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Comunicação como ferramenta para divulgar e

promover a Declaração Universal sobre Bioética e


Direitos Humanos
Rodrigo Caetano 1, Volnei Garrafa 2

Resumo
Artigos de atualização

A Declaração Universal sobre Bioética e Direitos Humanos (DUBDH) é um dos pilares que pautam a agenda
biotecnocientífica mundial do século XXI. O documento é insuficientemente conhecido em âmbito nacional
e internacional, tanto pela população como pela comunidade acadêmica. Para que seu conteúdo seja assi-
milado é indispensável a adoção de estratégias de comunicação com vistas a divulgar os temas abordados.
O trabalho objetiva propor, por meio de um plano de comunicação, uma melhor divulgação internacional
dos princípios da DUBDH e sua inclusão nas políticas públicas, no cotidiano das universidades, centros de
pesquisa e pelos próprios cidadãos. Por meio de estratégias programáticas o estudo propõe instrumentos
democráticos cujas metas são o empoderamento, a libertação e a emancipação – referenciais da bioética de
intervenção, linha conceitual de fundamentação latino-americana e epistemologicamente consolidada – das
populações mais vulneráveis. A consequência desejada é maior divulgação internacional da bioética, que
poderá contribuir para transformar a realidade social.
Palavras-chave: Bioética. Direitos humanos. Comunicação. Políticas públicas.
Resumen
Comunicación como herramienta para divulgar y promover La Declaración Universal sobre Bioética y
Derechos Humanos
La Declaración Universal sobre Bioética y Derechos Humanos (DUBDH) es una de las bases de la agenda biotec-
nocientífica mundial del siglo XXI. Dicho documento es insuficientemente conocido en nivel nacional e inter-
nacional, tanto por la población como por la comunidad académica. Para mejor asimilación de sus principios
y contenido, es indispensable la adopción de estrategias de comunicación para divulgar los temas abordados.
El trabajo objetiva, por medio de un plan de comunicación, proponer una mejor divulgación internacional de
los principios de la Declaración y su inclusión en las políticas públicas, en el cotidiano de las universidades,
centros de pesquisas e por los propios ciudadanos. Por medio de estrategias programáticas, el estudio sugiere
herramientas democráticas cuyas metas son el empoderamiento, la liberación e la emancipación – que son
referencia de la Bioética de la Intervención, línea conceptual de fundamentación latinoamericana y epistemo-
logicamente consolidada – de las poblaciones más vulnerables. La consecuencia deseada es la mayor divulga-
ción internacional de la bioética que podrá contribuir para la transformación de la realidad social.
Palabras-clave: Bioética. Derechos humanos. Comunicación. Políticas públicas.
Abstract
Communication as a tool to promote and spread the Universal Declaration on Bioethics and Human Rights
The Universal Declaration on Bioethics and Human Rights is one of the basis of the XXI century world biotec-
nocientific agenda. The referred document is insufficiently national and internationally known, not only by
the population but also by the academic community. In order to allow the Declaration principles and contents
to be more assimilated, it is necessary to adopt communication strategies to promote bioethics themes. This
paper aims to propose – throughout a communication plan – an international promotion of the Declaration
principles in public policies and its inclusion in universities, research centers and by citizens themselves. Be-
sides, this study aims to establish democratic devices whose purposes are the empowerment, the liberation
and the emancipation – principles of the Bioethics of Intervention, a conceptual line with foundations in Latin
America and epistemologically consolidated – of the most vulnerable populations. The desired consequence
is a bigger international spread of bioethics which will contribute to transform social reality.
Key words: Bioethics. Human rights. Communication. Public policies.

1. Doutorando rodcaetano@hotmail.com 2. Pós-doutor garrafavolnei@gmail.com – Universidade de Brasília, Brasília/DF, Brasil.

Correspondência
Rodrigo Caetano – SQSW 301 Bloco B apto 311 CEP 70673-102. Brasília/DF, Brasil.

Declaram não haver conflito de interesse.

Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (1): 34-44


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A Declaração Universal sobre Bioética e Direitos nacional e com os direitos humanos. Tais medidas
Humanos (DUBDH), adotada durante a 33a Conferên- devem ser apoiadas por ações nas esferas da edu-
cia Geral das Nações Unidas para a Educação, a Ciên­ cação, formação e informação ao público 3. Desde
cia e a Cultura (Unesco), em outubro de 2005, em 2005, passos foram dados para tornar público esse
Paris, representa um marco para a bioética mundial. conteúdo, mas ainda falta avançar para que a difu-
Com esse documento internacional, os temas são se torne realidade prática e aplicada na vida de

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bioéticos que contextualizam o ser humano como pessoas, comunidades e países.
agente moral, social, cultural e político estão incluí- A falta de conhecimento e entendimento da
dos na nova agenda de debates do século XXI. Sané DUBDH é fator que contribui para a manutenção do
ressalta que a DUBDH é o primeiro marco histórico, status quo desigual; contribuindo para que popula-
amplo e internacional, dos princípios da bioética 1. ções permaneçam distantes de usufruir de diversas
Para Saada, representa mudança paradigmática no nuances da justiça social. Isso ocorre porque esse
conceito de bioética: A DUBDH abre novos espaços desconhecimento, aliado a fatores como baixa esco-
para que a reflexão ética seja ferramenta necessária laridade e falta de debate de temas cruciais para a
para que governos possam estabelecer leis, normas vida das pessoas, reforça a ignorância, apatia e au-
e legislações adequadas no campo bioético 2. sência de mobilização para pressionar poderes pú-
No mesmo sentido, Barbosa ressalta que o con- blicos e privados a adotarem soluções que objetivem
teúdo deste documento consolida um avanço concre- o desenvolvimento social e econômico para todos.
to para um novo referencial epistemológico e uma Segundo Lorenzo 5, a vulnerabilidade social é
nova agenda temática para a bioética do século XXI: um fenômeno determinado pela estrutura de vida
uma bioética mais humana, mais palpável e mais cotidiana das pessoas e comunidades, diretamen-
próxima dos verdadeiros conflitos persistentes que te relacionado aos fatores que a determinam, tais
assolam a maioria dos países periféricos da Terra 3. quais falta de recursos como renda, informação, co-
O documento, considerado juridicamente nor- nhecimento e tecnologias e falta de acesso a pode-
ma não vinculante, sem força de lei, mas com signifi- res públicos e outros tipos de representação social 6.
cado político importante, foi firmado por 191 países Assim, como resultado desse processo de alienação
signatários e abordou questões sociais (dignidade as populações vulneráveis são alijadas nas decisões
humana, violência, combate à pobreza, solidarieda- políticas, deixando de participar de maneira integra-
de), sanitárias (acesso universal a sistemas de saú- da nas decisões que afetam a sociedade em geral.
de, equidade na atenção) e ambientais (qualidade A ausência da divulgação das premissas da
da água, biodiversidade). A DUBDH oferece ainda DUBDH, tanto nacional quanto internacionalmente,
orientação para decisões ou práticas de indivíduos, apresenta reflexos diretos em diferentes setores e
grupos, comunidades, instituições e empresas públi- áreas de atividade. No Brasil, por exemplo, em uma
cas e privadas 4. votação apertadíssima no Supremo Tribunal Federal
A DUBDH representa grande avanço político (STF), em 2008, com seis votos a favor e cinco contra
e teórico para um mundo socialmente mais justo. a liberação do uso de células-tronco para pesquisas
Durante sua construção, entretanto, aconteceram e terapias, os ministros da máxima Corte jurídica do
diversos conflitos entre as nações mais ricas e po- país em nenhum momento se basearam e citaram
bres; entre o mundo centrado no contexto euro-­ as premissas da Declaração Universal sobre Bioética
estadunidense e o mundo periférico. Nas reuniões e Direitos Humanos.
preparatórias, países mais ricos defenderam um tex- Essa ausência torna-se ainda mais flagrante (e
to exclusivamente focado em questões biomédicas preocupante) quando se percebe que a DUBDH é
e biotecnológicas. Por sua vez, os países pobres e considerada o documento internacional mais atual
em desenvolvimento batalharam por avançar tam- e balizador nesse sentido, que prega valores e esta-
bém em questões sociais, ambientais e sanitárias. belece premissas em defesa da vida e dos direitos
O compromisso com a comunicação e divulga- humanos. Esse desconhecimento pode decorrer da
ção das premissas do texto oficial está previsto no desinformação de magistrados que ocupam posição
artigo 22 da DUBDH: os Estados devem tomar todas de notório saber e, na hora de consolidar seus ar-
as medidas adequadas de caráter legislativo, admi- gumentos, ignoraram a importância dos conceitos
nistrativo ou de qualquer outra natureza, de modo a contidos no documento.
implementar os princípios estabelecidos na presente O fato não pode ser tomado de maneira isolada,
Declaração e em conformidade com o direito inter- o que demonstra e reforça a necessidade de investir

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em políticas de comunicação com relação à DUBDH mudanças da dinâmica nas relações interpessoais,
nas áreas pública e privada. Por isso, o presente es- tendo a capacidade de intervir no tecido social, res-
tudo propõe o uso de ferramentas e estratégias do peitando e – em alguns casos específicos e de modo
campo da Comunicação para contribuir na divulga- positivo – ultrapassando barreiras culturais.
ção, promoção e popularização do conteúdo, dos
Mas a comunicação de uma diretriz (como
conceitos e das bases éticas contidas no documento.
propõe a DUBDH) necessita de estratégia de di-
Artigos de atualização

Os artigos 22 e 23 da Declaração defendem vulgação para que a mensagem atinja os objetivos


que informações e conceitos do texto sejam difun- desejados. Neste estudo, a comunicação se associa
didos e divulgados principalmente entre os jovens à bioética de intervenção, que defende a politiza-
– responsáveis por construir o futuro. Ambos os ar- ção dos temas morais como forma de aplicação da
tigos reforçam a necessidade de se ter um instru- chamada ética aplicada, em substituição à bioética
mento atual, dinâmico e hábil que possa provocar meramente normativa ou descritiva 9. Para ela, paí-
reflexões e transformações práticas – no caso, um ses periféricos necessitam de novo enfoque bioéti-
plano de comunicação estruturado, objeto de dis- co, baseado em práticas intervencionistas, diretas e
cussão deste trabalho. duras, que instrumentalizem a busca de uma dimi-
nuição de inequidades 10, ou seja, aponta o caminho
de intervenção do Estado para superar as desigual-
Bioética de intervenção: politizando a divulgação
dades e possibilitar a inclusão social para os mais
da DUBDH
vulneráveis 9.
Ao defender a politização dos temas da bioé-
Para que qualquer instrumento de divulgação
tica em geral, esta linha epistemológica de trabalho
traga resultados práticos que motivem o processo
utiliza a perspectiva do filósofo francês, de origem
de transformação social, é fundamental que exista o
grega, Cornelius Castoriades, para quem a política é o
compromisso ético e político nesse sentido. Assim,
campo onde verdadeiramente se dão as grandes de-
as nações participantes da construção da DUBDH es-
cisões, que alijam ou incluem indivíduos como benefi-
tão comprometidas com sua disseminação e difusão
ciários do desenvolvimento científico e tecnológico 11.
dos seus conceitos.
Sendo a política caminho necessário para que
Esse formato político de compromisso mun-
o indivíduo atue e influencie decisões importantes,
dial vem alcançado resultados estratégicos positi-
vos, como o acordo para os Objetivos de Desenvolvi- é fundamental que os atores na luta a favor da in-
mento do Milênio proposto pelas Nações Unidas em clusão social se empoderem por meio de mais co-
2000 7. Nele, a comunidade internacional de nações nhecimentos e direitos, e se libertem no mais amplo
fixou uma série de compromissos para serem cum- sentido que o conceito de Paulo Freire para liberta-
pridos pelos estados-membro em 15 anos. Ao todo, ção permita, emancipando-se 12. A comunicação e a
são oito temas centrais, dentre os quais a saúde pú- atuação direcionada estratégica podem ajudar em
blica e o meio ambiente, divididos em 18 objetivos cada um desses processos.
e 48 indicadores. Cada país, de acordo com sua rea­ O empoderamento dos grupos vulneráveis for-
lidade, comprometeu-se a alcançar determinados talece e corrobora a libertação, defendida por Frei-
índices populacionais ligados à inclusão social para, re, para quem os sujeitos sociais são atores políticos
juntos, alterarem o destino da humanidade. cuja ação pode manter ou alterar o status quo 13: Co-
As Metas do Milênio, nome popularmente municação [é] a co-participação dos Sujeitos no ato
conhecido, ganharam espaço na agenda política de pensar (...) [ela] implica uma reciprocidade que
internacional, sendo debatidas por entidades go- não pode ser rompida (...) comunicação é o diálogo
vernamentais, empresariais e sociedade civil. Por na medida em que não é transferência de saber, mas
terem sido difundidas globalmente com metas cla- um encontro de Sujeitos interlocutores que buscam
ras e objetivas quanto a resultados, cada Estado e a significação dos significados.
sua sociedade foram instigados a criar suas próprias A liberdade é mais do que o reconhecimento
estratégias para cumprir as metas assumidas. da existência de poder. O grupo que possui autono-
Neste contexto, a comunicação, para Melo 8, mia e liberdade marca posição, estabelece um locus
funciona como ponte para a realização prática da- e demonstra uma carga de atuação e de poder no
quela agenda política, haja vista ser a base das re- contexto democrático contra a dominação socio­
lações entre os indivíduos e grupos na sociedade. econômica e cultural. A bioética de intervenção de-
Os meios de comunicação podem contribuir para fende que a luta política deve resultar em liberdade,

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a partir da tomada de consciência sobre as forças sensibilizar as pessoas e, no caso do conteúdo da


que os oprimem e pela ação concreta de oposição DUBDH, fazer com que temas importantes estejam
a elas 9. tangíveis, inseridos, percebidos e assimilados no dia
Por último, como consequência natural dos a dia de todos. Como fazer isso? Entre outras ações,
dois pilares descritos, a emancipação entra como por meio da aplicação de estratégias adequadas de
importante marco teórico para a bioética de inter- comunicação 15 – como visto mais adiante.

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venção, significando que: Só é emancipado aquele Aplicada como ferramenta, a comunicação
que suprimiu sua dependência, que alcançou o do- pode oferecer resultados práticos de assimilação
mínio sobre si mesmo e pode garantir não apenas a das propostas presentes no documento do organis-
sobrevivência, mas suas escolhas frente aos meios mo internacional, como o respeito à dignidade hu-
de alcançar essa sobrevivência 12. Essa linha de pen- mana, à igualdade dos direitos e à justiça. Estudos
samento defende que o ato de se emancipar tem na área de percepção pública apontam que a divul-
caráter político. Emancipar-se deve ser um direito gação científica de temas como desenvolvimento
conquistado, e não concedido. sustentável, aquecimento global, biotecnologia e
Por isso, a divulgação dos conceitos principais transgênicos, por exemplo, aliada a outras estraté-
da DUBDH tem de ser encarada como ato político gias nos mais diversos meios de comunicação de
global, intervencionista, que deve ser assumida de massa, garantem resultados significativos para o au-
maneira direta, com estipulação de metas anuais, mento do entendimento neles contidos 16.
pelas 191 nações que assinaram o documento. E No caso da DUBDH, há uma gama de assuntos
esse ato intervencionista depende, entre outros que vão desde o respeito à dignidade humana, pas-
pontos, de um plano de ação comunicativa para al- sando por compreensão de termos de consentimen-
cançar o objetivo de transformar a realidade social. to em pesquisa científica, até o acesso aos sistemas
de saúde e a medicamentos. Devido a essa diversi-
O poder da comunicação e suas ferramentas dade, a compreensão pode ser mais complexa. Com
a intenção de trazer temas para o cotidiano das pes-
soas, é fundamental usar da comunicação de massa
O conceito de comunicação se ampliou no para dar visibilidade às informações, sem, evidente-
mundo globalizado. Atualmente, são necessários mente, perder qualidade.
não só elementos básicos, como emissor, receptor e
mensagem, mas também aspectos como a compre- De acordo com Castells, o pensamento coleti-
ensão do conteúdo, a assimilação e processamento vo (que não é a soma dos pensamentos individuais
de informações para provocar a ação consciente e, em interação, mas sim um pensamento que absorve
possivelmente, transformadora na vida de cada um tudo e é difundido por toda a sociedade) se elabora
e de todos. na comunicação. É da comunicação que vêm as ima-
gens, as informações, as opiniões e é por meio desses
A comunicação influencia comportamentos mecanismos de comunicação que a experiência é di-
individuais e coletivos e pode auxiliar na ampliação vulgada e transmitida ao coletivo/na coletividade 17.
do debate para posterior conscientização sobre os
mais diversos assuntos e para o posicionamento da Assim, a comunicação entra como o meio pelo
pessoa como cidadão. É com este objetivo que um qual a DUBDH pode se tornar amplamente divulga-
plano de comunicação será desenhado no contexto da, conhecida e popularizada para que seja levada
do presente trabalho, como ferramenta prática para da teoria à prática, influenciando a responsabilidade
auxiliar em um processo mais amplo de tentativa de social dos governos e da sociedade civil em assuntos
divulgação da DUBDH na comunidade de nações, como saúde e bem-estar coletivo, preservação do
possibilitando resultados práticos para a vida coti- meio ambiente e da diversidade cultural e as lutas
diana das pessoas. contra a pobreza e exclusão social 18.
Segundo Castells 14, há atualmente uma nova Habermas propõe um modelo teórico – a Teo-
forma de relação entre economia, Estado e socie- ria da Ação Comunicativa ­– no qual as pessoas inte-
dade, como resultado da revolução tecnológica que ragem e, pela utilização da linguagem, se organizam
está na base da chamada sociedade da informação. socialmente, buscando o consenso de forma livre
Nela, a comunicação assume grande relevância, de qualquer coação externa e interna. Esse autor
atuando na elaboração de conceitos, percepção de acredita que, para haver transformação na socieda-
consciência e entendimento das questões mundiais de e para a resolução de graves problemas sociais,
relevantes para a humanidade. O desafio está em é necessário o resgate da racionalidade comunica-

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tiva, na qual o diálogo e o agir comunicativo sejam politicamente e transformar, na prática, a realidade
o motor da interação social e da construção de es- das pessoas. Seu objetivo central é, além de contri-
paços de poder com a ação de indivíduos críticos e buir para maior visibilidade da bioética no contexto
participativos 19. mundial, ajudar na melhoria da qualidade de vida
A linguagem é peça fundamental da Teoria da dos vulneráveis e estabelecer relações socialmente
Ação Comunicativa. Para Habermas os indivíduos so- mais justas para a humanidade.
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cializados, quando no seu dia a dia se comunicam en- Usualmente, um plano de comunicação se-
tre si por meio da linguagem comum, não têm como gue várias etapas, tais como: análise da situação,
evitar que se empregue essa linguagem também no orientação estratégica, escolha dos meios, orienta-
sentido voltado ao entendimento. E, ao fazer isso, ção criativa, preparação de orçamento, realização
eles precisam tomar como ponto de partida determi- técnica e avaliação de resultados. Vale ressaltar que
nadas pressuposições pragmáticas, nas quais se faz o plano aqui sugerido consistiria no reforço de um
valer algo parecido com uma razão comunicativa 20. conjunto de medidas e ações socioeconômicas, po-
Por isso, o presente plano de comunicação pro- líticas e de comunicação que precisam andar conco-
põe o uso de técnicas atuais, das mais diferentes áreas, mitantemente em cada país.
e estratégias para que a população aumente a assi- A proposta não se esgota em si e deve ser en-
milação de temas e consiga trazê-los para o enten- carada como ponto de partida, necessitando even-
dimento da realidade no seu contexto de vida. Esse tualmente ser revista, atualizada (devido à velocida-
processo torna o ser humano cada vez mais prepa- de dos avanços tecnológicos) e modificada. A suges-
rado para exercer a cidadania, dando-lhe mais auto- tão com a apresentação do presente plano de co-
nomia, dignidade e justiça e, por conseguinte, mais municação não seria construir um manual estático e
consciência para lutar pelos seus direitos e respeitar absoluto das ações de comunicação. Muito menos,
seus semelhantes, uma das premissas da bioética 1. teria a pretensão de esgotar todas as possibilida-
Miguel destaca a importância da comuni- des para que a DUBDH seja conhecida, divulgada e
cação e sua relação com a política: A mídia é, nas popularizada. A educação permanente em bioética
sociedades contemporâneas, o principal instrumen- é peça fundamental para a tomada de consciência
to de difusão das visões de mundo e dos projetos própria e da sociedade, além de ajudar, de maneira
políticos; dito de outra forma, é o local em que es- prática, a mudar a situação dos menos favorecidos
tão expostas as diversas representações do mundo social e economicamente.
social, associadas aos diversos grupos e interesses Aumentar o acesso à informação é desafio
presentes na sociedade 21. mundial e, ao mesmo tempo, obstáculo para alcan-
çar o objetivo de divulgar os valores da DUBDH. A
mesma barreira pode ser enfrentada para a assimi-
O plano de comunicação para divulgação, pro-
lação desses conteúdos não só pelas pessoas sem
moção e popularização da Declaração
escolaridade, mas também por quem faz as leis no
país, por atores envolvidos nas políticas nacionais
Todo plano de comunicação possui um rotei- e locais e por cidadãos comuns, das mais diversas
ro básico que pode ser adequado de acordo com classes sociais. Os dois aspectos citados devem ser
a realidade de cada órgão, país, governo ou em- considerados para a elaboração do plano de comu-
presa que resolva adotá-lo. O plano aqui propos- nicação do tipo aqui proposto.
to pode representar um esforço de planejamento
estratégico, produzido, principalmente, para au-
mentar a visibilidade de um assunto, de um pro- Definição da mensagem
duto ou da empresa para o público em geral ou
para públicos específicos 22. Uma comunicação depende de muitos aspec-
Um plano de comunicação não se resume tos para que seja efetiva. Entre eles, a definição da
apenas à divulgação; suas propostas são formadas mensagem e dos meios adequados para sua propa-
para fortalecer alguma marca, no presente caso, gação 23. Uma mensagem pode ser transmitida em
a Declaração Universal sobre Bioética e Direitos conversas pessoais, durante seminários profissio-
Humanos da Unesco como proposta para a agen- nais, por e-mails ou telefones celulares, por atuação
da social internacional no século XXI. O plano em da publicidade ou pela mídia e seus veículos (televi-
questão visa a criação de uma visibilidade maior são, rádio, jornal, revista, internet). Na era da socie-
para os conceitos bioéticos que possam mobilizar dade da informação, uma mensagem pode circular

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com rapidez assustadora e causar efeitos tanto po- a execução da proposta em si, mas sim proporcio-
sitivos quanto negativos. Por isso, as mensagens do nar elementos teóricos e metodológicos, além de
plano precisariam ser definidas e bem elaboradas, ferramentas práticas, para a execução de projetos
em linguagem acessível aos mais diversos públicos. de divulgação da DUBDH em diferentes situações no
Seriam necessários produtos, ações, meios de co- âmbito interno dos países ou em esforços conjuntos
municação, interlocutores e porta-vozes que criem entre eles.

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e reproduzam mensagens e informações de maneira A realização de pesquisas periódicas seria im-
sistêmica para a sociedade. portante instrumento para saber como as pessoas
Para que essa comunicação aconteça de fato, percebem, entendem e assimilam determinados
as mensagens precisariam ser/ter: 1) objetivas, cur- temas e situações. O resultado desse conjunto de
tas, simples e de fácil compreensão; 2) linguagem opiniões confere ao planejamento de comunicação
apropriada ao nível de compreensão dos recepto- maior probabilidade de êxito. Desde já, o plano su-
res, à faixa etária, ao gênero, à etnia, entre outros geriria também que, em cada local onde fosse exe-
aspectos; 3) contextualizadas, para que o receptor cutado, se fizessem estudos para identificar os prin-
se sinta realmente participando da comunicação e cipais porta-vozes (líderes de opinião) na sociedade
acredite que faz parte deste processo inclusivo; 4) civil e no campo político (parlamentares, governa-
apelo visual, sensorial e emocional para que facilite dores, prefeitos) e seus discursos sobre os principais
a abertura, a confiança, a honestidade e a coope- temas da DUBDH. O resultado da pesquisa serviria
ração do emissor com o receptor; 5) ser adaptadas para orientar uma política de relacionamento e de
à realidade do receptor – o que envolve aspectos abastecimento de informações a serem retransmiti-
socioeconômicos do público, além da capacidade fí- das à sociedade em geral.
sica de receber determinada mensagem. (Por exem- Outro foco importante seria a mídia. O plano
plo, como tornar real uma mensagem a um surdo- sugeriria que fosse efetuado um levantamento de
mudo? E a uma pessoa cega?); 6) alto grau de trans- quais são os temas mais presentes relacionados à
missão com baixo custo; 7) efeito persuasivo, serem bioética, tratados nos principais meios de comunica-
criativas, ousadas e inovadoras. ção dos lugares escolhidos para sua execução. Neste
retrato, seria importante identificar qual a frequên-
Análise de situação, pesquisas e orientação cia de reportagens, notícias, artigos e comentários
que citem direta ou indiretamente questões bioé-
estratégica
ticas. Um estudo importante, ainda relacionado à
mídia, seria destinado a saber quais são os veículos
O ponto de partida para um plano de comuni- e os jornalistas que mais escrevem sobre os temas
cação seria o diagnóstico e a análise da situação e dos bioéticos e que tipo de opinião costumam emitir.
cenários. Muito provavelmente, a maioria da popula-
A partir dessas análises seria possível pensar
ção mundial não conhece a DUBDH e o seu conteú-
em estratégias de comunicação e de relacionamen-
do. Contudo, seus conceitos podem estar no cotidia-
to para fornecer informações a diversos públicos,
no moral das pessoas sem que elas mesmas saibam.
ampliar o número de profissionais que possam se
Para traçar um diagnóstico e identificar quais manifestar com propriedade sobre os temas, au-
são as maiores demandas, seria necessária a reali- mentar a frequência de publicação e debate de te-
zação de pesquisas de opinião pública para mapear mas bioéticos na mídia, no meio político e na socie-
a percepção e identificar o grau de informação e o dade e, por último, qualificar o discurso de quem re-
comportamento de determinados setores da socie- aliza a cobertura jornalística. Desta forma se estaria
dade em relação a temas da DUBDH. O estudo com dando visibilidade à temática e embasando a ampla
questões quanti e qualitativas é o ponto de partida discussão acerca de tais temas.
para que cada país identifique suas necessidades e
trace um diagnóstico. Ele também servirá de base
para orientar as estratégias deste plano de comu- Definição de públicos-alvo
nicação. As soluções precisam ser customizadas a
partir desse levantamento inicial. O desafio de divulgar e promover a DUBDH
Um projeto desse tipo pode ser implementa- entre os mais diversos públicos que compõem a po-
do nacional, regional ou mesmo internacionalmen- pulação de um país é bem complexo, já que cada
te, dependendo da ambição e/ou objetivos dos seus nação possui um sistema social, econômico, políti-
executores. O propósito do presente estudo não é co, religioso e cultural distinto. Mas, dentro desse

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universo amplo, há setores específicos que preci- Para cada público seriam propostas estraté-
sariam ser sensibilizados e informados para que – gias e abordagens específicas. Porém, os principais
mais uma vez, aplicando premissas da bioética de eixos de atuação seriam:
intervenção – a troca de ideias e debates ocorra e • capacitar profissionais das mais diferentes for-
possa influenciar a criação ou discussão de políticas mas para qualificar o discurso, a atuação e a in-
públicas, beneficiando o maior número de pessoas tervenção em seu nicho de atuação;
no âmbito da população.
Artigos de atualização

• realizar ações de relacionamento com influen-


O papel do Estado – como ente representativo ciadores e líderes de cada um dos públicos-alvo;
nas Nações Unidas – é estratégico. Precisa liderar e
conduzir o processo de conscientização e discussão • criar redes públicas de conhecimento e de troca
dentro da esfera pública e envolver toda a sua es- de informação;
trutura de poder: quem administra o Estado, quem • estimular interação para que os participantes
constrói as leis do país, quem delibera sobre a apli- possam vivenciar determinadas situações in
cação e o cumprimento das leis e quem sofre as loco, experimentando e relatando situações;
consequências diretas delas. A esfera governamen-
• desenvolver espaços públicos e midiáticos para
tal, nos países democráticos, é alvo de influência e
fomentar debates e discussões sobre temas bio-
pressão de vários setores da sociedade civil. Uma
éticos;
democracia mais madura permite que a população
perceba seu poder e atue nas decisões do Estado. • criar ações permanentes para manter os assun-
tos na agenda política e social do país;
Para que a DUBDH e seus conceitos tenham
maior legitimidade do que aquela conferida pelos • promover políticas que valorizem, financeira e
poderes públicos, torna-se também fundamental o socialmente, quem atuar como protagonista ou
envolvimento da sociedade civil organizada no pro- parceiro no engajamento e na defesa de valores
cesso de divulgação, promoção e implantação, res- éticos;
ponsável por exercer o controle social. Miguel res- • atuar de maneira a estimular a educação perma-
salta que (...) a desigualdade de acesso à discussão nente em temas bioéticos.
pública não é efeito apenas do controle da mídia,
mas também da deslegitimação da expressão dos
dominados no campo político, que exige o manejo Abordagem para cada meio de comunicação
de determinados modos de discurso 24.
Diferentes representações de trabalhadores, Para Duarte 25, o ato de comunicar deixou de
setor empresarial, organizações não governamen- indicar a disseminação ou o transporte de informa-
tais, formadores de opinião, mundo acadêmico, ção, equívoco clássico da área, e assumiu seu sig-
profissionais das áreas que se relacionam diferen- nificado original de compartilhar, pôr em comum,
temente às decisões bioéticas, bem como demais dialogar, ouvir – uma espécie de bem direito cole-
profissionais das áreas da saúde, educação, comu- tivo universal: Estamos em tempos de novas arenas
nicação, cultura, ciência e tecnologia, pesquisa, comunicativas, de interações complexas e perigosa-
meio ambiente e direitos humanos 4, precisam ser mente fluidas e fugidias com os diferentes públicos.
envolvidos neste processo de conhecimento, enten- O compartilhamento das informações vem ganhan-
dimento, divulgação, intervenção e, por fim, trans- do, aos poucos, formas e meios mais democráticos
formação social do Estado. para a promoção do diálogo. A internet é o símbolo
O plano de comunicação prevê um trabalho maior da sociedade na era da telecomunicação, in-
mais próximo a públicos prioritários. É a primeira formática e comunicação – tele-info-comunicação.
fase, momento em que os conceitos, debates, dis- Os celulares não cumprem apenas a função de
cussões e ações práticas se multiplicariam e, aos colocar duas ou mais pessoas em contato. Hoje, esse
poucos, serviriam de agente transformador da rea- aparelho é um conversor de mídia e de informações.
lidade. Nesse primeiro instante, os públicos priori- Os usuários os utilizam para navegar na internet,
tários seriam: a) imprensa, profissionais de comu- participar de maneira móvel das redes sociais, tirar
nicação e formadores de opinião; b) empresários fotos, documentar fatos e reproduzir informações.
e profissionais do setor empresarial; c) sociedade As plataformas wikis, com conteúdo feito a partir de
civil organizada; d) gestores públicos, políticos e participação coletiva, e o surgimento das redes e es-
parlamentares; e) entidades ligadas ao tema da paços virtuais sociais como blogs, Facebook, Orkut,
Declaração. Twitter, MySpace, Linked in, Digg, You Tube, Second

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Life e Flickr colocam o desafio de superar a prática • estímulo à criação de blogs na área de bioética
da comunicação de simplesmente informar numa ou relacionada a temas bioéticos em que espe-
direção única. O que se observa e estimula nesses cialistas possam dividir seu conhecimento;
canais é a interatividade – em todo o mundo foram • realização de parceria com o Google Maps para
criadas comunidades virtuais segmentadas que tro- a criação de um mapa especial para marcar os
cam e debatem informações sobre os assuntos mais endereços mundiais onde a bioética é estudada

Artigos de atualização
diversos. e onde as pessoas podem achar cursos na área;
Todas essas características desse mundo plu- • mobilização das redes governamentais (secreta-
ral e globalizado estão sendo levadas em conside- rias estaduais e municipais de Educação e Saúde,
ração na proposição deste plano de comunicação, por exemplo) e não governamentais que traba-
sem deixar de lado os meios mais tradicionais – já lhem com os temas bioéticos.
que o objetivo seria alcançar o maior público possí-
vel, com o menor custo possível. Rabelo sintetiza a
importância e o alcance das mídias sociais: Abran- Outras mídias: jornais, televisões, rádios e
gendo inúmeras áreas de enfoque ou conteúdo, as revistas
mídias sociais permitem, além da comunicação e
publicação propriamente ditas, uma efetividade
Como visto, a internet é um meio impactante
nunca antes vista em termos de transmissão de con-
para levar as premissas da Declaração Universal so-
ceitos, iniciativas de mobilização, estruturação de
bre Bioética e Direitos Humanos da Unesco mundo
redes colaborativas e diversas formas de ação social
afora. Mas os meios de comunicação são comple-
coordenada, dando aos seus usuários um inaudito mentares. Por questões culturais e sociais, há pes-
poder de barganha frente aos tradicionais detento- soas que não possuem acesso à comunicação mul-
res do poder nos campos sociais da comunicação e timídia e não podem ficar alijadas desse processo
da política 26. interativo da comunicação – elas se informam por
As diversas estratégias de comunicação para diversos outros veículos.
cada um dos meios a serem utilizados precisariam Em grandes esforços de comunicação, como
ser trabalhadas. Mais uma vez, faz-se preciso re- a divulgação de uma campanha de vacinação num
forçar que devem ser contextualizadas e adaptadas país continental como o Brasil, todos os meios são
dependendo do lugar onde sejam criadas e das ca- conjugados para que a mensagem seja captada e
racterísticas socioculturais da população a que se compreendida e o objetivo final seja cumprido.
dirigem. De maneira geral, seguem algumas ações. Tal estratégia de comunicação garante uma co-
bertura vacinal expressiva e, consequentemente,
aumenta as chances de uma política pública cum-
Internet, mídias sociais e mídias digitais
prir seu papel.
O plano de comunicação para a DUBDH ora
Entre outros aspectos, o plano incluiria a cria-
proposto prevê a divulgação de ideias, exemplos
ção de um portal no site da Unesco com:
e casos práticos, em formato de pauta para repor-
• conteúdos explicativos e informativos, em diver- tagens em jornais, televisões, rádios e revistas. Os
sas línguas, para consulta de públicos segmenta- Estados nacionais e a Unesco, em parceria com a
dos e de qualquer pessoa; sociedade civil, setor empresarial e as entidades de
• elaboração de kits com conteúdos textuais e classe, teriam o papel de envolver as empresas de
gráficos, bem como produtos com informações comunicação públicas e privadas nesta corrente em
oficiais sobre bioética e DUBDH; prol da cidadania e de um mundo mais justo social-
mente e sustentável.
• criação, nas redes sociais, de perfis oficiais da
Declaração ou sobre bioética; As empresas de comunicação precisariam ser
sensibilizadas quanto a esse esforço de comunica-
• produção de filmes promocionais curtos que ção, desde o pequeno ao grande empresário. Os
abordem situações e conteúdos relacionados a grupos hegemônicos de comunicação deveriam ser
valores e ao contexto da Declaração, com divul- chamados para este diálogo e para assumirem um
gação nos canais das redes sociais e no You Tube; comprometimento moral com os assuntos. Ao mes-
• realização de chats periódicos com especialistas mo tempo, os principais influenciadores da mídia al-
em bioética em cada um dos países; ternativa também deveriam participar deste diálogo

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com o governo e a Unesco. Os pequenos veículos da realidade. Todas as esferas que têm influência
poderiam reproduzir mensagens e influenciar popu- no processo educativo, quer família, comunidade,
lações excluídas e sem acesso aos principais veículos organizações não governamentais e até o governo,
de comunicação. devem se envolver no processo para alcançar o fim
Para alcançar públicos em lugares remotos, se- almejado: a educação de um povo para a cidadania
ria possível que, por meio de parceria entre o setor consciente.
Artigos de atualização

público e privado, fossem desenvolvidos programas Embora não seja ação direta de comunicação,
presenciais de repasse de conteúdo ou a divulgação o processo educativo tem papel essencial na forma-
das mensagens com conteúdos bioéticos por rádios ção do cidadão, na transformação da pessoa em um
comunitárias. Alguns programas de rádio poderiam ser político com capacidade de debater, de posicio-
ser criados e distribuídos gratuitamente para que os nar-se e de intervir no meio onde vive. A bioética
habitantes da localidade entrem em contato com de intervenção acredita nesse poder mobilizador e
premissas estruturais e lutem por uma vida melhor. revolucionário da educação, que pode ocorrer das
mais diversas formas e em níveis sociais distintos.
Nesse sentido, o plano de comunicação aqui
Comunicação publicitária e eventos
proposto para divulgar e popularizar os valores da
DUBDH defende que o assunto e os conceitos bio-
A comunicação é múltipla e passa suas men- éticos – teóricos e aplicados – estejam presentes
sagens de diversas maneiras. Cada vez mais, a pu- no nível mais básico do ensino formal até nos mais
blicidade e a promoção de eventos agregam e di- avançados. Não é possível avançar no grau de cons-
versificam as formas de transmissão de conteúdos. ciência e de interferência do ser humano, e conse-
Muitas vezes, determinados conceitos e produtos quentemente na autonomia e na liberdade, sem
têm maior aceitação do público quando essas fer- passar por processo educativo amplo, que promova
ramentas são acionadas. A seguir, algumas ações a reflexão e a compreensão do mundo ao redor.
sugeridas no plano:
• criar o Dia Mundial de Bioética e Direitos Huma-
Considerações finais
nos, que seria comemorado em 19 de outubro,
data da aprovação do documento. A criação
dessa data teria importante caráter político para Definitivamente, a Declaração Universal so-
rememorar os compromissos que cada país terá bre Bioética e Direitos Humanos está no centro de
assumido para que as ideias da Declaração sejam muitos debates mundiais da atualidade. Porém, o
disseminadas e por tornar os vulneráveis mais in- que se percebe é que o desconhecimento generali-
cluídos socialmente; zado sobre seu conteúdo – por parte da sociedade
civil, dos profissionais de comunicação, dos gestores
• produzir campanha publicitária anual para ser
públicos e políticos e dos pesquisadores em geral –
veiculada em diversos meios de comunicação e
mantém grande parte da população mundial excluí-
nas redes sociais;
da da participação e da tomada de decisões políticas
• nomear, em cada país, um embaixador da DUBDH importantes.
sobre bioética, com uma agenda propositiva;
Por isso, mais do que necessário, é fundamen-
• criar uma pulseira, ou outro objeto, para simboli- tal que se tenham diretrizes de comunicação nas
zar a adesão do cidadão comum aos objetivos da áreas pública e privada que construam um diálogo
bioética e, consequentemente, dar visibilidade ao mais produtivo entre as forças de poder. O presente
processo. O produto seria vendido a preço sim- trabalho apresenta uma proposta de um plano de
bólico, e o dinheiro posteriormente revertido em comunicação com possibilidade de divulgar e pro-
projetos de divulgação dos valores da Declaração. mover a DUBDH. Isto pode ser feito por meio das
mais diversas ferramentas de comunicação e educa-
ção que possibilitem tornar a bioética mais conhe-
Educação permanente cida e visível pela população em geral. Esta política
na área não deve só permitir a troca e o debate de
Todas essas ações de comunicação descritas informações, mas também ajudar na capacitação de
não sobrevivem sem que haja educação permanen- atores participantes, para que possam construir e
te por trás de um grande projeto e plano de divulga- intervir no rumo das políticas públicas para um país
ção. Sabe-se que a educação é o pilar transformador ou para a humanidade.

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O resultado de uma mobilização do tipo preten- gundo Porto e Garrafa, a bioética de intervenção
dido com a presente proposta, decorrente de ações preconiza como moralmente justificável na esfera
e estratégias de comunicação, pode ser revelador. A pública a priorização de políticas que privilegiem o
união de esforços pode ampliar o conhecimento e maior número de pessoas, pelo maior tempo possí-
o entendimento das pessoas em diversas questões vel, e que resultem no bem comum 27.
morais importantes, como acesso das populações a Nesse sentido, o plano também pode ser en-
serviços de saúde de qualidade. Outra consequên-

Artigos de atualização
carado como ato político e inclusivo. A bioética é
cia da atuação direcionada em comunicação é que, uma ação transformadora do real 28 e a comuni-
a partir da capacitação de determinados persona- cação é capaz de promover e provocar mudanças
gens, eles possam atuar de maneira mais qualificada práticas na geopolítica mundial, com grande poten-
no controle social de questões importantes. Como cial de empoderar populações mais vulneráveis 29
consequência desse processo mobilizador, mudan- e, consequentemente, ajudá-las no processo de li-
ças podem emergir e transformar realidades de ma- bertação, diminuindo a dependência e aumentan-
neira geral ou mais específicas, com a inclusão social do o poder de voz e veto 30. Por fim, como resulta-
de populações mais vulneráveis. do de um processo complexo, a comunicação pode
Politizar a comunicação, como a bioética de servir de ferramenta para ajudar na emancipação
intervenção sugere para outros temas de conflitos dos sujeitos sociais mais carentes 12, com amplas
e de situações persistentes e emergentes, é o cami- chances dos mesmos aumentarem sua participa-
nho aqui proposto para que importantes decisões ção política e vivenciarem, na prática, a tão alme-
possam ser tomadas em prol da coletividade. Se- jada cidadania.

Trabalho produzido no âmbito da Cátedra Unesco e Programa de Pós-Graduação em Bioética da Universidade


de Brasília, como projeto de dissertação.

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Aprovado: 21.2.2014
Participação dos autores
Rodrigo Caetano participou da concepção, organização e execução da pesquisa, além da redação final
do texto. Volnei Garrafa, como orientador, participou de todas as etapas da pesquisa.

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