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Da Revolução Soviética ao retrocesso


golpista na América

02 Novembro 2017

Da Revolução Soviética ao retrocesso golpista na América

Por Yuri Martins Fontes


Há um século, a Revolução de Outubro sacudiu as utopias de todo o mundo, dando à humanidade
um novo alento libertário, em meio à carnificina inter-imperialista que foi a Primeira Guerra
Mundial (1914-1918) – evento que escancarou o fato de que a Modernidade, com sua ciência
experimental avançada e suas técnicas de ponta, tinha fracassado em promover um efetivo
“desenvolvimento humano”.
Com a vitória bolchevique, por volta da década de 1920 são criados a maioria dos Partidos
Comunistas da América, e nosso continente passa a figurar no campo de visão do socialismo
internacionalista que então se consolidava. Conforme o marxismo se desenvolve por entre nossos
povos, uma questão ganha o centro dos debates: qual seria a natureza de nossas revoluções latino-
americanas? Democrático-burguesa ou socialista? Armada ou parlamentar? Que sujeito social a
promoveria: o operário urbano, o camponês, ou quem sabe os trabalhadores em aliança com
parcelas (pretensamente “nacionalistas”) da burguesia?
Nos primeiros anos pós-revolucionários, a recém-criada Internacional Comunista (1919) teve o
comando do “gênio de Lenin”, com sua capacidade de liderança e diálogo que mantinha firme a
união partidária – conforme analisa o inestimável marxista português que nos deixou este ano,
Miguel Urbano Rodrigues. Na posição de grande “Partido Mundial”, a IC desempenharia então uma
influência marcadamente revolucionária por entre nossos ainda incipientes pensamento e política
comunistas – defendendo que a tarefa de concluir as tarefas incompletas da “revolução burguesa”
(metas democráticas fundamentais, jamais realizadas em nossas nações, como a reforma agrária),
deveria ser a partir de agora do próprio povo trabalhador: dos “operários em aliança com os
camponeses”, juntos em uma frente contra a “aliança conservadora” (entre o imperialismo
estadunidense e as burguesias nativas a ele associadas).
Entretanto, com o fim da Primeira Guerra, as potências capitalistas da época, tão logo puderam
respirar, partem para acossar os bolcheviques, reforçando a oposição das elites russas e
aprofundando a já devastadora guerra civil. Assim, com a penúria causada por essa guerra fratricida,
os avanços dos primeiros anos revolucionários vão sendo reduzidos, especialmente na medida em
que cresce a ameaça alemã-nazista.
Com todos seus percalços, vitórias e derrotas, a Revolução Russa foi a mais “universal” da história,
pois não só abalou as estruturas de comando das nações do mundo (como o fez a “Francesa”), mas
alcançou incutir na consciência da humanidade como um todo – particularmente na de cada classe
subalterna, explorada – uma real perspectiva da emancipação. Por trás de cada “conquista” humana
após 1917 – inclusive o efêmero e frágil “Estado do Bem-Estar Social” das nações mais poderosas
–, pode-se ver a ação decisiva de organizações políticas e sociais que a vitória bolchevique inspirou
pelos quatro cantos.
Quanto à nossa América, a Revolução Soviética num primeiro momento parecia ter resolvido, com
seu assalto popular ao poder, a querela do socialismo latino-americano, pois a “social-democracia”
pacifista (pró “aliança de classes” com supostas “burguesias nacionais”) apoiara a entrada da
Alemanha na Primeira Guerra – “nacionalismo chauvinista” que destruiria o país e desmoralizaria
essa corrente. Contudo, com a retração defensiva da URSS, em meados dos anos 1930, as diretrizes
vindas de Moscou mudariam o rumo dessa disputa: desde então, foram as correntes “aliancistas”
que prevaleceriam nos PCs.
Hoje, passados todos esses anos, tendo o ser humano provado da experiência aterrorizante da
Segunda Guerra, consequência óbvia da irresolução e ambição desmedida dos vencedores da
Grande Guerra anterior, a impressão – em certa perspectiva histórica – é a de que pouca coisa
mudou. Ao menos em aparência: pois nos subterrâneos dos arranha-céus do capital, a organização
popular se move, ganha solidez, e com isso, mais voz, e consciência, e “vozes” – malgrado a
permissividade da “democracia liberal” para com o fascismo (como costuma ocorrer em tempos de
disputa ideológica aberta, tal qual vivemos).

Da “Era da Catástrofe” ao reformismo desenvolvimentista


Após o enfraquecimento do campo socialista mundial (com a guerra econômica que destruiu o
projeto soviético), as tentativas de assalto ao poder e de transformações estruturais profundas foram
deixadas de lado, dado o desequilíbrio dos anos 1990, com a ascensão das forças neoliberais.
Assim, seria posta em prática, em diversas nações subalternas do mundo, particularmente na
América, a experiência do “reformismo desenvolvimentista”, mal denominado “socialismo do
século XXI” – pois embora correta a denominação “socialismo” às tentativas diversas de se orientar
uma sociedade rumo à emancipação, o termo ambíguo pode sugerir que se trataria de uma
experiência radicalmente “nova”, fazendo “tabula rasa” dos intentos anteriores e seus aprendizados.
Esta experiência reformista porém se revelaria mais lenta e mais curta do que o previsto: cerca de
duas décadas depois, com a explosão da crise econômica mundial derivada da caótica
desregulamentação capitalista, as ainda parcas (mas fundamentais) políticas sociais implementadas
seriam violentamente reduzidas, precarizadas, quando não abortadas, pela pressão bélico-econômica
do capital. Isto se dá por meio de guerras econômico-eleitorais (de modo geral, mas notadamente na
Argentina); corrupção institucional (parlamentar-judiciária-midiática, etc – caso clássico do Brasil,
Paraguai e Honduras, dentre outras “Repúblicas Bananeiras”), ou mesmo com tentativas de
destruição direta pela força (caso dos mercenários bancados pelas elites venezuelanas, associadas a
“Fundações Ford” e “Institutos Millenium” da vida – a tocar o terror e desestabilizar a nação
bolivariana, já golpeada por sua imprudente dependência do petróleo (ora em baixa).
O cenário que se observa hoje na América Latina é visivelmente de regressão, com relação ao
vagaroso projeto mínimo das nações periféricas (cuja meta seria a de buscar um respiro social para
a constituição, ainda que tardia, de Estados “realmente” independentes).
Quanto aos capitalistas, os “vencedores” do século passado, é bastante nítido que eles nada
aprenderam com todo este processo de “crise” que compõe a “Era da Catástrofe” (como Hobsbawm
se refere à catástrofe quase sem tréguas que foi o século XX). Primeiro, após a Primeira Guerra,
fizeram da Alemanha “terra arrasada”, dando espaço ao surgimento do nazismo, ao propiciarem que
se chocasse o “ovo da serpente”, na esperança de que o capitalismo autoritário de Hitler fizesse o
serviço sujo que as potências da época não tinham forças para fazer (debilitadas pelo processo
bélico): ou seja, destruir os comunistas. Como se sabe, a União Soviética venceria esta guerra (com
todos os méritos e prejuízos inerentes), com o apoio tático discreto dos EUA e de seus aliados
europeus-ocidentais (assustados com as ambições do irracionalismo fascista que semearam).
Mais tarde, com sua vitória contra os soviéticos na Guerra Fria, o capital passaria a “liberar”
novamente as forças fascistas da “caixa de Pandora” neoliberal – como vemos hoje –, mas sem
mudar em absolutamente nada sua estrutura rígida neopositivista, ilógica, sem sentido e destrutiva
(do homem e do planeta) com que continua a reger hegemonicamente a política e a economia
mundial: excluindo imensos contingentes humanos a cada nova “modernização” industrial, e
consumindo as últimas florestas e santuários e águas potáveis em busca de adiar sua crise final (que
oxalá virá antes do colapso final da vida na Terra).
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Já a URSS “venceria” a Guerra somente no curto prazo, pois sairia por demais desgastada do
conflito, enquanto seus inimigos se tornaram a superpotência imperialista que passaria a comandar
o mundo sozinha após a derrota soviética na Guerra Fria, em 1991: o franco domínio estadunidense
duraria uma década, a chamada “década perdida” neoliberal.

Revolução Russa e a América Latina


No campo progressista-humano, a Revolução de Outubro foi a concretização da secular utopia
humana da liberdade. Trata-se de uma “experiência profunda” (no conceito de Walter Benjamin),
que apesar de sua derrota “em si” (internamente), legou ao mundo lições, de modo a se constituir
como um “guia” para novos processos revolucionários (não como um “modelo” a ser copiado, mas
antes como uma “bússola” a corrigir “sentidos”).
Contudo, as experiências reformistas “nacional-desenvolvimentistas” de Hugo Chávez a Lula – em
um espectro que percorreu uma variada intensidade de reformas, mas sem nunca chegar a
transformações “estruturais” –, estão hoje em retrocesso, dados os diversos golpes que se
intensificaram na última década, com a grande crise econômica de 2008.
Isto se deve – parcialmente – a que, com a correlação de forças do início do século XXI, em muitos
aspectos estes governos não puderam ir mais longe em suas tentativas de aprofundar as mudanças
nas estruturas: pois estavam atrelados às “alianças de classes” para manutenção da tal
“governabilidade” (motivo pelo qual o lulismo confiou ao marido da Marcela Temer o cargo de
vice).
Como exceção, vale aqui lembrar que a partir de 2007 Chávez promove a nacionalização de alguns
bancos e empresas nacionais e estrangeiras. A consequência disto, como se sabe, foi que ele é
acometido por um câncer, que o mataria poucos anos depois – processo de guerra econômico-
midiática e desgaste político que lança a Venezuela nessa instabilidade que já leva anos. E isso se dá
antes de que fosse possível se mudar a base petróleo-dependente da economia nacional.
Aliás, faça-se aqui um aparte para mencionar o questionamento do sociólogo Atilio Borón, quem
põe em xeque essa tão duvidosa coincidência, que une sob o signo da desgraça o destino de tantos
(a maioria!) dos presidentes progressistas da América nas últimas décadas: Néstor Kirchner (câncer
no intestino e problema cardíaco), Lula (câncer na garganta), Fernando Lugo e Dilma (linfomas),
Fidel (estômago), Evo Morales (câncer nasal). Isso se torna ainda mais “estranho”, quando arquivos
do Wikileaks vindos a público dão conta de que um comitê de investigação do senado
estadunidense revelou, já em 1975, que a CIA tinha desenvolvido uma pistola de microdardos
envenenados que causava ataques do coração e câncer, e sem deixar rastros. Imagine-se quanto a
tecnologia pôde se desenvolver desde então.
Mas bem, como se sabe, destes “pré-golpes” escusos, se seguiriam os golpes à luz do dia (em uma
série quase de “suspense”, que será tratada na próxima coluna).
Reformismo lulista e chavista
Em se avaliando o caso de Lula, o caminhar excessivamente lento de suas reformas (causa e
consequência do afastamento do PT de suas bases) levaram ao caos político atual – em que o
presidente, outrora dos mais poderosos do mundo, viu até mesmo sua mulher ser assassinada pela
quadrilha de colarinho (parceria mídia-judiciário).
É certo que Lula não teve a força militar a seu lado, como Chávez – quem com um exército menos
estúpido que o brasileiro, obviamente pode ousar mais. Contudo, Lula teve a seu lado a força de
uma popularidade inacreditável, mas não soube usar politicamente esse momento favorável,
preferindo acreditar na falácia de uma “duradoura” aliança de classes – já desmentida por tantos
episódios históricos. Nada fez contra a Globo-Golpe e outros estorvos à cultura nacional (Veja,
Estadão, Folha, Jovem Pan, Band) que semeiam o ódio, o preconceito e a ignorância geral na
telinha de cada dia das famílias brasileiras.
Como já observaram grandes pensadores marxistas de nossa América, como Julio Mella, Mariátegui
e Caio Prado, por essas terras nunca existiu uma “burguesia nacional”: nossas elites nativas, mesmo
sendo mestiças, sentem-se brancas, querem ser europeias, desprezam o povo, com quem não se
identificam, e preferem comprar as mais recentes inutilidades de luxo, de que adquirir cultura,
estudar ou pensar um projeto “nacional”; seu objetivo último não é a “nação”, mas deixar a nação.
A Revolução Latino-Americana poderia e deveria ter apreendido essa grande lição de Lenin e da
Revolução Soviética, bem como as reflexões de nossos maiores marxistas: uma “aliança nacional”,
quando necessária, tem de ser “pontual”, visando as reformas mais urgentes (como as voltadas a
quem tem fome); jamais se pode perder as rédeas do processo, ficando nas mãos de quadrilhas da
burguesia, como ocorreu no Brasil com o governo paralelo do quadrilhão do PMDB (este filhote da
ditadura).
Já quanto a Chávez, com o apoio dos militares, conseguiria ir mais fundo. Contudo, sendo ele
mesmo militar, não teve a necessária visão ampla (“totalizante”) de futuro para perceber que não
bastava armar setores do povo, mas era crucial se investir – imediatamente – na diversificação
produtiva, de modo a livrar seu país da dependência da extração petroleira e do comércio
desequilibrado e sujo internacional.
Ambos, ele e Lula, pecaram por um pensamento excessivamente economicista, tecnicista e de curto
prazo; e pela ilusão de que setores da burguesia local teriam a altiva “consciência” de que, em se
desenvolvendo a nação, eles mesmos se desenvolveriam.

Atentar às experiências históricas ou repetir os erros


O “socialismo do século XXI” fraqueja por não ter atentado com cuidado às profundas experiências
históricas socialistas. Como lucidamente comentou dia desses o jornalista e professor Gilberto
Maringoni, Nicolás Maduro, com sua vitória nas últimas eleições (Assembleia Constitucional e
governos), demonstra ter aprendido que o primeiro passo para um governo seguir sendo
progressista, é conseguir se manter vivo, no poder, para assim lograr efetuar suas reformas.
Mas em se mantendo no poder, não há espaço para errar, pois os falcões do Norte têm seus astutos
olhos abertos.
Lula diz que vai – finalmente – enfrentar a mídia corporativa corrupta, autoritária e imbecilizante;
mas como o fará, se sua prática política o afastou de suas bases e o PT se mantém distante dos
movimentos sociais que o elegeram?

♦ Yuri Martins Fontes é doutor em História Contemporânea (USP/CNRS), com formação em


Filosofia e Engenharia; exerce atividades como pesquisador e jornalista, além de coordenar os
projetos de educação popular do Núcleo Práxis-USP.

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