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HERMENEUTICA

1. Definição da Hermenêutica

Uma concisa visão acadêmica pelos dicionários teológicos, nota-se claramente


que a conceituação geralmente aceita para a hermenêutica é: “arte ou ciência da
interpretação”1, ou ainda “interpretação do sentido das palavras; interpretação dos
textos sagrados”2. A palavra “hermenêutica” vem do grego “hermeneuo” que significa
“interpretar”. A partir daí conclui-se que hermenêutica é a ciência e arte de interpretar
textos de uma maneira geral.3 Derivada da palavra grega “hermeneutikós”
(S), que significa “interpretação”, ou “arte de interpretar”.

A palavra hermenêutica a princípio parecia estar conectada com o nome de


“Hermes” que era tido na mitologia religiosa grega como o mensageiro divino e
intérprete dos deuses, e que também era o deus da eloquência, a que os romanos
chamavam de Mercúrio. Paulo e Barnabé em Listra, após a cura de um coxo. Eles foram
chamados de Júpiter e Mercúrio (Atos 14:8-12). No primeiro século, a forma verbal de
hermeneuo foi usado com denotando o significado de "explicar", “interpretar” ou
“traduzir”. Este verbo aparece três vezes no Novo Testamento, cada vez com o sentido
de traduzir de uma língua para outra (Jo 1.42; 9.7; Hebreus 7.2).

À primeira vista parece errado inferir que a hermenêutica denote unicamente a


interpretação ou exegese das Escrituras Sagradas. O uso tem restringido o significado da
hermenêutica para a ciência da exegese bíblica, isto é, para a coleção de dados que
conduzem a uma boa exegese. A exegese está relacionada com a hermenêutica, assim
como a linguagem está para a gramática. Os homens falavam e racionavam, antes que
existisse qualquer gramática ou lógica. Contudo, será muito um conhecimento da
gramática e da lógica. Da mesma maneira, os primeiros escritores cristãos expuseram as
Escrituras Sagradas sem um conhecimento formal das regras hermenêuticas de hoje,
todavia, isto não significa que eles não tenham feito uso de valores hermenêuticos, tal
como a suma hermenêutica de que “as Escrituras interpretam as próprias Escrituras. ”

Em seu significado técnico, a hermenêutica é frequentemente definida como a


ciência ea arte da interpretação bíblica. Hermenêutica é considerada uma ciência porque

1
Novo Michaelis Dicionário Ilustrado, São Paulo: Melhoramentos, vol. IV, 7ª edição, 1961, pp. 673
2
BUENO S., Minidicionário da Língua Portuguesa, São Paulo: Lisa, 6ª edição, 1992, pp. 342
3
Terry vem a definir hermenêutica como hermenêutica geral tendo em vista que: “Esses princípios gerais são igualmente aplicáveis
a interpretação da bíblia como a todos os demais livros e, com muita propriedade se designa o nome de hermenêutica geral”.
TERRY M. S., Hermenêutica Bíblica, México: Casa Unida de Publicaciones & Buenos Aires: La Aurora, 2ª ed., 1924, pp. 38
tem regras, e essas regras podem ser classificados em um sistema ordenado. É
considerada uma arte, pois a comunicação é flexível e, portanto, uma aplicação
mecânica e rígida de regras, que por vezes, irá distorcer o verdadeiro significado de uma
comunicação. Para ser um bom intérprete deve-se aprender as regras de hermenêutica,
bem como a arte de aplicar essas regras.4 A teoria hermenêutica é por vezes dividida em
duas subcategorias: a hermenêutica geral e especial. Hermenêutica geral é o estudo das
regras que regem a interpretação do texto bíblico. Inclui os tópicos de interesse
histórico-cultural, contextual, léxico-sintática, e analisa teológica. Hermenêutica
especial é o estudo dessas regras que se aplicam a gêneros específicos, como parábolas,
alegorias, tipos e profecia.

Neste momento o objetivo será o de desenvolver o conhecimento referente a


hermenêutica geral, i.é., o estudo das regras que regem a interpretação do texto, focando
esse desenvolvimento na história da interpretação. Demonstrar como utilizar a
hermenêutica bíblica5que é justamente “oestudo metódico dos princípios e regras de
interpretação das Sagradas Escrituras”6ointérprete conseguirá apreender o sentido
daquilo que está escrito.

De posse da ideia básica a respeito do significado do termo hermenêutica é


importante que o intérprete reformado entenda as razões relacionadas ao que e ao
porquê do uso da hermenêutica na interpretação da Bíblia.

1.1. O QUE E O PORQUÊ DA INTERPRETAÇÃO BÍBLICA.


Um homem de negócios estava em uma viagem a uma boa distância de sua
cidade natal. Ele serviu como um alto executivo de uma agência governamental. Na
verdade, ele foi o diretor financeiro a cargo de todos os fundos nesse departamento.
Voltando para casa, da Palestina, ele estava em uma estrada do deserto ao sudoeste de
Jerusalém. Outra pessoa estava dirigindo, o que lhe deu oportunidade de ler. Como ele
estava lendo em voz alta, ele olhou para cima e viu um homem que tinha chegado a seu
lado e lhe tinha ouvido a leitura. O homem perguntou ao turista se ele entendia o que

4Virkler,H. A., & Ayayo, K. G. (2007). Hermenêutica: princípios e processos de interpretação bíblica.
2nd ed., Grand Rapids, MI: Baker Academic, P. 16
5Paul Ricoeur dá uma definição alternativa de hermenêutica. Para Ricoeur hermenêutica é: “...a teoria das
operações da compreensão em sua relação com a interpretação dos textos. A idéia diretriz será, assim, a
de efetuação do discurso como texto”. RICOUER P., Interpretação e ideologias: organização, tradução e
apresentação de Hilton Japiassu, Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves Editora S/A, 1990, pp. 17
6 ALMEIDA A., Manual de Hermenêutica Sagrada, São Paulo: CEP, 1957, pp. 11
estava sendo lido. O leitor era um funcionário da corte etíope de Candace, rainha da
Etiópia (Atos 8.27). No caminho de volta para a Etiópia, ele foi acompanhado por
Felipe, a quem Deus disse para atender o funcionário (vs. 26-29). Felipe iniciou uma
conversa com o homem, fazendo-lhe uma pergunta de uma questão de interpretação da
Bíblia. “Você entende o que está lendo?” (v. 30) O diretor financeiro respondeu: "Como
posso entender, a menos que alguém me explique?” (v. 31) Convidando Felipe a se
juntar a ele na carruagem, o Africano perguntou se o profeta Isaías (em Isaías 53.7-8)
estava falando sobre si mesmo ou alguém. Sua pergunta revelou a sua necessidade de
ajuda na interpretação da passagem. Felipe explicou que a passagem se refere a Jesus.
Como resultado da conversa o Africano aceitou o Senhor como seu Salvador.
Este diálogo no deserto aponta duas coisas. Em primeiro lugar, ver as palavras
em uma página da Bíblia, não significa necessariamente que o leitor apreenda seu
significado. Observar o que a Bíblia diz é o primeiro de vários passos no estudo da
Bíblia.7 É importante saber o que o texto afirma, na verdade. Mas isso pode às vezes
levar a perguntas sobre o significado do que é lido. Muitas pessoas, ao ler trechos da
Bíblia, ficam confusos sobre o seu significado ou ficam com uma falsa
compreensão.Em segundo lugar, o incidente entre o evangelista e o eunuco revela que a
orientação adequada pode ajudar outros a interpretar o que lêem na Bíblia. A pergunta
de Felipe, “Você entende o que está lendo?” implicava que o leitor provavelmente não
entendia, mas que era possível compreender. Na verdade o pedido do tesoureiro de
alguém para explicar a passagem para ele era uma admissão da parte dele que ele não
poderia compreender corretamente a passagem por ele mesmo e que sentia a
necessidade de ajuda na interpretação.
Vários meses após Neemias completar a reconstrução dos muros de Jerusalém e
os israelitas haviam se estabelecido em suas cidades, Esdras, o escriba leu para eles “O
Livro da Lei de Moisés” (os cinco primeiros livros da Bíblia). Como o povo estava
reunido diante da Porta das águas em Jerusalém (Ne 8.1). Esdras leu a lei perante a
congregação e diante de todos os que eram capases de a entender. Ele a leu desde o
amanhecer até o meio dia (v. 3). Os levitas também leram em voz alta a partir da Lei ,
deixando claro e dando o significado de modo que as pessoas pudessem entender o que
estava sendo lido (vs. 7-8). Como resultado, as pessoas estavam alegres, porque só
agora entendiam as palavras (v. 12).

7
Campbell, D. K. (1991). Prefácio. Em C. Bubeck Sr. (Org.), Principios Básicos da Bíblia Interpretação: Um Guia Prático para
Discovering verdade bíblica. Colorado Springs, CO: David C. Cook. p. 9,10 tradução minha
1.1.1. Por que a interpretação da Bíblia é importante?
A interpretação da Bíblia é essencial para se compreender e ensinar a Bíblia
corretamente. Ten-se que saber o significado da Bíblia antes que se possa saber a sua
mensagem para hoje. Sem hermenêutica (a ciência ea arte de interpretar a Bíblia), o
intérprete dá um salto e ignora passos indispensável no estudo da Bíblia. O primeiro
passo, a observação, “O que ela diz?” O segundo passo, interpretação, “O que
significa?” A terceira etapa, reflecção “como isto se aplica as vida contemporânea” e a
quarta etapa; a aplicação, “Como isso se aplica a mim?”
Interpretação é talvez o mais difícil e destes quatro passos e a que mais consome
tempo. E, no entanto cortar o estudo da Bíblia nesta área pode levar a erros graves e
resultados defeituosos. Algumas pessoas com conhecimento de causa “distorcem a
Palavra de Deus” (2 Cor. 4.2). Alguns até "distorcem" as Escrituras “para sua própria
destruição” (2 Pedro 3.16). Outros, sem saber, caminham para longe da Bíblia com
interpretações defeituosas. Por quê? Por causa da atenção inadequada aos princípios
envolvidos na compreensão das Escrituras. Nos últimos anos, temos visto um grande
aumento de interesse no estudo informal da Bíblia. Muitos grupos pequenos se reúnem
semanalmente em casas ou em igrejas para discutir a Bíblia, o que significa e como ele
se aplica. As pessoas desses grupos sempre estão, com o mesmo entendimento da
passagem estudada? Não necessariamente. Alguns podem dizer: “Para mim, este
versículo significa isto”, e uma outra pessoa no grupo pode responder: “Para mim o
verso não significa que; isso significa que este.” Estudar a Bíblia desta maneira, sem
diretrizes hermenêuticas adequadas, pode levar a confusão e interpretações que ainda
estão em direto conflito.
Será que Deus pretendia que a Bíblia fosse tratada dessa maneira? Se ela pode
ser usada para significar qualquer coisa que se quiser, como pode ser um guia
confiável?
interpretações conflitantes de muitas passagens são abundantes. Por exemplo,
uma pessoa lê João 10.28: “Eu lhes dou a vida eterna, e elas jamais perecerão; e
ninguém pode arrebatá-las da Minha mão”, e entende que o verso parece estar
ensinando sobre a segurança eterna. Outros lêem o mesmo verso e explicam que,
embora ninguém pode arrebatar um cristão da mão de Deus, o crente pode afastar-se da
mão de Deus pelo pecado persistente. Algumas pessoas sugerem que a declaração de
Paulo em Colossenses 1.15 que Cristo é "o Primogênito de toda a criação" significa que
Ele foi criado. Outros entendem que o verso está dizendo que como um filho
primogênito de uma família Ele é o herdeiro. Alguns cristãos praticam o chamado falar
em línguas, com base em 1 Coríntios 12-14. Outros lêem os mesmos capítulos e
entendem que esta prática era apenas para a Era Apostólica e não para hoje. Alguns
leram Naum 2.4, “Os carros de assalto pelas ruas, correndo para trás e para frente
através dos quadrados”, e concluíram que este versículo estava profetizando o tráfego
de automóveis pesados nas nossas cidades hoje. Na parábola do Bom Samaritano
(Lucas 10.25-37), alguns têm procurado dar um “espiritual”, que significa a passagem
por explicar que a pousada para a qual o samaritano levou o homem ferido representa a
igreja e que a duas moedas de prata dadas ao hospedeiro representam as duas
ordenanças da Ceia do Senhor e água do batismo.
O líder Mórmon Brigham Young justificou ter mais de 30 esposas, apontando
para o fato de que Abraão teve mais de 1 esposa, a saber, Sara e Hagar. A prática
Mórmon de ser batizado por parentes mortos e outros baseia-se, eles argumentam, em 1
Coríntios 15.29. Algumas pessoas lidam com cobras venenosas, com base em sua
leitura de Marcos 16.18. Se as mulheres devem ensinar aos homens é baseada em como
se interpreta 1 Coríntios 11.5; 14.34-35; e 1 Timóteo 2.12. Alguns ensinam que
apresentar o reinado de Cristo no céu significa que Ele não vai estabelecer um reinado
de 1.000 anos sobre a terra depois de seu retorno. Outros, porém, dizem que a Bíblia
ensina que Cristo, embora reinando sobre o universo agora, irá se manifestar no seu
reino de uma forma física, quando Ele governar como o Messias sobre a nação de Israel
sobre a terra no Milênio.
Todos estes e muitos outros, são questões de interpretação. Obviamente estes
vários pontos de vista conflitantes demonstram que nem todos os leitores estão seguindo
os mesmos princípios para a compreensão da Bíblia.8
A falta de hermenêutica adequado também levou a Bíblia a ser altamente
abusado e caluniada. Mesmo alguns ateus procuraram apoiar as suas posições,
referindo-se ao Salmo 14.1 “Não há Deus”, Obviamente, eles negligenciaram como
essas palavras são introduzidas: “Não há Deus” Diz o tolo em seu coração”. Você pode
fazer a Bíblia dizer o que quiser, alguns argumentam. E no entanto, como muitas das
mesmas pessoas dizem: "Você pode fazer Shakespeare dizer o que quiser"?9 Claro que

8
Campbell, D. K. (1991). Prefácio. Em C. Bubeck Sr. (Org.), Básico da Bíblia Interpretação: Um Guia Prático para Discovering
verdade bíblica. Colorado Springs, CO: David C. Cook. p. 10 tradução minha.
9
Campbell, D. K. (1991). Prefácio. Em C. Bubeck Sr. (Org.), Básico da Bíblia Interpretação: Um Guia Prático para Discovering
verdade bíblica. Colorado Springs, CO: David C. Cook. p. 11 trad. Minha.
é verdade que as pessoas podem fazer a Bíblia dizer o que quiserem, desde que elas
desconsiderar abordagens normais de comprensão de documentos escritos.
A interpretação da Bíblia é essencial como um passo além de Observação.
Quando muitas pessoas se aproximam da Bíblia, eles saltam da observação para a
aplicação, pulam o passo essencial de interpretação. Isso é errado porque a interpretação
estálogicamente após a observação. Ao observar que a Bíblia diz, você sonda; na
interpretação, você medita. A observação é a descoberta; A interpretação é direção.
Observação significa descrever o que está lá, e interpretação é decidir o que significa. O
primeiro é para explorar, o outro é para explicar.
É observando o que se vê no texto bíblico, que, em seguida, deve-se lidar com
isso (2 Tim. 2.15) corretamente. O particípio "corretamente manipulado"
(incorretamente traduzido na versão King James "maneja bem") traduz a palavra
“orthotomounta” grego. Esta combina duas palavras que significam "em linha reta"
(orto) e "cortar" (Tomeo). Um escritor explica o significado desta da seguinte forma:
“Porque Paul é um fabricante de tendas, ele pode ter usando uma expressão
que ligada ao seu negocio. Quando Paulo fez tendas, ele usou certos padrões.
Naqueles dias tendas eram feitas de peles de animais em uma espécie de
retalhos. Cada peça teria que ser cortado e se encaixar corretamente. Paulo
estava simplesmente dizendo: "Se alguém não cortar os pedaços direito, o
todo não se encaixará corretamente." É a mesma coisa com as Escrituras. Se
a pessoa não interpretar corretamente as diferentes partes, toda a mensagem
não virá corretamente. No estudo da Bíblia o cristão ao interpretá-la deve
cortá-la em linha reta. Ele deve ser mais preciso ... e preciso.”10

A interpretação da Bíblia é essencial para se aplicar a Bíblia corretamente.


Interpretação deverá ter como base a observação e, em seguida, levar a interpretação. É
um meio para um fim, não um fim em si mesmo. O objetivo do estudo da Bíblia não é
simplesmente determinar o que diz eo que isso significa, mas em vez de aplicá-lo à
vida. Se os interprettes não forem capazes de aplicar as Escrituras, se interromperá todo
o processo e não se concluirá o que Deus pretendia que se fizesse.
É verdade que a Bíblia dá muitos fatos que se precisa saber sobre Deus, sobre o
homem, pecado, salvação, e o futuro. O leitor interprete chega-se para a Bíblia para
obter informações e conhecimento, e isso é bom. Mas a questão é: o que se vai fazer
com essa informação e insights? Interpretação é o passo que nos move a partir da leitura
e observando do texto sobre a aplicação. Estudar a Bíblia é um exercício intelectual no
qual procuramos compreender o que Deus diz. Mas o estudo da Bíblia deve ir além,

10
Ibid.
incluindo a disciplina espiritual, na qual procura-se colocar em prática o que se lêr e
entende.
O Coração apropriação, não apenas dirige a apreensão, é o verdadeiro objetivo
do estudo da Bíblia. Só desta forma podem os crentes crescerem espiritualmente. A
maturidade espiritual, em que nos tornamos mais semelhantes a Cristo, não trata apenas
de saber mais sobre a Bíblia. Ele vem de saber mais sobre a Bíblia e aplicá-lo às nossas
necessidades espirituais. Este era o objetivo de Paulo, que ele podesse incentivar e
ensinar os outros para que eles pudessem tornar-se maduros em Cristo (Col. 1.28). E
Pedro escreveu que deve-se "desejar puro leite espiritual, para que por ele [possa-se]
crescer em [nossa] salvação" (1 Pedro 2.2). Paulo escreveu que "o conhecimento incha"
ensoberbece (1 Cor. 8.1). Jesus disse aos líderes judeus de sua época, "Vocês estudam
diligentemente as Escrituras" (João 5:39). Mas então Ele acrescentou que seu estudo era
de nenhum valor, porque eles se recusaram a vir a Ele para ter a vida (v. 40).
Uma das passagens clássicas sobre a inspiração das Escrituras é 2 Timóteo 3.16.
E, no entanto a maior parte desse verso, juntamente com o seguinte verso, fala da
utilidade da Escritura. É para ser usado para "ensinar, para repreender, para corrigir,
para instruir em justiça, para que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente
habilitado para toda boa obra." Uma coisa é ler 2 Timóteo 1: 9, notando que Deus "nos
chamou a uma vida santa", e entender que a santidade é uma vida de pureza e santidade,
tornada possível pela obra santificadora do Espírito Santo. Mas é outra coisa lidar com o
pecado em nossas vidas de modo que estamos de fato levando uma vida santa. Uma
coisa é estudar o que as Escrituras dizem sobre o retorno de Cristo em passagens como
1 Tessalonicenses 4.13-18 e 1 Coríntios 15.51-56. Mas é outra coisa construir e se
mover além desses fatos, a ponto de amar Seu aparecimento (2 Tim. 4.8), isto é,
desejando e antecipando sua vinda, e continuando firme em servir ao Senhor (1 Cor.
15.58).
A interpretação da Bíblia, então, como o segundo passo no estudo da Bíblia é
absolutamente essencial. Interpretação é fundamental para a aplicação. Se não
interpretar corretamente, podemos acabar por aplicar a Bíblia de forma errada. Como
você interpreta muitas passagens tem um efeito direto sobre a sua conduta e a conduta
de outras pessoas também. Por exemplo, se um pastor interpreta certas passagens
dizendo que o novo casamento é aceitável após o divórcio, então que influencia tem
sobre a forma como ele aconselha divorciados sobre um novo casamento. Se um pastor
entende 1 Coríntios 11.3-15 para ensinar que as mulheres devem usar véu na igreja,
então sua interpretação afeta o que ele ensina sua congregação.
Se o aborto é certo ou errado, como encontrar a vontade de Deus, como levar uma vida
significativa, como ser um marido ou esposa ou pai eficaz, como reagir ao sofrimento,
todos estes dependem e se relacionam com a hermenêutica e como você interpreta
vários passagens. Como um escritor bem colocou, "Interpretar a Bíblia é uma das
questões mais importantes para os cristãos de hoje. Ela está por trás do que nós
acreditamos, como vivemos, como chegaremos juntos, eo que temos para oferecer ao
mundo."

1.2. Unidade da Escritura

Para os reformados, o conceito de unidade da Escritura é muito importante. É


através desse conceito que fica claro que é a própria Escritura quem deve ser a juíza de
todas as causas cristãs. A Palavra de Deus é composta por dois Testamentos: Antigo e
Novo e, embora haja diferenças entre ambos os Testamentos, as mesmas são parcas à
luz da sua ênfase na unidade. Calvino fala de pelo menos cinco diferenças entre o AT e
o NT.11 De acordo com Sidney Greidanus, as diferenças apontadas por Calvino são
organizadas da seguinte forma:

O Antigo Testamento enfatiza benefícios terrenos em contraste com


os celestes; fala em imagens e sombras em contraste com ‘a
substância’; tem o caráter da letra exterior em contraste com o espírito
(Jr 31.31-34); é caracterizado com escravidão em contraste com
liberdade; foi restrito a uma nação em contraste com todas as nações.12

Percebe-se que as diferenças que Calvino fala são as seguintes:

AT NT
Benefícios terrenos Benefícios celestes
Imagens e sombras Substância
Letra exterior (que não é o AT) Espírito (Jr 31.31-34)
Escravidão Liberdade
Uma nação Todas as nações

11CALVINO J., As Institutas, vol. IV, São Paulo: CEP, 1989, pp. 215-229
12
As diferenças entre os Testamentos existem e isso ninguém questiona. A
principal diferença ainda apontada por Calvino é em relação ao grau de clareza quanto
a Jesus Cristo e o reino de Deus. Contudo, vale lembrar que essas diferenças apontadas
por Calvino entre AT e NT são apenas na forma de administrar a aliança e não na
substância da aliança da graça, propriamente dita.13

Calvino tem a plena convicção quanto à unidade do AT e NT numa só aliança de


graça e unidade histórico-redentora.14

Ambos são interdependentes ao mesmo tempo em que se deve ler cada


testamento levando em consideração suas peculiaridades tendo em vista que os
respectivos testamentos diferem em linguagem, condições históricas, gêneros muitas
vezes e assim por diante.

O Antigo Testamento tem seu cumprimento no Novo e o Novo Testamento


necessita do Antigo para ser interpretado e corretamente entendido. Para se estudar
corretamente qualquer doutrina na Escritura é indispensável olhá-la como um todo.

O Novo Testamento pode ser corretamente entendido somente à luz do Antigo


Testamento. O AT oferece o background necessário para os primeiros leitores do NT
entenderem sua mensagem. Ambos os testamentos têm impacto um sobre o outro,
mesmo que não tenhamos todas as ferramentas e informações necessárias para
chegarmos a uma conclusão acurada de qualquer doutrina.15

Dessa forma, os princípios, métodos e regras para se interpretar com maior


clareza e objetividade as Escrituras levam em consideração o conceito de unidade
bíblica, onde assim, o intérprete alcançará êxito em sua busca pela verdade.

1.3. Relação da Hermenêutica com a Exegese

O termo “exegese” vem do grego e significa “narração, exposição”.16 Case for


Infant Baptism, New Jersey: P&R Publishing, 1995, pp. 20.

13
CALVINO, As Institutas, vol. IV, pp. 215
14
Ibidem, pp. 194
15
BOOTH R. R., Children of the Promise: The Biblical Case for Infant Baptism, New Jersey: P&R Publishing, 1995, pp. 20
16
Para uma boa argumentação em prol de demonstrar ao leitor atual a necessidade de se utilizar o NT grego no ministério pastoral
ver BLACK D. A., Using New Testament Greek in Ministry: A Practical Guide for Students and Pastors, Grand Rapids: Baker
Books, 1999. Para Agostinho as línguas também exercem um papel importante, senão, sine qua non, para o bom intérprete. Ei-lo
em suas próprias palavras: “O melhor remédio contra o desconhecimento dos signos próprios é o conhecimento das línguas. Os que
conhecem o latim, aos quais tentamos instruir agora, necessitam, para conhecer as Sagradas Escrituras, do Grego e do Hebreu.
Poderão assim recorrer aos originais sempre que a imensa variedade dos tradutores latinos ofereça qualquer dúvida” Ainda em outro
lugar continua: “...mas por causa das discrepâncias dos tradutores, que é necessário, conforme se disse, o conhecimento das
mencionadas línguas. AGOSTINHO S., Textos de Hermenêutica, Portugal: res, pp. 57-58, 62-63. A respeito da importância das
Este termo é derivado de duas palavras: O verbo que significa “narrar,
conduzir, tirar, guiar, liderar, exprimir em palavras” mais a preposição “para fora
de” ou apenas “de” indicando procedência ou origem, portanto, dá a ideia
de “expôr; tirar; tirar e/ou trazer para fora; extrair; relatar; explicar”.17 É possível
dizer assim que a exegese () é a tarefa de tirar para fora o sentido de um texto,
ou ainda, a sua respectiva narração e explicação.
Dessa forma, tendo como base a análise etimológica do termo, a exegese
significa a ciência de interpretação. Uma boa exegese se preocupa tanto com o aspecto
histórico quanto teológico do texto.18 Nesse momento, a pergunta que fica sobre nós é:
Qual a relação da hermenêutica com a exegese? São duas ciências idênticas? Se forem
diferentes, qual é essa diferença? A hermenêutica é a disciplina teológica que se
preocupa com a correta interpretação das Sagradas Escrituras. A boa hermenêutica é a
mãe de uma boa exegese, ou seja, a hermenêutica precedea exegese, e a exegese é o
alicerce básico para a verdadeira exposição do texto sagrado. Há uma sequência no
estudo de um texto sagrado para a sua boa interpretação.

A exegese levanta o sentido real de um texto sagrado. Ela trabalha diretamente


com as línguas originais (hebraico e grego), utilizando-se da gramática dessas línguas
para solucionar as suas respectivas dificuldades linguísticas e chegar-se à interpretação
do texto.
Já a hermenêutica bíblica fornece princípios e regras para a interpretação segura
de um texto sagrado, cuidando, portanto, da reta compreensão e interpretação das
Escrituras. E isso através de um conjunto de regras que permitam determinar o sentido
literal19da Palavra de Deus.
Alguns questionamentos a respeito do significado de sentido literal devem ser
feitos aqui. Literal refere-se à intenção autorale não a interpretação da letra pela letra
somente. Ex.: O Senhor Jesus Cristo faz uma referência a Ele mesmo como sendo uma

línguas originais Spinoza diz: “Em primeiro lugar deve permitir compreender a natureza e a linguagem em que os livros da Escritura
foram escritos e que os seus autores estavam acostumados a falar, pois torna-se assim possível examinar todos os sentidos que um
texto pode ter de acordo com o uso comum. (...) ...é por isso que o conhecimento da língua hebraica é necessário antes de tudo o
mais, não apenas para compreender os livros do Antigo Testamento que foram escritos nessa língua, mas igualmente os do Novo
que embora difundidos em outras línguas estão, sem dúvida, cheios de hebraísmos”. AGOSTINHO, Textos de Hermenêutica, pp.
118. Atémesmo Spinoza demonstra a sensatez de buscar ajuda nas línguas originais para ter melhores ferramentas na sua busca pela
verdade.
17
Observamos que o substantivo  não ocorre no Novo Testamento, entretanto, encontramos o verbo  seis vezes
no Novo Testamento nas seguintes passagens: Lc 24.35; Jo 1.18; At 10.8; 15.12,14; 21.19. Para um estudo mais profundo sobre o
uso da exegese no estudo de passagens bíblicas ver FEE G. D., New Testament Exegesis: A Handbook for Students and Pastors,
Philadelphia: The Westminster Pres, 1983
18
FEE, New Testament Exegesis, pp. 41
19
Para uma defesa clássica da intenção autorial ver HIRSCH E. D., Validity in Interpretation, New Haven: Yale University Press,
1967.
planta. Note como ele afirma: “Eu sou a verdadeira, e meu Pai é o lavrador” (Jo 15.1).
Significaria isso que a profissão de Deus Pai é ser lavrador ou ainda que Cristo é uma
planta com seus galhos e folhas? O que deve ser levado em consideração é qual teria
sido a intenção de Cristo ao dizer isso, e ainda, qual teria sido também a intenção do
apóstolo João ao relatar isso em seu livro? Cristo, logo adiante, afirma ainda: “Eu sou a
videira, vós as varas...” (Jo 15.5). Significaria “literalmente” que os seus filhos são
pedaços de pau? O intérprete das Escrituras precisa considerar sempre qual teria sido a
intenção de Cristo ao afirmar isso. Uma explicação mais clara e compatível com o
contexto joanino é que os filhos de Deus são totalmente dependentes do Senhor da
Igreja e que suas atividades desfrutam da companhia de Cristo. O homem não
conseguirá jamais viver autonomamente em relação a Deus (Sl 145.15,16, At 17.25-28,
2 Tm 4.10). Essa é a interpretação literal da passagem.
A interpretação literal tem a ver com a possibilidade ou não do intérprete vencer
todas as distâncias hermenêuticas para se chegar a intenção do autor bíblico. Agostinho
reconheceu a validade e importância de se distinguir os aspectos envolvidos na
literalidade da interpretação das Escrituras bem como a possibilidade real de conseguir
com isso chegar a intenção autoral.20
A respeito da possibilidade ou não de se chegar a intenção autoral, Baruch
Spinoza (1632-1677) afirma:
Quando lemos um livro que contém coisas incríveis e
incompreensíveis ou um livro escrito em termos extremamente
obscuros, senão sabemos quem é o seu autor, em que tempo e
ocasião foi escrito, é em vão que procuraremos o seu sentido
autêntico. Na nossa ignorância de todas estas circunstâncias não
podemos de modo nenhum saber qual era totalmente (in totum)
a intenção do autor.21
Quando Spinoza retrata dessa forma, deixa transparecer que alguém, no caso em
relação à Escritura, teria escrito algo tão obscuro que seria impossível saber qual a
intenção de seu autor. Ora, é bem possível retirar de um texto as informações
necessárias para reconstruir ainda que parcialmente o background que o levou àquela
escrita.
O problema com Spinoza é a tentativa de negar que aquilo que Deus deixou
obscuro em algum lugar deve ser interpretado à luz daquilo que o próprio Deus deixou
claro em outro. Spinoza chega a afirmar em relação à Escritura que: “... em muitas

20
AGOSTINHO, Textos de Hermenêutica, pp. 59-60.
21
Ibidem, pp. 129, ênfase minha.
passagens o sentido da Escritura é inteiramente desconhecido ou adivinhamo-lo sem
qualquer certeza”.22

Martinho Lutero dá uma contribuição importante para o intérprete entender o


que está envolvido em uma interpretação literal: “A interpretação literal de Lutero,
contudo, não é literalismo fechado; ele está pronto para interpretar figuras de linguagem
de modo figurado. Mas o ônus da prova fica por conta da figura de linguagem”.23
O intérprete das Escrituras deve saber que se houver negligência em qualquer
parte desse caminho que a Verdade percorre haverá dificuldades para que a edificação
se estabeleça no meio do povo de Deus. O exercício da hermenêutica bíblica é apenas o
início de uma caminhada para se descobrir e assimilar a verdade que é de Deus. A
negligência em quaisquer das etapas ora estabelecidas no mapa hermenêutico resultará
em dificuldades para que a mudança de vida aconteça na vida do povo de Deus.
Não se deve confundir interpretação com apresentação daquilo que foi
interpretado. O intérprete pode executar bem a sua tarefa de entender o texto e ter
muitas dificuldades para transmitir aquilo que aprendeu. O estudo da hermenêutica não
tem o objetivo de ensinar os métodos de transmissão da verdade aprendida. Algumas
dicas serão dadas posteriormente para ajudar o leitor a transmitir aquilo que foi
interpretado, apenas para que o mesmo tenha melhores condições de visualizar os
princípios aqui sugeridos para a interpretação das Escrituras. Para estudar melhor a
respeito de como transmitir as verdades de Deus aprendidas em sua Palavra há outros
livros específicos que servirão muito melhor ao leitor do que ao que aqui será sugerido.
A intenção aqui é apenas de verificar a hermenêutica na prática.
Os caminhos do mapa hermenêutico devem ser vistos como um bloco, como um
todo, e não como partes que podem andar separadas na busca pela verdade. Todas elas
devem ser buscadas com igualdade de esforços. E, jamais se deve esquecer que sem o
auxílio do Espírito Santo esse caminho trilhado não alcançará êxito em nenhuma de
suas partes. Somente com o auxílio do Espírito de Deus é que o ser humano conseguirá
ter acesso a verdade (Fp 1.29) e não será impedido pelos efeitos noéticos do pecado.

2. Distanciamentos” na Utilização da Hermenêutica Bíblica

22
AGOSTINHO, Textos de Hermenêutica, pp. 130, ênfase minha.
23
GREIDANUS, Pregando Cristo a partir do Antigo Testamento, pp. 135. Para ver mais sobre a intenção do autor ver
GREIDANUS S., O Pregador Contemporâneo e o Texto Antigo: Interpretando e Pregando Literatura Bíblica, São Paulo: ECC,
2006, pp. 116-117, 135-149
O que torna, às vezes, a Escritura um livro tão difícil de entender é justamente a
sua Antigüidade. Lembre-se que o Pentateuco foi escrito por Moisés a
aproximadamente 1400 a.C. Já o último livro da Escritura foi escrito pelo apóstolo João
em meados do ano 90 d.C. Conseqüentemente, alguns livros foram escritos por volta de
3400 anos atrás, e o último deles por volta de 1900 anos atrás. É necessário o estudo
sistemático da Escritura, por meio do uso constante dos princípios da hermenêutica
bíblica para transpor algumas distâncias, entre elas:

2.1. Distanciamento Cultural

Dr. Augustus Nicodemus Lopes, em sua obra “A Bíblia e Seus Intérpretes”,


explica com muita pertinência este assunto: “Os intérpretes da Bíblia devem levar em
conta o jeito de escrever daquela época, a maneira de expressar conceitos e ilustrar as
verdades, para poder transpor a distância cultural.”24
A Palavra de Deus foi escrita em uma cultura oriental. Aqui no Brasil, prevalece
a cultura ocidental. Lembre-se que existem diversas referências ao clima, solo, animais
e plantas, aos produtos da terra e aos minerais. Isso significa dizer que existem usos e
costumes estranhos ao povo hoje, exatamente, por ser uma outra cultura. E também o
próprio uso do raciocínio para expressar idéias é diferente da cultura em que se vive.
Christopher Hall adverte para a dificuldade existente devido a distância cultural
Ele (Mateus) escreveu dentro do contexto de convenções culturais e literárias
comuns, que tomou como corretas, como fazem seus primeiros leitores. Não há
necessidade de explicar uma coisa que todos entendem. Daí o problema para os leitores
de nosso tempo. Eles terão de ir atrás de informações costumeiras que as pessoas
antigas já compreendiam.25
Essa distância deve e pode ser vencida pelo uso correto das ferramentas
hermenêuticas disponíveis ao intérprete da Escritura. A surdez histórica deve ser
evitada.26

2.2. Distanciamento Lingüístico

24
LOPES, Augustus Nicodemus. A Bíblia e Seus Intérpretes. São Paulo, SP: Editora Cultura Cristã,
2004, p. 25.
25
HALL C. A., Lendo as Escrituras com os Pais da Igreja, Viçosa: Ultimato, 2000, pp. 42
26
Ibidem, pp. 43
Recordemo-nos que a Bíblia foi escrita em uma língua diferente do português.
Isso equivale a dizer que existem expressões idiomáticas e peculiaridades próprias da
língua (hebraico, grego e aramaico) e que são estranhos a outras línguas.
Superficialmente é possível ver algumas peculiaridades próprias de algumas das línguas
em que a Bíblia foi escrita como:

a) no hebraico não haviam vogais escritas, porque as mesmas eram


subentendidas;
b) tanto o hebraico como o aramaico são lidos da direita para a esquerda e não
o contrário como nas línguas ocidentais;
c) nas três línguas (hebraico, grego e aramaico) não havia separação entre as
palavras. As mesmas emendavam-se umas as outras. O significado das
palavras era obtido pelo contexto;
d) a preservação dos manuscritos originais até os nossos dias. É necessário
estudar a disciplina chamada crítica textual para se entender quais eram os
manuscritos originais. Ex.: Erros eram comuns como: pular uma linha;
repetir uma linha; começar a copiar em uma linha e no meio dela continuar
na debaixo; repetição de palavras; a correção de um copista quando percebe
algum erro feito por outro copista, entre outros.

É importante ressaltar que essas dificuldades manuscritológicas referem-se a


uma média de apenas 4% da Escritura inteira. Elas não afetam o cerne do pensamento
bíblico ou a doutrina da inerrância das Escrituras.

2.3. Distanciamento Literário

Se já não bastasse a Bíblia ter sido escrita em uma língua diferente da ocidental,
essas línguas estão praticamente mortas atualmente. Isso complica ainda mais o acesso
às particularidades da língua para uma compreensão maior do texto sagrado. E também
a maneira de se expressar. Veja-se que, dificilmente, nas conversas informais existe
comumente o uso de parábolas, linguagem proverbial, entre outros.

2.4. Distanciamento Temporal

Recordemos que os fatos ocorridos aconteceram já há mais de 2000 anos atrás.


Isso significa que os fatos ocorridos estão muito longe temporalmente falando, dos dias
atuais. Quanto mais longe dos eventos ocorridos, naturalmente haverá dificuldades que
precisarão ser vencidas devido a existência desse fator.

2.5. Distanciamento Geográfico

A Escritura está cheia de referências às cidades, montanhas, desertos, planícies,


mares e rios da Palestina e das regiões ao redor, enfim, referências essas onde se deram
os acontecimentos. Locais como: Babilônia, que hoje é o Iraque, até Roma; Egito;
Assíria; Caldéia; Grécia; entre outros. Essa realidade não deixa por vezes transparecer
algumas das peculiaridades próprias dos lugares. Ex.: Salmo 126.4 e as torrentes do
Neguebe; Amós 3.9 e os montes de Samaria, entre outros.

2.6. Distanciamento dos Escritores e das Testemunhas da Época


Recordemos que todos aqueles que escreveram esses fatos ou foram testemunhas
oculares dos mesmos já morreram. Isso dificulta (embora não impossibilita) ainda mais
a reconstrução dos fatos.
Essas são algumas das dificuldades que o intérprete tem ao se aproximar do
texto bíblico. Por isso, um dos meios existentes para transpor essas distâncias humanas
é exatamente, o uso correto da hermenêutica bíblica. Dr. Augustus Nicodemus Lopes,
sobre este assunto, faz a seguinte declaração:
Não endossamos o que alguns estudiosos afirmam, que com a morte do autor
perdeu-se a possibilidade de recuperar-se a intenção deles. Cremos que esta intenção
sobrevive no que escreveram. Mas certamente a ausência do autor faz com que a
interpretação de textos obscuros seja necessária.27

2.7. Utilização da Hermenêutica Bíblica para ler a Bíblia: Um Livro Divino-


Humano
Esse ponto é importante para uma abordagem sadia das Escrituras. Ao se
esquecer que a Escritura é um livro tanto divino quanto humano, certamente cair em
erros grosseiros no uso da hermenêutica bíblica será inevitável. Moisés Silva a respeito
dessa realidade adverte:

27
LOPES, Augustus Nicodemus. A Bíblia e Seus Intérpretes. São Paulo, SP: Editora Cultura Cristã,
2004, p. 24
Eu gostaria de propor que a verdadeira chave do nosso problema é outra
distinção, mais fundamental: não a dicotomia exegese/aplicação, mas o reconhecimento
de que a Bíblia é tanto um livro divino como humano.28
A Escritura é um livro humano porque certamente fala na linguagem humana, o
que equivale a dizer que a mesma é compreensível ao raciocínio e a língua. Ela não foi
dada em uma língua que não existe para os homens, e que os mesmos para chegarem a
um entendimento da mesma, necessitam única e exclusivamente de uma obra
miraculosa do Espírito Santo29 na vida dos seus leitores. Como corpo literário deve ser
interpretado como qualquer outro livro.

A Escritura é, entretanto, também um livro divino, porque contém a


única e verdadeira revelação dada por Deus ao homem, de maneira progressiva. Essa
revelação registra a realidade na história de que a História é o palco dos atos
redentivos30 de Deus para com o Seu povo.
Ao se rejeitar o lado humano na abordagem hermenêutica, isso conduzirá a
conceitos que são frutos de própria imaginação humana. Ao rejeitar o lado divino da
Escritura, as conclusões conduzirão à rejeição do sobrenatural, abraçando assim ao
ceticismo. Para uma abordagem hermenêutica sadia é necessário levar em consideração
essas duas características fundamentais da Escritura.31

2.8. Algumas Razões Bíblicas para o Estudo da Hermenêutica Bíblica

28
SILVA M., A Função do Espírito Santo na Interpretação Bíblica, São Paulo: Fides Reformata, vol. II,
nº 2, 1997, pp. 93 Com relação ao estudo das Escrituras sempre há o perigo de se estudá-la sem levar em
consideração o seu bojo de pressuposições acumuladas no tempo e na história. Isso devido à
progressividade da revelação. Por isso Terry adverte: “A hermenêutica tende a estabelecer os princípios e
regras que são necessários para revelar o sentido do que está escrito. Seu objetivo é elucidar tudo o que
está obscuro ou mal definido, de maneira que, mediante um processo inteligente, todo leitor possa dar
conta da idéia exata do autor”. TERRY, Hermenêutica Bíblica, pp. 10
29
Sobre esta questão do papel do Espírito Santo na hermenêutica bíblica, ler o artigo de SILVA, A
Função do Espírito Santo na Interpretação Bíblica, pp. 89-96
30
Atos redentores esses que foram decididos antes que houvesse mundo. Um
dos textos sagrados que “deixam escapar” essa realidade está justamente quando Deus
responde a oração do rei Ezequias a respeito da crise que seu governo enfrentava,
dizendo: “Acaso não ouviste que já há muito dispus eu estas cousas, já desde os dias
remotos o tinha planejado? Agora, porém, as faço executar, e eu quis que tu reduzisses
a montões de ruínas as cidades fortificadas” (2 Rs 19.25).
31
Para se ver com mais profundidade algumas implicações da rejeição em se abordar a
Escritura considerando-a um livro divino-humano ver GREIDANUS, O Pregador
Contemporâneo e o Texto Antigo, pp. 196-226
O erro conceitual é a origem de todos os problemas. Eles são, normalmente,
apresentados ao homem de forma sutil como se fosse verdade. O apóstolo Paulo adverte
para a artimanha dos homens a induzir os outros ao erro (Ef 4.14). Jesus chega mesmo
a advertir que os falsos profetas apresentam-se disfarçados (Mt 7.15), parecendo aquilo
que não são (Pv 13.7). Paulo afirma que o erro parte de pessoas preocupadas
exclusivamente com as coisas terrenas (Fp 3.19), tentam se passar por mestres (1 Tm
1.7), apegando-se a aspectos externos da vida que não servem para transformar o
coração humano e que ele chama de aparência de sabedoria (Cl 2.20-23).

Alguns desses indivíduos se encontram dentro da igreja visível de Cristo (At


20.29) porque entraram nela de forma dissimulada (Jd 4, At 20.28), tendo aparência de
piedade (1 Tm 3.5) e com a finalidade de arrastar os discípulos de Cristo à impiedade
(At 20.30) seus seguidores acabam por naufragar na fé (1 Tm 1.19). É preciso fazê-los
calar (Tt 1.10,11). O próprio apóstolo Pedro nos diz a respeito da Escritura “ao falar
acerca destes assuntos, como de fato costuma fazer em todas as suas epístolas, nas quais
há certas cousas difíceis de entender” (2 Pe 3.16). Diante dessa realidade, continua o
apóstolo demonstrando as conseqüências de se falar do Reino de Deus erradamente:
“...que os ignorantes e instáveis deturpam, como também deturpam as demais
Escrituras, para a própria destruição deles” (2 Pe 3.16).

Aqui é que entra a necessidade de responder com acuidade a razão da esperança


cristã (1 Pe 3.15), manejando bem a palavra da verdade (2 Tm 2.15, Jo 17.17), para
sermos instruídos naquela que pode nos tornar sábio para a salvação pela fé em Cristo
Jesus (2 Tm 3.15, Jo 5.39,40). O apóstolo Paulo exorta a manusearem com maestria as
Sagradas Escrituras, “procura apresentar-te a Deus, aprovado, como obreiro que não
tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade” (2 Tm 2.15). Para
isso, os cristãos precisam ser conhecedores de seu tempo (1 Cr 12.32). Os filhos de
Issacar eram diferentes dos de sua época, porque eram conhecedores de sua época com
a finalidade de conduzirem Israel a toda verdade. Eles que antes enviaram um
representante (Nm 13.7) que fez um julgamento absolutamente equivocado a respeito da
terra de Canaã (Nm 13.31-33, 14.22-24), pois, estava entre os que inflamaram o povo de
Deus a matar a Josué e Calebe (Nm 14.36-38), agora, possuem vários conselheiros para
evitar o erro (1 Cr 12.32).
É esse o desafio dos cristãos, cada um em sua época. Conhecer o tempo é
fundamental para orientarmos os filhos de Deus a toda verdade (1 Cr 12.32). Jesus
Cristo repreende os seus discípulos, quando tratava da questão do casamento no céu,
dizendo: “...errais, não conhecendo as Escrituras nem o poder de Deus” (Mt 22.29).
Jesus Cristo ainda exorta para que conheçam as Escrituras, dando uma razão muito forte
para isso: “Examinais as Escrituras, porque julgais ter nelas a vida eterna, e são elas
mesmas que testificam de mim” (Jo 5.39).

A Origem da Hermenêutica e seus Usos

Derivada da palavra grega “hermeneutikós” ( s), que


significa “interpretação”, ou “arte de interpretar”. O vocábulo grego significa
“intérprete.” A palavra hermenêutica está conectada com o nome de “Hermes” que era
tido na mitologia religiosa grega como o mensageiro divino e intérprete dos deuses, e
que também era o deus da eloqüência, a que os romanos chamavam de Mercúrio.
Lembremo-nos que Paulo e Barnabé em Listra, após a cura de um coxo. Eles foram
chamados de Júpiter e Mercúrio (Atos 14:8-12). À primeira vista parece errado inferir
que a hermenêutica denote unicamente a interpretração ou exegese das Escrituras
Sagradas. O uso tem restringido o significado da hermenêutica para a ciência da exegese
bíblica, isto é, para a coleção de dados que conduzem a uma boa exegese. A exegese
está relacionada com a hermenêutica, assim como a linguagem está para a gramática. Os
homens falavam e racionavam, antes que existisse qualquer gramática ou lógica.
Contudo, será muito um conhecimento da gramática e da lógica. Da mesma maneira, os
primeiros escritores cristãos expuseram as Escrituras Sagradas sem um conhecimento
formal das regras hermenêuticas de hoje, todavia, isto não significa que eles não tenham
feito uso de valores hermenêuticos, tal como a suma hermenêutica de que “as Escrituras
interpretam as próprias Escrituras.”

O uso comum dessa palavra alude à interpretação a interpretação de textos


escritos, especialmente bíblicos, embora também de natureza filosófica, jurídica, etc. A
hermenêutica é a ciência das leis e princípios de interpretação e explanação.

A Hermenêutica e a Bíblia
Há mais de cinco séculos em primeiro lugar na lista dos livros mais impressos,
traduzidos, vendidos, lidos e comentados do mundo, a Bíblia, livro sagrado do judaísmo
e do cristianismo, inaugurou a invenção da tipografia por Johannes Gutenberg, em
1450, e desde então seu texto já foi impresso em mais de 300 idiomas e suscitou a
publicação de milhares de obras de divulgação, interpretação ou comentário. Desde os
primeiros textos, escritos em rolos de papiro, até às modernas edições comentadas do
século XX -- ao longo de cerca de trinta e cinco séculos --, o texto bíblico manteve uma
surpreendente vitalidade e alimentou a fé de muitos povos e nações. Essa força decorre
do permanente diálogo entre o livro, que interpela a consciência dos homens, e os
homens, que o interrogam em busca de respostas a suas indagações transcendentes. A
Bíblia é uma coleção de textos, divididos em duas partes: o Antigo ou Velho
Testamento, reunido por etapas nos dez séculos anteriores ao nascimento de Jesus
Cristo; e o Novo Testamento, escrito durante o século posterior a sua morte. A palavra
"testamento" (testamentum na tradução latina da Vulgata) traduz o grego diatheke, que
por sua vez é tradução do termo hebraico berith, "aliança". O uso do termo diatheke
testamentum nos Evangelhos (p. ex. Lc 20,22) e nas Epístolas (p. ex. Rm 9,1-11; Hb 8 e
9), que aludem a textos como Gn 9 e 15 e Ex 24, 8, estabelece uma unidade espiritual
entre os escritos cristãos e a coleção judaica.

A palavra Bíblia corresponde ao plural grego de biblion e significa "os livros".


Refere-se aos livros que a compõem, também denominados Sagradas Escrituras, devido
a seu caráter canônico, isto é, enquadrados em um cânon, ou padrão, como livros
sagrados, diretamente inspirados por Deus. Entretanto, o conjunto não é o mesmo para
todas as religiões, pois o critério de canonicidade difere de religião para religião. Assim,
no Antigo Testamento só são canônicos, para os judeus, os livros cujo original hebraico
foi encontrado, o que exclui Judite, Tobias, I e II Macabeus, Sabedoria, Eclesiástico e
Baruc, que são canônicos para os Católicos, contudo não param os nós, cristãos
protestantes e reformados. Por sua vez, os livros do Novo Testamento, que
testemunham a vida de Jesus Cristo e de seus apóstolos, são canônicos apenas para os
cristãos.

Além desses livros, existem outros, que formam a chamada literatura inter-
testamentária, e englobam:
(1) Os Livros Apócrifos – alguns deuterocanônicos (ou seja, de canonicidade
só reconhecida posteriormente) para a Igreja Católica; outros, canônicos
para a Igreja Ortodoxa; e ainda outros não-canônicos para o judaísmo e o
protestantismo;

(2) Os Pseudepigráficos (erroneamente atribuídos a autores bíblicos), não-


canônicos para todas as religiões; e os manuscritos do mar Morto, também
considerados não-canônicos, embora ainda em estudo por parte de
especialistas de todas essas religiões.

(3) Arqueologia Bíblica. Até o século XIX, o estudo da Bíblia sofreu


limitações decorrentes da quase total ausência de informações históricas
extra-bíblicas sobre os fatos narrados na Bíblia. Com as descobertas
proporcionadas por escavações arqueológicas, foi possível compor um
quadro geral mais nítido de todo o mundo antigo contemporâneo da história
de Israel e do cristianismo primitivo, isto é, desde a civilização sumeriana,
da qual saiu Abraão, até à época do helenismo e do Império Romano, em
que se expandiu o Evangelho.

Vários são os aspectos pesquisados pela arqueologia -- desde a construção de


edifícios e confecção de vestuário, até a organização militar, administrativa, política,
religiosa e comercial. Os meios de transporte, as armas e utensílios, a educação, o lazer,
as profissões e ofícios, os meios de subsistência, a estrutura urbana, sanitária e viária, a
escrita e as artes -- tudo concorre para formar esse imenso pano de fundo, contra o qual
se pode assistir com maior nitidez ao desenrolar da história relatada nos livros bíblicos.

A partir de escritos preservados em tábuas de pedra e barro, em hieróglifos ou


em caracteres cuneiformes, foi possível uma compreensão mais clara de como os judeus
e os povos com os quais coexistiram pensavam e agiam, como se vestiam, de que se
alimentavam, que deuses cultuavam, quais os seus ritos, sua filosofia, suas artes, como
guerreavam ou estabeleciam tratados de paz. Restaurar todos esses elementos, no grau
em que foi possível, significou restabelecer todo um conjunto de símbolos, um sistema
de significação que permitiu compreender melhor as inúmeras metáforas, a rede de
sentidos figurados em que se tece a linguagem da Bíblia.
Várias descobertas desse teor podem ser citadas: as escavações realizadas em
Ur, cidade natal de Abraão, que permitiram a descoberta de textos alusivos a uma
grande enchente, que se pode correlacionar ao relato do dilúvio; e a localização de
restos de uma construção que pode ser ligada à descrição da torre de Babel. Em Nuzi,
encontraram-se referências ao sacrifício de crianças -- que Abraão substituiu pelo de
animais -- e ao roubo de ídolos, como refere o Gênesis (capítulo 31). No Egito,
levantaram-se relatos sobre a invasão dos hicsos, ao tempo de José. Em Susã, na
Babilônia, restaurou-se o código de Hamurabi, contemporâneo de Abraão.

A) Vistos na perspectiva de seus autores originais.

As línguas originais devem ser lidas e compreendidas, ou então, o estudioso


precisa ter acesso a textos fidedignos, que transmitam fielmente o sentido do texto
original. O estudioso precisa também consultar muitas traduções, para julgar os seus
próprios méritos comparativos quanto a casos específicos. Deve ter cuidado para evitar
envolvimento na manipulação sofista de vocábulos ou expressões gregas e hebraicas.
Quase qualquer coisa pode ser ensinada através da manipulação indevida dos textos.
Consideremos os muitos sermões pregados com base nas supostas diferenças entre as
palavras gregas “Philéo” e “agapáo”, na tentativa de explicar o trecho de João 21:5 e
versos seguintes.

B) Vistos na Perspectiva de seu ambiente histórico.

No tocante ao pano de fundo histórico, precisamos ter um conhecimento


funcional da história narrada na Bíblia, bem como as histórias dos povos envolvidos no
relato bíblico. Em caso contrário, seremos prejudicados em determinar o significado de
vários textos. Por exemplo, quando lemos sobre o patriarca Abraão, precisamos
conhecer os costumes matrimoniais de sua época, como também costumes sobre
heranças, conhecimento das leis pré-mosáicas, sob pena de várias passagens da Bíblia
permanecerem obscuras para nós.

Existe uma hermenêutica bíblica, isto é, uma doutrina e um método de


interpretação do texto bíblico, com regras gerais e particulares a serem aplicadas na
busca e determinação de sentido. A exegese, por exemplo, que é a aplicação prática
dessas regras, obedece a certas etapas:
1) estabelecimento do texto original, com base em manuscritos, traduções
antigas, documentos etc;

2) configuração do sentido contextual, para resgatar os significados que as


palavras e expressões possuíam na época e no meio em que foram formuladas.

3) Além do sentido literal, os pesquisadores buscam sentidos adicionais,


baseados em outros princípios hermenêuticos. Um dos principais, utilizados na
hermenêutica do AT, junto com a hermenêutica dos pactos, é o tipológico, que
interpreta os fatos, personagens e instituições do Antigo Testamento como "tipos" ou
prefigurações das realidades da Nova Aliança (p. ex. Jo. 3,14-15, aludindo a Num 21, 8-
9; ver também 1Cor 10, 1-11, onde o termo typos é usado duas vezes). Antigamente
usava-se também o termo "sentido alegórico", para indicar, na maioria das vezes, o que
depois passou-se a chamar de sentido tipológico. Uma interpretação alegórica, porém,
que se esmerasse em buscar sentidos mais "altos", mais "profundos", mais " espirituais",
sem base no sentido literal entendido pelo autor humano, nem na tipologia, não seria
uma verdadeira e legítima interpretação do texto bíblico.

O chamado "sentido pleno" é também uma ferramenta, fruto do resultado de


uma comparação ou combinação de diversas fórmulas bíblicas de um mesmo tema.

3. HERMENÊUTICA: MODELOS HISTÓRICOS.

Hermenêutica Rabínica

Os judeus interpretavam a escritura ao pé da letra, por causa da noção de


inspiração que tinham. Se uma palavra não tinha sentido perceptível imediatamente,
eles usavam artifícios intelectuais, para lhes dar um sentido, porque todas as palavras da
Bíblia tinham que ter uma explicação.

Alegoria Pura: neste sentido se entende a condenação de certas teorias que


apareceram e eram contrárias à Bíblia (caso de Galileu). Assim era a exegese antiga.
No século XVIII, o racionalismo fez o extremo oposto desta doutrina: negaram tudo que
tinha algum aspecto de sobrenatural e mistério, e procuravam explicações naturais para
os fatos incompreensíveis, assim por exemplo, dizendo que Cristo hipnotizava os
ouvintes e os iludia dizendo que era milagre. Jesus Cristo não ressuscitou, mas ele
apenas havia desmaiado na cruz, e quando tornou a si saiu do sepulcro.

3.2.2. - A Igreja primitiva herdou muito do rabinismo, no início, mas depois


se libertou. Começaram por ver na Bíblia vários sentidos: literal, pleno e
acomodatício.

A) Literal: sentido inerente às palavras, expressão pura e simples da idéia do


autor;

B) Pleno: fundado no literal, mas que tem um aprofundamento talvez nem


previsto pelo autor. Deus pode ter colocado em certas palavras um significado mais
profundo que o autor não percebeu, mas que depois se descobre. Deus, como autor, fez
assim. A palavra do profeta se refere a uma situação histórica; a palavra de Deus se
refere ao futuro.

C) Acomodatício: é a acomodação a um sentido à parte que combina com as


palavras. É a Bíblia aplicada à realidade apenas pela coincidência dos textos. Por
exemplo, em Mt se lê "do Egito chamei meu filho"... para que se cumprisse a Escritura.
Mas o sentido, ou seja, a aplicação original deste trecho não se referia à volta da
Sagrada Família, mas sim à saída do Povo do Egito. Esta acomodação foi explorada
demasiadamente pelos pregadores na história, que até abusaram disto. Todavia, crendo-
se na inspiração, aceitava-se que as palavras do autor podiam ter uma significação mais
profunda que a original.

A Hermenêutica Protestante

Lembremo-nos que por toda a Idade Média, prevaleceu as categorias alegóricas


de interpretação das Escrituras, combinadas com as tradições e os dogmas da igreja.
Com o surgimento do Protestantismo, a Palavra de Deus voltou a ser estudada em suas
línguas originais, junto com a ênfase na iluminação do Espírito Santo para a busca e do
sentido original dado pelo autor sagrado, quando escreveu a Palavra Inspirada e
inerrantemente confiável. Volta a ter vulto a hermenêutica bíblica e as categorias
interpretativas da antiga escola de Antioquia.
Os reformadores instituíram o princípio da "scritura sola" (traduzindo, a
escritura sozinha), sem tradição, sem autoridade, sem outra prova que não a própria
Bíblia. A partir daquele instante, os Protestantes se dedicaram a um estudo mais
acentuado e profundo da Bíblia. Os reformadores repudiaram a tradição e a alegorese
como alicerce hermenêutico para a interpretação das Escrituras. O caminho seguido pela
Reforma foi interpretar a Escritura com a Escritura. A Escritura passa a ser única regra
de fé e prática para os Reformadores.

Dr. Augustus Nicodemus Lopes, sobre o assunto supra-mencionado, comenta


pertinentemente:

Os Reformadores estavam conscientes de que a Bíblia era um livro humano, isto


é, a Bíblia foi escrita por homens em uma linguagem humana, vivendo numa época e
cultura específicas. Por outro lado, reconheciam o caráter divino da mesma.
Empregaram todos os recursos disponíveis na época para o estudo da Bíblia, mas suas
conclusões eram controladas pela doutrina da inspiração, veracidade e infalibilidade das
Escrituras.32

Hermenêutica Católica

Inicialmente, apegou-se muito aos métodos de interpretação documental dos


concílios católicos e da utilização da tradição em lugar de estudar a Bíblia, a Palavra de
Deus mesmo. Foi o Padre Lagrange quem iniciou o movimento que é chamado por
alguns estudiosos de “uma nova exegese católica”. Começou a comentar o AT com base
na critica histórica. Mas foi alvo de tantos protestos que não teve coragem de continuar.
Em seguida, comentou o NT, e ainda hoje é autoridade conhecida no assunto no meio
católico.

O primeiro passo da nova exegese da Igreja Católica foi dado por Pio XII, em
1943, com a encíclica DIVINO AFFLANTE SPIRITU, na qual aprovou a teoria dos
vários gêneros literários da Bíblia. Depois, em 1964, Paulo VI aprovou um estudo de
uma comissão bíblica alicerçado no método histórico-crítico.

32
LOPES, Augustus Nicodemus. A Bíblia e Seus Intérpretes. São Paulo, SP: Editora Cultura Cristã, 2004, p. 160.
Após concluir este capítulo, você deve ser capaz de identificar os pressupostos
exegéticos mais importantes e princípios encontrados em cada um dos seguintes
períodos de interpretação bíblica.

1. A exegese judaica antiga


2. Novo Testamento Uso do Antigo Testamento
3. patrística Exegese
4. Exegese Medieval
5. Reforma Exegese
6. Pós-Reforma Exegese
7. hermenêutica moderna
8. Hermenêutica na meados do século XX e além

Por um panorama histórico?

Ao longo dos séculos desde que Deus reveladas nas Escrituras, tem havido uma
série de abordagens ao estudo da Palavra de Deus. Mais intérpretes ortodoxos têm
enfatizado a importância de uma interpretação literal, pelo que significa interpretar a
Palavra de Deus a maneira como se interpreta a comunicação humana normal. Outros
têm praticado uma abordagem alegórica, e outros ainda têm olhado para letras e
palavras individuais como tendo significado segredo que precisa ser decifrado. Mais
recentemente, alguns intérpretes têm questionado quem ou o que controla toda a
empresa hermenêutica e se é mesmo possível determinar o significado.

Uma visão histórica dessas práticas nos permitirá superar a tentação de acreditar
que o nosso sistema de interpretação é o único sistema que já existiu. Uma compreensão
dos pressupostos de outros métodos fornece uma perspectiva mais equilibrada e uma
capacidade de diálogo mais significativo com aqueles que acreditam diferente.

Ao observar as práticas daqueles que nos precederam, podemos identificar os


seus êxitos e ser mais consciente dos possíveis perigos quando nós mesmos são
igualmente tentado. adágio de Santayana que aquele que não aprende com a história está
fadado a repeti-la é tão aplicável ao campo da interpretação, pois é para qualquer outro
campo.
Além disso, à medida que estudamos a história da interpretação, veremos que
muitas grandes cristãos (por exemplo, Orígenes, Agostinho, Lutero) compreendida e
prescrito princípios hermenêuticos melhor do que eles praticavam. Podemos, assim, ser
lembrado que o conhecimento de um princípio também deve ser acompanhada de sua
aplicação para o nosso estudo da Palavra.

Este levantamento histórico faz uso de material encontrado em obras clássicas


sobre hermenêutica, ao qual o leitor é remetido para uma cobertura mais extensa. As
fontes são listadas no final do capítulo.

Hermenêutica rabínica

Uma discussão sobre a história da interpretação bíblica geralmente começa com


a obra de Ezra. Em seu retorno do exílio babilônico, o povo de Israel pediu que Esdras
leu para eles a partir do Pentateuco. Neemias 8: 8 recorda: "Eles [Esdras e os levitas] leu
no livro da Lei de Deus, tornando-se clara e dando o significado de modo que as
pessoas pudessem entender o que estava sendo lido."

Desde os israelitas provavelmente tinha perdido a sua compreensão do hebraico


durante o período de exílio, a maioria dos estudiosos bíblicos assumir que Ezra e seus
ajudantes traduziu o texto hebraico e lê-lo em voz alta em aramaico, acrescentando
explicações para tornar o significado claro. Assim começou a ciência ea arte da
interpretação bíblica.

Os escribas que se seguiram teve grande cuidado em copiar as Escrituras,


acreditando que cada letra do texto para ser a Palavra inspirada por Deus. Esta profunda
reverência para o texto bíblico tinha vantagens e desvantagens. A principal vantagem
era que os textos foram cuidadosamente preservadas na sua transmissão através dos
séculos. Uma grande desvantagem foi que os rabinos logo começou a interpretar as
Escrituras por outros do que as formas em que a comunicação é normalmente
interpretado métodos. Os rabinos do pressuposto de que uma vez que Deus é o autor da
Escritura, o intérprete poderia esperar vários significados em um determinado texto, e
cada detalhe incidental do texto possuía significado espiritual. Rabi Akiba, no primeiro
século dC, eventualmente, estendeu essa abordagem para manter que cada repetição,
figura de linguagem, paralelismo, sinónimo, palavra, letra, e até mesmo as formas de
letras teve significados ocultos. Este letterism (foco excessivo sobre as cartas a partir do
qual as palavras da Escritura foram compostas) foi muitas vezes levada a tal ponto que o
significado pretendido pelo autor humano foi ignorado ea especulação fantástica
introduzido em seu lugar.

Na época de Cristo, exegese judaica poderia ser classificados em quatro tipos


principais: literal, midrashic, Pesher, e alegóricos. O método literal de interpretação,
referido como peschat, aparentemente, serviu de base para outros tipos de interpretação.
Richard Longenecker, citando Adolf Löwy, sugere que a razão para a incidência
relativamente baixa de interpretações literais na literatura talmúdica é "que este tipo de
comentário era esperado para ser conhecido por todos; e uma vez que não houve
disputas sobre isso, não foi gravado

Midrash comes from the Hebrew verb darash meaning to search. Midrash, then,
speaks of an inquiry or an exposition. Midrashic interpretation included a variety of
hermeneutical devices that had developed considerably by the time of Christ and
continued to develop for several centuries thereafter. The primary goal of midrash was
to highlight and explain the relevance of scriptural teaching in new and changing
circumstances.

Rabbi Hillel, whose life precedes the rise of Christianity by a generation or so, is
credited with developing the basic rules of rabbinic exegesis, which emphasized the
comparison of ideas, words, or phrases found in more than one text, the relationship of
general principles to particular instances, and the importance of context in
interpretation.

Virkler, H. A., & Ayayo, K. G. (2007). Hermeneutics: principles and processes


of Biblical interpretation (2nd ed., p. 45). Grand Rapids, MI: Baker Academic.
Midrash vem do darash verbo hebraico que significa a busca. Midrash, em
seguida, fala de um inquérito ou de uma exposição. interpretação Midrashic incluiu uma
variedade de dispositivos hermenêuticas que tinha desenvolvido consideravelmente com
o tempo de Cristo e continuou a desenvolver durante vários séculos depois. O principal
objetivo do Midrash foi para destacar e explicar a importância do ensino bíblico em
circunstâncias novas e em mudança.

Rabino Hillel, cuja vida precede a ascensão do cristianismo por uma geração ou
mais, é creditado com o desenvolvimento das regras básicas da exegese rabínica, que
enfatizou a comparação de idéias, palavras ou frases encontradas em mais de um texto,
a relação de princípios gerais a instâncias específicas, bem como a importância do
contexto na interpretação.

A tendência em direção a mais fantasiosa ao invés de exposição conservadora


continuou, no entanto; o resultado foi uma exegese que (1) deram sentido aos textos,
frases e palavras sem levar em conta o contexto em que eles foram feitos para aplicar;
(2) textos combinadas que continham palavras ou frases semelhantes sejam ou não esses
textos foram referentes à mesma ideia; e (3) concedeu significância interpretativa sobre
os aspectos acidentais de gramática. Grande parte dessa interpretação midrashic é
registrada na Mishná, uma coleção de comentários rabínicos compilados por volta de
200 dC, e na Babilónia e Palestina Talmuds, topicamente arranjado obras que oferecem
comentário sobre o Mishnah. O exemplo a seguir a partir do Mishnah demonstra
interpretação midrashic defender certas práticas agrícolas:

De onde nós aprendemos de um jardim-cama, seis palmos quadrados, que cinco


tipos de semente pode ser semeada neles, quatro nas laterais e um no meio? Porque está
escrito: Por quanto a terra produz os seus renovos e como o jardim faz brotar as
sementes semeadas nele para brotar [Isa 61:11]. Não está escrito, sua semente, mas a
semente semeada na mesma.
R. Judá disse: "A terra produz os seus bud"; "Produz" -um; "Seu botão de" ona;
fazendo duas. "As sementes semeadas" significa (pelo menos) dois mais; fazer quatro;
"Fazes brotar" -um; fazendo cinco ao todo.

interpretação Pesher era praticada especialmente entre a comunidade de


Qumran. Esta forma emprestado extensivamente de práticas midráshicas mas incluiu
um foco escatológico significativa (do fim dos tempos). A comunidade acreditava que
tudo o que os profetas antigos escreveu tinha um significado profético velada de que
estava a ser iminentemente cumprida através de sua comunidade da aliança.
interpretação apocalíptica (ver cap. 7) era comum, em conjunto com a ideia de que
através do Mestre de Justiça, Deus havia revelado o significado das profecias que
anteriormente tinha sido envolto em mistério. interpretação Pesher muitas vezes foi
indicado pela frase "isto é que," indicando que "este fenômeno presente é um
cumprimento dessa profecia antiga." Assim, o comentário do Mar Morto 'em
Habacuque interpreta Habacuque 1:13, dizendo: "interpretou este preocupações a Casa
de Absalão e os membros do seu conselho que ficaram em silêncio no momento do
castigo do Mestre de Justiça e lhe deu nenhuma ajuda contra o mentiroso que iludia a lei
no meio de toda a sua [congregação] (1QpHab IV.10 ). "

Alegórica exegese alegórica foi baseada na ideia de que, sob o significado literal
das Escrituras estava o verdadeiro significado. Historicamente, alegoria tinha sido
desenvolvido pelos gregos para resolver a tensão entre sua tradição religiosa e
mitológica sua heritage.11 filosófica Porque os mitos religiosos continha muito que era
imoral ou inaceitável, filósofos gregos alegorizado essas histórias; ou seja, os mitos
eram para ser entendido não literalmente, mas como histórias cuja verdade real estava
em um nível mais profundo. Na época de Cristo, os judeus que queriam manter-se fiel à
tradição do mosaico e ainda adotar a filosofia grega foram confrontados com uma
tensão similar. Alguns judeus resolvida esta alegorizando a tradição mosaica. Philo
(cerca de 20 aC-AD 50) é bem conhecido nesta matéria.

Philo acreditava que o significado literal das Escrituras representou um nível


imaturo de entendimento; o significado alegórico foi para o leitor maduro. A
interpretação alegórica deve ser utilizado (1) se o significado literal parece dizer algo
indigno de Deus, (2) se a declaração parece contradizer alguma outra declaração nas
Escrituras, (3) se o registro afirma ser uma alegoria, (4 ) se as expressões são dobrados
ou palavras supérfluas são utilizados, (5), se algo já conhecido é repetido, (6) se uma
expressão é variada, (7), se sinónimos são empregados, (8), se um jogo de palavras é
possível, ( 9) se há alguma coisa anormal no número ou tenso, ou (10), se os símbolos
estão presentes.