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Primeira imagem de toda a Terra, mostrando parcialmente os continentes Antártida e África,

feita pelos astronautas da Apollo 17 no dia 7 de dezembro de 1972. [NASA]


CAPÍTULO

“Eu digo à minha esposa que a água fresca em seu copo


não é tão fresca assim. Seus átomos têm nada menos do
que 14 bilhões de anos.”
ASTRÔNOMO ANDY MCWILLIAM

O método científico 26
As teorias e as práticas modernas da
Geologia 27
A origem do nosso sistema
A Terra é um lugar único, a casa de milhões de or-
ganismos, incluindo nós mesmos. Nenhum outro
local que já tenhamos descoberto tem o mesmo
delicado equilíbrio de condições para manter a vida. A
Geologia é a ciência que estuda a Terra: como nasceu, co-
planetário 28 mo evoluiu, como funciona e como podemos ajudar a pre-
A Terra primitiva: formação de um servar os hábitats que sustentam a vida. Neste livro, estru-
turamos os temas da Geologia em torno de três conceitos
planeta em camadas 30
básicos, que vão aparecer em quase todos os capítulos: (1)
A Terra como um sistema de a Terra como sistema de componentes interativos; (2) a
componentes interativos 36 tectônica de placas como uma teoria unificadora da Geo-
logia; e (3) as mudanças do sistema Terra ao longo do
A Terra ao longo do tempo geológico 39 tempo geológico. Este capítulo oferecerá uma ampla vi-
são de como os geólogos pensam. Ele começa com o
método científico, ou seja, a abordagem objetiva do
universo físico na qual toda investigação científica é baseada. Com este livro, você
verá o método científico em ação à medida que descobrir como os geólogos obtêm
e interpretam as informações sobre o nosso planeta. Depois desta introdução, des-
creveremos as explanações científicas geralmente mais aceitas de como a Terra foi
formada e de por que ela continua a mudar.
Veremos que nosso planeta trabalha como um sistema de muitos componentes in-
terativos sob sua superfície sólida, em sua atmosfera e em seus oceanos. Muitos des-
ses componentes – por exemplo, a bacia atmosférica de Los Angeles, os Grandes La-
gos, o vulcão Mauna Loa, no Havaí, e as florestas tropicais brasileiras – são, por sua
vez, subsistemas complexos. Para entender as várias partes da Terra, costumamos es-
tudar seus subsistemas separadamente, como se cada um deles existisse sozinho. En-
tretanto, para obter uma perspectiva completa de como a Terra funciona, precisamos
entender os modos como seus subsistemas interagem entre si – por exemplo, como os
gases de um vulcão podem ocasionar mudanças climáticas ou como os organismos vi-
vos podem modificar a atmosfera e, por sua vez, serem afetados por essas mudanças.
Devemos entender, também, como o sistema Terra evoluiu ao longo do tempo. Você
irá perceber que, enquanto lê estas páginas, sua idéia de tempo começará a mudar. Uma
visão geológica do tempo deve acomodar intervalos tão vastos que nós, às vezes, temos
dificuldades de compreendê-los. Os geólogos estimam que a Terra tem cerca de 4,5 bi-
lhões de anos. Antes de 3 bilhões de anos atrás, células vivas desenvolveram-se sobre a
26 Para Entender a Terra

Terra, mas nossa origem humana ocorreu há apenas poucos mi- 1 Observações e Observações e
lhões de anos – meros centésimos percentuais de toda a existên- experimentos fornecem experimentos
cia da Terra. As escalas que medem as vidas dos indivíduos em dados para uma hipótese.
décadas e marcam períodos da História humana, escrita em cen-
2 Descobertas venturosas e
tenas ou milhares de anos, são inadequadas para estudar a Terra. Acaso
ao acaso – serendiptosas –
Os geólogos devem explicar eventos que evoluíram em dezenas podem ajudar a motivar (serendipidade)
de milhares, centenas de milhares ou muitos milhões de anos. uma hipótese.

3 Mudanças repetidas da HIPÓTESE


hipótese por outros
O método científico cientistas...
Outras
Mudanças hipóteses
O objetivo de toda a Ciência é explicar como o Universo fun-
ciona. O método científico, que todo cientista adota, é um pla- 4 ... podem confirmá-la ou Não
no geral de pesquisa baseado em observações metodológicas e rejeitá-la. Confirmada? Revisar
experimentos (Figura 1.1). Os cientistas acreditam que os …ou…
eventos físicos têm explicações físicas, mesmo quando estão 5 A hipótese pode ser revisa-
da ou novamente testada. Descartar
além da nossa capacidade atual de entendimento. Sim
Quando os cientistas propõem uma hipótese – uma tentativa
de explicação baseada em dados coletados por meio de observa-
ção e experimentação –, eles a submetem à comunidade científi- 6 Uma hipótese – ou múltiplas
ca para que seja criticada e repetidamente testada contra novos hipóteses – pode acumular TEORIA
dados. Uma hipótese que é confirmada por outros cientistas ob- confirmações suficientes
para se tornar uma teoria.
tém credibilidade, particularmente se prediz o resultado de novos
experimentos. Outras
Mudanças teorias
Uma hipótese que sobreviveu a repetidas mudanças e acumu-
lou um significativo corpo de suporte experimental é elevada à 7 Teorias também são Não
condição de teoria. Embora a força explanatória e preditiva de modificadas, confirmadas, Confirmada? Revisar
uma teoria tenha sido demonstrada, ela nunca pode ser conside- revisadas ou descartadas... …ou…
rada definitivamente provada. A essência da Ciência é que ne- Descartar
nhuma explicação, não importa o quão acreditada ou atraente, é 8 ... e um conjunto de Sim
exatamente concordante com o problema. Se evidências novas e hipóteses e teorias torna-
convincentes indicam que uma teoria está errada, os cientistas se um modelo científico.
podem modificá-la ou descartá-la. Quanto mais tempo uma teo- MODELO
ria resiste a todas as mudanças científicas, tanto mais confiável CIENTÍFICO
ela será considerada. 9 Modelos científicos
também são modificados.
Um modelo científico é a representação de algum aspecto
da natureza com base em um conjunto de hipóteses (incluindo, Mudanças
geralmente, algumas teorias bem estabelecidas). A comparação
entre as predições do modelo e as observações feitas é uma ma- 10 O processo científico é uma contínua descoberta e
neira eficaz de testar se as hipóteses discutidas pelo modelo são compartilhamento de evidências para confirmar, descartar
mutuamente consistentes com ele. Atualmente, os modelos cos- ou revisar hipóteses, teorias e modelos.
tumam ser formulados em termos de programas computadori-
zados, que procuram simular o comportamento de sistemas na- Figura 1.1 Um esboço do método científico.
turais por meio de cálculos numéricos. As simulações compu-
tadorizadas são importantes, por permitirem que se entendam
aspectos do comportamento de sistemas de longa duração que
nem as observações de campo nem os experimentos laborato- sores e contemporâneos, que parece ser quase um produto im-
riais sozinhos poderiam elucidar. pessoal de sua geração”.
Para encorajar a discussão de suas idéias, os cientistas as Pelo fato de esse livre intercâmbio intelectual poder estar
compartilham com seus colegas, juntamente com os dados em sujeito a abusos, um código de ética foi desenvolvido entre os
que elas se baseiam. Eles apresentam suas descobertas em en- cientistas. Eles devem reconhecer as contribuições de todos
contros profissionais, publicam-nas em revistas especializadas e os outros cientistas cujos trabalhos consultaram. Também não
explicam-nas em conversações informais com seus pares. Os devem fabricar ou falsificar dados, utilizar o trabalho de ter-
cientistas aprendem com os trabalhos dos outros e, também, com ceiros sem fazer referências, ou, de outro modo, ser fraudu-
as descobertas feitas no passado. A maioria dos principais con- lentos em seu trabalho. Devem, ainda, assumir a responsabili-
ceitos da Ciência, que surgem tanto a partir de um lampejo da dade de instruir a próxima geração de pesquisadores e profes-
imaginação como de uma análise cuidadosa, é fruto de incontá- sores. Tão importantes quanto qualquer um desses princípios
veis interações dessa natureza. Albert Einstein assim se referiu são os valores básicos da Ciência. Bruce Alberts, o presiden-
sobre essa questão: “Na Ciência (...) o trabalho científico do in- te da National Academy of Science dos Estados Unidos, apro-
divíduo está tão inseparavelmente conectado ao de seus anteces- priadamente descreveu esses valores como sendo os de “ho-
CAPÍTULO 1 • Estruturando um Planeta 27

nestidade, generosidade, respeito pelas evidências e abertura preservada nas rochas originadas em vários tempos da longa his-
a todas as idéias e opiniões”. tória da Terra.
No século XVIII, o médico e geólogo escocês James Hut-
ton antecipou um princípio histórico da Geologia que pode ser
assim resumido: “o presente é a chave do passado”. O conceito
As teorias e as práticas modernas de Hutton tornou-se conhecido como o princípio do uniformi-
tarismo, o qual considera que os processos geológicos que ve-
da Geologia mos atuantes hoje também funcionaram de modo muito seme-
lhante ao longo do tempo geológico.
Como em muitas outras ciências, a Geologia depende de expe- O princípio do uniformitarismo não significa que todo fenô-
rimentos em laboratórios e simulações computacionais para meno geológico ocorre de forma lenta. Alguns dos mais impor-
descrever as propriedades físicas e químicas dos materiais ter- tantes processos ocorrem como eventos súbitos. Um meteorói-
restres e modelar os processos naturais que ocorrem na superfí- de grande que impacta a Terra – um bólido – pode escavar uma
cie e no interior da Terra. Entretanto, a Geologia tem seu próprio vasta cratera em questão de segundos. Um vulcão pode explo-
estilo e visão particular. Ela é uma “ciência de campo” que se dir seu cume e uma falha pode rachar o solo num terremoto
fundamenta nas observações e experimentos orientados no local muito rapidamente. Outros processos ocorrem de maneira mais
do objeto de estudo e coletados por dispositivos de sensoriamen- lenta. Milhões de anos são necessários para que continentes mi-
to remoto, como o de satélites orbitais. Especificamente, os geó- grem, montanhas sejam soerguidas e erodidas, e sistemas flu-
logos comparam as observações diretas dos processos, na forma viais depositem espessas camadas de sedimentos. Os processos
como ocorrem no mundo atual, com aquelas que inferem a par- geológicos ocorrem numa extraordinária gama de escalas tanto
tir do registro geológico. O registro geológico é a informação no espaço como no tempo (Figura 1.2).

2 Durante milhões de anos, camadas Há cerca de 50 mil anos, o impacto


de sedimentos acumularam-se explosivo de um meteorito
sobre aquelas rochas. A camada (talvez pesando 300 mil toneladas)
mais recente – o topo – tem cerca criou esta cratera de 1,2 km de
de 250 milhões de anos. diâmetro em apenas poucos segundos.

1 As rochas da base do
Grand Canyon têm de 1,7
a 2,0 bilhões de anos.

Figura 1.2 Os fenômenos geológicos podem estender-se durante milhares de séculos ou ocorrer com
velocidades estupendas. (Esquerda) O Grand Canyon, no Arizona (EUA). [John Wang/PhotoDisc/Getty Images]
(Direita) Cratera do Meteorito, Arizona (EUA). [John Sanford/Photo Researchers]
28 Para Entender a Terra
Uma nebulosa difusa, grosseiramente esférica
e em lenta rotação começa a contrair-se.
O princípio do uniformitarismo não implica que os únicos fe-
nômenos geológicos significativos são aqueles que observamos
ocorrer hoje. Alguns processos não têm sido diretamente obser-
vados nos últimos dois séculos e meio desde que Hutton formu-
lou seu famoso princípio, embora não haja dúvida de que eles
são importantes para o atual sistema Terra. No registro histórico,
os humanos nunca presenciaram o impacto de um grande bólido,
mas sabemos que tais eventos aconteceram muitas vezes no pas-
sado geológico e que certamente acontecerão de novo. O mesmo
pode ser dito de vastos derrames vulcânicos, que cobriram com
lavas áreas maiores que o Texas1 e envenenaram a atmosfera glo-
bal com gases. A longa evolução da Terra é pontuada por muitos
eventos extremos, ainda que infreqüentes, envolvendo mudanças
rápidas no sistema Terra.
Desde a época de Hutton, os geólogos têm observado o tra-
Como resultado da contração e rotação, um disco achatado,
balho da natureza e utilizado o princípio do uniformitarismo girando rapidamente, forma-se com matéria concentrada
para interpretar feições encontradas em formações geológicas em seu centro, que se transformará no proto-Sol.
antigas. Apesar do sucesso dessa abordagem, o princípio de
Hutton é muito limitado para mostrar como a ciência geológica
é praticada atualmente. A moderna Geologia deve ocupar-se
com todo o intervalo da história da Terra. Como veremos, os
violentos processos que moldaram a primitiva história da Terra
foram substancialmente diferentes daqueles que atuam hoje.

A origem do nosso sistema O disco envolvido por gás e poeira forma grãos que colidem
e se agregam em pequenos blocos ou planetesimais.
planetário Planetesimais Proto-estrela

A busca da origem do Universo e de nossa própria e pequena


parte contida nele remonta às mais antigas mitologias registra-
das. Atualmente, a explicação científica mais aceita é a teoria
da Grande Explosão (Big Bang), a qual considera que nosso
Universo começou entre 13 a 14 bilhões de anos atrás a partir Planetesimal
de uma “explosão” cósmica. Antes desse instante, toda a maté-
ria e energia estavam concentradas num único ponto de densi-
dade inconcebível. Embora saibamos pouco do que ocorreu na
primeira fração de segundo após o início do tempo, os astrôno- ~ 1 km
mos obtiveram um entendimento geral dos bilhões de anos que
se seguiram. Desde aquele instante, num processo que ainda Os planetas terrestres estruturaram-se a partir de múltiplas
continua, o Universo expandiu-se e diluiu-se para formar galá- colisões e acrescimento de planetesimais ocasionados pela
atração gravitacional. Os planetas gigantes exteriores
xias e estrelas. Os geólogos ainda analisam os últimos 4,5 bi- aumentaram por acrescimento de gás.
lhões de anos dessa vasta expansão, um tempo durante o qual o
nosso sistema solar – a estrela que nós chamamos de Sol e os Planetas terrestres Planetas gigantes
planetas que nela orbitam – formou-se e evoluiu. Mais especi- exteriores
ficamente, os geólogos examinam a formação do sistema solar
para entender a formação da Terra.

A hipótese da nebulosa Planetesimais Gás


Em 1755, o filósofo alemão Immanuel Kant sugeriu que a ori-
gem do sistema solar poderia ser traçada pela rotação de uma
nuvem de gás e poeira fina. Descobertas feitas há poucas déca- Sol Planetas
das levaram os astrônomos de volta a essa antiga idéia, agora
chamada de hipótese da nebulosa. Equipados com telescópios
modernos, eles descobriram que o espaço exterior além do sis-
tema solar não está vazio como anteriormente era pensado. Os

Sistema solar
Figura 1.3 Evolução do sistema solar
CAPÍTULO 1 • Estruturando um Planeta 29

astrônomos registraram muitas nuvens do mesmo tipo da que externas menos densas. Uma vez formado, o disco começou a
Kant supôs, tendo denominado as mesmas de nebulosas. Eles esfriar e muitos gases condensaram-se. Ou seja, eles mudaram
também identificaram os materiais que formam essas nuvens. para suas formas líquidas ou sólidas, assim como o vapor
Os gases são predominantemente hidrogênio e hélio, os dois d’água condensa em gotas na parte externa de um copo gelado
elementos que constituem tudo, exceto uma pequena fração do e a água solidifica em gelo quando esfria até o ponto de conge-
nosso Sol. As partículas do tamanho do pó são quimicamente lamento. A atração gravitacional causou a agregação de poeira
similares aos materiais encontrados na Terra. e material condensado por meio de colisões “pegajosas” em
Como pôde o nosso sistema solar ter ficado com a forma pequenos blocos ou planetesimais de 1 km. Por sua vez, esses
que tem, a partir de tal nuvem? Essa nuvem difusa em rotação planetesimais colidiram e se agregaram, formando corpos
lenta contraiu-se devido à força da gravidade, a qual resulta da maiores, com o tamanho da Lua. Num estágio final de impac-
atração entre corpos por causa de suas massas (Figura 1.3). A tos cataclísmicos, uma pequena quantidade desses corpos
contração, por sua vez, acelerou a rotação das partículas (exa- maiores – cuja atração gravitacional é também maior – arras-
tamente como os patinadores sobre o gelo, que giram mais rá- tou os outros para formar os nossos nove planetas em suas ór-
pido quando contraem os braços) e essa rotação mais rápida bitas atuais.
achatou a nuvem na forma de um disco. Quando os planetas se formaram, aqueles cujas órbitas es-
tavam mais próximas do Sol desenvolveram-se de maneira
A formação do Sol Sob a atração da gravidade, a matéria come- marcadamente diferente daqueles com órbitas mais afastadas.
çou a deslocar-se para o centro, acumulando-se como uma proto- A composição dos planetas interiores é muito diferente daque-
estrela, a precursora do nosso Sol atual. Comprimido sob seu la dos planetas exteriores.
próprio peso, o material do proto-Sol tornou-se mais denso e
quente. A temperatura interna do proto-Sol elevou-se para mi- • Os planetas interiores Os quatro planetas interiores, em or-
lhões de graus, iniciando-se então uma fusão nuclear. A fusão nu- dem de proximidade do Sol, são: Mercúrio, Vênus, Terra e
clear do Sol, que continua até hoje, é a mesma reação nuclear que Marte (Figura 1.4). Eles também são conhecidos como plane-
ocorre em uma bomba de hidrogênio. Em ambos os casos, áto- tas terrestres (“parecidos com a Terra”). Em contraste com os
mos de hidrogênio sob intensa pressão e em alta temperatura planetas exteriores, os quatro planetas interiores são pequenos
combinam-se (fundem-se) para formar hélio. Nesse processo, e constituídos de rochas e metais. Eles cresceram próximos ao
parte da massa é convertida em energia. Essa conversão é repre- Sol, onde as condições foram tão quentes que a maioria dos
sentada pela famosa equação de Albert Einstein, E = mc2, na materiais voláteis – aqueles que se tornaram gases e evapora-
qual E é a quantidade de energia emitida pela conversão de mas- ram em temperaturas relativamente baixas – não pôde ser reti-
sa (m) e c é a velocidade da luz. Como c é um número muito da. O fluxo de radiação e matéria proveniente do Sol impeliu a
grande (cerca de 300.000 km/s) e c2 é imensa, uma pequena maior parte do hidrogênio, do hélio, da água e de outros gases
quantidade de massa pode gerar uma grande quantidade de ener- e líquidos leves que havia nesses planetas. Metais densos, como
gia. O Sol emite parte dessa energia como luz; uma bomba-H, o ferro e outras substâncias pesadas constituintes das rochas
como uma grande explosão. que formaram os planetas interiores, foram deixados para trás.
A partir da idade dos meteoritos, que ocasionalmente golpeiam
A formação dos planetas Embora a maior parte da matéria a Terra e são tidos como remanescentes do período pré-plane-
da nebulosa original tenha sido concentrada no proto-Sol, res- tário, deduzimos que os planetas interiores começaram a acres-
tou um disco de gás e poeira, chamado de nebulosa solar, en- cer há cerca de 4,56 bilhões de anos. Cálculos teóricos indicam
volvendo-o. A nebulosa solar tornou-se quente quando se que eles teriam crescido até o tamanho de planeta num interva-
achatou na forma de um disco e ficou mais quente na região lo de tempo impressionantemente curto, de menos de 100 mi-
interna, onde mais matéria se acumulou, do que nas regiões lhões de anos.

Júpiter
Saturno Urano

Vênus Terra Netuno


Plutão
Sol
Mercúrio Marte

Planetas Cinturão de Planetas exteriores


interiores asteróides
Os planetas interiores Os quatro planetas exteriores gigantes e Plutão é uma bola gelada de
são menores e rochosos. suas luas são gasosos com núcleos rochosos. metano, água e rocha.

Figura 1.4 O sistema solar. A figura mostra o tamanho relativo dos planetas e o
cinturão de asteróides que separa os planetas interiores dos planetas exteriores.
30 Para Entender a Terra

• Os planetas exteriores gigantes A maioria dos materiais volá- contrá-los utilizando outros métodos. Por exemplo, num prazo de
teis varridos da região dos planetas interiores foi impelida para a cerca de 10 anos, sondas espaciais fora da atmosfera da Terra po-
parte mais externa e fria da nebulosa. Isso possibilitou ao sistema deriam ser capazes de procurar por um esmorecimento da luz de
solar formar os planetas exteriores gigantes, constituídos de gelo uma estrela-mãe, exatamente no momento em que um planeta
e gases – Júpiter, Saturno, Urano e Netuno –, e seus satélites. Os em sua órbita passasse em sua frente, interceptando a linha de vi-
planetas gigantes, suficientemente grandes e com forte atração sada para a Terra.
gravitacional, varreram os constituintes mais leves da nebulosa. Somos fascinados pelos sistemas planetários de outras estre-
Assim, embora tenham núcleos rochosos, eles (como o Sol) são las pelo que eles podem vir a nos ensinar sobre nossa própria ori-
compostos predominantemente por hidrogênio e hélio, além de gem. Nosso redobrado interesse, todavia, reside na profunda im-
outros constituintes leves da nebulosa original. plicação científica e filosófica contida na questão: “Existe mais
Esse modelo-padrão da formação do sistema solar deveria ser alguém fora daqui?”. Dentro de 20 anos, uma sonda espacial de-
considerado somente pelo que é: uma explicação tentativa que nominada Descobridora da Vida (Life Finder) poderia estar equi-
muitos cientistas pensam estar mais bem ajustada aos fatos co- pada com instrumentos para analisar as atmosferas de exoplane-
nhecidos. Talvez o modelo aproxime-se daquilo que realmente tas em nossa galáxia na busca de indícios da presença de algum ti-
tenha acontecido. Entretanto, mais importante ainda é o fato de po de vida. Tendo em vista o que conhecemos sobre os processos
que esse modelo nos oferece uma maneira de pensar sobre a ori- biológicos, a vida em um exoplaneta seria, provavelmente, basea-
gem do sistema solar que pode ser testada pela observação de da em carbono e precisaria de água líquida. As temperaturas bran-
nossos planetas e pelo estudo de outras estrelas. Sondas espaciais das que desfrutamos na Terra – não tão afastadas do intervalo en-
americanas e russas obtendo provas planetárias têm transmitido tre os pontos de congelamento e ebulição da água – parecem ser
dados sobre a natureza e composição das atmosferas e superfí- essenciais. Uma atmosfera é necessária para filtrar a radiação pre-
cies de Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter, Saturno, Urano, Netuno judicial da estrela-mãe e o planeta deve ser grande o suficiente pa-
e da Lua. Uma impressionante descoberta foi a de que em nosso ra que seu campo gravitacional impeça a atmosfera de escapar pa-
sistema solar, que consiste em nove planetas e pelo menos 60 sa- ra o espaço. Para que exista um planeta habitável e com vida
télites, não há sequer dois corpos que sejam iguais! avançada como nós a conhecemos, são necessárias condições ain-
da mais limitantes. Por exemplo, se o planeta fosse muito grande,
organismos delicados, tais como os humanos, seriam frágeis de-
Outros sistemas solares mais para resistir a sua vigorosa força gravitacional. Esses requi-
Durante anos, cientistas e filósofos têm especulado que talvez sitos são muito restritivos para que a vida exista em algum outro
haja planetas ao redor de outras estrelas que não apenas o nosso lugar? Muitos cientistas pensam que não, considerando a existên-
Sol. Na década de 1990, usando grandes telescópios, os astrôno- cia de bilhões de estrelas semelhantes ao Sol na nossa galáxia.
mos descobriram planetas orbitando próximos a estrelas seme-
lhantes ao Sol. Em 1999, a primeira família de exoplanetas – os
sistemas solares de outras estrelas – foi identificada. Esses plane-
tas têm luz muito fraca para serem vistos diretamente pelos teles- A Terra primitiva: formação de um
cópios. Porém, sua existência pode ser inferida a partir de uma
leve atração gravitacional da estrela em que orbitam, causando planeta em camadas
nela movimentos de vaivém que podem ser medidos. Atualmen-
te, mais de 90 exoplanetas já foram identificados. A maioria de- Como, a partir de uma massa rochosa, a Terra evoluiu até um
les é do tamanho de Júpiter ou ainda maior, e orbitam próximos planeta vivo, com continentes, oceanos e uma atmosfera? A
das estrelas-mães – muitos a uma distância abrasante. Planetas resposta reside na diferenciação: a transformação de blocos
do tamanho da Terra são muito pequenos para serem detectados aleatórios de matéria primordial num corpo cujo interior é divi-
por essa técnica, mas os astrônomos podem ser capazes de en- dido em camadas concêntricas, que diferem umas das outras

1 Durante os estágios intermediários e finais do acres- 2 ... e o impacto gigante rapidamente ejetou
cimento da Terra, há cerca de 4,5 bilhões de anos, para o espaço uma chuva de detritos tanto
um corpo do tamanho de Marte impactou a Terra... do corpo impactante como da Terra.

Corpo Terra
impactante

4,2 min após o impacto 8,4 min 125 min

Figura 1.5 Ilustração de uma simulação computadorizada da origem da Lua por meio do impacto de um
corpo do tamanho de Marte. (Solid Earth Sciences and Society, National Research Council, 1993.)
CAPÍTULO 1 • Estruturando um Planeta 31

tanto física como quimicamente. A diferenciação ocorreu nos em calor. O calor radioativo teria contribuído para aquecer e
primeiros momentos da história da Terra, quando o planeta ad- fundir materiais da então jovem Terra. Elementos radioativos,
quiriu calor suficiente para se fundir. embora apenas presentes em pequenas quantidades, tiveram um
efeito considerável na evolução da Terra e continuam a manter
Aquecimento e fusão da Terra primordial o calor interior.
Para entender a atual estrutura em camadas da Terra, devemos
retornar ao tempo em que ela foi exposta aos violentos impac- Começa a diferenciação
tos dos planetesimais e de corpos maiores. O movimento de ob- Embora a Terra provavelmente tenha iniciado como uma mistu-
jetos carrega energia cinemática ou de movimento. (Pense no ra não-segregada de planetesimais e outros remanescentes da ne-
modo como a energia do movimento comprime um carro numa bulosa, ela não manteve essa forma durante muito tempo. Uma
colisão.) Um planetesimal colidindo com a Terra numa veloci- fusão de grande proporção ocorreu como resultado de um gigan-
dade típica de 15 a 20 km/s liberará uma energia equivalente a tesco impacto. Alguns trabalhos sobre esse tema especulam que
100 vezes o seu peso em TNT.2 Quando planetesimais e corpos cerca de 30 a 65% da Terra fundiram-se, formando uma camada
grandes colidiram com a Terra primitiva, a maior parte da ener- externa de centenas de quilômetros de espessura, a qual chama-
gia cinética foi convertida em calor, uma outra forma de ener- ram de “oceano de lava” (rocha derretida). Da mesma forma, o
gia. A energia de impacto de um corpo, com aproximadamente interior aqueceu-se até um estado “leve” (menos denso), no qual
o dobro do tamanho de Marte, colidindo com a Terra seria equi- seus componentes podiam mover-se de um lado para outro. O
valente a explodir vários trilhões de bombas nucleares de 1 me- material pesado mergulhou para o interior para tornar-se o nú-
gaton (= energia de 1 milhão de toneladas de TNT ou 1.015 cal; cleo e o material mais leve flutuou para a superfície e formou a
uma só dessas terríveis bombas destruiria uma grande cidade). crosta. A emersão do material mais leve carregou consigo calor
Isso seria suficiente para ejetar no espaço uma grande quantida- interno para a superfície, de onde ele poderia irradiar-se para o
de de detritos e gerar calor suficiente para fundir a maior parte espaço. Dessa forma, a Terra resfriou-se e grande parte dela soli-
do que restou da Terra. dificou-se e foi transformada em um planeta diferenciado ou zo-
Muitos cientistas agora pensam que tal cataclismo de fato neado em três camadas principais: um núcleo central e uma cros-
ocorreu durante os estágios tardios de acrescimento da Terra. O ta externa separados por um manto (Figura 1.6). Um resumo dos
grande impacto criou uma chuva de detritos tanto da Terra co- períodos de tempo que descrevem a origem da Terra e sua evolu-
mo do corpo impactante, que se propalou para o espaço. A Lua ção num planeta diferenciado é mostrado na Figura 1.12.
agregou-se a partir desses detritos (Figura 1.5). A Terra teria se
reconstituído como um corpo em grande parte fundido. Esse Núcleo da Terra O ferro, que é mais denso que a maioria dos
monumental impacto acelerou a velocidade de rotação da Ter- outros elementos, correspondia a cerca de um terço do material
ra e mudou seu eixo rotacional, golpeando-o da posição verti- do planeta primitivo. O ferro e outros elementos pesados, como
cal em relação ao plano orbital da Terra para sua atual inclina- o níquel, mergulharam para formar o núcleo central. Os cientis-
ção de 23o.3 Tudo isso há cerca de 4,5 bilhões de anos, entre o tas consideram que o núcleo, o qual começa numa profundidade
início do período de acrescimento da Terra (4,56 bilhões de de cerca de 2.900 km, é líquido na parte externa, mas sólido nu-
anos) e a idade das rochas mais antigas da Lua (4,47 bilhões de ma região chamada de núcleo central, que se estende desde uma
anos) trazidas pelos astronautas da Apollo. profundidade de cerca de 5.200 km até o centro da Terra, a cerca
Além do impacto colossal, uma outra força de calor teria de 6.400 km. O núcleo interno é sólido porque a pressão no cen-
causado a fusão nos primórdios da história da Terra. Vários ele- tro é muito alta para o ferro fundir-se (a temperatura em que
mentos (urânio, por exemplo) são radioativos, o que significa qualquer material se funde eleva-se com o aumento da pressão).
que se desintegram espontaneamente com a emissão de partícu-
las subatômicas. Como essas partículas são absorvidas pela Crosta da Terra Outros materiais líquidos e menos densos se-
matéria do entorno, sua energia de movimento é transformada pararam-se das substâncias geradoras flutuando em direção à

3 O impacto acelerou a rotação 4 A Terra reconstituiu-se como 5 ... e a Lua agregou-se 6 Rochas da Lua com 4,47
da Terra e inclinou o seu um grande corpo fundido... a partir dos detritos. bilhões de anos, trazidas pelos
plano orbital para 23˚. astronautas da Apollo, confirmaram
essa hipótese do impacto.
32 Para Entender a Terra

Figura 1.6 A diferenciação da Terra


Ferro Matéria Crosta Manto Ferro líquido do
(0–40 km) (40–2.890 km) núcleo externo
primitiva resultou num planeta zoneado com
mais leve um denso núcleo de ferro, uma crosta de
(2.890–5.150 km)
rochas leves e um manto residual entre
Ferro sólido do ambos.
núcleo interno
(5.150–6.370 km)

Durante a diferenciação, o ferro afundou em direção ... de modo que a Terra se apresenta
ao centro e o material mais leve flutuou para cima... como um planeta zoneado.

superfície do oceano de magma. Aí resfriaram-se para formar a Manto da Terra Entre o núcleo e a crosta encontra-se o manto,
crosta sólida da Terra, uma fina camada externa com cerca de uma região que forma a maior parte da Terra sólida. O manto é o
40 km de espessura. A crosta contém materiais relativamente le- material deixado na zona intermediária depois que grande quan-
ves com temperaturas de fusão baixas. A maioria desses mate- tidade da matéria pesada afundou e a matéria mais leve emergiu.
riais, que facilmente se fundem, é composta de elementos de si- O manto abrange profundidades que vão desde 40 até 2.900 km.
lício, alumínio, ferro, cálcio, magnésio, sódio e potássio combi- Ele consiste em rochas com densidade intermediária, em sua
nados com oxigênio. Todos eles, com exceção do ferro, estão maioria compostos de oxigênio com magnésio, ferro e silício.
entre os elementos sólidos mais leves. (O Capítulo 3 discutirá os Existem mais de cem elementos, mas as análises químicas
elementos químicos e os compostos que eles formam.) das rochas indicam que apenas oito constituem 99% da massa
Recentemente, no oeste da Austrália, um fragmento do mine- da Terra (Figura 1.7). De fato, cerca de 90% da Terra consis-
ral zircão foi datado com a idade de 4,3 a 4,4 bilhões de anos, tem em apenas quatro elementos: ferro, oxigênio, silício e
constituindo-se no mais antigo material terrestre já descoberto. magnésio. Quando comparamos a abundância relativa dos
Análises químicas indicam que ele foi formado próximo à super- elementos constituintes da crosta com sua abundância em re-
fície, na presença de água, sob condições relativamente frias. Se lação a toda a Terra, podemos constatar que o ferro soma 35%
essa descoberta for confirmada por dados e experimentos adicio- da massa desta. Devido à diferenciação, entretanto, há pouco
nais, podemos concluir que a Terra pode ter resfriado o suficien- ferro na crosta, onde os elementos leves predominam. Como
te para formar uma crosta somente 100 milhões de anos depois se pode ver na Figura 1.7, as rochas crustais sobre as quais es-
de ter se reconstituído do gigantesco impacto. tamos são constituídas por quase 50% de oxigênio.

TERRA INTEIRA CROSTA DA TERRA


Outros (<1%) Alumínio (8%) Ferro (6%) Magnésio(4%)
Alumínio (1,1%) Cálcio (2,4%)
Cálcio (1,1%) Potássio (2,3%)
Enxofre (1,9%) Ferro (35%) Sódio (2,1%)
Níquel (2,4%) Silício (28%) Outros (<1%)
Magnésio (13%)
Silício Oxigênio (30%) Oxigênio (46%)
(15%)

Figura 1.7 A abundância relativa dos elementos da Terra inteira Apenas quatro elementos constituem cerca de 90% da Terra:
comparada com a dos elementos da crosta é dada em percentuais ferro, oxigênio, silício e magnésio. Observe que o oxigênio, o
de peso. A diferenciação criou uma crosta leve, empobrecida de silício e o alumínio, sozinhos, formam mais de 80% da crosta.
ferro e rica em oxigênio, silício, alumínio, cálcio, potássio e sódio.
CAPÍTULO 1 • Estruturando um Planeta 33

A formação dos continentes, dos oceanos e Escape


Para a atmosfera
da atmosfera da Terra nio

nio
ro
it

ogê
A fusão primitiva promoveu a formação da crosta da Terra e, for- N

Hidr
tuitamente, dos continentes. Ela fez com que os materiais mais le- bono Para a atmosfera
e ca r
ves se concentrassem nas camadas externas e permitiu que pelo xi do d
menos os gases mais leves escapassem do interior. Esses gases for- Dió
maram grande parte da atmosfera e dos oceanos. Até hoje, rema- Vulcão
nescentes retidos da nebulosa solar original continuam a ser emi- Ág
tidos como gases primitivos em erupções vulcânicas.

ua
Continentes A feição mais visível da crosta da Terra são os con- Para os oceanos
tinentes. O crescimento dos continentes começou logo após a di-
ferenciação e continuou ao longo do tempo geológico. Tem-se,
quando muito, apenas uma noção geral do que levou à sua for-
mação. Imaginamos que o magma partiu do interior derretido da Rocha
Terra e ascendeu à superfície, onde esfriou e se solidificou para líquida
formar a crosta rochosa. Essa crosta primitiva fundiu-se e solidi-
ficou-se repetidamente, fazendo com que os materiais mais leves
se separassem dos mais pesados e ascendessem ao topo, para for-
mar os núcleos primitivos dos continentes. A água da chuva e ou-
tros constituintes da atmosfera erodiram as rochas, levando-as a
decomporem-se e desintegrarem-se. Água, vento e gelo despren-
deram, então, os detritos rochosos e moveram-nos para lugares
de deposição mais baixos. Aí se acumularam em camadas espes-
sas, formando praias, deltas e os assoalhos dos mares adjacentes.
A repetição desse processo durante muitos ciclos estruturou os Figura 1.8 A atividade vulcânica primitiva contribuiu com o
continentes. lançamento, para a atmosfera e os oceanos, de grandes
Oceanos e a atmosfera Alguns geólogos pensam que a maior quantidades de vapor d’água, dióxido de carbono e outros gases
parte do ar e da água da Terra atual vieram de fora do sistema e, para os continentes, de materiais sólidos. A fotossíntese dos
solar por meio de materiais ricos em voláteis que impactaram o microrganismos removeu o dióxido de carbono e adicionou
planeta depois que ele foi formado. Por exemplo, os cometas oxigênio à atmosfera primordial. O hidrogênio, devido à sua
que vemos são compostos predominantemente de gelo mais leveza, escapou para o espaço exterior.
dióxido de carbono e outros gases congelados. Incontáveis co-
metas podem ter bombardeado a Terra nos primórdios de sua
história, fornecendo água e gases que, subseqüentemente, de-
ram origem aos oceanos e à atmosfera primitivos. A diversidade de planetas
Muitos outros geólogos acreditam que os oceanos e a atmos- Há cerca de 4 bilhões de anos, a Terra tornou-se um planeta intei-
fera podem ter sua origem rastreada no “nascimento úmido” da ramente diferenciado. O núcleo encontrava-se muito quente e em
própria Terra. De acordo com essa hipótese, os planetesimais que grande parte fundido, mas o manto estava razoavelmente bem so-
se agregaram para formar nosso planeta tinham gelo, água e ou- lidificado e uma crosta primitiva e seus continentes tinham se de-
tros voláteis. Originalmente, a água estava aprisionada (quimica- senvolvido. Os oceanos e a atmosfera haviam se formado, prova-
mente ligada como oxigênio e hidrogênio) em certos minerais velmente, a partir de substâncias lançadas do interior da Terra, e
trazidos pela agregação dos planetesimais. De forma similar, ni- os processos geológicos que hoje observamos estavam iniciando
trogênio e carbono também estavam quimicamente ligados nos seu funcionamento.
minerais. Quando a Terra se aqueceu e seus materiais fundiram- Mas o que ocorreu com os outros planetas? Tiveram a mes-
se parcialmente, o vapor d’água e outros gases foram liberados e ma história inicial? Informações transmitidas pelas sondas es-
levados para a superfície pelos magmas, sendo lançados na at- paciais indicam que todos os planetas terrestres sofreram dife-
mosfera pela atividade vulcânica. renciação, porém, seus caminhos evolutivos variaram.
Os gases emitidos pelos vulcões há cerca de 4 bilhões de Mercúrio tem uma tênue atmosfera, predominantemente
anos consistiam, provavelmente, nas mesmas substâncias que formada por hélio. A pressão atmosférica na sua superfície é
são expelidas dos vulcões atuais (embora não necessariamente menor que um trilionésimo da pressão na Terra. Não há ação de
na mesma quantidade relativa): fundamentalmente hidrogênio, ventos ou água para erodir e suavizar sua antiga superfície, que
dióxido de carbono, nitrogênio, vapor d’água e alguns outros se assemelha com a da Lua: predominantemente crateriforme e
gases (Figura 1.8). Quase todo o hidrogênio escapou para o es- coberta por uma camada de detritos, os quais são os fragmentos
paço exterior, enquanto os gases pesados envolveram o planeta. remanescentes de bilhões de anos de impactos de meteoritos.
Essa atmosfera primitiva era destituída de oxigênio, elemento Devido ao fato de não existir propriamente uma atmosfera e es-
que constitui 21% da atmosfera atual. O oxigênio não fazia par- tar muito próximo do Sol, a superfície do planeta se aquece
te da atmosfera até que organismos fotossintéticos evoluíssem, com temperaturas de 467oC durante o dia e esfria para –173oC
como será descrito posteriormente neste capítulo. à noite. Essa é a maior variação de temperatura conhecida no
34 Para Entender a Terra

km

Vênus Terra 13

Marte 9

–3

2,000
2.000 kmkm
–7

Figura 1.9 Uma comparação das superfícies sólidas de Vênus, batimétricas dos oceanos, obtidas por navios, e medidas do
Terra e Marte, todas na mesma escala. A topografia de Vênus, que campo gravimétrico, obtidas da superfície do assoalho oceânico
mostra o menor contraste altitúdico, foi medida entre 1990 e por satélites orbitais da Terra. A topografia de Marte, que mostra
1993 por um altímetro de radar, a bordo da sonda orbitadora o maior contraste, foi medida entre 1998 e 1999 por meio de um
Magellan (Magalhães). A topografia da Terra, dominada pelos altímetro a laser a bordo da sonda orbitadora Mars Global
continentes e oceanos e com contraste intermediário, foi Surveyor (Topografia Global de Marte). [Cortesia de Greg
sintetizada a partir de medidas altimétricas da superfície do solo, Neumann/MIT/GSFC/NASA]

sistema solar (além daquela encontrada no Sol, em cuja super- tando uma sonda que poderia responder, dentro de poucos anos,
fície há uma variação muito mais drástica). Os cientistas estão a questão de se há vida em Marte!
intrigados com a origem do enorme núcleo de ferro de Mercú- A maior parte da superfície do planeta tem mais de 3 bi-
rio. Ele constitui 70% de sua massa, um recorde dentre os pla- lhões de anos. Na Terra, em contraste, grande parte da superfí-
netas do sistema solar. cie de mais de 500 milhões de anos foi obliterada pela ativida-
Vênus evoluiu para um planeta em que as condições superfi- de geológica. Os capítulos seguintes vão descrever como esses
ciais ultrapassam a maioria das descrições do inferno. Ele está processos ativos têm modelado a face do nosso planeta ao lon-
envolto numa atmosfera pesada, venenosa e incrivelmente quen- go de sua história.
te (475oC), composta sobretudo por dióxido de carbono e nuvens Além da Terra, a Lua é o outro corpo mais bem conhecido
de gotículas de ácido sulfúrico corrosivo. Um humano que per- do sistema solar devido à sua proximidade e aos programas de
manecesse em sua superfície seria esmagado pela pressão, cozi- exploração tripulada e não-tripulada. Como explicitado ante-
do pelo calor e corroído pelo ácido sulfúrico. Imagens de radar, riormente, a teoria mais aceita sobre a origem da Lua propõe
que vêem através da espessa cobertura de nuvens, mostram que que ela coalesceu como um grande corpo fundido depois que
pelo menos 85% da superfície de Vênus são cobertos por derra- um gigantesco impacto ejetou sua matéria da Terra. Em geral,
mes de lavas. O restante é predominantemente montanhoso – os materiais da Lua são mais leves que os da Terra, porque a
evidência de que o planeta tem sido geologicamente ativo (Figu- matéria mais pesada do gigante corpo colidente e a de seu al-
ra 1.9). Vênus é gêmeo da Terra em massa e tamanho. Como pô- vo primitivo permaneceram encravadas na Terra. A Lua não
de evoluir num planeta tão diferente do nosso é uma questão que tem atmosfera e, como Vênus, é predominantemente muito
intriga os geólogos planetários. seca, tendo perdido sua água devido ao calor gerado pelo
Marte tem sofrido muitos dos mesmos processos que têm enorme impacto. Há algumas evidências novas, a partir de ob-
modelado a Terra (Figura 1.9), porém conta com uma fina at- servações de sondas espaciais, de que pode existir gelo em pe-
mosfera composta quase inteiramente de dióxido de carbono. A quenas quantidades em crateras profundas e sombrias nos pó-
água líquida não está presente na sua superfície atual – o plane- los norte e sul da Lua.
ta é tão frio e sua atmosfera tão delgada que a água ou congela A superfície que vemos hoje é aquela de um corpo muito ve-
ou evapora. As redes de vales e canais secos de rios, entretanto, lho e geologicamente inativo. Dois terrenos dominam a superfí-
indicam que a água líquida foi abundante na superfície de Mar- cie lunar. O mais antigo é o das terras altas, de coloração clara.
te há mais de 3,5 bilhões de anos. Algumas das rochas observa- Essas regiões rugosas e intensamente crateriformes cobrem cer-
das pelo robô móvel Sojourner, da Missão Explorador de Mar- ca de 80% da superfície. As terras altas são resultantes dos detri-
te (Mars Pathfinder) de 1997, mostraram evidências de terem tos ejetados pelos impactos dos primórdios da história lunar,
sido desgastadas pelo fluxo de água. As sondas orbitadoras de quando a Lua foi bombardeada por grandes asteróides. Os res-
Marte têm recentemente encontrado evidências de que grande tantes 20% da superfície são constituídos por planícies escuras
quantidade de gelo pode estar armazenada abaixo da superfície mais novas, chamadas de maria (que significa “mares” em latim,
e segregada nas capas de gelo polares. A vida pode ter existido pois é assim que se parecem quando vistas da Terra). Os “mares”
num planeta Marte úmido de bilhões de anos atrás e pode exis- foram formados mais tarde, quando as grandes bacias de impac-
tir hoje como micróbios sob a superfície. A NASA está proje- tos foram subseqüentemente preenchidas por lavas.
CAPÍTULO 1 • Estruturando um Planeta 35

Os planetas exteriores ou gigantes gasosos – Júpiter, Satur- O espaço está cheio de asteróides, meteoróides, cometas e
no, Urano e Netuno – permanecerão como um quebra-cabeça outros detritos abandonados desde o início do nosso sistema so-
por muito tempo. Essas imensas bolas de gases são quimica- lar. Pequenos blocos de detritos aqueceram-se e vaporizaram-se
mente tão distintas e tão grandes que devem ter seguido uma na atmosfera da Terra antes de alcançar a sua superfície, enquan-
trajetória evolutiva inteiramente diferente daquela dos peque- to blocos maiores atravessaram-na por completo. Atualmente,
nos planetas telúricos. Entendemos menos ainda sobre o plane- cerca de 40 mil toneladas de material extraterrestre caem na Ter-
ta mais distante, o minúsculo Plutão, uma estranha mistura ra a cada ano, sobretudo como poeira e pequenos objetos não ob-
congelada de gás, gelo e rocha, sendo o único planeta ainda não servados. Embora a atual taxa de impacto seja, em várias ordens
visitado por nossas sondas espaciais. de magnitude, menor que aquela do período de Bombardeamen-
to Pesado, um grande bloco, de 1 a 2 km de diâmetro, ainda po-
de colidir com a Terra em intervalos aproximados de poucos mi-
O bombardeamento vindo do espaço lhões de anos. Embora tais colisões tenham se tornado raras, te-
As superfícies salpicadas por crateras da Lua, Marte, Mercúrio e lescópios estão sendo programados para localizar os maiores
outros corpos são evidências de um importante intervalo da his- corpos no espaço e, assim, possibilitar que sejamos antecipada-
tória primordial do sistema solar: o período de Bombardeamen- mente advertidos da potencialidade de alguns deles virem a se
to Pesado (ver Figura 1.3). Durante esse período, que deve ter chocar com a Terra. Recentemente, os astrônomos da NASA pre-
durado desde a formação dos planetas até 600 milhões de anos viram, “com uma probabilidade nada negligenciável” (uma
depois, os planetas varreram e colidiram com a matéria residual chance em 300), que um asteróide de 1 km de diâmetro colidirá
deixada para trás na época em que foram agregados. A atividade com a Terra em março de 2880. Um evento como esse constitui-
geológica na Terra obliterou os efeitos desse bombardeamento. ria uma ameaça à civilização.

Quadro 1.1 Impactos de bólidos e seus efeitos na vida na Terra

Tamanho Última ocorrência


(R = raio) Exemplo4 (em anos) Efeitos planetários Efeitos na vida
Supercolossal Evento de 4,45 × 109 Fusão do planeta Forte emissão de voláteis;
R > 2.000 km formação da Lua extinção da vida na Terra
Colossal Plutão Mais do que Fusão da crosta Extinção da vida na Terra
R > 700 km 4,3 × 109
Imenso 4 Vesta5 (um Cerca de Vaporização dos oceanos A vida pode sobreviver sob
R > 200 km grande asteróide) 4,0 × 109 a superfície
Extragrande Chiron (maior 3,8 × 109 Vaporização do topo dos Cozimento sob pressão do
R > 70 km cometa em oceanos até 100 m vapor na zona fótica;a pode
movimento) cessar a fotossíntese
Grande Cometa Hale- Cerca de Aquecimento da atmosfera Cauterização dos continentes
R > 30 km Bopp 2 × 109 e da superfície até cerca
de 727oC
Médio R > 10 km Bólido do K/T6; 65 × 106 Incêndios, poeira, escuridão; Extinção de metade das
433 Eros (o mudanças químicas no oce- espécies; o evento K/T levou
maior asteróide ano e na atmosfera; grande à extinção dos dinossauros
próximo da Terra) oscilação de temperaturas
Pequeno Tamanho Cerca de Suspensão de poeira em Interrupção da fotossíntese;
R > 1 km aproximado de 300 mil toda a atmosfera indivíduos morrem, mas
500 asteróides durante meses poucas espécies são extintas;
próximos da Terra ameaça à civilização
Muito pequeno Evento de Tunguska 1908 (ano) Derrubou árvores num rastro Manchetes nos jornais; pôr-
R > 100 m (Sibéria) de dezenas de quilômetros; do-sol romântico; crescimento
causou pequenos efeitos da taxa de natalidade
hemisféricos; suspensão
de poeira na atmosfera
aRegião da Terra que recebe a luz do Sol, ou seja, a atmosfera e o topo dos oceanos até 100 m de profundidade.
Fonte: Modificada de J. D. Lissauer, Nature 402: C11-C14.
36 Para Entender a Terra

Um impacto importante ocorreu há 65 milhões de anos. O como, por exemplo, o motor a gasolina de um automóvel – trans-
bólido, com pouco mais de 10 km, causou a extinção de meta- formam calor em movimento mecânico ou trabalho. O mecanis-
de das espécies da Terra, incluindo todos os dinossauros. Tal- mo interno da Terra é governado pela energia térmica aprisiona-
vez, esse evento tenha possibilitado que os mamíferos se tor- da durante a origem cataclísmica do planeta e gerada pela radioa-
nassem a espécie dominante, preparando o caminho para o tividade em seus níveis mais profundos. O calor interior controla
homem. O Quadro 1.1 descreve os efeitos de impactos de vá- os movimentos no manto e no núcleo, suprindo energia para fun-
rios tamanhos em nosso planeta e na vida. O poeta Robert dir rochas, mover continentes e soerguer montanhas. O mecanis-
Frost talvez tenha pensado na vulnerabilidade da vida na Terra mo externo da Terra é controlado pela energia solar – calor da su-
quando escreveu perfície terrestre proveniente do Sol. O calor do Sol energiza a at-
mosfera e os oceanos e é responsável pelo nosso clima e tempo.
Alguns dizem que o mundo terminará em labareda quente, Chuva, vento e gelo erodem montanhas e modelam a paisagem e,
Outros dizem que em frio enregelado. por sua vez, a forma da superfície muda o clima.
Do que eu provei do desejo ardente Todas as partes do nosso planeta e todas suas interações, to-
madas juntas, constituem o sistema Terra. Embora os cientistas
Eu concordo com os que torcem pelo fogo inclemente. da Terra pensem já há algum tempo em termos de sistemas na-
Mas se eu tiver de perecer dobrado, turais, foi apenas nas últimas décadas do século XX que eles
Eu acho que conheço bem o querer mal dispuseram de equipamentos adequados para investigar como o
sistema Terra realmente funciona. Dentre os principais avanços,
Para dizer que a destruição do gelo desapiedado estão as redes de instrumentos e satélites orbitantes de coleta de
É também colossal informações do sistema Terra numa escala global e o uso de
E suficiente pro mundo ser acabado.7 computadores eletrônicos com potência suficiente para calcular
a massa e a energia transferidas dentro do sistema. Os principais
componentes do sistema Terra estão descritos no Quadro 1.2 e
representados na Figura panorâmica 1.10. Já discorremos so-
A Terra como um sistema de bre alguns deles e definiremos os outros a seguir.
Dedicaremos nossa atenção às diversas facetas do sistema
componentes interativos Terra nos capítulos posteriores. Vamos agora começar a pensar
sobre algumas de suas feições básicas. A Terra é um sistema
Embora a Terra tenha se esfriado desde seu início ardente, ela aberto, no sentido de que troca massa e energia com o restante
continua um planeta inquieto, mudando continuamente por meio do cosmos. A energia radiante do Sol energiza o intemperismo e
de atividades geológicas, tais como terremotos, vulcões e glacia- a erosão da superfície terrestre, bem como o crescimento das
ções. Essas atividades são governadas por dois mecanismos tér- plantas, as quais servem de alimento a muitos outros seres vivos.
micos: um interno e o outro externo. Mecanismos de tal tipo – Nosso clima é controlado pelo balanço entre a energia solar que

Quadro 1.2 Os principais componentes do sistema Terra

A energia solar energiza estes componentes


Atmosfera Invólucro gasoso que se estende desde a superfície terrestre até uma altitude de cerca de 100 km
Hidrosfera A esfera da água compreende todos os oceanos, lagos, rios e a água subterrânea
Biosfera Toda matéria orgânica relacionada à vida próxima à superfície terrestre

O calor interno da Terra energiza estes componentes


Litosfera Espessa camada rochosa externa da Terra sólida que compreende a crosta e a parte superior do manto até uma
profundidade média de cerca de 100 km; forma as placas tectônicas
Astenosfera Fina camada dúctil do manto sob a litosfera que se deforma para acomodar os movimentos horizontais e verti-
cais das placas tectônicas
Manto inferior Manto sob a astenosfera, estendendo-se desde cerca de 400 km até o limite núcleo-manto8 (cerca de 2.900 km
de profundidade)
Núcleo externo Camada líquida composta predominantemente por ferro liquefeito, estendendo-se desde cerca de 2.900 km até
5.150 km de profundidade
Núcleo interno Esfera mais interna constituída predominantemente de ferro sólido, estendendo-se desde cerca de 5.150 km até
o centro da Terra (cerca de 6.400 km de profundidade)
CAPÍTULO 1 • Estruturando um Planeta 37

A TERRA É UM SISTEMA ABERTO QUE TROCA ENERGIA E MASSA COM SEU ENTORNO

1 O Sol controla o mecanismo 2 A energia solar é 3 O mecanismo interno da Terra 4 ... e pela radioativi-
externo da Terra. responsável por nosso é governado pelo calor apri- dade de seu interior.
clima e tempo meteorológico. sionado durante sua origem...

Sol

5 O calor irradiado pela Terra equilibra 6 Meteoróides transportam


o calor interno e aquele recebido do Sol. massa do cosmos para a Terra.

O SISTEMA TERRA É CONSTITUÍDO POR TODAS AS PARTES DE NOSSO PLANETA E SUAS INTERAÇÕES

7 O sistema do clima envolve grande 8 ... bem como interações


troca de massa (p. ex., água) e com a litosfera (p. ex.,
energia (p. ex., calor) entre a exalação de gases pelos
atmosfera e a hidrosfera... vulcões e erosão).
Atmosfera
Hidrosfera
9 Os organismos vivos, a biosfera,
Atmosfera SISTEMA ocupam9 parte da atmosfera,
DO CLIMA da hidrosfera e da litosfera.
Biosfera

Litosfera Hidrosfera
10 A litosfera move-se sobre porções
Litosfera do manto mais liquefeito, afunda
e é arrastada para a astenosfera...
SISTEMA
Núcleo Manto Astenosfera DAS PLACAS
externo TECTÔNICAS 11 ... onde é movida para o manto
inferior e emerge novamente
Manto inferior num ciclo convectivo.

Núcleo externo SISTEMA DO


Núcleo GEODÍNAMO 12 O núcleo externo e o núcleo
interno interno interagem no sistema do
geodínamo que é responsável pelo
Núcleo interno
Astenosfera campo magnético terrestre.

Figura panorâmica 1.10 Principais componentes e subsistemas do sistema Terra


(ver Quadro 1.2). As interações entre os componentes são governadas pela energia do
Sol e do interior do planeta e organizadas em três geossistemas globais: o sistema do
clima, o sistema das placas tectônicas e o sistema do geodínamo.
38 Para Entender a Terra

chega até o sistema Terra e a energia que o planeta irradia de muda com o tempo. O problema é incrivelmente complicado
volta para o espaço. As transferências de massa entre a Terra e porque o clima não é apenas o comportamento da atmosfera so-
o espaço decresceram marcadamente depois do período de zinha. Ele é sensível a muitos outros processos envolvendo a hi-
Bombardeamento Pesado, mas ainda desempenham um papel drosfera, a biosfera e a Terra sólida (ver Figura panorâmica
ativo no sistema Terra – é só perguntar aos dinossauros! 1.10). Para entender essas interações, os cientistas elaboram
Embora pensemos a Terra como sendo um único sistema, é modelos numéricos – sistemas climáticos virtuais – em super-
um desafio estudá-la por inteiro de uma só vez. Ao invés disso, computadores e comparam os resultados de suas simulações
se enfocarmos nossa atenção em partes do sistema, estaremos com os dados observados. (Em março de 2002, o Japão anun-
avançando no seu entendimento. Por exemplo, nas discussões ciou o maior e mais rápido computador do mundo, o Simulador
sobre mudanças climáticas recentes, consideraremos primeira- da Terra – Earth Simulator –, dedicado à modelagem do clima
mente as interações entre atmosfera, hidrosfera e biosfera, as terrestre e outros geossistemas.)
quais são controladas pela energia solar. Nossa abordagem so- Os cientistas ganham credibilidade quando seus modelos
bre a formação dos continentes enfocará as interações entre a apresentam uma boa coincidência com os dados observados.
crosta e as porções mais profundas do manto, que são controla- Eles utilizam os desajustes para identificar onde os modelos
das pela energia interna da Terra. Os subsistemas específicos estavam errados ou incompletos. Além disso, esperam aperfei-
que encerram elementos característicos da dinâmica terrestre çoar suficientemente os modelos por meio de testes feitos a
são chamados de geossistemas.10 O sistema Terra pode ser partir de diversos tipos de observações, de modo que possam
pensado como uma coleção desses geossistemas abertos e inte- fazer predições acuradas sobre como o clima mudará no futu-
rativos (e freqüentemente se sobrepondo). ro. Um problema particularmente urgente é entender o aqueci-
Nesta seção, apresentaremos dois geossistemas importantes mento global que pode resultar das emissões de dióxido de
que operam numa escala global: o sistema do clima e o sistema carbono e outros gases-estufa gerados por atividades humanas.
das placas tectônicas. O terceiro sistema global é o do geodína- Parte do debate público sobre o aquecimento global centra-se
mo, o qual é responsável pelo campo magnético terrestre, que sobre a precisão das predições computadorizadas. Os céticos
trata de uma parte importante do funcionamento da Terra como argumentam que mesmo os modelos computadorizados mais
planeta e também se constitui em um instrumento-chave para sofisticados não são confiáveis porque desconsideram várias
explorar as camadas internas. O geodínamo será discutido no feições do sistema Terra real. No Capítulo 23, discutiremos al-
Capítulo 21. A sua importância para a compreensão das placas guns aspectos de como o sistema do clima funciona e os pro-
tectônicas é discutida no Capítulo 2. Posteriormente, ainda, te- blemas práticos das mudanças climáticas causadas pelas ativi-
remos ocasião de discorrer sobre diversos geossistemas meno- dades humanas.
res. Aqui estão três exemplos: vulcões que expelem lava quen-
te (Capítulo 6), sistemas hidrológicos que nos proporcionam O sistema das placas tectônicas
água para consumo (Capítulo 13) e reservatórios de petróleo
que fornecem óleo e gás (Capítulo 22). Alguns dos mais dramáticos eventos geológicos do planeta –
erupções vulcânicas e terremotos, por exemplo – também resul-
tam de interações dentro do sistema Terra. Esses fenômenos
O sistema do clima são controlados pelo calor interno do globo, que escapa por
Tempo é o termo que usamos para descrever a temperatura, a meio da circulação de material no manto sólido, em um proces-
precipitação, a nebulosidade e os ventos observados num pon- so conhecido como convecção.
to da superfície terrestre. Todos sabemos o quanto o tempo po- Vimos que a Terra é quimicamente zoneada: sua crosta,
de ser variável – quente e chuvoso num dia, frio e seco no outro manto e núcleo são camadas quimicamente distintas que se se-
–, dependendo dos movimentos de sistemas de tempestades, gregaram durante a diferenciação primordial. A Terra é também
frentes frias e quentes e outras mudanças rápidas dos distúrbios zoneada pela reologia, ou seja, pelos diferentes comportamen-
atmosféricos. Como a atmosfera é muito complexa, mesmo os tos materiais que apresenta ao resistir à deformação. Por sua
melhores meteorologistas têm dificuldades em prever o tempo vez, a deformação do material depende da composição quími-
com antecedência de mais de quatro ou cinco dias. Entretanto, ca (tijolos são frágeis; barras de sabão, dúcteis) e da temperatu-
podemos inferir como ele será, em termos gerais, num futuro ra (cera fria é frágil; cera quente, dúctil). De certa forma, a par-
bem mais distante, pois o tempo predominante é governado te externa da Terra sólida comporta-se como uma bola de cera
principalmente pelas variações do influxo de energia solar nos quente. O resfriamento da superfície torna frágil a casca mais
ciclos sazonais e diários: verões são quentes e invernos, frios; externa ou litosfera (do grego lithos, “pedra”), a qual envolve
dias são quentes e noites, mais frescas. O clima é a descrição uma quente e dúctil astenosfera (do grego asthenes, “fraque-
desses ciclos de tempo em termos das médias de temperatura e za”). A litosfera inclui a crosta e o topo do manto até uma pro-
outras variáveis obtidas durante muitos anos de observação. fundidade média de cerca de 100 km. Quando submetida a uma
Além dos valores médios, uma descrição completa do clima força, a litosfera tende a se comportar como uma casca rígida e
também inclui medidas de quanto tem sido a variação do tem- frágil, enquanto a astenosfera sotoposta flui como um sólido
po meteorológico, tais como as temperaturas mais altas ou mais moldável ou dúctil.
baixas já registradas num certo dia. De acordo com a notável teoria da tectônica de placas, a li-
O sistema do clima inclui todas as propriedades e intera- tosfera não é uma casca contínua; ela é quebrada em cerca de
ções dos componentes dentro do sistema Terra necessárias pa- 12 grandes “placas” que se movem sobre a superfície terrestre
ra determinar o clima numa escala global e descobrir como ele com taxas de alguns centímetros por ano. Cada placa atua co-
CAPÍTULO 1 • Estruturando um Planeta 39

1 A convecção move a água 2 ... onde ela se esfria, 4 A matéria quente do 5 ... levando as placas a
quente do fundo para o topo... move-se lateralmente, manto ascende... se formar e divergir.
afunda...
(a) (b)
6 Onde as placas
convergem, uma placa
resfriada é arrastada
Placa Placa sob a placa vizinha...

3 ... aquece-se
e, novamente,
sobe. 7 ... mergulha, aquece-se
e, novamente, sobe.

Figura 1.11 (a) A água fervendo é um exemplo familiar da convecção. (b) Uma visão
simplificada das correntes de convecção no interior da Terra.

mo uma unidade rígida distinta que se move sobre a astenosfe- ilustrado na Figura 1.11. A circulação continuará durante o
ra, a qual também está em movimento. Ao formar uma placa, a tempo necessário para que o calor existente no interior seja
litosfera pode ter uma espessura de apenas alguns quilômetros transferido para a superfície fria.
nas áreas com atividade vulcânica e, talvez, de até 200 km ou O movimento das placas é a manifestação superficial da
mais nas regiões mais antigas e frias dos continentes. A desco- convecção do manto e nos referimos a todo esse sistema como
berta das placas tectônicas na década de 1960 forneceu aos o sistema das placas tectônicas. Controlado pelo calor interno
cientistas a primeira teoria unificada para explicar a distribui- da Terra, o material quente do manto sobe onde as placas se se-
ção mundial dos terremotos e dos vulcões, a deriva dos conti- param, e então começa a endurecer a litosfera. À medida que se
nentes, o soerguimento de montanhas e muitos outros fenôme- move para longe desse limite divergente, a litosfera esfria e tor-
nos geológicos. O Capítulo 2 será destinado a descrever deta- na-se mais rígida. Porém, ela pode eventualmente afundar na
lhadamente a tectônica de placas. astenosfera e arrastar material de volta para o manto, nos bor-
Por que as placas se movem na superfície terrestre ao invés dos onde as placas convergem (Figura 1.11b). Assim como no
de se fixarem completamente numa casca rígida? As forças que sistema do clima (que envolve uma ampla variedade de proces-
empurram e arrastam as placas ao redor da superfície originam- sos convectivos na atmosfera e nos oceanos), os cientistas estu-
se do motor térmico do manto sólido da Terra, o qual causa dam as placas tectônicas usando simulações computadorizadas
convecção. Em termos gerais, a convecção é um mecanismo de para representar o que pensam ser os mais importantes compo-
transferência de energia e de massa no qual o material aqueci- nentes e interações. Eles revisam os modelos cujas implicações
do ascende e o resfriado afunda. Tendemos a pensar a convec- estão em desacordo com os dados reais.
ção como um processo envolvendo fluidos e gases – como
acontece nas correntes de circulação de água fervendo num po-
te, na fumaça ascendendo de uma chaminé ou no ar aquecido
que sobe para o teto enquanto o frio desce para o chão –, mas A Terra ao longo do tempo
ela também pode ocorrer em sólidos que estão em temperaturas geológico
suficientemente altas, tornando-os frágeis e dúcteis. Observa-
mos que o fluxo dos sólidos dúcteis é comumente mais lento Até agora, discutimos dois tópicos importantes: como a Terra
que o dos fluidos, pois mesmo os sólidos “frágeis” (como a ce- se formou nos primórdios do sistema solar e como dois geossis-
ra ou o caramelo) são mais resistentes à deformação que os temas globais funcionam hoje. Mas o que ocorreu durante os
fluidos comuns (como a água ou o mercúrio). 4,5 bilhões de anos subseqüentes? Para responder essa questão,
A convecção pode ocorrer em qualquer material que flui, iniciaremos com uma abordagem geral do tempo geológico,
seja um fluido ou um sólido dúctil, quando é aquecido na base desde o nascimento do planeta até o presente. Os capítulos pos-
e resfriado no topo. A matéria quente da base sobe sob a força teriores apresentarão mais detalhes.
do empuxo, pois se tornou menos densa que a matéria que está
sobre ela no topo. Quando alcança a superfície, ela perde calor
e esfria, a partir do que se move lateralmente e se torna mais Uma visão geral do tempo geológico
densa. No momento em que adquire mais densidade que o ma- Compreender a imensidão do tempo geológico pode ser um de-
terial subjacente, ela afunda pela atração da gravidade, como safio para os leigos. O escritor John McPhee observou eloqüen-
40 Para Entender a Terra

4.570 milhões de anos atrás (Ma)


Formação do
4.560 Ma 4.470 Ma
Sol e disco de
Acrescimento dos Acrescimento da Terra,
acrescimento
planetesimais; início do formação do núcleo e
acrescimento da Terra diferenciação completadas 4.000 Ma 3.800 Ma
4.510 Ma 4.400 Ma Fim do Bombardeamento Primeira
Formação Grão mineral Pesado; rochas evidência
da Lua mais antigo continentais mais antigas de água

4.000

3.500 Ma
Primeira
evidência de vida

3.000
2.450-2.200 Ma 2.200 Ma
2.500 Ma Oxigenação da Desenvolvimento de
Completada a atmosfera células com núcleo
principal fase de
formação dos
2.200 2.000
continentes

565 Ma 700 Ma 1.500


Distribuição mundial de O gelo cobriu toda a Terra?
organismos multicelulares
700 1.000
545-530 Ma
“Big Bang”
evolutivo
500
Presente
439 Ma
Extinção
em massa
420 Ma
Animais 250 Ma 65 Ma 0,12 Ma
terrestres Extinção 125 Ma Extinção Primeiro aparecimento
mais antigos em massa Plantas em massa de nossa espécie,
florescentes Homo sapiens sapiens
324 Ma 208 Ma 5 Ma
Extinção Extinção mais antigas Primeiros
em massa em massa hominídeos

Figura 1.12 A fita do tempo geológico desde a formação do somente um décimo de 1% da idade total da Terra. O intervalo de
sistema solar até o presente, medida em bilhões de anos e existência humana (cerca de 120 mil anos11) é menor que a
marcada por alguns dos principais eventos e transições da espessura da linha no fim da fita! Alguns eventos aqui mostrados
história da Terra. Nossos hominídeos ancestrais tornaram-se são especulativos e muitos têm idade imprecisa.
evidentes no registro geológico há cerca de 5 milhões de anos,

temente que os geólogos olham para o “tempo profundo” do encontradas atualmente na superfície terrestre têm cerca de 4
início da história da Terra (medido em bilhões de anos) da mes- bilhões de anos. Rochas muito antigas, com idade de 3,8 bi-
ma maneira que um astrônomo olha para o “espaço profundo” lhões de anos, mostram evidências de erosão pela água, indi-
do universo (medido em bilhões de anos-luz). A Figura 1.12 cando a existência da hidrosfera. Há 2,5 bilhões de anos, reu-
apresenta o tempo geológico como uma fita marcada com al- niu-se suficiente crosta de baixa densidade na superfície terres-
guns dos principais eventos e transições. tre para formar grandes massas continentais. Os processos geo-
Já descrevemos as teorias atualmente aceitas de acresci- lógicos que subseqüentemente modificaram esses continentes
mento planetário e diferenciação durante os primeiros 500 mi- foram muito similares àqueles que hoje vemos atuando nas pla-
lhões de anos da história da Terra. Esse intervalo pode ser cha- cas tectônicas.
mado apropriadamente de idade geológica “das trevas”, porque A partir de cerca de 2,5 bilhões de anos atrás, o registro fós-
muito pouco do registro geológico foi capaz de sobreviver ao sil da vida primitiva da Terra tornou-se progressivamente mais
período do Bombardeamento Pesado. As rochas mais antigas rico, revelando um conjunto diverso de comportamentos adap-
CAPÍTULO 1 • Estruturando um Planeta 41

tativos dos pioneiros da vida no planeta. Alguns desses com- evoluiu para o “mundo do DNA”, mais complexo, o qual carac-
portamentos tiveram influência global, resultando em uma pro- terizou a biosfera pelo resto da história geológica.
gressiva oxigenação da atmosfera e do oceano durante os 2 bi- Nem todos os cientistas aprovam essas hipóteses. Poucos
lhões de anos seguintes. Ao decifrar esse registro geológico, deles acreditam que o impacto de cometas trouxe para a Terra
podemos reconstruir a história da evolução biológica. não apenas os gases da atmosfera e os oceanos, mas também a
própria vida. De acordo com essa visão, a vida na Terra iniciou
A evolução da vida quando cometas caíram – bolas de gelo e gases congelados – e
“colonizaram” o planeta. Um cientista propôs que o constante
Todos os organismos vivos e a matéria orgânica que produzem, bombardeamento da Terra nesses tempos iniciais pode muito
considerados como uma coisa só, constituem a biosfera (do gre- bem ter destruído a vida logo depois que ela fora sintetizada. Se
go bios, “vida”) da Terra. A evolução da vida envolveu intera- isso de fato ocorreu, a vida teria reiniciado diversas vezes.
ções complexas entre biosfera, atmosfera, hidrosfera e litosfera. Esses estágios primitivos da origem da vida, provavelmen-
O início da vida Há pouco mais de 4 bilhões de anos, a atmos- te, não afetaram de modo importante a atmosfera, a qual per-
fera e a hidrosfera primitivas da Terra já tinham se formado. maneceu composta dominantemente por nitrogênio e dióxido
Gases leves, como o hidrogênio, escaparam para o espaço, dei- de carbono.
xando para trás gases mais pesados, como vapor d’água, dióxi- O oxigênio torna-se o principal gás da atmosfera Os orga-
do de carbono e dióxido de enxofre. Essa atmosfera primitiva nismos primitivos devem ter fornecido quantidades relativa-
permitiu que quase todos os componentes da luz solar alcanças- mente pequenas de matéria orgânica produzida por processos
sem a superfície terrestre – incluindo os raios ultravioleta (UV), químicos inorgânicos ou reciclada de outros organismos. A
os quais são danosos para a vida. Na mesma época, havia dió- principal mudança ocorreu quando a vida evoluiu para fazer
xido de carbono e vapor d’água suficientes para aprisionar o ca- seu próprio alimento por meio da fotossíntese. Esse é o proces-
lor que se irradiava da superfície, mantendo a Terra quente. Es- so pelo qual as plantas e outros organismos verdes utilizam a
se fenômeno é conhecido como efeito estufa, pois guarda ana- clorofila (que os colore de verde) e a energia da luz solar para
logia com o aquecimento de uma estufa, onde o vidro deixa a produzir carboidratos a partir do dióxido de carbono e da água.
luz passar, enquanto pouco calor consegue sair. A evolução da fotossíntese no início da história geológica
De algum modo, a vida iniciou no efeito estufa da Terra, da Terra teve imensas conseqüências. Um produto derivado da
apesar da intensa radiação UV e da atmosfera hostil, pobre em fotossíntese é o oxigênio (O2). À medida que a matéria orgâ-
oxigênio. Evidências diretas, embora atualmente questionadas, nica da vida fotossintética era soterrada, o carbono era remo-
residem na preservação dos primeiros fósseis (traços de orga- vido da atmosfera e o oxigênio, acumulado. A partir das evi-
nismos de épocas geológicas passadas preservados na crosta). dências fósseis, parece que processos semelhantes ocorreram
Fósseis de bactérias primitivas foram encontrados em rochas há 2,5 bilhões de anos. Os geólogos encontraram rochas de
datadas de 3,5 bilhões de anos. Uma linha de evidências mais ferro bandeado muito antigas, com idade de 2,5 bilhões de
efetiva, embora indireta, é fornecida pela composição da maté- anos, que foram oxidadas (“enferrujadas”) durante sua forma-
ria orgânica preservada nas rochas dessa idade. Esses remanes- ção, indicando que havia mais oxigênio na atmosfera naquele
centes químicos dos organismos antigos estão rapidamente ul- tempo. O aumento para os atuais níveis de oxigênio atmosfé-
trapassando a evidência fóssil como sendo a principal base pa- rico é agora pensado como o resultado de uma série de etapas
ra o entendimento da evolução primitiva da vida na Terra. crescentes ocorridas num período de tempo de pelo menos 2
Há uma forte probabilidade, entretanto, de que a vida tenha bilhões de anos.
originado-se em época anterior, talvez há 4 bilhões de anos ou Quando as moléculas de oxigênio atmosférico difundiram-
mesmo antes. O primeiro degrau até a evolução da bactéria pri- se para a estratosfera (atmosfera superior), foram transforma-
mitiva é pensado como sendo a reunião de grandes moléculas de das pela radiação solar em ozônio (O3), criando uma camada
gases, como o metano e a amônia. A energia para essas transfor- estratosférica de ozônio. A camada de ozônio absorve certas
mações foi suprida pela forte radiação UV. Esse degrau tem sido porções de radiação UV antes que atinjam a superfície, onde
explorado em muitos experimentos químicos que mostram como poderiam prejudicar e causar mutações nas células de animais
esses diversos tijolos fundamentais da vida poderiam ter se for- e plantas. Sem esse escudo protetor, a vida não teria florescido
mado. De alguma maneira, essas moléculas orgânicas agrega- na terra.
ram-se e formaram sistemas capazes de crescer e metabolizar.
Esses sistemas não eram propriamente a vida, pois não se repro- O “Big Bang” biológico Comparada com a vida atual, a vida
duziam, de sorte que são chamados de protovida. Alguns cientis- no início da Terra era uma coisa primitiva, consistindo basica-
tas argumentam que a protovida foi concentrada em nascentes mente em pequenos organismos unicelulares que flutuavam
quentes alimentadas por vulcões no assoalho do oceano. próximo à superfície dos oceanos ou viviam no fundo dos ma-
O próximo degrau crítico foi o desenvolvimento da primei- res. Entre 1 e 2 bilhões de anos atrás, a vida tornou-se multice-
ra molécula verdadeiramente auto-replicável: o ácido ribonu- lular, quando algas e algas marinhas foram originadas. Então,
cléico (RNA). Essa molécula com uma única cadeia de nucleo- por razões não muito bem entendidas, os primeiros animais en-
tídeos – assim como seu primo com duas cadeias, o ácido deso- traram em cena há cerca de 600 milhões de anos, evoluindo nu-
xirribonucléico (DNA) – é envolvida intimamente no processo ma seqüência de ondas. A primeira onda produziu formas sim-
de auto-replicação. O “mundo do RNA” foi transitório e logo ples, semelhantes a águas-vivas e a samambaias com corpos le-
ves, bem como seres de corpo duro com formas lembrando ta-
42 Para Entender a Terra

Namacalathus Hallucigenia Trilobitas

Figura 1.13 Os fósseis que registram a explosão do Cambriano formaram carapaças frágeis de material orgânico similar às unhas.
incluem fósseis calcificados do Pré-Cambriano (esquerda), que [(Esquerda, topo) John Grotzinger; (embaixo) W. A. Watters. (Topo,
foram os primeiros organismos a utilizar calcita na produção da centro) Museu Nacional de História Natural/Smithsonian
concha. Eles foram extintos no limite Pré-Cambriano-Cambriano, Institution; (embaixo) Chase Studio/Photo Researchers. (Direita,
junto com outros organismos, e abriram caminho para outro topo) Cortesia do Musée cantonal de géologie, Lausanne.
estranho grupo de novos organismos, incluindo o Hallucigenia Fotografia de Stefan Ansermet; (embaixo) Chase Studio/Photo
(centro) e os mais familiares trilobitas (direita). Esses dois últimos Researchers.]

ças de vinho com buracos (ver Figura 1.13). Muito rapidamen- evolutiva, às vezes referida como “Big Bang” (“grande explo-
te foram extintas, embora poucas possam ter servido como pro- são”) da biologia, que animais cujo corpo continha partes duras
tótipos para uma segunda onda, a qual constituiu a maior diver- e ricas em cálcio deixaram pela primeira vez carcaças fósseis
sificação de novas formas de vida na história da Terra. no registro geológico.
Num breve período iniciado há 543 milhões de anos e, pro-
vavelmente, com uma duração menor que 10 milhões de anos, Extinções em massa por eventos extremos Embora a evolu-
oito ramos (filos) inteiramente novos do reino animal foram es- ção biológica seja comumente vista como um processo muito
tabelecidos, incluindo os ancestrais de quase todos os animais lento, as tendências evolutivas mais amplas foram freqüente-
que conhecemos hoje. Esses organismos formavam um zooló- mente pontuadas por breves períodos de mudança rápida. Um
gico de bestas estranhas, descritas pelo ensaísta científico Ste- primeiro exemplo notável é o da explosão evolutiva que acaba-
ven J. Gould como se fossem coisas de “filme de ficção cientí- mos de descrever. Igualmente espetaculares foram as extinções
fica”. Uma criatura particularmente bizarra foi chamada de em massa durante as quais muitos tipos de animais e plantas
Hallucigenia (ver Figura 1.13). Formas mais familiares in- desapareceram subitamente do registro geológico. Cinco des-
cluem vermes terrestres e seus correlativos marinhos, estrelas- sas imensas reviravoltas estão indicadas na Figura 1.12. A últi-
do-mar e bolachas-da-praia,12 moluscos, insetos, crustáceos e ma, já discutida neste capítulo, foi causada pelo impacto de um
os cordados que, finalmente, evoluíram para os animais supe- grande bólido há 65 milhões de anos. Esse evento extremo en-
riores (inclusive nós). Outros tipos de animais, agora extintos, cerrou a Idade dos Dinossauros. As comunidades bentônicas
tais como os trilobitas, com sua aparência primitiva (ver Figura dos recifes também foram extintas e reorganizadas. Formas pe-
1.13), também passaram a existir. Foi durante essa explosão lágicas grandes do mar azul profundo foram varridas, junta-
CAPÍTULO 1 • Estruturando um Planeta 43

mente com a maioria de outros produtores primários. Esses 4,5 bilhões de anos. Os planetas variam sua composição quími-
eventos fizeram com que algumas pessoas os chamassem de ca de acordo com sua distância do Sol e com o seu tamanho.
“Oceano do estranho amor”.13
Como a Terra se formou e evoluiu através do tempo? A Ter-
As causas das outras extinções ainda estão sendo debatidas.
ra provavelmente aumentou por acrescimento de matéria coli-
Além do impacto de bólidos, os cientistas têm proposto outros
dente. Logo depois de formada, ela foi impactada por um bóli-
tipos de eventos extremos, como variações climáticas rápidas
do gigantesco. A matéria ejetada para o espaço, tanto da Terra
ocasionadas por glaciações e enormes erupções de material vul-
como do bólido, agregou-se para formar a Lua. O impacto fun-
cânico. As evidências são freqüentemente ambíguas ou incon-
diu grande parte da Terra. A radioatividade também contribuiu
sistentes. Por exemplo, o maior evento de extinção de todos os
para o aquecimento e a fusão inicial. A matéria mais pesada, ri-
tempos ocorreu há cerca de 250 milhões de anos, varrendo 95%
ca em ferro, afundou para o centro da Terra e a matéria mais le-
de todas as espécies. Um impacto de um bólido tem sido pro-
ve ascendeu para formar as camadas mais externas, que consti-
posto por alguns investigadores, mas o registro geológico mos-
tuíram a crosta e os continentes. O escape de gases contribuiu
tra que as capas de gelo se expandiram nessa época e que houve
para a formação dos oceanos e da atmosfera primitiva. Dessa
mudança da composição química da água do mar, o que seria
forma, a Terra foi transformada em um planeta diferenciado,
consistente com uma grande crise climática. Simultaneamente,
uma enorme erupção vulcânica cobriu uma área na Sibéria com com distintas zonas químicas: um núcleo de ferro; um manto
quase a metade do tamanho dos Estados Unidos, com 2 ou 3 mi- predominantemente de magnésio, ferro, silício e oxigênio; e
lhões de quilômetros cúbicos de lava. Essa extinção em massa uma crosta rica em elementos leves como oxigênio, silício, alu-
foi batizada de “Assassino do Expresso Oriente”,14 pois existem mínio, cálcio, potássio e sódio e em elementos radioativos.
muitos suspeitos! Quais são os elementos básicos da tectônica de placas? A li-
Neste capítulo introdutório, tratamos de muitos tópicos que tosfera não é uma casca contínua; ela é fragmentada em cerca
serão desenvolvidos mais completamente nos próximos capítu- de 12 grandes “placas”. Governadas pela convecção do manto,
los. Começamos discutindo como os cientistas pensam e traba- as placas movem-se ao longo da superfície da Terra com taxas
lham e, então, descrevemos como eles têm desenredado a his- de alguns centímetros por ano. Cada placa atua como uma uni-
tória do nosso planeta e de seus sistemas interativos. Acompa- dade rígida distinta, arrastando-se sobre a astenosfera, a qual
nhamos essa história desde o início ardente da Terra e suas mu- também está em movimento. O material quente que ascende do
danças ao longo do tempo geológico e desde a origem da vida manto solidifica-se onde as placas da litosfera se separam. A
até o aparecimento dos seres humanos. Nem todos os tópicos partir disso, esfria e torna-se mais rígido à medida que se afas-
resumidos nesta introdução sobreviverão sem mudanças nas ta desse limite divergente. Por fim, a placa afunda na astenosfe-
próximas décadas ou, talvez, até a próxima edição deste livro. ra, arrastando material de volta para o manto, nos bordos onde
A Geologia está passando por um período de intensas pesqui- as placas convergem.
sas feitas pelos seus estudiosos, que preencherão os detalhes,
desafiando as hipóteses existentes e apresentando outras novas, Como fazemos para estudar a Terra como um sistema de
em seu empenho por novos conhecimentos. componentes interativos? Quando tentamos entender um sis-
tema complexo como a Terra, freqüentemente consideramos
que é mais simples fragmentá-lo em vários subsistemas (geos-
sistemas) para analisar como trabalham e interagem uns com os
outros. Dois dos principais sistemas globais são o climático, que
RESUMO envolve interações controladas pelo calor do Sol, principalmen-
te entre a atmosfera, a hidrosfera e a biosfera, e o sistema das
O que é Geologia? Geologia é a ciência que trata da Terra – placas tectônicas, que envolve interações predominantemente
sua história, composição e estrutura interna e suas feições su-
entre os componentes sólidos da Terra (litosfera, astenosfera e
perficiais.
todo o manto), controladas pelo calor interno do planeta.
Como os geólogos estudam a Terra? Os geólogos, como ou-
Quais são os principais eventos da história da Terra? A Ter-
tros cientistas, utilizam o método científico. Eles compartilham
ra formou-se como planeta há 4,5 bilhões de anos. Rochas com
os dados que obtiveram e verificam mutuamente seus trabalhos.
até 4 bilhões de anos foram preservadas na sua crosta. A evi-
Uma hipótese é uma tentativa de explicação de um conjunto de
dência mais antiga de vida foi encontrada em rochas com idade
dados. Se ela é confirmada repetidamente pelos experimentos
de cerca de 3,5 bilhões de anos. Há cerca de 2,5 bilhões de
de outros cientistas, então pode ser elevada à condição de teo-
anos, a quantidade de oxigênio na atmosfera aumentou devido
ria. Muitas teorias são abandonadas quando trabalhos experi-
à fotossíntese dos vegetais primitivos. Os animais apareceram
mentais subseqüentes mostram que eram falsas. A credibilida-
repentinamente há cerca de 600 milhões de anos, diversifican-
de cresce naquelas que resistem repetidamente aos testes e são
do-se rapidamente numa grande explosão evolutiva. A subse-
capazes de predizer os resultados de novos experimentos.
qüente evolução da vida foi marcada por uma série de extinções
Como se originou o nosso sistema solar? O Sol e sua família em massa, a última delas causada pelo impacto de um grande
de planetas provavelmente se formaram quando uma nuvem bólido há 65 milhões de anos, o qual aniquilou os dinossauros.
primordial de gás e poeira cósmica se condensou há cerca de Nossa espécie apareceu há cerca de 40 mil anos.15
44 Para Entender a Terra

Conceitos e termos-chave 3. Se um enorme impacto, como o que formou a Lua, ocorres-


se depois do estabelecimento da vida na Terra, quais seriam as conse-
qüências?
• astenosfera (p. 38) • manto (p. 32)
4. Se você fosse um astronauta prestes a aterrissar num planeta inex-
• biosfera (p. 40) • método científico (p. 26) plorado, como poderia decidir se tal planeta foi diferenciado e, além
• bólido (p. 27) • núcleo (p. 31) disso, se foi geologicamente ativo?

• crosta (p. 31) • princípio do uniformita- 5. Como diferem os termos tempo e clima? Expresse as relações entre
rismo (p. 27) clima e tempo como uma simples equação de palavras: O clima equi-
• diferenciação (p. 30) vale a x do tempo ocorrido durante y anos.
• fósseis (p. 41) • sistema do clima (p. 38)
6. Nem todos os planetas têm um geodínamo. Por quê? Se a Terra não
• geossistemas (p. 38) • sistema da tectônica de tivesse um campo magnético, o que poderia ser diferente?
placas (p. 39)
• hidrosfera (p. 38) 7. Sabendo como a Lua foi formada, que resultados você esperaria en-
• sistema Terra (p. 36) contrar se alguém lhe informasse que um grande meteorito colidiu
• hipótese da nebulosa (p. 28)
• tectônica de placas (p. 38) com um planeta duas vezes maior que ele? Qual poderia ser o dessa
• litosfera (p. 38) colisão na composição interna do planeta? Em que o resultado do im-
pacto seria diferente se o meteoro fosse significativamente menor que
o planeta?

Exercícios
Este ícone indica que há uma animação disponível no sítio ele-
Sugestões de leitura
trônico que pode ajudá-lo na resposta.
CONECTAR WEB Ahrens, T. J. 1994. The origin of the Earth. Physics Today 47:
1. Qual é a diferença entre experimento, hipótese, teoria e fato? 38-45.
Allegre, C. 1992. From Stone to Star. Cambridge, Mass.: Harvard
2. Que fatores tornaram a Terra um lugar particularmente agradável University Press.
para a vida desenvolver-se?
Alley, Richard B. 2001. The key to the past. Nature 409: 289.
3. Como e por que os planetas interiores diferem dos planetas gigan- Becker, L. 2002. Repeated blows. Scientific American,
tes exteriores? (March): 77-83.
Cole, G. H. A. 2001. Exoplanets. Astronomy and Geophysics (Feb-
4. O que causou a diferenciação da Terra e qual foi o resultado?
ruary): 1.13-1.17
5. Como a composição química da crosta da Terra difere daquela das Doyle, L. R., Deeg, H. J. and Brown, T. M. 2000. Searching for
zonas mais profundas? E daquela do núcleo? shadows of other Earths. Scientific American (July): 60-65.
Exploring Space. 1990. Scientific American, Special Issue.
6. Como a visão da Terra em termos de um sistema de componentes
Golombeck, M. P. 1998. The Mars Pathfinder mission. Scientific
interativos nos ajuda a entender nosso planeta? Dê um exemplo de in-
American (July): 40-49.
teração entre um ou mais geossistemas.
Hallam, A. 1973. A Revolution in the Earth Sciences: From Conti-
7. Descreva a idéia central da teoria da tectônica de placas. nental Drift to Plate Tectonics. Oxford: Clarendon Press.
Halliday, A. N., and Drake, M. J. 1999. Colliding theories (origin
of Earth and Moon). Science 283: 1861-1864.
Kerr, R. A. 2001. Rethinking water on Mars and the origin of life.
Questões para pensar Science 292: 39-40.
Lissauer, J. J. 1999. How common are habitable planets? Nature
Este ícone indica que há uma animação disponível no sítio ele- 402: C11-C13.
trônico que pode ajudá-lo na resposta. Merrits, D., de Wet, A. and Menking, K. 1998. Environmental Geo-
CONECTAR WEB
logy. New York: W. H. Freeman.
1. Como a descoberta de planetas orbitando outras estrelas pode con- NASA. 2002. Living on a Restless Planet. Pasadena, CA: Jet Pro-
tribuir para o debate sobre a possibilidade de a vida existir em qual- pulsion Laboratory. Ver também http://solidearth.jpl.nasa.gov.
quer parte do cosmos? Quais as implicações filosóficas e científicas National Academy of Sciences. 1999. Science and Creationism.
que a possível existência de vida em planetas de outras estrelas pode Washington, D.C.: National Academy Press.
trazer? Além das condições relacionadas na página 30, que outras po- National Academy of Sciences. 1998. Teaching About Evolution
deriam ser adicionadas para haver vida em outro planeta? (Por exem- and the Nature of Science. Washington, D.C.: National Academy
plo: Um campo magnético? Um planeta com rotação?) Press.
2. Quais são as vantagens e desvantagens para a vida num planeta di- National Research Council. 1993. Solid-Earth Sciences and Soci-
ferenciado? E num planeta geologicamente ativo? ety. Washington, D.C.: National Academy Press
CAPÍTULO 1 • Estruturando um Planeta 45

Roberts, F. 2001. The origin of water on Earth. Science 293:


1056-1058. Notas de tradução
Scientific American. 2000. The Frontiers of Space. New York:
1A área do Texas (692.408 km2) equivale, aproximadamente, à soma
Scientific American Press.
Smith, D. E. et al. 1999. The global topography of Mars and impli- das áreas de Minas Gerais (587.172 km2) e de quase a metade do es-
cations for surface evolution. Science 284: 1495-1503. tado de São Paulo, cuja área total é de 247.892 km2.
2 TNT é a sigla de trinitrotolueno, C H 0 N .
Stanley, S. M. 1999. Earth System History. New York: W.H. 7 5 6 3
3 A inclinação do eixo da Terra varia de 21,5o a 24,5o a cada 21 mil
Freeman.
Westbroek, P. 1991. Life as a Geologic Force. New York: W. W. anos, sendo conhecida como variação da obliqüidade. A inclinação
Norton. atual é de 23,5o.
4 Nesta coluna, o exemplo tanto pode se referir a uma ocorrência his-
Wetherill, G. W. 1990. Formation of the Earth. Annual Review of
Earth Planetary Sciences 8: 205-256. tórica como a corpos celestes atuais que têm o tamanho da respecti-
va categoria.
Woolfson, M. 2000. The origin and evolution of the solar system. 5 O número 4 indica a quantidade conhecida de asteróides do mesmo
Astronomy and Geophysics 41: 1.2-1.18.
tamanho de Vesta, cujo raio é de 269 km.
6 K/T = limite entre o Cretáceo e o Terciário.
7 No original: Some say the world will end in fire,/ Some say in ice./

Sugestões de leitura em português From what I’ve tasted of desire/ I hold with those who favor fire./
But if I had to perish twice,/ I think I know enough of hate/ To say
that for destruction ice/ Is also great/ And would suffice.
Allègre, C. 1987. Da pedra à estrela. Lisboa: Dom Quixote. 8 Esse limite é conhecido como descontinuidade de Gutenberg.
Allègre, C. 1992. Introdução a uma história natural: Do big 9 Embora o esquema seja descritivo, devido a limitações de espaço, há
bang ao desaparecimento do homem. Lisboa: Teorema.
claras relações sistêmicas entre a biosfera, a atmosfera, a hidrosfera
Bowker, G. 1996. As origens do uniformitarismo de Lyell: pa-
e a litosfera. Os organismos vivos resultam da dinâmica das interfa-
ra uma nova Geologia. In: Serres, M. (dir.). 1996. Elementos para
ces entre esses componentes, mais do que “ocuparem” parte dos
uma história das Ciências: III. Da nova geologia ao computador.
mesmos. A evolução da biosfera procura adaptar-se a essa dinâmica,
Lisboa: Terramar. p. 7-27. ao mesmo tempo em que também a modifica, segundo processos de
Chalmers, A. 1995. O que é a ciência, afinal? São Paulo: Bra- retroalimentação, conforme será discutido nos Capítulos 18 e 23.
siliense. 10 O conceito de geossistema foi criado por Sotchava, na década de
Cordani, U. G. 2000. O planeta Terra e suas origens. In: Tei- 1960, e posteriormente sistematizado por Bertrand, cujas obras fo-
xeira, W., Toledo, M. C. M. de, Fairchild, T. R. e Taioli, F. (orgs.) ram traduzidas e introduzidas no meio científico brasileiro na déca-
2000. Decifrando a Terra. São Paulo: Oficina de Textos. p. 1-26. da seguinte. Ver Sotchava, V. B. 1977. O estudo de geossistemas.
Gleiser, M. 1997. A dança do universo: dos mitos de criação São Paulo: Instituto de Geografia da USP; Bertrand, G. 1972. Pai-
ao big bang. São Paulo: Companhia das Letras. sagem e Geografia Física global: esboço metodológico. São Paulo:
Gohau, G. 1987. História da Geologia. Lisboa: Europa-América. Instituto de Geografia da USP; e, também, Monteiro, C. A. F. 2000.
Gould, S. J. 1990. Vida Maravilhosa: O acaso na evolução e a Geossistemas: a história de uma procura. São Paulo: Contex-
natureza da história. São Paulo: Companhia das Letras. to/IGEAUSP.
11 Os autores referem-se apenas ao Homo sapiens sapiens moderno. O
Gould, S. J. 1991. Seta do tempo, ciclo do tempo. São Paulo:
Companhia das Letras. Homo habilis, a primeira espécie humana, surgiu há cerca de 2,8
Massambani, O. e Mantovani, M. S. (orgs.) 1997. Marte, novas milhões de anos na África.
12 Ouriços-do-mar irregulares (Euequinóides), com disco achatado, tam-
descobertas. São Paulo: Instituto Astronômico e Geofísico da USP.
Mourão, R. R. de F. 1997. Da Terra às galáxias: uma introdu- bém conhecidos como corrupio, corrupio-do-mar e ouriço-escudo.
13 Em inglês, Strangelove Sea, refere-se ao Dr. Strangelove, persona-
ção à Astrofísica. Petrópolis, RJ: Vozes.
Rossi, P. 1992. Os sinais do tempo: história da Terra e história gem de uma comédia de Stanley Kubrick, que, ante a iminência de
das nações de Hooke a Vico. São Paulo: Companhia das Letras. uma guerra atômica entre a ex-União Soviética e os Estados Unidos,
propõe um plano para salvar parte da raça humana numa mina pro-
Sagan, C. Cosmos. Rio de Janeiro: Fancisco Alves.
funda.
Weiner, J. 1986. Planeta Terra. São Paulo: Martins Fontes. 14 Os autores referem-se ao filme Assassinato no Expresso Oriente.
15 Os autores referem-se ao Homo sapiens sapiens moderno. A espé-

cie humana surgiu há 2,8 Ma.