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ISSN 1413-389X Trends in Psychology / Temas em Psicologia – 2015, Vol.

23, nº 3, 715-726
DOI: 10.9788/TP2015.3-15

Homofobia e Preconceito contra Diversidade Sexual:


Debate Conceitual

Ângelo Brandelli Costa1


Henrique Caetano Nardi
Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul,
Porto Alegre, RS, Brasil

Resumo
O termo homofobia tem sido amplamente utilizado para a conceitualização do preconceito e discrimina-
ção contra indivíduos que apresentem orientação sexual diferente da heterossexual. Apesar do seu uso
corrente no Brasil, são quase ignoradas a extensa discussão e as controvérsias teóricas em torno do ter-
mo desde que foi cunhado na década de 1970 nos Estados Unidos. Esse estudo discutirá o surgimento do
conceito homofobia, seus empregos, limites, possibilidades e implicações teóricas. Também abordará as
reinterpretações da ideia de homofobia a partir da psicologia social à luz dos conceitos de preconceito e, por
extensão, de atitudes. Por fim, defender-se-á o uso da construção “preconceito contra diversidade sexual”
como alternativa à homofobia para melhor definir o fenômeno quando pensado do ponto de vista individual.
Palavras-chave: Homofobia, Psicologia Social, preconceito contra diversidade sexual.

Homophobia and Prejudice against Sexual Diversity:


Conceptual Debate

Abstract
The term homophobia has been widely used for the conceptualization of violence and discrimination
against individuals who have different sexual orientation from heterosexual. Despite its current use, it is
almost ignored, especially in Brazil, the extensive theoretical discussion and controversy around the term
since it was coined in the 1970 in the USA. This study discusses the emergence of the term homophobia
its uses, limits, possibilities and theoretical implications. It will also addresses the reinterpretations of
the idea of homophobia by social psychology using the concept of prejudice and per extent attitudes.
Finally, it is defended the use of the construction “prejudice against sexual diversity” as an alternative
to homophobia to better define the phenomenon in the individual point of view.
Keywords: Homophobia, Social Psychology, prejudice against sexual diversity.

Homofobia y Prejuicio contra Diversidad Sexual:


Debate Conceptual

Resumen
El término homofobia se ha utilizado ampliamente para la conceptualización de la violencia y la discri-
minación contra las personas con orientación sexual distinta de la heterosexual. A pesar de su uso actual,

1
Endereço para correspondência: Rua Ramiro Barcelos, 2600, Bairro Santa Cecília, Porto Alegre, RS, Brasil
90035-003. E-mail: brandelli.costa@ufrgs.br e hcnardi@gmail.com
Apoio financeiro: Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), Conselho
Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
716 Costa, A. B., Nardi, H. C.

son casi ignorados el amplio debate teórico y la controversia en torno a la palabra desde que fue acuñada
en la década de 1970 en los Estados Unidos. Este estudio analizará el surgimiento del concepto homofo-
bia sus empleos, límites, posibilidades e implicaciones teóricas. También se abordará reinterpretaciones
de la idea de homofobia a la luz de los conceptos prejuicio y, por extensión de actitudes. Por último, se
va a defender el uso de la construcción “prejuicio contra diversidad sexual” como una alternativa para
definir mejor el fenómeno cuando pensado de punto de vista individual.
Palabras clave: Homofobia, Psicología Social, prejuicio contra diversidad sexual.

O termo homofobia tem sido amplamente bia, seus empregos, limites, possibilidades e im-
utilizado para a conceitualização da violência plicações teóricas. Na segunda parte, são abor-
e discriminação contra indivíduos que apre- dadas as reinterpretações da ideia de homofobia
sentem orientação sexual diferente da heteros- produzidas pela psicologia social no contexto
sexual, especialmente no Brasil (por exemplo: anglo-saxão, sobretudo, na sua vertente norte-
Junqueira, 2007; Prado & Machado 2008). Não -americana à luz dos conceitos de preconceito e,
é difícil constatar que homofobia já faz parte por extensão, de atitudes. Por fim, será defendi-
do vernáculo popular e acadêmico e figura na do o uso da construção “preconceito contra di-
imprensa nacional em quase todas as discussões versidade sexual” como alternativa à homofobia
sobre o tema (Possamai & Nunes, 2012). A pró- para melhor definir o fenômeno quando pensado
pria política de combate ao preconceito contra do ponto de vista individual.
orientação sexual e identidade de gênero lança-
da em 2004 pelo governo brasileiro tem como Do Surgimento ao “Fim”
título Brasil sem Homofobia, o mesmo ocorre da Homofobia
com outras políticas e programas que a seguiram
(Mello, Brito, & Maroja, 2012). Historicamente, a psicologia teve um papel
Apesar do seu uso, são quase ignoradas, no central na legitimação e na perpetuação do es-
Brasil, a extensa discussão e as controvérsias te- tigma relacionado às orientações não heterosse-
óricas em torno do termo desde que foi cunhado xuais (Gilman, 1985). Boa parte do século XX
na década de 1970 nos Estados Unidos (Fernan- testemunhou à interpretação dominante da psi-
des, 2012). O que é a homofobia, afinal? Uma cologia e da psiquiatria a respeito da homossexu-
patologia? Uma atitude? Um modo particular alidade, a qual se fez presente nas duas primeiras
de ver o mundo? Um traço de personalidade? A edições do manual diagnóstico de doenças psi-
homofobia é um fenômeno individual, coletivo, quiátricas da American Psychiatric Association
institucional? Trata-se de uma questão política, (APA). Nelas, “homossexualismo” figurava pri-
cultural, histórica, psicológica, sociológica, psi- meiro como um transtorno de personalidade e
quiátrica? Portanto, do ponto de vista da pesquisa em seguida como um transtorno de identidade
acadêmica e da precisão conceitual é necessário sexual. Variados problemas foram descritos nas
perguntar: ainda é válido empregar o conceito de pesquisas que supostamente apoiavam a noção
homofobia? Com seu caráter polissêmico, que da homossexualidade como patologia, incluindo
potencialidades e limites apresenta frente a dife- falta de clareza conceitual, classificação inade-
rentes abordagens? O conceito é suficientemente quada dos participantes, grupos de comparação
preciso para produzir os efeitos dele esperados? inadequados, amostragem falha, não observân-
O conceito de homofobia deveria ser ressigni- cia de fatores sociais possivelmente correlacio-
ficado, abandonado, substituído ou, quem sabe, nados e uso de medidas questionáveis (Gonsio-
ser pensado em conjunto com outros conceitos? rek, 1991). Infelizmente, essas pesquisas foram
(Junqueira, 2007). por muito tempo ignoradas e as orientações não
Buscando responder a essas questões, esse heterossexuais acriticamente patologizadas até
texto será dividido em duas partes. Na primeira, meados da década de 1970. No entanto, o maior
descrevem-se o surgimento do conceito homofo- catalisador para a mudança no estatuto diagnós-
Homofobia e Preconceito contra Diversidade Sexual: Debate Conceitual. 717

tico da homossexualidade não foi o pretenso em que a homossexualidade deixa de ser toma-
avanço científico, mas o ativismo político (Dres- da como um problema de saúde, as discussões
cher, 2010). nesse campo recaem sobre aqueles que a con-
Os esforços políticos para promover os di- sideram um desvio. George Weinberg publica,
reitos dos homossexuais remontam a Europa do em 1972, Society and the Healthy Homosexual
século XIX (Greenberg, 1988). Contudo, foi no (A Sociedade e o Homossexual Saudável), intro-
período posterior à Segunda Guerra Mundial, duzindo o conceito homofobia: “Homofobia é o
nos EUA, que grupos se organizaram para con- pavor de estar próximo a homossexuais – e no
testar a discriminação, embora de maneira dis- caso dos próprios homossexuais, autoaversão”
creta e pouco intrusiva. Em 1969, um incidente (Weinberg, 1972, p. 8). O livro popularizou o
violento entre a polícia e os/as frequentadores/as termo e introduziu o preconceito contra orienta-
gays e travestis de um bar em Nova York, cha- ção sexual como um problema acadêmico digno
mado Stonewall, iniciou uma nova fase do ati- de análise e intervenção. O projeto de Wein-
vismo. Acontecimentos semelhantes emergiram berg tinha duplo sentido, a preocupação política
na esteira dos eventos de maio de 1968, na Euro- (mais que teórica) em fornecer ferramentas de
pa, apontando para uma militância visível. Esta luta para o movimento gay da época e, também,
transformação de um modo de ser homossexual a de situar a discriminação contra homossexuais
pré e pós Stonewall aponta para dois modelos no campo da patologia, via a ideia de fobia (He-
de afirmação da sexualidade, uma a ser vivida rek, 2004). “Eu nunca consideraria um paciente
no espaço privado (no armário) e outra que pro- curado caso não superasse seu preconceito con-
põe uma afirmação política das sexualidades não tra homossexuais”, escreveu Weinberg (1972, p.
heterossexuais no espaço público (Chauncey, 1), invertendo dessa forma a distinção que até
2002). O movimento que ganhava força con- então opunha de um lado o “homossexual de-
frontava os tradicionais estereótipos associados sajustado” e de outro a “sociedade normal”. O
à homossexualidade. No lugar de buscar serem termo rapidamente ganhou popularidade, passou
tratados como minoria, tais grupos buscavam a ser de uso corriqueiro no ativismo político e re-
repensar a forma como era entendida/construída presentou um avanço na reivindicação por direi-
a sexualidade e seu lugar na sociedade (Green- tos de populações LGBT, assim como na com-
berg, 1988). Esse novo ativismo logo percebeu preensão do preconceito a que essas populações
que as teorias psicológicas, psiquiátricas e psica- foram submetidas.
nalíticas em torno da homossexualidade contri- No entanto, a ideia de homofobia não lo-
buíam para a manutenção do estigma. Passando grou somente méritos. Um claro exemplo foi
da contestação à ação, ativistas participaram das seu uso no sistema judiciário norte-americano.
reuniões da APA mostrando o sofrimento psí- Historicamente, as práticas judiciárias e os jú-
quico decorrente do estigma que era reforçado ris enviesados não mitigaram os crimes anti-
pelas categorias diagnósticas psiquiátricas (Mar- -homossexuais, pelo contrário, perpetuaram o
cus, 1992). Esse embate entre ativismo político e ciclo de violência e abuso (Harvard Law Re-
o establishment psiquiátrico e psicológico norte- view [HLR], 1990). O advento da ideia de ho-
-americano culminou na mudança no estatuto mofobia cronificou essa situação. Muitas cortes
diagnóstico da homossexualidade. permitiram aos/às perpetradores/as de violência
Em 1973, a APA removeu o “homossexu- anti-homossexual reivindicar que suas ações se
alismo” da terceira edição do seu manual diag- deviam a transtornos psicológicos via ideia de
nóstico de doenças mentais (DSM III), em virtu- homofobia e/ou via um “pânico homossexual”
de da falta de bases empíricas que associassem a proveniente de uma homossexualidade latente e
homossexualidade a indicadores de transtornos reprimida. Mesmo nos casos em que faltava um
psicológicos e devido às pressões do movimen- claro apontamento de que o acusado cometeu um
to pelos direitos sexuais LGBT (lésbicas, gays, crime com base no pânico homossexual, a mera
bissexuais e travestis/transexuais). No momento admissão da orientação sexual da vítima nor-
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malmente resultava em leniência (HLR, 1990). ísse sobre a vítima (os/as homossexuais) e não
Sustentando-se na proposição teórica de que o sobre o/a agressor/a. Outra ressalva era a de que
medo e o ódio a um/a homossexual não eram de- a homofobia tornaria o preconceito uma patolo-
terminados por uma volição, convencionou-se a gia de indivíduos específicos que desviariam de
ideia da falta de controle para violência anti-ho- uma sociedade supostamente igualitária, obscu-
mossexual. A aceitação da homofobia como um recendo a análise do preconceito como um pro-
uma doença mental diminuiu a responsabilidade blema enraizado na estrutura da sociedade. Ou
individual para as consequências do preconceito seja, a homofobia individualizaria um problema
e reconheceu o comportamento discriminatório que também é social (Wickberg, 2000). Na es-
como imutável e inevitável, portanto encorajan- teira dessas críticas, outros termos surgiram para
do sua recorrência. dar conta do fenômeno do preconceito; dentre os
Outros problemas teóricos rapidamente mais citados estão heterossexismo e heteronor-
emergiram. Em primeiro lugar, o reconhecimen- matividade.
to de que a homossexualidade, mesmo em estado O heterossexismo não tem origem nem
latente, não constituía uma doença, fez com que definição precisas. Herek (2004) aponta que o
a ideia de pânico homossexual perdesse força. termo teria sido criado no interior do movimento
Uma vez que não haveria um desajuste inerente pela ampliação dos direitos civis, na década de
à homossexualidade, não se justificaria psicolo- 1970, a partir das ideias de racismo e sexismo.
gicamente a perda do juízo proveniente de uma Heterossexismo por vezes é utilizado como sinô-
homossexualidade reprimida por parte do agres- nimo de homofobia, porém parece oferecer uma
sor. Em segundo lugar, estudos demonstraram explicação mais sociológica, remetendo o pre-
que a homofobia não era uma doença, mas um conceito à estrutura institucional, material e ide-
preconceito. Apesar de já haver apontamentos ológica da sociedade. Herek (2004) fornece uma
teóricos anteriores, Logan (1996), em um estudo visão mais precisa do construto, afirmando que o
que investigava a natureza das respostas anti- heterossexismo se refere à manifestação e à per-
-homossexuais, constatou empiricamente pouca, petuação, em instituições como a justiça, a edu-
se é que alguma, evidência em prol da caracteri- cação e o trabalho, da ideia de que tudo que não
zação dessas respostas como fóbicas. Através de é heterossexual tem menos valor e legitimidade.
um questionário de atitudes em relação a homens É o heterossexismo que cria as condições para
e mulheres homossexuais, estudantes universi- as manifestações da homofobia (Pharr, 1997).
tários foram avaliados quanto a suas atitudes, Como o heterossexismo é uma prática institucio-
se fóbicas ou preconceituosas. Como a maioria nal que discrimina mesmo quando não há uma
das respostas não foi classificada como fóbica, intenção de indivíduos isolados ao preconceito,
o autor concluiu que as atitudes anti-homosse- uma análise a partir desse ponto de vista permite,
xuais precisavam ser teorizadas a partir da psi- por exemplo, perceber a origem do preconceito
cologia do preconceito e não da psicopatologia. indireto, como as leis que excluem populações
Portanto, o termo homofobia se mostrava outra não heterossexuais por omissão.
vez inadequado conceitualmente para designar o O termo heteronormatividade, por sua vez,
preconceito contra homossexuais. foi criado por Michael Warner na década de 1990
A homofobia também foi alvo de críticas para definir o sistema de ideias que estabelece a
políticas. Uma dessas ressalvas sugeriu que, se heterossexualidade como norma. Segundo essa
o preconceito fosse considerado uma resposta perspectiva, a partir dos sexos biológicos (ma-
incontrolável, o/a homofóbico/a tenderia a ser cho, fêmea) se convencionaram expressões de
visto/a menos como agressor/a e mais como ví- gênero (masculina, feminina), das quais deriva-
tima dos/as homossexuais (que para resolver o riam orientações sexuais (hetero/homossexual).
problema, deveriam permanecer ocultos/as, se Ou seja, há a imposição de uma linearidade/con-
não deixar de existir). Ou seja, a ideia de homo- gruência entre sexo biológico, gênero e orienta-
fobia faria com que o ônus do preconceito reca- ção sexual, sendo que essas categorias mantêm
Homofobia e Preconceito contra Diversidade Sexual: Debate Conceitual. 719

uma relação de necessidade e complementarida- Como demonstrando na tipologia proposta,


de umas com as outras. O autor vai além, sus- não se pode perder de vista que o preconceito
tentando que a inteligibilidade do humano passa é simultaneamente um fenômeno social e indi-
pela afirmação da heterossexualidade (Warner, vidual. Cada perspectiva pode, independente-
1993). Tendo como foco a análise discursiva, mente, oferecer insights valiosos a respeito da
Warner defende existir uma oposição entre hete- natureza do preconceito sem ser redutível a um
rossexualidade e homossexualidade, ou seja, por nível mais fundamental ou superior de análise.
se constituir em oposição à homossexualidade, Como afirmou Gordon Allport (1954), a cau-
a heterossexualidade é automaticamente anti- sação plural do preconceito, é a primeira lição
-homossexual. Nesse caso, a solução apontada que se deve ter em mente.
seria a transgressão de tais polos, descontruindo É importante ressaltar que a “internaliza-
essas duas noções. ção” das dinâmicas sociais que desqualificam
Em resumo, numa tentativa de conciliar tais a diversidade sexual também acontece com as
visões por vezes contraditórias, seguindo a pro- pessoas não-heterossexuais. A ideia de estresse
posta de Herek (2004, 2007) pode se dizer que de minoria (minority stress), discute esse caso
em um primeiro nível, mais próximo da ideia de (Meyer, 2003). Essa teoria postula que a discri-
heteronormatividade, o preconceito se manifesta minação sofrida como resultado de pertencer a
no conhecimento compartilhado que desqualifi- um grupo socialmente desfavorecido leva a re-
ca sexualidades, identidades, comportamentos e sultados adversos para a saúde. Esses resultados
comunidades não heterossexuais, demarcando adversos são oriundos do acúmulo de estressores
grupos sociais e valorando diferentemente esses sociais, geralmente conceitualizados como: (a) a
grupos e seus membros. Um segundo nível, se experiência direta de rejeição ou violência como
expressa na estrutura da sociedade, nas relações resultado da orientação sexual; (b) a construção
de poder e instituições, por exemplo, negando da própria identidade a partir das atitudes nega-
o acesso a direitos fundamentais à população tivas da sociedade em relação à diversidade se-
LGBT. Esse nível corresponde ao que se tem xual; (c) a antecipação do preconceito, que está
definido como heterossexismo. Por fim, os indi- associada, por exemplo, a ocultação da orien-
víduos são formados a partir desses modelos e, tação sexual. Embora a leitura contemporânea
por meio de suas atitudes e crenças, os reforçam, esteja dando grande ênfase para o preconceito
constituindo o terceiro nível, que pode ser de- do ponto de vista das vítimas, objetivo desse ar-
nominado preconceito contra diversidade sexual tigo, como já exposto, é analisar o dinâmica do
(Tabela 1). preconceito do ponto de vista dos agressores.

Tabela 1 O Preconceito contra


Modelos Teóricos Diversidade Sexual
Conceito Unidade de Análise

Heteronormatividade Discursos Como foi exposto, o conceito homofobia foi


gradativamente perdendo força e sendo recon-
Heterossexismo Estrutura Social
ceitualizado a partir da psicologia do preconcei-
Preconceito contra to. Portanto, de forma a definir de maneira mais
Atitudes
diversidade sexual
precisa o preconceito contra diversidade sexual é
Nota. Baseada em Adam (1998). necessário retomar, a partir da psicologia social,
sobretudo norte-americana, o conceito de pre-
Percebe-se, portanto que homofobia (agora conceito e, por extensão, de atitudes.
preconceito contra diversidade sexual), heteros- Gordon Allport (1954), em sua obra The
sexismo e heteronormatividade não são exclu- Nature of Prejudice, fez a primeira abordagem
dentes e oferecem explicações e possibilidade sistemática do preconceito descrevendo-o como
de intervenções em níveis distintos de análise. atitudes adversas ou hostis em relação a uma
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pessoa que pertence a um grupo, simplesmente ças são os aspectos cognitivos, aquilo que se
porque pertence a esse grupo, presumindo-se pensa, a respeito do objeto atitudinal. Alguém
assim que ela possui as características contestá- pode acreditar que homossexuais não devam ser
veis a ele atribuídas. Contemporaneamente, ou- professores do ensino fundamental. Essa crença
tras definições são utilizadas, embora guardem constitui uma informação cognitiva que compõe
em relação à definição clássica a ideia de atitu- a atitude em relação às orientações não-heteros-
de: o preconceito é uma atitude (tanto positiva sexuais. O componente afetivo das atitudes tra-
quanto negativa) em direção a um grupo ou seus ta daquilo que se sente em relação ao objeto, as
membros que cria ou mantém uma relação de sensações e as emoções que o objeto evoca; por
status hierárquica (Dovidio, Hewstone, Gilck, exemplo, experienciar raiva ou repulsa quando
& Esses, 2010). Atitude é um conceito que se se está com homossexuais. Comportamentos
confunde com a própria história da psicologia compreendem as interações, incluindo prévias e
social (Farr, 2002). Ele já figurava nos primeiros futuras, com o objeto atitudinal. O fato de que
escritos de Thurstone e Allport no início do sé- alguém não selecionaria um candidato homos-
culo XX, e apesar de diversas críticas e reformu- sexual em uma entrevista de emprego constitui
lações recebidas, segue em uso por ser útil para uma informação comportamental importante a
sumarizar a avaliação a respeito de outra pessoa, respeito da atitude em relação às orientações não
de si mesmo, objetos, ações, eventos, ideias, etc. heterossexuais.
A literatura consagrou a definição de ati- A atitude descrita anteriormente, retoman-
tude do The Psychology of Atitudes de Eagly do a definição de Dovidio et al. (2010), pode
e Chaiken (1993). Os autores definem atitude ser descrita como preconceito. Ela é composta
como uma tendência psicológica que se expres- de uma crença negativa e generalizante (estere-
sa em uma avaliação favorável ou desfavorável ótipo), um afeto negativo e um comportamento
de uma entidade específica. Disso decorrem negativo (discriminação; Figura 1).
alguns consensos: (a) Atitude é uma tendência Comecemos investigando os aspectos cog-
psicológica, ou seja, é um estado com alguma nitivos do preconceito, os estereótipos. Allport
estabilidade temporal, diferentemente da per- (1954) considerou o ato de estereotipar uma ten-
sonalidade, que seria mais estável, ou dos es- dência sui generis do pensamento. Dada nossa
tados emocionais, que seriam passageiros. (b) limitada capacidade de processar informações,
As atitudes são aprendidas e, portanto, modifi- adotamos estratégias que simplificam problemas
cáveis. (c) A atitude é uma resposta avaliativa. complexos. Fazemos isso ora negligenciando al-
Admiração seria o extremo da atitude positiva. gumas informações para reduzir o excesso, ora
O preconceito seria o extremo de uma atitude utilizando outras em demasia para não ter de
negativa. (d) Atitude é um construto hipotético, procurar por novas. Por exemplo, se pensarmos
isso indica que as atitudes não são diretamente em Juliano, 24 anos, médico veterinário, mora-
observáveis. Trata-se, portanto, de uma inferên- dor de Porto Alegre, de origem alemã e homos-
cia sobre os processos psicológicos de um indi- sexual; mesmo sem conhecermos a pessoa em
víduo, a partir de observações dos seus compor- questão, certamente, muitas imagens relativas
tamentos, de suas crenças e de seus afetos. Em à homossexualidade, origem alemã, morador
suma, atitude é uma organização relativamente de Porto Alegre, médico veterinário e jovem
duradoura de crenças, dotada de carga afetiva se farão presentes em nossa mente. Quando in-
pró ou contra um objeto definido, que predispõe teragirmos com Juliano, a interação tende a ser
a uma ação (Vala & Monteiro, 2004). mediada menos pelas características individu-
As atitudes são compostas por afetos, com- ais do jovem do que pelas categorias e todas as
portamentos e crenças. Embora para muitos es- informações que já foram recebidas a respeito
tudiosos a evocação dessas dimensões não seja delas. Assim, para determinados grupos sociais,
necessária, já que o termo atitude as englobaria, médicos veterinários podem ser vistos como
elas são úteis para análise (Brown, 2010). Cren- extremamente respeitáveis e, por consequência,
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Figura 1. Preconceito contra diversidade sexual.

essa será impressão de Juliano. O estereótipo se Muitos instrumentos foram desenvolvidos


refere justamente a essas qualidades percebidas para avaliar o componente cognitivo do precon-
que suspostamente refletem um indivíduo ou um ceito. No caso do preconceito contra diversidade
grupo (Dovidio et al., 2010). sexual, o Homophobia Scale, Attitudes Toward
Esse tipo de categorização não é em si o pre- Homosexuality Scale, Index of Homophobia,
conceito, mas lhe dá fundamentos. O preconcei- entre outros identificados por Costa, Bandeira e
to se forma graças aos estereótipos presentes em Nardi (2013) e Schawanberg (1993). Esses ins-
determinadas culturas, que muitas vezes servem trumentos partem do princípio de que o precon-
para justificar e manter desigualdades sociais. ceito pode ser acessado por meio de autorrelato
Por exemplo, um estereótipo construído cul- do posicionamento individual. Eles apresentam
turalmente e associado aos negros nos Estados afirmações do tipo “se eu visse dois homens de
Unidos é o crime. Por isso, pessoas brancas as- mãos dadas em público eu me sentiria perturba-
sociam mais rapidamente situações relacionadas do” onde o entrevistado deve marcar se concorda
ao crime quando encontram com uma pessoa ou não. É importante observar como esses itens
negra (Smith & Makie, 2000), o que traz impli- são construídos a partir de estereótipos presentes
cações relevantes para o cotidiano daquele país. e determinadas culturas e épocas e, portanto,
No caso das orientações não heterossexuais, um precisam de revisões constantes. Por exemplo,
estudo mostrou o papel dos estereótipos na ma- uma das primeiras versões da Attitudes Toward
nutenção do preconceito através da técnica do Gays and Lesbians Scale (ATLG) continha itens
júri simulado para investigar a culpa atribuída como: “aos homens homossexuais não deveria
à vítima em casos de crimes motivados por ser permitido lecionar em escolas primárias e
orientação sexual (Plumm, Terrance, Hender- secundárias” e, “as leis estaduais que regulam o
son, & Ellingson, 2010). Quanto mais negativas comportamento sexual privado e consentido en-
as atitudes do júri em relação a orientações não tre mulheres lésbicas deveriam ser modificadas”
heterossexuais, maior foi a atribuição de culpa à (Herek, 1987). Com se percebe, esses são itens
vítima, quando ela era homossexual. que dizem respeito ao contexto norte-americano
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dos anos 80 e 90. No Brasil, esse tipo de pre- teriormente, o preconceito pode ser institucional
conceito se manifesta de outras maneiras. His- e não oriundo do comportamento discriminatório
toricamente, a homossexualidade no Brasil foi individual; embora o comportamento individual
caracterizada pelas expressões de gênero vin- se legitime a partir do plano institucional, uma
culadas aos papéis sexuais (o bofe, um homem vez que a tendência é que aquelas pessoas que
masculino ativo sexualmente; e a bicha, um apresentem crenças negativas se comportem de
homem feminino e passivo sexualmente; Fry, maneira discriminatória (Smith & Makie, 2000).
1986). Com a organização do movimento social Em outro estudo do aspecto comportamental do
em torno da luta contra a epidemia de AIDS nos preconceito (Gabriel & Banse, 2006), os partici-
anos 90, influenciados pela cultura norte-ameri- pantes receberam uma chamada por engano de
cana, o modelo bicha-bofe mudou, e os homens um homem que se identificava em algumas situ-
que fazem sexo com homens passaram ser des- ações como heterossexual e em outras como ho-
crito como ‹gay›, independentemente de papéis mossexual. Informando que seu carro havia que-
sexuais (Green, 1999). No entanto, os aspectos brado e que estava sem dinheiro para pagar outra
do modelo tradicional mantiveram-se, e até hoje ligação, o homem pedia que os participantes da
homens gays “masculinos”, que muitas vezes se pesquisa telefonassem por ele para seu namora-
consideram e são considerados heterossexuais, do ou sua namorada, dependendo do caso. Os re-
estão mais protegidos do preconceito (Parker, sultados de diversos países são consistentes em
1999). Recentemente, Costa, Peroni, Bandeira, e mostrar que homossexuais foram menos ajuda-
Nardi (2013) reuniram evidência empírica apon- dos do que heterossexuais.
tando para o papel central das normas de gênero Embora possamos avaliar o preconceito por
na manifestação de preconceito contra diversida- meio de nossas crenças e comportamentos, as
de sexual no Brasil. respostas emocionais podem ser mais fidedignas,
No entanto, essas técnicas de autorrelato já que, na maioria das vezes, são expressões in-
apresentam algumas limitações. Por exemplo, voluntárias de nossas atitudes. O corar da face, o
não é possível saber se as respostas a essas técni- suor das mãos, o coração bater mais depressa são
cas são genuínas ou se o entrevistado tentou pas- respostas espontâneas a estados emocionais ex-
sar uma boa imagem de si, agradável ao entrevis- tremos que podem ser ativados pelo preconcei-
tador (Vala & Monteiro, 2004). Outra limitação to. Algumas técnicas foram desenvolvidas para
é oriunda do trabalho de LaPiere (1934) em um avaliar isoladamente os componentes afetivos
estudo clássico. O autor viajou pelos EUA acom- do preconceito. Um estudo investigou reações
panhado de um casal de chineses, registrando as espontâneas associadas ao preconceito contra
reações dos funcionários de diversos restauran- diversidade sexual através de medidas psicofi-
tes e hotéis pelos quais passaram. O grupo foi re- siológicas como condutância de pele, eletromio-
cusado em apenas um dentre mais de 200 locais. grama facial e frequência cardíaca quando par-
Algum tempo depois, LaPiere enviou uma carta ticipantes da pesquisa eram expostos a imagens
a cada um desses estabelecimentos, perguntando de conteúdo homossexual e a estímulos neutros
se aceitariam chineses como clientes. Das res- (Lasaitis, 2009). O estudo encontrou altas corre-
postas recebidas, 92% foram negativas. Esses lações entre essas respostas e as medidas cogni-
resultados mostraram que há uma discrepância tivas de preconceito. Outro estudo utilizou uma
a ser considerada entre os componentes cogni- técnica menos ortodoxa para avaliar a relação
tivos e comportamentais do preconceito. O tra- entre o desejo homossexual e as atitudes negati-
balho de LaPiere é um exemplo de investigação vas em relação a orientações não heterossexuais.
da discriminação, o aspecto comportamental do Homens autodeclarados heterossexuais foram
preconceito. LaPiere demonstrou em seu estudo expostos a estímulos eróticos homossexuais e
que as crenças preconceituosas nem sempre ge- tiveram as mudanças na circunferência peniana
ram atos hostis. O contrário também ocorre. No monitoradas. Os participantes mais preconcei-
caso da ideia de heterossexismo, como visto an- tuosos apresentaram aumento na circunferência
Homofobia e Preconceito contra Diversidade Sexual: Debate Conceitual. 723

peniana ao serem expostos a vídeos com estímu- Diversas pesquisas de base populacional
los homossexuais explícitos. Ou seja, segundo o atestaram essas mudanças, mostrando por exem-
estudo, o preconceito está aparentemente asso- plo que os norte-americanos se tornaram mais
ciado ao desejo homossexual que os sujeitos ne- liberais em relação à orientação sexual nos últi-
gam ou não têm ciência do ponto de vista da re- mos 30 anos (Andersen & Fetner, 2008; Loftus,
presentação cognitiva (Adams, Wright, & Lohr, 2001). No entanto, muitos autores colocaram
1996). A pesquisa citada parece confirmar a tese em questão a univocidade desse processo. Eles
já rechaçada do “pânico homossexual”, ou seja, afirmam que as mudanças nas normas sociais e
a impossibilidade de controle individual para a o incremento nas legislações antidiscriminação
resposta preconceituosa. Na verdade, ela aponta foram o que tornou praticamente inaceitável
para uma discussão psicanalítica que pressupõe expressar o preconceito abertamente. Portanto,
que uma constituição psíquica em contextos cul- o que pode estar acontecendo é ocultamente do
turais marcados pela rejeição social da homos- preconceito e não sua diminuição. Algumas teo-
sexualidade faz com que indivíduos manifestem rias foram desenvolvidas para testar essa hipóte-
uma reação defensiva na forma de preconceito. se. Uma delas utiliza uma técnica experimental
Com a definição da homofobia enquanto conhecida como bogus pipeline. Nessa técnica,
preconceito, a partir da pesquisa psicológica os participantes são conectados por eletrodos na
no contexto anglo-saxão, sobretudo norte-ame- pele a um equipamento que supostamente pode
ricano, diversos consensos foram construídos a detectar o que eles estão verdadeiramente sen-
respeito desse preconceito: (a) homens e mulhe- tindo. Durante todo experimento, o participante
res têm atitudes similares em relação a mulhe- é convencido de que o equipamento é genuíno
res homossexuais, no entanto, homens tendem a quando de fato é uma farsa. O experimento con-
ser mais preconceituosos em relação a homens siste em responder a um inventário sobre precon-
homossexuais; (b) as atitudes preconceituosas ceito sob o escrutínio da máquina. As respostas
favorecem o adoecimento das pessoas que tem das pessoas sob a condição pipeline são então
como alvo; (c) mulheres tendem a ser menos comparadas com o grupo que não foi conectado
preconceituosas do que homens; (d) pessoas com ao falso equipamento. A assunção é de que as
idade mais avançada tendem a estigmatizar mais pessoas conectadas à máquina serão mais fiéis
os indivíduos não heterossexuais do que aquelas àquilo que realmente acreditam para não serem
de meia idade; (e) uma maior escolaridade está pegas de surpresa. De fato, experimentos com
associada a um menor grau de preconceito; (f) o essa metodologia têm demonstrado diferenças
preconceito correlaciona-se positivamente com significativas entre grupos. Um estudo investi-
racismo, visão tradicional e estereotipada das gando atitudes em relação às orientações não he-
expressões de gênero, visão ortodoxa e conser- terossexuais utilizando o bogus pipeline relatou
vadora da religião e conservadorismo político; menos preconceito no grupo controle (Boysen,
(g) pessoas que tiveram contato prévio com in- Vogel, & Madon, 2006).
divíduos não heterossexuais tendem a ser menos As pesquisas utilizando o bogus pipeline
preconceituosas do que aquelas que nunca tive- sugeriram que podemos manter duas atitudes
ram; (h) por fim, a percepção de que os pares similares sobre o mesmo objeto, uma explícita,
manifestam atitudes negativas contribui para passível de ser revelada, e outra implícita. É o
manifestações do preconceito (para um apanha- contexto e a desejabilidade social – nosso desejo
do desses estudos: Dovidio et al., 2010; Herek, de ser aceitos socialmente – que parecem deter-
2000). No entanto, algumas controvérsias têm se minar quais atitudes podem vir à tona. O Implicit
apresentado no debate recente, a partir da ten- Association Test (IAT) é uma medida de atitudes
dência que começou a ser percebida ao longo da desenvolvida para detectar o preconceito nessas
década de 1990 é a do declínio de declarações circunstancias. O IAT foi desenvolvido por Ban-
preconceituosas públicas, especialmente nas so- se, Seise e Zerbe (2001) e avalia atitudes implí-
ciedades ocidentais no hemisfério norte. citas utilizando os procedimentos de primming.
724 Costa, A. B., Nardi, H. C.

O teste avalia a força da associação automática às formas antigas de preconceito, e esse parece
entre conceitos usando uma tarefa de categoriza- ser o caso do Brasil (Costa, Peroni, et al., 2013).
ção informatizada. Os participantes são crono-
metrados enquanto associam símbolos represen- Considerações Finais
tando grupos (p. ex., figuras de casais hetero e
homossexuais) a palavras positivas e negativas A partir dessa reflexão ainda é válido em-
(p. ex., homossexual + ruim, heterossexual + pregar o conceito de homofobia? Cabe ressaltar
bom). Nesse tipo de avaliação, pessoas precon- que, do ponto de vista político, o termo homofo-
ceituosas associam mais rapidamente imagens bia é potente, apresentando uso corrente na lín-
que representam homossexuais a palavras com gua, sendo usado para nomear programas gover-
conotação negativas e imagens representando namentais e fomentar o advocacy (Fernandes,
heterossexuais a palavras positivas e vice-versa. 2012). Entretanto do ponto de vista conceitual,
Outro conjunto de teorias afirma que de fato a precisão é fundamental, e o termo preconceito
houve uma mudança social e que ela promoveu contra diversidade sexual parece melhor definir
alterações na maneira como as pessoas enca- o fenômeno.
ram o gênero, a raça e a orientação sexual, por É evidente que existem diferentes níveis
exemplo. Para essas teorias, uma nova forma de de análise nos quais o preconceito pode ser es-
preconceito mais simbólica e indireta substitui o tudado e, para uma compressão mais global do
“preconceito antigo”. Nessa visão, o preconceito fenômeno, certamente, uma abordagem inter-
moderno não tem a forma de aversão ou de ati- disciplinar é necessária. A história nos permite
tude negativa, mas se apresenta de maneira mais compreender a construção de nossa linguagem
ambivalente, inclusive positiva. Muitos homens e intuições e seu papel no fomento do precon-
têm a opinião de que eles são incompletos sem ceito, o trabalho de Michel Foucault (1998) é
as mulheres ou que mulheres são mais sensíveis um exemplo disso. A análise jurídica nos per-
do que os homens, ou ainda que uma mulher res- mite perceber como um determinado sistema de
peitável deve ser posta em um pedestal. Essas leis privilegia alguns grupos de indivíduos em
são atitudes positivas que, no entanto, colocam detrimento de outros. É o caso do código civil
a mulher em uma situação de dependência e, brasileiro que há muito necessita de revisão no
portanto, subordinada em relação aos homens. que diz respeito às populações LGBTs (Rios,
É dessa forma que o preconceito pode se esta- 2011). Uma análise mais sociológica pode mos-
belecer a partir de uma atitude supostamente trar, por exemplo, como os déficits psicológicos
positiva, porém hierarquizante. O mesmo ocor- que supostamente distinguiam os homossexuais
re com o preconceito em relação à diversidade dos heterossexuais eram fruto da grande segre-
sexual. Morrison, Kenny e Harrington (2005) gação social e do estigma vivenciado por esse
criaram um instrumento para avaliar aquilo que grupo e não de características inatas (Herek,
eles chamam de homonegatividade moderna. 2010; Meyer, 2003). E na psicologia, conforme
Para os autores, as objeções clássicas à homos- exposto no presente estudo, o campo de estudos
sexualidade ligadas à religião, lei e medicina não do preconceito tem sido evocado ao se estudar o
são mais aplicáveis. A nova escala busca avaliar preconceito do ponto de vista individual.
então crenças como: “homossexuais têm deman- A psicologia tem sido mais bem-sucedida
das ilegítimas ou desnecessárias para mudar seu em explicar o preconceito do que em alivia-lo.
status quo” (o direito ao casamento e à adoção); Uma vez que o preconceito é resultado de muitos
“homossexuais exageram a importância da sua fatores interacionados, não há uma solução fácil.
orientação sexual e, por isso, falham em se assi- Muitas dessas soluções já foram aplicadas com
milar à cultura dominante” (a criação das paradas algum grau de sucesso com o preconceito racial
do orgulho); “a discriminação a homossexuais é e de gênero. Estamos em tempo de descobrir se
coisa do passado”. Apesar de ser uma hipótese o mesmo se estenderá para a diversidade sexual
útil, ainda há diversos contextos mais sensíveis e essa discussão conceitual pretende contribuir
Homofobia e Preconceito contra Diversidade Sexual: Debate Conceitual. 725

para esse processo, uma vez que a precisão con- Dovidio, J., Hewstone, M., Glick, P., & Esses, V.
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