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Os "ianomâmis" e os "misquitos"

Tomás Borge, moreno, baixo, forte, atarracado, que conheci na Nicarágua, em julho de
79, como ministro do Interior, logo depois que os sandinistas puseram o ditador
Somoza para correr, era o mais velho dos líderes da guerrilha e, na hora da vitória, o
único sobrevivente dos 10 que fundaram a Frente Sandinista e subiram as montanhas
em 1961.

Anos depois, na redação dos "Cadernos do Terceiro Mundo", aqui no Rio, o universal
deputado do Maranhão Neiva Moreira contou ao jornalista José Augusto Ribeiro, outro
batalhador incansável, que, numa reunião da Opaal, a organização dos partidos da
América Latina, em São Domingos, capital da República Dominicana, onde Neiva
representava o PDT, o Tomás Borge, que lá estava em nome da Frente Sandinista, lhe
perguntou:

- Que grupo é esse, na fronteira norte do Brasil com a Venezuela, uns "iano e mais
qualquer coisa", de que temos ouvido falar lá em Manágua?
- São os "ianomâmis", uns índios que apareceram agora por lá.

Tomás Borge

O experiente Tomás Borge puxou uma cadeira, falou com Neiva:

- Olha, vocês no Brasil tomem cuidado. Na Nicarágua, na luta contra Somoza, os índios
"misquitos", que viviam numa das nossas fronteiras, creio que com Honduras, não
apoiaram os sandinistas. Nós decidimos não hostilizá-los e até, no poder, pensamos
em nos aproximarmos deles.
- E como é que as coisas se desenrolaram?
- Logo começaram a aparecer, na mídia hostil à Nicarágua sandinista, "informações"
sobre o "genocídio dos misquitos" pelo novo governo ou com a nossa cumplicidade.

"Informações", é claro, acompanhadas de apelos em favor da criação e


reconhecimento de uma nação independente dos "misquitos", destacada do território
da Nicarágua e de território correspondente do outro lado da fronteira.

- Já apareceram coisas parecidas em certa imprensa internacional.


- Pois é. Se os "ianomâmis" estão situados dos dois lados da fronteira brasileira,
preparem-se para a campanha internacional em favor da criação de um país
independente para eles. Independente do Brasil, não dos grupos econômicos
internacionais, que querem avançar sobre o riquíssimo subsolo dessa região, grupos
aos quais algumas ou muitas ONGs servem de biombo.

Neiva Moreira

E Neiva Moreira disse a Zé Augusto Ribeiro que estava preocupado:

- Quando penso nisso, lembro-me das alegações de "imperialismo brasileiro" na


questão do Acre, há pouco mais de 100 anos: se não ficasse com o Brasil, o Acre
também não poderia ficar com a Bolívia, mas com uma empresa tentacular, o Bolivian
Syndicate, controlada por interesses norte-americanos e europeus. Agora, deveríamos
perguntar se aos "ianomâmis" não se aplica também a advertência do padre Antonio
Vieira, ainda no Brasil Colônia:

"O que querem não é nosso bem, mas nossos bens".

Eike Batista

Quando o índio Evo Morales assumiu a presidência da Bolívia, uma das primeiras
medidas que tomou, para cumprir as promessas de campanha, foi escorraçar de lá o
"empresário" Eike Batista, fechando uma imensa "carvoaria", a MMX, que Eike
chamava de "siderúrgica", instalada em frente a Corumbá, à beira do rio Paraguai, do
lado boliviano, através de corrupção, para ser alimentada com a exploração ilegal de
lenha e carvão.

Eike chiou, alugou José Dirceu, conquistou a Miriam Leitão, mas nada conseguiu. Logo
Eike descobriu que era mais fácil corromper do lado brasileiro e "arranjou" uma
autorização para transferir sua "carvoaria-siderurgia" para o lado de cá do rio, em um
distrito de Corumbá, usando o mesmo sistema: a exploração ilegal de lenha e carvão
do nosso Pantanal.

Estive lá, denunciei aqui, e a população de Corumbá reagiu forte.

Pantanal

Esta semana, o Ibama e a Polícia Federal fizeram a "Operação Ouro Negro", para
"combater a exploração ilegal de lenha e carvão no Pantanal (Corumbá, Miranda e
Aquidauana), em propriedades rurais, carvoarias, escritórios de compra e venda de
carvão e indústrias siderúrgicas".

"Todas as seis carvoarias fiscalizadas, praticando desmatamentos acima do limite


autorizado, são fornecedoras, sem licença ambiental, para quatro siderúrgicas do
Pantanal: Simasul, duas Vetorial e a MMX" (de Eike).

E mais: "Dos 10 milhões de metros cúbicos de carvão transportados no Brasil em


2007, 44% tiveram origem no Mato Grosso do Sul" ("Folha").