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FUNDAÇÃO UNIVERSIDADE REGIONAL DE BLUMENAU

CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS E DA COMUNICAÇÃO


CURSO DE HISTÓRIA

EDUARDO GÖTZINGER

ENTRE RISOS, TRAÇOS E NARRATIVA:


O NAZISMO POR MEIO DAS CHARGES DE BELMONTE
(1938-1940)

BLUMENAU
2014
EDUARDO GÖTZINGER

ENTRE RISOS, TRAÇOS E NARRATIVA:


O NAZISMO POR MEIO DAS CHARGES DE BELMONTE
(1938-1940)

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao


Curso de Graduação em História do Centro de
Ciências Humanas e da Comunicação da Fundação
Universidade Regional de Blumenau, como requisito
parcial para a obtenção do grau de Licenciado e
Bacharel em História.

Prof. Dr. Leonardo Brandão – Orientador

BLUMENAU
2014
AGRADECIMENTOS

Indiscutivelmente, não poderia deixar de iniciar esse momento agradecendo


primeiramente meus pais, Sra. Rosa Maria Sehnem Grube e Sr. Rainoldo Götzinger que, com
dedicação, deram-me as oportunidades, incentivos e auxílios em todas as etapas da vida e
como estudante. Qualquer outra palavra que se diga além de “Obrigado” está sobressalente
aqui. A seguir, minhas duas irmãs, Juliana Grube e Luciana Grube Machado, que sempre me
auxiliaram e mostraram o valor de estudar.
Aos colegas de sala, é certo que todos foram marcantes e serão sempre por mim
lembrados. Juntos aprendemos a fazer História, pesquisar, debater e ensinar. Nesses anos de
convívio quase diário, formaram-se laços de valiosa amizade, daquelas que marcam a vida.
Viajamos, rimos, nos desesperamos com as disciplinas, trocamos experiências, jogamos muita
conversa fora, confraternizamos e, inegavelmente, aprendemos uns com os outros. Essas
palavras são para vocês: Camila Michele Wackerhage, Aline Andressa Feldmann, Daiane
Leticia Colombi, Juliana Ferreira, Alan Evaristo Mengarda, Jonathan Viebrantz, Gisiane
Momm, também lembrando nesse momento os colegas de outras turmas: Eloisa Cristina
Souza, Aniele Almeida Crescêncio e ainda mais diversos outros.
Das diversas amizades que fiz, gostaria de citar a Camila, que tive oportunidade de
conhecer ainda nos primitivos trabalhos na primeira fase do curso, mas que foi uma pessoa
com quem sempre pude conversas sobre qualquer assunto ao longo dessa graduação. Também
a amizade de Aline que, diante das idas e vindas da vida, pude contar sempre, dos cafés na
cantina ao “mundo paralelo”, passando pelas conversas sobre as matérias do curso até a boa e
velha procrastinação. Menciono, além disso, o colega Alan que, especificamente nos estágios
obrigatórios na área do ensino mantive bons diálogos. Não poderia deixar de fazer menção à
Eloisa, que dentre as várias conversas, aquelas sobre charges e caricaturas foram sempre boas
oportunidades de trocar informações e aprendizados.
Sou grato pelas oportunidades, amizades e aprendizados que surgiram na Fundação
Cultural de Blumenau, nos tempos como estagiário na Biblioteca Municipal Dr. Fritz Müller,
nomeadamente agradecendo a Professora Sueli Petry, por incentivar o gosto pela História e
pelo auxílio em diversos momentos; assim também Verena Pellis Kirsten, Maira Denise
Morastoni, Sandra Cristina da Silva, Daniele Rohr, bem como aos colegas estagiários que por
lá passaram.
A todos os professores que conheci na graduação, estendo meu muito obrigado, mas
peço licença para nomear especialmente: o Professor e Orientador Leonardo Brandão, pela
atenção para com meu trabalho nas correções, sugestões de leituras, organização dos textos,
dedicação e ensinamentos; Professor Dominique Vieira Coelho dos Santos, por tudo que
ensinou em aula e fora dela; e a professora Cristina Ferreira, pelas conversas e lições na
ocasião em que fui monitor do Centro de Memória Oral e Pesquisa – CEMOP.
Na qualidade também de servidor desta instituição que agora concluo minha
graduação, a FURB, acrescento minhas considerações aos colegas de trabalho Darlan Jevaer
Schmitt, Liane Kirsten Sasse, Vanessa Lischeski e Carmelo Perotto Zocoli, principalmente
pela compreensão nas vezes em que tive que ausentar-me para a escrita e outras atividades
correlatas a esta pesquisa.
Às instituições, sou muito grato pelo livre acesso aos documentos: o Arquivo
Histórico ‘Prof. José Ferreira da Silva’; deixando registrado da mesma forma o agradecimento
ao jornal Folha de São Paulo (SP) e à Hemeroteca Digital, da Biblioteca Nacional (RJ), que
de forma muito mais indireta, é verdade, também contribuíram para o trabalho, tendo em vista
o empenho de ambas em digitalizar e disponibilizar para todos os pesquisadores seus
valorosos acervos, patrimônios históricos e culturais do Brasil.
O trabalho que nas páginas à frente se apresenta assinala não somente a conclusão de
um curso de graduação em História, mas, além disso, de uma fase da vida estudantil e
profissional, bem como daquilo que sou enquanto pessoa. Como outros, ele não é a prova de
falhas, onde certos pontos foram tratados de modo mais superficial e outros ainda não se
fizeram presentes, oriundos das mais diversas limitações. Entretanto, acredito tratar-se de um
intento valioso pessoalmente.
“Eu não sou, na verdade, senão o riso que me toma.
O impasse onde afundo e no qual desapareço
não é senão a imensidão do riso”

(Georges Bataille)
RESUMO

Este trabalho, tendo como fontes as charges do brasileiro Benedito Bastos Barreto, o
Belmonte, datadas do período da Segunda Grande Guerra, visa problematizar as
representações do “fenômeno” do Nazismo, que marcou o século XX, pelo viés do humor.
Embora esse chargista possua uma vasta produção, fruto dos anos de atuação em diversos
periódicos, revistas e outros impressos, esta pesquisa concentrou-se nas charges elaboradas
por ele entre os anos de 1938 e 1940, todas publicadas nos álbuns “No Reino da Confusão” e
“Música Maestro!”, material especial distribuído aos assinantes dos jornais da Empresa
Folha, da cidade de São Paulo e disponíveis no Arquivo Histórico “Prof. José Ferreira da
Silva”, em Blumenau/SC. Num primeiro momento, elaborou-se um mapeamento do contexto
que originou a Segunda Guerra Mundial, bem como a ascensão do Nazismo. Posteriormente,
realizou-se a análise das fontes, partindo da dimensão da História Cultural e de um aporte
teórico que compreende noções de humor, conceituação de charges e suas substanciais
diferenças das demais expressões gráficas de humor. Para tanto, o procedimento adotado foi a
identificação de objetos, indumentária, expressões corporais, personagens e cenários dos
acontecimentos retratados. Em seguida, foi realizado o exame das temáticas e dos aspectos
artísticos das obras para, finalmente, operar uma análise interpretativa desse conjunto em seu
contexto histórico.

Palavras-chaves: Charges; Nazismo; Segunda Guerra Mundial; Belmonte (Benedito


Bastos Barreto).
ABSTRACT

This work, using the cartoons from brazilian Benedito Bastos Barreto, the Belmonte, dating
from the period of the World War Two as a documentary source, either problematize
representations of the “phenomenon” of Nazism, which marked the twentieth century, through
humor. Although this cartoonist has a vast production, coming from years of experience in
several journals, magazines and other printed, this research focused on the cartoons drawn by
him between the years 1938 and 1940, all published on the albums “No Reino da Confusão”
(‘In the Kingdom of Confusion’) and “Música maestro!” (‘Music Maestro!’) especially
material distributed to subscribers of the newspaper “Folha”, from the city of São Paulo and
consulted in the Arquivo Histórico ‘Prof. José Ferreira da Silva’, (‘Archiv José Ferreira da
Silva’) in Blumenau/SC. At first, was prepared a mapping of the context for the World War
Two and the rise of Nazism. Subsequently, was carried out the analysis of sources, leaving the
dimension of Cultural History and a theoretical framework that includes notions of humor,
conceptualization of cartoons and substantial differences from other graphic expressions of
humor. To that, the procedure adopted was the identification of objects, clothing, body
language, characters and scenes of events. Then the examination of the thematic and artistic
aspects of the work was done to finally operate an interpretive analysis of this set in its
historical context.

Keywords: Cartoons; Nazism; World War Two; Belmonte (Benedito Bastos Barreto).
LISTA DE FIGURAS

Figura 1 – Do álbum: No Reino da Confusão (1939) – Publicado Folha da Noite,

29/09/1938............................................................................................................................... 69

Figura 2 – Do álbum: No Reino da Confusão (1939) – Publicado 15/10/1938

...................................................................................................................................................71

Figura 3 – LEGENDA: “E AGORA?” – Do álbum: No Reino da Confusão (1939) –

Publicado Folha da Noite,

13/12/1938................................................................................................................................73

Figura 4 – LEGENDA: A HORA DO BANQUETE – Do álbum: No Reino da Confusão

(1939) – Publicado Folha da Noite,

16/09/1939................................................................................................................................75

Figura 5 – LEGENDA: “E AGORA?” – Do álbum: No Reino da Confusão (1939) – Sem

data............................................................................................................................................78

Figura 6 – Do álbum: No Reino da Confusão (1939) – Publicado Folha da

Noite,12/10/1939.......................................................................................................................80

Figura 7 – LEGENDA: NO RESTAURANTE “AO RELÂMPAGO” – Do álbum: Música

maestro (1940) – Publicado 09/08/1940...................................................................................82

Figura 8 – “Música, maestro!” – Capa do álbum Música maestro

(1940)........................................................................................................................................84
LISTA DE ABREVIATURAS/VOCABULÁRIO

AHJFS – Arquivo Histórico ‘Prof. José Ferreira da Silva’


FEB – Força Expedicionária Brasileira
NSDAP – Nationalsozialistische Deutsche Arbeiter Partei (Partido Nacional-Socialista dos
Trabalhadores Alemães – Nazista)
RAF – Royal Air Force – ‘Real Força Aérea Britânica’

Anschluss – Anexação
Blitzkrieg – Guerra-Relâmpago
Bund Deutscher Mädel – Liga das Moças Alemãs
Deutsche Jungvolk – Jovem Povo Alemão
GESTAPO (Geheime Staatspolizei) – Polícia Secreta do Estado
Hitler-Jugend – Juventude Hitlerista
Jungmädel – Jovem Garota
Luftwaffe – Força Aérea Alemã
Putsch – Golpe (de Estado)
Schutzstaffel, ou SS – Tropa de Proteção
Sturmabteilung, ou SA – Destacamento Tempestade; ou Divisão de Assalto
Vernichtungskrieg – Guerra de extermínio
Volksgemeinschaft – Comunidade Nacional; ou Comunidade do Povo
Wehrmacht – Exército alemão
SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ........................................................................................................ 17

1. TEMPOS DE GUERRA .......................................................................................... 21


1.1 PRIMEIRA GUERRA: FIM DO MUNDO ? ............................................................ 21
1.2 SEGUNDA GUERRA MUNDIAL: O MUNDO À BEIRO DO COLAPSO...
OUTRA VEZ ............................................................................................................ 26

2 O PARTIDO NAZISTA: DE MOVIMENTO DE CERVEJARIA À LÍDER DA


ALEMANHA ......................................................................................................................... 35
2.1 O PERÍODO ENTRE GUERRAS, A REPÚBLICA DE WEIMAR E A ASCENSÃO
DO NAZISMO .......................................................................................................... 35
2.2 VÁRIAS FACETAS DO NAZISMO ....................................................................... 44

3 TRAÇOS E TEXTOS DESENHANDO A CRÍTICA .......................................... 53


3.1 HISTÓRIA CULTURAL E REPRESENTAÇÃO .................................................... 53
3.2 AS EXPRESSÕES GRÁFICAS DE HUMOR ......................................................... 57
3.3 BELMONTE E AS CHARGES ................................................................................ 63
3.4 HITLER E CHAMBERLAIN.. .................................................................................. 68
3.5 HITLER E STALIN ................................................................................................... 74
3.6 A MORTE DOMINA A CENA ................................................................................. 80

CONSIDERAÇÕES FINAIS .................................................................................. 87


REFERÊNCIAS ....................................................................................................... 90
16
17

INTRODUÇÃO

Os diversos aspectos da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), bem como do


Nazismo, figuram hoje como alguns dos mais pesquisados e lidos temas da história
contemporânea. Eles desfrutam ainda de uma posição de destaque e privilégio em produções
fílmicas, documentários e romances literários1, abrangendo assim áreas para além da
disciplina de História e residindo no imaginário coletivo.
O fenômeno do Nazismo, e os conflitos armados dele oriundos e que resultaram na
eclosão da Segunda Guerra Mundial, foram decisórios para o século XX e é impossível
conceber o mundo, quer seja social, econômica e/ou culturalmente, sem levá-los em conta.
Suas ondas de influência estendem-se até nossos dias, através dos soldados e dos perseguidos
políticos que sobreviveram, com seus relatos de vida, as noções de democracia e
autoritarismo, de direitos humanos, tolerância racial e religiosa, do neonazismo2, abarcando
até a criação do Estado de Israel e as disputas subsequentes.
A produção acadêmica brasileira a respeito do Nazismo assistiu abrangência de
estudos a partir de análises de filmes, com destaque também para os estudos das relações
Brasil-Alemanha, no mundo pós-guerra com a América do Sul, como rota de fuga para
criminosos Nazistas. Interessada nas células do Partido Nazista fora da Europa,
especificamente o Nazismo no Brasil, a historiadora Ana Maria Dietrich3 embasou-se em uma
infinidade de documentos escritos, do Brasil e da Alemanha, além de fontes orais para
desenvolver sua pesquisa acerca de um Nazismo ‘à brasileira’, isto é, de uma tropicalização
deste Nazismo. Partindo de um aporte documental de charges especificamente, merece

1
A produção em todos esses ramos é bastante extensa, sendo impossível elucidá-las totalmente. Destacamos os
filmes clássicos O grande ditador (1940), de Charles Chaplin, Casablanca (1942) e A lista de Schindler (1993),
bem como produções mais recentes, tais quais: O pianista (2002), A Queda, as últimas horas de Hitler (2004), e
também Operação Valquíria (2008). Dentre os documentários, apontamos O mundo em guerra, realizado pelo
Museu Imperial da Guerra, da Inglaterra em 1973, Arquitetura da destruição, direção de Peter Cohen, de 1989,
Redescobrindo a II Guerra, produção da National Geographic de 2009. Na área dos romances, igualmente vasta,
assinalamos O menino do pijama listrado de John Boyne; A menina que roubava livros, de autoria de Marku
Zusak; Maus – a história de um sobrevivente, de Art Spiegelman; A chave de Rebecca, do escritor Ken Follett;
Jardim de inverno, de Kristin Hannah, para listar obras mais recentes e chamando atenção para o fato de alguns
destes títulos terem se tornado filmes também.
2
Acerca deste tema, consultar: MILMAN, Luis; VIZENTINI, Paulo Gilberto Fagundes. Neonazismo,
negacionismo e extremismo politico. Porto Alegre: Ed. UFRGS; CORAG, 2000; e SALEM, Helena. As tribos
do mal: o neonazismo no Brasil e no mundo. 11.ed. - São Paulo : Atual, 1995.
3
DIETRICH, Ana Maria. Nazismo tropical? O Partido Nazista no Brasil – 2007. 301 p. Tese. Programa de Pós-
Graduação em História Social, do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências
Humanas da Universidade de São Paulo (USP). São Paulo, 2007; e DIETRICH, Ana Maria. Caça às suásticas: o
Partido Nazista em São Paulo sob a mira da polícia política. São Paulo: FAPESP; Associação Editorial
Humanitas; Imprensa Oficial, 2007.
18

destaque as contribuições do historiador Vinicius Aurelio Liebel4, cuja exploração acadêmica


deu-se no sentido de compreender a dimensão propagandística e ideológica dessas expressões
gráficas de humor oriundas do periódico Nazista Der Stürmer e na relação com charges
brasileiras.
Este trabalho visa tratar desse Nazismo a partir de um aporte documental que são as
charges de Benedito Bastos Barreto, paulistano nascido em 1896 e que teve suas primeiras
obras publicadas nos anos de 1920. Suas charges se fizeram presentes em diversos meios de
comunicação, entretanto foi nos jornais Folha da Manhã e Folha da Noite – hoje Folha de
São Paulo – que Benedito virou Belmonte, um chargista consagrado na imprensa e
reconhecido pelos leitores. As páginas das ‘Folhas’ ofereceram a Belmonte mais que um
mural para seu trabalho artístico, mas também informações sobre a política internacional e os
acontecimentos da Segunda Guerra para que ele concebesse seus desenhos recheados de
críticas. Diante da vastidão de charges, coube-nos fazer um recorte temporal e temático. Em
1939 e 1940 a Empresa Folha, detentora da Folha da Manhã e Folha da Noite organizou e
distribuiu a seus assinantes “No Reino da Confusão” e “Música Maestro!”, material especial
em formato de álbum, composto completamente por charges de Belmonte que haviam sido
publicadas nos jornais daqueles anos, e algumas ainda de 1938, assinalando assim nosso
recorte nesta pesquisa: 1938-1940. Este recorte deu-se, portanto, com base nas fontes
estudadas e as especificidades e escolhas realizadas pelo próprio periódico.
Do total de cerca de duzentas charges que esses álbuns apresentam, selecionamos as
que traziam representações da figura da morte, e também das relações da Alemanha –
expressa na figura de Adolf Hitler – com outros países; neste segundo ponto, caminhamos em
duas direções: Alemanha e Inglaterra, isto é, as efígies de Hitler e do primeiro-ministro
Neville Chamberlain; e Alemanha e URSS, com Hitler e Joseph Stalin, totalizando oito
charges analisadas.
O primeiro capítulo traça um contexto dos dois conflitos mundiais, com as
contribuições bibliográficas do historiador Eric Hobsbawm, que enxergou tal período como
um grande bloco que contempla a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) em conexão com a
Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e por ele denominado “Era da Guerra Total”. Também
as análises do conflito de 1914-1918 do historiador João Fábio Bertonha, além de Antonio
Pedro Tota e de Mark Mazower no aporte bibliográfico sobre a Segunda Grande Guerra,

4
LIEBEL, Vinícius Aurélio. Humor, propaganda e persuasão: as charges e seu lugar na propaganda Nazista.
2006. 160 p. Dissertação – Departamento de Pós Graduação em História da Universidade Federal do Paraná
(UFPR). Curitiba, 2006.
19

foram revisitados visando apresentar as disputas e conflitos – armados ou não – e sobre a qual
Belmonte se referia em suas primorosas charges.
O segundo capítulo apresenta um mapeamento das principais características do
Nazismo, alocando-o entre outros movimentos fascistas do período. Ali expomos a
importância dos anos do entre guerras na formação da sociedade alemã que assistiu,
participou e contribuiu – e depois sofreu suas consequências – para a ascensão do Partido
Nazista, sendo este significativamente marcado por um militarismo em diversos aspectos da
sociedade – tal a explanação do historiador britânico Richard Bessel – ocorrendo
paralelamente à promoção de certas políticas de envergaduras econômico-sociais de bem estar
para os alemães, por exemplo, e um projeto de conquista, domínio e controle do continente
europeu.
O terceiro capítulo, último e mais extenso deste trabalho, apresenta inicialmente um
breve panorama das mudanças na historiografia, sobremaneira a partir do século XX, no que
se refere à abrangência da noção de fontes e onde as charges se inserem. A charge, oriunda de
um verbete francês, é aqui entendida enquanto uma expressão gráfica de humor marcada e
caracterizada por sua crítica a acontecimentos e pessoas públicas, principalmente. É nesse
terceiro segmento do trabalho também que analisamos os três conjuntos de charges de
Belmonte que, como já expusemos, perfazem um total de oito desenhos.
20
21

1 TEMPOS DE GUERRA

Não foi o fim da humanidade, embora houvesse momentos, no curso


dos 31 anos do conflito mundial [...], em que o fim de considerável
proporção da raça humana não pareceu muito distante5.

A guerra das grandes somas de dinheiro, das grandes batalhas que condecoram
soldados e os transformam em heróis, é a mesma guerra que destrói cidades, mutila e mata. A
Segunda Guerra Mundial (1939-1945) eleva todas essas características (econômicas e de
vidas humanas) a níveis astronômicos e possivelmente jamais vistos anteriormente. A guisa
de revisar e contextualizar o leitor a respeito desse conflito é que trata este primeiro capítulo,
fornecendo, dessa forma, informações importantes para posterior análise e debate das fontes,
isto é, as charges de Benedito Bastos Barreto, o Belmonte.

1.1 PRIMEIRA GUERRA: FIM DO MUNDO?

A bibliografia acerca da Segunda Guerra Mundial é extremamente extensa e


proveniente de diversas áreas do conhecimento, para além da História. Compreender este
fenômeno é retroceder para antes da declaração de guerra, antes das batalhas, antes mesmo do
próprio movimento nazista.
Para o historiador britânico Eric Hobsbawm o início da Segunda Guerra pode ser
assinalado antes mesmo de 1939. Amiúde, tem-se a invasão alemã dos territórios da Polônia
como marco inicial desse conflito. Hobsbawm6, apesar das distinções fundamentais, vê a
Segunda Guerra Mundial como uma continuidade da Grande Guerra (1914-1918), num
período por ele batizado de a era da guerra total, um grande e único processo, que durou 31
anos (1914-1945) e em que a humanidade esteve à beira do fim.
Em decorrência disso, o autor traça como a Primeira Grande Guerra foi inédita em
diversos aspectos: o tempo de duração longo, em contraponto ao período em que os europeus
ainda estavam habituados com conflitos de semanas ou meses; campos de batalha que se
alastravam por praticamente toda a Europa, quando, até o século XIX era raro os exércitos
deslocarem-se para muito além de suas regiões mais imediatas; a presença, no teatro de
guerra, de nações de além-mar, onde os EUA foram os mais significativos nesse sentido e tão

5
HOBSBAWM, Eric. Era dos extremos: o breve século XX – 1914-1991. – 2. ed. – São Paulo: Companhia das
Letras, 1995, p. 30.
6
Ibidem, p. 30 e p. 60.
22

fundamentais no desenrolar final, quando a guerra já durava mais de 3 anos; e claro, o número
de mortos, sem precedentes na história bélica europeia até então, que, afora o simples horror
da morte, ceifou grande parte da população masculina jovem; “Em suma, 1914 inaugura a era
do massacre”7 .
O historiador britânico Mark Mazower compartilha, em muitos aspectos, com
Hobsbawm acerca desses conturbados 30 primeiros anos do século XX, no que tange, por
exemplo, à noção de guerra total. Em contra partida, o critica fortemente ao afirmar que esse
período não marcou apenas um duelo do capitalismo contra o comunismo, chamando especial
atenção ao valor ideológico que o nacional-socialismo carregava, ao abordar o período da
Segunda Guerra Mundial:

A historiografia marxista, exemplificada recentemente no panorâmico Era dos


extremos, de Eric Hobsbawm, reduz a importância do fascismo concentrando-se no
que se considera a luta fundamental entre o comunismo e o capitalismo. Decido não
fazer a mesma coisa aqui, em parte porque o impacto do comunismo sobre a
democracia – por importante que tenha sido – foi em geral mais indireto e menos
ameaçador que o desafio lançado por Hitler. E em parte porque o século XX
mostrou que não se pode reduzir a política à economia: é preciso ter em conta as
diferenças de valores e ideologias, e não vê-las como simples contrastes entre
interesses de classe. O fascismo, em outras palavras, foi mais que apenas outra
forma de capitalismo8.

Os posicionamentos de Hobsbawm e Mazower nesses dois aspectos (econômicos e


ideológicos), são extremamente relevantes. Neste trabalho assume-se a postura de que ambos
são necessários para compreensão da temática, não sendo assim antagônicos, mas, muito pelo
contrário, complementares.
O historiador João Fábio Bertonha, ao contextualizar em linhas gerais a Grande
Guerra de 1914, aponta que, ao fim do período Napoleônico, a Europa viu o Império
Britânico crescer substancialmente. A marinha reforçou-se, emergindo como a mais poderosa
do globo, o imperialismo em terras africanas e asiáticas continuou de forma veemente,
garantindo riquezas ao poderio britânico e fazendo desta a pioneira na industrialização9.
Reiterando essa linha argumentativa, a historiadora Márcia Maria Mendes Motta
afirma que, uma vez que o mercado interno britânico era amplo e bem consolidado, somado

7
Ibidem, p. 32.
8
MAZOWER, Mark. Continente sombrio: a Europa no século XX. São Paulo: Companhia das Letras, 2001, p.
13.
9
BERTONHA, João Fábio. A Primeira Guerra Mundial: o conflito que mudou o mundo (1914-1918).
Maringá: Eduem, 2011.
23

às possessões coloniais, seu crescimento no âmbito econômico foi profícuo10. De fato, o


século XIX assinala também a escalada de outras nações europeias ao nível de
industrialização e de continuidade do colonialismo, como Bélgica, França, Portugal e
Espanha. Em fase de unificação política e territorial nos anos de 1870 e 1871, Alemanha e
Itália permaneciam relativamente à margem deste processo.
Fortemente industrializada, muito em função da região denominada Prússia, a
Alemanha passou a expandir-se, principalmente para África. Territorialmente, “o grande
problema”, salienta Bertonha, “é que, a partir do momento em que quase todo o mundo não
europeu já estava colonizado ou semicolonizado [...], aumentos de território colonial só
podiam ser obtidos pela diminuição do território vizinho, o que só podia significar guerra.”11
Já no domínio econômico “as diferenças entre países refletiam os problemas criados pela
industrialização e a consequente competição por mercados e capitais”12, como reforça Motta.
Essa industrialização da Europa levou também os diversos países a investirem no setor
bélico, com fabricação de metralhadoras, navios, canhões e outros. Vale lembrar também que,
com a Primeira Guerra já em andamento, aviões foram empregados com fins militares. Motta
ainda acrescenta que, além da indústria de armas, o período assistiu a disseminação do serviço
militar obrigatório em quase todos os países, popularizando a disciplina dos quartéis e
aumentando a influência do exército entre a sociedade civil13.
Mas o “barril de pólvora”, composto de interesses econômicos, expansão territorial,
busca de prestígio político, autoafirmação de cada povo, nacionalismo exagerado e uma boa
dose de militarismo, precisava de uma fagulha para incendiar a “Velha Europa”. Para muitos
historiadores essa fagulha foi o assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro do
trono do Império Austro-Húngaro, ocorrido na cidade de Sarajevo, Bósnia, por um rebelde
contrário à política externa de Ferdinando em relação à Sérvia.
Apesar disso, somente o assassinato de Ferdinando não deflagraria a guerra14. A
propósito disso, Bertonha ressalta que, num primeiro momento, os demais países europeus

10
MOTTA, Márcia Maria Mendes. A Primeira Guerra Mundial. In: REIS FILHO, Daniel Aarão; FERREIRA,
Jorge; ZENHA, Celeste (Org). O século XX. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.
11
BERTONHA, João Fábio. op. cit., p. 24.
12
MOTTA, Márcia Maria Mendes. op. cit., p. 233.
13
Idem.
14
Não obstante a ocorrência desse complexo jogo de alianças e favores políticos e econômicos é interessante
refletirmos nesse ponto a questão do marco inicial da Grande Guerra, visto que este ano de 2014 assinala a
passagem de 100 anos de seu estabelecimento: pelo menos cinco livros com mais de 480 páginas foram postos
no mercado neste centenário, dois deles inclusive da mesma editora: ENGLUND, Peter. A beleza e a dor: uma
história íntima da Primeira Guerra Mundial. Companhia das Letras: São Paulo, 2014 – 480 p.; CLARK,
Christopher. Os sonâmbulos: como eclodiu a Primeira Guerra Mundial. Companhia das Letras: São Paulo, 2014
– 680 p.; SONDHAUS, Lawrence. A Primeira Guerra Mundial: história completa. Contexto: São Paulo, 2014
24

deram pouca ou quase nenhuma importância ao atentado de Sarajevo 15. Foi muito mais em
função das alianças entre os diversos países que ocorreu a mobilização para a guerra.
Primeiramente a Áustria-Hungria visava resolver de vez seus problemas com a Sérvia, e
buscou apoio da Alemanha. Sérvia contou com o auxilio da Rússia, e também da França, que
desde a Guerra Franco-Prussiana de 1870-1871, mantinha forte aversão aos alemães. Com as
subsequentes declarações de guerra entre esses países, as demais alianças foram se
desenhando: de um lado, Alemanha, Áustria-Húngria, Bulgária, Império Turco-Otomano, e
por um tempo, a Itália; de outro, Rússia, Inglaterra e França.
Por durante boa parte do conflito, isto é, de 1914 até meados de 1917, a Primeira
Guerra foi extremamente estática, devido à estratégia militar adotada, que foram as
trincheiras. As batalhas “eternas” nas fétidas e cruéis trincheiras causaram inúmeras perdas
humanas e de armamentos para os exércitos de todos os países envolvidos. Com o sincretismo
entre estratégia militar ultrapassada e armamentos novos em pleno desenvolvimento pela
indústria bélica ascendente, a Grande Guerra 1914-1918 parece um vórtice turbulento que
contempla os séculos XIX e XX, caracterizando também o fim da Belle Époque.
Os ventos começaram a soprar diferente a partir de 1917 em função de dois
acontecimentos de maior escala. O primeiro deles diz respeito à Rússia: tomada pela
Revolução Bolchevique que derrubou a monarquia Czarista e instaurou o comunismo, uma
delegação soviética, que entre os membros, contava com Leon Trotsky, assinou uma rendição
(Tratado de Brest-Litovsk) com os alemães a fim de resolver, portanto, assuntos internos. Isso
privilegiou muito a Alemanha que, além de não ter mais que se preocupar com este inimigo
tão próximo, ainda tomou parte de suas terras como componente dos acordos de paz.
Em contrapartida, o segundo momento foi a entrada dos EUA oficialmente no conflito
ao lado de franceses e ingleses, uma vez que, até àquela oportunidade, auxiliava somente à
distância, com mantimentos e recursos financeiros. Com um imenso exército e uma indústria

– 555 p.; FERGUSON, Niall. O horror da guerra. Planeta: São Paulo, 2014 – 768 p.; HASTINGS, Max.
Catástrofe: 1914 – a Europa vai à guerra. Intrínseca: Rio de Janeiro, 2014 – 704 p. Afora todas essas extensas
análises acerca da Primeira Guerra serem disponíveis, a questão do assassinato de Francisco Ferdinando,
entretanto, fora exaustivamente mencionada nos periódicos impressos e virtuais no Brasil, estes últimos muitas
vezes, apresentando linhas do tempo com as horas finais do membro da família real austro-húngara, expondo,
talvez, a frágil e inocente noção de História que a imprensa ainda possui ao atribuir o desencadear do conflito a
um único evento. Aqui fazemos saber: “Na linha do tempo: Há cem anos estourava a 1ª Guerra Mundial”, de
BBC Brasil <
http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/08/140801_1a_guerra_timeline_pu.shtml?ocid=socialflow_face
book > Acessado em 09 dez. 2014; e “100 anos Primeira Guerra Mundial” do periódico Estadão <
http://infograficos.estadao.com.br/public/especiais/100-anos-primeira-guerra-mundial/ > Acessado em 09 dez.
2014.
15
BERTONHA, João Fábio. op. cit., p. 32.
25

em franco crescimento e com grande capacidade produtiva, os Estados Unidos deram um


novo fôlego ao conflito, o que resultou na derrota alemã em 1918.
Dessa forma, Hobsbawm afirma que, após 1918, a maioria dos sobreviventes passou a
ser inimiga da guerra. Não obstante, o clima instável presente em toda a Europa central pós-
Primeira Guerra legou a esse ambiente europeu a ideia perturbadora e constante de que um
novo conflito era iminente e inevitável16.
Com a rendição alemã em 1918, os países vencedores trataram tão logo de elaborar
tratados de paz e de punição às nações derrotadas. O presidente dos EUA, Woodrow Wilson,
sugeriu, na Conferência de Paris de 1919, quatorze medidas que firmavam o fim das ações
bélicas sem que houvesse vencedores e vencidos. Sua proposta, todavia, fora rejeitada pelos
outros membros da Conferência. Dentre as propostas do Presidente Wilson, contemplava-se
que os acordos internacionais não fossem feitos de forma secreta ou privada, mas sim,
publicamente; remoção de barreiras econômicas e de comércio entre as nações; redução dos
armamentos para manter apenas a segurança nacional, válido para todos os países
participantes do acordo; evacuação do território e restauração da soberania belga, fazendo o
mesmo com a Sérvia, Montenegro e Romênia; restabelecimento também de terras francesas
invadidas e solução para a questão da Alsácia-Lorena; criação e manutenção de um Estado
polaco, atual Polônia e, por fim, a formação de uma associação ou liga de nações17.
O Tratado de Versalhes, elaborado em seguida, foi o vencedor, em oposição às
propostas do presidente W. Wilson, sendo escolhido e imposto à Alemanha, punindo
severamente o país. Dentre as várias cláusulas, previa um contingente limitado de soldados no
exército em 100 mil homens, em alistamento voluntário; proibia produção bélica de indústria
pesada, como carros blindados; exigia a devolução dos territórios anexados durante a
expansão, além do ressarcimento financeiro aos países vencedores.
Mas Versalhes foi também uma das ‘sementes’ para a Segunda Guerra. As imposições
do tratado, as subsequentes crises econômicas, o corte de relações diplomáticas com a
Alemanha, gerando certo isolacionismo desta última, bem como o reconhecimento da ‘culpa’
pela guerra, fermentaram em diversos alemães um sentimento de ódio, vingança e revanche,
sentimentos esses que passavam a ser compartilhados por diversas organizações e partidos em
formação no país.

16
HOBSBAWM, Eric. op. cit., p. 34.
17
Conforme transcrição do documento dos chamados Quatorze Pontos de Wilson. Disponível em:
< http://www.ourdocuments.gov/doc.php?doc=62&page=transcript > Acessado: 19 abr. 2014.
26

À parte essas consequências de ordem econômica e política, a Grande Guerra de 1914-


1918 circunscreveu física e psicologicamente a população europeia, no que Bertonha aponta
como alterações na sensibilidade humana: pessoas mais ríspidas, duras, indiferentes à dor e a
massacres18. Por ironia ou sadismo, o mundo preparava- se para mais um conflito mundial.
Lionel Richard evoca que, ainda durante os anos da Grande Guerra, floresceu na
Alemanha diversos grupos políticos, como comunistas, social-democratas e outros que faziam
oposição à guerra, reivindicavam mudanças em diversos aspectos, como o fim da monarquia e
instituição de uma república; outros diversos grupos tomavam a Rússia e o movimento
bolchevique de 1917 por modelo na defesa de uma nova política. Essas manifestações foram
apenas atos externados de uma atmosfera, um clima geral que vivia Alemanha daquele
tempo19.

1.2 SEGUNDA GUERRA MUNDIAL: O MUNDO À BEIRA DO COLAPSO... OUTRA


VEZ

Ao passo que o governo de Adolf Hitler fornecia subsídios e incentivos aos cidadãos e
excluía, gradativamente, os considerados inferiores, também colocava em prática uma
expansão territorial. Enquanto encorajava as mulheres a terem muitos filhos e treinava os
jovens militarmente, a Tchecoslováquia foi anexada depois de um acordo e a Áustria passou a
integrar o III Reich após um plebiscito, em 1938, num processo conhecido como Anschluss20.
Estes primeiros momentos da Segunda Guerra Mundial interessa-nos de sobremaneira, tendo
em vista que as charges que serão trabalhadas mais adiante datam justamente deste período.
A Inglaterra, uma das mais poderosas e principais nações da Europa do período,
mostrou-se conivente com essa anexação de territórios por parte do governo Hitler;
conivência esta muitas vezes lembrada pela postura quase inerte de seu primeiro-ministro
Neville Chamberlain no que dizia respeito à política externa. Tal ‘engessamento’ das demais
potências europeias ante o veloz avanço alemão ocorreu, na perspectiva de Hobsbawm, em
partes, em função dos horrores que a Grande Guerra de 1914-1918 havia causado no
continente e, portanto, atitudes violentas ou belicosas eram evitadas, numa tentativa de manter
a paz a qualquer custo, conhecida, na bibliografia a esse respeito, como uma política de
apaziguamento.

18
BERTONHA, João Fábio. op. cit., p. 128.
19
RICHARD, Lionel. A República de Weimar (1919-1933). São Paulo: Companhia das Letras, 1988. (Coleção
A Vida Cotidiana).
20
“Ligação”; “Conexão”; “Anexação”.
27

A política de rearmamento iniciada em 1935 por Hitler além de infringir o Tratado de


Versalhes, significou um importante passo no sentido de militarizar e tornar bélica a
sociedade, como aponta o historiador Antonio Pedro Tota21. Vale frisar ainda que as demais
nações europeias nada fizeram contra tal arremetida alemã na indústria bélica.
Em setembro de 1939 o exército alemão invadiu a Polônia, iniciando a Segunda
22 23
Guerra Mundial. A invasão foi rápida, numa ação conjunta da Wehrmacht e Luftwaffe
batizada de Blitzkrieg24 e que seria ainda empregada muitas vezes pelas forças de Hitler na
tomada da Europa. Williams da Silva Gonçalves ainda reitera que, além dessa tática alemã de
combate, as forças militares polonesas eram insignificantes ante a magnitude da ação
germânica.25 A situação piorou para os poloneses quando os soviéticos também invadiram a
Polônia em seguida, como parte de um acordo entre alemães e russos que previa a divisão da
Polônia, no chamado pacto germano-soviético.
Eric Hobsbawm afirma, ao analisar a movimentação rápida das tropas alemãs, que:

A Alemanha [...] precisava de uma guerra ofensiva rápida pelos mesmos motivos
que a tinham feito necessária em 1914. Os recursos conjuntos dos inimigos
potenciais [...], uma vez unidos e coordenados, eram esmagadoramente maiores que
os seus. [...] sequer fez planos para uma guerra extensa, nem contou com
armamentos de longo período de gestão26.

Infere-se, portanto, que as forças alemãs deveriam avançar depressa e solidificar suas
conquistas o mais depressa possível e antes que os exércitos adversários se organizassem na
empreitada de uma ação conjunta para derrotá-la.
A Blitzkrieg ainda auxiliou as forças alemãs a sobrepujar, em seguida, França,
Bélgica, Holanda e Noruega. O caso francês merece ainda ser mencionado, pois, além de
desmantelar a república, a dominação alemã ainda forçou a divisão do país em duas grandes
zonas, das quais a parte norte, na costa atlântica e incluindo-se a capital, seria ocupada pelas
forças alemãs, e a porção restante, ao sul, não o seria. A administração de todo o território da
França, cabe ressaltar, entretanto, era executada por um governo colaboracionista francês, na
figura de Philippe Pétain e sediado na cidade de Vichy.

21
TOTA, Antonio Pedro. Segunda Guerra Mundial. In: MAGNOLI, Demétrio (Org). História das guerras. São
Paulo: Contexto, 2006, p. 362.
22
“Exército”
23
“Força Aérea Alemã”
24
“Guerra-relâmpago”
25
GONÇALVES, Williams da Silva. A Segunda Guerra Mundial. In: REIS FILHO, Daniel Aarão; FERREIRA,
Jorge; ZENHA, Celeste (Org). O século XX. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000, p. 167.
26
HOBSBAWM, op. cit., p. 45.
28

Mazower aponta que, assim que teve início a ocupação alemã na Bélgica e na
Holanda, houve significativa parcela de apoio e colaboração, além de certo ‘alívio’ que o fim
das batalhas assinalou. Entretanto, tal visão acerca do domínio alemão mudara nos meses
seguintes, com os chamados colaboracionistas ficando cada vez mais isolados e com menos
apoio da maior parcela da população27. Mas se havia os chamados colaboracionistas, Tota
salienta o papel dos diversos grupos de resistência que atuavam em múltiplas ações dentro dos
países ocupados28.
Essas sequências de conquistas imbatíveis fomentaram um sentimento entre os
alemães de que nada poderia vencê-los. O historiador Richard Bessel ainda afirma que elas
serviram como inspiração para as operações militares que ocorreriam em seguida, além de
‘espantar’ o fantasma de uma nova derrocada, como em 191829.
O acordo supramencionado, entre alemães e soviéticos, não impediu que Hitler e o
oficialato já preparassem os planos de invasão da URSS para o ano seguinte, 1941,
motivados, muito possivelmente, por essa confiança destacada por Bessel.
A Operação Barbarossa, como foi denominado o plano alemão de conquista da União
Soviética, encontrou contratempos já em seu início. Ao lado da Alemanha, a Itália também
havia irrompido no cenário da expansão territorial, a partir da tentativa de tomada da Grécia,
onde encontrou dificuldades e se viu forçada a solicitar auxílio de Hitler. O tempo, recursos e
soldados despendidos em tal ação atrasaram a tomada do país de Stalin.
A investida contra a URSS em 1941-42, porém, não ocorreu como esperado pelos
alemães. Os russos apresentavam um imenso contingente militar, espalhado por diversas
regiões do país e indústria bélica com grande capacidade de produção. Entretanto Gonçalves
apresenta a fragilidade desta mesma potência ao recordar os expurgos praticados por Stalin,
que expulsou, aprisionou e mesmo executou diversos membros do alto comando militar
soviético30. Paralelamente, a questão climática, cujo inverno rigoroso levou a morte milhares
de alemães, impedia as operações militares com o congelamento dos combustíveis dos
veículos, por exemplo, e chuvas torrenciais que transformaram os campos de batalha em
imensos lamaçais.
Nesse sentido, parece caber aqui uma aplicação, em menor escala, da proposição de
Hobsbawm: a perspectiva e a confiança alemã em uma batalha curta contra os soviéticos não
os forçou a planejarem uma guerra muito longa. E foi a partir dessa falha – em conjunto com

27
MAZOWER, Mark, op. cit., p. 148 e 149.
28
TOTA, Antonio Pedro, op. cit., p. 380.
29
BESSEL, Richard. Nazismo e guerra. Rio de Janeiro: Objetiva, 2014.
30
GONÇALVES, Williams da Silva, op. cit.
29

o contra-ataque de outros países Aliados – que os soviéticos ocasionaram a primeira e


significativa derrota da Alemanha.
O ataque japonês à base estadunidense de Pearl Harbor, nas ilhas do Hawaii, em
dezembro de 1941 também resultou na entrada oficial dos EUA na Segunda Guerra. Tal
investida japonesa contra o estado norte-americano insere-se num movimento expansionista
do primeiro pela região do Pacífico e que já contava sob seu controle, entre outros, a Malásia,
Cingapura, partes da China e das Índias Orientais Holandesas, que remonta ao fim da
Primeira Guerra Mundial31.
O ano de 1942 marca também o torpedeamento de navios da frota brasileira por parte
dos submarinos germânicos, que desde o início do conflito já perambulavam pelos sete mares,
visando principalmente minar o abastecimento de suprimentos para a Inglaterra proveniente
dos EUA·.
Até o momento desses ataques aos navios brasileiros, a postura do governo de Getúlio
Vargas tendia para uma neutralidade, ainda que, a partir da formação do Estado Novo em
1937, havia certa tendência autoritária que aproximava o governo brasileiro dos fenômenos
fascistas europeus. Em regiões com presença de italianos e alemães e seus descendentes,
como a sudeste e sul do Brasil, floresceram adeptos para a seção brasileira do Partido Nazista,
por exemplo32. Contrariamente, o mesmo governo havia perpetrado a proibição do uso de
outros idiomas, que não o português, alteração ou encerramento nas atividades de escolas,
periódicos, comércio, empresas e organizações recreativas de estrangeiros, como alemães e
italianos33, que só se intensificaram com a entrada do Brasil na guerra.
Com esses atentados às embarcações, o governo brasileiro aproximou-se dos EUA,
culminando em apoios financeiros para a industrialização e explorações, alterando
significativamente a política e a economia nacional; e militarmente, na construção de uma
base de apoio em Natal (RN) para as operações nos teatros de guerra europeu e africano, bem
como, o envio de soldados brasileiros para frente de batalha na Itália, com a Força
Expedicionária Brasileira (FEB).
Concomitantemente, Gonçalves elenca três acontecimentos em 1943 que em seu
entendimento foram significantes para a derrota alemã: primeiro as investidas militares

31
Ibidem, p. 178.
32
Mais informações a respeito, ver: DIETRICH, Ana Maria. Nazismo tropical? O Partido Nazista no Brasil –
2007. 301 p. Tese. Programa de Pós-Graduação em História Social, do Departamento de História da Faculdade
de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP). São Paulo, 2007.
33
Sobre este assunto, consultar: FÁVERI, Marlene de. Memórias de uma (outra) guerra: cotidiano e medo
durante a Segunda Guerra Mundial em Santa Catarina. 2ª ed. Itajaí: Ed. UNIVALI; Florianópolis: Ed. da UFSC,
2005.
30

vitoriosas do exército norte-americano sobre os japoneses no Pacífico, enfraquecendo


exponencialmente o aliado asiático de Hitler; o segundo ponto diz respeito às vitórias
britânicas no norte da África, sobre as tropas alemãs lideradas pelo reconhecido general Erwin
Rommel, cujo resultado positivo para os Aliados abria mais uma ‘porta’ de entrada para a
Europa; e em terceiro lugar, as sucessivas vitórias soviéticas no leste, marcadamente a batalha
em Stalingrado, que serviu como momento inicial da retomada dos países conquistados pelos
alemães34.
Politicamente, 1943 também foi marcado pela investida aliada sobre a Itália e a
deposição de Benito Mussolini da liderança do país que, apesar de não tão forte militarmente,
significou em um grande golpe na estrutura de cooperação e acordos dos países do Eixo
(Alemanha-Itália-Japão). Do lado aposto, os Aliados passavam a ideia de estarem cada vez
mais próximos: os chamados ‘Três Grandes’, Inglaterra, URSS e EUA, promoveram diversos
encontros a partir de 1943 com a finalidade de sincronizarem suas ações e estratégias para
vencerem o III Reich, o que nem sempre resultou em acordos plenos entre estes. Mas o clima
de amizade entre os três países logo converter-se-ia em animosidade: já em 1945, nas
discussões a respeito do futuro da Alemanha derrotada, os interesses de Inglaterra e EUA
divergiam dos da União Soviética, fato este que só se intensificaria nos anos seguintes da
Guerra Fria.
Já em 1944 os Aliados colocaram em prática seu plano de um grande desembarque de
tropas, abrindo outra frente de combate, no que ficou conhecido como Dia D. Os alemães
tinham fortes suspeitas de que um desembarque Aliado ocorreria possivelmente na França,
mas suas limitações técnicas, estratégicas e militares impediram que eles guarnecessem toda a
costa francesa. As praias ao norte da França, na região da Normandia, foram capturadas pelos
Aliados em 6 de junho e nas semanas seguintes iniciariam a expulsão da dominação alemã da
própria França e Bélgica, com as tropas adentrando o território alemão entre 1944-45.
Apesar da sequência de derrotas da Alemanha, essa se mostrou deveras resistente,
ainda que tendo de lutar em duas frentes de batalha, prolongando o conflito, em solo europeu,
até maio de 1945. Hobsbawm ainda endossa essa dificuldade em sobrepujar as forças alemãs
ao fato de não existir um movimento interno expressivo contra a pessoa do Führer que
pudesse destituí-lo de suas funções e eventualmente iniciar as negociações de paz 35, conforme
já apontado a partir da contribuição da população alemã para com o movimento Nazista.

34
GONÇALVES, Williams da Silva, op. cit., p. 184.
35
HOBSBAWM, Eric. op. cit.
31

Tota ainda elenca um apontamento adicional: em paralelo às operações militares no


leste europeu, Normandia e Mediterrâneo, as forças Aliadas, nomeadamente a RAF (Royal
Air Force – ‘Força Aérea Britânica’), efetuou uma série de ataques, muitas vezes com as
chamadas bombas-incendiárias, contra cidades alemãs até o fim do conflito, acarretando
milhares de mortos entre a população civil, muito semelhante com o que os alemães o fizeram
contra o Reino Unido nos anos iniciais do conflito36.
A tomada de Berlim se deu pelas tropas soviéticas e os alemães assinaram sua
rendição em maio de 1945, poucos dias após o suicídio de Hitler. O desmanche da Alemanha
e do Estado Nacional-Socialista, visava evitar uma nova revanche contra os países vencedores
do conflito. Assim, ao final da guerra os territórios da Alemanha estavam tomados por
inúmeras tropas dos países aliados. O que fazer com o país ao final do conflito era uma
preocupação de diversos líderes políticos, principalmente de EUA, URSS, França e Inglaterra,
mesmo antes de 1945.
Entendeu-se que, para evitar o surgimento de movimentos revanchistas na Alemanha
derrotada, uma saída era a divisão do país. Dessa forma, criaram-se, quatro zonas de ocupação
e controle, administradas por EUA, França, Inglaterra e URSS. Como afirma ainda a
historiadora Méri Frotscher, “[...] para a administração de toda a Alemanha vencida, foi
criado um conselho governamental, a Kommanantur. Contudo, logo eclodiram as diferenças
ideológicas entre os poderes ocidentais, com EUA, Grã-Bretanha e França, de um lado, e
URSS, do outro”37 .
Se na Europa as bombas e canhões haviam experimentado o silêncio, na Ásia as
batalhas se prolongariam ademais até agosto, quando o governo americano lançou duas
bombas atômicas sobre o Japão, nas cidades de Hiroshima e Nagasaki, resultando não apenas
na rendição do país e findando a Segunda Guerra Mundial, mas ceifando cerca de 450 mil
vidas civis imediatamente e tantas outras milhares como consequência da radioatividade,
carregando o mundo para o patamar da era atômica.
No que tange à questão judaica, Mazower assinala que primeiramente os campos
construídos pelos alemães destinavam-se a reclusões e trabalhos forçados; a partir de 1942
principalmente, é que se inicia a prática do extermínio. Entretanto, o autor aponta a existência
de certos dilemas no interior do Reich sobre esse tema: como por exemplo, se deveriam usar-
se de diversos escravos de outras ‘raças’ ou cultivar eles mesmos o solo, como sugeria o

36
TOTA, Antonio Pedro. op. cit. p. 355.
37
FROTSCHER, Méri. Muro de Berlim. In: SILVA, Francisco Carlos Teixeira da (Org). Enciclopédia de
Guerras e Revoluções do século XX: as grandes transformações do mundo contemporâneo. Rio de Janeiro:
Elsevier, 2004, p. 595.
32

ideário tradicional. Ou ainda, como faria para reconhecer um alemão de fato, por meio da fala,
da aparência, das ancestralidade? E os considerados inferiores, como lidar com sua condição
racial, se eram uma mão-de-obra necessária para os esforços da Alemanha?38
Em 1940, os planos para as populações estrangeiras ou não alemãs ainda não
consideravam o extermínio, mas sim, afastar o máximo possível do convívio com os alemães.
O mesmo historiador assinala, porém, que a partir da invasão da URSS, os planos para os
destinos dos judeus alteram-se, visto o endurecimento e a radicalização do conflito a partir
dessa ocorrência. Para tal, adota o termo Vernichtungskrieg, isto é, a guerra de extermínio, de
eliminação. Além disso, conforme o avanço das tropas, certos grupos exerciam a função
exclusiva de eliminação dos ‘indesejáveis’. Tais atitudes violentas e exploratórias partiram
tanto do exército (Wehrmacht) quanto da SS39.
As técnicas de extermínio também passaram por alterações. As execuções à maneira
‘clássica’ (fuzilamento) exerciam sobre a mente dos soldados inúmeras rejeições, e para tanto,
foram sendo pensadas outras formas de como proceder. Em meados de 1941, intensificando
em 1942 e 1943, o extermínio foi um processo delicado de ser conceber dentro das próprias
esferas do nazismo. Testou-se nesse período também o uso do gás venenos para a eliminação.
Mas Mazower aponta: “Em outubro e novembro de 1941 a cúpula nazista discutira
exaustivamente o assunto, cujas dimensões administrativas constituíram o tema da
Conferência de Wannsee [...]”40
Tal extermínio ultrapassou as fileiras das SS, contando com apoio de partes da
população civil, cientistas e tantos outros. Além disso, os governos estrangeiros, sobremaneira
os dos países ocupados ou colaboracionistas igualmente tiveram sua parcela de culpa nesses
atos, mas também de países ditos neutros que não facilitaram tanto a fuga dos que conseguiam
deixar as áreas onde suas vidas eram ameaçadas.
Analisando não só as batalhas e perdas de vidas, Hobsbawm recorda os avanços
tecnológicos que a Segunda Guerra Mundial trouxe para o mundo, se considerarmos as
pesquisas e investimentos nas áreas da energia nuclear, aeronáutica e os primórdios dos
computadores, mas reforça que todo esse ‘lado positivo’ não diminui o horror da guerra41.
Se esses tempos de guerra marcaram com sangue os anos iniciais do século XX, certo
é que o tom mais forte foi dado pela Segunda Guerra Mundial. Além dos soldados, o conflito
arrastou para as valas da morte um número impossível de precisar de opositores políticos,

38
MAZOWER, Mark, op. cit., p. 164 e 165.
39
Ibidem, p. 171 et seq.
40
Ibidem, p. 174. (Grifo meu).
41
HOBSBAWM, Eric. op. cit.
33

estrangeiros de diversas nações, judeus, homossexuais, ciganos e tantos outros. Um confronto


que perpassou e muito os confrontos militares e as ações diplomáticas apenas, mas que
abarcou também a decisão sobre o futuro político e social da Europa42, nas concepções
políticas acerca de democracia, totalitarismo, direitos humanos e respeito às diferenças.
Dessa forma, o fenômeno do Nazismo e a figura de seu líder supremo assinalou e caracterizou
o conflito e será a abordagem do capítulo seguinte.

42
MAZOWER, Mark, op. cit., p. 147.
34
35

2 O PARTIDO NAZISTA: DE MOVIMENTO DE CERVEJARIA À LÍDER DA


ALEMANHA

Sei muito bem que se conquistam adeptos menos pela palavra escrita
do que pela palavra falada e que, neste mundo, as grandes causas
devem seu desenvolvimento, não aos grandes escritores, mas aos
grandes oradores43.

Triunfo de uma vontade coletiva ou caprichos delirantes de um austríaco que nos


tempos de juventude almejava a carreira de pintor? Movimento extremista com ideias
inovadoras e restritas à Alemanha, ou uma ideologia transnacional fruto de anos tumultuados?
O capítulo que segue visa abordar as linhas principais do movimento Nacional-Socialista
Alemão, e também apresentar os trabalhos mais substanciais a respeito dessa organização
política e ideológica na historiografia recente, dando subsídios, em consonância com o
capítulo anterior, para a porvindoura exploração das charges, fontes deste trabalho.

2.1 O PERÍODO ENTRE GUERRAS, A REPÚBLICA DE WEIMAR E A ASCENSÃO


DO NAZISMO

Em meio ao caos generalizado após o fim da Primeira Grande Guerra, como já visto, o
governo alemão assumiu a responsabilidade de organizar eleições, bem como, convocar uma
Assembleia Constituinte. As campanhas eleitorais agora também envolviam as mulheres, mas
apesar das mudanças, para Lionel Richard, os partidos de maior expressão não apresentavam
ideias republicanas44.
As principais diretrizes para a nação alemã foram tomadas na cidade de Weimar, sob o
pretexto da calmaria que a localidade oferecia aos membros da Assembleia para se
concentrarem em seus trabalhos; mas também para evitar as agitações políticas que tomavam
os grandes centros urbanos, como Berlim.
A Constituição assinada em Weimar certamente dinamizou o poder, conferindo muita
reponsabilidade ao Parlamento e à Presidência. Entrementes, o Presidente tinha poder,

43
HITLER, Adolf. Mein Kampf = Minha luta. Tradução de Klaus von Puschen. São Paulo: Centauro, 2001, p.
7.
44
RICHARD, Lionel. A República de Weimar (1919-1933). São Paulo: Companhia das Letras, 1988. (Coleção
A Vida Cotidiana) p. 28.
36

previsto pela mesma Constituição, de retirar o que fora conferido ao Parlamento e governar
sem este.
É nesse período também que prospera a ideia de que a Alemanha fora traída durante a
rendição ao final da Grande Guerra e a estruturação da República de Weimar; que sua derrota
fora um ato que iniciou no próprio exército. Nesse sentido, segmentos políticos diversos
proclamavam tais ideias em cartazes, panfletos e publicações variadas, ao passo que
continuavam perpetuando críticas à seus principais rivais, como França e Inglaterra45.
Richard ainda reforça as diversas dificuldades que a população da Alemanha teve de
enfrentar, como o racionamento de gás, combustível e vestimentas, a carência de itens de
higiene e primeira necessidade, além da escassez de alimentos, que resultaram numa alto
índice de desnutridos e doentes.
A Alemanha estava no limiar de uma nova era. Limiar ainda difícil de transpor,
sobre o qual se amontoavam milhares de esfomeados, de revoltados, mas também de
indiferentes, de vingadores. Atrás de toda essa gente, 1 milhão e 800 mil vítimas,
escombros incalculáveis. Era sobre eles que devia nascer agora um novo Estado 46.

O crescimento do desemprego foi outro elemento que marcou fortemente a República


de Weimar, de sobremaneira nos anos de 1923 e 1924. Um dos fatores para o aumento desses
números fora o retorno dos campos de batalha dos soldados que agora vagavam pelas cidades
sem emprego. Organizou-se para tanto um sistema de auxílio aos desempregados, cujas
consequências afetaram os cofres do governo. Outra estratégia adotada fora o emprego em
serviços ‘obrigatórios’: as cidades contratavam esses desempregados para atuarem nas obras
públicas, tais como saneamento, terraplanagem, reconstruções, reparo nas estradas, etc.
Outro elemento significativo do período fora a inflação e a crise financeira. A
desvalorização da moeda alemã, o marco, chegou a tal ponto que, em 1º de novembro de
1923, 1 dólar equivalia a 1 bilhão de marcos. O preço dos produtos nas lojas sofria reajustes
diários ou mesmo mais de um reajuste no mesmo dia. Como consequência, o poder de compra
dos alemães só decaiu. Richard chega a afirmar que, em determinado momento, os dirigentes
do sistema bancário alemão temeram que o custo de impressão do papel-moeda se tornasse
maior que o seu próprio valor47.
Pode-se dizer que durante a República de Weimar a economia alemã experimentou
uma ‘flutuação’, uma instabilidade muito grande. Nos anos de 1923 e 1924, como visto, a

45
Lionel Richard destaca o jornal satírico Simplicissimus do caricaturista Thomas Theodor Heine, que, nos anos
da Grande Guerra, ridicularizava os países e líderes adversários e cuja prática continuou após o fim do conflito
em 1918. – RICHARD, Lionel. op.cit., p. 22.
46
Ibidem, op.cit., p. 31.
47
RICHARD, Lionel. op.cit., p. 64 et seq.
37

moeda desvalorizou e a inflação atingiu níveis extremos. Nos anos seguintes, 1925, 1926 e
1927, os indicadores dão conta de uma retomada da economia e relativa estabilidade, para, em
1929 e 1930 tudo desmoronar novamente, em um efeito dominó após a quebra da bolsa de
valores de Nova Iorque.
Mas a crise que se abateu sobre a Alemanha no pós-guerra não afetou apenas a
economia e a política do país, pois houve uma transformação dos costumes sociais também.
Os casamentos, que antes geralmente levavam os rapazes ao altar apenas após o serviço
militar, passaram a acontecer antes dessa idade, tendo em vista as limitações do Tratado de
Versalhes em relação ao exército; ou seja, com o número de contingente limitado, poucos
jovens serviam. O índice de roubos e furtos também teve significativa alteração; as padarias
eram alvos interessantes para uma população faminta; os talheres de cafés e restaurantes
também costumavam desaparecer48. Os locais e serviços voltados ao prazer também
aumentaram, com a prostituição masculina e feminina e clubes para os públicos homossexuais
(gay ou lésbico), possivelmente certo ‘distúrbio’ social, não ligado necessariamente à crise
financeira49. Para profissionais autônomos, como médicos e advogados, a crise no país os fez,
muitas vezes, aceitar pagamento em forma de carne, ovos ou cigarros. Nas bancas de jornal e
revistas, um significativo conjunto de pessoas se aglomerava para ler as notícias dos jornais
expostos, assim à distância, visto o alto preço dos periódicos, que impossibilitava muitos de
adquirirem seus exemplares50. Houve ainda, elenca o mesmo autor51, uma relativa queda do
número de fiéis católicos e protestantes, e um aumento em crenças orientais e místicas. O lado
cultural também fora afetado: no ramo de livros e publicações, os altos preços chegaram à
impressão, resultando em livros a custo elevado.
A desvalorização da moeda alemã atraiu muitos turistas ao país, visto as possibilidades
de gasto com diversos produtos com preços muito baixos. Essa ‘invasão’ de estrangeiros, que
comiam as melhores comidas, frequentavam os melhores locais, compravam os melhores
produtos, ajudou a fomentar entre a população alemã um sentimento de ódio e repulsa ao
estrangeiro, xenofobia52.
O período entre guerras, dessa forma, é fundamental para compreender o que se
desenvolve na Alemanha nos anos seguintes, culminando com a chegada do Partido Nazista
ao poder. O historiador Alcir Lenharo elucida:

48
Ibidem, p. 97.
49
Ibidem, p. 98.
50
Ibidem, p. 98 e 99.
51
Ibidem, p. 99 e 100.
52
Ibidem, p. 101 e 102.
38

O momento de formação do obscuro partido nazista, em 1919, é de crise nacional


intensa e de grande movimentação contra-revolucionária [sic]. A derrota na Primeira
Guerra, as imposições do Tratado de Versalhes e a queda do imperador vieram junto
com sucessivas arremetidas dos comunistas alemães, que a qualquer custo tentavam
tomar o poder, nos moldes soviéticos 53.

Ex-combatente da Primeira Grande Guerra, Adolf Hitler continuou, com o fim do


conflito, servindo como informante do exército. Em uma dessas ocasiões, assinala o
historiador britânico Ian Kershaw, foi enviado numa reunião do então Partido dos
Trabalhadores Alemães a realizar-se em uma cervejaria. Naquela oportunidade, após a
palestra principal, iniciou-se um debate e Hitler interveio. Impressionado, o fundador e
presidente do partido, Anton Drexler, conversou com ele e o convidou para participar da
organização. Era o despertar político de Hitler54.
A partir desse momento nada mais seguraria sua ascensão política. No ano seguinte,
1920, ele assumiu a direção do Partido e o reformulou, alterando inclusive o nome para
Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães (Nationalsozialistische Deutsche
Arbeiter Partei - NSDAP). Nesse período turbulento para a Alemanha, como assinalou-se
antes, tanto Lenharo55 como Dick Geary56 concordam ao afirmar que, em seus primórdios, o
partido Nacional-Socialista congregava uma série de pensamentos políticos, como
nacionalistas, conservadores e por vezes, até contraditórios, como de direita e esquerda.
A ala relativamente de esquerda do Partido Nazista pregava, por exemplo, o confisco
dos lucros de guerra, participação dos trabalhadores nos lucros das grandes empresas, fim dos
trustes e coletivização de grandes lojas de departamento, uma nacionalização das indústrias
monopolistas e até mesmo uma reforma agrária57.
Concomitantemente, com Hitler à frente do Partido, a partir dos anos de 1920/21,
essas ideias vão sendo deixadas de lado paulatinamente, ao passo que a organização visava
buscar apoio entre os grandes empresários e a classe burguesa. Entretanto, o povo, o
trabalhador, i.e., a grande massa, foi sempre fundamental para o Partido, conforme se verifica
nos grandes comícios, paradas e assembleias organizadas pelos nazistas.
Já contando com certo prestígio nos meios político e social, os Nacional-Socialistas
empreendem-se, em novembro de 1923, em um golpe (conhecido como Putsch58 de Munique,

53
LENHARO, Alcir. Nazismo: “O triunfo da vontade” – 7. ed. – São Paulo: Ática, 2006. (Série “Princípios”;
94), p. 18.
54
KERSHAW, Ian. Hitler. São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p. 109.
55
LENHARO, Alcir. op.cit., p. 17.
56
GEARY, Dick. Hitler e o nazismo. Tradução de Alexandre Kappaun. São Paulo: Paz e Terra, 2010, p. 13.
57
LENHARO, Alcir. op.cit., p. 17 e GEARY, Dick. op.cit., p. 13.
58
“Golpe”.
39

ou mesmo por Putsch da Cervejaria) que pretendia tomar o poder do estado da Baviera a
partir de Munique. A tentativa fracassou, alguns membros do NSDAP foram mortos e outros
detidos, entre eles, Hitler; durante os meses que cumpriu pena, escreveu sua obra Mein Kampf
(Minha Luta).
Apesar de o evento do Putsch de Munique geralmente remeter à prisão de Hitler e, a
seguir, à redação de sua conhecida obra, o historiador britânico Richard Bessel 59 constrói
interessante análise deste acontecimento em dois aspectos: o primeiro deles foi o fato deste
evento ter assinalado o fim de uma série de tentativas de acabar com a República de Weimar
perpetradas por diversos segmentos políticos; isto é, após 1923, Bessel aponta que a
Alemanha passou por um estágio de relativa estabilidade política e gradual recuperação
econômica; e o segundo ponto foi a transformação do NSDAP e da própria figura de Hitler:
depois do fracasso de 1923, decidiu-se que a corrida até o poder se executaria pelas vias
eleitorais. O malogrado golpe também fez de Hitler uma figura conhecida em toda a
Alemanha.
Este último aspecto ainda leva Bessel a apontar o rompimento de duas ‘fronteiras’ por
parte do partido Nacional-Socialista alemão: a primeira delas, uma ‘fronteira’ territorial, deu-
se quando o NSDAP deixou de ser uma organização com influência em sua zona mais
imediata, isto é, a Baviera, para ganhar toda a Alemanha, galgando o status de partido
nacional; a segunda ‘fronteira’ transposta foi a etária: a partir da segunda metade dos anos de
1920, o Partido cativava os primeiros membros mais jovens, aqueles que não pertenciam à
geração que havia combatido na Grande Guerra de 1914-1918.
Nos anos seguintes, portanto, entre 1924 e 1929, a economia alemã teve lenta e
gradual recuperação, garantindo uma “sobrevida” à República de Weimar. O período marcou
também a retomada de Hitler na carreira política, após deixar a prisão. Na corrida presidencial
de 1932 Hitler não chegou ao poder, mas os Nacional-Socialistas já eram maioria no
Parlamento. No ano seguinte, 1933, Hitler foi convidado para ocupar o cargo de chanceler
pelo Presidente Paul von Hindenburg. Já em 1934 von Hindenburg falece, e Hitler acumula os
cargos políticos.
Entrementes, numa sociedade desestruturada política e economicamente, com altos
níveis de desemprego, pessoas em extrema pobreza e passando fome, como era a alemã após
o fim da Primeira Guerra, como se explica o apoio dessa massa ao Nacional-Socialismo, que
claramente caminhava em direção aos interesses de industriais e burgueses? Lenharo é

59
BESSEL, Richard. Nazismo e guerra. Rio de Janeiro: Objetiva, 2014.
40

categórico: em função da propaganda. Ela teve desempenho fundamental e primordial para os


nazistas, desde seus primórdios pouco expressivos politicamente no inicio dos anos 20, até a
concretude de seu poder entre 1930 e 1945. O mesmo autor ainda lembra: “Tecnicamente bem
aparelhada, e financiada com dinheiro da burguesia, oferecia aos trabalhadores uma mudança
profunda no próprio sistema capitalista...”60, visando trabalho para desempregados,
financiamento aos agricultores e redução das taxas para os industriais.
Afora questões econômicas e sociais, no âmbito ideológico, a propaganda também
cumpriu com maestria sua missão: levar para todos os cidadãos alemães as teorias, propostas
e ações do governo Nacional-Socialista, seja por meio de filmes, livros, panfletos, revistas,
almanaques, jornais e, dentro deste último, as charges, cuja importância ideológica foi
largamente discutida por Vinícios Aurélio Liebel61, que posteriormente neste trabalho será
retomado.
Apesar de Lenharo endossar o papel da propaganda na estrutura política do Nazismo,
é preciso relativizá-la, visto as medidas postas em prática por seu governo, não ficando assim
somente em promessas, pois as ações realizadas pelo governo Nacional-Socialistas, no que
pode se denominar Estado de bem-estar inserem-se em um contexto europeu de intervenções
do Estado na vida particular após 1918.
Como visto, a Primeira Guerra abalou a estrutura de diversos segmentos sociais, em
função do elevado número de mortos, sendo estes principalmente homens. Nesse sentido,
Mazower evoca que os papéis daquilo que era feminino e masculino alteram-se, resultando
também em crianças e jovens que cresceram sem a figura de um pai62.
Em diversos países da Europa, como Inglaterra, França, Alemanha e Itália, o Estado
passa a intervir na vida familiar, preocupado, em especial, nas questões de saúde e natalidade,
visto a inclinação de muitas pessoas em praticarem métodos contraceptivos e abortivos.
Mazower elenca que:

Depois de 1918 o Estado tentou corrigir esse tendência, criando ministérios da saúde
e promovendo valores familiares. Incentivou e exortou as pessoas a ter mais filhos, ao
mesmo tempo que desencorajou e criminou o aborto e a contracepção. Aprimorou as
condições de vida e as instalações municipais para uso das massas. Fomentou a boa

60
LENHARO, Alcir. op.cit., p. 16.
61
Sobre o autor, ver: LIEBEL, Vinícius Aurélio. Guerra e humor: a formação da opinião pública pela mídia no
período da Segunda Grande Guerra – o caso das charges – 2004. 103 p. Monografia – Departamento de História
da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Curitiba, 2004; LIEBEL, Vinícius Aurélio. Humor, propaganda e
persuasão: as charges e seu lugar na propaganda Nazista. 2006. 160 p. Dissertação – Departamento de Pós
Graduação em História da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Curitiba, 2006.
62
MAZOWER, Mark. Continente sombrio: a Europa no século XX. São Paulo: Companhia das Letras, 2001,
p.89.
41

forma física, estimulando a prática da natação nas novas piscinas públicas, das
caminhadas no campo, dos passeios de bicicleta63.

Dessa forma, o Estado passa a atuar como um pai substituto, firmando diretrizes e
rumos a serem tomados. Esse historiador ainda lembra que também prosperaram as
construções de piscinas e parques públicos, estimulando os exercícios físicos, boa forma e
saúde corporal, movimento este que seria mais uma vez retomado ao final da Segunda Guerra,
de sobremaneira, nos anos de 1960 nos países da Escandinávia. Porém, nos anos de 1930 e
1940, o Estado de bem-estar e o Estado de guerra não possuíam ainda uma distinção tão clara:
a promoção dessas políticas sociais relacionava-se com uma preocupação dos Estados-nação
de defender-se de inimigos.
No entanto, nesse período entre guerras as discussões em torno da natalidade,
qualidade de vida e saúde social fundiram-se com ideias como eugenia, antissemitismo e
distinção de raças, já presentes naquele contexto. Assim, em diversos países da Europa,
defendeu-se não só uma intervenção do Estado nos aspectos anteriormente expostos, mas
também que esse Estado determinasse quem deveria ter direito de nascer e viver e quem não o
teria, estes últimos sendo excluídos com base em sua cor de pele ou portando alterações
físicas, mentais e comportamentais.
Conquanto, o historiador Francisco Carlos Teixeira Silva nos desvela uma opinião
oposta e intrigante: é delicado apontar preconceitos e racismos já presentes na conjuntura
europeia do XIX como forma de traçar uma ‘genealogia’ deste ódio até o nazismo, visto que
não houve extermínio desses grupos-alvos de preconceitos; judeus, por exemplo, tiveram até
mesmo posições de destaque em momentos anteriores da história alemã, onde supostamente o
antissemitismo já caminhava a passos largos64.
Fato é que na Alemanha sob governo de Hitler essas políticas intervencionistas e
racistas ganharam maior espaço, num processo que pode ser denominado de engenharia
social. Assim, doentes mentais foram os primeiros a serem esterilizados; a seguir os
criminosos mais perigosos e outros delinquentes. Para preservar e dar corpo ao que
chamavam de Volksgemeinschaft (‘Comunidade nacional’ ou ‘Comunidade do povo’), os
tidos como racialmente melhores deveriam receber todo auxílio e aparato disponível,
fornecidos a partir do Estado, ao passo que os “inferiores”, que não integravam essa
comunidade, deveriam sair de cena. Como aponta Mazower:

63
Ibidem, p. 87.
64
SILVA, Francisco Carlos Teixeira. Os fascismos. In: REIS FILHO, Daniel Aarão; FERREIRA, Jorge;
ZENHA, Celeste (Org). O século XX. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000, p. 150.
42

Tais medidas faziam parte de uma nova concepção de politica social, que promovia
a saúde da ‘comunidade nacional’ e ao mesmo tempo suprimia seus inimigos
biológicos internos. Por um lado ajudava os recém-casados com empréstimos
(concedidos, é óbvio, desde que a noiva abrisse mão do emprego e o casal fosse
racialmente puro) e oferecia abonos familiares, férias remuneradas e creches. Por
outro lado, saía à caça de mendigos e confinava-os em acampamentos ou os incluía
em programas de trabalho compulsório [...] O extremismo da filosofia do regime era
impressionante, porém não menos que os esforços da máquina estatal mais moderna
da Europa para colocar em prática tal filosofia65.

A política do “bem-estar” Nacional-Socialista também previa a exclusão dos judeus da


Volksgemeinschaft, mas que também não se deu “da noite para o dia”. Mazower assinala que,
num primeiro momento, eles foram obrigados a deixar o serviço público; a seguir, promoveu-
se um boicote às suas lojas e outros negócios; para só depois surgirem as políticas de cárcere e
execução.
Tanto Mazower como Eric Michaud66 ressaltam a fundamental importância para a
eleição de ‘inimigos interno’ dessas políticas racistas e segregacionistas, que já fermentavam
no período do entre guerras, na formação e definição daquilo que era ser alemão e de
identificar-se enquanto pertencentes a um Estado Alemão. Muito dessa “crise de identidade”
também explicada pela derrota na Grande Guerra e a subsequente desestruturação política e
social.
Uma significativa parcela dessas políticas do Estado Nazista centrava-se na formação
dos jovens. Como expõe Michaud, inúmeros grupos foram criados pelo partido voltados
exclusivamente para os jovens, como a Hitler-Jugend (Juventude Hitlerista), a Deutsche
Jungvolk (Jovem Povo Alemão); para as garotas a Jungmädel (Jovem Garota) e a Bund
Deutscher Mädel (Liga das Moças Alemãs), visto que seriam os jovens que dariam corpo e
movimento à ideologia Nacional-Socialista.
Suas atividades visavam a formação ideológica dos jovens para a causa Nacional-
Socialista, educação e exercícios físicos, sendo que esse último aspecto continha muitos
pontos de proximidade com as instituições militares:

O conjunto de atividades para rapazes ali se ordenava como uma preparação militar:
treinamento em formação aberta e cerrada, camuflagens, emboscadas para o
inimigo, proteção de uma coluna em marcha, operações de batedores, montagem de
tendas, cartografia, exercícios de tiro, assim como todos os esportes capazes de
desenvolver o senso do desempenho. [...] a isso acrescentavam-se cursos de vôo
(sic) a vela e a motor, assim como a realização de maquetes de aviões67.

65
MAZOWER, Mark. op. cit., p. 107.
66
MICHAUD, Eric. ‘Soldados de uma idéia’: os jovens sob o Terceiro Reich. In. LEVI, Giovanni; SCHMITT,
Jean-Claude. História dos jovens. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
67
MICHAUD, Eric. op. cit., p. 302.
43

Além disso, os jovens eram incentivados e estimulados a sempre darem o melhor de si,
sendo recompensados com condecorações e rituais muito semelhantes às dos exércitos.
Michaud ainda explana que as subunidades da Juventude, durante os eventos organizados pelo
Partido Nazista, também disputavam pelas melhores decorações, coros e pelas melhores
apresentações teatrais68.
Dentre essas ocasiões, as incursões no meio rural chamam a atenção. Lenharo lembra
que havia uma exaltação, uma glorificação da vida camponesa, vista como uma ‘reserva’
moral para a sociedade alemã, pois era fantasiosamente representado como um grupo de
pessoas mais ‘inocentes’ pelo seu distanciamento do mundo urbano e o apego a terra,
tradições e raízes, sentimentos estes que justamente esperava-se inculcar na juventude.69
Mazower ainda afirma que os Nacional-Socialistas “associavam a saúde social não à cidade,
mas ao campo; não à indústria e à máquina, mas à terra e ao trabalho braçal”70.
Entretanto, Michaud revela outro aspecto desses encontros obrigatórios da juventude
com o ambiente rural:

Assim, o ‘ano rural’ (Landjahr), instituído por Rust para reconduzir as crianças às
fontes vivas do mundo camponês, da mesma maneira que o ‘serviço rural’
(Landdienst) que colocava as HJ no trabalho dos campos, fazia habilmente coincidir
a ideologia Blubo (Blut und Boden: sangue e solo) com a necessidade de encontrar
uma resposta para a falta de mão-de-obra agrícola e o êxodo dos campos. Mas esses
contatos forçados entre os mundos camponês e operário ou estudantil
suscitavam ora a incompreensão e o desprezo, ora o declínio dos ‘valores da
terra’ diante do exemplo dado pelos jovens citadinos 71.

Além desses estranhamentos entre os jovens urbanos para com os alemães


camponeses, e vice-versa, essas excursões das organizações juvenis Nacional-Socialistas
despertavam e excitavam a sexualidade, que muitas vezes não representava um problema.
O sexo não era visto como obstáculo para os racialmente aceitos da sociedade, pois a
procriação garantiria a permanência e preservação da raça e consequentemente, do ideário
Nazista, sendo, dessa forma, encorajado entre os jovens sem qualquer compromisso
matrimonial. Michaud exemplifica, afirmando que “mais de mil moças voltaram grávidas do
congresso do partido que se realizara em setembro de 1936 em Nuremberg. [...]” 72.
Lenharo ainda aponta que “a vida sexual não sofria proibições fundamentais no que se
refere às relações heterossexuais. O adultério não era condenado, as relações pré-conjugais

68
MICHAUD, Eric. op. cit.
69
LENHARO, Alcir. op. cit.
70
MAZOWER, Mark. op. cit., p. 101
71
MICHAUD, Eric. op. cit., p 304. (Grifo meu)
72
MICHAUD, Eric. op. cit., p. 303.
44

também eram livres, as mães solteiras eram honradas, e a virgindade das moças deixava de ser
valorizada” 73.
Sob o Nacional-Socialismo, portanto, a ideia de um Estado como pai substituto
transformou-se ainda mais: o Führer Adolf Hitler era o grande pai simbólico dos jovens nas
fileiras das Hitler-Jugend e instituições afins e o pai simbólico dos filhos gerados pelas jovens
mães solteiras. Os filhos não pertenciam mais aos pais, às suas famílias, mas ao Estado: “[...]
‘dar um filho ao Führer’. Era então que se tornavam verdadeiramente os ‘soldados de uma
idéia (sic)’, com a missão de dar corpo e realidade ao ‘Reich ideal’[...]” 74.
Outrossim, posiciona-se aqui em favor de uma visão em que as dimensões do
propagandístico e dos atos de governo do Partido Nacional-Socialista complementam-se
mutuamente: se por um lado havia todo um investimento na propaganda, cativando e fazendo
muitas promessas para os alemães, por outro, ações concretas, como as expostas até aqui,
foram tomadas pelos nazistas, fornecendo certos subsídios aos cidadãos, cidadãos estes
obviamente, circunscritos nos padrões pré-estabelecidos.

2.2 VÁRIAS FACETAS DO NAZISMO

Vimos, portanto, que o Nazismo surgiu em um contexto bastante específico pelo qual
passava a Alemanha após o fim da Primeira Grande Guerra, com desestabilização política e
econômica, desemprego e relações externas fragilizadas.
A vasta bibliografia acerca da temática do Nazismo nos apresenta, no entanto, certa
similitude entre o movimento liderado por Adolf Hitler e outros que afloraram na Europa e
demais continentes nos de 1920 a 1930, a saber, o fascismo de Benito Mussolini na Itália, de
Francisco Franco na Espanha, António Salazar, em Portugal, e até mesmo pode-se agregar à
lista o Integralismo de Plínio Salgado, que no Brasil fez muitos seguidores.
O historiador Francisco Carlos Teixeira Silva fez interessante incursão sobre esse
assunto. Ele é um dos que defende certo modelo de análise mais geral para os fenômenos que,
de sua preferência, engloba sob o vocábulo plural fascismos. Sua intenção é a de “recuperar o
fascismo como grande unidade de análise, agrupamento de configurações políticas de traços
diversos, marcado, entretanto, por forte coerência interna e externa” 75.

73
LENHARO, Alcir. op.cit., p. 73.
74
MICHAUD, Eric. Idem. (Grifo meu)
75
SILVA, Francisco Carlos Teixeira. op. cit., p. 122. (Grifos no original).
45

Nesse sentido, um dos primeiros apontamentos deste autor foi o de defender que
características tais quais: o nacionalismo exacerbado, o uso do passado como justificativa do
movimento, e o fato de cada um desses agrupamentos fascistas verem-se a si próprios como
únicos, já seriam fatores que os aproximaria enquanto uma mesma esfera político-ideológica.
Outro entendimento importante do mesmo autor é o que considera fascismo os
agrupamentos políticos chamados colaboracionistas, isto é, que controlavam determinada
localidade, mas tutelados (colaborando) por um país estrangeiro, tal qual o caso da França;
bem como os segmentos políticos que não assumiram a plenitude do poder em seus países.
Sua justificativa em considerar como fascismo esses últimos perpassa a noção de que, ao
contrário dos fascismos estabelecidos no poder e que tiverem de abrir mão de alguns de seus
aspectos ideológicos e políticos para assumir tal poder, os grupos que não instauraram
regimes mantiveram seu perfil e visão de mundo melhor delineada.
Ainda mais, dando sequência para sua teoria explicativa geral dos fascismos, Teixeira
Silva elenca quatro tópicos como elementos de constituição dos fascismos: a) o cunho
antiliberal e antiparlamentar; b) Estado orgânico e a figura carismática de um líder; c) a ideia
do fascismo enquanto movimento revolucionário; d) e finalmente a destituição do eu
individual e a negação de tudo o que é do outro76.
a) O primeiro item destacado pelo historiador liga-se de sobremaneira às crises
financeiras dos anos de 1920, onde o Nacional-Socialismo despontava enquanto alternativa
política para a população, tendo em vista a inflação e os juros na Alemanha pós-Grande
Guerra. Além disso, os fascismos também centraram suas atenções políticas na figura de um
Estado, tendo em vista que, para esse grupo, a livre escolhe de diversas opções partidárias que
as democracias oferecem seriam prejudicais, na qualidade de forças que se anulariam caso
não estivessem unificadas por algo maior.
Para os fascistas, tal fragmentação e crise de representatividade política eram
provenientes da Revolução Francesa, que ocasionou o individualismo, perda de identidade e
das hierarquias. O fascismo deveria recuperar esses laços, enfatizando o sangue, a raça e o
solo, na constituição da comunidade nacional.
b) Com esses princípios postos, o Estado, mesmo que constituído por diversas
pessoas, essas deveriam passar a imagem de algo coeso, e este é o segundo ponto.
.
Em oposição ao liberalismo desagregador, o fascismo oferecia uma variada gama de
organismos sociais, onde o Estado deveria ser visto de forma harmoniosa, despido

76
SILVA, Francisco Carlos Teixeira. Op. cit., p. 127.
46

de contradições no seu próprio interior, bem diferentemente do Estado liberal,


dilacerado por querelas de grupos77.

Descarta-se então, ao menos em teoria, as divisões em legislativo, executivo e


judiciário, onde o Estado concentra todos esses poderes públicos e tem a frente um partido
único, que com isso afastaria as disputas e segmentações entre partidos.
Somado a isso há a visão da necessidade de um líder supervisor e guia, que ainda se
identificava com as massas. Teixeira Silva explora brevemente o Führerprinzip (Princípio de
liderança), isto é, que os objetivos estatais do regime perpassavam, obrigatoriamente, pelo
líder e onde a autoridade desse líder dava-se de cima para baixo e a obediência dos demais,
debaixo para cima. O autor definiu então que “[...] o Estado fascista surge como
uma policracia, com fontes autônomas de poder, com objetivos muitas vezes conflitantes,
reunidos em torno de uma doutrina que serve de argamassa, gravitando em torno de uma
personalidade autoritária e carismática, o líder nacional” 78
c) Em terceiro destaca-se que a figura de um grande líder, que com energia e
determinação conduzia sua comunidade do povo (Volksgemeinschaft) até seus objetivos, as
novas experiências econômicas e de Estado, permeados ainda pela questão racial, levou os
estudiosos a reconsiderarem o fenômeno fascismo enquanto uma maneira singular de fazer
política e, portanto, revolucionária para seu tempo.
Tal comunidade nacional proposta pelo fascismo seria harmoniosa e, com vistas para o
bem e união desta comunidade, congregaria lado a lado, família, operários, funcionários, isto
é, o capital e o trabalho. E ainda: “[...] o fascismo propunha um Estado que se apresentaria
como a corporação do trabalho, supraclassista e acima dos mesquinhos interesses privados e
de suas representações partidárias” 79.
Para tanto, a economia alemã nacional-socialista não deveria ser uma economia
estatal; mas também não era de interesses privados, individualista. Deveria, isso sim, servir ao
povo (corporativa).
Tal enfoque gerou certas dúvidas em relação ao nacional-socialismo no sentido de que,
para muitos, o movimento de Hitler nada mais era do que outra forma de comunismo, erro
ainda hoje perpetrado principalmente quando se quer argumentar contra movimentos
marcadamente de esquerda. Entretanto, se tal assertiva é no mínimo ridícula, deve-se
consignar o entendimento que o próprio movimento nazista tinha acerca de si: a produção

77
Idem, p. 132.
78
SILVA, Francisco Carlos Teixeira. op. cit., p. 135
79
Ibidem, p. 142.
47

nacional era voltada para o bem-estar do coletivo, da Volksgemeinschaft. Ou, nas palavras de
Teixeira Silva: “Por ser solidário e harmônico, o socialismo corporativo se diferenciava do
socialismo bolchevista judaico, divisionista e segmentário. Neste sentido, o corporativismo
seria a base do socialismo nacional ou do nacional-socialismo [...]” 80.
d) Como quarto elemento, podemos apontar que pertencer à comunidade do povo
significava, em boa medida, abrir mão de seu eu indivíduo, para pensar a coletividade desta
comunidade. Pensar a coletividade racialmente, não se relacionando com os excluídos da
comunidade do povo, mas da mesma forma, identificar, segregar e, em última instância, negar
o outro e tudo que é próprio do outro para finalmente, eliminá-lo.
Tal aspecto é tão importante que transcorre aquilo que se entende enquanto socialismo
(ou nacional-socialismo) teoricamente: a Volksgemeinschaft, isto é, a comunidade nacional
que unia seus membros racial, cultural e politicamente, fazia uso do corporativismo
(colaboração) entre esses seus membros, cidadãos genuinamente pertencentes à
Volksgemeinschaft, para dar significado pleno do que entendia-se por nacional-socialismo;
entrementes, não é demasiado ressaltar que tal solidariedade restringia-se aos aceitos no
interior da comunidade. Se um indivíduo não estava ali englobado, não haveria a necessidade
de ser solidário com este. Tal ponto de vista parece fazer mais sentido na dimensão teórica
que aqui se expõe. No contexto multifacetado da Europa era, e é, difícil conceber a prática de
questões tão fechadas e circunscritas, suscitando contradições no conjunto do fascismo
alemão.
Obviamente o trabalho de Teixeira Silva não está imune a críticas, apesar da qualidade
de sua reflexão. Ainda que o autor reitere ao longo de sua pesquisa o caráter específico de
cada fascismo, sua tentativa em propor uma teria geral para este fenômeno pode, em partes,
deixar em suspenso, por exemplo, a quantidade exorbitante de mortes causadas pelo nazismo
alemão.
Ao passo que Teixeira Silva visa esboçar um modelo ou um tipo ideal dos fascismos,
João Fábio Bertonha também analisa esses movimentos agrupando-os de duas formas: um
viés historiográfico, que é a perspectiva transnacional; e o outro que seria as relações
internacionais entre os países fascistas81. O primeiro ponto propõe um estudo histórico que,
em consonância com o mundo globalizado em que vivemos, transpõe fronteiras nacionais e da
história comparada, por justamente alguns movimentos na história terem também transposto

80
Ibidem, p. 147. (Grifo meu)
81
BERTONHA, João Fábio. Sobre a direita: estudos sobre o fascismo, o nazismo e o integralismo. Maringá:
EDUEM, 2008.
48

barreiras nacionais, como o fascismo e, portanto, os estudos não deveriam limitar-se nesse
sentido. O próprio Bertonha reconhece as dificuldades caso se adote tal perspectiva, como por
exemplo, onde se fixaria o limite dessa transnacionalidade, ou mesmo como estabelecer
limites, posto que não se espera o retorno às ‘histórias totais’. O segundo elemento diverge da
teoria geral dos fascismos proposto por Teixeira Silva: Bertonha não trabalha no sentido de
uma ideologia totalmente unificada, mas as relações políticas entre os países de governo
fascista; os relacionamentos interfascistas, na terminologia do autor, explicitados, por
exemplo, nos acordos militares, políticos e econômicos que formaram o bloco do Eixo entre
Alemanha e Itália (com posterior adesão do Japão, um caso bastante singular).
A perspectiva desses pactos ou acordos entre os países marcadamente fascistas parece-
nos muito mais um elemento da própria engrenagem de tais regimes e do próprio contexto
histórico do período, do que uma teoria a ser contrabalançada com a de Teixeira Silva, sem
diminuir obviamente a importância desses acordos interfascistas para o desenvolvimento
dessas ideologias e para o desenrolar do conflito mundial.
Bertonha ainda tece considerações no que se refere ao lado psicológico do movimento
nazista, vertente um pouco mais delicada, visto que trabalha aspectos de supostas ‘energias’
para cativar e envolver as massas. Esse viés que, em grande parte foge de aspectos mais
terrenos, serão brevemente apresentados aqui, posto sua importância em romper ‘as amarras’
das tradicionais pesquisas políticas e econômicas no estudo do nazismo:

Essa abordagem psicológica do fascismo [...] é de grande valor para a historiografia


a respeito de tema. Ela nos permite ter uma visão de fascismo que extrapola as
visões mecânicas e centradas no econômico, as quais só conseguem ver no fascismo
as contradições do desenvolvimento capitalista ou os equilíbrios da luta de classes
dentro da sociedade. Esta é, de fato, uma visão equivocada e que nos impede de
tentar uma aproximação mais apurada de um fenômeno que, especialmente em sua
versão alemã, extrapola os limites do estritamente econômico e também do
estritamente racional82.

Os medos e tensões sociais expressos pela população no período imediatamente pós-


Primeira Guerra, entretanto, parecem contribuir de forma melhor para este panorama acerca
do nazismo também vinculado a este viés psicológico, reiterando, porém, que não se pode
reduzir as análises apenas aos campos econômicos e políticos.
Foi o psicanalista Wilhelm Reich que possivelmente debruçou-se mais
demoradamente sobre o tema das psicologias de massas. No âmbito do apoio popular, Reich
confere especial importância às chamadas classes médias e médias baixas, como os

82
Ibidem, p. 321.
49

funcionários públicos e privados, agricultores médios e baixos e comerciantes, a partir do que


o autor chama de estrutura psicológica da classe média e a contribuição dessas ao nazismo83.
O autor dá especial atenção aos funcionários públicos e de empresas. No caso dos
funcionários públicos ele lembra que, apesar de receber menos que um trabalhador da
indústria, tem a seu favor a possibilidade de fazer carreira e outros benefícios. Ainda reforça
que o fato de não se juntarem em um movimento de massa coordenado e crítico ao sistema,
em partes pode ser atribuído a um sentimento de não solidariedade entre os pares, mas sim,
pela competição pela carreira. Menciona também a identificação que esse segmento, bem
como o dos funcionários de empresas privadas, tem com seu poder imediatamente superior: o
Estado no caso dos funcionários públicos; e os superiores e diretores, para o caso dos
funcionários das empresas particulares. Recorda o mesmo autor ainda, a posição intermediária
desses dois tipos de funcionários, que, se por um lado são subordinados e devem obediência a
seus superiores, por outro, exercem autoridade sobre os que estão abaixo deles na hierarquia
do trabalho, e entrando na lógica autoritária e hierárquica do fascismo84.
As massas se mostraram receptivas as propostas nazistas. Parte do sucesso, portanto,
se explica por essa retribuição, essa resposta que as propostas de Hitler encontraram nas
massas. Por outro lado, o marxismo não compreendeu as ideologias como força histórica
capaz de alterar a sociedade; de como a ideologia é recebida pelas massas, por exemplo. Para
o autor, o marxismo não atribuiu importância a concepção psicológica, focando na economia
e no social; esse fato subjetivo não fora bem compreendido pelos marxistas85.
O historiador Alcir Lenharo vem contribuir em outro aspecto do Nacional-Socialismo
alemão, a partir da dimensão artística e dos rituais, ou, a política enquanto espetáculo. Uma
imensidão de cânticos, marchas, desfiles e homenagens estavam circunscrita em uma
proporcional infinidade de rituais e eventos, em um calendário repleto de datas
comemorativas para o III Reich, desde a fundação do Partido, o aniversário de Hitler, o Dia do
Trabalhador, das mães, passando até para os congressos do Partido e as rememorações do
Putsch de Munique. Este último ainda cercado por invenções e ressignificações de tradições a
partir da morte dos antigos revoltosos de 1923, transfigurando-os como mártires do
movimento.86 O mesmo autor ainda evidencia que “a chave da organização dos grandes
espetáculos era converter a própria multidão em peça essencial dessa mesma organização” 87.

83
REICH, Wilhelm. Psicologia de massas do fascismo. – 2ª ed. – São Paulo: Martins Fontes, 1988.
84
Ibidem, p xx.
85
Idem.
86
LENHARO, Alcir. op. cit., p. 43 e 44.
87
Idem, p. 39.
50

Bandeiras colossais e em grande número, holofotes e jogos de luzes, águias e suásticas


adornavam os prédios públicos e as cidades de forma descomedida, dentro de ritos quase
religiosos e minuciosamente organizados pelos nazistas, visando um efeito hipnótico na
população ante a magnitude e o poder de transformação do Estado Nacional-Socialista
alemão.
Na arte e na arquitetura, destaca Lenharo, há uma adoração e uma retomada ao
classicismo. As construções, em estilo neoclássico, deveriam ser imensas, dotadas de
colunatas gigantes e ricas em detalhes, que expressavam o poder da nação alemã e, mais do
que isso, o orgulho de sentir-se alemão.
A arte, de forte inspiração grega também, retomava a figura humana, onde tanto nas
esculturas quanto nas pinturas, surgiam majoritariamente despidas e com os corpos atléticos,
em posições típicas de exercícios físicos.
Todos esses aspectos ritualísticos, políticos e artísticos ainda foram bem explorados
pelos filmes, divulgando os eventos do Partido, as competições esportivas e as artes, cujo
nome que se destacou foi o da cineasta Leni Riefenstahl e duas de suas principais produções:
Triumph des Willens88, acerca do Congresso do Partido; e Olympia, sobre os Jogos
Olímpicos89.
O historiador Richard Bessel enfocou em seu trabalho o lado do combate, da guerra no
interior do movimento nazista. Para ele, há uma militarização da sociedade em diversos
aspectos, como por exemplo, a educação dos jovens, onde essa aura do militar cativava essa
juventude, abordagem essa já apresentada há pouco. Havia uma linguagem violenta e belicosa
nos discursos dos nacional-socialistas que, entretanto, o autor destaca como aspecto este
compartilhado por outros agrupamentos políticos no período da República de Weimar.
Falava-se na luta pelo espaço vital, no combate aos inimigos da Alemanha, na hostilidade
aos demais partidos e oposições, etc.90
Mais do que agressões e brigas, o clima da época fez com que, se de um lado o
nazismo ‘oferecia’ a violência, de outro recebia significativo apoio para esses atos, conferindo
ao combate um dos eixos centrais do movimento. O militarismo era tal que, o Partido Nazista

88
“Triunfo da Vontade”.
89
A arte e a estética durante o III Reich, bem como a chamada ‘arte degenerada’, judaica e inferior, para reflexão
acerca das propostas ‘higienistas’ e de ‘pureza’ racial que o Nazismo visava implementar, foram habilmente
tratadas em: ARQUITETURA da Destruição. Direção, Produção e Roteiro de Peter Cohen. Suécia, 1989. (119
min.), son., color. Legendado. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=IBqGThx2Mas >. Acesso
em: 10 fev. 2014.
90
BESSEL, Richard. op. cit., p. 11.
51

criou, nos anos de 1920 seu segmento armado, a SA e posteriormente, já a frente do governo,
instituiu a SS e a GESTAPO, além do exército oficial (Wehrmacht).
Ainda assim, Bessel expõe que é “necessário abordar a história do nazismo não sob a
perspectiva de um espetáculo de horrores exótico, sui generis [sic] e condenável como
erupção singular e única do mal, mas como uma parte aterrorizante da história do mundo
imperfeito no qual vivemos”91, ou seja, não unicamente o mal descomedido, mas sim
enquanto fenômeno invariavelmente humano.
O historiador Mark Mazower aponta outras análises mais pontuais acerca da ideologia
nazista; ainda que entre em conflito com as propostas mais generalizantes de Teixeira Silva,
tratadas no início, visto que Mazower prima pela originalidade do movimento encabeçado por
Hitler. Para esse autor, muito em função da crise econômica mundial e da crise política alemã,
certos segmentos da sociedade não fizeram objeção quando partidos mais extremistas – tal o
NSDAP – passaram a defender uma substituição da economia liberal e da política
democrática em favor de um Estado mais autoritário, ou, nos termos do próprio Mazower,
gerar uma Nova Ordem.
Tal Ordem perpassava diversos aspectos, a saber, a expansão territorial e a promoção
de um bem estar para os membros da Volksgemeinschaft – como visto –, mas também um
forte controle dos domínios conquistados, ou seja, uma centralização política, mas
marcadamente também econômica dos ‘espaços vitais’ tomados. Assim, Mazower entende
que esta Nova Ordem tinha por fim último a formação de uma economia europeia integrada e
de uma zona franca para as relações comerciais, mas obviamente, gerida conforme as normas
e vontades do III Reich alemão.
Vimos, portanto, a forte influência que o contexto de crise econômica e política do
pós-Primeira Guerra desempenham na formação e desenvolvimento do Partido Nazista. A
República de Weimar, oriunda da rendição alemã dos campos de batalha de 1918, acarretou a
alta inflacionária e trouxe para a maior parte da população alemã o desemprego e o
consequente baixíssimo poder aquisitivo. Nesse conjunto, viu-se florescer diversos partidos e
movimentos políticos e ideológicos diretamente proporcionais ao fraco poder do controle do
Governo em relação a estes grupos; governo este também que se encontrava atarefado com a
crise econômica e industrial, e que, além do mais, era a primeira experiência republicana
alemã e, por conseguinte, necessitava lidar com diversos problemas em função de tal
transição.

91
Ibidem, p. 15.
52

Imerso em tal conjuntura, o Partido Nazista operava ainda em baixa demanda. Sua
escalada ao poder brotou em razão de uma série de eventos e de realidades da época, aliando
propaganda política intensa e bem aparelhada, o clamor das massas e, paralelamente, apoio de
industriais, classe média e de boa parcela dos funcionários públicos.
Inseridos igualmente em uma situação da época, o Partido Nazista alinhou-se e
defendeu políticas de promoção e bem estar da vida, entretanto voltadas para os indivíduos da
Comunidade do Povo, o que perpassa a questão racial do movimento.
Ressalta-se ainda que esse fenômeno não ocorria apenas na Alemanha, mas vinculava-
se da mesma forma a uma condição do período que assistiu a popularização desses
movimentos fascistas, agrupados costumeiramente por seu o cunho antiliberal e
antiparlamentar, pela promoção (ou tentativa de promoção) de um Estado orgânico e da figura
carismática de um líder, a divulgação de uma ideia de movimento revolucionário e finalmente
a destituição do eu individual, bem como, a negação de tudo o que é do outro.
Vemos ainda suas propostas, ideologias e práticas fortemente marcadas por um
militarismo e um estado de combate constante nos mais diversos aspectos da sociedade alemã
que não somente o exército. Tal modo de operar possivelmente tinha a intenção de formar,
por meio da conquista, um continente unificado, entretanto sob o controle rigoroso da
Alemanha nazista, numa ‘Nova Ordem’, onde, para tal intento empregava-se mão de obra
escrava, pilhagem e claro, o genocídio dos inferiores, ou, dos não integrantes da Comunidade.
Foi sobre esse complexo mundo europeu em conflito que o brasileiro Belmonte
buscou retratar e criticar por meio do humor em suas charges, conforme veremos
detalhadamente a seguir.
53

3 TRAÇOS E TEXTOS DESENHANDO A CRÍTICA

Nossa cultura ocidental criou um enorme patrimônio de reflexões


clássicas sobre o humor e o riso, cujo único e indiscutível mérito foi o
de ter mostrado o quanto se trata de uma experiência humana muito
imprecisa e na qual caberia quase tudo92.

O lápis e a caneta traçam rostos, vestes, cenários e situações. Marcam o papel,


transformando em desenho a imaginação do artista; do riso à crítica, agitam as charges,
dotando-as de diversos significados. O lápis e a caneta traçam História... narram e interpretam
História. Esse capítulo versa sobre as charges enquanto fonte, sobre Belmonte, o artista por
trás das figuras, bem como, ponto central do trabalho, a análise e interpretação dos oito
desenhos selecionados.

3.1 HISTÓRIA CULTURAL E REPRESENTAÇÃO

A História produzida academicamente mostra-se hoje fragmentada e partilhada em


uma infinidade de tendências e especialidades, muito diferente da noção bem mais
homogênea acerca do saber histórico que havia até o século XIX, conforma esboça o
historiador José D’Assunção Barros93.
Para esse autor, se de um lado tal fragmentação dinamizou o conhecimento histórico,
trazendo a tona diversos aspectos antes pouco ou sequer conhecidos das sociedades do
passado, de outro originou trabalhos e pesquisadores fortemente fechados em suas temáticas,
isto é, hiper-especializados, dissipando concomitantemente uma noção da existência do todo.
Barros ainda ressalta que, apesar de todas essas desintegrações (criações dos historiadores,
obviamente), os acontecimentos estão sempre em inter-relação, relacionando-se entre si, e
claramente não ocorrem unicamente no âmbito social, cultural ou político, por exemplo.
Se nos tempos de outrora um intelectual poderia pesquisar e atuar em áreas
abrangentes e por vezes até díspares, perpassando áreas da matemática até à filosofia, por
exemplo, o século XIX assinalou uma ‘cientificização’ aos moldes positivistas de diversos
saberes, como a História. Já no século XX o movimento da chamada Escola de Annales se
tornaria famoso por criticar os posicionamentos dos historiadores do XIX, mas cuja
competência deva ser reconhecida e partilhada com o movimento marxista e sua visão

92
SALIBA, Elias Thomé. Raízes do Riso: a representação humorística na história brasileira – da Bella Époque
aos primeiros tempos do rádio. São Paulo: Companhia das Letras, 2002, p.19.
93
BARROS, José D’Assunção. O campo da história: especialidades e abordagens. Petrópolis: Vozes, 2004, p.
10.
54

materialista e dialética da história, além da Escola de Frankfurt e de sua perspectiva


psicanalítica e de crítica discursiva, para mencionarmos apenas dois exemplos.
Ante o que ficara conhecido por ‘Nova História’, o historiador britânico Peter Burke
sinaliza seis pontos que, para ele, marcam tal campo: I – Há um interesse por toda e qualquer
atividade, pois tudo tem uma história; II – Forte tendência a não apenas encadear
acontecimentos, mas também e principalmente analisá-los dentro de estruturas; III –
Valorização do que chamou-se de história vista de ‘baixo’, que visa tratar das pessoas
comuns e suas experiências sociais; IV – Abrangência de fontes, desde as escritas e ‘oficiais’,
passando por fotografias, pinturas, diários, cartas, obras literárias, charges, etc.; V – Trabalhar
os movimentos e esforços coletivos, as tendências; VI – Percebe o relativismo a que o mundo
está envolto94. Ao que diz respeito às fontes, de nosso interesse aqui história e imagem,
enfocando as charges, tomamos que esse abarcamento maior de documentos já está bastante
tratado e solidificado e dessa forma, não há mais o que se acrescentar.
Diante deste caleidoscópio de campos possíveis para se fazer história, este trabalho
adota a dimensão95 da História Cultural, termo de complexa definição e ampla produção, que
visaremos abordar sinteticamente nos parágrafos seguintes, localizando o leitor em alguns dos
principais debates desta temática.
Ao tratar da História Cultural, Barros recorda que os antecedentes de tal dimensão
histórica podem retroceder muito tempo e, se hoje abarca uma grande quantidade de
historiadores, por muito tempo desempenhou pouco interesse96.
Tanto Barros97, quanto a historiadora Sandra Jatahy Pesavento98, e de igual maneira
Burke99 estão de acordo ao proporem que a História Cultural atravessou significativas
mudanças, posto que, em seus primórdios, a História Cultural era a história de uma cultura
elitizada, da dita ‘alta cultura’, ou ‘cultura clássica’, em detrimento da cultura popular. Mas o
94
BURKE, Peter. Abertura: a nova história, seu passado e seu futuro. In:___________ (Org.) A escrita da
história: novas perspectivas. Tradução de Magda Lopes – São Paulo: UNESP, 1992, p. 10 et. seq.
95
A adoção do termo dimensão está vinculada a explanação realizada na obra: BARROS, José D’Assunção. O
campo da história: especialidades e abordagens. Petrópolis: Vozes, 2004, p.19 e 20, cujo quadro do campo
histórico trata das Abordagens, que diz respeito a um ‘modo de fazer’ a partir dos materiais que um historiador
detém, atuando basicamente em duas frentes, a primeira delas sendo o tratamento das fontes (Exemplo: Análises
de Imagens/Charges; História Oral) e a outra o campo de observação (Exemplo: Micro-História); dos Domínios,
que remete às escolhas específicas de determinados objetos ou ambientes sociais (Exemplo: História do Humor)
ou sujeitos/agentes (Exemplo: História das Mulheres); e finalmente das Dimensões, que examina as instâncias
das realidades sociais e históricas por meio de enfoques ou ‘modos de ver’ (Exemplo: História Cultural). Barros
ainda lembra que essas ordens não estão fechadas em si, mas sim relacionando-se continuamente em redes.
96
BARROS, José D’Assunção. O campo da história: especialidades e abordagens. Petrópolis: Vozes, 2004,p. 8
97
Ibidem, p. 58.
98
PESAVENTO, Sandra Jatahy. História & História cultural. – 2. ed. 1. reimp. – Belo Horizonte: Autêntica,
2005. (Coleção História &... Reflexões, 5), p. 14.
99
BURKE, Peter. O que é história cultural? – Tradução de Sergio Goes de Paula. – 2. ed. rev. e ampl. – Rio de
Janeiro: Zahar, 2008, p. 18.
55

historiador italiano Carlo Ginzburg veio exemplificar que tais colocações não são fixas e
inalteráveis, mas, pelo contrário, movimentam-se, relacionam-se, ou ainda, circulam entre a
‘alta’ e a ‘baixa’ (popular) culturas, esvaecendo as fronteiras entre as duas e caracterizando
assim uma circularidade cultural100.
Há ainda em Burke o entendimento de que a história da História Cultural pode ser
subdividida em quatro fases, sendo a primeira chamada de “clássica”, que tratava dos estilos
dos grandes pintores e escritores; uma segunda, “social da arte” vinculando a cultura à
sociedade e outros aspectos, tal qual a economia; da “cultura popular”, relacionada aos
anseios do povo e suas manifestações; e por fim, a “nova história cultural” 101.
Na abordagem de Pesavento, a História Cultural figura como um dos ‘frutos’ da
complexidade geral do mundo pós-Segunda Guerra Mundial e da denominada crise dos
paradigmas, que adentrava numa já estabelecida crítica aos modelos totalizantes de se fazer
História, denunciando também seu esgotamento metodológico102.
Muitos são os autores, para os quais o conceito de representação é um dos mais
significativos que perpassa a dimensão da Historia Cultural. Um dos trabalhos mais
difundidos no Brasil acerca das representações é o do historiador francês Roger Chartier.
O referido autor entende a História Cultural e consequentemente as representações,
inseridas nas crises de paradigmas e método pelas quais passou o saber histórico, abrindo
espaço então para abordagens de temas vinculados aos cotidianos sociais como as próprias
formas de sociabilidades, as festas, crenças, ritos, expressões artísticas, entre tantas outras103.
De nossa parte, inserimos aí nossas fontes, as charges.
Há também uma forte crítica aos discursos na historiografia que trata das objetividades
das estruturas (onde supostamente ocorre um ‘reconstrução’ das sociedades passadas) e tidas
por mais seguras para a atuação do historiador, em detrimento das subjetividades das
representações (tomadas por alguns como ilusórias), mas que em sua defesa afirma ela
própria, a representação, ser uma realidade104.

100
GINZBURG, Carlo. O queijo e os vermes: o cotidiano e as idéias de um moleiro perseguido pela Inquisição.
Tradução de Maria Betania Amoroso; revisão técnica de Hilário Franco Jr. São Paulo: Companhia das Letras,
2006, conceito explanado nas p. 10, 12 e 15.
101
BURKE, Peter. O que é história cultural? – Tradução de Sergio Goes de Paula. – 2. ed. rev. e ampl. – Rio
de Janeiro: Zahar, 2008, p. 15 et. seq.
102
PESAVENTO, Sandra Jatahy. História & História cultural. – 2. ed. 1. reimp. – Belo Horizonte: Autêntica,
2005. (Coleção História &... Reflexões, 5).
103
CHARTIER, Roger. A história cultural: entre práticas e representações. Rio de Janeiro: Berthrand Brasil,
1990, p. 15 e 16.
104
Idem, p. 18 et. seq.
56

Ainda em se tratando do conceito de representação, o historiador Dominique Vieira


Coelho dos Santos contribui, ao sintetizar as principais ideias de diversos historiadores e
pensadores em relação a este conceito, bem como demonstrar as possibilidades abrangentes
que o mesmo admite, ultrapassando a dualidade simples que comporta uma relação direta da
‘representação’ com o ‘referente’, ou do sujeito apenas representando o objeto, ou ainda de
presenças e ausências105; tal assertiva está dada, mas acreditamos fazer-se necessário outro
elemento, que complemente: a narrativa, a dimensão narrativista da História, que admite os
sujeitos que representam e os objetos que são representados, mas que recorda ainda que é o
historiador que transpassa tal relação em sua narrativa, ou como emprega Ginzburg, que o
historiador ‘escreve’ 106.
O mesmo Chartier revisitou ainda essa temática das representações, avançando um
pouco mais sobre as questões de narrativa tendo por base as considerações tratadas pelo
historiador Paul Ricoeur, mas permanecendo fortemente ancorado em seu entendimento dual
de ‘presenças’ e ‘ausências’107.
Aprofundando-nos dessa forma na relação das imagens e seus usos no interior da
dimensão da História Cultural, considera-se aqui que as imagens sejam, para além da
representação, também uma forma de linguagem ou narrativa, e que, portanto, visa comunicar
algo. No mais, assim como a escrita e a fala, portam significados, são simbólicas108.
É viável elencar igualmente que, se há uma interpretação do artista a respeito de sua
arte, existe o observador, que traz consigo vivências e concepções, que traçará também ele
uma interpretação daquilo que contempla, ato este, ainda é necessário ressaltar, que envolve
mutuamente a dimensão física do corpo do observador (os olhos) e a mental (os sentidos)
numa relação complexa, cuja linha divisória entre ambas em muitos casos é tênue109.
Visamos, dessa maneira, abordar as charges enquanto representação que transmite um
‘modo de ver’ de quem as produziu, e também aquilo que está por trás da própria arte, do que
está refletido em se próprio interior, considerando, ademais, a intencionalidade ou o querer
artístico imbricado em tais obras. Ou seja, a obra engloba vontades pessoais do artista; o

105
SANTOS, Dominique Vieira Coelho dos. Acerca do conceito de representação. Revista de Teoria da
História, Goiânia, ano 3, n. 6, p.27-53, dez. 2011. Semestral. Disponível em:
<http://revistadeteoria.historia.ufg.br/up/114/o/Artigo 2, SANTOS.pdf?1325192377>. Acesso em: 28 set. 2014.
106
GINZBURG, Carlo. O extermínio dos judeus e o princípio da realidade. In: MALERBA, Jurandir (Org). A
história escrita: teoria e história da historiografia. São Paulo: Contexto, 2006, p 215.
107
CHARTIER, Roger. Defesa e ilustração da noção de representação. Fronteiras, Dourados, MS, v. 13, nº 24,
p. 15-29 – jul/dez 2011, p. 25.
108
PESAVENTO, Sandra Jatahy. O mundo da imagem: território da história cultural. In: _____________;
SANTOS, Nádia Maria Weber; ROSSINI, Miriam de Souza (Orgs). Narrativas, imagens e práticas sociais:
percursos em história cultural. Porto Alegre: Asterisco, 2008, p. 98.
109
Ibidem, p. 100 e 101.
57

contexto da época em que fora produzida; e pensada a partir do que o espectador irá ver,
como já mencionado110.
É de fundamental importância posicionar-se aqui que tanto imagens quanto escrita
desdobram-se em uma mesma comunicação acerca do mundo, utilizando-se, entretanto, de
códigos diferentes: o imagético e o textual111. Ao tratarmos de charges, porém, acreditamos
residir aí um agravante: a charge é justamente um conjunto que abarca o visual imagético e o
discurso textual, como pode-se conferir mais adiante, na análise das fontes.

3.2 AS EXPRESSÕES GRÁFICAS DE HUMOR

Imersa nas alterações sofridas pela historiografia assiste-se a popularização dos


periódicos, em suas diversas formas – jornais, revistas, almanaques, folhetins, boletins, etc –
enquanto objeto de estudo para os historiadores.
Tal imprensa só prosperara em solo brasileiro a partir de 1808, com a vinda da
Família Real Portuguesa para cá, tendo em vista a proibição de impressos no país em épocas
anteriores. A Gazeta do Rio de Janeiro foi, portanto o primeiro jornal publicado no Brasil,
responsável por informar os acontecimentos e decisões do governo de D. João VI e, por
conseguinte, ligado diretamente a Coroa. A oposição viria a seguir e se expressaria nas
páginas de Correio Braziliense, impresso na Inglaterra e de responsabilidade de Hipplyto José
da Costa Pereira Furtado de Mendonça112.
Os jornais brasileiros se agitam ante o retorno de D. João VI para Portugal em 1821 e
a permanência de seu filho Pedro – futuro D. Pedro I – em terras brasileiras fomenta alguns
debates em torno de uma desvinculação brasileira da metrópole lusa. Entretanto foi no
período das Regências – circunscrito entre a abdicação do trono brasileiro por parte de D.
Pedro I até a maioridade ‘adiantada’ de D. Pedro II – que os impressos brasileiros
experimentam as primeiras mudanças, seja pelos debates políticos acalorados e próprios do

110
ZERNER, Henri. A arte. In: LE GOFF, Jacques; NORA, Pierre (Direç). História: novas abordagens.
Tradução de Henrique Mesquita; Revisão de Dirceu Lindoso [e] Theo Santiago – 4. ed. – Rio de Janeiro: Editora
Francisco Alves, 1995, p. 143 et seq.
111
PESAVENTO, Sandra Jatahy. op. cit., p. 108.
112
LUSTOSA, Isabel. Imprensa e impressos brasileiros – do surgimento à modernidade. In: DENIS, Rafael
Cardoso (Org). Impresso no Brasil, 1808-1930: destaques da história gráfica no acervo da Biblioteca Nacional.
Rio de Janeiro: Verso Brasil, 2009, p. 30.
58

período, seja pela criação de uma variedade de periódicos, ou ainda, nesse ponto que interessa
bastante, a inserção das primeiras imagens satíricas em tais jornais113.
Apesar de já apresentarem caricaturas e humor na forma verbal/escrita, as imagens de
caricatura adentraram nos jornais por obra que atribui-se a Manuel de Araujo Porto-Alegre,
aluno de Jean-Baptiste Debret e que havia estudado na Europa, cuja referida caricatura
criticava um jornalista e um deputado de sua época114. Era o início de uma arte que se
introduziu na imprensa para nunca mais deixá-la.
A partir de 1840 popularizam-se as publicações voltadas quase que exclusivamente
para as caricaturas e ilustrações, sinalizada também pela vinda de artistas de outros lugares do
mundo, singularmente da Europa. Marcava-se a era das famosas revistas ilustradas, onde o
nome de Angelo Agostini ganhou destaque e influenciou toda uma geração de artistas e
desenhistas de humor no Brasil115.
O relativo crescimento do país a partir da segunda metade do século XIX fomentou
também a circulação das informações, considerando-se aqui a inserção das ferrovias, das
navegações a vapor, a incrementação das trocas comerciais e o próprio crescimento dos
núcleos urbanos. Novas técnicas para impressão entraram em cena e acarretaram também
muitas mudanças, como o aumento das tiragens e a possibilidade de levá-las a diversas
regiões, barateamento dos custos para imprimir os periódicos e mesmo um acabamento
superior na qualidade de tais impressões116.
Pesando de modo mais abrangente, Joaquim da Fonseca, afirma relativo às técnicas de
reprodução, que:
O desenvolvimento da caricatura e sua aceitação pelo público acompanhara o
desenvolvimento da própria arte da impressão. Tal como difundiu o conhecimento,
com a possibilidade de um número maior de cópias, a imprensa trouxe popularidade
para a caricatura117.

Os anos finais do século XIX e os primeiros do XX, no interim da Primeira República,


assistiram o aparecimento de muitos outros desenhistas e caricaturistas, muitos deles
influenciados pelo trabalho de Julião Machado, que ultrapassou Agostini e igualmente, fizera
sua escola, apresentando desenhos de traços mais limpos, diretos e simples. Obras de K.

113
LUSTOSA, Isabel. Imprensa e impressos brasileiros – do surgimento à modernidade. In: DENIS, Rafael
Cardoso (Org). Impresso no Brasil, 1808-1930: destaques da história gráfica no acervo da Biblioteca Nacional.
Rio de Janeiro: Verso Brasil, 2009, p. 32 a 34.
114
Idem, p. 35.
115
Idem, p. 37.
116
LUCA, Tania Regina. História dos, nos e por meio dos periódicos. In: PINSKY, Carla Bessanezi (Org).
Fontes históricas. – 2. ed., 2. reimpr. – São Paulo: Contexto, 2010, p. 136 e 137.
117
FONSECA, Joaquim da. Caricatura: a imagem gráfica do humor. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 1999, p.34.
59

Lixto, J. Carlos, Raul Pederneiras, bem como Belmonte e Voltolino conquistaram seus
espaços nos maiores veículos de comunicação impressa do Brasil118.
Convém outra vez afirmar que o humor já se fazia presente nos periódicos brasileiros
desde o século XIX e, mesmo ante as diferenças fundamentais das linhas editoriais de cada
jornal, reservava-se um espaço, ainda que diminuto, para alguma anedota ou nota satírica a
respeito de uma figura importante119. As ilustrações foram de fato, uma notável novidade120.
O historiador Luciano Magno ainda recorda que as caricaturas brasileiras iniciaram
nos periódicos quase que simultaneamente que as europeias, uma vez que, apesar de levar em
conta a importância incomparável de Araújo Porto-Alegre, pondera que os desenhos de João
Pedro, ‘O Mulato’ e de Manoel Paulo Quintela, ambas produzidas entre 1812 e 1822, são os
primeiros encaminhamentos para a formação da caricatura brasileira121.
É notável ainda, significativamente a partir do século XX, a transformação desses
periódicos em verdadeiros jornais-empresas, como assinalou a historiadora Tania Regina de
Luca. Vê-se o despertar de novas profissões, como os repórteres, fotógrafos, redatores,
revisores e também os desenhistas e chargistas, além, claro, dos operários ligados diretamente
às máquinas de impressão. Diante dessa formatação empresarial122 que torna-se cada vez mais
evidente, as ilustrações e charges foram um dos meios pelos quais a imprensa recorreu para
atrair mais leitores/compradores, onde os lucros, além de pagar os diversos funcionários,
poderia ser reinvestido em maquinário e outros materiais para impressão123.
Há dessa forma uma troca de influências quando se trata de periódicos: se de um lado
os jornais podem expressar e defender posturas políticas bastante definidas – fortemente
contrária ou declaradamente favorável a um regime ou governo – e, assim, sugestionar a
opinião do seu público leitor na linha que defende, deve-se considerar igualmente o inverso,

118
LUSTOSA, Isabel. op. cit., p. 39, 40 e 41.
119
LUSTOSA, Isabel. O texto e o traço: a imagem de nossos primeiros presidentes através do humor e da
caricatura. In: FERREIRA, Jorge; DELGADO, Lucilia de Almeida Neves (Orgs). O tempo do liberalismo
excludente: da Proclamação da República à Revolução de 1930. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.
(Coleção O Brasil Republicano, v. 1), p. 292.
120
O caráter ilustrativo ainda é bastante forte nas charges do período aqui estudado, entre esses desenhistas
mencionados, onde faz-se perceber um maior número de detalhes e perícias. A riqueza de minúcias que se
apresentam nas obras de Belmonte, J. Carlos e K. Lixto, por exemplo, esvai-se gradativamente nos desenhos de
cartunistas/chargistas como Ziraldo, Henfil, Laerte, Glauco, Angeli, e mais recentemente, de André Dahmer,
todos com traços mais soltos e por vezes até disformes, não tão preocupados com as particularidades e detalhes.
121
MAGNO, Luciano. História da caricatura brasileira: os precursores e a consolidação da caricatura no
Brasil. Rio de Janeiro: Gala Edições e Arte, 2012 (vol. 1) p.18, 19 e 20.
122 Foi entre os anos de 1960 e 1970, entretanto, que estas alcançam o formato de grandes empresas de
comunicação – grande imprensa –, com vendas diárias de milhões de exemplares e um acirramento nas
competições no âmbito do mercado jornalístico, como bem trata: MOTTA, Rodrigo Patto Sá. A Ditadura nas
representações verbais e visuais da grande imprensa: 1964-1969. Topoi. Revista de História, Rio de Janeiro, v.
14, n. 26, p.62-85, jan./jun. 2013, p 63.
123
LUCA, Tania Regina. op. cit., p. 138.
60

isto é, o retorno do leitor para o jornal, expressando sua admiração ou desgosto, opiniões e
comentários.
Entreposto no corpo complexo de um jornal, a charge é uma forma de comunicação.
Além disso, “sua função é temperar a monotonia e a severa objetividade do texto com a
permissividade de um discurso que diz o que o verbo não pode, não deve, não ousa expressar”
124
.
Nesse ponto, merece traçarmos enfim o que aqui compreende-se por charge e
caricatura, com vistas a tratar-se de um dos termos centrais do trabalho. Tanto na apreensão
do historiador Rodrigo Patto Sá Motta125, quanto na do artista e ilustrador Joaquim da
Fonseca126, o verbete caricatura emprega-se, por vezes, como expressão que abarca
caricaturas, charges e cartuns. Assumimos, entretanto, a terminologia que empregam os
historiadores Emerson César de Campos e Michele Bete Petry127: expressões gráficas de
humor, por entendermos que melhor se adequa para tais propostas artísticas, por aproximá-
las, mas também assinalar suas distinções, bem como para que não haja ambiguidades entre
‘caricatura’ na qualidade mais generalizante com ‘caricatura’ enquanto um desenho
específico128. Expressões gráficas de humor é, por tanto, um termo que concentra essas
diversas formas artísticas. Ao se trabalhar aqui com os desenhos de Belmonte, admite-se o
verbete charge, estando este incluído na designação expressão gráfica de humor.
Tais terminologias também variam conforme a época em que são produzidas tais
expressões gráficas: embora aqui classifiquemos o trabalho de Belmonte enquanto charges,
por exemplo, um dos álbuns aqui analisados, à época recebera o subtítulo “Caricaturas
políticas de Belmonte”129.
A palavra caricatura deriva do verbo italiano caricare, cuja ocorrência dá-se pela
primeira vez em 1646 em uma seleção de gravuras e que tem como significado ‘carregar’,
‘sobrecarregar’, ‘com exagero’. Tal forma artística pode ter sua origem marcada nos estudos
do grotesco desempenhados por Leonardo Da Vinci e Albrecht Dürer – separadamente –
dentro das concepções da Renascença que deslocou do sagrado para o profano e mundano

124
TEIXEIRA, Luiz Guilherme Sodré. Sentidos do humor, trapaças da razão: a charge. Rio de Janeiro:
Fundação Casa Rui Barbosa, 2005, p. 13.
125
MOTTA, Rodrigo Patto Sá. op. cit., p. 65.
126
FONSECA, Joaquim da. op. cit p. 17.
127
CAMPOS, Emerson César de; PETRY, Michele Bete. Histórias desenhadas: os usos das expressões gráficas
de humor como fontes para a História. Fronteiras: Revista Catarinense de História, Florianópolis, n. 17, p.117-
135, 2009, p. 120. Disponível em: <http://www.anpuh-sc.org.br/revfront.htm>. Acesso em: 1 out. 2014.
128
A língua portuguesa ainda permite um entendimento do termo ‘caricatura’ enquanto algo ridículo ou cômico
em modos e comportamentos, ou seja, aquilo que é caricatural.
129
BELMONTE (Benedito Bastos Barreto). Música, maestro! Caricaturas políticas de Belmonte publicadas na
“Folha da manhã” e “Folha da noite”. São Paulo: Empresa Folha da Manhã LTDA, 1940.
61

mundo dos homens seu centro de pensamento e atuação130. Diante disso, reforça-se ainda que
a própria natureza produz deformidades, ou seja, nossa forma física não está livre de falhas –
orelhas grandes, nariz torto, etc – e dessa forma os artistas do grotesco, bem como
caricaturistas de hoje, em certa medida apenas brincam com aspectos já presentes na
realidade131.
Ainda assim, tanto o historiador Luciano Magno132, quanto Fonseca133 parecem
inclinarem-se na possibilidade de considerar a arte chistosa dos grafites de Roma e Pompéia
enquanto uma origem remota das expressões gráficas de humor.
Dentre as expressões gráficas de humor, apontamos:
* a tira cômica e a história em quadrinhos – enquanto gêneros marcados por uma história
que desvela-se em uma sequencia de quadros com continuidade e sequência, apresentando ou
não legendas e diálogos, podendo ser um encadeamento breve – tirinhas –, ou mais extenso,
formando revistas ou livretos – histórias em quadrinhos.
* a caricatura – como exagero de traços e comportamentos pessoais, podendo ou não
apresentar diálogos. Usualmente tem-se a caricatura como atemporal, isto é, não prende-se a
um acontecimento específico.
* a charge – originado do francês charger (carregar, exagerar, atacar com força) é
vigorosamente marcada por satirizar e criticar momentos, acontecimentos e situações,
principalmente políticas e/ou de pessoas públicas. Sua marca, portanto, é ser temporal, pois
aborda um fato bem delineado134.
Tais classificações norteiam o presente trabalho, pois acredita-se que estas melhor se
adequam com nosso objeto de estudo. Entretanto, essas denominações podem variar conforme
a análise de cada historiador, assim como o aporte documental de cada pesquisa.
A partir do momento em que assumimos para este trabalho a nomenclatura de
expressões gráficas de humor e tendo já exposto o entendimento em relação à charge, cabe
avançar nesse outro aspecto que é o humor135, visto que é o humor o fundamento da narrativa
de uma charge136.

130
FONSECA, Joaquim da. op. cit., p. 17 e 18.
131
Ibidem, p. 50.
132
MAGNO, Luciano. op. cit., p.18.
133
FONSECA, Joaquim da. op. cit., p. 20 e 21.
134
Ibidem, p. 26 e 27.
135
É recorrente em tais estudos – e aqui o faremos também – o emprego dos termos humor, riso e risível como
correspondentes. As distinções e peculiaridades de cada um parecem ainda não estarem bem delineadas tendo
em vista a complexidade de tal reflexão, que aqui também não tomamos como objetivo.
136
TEIXEIRA, Luiz Guilherme Sodré. op. cit., p. 73.
62

O riso é um tema bastante complexo e cuja ‘origem’ pode remontar até as filosofias da
Antiguidade, significativamente os gregos onde parecia haver distinções que tratavam de um
bom e de um mau riso, embora isso não seja algo unidimensional, tal como sugere a
historiadora Verena Alberti137.
Entretanto, as obras produzidas no século XX posam como as principais e mais
utilizadas nos estudos que tratam de tal perspectiva. Uma das pesquisas desse período foi a do
sociólogo Henri Bergson, em 1899, que estava preocupado com a dimensão do riso em
sociedade, chegando a afirmar que “não há comicidade fora do que é propriamente
humano138” e portanto, intrinsecamente a tudo o que é humano139.
De acordo com Bergson o riso não pode ser uma ação de um indivíduo isolado, mas
sim, em grupo e com um significado para tal agrupamento, isto é, uma significação social
definida.140
Mais adiante ainda, o autor elenca o aspecto de uma zombaria social que esse riso
desempenha, afirmando que “tal deve ser a função do riso. O riso é verdadeiramente uma
141
espécie de trote social, sempre um tanto humilhante para quem é objeto dele ”. O que leva
Bergson a assegurar, dessa forma, que “[...]o riso não pode ser absolutamente
justo”142. Mais do que isso, “ele tem por função intimidar humilhando. Não conseguiria isso
se a natureza não houvesse deixado para esse efeito, nos melhores dentre os homens, um
pequeno saldo de maldade, ou pelo menos de malícia”143, o que faz-nos crer que esse
humilhar é um dos aspectos que existem para além do mero ato de rir.
Foi no século XX também que o psicanalista Sigmund Freud publicou obra em que
considera o fluxo psicológico do humor, inclinando-se mais no sentir prazeroso desse riso. Ele
interessa-se também sobre algumas técnicas dos gracejos de modo geral, ou chistes, como ele
os trata, e a forma como estes despertam o prazer e o riso.144

137
ALBERTI, Verena. O riso e o risível na história do pensamento. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora; FGV,
1999, p. 20.
138
BERGSON, Henri. O riso: ensaio sobre a significação do cômico. 2. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1983, p. 7.
139
O ‘monopólio’ humano sobre o riso como propõe Bergson torna-se cada vez mais fragilizado, se
considerarmos os estudos que vem se desenvolvendo no sentido de averiguar essa expressão na qualidade de
comunicação primitiva e presente em animais, singularmente, os primatas. Mais do que isso, esses estudos estão
tendendo a considerar o mesmo riso como demonstração de sentimentos nesses animais, conforme sintetizado no
documentário: A HISTÓRIA do riso. Direção de Jacques Mutsch. Paris: Arte France, 2011. (49 min.), color.
Disponível em: < http://www.youtube.com/watch?v=PRCqvzJKGRk >. Acesso em: 20 out. 2014.
140
BERGSON, Henri. op. cit p 8 e 9.
141
Ibidem, p. 65.
142
Ibidem, p. 93.
143
Idem.
144
FREUD, Sigmund. Os chistes e sua relação com o inconsciente. – Edição Standard Brasileira das Obras
Psicológicas Completas de Sigmund Freud – vol. 8. Rio de Janeiro: Imago, 1977, p. 15.
63

O riso em Freud é dotado ainda de um poder de convencimento, quer seja para


questões politicas ou mesmo ideológicas:

Ele ademais subornará o ouvinte com sua produção de prazer, fazendo com que ele
se alinhe conosco sem uma investigação mais detida, exatamente como em outras
freqüentes [sic] ocasiões fomos subornados por um chiste inocente que nos levou a
superestimar a substância de uma afirmação expressa chistosamente. Tal fato é
revelado à perfeição na expressão corrente ‘die Lacher auf seine Seite ziehen’ (trazer
os que riem para nosso lado)145

Vemos desse modo que o humor proveniente das charges de Belmonte age pelos
aspectos a partir das explanações embasadas em Bergson e Freud: ele (o riso) é um coletivo,
se considerarmos o grande número de pessoas que adquiriam os jornais que traziam essas
charges; Belmonte, de certa forma, não deixa de humilhar os líderes políticos que ele retrata
em seus desenhos ao coloca-los em situações ridículas, embaraçosas ou absurdas; com isso,
ele podia fazer o leitor do jornal concordar com seu ponto de vista a partir das charges, ou
seja, ‘trazer aquele que ri para seu lado’, denotando ainda o prazer que isso desperta, um
libertador das emoções reprimidas.

3.3 BELMONTE E AS CHARGES

146
“Uma grande perda para São Paulo – Morreu Belmonte” . Essa manchete
acompanhada de uma foto do chargista Benedito Bastos Barreto 147, conhecido como
Belmonte, estampou parte da primeira página da edição de 19 de abril de 1947 do jornal
Folha da Noite, da ‘Empresa Folha’, que, desde sua fundação em 1921, contou com diversas
charges do artista.
Com problemas de saúde já havia dias, a mesma edição do periódico noticiou seu
falecimento por dispneia, um desconforto para respirar e que pode ter diversas causas, sendo
que o próprio jornal não aprofundou-se nesta questão.
Mas o chargista não estava ligado apenas aos jornais da Folha. “Belmonte, o
desenhista da cidade, faleceu na madrugada de ontem”148 – foi com essa frase que a

145
Ibidem, p. 69.
146
Folha da Noite, Ano XXVI, nº 8.052, 19/04/1947. Consultado em < http://acervo.folha.com.br/ > Acesso: 08
out. 2014.
147
É de nosso conhecimento duas significativas obras a tratar da biografia deste chargista: Belmonte presente.
São Paulo: Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia – DACH – Comissão de Artes Plásticas – MASP, 1978 e
CARVALL (Org). Belmonte 100 anos. São Paulo: SENAC, 1996, que, entretanto, não se teve tempo hábil para
aquisição e leitura dos mesmos.
148
Jornal de Notícias, Ano II, nº 308, 20/04/1947. Reportagem inicia na contracapa e conclui-se na p. 4.
Consultado em < http://hemerotecadigital.bn.br/ > Acesso: 02 out. 2014.
64

contracapa do Jornal de Notícias, em sua edição de 20 de abril de 1947 foi para as ruas de
São Paulo e, com pesar, também informou os paulistanos da morte do chargista.
As homenagens da ‘Empresa Folha’ se seguiram ainda por meses naquele 1947: em 5
de maio a Folha da Noite publicou um desenho da personagem ‘Juca Pato’, criação de
Belmonte, segurando em uma das mãos seus óculos e com a outra tapando o rosto com um
lenço. Tratava-se de uma criação de um fã do desenhista, cujo texto, que acompanhava tal
figura e intitulado “Juca Pato chora a morte de seu criador”, dava a entender que muitas
dessas publicações de fãs e admiradores foram realizadas149.
Mas, se os textos acerca de Belmonte tinham maior espaço nos jornais da Empresa
Folha, que publicava seus trabalhos e, como era de se esperar, prestava as devidas honrarias,
os demais periódicos da cidade também não economizaram tributos à sua pessoa, fazendo-nos
concordar em grande medida com essa identificação feita pelos meios de comunicação
impressos entre o chargista e a capital paulista, tratando-se assim de um Belmonte ‘desenhista
da cidade’.
Tanto os jornais da ‘Empresa Folha’, quanto o Jornal de Notícias divulgaram uma
variedade de notas e reportagens nas semanas e mesmo meses seguintes ao falecimento de
Belmonte, reproduzindo o pesar, as homenagens dos parentes, amigos e das instituições que o
desenhista fazia parte ou mesmo havia colaborado em épocas anteriores.
Belmonte foi homenageado pela Associação Paulista de Imprensa, no Salão Paulista
de Belas Artes, em sua missa de 7º dia, com a fundação da Sociedade ‘Amigos de Belmonte’
e ainda com uma exposição de seus últimos trabalhos no Teatro Municipal de São Paulo.
Tantas homenagens foram oriundas dos diversos meios de comunicação que atuou
e/ou contribuiu, ainda que tenha vivido apenas pouco mais de 50 anos. Nascido em São Paulo
em 15 de maio de 1896, Benedito Bastos Barreto era filho de João Caneros de Bastos Barreto
e de Rita do Espírito Santo Barreto. Suas primeiras obras foram para a revista Rio Branco, de
São Paulo e para a carioca D. Quixote. Além de colaborar para as ‘Folhas’, como já
mencionado, teve charges em A Gazeta, e tantos outros jornais de menor circulação, livros
informativos e infantis, incluindo-se aí algumas obras de Monteiro Lobato150.
Além de caricaturista, ilustrador, pintor, desenhista e escritor, o mesmo Jornal de
Notícias de 20 de abril ressaltou a obra No tempo dos bandeirantes enquanto “repositorio [sic]
de cronicas [sic] e ensaios sobre a vida, os costumes, a história politica de São Paulo na epoca

149
Folha da Noite, Ano XXVI, nº 8.064, 05/05/1947, sem página. Consultado em < http://acervo.folha.com.br/
> Acesso: 08 out. 2014.
150
Extraído de Enciclopédia Itaú Cultural, disponível em <
http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa10131/Belmonte > Acesso: 30 set. 2014.
65

[sic] colonial, que lhe valeu o ingresso no Instituto Historico [sic] e Geografico [sic] de São
Paulo e no Instituto Heraldico [sic] Genealogico [sic] Brasileiro”151, definindo Belmonte
como historiador e pesquisador.
Seguramente, a maior parte das obras de Belmonte foi publicada nos jornais Folha da
Noite e Folha da Manhã quase diariamente, além de textos e crônicas também de sua autoria.
Tanto suas caricaturas, quanto seus trabalhos textuais foram diversas vezes reunidos em
álbuns de charges e livros.
Dentre seus vários trabalhos, uma de suas criações tornou-se especialmente conhecida:
a personagem chamada Juca Pato152. Seja figurando uma charge, atuando como protagonista,
ou ao fundo de uma cena, comentando o que se desenrola na figura, Juca Pato ganhou fama
criticando, entre tantos aspectos, a exploração e os abusos governamentais sobre as classes
baixas e médias, conquistando e cativando ainda, as camadas intermediárias153. Um homem
com profunda identificação com a população que contribuiu intensamente também para a
construção de um carisma dos leitores para com seu autor.
É permissível notar nas charges de Belmonte referências ao cotidiano – para
empregarmos um termo comum à História Cultural – e elementos da realidade brasileira e da
cidade de São Paulo que já mostrava sinais de sua posição cosmopolita154.
Seu trabalho claramente é indissociável das questões políticas. Nesse sentido, traçar o
que poderíamos denominar de perfil político do chargista tem requerido cautela e definições
vagas. Originário de uma família de classe média abastada mostrava-se favorável a ideias de
autonomia estadual, liberalismo e democracia, embora nunca possa ser considerado um liberal
de modo concreto. Também se identificava, em partes, com certa ideia de nacionalismo, e
opunha-se veementemente às imitações de valores europeus, além de ser crítico das ideias de
autoritarismo, que pipocavam em diversas partes do mundo à sua época. Na política, engajou-
se no Partido Democrático (PD), poucos anos depois de sua fundação, contribuindo não só no
segmento de comunicação e imprensa do partido, como também desenhando os cartazes e
propagandas de campanha155. Sua postura crítica aos segmentos mais elitizados intensifica-se

151
Jornal de Notícias, Ano II, nº 308, 20/04/1947. Reportagem inicia na contracapa e conclui-se na p. 4.
Consultado em < http://hemerotecadigital.bn.br/ > Acesso: 02 out. 2014.
152
A importância e o reconhecimento de Belmonte para a cultura brasileira, além de suas charges, crônicas e
livros, pode ser evidenciado ainda pelo uso do nome de uma de suas personagens para um prêmio: o Prêmio Juca
Pato de Literatura Brasileira.
153
SCOVENNA, Sandra Maret. Um combatente do lápis em vigília: as crônicas de Belmonte contra o
autoritarismo. Projeto História, São Paulo, n. 35, p. 357-366, dez. 2007, p. 3.
154
SALIBA, Elias Thomé. op. cit., p. 154.
155
SCOVENNA, Sandra Maret. Nas linhas e entrelinhas do riso: as crônicas humorísticas de Belmonte (1932-
1935). 2009. 234 f. Dissertação (Mestrado) - Curso de História Social, Departamento de Faculdade de Filosofia,
Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2009, p. 37.
66

ainda por Belmonte ser acentuadamente moreno e cabelos encaracolados, sendo ele
provavelmente mestiço, e assim, um indivíduo que gerava certo incômodo na classe média
abastada e alta, com as quais provavelmente tinha relações, visto suas origens156.
Na vastidão do mundo das ilustrações e das caricaturas nesse período da república
brasileira, os chargistas paulistas sempre foram um pouco menos reconhecidos que os
cariocas157, próximos aos acontecimentos políticos decisivos que desvelavam-se na capital do
país, Rio de Janeiro, e portanto, mais consagrados no meio. Ainda assim, em paridade na arte
de criticar e fazer refletir por meio do traço humorístico.
Artisticamente, Belmonte criticava as práticas artísticas dos modernistas (por ele
erroneamente denominado ‘futuristas’ em certas ocasiões), como Tarsila do Amaral,
apontando que as obras de tal grupo eram como de crianças e que os mesmos não levavam em
consideração as harmonias do desenho como defendia o segmento de artistas ligados a uma
escola mais clássica, incluindo aí, o próprio Belmonte, sendo conhecedor ainda das diferentes
técnicas e linguagens do mundo da arte158.
Ante esta gama de produções, forçamo-nos um recorte em relação às fontes
propriamente, temporal e temático. Assim sendo, tomaremos dois álbuns de charges,
especialmente compostos e distribuídos aos assinantes dos periódicos de ‘Folha’; são eles:
“No reino da confusão: o drama da politica internacional vista dos bastidores” e “Música,
maestro! Caricaturas políticas de Belmonte publicadas na ‘Folha da manhã’ e ‘Folha da
noite’”159, ambos sem qualquer paginação ou texto explicativo ao longo dos dois volumes.
Especificamente sobre a Segunda Grande Guerra, os líderes políticos de diversos países
transformam-se, pelas mãos e pelo lápis de Belmonte, personagens caricatos, em situações
caricatas, tragicômicas, como veremos pouco mais adiante.
Há, entretanto, uma exceção em “No reino da confusão”, que expõe um texto de
abertura bastante interessante:

A ‘EMPRESA FOLHA DA MANHÃ LTDA’, deante [sic] do exito [sic] alcançado


pelas ‘charges’ de BELMONTE na ‘Folha da Manhã’ e na ‘Folha da Noite’, exito
[sic] registrado não sómente [sic] em São Paulo e no Brasil, mas mesmo no
estrangeiro onde innumeros [sic] destes desenhos foram reproduzidos em jornaes
[sic] e revistas, resolveu editar este Album [sic] e offerecel-o [sic] como um brinde
aos seus assignantes [sic]. Assim fazendo, está certa de que vae [sic] ao encontro dos

156
Ibidem, p. 41.
157
SALIBA, Elias Thomé. op. cit., p. 156
158
Ibidem, p. 35 e 36.
159
BELMONTE (Benedito Bastos Barreto). No reino da confusão: o drama da politica internacional vista dos
bastidores. São Paulo: Empresa Folha da Manhã LTDA, 1939; _____________. Música, maestro! Caricaturas
políticas de Belmonte publicadas na “Folha da manhã” e “Folha da noite”. São Paulo: Empresa Folha da Manhã
LTDA, 1940. Ambos consultados junto ao Arquivo Histórico ‘Prof. José Ferreira da Silva’ – Blumenau/SC.
67

desejos dos seus leitores e dos admiradores do nosso prezado companheiro cujas
‘charges’, reunidas desta forma, constituirão uma especie [sic] de historia [sic]
humoristica [sic] de acontecimento que, se ás vezes nos commovem [sic] pelo que
nellas [sic] ha [sic] de dramatico [sic], muitas vezes nos surpreendem pelo que ha
[sic] de absurdo. É nestes momentos, então, que o Historiador, estarrecido, tem que
dar a palavra ao Humorista160.

Tal apresentação de Belmonte e seu trabalho, configura e expõe uma ideia – ufanista –
de que, perante a magnitude tanto dos acontecimentos mundiais da guerra, bem como a forma
pela qual o chargista os entendia e interpretava, destronava qualquer função de um historiador
naquele momento e, por conseguinte, ‘dar a palavra ao Humorista’161. Notavelmente, na
ocasião de sua morte, os periódicos elucidariam a vocação de historiador do cartunista
paulistano, como visto há pouco. Em relação aos álbuns ainda, não é de nosso conhecimento
como se deu a escolha de quais charges constariam em tais livretos especiais, sua ordem de
organização interna, ou mesmo se o autor participou ativamente de tal atividade de seleção.
A esse respeito, o historiador Vinicius Aurélio Liebel162 elenca dois apontamentos
fundamentais, onde o primeiro salienta o contexto, pois, para compreensão, aquele que vê/lê
tal expressão gráfica de humor ou está inserido no mesmo contexto em que a mesma fora
produzida ou deve deter conhecimentos acerta de tal trama. E o segundo reforça a importância
da linha editorial do meio de comunicação onde a charge é veiculada (meio em que é
produzida), bem como, do público receptor (a quem se dirige). Entendemos que, para o caso
aqui estudado, trata-se possivelmente de um público já bastante habituado aos trabalhos e
críticas de Belmonte nos periódicos, considerando que tais álbuns foram distribuídos aos
assinantes dos mesmos.
Juntos, esses dois trabalhos contabilizam mais de duzentas charges e o escopo em
analisá-las tornar-se-ia impraticável. Diante disso, traçamos nova delimitação em duas
vertentes: 1) a morte e 2) o expansionismo territorial e militar. Dentro deste segundo, ainda o
subdividimos: 2A – na relação da Alemanha – representada pela figura de Adolf Hitler – com
a Inglaterra – transfigurada pelo primeiro-ministro britânico Neville Chamberlain e 2B – na
relação da Alemanha – com a mesma representação do Führer – para com a União Soviética
– simbolizado nas charges por seu líder Joseph Stalin, perfazendo assim oito imagens para
estudo. No mais, versaremos primeiro acerca da interação entre as personagens Hitler x

160
BELMONTE (Benedito Bastos Barreto). No reino da confusão, op. cit. s.p.
161
Idem.
162
LIEBEL, Vinícius Aurélio. Humor, propaganda e persuasão: as charges e seu lugar na propaganda Nazista.
2006. 160 p. Dissertação – Departamento de Pós Graduação em História da Universidade Federal do Paraná
(UFPR). Curitiba, 2006, p. 47.
68

Chamberlain, em seguida Hitler x Stalin e finalmente, as charges que trazem a figura da


morte, por crermos ser a morte o fim último de qualquer guerra.
Tal intento foi estruturado por entendermos, primeiro, no que se refere à figura da
morte, ser este algo comum/próprio de grandes conflitos bélicos, e segundo, por uma
concepção previa das charges que traziam a representação de Chamberlain tratarem-no como
figura pouco expressiva ante o poder de Hitler e de Stalin como alguém em ‘pé de igualdade’
com o líder alemão.
Temporalmente, essa pesquisa circunscreve-se entre os anos de 1938 e 1940, sendo
1938 a data de ocorrência das primeiras charges do álbum No reino da confusão e a data final,
1940, que delimita as obras presentes em Música, maestro!.
O primeiro conjunto de charges analisadas aqui compõe-se basicamente das
personagens de Adolf Hitler, Führer do III Reich e do primeiro-ministro britânico Neville
Chamberlain163. Todas essas três primeiras imagens integram o mesmo álbum de charges, No
reino da confusão, e possuem diversas semelhanças entre elas que nos permitem analisá-las
em conjunto.

3.4 HITLER E CHAMBERLAIN

Entende-se as figuras a seguir imersas no contexto de expansão territorial por parte da


Alemanha no ano de 1938 – ano também de publicação destas três primeiras imagens –
visando unir em uma mesma nação toda população alemã e que, além da anexação pacífica da
Áustria, tomou os territórios dos Sudetos, na Tchecoslováquia, depois do acordo firmado
entre Alemanha, Itália, França e Inglaterra, na Conferência de Munique. Apesar da atitude de
Hitler em relação a tal expansão ser mais famigerada, destaca-se ainda que, tanto Polônia
quanto Hungria, tiveram aumento de seus territórios por meio das prerrogativas do mesmo
tratado164.
Na primeira imagem, em relação ao cenário, é passível notar uma grande mesa e sobre
ela alguns objetos: há um mapa da Tchecoslováquia e alguns outros papéis, o livro de autoria
163
Nascido em 18/03/1869, Arthur Neville Chamberlain pertencia a uma família com tradição política. Foi
prefeito, vereador e eleito deputado em 1918, além de Ministro da Saúde posteriormente. Em 1937 foi escolhido
para o cargo de Primeiro-Ministro, tornando-se conhecido por sua política de ‘apaziguamento’ diante dos
conflitos da Europa, de curta duração. Já em 1939 foi uma dos responsáveis em assinar a declaração de guerra
contra a Alemanha, depois de uma serie de evento. Renunciou ao cargo de Primeiro-Ministro, sendo substituído
então por Winston Churchill. Adoeceu e faleceu logo em seguida, de câncer, em 09/11/1940. Dados retirados da
galeria Past Prime Ministers do sítio virtual do United Kingdom Government (www.gov.uk): <
https://www.gov.uk/government/history/past-prime-ministers/neville-chamberlain > Acessado em: 15 out. 2014.
164
GONÇALVES, Williams da Silva. op. cit, p. 171.
69

de Hitler, Mein Kampf e ainda sobre o mesmo uma espécie de projétil de arma de fogo de
médio porte.

Figura 1 – A. Hitler – “Se os checos não me entregarem estes territorios, se não permittirem o plebiscito
nos outros, se não me entregarem intactas as fabricas, usinas, fortificações, viveres, etc… será a guerra! Mas
o sr. póde estar certo de que o meu maior desejo é a paz…”
Folha da Noite 29/09/1938. Do álbum: No reino da confusão (1939).

A personagem Adolf Hitler então declara, com ar de autoridade, ou mesmo repassando


uma ordem a um de seus subordinados: “Se os checos não entregarem estes territorios, se não
permittirem o plebiscito nos outros, se não entregarem intactas as fabricas, usinas,
fortificações, viveres, etc... será a guerra! Mas o sr. póde estar certo de que meu maior desejo
é a paz...” Percebe-se nessa fala uma forte ironia advinda de certa contradição, que,
primeiramente, elenca diversas ordens e exigências, assegurando que haveria guerra caso tais
pedidos não fossem atendidos, mas que, logo em seguida era desfeita por uma sentença
reiterando um desejo de paz.
No que concerne às personagens, Hitler veste um traje militar, adornado por uma
braçadeira com o símbolo da suástica e uma cruz de ferro, condecoração militar alemã; o
vemos ainda com um dos dedos da mão, em riste, indicar algum ponto do mapa enquanto a
70

outra repousa na cintura. Sua expressão facial tem a boca aberta, denotando estar falando ao
mesmo tempo em que mantém os olhos fechados. Já a figura de Neville Chamberlain traja um
elegante terno e luvas; seus braços estão baixados e sobrepostos na altura da cintura. Seu
rosto, apesar da seriedade com que fixa o olhar na figura de Hitler, ao mesmo tempo passa um
ar de vazio, de tranquilidade ou ainda de ingenuidade.
Ao analisarmos o conjunto imagens mais falas, entendemos a figura de Hitler
transmitindo autoridade, considerando sua postura corporal e sua fala. O primeiro-ministro
britânico, em contrapartida, parece estar ali quase como um mordomo (considerando as
luvas), com a postura recolhida em si mesmo e sem trocar qualquer comunicação verbal com
a outra personagem da cena, como se estivesse ali para servir, aceitar a ordem que lhe é
transmitida. O autoritarismo da figura do Führer ainda pode ser ressaltado se nos atentarmos
que este ocupa a maior parte do quadro, e seu braço pousado na cintura encontra-se levemente
na frente do tronco do corpo de Chamberlain. Entende-se ainda tal arranjo das personagens
como uma crítica do chargista à própria condução da política internacional entre Alemanha e
Inglaterra, onde o ‘mordomo’ primeiro-ministro de Belmonte encontra o primeiro-ministro
passivo e apaziguador que cedeu às vontades de Hitler em relação a sua expansão territorial,
como já visto anteriormente165.
O projétil e o livro denotam ainda o militarismo pelo qual a Alemanha passou durante
o governo de Hitler e o cunho fortemente marcado pela ideologia nacional-socialista166, que
na charge estão na parte mais inferior, porém muito próximos do desenvolvimento do diálogo
dos dois líderes (para não dizermos um monólogo de Hitler). A ironia ainda é complementada
pela fala onde, apesar da presença latente de um projétil sobre a mesa, o ditador alemão
reafirma que seu “maior desejo é a paz.”. Tal noção ainda pode ser acrescida pela importância
do expansionismo territorial, figurado pelos mapas por sobre a mesa.
A segunda figura dá-se em um cenário relativamente parecido com o primeiro caso
elencado, onde novamente temos um diálogo entre a personagem Hitler e a personagem
Chamberlain. No cenário, há novamente um mapa, dessa vez marcando os contornos do
continente africano e parte da Europa.

165
Conforme exposto no primeiro capítulo deste trabalho, p. 6 e 7.
166
Conforme assinalamos no segundo capítulo deste trabalho, p. 17.
71

Figura 2 – A. Hitler – “V. Excia. sabe que ainda existem minorias allemãs em outros territorios
estrangeiros. Futuramente, pois, vou dar-lhe varias opportunidades para V. Excia. cobrir-se de Gloria
salvando a paz na Europa”
15/10/1938. Do álbum: No reino da confusão (1939).

Aqui apresenta-se o ditador alemão novamente trajado militarmente. Sua expressão


facial é séria, marcada pelos olhos cerrados e visão voltada para além da cena, no horizonte.
Uma das mãos repousa no cinto, ao passo que a outra, novamente com o dedo em riste,
complementa sua postura séria e também de ordem. Dessa vez, no entanto, sua boca está
cerrada e o chargista parece ter investido mais em sua postura autoritária. Bem mais ao fundo,
sentado, vemos o primeiro-ministro britânico. Igualmente trajado de forma impecável, seus
braços e pernas estão cruzados dessa vez e seu olhar volta-se para Hitler, a sua frente.
Diferentemente do caso anterior, entretanto, Chamberlain denota assumir mais uma postura de
seriedade, sentado, do que de subserviência (Figura 1).
72

Tal charge chama atenção em dois aspectos: o primeiro deles diz respeito ao dedo
erguido da personagem Hitler que, se em parte complemente sua postura autoritária na cena,
na visão do leitor, está na frente do mapa, que, de nosso entendimento pode sugerir aquilo que
o ditador deseja ter; seu dedo indica aquilo que quer, novamente atuando como uma
lembrança de Belmonte ao público das expansões territoriais lideradas pela Alemanha no
período; a personagem de Hitler ainda recorda que “ainda existem minorias allemãs em
outros territórios estrangeiros” e que, portanto deseja englobá-las ao Reich que administra e
lidera.
Apesar da seriedade tanto da expressão facial quanto da fala de Hitler, chama atenção
o caráter sádico pensado pelo chargista e exposto por meio da figura do Führer, quando este
fala que concederá ao primeiro-ministro “opportunidades para V. Excia. cobrir-se de Gloria
salvando a paz na Europa” em uma possível referência a frase pronunciada de fato pelo
primeiro-ministro Chamberlain em setembro de 1938, após retornar de uma viagem a
Alemanha em que assinara o Pacto de Munique – que concedeu à Alemanha a oportunidade
de anexar alguns territórios e fora tomado como uma medida de concessão afim de que se
evitasse o conflito armado – e que, para seus compatriotas, exclamara que haveria “paz para
167
nosso tempo” . O segundo ponto acena a distância entre as duas personagens, que, ante a
perspectiva artística da obra, mostra Hitler bem mais a frente que Chamberlain, de modo que
inferimos de tal representação um líder alemão mais a frente do britânico no intento de
alcançar seus objetivos. Circunscrita ainda nesse aspecto da perspectiva do desenho, vemos
outra vez Hitler a ocupar a maior parte do quadro.
Na terceira charge deste primeiro conjunto analisado, identifica-se uma vez mais os
dois protagonistas em diálogo. A personagem de Hitler, dessa vez desenhada de corpo inteiro,
está trajando novamente uniforme militar e encontra-se ao lado de uma pequena mesa ou
escrivaninha, onde apoia uma das mãos, enquanto a outra está na cintura. Sua postura de
modo geral é ereta, segura de si e voltada para frente, deixando a mostra por inteiro para quem
visualiza. Chamberlain, em contrapartida, está de lado e voltado totalmente para Hitler. Sua
postura é recurvada, as mãos juntas ante o peito e o olhar fixo em seu interlocutor.
De um lado, delineia-se também Hitler com uma expressão facial bastante alegre,
fortemente caracterizado por um sorriso aberto e irônico. Já o primeiro-ministro tem o olhar e
as sobrancelhas caídos, num ar que mistura tristeza e confusão. Ele novamente passa a ideia
de servidão para com a outra personagem da cena, ao considerarmos o conjunto de aspectos

167
Conforme contextualizado em GONÇALVES, Williams da Silva. op. cit., p. 171.
73

que o chargista retratou para tal: corpo recurvado, quase prostrado; mãos recolhidas,
segurando uma na outra; e sobrancelhas recaídas.
No que tange ao cenário, há ao fundo, logo atrás da figura de Chamberlain um mapa
com os contornos do continente africano e algumas marcações. Notamos também um tipo de
poltrona (sofá), além da escrivaninha já mencionada, que, por sua fez, suporta dois projeteis
de armamento pesado, em outra alusão ao teor bélico das propostas e políticas de Hitler,
segundo interpreta Belmonte. A mão de Hitler apoiado na mesa aqui entende-se como o lado
militar de sua ideologia servindo de base (de apoio) para sua tomada de decisões.

Figura 3 – LEGENDA: E AGORA? ‘Estejam sob que mãos estiverem, a Allemanha tem direito a
todas as suas antigas colonias.’ (Do orgão do Partido Nazista)"
N. Chamberlain – ‘Mas… e o nosso tratado de amizade?...’
A. Hitler – ‘Continúa de pé! ‘Amigos, amigos, negócios à parte…’
Folha da Noite 13/12/1938. Do álbum: No reino da confusão (1939).

Sobre a charge, há pontos que a diferencia significativamente das anteriormente


analisadas: ambas as personagens encontram-se do mesmo tamanho, isto é, não vemos uma
delas retratada de forma maior ou a ocupar mais o quadro. Outro diferencial utilizado pelo
chargista trata das falas: Belmonte usa de dois recursos para a dimensão escrita de sua figura,
a saber, a legenda e os ‘balões’ de falas. Na legenda, lê-se “E AGORA? ‘Estejam sob que
74

mãos estiverem, a Allemanha tem direito a todas as suas antigas colonias.’ (Do órgão do
Partido Nazista)”, dando a entender tratar-se de um comunicado oficial. O outro aspecto –
‘balões’ com as falas – entendemos enquanto comentários acerca daquilo que está na legenda,
onde Chamberlain indaga, confuso: “Mas... e o nosso tratado de amizade?...”, ao que Hitler
replica: “Continúa de pé! ‘Amigos, amigos, negocios à parte’...”; fala esta que completa a
atmosfera irônica de toda a postura do ditador, conforme já assinalado.
Nas três charges ainda inferimos uma dominação geral da cena por parte da figura de
Hitler e uma submissão ante uma personagem predominante por parte do ministro
Chamberlain. Inferimos daí uma crítica de Belmonte às conquistas e avanços do governo
nacional-socialista de um lado, e engessamento do poder britânico, de outro.

3.5 HITLER E STALIN

Se tais charges transmitem uma generosa dose de servilismo do primeiro-ministro


Chamberlain para com Hitler, assiste-se um movimento completamente diferente ao nos
debruçarmos sobre as charges que retratam as relações desta última personagem com o líder
da URSS, Joseph Stalin, que abordaremos a seguir.
75

Figura 4 – LEGENDA: A HORA DO BANQUETE


J. Stalin – “Eu vou comer estes coelhinhos mas não dispenso a metade daquelle outro…’
Folha da Noite 16/09/1939. Do álbum: No reino da confusão (1939).

Há aqui três personagens: o primeiro-ministro britânico Neville Chamberlain, Adolf


Hitler, Führer da Alemanha nazistas e Joseph Stalin, líder da União Soviética em uma
paisagem campesina ou rural. Chamberlain encontra-se mais ao fundo da cena, enquanto
Stalin e Hitler figuram num plano mais a frente, de fronte um para o outro. Registra-se ainda
sete coelhos, sendo que um deles aparenta estar morto, pouco atrás da personagem do ditador
alemão e os outros 6 encurralados entre este último e Stalin. Os animais possuem nomes de
países, recurso utilizado pelo chargista para identificá-los e representá-los, de modo que, o
coelho desfalecido é Polônia e os outros seis são Ucrânia e Finlândia, sentados sob duas patas,
Estônia, Letônia, Lituânia e Bessarábia, deitados.
Sob a legenda de “A hora do banquete”, as ações principais ocorrem no primeiro
plano, entre os dois ditadores. Ali, Hitler coloca-se com expressão facial em claro sinal de
desagrado, com ambos os braços na cintura e estático. Ele veste seu habitual traje militar,
decorado com a condecoração cruz de ferro no peito e uma braçadeira de águia com uma
suástica diminuta, além de um guarda-chuva. O uso deste último objeto nos desenhos foi
76

[...] uma das alegorias mais utilizadas por ele [Belmonte] neste período: a do guarda-
chuva de Chamberlain. Tal alegoria trazia implícita a idéia [sic] da fuga da luta, ou
seja, sempre que um personagem surgia em cena segurando um guarda-chuva, a
verdadeira mensagem era de que ele estava buscando, de qualquer forma, escapar da
guerra168.

Deduz-se disso uma referência ao primeiro-ministro britânico e sua política de evitar a


guerra, mas que, nas obras de Belmonte, serão utilizadas por diversas personagens quando
estes estiverem diante de uma situação que precisa ser solucionada, mas que se deva evitar o
confronto direto. Numa alusão à Londres e seu conhecido clima chuvoso, o guarda-chuva de
Chamberlain é um objeto incômodo, que prende e emperra as relações das personagens.
O olhar do Führer fita seu interlocutor à frente, Joseph Stalin, trajado com sobretudo
que carrega o símbolo do comunismo, que firma sua posição, tendo uma das mãos no bolso da
vestimenta enquanto a outra segura uma arma oculta nas costas, visto que entendemos
enquanto camuflagem porque a referida personagem encontra-se frente a frente com Hitler e
portanto o último não pode ver tal objeto. Com expressão faceira, o líder soviético exclama
“Eu vou comer estes coelhinhos mas não dispenso a metade daquele outro…”
A ânsia de Hitler é apaziguada pela presença do guarda-chuva, fazendo-o ceder ante o
pedido de metade do coelho abatido, uma menção de Belmonte ao Pacto Molotov-Ribbentrop.
Assinado entre a URSS e a Alemanha pouco antes do início do conflito, o documento previa a
divisão dos territórios da Polônia em zonas demarcadas de influência entre os dois países,
além de Letônia, Estônia, Lituânia e Bessarábia ficaram a cargo dos soviéticos169.
Bem ao fundo, vemos se aproximar a figura do ministro Chamberlain, montado em um
burrico, com a bengala erguida em sinal de protesto. Seus protestos, entretanto, caem em
ouvidos surdos de Stalin e Hitler: os dois farão a partilha dos coelhos conforme acertado
anteriormente, alheios ao bradar intenso do inglês. Tal situação vincula-se ao já que expomos
acerca da postura de Chamberlain embasado nas charges anteriores: o primeiro-ministro é
estático, pois monta um animal comumente reconhecido por empacar, o burro; além disso,
não é tão veloz e ágil quanto um cavalo. O Chamberlain dos traços Belmonte está sempre
‘atrasado’ quando o assunto é a política e as relações externas. Levemos em conta ainda uma
das características das charges de Belmonte, que consistia em utilizar expressões familiares,
gestos, formas e cores fortemente ligadas à realidade brasileira, trazendo para próximo do

168
LIEBEL, Vinícius Aurélio. Guerra e humor: a formação da opinião pública pela mídia no período da
Segunda Grande Guerra – o caso das charges – 2004. 103 p. Monografia – Departamento de História da
Universidade Federal do Paraná (UFPR). Curitiba, 2004, p. 32.
169
GONÇALVES, Williams da Silva. op. cit., p. 172.
77

leitor os acontecimentos da guerra na Europa170, nesse caso, expresso no animal com o qual
Chamberlain locomove-se: um burrico.
Deve-se mencionar ainda a ‘desconfiança’ do chargista em relação ao líder soviético, e
dos líderes de massas de modo geral, conforme tratou Liebel, que atenta para o fato de que
tais personalidades carismáticas não podiam figuravam entre as mais dignas de confiança da
parte de Belmonte, incluindo-se aí, quem sabe, até mesmo o presidente Getúlio Vargas171.
Stalin é uma personalidade que Belmonte pouco conhece e nada sabe o que esperar, ou o que
pode vir dele. Não obstante, o retrata com uma das mãos no bolso da vestimenta – não é
possível saber se está apenas com a mão repousada, ou se carrega algo ali – e a outra, portanto
uma arma de fogo e escondendo-a nas costas e da visão de Hitler.
Vê-se novamente a utilização deste recurso, que consiste em dispor as personagens de
uma cena frente a frente, na charge reproduzida na Figura 5. Para esta cena percebe-se outro
recurso verificável em diversas charges de Belmonte: o chão está como um mapa sob os pés
das personagens, permitindo-se que se visualize o nome de alguns países, como Ucrânia,
Polônia, Hungria e Romênia. Há ainda torres de extração de petróleo, uma espécie de represa
e algumas outras edificações, em uma possível alusão à industrialização e o interesse em
recursos.

170
QUELUZ, Marilda Lopes Pinheiro. Humor e guerra nas charges de Belmonte e J. Carlos. In: Anais ANPUH
– XXIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA, 2005, Londrina, p. 3.
171
LIEBEL, Vinícius Aurélio. op. cit., p. 34.
78

Figura 5 – LEGENDA: E AGORA?


“O nosso problema não sera resolvido com a acquisição de colonias longinquas, mas terras na Europa. E, quando
falamos de territorios na Europa, precisamos pensar logo na Russia e nas terras que lhe estão subordinadas” A.
Hitler – ‘Mein Kampf’
J. Stalin – ‘Muito bom este trecho! Mas a questão é que eu cheguei antes…’
Sem data. Do álbum: No reino da confusão (1939).

As duas personagens vestem-se da mesma forma que na obra anterior, mas nesse caso
suas posturas corporais diferem-se significativamente. No lugar de um Hitler encabulado e de
um Stalin recurvado e misterioso, tem-se dois líderes firmes e decididos em suas posições
(Figura 5). De um lado o ditador nazista tem a seus pés os territórios da Polônia já ocupada e
dividida entre Alemanha e URSS levando-se em consideração as duas pequenas bandeiras
fincadas naquela localidade. O Führer, de postura ereta e olhar no horizonte a frente, porta
ainda uma bandeira maior que seu próprio corpo assinalada por uma cruz suástica, no centro,
e uma águia na lateral; encimando a bandeira podemos ler Drang nach Osten172, numa
razoável menção ao expansionismo que ainda poderia ocorrer em direção ao leste do
continente europeu. O sentido de ‘marcha’ aqui atribuído ainda incorpora uma orientação
militar de tal ação, cuja jornada para o leste visa a tomada e conquista de territórios para o
grande Reich. Erudito que era, e considerando suas origens mais abastadas, Belmonte

172
“Marcha para Leste”. Tradução livre do autor.
79

conhecia latim, grego e alemão, e também francês173, e nesse sentido, parece não ter sido um
problema para ele utilizar frases em alemão nas charges, ou mesmo a leitura de Mein Kampf.
É justamente nesse ponto que voltamos nossa atenção de análise para a figura de
Stalin, precisamente o político mais poderoso deste leste sobre o qual Hitler almeja marchar.
Posicionado com as pernas afastadas uma da outra, numa explícita postura de quem está
firmado em determinado lugar e não espera ceder, ele porta ainda um tipo de cajado, pouco
visível ao observador, e na outra mão um livro, especificamente Mein Kampf, obra de autoria
de Hitler, como já acenado anteriormente. Belmonte então transcreve para o leitor a passagem
do referido livro que prende tanto a atenção do ditador soviético: “O nosso problema não sera
resolvido com a acquisição de colonias longínquas, mas terras na Europa. E, quando falamos
de territorios na Europa, precisamos pensar logo na Russia e nas terras que lhe estão
subordinadas”. Disso, depreende-se ainda a indissociável relação entre a maneira como Stalin
porta-se – pernas bastante afastadas, ‘marcando’ território – com a passagem de sua leitura
que atesta a necessidade de dominar a Rússia, bem como as ‘terras que lhe estão
subordinadas’, i.e., sob as botas de Stalin.
A personagem de Stalin ainda tece um comentário que visa ironizar e informar o autor
da passagem que acabara de ler e está na sua frente: “Muito bom este trecho! Mas a questão é
que eu cheguei antes…”, que, além de ser uma frase em que Stalin firma sua posição
intransigente, denota ainda disposição para lutar com a finalidade de defender tais territórios.
Entende-se, desse segundo conjunto de charges uma relação das personagens Hitler e
Stalin bastante dispare, quando comparada com os arrolamentos da primeira personagem com
o britânico Chamberlain: se o primeiro-ministro inglês parecia mais um dos funcionários de
Hitler, disposto a atuar conforme suas ordens e autoridades, o ditador Stalin é precisamente
seu oposto, visto que tem sua postura fortemente definida, estando à altura do Führer em suas
ações, sendo inclusive um rival de iguais ou maiores potencialidades que o alemão, muito
embora o cenário belicoso entre os dois líderes seja ainda ameno.
Os componentes de um cenário de guerra, de militarismo e expansão territorial
figuram, portanto, nestas charges de Belmonte conforme visto até agora: personagens
portando armas, projéteis ‘adorando’ os ambientes de diálogo dos protagonistas, falas e
posturas corporais bélicas e autoritárias.

173
Sobre a formação e grau de instrução do chargista, ver SCOVENNA, Sandra Maret. Nas linhas e entrelinhas
do riso: as crônicas humorísticas de Belmonte (1932-1935). 2009. 234 f. Dissertação (Mestrado) - Curso de
História Social, Departamento de Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São
Paulo, São Paulo, 2009, p. 40 e 41.
80

A morte é apenas uma das consequências de todas essas ações tão violentas, ainda que
de longe a mais cruel delas. Mistério da existência e artefato de investigação das mais
diversas áreas do saber humano, a morte foi desenhada por Belmonte sem rodeios, já nas
primeiras semanas do conflito. É nessa direção que parte-se para o terceiro e último conjunto
de charges aqui analisadas.

3.6 A MORTE DOMINA A CENA

Na imagem abaixo vemos uma obra que se desenvolve em dois quadros, sendo por
isso uma obra um pouco diferente das anteriormente analisadas. No quadro da esquerda
desenha-se um cenário desolador de um campo de batalha, com fumaça, provavelmente fruto
dos disparos de armas de longo alcance. Neste campo em que nada há além uma cerca e o
vulto de dois soldados num primeiro plano, denunciado principalmente em função dos
capacetes, uma bandeira com a inscrição ‘PAZ’ se ergue.

Figura 6 – Morte – ‘Muito bem! Precisamos mesmo de pás...’


Folha da Noite 12/10/1939. Do álbum: No reino da confusão (1939).

No quadro à direita tem-se um cenário de campo de batalha bastante parecido, com a


substancial diferença de haver ali diversas cruzes fixadas no solo, como sinal dos corpos de
81

soldados ali enterrados. Uma figura esquelética, aqui entendida como a representação da
morte, ocupa a maior parte desta cena. A personagem ‘trabalha’ o solo com um pá, atividade
essa que aparentemente já vem executando há algum tempo, enterrando o corpo dos soldados,
como inferimos das diversas cruzes espalhadas pelo campo atrás dela. Com a cabeça reclinada
para o trabalho que realiza, a morte esboça: “Muito bem! Precisamos mesmo de pás...”
Belmonte, por meio de um jogo linguístico, expressa interessante e forte crítica ao
caráter mortal da guerra ao substituir o verbete paz enquanto estado de calmaria, harmonia e
sossego, ou seja, oposto de guerra, pelo substantivo pás, plural para a ferramenta utilizada
para cavar o solo e que está nas mãos da morte. Ela pede pás, quer dizer, mais ferramentas
para que possa continuar enterrando os mortos em combate e não o fim do conflito (paz).
Tal crítica poderia fazer mais sentido caso estivesse deslocada para depois de 1945,
quando a dimensão do genocídio que foi a Segunda Guerra Mundial começava a ser
delineada. No entanto a obra de Belmonte provém de 1939, o primeiro ano do conflito, como
um prenúncio do chargista brasileiro para o que seria essa guerra que marcaria o século XX.
Tal linha crítica acompanha o chargista, como se faz perceber na próxima charge. A metáfora
para o campo de batalha é agora um restaurante.
82

Figura 7 – LEGENDA: NO RESTAURANTE “AO RELÂMPAGO”


Morte – ‘Então, como é? Essa comida vem ou não vem?!’
09/08/1940. Do álbum: Música maestro! (1940).

A legenda atribuída por Belmonte situa o leitor e já é bastante sugestiva: NO


RESTAAURANTE “AO RELÂMPAGO” numa alusão à tática de guerra alemã Blitzkrieg174 e
que havia se tornado bastante conhecida. No menu do referido restaurante ‘pratos’ cujos
nomes são referencias à diversos elementos da Segunda Guerra, como “consomé175 de
Bombas, Filet de Granadas, Salada de dinamite à Krupp Stukas e Paraquédas, R.A.F. em
churrasco, Gazes e micróbios, Whisky fervendo, guarda-chuva torrado, etc, etc, etc,
surprezas”. Destaca-se que ao menos três destes mortíferos ‘pratos’ podem ser entendidos
como menções às batalhas travadas entre Alemanha e Inglaterra, que são “R.A.F. em
churrasco”, ou seja, a destruição da RAF (Royal Air Force – ‘Força Aérea Britânica’), o
“Whisky fervendo”, nesse caso, a ruína dos britânicos transferida para uma de suas bebidas
típicas, e finalmente o “guarda-chuva torrado”, em outra insinuação de Belmonte acerca do
símbolo por ele criado que foi o guarda-chuva, dessa vez, porém, torrado. O que leva a crer

174
“Guerra-relâmpago”
175
Consommé – Tipo de sopa da culinária francesa.
83

que o os confrontos diretos que outrora evitava-se ao segurar o guarda-chuva, esvaiu-se


(torrado) e a conflagração direta é posta em prática. A desconfiança de Belmonte em relação
aos líderes totalitários europeus transpassa pela sutileza das surpresas postas ao final da
listagem de ‘pratos’.
No que se refere às personagens, tem-se Hitler com um chapéu ou gorro de chef de
cozinha aparecendo por uma pequena janela da cozinha, onde os pedidos de pratos são feitos.
Sua expressão facial é séria e a mão erguida pede paciência na direção da outra personagem
da cena: morte. Esta última apoia-se em uma mesa do estabelecimento, trajada com vestido
longo e calçado de salto alto. O punho cerrado da personagem morte parece atribuir à figura
um tom enraivecido e sem paciência, transpassado também por sua fala exigente: “Então,
como é? Essa comida vem ou não vem?!” Infere-se que essa comida solicitada pela morte
com tanto afinco só pode ser soldados falecidos nos campos de batalha. Tendo Hitler como
cozinheiro, ou seja, articulador da matança, a morte alimenta-se, no teatro de guerra que é o
Restaurante ‘Ao Relâmpago’, dos pratos preparados pelo chef-Führer.
A morte que nessa charge ainda dirigia-se aos demais personagens solicitando algo, na
próxima assume uma postura de completo controle. Agora a vemos vestida masculinamente,
como maestro de uma pequena orquestra. A importância de tal obra é imensa, se
considerarmos que ela estampa a capa do álbum Música maestro!, diretamente ligada
portanto, ao próprio titulo do encarte.
84

Figura 8 – Capa do álbum Música, maestro! (1940).

No centro da cena a figura da morte, agora maestro, tem diante de si um pedestal


esquelético com uma partitura. Os líderes políticos aprochegam-se para tocarem. Já sentados
vemos Hitler de pé, com um violino, Benito Mussolini, líder do fascismo italiano, tocando
uma flauta e Winston Churchill, primeiro-ministro britânico com um trompete. À direita,
Franklin Roosevelt, presidente dos EUA com seu violão e Stalin, que não podemos ver que
instrumento porta.
Os principais líderes políticos envolvidos no conflito obedecem à regência da morte,
contribuindo cada qual com seu instrumento para esse concerto fatal. Ressalta-se ainda que
estão todos no mesmo espaço, que aqui entende-se que, para Belmonte, diante da morte todos
esses homens de poder estão contribuindo da mesma forma, sem distinções.
Se a Europa central – representado por Hitler, Mussolini e Churchill – já está
cumprindo a regência da figura da morte, EUA e URSS – Roosevelt e Stalin – vão se
aproximando aos poucos, apesar de já se envolverem no conflito. Interessante assinalar que,
se a postura dos líderes políticos parece já bem definida ante o conflito com cada qual munido
de um instrumento musical, a personagem de Stalin manifesta-se como um ‘não saber o que
85

esperar’, visto que não nos é permitido observar qual instrumento carrega. Desse modo, tal
charge mostra-se com uma crítica contumaz da parte de Belmonte aos rumos da política
internacional e na forma como o conflito fora conduzido, de modo que os líderes não são
diferenciados pelo chargista entre Aliados e Eixo. Uma investida forte do desenhista brasileiro
tanto que serviu de capa para o álbum.
A figura da morte parece sofrer alterações de gênero conforme as necessidades de cada
charge: na primeira, sua forma não era bem definida; na segunda, a vemos trajando roupas
tipicamente femininas, com vestido e salto alto; e finalmente nesta última, transveste-se em
homem, maestro que rege a orquestra dos líderes europeus.
No âmbito dos três conjuntos de charges analisadas, a personagem Hitler também
altera-se profundamente em sua representação: ao relacionar-se com o primeiro-ministro
britânico Chamberlain, o Führer domina todas as cenas como grande líder, autoridade e
centro das atenções. No trato com Stalin, Hitler tem um interlocutor em pé de igualdade, que
não cede ante suas posições, tão pouco atende a ele como um empregado. Hitler é totalmente
‘deposto’ de sua postura de dominador nos cenários das charges quando está diante da morte,
onde a autoridade nos diálogos e acontecimentos desloca-se do líder alemão para a
representação cadavérica da finitude.
86
87

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O chargista Belmonte viveu e retratou os anos mais conturbados do século XX. Pouco
antes de começar a publicar seus trabalhos na Folha da Noite, em 1921, o mundo havia
convivido com os horrores da Primeira Guerra Mundial. Deflagrada em 1914, ela deu início a
praticamente trinta anos de violência, extremismo e autoritarismos políticos. Esta Primeira
Grande Guerra foi uma das motivações para que, pouco mais de vinte anos depois, em 1939,
um novo conflito começasse. Marcada pelo militarismo e o expansionismo da Alemanha sob
a liderança de Adolf Hitler e do Nazismo, a Segunda Guerra legou ao mundo níveis de
destruição e morte inclusive maiores que a Primeira, revelando ainda o poder exterminador do
extremismo e da ideologia do Nazismo.
Tal movimento Nazista, proveniente de agitações políticas do período após o fim da
Primeira Guerra, contava em seus primórdios com um corpo de membros com visões e
pensamentos às vezes antagônicos, mas que foi moldado com os anos e, indiscutivelmente,
com Adolf Hitler na liderança desse agrupamento político-ideológico. No poder a partir de
1933 na Alemanha, tratou tão logo de promover suas políticas de valorização da “raça” branca
e germânica – com ações estatais de bem-estar, por exemplo –, em detrimento das demais,
julgadas à época como “inferiores”. Além disso, o Nazismo foi responsável por tentar, e
durante certo tempo ter conseguido, dominar militarmente e sobrepujar politicamente diversos
países e povos, em defesa de tais propósitos extremos.
Para o historiador italiano Giovanni Levi os historiadores escrevem sempre um mesmo
livro, isto é, pesquisam e comunicam sobre os mesmos temas, o que seria uma característica
deste ofício e uma distinção da literatura, adicionando-se aí o trato com documentação176. A
partir disso, Levi ressalta que, ainda que se produza muito acerca de algo – como o Nazismo e
a Segunda Guerra Mundial para exemplificarmos com nossa própria área de atuação aqui
apresentada – essas produções acadêmicas diferenciam-se pelo prisma ou aspecto pelos quais
operam suas investigações. O que visou-se aqui, portanto, foi trilhar uma análise por meio de
uma perspectiva bastante paradoxal: os eventos trágicos acarretados pelo Nazismo a partir do
traço humorístico e jocoso das charges de Belmonte. Levi, além disso, reforça que a vastidão
de obras de história acerca de um mesmo assunto não acarreta em afirmar que uma seja mais
verdadeira que outra, “porque a verdade histórica é sempre parcial”, sendo que o que

176
LEVI, Giovanni. O trabalho do historiador: pesquisar, resumir, comunicar. Transcrição de Maria Verónica
Secreto de Ferreras e Mariana Rodrigues Tavares. Revista Tempo, v. 20, 2014, p. 4.
88

podemos é “[...] nos aproximar da verdade. Nossa atividade é sempre trabalhar sobre verdades
parciais177”, ou certezas relacionais, dependentes de um conjunto de fatores178.
Tanto a movimentação política Nazista, quanto a Segunda Guerra Mundial, foram
alvos do lápis e do traço carregado de críticas do brasileiro Belmonte, e objeto de humor e
riso de seus leitores.
O riso em grupo, social, tal como vimos propor Bergson179, nos acarreta refletir o
poder de tais desenhos de Belmonte circunscritos nas páginas dos jornais e dos álbuns que
estampavam suas críticas em forma de charges, bem como sua recepção pelo público que,
possivelmente comentava acerca delas nas rodas de conversas, em bares, restaurantes,
barbearias, etc.
Nessa linha, podemos conjeturar um Belmonte que ridiculariza as figuras políticas,
seja Neville Chamberlain e seus trejeitos servis e cordiais ou ainda seu guarda-chuva
‘apaziguador’, quer seja um Adolf Hitler que por vezes emana como dominador das cenas
desenhadas, em sua ‘fome’ de conquistas, ou ainda com Joseph Stalin que de tudo parece
desconfiar, fazendo-o uma representação sempre alerta e pronto para conseguir também algo
para si nas diversas situações.
Além do prazer, que ocasionou em seus leitores diários e nos que guardaram os álbuns
de charges para a derrisão posterior, entendemos que Belmonte ‘trouxe os que riam para seu
lado’ – die Lacher auf seine Seite ziehen, como quer Freud180 – ao apresentar tais situações,
transmitindo o militarismo e o expansionismo de Hitler, o ‘empacamento’ de Chamberlain, e
certo oportunismo de Stalin.
Entretanto, mais do que isso, ele representou com ironia violenta e sagaz a morte, tão
própria e mesmo indissociável dos conflitos armados. Já nos primeiros momentos da guerra, a
figura da morte se apresentava em seus trabalhos, satirizando algo tão trágico – o que é
paradoxo – mas possivelmente também, como um recado de Belmonte e muitos outros de seu
tempo que conviveram com a Grande Guerra de 1914-1918 e se tornaram “inimigos convictos
da guerra”181.
Por fim, cabe ressaltar que certos aspectos não puderam ser abordados nesse trabalho
por razões e limitações das mais variadas. Entretanto, tais insuficiências e lacunas podem
significar também possibilidades e caminhos por serem ainda percorridos como, por exemplo:

177
Idem.
178
MARTINS, Estevão C. de Rezende. Veritas filia temporis?: o conhecimento histórico e a distinção entre
filosofia e teoria da história. Síntese, v. 36, n. 114 – p. 5-25, 2009, p. 24.
179
BERGSON, Henri. op. cit p 8 e 9.
180
FREUD, Sigmund. op. cit., p. . 69.
181
HOBSBAWM, Eric. op. cit., p. 34.
89

um aprofundamento na dimensão narrativa das charges em consonâncias com as diversas


discussões que se reascenderam na historiografia, principalmente a partir dos anos 70 do
século passado na chamada virada linguística; estudos comparados na recepção desses
desenhos de Belmonte entre sua volumosa e plural massa de leitores; o uso e o tratamento
dado às charges desse artista em periódicos de diferentes países; bem como, ainda, a
apropriação didática de tais figuras em materiais escolares.
90

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