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Consulta Nefrológica em 10 minutos

Disúria Aguda na Mulher


Acute Dysuria in Woman
Professora Dra. Hélady Sanders Pinheiro

Disúria é definida como dor, queimação, ardência ou desconforto bacterioscopia de urina não centrifugada (BUNC) tem as mesmas indicações da
durante ou após o ato de urinar. É um sintoma muito freqüente em mulheres urocultura e provê um resultado mais rápido, em horas.
adultas e a causa principal é a infecção do trato urinário. A maioria das
pacientes é avaliada em atenção primária à saúde e em consultó- Abordagem em situações específicas
rios/ambulatórios não especializados. Há dois mecanismos envolvidos na
patogênese da disúria: inflamação da uretra e trígono vesical; ou inflamação ITU baixa – cistite aguda: com quadro clínico típico, i.é, disúria de
dos lábios e vestíbulo vaginais, e neste caso a dor/desconforto é início recente, associada a outros sintomas urinários baixos, ausência de
desencadeada pela passagem do jato de urina por estas estruturas. As causas febre, dor lombar e sensibilidade renais, e, sobretudo, sem critérios de ITU
mais comuns de disúria são as infecções do trato urinário baixo ou alto e as complicada, não há necessidade de exames. O tratamento antimicrobiano
vaginites, porém pode ainda ser decorrente de inflamação ou irritação na empírico pode ser instituído e a paciente orientada a retornar se não houver
ausência de patógenos. (Tabela 1). resolução do quadro, que em geral ocorre antes do término da medicação. Na
ITU baixa complicada devem ser solicitados o exame simples de urina e
urocultura.
Tabela 1. Diagnóstico de disúria em mulheres adultas
ITU alta – pielonefrite aguda: disúria, dor lombar associada à febre
Localização com calafrios e prostração. No exame físico os principais achados são a
Resposta queda do estado geral a presença da punho-percussão dolorosa. Algumas
Diagnóstico Trato Bexiga Uretra Piúria tratamento pacientes não apresentam disúria. Recomenda-se o exame simples de urina
urinário antimicrobiano
alto (nitrito positivo, piúria, hematúria), BUNC e a urocultura para confirmação
diagnóstico e conduta. Via de regra, o tratamento é iniciado em nível
ITU baixa - + + + + hospitalar.
Pielonefrite aguda + + +/- + + Uretrite por Clamídia – 10 a 25% dos casos. Apresenta-se isolada
Uretrite por clamídia - - + + +
ou em associação cervicite ou doença inflamatória pélvica. O quadro clínico
Uretrite gonocóccica - - + + +
Outras uretrites - - + + + é semelhante ao da cistite, porém disúria intermitente, múltiplos parceiros
Disúria sem causa definida - ? + - - sexuais ou novo parceiro recente, ausência de hematúria do exame simples
Vaginites - - - - + de urina e urocultura estéril são características importantes. O exame
Modificado de Komaroff, AL, N Engl J Med 1984; 310:368. ginecológico a da secreção vaginal definem o diagnóstico.
Uretrite gonocóccica – cerca de 10% dos casos. Também se
apresenta isolada ou associada com infecção ginecológica e se assemelha à
Abordagem da paciente cistite. História prévia gonorréia ou de novo parceiro recente, ou com
diagnóstico de gonorréia podem direcionar o diagnóstico. Exame de urina –
História piúria isolada estéril. O exame ginecológico está indicado e o exame da
secreção vaginal é específico.
A paciente deve ser inquirida sobre as características da disúria: o Outras uretrites – por tricomonas, cândida ou herpes simplex; em
tempo de início dos sintomas, intensidade da dor, tempo no ato miccional geral associados com cervicite ou vaginite ou com erupções vesiculares.
(inicial ou final), localização (uretral e/ou difusa no períneo), associação com Vaginites – disúria descrita como dor ‘externa’ ao contato da urina;
polaciúria, urgência ou incontinência urinárias. A presença da outros associada com corrimento e prurido vaginais, dispareunia. Diagnóstico no
sintomas como dor lombar ou hipogástrica, febre e calafrios, hematúria, exame ginecológico.
corrimento e prurido vaginais, dispareunia, deve ser investigada. Última Disúria sem causa definida – diagnóstico não é possível após abor-
menstruação, atividade sexual, tipo de contracepção, sintomas no parceiro, dagem clássica; causas a serem consideradas: vaginite atrófica pós-me-
história prévia de ITU, sintomas ou infecções ginecológicas bem como de nopausa, cistite intersticial, uretrite por irritante (sabões, preservativos,
condições que classificam a ITU como complicada: diabetes mellitus, tampões vaginais).
anormalidades anatômicas e funcionais do trato urinário, hospitalização e uso Em resumo, história com exame físico, associados a exame simples
recente de antibióticos, instrumentação urológica, também auxiliam no de urina e urocultura, complementados, em situações apropriadas, com
diagnóstico. exame ginecológico, permitem uma abordagem diagnóstica eficiente da
disúria aguda na mulher.
Exame físico

O abdome e a pesquisa de sensibilidade renal por punho-percussão BIBLIOGRAFIA RECOMENDADA


lombar são obrigatórios. O exame ginecológico deve ser restrito aos casos
com queixas de corrimento vaginal, suspeita de doenças sexualmente 1. Bent S, Nallamothu BK, Simel DL, Fihn SD, Saint S. Does this
transmissíveis ou de doença inflamatória pélvica. woman have an acute uncomplicated urinary tract infection?
JAMA 2002;287:2701-2710.
Exames laboratoriais
2. Hooton TM. The current management strategies for community-
O exame mais importante é o exame simples de urina. Piúria sugere adquired urinary tract infection. Infect Dis Clin North Am
ITU baixa (cistite) ou alta (pielonefrite) ou uretrite por Clamídia ou gonocóccica 2003:17(2):303-332.
e está ausente nas vaginites. Hematúria sugere ITU e descarta as uretrites e 3. Pinheiro HS. Infecção urinária. http://www.medicinaatual.com.br.
vaginites. A urocultura é o exame padrão-ouro para diagnóstico de ITU, porém
não traz benefício ao manuseio do tratamento das cistites não complicadas e por 4. Car J Urinary tract infections in women: diagnosis and mana-
isso só deve ser solicitada na suspeita de pielonefrite e cistite complicada. A gement in primary care. BMJ 2006;332:94–97.