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Prova Final Sociologia II

Aluno: Ricardo Menezes Barbosa

O presente texto almeja uma comparação entre duas figuras separadas por um
longo período de tempo e diferentes situações históricas. Pepe Mujica e Karl Marx
certamente partilham de uma visão crítica ao capitalismo, um representou junto
com outros governantes o que, de certa forma, poderíamos figurar como um
momento em que alguns setores da esquerda latino-americana alcançaram o
poder político; o outro, é talvez a figura mais emblemática do socialismo pós
século XIX e autor de obras fundamentais para a filosofia e ciências sociais. Resta-
nos saber, todavia, as semelhanças e diferenças que envolvem o pensamento de
ambos. Partiremos, para isso, da obra fundamental do pensador alemão, "O
capital", e de um filme no qual é feita uma entrevista com o ex-presidente uruguaio
chamado "Human".

O primeiro ponto a elencar é a, em certa medida, concepção materialista de


mundo que cerca a visão de ambos. Se para Marx é o processo de produção da
vida material que determina a moral, o direito, a filosofia etc. de uma sociedade,
Mujica posiciona-se da seguinte forma: "(...) a forma como vivemos e nossos
valores são a expressão da sociedade na qual vivemos". As análises, guardada
as devidas proporções, convergem no que diz respeito em pôr o fundamento do
complexo de ideias e regras no processo de vida dos homens, em seu cotidiano,
entretanto, ao se deparar com a frase de Mujica, Marx talvez levantasse a questão
se nossa sociedade é realmente algo tão homogêneo assim para que produzisse
valores tão iguais a si. Para o pensador alemão, nesse caso, a argumentação do
ex-presidente uruguaio é aparentemente correta, todavia, falta certo nível de
aprofundamento. Em realidade, o que fundamentalmente produz os valores é o
processo de produção dos homens, que possibilita, inclusive, que a sociedade
exista. Ele pode expressar-se de diferentes modos, desde um modo de produção
escravista ao modo de produção capitalista. Tal diferenciação é essencial, pois
permite identificar o cerne da problemática e, consequentemente, da miséria
capitalista: como os homens produzem tanta riqueza e, todavia, não as tem? A
resposta em sequência a crítica de Marx é a necessidade de uma ruptura radical
com o modo de produção capitalista, para só assim alcançar, em termos
aristotélicos, uma vida boa.

Outro ponto relevante na comparação acerca da argumentação das duas figuras


em questão é a caracterização que Mujica faz sobre aquilo que chama "sociedade
de consumo". Para ele, o drama fundamental desse tipo de sociedade é que além
do consumo de coisas supérfluas, a necessidade por esse tipo de consumo põe-
se como um imperativo e a busca pelo dinheiro para que se consiga comprar tais
mercadorias é uma necessidade assim como essas mercadorias também
aparentam ser. Todavia, a busca incessante pelo dinheiro demanda tempo, e se
sua busca se dá por um objetivo supérfluo, desnecessário; o tempo que gastamos
para obtê-lo também é tempo perdido, desnecessário. O que Mujica quer nos
mostrar, de certo modo, é como os papéis se invertem nessa sociedade, homem
e produtos do trabalho humano, ocupam posições invertidas, ou seja, passa a
valorizar-se um em detrimento do outro. O que importa agora não é o valor
intrínseco da coisa produzida, o valor que possui para satisfazer nossas
necessidades, e sim sua capacidade de suprir necessidades artificiais ou de
outras naturezas que não "(...) provém do estômago ou da imaginação" (MARX,
2017. p. 113). Em Marx, entretanto, essa análise tende a tomar, novamente, maior
profundidade. O drama fundamental do capitalismo para Marx não seria um
consumo desenfreado de coisas banais, e sim a separação radical entre o valor
intrínseco de uma coisa, seu valor de uso, e o valor, ou seja, a separação do
produto como uma necessidade e do produto como um mero objeto de troca. Se
todo produto, ao tornar-se equivalente da forma dinheiro passa a ser
automaticamente uma mercadoria, põe-se como necessidade que essas
mercadorias façam seu dever: sejam trocadas. Numa sociedade em que a
magnitude da riqueza alcança tal forma, portanto, os indivíduos só tornam-se parte
dela a partir do momento em que trocam com outros indivíduos; noutros termos,
o indivíduo na sociedade capitalista deve trocar mercadorias para sê-lo. Portanto,
é verdade que o supérfluo é valorizado nessa sociedade, entretanto, isso acontece
pela perda de valor de uso das mercadorias e por sua necessidade imperativa de
troca. Por fim, no capitalismo podemos medir o valor de uma mercadoria pela
quantidade de trabalho embutido no produto, portanto, o tempo de produção
alcança importância fundamental, todavia, ao equivalerem à forma dinheiro e a
partir da valoração da quantidade ao invés da qualidade numa troca, a mercadoria
aparenta não mais ligar-se ao trabalho em que realizou-a e o tempo de trabalho
gasto para produzi-la perde-se assim como o produto do trabalho passa a não
pertencer aos produtores.

Por fim, Mujica faz uma interessante diferenciação no que diz respeito as escolhas
políticas de seu país. Criticando o caráter luxuoso que tem cercado os líderes
políticos das democracias modernas, Mujica acredita que toda suntuosidade é, em
verdade desnecessária. Ao invés de um avião presidencial, como a maioria dos
primeiro-ministros e presidentes possuem, é mais importante para o ex-presidente
uruguaio um helicóptero que sirva como ambulância para que se possa salvar a
vida dos seus conterrâneos quando preciso. Essa diferenciação é importante se
quisermos entender também as consequências do modo de produção capitalista,
já que se o processo vital do homem é o trabalho e isso é encoberto pelas trocas
de mercadorias, o que perde-se em última instância é o homem: o mundo dos
homens desvaloriza-se em detrimento do mundo das coisas, das mercadorias. Ou
seja, torna-se mais importante deter a maior quantidade de riqueza individual em
detrimento da própria vida. Evidencia-se portanto o caráter irracional do
capitalismo: a maior magnitude de riqueza já vista na história que não é possuída
por aqueles que a produzem. Se é possível ver explicitamente o avanço das forças
produtivas, os avanços da química, da física e da biologia, o homem indo ao
espaço, ou seja, toda capacidade de produzir as necessidades básicas e muito
além disso para toda população, vemos, na verdade, a pobreza alcançar níveis
não alcançados em toda história da humanidade. É nesse ponto que as análises
de Marx e Mujica talvez estejam mais afinadas: a escassez é um problema político.