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DIREITO AGRÁRIO – 2017.

DISCENTE: Felipe Garcia

E-mail: Tatianadiasgomes@hotmail.com

Facebook: Tatiana Emilia Dias Gomes (Facebook)

Grupo do Facebook: Direito Agrário UFBA 2017.1

PROVA 1: 18/07/2017

PROVA 2: 05/09/2017

Conteúdo programático:

1) Questão agrária e socioambiental contemporânea

2) Introdução ao direito agrário. Interseções com outros campos do conhecimento.


Especialização da jurisdição para o direito agrário, dissociando do direito civil.

3) Analise historiográfica e sócio jurídica da apropriação da terra no Brasil.

4) Relação entre posse civil e posse agrária.

5) A posse tradicional (terras de uso comum, tradicionalmente ocupadas). Posse


tradicional de quilombos. Territórios tradicionais indígenas. Fundos e Fechos de Pasto
(Legislação baiana).

6) Direito à propriedade a terra no Brasil como ele é reinterpretado a partir da função


socioambiental. Capítulo da CF sobre politica agrícola e fundiária (limites à aquisição
de terras no BR por estrangeiros e usucapião especial rural)

7) Terras publicas determinadas e indeterminadas (da União, do Estado da Bahia).


Terras particulares. Terras devolutas.

8) Registro imobiliário da propriedade. Formas de fraude do registo imobiliário


(grilagem). Procedimentos jurídicos para enfrentar a grilagem.

9) Conceito de imóvel rural. Classificação no Estatuo da Terra e na CF.

10) Politica Nacional de Reforma Agrária. Desapropriação por interesse social.


11) Contratos agrários

14) Agronegócios. Agrotóxicos. OGN (organismos geneticamente modificados).

Até ponto 10 (14 se der).

AVALIAÇÕES

Só cai o cobrado em sala, a partir das discussões dos textos.

2 avaliações escritas.

PONTO EXTRA - Museu antropológico e etnológico (MAE) – antiga Faculdade de


Medicina, no pelourinho. Segunda a sexta (Os primeiros brasileiros) A visita a esse
museu, junto com relatório de 2 laudas sobre a visita (digitado ou manuscrito) gera 1
ponto extra na média.

Filmes que poderão ser objeto de visita ao cinema, com relatório valendo ponto.

Quilombos da Bahia- youtube

Paixão e Guerra - youtube

Terra roubada – só a prof. tem

CHAMADAS – todas as aulas. Se precisar faltar conversa com ela.

AULA 01 – 09/05/2017

1- A QUESTÃO AGRÁRIA E SOCIOAMBIENTAL NO BRASIL

O livro “A questão agrária” de Karl Kautsky não nos serve, pois se trata da Russia do
inicio do século XX.

Existe também o livro de Caio Prado Jr., “A questão agrária no Brasil”. Também não
nos serve, pois foi escrito nos anos 30, encontrando-se um pouco obsoleto.

Alguns historiadores clássicos pregam que, para entender a sociedade brasileira, é


necessário entender o agrarismo na história do brasil. Desde o começo da historia do
Brasil há conflitos entre o Estado e os grandes proprietários de terra (fidalgos, senhores
de engenhos cafeicultores, etc.).

Sérgio Buarque de Holanda afirma que, desde início da concepção de Estado brasileiro,
ele tem grande dificuldade de se afirmar, por não conseguir conter esses grandes
proprietários de terra.

Já Nestor Duarte acredita que haja uma aliança entre Estado e grandes proprietários. A
propriedade constitui o poder. Nessa perspectiva, percebe-se uma maior articulação com
uma determinada leitura do pensamento social, que é o pensamento marxista /
marxiano.

Aqui queremos tratar das relações sociais construídas a partir da apropriação da terra na
Brasil. Abordaremos e interpretaremos essas relações sob um ponto de vista
sociológico, jurídico, historiográfico e econômico.

Quando se fala de terra aqui, não é apenas solo, mas também de outros bens
ambientais, assim como agua, subsolos, jazidas, bens vegetais, animais, etc.

Nos últimos 15 anos, no campo da macro política, em especial nos governos federais,
tivemos a retomada de um modelo de desenvolvimento econômico no que se
convencionou chamar de neodesenvolvimentismo, também chamado de
reprimarização da economia.

Com esses termos se quer tratar da ideia de se produzir apenas bens primários. São
aqueles bens que não passaram por processamento industrial. Geralmente são os que
provem da agropecuária. Começa com a colonização portuguesa. É o modelo
monoagraexportador, desde a colonização adotado no Brasil. Isso é: você cultiva as
vezes um único produto (monocultura - ex. Café, cacau, soja, os minérios também) em
vastas extensões territoriais voltados exclusivamente para exportação.

Nossa economia desde sempre foi exportar gêneros com baixo valor agregado em razão
da não industrialização. Estamos nessa posição no capitalismo mundial desde 1532.

Essa aposta na primarização, então, não é novidade. Nos últimos 15 anos, contudo,
temos uma revalorização da primarização. Decorre de fatos externos e internos também.
Um dos fatores externos é o fortalecimento de um novo mercado, que é o mercado
chinês.
Exemplo: Caetité, município baiano, possui jazidas minerais (ferro, cromo). Esse
minério de ferro é considerado de baixo teor (25%). Com a ascensão do mercado chinês,
tornou atrativo explorar mercado de ferro, mesmo esse de Caetité. Ocorreu então um
boom das commodities (produtos primários: ferro, grãos, carne bovina, suína, soja,
cana, eucalipto, etc) em razão desse mercado chinês, a partir do início dos anos 2000.
Valorizaram-se então esses minérios. Como se torna mais lucrativo exportar do que
gerar alimentos para consumo interno, temos um impacto ambiental muito forte a partir
desse momento. Daí nasceu a aposta nesse modelo de reprimarização.

AULA 02 – 11/05/2017

Ocorre atualmente o processo de expansão das fronteiras agrícolas, que é essa


necessidade do sistema monoagroexportador de aumentar sua área de exploração
territorial. Mesmo um bioma como o Amazônico vem sendo constantemente acessado
por essas fronteiras.

Os preços associados ao produto agrícolas, na atual divisão mundial do trabalho, são


mais baixos que os produtos tecnológicos, para eu esse produtor mantenha as taxas de
rentabilidade, ele precisa produzir muito. Efeito disso é que ele precisa acessar mais
áreas para aumentar essa produção, mesmo com a aplicação de novas tecnologias. É o
efeito esteira, pois por mais que ele faça, ele estará no mesmo lugar, já que o valor
agregado dos produtos dele são baixos.

O valor dos commodities estão em descenso a mais de uma década.

Primeiro foi devastada a Mata atlântica. Depois, nos anos 60-70, o Cerrado, um bioma
que antes era fraco em termos de potencialidade agrícola, passou a ser alvo de polticas
estatais para se tornar um novo bioma agrícola. Passaram a ser alvo de adaptação
tecnológica, e agora é bioma agrícola. O terreno do cerrado é arenoso e raso porque por
baixo deles passam os maiores aquíferos da américa latina, de modo que as chuvas
alimentem os aquíferos.

Com a correção do solo, que não são originalmente vocacionadas para essa agricultura
predatória, dependente de química, efeitos são gerados, como o exaurimento do bioma.
Há estudiosos que entendem que o bioma cerrado como a gente conhecia já esta extinto.
Agora há apenas pequenas faixas de cerrado.

Existem os custos ambientais, mas também os custos sociais. Essas regiões não são
desabitadas. Vários grupos sociais ocupam esses territórios, como os indígenas,
remanescentes de quilombos, criadores de animas em regime aberto/comunitário, etc.
Esses grupos sofrem violação de seus direitos com essas expansão das fronteiras
agrícolas, gerando conflitos.

Assim, é importante construí uma inter-relação entre todos esses elementos, e como
tudo isso impactará inclusive na produção legislativa. A ultima eleição foi a que elegeu
mais parlamentares da fonte agropecuária brasileira, também chamada de bancada
ruralista. Essa bancada, de posse da maioria no parlamento, imprime sua agenda
legislativa, inclusive se articulando com outros bancadas para emplacar suas pautas.

A legislação florestal antes do Código florestal impunha algumas barreiras para esse
desenvolvimento desenfreada do setor agropecuário. O Código foi um primeiro passo
para retirar essas barreiras. Inclusive, no bojo da reforma trabalhista, existe uma reforça
trabalhista rural.

Em 1976, tínhamos 4.538 mil hectares de área plantada de feijão. De soja, 6.948
hectares. Em 2016, no Brasil, temos de feijão plantados 2.837 hectares, De soja, 33.251
hectares. Isso porque não exportamos feijão, mas só soja. Na verdade, estamos até
importando feijão da Argentina.

OPÇÕES MACROECONOMICOS: Nesses últimos anos vamos optando pela


revalorização dos setores primários da economia. É a reprimarização da economia.
Priorizando certas bases, setores, que não produzem crescimento econômico duradouro.
Esses setores são muito hábeis em demonstrar sua suposta eficiência, mas não discutem
os custos a longo prazo da perda da biodiversidade, a intensa utilização do solo e da
água, o custo sociocultural e o impacto nas relações de trabalho decorrente desse
processo.

Temos experimentado nos últimos anos também a desindustrialização em decorrência


dessa supremacia do setor agroexportador.
Alguns estudiosos chamam esse processo de doença holandesa. É quando o Governo
opta por uma agenda de desenvolvimento privilegiando determinado setor. No nosso
caso, o setor mineral e o monoagroexportador. Daí se gera a desindustrialização,
impactando em outros setores econômicos.

Temos, conformo o texto 1, atualmente a hegemonia do capital financeiro. Temos ai


uma corrida por determinados ativos financeiros que sejam mais palpáveis. O principal
ativo financeiro no caso brasileiro, desde os anos 50, é a terra, urbana ou rural. Com
esse bem, posso me dirigir a uma instituição bancária, dar esse bem em garantia, e com
isso obter crédito. É a chamada hipoteca. Isso garante a terra a característica de ser o
principal ativo financeiro. É o coração do modo de produção capitalista.

Temos inclusive o processo estrangeirização da propriedade de terras no Brasil, já que


esse é o ativo financeiro mais seguro do brasil, servindo para receber esse crédito nos
bancos. Exemplo: Plano Safra, que só libera crédito para quem dá bem em garantia.

Com tudo isso, ocorre o processo de desterritorialização. Isto é, quem estava lá antes
ocupando a terra será expulso, obrigado a migrar.

AULA 03 – 18/05/2017

2. INTRODUÇÃO AO DIREITO AGRÁRIO: RELAÇÕES E INTERSECÇÕES

Tem a ver com trazer alguns elementos que apontem como o direito agrário se
intersecciona com outros campos do pensamento social, e como ele acaba sendo
elaborado no caso de nosso ordenamento jurídico.

Do ponto de vista de uma moldura jurídica, o direito agrário aparece positivado na


nossa legislação numa emenda constitucional à CF de 1946 (EC 10/1964). Mas a ideia
de direito agrário, as noções que inspiram o direito agrário, eles aparecem muito antes,
desde a legislação medieval portuguesa que é adotada no Brasil.

Ate a CF 46 havia dois tipos de desapropriação positivadas, através do Decreto Lei


3365/41: a desapropriação por utilidade pública e a desapropriação por
necessidade pública. Isso ocorreu na gestão Vargas, que era desenvolvimentista, pois
as apostas macroeconômicas estavam voltadas para dinamizar iniciativa privada a partir
de investimentos públicos. Investia-se em infraestrutura básica: portos, ferrovias,
aeroportos, hidrelétricas, etc. Então, esse decreto visava garantir poder ao Estado para
intervir na propriedade privada para poder instalar esses equipamentos públicos e
manter o desenvolvimentismo.

Utilidade pública é o que é de interesse do estado. Se há vontade de construir


hidrelétrica, ele desapropria para garantir a instalação. Por necessidade pública, o
estado intervém em caso de desastre, epidemia, situações de urgência como um todo.

A CF 1946 trouxe uma novidade, que foi a introdução de um terceiro tipo de


desapropriação. Trata-se da desapropriação por interesse social. Essa modalidade
aparece muito por força da ação do PCB (partido Comunista Brasileiro). Busca fazer
com que a propriedade se conecte com o bem-estar social, previsão já existente na CF
de 1934.

Apesar da positivação, até 64 não há nenhuma medida efetiva do ponto de vista estatal
no sentido de dar concretude a essa ideia de desapropriação por interesse social, salvo
uma lei na gestão de João Goulart em 63 em que ele prevê alguns elementos deste tipo
de desapropriação. Essa lei inclusive foi decisiva para o golpe de 64.

A EC 10/64 trata do conteúdo dessa desapropriação por interesse social, já após o golpe,
trazendo expressamente: “É competência exclusiva da União legislar sobre direito
agrário”. Isso ocorreu pois em 1959, o Governo de Pernambuco promoveu a primeira
desapropriação por interesse social do brasil.

Isso ocorreu num Engenho de Açúcar de Vitoria de Santatão, interior pernambucano. Os


empregados lá eram tratados como arrendatários, e não como empregados de fato. Lá os
empregados tinham que oferecer o “cambão”, que era um dia gratuito de trabalho
prestado para o empregados, que às vezes virava semanas, tornando os empregados
quase escravos. Esse empregadores passaram a se mobilizar contra essa conjectura,
pressionam o Governo Pernambucano, e desapropriam a Fazenda Galiléia, onde isso
ocorria. Esses trabalhadores vão ser chamados de Ligas Camponesas. Em 1960,
existiam 22 estados, e em 18 havia ligas camponesas. Essa mobilização gera pânico no
país, por medo de ocorrência de uma revolução comunista nos moldes cubanos. Com
isso, logo após o golpe a União edita essa EC.

Até hoje, na CF 88, é competência exclusiva da União legislar sobre direito agrário.
Cabe ressaltar que os Estados também legislam sobre direito agrário. A CF se refere à
direito agrário para se limitar a competência legislativa em relação à desapropriação por
interesse social. O uso e ocupação de terras públicas estaduais, por exemplo, é legislada
em âmbito estadual, e por vezes ainda em âmbito municipal, quando se trata de terras
municipais.

A EC 45/2004 contribui para esse processo de autonomização do direito agrário. No art.


126 da CF/88 pós-emenda 45 aparece: (transcrever artigo).

Esse artigo trata da especialização da matéria direito agrário, inclusive no âmbito


jurisdicional. Nos tribunais de justiça criam-se varas especializadas para dirimir
conflitos fundiários.

A Lei de Organização Judiciária baiana, Lei nº 10.845/2007, em seus artigos 90 e 91,


ampliou o escopo da especialização trazido pela CF/88, trazendo também os conflitos
ambientais para varas especializadas.

Em 2014, o TJ-BA assumiu, via Instrução Normativa (nº 2/2014) a função que o artigo
126 lhe atribuiu ainda em 2004, criando finalmente as varas especializadas. O TJ define
que serão criadas 6 (seis) varas, que terão competência territorial semelhante à da
Justiça Federal (em regiões e seções judiciárias). Até agora, só 1 funciona, que é a vara
de Barreiras.

3- ANÁLISE HISTORIOGRÁFICA E SOCIOJURÍDICA DA APROPRIAÇÃO


PRIVADA DA TERRA

Textos-base desse ponto: 1- Pequena história territorial do brasil (Ruy Cirne – ler
principalmente sobre as sesmarias na legislação portuguesa e brasileira, 2 primeiros
capítulos); 2- Terras devolutas e latifúndio (Ligia Osório- principalmente debates
parlamentares para entender lei de terras); 3- O Cativeiro da terra (José de Souza
Martins – ler principalmente sobre a lei de terras em 1950); 4- Das sesmarias à
propriedade moderna (Laura Beck – principalmente virada do século XX, inicio da
república).
O índice de GINI, que mede a concentração fundiária no Brasil, era em 1920, em uma
escala de 0 a 1, 0,8. Em 2006, data do ultimo levantamento, era também de 0,8. Nota-se
manutenção da alta concentração fundiária no Brasil ao longo das décadas/séculos.

3.1. A SESMARIA NA LEGISLAÇÃO PORTUGUESA

É esse instituo jurídico que será importado para o Brasil pela empresa colonial. Antes
desse instituto aparecer na legislação, ele teve uma origem fora do âmbito estatal.
Surgiu pelos costumes. Os próprios camponeses da Idade Média pensaram nesse
costume, com vista a permitir acesso e distribuição da terra. Atrela-se ao conceito de
“communalia”.

Segundo esse ultimo conceito, as terras de lavrar serão partilhadas entre a comuna. Essa
terra será necessariamente compartilhada com todos os membros daquela coletividade.
Cada um dos membros do grupo terá acesso a uma fração da terra, chamada de sexmo.
Sobre esse sexmo incide a obrigação de lavrar.

As terras comunais, que são essas que seguem a lógica da communalia, continuam
existindo em alguns locais, como nas terras tradicionalmente ocupadas por quilombolas,
índios, entre outras comunidades tradicionais. Também subsiste na Europa. O CC/16
tratava das terras comunais, que era o instituto do compáscuo, mas o de 2002 se calou.
Há tratamento em Convenções, leis extravagantes e na própria CF.

Em 1348 em Portugal, ocorre a Grande Peste. Com a queda demográfica, ocorre queda
também no abastecimento, já que eram os atingidos pela praga que produziam os
gêneros alimentícios.

Em 1375, o Rei de Portugal, Dom Fernando I, edita o que ficou conhecido como Lei de
Sesmarias. Isso ocorreu, para muitos, por conta dos efeitos da Grande Peste. Dom
Fernando teria incorporado esse costume numa norma jurídica para que todos aqueles
que se assenhorassem de determinado terreno/imóvel teria obrigação de lavrar.

Para outros, ocorre pela preocupação política de definir os rumos da apropriação


territorial dentro do território português, que já vinha ocorrendo com a derrocada do
sistema feudal e o crescimento do sistema monárquico centralizador.

A Coroa Portuguesa, ao definir essa positivação do uso da terra, também define valor
pelo uso da terra, que seria então de 1/10 (dízimo). A razão social da Coroa Portuguesa
era “mestrado de cristo”, justamente para trazer uma fundamentação divina à atuação
do monarca. Assim, justificava-se (religiosamente) o pagamento do dízimo sobre o uso
da terra.

Com o pagamento do dízimo, a Coroa garante ainda o orçamento que a colocará na


dianteira na próxima fase do modo de produção pós-feudal, capitalista - mercantilista.
Assim, o Portugal sai na dianteira na fase das Grandes Navegações em busca de novos
territórios e no comércio marítimo.

Na Lei de Sesmarias, Dom Fernando traz um pouco da explicação do porquê da


instituição desse modelo, corroborando a primeira explicação, que trata da crise de
abastecimento no pós-grande peste. Mesmo assim, entende-se que as explicações se
complementam.

Consequência da obrigação de lavrar é que, aquele que não lavrar, perderá a concessão
da sesmaria. Concessão, pois não havia propriedade privada como entendemos hoje. A
propriedade em si era do “mestrado de cristo”, e não de ocupante. Essa era apenas
cessionário do imóvel.

Colonato adscritício: é o núcleo do sentido atribuído à sesmaria na legislação


portuguesa da época. A Coroa portuguesa tinha a obrigação de dar as terras em lavrar. A
contraprestação era que o sesmeiro tinha a obrigação de lavrar. Havia ainda uma
discussão se as terras da Igreja Católica deveriam ser tributarias, gerando discussão
entre Coroa e Igreja.

Além disso, a lei de sesmarias trouxe os chamados baldios e maninhos. São os terrenos
tidos como desocupados, sobre os quais não incidiam ocupação. Ao serem ocupados,
geravam a obrigação de lavrar.

Uma segunda transformação no regime jurídico de sesmarias em Portugal se deu


quando da recepção de alguns institutos do Direito Romano (Código Justiniano) no
ordenamento jurídico português.

No Código Justiniano havia o instituto do usucapio pro agro deserto. Segundo este, se o
titular do imóvel não executasse as obrigações decorrentes da titularidade daquele bem
em 2 anos, ele perderia o bem. É o que se chama hoje de prescrição aquisitiva.
Em Portugal, se deu assim: se no prazo de 6 meses aquele que recebeu a concessão da
sesmaria (ou já tinha ocupado antes, independentemente da concessão) não executa a
sua obrigação de lavrar, ele perderá a concessão. Será então obrigado a dar a terra para
que outro execute o cultivo. Além disso, se ele não ocupava o terreno nesse prazo de 6
meses, e outro estava promovendo a obrigação de lavrar, teria esse outro a partir disso o
direito de possuir a sesmaria. Essa seria a origem da usucapião especial rural, hoje
existente no ordenamento jurídico brasileiro. Até mesmo a Igreja estava sujeita a esse
regime.

Havia um fiscal da Coroa, chamado de “vedor”, para verificar se as terras de fato eram
cultivadas.

Aula 04 – 25/05/2017

3.2. A SESMARIA NO BRASIL E O MODELO MONOAGROEXPORTADOR

No Brasil as sesmarias perdem a característica da forma de exploração da terra para


consumo interno. Além disso, o sistema colonizador ainda enfrentará outro desafio, o da
empresa colonial. No contexto brasileiro, a sesmaria não vai configurar exploração de
terra para o abastecimento interno porque o governo português já se lançou para as
buscas marítimas, com o processo de construção de uma nova perspectiva de orientação
do mundo e das relações econômicas a partir de uma proposta de capitalismo
mercantil, no qual são formados mercados não só num contexto europeu, mas que
também vai sendo expandido entre os oceanos. As sesmarias no Brasil se conectam com
a dinâmica econômica das relações no mundo e como o Estado português vai se colocar
neste contexto do capitalismo mercantil. O sentido dado a propriedade das terras na
colônia vai ser conforme a empresa colonial, sistema em que o estado português se
projeta para o mundo como um vendedor e comprador de mercadorias. O estatuto que
vai ser dado às terras brasileiras vai estar conectada com a dinâmica em que estava
inserido o Estado português.

Assim, temos que e estatuto que vai ser dado à terra brasileira se relaciona com a
dinâmica do capitalismo mercantil vigente à época. Utiliza-se o modelo de acumulação
primitiva.
O dia 22 de abril de 1500 tem sido adotado como o marco inicial do contato entre os
brasileiros e os portugueses. Mas é em 1532 que ocorre a chegada de uma comitiva
representando a Coroa Portuguesa, organizada a partir da Bahia. Martim Afonso da
Silva foi investido no cargo de Governador Geral, e tinha a missão de garantir divisão
administrativa. O modelo administrativo pensado é o das capitanias hereditárias.

Cada um dos capitães donatários tem uma missão administrativa de dar terras em
sesmaria. As sesmarias são concedidas para aqueles conhecidos do donatário. Em geral
eram homens brancos, europeus. Já tivemos 1 caso de mulher sesmeira (ilha de
Itaparica), de indígenas e de 1 sesmeiro escravo alforriado. Os sesmeiros daqui tinham
algumas obrigações: (1) de cultivar (não conseguiam, por conta das dimensões
enormes das sesmarias àquela época). Esse cultivo era feito para fora, visto que se
tratava de empresa colonial. Aí começa-se a adotar o modelo monoagroexportador. A
partir daí iniciam-se os ciclos de produtos exportados, cana de açúcar, café, etc. A
agricultura de subsistência existia, mas não era o forte do engenho.

Outra função do sesmeiro era de (2) defesa, devendo edificar fortificações em seu
território visando evitar invasões de outros europeus.

Mas a principal obrigação dos sesmeiros era (3) utilizar mão de obra de escravizados
(as) de varias etnias diferentes provenientes do continente africano. Era fundamental
para o funcionamento da empresa mercantil e do capitalismo mercantil como um todo.
Ainda não havia mineração forte de ouro e prata no lado espanhol e no português na
américa do sul. Só a partir da escravização ocorre essa mineração, pois eram os
africanos que dominavam a técnica de extração mineral.

Para garantir a segurança das operações bancárias, era necessário lastro, garantia. Essa
garantia eram os escravos, através do instituo jurídico da hipoteca. Por todo esse valor
agregado, o escravo servia como garantia. As terras eram da coroa, então não podiam
ser utilizados. Se o sesmeiro precisa de dinheiro para ampliar produção, dá em garantia
o escravizado.

A fundamentação da escravização não era, por obvio, só econômica, mas também


religiosa. Segundo membros da Igreja Católica, os habitantes do continente Africano
são um terceiro irmão de Cain e Abel, o “Cã”. Essa “Cã” se aproximou do demônio,
caiu e foi obscurecido. É a teoria Camita, que justifica serem os africanos serem
cidadãos de segunda categoria.

Essas terras dos sesmeiros (que antes da sua chegada eram chamados de “maninhos”)
também eram consideradas terras tributárias ao mestrado de cristo. Assim, o sesmeiro
ainda era obrigado a pagar o (4) dízimo. No século 18, esse dizimo sofre transformação,
por conta de nova legislação portuguesa. Passa a se denominar foro. A sesmaria se
transforma no que hoje se chama de concessão administrativa.

O titular de registro imobiliário, para ostentar posição de proprietário, precisa


demonstrar que na origem do seu registro, na primeira matricula, o ato que transcreveu
esse imóvel nessa matricula, foi um ato promovido pelo Estado. O ônus de provar isso é
do particular, nos dias atuais. Isso é pacificado pelo STF. O que fundamenta essa
posição do STF e de outros tribunais é essa definição de que as terras brasileira eram do
mestrado de Cristo, logo, eram públicas.

O escravizado tinha relativa autonomia para a (alguns historiadores chamam de “brecha


camponesa”, porque característica do camponês é a autonomia) agricultura de
subsistência, plantando aipim, milho, nos dias em que não estava na lavoura.

Desde essa legislação colonial, dessas concessões de sesmarias, aquelas terras onde se
encontrasse presença originária indígena, seriam considerados não suscetíveis de ser
concedidas em sesmarias. Eram os chamados indigenatos. Isso, como se sabe, não
ocorreu bem dessa forma. A determinação de indigenatos foram muito descumpridas.

O STF tem desconsiderado essa legislação anterior, e considerado a CF de 88 como


inicio da regulação das terras indígenas no Brasil, apesar da CF de 1934 já ter regulado
isso, bem como a Lei de Terras de 1850. O indígena deve demonstrar que estava
naquela terra à época da entrada em vigor da CF (marco temporal em 5 de outubro de
1988). Esse é o entendimento específico da Segunda Turma. As outras divergem.
Consequência disso foi a anulação, à época, de quatro demarcações de terra indígena,
pois era local de disputa com madeireiros e sojeiros.

Outra obrigação do sesmeiro era de (5) demarcar terras. As sesmarias não tinham
dimensão muito precisa à época. Eram enormes, como o exemplo da sesmaria Garcia
D´ávila. As terras que não estivessem ocupadas seriam concedidas novamente, para
garantir cultivo.
AULA 05- 31/05/2017

3.3. O REGIME DE POSSES (1822-1850)

O modelo de sesmaria durou de 1532 (divisão do Brasil em capitanias hereditárias) até


1822. Uma resolução de 17 de julho de 1822 suspendeu o modelo de sesmaria. Ou seja,
quase 300 anos de vigência do modelo.

Entre 1822 e 1850 vingou o chamado regime das posses. Aqui, não se concede mais
sesmaria, e em seu lugar não temos mais nada. O Estado se isenta de ditar como será a
ocupação das terras brasileiros.

Se mantem a denominação de “terras tributárias da coroa portuguesa”. Temos como


regulamentação apenas a Constituição Imperial Portuguesa de 1824, influenciada pela
legislação europeia marcada pelas revoluções liberais da época. O chamado espírito
proprietário, oriundo do pensamento de John Locke, segundo o qual o homem já nasce
proprietário do próprio corpo, e por isso devia ter acesso a outras propriedades.

No texto constitucional imperial, se definia que “é garantido o direito de propriedade em


toda a sua plenitude”. Juridicamente, chama-se essa disposição completa sobre a
propriedade de jus abutendi, que é o direito até de destruir a propriedade. É a
concepção do direito de propriedade como sendo direito absoluto. A necessidade de
cultivo desaparece.

Quando o texto fala em “plenitude”, tem-se dois sentidos: (a) relativa à separação entre
aquele que exerce domínio pleno e o que exerce o domínio util. O domínio útil pode ser
cedido pelo portador do domínio pleno, devendo o que recebe domínio útil pagar ao
portador do domínio pleno (regime da enfiteuse); (b) o proprietário da terra é
proprietário não só do solo, como também das jazidas e minas, além do espaço aéreo.
Para alguns, até mesmo dos corpos hídricos presentes no terreno.

Essa norma não repercutia ainda na prática. Os sesmeiros ainda dependiam da


concessão das terras pela Coroa, quadro que continuou até 1850, quando de fato houve a
regulamentação das terras brasileiras.

Com a suspensão do regime de sesmarias, e muito embora tenhamos a previsão de


regime de propriedade, isso não impacta na forma de acessar à terra. A principal forma
de acessar a terra nesse momento (1822-1850) passa a ser ocupação primária, ou
“posse”, como dizemos hoje. Por isso se chama de regime “de posses”. Isso não
decorria da lei, mas dos costumes.

Essa ocupação primária vai gerar direitos. Mas esse direito não é gerado como no
direito romano, quando bastava ver a terra inocupada e toma-la para si. Ou seja, não
bastava o animus domini. Aqui, esse ânimo de se apossar, de ter a terra para si, deve
estar associado ao cultivo da terra. A posse-trabalho tem supremacia em relação ao
direito de propriedade, situação que continua no direito agrário até hoje. Consequência
disso é que, se o ocupante primário que cultiva for prejudicado por uma concessão a
sesmeiro, a posse de ocupante (também chamado de posseiro ou possuidor) prevalecerá
sobre a do sesmeiro. Ocorre a chamada legitimação da posse, positivada apenasem
1850.

Segundo Ruy Cirne Lima, que discordava do posicionamento do STF à época (até inicio
de século XX, que entendia que o ato de ocupação dependia de legitimação estatal) a
ocupação primária estaria de acordo com a Lei das boas razões de 1769, pois não é
contrária a lei alguma e em muitos casos superava o período de 100 anos previsto na lei.

Ele fundamenta ainda no costume português do “fogo morto”, que é a ideia de que, se o
fogo está morto, se o moinho não está se movendo, se não tem sinal de trabalho ali,
significa que está desocupado, podendo então ser ocupada por quem quer cultivar.

Assim, para Ruy Cirne Lima, não seria necessário qualquer ato estatal que legitimasse
essa ocupação primária, tendo em vista esses elementos da legislação e dos costumes
portugueses.

No contecto das colônias inglesa, não houve adoção do modelo escravista em sua
totalidade como nas outras colônias (portuguesa, espanhola, etc). Havia um modelo
misto, em que parte das colônias era pautada no modelo monoagroexportador
(plantation) escravista, e em outra parte havia a introdução do trabalhador livre que
chegava com status de colono.

Naquelas colônias britânicas que utilizavam o trabalhador livre, e não o escravo, esse
colono que contratava o trabalhador livre tinha preços no mercado internacional menos
competitivos. Isso gerou uma questão na Inglaterra de como dinamizar a produção
colonial inglesa. Ai, vários teóricos se debruçaram sobre o tema. O principal foi
Wakefield, que propôs uma experimentação nas colônias britânicas: para impedir, nas
colônias britânicas, essa baixa de preços do produto exportado produzido nessas
condições, e também para impedir que qualquer pessoa obtivesse a condição de
proprietário, gerando falta de mão de obra nessas colônias de trabalhadores livres,
propõe que o colono, ao invés de receber concessão de terra gratuitamente, pague um
“suficiente preço”.

Esse quadro gera desequilíbrios econômicos desfavoráveis à produção agrícola


britânica. Passa então a ser interessante à Inglaterra que a escravidão acabe. A Coroa
britânica, então, edita ato, que diz: o navio britânico que encontrar navio negreiro em
qualquer oceano, ou mesmo aportando, está autorizado a bombardear esse navio e a
apreender a “carga” e o a tripulação.

Por conta dessa pressão externa, acelera-se a preocupação nas terras portuguesas para
que se regule a questão das terras, já que era iminente o fim do tráfico de escravos.
Assim, após os legisladores daqui terem acesso à literatura inglesa, nasce projeto de lei
tratando de apropriação privada da terra nos anos de 1830, na Câmara de Comércio
Exterior do governo. Como ainda não havia nessa época essa forte pressão da Inglaterra,
o projeto ficou arquivado. Apenas nos anos 40, com a pressão inglesa, a promulgação
da Lei Aberdeen que instituía a questão do navio que bombardeia os navios negreiros,
entre outras situações, é que o legislador do império volta-se novamente para a
regulamentação das terras, que somente entra em vigor com a Lei de Terras de 1850.

O Brasil teve grupo de parlamentares chamados de “Comissão Saquarema”. É a


bancada ruralista de hoje. Eram grandes cafeicultores que precisam lidar com o
problema das retaliações ao trágico pelos ingleses. Eles pensam então em quem será o
substituto dos trabalhadores escravos. Levando em conta que havia também a
preocupação com o embranquecimento da população, pensaram em fazer campanha em
países europeus para trazer europeus para trabalhar.

Figura central nessa época era o Senador Vergueiro. Ele iniciou projeto piloto de
imigração, chamado também de colonização particular. Ele foi até a Europa e trouxe
diversos imigrantes europeus para trabalhar em suas terras. Ele criou também o
principio do que se chamaria posteriormente de contrários agrários, em que o colono
entra com o trabalho e ele com a terra, devendo o colono pagar um preço pelo uso da
terra.
Essa forma foi fracassada, pois ele não conseguiu ser competitivo adotando esse
modelo. O que aconteceu depois foi o custeio, pelo Estado, da imigração de europeus
para o país. E a solução para custear essa imigração foi a venda de terras públicas,
originada com a Lei nº 601/1850, a Lei de Terras. É o ano também, não por acaso, da lei
que extinguiu o tráfico negreiro (lei eusébio de queiroz) e do Código Comercial.

AULA 06 – 01/06/2017

3.4. O CONTEXTO SOCIOPOLÍTICO DA LEI Nº 601/1850 (A LEI DE TERRAS)

Havia forte pressão internacional oriunda da Inglaterra para o fim do escravismo, como
visto. No Brasil, por tudo isso, os cafeicultores, em especial do sul e sudeste, vão
tentando encontrar alternativas para enfrentar essa pressão internacional. Há iniciativas
tomadas por particulares, como a do Senador Vergueiro, já trazido acima. O preço do
escravizado subia com o fim do tráfico, e os cafeicultores tinham que importar
trabalhadores europeus. A ideia também era embranquecer a população.

Na Europa isso também produz repercussões, já que esses trabalhadores que aqui
chegavam muitas vezes eram submetidos a condições de trabalho degradantes. Há
vários registros de governos europeus pedindo informações e ameaçando aplicar
sanções ao Estado Brasileiro por conta da insalubridade a que os trabalhadores europeus
eram submetidos.

Tudo isso contribuiu para a edificação da Lei de Terras de 1850. O primeiro projeto de
lei que trata dessa matéria foi aquela elaboração da Secretaria de Comercio Exterior do
Imperio. É proposto na primeira Casa Legislativa, mas fica engavetado por vários anos.
Com a proibição do tráfico negreiro pela Inglaterra através da Bill Aberdeen, o projeto
ganha força e começa a tramitar de novo no Senado, para resolver o problema. Já havia
a péssima experiência do Senador Vergueiro, que gerou prejuízo para seus negócios.

Wakefield, como visto, estabeleceu neste momento a tese do suficiente preço.


Posteriormente, isso foi a base do sonho americano, que vendia que era possível ir para
a América, conseguir um terreno e crescer na vida. Wakefield tenta aplicar essa tese na
Austrália, mas não consegue, porque os colonos não se submetem a essa lógica,
partindo então para a ocupação primária. Marx explica isso dizendo que capital não é
uma coisa, mas uma relação entre os sujeitos. Assim, para impor essa relação de capital-
trabalho, a pessoa que vai trabalhar deve estar em situação de não-autonomia. É na
exploração que o capital de expressa.

O projeto de lei sofre influencia dessa tese Wakefieldiana. Só foi votado no Senado 8
anos depois de sua votação na Câmara. Resumindo, essa lei só foi finalmente
promulgada pela combinação do (a) fim do tráfico negreiro, através da Lei Eusébio de
Queiroz e (b) as politicas publicas de imigração para garantir a mão de obra, agora
escassa.

O primeiro artigo do texto da Lei diz que “ficam proibidas as aquisições de terras
devolutas que não seja a titulo de compra”. Ou seja, até 1822 as terras eram concedidas
em sesmaria. Agora, elas só serão obtidas por meio de compra, assim como prevê a tese
wakefieldiana do preço suficiente. Logo, ficaram excluídos da propriedade da terra os
escravizados, os imigrantes pobres da Europa. Aqui temos mais um passo para garantir
a concentração fundiária. A própria lei de terras impede, mesmo que o imigrante
europeu consiga reunir dinheiro suficiente para tanto, que ele compre terras nos 3 anos
imediatamente subsequentes à sua chegada no país. Ele é obrigado a participar da
lavoura nesse período inicial.

Outro artigo importante é o art. 3º da lei, que define as chamadas terras devolutas. O
conceito antigo de terra devoluta é o de sesmaria devolvida, quando o sesmeiro não
cumpre suas obrigações para com a terra. A Lei de terras ampliou as condições em que
o conceito de terra devoluta será aplicado. São 4 hipóteses de terras devolutas:

1- “aquelas que não se acharem aplicadas a algum uso


público, nacional, regional ou provincial”, ou seja, as não
afetadas a uso público.

2- “as que não se acharem no domínio particular, por


qualquer titulo legitimo (sesmeiro não tem concessão de
sesmaria) nem forem havidas por sesmarias ou outras
concessões do governo geral ou provincial, não incursas em
comisso por falta de condições de medição ou cultura”. São
as que, muito embora apropriadas por particulares, não possuem
titulo que justifiquem sua a apropriação. Comisso é aquela
sesmaria que não cumpre as obrigações relativas à concessão da
sesmaria (demarcar, pagar foro, cultivar). Esse sesmeiro estará
em comisso. A própria lei possibilita que esse sesmeiro, mesmo
em comisso, revalidar a sesmaria se no prazo estabelecido,
cumprir tais obrigações, conforme parágrafo 3º abaixo:

3- “ as que não se acharem dadas por sesmarias ou outras


concessões do governo, que apesar de incursas em comisso,
forem revalidadas por essa lei”.

4- “as que não se acharem ocupadas por posses, que apesar


de não se fundarem em titulo legal, forem legitimadas por
essa lei”. Tem ocupante primário, que não legitimou sua
obrigação. Se legitimar, vira proprietário.

O que não for terra devoluta é terra particular. A terra devoluta pode virar terra
particular, desde que seja vendida em hasta pública.

É com esses documentos de revalidação, entre outros, que começaram a aparecer os


procedimentos de grilagem. Criava-se um documento de revalidação, colocava numa
caixa, enchia de grilos e os papeis ficavam com aparência de antigos. Esses documentos
eram utilizados em processo judicial para comprovar propriedade. Hoje são utilizados
outros métodos, em especial o pagamento de suborno a oficiais cartorários para
matricular o imóvel. Outro método é pegar a revalidação de sesmaria, bota embaixo na
cela de cavalo, anda no cavalo e, com o suor do cavalo, o papel fica com aparência de
antigo.

O ocupante de terras devolutas nem sempre será desocupado, podendo o beneficiário de


reforma agrária continuar na terra, se for o caso. Assim, pode ter sua posse regularizada.
Mas o Estado pode recuperar seu patrimônio legalmente destacado em ações de
grilagem. Existem procedimento para tanto, a serem trabalhados por nós depois.

A Lei de Terras já vai trabalhar com a ideia de indenização de benfeitorias daquele


ocupante ou sesmeiro que não conseguiu revalidar, ou do posseiro que não conseguiu
legitimar. Esses indivíduos terão direito a indenização das benfeitorias feitas no terreno.
Outro elemento importante da lei é a questão da posse das terras tradicionalmente
ocupadas e as terras de uso comum. Diz a lei que elas serão conservadas e
conservarão o mesmo uso de acordo com a prática atual, se lei específica não dispuser
em contrário. São as situações em que há posse comunitária, e não posse individual. O
CC/1916 também se referiu a isso, chamando-o de “compasso”. O CC/02 se omitiu
sobre o assunto. Só a CF e a legislação agrária continuam tratando sobre o tema.

Os possuidores que deixam de proceder à medição nos prazos marcados pelo governo,
foram reputados caídos em comisso, perdendo o direito de ter a propriedade sobre
aquela terra. Conservaram-se, somente, as partes da propriedade que eram cultivadas,
devendo o resto ser considerado terras devolutas.

A Lei de Terras repete o que já aparecia nas Cartas Regias. O governo deve garantir
terras devolutas para garantir a presença do indigenato. O governo organizará ainda, por
freguesias (hoje chamadas de “bairros”) o registro de propriedades.

Existem ainda artigos explícitos acerca do financiamento da imigração. O governo vai


vender terras devolutas em hasta pública com o fito, sobretudo, de financiar a imigração
de trabalhadores europeus. Além de trazê-los, o Estado providencia sua alocação nos
estabelecimentos agrícolas, notadamente as fazendas de café.

O fim do cativeiro do escravo dá lugar ao cativeiro da terra, segundo o autor José de


Souza Martins. Aqui estamos diante de um processo de mercantilização da terra, que
substitui o escravizado na função de garantir as operações de crédito (renda
capitalizada), já que agora ela pode ser apropriada. Ao invés do escravo que agora custa
mais e chega menos, é a terra que substitui o escravizado nas operações de credito via
cédulas hipotecárias.

Era comum que fossem dados escravos (e, depois, terras) como garantia em face de
diversas instituições bancárias. Eram as chamadas hipotecas ocultas. Foi por conta
dessa prática, que podia gerar colapso dos bancos, que foram instituindo os cartórios de
registro de bens imóveis no Brasil.
AULA 07 - 06/06/2017

Depois da Lei de Terras, tivemos outro diploma legislativo importante, que foi a Lei
nº1237 de 1864. Ela instituiu o primeiro registro geral imobiliário e de hipotecas do
Brasil. A lei de terras já tinha instituído o registro paroquial (as propriedades deveriam
ser comunicadas ao pároco). Mas esse registro não tinha fins imobiliários, mas
meramente fins cadastrais. Foi somente com esse registro de 1864 que se adotou o
registro com o fito de garantir a segurança das operações de crédito, a dar transparência.
É o Estado que passa a se responsabilizar por esse registro. As hipotecas também eram
registradas, de modo a inibir as hipotecas ocultas.

Institui-se o método de aquisição de propriedade através da transcrição no registro


público. Sem essa transcrição, não haverá direito a propriedade. Essa transcrição tem
que seguir os procedimentos/ritos constantes da legislação própria para que seja
considerada valida.

Outra modalidade de registro imobiliário surge ao final do período imperial e no


começo do período republicano. É o registro torrens. Torrens foi um economista
britânico, que imaginou modalidade de aprisionamento da terra de modo mais eficaz, de
forma a inibir a concorrência. O registro imobiliário seria indestrutível, mesmo que
tivessem sido adotadas práticas ilegais para sua aquisição. Esse tipo de registro apareceu
nos decretos nº 451-B/1890 e 455-A/1890, inspirados em lei australiana chamada “Real
Property Act”.

O proprietário poderia adotar o registro comum ou o registro torrens. Quando queria o


torrens, ele deveria ir num cartório específico e solicitar a transcrição, para depois ser
encaminhado ao juiz, que então analisava se iria se conceder ou não o registro torrens.
Caso o juiz entendesse que deveria se conceder, esse titulo não poderia ser questionado
por ninguém, mesmo que tivesse sido adquirida por meio de grilagem. A ideia era
garantir a legalização da grilagem, pensado pelos saquaremas, que eram grileiros. O
máximo que o terceiro prejudicado poderia pleitear era indenização ao Estado pela
perda de sua terra, já que foi Estado que garantiu aquele registro indestrutível. Essa
modalidade de registro sumiu em 1930, por ser declarada inconstitucional. Mas voltou
em 1973, através da Lei 6015/73.
Mas se o questionamento quanto à propriedade advém do Estado, há controvérsia se ele
pode pedir a desconstituição daquela propriedade. A inquestionabilidade é, para alguns,
apenas entre particulares.

Logo após esses decretos, tivemos a primeira Constituição Republicana de 1891. Nela,
o direito de propriedade é previsto da mesma forma da CF de 1824: “É garantido o
direito de propriedade em toda a sua plenitude”. Só que aqui a propriedade do solo já
existe, não é mais patrimônio da Coroa Portuguesa. O proprietário poderia usar, gozar,
dispor, reaver, fruir e destruir sua propriedade. Era uma visão bastante absenteísta do
Estado quanto à propriedade, tendo o direito de propriedade caráter absoluto.

Contudo, já estávamos no fim do século 19, e algumas ideia já abalavam essa ideia de
do direito de propriedade absoluto. No plano religioso, alguns papas escreveram as
chamadas encíclicas papais asseverando que direito de propriedade deveria ser
concebido considerando também o bem comum, da coletividade. Começa a aparecer a
doutrina social da Igreja Católica. Exemplo clássico foi a encíclica chamada “Rerum
Novarum”, de 1893. Advém da chamada teologia da libertação, ramo filosófico da
Igreja.

No inicio do século XX, o cientista político e sociólogo francês Leon Duguit cria a ideia
de função social da propriedade, o que também contribui para o enfraquecimento da
ideia de direito de propriedade absoluto.

Além disso, os movimentos políticos de caráter marxista e socialista como um todo


estavam a todo vapor nesse contexto.

Interessante é a questão das jazidas e minas terrestres. Até 1822, não se utilizava o
modelo de sesmarias, as sim das chamadas datas minerais. Isso some com a CF/1824,
tendo o proprietário/possuidor direito às jazidas de seu terreno.

No contexto da CF/1891, com a adoção do federalismo, as terras devolutas são


transferidas para a propriedade dos Estados. No mesmo artigo da CF que transfere essas
terras ao Estado, transfere junto as jazidas, minas e recursos hídricos. Houve certa
ambiguidade, pois não se sabia se apenas as jazidas e minas existentes nas terras
devolutas eram transferidas aos Estados, ou todas, inclusive às dos particulares, o eram.
A interpretação prevalecente é a de que apenas aqueles existentes nas terras devolutas
eram transferidas.
Há ainda um silencio eloquente na CF/1891: mesmo após 3 anos da publicação da Lei
Aurea, nada se falou sobre as pessoas que deixaram de ser escravizadas. A ideia era
apagar, em tese, o período da escravatura da memoria coletiva.

Outro tema importante nessa virada do século XIX para o século XX foi a experiência
da Guerra de Canudos (1896-97). O exercito foi destacado para debelar essa
organização camponesa. Produziu-se extensa literatura sobre o ocorrido.

O viés interpretativo do governo e das forças armadas era no sentido de dizer que
estavam diante de indivíduos arcaicos, fanáticos religiosos, defensores da monarquia,
bestializados que estavam contra a ordem e progresso que a República propunha.

Algumas décadas depois, outro viés interpretativo trouxe que nada o corrido teve a
haver com arcaísmo, com fanatismo religioso, apesar de haver naquela comunidade uma
influencia de catolicismo popular. A experiência se orientava também pelo
questionamento quanto à forma de apropriação da terra naquela parte do Nordeste.
Talvez, tenha sido a primeira experiência organizada de luta pela reforma agrária,
mesmo que essa nomenclatura não fosse utilizada então. O próprio Antônio Conselheiro
teria sido expulso do Ceará por coronéis latifundiários, que se apropriaram de sua terra.

AULA 08 – 08/06/2017

Três movimentos constitucionais no mundo serão importantes para o direito de


propriedade no início do século XX. Em 1917, ocorre a revolução bolchevique na
Rússia (na qual se destituiu a monarquia até então vigente), que vai ter impacto jurídico
na leitura do direito de propriedade; e a promulgação da Constituição do México a partir
dos valores da revolução mexicana em que camponeses, povos indígenas e soldados de
baixa patente se uniram para destituir governo que tinha aproximação com os EUA. O
autor americano John Reed retratou ambas as revoluções em suas obras.

Haviam as haciendas no México. Coma revolução, essas haciendas foram parceladas,


dando origem aos ejidos, onde poderia haver inclusive compartilhamento entre varias
famílias camponesas. A ideia era resolver o problema da concentração fundiária.
Ocorreu o fenômeno da estatização dessas propriedades privadas no México, tendo o
Estado a partir dai a incumbência de promover esse partilhamento da terra.
Na Rússia também houve consequências da revolução, que foi a promulgação de nova
Constituição Russa. Ela previu expressamente a abolição da propriedade privada. John
Reed escreveu o livro “Dez dias que abalaram o mundo” retratando também esse
evento.

Em 1919, é promulgada a Constituição de Weimar (ou Constituição alemã). Ela


promove outra leitura. O direito a propriedade é garantido, mas existe uma obrigação
ligada a esse direito. A obrigação deve estar conectada com o bem estar social.

Importante notar como esse movimentos modificam o entendimento do direito de


propriedade. Não há mais disposição absoluta sobre a propriedade. O proprietário terá
obrigações vinculadas ao uso da terra. Segue-se a ideia de função social da propriedade
de Leon Duguit.

Em 1931, o papa de então edita nova encíclica papal, chamada de “Quadragesimo


Anno”. Diz que a propriedade é direito natural, mas o bem estar social deve estar inter
relacionado com esse direito.

Tudo isso contribui para o novo texto da Constituição Federal de 1934. A CF dispunha
que “é garantido o direito de propriedade, que não poderá ser exercido sem observar ou
contra o interesse social ou coletivo”. Assim, não se trata mais de direito absoluto.
Porém, não há instrumentos jurídicos de operacionalização dessa mudança radical em
relação ao texto de 1891. Um instrumento jurídico só aparece nos anos de 1960, a
desapropriação por interesse social.

A CF de 1934 é expressa também em dizer que não há mais plenitude no direito de


propriedade, pois “é distinta a propriedade do solo das riquezas do subsolo, bem como
das quedas d’água e corpos hídricos”.

A CF de 1891 já havia sofrido Emenda (sem numeração) em 1926, proibindo que


estrangeiros ou particulares usufruíssem dos bens do subsolo das propriedades. Com a
descoberta do petróleo, o Estado se apressou a editar essa Emenda para garantir a
monopólio de propriedade dessas riquezas à União, podendo ela garantir ao proprietário
no máximo a concessão de uso dessas riquezas. Isso está sendo flexibilizando hoje em
dia, ao menos em relação ao petróleo, pois o Estado já está leiloando poços de petróleo.
Esse regime de intervenção da propriedade vai começar a ser bem definido após a CF.
Nesse sentido, o Decreto-lei nº 3365/41 institui a desapropriação nos casos de utilidade
pública e por necessidade pública.

Na Constituição de 1946 temos uma transformação ainda mais contundente quanto a


essa possibilidade do Estado intervir na propriedade. Seu texto diz que “é garantido
direito de propriedade, salvo desapropriação por utilidade e necessidade púbica, ou por
interesse social mediante prévia e justa indenização em dinheiro.” A novidade é essa
terceira hipótese de intervenção, considerando o interesse social. Isso decorre da
participação do Partido Comunista no debate da nova Constituinte.

O texto da CF usa ainda a expressão “justa distribuição da propriedade”, com base no


“interesse social”. Daí se depreende a ideia de combate à concentração fundiária na
nova CF. Essa distribuição de terras, a partir do estabelecimento de limites nos
tamanhos das propriedades, ocorreu de forma bem sucedida nos Estados Unidos. Isso,
porém, não gerou grandes consequências na realidade brasileira, por questões
econômicas, políticas, etc.

As Ligas Camponesas tiveram papel importante nesse momento. Buscavam melhores


condições de trabalho nas fazendas de cana de açúcar. Isso tudo se transformou em
pauta por melhor distribuição do acesso a terra, em pauta para reforma agrária.

Nesse momento Francisco Julião, advogado de Pernambuco e deputado estadual, é


buscado pelos camponeses para auxiliá-los em sua mobilização para conquistar direitos.
Ele se destaca como fomentador da importância das ligas camponesas, da reforma
agrária, inclusive dentro do Congresso Nacional, já que ele chegou a ser também
deputado federal. Há ainda a questão da Fazenda Galiléia, tratada anteriormente, que é
um marco da desapropriação por interesse social.

As ligas tem um lema: “reforma agrária na lei ou na marra”. Elas provocam e insistem
para que essa desapropriação por interesse social ocorra na prática. Alguns padres e
religiosos adotantes da teologia da libertação também faziam partes dessas ligas, e
ajudavam na capilarização dessa ideia de reforma agrária.

A Emenda nº 10/1964 à CF/1946 instituiu a palavra “reforma agrária” e define melhor o


que é desapropriação por interesse social. A Lei nº 4504/1964, chamada de “Estatuto da
Terra”, regula enfim essa desapropriação. Essa Lei ainda está vigente em alguns
dispositivos, enquanto outros não foram recepcionados.

O Estatuto da Terra foi editado apenas alguns meses após o golpe militar. Por exemplo,
a “fruit company”, atual Kibon, tinha e tem diversos imóveis rurais na américa latina, e
estava preocupada com o acontecimento (Revolução) de Cuba em 1959, uma vez
ocorreu e estatização dos imóveis. Ela, então, financiou a ditadura militar, para garantir
a manutenção de sua propriedade.

Num contexto maior, criou-se uma aliança chamada de aliança para o progresso, que
se deu entre os EUA, corporações transnacionalizadas (como a Fruit Co.) e setores
políticos da América Latina para evitar novas revoluções socialistas na região. Nesse
contexto, o presidente do Chile foi assassinado e João Goulart renunciou.

A ideia era então esmaecer a possiblidade de reforma agrária naqueles termos propostos
pelas Ligas Camponesas, que envolvia a extinção dos latifúndios e a redistribuição
direta da terra, cominadas com políticas públicas para melhorar as condições de vida
camponesas. Os setores patronais rurais acharam que poderia resolver o problema com a
modernização do latifúndio arcaico, atrasado, até então predominante. Assim, não
seria necessário extinguir o latifúndio, mas apenas modernizá-lo.

O Estatuto da Terra incorpora essa pauta do setor patronal, de dinamização do


latifúndio. Eles entendiam que não podiam ignorar a matéria, dada sua importância. A
modernização proposta era a chamada modernização conservadora. No mundo ocorria
a chamada revolução verde 1, envolvendo o aumento da produtividade agrícola através
da utilização de agrotóxicos, mecanização da produção, pesquisa cientifica, OGN’s
(organismos geneticamente modificados), crédito rural, entre outros. A pauta da
modernização conservadora incorporava essas ideias.

A reforma agrária do Estatuto da Terra tem caráter residual, pois ocorreu apenas em
alguns imóveis, que estavam “em zonas críticas de tensão e conflito social”. Se deu
ainda de imóvel por imóvel, ou seja, o Estado tinha que observar qual imóvel está em

1
Regulando o tema tivemos O texto dos anos 60 tratando do tema foi o “Plano Nacional de
Desenvolvimento dos Defensivos agrícolas”. Nos anos 80 há, a “Lei de Agrotóxicos”.
condições de ser desapropriado. É ainda reforma agrária onerosa, pois deve haver justa
indenização.

O latifúndio arcaico terá então que se transformar na chamada empresa rural, adotando
as ideia da revolução verde.

Como se vê, o Estatuto da Terra, ao invés de contribuir para a melhor distribuição das
terras, ajudou apenas a aumentar a concentração fundiária no Brasil.

AULA 09 - 13/06/2017

A Constituição de 1934 traz que “será respeitada a posse de terra de silvícolas”. Prevê
então o modelo tutelar, que prevê que os índios não são proprietários, mas apenas
possuidores de forma permanente da terras que ocupam. Na CF atual esse instituto da
posse das terras indígenas não desaparece, apenas adiciona-se o adjetivo “permanente” a
posse. Assim, do ponto de vista jurídico, as terras indígenas são bens públicos da União.

A União, quando demarca a terra indígena, não pode anular essa demarcação. Essa é a
ideia da posse permanente.

O modelo da CF atual traz outra ideia, mais ampla, que é o da terra tradicionalmente
ocupada, englobando não apenas as terras em que se encontram indígenas vivendo.
Existem locais que eram de indígenas, mas estes foram expulsos. Esses locais também
podem ser considerados tradicionalmente ocupados.

A segunda turma, como já vimos, tem desconsiderado a ideia de terra tradicionalmente


ocupada com base na ancestralidade. As outras turmas entendem em sentido diverso.

Essas terras têm algumas características como a imprescritibilidade, impenhorabilidade


e a inalienabilidade.

A regulamentação da desapropriação por interesse social ocorre de maneira bastante


tímida no Governo de João Goulart, através da Lei nº 4132/62. Se interessa mais em
descrever o que é interesse social do que estabelecer de fato quais imóveis serão objeto
de desapropriação. A União define quais imóveis serão desapropriados, e os
trabalhadores terão acesso a esses imóveis de interesse social por meio de venda ou
locação.
Esse modelo difere do modelo do Estatuto da Terra, pois não interessa se no terreno há
algo funcionando. Se houver interesse público na desapropriação, desapropria-se. No
Estatuto da Terra primeiro avaliava-se o terreno para ver se estava cumprindo função
social, para só depois, se não estivesse, desapropriá-lo.

Hoje é diferente: a União desapropria e, ao final da desapropriação, a União destina aos


beneficiários, através de instrumentos como concessão de direito real de uso,
transferência do direito de propriedade, etc. Ou seja, hoje se dá por modelos gratuitos, e
não onerosos. Apenas pode ser oneroso se acontecer por meio do chamado crédito
fundiário, que será discutido depois.

Todo esse contexto da época e a influencia das grandes corporações internacionais


gerou as condições para a ocorrência do Golpe de 64.

Para enfrentar a concentração fundiária, o setor patronal propõe medidas dentro da


chamada “modernização conservadora”, pois não resolve de fato os problemas da
concentração de terras. Já as reinvindicações populares são pela reforma agrária
juntamente com políticas públicas de saúde, educação, crédito para os camponeses.

Com a repressão popular do Golpe, a modernização conservadora ganha força em


detrimento da reforma agrária. Isso gerou diversas consequências, inclusive o avanço
em biomas que não vinham sendo explorados, como o cerrado e inclusive a Amazônia.

A modernização conservadora entendia que o atraso do setor agrícola brasileira, a


impossibilidade concorrer bem no mercado externo, se dava sobretudo à ausência de
transformação nesse cenário. A ideia é que eles precisavam de investimento estatal, pois
assim iriam se dinamizar. Os militares botaram em prática essa agenda conservadora.

Política agrícola x Reforma Agrária: Os governos da ditadura dividem bem as ideias


reforma agrária e política agrícola. A reforma agrária fica vinculada a Presidência da
Republica, enquanto a política agrícola detém Ministério próprio, tratando de credito
agrícola, exportações e outros temas afins. Criam–se dois institutos na esfera
administrativa federal: Instituto Nacional de Reforma Agrária (INRA) e o Instituto
Nacional de Desenvolvimento Agrário (INDC). Para além do INDC, outros institutos
visando políticas agrícolas são criados: EMBRAPA, Plano Nacional de Defensivos
Agrícolas (PNDA), O Sistema Nacional de Crédito Rural (SNCR) instituído pela
L4829/65. A ideia de tudo isso era que a pauta patronal, da modernização conservadora,
tenha concretude.

No Estatuto da Terra temos ainda a definição do que se entende por função social da
propriedade da terra. A função social acontece quando a propriedade (1) favorece o
bem estar dos proprietários e dos trabalhadores (entenda-se como da coletividade, e
não só dos trabalhadores do estabelecimento), (2) com níveis satisfatórios de
produtividade (uso adequado e racional, no texto constitucional atual), que (3)
assegura a conservação dos recursos naturais (respeito ao meio ambiente e
atendimento da legislação ambiental, na CF/88. A nova CF traz a ideia não só de função
social, mas função socioambiental) e (4) respeita a legislação trabalhista.

Concretamente, não temos a aplicação dessa ideia de desapropriação por função social
da propriedade durante o Governo Militar. Ele apenas aumenta a concentração
fundiária.

Os imóveis serão classificados pelo Estatuto da Terra em: (a) minifúndios, que são
aqueles que não atendem as condições de manutenção de uma família. Assim,
nacionalmente se instituem padrões para saber qual será a fração mínima de
parcelamento de terra que garante sustento de uma família. Essa fração mínima é a
propriedade familiar. Os minifúndios, para o estatuto, deveriam ser banidos,
desapropriados, para que no processo se remembramento se tornem ao menos
propriedades familiares; (b) propriedade familiar, que corresponde a 1 (um) modulo
rural. Esses módulos são definidos regionalmente e municipalmente através do INRA,
considerando condições ambientais, solo, clima, etc; (c) latifúndios, que podem ser por
extensão ou por exploração. Por extensão é aquele imóvel que excede em 600 vezes a
média dos imóveis rurais da região em que se localiza, devendo o INRA localizar esses
imóveis, independemente de haver produção em todo o terreno. Por exploração é o
latifúndio que, independemente da extensão (só não pode ser 1 modulo, porque ai vai
ser propriedade familiar), não atinge níveis satisfatórios de produtividade, está sendo
explorado em desconformidade coma legislação ambiental e trabalhista, etc. O
latifúndio, assim como o minifúndio, também deve ser banido por interesse social ; e
(d) empresas rurais, que são aqueles imóveis explorados tanto por pessoa jurídica
como por pessoa física, sendo explorado racionalmente e garantindo níveis de
produtividade. A ideia da modernização era, portanto, transformar os latifúndios
arcaicos em empresas rurais. Por isso não se atinge o problema central, que é a
concentração fundiária.

Os latifúndios e minifúndios não são desapropriados caso não estejam em zona crítica
ou de tensão social (art. 15, Estatuto da Terra). Dessa forma, a reforma fica ainda mais
limitada.

Outra questão da modernização conservadora é que essa empresa rural, tida como
modelo ideal a ser perseguido, é ainda mais incentivada nos anos 70, se transformando e
outro modelo, que é o complexo agroindustrial, que é aquele em que o empresário,
além de produzir a matéria prima, ele mesmo beneficia essa matéria prima, transporta o
bem até o consumidor, etc.. Assim, ele controla toda a cadeia produtiva. As vezes esses
complexos controlam até a rodovia onde os caminhões passam, via concessão
administrativa. Exemplo claro é a JBS. Isso tudo é potencializado pelos recursos
advindos do SNCR.

Assim, cada vez mais a pauta da reforma agrária vai sendo encolhida, inclusive
orçamentariamente. Ela passa a ser então residual, pois situada apenas nas zonas
criticas e de tensão social; parcelada, pois acontecerá de imóvel por imóvel; e onerosa,
pois acontece via indenização, até então por títulos da divida pública (hoje por títulos da
divida agrária).

Outro capitulo que vai ser interpretado como reforma agraria são as politicas de
colonização: o Estado Brasileiro (tanto a União, como Estados e Munícipios) doa
extensões territoriais para constituição de projetos de colonização, de ocupação de
territórios que o Estado brasileiro considera vazios demográficos. O Estado cede a terra
através de concessão real de uso, alienação, entre outros instrumentos administrativos.
O bioma amazônico e o cerrado foram bastante utilizados com esse processo.

Por isso o INRA passa a se chamar INCRA (Instituto nacional de colonização e reforma
agrária).

O art. 73 elenca as ações de modernização conservadora, como a assistência técnica,


produção de sementes e mudas, uso da inseminação artificial, cooperativismo,
assistência financeira e creditícia, industrialização e beneficamente produto, educação
através de estabelecimentos agrícolas de orientações profissionais, etc.
AULA 10 – 27/06/2017

4. A POSSE CIVIL E A POSSE AGRÁRIA

A ideia neste capítulo é construir as diferenças no instituto da posse quando ela é


analisada sob o viés agrarístico, que tem suas peculiaridades.

Se pensamos numa ótica civilística a posse está fundamentada numa teoria clássica da
posse, qual seja, a teoria objetiva da posse. Para Jhering, formulador original dessa
teoria, a posse decorria do direito de propriedade. Posse e propriedade não eram
autônomos entre sim, sendo a posse exteriorização da propriedade. Já Savigny,
formulador da teoria subjetiva entendia que a posse decorria de 2 elementos: animus
domini (intenção de ser dono) e corpus (a relação de fato do dono com o objeto). Essa
teoria é subjetiva porque depende da intenção.

Para ambas as teorias clássicas da posse, o que importa é a apropriação, é a relação de


fato com o objeto. Seja fundamentada na intenção de ser dono, seja fundamentada em
outro instituto, que é o da propriedade. Mas a apropriação é necessária.

O vínculo jurídico da propriedade se identifica pela transcrição no cartório do registro


de imóveis, e a partir daí se tem a posse.

No âmbito agrarístico, por sua vez, o elemento de distinção que caracteriza a posse é o
trabalho. A posse toma concretude não mais da mera transcrição do cartório de registro
de imóveis, mas numa relação fática com muito mais concretude, que é a ideia de
trabalho. Alguns autores trazem a distinção dizendo que na posse agrária há
efetividade, pois se verifica se há existência de atividade agrária e quem a exerce, sendo
ela que determina a posse agrária. Por atividade agrária se entende tudo que for
desempenhado no terreno com continuidade, como a agricultura, pecuária, extrativismo,
artesanato, etc.

Extrativismo não só vegetal e animal, mas também em relação aos corpos hídricos do
imóvel rural, incluindo a pesca artesanal (realizada em grande escala em regime de
economia familiar).
Imóvel rural é juridicamente, o prédio rustico, no sentido de necessário á atividade
agrária. Isso está no Estatuto da Terra. Para definição do imóvel rural, importa a
destinação às atividades agrárias. Se assim está destinado, é imóvel rural. Mesmo que
esteja no perímetro urbano de Salvador, será imóvel rural. Note que isso não importa
para fins tributários, que levará em consideração apenas a localização.

No campo agrário, a posse agrária, num contexto de função social da posse e


propriedade, tem supremacia sobre o direito de propriedade. Se entende que, se numa
terra há posse agrária por quem não é proprietária, existe sinal de que o proprietário é
ausente. A posse agrária fundamenta a possibilidade de usucapião (imóvel privado),
possibilidade de regularização fundiária (se imóvel público), etc.

Assim, as teorias clássicas da posse não servem para entender a posse agrária. A posse
agrária está normatizada pela CF, no capítulo específico (em especial art. 191); o
Estatuto da Terra também faz referencia; o Decreto nº 59.566/76, que trata dos contratos
agrários, também faz referencia a essa ideia de trabalho; a Lei 8629, etc.

Na Bahia também existem normas, como a Lei Estadual nº 3038/72, que chama a posse
agrária de “ocupação”. Ocupante aqui é aquele que valoriza a terra com seu trabalho.
Esse ocupante tem direito preferencial à terra no momento da regularização fundiária.

A ideia por trás da posse agrária é que a terra é um bem de produção, com função
econômica importante, que não pode ficar vulnerável à ociosidade, ao absenteísmo.
Deve estar sempre disponível para realização de uma finalidade coletiva, que se realiza
a partir do trabalho. Isso é aplicado diretamente aos imóvel rurais, mas serve também
para o imóvel urbano, mas adicionam-se mais funções, como moradia, serviços
públicos, etc.

CARACTERÍSTICAS DA POSSE AGRÁRIA - A posse agrária se exercita de forma


direta, pessoal e contínua sobre o imóvel rural, no qual há uma hipoteca social (pois é
bem de produção). Quanto ao exercício direto e pessoal, o Decreto nº 59.566/66 diz que
é possível a contribuição de terceiros, mas essa contribuição não pode desconfigurar o
regime de economia familiar, não podendo os terceiros ser em número maior que o
numero de membros daquele núcleo familiar. Se ocorrer essa última situação, esses
trabalhadores serão considerados empregados. Isso é aplicável também para fins
previdenciários, sendo possível pleitear condição de segurado especial caso exerça essa
atividade rural em regime de economia familiar.

Importante notar que não se pode falar de posse agrária para os empregados, pois o
vínculo empregatício impossibilita isso. No caso de arrendamento, apesar de não ter
vinculo empregatício, também não pode constituir-se posse agrária.

Continua é a ideia de não sofrer interrupção, de modo a gerar ociosidade. A atividade


deve ser contínua, a menos que ocorram caso fortuitos ou de força maior. Mas nunca
pode ser interrompida por deliberação do possuidor.

Outro característica trazida na doutrina é o uso adequado e racional da terra, o que se


vincula diretamente à ideia de função social da propriedade. Esse uso adequado é
definido através de dois índices previsto na Lei 8629, que são o grau de utilização da
terra (GUT) e o grau de eficiência na exploração da terra (GEE). O GUT é definido a
partir apenas das áreas aproveitáveis, excluindo-se as terras não aproveitáveis. Deve ser
utilizada pelo menos 80% dessas terras aproveitáveis2. Já o GEE deve ser de 100%,
sendo definido pelo Ministério da Agricultura Pecuária e ... (MAPA), o referencial de
eficiência, variável a depender do bioma. O não preenchimento desses índices pode
gerar a desapropriação do imóvel pelo INCRA.

Os fazedores de posse são aqueles que realizam transcrições no registro imobiliário de


determinados terrenos desconsiderando a posse agrária e, com isso, esperando leitura
civilística da matéria, vão se caracterizar como possuidores. Em geral é utilizada aqui a
técnica da grilagem, pois na maior parte das vezes essa transcrição é feita ilegalmente.

REFLEXOS DA POSSE AGRÁRIA: é característica da posse agrária a possiblidade de


gerar propriedade: sendo o imóvel particular, através de usucapião, ou “prescrição
aquisitiva”:

Usucapião especial rural-

a) exercício da posse agrária por 5 anos,

b) extensão de até 50 hectares,

2
O Código Florestal define a área não aproveitável de um terreno como Reserva Legal,
cuja percentagem varia de acordo com o bioma (Amazonia-80%; Cerrado- 35%;
Restante do Brasil-20%)
c) o usucapiente não pode ser proprietário de outro imóvel rural ou urbano;

d) deve valorizar a terra com seu trabalho ou com auxilio de sua família;

e) deve morar no imóvel;

f) a posse deve ser contínua;

g) não pode haver oposição, que é a propositura de ação que discuta outra posse agrária,
devendo nessa ação o proprietário que se contrapõe consiga de fato demonstrar que tem
posse agrária. Se não conseguir, não se configura a oposição, significando que ele é
absenteísta.

Obs. Lei 6969/81 prevê a possibilidade da usucapião poder servir como matéria de
defesa na própria contestação do réu. Contudo, jurisprudencialmente, mesmo nas ações
possessórias, o Poder Judiciário tem se contentado apenas com o registro imobiliário,
sem se preocupar se há posse agrária ou não. A parte contrária terá que se esforçar para
demonstrar existência da usucapião.

Usucapião especial urbano – mesmos requisitos, mas devendo o tamanho do imóvel


ser de até 250 metros quadrados);

Sendo imóvel público, pode gerar propriedade através de regularização fundiária. Não
é sempre que a regularização fundiária gera direito de propriedade, pois por vezes não
há transferência de domínio, mas mera concessão de direito real de uso.

No que tange à regularização fundiária, o Estatuto da Terra faz referencia a alguns


instrumentos. Um deles é a legitimação da posse, que se aplica basicamente à terras
devolutas (não sujeitas, portanto, a usucapião), ocorre quando:

a) nela se exercita o trabalho, posse por ao menos 1 ano;


b) extensão de até 100 hectares;
c) não pode ser proprietário de outro imóvel urbano ou rural;
d) a posse trabalho deve ser contínua3;

3
Quanto aos deslocados por interesse público (exemplo daqueles que já tinham
cumprido requisitos para legitimação de posse em um terreno e que foram deslocados
por conta de construção de barragem que inundou vários terrenos) o direito a
legitimação da posse permanece numa situação como essa, pois ele foi desapropriado
e) deve valorizar a terra com seu trabalho ou com auxilio de sua família;
f) deve morar no imóvel;
g) não pode haver oposição, nos mesmos moldes do que ocorre na usucapião.

Existem outros instrumentos de regularização fundiária que incidem nas terras


devolutas. Uma modalidade que permite a ocupação de até 2500 hectares, a ser regulado
em cada Estado, ou mesmo pela União, sem necessidade de autorização do Poder
Legislativo, desde que para fins de reforma agrária. Se for acima de 2500 hectares, pode
ocorrer, mas será necessária autorização da Assembleia Legislativa (quando estadual)
ou do Congresso Nacional (quando federal), quando for por questão de política agrícola.

Na lógica trazida pela CF/88, não tem sentido a União, Estados ou Munícipios acumular
terrenos. A lógica antes era arrecadar tributos com os imóveis. Hoje, a ideia primordial
da CF é a regularização fundiária de interesse social.

AULA 11 – 29/06/2017

No âmbito agrarístico, como vimos, ocorre a supremacia da posse agrária em relação à


propriedade, tendo em vista que o fato de haver posse agraria significa que estamos
diante de proprietário absenteísta.

Quanto à usucapião, temos a usucapião especial rural no art. 191 da CF/88, com os
requisitos já tratados acima.

Outro reflexo da posse agrária envolve o direito de preferência ou preempção. O


possuidor agrário vai ter direito à preferência ou preempção na aquisição do imóvel. O
estatuto da Terra estabelece requisitos para exercício dessa preempção, que serão
tratados mais à frente, no tópico dos contratos agrários. Envolve os contratos de
arrendatário, de parceiro(a), entre outros.

Há também o reflexo da indenização por benfeitorias. Se for benfeitorias úteis ou


necessárias, não se discute direitos de indenização. Já as voluptuárias dependem da
aquiescência prévia do proprietário para realização das benfeitorias. É possível,
inclusive, em certas situações, a retenção do imóvel até o pagamento das benfeitorias.

compulsoriamente. Assim, após o reassentamento, o novo imóvel em que ele for


alocado poderá ser objeto de legitimação de sua posse. Mas isso ainda não é pacífico.
Por fim, temos a tutela possessória. O possuidor agrário também pode defender a sua
posse com os instrumentos previstos na legislação. Dentre eles, temos:

a) Legítima defesa da posse: utilizado quando há turbação na posse. É o inicio das


atividades que podem levar à perda da posse. A ameaça de esbulho. Essa
legitima defesa deve ser proporcional à agressão, sendo o excesso do seu
exercício punível.
b) Desforço incontinente: pode ser utilizado quando estamos diante do esbulho, que
é a perda efetiva da posse. Esses dois instrumentos são utilizados diretamente
pelo possuidor.
c) Ações Possessórias:

c.1) Ação de Interdito Proibitório – aplica-se quando há ameaça de turbação ou


esbulho
c.2) Ação de Manutenção de Posse - aplica-se quando há turbação
c.3) Ação de Reintegração de Posse – aplica-se quando há o esbulho

O CPC atribui caráter fungível às três ações possessórias, podendo o magistrado


aproveitar a ação proposta independentemente de haver alguma modificação,
ratificação em elação ao instrumento equivocadamente proposto.
Além disso, o rito muda a depender do momento em que houve a ameaça,
turbação ou o esbulho. Se ocorre a propositura dentro de 1 ano e 1 dia desde a
ocorrência do fato, o rito obedecido será especial. Se não foi proposta nesse
período, seguimos o rito ordinário.
O NCPC dispõe que, no rito especial, o autor propõe a ação possessória, juiz
analisa a concessão da liminar, faz, se achar necessário, a audiência de
justificação para ver se tem posse agrária ali, e concede ou não a liminar. O MP
deve intervir no processo, sob pena de nulidade do processo. A Defensoria
também, caso haja beneficiário de assistência judiciária gratuita.

Art. 565, § 4º, CPC: (copiar artigo)


Essa convocação p/ negociação prevista no artigo acaba acontecendo depois da
concessão liminar, o que torna inefetivo. Torna o instrumento útil apenas para
ajudar a cumprir a reintegração de posse, mas não p/ discutir a situação num
espectro mais amplo. De qualquer forma, esses órgãos (como exemplo da
Ouvidoria Agrária Nacional, hoje extinta, e de órgãos destacados da Polícia
Militar) não existem mais no plano fático, o que inviabiliza tais negociações.

AULA 12 – 04/07/2017

A presença de organizações como a Ouvidoria Agrária Nacional, Fundação Palmares,


comando especial da PMBA tinha a ideia evitar maior violação de direitos na execução
de mandados de reintegração, manutenção ou de interdito proibitório. Havia no TJ BA
provimento que determinava que toda vez em que se fosse cumprir esses mandados, que
antes se articulasse com o comando especial da PM (CONSOPE) para a execução da
liminar. Não era qualquer força policial que seria convocada. Havia um retardamento
cumprimento da liminar para que se verificasse os detalhes da situação, vendo se era
possível uma solução negocial. A ideia era evitar que o juiz se fundamente tão somente
no que foi trazido na Petição Inicial, abrindo um contraditório antes de cumprir a
liminar. O novo modelo legal inviabilizou essa situação, como se verá a seguir:

No atual procedimento, o autor, ajuíza a ação, o juiz pode ou não determinar audiência
de justificação da posse. Se não determinar, expede o mandado de cumprimento da
liminar. Depois disso, há possibilidade de 2ª audiência, ai sim convocando os órgãos
federais e estaduais interessados na situação fundiária (urbana ou rural), no sentido de
dizer se é possível construção de solução conciliada. Essa ultima se chama audiência de
mediação. O que mudou é que essa mediação, que antes não fazia parte do processo e
ocorria antes do cumprimento do mandado de reintegração/manutenção, passou a fazer
parte do processo e a ocorrer, necessariamente, após o cumprimento da liminar.

5. TERRAS DE USO COMUM (POSSE E RECONHECIMENTO DE TERRAS


INDIGENAS, QUILOMBOS E FUNDOS E FECHOS DE PASTO)

Terras de uso comum são também chamadas de terras comunitárias, terras


tradicionalmente ocupadas (essa , inclusive, e a forma como a CF/88 se expressa sobre a
matéria), território, etc.
Quanto à posse, o vinculo entre o bem (terra ou outro bem ambiental) e o sujeito não é
mais a partir de um individuo, mas a partir de uma comunidade, de uma coletividade,
que mantem um vinculo de pertencimento com a terra ou outro bem, e o que vai
fundamentar esse vinculo é o aspecto cultural. A posse sobre a terra de uso comum,
chamada de posse tradicional (também chamada de posse imemorial, étnica) depende
desse aspecto cultural, da cultura.

Cultura, a partir da concepção antropológica de Roberto da Matta, significa a tradição


viva conscientemente elaborada. Tradição viva no sentido de, por estar uma cultura em
permanente interação com outras culturas, ela está também sempre em transformação,
modicando-se ao longo do tempo. É, por isso, viva. Conscientemente elaborada, pois
é característica do ser humano o agir consciente, em oposição ao agir instintivo dos
outros animais. Quando agimos, refletimos sobre o que fazemos. As transformações que
ocorrem no nosso modo de viver, fazer e criar decorrem da nossa reflexão, são
elaboradas conscientemente. Exemplificando, um ninho de joão-de-barro será sempre
igual, onde quer que ele esteja, pois o pássaro age reagindo ao meio ambiente. Um
barco humano construindo por uma cultura será diferente do construído por outra, pois
ele reflete sobre o que faz, tendo em vista seu modo de viver, de criar, etc.

Quando a CF faz referencia a essas terras de uso comum, é no capítulo que se refere aos
povos indígenas, no art. 231 (copiar).

À época da Constituinte, vários grupos de movimentaram. Até Movimento Nacional de


Meninos de Rua existia. A participação popular de fato ocorreu em torno da
Constituinte. A Constituinte inclusive recepcionava propostas de emendas populares. A
proposta do movimento indígena à época era que cada aldeia indicasse seus
representantes, que participariam da Assembleia Nacional Constituinte, e, ao final dela,
esses indígenas voltariam às aldeias, sem pleitear cargos de deputado ou senador. Essa
proposta não foi aceita, por ser considerada muito radical.

A principal critica dos grupos indígenas em relação aos textos constitucionais anteriores
era a perspectiva assimilacionista que existia neles. Segundo essa perspectiva,
deveriam ser reconhecidos direitos aos indivíduos na medida em que eles abdicassem de
sua diversidade, de sua tradição.
Essa discussão contra o assimilacionismo já existia a algum tempo, há mais de 30 anos,
o que resultou na Convenção nº 169 Organização internacional do Trabalho (OIT) em
1989, determinando reconhecimento direitos aos povos originários em consonância com
o reconhecimento de seus aspectos tradicionais. Isso ocorria pois a OIT tem
representação não apenas dos Estados, mas também patronal e de trabalhadores. Foram
os trabalhadores que trouxeram essa questão para discussão.

A OIT utiliza a expressão território para designar as terras de uso comum,


considerando elas os espaços materiais e imateriais (o que representa essa base
ambiental) que sejam úteis para reprodução dos povos tradicionais sob um ponto de
vista econômico, cultural, religioso. É a base territorial onde a cultura se manifesta.
Onde as atividades materiais e imateriais se manifestam. Exemplo de atividade imaterial
é a exercida num cemitério, onde a cultura local impõe preservação. Não há necessidade
que ocorra atividade agrária no local, basta a reprodução física, cultural, religiosa,
econômica de determinado grupo.

Mas como definir o grupo? Quem é índio, não índio, tribal ou não tribal? A Convenção
nº 169 traz a ideia de auto identificação para definir isso. Não se trata hétero-
identificação, não é um terceiro que identifica, mas o próprio individuo e sua
coletividade que vão se identificar como pertencente a um determinado grupo.

A auto identificação com um grupo é observada a partir de dois critérios, um objetivo e


um subjetivo. No critério objetivo, consideramos a ideia de pertencimento a um grupo
para caracterização de identidade étnica. O grupo deve reconhecer o individuo como
pertencente àquele grupo. No critério subjetivo, o individuo deve se reconhecer
enquanto parte do grupo. A consciência individual se vincula à consciência coletiva.

AULA 13 – 06/07/2017

Não houve aula, apenas roda de conversa com alunos indígenas.

AULA 14 – 11/07/2017
5.1. POSSE E RECONHECIMENTO DE TERRITÓRIOS TRADICIONAIS
INDÍGENAS

A definição da noção de terras tradicionalmente ocupadas busca reconhecer vínculos


jurídicos entre um grupo e um bem, a partir do aspecto cultural.

A ideia aqui é abarcar não apenas o aspecto econômico da posse da terra, mas também o
aspecto religioso, cultural, etc. Ex. Um cemitério de indígenas deve ser protegido, pois
envolve tradição religiosa, devendo ser considerado também como terra
tradicionalmente ocupado. Todos os lugares onde ocorre reprodução física, material,
imaterial, cultural, econômica, religiosa, esportiva e educacional do grupo étnico devem
ser abarcados pela ideia de terra tradicionalmente ocupada.

Trata-se de posse ancestral, imemorial. É difícil até demarcar quando começou.


Quando usamos o vocábulo tradicionalmente ocupados, quer-se falar de território
ocupados inclusive no passado, antes de serem usurpados (aqui no Brasil houve
usurpação por capitania hereditária, sesmaria, etc.). Essa noção de terra
tradicionalmente ocupada envolve, portanto, não só a ocupada hoje, mas a ocupação
diacrônica, na medida em que diverge a ocupação atual da que costumava ocorrer.

O STF sempre interpretou dessa forma, mas a 2º turma do STF, a partir do que se infere
de seus julgados (e em especial após o julgamento do caso Fazenda Raposa Serra do
Sol), quer romper com essa noção diacrônica de terra tradicionalmente ocupada,
mantendo a ideia sincrônica tão somente de “terra ocupada”.

O art. 231 da CRFP/88 traz uma ideia de terra tradicionalmente ocupada:

§ 1º São terras tradicionalmente ocupadas pelos índios as por eles


habitadas em caráter permanente, as utilizadas para suas atividades
produtivas, as imprescindíveis à preservação dos recursos ambientais
necessários a seu bem-estar e as necessárias a sua reprodução física
e cultural, segundo seus usos, costumes e tradições.

Também o art. 14 da Convenção 169 da OIT traz uma ideia de “território”:

1. Dever-se-á reconhecer aos povos interessados os direitos de


propriedade e de posse sobre as terras que tradicionalmente
ocupam. Além disso, nos casos apropriados, deverão ser adotadas
medidas para salvaguardar o direito dos povos interessados de utilizar
terras que não estejam exclusivamente ocupadas por eles, mas às
quais, tradicionalmente, tenham tido acesso para suas atividades
tradicionais e de subsistência. Nesse particular, deverá ser dada
especial atenção à situação dos povos nômades e dos agricultores
itinerantes.

Por fim, o art. 2º do Decreto Federal nº 6040/2007

Art. 2o A PNPCT tem como principal objetivo promover o


desenvolvimento sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais,
com ênfase no reconhecimento, fortalecimento e garantia dos seus
direitos territoriais, sociais, ambientais, econômicos e culturais, com
respeito e valorização à sua identidade, suas formas de organização e
suas instituições.

Quando a Constituição, no caput do art. 231 se refere aos povos tradicionalmente


ocupados, ela usa o vocábulo “reconhecimento”. Não é a toa. No caso dos povos
indígenas isso ocorre pois estamos diante de um direito originário, que já existia, e
apenas foi reconhecido. Estamos diante de dimensão do direito que precede o próprio
ordenamento jurídico brasileiro. O Estado brasileiro não está diante de constituição de
um direito, mas de uma declaração desses direitos que já existem previamente. 4

A Convenção nº 169 da OIT traz a noção de território, mas traz outras ideias muito
importantes. Se aplica aos povos “indígenas e tribais”. Aqui no Brasil, essa ideia de
tribal está vinculada aos povos tradicionais. Ex. quilombolas, fundos e fechos de pasto,
ciganos, seringueiros do acre, pescadores artesanais: a todos eles se aplica essa
Convenção, pois todos eles seriam “povos tribais”, no conceito trazido pela Convenção.

Outro elemento importante trazido na Convenção é que qualquer atividade exercida


pelo Poder Público, seja administrativa ou legislativa, que impacte a vida, existência e
hábitos dessas comunidades tradicionais, dependem de consulta prévia, livre e
informada a esses povos. Exemplo: se o Estado quer construir uma rodovia que pode
incidir sobre um território indígena, o ente público deve consultar aquele grupo sobre os
impactos da obra sobre eles. Contudo, essa consulta não tem poder de veto.

4
A luta de Chico Mendes e os seringueiros para possibilitar o uso das florestas de modo sustentável
para o extrativismo deu origem a uma espécie de unidade de conservação chamada “Reserva
Extrativista”. Essas reservas são destinadas às comunidades tradicionais.
Além disso, estabelece que esses povos tradicionais não devem ser retirados de seus
territórios tradicionais. Contudo, ressalva a possibilidade excepcional de deslocamento
dos povos de seu território temporariamente, e caos não seja possível voltar, o
pagamento de indenização. Isso acaba enfraquecendo bastante essa ideia de terra
tradicionalmente ocupada na Convenção.

DIREITOS TERRITORIAIS INDIGENAS NA CF/88

Antes da CF/88, havia as cartas de concessão de sesmarias, na qual havia dispositivo


não permitindo concessão de sesmaria sobre territórios indígenas. Além disso, tínhamos
o Alvará, cuja data diverge entre 30/07/1711 e 30/07/1611. Esse alvará traz o instituto
do indigenato, que nada mais é do que a federalização daquilo que já aparecia
individualmente em cada carta de sesmaria: não é permitido exploração de terra
indígena.

Posteriormente temos a Carta Régia de 1680 enviada pelo Rei de Portugal, e que
proibia a tomada de propriedade pelos sesmeiros dos territórios ocupados pelos
indígenas.

A CF 1891 silenciou a respeito dos indigenatos. A de 1934 reconheceu a posse exercida


pelos silvícolas (forma que se referia aos indígenas).

O Estatuto do Indio trazia gradação entre as terras indígenas: (i) Terras Ocupadas; (ii)
Terras Reservadas; (iii) Propriedade Particular.

A partir dessa classificação, essa ideia de terra tradicionalmente ocupada foi


corrompida, em especial pela ideia de terra reservada. Na terra reservada o
procedimento ocorre assim: o Estado, ao reconhecer esse direito originário, pode o fazer
em terra diferente da tradicionalmente ocupada, afetando local diverso do espeço de
ocupação tradicional. Isso forçava a transferência da comunidade tradicional e
desconsiderando a ideia de ocupação tradicional. As vezes, inclusive, se misturava
diversas etnias em uma só terra reservada, como no Parque do Xingú.

Nessa ideia de terra reservada, estão abrangidas quadro modalidades: parque, reserva,
colônia agrícola e território federal indígena. As que mais proliferaram foram os
parques e as reservas.
A ideia de terra ocupada dialoga mais com a ideia de terras tradicionalmente ocupadas.
Já a propriedade particular é a terra de domínio das comunidades indígenas, ou mesmo
de um só determinado indivíduo indígena.

A CF/88 acaba com a modalidade de terras reservadas e de propriedade particular. Hoje


trabalhamos apenas com a categoria de terra tradicionalmente ocupada, que seria como
uma sofisticação da ideia de terra ocupada que havia no Estatuto do Indio.

Essas terras são de propriedade da União, sendo os bens vegetais, minerais, hídricos,
animais são de usufruto exclusivo dos indígenas. O aproveitamento dos recursos
hídricos e minerais por terceiros depende de consulta previa, livre e informada das
populações, aqui com poder de veto, e posterior aprovação de Congresso Nacional.

Além disso, segundo a CF, os povos indígenas não podem ser removidos de seu
território, salvo situações de catástrofe e epidemia. Cessadas essas situações
excepcionais, eles devem retornar a seu território.

Essas terras tradicionalmente ocupadas, por serem da União e possuírem usufruto


exclusivo das comunidades indígenas, são indisponíveis (não estão sujeitos a alienação,
permuta, doação, etc.), impenhoráveis (não sujeitos as a constrição judicial) e
imprescritíveis (não sujeitas a usucapião). Como dizia Pontes de Miranda, são nenhuns
os direitos de propriedade alegáveis em face de terras indígenas.

-------------------------------------------------------------- A 1ª PROVA VAI ATÉ AQUI !

Quanto à demarcação, a primeira etapa é a realização de estudos antropológicos, cujo


objetivo é determinar onde e qual a dimensão da terra tradicionalmente ocupada. Não é
definir se são ou não indígenas, já que o critério para tanto é a auto identificação dos
próprios índios. O método utilizado na antropologia é o método etnográfico.

Pode haver ainda estudos complementares, com de agrônomos, estudo do direito


sucessório envolvido, etc.

Depois, esses laudos antropológicos serão submetidos à FUNAI, que então efetuará
analise. Há o prazo de 15 dias do recebimento dos estudos para que sejam publicados os
estudos. Após esse prazo, possíveis interessados podem ...