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DEPOIMENTO

O aparente e o oculto:
entrevista com David
Bohm*

D avid Bohm, Professor Emérito da Universidade de Londres


(Birkbeck College), é um dos físicos teóricos mais importantes
da atualidade, devido aos seus trabalhos sobre a Teoria
Quântica. Por suas preocupações com os fundamentos da Física, foi
levado ao amplo terreno da Teoria da Ciência, introduzindo o conceito
de implicate order que, relacionado com a categoria da totalidade, deu
origem ao chamado paradigma holográfico, por sua analogia com o
holograma. Tais preocupações são expostas em seu livro "Wholeness
and Implicate Order", Routledge and Kegan Paul, London, 1981.
Sob a orientação de Robert Oppenheimer iniciou suas atividades de
pesquisa obtendo o seu PhD em 1943. A seguir, trabalhou no
Radiation Laboratory no estudo teórico da ionização em um arco
elétrico do fluoreto de urânio, assunto relacionado com a separação do
urânio-235, do urânio-238 e que interessava ao Projeto Manhattan.
Assim começou a sua preocupação com o estudo do plasma, obtendo
importantes resultados. Este problema científico teve também
implicações filosóficas na obra de Bohm, pois o comportamento do
plasma não pode ser entendido de um ponto de vista mecanicista,
tendo em vista que o relacionamento dos modos individual e coletivo
de suas partículas lembra um todo orgânico e coloca o problema da
relação entre o todo e suas partes sempre presente em sua Teoria da
Ciência. Algum tempo depois, tornou-se professor da Universidade de
Princeton, onde começou a escrever o seu livro " Quantum Theory",
Prentice-Hall, 1951, hoje, um clássico no assunto.
Com o surgimento da Guerra Fria, importantes cientistas americanos,
muitos dos quais tinham participado do Projeto Manhattan que
construiu a primeira bomba atômica, começaram a ser perseguidos
pelo Mc Carthyism, entre outros Oppenheimer, diretor deste projeto,
e seu discípulo Bohm. Preocupado com a situação de Bohm,
Schenberg o convida a vir à Universidade de São Paulo, onde regeu a
cátedra de Física Teórica de 1951 a 1955. Do Brasil, via Israel, foi
para a Inglaterra em 1957, onde permanece até hoje.

* Entrevista com o prof. David Bohm, realizada pelo prof. Alberto Luiz da Rocha Barros, do Instituto de Física da
USP, em 8/março/83, no Birkbeck College, University of London.
Aos interessados em maiores detalhes sobre a vida científica e cultural
do prof. Bohm, recomendamos a leitura do artigo "The
Development of David Bohm's Ideas from the Plasma to the
Implicate Order", de autoría de B. J. Hiley, seu colaborador no
Birkbeck College e de F. D. Peat, que figura no livro " Quantum
Implications: essays in honour of David Bohm", edited by B. J. Hiley
and F. D. Peat, Routledge and Kegan Paul, London, 1987.
Em comemoração do 50° aniversário da USP e do 70° aniversário do
prof. Mário Schenberg, fizemos, por sugestão da profª Amélia
Império Hamburger, a presente entrevista, cuja tradução foi feita por
d. Maria Cristina Amado e revista pelo próprio prof. Bohm, que
procurou relembrar seus conhecimentos da língua portuguesa.

Entrevista com David Bohm


ALBERTO Luiz DA ROCHA BARROS
Rocha Barros — No ano que interpretação usual da Teoria dos
vem, a Universidade de São Paulo Quanta nega a causalidade e,
completa 50 anos. Sua estada de tendo proposto outra
quatro anos na USP foi muito interpretação que parece
importante para a Física Teórica no reafirmá-la, achava que talvez o
Brasil, além de ter influenciado a quadro probabilístico da
Filosofia da Ciência. Qual foi o Mecânica Quântica pudesse ser
significado desse período para sua entendido de uma forma similar à
pesquisa? Mecânica Estatística.
D. Bohm — Quando fui para o Quando cheguei a São Paulo,
Brasil, estava trabalhando numa Tiomno estava lá, e começamos a
nova interpretação da Teoria dos trabalhar desenvolvendo uma
Quanta, que encerrei agora. interpretação causai da teoria de
Tendo terminado minha pesquisa Pauli sobre o spin ¹. Continuamos
sobre plasma, estava pensando esse trabalho com Schiller. Meu
em seguir mais além, pois estava interesse crescente pelas questões
muito interessado na questão filosóficas me levou a discutir
filosófica. Acho que minha ida Filosofia com o irmão de Walter
para o Brasil me deu Schützer, que estava no
oportunidade de prosseguir essa Departamento de Filosofia.
discussão, primeiro com Tiomno Começamos discutindo a
e Schiller, depois com Walter Filosofia grega, depois passei a
Schützer e, também, com Mário estudar a História da Filosofia,
Schenberg — tudo isso me considerando o desenvolvimento
interessou muito, no sentido de do mecanismo, principalmente,
ajudar a dar prosseguimento a depois de discussões com Mário
meu trabalho. Schenberg, sobre uma abordagem
dialética da causalidade.
Comecei tendo um interesse
especial na causalidade. A Com Walter Schützer, desenvolvi

(1) D. Bohm, R. Schiller and J. Tiomno, Nuovo Cimento l, Supp., 1955, p. 48.
algumas idéias sobre vista de Niels Bohr, mas as coisas
probabilidade e escrevemos um não estavam muito claras. Em
paper ("Nuovo Cimento" — parte devido ao estilo de Bohr,
Suplemento)2. Assim, acho que que não fazia afirmações
muitas de minhas idéias se definitivas, positivas. Então, ao
desenvolveram bastante durante escrever " Quantum Theory",
minha estada no Brasil — e tentei torná-lo o mais claro
surgiram muitas idéias novas possível para mim mesmo, mas,
também. quando o terminei, ainda estava
Rocha Barros — Seus livros insatisfeito. Comecei a pensar
" Quantum Theory e "The numa idéia — que veio a ser o
ponto de partida da implicate order
Special Theory of Relativity" são — que era a seguinte: no
usados nos cursos da Universidade de processo de espalhamento, há
São Paulo e muito apreciados por uma onda vindo e sendo
alunos e professores. Numa espalhada e há uma onda saindo
entrevista para a " New Scientist' daquela fonte que é o espaihador
em novembro de 1982, você disse que (A incoming wave está
o "Quantum Theory" foi escrito relacionada estatisticamente com
para explicitar melhor o ponto de a outcoming wave.) — a onda
vista de Bohr sobre Mecânica chegando e a onda saindo. Esse
Quântica. Você discutiu com tipo de idéia se aproximaria do
Einstein sobre isso em Princeton. A que mais tarde vim a chamar de
sua crítica à Filosofia positivista enfoldment de implicate order. Eu
inspirou muitos professores e devia ter seguido adiante nisso!
estudantes em São Paulo. Poderia
falar sobre isso? Mandei este meu livro para vários
D. Bohm — Eu sempre achei físicos, inclusive Pauli, Einstein e
que a Teoria dos Quanta era um Bohr. Tive uma resposta rápida e
novo passo, muito crucial, da entusiástica de Pauli, que gostou
Física, cujo significado não estava muito; Bohr não respondeu —
mais tarde soube que ele fez
muito claro. Eu tinha feito o comentários... Einstein leu,
curso de Teoria dos Quanta com gostou muito e me mandou uma
Oppenheimer em Berkeley, mensagem telefônica dizendo que
Califórnia, e, inspirado nisso, gostaria de conversar comigo. Ele
comecei a dar um curso de achou que o livro refletia o ponto
graduação em Princeton, que de vista de Bohr, mas que ainda
acabou se transformando no livro
" Quantum Theory". Nessa não estava convencido.
época, eu estava me esforçando Discutimos suas objeções, que
por compreender o ponto de vista são basicamente as que ele dá no
estudo do paradoxo de
de Bohr. Eu era a favor dele, não Einstein-Podolsky-Rosen, mas eu
só por causa de Oppenheimer, diria isso de uma forma
mas devido às discussões com ligeiramente diferente: a teoria
Weinberg, um ardente defensor está incompleta, não no sentido
de Niels Bohr, e que achava que de que uma teoria completa
as idéias dele constituíam o maior explicaria tudo a respeito do
desenvolvimento ocorrido desde universo, mas no sentido de que
o início da Ciência. um relógio está incompleto se
Podia-se entender o ponto de uma peça importante estiver

(2) D. Bohm and W. Schützer, Nuovo Cimento 2, Supp. 4,1955, p. 1004-1047.


faltando... ele achava que uma realidade? A Mecânica Quântica
peça importante da Teoria não faz isso. Esta diz que,
Quântica estava faltando, uma primeiro, tem-se uma observação
peça que a faria ter sentido... e, depois de algum tempo, outra
observação que, de certo modo,
Bem, comecei a sentir a mesma anula o resultado da primeira,
coisa; a questão com que estava fornecendo um novo estado. E
começando a me defrontar, não diz como é que este surge,
aquela da onda indo e vindo, era como está relacionado com o
uma discussão sobre o real, um outro, a não ser por um cálculo
real independente do observador, estatístico, fornecendo uma
ao passo que, do modo usual, o probabilidade.
real ficava dependendo do
observador. Disso tudo fica a idéia de que, no
fim das contas, o real depende do
Von Neumann, por exemplo, físico que o observa, quer dizer,
admitia isso, porém achava que, se você tiver uma função de onda
classicamente, podia-se deixar isso que entre em colapso num e não
de lado. Haveria uma linha em outro resultado, então o físico
divisória entre o nível clássico e o também tem que entrar em
da Mecânica Quântica, de modo colapso. Assim, isso parece tornar
que você poderia discutir o real necessário que o físico esteja por
num nível clássico, enquanto a perto para que o universo seja
Mecânica Quântica aconteceria do real, e achei que isso estava
outro lado da parede... errado. Quer dizer, achei que esta
Pareceu-me uma idéia um pouco era uma interpretação positivista,
arbitrária, a de pôr um corte e aliás até mais do que positivista,
dividir o mundo assim em duas era uma tendência ao idealismo
partes. atribuir à mente humana tal
A questão que levantei é: posição-chave num fenômeno
podemos pensar o mundo como físico. Embora eu reconheça que
um só, como uma única há uma estreita relação entre a
mente e a matéria, não creio que como eu entendo, é
a mente humana possa ter papel conhecimento que usa análise.
tão relevante num experimento Mas, ao mesmo tempo, seu
físico típico, como o acima objetivo é ver o todo, não apenas
mencionado. dividi-lo em partes, isto é,
O que mais me impressionou na encontrar as partes certas para ver
o todo.
discussão com Einstein foi a
conclusão de que era necessário A Ciência foi primordialmente
ter uma visão não-positivista das encarada como se desenvolvendo
coisas. Comecei a pensar numa, o num mundo totalmente objetivo,
que me fez esquecer por certo mas hoje se vê que o ser humano,
tempo a implicate order. suas idéias, têm um papel-chave.
Há uma espécie de evolução
Rocha Barros — Você escreveu contínua de idéias. As idéias com
ensaios sobre a Criatividade e sobre as quais você aborda o mundo
as relações entre Ciência e Arte; você vão obviamente afetar sua
observava que a maioria dos seres maneira de ver o mundo. Sempre
humanos não são plenamente vemos apenas um aspecto do
criativos e parecem estar num mundo e, portanto, nossas idéias
estado de sono, e que essa irão não somente selecionar
tendência a adormecer seria aquele aspecto como também, até
atribuível a um número enorme de certo ponto, criar a própria coisa
pré-concepções... que vemos, o que fica evidente na
D. Bohm — Comecei a me tecnologia moderna que a Ciência
interessar especificamente por nos ajudou a criar.
essas questões quando cheguei a Assim, a força da idéia é a de
Londres. Comecei a me criar, tanto quanto a de refletir.
corresponder com um artista Descobriu-se, por exemplo, que a
chamado Charles Biederman, que Matemática não era constituída
mora nos Estados Unidos. de verdades absolutas, mas que as
Discutimos muito essas questões
e, também, com alguns artistas pessoas poderiam considerar
aqui em Londres. Estava novos axiomas, elaborar as
interessado nas relações entre conseqüências e assim ter uma
Ciência e Arte, e na Criatividade, maneira inteiramente diferente de
que é comum a ambas. Primeiro, encará-la. Há, pois, uma evolução
contínua. A Arte também teve
tem-se que constatar que há uma sua evolução e ao longo dos
grande diferença entre Ciência e tempos foi sendo encarada de
Arte, e que não se pode alinhá-las formas diferentes, especialmente
segundo similaridades nos tempos modernos.
superficiais. Originalmente,
estavam estreitamente Desenvolveu-se, houve
combinadas. Em Leonardo da revoluções, como a grande
Vinci ainda tivemos um homem revolução que se deu na época de
que as combinava bem, mas Monet e dos impressionistas.
posteriormente, foi havendo uma Segundo Biederman, é como se a
crescente especialização. velha maneira de fazer Arte se
estivesse exaurindo, em parte
Para começar, a própria palavra porque já se teria resolvido o
ciência vem de uma raiz latina problema da representação
(scientia) que significa cortar (a realista. Não haveria mais nada de
mesma, aliás, de scissors, tesoura novo, seria repetitivo continuar
em inglês) e, portanto, Ciência, com a representação do tipo
faz-uma-pose-para-eu-pintar e, em não é a maneira correta de fazer
parte, também devido ao Ciência. Tal atitude crítica seria a
desenvolvimento da fotografia, atitude científica, ou a disposição
que estava desvendando um mental que acredito, em última
caminho inteiramente novo, instância, teria que ser levada a
surgindo como um novo tipo de todas as áreas da vida, senão as
Arte. A Arte estava em crise, fato coisas nunca darão certo.
que a maioria dos artistas
sensíveis já haviam percebido em A atividade artística incluiria algo
fins do século XIX. Monet é a dessa atitude científica. O artista
expressão disso e o que fez foi deveria ser capaz de olhar para as
essencialmente criar uma imagem, coisas independentemente de seu
partindo de manchas de cor e desejo. A diferença é que o artista
recriando a ordem do espaço não trabalha primordialmente no
nessa ordem de cores. campo das idéias — embora ele
certamente use idéias — mas no
Mais tarde, esta linha de campo do que ele pode perceber
desenvolvimento foi elaborada com seus sentidos, enquanto que
por Cézanne, que estava o cientista os utiliza meramente
interessado em estruturas, por como um teste para suas idéias e
Picasso e outros. Tive uma longa está até os substituindo por
correspondência com Biederman instrumentos.
sobre isso.
Parece haver, portanto, uma
Analogamente, mais ou menos na grande diferença entre o artista e
mesma época, tinha ocorrido na o cientista, que estão em dois
Ciência uma revolução nas idéias, lados diferentes do
com a Relatividade e a Teoria empreendimento humano. O
Quântica, que foi igualmente artista, fazendo seu trabalho
fundamental, se não até mais. artístico, não tem muito controle
A Ciência, para ser construída, sobre este, quer dizer, não sabe se
requer uma certa atitude mental, as pessoas irão comprá-lo,
que eu chamaria de atitude colocá-lo num museu, ou fazer
crítica: faz a crítica de suas idéias qualquer outra coisa.
segundo os fatos e a lógica, Biederman acha que os artistas
independente de que se goste ou deveriam conseguir que seus
não, quer dizer, não é o seu trabalhos entrassem nas casas das
desejo que determina se o que pessoas por um preço menor.
você diz é verdadeiro. De fato,
essa foi uma enorme mudança Quanto à questão de saber o que
porque, na maioria das coisas é a Criatividade, muita gente vem
falando sobre isto há muito
humanas, o desejo é a força tempo3. De um modo muito
dominante quanto ao que as diferente do que no passado, algo
pessoas acham verdadeiro. Na de novo está envolvido na
religião foi certamente assim, na Criatividade, que não seria o
política também e na economia
provavelmente ainda seja! simplesmente novo, ou seja, a
novidade, que não seria,
Os cientistas nem sempre tampouco, a mera invenção, que
conseguem fazer isto direito, quer dizer colocar junto as coisas
permitindo às vezes que o desejo de uma nova maneira, como se
se sobreponha aos dados, o que faz numa máquina; seria antes o

(3) Vid. D. Bohm, On Creativity, Leonardo, vol. 1, pp. 137-149, Pergamon Press, 1968, Printed in Great Britain.
envolvimento de novas geral, de maneira que não se pode
totalidades. A Criatividade vai realmente olhar para nada novo.
abrangendo totalidades cada vez Isso nos leva ao que chamamos
maiores, primeiro no nível da predisposição, uma atitude, que
percepção, seguida da eleboração, está presente antecipadamente, de
tal como o cientista ou o artista abordar uma coisa segundo o que
faz em seu trabalho. A maneira você supõe que ela seja. A
correta disso se dar envolve a predisposição tem um nível
sociedade. É claro, existe uma inconsciente, é uma tendência que
interação constante, no sentido de está lá inconscientemente. Por
que você tem que olhar exemplo, quando se está andando
novamente de uma maneira por um caminho, pressupõe-se
criativa para o que você produziu. que este seja liso, nivelado,
Quanto às pré-concepções, que mesmo depois da curva onde não
se vê; seu corpo está predisposto
você mencionou, uma palavra ao chão liso; se, de repente, o
melhor seria pressuposição. As calçamento estiver irregular, você
pessoas têm todo tipo de
pressuposições sobre o sentido da pode tropeçar, você não estava
olhando para o chão, nem
vida, sobre como devem se predisposto ao calçamento
relacionar, agir; e a maioria das irregular, o que aliás acontece
pessoas têm a pressuposição de cada vez mais freqüentemente
que não são originais. hoje em dia. Há cada vez mais
Provavelmente aprenderam isso gente caindo, pensando que o
muito cedo, na maneira como são calçamento é regular, quando não
tratadas, na escola e em toda
parte. é. Da mesma forma, se você tem
a pressuposição de que não é
É preciso muito pouco para criativo, vai agir de acordo com
desviar uma criança de uma essa pressuposição, apega-se
direção para outra e, uma vez àquelas coisas repetitivas ou
desviada... — em inglês, temos seguras que aprendeu de outras
um provérbio que diz: as the twig pessoas. Isto quer dizer que você
is bent, so the tree will grow — um está de uma certa maneira
ligeiro desvio no caule do broto dá adormecido.
uma grande diferença na árvore.
Uma criança que for desviada, Rocha Barros — Gostaríamos de
mesmo que só um pouquinho, de ter uma idéia de sua pesquisa atual.
sua Criatividade, quando crescer D. Bohm — A linha mestra do
estará desta totalmente afastada. meu trabalho é a implicate order4.
Essas pressuposições — e Idéia que utilizo para melhor
pressuposição significa uma entender a Mecânica Quântica.
conjetura antecipada — implicam Usei o holograma para
olhar para uma coisa tendo exemplificar o que chamo de
suposto antes qual é a situação unfoldment e enfoldment5: em

(4) Á palavra inglesa implicate, como adjetivo, significa implícito e, como verbo, significa implicar, envolver, embaraçar,
etc. Bohm a usa no sentido etimológico da palavra latina implicare que significa dobrar para dentro (embrulhar). A
melhor tradução para a expressão implicou order talvez seja ordem implícita, pois, segundo Bohm, as dobras vão
se desdobrar, vão se explicitar e a implicou order passa para a explicate order. Como ele próprio observa, exem-
plificando com a imagem de televisão, esta é convertida numa ordem temporal que é transportada pelas ondas
hertzianas. Estas ondas transportam a imagem numa ontem implícita (implicate order). A função do receptor de
TV é explicar (explicate) ou explicitar esta ordem, isto é, desdobrá-la na forma de uma nova imagem visual.
(5) Enfoldment é um substantivo que significa dobradura. Provém do verboenfold(envelopar, embrulhar dobrando, etc.).
Unfoldment significa desdobramento. Provém do verbo unfotd (desdobrar, desembrulhar, revelar, etc.).
cada parte do holograma estão comuns de espaço e de tempo
dobradas as ondas do objeto por têm que derivar da implicate order,
inteiro, as quais são então em vez de começarmos com elas
desdobradas, quando se passa pura e simplesmente.
através deste holograma um feixe Toda vez que mudamos nossas
de raios laser, produzindo-se noções sobre o que é o processo
então uma imagem físico básico, temos que modificar
tridimensional 6. as propriedades do espaço e do
A função de Green descreve tempo. Por exemplo, quando
exatamente -esta dobradura Einstein tomou o campo como
(enfoldment) e este desdobramento entidade básica relativística (que é
(unfoldment) na Mecânica um invariante pela transformação
Quântica, e ilustrei isso com a de Lorentz), ele então teve de
idéia do movimento. Ao invés de mudar as noções de espaço e
pensarmos que os objetos estão se tempo apropriadamente.
movendo através do espaço com Do mesmo modo como a
identidade permanente, como no relatividade, tanto a especial
ponto de vista mecanicista, como a geral, trata a gravitação e
dizemos que tudo está outras propriedades como
basicamente se desdobrando. manifestações de propriedades do
Como o holograma é estático, ele espaço-tempo, expressas pelo
é apenas uma analogia muito campo, o que estou tentando
limitada. O movimento real das afirmar é que as propriedades da
ondas-partículas, como os Mecânica Quântica são
elétrons, é um manifestações de propriedades do
constante dobrar/desdobrar. A espaço-tempo ainda mais
aparência de estabilidade é devida profundas, que não devem ser
à rapidez com que isso acontece. consideradas como contínuas e
Isso tudo pode ser aplicado em mecânicas, mas que são realmente
dois níveis: num primeiro, ao criadas, no sentido em que a
elétron como partícula; num matéria é constantemente criada.
segundo, aplicado ao campo, e Gostaria de falar também sobre o
tem-se o que eu chamo de dois potencial quântico. Isso surgiu
níveis de ordem implícita. Um é o pela primeira vez em meu
que acabo de descrever, o campo trabalho de 1951/52, quando
constantemente se desdobrando estava explicando a Mecânica
em algo como uma partícula, que Quântica do elétron. O elétron é
se dobra de novo em campo. O basicamente uma partícula, mas
outro nível é o que eu chamo de acompanhado de um certo campo
super implicate order, que quântico que satisfaz a equação de
organiza a implicate order, mais Schrödinger: pensava num novo
ou menos como um programa de tipo de campo. Este campo agia
computador organiza uma sobre a partícula por meio de um
imagem na televisão. Em potencial quântico que tinha
princípio, isso poderia prosseguir, estranhas propriedades, e uma
para níveis cada vez mais altos de delas é que ele nem sempre
implicate order. diminuía com a distância, podia
Daí, decorre que as nossas idéias ser muito forte a grandes

(6) Vide nota do editor.


distâncias. Chamei a isto de partículas é independente do
não-localidade. Além do mais, o todo.
potencial quântico é uma função, O próximo passo foi aplicar esta
não dos estados das partículas, idéia ao campo. Tomando-se
mas determinada num espaço todo o campo sobre o universo,
multidimensional a partir das ter-se-ia o que eu chamei de
propriedades do todo. As relações superpotencial quântico, que
entre as partes derivam do todo; organizaria o campo
e o todo é, neste sentido, anterior em subtotalidades, que poderiam
às partes. ser estáveis (num certo sentido,
Quando a função de onda se porque as equações para os
decompõem em fatores, as várias campos seriam não-locais e
partes têm um comportamento não-lineares).
independente, porém, isto é só
um aspecto contingente; de uma O potencial quântico, então,
maneira geral, elas não são parece, à primeira vista, um
independentes e isto é retorno às velhas idéias clássicas e
fundamental em Física Clássica, por isso foi criticado por Pauli e
onde as coisas só interagem em outros. Mas acho errado criticá-lo
função de posições deste ponto de vista, pois foi
predeterminadas. Ora, mesmo necessário dar um passo atrás
que se tomasse um potencial de para dar outro à frente, pelo
muitos corpos, com muitas menos no que parecia ser um
partículas interagindo a longas passo atrás.
distâncias, isto já seria um Na Mecânica Quântica, da
abandono parcial do maneira como é usualmente
mecanicismo; mas ainda apresentada, não sabemos do que
não-fundamental, pois, o realmente estamos falando. Para
mecanicismo normalmente obter uma certa visão do seu
envolve interações de poucas significado, foi útil introduzir
partículas que se tornam uma idéia que, à primeira vista,
desprezíveis a longa distância, ao pareceu mecanicista, mas que, ao
passo que as interações a que se examinar o potencial quântico
estamos nos referindo envolvem e suas propriedades, na verdade
muitas partículas e não se tornam nos afastava cada vez mais do
desprezíveis a longa distância. mecanicismo e, em última
Então há, aí, uma conexão muito instância, conduziu à implicate
mais forte entre coisas distantes. order.
Mas a conexão propriamente dita,
a sua forma, é determinada Encarei isso como um
independentemente do estado das movimento de idéias, da mesma
partículas. O que era uma idéia forma como se considera o
nova, sobre a relação entre o todo movimento da matéria de um
e suas partes, e muito mais estado para outro. Também o
dinâmica. próprio pensamento tem de estar
em movimento constante de uma
Em princípio, o universo inteiro idéia para outra. Não estou com
determina cada uma de suas isso pretendendo propor uma
partes, o que é muito mais idéia que seja a grande verdade
significativo do que na Física final, mas apenas dizendo que as
Clássica, na qual o efeito do idéias mudam. Passou-se do
universo pode ser desprezível e a potencial quântico aplicado a uma
forma da função entre as partícula, depois a várias
partículas, em seguida ao complicado.
campo... À idéia se transformou
lentamente chagando à implicate A idéia da direção como
order. propriedade algébrica linear é
Rocha Barros — E quanto à últil porque amarra as
teoria dos Spinors, e à sua visão propriedades geométricas às
algébrica da realidade física? propriedades quânticas. E, assim,
podemos fazer a transformação
D. Bohm — Isso também surgiu de toda a Álgebra para a implicate
do meu contato com Mário order, de modo a dobrá-la numa
Schenberg, que deu uma enorme estrutura que não se localizaria no
contribuição a esse respeito. espaço-tempo.
Pode-se ter uma visão da
Mecânica Quântica Fermiônica e Precisamos dessa Álgebra para
Bosônica através da Algebra, e desenvolver nossas idéias sobre
Schenberg realizou essa ligação como desdobrar o espaço-tempo
(outras pessoas tembém fizeram a partir da implicate order.
o mesmo, porém mais tarde). Fazendo isso, podemos ter, por
Para expressar a implicate order, exemplo, um significado possível
trabalhamos numa continuação, da equação de Dirac, que seria
numa extensão de idéias uma espécie de desvio das
semelhantes. O que temos em propriedades do espaço-tempo
mente não é meramente usar o constituindo-se numa onda com
spinor: estamos tentando obter propriedades geométricas. Seria
uma imagem física do que o uma espécie de tercedura
spinor significa, para compreender (twisting) de certos elementos
por que o meio-angulo é combinada com o movimento no
geométricamente mais espaço-tempo. Isso, talvez,
significante do que o ângulo total elucidasse a questão da ausência
de rotação. Também usamos a ou presença da massa das
idéia de Penrose do twistor, que partículas com a quiralidade
consideramos como um spinor (chirality) das mesmas.
expandido. O twistor é capaz não
apenas de expressar rotações e Rocha Barros — E agora, prof.
transformações conformes; creio Bohm, algumas palavras em
que o twistor pode nos levar às português para os amigos brasileiros
propriedades básicas do espaço, e muito obrigado!
explicitando-as na forma de uma
Álgebra Fermiônica. D. Bohm — Não estou
acostumado a falar português,
O que está claro agora é que o mas gosto muito. Quero mandar
twistor dá uma noção daquilo que saudações a todos os meus
chamei de tratamento algébrico muitos amigos no Brasil; dizer
da direção, que é fundamental e é mais uma vez que tenho boas
muito mais simples do que o lembranças de meu tempo aí, e
tratamento geométrico da que talvez seja possível visitar o
trigonometría, realmente muito Brasil mais uma vez, no futuro.

Notas do entrevistador A. L. da Rocha Barros


(1) O holograma é formado pelo padrão de interferência produzido por dois feixes coeren-
tes vindos de um laser, um dos quais é refletido pelo objeto A que está sendo hologra-
mado. A imagem holográfica B é definida numa placa fotográfica, de modo que um
objeto localizado não e representado por uma imagem localizada, pois qualquer porção
da imagem holográfica contém em si a representação do objeto inteiro.
Neste caso, não temos a correspondência um-a-um da fotografia comum, mas uma
correspondência muitos-a-um, que é adequadamente descrita por meio da junção de
Green. Supondo que o objeto A é des-
crito pelo campo Á(x), então a estrutura
local em cada ponto x do objeto A é
transportada para a estrutura local da
imagem B no ponto y por meio da fun-
ção de Green G(x,y,) tal que
B(y) = G(x,y) A(x) d x
E, assim vemos que a contribuição para a
imagem B (y) no ponto y vem da totali-
dade do objeto: a integral assegura que
cada estrutura local da imagem contém
a informação do objeto inteiro.
Vide: 1) D. Bohm, " Wholeness and the Implicate Order", Routledge & Kegan Paul,
London, 1981 pp. 145 e 160.
2) F. A. M. Frescura and B. J. Hiley, The Implicate Order, Algebras, and the
Spinor, na revista " Foundations of Physics", vol. 10, n°s 1/2,1980, p. 9.
(2) Uma apreciação sobre o potencial quântico de Bohm na interpretação da Teoria Quân-
tica, do ponto de vista da divulgação científica de alto nivel, pode ser encontrada nas
entrevistas de Bohm e de seu colaborador Basil Hiley à BBC de Londres, publicadas
pela Cambridge University Press, no livro " The Ghost in the Atom", edited by P. C.
W. Davies and J. R. Brown, 1986.
(3) Um objeto possui quiralidade (em inglês,chirality ou handedness) se não é idêntico à
sua imagem em um espelho plano. Por exemplo, a mão direita não coincide com a sua
imagem no espelho. Pasteur, em 1848, observou que certos sais do ácido tartárico eram
formados por dois tipos de cristais: um era a imagem especular do outro, e que a solu-
ção de um sal girava a luz polarizada no sentido horário e a do outro sal, no sentido
anti-horário. E, na Academia Francesa de Ciências, fez uma grande conjectura: L 'Uni-
vers est dissymétrique. Uma partícula elementar, ao se mover ao longo do seu eixo do spin}
adquire quiralidade. A descoberta de uma quiralidade preferencial, ou seja, da violação
da paridade na Teoria das Partículas Elementares feita pelos físicos Lee e Yang, em
1956, confirma esta idéia de Pasteur.
(4) O spinor é um ente matemático que descreve a propriedade das partículas elementares
denominada spin. Em termos matemáticos, é uma representação do grupo de rotações
ou, de um modo mais geral, uma representação da Álgebra de Clifford. Schenberg re-
laciona a Álgebra de Clifford com outras álgebras geométricas, observando que a ma-
téria, no nível atômico, ocupa o espaço de um modo muito sutil e assim fala numa
Geometria Quântica com a qual procurou superar a separação, filosoficamente insatis-
fatória, das propriedades espaço-temporais da matéria de outras propriedades da mes-
ma. (Vide A. L. da Rocha Barros," Perspectiva em Física Teórica", p. 130, Edição do
Instituto de Física da USP, 1987).

Alberto Luiz da Rocha Barros, professor do Instituto de Física/USP e membro do Con-


selho Editorial do IEA.