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Paleoclima e paleoambiente do Cerrado durante


o Quaternário com base em análises
palinológicas

Chapter · March 2014

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5 authors, including:

Karin Elise Bohns Meyer Raquel Franco Cassino


Universidade Federal de Minas Gerais, Belo… Universidade Federal de Ouro Preto
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Flávio Lima Lorente Marco F. Raczka


University of São Paulo Florida Institute of Technology
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ISBN Paleontologia: Cenários de Vida – Paleoclimas

PALEOCLIMA E PALEOAMBIENTE DO CERRADO DURANTE O


QUATERNÁRIO COM BASE EM ANÁLISES PALINOLÓGICAS
PALEOCLIMATE AND PALEOENVIRONMENTAL OF CERRADO DURING
THE QUATERNARY BASED ON PALYNOLOGICAL ANALYSIS
Karin Elise Bohns Meyer1, Raquel Franco Cassino2, Flávio Lima Lorente3, Marco Raczka4 & Maria Giovana Parizzi1
1
Universidade Federal de Minas Gerais, Instituto de Geociências, Departamento de Geologia e Centro de Pesquisa Professor
Manoel Teixeira da Costa, Avenida Antônio Carlos 6.627, 31.270-901 Pampulha, Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil
2
Universidade de Brasília, Instituto de Geociências, Programa de Pós-Graduação em Geologia, Campus Universitário Darcy Ribeiro,
Instituto Central de Ciências, Ala Central, 70.910-900 Brasília DF, Brasil
3
Universidade de São Paulo, Programa de Pós-Graduação em Ciências, Centro de Energia Nuclear na Agricultura, Avenida
Centenário, 303, 13.416-000 São Dimas, Piracicaba, São Paulo, Brasil
4
Florida Institute of Technology, Department of Biological Science, 150 W. University Boulevard, Melbourne, Florida, 32905 USA
E-mails: bohnsmeyer@yahoo.com.br, raquelfcassino@yahoo.com.br, flimalorente@yahoo.com.br, mraczka2009@my.fit.edu,
giece@uai.com.br

RESUMO
O capítulo revisa as evidências palinológicas de quinze localidades no cerrado do Brasil: Lagoa
do Caçó (MA), Carajás (PA), Lagoa da Confusão (TO), Veredas de Águas Emendadas (DF)
e Cromínia (GO), Veredas Laçador e Urbano, Lago do Pires, Lagoa de Serra Negra, Lagoa
Santa, Lagoa dos Olhos d’Água, Lagoa dos Mares, Lagoa Nova, Turfeiras de Salitre e Pau
de Fruta no Estado de Minas Gerais. Durante o Pleistoceno tardio foram observadas duas
regiões distintas no cerrado, uma com clima frio e outra com clima frio e úmido. No limite
Pleistoceno-Holoceno o clima seco predominava no cerrado, com exceção da Vereda Laçador e
Carajás que mostram o clima úmido já a partir de 12.000 anos AP. A partir de 8.000 anos AP a
região noroeste do cerrado foi marcada pelo aumento de umidade até atingir os padrões atuais,
enquanto que, a leste do cerrado este processo foi verificado apenas a partir dos 5.000 anos AP.
Palavras-chave: Cerrado, Palinologia, Paleoclima, Pleistoceno, Holoceno

ABSTRACT
The chapter reviews Late Quaternary palynological evidence from fifteen sites in the Brazil
Cerrado: Lagoa do Caçó (MA), Carajás (PA), Lagoa da Confusão (TO), Veredas de Águas
Emendadas (DF) e Cromínia (GO), Veredas Laçador e Urbano, Lago do Pires, Lagoa de Serra
Negra, Lagoa Santa, Lagoa dos Olhos d’ Água, Lagoa dos Mares, Lagoa Nova, Turfeiras de
Salitre e Pau de Fruta in the Minas Gerais State. During the Late Pleistocene were observed
two distinct regions in the cerrado, one with cold climate and the other with cold and humid
climate. In Pleistocene-Holocene boundary a dry climate prevailed, with the exception of
Vereda Laçador and Carajás that shows already humid climate from 12,000 years BP. From
8,000 years BP, the northwestern region of cerrado was marked by an increase of moisture
398 Paleontologia: Cenários de Vida – Paleoclimas

until the modern patterns, while in the eastern region of cerrado this increase in humidity was
noticed only from the 5,000 years BP.
Keywords: Cerrado, Palynology, Palaeoclimate, Pleistocene, Holocene

1. INTRODUÇÃO
Com abrangência em dez estados, o ecossistema do cerrado é a segunda maior formação vegetal
do Brasil, é encontrado em praticamente todo o Planalto Central e se estende a oeste até o Paraguai
e Bolívia. Há algumas regiões disjuntas que ocorrem nos domínios da Mata Atlântica e da Amazônia
chamados encraves. Originalmente, sua expansão territorial correspondia a aproximadamente dois
milhões de quilômetros quadrados, o que equivale a quase 22% do território brasileiro, no entanto,
estimativas apontam que a cobertura original deste ecossistema esteja reduzida em mais de 70%,
principalmente pelas atividades antrópicas (Walter et al., 2008).
O Cerrado é considerado uma savana sazonalmente úmida, embora muito mais rico em
diversidade do que a maioria delas. A vegetação está adaptada à sazonalidade climática, com uma
estação chuvosa e outra seca. Fatores edáficos como a toxicidade do alumínio e disponibilidade
de água, além das queimadas, afetam de maneira significativa sua cobertura vegetal. A vegetação
rústica do cerrado é composta por espécies ancestrais florestais e campestres, elementos florísticos de
distintas origens, compartilhados especialmente com a Floresta Amazônica, a Mata Atlântica, o Chaco
e os Lhanos da Venezuela e Colômbia. No que diz respeito à variabilidade, a vegetação do cerrado é
composta por mais de 12 mil espécies de plantas superiores, cerca de 4.500 espécies são endêmicas, a
maioria delas associadas às formações campestres ou rupestres (Stehmann & Alméri, 2012).
Em termos fisionômicos, a formação aberta, composta por árvores e arbustos distorcidos, com
casca espessa, representa a fisionomia típica do cerrado, conhecida também como Cerrado sentido
restrito. Onze tipologias são conhecidas para a formação e classificadas dentro de três subtipos
principais: formações florestais (Mata Ciliar, Mata de Galeria, Mata Seca, Cerradão); savânicas
(Cerrado sentido restrito, Parque de Cerrado, Palmeiral e Vereda) e campestres (Campo Sujo, Campo
Limpo, e Campo Rupestre), sendo a riqueza da flora, em parte, decorrente desta diversidade de
ambientes (Ribeiro & Walter, 2008).

2. EVOLUÇÃO DA VEGETAÇÃO DO CERRADO AO LONGO DO QUATERNÁRIO


O clima e a vegetação estão fortemente interligados. A distribuição fitogeográfica nas diferentes
partes da Terra mostra esta relação. As florestas tropicais ocorrem em locais com regime de chuvas
abundantes e bem distribuídas durante o ano, já em climas com uma estação seca bem pronunciada,
a vegetação, geralmente, é do tipo cerrado ou savana. Informações sobre clima e vegetação obtidas a
partir de estudos dos grãos de pólen e esporos de diferentes locais, associadas aos métodos de datação,
permitem reconhecer as mudanças globais que ocorreram no passado e seu impacto sobre os seres
vivos (Salgado-Labouriau, 2001).
Karin Elise Bohns Meyer, Raquel Franco Cassino, Flávio Lima Lorente,
Marco Raczka & Maria Giovana Parizzi 399

O período Quaternário (~1.8 milhões de anos AP ao presente) foi marcado por mudanças
climáticas acentuadas, tendo como característica principal a ocorrência de períodos glaciais intercalados
com intervalos de tempo de condições climáticas mais quentes, também denominados de períodos
interglaciais. As variações climáticas durante o Quaternário, principalmente durante o Último Máximo
Glacial (UMG), entre ~26 e ~19 mil anos AP (Clark et al., 2009), influenciaram a evolução da fauna
e flora mundial. Embora as grandes extensões de gelo tenham ficado confinadas em sua maioria no
hemisfério norte, o UMG teve reflexos significativos nos ecossistemas brasileiros, tais como o Cerrado.
De acordo com Salgado-Labouriau (1997), no ecossistema das savanas na América do Sul,
onde está inserido o cerrado, foram observadas quatro fases de mudanças climáticas e da vegetação ao
longo do Quaternário, com base em estudos palinológicos.
No período compreendido entre 36.000 até 18.000 anos AP o clima foi mais úmido do que
no presente permitindo o desenvolvimento de um mosaico de vegetação com savanas arbóreas densas
e ocorrência de florestas esparsas. Uma diminuição progressiva na umidade se iniciou no período
compreendido entre 22.000 e 18.000 anos AP e atingiu um máximo de aridez entre 14.000 e 10.500
anos AP, quando pântanos e lagos foram parcialmente ou totalmente ressecados, houve decréscimo
dos elementos arbóreos e aumento das áreas com savana aberta e campos, como mostram os
espectros polínicos de Carajás, Águas Emendadas, Cromínia e Lagoa dos Olhos D’ Água. As chuvas
aumentaram no período compreendido entre 7.000 e 6.000 anos AP e possibilitaram a formação de
uma vegetação de savana com mosaicos de florestas decíduas e semi-decíduas. Condições climáticas
e vegetação, semelhantes àquelas verificadas nos dias de hoje foram evidentes a partir do período
compreendido entre 1.400 e 1.250 anos AP, com forte impacto antrópico nos últimos 200 anos AP
(Salgado-Labouriau, 1997).
Após uma década e meia desde a publicação do trabalho de Salgado-Labouriau (1997) que
mostrou um panorama sobre a evolução paleoclimática e paleoambiental das savanas sul-americanas,
baseado no estudo de oito localidades, seis delas no âmbito do Cerrado do Brasil, foram divulgados
novos dados para mais seis localidades, totalizando, até o presente momento, doze estudos palinológicos
no bioma Cerrado.
A partir disto, o principal objetivo deste trabalho foi o de fazer considerações acerca da evolução
paleoclimática e paleoambiental do Cerrado baseadas nos resultados destes doze estudos palinológicos
do bioma Cerrado e de mais três localidades adjacentes (Figura 1). A reconstituição paleoclimática e
paleoambiental aqui apresentada está baseada nos estudos palinológicos das seguintes localidades:
Carajás (Absy et al., 1991) Lagoa de Serra Negra (De Oliveira, 1992); Lagoa dos Olhos d’ Água (De
Oliveira, 1992; Raczka, 2009; Raczka et al. 2012); Salitre (Ledru, 1993); Vereda Cromínia (Ferraz-
Vicentini & Salgado-Labouriau, 1996); Lago do Pires (Behling, 1995); Lagoa Santa (Parizzi et al.,
1998); Vereda Águas Emendadas (Barberi et al., 2000); Lagoa da Confusão (Behling, 2002); Lagoa
Nova (Behling, 2003); Lagoa do Caçó (Ledru et al., 2006); Turfeira Pau de Fruta (Horák, 2009);
Vereda Urbano (Lorente et al., 2010); Lagoa dos Mares (Raczka, 2009; Raczka et al. 2012) e Vereda
Laçador (Cassino & Meyer, 2013).
400 Paleontologia: Cenários de Vida – Paleoclimas

2.1 O Bioma Cerrado durante o Pleistoceno


Os estudos palinológicos visando às reconstituições paleoambientais no Cerrado brasileiro
durante o final do Pleistoceno, mostram respostas diferentes da vegetação deste bioma frente às
mudanças no clima nas localidades estudadas, como resultado das diferenças de latitude, longitude,
altitude e condições específicas dos depósitos sedimentares. Para o final do Pleistoceno, os registros
palinológicos mostram em linhas gerais que houve uma estação seca prolongada com condições
climáticas mais frias do que as atuais nas localidades onde as altitudes variam de 700 a 1100 m, tais
como Cromínia (GO), Lagoa dos Olhos d’ Água (MG), Carajás (PA), Águas Emendadas (DF) e
Buritizeiro (MG), e condições climáticas mais úmidas e mais frias do que as atuais em Salitre e Lagoa
de Serra Negra, no Estado de Minas Gerais (Absy et al., 1991; De Oliveira, 1992; Ledru, 1993;
Ferraz-Vicentini & Salgado-Labouriau, 1996; Barberi et al., 2000; Lorente et al., 2010).
Nos registros palinológicos destas localidades, durante o intervalo de tempo entre 32.400 anos
AP (~37.400 anos cal. AP) e 19.000 anos AP (~21.000 anos cal, AP), observou-se uma diminuição
na diversidade de grãos de pólen, sendo registrada a presença da vegetação de Cerrado arbustivo
ou campo, poucas matas com elementos de clima mais frio que o atual (e.g. Araucaria, Podocarpus,
Hedyosmum e Cunoniaceae), alguns pântanos nas depressões e ausência de veredas (Salgado-Labouriau,
2001). A Figura 2 resume estas condições climáticas.
Em Cromínia (GO), entre 32.390 (~37.400 anos cal AP) a 28.300 anos AP (~32.400 idade
interpolada) ocorreu uma diminuição de grãos de pólen arbóreos, incluindo Mauritia, porque não
houve umidade suficiente para o estabelecimento de uma vegetação arbórea. O predomínio de ervas,
principalmente Poaceae e Cyperaceae, e a presença de algas indicaram que o pântano estava circundado
por vegetação de campo. As condições climáticas durante este intervalo de tempo foram mais úmidas
e frias do que as atuais, provavelmente semelhantes às encontradas atualmente nas montanhas do
Brasil Central (Ferraz-Vicentini & Salgado-Labouriau, 1996; Salgado-Labouriau et al., 1998).
Barberi et al. (2000) registraram que entre 24.000 anos AP (~27.000 idade interpolada) e
21.450 anos AP (~25.600 anos cal. AP) a vegetação era mais densa do que a atual, com ausência de
Mauritia e a presença de árvores de clima frio tais como Hedyosmum, Ilex, Symplocos e Cunoniaceae,
sugerindo uma diminuição na temperatura, além da presença de pântano indicando alta umidade. A
fase relativamente úmida e fria foi seguida por uma longa fase seca que começou há aproximadamente
21.000 anos AP (~23.600 idade interpolada).
Entre 19.000 (~21.000 anos cal AP) e 11.500 anos AP (~11.000 anos cal AP) foi identificada
uma estação seca mais prolongada nas localidades de Cromínia (GO), Lagoa dos Olhos d’ Água
(MG), Carajás (PA) e Águas Emendadas (DF), e condições climáticas mais úmidas e mais frias em
Salitre e Lagoa de Serra Negra, no estado de Minas Gerais (Ferraz-Vicentini & Salgado-Labouriau,
1996; De Oliveira, 1992; Absy et al., 1991; Barberi et al., 2000; Ledru, 1993). Nestas localidades foram
identificadas a distribuição de Cerrado arbustivo ou campo, poucas matas com árvores de clima mais
frio, alguns pântanos nas depressões e ausência de veredas. (Salgado-Labouriau, 2001).
O perfil sedimentar lacustre amostrado no topo do platô em Carajás, leste da Amazônia,
mostrou que após 22.800 anos AP (~27.500 idade interpolada) uma fina camada argilo-arenosa rica
em siderita foi depositada há aproximadamente 12.500 anos AP (~14.600 anos cal. AP), sugerindo
que houve um hiato na sedimentação do corpo lacustre como reflexo de condições climáticas mais
Karin Elise Bohns Meyer, Raquel Franco Cassino, Flávio Lima Lorente,
Marco Raczka & Maria Giovana Parizzi 401

secas que as atuais. O registro polínico de Carajás mostrou baixa concentração de grãos de pólen,
representados principalmente por ervas de campos como Poaceae, Asteraceae, Borreria (Rubiaceae) e
Cuphea (Lytraceae), indicando que o topo do platô estava ocupado por uma vegetação esparsa sob
influência de um clima seco ou semiárido (Absy et al., 1991).
De Oliveira (1992) com base na análise palinológica de um perfil sedimentar obtido na Lagoa
dos Olhos d’ Água (MG), sugeriu que entre 19.520 (~23.300 anos cal. AP) e 13.700 anos AP (~16.800
anos cal. AP) o clima era frio e semiúmido com uma estação seca de menor duração nesta localidade.
A vegetação registrada durante este intervalo de tempo era constituída por elementos de Mata de
Galeria, com a ocorrência de Podocarpus, e grandes quantidades de grãos de pólen de Caryocar, uma
árvore que ocorre no Cerrado sentido restrito e no Cerradão. Após 13.700 anos AP (~16.800 anos
cal AP), a umidade diminuiu e a temperatura aumentou, sendo encontradas partículas de carvão na
sequência sedimentar, sugerindo que a vegetação sofreu a ação de queimadas naturais.
Na Lagoa de Serra Negra (MG), entre 39.930 (~44.000 anos cal. AP) até cerca de 14.340
anos AP (~17.500 anos cal. AP), as condições climáticas eram mais úmidas e frias do que as atuais. O
registro palinológico correspondente a este intervalo de tempo era constituído por grãos de pólen de
elementos tropicais associados a elementos de vegetação de altas altitudes como Araucaria, Podocarpus,
Ilex e Ericaceae. Após 14.430 anos AP (~17.500 anos cal AP) os grãos de pólen dos táxons de vegetação
de altas altitudes não foram registrados na sequência sedimentar e os táxons de savana começaram
a aumentar, sugerindo uma redução na precipitação pluviométrica e aumento da temperatura (De
Oliveira, 1992).
O registro polínico de Salitre (MG), estudado por Ledru (1993), mostrou que durante o
intervalo de tempo entre 12.890 (~15.500 anos cal AP) e 10.350 anos AP (~12.250 anos cal. AP)
os grãos de pólen de Araucaria e de outros elementos associados à Floresta Ombrófila Mista, tais
como Ilex, Symplocos e Drymis, estiveram presentes no registro palinológico, sugerindo que houve
uma diminuição na temperatura na região durante o final do Pleistoceno, com condições de inverno
prolongado e seco. Este intervalo de tempo também foi marcado pela diminuição na concentração
de elementos arbóreos, e pelo predomínio de elementos herbáceos, representados principalmente por
Poaceae, Apiaceae, Mabea (Euphorbiaceae) e Ranunculus (Ranunculaceae).
Na vereda de Cromínia (GO) no período compreendido entre 18.500 (~20.400 idade
interpolada) e 11.300 anos AP (~10.400 idade interpolada) houve uma diminuição na concentração
da maioria dos palinomorfos e o pequeno corpo lacustre anteriormente formado foi substituído por
um pântano circundado por poáceas. A ausência de grãos de pólen de Mauritia, o predomínio de
grãos de pólen de elementos herbáceos como Poaceae, Asteraceae e Cyperaceae, além da diminuição
da maioria dos palinomorfos sugerem que no local havia uma vegetação com pouca diversidade de
espécies, influenciada por condições climáticas mais secas que as atuais, semelhante e/ou comparável
às descritas para regiões de clima semi-árido (Ferraz-Vicentini & Salgado-Labouriau, 1996).
Barberi et al. (2000) verificaram que no perfil sedimentar de uma vereda localizada no platô de
Águas Emendadas (DF) houve um hiato na sedimentação entre 21.400 (~25.600 anos cal AP) e 7.300
anos AP (~8.060 anos cal AP), sendo a camada orgânica substituída por uma fina camada de areia
e silte. Durante este intervalo, a concentração de palinomorfos do registro palinológico alcançou os
menores valores ao longo de todo o perfil, sugerindo que as condições climáticas eram mais secas que
402 Paleontologia: Cenários de Vida – Paleoclimas

as atuais ocasionando a desertificação do platô. A vegetação na região era menos densa sob a influência
de um clima provavelmente semiárido.
Na vereda da Fazenda Urbano, município de Buritizeiro (MG), Lorente et al. (2010) registraram
que entre 13.120 (~15.900 anos cal AP) e 11.640 anos AP (~13.500 anos cal AP), a vegetação era
caracterizada pelo predomínio arbustos e ervas, representados principalmente por Poaceae, Asteraceae,
Rubiaceae e Drosera. A fitofisionomia associada a este intervalo foi comparável e/ou semelhante à de
Campo Limpo, que se caracteriza como uma formação campestre predominantemente herbácea, com
raros arbustos dispersos e ausência de árvores. Segundo os autores, os dados palinológicos sugeriram
que as condições climáticas durante este intervalo de tempo eram mais secas que as atuais, condições
estas semelhantes e/ou comparáveis ao clima semiárido.
Os registros palinológicos de Lagoa Santa, obtidos na Lagoa Olhos D’Água e Lagoa dos
Mares (De Oliveira, 1992; Raczka 2009; Raczka et al. 2012), demonstram que durante o período de
transição Pleistoceno/Holoceno a paisagem era composta por uma vegetação rica em elementos de
floresta típica de cerrado, em associação com elementos de florestas de clima mais frio.
Durante o UMG, a região de Lagoa Santa aponta a presença de táxons característicos de clima
frio, como Podocarpus, Myrsine, Hedyosmum e Araucaria associados com altos níveis nas porcentagens
de Cyperaceae e valores constantes nas porcentagens de algas, o que sugere um clima mais frio e
úmido, e não frio e seco.
As análises realizadas na região de Lagoa Santa (Raczka 2009; Raczka et al. 2012) apoiam
a observação feita por (Cruz et al. 2006; 2007), que sugere a presença de um clima mais úmido ao
final do Pleistoceno. Com base em dados provenientes de espeleotemas da Caverna Botuverá, (Cruz
et al. 2007) mostra que durante o UMG o Brasil estava sob influência de um clima de monção. Os
mecanismos climáticos de umidade durante o UMG seriam afetados pela mudanças de temperatura
entre o continente e o mar, o que influenciaria os padrões de circulação atmosférica que controlam o
sistema de monção no continente sul-americano (SASM) (Cruz et al. 2006; 2007).
Durante o final do período Pleistoceno foi observado um gradual aumento na temperatura,
o que possibilitou que novas espécies surgissem no registro palinológico das Lagoa Olhos d’Água e
Lagoa dos Mares (Raczka 2009; Raczka et al. 2012). Esta rara composição florística, em que elementos
de cerrado coexistiram com táxons de florestas temperadas (Araucaria, Ericaceae, Hedyosmum,
Myrsinaceae, Podocarpus, Protium e Sapindaceae), que agora estão restritos a altas elevações ou a
baixas latitudes no Brasil, sugere a presença de um mosaico floresta/cerrado, sem análogos modernos
(Raczka, 2009; Raczka et al. 2012).
A análise de gases nobres em águas subterrâneas da região semiárida no estado do Piauí,
Nordeste do Brasil, permitiu estimar que a temperatura média durante o UMG foi 5º C mais baixa do
que a temperatura média atual (Stute et al., 1995), indicando que no final do Pleistoceno as condições
climáticas eram mais frias do que as atuais, concordando em linhas gerais com a diminuição das
temperaturas indicadas em estudos palinológicos realizados em Minas Gerais, tais como nas localidades
de Salitre, Lagoa de Serra Negra e Lagoa dos Olhos d’ Água (Ledru, 1993; De Oliveira, 1992),
e posteriormente registrados no Brasil Central, como em Cromínia e Águas Emendadas (Ferraz-
Vicentini & Salgado-Labouriau, 1996; Barberi et al., 2000).
Karin Elise Bohns Meyer, Raquel Franco Cassino, Flávio Lima Lorente,
Marco Raczka & Maria Giovana Parizzi 403

2.2 Paleoclima do cerrado durante o Holoceno (11.700 anos AP ao presente)


Após o término da última grande glaciação pleistocênica, inicia-se um período de clima mais
quente, o Holoceno, cujo início é, por convenção, fixado em 11.700 anos AP. A característica principal,
em termos paleoclimáticos, deste período geológico mais recente é o aquecimento de âmbito global
ocorrido na transição com o período anterior (Fontana et al., 2012). Além desta mudança climática
global que caracteriza o início do Holoceno, este período foi marcado por variações significativas na
circulação atmosférica que impactaram de forma diferenciada a paisagem, a vegetação, e as populações
das diversas regiões do globo. Assim como em outras regiões, estas variações climáticas ao longo do
Holoceno afetaram a região do bioma Cerrado, embora não de forma homogênea, devido à expressiva
distribuição latitudinal deste bioma.
Variações na órbita terrestre ao longo do Holoceno influenciaram de forma significativa o clima
global; durante a primeira metade do Holoceno (entre 11.700 e 6.000 anos AP), a órbita terrestre
passava mais perto do Sol durante o inverno do Hemisfério Sul (verão do Hemisfério Norte) (Berge,
1992; Fontana et al., 2012); assim o Hemisfério Sul recebia menor quantidade de insolação durante o
verão, e maior quantidade de insolação durante o inverno. Isso gerava um menor gradiente anual de
temperaturas neste hemisfério.
As principais respostas climáticas a este padrão de insolação vigente na primeira metade
do Holoceno foram o deslocamento da Zona de Convergência Intertropical (ZCIT) em direção
ao sul durante o verão (do Hemisfério Sul) e uma menor intensidade e migração para o norte da
Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS). Em síntese, esta configuração atmosférica teve
como consequência uma maior precipitação na região Nordeste do Brasil e um clima mais seco no
Centro e no Sudeste durante o Holoceno inicial e médio (Dias et al., 2009; Cruz et al., 2009). Os
registros paleoclimáticos estudados no Bioma Cerrado mostram, no entanto, um quadro relativamente
complexo, indicando que estes padrões globais influenciaram de forma diferenciada as diversas regiões
e que outros processos regionais ou locais devem também ter sido importantes no Holoceno.

2.2.1 Registros palinológicos do Holoceno no Cerrado


Os registros palinológicos estudados em regiões de ocorrência da vegetação do Cerrado que
abrangem todo ou parte do Holoceno são (Figura 1): Carajás (Absy et al., 1991); Lagoa de Serra
Negra (De Oliveira, 1992); Lagoa dos Olhos d’ Água (De Oliveira, 1992 e Raczka, 2009; Raczka et al
., 2012); Turfeira de Salitre (Ledru, 1993); Lago do Pires (Behling, 1995); Vereda Cromínia (Ferraz-
Vicentini & Salgado-Labouriau, 1996); Lagoa Santa (Parizzi et al., 1998); Vereda Águas Emendadas
(Barberi et al., 2000); Lagoa da Confusão (Behling, 2002); Lagoa Nova (Behling, 2003); Lagoa do
Caçó (Ledru et al., 2006); Turfeira Pau de Fruta (Horák, 2009); Vereda Urbano (Lorente et al., 2010);
Lagoa dos Mares (Raczka, 2009; Raczka et al., 2012) e Vereda Laçador (Cassino & Meyer, 2013).
Como mostra a Figura 1, grande parte destes registros se concentra na região sudeste do bioma. O
Lago do Pires e a Lagoa Nova se encontram propriamente no domínio da Mata Atlântica, mas foram
incluídos por estarem próximos à região de transição com o Cerrado e por registrarem a ocorrência de
uma vegetação savânica em algumas fases do Holoceno.
Estes registros palinológicos fornecem indícios sobre as mudanças que ocorreram na vegetação
do Cerrado ao longo do Holoceno e embora vários fatores possam influenciar a composição e a
404 Paleontologia: Cenários de Vida – Paleoclimas

estrutura da vegetação, as mudanças climáticas podem ser consideradas o principal fator responsável
por modificações da vegetação em escalas regionais. Portanto, a comparação e a correlação dos dados
obtidos em registros distribuídos regionalmente permitem revelar estas mudanças climáticas.

Figura 1. Localização dos registros palinológicos estudados no Cerrado.

2.2.2 Transição Pleistoceno – Holoceno (entre 12.000 e 11.000 anos AP)


Os registros palinológicos do Cerrado que abrangem a transição Pleistoceno- Holoceno
são escassos. Destes registros, três, a Lagoa da Confusão, a Vereda de Águas Emendadas e a Vereda
Urbano, apresentam um hiato deposicional ou uma escassa preservação de grãos de pólen neste período.
Estes hiatos não são, no entanto, exatamente sincrônicos. Na Lagoa da Confusão (TO), a extensão
cronológica do hiato não foi definida, mas este provavelmente abrangeu a parte final do Pleistoceno e
o início do Holoceno. Em Águas Emendadas (DF), entre ca. 25.600 e 8.000 anos cal. AP não houve
deposição de turfa e todo este período é representado por uma camada de argila silto-arenosa. Na
Vereda Urbano (MG), até ca. 13.500 anos cal. AP, havia uma vegetação do tipo Campo Limpo e o
período entre ca. 13.500 e 7.000 anos cal. AP não está representado no testemunho.
Assim, estes três registros mostram já no final do Pleistoceno uma tendência à presença de
uma vegetação mais aberta e de um clima mais seco e uma amplificação desta tendência no início do
Holoceno já que a interrupção na deposição de turfa é possivelmente o resultado de um ressecamento
parcial ou total dos sítios deposicionais.
Na Vereda de Cromínia (GO), uma fase de clima seco, marcada pela baixa concentração de
palinomorfos, se iniciou em aproximadamente 12.400 anos cal. AP e se estendeu até ca. 8.500 anos
cal. AP, embora desde 22.000 anos cal. AP, a presença de táxons arbóreos já havia sofrido declínio e
a vegetação já era predominantemente herbácea. No extremo norte da região ocupada pelo Cerrado,
na Lagoa do Caçó (MA), a transição Pleistoceno – Holoceno (12.800 a 11.000 anos cal. AP) foi
Karin Elise Bohns Meyer, Raquel Franco Cassino, Flávio Lima Lorente,
Marco Raczka & Maria Giovana Parizzi 405

marcada por uma drástica diminuição dos táxons arbóreos e por um aumento de poáceas, juntamente
com a presença de espécies pioneiras como Cecropia, indicando também, embora não haja um hiato no
testemunho, a presença de um clima mais seco. Na Turfeira de Salitre (Ledru, 1993), na região oeste
de Minas Gerais, até ca. 12.000 anos cal. AP, a vegetação era caracterizada pela presença de matas
inundadas e matas de Araucária e o clima era úmido e mais frio que o atual. A partir de 12.000 anos
cal. AP, ocorreu um marcado aumento dos táxons herbáceos e uma diminuição ou desaparecimento
de vários táxons arbóreos, indicando a ocorrência de uma fase de clima mais seco, e ainda frio, que
durou aproximadamente mil anos. Na Lagoa dos Olhos d’ Água, na região central de Minas Gerais,
as temperaturas ficaram mais altas e o clima mais seco a partir de 12.600 anos cal. AP, e a transição
Pleistoceno-Holoceno foi um período de clima quente e semi-úmido, sob o qual se desenvolveu um
mosaico de cerrado e mata semi-decídua. Situado na mesma região, o registro da Lagoa dos Mares
indica que na transição Pleistoceno-Holoceno a paisagem era composta por uma vegetação rica em
elementos de floresta típica do Cerrado, em associação com elementos de florestas de clima mais frio.
Já na Vereda Laçador, situada muito próximo à Vereda Urbano, embora até 13.240 anos cal. AP
existam evidências de um clima mais frio e talvez mais seco que o atual, a transição do Pleistoceno para
o Holoceno propriamente dita foi um período de expansão da vereda, com presença expressiva do buriti
e de outras árvores do Cerrado, não obstante a vegetação herbácea continuasse muito abundante. O
registro da Vereda Laçador indica, portanto, a presença de um clima quente e semi-úmido, semelhante
ao atual entre ca. 13.000 e 11.600 anos cal. AP. Outro registro que indica uma tendência de aumento
da umidade no início do Holoceno é o registro de Carajás: neste local, em aproximadamente 12.000
anos cal. AP findava uma fase de clima seco e de predomínio da vegetação herbácea e iniciava-se um
período de expansão da floresta em torno do platô.
Resumidos na Figura 2, estes dados indicam na transição Pleistoceno – Holoceno o predomínio
de um clima seco no Cerrado, apenas o registro da Vereda Laçador, e o de Carajás a partir de 12.000
anos cal. AP, indicam um clima relativamente úmido neste período. Nota-se também que em Salitre
houve de fato um período relativamente mais seco em aproximadamente 12.000 anos cal. AP, mas foi
uma fase bastante curta.

2.2.3 Primeira metade do Holoceno (11.700 a 6.000 anos AP)


Assim como a transição Pleistoceno-Holoceno, grande parte da primeira metade do Holoceno
não está representada no registro de Águas Emendadas. Nesta vereda, a deposição de turfa voltou
somente em ca. 8.000 anos cal. AP, e a partir de então, a presença de Mauritia flexuosa e de táxons
arbóreos do Cerrado indica a volta da umidade e a instalação de um clima semelhante ao atual. Na
Vereda de Cromínia, um aumento da umidade também foi registrado após ca. 8.500 anos cal. AP
pela instalação da vegetação atual. Na Lagoa do Caçó (MA), embora tenha havido um aumento da
umidade em relação à fase final do Pleistoceno, predominaram um clima relativamente seco e uma
vegetação mais aberta entre 11.000 e 8.500 anos cal. AP; posteriormente, um aumento progressivo de
táxons arbóreos do Cerrado indica a presença de um clima mais úmido. Estes três registros mostram,
portanto, em linhas gerais, um início do Holoceno mais seco, seguido de uma tendência de aumento
da umidade a partir de aproximadamente 8.500 anos cal. AP. Na região da Lagoa da Confusão, a volta
da deposição de turfa e a instalação de uma vegetação do tipo Campo Cerrado e de matas de galeria
no entorno do lago também ocorreu no Holoceno inicial, mas não foi datada com precisão.
406 Paleontologia: Cenários de Vida – Paleoclimas

Figura 2. Representação esquemática das mudanças climáticas interpretadas a partir de registros palinológicos: Lagoa
do Caçó (Ledru et al., 2006); Carajás (Absy et al. 1991); Lagoa da Confusão (Behling, 2002); Vereda Águas Emendadas
(Barberi et al., 2000); Vereda Cromínia (Ferraz-Vicentini & Salgado-Labouriau, 1996); Vereda Laçador (Cassino & Meyer,
2013); Vereda Urbano (Lorente et al., 2010); Lago do Pires (Behling, 1995); Lagoa Nova (Behling, 2003); Turfeira Pau de
Fruta (Horák, 2009); Lagoa de Serra Negra (De Oliveira, 1992); Turfeira de Salitre (Ledru, 1993); Lagoa Santa (Parizzi et al.,
1998); Lagoa dos Olhos d’ Água (De Oliveira, 1992; Raczka, 2009; Raczka et al. 2012) e Lagoa dos Mares (Raczka, 2009;
Raczka et al. 2012). Na penúltima coluna estão representados os eventos de aumento e de diminuição de umidade
detectados por Stríkis et al. (2011) em espeleotemas da Lapa Grande e na última coluna estão representados os períodos
de maior e menor ocupação humana em sítios arqueológicos do Brasil Central de acordo com Araújo et al. (2005).

Um padrão diferente foi determinado nos outros registros do Cerrado. Na Vereda Laçador, entre
ca. 11.600 e 9.900 anos cal. AP, houve uma retração da vereda e o aumento de elementos herbáceos,
associados a uma mudança na composição das matas de galeria onde táxons como Ilex, Podocarpus,
Myrsine, Symplocos e Drimys brasiliense passaram a ter uma presença significativa, convivendo com
táxons mais típicos do Cerrado. Posteriormente, entre 9.900 e ca. 7.000 anos cal. AP ocorreu uma
grande expansão da Vereda Laçador e o desenvolvimento de uma vegetação do tipo Cerrado stricto
sensu em seu entorno, indicando um clima quente e úmido. Após 7.000 anos cal. AP, a tendência foi
de aumento da vegetação herbácea e de retração da vereda, mostrando o início de uma fase mais seca.
A provável existência de um hiato nesta porção do perfil da Vereda Laçador sugere que houve um
ressecamento da vereda no final da primeira metade do Holoceno.
Karin Elise Bohns Meyer, Raquel Franco Cassino, Flávio Lima Lorente,
Marco Raczka & Maria Giovana Parizzi 407

Em um registro localizado na região de transição do Cerrado com a Mata Atlântica, o Lago


do Pires, onde a sedimentação se iniciou em aproximadamente 11.200 anos cal. AP, uma situação
semelhante à da Vereda Laçador foi encontrada. Inicialmente, até 9.900 anos AP, uma vegetação
do tipo Campo Cerrado existia no entorno do lago, as matas eram restritas e as gramíneas eram
abundantes. Esta fase de clima mais seco que o atual foi interrompida, entre 9.900 e 8.300 anos
cal. AP, por uma fase de grande umidade, em que as matas de galeria se expandiram sobre o campo,
inicialmente com o aumento de Cecropia seguida de outros táxons típicos de matas. Posteriormente,
entre 8.300 e 6.300 anos AP, é novamente o Campo Cerrado que se expande sobre as matas, em
uma nova fase de clima mais seco que o atual. O registro da Lagoa Nova, situada ao lado do Lago
do Pires, mostra o mesmo padrão: entre 11.800 e 9.500 anos cal. AP, a vegetação era mais aberta
e o táxon arbóreo mais abundante era Curatella, uma árvore típica do Cerrado sentido restrito; na
fase seguinte, que se estende até ca. 8.300 anos cal. AP, os táxons arbóreos são mais diversificados e
abundantes, indicando o desenvolvimento das matas; finalmente, entre 8.300 e 6.900 anos cal. AP,
há uma nova expansão da vegetação campestre. No registro da Turfeira de Salitre, após a breve fase
seca que marcou a transição Pleistoceno-Holoceno, iniciou-se uma fase de clima frio e úmido que
se estendeu até ca. 8.900 anos cal. AP, em que as matas eram abundantes e nelas predominavam os
táxons Ilex, Podocarpus, Symplocos, Araucaria e Drymis. Em seguida, um período de temperaturas mais
altas e clima relativamente mais seco, entre 8.900 e 6.400 anos cal. AP, permitiu o desenvolvimento
de uma mata semi-decídua; a partir de ca. 6.400 anos cal. AP, uma nova queda na umidade gerou uma
diminuição significativa do extrato arbóreo e o aumento de poáceas.
A Turfeira Pau de Fruta, situada sobre a Serra do Espinhaço em Minas Gerais, iniciou a sua
formação em ca. 9.000 anos cal. AP e, até ca. 8.100 anos cal. AP, conviviam no local árvores da floresta
semi-decídua e árvores da floresta montana; o Campo Cerrado ocupava áreas limitadas. O clima neste
período deve ter sido mais úmido e um pouco mais frio que o atual. Embora a floresta semi-decídua
tenha permanecido no local, o registro da turfeira Pau de Fruta mostra, entre aproximadamente 7.600
e 7.300 anos cal. AP, a ocorrência de uma queda na umidade, de um aumento na extensão do Campo
Cerrado e uma maior presença de incêndios. A Turfeira Pau de Fruta registra várias oscilações na
umidade no decorrer do Holoceno: após 7.300 anos cal. AP a umidade volta a aumentar, permitindo
uma expansão do Campo Úmido, novamente interrompida por uma fase seca em ca. 5.700 anos cal.
AP.
Em Carajás, o início do Holoceno foi um período de expansão da floresta no entorno do platô,
e esta expansão atingiu o seu auge entre 10.800 e 8.800 anos cal. AP. Após aproximadamente 8.700
anos cal. AP, o clima se tornou mais seco, como demonstra a diminuição ou desaparecimento dos
táxons de floresta tropical e o predomínio de gramíneas.
Dois registros, o de Lagoa de Serra Negra e de Lagoa dos Olhos d’ Água, indicam uma primeira
metade do Holoceno sem grandes mudanças climáticas, com o predomínio de um clima úmido ou
semi-úmido e quente.
Três registros, o de Lagoa de Serra Negra, Lagoa dos Olhos d’ Água e Lagoa dos Mares,
indicam uma primeira metade do Holoceno sem grandes mudanças climáticas, com o predomínio de
um clima úmido ou semi-úmido e quente. No registro da Lagoa dos Mares, a partir de 9.200 anos AP,
a vegetação foi caracterizada pela presença de uma floresta de transição, onde os elementos de clima
408 Paleontologia: Cenários de Vida – Paleoclimas

frio como Araucaria, Ericaceae, Myrsinaceae, e Podocarpus ainda estavam presentes, porém em menor
porcentagem que na transição Pleistoceno-Holoceno.
Comparando os registros palinológicos do Cerrado durante a primeira metade do Holoceno,
os sítios de Águas Emendadas, Cromínia e Lagoa do Caçó se diferenciam dos demais; eles indicam
uma primeira metade do Holoceno predominantemente seca até ca. 8.000 anos cal. AP. Em outros
seis registros Vereda Laçador, Lago do Pires, Lagoa Nova, Turfeira de Salitre, Turfeira Pau de Fruta e
Carajás, é interessante observar a presença marcada de uma fase úmida pelo menos a partir de 9.900
anos cal. AP (em Salitre e em Carajás esta fase se iniciou bem mais cedo), e foi interrompida por uma
diminuição da umidade em 8.000 ou 7.500 anos cal. AP (na Vereda Laçador o início da fase seca foi
datado em 7.000 anos cal. AP, mas esta é uma idade interpolada e pode ser mais antiga). O início desta
fase mais seca coincide, no entanto, com o início de uma fase mais úmida nos registros situados mais
ao norte, Cromínia, Águas Emendadas e Lagoa do Caçó (Figura 2).

2.2.4 Segunda metade do Holoceno (6.000 anos AP ao presente)


Nas veredas de Águas Emendadas e de Cromínia e na Lagoa do Caçó, o clima quente e semi-
úmido, semelhante ao atual, que se instalou em ca. 8.000 anos cal. AP permaneceu até o presente (no
registro de Cromínia não estão representados os últimos 3.500 anos). Em Águas Emendadas um
período de clima mais úmido foi registrado em aproximadamente 1.500 anos cal. AP por um pico de
Mauritia flexuosa. Na Lagoa da Confusão, a partir de 6.200 anos cal. AP, uma maior quantidade de
árvores do Cerrado e das matas de galeria indica condições mais úmidas que as vigentes na primeira
metade do Holoceno.
Quanto aos registros que demonstraram uma fase seca no final da primeira metade do Holoceno,
as tendências climáticas passaram a divergir. Na Vereda Laçador, a tendência de diminuição da
umidade se estendeu pela segunda metade do Holoceno e se intensificou a partir de aproximadamente
2.000 anos cal. AP. Na mesma região, o registro da Vereda Urbano apresenta apenas duas amostras
datando da segunda metade do Holoceno que demonstram a presença da vereda e de uma vegetação
do tipo Cerrado sentido restrito ralo. Já no Lago do Pires, a fase seca que se iniciou em 8.300 anos
cal. AP foi temporária, a partir de ca. 6.300 anos cal. AP a umidade voltou a aumentar, permitindo a
formação de grandes matas de galeria e o desenvolvimento de uma vegetação do tipo Cerrado sentido
restrito no lugar do Campo Cerrado. Embora entre 4.900 e 2.900 anos cal. AP tenha sido registrada
a presença de um Cerrado mais aberto, provavelmente devido à frequência de incêndios, condições
úmidas prevaleceram no registro do Lago do Pires durante a segunda metade do Holoceno, e entre
2.900 anos cal. AP e o presente, condições ainda mais úmidas, permitiram o adensamento das matas.
O registro de Lagoa Nova confirma as características do Lago do Pires: a partir de 6.900 anos cal. AP,
após a fase seca que marcou o fim da primeira metade do Holoceno, a presença de um Cerrado mais
fechado e de matas de galerias maiores e mais densas indicam um aumento da precipitação anual e
uma diminuição na duração da estação seca.
Na turfeira de Salitre, a fase seca durou um pouco mais, até aproximadamente 4.900 anos cal.
AP, posteriormente, a floresta semi-decídua voltou a se desenvolver no local marcando um aumento
da precipitação. O testemunho da Turfeira de Salitre não registra os últimos 3.000 anos. Na Serra
do Espinhaço, a Turfeira Pau de Fruta mostra novamente várias oscilações de umidade ao longo
da segunda metade do Holoceno, após 5.700 anos cal. AP, a turfeira tende a se transformar em um
Karin Elise Bohns Meyer, Raquel Franco Cassino, Flávio Lima Lorente,
Marco Raczka & Maria Giovana Parizzi 409

pequeno lago e as matas se desenvolvem, apontando um clima bastante úmido, com um pico em
4.700 anos cal. AP. Uma queda da umidade e das temperaturas por volta de 2.900 anos cal. AP é
indicada pelo aumento de táxons herbáceos e pelo aparecimento de Drimys brasiliense. Posteriormente,
a umidade volta a aumentar ocasionando uma ligeira expansão da vegetação arbórea.
Em Carajás, a fase seca de clima muito seco que se iniciou em 8.700 anos cal. AP durou até
aproximadamente 3.100 anos cal. AP, a partir de então, voltaram a aparecer os táxons da floresta
tropical e se estabeleceu a vegetação que ocorre atualmente no local.
Na Lagoa de Serra Negra, houve a partir de 5.700 anos cal. AP uma tendência de diminuição
da umidade com o estabelecimento de uma vegetação savânica com matas de galeria em torno do
lago. Inicialmente, por volta de 5.700 anos cal. AP, uma breve fase de clima mais frio foi registrada
pela presença de Podocarpus e Drymis. Apenas a partir de 1.200 anos cal. AP, um clima mais úmido,
semelhante ao atual se instalou na região.
Outro registro palinológico que abrange a segunda metade do Holoceno foi coletado na Lagoa
Santa, uma lagoa situada em uma região cárstica no centro do estado de Minas Gerais. A lagoa
começou a se formar por volta de 6.000 anos cal. AP e até 5.100 anos cal. AP o clima era ainda muito
seco como demonstra a baixa preservação de grãos de pólen e o predomínio de poáceas. Entre 5.100
e 3.600 anos cal. AP, um lago mais profundo já estava formado, permitindo uma melhor preservação
dos palinomorfos; a vegetação típica do Cerrado se desenvolveu, assim como uma mata de galeria ao
redor do lago. Entre 3.600 e 1.700 anos cal. AP, um clima ainda mais úmido permitiu a expansão da
cobertura arbórea; em aproximadamente 1.400 anos cal. AP, um período um pouco menos úmido é
marcado pelo aumento de herbáceas, mas em seguida a umidade volta a aumentar. Na Lagoa dos Olhos
d’Água, situada muito próxima à Lagoa Santa, o registro também indica um aumento da umidade a
partir de aproximadamente 5.500 anos cal. AP, embora este registro não tenha confirmado a presença
de um clima semi-árido no período anterior.
Outro registro da mesma região, o da Lagoa dos Mares, indica poucas variações da umidade
ao longo da segunda metade do Holoceno, embora haja indícios de um clima mais sazonal (com uma
estação seca mais pronunciada) entre aproximadamente 4.000 e 2.700 anos cal. AP.
Em síntese, quatro registros, Águas Emendadas, Cromínia, Lagoa do Caçó e Lagoa da Confusão
(todos situados na porção noroeste do Cerrado), mostraram a partir de ca. 8.000 ou 7.500 anos cal.
AP um aumento da umidade, e durante a segunda metade do Holoceno o predomínio de um clima
relativamente úmido, semelhante ao atual para estas regiões. Cinco outros registros, Lago do Pires,
Lagoa Nova, Lagoa Santa, Salitre e Carajás, indicaram o predomínio de condições relativamente mais
secas até pelo menos 6.500 ou 5.000 anos cal. AP, e somente a partir de então, houve um aumento de
umidade. Na região do Lago do Pires e da Lagoa Nova só muito recentemente um nível de umidade
semelhante ao atual foi atingido. Os registros da Vereda Laçador e da Turfeira Pau de Fruta
não se enquadram em nenhum destes dois grupos. Na Vereda Laçador, após ca. 7.000 anos cal. AP,
não houve nenhuma fase marcada pela tendência de aumento da umidade, como foi registrado nos
outros sítios. Pelo contrário, na segunda metade do Holoceno, houve neste local uma tendência de
progressiva diminuição da precipitação e aumento da estação seca. A Turfeira Pau de Fruta, por sua
vez, registra várias oscilações na umidade e na temperatura ao longo da segunda metade do Holoceno.
Duas fases de clima mais frio que o atual determinadas neste perfil, em ca. 6.200 anos cal. AP e em
ca. 2.900 anos cal. AP, não ocorreram nas demais localidades estudadas no Cerrado. Estas ocorrências
410 Paleontologia: Cenários de Vida – Paleoclimas

são possivelmente explicadas pela situação geográfica da Turfeira Pau de Fruta, situada sobre a Serra
do Espinhaço, uma região de maior altitude que os demais sítios e provavelmente mais sensível a
diminuições nas temperaturas.

2.3 O Clima no Cerrado durante o Holoceno – Discussão e


Comparação com Outros Dados Paleoclimáticos
Os registros palinológicos estudados no Cerrado indicam que o Holoceno foi marcado por
importantes variações climáticas, especialmente no que se refere à quantidade de precipitação e à
duração da estação seca. Estes registros sugerem ainda que estas variações não foram homogêneas em
todo o bioma e até mesmo seguiram tendências contrárias em alguns períodos.
Cruz et al., 2009, a partir da análise isotópica do oxigênio em espeleotemas de uma caverna
do Rio Grande do Norte e comparação com um modelo geral de circulação, sugerem que a primeira
metade do Holoceno (até 5.000 anos AP) foi predominantemente mais seca (em relação ao clima
atual) nas regiões amazônica, central e sudeste do Brasil e predominantemente mais úmida na região
nordeste. Em linhas gerais, muitos registros palinológicos do Cerrado indicam de fato um clima mais
seco na primeira metade do Holoceno, em relação ao Holoceno tardio. No entanto, dentro deste
padrão geral há muitas oscilações e alguns sítios discordantes. Por exemplo, na Vereda Laçador, a fase
mais úmida do Holoceno ocorreu entre 9.900 e 7.000 anos cal. AP e na segunda metade do Holoceno
não houve outras fases de grande umidade como ocorre em outros registros. Possivelmente isto é uma
consequência da posição geográfica da Vereda Laçador, relativamente próxima à região de transição
para o clima atualmente semi-árido do Nordeste.
Além disto, embora os outros registros demonstrem de fato um clima relativamente mais úmido
no Holoceno tardio, a primeira metade do Holoceno não foi inteiramente marcada por um clima seco.
Pelo menos uma fase úmida foi registrada em várias das localidades estudadas, entre aproximadamente
9.900 e 8.000 anos cal. AP. Esta fase foi seguida por um período bastante seco, cujo pico ocorreu em
torno de 7.500-7.000 anos cal. AP. Dados arqueológicos de sítios do Brasil Central compilados por
Araújo et al. (2005) corroboram estas mudanças climáticas determinadas pelos registros palinológicos.
De acordo com estes autores, após uma fase de intensa ocupação de sítios em cavernas e ao ar livre
pelas populações pré-históricas, houve, a partir de aproximadamente 8.000 anos cal. AP, um período
de forte diminuição da população ou de deserção dos sítios na região central do Brasil (Hiato Arcaico).
Muitos dos sítios arqueológicos estudados nesta região permaneceram desocupados até o
Holoceno tardio. Araújo et al. (2005) sugerem que as populações pré-históricas se instalaram na região
do Brasil Central no início do Holoceno sob um clima úmido e que, posteriormente, o advento de
condições mais secas ocasionou a redução ou o deslocamento destas populações.
Esta fase de clima úmido entre 9.900 e 8.000 anos cal. AP não foi registrada nas veredas de
Águas Emendadas e de Cromínia, o que parece indicar que em algumas regiões o clima permaneceu
seco durante todo o Holoceno inicial. Por outro lado, na região de Lagoa Santa, os testemunhos das
Lagoas dos Olhos d’ Água e Lagoa dos Mares não registraram um período mais seco coincidente com
o Hiato Arcaico, como foi o caso das demais localidades citadas.
Stríkis et al. (2011) analisaram a composição isotópica do oxigênio em espeleotemas da
caverna Lapa Grande, situada na região norte de Minas Gerais, e determinaram a ocorrência de
Karin Elise Bohns Meyer, Raquel Franco Cassino, Flávio Lima Lorente,
Marco Raczka & Maria Giovana Parizzi 411

vários eventos de aumento da precipitação durante o Holoceno (Figura 2). Estes eventos tiveram
duração de aproximadamente 300 anos para aqueles datando do Holoceno inicial e médio e entre 50
e 100 anos para os eventos mais recentes. Os eventos de aumento da umidade centrados em 9.200
e em 8.200 anos AP. coincidem com o período úmido registrado nos sítios palinológicos situados
no estado de Minas Gerais. Stríkis et al. (2011) destacam que o evento centrado em 8.200 anos AP
foi o evento mais forte, ou seja, em que foi registrado o maior aumento de precipitação. Após este
evento, os autores detectaram a ocorrência de uma fase seca, centrada em 7.800 anos AP, também
com duração de aproximadamente 300 anos, que coincide por sua vez com o início do período seco
registrado em vários dos sítios palinológicos de Minas Gerais. Outros eventos de aumento da umidade
determinados por Stríkis et al. (2001) não foram detectados nos registros palinológicos, os eventos
centrados em 7.400 e 7.000 anos cal AP., por exemplo, ocorreram quando a maior parte dos registros
palinológicos indicam um clima relativamente seco. É necessário ressaltar que a escala temporal da
análise de espeleotemas, como o trabalho de Stríkis et al. (2011), é muito mais refinada que aquela dos
registros palinológicos. Eventos climáticos curtos podem não ter impacto suficiente na vegetação para
que sejam detectáveis nestes registros.
A vegetação do Cerrado é muito sensível a mudanças na quantidade de precipitação, na duração
da estação seca e na frequência de incêndios. Dados paleoclimáticos de várias fontes indicam que
estes fatores variaram significativamente durante o Holoceno, modificando a paisagem do Cerrado
ao longo do tempo. As diferentes áreas deste vasto bioma foram impactadas de forma distinta por
mudanças climáticas de âmbito global. As mudanças climáticas que ocorreram ao longo do Holoceno,
além de modificar as características da vegetação, impactaram também as populações humanas que
viveram nesta região.

3. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os estudos palinológicos visando às reconstituições paleoambientais no Cerrado brasileiro
durante o Quaternário tardio, mostram respostas diferentes da vegetação deste bioma frente às
mudanças no clima nas localidades estudadas, como resultado das diferenças de latitude, longitude,
altitude e condições específicas dos depósitos sedimentares.
Para o final do Pleistoceno (~21.000 a ~19.000 anos cal. AP) houve uma estação seca prolongada
com condições climáticas mais frias do que as atuais nas localidades de Cromínia, Lagoa dos Olhos
d’ Água, Carajás, Águas Emendadas e Buritizeiro, e, condições climáticas mais úmidas e mais frias do
que as atuais na Lagoa dos Mares, Salitre e Lagoa de Serra Negra.
Em termos florísticos, no intervalo de tempo entre 32.400 (~37.400 cal. anos AP) e 19.000
anos AP (~21.000 cal. anos AP), observou-se uma diminuição na diversidade de grãos de pólen, sendo
registrada a presença da vegetação de Cerrado arbustivo ou campo, poucas matas com elementos de
clima mais frio que o atual (e.g. Araucaria, Podocarpus, Hedyosmum e Cunoniaceae), alguns pântanos nas
depressões e ausência de veredas.
Durante a transição do Pleistoceno para o Holoceno houve o predomínio de um clima seco no
Cerrado. No entanto na Vereda Laçador, e, em Carajás a partir de 12.000 anos cal. AP. foi registrado
um clima relativamente úmido.
412 Paleontologia: Cenários de Vida – Paleoclimas

Os sítios de Águas Emendadas, Cromínia, Lagoa do Caçó e Lagoa da Confusão, situados


na porção noroeste do Cerrado, mostraram a partir de ca. 8.000 ou 7.500 anos cal. AP um aumento
da umidade, e durante a segunda metade do Holoceno o predomínio de um clima relativamente
úmido, semelhante ao atual para estas regiões. No Lago do Pires, Lagoa Nova, Lagoa Santa, Salitre
e Carajás, após um período mais úmido de duração variável no Holoceno inicial, houve o predomínio
de condições relativamente mais secas até pelo menos 6.500 ou 5.000 anos cal. AP, e somente a partir
de então, um novo aumento de umidade.
Na Vereda Laçador, após 7.000 anos cal. AP, houve uma tendência de progressiva diminuição
da precipitação e aumento da estação seca. Finalmente, a Turfeira Pau de Fruta, situada sobre a Serra
do Espinhaço, registra várias oscilações na umidade e na temperatura ao longo da segunda metade do
Holoceno que não são registradas nas demais localidades.
Dentre os quinze sítios revisados, nove se concentram no Estado de Minas Gerais e os outros
cinco se distribuem nos estados de Goiás, Tocantins, Pará e Maranhão. Isso demonstra que o Cerrado
Brasileiro ainda oferece amplo espaço para o avanço dos estudos palinológicos e elucidação das
questões paleoambientais e paleoclimáticas do Quaternário, principalmente do Holoceno.

4. AGRADECIMENTOS
Nosso agradecimento especial à Professora Maria Léa Salgado Labouriau, in memoriam, pelo
brilhante trabalho, em especial sobre o Cerrado Brasileiro, que motivou a maioria dos palinólogos do
Brasil a seguirem suas carreiras científicas em palinologia. Os autores agradecem as agências de fomento
principalmente o CNPq e a FAPEMIG, que financiaram as pesquisas comunicadas nas publicações
aqui citadas. Os autores agradecem a todos os pesquisadores dos estudos citados e fomentam o início
de novas pesquisas.

5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ABSY, M.L.; CLEEF, A.; FOURNIER, M.; MARTIN, L.; SERVANT, M.; SIFEDDINE, A.; SILVA, M. F. DA.; SOUBIES,
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