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Tóp. Esp. Filosofia Política, 2018.1 – A Idade Média e os olhares dos letrados sobre a condição feminina

DUBY, G. e PERROT, M. (org.). História das Mulheres. A Idade Média. São Paulo/Porto: Ebradil/Afrontamento,
1990.

Olhares de clérigos (Jacques Dalarum) p. 29-63.


Longe das mulheres. “No entanto, e sobretudo antes do século XIII, tudo os distancia das mulheres, entrincheirados
como estão no universo masculino dos claustros e dos scriptora, das escolas, depois das faculdades de teologia, no
seio das comunidades de cónegos onde, desde o século XI, os clérigos encarregados do século se preparam para vida
imaculada dos monges. Eis, por exemplo, Guiberto de Nogent († 1124), oblato, ou seja, oferecido ainda criança a um
mosteiro beneditino. O que ele conhece do outro sexo é apenas a recordação lancinante de uma mãe casada aos doze
anos que ele recompõe para a proteger de toda a «mácula»; o resto é votado em bloco ao anátema. Separados das
mulheres por um celibato solidamente estendido a todos a partir do século XI, os clérigos nada sabem delas. Figuram-
nas, ou melhor, figuram-n’A; representam-se a Mulher, à distância, na estranheza e no medo, como uma essência
específica ainda que profundamente contraditória” (p, 29).
A inimiga. “«Este sexo envenenou o nosso primeiro pai, que era também o seu marido e pai, estrangulou João
Baptista, entregou o corajoso Sansão à morte. De uma certa maneira, também, matou o Salvador, porque, se a sua
falta o não tivesse exigido, o nosso Salvador não teria tido necessidade de morrer. Desgraçado sexo em que não há
nem temor, nem bondade, nem amizade e que é mais de temer quando é amado do que quando é odiado». A primeira
mulher que surge sob a pena de Godofredo de Vandoma por volta de 1095, inaugurando e resumindo todo o sexo, é
Eva. A narração da Criação e da Queda no Génesis pesa permanentemente na visão medieval da mulher; narração
complexa, como se sabe, tanto na sua redacção como no seu conteúdo, mas cujos traços mais salientes, os mais
facilmente retidos – tanto mais quanto encontram eco nas Epístolas de Paulo –, são altamente desfavoráveis ao
«segundo sexo»” (p. 34).
As lobas no redil. “Misóginos, os nossos prelados são-no sem rodeios. Para alimentar e confortar os seus preconceitos
recolhem materiais tanto da tradição cristã como da latinidade clássica: o poema Da mulher má, converteu-se na sua
antologia. [...] Do termo femina resvala-se para o uso de meretrix, a prostituída: «Uma cabeça de leão, uma cauda de
dragão e no meio nada mais do que um fogo fervente» [Marbode de Rennes, PL 171, col. 1698-1699]” (p. 38).
O refúgio do pecador. “Maria é a mãe por excelência, no seio da qual o filho indigno pode vir a esconder a sua
vergonha. [...] «Única, sem exemplo, virgem e mãe Maria». Orações, mas também meditação, especulação sobre a
natureza, a identidade, as virtudes especificas de Maria. Dos quatro grandes dogmas pelos quais a igreja a aborda
(maternidade divina, virgindade, Imaculada, Conceição e Assunção), os dois últimos não foram promulgados senão
bastante depois da Idade Média (1854, 1950), ainda que tenham desencadeado as paixões mais cedo, desde o século
XI, ou mesmo do século VII” (p. 40-41).
A salvação na penitência. “Godofredo parte da figura da mulher que unge os pés de Cristo em casa do Fariseu.
Madalena é «pecadora na cidade»; e todos compreendem na Idade Média que o seu pecado é o da carne, que ela se
prostitui. Pedro de Celle († 1183) chamar-lhe-á meretrix e insistirá na sua insaciável luxúria. Ela lança-se aos pés do
Senhor, segundo a narrativa de Lucas: evidentemente que esta mulher é Madalena, «a famosa pecadora», precisa
Godofredo. E, tomando Agostinho, opõe-na ao Fariseu cheio de soberba: «Este sexo frágil receava o Fariseu, homem
sem misericórdia e muito duro, que desprezava a mulher e se recusava absolutamente a ser tocado por ela». Cristo,
pelo contrário, aceita de bom grado a sua homenagem. Dividida entre esperança e temor, ela tornar-se «acusadora
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dos seus pecados» e é esta confissão que a salva. Mais: torna-se por sua vez agente de redenção, ela «que curou não
apenas as suas feridas, mas as de numerosos pecadores, e não cessa de as curar em cada dia que passa»” (p.48-49).
“Dever-se-á ver na figura madaleniana – a terceira desta complexa tríade – a reabilitação, quer da mulher, quer da
feminilidade? Há que pensar nisso duas vezes antes de celebrar este triunfo ambíguo [...]. Se o Génesis punha o
homem e a mulher como criados «à imagem de Deus», a Primeira Epístola aos Coríntios reservava, pelo contrário,
esta honra apenas ao homem, afirmando que era do homem, e não do Criador, que a mulher, criatura segunda, era «o
reflexo». [...] Estes homens pensam através dos modelos fornecidos pela Escritura” (p.50, 52, 53).
Mulheres tomam a palavra. “Eis, indigna-se Gilberto de Tournai, que as mulheres se atrevem a falar publicamente
e, o que é mais grave, a dar a sua opinião sobre o dogma e as Escrituras! Tomás de Aquino lembra: só a palavra
privada lhes é permitida; sem dúvida que a profecia lhes está aberta, uma vez que ela é a expressão de um dom
carismático. No essencial, ele mantém-se muito perto da lição de Graciano: «A mulher, mesmo que seja douta e
santa, não deve pretender ensinar os homens (viros) na assembléia». Se a velha lição do Apóstolo é martelada com
um novo vigor, é porque o perigo desponta, bem real: mulheres – monjas, beguinas, místicas e outras inspiradas –na
diocese de Liège, no Brabante, no mosteiro de Helfta, na Úmbria ou na Toscana, procuram tomar a palavra no
domínio do sagrado, tendem a aceder à Palavra viva.[...] Os últimos séculos da Idade Média vêem o mundo dos
clérigos muito preocupado em controlar o mundo das mulheres (p. 56, 50 e 59).

Da natureza feminina (Claude Thomasset) p. 65-97.


Este corpo estranho. “Qualquer representação da mulher e da sexualidade é legada pela ciência antiga, transmitida
pelos sábios árabes. [...] De Isidoro de Sevilha a Rábano Mauro (século XI) não há inovação, a não ser talvez uma
atitude ainda mais antifeminista” (p. 66 e 67).
“Dominando a filosofia, o pensamento aristotélico exerce uma grande influência, através da zoologia, sobre a
anatomia e a fisiologia, graças à tradução de Miguel Escoto, e depois de Guilherme de Moerbeke, na segunda metade
do século XIII, do De Animalibus de Aristóteles. Pouco depois, o comentário de Alberto Magno sobre este tratado é
uma fonte de primordial importância para o nosso conhecimento da maneira como um religioso, e um grande espírito
científico do século XIII, representa a mulher” (p. 68).
Anatomia dos órgãos internos da mulher. “Isidoro de Sevilha tinha afirmado que a vulva (vulva) é assim nomeada
por analogia com a valva (a porta), pois é a porta do ventre. Numa descrição anatómica da segunda metade do século
XII, a Anatomia Magistri Nicolai Physici, encontra-se o seguinte acrescento: vulva, que se supõe do verbo volvere,
que significa: «rolar alguma coisa, formar enrolando». Encontra-se igualmente nesse contexto uma analogia com o
turbilhão de Caribdis. Trata-se de um belo exemplo de comparação valorizante. O órgão da mulher mistura as duas
sementes e esse movimento é o impulso primeiro, a analogia fundamental que permite explicar a passagem do
elemento líquido ao estado sólido, estádio primeiro do embrião. [...] Os testículos femininos (os ovários) são mais
pequenos e mais duros que os do homem. Estão colocados sob as extremidades, em forma de corno, do útero, e uma
veia liga-os aos rins. [...] A ideia da simetria inversa dos órgãos do homem e da mulher sai deles reforçada. Os órgãos
femininos são objetos de juízos depreciativos que fazem deles apenas cópias muito inferiores ao que existe no
homem” (p. 74, 77, 78).
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As emissões femininas. “Durante toda a Idade Média se repetiu que a mulher possui pouco calor natural: é fria, e
mesmo a que tem nela mais calor não consegue igualar nesse aspecto o mais frio dos homens. Fora dos períodos de
gestação, os resíduos que a sua falta de calor não lhe permite transformar pela cocção são expulsos sob a forma de
sangue menstrual. Foi por isso que Aristóteles, seguido pelo pensamento medieval, tinha podido adiantar que as
mulheres não sangram pelo nariz, não têm hemorróidas e têm uma pele doce e lisa. Em contrapartida, no homem a
expurgação é realizada pela produção de barba, de pelos, e, nos animais, de cornos” (p. 79).
O prazer. “O prazer é antes de mais o prazer do homem, e Georges Duby pôde evocar para os séculos XI e XII [...]
o comportamento da esposa: «O homem nunca tem mais do que uma esposa. Deve tomá-la como ela é, fria no
pagamento do debitum, e é-lhe proibido aquecê-la». [...] Por muito paradoxal que possa parecer, a Igreja, na sua
preocupação de regulamentar a vida sexual e de instaurar o casamento, foi levada a aprofundar a sua reflexão sobre
a sexualidade e o prazer. Um aristotelismo estrito permitia negligenciar o prazer feminino, mas o galenismo
dominante obrigou os teólogos não somente a terem-no em conta, mas também a fixar-lhe os limites. Todavia,
qualquer discussão sobre este assunto respeita imperativamente à procriação. [...] todos os autores estão de acordo
em reconhecer que o desejo feminino é semelhante à madeira húmida, lenta em inflamar-se, mas que arde durante
muito tempo. Este ardor secreto é um mistério que intriga o homem” (p.85-86).
O homem à margem. “Tirésias foi condenado à cegueira por Hera porque tinha revelado que o prazer da mulher
ultrapassava o que o homem sente. O desejo de adquirir este saber persegue os espíritos medievais. Com precauções
desajeitadas, os clérigos, em busca de público para as suas compilações, quando abordam a sexualidade falam em
termos de saberes esotéricos, de «segredo de mulheres». [...] A capacidade sexual da mulher é sempre particularmente
inquietante. Aliás, o seu prazer é duplo: provém por um lado da recepção da semente masculina, que a virtude
atractiva da vulva suscita, mas também da emissão da sua própria semente. [...] o excesso de humidade no corpo da
mulher dá-lhe uma capacidade ilimitada no acto sexual. Ela não pode ser saciada [...]” (p. 87 e 88).

O quotidiano da mulher no final da Idade Média (1250-1500) (Claudia Optiz) p. 353-435.


O poder do marido. “[...] a relação entre marido e mulher não devia doravante ser de amizade e pressupor a igualdade
de direitos: «Sede submissos uns aos outros no temor de Cristo, as mulheres aos homens como ao Senhor....» (Efésios,
5:21). Esta frase do Novo Testamento não tinha ainda perdido a validade no período final da Idade Média. Um bom
casamento era uma comunhão entre homem e mulher, mas, segundo os ensinamentos morais da igreja, ele só era
realmente bom quando o homem «governava» e a mulher obedecia incondicionalmente” (p.366).
“Com efeito, os maridos constituíam a primeira instância de controlo social das suas mulheres, e isto não era apenas
determinado pelas disposições legais redigidas a partir do século XIII; os decretos canónicos que convertem o marido
em chefe da sua mulher reforçavam também a responsabilidade e as possibilidades de controlo por parte do «senhor
e mestre». Este monopólio de poder encontra a sua expressão mais nítida no direito que o marido tinha de castigar a
mulher, que as autoridades laicas e eclesiásticas fixavam, e no privilégio masculino de ser infiel sem consequências”
(p. 368).
Mulheres e trabalho. “Ainda que a historiografia moderna considere o século XIX como o momento histórico da
incorporação da mulher no mundo laboral, as mulheres sempre constituíram uma importante força de trabalho. [...]
A especialização não deixava também de se aplicar às relações entre os sexos: a intensificação e a especialização do
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trabalho, na cidade como no campo, conduzia com efeito à mencionada economia familiar, fundada no casal que
trabalha em comum e nas forma de trabalho assalariado e a ela ligadas; estas completavam e alargavam o espectro
dos trabalhos assalariados, produtos da divisão do trabalho entre a cidade e o campo. No entanto, desenvolviam-se
ainda assim «domínios de competência» específicos para homens e mulheres, que concediam às últimas o cuidado
do «interior», isto é, a casa, o pátio e o jardim, o cuidado dos filhos, da criadagem e da criação, e ainda a competência
dos setores têxteis, da alimentação e do pequeno comércio. [...] Apesar disso, de modo algum se pode falar de uma
divisão do trabalho específica de cada sexo e que se tenha mantido de forma coerente e rigorosa: nem os homens
abandonaram às mulheres a totalidade dos trabalhos «femininos» – por exemplo na produção e transformação de
têxteis ou na produção de alimentos – nem o trabalho da mulher podia ser limitado aos poucos domínios específicos
que pertenciam ao verdadeiro «trabalho de reprodução»: ajuda no parto, cuidado das crianças e maternidade,
fornecimento e preparação dos alimentos, economia doméstica, etc. No centro da economia familiar estava a
preocupação em obter um rendimento familiar máximo – que nas classes médias e baixas geralmente mal chegava
para viver –, para o qual todos os membros da família, mas em particular o casal, tinham que contribuir com o melhor
do seu esforço” (p. 386, 392, 393).

O trabalho feminino no campo. “Se lavrar e semear eram trabalhos essencialmente masculinos, a colheita do grão e
a ceifa do feno eram, nalgumas regiões até ao início do século XX, trabalho não especializado, que tanto homens
como mulheres podiam executar. O mesmo se aplica à viticultura: também aqui homens e mulheres executavam
juntos trabalhos da vindima, sobretudo à jorna – e recebiam muitas vezes até o mesmo salário. [...] Também no meio
rural as mulheres se esforçavam, para além das suas actividades em casa e no trabalho dos campos, por contribuir
para o rendimento familiar. Faziam-no, fundamentalmente, pela venda dos produtos fabricados sob sua
responsabilidade, por exemplo a manteiga, o leite, o queijo, ovos ou criação, mas também frutos silvestres, fruta,
legumes, ocasionalmente pano de linho, sabão ou também mostarda e muitos outros produtos, com o que, juntamente
com a venda das colheitas, garantiram uma considerável contribuição para os recursos pecuniários da família” (p.
394 e 395).

As mulheres e o comércio: “Também na cidade muitas mulheres praticam o pequeno comércio vendendo mercadorias
que elas próprias produziam, que compravam ou que importavam. Como já referi, é precisamente neste domínio que
a «tutela exercida sobre o sexo feminino» pelos maridos tinha recuado muito cedo em benefício de uma capacidade
para o negócio por muito limitada que fosse, das mercatrices, das «lojistas», das «revendedoras», como sempre se
chamaram aquelas que se entregavam ao comércio a retalho. [...] O volume dos negócios não era, de início, limitado.
Comércio por grosso e comércio a retalho estavam muitas vezes na mão de uma só família; geralmente as mulheres
ocupavam-se da venda a retalho, enquanto os homens viajavam para tratar de grandes negócios. [...] Em geral, nos
finais da Idade Média, o trabalho da mulher devia, antes de mais, ser caseiro, para que as esposas pudessem conciliar
os seus deveres familiares com um trabalho produtivo e/ou assalariado” (p. 395, 396, 397).

As mulheres na educação e na saúde: “Entre as revendedoras não organizadas e as grandes comerciantes seguradas
e controladas pela guilda existiam uma delimitação económica, mas também uma «demarcação» profissional que se
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traduzia em particular pelo nível de cultura de formação mais elevado destas últimas. Os negócios destas
comerciantes, relativamente complicados e pondo em jogo grandes somas de dinheiro, tornavam necessários pelo
menos conhecimentos rudimentares de leitura, escrita e aritmética, de que as revendedoras poderiam perfeitamente
prescindir. Em Inglaterra, as grandes comerciantes e grossistas tinham mesmo por isso que percorrer uma
aprendizagem de vários anos, até poderem ser aceites numa corporação. Mas este é efectivamente um caso
excepcional. No resto da Europa as comerciantes traziam de casa seus conhecimentos; no entanto, nos grandes centros
mercantis da Europa, nomeadamente na Flandres, existiam já no XIII escolas urbanas também para raparigas. [...]
Significativa era também a ocupação das mulheres na área da medicina e da ginecologia. Esta última era
indiscutivelmente, por toda a Europa, uma área onde o talento e a experiência femininos eram incontestados; as
mulheres podiam assim, na área de medicina em geral e dos cuidados e tratamentos médicos especializados, por
exemplo na cirurgia, concorrer com os terapeutas masculinos com formação académica e profissionalmente
organizados. Estes, desde a difusão das faculdades de medicina nas universidades medievais, guardavam cada vez
mais ciosamente o seu conhecimento e fechavam a sua profissão a todos os tipos de concorrência, mas sobretudo à
feminina” (p. 397 e 398).

As mulheres e os ofícios: “A grande maioria das mulheres activas na cidade estava sem dúvida empregada nas oficinas
artesanais, embora numa grande variedade de situações e de tarefas. Elas trabalhavam não apenas como «mão-de-
obra familiar», mas também nas corporações e nas actividades não regulamentadas, seja como artesãs independentes
seja como assalariadas. [...] Outra área na qual as mulheres estavam particularmente presentes eram as profissões
ligadas à alimentação, como por exemplo a padaria, com suas múltiplas especializações (confecção de bolos, pão,
folhados, pastéis), o negócio das carnes, a pesca de água doce, o fabrico do azeite, a horticultura e a confecção da
cerveja. Esta última era, em toda a Europa Central e Ocidental, a par das profissões têxteis, a actividade mais
frequentemente exercida pelas mulheres, apesar dos esforços físicos consideráveis que o fabrico e a venda da cerveja
envolviam. Não raras vezes encontramos também mulheres noutras profissões muito cansativas; para além da barrela
e da lavagem de roupa, até hoje considerados como trabalhos especificamente femininos, tratava-se sobretudo do que
hoje estamos mais habituados a considerar como «profissões tipicamente masculinas», como a metalurgia ou a
construção civil. [...] Paralelamente muitas mulheres trabalhavam «fora» das corporações – como as fiandeiras de
ouro em Nuremberga, que só foram registadas em 1526, e por conseguinte nos séculos anteriores levavam a cabo sua
atividade sem regulamentação e sem controlo do conselho da cidade. Em Estrasburgo, pelo contrário, as mulheres
mantinham uma significativa actividade de tecelagem da lã fora da corporação, o que suscitava contínuos conflitos
com os tecelões (da corporação) e queixas recorrentes no conselho da cidade. Geralmente eram os tecelões
corporativos que denegriam as suas concorrentes femininas no conselho e as coagiam ao pagamento de quotizações
corporativas ou ao abandono do seu ofício; a fraca posição política e organizativa das mulheres, cujos ganhos
diminutos não lhes permite muitas vezes entrar para a corporação, foi nessas questões bastante explorada” (p. 401,
403, 404).

Mulheres sós: emancipadas ou marginalizadas?: “Os trabalhos preparatórios e anexos da produção têxtil constituíam
precisamente o ganha-pão típico das mulheres solteiras – o que se pode verificar por exemplo na palavra inglesa
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spinster, que hoje significa exclusivamente «mulher solteira» e que designava anteriormente a fiandeira; de facto,
esses trabalhos não estavam muitas vezes sujeitos a regulamentações corporativas e quase todas as mulheres
possuíam uma preparação adequada para os levarem a cabo. Apesar de essas mulheres serem jurídica e
economicamente independentes, a sua situação social era geralmente muito má. Onde os homens, mais bem pagos,
podiam sobreviver apenas através do seu trabalho manual, geralmente as mulheres solteiras sem ajuda externa
encontravam-se rapidamente no limite vital mínimo. Muitas dedicavam-se por isso a atividades secundárias
lucrativas, como o roubo ou a receptação” (p. 411).

A beguinagem como instituição assistencial?: “Assim, a partir do início do século XIII surgiu um grande número de
ordens e de conventos femininos, em primeiro lugar entre as cistercienses, depois nas dominicanas e franciscanas –
a primeira fundação de um convento dominicano foi aliás a do convento feminino de Prouille, no sudoeste da França.
Aí surgiu mesmo uma forma de vida religiosa particular e especificamente feminina, a das beguinas, cujas
comunidades se expandiram e se tornaram muito concorridas, sobretudo nos centros de produção têxtil e de grande
comércio do Reno, e nomeadamente na Flandres e no Brabante” (p, 422).

As místicas: hereges ou santas? “Era sobretudo o interesse de muitas comunidades de mulheres pela teologia que
suscitava a desconfiança dos seus contemporâneos. A multiplicação dos textos de inspiração mística oriundos dos
círculos dessas comunidades femininas animadas por um ideal religioso, e que por elas circulavam, como os versos
de uma Hadewijch (por volta de 1230), a autobiografia de Beatriz de Nazaré ou a Luz fluida da Divindade de Matilde
de Magdeburgo (por volta de 1250), desembocou por fim numa florescente cultura «feminina» até então
desconhecida – circunstância que suscitava nos contemporâneos um grande espanto, mesmo entre os que lhe eram
favoráveis. [...] O final da Idade Média foi nesta medida, no domínio político-religioso, uma época inteiramente
marcada pelas mulheres; o número de mulheres canonizadas nunca fora ou viria a ser tão elevado como nos três
últimos séculos da Idade Média: quase um quarto de todos os santos canonizados nesta época eram mulheres – grande
parte das quais mesmo esposas e mães. Nunca anteriormente ou posteriormente as mulheres se sentiram viver num
tal mundo de santos e de crentes tão «feminizado», apesar de a sua exclusão do serviço do altar e da ordenação
sacerdotal – pelo menos no interior do quadro eclesiástico – nunca ter sido seriamente posta em causa. De modo
semelhante ao que aconteceu no mundo do trabalho, onde as mulheres se preocupavam manifestamente pouco –
demasiadamente pouco, como escreveu recentemente a historiadora Marta C. Howell – em assegurar a sua posição
no plano jurídico e institucional, as visionárias, as místicas e as mulheres animadas por um ideal religioso não
aproveitaram esta importância recém-adquirida para melhorar o seu estatuto no interior da Igreja, mas pelo contrário
confiaram no carisma das místicas, isto é, na força do espírito divino capaz de rebentar com hierarquias e autoridades”
(p. 425, 428).

Nota final: “Emancipação e repressão, valorização e desvalorização das mulheres são as duas faces da mesma moeda.
Tal é o legado da sociedade medieval à Idade Moderna: a luta pelo valor e pela posição social das mulheres, a «querela
das mulheres» mesmo nos tenebrosos séculos da caça às bruxas, não acabará jamais” (p. 429).