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Marisa Vorraber Costa, Rosa Hessel Silveira e Luis Henrique Sommer

Estudos culturais, educação e pedagogia

Marisa Vorraber Costa


Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Programa de Pós-Graduação em Educação
Universidade Luterana do Brasil, Programa de Pós-Graduação em Educação

Rosa Hessel Silveira


Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Programa de Pós-Graduação em Educação
Universidade Luterana do Brasil, Programa de Pós-Graduação em Educação

Luis Henrique Sommer


Centro Universitário Feevale, RS
Universidade Luterana do Brasil, Faculdade de Educação

Os estudos culturais: uma introdução tremamente complexas e matizadas como cultura e


popular.2
O que é, afinal, Estudos Culturais? Esta frase e Cultura transmuta-se de um conceito impreg-
outras similares intitulam, no Brasil e em muitos paí- nado de distinção, hierarquia e elitismos segrega-
ses, alguns livros e artigos1 cujo objetivo tem sido cionistas para um outro eixo de significados em que
definir os contornos da movimentação intelectual que se abre um amplo leque de sentidos cambiantes e
surge no panorama político do pós-guerra, na Ingla- versáteis. Cultura deixa, gradativamente, de ser do-
terra, nos meados do século XX, provocando uma mínio exclusivo da erudição, da tradição literária e
grande reviravolta na teoria cultural. Se continuar- artística, de padrões estéticos elitizados e passa a
mos a percorrer as publicações, perceberemos, en- contemplar, também, o gosto das multidões. Em sua
tre os textos mais disseminados, que as preocupa- flexão plural – culturas – e adjetivado, o conceito
ções se concentram em problematizações da cultura, incorpora novas e diferentes possibilidades de sen-
agora entendida em um espectro mais amplo de pos- tido. É assim que podemos nos referir, por exemplo,
sibilidades no qual despontam os domínios do po- à cultura de massa, típico produto da indústria cul-
pular. Aliás, a revolução copernicana operada pelos tural ou da sociedade techno contemporânea, bem
Estudos Culturais na teoria cultural concentrou-se como às culturas juvenis, à cultura surda, à cultura
neste terreno escorregadio e eivado de preconceitos empresarial, ou às culturas indígenas, expressando
em que se cruzam duas noções ou concepções ex-

2
Ver, a este respeito, o capítulo 1 do livro Estudos culturais
1
Citamos como exemplos: John Storey (1997); Cary Nel- em educação, organizado por Marisa Vorraber Costa (2000), e
son; Paula Treichler, Lawrence Grossberg (1992); Richard Johnson também o artigo Cultura, culturas e educação, de Alfredo Veiga-
(1986/1987); Tomaz Tadeu Silva (1999b). Neto, neste número da Revista Brasileira de Educação.

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Estudos culturais, educação e pedagogia

a diversificação e a singularização que o conceito pação na cultura quando é a definição elitista que a
comporta. governa” (Barker & Beezer, 1994, p. 12).5
Ao par disso, o termo popular também é objeto Desde seu surgimento, os EC configuram espa-
de uma vicejante polissemia. Do popular ao pop,3 ços alternativos de atuação para fazer frente às tradi-
nomeiam-se movimentações das mais variadas gamas. ções elitistas que persistem exaltando uma distinção
Popular tanto pode indicar breguice, gostos e condu- hierárquica entre alta cultura e cultura de massa, en-
tas comuns do povo, entendido como a numerosa par- tre cultura burguesa e cultura operária, entre cultura
cela mais simples e menos aquinhoada da população, erudita e cultura popular. Nessa disposiçao hierár-
quanto, na nomenclatura política das esquerdas, ex- quica, ao primeiro termo corresponderia sempre a
pressar o fetiche do mundo intelectual politicamente cultura, entendida como a máxima expressão do es-
engajado ou mesmo as cruzadas contemporâneas em pírito humano; segundo a tradição arnoldiana,6 “o
torno do politicamente correto. Nesta oscilação cam- melhor que se pensou e disse no mundo”. Ao segun-
biante do significado, popular e pop comportam do termo corresponderiam as [outras] culturas, adje-
gradações que, com freqüência, apontam para distin- tivadas e singulares, expressão de manifestações su-
ções entre o que é popularesco, rebuscado, kitsch e o postamente menores e sem relevância no cenário
que é sofisticado, despojado, minimalista. Como se elitista dos séculos XVIII, XIX e XX. Harmonia e
percebe, as palavras têm história, vibram, vivem, pro- beleza eram prerrogativas da cultura, que deveria ser
duzem sentidos, ao mesmo tempo em que vão incor- cultivada para fazer frente à barbárie dos grupos po-
porando nuanças, flexionadas nas arenas políticas em pulares, cuja vida se caracterizaria pela indigência
que o significado é negociado e renegociado, perma- estética e pela desordem social e política. Só a har-
nentemente, em lutas que se travam no campo do sim- monia suscitada pela “verdadeira cultura” poderia
bólico e do discursivo.
Os Estudos Culturais (EC) vão surgir em meio
às movimentações de certos grupos sociais que bus- país teria sido o berço dos EC. Contudo, o acesso à literatura mais

cam se apropriar de instrumentais, de ferramentas recente, em línguas que não a inglesa (por exemplo Mato, 2001;

conceituais, de saberes que emergem de suas leituras Martín-Barbero, 1997a), parece sugerir que tal reviravolta nos

do mundo, repudiando aqueles que se interpõem, ao estudos da cultura teria ocorrido, quase simultaneamente, tam-

longo dos séculos, aos anseios por uma cultura pau- bém em outros países europeus, asiáticos e latino-americanos, ex-

tada por oportunidades democráticas, assentada na pressando um certo “estado das discussões sobre cultura” que vai

educação de livre acesso. Uma educação em que as pes- se instaurar em vários locais do mundo, num tempo de grandes

soas comuns, o povo, pudessem ter seus saberes valori- reviravoltas na organização do capitalismo, produzidas, em gran-

zados e seus interesses contemplados. O projeto ini- de parte, pelos avanços nas tecnologias da informação e da comu-

cial dos Estudos Culturais britânicos4 era “um projeto nicação, as quais, usando a expressão do filósofo italiano Gianni

de pensar as implicações da extensão do termo ‘cul- Vattimo (1991), estariam deixando as sociedades “trasparentes” e

tura’ para que inclua atividades e significados das favorecendo a inscrição de outros grupos e sujeitos coletivos no

pessoas comuns, esses coletivos excluídos da partici- mapa cultural e político do século XX. Ver a esse respeito a seção
do presente texto que aborda os EC na América Latina
5
Todas as traduções de originais em espanhol e em inglês
3
Há breve crônica de Juremir Machado da Silva sobre esse são dos autores deste artigo.
6
tópico (2003). Expressão que faz referência a Mathew Arnold, autor de
4
Essa movimentação no campo da teoria cultural é farta- Culture and anarchy e teórico principal de uma tradição de análi-
mente documentada no que se refere às suas manifestações na se da cultura fortemente marcada por posições elitistas e hierár-
Inglaterra, sendo amplamente difundido e reconhecido que este quicas.

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apaziguar os ânimos, aplacar a ignorância e suprimir a expressão orgânica de uma comunidade, nem como
anarquia da classe trabalhadora parcamente instruída. uma esfera autônoma de formas estéticas, mas como
A tradição arnoldiana teve defensores arraiga- um contestado e conflituoso conjunto de práticas de
dos no século XX, que pretenderam fazer frente ao representação ligadas ao processo de composição e
suposto declínio cultural, à padronização da cultura recomposição dos grupos sociais”(p. 345). Por sua vez,
e ao nivelamento por baixo prognosticado por Arnold Stuart Hall (1997a e 1997c) diz que na ótica dos EC as
muitas décadas antes. Diante do risco do “irremediá- sociedades capitalistas são lugares da desigualdade
vel caos” que representariam os “temíveis avanços no que se refere a etnia, sexo, gerações e classes, sen-
da cultura de massa”, chegou a ser publicado um do a cultura o locus central em que são estabelecidas e
manifesto propondo introduzir nos currículos escola- contestadas tais distinções. É na esfera cultural que se
res um treinamento de resistência à cultura de massa, dá a luta pela significação, na qual os grupos subordi-
qualificada como uma cultura comercial consumida nados procuram fazer frente à imposição de significa-
por uma maioria ignorante e inculta. Contra isso, pre- dos que sustentam os interesses dos grupos mais po-
tendiam criar postos avançados em escolas e univer- derosos. Nesse sentido, os textos culturais são o próprio
sidades, nas quais grupos seletos de intelectuais atua- local onde o significado é negociado e fixado.
riam como “missionários” em defesa da “verdadeira Analistas contemporâneos da cultura chamam a
cultura!” É, então, a essa concepção elitista – em que atenção para a ocorrência de uma “revolução cultu-
cultura é um certo “estado cultivado do espírito”, que ral”, ao longo do século XX, na qual os domínios do
estaria em oposição “à exterioridade da civilização” – que costumamos designar como cultura se expandi-
que os EC vão se contrapor.7 ram e diversificaram de uma forma jamais imagina-
Os trabalhos precursores dos EC, apesar de não da. A cultura não pode mais ser concebida como acu-
serem unívocos em suas perspectivas de problemati- mulação de saberes ou processo estético, intelectual
zação, estão unidos por uma abordagem cuja ênfase ou espiritual. A cultura precisa ser estudada e com-
recai sobre a importância de se analisar o conjunto da preendida tendo-se em conta a enorme expansão de
produção cultural de uma sociedade – seus diferentes tudo que está associado a ela, e o papel constitutivo
textos8 e suas práticas – para entender os padrões de que assumiu em todos os aspectos da vida social. Essa
comportamento e a constelação de idéias comparti- centralidade da cultura – ressaltada, entre tantos pen-
lhadas por homens e mulheres que nela vivem. Em sadores, por Stuart Hall, Fredric Jameson, Néstor
seus desdobramentos, os EC investem intensamente Canclini, Beatriz Sarlo, David Harvey – tem uma di-
nas discussões sobre a cultura, colocando a ênfase no mensão epistemológica, que vem sendo denominada
seu significado político. “virada cultural”, referindo-se a esse poder instituidor
John Frow e Meaghan Morris (1997), autor e au- de que são dotados os discursos circulantes no circui-
tora australianos, referem-se à cultura “não como uma to da cultura. Um noticiário de televisão, as imagens,
gráficos etc. de um livro didático ou as músicas de
um grupo de rock, por exemplo, não são apenas ma-
7
Ver a esse respeito o capítulo 1 do livro Estudos culturais nifestações culturais. Eles são artefatos produtivos,
em educação : mídia, arquitetura, brinquedo, biologia, literatura, são práticas de representação, inventam sentidos que
cinema..., organizado por Marisa Vorraber Costa (2000). circulam e operam nas arenas culturais onde o signi-
8
Aqui a palavra textos não faz referência apenas às expres- ficado é negociado e as hierarquias são estabeleci-
sões da cultura letrada, mas a todas as produções culturais que das. Para Hall (1997b),
carregam e produzem significados. Um filme, um quadro, uma
foto, um mapa, um traje, uma peça publicitária ou de artesanato [...] a cultura é agora um dos elementos mais dinâmicos – e
podem ser considerados textos culturais. mais imprevisíveis – da mudança histórica do novo milê-

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Estudos culturais, educação e pedagogia

nio. Não devemos nos surpreender, então, que as lutas pelo Assim, a queda dos impérios coloniais e os no-
poder deixem de ter uma forma simplesmente física e com- vos contornos da cultura no capitalismo teriam
pulsiva para serem cada vez mais simbólicas e discursivas, marcado acentuadamente o surgimento destas movi-
e que o poder em si assuma, progressivamente, a forma de mentações na teoria cultural. O mais antigo movi-
uma política cultural. (p. 20) mento dos estudos culturais teria surgido de uma va-
riante paroquial e provinciana. As obras The uses of
Haveria duas importantes determinantes histó- literacy (Richard Hoggart, 1957), Culture and Society
ricas para a emergência e o desenvolvimento dos EC (Raymond Williams, 1958), The long revolution
(Schwarz, 2000, p. 48-49). A primeira seria a reorga- (Williams, 1961) e The making of the english working
nização de todo o campo das relações culturais em class (E. P. Thompson, 1963) foram todas anteriores
decorrência do impacto do capitalismo no surgimen- à disseminação da eletricidade como principal forma
to de novas formas culturais – TV, publicidade, mú- de energia e a conseqüente popularização de aparatos
sica rock, jornais e revistas de grande tiragem e cir- tecnológicos que iriam transformar radicalmente o
culação – que levam à dissolução o campo de forças acesso à informação e à comunicação. Hoggart só te-
do poder cultural das elites. A segunda teria sido o ria adquirido um aparelho de televisão após ter publi-
colapso do império britânico, cujo mapa territorial cado The uses of literacy (Schwarz, 2000). Mesmo
do poder diminui significativamente após a guerra nesta fase, não se pode dizer que os EC estavam
contra o Egito em 1956, revirando o imaginário so- centrados em torno dos mesmos propósitos, projetos
cial da Inglaterra. Nessa experiência comum do fim teóricos e políticos ou perspectivas analíticas. De fato,
do Império, a migração dos colonizados para sua eles teriam sido uma tentativa de reordenar as con-
“casa imaginada” – a Inglaterra – coloca em primei- cepções de classe e cultura, focalizando-as no simbó-
ro plano as preocupações políticas com as questões lico e no vivido e tentando associar as culturas vivas
coloniais, sendo que alguns dos intelectuais que con- ao poder. Muitas foram as incorporações em termos
tribuíram para esse redirecionamento das discussões de formas de estudo e perspectivas teóricas, inclusive
culturais foram formados na tradição britânica fora com repercussões no marxismo, passando as relações
da própria Inglaterra.9 Surge uma nova geração inte- de classe a serem vistas como constituídas dentro e
lectual com novos posicionamentos, idéias e críticas. fora do local de trabalho, na cultura. A questão do
Para Schwarz (2000), os Cultural Studies, na Ingla- poder foi remetida para o centro das discussões; se
terra, foram uma “resposta directa à larga renarrati- ele não estava nas estruturas do capital, precisava
vização da Inglaterra” (p. 49). Sua leitura vai mais ser problematizado na linguagem, no simbólico, no
adiante, contestando uma certa visão que coloca es- inconsciente. Todo esse ecletismo resultou provei-
ses estudos como algo autóctone, que teria emergido toso, remexeu as tradições intelectuais e permitiu que
de uma matriz centralizadora britânica. De fato, diz novos desafios fossem formulados e enfrentados
ele, muitos dos líderes intelectuais deste projeto eram (Schwarz, 2000).
periféricos a esta matriz. Os Estudos Culturais não constituem um con-
junto articulado de idéias e pensamento. Como di-
zem seus cronistas mais contundentes, eles são e
9
Este é o caso, por exemplo, de Stuart Hall (jamaicano), sempre foram um conjunto de formações instáveis e
Gayatri Spivak (indiana), Edward Said (palestino nascido em Jeru- descentradas. Há tantos itinerários de pesquisa e tão
salém que vive no eixo Inglaterra e Estados Unidos). Schwarz (2000, diferentes posições teóricas que eles poderiam ser des-
p. 57) menciona a afirmação de Hall de que no seu agrupamento de critos como um tumulto teórico. Para Stuart Hall –
socialistas, em Oxford, de onde surgiu a Nova Esquerda e o grande uma de suas figuras mais proeminentes e um dos
impulso para os Cultural Studies, não havia um único inglês. mais conhecidos analistas contemporâneos da cul-

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tura – os Estudos Culturais se constituíram como um dar conta de suas preocupações, motivações e inte-
projeto político de oposição, e suas movimentações resses teóricos e políticos.
“sempre foram acompanhadas de transtorno, discus- As contribuições de importantes pensadores so-
são, ansiedades instáveis e um silêncio inquietante” ciais dos meados do século XX, como Louis Althusser
(Hall, 1996, p. 263). e Antonio Gramsci, juntamente com as análises cultu-
rais de Raymond Williams, Richard Hoggart, Edward
Uma teoria viajante – temas, tensões, P. Thompson e Stuart Hall, ligados às movimentações
problemas e aproximações iniciais da Nova Esquerda, ajudaram a forjar a pri-
meira linhagem de análises culturais contemporâneas
Foi Heloisa Buarque de Holanda10 quem usou a identificadas como Cultural Studies. Hall (1996) re-
expressão teoria viajante para referir-se aos Estudos lata associações dos EC com o surgimento da primei-
Culturais, atribuindo-lhes um certo ethos, uma voca- ra Nova Esquerda britânica, num momento de desin-
ção para transitar por variados universos simbólicos tegração de um certo tipo de marxismo, aquele que se
e culturais, por vários campos temáticos e teorias, desmantelava diante da visão dos tanques soviéticos
encontrando portos de ancoragem onde se deixam fi- invadindo Budapest, em 1956, e transformando em
car e começam a produzir novas problematizações. cacos um projeto histórico-político. Boa parte daque-
Os Estudos Culturais não pretendem ser uma disci- les que participaram do surgimento da Nova Esquer-
plina acadêmica no sentido tradicional, com contor- da pretendiam juntar estes fragmentos para recompor
nos nitidamente delineados, um campo de produção a agenda do marxismo como projeto político e traba-
de discursos com fronteiras balizadas. Ao contrário, lhar relativamente àquelas questões que ainda impor-
o que os tem caracterizado é serem um conjunto de tavam e que poderiam significar contribuições impor-
abordagens, problematizações e reflexões situadas na tantes a um projeto como o dos EC. Assim, diz Hall
confluência de vários campos já estabelecidos, é bus- (idem, p. 265), trabalhava-se o marxismo, trabalhando
carem inspiração em diferentes teorias, é romperem contra ele e com ele para tentar desenvolvê-lo.
certas lógicas cristalizadas e hibridizarem concepções Como concordam vários autores (Angela
consagradas. McRobbie, Cary Nelson, Lawrence Grossberg, Paula
Os Estudos Culturais disseminaram-se nas artes, Treichler, Richard Johnson, Stuart Hall e outros/as), os
nas humanidades, nas ciências sociais e inclusive nas Estudos Culturais de origem britânica têm sido um ter-
ciências naturais e na tecnologia. Eles prosseguem reno conturbado de discussões e desencontros. Sardar
ancorando nos mais variados campos, e têm se apro- e Van Loon (1998, p. 52) apresentam um apanhado das
priado de teorias e metodologias da antropologia, psi- críticas, que contestam seu paroquialismo e anglocen-
cologia, lingüística, teoria da arte, crítica literária, fi- trismo, sua ênfase nas questões de classe (em sua fase
losofia, ciência política, musicologia... Suas pesquisas inicial), em detrimento de raça e gênero, e sua aborda-
utilizam-se da etnografia, da análise textual e do dis- gem preferencial das expressões urbanas metropolita-
curso, da psicanálise e de tantos outros caminhos nas e dos rituais das assim chamadas subculturas. Os
investigativos que são inventados para poder compor EC teriam erigido a cultura popular britânica como
seus objetos de estudo e corresponder a seus propósi- modelar, compartilhando, mais uma vez, uma noção
tos. Eles percorrem disciplinas e metodologias para de arte particularmente eurocêntrica em que são cele-
bradas as formas de arte popular britânicas. Apesar de
seu propalado discurso em defesa dos excluídos e mar-
10
A expressão é usada no texto A academia entre o local e o ginalizados, são acusados de manterem-se enredados
global, publicado em Z – Revista Eletrônica do PACC/UFRJ. Dis- numa tradição que persiste ligada à supremacia da cul-
ponível em: <www.ufrj.br/pacc/z.html>. tura e da civilização ocidental. Além disso, apesar de

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Estudos culturais, educação e pedagogia

se ocuparem de questões da classe trabalhadora, das Birmingham,12 durante cinco ou seis anos, foi estudar
mulheres, dos negros e outras minorias, eram presun- tradições de pensamento que teriam contribuído para
çosa e exclusivamente homens brancos de classe mé- forjar o marxismo com o objetivo de procurar supe-
dia que militavam nesse empreendimento inicial. rar os limites que ele impunha. Quando o próprio Hall
Este criticismo permite situar alguns impasses se aproximou da obra de Gramsci, isto teria se dado
na constituição do que é identificado por Hall (1996) na medida em que o pensador italiano procurava saí-
como o legado teórico dos estudos culturais.11 De das àquilo que a teoria marxista não respondia. E,
acordo com a visão deste pesquisador, expressa no nesse sentido, Hall não deixa de destacar o quanto a
trabalho mencionado, não se trata de comentar o êxi- contribuição de Gramsci foi importante no que diz
to ou a utilidade dos distintos posicionamentos teóri- respeito à discussão de algumas questões que interes-
cos, e sim, de discutir questões que dizem respeito ao sam ao estudo da cultura, despontando, entre elas, a
relacionamento entre teoria e política. Os EC podem extremamente produtiva metáfora da hegemonia.
ser tomados como uma formação discursiva no senti- (Hall, 1996, p. 267).
do foucaultiano. Eles “abarcam discursos múltiplos Sob a ótica de Johnson (1999), apesar da crítica
bem como numerosas histórias distintas. Compreen- ao velho marxismo ter sido uma constante, tanto nas
dem um conjunto inteiro de formações, com as suas vertentes literárias quanto nas vertentes históricas dos
diferentes conjunturas e momentos no passado. [...] EC, há inegáveis contribuições:
foram construídos por metodologias e posicionamen-
tos teóricos diferentes, todos confrontando-se entre A primeira é que os processos culturais estão intima-
si” (p. 263). Para Hall, os embates dentro dos EC fo- mente vinculados com as relações sociais, especialmente
ram cruciais para testá-los nas arenas culturais de um com as relações e as formações de classe, com as divisões
mundo moderno que se esvai e de novas ordens que sexuais, com a estruturação racial das relações sociais e
se instalam. com as opressões de idade. A segunda é que cultura envol-
As aproximações iniciais com uma prática críti- ve poder, contribuindo para produzir assimetrias nas capa-
ca marxista demonstraram, desde o início, argumenta cidades dos indivíduos e dos grupos sociais para definir e
Hall (idem), os desencaixes, pois era evidente sua in- satisfazer suas necessidades. E a terceira, que se deduz das
suficiência para dar conta de questões que eram obje- outras duas, é que a cultura não é um campo autônomo nem
to privilegiado dos EC, como cultura, ideologia, a lin- externamente determinado, mas um local de diferenças e
guagem e o simbólico. Além disso, a ortodoxia, o de lutas sociais. (p. 13)
caráter doutrinário, o determinismo, o reducionismo,
a imutável lei da história, o estatuto de metanarrativa Com esta afirmação, Johnson recupera a impor-
e um inequívoco eurocentrismo seriam também in- tância das contribuições do marxismo, concordando
congruentes com boa parte do que já se pensava e com Hall, em que os elementos do marxismo, embo-
pretendia naquele momento (décadas de 1950 e 1960). ra vivos e valiosos, precisam ser constantemente cri-
Envolver-se com o marxismo significou mergulhar ticados, retrabalhados e testados em estudos detalha-
em um problema. A uma certa altura, o que se fez no dos. E é isto que acontece até os nossos dias.
Centro de Estudos Culturais Contemporâneos de

12
Trata-se do Center for Contemporary Cultural Studies,
11
Uma versão em português deste texto está publicada na sediado na Escola de Birmingham, na Inglaterra, onde os Estudos
Revista de Comunicação e Linguagens, do Centro de Estudos de Culturais teriam emergido, na década de 1960, como prática inte-
Comunicação e Linguagens da Universidade Nova de Lisboa. lectual institucionalizada.

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Outro embate importante nos EC diz respeito aos e prolongado em torno desse ponto. Para Hall (1996),
ataques advindos do movimento feminista e das lutas isto pode ser melhor compreendido se situado numa
contra o racismo (Hall, 1996; Johnson, 1999). Essa conjuntura arraigadamente britânica, e a retardada
expressão – ataque – caracteriza o sentido e os con- saída deste impasse tem conexões com as renhidas
tornos dessa movimentação relativamente aos EC na lutas da Nova Esquerda e suas discordâncias com o
década de 1970. marxismo. Aqueles que se empenharam em produzir
Segundo Hall (1996, p. 269), o caráter sexuado estudos voltados para esta questão enfrentaram imensa
do poder tornou-se evidente quando, em virtude do dificuldade para criar o espaço teórico e político ne-
expressivo crescimento e importância do movimento cessário ao desenvolvimento desse projeto.14
feminista no cenário dos anos de 1960 e 1970, o gru- Outro campo polêmico, em ebulição desde os pri-
po masculino majoritário do Centro de Birmingham mórdios dos EC, é aquele constituído pelo que tem sido
pensava que estava na hora de incorporar um bom criticamente denominado de ortodoxia teórica do
trabalho feminista nos EC. Contudo, as mulheres textualismo. Hall (1996) ressalta as repercussões da
invadiram o campo dos EC de forma intempestiva, virada lingüística para os EC, com suas conseqüentes
repudiando qualquer promoção masculina relativa- ênfases nas noções de discurso e texto, tomados agora
mente ao seu ingresso. Isto, diz Hall, foi uma expe- em seu caráter produtivo e constitutivo da experiência
riência inusitada, inesperada e radicalmente diferen- cotidiana, das visões de mundo e das identidades. Se-
te, que o confrontava com a materialidade da noção gundo ele, também em relação a este tópico travou-se
foucaultiana de saber-poder. Em vez da planejada uma luta interna nos EC britânicos, cujos desdobra-
desistência do poder, os homens “transformados” e mentos certamente legaram um saldo positivo tanto em
bonzinhos que abriam as portas às mulheres esta- termos de debates teóricos e compreensão da teoria
vam sendo silenciados, tomados de assalto, contes- quanto no que diz respeito à produtividade destas no-
tados ruidosamente, além de expostos em suas liga- ções nas problematizações da cultura. O confronto nada
ções inequívocas com o arraigado poder patriarcal. tranqüilo entre trabalhos de cunho estruturalista, se-
Desde então, a crítica feminista nos EC tem produzi- miótico e pós-estruturalista, bem como os embates en-
do parte significativa das análises culturais que afe- tre estes e as tradições de pensamento de vários mati-
tam os modos como as mulheres vêm ocupando es- zes que inspiravam as análises do campo, não impedem,
paços e sendo reposicionadas nas políticas culturais.13 contudo, que se deixe de reconhecer:
No que diz respeito à questão racial, as lutas in-
ternas nos EC não foram diferentes. Os estudos, hoje A importância crucial da linguagem e da metáfora
numerosos e vicejantes, sobre questões críticas de raça lingüística para qualquer estudo da cultura; a expansão da
e racismo, são resultantes de um longo, amargo e con- noção de texto e textualidade, seja como fonte de significa-
testado combate interno contra um silêncio retumbante do, seja como aquilo que elide ou adia o significado; o re-
conhecimento da heterogeneidade, da multiplicidade dos
significados, do esforço envolvido no fechamento arbitrá-
13
A manifestação mais contundente desta revolução femi- rio da semiose infinita para além do significado; o reconhe-

nista dentro dos EC, teria sido a publicação Women take issue, que
em inglês é um trocadilho linguístico de duplo sentido. Significa
14
tanto o número ou edição de uma publicação, indicando, neste Os livros Policing the crisis : ‘mugging’, the state and law
caso, que as mulheres se apossaram da publicação da revista do and order, editado por S. Hall, C. Critcher, J. Clarke e B. Roberts,
Centro de Birmingham, como também take issue quer dizer dis- em 1978, e The Empire strikes back, editado pelo Centro de
cordar, referindo-se, assim, ao fato de que as intelectuais feminis- Birmingham, em 1982, expressam as movimentações desta crise
tas introduziram suas vozes discordantes nos EC (Hall, 1996). interna cujo foco eram as discussões sobre raça.

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Estudos culturais, educação e pedagogia

cimento da textualidade e do poder cultural, da própria re- jeto aberto ao desconhecido, ao inominável, não se
presentação, como sítio de poder e de regulamentação; do pode reduzi-lo a um pluralismo simplista. De acordo
simbólico como fonte de identidade. (Hall, 1996, p. 271) com Sardar e Van Loon (1998), toda esta dificuldade
para definir os Estudos Culturais não significa que
Hall argumenta ainda que as conseqüências da “qualquer coisa pode ser estudos culturais, ou que
virada lingüística para os EC far-se-ão sentir ainda estudos culturais podem ser qualquer coisa” (p. 9).
por longo tempo, reconfigurando as teorias, por ser Há, segundo estes dois autores, pelo menos cinco
preciso, agora, “pensar as questões da cultura através pontos distintivos dos EC. O primeiro é que seu obje-
das metáforas da linguagem e da textualidade” (p. 271). tivo é mostrar as relações entre poder e práticas cul-
Isso representa um adiamento necessário, um deslo- turais; expor como o poder atua para modelar estas
camento inevitável, pois há sempre algo que escapa, práticas. O segundo é que desenvolve os estudos da
descentrado, perdido no meio da cultura, na lingua- cultura de forma a tentar captar e compreender toda a
gem, nos textos, nos discursos, na significação, e esse sua complexidade no interior dos contextos sociais e
algo pode ser o elo para localizar uma fonte de poder, políticos. O terceiro é que neles a cultura sempre tem
aquilo que produz o significado a favor ou contra tal uma dupla função: ela é, ao mesmo tempo, o objeto de
ou qual política. estudo e o local da ação e da crítica política. O quarto é
Quando se assume que a cultura opera através que os EC tentam expor e reconciliar a divisão do co-
das suas textualidades, o grande desafio de um proje- nhecimento entre quem conhece e o que é conhecido.
to político como o dos EC, que “tenta desenvolver-se E o quinto, finalmente, refere-se ao compromisso dos
como uma espécie de intervenção teórica coerente” EC com uma avaliação moral da sociedade moderna e
(idem, ibidem), é conseguir um registro teórico que com uma linha radical de ação política.
dê conta disto. Parece que a saída é aprender a viver
em uma tensão constante, testando permanentemente Os Estudos Culturais na América Latina15
a vitalidade das teorias em confrontos com as
materialidades de suas práticas cotidianas. Viver nes- Alasuutari (1999) faz referência ao “carisma dos
sa tensão é o preço de não abdicar de pretensões in- estudos culturais”, que teriam se espalhado por quase
tervencionistas. A exclusiva prática intelectual é tran- todo o mundo, e procura caracterizá-los da seguinte
qüila. Atribulada, incerta, instável e cambiante é a forma: “Eles têm crescido e se expandido não sim-
prática intelectual como política. plesmente através das pessoas que trabalham adotan-
Tudo isso faz com que seja muito difícil, senão do os conceitos da Escola de Birmingham, mas prin-
impossível, chegar-se a alguma precisão ou consenso cipalmente porque essas pessoas se identificam com
relativamente a uma caracterização dos Estudos Cul- os EC”(p. 92, grifos nossos). Neste sentido – o da
turais. Eles são muitas coisas ao mesmo tempo, tensio- identificação de sujeitos e grupos de diferentes paí-
nando os panoramas intelectuais e acadêmicos em que ses com a atmosfera intelectual e as propostas inves-
estão implicadas tanto as velhas e consagradas discipli- tigativas dos EC – certamente têm atuado algumas
nas como os movimentos políticos, práticas acadêmi- condições marcantes da pós-modernidade, como as
cas e modos de investigação tais como o marxismo, o
pós-colonialismo, o feminismo, o pós-estruturalismo.
Esse é o motivo pelo qual são freqüentemente descritos 15
Nesta seção, entenderemos os estudos culturais latino-
como uma antidisciplina ou pós-disciplina. americanos como aqueles que são desenvolvidos apenas na Amé-
Hall (1996) diz que, apesar de o projeto dos EC rica de língua espanhola, excluindo-se o caso brasileiro. De certa
caracterizar-se pela abertura, recusar-se a ser uma me- forma, adotando-se uma perspectiva que simboliza o mútuo dis-
tanarrativa ou um metadiscurso, ou consistir num pro- tanciamento em que os dois contextos têm atuado.

Revista Brasileira de Educação 43


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instabilidades do mundo contemporâneo, a desinte- lêmicas, críticas e negações de sua legitimidade, sua
gração das narrativas mestras que o explicavam, as relevância e seu status acadêmico. A existência, fa-
inúmeras rupturas com a ordem estabelecida, a inten- cilmente comprovável por incursões na Internet, de
sa conexão planetária favorecida pela mídia, as no- centros universitários e de pesquisa, e de programas
vas questões trazidas por inéditas formas de migra- de mestrado e doutorado que focalizam os Estudos
ção e desterritorialização, condições às quais os EC Culturais (ou, mais freqüentemente, os Estudios Cul-
parecem corresponder, produzindo encaixes tempo- turales Latinoamericanos) sinaliza tal florescimento,
rários, porém fecundos. indicando que no Chile, na Argentina, no México, na
Inúmeros países têm “ancorado” EC,16 e isto não Colômbia, no Equador, na Venezuela, no Uruguai, por
se deve, necessariamente, a uma migração dos EC exemplo, há um conjunto – ou mais, ou menos ex-
britânicos. Parece que as conexões entre os estudos pressivo – de reflexões, estudos e iniciativas institu-
que revolucionam a teoria cultural contemporânea cionais que se filiam a esses estudos.
podem ser atribuídas, primordialmente, à amplitu- Mesmo que sua história ainda esteja por ser es-
de e abrangência destas movimentações no cenário crita,17 conforme assinala Moreiras (2001, p. 355), é
de um mundo que se torna transparente. A expres- possível, através de um sobrevôo por suas temáticas,
são “sociedade transparente”, utilizada por Gianni características e principais questões, esboçar um qua-
Vattimo (1991) para atribuir sentido ao pós-moderno, dro que nos ajude a ver as formas pelas quais – em
diz respeito ao fato de vivermos em uma sociedade sua especificidade – eles podem ser (e têm sido, como
de comunicação generalizada, massificada, onde tudo veremos adiante) inspiradores para as reflexões em
se torna visível, de variados ângulos e sob inúmeras educação no espaço latino-americano.
versões. Segundo o autor, o desenvolvimento verti- As polêmicas iniciam pela circunscrição do que
ginoso das tecnologias da comunicação e da infor- “pertenceria” aos Estudos Culturais e o que não seria
mação – jornais, rádio, televisão, informática e afins – específico do campo, já por si só caracterizado como
estaria associado às crises do colonialismo e do im- teórica e metodologicamente instável. De forma pa-
perialismo europeu, e teria contribuído radicalmen- radoxal, os nomes mais constantemente associados
te para a dissolução de pontos de vista centrais, tor- aos Estudos Culturais na América Latina – Néstor
nado impossível a manutenção de uma concepção García Canclini, Jesús Martín-Barbero e Beatriz
de história como curso unitário em direção ao pro- Sarlo – não são intelectuais que se reconheçam ali-
gresso. nhados ou se filiem aos EC de maneira inconteste.
Os Estudos Culturais na América Latina têm sido Efetivamente, os EC capitalizaram e renomearam es-
marcados simultaneamente por um grande floresci- tudos de “análise cultural” que se faziam na América
mento e uma não menos expressiva quantidade de po- Latina anteriormente, influenciando o seu desenvol-
vimento, como afirmam, inclusive, os dois primeiros
nomes citados anteriormente. Martín-Barbero, por
16
Numa cartografia dos EC, estes teriam migrado, nos anos
de 1980 e 1990, para Austrália, Canadá e Estados Unidos, men-
17
cionados como aqueles países onde há maior difusão. Também Para um exame dos estudos de comunicação e cultura na
França, Espanha, Nova Zelândia, Índia e países do sul da Ásia América Latina, focalizando especificamente Martín-Barbero,
fazem parte deste mapa. A esse respeito ver Sardar e Van Loon Néstor García Canclini e, como referência, Stuart Hall, ver
(1998), Costa (2000b). Há discordâncias sobre as direções e as Escosteguy (2001); para ter acesso a um debate sobre as relações
origens deste fluxo, conforme comentamos no presente artigo. Uma entre estudos literários e estudos culturais na América Latina, den-
cartografia dos EC na América Latina é objeto da pesquisa de tro de um quadro mais amplo que envolve pensar questões histó-
Escosteguy (2001). ricas, filosóficas e regionais, ver Moreiras (2001).

44 Maio/Jun/Jul/Ago 2003 Nº 23
Estudos culturais, educação e pedagogia

exemplo, declara, em entrevista prestada à revista ele- Nesse sentido, se há consenso acerca da explo-
trônica Dissens em 1996: são dos EC na América Latina dos anos de 1990, é
necessário recuar no tempo para rastrear o contexto
Não comecei a falar de cultura porque me chegaram peculiar em que eles foram gestados. Para Ríos (2002,
coisas de fora. Foi lendo Martí, 18 Arguedas19 que eu a des- p. 247), os EC latino-americanos podem ser defini-
cobri, e com ela os processos de comunicação que se tinha dos como “um campo de estudos configurado dentro
de compreender. [...] Nós havíamos feito estudos culturais da tradição crítica latino-americana”, e, ainda que te-
muito antes de que essa etiqueta aparecesse. nham significado uma ruptura epistemológica com o
que antes se fazia, inserem-se em uma importante tra-
Também Canclini, conforme Mato (2001, p. 1), dição do ensaio de idéias da América Latina, tradição
teria afirmado que havia começado a “fazer Estudos esta que já vinha se estabelecendo desde o século XIX.
Culturais” antes de se dar conta de que eles assim se Além disso, há que se citar a efervescência do pano-
chamavam. Nomeações à parte, é importante assina- rama cultural nas décadas mais recentes, em muitos
lar que a década de 1990 é reconhecida como a déca- países latino-americanos, como relembra oportuna-
da em que ocorreu a explosão dos EC na América mente Mato (2001, p. 13), alertando para que não
Latina, marcada pela realização de pesquisas sobre percamos de vista
“consumo cultural”, ora utilizando metodologias
quantitativas, ora estratégias qualitativas (entrevistas [...] a importância, para o campo dos estudos e outras práti-
e dinâmicas de grupo, por exemplo), expandindo-se cas em cultura e poder, das contribuições de Paulo Freire,
por meio de estudos e publicações de ensaios de maior Orlando Fals Borda, Aníbal Quijano e numerosos intelec-
fôlego. Cabe registrar, ainda, no que diz respeito aos tuais latino-americanos que mantiveram e mantêm práticas
EC da América Latina, a freqüente utilização das ex- dentro e fora da academia e que, portanto, não necessaria-
pressões “Teoria cultural” e “análises culturais”, numa mente fazem “estudos”, assim como dos diversos movimen-
superposição que torna difícil falar de fronteiras e li- tos teatrais e ativistas teatrais (os casos de Augusto Boal e
mites rígidos em relação ao que se vem entendendo Olodum, por exemplo), o movimento zapatista no México,
por Estudos Culturais. os movimentos e intelectuais indígenas em quase todos os
países da região (mas particularmente em Chile, Bolívia,
Equador, Colômbia e Guatemala), o movimento feminista,
18
José Martí, poeta, ensaísta e jornalista cubano, nascido o movimento dos direitos humanos, diversos movimentos
em 1853 e morto em 1895, é considerado o maior herói da luta de expressões musicais (a nova canção, os rocks críticos,
pela independência de Cuba contra a Espanha e um dos maiores etc), o trabalho de numerosos humoristas (Quino, Rius,
escritores do mundo hispânico. Sua multifacetada experiência in- Zapata e outros) e de cineastas (novo cinema brasileiro e
telectual e formação educativa permitiram uma movimentação outros, etc.).
teórica nos mais diversos campos, o que o tornou uma voz in-
fluente no pensamento latino-americano. Se a questão das fronteiras e dos contextos que
19
José Maria Arguedas, escritor e antropólogo peruano, nas- constituíram condições de possibilidades para a eclosão
cido em 1911 e morto em 1969, adquiriu importância como nove- dos EC latino-americanos é um campo aberto para
lista, tradutor e, também, como antropólogo preocupado com as múltiplas explorações, também avultam as discussões
questões da cultura andina de origem quéchua, seu confronto e ligadas à sua nomeação. Assim, uma de suas denomi-
mestiçagem com a cultura peruana urbana de raízes européias. nações – Latin American Cultural Studies – é objeto
Freqüentemente citado pelos autores mais recentes dos EC latino- de discussão e contestação. Mato (2001, p. 6) entende
americanos, parece ter sido influência marcante no pensamento que tal denominação os situaria nos chamados Area
cultural latino-americano. Studies, os quais, em sua origem, estariam associados

Revista Brasileira de Educação 45


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a projetos imperiais de produção de conhecimentos daqueles acadêmicos que, geralmente em função de


sobre povos e nações dominados, conhecimentos es- cursos de pós-graduação e bolsas de estudo, exibem
ses produzidos para uso das metrópoles. O autor um significativo domínio da língua inglesa, idioma em
venezuelano entende que é na academia estadunidense que, por exemplo, é publicado o conhecido periódico
que tem se estabelecido o cânone “válido” para os denominado Latin American Cultural Studies. Interes-
EC latino-americanos, com a sacralização de alguns sante notar que – se se entende a língua como um im-
autores e a consagração de uma leitura específica dos portante marcador de identidade – um dos temas mais
mesmos; além disso, ele expressa seu temor em rela- caros aos EC da América Latina – tal questão poderia
ção ao que identifica como uma influência despoliti- ser considerada central à própria discussão interna dos
zadora dos EC estadunidenses, em tópico que adiante grupos de Estudos Culturais latino-americanos, o que
retomaremos. efetivamente não parece vir ocorrendo.
Com que dosagem os diferentes elementos da quí- De forma similar à sua ação em outros continen-
mica geradora dos EC latino-americanos – a influên- tes, também na América Latina os EC vêm colabo-
cia dos EC britânicos, estadunidenses e australianos, rando para a implosão das linhas acadêmicas de se-
por um lado, uma tradição latino-americana anterior e paração das áreas disciplinares. Castro-Gómez (2000,
concomitante de ensaios críticos e análises culturais, p. 157) afirma, por exemplo, que “a vocação trans-
por outro – se misturaram, e com quais “resultados”, disciplinar dos estudios culturales tem sido altamen-
não é questão fácil de responder e nem é esta aqui nos- te saudável para algumas instituições acadêmicas que,
sa pretensão. Entende Moreiras (2001) que “tal histó- pelo menos na América Latina, tinham se acostuma-
ria também tem uma genealogia totalmente diferente, do a ‘vigiar e administrar’ o cânone de cada uma das
bem como condições distintas de inscrição social e in- disciplinas”. Para Moreiras (2001, p. 74), “as disci-
telectual” (p. 355), o que se reflete, por exemplo, em plinas mais seriamente afetadas pela ascensão dos
alguns temas recorrentes e diferentes negociações que estudos culturais hoje” são os estudos literários, a his-
os trabalhos latino-americanos farão com trabalhos de tória, a antropologia e os estudos da comunicação.
outras áreas. Como bem assinalaram Canclini e Martín- Em entrevista concedida em 1994 (Canclini, 1997b,
Barbero (apud Mato, 2001), o encontro entre aportes e p. 79), Canclini registra a origem disciplinar diferen-
leituras dos EC, as tradições de estudo anteriores e no- ciada dos primeiros pesquisadores dos EC da Améri-
vas vertentes investigativas constituíram um sítio inte- ca Latina, afirmando:
ressante para novas e instigantes produções, mesmo
que sobre elas possa recair o estigma de algum Creio que essa corrente de estudos é proveitosa no
sincretismo teórico e metodológico. sentido de que é gerada de uma variedade de diferentes dis-
Em contrapartida, há que se sublinhar que, a dife- ciplinas: Brunner, da sociologia, Martín-Barbero, da comu-
rença dos EC britânicos, estadunidenses e australianos, nicação e semiótica; meu próprio background é em filoso-
em que a circulação de textos dos diversos autores não fia, mas também sociologia, crítica da arte e antropologia;
sofreu qualquer constrangimento advindo da língua uti- Sarlo, dos estudos literários, e Ortiz, antropologia e socio-
lizada na escrita, no panorama latino-americano a ques- logia. Penso que o que temos em comum é o desejo de en-
tão dos idiomas que os intelectuais dominem ou não, contrar uma maneira melhor de estudar os processos cultu-
não é uma questão menor no panorama da legitimação rais de uma forma multidisciplinar. Combinar tais aborda-
e disseminação do que seriam os “genuínos” EC. gens é central ao projeto, uma vez que entendamos proces-
Mignolo (apud Mato, 2001, p. 10) observa que “o es- sos culturais como processos que devem ser problematiza-
panhol e o português são idiomas que caíram do carro dos mais como interconectados e interdependentes do que
da modernidade e se converteram em idiomas subal- como fenômenos isolados, que é a forma como são tratados
ternos da academia”. Isso explicaria um maior sucesso na maioria das disciplinas.

46 Maio/Jun/Jul/Ago 2003 Nº 23
Estudos culturais, educação e pedagogia

Temáticas preferenciais dos poderiam dissociar-se de seu sentido prático” (Canclini,


Estudos Culturais na América Latina 1998, p. 242); a arte, como produzida por artistas “sin-
gulares e solitários”, o artesanato, por populares “cole-
Como vimos, os Estudos Culturais realizados na tivos e anônimos”; a arte, como referente a “obras úni-
América Latina foram impregnados pelos contextos, cas, irrepetíveis”; o artesanato, como referente a “objetos
problemáticas e tensões vividas nos diferentes gru- em série”, reiterativos em suas estruturas. Submetendo
pos e nações do continente, vindo a mesclar-se com tais oposições a uma informada e aguda crítica, o autor
estudos anteriores que, de certa forma, foram revigo- latino-americano questiona cada um desses parâmetros
rados. Para Ríos (2002, p. 247), como os EC se ocu- diferenciadores, e observa – numa afirmação que, de
pam da produção simbólica da realidade social lati- certa maneira, estampa uma diretriz constante e
no-americana (materialidade, produções e processos), definidora do seu trabalho: Seria possível avançar mais
no conhecimento da cultura e do popular se se abando-
[...] qualquer coisa que possa ser lida como um texto cultu- nasse a preocupação sanitária em distinguir o que te-
ral e que contenha em si mesma um significado simbólico riam a arte e o artesanato de puro e não-contaminado e
sócio-histórico capaz de acionar formações discursivas, se os estudássemos a partir das incertezas que provo-
pode se converter em um legítimo objeto de estudo: desde cam seus cruzamentos (idem, p. 245).
a arte e a literatura, as leis e os manuais de conduta, os Este é, apenas, um pálido exemplo da pujança
esportes, a música e a televisão, até as atuações sociais e as das análises que incidem sobre questões culturais da
estruturas do sentir. América Latina. As hibridações – o importante con-
ceito proposto por Canclini para a análise das culturas
Nesse sentido, pode haver uma especificidade – latino-americanas, as identidades e sua fragmentação,
como efetivamente há – em muitos estudos da vertente as redes de dependências, as relações entre tradição e
latino-americana, mas – vistos em sua globalidade – modernidade, as transformações das culturas popula-
eles se harmonizam com o desenvolvimento mais glo- res, os consumos culturais são alguns dos núcleos te-
bal do campo, que se propõe multitemático e polifoni- máticos mais poderosos que deram e dão fôlego ao
camente interessado em quaisquer artefatos, processos pensamento latino-americano nomeado como EC ou
e produtos que “signifiquem”. lindeiro a esses.
A contestação da diferença entre a “alta cultura” e Entre os traços comuns à maioria de tais estu-
a “baixa cultura” que caracterizou tão profundamente o dos, avulta uma insistente referência às transforma-
campo desde o seu surgimento pode ser comparada, por ções da América Latina, nas últimas décadas, como
exemplo, às análises que Canclini realiza das fronteiras decisivas para a modelagem das temáticas, metodo-
entre “arte” e “artesanato”. Enveredando pelas vielas logias e focos de tais pesquisas. São recorrentes as
do consumo, da produção dos chamados artistas popu- alusões a mudanças políticas (à derrocada dos gover-
lares e da mercantilização das tradições, que se situam nos militares, mais freqüentemente, com conseqüen-
na arena da peculiar “modernidade” da América Lati- te abertura de processos de democratização), ao sur-
na, Canclini observa o quanto, a um olhar “refinado” gimento dos blocos econômicos (como Mercosul, por
tradicional, a linha que separa a arte do artesanato po- exemplo), ao declínio dos Estados-nação e de outras
pular é traçada conforme as oposições dos cânones instituições tradicionais (religião, escola) como refe-
tradicionais do “culto e popular”: a arte é vista como rentes para a identidade, ao mesmo tempo em que se
“movimento simbólico desinteressado, um conjunto de alude à crescente e avassaladora presença da mídia
bens ‘espirituais’ nos quais a forma predomina sobre a em todos os estratos da população, às transformações
função e o belo sobre o útil”, enquanto “o artesanato do lugar da mulher no âmbito público e privado latino-
aparece como o outro, o reino dos objetos que nunca americano, a questões como a das populações indíge-

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nas e mudanças de enfoque de sua problemática, as- de Martín-Barbero) são levadas a efeito por vários
sim como a atenção a atores sociais com relevância autores, como os já citados Sarlo, Canclini e Martín-
cultural mais recentemente atribuída, como é o caso Barbero. Contrapondo-se às visões românticas que
dos jovens, isso, sem falar nas novas preocupações viam no índio o “único traço que nos resta da autenti-
com as questões urbanas, entendendo-se as cidades cidade”, o “lugar secreto onde subsiste e se conserva
como sítios privilegiados da produção de significa- a pureza de nossas raízes culturais” (Martín-Barbero,
dos culturais no fim do século XX e início do XXI. 1997a, p. 260), o estudioso procura pensá-lo dentro
Nesse sentido, um projeto levado a efeito pelo do espaço político e teórico do “popular”, nem visto
Centro de Estudios Culturales da Universidade do como externo ao desenvolvimento capitalista, nem
Chile, cujo delineamento encontra-se disponível na como simples molusco engolido por sua voragem.
Internet,20 é exemplar pela riqueza de sua trama con- Nessa direção, as pressões exercidas pelo consumo,
ceitual e caráter revisor das questões que têm preocu- pelo mercantilismo, pelo discurso do exotismo e do
pado os EC da América Latina. Denominado Identi- rústico, dentro do cenário mais amplo de um turismo
dades en América Latina: discursos y prácticas, o que é, principalmente, fonte de sobrevivência, não
projeto, contando com uma equipe multidisciplinar, podem ser negadas nem demonizadas.
coloca questões que – descontada sua particulariza- Enfim: tematicamente os EC da América Latina
ção à nação chilena – poderiam ser entendidas como têm mergulhado nos processos e artefatos culturais
atravessando em grande escala os EC latino-america- de seus povos, na cotidianidade das suas práticas de
nos. São elas: Quais são os atuais discursos que sus- significação, na contemporaneidade de um tempo em
tentam e/ou fraturam as identidades no Chile? Que que as fronteiras entre o global e o local se relativizam,
identidades articulam e expressam? Que identidades se interpenetram e se modificam. Um exame dos su-
excluem? Quais são suas coordenadas epistêmicas, mários de obras publicadas, seminários, jornadas e
éticas e sócio-históricas? Quais são seus espaços de revistas que têm abrigado trabalhos de EC nos aponta
produção e circulação? Quais são seus dispositivos, uma variedade temática que congrega, por exemplo,
estratégias e políticas culturais? dentro do campo mais amplo da cultura popular ur-
Explorando um pouco a potencialidade de tais bana, a questão das culturas dos bairros populares, os
questões, confrontadas com a pujante produção dos graffiti, a apropriação e a reelaboração musical, o rock
EC latino-americanos, poder-se-ia enfatizar o lugar e as subculturas juvenis etc. Conforme Follari (2000,
do “indígena” na questão das identidades latino-ame- p. 5), encontramos, nos EC da América Latina,
ricanas como um dos grandes eixos inspiradores de
trabalhos, assim como, já do ponto de vista da área da [...] textos de uma capacidade previamente insuspeitada para
Comunicação, a questão do consumo cultural dos pro- amplificar o olhar sobre o mundo do microssocial e dos
dutos da mídia. Tanto uma como outra questão se con- fenômenos de constituição e modificação das identidades;
frontam na tensão global x local, também presente sobre as modalidades de agrupamento e de associação; so-
em significativo número de obras “fundadoras” e es- bre os procedimentos de produção e de consumo cultural;
tudos acessíveis ao leitor brasileiro.21 sobre a invenção das tradições e configuração da autocom-
Em relação ao primeiro tópico, perspicazes aná- preensão promovidas pelos estados nacionais.
lises sobre a impossível pureza do indígena (expressão

20
Disponível em: <http://www.uchile.cl/facultades/filosofia/ Néstor García Canclini, Cenas da vida pós-moderna e Paisagens
cestculturales/proyecto2.html>. Acesso em: 29 mar. 2003. imáginárias, de Beatriz Sarlo, e Dos meios às mediações : comu-
21
Correndo o risco de reiteração, vale a pena relembrar obras nicação, cultura e hegemonia, de Jesús Martín-Barbero, todas
básicas como Consumidores e cidadãos e Culturas híbridas, de traduzidas para o português.

48 Maio/Jun/Jul/Ago 2003 Nº 23
Estudos culturais, educação e pedagogia

Algumas discussões – os Estudos Culturais temáticas do tempo presente, como a bastante explora-
na América Latina e a pós-modernidade da questão da cultura juvenil, das bandas de rock, do
fanatismo esportivo, ou da música salsa, trazidas à boca
Por outro lado, uma questão como as relações de cena pelos estudos culturais (embora não apenas
entre os EC e a pós-modernidade também está no ful- por estudos que, nominalmente, se filiem a eles) na
cro dos debates, uma vez que – em certos círculos – América Latina, revitalizaram a reflexão sobre as con-
os Estudos Culturais teriam aparecido como “o âmbi- tingências, articulações e buscas de compreensão da
to específico e exclusivo da discussão relativa ao tema pós-modernidade em nosso continente.
pós-modernidade – ao menos para muitos analistas Em contrapartida, alguns desenvolvimentos “fi-
teóricos e grupos de leitores” (idem, p. 2). Em inte- losóficos” relativos à pós-modernidade que cobrem
ressante discussão sobre a presença ou ausência das importantes aspectos teóricos, como o status do pós-
discussões mais filosóficas da pós-modernidade den- moderno, a relação com a modernidade, com o mo-
tro dos EC realizados na América Latina, o citado dernismo, com a modernização, com as temáticas do
autor (2000)22 observa que não encontra dentro dos sujeito e das ciências, ou não são tematizados nos tra-
mesmos uma discussão aprofundada ou demorada, de balhos de EC ou o são apenas de passagem (Follari,
cunho filosófico, sobre a pós-modernidade. Para usar 2000, p. 6). Para o autor, efetivamente se observa uma
suas palavras: certa exterioridade de cada campo em relação ao ou-
tro – um se debruçando sobre a cultura do pós-mo-
[...] nada disso [referências a Nietzsche, Heidegger, Derrida, derno e outro propondo uma teorização específica
Vattimo, Baudrillard, Lipovetski] aparece nos estudos cul- sobre a pós-modernidade; ultrapassar tal alheamento
turais e isso é simplesmente porque esses últimos são estu- mútuo, observa ele, ensejaria um “mútuo fecundamen-
dos do que há no pós-moderno, mas não “sobre” o pós- to conceitual”.
moderno. São estudos sobre identidades, sobre comunica- Alguns questionamentos relativos aos EC na
ção, sobre teoria literária e sua relação com a cultura ou América Latina parecem advir justamente do enten-
sobre os modos de constituição do nacional ou do interna- dimento de que eles deveriam propor um entendimen-
cional/compartilhado. Porém seu objeto explícito não é o to universalizante, ou melhor, parecem resultar da
moderno/pós-moderno, mas a cultura contemporânea, a qual percepção do visceral enlace dos EC com os discur-
está, obviamente, atravessada pelos efeitos da passagem do sos da fragmentação e relativismo típicos da pós-mo-
moderno ao pós-moderno. (p. 7) dernidade. Neste sentido, vale a pena dar voz às in-
quietações de Canclini (1997a):
O referido autor efetua um detido exame das
superposições, encontros e desencontros das reflexões Quando menciono paradigmas ou modelos não estou
sobre a pós-modernidade e as realizadas pelos EC na regressando ao cientificismo que postulava um saber de va-
América Latina. Para ele, “o pós-moderno não se en- lidade universal, cuja formalização abstrata o tornaria apli-
tende sem os Estudos Culturais nem se entende somente cável a qualquer sociedade e cultura. Mas tampouco me
com eles”, assinalando também a fecundidade das parece satisfatória a complacência pós-moderna que aceita
temáticas que os EC trouxeram para exame, temáticas a redução do saber a narrativas múltiplas. Não vejo por que
que não haviam aflorado em autores “filosóficos”. As abandonar a aspiração de universalidade do conhecimento,
a busca de uma racionalidade interculturalmente comparti-
lhada que dê coerência aos enunciados básicos e os con-
22
Roberto Follari é professor titular de epistemologia das traste empiricamente. Foi esse tipo de trabalho que colocou

ciencias, na Facultad de Ciencias Políticas y Sociales, Universidad de forma clara que diferentes culturas possuem lógicas e

Nacional de Cuyo, província de Mendoza (Argentina). estratégias diferentes para ter acesso ao real e validar seus

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Marisa Vorraber Costa, Rosa Hessel Silveira e Luis Henrique Sommer

conhecimentos, mais intelectuais em alguns casos, mais li- não apenas análises culturais das diferenças, mas tam-
gadas à sensibilidade” e à “imaginação” em outros. bém a condenação das desigualdades tão manifesta-
mente expostas na contemporaneidade da América
De certa maneira, as preocupações citadas an- Latina. De maneira mais geral ainda, Canclini (1997a,
teriormente – que certamente ecoam entendimentos p. 2), em texto em que aborda o “mal estar dos estu-
modernos de conhecimento – vão se articular, no de- dos culturais”, aponta como uma das fragilidades de
senvolvimento da argumentação de Canclini, a preo- seu desenvolvimento na América Latina a falta de uma
cupações que se conectam com o caráter político dos mais consistente reflexão teórica e epistemológica,
EC, em que o próprio autor será objeto de ataques. alertando para o risco de uma “aplicação rotineira de
Acompanhemos sua exposição, em que o apelo à ra- uma metodologia pouco disposta a questionar teori-
cionalidade (moderna?) também se faz presente: camente sua prática” e sugerindo um esforço maior
nesse sentido.
Creio que o relativismo antropológico que fica em
um reconhecimento desierarquizado de tais diferenças mos- Outra discussão: a despolitização
trou limitações suficientes para que nele nos instalemos. A da teoria e da pesquisa
necessidade de construir um saber válido interculturalmente
se torna mais imperiosa em uma época em que as culturas e Também no caso dos Estudos Culturais latino-
as sociedades se confrontam todo o tempo nos intercâmbi- americanos se fazem ouvir vozes que criticam a
os econômicos e comunicacionais, nas migrações e no tu- alegada renúncia ao caráter político do campo, mes-
rismo. Precisamos desenvolver políticas cidadãs que se mo que elas atinjam autores e obras que não tenham
baseiem em uma ética transcultural, sustentada por um sa- abandonado a intenção de uma ação política “trans-
ber que combine o reconhecimento de diferentes estilos formadora”. Tomando como exemplo um dos livros
sociais com regras racionais de convivência multi-étnica e considerados centrais no campo – Consumidores e
supranacional. (idem, ibidem) cidadãos –, pode-se resgatar a crítica mais comum ao
mesmo, a qual consiste na não-aceitação do nosso
Efetivamente, coexistem no pensamento deste status de habitantes da contemporaneidade como
que é um dos mais importantes autores dos EC lati- meros consumidores em vez de legítimos cidadãos.
no-americanos23 a constante busca de negação de cer- Follari (2000, p. 2) aponta a leitura dessa obra e de
tos eixos da compreensão moderna de mundo – a ne- outras dos EC latino-americanos vendo-as como cúm-
gação das totalidades marxistas, por exemplo – com plices de um caráter “adaptacionista” dos Estudos Cul-
a procura de um ponto de sustentação que justifique turais. O slogan de Canclini, em Consumidores e ci-
dadãos – “O consumo serve para pensar” – certamente
foi um dos dispositivos motivadores de algumas des-
sas contestações. Já na via inversa dessa crítica à des-
23
Ainda que o exemplo citado seja o de Canclini, tais ten- politização dos estudos culturais, Martín-Barbero pro-
sões são freqüentes em outros estudos de pesquisadores latino- põe uma reflexão que ultrapasse os velhos cacoetes
americanos; é impossível esquecer, nesse sentido, que expressivo de uma esquerda apenas preocupada com as ações
número dos intelectuais da América Latina com produção nas áreas reivindicatórias dos grupos “oprimidos” e de suas
das ciências humanas militou e milita na crítica de esquerda às ações de organização de classe, de uma esquerda que
estruturas colonialistas, autoritárias e exploradoras de seus paí- vê as práticas do viver cotidiano mais como um “obs-
ses; são esses mesmos ensaístas e acadêmicos que, ao produzirem táculo à tomada de consciência do que como ação
análises culturais, não fogem (nem o querem) dos compromissos política conseqüente” (Martín-Barbero, 1997a, p. 289).
políticos – no sentido amplo – em que foram formados. E assevera (p. 290):

50 Maio/Jun/Jul/Ago 2003 Nº 23
Estudos culturais, educação e pedagogia

O consumo não é apenas reprodução de forças, mas camente, as questões de classe. Quero dizer que os estudos
também produção de sentidos: lugar de uma luta que não se culturais, em geral, tendem a deixar de lado qualquer análi-
restringe à posse dos objetos, pois passa ainda mais decisi- se de classe possível. E isto, em sociedades tão desiguais
vamente pelos usos que lhes dão forma social e nos quais como as latino-americanas, se parece mais com um pecado
se inscrevem demandas e dispositivos de ação provenien- do que com um erro de perspectiva.
tes de diversas competências culturais.
De qual lado estariam os argumentos mais pode-
Também é freqüente, em um continente onde o rosos é uma questão cuja resposta dependeria de uma
pensamento social freqüentemente buscou força nos incursão mais demorada, inadequada às dimensões des-
ditames marxistas e críticos, a emergência de um cer- te artigo.
to desconforto em relação ao abandono, pelos EC,
de explicações ou totalizantes ou alinhadas ao dis- Apontamentos finais sobre
curso da “libertação”. Nesse diapasão, Castro-Gómez Estudos Culturais na América Latina
(2000, p. 158), entendendo que a cultura urbana de
massa e as novas tecnologias da informação têm sido Em interessante entrevista dada por Canclini a
vistas nos EC latino-americanos como “espaços de Patrick D. Murphy (Canclini, 1997b), o autor argenti-
emancipação democrática”, levanta a suspeita de que no-mexicano traz algumas informações que podem
os estudos culturais teriam “hipotecado seu potencial enriquecer este breve esboço dos EC na América Lati-
crítico à mercantilização fetichizante dos bens sim- na. Uma das questões colocadas pelo entrevistador, com
bólicos”. E mais: o crítico atribui aos EC latino-ame- respeito à perspectiva feminista dentro dos EC da
ricanos um novo tabu – o da abordagem da “totalida- América Latina, é respondida por Canclini através da
de”, seduzidos que estariam pela fragmentação do marcação da diferença entre o feminismo americano e
sujeito, pela hibridação das formas de vida, pela arti- os estudos sobre mulher na América Latina, além de
culação das diferenças e pelo desencanto diante das reconhecer que, efetivamente, esse enlace poderia ser
novas metanarrativas. Não se trata, para o autor, de mais forte no caso dos EC latino-americanos. Com res-
reabilitar as velhas dicotomias da teoria crítica – co- peito às influências da Escola de Birmingham na for-
lonizador x colonizado, centro x periferia, opressor x mação dos EC do continente, Canclini a reconhece,
oprimido, centro x periferia – mas, sim, de tornar vi- em certa medida, nos estudos de comunicação, e tam-
síveis os “novos mecanismos de produção das dife- bém aponta a existência de outras fortes influências
renças em tempos de globalização”, através de uma não diretamente associadas aos EC, como a de Pierre
“descolonização” das ciências sociais e da filosofia. Bourdieu, cuja importância, diz Canclini, não tem sido
Outra inconformidade alinhada ao pretenso ca- oficialmente reconhecida. Por fim, quando questiona-
ráter despolitizante dos EC diz respeito à elisão do do sobre diferentes leituras do pós-modernismo pelos
conceito de classe social, tão caro às teorias críticas. escritores latino-americanos e pelos ensaístas clássi-
Verdesio (2003, p. 4) assim sintetiza tal crítica em cos, (como Jameson, Baudrillard e Lyotard), Canclini
relação aos mesmos: aponta algumas diferenças (Canclini, 1997b, p. 87):

A apropriação do popular [...] se deve, entre outras Na América Latina um conjunto de distintas circuns-
coisas, à incorporação a um modelo teórico que quer ver tâncias políticas impregna a articulação cultural; isto é, exis-
nelas [produções da cultura popular] uma confirmação, na tem diferentes formas nas quais modos tradicionais de vida
maioria dos casos, da falácia seguinte: na pós-modernida- são articulados com os processos de modernização. A esse
de, por fim, os marginalizados podem se expressar. Entre- respeito, os escritores latino-americanos têm mostrado uma
tanto, todas essas celebrações perdem de vista, sistemati- elevada sensibilidade para reconhecer formações culturais

Revista Brasileira de Educação 51


Marisa Vorraber Costa, Rosa Hessel Silveira e Luis Henrique Sommer

que não são necessariamente “modernas”; a memória po- turais “estudam” tem menos a ver com os artefatos cultu-
pular é um importante elemento que contribui para a mu- rais em si mesmos (textos, obras de arte, mitos, valores,
dança das culturas contemporâneas. costumes, etc) do que com os processos sociais de produ-
ção, distribuição e recepção desses artefatos. Ao mesmo
As transações entre os EC dos países america- tempo, os estudos culturais privilegiam o modo no qual os
nos de língua espanhola e o Brasil, exceção feita a próprios atores sociais se apropriam desses imaginários e
Canclini, Martín-Barbero e Beatriz Sarlo, têm sido os integram a formas locais de conhecimento.
tímidas e incipientes, possivelmente em função de
certas dificuldades históricas de tal relacionamento, Estudos culturais em educação:
por parte da intelectualidade brasileira, que, no caso que território é este?
específico, se tem abeberado nas leituras dos autores
ingleses, americanos e australianos, ora lidos em tra- A IV Conferência Internacional Crossroads in
duções publicadas, ora em traduções “preliminares”, Cultural Studies,24 realizada em Tampere, na Finlân-
ora no original. Mas a dificuldade de acesso à biblio-
grafia latino-americana publicada nos diferentes paí-
ses latino-americanos sobre EC também desempe- 24
Conforme dados do site www.tampereconference.fi/
nha seu papel neste distanciamento; enquanto os crossroads.htm, as conferências assim denominadas iniciaram em
lançamentos sobre EC em língua inglesa são pronta 1996, em Tampere, e têm acontecido a cada dois anos para suprir
e expeditamente disponibilizados nas livrarias vir- uma lacuna na comunidade internacional dos Estudos Culturais.
tuais e grandes editoras de língua inglesa, idêntico Embora os EC se tornem crescentemente internacionais e multi-
sistema na América Latina é precário e, em alguns centrados – ou cada vez menos centrados por sua natureza vir-
países, inexistente. Também a leitura de trabalhos tual – as pessoas que neles atuam têm escassas oportunidades de
latino-americanos de EC aponta para um tímido apro- se encontrarem face a face. Conferências e seminários têm acon-
veitamento dos estudos brasileiros, exceção feita à tecido ocasionalmente, mas circunscritos a temas e regiões. O cla-
produção de Renato Ortiz, celebrada pelos autores mor por uma conferência internacional advém desse caráter dos
latino-americanos já citados. Estudos Culturais de serem um lugar de encontro, um cruzamento
Por fim, há que se assinalar que os EC não têm [crossroads] entre diferentes pessoas e disciplinas. A primeira con-
sido, na América Latina, apenas um manancial de es- ferência Crossroads in Cultural Studies assim definiu a finalidade
tudos e de polêmicas; institucionalizados em grande desses eventos “Estudos Culturais não são uma via de mão única
medida, eles também já constituem “tema de cursos”, entre o centro e as periferias. Em vez disso, são um cruzamento,
inclusive na Internet. Nesta esteira, o Consejo Lati- um lugar de encontro entre diferentes grupos, disciplinas e movi-
noamericano de Ciencias Sociales (CLACSO) pro- mentos intelectuais. Pessoas em muitos países e com diferentes
grama para o ano de 2003 um curso à distância sobre backgrounds traçaram independentemente suas trajetórias por es-
“Los Estudios Culturales en Latinoamerica”, do qual tes cruzamentos. Elas fizeram contatos, intercambiaram pontos
disponibiliza aos internautas interessados um plano de de vista e trocaram inspiração ao perseguirem seus objetivos. A
estudo, de que pinçamos um trecho por seu poder de vitalidade dos Estudos Culturais depende de um trânsito continuo
síntese em relação ao campo cultural que é focalizado através destes cruzamentos. Por esta razão os organizadores da
por tais estudos na América Latina (Los estudios, p. 2): Conferência convidam pessoas de diferentes orientações teóricas,
disciplinas e geografias para juntos compartilharem suas idéias”.
No nível de conteúdos temáticos, a cultura que os A primeira Conferência (1996), a segunda (1998) e a quarta (2002)
estudos culturais “criam” não é a mesma que haviam cria- aconteceram em Tampere, na Finlândia. A terceira (2000) teve
do, anteriormente, a antropologia, a sociologia, a econo- lugar em Birmingham, na Inglaterra, e a quinta (2004) se realizará
mia ou as humanidades. [...] A cultura que os Estudos Cul- em Urbana-Champaign, nos Estados Unidos.

52 Maio/Jun/Jul/Ago 2003 Nº 23
Estudos culturais, educação e pedagogia

dia, em julho de 2002, com o propósito de ser um fórum educação não é mais discutida nos círculos dos estudos cul-
aberto às temáticas que pudessem interessar a turais como um campo contributivo a este debate. Por outro
diversificada “comunidade” dos EC, apontou 21 tópi- lado, os estudos culturais emergiram e se expandem rapida-
cos de interesse25 para articular o amplo e aberto deba- mente na educação radical na América do Norte como su-
te com a participação de pesquisadoras e pesquisado- cessores da teoria e da pedagogia crítica e multicultural, além
res de vários países. Entre estes, constava aquele que é de estarem sendo institucionalizados em departamentos de
nosso principal foco de atenção neste artigo – Estudos estudos culturais e centros de educação. Este painel explora
Culturais, Educação e Pedagogia – sendo apresenta- focos como a natureza e o perfil da relação contemporânea
das várias propostas de painel para discussão de ques- entre estudos culturais e educação; a contribuição que estu-
tões específicas relativas ao tema. Uma delas intitulava- dos culturais e educação podem aportar para seus discursos e
se Cultural Studies and/in/as Education (Estudos práticas; exemplos de projetos concretos que mesclam edu-
Culturais e/em como Educação), sendo acompanhada cação e estudos culturais. 27
da seguinte descrição:
A proposição de um painel com tal descrição
A relação entre Estudos Culturais e o campo da educa- coloca em destaque o caráter controvertido dos laços
ção permanece curiosamente contraditória: ela é subenfati- entre Educação e Estudos Culturais, revelando, ao
zada no circuito dos estudos culturais em termos das rela- mesmo tempo, estarem eles insuficientemente proble-
ções históricas entre os dois campos, todavia, em termos de matizados e debatidos. No tópico Estudos Culturais,
produção de estudos, expande-se rapidamente nos círculos Educação e Pedagogia, além do painel mencionado,
da educação. Por exemplo, apesar da recorrente afirmação cuja justificativa incide especial e centralmente na
de Raymond Williams de que os estudos culturais se origina- necessidade de delineamento e debate destas polêmi-
ram do campo da Educação de Adultos, e apesar do fato de a cas e plurifacetadas conexões, um conjunto paralelo
atuação inicial do Centro de Estudos Culturais Contemporâ- de propostas indica o variado matiz das discussões,
neos26 ter incluído trabalho em educação e dois sucessivos pesquisas e trabalhos que se inscrevem no âmbito
Grupos de Educação, a educação de adultos como origem destas aproximações. Abordagens sobre questões de
dos estudos culturais foi marginalizada em favor de uma pre- metodologia e política na escolarização dos vários
ponderante narrativa que coloca a crise nas Humanidades e níveis, discussões sobre relações de poder no currí-
nas ciências sociais como momento originário dos EC, e a culo e na sala de aula, bem como contribuições aos
debates sobre infância, cidadania, identidade nacio-
nal, pedagogias culturais na pós-modernidade, a cul-
25
Numa tradução livre, os tópicos constantes do Programa tura do “outro”, raça, gênero e etnia no capitalismo
são os seguintes: Teoria Cultural; Audiências; Corpo na Socieda- neoliberal, efeitos da globalização e do neoliberalis-
de; Cultura do Consumidor e do Consumo; Política Cultural; Es- mo na educação, o combate à contínua colonização
tudos Culturais e História; Estudos Culturais, Educação e Peda- dos saberes e das relações sociais nas escolas emer-
gogia; Etnia e Raça; Alta e Baixa Arte e Cultura de Massa; Cons- gem das várias propostas formuladas.
trução da Identidade; Cultura Material; Estudos da Mídia; Meto-
dologia; Nacionalidade e Nacionalismo; Tecnologia da Informa-
ção e da Nova Mídia; Cultura Popular; Estudos Culturais da Psi- 27
A autora desta descrição é Handel Wright, do Programa
cologia; A Cultura das Cidades; Cultura da Juventude; Meio am- de Estudos Culturais da Universidade do Tennessee, nos Estados
biente e Estudos Culturais; Estudos das Profissões; Globalização Unidos, que propôs e coordenou, juntamente com Karl Maton, da
(as iniciais maiúsculas correspondem ao texto original. O grifo, a Universidade de Cambridge, Inglaterra, as atividades relativas ao
nota e a tradução são dos autores deste artigo). painel temático assim descrito. Cf. site mencionado da Fourth
26
Referência ao Centro de Birmingham. International Conference Crossroads in Cultural Studies.

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Marisa Vorraber Costa, Rosa Hessel Silveira e Luis Henrique Sommer

Convém destacar, contudo, que, se continuarmos ria cultural –, dentre os 2128 indicados para articular
a percorrer o site desta conferência, perceberemos que as discussões da “comunidade” internacional dos EC,
de numerosos tópicos – e não só deste intitulado Es- constitui uma boa amostra de sua vitalidade. Não se
tudos Culturais, Educação e Pedagogia – se pode- verifica apenas uma surpreendente diversificação da
riam recolher contribuições que interessam à educa- gama de temáticas culturais, como também uma am-
ção e que podem ajudar a ampliar a gama de formas pla transformação no que diz respeito a questiona-
de problematização que crivam, matizam e comple- mentos e problematizações.
xificam os debates sobre educação nos dias atuais. Se desejarmos pensar em Estudos Culturais em
Tomando apenas o tópico Teoria cultural, poderemos Educação na América Latina, isso implica, mais uma
observar que os painéis abordam as ligações dos Es- vez, refletirmos sobre os entendimentos compartilha-
tudos Culturais com conceitos-chave como liberda- dos acerca desse campo ou desse movimento que cru-
de, hegemonia, resistência, poder e subordinação. za fronteiras, inaugura formas diferentes de pensar
Convocam, também, para uma discussão sobre as con- sobre quase tudo que acreditávamos resolvido, e não
seqüências das grandes catástrofes contemporâneas se quer estável, definitivo, certo, demarcado, aprisio-
sobre suas vítimas, tais como os êxodos e diásporas nado em territórios geográficos, disciplinares, teóri-
causados pelas guerras e outros acontecimentos dra- cos ou temáticos. Uma possibilidade é conceber os Es-
máticos relacionados com atos terroristas, desastres tudos Culturais em Educação como um partilhamento
ecológicos e a violência nos centros urbanos, nas pe- de entendimentos, de conceitos-chave e “formas de
riferias e no campo, em muitos países. As conexões olhar” que eles trouxeram, principalmente, para as
entre cultura e poder são enfatizadas nos trabalhos áreas das humanidades, da comunicação, da literatu-
que procuram desafiar as fronteiras disciplinares me- ra. Entretanto, isso soa um tanto parcial e inexato,
diante estudos que exploram a transdisciplinaridade uma vez que não se trata apenas de “partilhar”, “apro-
ou celebram a pós-disciplinaridade. Nessa direção priar-se” ou “utilizar”; as “lentes” dos EC parece que
surgem, igualmente, as análises críticas à divisão do vêm possibilitando entender de forma diferente, mais
trabalho e às fronteiras entre trabalho intelectual aca- ampla, mais complexa e plurifacetada a própria educa-
dêmico e não-acadêmico. Incentivam-se debates so- ção, os sujeitos que ela envolve, as fronteiras. De certa
bre temáticas emergentes nos movimentos sociais e maneira, pode-se dizer que os Estudos Culturais em
em circuitos intelectuais fora do eixo Europa – Amé- Educação constituem uma ressignificação e/ou uma
rica do Norte. A cultura das cidades é abordada com forma de abordagem do campo pedagógico em que
ênfase nos discursos pós-modernos sobre o espaço questões como cultura, identidade, discurso e repre-
urbano. A experiência de viver na cidade é retomada sentação passam a ocupar, de forma articulada, o pri-
nos cenários e problemáticas urbanas do século XXI, meiro plano da cena pedagógica.
recompondo e explorando representações em que exó- Se pensarmos o quanto a educação, a partir das
ticos “outros” são posicionados. Também a natureza contribuições da teoria crítica, vem se configurando
é discutida como o “outro” da cultura ocidental, como uma área de militância, de atuação política, vê-
aportando novos e importantes elementos para um se quase como inevitável esta aproximação com os EC,
criticismo das visões antropocêntricas. Estudos de já que estes também, em sua constituição e desenvol-
mídia e literatura são articulados nesse cruzamento vimentos, têm uma face histórica de imbricações com
com questões ecológicas, delineando novas configu- a atividade política e crítica. Em contrapartida, a edu-
rações e espaços para o encaminhamento destas preo- cação e a pedagogia têm se valido de vários outros cam-
cupações.
Esse breve e superficial levantamento das ques-
28
tões abordadas por apenas mais um dos tópicos – Teo- Ver nota 23.

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Estudos culturais, educação e pedagogia

pos disciplinares (Psicologia, Sociologia, Política, Me- Voltando à primeira hipótese – à abordagem da
dicina, Administração, para citar os mais conhecidos), educação dentro das análises culturais, vemos que
às vezes de maneira mais restrita – vejam-se, por exem- Canclini, por exemplo, em Culturas híbridas, não si-
plo, entendimentos da pedagogia como mera adapta- lencia sua reflexão frente aos muros da escola, mas a
ção de “ações” a presumíveis “formas de aquisição dos insere em seu poderoso pensamento, a partir, no caso
conhecimentos”, predominantes nas chamadas peda- específico, de um postulado “A escola é um palco fun-
gogias psi – outras, de maneira mais eclética, o que damental para a teatralização do patrimônio” (Canclini,
tem sido mais freqüente. Assim, na medida em que os 1998, p. 164). Dialogando com estudos do campo pe-
EC incursionam por vários campos disciplinares, re- dagógico latino-americano, o autor faz breves e pode-
colhendo, adaptando e aproveitando metodologias, rosas incursões motivadoras sobre os ritos, as práticas
achados etc., há uma certa “homologia” neste caráter e os discursos circulantes na escola da América Lati-
híbrido tanto da educação quanto dos EC. na, os quais tanto auxiliaram a separar os “selvagens”
Se voltarmos nosso enfoque para as conexões en- dos “civilizados”, intentando construir estes últimos.
tre os Estudos Culturais da América Latina e o amplo Também Sarlo tematiza a questão da escola, mas,
campo da educação, poderíamos experimentar uma diferentemente de outros autores e consoante com seu
decepção inicial diante da escassez de trabalhos que pensamento analítico, de certa forma lamenta uma es-
tematizem tal relação. Não podemos, entretanto, cair cola perdida que não apenas teria sido um “instrumen-
na cilada de que nada tenha sido dito ou feito nessa to de dominação”, mas também foi, na América Latina
direção. Por um lado, temos esporádicas – mas não (ou apenas na Argentina?), um “lugar simbolicamente
banais – reflexões sobre o papel e as características da rico e socialmente prestigioso” que também “distribuía
escola dentro desse novo mundo híbrido, vista como saberes e habilidades que os pobres só podiam adquirir
um espaço em mudança nas novas configurações cul- por meio dela”, um “espaço laico, gratuito e teorica-
turais. Por outro lado, é forçoso reconhecer a existên- mente igualitário onde os setores populares puderam
cia de estudos na área educacional que – principalmente apropriar-se de instrumentos culturais que não deixa-
através da influência dos olhares foucaultianos, da vi- riam de empregar para seus próprios fins e interesses”
são cultural e outros da pós-modernidade – aproximam- (Sarlo, 1997a, p. 117-118). Valendo-se de um retrato
se grandemente do que se tem pensado no Brasil como melancólico da escola atual, como o “lugar da pobreza
Estudos Culturais em Educação. O abandono das me- simbólica”, a autora argentina questiona os discursos
tanarrativas da modernidade, a concepção da educa- correntes da pedagogia atual, que preconizam um “en-
ção como campo de disciplinamento e de subjetiva- sino tecnicamente modernizado que prepare para o tra-
ção, a consideração das dimensões de etnia, gênero, balho e que, além disso, seja interessante para os alu-
inclusive utilizando (outros) autores, como Kellner e nos” (Sarlo, 2001, p. 104), a partir de aguda e detalhada
Hall, marcam tais obras como temática e teoricamente análise das características das práticas e artefatos cul-
aparentadas aos Estudos Culturais.29 turais contemporâneos.
Como exemplo singular de que idéias advindas
dos Estudos Culturais também têm entrado capilar-
29
Mariano Narodowski, Inês Dussel, Violeta Guyot, Silvina mente na reflexão pedagógica dos países de língua
Gvirtz, Adriana Puigróss são alguns dos autores latino-americanos espanhola da América Latina, pode ser citado o re-
que têm problematizado a educação sob um ponto de vista pós- cente artigo publicado por Marisa Vásquez Mazzini30
moderno inspirado em leituras foucaultianas, inclusive se abebe-
rando em alguns autores dessa vertente tanto no além-mar, como
os espanhóis Jorge Larrosa, Julia Varela, Fernando Álvarez-Uría, 30
Doutora em Educação pela Universidade de Buenos Aires,
e no Brasil, e Alfredo Veiga-Neto e Tomaz Tadeu da Silva. docente da mesma Universidade e da Universidad de San Andrés.

Revista Brasileira de Educação 55


Marisa Vorraber Costa, Rosa Hessel Silveira e Luis Henrique Sommer

na revista virtual Pensar Iberoamérica – Revista de em redes de poder e verdade, em discursos circulantes,
Cultura, sob o título aparentemente tradicional Re- através dos quais se legitimam determinadas represen-
sultados para quién? Reflexiones sobre la práctica de tações de crianças, de menino e de menina, de estu-
la evaluación em la escuela. Lançando mão de abor- dante, de professores e professoras, de trabalho docen-
dagens dos estudos culturais (explicitamente citados) te, de alfabetismo, de determinados componentes
a partir de autores como Giroux, McLaren, Grossberg, curriculares e de educação.
Steinberg e Kincheloe, a autora busca uma revisão da Outra vertente de estudos tem sido aquela com-
noção de prática escolar e avaliação. preendida pela expressão “pedagogia cultural”, a qual,
Entre nós, no Brasil, as contribuições mais im- conforme Steinberg e Kincheloe (2001, p. 14), inclui
portantes dos EC em educação parecem ser aquelas “áreas pedagógicas” entendidas como “aqueles luga-
que têm possibilitado: a extensão das noções de edu- res onde o poder é organizado e difundido, incluindo-
cação, pedagogia e currículo para além dos muros da se bibliotecas, TV, cinemas, jornais, revistas, brinque-
escola; a desnaturalização dos discursos de teorias e dos, propagandas, videogames, livros, esportes etc.”.
disciplinas instaladas no aparato escolar; a visibilida- Com base nesse entendimento, têm sido investigados
de de dispositivos disciplinares em ação na escola e tanto variados veículos da mídia jornalística impres-
fora dela; a ampliação e complexificação das discus- sa e televisiva, contemplando não só matérias “infor-
sões sobre identidade e diferença e sobre processos mativas” mas também peças publicitárias, quanto pro-
de subjetivação. Sobretudo, tais análises têm chama- dutos de entretenimento, tais como filmes, desenhos
do a atenção para novos temas, problemas e questões animados, seriados de TV; neles se têm buscado es-
que passam a ser objeto de discussão no currículo e quadrinhar seus “ensinamentos”, pertencentes a uma
na pedagogia. gama também muito variada, valendo-se daqueles re-
Nessa direção, projetos de pesquisa integrados ferentes à própria educação (escola, “progresso”, pro-
ou individuais, trabalhos de iniciação científica, dis- fessora, aluno etc.) e se espraiando para outros cam-
sertações de mestrado e teses de doutorado têm sido pos, como as lições sobre o bem e o mal, sobre o que
produzidos nos últimos cinco anos, em especial no é ser mulher, sobre o que é ser índio, sobre o que é a
âmbito do Programa de Pós-Graduação em Educação nação, sobre o que é natureza, sobre a tecnologia, so-
da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, na bre o nosso corpo, sobre a genética, sobre como nossa
linha de pesquisa Estudos Culturais em Educação e relação com os animais nos constitui “humanos” etc.
em outros grupos que partilham de seu direcionamento Nessas lições, freqüentemente se estabelece o normal
teórico. Em uma primeira vertente, poderíamos citar e, concomitantemente, o desviante; o “progressista”,
aquelas questões, discursos e artefatos que, tradicio- sinalizando para o “antiquado”; o certo, sinalizando
nalmente tidos como pedagógicos, são ressignificados: para o errado, em um panorama que, marcado pelas
livros didáticos, cartilhas, legislações educacionais, questões culturais, é naturalizado e mostrado como
revistas pedagógicas, livros de formação pedagógica “moderno”, “atual”, “biologicamente condicionado”,
para professores, programas e projetos educativos, a “estando na ordem das coisas”.
própria seriação escolar, a ciclagem e as classes de A questão das identidades – um dos pilares dos
progressão, a arquitetura escolar. Práticas escolares EC e que também tem se revelado central nos EC la-
como a da merenda, da avaliação, ou dos cuidados na tino-americanos de língua espanhola – emerge com
educação infantil, entre outras, são problematizadas mais força nos trabalhos que discutem a heteroge-
e constituídas como objetos de estudo sob uma ótica neidade e hibridação de algumas delas, como as de gê-
cultural, oportunizando seu esquadrinhamento e aná- nero, de índio, de surdo (não mais visto como um “su-
lise como produtoras de significados, como imersas jeito deficiente”, mas como uma identidade mergulhada

56 Maio/Jun/Jul/Ago 2003 Nº 23
Estudos culturais, educação e pedagogia

em cultura própria), regionais (o “gaúcho”), de jo- gens, filmes, textos escritos, pela propaganda, pelas
vem, de internauta freqüentador dos chats...31 Em tais charges, pelos jornais e pela televisão, seja onde for
discussões, o confronto entre o global e o local, entre que estes artefatos se exponham. Particulares visões
a modernidade e a pós-modernidade, entre os discur- de mundo, de gênero, de sexualidade, de cidadania
sos da tradição e os da contemporaneidade midiática entram em nossas vidas diariamente. É a isto que nos
assume um caráter central, num panorama ao qual a referimos quando usamos as expressões currículo
educação não se pode furtar, mesmo quando tenta cultural e pedagogia da mídia. Currículo cultural diz
mitigar a complexidade de tais processos. respeito às representações de mundo, de sociedade,
Registre-se, ainda, que na abordagem de todas do eu, que a mídia e outras maquinarias produzem e
essas questões, os estudos culturais em educação – aliás, colocam em circulação, o conjunto de saberes, valo-
de acordo com sua vocação transdisciplinar e multifa- res, formas de ver e de conhecer que está sendo ensi-
cetada – têm se valido de contribuições metodológicas nado por elas. Pedagogia da mídia refere-se à prática
e teóricas de outros campos, em especial daqueles com cultural que vem sendo problematizada para ressaltar
os quais mantêm maiores afinidades, como os Estudos essa dimensão formativa dos artefatos de comunica-
Culturais da Ciência, os estudos de Gênero, a aborda- ção e informação na vida contemporânea, com efei-
gem Pós-Colonialista, a análise foucaultiana do dis- tos na política cultural que ultrapassam e/ou produ-
curso, a Semiótica e a Análise Crítica do Discurso, os zem as barreiras de classe, gênero sexual, modo de
Estudos de Comunicação, realizando a alquimia con- vida, etnia e tantas outras.
veniente a investigações que se propõem, como diz Esta é uma preocupação central nos Estudos
Giroux (1995) entre outras coisas, a “analisar a forma Culturais Contemporâneos, que Giroux (1995) sinte-
como a linguagem funciona para incluir ou excluir cer- tiza como “o estudo da produção, da recepção e do
tos significados, assegurar ou marginalizar formas par- uso situado de variados textos, e da forma como eles
ticulares de se comportar e produzir ou impedir certos estruturam as relações sociais, os valores e as noções
prazeres e desejos” (p. 95). de comunidade, o futuro e as diversas definições do
eu” (p. 98). O próprio sentido de texto é alargado,
A articulação dos Estudos Culturais referindo-se a sons, imagens e dispositivos microele-
com a escola: uma possibilidade trônicos como os computadores e a Internet. Trata-se
de textos culturais que no mundo contemporâneo atra-
Finalmente, em nosso percurso pelas movimen- vessam as fronteiras entre Estados Nacionais, cida-
tações dos EC e por seus cruzamentos com a educa- des e comunidades. É porque hoje nossos alunos e
ção e a pedagogia, encontramos subsídios para afir- alunas passam mais tempo em frente à televisão do
mar que a educação se dá em diferentes espaços do que na escola (mas não apenas por isso), que o senti-
mundo contemporâneo, sendo a escola apenas um do de realidade foi incrivelmente expandido. Simples-
deles. Quer dizer, somos também educados por ima- mente não podemos mais dizer que partimos da reali-
dade se não considerarmos o poder constituidor e
subjetivador da mídia no mundo atual.
31
Exemplos dessa produção dos Estudos Culturais em educa- Num breve recorte ilustrativo das aproximações
ção podem ser encontrados em Estudos culturais em educação e dos EC com a escola, queremos ressaltar, ainda, que
Caminhos investigativos II, organizado por Marisa Vorraber Cos- os objetos e temáticas que vimos mencionando estão
ta (2000 e 2002a respectivamente); Infância e maquinarias, de relacionados com o que presenciamos em nossas sa-
Maria Isabel Bujes (2002); Educação em tempos de globaliza- las de aula hoje. Se até pouco tempo atrás ensinar a
ção, organizada por Saraí Schmidt (2001) e Professoras que as partir da realidade significava considerar as particu-
histórias nos contam, organizada por Rosa Hessel Silveira (2002). laridades sociais, econômicas e culturais de um gru-

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Marisa Vorraber Costa, Rosa Hessel Silveira e Luis Henrique Sommer

po de alunos, vamos argumentar que o conceito de os sentidos circulantes na tradição crítica. Em outras
realidade foi sensivelmente ampliado para além de palavras, não se trata de pura e simplesmente desta-
qualquer idéia de comunidade, de espaço, tempo e car que os grupos que estão em posição hierarquica-
lugar e, especialmente, de uma identidade cultural mente superior em uma relação de poder definem o
estável. Tal compreensão, parece-nos, está diretamente que deve ser ensinado, o que de fato ocorre, mas se
implicada com o que vemos e deixamos de ver em trata de considerar a produtividade do poder, para além
nossas salas de aula e, logo, com as direções, com as do binarismo dominadores e dominados. Em outras
escolhas que fazemos em termos do que ensinar e palavras, o que precisamos continuar a investigar, dis-
como ensinar. Se nos EC, a cultura é uma arena, um cutir, destacar, mostrar é a positividade do poder, sua
campo de luta em que o significado é fixado e nego- capacidade de produzir subjetividades e identidades.
ciado, as escolas, sua maquinaria, seus currículos e É nesta direção que os Estudos Culturais têm enfati-
práticas são parte desse complexo. zado a produtividade dos poderes e saberes no orde-
Uma aproximação com o currículo pode ser feita namento da vida social.
baseando-se na noção de campo de luta, crescente- No que se refere ao papel do professor e da pro-
mente utilizada nas análises curriculares críticas e pós- fessora, novas formas de conceber a escola, os co-
críticas32 que lançam mão da teoria cultural contem- nhecimentos e o currículo, desafiam-nos a ultrapassar
porânea. Quer dizer, “podemos ver o conhecimento e a noção de transmissores de informações. Sobretudo,
o currículo como campos culturais, como campos su- seríamos produtores culturais e nossas práticas peda-
jeitos à disputa e a interpretação, nos quais os dife- gógicas deveriam privilegiar a organização de expe-
rentes grupos tentam estabelecer sua hegemonia” (Sil- riências através das quais os estudantes pudessem vis-
va, 1999b, p. 135). Sendo construído culturalmente, lumbrar o caráter socialmente construído “de seus
o currículo reflete o resultado de um embate de for- conhecimentos e experiências, num mundo extrema-
ças e seus saberes e práticas investem na produção de mente cambiante de representações e valores” (Giroux,
tipos particulares de sujeitos e identidades sociais. 1995, p. 101).
Esta noção, tomando contribuições do pensamen- Não se pode perder de vista uma dimensão do
to pós-estruturalista, especialmente aquela provenien- currículo como “lugar de circulação de narrativas, [...]
te dos trabalhos de Michel Foucault, procura destacar lugar privilegiado dos processos de subjetivação, da
uma certa dimensão do conceito de poder que alarga socialização dirigida, controlada” (Costa, 1998, p. 51).
Ainda que o ideário emancipatório seja o norte de nos-
sas práticas docentes, ainda que objetivemos formar
32
As publicações contendo análises nestas vertentes são cidadãos críticos e autônomos, e que tais concepções
numerosas, hoje, no Brasil. Citamos, dentre elas, Territórios Con- sustentem a seleção dos conhecimentos e experiências
testados (organizado por Tomaz T. da Silva e Antonio Flávio Mo- que compõem o currículo, o que fazemos é estruturar o
reira, 1995, Vozes), Alienígenas na sala de aula (organizado por campo de ação do outro, é governar sujeitos (Foucault,
Tomaz T. da Silva, 1995, Vozes), O currículo nos limiares do con- 1995). Através das palavras que escolhemos (nos es-
temporâneo (organizado por Marisa Vorraber Costa, 1998, DP&A), colheram) para olhar para a educação escolar e o currí-
Documentos de identidade (organizado por Tomaz T. da Silva, culo estamos compondo uma certa representação de
1999, Autêntica), Currículo : políticas e práticas (organizado por realidade e dirigindo condutas, produzindo determina-
Antonio Flávio Moreira, 1999, Papirus), Currículo, práticas pe- dos tipos de subjetividades e identidades, sintonizados
dagógicas e identidades (organizado por Antonio Flávio Moreira com a realidade que as palavras compõem.
e Elizabeth Macedo, 2002, Porto) e Currículo : debates contem-
porâneos (organizado por Alice Casemiro Lopes e Elizabeth MARISA VORRABER COSTA é doutora em ciências hu-

Macedo, 2002, Cortez). manas e professora titular em ensino e currículo. Atua presente-

58 Maio/Jun/Jul/Ago 2003 Nº 23
Estudos culturais, educação e pedagogia

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Educação. É pesquisadora do CNPq e integrante do NECCSO.
Recentemente publicou o livro Professoras que as histórias nos , (org.) (2000). Estudos culturais em educação. Mídia,

contam (DP&A, 2002). E-mail: rosamhs@terra.com.br arquitetura, brinquedo, biologia, literatura, cinema... Porto Ale-
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LUIS HENRIQUE SOMMER é doutor em educação pela , (org.) (2002a). Caminhos investigativos II : outros

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gogia e Normal Superior do Centro Universitário Feevale (RS); ro: DP&A.

professor do curso de pedagogia e Programa de Pós-Graduação , (2002b). Poder, discurso e política cultural: contri-
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