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Manfred Waldemar Kohl

Antonio Carlos Barro


(Organizador. .)

LiderQn~QCristã
TAANSFOAMADOAA

Londrina - PR
Ficha catalográfica elaborada por Solange Ap. Ferreira, CRB 9/1141,

Kohl, Manfred Waldemar; Barro, Antonio Carlos


Liderança Cristã Transformadora 1 Manfred W Kohl, Antonio Carlos
Barro; .--. Londrina : Descoberta, 2006.
263p.
ISBN - 85-871-44Ü9-X
1. Liderança 2. Liderança cristã I. Título.
CDD 253
CDD253.2

índice para catálogo sistemático:


1. Liderança - 253
2. Liderança Cristã - 253.2

1 a edição: março / 2006

ação de produção: Antonio Carlos Barro


te de produção: Jonathan Menezes
'duartbJ Pellissier
ação: Louis Mareei
o: .Pnio Caldeira Pinto (Cap. 2) e fonathan Menezes (Cap. 7)
: Selma Almeida Rosa
s: Capa e Miolo - Êxodo Fotolitos Ltda
- o: Gráfica Betânia

Todos os direitos em língua portuguesa reser


Descoberta Edito
Rua Libero Badará, 142 - Nova
LondrinalPR 86
Tellfax: (43) 33
Endereço eletrônico: editora@descober
Página na internet: www.descobert

Editora filiada à

li.
editores, cristãos
ASEC - Associação de Editores Cristãos

I. 4., . l ~
(NDICE

INTRODUÇÃO
MANFRED WALDEMAR KOHL
ANTONIO CARLOS BARRO 07

CAPfTULO 1
o MINISTÉRIO DE JESUS COMO MODELO DE
LIDERANÇA PARA OS NOSSOS DIAS
W ANDER DE LARA PROENÇA 11

CAP{TULO 2
TRANSFORMAÇÃO RADICAL NA FORMAÇÃO
DO LfDER CRISTÃO
MANFRED WALDEMAR KOHL 41

CAPíTULO 3
Fundamentos bíblicos para a
LIDERANÇA CONTEMPORÂNEA
JUAREZ MARCONDES FILHO 65

CAPfTULO 4
A ESCOLHA DO PASTOR COMO FATOR
PARA UMA LIDERANÇA TRANSFORMADORA
ANTONIO CARLOS BARRO 81

CAPfTULO 5
CUIDEMOS DE NOSSOS LfDERES

ESLY REGINA S. DE CARVALHO 109


CAPíTULO 6
o CUIDADO INTEGRAL DOS
TRABALHADORES ECLESIÁSTICOS
ADRIANA THOMÉ 133

CAP(TUlO 7
FILOSOFIA MINISTERIAL DE LIDERANÇA·

jAVIER G. VELASQUEZ jARAMILLO 167

CAP(TUlO 8
CARISMAS E CULTURA: PARADIGMAS
PARA UMA LIDERANÇA TRANSFORMAOORA
jONATHAN MENEZES 191

CAPíTULO 9
DISCIPULADO: O ESTILO DE VIDA DE
UMA LIDERANÇA QUE TRANSFORMA
LUIZ AUGUSTO CORRtA BUENO 223

CAP(TULO 10
A LINHA DO TEMPO NA VIDA DE UM LfDER

ELIAS DANTAS FILHO 247


INTRODUÇÃO

Nas últimas décadas a igreja evangélica descobriu a


importância de estudar e compreender melhor todos os
aspectos que compõem o gerenciamento de igrejas e
organizações eclesiásticas. Nunca se escreveu, leu e estudou
tanto sobre liderança como nesses últimos anos. Todavia,
nunca se gerou tantas "aberrações", em certo sentido, no
âmbito da liderança, tanto através de produções literárias
como da própria "formação" de líderes em âmbito secular e
eclesiástico. A tarefa da formação de líderes para servir no
ministério é, na perspectiva aqui adotada, uma atribuição
de cunho teológico. Assim, convidamos o leitor para refletir
sobre as elaborações e temas abordados) que abrangem
Bíblia) teologia, igreja, cultura e realidade. Concordamos
com as recomendações de Júlio Zabatiero:
Invista parte significativa de seu tempo e do tempo de
sua liderança no estudo sólido da teologia. Não de um
teologismo vazio. Não de uma teolatria, Mas de uma
teologia prática, relevante, fiel à Escritura e desafiadora.
Não seja apenas um seguidor de modelos. Seja um
criador, uma criadora de propostas atraentes e bem-
sucedidas. Faça teologia! (... ) Sem teologia nosso
ministério fica unilateral, reducionista, imitativo. Sem
teologia nossa igreja fica anêmica, banal, irrelevante.
Precisamos de uma nova eclesiologia. íntegra em sua
fidelidade à Escritura e relevância contextual. Integral
na sua abrangência, não restrita aos modelos de sucesso.
Não restrita às repetições de fórmulas e chavões
confessionais. Teologia na prática! (In BARRO, Jorge
H. Uma Igreja Sem Propósitos, 2004, p. 211, 212).
Iniciamos nosso livro com a apresentação do capítulo
de Wander de Lara Proença que aborda o ministério de
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Liderança Cristã Transformadora
8 Manfred W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

Jesus como modelo de liderança para nossos dias. Em sua


análise, Jesus foi humilde em todas as ações e valorizou a
vida humana acima de qualquer projeto ou instituição.
Segundo ele, "Jesus não manipula os homens, mas desafia-os a
tomar o caminho do Reino, a assumirem responsabilidades, a
serem participantes ativos no processo libertador". Assim, a
liderança de Jesus continua sendo um modelo desafiador a
todos os líderes evangélicos nos dias atuais.
Manfred W Kohl vê os aspectos da liderança a partir
do seu "berço" - pelo menos em termos de igreja - ou seja,
na formação dos pastores e líderes dentro dos seminários.
Ele diz que os seminários precisam atualizar seus currículos
incluindo temas da atualidade que irão ajudar os pastores
no desempenho de suas funções. Com sua experiência em
assessorar escolas teológicas, compartilha conosco sua
compreensão sobre as lideranças dos seminários propondo
aprender novas e eficazes maneiras de incorporar o
treinamento prático na "total experiência do seminário".
Juarez Marcondes Filho também trabalha os aspectos
bíblicos de uma liderança eficaz, mostrando que o líder usado
por Deus não exerce a liderança assentado sobre o poder,
servindo-se dele e, ao mesmo tempo, servindo-o. Marcondes
acentua a necessidade de valorizar os aspectos do serviço ao
outro como elemento motivador da liderança, desafiando-
nos a despojar-se do poder que manipula e subjuga os outros.
Antonio Carlos Barro questiona o processo e os
critérios sobre a escolha de líderes nas igrejas evangélicas.
Para ele, essa escolha é na maioria das vezes feita de forma
subjetiva, sem nenhum padrão de confiahilidade e causadora
das frustrações futuras do candidato que não respondendo
satisfatoriamente aos anseios da igreja. Barro nos encoraja a

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Introdução
Manfred w: Kohl e Antonio Carlos Barro

elaborar uma filosofia bíblica de ministério que será de


grande auxílio na escolha de uma igreja. E, para a igrej a,
será um guia com sugestões de como escolher de maneira
equilibrada e com discernimento o seu líder.
Com uma abordagem complementar a de Barro,
porém, ressaltando diferentes aspectos, Esly Regina Carvalho
comenta sobre as necessidades e as tentações que enfrentam
os líderes. Ao mesmo tempo, oferece sugestões e práticas na
perspectiva do cuidado para uma liderança transformadora,
assistindo-a integralmente a fim de que possa cuidar melhor
do rebanho e de si mesma.
Ainda nessa discussão concernente ao cuidado,
Adriana Thomé levanta uma outra problemática relevante
às ponderações teológicas sobre a liderança fazendo uma
reflexão interdisciplinar a respeito do cuidado integral dos
trabalhadores eclesiásticos, partindo do estudo sobre a teoria
das necessidades humanas de Abraham Maslow, Ela convoca
a liderança cristã brasileira a se posicionar contra a forma
desumana que muitos trabalhadores eclesiásticos vêm-sendo
tratados nesse país, ressaltando ainda a importância que Deus
dá às pessoas e, conseqüentemente, ao seu cuidado integral.
O pastor boliviano Javier Velásquez apresenta um
esboço de sua filosofia ministerial de liderança, afirmando
que essa se constitui a partir das particularidades de seu ser.
Ele ressalta, nesse sentido, o papel da hermenêutica bíblica
e das concepções teológicas, bem como das relações
interpessoais e do contexto sócio-cultural, dos quais emergem
essa filosofia. Pondera, por fim, que o líder se torna grande
à medida que vive sem renunciar sua missão e influencia
pessoas a segui-lo em uma mesma visão.
Em seu estudo, Jonathan Menezes destaca outro
relevante aspecto acerca da liderança cristã: a questão dos
Liderança Cristã Tram.formadora
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Manfted W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

carismas (dons) e sua relação com a identificação cultural


do líder, considerando os desafios do tempo atual e a
necessidade de uma postura mais contextual e encarnacional
dos cristãos. Alerta ainda para uma questão bem específica:
como exercer uma liderança transformadora no contexto
brasileiro quando se é relativamente jovem?
Luiz Augusto Corrêa Bueno desafia-nos ao
discipulado como sendo um estilo de vida para uma
liderança transformadora, calcado na vida e no exemplo de
Jesus, que caminhava com seus discípulos ensinando e,
simultaneamente, desenvolvendo uma profunda amizade
com eles. O modelo de discipulado de Jesus consiste no
exemplo, como se dissesse: "venham e vejam como se faz".
Segundo Bueno, "não existe um discipulado que tenha
resultados transformadores em nossa sociedade e não possua
os princípios da vida de jesus",
Finalizando, Elias Dantas Filho conduz-nos em uma
interessante viagem na linha do tempo da vida de um lider.
Essa cronologia vai desde os chamados fundamentos
soberanos, inerentes à consciência da ação de Deus na vida
do líder, até o que se chama de fase da celebração que, de acordo
com o autor, é resultado de integridade interior e habilidade
para estar continuamente aprendendo ao longo da vida.
Nessa perspectiva, convidamos você, leitor(a), a
caminhar um pouco mais junto conosco a partir da reflexão
teológico-prática aqui encetada, considerando que,
parafraseando Caio Fábio, seguir Jesus é, e sempre será, "o
mais fascinante projeto de vida" - premissa central para uma
liderança transformadora.

Manfred ~ Kohl
Antonio Carlos Barro

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MINISTtRIO DE ·JESUS
];' MO MODELO DE LIDERANÇA
RA OS NOSSOS DIAS

VVANDER DE lARA PROENÇA


o ministério de Jesus como modelo de liderança transformadora para os nossos dias
Wánaer de Lara Proença

que João Batista" (Mt 11.11). O movimento de João, muito


provavelmente, teve a sua origem junto à comunidade dos
essênios, os quais formavam um movimento religioso no
deserto do Mar Morto, onde mantinham, inclusive, uma
escola para a formação de novos profetas. Pais costumavam
levar seus filhos ainda crianças ou adolescentes para serem
educados pelos mestres daquela escola, sendo que, os que
demonstravam vocação religiosa, após longo período de
estudos e preparação, passavam a exercer a função de
profetas, como certamente ocorrera com João. A liderança
exercida por este profeta teve algumas características
marcantes: forte apelo ao arrependimento e à conversão;
proposta de partilha e ajuda mútua (os essênios doavam todos
os seus bens à comunidade e tinham tudo em comum);
denúncia profética das injustiças, o que levou até às últimas
conseqüências, como a perda da própria vida.
Nesse contexto e ambiente, o ministério de Jesus se
desenvolveu com singularidade e estilo próprio, vindo a se
constituir em modelo de uma liderança verdadeiramente
transformadora e, por isso, parâmetro para a ação da igreja
em nossos ~ dias. Passaremos a descrever e analisar, a seguir,
alguns destes fundamentais aspectos.

I - LIDERANÇA EXERCIDA COM LEGITIMIDADE E ~TICA

Jesus, ao cumprir o seu ministério, não buscou o


credenciamento ou autorização oficial disponibilizada pelo
templo religioso de Jerusalém. Não que o templo, em si
mesmo, representasse algo proibido ou pecaminoso - até
porque era considerado "casa de oração" - mas, sim, pelo
fato do mesmo ter-se tornado naqueles dias lugar que
concentrava um poder comprometido com interesses
corrompidos e alheios à vontade de Deus. O templo de
16 1--=-----------"------------
Liderança Cristã Transfõrmadora
Manfred W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

Jerusalém, segundo pesquisas históricas, empregava cerca


de vinte mil funcionários, por constituir-se num centro
religioso, administrativo, educacional e jurídico, estendendo
suas funções administrativas por toda a Palestina e fora dela
através das muitas sinagogas construídas para agregar judeus
dispersos em diferentes lugares do mundo antigo.
Entretanto, o próprio Jesus disse que viera para
cumprir toda a Lei e, por isso mesmo, não quis exercer um
ministério sem a legitimidade legal para atuação pública.
Por esta razão esperou até aos trinta anos para iniciar o seu
ministério, uma vez que esta era a idade mínima prevista na
Lei mosaica para o desempenho de atividades sagradas
sacerdotais ou proféticas. Cumprindo este preceito, buscou
o devido credenciamento m.inisterial no batismo de João, o
qual, por sua vez, estava filiado à comunidade dos essênios.
Há, inclusive, especulações históricas de que em seu período
de vida terrena, entre os 12 e 30 anos, o próprio Jesus
também tenha convivido por algum tempo com aquela
comunidade do deserto. Ao ser batizado por João, portanto,
recebeu por esse rito a credencial de legitimidade para o
exercício de um ministério profético e sacerdotal, o que lhe
assegurou até mesmo o reconhecimento dos mais exigentes
líderes do templo de Jerusalém (Mt 21.23,27). Assim,
percebe-se que o próprio Cristo se preocupou em seguir os
trâmites legais do exercício da vocação, não usurpando nada
que não lhe tenha sido conferido por direito.
É importante notar que Jesus não quis se filiar a
nenhum dos partidos religiosos atuantes no templo, como o
dos fariseus e saduceus, por entender que isto se tornaria
um obstáculo para o exercício de um ministério profético,
pois muito provavelmente teria de se calar diante de abusos
de poder, de interesses escusos e egoístas que inviabilizavarn

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o ministério de Jesus como modelo de liderança transformadora para os nossos dias
Wander de Iara Proença

a mensagem do Reino de Deus, uma vez que aquelas


estruturas religiosas haviam se tornado como que "odres
velhos" que não conseguiam abrigar "o vinho novo" do
evangelho por Ele anunciado. Desta forma, portanto,
revestido pelo poder do Espírito Santo, teve liberdade de
escolher lugares para exercer um ministério que lhe
permitisse se aproximar de pessoas que eram excluídas da
sociedade e mal vistas pela religião da época.
A presença permanente do Espírito em Jesus é o
verdadeiro começo do reino de Deus e da nova criação na
história. Por isso Jesus expulsa demônios nesse poder, cura
doentes e restabelece a criação destruída. Essa presença do
Espírito é a autoridade de sua pregação e liderança.

II - LIDERANÇA QUE SUPERA O DUALISMO DO SAGRADO


E DO PROFANO

Jesus, no exercício de sua liderança, literalmente


pisou em terreno proibido. Ao contrário dos líderes religiosos
do templo ignorou as distinções entre sagrado e profano,
indo viver e atuar em lugares considerados impróprios para
um líder religioso de seus dias. Foi assim, por exemplo, em
relação a Galiléia, lugar onde não apenas viveu, como
também dedicou 900/0 do seu tempo de ministério público.
Após jejuar por quarenta dias no deserto, sob o poder e a
autoridade do Espírito Santo, Jesus se dirigiu para aquela
região a fim de exercer de forma pública a sua liderança
(Mc 1.14-15; Mt 4.12). A Galiléia se caracterizava como
Iugar de pobreza, de miséria, possuindo grande
concentração de não judeus, sendo por isso considerada pela
religião judaica corno lugar de maldição. Lá também existia
um grande número de analfabetos, sendo por isso tidos
como ignorantes da Lei e, logo, também, amaldiçoados 00
Liderança Cristã Transformadora
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Manfred W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

7.50-52). Por tais razões, a religião do templo considerava


aquele lugar como sendo "região da sombra da morte".
Jesus, entretanto, já no início de seu ministério na
Galiléia, faz uma paráfrase do texto de Isaías e declara: "O
Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para
evangelizar aos pobres; enviou-me para proclamar libertação
aos cativos e restauração da vista aos cegos, para pôr em
liberdade os oprimidos, e apregoar o ano aceitável do
Senhor" (Lc 4.18). A essas pessoas Jesus leva a mensagem de
um novo tempo, o tempo do perdão e da reconciliação com
Deus. E, mais, ao assim proceder restitui tais pessoas ao
convívio normal da sociedade, na qual passariam a agir
também, difundindo o Reino de Deus. Por isso o autor
bíblico registra que "resplandeceu luz ao povo que jazia em
trevas... e vida àqueles que viviam na região e sombra da
morte" (Lc 4.16).
Também não foi diferente a atitude de Jesus em
relação a outros lugares. Visitou a terra dos gerasenos, por
exemplo, lugar considerado impuro pelos judeus por lá existir
uma economia centralizada na criação de porcos (Me 5).
Esteve ainda em Samaria, lugar considerado impuro pelo
fato de concentrar uma população racialmente miscigenada,
devido ao casamento de judeus com outros povos, desde
que o reino do Norte de Israel, em séculos anteriores, sofrera
uma invasão por povos estrangeiros. Naqueles dias, todo
judeu piedoso, em viagem, preferia percorrer uma dezena
de quilômetros a mais, para evitar a passagem por aquela
região. Entretanto, em Samaria Jesus transformou a vida de
uma mulher (]o 4) fazendo dela uma missionária no meio
do seu povo. Também destacou um samaritano como
exemplo de amor ao próximo e cumpridor da Lei (Lc 10).

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o ministério de Jesus como modelo de liderança transformadora para os nossos dias
Wander de Lara Proença 119
Outro episódio igualmente importante se deu no Monte
Tabor, cons 'erado impuro pelos religiosos pelo fato de lá
ainda existirem reminiscências de cultos cananeus, tidos
como profanos. No entanto, Jesus, ao experimentar a glória
da visitação divina, na transfiguração, fez questão que isto
ocorresse naquela montanha, provavelmente para significar
que a presença e a difusão do reino de Deus devem perpassar
todos os lugares, indistintamente.
Paulo, apóstolo, seguindo também o exemplo de
Jesus, quando desenvolveu o seu ministério na cidade de
Corinto, foi viver nas regiões do porto de Cencréia, onde se
concentravam inúmeros trabalhadores escravos e
comerciantes estrangeiros em passagem pela cidade. Lá, o
apóstolo também trabalhou como comerciante artesão,
vendedor de tendas, tendo nisto uma estratégia para contato
direto com aquela população. Como resultado deste plano,
nasceu naquele lugar uma importante igreja que passou a
atrair freqüentadores de diferentes nacionalidades, lugar este
no qual o dom da glossolalia (capacidade de falar em outras
línguas) se tornou estratégico, pois permitiu que muitos
estrangeiros ouvissem o evangelho em sua própria língua
(como já havia acontecido no pentecostes de Jerusalém) e se
convertessem, tornando-se a partir dali também difusores
do evangelho em seus respectivos países de origem.
111- LIDERANÇA QUE PROMOVE TRANSFORMAÇÃO SOCIAL
Jesus, no exercício de sua liderança, tornou-se uma
pessoa do povo, vivendo no meio deste. Não fez acepção de
pessoas. Conviveu com pobres, doentes, analfabetos,
pecadores, gentios, publicanos, prostitutas e escravos. O seu
ministério teve como meta devolver a dignidade e o convívio
em sociedade daqueles que eram socialmente
Liderança Cristã Transformadora
20 I f - - - . . . ! - - - - = - - - - - - - - - - - - - - - - - t
Manfred W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

desclassificados. Chamou dentre eles, inclusive, os que se


tornaram seus discípulos mais próximos. Daí ter sido
duramente criticado pelos religiosos da época, pois uma das
acusações que lhe fizeram, por ocasião do seu julgamento,
foi a de "viver com pecadores".
Como já afirmamos, o sistema religioso judaico,
centralizado no templo, estava profundamente corrompido
naqueles dias e usava o critério da pureza racial ou cerimonial
para aceitar o indivíduo em sua membresia. Enquadravam-
se no critério de impureza todas as pessoas que exercessem
profissões que lhes exigissem trabalho no sábado (pastor de
ovelhas, por exemplo); ou ter contato com sangue
(açougueiros); e também os que possuíssem determinadas
doenças, como por exemplo a cegueira (João 9), que era
tida como maldição divina. A condição financeira da pessoa
também acabava determinando sua "pureza" diante de
Deus. Geralmente uma pessoa pobre, que desejasse se
arrepender dos seus pecados, teria sérias dificuldades para
obter o perdão divino, ou mesmo para se manter pura, uma
vez que não teria condições financeiras para pagar os
sacrifícios e holocaustos expiatórios, ou ainda as taxas de
tributação cobradas pelo templo para manter as elites
sacerdotais e funcionários que nele trabalhavam. Por isso, os
ricos consumiam quase que de forma exclusiva os benefícios
da religião, tais como o perdão e a garantia da "bênção" de
Deus, que geralmente eram medidos pela "prosperidade"
econômico-social obtida.
A liderança de Jesus, portanto, ocorre de maneira
transformadora pelo fato de se dirigir ao oprimido, aqui
entendido não apenas como um indivíduo isoladamente na
miséria, que necessita de justiça, mas sim, um indivíduo que
é historicamente miserável enquanto desclassificado. Assim,

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o minístério de Jesus como modelo de liderança transformadora para os nossos dias
Wander de Lara Proença

enquanto vai a este excluído, Jesus está também superando


as barreiras de classe que faziam dele um leproso, pecador
ou endemoninhado, não só um miserável individual, filas
um desclassificado social. Esta transformação se concretiza,
então, à medida que desemboca em uma nova forma de
convivência humana na qual, em princípio, são abolidas as
diferenças sociais. Sua atitude é solidária e seus gestos
libertadores, alcançando os pobres, carentes e humilhados,
e as diversas categorias de aflitos e marginalizados da
sociedade de seu tempo. Dirige-se a estes a sua missão
pública. Ele vive, age e fala ao lado destas pessoas e a favor
delas, enfrentando o escândalo daí decorrente. Isto não
significa que Jesus exclua de sua missão os ricos e os sábios
de seu mundo. Procura chegar a eles, contudo, partindo
dos pobres, como testemunha do Deus que liberta os
oprimidos e se revela ao simples.
Para a comunidade que se formou mais tarde, após a
morte e a ressurreição de Jesus, a própria vida de Jesus se
constituiu em referência de esperança, pois viveu
seqüencialmente diferentes realidades para a obtenção e o
exercício. de sua liderança: Ele é o Senhor que se tornou
escravo, e o escravo que se tornou novamente Senhor dos
senhores; é o réu condenado e executado que passou a ser
juiz divino; é o bode ou cordeiro expiatório que assumiu a
condição de sumo-sacerdote. Isto abriu caminho para que
o cristão também pudesse participar agora dessa nova
realidade em Cristo. A ligação a Cristo criou possibilidades
de ascensão mesmo para o menor dos menores, pois nEle
foram abolidas as diferenças, não havendo mais distinção
entre judeus e gregos, entre escravos e libertos (GI 3.28).
Esta mobilidade social fez com que membros da
comunidade cristã criassem uma identidade de resistência,
221--~~~..L--_-------------
Liderança Cristã Transfõrmadora
Manfred W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

cujo encorajamento impulsionou para a esperança de que


era possível reverter os processos históricos de opressão e
dominação, substituindo-os por uma realidade construtora
de justiça e de liberdade.

IV - LIDERANÇA QUE VALORIZA O TREINAMENTO E O


PREPARO DE OUTROS LiDERES

jesus não atuou sozinho e nem quis exercer liderança


isoladamente. Por isso, chamou discípulos, dividindo com
eles a tarefa de propagar o reino de Deus. Nesse sentido,
vale destacar a sua estratégia de constituir também uma escola
para a formação teológica e ministerial dos seus discípulos,
seus primeiros pastores e missionários. Quis Ele mesmo
exercer o papel de educador e mestre de doze alunos, por
aproximadamente três anos, tendo a preocupação de bem
treiná-los antes que fossem enviados ao campo. Ali
aprenderam a desenvolver uma espiritualidade cristocêntrica
e solidária; a elaborar uma teologia prática voltada para o
contexto em que viviam, tendo como fundamento a Palavra
que lhes era transmitida no dia-a-dia; e a conhecer a
importância e necessidade premente de um ministério
desenvolvido sob o poder e a capacitação do Espírito Santo
(Lc 4.16-21).
Seguindo este mesmo propósito, vale de igual modo
destacar a experiência de Paulo, que se tornou apóstolo
mesmo sem pertencer ao grupo dos doze. Ainda assim,
passou também por um período de treinamento e preparo.
Logo após a sua conversão, percebendo os grandes desafios
ministeriais que teria pela frente, dirigiu-se para o deserto
da Arábia (GI 1.17,18), onde permaneceu por três anos
revendo toda sua formação judaica e desenvolvendo sua

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o ministério de Jesus como modelo de liderança transformadora para os nossos dias
Wander de Lara Proença

teologia à luz da nova revelação que se deu em Jesus Cristo.


Pesquisadores há que afirmam ter existido nestas regiões da
Arábia comunidades cristãs de origem essênica, no interior
das quais teria também sido organizada uma escola de
preparação teológica e ministerial. Convertidos à fé cristã,
os essênios teriam então redefinido sua mensagem,
conservando, porém, o princípio de treinamento de novos
líderes para servirem ao Reino de Deus que já era chegado
a partir do advento de Jesus Cristo.
Mais tarde, já constituído e reconhecido como
apóstolo, ao fixar residência na cidade de Éfeso, Paulo fez
daquela cidade um centro de treinamento de missionários
para abertura de novas igrejas em diferentes regiões do
mundo antigo. Para isto, criou uma escola teológica de
treinamento de pastores e missionários, utilizando-se para
isto um antigo espaço ocupado pela filosofia, a "escola de
Tirano" (At 19.9,10). Ali certamente, dentre outros,
estudaram e se formaram importantes líderes como Timóteo,
Tito, Epafras. Após a morte de Paulo, aquela escola
continuou desempenhando importante papel na formação
de obreiros que dariam continuidade à visão ministerial
daquele apóstolo bem como na preservação de seus escritos.
Aliás, deve-se a esta escola o mérito de ter constituído o
primeiro "cânone" do Novo Testamento, chamado de
"corpus paulinum", que reuniu as cartas do apóstolo além
de outras produções teológicas por ele elaboradas durante
o seu ministério. Em Éfeso, portanto, este centro de
treinamento desempenhou importante papel na formação
de inúmeros líderes que mantiveram a visão teológica que
ajudou a melhor definir a identidade da igreja em sua tarefa
missionária junto aos povos considerados gentílicos.
241r---~---"------------------l
Liderança Cristã Transformadora
Manfred W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

V LIDERANÇA QUE PROPORCIONA À MULHER


OPORTUNIDADE DE LIDERANÇA MINISTERIAL

Na cultura religiosa da Palestina, nos dias de Jesus, a


mulher não podia participar livremente da religião judaica.
Esta distinção podia ser observada, por exemplo, durante as
cerimônias religiosas, nas quais havia espaços próprios para
a sua restrita participação, sendo obrigada, inclusive, a
permanecer em silencio durante o evento. Tais restrições
impostas à mulher acabavam gerando alguns
comportamentos no mínimo curiosos: estudos mostram que
todo judeu piedoso costumava repetir três vezes ao dia a
oração "graças te dou, oh Deus, por que não nasci
samaritano, nem escravo e nem mulher".
Durante a realização do ministério de Jesus,
entretanto, mulheres passaram a segui-lo e a servi-lo, como
atestam os relatos dos evangelhos (Mt 27.55-56). Um antigo
manuscrito, que se constatou ser um evangelho escrito pelo
apóstolo Tomé, foi encontrado por arqueólogos no Egito,
em 1945, o qual não apenas registra referências da
valorização dada por Jesus à mulher, como também destaca
a participação de liderança feminina no movimento
comandado pelo Filho de Deus. Esta participação ativa pode
ser observada nos evangelhos, de forma explícita ou não:
Jesus valorizou a mulher viúva no momento do ofertório
(Me 12.41-44); beneficiou-as com milagres e curas (Mt
9.19-22, 15.21-28); citou-as em seus ensinos (Mt 13.33;
25.1-13); delas recebeu presentes (Mt 26.6-13); no
momento em que celebrou a última páscoa, no cenáculo, lá
certamente estavam as mulheres não apenas servindo na
preparação dos elementos, mas também desfrutando daquele
momento de comunhão; o primeiro anúncio que se fez da

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o ministério de Jesus como modelo de liderança transformadora para os nossos dias
Wander de Iara Proença

ressurreição acontecida, foi confiado a uma mulher, Maria


Madalena, essa nobre tarefa; também quando ocorreu o
envio do Espírito Santo em pentecostes, mulheres estavam
lá presentes, em oração.
Cabe observar que quando nasceram inúmeras
comunidades cristãs pelo trabalho apostólico, mulheres
também participaram ativamente do estabelecimento
daquela tarefa, constituindo-se também em membros da
liderança que se formava. São exemplos disto: Febe, diaconisa
e líder da igreja existente no porto de Cencréia, na cidade
de Corinto; Priscila, que juntamente com seu marido,
Áquila, realizou importante trabalho missionário em Roma
e, depois, em Corinto como colaboradores de Paulo (Há,
inclusive, hipóteses de ter participado da redação da carta
aos Hebreus): Maria, mãe de Jesus que, segundo tradições
da igreja antiga, teve um importante papel de liderança nas
igrejas da Ásia Menor, desempenhando funções de
pregadora e missionária em toda aquela região, especialmente
na cidade de Éfeso, onde também morou ~té o final da sua
vida junto à família deJoão apóstolo. Nessa cidade, inclusive,
teve participação no trabalho de treinamento e preparo de
novos missionários que estudavam na escola teológica
fundada por Paulo, como observado anteriormente.
Como marcas desta presença e atuação, após sua
morte, escritos acabaram sendo produzidos por líderes
daquela escola, nos quais foram preservadas informações
importantes de sua vida ministerial e testemunho cristão.
26 lf---~...!.....:.....--.:L--_---------------I
Liderança Cristã Transftrmadora
Manfred W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

VI - LIDERANÇA QUE TRANSfORMA A RELAÇÃO ENTRE


SER HUMANO E NATUREZA

Nos dias de Jesus, uma das correntes filosóficas muito


influente era a do gnosticismo, segundo a qual o pecado
residia na matéria. E para que o ser humano pudesse alcançar
a salvação ou obter a verdadeira felicidade, acreditava-se ser
necessário libertar-se dos elementos materiais. Esse conceito
contribuiu diretamente para que a natureza passasse a ser
vista como algo negativo ou ruim. Com isso, muitos
movimentos religiosos da época chegaram a anunciar o fim
da criação, mediante uma destruição pelo fogo, para que o
pecado pudesse ser definitivamente banido.
Outras concepções helênicas sobre o "cosmos" eram
apresentadas pela chamadas religiões de mistério, segundo
as quais os ser humano era visto como submetido e
dominado por forças ou potências do universo. Esses poderes
espirituais do cosmos exerciam controle sobre o mundo dos
homens, regendo o destino das pessoas. Nesse contexto,
pessoas se sentiam solitárias e presas ao mundo, acossadas e
assustadas pelo mesmo, perdidas e indefesas ante uma
regência que lhes fugia ao controle. Por isso mesmo, muitas
se refugiavam na astrologia, no misticismo e na magia.
Outra corrente bastante difundida era a de que o
ser humano deveria dominar e subjugar a natureza, como
se a ela não pertencesse. Este conceito fazia parte da antiga
tradição hebraica, baseada numa interpretação do texto
bíblico do Gênesis 2.28 que diz: "(...) enchei a terra e sujeitai-
a; dominai (...)". A partir da leitura desta passagem, colocou-
se o ser humano na condição de alguém superior à natureza
e não pertencente a ela, dando-lhe por isso o direito de
explorá-la para os seus interesses pessoais e egoístas.

• I~' ~L ~ I 'I :, • I
o ministério de Jesus como modelo de liderança transformadora para os nossos dias
Wander de Lara Proença

Entretanto, ao vir ao mundo Jesus inverteu estes


valores de relacionamento do ser humano com a natureza.
Sua liderança transformadora em favor da criação já teve
início quando quis assumir plenamente a matéria ao se fazer
corpo pelo ato da encarnação. Com esse gesto mostrou que
não veio libertar o ser humano da matéria, mas veio libertar
a própria matéria. Dessa forma, a natureza também passou
a fazer parte da sua obra salvífica. Isto pode ser observado
na participação interativa da natureza no desenvolvimento
da sua vida e ministério em várias situações e momentos: ela
esteve presente no seu batismo ministerial, representada pela
água do Rio Jordão; nele se plenificou o poder do Espírito
advindo em forma de pomba; nos momentos de oração no
deserto, nas horas de contemplação nas madrugadas, ou na
transfiguração sobre o monte, a criação se lhe torna presença
materializada de Deus; na companhia amparadora e
testemunhal do Getsêmani no momento mais agonizante
da sua vida, a natureza oferece-lhe abrigo e tabernáculo da
visitação divina; o mesmo pode-se dizer quando uma árvore
é solidariamente com Ele sacrificada para acompanhá-lo no
violento ato de execução do Calvário, sendo ali também
encharcada pelo sangue reconciliador; ou ainda quando
ressuscitou ao terceiro dia, demonstrando que a criação com
ele morreu para que com ele também pudesse ser
transfigurada pelo ato da ressurreição; e é também no topo
de uma montanha, antes de ascender aos céus, que encarrega
os seus discípulos de darem continuidade à obra que
. ..
rruciara.
Portanto, para proporcionar salvação, Cristo foi
enviado ao mundo pelo Pai, identificando-se com a condição
humana, tornando-se também sujeito ao tempo e ao cosmos.
Liderança Cristã Transformadora
28 If-----~-..............-'---------------
Manfred W Kohl e Antonío Carlos Barro (Orgs.)

Ao consumar a sua obra, desfez de forma plena a temeridade


quanto aos rudimentos do cosmos (GI 4.3).

VII - LIDERANÇA QUE VALORIZA O SERViÇO AO INVÉS


DO SENHORIO

o texto de Filipenses 2.6 afirma que, ao se encarnar,


Jesus "não se apegou à sua igualdade com Deus" e que "não
julgou como usurpação o ser igual a Deus". Cristo, que traz
em si a imagem perfeita de Deus (2Co 4.4), renunciou ao
que normalmente deveria decorrer deste fato, a fim de
aparecer sob os traços de um homem como todos os outros.
Para assumir totalmente a forma humana, o Filho teve de
controlar - sem que houvesse aniquilamento - todas as suas
qualidades divinas (onipotência, onisciência e onipresença)
para participar da experiência de ser limitado no tempo, no
espaço, no conhecimento e na consciência, coisas estas
essenciais à verdadeira vida humana, ou seja, a natureza
divina estava em Jesus, mas a mesma não se manifestou no
cumprimento do seu ministério terreno. Seu esvaziamento,
portanto, consiste no fato de ter deixado de lado a glória,
no retraimento voluntário do poder, aceitando dificuldades,
o isolamento, os maus tratos, a agonia e, finalmente, a morte,
que é o destino de todo ser humano.
Ainda no texto de Filipenses 2.7 se lê que Cristo
assumiu a "forma de servo", essa expressão se refere à
encarnação de Cristo, à radical troca de posição feita por
Ele: deixar de ser senhor para se tornar servo (ou escravo).
É uma mudança antagônica quanto à sua maneira de existir,
identificando-se plenamente com a condição das pessoas
mais miseráveis que compunham a sociedade da época. Os
escravos eram aqueles que pertenciam a outros, não

. H
o ministério de Jesus como modelo de liderança transformadora para os nossos dias
Wander de Lara Proença

possuindo liberdade pessoal ou autonomia, estando sujeitos


à vontade do senhor que os dominava. Na cena da lavagem
dos pés dos discípulos, relatada pelo evangelho 00 13ss.),
Jesus ilustrou bem a sua atitude ao realizar o serviço reservado
ao último escalão da hierarquia social judaica - o escravo
pagão. Neste gesto, identifica-se com o escravo pagão e, por
extensão, com os desqualificados de todos os tempos.
Vale destacar que Jesus mesmo - que normalmente
rejeitou os títulos honoríficos que lhes eram atribuídos - se
auto-intitulou como servo: "o filho do homem não veio para
ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por
muitos" (Mc 10.45). E fez questão de exortar a seus
discípulos: "quem quiser ser o primeiro entre vós, seja escravo
de todos" (Me 10.44). Assim, a liderança por Ele demonstrada
dignifica o serviço prestado em benefício dos outros.
Cabe ainda considerar que há uma conexão entre
escravidão e cruz na pessoa de Jesus. A crucificação era
chamada dentro do Império Romano de servile supplicium,
ou seja, o suplício infligido ao escravo; era o castigo reservado
aos associais, aos que incomodavam o império, aos criminosos
e gente de classe baixa. A crucificação foi o preço pago por
Jesus ao assumir a função de escravo, de servidor da
coletividade. Assim, ao tomar Ele a condição de escravo,
entrou em completa solidariedade com a humanidade
submetida ao pecado, à Lei e à morte.
Finalizando este item, é importante ainda ressaltar o
fato de que o maior líder que a história já conheceu, e que
maiores transformações promoveu, não tenha possuído
nenhum bem material, fato que pode ser observado em
alguns momentos marcantes da sua vida: ao nascer, a
manjedoura que lhe serviu de berço foi emprestada; ao entrar
em Jerusalém para cumprir o ato final de sua missão,
30 1 -Liderança Cristã Trans rmadora
---...!-----...:!...-----------------------1
Manfted W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

utilizou-se como meio de transporte de um jumentinho


emprestado; na última ceia realizada com seus discípulos,
em que anunciou o estabelecimento de uma nova aliança, o
cenáculo utilizado também era emprestado; no momento
em que foi levado à morte, a própria cruz também não lhe
pertencia, pois era de Barrabás e, por extensão, de toda a
humanidade... ; para ser sepultado, o túmulo também teve
de ser emprestado junto a José de Arimatéia; na verdade, a
própria vida terrena não lhe pertencera, pertencia ao Pai, o
qual, por um ato de amor, doou-a como presente a toda a
criação que necessitava ser redimida. Toda a sua vida,
portanto, foi um serviço ao próximo e à criação.

VIII - LIDERANÇA QUE VALORIZA A CRUZ AO INVÉS DE


COROA

Na época em que Jesus viveu e atuou, os gregos


acreditavam que os deuses por eles adorados não estavam
separados dos homens por uma fronteira bem definida.
Segundo as mitologias, homens importantes podiam ser
promovidos da condição humana à divina, sendo colocados
como líderes na comunhão divina. Envolvidos por este
ambiente, imperadores romanos passaram então a buscar a
própria veneração. Recebiam como um dos títulos Deus et
Dominus (Deus e Senhor), recebendo, por isso, a designação
de "Augusto" (divino). Além do que, acreditava-se serem
também responsáveis por mediar ao povo as bênçãos dos
deuses existentes.
Neste contexto em que homens desejavam ser deuses,
Jesus sendo Deus quis ser homem e, com este gesto, venceu
a tentação da chamada "síndrorne de Lúcifer", que significa
a sedução que embala as criaturas de pretensamente serem

, I•
o ministério de Jesus como modelo de liderança transformadora para os nossos dias
Wánder de Lara Proença

iguais ao Criador - erro este, aliás, no qual incorreram Adão


e Eva sob o argumento persuasivo que lhes foi apresentado
pela serpente: "sereis como Deus" (Gn 3).
Alguns títulos de magnificação atribuídos a Jesus,
com os quais estamos familiarizados, como Filho eterno de
Deus, Senhor do universo, Salvador do mundo, primogênito
de toda a criação e o primeiro ressuscitado entre muitos
irmãos, podem muitas vezes ocultar as origens humildes e a
trajetória histórica do verdadeiro Jesus que andou entre o
povo, perambulando pelos vilarejos da Galiléia e que morreu
de maneira violenta e miserável fora da cidade de Jerusalém.
Na verdade, Jesus percorreu o caminho da cruz ao longo de
toda a sua vida. Já no seu nascimento, surpreendeu aos que
aguardavam pelo Messias: os magos, por exemplo, que
procuraram pelo recém-nascido, dirigiram-se inicialmente
a Jerusalém, pensando encontrá-lo nos palácios de Herodes,
lugar mais provável para o nascimento de um rei ... Qual
surpresa descobri-lo amparado em um berço improvisado,
numa simples manjedoura emprestada, nas regiões da
pequena- Belém!
Durante o seu ministério, Jesus resistiu às tentações
de fugir da cruz. Isto ocorreu, por exemplo, durante o
período em que esteve em jejum no deserto, quando o
tentador lhe ofereceu reinos e glórias do mundo para que
deixasse aquela missão (Mt 4). Ou também quando lhe foi
proposto não morrer cruz para que pudesse instituir um
governo político na cidade de Jerusalém (Mt 16.22-23). E
ainda quando os expectadores do martírio pedem para que
desça da cruz (Me 27.40).
No caminho ministerial da cruz Jesus experimentou
todos os conflitos e contradições da existência humana: ser
isolado, perseguido, mal compreendido, difamado. Percebe-
321--~--.L--_--------------4
Liderança Cristã Transformadora
Manfred W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

se nele: ira, alegria, bondade, tristeza, tentação, pobreza,


fome, sede, compaixão, saudade. O caminho da cruz é o
caminho do serviço, da auto-doação, do amor, do perdão,
da conversão. Por isso Jesus não manipula os homens, mas
desafia-os a tomar o caminho do Reino, a assumirem
responsabilidades, a serem participantes ativos do processo
libertador. Não faz uso da violência para concretizar seus
ideais. Apela e fala às consciências. Não despreza ninguém:
"aquele que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei
fora" 00 6.37). Dirigiu sua mensagem primeiramente aos
pobres, entendendo por pobres não apenas os
economicamente necessitados, mas sim, os oprimidos em
sentido amplíssimo, como os que sofrem a opressão não
podem se defender, os desesperançados, os que padecem
necessidades, os famintos, os sedentos, os desnudos, os
forasteiros, os enfermos, os encarcerados, os últimos, os
simples, os perdidos e os pecadores.
No propósito de combater a "síndrome de Lúcifer",
quando cristãos começaram a ser seduzidos a venerar alguns
dos seus lideres, por volta do ano 70, Mateus redigiu o seu
evangelho e nele incluiu o acontecimento da transfiguração
(Mt 17) com o propósito de lembrar que nenhum ser
humano deveria usurpar a glória exclusivamente
pertencente a Deus. Naquele episódio, no alto do Monte
Tabor, os discípulos Pedro e Tiago, envolvidos pela visitação
da glória de Deus naquele lugar, sugeriram a construção de
duas tendas que pudessem celebrar os nomes de Moisés e
Elias, considerados pelos judeus os maiores representantes
da Lei e dos profetas, respectivamente. Entretanto, o próprio
texto faz uma exortação à igreja ao apontar para o que deve
ser o centro da fé cristã: "então eles [os discípulos}, levantando
os olhos, a ninguém viram senão só a Jesus" (Mt 17.8). O

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o ministério de Jesus como modelo de liderança transformadora para os nossos dias
Wander de Lara Proença

desaparecimento das imagens de Moisés e Elias representa


que ambos saem de cena para dar lugar a Cristo. De igual
modo, não há mais lugar para a invocação de nenhuma outra
divindade naquele lugar, como o faziam os cananeus. A
mesma advertência se aplicaria em relação a qualquer outro
nome importante da liderança da igreja primitiva: apóstolo
Pedro, apóstolo Paulo, Maria, mãe de Jesus etc. Assim,
exclusivamente em Cristo deveria estar posta toda a atenção
da fé cristã.
CONSIDERAÇOES FINAIS
Diante do modelo de liderança exercida por Jesus
no cumprimento de seu ministério, conforme apresentado .
nos itens anteriores, cabe levantar algumas questões e fazer
alguns apontamentos práticos quanto ao desempenho de
uma liderança transformadora em nossos dias.
É possível se falar hoje em dia de uma liderança
transformadora quando parece haver por parte dos líderes
maior valorização: de coroas ao invés de cruz? De senhorios
ao invés de serviço? De banalização da função pastoral ao
invés de preparo e credenciamento? De espíritos gnósticos
ao invés de materialização da graça ecológica de Cristo? De
discriminações e preconceitos ao invés de reconhecimento
da legitimidade de ministérios femininos? De preconceitos
profanizadores ao invés da sacralidade geográfica do Reino
de Deus? De conformismos ao invés de transformação social?
De usurpação ao invés de legitimidade ministerial?
Inegavelmente, há uma atração estética e um grande
fascínio exercido por líderes religiosos em relação aos
membros de muitas igrejas no atual contexto brasileiro.
Normalmente, aos nomes destes líderes se acrescentam
títulos proeminentes que lhes garante legitimidade e maior
Liderança Cristã Transformadora
34 If----~-------L..-------------
Manfred W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

performance representativa perante os fiéis: bispos, profetas,


apóstolos e, até rnesrno , arcanjos, são exemplos dessa
preferência cada vez mais comum. Tais títulos acabam se
tornando um eficiente mecanismo semiótico de iconização
pessoal, conferindo-lhes uma projeção que os aproxima mais
eficazmente do sagrado, pois carregam um apelo de
intimidade com o divino que o termo "pastor') normalmente
não consegue alcançar.
Isto tem feito com que, não obstante haver
participação bastante interativa dos fiéis nos ritos dos cultos,
continue a ocorrer grande centralidade na figura destes
personagens carismáticos. A oração destes, com dia e hora
marcad os, e' que tem o " po d er"de promover a cura e o
milagre. Com esta total dependência do pastor, acaba-se
negando o princípio neotestamentário do sacerdócio
universal de todos os cristãos, impedindo a transformação
da igreja num organismo vivo, corn diversidade de dons e
ministérios. Tal prática acaba reeditando no meio evangélico
um costume muito comum entre os católicos:
reconhecimento e necessidade de vários outros mediadores
além de Cristo. Assim, não são poucos os que têm
encontrado na liderança religiosa um caminho curto para o
alcance de glória e sucesso pessoais, daí a preferência, muitas
vezes, de se atuar em cidades que possibilitem maior projeção
e visibilidade ou mesmo em grandes igrejas. Ao contrário
de Jesus, muitos líderes estão hoje também preocupados em
transformar as denominações que comandam em
verdadeiros impérios financeiros ou empresas da fé, às vezes
às custas da miséria e do sofrimento humano. "Torres de
Babel" religiosas têm sido construídas, dignificando os
nomes de quem as constrói, ao ponto de serem identificadas
pelos nomes de seus próprios fundadores.

, I.
o ministério de Jesus como modelo de liderança transformadora para os nossos dias
Wander de Lara Proença

Hoje também, infelizmente, tem-se observado que


vários líderes chegam a ensinar aos seus fiéis a "determinar"
a bênção desejada. Com tal pretensão, os crentes têm sido
treinados a reivindicar e a exigir que Deus atenda e
prontamente satisfaça aos seus desejos egoístas e consumistas;
passa-se a dar ordens a Deus em nome da fé. Tal prática faz
com que ocorra uma inversão de papéis: o indivíduo assume
a função de "senhor", Deus é colocado na condição de
"servo".' Agindo assim, a igreja acaba reeditando práticas
comuns na sociedade, sem exercer sobre ela a transformação,
pois incita a realização de "magia", segundo a qual a fé tenta
manipular o sagrado em busca de interesses pessoais.
Outro aspecto a se considerar é que o exercício de
uma liderança transformadora requer a superação, hoje
existente, dos limites criados pelo sagrado e o profano. Nesse
sentido, uma prática que vem se tornando cada vez mais
comum entre os evangélicos é o que se pode chamar de
"confraria de ajuda mútua'. Isso significa a atitude que
evangélicos têm tido por se relacionar e conviver em
sociedade, preferencialmente com aqueles que professam a
mesma fé. Exemplifiquemos tal comportamento de maneira
mais prática: é cada vez mais .freqüente o costume dos
membros de uma determinada igreja comprar
preferencialmente no estabelecimento comercial do "irmão"
ou "irmã" que também penence à mesma comunidade de
fé; ou então, solicitar os serviços profissionais daquele que
também é evangélico. O mesmo também se aplica em relação
a empresários ou empreendedores que têm algum emprego
a oferecer: costumam normalmente dar preferência aos
membros da mesma igreja para a ocupação desses cargos e
funções. Dessa maneira, converter-se numa igreja local é
inserir-se numa rede corporativista e ampliar
Liderança Cristã Transflrmadora
36 I f - - - - - - - - = - - - - - - - " - - - - - - - - - - - - -
Manfred W Koh! e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

significativamente possibilidades de se ter novos clientes,


manter novas portas de emprego abertas etc. Com isso, o
comerciante passa a vender mais, o taxista a ter mais
passageiros, o médico a ter mais pacientes, o trabalhador
autônomo obter mais opções de emprego, a escola particular
ter mais alunos...
Obviamente que num primeiro momento isso pode
significar algo positivo, pois como se fosse numa grande
família, os membros se ajudam mutuamente. Entretanto,
esse corrrportarrrento corncça a se tornar preocupante na
medida em que pende para extremos, pois, em algumas
cidades de porte médio e grande, já está havendo a
construção de condomínios fechados destinados à moradia
exclusiva de evangélicos. Numa das propagandas de tal
empreendimento, anunciam-se, inclusive, as vantagens de
se morar sem a presença incômoda de incrédulos ou de
pessoas que não professam a mesma fé evangélica. Ainda
segundo tais anúncios, a educação dos filhos seria "muito
melhor", pois iriam conviver somente com evangélicos,
diminuindo-se os riscos de se corromperem pelo contato
com as "coisas do mundo". Essa prática acaba se tornando,
na verdade, uma reedição moderna da espiritualidade dos
monges medievais, que buscavam na clausura e no
isolamento da sociedade a manutenção de uma fé pura.
Assim, evangélicos buscam, hoje, igualmente meios de não
se contaminarem com aquilo que consideram profano. Há
de se perguntar, entretanto: não estariam tais evangélicos
sendo sal apenas dentro do saleiro? Não estariam deixando
de ser luz justamente onde há necessidade de brilho? Como
este modelo de fé pode eficazmente se inserir na sociedade
para transformá-la? Como tal proposta se enquadraria nas

i ,~" I~ t" ,41 'I- li, f 1..11 ,j '1


o ministério de Jesus como modelo de liderança transformadora para os nossos dias
Wander de Lara Proença

palavras ditas por Jesus "não peço que os tires do mundo,


mas que os livres do mal"? 00 17).
Também hoje, mais do que nunca, é chegado o
momento dos líderes cristãos somarem esforços junto a outras
formas de lideranças ambientalistas na busca de construção
de uma sociedade em que haja o equilíbrio entre
desenvolvimento e preservação dos recursos' naturais, para
que se garanta o funcionamento natural do! ecossistema, e
com isto se evite a destruição dos seres vivos em toda a sua
biodiversidade, Tendo a questão ecológicacomo parte da
tarefa da missão integral da igreja e como parte da doutrina
da criação, líderes cristãos precisam propor caminhos que
reavaliem por completo tanto o modo de produção como
aquilo que se produz, visando não somente o lucro e o
consumismo, mas, sim, a conciliação do desenvolvimento
social com o ecologismo. Vale observar as palavras do escritor
brasileiro Caio Fábio:
A defesa ecológica tem de se impor como necessidade
profética da nossa própria espiritualidade cristã, que crê
que a redenção será total, como diz Romanos 8, de 19 a
25. Não .só para homens, mas para urtigas, pés de
mandacaru, carvalhais, mangueiras, jabuticabeiras e
parreiras (... ) Se a redenção de Deus não resgatar as
diferentes formas de vida, se não resgatar tudo, o diabo
terá vencido. Porque a teologia cristã diz que a queda
contaminou isso tudo, logo, a redenção vem de ser
redenção para tudo isso. E enquanto essa redenção não
chega, uma das participações redentivas .nossas no
processo é gritar, profeticamente, a favor da preservação,
afirmando que 'tudo o que Deus criou é bom'. 1

A construção dessa nova cultura deverá estar calcada


em valores, sobretudo, éticos, o que significa respeito às
Liderança Cristã Transformadora
38 Ir----------..e..------"-------------------t
Manfred W Koh/ e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

futuras gerações, preocupação com os grupos SOCIaIS mais


fracos que, sem usufruir das vantagens econômicas do
consumismo, sofrem danos sobre a saúde, advindos da
poluição e da contaminação do meio ambiente. Pois, no
sistema atual, privatizam-se o lucro e o consumismo e
socializam-se os danos e misérias. É necessário, portanto,
repensar propostas teológicas, muito evidentes em nossos
dias, que apresentam um discurso sutilmente comprometido
com a ávida exploração do meio ambiente que visa tão
somente satisfazer desejos consumistas do ser humano. Tais
ensinamentos egoístas propõem aos crentes a acumulação
de bens materiais no nome de Deus, mascarando a égide de
exploração predatória sobre a natureza e seus recursos. Ao
ajustar a experiência cristã aos valores do consumo, este
modelo de pregação trabalha com a pressa e o instantâneo,
com o imediatismo que não respeita o ciclo natural de que
todo o ecossistema necessita para gerar e manter a vida em
toda a sua biodiversidade. Neste aspecto, a tal "prosperidade"
proposta se torna uma aliada da morte e uma afronta à obra
ecológica que Cristo também veio realizar. Diante disso vale
observar a advertência do profeta:
Muitos pastores destruíram a minha vinha, pisaram o meu
quinhão; a porção que era o meu prazer tornaram-na em
deserto. Em assolação a tornaram, e a mim clama no seu
abandono; toda a terra estd devastada, porque ninguém
hd que tome isso a peito" (Jr 12.10, l I).
Um outro texto bíblico aponta para algum tipo de
juízo escatológico sobre os que destroem a terra: "(...) chegou
o tempo determinado (...) para destruíres os que destroem a
terra." (Ap 11.18).
De maneira prática, portanto, cabe aos líderes evangélicos
de nossos dias: enfatizar em seu ensino que a contemplação da

, 11
o ministério de Jesus como modelo de liderança transformadora para os nossos dias
'Wánder de Lara Proença

natureza é um dos elementos importantes da espiritualidade


cristã; aproveitar do momento histórico, atualmente favorável,
para um redescobrimento da doutrina da criação; estudar mais
profundamente com a igreja os textos bíblicos sobre a criação e
a ecologia, incluindo nos programas educativos da comunidade
local temas sobre ecologia; proclamar dos púlpitos sermões e
promover palestras e eventos tematizando a questão ecológica;
utilizar-se de jornais, rádio e TV para fazer ouvir a voz da igreja
sobre questões ambientais; participar de projetos ambientalistas,
apoiando e unindo forças com outras organizações
governamentais e não-governamentais, fora do âmbito
eclesiástico, que estão militando nesta mesma causa; educar a
igreja a desenvolver uma espiritualidade que dê exemplo de uma
vida sem ambições ou ganância, vivenciando uma ética cristã
baseada no consumo do que é essencialmente necessário,
libertando-se, desta forma, da égide de um consumismo sem
limites e predatório; denunciar profeticamente a agressão ao meio
ambiente feita por determinadas indústrias e fábricas; redescobrir
o sentido ecológico do sábado, mediante o qual se dá à natureza
o descanso santificador, entendendo isso como respeito ao ritmo
natural usado pela criação para gerar e manter a vida.
Finalizando, ainda em tom de reflexão e análise, ficam
algumas questões que envolvem a todos os que exercem
liderança religiosa: Por que, em nossos dias, tanta obsessão
por títulos eclesiásticos se todos os cristãos foram feitos
sacerdotes? Por que tanto clericalismo se o maior de todos os
mestres ensinou que ser servos uns dos outros significa um
dos elementos de grandeza do reino de Deus? Por que a
preocupação com ministérios megalômanos e um
crescimento a qualquer custo, se Jesus valorizou a comunhão
dos pequenos grupos? Por que a preocupação exacerbada
com mega-templos e catedrais suntuosas se um dos momentos
de maior impacto e transformação da sociedade promovidos
Liderança Cristã Transformadora
Manfred W Koh/ e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

pela atuação da igreja se deu quando esta se reunia em lares


muito simples e até mesmo nas catacumbas? Por que uma
presença numérica tão expressiva hoje da igreja brasileira
não tem sido capaz de promover maiores transformações na
sociedade? Por que na década de 1970, quando existiam
pouco mais de 5% de evangélicos no país, acreditava-se que
quando houvesse o dobro daquele número o Brasil seria
impactado pela fé cristã e, hoje, no entanto, quando 16/0/0
da população se declara evangélica, totalizando perto de 30
milhões de pessoas, não se pode observar mudanças
significativas de âmbito político ou cultural promovida por
este crescimento? Com os modelos de liderança hoje
existentes, não estaria a igreja evangélica correndo riscos de
que, mesmo vindo todo o país a se tornar evangélico,
continuarem, ainda assim, existindo as mesmas injustiças e
desigualdades sociais, corrupção política e uma sociedade
não transformada pelos valores do reino de Deus? Por que
líderes evangélicos se mantêm tão omissos e indiferentes
diante das questões ecológicas, quando tantos outros
movimentos ambientalistas saem em defesa do maior de todos
os elementos da criação divina: a vida?
Nossa oração é para que o modelo de liderança
adotado por Jesus se torne parâmetro para respostas e novas
perspectivas frente às questões aqui apresentadas.

NOTAS

1D'ARAÚJO FILHO, Caio Fábio. Um projeto de espiritualidade integral.


Rio de Janeiro: Vinde, 1992, p.4G.

. .. j. ., • ,., I
€APfTULO

. ·TRAN5FORMAÇAO RADICAL NA
··FORMAÇAo DO L(DER· CRISTAO

MANFRED W ALDEMAR KOHL


INTRODUÇÃO

Quase uma década atrás, publiquei uma monografia


intitulada Tendências Atuais na Educação Teológica, que
finalizei com o seguinte parágrafo:
"Em minha posição na organização Overseas Council
International, com sede nos Estados Unidos, tenho a
vantagem única de observar e avaliar centenas de escolas
teológicas por todo o mundo, e gostaria de compartilhar
três observações lembrando muito os aspectos negativos que,
acredito, devem ser considerados:
A. Os teólogos nas instituições teológicas gostam de
conversar e debater, muitas vezes com poucos resultados.
Parece que essa ação ou mudança deve ser evitada a qualquer
custo.
B. Os teólogos nas instituições teológicas gostam de
focalizar-se no passado. Planejar à frente e pensar
futuristicamente parece estar fora da zona de conforto deles.
C. Os teólogos nas instituições teológicas
demonstram ter algumas dificuldades com questões de
gerenciamento, levantamento de recursos e assessoria
orientada a resultados.
O avivamento não é o único resultado do trabalho
do Espírito Santo no passado, como registra a história. Um
novo foco sobre a essência deve tornar-se realidade hoje}".
Sempre que apresento este material, seminaristas e
pastores no ministério têm apreciado, enquanto educadores
teológicos têm expressado ceticismo ou negação. Como
teólogo leigo, posso ecoar uma declaração de Alan Jones no
seu artigo sobre formação espiritual, "estou pedindo nada
menos do que a conversão dos seminários'".
441f-~-----"--------------
Liderança Cristã Transformadora
Manfred W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

Na década passada, uma enorme quantidade de


material foi publicada sobre essa necessidade na educação
teológica. Numerosas conferências, seminários, consultas, etc
foram promovidas sobre tal assunto. Várias agências de
reconhecimento e credibilidade tomaram essa temática como
prioritária. Oficinas internacionais para deão acadêmico dos
seminários foram organizadas a fim de discutir mudanças
curriculares. A Overseas Council International dedicou uma
enorme série de seus Institutos de Excelência ao redor do
mundo dando assistência a centenas de líderes das escolas
teológicas sobre este tópico. Com esta série de Institutos
chegaram numerosas publicações, incluindo um conjunto
de cinco volumes de livros sob o título da série "Ações
Transforrnadoras". Parece que uma preocupação legítima
está sendo reconhecida e que essas mudanças estão sendo
de fato consideradas. Conseqüentemente, faríamos melhor
ao revisitar as idéias apresentadas no Pacto de Lausanne" e
no Manifesto ICAA4 com referência à renovação da educação
teológica evangelical.
Nesta apresentação, vou referir-me extensivamente
aos dois textos mais conhecidos sobre esse assunto,
"Renovação na Educação Teológica: estratégias para
mudança", por Robert W Ferris", e "Por uma nova visão na
Educação Teológica: explorando uma alternativa missional
aos modelos correntes", por Robert Banks", Ambos dão um
bom resumo desse debate e de todo o material publicado
sobre o assunto, assim como uma numerosa lista de
recomendações práticas sobre o que e como as escolas
teológicas devem ensinar. Gostaria de sintetizar o material
desses textos nos sete pontos-chaves seguintes. Para chamar
a atenção à urgência da situação, vou um pouco além das
"recomendações" dos textos a fim de dizer como as
Transformação radical na fOrmação do líder cristão
Manfred W Kohl

instituições teológicas devem mudar, pois acredito


fortemente que "como caminham os seminários assim
caminha a igreja"?
1. A educação teológica deve dar mais atenção às
igrejas sustentadoras de escolas e suas respectivas necessidades.
Na preparação de pastores, essas escolas devem lidar com
questões que a igreja encara hoje e conseqüentemente, com
o que eles serão confrontadas amanhã.
2. A educação teológica deve ser mais orientada à
missão. A ênfase missiológica sobre como trazer as boas novas
de salvação ao mundo perdido e como educar os crentes
tem o alvo primário na preparação de líderes para a igreja.
3. A educação teológica deve colocar mais esforço
na formação espiritual como parte das habilidades
ministeriais, no ensino, especialmente modelando/
praticando a liderança serviçal.
4. A educação teológica deve focalizar-se nos
resultados de treinamento, na eficácia de graduados no
ministério. A análise realística de forças e fraquezas de um
graduado é essencial.
5. A educação teológica deve redescobrir o valor na
menroria prática. Pastores principais e missionários
experientes são mentores em potencial para serem
considerados já tão valorosos como quaisquer professores
de seminário.
6. A educação teológica deve indicar as necessidades
do laicato em todos os níveis, incluindo profissionais, assim
como aqueles que poderiam e deveriam estar ministrando
no mercado, usando princípios reconhecidos e desenvolvidos
da teoria e métodos da educação de adultos.
7. A educação teológica deve iniciar sua renovação
de cima. Um chefe executivo (reitor, diretor ou presidente),
Liderança Cristã Transformadora
46 I t - - - - - - - = - - - - " - - - - - - - - - - - - - - - - - +
Manfted W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

com o suporte do corpo de referência, deve abraçar,


promover e ensinar o manual. A liderança inteira do
seminário deve aprender a ser vulnerável na busca e adoção
de novas maneiras eficazes de incorporar o treinamento
prático na total experiência do seminário.
Nos materiais de Ferris e Banks, assim como nas outras
numerosas publicações, alguém poderia de fato acrescentar
tópicos para consideração.
I - As NECESSIDADES DA IGREJA

A Overseas Council International reuniu informação


geral sobre mais de 7.500 instituições teológicas, escolas
bíblicas, centros de treinamento de liderança" e material
detalhado sobre várias centenas dessas escolas - por seus
regimentos, constituições, valores centrais, declaração de
visão e missão e catálogos de cursos. Quase todas essas
instituições declaram em seus documentos legais que o
propósito de sua existência é ajudar o povo de Deus por
meio da provisão de liderança treinada para os vários
ministérios da igreja. Embora pastores líderes de agências
missionárias e de denominações muitas vezes assumam a
diretoria das escolas teológicas, raramente estão envolvidos
na elaboração do currículo e na seleção de disciplinas e de
materiais de ensino. Uma conferência aconteceu
recentemente na África Oriental na qual pastores,
professores de teologia, e mesmo igrejas que apóiam a
educação teológica regularmente, encontraram-se por vários
dias para discutir os métodos de ensino, os cursos, e os
resultados da educação teológica - esse é um excelente
exemplo que deveria ser multiplicado em qualquer lugar.
Em áreas do mundo onde a guerra civil/tribal é uma
realidade diária, como as escolas teológicas devem equipar

11
Transfõrmação radical na formação do IIder cristão
Manfred W Kohl

os pastores na teoria e prática da reconciliação e construtores


da Paz4 Quando sabemos, pelas estatísticas, que a AIDS
(HIV) tem contaminado uma proporção tão grande da
população, o seminário deve incluir disciplinas sobre como
lidar com essa pandemia. Dada a inacreditável alta incidência
do divórcio, produção independente, promiscuidade,
adolescentes grávidas, violência, abuso doméstico, etc, os
futuros pastores devem ser ensinados no seminário como
lidar com essas questões, se eles quiserem ser eficientes em
. . ,.
seus rrurusterios.
Mais da metade da população em muitos países, com
idade abaixo dos dezoito anos, com muitas crianças afetadas
pela AIDS e tendo que colocar sobre os adultos
responsabilidades em idade prematura, os seminários devem
treinar os futuros líderes a ministrar às crianças, além de
executar os programas formais de educação cristã e escola
dominical separadamente. Esses são somente alguns poucos
exemplos das questões enfrentadas pelas igrejas hoje e a
necessidade para as escolas teológicas r~~ponder.
Nós, como líderes nas escolas teológicas, realmente
sabemos do que os membros de nossas igrejas necessitam e o
que eles esperam de seus pastores? Se sabemos (e podemos,
dado aos muitos questionários e pesquisas que foram
conduzidos ultimamente), estamos querendo e somos
capazes de fazer as mudanças necessárias para encontrar essas
carências e expectativas? O seu Seminário tem disciplinas
obrigatórias para promotores da paz/reconciliação? Há uma
disciplina obrigatória sobre questões familiares, sexo e abuso
doméstico? Há uma disciplina obrigatória sobre ministério
às crianças? Existe algum mecanismo para lidar com a
questão da AIDS (HIV) que rodeia a todos? Se temos de
requerer de cada aluno tais exigências disciplinares, quais
Liderança Cristã Transformadora
Manfred W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

outras disciplinas que atualmente estão sendo oferecidas


deveriam ser trocadas? - não nos esquecendo do
conhecimento bíblico, história da igreja, hermenêutica, e
comunicação formação do caráter. E quais outras disciplinas
básicas são essenciais? Tais decisões têm de ser feitas sob
consulta aos "clientes" de nossas igrejas constituintes, não
pelos círculos acadêmicos somente. Pois os seminários não
estão percebendo as necessidades sentidas. Muitas igrejas
têm recentemente começado seus próprios seminários ou
programas de treinamento para seus líderes. Essa é a
tendência que deve ser tomada mais seriamente antes que
seja tarde demais para revertê-la.
11 - Foco NA MISSÃO, EVANGELlSMO E ALCANCE

Declarações tais como "ensinar teologia sem missão


como seu centro é teoria inútil" ou "todo teólogo deveria
praticar evangelismo, e todo evangelista deveria focalizar mais
sobre a teologia" ou "sem ganhar pessoas para Cristo, a
teologia não existe" são, é claro, clichês. Além disso, a Grande
Comissão de nosso Senhor (Mateus 28.19-20) deve ser
praticada. O evangelismolmissão e o ensino são dois lados
iguais do mesmo medalhão "cristianismo". Robert Banks
claramente declara que o problema se encontra entre a ação
e reflexão e, mais ainda, entre teoria e pratica" . Várias escolas
parceiras da Overseas Council International insistem que
as disciplinas obrigatórias em missão e evangelismo incluem
visitação de porta-em-porta, distribuição de folhetos,
testemunho aos incrédulos, etc como parte das suas
exigências disciplinares. Se o professor de Missão e
Evangelismo fica diretamente envolvido com seus alunos em
ganhar pessoas para Cristo, ele providencia um modelo que,
quando seus alunos se tornarem pastores, eles também

, H
Transjõrmaçáo raáic4/ na ftrmaçiío do tit:kr cristão
Manfred W" Kohl

praticarão com os membros de suas congregações a fim de


ganhar outros para Cristo. O Bispo da Igreja Evangélica da
India, Dr. Ezra Sargunam, acredita que todo pastor deve
ser um missionário. Ele exige de todos os alunos em seus
seminários teológicos que estejam envolvidos em evangelismo
e plantação de igreja antes de ter permissão para graduarem-
se. Nenhum aluno recebe um certificado sem provar que
ele ou ela já tenha iniciado em uma nova igreja ou em um
programa ministerial de evangelismo. Isso tem como
resultado para a igreja evangelical da Índia (lEI) o acréscimo
de várias novas igrejas a cada semana.
Uma fundação norte-americana responsabiliza-se
financeiramente pelas necessidades para um seminário que
inclua em sua disciplina de missão a exigência de que todos
os alunos tenham seis meses de experiência ministerial
prática nessas situações, tais como: confrontar a realidade
do evangelismo pós-comunismo na ex-URSS, aprender com
um missionário experiente com igrejas afetadas pela AIDS
na África, ou trabalhando com crianças de rua em uma
mega-cidade da Ásia. Um professor nas Filipinas
acompanhou seus alunos do Mestrado em Teologia a cada
semana às favelas de Manila como parte de sua disciplina
de missão. Na Argentina, um seminário desenvolveu uma
disciplina de missão com ênfase sobre o ministério entre os
super-ricos, tentando alcançá-los em seus clubes particulares
ou condomínios fechados.
Uma instituição teológica (liderança/diretoria, corpo
docente, pessoal administrativo e estudantes) deve ter como
valor central básico trazer as boas novas a um mundo perdido
e equipar os crentes a construir o reino de Deus. Missão
(evangelismo, discipulado e alcance) não é meramente um
programa ou um departamento. Missão estabelece o centro
Liderança Cristã Transformadora
50 I f - - - - - - - - - ' ' - - - - - - - - - - - ' ' - - - - - - - - - - - -
Manfted W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

do propósito de Deus para uma igreja. Bosch escreve, "a


igreja deixará de ser igreja, se ela não for missionária, e a
teologia deixará de ser teologia se ela perder seu caráter
missionário ... Estamos necessitados de uma agenda
missiológica para a teologia mais do que uma agenda
teológica para a missão; para a teologia, certamente
entendida não há razão de existir outra do que criticamente
acompanhar a Missio Dei"lO.Uma nova paixão para a missão
é necessária. "Vamos deixar nossos corações ser quebrantados
com as coisas que quebrantam o coração de Deus"!".
111 - REDESCOBRIR O VALOR DA FORMAÇÃO ESPIRITUAL

Jesus, o mestre, dernonstrou que a formação espiritual


era essencial na preparação de seus estudantes/discípulos
para o ministério. Ele gastou tempo para ajudar os doze,
separado e coletivamente, tanto com o crescimento quanto
com a maturidade espiritual deles. Cada coisa que Jesus
ensinava, ele a praticava em cada "assunto". Seus ensinos
sobre oração, serviço, compartilhar, mordomia, adoração
etc. foram sempre acompanhados por demonstração prática.
Jesus nunca foi um mero teórico.
As escolas teológicas têm de insistir em avançar no
treinamento acadêmico e de ter objetivos mensuráveis de
realização, mas esses não devem substituir ou minimizar a
formação espiritual e o desenvolvimento do caráter. Ambos
aspectos têm de ser enfatizados igualmente. Entrevistas de
centenas de formandos dos seminários deixaram claro que
eles receberam o maior benefício do tempo pessoal gasto
com seus professores, discutindo questões espirituais;
compartilhando valores tempo com oração e lidando com
os desafios. Dificilmente alguns desses formandos
mencionaram as palestras brilhantes que eles ouviram. ou as

, H
Transformação radical na ftrmação do llder cristão
Manfred W Kohl

notáveis novas descobertas ou realizações compartilhadas


com eles. Um capelão, cuja responsabilidade específica era
cuidar das necessidades espirituais dos estudantes, não é o
substituto para a valiosa interação pessoal entre um professor
e um aluno, uma vez que eles discutem como a verdade
bíblica pode tornar-se uma realidade pessoal. "A formação
espiritual e o desenvolvimento das habilidades ministeriais,"
diz Ferris, "são ambos valores de renovação'T.
A descrição de serviço de um professor/mestre
deveria estabelecer claramente quanto tempo deve ser
destinado a encontrar...se individualmente com os alunos,
conversar e orar com eles; a promoção ou a efetivação seria
baseada não somente sobre o número de publicações
produzidas ou o número de monografias apresentadas em
conferências acadêmicas, mas também sobre a profundidade
do envolvimento pessoal com os estudantes.
É muito encorajador ver instituições teológicas
começando cada ano acadêmico com um dia inteiro de
oração por todas as suas comunidades; dedicando uma
semana durante o ano para ênfase espiritual ou um fim-de-
semana para oração e jejum; ou conduzindo um retiro
espiritual para o corpo docente e pessoal administrativo.
Várias escolas teológicas têm instituído UIn programa no qual
é oferecido um serviço aos graduados no ministério para
que retornem em intervalos regulares à alma mater deles
por vários dias de renovação espiritual e um tempo para
quietude, reflexão e oração. Embora a formação espiritual e
o desenvolvimento do caráter na vida de Um aluno sejam
difíceis de medir precisamente, essas qualidades tornam-se
muito óbvias no comportamento dos graduados, uma vez
que eles já servem no ministério.
521----=-----"---~-~------------l
Liderança Cristã Transjormadora
Manfred W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

IV - AVALIAÇÃO ORIENTADA A RESULTADOS E EFiCÁCIA


MINISTERIAL

A missão global da nossa organização é ajudar a


liderança das escolas teológicas do chamado "Terceiro
Mundo" a melhorar o ministério delas, a fim de serem mais
efetivas em seus esforços no treinamento de liderança para
uma igreja. Aproximadamente três anos atrás a diretoria da
Overseas Council International pediu ao corpo
administrativo para reavaliar sua inteira operação para
determinar se ainda somos fiéis a essa missão global e avaliar
os resultados mensuráveis. Foi pedido para realizar uma
avaliação orientada a resultados, com todas as implicações
dessa avaliação. Uma série de estudos foi comissionada como
parte dessa avaliação. Um estudo avaliou os vários aspectos
do desenvolvimento de recursos, atendimento ao cliente e
administração nos Estados Unidos. Quatro estudos
focalizaram sobre uma avaliação de nosso ministério em cada
um dos quatro países/regiões: o Oriente Médio, as Filipinas,
o Brasil e a Ucrânia.
Nessas quatro partes do mundo, entrevistamos todas
as nossas escolas teológicas parceiras, usando uma fórmula
de avaliação cuidadosamente desenvolvida que cobria os
últimos quinze anos do ministério delas. Entrevistamos os
membros da diretoria, a liderança, o pessoal administrativo,
o corpo docente e os estudantes de muitas escolas e
analisamos os resultados. A maior ênfase, todavia, foi dada
ao encontro, entrevista e avaliação dos graduados de nossas
escolas parceiras a fim de determinar o valor que eles deram
ao treinamento teológico recebido. Mais de quarenta
questões foram feitas (mesmo de forma escrita ou oral) 13 com

'I II f '·1,1 "I I~"'''''' 11'" , I I~ • i~ , . H


Tran rmação radical na rmação do l/der cristão
Manfred W Kohl

o propósito expresso de encontrar respostas aos três grupos


seguintes de questões:
A. Quão útil foi o seu treinamento teológico? Liste
os elementos positivos e negativos. Avalie o valor
educacional/acadêmico desse treinamento. Relate sobre a
eficácia de sua formação espiritual, o desenvolvimento do
caráter etc.
B. O que foi mais valioso em seu treinamento
teológico, e o que deixou a desejar, à luz do ministério no
qual você está atualmente envolvido? Em contraste, quais
conteúdos ou disciplinas obrigatórias foram pouco úteis ou
sem utilidade?
C. Se você tivesse a oportunidade de começar o seu
treinamento teológico hoje, como você estruturaria os cursos
e os programas? Em síntese, ajude-nos a melhorar nossos
seminários a ser de maior ajuda a fim de que o seu ministério
possa ser mais efetivo.
As respostas a essas questões foram quase idênticas
àquelas obtidas no estudo d Murdock'", que listou dez temas
que seriam ensinados em cada seminário teológico. Em nosso
estudo, somente alguns dos participantes priorizaram temas
de acordo com a importância percebida por eles, todavia,
todos os participantes sentiram que igual ênfase seria
colocada sobre esses dez subtemas:
1. Ministério e Espiritualidade
2. Interpretação das Escrituras
3. Panorama Histórico do Cristianismo
4. Evangelismo e Missão
5. Liderança Espiritual
6. Crescimento Pessoal e Desenvolvimento de habilidades
7. Teologia do Ministério
8. Hermenêutica
541f--~.!.--_--->t.---------------t
Liderança Cristã Transformadora
Manfred W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

9. Comunicação
10. Cristianismo e Cultura ou Cristianismo e Realidades
Presentes
É tempo de certifcarmos de que nossos currículos
estejam baseados sobre o que é necessário para o graduado
entrar ou continuar o seu ministério, mais do que sobre os
"hobbies" dos professores ou baseados sobre suas próprias
dissertações e pesquisas.
Vários seminários têm começado a convidar os ex-
alunos, que têm trabalhado em igrejas ou missões por cinco,
dez ou vinte anos, para encontrar-se com seu corpo docente
ou a diretoria para dar um retorno honesto, a fim de que o
treinamento teológico possa ser melhorado baseado sobre
as próprias experiências e eficácias ministeriais deles.
V - A REDESCOBERTA DA MENTORIA

No campo da medicina, o programa de treinamento


foi mudado décadas atrás exigindo que cada aluno de
medicina fizesse parte de um programa de rnerrtoria,
trabalhando em um "hospital-escola" por três anos. O aluno
é parte do time de médicos residentes, visitando os pacientes
com os médicos, ajudando a diagnosticar a doença e a
determinar o tratamento necessário. Os estudantes até
participam na sala de operação. Esse mesmo processo de
mentoria é necessário na educação teológica. Algumas escolas
teológicas têm agora incluído em seu programa de "ensino
às igrejas", onde um aluno é mentoreado por um a dois
anos sob a tutela de um pastor-principal ou de uma equipe
pastoral. Os estudantes (que vão ser pastores ou missionários)
aprendem os seus futuros trabalhos passo a passo. Eles
aprendem de seu mentar como preparar um sermão, como
começar a prática da oração e jejum, como engajar-se em
Trans rmação radical na fOrmação do lider cristão
Manfred U't:'" Kohl

uma devocional, como liderar o pessoal administrativo, as


finanças e as reuniões de diretoria, e como lidar tanto com
os diáconos que os apóiam como com os que os criticam.
Eles participam das sessões de aconselhamento, participam
das cerimônias de casamentos e funerais, e assim por diante.
São expostos em primeira mão a todas as experiências
positivas e negatives que eles irão encarar posteriormente
em seus ministérios. Todos esses mentores (pastores
principais, missionários, evangelistas) são parte do corpo
docente da instituição teológica, pois são os professores que
ensinam história, comunicação ou cultura.
Uma nova pesquisa mostra claramente que uma
grande porcentagem de estudantes está agora exigindo
programas oficiais de mentoreamento - orientações e
experiência "dirigida' em como fazer o ministério 15. Desde
a última década, várias escolas teológicas em várias partes
do mundo têm começado a experimentar esse programa de
mentaria formal. Algumas escolas têm se reunido em um
programa unificado, algumas com centenas, outras com
somente poucas dúzias de estudantes 16. Em todos esses
programas metade dos cursos são ensinados por professores
de seminários e metade por clérigos, pessoal administrativo
e membros das igrejas, ou líderes de organizações
paraeclesiásticas. Os estudantes são individualmente
mentoreados pelos seus professores. Sob tal compromisso,
os estudantes estão observando o ministério sendo feito na
pregação, no evangelismo, no cuidado pastoral, no
gerenciamento e na educação cristã. Por meio desse processo
de mentoria, os alunos entram diretamente em contato com
o tipo de homens, mulheres e crianças a quem estarão
ministrando sobre suas próprias graduações seguintes. Eles
aprendem a ouvi-los, a entender suas necessidades e suas
Liderança Cristã Transformadora
56 !f-----..-.!..------4----------------'
Manfred W Koh/ e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

maneiras de pensar e a falar sua língua. No ministério cristão,


alguém tem de se tornar bilíngüe. Nas palavras de Henry
Horn, "Devemos aprender a viver, pensar e falar duas
línguas completamente diferentes - a língua da Bíblia e a
língua do homem moderno" 17•
Ao concluir esse tópico ao desafiá-lo diretamente:
nomeie as duas pessoas que você na atualidade está
rnentoriando, com quem você em pessoa toma tempo para
transferir o seu conhecimento, experiências e dicas. Se você
não pode pensar em dois desses indivíduos, você deveria
então identificá-los e estabelecer uma relação de mentoria
com eles o mais rapido possível.

VI - SERVINDO O LAICATO E MINISTRANDO NO MERCADO

A recente tendência acerca da mudança de escolas


teológicas ou seminários em universidades cristãs é uma
indicação da necessidade para o impacto cristão no mercado.
Nesse aspecto, é importante aprender com desenvolvimento
histórico de várias e grandes universidades na América do
Norte que começaram como instituições teológicas
evangelicais e como elas desenvolveram-se em faculdades
de artes liberais. Perderam suas ênfases cristãs. Acrescentar
aos currículos de uma escola teológica várias novas disciplinas
acadêmicas a fim de treinar os obreiros sociais, os professores
de escola dominical, as enfermeiras, as secretarias, os
advogados, etc. baseados em princípios cristãos é de fato
um empreendimento muito mais complicado e caro do que
o esperado, como muitas de nossas escolas parceiras já
descobriram. É de fato muito importante ter programas de
treinamento baseados em princípios cristãos para essas
profissões, mas a provisão de tais programas não é
necessariamente a responsabilidade de uma escola teológica.
Transformação radical na formação do l/der cristão I 57
Manfred W Kohl

Uma abordagem diferente tem sido desenvolvida por


várias de nossas escolas parceiras; notadamente, tem o seu
corpo docente e pessoal administrativo a ensinar não somente
em sua própria escola teológica, mas também em
universidades seculares; em programas noturnos de
alfahetizção de adultos; em associações de vários grupos
profissionais. Um professor de ética cristã, por exemplo,
oferece uma disciplina duas vezes por semana durante o
horário do almoço em um restaurante no centro da cidade
de Boston, uma enorme cidade nos Estados Unidos. Essa
disciplina é assistida por um grande grupo de homens de
negócios, advogados, e funcionários públicos. Um professor
de aconselhamento dá uma série de palestras sobre princípios
cristãos em hospital local em Bangalore, índia, para todo o
pessoal administrativo médico interessado no assunto,
novamente com um número esmagador de pessoas em
atendimento. Em Nairóbi, Kenia, várias disciplinas são
oferecidas cada sábado de manhã em várias igrejas sobre
tópicos destinados aos profissionais. Uma equipe de
professores e estudantes em Hong Kong ofereceu um curso
sobre o compromisso cristão, a honestidade, e a
responsabilidade em um hotel próximo ao meio de um
distrito financeiro com mais pessoas se inscrevendo para o
curso do que poderia ser acomodado. Essas tendências estão
se desenvolvendo muito rapidamente. O programa de
liderança da Igreja Vitória nas Filipinas oferece disciplinas
para pessoas leigas sobre temas relevantes para eles, trazendo
ensino bíblico claro a testemunhar sobre os problemas. Essas
disciplinas são oferecidas simultaneamente em quinze locais
chaves da Manila metropolitana.
As vozes d o "sacerd ote, " o ".proreta,
J:. . " d evem
" e o "rei

ser ouvidas mais claramente no mercado mundial. Em um


Liderança Cristã Transformadora
58 I r - - - - - - - - - - = - - - - - - - " - - - - - - - - - - - - - - - - - - +
Manfred W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

recente retiro do corpo docente de uma de nossas escolas


parceiras, dois dias foram gastos discutindo-se como
entender proprimamente o conceito bíblico de sacerdócio,
profeta e rei em nossos dias. Durante um debate entre
educadores teológicos e homens de negócios, uma declaração
desafiadora foi feita: "treinar pastores para visitar pessoas
em hospitais quando estão doentes é bem desenvolvido, mas
o conceito de visitação de homens de negócios, banqueiros
e políticos em seus escritórios ou ou salas de diretoria, para
falar com eles sobre seus problemas espirituais e conflitos, e
orar com eles é ainda amplamente não desenvolvido".
Devemos ter a coragem para buscar caminhos para treinar
pessoas a fim de elas sejam capazes de ser efetivas em todos
os segmentos da sociedade. "Precisamos romper nossos
guetos eclesiásticos," como declarou no Pacto de Lausanne!".
A quantidade excelente de materiais sobre as teorias
de educação de adultos produzidas nos recentes anos é
avassaladora 19. O corpo docente em escolas teológicas deve
ser treinado a usar esse material, especialmente a fim de
alcançar a seção de leigos profissionais de nossa sociedade
como parte do ministério da igreja. Um teólogo
testemunhando em um dos nossos Instituto disse que
proferiu duas palestras sobre princípios cristãos em uma
Faculdade de Direito como trabalho de missão e evangelismo
de seu Seminário.
VII - O AVIVAMENTO COMEÇA NO TOPO MAS DEVE SER
UM ESFORÇO DE EQUIPE

Em encontros com as diretorias de nossas escolas


teológicas parceiras, tenho sido repetidamente questionado
Qual é a função, ou a descrição de cargo do presidente?"
Temos de reconhecer que o presidente (reitor, diretor, CEO,

,H "',,' I" I
Transformação radical na formação do l/der cristão
Manfred ~ Kohl

administrador), deve ser responsável pela total operação da


instituição - do pessoal administrativo às finanças, do
planejamento estratégico à avaliação de resultados - e não
pode continuar a ensinar disciplinas sobre uma base regular
como um membro do corpo docente. Tal afirmação
normalmente cria grande oposição, geralmente do próprio
presidente. Treinado como um professor, qualquer membro
do corpo docente com nível de especialização - pinçado para
cargo administratico - quer contin uar a ensinar e
simplesmente acrescentar as responsabilidades associadas
com a presidência à sua agenda de ensino. O resultado é
que sua performance sofre como presidente tanto como um
professor. Os presidentes têm de aprender a diferença entre
ser um membro do corpo docente e ser o presidente, com
obrigações para com instituição inteira.
O Instituto de Excelência oferecido pelo O'Cl para
a liderança de todas as nossas escolas parceiras ao redor do
mundo foi criado primariamente para ajudar os presidentes
a entender as suas funções como "sendo responsável pela
instituição inteira" e para aprender a tornar-se mais efetivos
nessa função. O treinamento para os membros da diretoria
é necessário também. Felizmente, nos anos recentes, bom
material tem sido produzido e está disponível, em várias
línguas, tanto para presidentes como para a diretoria", A
renovação deve iniciar no topo. Se o presidente e a diretoria
não estão convictos de que a presente estrutura e currículo
devem ser mudados, todos os esforços são fúteis.
No mundo dos negócios, a liderança é avaliada e os
líderes são promovidos ou demitidos de acordo com os
resultados de suas lideranças - avaliação orientada por
resultados. O mesmo princípio deveria aplicar-se à liderança
das escolas teológicas e seria refletida na descrição do cargo
Liderança Cristã Transformadora
60 I--.!....--------.:........'----.-------------------I
Manfred W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

do presidente. O presidente é responsável pelo seu corpo


docente e pelo seu pessoal administrativo e deveria ensinar
e supervisionar ambos os grupos. Ele deveria ensinar o corpo
docente, ou facilitar as discussões com eles, sobre questões
tais como: a melhoria de métodos de ensino dos valores
centrais; como acrescentar novo material; avaliação de
resultados; treinamento de estudantes nos valores espirituais,
formação do caráter, grupo de ensino, e mesmo áreas tais
como gerenciamento de tempo e recursos.
Se um presidente exige que cada membro do corpo
docente participe de sessões regulares de treinamento
(semanal ou mensal), incluindo leitura avançada na
providência do material bem preparado, as chances de
renovação teológica são mais altas. Igualmente tão
importante, é o presidente ensinar todos os outros do pessoal
administrativo - das secretárias aos contadores, do relações
públicas aos programadores - em sessões regulares
encaixadas às suas necessidades pessoais e profissionais. Os
presidentes de algumas de nossas escolas que já iniciaram tal
programa regular de ensino para o corpo docente e o pessoal
administrativo. Eles relatam extraordinários resultados.
Precisamos nos esforçar por mais trabalho em
conjunto. A diretoria, o corpo docente, e os estudantes de
uma escola teológica na África passam quatro meses
trabalhando juntos em um plano estratégico do qual cada
um deles torna-se um pilar. Uma outra escola trabalha sobre
o desenvolvimento dos valores centrais ao receber notícias
valorosas dos ex-alunos. Essa atividade de coordenação,
ensinar e liderar o corpo docente nas discussões, é a
responsabilidade do presidente, com o suporte da sua
diretoria. Essas atividades têm maior significância para uma
escola do que ensinar disciplinas regulares aos estudantes.

, H
Transftrmação radical na rmação do l/der cristão
Manfred w: Kohl

CON51DERAÇOES FINAIS

Vamos refletir sobre os doze pontos específicos do


Manifesto ICAA: "agora conjuntamente afirmamos que,
para cumprir o mandato dado por Deus, a educação
teológica evangélica mundial hoje deve vigorosamente buscar
introduzir e reforçar a corrtextualização , a orientação
eclesiástica, a flexibilidade estratégica, a fundamentação
teológica, a assistência contínua, a vida comunitária, os
programas integrados, a formação de servos, a variedade
instrucional, uma mentalidade cristã e equipar-se para o
crescimento e a cooperaçâo'P'.
Poderia a liderança de cada escola teológica dispor
de um período de um ano (ou menos) para estabelecer um
mecanismo de séria avaliação com o compromisso
determinante de confirmar o que é excelente, de mudar o
que precisa para ser melhorado, de acrescentar o que está
faltando e cortar o que é irrelevante e improdutível?
Uma abordagem para a reorganização de uma escola
teológica seria um íntimo exame e adaptação possível do
programa de educação teológica de Jesus. Por três anos, Jesus
ensinou e mentoreou doze a/unos (discípulos) em tempo
integral e parcial, além daquele em que eram somente
ouvintes. Como professor, seja o que ensinou, ele mesmo
praticou com seus a/unos. Ele raramente dava palestras;
melhor ainda, ele passava a maior parte do seu tempo em
diálogo e demonstração prática, usando as questões que
surgiam do dia-a-dia como base para seu ensino. Seu
relacionamento com seus a/unos era sincero, penetrante,
desafiador e orientado por objetivos. Uma simples imitação
de seus três anos com discípulos não poderia ser apropriada
para um seminário teológico. Todavia, os conteúdos-chaves
Liderança Cristã Transformadora
Manfred \v." Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

que ele ensinava providenciavam orientações para o


programa educacional dos seminários hoje.
Uma disciplina que Jesus ensinou e praticou
regularmente na presença de seus discípulos, e que enfatizou
como máxima importância para todas as suas vidas foi a
oração. A oração era a disciplina "obrigatória", que permeava
os demais conteúdos. Jesus também ensinou e demonstrou
serviço. Sua vida refletiu uma atitude serviçal, e seus alunos
tiveram de aprender essa lição de maneira dura. Jesus
ministrou sobre compartilhar e dar, mais do que sobre
qualquer outro assunto. Mordomia bíblica era muito alta
em sua lista de prioridade de tópicos de discussão, e ele
sempre demonstrava sua convicção que cada coisa que ele
tinha, pertencia ao seu Pai. Seu ensino incluía evangelismo
pessoal, mensagem de arrependimento e desafiou as pessoas
a o seguirem, que era o caminho de salvação. Ele enviou
seus alunos para fazer o mesmo, e a Grande Comissão é
claramente urna direção ao evangelismo e missão. Jesus
ensinou extensivamente o gerenciamento de recursos, de
pessoas e de tempo. Seus alunos tiveram que aprender sobre
o significado da beleza da unidade sem comprometer a
verdade da mensagem divina, sobre adoração como um
estilo de vida, ministérios holísticos e sustentáveis,
pensamento futurístico e planejamento estratégico.
Para finalizar, as disciplinas obrigatórias ensinadas por
Jesus em seu "seminário" incluíam oração, serviço, mordomia,
evangelismo, planejamento estratégico, gerenciamento,
unidade, adoração. Poderia a avaliação de nossos seminários
ganhadores incluir uma comparação com o que Jesus fez, e
um desafio de fazer o mesmo?

, H
Transformação radical na formação do l!der cristão
Manfred W Kohl

NOTAS

1 Manfred Waldemar Kohl, "Current Trends in Theologica1 Education,"


International CongregationalJournall (Fevereiro de 2001), pp. 26-40.
2 Alan Jones, "Are We LoversAnymore: Spiritual Formation in the Seminaries,"

Theological Education 24: 1 (1987): p. 11.


3Pacto de Lausanne. Adotado em 1974 pelo Congresso Internacional de

Evangelização Mundial, Suíça.


4 "Manifesto on the Renewal of EvangelicaI Theological Education,"

Evange1ica1 Reviewoflbeology 8:1 (Abrilde 1984), pp. 136-143. Reimpresso


no Theologica1 News 16:2 (Apri11984), pp. TET 1-6. Também re-publicado
no Youngblood, Excellence e Renewal, pp. 80-87.
5 Robert ~ Ferris, Renewalin Theological Education: Strategies for Change
(Wheaton: Bi11y Geaham Center, 1990).
6 Robert Banks, Reenvisioning Theological Education: Exploring a Missional

Alternative to Current Models (Grand Rapids, MI: Eerdrnans, 1999).


7 Charles Spicer Jr., fundador e primeiro presidente da Overseas Council for

Theologica1 Education and Mission, usou essafrase como um dos prindpios


fundamentais da nova organização, iniciada em 1975 nos EUA.
8 Para melhores informações, escreva ao Overseas Council International, PO

Box 17368, IN 46217, USA. Este material pode ser obtido eletronicamente
ou em diquete ou impresso.
9 Banks, pp. 157-68. Banks dá exclelentes exemlos do que diferentes tipos de

disciplinase ações seriam considerados.Ele trnabém refere-se a Thbmas Groome,


"Theology on Our Feet: A Revisionist Pedagogy for Healing the Gap between
Academia e Ecclesia," em LewisS. Mudge e James N. Poling (eds.), Formation
e Refleetion: The Promise ofPractica1Theology (Philadelphia: Fortress, 1987),
pp. 55-78.
10 Bosch, Transforming Christian Mission, p. 494. Veja tamhém Mark Young,

"TheologicaI Approaches to Some PerpetuaI Problems in Theological


Education", Christian EducationJournal2.1 (Spring 1998), pp. 75-87 e O.
Costas, "Theological Education e Mission", in C. Rene Padilla (ed.), New
Alternatives in Theologica1 Education (Oxford: Regnum, 1986).
11 Este foi o principio fundante sobre o qual Bob Pierce iniciou a ogranização

de ajuda cristã Visão Mundial Internacional em 1950.


12 Ferris, p. 129.

13 A fim de obter uma cópia desse questionário, escrever para o Overseas

Couneil International, PO Box 17368, IN 46217, USA. Esse material pode


ser obtido eletronicamente.
Liderança Cristã Transformadora
Manfred W Kobl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

14 The Murdock Charitable Trust. O estudo foi conduzido em 1994.


15 Manfred ~ Kohl, The Church in the Philippines: A Research Project with

special Emphasis on Theological Education (Manila: OMF Literature, Inc.,


2005), p. 55.
16 O modelo SATE e outras inovações estão descritas em Timothy Morgan,

'Re-Engineering the Seminary,' ChristianityToday (24 Outubro de 1994),


pp. 54-78.
17 Henry Horn, The Christian in Modern 5tyle (Philadelphia: Fortress Press,
1968), p. 68. Veja também Steele ~ Martin, Ministério Blue Collar (np: The
Alban Institute, 1989).
18 O Pacto de Lausanne, parágrafo 6.

19 Um catálogo desses muitos materiais pode ser solicitado à Jossey Bass

Publishing House. www.josseybass.com


20 Uma bibliografia sobre o terna está disponível em nossa organização.

21 The lCAA Manifesto

, ..
GAP(TULO

. ·~fuNDAMENTOS BfBLICOS
. 'ARA A LIDERANÇA
;" •. GONTEMPORANEA

JUAREZ MARCONDES fiLHO


INTRODUÇÃO

o crescimento editorial a respeito do tema da


liderança é muito evidente. Veja-se o material da Fundação
Peter Drucker (O Líder do Futuro, A Organização do
Futuro, A Comunidade do Futuro, Liderança Para o Século
XXI, entre outros), difundido em todo o planeta. Mesmo
em se tratando de conteúdo não religioso, não ~ difícil
perceber o enfoque espiritual contido em seus textos, como
se pode ver neste depoimento: "Os objetivos de nossa
empresa são definidos com simplicidade: honrar a Deus em
tudo o que fazemos, ajudar as pesso~ a crescerem, buscar a
excelência e crescer lucrativamente'",
Por outro lado, livros e artig~s de cunho religioso
têm sido publicados largamente, enfocando a importância
da liderança espiritual. John Haggai, fundador e presidente
de honra do Instituto Haggai, que já treinou cerca de dois
milhões de líderes cristãos no mundo inteiro, em seu livro
'Liderança que persevera num mundo mutdoel", desenvolve
12 princípios fundamentais para o exercício da liderança:
visão, estabelecimento de alvos, amor, humildade, auto-
controle, comunicação, investimento, oportunidade,
energia, poder, autoridade e conscientização.
No Brasil, a partir dos anos 70, agências missionárias
passaram a tratar de liderança lado a lado com a questão das
missões. Destaca-se especialmente o trabalho feito pela'
SEPAL - Serviço de Evangelização para a América Latina -
que tomou como prioridade o treinamento de pastores e
líderes, por meio .da edição de livros e jornais, da realização
de congressos nacionais e regionais e do oferecimento de
cursos direcionados às igrejas.
68 I-----:..-~_"______O~--____:__--------------t
Liderança Cristã Transformadora
Manfred W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

Liderança não é apenas um tema relevante, mas


urgente, pois faltam-nos líderes capacitados e dispostos a
assumir o seu papel na condução de instituições, empresas e
nações inteiras. O processo sucessório de muitos
empreendimentos tem naufragado pela simples falta de
alguém preparado para assumir o posto. Na política não é
difícil deixar de ver que algumas lideranças se perpetuam
por pura inércia, afinal, sempre há de se argumentar "mas
se não for ele,quem será?", e assim, não surgem novas lideranças.
Em alguma medida, podemos admitir que há
aspectos inatos numa liderança e que, portanto, não é
possível transformar em líder quem não tem a menor
inclinação para isso. No entanto, aqueles que têm tal
inclinação precisam ser trabalhados, preparados e ter
oportunidades de demonstrar sua capacidade para o
exercício da liderança, sem serem tolhidos pelos que exercem
tal missão por falta de opção.
O QUE A PALAVRA DE DEUS TEM A DIZER

Talvez pensemos que liderança seja, sim, um tema


relevante e urgente, porém, não propriamente de
importância escriturística, como se fosse assunto de
preocupação primordial da Bíblia Sagrada. Olhos piedosos
podem ver nessa ênfase uma certa presunção que extrapolá
o escopo bíblico, sedimentado na modéstia e na humildade.
De fato, se liderança for vista como oportunidade de
mandar, de assenhorar-se, de ter a supremacia, então, sim,
estaremos fugindo do contexto da Palavra de Deus.
A Escritura Sagrada, no entanto, em sua primeira
página fala sobre liderança: "Dominai a terra" (Gn 1.28).
Essa foi a primeira diretriz do Senhor Deus ao homem recém-
criado. E, na última página, ainda podemos ver ecoar o

< fi I ,il ti" I


Fundamentos biblicos para a lideritnç4 conkmporânea
Juarez Marc01Uks Filbo

mesmo assunto, já numa antevisão celestial: c~einariÍIJ pelos


séculos dos séculos" (Ap 22.5). Entre a primeira e a última
página da Bíblia, há muito a ser refletido a respeito de
liderança. Vejamos alguns episódios:
O pedido da mãe" de Tiago e João (Mt 20.20-28).
Mais do que uma boa posição ao lado do Filho de Deus, o
requerimento dessa mãe tinha a ver com Iiderança, E não
era apenas interesse dela, mas dos próprios filhos, que talvez
estivessem se valendo do expediente da mãe pará atender
aos seus objetivos; e não menos fizeram os outr()sdez
apóstolos, que se indignaram corn a audácia dos seus
companheiros, porém mas não deixando de revelar que
também estavam possuídos pelo desejo de ocupar posições
de primazia.
É o que podemos ver no episódio que levou Jesus a
colocar uma criança no meio dos discípulos. O motivo disso
foi a pergunta: ~cQuem é o maior no reino dos céus?' (Mt
~" .. . " primeiro
. ..1 - 5) . O s termos mator,
18 ,,~ . " e prImazIa,C;(. • "

denunciam o interesse pela liderança.


No tempo da conquista da Terra Prometida, ap6s a
morte de }osué, surgiu um bordão: "Quem dentremds,
primeiro, subird aos cananeus para pelejar contra eles?" (Iz
1.1). Era uma hora de crise e a pergunta exprimia a busca
pelo sucessor.
Não nos esqueçamos da liderança exercida por uma
mulher: Débora (Jz 4.6-9). Os que" têmdú·vidas com
liderança feminina gostariam de descartar esta narrativa das
Escrituras. Mas como, em geral," são os mesmos que levantam
o estandarte da irterrância, restam apenas-eubrerfúgios
bastante" engenhosos.
E assim, em plano, podemos ver nas Escrituras a
liderança exercida pelos patriarcas, pelos juízes, pelos réis,
It-----::.....---~-----------
Liderança Cristã Transformadora
70 Manfred W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

pelos profetas, pelos apóstolos e, acima de tudo, pelo próprio


Cristo, que afirmou: "Ouem quiser ser o primeiro entre vós
será servo de todos" (Me 10.44).
MAIS PRESENTE DO QUE IMAGINAMOS

George Barna, pesquisador americano, afirma: "Nada


é mais importante do que a liderança. Mesmo que outros
afirmem que mais importante é santidade, ou retidão de
caráter, ou compromisso com Cristo, ou obediência radical
a Deus, nunca houve qualquer m.ovim.ento significativo e
bem-sucedido, revoluções ou outros sistemas, que não
tivessem à sua frente líderes fortes e de visão, liderando o
caminho da mudança em pensamento, palavra e ação".2
Pensando nisso, deveríamos fazer um ligeiro balanço:
qual tem sido o maior volume de nossas pregações: liderança
ou santificação? liderança ou missões? liderança ou decisão
por Cristo?
Nesta assertiva de Barna, encontramos pelo menos
dois indicativos do que seja a verdadeira liderança.
Primeiramente, na singela expressão "a sua frente~: vemos a
fundamental importância de se tomar a dianteira. Alguém
tem de ir à frente. Alguém tem de tomar a iniciativa. Alguém
tem de puxar o cordão. O que não implica em exercício de
pirotecnia ou exagero verborrágico. Muitos líderes exercem
o seu papel em obsequioso silêncio e na mais absoluta
modéstia. Mas estão à frente do processo.
O segundo indicativo vem da expressão "caminho
da mudança': Verdadeiros líderes sempre estão atentos aos
acontecimentos e respondendo com muita prontidão à
necessidade de mudanças sem, no entanto, ferir os valores
fundamentais. O líder não vê a mudança como um inimigo
a ser combatido. O líder não é um burocrata de plantão,

1- IH •• I·; 11 I I
Fundamentos bíblicos para a liderança contemporânea
Juarez Marcondes Filho

levando-se em consideração a essência da burocracia, que


no dizer de Michael Hammer é programar as pessoas para
se conformarem aos procedimentos estabelecidos'", Ao
contrário, o líder age como um visionário e motivador, dando
o pontapé inicial e criando um ambiente propício às
mudanças necessárias.
Esse é um tempo de grandes e significativas mudanças.
O que era importante ontem, hoje perdeu todo seu valor.
O que hoje cultuamos como imprescindível, amanhã estará
no esquecimento. Os referenciais caem um após outro. A
sociedade e a cultura que nos cercam têm grande dificuldade
de estabelecer um paradigma mais seguro e permanente. É
a contínua obsolência dos valores.
Não falamos isso por convicção, mas por constatação.
E, convenhamos, muito do queerigimos como verdade
eterna e imutável não passa de gosto pessoal. No entanto, o
exercício de uma liderança preparada saberá distinguir o
transitório do permanente, o que precisa ser mudado do
que não pode ser mudado, o que vai agregar valor ao
princípio eterno do que efetivamente pode ser descartado.
Falando sobre estruturas organizacionais, Hesselbein
afirma que "a segurança dos velhos muros e a importância
social dos empreendimentos confinados estão diminuindo
lentamente; surge uma energia nova conforme líderes do
futuro abraçam as vastas oportunidades de Iiderança'",
Podemos pensar em importantes líderes mundiais,
mas o fato é que a liderança está presente em nosso cotidiano.
Há que se considerar a liderança no seio de cada família, de
cada condomínio, de cada bairro. Na cidade, o chefe do
departamento de arrecadação é tão líder quanto o prefeito
municipal; são competências distintas, no entanto, a
liderança deve ser exercida por ambos. O mesmo vale para
72 Liderança Cristã Trans "Ormadora
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Manfred W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

o ambiente das igrejas. O dirigente de grupo familiar é líder,


assim como o seu pastor. Pastores que vêm na pluralidade
de líderes em suas igrejas uma grande ameaça estão fadados
a carregar um fardo que excede em muito às suas
responsabilidades.

LIDERANÇA, PODER E SERViÇO

Liderança e poder estão mais juntos do que podemos


imaginar. Mas é o servir que une ambos, propiciando uma
liderança autêntica e duradoura. Do contrário, o poder
tomará as rédeas. Conforme afirma John Stott, citando
Chuck Colson: ''A sedução do poder pode separar o mais
resoluto dos cristãos da verdadeira natureza da liderança
cristã, que é servir a outros. É difícil permanecer em pé num
pedestal e lavar os pés dos que estão embaixo" 5•
Alguns ditos se tornaram mais do que populares, se
tornaram a regra que normatiza a vida das pessoas. Entre
eles está o que diz: "Manda quem pode, obedece quem tem
juízo". É provável que algum desavisado já tenha imaginado
que se trata de frase extraída da Bíblia. Seguramente, este
não é o pensamento de Deus para a liderança. Outras
palavras exprimem melhor a vontade de Deus para os
líderes. Entre elas destacamos as seguintes:
Escravos rebaixados (l Co 4.1). O Apóstolo Paulo se
utiliza do termo buperetes, que era usado para identificar
os remadores das galés, as grandes embarcações que
singravam os mares na antiguidade. Esses escravos
permaneciam nos porões dos. navios, em condições
desprezíveis, sem terem qualquer tipo de reconhecimento
pelo trabalho que faziam. No entanto, era por causa da força
que despendiam que as viagens eram realizadas. Sem o
concurso dos remadores o barco não sairia do lugar.
Fundamentos blblicos para a liderança contemporânea
Juarez Marcondes Filho

Jesus se colocou como servo, quando assumiu a tarefa


de lavar os pés aos discípulos conforme registrado no
Evangelho de João, no capítulo 13. Era uma tarefa delegada
a um servo menos graduado. Com isto, Jesus ensinou que
quem não está pronto para fazer as tarefas mais desprezíveis
não está preparado para a liderança.
Mordomos dos irmãos (ICo 4.2). Num mesmo
contexto, Paulo queria ser visto, também como um
oikonomos, cujo significado apontava para o despenseiro, o
empregado que tinha a incumbência de cuidar da casa. Ele
não era o dono e tinha muita clareza a respeito disto, pois
em momento algum se sentia como proprietário, usurpando
a condição de seu patrão. Sua responsabilidade era cuidar
das coisas de outrem. E como costumamos afirmar, cuidar
das coisas dos outros traz muito maior responsabilidade,
O mordomo tinha responsabilidade integral sobre a
casa, de maneira que o dono da casa não tinha qualquer
preocupação. Era seu mister averiguar a despensa, controlar
os gêneros, atribuir tarefas aos demais empregados, cuidar
para que tudo acontecesse em perfeita ordem no que dizia
respeito à casa.
Os líderes cristãos são despenseiros dos mistérios de
Deus (Cl 1.27). Sua tarefa primordial é nutrir o povo de
Deus com o ensino da Palavra do Senhor, de maneira que
não haja fraqueza espiritual no seio da Igreja.
São também despenseiros da multiforme graça de
Deus (IPe 4.10) no sentido de ajudarem os irmãos a
descobrir e exercitar os seus dons e talentos, conforme a
vocação divina. Sua liderança neste 'particular· é vista mais
no sentido de ensinar a fazer do que propriamente fazer. A
Casa é do Senhor e não do despenseiro.
741-------:...----...::------------~
Liderança Cristã Transfarmadora
Manfred W Kobl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

Servos dos Outros (lCo 3.5). Aqui o termo usado é


diakonos, cujo significado é mais genérico, mas geralmente
é traduzido pela palavra ministro; ministro é quem tem um
ministério, ou seja, um serviço a realizar; portanto, ministro
é aquele que serve. Quem é Paulo? Quem é Apolo? E assim
por diante. Não importa se são apóstolos, doutores, pastores,
presidentes, etc. São antes de tudo, são diakonos.
Escravos de Cristo (2Tm 2.24-26). Desta feita, o
termo escolhido é doulos, que pode ser traduzido tanto por
servo, como por escravo, mas que neste contexto assume
uma conotação mais profunda, qual seja, a de servo ou escravo
de Cristo. A liderança cristã somente assume a condição de
servir aos irmãos, de estar pronta para fazer até tarefas
desprezíveis, não por um desprendimento inusitado, mas
porque se entende como serva de Cristo.
MODELO MINISTERIAL

No corpo de Cristo, cada membro exerce uma função


através da habilitação do Espírito Santo, que são os dons
espirituais (lCo 12.1-31). Em outros termos: na igreja, todos
os fiéis trabalham, conforme a vocação e a capacitação que
Deus concede. Desta maneira, o exercício de nossa fé se
traduz em serviços, ou seja, em ministérios.
Os ministérios não são super-estruturas, que exigem
grandes edifícios para abrigar uma gigantesca equipe. Os
ministérios, também, não conferem aos seus tirulares
qualquer primazia no Reino de Deus, muito menos a
condição de espiritualidade superior. Os ministérios são
serviços, ações concretas, que tiram a igreja da inércia,
promovendo o atendimento de múltiplas necessidades.
Do ministério de Cristo tiramos o exemplo para os
nossos ministérios. No capítulo três do Evangelho de Marcos,

. ti ' I, ,,' • I ~ I
Fundamentos biblicos para a liderança contemporânea
Juarez Marcondes Filho

vemos algumas características marcantes deste ministério


exemplar.
O ministério deve estar centrado na vontade de
Deus. Jesus identificou como sendo pertencentes à sua
família aqueles que fazem a vontade de Deus (vs, 31-35). A
realização de um serviço no meio da Igreja deve respeitar o
interesse divino e, não, nossas preferências individuais. É
muito comum fazermos isto ou aquilo por interesse pessoal.
Quanta coisa está sendo deixada porque submetemos sua
execução ao sabor de nossos sentimentos, colocando a
soberania de Deus num plano secundário! a
exercício do
ministério não se presta à realização do nosso interesse e,
sim, do interesse do nosso Deus.
a ministério deve ser motivado pela misericórdia.
Jesus curou um homem que tinha uma das mãos ressequidas
(v. 1-6); a seguir, procedeu com inúmeras curas (vs. 7-12).
As dores e as lutas das pessoas comoviam a Jesus. Não
podemos ficar insensíveis aos lamentos e aflições que nos
rodeiam. As lágrimas dos que nos cercam clamam por nossa
atenção.
O ministério deve ser partilhado com outros.
Ninguém precisa carregar o fardo sozinho. Jesus mesmo
escolheu discípulos com os quais dividiu as responsabilidades
(vs, 13-19). De um lado, seriam companheiros; de outro,
seriam aprendizes. Podemos afirmar que mais importante
do que fazer uma obra é ensinar alguém a fazer, a fim de
dar continuidade ao nosso ministério. Foi o que Jesus fez. E
ele é o nosso exemplo.
Quem realiza um ministério deve estar
absolutamente disponível. Em todo esse capítulo de Marcos,
vemos Jesus tentando tirar um descanso, porém não
conseguia. Aonde ele ia, as multidões o acompanhavam (vs, 7
Liderança Cristã Transformadora
761 ---:;..------:<.....--------------
Manfred W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

e 20). Na vida comum, temos nossos horários para trabalhar,


expedientes para cumprir. No Reino de Deus devemos estar
sempre prontos para assistir a quem quer que seja.
Ainda, o ministério não deve ser desejoso de
exposição. "[esus severamente lhes advertia que não o
expusessem à publicidade" (v. 12). Somos a luz do mundo.
Só por isso, já temos uma exposição natural. O que se deve
evitar é o artificialismo que transforma o vazio, o que é sem
conteúdo, em algo estupendo. O evangelho não pode ser
refém de recursos espúrios.
Finalmente, seguindo o exemplo de Cristo, o
ministério será fortemente criticado (vs. 2, 6, 21, 22).
Quando não fazemos somos menos criticados do que quando
fazemos. Sempre há alguém para dizer que seria melhor dessa
ou daquela forma. É preciso enfrentar a critica com o
trabalho.

o COMPROMISSO DO L1DER

"Amarás, pois, o Senhor teu Deus de todo o teu


coração... :>, (Dt 6.5). Deus procura líderes que o amem de
todo o coração. Não basta o domínio de certas técnicas e
competências. Simpatia e carisma não são suficientes.
Apenas, eficiência e determinação não preenchem o que se
requer de um líder.
Amar a Deus como requisição básica vai além de
qualquer romantismo pueril. Antes de tudo, implica
compromisso. Uma das grandes justificativas para a situação
crítica pela qual passam muitos casamentos é a de que o
amor acabou e quando o amor acaba não há mais nada para
ser feito. Ledo engano. O que findou foi o compromisso de
amar ou o amor verdadeiramente comprometido.

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·
Fundamentos biblicos para a liderança contemporânea
Juarez Marcondes Filho

De fato, nosso tempo é o tempo do descompromisso.


Ninguém quer se comprometer. Ninguém viu, ninguém
sabe. Pior, é o tempo em que os compromissos assumidos
não são levados a sério.
Por isso, Deus procura líderes que o amem de todo o
coração, cujo compromisso primordial é com o Senhor.
Lealdade dividida é coisa séria. Quando Jesus convocou
determinado indivíduo para segui-lo, obteve a seguinte
resposta: cCTudo bem. Eu vou seguir-te. Mas, primeiramente
eu preciso resolver umas questões familiares" (Lc 9.59).
Podemos pensar que este homem amava a Deus;
imbuiu-se do propósito de seguir a Cristo. Ele está indo
muito bem, diríamos nós. No entanto, ele colocou um
obstáculo fatal: uma outra prioridade o faria adiar aquele
discipulado. Ele amava a Deus, mas não de todo o coração.
O compromisso não pode ficar refém de outros
interesses. Ao contrário, os interesses devem se submeter ao
compromisso maior. Na vida do líder cristão, o compromisso
amoroso com Deus tem absoluta primazia. Assim é que ele
não sente maior dificuldade diante da dúvida entre fazer
ou não a vontade de Deus, por exemplo, no tocante a assumir
determinado ministério. Ele sabe pela Palavra de Deus e
pela ação do Espírito Santo que não há outra opção a não
ser assumir a missão. E Deus há de suprir em graça todas as
necessidades, em termos de recursos, tempo, cooperadores,
e tudo o mais.
Amor e compromisso são duas faces da mesma
moeda. Um sustenta o outro de tal maneira que não podemos
ver um deles separado do outro. Alguém que afirma ter um
profundo amor a Deus, mas não assume responsavelmente
os compromissos advindos deste amor, inclusive o de amar
o próximo (L]o 4.20), tem negado a própria fé. Por outro
78 1----::..-------"--------------------
Liderança Cristã Transformadora
Manfred W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

lado, este compromisso irá se revelar abundantemente


amoroso, gracioso, favorável, de tal sorte que não será tomado
como um peso, e, sim, será notória a alegria.
Não desconsideramos nada do que tem sido dito a
respeito dos requisitos de um bom líder, mas tomamos como
de fundamental importância o amor a Deus revelado num
compromisso integral. Do contrário, poderemos ver
descortinar diante dos nossos olhos muitas competências,
mas sem o verdadeiro embasamento.

LIDERANÇA TRANSfORMADORA

Nesse capítulo, nosso objetivo não foi outro senão o


de revelar, à luz das Escrituras Sagradas, a liderança que
poderá exercer a transformação que a nossa sociedade e o
nosso mundo estão requerendo. Essa transformação tem
princípio no modo pelo qual a liderança enxerga a si mesma.
Nesse caso, sua auto-imagem não está estribada na condição
de mandar, ao contrário, tudo parte da oportunidade de
servir. A liderança apta a levar avante as mudanças que já
estão em curso é formada por homens e mulheres que se
dispõem a servir de corpo e alma.
A disposição de servir, necessariamente, precisa estar
aliada ao genuíno caráter cristão, marcado pelos valores do
Reino de Deus, adornados por uma autêntica piedade cristã.
O líder a quem Deus chama para o seu serviço cultiva uma
vida de íntima comunhão com Ele por meio da oração e da
meditação nas Escrituras. Em decorrência desse bendito
exercício espiritual, seus pensamentos são movidos pela
mente de Cristo (2Co 2.16); seu coração acha-se cheio do
amor de Deus (Rm 5.5); e dos seus lábios só procedem
palavras que são boas para a edificação (Ef 4.29).

! ," I ~'I
Fundamentos bíblicos para a liderança contemporânea
Juarez Marcondes Filho

Não estamos procurando a liderança assentada sobre


o poder, no sentido de servir-se dele e, simultaneamente,
serví-lo. No primeiro caso, desembocamos na triste realidade
daqueles que visam tão somente o lucro pecuniário, o
prestígio pessoal e o aplauso das multidões. No segundo,
vemos as estruturas se perpetuando como se fossem o fator
mais importante, deixando-se de lado as imprescindíveis
transformações.
A liderança transformadora não se satisfaz em servir
ao poder e, sim, em poder servir, não se aproveitando da
eventual posição que ocupa como forma de perpetuação de
interesses escusos, mas como bendita oportunidade de
promover o bem, de diminuir as distâncias sociais e
econômicas entre os homens, de exercitar a solidariedade e
de revelar o maravilhoso amor de Deus. Esses são sinais
visíveis do Reino de Deus.
Ficamos preocupados com.o exercício da fé que torna
o fiel alheio às coisas que acontecem à sua volta, como se
esses fatos não tivessem nada a ver com ele, sob a
pressuposição de que é um cidadão do reino celestial. O
Reino de Deus tem, sim, a dimensão do porvir, mas, também,
tem a dimensão do já-acontecido-acontecendo. Jesus
inaugurou esse reino e declarou que ele está dentro de nós
(Lc 17.21).
Uma leitura consistente das Escrituras revela as
preocupações de caráter social desde o princípio das coisas,
em especial, quando da constituição do povo de Deus. Leis
foram estabelecidas para que as distâncias entre os seres
humanos fossem diminuídas e todos pudessem gozar do bem
comum.
Devemos, pois, estar cornpro met ido s com o
atendimento dos menos favorecidos e com a participação
80 I-~--~---------_----I
Liderança Cristã Transformadora
Manfred W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

integral na sociedade como um reflexo do nosso


compromisso com Cristo. Exercemos nosso papel,
coletivamente enquanto Corpo e, individualmente, como
discípulos de Jesus, no tecido social em que estamos inseridos.
Há, portanto, uma convocação divina em curso para
uma nova liderança em um novo tempo, e ela não consiste
em outra coisa senão em que exerçamos o serviço cristão em
toda a sua plenitude, visando a transformação de nossa
sociedade.

NOTAS

1 William Pollard, presidente do conselho da empresa ServiceMaster,


reconhecida como a empresa n" 1 no Fortune 500.
2 BARNA, George. Lideres em Ação. Sabedoria e Encorajamento na arte de

liderar o povo de Deus. São Paulo: United Press, 1997, p. 19.


3 HAMMER, Michael. Reengenharía. Revolucionando a empresa. São Paulo:

Editora Campus, 1994, p. 6.


4 HESSELBEIN et ali. Liderança para o século XXI. São Paulo: Editora Futura,

2001, p. 18.
5 Apud. STOTT, John. Ouça o Espírito, Ouça o Mundo. São Paulo: ABU,

1998, p. 324.

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ANTONIO CARLOS BARRO


INTRODUÇÃO

Poucos têm percebido como é ingrata e,


tremendamente, frustrante a maneira como as igrejas
escolhem os seus pastores e como os pastores escolhem as
suas igrejas. Não existe nenhum estudo preliminar sobre as
possibilidades do certo ou errado na escolha a ser realizada.
Tudo é feito mais ou menos no escuro, "orando" para que as
coisas se encaixem nos seus devidos lugares e a felicidade
aconteça para ambos os lados: pastor e igreja.
Por que o modelo de escolha pastoral no Brasil é
falho? Porque na maioria das vezes o único critério utilizado
pelas igrejas para a escolha dos pastores é convidar alguns
candidatos para pregar em um culto dominical.
Dependendo da pregação, se foi boa ou não, convida-se ou
não o tal pastor. Este método é subjetivo. O pastor pode
escolher a sua melhor mensagem e pregá-la muito bem e
depois não ter mais o mesmo desempenho. Alguns membros
podem gostar e outros não, e a liderança fica em dúvidas.
Gostaria de apresentar algumas sugestões, tanto para
pastores como para igrejas, de como melhorar o processo
de escolha pastoral. Os benefícios serão muitos e haverá
um "casamento ftliz" e duradouro entre a igreja e o pastor
com vistas a uma liderança transformadora.

I - O QUE O PASTOR DEVE FAZER PARA ESCOLHER BEM


UMA IGREJA

1. Filosofia de Ministério
Poucos são os pastores que têm uma filosofia de
ministério. O que vem a ser isto? Podemos definir filosofia
de ministério como um conjunto de diretrizes e postulados
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Liderança Cristã Transformadora
Manfred W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

básicos tanto para a igreja como para o pastor que deve servir
de orientação no desenvolvimento da igreja e do ministério.
A filosofia de ministério deve ser o primeiro item a
ser consultado pelo pastor quando receber o convite para
uma determinada igreja.
2. Conhecimento prévio da igreja
Ao receber um convite o pastor deveria gastar um
pouco de tempo para conhecer a igreja que o convidou.
Aceitar o primeiro convite que aparece é mais ou menos
semelhante a um jogo de adivinhações. Nunca se sabe com
certeza quais as possibilidades de um ministério bem
sucedido. Como poderia um pastor conhecer melhor a
igreja que o convidou? Vejamos algumas idéias:
(a) Telefonar para algum colega que mora na cidade
onde a igreja está localizada. Boas informações poderão ser
coletadas também com colegas de outras denominações que
estão na cidade há alguns anos. Você poderá perguntar sobre
o conceito daquela igreja na cidade, entre os membros da
Ordem de Pastores. Use o seu bom senso para filtrar as
informações de colegas que gostariam de pastorear aquela
igreja mas não tiveram a oportunidade para tal, ou ainda de
colegas que pastorearam aquela igreja e tiveram insucessos
ou guardam algum tipo de rancor contra os líderes da igreja.
(b) Visitar a igreja em um dos seus trabalhos também
seria uma boa idéia. Seria um pouco complicado se você
tem parentes ou conhecidos naquela igreja, mas não custa
tentar. Não avise a ninguém da sua visita e não se apresente
oficialmente aos líderes da igreja. Observe como é a liturgia,
como os crentes participam do culto, como os visitantes são
recebidos.

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A escolha do pastor como fator para uma liderança transfôrmaJo1'a
Antonio Carlos Barro

3. Anuência da famüia
A família do pastor é, por incrível que possa parecer,
a chave tanto do fracasso como do sucesso ministerial. O
pastor geralmente não presta muita atenção no que a sua
família está tentando lhe comunicar. Ele está tão absorvido
no seu trabalho e nas oportunidades que surgem que se torna
insensível aos sentimentos de sua esposa e filhos. Duas coisas
eu aprendi com amigos e tenho procurado colocar em prática:
Em primeiro lugar, nem todas as portas abertas são
convitespara entrar. O pastor gosta de "espiritualizar" muitas
coisas, principalmente as oportunidades de trabalho.
Geralmente ouvimos a famosa frase: "Deus está me abrindo
uma porta para tal lugar". O ministro faria muito em lembrar
o que Lucas descreve em Atos 16.6-9 quando o grande
apóstolo Paulo foi impedido pelo Espírito Santo de realizar
um ministério que aparentemente era o que deveria ser
realizado, todavia, Deus tinha algo melhor para Paulo e para
o avanço do cristianismo. Se você está com alguma porta
aberta à sua frente, ore muito para ver se Deus quer que
você entre por ela ou se você deve esperar do lado de fora
até que ele mostre uma outra opção para você.
Em segundo lugar, não ud para uma cidad« ou igreja
para a qual a sua família não queira ir. Esta regra é
fundamental para um bom pastorado. Aqueles pastores que
têm desafiado as suas famílias e aceitam pastorados em lugares
onde os filhos e principalmente a esposa não querem morar,
tem derramado muitas lágrimas solitariamente em seus
gabinetes pastorais. Os pastores deveriam levar mais a sério
os sentimentos de suas famílias. Muitas vezes os filhos estão
acostumados em suas escolas e com muitos amiguinhos com
os quais brincam todos os dias; a esposa tem amigas na cidade,
Liderança Cristã Transformadora
86 If-------!...-.:------L.--------------------
Manfred W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

às vezes tem até mesmo um emprego que muito ajuda no


orçamento familiar. Desestruturar toda a família é um preço
muito alto a ser pago pelo pastor.
4. Entrevista com a liderança
Tais entrevistas geralmente estão mais limitadas a
grupo de presbíteros ou diretores da igreja. São as pessoas
que estão na liderança e que foram escolhidas para tais
cargos. O problema da entrevista é que geralmente, nem a
liderança e nem o pastor sabem o que perguntar uns aos
outros. A conversa é vaga e não produz resultados efetivos.
Termina-se a entrevista e a maioria das dúvidas não foram
respondidas. Portanto, peça para que façam parte desta
entrevista outras pessoas líderes da igreja: jovens,
adolescentes, homens e mulheres.
Antes de ir para a entrevista, faça uma lista de todas
as coisas que você gostaria de perguntar, inclusive as coisas
que mais preocupam °
pastor e que geralmente não se
pergunta para mostrar um "ar de espiritualidade". Perguntas
tais como: salário, décimo terceiro, férias, fundo de garantia
(80/0 do seu salário deve ser depositado em uma caderneta
de poupança), casa, escola para as crianças, água, luz,
telefone, carro e manutenção mecânica e combustível. É
melhor esclarecer o que a igreja oferece para que depois
não se dê lugar a ressentimentos de ambas as partes.
Deve-se perguntar ainda o que a liderança espera
do seu pastorado. Quais são as expectativas quanto a sua
vinda. O que eles querem ver mudado, o que deve ser
deixado como está. Qual o envolvimento dos líderes no dia
a dia da igreja. Eles ajudam no cuidado dos crentes.
Perguntar para esclarecer é melhor do que começar tudo
no escuro e tatear para encontrar as soluções mais tarde.

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A escolha do pastor como fator para uma liderança transformadora
Antonio Carlos Barro

Finalmente, seria muito bom se a sua esposa estivesse presente


na entrevista. Muitas vezes as igrejas não estão tão somente
contratando o pastor, mas também a sua esposa. A igreja
quer que ela comande o grupo de senhoras, lidere as reuniões
de oração, cante no coral, toque o piano e outras coisas
mais. Que fique bem claro desde o começo do seu pastorado
que a igreja está contratando a você e não a sua família.

II - O QUE A IGREJA DEVE FAZER PARA ESCOLHER BEM O


SEU PASTOR

1. Suas reais necessidades


A liderança oficial em conjunto com algumas outras
pessoas representativas dos vários grupos da igreja deveria
estudar com mais cuidado o que realmente a igreja está
precisando do novo pastor. As igrejas são às vezes tão
inocentes nessa escolha, que elas pensam que o pastor pode
realizar bem todos os ministérios. Isto é um contra-senso e
não é bíblico. Os pastores também têm dons e ministérios.
Uns são evangelistas, outros pregadores, outros conselheiros,
outros visitadores, alguns são administradores. Se uma igreja
quer expandir e crescer em número, o mais lógico seria
contratar um pastor evangelista; se ela quer ser um bom
centro de aconselhamento familiar, deveria contratar um
pastor que goste de aconselhamento pastoral.
Infelizmente não é assim o processo de escolha porque
as lideranças, que muitas vezes são bem alheias à vida da
igreja, não sabem as necessidades do rebanho. Contratam
um bom visitador quando gostariam de ter um mestre na
palavra, ou contratam um mestre na palavra quando
gostariam de ter um evangelista. O que mais me impressiona
8811---...:.....---~------------------
Liderança Cristã 1Tansformadora
Manfred W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

na liderança das igrejas, é que na maioria das vezes ela é


composta de homens e mulheres bem sucedidas na
sociedade. São micro empresários, profissionais liberais,
pessoas empreendedoras e que são criteriosas em tudo o que
realizam para si mesmas. Todavia, quando se trata de
• .,.., • I' ..
contratar um pastor para a igreja, nao usam crrterro
algum. Isso é difícil de entender.
2. Comissão pastoral
No Brasil, geralmente quem entrevista os pastores é
a liderança oficial da igreja. Esta liderança ouve muito pouco
a igreja no processo de contratar e demitir um pastor. Seria
muito bom se começássemos a promover em nossas igrejas o
que em outros países já se tornou uma realidade. Constituir
uma comissão que teria representantes dos vários grupos da
igreja (homens, mulheres, jovens, adolescentes, oficiais) para
que escolham um pastor adequado para as necessidades da
congregação. Esta comissão deve ser composta pela
assembléia da igreja e a ela deve-se reportar. Ela não deve
ser subordinada ao Conselho ou Diretoria. Deveria ser
independente para realizar o seu trabalho e apresentar o
resultado final em assembléia.
3. Filosofia de ministério.
Tendo determinado as reais necessidades da igreja e
constituído uma comissão que já foi devidamente instruída
sobre o assunto, deve-se buscar no mercado aquele pastor
que viria a preencher os requisitos já formulados
anteriormente. Pede-se de cada pastor interessado na igreja
o seu currículo e também a sua filosofia de ministério. Somente
assim a comissão poderá determinar qual pastor será mais
adequado para as suas necessidades.

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A escolha do pastor como fator para uma liderança transformadora
Antonio Carlos Barro

4. Entrevista com o pastor


A mesma linha de conduta estabelecida acima para
o pastor deverá também nortear a igreja. Que fique bem
claro o que a igreja espera do pastor, quais são as expectativas
em relação a ele, quais são os programas que ela tem e que
gostaria de ver mantido. Determinar claramente quais são
os benefícios financeiros e o que a igreja oferece além do
salário.
É possível que depois de passar por tais baterias de
testes, a igreja venha a contratar um pastor que realmente
vá fazer grande diferença na sua história e que vá marcar a
vida daquela igreja positivamente. É verdade que os passos
acima descritos dão trabalho e que muitas vezes é mais fácil
passar por cima dos mesmos, pois afinal temos pressa na
obra do Senhor, não é verdade? Todavia, e isto para pastores
e igrejas, olhem para trás e vejam onde essa pressa tem nos
levado. Temos visto igrejas e mais igrejas que entra ano sai
ano e elas continuam exatamente como.sempre estiveram:
estagnadas nos seus cento e poucos membros. Elas não vão
nem para frente e nem para trás. São comunidades frustradas
e frustrantes, portadoras de uma mensagem que não trás
mais vibrações aos corações sedentos de uma água viva. É
sempre a mesma coisa,
.
Faço um desafio aos pastores colegas do mesmo·
ministério: não aceitem qualquer convite sem antes pensar
e orar sobre o mesmo. Uma experiência frustrada aqui e
outra acolá, são coisas que vão contribuindo para matar em
você a sua vocação. Você vai ficando desacreditado na igreja
e entre as lideranças. Você não confia.mais nos crentes e está
desiludido inclusive das mensagens que você prega, porque
elas não são mais verdades para a sua vida e para o seu
Liderança Cristã Transftrmadora
90 If-----~----L-----------____+
Manfred w: Koh! e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

ministério. É hora de dar um basta em tudo isso! Renove o


seu compromisso com o Senhor que o chamou e espere pela
porta que ele por certo abrirá para você, e então poderá
experimentar a mesma sensação gostosa de Paulo: "Assim
que teve a visão, imediatamente procuramos partir para
aquele destino, concluindo que Deus nos havia chamado
para lhes anunciar o evangelho" (At 16.10).
No próximo item eu quero mostrar a importância
de conhecer bem a cultura eclesiástica de uma igreja e assim
se preparar melhor para o choque cultural e evitar que este
choque venha "matar" logo no início o seu ministério pastoral.
111 - CULTURA ECLESIÁSTICA E FORMAÇÃO PASTORAL

Uma das grandes falhas na educação teológica é que


os pastores não recebem treinamento na área de antropologia
cultural. Esta lacuna tem sido preenchida nos cursos de
missiologia que têm surgido nas várias escolas de missões no
Brasil, e tem sido a causa de muitos pastorados infelizes e,
conseqüentemente, da alta rotatividade encontrada no
• • I"
rrumsteno.
Ao entrar em uma nova cultura há de se ter em
mente os estágios pelos quais passarão a pessoa que está
iniciando na cultura hospedeira, no nosso caso o pastor e a
igreja. Em primeiro lugar existe a fase turística. Neste início
tudo é deslumbrante. A igreja é boa, os crentes são
sensacionais, a cidade é maravilhosa. Esta é a fase dos
descobrimentos e é semelhante a alguém que sai para um
passeio turístico onde tudo é maravilhoso. Em segundo lugar
vem a fase de acordar para a realidade. Isto ocorre depois
de um tempo naquela maravilha e o pastor cai em si vendo
que a igreja não é tão boa assim, tem falhas nos departamentos
internos, os presbíteros não são tão simpáticos como

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A escolha do pastor como fator para uma liderança transfonnadora
Antonio Carlos Barro

pareciam ser, a escola das crianças apresenta uma série de


defeitos. É neste período que começam as comparações com
as outras igrejas, e geralmente a igreja atual perde nestas
comparações. O pastor está agora entrando na terceira fase:
a do choque cultural. Nesse momento, ele está defronte de
uma encruzilhada. Ele tem duas opções: lutar contra o
sentimento de rejeição e aceitar o novo desafio pela frente,
ou ceder aos pensamentos negativistas e preparar as malas
,. . .
para a proXIma Igreja.
O conhecimento desses detalhes ajudará o pastor a
se preparar melhor para enfrentar a batalha da transição
pastoral. Ele faria muito bem em compartilhar isto em uma
linguagem apropriada para os filhos e a esposa. A transição
continua sendo uma coisa complicada, mas certamente será
mais amena e o pastor saberá lutar contra os problemas que
ela acarreta. Um dos problemas da transição é o uso
adequado do tempo, principalmente o tempo para as novas
mudanças que o pastor queira implantar. A seguir gostaria
de delinear alguns aspectos que envolvem mudanças na vida
da igreja.
Recentemente· tenho pensado e procurado
desenvolver o que eu chamo de "cultura eclesiástica". Isto
poderia ser definido como: o conjunto de normas e condutas
que determinam o modo de ser de uma igreja. Cada igreja
tem uma característica toda peculiar e, portanto, seríamos
inocentes em pensar que as igrejas são iguais, que algo que
foi feito em uma comunidade também poderá ser realizado
na outra. Partindo deste raciocínio errôneo, o pastor assume
a igreja com mil idéias em sua cabeça e ele crê no seu íntimo
que é aquilo mesmo que a igreja precisa e que receberá as
inovações com os braços abertos. Nada mais longe da
realidade tal pensamento. Vejamos alguns detalhes que
Liderança Cristã Transformadora
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Manfted W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

contribuem para que as novas idéias do pastor não produzam


os resultados esperados.
1. Falta de confiança
Toda troca de pastor automaticamente gera no meio
a comunidade certo desânimo (muitas vezes é difícil de
percebê-lo porque o mesmo está encoberto pela expectativa
da chegada do novo pastor). Os crentes que estão na igreja
há muito já experimentaram quase todas as idéias que
conduziriam o povo a um entusiasmo crescente para com as
coisas de Deus. Os últimos pastores fizeram desafios,
mudaram o horário dos cultos, introduziram células
familiares, grupos de orações nos lares, evangelismo de casa
em casa e tantas outras coisas. Agora chegou a sua vez de
trazer inovações. Por que você acha que o povo receberá
todas as suas idéias de braços abertos? Pense por um instante!
Por que deveria um crente passar por todo o trabalho de
mudar isto, se integrar naquilo, se assim que você sair daquela
igreja, o novo pastor irá mudar tudo outra vez? Não é
exatamente o que você está fazendo agora? Não está você
desmantelando tudo o que o seu antecessor fez?
A confiança no ministério pastoral não é adquirida
por causa da posição em que o mesmo ocupa, mas é
conseguida lenta e gradualmente. O povo quer ver o
compromisso daquele pastor com a comunidade, quer ver
se no final de ano ele não irá abandoná-la por outra igreja
que paga um salário mínimo a mais do que ele recebe hoje,
quer ver o seu compromISSO com os programas que
aparentemente não estão indo bem e ver se ele os abandona
na primeira dificuldade.

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A escolha do pastor como fator para uma liderança transfonnadora
Antonio Carlos Barro

2. Falta de conhecimento histôrico


Seria muito bom ao assumir uma igreja que o pastor
lesse as atas da diretoria dos últimos dez anos. Ele iria
descobrir todos os projetos sonhados. Aquilo que foi
realizado, aquilo que foi abandonado no meio do
caminho. Uma outra fonte segura para conhecer a igreja, é
ler os boletins dominicais de alguns anos passados. Estes
boletins são fontes históricas de como a comunidade se
desenvolveu nos pastorados anteriores. É interessante notar
que muitas das idéias brilhantes do novo pastor já foram
tentadas. Uma que já foi testada várias vezes é o que
chamamos de células familiares ou grupos pequenos. Este
programa é muito difícil de ser implantado e a comunidade
• I ,.. • • •
Ja nao tem rnars entusiasmo para uma nova tentativa.
Não estamos aqui sugerindo que não se faça mais
nada de novo nas igrejas, que programas que não deram
certo não podem ser tentados novamente. Muitos podem e
muitos darão os seus frutos, todavia, estamos sugerindo que
o pastor saiba o que já aconteceu na igreja antes da sua
chegada para evitar embaraços de propor algo que já foi
tremendamente frustrante para o povo e que ainda está na
memória do mesmo.
3. Falta de humildade
A falta de humildade de muitos pastores é também
fator contribuinte para o fracasso pastoral. Pastores que não
são abordáveis pelos seres mortais que compõem a
comunidade, Eles mantêm uma atitude distante do povo e,
portanto, não conseguem ouvir os anseios da comunidade.
Sugestões para melhoria e ou novas idéias não chegam ao
ouvido do pastor "sabe tudo". Não é de se admirar que
Liderança Cristã Transformadora
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Manfred w: Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

quando os problemas ocorrem, este pastor ficará sozinho,


pois não terá ninguém ao seu lado, a não ser uns dois ou três
dirigentes da igreja que por terem o mesmo estilo de mando
e domínio se aproximaram do pastor.
Essa praga é geralmente encontrada, por mais incrível
que possa parecer, nos pastores novos. Estes que
recentemente foram formados nos nossos seminários. O
indivíduo sai da escola de teologia com a cabeça cheia de
um academicismo arcaico, de uma teologia importada dos
Estados Unidos do início do século 20, que não tem nada,
absolutamente nada a ver com a realidade do nosso povo, e
chegam nas igrejas como os "senhores" do saber. Mudam
isto, mudam aquilo, não respeitam a liturgia que o povo
gosta, pregam coisas que o povo não entende, acabam com
a vida de qualquer igreja. Não é de se admirar que mais ou
menos no meio do ano a maioria das igrejas já esta pensando
em um outro pastor para substituir aquele que acabou de
sair do seminário.
4. Falta de conhecimentos bíblico.. teológicos
A falta de conhecimento bíblico e principalmente
teológico da maioria dos pastores é alarmante. Esta prática
difundida por muitas igrejas de "formar" pastores com um
curso de três meses tem contribuído para com esta pobreza
que temos visto nas pregações. Nas igrejas onde a Bíblia não
é pregada com profundidade teremos uma grande
quantidade de crentes imaturos pois eles não sabem
relacionar a fé com o mundo e não sabem como proceder
quando os problemas começam a ocorrer em suas vidas.
Uma das conseqüências da falta de Bíblia é a grande
quantidade de aconselhamento pastoral que o pastor é
obrigado a dar. Crentes que precisam do pastor para tomar

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A escolha do pastor como fator para uma liderança transformadora
Antonio Carlos Barro

qualquer tipo de decisão, desde as mais simples até às mais


complexas. Quando isso ocorre, o pastor pode ser tentado a
pensar que ele está sendo muito útil para a sua comunidade.
Outros levam a comunidade a uma dependência exagerada
da sua presença. Alguns caem na tentação de super
dimensionar seus lugares na vida da igreja.
Podemos ter a mais absoluta certeza de que onde a
Bíblia é estudada, e não somente lida como pretexto para o
que se vai falar, o povo virá para ouvir. Os pastores que
querem ver a igreja crescer, devem cumprir bem esta função
que lhes cabe que é a de estudar a Bíblia para depois ensinar
o seu povo. Pastores que não estudam, não lêem, não fazem
um curso extra de reciclagem, não participam de congressos,
com certeza ficarão bem pouco tempo em suas igrejas. Se
eles continuam nas igrejas, são então os crentes que trocam
de igreja. A vida para est~ pastor começa a ficar
complicada. Ele passa a ser conhecido por causa disso ou
daquilo e aos poucos ele fica sem igreja na sua região, não
lhe restando outra alternativa a não ser mudar para outro
Estado - ou para algum lugar longe de onde está
atualmente. Começa ai a sua peregrinação de igreja em igreja.

IV - O QUE PODE SER FEITO PARA MELHORAR A TRANSIÇÃO


PASTORALl

Gostaria de sugerir alguns passos que poderiam ser


dados para ajudar na transição pastoral. Não é possível,
naturalmente, esgotar aqui o assunto, mas creio que as idéias
relacionadas a seguir poderão ser de ajuda inestimável a
todos nos pastores.
Liderança Cristã Transformadora
Manfred ~ Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

1. Desenvolver o modelo pastoral de Cristo


A humildade é uma das virtudes mais apreciadas no
ser humano, principalmente no cristão. Ser humilde é seguir
os passos de Jesus Cristo, de viver como ele viveu, de ser o
que ele foi. Em matéria de ministério, o exemplo de Cristo
nos serve de plataforma de trabalho. Em Filipenses 2:5-8 o
apóstolo Paulo nos ensina o segredo do nosso Senhor.
Jesus era muito rico e como tinha uma missão a
cumprir, uma mensagem a ser comunicada à raça humana,
ele se fez pobre assumindo a forma de homem e entre os
humanos ele se torna servo. Qual era o seu propósito em
assim fazer? Paulo responde em uma de suas cartas: "...
apresentar a igreja a si mesmo como gloriosa, sem mácula,
nem ruga, nem cousa semelhante, porém, santa e sem
defeito" (Ef 5.27). Cristo sabia que não poderia atingir o
coração da humanidade se ele não se encarnasse no seu
meio. Ele desceu, se horizontalizou, para depois subir e,
na sua elevação, levou a igreja a atingir o estágio planejado
pelo Pai.
Semelhantemente os pastores. Não vamos negar que
o pastor, de uma maneira geral, sabe mais do que a maioria
dos crentes. Ele estudou, leu, escreveu teologia. Está
atualizado com o mundo eclesiástico, conhece autores e tudo
o mais. Deve, portanto, ter como alvo em seu pastorado
levar a igreja a conhecer o que ele conhece, levar a igreja a
atingir o nível em que ele está. Para que isto venha acontecer,
ele deve seguir o modelo de Cristo. Inicialmente deve descer
ao nível do povo. Pregar mensagens que o povo entenda,
realizar programas mais simples. Caminhar horizontalmente
com o povo e aos poucos iniciar o estágio de elevação, o
estágio do crescimento, do nível de conhecimento bíblico e

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A escolha do pastor como !attJr para umd liderança tranJjõrmadora
• ••••• •• __ ~ •••• • c _ •• n., • __ • • • ' _ . _ •

Antonio Carlos Barro

tudo O mais. Assim fazendo, o ministro cresce junto com a


igreja, ganha o seu respeito, não por causa da sua autoridade
formal, ou pela posição que ocupa, mas por causa do seu
amor pelo povo e o seu compromisso com eles.
2. Nilo desenvolver a "sindrome do cavaleiro solitário"
Um estilo de filme que eu gosto é o faroeste,
principalmente aqueles antigos. Um dia um professor meu,
o Dr. Paul Hiebert, nos chamou à atenção para o final destes
filmes. "Note, disse ele, que o herói do filme sempre fica só.
Depois de concluir a sua missão, ele deixa a moça no rancho
e parte para mais uma aventura. Ele tem medo de se
relacionar, de permanecer no convívio com os
outros". Muitos pastores são cavaleiros solitários em seus
pastorados, São almas infelizes que podem ajudar a todos
na igreja, resolvem o problema amoroso de um casal que
está para se separar, ajudam alguém a procurar emprego,
aconselham a moça que quer casar. Ajudam a todos, mas
não têm ninguém que os ajude. Quando iniciei no
ministério eu ouvia dizer que o pastor não pode ter amigos
na igreja, pois isto poderia comprometê-lo um dia.
Em uma nova igreja, o pastor deve ter amigos. A sua
família deve ter uma ou mais famílias para conviver, para
ter momentos de lazer juntos. Os primeiros amigos do pastor
deveriam ser os seus líderes na igreja. A gente nota que existe
um distanciamento muito grande entre o pastor e os seus
presbíteros ou diáconos. Procure, portanto, uma aproximação
com os seus líderes, tenha momentos em que discussão não
seja algum problema da igreja, tenha momentos de
freqüentar uma pizzaria para juntos desenvolverem um
relacionamento amigável e cristão. Lembre-se: Jesus andou
om os seus discípulos.
Liderança Cristã Transformadora
Manfted W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

3. Não desenvolver a "sindrome de Júpiter e Mercúrio".


Quando Paulo e Barnabé chegaram à cidade Listra,
eles encontraram com um homem que nunca tinha
andado. Aquele homem foi curado pelo Apóstolo Paulo,
incidente que causou grande tumulto entre o povo, que
gritava na língua lacaônica: "Fizeram-se os deuses
semelhantes aos homens e desceram até nós". Chamavam
Júpiter a Barnabé, e Mercúrio a Paulo. E mais: o sacerdote
de Júpiter queria oferecer sacrifícios a estes dois missionários
de Deus.
Paulo e Barnabé tinham aqui a grande chance da
vida deles de receberem um tipo de adoração. É fato que o
ser humano, caído em pecado, gosta de receber a adulação
dos outros. Vibra quando as pessoas necessitam de seus
préstimos, vai às alturas quando lhe é requerido um favor e
está em suas mãos o sim e o não. Nestas horas o ser humano
atinge o pico da sua ignorância, colocando-se no lugar do
Criador. Para evitar a síndrome de Júpiter e Mercúrio
devemos:
a. Praticar a indignação.
Paulo e Barnabé rasgaram as sua vestes. Este gesto
significa que eles não eram superiores a ninguém. Eles eram
homens sujeitos às mesmas paixões que aquelas pessoas de
Listra. É ridículo ser servido quando Jesus, o Senhor, não o foi.
b. Reconhecer a vaidade.
É uma vaidade receber a adulação e o louvor de um
outro ser humano. Isso não traz nenhuma dignidade, antes
é o contrário, pois isto desumaniza o ser humano criado a
imagem e semelhança de Deus.

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A escolha do pastor como fator para uma liderança transformadora
Antonio Carlos Barro

c. Passar pela experiência da conversão.


Crer que Deus é Soberano e Criador de todas as
coisas. Quando Deus é colocado como o Senhor da vida e
a pessoa experimenta este Senhorio de fato, ela passa a ver
os outros como Jesus via: com compaixão.
Sem estes três ingredientes, a pessoa fica sujeita a
gostar da adulação e honrarias. Ela viverá num pedestal de
glória e de satisfação do ego que muito contribuirá para a
falta de crescimento maduro da igreja.
4. Valorize o ministério dos outros
Não existe algo mais desanimador para uma
comunidade do que ter um pastor que não dê espaço para
o povo colocar os dons e ministérios em ação. Há muitos
pastores que são tremendamente frustrados em suas
realizações e que desenvolvem um sentimento de baixa
estima sem fim. São inseguros ao extremo e pensam que
todos estão querendo roubar a sua "glória" do ministério. Se
alguém na igreja realiza algo que é um sucesso, aquele pastor
acha que os outros vão achar que ele não é tão importante
assim. As pessoas não vão elogiá-lo. A sua "glória" será
repartida com o resto da comunidade.
O pastor tem que entender que o sucesso de todos
na comunidade está em direta proporção ao sucesso do seu
ministério e conseqüentemente a sua permanência naquela
igreja. Assim sendo, cortar ou limitar o ministério dos outros
é um suicídio ministerial tão certo como o nascer do sol a
cada dia. O profeta Elias tinha esta tendência a crer que
somente ele permanecera como fiel ao Senhor e foi preciso
que Deus lhe abrisse os olhos para ver os outros sete mil que
também estavam em pé no compromisso assumido de andar
ao lado de Deus.
1001-~--~---------------,
Liderança Cristã Transformadora
Manfred wr Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

5. Encontrar os agentes de mudanças


Cada igreja, independente do tamanho, tem aquelas
pessoas que nós chamamos de agentes de mudanças. Estas
são aquelas pessoas que já estão bem integradas na
comunidade, elas são do meio, pertencem àquele povo e
portanto são ouvidas e respeitadas pelo que dizem. A tarefa
do pastor é descobrir quem são os agentes de mudanças em
sua nova igreja e através deles implantar uma nova filosofia
de ministério, uma idéia mais avançada, um programa
essencial de evangelismo.
A grande vantagem de ter estes agentes de mudanças
ao lado do pastor é imensuráve1. Esses agentes não precisam
provar para a comunidade que elas são confiáveis, elas não
precisam de tempo para provar o compromisso delas com a
igreja. Estas pessoas são as formadoras de opinião dentro da
igreja. O pastor faria muito bem em gastar um tempo para
descobrir quem na comunidade exerce tal papel e realizar
com estas pessoas um programa de discipulado e ganhá-las
para a sua causa. O contrário também é verdade quando
essas pessoas não são ouvidas ou respeitadas. O pastor pode
ter a mais absoluta certeza de que saberá quando isto ocorrer.
Cultura eclesiástica é muito mais importante do que
pensamos. Devemos gastar tempo estudando as nossas
igrejas, conhecendo a sua história, não só da denominação,
mas principalmente da igreja local. Outro dia ouvi uma
história sobre um pastor que ao assumir uma igreja, o colega
que tinha saído entregou ao que chegava três envelopes
fechados. Disse que o novo pastor deveria abri-los quando
da primeira crise. Os primeiros meses de pastorado foram
uma beleza, o pastor era bom, pregava bem, visitador e tudo
o mais. Surge então a primeira crise. Ele lembrou da

I 11 I I, I I 'I~"~!II, II l' .,1 '1'"' li I· " , ' ,. I


A esc0lh.a do pastor como fator para uma liderança transftrmadora
Antonio Carlos Barro

recomendação do pastor anterior e abriu o primeiro


envelope que estava escrito a seguinte orientação: "coloque
a culpa da crise que a igreja passa no pastor anterior". Assim
ele o fez e tudo se normalizou. Não demorou muito veio a
segunda crise, ele abriu o segundo envelope e leu: "invente
um programa novo e gere entusiasmo". Segue-se mais um
período de tranqüilidade. Surge inevitavelmente a terceira
crise e lá vai nosso pastor abrir o terceiro envelope para
consternado ler o seguinte conselho: "Prepare mais três
envelopes, e entregue ao próximo pastor". Ou seja: a igreja
sempre fica e o pastor sempre pane.

v - As EXPECTATIVAS DA IGREJA f DO PASTOR

Não é fácil assumir uma igreja para pastorear. São


tantas as expectativas do pastor e também da igreja. O pastor
sonha em ter uma igreja grande, de levá-la a ser conhecida
na cidade, de ser respeitado como pastor de uma boa
igreja. A igreja sonha em sair da sua estagnação, de ver novas
congregações surgindo, de ter uma mocidade. vibrante.
Naturalmente, que as tensões maiores estão sobre os ombros
do pastor que está chegando, porque afinal de contas ele
está sendo contratado para solucionar problemas que o
anterior não solucionou. Normalmente uma igreja troca de
pastores porque ela julga que o seu pastor atual não é
suficientemente bom para ela, do contrário, por que
trocaria?
Assim sendo, não se entusiasme com os elogios que
começa a receber nos primeiros meses de pastorado.
Lembre-se de que o seu antecessor também os recebeu. Não
se entusiasme mais ainda quando for comparado com o
anterior e receber maiores elogios. "Agora sim temos um
1021--~----"------------_---l
Liderança Cristã Transformadora
Manfred W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

pastor que prega bem", "Este, sim, é que é visitador". Logo


a igreja estará "descobrindo" os seus defeitos e você já não
será tão bom assim. Estou dizendo que todos os elogios são
falsos? Naturalmente que esta não pode ser uma afirmação
absoluta, mas tome muito cuidado, porque na maioria das
vezes estas mesmas pessoas que estão falando mal do outro
pastor serão as pessoas que vão falar mal do seu ministério.
Estas pessoas são viciadas neste pecado e treinadas nesta
missão de derrubar pastores. Não faça nada contra elas, mas
fique atento quanto ao que estão fazendo na igreja.

VI - COMO EVITAR ALGUMAS TENSÓES E MANTER A SUA


INTEGRIDADE PASTORAL

1. Os ítens inegociáveis
Já mencionei anteriormente sobre a filosofia bíblica
de ministério. Todo pastor, velho ou novo no pastorado,
deveria formular uma. Ela será uma bússola para você se
nortear nos momentos de crises. Você será pressionado a abrir
mão das suas idéias, das suas convicções, daquilo que você
crê como importante para o ministério. Você deve ouvir todas
as propostas (afinal você é educado), você deve analisar as
pressões dos outros (você é inteligente), e finalmente você
deve saber o que pode e o que não pode negociar (você é
sábio). Num certo sentido, "não venda a sua alma ao diabo";
comprometendo-se hoje aqui, amanhã ali, o seu ministério
será totalmente descaracterizado e no final das contas você
será o perdedor. Não pense que as pessoas que pressionaram.
você a abrir mão dos seus princípios vão ficar com você. Você
será visto como fracassado e portanto não apto para pastorear
a igreja destas "feras".
A escolha do pastor como fator para uma liderança transformadora
Antonio Carlos Barro

2. Creia na soberania de Deus


Se há alguém na igreja que deve crer na soberania
de Deus mais do que qualquer outra pessoa, este alguém é o
pastor. Sujeito que num certo sentido não tem uma
"profissão" reconhecida, a única coisa que sabe fazer é
pastorear igreja. Por causa disto muitas vezes a liderança
aproveita desta aparente "fraqueza" do pastor para tirar
algum proveito. O pastor; por outro lado, é tentado a pensar
no suporte da sua família, no leite das crianças, no aluguel
da casa e tudo o mais. Sabe ele que não tem muitas
alternativas, como tem um médico, um engenheiro, um
dentista. Por isso, submete-se a certos caprichos da liderança.
O pastor tem que ter coragem para dizer não, para enfrentar
os donos da igreja e não permitir que as circunstâncias
momentâneas da vida permitam que ele abra mão dos seus
princípios. Seria bom lembrar aqui das palavras daquele a
quem jesus pediu que pastoreasse as suas ovelhas, o apóstolo
Pedro quando disse: "Julgai se é justo diante de Deus ouvir-
vos antes a vós outros do que a Deus" (Ar 4.19). Sim, é muito
mais importante obedecer a Deus!
3. Fazedor de Tendas
Se possível, desenvolva uma atividade em que você
venha aos poucos a se tornar um fazedor de tendas como o
foi o grande apóstolo Paulo. Por muitos anos ouvimos sobre
a questão de tempo integral e tempo parcial. Isso é um
engodo. Não existe pastor integral ou pastor parcial. Há
muitos pastores integrais no tempo e que são totalmente
parciais no seu ministério. Não realizam quase nada. Não
têm entusiasmo para ler um novo livro, para freqüentar um
curso de reciclagem teológica. Estão parados no tempo e
no espaço. Há pastores que são advogados, médicos,
1041~-------!.....--.....L------------~-
Liderança Cristã Transformadora
Manfted W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

proprietários de uma livraria, escritores, e professores. Estas


atividades ao invés de servir de tropeço, servem de pontes
para o mundo. Eles estão em contato com pessoas reais,
pecadores que precisam da graça de Deus. Se você tem
condições de voltar a estudar, volte. Os pastores são
geralmente as pessoas mais alienadas dentro de suas
comunidades. Eles somente conversam com crentes, visitam
os crentes, aconselham os crentes. Não é surpresa observar,
portanto, o retrocesso de seus ministérios. Nós pastores
devemos estar no mundo. Ser o sal da terra e a luz do mundo
deve ser o nosso objetivo.

VII - O PASTOR E AS SUAS FINANÇAS


Pastores, todos nós sabemos, em sua vasta maioria não
ganham quase nada de salário. O que ainda salva o pastor é
que as igrejas têm uma casa, às vezes caindo aos pedaços,
mal cuidada, mas têm, e isso ajuda e muito no orçamento.
Por muito tempo esteve na mente do povo crente
que o pastor era um sujeito abnegado, chamado por Deus
para passar fome por causa do Mestre. Este pensamento não
só é ridículo como totalmente anti-bíblico, formulado nas
entranhas do inferno para aniquilar o entusiasmo dos servos
de Deus e desviá-los da missão a eles confiada pelo Senhor
Jesus. Gostaria de sugerir para os pastores e para as igrejas
que coloquem em prática algumas das idéias abaixo com o
fim de proporcionar um salário mais digno ao seu pastor e
assim cumprir bem a lei de Cristo.
1. Bom Senso
Bom senso é uma das qualidades que nenhum pastor
deveria deixar de ter. Assim sendo, uma das primeiras
providências do pastor quando ainda solteiro e

I ,11., ~ L i,. i I ,'," I


A escolha do pastor como fator para uma liderança transformadora
Antonio Carlos Barro

principalmente quando vier a se casar, é formular uma


teologia bíblica do dinheiro. Qual será o seu relacionamento
com o mesmo, quanto vai gastar e como, se vai ajudar alguém
extra dízimo. Você será convidado a ser avalista para algum
crente. Qual será a sua resposta? Alguém poderá pedir
emprestado do pastor. São coisas que podem ocorrer e você
tem de estar preparado para elas.
2. Compre algum bem imóvel
O pastor deve aproveitar os anos primeiros do
pastorado para tentar comprar alguma coisa para a sua
família. Na sua cidade, procure um loteamento e compre
um terreno. Não importa se é longe do centro ou não.
Compre algo que você possa pagar por mês. Eu tenho
aconselhado os pastores novos a fazer isto logo após a
ordenação. Você poderá demorar dois ou três anos para
pagar, mas estará pagando algo que é seu e que futuramente
você poderá deixar para os seus filhos, Pense também que
quando você se aposentar você precisará de uma casa para
morar e aí, meu caro pastor, pode esquecer a casa pastoral.
Eu sempre recordo de uma vez em que eu estava
para deixar uma igreja que pastoreava e trouxe um jovem
pastor para ser entrevistado pelo conselho. Depois de um
tempo em reunião ele veio se encontrar comigo e me disse
sobre a expectativa do conselho e que realmente a igreja
estava procurando por um pastor dinâmico, que fosse
jovem. Quando o conselho lhe disse isso, ele ficou pensando
em sua situação quando fosse velho. Que Conselho o
quereria como pastor!? A frase daquele jovem pastor ficou
gravada na minha mente até hoje. Eu sempre penso na
situação do pastor quando ele for velho. Conheci um outro
Liderança Cristã Transformadora
l061---::...----"'----------------+--
Manfted W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

pastor que só não morreu em um asilo porque uma irmã da


igreja casou com ele para cuidar do mesmo em sua velhice.
Pastor bom é pastor jovem e na ativa. Pastor
aposentado trabalha na "terra de ninguém". Por isso, ele tem
que ter uma casinha para morar na sua aposentadoria. Não
importa a cidade. Importa ter em algum lugar. Portanto,
querido pastor lute com todas as suas forças para ter alguma
coisa. Qualquer coisa é melhor do que nada, não é mesmo?
3. Poupe para ofuturo
Infelizmente o pastor não recebe todos os benefícios
que um trabalhador comum recebe nas suas empresas. Isto
quer dizer que ele não tem um Fundo de Garantia para
comprar uma casa, não tem uma aposentadoria digna
quando envelhece. O pastor deveria ler mais sobre a
economia brasileira e procurar algum tipo de investimento
para a sua velhice. É uma ilusão pensar que o proveniente
do INSS será suficiente para a aposentadoria. Muitos
pastores que pagaram a contribuição sobre dez salários
mínimos, estão recebendo hoje um pouco mais do que quatro
salários mínimos. Se você tem condições de ter algum
investimento mensal em um fundo de investimento, faça-o
e você terá na sua aposentadoria recursos para viver um
pouco mais dignamente. Um bom gerente bancário poderá
ajudá-lo nestas questões de investimentos.
4. Viva de acordo com o seu salário
Muitos pastores são completamente descontrolados
em matéria de dinheiro. Gastam mais do que ganham e estão
sempre no vermelho do cheque especial ou no cartão de
crédito. Em matéria de dinheiro o descontrole é fatal para
encurtar qualquer pastorado. Isto também deve ser

I ,,', i I
A escolha do pastor como fator para uma liderança transformadora
Antonio Carlos Barro

conversado em casa com a esposa e principalmente com as


crianças, que muitas vezes não entendem porque elas não
podem ter roupas da moda, o brinquedo do momento ou
passear na praia durante as férias.
CONSIDERAÇOES fiNAIS

Como ter um pastorfeliz


Uma coisa é certa: as nossas igrejas são completamente
despreparadas em matéria de prover um sustento digno para
os seus pastores. As igrejas que estão enquadradas no grupo
das exceções são poucas, mas devem ser louvadas pelo
empenho e amor que demonstram aos seus ministros. A
seguir algumas idéias sobre como ter um pastor competente
e segurá-lo na igreja por um bom tempo.
1. Desenvolva uma política salarial.
Assim como nas empresas privadas, a igreja deveria
ter uma política salarial mais equilibrada e justa. Muitas vezes
a igreja segue a orientação da denominação ao pé da letra e
mesmo tendo condições não consegue proporcionar um
salário mais elevado para os seus obreiros. Sugiro que cada
igreja no seu contexto ajuste os proventos do pastor.
Como isto pode ser feito?
Tire por base o salário médio da diretoria da igreja.
Não é muitas vezes incrível que em uma igreja composta de
pessoas com salários bons tenha a capacidade de pagar o
mínimo para o pastor? Tem alguns dirigentes na igreja que
pensam que o pastor tem que realmente ganhar pouco.
Por que este tipo de pensamento? Creio que uma das
respostas é aquela "falsa humildade" do pastor. Ele não quer
tratar do assunto, deixa tudo a cargo do conselho ou diretoria
e depois fica ressentido com o pouco que ganha.
II
II
,I
II
II
2. Seja justa II
II
A igreja não deve pagar tão somente o salário do I1

1\
pastor. Ela deve também depositar 80/0 do seu salário em ,I
uma caderneta de poupança e quando o mesmo sair daquela 11

igreja, ele terá algum recurso para se ajustar em uma outra


cidade. Deve ainda pagar 1/3 do salário como férias.pois II
isto é lei e poucas igrejas têm feito isso. 1,1
I1
3. Seja Generosa. 'I
A igreja deve incentivar o seu pastor a fazer pelo II
II
menos um curso de reciclagem por ano e pagar as despesas II
'I
do mesmo. Deveria ainda ter uma verba para compra de
II
livros e incentivar o seu pastor a se atualizar com o
II
desenvolvimento da teologia. Muitos pastores não compram
II
livros porque têm que escolher entre os mesmos e o leite ou I1

a roupa dos filhos. Pede-se que o mesmo use terno e ele é o 1\

único na igreja que usa tal paramento, mas não o auxilia na I'
compra do mesmo. São coisas que uma boa igreja deve estar II
I!
atenta e se a igreja da qual você faz parte não realiza nada II
destas coisas, pode ter certeza de que ela não é uma boa igreja. I
II
A responsabilidade de educar a igreja nessas questões I
cabe ao pastor que tem um pouco mais, de consciência e 1
respeito para com o seu próprio ministério. Se isso não 1\

acontecer no seu pastorado, pelo menos você prepara um II

caminho melhor para aquele que o irá substituir e terá II

esperanças de que a sua nova igreja seja melhor do que a atual. II


!I
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II
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• It + "I •• , I I:
BAP(TULO

i'i'.UIDEMOS DE NOSSOS LfbERES

ESLY REGINA S. DE CARVALHO


INTRODUÇÃO

Decidimos escrever sobre este tema porque


consideramos que os nossos líderes cristãos também precisam
de cuidados espirituais. Em geral, a nossa tendência é de
pensar que eles não são vulneráveis, e muitos de nós achamos
que, uma vez que se tornaram líderes, nada de ruim vai-lhes
acontecer.
Quem sabe exista também entre alguns de nós a falsa
crença de que os nossos guias são "intocáveis" e meio "primos-
irmãos" da perfeição. Por alguma razão pensamos que eles
já alcançaram uma certa maturidade cristã e que estão
"vacinados" contra o pecado, a queda moral ou coisas desse
tipo. Consideramos que eles são muito "maduros" no Senhor
. -,,,.., ,,,-
e, por ISSO, Ja nao se encontram expostos as tentaçoes com as
quais nós, os "mortais", nos deparamos..
Essa idéia tem tido tanta aceitação, embora de modo
inconsciente, que até alguns líderes chegam a cair nesse erro.
Se Deus os colocou na liderança, então já não erram mais.
Mas na verdade, a realidade nos mostra muitas pessoas
feridas, dentro e fora das nossas igrejas, justamente porque
os líderes erraram, não sabendo como lidar devidamente
com os dilemas dessas pessoas, quem sabe porque não tenham
conseguido concertar nem mesmo os seus. Acontece algo
muito curioso: qualquer líder é capaz de admitir a sua
capacidade de errar, mas se examinarmos quantas vezes ele
tem reconhecido um erro, ou pedido perdão a alguma ovelha
ferida, podemos observar quão distantes estão suas palavras
de suas ações.
Por outro lado, às vezes não estamos muito conscientes
de que a igreja costuma impor uma pressão e uma exigência
quase so b re- h umanas a quem esta,como , ,ca b eça. "As
1121--'----------"-~-----------------!
Liderança Cristã Transformadora
Manfred W Kobl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

expectativas quanto ao que se deve fazer não são muito


realistas em geral, e quem tenta corresponder a elas cai ou
morre (literalmente) pelo caminho. Na minha opinião, os
cristãos também são culpados dessa crise de transparência
da liderança, já que esperam um modelo perfeito e
impossível, ignoram como lidar com os erros humanos dos
seus líderes e, com isso, impõem uma carga símile a uma
maldição, algo que Deus jamais exigiu.
A verdade é que, atualmente, a igreja enfrenta muitas
quedas na sua liderança. Algumas são públicas, mas a grande
maioria ocorre em silêncio, em segredo, por isso não tetn
sido possível resolver adequadamente o problema, nem
oferecer a ajuda tão necessária. O medo do que os outros
vão dizer é um grande obstáculo para se procurar ajuda a
tempo, e apesar de se falar muito de transparência, é mais
fácil exibir apenas as situações positivas. Mas... cadê a
transparência quando se enfrentam as dificuldades?
Eu acredito que temos perdido a visão da igreja como
"hospital" das almas. Será que o hospital é só para curar as
ovelhas e não serve pra curar os líderes? Lembremo-nos da
palavra de Deus, que diz que quando uma parte sofre, todo
o corpo também sofre. Portanto, se um líder padece, todo o
corpo de Cristo no mundo inteiro também é afetado.
As Escrituras também nos indicam que aqueles que
têm maior responsabilidade, terão maiores contas a prestar.
Devemos lembrar-nos de que o inimigo tenta com muita
fúria derrubar os nossos líderes, porque se eles caem, o povo
se dispersa. Então a questão não é o que fazer se um líder cai
(porque eles caem), mas o que fazer quando eles têm essas
quedas.

jj'H' " " , i .• " I~, t ,li ,I,· 11' !t, ·11" 'I, '\ ,. f ,. II ""~" ~ d l' j~ '.,.; I' I >o" H I
Cuidemos de nossos lideres
Esly Regina S. de Carvalho

o QUE FAZER PARA AJUDAR OS NOSSOS LlDEREsl

Este capítulo tem por objetivo falar abertamente


sobre as necessidades e as tentações que enfrentam os nossos
líderes. Ao mesmo tempo, queremos oferecer sugestões úteis
e práticas para uma liderança transformadora, tanto para a
igreja como para os que cuidam dos líderes. Por isso, o nosso
desejo é que os leitores nos ajudem a cuidar dos líderes do
rebanho, e para isso oferecemos aqui algumas primeiras
ferramentas:
1. Orar pelos nossos líderes.
A tentação de queixar-se ou de criticar quem está à
frente das nossas igrejas é muito grande, mas o que devemos
fazer é pedir a Deus que dirija os seus passos. Devemos orar
pela sua proteção, por suas famílias, pelos seus olhos e seus
corações, e rogar a Deus que os livre de todo mal, para que
possam andar em santificação.
2. Ajudd-los com as cargas que levam.
Como companheiros de jugo que somos, não
podemos pensar que quem é líder deve realizar todo o
trabalho; que ele faça tudo e as ovelhas assistam. Por isso o
corpo de Cristo tem uma enorme variedade de funções e
precisa de cada uma para bem funcionar. Por exemplo, se o
pastor tem o dom de pregar, então ele é uma "boca", mas é
bem possível que ele não tenha o dom do aconselhamento
(e muitos não o têm!). Nesse caso, quem será "coração" para
poder fazer esse trabalho com as ovelhas?
3. Dar aos nossos lideres a oportunidade de serem
transparentes.
Vamos lembrar que eles também têm problemas e
sofrem; por isso, devemos estar presentes e ajudá-los, ou pelo
menos acompanhá-los nas suas tristezas e dificuldades.
1141~------=~---L-------~-----
Liderança Cristã Tramformadora
Manfred W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

4. Prover ajuda doméstica para aliviar o trabalho e a


vida do pastor e da sua família.
É comum o salário de muitos pastores não permitir
que se contrate a ajuda de alguém para as tarefas da casa.
Portanto, devemos ajudá-los, cuidando dos seus filhos
quando eles têm compromissos, ajudando para que o casal
possa dar uma "escapadinha" de vez em quando e estar a sós
por uns dias, podendo descansar e fortalecer seu casamento.
Espero que o que estamos compartilhando possa
desafiar os nossos líderes (e seus liderados) a examinarem a
sua liderança e a sua forma de atuar. Quem sabe alguns devem
fazer algumas mudanças saudáveis para resgatar sua posição.

PARA QUE DESCANSAR l

É incrível que se faça esta pergunta! Talvez isso ocorra


porque nossos líderes aprenderam que, no ministério, o
símbolo da total abnegação é matar-se de tanto trabalhar.
Quanto mais trabalham, mais "santos" se consideram.
Vejamos algumas razões pelas quais devemos
descansar.
1. É desígnio de Deus que descansemos.
Isso é tão importante que Deus incluiu o descanso
entre os Dez Mandamentos (Êx 20.8-11). Para surpresa de
muitos "workaholics" (aficcionados pelo trabalho), descansar
significa não trabalhar!
É interessante notar que isso inclui um mandamento
positivo e um negativo: devemos santificar o dia de repouso,
isto é, separá-lo, fazê-lo especial, sagrado. Ao mesmo tempo,
há um mandamento negativo: não trabalhar nem fazer os
outros trabalharem, nem sequer os animais!

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Cuidemos de nossos lideres
Esly Regina S. de Carvalho

2. Deus nos dd o exemplo.


O "sábado" não começou com os Dez Mandamentos.
Existe desde que Deus criou o mundo e descansou. Como
fomos criados à Sua imagem e semelhança, também devemos
descansar.
3. A terra precisa descansar (Lv 25.2-7).
A nossa tendência é atribuir este texto ao mundo
agrícola. Realmente, naqueles tempos, era a terra que dava
provisão para os povos. Hoje, vivendo em um mundo
industrializado, em muitos casos, o que produz já não é mais
a terra, mas o trabalho. Assim, é importante que o nosso
trabalho e ministérios também descansem.
4. Existe maldição para a terra se ela não descansar
(Lv 26.32-35).
Isso é obvio: quando não obedecemos aos princípios
bíblicos, sofremos as conseqüências. Não entendemos porque .
nossa liderança está decaída. Nem entendemos porque
muitos pastores e líderes estão tão vulneráveis a todo tipo de
tentação. Muitas vezes, isso acontece simplesmente porque
estão cansados. Ou melhor, exaustos. Esse cansaço os expõe
não apenas à tentação, mas também às próprias
conseqüências da desobediência.
5. Por outro lado, hd bênçãos reservadas para quem
guarda o dia de descanso (Is 58.13, 14).
Existe algo no descanso que nos permite retomar o
trabalho com novo vigor e interesse. Escravos não descansam.
Quando os filhos de Israel saíram do Egito, o primeiro dom
de Deus depois da liberdade foi o dia de descanso. Isso foi
absolutamente revolucionário para aquele tempo. Hoje,
muitos de nossos pastores e líderes trabalham toda a semana,
e no domingo trabalham dobrado. Poucos são aqueles que
1161f---~-~...>!...--_-------------+
Liderança Cristã Transformadora
Manfred W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

tiram um outro dia para descansar. Devemos nos perguntar:


Como estamos vivendo? Como livres ou como escravos?

COMO DESCAN5ARl

Muitas pessoas não sabem descansar. Outras não se


permitem fazê-lo. Alguns foram criados em lares onde
descansar significava "não fazer nadá', o que era malvisto
pelos pais ("pr,eguiça") e~ para estes, descansar produz
sentimento de culpa. Outros sentem que descansar significa
defraudar (roubar) a Deus de alguma forma. Mas, como
vimos, descansar é um mandamento de Deus e o melhor
que podemos fazer como líderes é obedecer ao Senhor!
Em termos prdticos podemos afirmar:
1. É importante separar um dia por semana,
sistematicamente, para descansar e dedicar-se ao Senhor.
Na minha experiência, se não fizermos um compromisso
com Deus sobre esse assunto, a tendência é deixar o descanso
de lado. Outras coisas vão surgindo, fazendo-nos crer que
descansar não é tão importante.
2. Que dia? Não vou entrar na briga teológica se
tem de ser sábado, domingo ou outro dia. Acredito que o
princípio básico é que um dia em sete tem de ser para
descansar. Decida qual é o dia da semana que funciona para
você descansar.
3. Comece o descanso na noite anterior. É
interessante notar que, na cultura judaica, baseada na
afirmação de que, quando Deus criou o mundo "houve
tarde e manhã", o dia começa ao anoitecer do dia anterior e
termina ao anoitecer do dia seguinte. Fazendo assim, você
verá que o descanso trará mais dividendos.
4. Sem cair no legalismo, no dia de repouso deixe de
fazer as coisas que normalmente faz. Claro que trabalhar,
Cuidemos de nossos lideres
EsJy Regina S. de Carvalho

nem pensar! Mas leve a coisa bem a sério. Um amigo meu


não liga o computador no seu dia de descanso. Mesmo com
vontade de ler as mensagens, ele se domina, pois sabe que a
tentação de ler os recados do trabalho será muito forte. Há
pessoas que não cozinham ou não fazem compras nesse dia.
5. Faça o que você normalmente não faz nos outros
dias. Santifique, separe esse dia para que seja diferente dos
outros. Leia a sua Bíblia com mais calma. Tenha um tempo
maior com Deus. Saia para caminhar, por lazer e não pelo
exercício. Faça coisas que lhe dão prazer: tome um sorvete,
brinque com seus filhos, leia em família, converse. Gaste
tempo em oração com sua família e com seu cônjuge. Deleite-
se no Senhor, nas suas bênçãos, na sua família, na criação.

ESGOTAMENTO

Uma das condições comuns que temos observado em


nossos líderes é o esgotamento emocional, chamado, em
inglês, de burnout (literalmente, "queimado"). Ron McLain
o define como "um estado de esgotamento físico, mental e
emocional, que se caracteriza por um cansaço constante e
crônico, sentimentos de abandono e falta de esperança e o
desenvolvimento de uma auto-estima negativa e uma atitude
também negativa em relação ao seu trabalho, à sua vida e às
outras pessoas'?". Segundo ele, algumas causas para o
esgotamento em nossa liderança são:
1. Quando há uma distância entre as expectativas
idealistas e a dura realidade que se tem de enfrentar. Muitos
entram no ministério com lindos sonhos, mas a realidade é
que o trabalho é duro, esgotante, muito para uma pessoa
só, e, às vezes, acompanhado de uma persistente sensação
de solidão.
Liderança Cristã Transformadora
1181--.:.....------:!....----------------t
Manfted W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

2. O vício ou adição ao trabalho. Os workaholics são


pessoas tão dependentes do trabalho quanto o alcoólico da
bebida. Elas são muito admiradas, mas a verdade é que o
motor que as move vem de uma fonte errada.
3. Muitos sentem uma falta de preparo para tarefas
esmagadoras que os desafiam.
4. Outros ficam desanimados por terem de lidar
constantemente com problemas e conflitos.
5. Aqueles, cuja auto-estima depende diretamente
do resultado do seu trabalho, acabam tendo de lidar com
uma auto-imagem prejudicada pelas dificuldades que
enfrentam.
6. Algumas pessoas levam tudo tão à sério que se
esquecem de rir, divertir-se e desfrutar do que Deus tem dado.
7. Para muitos líderes, a expectativa de que é preciso
dar mais do que receber faz com que eles carreguem um
enorme sentimento de culpa quando desejam fazer ou ter
algo para si mesmos ou para seus familiares.
8. Quando o líder se sente mal pago e pouco apreciado.
SINTOMAS

Entre os sintomas do esgotamento, podemos


perceber:
1. Energia diminuída e uma crescente dificuldade
em manter um ritmo normal de vida.
2. Sentimentos de fracasso quanto à sua vocação e
questionamento em relação a seu chamado ao ministério.
3. Sensação de que a recompensa é pequena em
relação ao muito que se deu para o ministério.
4. Sentimento de desesperança e incapacidade de
enxergar solução para os problemas.
Cuidemos de nossos lideres
Esly Regina S. de Carvalho

5. Cinismo e negativismo com respeito a si mesmo,


ao seu trabalho, aos outros e ao mundo em geral.
PREVENÇÃO

Para evitar o esgotamento é importante seguir estas


sugestões:
1. Encontre novas disciplinas espirituais ou novas
formas de seguir as antigas. Inove sua vida devocional: escreva
suas orações em vez de fazê-las em voz alta. Saia para
caminhar e ore em voz alta enquanto caminha sozinho.
Procure um companheiro de oração com quem possa
compartilhar abertamente.
2. Reserve tempo para estar consigo mesmo. Às vezes
estar sozinho é o que nos ajuda a "recarregar as baterias".
Até Jesus se retirava das multidões para estar só.
3. Durma bastante e pratique atividade física. O
pastor ou líder não é super-homem. Precisa cuidar do
"templo do Espírito Santo" tanto quanto os demais.
4. Descanse e relaxe. Sem culpa. Deus nos permitiu
fazê-lo.
s. "Preste contas" a outras pessoas. Peça a Deus que
coloque em sua vida pessoas de confiança com quem possa
compartilhar as cargas que o afligem, suas tentações e seus
sonhos. Dividindo a carga, ela se tornará mais leve.
6. Pense de formas não usuais. Busque soluções
criativas. Busque soluções, e não problemas.
7. Semanalmente, faça algo que nada tenha a ver
com seu ministério, algo prazeroso, pelo puro gosto de fazê-lo.

MORDOMIA DO CORPO

Quando o assunto é mordomia, um aspecto esquecido


é o cuidado com o nosso corpo. Falamos muito da mordomia
120 1- ------:- - --"--- - - - - - - - - - - -
Liderança Cristã Transformadora
Manfred W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

dos nossos bens, mas pouco da mordomia do corpo, que é o


templo do Espírito Santo (lCo 6.19). Mas, o que significa
ter uma perspectiva apropriada a esse respeito?
Em primeiro lugar, somos ensinados pela Bíblia que
devemos cuidar do nosso corpo e amá-lo. De fato, as
Escrituras tratam disso quando falam da forma como os
maridos devem amar as suas esposas: ''Assim também os
maridos devem amar a sua mulher como ao próprio corpo.
[...] Porque ninguém jamais odiou a própria carne; antes, a
alimenta e dela cuida" (Ef 5.28,29). Se o Espírito Santo
vive dentro de nós, como de fato cremos, então devemos
cuidar deste "templo" com o mesmo respeito e reverência
com que os israelitas cuidavam do templo que Deus lhes
mandou construir.
Como cuidar do corpo?
A tendência nas igrejas evangélicas tem sido reduzir
o cuidado com o corpo simplesmente ao não fumar nem
usar bebidas alcoólicas. Certamente essas práticas nos são
prejudiciais e devem ser evitadas. Mas a mordomia do corpo
não pode se resumir a isso.
Como está a nossa saúde física? Devemos procurar
informação apropriada sobre os alimentos a serem evitados
para o bem-estar da nossa saúde e os alimentos que devemos
usar e como usá-los (uma dieta balanceada, com porções de
todos os grupos de alimentos; sim, inclusive brócolis...).
Devemos observar como está o nosso peso. Muitos
líderes estão com o peso acima do que deveriam e isso pode
trazer muitas complicações para a saúde física, como:
obesidade, alteração dos níveis de gordura e colesterol
sangüíneo, diabetes etc. O livro de Provérbios nos orienta a
"meter a faca na garganta" para evitar comer demais (Pv
23.2)! A obesidade causada por maus hábitos alimentares é

, I 4', Il t,,,,, I· 11' f 111" LI' I 'I 11 ~ I ' ,I ,,' I~"~,*' 11" ~, li ~ " ,
Cuidemos de nossos lideres
Esly Regina S. de Carvalho

um testemunho óbvio de que, nessa área da nossa vida, não


estamos produzindo o fruto do domínio próprio de que nos
fala Gálatas (5.22,23). A disciplina com o que e como se
come também é fruto do Espírito. Esse problema põe em
risco a saúde de nossos líderes que, muitas vezes, morrem
prematuramente, deixando de fazer tudo o que poderiam
ter feito se tivessem cuidado melhor do seu corpo. Sem falar
da orfandade da família, quando depende dele para o seu
sustento. Por outro lado, temos visto muitos casos de anorexia
(pessoas que deixam de comer por questões psicológicas) e
de bulimia (pessoas que eliminam o que comem por indução
ao vômito, uso de diuréticos e laxantes). Ocorre com mais
freqüência entre as mulheres, mas os homens não estão
isentos. A preocupação obsessiva com a aparência, quando
se quer ter um "corpo de manequim", tem feito com que
essa doença, muito rara quinze anos atrás, hoje seja freqüente
nos consultórios. .
A saúde está no equilíbrio, no meio-termo: devemos
ter um peso adequado à nossa estatura, idade ê forma física,
e devemos .cuidar do "templo" de forma saudável. Devemos
também encorajar uns aos outros quanto ao cuidado do
corpo, sem culpa.
O outro lado da questão
Certa vez, uma esposa de pastor comentou comigo,
com enorme tristeza: "Tenho a impressão que o pessoal da
igreja pensa que os meus filhos vivem de vento e que não
comem como as outras crianças". O salário do seu marido
era insuficiente para alimentar bem a sua família. As igrejas
devem prover um salário digno para os seus pastores, a fim
de que possam amparar suas famílias com dignidade.
Ao cuidar do nosso corpo, também precisamos
prestar atenção ao exercício físico. O carro tem nos ajudado
122 1- -----=-- - - - "- - - - - - - - - - - - - -
Liderança Cristã Transformadora
Manfted W Koh! e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

a encurtar distâncias, mas, por outro lado, roubou-nos a


oportunidade de caminhar e exercitar. Hoje precisamos nos
exercitar de outras formas. Também o pastor deve ter tempo
e permissão para cuidar do seu corpo sem culpa nem censura.
Muitas pessoas pensam que, se o pastor sai para fazer alguma
atividade física em vez de ir fazer uma visita, ele não está
cumprindo com o seu dever pastoral. Devemos repensar
esse tipo de atitude, porque o pastor não é Deus e não pode
fazer tudo. Além de não recriminá-lo, devemos encorajá-lo
a que se cuide para que possa desfrutar do seu ministério
durante muitos anos, com saúde e qualidade de vida.
VENCENDO A TENTAÇÃO

Uma das coisas que mais prejudica o corpo de Cristo


é quando um líder cai em tentação. Não apenas em pecado
sexual, mas em outros tipos de pecado, como a ganância
pelo dinheiro, ou o orgulho por ser famoso, ou a busca de
privilégios pelo ministério. A lista é bem comprida. Como
pode um líder enfrentar a tentação?
Não há duvida de que a tentação virá. Jesus mesmo
disse isso. Na oração do Pai Nosso, Ele pede ao Senhor que
nos livre da tentação. Chip Ingram, pastor de uma igreja na
Califórnia e apresentador do programa Living on the Edge,
fala de quatro pontos importantes a considerar. Devemos
examiná-los bem antes de enfrentar a tentação, porque eles
podem nos proteger e ajudar a não cair em tentação.
1. Convicção. Estamos claramente convencidos sobre
as verdades bíblicas e sua aplicação prática em nossa vida?
Uma coisa é crer. Outra coisa é ter convicção. Muitos crêem.
Até os demônios crêem. Mas convicção significa ter a crença
"tão" internalizada que, não importa o que aconteça, não

. II ,. .1 , i' I
Cuidemos de nossos lideres
Esly Regina S. de Carvalho

vou deixar que algo me mova da minha crença. Não vou


transigir naquilo que eu acredito ser a verdade bíblica.
Cada líder tem sua área de fraqueza, que é diferente
para cada pessoa. Todos nós devemos examinar e ver como
podemos transformar nossa crença em convicção. Cremos
que não se deve adulterar, mas, quando vem a tentação,
temos convicção? Cremos que não se devem gastar mal os
fundos da igreja, mas, quando vemos o dinheiro, temos
convicção? Sabemos. que o orgulho foi o primeiro pecado
da humanidade, mas, quando nos lisonjeiam ou nos
convidam a nos orgulharmos de alguma maneira, temos
convicção?
2. Avaliar as conseqüências.
logram pinta o quadro hipotético das conseqüências
de uma queda sexual para sua família. Ele imagina o que
seria ter de ir a sua casa e explicar a seus filhos que seus pais
estão se divorciando porque ele cometeu adultério (ele não
adulterou, para os que querem saber). Ele pensa em como
seria a vida dos seus filhos, o sofrimento da sua esposa, o mal
que isso faria ao ministério - e isso o ajuda a não cair em
tentaçao.
""

o inimigo quer que acreditemos que um


"pecadinho" não é tão grave assim, que não fará tanto mal.
Mas o pecado sempre mancha tudo o que toca. Parte da
sedução do pecado é fazer com que fiquemos cegos às suas
conseqüências. Se pudermos parar e pensar no que isso pode
causar nas nossas vidas, nas nossas famílias, no nosso
ministério e na nossa igreja, poderemos encontrar no Senhor
a força para enfrentar a mentira do pecado com a verdade
da Bíblia.
il
,i

II
124 1- ----'-- - ---"---- - - - - - - - - - - --
Liderança Cristã Transformadora
Manfred W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)
I
I
I
1I
II
3. Decisões prévias. II
II
É importante também tomar certas decisões com li
antecipação. Todo cristão, principalmente o líder, deve parar \1

e tomar algumas decisões prévias. Quais são as coisas que II


II
nem sequer terão a possibilidade de ocorrer na minha vida? II
Quando estou vendo televisão sozinho e começa um filme II
II
de moral duvidosa, o que vou fazer? Decisão prévia: mudar II
I1
de canal. Não permito que determinados tipos de filmes I)
entrem na minha casa por uma decisão prévia. Trato sempre \1

a minha esposa como a rainha do lar porque tomei uma


decisão prévia de não olhar para outras mulheres e fazer II
I!I,
comparações. Trato a minha esposa com o respeito e a
lealdade que lhe são devidos por uma decisão prévia. Cada 1

1
pessoa deve tomar suas decisões prévias. II
4. Viver em transparência. 1\

É importante que os líderes, inclusive mulheres,


integrem um pequeno grupo no qual possam viver em
~
transparência. Uma das grandes tentações da liderança é
pensar que podemos dar conta das coisas sozinhos: "Não
I
\1

podemos". Deus nos criou com a necessidade de comunhão


I
e intimidade emocional com outras pessoas. Os homens 1
1
devem fazer parte de um grupo de homens, e as mulheres,
11
de um grupo de mulheres, nos quais podem abrir seus
corações com transparência e confidência, sabendo que todos I
I
j,
estamos sujeitos a tentações. Se souber que tenho de contar I1

ao meu grupo o que estou enfrentando, isso me ajudará a \1


me corrigir na hora da tentação. Isso exige muita maturidade 1\

e uma mudança de como as pessoas nas igrejas vêem os seus II


II
líderes. Eu posso muito bem imaginar de onde vem a mentira 11

de que a vida do líder tem de ser perfeita. Tem de ter filhos II


perfeitos, esposas perfeitas, sempre falar de forma perfeita, 1

1
com sabedoria perfeita...
II
\1
11
Ii
I'
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• 11 ,I ," • I ~ I li
I1
Cuidemos de nossos lideres
Esly Regina S. de Carvalho

Sofremos com as conseqüências do pecado nas suas vidas e


às vezes na vida dos seus filhos, nossos netos.
O que fazer? Primeiro precisamos saber como o nosso
Pai celestial reage quando pecamos. Ele deixa de nos amar?
jamais/Também não faz de conta que nada aconteceu. Deus
nos trata com misericórdia e justiça. Mas nem sempre
sabemos agir da maneira perfeita e equilibrada como Ele
age conosco.
É difícil descobrir que um filho está envolvido com
um estilo de vida homossexual ou que uma filha está grávida
e um casamento às pressas será ainda pior. Muitos pais que
enfrentam esse tipo de problema choram, ficam com raiva,
sem querer acreditar no que está acontecendo. Alguns
tentam esconder a verdade para evitar as críticas.
Sempre há um tempo de luto quando se descobre
que um filho possivelmente não vai realizar os sonhos que
sonhamos para ele. Admitir que isso está acontecendo é uma
das mais duras realidades na vida de um pai ou de uma
mãe, mas é absolutamente necessário. .,
Quando pecamos, Deus continua a nos amar,
embora não aprove o nosso pecado. Portanto, devemos amar
os nossos filhos sem aprovar o seu pecado. Esse é um grande
desafio. Temos de confrontá-los em amor, mesmo quando a
nossa vontade for de dar uma surra ou uma bronca ou, até
mesmo, de expulsá-los de casa. Não devemos engolir a raiva,
mas descarregá-la em cima dos filhos não resolve oproblema.
Podemos (e devemos) derramar o coração diante de Deus,
mas precisamos também dos amigos, aqueles que podem
nos ouvir, orar conosco quando nem isso conseguimos fazer
no meio de tanta aflição. Amigos que nos aceitam sem nos
julgar, que dão mais apoio e menos opinião.
Liderança Cristã Transformadora
1281f--------<---------"---------------
Manfred U7. Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

Como lidar com a conduta dos nossos filhos é mais


complicado. Não devemos aprová-la, mas temos de aceitar
que eles tomam decisões que não aprovamos. Quando se
arrependem fica mais fácil lidar com a situação, porque
podemos trabalhar juntos na restauração. Mas quando
insistem em continuar no pecado temos de orar mais e
falar menos.
Finalmente, se pudermos ser mais transparentes
como líderes, admitir a situação dos nossos filhos diante das
pessoas, elas também terão a oportunidade de aprender a
ser mais honesta com as suas questões. Às vezes, temos de
fazer um anúncio público para a igreja, mas isso deve ser
feito de uma forma que proteja os nossos filhos. Assim eles
poderão voltar ao Corpo de Cristo se quiserem. Os membros
da igreja saberão que têm um líder que realmente entende
o que eles vivem em seu dia-a-dia.
Muitas vezes a vergonha nos impede de lidar melhor
com a situação, mas ela não vem de Deus. A vergonha fere
o nosso orgulho, a idéia de que podemos ser modelos
perfeitos por nossos próprios esforços. Jesus disse que Deus
conhece profundamente o nosso coração, que é mau. Assim,
não precisamos tentar manter as aparências. Deus faz com
que o pecado apareça para que possa ser tratado na vida das
pessoas que amamos (e na nossa tambérnl). Ele quer que
aprendamos a odiar o pecado pelas conseqüências danosas
que traz à vida, porém sem jamais deixar de amar o pecador.
É nesses momentos tão difíceis que aprendemos a amar
nossos filhos como Deus nos ama, com graça, simplesmente
porque eles são nossos, nos "pertencem", e não porque
tenham feito algo para merecer o nosso amor.
Cuidemos de nossos lideres
Es/y Regina S. de Carvalho

CON51DERAÇOES FINAIS

Terminando bem
Na medida em que os anos vão passando, tenho
enfrentado pessoalmente a questão de como terminar bem
a carreira cristã. Olhando ao meu redor, tenho visto através
dos anos muitos líderes promissores que deram contribuições
significativas para o Reino de Deus e Sua obra, mas em cujas
vidas aconteceu algo que os impediu de terminar bem. Nossa
sociedade está olhando como vivemos como evangélicos e
qual é o nosso testemunho... Qual é o fruto da nossa vida.
Então resolvi me responder à pergunta: como é que eu vou
terminar bem? O que temos que fazer com as nossas vidas,
como viver,de forma que possamos terminar bem?
1.. Em primeiro lugar, começar bem. Não se pode
subestimar a importância de um bom discipulado, de
conhecer a Bíblia, de desenvolver a integridade. Com muita
freqüência, as pessoas conhecem o Senhor e em seguida são
colocadas em posições de liderança sem que estejam
preparadas para isso. É uma receita para o desastre. Para se
aprender a o ser primeiro, há de se aprender a ser o segundo,
o terceiro, e assim por diante. Para ser líder, primeiro há de
aprender a servir.
Para começar bem, temos de decidir as questões
fundamentais da integridade: vamos ser fiéis no pouco?
Seremos honestos com o dinheiro? Com o tempo? Com a
família? Com o cônjuge? Ou vamos "deixar isso pra depois",
por que a urgência do imediato está tomando conta das
nossas prioridades? Quem somos quando "ninguém está
vendo?" Deus está olhando e avaliando. e o inimigo está
esperando a sua oportunidade para destruir o nosso resremunho.
130 1f--~--~------------------4
Liderança Cristã Transformadora
Manfred W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

2. Estamos desenvolvendo a nossa intimidade com


Deus? Os líderes costumam ser pessoas muito capazes,
humanamente falando. Podem fazer muito pelos seus
próprios esforços, e vai levar um bom tempo até que se dêem
conta de que o Espírito de Deus não está presente da forma
ungida que deve estar quando estamos andando em
intimidade com Deus. Eu não posso me tornar parecida
com Jesus se eu não estiver gozando da intimidade com Ele.
Tantos líderes confundem trabalhar no ministério
com intimidade com Deus! O Grande Mandamento não é
trabalhar para o Senhor, mas amar a Deus acima de todas
as coisas. Não dá para fazer isso sem o tempo pessoal com
Deus. Se há um compromisso que vai nos proteger a carreira
. . ,
inteira, e este.
3. Manter as prioridades. Devemos buscar do Senhor
quais sãos as Suas prioridades para as nossas vidas, nosso
casamento, nosso ministério, este momento de vida e ser fiel
até que Ele mude as nossas prioridades. Quando começamos
a correr atrás do dinheiro, do prestígio, do poder, a bomba-
relógio vai se armar.
4. Comprometer-se em terminar bem. Parece óbvio,
. pessoas nao pensam no que sera" necessano
mas multas ~ . para
poder manter a corrida em marcha. Sem este compromisso,
as outras coisas vão-se atrapalhar.
Se tivermos este compromisso, então vamos fazer
aquelas coisas absolutamente essenciais para terminar bem:
a. Evitar as tentações. A Bíblia nos ensina a fugir das
tentações! Quem fica olhando para as vitrines de Satanás,
acaba entrando para comprar. É melhor evitar as suas lojas.
Bastam as tentações que temos que enfrentar; a gente não
precisa se expor desnecessariamente. Só conseguimos vencer
as tentações com o poder de Deus, Seu discernimento e Sua
Cuidemos de nossos lideres
Esly Regina S. de Carvalho

fortaleza. Não vamos brincar de super-homem espiritual. É


receita para o fracasso.
b. Evitar a aparência do mal Muitos cristãos pensam
que porque fazem as coisas com inocência, que não faz mal,
que não há nada de errado. Mas a Bíblia diz que devemos
evitar até a aparência do mal. Quem sabe vão nos chamar
de quadrados, mas eu prefiro terminar a carreira "quadrada"
como o Billy Graham em termos de integridade, do que
"redonda" como outros, que terminaram mal.
5. Perseverar, mesmo quando parece não ter sentido.
Todos temos etapas na vida em que a gente não entende o
que Deus está fazendo conosco. É nesses momentos que
lutamos com a questão da fidelidade ao Senhor. Eu vou
perseverar mesmo que não tenha sentido o que está me
acontecendo? Mesmo quando meu coração está
arrebentando com a dor da provação? Mesmo quando eu
tenho quase certeza de que mais uma gota e meu coração
vai explodir? Eu vou continuar crendo que só Jesus tem as
palavras da vida ou vou buscar outra solução ou alternativa?
Deus é fiel, mas cremos na Sua fidelidade e sabedoria para
permitir as experiências que enfrentamos?
6. Ter um coração totalmente entregue a Deus. Uma
casa dividida vai cair. Não dá pra servir a dois senhores. Como
diria minha mãe, não dá pra ter todos os proveitos de uma
só vez. Decida se vai ser totalmente do Senhor, ou totalmente
do inimigo. Realmente não há como ficar em cima do muro,
porque Deus já montou a Sua "cerca elétrica". A gente vai
cair de um lado ou do outro. É só uma questão de tempo.
7. Proteja seu chamado. De tempos em tempos, volte
ao chamado original. Pergunte-se: "estou fazendo aquilo que
Deus me chamou para fazer?" "Estou me tornando cada
vez mais parecido com Jesus?" "Qual é o fruto das minhas
132 Liderança Cristã
I-----~ Trans rmadora
_ ___":....__ ___l

Manfred W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

mãos?" A Bíblia diz que seremos conhecidos pelo nosso fruto,


não pela nossa atividade ou por uma agenda cheia. Quando
eu terminar a minha carreira, o que vou deixar para as outras
gerações? Estou investindo em levantar uma geração que
vai continuar a obra do Senhor?
Eu estou convencida de que nesta etapa da minha
vida, parte do meu chamado é compartilhar, formar e ensinar
aquilo que já levei tantos anos para aprender. Quando eu
for morar com Jesus, eu quero poder olhar para trás e ver
que há muitas pessoas mais levando adiante a obra a qual eu
fui pioneira. Para chegar lá, estou empenhada e
comprometida em formar uma nova geração de "ministros
da reconciliação". Eu quero ensinar tudo que eu sei, tudo
que eu aprendi. Quero ser transparente com o meu
aprendizado, sem guardar para mim o "pulo do gato".
Quero que todos que eu formar possam tomar a minha
experiência, aprender com ela, fazê-la sua e depois "ajeitar"
isso dentro deles de forma que possam abençoar a outras
pessoas, à sua maneira, do seu modo.
Finalmente, busquemos os exemplos! Todos temos
exemplos dos que foram chamados, puseram a mão no
arado, e não olharam para trás. Eu sou abençoada em ter
tido os quatro avós crentes que terminaram bem. Todos eram
pessoas muito simples, mas profundamente comprometida
com o Senhor. Não foram famosos. Não escreveram livros.
Não deixaram grandes posses materiais. Mas me deixaram
um legado profundo de como terminar bem.
Notas
1 Parte desse texto foi publicado originalmente na Revista Ultimato

(www.ultimaro.corn.br),
2 Citado no boletim eletrônico To Our Colleagues in Personnel, circulado por

Ken Royers, de Link Care Center, Fresno, CA, EUA Agradecemos a permissão
para publicação.
EAP{TULO

>,1) CUIDADO INTEGRAL DOS


«IlABALHADORES ECLESIÁSTICOS

ADRIANA THOMÉ
INTRODUÇÃO

o capítulo deste livro é fruto de uma pesquisa de


mestrado, a qual aborda o trabalho e o cuidado integral dos
trabalhadores sob a perspectiva da Teoria das Necessidades
Humanas. Este assunto vem ao longo dos anos ganhando
diferentes enfoques no campo teórico e empírico das
pesquisas. Estudiosos das mais diversas áreas buscam
identificar fatores para a prática de ações eficazes, isto é,
aquelas com potencial de levar as pessoas a terem suas
necessidades biopsicossociais e espirituais supridas e, assim,
desenvolverem suas atividades com maior vigor. Abraham
Maslow' foi um dos precursores desse assunto, em 1943
criou a teoria das Necessidades Humanas, a qual trata do
homem na esfera física e emocional e, posteriormente, na
espiritual, com a inclusão da área transcendental em sua
publicação científica. A seguir, a pirâmide das Necessidades
Humanas de Maslowê:
Auto Realização - Transcendental

Auto Realização

Segurança

Fisíológicos

Figura: Pirâmide de Maslow

A interdisciplinaridade tem sido muito valorizada -


pois ela pondera uma nova compreensão da categoria do
Liderança Cristã rransformadora
1361--...!..------''---------------------t
Manfred W Kab] e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

saber, que ressalta a presença de uma interdependência entre


as disciplinas e revela que os fatos, as situações, não
acontecem de modo fragmentado, mas sim integrado - os
estudiosos do campo da teologia, devido as suas habilidades
de coligarem e integrarem fundamentos teóricos de diversos
campos de conhecimento que possam dar subsídios
significativos aos estudos teológicos, têm valorizado muito a
interdisciplinaridade. Dessa maneira, a teologia recebe forças
ao valer-se desta abertura às fronteiras conceituais, na
proporção em que pode ampliar-se a partir de sua origem e
de seus aspectos interdisciplinares característicos.
Sendo assim, este capítulo constitui-se de uma
reflexão interdisciplinar com base em conhecimentos do
campo teológico, buscando subsídios em outras ciências, tais
como a Psicologia - Teoria das Necessidade Humanas; a
Administração - Organização Científica do Trabalho, a
Sociologia da Religião - Sociedade e Igreja e a Filosofia -
Ética. Logo, transpor a "dificuldade de linguagem em um
estudo interdisciplinar para o conhecimento do ser humano
em sua interdimensionalidade". 3
Como o cuidado integral, propriamente dito, não é
caracterizado na literatura científica, pois ocorre por meio
da satisfação das necessidades humanas, as quais são
geradoras das motivações na vida de um indivíduo,
consideraramos que um indivíduo recebe cuidado integral
ao ter suas necessidades biopsicossociais e espirituais supridas.
No contexto cristão, a alta taxa de abandono
prematuro da carreira eclesiástica fomentou as primeiras
consultas sobre o "cuidado integral" na conjuntura dos
trabalhadores eclesiásticos, as quais ocorreram no final da
década de 80 nos Estados Unidos da América". No Brasil,
as primeiras consultas aconteceram em São Paulo, em 1987,

, H
o trabalho e o cuidado do lider transcultural
Adriana Thomé

com 3000 (três mil) latino-americanos, financiadas pelo


COMIBAM5 (Cooperação das Missões Ibero-Americanas).
Assim, a fim de diminuir a taxa de retorno dos
trabalhadores eclesiásticos de seus respectivos campos de
trabalho, alguns estudos têm surgido com ênfase no cuidado
desses trabalhadores. Para o psicólogo Kelly O''Donell,
(...) o cuidado é por sua natureza, "a expressão tangível
do amor de Cristo por nós e do nosso amor por ele. Não
é simplesmente um programa ou um planejamento; é o
produto do que nós somos por causa do nosso
relacionamento com Ele e o nosso ser sua nova criação'",
o autor apresenta a questão do cuidado como ação
reflexiva do amor do ser humano por Deus, dessa forma, as
dimensões deste assunto vão além de um bom planejamento
e estratégia, pois envolve o comprometimento com a vida
do semelhante. Assim, neste capítulo, serão abordadas as
perspectivas do trabalho humano, e as concepções sobre o
cuidado para que respondamos a pergunta: como a
liderança eclesiástica tem cuidado de seus trabalhadores em
meio a uma sociedade utilitária e imediaristar
1 - O TRABALHO HUMANO

o trabalho pode ser denominado como sendo toda


a ação humana. Nesse conceito muito amplo incluem-se
atividades involuntárias e próprias do organismo, as
fisiológicas, e as atividades voluntárias, desde os simples gestos
e movimentos até os mais elaborados processos intelectuais..
Ao realizar atividades de trabalho, o ser humano não
transforma apenas a natureza, ele transforma-se à medida
que transforma o meio, uma vez que seus comportamentos
são relativos ao seu posicionamento dentro do ambiente do
qual participa. "As relações de trabalho determinam o seu
Liderança Cristã Transformadora
138!f------.!....---..---L------------------<
Manfted U7. Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

comportamento, suas expectanvas, seus prOjetos para O


futuro, sua linguagem, seu afeto".
Sendo a identidade deste ser humano permeada pelo
contexto social no qual se encontra inserido, se o contexto
sofrer modificações, também o humano será modificado.
Isto é destacado quando Wanderley Cod07 diz que "o que
muda não é o que se produz num determinado período
histórico, são as relações de produção, são as relações sociais
que permeiam (...) a relação entre os homens."
O trabalho contemporâneo é considerado uma
forma de atribuir sentido à vida, pois através dele os
indivíduos podem construir uma identidade. Um exemplo
disso é quando nos deparamos com situações em que são
feitas apresentações, formais e informais, nas quais o nome
da pessoa apresentada geralmente vem acompanhado de
sua profissão e/ou local onde trabalha. O trabalho permite
a conquista de uma identidade, uma continuidade e uma
historicidade. Além desses aspectos, o trabalho pode ser
considerado uma instância social, na qual podem
desencadear-se formas de sofrimento mental, quando
exercido de modo desumano.
o trabalho conforme a situação, tanto poderá fortalecer
a saúde mental quanto levar a distúrbios que se
expressam coletivamente em termos psicossociais e/ou
individuais, em manifestações psicossomáticas ou
psiquiátricas."
Isso ocorre devido ao trabalho, no sistema capitalista,
ter características utilitárias, exploradoras, dominadoras, ou
seja, este sistema tende a olhar o ser humano como uma'
máquina que dá lucro, sublimando as necessidades do
individuo em prol do lucro, conseqüentemente, geram

, H ' "I, III ,.,1"'1


o trabalho e o cuidado do lider transcultural
Adriana Thomé

sofrimentos e inferências nas áreas física, emocional e


espiritual do ser humano.
Assim, a fim de compreender a relação trabalho -
capital- indivíduo, o próximo tópico tratará das perspectivas
históricas do trabalho, as quais constituem o pano de fundo
na compilação deste capítulo sobre o trabalho e o cuidado
integral dos trabalhadores eclesiásticos.
2 - PERSPECTIVAS HISTÓRICAS DO TRABALHO A PARTIR
DO PERioDO PR~-CAPITAlISTA

Durante a Idade Média na Europa ocidental, com o


surgimento do Feudalismo", uma nova forma de trabalho
veio a substituir a mão de obra escrava. Os escravos, agora
convencionados "trabalhadores" eram denominados de
Servos da Gleba - homens semi-livres, e de Vilões - homens
livres. Neste regime de trabalho, os servos tinham de transferir
ao senhor feudal, dono da grande propriedade rural, uma
parcela do que produziam na Gleba.
Segundo Domenico De Masi!", embora este novo
regime de trabalho tenha trazido mudanças na sociedade,
as condições dependente e servil ainda se faziam presentes.
A progressiva libertação dos escravos e a sua transformação
em servos de gleba não ocorreram por um ato de
humanidade ou benevolência, uma vez que os servos
passaram a arcar com a própria subsistência e a trabalhar
nos campos do senhor feudal em dias predeterminados e,
quando a doença ou a velhice os incapacitavam para o
trabalho ou mesmo na ocorrência de morte, o proprietário
substituía esses trabalhadores, sem maiores prejuízos.
No período caracterizado como Baixa Idade Média,
a que se estendeu do século XI ao ~ o sistema feudal viveu
um processo de declínio e, mais tarde, outra modalidade
Liderança Cristã Transformadora
140 11-----:.....---.:!:..-..---------------4
Manfred W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

de trabalho passa a dividir o espaço com a agricultura: o


artesanato.
Nessa nova modalidade, as atividades eram
desenvolvidas em grande parte pelos próprios membros da
família, numa atmosfera onde o afeto prevalecia sobre o
racional. O mercado era restrito e a tecnologia rudimentar,
porém todas as etapas do trabalho, incluindo a elaboração
do projeto até o processo de venda do produto, eram
realizados pela oficina do artesanato.
Assim, a agricultura e o artesanato se estabeleceram
como marco do período pré-capitalista, segundo relata Masi,
,(... ) a área rural apinhada de camponeses e as cidades
com suas florescentes lojas e oficinas representarão nos
séculos seguintes a imagem mais difundida do trabalho,
antes que as chaminés, as grandes fiações, os altos fornos
venham modificar profundamente a paisagem urbana,
o imaginário coletivo e as relações sociais. 11
Com a expansão do comércio e o conseqüente
aumento das atividades agrícolas e artesanais, entre os séculos
XVI e XVIII, o trabalho deixou de abrigar características
de subsistência para assumir uma modalidade de produção,
visando especificamente o lucro. Esse processo denominou-
se capitalismo, nele o indivíduo que não possuía capital
vendia sua força de trabalho em troca do salário. 12
O processo de acumulação - que foi acelerado,
principalmente, entre os séculos XVI e XVIII, com a
exploração colonial pela Europa Ocidental - converge na
implantação do sistema fabril, no final do século XVIII, na
Inglaterra, através da canalização de investimentos no setor
industrial.
A chamada Revolução Industrial não consistiu
apenas no emprego da máquina na produção, substituindo

, H
o trabalho e o cuidado do l/der transcultural
Adriana Thomé

o trabalho manual, mas também na ruptura das relações


feudais, que promoveu a separação gradativa do trabalhador
dos meios de produção, no campo e nas manufaturas. O
camponês foi, gradativamente, desapropriado e
transformado em trabalhador livre, obrigado a vender sua
força de trabalho para sobreviver. A apropriação dos meios
e o controle do trabalho passa ao burguês capitalista. Assim,
a relação burguês-trabalhador, no interesse da produção,
faz da força de trabalho uma mercadoria; o trabalho é
apropriado pelo dinheiro, pelo salário, o que Karl Marx'?
denomina de "preço do trabalho". 14
Nesse sistema o capital imprime um caráter
cosmopolita à economia. Aos poucos, desaparece o
isolamento e as nações criam interdependências. Mas o
crescimento burguês foi acompanhado do crescimento
inverso do trabalhador. Houve um progresso econômico
que não foi acompanhado pelo 'progresso social;
conseqüentemente, o proletariado." surgido com a indústria
ficou sujeito a todas as astúcias da burguesia, situação ainda
presente na sociedade do trabalho contemporâneo. O
domínio do trabalho é estabelecido pelo capital e pela
prática da mais-valia 16, que se torna a marca registrada desse
sistema. Essa é a questão fundamental do capitalismo.
Nos processos de produções anteriores, o escravo
(mundo antigo), o servo de gleba e o artesão (Idade Média),
tinham domínio e poder sob seus trabalhos. No capitalismo,
o indivíduo produtor do trabalho não tem mais poder sob
seu produto, ficando à mercê da burguesia a qual fixa regras
de exploração do trabalho, e a lei da oferta e da procura
acaba por se impor como princípio regulador dessa
exploração, gerando indignação e revoltas nos operários.
Em meados do século XIX começam a surgir os primeiros
1421-~....!...----L.--_-----------------'-
Liderança Cristã Transformadora
Manfred W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

grandes movimentos dos trabalhadores na Europa. O


Manifesto Comunista 17 de Karl Marx conclama os
trabalhadores a conscientizarem-se do seu papel na luta
contra a opressão da burguesia e, resultante disso, várias
reivindicações surgiram nesta época tais como: proteção ao
trabalho das mulheres e das crianças; regulamentação da
jornada de trabalho, que ficou reduzida entre oito e dez
horas; direito à assistência médica e hospitalar em caso de
acidentes; e liberdade de expressão na organização.
Concretamente esses movimentos reivindicatórios
dos operários permitiram a conquista de benefícios que
suavizaram, no transcorrer dos séculos seguintes, a exploração
do trabalho pelo capital. As principais conquistas foram:
extensão do direito universal do voto; legitimação de leis
trabalhistas em códigos jurídicos, que colocam o Estado como
elemento de mediação e não de intervenção; assistência
médico-hospitalar, jurídica e previdenciária, extensiva à
família do trabalhador.!" A aquisição desses direitos é
desfrutado até hoje pelos trabalhadores. Diante de todas
estas revoltas, reivindicações e conquistas, surgiu a O.C.T.
(Organização Científica do Trabalho).
3 - ORGANIZAÇÃO CIENTfFICA DO TRABALHO

Estudos desenvolvidos por Frederick W. Taylor'? na


área da organização do trabalho de forma que pudesse
aumentar significativamente a produção. Originou então a
chamada Organização Científica do Trabalho (O.C.T.), a
qual foi difundida a partir de 1910.
A O. C.T. se refere à forma como são estruturadas as
atividades para a realização da produção do trabalho. Cada
organização pode adotar maneiras para que todas as tarefas
sejam executadas obedecendo a regras pré-determinadas,

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o trabalho e o cuidado do lIder transcultural
Adriana Thomé

ou seja, a organização do trabalho determina a divisão do


trabalho e também dos trabalhadores. A divisão do trabalho
engloba a fragmentação de tarefas e a divisão dos homens
implica nas repartições, hierarquias, controle e assim por diante.
Gareth Morgarr" afirma que os estudos de Taylor
visavam à padronização das atividades de trabalho, buscando
a melhor forma de fazê-las. Os funcionários eram controlados
pela organização e também pelo ritmo de trabalho. Este
sistema de trabalho denominou-se taylorismo. Os efeitos
dessa forma de administração eram o aumento da
produtividade e a utilização de trabalhadores não
qualificados, uma vez que estes não precisavam pensar,
estavam submetidos a atender aos interesses do capital, de
modo que desenvolviam um trabalho árduo e repetitivo,
não sendo, entretanto, bem remunerados.
A partir da década de 20, o taylorismo se consolidou,
tanto nos Estados Unidos quanto na Europa, visando o
progresso social pela implementação de novas técnicas. O
processo taylorista exigia,
(...) uma nova postura e uma nova prática tanto de
patrões como de empregados; exigia também um
espírito essencialmente cooperativo, sem conflitos e,
principalmente, sem resistência a nova administração
por parte dos trabalhadores e dos sindicatos. No entanto,
os princípios e as novas formas de gerência propostas
por Taylor tinham um conteúdo fortemente autoritário
e, na sua essência, um poder de aplicação sustentado
muito mais na força e na coerção e muito menos no
convencimento e na busca da adesão dos trabalhadores."
Paralelo a esse processo, Henry Ford22 desenvolveu
a linha de montagem em série, ou seja, uma nova forma de
organização do trabalho científico, a qual foi denominada
Liderança Cristã Transformadora
Manfred W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

fordismo. Esta propõe formas propensas de compensação


aos trabalhadores, como os salários mais altos e benefícios
sociais, por exemplo, até a época inexistentes. Porém, o ritmo
intenso de trabalho a que os operários estavam submetidos
no taylorismo ainda persistia no fordismo, embora este
tentasse ocultar o caráter mecanicista e repetitivo até então
apresentado nas formas de organizar o trabalho. Segundo
Antunes, "compreende-se o fordismo como processo de
trabalho que, junto com o taylorismo, predominou na grande
indústria capitalista ao longo do século :XX. "23
Nesta conjuntura surgiu a escola de Relações
Humanas, tendo como precursor Elton Mayo;" que buscava
ações com objetivos de vencer os desajustes dos trabalhadores
quanto à organização do trabalho. "Assim é possível
reconhecer a importância que os conteúdos psicológicos das
formulações de Mayo tiveram na instauração de estratégias
e técnicas de gestão do trabalho voltadas para elevar a
motivação dos assalariados. "25 Esta motivação estava
vinculada ao suprimento das necessidades dos trabalhadores.
A escola das Relações Humanas organizou o
trabalho em dois fatores: fatores técnicos e fatores humanos.
Os fatores técnicos são caracterizados pela divisão de tarefas;
identificação com a tarefa; significância da tarefa e autonomia
na execução. Já os fatores humanos são caracterizados pela
satisfação das necessidades, motivação, realização e
crescimento pessoal. Fatores, aliás, que foram componentes
importantes para o desenvolvimento da Teoria das
Necessidades Humanas, a qual foi um marco para o cuidado
do trabalhador, tendo como precursor, Abraham Maslow.
No entanto, a partir da década de 70, emergiu uma
nova organização do trabalho, decorrente do avanço
tecnológico, que levou à flexibilização das relações de
o trabalho e o cuidado do lIder transcultural
Adriana Thomé

trabalho, mudando a forma de organizar a produção do


trabalho, momento em que a teoria de Maslow começou a
ser aplicada em grande escala, na área de recursos humanos
das grandes indústrias. Esta nova forma de organizar o
trabalho denominou-se de modelo toyotista, pois permite
ao trabalhador operar com várias máquinas, ao contrário
do que propunha o fordismo.
O toyotismo foi criado pelo engenheiro japonês
Ohno na fábrica Toyota, no Japão pós-45, e possui as
. , .
segumtes caracterísncas:
(...) a produção é voltada para demanda (enquanto o
fordismo conduzia-se pela oferta), é variada, diversificada
.
e pronta para supra o consumo - e este quem
,

aparentemente determina o que será consumido, e não


o contrário, como no fordismo; a produção prevê o
estoque mínimo; o just in time garante o melhor
aproveitamento possível do tempo de produção; o
Kanban é largamente utilizado; o trabalhador é
multifuncional; o trabalho é em equipe (contrariamente
ao caráter parcelar do trabalho no fordismo); a
verticalização característica da concentração das etapas
produtivas no fordismo, agora segue a horizontalização
royorista, que delega, a empresas subconrratadas, a
"terceiras" (daí o termo "terceirização"), a produção de
elementos bãsicos.ê''
Nessa nova organização, a flexibilização no trabalho
é essencial, os trabalhadores necessitam ser multifuncionais
e extremamente qualificados para corresponderem aos
padrões exigidos, resultando numa desigualdade cruel entre
os qualificados e os não-qualificados para o trabalho. Sendo
assim, o sistema toyotista veio contribuir para o desemprego,
principalmente nos países emergentes como o Brasil, onde
a maioria não têm condições de se qualificar, ficando à
Liderança Cristã Transformadora
1461--...:----~---------------...
Manfted W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

margem do campo de trabalho, submetendo-se, muitas vezes,


a trabalhos sem vínculos empregatícios e que não
correspondem à sua vocação.
Todo este contexto do sistema de trabalho capitalista
influencia na vida dos indivíduos que estão inseridos nessa
sociedade e têm implicações diretas também nos trabalhadores
eclesiásticos brasileiros, uma vez que estes estão submetidos
às mesmas leis e diretrizes de trabalho. Por isso, no próximo
tópico será explorada a relação trabalho-indivíduo no
contexto cristão.

4 - O TRABALHO NO CONTEXTO ECLESIÁSTICO

Historicamente, dentro do contexto cristão, o


trabalho foi considerado sob vários prismas. A leitura do
gênesis favoreceu a interpretação pessimista de trabalho
como um "castigo" por causa da desobediência do homem,
mas essa idéia foi atenuada e superada pelo trabalho como
atividade redentora que serve para expiar e reparar o mal
feito, assim foi o pensamento judaico-cristão.
Os cristãos da igreja primitiva, época de Constantino,
viram ainda o trabalho como meio para ajudar a saúde do
corpo e do espírito e como moderador das paixões. Martinho
Lutero?", no século XVI, viu o trabalho como meio de servir
a Deus, o melhor dos meios. Já dentro do calvinismo'"
ortodoxo encontramos a crença de que a riqueza acumulada
pelo trabalho seria uma prova do êxito e sinal da bênção
divina ao empreendimento.
Para Antoncich, teólogo cristão, o trabalho é
apresentado como,
(...) atividade que procede da pessoa, que brota da
interioridade de sua inteligência e de sua liberdade, o
trabalho é expressão de um "projeto", é manifestação de

, H
o trabalho e o cuidado do l{der transcultural
Adriana Thomé

alguns fins e de alguns meios e, portanto, não isento de


valores e exigências éticas. (... ) O trabalho é uma das
"pontes" mais significativas que unem a interioridade
subjetiva (o individual da pessoa) com a exterioridade
social (o social da pessoa). 29
Pelo trabalho a pessoa estabelece uma série de relações
com o mundo, com os outros e com o próprio Deus.
Portanto, pela importância que tem como manifestação da
unidade da pessoa na diversidade de suas relações, o
trabalho serve para definir o ser humano, para caracterizar
sua existência. Pode ser considerado como um índice de toda
atividade humana, uma vez que se partiu do pressuposto
que toda ação humana é um trabalho.
Pelo trabalho o ser humano cresce, desenvolve o
mundo material e também a si mesmo, ou seja, o trabalho é
o meio pelo qual o homem transforma o mundo. Segundo
a conferência episcopal do Equador,
Não há justiça social sem uma concepção moral e
espiritual do trabalho (...) é o trabalho o grande meio
pelo qual o homem é chamado a transformar o mundo
(...) é mediante o trabalho, mais do que qualquer outra
coisa, que o homem muda a sociedade. É também o
trabalho o melhor meio de que o homem dispõe para
melhorar as relações sociais. O trabalho deve ser visto
como uma vocação e uma missão especial, recebida da
natureza e do próprio Deus."
Logo, O .trabalho sob a perspectiva cristã, valoriza o
indivíduo, reintegra-o à sociedade, dá-lhe condições de
exercer a sua vocação com plenitude e ser, conseqüentemente,
um indivíduo realizado.
Sendo assim, a questão de salário é vista como um
direito do cristão que visa a sua subsistência. A Bíblia legitima
Liderança Cristã Transformadora
1481--..!...:..:......:...:....:...:-----:L.------------------+
Manfred W Koh! e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

este direito, ao afirmar que O obreiro é digno de seu salário":".


H

Por isso, lutar pelo direito ao salário significa reivindicar o


direito de viver dignamente como pessoa, e, também,
defender o projeto de Deus para o homem, o qual envolve
fraternidade, justiça e igualdade.
A remuneração do trabalho mostra que se valorizam os
frutos objetivos da atividade humana ou as dimensões
subjetivas de perfeição do ser que trabalha. Numa
palavra, através do trabalho e da sua remuneração justa,
é possível perceber se o projeto de Deus sobre a
fraternidade humana está se realizando ou não. Pode-se
medir se o trabalho é atividade que favorece a comunhão
ou divide os homens."
Os antigos livros da fé, Antigo Testamento e Novo
Testamento, mostram que Deus não está neutro diante do
trabalho alienado e explorador do ser humano, mas que se
coloca ao lado dos oprimidos por causa de um trabalho
desprovido do seu valor humanizante, por exemplo, quando
houve o êxodo do povo que estava sendo explorado no Egito.
Por outro lado, se a fé cristã não for bem articulada,
pode esvaziar-se do seu conteúdo crítico, ético e moral, e
transformar-se numa ideologia que mascara a realidade de
uma situação injusta, tornando-a insípida em seu propósito
e legitimadora das ações injustas do sistema capitalista,
servindo como freio nos momentos de revolta contra as
injustiças, eximindo a função crítica da fé diante da realidade
injusta, uma vez que, leva o trabalhador cristão alienar-se
das questões problemáticas que estão inseridas em seu
contexto social.

, H
o trabalho e o cuidado do l/der transcultural
Adriana Tbomé

5 - O CRISTÃO, A SOCIEDADE E O TRABALHO

O cristão faz parte da sociedade e a influencia por


meio do seu trabalho, partindo do pressuposto que toda
ação humana é um trabalho, independente da remuneração.
Os aspectos da sociedade mais amplos, como economia ou
política, são parte do mundo do cristão. "Deus é ativo na
vida humana no mundo. Sua comunidade política, porque
é

é ativa no mundo que habita. A práxis é a ativa/ação reflexiva


do cristianismo, vivendo, dialogando e causando impacto
no mundo. 33Analisando sob esta ótica pode-se afirmar que
é impossível que um cristão deixe de se relacionar com as
dimensões político-sociais. A identidade cristã na sociedade
requer unir o sagrado ao secular'", ao invés de separá-lo,
pois divisão pode levar os indivíduos a terem uma falsa
concepção da fé cristã. Segundo David Lyon35 , "essa é a
condição de pessoas que são capazes de repetir jargões
evangélicos nos momentos apropriados e de negá-los
simultaneamente com seu estilo de vida, inclusive suas
atitudes com relação aos estudos sociológicos".
Para Renê Padilla'", ser cristão envolve a interação em
todas as esferas da sociedade.
Até muito recentemente, a evangelização feita pelos
cristãos era, em boa parte, "desencarnada", Estava
dirigida para a salvação da alma, mas passava ao largo
das necessidades do corpo. Ela oferecia a reconciliação
com Deus por meio de Jesus Cristo, mas deixava de
lado a reconciliação do ser humano com seu próximo,
que se baseia no mesmo sacrifício de Jesus Cristo. Ela
proclamava a justificação pela fé, mas omitia toda e
qualquer referência à justiça social enraizada no amor
de Deus pelos pobres.
1501--~--.>!.....--_----------
Liderança Cristã Transformadora
Manfred W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

Viver o cristianismo é viver um evangelho que


abrange a sociedade, e não somente a vida privada, mas a
vida pública também, opinando criticamente,
principalmente nas esferas sociais em que vive. Samuel
Escobar-" diz que "missão cristã é a irrupção do reino de
Deus no meio da lristória" . Jesus Cristo entendia sua missão,
como sendo seu trabalho junto à iniciativa divina que está
no mundo em que vivemos, ou seja, os princípios cristãos
necessitam entrar, se tornar e marcar a história, corno afirma
o referido autor:
( ... ) é uma presença transformadora, sanadora,
desafiadora, inquietante, profética, que convoca para
mudança radical e entrega. É uma presença registrada
pelas testemunhas em ações concretas de aproximação
dos pobres, de cura dos enfermos, de ensino dos
ignorantes, de bondade em relação às crianças, de
receptividade dos marginalizados, de perdão dos
arrependidos, de crítica dos poderosos e corruptos. E,
no ponto culminante de tudo isto, de entrega por nossa
salvação.:"

Sendo assim, ser cristão é permitir que suas ações,


seu trabalho, transcorram no espaço e no tempo, em meio a
outros seres humanos, causando impacto e transformação
na sociedade em que está inserido. É admitir sua
responsabilidade frente aos direitos humanos, de maneira
que a sua atenção não será somente com as necessidades
específicas que surgem apenas em situações de emergência,
mas inclui também a crítica de tudo o que se volte contra a
dignidade humana, lutando para que as pessoas gozem de
uma vida digna. Trata-se, portanto, de uma tarefa
permanente que implica trabalhos de informação, reflexão
e formação contínua de valores, a fim de que o cristão exerça
o trabalho e o cuidado do lider transcultural
Adriana Thomé

o cuidado com o seu semelhante em todas as esferas para


que possamos contribuir para uma liderança ética e
transformadora.

6 - TRABALHO CONTEMPORÂNEO E O CUIDADO INTEGRAL

Junto com o capitalismo veio a era do imediatismo,


do descartável, do lucro a qualquer custo e com isso, tornou-
se um desafio ajustar o trabalho ao cuidado integral.
Compreender que eles não são antagônicos, mas interativos,
complementando-se mutuamente e gerando a integralidade
do ser humano, por meio da materialidade e da espiritualidade.
Segundo Leonardo Boff, o rompimento entre o
trabalho e o cuidado é observado desde a era neolítica", há
aproximadamente 10 mil anos, mas foi nos últimos séculos,
principalmente com a industrialização do século XVIII, que
este fato concretizou-se.
(...) pelo menos desde o neolítico, há dez mil anos,
lentamente começou a predominar o trabalho como
busca frenética de eficácia, como afã nervoso de produção
e ânsia incontida de subjugação da Terra. Os últimos
séculos, entretanto, especialmente a partir do processo
industrialista do século XVIII, se caracterizam pela
ditadura do modo-de-ser-trabalho como intervenção,
produção e dominação. O trabalho não é mais
relacionado com a natureza (rnodelaçâo), mas com o
capital... O trabalho agora é trabalho assalariado e não
atividade de plasmação da natureza. As pessoas vivem
escravizadas pelas estruturas do trabalho produtivo,
racionalizado, objetivado e despersonalizado, submetidas
à lógica da máquina...ora, a ideologia latente no modo-
de-ser trabalho-dominação é a conquista do outro, do
mundo, da natureza, na forma do submetimento puro
Liderança Cristã Transftrmadora
1521----~---~----------------------+
Manfred W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

e simples. Esse modo de ser mata a ternura, liquida o


cuidado e fere a essência humana.'?

A forma contemporânea de trabalho afasta o ser


humano de sua essência - do cuidado com o outro e consigo
mesmo - levando-o a um intenso utilitarismo o que,
conseqüentemente, faz o indivíduo eximir as dimensões de
respeito, de amizade genuína e de fraternidade com seus
semelhantes. Por isso, esses valores precisam ser resgatados a
fim de que o ser humano desfrute de toda sua integralidade.
É relevante lembrar neste contexto de trabalho que
a máquina, por mais potente e veloz que seja, não substitui
aquilo que o ser humano possui - os sentimentos. Como
Boff afirma,
(...) Só nós humanos podemos sentar - nos à mesa com
o amigo frustrado, colocar-lhe a mão no ombro... trazer-
lhe consolação e esperança... preocupamos com elas.
Tomamos tempo para dedicar-nos a elas. A categoria
cuidado recolhe todo esse modo de ser. Mostra como
funcionamos enquanto seres humanos."

O autor mostra a necessidade do envolvimento, do


afeto entre os se!es humanos, do cuidado que um deve ter
com o outro; assim, fica clara a importância deste, mesmo
na era digital quando o envolvimento, na maioria das vezes,
não passa da tela do computador.
Desde o início da era industrial, vários estudiosos se
levantaram diante do drama, trabalho e cuidado da
civilização moderna - a qual se fundamentou, principalmente,
no racionalismo e nas técnicas, sendo negligente ao cuidado
humano, em prol do capitalismo, do lucro. Assim, pode-se
perceber a relevância do fator cuidado nas esferas do trabalho
humano, principalmente nas organizações eclesiásticas, as quais
têm como fundamento de sua existência o amor à humanidade.

, u
o trabalho e o cuidado do lider transcultural
Adriana Thomé

7 - ORGANIZAÇÓES ECLESIÁSTICAS

A organização não é um fim em si, mas um processo


que acontece como uma forma de planejamento. Os
conceitos básicos na organização são analisar, identificar e
definir o trabalho a ser feito para que os objetivos sejam
atingidos. É necessário desenvolver a missão, a divisão do
trabalho e as estruturas de recursos humanos e da
organização como um todo.
As organizações eclesiásticas apareceram em prol de
uma demanda para organizar o trabalho eclesiástico. Elas
apresentam pelo menos dois aspectos específicos: a natureza
religiosa dos fins visados pela própria organização e a
estrutura formal e hierárquica que a caracteriza, em sua
maioria, lembrando o sistema taylorista. Algumas organizações
mais ousadas têm disposto de ferramentas toyotistas para
administrar, as quais são ainda bastante refutadas no
segmento eclesiástico, devido à descentralização do poder.
As disciplinas que entroncam com a ciência da
administração e a ciência do comportamento, em geral, têm
analisado as organizações eclesiásticas. Dentro da ciência da
Administração, a abordagem organizacional se dá por meio
da relação que há entre essas organizações eclesiásticas e o
meio em que estão inseridas. Logo, a atenção por parte dessa
.1\, • . , - •

ciencia concentra-se nas mteraçoes existentes entre as


diversas partes da organização eclesiástica - estruturas,
processos, finalidades, comportamentos, sistemas de crenças
etc. - e entre esta e o ccmundo extenor. "42 .
As relações entre o "mundo exterior" e a organização
eclesiástica não se apresentam somente sob o aspecto do
condicionamento que exerce aquele sobre esta, os elementos
intelectuais, materiais, e, mais genericamente, humanos, que
I Liderança Cristã Transformadora

constituem o ambiente em que a organização eclesiástica se


insere, representam, na realidade, um enorme conjunto de
recursos de que ela dispõe para a consecução dos seus
próprios fins.
N o entanto, para a organização alcançar a contribuição
total e efetiva de seus membros, necessita de um entendimento
do comportamento humano e fazer uso da ética. Tanto a
organização como o indivíduo beneficiam-se desse
conhecimento. Assim as ciências do comportamento,
principalmente a psicologia, sociologia e antropologia, têm-se
dedicado a gerar novos conhecimentos sobre o ser humano.
Essas ciências muito têm contribuído para o campo
organizacional, uma vez que buscam o conhecimento do
comportamento humano. Anteriormente, a preocupação
era com problemas de fadiga e outros fatores ligados aos
problemas de condições de trabalho, mas atualmente, a
contribuição dessas disciplinas está mais voltada para o
treinamento, supervisão, estilo de liderança, personalidade,
necessidade, forças motivacionais, desempenho, melhorias
no comportamento do indivíduo dentro da organização,
procurando sempre facilitar comportamentos desejáveis e
desempenhos eficientes.
Diante deste contexto, a prática dos valores éticos e
morais tornam-se imprescindíveis no trabalho cristão e,
principalmente, nas organizações eclesiásticas, uma vez que
estes valores formam os pilares de sua estrutura interna e
externa. Sendo assim, há necessidade de compreender-se
com acuidade as implicações dos valores éticos e morais
nessas organizações.
o trabalho e o cuidado do líder transcultural
Adriana Thomé

8 - VALORES ÉTICOS E MORAIS

Para abordar a questão dos valores éticos e morais


nas organizações se faz necessário, primeiramente, tratar de
algumas concepções da ética e da moral. A palavra ética
vem do grego ethos, que significa analogamente "modo de
ser" ou "caráter" enquanto forma de vida adquirida ou
conquistada pelo homem. Podemos definir ética como uma
norma, aquilo que deve ser. Angelo Cenci define ética da
seguinte forma,
A ética diz respeito mais diretamente a uma reflexão
formal acerca dos princípios que critiquem ou dão
legitimidade ao agir humano. Ela fornece parâmetros
para se optar pelo que fazer. É uma reflexão (...) do agir
e ocupa-se não do ser, como o que é (...)mas do dever
(...). A ética é uma doutrina do teórico, não é uma etiqueta
que se põe e tira. É uma luz que se segue com erros e
acertos e é preciso aprender o bem viver a partir disso. 43
A ética diz respeito mais diretamente a uma reflexão
formal acerca dos princípios que critiquem ou dêem
legitimidade ao agir humano. É uma característica inerente
a toda ação humana e, por essa razão, é um elemento vital
na produção da realidade social, a qual envolve intrinsecamente
o fator trabalho. Todo homem possui um senso ético, uma
espécie de consciência moral, estando constantemente
avaliando e julgando suas ações para saber se são boas ou
más, certas ou erradas, justas ou injustas. Enfim, a realidade
humana é definida pelo permitido e pelo proibido.
No cristianismo a ética é delineada por princípios
bíblicos. É uma ética que tende a controlar o comportamento
dos homens com vistas a um outro mundo - o Reino de
Deus. É permeado nessa ética, que o indivíduo cristão
Liderança Cristã Transformadora
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Manfred W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

constrói sua realidade, luta pelas injustiças e pela sua


dignidade humana e do seu semelhante.
O termo "moral" vem do latim "mos" ou "mores",
"costume", no sentido de conjunto de regras adquiridas por
hábito'". A moral refere-se ao comportamento adquirido
ou modo de ser conquistado pelo homem. É o costume, a
realização da ação. A moral formula juízo de valor. Segundo
Cenci, a moral é constituída de "normas válidas em
determinado contexto. Por isso, tais valores são históricos. A
moral, nesse sentido é histórica, prescritiva e material; diz o
que se deve fazer, como se deve agir em determinadas
situações" .45
Logo, por moral entende-se o conjunto das práticas
cristalizadas pelos costumes e convenções histórico-sociais,
conjunto de normas, valores e regras que caracterizam cada
tipo de sociedade. Tem um forte caráter social, apoiado na
cultura, história e natureza humana. Adquirido como
herança e preservado pela comunidade. No cristianismo os
valores morais são muito zelados, pois estes, juntamente com
a ética, almejam conduzir o comportamento dos indivíduos
na sociedade em que estão inseridos.
A primeira vez que se tratou formalmente sobre o
comportamento ético e moral das organizações foi na
encíclica Rerum N ovarum 46, do Papa Leão XIII. Este
documento papal trouxe no seu bojo princípios éticos
aplicáveis nas relações entre a empresa e empregados,
valorizando orespeito aos direi tos e à dignidade dos
trabalhadores.
Os valores éticos e morais são os alicerces de uma
organização e também o seu espelho. É através destes que se
pode identificar o perfil de uma organização. Por isso é
relevante que se aborde a função da ética nas organizações.

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o trabalh.o e o cuidado do lider transcultural
Adriana Thomé

o papel da ética é explicar, esclarecer ou investigar


uma determinada realidade, elaborando os conceitos
correspondentes. Já a função teórica da ética é a de evitar,
exatamente, torná-la ou reduzi-la a uma disciplina normativa
ou pragmática. O valor da ética como teoria está naquilo
que explica e no fato de recomendar ou prescrever com
vistas à ação em situações concretas. Exemplo: ela não diz
em que situações devemos fazer o bem, mas o que é o bem e
porque é um valor fundamental para a pessoa. Da mesma
forma em relação à justiça, respeito, liberdade, equidade e
fraternidade.
A ética organizacional tem sido entendida sob
diversas concepções. Maximiano define a ética como,
(.•.) disciplina ou campo do conhecimento que trata da
definição e avaliação de pessoas e organizações, é a
disciplina que dispõe sobre o comportamento adequado
e os meios de implementá-lo, levando-se em consideração
os entendimentos presentes na sociedade ou em
agrupamentos sociais particulares. 47
Agindo eticamente a organização pode estabelecer
normas de condutas para seus membros, exigindo que ajam
com lealdade e dedicação, pois os procedimentos éticos
facilitam e solidificam a parceria desses membros. Essas
implicações éticas e morais são imprescindíveis para uma
liderança transformadora, pois sem elas nos depararemos
com líderes abusivos, que segundo Ken Blue'";
(... ) exibem sua piedade e cobiçam posições, títulos e
cargos porque eles fazem tudo "para serem vistos dos
homens". Os líderes abusivos geralmente usam as
palavras de forma enganosa e para serviço próprio. Eles
não falam para comunicar, mas para confundir,
manipular e intimidar.
158 1- --:-.-- --=-- - - - - - - - - - - - ------..
Liderança Cristã Transformadora
Manfted W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

Este estilo de liderança não se preocupa com o


cuidado integral do seu semelhante, mas somente com seu
próprio cuidado, ou seja, suas metas, estratégias e ações são
pautadas em lucros, aparências e status, jamais dando
prioridade ao cuidado àqueles que estão sob sua
responsabilidade. Isso demonstra que há uma inversão de
valores éticos e morais, pois uma liderança saudável
preocupa-se consigo e com o seu semelhante.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A realização do presente estudo possibilitou a


estruturação de algumas conclusões acerca de alguns aspectos
relevantes que impulsionam a liderança cristã brasileira a se
posicionar de forma incisiva diante da forma desumana que
muitos trabalhadores eclesiásticos vêm sendo tratados.
Ao escolher esta temática, sabia-se dos desafios a
serem enfrentados, por se tratar de abordagens pouco
divulgadas na área eclesiástica. No entanto, foi devido a esses
mesmos desafios que estímulos e forças foram gerados para
prosseguir e conduzir o desenvolvimento da pesquisa.
Assim proponho algumas considerações emergidas
a partir de uma reflexão interdisciplinar, a qual permite a
correlação entre a perspectiva teórica sobre o trabalho e o
cuidado dentro de uma teologia prática.
1. Quanto aos trabalhadores eclesiásticos
A partir do pressuposto que o ser humano é criatura
de Deus, não se pode eximir as necessidades que seu próprio
Criador gerou, ou seja, Deus criou o homem com
necessidades físicas, emocionais e espirituais -
biopsicossociais e espirituais; logo, convencer o indivíduo
de que estas necessidades podem não ser supridas em prol
o trabalho e o cuidado do l/der transcultural
Adriana Thomé

de uma causa divina é negar a própria origem da criação.


Assim fica nítido que a privação das necessidades humanas
"não é o preço a pagar pela causa de Cristo, mas sim, pela
causa dos detentores do poder eclesiástico, os quais legitimam
suas ações iníquas e mesquinhas com o nome de Deus,
usurpando a dignidade dos mais fracos em prol do
fortalecimento da instituição." Podemos verificar isso no
livro de Ezequiel, quando houve descrição do trabalho dos
pastores no Antigo Israel. Neste, Deus chama seus líderes
para uma avaliação de desempenho e os reprova. "Ai dos
pastores de Israel que se apascentam a si mesmos! Não
apascentarão os pastores as ovelhas? Comeis a gordura, vestis-
vos da lã e degolais o cevado; mas não apascentais as ovelhas.
A fraca não fortalecestes, a doente não curastes, a quebrada
não ligastes, a desgarrada não tornastes a trazer e a perdida
não buscastes; mas dominais sobre elas com rigor e dureza.
Assim se espalharam por não haver pastor, e se tornaram
pasto para todas as feras do campo.V
A Bíblia deixa nítido que a prioridade para Deus são
as pessoas e não a importância do cuidado ao ser humano.
- Deus não exige uma vida de mártir do ser humano,
ele exige que sua criação se ame em primeiro lugar para
depois amar o seu semelhante. Isso significa que é incoerente,
determinar que o trabalhador eclesiástico cuide dos seus
semelhantes sem se cuidar primeiro. Este cuidar envolve o
suprir suas necessidades.
Creio que quando os trabalhadores eclesiásticos se
conscientizarem da sua natureza humana, as barreiras e os
receios de expressarem suas necessidades sem o sentimento
de "ser menos espiritual", ou de "estar mais longe de Deus"
se romperão e esses poderão expressar suas alegrias e suas
dores sem medo. E conseqüentemente o receio de confrontar
160 1------=-------"--------------------
Liderança Cristã Transformadora
Manfred W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

os órgãos responsáveis diante da falta do suprimento das


necessidades no campo de trabalho também tende a ser
rescindido.
2. Quanto às organizações eclesiásticas
Há uma tendência à impessoalidade organizacional,
esta posição faz as organizações perderem o propósito de
existirem em prol da humanidade e se tornam apenas
organizações burocráticas que necessitam cumprir regras e
normas para continuarem existindo.
Dentre as ações práticas de cuidado citadas para
contribuir com o cuidado dos trabalhadores eclesiásticos
brasileiros, cabe ressaltar a importância da profissionalização
destas organizações. O conceito de que o sagrado não pode
interagir com o secular, uma vez que este "não tem nada de
puro, de santo, de aproveitável" é um conceito medíocre.
Essa crise entre o sagrado e o secular muitas vezes só traz
muitas conseqüências desastrosas para a prática cotidiana
do trabalho eclesiástico. Este conceito fere os princípios
bíblicos enquanto prática cristã, pois tende a conduzir ao
sectarismo, e ao retraimento social. Assim sendo, as ferramentas
oferecidas por outros grupos que não compartilham da
mesma profissão de fé, tendem a ser refutados pelas referidas
organizações, trazendo implicações desfavoráveis quanto ao
cuidado integral do trabalhador eclesiástico.
Poder-se-ia, dizer que, deste quadro há mudança
possível? Acredito que sim, uma vez que a temática na qual
se envolvem as necessidades humanas é por demais
profunda. Acredito que estas considerações não se findam e
nem é minha intenção fazê-lo, pelo contrário, é meu objetivo
levantar questões que estimulem inquietações capazes de
motivar novas investigações sobre a temática, para

. H ·1·· ,OI " 'I


otrabalho eocuid4d0 do 'Itilr transcultural
• Adría1l4 ThomI 1161

proporcionar àliderança eclesiástica brasileira pontos


importantes aserem refletidos eanalisados.
Desejo que aconcretização deste capítulo venha
contribuir para o cuidado do trabalhador eclesiástico
brasileiro. Sob esta perspectiva, concluo oreferido estudo,
não no sentido de ter esgotado este campo de conhecimento,
mas antes de tudo abrindo espaço para que futuros estudos
aconteçam eaprofundem as questões surgidas no decorrer
do mesmo. Epara finalizar deixo este texto Eldman F. Eler,
(...) para o cristianismo, aliberdade éuma das mais
importantes garantias da cidadania em sua plenitude,
intrínseca ao ser humano criado por Deus. Não há direito
mais sagrado na terra do que oda liberdade civil, social
ou do pensamento. Ser livre éser pessoa. Não ser livre é
ser escravo, é ser qualquer coisa (rés), menos ser
personalidade digna de si mesma. 50
Liderança Cristã Trans vrmadora
162 I---~!....--_----"----------------------+
Manfred W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

NOTAS

1 http://www.psicologia-online.com/ebooks/personalidad/maslow.htm <
acessado 22/02/2005 às 22: 10h >
2 Abraham Maslow, Diário de Negócios de Maslow, 2003.

3 Cíntia Myuki Oda, Representando Deus nas Organizações, 2005.


4 http://www.membercare.org/webmembcahistorymcsummonl.asp <

acessado 21/0312005 as 13:30h >


5 O programa do COMIBAM tem por objetivo ajudar os movimentos
missionários na Iberoamérica a desenvolver recursos para o cuidado pastoral
em seus próprios paises através de literatura, consultas e comunicação e
compartilhamento de experiências. Em outubro de 2000, a primeira consulta
continental sobre o cuidado pastoral aconteceu em Lima, Peru.
6 Kelly O'DoneII. O Cuidado Integral do Missionário, p. 59.

7 Idem, p.140

8 Edith Seligmann-Silva, Desgaste Mental no Trabalho Dominado, p.46.

9 A palavra feudalismo ou sistema feudal foi o modo de organização da vida em


sociedade que caracterizou a Europa durante grande parte da Idade Média.
Originou-se da palavra feudo que significa propriedade. Um feudo podia ser
uma área de terra, um cargo, uma função eclesiástica ou o direito de receber
alguma vantagem. Mas, quase sempre, o feudo era uma extensão de terra,
concedida a alguém como benefício, em troca de serviços.( OLIVEIRA, Carlos
R História do Trabalho. São Paulo: Ed. Ática, 1987. P.48).
10 Domenico DE MASI, O futuro do Trabalho, Fadiga e Ócio na Sociedade

Pós Industrial P. 87.


11 Idem, p.108

12 Salário significa remuneração em dinheiro recebida pelo trabalhador, por

meio da venda de sua força de trabalho. Costuma-se incluir também como


parte integrante do salário vestimentas e calçados especiais, alimentação e
transporte que a organização coloca à disposição do empregado. Também
fazem parte do salário os benefícios sociais. Estes incluem os auxílios-doença, o
abono familiar, os seguros de vida etc. Embora tenha havido trabalhadores
assalariados em outros períodos da história, foi com o advento do capitalismo
que o salário se tornou a forma dominante de pagamento da mão-de-obra. (
Dicionário de Administração e Finanças. Paulo Sandroni. 3a ed. São Paulo:
Ed. Nova Cultural, 2003 (p. 462-463 ).
13 Karl Marx nasceu numa família de classe média. Seus pais tinham uma

longa ascendência judaica, mas tiveram que se converter ao cristianismo em


função das restrições impostas à presença de judeus no serviço público. Seu

,H "I' d '. I ~ I
o trabalho e o cuidado do "der transculrural
Adriana Thomé

tio, Lion Philips, fundou a empresa Philips. Karl Marx foi idealizado! de uma
sociedade com uma distribuição de renda justa e equilibrada, o economista,
cientista social e revolucionário socialista alemão Karl Heinrich Marx, nasceu
na data de 05 de maio de 1818 e morreu em Londres a 14 de Março de 1883,
em Trier, cursou Filosofia, Direito e História nas Universidades de Bonn e
Berlim e foi um dos seguidores das idéias de Hegel. Em 1867 Marx publicou
o primeiro volume de sua obra mais importante: O Capital. É um livro
principalmente econômico, resultado dos estudos no British Museum, tratando
da teoria do valor, da mais-valia, da acumulação do capital etc. Também escreveu,
entre outras obras, em 1848 o Manifesto Comunista o qual mais tarde ficou
conhecido como a teoria marxista. (PALMER, Michael D. organizador.
Panorama do Pensamento Cristão. Rio de Janeiro: CPAD, 2001, p.30).
14 Karl MARX, O capital: crítica da economia política, p.273

15 Proletariado vem do latim proletariu, cidadão pobre, útil apenas pela prole,

pelos filhos que gerava. Por isso convencionou-se chamar de proletariado ao


trabalhador que desempenhava suas atividades junto à fábrica ou à indústria,
e recebia uma determinada retribuição por isso. (Aurélio Buarque de Holanda
Ferreira. Novo dicionário de Llngua Portuguesa. 2 a ed. Revista e aumentada.
Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 1986).
16
0 termo "mais-valia" e "salário" não são sinônimos. No capitalismo, o trabalho
é mercadoria que produz valor. O princípio dessa condição é que o trabalhador
seja livre para vender a sua força de trabalho a quem quiser. O que regulariza
essa venda é um contrato de trabalho, mediante este o trabalhador dispende
energia para produzir em troca da remuneração - o salário. E esta deve
corresponder às necessidades materiais e culturais do trabalhador. Porém isso
não acontece, dando vazão à "mais valia", ou seja, a diferença entre o que o
trabalhador produz e o que ele recebe, é a mais-valia, uma vez que produz mais
do que ganha. Esta mais-valia é o elemento mais importante na exploração
capitalista, na exploração humana. (MARX, Karl. O Capital: crítica da economia
política. São Paulo: Nova Cultural, 1996. E30S).
17
0 Manifesto Comunista era a revolucionária teoria de Marx, fundada em
1847, que afirmava que a única forma de alcançar uma sociedade felize
harmoniosa seria com os trabalhadores no poder. Em parte, suas idéias eram
uma reação às duras condições de vida dos trabalhadores no século XIX, na
França, na Inglaterra e na Alemanha. Os trabalhadores das fábricas e das minas
eram mal pagos e tinham de trabalhar muitas horas sob condições desumanas.
Marx estava convencido que a vitória do comunismo era inevitável. Afirmava
que a história segue certas leis imutáveis, à medida que avança de um estágio a
outro. Cada estágio caracteriza-se por lutas que conduzem a um estágio superior
de desenvolvimento. O comunismo, segundo Marx, é o último e mais alto
Liderança Cristã Transformadora
164 1 ---------==-----
Manfred W Kohl
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e Antonio Carlos Barro (Orgs.)
- - - - - - - -----

estágio de desenvolvimento. (Dicionário de Ciências Sociais: Fundação Getúlio


Vargas. Instituto de Documentação; Benedicto Silva. coordenação geral. Rio
de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1986. E717.).
18 Benedicto Silva, Dicionário de Ciências Sociais. 1986.

19 Frederick Winslow Taylor (1856-1915). o fundador da Administração

Científica. nasceu em Filadélfia. nos Estados Unidos. Veio de uma família


"quaker" de princípios rígidos e foi educado dentro de uma mentalidade de
disciplina, devoção ao trabalho e poupança. Em seus primeiros estudos, teve
contado direto com os problemas sociais e empresariaisdecorrentes da Revolução
Industrial. Iniciou sua vida profissional como operário, em 1878, na Midvale
Steel Companhia, passando a capataz, contramestre. chefe de oficina, e a
engenheiro em 1885. (www.wikipedia.org/wik.ilFrederick_Winslow_Taylor
< acessado em 28/06/2005 as 8:30h».
20 Gareth Morgan, Imagens da Organização, 1996.

21 Maria da Graça DRUCK, Terceirização, p.47.

22 Henry Ford (1863-1947) foi empresário norte-americano, pioneiro da

industria automobilística e que inovou os processos de produção da linha de


montagem na fabricação em série de automóveis. Originário de uma família de
agricultores de Michigan, nos EUA, tornou-se mecânico aos 16 anos. Em
1903 fundou a Ford Motor Company.O desenvolvimento desta linha de
montagem foi baseado no princípio de que cada empregado deveria ser
especializado somente num tipo de tarefa. denominou-se fordismo. (Diciondrio
de Administração e Finanças. Paulo Sandroni. 3 a ed. São Paulo: Ed. Nova
Cultural, 2003.p.192).
23 Ricardo ANTUNES, Adeus ao Trabalho. pA7.

24 Elton Mayo (1880-1949) é australiano radicado nos EUA. psicólogo, um


dos fundadores daEscola de RelaçõesHumanas e um dos críticos das concepções
de Taylor. Mayo defendeu a teoria de que os fatores economia. especialmente
os salariais, era menos importante que os fatores emocionais. as atitudes e os
padrões sociais existentes entre os trabalhadores. Também defendia que a
autoridade deveria ser cooperativa por parte dos trabalhadores e não mais com
uma obrigação, como era imposto pelo sistema taylorista. (Diciondrio de
AdministraçãoeFinanças. Paulo Sandroni. 3a ed. São Paulo: Ed. Nova Cultural,
2003. P. 305).
25 Edith Selígmann-silva, Desgaste mental no Trabalho Dominado, P.47.

26 Sidartha S. SILVA, Reestruturação produtiva, p.35.

27 Maninho Lutero Precursor da Reforma Protestante na Europa, Lutero

nasceu na Alemanha no ano de 1483 e morreu em 1546. Em 1507, ele foi


ordenado padre, mas devido as suas idéias que eram contrárias às pregadas pela
igreja católica, ele foi excomungado.

I ,41, 11, 't ,'Il '·11 IIII~' ,1111 I I' I


o trabalho e o cuidado r.ÚJ lider transcultural
Adriana Tho71'lé

Sua doutrina, salvação pela fé, foi considerada desafiadora pelo clero católico,
pois abordava assuntos considerados até então pertencentes somente ao papado.
Contudo, esta foi plenamente espalhada, e suas inúmeras formas de divulgação
não caíram no esquecimento, ao contrário, suas idéias foram levadas adiante e
a partir do século XVI, foram criadas as primeiras igrejas luteranas, Apesar do
resultado, inicialmente o reformador não teve a pretensão de dividir o povo
cristão, mas devido à proporção que suas 95 teses adquiriram, este fato foi
inevitável. Para que todos tivessem acesso às escrituras que, até então, encontrava-
se somente em latim, ele traduziu a Bíblia para o idioma alemão, permitindo a
todos um conhecimento que durante muito tempo foi guardado somente
pela igreja (PALMER, Michael D .organizador. Panorama do Pensamento
Cristão. Rio de Janeiro:CPAD,2001 , p.132).
28 O calvinismo foi uma doutrina originada nos textos João Calvino, um dos

principais reformadores protestantes. Calvino nasceu aos de 10 de julho de


1509 na França, era advogado. Na escola de Calvino, em Genebra, receberam
instruções os fundadores da Igreja Presbiteriana. Ele tentou transformar Genebra
num Estado de fé calvinista. Queria criar uma teocracia - forma de governo em
que à autoridade, emanada dos deuses ou de Deus, é exercida por seus
representantes na Terra. Assim, estabeleceu leis que foram dirigidas por suas
doutrinas religiosas, abriu escolas, estimulou o comércio exterior, proibiu jogos
de azar, alcoolismo, danças e outros. As idéias de Calvino ajudaram em medida
o desenvolvimento do capitalismo, pois dizia que o predestinado deveria poupar,
ao contrário do catolicismo que condenava até a usura. Max Weber em A Ética
Protestante e o Espírito do Capitalismo explana bem essa aliança entre
calvinismo e capitalismo. João Calvino morreu em 27 de maio de 1564.
(PALMER, Michael D. (org.). Panoramado Pensamento Cristão. Rio de Janeiro:
CPAD, 2001, p.86).
29 Ricardo ANTONCICH & Jose SANS. Ensino social da igreja, p.l 03

30 Conferência episcopal do Equador. Justiça social agosto de 1977 (Marins,

doc. 105, p.956).


31 Bíblia de Estudo Vida Nova. I Timóteo 5: 18.

32 Ricardo ANTONCICH & Jose SANS, Ensino social da igreja, p.l05.

33 Michael D. PALMER, Panorama do Pensamento Cristão, p.31l.


34 O termo secular foi usado originalmente, na esteira das Guerras de Religião,
para indicar a perda do controle de territórios ou propriedades por parte das
autoridades eclesiásticas. No direito Canônico, o mesmo termo passou a
significar o retorno de um religioso ao mundo. Por isso têm a visão distorcida
no cristianismo de que as coisas seculares são profanas (BERGER, Peter, O
DosselSagrado: elementos para uma teoria sociológica da religião; tradução
José Carlos Barcellos. São Paulo: Paulus, 1985. :P.118).
Liderança Cristã Transftrmadora
1661~-~-------L.------------~
Manfred W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

35 David Lyon, O Cristão e a sociologia, p.9


36 René Padilha, Missão Integral, p.27.

37 ESCOBAR, Samuel. Missão Cristã e Tramfirmação Social, p. 61.

38 Idem. p. 63.

39 Neolítica é também chamado de idade da pedra polida, é o período da pré-

história compreendido aproximadamente entre 12000 a.C. e 4000 a.C.


Durante este periodo surgiu a agricultura, o que permitiu às populações um
aumento do tempo de lazer, devido à disponibilidade de alimento. A necessidade
de armazenar os alimentos e as sementes para cultivo levou à criação de peças
de cerâmica, que foram gradualmente ganhando fins decorativos. Por outro
lado, a fixação inerente à agricultura provocou o desenvolvimento da vida em
sociedade e o avanço cultural. Foi neste período, que foram assentes as bases
para a civilização em que hoje vivemos.Também foi aqui que começou a
domesticação de animais - cabra, boi, cão, dromedário, etc. (http://
gl.wikipedia.org/wiki/Neo acessado < 12/05/2005 as 14:30h ».
40 Leonardo BOFF, Saber Cuidar, p. 97.

41 Idem, p.99.

42 Mundo exterior é uma expressão usada para designar todas as ciências,

valores e princípios que não surgiram dentre o meio cristão, ou seja, que estão
fora dos parâmetros cristãos. Os quais podem influenciar a vida cristã dos
indivíduos e a vida organizacional eclesiástica, uma vez que dialoga
constantemente com valores do cristianismo.
43 Angelo Vitório CENCI, O que é ética, p. 46.

44 Angelo Vitória CENCI, O que é ética, p.46.

45 Idem, p.46.

46 Rerum Novarum é uma Carta Encíclica do Papa Leão XIII Sobre a condição

dos operários publicada em 15 de maio de 1891. Esta carta defendeu o dever


do Estado em garantir os direitos dos operários, entre os quais sublinha a
importância do seu direito de criar sindicatos para reivindicar a realização de
seus legítimos interesses. Leão XIII não só rejeita o socialismo e responsabiliza o
capitalismo pela questão social, mas propõe uma verdadeira política social que
inspirou toda política social e trabalhista contemporânea.(http://
www.dhnet.org.br/w3/maise/teologia.html acessado em 03/07/2005 as
21: ISh ).124 Antonio C. Maximiano, Teoria Geral da Administração, p.48.
48 Ken BLUE, Abuso Espiritual p.84.

49 Bíblia de Estudo Vida Nova. Ezequiel Cap.34: 2-5.162 Eldman F. ELER

& Saulo ALMEIDA, Carta de Princípios, 2003.

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I
INTRODUÇÃO

A igreja é aquilo que o seu pastor é. De uma maneira


real, do mesmo modo com que Adão foi criado à imagem e
semelhança de Deus, e Caim à imagem de Adão, as pessoas
a quem servimos são formadas à "nossa imagem". Para mim,
este princípio de nossa reprodução nos outros é um dos
aspectos mais críticos no que representa ser um líder.
Queiramos ou não, nossas vidas influenciam a maneira de
pensar, sentir e atuar de outros ao nosso redor.
Creio que toda pessoa é, de alguma maneira, líder
de alguém; de forma voluntária ou involuntária. Em algum
lugar, alguém mais está seguindo nossas trilhas. O pai influi
em seus filhos com sua presença ou sua ausência. As mães
marcam as vidas de seus filhos para o bem ou para o mal. O
professor ou a professora deixam implantado em seus alunos
conceitos e sentimentos que os acompanham para o resto
de suas vidas. Até os companheiros de classe ou vizinhos
influenciam no desenvolvimento da identidade dos demais
com suas atitudes de aceitação ou desprezo. -~
Se ser líder ~ influenciar pessoas, então como
influenciamos é de suma importância, não apenas no âmbito
eclesial como também em nossa sociedade. Para ser líderes
com uma influência positiva, necessitamos de uma formação
para a liderança que esteja embasada nos princípios bíblicos,
os quais podem ser aplicados até mesmo no seio familiar. A
igreja, sem dúvida, acompanha a família complementando
a formação para a liderança, mas não é a primeira
responsáveL Daí, creio que a igreja necessita ser intencional
em modelar e ensinar as famílias, com clareza, sobre o que é
ser um bom líder, conforme os princípios do reino..
170 1- - :.. . --- - - - ""-- - - - - - - - - - - - -
Liderança Cristã Transformadora
Manfred W:" Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

Para ajudar a formar bons líderes a igreja necessita


desenvolver uma clara filosofia de liderança e integrá-la
intencionalmente à vida e cultura da congregação. Somente
assim poderá ser um agente de transformação em um mundo
que, per si, tem princípios que vão contra os preceitos do
reino de Deus. Esse capítulo é um esboço de minha filosofia
de liderança e, por conseqüência, o impacto que essa tem
em minha concepção de ministério, o qual é, na prática,
um fiel reflexo daquilo que sou e creio.

1 - UMA QUESTÃO DE SEMÂNTICA?

Quem é um líder? Muito se tem escrito sobre o tema


e as definições, portanto, são também múltiplas e variadas.
"O líder não nasce feito, faz-se", dizem alguns. Outros crêem
que o mundo está dividido em dois grupos: os que lideram,
e os que seguem. Por observação e convicção, conclui-se que
todos somos, em algum momento da vida, ambos: líderes e
seguidores.
Para mim, desde o instante em que uma pessoa exerce
influência sobre outra, ela a lidera, ainda que seja em um
aspecto de esfera mínima. Certo é que nem toda pessoa é
visionária, hábil no trato com as demais, ou ousada o
suficiente para empreender projetos e guiar um grupo para
o cumprimento da visão; mas todos influenciamos outros
(positiva ou negativamente). A capacidade para a liderança
diz respeito à nossa efetividade e esfera de influência e não
se somos, de fato, líderes ou não. Pode-se conceber que nem
todos têm a mesma habilidade para liderar nem que
alcancem o mesmo nível que outros, porém, há de se
reconhecer que todos influenciamos alguém em alguma
situação corrente.

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Filosofia ministerial de liderança
Javier G. Veldsquez Jaramillo

2 - A NATUREZA DE MEU CHAMADO

Quando se trata de liderança, creio que o que faz


diferença entre duas pessoas não é se uma delas é líder e a
outra não e sim, a natureza do chamado que cada uma tenha
recebido. O tipo de chamado que tenhamos recebido
determina a natureza e a esfera de influência do nosso serviço.
Nem todos possuem um chamado ministerial específico
(como para o pastorado), entretanto, todos são chamados
para servir. Uns servem em um nível maior e de grande
alcance, outros servem em nível e esfera de menor influencia;
mas todos servem de alguma forma.
Particularmente, creio que meu principal chamado
como líder está na comunhão com o Senhor: "Depois, subiu
ao monte e chamou os que ele mesmo quis, e vieram para
junto dele. Então, designou doze para estarem com ele e
para os enviar a pregar" (Mc 3: 13-14).
Creio que meu chamado é primeiramente a uma
pessoa e, logo, a uma tarefa (a qual envolve pessoas). Cada
vez que inverto essa ordem em minha vida, sinto a diferença
na força interior que motiva e dinamiza tudo o que sou e o
que faço'. O "sabor" e o "impulso" em minha liderança se
vêem alterados por tratar de "ir e pregar" (cumprir a tarefa
requerida) sem haver primeiramente "estado com ele"
(priorizando o cultivo de uma devoção a Cristo e a vida
interior).
Todavia, em segundo lugar, meu chamado consiste
no "ide e pregai", em cumprir uma tarefa encomendada. A
natureza do chamado em minha vida define a esfera de
serviço e dá rumo ao que decido fazer ou não. É a bússola
que me mantém na direção certa. Sem dúvida, meu chamado
opera em uma esfera mais ampla que é a do reino de Deus;
Liderança Cristã Transformadora
172 1
- ------::- - --"--- - - - - - - - - - - - ----4
Manfred W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

mais do que isso, partindo da igreja como instrumento do


reino. Creio que junto com o chamado de Deus em minha
vida me é dada a competência necessária para cumprir a
tarefa encomendada: "E a graça foi concedida a cada um
de nós segundo a proporção do dom de Cristo. Por isso, diz:
'Quando ele subiu às alturas, levou cativo o cativeiro e
concedeu dons aos homens" (Ef 4.7-8), e ainda: "Segundo
a graça de Deus que me foi dada, lancei o fundamento como
prudente construtor; e outro edifica sobre ele. Porém cada
um veja como edificá" (ICo 3.10).

3 - fUNDAMENTOS PARA A LIDERANÇA

A. Minha familia
O que vem primeiro? O ministério ou a família? A
pergunta em si mesma representa uma dicotomia de
pensamento que não deveria existir na vida do líder. Família
e ministério estão intimamente ligados. Um é a extensão do
outro. Creio que se meu matrimônio ou a relação com meus
filhos não está bem (especialmente se é por negligência
minha), não tenho autoridade moral para cuidar "da casa
de Deus", nem nada para oferecer a outros em meu
ministério (l Tm 3.4-5). Não é possível exercer uma liderança
eficaz se não sei liderar minha casa primeiramente.
Também é certo que, a natureza mesma do ministério,
na' maioria dos casos, leva consigo certas limitações ou
privações até à família e que outros filhos de pais que possuem
outros chamados não são obrigados a experimentar. Estas
limi rações são sacrifícios que formam parte de nosso
chamado. O desafio é manter um equilíbrio entre as
demandas do ministério e a necessidade de cuidar bem da

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Filosofia ministerial de liderança
[aoier G. Veldsquez Jaramillo

família. Uma família saudável é um dos principais


fundamentos para um ministério saudáveF.
B. Minha missão
1. No geral
Como disse antes, a recomendação de Deus em
minha vida é o fundamento do que faço como líder. Minha
missão na vida, depois do "estar com Jesus", consiste na
expansão do reino a partir da igreja, para a glória de Deus.
Minha paixão ministerial é a igreja. Para mim, tudo
parte de e termina na igreja local, como agente do reino de
Deus". Acredito na formação de líderes e estou
comprometido com isto. Creio em missões e faço parte do
COMIBAM (Cooperação das Missões Ibero-Americanas),
no Paraguai. Porém, nenhuma dessas coisas possui sentido
nem um marco referencial estando alheias à igreja. Jesus
prometeu que edificaria sua igreja (Mt 16.18) e, com isso,
definiu sua centralidade na expansão de seu reino na terra.
Tudo que faço é, em última instância, para a igreja. Não há
ambiente mais propício para a prática da liderança.
A pressuposição é que a meta última (suprema) da
vida é a glória de Deus. A mesma igreja, a liderança, o que
sou e faço, existem para que Deus receba a glória. Nesse
sentido, creio que a igreja se converte em um instrumento
para um fim maior e não é o fim em si mesma.
2. No particular
Minha missão na vida engloba a contribuição para o
desenvolvimento de uma igreja em meu país, Paraguai e
que cada crente seja capacitado por Deus, de maneira que
chegue à plenitude daquilo para o quê Deus o criou e remiu.
A partir da igreja, minha missão envolve a parceria
na transformação da maneira de pensar de meus
Liderança Cristã Transformadora
174 1- Manfred
- =------ ------"-- - - - - -
W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)
- - - - - - ----+

contemporâneos, de modo que esta se ajuste aos princípios


do reino de Deus e produza, como fruto, uma mudança
radical da realidade nacional, para a glória de Deus: "O
reino dos céus é semelhante ao fermento que uma mulher
tomou e escondeu em três medidas de farinha até ficar tudo
levedado" (Mt 13.33).
No Paraguai, as ferramentas que Deus tem me
oferecido são:
• o pastoreio de uma igreja em Luque, que serve
como modelo do que ensino e creio.
• a direção de um programa de atualização
ministerial, tendo total apoio da Associação de Pastores
Evangélicos do Paraguai (a única associação que agrupa os
pastores no país).
• minha participação no COMIBAM - Paraguai.
Fora do Paraguai, as ferramentas que Deus tem me
oferecido são:
• ensino e treinamento de pastores.
• acampamento (retiro) para casais.
• pregação nas igrejas.
C. Minha visão
Minha visão é uma resposta ao contexto a que
pertenço (nacional ou continental), partindo da missão
encomendada por Deus, e é fruto da minha concepção
bíblica, da vida e do ministério. Minha visão reflete a
cosmovisão e a compreensão que tenho da realidade.
Em nível local, minha visão consiste no crescimento
da igreja que pastoreio, de maneira que esta seja um agente
de impacto transformacional na cidade e sirva de modelo
motivador para que outros pastores e líderes anseiem
também ser agentes de transformação, para a glória de Deus.
Filosofia ministerial de liderança
[auier G. Veldsquez Jaramillo

Nacionalmente, procuro aproveitar o programa de


formação ministerial que dirijo no país para servir e
influenciar os servos e servas do Senhor, de tal modo que
estes sejam, primeiramente, agentes de mudanças em suas
igrejas e na sociedade da qual fazem parte.
Quanto à esfera continental, minha visão é a de
aproveitar as oportunidades que tenho para ensinar líderes
em outros países a fim de que transmitam esses princípios e
busquem também ser agentes de transformação para a
expansão do reino e para o louvor de sua glória (Cf. Ef 1:6).

4. QUALIDADES FUNDAMENTAIS .DE UM BOM~tfDER

A missão e a visão, sem um instrumento idôneo,


podem alcançar um topo. A partir de então, creio que seja
vital cuidar da classe de líder que sou e da classe de líder que
ajudo a formar. Poderia enumerar uma lista grande de
qualidades que considero as mais importantes e que todo
líder deveria desenvolver em sua- vida. Pretendo, não
obstante, mencionar apenas quatro delas por considerá-las
de suma importância:
a) Paixão pela glória de Deus
O apóstolo Paulo escreve: "Bendito seja o Deus e Pai
de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos abençoou com toda
sorte de bênçãos espirituais, nos céus, em Cristo. Nele ele
nos escolheu antes da fundação do mundo, para sermos
santos e irrepreensíveis diante dele no amor. Ele nos
predestinou para sermos seus filhos adotivos por Jesus Cristo,
conforme o beneplácito da sua vontade, para louvor e
glória de sua graça com a qual ele nos agraciou no Amado"
(Ef 1.3-6).
Liderança Cristã Transformadora
1761--"---------"-------------------i
Manfted W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

Essa qualidade resume muitas outras. Se busco


verdadeiramente a glória de Deus, não almejarei minha
própria glória nem me sentirei mal se Deus decide glorificar-
se por meio de outros. Se busco a glória de Deus, não me
importará pagar o preço necessário para alcançá-la. A busca
pela glória de Deus não está acima da obediência ao Deus
da glória. Se almejo sua glória, necessariamente buscarei dar
fruto, procurando modelar meu caráter à semelhança do
caráter de Cristo (fruto pessoal) e produzindo frutos para a
expansão do reino de Deus (fruto ministerial). Se, como líder,
,,vivo ansiando pela glória de Deus, estarei disposto a pagar o
preço que seja necessário para que ele seja glorificado em
minha vida e ministério. "Nisto é glorificado meu Pai, em
que deis muito fruto; e assim vos tornareis meus discípulos"
00 15.8), e ainda: "Respondeu-lhes Jesus: É chegada a hora
de ser glorificado o Filho do Homem. Em verdade, em
verdade vos digo: se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer,
fica ele só; mas, se morrer, produz muito fruto" 00 12.23-24).
b) Integridade
É de grande importância que haja coerência entre o
que digo (ensino) e o que faço. Em um contexto de tanta
corrupção como o de nosso continente, fazem falta líderes
que vivam o que pregam - quero ser um desses líderes.
Minha pureza moral, a maneira como lido com dinheiro,
minhas motivações relativas às coisas que faço ou deixo de
fazer, minha atitude perante a "honra" que as pessoas a mim
outorgam, como servo. Não há como ser distinto se não vivo
com integridade nessas e em outras coisas.

". ' ~' "1 " , I


Filosofia ministerial de liderança
Javier G. Velásqu~z Jaramiilo

c) Amor
Conforme passam os anos mais me dou conta de que
existem poucas coisas que são realmente fundamentais para
a vida e o serviço cristão. Uma delas é sermos pessoas que
amam a Deus e aos demais.
Quero aprender a ser um líder que ama a Deus com
todo o coração, alma, mente e forças que possuo (Mc 12.30).
É uma luta, mas, se minha motivação maior e a fonte
principal de recurso interior não é meu amor a Deus e minha
relação com Ele, dificilmente poderei ser um líder que
mantenha o enfoque correto, a motivação certa e a fortaleza
, . , .
necessana para perseverar neste proposIto.
Do mesmo modo, quero ser um líder que ama aos
demais com esta categoria de amor (dgape) que provém de
Deus. Se, de fato, desejo exercer uma liderança serva, o amor
ao próximo deverá ser meu "motor" principal. Temo,
todavia, que, enquanto líderes, não tenhamos descoberto o
potencial evangelizador do amor fraternal. Se
experimentássemos esta classe de amor, vislumbraríamos
uma revolução na vida da Igreja de Cristo e um tremendo
impacto em nossas sociedades. "Nisto conhecerão todos que
sois meus discípulos: se tiverdes amor uns aos outros" ao 13.35).
d) Serviço
Este é o amor posto em prática - meu amor a Deus e
a outros deve materializar-se em ações concretas. Dentro
desta qualidade entra o conceito de liderança serva. Para
mim, é essencial colocar minha capacidade de influenciar a
serviço das pessoas, de maneira que estas emancipem todo
seu potencial para a glória de Deus, conforme seus
, .
proposltos.
Liderança Cristã Transformadora
1781-----==..:..:...:.-::.:...:.:.~---:L..--------------------
Manfred W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

É mais fácil ser servido que servir, ainda mais para


líderes latinos. Sinto que a muitos não agrada que alcancemos
projeção e reconhecimento, nem que sentemos na "cabeceira
da mesa". Em meu ministério desejo aprender a buscar que
outros se sintam atendidos por mim e não o inverso. Não
quero deixar que a posição e o reconhecimento das pessoas
defina o significado de minha vida. Estou cansado de ver
líderes que se sentem importantes por serem convidados a
ocupar o lugar de destaque de importantes eventos.
e) Humildade
"Deus resiste aos soberbos e dá graça aos humildes"
(IPe 5.4).
É difícil avançar no processo de formação como
líderes no ministério sem uma atitude de humildade e
submissão a Deus e seus propósitos. É impossível buscar a
glória de Deus se consinto com o orgulho em meu coração,
ou se cultivo a soberba nos meus relacionamentos, com Deus
e com as pessoas.
É indispensável que o líder saiba se colocar no seu
lugar sem, no entanto, já havê-lo alcançado. A humildade
(depois do amor) é a primeira irmã da vulnerabilidade. O
líder vulnerável é necessariamente humilde. Não posso
mostrar-me como um líder que tem necessidades, que não
tenha alcançado todos seus objetivos, que ainda estou em
processo, se em meu coração existe orgulho. O ser humano
vulnerável é um ser humilde.
Sem dúvida há muitas outras qualidades que
considero importantíssimas na vida de um líder, porém,
nenhuma delas teria sentido sem o cultivo e desenvolvimento
das qualidades supramencionadas.
Filosofia ministerial de liderança
[avier G. Veldsquez Jaramillo

5. CRESCIMENTO E CUIDADO PESSOAL

a) Autoliderança
"Assim corro também eu, não sem meta; assim luto,
não como desferindo golpes no ar. Mas esmurroo meu corpo
e o reduzo à escravidão, para que, tendo pregado a outros,
não venha eu mesmo a ser desqualificado" (lCo 9.26-27).
Parece-me alentador e vital o conceito de Bill Hybels
de "autoliderança'". Ninguém poderá cuidar melhor de mim
e de minha família senão eu mesmo. Não importa o quanto
as outras pessoas me amem. Gostando ou não, tenho de
reconhecer que preciso de uma contínua atenção pessoal e
familiar. Ao pretender liderar a outros, necessito,
primeiramente, aprender a liderar minha própria vida.
Careço de cuidado em minha vida nas seguintes áreas:
• Vida de oração: nunca devo estar tão ocupado, a
ponto de não poder orar.
• Pureza moral: em relação ao sexo oposto e à vida
particular.
• Uso de tempo: saber dizer não quando for
, .
necessano,
• Exercícios ftsicos: um investimento necessário ao
futuro de qualquer pessoa.
• Tendência ao idealismo: nem sempre posso fazer
tudo conforme minha ideologia, seja ela individual ou
coletiva.
• Motivações pessoais: o que me move a fazer e dizer
aquilo que digo e faço?
• Necessidade de descanso: para não chegar ao
patamar do estresse.
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Liderança Cristã Transformadora
Manfred W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

b) Famüia
Devo ser líder, antes de tudo, desta minha "pequena
congregação" chamada família. Devo zelar a fim de que o
mesmo potencial - em diferentes proporções - o qual anelo
que seja desenvolvido na vida de meus liderados para a glória
de Deus, seja visto também na vida de meus filhos e em
minha esposa. Preciso cuidar para que nunca sejam criadas
raízes de amargura no coração de meus filhos por causa do
ministério. De que me adianta ganhar o apoio dos outros e
perder o de meus filhos?
Necessito tomar cuidado para que o meu amor às
pessoas e ao ministério nunca tomem o lugar ou afetem o
encanto inerente à minha relação matrimonial. O
compromisso inicial foi "até que a morte (e não o ministério)
nos separe». Da mesma forma, meus filhos devem sempre
saber e sentir que, não importa quanta demanda haja no
ministério, s~mpre estarei pronto para eles, dando-lhes a
atenção que precisarem.

6. MODELOS DE LIDERANÇA

De acordo com os modelos de liderança de Bill


Hybels", identifico-me com os seguintes:
• Administradores
• Empreendedores
• Fazedores-de-tendas

7. LIDERANÇA E CONTEXTO: O MEIO NO QUAL EU SIRVO

a) Para além das estatísticas


Estatísticas podem funcionar como termômetro ou
como indicadores da condição social, política e religiosa de
uma nação, mas não explicam o motivo pelo qual as coisas
Filosofia ministerial de liderança
faoier G. Veldsquez Jaramillo

estão como estão. Analisar esses indicadores, todavia, incita-


nos a responder a pergunta: porque existem homens crentes
que na igreja são uma coisa, mas em casa abusam e violentam,
verbal e fisicamente, sua esposa e filhos? Enquanto líder,
cabe-me questionar o porquê de termos gente assim (e até
quando?) sentadas nos bancos da congregação, domingo
após domingo, sem que essas e outras situações (mascaradas
pelo farisaísmo e a omissão de muitos) mudem efetivamente.
No que concerne à liderança, para além das
estatísticas, necessitamos fazer perguntas quanto à maneira
de pensar de nossos cidadãos e como esta afeta sua forma de
liderar seu lar e a igreja. Não encontramos respostas nas
estatísticas para questões como essas, senão nas idiossincrasias
de nosso povo e em sua maneira de ser, raciocinar e agir.
b) Barreiras culturais à liderança
Falando propriamente de minha cultura, pode-se
dizer que o paraguaio é um caso muito particular. Segundo
Saro Vera, "o paraguaio é um enigma'". Contudo, creio que,
como líder, tenho uma imperativa necessidade de
compreender como e por que o paraguaio pensa e atua de
modo enigmático. Entendê-lo me ajudará a servi-lo e
acompanhá-lo de um jeito mais eficaz na desenvoltura de
todo o potencial que Deus tem colocado em sua vida. Para
mim, conhecer e compreender a mentalidade paraguaia é
uma das chaves para uma transformação pessoal, familiar e
nacional. E esta premissa se estende a todos os líderes
radicados nas diversas culturas do mundo todo.
A cultura paraguaia, tão arraigada na língua guarani
como é, tem palavras, em guarani, que nos ajudam a definir
a idiossincrasia do povo. Aníbal Romero Sanabria, um dos
nossos escritores, classifica um grupo com as seguintes
palavras: Os oito pecados capitais do paraguaio?
1821--~----,~-----------
Liderança Cristã Transformadora
Manfred w: Kobl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

Tão descritivo e pitoresco como é o guarani, apenas


o pronunciar dessas palavras comunica à mente do
paraguaio, conceitos e práticas concretas que afetam sua vida
e maneira de ser. Mencionarei, a seguir, palavras relativas
ao meu contexto (possivelmente estranhas ou bizarras ao
leitor de uma outra cultura qualquer), que considero de
maior relevância para o tema aqui tratado.
1. A lei do "Mbaretê"
A conotação dessa palavra nem sempre é negativa.
Na grande maioria das vezes, usa-se para comunicar a idéia
de "homem forte", de "autoridade", "poder de fogo" ou de
"prepotência". O Mbareté é uma forma de imposição de si
mesmo, seja pela importância do cargo que possui, ou por
conhecer alguém. que o tenha", A imagem dessa expressão,
comunica um ar de superioridade. A pessoa que o usa quer
dar a entender que possui mais recursos matérias que os
demais. Muitas vezes, o Mbareté parece ser parente do que
chamamos por aqui de "coleguismo". Isso significa que se
conheço alguém importante, uma autoridade, por exemplo,
tenho prerrogativas de ascendência sobre outros, sentindo-
me superior a eles ou elas, e até posso abusar um pouco de
tal condição.
A aplicação para a liderança é óbvia. Em meu
trabalho de formação de líderes, preciso contrapor esta
mentalidade e ensinar que a grandeza não está na posição,
no título ou na capacidade de impor-se sobre outros, mas
no serviço. Será de suma importância que se ensine aos líderes
da igreja que ninguém deve se impor à congregação pelo
fato de ser líder, e que o caminho até a grandeza no reino de
Deus é sempre um cam.inho descendente, de cim.a para
baixo. De acordo com Henri Nouwen, o caminho do líder

, .. '
Filosofia ministerial de liderança
Javier G. Veldsquez Jaramillo

cristão não é de ascendência, mas de descendência, que


termina na cruz. E acrescenta: ''A liderança de que Jesus
fala é um tipo radicalmente diferente daquela oferecida pelo
mundo. É uma liderança de servo, (...) na qual o líder é um
servo vulnerável que precisa das pessoas tanto quanto elas
precisam dele" 9 •
Infelizmente, o paraguaio, via de regra, gosta dessa
autoridade coercitiva, e que lhe seja ordenado o que tem de
fazer. Como pastor percebo muito isso. Não raras vezes ouvi
algumas pessoas dizerem: "pastor, basta o senhor ordenar e
nós faremos". É triste encontrar pastores com uma atitude
como a do Mbareté no ministério. Pastores assim, gostam
de se aproveitar e de se impor sobre suas ovelhas apenas
porque elas lhes chamam de "pastor". O curioso é que,
segundo Sanabria, o índio Guarani não era assim. O cacique
ou chefe (o Mburuvicha) era o "mais pobre de todos",
exatamente por ser tão generoso e servil para com os demais,
mesmo com seus subordinados. "Seu posto significava
realmente serviço (... ) por isso, o cacique era o mais
respeitado" 10 •
2. A lei do "Nembotavy"
Esta é a lei do menor esforço. É a busca pelo "atalho
mais curto", e o fazer-se de desentendido 11. O paraguaio
quando se faz de Nembotauy, fala e pensa como um tonto
(para que ninguém descubra sua face verdadeira). O objetivo
desse comportamento secreto é a evasão das
responsabilidades e compromissos. Uma frase que se encaixa
bem para uma situação de evasão é: "Está falando comigo?"
(o desentendido). Como diz Sanabria, "alguém pode se
encontrar num deserto; mas deserto, para um paraguaio, é
só com 'um' paraguaio chamando a atenção de si com gestos,
Liderança Cristã Trans armadora
1841------~------>!.------------------
Manfred W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

palmas e sapateios, e o mesmo lhe responderá: 'Che piko?'


(Está falando comigo?)" 12 •
Essa falta de assumir responsabilidades ou encarar
determinadas situações complicadas quando se deve,
realmente é prejudicial para a liderança. Crentes assim, usam
frases tais como "eu cria que" ou "me pareceu" para se livrar
do encargo da responsabilidade pelo trabalho não realizado
- isto é fazer de Nembotavy.
Como líder, uma das funções críticas é ensinar
constantemente a responsabilidade e não se fazer de
desentendido. Tenho observado como situações que
deveriam ser tratadas na hora e da maneira certa mas não
foram, com o passar do tempo, voltam a surgir, porém,
produzindo destruição e confusão desnecessária, tudo por
causa da procrastinaçãol".
3. A lei do "Vai-vai"
Esta é a frase que reflete a mediocridade nas coisas
que se faz. As coisas tornam-se Vai-oai, quando dizemos "tanto
faz" ou "vai assim mesmo". É fazer as coisas sem ordem,
planos, objetivos ou avaliação. Aos adeptos do Vai-vai, não
demonstram preocupação com resultados. O mecânico Vai-
uai, devolve o carro a seu dono com parafusos soltos "extras",
e a única explicação que este tem pra dar é botando a culpa no
fabricante do automóvel por ter posto parafusos demais nele.
Minha filosofia de liderança necessariamente deve
incluir o incremento de uma cultura de fazer as coisas com
excelência, da melhor forma possível, e não fazer "como dá".
Por experiência pessoal, sei o que significa pedir a um irmão
que me ajude a construir algo e logo me dar conta de que
ele fez, mas de maneira medíocre e, para piorar, sem nenhum
tipo de "peso" na consciência. Obviamente, precisarei de

I " . , . ~-. 1" I' I' I f, • I', -4." 'I' ,


Filosofia ministerial de liderança
]avier G. Veldsquez ]arami/lo

uma grande dose de paciência e sabedoria na formação de


líderes que gostam de fazer as coisas com a lógica do Vai-vai.
4. A lei do "Oporei"
As coisas ao modo Oparei caminham morosamente
e, com. o correr do tempo, sem uma situação definitiva.
Oparei significa deixar as coisas como estão, tomando uma
atitude passiva, fleumática (fazendo "vista grossa" ao
problema), sem fazer nada, deixando com que o tempo
resolva as coisas. Às vezes tudo isto ocorre sem que ninguém
se preocupe ou faça algo a respeito. Simplesmente se ignora
o assunto.
Com uma mentalidade dessas, é fácil resolver as
coisas, curar os males, deixando o tempo se estender para
que as coisas não ocorram, para que não tenha que se ter
aquela "conversa chata" ou tomar aquela decisão difícil,
deixando-as atrás do Oparei. A essência dessa mensalidade
é não fazer nada, ignorando tudo, não buscando soluções
cabíveis. Quando as coisas chegam ao Oparei, terminam
abruptamente, num súbito golpe, ou aos poucos.
Já houve vezes em que encomendei certas tarefas a
líderes paraguaios e, por alguma razão, não foram feitas. Ao
perguntar-lhes o que aconteceu, fizeram-se de desentendidos,
fingindo não saber de nada. Quando tenho que lhes
confrontar com algo que é óbvio, contestam-me com sua
atitude, dizendo: "Está falando comigo?" ao final, ninguém
assume a responsabilidade, e tudo termina no Operei, ou
seja, tudo "termina em pizza", .
Há várias outras palavras ou frases em guarani que
expõem as idiossincrasias paraguaias, mas essas são as
principais, pois afetam muito o que é ser líder e formar líderes
num contexto como este.
1861f--~------->!......_-------------
Liderança Cristã Transformadora
Manfred W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

8. A NECESSIDADE DE UMA VIDA CENTRADA

o mundo, em geral, e a igreja, em particular, têm


necessidades maiores que minha capacidade para satisfazê-
las. Não sou o messias, nem o salvador do mundo. Necessito
aprender de Jesus a somente fazer a vontade do Pai e, assim,
viver uma vida centrada. "Eu nada posso fazer de mim
mesmo; na forma por que ouço, julgo. O meu juízo é justo,
porque não procuro a minha própria vontade, e sim a
daquele que me enviou" ao
5.30).
Sempre haverá mais coisas para se fazer que vão além
dos limites do que posso fazer. As oportunidades para pregar
e ensinar a Palavra serão sempre uma "tentação",
principalmente quando reconheço que não devo atender a
todos os convites que me fazem, caso queira manter minha
saúde física e mental para fazer o que Deus tem mandado.
Entendo que o que Deus quer de mim agora é que
eu pastoreie a igreja, buscando, também, ter uma influência
transformadora na cidade e, a partir dela, multiplicando-
nos em outras igrejas fora da capital e por meio do envio de
missionários fora da nação, em outras partes do mundo.
Minha segunda tarefa é a de servir meus semelhantes
nesta nação, apoiando-os em tudo o que me for possível, a
fim de que suas vidas e ministérios sejam, da mesma forma,
de uma influência transformadora, para a glória de Deus.
A maneira concreta de cumprir isto é oferecer treinamento
na área de liderança à Escola de Pastores e Líderes que
presido na nação, e oferecer classes a pastores em programas
de formação teológica.

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Filosofia ministerial de liderança
[avier G. Veldsquez Jaramillo

9. A FORMAÇÃO DE LIDERES

É fundamental, em minha visão, ter uma clara


filosofia de ensino na formação de líderes.
Em nível local, creio que devo ser um líder que ajuda
a desenvolver todo o potencial que Deus tem concedido às
pessoas com que sirvo. Se realmente quero assumir meu
chamado para ser um líder servo, preciso fazer do serviço à
equipe com quem trabalho na igreja uma prioridade
modelar e minha vida.
Ao falar de trabalho em equipe, tenho em mente o
crescimento de um nível de relação pessoal com os membros
que seja realmente profundo. A meta é o cumprimento dos
propósitos de Deus em minha vida, mas fazendo-a junto
com um grupo de pessoas que têm o caráter espiritual
necessário, afinidade comigo (mesmo quando não estivermos
totalmente de acordo a respeito de algo), e às quais Deus
tenha capacitado claramente para tal tarefa (com os dons
requeridos) 14.
Outro ponto essencial em minha filosofia para uma
liderança transformadora está na convicção que tenho de
que não posso deixar que as instituições de preparo teológico
assumam toda a responsabilidade pela formação dos líderes
a quem Deus chama para servir no ministério. Acredito que
o ideal seja forjar uma filosofia de desenvolvimento de líderes
que leve em conta o crescimento integral da pessoa em sua
formação, desde o momento em que ela entra em contato
com o evangelho de Cristo, que é integral em seu cerne.
Em outras palavras, a igreja tem que se encarregar de ser
um instrumento ativo na formação do caráter da pessoa e
fixar os fundamentos doutrinários da vida cristã e da
liderança. Que os centros de formação se incumbam da
188 1- Manfred
- - : :. .W. . . -Kohl-e Antonio
-"'-------- Carlos
Liderança Cristã Transformadora
- Barro
- -(Orgs.)- - - - - - -

"especialização" e a formação mais acadêmica da pessoa


(conforme a sua inclinação ministerial).
Terno que a carência de líderes que sejam preparados
de acordo com as demandas do ministério se deva, em parte,
ao fato de que a igreja não está fazendo a parte que lhe
cabe, especialmente no que se refere à formação de líderes
com caráter aprovado ao ministério.

CON51DERAÇQE5 FINAIS
No que for possível, quero aplicar à minha vida e
filosofia pessoal os sete princípios de liderança descritos por
Gene Wilkes 15 :
a) Humilhar meu coração
Líderes que são servos humilham a si mesmos e
esperam que Deus;> em seu tempo;> os exalte (Lc 14.7-11).
Não me agrada nem um pouco ver líderes que buscam
promover-se e oferecem suas áreas de especialização para
que lhes convidem, ou que usam meios carnais para projetar-
se para postos importantes em sua denominação.
b) Aprender primeiro a ser um seguidor
Líderes que são servos seguem a Jesus ao invés de ficar
buscando um cargo (Mc 10.32-40). No que depender de
mim, pretendo sempre ser um líder com um coração
maleável, que sabe tanto liderar corno seguir, quando a
circunstância assim o pede.

aos outros e nao o contrano , . -


c) Que a grandeza de meu ministério esteja no serviço

Líderes que são servos renunciam a seus direitos


pessoais para encontrar a grandeza no serviço (Mc 10.45).
Não desejo usar minha posição na igreja para que outros
me sirvam, outrossim, tenho que encontrar maneiras eficazes
de servir a outros a partir da posição que ocupo.

• .j. ,- , j .. .-t., - • I ' II I f, • ~'I ~ ,. ,I I


Filosofia ministerial de liderança
fauier G. Veldsquez Jaramillo

d) Quero aprender a ser um líder que saiba se arriscar


Líderes que são servos podem arriscar-se a servir a
outros porque confiam que Deus estd no controle se suas
vidas 00 13.3). Não quero guiar-me pela "reputação" que teve
uma pessoa no passado, nem pela opinião das pessoas. Quero
ser sensível ao que Deus quer para a pessoa, e estar disposto a
arriscar-me, invertendo minha vida e crendo que Deus vai fazer
maravilhas formando e transformando-me em um líder.
e) Quero aprender a encontrar a verdadeira
satisfação em cingir-me com a toalha.
Líderes que são servos, cingem-se com a toalha do
serviço para completar as necessidades de outros Oo 13.4-11).
Isto está claro.
e) Quero aprender a compartilhar minha
responsabilidade e autoridade com outros que me
acompanham no ministério.
Líderes que são servos compartilham sua
responsabilidade e autoridade com outros, de maneira que
se possa satisfazer uma necessidade maior (At 16.1-6). A
melhor maneira de atender às múltiplas necessidades no
ministério está em não tratar de fazê-la sozinho.
f) Quero aprender a trabalhar em equipe
Líderes que são servos multiplicam sua liderança por
meio da delegação de poder a outros para que esses liderem
(Mc 6.7). Não sou eterno, nem auto-suficiente ou
insubstituível (não sou Deus). Somente à medida que
construo uma equipe de trabalho, poderei garantir a
continuidade do ministério e minha sanidade mental.
Um grande líder, realmente transformador, é grande
porque vive, sem renunciar, o chamado à missão de sua vida
e consegue inspirar a outros, a fim de que o acompanhem
em uma mesma visao..-
1901--....::......--.--~-----------
Liderança Cristã Transformadora
Manfred W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

NOTAS
1 É notável, nesse sentido, ler no livro O Perfil do Lider Cristão do Século XXI
(Editora Atos, 2002), de Henri ], M. Nouwen, como depois de 20 anos de
envolvimento com o mundo acadêmico, enquanto professor de psicologia
pastoral, teologia pastoral e espiritualidade cristã, o autor começou a
experimentar uma espécie profunda de pobreza interior. Ao entrar na casa do
50 anos de idade, Nouwen chegou a se perguntar se o fato de estar ficando
mais velho estaria o aproximando mais de Jesus. Depois de 25 anos de sacerdócio,
Nouwen descobre que sua vida de oração era medíocre, que vivia um tanto
quanto isolado dos demais e que se preocupava muito com questões polêmicas
atuais. Sua constatação básica foi a seguinte: "Todos diziam que eu realmente
estava agindo muito bem, mas alguma coisa dentro de mim me dizia que o
meu sucesso colocava a minha alma em perigo" (p. 12).
2 "Saudável", para mim, não significa que não haja problemas e momentos de

necessidade familiar, mas, sim, a capacidade de manter um equilíbrio propício


para enfrentar as mudanças. Do contrário, seria preciso resolver as próprias
crises familiares antes de pretender ajudar a outros. Sobre esse assunto, ver:
CARVALHO, Esly Regina. Famflia em Crise. Enfrentando os problemas no
lar cristão. São Paulo: ABU Editora, 2002.
3 Sobre a atuação transformadora da igreja local na missão integral, indicamos

o artigo de César Marques Lopes, "Mobilizando a igreja local para uma missão
integral transformadora", que compõe o livro Missão Integral Transformadora,
também organizado por Antonio Carlos Barro e Manfred Kohl (Descoberta
Editora, 2005).
4 Cf. Bill Hybels, em Liderança Audaz (Editorial Vida, 2002).

5 Ibid., p. 155-177.

6 VERA, Saro. O paraguaio: um homem fora de seu mundo. Assumpção,

Paraguai: Editorial EI Lector, 1996.


7 SANABRIA, A. R. Mais paraguaio que a mandioca. Editora Litocolor, 2002.

8 Esta expressão cultural é semelhante àquela, muito usual na cultura brasileira,

do "Você sabe com quem está falando?".


9 NOUWEN, H. O perfil do lider cristão do século XXI. Belo Horizonte:

Atos, 2002, p. 40.


10 SANABRIA, idem, p. 98.

11 Na cultura popular brasileira, é o chamado "jeitinho brasileiro", e a gíria para

fazer-se de "desentendido", geralmente, é "dar uma de João sem o braço".


12 Ibid, p. 07.

13 Tendência humana de, grosso modo, "empurrar as coisas com a barriga",

14 Cf. HIBELS, idem, p. 79-101.

15 Cf WILKES, Gene. Jesus na liderança. Tyndale House, 1998.

• H
···CAP(TULO

... -, .,. ,.

!!tARISMAS E CULTURA:
.., :. ' .. . .

·!'~RADIGMAS PARA UMA


··;LIDERANÇA TRAN5fORMADORA

JONATHAN MENEZES
INTRODUÇÃO

Entendo por liderança como sendo a qualidade ou


habilidade, natural ou adquirida, por consenso divino, de
uma pessoa em exercer influência sobre outras, de conduzir,
gerenciar e instruir grupos, associações ou comunidades,
sempre visando alvos e fins comuns. Todavia, uma questão
que raramente é menci~nada nas reflexões acerca da
liderança cristã é a presença ou ausência dos chamados
"carismas" essenciais para o exercício dessa habilidade, bem
como da perspectiva vocacional inerente à práxis ministerial
da liderança. Todos possuímos, de nascimento, qualidades
específicas que nos habilitam, ou desabilitam, para certas
tarefas. Com a liderança não é diferente. Existe um tipo
que comumente se denomina "nata" (que nasce com a
pessoa), e uma outra denominada "adquirida", que via de
regra brota da emergência de um determinado contexto
sócio-cultural e religioso, atendendo a uma espécie de
" camao.
h d"
Nesse capítulo, pretendo trabalhar não somente o
conceito, mas também elementos práticos da liderança cristã,
tendo em vista os seguintes problemas: 1) Os conflitos
existenciais, vocacionais e ministeriais presentes na vida e no
desenvolvimento do líder cristão (a questão dos carismas);
2) Os desafios do tempo atual e a necessidade de uma postura
mais contextual e encarnada de nossos líderes em relação à
sociedade (relação entre carismas e cultura); 3) Por fim,
finalizo com uma questão bem específica: como desenvolver
uma liderança transformadora quando se é relativamente
jovem, visto que o mundo dos "adultos" não dá o devido
valor aos jovens, que, muitas vezes, nem são considerados e,
em outras, são praticamente banidos dos meios
Liderança Cristã Transformadora
1941~-...!....----..:L..--_-------------
Manfted W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

transformadores da sociedade, sendo tratados como "café


· "1 .
com Ielte
Quero chamar a atenção dos leitores para o fato de
que este trabalho foi produzido originalmente para ser
apresentado em um curso de preparação de jovens "líderes"
cristãos, estudantes e participantes daABUB (Aliança Bíblica
Universitária do Brasil) e que, assim sendo, apresenta uma
série de aspectos pensados e direcionados para o contexto
específico vivido por esses estudantes, às situações múltiplas
e práticas em que eles são chamados a desenvolver seus
diversos dons e talentos e os desafios a elas inerentes.
1 - LIDERANÇA, CARISMAS E VOCAÇÃO

A palavra charisma significa "dom da graça", posto


que o termo grego charis significa "graça". Assim, alguns
estudiosos definem os termos "graça" e "dom" como
possuindo semelhante significado, isto é, como um "favor
imerecido", uma concessão que recebemos sem lutar por
ela, ou sem ter que fazer nada para ter direito. Desta forma,
cada crente recebe de graça o dom que ele ou ela, como
servo(a) de Deus e sacerdote real, e a igreja, necessitam.
O cerne do ensinamento neotestamentário a respeito
dos dons espirituais pode ser encontrado, apriori, em textos
paulinos (Ef 4.11, 1Co 12), e também em 1Pedro 4.10,
11. Nestes textos, mormente nos de Paulo, observa-se a alusão
àquilo que Howard Snyderê chama de "dons básicos de
liderança". Em 1Co 12 vemos a referência à existência de
apóstolos, profetas e mestres. Já na carta aos Efésios, Paulo
repete estes dons e acrescenta ainda os pastores e evangelistas.
O que Paulo está mostrando, de acordo com Snyder, é que
"Deus mesmo providenciou a ordem, dando, para cada
congregação local e para a igreja em geral, pessoas capazes

I ,1I1-f"" ." , 1." li, 't ,·,11 ,I' 11'1 l' ,11'1 ',1 ,i 'I I. ~ ,,' 'I ,,' IW!l~"''' ~'d"" 11 1·111
Carismas e cultura: paradigmas para uma liderança transformadora
fonathan Menezes

de exercer as várias funções necessárias'P. Estes dons, segundo


ele, "são dados para cada congregação local e para a igreja
em geral, pessoas capazes de exercer as várias funções em geral" .
A liderança carismdtica (sem qualquer conotação
sociológica), conforme Snyder, é a "liderança inspirada pelo
. Espírito de Deus, dotada das graças e dos carismas necessários
e devidamente reconhecida pela comunidade de crentes'",
Snyder ainda destaca três ensinamentos fundamentais que
ficam do Novo Testamento: (1) Deus é quem providenciava
os líderes necessários; (2) essa liderança era vista em termos
de dons espirituais; (3) havia grande flexibilidade e fluidez
na maneira pela qual essas funções de liderança operavam e
eram cornpreend idas",
Nesse sentido, nem todos são chamados ou
vocacionados para exercer "cargos" de liderança, pelo menos
da maneira "ortodoxa" de se conceber um líder, posto que,
como vimos, a especificidade do chamado ou da vocação
(tendência, talento, aptidão) para o serviço cristão, de forma
geral, está intrinsecamente ligada à questão dos "dons
espirituais". Esta premissa pode ser extremamente
libertadora para aquelesías) que, diante das muitas cobranças
e pressões externas, acabam enxergando a liderança sob um
foco muito específico, fundado em modelos fechados e pré-
estabelecidos, também como um fardo e não um meio de
glorificação a Deus e edificação de pessoas. Não se pode,
portanto, ignorar a relevância e diversidade do chamado
pessoal, conforme aponta João Calvino'':
O Senhor ordena a cada um de nós, em todos os afazeres
da vida, que zele pelo seu chamado... Portanto, para
que a nossa estupidez e precipitação não acabem virando
tudo de cabeça para baixo, Ele designa deveres para todo
homem, cada um em sua maneira particular de viver...
Liderança Cristã Transformadora
1961--~--....:!...--_------------------I
Manfred W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

Ele deu a esses vários tipos de vida o nome de


"chamados"... e vem daí também uma singular
consolação: desde que, em nosso trabalho, estejamos
obedecendo ao nosso chamado, nenhuma tarefa é vil ou
desprezível, e não há trabalho que não vá brilhar e ser
considerado deveras precioso aos olhos de Deus.
Não obstante, todos podemos ser "líderes" à medida
que exercemos alguma influência sobre as pessoas. O dom
de Deus, parafraseando Snyder, "são pessoas e não ofícios".
De acordo com Antonio C. Barro, "o mais importante é
reconhecer que independentemente de alguém ter nascido
ou não com as qualidades para a liderança, a arte de liderar
pode ser aperfeiçoada através dos estudos e da prática de
liderança'". Para Henri Nouwen, liderança é, sim, uma
vocação, mas uma vocação compartilhada", isto é, que se
desenvolve através do trabalho estritamente comprometido
em e com uma comunidade e que, portanto, não pode ser
cumprida isoladamente. Assim, todos passam a ter um papel
preponderante no crescimento uns dos outros e na
descoberta daqueles que serão seus líderes no presente ou
num futuro próximo (seja em uma ou em outra instância),
incentivando, treinando e apoiando-os, o que significa
aproveitar suas potencialidades sem desprezar suas
deficiências, pois essas são pontos de partida para o
aperfeiçoamento de virtudes como a dependência mútua e
a humildade, valores tão caros a qualquer líder.
Partindo destes pressupostos, fico impressionado
quando vejo a quantidade (o que não significa qualidade)
de livros e estudos dispensados sobre este tema, que o
expõem utilizando-se de um pragmatismo? vulgar, apelando
para os modelos fechados, pacotes prontos, baseados em
estereótipos que se aproximam da lógica administrativa
Carismas e cultura: paradigmas para uma liderança transftrmadora
Jonathan Menezes

empresarial, importados junto com uma teoria transformada


em "teologia", que supervaloriza e eleva a pessoa do líder à
categoria. dee "semiideus"" , supereficaz
i ","supercrente" , que
faz, possui, alcança e acontece.
A lista de títulos dessas obras é extensa, e vai desde
regras para uma gestão eficaz, até manuais para líderes bem-
sucedidos. Eis alguns: Desperte o l/der que hd em você: 9
estratégias para maximizar o dom de liderança que Deus
lhe deu; Desenvolvendo líderes em sua equipe de trabalho;
A mais eficaz das organizações; Os segredos da liderança de
Paulo; Principios da gestão eficaz; O último degrau da
liderança: descobrindo os segredos da liderança de Jesus;
Um ministério para l/deres de jovens com propósitos; Como
tornar-se um l/der (3 capítulos sobre eficácia); A formação
de um líder (possui capítulos com os títulos: "Como causar
impacto" e "A fonte de poder do líder"), e (os meus
"prediletos") As 21 irrefUtáveis leis da liderança: siga-as e as
pessoas o seguirão; e 21 minutos de poder na vida de um
líder: .como maximizar seu potencial de liderança, ambos
escritos por john Maxwell. Não estou aqui menosprezando
este autor, nem tampouco os outros autores dos livros
supracitados.
Minha alusão consiste em esclarecer o leitor em
relação à maneira utilitária e pragmática (que, bem ou mal,
tem o seu valor, sempre haverá pessoas interessadas nesse
estilo) com que se tem concebido liderança nos últimos
tempos. Parece-me que a figura do líder, nesse aspecto, está
muito mais ligada a competências (ou inaperências)
individuais e poder, do que aos dons, serviço e pessoas. Quem
não possui as "qualidades" que tanto se requer, jamais poderá
ser um líder. Isto é questionável exatamente pela diversidade
do chamado pessoal e a circunstância específica em que este
198 1- - :....-- -----"--- - - - - - - - - - - - - - - '
Liderança Cristã Transformadora
Manfred W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

se dá na vida de 'cada um. Observem o uso e abuso de termos


como "segre dos' os, "desperte""d
e esco brinn do"
o , to d os d an d o
um tom enigmático, incitando a curiosidade do leitor que
não vê a hora de descobrir as fórmulas prontas para se
alcançar o posto de líder que "todo mundo quer seguir" (o
problema é que nem todo mundo consegue ou tem
"estômago" pra alcançar esse patamar). E também o modo
como são empregadas as palavras "princípios", "leis" e
"estratégias", que ressaltam a figura de um "pacote fechado",
pronto para ser usufruído como bem se quer. Um dado
que ainda nos salta os olhos é que todas as obras citadas
figuram entre os best-sellers de nossas livrarias evangélicas.
Desta feita, vale observar, parafraseando Eugene Peterson!",
que "numa cultura fast-food a igreja busca ajuda do tipo
fast-religião n.
Sobre tais modelos john Srott!', em sua conhecida
obra "Ouça o Espírito Ouça o Mundo", comenta:
Hoje, o modelo mais parecido que temos a imitar é o da
gerência de negócios. Este também, apesar de alguns
paralelos aceitáveis, geralmente é mais mundano do que
cristão. Com o crescente declínio do status dos pastores
na sociedade, nós precisamos cuidar para não
procurarmos compensar este fato buscando mais poder
e mais honra na igreja. A marca essencial da liderança cristã
é a humildade, não a autoridade; serviço e não senhorio,
e também "a mansidão e benignidade de Cristo".
Stott ainda acrescenta, citando Chuck Colson, que
"a sedução do poder pode separar o mais decidido dos
cristãos da verdadeira natureza da liderança cristã, que é
servir aos outros. É difícil colocar-se num pedestal e lavar os
pés de quem está embaixo" 12. É marcante, portanto, a intensa
busca dos líderes de nosso tempo pelo "altar da
Carismas e cultura: paradigmas para uma liderança transformadora
Jonathan Menezes

popularidade" 13, do poderio, do reconhecimento e da


relevância perante os seus. Na certa acompanham uma
dialética que há muito tempo já brota das pretensões e
desejos do ser humano caído, aderindo ao mito de Narciso
ou à síndrome de Lúcifer14 •
Neste sentido, gostaria de expor duas opiniões
convergentes sobre a postura que deve ter uma liderança
transformadora, nos tempos em que o sucesso e a
proeminência "falam mais alto" que a humildade. A primeira
é de Eugene Peterson que, ao examinar sua própria vocação,
parece se sentir na contramão da carreira que colegas seus,
pastores, escolheram para si:
O que significa representar o Reino de Deus numa
cultura devotada ao reino do Eu? Como é que pastores,
que não fazem nada acontecer, mantêm uma identidade
robusta numa sociedade que paga muito dinheiro a
cantores de música sertaneja, traficantes de drogas e
barões do petróleo? Vi ao meu redor homens e mulheres,
pastores, criando uma identidade vocacional a partir de
modelos oferecidos pelos "principados e potestades".
Todos os modelos enfatizavam o poder (fazer as coisas
acontecerem) e a imagem (parecer importante). Mas
nenhum deles parecia congruente com o chamado que
eu sentia formar-se dentro de mim!",
Como complemento às idéias e indagações acima
colocadas, Henri Nouwen, em seu famoso livro, In the name
o[Jesus ("O Perfil do Líder Cristão no Século XXI"), tece
convenientes comentários sobre a nossa condição de líderes,
contando sua experiência na Comunidade O Amanhecer
- para deficientes mentais, em Toronto, Canadá - e
apresentan do uma postura " bd
pertur a ora" para estes
tempos:
Liderança Cristã Transformadora
200 I-~"----------'"----------------t
Manfred W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

Estas pessoas arruinadas, feridas e completamente


despretensiosas me forçaram a abandonar o meu ego
relevante, o ego que pode realizar coisas, mostrar coisas,
provar coisas e construir coisas. Elas me forçaram a
retomar aquele ego sem enfeite, que me deixa
completamente vulnerável, aberto a receber e dar amor
indiferente de quaisquer realizações. Digo tudo isto
porque estou profundamente convencido de que o líder
cristão do futuro é chamado para ser completamente
irrelevante e a estar neste mundo sem nada a oferecer a
não ser a sua própria pessoa vulnerável. Foi assim que
Jesus veio revelar o amor de Deus. (...) O líder do futuro
será aquele que ousa afirmar sua irrelevância no mundo
contemporâneo como uma vocação divina. Ela permite
que ele esteja em profunda solidariedade com a angústia
atrás de todo aquele esplendor do sucesso. E leve a luz
de Jesus para brilhar ali 16 •
É difícil falar de fraqueza para um universo que
supervaloriza a performance e a realização pessoal acima de
todas as coisas e que consagra uma velha casta, a qual sempre
reaparece com novas facetas: os auto-suficientes. Sem
questionar para onde e até aonde vamos com este estilo de
vida, aceitamos as regras e compulsões ditadas pela sociedade,
que tende a eliminar de seu vocabulário palavras como
vulnerabilidade, choro, dor, lamento e pobreza e a destacar
a supremacia dos mais fortes. Assim, nos tornamos seres que
não abrem mão do controle de nossas vidas medíocres e
alimentamos a simulação de uma fachada indelével. A
postura defendida por Nouwen está diretamente relacionada
com o modo de ser e o tipo de liderança presentes nas ações
e no ministério de Jesus, o Deus que se fez gente e que
encarnou a fragilidade, a dor e a "desprezível" miséria da
condição humana, desde a inglória manjedoura até a
Carismas e cultura: paradigmas para uma liderança transformadora .
[onatban Menezes 201

insuportável cruz, expondo sua total vulnerabilidade para


que, através de sua morre, encontrássemos vida. Inconcebível
loucura! Maravilhosa Graça!
Desse modo, ainda segundo Nouwen, "o caminho
do líder cristão não é o caminho da ascensão, no qual o
mundo atual investe tanto. É o caminho descendente que
termina na cruz. (...) Não é uma liderança de poder e
domínio, mas uma liderança de fraqueza e humildade,
através da qual o servo sofredor de Deus, Jesus Cristo, se
manifesta" 17. Líderes transformadores de fato, não buscam
o personalismo, a pujança e o sucesso a qualquer preço; não
são superlíderes, nem superpastores; não usam o poder como
trampolim para o ego, nem encontram forças em si mesmos, .
mas, sim, são homens e mulheres de Deus que não têm
vergonha de celebrar a vida, admitindo todas as suas
incoerências e limitações, reconhecendo sua pobreza,
bebendo de seu próprio cálice, recebendo de Cristo o cálice
da salvação e a revelação da face humana de um Deus que
não se esconde atrás de um nome, de um título ou de um
ofício, mas que se apresenta na completa vul.~erabilidade
de seu amor, para a redenção da criação, a qual perdeu a
noção do que é o amor. Este, apesar de ser um contra-
modelo para este tempo e para as convulsões de nosso ego,
continua a ser o modo revolucionário que o nosso Mestre e
Senhor nos legou, de uma liderança solidária, compassiva,
que semeia sonhos e esperança, nunca opressão ao próximo.
2 - LIDERANÇA E IDENTIFICAÇÃO CULTURAL

o conceito de cultura talvez seja um dos mais difíceis


de ser empregados e até mesmo definidos. Isto porque
abrange uma gama de significados. Pode-se conceber cultura
como sistema de valores, signos e símbolos herdados
2021--~------=--------------
Liderança Cristã Transformadora
Manfred W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

historicamente e por meio dos quais as pessoas de uma


determinada civilização se comunicam entre si. Há também
a concepção que a entende como instrução, erudição, saber,
educação. Além daquela que a conceitua como expressões
artísticas de todo tipo, expressões da vida material e espiritual
dos indivíduos, abrangendo seu conjunto de crenças,
doutrinas e concepções adotadas e transmitidas de geração
em geração. Assim, podemos falar não apenas de "cultura",
expressando uma coesão, mas de "culturas" híbridas e
difusas, podendo ser comparada a uma "tapeçaria" 18,
complexa, repleta de cores e nuances por todos os lados.
Aqui não faremos distinção entre este ou aquele
significado, mas nos referimos à cultura em seu todo. O
fato é que um dos desafios àqueles que assumem o posto de
liderança em algum ministério específico, exercitando seus
carismas peculiares, é estar conectado a cultura local,
conhecendo a sua história e as transformações pelas quais
ela é submetida ao longo do tempo, como afirma Humberto
M. Aragão: "não podemos, como líderes, estar desconectados
da história de nosso povo, o qual dirigiremos pelo caminho
que o ajude a amar Deus e sua própria terra e cultura"!",
Stott, tratando da necessidade gritante de que os cristãos,
tanto homens como mulheres, estejam decididos a
impregnar seu contexto sócio-cultural com os valores do
Reino, afirma:
Precisamos de cristãos envolvidos em negócios e na
indústria, que priorizem o "serviço ao público" como
alvo principal de sua declaração "missionária", que sejam
ousados em fazer experiências nas áreas de relações de
trabalho, participação dos trabalhadores e divisão de
lucros, e que admitam a sua responsabilidade de,
juntamente com a auditoria fiscal, realizar também uma

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Carismas e cultura: paradigmas para uma liderança transformadora
fonatban Menezes

auditoria social na sua empresa. (. .. ) Precisa-se de


cineastas cristãos que produzam, não apenas filmes
explicitamente cristãos ou evangelísticos, mas também
filmes saudáveis que, indiretamente, transmitam valores
cristãos individuais e familiares, honrando e glorificando,
assim, o nome de Cristo".
De forma geral, a tendência da liderança evangélica
no Brasil tem sido a de aversão a nossa cultura, preferindo
manter distância em relação às coisas "mundanas",
dernonizando-as e adotando uma postura e mentalidade de
gueto, o que denuncia todo o seu sectarismo religioso.
Wander de Lara Proença'", afirma que "tal distanciamento .
da cultura brasileira já podia ser observado nas primeiras
tentativas de inserção dos valores protestantes no Brasil
colonial, feitas por holandeses no nordeste brasileiro, no séc.
XVII". E acrescenta ainda que "o protestantismo inserido
no Brasil procurou propagar uma mensagem preocupada
em moldar as idéias e as crenças de seus fiéis à verdade
racional dos seus dogmas. Daí sua dificuldade de inserção,
sobretudo nas camadas mais populares".
Não impressiona nem um pouco pensar que a
imagem mais comum que um "incrédulo" possa ter da igreja
é a de um sistema de censuras. Com raras e esparsas tentativas
de subverter esse conceito estabelecido (diga-se de passagem,
por culpa de nós evangélicos) - especialmente por parte
das minorias "dissidentes" da igreja, que não vivem nem se
conformam com suas indulgências legalistas - a pregação
disseminada nos meios extra-eclesiásticos é de um evangelho
de cabresto. Pessoas são adestradas a viver dentro de um
sistema de regras morais, onde se estabelece uma "ética" de
princípios firmada prioritariamente no comportamento
exterior ("crente não se mete nisso" ou "isso não é lugar para
Liderança Cristã Transformadora
2041-----=.:.::.:..:...=.:.~~....::..:....:.~..::..:..::..::------------~
Manfred W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

crente"). Philip Yancey observa que "o maior trunfo do mal


pode ser seu sucesso em retratar a religião como inimiga do
prazer", o que não deixa de ser verdade. A grande mentira
está em dizer que Deus concorda com isso, posto que "todas
as coisas boas e agradáveis são invenção do Criador, que
doou liberalmente esses presentes ao mundo'V'.
Em recente entrevista publicada pelo Jornal Folha
de Londrina, Aguinaldo Silva, autor da novela "Senhora do
Destino", respondeu a algumas perguntas sobre o grande
sucesso que, naquele momento, fazia sua novela. Ao ser
questionado sobre qual seria seu principal critério para saber
se determinada cena da novela iria ou não "chocar" seus
mais de 60 milhões de telespectadores, Silva respondeu:
Alguns pentecostais trabalham na minha casa e sei que
todos eles assistem à novela. Uma coisa que eu pergunto
é: "Como eles vão me olhar amanhã?". Eu me preocupo
muito com a opinião deles porque sei que, se eles não
ficarem chocados com o que viram, outras pessoas
também não ficarão. Recentemente, fiquei preocupado
com a cena em que a Nazaré lavava privadas na delegacia.
N o dia seguinte, estava no escritório quando uma delas
abriu a porta me cumprimentou com uma risadinha e
foi embora. Logo pensei: "Ah, que bom, ela gostou"?".
Obviamente que a visão desse autor não representa
o todo que a cultura, em geral, pensa sobre a igreja nem
tampouco sobre o que de fato ela é em seu contexto, mas
não deixa de ser uma representação real e preocupante. É
estranho e, na verdade, paradoxal demais pensar que nós
evangélicos somos padrão apenas para determinadas coisas
e para outras (de interesse geral) não. Sobre qualquer outro
assunto, como política, economia, arte, cidadania ou esporte,
talvez seríamos os últimos a serem consultados. Mas quando

, H
Carismas e cultura; paradigmas para uma liderança transjormadora
Jonathan Menezes

o assunto diz respeito à moral e aos bons costumes, sim, cá


estão os "santos" evangélicos para dar lições aos "mundanos"
sobre bem viver e agir. É ilógico, pois se há uma crise
evangélica de referencial ético em algumas áreas, em outras,
conseqüentemente, também haverá. Essa resposta dada por
Aguinaldo Silva, reflete um pensamento muito comum sobre
o ser de algumas igrejas: "é bonito ver o esforço e a
religiosidade deles, mas, definitivamente, não é um exemplo
a ser seguido. Ainda prefiro minha boa e velha liberdade".
Sobre isso, Yancey escreveu: "Os evangélicos são cidadãos
responsáveis que a maioria das pessoas gosta de ter como
vizinhos, mas com os quais não quer passar muito tempo'P',
É claro que os princípios divinos existem, são eternos
e imutáveis. Todavia, há de se reconhecer que eles são
vivenciados por pessoas imperfeitas e, como tais, carentes
da Graça redentora de Cristo (que não é monopólio da
igreja) e não por gente que tem "síndrome de perfeição" e
que carrega sobre si o fardo de ser um sub-projeto
desencarnado de se tornar arcanjos ou extraterrenos.
Robinson Cavalcanti ironiza: "Em nossas igrejas, artistas dão
testemunho, dizendo que deixaram de cantar ou tocar 'no
mundo'. Talvez já tenham contratos para atuar em Marte
ou Vênus, ou para fazer uma exibição para as potestades
auge'1·icas.i. "25 .
Assim como existem casos de muitos artistas no Brasil,
antes "mund " e agora "
anos, " que se converteram e
santos,
passaram a fazer parte da trupe alienígena evangélica - e
desse modo me refiro por características que nós evangélicos
criamos e cultivamos, como a ausência dos meios
transformadores, não-influência e irrelevância - há também
aqueles que podemos chamar de "desviados ilustres",
parafraseando Cavalcanti. É o caso do sociólogo e
Liderança Cristã Transformadora
206 1
- .Manfred
. . . . . . ---'----
W Kohl
--"--- - - - ---,-- - - - - - - -
e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

antropólogo, já falecido, Gilberto Freyre, um dos intelectuais


brasileiros mais brilhantes e influentes de todos os tempos,
que foi membro da Primeira Igreja Batista do Recife e chegou
até a ingressar no seminário (Universidade de Baylor, EUA)
com a intenção de ser pastor.
A explicação de Freyre para sua evasão da igreja está,
entre outras coisas, em seu encontro com o potencial racista
do fundamentalismo evangélico norte-americano,
especialmente nas igrejas do sul. Ele chegou a presenciar
um linchamento de um negro por piedosos diáconos dessas
igrejas e também membros fervorosos da KIu KIux KIan.
Em sua avaliação, Freyre disse que não queria para seu país
uma religião com características tão intolerantes e com uma
notável pobreza estética. Nas palavras de Cavalcanti, "para
ele, 'o protestantismo brasileiro gera gramáticos, e não
literatos', por faltar-nos a liberdade para criar, a liberdade
para a arte que reflete o humano e a vida com suas
ambigüidades, sendo os romances evangélicos transformados
em apenas outra forma de sermão com personagens
estereotipados e final previsível"26.
Cavalcanti ainda faz um "inventário" dessa lista de
"desviados ilustres", dentre os quais estão romancistas, poetas,
teatrólogos, cantores, artistas plásticos e cênicos, jornalistas,
cientistas, e assim por diante, formadores de opinião, que
ocupam o proscênio da sociedade, compositores da "cultura",
erudita ou popular. Ele procede ainda com uma questão:
"Seriam eles, todos e sempre, os culpados, os 'carnais'?
Poderiam eles desabrochar as suas vocações, ser o que foram
- ou são - dar a contribuição que deram - ou têm dado-
continuando em suas igrejas? Pode haver compatibilidade
entre a subcultura protestante brasileira, separatista,
exclusivista e sectária, com aquelas atividades ou

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Carismas e cultura: paradigmas para uma liderança transformadora
Jonathan Menezes

profissõesr":". Ou quem sabe, poderíamos perguntar se eles


não foram "eleitos", por isso resolveram abandonar a igreja?
A premissa básica para ser cristão "verdadeiro" hoje
ainda está na ética do não-fazer. A "não-ação", segundo
César M. Lopesê", "é valorizada e apontada como um traço
de santidade". Não agir pressupõe ainda não refletir, não
questionar, especialmente no que tange às doutrinas
eclesiásticas. Rubem Alves relaciona cinco classes distintas
de pecados capitais (passíveis de pena tribunal), que
constituem o cerne da moral do que ele chama de
"Protestantismo de Reta Doutrina". São eles: os pecados
sexuais, transgressões do dia santificado (domingo), os vícios
(fumar, beber, jogar), os crimes contra a propriedade (roubo,
desonestidade), e os crimes de pensamento (heresias, pensar
em desacordo com a igreja). Conforme aponta Alves, "a
abstenção de tais pecados delimita a área de inocência e
graça. Mas a sua comissão coloca o homem no círculo da
culpa e da desgraça'F".
Segundo José Comblin, não parece q~,e o número
de pecados da sociedade esteja diminuído por causa dessa
pregação moral (e, porque não dizer, moralista) da igreja.
O que aumenta sim são as suas múltiplas patologias, como o
fanatismo religioso, em detrimento da tarefa missionária da
igreja. "Evangelizar sem evangelho não produz frutos",
afirma ele, que acrescenta:
As maiorias não se mantêm longe da igreja por razões de
distância, de falta de comunicação etc. Não se aproximam
da igreja porque simplesmente não querem. Não fazem
isso por ignorância religiosa, mas porque a igreja já não
lhes interessa. Sabem que a igreja sempre desanimou todas
as aspirações para a liberdade. Algumas heróicas exceções
não conseguem mudar a impressão geral- salvo algumas
minorias que ainda têm esperança (até quandor}?",
Liderança Cristã Transformadora
20SIf----:......--------=!....------------------
Manfred W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

3 - LIDERANÇA CONTRA IRRELEVÂNCIA SÕCIO-CUlTURAl

Sem dúvida, nós, evangélicos, poderíamos ser


identificados, hoje, como uma "subcultura", isto é, uma
cultura dentro da cultura brasileira, à medida que se tem
adotado uma dupla postura que, por um lado, cria uma
tradição própria ("alienígena") e com um verniz de
sacralizada, e, por outro, demonstra repulsa e censura a
"decaída" cultura brasileira. Conheço algumas pessoas de
nossas igrejas que, antes de se converterem, eram hiper-
criativas, vivazes, inteligentes e ousadas em sua área de
atuação específica e, após a "conversão" e intervenção de
um determinado líder em sua vida, de uma ora para outra,
tornaram-se pessoas, com perdão da expressão, "tapadas",
confinadas, em sua consciência e atuação, a uma visão de
mundo aprisionadora, indolente e intolerante.
Ora, não podemos confundir "conversão" com
"adestramento", isto é, com um tipo de treinamento em que
se cria no indivíduo um estereótipo comportamental fechado
e "comum" a todos os "espécimes" iguais a ele, incutindo no
mesmo a idéia de que tudo o que fazia antes, desde então,
não presta pra mais nada. Neste sentido, são pertinentes as
considerações de Cavalcanti'":
Não se transforma o mundo sem nele participar. É uma
heresia dos desobedientes, dos medrosos, dos
preconceituosos e dos acomodados a atitudes de
isolamento dentro das quatro paredes da igreja, o
separatismo, a alienação de um falso "triângulo da
felicidade": "trabalho-lar-igreja", sem o exercício
, I de Cl.d adama,
responsave . como "sai" e "1 UZ.
"E;,a faaisa
1

"teologia" do "crente não se mete nisso" ou "isso não é


lugar para crente". Ou essa gente não leu os evangelhos,
ou não aprendeu nada com a vida de Jesus. Assim, nos,
Carismas e cultura: paradigmas para uma liderança transfõrmadora
Jonathan Menezes

ausentamos dos esportes, das ciências, da literatura, das


artes, das manifestações folclóricas. Assim, não vivemos,
mas somos apenas "pré-cadáveres". No Brasil, uma ênfase
particular contra tal "mundo" se refere à nossa cultura,
por suas raízes ibero-católicas, ameríndias ou africanas.
Por esse raciocínio, des-mundanizar-se seria des-
brasilerar-se,
Precisamos, sim, enquanto líderes, adotar uma nova
postura, mentalidade e visão no que concerne à sociedade e
a cultura em que vivemos, em relação ao povo a quem
queremos servir; uma postura que reflita o nosso amor e
não nossa arrogância e intolerância religiosa. Conforme
observa Alfredo Oliva32 :
Uma coisa é o confronto de argumentos e de projetos
de vida propostos por uma determinada denominação
religiosa, outra coisa bem distinta é a agressão simbólica
ou real à fé alheia. Precisamos de uma liderança que
saiba respeitar as outras religiões, mas que também
respeite as suas próprias convicções e projetos dela
decorrentes. Expandir convicções com argumentos
sábios e respeito chama-se evangelização. Agredir
simbólica ou efetivamente o outro se chama intolerância.
Penso que a intolerância não deve ter espaço no mundo
"
contemporaneo.
A postura "radical", advogada por tantos evangélicos,
nada atrai senão mais barreiras para a aceitação do evangelho
o qual pregamos. Basta olhar para história do cristianismo
através dos séculos para constatar quão infeliz este foi quando
tentou confrontar o "mundo pagão" com todas as formas
de intransigência e fundamentalismo religioso. Por outro
lado, john Stott fala sobre uma verdadeira postura radical,
capaz de transformar mentes e corações amargurados e
bélicos, em mananciais de ternura, que é a atitude de
210 Liderança Cristã Transflrmadora
I_~'---_-J.-
Manfred W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)
_
humildade e amor, posto que estes são valores paradoxais à
lógica relacional do ser humano caído (ver CI 3: 17,23). De
acordo com Cavalcanti, "Testemunho não é dado em riste,
hipocrisia, anacronismo ou estrangeirismo, mas vida de
amor'Y, Como líderes, devemos usar nossa capacidade e
criatividade para mostrar o grande valor do conteúdo da
mensagem do evangelho, mas para isso precisamos sair de
nossas "tocas de coelho", parafraseando John Stott, deixar
de lado nossos preconceitos e repulsa total às "coisas do
mundo", com compromisso e envolvimento, sem, no
entanto, ter que abandonar nossos princípios, a exemplo do
que fez Jesus (Ver )0 4:1-30).
A pergunta que fica, creio eu, diante desse quadro
não pessimista, mas realista é: existe alguma perspectiva de
conciliação entre carisma e cultura? A primeira imagem que
me vem à mente quando penso em "conciliação", nesse
sentido, é a de líderes e leigos evangélicos brasileiros
assumindo seu papel como cidadãos deste mundo,
pertencentes e "amantes" da cultura tupiniquim (de seus
aspectos ricos e positivos), sem demonizá-la ou desprezar o
que dela é próprio, mas valorizando o que é bom e
"ajustando" aos poucos (não com o "moralismo protestante",
mas com inconformidade santa e com testemunho de vida
e fé) o que é negativo. Pessoas que assumem seu papel
profético na sociedade, que usam seus dons e talentos a seu
serviço, tornam-se mais uma parceira para o bem-comum
da cidade, impregnando-a com os valores do reino, muitas
vezes de maneira tácita, porém significativa, assim como os
efeitos do fermento, do sal e da luz.
Alguns líderes costumam ensinar, fazendo alusão à
relação do cristão com o mundo que o cerca, que joio e
trigo não se misturam, mas devem ser "separados" um do

I
, H I, '1It'I,_q
Carismas e cultura: paradigmas para uma liderança transformadora
[onatban Menezes

outro a fim de que não se confundam. A pergunta é: quando


é que eles se confundem? Obviamente que quando o trigo
não produz frutos. Produzindo frutos, o trigo naturalmente
se diferencia do joio. Ora, joio é erva daninha, e a presença
de ervas daninhas no campo é normal. Vejam que na
Parábola do Joio (Mt, 13:24-30), Jesus passa a rever o modo
de testemunhar a vinda do Reino de Deus e o julgamento
final. Ali, temos a descrição de cada personagem e seu
significado preliminar, posteriormente revelado por Jesus (v.
36-43): o homem (jesus), o campo (mundo), o dono do campo
(Deus Pai34) , a boa semente (filhos do Reino), o inimigo (Diabo),
o joio (filhos do maligno), e a colheita (fim desta era).
Desde a entrada do mal na humanidade, o campo
tornou-se habitação natural do joio. O joio só se sabe como
tal não por causa da boa semente plantada no campo, mas
por causa de seus frutos (trigo). O joio só aparece onde há
trigo, assim como o trigo só cresce porque está no meio do
joio. O joio tem raízes fones e, ao arrancá-lo, corre-se o risco
de arrancar junto com ele o trigo, por isso o dono do campo
ordenou aos servos que não o arrancassem (v. 29). "É
impossível eliminar o mal sem o dano do bem. No reino é
preciso tolerar a presença do bom e do mal, como Deus
tolera a criação (Mt 5.45), respeitando a liberdade dos
hornens'"". Conclui-se que um isolamento só pode ser
prejudicial para ambos, o mundo e a igreja. O fruto que
nos diferencia do mal do mundo (mas não nos separa) na
verdade é o amor, que é o elemento reconciliador subversivo
do Reino de Deus. Amor a Deus sobre todas as coisas e ao
próximo como a si mesmo.
2121----.:....-----L..-----~----~-
Liderança Cristã Transformadora
Manfred W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

4 - LIDERANÇA JOVEM: IMPORTANTES CONSELHOS


É complicado se colocar na posição de líder quando
ainda se é relativamente jovem. Lamentavelmente, ainda há
uma certa desconfiança, tanto na igreja como na sociedade,
em relação às capacidades e responsabilidades de um jovem,
principalmente quando esse jovem torna-se um líder. Como
diz uma canção da banda Charlie Brown jr., "o jovem no
Brasil nunca é levado a sério"36. Muitas barreiras ainda
precisam ser rompidas no sentido da eliminação desse tipo
de preconceito. Porém, temos que reconhecer, há também
no jovem uma postura de rebeldia em relação ao mundo
que o rodeia. Existe um velho ditado que diz: "se conselho
fosse bom ninguém daria, mas, sim, venderia", Isso pode ser
verdade tanto para jovens, como pra quem se acha "bom
demais" pra receber qualquer conselho, ou que já tenha
vivido o bastante pra não ter que aprender coisas novas com
outras pessoas no meio do caminho. Conheço pessoas assim,
jovens que fazem disso um lema de vida, e às vezes eu também
me porto dessa maneira, querendo escutar apenas a mim
mesmo, desconsiderando a palavra e conhecimento dos
outros ("mais experientes"). A caminhada de um jovem líder
cristão, em meio aos conflitos inerentes à juventude e aos
dilemas de nosso tempo, entretanto, requer um pouco mais
de humildade e clareza no trato com outras pessoas e com Deus.
Enquanto somos jovens somos destemidos, rebeldes,
impetuosos, contestadores, queremos ser originais em tudo,
buscamos o centro das atenções; em certos momentos chega
parecer que somos imortais ou que desejamos ser como Peter
Pan e jamais ter que envelhecer. De acordo com as
elucidações de Henri Nouwen,
Carismas e cultura: paradigmas para uma liderança tramftrmaJora
Jonathan Menezes

Esse comportamento convulsivo' é freqüentemente mal


compreendido por aqueles que detêm o poder e
entendem que a sociedade deveria ficar protegida contra
jovens contestadores. Eles não reconhecem a tremenda
ambivalência por trás desse comportamento convulsivo
e, em vez de oferecer oportunidades criativas, tendem a
polarizar a situação e a alienar ainda mais aqueles que
estão, na realidade, tentando somente descobrir o que
vale a pena ou não:".
A juventude é tão bela e cheia de cores, assim como
a primavera. O que a primavera é para o tempo, a juventude
é para a vida. Porém, do mesmo modo como a primavera é
passageira, a juventude também é. Que tipos de lembranças,
portanto, terão desse período, jovens como você e eu?
Lembraremos com sanidade e saudade "daquele tempo",
ou com pesar e arrependimento das oportunidades que
perdemos em nossa juventude? Cada geração está enferma
de uma nova maneira, parafraseando John Barryman. As
enfermidades de nossa geração, via de regra, estão
diretamente ou indiretamente ligadas ao tipo de vida que se
leva no período da juventude. Como podemos gozar da
juventude, hoje, sem ter que carregar traumas para o resto
da vida, quem sabe como fruto de rebeldia (pecado), do
descaso das pessoas, dos abusos da religião ou da submissão
cega aos ditames de nossa cultura? (Ec 11: 1O).
A autenticidade deve ser uma marca da juventude
cristã de nosso tempo, contra todas as formas de' opressão e
abuso. Paulo, ao aconselhar o jovem líder Timóteo, traz
algumas diretrizes (tão atuais) sobre o que seria uma juventude
frutífera a caminho da maturidade cristã (ITm 4::1-16):
1 - Ensine e semeie esperança (v. 11). Todas as coisas
são boas e puras e devem ser recebidas com gratidão pelos
"puros" (v. 4). Tudo é graça. Paulo, aqui, não está
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Liderança Cristã ,Transformadora
Manfred W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

banalizando o pecado nem tampouco as maldades


provenientes deste mundo, mas apenas lembrando que Deus
é o criador de todas as coisas, por isso, Ele as purifica por
meio da palavra e da oração.
2 - Seja exemplo de integridade (v. 12). Uma pessoa
íntegra sabe respeitar todas as etapas e momentos de sua
vida e da de outros, sem desprezo, mas com amor e
humildade.
3 - Seja mentor de outros (v. 13). Ou seja, cuide de
si mesmo, mas também seja um facilitador para que outras
pessoas alcancem a maturidade na fé e no entendimento
sobre Deus e sua palavra.
4 - Exercite seus dons (v. 14). Não se pode
negligenciar que Deus nos dotou de dons e talentos, e que
isso tem que ser revertido em serviço, no mundo, na igreja,
para sua glória.
5 - Mostre seu progresso (v. 15). Era necessário a
Timóteo, devido às desconfianças quanto a sua liderança
jovem, que se evidenciasse seu progresso perante os demais.
O "progresso", aqui, não é fruto de uma competição
ambiciosa e perniciosa para se tornar melhor que ninguém,
mas para se tornar padrão de humildade e serviço aos outros.
6 - Cuide da sua coerência (v. 16). Não atente tanto
para o que se diz, mas especialmente para o que se faz.
Coerência não se evidencia só com o discurso, mas com ações
que legitimam esse discurso.
Todavia, vele ressaltar que cuidar da coerência não
significa negar nossas idiossincrasias. A coerência na vida de
um líder não é resultado de uma corrente determinista de
ações programáticas marcadas por um preciosismo
orgulhoso, mas é fruto da sensatez e honestidade de quem
um dia já conheceu e reconheceu as incoerências de seu ser,

I. l ' I '. I' i !~I'~"''' ~,,! 1I li fll i


, H
Carismas e cultura: paradigmas para uma liderança transfôrmadora
Jonathan Menezes

sem negá-las, mas procurou aprender com elas. Nouwen


escreveu que não há reação mais danosa à nossa juventude
do que a tendência de sublimar ou tentar esconder o "outro
lado", o lado "obscuro" das coisas próprias de um jovem, de
"queimar etapas" do amadurecimento, na tentativa de nos
mostrarmos perfeitos aos outros, "mais espirituais", sem
defeitos e sacrossantos. A integridade, não o integrismo, deve
ser a marca do amadurecimento para os jovens líderes de
nosso tempo, conforme expõe este autor:
Mas há um caminho para a maturidade em que podemos
dizer: "claro, eu tenho pontos fracos, mas isso não faz
de mim um fraco. Também tenho pensamentos feios,
mas isso não me faz feio". Essa é a constatação de que
devemos tolerar o joio a fim de colher bom trigo. Se
tentarmos erradicar todo o joio, correremos o risco de
arrancar junto o precioso trigo. Um homem que nunca
fica furioso ou zangado também não consegue defender
apaixonadamente coisa nenhuma. Um homem que
nunca perde a calma pode, na verdade, não ter muito a
perder; aquele que nunca se aborrece também raramente
se regozija. Aquele que não corre riscos nunca pode
fracassar, mas também jamais conhecerá o sucesso:".
Sem essa percepção do líder, desde a juventude, sobre
si mesmo como sendo um ser humano decadente, o inevitável
encontro com a Graça capacitadora de Deus nunca assumirá
seu inseparável significado, tão pouco terá valor; nem será
marcado por real compaixão o encontro com seus
semelhantes, os quais, sem esse elemento essencial a qualquer
líder (a compaixão), sempre serão vistos como simples
subordinados, ao invés de parceiros no serviço ao Senhor. A
compaixão, segundo Nouwen, deve tornar-se o âmago e até
a natureza da autoridade. ''A compaixão nasce quando
descobrimos, no centro de nossa própria existência, não só
Liderança Cristã Transformadora
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Manfred W; Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

que Deus é Deus e homem é homem, mas também que


nosso vizinho é realmente um semelhante" 39• Desse modo,
o que faz da liderança cristã ser realmente "cristã" e
transformadora não é seu otimismo contra todas as disputas
da vida, como ressalta Nouwen, mas porque "é
fundamentada no evento histórico de Cristo, que é
entendido como uma ruptura definitiva na corrente
determinista do erro e julgamento humanos e como uma
afirmação inquestionável de que existe luz no outro lado da
escuridão" 40 •

CONSIDERAÇOES FINAIS

Liderança cristã, antes mesmo de ser uma dotação


burocrática de posições, cargos e de poder, é algo
primariamente concedido pelo Espírito Santo a líderes
carismáticos, isto é, a pessoas que, sendo capacitadas por
Deus, adotaram uma postura humilde e uma sincera
disposição em servir e amar a Ele e ao próximo. Estes homens
e mulheres, na maioria das vezes, não tencionaram ser líderes,
mas foram escolhidos por Deus a atender às necessidades
provenientes de uma conjuntura ou circunstância específica
e emergencial, como foi o caso de Moisés, Davi, Elias, Ruth,
dos discípulos de Jesus, de Paulo, dos que surgiram com a
igreja primitiva, e tantos outros na história, dos e das quais
somos posteridade. Por isso, convido-os a olhar para frente,
sem, no entanto, se esquecer de atentar para o passado,
contemplando a ação de Deus na vida de líderes que ele
mesmo escolheu para servi-lo, para sua honra e glória!
Como desafio de ordem pessoal, no campo
vocacional e relativamente aos conflitos existenciais inerentes
a caminhada do líder cristão, faço menção neste momento
às sinceras e lúcidas palavras de Antonio Carlos Barro:
Carismas e cultura: paradigmas para uma liderança traniformadora
Jonathan Menezes

Como eu sei que Deus realmente me chamou para o


ministério? Como eu sei que eu devo ser o líder que
Deus está buscando para esta tarefa? Pensando na figura
pastoral eu creio que ele ou ela terá esta dúvida antes,
durante e depois do seminário. Talvez seja algo que
acompanhe o líder o tempo todo. Isto será mais forte
especialmente nos momentos de crises, desânimo,
incertezas. Nos momentos de fracassos e também nos
momentos de tomar decisões elevadas e de ordem mais
grave. Eu diria que isto faz parte do ministério. Continue
tocando em frente! (...) Não nos esqueçamos que durante
a nossa caminhada Deus vai produzindo através de nós
frutos que confirmam a nossa vocação e chamado'".
Para finalizar, volto ao problema inicialmente
levantado. Aprendendo com as experiências, caminhos e
descaminhos vivenciados e percorridos por líderes que
protagonizaram a história da fé cristã, diria que uma das
posturas mais coerentes, para mim, na busca de uma
identidade e santidade vocacional, é a de não ambicionar o
status de ser marcante, posto que a verdadeira "diferença'
não se encontra na tentativa pré-agendada de ser-estar
"reI evante, " " espetacuIar" ou ccpo d eroso " perante a
coletividade (o que inclui a igreja), mas de desempenhar
um ministério moderado pela discrição, sensatez e pela
simplicidade, preferindo viver à "sombra", aos pés de Jesus,
o nosso Senhor, que é quem genuinamente deve "aparecer".
Diante das constantes tentações para que o líder
cristão seja esse indivíduo polivalente, que não pode de modo
algum demonstrar suas vulnerabilidades, nem tampouco
fracassar em qualquer empreendimento que possa tomar
frente, uma liderança transformadora req~er o devido
reconhecimento, especialmente diante dos liderados, de suas
fraquezas e limitações, e do ensino primordial de que, para
Liderança Cristã Transformadora
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Manfted W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

sermos santos e virtuosos, antes precisamos ser totalmente


humanos, aprendendo a extrair dos paradoxos dessa nossa
humanidade, a beleza da Graça que nos faz imagem e
semelhança de Deus. "Pois quando sou fraco é que sou forte".
(2eo. 12:10). Paulo, aqui, nos desafia a subverter a "lei da
selva" que impera em nosso mundo e, com ela, as ambições
que nos fazem subjugar uns aos outros e passar, assim como
ele, a gloriar-se nas coisas que evidenciam nossas fraquezas e
nao
,., em nossa suposta "J:rorça"N . as f raquezas somos
aperfeiçoados, pois nelas a Graça de Deus se faz presente e
suficiente, nelas seu Poder se aperfeiçoa. Por causa destas
fraquezas, dependemos cada vez menos de nós mesmos e
cada vez mais da Graça de Deus. Portanto, não há por que
se envergonhar se o mundo nos despreza, persegue ou
insulta, visto que é em fraqueza que o Poder de Deus repousa
em nós, fazendo-nos verdadeiramente fortes, e a força dos
"fortes" deste mundo, em Deus, é aniquilada. Devemos crer
conforme a poesia abaixo, que diz:
Quando Deus deseja treinar um homem,
Eletrizar um homem, capacitar um homem;
Quando Deus deseja amoldar um homem,
Desabrochar sua parte mais nobre;
Quando ele anseia com todo o coração,
Criar um homem tão grande, tão audaz,
Que o mundo ficará estupefato,
Observai seus métodos, vede seus caminhos!
Ele impiedosamente aperfeiçoa,
Aquele a quem soberanamente elege!
Vede como Ele o martela como o fere,
E com golpes poderosos o converte,
Em pedaços tentativos de barro que só Deus
compreende;
Carismas ecultura: paradigmas para uma lidtranfa transformadora
Jona~an Menezes 219

ocora~áo torturado do homem chora,


Enquanto ergue mãos suplicantes!
OSenhor verga, mas jamais quebra,
Na busca do bem de seu fIlho;
Vede como Ele usa aquem escollieu,
Ecom propósito ofunde;
Cada ato induz aquele homem,
Adescobrir oesplendor de Deus - Po~ Deus sabe o
que faz!42
220 If----~~-~~~~~~-~~~---------+
Liderança Cristã Transformadora
Manfred W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

NOTAS

1 Gíria popular utilizada para designar uma pessoa que participa de um


determinado processo ou atividade. mas cujas opiniões e atuação "não contam"
ponto ou, no final das contas. possuem relevância quase zero.
2 SNYDER. Howard. A Comunidade do Rei. São Paulo: ABU editora. 2004.
p.9.
3 Ibidem.
4 Idem. p. 93.
5 Idem, p. 95.

6Apud. STOrr, John. Ouça o Esptrito, Ouça o mundo. São Paulo, ABU,
1998, p.153,154.
PETERSON. Eugene. À Sombra da Planta Impreoisiuel: Uma Investigação
da Santidade Vocacional. Campinas. SP: United Express, 2001, p. 65.
11 STOTT, ibid., p. 324.

12 Ibidem.
13 Cf. Proença, W L. "Uma Igrejasem o Propósito da Maturidade na Palavra",

In: BARRO. Jorge H. Uma Igreja Sem Propósitos. São Paulo: Mundo Cristão,
2004, p. 61.
14 Cf. O'ARAÚJO. Caio Fabio. A Igreja Evangélica eo Brasil: Profecia,Utopia
e Realidade. Niterói, RJ: Síntese. 1997. p. 63.
15 PETERSON. idem, p. 54, 55.
16 NOUWEN, Henri J. M. O Perfil do líder Cristão do Século XXI. Belo
Horizonte: Atos, 2002, p. 18, 21.
17 Ibid., p. 52.
18 Alusão feita por John Stott em seu Comentário aoPacto de Lausanne. Série
Lausanne 30 anos. ABU: 2003, p. 66.
19 ARAGÃO, Humberto M. O L/der cristão e sua Identidade Cultural.
Curitiba: Descoberta. 1999, p. 08.
20 STOTT. ibid.• p. 160.
21 PROENÇA, Wander de Laca. "Um intérprete das transformações culturais
da cidade". In: BARRO, Jorge H. O Pastor Urbano. Londrina: Descoberta,
2003. p. 52.
22 YANCEY, Philip. Alma Sobrevivente. Sou cristão, apesar da Igreja. São
Paulo: Mundo Cristão, 2004. p. 58.
23 Folha de Londrina, 07/0312005, Caderno 2, p. 7.
24 YANCEY, idem, p. 60.
25 CAVALCANTI, Robinson. O Brasilnão serd Evangélico? Revista Ultimato
- Ano XXXIII - nO 265, Julho/Agosto, 2000.
26Ibid.
INTRODUÇÃO

Uma das razões que me estimula a escrever sobre este


assunto é o momento por que passa a igreja evangélica
brasileira, quando pensamos em seu modo de vida, tanto
em nível eclesiástico e denorninacional, com respeito a sua
missão transformadora na sociedade.
No decorrer de meus anos de ministério pastoral e
atualmente como professor e diretor de um Seminário
Teológico com visão ministerial, sou levado a pensar que o
momento que atravessamos é por demais delicado. Isso,
porque vemos igrejas locais procurando ansiosamente meios
de crescimento numérico, muitas delas até sinceramente.
Buscam cumprir o mandado de nosso Senhor Jesus Cristo,
mas em sua caminhada têm abandonado princípios
inegociáveis da Palavra o que implica em uma situação de
estresse espiritual para a comunidade, dilui o conteúdo da
fé e enfraquece o ministério dos cristãos, resultando em uma
débil diferença na sociedade que vivemos.
Que é mandamento de nosso Senhor que cresçamos
em número, ninguém duvida, contudo seria pertinente
levantarmos algumas ponderações: Qual a verdadeira
motivação dos líderes locais na busca ansiosa de um
crescimento da igreja? Estamos observando um crescimento
equilibrado nas igrejas locais? Qual o estilo de vida com o
qual a igreja tem cumprido o seu papel marcando
relevantemente nossa sociedade? Até que ponto é possível
dizer que há um verdadeiro crescimento em nossas igrejas
locais? Nas palavras de um missiólogo brasileiro: ''A igreja
nasceu como um fato na Palestina, veio pàra a Grécia e
tornou-se uma idéia, foi para Roma e tornou...se uma
2261i---~--"-------------
Liderança Cristã Transformadora
Manfted W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

instituição, foi para os Estados Unidos e tornou-se um


empreendimento, veio para o Brasil e tornou-se um evento".
Atualmente, a igreja brasileira está sofrendo porque
não compreende claramente o discipulado como o
verdadeiro estilo de vida para transformar o meio em que
ela vive. Os cristãos não são desafiados a fazer discípulos e
permanecem tranqüilos com respeito a sua maneira de ser.
Partindo do princípio de uma Teologia Bíblica Integral de
Discipulado, desejo levantar questões relevantes a respeito
do discipulado e, ao mesmo tempo, descobrir implicações
práticas desse estilo de vida proposto por Jesus para uma
liderança que transforma.
1 - DEFINiÇÕES GERAIS

Para que compreendamos o sentido da palavra


discipulado, necessitamos recorrer à etimologia de algumas
palavras que aparecem nas Escrituras. Necessitamos definir
discipulado em termos gerais e específicos, buscando os vários
significados de algumas palavras no original grego e que
nos ajudam a discernir o assunto o qual desejamos tratar.
A primeira palavra que nos traz à mente a idéia de
discipulado é akolouteo. Traduzida por seguir, denota a ação
de uma pessoa respondendo ao chamado de um mestre, e
cuja vida inteira é reformulada no sentido da obediência. A
idéia no grego clássico é de alguém que seguia a Deus ou a
natureza como idéia filosófica que se identificava mediante
uma incorporação. Essa palavra no Antigo Testamento
correspondia à halak que literalmente dava a conotação de
"ir atrás de". No Novo Testamento, akolouteo é empregado
56 vezes nos Evangelhos Sinópticos e 14 vezes em João, 3
vezes em Atos, urna vez em Paulo e 6 vezes no Apocalipse",
Embora sendo usada algumas vezes para denotar as

I I. ~. ~.,
';f~,."t,,~. II 1~I.h-~.i~' I
Discipulado cristão: o estilo de vida de uma liderança que transforma
Luiz Augusto Corrêa Bueno

multidões que "seguiam" a Jesus, ela somente terá uma


importância maior e sobretudo maior ênfase quando
atribuída ou vinculada a pessoas que estavam seguindo o
Mestre. Alguns textos, principalmente os que estão narrando
o chamado vocacional dos discípulos por Jesus, usam
akolouteo para evidenciar um convite muito mais desafiador
do que diplomático. Em Mt 9.9, Jesus chama a Mateus e
diz "segue-me". A mesma palavra é usada para o desafio
colocado ao jovem rico, que depois de vender todos os seus
bens e dar aos pobres, o mancebo deveria seguir ao Mestre.
Quando Jesus fala realisticamente sobre o ser discípulo em
Mt 8.22, Mateus o usa para mostrar a prioridade que os
seus seguidores deveriam ter para com o Seu projeto. Esta
palavra tem uma forte conseqüência tanto histórica como
culturalmente para as pessoas da época de Jesus.
Com um pano de fundo histórico, "seguir" era fator
preponderante para alguém se fazer aluno nas escolas
peripatéticas em que o discípulo se fazia "um com o seu
mestre", mas, sobretudo, se identificava com ele de tal
maneira que o colocava em primeiro lugar, deixando todas
as coisas para trás, despojando-se delas nos níveis mais
elevados de compromisso. Aprender era de fato uma questão
de vida, de exclusividade e de cumplicidade. Este aprender
significava perder tudo para ganhar a vida, fosse no aspecto
filosófico ou no religioso. No aspecto espiritual, Jesus
chamava seus discípulos com autoridade divina, como os
próprios profetas eram chamados por Deus no Antigo
Testamento.
A outra palavra encontrada é mathetes (discípulo).
É aquela pessoa que ouve o chamado do mestre e se junta a
ele. É um aprendiz. Raíz da palavra mantano, que no tempo
clássico era um verbo entendido por adaptar-se. Alguém
Liderança Cristii Transformadora
Manfred W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

era chamado de matbetes, quando se ligava a outra pessoa a


fim de adquirir conhecimento prático e teórico. Já no Antigo
Testamento, a palavra equivalente no hebraico possuía uma
conotação um pouco mais fraca. A ênfase recaía sobre Israel
como povo de Deus, no sentido de que ele deveria aprender
de Deus e se voltar para Ele constantemente. Contudo, a
relação entre o talmid (aluno) e o seu moreh (professor) era
muito forte especialmente no judaísmo rabínico. Este
relacionamento tornava-se como uma instituição para o
estudo detalhado da Torah.
No Novo Testamento mathetes tornou-se a palavra
para indicar total devoção a Cristo, era o sinônimo de
discipulado. A palavra usada possui uma conotação muito
forte, evidencia que o discípulo convive com o mestre, recebe
conhecimento e, especialmente no discipulado de Jesus, está
disposto a servir.
Outra palavra relacionada ao discipulado é
mimeomai (imitar). O verbo enfatizá a natureza de um tipo
especial de comportamento, modelado em outra pessoa.
Segundo Brown, mimeomai se aplica a pessoas específicas
que são, obviamente, exemplos vivos para a vida da fé.
Mesmo sendo o apóstolo Paulo aquele que usa
freqüentemente essa palavra para motivar seus discípulos a
uma vida de imitação, jamais se incluía como alvo final a ser
imitado (l Co 11.1). Pelo contrário, ele sempre apontava
Jesus como sendo a proposta final de imitação e exemplo.
Chegamos à conclusão de que discipulado tem a ver
com a razão de ser da Igreja de nosso Senhor. Se analisarmos
essas palavras, definiremos tal ação como a que o Mestre se
propôs em seu ministério: discípular homens, para que eles
pudessem, ao final de sua jornada aqui, fazer que seus ensinos
e mandamentos fossem sabiamente repassados na perspectiva

H ,'I ti' I
Discipulado cristão: o estilo de vida de uma /íderanf4 que transfimna
Luiz Augusto Corrêa Bueno

da obediência, tornando-se seus discípulos e seguidores.


Contudo, este seguir jamais viria sem um compromisso de
vida, de dedicação, de amor e de entrega irrestrita ao Mestre.
Conjugado a isso, o Mestre seria o alvo maior, como exemplo
e modelo a ser imitado. Já não é um movimento, mas sim,
um estilo de vida que todos os seus seguidores assumem
diante do mundo e chamam outros a vivenciar uma
mudança radical no meio em que vivem em prol da glória
de Deus e satisfação de seus corações.
Waylon Moore afirma que discipulado é:
o processo de tomar novos convertidos, educá-los e levá-
los a um estado de maturidade e adulta comunhão com
Cristo e de serviço eficiente. (... )fazer discípulo de uma
pessoa é levá-la a experiência de ter Jesus como Senhor
e centro de sua vida. Ser discípulo implica num ato de
entrega e num processo de obediência. Um homem é
discípulo de Cristo, quando permanece em sua palavra,
glorifica ao Pai e dá frutos (joão 8.31; 15.8).2
Sem dúvida, a experiência de ser encontrado por
Cristo através da fé é condição sine qua non para que o
discipulado se inicie na vida de uma pessoa, e o processo de
obediência é o resultado sadio de alguém que está
caminhando na fé. Além disso, Roben Coleman afirma, ao
comentar o texto de Mateus 28.18-20, que o discipulado
se refere ao "ir, batizar e ensinar particularidades de uma
ação maior, ao que Jesus chama de fazer discípulos. São
responsabilidades que derivam da direção do fazer
aprendizes de Cristo". Coleman chama a atenção da igreja,
dizendo que discipular homens e mulheres é a prioridade
acerca da qual nossas vidas deveriam ser orientadas."
Já David Kornfield, trabalhando no Brasil,
atualmente com pequenos grupos e com discipulado, em,
Liderança Cristã Transformadora
230 1 - - - - - - . : . . . - - - - " - - - - - - - - - - - - - - - - - ' - -
Manfred W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

seu artigo - Discipulado, a Verdadeira Grande Comissão -


define discipulado como "uma relação comprometida e
pessoal em que um discípulo mais maduro ajuda outros
discípulos de Jesus Cristo a se aproximarem mais dele e assim
se reproduzirem" e argumenta: "Se o discipulado perder de
vista o relacionamento comprometido e pessoal, deixa de
ser um discipulado bíblico". A sua ênfase está nos
relacionamentos. É no relacionamento pessoal e social que
se descobre o verdadeiro valor do discipulado. Se não há
relacionamento interpessoal, então é impossível a realidade
do discipulado de Cristo.
Larry Richards, em seu livro Teologia do Ministério
Pessoal, comenta que "o discipulado envolve a reformulação
da vida do cristão em direção à obediência, a fim de que
possa tornar-se como Jesus" e ainda: "A missão da igreja não
é simplesmente conseguir conversões, mas completar o
processo da vida cristã fazendo discípulos". Então, o
discipulado é o instrumento pelo qual nossa sociedade pode
ser transformada porque o trabalho é efetivamente com
pessoas e não com programas.

2 - HISTÓRIA, CULTURA E CONTEXTO

Um dos maiores pecados da igreja na sua missão é


achar que o discipulado seja mais um método de
evangelização. Acredita a maioria dos líderes eclesiásticos
que além dos vários programas que a igreja dispõe para atrair
os convertidos, o discipulado, quando bem usado, é bom
para o crescimento da igreja. Muitos líderes quando
discipulam tentam "incrementar" a igreja com mais esse
"programa". Ao contrário do que se pensa, defendo
discipulado como um princípio geral que conduz os cristãos
a um estilo de vida. Longe da tentativa de forçar

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Discipulado cristão: o estilo de vida de uma liderança que transforma
Luiz Augusto Corrêa Bueno

determinados textos, essa prática, pelo pano de fundo


histórico e contextual, fazia de Cristo o Mestre por excelência
e seus discípulos como os que haviam deixado tudo e se
propunham a caminhar com Ele. Isto quer dizer que estes
decidiam mudar o seu próprio estilo de vida. Antes, senhores
de suas próprias vidas, autores de seus projetos pessoais;
agora, submissos e alunos da vida ao lado de Jesus.
Quando olhamos para o contexto do treinamento
rabínico, Richards" - citando Moses Aberbach - descreve o
padrão de educação do discípulo:
O padrão está ligado a um relacionamento pessoal entre
aluno e professor. Embora o estudo pessoal não fosse
desconhecido, era totalmente desaprovado, como passível
de resultar em aberrações. O treinamento recebido do
mestre incluía muito mais do que o estudo acadêmico,
estendendo-se para além da sala de aula. O discípulo
passava a maior parte de tempo possível com o professor,
muitas vezes vivendo com ele na mesma casa. Esperava-
se que os discípulos não só estudassem a lei em todas as
suas ramificações como também se familiarizassem com
um estilo específico de vida, o que só podia ser feito
mediante convivência constante com um mestre. Os
rabinos ensinavam tanto pelo exemplo como por
preceitos. Por esta razão o discípulo precisava anotar as
conversas e hábitos diários do mestre, assim como o que
ensinava. Os alunos tratavam os professores com grande
deferência e respeito. Seguir um mestre significava
aceitar os seus ensinamentos, mas ao acompanhá-lo,
esperava-se que os discípulos andassem literalmente atrás
deles, de um lado ou de outro. Os alunos também
serviam os professores de várias maneiras práticas que
iam desde arrumar os bancos na sala de aula até fazer
compras e cozinhar para eles. Ajudar o mestre na casa
de banhos era um serviço tão comumente associado com
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232 ~.
Manfred W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

o discipulado que a frase: 'Vou levar as roupas dele à


casa de banhos' tornou-se sinônimo, de 'Vou ser seu
discípulo'. A despeito da subordinação e hábitos de
respeito que caracterizavam o relacionamento mestre
discípulo, este não era de forma alguma distante ou
formal. O professor tentava educar os discípulos como
filhos: cuidava deles, sustentava-os (no geral esta
educação era financiada pelo rabino) e elogiava ou
advertia os discípulos conforme o caso. Aberbach
descreve a relação como um amor paterno.. filial intenso.
O estilo de vida almejado por Jesus para a
transformação de uma sociedade não pode ser outro senão
aquele que tem seu pano de fundo histórico na formação
do discípulo pessoa-a-pessoa. O Velho Testamento nos relata
discipulados significativos. Quando percorremos a história
bíblica, podemos nos lembrar do relacionamento de Moisés
e Josué. O caráter da missão de Moisés, quando recebera
seu chamado no Monte Horebe, possuía essencialmente
alguns objetivos: Retornar para o Egito, libertar o seu povo
do cativeiro, caminhar com este pelo deserto, sofrer as duras
situações junto com o povo, partilhar das conquistas e
estabelecê-lo na Terra Prometida. Porém, uma das marcas
de sua liderança foi a formação e preparação de Josué para
assumir a liderança do povo de Israel. Seja em Êxodo ou
Deuteronômio, observamos que havia uma ligação muito
estreita entre ambos, a tal ponto de Deus depositar a mesma
autoridade de Moisés sobre os ombros de Josué.
Quando voltamos os olhos para a época de Eli e
Samuel, especialmente em seu chamado muito precoce para
o profetismo de Israel (l Sm 3), nota-se que Samuel convivia
muito de perto com o Sacerdote Eli. A idéia era de fato um
aperfeiçoamento através de um sistema relacional. A mesma

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Discipulado cristão: o estilo de vida de uma liderança que transforma
Luiz Augusto Corrêa Bueno

situação acontecia entre Samuel e Natã, Elias e Eliseu, Eliseu


e os profetas de sua escola. Estes são exemplos em que a
Escritura registra que o princípio do discipulado estava
latente neste período, contudo ainda não o era de forma
patente até a época de João Batista. No período do Novo
Testamento iremos ver de fato o discipulado sendo a busca
da igreja do Novo Testamento como um estilo de vida.
Seria importante falar sobre João Batista e seu
ministério. Quando Jesus já desenvolvia seu ministério
particular com seus discípulos, encontram-se várias
declarações dos evangelistas a respeito dos discípulos de João
Batista. Em alguns casos eram investigadores a mando do
próprio profeta (Mt 11.2), ou então manifestavam práticas
como a do jejum entre eles (Me 2.18). Em outra situação os
discípulos de João Batista expressaram maior dedicação ao
seu mestre do que os próprios discípulos do Senhor, pois
nos diz Marcos 6.29 que, após o martírio do profeta, eles
mesmos foram e sepultaram o seu mestre. Em João 1.37
parece-nos que André e Pedro já eram discípulos de João e
que ao chamado do Mestre não titubearam e preferiram
Jesus a João. Tal- atitude poderia expressar a fidelidade de
João Batista em ensinar e preparar os seus seguidores acerca
da vida e obra do Messias, do qual dizia que "não era digno
de desatar-lhe as correias das sandálias".
Se olharmos mais profundamente, concluiremos que
o estilo de Jesus era pautado por alguns princípios. Baseava-
se muito mais no relacionamento do que na absorção de
conhecimento acadêmico ou inrelecrual. A idéia de
discipulado para Jesus como princípio não era a de
transmissão de puro conhecimento. Quando olhamos para
Marcos 3.14, o texto nos diz que na escolha dos discípulos
Jesus "designou doze para estarem com ele e para enviá-los
2341f------....::......-..---"------~--------
Liderança Cristã TransfOrmadora
Manfted W Koh! e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

a pregar", isto é, estar com Jesus seria, sobretudo, a marca


do treinamento desses discípulos. Desse momento em diante
ficava claro que o ensino de Jesus seria o da convivência
pessoal. O estilo ou um modo de vida de Cristo seria
impregnado na vida e no relacionamento daqueles discípulos.
Tudo o que convergisse para Cristo no que se diz respeito a
Sua vida, Seu ministério, Suas obras, Seus milagres, eles
estariam testificando e provando. Quando vemos o
testemunho do apóstolo João no início de sua primeira carta,
ele declara: "O que era desde o princípio, o que temos
ouvido, o que temos visto com nossos próprios olhos, o que
contemplamos e as nossas mãos apalparam com respeito ao
Verbo da vida" (IJo 1.1). Isto confirma que o discipulado
era muito mais que absorção de conhecimento intelectual,
e sim um estilo de vida que marcaria para sempre a vida dos
discípulos. Essa "pessoalidade" do ensino de Jesus era sentida
em todos os níveis. A proposta do Mestre era além da vivência
relaciona! (Mc 3.8), a descoberta pelos próprios discípulos
dos mistérios do Reino de Deus através das parábolas (Mt
13.1-52), o conhecimento de uma intimidade jamais
declarada por Jesus às multidões, mas somente aos discípulos,
como no monte da transfiguração (Mt 17.1-8). Além disso,
a prática de ministério também era um ponto forte. Os
discípulos necessitavam ser confrontados até mesmo com os
endemoninhados (Mt 17.14-21). A prática da oração era
algo essencial (Mt 26.36-46) e, conjugado com ela, o próprio
Jesus mantinha um ministério pastoral entre os discípulos,
expressado especialmente no último contato com Simão
Pedro (]o 21.15-23). Mas o que aprendemos com Jesus
acerca do discipulado é que seu trabalho com os discípulos
era eminentemente pessoal. Em primeiro lugar, Jesus sempre
manifestava interesse por pessoas. Mesmo fora do

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, .
Discipulado cristão: o estilo de vida de uma liderança que transforma
Luiz Augusto Corrêa Bueno

discipulado, quando Jesus evangelizava, especialmente no


Evangelho de João, vemos seus contatos pessoais de forma
que implicava na vida de todos que mantinham alguma
relação com o Mestre, era o início de uma transformação
de vida. Isso se deu claramente com o fariseu Nicodemus
00 3), com a mulher samaritana 00 4) e com o paralítico
ao 5). Até as expressões fortes de Jesus também tinham lugar,
que geravam ira e abandono de Seu projeto por alguns
discípulos (]o 6). Jesus tinha por necessidade enfocar a
realidade do pecado para as pessoas, mas nunca as deixava
só. Seu discipulado tinha a ver com a misericórdia,
justamente tornando muito pessoal as palavras para a mulher
adúltera ao 8). o tratamento das moléstias físicas, como no
caso do cego de nascença, foi um momento importante para
pregar o evangelho do reino 00 9). Em todos os casos, Jesus
sempre enfocava seu ministério discipulador de maneira
muito pessoal e relacional.
A questão da relação de Jesus com os doze é sentida
hem claramente a partir do capítulo 13 de João, em que o
ministério de Cristo acontece de maneira mais efetiva. As
bases do discipulado são lançadas a partir desse ponto. Jesus
ensina aos seus discípulos que acima de tudo eles deveriam
ter a pessoa de Jesus como ponto de referência, em que o
modelo da Sua vida deveria ser um alvo para eles. A
humildade e a consciência do servir eram básicos em seu
estilo de vida 00 13). Os seus ensinos sobre a convicção da
vida futura e sua doutrina são lançados a partir da realidade
contextual em que viviam, isto é, mesmo que passassem pela
tribulação, Jesus seria para eles o exemplo maior da vitória
sobre o mundo. Por isso a esperança e a certeza da vida eterna
deveriam satisfazê-los plenamente (lo 14). A necessidade
da frutificação passaria pela realidade de estarem em íntima
2361--~----=~-------------
Liderança Cristã Transformadora
Manfted W Kobl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

comunhão o Mestre, que era como a videira e os seus


discípulos como os ramos. O assunto discipulado aqui é bem
explanado pelo Mestre e quanto mais fossem eles trabalhados
e forjados por Deus, maiores frutos estariam dando 00 15).
Acima de tudo, o discipulado tem a ver com encorajamento,
o "falar ao coração" (Is 40.1,2) e o consolo, demonstrando
que os discípulos deveriam esperar a consolação final. A
esperança viva que os aguardava, encheria os seus corações
de paz, pois o Consolador seria dado a eles. Jesus nunca
jamais os abandonaria.
Mas o discipulado de Jesus não apenas tratava de
questões relacionais ou questões da vida, visava também
proteção. O outro aspecto do discipulado era o que podemos
chamar de doutrinação. Mesmo quando ele se separa das
multidões, o treinamento especial era oferecido aos
discípulos de maneira bem privada. O sermão do monte,
por exemplo, é um reflexo disto. Durante todo este ensino
específico Jesus trata também de doutrinar seus discípulos
até mesmo em relação aos falsos mestres e falsos profetas.
(Mt 7.15-20)
Outra questão tratada por Jesus freqüentemente era
acerca da cruz no plano de Deus, e esta seria uma realidade
na vida do Mestre e de seus discípulos. Tomar a cruz era a
resposta do cristão para o mundo. Vários textos enfatizam o
tomar a cruz e morrer para o mundo. Lucas 9.1 registra as
palavras do Mestre como sinal de que o discípulo verdadeiro
seria aquele que tomaria a sua cruz, assim como Mestre
determinantemente morreria pelos seus ideais. No mesmo
evangelho (14:25-33) Jesus orienta seus discípulos quanto
ao custo que teriam com respeito ao discipulado e que o
compromisso com Ele começaria quando houvesse a
renúncia e a doação de suas vidas em favor do Reino de

11
Discipulado cristão: o estilo de vida de uma liderança que transforma
Luiz Augusto Corrêa Bueno

Deus. Portanto, dentro do plano divino, a cruz viria somente


depois que o Filho tivesse preparado homens para proclamar
as boas novas de salvação ao mundo. Com isso, Jesus gasta
três anos e meio para treinar e discipular pessoalmente
aqueles que ficariam para dar continuidade a seu ministério.
Acima de tudo Jesus discípula com a vida. Jesus sabia
que sua vida exemplar seria tão importante quanto as suas
palavras. O viver de Jesus era para os discípulos o fator
preponderante para incitá-los ao compromisso. As altas
exigências bem como sua própria maneira de viver
marcariam profundamente aqueles homens. Quando
observamos toda a vida e obra de Cristo, chegamos à
conclusão de que todos os objetivos de Jesus foram
alcançados. Contudo, Lawrence Richards afirma que uma
das propostas de Cristo dentro do discipulado era a
comunicação de semelhanças (Lc 6.40). O mesmo
aconteceria com a vida de seus seguidores e com a igreja
cristã primitiva posteriormente. .
O próximo passo nesta teologia bíblica de discipulado
é a vida do apóstolo. Paulo. Antes, porém, precisamos
reconhecer que a vida de Barnabé foi reflexo de um
discipulador que influenciou Paulo profundamente. O
próprio apóstolo Paulo foi amparado por ele. A pessoa de
Barnabé, no início da vida ministerial de Paulo, foi um braço
onde este pôde se segurar, não somente pela confiança que
Paulo depositou em Barnabé, mas também pela
determinação deste para encontrá-lo e levá-lo até Jerusalém
à procura dos outros apóstolos. Alguns capítulos de Atos
nos relatam que Barnabé era um apaixonado pelo Reino de
Deus (At 9.27;11:22-25). O versículo 23 afirma que ele,
vendo a graça de Deus prosperar em Antioquia, alegrava-se
e exortava a que todos permanecessem firmes na fé.
Liderança Cristã Transformadora
2381f-----~------->!....-----------------O
Manfred W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

Contudo, Barnabé não poderia fazer o serviço de discipulado


em Antioquia sozinho. Então, toma a decisão de ir a Tarso
buscar Paulo, para que juntos, durante todo um ano,
estivessem diseipulando toda aquela gente.
O exemplo do apóstolo Paulo é, sobretudo, uma das
bases que a igreja deveria usar para freqüentemente
estimular-se ao diseipulado, como estilo de vida para a Missão
da Igreja. Não somente pela sua vida, como nos conta Lucas
em Atos dos Apóstolos, mas também pela sua maneira de
entender esse princípio. Poderíamos analisar vários textos
em nosso trabalho, mas iremos estudar um deles que está
em Colossenses 1.28. ': .. o qual nós anunciamos, advertindo
a todo homem e ensinando a todo homem em toda a
sabedoria, a fim de que apresentemos todo homem perfeito
em Cristo". O texto identifica claramente a visão e a missão
global de Paulo, quando usa três vezes a palavra "todo",
declarando seu compromisso com um evangelismo integral
ou holístico. A idéia de todo homem também denota a
abrangência de seu chamado missionário. Não apenas aos
judeus, mas também aos gentios. Essa abrangência em tratar
com todo homem também identifica as bases de seu trabalho.
A primeira base é o anúncio; é a apresentação do
evangelho de forma clara, mas pessoal. Katangellomen é a
proclamação de uma mensagem oficial. O primeiro fator
do discipulado é a apresentação das boas novas, mensagem
esta que tem a ver com uma proclamação histórica acerca
de Jesus e ao mesmo tempo um chamado à conversão através
da fé e arrependimento. Contudo, além do anunciar, Paulo
usa a palavra nouthetountes (admoestando). Esta palavra
traz a conotação de um trabalhar de mente, mais semelhante
ao aconselhamento, à admoestação da mente, a um forjar
de caráter. É um trabalho mais pessoal e direto, levando o

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Discipulado cristão: o estilo de vida de uma liderança que transforma
Luiz Augusto Corrêa Bueno

discipulando à renovação de sua mente como enfatiza Paulo


(Romanos 12.2). Pelo que entendemos, admoestar, segundo
o texto, é o caminhar com seu discípulo mesmo no deserto,
não "vendendo seus mapas" para que aquele que é
admoestado encontre o caminho para a saída do deserto,
mas é ser o guia, que caminha com o discípulo até o fim de
sua jornada, chegando juntos e se dessedentando no oásis
da vida. O discipulado de Paulo também tem uma terceira
etapa. É o ensinar. A palavra didaskontes, "ensinando"
denota que as pessoas que aceitavam o novo estilo de vida
cristã eram conduzidas através de um processo de instrução,
doutrinamento e treinamento. Na verdade, isso tem a ver
com o ensino doutrinário e prático. A doutrina conduzindo
o discípulo à prática em sua vida pessoal.
Priscila e Áquila são outros exemplos de discipulado.
Embora sendo um casal extremamente envolvido com a
evangelização, o tempo que dedicaram a Apolo tornou-o
um pregador muito mais aperfeiçoado do que antes de se
conhecerem. A Escritura afirma que Apolo era homem
eloqüente, poderoso e instruído. Todavia somente conhecia
o evangelho de João. Seu discipulado era de fato parcial,
mas Priscila e Áquila, como diz a Palavra, "expuseram-lhe
com mais exatidão o caminho de Deus" (Atos 18.24-28).
Isto significa que discipulado é antes de tudo também uma
exposição sistemática da palavra toda.
3 - PLANTAÇÃO E CRESCIMENTO DA IGREJA LOCAL

o propósito do ministério paulino era sempre o de


plantar novas igrejas. O princípio fundamental para a
fundação de igrejas era o discipulado. David Hesselgrave,
em seu livro Plantar Igrejas, um guia para missões nacionais
e transculturais, usa o chamado ciclo paulino para identificar
Liderança Cristã Transformadora
Manfred W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

a plantação de igrejas como princípio inarredável na


Escritura. Uma das partes deste ciclo, denominado discípulos
confirmados, evidencia que o discipulado é parte integrante
e essencial para a plantação de novas comunidades. É o que
podemos ver em Atos 14.21·23. Neste texto, Lucas narra
que Paulo e Barnabé tendo feito muitos discípulos retornam
para a região de Listra para confirmá-los e fortalecê-los. O
plantio de igrejas está estreitamente ligado ao discipulado.
No texto de 2Timóteo 2.2, Paulo assevera que há
necessidade de escolherem-se pessoas fiéis e idôneas para tal
serviço. E idoneidade significa capacidade e habilidade para
tal. Portanto, necessita-se treinar e gastar tempo com o
chamado "leigo". O recurso negligenciado pela Igreja é o
seu membro. O cristão que tenha recebido cuidadosa e
conveniente instrução bíblica e treinamento garante sua
integração plena na vida da igreja. Aqui está o segredo de
uma igreja crescente. Dentro da plantação de igrejas, um
dos aspectos mais esquecidos é o aspecto pessoal da
integração que atualmente deveria ser o ponto mais forte
da Igreja e centro de toda atenção.
O grande problema das igrejas é o que podemos
chamar de orfandade espiritual. Os recém-convertidos são
simplesmente deixados de lado e os que permanecem na
igreja tornam-se órfãos espirituais. Waylon Moore diz: "Na
maioria das igrejas os convertidos são simplesmente
adicionados ao rol de membros e abandonados a cuidarem
espiritualmente de si mesmos. É doloroso afirmar, mas o
fato é de que existem muitos órfãos e poucos pais espirituais
em nossas igrejas". 6
A resposta para isso é a realidade do ministério
paulino. O apóstolo Paulo considerava-se como pai de todos

I 11' I , I
Discipulado cristão: o estilo de tiitÚl de uma liderança que transforma
Luiz Augusto Corrêa Bueno

os discípulos de Cristo(lCo 4.15; Gl 4.19; 1Ts 2.11). O


discipulado chama a igreja a se responsabilizar pelo seu
membro. Não apenas fazê-lo um bom conhecedor de
doutrinas, mas na convivência do discipulado, torná-lo
alguém extremamente comprometido com a sua
comunidade. Esse compromisso da igreja passa por três
importantes etapas:
1) necessidade de aconselhamento. É a condição
básica para gerar um "filho". Discipular sem aconselhamento
pode gerar vidas desequilibradas e 'desajustadas
espiritualmente. É o que vemos acontecer atualmente nas
comunidades. Ou o cristão será um fundamentalista, ou
um liberal, tanto teológico como ético;
2) necessidade de alimentação. O discipulado sugere
uma alimentação sistemática (1Pe 2.2). A carnalidade e
imaturidade espiritual dos coríntios eram geradas pela
ausência de alimento (1 Co 3.2). Para um discipulado efetivo,
uma alimentação progressiva é essencial. Os hebreus estavam
também passando por este mal. Pelo tempo decorrido já
deveriam ser mestres; porém, como crianças que precisam
de leite por não estarem aptas a receber alimento sólido,
eles necessitavam alguém que lhes ensinasse os princípios
elementares da fé cristã (Hb 5.11-14);
3) necessidade de proteção. O discipulado visa também
o cuidado com a sua vida pessoal. Jesus já afirmava isso aos
discípulos quando falava dos falsos profetas (Mt 7.15-20).
Paulo, enquanto finalizava seu sermão aos presbíteros de
Éfeso, também teve o cuidado de alertá-los acerca disso (At
20.29,30). Um dos deveres do discipulador é ensinar ao
convertido como enfrentar as tentações com a Palavra. Os
que não recebem o devido cuidado podem tornar-se crentes
Liderança Cristã Transformadora
2421--------"C----~------------------~
Manfred W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

delinqüentes. Esses naturalmente causarão tropeço a muitos


(lCo 10.32; 2Co 6.3).
A prova de que houve ensino em seu discipulado é a
estabilidade do crente sob pressão. Paulo afirma que a
eficácia de seu trabalho era medida pela capacidade de eles
vencerem a tentação (l Ts 3.5). Outra prova é o testemunho
e a frutificação. Desse modo vemos o discipulado como algo
extremamente prático e questão inegociável para a plantação
de igrejas (FI 2.15-16).

4. IMPLlCAÇOES PARA UMA LIDERANÇA TRANSfORMADORA


NA SOCIEDADE

Uma das grandes chaves para o desenvolvimento da


visão do discipulado é a compreensão das comunidades locais
com respeito à função do chamado "leigo". Talvez a grande
crise que a igreja cristã em seu todo atravessa é devido a um
. equívoco histórico interpretativo da palavra laikos. Até
porque, atualmente, a atividade do pastor é da mais alta
importância, no sentido de que ele se esmere em realizar o
maior número de tarefas, enquanto que os leigos permanecem
como bons ouvintes de seus sermões. Quando muito, se
dedicam temporariamente a algum evento religioso.
Podemos questionar saudavelmente o tipo de
discipulado usado hoje em dia nas igrejas locais. Pois, quando
há, o encontramos na forma de um evento ou programa
que não atinge a todos os crentes. A idéia de discipulado
que hoje absorvemos brota da necessidade de fazer a
comunidade crescer e não pelo fato de que este é um estilo
de vida esperado de todo seguidor de Jesus. O mais sério
ainda é a visão de que essa tarefa é atribuída ao pastor e aos
seus obreiros, mas nunca aos crentes. Isso nos prova que

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Discipu/ado cristão: o estilo de vida de uma liderança que transforma
Luiz Augusto Corrêa Bueno

ainda estamos ligados ao famoso "clericalismo" ao qual


visivelmente os reformadores se posicionaram contrários, mas
ainda hoje, mantém-se não somente na forma e nos métodos,
mas também em princípios e conceitos dentro das
comunidades locais. Para tanto, ousamos lembrar de um
dos capítulos da apostila da disciplina de Estratégias e
Metodologias Missionárias do Rev. Antônio José do
Nascimento Filho que bem expõe sobre o assunto.
Na verdade, a distinção entre laicato e clero procede
da tradição da Igreja Católica Romana. Essa idéia
correlaciona-se com a visão de igreja e mundo para os
romanistas. O clero assume o direito de administrar os
sacramentos e o Íaicato deve receber o ensino e a condução
dos mesmos. Tanto Lutero como Calvino rejeitaram a
estrutura clerical, dando importância a todos os membros
da igreja, ao passo que todos foram considerados laikos. O
discipulado como princípio e ordem dirige-se a todos os
membros da comunidade. Enquanto discípulos todos
discipularão. Se a ordem foi dada como comissão à igreja,
toda ela estará empenhada a cumpri-la com excelência.
Larry Richards explica que a questão do discipu1ado
ter sido um fato significativo na igreja primitiva é porque
foi um empreendimento mútuo, demonstrando que a visão
do laicato deve ser a de manifestar a reciprocidade do
discipulado. Como povo do Senhor, temos de ser crentes-
sacerdotes, pois fomos chamados para discipular uns aos
outros. Isto nos leva a entender discipulado num contexto
de relacionamento pessoal íntimo e cheio de amor.
Sobretudo, sendo reconhecido como um princípio paratodo
cristão e não apenas para aqueles que foram ordenados para
o ministério sagrado. 7
2441f----·-~~-----"--------~-----~---"
Liderança Cristã Transformadora
Manfred w: Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

32 anos após a ressurreição de Jesus, os primeiros


cristãos já haviam atingido todo o mundo pagão de seu
tempo com a mensagem do evangelho, sem utilizar-se de
rádio, nem imprensa ou outro meio moderno de
comunicação usual da contemporaneidade. O segredo era
a visão de que todos os crentes eram discipuladores em
potencial.
Nosso estudo fundamenta-se no fato de que o laicato
deve estar envolvido no processo de discipulado, que é
orientador da vida edesial. Esse fato tem sua conseqüência
na descoberta e no treinamento de líderes discipuladores.
Se olharmos novamente para a experiência de Jesus no
discipulado dos doze, veremos que ele usava todas as
experiências vivenciais na formação de seus discípulos, que
viriam a se tornar apóstolos de sua Igreja. Jesus usava a
pregação, a cura e a discussão para estimular, despertar e
causar impacto na vida dos discípulos. E da mesma forma
como Cristo se utilizou dessas ferramentas, podemos discernir
e usá-las para treinar os líderes em nossas igrejas como visão
do Iaikos. Uma vez que plantamos igrejas, somos responsáveis
por ensinar de maneira correta o treinamento dos líderes.
Devemos examinar as prioridades do ministério. Se o
discipulado é um princípio fundamental para a missão da
igreja, precisamos concentrar os esforços em "pessoas" e não
. "•
em "COISas
Moore, citando Samuel Schoemaker, diz
acertadamente que "a principal tarefa da igreja não é realizar
muito trabalho, nem alistar grande número de membros,
nem levantar muito dinheiro. Sua principal missão é moldar
vidas à imagem de Jesus Cristo. E as pessoas não podem ser
talhadas da massa bruta por atacado, mas uma por uma." 8
Além disso; o treinamento de líderes é uma troca de

I li, ,., ,+ I, I , . ,I ' I, f H,I' 'I I' ~, ,I I , '11" 1"1'1+1' .' t 11i li fi; , + ,,', t, I
I I
Discipulado cristão: o estilo de vida de uma liderança que transforma
Luiz Augusto Corria Bueno

experiências vivenciadas tanto pelo mestre como pelo


discípulo. Provérbios 27.17 afirma: "Afia-se .o ferro com o
ferro; assim o rosto do seu amigo". Logo, o discipulado
fundamenta-se no "estar com". No treinamento dos
discípulos, Jesus se relacionava transmitindo mais do seu
caráter e personalidade do que conhecimentos e métodos.
Muitos dos pastores andam tão ocupados com diversas coisas
que acabam colocando seu ministério e sua vida espiritual
em risco, e se torna quase impossível treinar adequadamente
os membros de sua igreja para a missão integral.
A próxima implicação para a igreja atual é o seu
crescimento e a verdadeira evangelização. Essas questões nos
levam a analisar o que significa crescimento de igreja.
"Evangelização sem integração ou discipulado sempre falhou
e falhará no seu objetivo de ganhar o mundo. O máximo
que se consegue é a adição de algumas pessoas à igreja"}
De acordo com David Hesselgrave:
Em pouco mais de dez anos Paulo estabeleceu a Igreja
em quatro províncias do Império: Galáeia, Macedônia,
Acaia e Ásia. Antes de 57 d.C., Paulo já podia falar do
seu trabalho ali como tendo sido completado e podia
planejar viagens extensivas para o extremo ocidente sem
preocupação de que as igrejas que fundara pudessem
perecer na sua ausência pela falta de orientação e apoio. 10

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Não existe um discipulado que tenha resultados


transformadores em nossa sociedade e não esteja firmado
nos princípios de vida de Jesus. O grande desafio para todos
os cristãos é, ainda hoje, o de moldar suas vidas segundo o
caráter de Jesus Cristo. O discipulado missionário ainda não
está satisfazendo biblicamente o Senhor da Seara. Ao
Liderança Cristã Transformadora
246!f----.:.....--...--.:L------------
Manfred W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

analisarmos todos os pontos essenciais da vida de Cristo,


somos inarredavelmente levados a reavaliar a vida cristã
através de uma autocrítica e desafiados a transformar nossas
comunidades num lugar de discipuladores. Carecemos de
pessoas fiéis e idôneas, que possam transmitir às outras esse
caráter de Cristo, não apenas pela verbalização, mas
principalmente com a vida. A igreja necessita de um
arrependimento verdadeiro e de uma mudança de
paradigmas. Deve tornar sua vida mais simples, cheia de
frutos e menos ativista e institucionalizada. Se acreditarmos
no discipulado, seremos os primeiros a mudar, e se isto
acontecer de fato, nossa sociedade verá pessoas
transformadas para a glória e honra do Senhor Jesus Cristo.

Notas

1 BRO\VN, Colin. O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo


Testamento. São Paulo: Edições Vida Nova, 1984, vol, 1, pp. 658-671.
2 MaORE, Waylon B. Integração segundo o Novo Testamento, Editora juerp,

São Paulo: 1978.


3 COLEMAN, Roberr, The Master Plan ofDisciplesbip. NJ: Fleming Revel

Company, 1987, p. 9
4 RICHARDS, Larry, Teologia do Ministério Pessoal. Edições Vida Nova, São

Paulo: 1988, p. 171.


5 Idem.

6 MaaRE, Waylon B. Integração segundo o Novo Testamento. Editora juerp,

São Paulo: 1978, p. 16.


7 RICHARDS, Larry. Teologia do Ministério Pessoal. Edições Vida Nova, São

Paulo: 1988, p. 172, 173.


8 MOORE, Waylon B. Integração segundo o Novo Testamento, Editora juerp,

São Paulo: 1978, p. 38


9 idem

10 HESSELGRAVE, David ]. Plantar Igrejas: um guia para missões nacionais

e transculturais. Editora Vida Nova, São Paulo, 1990.


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LINHA DO TEMPO DA
DE UM LfDER

ELIAS DANTAS fILHO


INTRODUÇÃO

Qual é a base fundamental do estudo da teoria de


desenvolvimento da liderança? Essencialmente, é o estudo
de uma linha imaginária chamada de linha do tempo.
Estudiosos dessa teoria analisaram a vida de personagens
bíblicos ( homens e mulheres de Deus na história, tanto do
passado como do presente, vivos ou mortos, aposentados ou
ainda exercendo atividades de liderança) e descobriram que,
de uma maneira geral, a vida de uma pessoa pode ser
dividida em fases, cujo detalhamento darei a seguir. Na
fundamentação teórica desta abordagem, o número de
indivíduos estudados já passa atualmente de 1.200 pessoas,
.
em quatro continentes.

Fase 1 Fase 2 Fase 3 Fase 4, Fase 5 Fase 6

Fundamentos Crescimento Maturidade Maturidade Convergênsia Celebração


Interior no Ministério na Vida
16 a 26 anos 5 a 12 anos 8 a 14 anos 12 ou + anos ?

fASE 1 - fUNDAMENTOS SOBERANOS

Os livros tratam dessa fase como um período que


gira em torno dos dezesseis aos vinte e seis anos de idade,
tomando por base uma vida de setenta anos.
Fundamentos soberanos são aqueles acontecimentos
acerca dos quais só tomamos consciência da ação de Deus
em um determinado momento posterior, quando temos
oportunidade de olhar para trás e ver que Deus estava, de
fato, trabalhando em nossas vidas através deles. A partir daí,
I---"----------''-------~------
Liderança Cristã Transftrmadora
250 Manfted W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

poderemos olhar para frente e almejar alcançar as coisas


que Deus, progressivamente, tem-nos revelado.
Como podemos ver na figura acima, esta fase dura,
em média, de dezesseis a vinte e seis anos. Normalmente, a
passagem de uma fase para outra é uma experiência espiritual
dramática, que pode tratar-se da conversão ou de uma
profunda experiência com Deus. Os elementos que Deus
usa nesta fase variam muito. Ele pode usar a família de cada
um ou pode agir independentemente, de acordo com a sua
vontade, corno no caso de Jeremias, quando o profeta
reconheceu que Deus o havia chamado antes mesmo dele
nascer. Ou veja ainda o caso de Paulo em Gálatas, em que
ele reconhece os fundamentos soberanos de Deus em seu
nascimento em Tarso, fato que lhe conferiu cidadania
romana; em seu treinamento debaixo da mentoria de
Gamaliel; e em sua participação na perseguição aos cristãos.
Todos esses ingredientes fizeram parte dos atos soberanos
de Deus. Através deles, Deus trabalhou na vida do apóstolo.
Essa perspectiva deve levar-nos a olhar para trás e
perceber, através dos acontecimentos, a mão de Deus
trabalhando em nós e nas vidas de nossos liderados, mesmo
quando ainda não tínhamos consciência disso. Esses são os
nossos fundamentos soberanos. Deus trabalha das maneiras
mais inexplicáveis, sempre com o propósito de nos preparar
para o crescimento nessa linha do tempo. Portanto, os
fundamentos soberanos são os atos soberanos de Deus,
quando a pessoa ainda não consegue discernir este agir.

fASE 2 - CRESCIMENTO INTERIOR

Este estágio envolve o desenvolvimento de um


relacionamento fundamental com Deus, a partir do qual

I.
A linha do tempo da vida de um lider
Elias Dantas Filho

um caráter maturo e cristão se desenvolve. Esta fase começa


com o nosso comprometimento inicial com Cristo, como
nosso Salvador e Senhor, e continua com o início do processo
de relacionamento com Ele. Neste processo, Ele começa a
nos transformar. As características do crescimento interior,
envolvem a prática das disciplinas espirituais e a aplicação
de alguns testes:

DISCIPLINAS TESTE DE CRESCIMENTO

Interiores Exteriores Corporativas


Integridade
Estudo Simplicidade Confissão Obediência
Meditação Submissão Instrução Palavra
Oração Serviço Adoração
Jejum Culto

Além do conceito das disciplinas espirituais, esta fase


também envolve algum tipo de treinamento. Em geral, os
líderes são treinados de três maneiras: a formai, a não-formal
e a informal. Formal é o treinamento dado de modo
sistemático, com o objetivo de conferir um diploma ou as
credenciais de ministério de uma denominação à pessoa.
Sem este treinamento formal, o líder não recebe as
credenciais ou o diploma. A percentagem de líderes que
recebem o treinamento formal é muito pequena. A cada
cem, somente três submetem-se a este tipo de treinamento.
O treinamento não-formal é também sistemático,
seguindo um programa pré-estabelecido, mas não tem por
objetivo o conferir um diploma ou credencial à pessoa
treinada. Pode ser comparado à educação continuada. Vinte
e sete por cento do treinamento, no mundo cristão, é dado
nesta área não-formal. Exemplos de treinamento não-formal
são o evangelismo explosivo, o curso básico de discipulado etc.
25211---------=~------:!-----------------t
Liderança Cristã Transformadora
Manfred W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

Os outros setenta por cento de líderes cristãos e não


cristãos em todo o mundo são treinados de maneira informal.
Este tipo de treinamento consiste basicamente no
desempenho de tarefas e na observação de pessoas que
ministram aos outros ou estão elas mesmas em treinamento.
Isto ocorre, por exemplo, entre as testemunhas de jeovã,
cujos líderes são formados através de um processo de
treinamento informal, via observação e tarefa.
No treinamento informal o padrão básico é a
mentoria. Um líder em treinamento acompanha um líder
já formado, e dele ou dela aprende, por observação ou
cumprimento de tarefas, as demandas da liderança. Neste
tipo de treinamento não existe um programa sistematizado.
É importante, nesta fase de crescimento interior, que
os valores de liderança e as respostas dos testes ministeriais
sejam analisados.
Eu ainda reconheço a grande importância e
significado que uma experiência deste tipo representou para
o meu desenvolvimento como líder. Após apenas três meses
de conversão, eu fui convidado por um pastor batista para
fazer uma pregação no culto dominical daquela igreja. O
culto era de Santa Ceia. A igreja tinha um bom número de
pessoas, e eu me preparei muito para falar. Aquele foi um
dos maiores desafios de toda a minha vida. Apesar de ter
preparado um sermão para vinte e cinco minutos, quando
a hora chegou para eu ministrar, não consegui pregar mais
do que cinco minutos. O que me sobrava de entusiasmo,
faltava em experiência, sendo esperado que não conseguisse
fazer uma pregação mais elaborada ou pregar com maior
desenvoltura. Contudo, para mim, que estava passando pela
fase de crescimento interior, a confiança que havia sido
depositada em mim para desempenhar aquela tarefa, o fato
A linha do tempo da vida de um lider
Elias Dantas Filho

de alguém ter acreditado na minha pessoa e me ter dado


algum tipo de treinamento e responsabilidade foi como o
acender de um fogo que nunca mais se extinguiu.
George Barna afirma que a média de tempo que nós,
protestantes, demoramos para delegar algum tipo de tarefa
de lideranca a um novo convertido é de dois anos. Nós só
confiamos quando o potencial de evangelização da pessoa e
do seu entusiasmo nivela-se com o nosso próprio,
acomodando...se. Isto deve ser questionado porque é na fase
de crescimento interior, pelo sistema de teste e de resposta,
que acontece a chamada ministerial.
Normalmente, a chamada ministerial acontece no
contexto em que a pessoa está sendo testada e respondendo
a este teste, desenvolvendo, assim, o seu potencial. A chamada
para qualquer ministério, sendo este entendido de forma
abrangente e não apenas como chamado pastoral, representa
a passagem da fase de crescimento interior para a fase
seguinte. .
Em geral, a fase de crescimento interior dura de cinco
a doze anos, sendo que um período de cinco anos aproxima-
se mais da nossa realidade.

fASE 3 - MATURIDADE NO MINIST~RIO

A terceira fase dura, em média, de oito a quato~e


anos e representa o desenvolvimento e maturação no
ministério, através da identificação e aplicação das
ferramentas ministeriais e do bloco de habilidades de uma
pessoa. Ferramentas ministeriais referem-se àquelas
habilidades específicas que a pessoa adquire em situações
ministeriais, que a ajudam a desenvolver algumas tarefas mais
efetivamente. Como exemplos, podemos mencionar o
254 1- - . : . . .- - - - - "-- - - - - - - - - - -
Liderança Cristã Transformadora
Manfred W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

aconselhamento bíblico, a administração eclesiástica e as


técnicas de ensino. O bloco de habilidades é formado pela
combinação dos dons espirituais, habilidades naturais e
habilidades adquiridas. Nessa fase, o líder emergente tem
no ministério o seu foco principal de vida. Ele ou ela se
envolverá em mais treinamento, tanto informal, através de
projetos autônomos de estudos e crescimento, quanto formal,
através de conferências, workshops etc. O ministério parece
ser o que realmente importa! A maioria das pessoas fica
ansiosa por apressar a fase 2. No entanto, o que impressiona
é que durante as fases 1, 2 e 3, Deus está primariamente
trabalhando no líder (e não através dele ou dela). Apesar de
que pode haver frutos no ministério, o foco central é o que
Deus está fazendo no líder. A maioria não reconhece isso.
Eles avaliam a produtividade, apenas. Mas Deus está,
quietamente, de maneiras inusitadas, tentando levar o líder
a entender que o que ministra, faz na base daquilo que ele é.
O que dá poder para o nosso ministério é a formação de Cristo
,
em nos.
Na verdade, estas três primeiras fases, em que Deus
está trabalhando com o interior do líder, geram, em muitos
casos, conflitos interiores na pessoa em treinamento. Isto
acontece porque as instituições às quais ele pertence
freqüentemente estão preocupadas com resultado. A
cobrança por resultados faz com que o líder em formação,
durante esta fase, já comece a sentir-se tenso e excessivamente
pressionado para apresentar os resultados esperados. Isso
só confirma uma grande verdade: instituições (inclusive a
igreja) trabalham por resultado, enquanto Deus trabalha
r
no carater.
No mundo, podemos encontrar dois tipos de pessoas:
aquelas que constroem impérios e as que servem. Aqueles
A linha do tempo da vida de um l!der
Elias Dantas Filho

que, no passado, construíram seus impérios, tornaram-se


figuras de destaque em livros de história, porque sua
influência foi sempre limitada e temporal. Na verdade, o
mundo é mantido por aqueles que servem. Os servos
sustentam o mundo. Algumas dos grandes servos religiosos
e éticos do mundo, que já morreram há muitos anos atrás,
ainda hoje estão influenciando muitas pessoas.
Madre Teresa de Calcutá, um modelo maravilhoso
de serva fiel, foi um exemplo perfeito desse fato. Essa mulher
impressionante, a despeito de sua constituição física frágil e
delicada e de não possuir nenhum dote acadêmico
extraordinário, tornou-se mundialmente reconhecida por
sua grande influência no que concerne ao serviço e o amor
ao pr6ximo. Essa mulher, que viveu num país hindu, com
forte presença muçulmana, onde o cristianismo representava
somente três por cento da população, fez uma grande
diferença. Ela plantou uma ordem de freiras indianas, com
centenas de membros, que ainda hoje continuam a dar
assistência aos pobres enfermos das castas hindus mais
desprezados, para que possam morrer com dignidade. Seu
exemplo tem influenciado outras pessoas a continuar sua
obra, lutando para resgatar a dignidade humana, num lugar
em que 950/0 da população mora em barracos ou nas ruas e
onde, pela manhã, caminhões de lixo passam recolhendo
pessoas mortas.
Portanto, o mundo permanece sendo mantido pelo
trabalho dos servos e não pelos que somente estão em busca
de resultados. É muito importante resgatarmos esta noção,
pois, durante a terceira fase, instituições impõem uma
pujante pressão sobre seus integrantes na busca por
resultados. T ai pressão gera uma grande tensão no líder. Ele
Liderança Cristã Transformadora
256 1
- ------.:...- - . . .>!.. .--- - - - - - - - - - - -+-
Manfred W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

ou ela deve aprender a conviver com esta tensão e a


administrá-la.
Nessa fase, Deus está observando a maneira como
ele ou ela responde aos testes de integridade, porque o líder
cristão exerce sua função conforme sua personalidade.
Nesse estágio o líder ainda não localizou plenamente
as suas áreas de competência e, por isso, faz de tudo um
pouco. Somente na segunda metade da maturidade na vida,
o líder será capaz de reconhecer as áreas em que é mais forte
(ou mais fraco) e sonhar com o momento em que poderá
convergir suas áreas fortes com o ministério em que se
encaixam.
No que se refere ao papel dos líderes mais experientes
em relação aos novatos no ministério, o ideal seria que as
instituições adotassem uma postura mais equilibrada, que
não pressionasse excessivamente esses líderes em formação,
mas que, por outro lado, não incentivasse a inoperância.
Tanto a pressão excessiva quanto uma atitude condescendente
e paternalista atrapalham igualmente o desenvolvimento do
líder. Há de se considerar que a instituição trabalha com
uma dinâmica própria, buscando sobreviver e crescer.
Portanto, a tensão e a cobrança por resultados, de uma certa
forma, são inerentes à sua natureza e sempre existirão.
Deve-se ter cuidado, contudo, para que não haja
uma pressão exagerada nesta busca por resultados. Nesse
aspecto, é relevante que as instituições considerem a
necessidade de começar a questionar, por exemplo, qual é o
padrão de espiritualidade que adotam. O padrão de
espiritualidade ocidental é, na maioria das vezes, baseado
em uma agenda cheia de atividades. Tal critério influencia
o conceito ministerial denominacional, que se volta para uma
hiperatividade, e só gera canseira, desestímulo e estafa física,
A linha do tempo da vida de um lúJer
Elias Dantas Filho

mental e espiritual no novo líder, prejudicando seu


desenvolvimento.
Um missionário cristão em Bangladesh, treinado
para entender consagração e dedicação como significando
uma agenda cheia de compromissos, trabalhou exaustivamente
nos dois anos iniciais do seu ministério naquele país. O nível
frenético de atividades realizados quase o levou a um
esgotamento total, tendo, porém, alcançado resultados
insignificantes. Isso provocou uma crise em sua vida
ministerial, durante a qual, ele começou a observar que havia
um senhor idoso, muçulmano, que se sentava à porta de sua
casa, desde o amanhecer até o pôr-da-sol, com o Carão aberto,
e sempre havia pessoas querendo conversar com ele.
O missionário resolveu tentar uma estratégia
semelhante. Comprou um Carão, sentou-se à porta de sua
casa e lá permaneceu, dia após dia, do amanhecer ao
entardecer, simplesmente lendo e orando. Após duas
semanas, uma mulher parou e lhe perguntou: "Homem de
Deus, você pode me ajudar?". Ele a aconselhou e Deus,
então, abençoou a sua orientação. Mais pessoas começaram
a vir e ele sempre as abençoava em nome de Issa (Jesus, para
os muçulmanos). Aos poucos as pessoas começaram a se
interessar em conhecer mais sobre este Issa. Alguém lhe
perguntou se existia algum outro livro que falasse dele, e o
missionário introduziu o Novo Testamento. Como resultado,
a igreja cristã naquela área experimentou um grande
aumento no índice de crescimento.
Essa experiência demonstra a necessidade de
aprendermos como equacionar produção com devoção,
contemplação ou espiritualidade. O processo de
institucionalização com o qual o líder deve aprender a
conviver, representa a principal fonte de tensão nessa fase.
Liderança Cristã Transformadora
2581r----=------.-------'"--------------
Manfred W Koh! e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

Para que aprenda a lidar com esse processo é preciso que o


líder possa compreendê-lo melhor. Normalmente, a vida de
uma instituição começa com uma visão. Com o passar do
tempo, a visão vai cedendo espaço para a manutenção.
Se o líder quiser saber se uma comunidade está sendo
dirigida pela visão ou pela manutenção, basta observar de
que forma seu orçamento é elaborado. Em geral, se oitenta
por cento ou mais do orçamento está comprometido com a
manutenção do que já existe, a comunidade perdeu a
capacidade de andar pela visão.
Portanto, nessa fase o obreiro, tem que aprender a
conviver com esse tipo de realidade, decorrente do processo
de institucionalização, entendendo, por um lado, o valor de
se dedicar à manutenção da instituição, porém, ao mesmo
tempo, reconhecendo a necessidade de se manter a visão,
de lutar constantemente pela renovação da visão da
instituição. Os fundadores das instituições quase sempre
caminhavam pela visão, com muita ênfase na espiritualidade,
o que vem demonstrar a importância da visão para a vida da
instituição.

fASE 4 - MATURIDADE NA VIDA

Este estágio envolve o desenvolvimento de uma


filosofia de ministério madura e pessoal. Tal desenvolvimento
é fundamental para levar o líder ao estágio de convergência,
em que a preparação na vida interior, o bloco de habilidades
de uma pessoa, a experiência ministerial e a filosofia de
ministério se juntam e cumprem, de uma forma efetiva e
frutífera, o sentido de destino do líder.
A filosofia de ministério refere-se às idéias, valores e
princípios que um cristão usa para tomar decisões, exercer

4 "t I "I
A linha do tempo da vida de um l/der
Elias Dantas Filho

sua influência e avaliar a si mesmo, seus relacionamentos e


eficiência ministerial.
Durante a fase quatro, o líder identifica e usa suas
habilidades com poder. Há um frutificar amadurecido.
Deus está trabalhando através do líder, usando o modelo de
imitação (Hb 13.7-8). Ou seja, Deus usa a vida de uma
pessoa, bem como as suas habilidades para influenciar outros.
Este é um período no qual as habilidades se destacam
juntamente com as prioridades. A pessoa reconhece que o
direcionamento de Deus para o ministério vem através do
estabelecimento das prioridades ministeriais baseadas nas
habilidades discernidas. É nele que se evidencia se a pessoa
será um líder da instituição, em um sentido político, ou se
ela será um líder voltado para o ministério, no sentido de
desenvolver um trabalho junto ao povo. É também a fase
maior do entendimento que a pessoa tem a respeito de quais
são as suas áreas fortes. No início de sua carreira, o líder
desempenha várias funções ao mesmo tempo, pois ainda
não tem a consciência de quais são as suas áreas de
competência. No início do ministério, o desempenho de um
papel multifuncional faz parte da expectativa da
comunidade, pois esta ainda não acredita no líder, apenas o
respeita e segue em razão da posição que ele ocupa.
Contudo, se o líder continuar caminhando com
integridade e dedicação, é provável que, progressivamente,
se sinta liberado da responsabilidade de fazer de tudo, e
possa começar a se concentrar naquilo que faz melhor, na
sua área de competência.
Em relação às áreas de competência é necessário que
se entenda que, na verdade, cada um de nós tem maior
habilidade e aptidão para determinadas áreas, sendo que o
260 \r----~--..:!..----------------.---
Liderança Cristã Transformadora
Manfred W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

segredo do sucesso está em otimizar nosso desempenho nestas


áreas em que somos mais fortes.
Em média, o período em que se torna possível para o
próprio líder, assim como para outras pessoas que com ele
convivam, definir suas áreas de competência, gira em torno
de oito a quatorze anos de ministério.
Muitos líderes não conseguem passar das fases
anteriores para esta, por uma série de razões. Muitos deles
não chegam nem mesmo a um final abreviado. Portanto,
são poucos os líderes que conseguem atingir a fase da
maturidade na vida, porque, na verdade, ocorre um processo
de afunilamento na passagem de uma fase para outra.
Vejamos como isso se dá: a primeira fase começa com cem
por cento dos líderes em treinamento; porém, na fase
seguinte, apenas sessenta por cento deles, em geral,
conseguem um desempenho que lhes permita passar para a
convergência; na convergência só chegam quarenta por
cento e apenas vinte por cento dos líderes alcançam a fase
da celebração.
Como vemos, a grande maioria continua até o final
da vida ainda tendo que se encaixar dentro das expectativas
de posição, desempenhando múltiplas funções, apenas em
razão da posição que ocupam na comunidade, como, por
exemplo, presidir o conselho, ministrar a santa ceia e outras.
Há apenas duas maneiras de se passar de uma fase
para outra: a primeira é interior: a formação de Cristo em
nós, quando Deus se encarrega de expandir nossos
ministérios, à medida que obtivermos êxito nos vários testes
pelos quais passamos, como os testes da palavra, da
obediência, da integridade, da fé e da consciência. A segunda
é diretamente ligada à nossa disposição para aprender e à

4 " , ,t, I
A linha do tempo da vida de um llder
Elias Dantas Filho

adoção de uma postura de aprendizes, abertos à


aprendizagem contínua, durante toda nossa vida.
A marca do líder que chega ao gozo da convergência
consiste na formação interior de caráter, para que ele possa
ser um modelo e na habilidade, para continuar aprendendo
por toda a vida. Tamanha é a importância da aprendizagem
contínua que no manual há um capítulo, a taxonomia da
liderança, que trata especificamente sobre leitura e
aprendizado.

fASE 5- CONVERG~NCIA

Nesta fase, o líder é levado por Deus para uma função


que conjugue suas habilidades, experiências, temperamento
etc. A função não somente libera o líder de ministrar naquilo
que ele não tem habilidade, mas também aproveita e usa o
melhor que ele tem para oferecer. Não são muitos os líderes
que experimentam esta fase. Freqüentemente eles são
promovidos para posições. que escondem suas habilidades.
Além do mais, não são muitos os líderes que ministram a
partir de seu ser. Sua autoridade, normalmente, vem muito
mais da função que ocupam. Nessa fase de convergência, o
ser e a autoridade espiritual formam a verdadeira base de
poder para um ministério maduro. Os frutos do Espírito
(maturidade cristã) unem-se aos dons do Espírito (marca de
um líder sendo usado por Deus), produzindo o balanço que
Deus deseja. A maneira que Ele escolhe trabalhar é em nós,
primeiramente; e então, através de nós.
Liderança Cristã Transflrmadora
2621f----------..:....---!l.--------------
Manfred W Kohl e Antonio Carlos Barro (Orgs.)

- - ....
- . - - . - - r - - - - - - - - - . - - - ~ - ' " - - - ,-.~---." ..-----~-.~-

CONVERGÊNCIA CELEBRAÇÃO

Somente 40% dos líderes Somente 20% dos líderes


alcançam um nível de alcançam a fase da
convergência em seus Celebração em seus
ministérios. ministérios.

Fonte: Finishing Well, 1994:13

fASE 6 - CElEBRAÇÃO

Nos anos finais de vida e ministério, o líder bem


sucedido experimenta o privilégio de ser usado como
referência e consulta por parte dos líderes mais jovens. A
autoridade do ensino e da influência vem pelo
reconhecimento de uma vida que ensinou a partir do que
ela é em seu interior.
Relacionamentos construídos no decorrer da vida são
as áreas naturais de influência, bem como a constante
. . .
presença nas estruturas organizacionais.
Apenas dois, em cada dez líderes, ao final de sua
carreira conseguem chegar nessa fase. Os líderes que a
alcançam são aqueles que, mesmo tendo chegado ao final
da vida, não caem jamais no esquecimento, pois deixam um
legado às gerações posteriores.
Todo líder deve fazer a si mesmo uma pergunta muito
importante: Qual é o legado que gostaria de deixar para a
geração futura? Como você quer chegar à sua velhice?
Celebração é resultado de integridade interior e
habilidade para estar continuamente aprendendo ao longo
da vida. Essas duas coisas juntas cativam, abençoam e

- " t , I, I
-
Alinha do tempo da vitla de um lider I
. . 263
E/tas Dantas Ft~O

influenciam as pessoas. Oprincípio que pode ser extr~do


daquiéode queom~s importantenão écomovocêcomeça,
mas como você termina. Amaneira como cada um de nós
terminaseráaimagem que deixaremos paraas geraçóes futuras.
Se acelebra~o éresultado direto de uma vida de
integridade, serviço eaprendizado, devemos sempre nos
questionar se ao término de um relacionamento ou de uma
fase de nossas carreiras, fomos capazes de construir uma
reputação de integridade para obenefício dos outros,
abençoando eenriquecendo suas vidas.
Celebra~o épara aqueles que querem elutam por
terminar bem.
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