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UNIVERSIDADE FEDERAL DE PELOTAS

Instituto de Ciências Humanas


Programa de Pós-Graduação em Antropologia

Trabalho final da disciplina: “Objetos de identidade e memória na criação de


territórios tradicionais”

Cultura Material e Patrimonialização:


Um Duplo Olhar Sobre a Cultura Material

YURI ZIVAGO YUNG GRILLO

Pelotas, 2018
Yuri Zivago Yung Grillo

Cultura Material e Patrimonialização:


Um Duplo Olhar Sobre a Cultura Material

Trabalho apresentado à disciplina de “Objetos


de identidade e memória na criação de territórios
tradicionais” da Universidade Federal de
Pelotas, sob a orientação do Prof. CLÁUDIO
BAPTISTA CARLE, como parte das exigências
da disciplina.

Orientador: Dr. Cláudio Baptista Carle

Pelotas, 2018
INTRODUÇÃO

O presente trabalho feito para a disciplina de “Objetos de identidade e


memória na criação de territórios tradicionais” é resultado da tentativa de conciliar as
pesquisas que tenho feito sobre a história de Pelotas, a patrimonialização de
edificações e bens, a perspectiva crítica comunista, sob a metodologia do
Materialismo Histórico Dialético com o objetivo de produzir um estudo de um grupo
que possibilite a identidade em relação a um território, que neste caso, trata-se da
própria sociedade pelotense e seus recortes de classe.

Para esta investigação escolhi a cidade de Pelotas devido à sua singular


história de relações entre a elite burguesa e aristocrática com os escravos e,
posteriormente, trabalhadores assalariados. Em termos de tempo, nossa pesquisa
tem como foco o século XIX, considerado o “Século da História” (RIEGL, p. 44, 2014)
devido à valorização do passado manifestada na monumentalidade, estendendo-se o
século oitocentista até 1914 como discutido por Hobsbawm (1988). A escolha deste
período foi feita por ser este considerado de maior expressão artística nos processos
de conservação e patrimonialização, o que é atribuído, em grande parte, à influência
de artistas plásticos europeus de formação neoclássica que trabalharam em Pelotas
neste período (LONER, et all. p.15, 2017), e que influenciaram gerações de artistas
pelotenses até o início do século XX (LONER, et all. p.16, 2017).

O período que destaco para a realização desta pesquisa está


inextricavelmente unido a atualidade, estando presente no dia-a-dia dos cidadãos
pelotenses, através dos casarões, praças e parques, museus e monumentos,
representando majoritariamente o patrimônio aristocrático, ao mesmo tempo que
também está presente através das tradições populares, fábricas, bairros, clubes, e
logradouros com singular importância histórica, representando também os espaços
de luta, reivindicação e identidade popular. Desta forma, esta pesquisa estuda as
transformações que, tendo início no século XIX, transformaram e foram transformadas
pela sociedade pelotense e continuam existindo até a atualidade:

Estudar alguma coisa historicamente significa estudá-la no processo de


mudança; esse é o requisito básico do método dialético. Numa pesquisa,
abranger o processo de desenvolvimento de uma determinada coisa, em
todas as suas fases e mudanças - do nascimento à morte - significa,
fundamentalmente, descobrir sua natureza, sua essência, uma vez que "é
somente em movimento que um corpo mostra o que é". (VYGOTSKY, 1991,
p.46)

Desta forma, embora o foco seja no que permanece deste período, entendo
esta pesquisa como uma arqueologia da paisagem, da imagem e do presente, sob um
ponto de vista que procura ser crítico e engajado com as comunidades sendo também,
por este motivo, uma arqueologia social.

Como fonte de pesquisa, realizei revisão bibliográfica sobre a história de


pelotas no século XIX e imediatamente posterior, utilizando exclusivamente trabalhos
acadêmicos publicados em revistas locais na contraposição de ideias com a literatura
clássica sobre análise artística e histórica (Alois Riegl e Eric Hobsbawm) e do
Materialismo Histórico Dialético (principalmente Antonio Gramsci). Junto a isto,
analiso a paisagem atual que compõe o cenário pelotense, isto é, os casarões,
monumentos, museus, logradouros e espaços públicos de importância histórica e
cultural. A análise da paisagem é realizada de duas formas: por um lado, investigando
a origem e o significado da cultura material preservada que é identificada como
herança elitista de Pelotas oitocentista, bem como traduzir a representação ideológica
que estes monumentos procuram retratar na tentativa de formação de consensos
históricos e discursivos no processo de formação da hegemonia (GRAMSCI, 1999);
por outro, através das comunidades não contempladas por estas políticas
patrimoniais, buscando identificar a continuidade de tradições populares deste período
até os dias de hoje e as manifestações desta na cultura material.

As ideias esboçadas até aqui, contudo, não constituem em totalidade o


corpo deste trabalho, sendo na verdade o objetivo do meu mestrado realiza-las. Aqui
apresento o que fiz até agora buscando vincular com a referida disciplina.

1. BREVE HISTÓRIA DE PELOTAS


Não é possível falar em termos históricos sobre a cidade de Pelotas sem
mencionar as charqueadas, sendo que este foi um importante meio de produção
econômica da localidade por muito tempo, estando, inclusive, diretamente relacionado
com a formação inicial da cidade. Este meio de produção, por sua vez, determinou e
foi determinado (em relação dialética) pela relação de produção entre senhores e
escravos. Esta relação, por sua vez, traduziu-se em diferentes formas de apropriação
da cultura material que pretendo investigar ao longo da minha pesquisa. Porém, de
maneira sucinta e para este trabalho, podemos resumir a história de Pelotas em sua
origem na seguinte citação:

A cidade de Pelotas nasceu em razão da instalação de charqueadas nas


margens do arroio Pelotas e do canal São Gonçalo, tornando-se o local onde
as famílias dos charqueadores construíram suas residências urbanas e o
ambiente do qual passaram a fazer parte um número muito alto de escravos
e a classe média ligada ao comércio e aos serviços. Naquele período, a
cidade ficou conhecida pelos hábitos da elite pelotense, que ostentava
riqueza. (GASTAUD; ZECHLINSKI. p.90, 2009)

Pelotas é conhecida pelo epiteto de “Princesa do Sul”, devido,


supostamente, a sua refinada cultura em comparação ao resto do estado do Rio
Grande do Sul, que era então chamado de província de São Pedro. Esta pretensa
superioridade da cidade envolve a valorização da burguesia que nasce da exploração
do charque. Ao todo 10 Charqueadores em Pelotas obtiveram o título de barão, sendo
que dois deles chegaram a ser promovidos a viscondes (LONER, et all. p. 30, 2017).
Ainda outros teriam recebido título de nobreza, porém, ligados indiretamente as
charqueadas ou raramente sem nenhuma ligação com esta produção (LONER, et all.
p.31, 2017). A acumulação primitiva de capital advinda da exploração de mão de obra
escrava nas colônias, conforme demonstrado por Karl Marx (1985), bem como do
trabalho feminino principalmente doméstico e não pago, conforme é discutido por
Silvia Federici (2016), permitiu o enriquecimento da burguesia. Este enriquecimento
no caso da burguesia local, foi a tal ponto que, durante algum tempo, o Banco de
Pelotas foi o terceiro maior do país, status que durou até a sua falência, onde um dos
motivos apontados para tal é a quebra da bolsa de Nova York em 1929 (LONER, et
all. p. 28, 2017).

Essa transformação da burguesia local pode ser contextualizada a nível


global. Se durante três séculos a dominação europeia mudou a história do planeta,
atuando em resposta a crise da classe dominante no final do medievo e estabelecendo
as bases do sistema capitalista (FEDERICI, 2018), é no século XIX que o capitalismo
concretiza-se como um sistema global e passa a sua nova faze, o Imperialismo
(LENIN, 1917).

Outras características deste enriquecimento através da exploração podem


ser observadas através da cultura material. Em Pelotas, as decorações dos casarões
que compõem o centro histórico da cidade, a maioria construídos no século XIX e
início do século XX, possuem elementos de origem europeia, como os vasos e
esculturas em faiança, que eram utilizadas como um símbolo de status e ostentação
econômica (SCOLARI, 2011). Foi o enriquecimento da burguesia local que permitiu à
esta importar mão de obra europeia de arquitetos e artistas europeus, com o objetivo
de “embelezar” a paisagem da cidade, o que é mantido até os dias de hoje, sendo o
principal foco das políticas de conservação e restauro na cidade.

É evidente que a educação e a arte em Pelotas, recebendo o incentivo da


burguesia local, era manipulada ao seu bel-prazer, e isto refletia o domínio da elite.
Antônio Caringi, é um exemplo de escultor pelotense que recebeu o apoio e o
patrocínio da burguesia local. Caringe chegou a estudar com Arno Brecker, escultor
favorito de Hitler, e se especializou em plástica monumental (FARO, GONÇALVES,
p.18). Suas obras refletem o triunfo da elite e da colonização, um passado que apaga
o período da escravidão de negros, a dizimação indígena e retratam a mulher de
acordo com a ideologia vitoriana, ainda que as obras deste escultor sejam posteriores
a este período histórico.

Enquanto estes patrimônios da elite estão muito bem documentados e


conservados, questionamos o que acontece com o patrimônio popular e porque este
é esquecido. Lorena Almeida Gil (2005) relata que nas primeiras décadas do século
XX, Pelotas possuía 124 cortiços registrados pela contabilidade oficial e um número
ainda maior de cortiços não contabilizados. É digno de se perguntar onde estariam
esses cortiços ou seus vestígios, ou se algum deles, devido a sua inegável importância
histórica, foi patrimonializado?

No entanto, o conjunto histórico de Pelotas, tombado em 16 de maio de


2018, é o sexto patrimônio material de Pelotas tombado pelo IPHAN, ao lado de: o
Teatro Sete de Abril, três palacetes que pertenceram à elite dos charqueadores e a
caixa d'água localizada na Praça Piratinino de Almeida, por sua vez, importada da
Escócia em 1875 (MinC, 2018). O foco das políticas de patrimonialização tem sido em
sua maior parte demonstrar a suposta grandeza de um passado pertencente a elite
constituída sob a exploração de mão de obra escravizada para a produção do
charque, como o IPHAN em seu site noticiou em 10 de Maio de 2018 acerca da
patrimonialização do conjunto histórico de Pelotas: “Todos esses bens do Conjunto
Histórico apresentam uma semelhança importante: compartilham uma história
comum, em maior ou menor grau, relacionada com o ciclo do charque.” (IPHAN,
2018).

2. MEMÓRIA E PATRIMONIALIZAÇÃO

Uma das características que nos distinguem enquanto seres humanos de


outras espécies segundo Vygotsky (2003) é a capacidade de externalizar a memória,
isto é, criar auxiliares mnemônicos que não fazem parte da memória biológica, mas
da memória como um todo. Ainda segundo Vygotsky isto pode ser feito desde coisas
simples como gravetos, nós em uma corda, marcas em um pedaço de pau, etc., até a
própria escrita. Estas ferramentas da memória, que são os signos, alteram e
transformam os grupos sociais através da cultura: “O uso de signos conduz os seres
humanos a uma estrutura específica de comportamento que se destaca do
desenvolvimento biológico e cria novas formas de processos psicológicos enraizados
na cultura.”( VYGOTSKY, p.30, 2003). O próprio uso dos monumentos também foi
analisado por Vygotsky:

Poder-se-ia dizer que a característica básica do comportamento humano em


geral é que os próprios homens influenciam sua relação com o ambiente e,
através desse ambiente, pessoalmente modificam seu comportamento,
colocando-o sob seu controle. Tem sido dito que a verdadeira essência da
civilização consiste na construção propositada de monumentos de forma a
não esquecer fatos históricos. Em ambos os casos, do nó e do monumento,
temos manifestações do aspecto mais fundamental e característico que
distingue a memória humana da memória dos animais. (p.37-38, 2003)

Portanto, os monumentos e museus são também objetos mnemônicos que


tem como um objetivo lembrar a sociedade um acontecimento histórico, de forma a
alterar o próprio comportamento humano através da modificação na paisagem: A
memória e a sua representação compõem o “corpo e a alma do museu em si”
(FERREIRA, 1994). Por este motivo, a relação entre a memória e o museu pode ser
definida nos seguintes termos:

Memória evocada por objetos e construções que traz ao mundo dos vivos, o
que é preciso que se mantenha, e que assume o papel de ser coletiva, una.
Memória essa que ao envelopar as memórias individuais, lhe conferindo o
caráter nacional, nação, englobante, homogeneizadora. (FERREIRA. p. 47,
1994)

Maria Letícia M. Ferreira usa o termo “sacralização do espaço” e


“sacralização do tempo” para descrever ambientes de museus, onde o povo é
convidado a participar de maneira recatada e com um respeito religioso pelas obras,
objetos ou edificações de um passado glorioso. Questionando que passado seria
este, a pesquisadora nos responde: “Em geral, os museus tradicionais refletem, para
puro delírio de seus observadores, uma única fala, ou seja, a História das Elites, um
passado aristocrático.” (p.47, 1994). Des de o processo da formação dos museus
antigos, entre Gregos e Romanos, até a formação do Museu Britânico, os museus têm
seu acervo relacionado ao saque e a demonstração de dominação de uma suposta
cultura superior frente ao exótico, selvagem e bárbaro:

Ora, nada mais lógico pois, se entender a construção do museu como um


discurso, este possui seus construtores, e, no modelo clássico de Museus
Históricos, os objetivos traduzem-se pela única memória apresentada: a das
elites dominantes, a memória cristalizada em um ‘fato histórico’. (FERREIRA.
p.49, 1994)

Os monumentos patrimonializados são um importante símbolo que


destoam na paisagem urbana, sendo inegável a sua participação na memória, ao
menos como uma intenção que motivou a sua construção. A partir da análise de
monumentos da cidade, representando, em sua grande maioria o patrimônio da elite,
poderemos inferir sobre a ideologia que reflete estes monumentos, bem como a
ideologia que estes propagam. A este respeito, levo em consideração a definição e os
estudos desenvolvidos por Alois Riegl sobre os monumentos:

Por monumento no sentido mais antigo e original do termo, entende-se uma


obra criada pela mão do homem e elaborada com o objetivo determinante de
manter sempre presente na consciência das gerações futuras algumas ações
humanas ou destinos (ou a combinação de ambos). Pode tratar-se de um
monumento de arte ou de escrita, conforme o acontecimento a ser
imortalizado tenha sido levado ao conhecimento do espectador com os meios
simples de expressão das artes plásticas ou com auxílio de inscrições.
Geralmente os dois meios encontram-se associados de forma equitativa.
(RIEGL, p.31, 2014)

Este tipo de análise tem a potencialidade de revelar não só sobre a


assimetria entre classes sociais, mas também entre raça e gênero. Conforme
discutido por Lilian Panachuck (2013) a análise dos gestos pode nos revelar algo
sobre as relações de poder em cada e entre os gêneros. A pesquisadora utilizou esta
metodologia, avaliando os alcances e limites desta ferramenta, porém, aplicada a
cerâmica de sítios arqueológicos situados no baixo curso do rio Tocantins e Pará. Não
obstante isto, nada impede que o mesmo método possa ser aplicado para a
arqueologia histórica onde, da mesma forma, contataremos que dentro de um
processo dialético de transformação:

A cultura material aparece assim como resultado de processos corporais e


mentais, que envolve tanto o indivíduo quanto o grupo, em determinado
tempo e espaço. É ao mesmo tempo resultante da repetição e da criação, da
tradição e da transformação (PANACHUCK, p. 91, 2013).

Isto reforça o fato de que a cultura material, ao mesmo tempo que reflete a
sociedade em que é feita, atua para a sua transformação. Desta forma, a cultura
material é portador e difusora de ideologia. Se identificarmos a ideologia do período
oitocentista e imediatamente posterior, encontraremos o seu reflexo no que foi
produzido neste período em Pelotas, da mesma forma que entenderemos melhor o
propósito das edificações e monumentos. Panachuck postula que em todas as
sociedades a valorização e o prestígio são relacionados ao domínio de um tipo de
técnica e de arte, ao mesmo tempo que as técnicas são receitas que são colhidas em
expressões linguísticas e nos mitos (p.91-92, 2013). Da mesma forma, foi um
determinado tipo de arte que as classes dominantes valorizaram na cidade, que na
arquitetura era o estilo Eclético Histórico, mas que podemos identificar em geral, como
a arte que visava a ostentação, o resgate histórico de um passado clássico (Greco-
Romano) e a educação da classe dominada através de uma “cultura superior”. Nesse
sentido, a distinção entre monumento artístico e histórico é de pouca importância, pois
como constatou Alois Riegl:

Na verdade, o "monumento de arte" entendido nesse sentido é um


"monumento histórico-artístico", assim, ele não possui "valor de arte", mas
"valor histórico". Resultaria, portanto, que a distinção entre monumentos
"artísticos" e "históricos" não é apropriada, pois os primeiros estão contidos
nos últimos e se confundem com eles. (RIEGL, p.33, 2014)
Em contrapartida, nas camadas populares diversos tipos de arte foram
valorizados que, embora muitas delas estejam apagadas e esquecidas, é um estudo
que necessitamos fazer para que este trabalho um dia seja concluído.

3. TRÊS MONUMENTOS DA PRAÇA PEDRO OSÓRIO

Devido à falta de tempo, escolhi analisar apenas três monumentos da praça


Pedro Osório, nos quais tomei nota da preponderante importância que os papéis de
gênero revelam a qualquer observador, representando o patrimônio da elite e também
sua ideologia. Esta presença que a sexualidade tinha nas expressões artísticas do
século XIX e início do século XX foi constatada pela teórica marxista Alexandra
kollontai:

No curso da história da humanidade não encontraremos, seguramente, outra


época na qual os problemas sexuais tenham ocupado, na vida da sociedade,
um lugar tão importante, atraindo como por arte de magia, as atenções de
milhões de homens. Em nossa época, mais do que em nenhuma outra da
história, os dramas sexuais constituem fonte inesgotável de inspiração para
os artistas de todos os gêneros da Arte. (KOLLONTAI, 1911)

Não obstante retratarem o passado épico, os monumentos trabalham com


o imaginário presente, servindo como instrumento de dominação ideológica e criando
um consenso hegemônico (GRAMSCI, 1999). Naturalmente, a mulher não escapa a
este domínio, sendo figura frequentemente representada através de utensílios
domésticos, vestuários requintados e todas as características da mulher de “classe”,
isto é, a mulher burguesa e aristocrata, submissa e que tem apenas a beleza e os
sentimentos maternos e piedosos a ofertar. Quando não são estes os atributos
retratados por um quadro ou escultura femininos, a mulher é representada sob a forma
de figuras mitológicas nuas, simbolizando os poderes indomáveis da natureza. Aqui e
ali, a mulher em ambos os casos aparece como sendo um ser sentimental: se não sob
o sentimento materno, ou então, religioso, ou ainda, vaidoso, aparece, então, como
um ser não domesticado, um Elemental da natureza dominado por paixões e ódios e
que, se deixado fora do controle ou de sua área de atuação, produzem o caos e a
destruição.
Estes elementos de dominação Hegemônicas, percebidos na cultura
material, identifiquei em alguns dos monumentos da praça Coronel Pedro Osório. A
praça Coronel Pedro Osório é um dos bens tombados pelo IPHAN em Pelotas. De
todos os monumentos que se encontram nesta praça, com muitos monumentos
masculinos, apenas três retratam a figura feminina de forma proeminente (na verdade,
existem outros dois monumentos nesta praça que retratam a mulher secundariamente
e, por isto, não foram aqui avaliadas):

Monumento às mães - Praça Cel. Pedro Osório - Foto de Elton Vergara-Nunes.


Fonte: https://br.pinterest.com/pin/14425661288010826/?lp=true
Fonte das Nereidas - Praça Cel. Pedro Osório - Foto de desconhecido. Fonte:
http://cenasperdidas.blogspot.com/2015/09/chafariz-praca-pedro-osorio.html

Monumento à Yolanda Pereira - Miss Universo 1930 - Praça Cel. Pedro Osório - Foto de
Osmar do Prado e Silva. Fonte:
http://pu3yka.com.br/homepage/brasil/riograndesul/Pelotas/centro/praca/praca-01.htm

A primeira imagem retrata o monumento às mães; o segundo é a Fonte das


Nereidas, elementais da água; e o terceiro é o monumento à Yolanda Pereira, miss
universo em 1930. Importante observar, também, que todos estes monumentos
retratam, de uma forma ou de outra, apenas a mulher branca. Não farei uma análise
detalhada da história de cada uma destas obras nem da descrição de seus autores,
mas a respeito da ideologia por detrás delas. Em todos estes casos é possível
observar os reflexos da ideologia dominante do período, pois ou a mulher se destaca
como mãe e protetora do lar, ou então pela sua beleza excepcional e por último, como
uma figura mitológica de força da natureza. Desta forma constatamos que o domínio
sobre a mulher não era apenas físico, mas também ideológico, confirmando o que diz
Alexandra Kollontai a este respeito:

O ideal da posse absoluta, da posse não só do eu físico, mas também do eu


espiritual por parte do esposo, o ideal, que admite uma reivindicação de
direitos de propriedade sobre o mundo espiritual e moral do ser amado, é que
se formou na mente e foi cultivado pela burguesia com o objetivo de reforçar
os fundamentos da família, para assegurar sua estabilidade e sua força
durante o período de luta para conquista de seu predomínio social. Esse ideal
não só o recebemos como herança, como também chegamos a pretender
que seja considerado um imperativo moral indestrutível. A ideia da
propriedade se estende muito além do matrimônio legal. É um fator inevitável
que penetra até na união amorosa mais livre. Os amantes de nossa época,
apesar de seu respeito teórico pela liberdade, só se satisfazem com a
consciência da fidelidade psicológica da pessoa amada [...]. Da mesma forma
pretendemos fazer valer nossos direitos sobre o seu eu espiritual mais íntimo.
(KOLLONTAI, 1911)

Ao mesmo tempo que o patrimônio daquilo que exerce o poder é lembrado


e preservado, o outro lado da moeda é esquecido. Lorena Almeida Gil (2005) relata
que nas primeiras décadas do século XX, Pelotas possuía 124 cortiços registrados
pela contabilidade oficial e um número ainda maior de cortiços não contabilizados. É
digno de se perguntar onde estariam esses cortiços ou seus vestígios, e por que
nenhum deles, devido a sua inegável importância histórica, foi patrimonializado? A
pesquisadora, em seguida, apresenta como Instrumentos de Trabalho, dois artigos do
jornal Pelotense “A Tribuna” (1911-1912) em que o tema das moradias é discutido e
onde há a demanda pela construção de casas populares e vilas operárias buscando
a substituição dos cortiços. Destaco o seguinte trecho do jornal Pelotense, onde pode-
se observar um relato de como era a casa ideal do proletariado de acordo com a visão
positivista da elite, bem como de qual era o papel da mulher no lar:

Augusto Comte, a este respeito, merece especial menção, pois de uma


maneira circunstanciada descreve o que deve ser a habitação operária, onde
reúne a família, cercada de todo conforto físico e espiritual e ligada pelos
estreitos laços da afetividade, sob a predominância moral da mulher - superior
ao homem pelas espontâneas e excelsas virtudes de seu formoso coração.
Para este filósofo, a casa proletária deve ter sete cômodos: - uma sala para
reunião e recepção, outra destinada ao preparo e consumo dos alimentos,
um quarto para os esposos; outro para os avós; dois para os filhos, com
separação dos sexos; e finalmente a capela[...] (A TRIBUNA, 19911- apud
GIL, 2005)

De acordo com a ideologia positivista, então dominante entre a elite da


virada do século XIX para o XX, à mulher cabia o papel de submissa ao homem, bem
como o papel de “rainha do lar” e “anjo protetor da família” (TABORDA, 2012), o que
explica a representação feminina nos monumentos de Pelotas tal como é, em linha
totalmente oposta à representação do homem (burguês e branco) que aparece como
conquistador, dominador e pensador. As representações masculinas, escolhi não
colocar neste trabalho devido ao espaço, já que são praticamente todas as
representações da Praça Pedro Osório, começando pela do próprio Pedro Osório.

Evidentemente, a ideologia não era mantida apenas pela criação de


monumentos, havendo grande ênfase na criação de ideologia documentada e escrita,
que no caso da pesquisa arqueológica, deve servir como instrumento auxiliar. É o
caso da Revista Illustração Pelotense, onde encontra-se uma entrevistada em 1920
reforçava a ideologia de um século que já estava adoecendo mas recusava morrer, e
mesmo hoje resiste com todas suas forças a ir para a tumba:

O perfil de mulher ideal elaborado pela Revista Illustração Pelotense refletia


o interesse do seu público leitor em manter as mulheres no lar, voltadas para
o cuidado da família. Senhorinhas educadas, dóceis, religiosas e satisfeitas
com suas vidas eram ilustradas nas páginas da revista. A necessidade de
insistir nessa imagem pode ter sido um reflexo da resposta favorável das
mulheres à vida moderna e às novas possibilidades trazidas por ela. Ao
analisar a imagem e o discurso de uma das senhorinhas da elite, a narrativa
é a seguinte: a mulher tem um papel definido que gira em torno do mundo
masculino, sob o controle do pai e depois do cônjuge. A jovem inserida
nessas páginas construiu e reafirmou os modelos comportamentais
desejados pela sociedade pelotense da década de 1920. (TABORDA, p.308.
2012)

5 CONCLUSÃO

Os museus, monumentos, edificações e, em geral, o processo de


patrimonialização, característicos de qualquer forma de educação desenvolvido pelo
Estado, entendendo o Estado no sentido amplo como a própria dominação de classe
e, por congruência, também de dominação de raça e gênero, atuando seja através
dos meios públicos ou privados conforme identificou Althusser (2001), têm a
característica de aparelho de dominação ideológica que serve para manter o poder
hegemônico (GRAMSCI, 1999). O Poder Hegemônico, por sua vez, atua através da
ideologia, com a criação dos consensos inquestionáveis e enraizados dentre a
população. Via de regra, as pessoas da alta classe têm os seus bens considerados
como patrimônio em detrimento de outros, em uma dialética entre o que é lembrado e
o que é esquecido, e que reforçam a manutenção de sua ideologia. O pouco que pode
ser encontrado contrariando esta regra, são pequenas concessões adquiridas através
de duras lutas e, ainda assim, predominam entre os bens imateriais e não aos bens
materiais patrimonializados. Mesmo entre os bens imateriais, também é observado
distorções, como a ausência de referência aos negros (e mesmo aos ciganos, não?)
na criação dos doces, que passam a ser vistos como uma tradição portuguesa.

Não obstante, assim como existem dois tipos de intelectuais, tudo me faz
crer que seria possível uma outra alternativa que mudasse este quadro. Uma iniciativa
deste tipo precisaria ir além dos museus comunitários já existentes, posto que
precisaria rever a própria metodologia de criação e manutenção de memória. Um
museu orgânico, que significa vivo, dependeria da comunidade que organizada
através de seus coletivos opinar, escolher e criar o que será digno de memória para
as gerações futuras, trabalhando no presente com o passado, da mesma forma que
os museus tradicionais, no entanto, com uma atitude inversa, permitindo também as
futuras gerações se reinventar. Este tipo de iniciativa criaria uma democratização
direta do espaço de memória: “Assim, para que o Museu seja de fato uma proposta
nova para a sociedade, é preciso que esteja imerso no conjunto de práticas, ideias,
memórias enfim que compõem o cenário social, contraditórias e conflitantes.”
(FERREIRA. p.49, 1994).

Não sendo, portanto, a educação que lhes confere o apreço por estes bens,
mas trata-se de uma relação da própria identidade dos dominantes em detrimento dos
dominados e da forma de manter o seu poder e sua ideologia atuando de forma
hegemônica, é compreensível a preocupação da burguesia quando esta se coloca
como defensora dos bens patrimonializados. O que é chamado de “carência” nas
classes populares sobre estas “noções de preservação” deve-se, não a exclusão dos
meios do conhecimento, conforme a intelectuais tradicionais propõe explicar
(GRAMSCI, 1999), mas da própria elaboração do que será patrimonializado e como
será. Estas práticas significam, portanto, a exclusão de sua própria identidade. Não
contentes com isto, deseja-se forçar as mulheres, os negros, indígenas e as classes
populares, entre outros sujeitos à dominação, em uma educação voltada para a
preservação do que não é seu e do que não lhes traz benefício. Reclama-se, portanto,
quando setores populares fazem intervenção em monumentos que representam
figuras historicamente dominantes, mas não há a menor tentativa de ouvir e entender
o outro lado.

Por outro lado, neste início do século XXI parece que o capitalismo tomou
um outro rumo. Como Riegl já dizia no início do século XX, “o valor da arte de um
monumento é medido pelo modo como ele atende às exigências do querer moderno
da arte” (RIEGL, p.35, 2014), e estas exigências estão sempre em constante
transformação. Com as tendências neoliberais formando a principal base ideológica
das classes dominantes, perde o significado a preservação com o objetivo de educar
e manter ideologicamente alinhada a população. Hoje a burguesia busca sem
escrúpulos o capital e a diminuição do Estado (enquanto aparelho público), vem a
calhar. Hoje a ideologia dominante, desvinculando da ideia aristocrática de que os que
estão no poder receberam este por graça divina ou mérito de longo prazo, postulam
que todos podem tornar-se bilionários, não havendo mais distinção entre classes nem
proletários nem burgueses, apenas “colaboradores”.

A preservação de um passado que vincula estes herdeiros do capital com


a exploração de negros, indígenas e das mulheres, da opressão em geral, tornou-se
menos interessante e justificável para a atual elite, mas, ao contrário, indesejável.
Com o crescimento de teorias críticas dentro das ciências humanas, a tendência das
potestades econômicas tem sido, por um lado, proibir o ensino crítico dentro de
escolas e, por outro, negar aos museus a assistência necessária deixando ser
destruído até mesmo a memória da antiga burguesia aristocrática, como uma forma
de queima de arquivo: são restos de um passado que já não interessam ao capital.
Hoje necessitamos andar no fio da lamina entre: por um lado reivindicar o patrimônio
popular, para que ele, que nunca teve sua oportunidade, possa ser reconhecido como
um bem digno de memória e, do outro lado, trabalhar mesmo pela preservação do
velho patrimônio da elite, afim de que este seja lembrado como um passado cruel e
um momento de estupidez humana, mas que fez parte da nossa história e que cujos
reflexos negativos devem ser evitados e combatidos no presente.

6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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