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Obstáculos inconfessáveis travam Acordo de


Paz colombiano

18 Outubro 2016

Obstáculos inconfessáveis travam Acordo de Paz colombiano

Por Yuri Martins Fontes


Na Colômbia, interesses escusos ganharam protagonismo nos debates sobre a paz, no momento em
que o país se preparava para celebrar o fim de seu principal conflito revolucionário: a guerra de
meio século entre um dos mais conservadores estados americanos (há duas décadas patrocinado
belicamente pelos EUA) e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia–Exército do Povo
(Farc, a maior das três guerrilhas comunistas do país, ainda beligerantes).
Após 6 anos de negociações – sendo 2 de diálogos prévios para a construção de uma agenda, e mais
4 de efetivas discussões –, no início de outubro, a frente contrária ao Acordo de Paz (partidários do
“Não”) ganhou por uma margem mínima de votantes (50,2% a 49,8%), num pleito a que
compareceram apenas 37% dos eleitores.
As causas deste desastre diplomático foram muitas, dentre as quais o furacão Matthew, que assolou
vários estados da Costa, impedindo o acesso às urnas, e a intensa campanha pelo “Não”, promovida
pelo ex-presidente Álvaro Uribe – representante da oligarquia latifundiária do país. Vale notar que
em seu discurso tradição-família-propriedade, Uribe logrou unir até mesmo os conservadores
evangélicos em torno dele, ao comprar pautas contrárias aos direitos LGBT – atacando os termos do
Acordo nos trechos que dizem respeito a essas populações marginalizadas: que a “implementação”
do Acordo deve ser feita levando-se em consideração a “diversidade de gêneros e étnica”; que se
adotem “medidas para as populações mais vulneráveis”; e que se “promova a igualdade de gênero”,
propiciando que “mulheres e homens participem em pé de igualdade”
A surpresa abalou as expectativas globais, a começar pelo presidente Juan Manuel Santos e pelos
próprios líderes guerrilheiros. Estes, um tanto precipitadamente, já começavam a tratar das formas
de desarmamento do grupo – tema delicado e que se agrava com a decisão da Frente Primeira de
não baixar armas. Já Juan Santos, dias antes do plebiscito – que considerava ganho –, comemorava
o prêmio Nobel da Paz, com que os liberais escandinavos, num duplo gesto político, acenaram em
reforço à sua posição neoliberal-moderada, enquanto com outra mão ratificavam o posicionamento
conservador da academia europeia diante dos conflitos sociais que perturbam a pax dos mercados.
Como notaram diversos analistas, não haveria outra justificativa para não se outorgar o prêmio
também ao líder – igualmente indicado – do outro lado das mesas de diálogos, o comandante do
Estado-Maior das Farc, Timoleón Jimenez (fato que, apesar de simbólico, parece não ter importado
muito ao chefe guerrilheiro – talvez pela lembrança de que tal prêmio foi também dado a
“pacifistas” como o promotor de golpes de Estado na América Latina, Henry Kissinger, o líder
sionista que bombardeou o Líbano, Shimon Peres, e recentemente, ao presidente Obama, quando
orquestrava a destruição da ordem estatal de seus oponentes líbios, sírios e ucranianos).

Os pontos da discórdia
Mas atentemos aos seis pontos do Acordo de Paz, ora suspenso: I) Reforma agrária integral (que
inclua distribuição de terras e políticas agroalimentares); II) Reforma política (abertura democrática
com inclusão de setores excluídos e transparência); III) Fim do conflito armado (trégua, entrega de
armas e reincorporação dos guerrilheiros à vida civil); IV) Questão dos cultivos proibidos pela lei
(promoção de atividades alternativas e produção comunitária, enfrentamento dos cartéis e milícias
do narcotráfico a da corrupção estatal); V) Questão das vítimas (por verdade quanto aos mortos e
desaparecidos, justiça e reparações – segundo “jurisdição especial”); VI) Questões práticas
imediatas (implementação, verificação e referendo).
Passado o espanto com a derrota, vieram as análises mais frias. Apesar de seu histórico
ultraconservador, o esforço de Uribe soou desmedido. Até mesmo o estadunidense The New York
Times afirmou em editorial que sua mobilização pelo “Não” foi “excessiva” e “enganadora”, e
ainda, que isto foi admitido em entrevista pelo próprio coordenador da campanha, quem afirmou
que evitou tratar do “conteúdo” do Acordo, apelando antes para uma emotiva “mensagem de
indignação”; chegou-se ao cúmulo de sustentar “sem nenhum argumento” que o acordo prejudicaria
o “setor privado” e que os “marxistas” seriam anistiados.
Por trás do empenho de Uribe e seus asseclas em recusar os termos do Acordo, apesar do discurso
de aparências – contra a “impunidade”, contra os “tribunais especiais” (que apesar do que ele diz,
não propõem anistias, mas ampla e diversa participação, inclusive de membros estrangeiros, de
modo a evitar o sistema viciado característico das chamadas Justiças Nacionais), e contra o “castro-
chavismo” que avançaria no país –, há contudo interesses bastante concretos (e menos nobres) do
atual senador extremo-direitista, sobretudo no âmbito econômico e jurídico.
Na opinião de um representante das elites colombianas “pacifistas”, um colunista do El Espectador
– jornal de direita moderada –, afirma que não foi a questão da reforma agrária, ou qualquer outro
ponto, que causou as maiores preocupações do latifundiário Uribe, mas sim o quinto item – o das
“vítimas” e da “jurisdição especial”. E isto, diz o jornalista, não porque ele pense que as penas serão
leves para os guerrilheiros, mas porque sabe que há milhares de militares presos e envolvidos com o
conflito, e que grande parte deles está ligada a atividades paramilitares – como massacres e
extorsão, além do caso dos “falsos positivos” (grandes recompensas do governo pela captura de
guerrilheiros, que levaram a quase duas mil execuções de inocentes). Portanto, bastaria que, em um
processo de delação premiada, alguns destes militares resolvessem falar o que sabem, para que o
império uribista desmoronasse.
Figura carismática – espécie de populista ultraconservador –, Uribe chegou à presidência nos anos
2000, com seu discurso e práticas belicistas, numa época em que a Colômbia, depois de Israel, já
era a nação do mundo que mais recebia verbas militares dos EUA. Todavia, como é fato público,
sua trajetória política é ligada ao paramilitarismo e ao narcotráfico. Em meio a seu curioso
histórico, cabe mencionar um documento-chave – e que pode ser encontrado publicamente na rede.
Em março de 1991, a Agência de Inteligência da Defesa dos EUA (DIA) elaborou uma listagem
com 104 nomes relacionados com os cartéis de narcotráfico, especialmente de Medelim. O
levantamento de 14 páginas somente seria tornado público em 2004 – quando Uribe já era
presidente. Dentre os acusados (conforme reportagem do El Espectador), mais de 80%, em meados
dos 2000, ou tinham sido processados, ou já estavam presos, ou tinham sido abatidos pelas máfias.
Mas havia, porém, um ponto fora da curva: o “número 82”, Álvaro Uribe. O então senador
colombiano era, segundo o governo dos EUA: “dedicado à colaboração com o cartel de Medelim,
amigo próximo do [narcotraficante] Pablo Escobar, vinculado com negócios conectados a
atividades de narcotráfico nos EUA”. E ainda: “seu pai foi assassinado por conexões com
narcotraficantes” (e não pelas Farc, como ele afirma). Em seu estilo “típico” – completa o jornal –
Uribe, quando questionado sobre os fatos, tentou desqualificar o repórter e disse que ninguém tem o
direito de “duvidar de sua honra”, sem jamais ter tentado explicar o caso.
Assim, como que confirmando as tantas suspeitas, não soaram estranhas as exigências que há dias
Uribe explicitou a Juan Santos, como requisitos para retirar sua oposição à paz. Dentre os pontos, os
principais são: a recusa de que o narcotráfico seja qualificado de crime político (pois, neste caso,
como mencionado, muitos militares estariam sujeitos aos “tribunais especiais” – e daí, às
atemorizantes delações premiadas); a proposta de que os militares e policiais condenados por atos
relacionados ao conflito (caso dos “falsos positivos”) sejam contemplados com uma “norma de
alívio judicial”; e por fim, como não poderia deixar de ser, que não se afete a “propriedade honesta
da terra” na Colômbia, e que os acordos se dêem (somente) na medida das “possibilidades
orçamentárias e econômicas do país”.

Um passo atrás
Desde o ponto de vista da guerrilha leninista, compreende-se que tal Acordo foi um gesto tático –
um passo atrás –, motivado pelas tantas condições desfavoráveis das últimas décadas. Como se
sabe, desde que a União Soviética perde a Guerra Fria para os Estados Unidos (derrota não bélica,
mas político-econômica), os anos 1990 trariam um novo cenário – de unipolaridade – para as
relações internacionais. Por este período (a chamada “década perdida”), os EUA dominaram
hegemonicamente a política global, difundindo seu discurso da vitória do pensamento único e
impondo as práticas neoliberais a cada rincão do planeta.
Por esta época de declínio das forças políticas progressistas, muitos setores da esquerda também
sucumbiram às ilusões vendidas pela suposta “democracia liberal” – de que as guerras seriam
causadas pelas resistências armadas, e que portanto era preciso se resistir de modos menos diretos.
Dessa maneira, qualquer resistência ativa passou a ser malvista por este progressismo moderado
que, sobrevivente, ganhava os espaços da crítica.
A este processo, se seguiria a década reformista (anos 2000), em que propostas
neodesenvolvimentistas pareceram dar conta de promover as reformas mínimas que tirariam, por
fim, nossas nações periféricas da miséria crônica – da situação colonial que ainda perdura em tantos
aspectos. Contudo, tal retomada de ânimo das forças de esquerda foi, há uns anos, interrompida,
pela atual crise econômica – que tem sido devastadora à economia dos povos emergentes.
Essa conjuntura negativa, somada, é certo, à hegemonia ideológica da mídia corporativa (que
constrói nossas verdades diárias) e ao cansaço que traz uma guerra tão longa a qualquer ser humano
(em especial àqueles “condenados da terra” que se situam em meio às balas, sem compreender os
motivos), abalaria substancialmente o apoio das guerrilhas.
Deste modo, isolada em meio aos discursos hegemônicos, a luta das Farc passou a ser deslocada do
cenário da legitimidade, deixando de ser vista como uma luta social, para ser refutada como atos de
“mentes terroristas e gananciosas” que visariam “lucrar com o narcotráfico”. Restou, porém, a essas
vozes predominantes explicarem onde tais “mentes criminosas” têm gasto seu ambicionado capital
(dada a precariedade de possibilidades de consumo, luxo e conforto que oferece a selva Amazônica,
até onde se sabe).

Histórico de traições à Paz


Com todo esse vai-e-vem das últimas semanas, é importante, porém, não se perder de vista a
experiência histórica colombiana. Nos anos 1980, a União Patriótica, partido político legal surgido a
partir de diálogos pela paz, e encabeçado pelas Farc, em aliança com outros grupos de esquerda,
teve milhares de seus militantes assassinados pelo terrorismo estatal e paramilitar – incluindo-se
dois candidatos a presidência, e cerca de uma centena de parlamentares e prefeitos.
Em 2002, após 3 anos de negociações pela paz entre as Farc e o governo, o presidente Andrés
Pastrana, ao final do mandato, quis elevar seu prestígio junto à opinião pública – então seduzida
pelo discurso belicista do recém-eleito Uribe –, e bombardeou a região de San Vicente de Caguán,
território então desmilitarizado para o processo de diálogo político, rompendo subitamente a trégua,
num crime de guerra.
Já no cenário atual, as ameaças à paz vão muito além de uma vitória no referendo: crise econômica
global a ser “socializada” na marra com os países mais fracos, intervenções imperialistas em
diversas nações, em busca de petróleo e recursos naturais (como é o caso do abundante território
colombiano), e ainda a interferência de grupos fascistas que ganham corpo no mundo, como os
Águias Negras, dissidência dos paramilitares desmobilizados das Autodefesas Unidas da Colômbia,
que em ameaças já declarou que vai “perseguir” e “eliminar” os guerrilheiros que tentem se
reincorporar à vida civil.

Que fazer?
Passado o abalo da derrota, o presidente Juan Santos fixou a data do fim da trégua com a guerrilha –
o último dia deste ano –, gesto com que visa talvez acelerar o andamento das renegociações.
Neste ínterim, uma voz generalizada ganha corpo, defendendo que o plebiscito só é um obstáculo
de ação para o governo, mas não para o Congresso ou para a Corte Constitucional. Um grupo de
magistrados aventou a possibilidade de que pode inclusive se decidir por repetir a votação nas áreas
afetadas pelo furacão, posto que isto se configurou em um “vício de realização” do procedimento
eleitoral.
Cabe agora aguardar. E enquanto isto, os guevaristas do Exército de Libertação Nacional – segundo
grupo revolucionário do país – iniciam cautelosamente seus diálogos de paz com o governo, tendo
libertado na última semana um ex-prefeito e um fazendeiro que se encontravam sob o poder dos
guerrilheiros.

♦ Yuri Martins Fontes é doutor em história contemporânea (USP/CNRS-França), com


formação em filosofia e engenharia (USP); exerce atividades como jornalista e pesquisador de
pós-doutorado (política internacional e teoria da história), sendo coordenador dos projetos de
educação popular do Núcleo Práxis-USP.

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