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A longa marcha das desigualdades – 3

Portugal, desastre periférico1 e pasto de ladrões (1995- …)

O país mais pobre da Europa ocidental é


dominado por capitais externos, vai pulando
entre bolhas imobiliárias e alimenta uma
classe política constituída por corruptos e
aves canoras.
O que sobra é um território desertificado,
atravessado pelas redes das multinacionais
e onde o sistema financeiro montou uma
renda ancorada em dívida.

Sumário

1 – Tempos de muita tempestade e pouca bonança

2 - A marcha das desigualdades no período 1995 – 2017

3 – Um empobrecimento quase contínuo no plano europeu

4 - Nem bom viver, nem democracia; apenas subalternidade e corrupção

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1 – Tempos de muita tempestade e pouca bonança

Depois do chamado Buzinão da Ponte2, Cavaco enceta, em 1995, a


sua falhada caminhada para aceder à presidência da República
contra Jorge Sampaio e, entretanto deixa o seu PSD para um baço e

1
Sobre o acentuar da periferização portuguesa, no contexto europeu e ibérico, ver:

http://grazia-tanta.blogspot.pt/2016/06/centro-e-periferias-na-europa-2.html
http://grazia-tanta.blogspot.pt/2016/06/centro-e-periferias-3-portugal-uma.html
2
Um bloqueio à entrada na Ponte 25 de Abril, no verão de 1994, que faz cair a
popularidade do governo de Cavaco; e que, por ironia, resultou de uma iniciativa de
militantes do PSD
grazia.tanta@gmail.com 6/09/2018 1
frágil – Fernando Nogueira3. O PS, dirigido por Guterres, ganha as
eleições desse ano, assegurando a sós, a posse do governo e essa
reminiscência monárquica chamada presidência da República.

Cavaco tinha pensado reduzir a dívida pública através das receitas


das privatizações e que não conseguiu e os deficits4 continuaram,
como norma dos governos seguintes, até hoje, a despeito da
intervenção saneadora (?) da troika, de mais uma rodada de
privatizações e de apoios financeiros externos. No final do período

3
Nogueira era um apagado controleiro do aparelho partidário. Como licenciado em
direito e ministro da Justiça mostrou-se tão apto nas suas funções que era
conhecido por… “senhor engenheiro”
4
Entendemos apresentar uma reflexão sobre os deficits, nomeadamente,
atendendo à sua continuidade, à sua banalização, ao seu caráter estrutural que
tanto interessa às classes políticas e aos banqueiros. Os deficits correntes resultam
de um excesso de despesa sobre a receita e, têm como contrapartida um
endividamento. Ora, em capitalismo, quando se contrai um empréstimo, os
mutuantes exigem um juro e, portanto, a aplicação pelo mutuário, do capital
emprestado, terá de ser suficiente, não somente para garantir o reembolso do
capital emprestado como para pagar os juros correspondentes acordados.

Isso significa que é insano e estúpido o endividamento aplicado em algo que não
gera um rendimento, no mínimo, equivalente aos juros contratados; que é o habitual
em quem recorre a um empréstimo para comprar bens de consumo ou serviços,
como um automóvel para passear a família ou uma estadia em Cancun. O mesmo
não acontece num crédito para habitação própria que, em qualquer momento pode
ser vendida; não é um gasto corrente, é um investimento e o reembolso desse
empréstimo bem como o pagamento dos juros efetua-se num determinado lapso de
tempo. A comparação que se fará é feita face ao pagamento de um serviço de
arrendamento de um espaço; o que não é, obviamente, um investimento.

O deficit corrente não resulta de uma aplicação de capital mas da aquisição de bens
ou serviços, de um excedente da despesa sobre a receita que poderá ser
equiparado a um crédito para consumo. A dívida pública - ao contrário da dívida
privada, cujo titular é escrutinado com grande minúcia – é genérica, não tem uma
afetação específica, como deveria ter por respeito para com quem paga impostos; o
que revela que vivemos em regimes políticos não democráticos, mesmo que
regularmente organizem romarias eleitorais.

Os chamados mercados gostam particularmente da dívida pública e pouco se


importam com a aplicação específica do produto do crédito pois sabem que os
Estados, tendo o poder de exação sobre a população, garantido por máquinas
fiscais, judiciais, policiais e militares, nunca vão, verdadeiramente, à falência. Os
Estados funcionam como auxiliares do capital financeiro, como emissores de dívida,
a subscrever pelos especuladores que, de imediato entregam esses títulos de dívida
pública aos bancos centrais como “colaterais”, como garantias à criação de moeda
a lançar na especulação global.

grazia.tanta@gmail.com 6/09/2018 2
cavaquista (1995), o PIB apresenta um crescimento nominal de 4.7
vezes e a dívida pública aumenta 5.9 vezes, com um concomitante
aumento do peso desta no total do PIB. Em 1995, a dívida pública
correspondia a 58.3% do PIB, muito próximo, portanto do máximo de
60% que viria a ser imposto pelo Pacto de Estabilidade e
Convergência (PEC), de 1997, para a entrada na moeda única da UE.

Essas privatizações não sanaram as contas públicas nem criaram


grupos económicos, sobretudo porque os antigos donos, mesmo nos
casos em que se reapoderaram das empresas nacionalizadas em
1975, logo trataram de as vender a capitais estrangeiros ou a mudar
radicalmente de negócio. É paradigmático o caso do grupo Melo cujo
patriarca, o grande “capitão da indústria”, preferiu à banca e à
indústria, as rendas das portagens ou a área da saúde, beneficiando
de um mercado (?) com rentabilidade assegurada pelo orçamento;
uma versão atualizada de protecionismo e de dependência dos
favores do Estado, vigentes no tempo do fascismo.

O governo Guterres herda a crise de 1993/95 mas, já na sua fase


descendente. Aponta como prioridades, a sua paixão pela educação 5,
a imitação do “tigre celta” (Irlanda), a sociedade da informação e a
preparação para o euro, sobretudo esta, que obriga à redução dos
deficits para os valores mais baixos depois do 25 de Abril, o mesmo
acontecendo com a dívida pública que passa de 58.3% do PIB em
1995 para 50.3% em 2000; voltando a crescer acentuadamente a
partir daí. As elevadas receitas das privatizações e alguma
criatividade contabilística6 na construção do deficit permitem esses
resultados.

A subida do petróleo em 1999 e a crise dos dotcom, com o


rebentamento da volúpia tecnológica nos EUA, são dificuldades que
coincidem com a entrada no euro. A partir daí assiste-se à escalada
do deficit e da dívida, enquanto os bancos lusos, esgotada a
poupança interna, se endividam perante os grandes bancos europeus,
para alimentarem a bolha imobiliária e a correspondente corrupção,

5
Cerca de 20 anos depois, o nível de instrução em Portugal é o segundo mais baixo
da Europa, somente acima da Turquia
http://grazia-tanta.blogspot.pt/2013/03/a-instrucao-e-o-modelo-economico-para-o.html

6
No contexto europeu essa criatividade valia pouco, comparando com o evidente
incumprimento da Itália e da Bélgica, cujas enormes dívidas públicas superaram
largamente as obrigações contidas no PEC
grazia.tanta@gmail.com 6/09/2018 3
na construção do Parque das Nações, na Expo-98 e a demente deriva
de crédito para consumo.

O euro surge em 1999 em transferências e cheques, depois de já


funcionar como unidade monetária escritural e, em 2002 inicia o seu
curso como moeda corrente, no seguimento do PEC - Pacto de
Estabilidade e Crescimento) que estabelece aumentos de 3% para o
PIB e uma dívida pública inferior a 60% do PIB, que o “bom aluno”
português procurou cumprir. Como é evidente, numa área económica
integrada, uma moeda única7 tem vantagens como se vem
observando e observará a partir da Grã-Bretanha, se se concretizar o
Brexit (e nas condições em que isso ocorra); esperando Trump que as
coisas corram mal para que a Grã-Bretanha se torne a sua testa de
ponte na Europa.

Em 2002, após o descalabro nas eleições autárquicas, Guterres


demite-se de primeiro-ministro e de chefe do PS, sucedendo-lhe
Durão Barroso, num governo PSD/CDS que consegue agravar muitos
indicadores em 2003 (decréscimo do PIB, aumento do desemprego,
consumo privado ou público a decair, bem como a FBCF). Refira-se,
por curiosidade, que o valor real do PIB em 2012/14 se viria a situar
abaixo do valor de 2003, por ação da troika e do sinistro duo
Passos/Portas, apostados em …“ir além da troika”. Durão brilhou no
papel de estalajadeiro na cimeira das Lajes, onde Bush (filho), Blair e
Aznar decidiram avançar para a segunda guerra no Iraque, em 2003.
Com os méritos de bom estalajadeiro e mau primeiro-ministro,
aproveitou o convite para presidente da Comissão Europeia, cargo
que exerceu durante dez anos, sem brilho e, monitorizado por Blair,
enquanto este facínora esteve em cena; seguiu depois para lobista da
Goldman Sachs junto das instituições europeias.

Durão, foi substituído como primeiro-ministro por um entertainer da


noite lisboeta, Santana Lopes. Porém, o presidente Sampaio não
confiava em Lopes, nem no chefe do PS – Ferro Rodrigues - que,
agastado, se demitiu, permitindo a “invenção” de José Sócrates como
elemento credível e com perfil para primeiro-ministro; bastaria em
seguida, promover eleições (2005) e que estas fossem ganhas pelo
PS, como aconteceu.

7
http://grazia-tanta.blogspot.pt/2014/07/portugal-deve-sair-do-euro-sim-ou-nao-1.html
http://grazia-tanta.blogspot.pt/2014/08/portugal-deve-sair-do-euro-sim-ou-nao-2.html
http://grazia-tanta.blogspot.pt/2014/09/a-nao-solucao-com-um-novo-escudo-1.html
grazia.tanta@gmail.com 6/09/2018 4
O deficit passa de 6.1% em 2004 para 2.9% em 2008 para se alçar a
cerca de 8% do PIB em 2009/10; a intervenção da troika provoca uma
redução para 4% logo em 2011 e, nos três anos seguintes, não
consegue melhorar esse resultado. Por seu turno, o PIB real cresce
no período 2005/8 e não mais voltou a atingir o valor de 2008; seja
com Sócrates, com Passos, dentro ou fora do programa da troika ou,
com Costa e a sua geringonça. Por sua vez, a dívida que era de €
101758 M em 2005, chega aos € 118463 M (2008) e já vai em €
174891 M no final do primeiro ano da intervenção da troika (2011). . .
e vem-se fixando em torno de € 245000 M nos últimos meses, até
julho do ano em curso.

Como se sabe não há almoços grátis. Assim, o aumento do IVA em


2005 foi de € 1330 M… sensivelmente € 133 a mais por habitante,
para o qual terá contribuído o aumento da taxa normal do imposto de
19 para 21%. Até 2007 o aumento da receita desse imposto situa-se
em € 700/800 M, estabilizando depois em torno dos €13000 M até
2013 (com uma grande quebra em 2009) e isso, apesar de uma nova
subida da taxa normal para os atuais 23%, a partir de janeiro de 2011.
Neste caso, sabe-se bastante quem tem vindo a pagar os almoços e
quem tem sempre muito IVA no prato…

Na sequência do da crise dos subprimes (finais de 2007 nos EUA), o


sistema financeiro global entra em grandes dificuldades que
conduzem a nacionalizações e reestruturações; e daí que tenha
acabado o crédito obtido com facilidade no exterior pelos bancos
portugueses e cedido, em seguida, a empresas, ao Estado e a
famílias para sustentar a gestão da dívida já assumida e, sobretudo
contrair nova dívida.

Assim, aumenta a carga fiscal, como enunciado acima, o governo


Sócrates apressa-se a nacionalizar o BPN8, a instituição que
aglutinava o grupo dos fiéis de Cavaco, quase todos, vulgares e
impunes vigaristas. Sócrates avançou com o cancelamento de
projetos de investimento – novo aeroporto, plataformas logísticas…
mas não nas prodigiosas parcerias público-privadas. O governo

8
O custo da transferência do buraco negro BPN para a esfera estatal tem custado vários
milhares de milhões de euros. Em 2014, no seguimento da falência do BES, numa
concentração de protesto baseada na recusa do envolvimento de dinheiro público no apoio
ao gang BES/PT… um conhecido membro da constelação trotsko-estalinista apontou como
solução para o BES… a nacionalização! E, pior que isso, foi aclamado por muitos dos
presentes, evidenciando-se assim o caráter fóssil da dita “esquerda” portuguesa
grazia.tanta@gmail.com 6/09/2018 5
aumentou a idade da reforma, observou-se um decréscimo de 18%
das exportações em 2009, os PIN – Projetos de Interesse Nacional
incluem desastres como os da La Seda ou Pescanova e “não é difícil
que se vá manter a recessão bem para além de 2013, data a partir da
qual o PEC 4 (Programa de Estabilidade e Crescimento 2011-2014) -
é estritamente omisso” como referimos na ocasião.

A sensibilidade social no partido-estado, já expressa no PEC, é


confirmada após a transição no governo, do PS para o PSD, nos
valores do RSI (milhões de euros). Isto é, com a austeridade a todo o
vapor, o crescimento do desemprego e a perda de rendimentos reais,
os dados do RSI parecem indicar uma … redução da pobreza! Passos
e Portas no seu melhor…

Milhões de euros
2008 425.7 2012 387.9
2009 507.7 2013 315.1
2010 519.9 2014 294.4
2011 414.4

Em todo o período, do cavaquismo até hoje, o regime cleptocrático e


o seu partido-estado PS/PSD, bem como a filial CDS, têm utilizado a
Segurança Social como fonte de financiamento do empresariato,
através de uma atitude laxista face ao não pagamento pelas
empresas das contribuições; quando não se assenhoreiam da parte
diretamente paga pelos trabalhadores no que configura o crime de
abuso de confiança, uma forma suave de designar roubo.

Este roubo, como se observa, tem décadas, agravando-se


particularmente a partir de 2003 (ano em que Manuela Ferreira Leite
celebrou uma operação de titularização com o Citygroup, no âmbito
do qual este comprou dívida) até atingir mais de 5% do PIB há dois
anos, a despeito dos programas de recuperação de dívida – que são
sempre a “última oportunidade” … até à próxima (Centeno avançou
com a última em 2016). Como a parcela a cobrar desta dívida
acumulada é muito baixa, trata-se de uma transição de capital
destinado ao pagamento de reformas dos trabalhadores para o
financiamento de empresas que, assim conseguem fundos sem
recorrer à banca. E, para terminar, sublinha-se que este assunto
nunca é colocado na corporativa Concertação Social pelos putativos

grazia.tanta@gmail.com 6/09/2018 6
representantes (?) dos trabalhadores, nem pelos chamados “partidos
de esquerda” que revelam assim, a sua aceitação deste roubo9.

Gráfico 1

Em 2010 era claro que havia fortes razões para Portugal se tornar
uma decadente periferia, num processo continuado de
empobrecimento. Dissemos então:

“As fraquezas da burguesia portuguesa revelam-se, historicamente,

 no seu carácter bizarro de potência colonizadora intermediária,


sem capacidade de gerar um modelo de desenvolvimento
industrial com as riquezas e o trabalho dos colonizados;
 na geminação com o Estado, durante a monarquia, a primeira
república, como no tempo do fascismo, ou da república
cleptocrática em vigor;
 numa estrutura económica desajustada da inserção europeia.”

A evolução posterior permitiu que se tivessem adicionado outros


aspectos10 a essa debilidade política e económica:

9
Nos últimos anos, várias vezes colocámos esta questão, sempre silenciada pelo regime
pós-fascista:
http://grazia-tanta.blogspot.pt/2012/07/a-divida-seguranca-social-o-longo.html
http://grazia-tanta.blogspot.pt/2015/03/seguranca-social-os-rabos-de-fora-dos.html
10
Custos do trabalho na Europa – espelho da exploração e das desigualdades
https://grazia-tanta.blogspot.pt/2017/07/custos-do-trabalho-na-europa-espelho-da.html
Para uma breve história de uma soberania fictícia – 1 e 2
http://grazia-tanta.blogspot.pt/2017/04/para-uma-breve-historia-de-uma.html
grazia.tanta@gmail.com 6/09/2018 7
 A intervenção da troika, efetivou-se em Portugal, Grécia, Chipre e
Irlanda mas, não em Espanha e Itália; o que é revelador das
desigualdades políticas na UE e de que as suas instituições são
marcadamente oligárquicas (Comissão, BCE, Eurogrupo) ou
cosméticas (Parlamento Europeu). E que não acrescentam
democracia às estruturas políticas nacionais, antes pelo contrário,
incentivam, suportam e condicionam as classes políticas
nacionais no seu tradicional papel de garantir a boa ordem do
capital;

 A nova onda de privatizações impostas pela troika - bem como as


conhecidas burlas financeiras (BPN, BES, BPP, Montepio, Banif) -
afastaram os capitais indígenas do setor financeiro, das
telecomunicações, da energia, da área aeroportuária; ao contrário
da Espanha que nunca se desfez dos seus grupos económicos e
financeiros, que reorganizou o seu sistema bancário e aproveitou
a debilidade portuguesa para se inserir mais no seu periférico
vizinho, a ocidente;

 Num contexto capitalista, seria relevante perante uma entrada


recente na CEE, com as maiores facilidades de movimentação de
capitais, a existência em Portugal desses grupos, com uma
dimensão internacional. Como aqueles têm pouco significado e
diversificação, pode dizer-se que o país é um mero território
atravessado pelas redes das transnacionais e de onde os capitais
saem em grande volume; e, na entrada, destinam-se ao
imobiliário, com relevo para o refúgio de capitais mafiosos, sob a
forma de “vistos gold”11 ou para o refinanciamento da enorme
dívida pública;

 A chamada esquerda, numa primeira fase, em 2011,


entusiasmada com o protesto de 12 de março - inconsistente e
animado pela direita para enfraquecer Sócrates - acaba por
contribuir para a queda do governo, chumbando o PEC IV; e nas

http://grazia-tanta.blogspot.pt/2017/04/para-uma-breve-historia-de-uma.html
Dívida pública – Cancro não se trata com paracetamol
http://grazia-tanta.blogspot.pt/2016/05/divida-publica-divida-publica-cancro.html
O projeto UE. Desvalorização interna, o euro e os novos Viriatos
http://grazia-tanta.blogspot.pt/2016/08/o-projeto-ue-desvalorizacao-interna-o.html
11
Onde também brilhou um gang criminoso cujo capo era um ministro de Passos Coelho,
Miguel Macedo
grazia.tanta@gmail.com 6/09/2018 8
eleições que se seguiram o BE teve uma enorme derrota (metade
dos votos de dois anos antes). Posteriormente, em 2013, a
mesma ala esquerda do regime, tudo fez para jugular toda e
qualquer contestação popular, mormente através de um diretório
denominado “Que Se Lixe a Troika”, controlado pelo BE/PCP.

 Durante esse período, a ala menos à direita do partido-estado – o


PS - esperava pacientemente que amainasse a borrasca
económica e financeira gerida pelo binómio Passos/Portas,
colocando na liderança uma figura de transição – Seguro; na
aproximação das eleições de 2015, Seguro foi dispensado para a
entrada do manhoso António Costa;

 No dia 4 de abril de 2011, às 10.30 da manhã, Carlos Costa, o


governador do Banco de Portugal numa reunião com os
banqueiros aconselha “Vocês não podem continuar a financiar (as
emissões de dívida portuguesa). O risco é afundarem-se os
bancos, a parte sã, e a República que é a parte que criou o
problema”12. Dois dias depois, Sócrates pediu a ajuda financeira,
onde se incluíram € 12000 M para ajudar a “parte sã”… a banca.
E, três anos depois, o majestático BES caía com estrondo
enquanto o mesmo Carlos Costa, a gaguejar, viria a apresentar a
fórmula “fundo de resolução”, concebida no BCE.

2 - A marcha das desigualdades no período 1995 – 2017

O último lustro do século XX, no rescaldo do cavaquismo e após a


crise de 1993/95 é um período de euforia, com a aproximação da
integração no euro e, mais mediaticamente marcada com a abertura
da ponte Vasco da Gama13, para além da operação imobiliária do
Parque das Nações, da Expo-98 e dos € 445 M gastos nos dez
estádios para o campeonato europeu de futebol, em 2004, alguns dos
quais, quase sem utilização, posteriormente.

A observação do gráfico 2 revela uma grande proximidade entre a


evolução dos rendimentos do trabalho e a do PIB que só se deteriora

12
Citação de “Jogos de Poder”, Paulo Pena
13
Pese embora a estupidez dessa segunda travessia do Tejo não contemplar
caminho-de-ferro, esse desprezado meio de transporte, face à rodovia, mais
adequada aos interesses das empresas de obras públicas e às burlas das parcerias
público-privadas
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a partir de 2011 quando Passos, como funcionário da troika aplica
com zelo as ordens recebidas. A relação entre os rendimentos do
trabalho e os das empresas e da propriedade estabiliza numa
proporção muito próxima de 2:1 no período 1997/2011, regredindo
depois para 1,8:1 até 2015 e melhorando depois, atingindo 1,92:1 em
2017.

A quebra dos rendimentos das empresas e da propriedade na


sequência da crise financeira é evidente em 2008/11, aumentando
regularmente a partir daí. Para os rendimentos do trabalho, a quebra
só se regista em 2011, atingindo no ano seguinte o ponto mais baixo,
acompanhando a marcha do PIB posteriormente. Neste último caso o
valor agregado em 2012 (€ 75275 M) iguala o observado em 2005 (€
75699 M), refletindo um período de estagnação ou perdas; e só em
2017 apresenta o máximo de toda a série, com € 85725 M, revelando
a recuperação nos últimos anos. No caso dos rendimentos do capital
mantêm-se estáveis em torno dos € 42000 M em 2008/14
aumentando ligeiramente nos anos posteriores.

Gráfico 2

Fonte primária: Banco de Portugal

Se tomarmos como base o ano de 1977 (gráfico 3) – no qual a


relação entre os rendimentos do trabalho e os do capital atinge um
máximo 3,58:1 – o afastamento da evolução dos primeiros, face à dos
proventos do capital ou à marcha do PIB é marcadamente negativo
para a massa dos trabalhadores. É a fotografia a cores do caráter
empobrecedor do regime pós-fascista; e mostra até que ponto a
grazia.tanta@gmail.com 6/09/2018 10
própria acumulação de capital encontra dificuldades, perante a
estagnação da atividade económica, revelada pelo inevitável PIB.
Gráfico 3

Fonte primária: Banco de Portugal

Voltando ao período 1995/2017, a observação da tabela 2 permite a


avaliação em detalhe de alguns indicadores estruturais para o período
1995/2017 e a formulação de algumas conclusões.
Tabela 2
1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007
Remun.
9,0 7,3 8,5 9,4 7,3 8,3 5,9 4,5 2,6 3,0 4,6 2,8 4,3
trabalho
Rend. capital 8,5 2,1 0,8 7,3 6,4 2,8 2,4 6,1 4,9 6,6 5,7 4,1 5,5
Pib 8,1 6,0 8,5 8,8 7,4 7,4 5,7 5,0 2,5 4,3 4,1 4,8 5,5
Inflação 4,2 3,1 2,3 2,6 2,3 2,9 4,4 3,6 3,2 2,4 2,3 3,1 2,5

2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016 2017

Remun. trabalho 3,2 -0,2 1,4 -3,9 -7,7 1,3 0,4 2,9 4,1 4,6
Rend. capital 5,2 -4,2 2,8 -3,9 1,2 2,5 1,0 2,8 2,2 0,2
Pib 1,9 -1,9 2,6 -2,1 -4,4 1,1 1,7 3,9 3,2 4,1
Inflação 2,6 -0,8 1,4 3,7 2,8 0,3 -0,3 0,5 0,6 1,4

Chave de interpretação
Remun. do trabalho Remun. do Rend. do capital Remun. do trabalho
> Rend. do capital trabalho > PIB > PIB > Inflação

grazia.tanta@gmail.com 6/09/2018 11
 Em todo o consulado de Guterres o crescimento dos rendimentos
do trabalho supera o dos proventos do capital. Isso só voltará a
acontecer em apenas um dos anos de Sócrates como chefe do
governo (2009), quando a crise começa a revelar-se, bem como
no último ano de Passos (2015) e nos dois últimos anos, com
Costa;

 Os aumentos dos rendimentos do capital superiorizam-se ao


crescimento do PIB em 1995, o ano de transição de Cavaco para
Guterres; no período dos governos de Durão e no da transição de
Lopes para Sócrates (2005); e ainda na maioria dos anos que se
seguiram à crise dos subprimes, até ao último ano da troika
(2008/2013), não voltando a suceder nos anos mais recentes;

 O crescimento das remunerações do trabalho superiorizam-se à


evolução registada para o PIB, na maioria dos anos de Guterres,
em dois anos do consulado de Sócrates (2008/9), nos anos
inteiros de Costa (2016/7) e apenas em dois anos completos de
governação PSD/CDS (2003 e 2013).

 Finalmente, na grande maioria dos anos, a evolução das


remunerações do trabalho supera o crescimento da inflação, com
pequenas diferenças, mormente porque as taxas de inflação
mostram-se pouco elevadas. Note-se, contudo que há um nítida
perda dos rendimentos dos trabalhadores em anos de crise mais
aguda, como 2003 e 2011/12, no primeiro caso em tempos de
Durão e no segundo, quando Passos/Portas quiseram ir para
além da troika (2011/12).

A comparação entre os rendimentos de grupos sociais distintos e


potencialmente antagónicos é um indicador da força desses grupos e
do papel do Estado na afetação do rendimento socialmente
produzido. Como é norma no capitalismo, os detentores do capital,
em busca de um maior grau de acumulação, são servidos nesse
desiderato pelo Estado, ocupado por uma classe política, elemento
essencial para a prossecução dessa distribuição; sempre tendo em
conta a essencial manutenção de um nível aceitável de contestação
social, que não perturbe a reprodução do modelo económico, da
hierarquia política e do padrão cultural vigente.

grazia.tanta@gmail.com 6/09/2018 12
Alargando a análise ao conjunto dos 40 anos decorridos até 2017 -
gráfico 4 – observa-se a grande deterioração da parcela de
rendimento afeto ao mundo do trabalho, desde tempos próximos do
período de mudança de regime (1977) até à grande crise de 1983/85.
O período que se seguiu, de vigência do cavaquismo é marcado pelo
início da chegada dos fundos comunitários e isso permite que a
relação entre os rendimentos do trabalho e do capital se desenvolva,
de modo favorável aos primeiros, ainda que com alguns solavancos
até 1993/95, quando uma nova crise deixa o indicador ao nível do
observado em 1983. A euforia do governo Guterres é bem clara
durante a sua vigência (1995/2001); no entanto, o ratio entre os
rendimentos do trabalho e os do capital, situam-no ao nível registado
em 1980/81 e… nunca mais foram atingidos até hoje.

Quase toda a primeira década deste século é um período de perda da


posição relativa dos rendimentos do trabalho, através dos governos
de Durão, Lopes e Sócrates, apesar da melhoria observada em 2009.
Segue-se um ligeiro deslizamento até 2011, sendo patente até 2015 a
atuação da troika através do dueto Passos/Portas que deixam a
relação trabalho/capital ao nível da registada em 1996 ou…1982!
Têm-se vivido nos últimos anos, com o governo Costa algumas
melhorias na distribuição global dos rendimentos a favor dos
trabalhadores no seu conjunto, embora isso se deva apenas a um
aumento do número de gente com trabalho, ancorado na especulação
imobiliária, com o seu recurso a trabalhos de construção, bem como
ao grande crescimento na entrada de turistas e o surgimento de muito
alojamento e restauração; este sector além de se caraterizar pela
grande relevância da sazonalidade e da precariedade é também
aquele onde se verificam as mais baixas remunerações na Europa,

Gráfico 4

grazia.tanta@gmail.com 6/09/2018 13
Viu-se atrás que o grande decréscimo do indicador rendimentos do
trabalho/rendimentos do capital (Gráfico 4) termina em 1984 com
alguma posterior recuperação do peso dos rendimentos do trabalho
até 1991. Porém, nesse período, a população empregada cresce mais
de 27% (cerca de um milhão de pessoas, Gráfico 5) e esse grande
aumento não tem um reflexo equiparado na relação entre os dois
tipos de rendimentos. A evolução apontada pode ser explicada pelos
enormes crescimentos dos rendimentos do capital em 1977/84, um
tempo de recuperação do modelo de acumulação, perturbado pela
contestação social que se seguiu ao 25 de Abril, conforme
explicitámos na segunda parte deste trabalho. E, também se explica
pelo facto de tão grande aumento de trabalhadores ter tido um
impacto menos do que proporcional no volume de rendimentos afetos
aos trabalhadores, cuja evolução se situou muito aquém das taxas de
inflação, em 1977/84.

Em 1991/95 regista-se uma quebra de uns 450000 trabalhadores, o


que está bem traduzido no gráfico 5. Nesse período regista-se uma
relativa estagnação na evolução dos rendimentos do capital (1993/95)
e é, também, um período em que há uma redução nos ritmos de
crescimento da totalidade dos rendimentos do trabalho.

Gráfico 5
grazia.tanta@gmail.com 6/09/2018 14
Em 1994/2002 a população empregada cresce cerca de 700000
pessoas atingindo o mais elevado nível dos últimos 40 anos; e isso
traduz-se num aumento das remunerações do trabalho acima do
observado para os rendimentos do capital (gráfico 4). Posteriormente,
observa-se uma tendência para a redução do ratio, isto é para uma
redução da importância dos rendimentos do trabalho face aos da
empresa e da propriedade, com um interregno em 2008/11, a que se
segue uma nova perda que coloca o indicador ao nível do observado
vinte anos atrás. Nos dois últimos anos o indicador melhora um pouco
mas mantêm-se ainda a um nível semelhante ao dos finais dos anos
noventa.

Estas grandes variações, em consonância com continuados baixos


valores para a relação rendimentos do trabalho/rendimentos do
capital, em termos de economia capitalista, revelam as limitações
para acréscimos de consumo susceptíveis de gerar aumentos da
renda. Por seu turno, as variações nos níveis de emprego, mostram
uma sociedade atrasada, incapaz de gerar estabilidade no volume de
emprego e, daí, dos níveis de bem-estar como se demonstrou,
recentemente no novo período de emigração. Revela-se também na
patética e esmoler atitude de recurso a vistos gold para aumentar o
investimento estrangeiro, os incentivos fiscais para atrair estrangeiros
ricos (Madona, por ex), reformados abastados ou ainda, para obter o
retorno de emigrantes a um país que vive da especulação imobiliária,
a servir cafés e a fazer camas para turistas; ao mesmo tempo que não
se verificam alívios da carga fiscal para os indígenas.

grazia.tanta@gmail.com 6/09/2018 15
3 – Um empobrecimento quase contínuo no plano europeu

De forma numérica (Tabela 1), pode observar-se a regressão


portuguesa no contexto europeu através da capitação média da
remuneração dos empregados - expressa em paridades de poder de
compra - comparando a situação em 2004, ano da integração dos 10
países do Leste e do Mediterrâneo, com a situação no início da
intervenção da troika (2011) e, finalmente, em 2017, ano em que
Portugal tem oito países em pior situação, contra doze em 2004,
apesar de algumas melhorias nos últimos anos.

Tabela 1
2004 - Média UE-28 – 10 620.5
Bulgária Roménia Letónia Polónia Lituânia Eslováquia Estónia

2.615,0 2.827,7 3.950,2 4.184,1 4.419,7 4.648,8 5.377,3

Croácia Hungria R. Checa Grécia Malta Portugal

5930,0 6.235,3 6.966,9 7.126,3 8.097,8 8.626,1

2011 - Média UE-28 – 12 463.0


Bulgária Roménia Letónia Polónia Lituânia Grécia Eslováquia

4.186,1 4.479,6 5.887,1 6.386,4 6.777,7 6.977,6 7.205,0

Croácia Hungria Estónia Rep. Checa Portugal

7.424,8 7.566,0 8.283,7 8.758,3 9.358,8

2017 - Média UE-28 – 14181.7


Polónia Bulgária Grécia Roménia Croácia Hungria Eslováquia Letónia Portugal
- 6.730,3 6.752,6 6.755,1 8.491,2 8.893,9 9.220,2 9.353,8 10.213,3

Por outro lado, comparando essa capitação portuguesa com a média


da UE-28, a evolução é também negativa, evidenciando que, no
último ano, a situação se mostra longe do que ocorreu nos alvores da
intervenção da troika e, muito longe do verificado em 2004:

2004 – 81.2% 2011 – 75.1% 2017 – 72.0 %

Quando se compara a mesma capitação portuguesa com a do país


mais pobre da UE-28, a situação está longe de ser lisonjeira:

grazia.tanta@gmail.com 6/09/2018 16
2004 - 3.3 vezes 2011 – 2.2 vezes 2017 – 1.5 vezes

4 – Nem bom viver, nem democracia; apenas subalternidade e


corrupção

A adesão à UE, para além do forçoso acompanhamento da Grã-


Bretanha e da Espanha, representa uma mudança de capítulo na
história portuguesa; ficava para trás - e como elemento pouco
dignificante - o (ainda tão cantado) período colonial. A adesão tornaria
Portugal o mais pobre dos países comunitários, onde os salários
seriam os mais baixos; e, portanto, um país vocacionado para
oferecer trabalho pouco qualificado, um género de cantinho de Leste
asiático no seio da Europa comunitária. Por outro lado, havia algo que
fazia brilhar os olhos do tosco empresariato luso e da classe política;
iria perpetuar-se a entrada de fundos comunitários, cujo volume
líquido, depois das ajudas de pré-adesão, cresce rapidamente até se
situar a partir de 1992 em valores acima dos € 2000 M anuais.

Como se observa, nada teve como objetivo a melhoria das condições


de vida da multidão, em Portugal; a CEE/UE foi sempre um projeto de
concentração de capital para compensar a redução de peso político
das suas principais potências e nunca foi um projeto de unificação
democrática, solidária e não-capitalista dos povos da Europa, como
defendemos14.

Vivia-se, nos anos 90, a força do neoliberalismo, herdada de Thatcher


e Reagan na década anterior e a guerra contra o Irão encomendada a
Saddam Hussein pelos EUA e que, não atingindo os objetivos
desejados, deixou o ditador em tão maus lençóis que decidiu
apropriar-se do Kuwait para sanar as contas. Como os EUA são os
grandes sustentáculos dos emires do Golfo, George Bush (pai) ataca
o Iraque – sem molestar Saddam - e cria uma zona de exclusão e
sanções que geram enorme sofrimento entre a população iraquiana.
Por outro lado, em 1989 o muro de Berlim deixara de dividir a
Alemanha e o Comecon desmantela-se em 1991, tal como a URSS.

Assim, passados poucos anos da integração portuguesa na UE,


acendem-se as luzes sobre a Europa de Leste, onde se apresentam
vários países soltos de integração em blocos políticos e económicos,

14
http://grazia-tanta.blogspot.pt/2016/09/uniao-dos-povos-da-europa-ou-o.html
(português)
https://grazia-tanta.blogspot.pt/2017/08/union-of-european-peoples-or.html (inglês)
grazia.tanta@gmail.com 6/09/2018 17
embora a penetração dos capitais alemães já fosse significativa na
Checoslováquia, por exemplo. E, poucos anos depois, o
desmantelamento da Jugoslávia acrescenta mais uns quantos países
aos anteriores, ainda que através de guerras brutais animadas por um
curioso triunvirato – EUA (Clinton), Alemanha e Vaticano – com a
NATO a estrear-se, como efetiva máquina de guerra e a mostrar que
afinal tinha préstimo no pós-guerra fria.

Muitos destes países tinham (e têm) níveis de instrução superiores ao


de Portugal; mão-de-obra qualificada abundante e barata, para além
do forte desejo das suas populações em beneficiar dos níveis de vida
da Europa Ocidental, mormente dos países-âncora da UE; e,
encontram-se numa posição geográfica mais próxima dos países ricos
da Europa. Por outro lado, os investimentos dos países mais
desenvolvidos da UE sucedem-se, através da compra de instalações
e equipamentos privatizados a preços de saldo, com a mediação dos
corruptos oligarcas do “socialismo” reconvertidos em assanhados
neoliberais. Estava aberta a porta para a integração desses países na
UE.

O dilema aprofundamento/alargamento estava presente no seio da


UE. Entretanto, em 1995 acontece a adesão da Áustria, da Finlândia
e da Suécia, cujos níveis de vida, salariais e de desenvolvimento
capitalista se situavam vários furos acima dos homólogos
portugueses; o que não afetava a estratégia inicial do empresariato
luso e da classe política que até viam nisso um potencial alargamento
de quem quisesse aproveitar o trabalho barato em Portugal, oferecido
pelos negreiros da classe política.

Mais problemática foi a adesão à UE, em 2004, de dez países do


Leste e mediterrânicos (Chipre, Eslováquia, Eslovénia, Estónia,
Hungria, Letónia, Lituânia, Malta, Polónia, Rep. Checa), com uma
posição na Europa menos periférica que Portugal, com níveis salariais
mais “competitivos” e níveis de instrução superiores. Por outro lado,
esse alargamento aumenta o papel da Alemanha como área pivot na
Europa, entre a Europa Ocidental e de Leste, incluindo os Balcãs e as
duas antigas fortalezas europeias no Mediterrâneo, Malta e Chipre; e,
confrontando diretamente com o mundo russófono e os estados
islâmicos.

Como é evidente, a relevância de Portugal na UE reduziu-se,


contrariamente ao que se pensava no momento da adesão; parece-
nos, contudo, que o país, pelas suas debilidades próprias, pela sua
grazia.tanta@gmail.com 6/09/2018 18
integração geográfica ou pela incipiência económica das suas
relações com a CPLP e os países fora da Europa, não poderia evitar
a sua inclusão na UE, antes ou depois da integração dos referidos
dez países. E isso, por muito que desagrade aos saudosistas de
Salazar e do império, da extrema-direita ou da “esquerda” trotsko-
estalinista que, a espaços, se mostram ativos na defesa da saída da
UE, da moeda única, defendendo um encerramento autárcico
ancorado no seu bacoco nacionalismo.

A adesão dos referidos dez países reformulou o quadro global das


transferências da UE para os seus estados-membros menos ricos. E
isso refletiu-se no saldo das transferências para Portugal, que se
reduziu, gradualmente de € 3081.5 M em 2004, até atingir um mínimo
em 2008 (€ 1956.1 M). Durante a intervenção da troika aquelas
transferências voltaram a subir, reduzindo-se, posteriormente até
2017, quando atingem um montante próximo do observado em 2008.

Em capitalismo, produtos com mais baixos preços, fabricados a partir


de salários e normas laborais que resultem em mais baixos custos,
acabam sempre por vencer quaisquer barreiras; a não ser quando se
opta por lógicas nacionalistas de proteção do mercado interno, como
se evidencia, hoje no discurso de Trump e cujos resultados não
parecem auspiciosos. E, há uma década, o protecionismo não estava
na moda.

No âmbito do comércio global, em meados da primeira década do


século XXI, a evolução também não se mostra favorável à estratégia
portuguesa da prática de baixos salários, para um grande mercado
protegido por direitos alfandegários, como a UE, face aos países
asiáticos.

O Acordo Multifibras findou em 31/12/94 mas foi estabelecido um


período de transição gradual, de 10 anos. Nesse período, alguns dos
capitães portugueses do têxtil deslocalizam a produção para a Ásia ou
a Roménia, por exemplo; e esses ou outros, abandonam o negócio,
procurando transformar os seus grandes espaços fabris, junto das
cidades do Norte de Portugal, em empreendimentos imobiliários ou
centros comerciais… não se esquecendo, entretanto de deixar
grandes dívidas junto do Fisco e da Segurança Social, crónicos
benfeitores do empresariato, à custa dos direitos dos trabalhadores e
da população que paga impostos. Por outro lado, a adesão da China
à OMC, em finais de 2001, introduz um outro elemento de peso na

grazia.tanta@gmail.com 6/09/2018 19
liberalização do comércio e do acentuar do papel da Ásia Oriental na
produção têxtil.

A crise financeira expandida em 2008 tem efeitos ampliados e


desastrosos em Portugal, cuja governação foi obrigada a proceder a
um extenso programa de privatizações, ao resgate dos bancos - a que
se seguiu a quase total tomada do sistema financeiro (bancos e
seguros) por grupos estrangeiros (mormente espanhóis e chineses) -
e à gestão de uma dívida pública enorme e sem perspetiva de
redução. A análise dos últimos dez anos de crise económica e
financeira15, sobretudo no mundo ocidental, bem como a chegada de
Trump à Casa Branca, apontam para uma nova crise financeira, que
os bancos centrais sabem não poder debelar.

Por outro lado, em termos políticos, mantém-se o predomínio da


democracia de mercado, com eleições regulares para a colocação de
representantes diretos de gangs conservadores (com rótulo liberal ou
social-democrata) e, na sombra, porta-vozes das transnacionais, do
sistema financeiro, quando não do mundo do crime.

A intervenção militar ocidental em África e no Médio Oriente, por seu


turno, desencadeou uma crise humanitária, com gente deslocada na
direção da Europa, em busca de trabalho e segurança para a qual as
instâncias comunitárias e nacionais intervieram defendendo a
exclusão, promovendo a xenofobia e a irracionalidade do medo que
incha a popularidade de uma extrema-direita fascizante.

Quanto aos partidos ditos de esquerda, na Europa, mantêm a sua


deriva histórica a caminho do lugar onde estiver o pote, com o culto
do estado-nação, da autoridade estatal e a continuidade das
hierarquias que dividem os senhores dos servos.

Se a deriva ambiental e climática se acelerar para não prejudicar a


sacrossanta acumulação de capital isso conduzirá a uma verdadeira
implosão demográfica que poderá reduzir a espécie humana a uns
escassos 600 milhões. E resta saber se esses sobreviventes
sobreviverão à putrefação do planeta…

15
https://grazia-tanta.blogspot.pt/2018/02/os-dez-anos-de-crise-ganhadores-e.html (português)
https://grazia-tanta.blogspot.pt/2018/04/the-ten-years-of-crisis-winners-and.html (inglês)
grazia.tanta@gmail.com 6/09/2018 20
Os capítulos anteriores deste texto encontram-se aqui:

1 - A longa marcha das desigualdades – 1 (O período 1953/77 e o fim do regime fascista em


Portugal )

https://grazia-tanta.blogspot.com/2018/07/a-longa-marcha-das-desigualdades-1-o.html

2 - A longa marcha das desigualdades – 2 Da primeira intervenção do FMI ao cavaquismo


(1977/95)

https://grazia-tanta.blogspot.com/2018/08/a-longa-marcha-das-desigualdades-2-da.html

Aqueles e outros textos em:

http://grazia-tanta.blogspot.com/

https://pt.scribd.com/uploads

http://www.slideshare.net/durgarrai/documents

grazia.tanta@gmail.com 6/09/2018 21

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