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Gregos

Vida após a morte na mitologia grega


Os gregos antigos são hoje mais conhecidos por sua mitologia do que sua religião,
inclusive pelo fato de não terem possuído textos sagrados e pouco escreveram
sobre seus próprios ritos, a melhor forma de conhecer o pensamento religioso
grego antigo acerca da vida após a morte é estudando sua mitologia, pois em
alguns mitos existem elementos religiosos presentes. Sendo assim trago esse texto
reescrito, pois originalmente o publiquei há alguns anos, mas de maneira bem
simples. Mas passados estes anos e aprofundando meus estudos decidi que o
melhor era reescrevê-lo por completo.

Breve introdução a religião grega antiga:

Antes de descrevermos quais seriam os locais da morte para os antigos gregos, se


faz necessário comentar a respeito de sua religião e algumas de suas
características. Nos textos anteriormente publicados neste mês de dezembro de
2016, os quais abordei o mito dos Doze Trabalhos de Héracles e os mitos dos
heróis gregos já vimos algumas características da religião grega, logo iremos rever
algumas delas e acrescentar outras.

A religião grega antiga como várias outras religiões do mundo, era


uma religião étnica, o que consistia na fé e crenças de um povo específico, neste
caso, os povos falantes da língua grega. Os gregos herdaram parte de suas crenças
de outros povos, em especial dos Micênicos e dos Cretenses, civilizações que já
viviam seu esplendor no século XVI a.C.

Para alguns historiadores os micênicos devam ser considerados gregos,


correspondendo a um período histórico daquele povo. De qualquer forma,
areligião micênica era mais próxima da antiga religião grega do que a religião
cretense. O nome dos principais deuses gregos
como Zeus, Poseidon, Hera, Hermes, Dionísio e Ares foram achados escritos no
antigo alfabeto micênico, isso há mais de três mil anos, o que revela a antiguidade
do culto dessas divindades. Por sua vez, deusas
como Deméter, Perséfone e Atena eram de origem cretense. (SCARPI, 2000, p.
61).

Nesse ponto é preciso recordar que a ideia de Grécia que normalmente temos é às
vezes equivocada. A Grécia Antiga era um aglomerado de cidades-estados
espalhadas pelo sul da Península Balcânica e a Península do Peloponeso, além
de incluir várias outras ilhas no Mar Egeu e algumas no Mar Adriático. Não
obstante, os gregos também colonizaram outras terras, fazendo surgir a
chamada Magna Grécia (nome dado ao território das cidades-estados gregas e
suas colônias). Devido a esse território vasto, heterogêneo e ao mesmo tempo
influenciado por outros povos e crenças, não é de se imaginar que a cultura grega
não apenas influenciou, mas também foi influenciada. Os gregos absorveram
tradições e crenças dos fenícios, dos egípcios, dos persas e de outros povos.
"A religião grega arcaica e clássica apresenta, entre os séculos VIII e IV antes da
era cristã, vários traços característicos que é necessário lembrar. Assim como
outros cultos politeístas, é estranha a toda forma de revelação: não conheceu nem
profeta e nem messias. Mergulha suas raízes numa tradição que engloba a seu
lado, intimamente mesclados a ela, todos os outros elementos constitutivos da
civilização helênica, tudo aquilo que dá à Grécia das cidades-Estado sua
fisionomia própria, desde a língua, a gestualidade, as maneiras de viver, de sentir,
de pensar, até os sistemas de valores e as regras da vida coletiva". (VERNANT,
2006, p. 13).

O historiador italiano Angelo Brelich (1985, p. 39), estudioso da Grécia antiga


apontou que a religião grega não possuía uma literatura sacerdotal, nem livros
sagrados, nem dogmas e nem uma classe sacerdotal. Era uma religião politeísta a
qual se cultuava várias divindades, havendo os grandes deuses e outras divindades
diversas, inclusive de culto regional e local. Era uma religião fundamentada em
ritos domésticos e ritos públicos, algo que ficou em evidência com o surgimento
das póleis. Era uma religião relacionada com a ideia de destino, oráculos,
mistérios, iniciação, sacrifícios de animais e até de humanos. Os deuses eram
responsáveis por tudo no mundo e até mesmo pelo destino dos homens.

Brelich (1985, p. 40) comentava que embora não houvesse uma literatura
sacerdotal e nem livros sagrados, ainda assim encontrava-se na poesia expressões
religiosas. Nesse ponto ele comenta que isso era algo problemático de ser definido,
pois a ideia de literatura sagrada e profana parece não ter existido entre os gregos.
Um poema de teor mitológico poderia ser considerado uma obra de cunho
religioso, pois abordava os deuses e a criação divina. Lembrando que mito e
religião não são iguais. O mito é uma narrativa fantástica que pode ter influência
com o religioso ou não.

“Os mitos, para nós, servem como importante fonte de conhecimento sobre o
pensamento grego e as características de seu culto. Além disso, embora muitas das
histórias dos heróis e suas aventuras sejam imaginárias, revelam aos historiadores,
também, como os gregos se relacionavam com a natureza, suas ocupações, seus
instrumentos, seus costumes e os lugares que visitaram e conheceram. Os mitos
servem, também, para que possamos entender melhor a nós mesmos. Por quê? Por
tratarem de sentimentos humanos, como o amor e o ódio, a inveja e admiração e,
muitas vezes, traduzirem ou procurarem responder a indagações morais e
existenciais que rondam a mente humana. Por isso, ainda hoje, essas histórias
mitológicas gregas falam à nossa sensibilidade, milhares de anos depois. A
maneira de tratar as questões e os sentimentos humanos mais profundos continua
atual, suas narrativas ainda nos emocionam”. (FUNARI, 2002, p. 37).

Na ausência de uma literatura sagrada, de dogmas, de normatizações litúrgicas e


clericais, os gregos viam na sua mitologia, principalmente retratada através da
poesia, na oralidade e até nas artes, uma forma de expressar suas crenças quanto
aos deuses e suas noções de mundo, vida e existência. Nesse ponto, outro
historiador italiano Paolo Scarpi (2000, p. 62), sublinhou que devido a essa
flexibilidade na religião grega antiga, isso permitiu que diferentes formas de
cultos, ritos e crenças coexistissem nos territórios habitados pelos gregos.

Existência da alma e de vida após a morte:

O historiador das religiões Raffaele Pettazzoni (1921, p. 4) comenta que os


gregos antigos possuíam a noção de que todos os seres vivos possuíam
uma anima (alento, vento, respiração, alma, espírito). O historiador assinala que
para a concepção grega, a alma seria como um alento divino, um sopro de vida.
Quando a pessoa falecia, sua alma sairia do corpo como se fosse expirada.
Todavia, a alma continuava a viver, pois era imortal como os deuses. Pettazzoni
comenta também que os gregos costumavam representar a alma simbolicamente
como sendo um pássaro ou uma borboleta.

Junito Brandão (1986, p. 169-170) comenta o mito das idades relatado


por Hesíodo em seu livro O Trabalho e os Dias. Nessa obra Hesíodo diz que no
mundo houve cinco eras, nas quais viveram cinco tipos de humanidades diferentes.
Na primeira, chamada de Idade do Ouro a humanidade não envelhecia, vivia de
forma pacífica e próspera. Quando morriam suas almas continuavam a existir, mas
sem irem para o submundo. Eles continuavam a viver na Terra, embora que num
plano espiritual. Na Idade de Prata o mesmo ocorria com as almas humanas, a
principal diferença é que o clima havia mudado e os homens começaram a
envelhecer e viver menos.

Na Idade de Bronze os homens passaram a viver menos, e se tornaram mais


arrogantes e violentos. Quando morriam suas almas desciam para o Hades.
Na Idade dos Heróis na qual ocorreu a Guerra de Tebas e aGuerra de Troia,
teriam vivido os grandes heróis gregos que os mitos narram suas histórias. A
humanidade continuava a ir para o Hades, mas os heróis após morrerem habitavam
as ilhas dos Bem-Aventurados. Por fim, chegamos a quinta era, a Idade do
Ferro que é o atual período em que vivemos, sendo o mais violento, corrupto,
nocivo, traiçoeiro e vergonhoso. Os grandes heróis já não são mais vistos entre
nós.

“Na estrutura das quatro primeiras raças distinguem-se dois planos


diferentes: ouro e prata de um lado, bronze eheróis de outro. Cada um dos planos
se divide em dois aspectos antitéticos, um positivo, outro negativo: são duas raças
associadas, mas que se opõem, como a Díke (Justiça) contrasta com
a Hýbris (Violência). O que diferencia o plano das duas primeiras raças do plano
das duas seguintes é que ambos se relacionam com funções distintas, que
representam tipos de agentes humanos, formas de ação, hierarquias sociais e
psicológicas opostas. Há, de saída, uma primeira dissimetria: no primeiro plano
(ouro e prata), a Díke (Justiça) é o valor dominante e a Hýbris (Violência) tem
valor secundário; no segundo (bronze e heróis), sucede o contrário,
a Hýbrispredomina”. (BRANDÃO, 1986, p. 170).
“Isto explica, aliás, o destino diferente que aguarda, após a morte, as almas das
duas primeiras raças daquelas pertencentes às duas seguintes. Os que nasceram
sob a égide do ouro e da prata têm realmente uma promoçãopost
mortem: convertem-se em daímones, "demônios" (intermediários benéficos entre
os deuses e os homens). Esses daímones, todavia, agem diferentemente sobre os
mortais, tanto quanto se diferenciaram na vida terrestre: os primeiros (da idade de
ouro) são os daímones epictônios, quer dizer, continuam a viver e a agir na
terra; os segundos (da idade de prata) são os daímones hipoctônios, isto é, vivem e
agem sob a terra, na outra vida. Ambos são objetos das "honras" que lhes tributam
os mortais: "honras" maiores para os primeiros e inferiores para os segundos.
Muito diferente é o destino póstumo daqueles que viveram as idades do bronze e
dos heróis. Como raça, nenhum deles tem direito a uma promoção. Os da idade de
bronze, após perecerem na guerra, convertem-se no Hades em "mortos
anônimos", nónymoi. Somente alguns heróis privilegiados conservam, por
desígnio de Zeus, um nome e uma existência individual no além: levados para a
ilha dos Bem-Aventurados, têm uma vida isenta de preocupações. Apesar desse
prêmio, porém, esses heróis privilegiados não são objeto de veneração alguma,
nem de culto, por parte dos homens. Contrariamente aos daímones, os heróis
carecem de qualquer poder ou influência sobre os vivos”. (BRANDÃO, 1986, p.
171).

Independente da questão da memória, algo que voltarei a comentar novamente, os


gregos de fato possuíam uma noção de alma e de vida após a morte. Na Ilíada e
na Odisseia, poemas atribuídos a Homero e provavelmente escritos no século VIII
a.C, em ambas as obras, mas principalmente na segunda fica atestado que o mundo
dos mortos é o Hades. É para lá que até mesmo os heróis seguiriam, de acordo
com Homero. No canto I da Ilíada, 1-7,Aquiles envia vários troianos para o
Hades. No canto XVI, Pátroclo lamenta por morrer jovem e diz que sua alma voa
para o Hades. No canto XXIII, a alma de Pátroclo aparece para Aquiles e pede
para que o amigo realize os ritos fúnebres para ele, para que assim pudesse
efetivamente adentrar o Hades.

No canto XI da Odisseia, Odisseu desceu ao Hades para falar com o


vidente Tirésias, e na viagem subterrânea ele se deparou
com Aquiles, Pátroclo, Antíloco Ajax e outros heróis gregos que morreram
na Guerra de Troia.

Aqui nessa citação mitológica redigida num poema, temos a menção da


imortalidade da alma, do mundo dos mortos e da outra vida. Além disso os gregos
também acreditavam em destino como já mencionado por Brelich e Vernant. Na
própria Ilíada em algumas estrofes menciona-se a ação das Moiras, as deusas do
destino. Brandão (1986, p. 140) sugere que inicialmente possa ter havido apenas
uma divindade genericamente chamada de Moira, posteriormente em época
desconhecida passou-se a falar em três deusas: Láquesis, Cloto e Átropos.
Conhecidas como as fiandeiras, elas fiavam os destinos dos homens e dos deuses.
No poema, Homero deixa bem claro essa questão do destino quando fala da morte
de alguns heróis e até de outros acontecimentos. Por exemplo, as moiras contam
a Tétis, mãe de Aquiles, que o destino de seu filho possui dois caminhos:
permanecer na Grécia, viver até a velhice e constituir família, mas não conseguir
fama e glória. Ir para a Guerra de Troia, já sabendo que não voltará da guerra, pois
estava destinado a ali morrer, mas conquistaria glória eterna. Quando Tétis conta
isso a Aquiles, ele opta pela glória eterna. Outro acontecimento que faz menção ao
destino, envolve o nascimento de Páris, o qual havia sido profetizado que a
criança um dia traria a ruína para Troia. E isso se confirmou. Édipo é outro
exemplo de como o destino pode ser terrivelmente cruel. Ele foi destinado a matar
o pai, torna-se rei e casar com a própria mãe.

O deus Hades:

Hades (Plutão para os romanos) não era apenas o nome do submundo, mas
também é o nome de seu governante. Logo se faz necessário comentar acerca do
deus dos mortos, o senhor do submundo. Hesíodo em suaTeogonia menciona que
Hades era o filho mais velho dos titãs Cronos e Reia. Sendo um de seis
filhos: Zeus,Poseidon, Hera, Héstia e Deméter. Embora fosse o primogênito,
Hades como os seus demais irmãos, exceto Zeus, foram ainda bebês engolidos por
Cronos, o qual temia uma profecia que dizia que um de seus filhos iria destroná-lo,
algo que ele havia feito com seu próprio pai, Urano. Com isso, Cronos aprisionou
seus filhos em seu estômago, porém quando nasceu seu caçula, Zeus, Reia decidiu
poupar a criança, escondendo-a numa caverna em Creta, e entregando uma pedra
envolta em panos, a qual sem pestanejar, Cronos engoliu.

Busto de Hades. Cópia romana do original grego.


Muitos anos depois, Zeus já adulto, posteriormente conseguiu libertar seus irmãos
e declarou guerra ao seu pai e tios, no que ficou conhecido como Titanomaquia.
Deuses, titãs, ciclopes-ferreiros e hecatônquiros (gigantes de cem braços e
cinquenta cabeças) se digladiaram pelo controle do mundo. Os deuses saíram
triunfantes. Os ciclopes-ferreiros forjaram objetos para os três poderosos deuses,
como retribuição por os terem ajudado na guerra. Zeusganhou os
raios, Poseidon o seu tridente, e Hades recebeu um elmo que quando usado, o
deixava invisível. (MÉNARD, 1991, p. 41).

Posteriormente os três deuses decidiram dividir os domínios de seus reinos. Zeus


por ter sido o comandante na luta contra os titãs, ficou com os domínios do céu e
da terra. Poseidon recebeu os mares, e Hades recebeu os domínios do submundo.
Tendo que reinar sobre os mortos. (BRANDÃO, 1986, p. 311).

Tempo depois já como governante do submundo, Hades decidiu arranjar uma


esposa. Incitado pela beleza de sua sobrinha Perséfone, filha de Deméter e Zeus,
Hades certo dia a sequestrou e a levou ao submundo. Isso gerou sérios problemas
entre os Olimpianos, e Deméter desesperada pelo sumiço de sua filha, entrou em
profundo pranto, fazendo a natureza começar a se esvaecer, causando o outono e o
inverno, pois Deméter era a deusa da agricultura e das estações do ano. Todavia
após um acordo entre Zeus, Hades e Deméter, além do fato que Perséfone
efetivamente se apaixonou por Hades, o casamento foi reconhecido, e ela tornou-
se a rainha do submundo e dos mortos. (MÉNARD, 1991, p. 269-272).

Hades e Perséfone retratados num vaso grego. Datado de cerca de 440-430 a.C.
O caminho dos mortos:

Hoje em dia é bastante conhecida a história do barqueiro Caronte, responsável por


conduzir as almas recém-mortas, através do rio Aqueronte até a entrada do
Hades. A partir do século V a.C encontram-se referências escritas acerca do Óbolo
de Caronte, termo usado para se referir a moeda que se colocava acima ou dentro
da boca do defunto, para servir de pagamento a Caronte. Curiosamente vemos em
alguns filmes tal rito ser realizado com duas moedas sobre os olhos, mas todos os
relatos conhecidos sejam de origem grega e romana, falam de apenas um óbolo
(tipo de moeda) posto na boca.

Ilustração de Caronte para a Divina Comédia. Gustave Doré, 1861.


O poeta romano Virgílio (70-19 a.C) no seu mais famoso livro a Eneida, no canto
V, no qual ele narra os jogos fúnebres realizados por Eneias em memória de seu
pai Anquises, o qual morreu um ano antes, Virgílio diz que realizar os ritos
fúnebres eram imprescindíveis para que a alma pudesse chegar ao Hades, caso
contrário, o morto corria o risco de ser barrado por Caronte, e ficaria preso as
margens do Aqueronte, em profundo lamento. O também
poeta romano Luciano (c. 125 - c. 181) em tom irônico comenta o rito fúnebre do
óbolo de Caronte, dizendo que não importava de onde fosse a moeda, o que
interessava é que o defunto antes de ser enterrado ou cremado, deveria estar de
posse dela para poder pagar sua condução no Aqueronte, caso contrário, Caronte
poderia negar-se a levá-lo e mandar sua alma de volta. (MÉNARD, 1991, p. 141).

Todavia, a ideia de que Caronte fosse o encarregado de transportar as almas até os


portões do Hades não foi uma invenção romana, os próprios gregos já
mencionavam isso. Por exemplo, em um dos Doze Trabalhos, Héracles teve que
ir ao Hades para buscar Cérbero. Quando chegou ao Aqueronte, Caronte se negou
a transportá-lo, pois ele estava vivo. O herói indignado, deu uma surra no velho
barqueiro e o obrigou a levá-lo.

No entanto, a ideia de Caronte como condutor dos mortos nem sempre foi pensada
assim. Hesíodo e Homero os quais mencionam o mundo dos mortos, não fazem
menção ao barqueiro ou ao pagamento do óbolo, embora no caso de Homero ele
descreva o funeral de Pátroclo com detalhes, mencionando que vários animais
foram sacrificados na ocasião, além de que os pertences e presentes foram
queimados juntos com o corpo. Neste caso, estes dois poetas deixam a entender
que os mortos seguiriam diretamente ao Hades, sem necessidade de serem
transportados por Caronte.
Junito Brandão (1986, p. 312) nos fornece uma importante observação: a vida após
a morte na mitologia grega não era formada por uma única estrutura ou um único
mito, pelo contrário, era uma concepção advinda de vários mitos, sincretismos
religiosos, influências literárias e filosóficas. Sendo assim, veremos vários mitos
que representavam estes distintos pensamentos sobre o mundo dos mortos.

“Assim sendo, não se pode falar de uma escatologia grega, mas houve na
Hélade tantas escatologias quantas as fases e momentos histórico-sócio-culturais
por que passou a Grécia. Houve tantas escatologias quantas as correntes literárias
e filosóficas que medraram na pátria de Homero e de Sócrates. Já se falou de
"escatologias" em Homero e Hesíodo: ambas muito diferentes... Poderíamos falar
de outras: nos Órficos, nos Pitagóricos, em Platão e nos Neoplatônicos, nos
Estóicos e até na ausência de escatologia no Epicurismo”. (BRANDÃO, 1986, p.
313).

Caronte e Psiquê. John Roddam Spencer Stanhope, 1883. Na pintura vemos


Caronte tirando da boca de Psiquê o seu óbolo.
Dando continuidade ao "caminho dos mortos", em várias histórias narra-se a
jornada de heróis ao Hades. Héracles já foi mencionado, mas além dele, outros
heróis como Odisseu, Orfeu, Teseu e Pirítoo também desceram ao submundo e
não passaram por Caronte. Isso conota que: 1) é visível a diversidade de relatos
sobre o mundo inferior; 2) o Aqueronte não era o único caminho para se chegar ao
Hades, pois com exceção de Héracles, os demais heróis tomam outros caminhos,
na maioria das vezes, adentrando por cavernas específicas que os conduziriam até
lá.

Um outro ponto a ser mencionado neste caso é o fato que o deus Hermes as vezes
era considerado o responsável por conduzir a alma dos mortos ao Hades. Hermes
era filho de Zeus e a plêiade Maia, era um deus com várias funções: mensageiro,
patrono do comércio e do roubo, protetor dos viajantes, dos pastores, ajudante dos
deuses e dos heróis, mas Hermes também segundo alguns relatos, conduziria as
almas dos mortos para a outra vida, tornando-o um psicopompo. (GRIMAL, 2005,
p. 224). É Hermes quem guiou Héracles até o submundo em seu trabalho para
capturar o cão Cérbero.
O julgamento dos mortos:

Inicialmente o deus responsável por julgar os mortos era Hades, mas


posteriormente em dada época essa atribuição foi lhe retirada, e passou a ser o
dever de três homens: Éaco, Minos e Radamanto, os juízes do inferno.

Pintura retratando os três juízes. Da esquerda para direita: Radamanto, Minos e


Éaco.

Primeiro é preciso discernir julgamento de punição. No caso do segundo, vários


deuses detinham o direito de punir os mortais ou até outros deuses por seus
atos. Zeus como soberano era o mais conhecido por decretar sentenças, depois
vinha Hera, como rainha, que em geral punia as amantes do marido. Nêmesis era
a deusa da vingança, incumbida de executar a vingança dos deuses sobre os
mortais. Têmis e Astreia eram deusas da justiça, personificando a justiça, a moral,
a ética e as leis, mas não tinham a função de julgar os mortos. Havia outras
divindades também associadas a punição e a justiça, como as Erínias (Fúrias para
os romanos), divindades que habitavam o Hades e eram responsáveis por punir,
torturar e atormentar os criminosos. Todavia, quem efetivamente julgava os
mortos era Hades em determinadas épocas e depois seus três juízes.

Brandão (1986, p. 315) menciona que o Orfismo (culto relacionado ao herói


Orfeu e outras tradições religiosas), surgido entre os séculos VII-VI a.C,
proporcionou novas interpretações acerca do mundo inferior, uma delas foi a
divisão do Hades em três partes, algo que voltarei a comentar adiante. Para Junito
Brandão essa reinterpretação promovida pelo Orfismo possa ter abrido espaço para
retirar de Hades o papel de juiz dos mortos e introduzir os três mortais no lugar,
assim como, mudar a própria noção de vida após a morte.

Em concepções anteriores sobre o Hades, os bons e maus dividiam o mesmo local,


porém, os grandes criminosos e aqueles que afrontaram os deuses iriam para o
Tártaro. Hesíodo e Homero mencionam tal fato de que o Tártaro seria o local de
tormento, porém os demais viveriam nos campos sombrios do Hades. Inclusive
na Odisseia, quando Odisseu visita o submundo ele avista vários de seus
companheiros de guerra vagando por aquele deserto sombrio. Mas eles não
sofriam, mas também não estavam alegres, eles viviam uma vida mórbida. No
entanto, ainda no mesmo poema, Homero cita Radamanto, o qual viveria ao lado
dos bem-aventurados. Aqui Homero não deixa claro se Radamanto já era
considerado um juiz ou o governante das ilhas dos Bem-Aventurados.

Com a inserção da crença que as almas fossem julgadas fosse por Hades ou pelos
juízes, conotava a condição de que os bons e maus não dividiriam exatamente o
mesmo espaço. Crença essa pregada pelo Orfismo, segundo conta Brandão (1986,
p. 315).

Mas retomando aos três juízes, cada um era filho de Zeus, sendo que Minos e
Radamanto eram filhos com Europa e Éaco era filho com Egina. Cada um dos
três homens possuíram virtudes pelas quais permitiu que fossem nomeados juízes
do Hades. Éaco era conhecido como um homem honrado e um bom governante.
Radamanto segundo algumas versões teria escrito o código de leis de Creta, tendo
sido um homem justo e comprometido com o direito e a justiça.

Todavia, Minos é um caso a parte. Devido a inveja que tinha da popularidade de


Radamanto, forçou o irmão a se exilar. Sua desfeita a Poseidon gerou como
consequência o surgimento do Minotauro, o qual ele mandou prender no labirinto
construído por Dédalo. Inclusive manteve Dédalo e seu filho Ícaro como seus
prisioneiros. Além disso, quando os dois fugiram, Minos enviou uma expedição
para encontrá-los e trazê-los presos. O rei também era conhecido por ser infiel e
promíscuo (embora fosse um comportamento comum de muitos reis gregos nos
mitos). Por motivos não claros, Minos recebeu a honra de se tornar um dos juízes.

“O tribunal era formado por três juízes integérrimos: Éaco, Radamento e Minos.
Esse tribunal, no entanto, é bem recente. Homero só conhece como juiz dos
mortos a Radamanto. Éaco aparece pela primeira vez em Platão. Radamanto
julgava os Asiáticos e Africanos; Éaco, os Europeus. Em caso de dúvida, Minos
intervinha e seu veredicto era inapelável. Infelizmente quase nada se sabe acerca
do conteúdo desse julgamento e a maneira como era conduzido, embora
na Eneida, VI, 566-569, Vergílio nos fale, de passagem, que Radamanto
supliciava as almas, obrigando-as a confessar seus crimes ocultos. Julgada, a alma
passava a ocupar um dos três compartimentos: Campos Elísios, Érebo ou Tártaro”.
(BRANDÃO, 1986, p. 318).

Como comentando por Brandão, de fato não é possível comentar mais a respeito
do julgamento das almas, pois se desconhece detalhes acerca. Enquanto no Egito,
temos alguns mitos e até mesmo relatos religiosos contidos no Livro dos Mortos, o
qual descreve o julgamento realizado por Osíris, na religião e mitologia dos
gregos isso nunca foi encontrado. Conhecesse os nomes dos juízes, mas se
desconhece como seria executado o julgamento.
Érebo e Tártaro:

Como comentado por Junito Brandão talvez tenha sido por volta do século VIII-
VII a.C, que a concepção geográfica do submundo começou a mudar. O
poeta Hesíodo em sua Teogonia é lacônico ao dizer que Hades governava o
mundo inferior, porém o que ele menciona de mundo inferior é basicamente o
Tártaro e suas redondezas, inclusive o Tártaro nem parece ser exatamente um
abismo como ficaria conhecido. Mas antes de prosseguir é preciso falar sobre a
origem de Érebo e Tártaro, que embora seja o nome de locais, trata-se também da
personificação de divindades.

De acordo com Hesíodo, o qual escreveu um dos mais significativos trabalhos


sobre a genealogia dos deuses desde a criação até a ascensão dos Olimpianos,
Hesíodo reuniu em seu longo poema, referências de vários mitos na época para
formalizar essa sua genealogia divina. De acordo com seu relato o primeiro deus
foi Caos, o qual criou o universo. A partir dele surgiu a escuridão Érebo, a
noite Nix, as profundezas abissais Tártaro, a mãe-terra Gaia, e o divino
amorEros (outras versões dizem que Eros era filho de Afrodite). Nyx deu à luz
(literalmente) a Éter (substância universal) e a Hemera (o dia). Gaia
originou Urano (o céu) e casou-se com ele, tendo gerado vários filhos, sendo
os titãs, osciclopes-uranianos e os hecatônquiros. (Teogonia, est. 115-125).

Nota-se que Érebo e Tártaro são divindades primordiais, considerados por alguns
mitólogos como deuses, lembrando que alguns deuses somente existiam na
mitologia, na faziam parte da religião. De fato, os deuses primordiais não recebiam
culto, exceto Eros. Tais divindades tratavam-se de seres que personificavam os
elementos da natureza como visto: terra, céu, noite, dia etc.

Se desconhece a época exata que Érebo e Tártaro deixaram de ser simples


divindades primordiais associas a escuridão, para se tornar no nome de locais do
submundo. Ainda na Teogonia, Hesíodo não menciona um local chamado Érebo,
mas cita que o submundo governado por Hades era o Tártaro.

Hesíodo (est. 720-740) descreve o Tártaro como sendo uma região incrustada nas
profundezas da terra. Em seu relato Hesíodo diz que o Tártaro é tão distante que
do topo do Olimpo até ele, levaria-se 20 dias para chegar. Nesse caso ele faz uma
analogia com a queda de uma bigorna, a qual levou nove dias e nove noites para
cair do topo do Olimpo até a terra, e depois levou mais nove dias e nove noites
para atingir o Tártaro. Em seguida ele diz que o Tártaro é tão profundo que nem
um ano de viagem seria o suficiente para alcançar o fundo.
A Queda dos Titãs. Cornelis van Haarlem, 1588.
O Tártaro é descrito por uma região escura e nevoenta, cercada por três imensas
muralhas de pedra com portões de bronze, construídos por
Poseidon. Giges, Coto e Briareu (os hecantônquiros) atuam como sentinelas de
cada um dos portões, impedindo que os titãs ali aprisionados tentem escapar.

Adiante, nas estrofes 745-760, Hesíodo diz que Atlas, o titã que sustenta o céu nas
costas, metade de seu corpo ficaria no submundo a outra ficaria na superfície. Na
abóboda celeste viajariam Nyx (noite) e Hemera (dia), mas também Hipnos (o
sono) e Tânatos (a morte). Não obstante sem definir com clareza, Hesíodo diz
que Hades e Perséfone habitam um palácio no submundo, e nos portões da
entrada do submundo estaria o cão de guarda de três cabeças Cérbero. Ali
embaixo também estaria o palácio da oceânide Estige, que possui um rio com seu
nome, o qual é um dos cinco rios do Hades. Para alguns intérpretes da Teogonia, o
local onde vive Hades e as demais divindades ficaria acima do Tártaro.

Desenho representando Cérbero guardando o portão do Hades, enquanto algumas


almas caminham em sua direção.
De qualquer forma o que podemos extrair do relato de Hesíodo é que o Tártaro é
um abismo tenebroso e nevoento, local de castigo e sofrimento aos inimigos dos
deuses, inicialmente os titãs, mas outros mitos narram a história de alguns homens
como Tântalo, Sísifo e Íxion que também foram parar no Tártaro. Não obstante,
Érebo não consiste num local físico, os Campos Elísios não são mencionados e
nem se quer Hesíodo diz para onde iriam as almas daqueles que não afrontaram os
deuses.

Por sua vez, Homero nos fornece outras informações a mais. Na Ilíada e
na Odisseia, Homero já se referia ao submundo pelo nome de Hades, e o
enxergava como um local tendo dois níveis: um era um deserto sombrio para onde
iria a maioria dos mortos, o Érebo, independente de serem bons ou maus. Sendo
este o local no qual Odisseuna Odisseia (canto XI) visitou para encontrar o
vidente Tirésias. Por outro lado Homero cita brevemente na Ilíada (canto VIII) a
existência do Tártaro, local de tormento e sofrimento. Nesse canto, Zeus indignado
pelo fato dos deuses estarem intervindo mais do que deveria na Guerra de Troia,
ameaços de que caso o desobedeçam novamente, os jogaria ao Tártaro.

Para Junito Brandão (1986), Érebo como sendo o deserto escuro pelo qual alguns
heróis passaram como Héracles,Odisseu, Teseu etc., mas também como local
onde perambulavam as sombras dos mortos (eidolon), além de ser o local onde
residem Hades e outros deuses ctônicos, consistiu numa concepção posterior ao
século VIII a.C, quando em determinado momento decidiu-se reimaginar a
geografia do Hades.

As sombras e os condenados:

Vimos o caminho pelo qual os mortos fazem para chegar ao submundo, seja sendo
conduzido por Hermes ou por Caronte através do rio Aqueronte até chegar aos
portões do Hades, guardados por Cérebro. Vimos o mito que menciona os três
juízes responsáveis por julgar as almas dos mortos. E agora a pouco acabamos de
comentar a respeito do Érebo e do Tártaro. Assim vamos falar a respeito da ideia
de existência na outra vida, como os gregos imaginavam essa pós-vida.

Os gregos concebiam a existência da alma e sua imortalidade como já comentado,


embora alegassem que os mortos poderiam cair no esquecimento fosse esse
esquecimento induzido ao se beber as águas de algum rio, ou o esquecimento
proporcionado pelos vivos. Mas independente deste esquecimento, a morte não era
o fim. Hesíodo no mito das idades mencionou que os homens das Eras de Ouro e
de Prata se tornaram daímôns, seres espirituais que ajudavam as
pessoas. Sócrates segundo alguns relatos, dizia que conseguia conversar com
seu daímôn. Todavia, os homens das Era de Bronze, dos Heróis e de Ferro, foram
lançados a escuridão do Hades.

Homero na Ilíada e na Odisseia usa o termo eidolon ("sombra") para se referir ao


espírito do morto. Em vida a alma é normalmente chamada de psiqué, porém
psiqué também é entendido como alento, ar, sopro da vida. Logo, quando essa
deixa um corpo vivo, torna-se um eidolon.
“Com a morte do corpo, a psiqué torna-se um eídolon, uma imagem, um simulacro
que reproduz, "como um corpo astral", um corpo insubstancial, os traços exatos do
falecido em seus derradeiros momentos”. (BRANDÃO, 1986, p. 145).

É essa "sombra" que passa a vagar na Terra como espírito atormentado (o que
chamamos as vezes de fantasma), mas também é essa "sombra" que habita o
Hades. Tal noção é mais clara na Odisseia, canto XI, quando Odisseu desce ao
Hades e se depara com os eidolon de várias pessoas. E como mencionado, o herói
reencontra seu companheiro de guerra, Aquiles. E numa breve conversa na qual
Odisseu indaga Aquiles como era viver lá embaixo, o falecido herói em desânimo
responde que sentia falta do Sol, da beleza do mundo, que preferia ser um simples
agricultor lá em cima, do que ser um "rei" lá em baixo. Além de Aquiles, Odisseu
ao conversar com Ajax, Pátroclo e outros, percebe essa melancolia.

Entretanto, por mais que Homero já mencionasse essa noção de melancolia


relacionada ao Érebo, um dos locais do Hades, o sofrimento propriamente falando
continuava a estar ligado com o Tártaro. Hesíodo já havia mencionado isso e
Homero confirma que o Tártaro era o local de dor e punição após a morte.

Odisseu em sua jornada pelo Hades (Canto XI, 460-470), comenta que avistou os
condenados Tântalo e Sísifo. Ele não menciona Íxion. De qualquer forma, Odisseu
enquanto diz que os outros vagueiam como moribundos pela escuridão do Érebo,
Tântalo e Sísifo eram castigados. Para entender isso é preciso se fazer um breve
comentário acerca do que eles fizeram em vida.

Tântalo era filho de Zeus, e rei na Frígia ou Lídia. Era bem quisto pelos deuses,
porém ele se valeu desse respeito para atentar contra os imortais. Na primeira vez
Tântalo divulgou segredos divinos aos homens (o mito não específica que
segredos eram esses). Na segunda vez ele num banquete realizado no Olimpo,
roubouambrosia e néctar, a comida e bebida dos deuses. Seu terceiro crime foi
testar os deuses. Num banquete que ele ofereceu as divindades, Tântalo assassinou
seu filho Pélops e mandou oferecer sua carne no banquete. O rei duvidava da
onisciência dos deuses, mas para sua surpresa exceto Deméter que abalada pelo
sequestro de Perséfone, todos os outros deuses notaram que se tratava de carne
humana. Zeus furioso fulminou Tântalo e seus outros filhos que eram cruéis.
Posteriormente o pobre Pélops foi ressuscitado. Tântalo por ter afrontado os
deuses três vezes, mas acima de tudo, por ter matado o próprio filho e tentado
enganar os deuses foi enviado ao Tártaro.
Desenho representando a condenação de Tântalo. Sentenciado ao Tártaro, o
infame rei foi condenado a passar a eternidade com sede e fome, sem jamais
saciar a nenhum.
“Tântalo foi lançado no Tártaro, condenado para sempre ao suplício da sede e da
fome. Mergulhado até o pescoço em água fresca e límpida, quando ele se abaixa
para beber, o líquido se lhe escoa por entre os dedos. Árvores repletas de frutos
saborosos pendem sobre sua cabeça; ele, faminto, estende as mãos crispadas, para
apanhá-los, mas os ramos bruscamente se erguem. Há uma variante de grande
valor simbólico: o rei da Frígia estaria condenado a ficar para sempre sobre um
imenso rochedo prestes a cair e onde ele teria que permanecer em eterno
equilíbrio”. (BRANDÃO, 1986, p. 79).

No caso de Sísifo esse foi o rei-fundador de Corinto, era conhecido por ser muito
sagaz, inclusive sua arrogância o levou a tentar enganar a morte. Em duas ocasiões
Sísifo enganou Tânatos o deus da morte, mas seus atos também prejudicaram Zeus
e Hades. Na terceira vez ele foi pego e banido para o Tártaro, sendo condenado
pela eternidade a ter que carregar uma pedra, morro acima, mas quando chegava
próximo ao topo, já fraco e cansado ele cedia e a pedra o derrubava morro abaixo.
Então Sísifo se levantava e voltava a fazer tudo de novo, isso pela eternidade.
(BRANDÃO, 1986, p. 226).

Sísifo. Tiziano, 1549.


No caso de Íxion, esse não é mencionado na Odisseia, mas seu mito foi
incorporado ao Tártaro, tornando-o terceiro grande condenado mortal a ser
sentenciado ao sofrimento eterno. Íxion era o rei dos Lapitas, um povo que
habitava a Tessália, no centro da Grécia. Íxion é conhecido por dois terríveis
crimes: o primeiro foi enganar e assassinar seu sogro, o queimando vivo. O
segundo crime foi desonrar os deuses durante um banquete, no qual tentou
estuprar a deusa Hera, mas na verdade era uma nuvem no formato de Hera. Zeus
suspeitava da honestidade de Íxion, então fez uma armadilha para ele. Vendo que
o infame rei realmente achava que era Hera, Zeus o matou e baniu ao Tártaro,
condenando-o a girar numa roda de fogo pela eternidade. (BRANDÃO, 1986, p.
282).

Pintura retratando a condenação de Íxion. Sentenciado a girar numa roda de fogo


ou sobre o fogo, pela eternidade.
Embora alguns mitos destaquem estes três reis desonestos, outros mitos relatam
que no Tártaro haveria vários outros condenados. Na Eneida, canto
VI, Virgílio quando descreve o Hades, diz que no Tártaro residiam todos os
criminosos e pecadores. É evidente que Virgílio fornece outra interpretação ao
mito, mas quando ele escreve o livro no século I a.C, o Tártaro ainda era encarado
por gregos e romanos como um lugar de grande tormento, embora não saibamos
exatamente em termos religiosos como se definia o que podemos chamar de
"pecador".

Em si como contam os historiadores Angelo Brelich, Raffaele Pettazzoni e Jean-


Pierre Vernant, tentar definir uma única concepção sobre vida após a morte para
os gregos é equivocada. Seitas como os Mistérios de Eleusis, o Orfismo e o
Epicurismo possuíam outras
interpretações sobre a alma e a vida após a morte; não obstante, nem todo mito
reflete plenamente o pensamento religioso. Pode-se falar em Tártaro e no Érebo
como repouso dos mortos, mas não significa que todo grego acredita-se piamente
que não pudesse haver outros locais para onde suas almas iriam, ou tão pouco
vissem o Érebo da mesma forma. Uma das críticas feitas pelo Orfismo dizia
respeito a concepção pessimista de vida após a morte.

Os seguidores do Orfismo eram contrários a ideia de que a alma estaria


definitivamente destinada as sombras eternas do Érebo, eles acreditavam que
haveria uma diferença de local para onde iriam os bons e os maus. A partir dessa
concepção começou a se delinear a ideia de "paraíso".

As ilhas dos bem-aventurados:

A ideia de paraíso para os gregos antigos ainda hoje é uma concepção


problemática. Há poucas referências mitológicas acerca do que poderíamos
chamar de paraíso, pois como dito a maioria dos mitos referem-se a existência
mórbida no Érebo, no Hades. Apenas os grandes criminosos e "pecadores" iriam
para o Tártaro. Na Odisseia, no canto XI,Odisseu enquanto comenta a respeito dos
heróis troianos que ele viu lá em baixo, comenta que Héracles o grande herói
grego, não se encontrava ali, pois ele recebeu dos deuses a imortalidade e direito
de viver no radiante Olimpo, tendo se casado com a deusa Hebe, a de belos
tornozelos.

É na Odisseia, no canto IV que encontramos uma das mais antigas menções ao juiz
Radamanto e a ilha dos bem-aventurados, e até mesmo aos Elísios, os quais
posteriormente se tornariam campos. No canto IV, estrofe 430,Homero menciona
que Radamanto já havia morrido e sua alma (psiqué) habitava uma distante terra
situada no Ocidente. Aqui devemos lembrar que para os gregos antigos, o mundo
era concebido de forma plana, então o Ocidente era concebido como um vasto
oceano sem fim (ou com fim), cheio de ilhas habitadas por povos estranhos e
monstros. Mas em meio a esta miríade de terras estranhas, estaria um local onde as
pessoas viveriam alegremente. Não haveria temporais e nem invernos. A brisa
marinha sopraria suavemente sobre aquela terra iluminada. Homero se referia a tal
lugar como Elísio.

O Elísio nesse caso era concebido como uma ilha o arquipélago, situado em algum
local do Ocidente longínquo. Seria neste caso um paraíso terreno, para onde os
heróis, os justos e os puros seguiriam para o descanso na outra vida. O problema é
que Homero não diz claramente como ocorria o julgamento das almas para ir ao
Elísio, pois como dito, Aquiles, Pátroclo, Ajax entre outros, foram todos enviados
ao Érebo.

Além de Homero, Hesíodo também fez menção ao Elísio, como se este fosse
alguma ilha. Em Trabalhos e os Dias(170), o poeta conta o mito sobre uma terra
bela, próspera e alegre, situada no distante oceano ocidental. Ali os alimentos
floresciam em abundância e havia safras três vezes ao ano. Não havia frio, fome e
pestes. Os "abençoados" teriam um descanso pacífico ali, diferente da melancolia
do Érebo e do sofrimento no Tártaro. Não obstante, Hesíodo dizia que o guardião
do Elísio era o titã Cronos.

No século V a.C, o poeta Píndaro (c. 522 - c. 443 a.C) em suas Odes, 2. 59-75
menciona a Ilha dos Abençoados. Um local paradisíaco sem nenhum mal. Vigiado
por Cronos e governado por Radamanto. Aquelas ilhas ensolaradas eram
observadas pelo próprio Zeus. Para lá seguiam os bons.

As obras de Homero e Hesíodo não possuem datação precisa, mas acredita-se que
suas versões mais antigas datem do século VIII a.C, embora se refiram a mitos que
datem de muitos anos antes. Todavia, ainda no século V a.C, o poeta Píndaro,
como vimos, mantinha essa noção que o Elísio seria uma ilha ou arquipélago,
também conhecido como Ilhas Afortunadas, Ilhas dos Bem-Aventurados ou Ilhas
Abençoadas. Seria um paraíso terrestre situado em algum local do Oceano
Atlântico, o limite ocidental do mundo para os antigos gregos.

O filósofo e matemático Pitágoras (c. 570-495 a.C) concebia que o mundo fosse
redondo, e inclusive defendia que as Ilhas dos Bem-Aventurados não fossem ilhas
terrenas, mas uma metáfora para se referir a planos celestiais localizados no Sol e
na Lua. Tal fato se devia a condição que na época havia o pensamento que a alma
era feita de Éter, a substância primordial que envolvia o universo. Sendo assim,
acreditava-se que quando a alma deixasse o corpo, ela retornaria para o "oceano de
Éter", que seria o universo.

Quase um século depois, o filósofo Platão (428-348 a.C) questionou a


interpretação tradicional religiosa e mitológica acerca do Hades. Para Platão, o
Érebo e os Elísios seriam locais temporários. Inclusive ele considerava

Os Campos Elísios:

A concepção dos Elísios é antiga como vimos no tópico acima. Tendo surgido
como paraíso terrestre insular. Não se sabe exatamente quando ele passou as ser
referido como parte do Hades. Brandão (1986) sugere que isso tenha começado
por volta do século VII a.C com o Orfismo, mas caso isso seja verdadeiro, consiste
numa variação do mito, podendo-se dizer que haveria duas noções sobre onde se
localizaria o paraíso grego: numa versão esse seria situado em ilhas no Atlântico,
na outra, que acabou se tornando bastante popular com a Eneida (I a.C), o Elísio
deixa de ser ilhas para se tornar campos verdejantes sem fim, estando situado no
submundo, que desde os tempos antigos era concebido como local da morte. René
Ménard resumiu a descrição dos Elísios feita por Virgílio:

"Deliciosos campos, risonhas planícies, bosques eternamente verdes, formam a


morada dos bem-aventurados. Ali, um ar mais puro reveste os campos de uma luz
purpurina; as sombras têm ali o seu sol e os seus astros. Umas exercem, em jogos
de relva, a sua força e a sua flexibilidade ou lutam sobre a areia dourada; outras
batem o chão cadenciadamente e entoam versos. Orfeu, em longa veste de linho,
faz ressoar harmoniosamente as sete vozes da sua lira. Dardos fixados na terra,
carros vazios, cavalos que pastam em liberdade, exercem sempre a mesma atração
nos que, durante a vida, amaram as armas, os carros e os cavalos, pois todos
conservam os mesmos gostos depois da morte. Vêem-se também sombras deitadas
à sombra de uma floresta de loureiros, às margens de um rio límpido, que entoam
alegres coros. Ali estão os guerreiros feridos em luta pela pátria, os sacerdotes cuja
vida sempre foi casta, os poetas que Apolo inspirou, os que pela invenção das artes
civilizaram s homens, e aqueles cujos benefícios fizeram viver a memória; todos
têm a cabeça cingida de faixas brancas como a neve". (MÉNARD, 1991, p. 156).

Os Campos Elísios. Arthur B. Davies, 1928.


Na concepção na qual os Elísios se encontravam no subterrâneo, uma
característica a mais que foi acrescentada diz respeito ao rio Lete. Os mitos gregos
nos informam a existência de cinco rios infernais: o Aqueronte o qual é o rio que
separa o Hades do mundo dos vivos; o Estige, que consiste no rio das promessas; o
Cócito, um rio congelado; e o Flegetonte um rio de fogo; por fim, temos o Lete, o
rio do esquecimento. Destes cinco rios, os mais importantes são o Aqueronte, o
Estige e o Lete, os outros dois são pouco comentados nos mitos gregos.
(MÉNARD, 1991, p. 140).

Junito Brandão nos fornece outra interpretação para os rios infernais:

“Os próprios nomes, diga-se de passagem, por que são designados os rios do
Hades, expressam simbolicamente os tormentos que aguardam os
condenados: Aqueronte, o rio das dores; Cocito, o rio dos gemidos e das
lamentações; Estige, o gélido rio dos horrores; Piriflegetonte, o rio das chamas
inextinguíveis; e Lete, o rio do esquecimento”. (BRANDÃO, 1986, p. 266).

Todavia, falaremos neste caso do rio Lete e seu papel como rio do esquecimento.
Já vimos anteriormente no texto que havia a ideia de que os mortos ao chegarem
ao Hades, perderiam sua memória. Sobre isso Jean-Pierre Vernant fez alguns
comentários.

Comenta que a morte era encarada como o eterno esquecimento. Os heróis


conseguiam escapar desse "esquecimento", pois seus feitos eram cantados e
declamados. Vernant sugeriu que essa ideia de esquecimento fosse uma concepção
bastante antiga e que foi sendo alterada, pois quando lemos os relatos mitológicos
entre os séculos VIII e IV a.C, percebemos variações nesse pensamento.
(VERNANT, 1990, p. 146).

Entretanto Vernant (1990, p. 133, 431) chama atenção que o esquecimento dos
mortos não significava que eles deixavam de existir propriamente. Pois parece ter
havido diferentes concepções nesse sentido. Para alguns autores gregos que
mencionaram o assunto, os mortos quando adentravam o Hades eles beberiam das
águas do esquecimento no Aqueronte ou no Lete, a fim de esquecer suas vidas
terrenas e darem início a uma nova vida após a morte. No entanto, ao mesmo
tempo em que os mortos perdiam sua memória, os vivos também poderiam
esquecê-los. Isso consiste também num motivo para diferenciar os heróis, os quais
eram "mortos ilustres", pois embora pudessem esquecer suas vidas terrenas, os
vivos não os esqueceriam. O próprio Odisseu quando encontra Aquiles no Hades,
menciona tal fato, dizendo que embora o herói estivesse morto, seus feitos eram
cantados.

“Qual e então a função da memoria? Não reconstrói o tempo: não o anula


tampouco. Ao fazer cair a barreira que separa o presente do passado, lança uma
ponte entre o mundo dos vivos e o do além ao qual retorna tudo o que deixou a luz
do sol. Realiza para o passado uma “evocação” comparável ao que efetua para os
mortos o ritual homérico. O apelo entre os vivos e a vinda a luz do dia, por um
breve momento, de um defunto que volta do mundo infernal; comparável também
a viagem que se mira em certas consultações oraculares: a descida de um ser vivo
ao pais dos mortos para ai aprender — para ai ver o que quer saber. O privilegio
que Mnemosyneconfere ao aedo e aquele de um contato com o outro mundo, a
possibilidade de ai entrar e de voltar dele livremente. O passado aparece como
uma dimensão do além”. (VERNANT, 1990, p. 143).
As águas do rio Lete. Thomas Benjamin Kennington,
Brandão (1986, p. 319-320) comenta um aspecto bastante interessante acerca do
rio Lete. O fato do esquecimento gerado ao se beber das suas águas não era apenas
uma forma de expurgar o sofrimento e dores dos mortos que ali viveriam em paz,
mas também consistia numa forma de purgá-los para a reencarnação.

A reencarnação:

A concepção religiosa da reencarnação entre os gregos antigos era pautada em


duas perspectivas: a ensomatose(reencarnação em corpo humano) e
a metempsicose (reencarnação em corpo animal). Tais concepções religiosas
originaram-se a partir de seitas e das crenças dos "mistérios". Inclusive havia até
mesmo filósofos que debatiam esse assunto.

“Diga-se, logo, que é, até o momento, muito difícil detectar a origem e a fonte de
tal crença. Na Grécia, o primeiro a sustentá-la e, possivelmente, a defendê-la foi o
mitógrafo e teogonista Ferecides de Siros (séc. VI a.C), que não deve ser
confundido com seus homônimos, o genealogista Ferecides de Atenas (séc. V
a.C.) e Ferecides de Leros, posterior e muito menos famoso que os dois anteriores.
Apoiando-se em crenças orientais, o mitógrafo de Siros afirmava que a alma era
imortal e que retornava sucessivamente à Terra para reencarnar-se. No século de
Ferecides, somente na Índia a crença na metempsicose estava claramente definida.
É bem verdade que os egípcios consideravam, desde tempos imemoriais, a alma
imortal e suscetível de assumir formas várias de animais vários, mas não se
encontra na terra dos faraós uma teoria geral da metempsicose. Caso contrário, por
que e para que a mumificação? De qualquer forma, as teorias de Ferecides não
surtiram muito efeito no mundo grego. Os verdadeiros defensores, divulgadores e
sistematizadores da "ensomatose" e da metempsicose foram o Orfismo, Pitágoras e
seus discípulos, e o filósofo Empédocles. A alma, pois, não quite com suas culpas,
regressava para reencarnar-se. O homem comum percorria o ciclo
reencarnatário dez vezes e o intervalo entre um e outro renascimento era de mil
anos, cifras que, no caso em pauta, são meros símbolos, que expressam
nãoquantidades, mas sim idéias e qualidades, o que, aliás, se constitui na essência
do número”. (BRANDÃO, 1987, p. 167).
A partir dessas crenças religiosas surgiram novas interpretações para a ideia do
Érebo e dos Campos Elísios. Ambos seriam entendidos como locais passageiros.
No Érebo iriam as pessoas que não eram tão boas para ir aos Elísios, mas também
não tão más para caírem no Tártaro. Ainda assim, nessa nova concepção, o Érebo
deixava de ser um local de melancolia para se tornar um local de punição e
purgação. Por sua vez os Elísios também era um local de purgação, embora não
sofrível como o Érebo. Todavia, a condenação ao Tártaro era tida como definitiva.
(BRANDÃO, 1986, p. 320).

“Com efeito, para os mitos de reencarnação, a impureza que proporciona a água de


morte, com a queda em uma nova existência corporal, e o esquecimento das vidas
anteriores e a ignorância do destino da alma; a purificação que a água da vida
consagra e a memoria infalível do iniciado, concernente as coisas do além, essa
sabedoria que vai permitir a sua evasão definitiva do ciclo do devir. Assim, pelo
mito, encontrava-se aberto o caminho no qual ia orientar-se a reflexão filosófica.
Se Lethe significa volta a geração, se a Vida impura e aquela do devir, e porque o
próprio fluxo temporal e uma forca de ruína semelhante ao Styx arcádico, a
irremediável força de destruição que aniquila todas as coisas aqui da terra, o
monstruoso fluir que nada pode reter”. (VERNANT, 1990, p. 184).

Para os seguidores do Orfismo entre os séculos VI a.C e IV a.C, nenhuma das duas
formas de reencarnação eram algo desejáveis. Os seguidores do Orfismo preferiam
alcançar a estabilidade na outra vida e evitar o tortuoso ciclo das reencarnações.

“Se para os gregos "os mortos são aqueles que perderam a memória", o
esquecimento para os órficos não mais configura a morte, mas o retorno à vida.
Desse modo, na doutrina de Orfeu, o rio Lete teve parte de suas funções
prejudicadas. Bebendo na fonte da Memória, a alma órfica desejava apenas
lembrar-se da bem-aventurança”. (BRANDÃO, 1987, p. 166).

Brandão comenta que foram encontrados escritos órficos em lamelas de ouro, os


quais instruíam os órficos quando chegassem ao Hades, deveriam evitar beber das
águas do Lete, pois assim esqueceriam suas vidas e entrariam no processo para
reencarnar. Eles deveriam procurar a fonte da Memória, para que assim
preservassem suas memórias e alcançassem a sabedoria, estando finalmente livres
dos pensamentos inferiores, ignorantes e maldosos.

Platão que foi influenciado pelo pensamento órfico-pitagórico, na República e


no Fédon dizia que ao chegar ao Hades, a alma deveria ter cuidado, pois os bons
deveriam tomar o caminho da direita, e os maus tomariam o caminho da esquerda.
No caminho da esquerda os maus seriam punidos por seus atos no Érebo, inclusive
estariam passíveis de sofrer reencarnação através de metempsicose. Todavia, os
bons seriam recebidos porPerséfone e conduzidos ao descanso eterno.
(BRANDÃO, 1987, p. 165-166).
O descanso eterno era descrito em alguns textos órficos como o Palácio dos Bem-
Aventurados e pelo que parece, talvez ficasse no Hades, embora Platão sugerisse
que ficasse num plano celeste. Na época de Virgílio, século I a.C, a ideia de
reencarnação ainda continuava a existir, pois ele próprio a menciona na Eneida,
quando fala que os mortos em Érebo e nos Elísios poderiam ter uma nova vida. No
entanto, nesse período tais crenças já estavam perdendo adeptos.

Nota-se por essa breve introdução que a ideia de reencarnação não era vista
totalmente de forma positiva pelos gregos antigos. Os órficos não eram a favor de
terem que reencarnar. O próprio Platão também pensava o mesmo, acreditando
que fosse melhor seguir uma vida correta e assim evitar ser punido no Érebo ou no
Tártaro, assim como evitar de ter que reencarnar também. Pois enquanto algumas
religiões indianas proclamavam e proclamam a reencarnação como uma forma de
aperfeiçoamento do espírito, para os gregos esse aperfeiçoamento não era
encarado da mesma forma. Alguns consideravam a reencarnação como uma forma
de punição.

Considerações finais:

Vimos que a religião grega não consistia numa crença homogênea e dogmática,
havia diferentes interpretações quanto a vida após a morte, mas algumas delas
foram gerais ao longo dos séculos. O Hades era o mundo dos mortos por
excelência; o Tártaro era o local de punição e sofrimento; havia vida após a morte;
a alma era imortal; o destino era real e poderia ser cruel.

Todavia surgem as concepções diferentes, algumas dessas alavancadas pela seita


do Orfismo, surgida talvez na Arcádia ou em Creta por volta do século VII a.C, a
qual influenciou bastante a religiosidade grega nos séculos seguintes, adotando um
viés de iniciação, comunidade, ritos secretos e privados, uma reinterpretação da
vida após a morte etc. O orfismo ao se unir a outras seitas de mistérios e
concepções filosóficas foram de encontro a religiosidade cívica e os ritos agrários
que imperavam na Grécia desde pelo menos o século VIII a.C.

A partir desse pensamento místico e filosófico adentrou-se na cultura grega a ideia


de reencarnação (ensomatose e metimpsicose), a ideia de que cada um era
responsável pelos seus próprios atos, algo que rompia com a antiga noção de
maldição familiar, algo que é narrada em alguns mitos, nos quais diziam que toda
uma família e suas descendência estava condenada a tragédia. Com a percepção
órfico-filosófica, essa ideia de maldição é abandonada e o homem passa a ser
responsável por suas escolhas, embora a concepção de destino ainda se mantém.

No entanto, a grande diferença que surge com isso tudo é a noção de punição. Pois
embora o Tártaro seja uma concepção bem antiga, para lá iam apenas os grandes
criminosos, em geral a população independente de seus atos estava fadada a
melancolia do Érebo. Com essas mudanças o Érebo tornou-se um local de punição
também, embora menos severo do que o Tártaro, e na perspectiva da reencarnação,
o Érebo e os Elísios tornam-se locais de passagem, para que a alma expiasse seus
pecados e pudesse reencarnar.

Todavia, vimos que em determinadas épocas o paraíso era derradeiro, estaria


situado na Terra, em alguma ilha perdida no Oceano Atlântico, antes de ser levado
para o subterrâneo e posteriormente até pensado que se encontraria no céu. Mas
mesmo com a noção de reencarnação vinculando, por mais que os Elísios
deixassem de ser o paraíso definitivo, havia outro local que exercia essa função.

NOTA: A palavra grega daímôn usada pelos gregos para designar espíritos
humanos que poderiam influenciar as pessoas para o bem ou para o mal, a palavra
foi latinizada para daemon, que por sua vez foi reinterpretada pelos autores
cristãos, passando a significar demônio.

NOTA 2: O fato de Hermes em algumas crenças mitológicas e religiosas dizerem


que o deus estava associado com a condução dos mortos para o Hades, o levou a
ser comparado com o deus egípcio Anúbis, mensageiro da morte e o deus da
mumificação. Inclusive encontramos escritos gregos com o nome Hermanúbis.

Referências bibliográficas:
BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia grega, vol. 1. Petrópolis, Vozes, 1986.
3v
BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia grega, vol. 2. Petrópolis, Vozes, 1987.
3v
BRELICH, Angelo. Gli Eroi Greci. Roma, Edizioni dell Ateneo e Bizzari, 1978.

FUNARI, Pedro Paulo. Grécia e Roma. São Paulo, Editora Contexto, 2002.
GRIMAL, Pierre. Dicionário de mitologia grega e romana. Tradução de Victor
Jabouille. 5a ed. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 2005.
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