciwat li·
'rts. entre du~• s st.tbjel.ividaê:c-$ co nst1~utivns. Donde s urge com evidência que o fct j.
O que cai no retichismo é a .implicaçã~ e~tru.tural q.ue funda.a chismo não dt;t rcs~ito i rcl.:tção de um sujeito com um objelo, mm à relaçüo de caJ''
distância da coisa em relação a st mesma, dtstancm que e o própno um destes s:.~poné! co:n as rc'aoõcs de prodt.çâo que os dct~rml n am .
!58 LER O CAI'ITAL DOS "MANUSCRITOS DE 1844" A "O CAPITAl" 159
Em O Capital, a Yediusserllchung c_onsi_ste em que, juntamen te , O desen volvi mento das formas do processo de produção capi·
com a Begriffslosigk~it da forma, a rcla~a_o ve as ~uas determmaç~es tahsta, com a mversão (ilwersion) t)ue lhe é caracterlstica, seria 0 de-
rebatidas sobre as propriedades matcna1s da co1sa (cotstftcaçào), a senvolvimento desta inversão (remersem em ) inicial sujeito/ objeto.
coisa na qual desap~re~eu a ~elaçâo apresenta-se então c?~o um su-, Se esse esquema for coerente, toda a nossa demonstração está ani-
jeito autômato (subJCtiVIZaçno)._Nesse movunento, o tr,,~,tlhador <; qui lada. Mas, em realidade, ele não é coe~ente. De fato, o que cor·
0 capitalista não intervêm . Assun é que o tml]alhador f1gura aqu1 responde à uansformaçílo do trabalho vivo em mercadoria é a
como suporte da relnçào de produção t rabalho assala~•ndo e não tra nsformação do trabulho passado em capital. e não em cupitalista .
como sujeito originário do processo. O mecanismo da l:.n((remdung A pusonificação, no sentido estrito que esse conceito adquire
não diz respeito a ele. . e~ O Copitaf, é coisa inteiramente diversa. Ela designa a função do
l'odemos, pois, determinar com justeza duns est.ruturas dtf~ren ­ Sujeito como suporte da relação de prod ução. E-sta, como vimos. de-
tcs. Marx, porém, tende constantemente a confundt-las,_a pensa.r .a termina· de uma parte urna função de sujei to. e de outra uma função
Entfremdung da relação capitalista no m_odelo _d;l ahenaçao do s•u••· de objeto. Ela é que efetua ta nto a Damellung do objeto como·o que
to substancial, a pensar a Verkehnmg·mversno como Yerkehrung· chamaremos, com um termo tomado a Jacques Lacan, a cncrnarão
re:viramento . . do Ju,feiro. " Sabemos que com isso se exc.lui que o par sujeito/ objeto
Gostaria de tomar um exemplo desse deshz.ament<;> n_o segundo fu_nc1one c~m10 motor do processo, que o movimcmo do pmcesso
capitulo do livro 111 . Trata-se ali pa t ransformação da nuHs·vaha em· S~Ja o ~ovunento da sua rec1procidade. A função rigorosa da perso-
lu.cro. Vimos que o lucro era uma forma de aparecunent(>/ dlsSJmU· lllficuçao, tal .çomo atua em todo O Capital. rriva de toda validade 0
laçfio da mais-valia em que des~paredn a determmaçào do _valor emprego que Marx fa~ aqui do conceito.
pelo tempo de uabalho ~da ma•~·vahn pelo sol~rctrah.alho, lorm~
caracterizada pela 1nversaQ (rnvew on) do movtmento 1eal da prodU. Se toma rmos de novo agora o nosso esquema , teremos:
ção capitalista. Ora , nesse texto . vamos ver essa mvers~o reduz1da a trabalho passado trabalho vivo
fi:gura antropológica do reviramenlo ( renvN.<emmiJ, ~ tgual ment~ o ~ 4
primeiro e segundo modelos da Emfremdung confundidos,, nessa m· Capital Força <lc trabalho
determinação que é a característica do d1s<:urso antropoló.~1co.
Capi talista
I Trabalhador
I
O rr..oflo pelo <Jual, pat>stndP.•3t. ~cl;1 ~ou de l~wro. l1l!'~~orma·le t
mai 5~valia em lucro n"d" mais ê do q~e a m teJ''veJr54in do s.uJeJlo c dn ob~ (suporte dn relação de (suporte da relação de
j eto ,10e se produz de.stie o J>rOoosoo ~te prod~c~o. A pattttr .daqu~.l~ mo- produção capital) produção troballto as.rafariado)
ln(nto "hnM 1od:u as for<;&.s ptodu1was. subjetivas do 1rnbalho ;;e , &JU O..
$Cntal~rfl ~Uill.O roiÇ'a$ produtiVa$ 4o t!ipital. . . Diante da fo.r çn de trabalho, encontra-se o capital, c nào uma
Por um ladu, o vRlor. o irubalho~:tsbtJdo que dcumnu o ll'at,mlho vt~ pessoa (o capila hsta). Do mesmo modo , diante do capitalista há
\'O, é pc:uonificRdO no capitalistn~ J)Of outro, o trabal~ll.dOr apa.re_oe, p.c:lo outro sujeito, o trahal~ador, e não Ull\a coisa. A inversào s~jei­
contrário, como força dt trabn\bo puramente matcuat. como uma mtr~ lojobjcto já nilo ocorre aqui.
caduria (1. VI, p. 64).

Estamos aqui diante do movimento seguinte:


•• Cf, )3oqUCl Lac:<&n , I, (J PsJc'lltuiâ()'.f{', t vr, Pl>· ll 2· 11J;
trabalho morto trabalho vlvo "0:\i, quandc> l>aniel La!aohe purtc de UllHl opç:lo q,uc: ele noo propõe entre uma
~ cs~r,u tu ra de algum modo aparcnt~ t<1ue implicaria á critka d;• q;.~i lo que" t.llnítcr dcs·
~
cnhvo cornportll ode natural) e uma c:strulura <JW! de pode aOrmar à distftncia da e.l•
rcrsonificaçiio no capitalistaforça de trabalho puramente I)Ctiéncia (pois que se trata do " modelo t~órico'' quc ~I fi NCOilht.ce na rn~•ap.i irologia
material: mercadoria nnalili~a.), essa antinomia desdenha um mo<lo da l!sttutura que, por ser t.erceita, nãu
tJoderia $t:r exeluftda, a saber, os cfeilos que 11 ( Ombinatória puta c sirnp;!e:$ do sl8ntli·
O esquema aqui utilizado é o an tropológico clâssico: t~otlte determina. na teàlidnd~ em <)Uc ela se-prodçz, Poif. o estruturali5mo t! ou n!o 6 o
coisa (objeto) pessoa (sujeito) 11ut no$ perm ite e.-stabeleocr noua experlência oomo o cam po onde isso lUla~ Nu ~aso

'
pessoa (sujeito) ~
coisa (objeto)
••rirmativo, "o. Qisrtâncht para c:orn a expc.riencia" da estrutvra se dcsv.anecr, dado qui!
••I • opera ali não como modelo tccírico, ma-i oomu a máquina Ol'iginal que põe em
Qcne o sujeito",
DOS "M ANUSCRITOS DE t844" A "0 C APITAL" 161
160 I. ER O CAPITA L

Outra d istorção notável é apreserítada pela fórmula' freqUente·


Equivale a dizer que a antropologia em O Capiwl não tem ou· mente cmpregadn por Marx pa ra caracterizar o fetichismo: as rela-
tro lugar senão o que lhe ê dado pelas re<:aídas do discurso de Marx. ções entre os homens tornam-se relações entre as coisas, fórmula em
Nos casos em que Mnrx deixa de loca lizm: os seus conceitos, estes que os dois co mplementos assumem sub-reptíciamcnte o lugar de
vêm mover-se em to rno de pontos de referência antropológicos.
Sempre que afrouxa o rigor do seu discurso. vemos del ine~r.se um sujeitos.
Resta a ver a raziio profun da desses deslizamenws. Aventamos
modelo antropológico. Esses deslizes são nec~ssários na medida em o fato de que Marx nii o tenha efetuado uma cdtica do seu 'vocnhulá-
que Marx mlo critico rigorosamente o seu vocabulúrio. As palavras rio. Essa fal ta de crítica não é simples negligência . Se Marx não jul-
nas quais se exprimem os conceitos novos in troduzidos por O Capi- gou ncces~ário cstnbelecer diferenças tcl'nlinológicas, é que jamais
tal são em numerosos C3$()s as mesmas que serviam para ex1wimi r os pensou rigoro:;umente a diferença do seu discurso com o discurso
conceitos ant ropológicos do jovem Mnrx. antropológico do jovem Marx. Se, na prática teórica de Marx, pode·
l: ne<;essârio insistir nessa distinção: estamos de f~llo diante de mos tlctennlnar a ruptu rn que Marx tão-só afirmou, se podemos for·
conceiro.< diferentes. J>or exemplo, vetiricamos em O Caplral um mular a diferençn radical das d uns problemâticas, o pró prio Marx
conce1t0 de Verkehrung e um de F.nifremdung que são novos em rela·· jamais verdadeiramente aprecnd~u e concept ualiw u essa diferença.
ç'lo aos ManUJartws. que tem um conteúdo diferente. Mus são as C) O deslocamcmto da origtm " a transgresscio do /Imite
mesmas pala>NJ.! que servem pura exprim ir os conceitos ant ro pol ó· Veremos completar-se a fígura fctichizada do' processo exami·
gicos (qllc chamarei de conceitos I) e os conceitos de O Capiwl (con· nando o que acontece com a origem ( U~<rpru!lg}, com o limite
e<:ilOS 11). (Grenr) e o resultado do processo.
Vale sublinhar que. nos dois cusos. os conceitos de Verkthrung A origem em quest~o não é uma o rigem temporal, mas a origem
e i:nrfumdung têm umu função de relaçft<). No seio de certo cspnco do processo capitalista enqtuuno tal.
teórico, eles deli neiam relações entre termos. N o espaço teórico I. os Sendo o processo de produção capitalista a valorização do ca-
termos relaoionudos pelos conceitos de Verkehrun~ e t::nifrcmdung pitnl, a o rigem de que tratamos é a da mais-valia: o sobretrabalho.
são os de sujeito, predicado, o bjeto, pcsson, coisa, em piria, cspecu· Essa origem niio se revela nas rormas concretns do processo ca-
laç:lo, etc. No espaço teónco 11, esses tc•·mos são ftJrma sirnple&c fo r· pitalista . O que é dado são os resultados do processo, isto é, as par-
ma compkxa. relação e forma, etc. te.~ nas quais se decoJ):I{IÕe a mais-valin total: o lucro, o juro e a ren-
Os doi ~ espaços teó ricos têm propriedades di ferent~s. Seguo..se da. O est udo das razões de compensação mostrou-nos q ue essas fra·
disso que as relações de tipo F e as rclaçêics de tipo ll nao pode1·ium ções que exprimem a distribuiçflo da mais.vnlia apresentam-se como
s-er homólog<~s. O rigor exigiria. pois, que as paluvJ·as nas quais esses
seus elemt?mos consriwtivos.
conceitos de relações se exprimem fossen1 ulmbém diferentes C<>Jno Essa apn1-encia 6 q1.1e çonstilllÍ o fundamen to da economia vul·
Marx não J'esponde a essa exigência de rigor, a primeira J'is;uia corre gar, a qUal encontra u sua origem sistem ática na teoria das três foi)·
s~mpre o risco ele insin uar-se onde nào ma is é (1seu lugar. O desil7.H· tes de Adam Smith. 1\ operação de Ada 10 Smith consis~e em trans·
mcn to opera-se em dois tempos: estabelecin1entn de uma homologia formar o sal:irio, o lucro e n renda, elementos resultantes da clecom·
entre as relações de tipo [ c as relações de tipo 11, e com isso :) re- posição do \·alo•· produLido rl uJn períod<l determinado, <:m elemen·
constituição do espaço teórico I no qual ~lenta i~ttrod u7.ir CJ espaço
tos constitútivos desse valo r. ' .
l'eórico 11. Ora. nessa tentativa, mnnifesta·se uma dittor~cio1 q11ç A <>pernção de ,11.dnm Smith pode decompor-se em dois tempos.
ntestu a rcsistênciu d<>espaço 11. l;".ssa distorção é que faz, por exem- Em prirneifo lugar, sa)âtio. lucro c rcndn são destacados da sun ori-
plo, a ilJCOerência d<J esquema que ncabamos de .,,tudat.
Encontramos d istoJ·çóe.s dn mesma ordem qu :rse sempre q ue
Marx u1iliza esquemas tornados à crit ic.a antropológica. Sobremodo '' lembremo<> que, parn est:,helccct a tcorie das trCs (ontés, Ad~1m Smith teve de des--
significativas sdil esse aspecto são as passagens que retomam o vdho ronhtcer qJtC. o valor produ-r.uJo $c dl!compõc de falo ern roplto{, e de outro Indo em
cs~u;ma da crítica dn _alicnaçâ o religiosa. Sempre que Marx põe em ri'r.da.t (sul<ll'ic>. h.cro, rcr:dnl . A 11art~ dtSllt!rtda 1:1 se ri!CO!W crto.:r Ml Cl:lpitttl dcsapme-
ce r.;a sun llnillise.. ~vido 1-1 :;~so. exprirr.c-se a mçsmol coisa ~·u dizt)' que !~alfuio. lucro
cv1dencJa um:l analogm do prCJcesso que ele estuda com o da ali cna- (lucro emt~ rcs:nial -+ juro) e renda constituem o valor ou que lucro c retida conslitu~rn
çào religiosa (por exemplo, no primeiro capitulo de O Capital), n õl m•ÍS-\'IIIia.
análise mostra q ue a analogia não é absolutamente rigorosa.
I
162 LER O CAPITAL
DOS " MANUSCRITOS DE 1844" A " 0 CAI'tTA L" 163

gem (o tempo de trabalho social total que se concretiza no "alo r do \


qual eles representam a decomposição). São em seguida autonomi· nusiio do aumento geo métrico é possível, é ,que foi despre1.ado o li-
1r ite qualitativo da valorização do capital.
zados e se apresentam como formas indiferentes umas às outras. E
preciso então encontrar uma origem própria pa ra cada um desses \ t\ idonüdnde da. moiH·alia con. u $Ub(etrab~tlbo c:stabcleve um limi.
elementos que perderam a determinação de forma que o lugú deles t.< qualitativo i acumulação do cap it ~t l : ajornlula globo/ J~ lrahulho, o dt...
e
lhes conferia no processo. o que faz a teoria das trés fontes que de- senvolviment() prtsente d:u forças produtiYas e da população lirn1tando
o número das jornadas de trabalho simultane;un•nle o>plmÃv~is. Se. ))<)r
termina como origem do snl:lrio o trabalho. da renda a terra. do lu- outro lad<i, J mai:t.. valia CCl&ptada na forma nlO·dOnceptual do juro, o li~
cro o capital. mito não ó sçnlo quaJltilath·o e dc.safi:a a im-.ginaçlo (t. VII, p. 62).
As t rêsfÓntes t(>mam assim o lugar da origem desconhecida. A
oposição Ursprung/Quelle nào se encont J'a por acaso em Marx. Ela O apagamento da origem e do lim ite arrematam assim a ligura
assina la a transição de um processo de produção socialmente deter- fetichi?ada do 11rocesso, figura sob a qual as relações econôm icas
min ado a uma espécie de processo natura l. O deslocamento da ori- são dadas ;l percepção dos agen tes da produção:
gem parn a fo nte é complementar da Versac•h/ichung . da transform:J-
ção da~ relações sociais de 1>rod uçào em coisas definidas po• pro- No ca.pital de- emp1'éstirno t-nciorHr.&·sc •cab:uJa a f'(lpresemação do
priedades materia,i~. Ele coml'letn ~ naturalização do p roce!;.~O. f"c:ti~ h o-capi tnli:Uà, u cepre.scntaç:lo que a:ttibui ao produto u{umu.lado do
Bsse desaparecimento da origem é ao mesmo tempo desapa reci- trabalho e,. adtmai:o, dctermh1ado como dinheiro, n fitculdadc (X rQjtJ de
prod ~i r majs~v:tli a grnçm a uma qualidude socnHa, d~ modo JHitamente
mento do limite. Sabemos que esse limite é determinado pela ori- ~~utQmático o segundo umo JHngrtsdo gcomêtcka (t. VIl, p. 62).
gem d<• valor (o tempo de trabalho) e da mais-vulia (o sobrctrabn- '
lho). S a quant.idndc total de sobretrabulho explortuJo que dctcrrni · D) O ,11w1do Enaantadt.>,
na os Uimites dn n~ais-valia. Dc~sa maneira. a lei do valor atua e<>nl<l l>escoovemos a constituição de um dos tres pares da fórmula
lei reguladora que indica os limites nos quais pode exercer-se a dis· trin itúria. Podemos tirar dessa anldise duas conclusões im portantes:.
tribu içilo da rnuís-valia crn lucro, juro e rendi!. Desfazem-se assim I) O pr<Xesso dessa constitu)Ção faz intervir uma estrutura in-
todas as il usões engcn drad:Js por uma teoria das três fomes. cada teirnment~ dilbrel)te pa estrutura sujeito/predicado/objeto dos Ma·
uma das quais é naturalmente produtora de uma 1·endn. tJrn limite trurc·litos.
quali tati vo conceplual detenpi\111 a quamidadc total do valor e da 2) As (ormns que o fetichismo al' rcse.nta nào são formas defo r·
muis·vnlia produzidas. .madas pela espeoulnçíio ..S iio as prúprins fontuts nus quuis o proces-
so cnpitalistn e~i.1te pura os agentes da produção.
Po:lo con~rá1·io, se o capital tnod ut naLuralmente luoro, se fu11·
ciona c:orno U!ll autômulo, qualquer li mite qualit ativo é suprimido e A mtdid~ t(\1~ t. fom1a do lucro dis:~irnulo o seu núcleo illte:rno, o capital
11 produção do lucro parece seguir as puras lel's de uma progrc~silo adquire cuda \'er. nH1i:1 a fnrma de coisa, a .-.:Iação torna-se r.ada vez mab u.mu
coisa, mas ~oupa tbisa que trat ern :~i a relaçlto :;ocial, urn :le-r se n sivel-su 1>ra ~
geoméotricu. !>onde a engenh osa descobcna pc a qual Price ucreditu- sensl\•(11 c é MS!i3 forma do capital c de lucrO <1ue elo ap rtr~e como pr cssu ~
va poder re~olver todos os problctnas de tcsourJ(ia dos Estados: posição detcrm,l)ada na supertlcie. t d ftmntt tia sua ltaliáadt, CJU ante.t ,; a
srm ft>rtt1 d de, utrué,nc(.Q re.al. E 6 .a forma na qu~ l tlu vive nl!t»f!sd é:ncl:.t dos
O di~bui,to <j\lc rendo )uros cumpçstoR c•-esC'.<: pdmtirl) letnamente. 10eus suportes., os cupitaliM..as, a forrnu :oob o quul e la !c reflete nas rep r~nt R~
M us, ( Cuno a cudê11du do uuf)leoto $Q .ac-:len. 5Cfl.l cessar. ela $c torn:1 t ~o QÕes dele:~ (Hil'lnirede:f dacrrlne.s 4r<'nomlquts, ~. Vl ll, p. 164. Grifos I'IOS!>O~>).
rápida uo cu~ de al3um tc::mpo <1ue dc:sa,lia wda imá~ina ço'lo ...
Um ~cJjrn idiarttJdo no nttsC'illlet'lh ) dt Crisl<l a uma Ul~ü c~Jmno:aa
'
d.: 6~{. ao 1110 1cria atingido as d imen s~~ de um volume de c1utc~ tão Voltamos ao ponto de que partimos. a saber, que as relaçoes
gr:ande qu-: todo o ststcma solar nâu ç pódc:ria <~Qntc: r, pois SI! fo:u e t ran ~·
forrnado ou ma bola ela seria maior quo a traj.:tória de Saturno. Po rcon~ c;ue determinam o si~tema capitalista não podem existir a niio ser na
scsuint-:, um E ~ta d () n!o pc)de c:ncontmr dificuhlados; porque:, COD1 :1& forma da sua dissirnulaç-J o. A forma da ~ealidade delas 6 a forma em
poupanças mui$ ínfimas, pode J>agac as dfvidas mai!i elev~ das r.um tempo que desaparece o seu movimento J'eal.
tão curto quanto possa exigir o f>et. intrr~ sr.c (eititdo por to.·1au. O Copilal, A análi se do fetichismo conllrma-n os que a mistificação é mis-
t. VIJ, pp. S8·S9).
tificação da e.~trutura , que ela é a sua própria existência. O "m undu
encantado" do fcticb.ismo " em que o Sr. Capitnl e a Sr• Terra tn·
Vemos aqui perfazer-se a figura do amômato capi talista. Se a quanto caracteres sociai s, mas ao mesmo telllpo imediu tameute
164 LBR O CAI'ITA I. DOS "MAN l:SCRITOS DE 1844" A "O CAPITAL" 165

como coisas, dançam a sua dança fantástica'' "é assim a figura


\ Do ponto de v ista em q ue nos e ncont ramos agora, podemos
bada dessa conexão dos efeilos que é determinada pela ausência t9ntar a caracterização de todos os tipos de discurso que encontra-
causa. mos.
Essa ausência da causa é refletida po1· Marx como smiJlii!S O ponto de partida que é dado à percepção são as "formas de-
1ància. Ela está l'elacionada com o desaparecimento das me:di:lçil>l!s, terminadas du riqueza". formas da Wirklkhkeir com as quais se de·
com o esquecim~nto <!n~ dçt~rmin~ç.:>~s tj(l p(<)Çc~~<), MnF 'l•lmt>ém frontarn Ofi ag(ntcs da produção.
esse esquecimento é constilutivu, dado que niío mais cstumos d,antc A economia vulgar contenta-se com sistematizar essas formas,
do desenvolvimento de uma consciência dotada da faculdade hege- dar-lhes o nt'lclco racional, a saber. precisamente o irrul'ional. O seu
liana da Erinnerwrg. discurso e rcf)exilo do movimento a parente e negação da essencia in-
Para além, 1>ois, das imagens inudequadas da distância e does- terna assim como do movimento real do proces.~o .
quecimento, somos le,·ados ao f\mdamento. ist.o é. ao fato de que as A econ.om in clássica tem por nm
dissolver essas formas fixas,
form as de aparecimento do processo sJo determinadas por algo q ue reduzi-las il sua unidade essencial i~terna . É assim, por exemplo,
não pode absolutamente representar-se no campo da Wirkltdrkelt que ela reduz a renda ao super lucro. Eln, po rém , não pode realizar o
sem nela se dissimular, a saber, as relações de pro dução. relações
seu projeto pol·que não compreendeu e$sas formas como formas dl!
que enccrram- isto é, nào cnccrrum ··o lcstcmunho do processo d<! aparel'inumro da essêl)cia internn do processo. Ela unrma, po is, a es·
forn1açào, de Enmeh1mgprou.ts de um modo de produção detenní-
n:~do: o modo de produçil 0 capi1alista.
sência interna pela negação dogmática das apnr~ncias e só pode
O fetichismo rcprejcn ta assim não um Jll'l>ccsso antl'opol6gico, exotciza r a~ formas do fetit:hismo sem as com preender.
mas o deslocamenlo C~>pccífico segundo o '\uni a estrutura do n1odo A teori a de Marx, ao conlrário. co mpreende essas formas alie·
de p r.;.duç!in capitalista se apresenta no campo da Wlrkllchklllt, da nadas e irntciona\s como formas de aparecimento da essência inter-
A.ll!ag.r/eb,m (n "ida q uotidiana) , dá-se à consciência c~ ativ,dad<! na do processo. Pode ao mesmo tempo razcr a teoria do processo e a
dos agente~ da produçilo, suportes das relações de produção cu pita· teoria do &eu desconhecimento.
lis w s. l'oclel(IOS recorrer aqui :1 um quarto discurso: o dos Marwscri-
A parlit daí !>que as formM do fetichis mo sfio elaboradas, siste· IOf de 184f. lilôse discurso toma lambém p or 1>011lo de partida as
malizadas num djscurso purticulnr, o da nconop~ ia VI)It!ar. " formas alienadas e irraciona.i;!" que ucabumos de exami n~r. O pri-
, meiro rnathiscr·ito ~arte das m!s fontt:s; e o j ove m Marx rejeita a dis-
Br.· :c:nhdnde. u tco-qo,mJ Vil"J,aur ntdu roah.-:'J~ ç_l) que lrádurir 110 sohl(;ào ticf.il·dinna considerada como ab.wMa. 1:. assim q ue ele cs·
1•lano doutrimll ~ sisH:m.;•Jirar m repr<acn·..lQÔ1a rloo ,lgtii i(;'J da (!Tod~clo cnwoem suas notns de leitura sob re Rictu·do:
1uisiontiros das: :((l aç-õc~ b\ll'fl.u:n.s e (Jw:r a npoioQk ó~las (L V~ll 1 )>.
196), A l!conorma pohtica. para dar ,15- SUI-I$ ltis C:Oiulst,<!t\da muio: e m3ior
delc~•n.. l.'l;l("'Jo1 de\'<: <!.~:tht;l~ut a. rc:tJic:htde ( Wlrxlkhktil ) OO!l !O .ac1dcntal
. Parti ndo dns ro~ m.as da Wirklichk<•it da tllltllg.r/~brn, a econo- t :,~ ah$1ntÇ<h> t;Omo renl.
nua vulgar as stslcmatlta nos tres pares 1lla fó~muln trinit ál'in foi'·
mas ali~nadns e. uracionais em que $implcs coisas (os elemen to~ ma - o disc'U rso dos Mlliii/Srriro.r j)IU'ite portanto das rormas aliena·
teri;t is do "'lflÍLal , a terra) cngendra/1'1 ~cln<;õc; sodais (u ma\s-,·alin a das c inucionnis e q uer mnn te(·Sc no nivol da Wüklich!.;eit. Isso sig·
renda). E:Ssas relações incorncnsurh-eis represen tam pa ra a econ'o- nifica q,ue para ele essas fonnns irracionais serHo fo 1·mns da desra-
mia vulgar o núclco racionul do sislcma . zão, du ratão que se h>rllou estranha, fotmas do homem que setor-
nou estranho a sj mesmo.
1. (JUcch~go~ li eSs.a rtbç'iiu :noomc~suávcl. a cçonorn1a v ui·
Uma, vM Ou, se preferit·mos, essas fo_rl'n as a/iommi<rs -- c vimos que senti-
go~ r çrb h:w~r ~omprec r:dulo tvdn e njo sC,tc rn!~C .iitdt~dc ç.; rtllctic muis.
Jlor<IUC- atingiu p r cdsu~ç nt~ o ~o n U.;I eo r:u:ioru\. · dn rçpr<:s.cr.ta<;:h) bur·
do é preciso dar a esse termo- são para ele .formas da ali~naçào no
g.v;:sa (t. VIIJ. p 197) sentido an tropológico do termo.
Assim é que a redução das formas da riqueza é determ inação
do trabalho ulicnado.nào constitui uma verdadeira crít ica das fo r·
mns de Gegensramllichkeit econômica, mas ntém-se à s imples figura
' O <'•p11<1l, t. \ 11 1. P• 203. de uma inversão em que as determinações d o sujeito h umano e du
166 LER O CAPITAL

i nters~~jetividade vêm em toda a parte em lugar das determ inações


matertats e das relações entre as coisas (temos o exem plo ma is notá-
vel dtsso na anfobologta da nquc>a e na dn comércin). Esse discu ~so,
portanto, contmua p reso ainda âs ilusões da Wirklichkeit.

lll. Observações à Guisa de Conclusão

P.retend o tet·mina~, levan tando u m problemn que é o da possi·


bilidade do di~<:urso da econ.omia clássica.
Há, com eleito, um discut'SO cujas co,ndiçõcs de possibilidade
estão nitidmnen.te defin,idns: o da economia vu l.~ar. ()problema é di..
ferente no que se refere à economia clássica. Esta nüo d~pende, em
sua base, das rept·escnta.,Oes d os agentes da produção. Só depende
dessas em suas debilidades (por exemplo. co m o Adnm Smith exoté-
rico). Como explica r ao mesmo tempo a au wnomia relativa do dis-
curso da economia cl ássica, que lhe permite dissipar as aparências
do fetichismo, e a sua limitação esserycial. a sua incap;tcidude de che-
gar il compreepsão do movimento real da produção capitalista?
A pós fazer o elogio do ~abal ho de dissolução da economia
clássica, Ma rx declara:

h~ d ulivt t)~ melhorl!s dos l>l!U.! r•otta·VOZt-5 conlinuom muis ou me ·


nos vitimas d:u ap-3-rêoc;ias desse universo que a sua (rí1ic~ dissecou (do
ponto dt "ista burguts não poderia ser de muco modo) ( O Capital, 1.
VIII , p . 20S).

Como .se manifesta essa impossibilidade? Po demos tentar a re-


llexão sobre a existência de dois pontos privilegiados em q ue se a fir-
168 LER 0 CAPITAL 169
DOS "MANt;SC:RlTOS DE 1844" A "0 CAPITAL"

ma o desconhecimento da estrutura contida no discurso da econo-


mia clássica. Há duas coisas que a economia clássica não .vê. O conceito desse não deve ver de fato não foi formulado por
Marx.' Marx não reflete conceptualmcnte as condições de possibili-
Examinamos demoradamente o primeiro ponto que se refere ao
desconhecimento da forma valor. Eis como Marx aponta e.<>se desco- dade especificas do discurso da e.:onomi~ olás.sic.a. s,ua ma.neira de
nhççimçnto ~a çç0 nomia çlâ$siÇ<~: pensar a li mitação intrínseca da econom1a classrca c analog•ca.
Isso é o que se depreendc no estlidó de uma pnss:tgem do hvro
A óeonomia polltica cli1s.si..:ajamais conseguiu dtdut ir J)eJa sua a nA.. lll . que comenta a posição de Ricardo sobtc o problema da ba1xa da
liGe da rnercadorita, e sobretudo do vaiO I' dessa merc.ndoria, a rorma sob a taxa do lucro:
q ual ela ~te ton1u Vltlor de troca1 cesse! u m dos seu$ defeito:~ principais.
Scvs rn3is ç1ttcgoriu uios n:prtsenlanlc$, como Adam Smitll e Ricncd o. A uuta de lucro é· a fo rça motriz dR produçlto c.apiuJista c nesse
muam com •b&<>luta iodl(ercnça. a fo rmn do valor 01.1 çomidenm·na rl'llodo de: produÇlo só se prudut o qu( po<k fõer produtido çom l uero e
mesmo u lhein à naturctn da. metcadoria. O m o~ivo nlo d«orrc apenas desde ~uo po$.Ut so:r produ1.ido com lucro> O onde o ,aJtgC4stia do.s, ~:o nO·
do fino de qu~ ll ''""ite da rqasnitude do valor absorve totalrnt-ntc a rni:uas mglescs a rcsp<ito da ta;'(ft de lucro. Que :t smtpl~s por.:ubahdad.:
ateoçio deles. Há umn ru.lo mai5 profund3. A rorma do vulor do produ.. d~~~ bah:.a poNJa faze r Ricardo, tn:mtr, ei' o . qu~ ml)stta precisamc:::.nte
to do uabolho é a. lllfÜ! abl.tt&ta. a mhis ur.uvennl do modo de produçtl.o q'te. oomproernl1o profuQ.dn elo \lnha da..o: condtçOu dn produçlo <:apita·
burguh. q ue~ através dtla. fica ll&ractel'izado con10 umn eSpécie puni co.. li111l. .
In r de produçlt> social. de llOOrdo com sua naturu:a histótltn. Se :te OOI11e- Ele~ cemumdo por c:3tudar a produçâo capilelista sem :1( oc"Jpnr
tc o ~rro de .:onslderar cu.c modo de prcHiuçJi.o a rmma eterna c nntura1 dos " homens", .: 5Ó ootuiderar o dc;nnvotvimento das forç.ns produlivas
dR produção socinl, pc:rdeN c~á de vista, nc:c:elintíamtnto, o que f e:~pec i.. .• quaisquer que sejam 0!1 su:riflcios em homttll e em mtous ~ capitai'
fac:o da rorma do vnlor e, em conseqUtncia, da fo~mn mC"-J<cadQri:• c dos Que euo 'J)fO&reUt) tenha custl\dO, fl prtciuur.cntc o que hil diJ importuntc
SI!U5 d*n'YoMrnentQi r)O;tteriottS, t (QT(t'. a dinbçi(O, J fOMHl rupital, et•l. ne\e. O deusnvo1vlfllt:nld das for.;tu produtivos do tfabalho SO(i~l6 a. ta·
(O CaJ>ilal, t. I, I'· 83). rera hh tó riCll) 1\ jus~~ fi.:açlo do capiwl , Assim razend(l, ele et'ld. )USt3•
menti: sc:m o :i&bct as condições materiais de un1 modo de produçld .supe-
O que a e<:onomia clássicn ~gnora, deixando cair no inessendal tior. O que pret>cupo Ricardo 6 que a HtAa do lucro. motivnÇ:i\o da produ~
~~o capitalista, c ao me.mo tempo condiç;Jo e r.•uHor dtt a~u mulaQãb, 6
a formn va(or é, pois, o cnrâtcr hist6rico particular do modo de pro- a me:Jçllda pelo dcicl\volvhncnto da própr-il'l produc:lo. 8 a relr.çltO qua~..
dução capitalista. titati.va J es.se:1,cial nu c:aso. De rnw, tudo Isso r<po\lsa nurna ra!Jo maJs
Acontece a (IICirna •:oisu na UtHilise do segundo )JO~to que d ir. p~<,fuQd,\,da qua,l Rt-=nrd~ ~~-~ 111e~í:U o inui<;lo. l'ercc:bc:·I-IJ aqui ~ reta·
respeito à origem ela ma{.t-va/ia. Pratica mente, todos os etros d~ th·idode ela produçrto Cllp1Hill~ltt, 110 Rlano plJramtntc ~Jc:onl>mlCO, 1sto é,
Smith e Ricardo, todas as fnlsus formu,Jaçóes que fazem de proble- do ppnt~ de \j&ta buigut!t.. no lo~erim dos larntt45 do .eruenUimcnto ~api~
tnli.stL do p011to de v1~~l di1 J?r6-pria pcodu<;lo capitab~ta,; percebe-se .quo
mas divt:r·sos, tenl essa n~esma t:onseqilência: o obscu~ccimcnto da clR Q.ilnl! um sistçnHi de prodU<;lo nbsolut.o, mu um 5nnplct. l~todo J::ustó·
formação dn >rn ai&-vn lia. rico de prÕd!Jç~o <:orru spoadcn~ n Cetla ép~~ de lltS,I! nvo l vlm~Jnto r~ 4
liá uma distinção ausl'llle em todo o di&curso da economia t·rit.o d11S toro;ns p roduth'Ui. (t. VI, p. 27 1).
clássica: n distinção ent re capOal•'ariável c Cll/)t'tal conslame. Ora , a
posição dcssn distirwão dissipa o misté1·jo da ll)ais-~•alin. Ela faz apa- Observemos os conceitos ern jogo aqu i. Temos primeiramente a
recer o motor do processo de produção capitalistn: a OJ?osiçào entre "intuição" (_.hlumg) de Ricardo . A l?rcsen9<1 de~se conceito. não é
o capital e o trabalho ussalariatio. Faz surgi!· 11 produção capitalista casual. Mm·..; o emprcgH precisamente sempre que quer md1cu~ os
como determinada por relações de produção históricas determina- prcsentim~otos de Ricardo, $uas intuições sohre a natureza ínt•mn
das. do modo de prÇJciuçã<> capitalista, que vão além do seu "pónló de
Assim, todas as ornissõe:~ c contradições do discurso da econo- vijta" limitado. Bssu lif(litaçâo nece~~ia é aqui assinalada por trê~
mia clássica tendem a dissimul11r esle fato: a e-\i~tênoia da produção expressót$: in reln tfk(Jflomil·cher Wcise, im b<>utgeois Stundpun kt,
capitalista é n existência de um modo de produção historicamen te inne•·halb der Grenzen des kap!'lalis1ischen Verstandes.
determinado.
No jogo do chicote-queimado da econom ia política cllissica há
um J?Onto em que e)a deveni sempre arder. Hâ alguma coisa que ela Dtcl3rar que :.~ ~onomia ctás5ica niio pode ver cs~e:J pol1tos porque nel~• 1< lh:ht
inr.crito o .:ará~er htstórico do ruodo de produ.;âo Cllpnahsu•, e portanto o iC'J dtt- 111~
não pode ver, e is~o que e)a nilo pode ver é também o que não dtve recim~Jnto nccessàdo. e que o c::tpitalisl'ltO nJo pode tol ~Jtar o v4r Rssim .t sut\ Ulltlltl 1l1
ver. hetlte, nilo pndrria evid~nttmc:nte pnssar l)tla fonnula~âo ~o coM-eiiC' Jtrtsu •·:t~Hc 11 1
170 l.F.R. O CAPITAL DOS "MANUSCR ITOS DE 1844" A "0 CAPITAL" 17 1

r I Podermos, dcomp~rar essas expressões com uma passagem do li· do pode mante r um discurso cientifico porque escreve num momen-
v 0 · no ma o capitulo sobre o salário: to de estabilidade em que a história está de oerto modo neutralizad a.
Uma vez que .a c1·ise do capitalismo c a luta de classes se agravem,
jamà~ ~~~~~~:t~:~(~~~et~~e~~en~rri ~~~e~head,~~o .1<11s1 opoad~.de 1coi!lt! sem esse discurso deixa de ser possível e os que vérn depois de Ricardo
nâQ 5( l b d 'd ' 1
' "~a S$ 1\'C tnq~I $ Jlt0 irno bilila m-se na apologética e na economia vulgar.
en a ..p. Q dn velha pele burguesa (1. 11. p. l n).
P~ mQçlo geral , a u rna concepção historicista, concepção q ue
acompanha o conceito de crítica, contra põe-se em Marli: uma con-
m ~ ~omparaçâo des.s~as duas pussagens permite pô r em evidência cepção que ins tala a ciência nu ma ruptura radic:al com as c-ondições
eco;'on~i~ ~~~~~?!~c~ uhhzado por ~a~.,_ pura
0
pensar a limiwcão da de existência dos atores h istól'icos. O problema é en tão pensar as
. . emos aqui u detanaçao de um emendimemo ca i condições dessa ruplura . Se Marx dcte1·mi na em O Capital o lugar
tailsta (kapiralistisl'he Versrand) que não se confunde com as r p •
semações ( Vomel/w1gen) do capita lista. Ma rx pensa esse ~nt;~~~:
e
da ciência das formas da cientificidadc, po de-se ind'agar se ele res·
ponde à questão: como se chega a esse luga1· da ciência'!
~~n;<> ~~pbtahsta no modelo do desenvolvimento dos modos de pro· Em se tr:tta ndo da cconomiu vulgar, vemos que a q uestão é SO·
ç o ..• a e--se que, num modo de produção delcrminudo as for a. lucionada pela dete~minação do lugar do sujeito capitalista na
prod
mcnt
utivas "se desen vo lvem a lé certo ponto eln ,.,'1 11 e• S""u d•esenvolçYJ.'~
Wirklichkeit: se p odemos chegar a esse lugar de o nde é mantido o
? se vc ent ravado pelas
COnSIItUem o /'tmu· e pr Ópno
relações de produ••ilo Estas u'll ' . d iscurso da economia vulgar, é que já estamos nele. Por outro lado,
man'f t· r • .
·
de um modo
.
'' • • '
de produ••o I' ·1 '111185·
"" • rrn1 e que se não está re-spondida a questão do acesso ao discurso cientifico. E
k .1 ~a. 110 oenomcno ~ O hiOq UCIO das forças produtivas Q'ra 0 não creio quo a q.ue.~tão cSLeja resolvida pelus cêlebres passagens da
apualtsttsche 'Versl(md c pensado juslamcnle c<11110 \Jrn ; ,
1 'd
praduçào reórica no in lerior do qual' as forças produtivas~~~~~ . ~ lntroduçiío (}era/ ,; Cdtica ela Ec·onomia Pollt i/Ja .
p~d;a~Jbdesenvolver-sc n1é certo po nto apenas. fican do sujei ti~ ;~c;:. É sabido q ue "ssa q uestão foi problcmatiza du sub a forma de
"Teoria c História" , sob retudo pela escol~ de Delln Yol pe. Mas a
f!! li c. u solu!o p róp.no a esse modo de produção. f: nesse modelo resposta dad a por ela na teoria do círculo collcreto-abstrato-
~:~lor,_lco ,m~o-~xplocllr~do que Ma rx pens? a possibilidade e a limi· concreto o u leoriu da tra nsição das instâncias llistó rico-rnateriais ias
suç .~ '.7~rmsecas do das.;~rso da econorma políticu, prisionei r:a da insl.áncias histórico·racioatais tende a cair aquém da dislinção rndi-
.• ~ "e a pele burguesa como as forças ~rodurivas o são das reJa. ca l e-stnbe)ecida po1· Mar~ ent(c o processo de pensamento e o pro-
çocs de pro dução b u~guesas.
cesso>rcnl. )lo r um lado, as deter mi nações do abstrato e do concreto
. Scnd<o assi111, po demos allrmar com certeza que 1\(hrx nilo
1 o cun<'eito du possibilidade do discurso da eoono~ia olás 11 ~5
',a são con fu ndid as com as do pens amc nw e do real (sub·rt.p çào empi-
I ara ler condiçõe~ de formula r esse conceito será reciso ensa s~ca. rist a}. J>or o ulro, o modelo epistem ológico aqui proposto estã intei-
I~C'al cumwn .onde se bifu rc.arn a econo~~?ia políti~ clr't s•r·~, e -~ ' ~êsse ramente eivado das c:utcgorias idcolqgicas do passado , presente e fu.
turo, q ue são impostas pelo fato de qu~ o objelo que se e.Xamina (a
coa
· n1ar·x' a•t· ts· 1 '· _. · • " ' c a·n·
cláss· é • .1,
. . ·. o "·. pa ra compreen.,er a "OSsiba'
,.. · l 'td·ade
• da econonua ·
história) foi t omado s~m crírica na sua dmcrmi iHJÇ~O ideológica v ui·
.aca p re<lsO estabelecer o pro blema da possibõiid•lde d ' ' ·
em SI de sua •I· " . • . • • a cocpcaa gar. Essa rcnexão das ~ropriedades ideológicas do objeto ideológico
de. , rc ,aç.to com as condococs hrstóricas da sua possibilidn· (<)mado por Della Volpe Q.O enunciado epistemo lógico manifesta-se,
Marx não resolve absolutumente esse p roblema rcconendo a de um lado na con~pçào do movimento concret<j·abstratO·
um/a raleio entre o_ desenvolvimento da 99IIITítdiçilo inerente 110 concreto , e de outro na estrulura a1) tccedentes·con seqlaentes que
~~ f de ~r?duçilo cap1tahsta c o desenvolvimento da sua cr(tic·t
. u~ o a.qu1 aq ueles trecnos célebres em que Mru·x explica que a crf;i:
deve definir a rorma da cicnlifoddade. As r·elacões enlre as catego•
rias econômicas são assim pensadas no modelo de uma scqU~a\cia de
c.t CleiDtt ficn do modo de produção capitalista é p ossfvel a partir do antecedentes e conseqüentes situada num con ti nuo linear. Vi mos no
mo memo em ~ue esse Sistema está ele mesmo em crise. exemplo de Pietrunera como cssn teoria da racionalidade como o r·
p,,_dernos mdagar se esse vinculo en1re crise e crírim não será dem linear de implic.ações (reflexões d as propriedades do conceito
u7. r~s1duo da tdeol~gia hislo ricista caracter!stica de A Jdeologic: ideo lógico de históriu) ignorava u dimensão da ciêa1cia, e a naturcu
A w~. Essa co ncepçao ocorre em Marx ~m oposiç;io n oulra con- do p rocesso q ue é o seu o bjeto.
cepçao que. é.a da pure~a da ciência. A possibilidade da ciência cstâ Vemos. assim, que as d ificuldades teóricas levantadas pela res-
enlilo ~1gadu '' uma espec1e de pausa da histó ria. t>esse modo. Rica r- posta devem·se ao próprio modo como foi proposta a ques11io. lm·
172 LER 0 CAPITAL

põe-se-nos portanto real.izar aqui um movimento dó qual Marx nos


deu a fíguru exemJ?lar e mterr~gar os próprios termos da questão, e
sobretudo o conce1to de h1s16na. Se não formos capazes de solucio·
na r o pr~blema. saberemos pel.o menos em que rerreno ele pode ser
resolvido. o de um conc.elto d 1fcrente de história.

Plerre Macherey:

A Propósito do Processo
de Exposição de O Capital
(o Trabalho dos Conceitos)

"No limi:tr da ciência como no ve:;libulu do inferno",

Pttfácio da Contrilluiçôo à Cdtic'a


do Economia Política
Processo de ex,posiyào é aquilo q ue a rrnnja o discurso de acor·
do com o movimento rigoroso de determinado saber! não se trata do
movimento de uparccimcnto, o que descreve o s u1·gimento do saber
(como se sabe. Marx d istingue processo de exposição e processo de
investigação). mas esse movimento, diferente. da formulação dosa-
ber, movimeot o que não se deve confundir facilmente. com o a to me-
cânico de uma classificação o u ordenação,' movimcnlo autôn omo '
que deve ser regido pelo' seu rclacionamenlo n leis próprins .
Esse processo pode ser estudado em seu próprio movimento: ao
refazer o processo da exposição, é possível perceber sob qué condi·
çôes essa exposição t possí.-el, de q ue princípios objetivamente ela
depende. ·

• Ra.z.ii.o pela qua 1 evitaremos o má.xil"lo pouivd falar de uma <Jrdtm de exposição.
1 Lembremo$ que ilutôthlmo não é si~ônimo de independcntt: u pro..:es.'So do conhe~
cimento ê C.SI)ocifico, mas nAo é separad<>.
O PRO<:ESSO DE EXPOSIÇÃO DE "O CAPITAL" 175
174 LER O CAPITAL

contribui com novos conceitos e novos métodos); mas se diferencia


Entretanto, colocado dessa maneira, o problema fica muito também do qu e se segue: o p robleriw do ponto de partida é intei~a­
a mplo : é o problema clássico do plano de O Capital. O conhecimen- mente original; esclarece-nos sobre a estrutura de conJunto do d ts·
to desse arranjo do conjunto é essencial, e parece constituir uma pre- curso. precisa mente devido à sua posição privilegiada, graças à qual
liminar necessária à leitura de O Capital; todavia, essa preliminar certos problemas de método irão situar-se sob uma lu~ mais direta.
não deixa de ter também um preâmbulo: paradoxalmente, ela de-
pende de uma leitura feita segundo modalidade muito diferentes. Tudo isso implica uma certa concepção da exposição científica,
Antes de saber como se passa de um livro :t outro, de um capítulo a uma certa idéia da çitnçia. A opção de explicar o início~ tambchtt re-
outro. é preciso saber como se passa de uma palavra a outra, ist<' é. de gida por determi nada idéia d a ciência: a explicação da pas~agem I,
um -conceito a outro (visto que, num discurso cientifico, as palavras I, 1 será uma explicação epistemol6gica. O ~ueserá neccssáno desta·
devem ser tomadas por conceitos). Essa leitura pormenorizada não car do ponto de partida não é, como o fanarnos por dedução, a ~e·
pode recair, de início, sobre a tota lidade do texto, mas apenas sobre qüência do discurso de Marx, mas cmsa 1n teuamentc d1versa: aqmlo
u ma das suas partes. Essa leitura parcial, da qual se deve partir, não que o preced~, a saber, . as suas condições. • Assim é que. a questão
pode também ser uma leitura qualquer: aprendizagem da leitura s uscitada nessa leitura de um parágrafo parece bastante Simples: em
com base numa amostragem aleatória. Ela será por princípio a lei/li· que .; cientifi-co o discurso de Marx'? Pode-se perceber essa carac·
ra á n começo. tnf.çfica desde o inicio'!
Essa questão é sobremodo diftcil: ~e ~ato, não é posslvel rela-
Colocar a questão do processo de exposição pode por· cionar a exposição de O Capital a urna 1déta da c1êncta dada ~m se-
tanto dizer-se em outros termos: empreender uma leitura rninueiosn parado, que foss~ determinada em si mesma. à parte. Em realidade,
do in ício do texto f, I. I (pp. 51·56 do texto f ra nces dns Edit ions So· a idéia de ciêlllcia de que depende a estrutura do enunc1ado anuncw·
ciales). se como uma idéia nova. como um começo. Ma rx não desenvolveu
Essa transposição da questão deve ser justificada. Ela obedece a umu exposição à partir de certa idéia adquirida; ele pretendc.u a um
várias razões essenciais: pura percorrer rapida mente o ca mi nho des- só tempo constiluir umu idéia da ciência e realizar um dtscurso
sas razões, digamos qu4 Marx atribui importância determi nante ao cien tUico: um não vai sem o outro, e torna-se evidente que não P,O·
po nto de partida, que essa distinção implica certa concepção e certa dcria ser de outro modo . Esta a razão pela qual não se trata de estu-
prática da exposição cien.t.ílica, que exigem u m modo de escrever, dar por si m~mo o processo de exposição, tanto quanto não é possl-
um estilo científico original, que essa escrita exige 11111a leitura que vel expor à parte e em seu conJunto a conc~pção e a estrutura de
lhe seja de acordo, e, enlím, que essn leitura se aprende precisamente conjunto de O Capiurl, a teona marxtsta da ctêncta. Essas teonas se-
no ponto de partida. guem juntamente com a sua prâtica; é ne.cessário en~eredarpelo ca-
O privilégio do ponto de partida é uma ca racterística do méto- minho dessa prática para traçar o da teona que perm1te explicar essa
do de Marx . Antes de expor esse privilégio. a ntes de explicá- lo. será práticn. Com isso vemos desde já em que Mar\ro'?"pe ~om cena
conven iente simplesmente reco>rlwcé-lo: é sabido que Marx dedicou conccnçiio, oom umll apresentação cláss1ca d~ ct~ncta: nao há dis-
um cuidado especiallssi mo ao primeiro capitulo de O Capiral; en- curso sobre a ciência antes do discurso da e>ênc1a, mas ambos ao
cont ramos traços deste texto desde os primeiros rascunhos da Con· mesmo tempo, o que não significa a firmar q ue ambos se confun-
1ribuíçào. e esse projeto é sempre retomado, corrigido, refeito, até ns
últimas edições. a ponto de podermos nos perguntai' se foi realmente dem.O valor p rivilegiado do ponto de partida . ' fitca·se entao
. JUStt - fac1'1•
conc luído; é como se ;1/larx nunca tivesse terminado esse co meço. mente: é com bnse nele que poderão ser dlstlllguid~s (mas ~ào sepa~
M;1s, como veremos. o discurso científico udquire valor mais do seu radas) essns duas "coisas" que seguem necessariamen te JUnlas: a
inacabamento real do que da a parência de obra acabada. teoria e a prática da ciência.
Essa dificu ldade de terminar o começo não decor re de que tudo
devia ser dado no começo (desenrolando-se em seguida a exposição
com o que a partir de um germe): uma concepção de tal modo 01gâ·
nica do discurso era totalmente estra nha à idéia que Marx fazia da
insli tuição do saber. O começo tem o valor de uma colocaçtlo: um ) Tralu-sc::. pois... também de dar à idé1a. de tl>istemologia"uma n~va s~gniricaçUo; . as
çondições que ela assume por objetm nílofiAO apenas ('On dll;ôc~ ranona1s; são tambêm
arranjo dos conceitos, e do método (de <tnálise). Esse corneco tem <"Ondi-çõcs objeti vas.
um duplo va lor inaugural: ele rompe com o que precede (dado que
176 LER O CAPITAL O PROCESSO 0); EXPOS IÇÃO DE "O CAI'ITAL" 177

Mas a explicação do começo pressupõe um método de .l.eitura. controlar de direito o processo dos conhecimentos cientUico3, c por
Donde uma nova questão: como ler um discurso cientifico? Como sua impo tência de fato para solucionar os problemas. Se urna filoso-
ler a ciência num discurso~ fia ê significativa do ponto de vista histórico. o é na med•da em que.
To da linguagem científica define-se pela sua relação corn nor- por suas dificuldades específicas. permite determina~, de certo modo
mas de validade: essas normas é que determinam as formas de lcitu- materialmente essa contradição. O emprego cláSSICO da categona
r<l dessa linguagem. Contra todas as técnicas c ideologias econômi- do mé1o do of~rece um exemplo caracteristico desse tipo de proble-
cas, Marx apresenta O Capilal como um empreendi momo teórico: a mática filosófica. q 11~ s~ redvz a u m problema mal elaborado: em
q oestão é saber em relação a que normas essa teoria se define como Marx, não há, e a rigor não pode haver. questão de método estabele-
teoria científica, e dedur.ir dessas normas uma ou várias maneiras de cida à purte. •
entrar na teoria. Uma obra teórica pressupõe, de fato , um modo de Podemos considerar a lógica de Heg.cl com <> a aprcsen taçao
apreensão por sua vez t!lÕrica: para que se adquira um saber. impõe- acabada, a (l iti ma, dessa lógica filosófica: aca~ada, porque _assume
se que preliminarmente sejam iden tificados os problemas a queres- as condições dessa lógica em toda a sua generahdadc, c lam_bem por·
ponde esse saber, e sejam determinadas as condições desse saber. que r~soltoe todc>s os problemas, transform;mdo essas d1hculdades
Esse programa, que nada tem a ver com o de u ma teoria do co- em respostas. Mas nessa forma necessar~amente derrade1ra. a fil oso-
nhedmento (esta última depende de um domfnio muito particular fia especulativa assume novo sentid?: c~nvertc-se em p~n~ Ide-
que é o problema da verdade) deve ser de fato cumprido por filóso- ologia cientlfica. Pascul, Descartes, Cond> llac e K1~n1 proctn aram
fos, como o explica Althusser. Mas essa tarefa pressupõe uma defi- determinar as condições nas qua1s certo estado da .c•~nc1a podm ~er
nição muito rigorosa do trabalho dos filósofos: "a filosofia como considerado COilfiO definitivo: patenteando cond1çoes ncccss;ll'la·
co ndição de intcligibilidade do próprio o bjeto de uma ciência''. A fi. mente insuficientes, deixavam ver em transparência, ta.citamente, a
losofia nada mais é do que o conhecimento da história das ciências. possibilidade de condições diferentes. A resol~çâo unam me doscon·
Filósofos são atualmente os q ue fazem a história das teorias, e ao nitos oper<~da p or Hegel conta. pelo contral'lo, com c.en~ saber
mesmo tempo a teoria dessa história. A problemáticn da filosofia é, constituído ' do qut~l faz um sist~m~ absoluto: as _con~rad~<;~es. s.ilo
pois, dupla, mas indivisa: filosofar é estudar em que condições e sob eliminadas com base nessas propnas contrad1coes. · A d1ale.uca
que condições são colocados os problemas ciendficos. Para o mate· pode então ser apresentada como o advento e como a scxta- le1ra
rialista, essas condições não são puramente teóricas: são em primei- santa da contradição. Resta à filosofia apenas a funcão de constnur
ro I ugar objetivas e práticas. uma imagem do acnb:~do, do definitivo. _
Uma defin ição de filosofia como essa sem dóvida nilo é eviden- A filosolia -especulaliva, assim terminada. numa graudtosa c.o n·
te por si. Muito pelo contrário, ela parece chocar-se contra a heran - denação à morte, não passa a finul de um d isfm-çe parado_xal da Ciên-
ça filosóficn t radicional: nílo se trata apenas de aparência, mns de cia em ideologiil, em técnica: ou autes 1 na base de uma 111versilo do
uma situação concreta que exprime uma necessidade de direito. De sa ber científico em tecnQiogia (a ciénc1a cons1de1·ada como um con·
fato, qual tem sido até aqui a contribuição da filosofia, 1'\ãO para so- jumo de l'esultudos, aquisições, col.ocados. ordenadQs numa m~n~a
luciona r, mas para formular o problema dos problemas cientfficos? linha], um disfarce dessa tecnologia em conhecmte11to. ti a propna
idcol o~ia de urna ciência (essa tentação nccessána que ela tem de
Na forma clássica, isto é, grosso modo nté inícios do século
XIX, esse p roblema se apresenta em termos de legalidade (ideal) e consid~rar-se c10mo <~cabada) q ue passa por urn s aber, substitui um
conhecimento. conhccl ntenlo cuja au:;êncin ela precisamente assma-
.de realidade (natural): tudo diz respeit o à rela.çilo que se estabelece
entre esses dois termos, na man~irn (ou nmt:l> no grnu) pela qual são la, e oculta.
Por essa inversão, que trllllsform3 as d ifi~uldadcs do saber em
identificados um com o outro. O rigor da demonstração é determi- soluçõe,q, que transforma as q uestôe:l em rcsposws, que apresenta a
nado pela combinação do racio nal com o real, ou pela confusão de
ambos. A isso é que corresponde o ideal de um espírito geométdco,
pela construção de uma otdem de proposições em harmonia com
uma ordem nawral: das proposições "primiti vas" aos teoremas ela· • Com a ambigUid~tde que essl\ noção ua, na fílosoria hegcliana! t~~ber de si Q\IC é pot
borndos: do simples ao complexo. Os conceitos da ciência determi· t!UO mesmo lámbeim 1-11bt.r de H.Hio.
nam-se pela sua raciona lidade e realidade: a partir dai, elabora-s< ' Pode direr-se de rnodu geral que todo emprecr.dimt-~HO de desmistiticaçâo e em su:t
toda uma filosotia da ordem, que se define pela sua pretensão d< nalu tt!tt' mhtificador.
178 LER O CAPITAL
O PROCESSO DE EXI>OStÇÃO DE "O CAPITAL" 179

lacuna em termos de plenitude, todos os problemas clássicos da lógi- carta a L.a Châtre, de 18 de março de 1872 (prefácio da tradução
ca são, não resolvidos, mas suprimidos: francesa de O Capital):
. . I} A natureza dividida. do conceito é unificada em sua própria O mêtodo de análise que cmpr(guei e que até ernlo não fora aplica·
dtvtsão. reconcthada: o ractonal é rea l; o desenvolvimento de uma du a.;,s t~mas econômicos torn{l muito árdua a lt:iturà dos primeiros capf·
1ulns... Nã'' M <::aminho real para a ctência c só têm poss1bilídade de;uin ·
e_xposicão rigorosa é acompanhnda pela produção do seu o~jeto. giros seus cumes luminoso$ aqueles que não temem ao; fadigas para g.JI·
Em conseqüêncta (e n:lo ao mesmo tempo}, o renl é racional: a dedu· g á~los poOI' veredas esct~rpad:as.
<;ih) do conceito não é ao mesmo tempo dedução do real. A simetria
está na sua essência enganosa: pode-se apenas dizer que ao mesmo O texto inacub;ldO da in trodução à Conlfibuicão (1857) nos dá,
tempo que o conceito se deduzem fundamentalmente os conceitos quando não os princípios. pelo men os o programu desse método. O
do conceito se deduz o real (também, no desenvolvimento do con: rigor cientifico consiste na eli minação de tudo o que permita con·
ceito, a. rculidade o·corre sempre a título de exemplo, de ilustração). fundir o real com o pensado: elaborar uma exposição cientíllca não
Du rac10nahdadc do concetto, que~ a sua realidade deduz-se a ra- consiste em achar uma combinação entre eles, ou em deduzir um do
ci.onali dade do renl. Dado que, no conceito. racionalidade e realida- outro , ou melho r. misturâ-los. Do ponto de vista materialista, o co·
de se identificam, fora da/e o real é racional. nhecimento é um efeito determinado do processo da r9alidade objeti-
2) O problema do ponto de partida é suprimido no mesmo en- va: nilo se trata de um duplo ideal. A questão passa então a consistir
sejo: processo real e proce8so de exposição confundem-se. Pode-se em snhcl' como se produz um conhecimento.
tndtferentemente partir do que é mais interno ao conceito e do que Fazer uma oeiencia da realidade econômica equiv;1 le a construi r
lile 6 mais externo (experiência sensível}: suficiência e insuficiência urna exposição mediante conceitos; teoria é um arranjo de conceitos
do ponto de part ida são as condições equivalentes de uma resolu- em proposições, e de proposiç~s em seqUc!ncias de proposiç.ões sob
ção; é desse modo que se passa da fenomenologia it lógica. forma demonstrativa. A questão essencia l não é, pois, saber se vu·
Dessa maneira o problem a cl:lssico da conformidade. da reti· mos partir do real ou a ele chegnr. 'O que se impõe é encontrar os
dão do rac.iocínio, é, como se diz, dialetizado, mediante a eficácia do conceitos c as ft>rrnas de raciocín io que permitam formular proposi-
sistema de resolução. seja qual for a ordem nutural. · ções certas: é a questão que têm diante de si todas as ciências no mo·
menta em que enveredam pela senda do seu rigor. Não cabe mais in-
• dagar se os conceitos são rea is ou se o real é racional. A máxi ma he·
geliana não é inverlida, mas eclipsada nesta outra:
Com Marx, algo se passa de essencial na história das ciência.~ e o real é real: materialismo dialético
na teoria d.essa história. • No surgimento de uma ciência nova, que,
sem repu<har o modelo matemático, lhe atribui um lugar inteira- o racional é t:lcional: dialética materialista
mente novo (um tanto à maneira de Spinoz.a, que só recorre ao more
geometfico para lhe dar um sentido original), são concretizadas as
Essas duas proposições não estão subordinadas uma à outra;
condtções de uma nova problemática da ciência, da primeira proble- sào idênticas. exceto em que se situam em níveis di ferentes: a segu n-
mática materialista da ciência digna desse nome. De fato, O Capital da está estritamente subordinada à primeira.
A ciência é um pr<>cesso de pensamento. Porta nto, ela deline
as~tn~la o momento de uma mutação ao nível do estatuto da própria
CJ>CI1Cl3.
uma forma de exposição que não se confunde nem com o processo
real, nem corno processo de i nvesligâ~ilo de qüe ~o resultado. Não
Marx percebebeu que inaugurava, na ciência econômica ' uma se trata de simp les inversão, dado que o problema assim formulado
forma nova de e~ posição, à qual dá o nome de método de onÍliíse na é radicalmente novo (mesmo que ten ha sido solucionado de fato na
•. Evident.~mente, não se reduzirá u Obr~ de Marx a um uconteç1mento da história das
etêncl,as. no clcm(nlO v.uro ~o pensamonto·•: nuu a revoluç-Jo operada por Marx
ta.m?C'm passa por esst hu;tóna, (!ue arrebata ao seu estatuto de hi.stóriã puramente • f:. de reMo. eviden1e que se parte. d() real; mas i!so nlo permhc dizer o que QUtl' qut::
teónca.
seja $Obre a fnrma que esse ponto de partid::t assumirá: orú, isso constitui o problcmu
l\:io no ~er.reno da ciência econômica, mas, ao lado dele, no quadro IJn\'0 de uma
1

esse:1.;ial.
pr-oblemáttca do modo de produção.
180 LER O C.~ P I TAL O I'ROCESSO DE EXPOSfÇÃO DE "0 CAPITAL" 181

pratica de certas ciências): trata-se de encon trar instrumentos para ma do racioclnio. Essas palavras, pelas quais passam o sentido e o
pensar as relações materiais da rucionalidade do conceito com a rea- rigor da exposição, poderão acaso nos servir de senha?
lidade do real. A lógica dássica mostrava, ex ibia. as condições nas Para além, p ortanto, da preocupação tradicional com u ma in-
qua is esse problema podia ser equacionado: a filosotia hegeliana foi terpretação c uma explicação, será preciso d eix,ar o que à p rimeira
e laborada para o eliminar. Essas relacões devem ser pensadas e m vista parece o essencial, o conteúdo, ' para dar atenção, uma aten-
novos conceitos. Toda a questão consjstc em saber se esses conceitos ção míope, ao próprio pormenor da escrita. Esse método não ê mu i-
aparecem em pessoa em O Capllal, ou antes. s~ co meçam a surgir to original, mas talvez não tenha sido aplicado ainda a O Capital.
nele. Consiste em ler, nílo com outros olhos, mas como se fosse um texto
1?. para responder a essa q uestão q ue~~ impõe aprender a ler intei ramente diferente, no qual o que salta aos olhos é aquilo mesmo
CJ Cnpirol: de fato, estamos habituados a um a leit ura hegeliana, que que cai como um re-síduo ao ver da tradição, e assim lhe escapa (ao
consiste em interpretar os conceitos imediatcmcnte em termos de passo que essa tradição acredita estar segura do domínio da t~cni·
t•ealidadc. Essa leitura não é de modo algum a rbitrária, na medida ca). Leitura como essa é rigorosa, isto é, não é arbitrí~ria, mas nilo é
e m que corre~ponde bem de certa manei ra a<> problema que Ma rx também exclusiva. Nem é a única leitura possível de O Capital, nem
enfrentou ao escrever O Capiw/; por muito tempo, inclusive ainda a melhor: é. por assim dizer, um a rtiflcio provisó rio que -permitirá
e m 1858 (vejam-se os primeiros rascunhos da Contribuição), ele teve extrair, d o interior do texto , alguns dos problemas q ue Marx teve de
de resistir, ao mesmo tempo que cedendo, à tentação de urna escrita solucionar para escrevê-/o.
hegeliana. Se Marx encon trou de fato o meio de s uperar esse ob~tá· De resto, aos dois tipos de leituras (leitura de oantcúdo e leitura
cuJo, isso por si nos dil o p ri ncípio de uma k itura nova. Trata·sc de da fo rma) corre..~pondem duas escritas. ao mesmo tempo distin tas e
verificar na letra do texto de Marx as Nndições de uma escrita simultâneas. Marx escreveu O Copilal em dois niveis ao mesmo tem-
c ient iflca: não apenas atrav6s do estudo elas correções suces$ivas po: no nível da -dissertação econômica (na qual os conceitos são ri-
(que são o e•ato oposto de retratações: as fases de uma pesquisa n· gorosos na medida em que estão em harmonia com determinada
gorosa). ma$ no a rranjo do texto definitivo . prá tica cien tmca e possibilitam a apropriação do real pelo pensa-
mento); no nível dos instrumentos da dissertação, dos meios da es-
A ideologia hegeUana tem por correl:no (parndoxal7) uma Jeitu· crita, que determinam a condução do raciocínio. Também esse se-
ra rea/is1a dos textos científicos: atravês do conceito, ê 9 conteúdo gundo nfvel possui os seus conceitos: os conceitos da ciência, sem ps
<JUe tran~parecc. Lê-se como se as paJa,-ras fossem furos na página, quais nada pode ria ser lido 1~em escrito, e que corrcspondem à teoria
l>elos q uais anora a realidade; o u então fl·estas atra\és das quais, da prática cientí fica precedente (aquela que define o primeiro nível ).
Jluma especic de voy eurismo cspec.ulativa, possa cstudnr se o proces·
4

Isso não quer d izer que uma ou outra dessas espécies de conceitos
so real. De resto. isso coue.'lponde bem à atitude cientílica es pontâ- a
leva melhor sobre a outra (por exemplo: os conceitos de conteúdo
nea, para a qual o conceito só tem a tra tivo enquanto sucedâneo da seriam a matéria da dissertação, quando os do segundQ nível teriam
pr6r1rin coisa. a penas um valor "operatório", isto é. instrumental): impõe-se ver
Para encontrar o cam inho do conceito e preciso, pelo cont rário. que elas seguem necessariamente juntas. que nenhuma página de O
dar ênfase ~quilo que na linguagem não cot·re o risco de confundir- Capiral teria e:tistido sem a colaboração o u o con Oit<> delas.
se com uma realidade que a linguagem cient illca exclui ao mesmo De fato, se estudarmos a tenciosamente as correções que vão do
tem po que reflete: o que deve excluir, mas não evidentemente an ular primeiro esboço da Contribuição ao estado final de O Capira/, ir~
ou suprimir, para o explica r. mos perceber q ue Marx, retomando i ncessantemente a dissertação
para lhe dar um.a forma nunca definitiva (dado que sempre dá a im-
Porta nto. é preciso ler o que uma leitura ingên ua deixaria de la· pressão de a ler refeito), fez o traba lho de um escrito r c ientífico, ten-
do. como resíduos, o que nào sendo real d iretamente, nem estando do por horizonte a página dn escfita. Devem<>S achar a correspon·
no lugar do rea l, e apenas considerado como instrumento de uma dência dessa página de esct·ita com uma pâgina de leitura: passando
racionalidade. quando se trata, para além de q ualquer confusão, do por alto um trecho, não para ler nas entreli nh as, mas para perceber
prÓJHio racional . E.m vez. pois. de ler as pu lavras para ver onde elas
devem ter jogado a âncora, ou a tinta, iremos nos interessar pelos in-
termedi ários, por essas ligações que são o próprio lugar da demons-
tração, pelos conceitos que determinam de modo tão material a for- " O idealismo é que reduz a re.alidadt mllttrial a mero conleúdo.
LER O CAPITAL
1&2

0 ue não se tem 0 hábito de ler nessas mesmas linhas, te.m~s de no~


qf ara ver como se arranjam maten almente os d1ferentes
es orçaros Pdiferentes tipos de conceitos.
níveis · • se trata de. es-
Contu d o, nao .
tud!ar 'um trecho ao acaso, só pelo seu valor de ~rag?'ento; Por hiPO·
trata-se do começo , do que é dado nas pnme~ras pag1~as. que
~e:~~ ser mais significativo, pois é ali talvez que a cxposlçã_o ~~entifica
experimenta a mais perigosa aventura: a entrada na menc.1a. d
o 1 to 1 1 1 de O Capital do qual se trata, como v1mos, e
um::x li'ca~ão literal, pod~ ser decomposto em três partes de
dar â Pd ·
1mp ort neta cs1guu .
1 A un'1dade do texto lhe é confenda pela 'dcons·
1 é
· d 11m único método· teremos de indagar se essa un1 ar e
~f~~~s ~u complcxa, e se o ~1étodo é tão peculiar quan!~ se pretcn·
d No todo dir-se-á que Marx empreende u~a uualtse, que s.e
a~iicu s ucessi'vamen te a três objetos: análise da nqucz.a (quatro P~~­ I. Ponto de Partida e Análise da Riqueza
neiras linhas) unâlise da mercadoria (até o lim da p:ig1na 52, na e •-
~0 francesa das Editions Soeiale-s), análise do valor. D~vemos estu-
dar separadamente essas três análises, o que nos levara necessarta·
mente a indagar como se passa de uma a outra.

I. O pomo de partida é o que há, teoricamente, de mais dificil:


"Em todas a.~ ciências (I começo é árduo" ( 1• prefácio, p. 17). Esta a
razão pela q ual Marx reitera as advertências: a leitura do primeiro
livro, e sobretudo do primeiro capitulo, ê sobremodo penosa, e ele
se preocupa com essa dificuldade em especial para o leitor francês;
foi por isso que esse cnpítulo sofreu inoessantes revisões. Marx tudo
fcr. u seu alcance para da1· a essas páginas uma apresentação acessí-
vel; mas, conforme ele mesmo confessa, há um nível de. dificuldade
q ue não pod ia ser reduzido. Não era possível deixar a dissertação
'científica para mais tarde, p recedendo-a de uma iniciação, de uma
apresentação vulgarizada (e porta nto não-rigorosa) ou de uma pro·
pedéu tica ao método: sabe-seque a fatitosu introdução da Contribui·
cào, sit~-nificativamçnt<;: inacabada, não foi retomadn em O Capfta/.
Não há portanto in iciação ao objeto, não há introdução ao método:
apenas c!Siimulnntes prefácios. É preciso Rntrar diretamente na ci~o·
cia: começar pelo que Marx chama de "análise dos elementos", pela
"análise micrológica'' (prefácio da primeira edição a lemã). Essa
análise rccni sobre os conceitos mais gerais~ os mais "abst.ratos•·.
Esse texto. q llle coincide, quanto ao essencial. com o da introdução à
Co11tribuiçào, ensina-nos que o começo du ciência é silbito: "A abs-
tração é a í1nica força que lhe pode servi.{ de instrumento" (p. 18). O
O PROCESSO DE EXPOSIÇÃO DE "O CAPITAL" 185
LER 0 CAPITAL
184
Adam Smith. Tudo se passa como se ela desempenhasse aqui 0 pa·
livro não se inicia com uma passagtm. mas com uma ruptura: é pre- pel de um len?brete: entende-se habi tua lmente por econllmia política
ciso estar habituado à prática teórica p;Ira dar esse salto . o ~studo da rtqueza; se partimos da idéia de riqueza, vemos que essa
Uma vez definidos esses principias de exposição. resta saber 1de1a se decompõe ..; Mas esse conceito não tem, evidentemente, va-
como aplicá· los. Urna ciência determina-se pelos seus objetos e seus lor por SI mesmo: e profundamente transitivo; serve para passar a
métodos, que mutuamente se delimitam. Para q ue se possa começar outra e01~<1, e _em p,artlcul'!-r para lembrar o víncul(>com o passado
pela mªior abstração, é p reciso q ue essa deli~itação sej a dada de da pesqu1sa ctenliftca . Essa funGilo cvocadora mostra bem que 0
início. Em outras palavras: quais são os conctltos sobre os quats a conceitO não deve? s~~ primeil·o lugar ao rigor, mas, pelo contrário.
ciência irá trabalhar" Donde eles prov~m? ao seu cará~er arbltrano. Ele manifesta, por s ua evidente fragilidn·
O ponto de partida deve ser rigoroso. mas não pode ser de ma· de, a necessidade de falar de outra coisa, de entrar nesse difícil cami·
neira a lguma enigmático. Isso equivale a dizer que ele deve ser a nho <J.UC só avança a pnrtir do esquecimento de tudo o C(UC precedeu.
própria int rodução a si mesmo: ou ele não tem de ser j ustificado (do , Ess: ponto de partida precário. dado numa paluvra, em três li-
cont rário estaríamos envolvidos numa regressão ao infinito), ou en· nha•: p~l~ em CV>~ênCI3 Uma das co.ndições fundamentais do rigor
tão é sem j ustificação, é inj ustificável. arbitrário. Com efeito , o pon· c~enllf>C~>. os conce>.tos sobre os quais trabalha a racionalidade não
to de partida da exposição de Marx é deveras surpreendente: o pri· sao equ1v:~.ie.ntes, situados num mesmo plano de inteligibilidade;
me i ro conceit o, aquele do q ual todos os demais irão "sair". é o con· pelo corllr.tr.Io, silo necessnnamente heterogêneos: só se correspon-
ceito de RIQUEZA. Não se trata. evidentemente, de uma abstração
científica, mas de conceito empírico, falsamente concreto. p róximo
dem na medoda :m que estão em ruptura uns em relação aos outros.
Depararemos nao poucas vezes com e.;sa condição.
daqueles que a /mrodução nos ensinou a denunciar (vej a-se, por , ~~. ~ I":I()CI ~a .idéia de riqueta pode ~jnda ,compreender-se por
exemplo, a critica da idéia de "população"). A riqueza é uma abs· contr •.IStc. C?m efe1to, esse ponto de pnrt1da m10 ê médito na obra
tração empírica; trata-se de uma idéia: falsamente concreta (empíri· d~M;:rx; ~Ja a parttr dele qu~ nos Manuscritos de /844 empreendia·
ca). incompleta em si mesma (ela não tem senudo autônomo. mas Se ·' rcl1exao sobre a economia. Naquele momento, Marx retomava
apenas por relação com um conjun to de conceitos que a recusam). A aos e~~nom1stus o conceito de riqueza, porque esse conceito merecia
riqueza é uma noção ideológica, da qual à primeira visra 11ada se pode ser cr2ucadlo: o valm· dele deco rrin da crítica. Realmente, u ma análi·
t:rt rair. Do ponto de vista d o processo de investigação (o trabalho se (~ao mecâmca, c01~10 e ? caso em O Capiral, mas critica) desse
da pesquisa científica), ela constitui o pior ponto de partidu. Apa· con.cello p~mha em ev1d~ncoa a C(lntradição que ele abriga. A riquc·
rentemen te, o mesmo não se dá com o prooesso de exposição. dado za e ao mesmo tem po pobrezn: a riqueza das nações é também a
que é a partir dela que Marx apresenta os conceitos [undamentais da pobreza d a s nações. U mn. ''ez explicitada. exibida essa con tradição
sua teoria. Que se deve pensar desse infcio1 pela crfuca. podou-se considerar o conceito comofecomdo: mediante
Várias observações permitem responder a essa q uestão: a reso!uç:lo d? con t~ndiçào. era possível produtir n ovos conceitos,
A) Marx só pede :1 essa idéiu o que ela pode efetivamente pro- ple.n?s de 111a1s SC?IldO. De falo. nos Manuscrito.t, partindo dessa
duzir. Ao conceito empírico ele aplica uma anãlise empírica: decom- a~ahse da.cont~ad oção co/l/ida na idéia de riqueza. Marx chegava a
põe a riqueza nos seus elementos, no sentido mecânico do termo (a p~r em evodcncw o "fato ec·o.nômico atual": a pauperi~ação e. com
mercadoria é a forma uelemcntat''. celular. da riqueza); a riqueza ela. o !ra.b:olho aioe.nado. ass1m apresentados d ialeticamente. Pelas
nada mais é do que uma acumulação de mercadorias. A idéia é "ex· v1as c lussicàs da analosc hegcl iana (o menor paradoxo dos Manuscri-
piorada" nos seus p róprios limites; não se \rala de faz.er com qu~ ela to.•: ~ q~e·o· ~é~odo hegeliano seja nele .veernçn.t~nwntç den11nciado),
diga o q ue não pode dizer. :l::larx chcg.ov.l •I fazer co1;n que o conceito (var.10) de riq ueza produ-
z~ss: c:rto saber: a lun<,;áo do conceito não consistia em sua preca-
B) Essa idéia. na medida em que nos contentamos assim com o
ned,I?c, .mas em su~ essenc1ahdade, dado que nele se verificava toda
descrevê-la, sem nada lhe acrescentar. sem dotá-la de um segredo " csscncoa dos renomenos.
que ela piedosamente eliminou, não carece de justificação: ela nada , .-"tanifcslamente: Marx f~z do mesmo ponto de partida, em o
di'l. além do que a sua insuficiência comporta. Ela é portanto um <-apual. uma utihzaçao bem diferente: não mais lhe aplica o método
ponto de partida. se não legítimo. pelo menos prático: é o objeto
empírico. imediatamente dado, da "ciência econômica". Precisa- de r~so l ução (das contradições), porque essa resolução. ao exibir a
mente por essa razão ela dava um q11adro, por exemplo, à análise de realodade de um;t " a parência", é no fundo a maior il usão. A resolu-
186 I. P.R 0 CAPITAL 0 I'ROCESSO Ot: ~XPOSIÇÀO DE "O CAPITAl.." 187

cão f"z aparecer como fecu nda uma id~ia na qual de fato nada há. análises ulteriores, e que caracteriza o pormenor da operação da
pelo menos nada mais do que se lhe introduziu . As .. contradições" análise: esse vocabulário, o u repertório conceptual , também sofrerá
da ri<1ucza agora nada mais tem a nos ensinar. Marx já não utiliza a mutações ~igniiicativas.
idéia pela sua pretensa fecundidade, mas, pelo contrário, pela sua Trata-se de termos que ligam a " matéria" da análise aos seus
esterilidade: ele fará com que d iga precisamente o que nela se cola· produtos: "A riqueza .. . anuncia. .se como como uma imensa acum u..
cou. sem procurar, através de um a critica. os seus pressupostos ou laçào de mercadorias". Essa expressão possui um sem-núm ero de
condições, mas indagando o que ela tem a d izer. o sentido que se lhe equivalentes. que, no conjunto. detõnem uma mesma unidade se-
deu. !Eis por que nào lhe aplica, do exterior. uma análise crítica. mas mântica:
apemos a análise mecânica que lhe convém. recortando-a conforme
vem ao mu ndo sob a forma de
wa.< pró[>rlas linhas. Desse modo é suprimida a ilusão ?e uma reile- apare<::e como (erscMinr al.r)
•ào d<> conceito sobre si mesmo (vuradoxalmente sohdána com a anuncia·se como
stw di~solução). e da produção espontànea. por descnvoll'imento, de apresenta-se como
um saber novo . A idéia de riquczn nada nos pode ensin~r a mais do à primeira vista aparece
que o sabium os que a l'ormarum. por um saber muito empírico q ue é p ri meiramente (ist zunlic/w)
se assemelhu at) que Marx chama tartlas vezes de: ~<roti na": a riqueza apr·esenta·S< sob o aspecto de
é uma coleriío de mercadorias. Dessa maneira. o ponto de partida é
suficientemente arbitrário para que não nos arrisquemos a tomá-lo
a sério. e é bastlmte .. imediato" paru que não tenhamos necessidade Essas expressões designam um mesmo conceito, que caracteriza
de lhe procurar as razões, o que nos faria esquecer de o esquecer. e deli ue • operação de an álise. Trata-se do conceito de forma: li mer-
O produto dessa idéia estéril. a mercadoria, "elemento da ri- cadoria é a j'omw <'ft'llll'll/ar da riqueza. A análise é u m tipo particu-
qucza10, é de início um conceito da mesmu natureza que o de nque~ lar de rcla.;;iic> que aproxima termos segundo uma ula(ão de forma.
za. Porém, não mais suscetível de um corte empírico: será. pois, pre- Pode-sé dar uma definição s imples dessa relação:
ciso trabalh:i-lo pela "forçuda abstr·açào" , <l q ual Marx dá aindu o se " aparece como b, d ir-se-â por definição que
nome de un:ilise. Essa análise n[il> poderá ser necessariamente dó b é a forma <le a
mesmo tipo que a r)recedc:nte. c não será to~nviu uma.aruílisc crítica a é o conteúdo de b
(que desmonte ao mesmo tempo c denu nclc o C<mccoto): será uma Exempló (vcjao~sc muis adiante: rH> lcxto):
pesquisa dos requisitos, que acabará lll'ectsamentc por depara\· a o valor aparece como relação de troca entre duas mercadorias
contrad ição, mas contradição muito diferente do modelo hegehano a relação de troca é a fomw do vnlor
de contr·adição. Ao mesmo tempo, pois, que o conceito de riqueza o valor é o comeildo da relação de t roca
será abandonado, o d~ mercadoria será transformado, segundo o
programa desenvolvido por Engeb n~ prefácio da ediçâlil ingles?. Outros exemplos (que mostram que 11 noção de forma não é
A análise do ponto de part1da, an ahsc no ponto de partrda , nao simples, mas complexa, dado que pode ser diversamenLe especifica-
da):
esgota portanto o se11tido do método de análise. Assim como o con·
ceitoJ de riqueza, a análise como d<:composiçâo só tem valor p rovisó· - a mercadoria é a forma elemenlar da riquc7,a (p. 51).
rio. A análise d a riqueza (decomposição dos elementos) não dá de - o valor· de uso é a forma narura/ da me(cadoria (p. 62).
modo algum o modelo das anális~s subseqüentes. De fato. o método -a relaçào de troca é a forma de ap1u·ecimento do vnlor (p. 52).
será posto i• prova. não dos fatos (como é de rigor, se não rigoroso, Poder-se-á dizer que, através desses três empregos, a palavra
numa rotina), mas dos conceitos: aplicado ao conceito de mercado· encerra uJn sentido único'? Prctcnderft designar um mesmo processo
ria (apresentado. mas não obt ido. a partir do de riqueza, situa-se em de análise. us diferentes fases de um mesmo processo, ou processo
ou tro nível), o conceito de a11álise irá sofrer mais de uma mutação. diferentes?
2. Entretanto, convém determo· nos ainda nesta primeira análi· Ta l çomo aprcSCiltado. ou antes, utilizado, nesse início (a rique-
se, p•ois ela ainda não disse t udo. Com ela, de fato, aparece u m voca- :t.:.t aparece como Jlu·rcruloria), o conceito de formn pareoe designar:
bulário completo, que encontraremos sobremodo mod ificado nas o modo de existência empírica da coisa, o seu modo deararecer,de
188 LER O CAPITAL O PROCESSO DE EXPOSIÇÃO DE "0 CAPITAL" 189

mÓslrar-se, de manifestar-se. Nesse sentido, a riquezn e a rigor a são nã~ o• sinal.de uma insuficiência, mas as próprias condições da
própria forma da realidade econômica. expressao ctentt lica.
O ponto de partida da análise apóia-se formalmente, metodica- . Em 'IUe outros termos irá apresentar-se a análise nessa diferen-
mente. no conceilo de forma empírica, 110 qual corresponde bem a ctaç:lo q ue a define no in terior de si mesma? Cabe à análise da mer-
idêia de rique~u. Uma das q11~~~$ s~rá a de saber se devemos inter- cado na no-lo ensiitar.
pretar e ss11 forma de aparecimento em termos de aparência, isto é,
no interior da relação: aparência - realidade. essência - manifes-
taçno. Por enquanto, nada se opõe 11 isso, mas pode-se logo em se-
guida afi rmar que o mesmo não se dá quanto à forma do valor:
dado que o que define o valor ê q ue de não se mosm1, não aparece
(nisso é que se sabe ser ele o exato contrário da 11mi'g a de Falstaff, a
Sr• Q u ickly), o conceito de valor é empiricamente muito magro:
transp•Hen le. Essa é, pois, a d ificuldade: ou nada se compreendeu
no ponto de partida, o u a noção de fo rma, e com ela a de análise,
adquire a caminho uma nova definição que então se"\ necessário
destaca r. Com efeito, como acaba mos de perceber. Mar~ utiliza os
conoeitos que determinam u fo rma do rucioclnio num sunt ido muito
preciso, mas sem dizer que sentido é esse, sem o definir explicita-
mente, como se não houvesse necessidade dessa definição. Isso não
causaria muita dificuldade se os conceitos fossem homogêneos: mas
·..
se eles são suscetíveis, conforme o gra u do raqiocln io. de diferentes
definições, é que essa transformação contrib ui tam bém para os defi·
nir. En tão o conceito de forma teria uma importância inteiramente
especial, porque com ele estaria envolvido o cstawto do co!lceiro em
geral, em si, nos diferentes niveis do seu emp~go: da sua "forma na·
tural" à sua forma mais abstrata.
t. precisamente es.~a di ficuldade que E ngels aponta no prefácio
da edição inglesa:
H :l uma dificulda.dc que não pudcmO:i poupar ao leitor: o cmprtgo
de certos termos num WRtido diferenlt: daqu~le que t!mnlo só na vida
qu(ltidiana como tambénl na C("OoOmia poUtica atus.l. Ma.r iun nclo podia
ser tn'itado. Todo aspectO novo de uma d ênda implica. uma re,:oluç-.ào
nos lermo:& técnicos dessa déncia... ( 5cgue o ext mplo das rcvoluçôc:s no
vocabuh,rio conceptual da qu.fmku ) (~. 35).

Es sa passagem aplica-se explicitamente aos conceitos que deli-


mitam o conteúdo da pesquisa econômica; mas pode também serre-
lacio na da aos termos que dão fo rma ao raciocin io, e servir pura ca-
racterizar não somente a passagem da linguagem tradicional à lin-
guagem científica de O Capilal, como também, no próprio interior
da dissertação cientlfica, a passugem de um nivel de linguagem a ou·
tro. de um tipo de raciocínio a outro. Essa passagem é também um
deslocamento, a int romissão de uma diferença, de uma ruptura, que
O PROCI:SSO DE EXPOSIÇÃO DE "O c,, PtTAl.'' 191

mciro aplicou ao seu objeto o "m~todo analítico'' (mas acaso existia


esse objeto antes du aplicaçilo do método~). essa noção é que peroni·
tirá delinir a nat ureza e a estrutura da disseo·tação científica.
I. "A mercadoria é em primei ro lugar ... uma coisa" (p. 5t). O
valo r de uso. ou então a coisa. é portanto a forma d:~ mercadoria.
Essa fonm1 pode ser direta. imediatamente reconhecida. dado que
aparece ern contornos bem nllidos: " nada há nela de vago e indeci-
so'', A co i~ a tem um lugar determinado no contexto da dio-ers/dade
natural das necessidades. Ela pode ser estudada coon plct:~mente, a
partir de dois pon tos de vista di ferentes:
- o pomo de vista qualitativo, que destaca os "aspectos diver-
sos" do uso. c é tarefa da histó ria;
11. A mílisc da M ercadoria e Aparecimento da Contradi~ão -o ponto de vista quantitati vo, que mede a qualidade das coi-
sas (tlcis, e é o papel da "rotina comercial". "
O vulm de uso pode, pois, ser inteiramente conhecido, dado
que se lr<tl3 de uma determinação material ("seja qua l ror "forma
social", istl) c, o modo de distribuiçilo das coisns). Diremos por defi-
nição: ;H coisas só valem por si mesmas, em sua individualidade, no
contexto da pura diversidade dos usos.
En tretanto, nas sociedades em que "reina o modo de produção
r capitalista". essa definição potle ser in terpretada de dois modos di-
ferentes: ns coisas são a matéria (o texto alemão diz "c<>nteúdo'',
Como 0 in dica 0 lítulo . essa nova análise consiste em disünguir holwlt) da riqueza: mas, ao mesmo tempo, man têm relações com um
"no ionerivt'' da mercadoria dois.fntor~s: valor de uso c valo! de>~ro­ termo novo, o segundo fal<>r, o valor de trocn, de que constituem o
c·t (o seg.uudo acabara por cham ar-se apenas 'alon. A noçao de fa- "su~tentitculo material" (Sroj)j.
t~ r é ;10 va. e nih>se deve de modo algum o;onfundi-la com a de [o r- Assim é que a noção de co isa. até at)Ui simples c nítida. sofre
ma: rn: ma nota sobre o economista _Bai le)' jl>· 61_). ~~arx mos~ra qu~ umu especie de deslocamento. O valor de uso coottinua forma da
11111 dos co ·ros essenciais dos economostas looconfundo r valor e forn~a mercadoria (o que não é o valor de troca), mas é matéria ao mesmo
lo v· tlor. J\ o entanto, esses dois fatores se rão apresentados no.mom>
~a (;nãli$1! 110 inlt:rior de relações ql!e .aprend~m~s n cons1dcrar tempo da o·iquezn e dv valor de troca. Nu sociedade capitalista ("a
soci.,dade que nos incumbe estudar"), a coisa é uma fo rma para dois
como relações de forma: "A mercadona c em pnme~ro lugar ... Çva-
10 d • usi)" (p. 51)· "O valor de troca surge prnncoro como ..: (p. comeoídns. Ou as palavras não têm sentid<> algum , ou então esse
iL
s{). de o·esto. 0 t'ugar ocupado por cad~ fator .numa relaçao de enigm a deve ser decifrado .
A coistué duplamente determinuda não porq_ue nela. ao lado do
j·0 rn1 a que pcrrnitint distingui·los du manc1ra ma1s clara: . .
seu car:ite.r material. se manifestaria outro canlter, de natuo·eza di fe-
A análise portanto não mais produt elementos materuns. em til-
ri co& (meo·cudorias}. mus fatores. Scd essa :~nálise do mem,lo tipo da ren te, mas porque sen•e de llHtt<lriu para duM coisa! ao mesmo tem·
preceden te? Em outras palavo·as. t rJ.ta-seaonda de uma d:coon post- po; relaci on a-se, como matéria, a duas categorias essencialmente di·
çiio'! '\est~ caso. pod~r-se-ia dar cln anáhsc da mercadtll'tn a rcpre- ferentes: u riqueza é uma categoria em pírica, no contrário do valor
de I roeu que não se dá imediatamen te. A pu rece assim, pela primeira
~cnt:.tc.;~ o

mcn.:adoria ---
seguinte:
fator 1: 'alo r de uso
fator 2: ,,{\or de troca
vez. mas nii o a última, a idéia de uma coisa com duasfac:es: segundo
a relacionemos~ uma categoria empírica ou não, a coisa apresenta

O sentido dn noçJo de antílise dependerá da res~ostu <JUe se d_ê


a C>Sllquestilo: se é verdade. como diz Marx. que fot ele IJUCm p1 1- lXvi!-S:c obscr\•ar quo a ooisu não é um fator puramente <IU31itutivo: ela é suscctive-1
de tratamento quarttüattvu.
O PROCESSO DE EXPOSIÇÃO DE "O CAPITAL" 193
192 lBR O CAPITAL

são: valor da mercadoria), é dado este saber: a contradição é aparen·


uma fisionomia d iferente. Poder-se-á diter que uma face é a máscara te. O o bjetivo d a análise é ir além da contradição: para isso, não terá
da outra? de resolvê-la (uma cont.radiçilo aparente não precisa ser resolvida),
No ponto -da a nálise em que estamos, podemos recapitular o mas de suprimi-la. 11
seu trajeto do modo seguinte: No ponto em que estamos. a exposição chegou a pôr em evi-
re-alidade econômica -• riqueza ~ mercadoria ~ valor <lç "so dência a dificuldade seguinte: há duas maneiras, incompatlveis, de
apresentar ernpiricamente a mercadoria. Essa dit'iculdade é que irá
~ levar mais a lém a anúlisc, e exigir a transformação do conceito de
valo r de troca mercadoria.
A mercadoria é duas coisas no mesmo tempo: é mercadoria em
2. O valor de troca si mesma, em sua imanência a si mesmá, em sua interioridade, nos
O valor de t roca não se dá imediatamente nos seus próprios seus contornos e sem rebarbas. e se chama coisa; cot{(romada consip.
contornos. como parecem fazê- lo essas re.alidades empíricas puras go mesma, ou antes, com a sua só.da, nessa experiência que para ela é
que são a riqueza e a coisa. Assim co mo. para aparecer. a merendo· decisiva, a mercadoria revela-se habitada por 'algo estranho e exóti-
rin prec-isa dos contornos da coisa. o valor de troca não se dá por sua co. q ue não lhe pertence, mas a que ela pertence. e que se denomina
vez senão sob uma forma especial: a relaçilo de troca (duas merca· . valor. No momento em que a mercadoria se a bole como tal, ou pelo·
dorias a o mesmo tempo). Para defi nir o valor, impõe-se, pois, fazer menos abole a sua J'o rma de aparecimento (pela troca ela é como
intervir uma nova noção, to mada à economia clássica: a de troca: que substitu ída: em seu lugar entra um sósia estranho), o o momento
- a mercadoria aparece atrav6s da forma da coisa. em que a mercadoria desaparece po rque não mais rem forma pró-
- o valor aparece através da forma da troca. pria, d á-se que ela é forma de o utra coisa. I! a qui, com a contradictlo
Por conseguinte. em relações de forma distintas, os do is fatores in adjrcw. que começa uma nova fase da anúlise: a análise do valor,
da mercadoria ocupam lugares opostos. De resto , a analogia apn· fundada na distinção entre o valor e a forma do va lor. O valor não é
rente dessas duas rcluções de formu é de fato uma dissimctria: a coi· pois, uma forma ernpfrica, como o em a mercadoria: será precis~
sa dá à mercadoria contornos nítidos. na qunl não se manifesta inde· substituir a análise da mercadoria por urna nova jonna de análise.
cisão a lguma (em aparência, mas só se truta por o ra de aparecer): Em suma: a partir dos conceitos econô micos tais quais foram
pelo contrúrio, a través da troca, o valor " pnrecc algo arbitrário e "espontaneamente" definidos, nos limites do em prego que essas de-
puramente relativo" (p. 52). fíniçôes pe!lllitiam, apareceu o fato de que era impossível falar de
J>or isso. a mercadoria não pode aparecei como valor: pelo con- •·alar da mercatloria; paradoxalmente, essas palavras não podem ser
trário, é o valor q ue surge na forma da troca de mercadorias. Temos '' pronu nciadas. a nilo ser no contexto de uma form ulação aberrante.
portanlo as definições seguintes: O emprego rigoroso dos conçeitos pô~ em evidência a insuficiência
- a coisa é a forma da mercadoria; deles: essa in$u ficiência é que se impõe suprim ir, ao mesmo tempo
- a tro~.a das mercadorias é a forma do valor: que a contrad ição formal, numa nova fase da análise. numa nova
- a cois;t é o susten táculo material do valot. análise.
Do confron to dessas defin ições. n noção de vulor sai como que
explodida. O valor foi primeiro apresentado como "fator da merca-
doria": a suu relação oom a mercadoria dev~ signi fic~r alguma coi·
sa. Mas as modalidades do aparecimento da mercadoria (a coi_sn:
nada dJe indeciso) e do valor (a troca: algo arbitrário) parecem ex· 11
E~tden trmentt: , não ~. necesstrio ~ill! r que para Marx a contradição é sempre e es·
cluir qualquer medida em comum entre o valor e a mercadoria: scnct;tlmcnle :.sparen1c, tStQ C, proprwdàde do pensamento: a diàlética materialista é
"Um valor de troca intrínseco, imanente .à mercadoria, parece ser aquelu que. pelo <:anuário. est'Jda JS çontradiçôes "na própria essência das coisas".
uma comradiclio in adjriO" (p. 52). A mercadoria não poderia apare- stgund? a fórmuln dé Lênin. Mus no momen1o do texto que corlsideramos. no inicio
da .u1úl tSc do v;al or. a contradiçio opera ('Orno contradição formal. Disso se pod(. ~ ­
cer como valor. t~<tir pelo m~nos. u.ma hipótese. a anJihc de O Capital apresenta e dc:$envolve vários
é dessa maneira que a contradição ;tpareoe em O Capiwl: ape- ttpos de -contradrçoes. e a sua "lógicü~'. se de fato ê m:ttedalista, n à~> pode ser reduti·
nas na med ida em que é a aparência de uma contradição. Ao mesnhl da 01 uma Lógico da rotmadiçôo em geral.
tempo que a contradição é formulada (ela é que estrutura a expres-
194 LER O CAPITAL
\ O PROCESSO DE EXPOSIÇÃO DE "O CAPITAL" 195

É agora possível responder à questão formulada no iníci : a


\
\ Essa a razão pela qual a contradição formal não terá de ser re-
análise da mercadoria em fatores não é mecânica; não se trata de solvida: numa retomada, a exposição irá instalar-se em terreno di fe-
uma decomposição em elementos. A análise só permitiu divi!lir o rente, c não no dessa con tradição. Di r-se-á então: a mercadoria é
conceito por ter sido efetuada num duplo p lano: urila çoisa de dupla f<!Ce (os dois fatores). na med id a em que é duas
fa tor 2 I 1 mercadoria -+ fator I coisas ao mesmo tempo (na experiência da troca). Se há ainda a náli-
Podemos falar do valor de uso de certa mercadoria; não pode- se, e la lnão mais pode recair sobre a mercadoria concebida como
mos falar do valor de uma mercadoria (por ora): conforme n relacio- urn a unidade abstrata: o seu o bjeto mínimo será asora duas merca-
nemos a um ou outro dos seus fatores, o conceito de mercadoria as- doria.<. Essa mutação do objeto mostra também, por sua vez, que
sume uma significação diferenle; poder-se-ia dizer que num caso ele não há aprofundamento contínuo da aná lise. nurn movimento pura-
é desenvolvido em interioriclnde (a mercadoria em s i mesma . nos mente especu lativo de tipo hegelia no. O ponto de vista insuficiente é
seus con to rnos), c no outro em exterioridade (a mercadoria d ividida trocado por ou tro ponto de vista. incompatível com o primeiro (e
nb âmbito da troca). A contradição não está, pois, no conoeito, não que não pode de maneira alguma ser considerado complementar):
é deduzida do conceito: ela resulta de duas maneiras possíveis de falar de duas mercadorias é fazer justamente o inverso do que se fa-
tratar o conceito. da possibilidade de aplicar-lhe duas análises dife- zia ao fala r de uma mercadoria, dado q ue é fazer abslrtlçâo do valor
rentes . em níveis d iferentes. A contradição é aqui forma l, uma vez de uso (vejam-$e pp. 53-54): ''uma vez posto de lado o valor de
que decorre do modo de apresentação do conceito. A contradição uso"). Percebe-se que condições extraordi nárias são ex igidas pa ra
entre O$ termos. que não chegu a ser contradição entre conceitos. que um dos dois fatores da me rcadoria possa ser estudado à pane.
mas diferença , ruptura no trntamento dos conceitos, pertence pecu·
liarmentc ao processo de exposição, e em nada remete a um proces-
so real: poder-se-ia inclusil·e dizer que ela remete ao modo especíjlco
que o processo de exposição tem de exdulr o proces.w real. Portanto.
a contradição formal é contradição entre as diferentes formus do
conoeito; sendo essas formas determinadas pelos nfvcis d iferentes da
conoeptualização. Não se deve concluir disso que a contradição seja
anljicial, que resulte de um artifício de expos içã o: ela in dica, pelo
contrári-o. um momen to necessâ.rio rta constituição do saber. 11
C omo a precedente, essa análise revela que os conceitos que
sus'tentarn a exposição científica não são de naturez;a idênt ica. Não
procedem, pois, uns dos outros: em vez de dedu~idos. são/n'cciona·
dos entre si. A disparidade deles~ que permite avançar no saber, que
prod uz um saber novo. Se há uma lógica na exposição, é aquela ló·
gica inexorável que dirige esse tra balho dos conceitos. Essa lógica da
e xposição que constitui a sua matéria própria leva a definir sem ces·
sar os conceitos; a exposiçà o passa de conceito a conceito, novos
não apenas no seu conteúdo. mas t ambém nu forma . O q ue determi-
na um momento da exposição. u ma análise, são os conflitos entre os
conceitos, as rupturas e ntre os nfveis da argumentação: essas " fa-
lhas" levam a exposição ao seu termo. à ruptura linal, que forçu a
retomar a exposição nu m nível diferente, a efet uar uma nova análi• '
se. .

t: Nesse sentido. uma contradição formal 6 também uma contradição real.


O PROCESSO DE EXPOSIÇÃO DE "O CAPITAL" 197

c~m nos modelos empíricos. isto é, que são coisas. Mas percebeu
corretamente também que não se podia falar de igualdade entre coi·
sas: " Seme lhante coisa" , dizia Aristóteles, "em verdade não pode
existir.'' Aristóteles segurava assim os dois extremos da contradição,
e foi tão longe quanto lhe permitia o seu saber: é preciso ao mesmo
tempo a fi r mar a igualdade entre dois elementos para fazer com que )
a pareça o va lor, e é p reciso destruir a noção de coisa (porta nto. in-
t roduzi r a de mercado ri a) para manter a a tirmação de u ma igualda-
de. Para resolver a untinomia , basta saber que a igualdade não está
entre as coisas, mas entre mercadorias (e para isso. é preciso esperar
que " a forma mercadoria se tenha convertido na forma geral dos
produtos do trabalho"). A comradi~tio i11 adjecro está o nde começa
111. Análise do Valor a ignorância de Aristóteles, e é naquele ponto que começa també m a
a nálise do valor.
2. A dificuldade que obriga a começar nova análise vem dare-
presentação da troca sob a forma de duas coisas ao mesmo tempo.
Essa expressão, rormulada em termos empíricos, empiricamente não
tem sentido algum. Portanto, a a nálise já não se deve fazer em ter-
mos de experiência. U ma coisa, todas as coisus, isso tem sentido, a
"Consideremos a cois" mais de perto." ngor: mas n ada permite distinguir. isto é, explicar, a final, a relação
entre duas coisas que, no nível da experiência, só p ode ter uma run-
ção de ilusão. Nn experiência, pode-se conceber que duas coisas es-
tejam uma do lado da outra, que sejam j ustapostas (como as merca-
I. O pomo de partida ou objeto da análise é agora u relação de dorias na l"iqueza): elas, porém, não mantêm relação a lguma; do
troca, relação de igualdade entre d uas mercadorias: não se terá de po nto de vistá da cxperiêncin , entre duas coisas e uma coisa: há dife-
levar em conta a forma moeda paru definir o valor: essa forma é rença quantitativa, mas não há abs<>lutamente diferença qualitativa.
uma forma desen volvida (a sua mtálisc será deduzida da análise do Tomemos " u ma mercadoria particular" (p. 53): ela só tem va-
valor: será a gênese da moeda). no passo que a troca é uma lbrma lor se enrrar na relação de troca. Ora, o capítulo seguinté nos ensina-
elementar. rÍI q ue ela não entra nessa relação por si mesma: é preciso que um
P~ra compreende•· esse novo ponto de purt ida, é interessante
negociante a conduza a isso, a golpes de chicote (veja·se a descrição
trunsportarmo-nos de saida para o célebre texto sobre Aristóteles,
que se l!Cha vinte páginas adiante (p. 73). Sabe-se que Aristóteles foi dos mercados, 011de tudo assume valor por ser levado a ele, até as
" mulheres loucas po r seus corpos''). Desse modo , a relação entre
cupaz de reduzir a forma d inheiro da mercadt1ria à forma elementar d uas mercadorias mula tem de na tural, de imediato: ela deve ser
da relação de troca: ele compreendeu que o valor aparece no estado produzida. artificial mente realizada, num ato que poderia lemb rar o
mais puro (quase se poderia dizer "em pessoa'', se a natureza pro·
f"n<Ja \lo valor não fosse precisamente a de não se mostrar) numa da experimentação.
3. A relaçüó éi\tiC duas mercadoria.~. assim provocada, define•
relação de igtmldade. É "o que most ra o gênio de Aristóteles". Mas se como rela(ào de expres.<fio. Se a = b, di r-se-á, p or detinição, que b
çer tas circunstâncias históricas, us quais nã.o examinaremos aqui,
impediram-no de encontrar "qual era o conteúdo real dessa rela· ea expressão de a. As noções de forma e de expressão não devem ser
ção": ele percebeu corretamente que a forma de aparecimento do confundidas: a relação a n h é u~1a formm (a forma de a parecimen-
valor tinha por aspecto.geral: a= b, c foi inclusive capaz de dar mo· to do valor); os termos que compõem a relação são expressões não
deUos dessa estrutura, mas não teve condições de dizer o que eram da forma. mas de o utra coisa que fica ain da por determinar.
esse a e esse b. e de q ue eram constituídos. Ou , mais exataménte, ele Dado que os dois termos da relação (duas mercadorias) se ex-
acreditava saber: acreditava que a c b são exatamente como apare· primem e ntre s i (de modo não-recíproco, como apareccrã mais tar-
de). a relação é por sua vez uma forma de aparecimento: é, pois, q ue
198 LER 0 CAPITAl.. O PROCESSO DE EXPOSIÇÃO DE "O CAPITA L" 199

o v.alor não está na relação. no sentido imediato da expressão; não em dois níveis distintos. Não é possível fazer com que certa relação
~ta nem em a..nem em b: como a se exprime em b, não é a. mas o eon· de expressão diga o que exprime se a interrogarmos apenas na sua
.JWIIO d a relaçao que revela o valor: "O valor de troca tem um conteú- realidade empirica: desse modo elabora-se u ma teoria material da
d~ distinto. dessas expressões diversas" (p. 53)·. Mediante a relação, expressão que critica, como oegamento empirico, todas as descrições
ha exp re.~sao, mas os termos da relação não devem <er tomados pelo de sentido (portanto, todas as tentativas de semiologia). Para saber
conreâdo da relação • o que exprime uma relação, é preciso também, e mesmo em primeiro
. A anúlise do Vãl?r upóia-se, pois, numa lógica material que per- lugar, saber o que a exprime. Quer dizer, não se pode compreender
mtte passar de conceitOem conceito (por exemplo, deduzir o valor), como o sentido (no caso aqui a igualdade: veremos logo a seguir que
mas nada ma1~ tem a ver com o método empirico da decom posição ela não é neutra, recíproca, mas. pelo contrá rio, polarizada) passa
nem com o meto do formal da contrnd1ção, que em momentos di fe- entre os termos de uma relação a menos que representemos essa pró-
rentes d;~ exposição puderam ter um papel análogo. pria relação como um dos termos de outra relação de expressão, de
. 4. A relação não se realiza apenas sob a forma qualitativa a= b natureza diferen te.
(a e b). t: ta mbém e sobretudollma relação quantitativa: ax =by (a é 6. A análise da relação tal qual se dá não pode produzir saber
tan to de b). A relaç;l o é essencialmente o lugar de surgimento da me- algum: é preciso transformá-la, interpretá-la, reduzi-la a equação;
dida: nesse momen to é que a análise sofre uma mutação decisiva. dessa maneira ela significa outra coisa. Passou-se "daquilo que se
A nova aná lise iniciu-se por uma escolha definitiva: a recusa em apresenta primeiro'' às condições desse aparecimento.
estudar a relação de troca enquunto relação qualitativa, para nela só Por con~eg u inte, o valor só se apresenta como valor (nos limites
consuderar o seu conteúdo quantitat ivo. Para conhecer a natureza da sua apresentação) no interior da relação de troca, mas é impossí-
do valor (compreender que ele não é algo· arbitrário. tal qual se mos· vel analisar essa relação em si mesma, a menos que nos detenhamos,
Ira .na rdação), ê preciso sair das aparência.,, recusar a forma de apa- co mo o faz Aristóteles, diante da contradição. E que o valor não es-
reCIIl>cnto do valor para Interrogar o seu conteúdo, que é "distinto lli dentro da relação como o núcleo no seu fruto: não se passa da
das suas expressões diversas": (IS n1odelos empíricos. Por trás das mercadoria, ou das duas mercadorias, ao valor, a não ser submeten-
"duas coisas" que constituem a matérin imediata da relação, é preci· do-se it mpt ura que separa uma forma da outra. A relação de troca é
so procurar uma terceira, "que em si mesma não é nem uma nem o único meio de acesso ao valor, mas a relação não dá sobre o valor
uma tomada direta. A relação e o único caminho que leva ao valor,
1
outfi:l! ' : a estrutura dessa relação.
A igu;tldade da relação (que determina a sun realidade) não mas o caminh o passa al'""as pela relação. Quando se o)lega ao con-
pode ser constituida, c determinada, senão a partir de uma medida, ceito de valbr, c preciso desviar-se da prbpria relação para indagar
ou untes, de uma possibilidade de medir. em si mesma disünta de to· das condições do seu aparecimen to. Parmloxalmenre, a relação de
das as relações particulares (que s:lo aplicações da medida, os seus troca não é a forma de aparl'cimtniO do •·alor senão na medida em que
"sustentácu los mater iais''). Os "objetos" que entram na relàção de o valor nela nào aparece.
troca não podem ser medidos, isto é, como veremos. não podem ser A equação é que dá o meio de sair da relação de troca, e de per-
calculados senão a partir de outro objeto "diferente do seu aspecto ceber o conceito de valor: "Seja qual for a rdaçào de troca entre duas
visível" . m1·rcadorias. ela pode ser sempre representada po r uma t<tuação".
Analisar a rclução de troca entre duns mercadorias nào signi fi· Pode então começar "a dedução do valof por meio da análise das
ca pois: destacar da mercadoria esse segundo fator que não aparece equações nas quais se exprime qualquer valor de troca" (posfácio à
llnedtatumente nela ac1proceder uma compat•uçào empírica. Para iH- !egunda edição). É preciso, pois, rt!dt<Zít ;t t•tlação t\ süã equação
tel·pretar a relação, é preciso relacioná-la a uma normn de aprecia· para poder em seguida deduzir dessa equação o valor. Não se trata
cão q uc C de outra natureza. de deduzir o va.lor da sua forma de surgimento (essa dedução é ,
5. Poder-se-ia, a partir disso, formular uma regra geral, que va- como vi mos, impossível). Não se tra ta ta mbém de reduzir os objetos
leria não apenas para a análise econômica: para comparar não em· que preenchem empiricamente a relação a seu valor abstrato: sobre
pi rica mcn~e objetos, é preciso antes determinar a CXJ>ressão geral isso, Marx dá explicação numa carta a Engels de 25 de julho de
dessa medida. Deparam os aqui pela primeira vez essa exigência que 1877, com grande jovialidade:
é um a&pecto essencial da " Lógica de O Capital", que, como se sabe,
Mar.x não escreveu. Qualquer estudo de expressão dá-se pelo menos Exemplo da grande ..perspieécia" dos "!odulista.s de cátedra".
200 lER O CAPÍTA L
O PROCESSO DE EX POSIÇÃO DE "0 CAPITAl' ' 201

_ Mesmo comgrande. ptrspidci a~ tal com_o a de que Marx deu prova,


nao,.sec Pod:t re~lve.r o problema que cons;:-~te em rcdu:dr "valores de Ou ainda: o valo~ não pode ser um conteúdo comum aos dois
uso (esJe ambtcal se esquece de que se trJta de "mercadorias") itt · objetos, a menos que esteja ao mesmo tempo em cada objeto; ora,
. , os de .pnue~es, a ~u oontr01rto,
efcment .:. • a q~ontidades de• esforços,
• asa-
O e.
ele é independente do objeto que o sustenta; existe à parte, "por si
~.nfic t Q~ ... (o tmbectl acredna que pretendo, na minha equação de valor.
reduzlt valores de uJo ao valor"). t uma substituição de elementos de
mesmo". Também não está entre os dois como outro objeto de mes-
naturezas diferen t~s . O e.quacionnmcnto de valores de naturezas dUeren· ma natureza (essa foi a ilusão de Aristóteles); trata·se de objeto de
tes só se pode cxphcar por uma redução dc.!tGS a um fator comum de •a· outra natureza: um conceito.
lor de us~. (Por ~ue nlo os redutJr logo hnediat.amente uo ... peso?) Dlxit A análise do valor .n ão é d ialética, no sentido hegcliano deste
o Sr. Kmes, gêmo da economia polfti c~ professora!...". termo, dado que não depende de uma ''dialética das mercadorias"
(identidade. resolução no conceito, já dado de inicio sob forma não-
Efetivamente, esse gênio, se os tivesse conhecido, poderia ter desenvolvida). O movimento da análise não é continuo, mas inces·
p~sto a culpa nos M_anuscrilos de /844 , onde a.~ inversões de prazc· santcmcnte interrompido pelo questionamento do objeto, do méto·
rcs e.m sofnmentos suo bem numerosas. Na exposição rigorosa de o do e dos meios da exposição.
Capital, não há maJS mversões d ialéticas, nem reduções ingênuas:
reduç.Jo e dedução só têm valor ali ao preço de uma estrita combina. 8. Para compreender essa diferenciação interna à exposição,
·ção, q ue tem por função excluir qualquer confissão entre 0 real e 0 sem a qual não haveria análise rigorosa, é preciso que nos deten ha·
pensament?. " Longo caminho foi percorrido desde o texto da sa. mos no exemplo da geometria elementar, que desempenha·papel ca·
grad~ Fa1m~ia ~obr.e o pr.ocesso do fruto, no qual a dedução hegelia- pital na argumentação, dado que tem por função destacar a forma
na fo1 subst•tu1~a, m~ert1da, para t?rnar·se uma redução empírica: a de raciocinio especialmente adaptada à fase final da análise:
pa~agem pela equaçao, que arranJa e transforma a redução e a de-
Um I!Xemplo to modo :i geometria elemen1:n iri pôr is!IO diante de
duçaG, coloca no .m.esmo plaho, confunde numa ún ica critica, os nossos olhos (a pau.agtm da trooa ao va,lor). Para medirn1os e comparar·
d01s m.étodos trad1~10na1.s do conhecimento idealista: a análise tal mos as superOcies de to<las as figuras retilineah decompomo·las em
com~ e a~ora de~mda distancia-se tanto d o empirismo 11uanto do ui ângulos. Hcduzimos por sua vez o trilogulo a urna expreu.Jo inteira·
esp1r1tuahsmo l6g1co. mente diferente do seu aspecto vislvel: ao sem1produto da base pela ahu·
·?. Ao cabo da operuç~o complexa redução-deduçã o, a noção de ra. Do mesmo modo, os Y&lorca de troca da$ rlle.Klldorlas dcvern ser re·
duzidos a al,o que lhes é comum e d.e qual Nprcsentem um mais ou um
relaçao de troca para maiS nada s~rve; pode·se abandoná-la, como meno• (p. 53),
Já se fez com m111t:ts outras: "Os dois objetos são, pois, igunis a üm
tercei ro que, por si mesmo, não é wn nem outro. Cada um dos dois de- O exemplo deve pôr em evidência o papel da equação na deter·
ve; enqunnto v,~lor de troca, ser reduzido ao terceiro, independente- minação do conceito. O cálculo das superfícies (por elementar que
men~e do ourro . O valor não é obt ido por uma redução empírica a seja, não pode ser imediata e espontaneamente destacado como um
par~r da tr~a, ta mo quanto nilo é obtido por redução ~mpirica a dado empírico, mas exige um trabalho do conhecimento) fa:t-se pela
parllr da mcr<:adona. O paradoxo da a.nâlise da troca ê que 0 valor sucessão de duas análises: a primeira. uma decomposição empírica
nem está nos termos da troca , nem 11a relação d-e les. O válor não é análoga à q ue destacou a mercadoria, produl uma primeirn abstra-
dado,_nem destacado~ nem posto em evidencia: ~ conslfllído como ção, o triângulo, elemento bitsico de todos os conjuntos; desse modo
con~eMo. Por essn razao é q ue a mcdiução da relação perde todo 0 o problema é posto: t rata·se de medir triângulos. Essa medida é ob-
sentido em certo momento da análise: a troca é o único meio de che· tida por meio de uma segunda análise>, a que reduz o triângulo à
~ar ao valor (co~o o_ p~reebera.Aristóteles), mas n~o $érve de modo equação da SU!Perficie>. " expressão inteiramenie diferente do seu as--
al~um para defim.lo. o valor nao confunde a sua realidade (de con· pecto visível". A medida da superfície não se destaca do confronto
CCIIO) com as etapas da sua procura. empírico de uado o que tem uma superfície, isto é, das figuras. A
questão de menos ou mais supcrflcie é tão-só um dos aspectos da
questão fundamental que 'se refere à noçào de s uperfície. A expres·
são da superficic não ~e obtém por uma redução a partir da diversi·
dade empírica das coisas que têm superfície e, inversamente, esse
., A mamcr...se e~sll confusão. fica..,e sem eondiçôcs de compreender como 0 pensa· menos o u mais de ~uperflcic não se obtém por uma dedução a partir
mcnto se aprôpna do real. oom base no próprio real.
da noção de superfície: o conceito é essa realidade particular que
202 LER O C,\ PITA). O PROCESSO DE BXPOStÇAO DE "0 CAPITA L" 203

pe.rmite cxplictll' a realidade Desse mod - 9. O procedimento da exposição nem é o de uma redução empí·
ufrnal, e fundamentalmente ~el . d o, a expressao abstrata é
em si mesmo isto ó inde 'd acrona a com cada "objcto"tomad~ rica, nem o de uma dedução conceptual (se Marx dâ a impressão de
oeito das rel;ções e;Jtre :.'\ ent~mente dos demMs: ela não é o con- seguir o mo,·imen.to de tnl dialética- sabemos que se trata apenas de
concdto de cada objeto e JC os .. rsto é, um conce•to empírico, mas o " Oerte"- é mostrando precisamente que ela é enganosa, que ela não
da re lação, mas 11 ,1 0 prod;:/(:f~tl(ll/a~; drsc~rn~do graça~ .à mediação descreve um movimento real, mas o jogo de uma ilusão): a partir das
ta) do hegeliuni~mo é a · por c ·1. assim e que a crrt1ca (implíci· abstrações empíricas (que orientam, guiam, a prâtica econômica e as
empirismo. . o mesmo tempo u ma crítica (explícita) do suas ideologias científicas), 6 preciso constituir e5Sê conteúdo de
pensamento. esse concrettrde-pensame/TIQ que é o conceito cientlli·
A eq uação da superfície c d co: esse conteúdo nem é absolutamente derivado nem absolutamen·
um ...,hjeto" de espécie bem ~I" 0010 ~. ~ troca, é u"!a idéiu, islo é,
de. mas conteúdo de pcnsamc~e~onte; naor'" " conteudo de rcalida- te deduzido, mas produzido por um trabalho de eluhoração especlfi·
C~l llrcgada, uma generalidade ni
~:" ~ ut1 1Zar uma clas~r flcaçào já co.
drler que" análise reduz os ob'et • ~om~reende-se. entao que. ao f: possh·el agora dar as determinações do conceito. desse " algo
termo objeto seja utilizudo nun~ . os .rc,us. '' U'~. tercerro "objeto", •> de comum que é próprio de cada objeto antes de caracterizar as rcla·
C<l: o conceito é de h to ce ·t· ' se~udo sunbollco (mas não nlcgóri· ções dos dois objetos" (cf. p. 65: trata-se de uma p ropriedade " ine-
de circu lo não tem c'entro',,·: ,espéc•e ~c ~I>Jeto). Assim como a idéia rente"). Como o mét odo de an:ilise não é a figura inversa do proces-
c11 c~rcun.ere · . so real de constituição. mas retoma a cada ve~ o gesto de se desviar
g~rlo não c em si mesma tri~ngul· . . btcra, a supcrflcw do triân·
çao de valor niio se troca. '"· t.un m do mesmo modo, a no- das il usões (-Jue só mostram na medida em que dissimulam: poder-
se-ia. com razão. dizer que encerram), num verdadeiro atravessar
Compreende-se assim que a''" 'I' ' I I • das aparências, <>SSa determinação do con.ceito será primeiro negati-
si os termos no :i mbit~ da t , . a rsc' are açao q ue vincula entre
.. b' " . roca 1emeta por sua vez a . va: "F.sse algo de comum não pode ser...". ~lediante essa 'negação
o JCLO CUJU ausência, a J'Ágor?ela rcv 1 . . . . · um tercc1ro são radicalmente afastados os modos de aparecimento empírico.
a Jroctl n oculta tnaís do que IHôffra A e a..esse tercet~o .e 110,.() objeto,
e dos mercados não bastou par~ crin-1re~hdade: a pratrc:r das trocas O "algo de comum" n3o pode ser definido a partir das qual ida·
mercados e trocas so'· form· . d~·. urantc lllUJto tempo houve dcs naturais, ou 'Valores de uso. Aqui será conveniente pôr de lado o
. ·' • · v as mUltO tlcrentcs se excl)'•plo: no caso da geometria elementar. a noção de supcrncie não
re Iacron• r a eles essa medid . , , . . • · m ~ue se soubesse
conceito de valor IJâo J' , a que c par.t eles o concerto de valor O pode ser d iretamente deduzida a pari ir da diversidade das super fi ·
. ot encontrado por M· • · cie~ porque pNcisamente ela seJ·ve para delinir essa diversidade . A
quer, "no ensino do conhecim ·•. . arx num balcao qual·
artigos a vender vai arm;u· n .,~,~to . ~ssa loJa onde não mais havia relação entre o vulor de uso e o valor de troca assume, a partir de
dos. Sem o rigor da ex os i •o ci ten<I.J l0?g.e do terreno dos merca- agora. um caráter muito diferente: só liga o concei1o à sua coisa em
saber. o C()IICe/rQ de vafo; ~ te e~tftic~:n" "'C~ que pode produzir o
1 0 condições muito particulares que fa2em com que se deva interrogar
existiria. •~ ' na stgn t ICaçao algum a: isto é, não sobre a constituição históricu dessa rela(iào: como foi que ela se rea-
li~ou? Sobre a questão, Engels acrescentou, uo li na I do parágrafo (p.
. O exempl o da geometria clemcl t t . , 56) uma nota importantíssima. Entretanto. é possível observar que a
sunplicidade, ou tnlvez devido a 1 ar . em pots, na o obstante a
ne a natureza do valor co f ~~la. oonsr derávcl un portância: defi· relação entre o conceito e a sua coisa não é a reJaçiio entre o valor de
ceito ci~ntifico. Deve-~ n~=- ~sua qualidade essencial, a de con· tl'oca c ()valor de uso. mas entre o vnlor e a mercadoria: ora, a no·
outros exemplos: o dn química o p.tpel semcl hanh: que terão depois çào de valor <illtllijlca as mercadorias como n noção de superfície
eles físicas (p 70)• também eles (spe. 6 5~ ~o da med1da das p roprieda- qualifica as superllcies .
Ire o conce•to. · e a• realidade · rvtrao
l I' par·t
. • '.ass'rna 1ar a re1açao
• cn- O ato de trocnr só m:rnifesta o aparecimemo do valor ua medi·
' que c e 1m11a.
da em que "faz abstração do valor de uso", q ue é inclusive u sua
condiçcio; sem essa abstração. o ato de troc11r não leria sentido ai·
gum. "Toda relação de troca caracteriza-se por essa abstrução":
proposição cujo sentido Aristóteles já compreendera. mas sem que
u Cf. L. Ahhusser Pom Um:l'' ··s b d' . ele mesmo pud·esse formula r. A troca manifesta-se primeiramente
·• O conhecimento 'oào reflete ~·rc; 1 J~a~ a ln"llca ~hlttrialiua." (ain da que de ma neira indireta como a supressão de gualquer qual i·
e r.cm mocamcamentc · nc011·med'•atameotc.
:204 LER O CAPITAL O PROCESSO DE EXPOSiÇÃO DE '"O CAPITAL"" 205

dade, e faz aparecer, no fundo desse desaparecimento, uma propor· O objeto metamorroseou-se: de coisa que era, tornou-se merca-
çào: o valor só pode ser distinguido a partir de uma diversidade doria. E não se trata evidentemente de conversão espe~ulati va, mas
quantitativa (e não mais qualitativa). Veremos que se trata ainda do de transrorma<;;ão real: segundo o texto final sobre a coisa e a merca-
aspecto mais superficial da análise: não se deve confundir o caráter doria, esclarecido pela nota de Engels, as co1sas podem muno bem
abstrato dessa relação quantitativa (a proporção) com 0 verdadeiro niio ser mercadorias. mesmo sendo prod utos do tra?alho; elas_ tor-
termo da redução analítica. Para voltar ao exemplo da geometria naram-se mercadorias. De uma parte, passou-se da Idé1a de co1sa à
~lernentar, o análogo d~ cá leu.lo dn supetflcie não é a proporção que de mercadoria: de ouira. as coisas transforniafâni-se 9e fato em
e p a~a a troca a cond1çao ma1~ VIsfvel do aparecimento, aquela que mercadorias. Quererá dizer que o mov1men to de expos1çao dos con-
p~ecisamente se t1·ata de reduzir, e que é preciso explicar. A propor- ceitos tão-somente acompanha (ou volta em senttdo mverso: mas é
ç:Io.. a seu modo. designa (remete a) um conceito: não se confunde afinal a mesma coisa) o processo de constituição? Nada disso: a
com esse conceito. A quantidade da relação não define o valor em si transformação real e o conhecimento que adquirim?s dela a? ver a
mesmo. como. adiversidade qualitativa define o uso (vimos de pas- metamorfose s.âo heterogêneos. Ver a metamorfose e produztr novo
sagem que ex1st1a um ponto de vista quantitativo sobre o valor de conhecimento (determinando a substância do valor): não houve, no
uso). En tre a quantidade e a qualidade não pode haver discrimina- sentido direto ou inverso. movimento do conceito correspondente
~ão rc;_al. l!tas ape_n~s. oposição superficial ; trata-se apenas de uma
class11tcaçao prov1sorta, do um modo de repre.rentar a distinção en-
e
no movimento real, mas .wpressiio de uma ilusão. ~er que a r~ahda­
dc que procuramos conhecer não é o que ela malllfesta, uquiio em
tee valor de uso e valor de troca; a forma real dessa dist inção deve que acreditumos; não é constituída de coisas, mas de fantus~as.
ser pro~urada em outra parte. A oposição entre quantidade e quali- Esse conhecimento não ad,•eio de um trabalho da realidade
dade so nos fala na med1da em que não a tomemos literalmente. sobre ela mesma, nem de um trabalho da idéia sobre ~i mesma:.
_ Também a determin ação negativa do va lor ("fazendo abstra- A} O valor não é esse conceito que teria_ sido obt1?0 a p~rur
çao de" . o que é um modo especial de designar a redução) não con- dos "objetos". fazendo-se abstração da sua 1_nd!v1du.ahda~e. 1sso
duz !! um estudo puramente quantitativo (referente às proporções), graças à situação privilegiada que 11 troca conslllul (s~t~ a e~tao uma
mas a procura d~ uma nov~ qualidad~: a de ser, como sesabe,produ- abstrução emp írica): o conceito não é pwduzido pela s•tua_çao da tro·
ro do trabalho. Enquanto sunples co1sas, os "objetos" diferem pelo ca. O conceito de valor é produto do trabalho do conhec~mento que
uso, 1sto é, por sua irredutibilidade. Se pusermos esse aspecto de la- suprime plecisamente na relação o que ela continha de ev1dentemen·
do. ao ~esmo tempo que dcsapa~ecem as suas qualidades empíricas. te caructeristico (o que a distinguia, fa:tendo ver). para desa loJar os
upnrecc não o seu aspecto quantlt atiV(>, mas outra qualidade (de na- fantasmas que a perseguem. . . .
tu.reza inteiramente diversa: nüo diretamente observável); "Só lhes 8) O conceito só pode ser produzido a partu dos c~ncc1tos
resta uma qualidade ..." : será precisamente o valor cuja .lllbsJáncia se (dando-se as costas às realidades empfricas): é o que podct~a dar a
poderá determi nar. impressão de um processo especulativo. Há ~e fato uma mudança
no nível do conceito: não no interior do conceitO, mas no exterior (a
_lO. Mas no momento em que o valor apare<:cem pcssoa,subs- passagem de conceito em conceito); esse movimento não é produ~i­
ta ncmlmente, percebemos que o objeto que ele caracteriza "sofi·e do pelo conceito, mas produz o conhecimento a partir d o co~c~Ito
~ma metamorfose'' (a expre.s~ão ocorre duas vezes): se procurarmos em condições materiais determinadas. O real nào é modi ficado due-
'~r o que poss1b~ htou a relaçao entre o~ objetos. o que só se pode r;1• tamente pelo aparecimen to desse conhe<:iment~ novo: " Ele perma-
ze r com abstraçao do set~ caráte~ de COISas, verçmos que a relação é nece depois como antes. em sua independênct_ a, cxternu~cnte a~
diferente do que se acredttava, dlfcre.nte do que Aristóteles acredita- pensamento" (Introdução du Contribuição). A Idi:~a de co1sa ~ão e
va, p_or exemplo. Nào apenas o valor é outra coisa, um terceiro "ob- uma etapa especulativa que nos leve como pela mao ~o conceito de
Jeto •. mas perc~bemos que a relação na qual estava ma nifesto é mercadoria: constitui um dos elementos do matenal conceptual
tamb~m COisa d1ferentc do que se acreditava: para compreender a sobre o qual o conhecimento trabalhtt. Do t_nesmo modo, ~ merç:_a-
~o n st' !?Ição da relaç;io é preciso fazer com que intervenha um novo dorin não é mercadoritt senão a partir da co1sa: mas" consideraçao
fator que metamorfoseia a própria relação. Nesso momento pas- das coisas não faz com que saibamos o que vet_n a ser uma me~cado·
samos com plctamen~e para o lado oposto da contradição: nesse mo- ria. nem mesmo que o conceito de mercadotta !em um sent1do. A
mento também se diSSipam os fantasmas. coisa nào é forma cega da mercadoria; a ngor, e Slnitl da nossa ce-
206 L ER O CAPITAL O PROC:F.S$0 DE EX POSIÇÃO DE "0 CAPI TA L" 207

guei ra no momento em que surge a mercadoria. O conhecimento tradição formal. aparente, iric s:rceder. o das contradi.ções reais que
que temos do valor só é obtido a partir de uma crítica do conceito consti tuem o modo de prodnçao cap1tahsta. _ • ..
primitivo que tern os da coisa c da troca. Isso é sobremodo importan te porque se torna posstvel por nlll·
A metamorfose não ê, pois, nem empírica nem especulativn, d ~lmente em evidência a disslmetria existente entre cotsa e mercado..
mas consiste apenas no fato de que sa ímos da falsa contradição, su· ria: não apenas dissimetria histórica, o fatp de .que a r~l.ação delas
primindo-a. seja de sucessão. irreversível, sem ~edproca possrvel. Só e rnte~es~a_n·
te fazer intenir no curso da anáhse o processo real de constt~utçao
I l. A "coisa de dupla face" era apcn as, portanto. um "primei· da mercadoria na medida em que se possa. mostrar que e.~sa hrstórra
ro enfoque" (do mesmo modo, aliás, que as duas coisas ao mesmo esta como que depositada 110 mat~ri.al analrsado, onde a encontramos
tempo: os termos da contradição de.wpareceram): a mercadoria não no arra njo assimét rico das condtçoes:
é uma real idade dilacerada. contraditório, separada do st•u valor.
coisa mercadoria
Pele) contrário, a mercado da é bem detcrmi11 adn pela sua qualidade
fun damental (a parti r da qual é possível um cálculo quantitativo: o - uso ~ .t. troca
- valor de uso valor propriamente dito
cálcu lo do valor a partir de um quamum de trabalho): simplesmente
ela niio é como aparece (e recip rocamente). A su a verdadeirn reali· -
..
traba lho útil ~ - tral>alho social
dade é ser um fantasma (não o produto de um trabalho, mas do tra·
balho em gera/i. O fantasma é o que deve exprimir-se com exclusão
de qualq uer qua lidade ernpiricarnente observável: nem por isso dei-
xa de ser uma realidade muteriul. diverstdadc _,. (independentemente J - f<>rç.a de trabalho única
Se a coisa que tem dup lo aspecto nt1o passa de rtpre.;cntação das de qualquer forma de sodedade
inadequadn, valor de uso e valor de troca não devem de modo nl· necessidades de sociedade)
gum ser colocados no mesmo plano. Não pode haver contradição O valor de uso não se determina sob forma diac~ítica, mas na
entre elos, a nào ser por ignorància ou ilusão (e assim a contn\dição sua relaçlo direta com a coisa: ele nà~ ass~ me seu scntt? o a parur de
é apenas a da ilusão). Podemos então volt;c r a um pwblemajá consi- uma total idade estruturada, mas no 1nterror de uma d.vemdade ra·
derado: os " dois fatores" da mercadoria não fo ram obtidos por di - dical. · d' · · d
ferenciução no interior do conccHo. É, pois. in•possível apresentar as caracter1Sttcas .rstrn.uvas o
Os "o bjetos·· que se apresentavam na troca sito nesse momento valor de uso e do valo r de troca sob uma forma analóg1ca: a r_nerc_a·
tào-só "sublimados": "ndo mani festam mais <tue umH coisa". Che- do ria o seu valor como it coisa a sua utilidade. U m~ vez rn.aJs, _na~
gamos :1 derradeira condição: o trabalho em geral quo é depositado, há simetria. nem reciprocidade: a distinção do~ ~ors nívers ~ao e
acumulado, cristalizado, entranhado nas mer·cadorias. F.:sse tr.cba· abstrata (no in terior de uma totalidade ideal , dcvult da contra st _mes-
lho é por sua'~'- produt.ido por uma "força única": "a força d~ tra· ma), mas real. E só o método analítico pcrmttc eluctd ar essa drstrn·
balho de todn "·sociedade, a qu:rl se mani festa 110 cotyrmro dos valo· ÇÜ(). . . .
res" . O estudo :rnalitico partiu do elemento simples (o valor) para Os "objetos" que enchem os mercudos. d~ soctodade cap:tahsta
vo ltar it totul idade com plexa e estrutu rada que o constit ui crn úl tima süu rcalineme divididos: por um lado, são ute1s; por outr" •. sao tro-
aná li&e: e desse modo o v<lior só se define em relação ao todo dos va- cáveis. Kào pode haver conllitcl especulativo entre esses dots. aspec·
lores; c;liHingu~·~c assi m radical mente do uso que só se deterrnina tos: só pode haver conOito real. Pode também haver conhecrmento
em relação à coü;u. A expressão: valor da mercadorja assume. pois, 3dequadc;> da distinção.
novo sentido. dado que não constitui maiS' o derradeiro termo da
análisc, m;ts apenHs uma das suas fases; se a substância do valor é o •
trubal ho em geral (que não se deve con fundi r com o trabalho " inde·
pendentemente de qualquer forma de sociedade", p. 58). é que o ele- Dessa leitLira das primeiras páginas de O Capital podemos tirar
mento simples do valor só tem sentido diaarítico, pelas relações que as conclusões seguintes: . . . .
mantém com todos os demais \'aiores. O estudo formal dos elemen- I) A critica do em pirismo e a do tdealtsmo cspeculatrvo vão
tos simples é, puis. incompleto em si mesmo. 1\o estudo de uma con· reunidas.
208 LER 0 CAPITAl O I'ROCESSO I) E EXPOSIÇÃO DE " O CAPITA L" 209

2) O processo real (su rgimçnto da mercadoria, na história eco- I li). .


Certos conceitOS sofrem essa mu taça• 0 •.
. outros • úteis na passa·
nômica) não é d iretamente reproduzido (refletido) pelo movimento em ou no inicio. serão elumnados no cammho. .
da a nálise: no entanto, a diferença "histórica" que faz com que se g Essa m utação é devida tam bém a o tr~balh.o de conce1tos.que
possa conceber a coisa sem a mercadoria, mas não a mercadoria sem ' - em diretamente à ciência da hlstóna. Esses C?nceltos.
a coisa, é reenco ntrada na ordem da exposição que estabelece os rc· n~~ s::~~~~em .a forma do raciocínio, e que fazem verdad~mamente
quisitos d os conceitos: no q uadro dessa ordem dogmática que per· ~ trab~lho da análise (Genera lidades !1), p rovêm de domln•os dlfe·
tence d~ direito à análise. a mercadoria não pode ser upresentada rentes:
como o equivalente, ou o inverso da coisa. Assim se exprime a ne- análise
cessidade de uma ordem de s ucessão que permite pensar a passagem _ metodologia geral das ciências
abstração
da coi~ mercadoria, mas não o inverso.
'() valor não está para a mercadoria assim como o uso está para - tradição lógica e filosófica forma
a coisa: porque esses termos só tem sentido em níveis muito distan- expressão
contradição
ciados da análise conccptual. Essa impossibilidade formal, que defi-
ne uma o rdem dogmática entre os conoeitos, é também a melhor _ prática matemática equação
maneira de elucidar a ordem histórica: assim a o rdem dogmática redução
não é distinta da ordem histórica como o pensamento é distinto do medida
real (no interior d o real): a ordem dogmática permite pensar a or-
dem histórica. " Esses conceitos têm por função transform~r ~analisando·os) os
3) Como pudemos observar. os conceitos não conservam um conceitos que dão 0 conteúdo da teori~ cconom•ca. . .
sentido imutável no curso da análise. Por e~emplo, o ·conceito d e \parece 0 fato de que esses conceitOS sofrem por sua vez. no
mercado ria 6 no início algo como um conceito "euclidiano": u mer· curs~ da disssertação, urna transformação. Mudam ~ompl~tam~nJe
cadoria aparece nu ma forrna de contornos nítidos (o equivalente de de sentido: como vimos. a análise não cessa de defim r:se, a me 1 ~
uma figura); é desse modo suscetível de defi nição empírica. O mes· q u~ p·•ssa '
a ní'leis diferentes. Do mesmo modo, a n5'çao defo,dmae
mo não acontece com o conceito de valor q ue não é suscetível dessa empregada pelo menos dc d ots · n1odos incompatíveiS': a merca ona
d'
a arcce como coisa (a forma é essa forma de a~areclment~ que a
0~ seus primeiros contornos, nit idos. à mcrcadona); o ~ai~ surge ~a
defin içã o {ele a exclui de saída): o valor surge numa forma não·
d.efinida; o seu conceito deverá ser construído pela com binação de
uma redução e de uma dedução. Mas, recorrentemente, uma vez r~l~çào de troca das merc;•dorias. ou antes. a propós~to d·dsa re a.;
destacada a substância do valor, a mercadoria surge como incom - ção· oCSS'l forma de apare<:unento é sobremodo precâna, ·<I O qu~
aco~ a~ hnda de uma cont radição; esta a razão pela qual é prec1so
•dução a outro termo que é a verdadeira form.ado ~alor,
p letamente caracaterizada pela sua definição (que era apenas mani·
festaçâo); e m seus contornos empíricos era apenas fantasma de si , b. P
s u tr, porre · ã d ator 0 concmto de
mesma: con frontada com o verdadeiro conceito d o valor, e la sofre nã o d iretamente visível agora: a equaç o o v · ·
uma metamorfose. Assim os conoeitos, se não são desenvolvidos u ns forma transfo rmou-se, pois. completamen~e ao mes":~ temp~ ~ue ~
de mercadoria foi questio nado (para fazer com que e a apareça no
a partir dos outros, tam bém não são postos uns ao lado dos outros,
nu ma relação de indiferença: eles se trabalham e se tra nsformam seus contornos de fantasma).
mutuamente. O processo do conhecimento é tam bém, mas não por Assim é que os conoeitos ~ue "irnbalhan~' os ~emais sã~ po~
si só, um processo ma t~riql, sua vez naba~hados; Podemo$ 10dagar por.que: se sao Gener~h.da
Esse traba lho deve fazê-los passar do seu estado primitivo de des 1 que tendem a converter-se em Generalidades 111. que conceitos
conceitos ideológicos, tomados a teorias mais ou menos cien Hficas desempen ham para eles o papel de Generalidades 11? A resposta a.
(Generalidades 1), ao estado de conceitos científicos (Generalidades ta l questão é simples: sào os dem ais conceitos, os "conce1.tos de co~·
teúdo", que ocupam esse lugar de conceitos forma1s: c poem os pn·
·1 ros à prova Dessa maneira 0 trabalho do conhecnnento efetua-se
:~ dois sentid~s ao mesmo tempo (nisso é que ele e verd~~e~ramen·
·• O que nào $i,gnilica que a constitui Mui lo pelo contrãrio: c é nesse porllO que a no~ 1. d·alé(co). 0 texto de O Capital, como vimos desde o IniCIO,~ es·
ção de renexo as.sumç todo o seu sen1ido. c~it<~ e~ dois níveis: o da teoria científica em geral (fo!~a do ra·
I
210 I. ER O CA PITAL O PROCESSO DE EXPOSJCÃO DE "O CAPITAl" 211

ciocín io) e o da pnllica de uma ciência particular: conforme o leia- sente conOito, são em si mesmas outras tantas desorden~ (i~su ficie_n­
mos colocando-nos sob um ou outro ponto de vista, os conceitos tes. defeituosas. provisórias); o verdade1ro esforço da ctenc•a cons•s-
têm uma ação diferente: te em estabelecer no lugar da desordem rea~ (ou antes em outra
re) uma desordem de pensamento em cond tçoes de medt·la: A verd,J·
pa;·
deira racionalidade e a verdadeira lógica são as dn dJvers•dade e da
GI........_,.o II~G III Pr. leórica desigualdade. P roduzir saber é fazer como s~ a desordem fosse uma
o 1~0 n""""o m I TEORIA ordem, servir-se dela como uma ordem: por ISSO é_que a estrutura de
um saber jamais é transparente, mas opaca. diVIdtda, Incompleta,
material. "
4) A exposição científica é organizada de modo sistemático,
Junho de 1965
mas isso nilo quer dizer que remeta a uma ordem homogênea e coe-
rente: :as ligações entre os conceitos nilo são unívocas nem equiva.
lentes: estabelecem-se ao mesmo tempo em níveis distintos. As cone-
xões entt·e os termos do discurso não são. pois, de estrita concordân-
cia: valem s(lb~etudo pela tensãQ frutífera que certas discordâncias
realizam (ex., a'contradictio in adjecro). Com_preende-se assim que a
passagem entre os conceitos e as proposiçoes. rigorosamente de-
monstrada. não obedeça entretanto ao modelo mecânico da dedu- un~ de ernsma
çào (relaçào entre elementos eq uivalentes ou idênticos): é a partir do
connito que contrapõe diversas espéc·ies de conceitos e os faz traba·
lhar que são produzidos os conhecimentos novos.
Compreende-se então a razão pela qual a representação da efi-
--
_BIBLIOTE;C
.......
A

.eácia d entífica como ordenação é inteiramente insuficiente: o co·


.nheci men to niio consiste na substit uição da desordem pela ordem,
no arranjo de uma desordem inicial. Tal imagem, que representn
'com justeza um aspecto essencial da prática cientitica espontânea (i-
deal da taxionomia) não co rresponde à realidade material do traba-
lho científico. A idéia de um objeto imediato da ciência, desordena-
do e dado, é falsa: é a ciência que constrói o seu objeto, isto~. a sua
ordem: ela é q uc da a si mesma o seu ponto de partida. os seus ins-
trumentos." O essencia l é que a ordem que ela institui, tanto mais
que n:1o é calcada nu ma realidade "a ordenar", também não é defi·
niti va. Pelo contrário. é sempre provisória: deve ser incessantemente
trabalhada, confrontadu com outros típos de ordem; essa passagem
de o rdem em ordem . por rupturas sucessivas, é que define o proces-
so intMinido do conhe-cimento.
O contraste o rdem-desordem é demasiado pobre paru explicar
essa atividade: as diferentes ordens, relaeionadasentre si num inces-

'' Mas css~ proçesso do conbc.ctmento nem ~ independente, nem primeiro: é dctermi·
t As referências são indicadas 5tgundo :t tradução do livro (de OCápltal. publicadc.
ll<.tdl) romo tal peh• realidmk maleria I (da qual é reflexo enquanto efeito de condições
ub;ct h~s) . pelas Kditions Socialts (1. 1).

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