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A estratégia

da luta pelo
socialismo
no Brasil
Resoluções do 4° Congresso da
Articulação de Esquerda
Dezembro de 2017
A estratégia
da luta pelo
socialismo
no Brasil
Resoluções do 4° Congresso da
Articulação de Esquerda
Dezembro de 2017
Editora Página 13

A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil


Resoluções do 4° Congresso da Articulação de Esquerda

Coordenação editorial
Valter Pomar

Diagramação e capa
Emilio Font

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

P784s

Pomar, Valter.
Socialismo / Valter Pomar. – 2 ed. - São Paulo :
Editora Página13, 2018
104 p. ; 21 cm.

Inclui bibliografia.
ISBN 978-85-62508-37-0

1. Socialismo. 2. Capitalismo. 3. Socialismo - Brasil.


I. Título. II. Série.

CDU 316
CDD 301

Editora Página 13
www.pagina13.org.br
Sumário

Apresentação 7
Objetivo final e cenários estratégicos 10
Capitalismo e luta pelo socialismo no Brasil 13
Derrotar o imperialismo financeiro 20
A situação internacional 24
América Latina e Caribe 26
Derrotar os capitalistas brasileiros 29
Nosso programa e o socialismo 40
A estratégia aprovada pelo 6º Congresso do PT 57
A estratégia realmente aplicada 61
Contradições no golpismo 64
A máxima resistência tática 65
Eleições 2018, tática e estratégia 70
Retomando o debate sobre a estratégia 72
A estratégia que foi superada 74
A variante da revolução democrática com republicanismo 77
O colapso da “estratégia” de mudanças sem rupturas 81
Conquistar o poder e iniciar a transição socialista 88
Os caminhos estratégicos 90
O trabalho cotidiano 97
Conclusão 100

DIREÇÃO NACIONAL DA
ARTICULAÇÃO DE ESQUERDA

Adriano de Oliveira/RS, Adriele Manjabosco/RS, Ananda de


Carvalho/RS, Ângela Melo/SE, Bruno Elias/DF, Cândida Rossetto/
RS, Conceição Maria de Sousa/PI, Damárci Olivi/MS, Daniela Matos/
DF, Divonaldo Barbosa/PE, Edivan França/PI, Eduardo Nunes
Loureiro/GO, Eleandra Raquel Koch/RS, Eliane Bandeira/RN, Elisa
Guaraná de Castro/DF, Emilio Font/ES, Francisco dos Santos/MS,
Ismael Cesar/DF, Izabel Cristina da Costa/RJ, Jandyra Uehara Alves/
SP, Janine Azevedo/MG, João Luís Lemos/SP, João Paulo Furtado/
MG, Júlio Quadros/RS, Laura Paz/RS, Leirson Silva/PA, Lício Lobo/
SP, Margarida Calixto/SP, Mariuza Guimarães/MS, Múcio Magalhães/
PE, Natália Sena/RN, Olavo Carneiro/RJ, Pamela Kenne/RS, Rafael
Tomyama/CE, Raquel Esteves/PE, Renan Brandão/RJ, Rodrigo Cesar/
SP, Rosana Ramos/DF, Rubens Alves/DF, Sônia Aparecida Fardin/
SP, Tadeu Brito/SE, Ualid Rabbah/PR, Valter Pomar/SP. Comissão de
ética: Ana Lídia/SP, Diego Pitirini/RS, Irene dos Santos/SP, Jonatas
Moreth/DF. Suplentes da comissão de ética: Giucelia Figueiredo/PB,
A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil

Wagner Lino/SP

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Apresentação

O Partido dos Trabalhadores concluiu seu 6º Congresso Nacional,


realizado nos dias 1 a 3 de junho de 2017, aparentando alto
grau de unidade tática, mas ao mesmo tempo explicitando muitas
incertezas e indefinições organizativas, estratégicas e programáticas.
Em uma situação normal, teríamos tempo e condições adequa-
das para superar tais incertezas e indefinições. Mas não vivemos
uma situação normal, nem no país, nem na região, nem no mundo.
Por isto, a militância petista precisa combinar a luta contra
o governo golpista, pelo Fora Temer e em defesa dos direitos, por
diretas já e pela candidatura Lula, com o debate e as ações neces-
sárias para a mais pronta superação das lacunas e erros existentes
em nossas formulações partidárias.
Para contribuir com isto, especialmente na expectativa de ten-
tar superar as lacunas e erros existentes na estratégia de nosso
Partido, a tendência petista Articulação de Esquerda realizou a A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil
primeira etapa do seu 4º Congresso Nacional, nos dias 24 a 26 de
novembro de 2017, tendo como único ponto de pauta o debate sobre
a estratégia da luta pelo socialismo no Brasil.
Ao término do Congresso, aprovamos uma resolução sobre pro-
grama e estratégia; e convocamos para maio de 2018 uma etapa
congressual que debaterá tática e organização.
Além disso, o Congresso orientou a Direção Nacional da AE a de-
talhar as resoluções do Congresso da AE, em textos específicos que
abordem: as características mundiais do capitalismo no século XXI
e suas decorrências para a luta pelo socialismo no século XXI; os
debates acerca do socialismo e da estratégia, na esquerda mundial,
latino-americana e brasileira; as características do capitalismo e da 7
luta pelo socialismo em nosso país, tanto em termos de estratégia
de poder quanto em termos do programa da transição socialista; a
trajetória recente do PT e a necessidade de uma nova estratégia;
os vínculos entre a tática adotada pelo Partido e a estratégia que
defendemos, apontando mudanças que consideremos necessárias
naquela tática; os vínculos entre a estratégia que defendemos e as
mudanças que se fazem necessárias na organização do Partido; o
papel da tendência petista Articulação de Esquerda, nesta nova
etapa da vida partidária.

O Congresso também orientou a Direção Nacional a, ao longo dos


próximos meses, publicar resoluções e textos específicos sobre temas
que foram abordados no debate e que não estão adequadamente
tratados na resolução: o chamado lulismo; o denominado populis-
mo de esquerda; a luta contra o patriarcado e pela emancipação
humana; a crítica ao “identitarismo” apartado da luta de classes;
o tema do mercado interno de massas; o desenvolvimentismo de-
mocrático e popular; anticapitalismo e antineoliberalismo; o papel
específico do Partido no trabalho de base; as mudanças no mundo
do trabalho e suas relações com a contrarreforma trabalhista, bem
como com o debate que se trava hoje no movimento sindical, espe-
cialmente cutista; a chamada “classe média”; o papel das grandes,
médias e pequenas empresas no socialismo; os diferentes interesses
e frações do capital: industrial, financeiro, nacional, estrangeiro
etc.; a necessidade de superar o longo período de hegemonia do
A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil

reformismo; as vias de desenvolvimento do capitalismo; a questão


das forças armadas; a natureza de classe do Estado; os impactos
de uma eventual introdução do parlamentarismo; a necessidade de
estatizar o setor financeiro; uma análise das direitas brasileiras,
não apenas das direitas propriamente políticas, mas também das
direitas sociais e culturais; uma atualização da resolução sobre a
luta contra a corrupção, aprovada no 3º Congresso da AE; o papel
dos BRICs – especialmente da China – no atual contexto; uma
análise dos movimentos de esquerda que estão surgindo ou res-
surgindo, na Europa, África, Ásia e EUA; por quais motivos não
pretendemos transformar em resolução determinadas polêmicas
históricas (ou, dito de outra maneira, porque só transformamos em
resolução aquilo que consideramos diretamente necessário para
8 a elaboração estratégica); a questão nacional e o enfrentamento
do imperialismo e do capitalismo; a industrialização; a estrutura
de classes no Brasil; o capítulo do programa que trata do meio
ambiente; análise das posições da Consulta, do PCdoB, do PSOL,
bem como do PSTU, da DS, de OT, da CNB e de outras tendências
petistas, à luz das resoluções mais recentes destas organizações;
os grandes caminhos estratégicos (insurreição, guerra popular) e a
singularidade da situação brasileira; o tema da autodefesa; análise
das duas frentes (Povo Sem Medo e Brasil Popular); os sinais de
fim de um ciclo que vem dos anos 1970.
A lista de questões em aberto ou que se faz necessário aprofun-
dar revela, por um lado, nossos limites coletivos. Mas, por outro
lado, indica que fizemos um esforço sério para responder quais os
caminhos da luta pelo socialismo no Brasil e no mundo.
Boa leitura e boa luta!!! 
Os editores

A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil

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Objetivo final e cenários estratégicos

N osso objetivo é construir, na teoria e na prática, uma estratégia


que permita conquistar o poder para iniciar uma transição
socialista, contribuindo a partir do Brasil para abrir um novo ciclo
de experiências de construção do socialismo, portanto um novo ciclo
de tentativas de superar o capitalismo e de construir uma sociedade
comunista. Somos, portanto, dos que entendem o socialismo como
uma etapa de transição entre o capitalismo e o comunismo.
O ciclo anterior de tentativas de construção do socialismo teve
origem na Revolução Russa de 1917, que deu origem à União das Re-
públicas Socialistas Soviéticas (URSS). O socialismo estatal soviético
foi capaz de enfrentar o capitalismo hegemônico no mundo até 1945,
sendo o principal responsável pela decisiva derrota do nazismo na
Segunda Guerra Mundial. Foi também capaz de enfrentar o capita-
lismo hegemônico entre 1945 e 1970. Isto se deve, entre outros, ao
esforço da classe trabalhadora, à supressão da propriedade privada
A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil

e a adoção do planejamento econômico e social. Mas o socialismo


soviético não foi capaz de enfrentar e muito menos de derrotar o tipo
de capitalismo hegemônico a partir dos anos 1970.
Este capitalismo surgiu como resposta à crise do capitalismo que
havia sido hegemônico depois da Segunda Guerra. Entre suas carac-
terísticas podemos citar uma profunda financeirização da economia;
uma intensa abertura comercial; as privatizações e a reestruturação
do Estado capitalista; a chamada “reestruturação produtiva”, com
precarização das relações de trabalho, redução dos salários, aumento
das taxas de exploração, fragmentação e internacionalização ainda
maior das cadeias produtivas; tudo isto acompanhado da propagação
do individualismo, da meritocracia e do mito de que as oportunidades
10 são iguais para todos.
Há um imenso debate acerca da experiência soviética e, particu-
larmente, acerca dos motivos pelos quais o socialismo estatal soviético
perdeu, a partir de certo momento, a capacidade de enfrentar o tipo
de capitalismo hegemônico a partir dos anos 1970. Uma hipótese é
que, dentre os vários motivos, devemos destacar o seguinte: o socia-
lismo estatal soviético perdeu, progressivamente, a capacidade de
desenvolver as forças produtivas em patamares comparáveis com
as dos principais países capitalistas; este baixo desenvolvimento
das forças produtivas contribuiu para uma crescente ineficiência
econômica e esta para a insatisfação política; e tudo isto coincidiu
com o momento, nos anos 1970, em que o capitalismo estava dando
um “grande salto adiante”.
O socialismo estatal soviético perdeu “competitividade” exatamen-
te quando o Estado e o capitalismo de Estado mudaram seu papel nas
nações capitalistas. Um socialismo incapaz de desenvolver as forças
produtivas e democratizar as relações de produção não é capaz de
derrotar o capitalismo e tampouco é capaz de chegar ao comunismo.
No momento, o “socialismo de mercado chinês” está conseguin-
do competir e em alguns terrenos derrotar o capitalismo que lhe
é contemporâneo. Mas as características deste tipo de socialismo
introduzem novos problemas e, inclusive, crescentes riscos de res-
tauração capitalista, que também motivam um imenso debate no
qual a esquerda brasileira deve acompanhar e participar ativamente.
Não temos como saber quanto tempo durará a fase de defensiva

A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil


estratégica em que se encontra o movimento socialista desde os anos
1980 e que teve seu auge nos anos 1989-1991, período geralmente
simbolizado por três eventos: Praça da Paz Celestial, queda do Muro
de Berlim, dissolução da URSS. Também não temos como antecipar
quando e através de que processos terá início uma nova etapa de
ofensiva estratégica do movimento socialista. Muito menos há como
prever quando chegaremos ao objetivo final de uma sociedade comu-
nista, sem classes e sem Estado, sem opressão nem exploração. A
rigor, não há como garantir que o socialismo triunfará na luta con-
tra a barbárie capitalista. Mas nos cabe lutar por isto. E é essencial
perceber que são as características do capitalismo no século XXI que
determinam as condições de luta pelo socialismo no século XXI, tanto
em termos de estratégia de poder quanto em termos do programa da
transição socialista. 11
Por tudo isto, devemos estar preparados para um longo processo
de luta, que envolverá tanto competição pacífica quanto conflitos
militares entre os Estados capitalistas, bem como entre estes e os
processos comprometidos com uma transição socialista, além do acir-
ramento da luta de classes em cada país. Assim como devemos estar
preparados para um longo processo de transição socialista, durante
a qual coexistirão a propriedade social e a propriedade privada, o
mercado e o planejamento estatal, relações comunistas e relações
capitalistas de produção.
Para os marxistas, socialistas e revolucionários do século XIX,
a transição socialista seria relativamente rápida. Hoje não temos
o direito de nos iludir a respeito: a transição socialista será longa,
acidentada, cheia de riscos de derrota e retrocesso. É com este es-
pírito que deve ser educada – especialmente no que toca aos temas
do socialismo e da estratégia – a militância da esquerda brasileira,
latino-americana e mundial. A militância também deve ser formada
na compreensão de que vivemos uma quadra histórica onde deve
ser recolocada a possibilidade e a necessidade de grandes revoluções
socialistas. E onde também existe o risco de um imenso retrocesso
politico, econômico e social. Uma situação que, no caso do nosso
Partido dos Trabalhadores, exige um partido e uma estratégia para
tempos de guerra. 
A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil

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Capitalismo e luta pelo socialismo no Brasil

P ara nós, o ponto de partida de uma estratégia – ou seja, o caminho


que a classe trabalhadora deve trilhar para conquistar o poder e
construir o socialismo – é a análise das classes e da luta de classes.
Ou seja, a análise do desenvolvimento capitalista, no Brasil e no
mundo, e de suas tendências de desenvolvimento futuro.
O território, a população, a economia, a sociedade, a política e
a cultura do que hoje chamamos de Brasil se constituíram ao longo
dos últimos séculos, num processo marcado por quatro grandes
características: a dependência externa, a desigualdade social, o
sistema político oligárquico e o desenvolvimento limitado.
A dependência externa assumiu diferentes formas, na Colônia,
no Império, na República Velha, no Estado Novo, no período 1946-
1964, na Ditadura Militar, na transição presidida por José Sarney,
nos governos eleitos pelo voto direto a partir de 1989 e nos dias de

A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil


hoje. Mas há um traço constante: a tendência a manter no exterior
o centro dinâmico da economia nacional. Até o momento, sempre
que se tentou alterar esta tendência, uma aliança entre forças
externas e internas reafirmou (às vezes modificando de forma)
os mecanismos de dependência. Assim é que, ao longo da nossa
história, houve períodos de inflexão nacionalista. Leis de proteção
da “indústria nacional”, como a Lei de Informática, por exemplo,
foram criações dos militares com o discurso de proteger o “mercado
interno”. O período da ditadura Vargas também foi marcado por
uma tentativa de reduzir o peso da agricultura, especialmente o
café, na economia nacional, promovendo a industrialização do país,
com Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) e a Fábrica Nacional
de Motores (FNM), por exemplo. Essas inflexões aconteceram em
condições internacionais específicas, não enfrentavam de conjunto 13
a dominação imperialista e rapidamente regredíamos novamente,
aprofundando a condição de uma economia periférica e dependen-
te. A política de endividamento externo com juros flutuantes, que
experimentou crescimento exponencial especialmente a partir da
ditadura militar, bem como a conversão da dívida externa em dívida
pública interna, com altas taxas de juros, no período FHC, compõem
o quadro da integração subordinada do país aos interesses dos EUA
no mercado internacional.
A desigualdade social também assumiu diferentes formas, desde
a chegada dos colonizadores portugueses. De um lado indígenas,
escravos, camponeses, assalariados, excluídos, setores sociais opri-
midos e explorados. De outro lado, nobres colonizadores, senhores
de escravos, latifundiários e comerciantes, capitalistas de variados
tipos. Mudaram os protagonistas, mas persistiu sempre uma ele-
vada desigualdade social, desigualdade esta geralmente superior
a existente em países mais pobres que o Brasil, seja do ponto de
vista das riquezas naturais, seja do ponto de vista da capacidade
produtiva. Um fenômeno que persiste por tantos séculos não é um
acidente: vivemos numa sociedade organizada de tal maneira, que
sua reprodução depende da manutenção e aprofundamento da de-
sigualdade social.
A desigualdade social, entre as classes sociais, se vincula de
forma muito estreita com outras formas de desigualdade, exploração
e opressão, que são anteriores ao capitalismo, tais como o racismo
e o patriarcado.
A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil

As relações patriarcais são milenares e estão presentes nas dife-


rentes formações sociais pré-capitalistas. Ao patriarcado correspon-
de uma ideologia sexista e misógina, que contribui para legitimar
uma distribuição desigual de propriedade e poder entre mulheres e
homens. O patriarcado tem relação direta com a cultura do estupro
e com os índices alarmantes de violência doméstica.
O patriarcado e o capitalismo mantém uma relação de coopera-
ção, haja vista a divisão sexual do trabalho, a remuneração média
das mulheres inferior à dos homens pelo mesmo trabalho executado,
maiores índices de precarização e informalidade entre as mulheres.
As mulheres trabalhadoras estão submetidas a uma maior taxa de
exploração da força de trabalho, o que estimula a divisão dentro
14 da própria classe trabalhadora, em benefício dos capitalistas. Por
isso, as relações patriarcais, embora não sejam em si capitalistas,
encontram forte apoio no Estado e nas forças políticas e sociais de
orientação capitalista, como fica evidente na PEC 181, que crimi-
naliza todas as formas e situações de aborto.
O atual recrudescimento da pauta conservadora contra as mu-
lheres confirma que, nos períodos de crise como o que vivemos, as
classes dominantes reforçam o patriarcado, com o objetivo de di-
vidir a classe trabalhadora. Sempre valendo destacar que a classe
dos capitalistas, composta por homens e mulheres capitalistas, é
inimiga de toda a classe trabalhadora, em particular das mulheres
trabalhadoras.
Por tudo isso que expusemos, podemos dizer que -- ainda que a
luta contra o patriarcado seja anterior ao capitalismo e vá continuar
sendo necessária no socialismo --, não haverá vitória completa con-
tra o patriarcado se não houver vitória completa contra o Capital.
O mesmo raciocínio exposto acerca do patriarcado deve ser
aplicado ao tema do racismo. Embora o racismo seja anterior ao ca-
pitalismo, este soube utilizá-lo e metamorfoseá-lo em seu benefício.
Da mesma forma como as mulheres são mais exploradas e recebem
salários menores do que os homens, no caso do Brasil (e em outros
países de composição étnica e história similar) os trabalhadores e
trabalhadores da etnia negra são mais explorados e recebem me-
nores salários que os demais.
Cabe recordar que o Brasil tem estimados 207.660.929 habitan- A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil
tes. Segundo o IBGE, 56, 5% da população brasileira (117 milhões)
vive em apenas 5,6% dos municípios, aqueles com mais de 100
mil habitantes. Os negros e pardos, por sua vez, compõem 54% da
população. Portanto, nossa população reside nas cidades e suas
periferias são compostas majoritariamente pela população negra.
Que é pouco mais da metade, mas responder por 71% das vítimas
de homicídio. Além disso, no terceiro trimestre de 2017, 8,2 milhões
de trabalhadores pretos e pardos estavam à procura de emprego.
O número corresponde a 63,7% dos cerca de 13 milhões de desem-
pregados existentes no país.
Disto concluímos que – ainda que a luta contra o racismo seja
anterior ao capitalismo e vá continuar sendo necessária no socia- 15
lismo – não haverá vitória completa contra o racismo se não houver
vitória completa contra o Capital.
Outra dimensão da desigualdade, de muita importância num
continental como o Brasil, é a dimensão regional. Os preconceitos
regionais são uma das manifestações das desigualdades de desen-
volvimento entre as diferentes regiões, que por sua vez cumprem um
papel útil para o tipo de desenvolvimento capitalista que experimen-
tamos no Brasil. Novamente, o sucesso no combate às desigualdades
regionais, assim como a luta pela preservação do ambiente, depende
de seu vínculo com a luta contra o capitalismo.
O sistema político oligárquico é a terceira de nossas caracterís-
ticas seculares. Desde a chegada dos portugueses até 1888-1889,
vivemos sob um regime político simultaneamente monárquico e
escravocrata. Entre 1889-1930, tivemos uma república de senhores
de terra. De 1930 a 1945, experimentamos uma ditadura explicita
ou disfarçada. Entre 1945 e 1964, foi a vez de uma “democracia”
liberal com fortes restrições às liberdades básicas de organização
sindical, partidária e de livre manifestação eleitoral. De 1964 a 1985,
enfrentamos uma ditadura militar. Só a partir de 1989 a maioria do
povo conquistou o direito de participar dos processos eleitorais, ain-
da que com inúmeras restrições de fato, expressas na influência do
dinheiro, do oligopólio da mídia e em regras eleitorais que distorcem
a proporcionalidade do voto. Sem falar na violência sistemática nas
cidades e nos constantes massacres no campo, tantas vezes contra
pobres trabalhadores, negros e jovens. Em muitas regiões ainda
A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil

vigora um coronelismo. Seguem impunes as perseguições, torturas


e extermínios do período ditatorial. Novamente, não se trata de
uma casualidade: a dependência externa e a desigualdade social
são incompatíveis com um sistema político que não seja oligárquico.
A dependência externa, a desigualdade social e o sistema po-
lítico oligárquico estão na origem das principais características,
contrastes e contradições da sociedade brasileira. Uma destas
características é um determinado padrão de desenvolvimento, que
por ser prisioneiro das três características acima descritas, possui
uma natureza limitada – não indo além de determinado ponto, que
sempre parece inferior às visíveis possibilidades e potencialidades
do país –, passando por isto a impressão de ser cíclico (como se
16 voltássemos ao ponto de partida, mais exatamente a determinados
problemas e entraves). Motivo pelo qual, ao longo dos últimos 517
anos, experimentamos muito crescimento e pouco desenvolvimento.
Parte da sociedade brasileira cultivou esperanças de superar este
padrão de desenvolvimento limitado a partir de 1930 e, novamente,
a partir de 2003. A urbanização, a industrialização, o fortalecimento
do Estado, as transformações sociais, políticas e culturais ocorridas
a partir de 1930 foram de grande dimensão. Entretanto, o ciclo de
desenvolvimento aberto na Revolução de 1930 atingiu um ponto de
esgotamento por volta de 1980. E, ao final da década dos oitenta,
ficou evidente que a classe dominante escolhera o caminho do cha-
mado neoliberalismo, acarretando a destruição de parte importante
dos avanços acumulados nas décadas anteriores e retornando ao
padrão de crescimento limitado.
Com a posse do presidente Lula, em 2003, voltaram as esperan-
ças na superação daquele padrão de desenvolvimento limitado. Mas
estas esperanças não encontraram correspondência nas políticas
efetivamente adotadas, que não conseguiram desbancar a hege-
monia do capital financeiro nem reverter o processo de desindus-
trialização. Ademais, em 2016, através do impeachment, as forças
adeptas das políticas neoliberais retomaram o controle integral do
governo e desde então vem destruindo aquilo que fora feito desde
2003, desmontando os aspectos positivos da Constituição de 1988 e
retomando a destruição da “herança varguista”, com destaque para
a Petrobrás e a CLT.

A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil


Supondo que este processo regressivo não seja interrompido, a
sociedade brasileira experimentará novamente dilemas equivalen-
tes aos experimentados antes da Revolução de 1930. Por exemplo,
a prevalência do padrão primário-exportador e a debilidade da
indústria nacional. Dilemas que – hoje mais que antes – terão
implicações catastróficas, como se percebe no caos instalado nos
grandes centros urbanos e em diversas políticas públicas, da saúde à
segurança. Aceitar este rumo, adotado desde o golpe consumado dia
31 de agosto de 2016, equivale a um assassinato em massa, realizado
em câmera lenta e à luz do dia. O crescente número de excluídos a
vagar pelos centros de nossas cidades, a ação das polícias contra as
juventudes negras periféricas, as explosões no sistema carcerário,
o crescimento do machismo e da LGBTfobia, a retórica fascista nas
redes sociais, tudo isto e muito mais são sinais de que o país já está 17
experimentando uma guerra civil de baixa intensidade e no qual
apenas um dos lados está matando – o que fica evidente na onda
crescente de assassinatos de camponeses e índios.

E é inevitável enfrentar estes dilemas: num país tão desigual


como é o nosso, a fronteira agrícola, as altas taxas de crescimento, as
políticas sociais e a participação democrática, mesmo que limitadas,
constituíram uma válvula de escape para as tensões acumuladas.
A atual retomada neoliberal, colocada num patamar superior ao
que foi o neoliberalismo dos anos 1990, associada a um quadro
internacional de crescente crise e polarização, podem levar a uma
explosão política e social.

A alternativa exige constituir, simultaneamente, um pensamen-


to, uma maioria social e uma maioria política que sejam capazes
de superar o padrão de desenvolvimento limitado e cíclico, através
do enfrentamento de suas causas. Uma nova maioria, disposta a
mudar o rumo de nossa sociedade, precisa estar disposta a assumir
a direção de nossa sociedade, e isto passa por enfrentar a questão
do Estado brasileiro. Este Estado é, ao mesmo tempo, resultante e
instrumento das principais características da sociedade brasileira:
a dependência externa, a desigualdade social, o sistema político
oligárquico e o desenvolvimento limitado. Por isto, quem se dispo-
nha a superar tais características deve ter como objetivo construir
outro Estado, expressão e instrumento do poder de outro bloco de
classes sociais, interessadas e comprometidas com a soberania na-
A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil

cional, com a igualdade social, com a democracia popular e com um


desenvolvimento acelerado e sustentável.

Um Estado capaz de dar conta de tarefas que vão gerar imensas


resistências e ameaças internas e externas, o que ele só fará se além
de forte, ele for democrático, ou seja, expressão das necessidades
e aspirações da imensa maioria da população brasileira. Estas ne-
cessidades e aspirações só poderão ser atendidas se a soberania, a
igualdade e a democracia estiverem baseadas num desenvolvimento
que: a) atenda o mais rapidamente possível as necessidades de toda
a população brasileira; b) através de um novo padrão de desenvol-
vimento, com planejamento e sustentabilidade; c) capaz de gerar
as condições para atender as futuras necessidades individuais e
18 sociais que decorrerão deste processo. 
19
A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil

Derrotar o imperialismo financeiro

P ara materializar o tipo de desenvolvimento acima descrito, será


necessário enfrentar e superar uma das principais características
do capitalismo moderno (a partir dos anos 1970 até hoje): o imperialis-
mo financeiro. Característica que desde os anos 1990 também fincou
raízes no Brasil. A riqueza que circula nos mercados financeiros é
muitas vezes maior do que a soma do produto interno bruto de todos
os países do mundo. Esta é a face visível da financeirização, que leva
ao paroxismo a contradição entre os circuitos da produção material
e os circuitos da valorização do capital.

O capitalista produz para lucrar. Para o capitalista, o processo de


produção e aquilo que se produz constituem meios para ampliar seus
lucros. Para tal, os capitalistas lançam mão de diversos mecanismos:
aumentam a produtividade, incorporando novas tecnologias ao pro-
A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil

cesso produtivo e dispensando mão de obra; estimulam o crescente


desemprego e o decorrente aumento da competição entre trabalha-
dores e trabalhadoras, para assim promover a redução sistemática
de salários; compensam o encolhimento do mercado de consumo de
massas por meio do aumento, tanto do consumo de bens de capital
pelas próprias empresas e pelo Estado (caso dos armamentos), quanto
do consumo de bens duráveis acessíveis apenas às camadas médias
da sociedade; e buscam eliminar a concorrência intercapitalista pro-
movendo a concentração e centralização de capitais, com a formação
de grandes oligopólios que controlam setores inteiros da economia e
permitem praticar preços administrados para ampliar seus lucros.
Mas para realizar estes lucros, continua sendo necessário produzir
e vender aquilo que foi fabricado, o que mantém um vínculo entre a
20 produção material e a valorização do capital.
Nas últimas décadas, entretanto, a chamada financeirização tor-
nou cada vez mais tênues e cheios de mediação estes vínculos entre a
produção material e a valorização do capital. Dinheiro parece gerar
dinheiro, supostamente sem nenhum vínculo com a produção mate-
rial. Mas as crises periódicas no mercado financeiro mostram que não
era bem assim. Paradoxalmente, a insistência em criar dinheiro a
partir do dinheiro debilita a chamada economia real, o que provoca
de tempos em tempos grandes desvalorizações financeiras. Mostrando
que vivemos em tempos em que a superação da especulação financeira
sistêmica implica em superar o próprio capitalismo.
O funcionamento deste tipo de capitalismo ficou explícito na cri-
se de 2008, que iniciou no mercado de financiamentos considerados
subprime nos Estados Unidos. Financiamentos com pouca ou nenhu-
ma garantia, concedidos principalmente para a compra de imóveis.
Esses financiamentos, por sua vez, geravam papéis negociados no
mercado de derivativos. Quando o desemprego aumentou e as pessoas
deixaram de pagar os empréstimos, ficou evidente toda a fragilidade
da fiscalização e das regras que supostamente deveriam limitar os
mercados financeiros. Praticamente não havia controle; era total a
promiscuidade entre o “mercado” e as agências teoricamente respon-
sáveis por avaliação de risco. Uma crise originada no “mundo real”
– o desemprego nos Estados Unidos, por sua vez vinculado ao papel
da China como “oficina do mundo” – quebrou bancos e instituições
financeiras. Entretanto, as medidas adotadas desde então pelos EUA,
União Europeia e Japão tiveram como objetivo e resultado proteger
a especulação financeira. Em decorrência, nessas regiões do mundo A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil
as taxas de crescimento continuaram muito baixas e o desemprego
continuou muito alto. Um extrato diminuto da população mundial
acumula a maior parte das riquezas (reais e fictícias) produzidas pelas
empresas capitalistas. Ao mesmo tempo, massas cada vez maiores de
trabalhadores são deserdados e/ou mal remunerados. Nos Estados
Unidos, Europa e Japão, a questão do desemprego, inclusive entre
trabalhadores qualificados – até então considerados como parte de
uma suposta “classe média”– tornou-se um dos aspectos mais mar-
cantes da crise. Capacidades produtivas são desperdiçadas, ao mesmo
tempo em que crescem os gastos e os conflitos militares.
Embora ainda seja a principal potência militar e continue res-
ponsável pela emissão da moeda de maior trânsito internacional, os 21
Estados Unidos perderam peso econômico, vivem uma crise social e
política de grandes proporções e, além disso, sua hegemonia é cres-
centemente contestada por outros países. Ao contrário do mundo
unilateral pretendido pelos EUA após o fim da URSS, o mundo atual
é claramente multipolar, com destaque para os BRICS. Valendo lem-
brar que, nas condições atuais do mundo, multipolaridade implica
em mais conflitos. Ao mesmo tempo, as instituições mundiais criadas
em 1945 estão em crise: a Organização das Nações Unidas, o Fundo
Monetário Internacional, o Banco Mundial e a Organização Mundial
do Comércio (herdeira do GATT) vem perdendo espaço para uma
multiplicidade de acordos, tratados e medidas unilaterais que lem-
bram – em alguma medida – a confusão geopolítica que ocorreu antes
da Primeira Guerra e no intervalo entre esta e a Segunda Guerra,
período também marcado por uma grande crise internacional.
Nos anos 1930, vários países tentaram superar a crise através
da ampliação dos investimentos públicos, produzindo um efeito “di-
namizador” sobre a economia e a geração de empregos, fortalecendo
a produção em detrimento da especulação. Mas foi a participação na
Segunda Guerra Mundial que retirou a economia capitalista dos EUA
da crise iniciada em 1929. A guerra – seja a produção de armas, seja
a destruição das riquezas até então acumuladas, seja a reconstrução
posterior, sejam as Guerras Mundiais, a Guerra Fria e as guerras
quentes ocorridas depois de 1945 – jogou um papel fundamental na
criação das condições para o ciclo de crescimento econômico capita-
lista, que se estendeu entre 1945 e 1970. Depois disso e até hoje, o
A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil

complexo industrial-militar dos Estados Unidos e da Europa Ociden-


tal continuaram sendo desenvolvidos como pilares estratégicos, não
só para a defesa de seus territórios e sociedades, mas principalmente
para a subordinação de outros territórios e sociedades.
Estados Unidos e Europa Ocidental necessitam de recursos mine-
rais e energéticos de outros países, assim como de mercados. E para
garantir tal acesso, lançam mão da ameaça ou diretamente de ações
militares. Não por acaso os Estados Unidos instalaram mais de mil
bases militares em todo o mundo, e há muito interferem militarmente
em toda parte onde seus interesses estejam, real ou imaginariamente,
em perigo. As guerras de Reagan, nos anos 1980, disseminaram-se
pela América Central, África e Oriente Médio. As guerras de Bush,
22 nos anos 2000, afetaram ainda mais os já conflagrados Afeganistão e
Iraque, devastando grandes regiões. As guerras de Clinton causaram
imensa destruição na antiga Iugoslávia. As guerras de Obama, de in-
gleses e franceses, na África do Norte e no Oriente Médio, destruíram
grande parte da Líbia e da Síria, levaram aos conflitos na Ucrânia.
Donald Trump, antes mesmo de tomar posse já iniciou sua própria
“escalada” verbal. Caso Hilary Clinton tivesse vencido, o cenário não
seria qualitativamente diferente.
Num certo sentido, estamos vivendo um momento internacio-
nal que possui semelhanças inquietantes com algumas situações
que deram origem à Primeira e à Segunda Guerra. Uma destas
semelhanças diz respeito aos efeitos sociais, políticos e militares do
liberalismo (naquela época) e aos efeitos políticos do neoliberalismo
(nos dias de hoje). No início do século, a Europa e os EUA viviam sob
a hegemonia do liberalismo. Como resultados, tivemos a ampliação
da desigualdade social, a polarização política e a Primeira Guerra
Mundial. Um dos seus desdobramentos foi a Revolução Russa de
1917. Noutros países da Europa, seja para superar a crise, seja para
debelar a ameaça de uma revolução social, parcela crescente da classe
dominante aderiu ao fascismo na Itália, do franquismo na Espanha e
do nazismo na Alemanha. O populismo de direita dos anos 1930 não
era liberal: pelo contrário, fez crescer o papel do Estado, do planeja-
mento e do protecionismo nacionalista. Mas o populismo de direita
era também expansionista, imperialista, racista, machista, misógino,
antidemocrático, antissocialista e anticomunista. O resultado disto
foi a Segunda Guerra Mundial.
Hoje o populismo de direita está de volta: Donald Trump nos A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil
EUA, Marine Le Penn na França, as forças fascistas e neonazistas na
Ucrânia, Grécia e em diversos países do Leste Europeu, os partidos
ultraconservadores cuja força eleitoral cresce em todos os países da
Europa Ocidental, inclusive nos países nórdicos conhecidos por seu
estado de bem-estar social. No Brasil e noutros países da América
Latina, o populismo de extrema-direita também se faz presente.
Tanto o neoliberalismo “globalista” quanto o populismo de direita
“protecionista” conduzem, por diferentes caminhos, ao agravamento
da instabilidade, das crises e das guerras.
Em 2008 a crise econômica teve como epicentro os Estados Uni-
dos. Hoje, a crise política mundial também tem seu epicentro lá. As
medidas tomadas pelo governo Donald Trump empurram o mundo 23
para um conflito de grandes proporções. Neste cenário internacional,
há duas coisas que o Brasil não deveria fazer: a primeira delas é
ampliar a dependência externa e a segunda delas é alinhar-se com
a política dos Estados Unidos.
Alinhar-se com os Estados Unidos é subordinar os interesses do
Brasil aos interesses de uma nação em declínio, que cada vez mais
usará a ameaça militar para enfrentar seus competidores. Alinhar-se
com uma nação deste tipo, imersa em profunda crise, crise que hoje a
leva a acentuar suas características protecionistas, significa muitos
ônus e poucos bônus para seus aliados, como se vê no caso do México.
Ampliar a dependência externa é financeirizar e desindustriali-
zar a economia, converter o Estado em cobrador de impostos para
financiar o serviço da dívida, aceitar o papel de exportador de pro-
dutos agrícolas e minerais, reduzir os investimentos públicos em
atividades produtivas. Fazer isto num momento em que se acentuam
os choques econômicos, políticos e militares entre Estados, significa
privar o Brasil de meios para crescer, se desenvolver e se defender
de agressões externas.

A situação internacional
As características estruturais do capitalismo mundial determi-
nam as margens de manobra do capitalismo brasileiro e, por con-
seguinte, determinam alguns dos limites e possibilidades da luta
A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil

pelo socialismo no Brasil. A conjuntura mundial e regional vem se


agravando continuamente, o que impacta a dinâmica da conjuntura
nacional e, portanto, a relação entre nossas ações táticas e objetivos
estratégicos. O golpe demonstrou uma vez mais que a classe domi-
nante brasileira é apoiada e busca o apoio do imperialismo, obrigando
a classe trabalhadora brasileira a construir uma linha política que
articule o “nacional”, o “regional” e o “mundial”.
As principais características do atual cenário mundial são as
crises, as guerras e a instabilidade generalizada. Estas caracterís-
ticas atualizam e recolocam num patamar superior as contradições
e os conflitos entre as classes sociais e os Estados, ao mesmo tempo
em que fortalecem a possibilidade tanto de desfechos reacionários e
24 contrarevolucionários quanto de desfechos revolucionários.
O senso comum nos indica que os desfechos reacionários são os
mais prováveis. Entretanto, a experiência histórica confirma que si-
tuações como a atual, de aguçamento das contradições e conflitos, de
crescimento das desigualdades e instabilidade generalizada, podem
gerar situações que escapem do controle das classes dominantes e
coloquem a possibilidade de não apenas derrubar a ordem capitalista,
mas também a possibilidade de superá-la.
As características citadas no ponto anterior decorrem de um con-
junto de fatores, surgidos em diferentes momentos da história recente,
mas que hoje se conjugam na composição do cenário internacional.
Citamos entre estes fatores: a) a hegemonia sem precedentes do
capitalismo no mundo, que nunca foi tão capitalista quanto é hoje;
b) a natureza do capitalismo contemporâneo, dominado pelo capital
financeiro, que por sua vez está assentado e depende enormemente
da concentração e centralização do capital; c) a profunda e duradoura
crise do capitalismo, cujas causas e efeitos não foram superadas, pelo
contrário; d) o declínio relativo da potência hegemônica, os Estados
Unidos, que perderam peso econômico, vivem uma crise interna de
grandes proporções e tem sua hegemonia crescentemente contestada;
e) a ascensão de outros polos de poder, produzindo uma situação mun-
dial crescentemente multipolar, o que não significa necessariamente
um mundo pacífico; f) a formação de blocos, acordos e tratados, sinto-
mas de desarranjo e crise, não de ordem e estabilidade; g) a disputa
entre diferentes vias de desenvolvimento capitalista, cabendo às
alternativas socialistas uma pequena influência, pois neste momento
estão mais fracas do que já foram antes; h) a defensiva estratégica A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil
da classe trabalhadora, com o aumento das taxas de exploração, re-
dução na remuneração, piora nas condições de trabalho e reversão
de direitos sociais, conjugada com grande pressão por aumento da
produtividade.
Vivemos, portanto, um momento de predominância mas tam-
bém de crise do capitalismo, o que deveria colocar sobre a mesa o
socialismo como alternativa prática. Um capitalismo que resiste a
qualquer reforma, o que coloca sobre a mesa a necessidade de rup-
turas revolucionárias. Um momento de agudização das agressões e
contradições interimperialistas, o que repõe a necessidade de alianças
táticas e estratégicas entre as classes trabalhadoras de todo o mundo,
a começar por nossa região; e, num outro nível, coloca a necessidade 25
de alianças táticas ou estratégicas entre governos que estejam em
conflito com os Estados Unidos e seus aliados.

América Latina e Caribe

A América Latina e o Caribe foram vítimas, entre os anos 1960


e 1990, de governos ditatoriais e neoliberais. Entre 1998 (eleição de
Chavez) e 2002 (eleição de Lula), teve início um ciclo de governos
progressistas e de esquerda que, malgrado suas debilidades e dife-
renças, apontou num sentido oposto: ampliação do bem-estar e da
igualdade social, ampliação das liberdades democráticas, soberania
nacional e integração regional.

A partir da crise de 2008, de seus efeitos, da ação do governo dos


Estados Unidos e da oposição de direita em cada país, somados aos
erros e as limitações das experiências “progressistas e de esquerda”,
abriu-se uma fase de contraofensiva reacionária que vem derrotando
os governos progressistas e de esquerda na região e colocando na
defensiva as forças sociais e partidárias vinculadas aos trabalhado-
res. Aonde a direita voltou ao governo, assiste-se não apenas a um
retrocesso social, mas também a um retrocesso econômico e político,
bem como a um giro na política externa, que volta a ser subalterna
aos interesses dos EUA, o que no Brasil é evidenciado pela recente
operação militar conjunta na Amazônia e pela cessão da base de Al-
A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil

cântara aos estadunidenses, não apenas numa nítida declaração de


alinhamento como também fragilizando a soberania nacional.

O fato de vários governos progressistas existirem e se apoiarem


uns aos outros foi uma variável importante para um avanço compar-
tilhado. A ofensiva reacionária age no sentido oposto. Agora, os povos
da região estão chamados a deter a ofensiva reacionária, reconquis-
tar os espaços perdidos, alcançar novas vitórias, criar as condições
para que a Unasul e a Comunidade de Estados Latinoamericanos e
Caribenhos voltem a ter protagonismo no cenário internacional, em
favor da paz e de outra ordem econômica e política internacional.
Mas para que os povos da região consigam isto, será necessário fazer
um balanço crítico e autocrítico das análises e políticas adotadas, dos
26 êxitos e dos erros cometidos, desde os anos 1990 até hoje. Os que se
recusam a fazer este balanço crítico e autocrítico contribuem, mesmo
que sem saber ou querer, com a oposição de direita.
Até a crise internacional de 2008, os governos “progressistas e de
esquerda” na região da América Latina e Caribe vinham conseguindo
contornar seus limites, contradições e erros. Mas a partir da crise
internacional de 2008, especialmente com a deterioração dos preços
das commodities, a dependência financeira e comercial, a força dos
oligopólios e a debilidade produtiva dos países da região tornaram
cada vez mais difícil a situação dos governos “progressistas e de
esquerda”.
Desde 2008, agravou-se um conjunto de problemas que já vinham
se acumulando, tais como a “fadiga de material”, limites e contra-
dições da estratégia adotada, timidez nas políticas de integração,
políticas macroeconômicas que mantiveram a predominância do
agronegócio e o peso do setor financeiro etc. Neste contexto, as classes
dominantes locais e seus aliados internacionais desencadearam uma
“ofensiva geral” contra as conquistas e os direitos políticos, econô-
micos e sociais da classe trabalhadora. Esta ofensiva vêm golpeando
duramente a maior parte dos governos comprometidos, em maior ou
menor medida, com a defesa destes direitos. Vale dizer que ao fazer
isto, a classe dominante demonstrou os limites de classe do chamado
Estado de Direito. E mostrou a que servem as ilusões no Estado de
Direito, na neutralidade do Estado, no compromisso republicano ou
democrático das classes dominantes.
Noutras palavras, a crise internacional de 2008 funcionou como
um catalizador e acelerador de diversos fenômenos, revelando não A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil
apenas que a dependência externa continua sendo uma variável fun-
damental a superar, através da integração regional, da industrializa-
ção, do fortalecimento do Estado e da soberania nacional, em todos os
seus aspectos, do alimentar à defesa, passando pela comunicação; mas
revelando, sobretudo, que a dominação capitalista também continua
sendo uma variável fundamental a superar.
O mundo depois de 2008 é diferente do mundo antes de 2008.
Mudaram os alinhamentos entre os Estados, mudou o comportamento
das classes sociais. Frente a uma nova situação estratégica, estamos
chamados a produzir uma nova estratégia. Ontem como hoje, um
dos componentes desta estratégia continuará sendo a integração
da América Latina e do Caribe. Neste diálogo com outros países, 27
o mínimo denominador continuará sendo a integração regional, o
desenvolvimento soberano, a ampliação do bem-estar social e das
liberdades democráticas dos nossos povos. Mas nesta nova estratégia,
será necessário enfatizar o combate ao capitalismo e, portanto, des-
tacar que nossa aspiração e meta é construir uma Nuestra América
socialista. Para se concretizar nestes marcos, a integração latinoa-
merica e caribenha deve ser sustentada pela articulação das forças
de esquerda e socialistas da região, motivo pelo qual o Foro de São
Paulo seguirá cumprindo um papel decisivo nesta nova estratégia.
Neste contexto de hegemonia capitalista, crise do capitalismo,
ampliação das contradições intercapitalistas, instabilidade, crise e
guerra, a alternativa está em construir um forte movimento, ancorado
nas classes trabalhadoras e nos setores populares, que consiga não
apenas resistir, mas também conquistar governos, reorientando as-
sim a economia e a politica mundiais. Nesta reorientação, pode jogar
um papel importante a articulação entre o bloco latino-americano
integrado pelo Brasil e os chamados BRICS, bloco liderado pela
China e pela Rússia, integrado também por Brasil, África do Sul e
Índia. Entretanto, é preciso saber que os BRICS não são uma versão
moderna do “campo socialista” em conflito com o “campo capitalista”.
Tampouco são uma versão século XXI do “espírito de Bandung”, que
pretenda reeditar o antigo “Movimento dos Países não Alinhados”.
O que os BRICS podem ser, a depender da política que os oriente, é
uma aliança contra o bloco liderado pelos Estados Unidos e, neste
sentido e com estes limites, podem cumprir um papel de contenção
A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil

e apoio, ainda que parcial. E sem eliminar as contradições entre os


diferentes projetos e políticas que animam seus integrantes.
A situação internacional torna mais urgente e imprescindível,
portanto, um Estado comprometido com a soberania nacional e com
o desenvolvimento, um Estado forte o suficiente para enfrentar o
imperialismo financeiro e, também, as forças políticas e sociais que,
dentro do Brasil, defendem a dependência, a desigualdade, o sistema
político oligárquico e o desenvolvimento limitado.

28

Derrotar os capitalistas brasileiros

A classe dominante brasileira, assim como a classe trabalhadora,


não é homogênea. Há contradições e interesses diferentes, resul-
tando em diferenças políticas e ideológicas que algumas vezes podem
levar a grandes conflitos. As contradições internas na burguesia po-
dem e devem ser exploradas por nós. Entretanto, do ponto de vista
estratégico, a classe dominante foi, desde o início, sócia menor das
classes dominantes metropolitanas, não importando que elas fossem
ibéricas, inglesas ou estadounidenses. Outra atitude dependeria de
uma sólida aliança com as demais camadas populares, aliança que
teria que se traduzir em reforma agrária, em salários mais altos, em
políticas sociais mais universais, em maior participação democrática
do povo na condução dos negócios do país. A partir do que os traba-
lhadores e o povo poderiam forçar o capital a abrir mão de parte de
seus ganhos. Cada uma destas ações e/ou o conjunto delas rebaixaria
os ganhos da classe dominante, ganhos que hoje dependem em boa
medida da financeirização, mais precisamente do lucro garantido A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil
proveniente da dívida pública. Qualquer iniciativa que comprometa os
ganhos desse “mercado” será duramente reprimida. Por este conjunto
de motivos, a classe dominante brasileira não apenas convive, mas
também defende e reproduz a dependência externa, a desigualdade
social, o sistema político oligárquico, assim como adere a políticas de
desenvolvimento limitado. Quem deseje superar estas características
da sociedade brasileira, terá que enfrentar e derrotar a resistência
do conjunto da classe dominante, especialmente do seu setor hege-
mônico: o capital financeiro.
Esta resistência se expressa em vários terrenos: na dinâmica
econômica e social, nas estruturas políticas e no funcionamento do
Estado, assim como no âmbito cultural e ideológico. Neste último 29
âmbito trava-se uma batalha cotidiana entre diferentes visões acerca
do passado, do presente e do futuro do Brasil. Quem deseja construir
outro “estado de coisas”, comprometido com a soberania nacional,
com a igualdade social, com a democracia popular e com o desenvol-
vimento, deve enfatizar que nosso objetivo de longo, médio e curto
prazo é melhorar a qualidade da vida do povo brasileiro, de maneira
profunda, acelerada e sustentável. Nos anos recentes, este objetivo
foi popularizado através de pelo menos três slogans: o de projeto
nacional-popular, o da retomada do desenvolvimento e o de país de
classe média. Embora compartilhemos aspectos importantes de cada
uma destas fórmulas, consideramos que nenhuma delas enfatiza algo
insubstituível e inocultável de uma alternativa: o socialismo.
Vejamos a fórmula que fala em fazer do Brasil um “país de classe
média”. A chamada “classe média” identifica-se com a sociedade que
desejamos superar: uma sociedade baseada na ascensão individual,
onde a “felicidade” é comprada no mercado. Uma sociedade deste tipo
garante qualidade de vida para uma minoria da população. Nela não
“cabem” 200 milhões de pessoas. Para que todos tenham a qualidade
de vida que hoje só uma minoria tem, é necessário que predomine
a ascensão social coletiva, principalmente através do acesso a bens
públicos: transporte coletivo, não privado; saúde pública, não privada;
educação pública, não privada; e programas de habitação popular
subsidiados pelo Estado; previdência pública etc. Ou seja, para que
sejamos um país em que os padrões de vida universalizados sejam
os hoje acessíveis apenas à chamada “classe média”, é preciso uma
A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil

organização social de outro tipo, distinta da capitalista.


Quando a classe dominante apela à “classe média” e aos seus
“valores”, o que ela busca fazer é dividir a classe trabalhadora, jo-
gando um setor da classe trabalhadora contra outro e estimulando
a idéia perversa segundo a qual a ascensão social depende única e
exclusivamente do esforço individual para aproveitar oportunidades.
Uma das formas que assume esta ideia é o discurso meritocrático.
Outra forma é a postura fascista que defende o extermínio dos “fracos
e diferentes”.
A rigor, o que costuma ser chamado de “classe média” inclui três
frações de classe distintas: o segmento inferior da classe capitalista,
ou seja, os capitalistas de pequeno porte; o segmento superior da
30 classe dos pequenos proprietários, ou seja, aquele que está para
converter-se em capitalista; e o segmento mais bem remunerado
da classe dos trabalhadores assalariados. Numericamente falando,
esta última é a maior parte da chamada “classe média”: pessoas que
vivem do seu trabalho, recebendo salários melhores, graças aos quais
podem consumir mais e inclusive contratar outros assalariados para
fazer serviços, especialmente domésticos.
Para que tenhamos um Brasil diferente do atual, é preciso ganhar
a classe trabalhadora para um programa político de ascensão coletiva,
como classe; e não de ascensão individual, como é característico da
“classe média”. E, por outro lado, é preciso convencer ou pelo menos
neutralizar a chamada “classe média”, tentando evitar que sua maior
parte converta-se em tropa de choque dos capitalistas, como ocorreu
no caso brasileiro, especialmente em 2015 e 2016. Nesta perspectiva,
devemos buscar que os integrantes da chamada “classe média” reco-
nheçam que são parte da classe trabalhadora, da classe dos pequenos
proprietários ou parte de uma fração subordinada dos capitalistas,
e somem forças conosco.
Ao contrário disto, falar em construir um “Brasil de classe média”
fortalece o ponto de vista daqueles que acham que a “classe média”
não deve associar seu destino ao da classe trabalhadora. Um Brasil
organizado pelo ponto de vista da “classe média” é um país que não
aceita universalizar seu padrão de vida, pois se todos fizessem parte
da classe média, se todos pudessem consumir, se todos pudessem
viajar, se todos pudessem frequentar a universidade, desaparecia o
status social que faz da “classe média” um setor especial.
Não se deve admirar, portanto, que a tal “classe média” (em A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil
grande parte, trabalhadores que não se sentem parte da classe tra-
balhadora) tenha saído em massa às ruas, exatamente para comba-
ter o governo que falava em construir um “país de classe média”. E
falava isto como parte de uma visão política incorreta (detalhada na
entrevista concedida pela presidenta Dilma Rousseff à sétima edição
da revista Esquerda Petista) e a partir de uma visão teórica também
incorreta, segundo a qual as classes sociais seriam determinadas
pelo seu padrão de consumo, não pelo “lugar” (assalariado, pequeno
produtor, capitalista) que ocupam no processo de produção. Com base
nesta “teoria”, trabalhadores de renda mais baixa e de pouca espe-
cialização técnica, tipicamente pertencentes a classe trabalhadora,
foram “promovidos” a classe média porque cresceu sua capacidade 31
de consumo. Isso contribui para um afastamento de setores signi-
ficativos da classe trabalhadora do sentimento de pertencimento a
sua própria classe.
Como esperar que estes setores demonstrem combatividade frente
ao golpe? Por outro lado, a “classe média anteriormente existente”
não se identificou com as pessoas que melhoraram de vida desde
2003. Pelo contrário, como é óbvio que aconteceria, as encarava como
competidoras.
Uma maneira de tentar evitar isto seria ganhar esta “classe
média” para outra visão de mundo: a construção de um país onde o
conjunto da classe trabalhadora tenha altos níveis de vida material,
cultural e política. O que exigiria, é bom dizer, outros caminhos que
não os da ascensão social através do mercado. Exigiria, também, uma
postura ativa na batalha de ideias para ganhar os corações e mentes
da mal denominada “classe média”, enfrentando a retórica dos liberais
e conservadores, a começar pelas formulações de seus think tanks.
Ganhar parte da “classe média” para outra visão de mundo não
se tratava, nem se trata, de uma operação impossível. Basta pensar
que nos anos 1980, o movimento de médicos estava engajado na cria-
ção do Sistema Único de Saúde. E em 2016, grande parte do mundo
cultural cerrou fileiras em defesa da democracia e contra o golpismo.
Num certo sentido, os que falam de um “país de classe média”
contrapõem dois modelos: o american way of life versus o welfare
state. Evidentemente, nos opomos ao primeiro modelo, vigente nos
A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil

Estados Unidos. Mas tampouco defendemos o “estado de bem estar”


europeu, não apenas por seus limites, mas também porque só foi pos-
sível devido a três fatores combinados: a) a necessidade de competir e
neutralizar a ameaça do socialismo soviético; b) os ganhos que a classe
dominante europeia obtinha através do imperialismo, ganhos que
possibilitaram que ela fizesse concessões à sua classe trabalhadora;
c) a força da classe trabalhadora europeia, organizada em sindicatos
e partidos capazes de arrancar conquistas.
No Brasil, um “estado de bem estar social” não poderia depender
do capitalismo e dos capitalistas. E nem poderia contar com a pressão
externa proveniente de uma sociedade socialista. No Brasil e na época
atual, elevar o bem estar-social depende exclusivamente da força da
32 nossa classe trabalhadora.
As duas outras “fórmulas” citadas anteriormente – a de “projeto
nacional-popular” e a da “retomada do desenvolvimento” – incorrem
num problema semelhante ao apontado acima.
Obviamente queremos desenvolvimento. Mas não queremos a
“retomada” daquele desenvolvimentismo conservador que marcou a
história do Brasil. E não achamos possível que haja um desenvolvi-
mentismo capitalista que não seja conservador. Por isto, no tipo de
desenvolvimento que defendemos, não apenas o Estado deve ter pro-
tagonismo, mas também a propriedade social deverá ter hegemonia.
Também é óbvio que queremos soberania nacional e popular.
Mas para que haja este tipo de “pátria livre” na periferia do mundo,
é preciso que haja socialismo e revolução. E para isso, a disputa dos
chamados “valores nacionais” deve ser feita enfatizando também os
valores socialistas, inclusive a necessidade de um Estado de outro
tipo. Do contrário, a efetivação de nosso programa ficará na depen-
dência de ilusões lamentáveis, como a crença nos “valores patrióticos”
das forças armadas.
Durante os anos 1930-1980, o “desenvolvimento” tornou-se uma
espécie de mínimo denominador comum da maior parte das correntes
ideológicas, políticas e sociais. Evidentemente, isto não significava
que havia um consenso quanto ao conteúdo que o termo expressava.
Mas significava que houve uma luta de ideias na sociedade brasileira,
através da qual um determinado ponto de vista tornou-se hegemônico.

A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil


Processo similar ocorreu nos anos 1980, em torno da noção de
justiça social através da ampliação de direitos. Já nos anos 1990, foi
a vez das ideias neoliberais tornaram-se hegemônicas.
Durante os governos Lula e Dilma, ocorreu algo diferente. As for-
ças derrotadas em quatro eleições presidenciais seguidas, forças estas
herdeiras do neoliberalismo dos anos 1990, mantiveram uma imensa
influência ideológica e cultural, a partir da qual resistiram, sabota-
ram e em determinado momento derrotaram as forças simbolizadas
por Lula e Dilma. Estas forças, que nós integramos, não chegaram
a ganhar hegemonia cultural e ideológica na sociedade brasileira.
As dificuldades que um projeto popular, não originado da classe
dominante, enfrentou para tornar-se hegemônico estão diretamente
vinculadas à decisão de não tocar no oligopólio da comunicação, assim 33
como na incapacidade de garantir predomínio público no terreno da
cultura e da educação.
Mas há um problema anterior: o PT chegou ao governo portando
a promessa de melhorar a vida do povo através de políticas públicas.
Esta promessa tinha a vantagem de parecer factível, de oferecer
resultados no curto prazo, de contornar os muitas vezes incômodos
debates programáticos de longo prazo sobre neoliberalismo, desen-
volvimentismo e socialismo. Mas ao lado destas vantagens, vinha
uma desvantagem: esta promessa não tinha potencial hegemônico
comparável ao neoliberalismo, ao desenvolvimentismo ou ao socia-
lismo. Entender o porquê disto é essencial.
Melhorar a qualidade da vida do povo brasileiro, de maneira pro-
funda, acelerada e sustentável, exigirá combinar políticas públicas
com transformações nas estruturas e tradições culturais, políticas,
sociais e econômicas atualmente predominantes. Esta sempre foi a
formulação clássica da esquerda brasileira, tanto daquela que luta
pelo socialismo, quanto daquela que lutava por um capitalismo na-
cional. Esta formulação nunca levou a esquerda brasileira a esperar
sentada a realização das reformas estruturais. Pelo contrário, partiu
das forças de esquerda a luta por mudanças imediatas nas condições
de vida do povo, seja através de mobilizações sociais, seja através da
formulação e implementação de políticas públicas.
Desde os anos 1980, no terreno municipal, estadual e nacional,
acumulou-se um rico repertório de políticas públicas que resulta-
ram em melhorias na capacidade produtiva do país e nas condições
A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil

de vida do povo, no terreno material, cultural e político. Vistas de


conjunto, estas políticas públicas tiveram contra si: a) um orçamento
limitado, b) um crescimento econômico que intercala breves fases de
alto crescimento com fases de baixo crescimento e recessão; c) uma
estrutura econômica e social concentradora de renda e riqueza, além
de estruturas de poder geralmente conservadoras.
O caso que deixa isto mais evidente é o do Sistema Único de
Saúde (SUS) criado pela Constituição de 1988. O SUS sempre foi
subfinanciado. Seus efeitos positivos foram sempre parcialmente
neutralizados ou anulados pela dinâmica econômica. Ademais, uma
parte do investimento público no SUS sempre foi capturada pelo se-
tor privado. Em decorrência disto, uma excelente política universal
34 e pública, não conseguiu produzir todos os efeitos sistêmicos de que
é potencialmente capaz e, a partir de certo ponto, se vê ameaçada de
converter-se no seu contrário: o sistema chamado de “duas portas”
e/ou de “SUS para pobres”.
Raciocínio similar pode ser feito no terreno das políticas de habi-
tação popular, encarecidas pela especulação imobiliária e pela atitude
das construtoras; ou no terreno das políticas de fomento à produção de
alimentos, que sofrem a concorrência do agronegócio de exportação.
Portanto, seja para tornar realmente universais as políticas pú-
blicas, seja para evitar que os efeitos positivos destas políticas sejam
neutralizados pelas estruturas conservadoras ou por crescimentos
inferiores e/ou soluçantes, é necessário combinar políticas públicas
com reformas estruturais. Por exemplo: para ampliar o orçamento dis-
ponível para as políticas públicas, é necessário realizar uma reforma
tributária progressiva, que grave os grandes capitalistas; assim como
é necessário realizar uma auditoria e revisão do serviço da dívida
pública, para que os impostos não sejam arrecadados em benefício
dos senhores da dívida, uma minoria da população brasileira.
Por reformas estruturais entendemos, portanto, aquelas políticas
que alteram de forma profunda e sustentável a distribuição da rique-
za, e principalmente do poder, entre as classes sociais. Obviamente,
a classe dominante na sociedade brasileira, assim como as forças
políticas e sociais hoje hegemônicas no cenário regional e mundial,
fizeram, fazem e seguirão fazendo brutal oposição a tal combinação
entre políticas públicas (que melhorem as condições de vida e traba-
lho) e reformas estruturais (que sustentam no longo prazo aquelas
A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil
políticas). Qualquer tentativa de melhorar a qualidade da vida do
povo brasileiro, de maneira profunda, acelerada e sustentável esbarra
na lógica do capitalismo: vamos até onde o bem-estar não comprometa
os interesses e os ganhos do Capital.
A experiência histórica, nacional e internacional, mostra que
numa sociedade dividida em classes não há “consenso” real em tor-
no de absolutamente nada. Quem tem dúvida a respeito, verifique
a proposta divulgada pelo governo Dória, segundo a qual os mortos
seriam enterrados na capital paulista de pé ou deitados, a depender
do que paguem suas famílias.
As palavras soberania, democracia, bem estar e desenvolvimento
– entre muitas outras que fazem parte do vocabulário político – pos- 35
suem significados distintos, que variam de acordo com a referência
social de cada pessoa e/ou organização.
O que pode existir numa sociedade de classes é a hegemonia de
um determinado ponto de vista, mesmo que esta hegemonia venha
acompanhada de doses maiores ou menores de conflito. Especial-
mente na atual situação mundial, regional e nacional, a intenção de
melhorar as condições de vida da maioria da população, implicando
em reforço da soberania nacional e ampliação da democracia, vai
necessariamente ser contestada tanto por outros Estados, quanto
por forças sociais e políticas brasileiras vinculadas ao status quo.
Assim, é importante explicar através de que processo cultural,
político e institucional será possível converter aquele objetivo – me-
lhorar a qualidade da vida do povo brasileiro, de maneira profunda,
acelerada e sustentável – em vontade da maioria de nossa população
e meta oficial do Estado brasileiro. É em torno disto que pode se
constituir uma hegemonia alternativa. É preciso, portanto, travar a
batalha de ideias e valores, combatendo a competição e o individu-
alismo capitalista e estimulando a solidariedade, o coletivismo e o
associativismo socialista – sem esquecer, porém, que o êxito das ba-
talhas de ideias no âmbito subjetivo depende de mudanças materiais
objetivas, sem as quais não se alteram as condições que garantem
o enraizamento da ideologia dominante nas classes trabalhadoras.
Os governos petistas e suas políticas públicas melhoraram a vida
do povo; mas como não desenvolveram uma visão de conjunto sobre
A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil

o processo, não conseguiram tornar seu ponto de vista hegemônico.


A famosa pesquisa, tantas vezes citada, segundo a qual os be-
neficiários das políticas sociais atribuem a melhoria de suas vidas
ao seu próprio esforço pessoal, a Deus e às suas famílias, é uma ex-
pressão disto. Outra pesquisa mais recente, sobre o conservadorismo
nas periferias, também demonstra que, na ausência de um discurso
contra-hegemônico, as massas populares buscaram o que estava ao
alcance da mão. O mesmo pode ser confirmado quando analisamos
o comportamento da juventude. O enraizamento das igrejas pente-
costais e o crescimento recente dos movimentos e organizações de
direita se beneficiaram do afastamento dos movimentos populares e
organizações de esquerda das periferias dos grandes centros urbanos
36 e das novas gerações.
É uma ironia, mas uma ironia sustentada por outras experiências:
provavelmente teríamos tido mais sucesso, se tivéssemos associado
nossas políticas públicas “melhoristas” a um propósito explicitamente
socialista. Entre outros motivos porque forneceríamos uma narrativa
mais inteligível e com capacidade hegemônica, diferente daquela que
falava em “melhorar a vida dos pobres sem tocar na riqueza dos ricos”.
Para que um projeto de desenvolvimento vinculado à soberania
nacional, à igualdade social e à democracia popular pudesse tornar-
-se hegemônico, seria necessário que ele não estivesse contaminado
pelo neoliberalismo e pelo desenvolvimentismo. E, certamente, seria
necessário um intenso debate público, que envolvesse grande parte
da população brasileira. Seria necessário, ainda, um conjunto de vi-
tórias eleitorais, a reorientação da ação de parlamentos e governos,
além de uma nova arquitetura institucional, estabelecida através
de uma Assembleia Nacional Constituinte, que garantisse a hege-
monia pública no mundo da comunicação, da educação e da cultura.
Seria necessária, também, uma ampliação exponencial do papel do
Estado, como financiador, indutor, regulador, planejador e executor
direto da atividade produtiva, através das estatais. E para que o
Estado fosse capaz de coordenar e executar um conjunto de medidas
que tornassem possível a ampliação do nível cultural, científico,
tecnológico e de produtividade de toda a sociedade brasileira, seria
necessário, “finalmente”, alterar a natureza de classe e modificar o
modus operandi do Estado.
Não se trata apenas de recuperar antigas empresas estatais
que foram privatizadas total ou parcialmente. Nem se trata apenas A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil
da criação de novas empresas, capazes de atuar nas fronteiras do
desenvolvimento, na proteção dos interesses estratégicos (como é o
caso, por exemplo, da biotecnologia) e inclusive na execução de obras
públicas convencionais.
Embora, vale dizer, esta última necessidade tenha se tornado
ainda mais premente, devido aos efeitos da chamada Operação Lava
Jato, que afetou profundamente a engenharia nacional. Podem haver
diferentes análises sobre as motivações originais, mas não cabe mais
dúvida sobre as decorrências: a Lava Jato provocou interrupção no
investimento, no crescimento, na geração de empregos, além de favo-
recer diretamente o capital estrangeiro. Por outro lado, a Lava Jato
confirmou algo já sabido: que o setor de engenharia é diretamente 37
dependente do Estado, ainda que de direito seja privado. O que re-
força a necessidade de impulsionar um setor de engenharia estatal.
Enfatizamos que não se trata apenas de ampliar o papel do Es-
tado, embora isto seja parte importante do problema, constituindo o
reconhecimento de que os problemas do país são imensos, de difícil
solução, exigindo políticas de longo prazo e um nível de investimento
além da capacidade do setor privado. Frente a problemas tão imen-
sos e tão difíceis, faz-se necessário construir uma vontade coletiva e
instrumentos públicos, que se expressem através do poder de Estado.
A ampliação do papel do Estado constitui, ainda, uma reação
defensiva contra as movimentações agressivas de outros Estados,
especialmente dos EUA. A defesa da soberania nacional exige uma
economia próspera, uma sociedade coesa, instituições políticas com
visão estratégica e capacidade de dissuasão, medidas defensivas e
ofensivas de variados tipos, que cabem ao Estado brasileiro.
Trata-se disto tudo, mas trata-se principalmente de mudar a natu-
reza de classe do Estado e, por conseguinte, seu modus operandi. Isto
porque a “ampliação do papel do Estado” constitui uma necessidade
para derrotar os grandes oligopólios privados.
Hoje a economia, a sociedade, a cultura e a política brasileira são
dominadas por estes oligopólios, especialmente no setor financeiro.
A PEC 55 é um dos muitos exemplos disto: congela os investimentos
sociais, mas mantém crescente o serviço da dívida. Para os oligopó-
lios, o Estado deve ser forte na proteção de seus interesses e fraco na
A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil

defesa dos interesses populares e nacionais.


Mudar a natureza de classe e ampliar o papel do Estado constitui,
paradoxalmente, a garantia de que possa haver um amplo floresci-
mento da pequena e da média empresa, bem como um crescimento do
número de trabalhadores pequenos proprietários, que atuam sozinhos
ou com mão de obra familiar. Com a diferença que um Estado con-
trolado pelos trabalhadores e uma economia de orientação socialista
gerariam um ambiente que evitaria a precarização do trabalho.
O mercado oligopolizado que temos hoje é totalmente insalubre
para os pequenos proprietários familiares, assim como para os ca-
pitalistas de pequeno e médio porte. Só a intervenção de um Estado
que não seja controlado pelos oligopólios privados – um Estado que
entre com crédito, apoio técnico e estoques reguladores – pode ga-
38
rantir que o “livre” mercado não resulte na destruição dos pequenos
e médios proprietários.
Em resumo, precisamos construir um Estado forte, comprometido
com a soberania nacional, tecnológica e energética, com a igualda-
de social, com a democracia popular e com o desenvolvimento. Um
Estado forte e democrático, expressão das necessidades e aspirações
da imensa maioria da população brasileira. Um Estado com outra
natureza de classe e que esteja comprometido com outro tipo de
sociedade: o socialismo. Tornar estas ideias hegemônicas na classe
trabalhadora brasileira constitui um passo necessário para que elas
se convertam em realidade. 

A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil

39

Nosso programa e o socialismo

N osso programa busca expressar, de modo compreensível a todos


e todas, as ações necessárias para melhorar as condições de vida
e trabalho do povo, democratizar a riqueza e o poder, enfraquecer as
bases de exploração capitalista e apontar um rumo socialista para
o Brasil, bem como contribuir para a auto-organização e a formação
de consciência das classes trabalhadoras.
Alguns setores da esquerda brasileira consideram que explicitar
o caráter socialista de nosso programa e de nossa estratégia é desne-
cessário e um desserviço. Um desserviço, porque chocaria com o senso
comum da maioria das pessoas, dificultando nosso trabalho político de
convencimento. E desnecessário, por dois motivos diferentes: porque
a adoção de medidas socialistas não seria algo para já e porque o so-
cialismo seria colocado naturalmente na ordem do dia, pelo progresso
da luta de classes.
A primeira afirmação, acerca do senso comum, está ela mesma de-
A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil

terminada pelo senso comum: de fato a maioria das pessoas concorda


com as opiniões da classe dominante acerca do socialismo. A questão é:
será possível derrotar politicamente a classe dominante, se não mudar
em alguma medida expressiva a opinião da classe trabalhadora acerca
do socialismo? Se a resposta for sim, tem razão o senso comum. Se a
resposta for não, então nossa ação política cotidiana precisa, em algu-
ma medida, incluir a crítica ao capitalismo e a defesa do socialismo.
A segunda afirmação é incorreta e parte de uma visão antiquada
acerca do que é o socialismo. Evidente, para quem acredita que so-
cialismo é “propriedade estatal dos meios de produção”, o socialismo
não está na ordem do dia. Mas para quem entende que o socialismo
pode ser a “combinação entre várias formas de propriedade, sob he-
40 gemonia da propriedade Estatal, de um Estado que seja expressão do
poder das classes trabalhadoras”, então não é errado falar que numa
sociedade com as características do Brasil, as reformas estruturais que
defendemos – não tomadas individualmente, mas quando tomadas de
conjunto, sistemicamente – podem assumir uma natureza socialista.
A terceira afirmação é parcialmente correta. De fato, o socialismo
é colocado naturalmente na ordem do dia, pelo progresso da luta de
classes. Mas “naturalmente” no caso precisa incluir a ação subjetiva
dos partidos, das forças políticas e sociais, que prevendo o desdobra-
mento da luta de classes, antecipam em seus planos estratégicos e em
seus discursos, a necessidade de colocar sob controle social e público e
estatal uma parte dos meios de produção. Portanto, o erro da terceira
afirmação está em que considera algo “natural”, desde que seja feito
por terceiros, não por nós mesmos.
O que dissemos anteriormente, sob a natureza socialista que as
reformas estruturais podem assumir quando consideradas sistemica-
mente, pode ser constatado quando analisamos cada uma delas. Come-
cemos pela reforma tributária, que inclui medidas como: a tributação
de juros sobre capital próprio; a tributação sobre lucros e dividendos;
a taxação sobre remessa de lucros e dividendos ao exterior; a extensão
do Imposto sobre Propriedade de Veículos Automotores (IPVA) para
barcos e aviões; a adoção de Imposto sobre Grandes Fortunas (IGF);
a revisão da tabela do imposto de renda sobre pessoas físicas, com
aumento do piso de isenção e ampliação progressiva das faixas de
contribuição; o aumento do imposto sobre doações e grandes heranças,

A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil


com repactuação do valor arrecadado entre União, estados e município;
e, de maneira geral, medidas progressivas sobre a renda, no sentido
oposto à regressividade do ICMS e tributos sobre o consumo.
O discurso feito pela burguesia contra a “pesada carga tributária
nacional” tem como principais alvos e defensores a chamada “classe
média” e outros setores da classe trabalhadora, que pensam ser os
potenciais beneficiários de uma redução da carga tributária.
A grande burguesia é dos setores menos afetados pela carga tri-
butária, graças justamente à carga aplicada aos outros estratos da
sociedade. Seu objetivo é obter para si reduções ainda maiores da
tributação, sabendo de forma consciente que para isso é necessário
sobrecarregar os outros extratos. Daí a dificuldade em aprovar no Con-
gresso, composto em sua maioria pelos representantes da burguesia, 41
medidas tributárias de cunho progressivo, onde quem tem mais paga
mais, e quem tem menos paga menos.
Além de implementar uma reforma tributária, é necessário estan-
car a sangria das renúncias tributárias. Políticas de incentivo, quando
necessárias, devem ser feitas de forma transparente, aberta e vincu-
lada a projetos de desenvolvimento, com destaque para os benefícios
sociais derivados.
Outra fonte de sangria são as anistias e perdões fiscais, que tem
tornado a prática de sonegação um excelente negócio, pois financei-
ramente pode ser mais interessante sonegar impostos e esperar o
programa de refinanciamento, do que pagar os tributos em dia.
Na mesma linha seguem os “perdões” de dívidas tributárias gigan-
tescas a grandes grupos econômicos, inclusive bancos Por fim temos a
leniência na cobrança das dívidas tributárias. Os grandes devedores
são beneficiados pela lentidão dos processos, assim como por interpre-
tações “generosas” da lei e normativas tributárias.
Setores inteiros do grande capital, como o riquíssimo agronegócio,
gozam de isenções, renúncias fiscais e refinanciamentos de suas dívidas
em larga escala. Até mesmo contribuições sobre o faturamento das
empresas, criadas especificamente para o financiamento da seguridade
social, como o PIS e COFINS, ou são sonegados ou são desviadas para
pagar o serviço da dívida. Dívida geralmente contraída para financiar
políticas públicas que favorecem diretamente os grandes capitalistas,
tornando o processo ainda mais perverso.
A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil

Prossigamos com a reforma financeira, que inclui medidas como:


a lei antitruste do sistema financeiro e eliminação dos monopólios
nacionais privados; a separação entre bancos comerciais e de inves-
timento; a ampliação dos direitos operacionais de bancos municipais
e cooperativos. E inclui também o controle do Estado sobre os fluxos
de capitais e as taxas de juros e de câmbio; a tributação e regulação
das remessas de capital das filiais para as matrizes estrangeiras das
multinacionais. Tais instrumentos devem ser usados não somente para
manter sob controle a inflação, mas também, e principalmente, para
promover o crescimento sustentado da nossa economia.
E a reforma agrária, que inclui medidas como: a adoção de regi-
me progressivo para o Imposto Territorial Rural para propriedades
42 improdutivas; a redefinição dos índices de produtividade para fins de
reforma agrária; a proibição da venda de terras para estrangeiros; a
interdição da venda de terras reformadas; o estabelecimento de limites
regionais para a propriedade agrária e o agronegócio; o fortalecimento
da agricultura familiar e das cooperativas agroindustriais como ver-
tentes principais para a conquista de soberania alimentar; a defesa
dos direitos e heranças dos povos originários; a aprovação de um novo
código de proteção ambiental efetivamente capaz de defender nossos
solos e recursos hídricos; e a ampliação dos investimentos em ciência
e tecnologia voltados à agricultura familiar, setor responsável pela
produção da ampla maioria dos alimentos consumidos pela população.
A soberania energética, que inclui medidas como: a recomposição
do regime de partilha, com a participação obrigatória da Petrobras nas
explorações do pré-sal; a criação do Sistema Nacional de Energia, com
o controle estatal sobre todas as etapas da produção, transporte e dis-
tribuição de energia em suas variadas formas; reduzir drasticamente a
dependência de fontes de energia que usam combustível fóssil, como as
termelétricas, e investir em pesquisas que reduzam o uso de gasolina
e diesel os meios de transporte públicos e privados.
A constituição de um estado de bem-estar social, através da am-
pliação dos direitos sociais, trabalhistas e previdenciários, incluindo
medidas como: a revogação da EC 95, da contrarreforma trabalhista e
de outras medidas adotadas pelo governo golpista; o reestabelecimento
do comprometimento constitucional mínimo com saúde e educação;
a aprovação da Consolidação de Leis Sociais, constitucionalizando o
direito à renda mínima e outros benefícios; a constitucionalização da
lei de valorização do salario mínimo; a redução da jornada semanal A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil
de trabalho para 40 horas.
A ampliação e garantia dos direitos civis, através de medidas como:
a descriminalização e a legalização do aborto; a descriminalização do
consumo de drogas, bem como da produção para consumo individual; a
constitucionalização dos direitos de casais homoafetivos e lesboafetivos
como entidade familiar plena; a defesa das cotas; o combate intransi-
gente à discriminação de qualquer tipo, o combate ao feminicídio, ao
assassinato da juventude negra, das populações LGBT, indígenas e
quilombolas.
Neste ponto queremos ressaltar que a emancipação humana tem
como condição fundamental a superação do capitalismo, eliminando
a dominação do capital sobre as diversas esferas da existência em 43
sociedade. É nestes termos que vinculamos a luta pelo socialismo
com a luta por uma sociedade livre do machismo, da LGBTfobia, do
racismo. É verdade que “sem luta pelo feminismo não há socialismo
consequente”; e também é verdade que “sem luta pelo socialismo não
há feminismo consequente”.
Do mesmo modo que a luta do trabalho contra o capital jamais
será capaz de levar a cabo a emancipação humana, se não incorporar
desde já a luta pela superação do machismo e do racismo, as lutas das
mulheres só contribuirão de forma consequente para a emancipação
humana, na medida em que se relacionarem com a luta do trabalho
contra o capital.
A opressão sobre as mulheres é anterior a formação do capitalis-
mo, remontando ao próprio surgimento da propriedade privada e da
sociedade de classes. Essa opressão é perpetuada e metamorfoseada
pelo capitalismo, que além de extrair uma maior taxa de mais-valia,
sobrecarrega as mulheres com o trabalho doméstico para a produção
e reprodução da força de trabalho. A experiência histórica demonstrou
que esta opressão de gênero persistiu mesmo em experiências socialis-
tas. Neste sentido, como já diziam Marx e outros socialistas no século
XIX, assim como diziam os revolucionários de 1917, consideramos que
um dos principais parâmetros para definir o grau de liberdade de uma
formação social é o grau de liberdade das mulheres que nela vivem.
Cabe sempre lembrar que as trabalhadoras (e os trabalhadores)
são exploradas por capitalistas, inclusive por mulheres capitalistas.
As burguesas lutam contra os direitos trabalhistas, contra os direitos
A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil

sociais, contra os direitos civis da classe trabalhadora, para defender


seus interesses de classe, mesmo sabendo que as maiores prejudicadas
serão as mulheres da classe trabalhadora. Portanto, articular a luta
feminista e a luta socialista, articular a luta das mulheres e a luta do
conjunto da classe trabalhadora, das mais diversas categorias profis-
sionais, é algo necessário para que mais da metade da humanidade
participe e esteja à frente das batalhas para por fim ao capitalismo e ao
machismo. Do mesmo modo que a emancipação da classe trabalhadora
será obra da própria classe trabalhadora, a emancipação das mulheres
será obra das próprias mulheres, tendo as mulheres trabalhadoras
como direção e vanguarda.
A reforma política, que inclui medidas como: a adoção do voto em
44 lista partidária; a proibição de coligações proporcionais; a criação de
federações partidárias; o limite para o número máximo de reeleições;
o financiamento público das campanhas eleitorais; o referendo revo-
gatório para cargos executivos; os plebiscitos impositivos convocados
pelo presidente da República ou por 10% do eleitorado; outras medidas
de participação popular; a extinção do Senado.

A democratização da mídia, que inclui medidas como: a proibição


de propriedade cruzada e de propriedade de meios por parlamentares,
governantes ou familiares até segundo grau; a criação de um Fundo
em Defesa da Liberdade de Imprensa, com um percentual da receita
publicitária das televisões aberta e fechada, além das rádios, para
estimular novos meios de comunicação; a cláusula de objeção por
consciência em todas as redações; a criação de um Conselho Social de
Comunicação, que autoriza e renova licenças para emissoras de rádio
e TV, retirando essa prerrogativa do parlamento; a criação do direito
gratuito de antena na TV aberta e nas rádios; a democratização da
produção de conteúdos; a implantação do marco civil com neutralidade
da rede e proteção aos direitos civis na internet.

A reforma do sistema judicial e de segurança, que inclui medidas


como: a instituição de mandatos limitados para ministros da Suprema
Corte, do STJ, do TST e desembargadores dos TRFs e TJs; demo-
cratizar o mecanismo de escolha dos ministros e desembargadores;
assegurar o controle social do judiciário, através da reestruturação da
composição e atribuições do CNJ e de outros mecanismos; a desmili-
tarização das PMs estaduais e unificação com a polícia judiciária; a
A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil
reformulação do Sistema Nacional Penitenciário, com a incorporação
de todas as prisões e casas de detenção a um modelo único de gestão.

Este conjunto de reformas estruturais se traduzirá, se combinará


e se materializará através de um conjunto de políticas públicas. E a
sustentabilidade do conjunto das reformas estruturais e das políticas
públicas dependerá, em última análise, da nossa potência econômica,
com ênfase nas seguintes quatro dimensões:

a) Uma produção de bens e serviços capaz de atender a demanda


presente e capaz de ampliar de maneira harmônica com o crescimen-
to da população, tanto em número de pessoas, quando em termos de
novas necessidades; 45
b) Taxas de crescimento e níveis de produtividade capazes de ab-
sorver a massa de desempregados e a massa de pessoas que entram a
cada ano no mercado de trabalho;
c) Níveis de remuneração direta (salários e pensões) e indireta
(oferta de serviços públicos) que permitam aos trabalhadores na ativa
e aos aposentados elevar de maneira contínua sua qualidade de vida;
d) Um desenvolvimento científico e tecnológico e uma capacidade
produtiva da força de trabalho que, ao longo do tempo, equipare a
indústria brasileira aos níveis médios de produtividade alcançados
pelos países que lideram a atividade econômica mundial.
O Brasil tem condições de atingir tal potência econômica, assim
como tem condições de sustentar o conjunto de políticas públicas e de
reformas estruturais acima relacionadas. Mas quando observamos o
conjunto da obra, não vemos uma dinâmica de “livre competição” entre
empresas privadas, tampouco de “livre mercado” internacional. Vemos
um tipo de sociedade capaz de planejar e de fazer prevalecer os inte-
resses públicos frente aos interesses privados, os interesses coletivos
frente aos individuais, os interesses da maioria frente aos interesses da
minoria, os interesses nacionais frente aos interesses internacionais.
O grande capital e a direita “acusam” a esquerda de ser socialista.
E alguns integrantes da esquerda refutam esta acusação, afirmando-
-se apenas democratas, desenvolvimentistas, defensores do papel do
Estado, dos interesses populares e da Nação brasileira. Pouco adianta
A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil

a esperteza e/ou moderação da resposta: o grande capital e a direita


reagem contra “apenas” aquilo como se estivessem diante de uma
conspiração comunista. E a direita age assim porque ela sabe que
a dinâmica natural da luta de classes converte o conjunto daquela
obra em socialismo. Quem erra são aqueles setores da esquerda que
desconhecem a dinâmica de conjunto, ignoram seus desdobramentos
ou – pior – sabendo de tudo, não se preparam para a reação.
Também por isto, não consideramos adequado substituir – nem na
retórica, nem na estratégia – o “socialismo” pela “Nação”. Um discurso
nacionalista pode vir acompanhado de uma prática entreguista. Isto
ocorreu em diversos momentos da história do Brasil, inclusive duran-
te a ditadura militar, tão useira e vezeira de manipular os símbolos
46 nacionais e capaz de perpetrar frases como “Brasil, ame-o ou deixe-o”.
Um discurso nacionalista também pode encobrir uma prática
subalterna às grandes potências e uma prática mesquinha e burra
frente aos países vizinhos. Por isto é importante enfatizar que um
novo padrão de desenvolvimento, capaz de superar a dependência
externa, a desigualdade social e o sistema político oligárquico, precisa
combinar uma forte afirmação nacional frente aos Estados Unidos e
seus aliados; a disposição de negociar com os BRICS a criação de uma
nova ordem internacional; a firme convicção de que o Brasil tem tudo
a ganhar com a constituição de uma forte integração regional latino-
-americana e caribenha.
Mas o mais importante é explicitar que na “Nação” convivem di-
ferentes interesses de classe. Não propomos excluir da nacionalidade
os capitalistas; queremos “apenas” que o capitalismo e os capitalistas
deixem de ser hegemônicos. Até porque, se há alguma chance da “Na-
ção” brasileira resistir aos tempos que virão no mundo, esta chance
passa por termos uma coesão social que só é possível no socialismo.
Não se trata para nós de questionar a existência de frações burgue-
sas que mantém contradições, reais ou potenciais, com o imperialismo
e que, por isso, poderiam em tese se beneficiar de uma expansão do
mercado interno e da soberania nacional. Do que se trata é constatar
e tirar as devidas conclusões políticas da subordinação destas frações
aos interesses do imperialismo transnacional e financeiro, bem como
a sua indisposição em enfrentar as oligarquias rurais.
Tampouco está em dúvida, para nós, a existência de burgueses de
pequeno e médio porte, que sofrem com a concorrência dos grandes, dos A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil
estrangeiros e dos rentistas. Mas é preciso ter claro que, exatamente
por serem capitalistas de menor porte, a reação imediata destes setores
é descarregar toda a sua fúria e impotência contra a classe trabalha-
dora urbana e contra o campesinato.
Entre os grandes capitalistas, não há como distinguir ou separar
mecanicamente capital produtivo e capital financeiro, grande “burgue-
sia industrial” e “burguesia financeira”.
Por este conjunto de razões, não há como tratar a questão nacional
como algo acima e a parte da luta pelo socialismo. Nem há como fazer
uma separação total entre a luta anti-imperialista e a luta antimono-
polista e antilatifundiária. 47
A defesa da soberania nacional, num país como o Brasil, está
vinculada a luta pela democracia e pelo socialismo. Mas este vínculo
não se estabelecerá de maneira automática nem inconsciente. Não
acreditamos que um soberanismo e um antimperialismo radicais
conduzirão a uma sociedade socialista, se este objetivo e a correspon-
dente estratégia não forem explicitamente assumidas, a começar pelos
setores de vanguarda da classe trabalhadora. Até porque a derrota do
imperialismo supõe uma integração regional, noção que ultrapassa
os limites do nacionalismo patrioteiro em que foi formada a classe
dominante brasileira, seus aliados e funcionários.
Por tudo isto, preferimos falar da defesa da soberania nacional
com integração regional, evitando termos como “nacionalismo” e “pa-
triotismo”, termos que no mais das vezes são ferramentas na disputa
ideológica travada contra nós pelos setores mais conservadores e rea-
cionários da sociedade.
Um bom exemplo disso são as Forças Armadas, cujos chefes conti-
nuam considerado que a maior ameaça à “Nação” vem dos “inimigos
internos”, como se viu em Canudos, na perseguição, prisão e morte da
militância de esquerda, na República Velha, no governo de Getúlio
Vargas e na Ditadura Militar. E como se vê no apoio nem sempre ve-
lado ao genocídio da população negra e pobre das favelas e periferias.
Ao mesmo tempo, os chefes das Forças Armadas se acovardam diante
de ameaças reais, como a dominação imperialista e o entreguismo, a
venda a preço de banana de nossas empresas estratégicas ao capital
estrangeiro, a ocupação da Amazônia e o saqueio de suas riquezas
A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil

naturais, entre outros.


O patriotismo estéril aparece também nas “marchas da família com
deus e pela liberdade”; e, mais recentemente, nas manifestações de rua
encabeçadas pela Fiesp e pelo MBL, que invadiram as ruas usando
as cores verde e amarelo, bradando contra a corrupção e proclamando
a defesa do Brasil, mas que agora se prostram, quando não apoiam
o entreguismo e o desmonte que vem sendo promovidos pelo governo
usurpador e golpista. Por tudo isso, não temos ilusões em relação às
Forças Armadas, em seus “setores progressistas”, em sua natureza
supostamente “neutra” e “constitucional”.
A luta pelo socialismo no Brasil precisa incorporar aspectos ob-
jetivos e subjetivos relacionados à chamada “questão nacional”. As
48 classes dominantes locais, aliadas às burguesias dos países capitalistas
centrais, trataram de incutir no imaginário da classe trabalhadora
brasileira a ideia de que somos incompetentes e incapazes de tomar os
rumos de nossa própria história, cabendo a nós aceitar passivamente
as soluções trazidas de fora e reconhecer a superioridade material,
intelectual e cultural dos países que historicamente nos dominam. As
classes dominantes no Brasil apresentam forte caráter entreguista,
colonizado e subalterno ante as elites internacionais.
Portanto, a possibilidade real de defesa das questões concretas re-
lacionadas à soberania e à luta anti-imperialista depende das classes
trabalhadoras do Brasil. Não para reproduzir a dominação exercida
sobre nós contra os países vizinhos, ou para encarar os povos vizinhos
como meros “mercados consumidores” de nossos produtos, mas no
sentido de reconhecer a nossa capacidade de construir, junto a eles,
e por nossas próprias mãos, sociedades capazes de promover um alto
e acelerado desenvolvimento das forças produtivas, que permitam
garantir melhores condições de vida material e cultural ao conjunto
da população.
Por isto tudo, cabe às classes trabalhadoras do Brasil e da América
Latina o desenvolvimento de uma indústria, da ciência, tecnologia
e inovação que atendam às suas próprias necessidades e que sejam
acessíveis ao conjunto da população. Cabe também à estas classes a
construção de escolas e universidades públicas voltadas à atender
suas demandas reais, que sejam capazes de empregar o conhecimento
produzido em outros países como contribuição, superando ambientes
científicos e educacionais totalmente apartados dos problemas reais
da classe trabalhadora e que se limitam a reprodução do conhecimento A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil
metropolitano, impondo fortes obstáculos ao nosso potencial intelectual
e criador.
Por fim, somente da classe trabalhadora poderá emergir uma ide-
ologia que nos reconheça como capazes de construir o nosso próprio
destino, e reconheça também a soberania e a autonomia de nossos
vizinhos latino-americanos e caribenhos e dos demais povos que, como
nós, estão submetidos à dominação imperialista.
A defesa da soberania nacional é fundamental para enfrentar os
discursos “globalistas”, que afirmam estar superada a questão nacional,
no mesmo momento em que os países imperialistas são mais nacionalis-
tas do que nunca. Portanto, a defesa da questão nacional cabe à classe
trabalhadora brasileira. Nós somos socialistas e é deste ponto de vista 49
que somos anti-imperialistas, defensores da soberania nacional e da
integração regional. A nossa emancipação e soberania somente poderá
ser alcançada através da superação do capitalismo dependente aqui
forjado, para o qual a única saída possível é a construção do socialismo.

Por razões análogas, não aceitamos que o nacional-estatismo


assuma o lugar do socialismo, nem em nossa retórica, nem em nossa
estratégia e programa. Um Estado forte pode contribuir para um
desenvolvimento em benefício dos interesses públicos, coletivos e
majoritários de toda a sociedade. Mas um Estado forte também pode
agir em benefício de um setor social minoritário e em detrimento das
maiorias. No Brasil, por exemplo, o fortalecimento do Estado na época
da ditadura militar esteve à serviço dos interesses de longo prazo de
uma minoria da sociedade. Por isto, da mesma forma como é preciso
qualificar que tipo de “nacionalismo” patrocinamos, é também impor-
tante qualificar que tipo de “estatismo” consideramos adequado.

Trata-se, noutros termos, de definir com precisão o conjunto de


objetivos (as metas, o programa, o projeto) e os métodos através dos
quais estes objetivos serão buscados e implementados. Como foi dito
anteriormente, nosso objetivo é melhorar a qualidade da vida do povo
brasileiro, de maneira profunda, acelerada e sustentável. Para isto,
necessitamos de um Estado forte frente aos concorrentes internacionais
e, também, frente aos interesses privados internos. De maneira sinté-
tica, trata-se de garantir a soberania sobre nossa moeda, sobre nossos
mercados, sobre nossa capacidade industrial, científica e tecnológica,
A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil

sobre nossos recursos naturais, bem como garantir nossa segurança


alimentar e energética.

Cabe ao Estado controlar o fluxo de capitais, mantendo a taxa de


câmbio num patamar adequado aos interesses nacionais. Ao mesmo
tempo, cabe ao Estado controlar a taxa de juros, mantendo a oferta
de crédito num patamar adequado aos objetivos do desenvolvimento.
Evidentemente, para que isto seja possível, é preciso mudanças estru-
turais na economia brasileira, sem o quê será impossível ao Estado
ter este grau de controle. Para que haja não apenas controle, mas a
planificação estatal do desenvolvimento sustentável em setores estra-
tégicos da economia, compreendendo inclusive a participação popular
e o controle social do Estado, é que se compreendem tais necessárias
50 mudanças estruturais.
Para financiar um programa de metas de médio e longo prazo, é
preciso controle sobre a economia nacional. Hoje quem controla nossa
economia é o setor financeiro privado e oligopolizado. Controlam a
economia, porque controlam a emissão de moeda. Embora legalmente
a emissão da moeda seja um monopólio do Estado, na prática o setor
financeiro privado emite moeda. Por isto, devemos constituir um setor
financeiro nacional que no seu cúspide seja 100% público, combinado
com um grande número de bancos estaduais, municipais e setoriais
privados e/ou cooperativos.
Também cabe ao Estado adotar e implementar uma política de
conteúdo nacional, alterar a composição de nossa pauta de exportações
e importações, ampliar a capacidade de consumo nacional e a integra-
ção regional, estimulando assim a recomposição de nossa indústria,
elevando sua produtividade, ciência e tecnologia. Não aceitamos que o
Brasil esteja condenado a ser exportador de produtos primários – for-
necedor de commodities às grandes potências industriais do mundo – e
importador de produtos industrializados. Precisamos implementar um
novo processo de “substituição de importações”, baseado na combinação
entre a ampliação do mercado de bens de consumo de massa, com o
desenvolvimento de um imenso mercado de bens de capital.
A ampliação da capacidade de consumo da população vai, também,
ampliar o mercado de consumo de massas de bens privados. Existe
uma demanda reprimida imensa, tanto material quanto simbólica.
Milhões de brasileiros e de brasileiras têm o direito de consumir mais.
Portanto, é preciso combinar a oferta dos bens de consumo público e
dos bens de consumo privado. A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil
Este conjunto de medidas implicará num choque com os interesses
dos oligopólios privados, muitos deles transnacionais, que controlam a
maior parte das cadeias produtivas, que são grandes importadores e/
ou produtores de bens de consumo de massa, e que não tem interesse
em ampliar a produção nacional. Implicará num choque, também,
com o senso-comum de uma parte da população, que foi habituada a
confundir bem-estar com ampliação do consumo privado, e precisará
ser conquistada para outro ponto de vista.
Um programa de desenvolvimento deste tipo enfrentará diversos
gargalos. Um deles está vinculado à oferta de capitais e de mão de obra.
Outro está vinculado à oferta de alimentos. Um terceiro está vinculado
à oferta de bens primários, demandados pela construção civil e pela 51
indústria pesada. Por todos estes motivos, um programa de desen-
volvimento de novo tipo deve reorganizar o setor primário minerador
e agropecuário. Isto se torna particularmente necessário, nos atuais
tempos de imperialismo financeiro, que ameaça de diversas maneiras
nossa soberania: a espionagem, o roubo e a ameaça militar contra
nosso espaço soberano; a compra de terras e de “direitos” de exploração
sobre riquezas nacionais, inclusive sobre a pura e simples localização
geoespacial (como se vê no caso da Base Alcântara); a conversão de
bens públicos em reserva de valor e objeto de negociação no mercado
de futuros. Estas e outras ameaças só serão enfrentadas se o Estado
brasileiro impuser e fizer cumprir uma legislação soberana, além de se
capacitar a defender nossas fronteiras terrestres, marítimas, aéreas,
aeroespaciais, cibernéticas e especialmente sociais. A principal defesa
é a unidade popular. E esta só prevalece quando há níveis adequados
de presença estatal, coesão social e identidade política, elementos que
o neoliberalismo e que o desenvolvimentismo conservador solapam
continuamente.
Para além dos motivos de natureza geopolítica, há também motivos
de natureza macroeconômica, que tornam indispensável reformar todo
o setor de mineração e agropecuário. Entre estes motivos, citamos:
a) A mineração e o agronegócio provocam imensos impactos am-
bientais, geralmente não contabilizados, mas que são pagos pelo con-
junto da sociedade;
b) A mineração e o agronegócio possuem imensa importância em
A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil

nossa pauta de exportações, obtendo muitas divisas estrangeiras graças


a exportação de bens com baixo valor agregado, bens que posterior-
mente retornam industrializados, contribuindo no final das contas
para uma efetiva evasão de divisas;
c) A mineração e o agronegócio mobilizam recursos que podem e
devem ser investidos no fornecimento de matéria-prima para nossa
indústria e investidos na produção de alimentos de boa qualidade e
baratos. Ambos (matérias primas e alimentos) são essenciais do ponto
de vista da soberania nacional, na definição do poder de compra real
dos salários e de forma geral na definição do custo final de nossa pro-
dução industrial.
O Brasil necessita manter taxas de crescimento de no mínimo
52 6% ao ano, ao longo de muitas décadas. Este índice é necessário para
incorporar as novas gerações de trabalhadores, além do “estoque”
de trabalhadores que hoje não estão plenamente empregados. Pre-
tendemos que este crescimento reverta em benefício da maioria da
população. Se a maioria for beneficiada “depois que o bolo crescer”,
estaremos repetindo um modelo de desenvolvimento conservador já
praticado no Brasil nos anos 1970. Se este benefício vier “antes do bolo
crescer”, estaremos sujeitos a pressões inflacionárias e a interrupções
na velocidade e na qualidade do crescimento.
Uma das soluções para este tipo de dilema consiste em baratear
o custo de produção real de certos bens que constituem grande parte
da cesta de consumo da força de trabalho. Por exemplo: a habitação, o
transporte, a alimentação, o vestuário, a saúde e a educação. Baratear
estes itens permitirá elevar o nível de vida da população trabalhadora,
sem causar pressões inflacionárias, sem reduzir a velocidade do cres-
cimento, sem desorganizar a economia.
Visto deste prisma, uma política de ampliação da produção de ali-
mentos, assim como de melhoria na qualidade e redução dos desperdí-
cios, é estratégica para o desenvolvimento. Nisto consiste a atualidade
da reforma agrária: soberania alimentar, redução das desigualdades,
redução do poder das elites agrárias.
Precisamos de uma reforma agrária que vá além de garantir terra.
Precisamos redirecionar investimentos hoje maciçamente destinados
ao agronegócio, precisamos ampliar a pesquisa agropecuária e as
atividades de extensão rural, precisamos enfrentar o tema da gestão
da água – insumo básico não apenas para a produção agrícola, mas
também para a produção industrial e para o consumo privado, espe- A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil
cialmente nas cidades.
Pelos mesmos motivos, é estratégico para o desenvolvimento refor-
çar a oferta de bens públicos “gratuitos”, como educação, cultura, saúde,
internet e transporte. Não apenas pelos motivos humanos e civilizató-
rios, mas também por razões políticas e econômicas. A oferta adequada
destes bens eleva a produtividade média da classe trabalhadora, ou
seja, a capacidade de produzir mais a custos sistêmicos menores. Por
outro lado, estes bens (saúde, educação, habitação etc.) constituem
um salário indireto. Se o Estado não os oferece, o trabalhador será
obrigado a gastar parte do seu salário adquirindo-os no mercado.
Nele, encontrará preços altos e qualidade baixa, não apenas porque o
capitalista quer ampliar sua margem de lucro, mas também porque 53
o custo de produção privada destes bens é geralmente mais elevado
do que aquele possível no setor público. Finalmente, a oferta de bens
públicos gratuitos fortalece a consciência coletiva no povo brasileiro,
de que estamos diante de um desafio que diz respeito a todos nós.

Outros exemplos de bens públicos, que o Estado deve fornecer di-


retamente, preferencialmente a preços subsidiados: a água, a energia
elétrica, o gás, o saneamento e a habitação. O efeito sistêmico disto é
imenso: por exemplo, o impacto do fornecimento de água e do sanea-
mento na redução dos problemas de saúde; e o impacto do fornecimento
de luz na segurança e na produtividade geral do trabalho. Repetimos:
priorizando a produção e o consumo de bens públicos, será possível
combinar crescimento econômico acelerado com elevação do bem-estar
social da maioria da população.

O conjunto de ações descritas anteriormente revela a necessidade


de um Estado forte, frente ao complexo de empresas privadas que
controlam, de maneira oligopolista, a economia brasileira. É o caso
das grandes empresas financeiras, é o caso das transnacionais nos
mais diferentes ramos, é o caso também das empresas que controlam
as cidades: o capital imobiliário, as empresas de transporte coletivo
urbano, de coleta de lixo, as empresas de construção civil. Estas últi-
mas – assim como as empresas de transporte interurbano, rodoviário,
ferroviário, hidroviário, de cabotagem e de longa distância – “fazem
a ponta” entre cidades e campos, assim como viabilizam a circulação
de mercadorias e de pessoas. As quais deve-se agregar o complexo
A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil

de empresas de comunicação, especialmente eletrônica (TVs, rádios,


internet).

Por todos os motivos que expusemos até agora, garantir um de-


senvolvimento de novo tipo implicará em travar fortes conflitos com
as parcelas hoje dominantes na cultura, na economia, na sociedade e
na política de nosso país: o setor financeiro privado, o setor minerador
e agroexportador, as empresas que controlam as cidades e os oligopó-
lios atuantes no setor industrial. Haverá também conflitos, ainda que
de tipo distinto, com setores das classes trabalhadoras que possuem
preconceitos e/ou não valorizam a ampliação da oferta de bens públi-
cos. Para que estes conflitos com setores da classe trabalhadora não
ganhem dimensão relevante, é importante garantir bens públicos de
54 excelência e fazer todos os esforços para ganhar a “opinião pública” em
favor do Sistema Único de Saúde, da Escola Pública e de Qualidade,
do transporte público e assim por diante.

Analisado por diversos critérios – tais como o tamanho do território,


o tamanho da população, o tamanho da economia, as riquezas naturais
etc. – o Brasil compõe o ranking das principais nações do mundo. Não
dispomos de capacidade militar à altura, até porque o Brasil renunciou
ao uso da energia nuclear para fins bélicos. E sofremos um processo
de destruição do nosso parque industrial e de reprimarização da nossa
economia. Mas o que visivelmente falta ao Brasil é uma classe domi-
nante disposta a entrar em conflito com as metrópoles capitalistas.

Como já foi dito anteriormente, a maior parte da classe dominante


brasileira prefere a condição de sócia menor dos capitalistas estrangei-
ros. Esta opção possui uma lógica econômica: maximizar seus lucros.
A outra alternativa implicaria em construir um desenvolvimento ca-
pitalista nacional, que certamente sofreria uma dura competição por
parte das potências internacionais, o que tornaria indispensável uma
forte coesão nacional, o que depende de medidas tais como a reforma
agrária, políticas de bem estar social e democráticas. Tais medidas
implicariam em aumentar os salários diretos e indiretos em uma
escala maior do que cresceriam os benefícios gerados pela ampliação
do consumo. O resultado deste crescimento salarial líquido seria a
redução proporcional nos lucros. Razão mais do que suficiente para
que a classe dominante opte, agora e anteriormente na história do
Brasil, pelo caminho preferido por seus sócios internacionais. Não se
trata principalmente de burrice, má fé, incoerência, falta de amor pelo A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil
povo ou pela pátria: trata-se fundamentalmente de cálculo econômico.

A opção da classe dominante brasileira explica que nossa indepen-


dência tenha sido uma transação entre pai e filho; que tenhamos saído
do domínio português para o controle inglês; que a escravidão tenha
sido tão longeva em nosso país; que a República tenha sido proclamada
como foi. A mesma opção explica por quais motivos a burguesia indus-
trial paulista encabeçou a contrarrevolução de 1932, fez oposição ao
governo Vargas, contribuindo ademais para seu suicídio. Assim como
se opôs a posse de João Goulart, financiou o golpe e a ditadura militar.
Novamente, é esta mesma opção que explica que os grandes capitalistas
critiquem de público a taxa de juros, mas orientem suas Tesourarias a
jogar todas as fichas possíveis na rolagem da dívida pública. 55
É importante destacar, portanto, que o potencial do Brasil foi e
continua sendo desperdiçado, em primeiro lugar devido à economia
política da classe dominante: lucros primeiro. Portanto, cabe aos de-
mais setores da sociedade brasileira – os trabalhadores assalariados,
os trabalhadores pequeno-proprietários, inclusive os pequenos e mé-
dios capitalistas –- construir uma alternativa que enfrente e supere
as principais características de nossa trajetória histórica, a saber: a
dependência externa, a desigualdade social, o sistema político oligár-
quico e o desenvolvimento limitado.
Falando em tese, não há incompatibilidade absoluta entre o desen-
volvimento capitalista e um programa de reformas estruturais e políti-
cas públicas capazes de resultar em um país com soberania nacional,
democracia política, igualdade social e desenvolvimento sustentável.
Também falando em tese, não há incompatibilidade absoluta entre
o desenvolvimento capitalista e o objetivo de elevar a produtividade
e a qualidade de vida de 200 milhões de pessoas, capacitando nossa
sociedade a utilizar e proteger adequadamente toda a riqueza que se
distribui num país do tamanho de um continente, criando as condições
para que sobrevivamos e progridamos num mundo cheio de conflitos
e perigos. Ainda em tese, seria hipoteticamente possível – nos marcos
do capitalismo – implementar um projeto de desenvolvimento baseado
numa visão integrada das várias dimensões da sociedade brasileira,
tendo como orientação geral a construção de um país onde o conjunto
da classe trabalhadora tenha altos níveis de vida material, cultural
e política.
A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil

Mas isto é apenas em tese. Na prática, implementar um programa


deste tipo implica em enfrentar e derrotar o imperialismo e a classe
capitalista brasileira; implica, por outro lado, em construir e manter
uma hegemonia material, política e cultural da classe trabalhadora e
seus aliados; quanto ao conteúdo das medidas, implica em combinar
medidas capitalistas com medidas anticapitalistas. Portanto, visto
de conjunto, estamos falando de construir uma alternativa socialista
para os dilemas postos diante do Brasil. E se aceitamos esta tese, pre-
cisamos de uma estratégia distinta daquela adotada pelo PT a partir
de 1995. 

56

A estratégia aprovada pelo 6º Congresso do PT

D esde 2005 temos defendido a necessidade de que o PT adote uma


nova estratégia e um novo padrão de funcionamento partidário.
Em alguma medida, esta necessidade foi reconhecida pela resolução
sobre estratégia e programa aprovada pelo 6º Congresso Nacional do
PT. Desta resolução, extraímos os parágrafos a seguir:
As forças progressistas, inclusive ao reconquistarem o governo fe-
deral, deverão levar em conta o aprendizado recente: se não estiverem
preparadas para enfrentar ataques das elites oligárquico-burguesas
à democracia, como resposta previsível desses setores à perda da di-
reção do Estado, estarão fadadas a sucessivas derrotas estratégicas.
As medidas concernentes vão além de garantir maioria parlamentar:
implicam democratizar o Poder Judiciário, o Ministério Público e a
Polícia Federal, entre outras estruturas de coerção, impedindo seu
controle pela alta tecnocracia ou por nichos corporativos vinculados
aos interesses das classes dominantes.
Esse processo de democratização inclui o fortalecimento e a refor- A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil
mulação do papel das Forças Armadas, com sua dedicação exclusiva
à defesa nacional e a programas de integração territorial. Também
são imprescindíveis a aplicação das recomendações prescritas pela
Comissão Nacional da Verdade acerca dos direitos humanos e a
alteração dos currículos das escolas de oficiais, expurgando valores
antinacionais e antidemocráticos como o elogio ao golpe de 1964 e ao
regime militar que então se estabeleceu.
Igualmente deve ser estabelecido novo marco regulatório das
comunicações, que acabe com o oligopólio da mídia e assegure o di-
reito à livre expressão, criando as bases jurídico-materiais para um
modelo plural que incorpore os meios fundamentais de informação,
entretenimento e cultura. 57
Entretanto, as medidas adotadas pelo governo usurpador, de
ruptura da ordem democrática e das garantias constitucionais, co-
locam sob risco a estratégia proposta por nosso partido desde 1987,
particularmente se vier a bloquear, mesmo momentaneamente, o ca-
minho eleitoral ao comando do Estado. Somente poderemos enfrentar
cenário com essas características se fortalecermos nossas relações com
movimentos, frentes e partidos que tenham seu centro de gravidade
na organização e mobilização popular, para defendermos o processo
democrático a partir da vigilância e da fiscalização das instituições,
recorrendo a métodos de intensa participação social. Para tanto, o
Partido dos Trabalhadores deve recombinar atuação nos parlamen-
tos e executivos com a intensificação da atuação de seus filiados nos
núcleos, diretórios zonais, municipais e estaduais, nos setoriais, de
modo a fortalecer a participação nos sindicatos, organizações estu-
dantis, culturais e populares, nas entidades de bairro e movimentos
reivindicatórios, ajudando na revitalização da política e da confiança
na participação popular, como instrumento de libertação econômica,
social e política das classes trabalhadoras.
A formação de uma maioria social, política e eleitoral que sustente
nossa estratégia deve estar ancorada em um programa que responda
às angústias do povo brasileiro e aos entraves para o desenvolvimento
nacional com reformas que desatem os nós impostos pelo capitalismo
monopolista e orientem políticas públicas a serem adotadas ao se
reconquistar o governo nacional.
As reformas estruturais – de cunho democrático, antimonopo-
A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil

lista, antilatifundiário, anti-imperialista e libertário – representam


plataforma capaz de agregar amplas parcelas da população, das
classes trabalhadoras aos pequenos e médios empresários, o mundo
da cultura e a juventude, as mulheres e a população lgbtt, os negros
e os índios, os pobres da cidade e do campo. Trata-se, afinal, de ta-
refas inconclusas ou negadas pela hegemonia burguesa no Brasil,
cuja realização romperia o dique da superexploração do trabalho, da
exclusão social e da dependência nacional, da plutocracia política e
do autoritarismo estatal, ao mesmo tempo em que se avançaria no
rumo de uma sociedade pós-capitalista.
Tais propostas buscam abrir a transição para outro sistema
econômico-social, dotando o país de um modelo que, sustentado pelo
58 dinamismo do mercado interno e a centralidade do consumo coletivo,
na forma de obras de infraestrutura e serviços públicos universais,
promova a reindustrialização acelerada, o desenvolvimento regional,
a autossuficiência agrícola, a independência financeira, a soberania
nacional e a integração continental.
A principal bandeira de nosso programa é a convocação de uma
Assembleia Nacional Constituinte livre, democrática e soberana, des-
tinada a reorganizar estruturalmente o Estado brasileiro e aprovar
reformas que reorganizem suas bases socioeconômicas e institucionais,
dilaceradas pelo governo usurpador. A democratização das institui-
ções brasileiras é preâmbulo indispensável para as demais reformas
estruturais.
A política de alianças, incluindo as coalizões eleitorais, deve
aglutinar quem partilhe de uma perspectiva anti-imperialista, anti-
monopolista, antilatifundiária e radicalmente democrática. Aponta
para um governo encabeçado pelo PT, Lula presidente, com partidos,
correntes e personalidades que estabeleçam compromisso programá-
tico dessa natureza. A consolidação de uma esquerda antissistema,
com clara identidade de projeto, constitui elemento central de nossa
orientação política.
Ao retomarmos o fio da meada da estratégia democrático-popular,
estabelecida ao longo da história de nosso partido, enriquecida pelas
lições do período de governo e atualizada aos novos problemas nacio-
nais, o Partido dos Trabalhadores reafirma seu compromisso com a
construção do caminho brasileiro ao socialismo e com a luta do povo
brasileiro por sua plena emancipação.
A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil
Independentemente do acordo maior ou menor que tenhamos
com cada frase do trecho citado anteriormente, esta resolução do
6º Congresso Nacional do PT dá passos no sentido de uma inflexão
estratégica. A resolução do 6º Congresso detalha, noutras passagens,
várias das ações imprescindíveis que um governo popular deveria
adotar, por exemplo, na legislação que regula os processos eleitorais,
na comunicação, na educação e cultura, da justiça, nas forças armadas
e segurança pública.
Agregamos que a experiência recente, no Brasil e na América
Latina, mostra que não apenas é necessário mudar, como é neces-
sário fazer isto rápido, pois está provado que a reação conservadora
pode demorar mais ou menos, mas é inevitável, não importa o quan- 59
to sejamos “moderados” e “republicanos” no exercício do governo.
Portanto, trata-se de abandonar completamente qualquer ilusão no
republicanismo que – mesmo quando professa o contrário – na prática
trata o aparato de Estado como neutro. Mais do que isso, é preciso
compreender que o Estado possui uma natureza de classe; e do que
precisamos é de um Estado que não seja, como o atual, construído e
controlado pela classe dos capitalistas.
É este Estado, mais exatamente setores dele, como as forças ar-
madas ontem e o complexo judiciário hoje, quem reage em defesa da
classe dominante, toda vez que esta considera que está em risco seu
poder e sua propriedade. Na história do Brasil, os golpes preventivos
e a repressão sistemática, legal e ilegal, têm sido uma constante.
Por isto, uma estratégia da classe trabalhadora – qualquer que seja
o caminho adotado para construir e conquistar o poder – precisa ne-
cessariamente levar em conta a necessidade permanente de derrotar
a classe dominante, até que ela perca esta condição. Precisamos de
um Estado sob controle das classes trabalhadoras.
Nossas chances de conseguir um êxito estratégico nesta luta de-
pendem, na essência, da consciência política e do apoio organizado
que tivermos na maior parte da população brasileira, que é composta
por trabalhadores e trabalhadoras assalariadas. Neste sentido, o êxito
de uma nova estratégia dependerá não apenas do acerto das novas
formulações, mas também e principalmente da reconexão entre o
Partido e os setores populares, em particular a classe trabalhadora
assalariada.
A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil

Uma estratégia é, ao mesmo tempo, uma especulação e um parâ-


metro. É uma especulação, no sentido de que a luta de classes pode
conduzir para caminhos totalmente diferentes. É um parâmetro, no
sentido de que fornece balizas do que pretendemos fazer. Sem estas
balizas, o mais provável é que prevaleça o senso comum dominante
– que tanto estrago causou desde 1995 e mais ainda desde 2003.
Para evitarmos isto, será necessário: a) a compreensão o mais
científica que for possível acerca das classes e da luta de classes, tal
como existem na sociedade brasileira hoje, muito diferente do que
existia em 1980 ou em 2002; b) a prioridade absoluta para o trabalho
cotidiano junto às classes trabalhadoras, na ação de governos e par-
lamentares, na pauta das instâncias, na criação de núcleos por local
60 de trabalho e moradia, na organização da juventude e das mulheres
trabalhadoras, no fortalecimento da CUT e do trabalho sindical; c)
uma linha política e um trabalho de comunicação diário, voltado à
conscientização, organização e mobilização das classes trabalhado-
ras; d) o desenvolvimento de novas “técnicas” de trabalho de massa,
especialmente aquele voltado aos setores da classe trabalhadora
que estão excluídos do mercado de trabalho, aos que atuam em ca-
tegorias de alto nível de terceirização e rotatividade (especialmente,
jovens, mulheres, negros e negras), aos que não conheceram a fase
de auge do sindicalismo combativo; e) a preparação do Partido e das
organizações sindicais e populares para uma etapa da luta de classes
em que a classe dominante lançará mão, de maneira combinada ou
não, ações de desmoralização midiática, repressão estatal, agressões
para-militares e mobilização de natureza fascista; f) a completa
formulação e aplicação de uma estratégia e de um funcionamento
partidários de novo tipo, “para tempos de guerra”

A estratégia realmente aplicada


As resoluções do 6º Congresso deram um primeiro passo no sentido
de reformular nossa estratégia e recolocar o socialismo como objetivo
programático. Mas o Partido está muito longe de ter incorporado e
introjetado de maneira consciente o que ali foi aprovado. Em nossa
opinião, a imensa maioria do Partido (e não apenas o grupo majo-
ritário) entrou e saiu do Sexto Congresso com a mesma orientação
A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil
estratégica anterior. O que na melhor das hipóteses decorre daquelas
resoluções é uma radicalização tática, não uma reorientação
estratégica.
Aliás, o otimismo exagerado com que a tendência O Trabalho
avaliou os resultados do Sexto Congresso do PT vem, muito prova-
velmente, do fato deles considerarem que a natureza estratégica do
PT decorre principalmente de suas (do Partido) ações táticas, ou que
um acerto progressivo e cumulativo na tática nos conduzirá inevita-
velmente a um ajuste estratégico.
Óbvio que a reorientação estratégica de um partido de massas
não pode ser medida apenas, nem principalmente, pelas resoluções
aprovadas em seus congressos e reuniões de direção. A reorientação
estratégica de um partido de massas precisa se traduzir na ação prá- 61
tica de centenas de milhares de pessoas, nos movimentos sociais, nas
instâncias partidárias, nos governos, nos parlamentos, no debate de
ideias. Ou seja, essa reorientação estratégica precisa se traduzir em
medidas práticas que permitam conquistar a maior parte da classe
trabalhadora.
Acontece que uma radicalização tática – como a que está ocorrendo
com parte do PT hoje – não necessariamente corresponde, decorre ou
conduz a uma radicalização estratégica. A este respeito, lembramos
o ocorrido com o Partido Comunista em 1947: depois de ver cassada
sua legenda e os mandatos de seus parlamentares, o PC adotou no
Manifesto de Agosto de 1950 uma linha de ultraesquerda, mas sem
abandonar a estratégia de revolução em duas etapas. Inspirado
naquela linha tática radicalizada do Manifesto de Agosto, fez dura
oposição ao governo Vargas. Anos depois, inclusive sob o impacto da
reação de massa ao suicídio de Vargas, o PC mudou de linha, adotou
a tática moderada expressa na chamada Declaração de Março de
1958 e na postura frente à candidatura presidencial e ao governo
de Juscelino. Tudo isto, novamente, sem mudar a estratégia, que
seguiu intocada.
No caso do PT, o 6º Congresso aprovou uma resolução que – ao
menos formalmente – aponta para uma reorientação estratégica. E as
resoluções táticas adotadas pelo 6º Congresso também apontam, em
tese, para esta nova estratégia. Mas a maneira como estas resoluções
foram aprovadas, o comportamento prático do Partido e a atitude do
grupo majoritário revelam que estamos diante de uma reorientação e
A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil

radicalização de natureza tática, não de uma verdadeira reorientação


estratégica. E que muito facilmente podem se converter no contrário:
num movimento de moderação tática e estratégica ainda mais profun-
do, como está implícito nas formulações cada vez mais republicanas
de certos setores do partido e explícito em episódios como a nota da
do PT sobre a condenação de Aécio Neves e o perdão aos golpistas.
Um giro deste tipo – uma radicalização tática servindo de preâm-
bulo para uma moderação ainda maior – não seria inédito na história
do movimento socialista. E, no caso do PT, seria facilitada pelo fato
de alguns setores não considerarem que um partido como o nosso
possa ou deva elaborar formulações estratégicas e programáticas
de longo alcance. Estes setores agem como se o limite na disputa do
62 PT fossem as formulações de natureza tática. Evidentemente, não é
o nosso caso: achamos necessário que o PT, sem perder o caráter de
massas e de pluralidade que o caracterizam, seja capaz de debater
e formular sobre as questões de médio e longo prazo. Não como pré-
-requisitos doutrinários, mas por que o enfrentamento adequado do
curto prazo muitas vezes pressupõe – especialmente num momento
como o atual – definições mais amplas.
O fato do 6º Congresso ter resultado de fato tão somente em uma
radicalização tática é duplamente grave: grave porque a situação de
conjunto exige uma reorientação estratégica; e grave porque uma
radicalização tática, se não estiver acompanhada de uma reorientação
estratégica, pode levar o Partido a uma derrota política e acompa-
nhada da perda de base social e militante, podendo inclusive servir
posteriormente para “justificar” uma guinada à direita (como aconte-
ceu com o PCB, no caso citado anteriormente: o isolamento causado
pela política do Manifesto de Agosto de 1950 serviu de justificativa
adicional para o giro à direita da Declaração de Março de 1958).
Alguns integrantes da cúpula do grupo majoritário acham que
uma orientação estratégica mais radical nos levaria ao isolamento.
Mas, ao mesmo tempo, são empurrados para uma radicalização no
terreno da tática. E não percebem que, sem uma nova orientação
estratégica, uma radicalização exclusivamente tática poderá ter as
mesmas consequências que eles acham que adviriam de uma radi-
calização na estratégia: conduzir ao nosso isolamento.
Por outro lado, a radicalização do discurso de algumas lideranças
e setores do PT nem sempre vem acompanhada da radicalização nas
demais dimensões da ação prática. Inclusive porque segue presente A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil
a crença de que haveria setores da burguesia e da direita dispostos a
criar “pontes”, portanto segue presente a fé na boa e velha concilia-
ção. Ou seja, o discurso não corresponde à prática porque ela segue
“prisioneira” da mesma estratégia. Podemos discutir se há ou não
há setores conciliadores na burguesia; ou discutir se estes setores
existem, mas não tem a força e o peso necessários para predominar.
O que nos parece essencial dizer é que hoje – e enquanto durar o atual
momento da luta de classes –, não há mais, da parte dos setores he-
gemônicos da classe dominante, disposição para acordos e conciliação.
Como prova de que estamos diante de uma reorientação e ra-
dicalização de natureza tática, chamamos a atenção para o que
ocorreu antes, durante e depois do Congresso, nas bases e setores 63
intermediários de grande parte do PT: as movimentações de sempre,
visando disputar as eleições 2018, procedendo em geral como se nada
tivesse ocorrido e como se nada de extraordinário pudesse ocorrer.
Chamamos a atenção, também, para o cotidiano das instâncias
partidárias, majoritariamente envolvidas no rame-rame burocrático.
E para a postura majoritariamente passiva das direções do PT frente
aos desafios e às polêmicas do movimento sindical, do movimento
estudantil, das Frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo. Como se
estes desafios e polêmicas fossem possíveis de resolver sem que o
maior Partido da esquerda brasileira chame para si o debate a res-
peito. Chamamos a atenção, principalmente, para a perceptível falta
de nitidez sobre o que alguns chamam de “golpe dentro do golpe”.

Contradições no golpismo
A coalizão golpista tem unidade estratégica em torno de três
objetivos: reduzir o salário direto e indireto pago para a classe tra-
balhadora; reduzir as liberdades democráticas; alinhar o Brasil com
a política externa dos EUA e seus aliados.
Desde o golpe até hoje a coalizão vem conseguindo implementar
seu programa. Exemplos disto são a contrarreforma trabalhista; a
PEC que estabelece um teto para o orçamento da União, afetando
fortemente os gastos com as políticas públicas e sociais; a mudança
da lei da partilha e da venda de terras aos estrangeiros; o desmonte
A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil

das políticas públicas para as mulheres, com o enfraquecimento e


mesmo o fechamento de casas abrigo, centros de referência da mulher
e demais órgãos públicos do setor; entre outras medidas reacionárias.
Entretanto, a coalizão golpista enfrenta dificuldades devem ser
utilizadas pela classe trabalhadora, na perspectiva de interromper
a ofensiva, reverter e derrotar o golpismo.
As dificuldades começam pelo cenário internacional, marcado por
uma situação de crise que não oferece perspectivas de curto prazo de
retomada da atividade econômica, nem oferece vantagens especiais
para quem optou por uma aliança preferencial com os Estados Uni-
dos. Ademais, é preciso considerar que a situação internacional pode
evoluir para uma situação de crises e de guerras mais profundas do
64 que aquelas que assistimos desde o fim da URSS.
As dificuldades incluem a resistência que a classe trabalhadora
vem oferecendo contra o golpismo, através de lutas e mobilizações,
na rejeição ao presidente usurpador e na crescente intenção de voto
em Lula.
As dificuldades envolvem, também, as divisões internas da co-
alizão golpista, algumas vinculadas à “partilha do botim”, outras
relacionadas a diferenças políticas de variados tipos, inclusive sobre
como lidar com os efeitos colaterais da Operação Lava Jato sobre
lideranças políticas das próprias elites. Um exemplo disso foi a divi-
são da base do governo Temer, nas duas votações sobre o pedido de
autorização feito pela PGR para processar o presidente usurpador.
Embora não tenham resultado na interrupção da ofensiva, nem na
derrubada do governo golpista, estas dificuldades podem se avolumar
e desembocar numa derrota eleitoral das candidaturas vinculadas ao
golpismo. Podem, inclusive, desembocar numa vitória de Lula nas
eleições presidenciais de 2018.
Por isto a coalizão golpista vem buscando maneiras de interditar
a candidatura Lula; inviabilizar o funcionamento do PT; dificultar
a ação do movimento sindical; criminalizar a resistência popular;
bloquear as brechas eleitorais da esquerda, por exemplo, através do
parlamentarismo; vitaminar candidaturas populistas de direita, como
Dória, Hulk e Bolsonaro; financiar uma profusão de think thanks de
direita, com apoio internacional, para travar a disputa ideológica.

A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil


A coalizão golpista pretende não apenas implementar, mas tam-
bém estender pelo máximo de tempo, e se possível perpetuar como
cláusulas pétreas constitucionais, o essencial do programa da “ponte
para o futuro”. A classe trabalhadora tem o objetivo oposto: derrotar
o mais rápido possível o golpismo. Mas para que isso ocorra, será
preciso combinar a máxima resistência tática com uma reformulação
estratégica.

A máxima resistência tática


Os anos de 2017, 2018 e 2019 serão de imenso conflito, em âmbito
nacional, regional e mundial. A dúvida é saber em que condições a
classe trabalhadora brasileira participará deste conflito: se na con- 65
dição atual, de defensiva; ou se conseguiremos retomar a ofensiva
com a reconquista do governo federal, por exemplo.
A classe trabalhadora brasileira está num momento de defensi-
va estratégica. Noutras palavras, nossa prioridade é defender os
direitos sociais e políticas públicas, as liberdades democráticas e a
soberania nacional, que estão sendo atacadas pela coalizão golpista.
O tempo que vai durar este momento de defensiva estratégia e os
caminhos pelos quais ele será superado dependem das lutas politicas
e sociais que estão em curso, das escolhas estratégicas das diferentes
forças organizadas que disputam os rumos de nossa sociedade, bem
como dos impactos que a situação internacional tenha sobre o Brasil.
Vivemos, portanto, num daqueles momentos em que a tática e
a estratégia fazem um nó, ou seja: da solução de questões táticas,
derivarão condições muito diferentes para enfrentar um determinado
cenário estratégico.
A tática na luta contra o golpismo envolve: a) o trabalho cotidiano
de organização e conscientização da classe trabalhadora; b) as lutas
e mobilizações de massa; c) a construção e defesa das organizações
populares, inclusive da Frente Brasil Popular; d) a defesa do PT e de
Lula, em particular do nosso direito de tê-lo como candidato à presi-
dência da República; e) a oposição radicalizada ao governo Temer e
seus aliados, expressa nas palavras de ordem Fora Temer e Diretas
Já; f) a luta em defesa dos direitos ameaçados pelas contrarreformas
e o compromisso de lutar pela sua revogação, através da eleição de
A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil

Lula e da convocação de uma Assembleia Constituinte.


A resistência em defesa dos direitos, ao menos até agora, não teve
êxito. Seja por conta dos golpistas terem uma maioria institucional
consolidada, seja por conta da mobilização insuficiente – que em algu-
ma medida está vinculada à forte presença da direita no movimento
sindical, mas também à inércia da dinâmica eleitoral (desde 1989,
grande parte do país, da esquerda e da classe trabalhadora se acos-
tumaram com isto) – a tendência é que a resistência em defesa dos
direitos desemboque nas eleições de 2018, onde também o golpismo
poderá ser “legitimado” ou derrotado nas urnas.
O sentimento de esperança que grande parte da classe traba-
lhadora nutre na candidatura Lula corresponde e contribui para
66 formar este quadro. Contudo, ao mesmo tempo em que viabilizar a
candidatura e a vitória de Lula em 2018 é fundamental para derrotar
o golpe, devemos combater certo tipo de expectativa ilusória e imo-
bilista: ilusória, pois uma vitória eleitoral não será suficiente para
criar as condições necessárias à revogação das medidas golpistas, à
convocação da Assembleia Nacional Constituinte e à realização das
reformas democrático-populares; e imobilista, pois tende a relegar a
um segundo plano a mobilização e a organização da própria classe
trabalhadora em defesa dos direitos, tarefas que, além de tudo, acu-
mulam forças para a disputa eleitoral e os conflitos seguintes.
Os golpistas têm à sua disposição duas táticas para enfrentar
2018: a) a de buscar interditar a vitória eleitoral da esquerda e
b) a de buscar derrotar eleitoralmente a esquerda. Já a esquerda,
embora disponha de várias táticas, só dispõe de uma com potencial
de vitória eleitoral em 2018: a candidatura, a campanha e a eleição
de Lula presidente da República.
Caso a direita interdite Lula, qualquer que seja a reação da es-
querda, as chances de vitória eleitoral em 2018 serão muito reduzidas.
Caso a direita não interdite Lula, as chances de vitória eleitoral da
esquerda aumentam muito. Mas mesmo assim, a vitória de Lula na
eleição presidencial está longe de ser o único cenário. Alternativas
como novo golpe e a vitória eleitoral da direita estarão também colo-
cadas. Motivos pelos quais devemos:
a) insistir na mobilização de massas em defesa dos direitos.
Mesmo que não tenhamos êxito imediato, isto acumula forças para
uma vitória na batalha eleitoral e, mesmo em caso de derrota em
2018, acumula forças para a resistência posterior. Neste sentido, é A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil
importante retomar a perspectiva de um trabalho paciente e em pro-
fundidade capaz de retomar o movimento por uma greve geral capaz
de barrar a continuidade dos ataques aos direitos dos trabalhadores,
sendo a “reforma da previdência” uma das mais importantes batalhas,
por sua repercussão de massa. Cabe também detalhar e massificar a
compreensão dos efeitos devastadores da recém aprovada “reforma
trabalhista”, disputando a versão mistificadora que vem sendo pro-
pagandeada pelo governo e pela grande mídia;
b) radicalizar o tom e a atitude na resistência, inclusive no par-
lamento, onde devemos tomar como parâmetro mínimo de atuação a
atitude das três bravas senadoras que ocuparam a mesa do Senado.
Contra a violência, a desobediência civil é mais do que legítima, é 67
necessária e recomendável sempre e quando seja compreensível
para o povo;
c) explicar à população o perigo contido nas alternativas postas
pela direita (por exemplo, Bolsonaro, Dória, Hulk, Alckmin etc.);
Cabe, também, evitar as armadilhas postas para o PT no debate
sobre a possível interdição de Lula. Duas destas armadilhas são as
seguintes:
a) naturalizar a interdição, como se fosse algo banal, frente ao
que o PT deveria agir com naturalidade, lançando ou apoiando outro
nome. Pensamos o oposto: não se trataria de algo banal. Interditar
Lula, assim como a possível adoção do parlamentarismo e o fim do
voto proporcional, seria uma violência imensa contra a democracia,
contra a esquerda, contra a possibilidade dos setores populares vol-
tarem a governar o Brasil. Nossa reação a isto, caso venha a ocorrer,
não pode e não deve ser banal;
b) considerar que a interdição é inevitável e, portanto, preparar
desde já as alternativas. Pensamos o seguinte: a interdição é muito
provável e devemos nos preparar. Mas “nos preparar” não pode sig-
nificar nada que naturalize e banalize a violência que já vem sendo
cometida contra nós, nem tampouco podemos abrir mão de lutar até
a última possibilidade.
Reiteramos não existir “plano B”: eleição sem Lula é fraude.
E é muito complexo decidir o que fazer diante de uma fraude. A esse
A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil

respeito, basta dizer que – caso a interdição venha mesmo a ocorrer,


esgotadas todas as alternativas – o PT teria diante de si três grandes
alternativas: o boicote (ativo ou passivo, geral ou parcial); o lança-
mento de outra candidatura petista; o apoio à alguma candidatura
de outro partido.
O boicote é uma alternativa legítima, no cenário de uma inter-
dição. Afinal, o efeito prático da interdição seria facilitar e no limite
legitimar a vitória da direita. Como já foi dito, “eleição sem Lula
é fraude” e participar ajudaria, em alguma medida, a legitimar a
fraude.
Falando em tese e tomando como base experiências de outros paí-
ses, um boicote poderia ser parcial (apenas à eleição presidencial) ou
68 geral (para todos os cargos em disputa); poderia ser passivo (orientar
o voto nulo e/ou o não comparecimento) ou ativo (trabalhar para que
as pessoas não votem).
Entretanto, a julgar pela experiência brasileira, mesmo aquela
ocorrida na época da ditadura militar, as chances de êxito (no sentido
de ampla adesão) de um boicote são baixas. Salvo num cenário de
boicote ativo e generalizado, um boicote não impediria que alguém
fosse eleito presidente da República. Há que se verificar, também,
que impacto teria um boicote parcial sobre nossas candidaturas a
governos estaduais e parlamentos. Por tudo isto, ainda que reitere-
mos tratar-se de uma alternativa legítima, trata-se de um debate
complexo, com muitas variáveis, entre as quais o estado de ânimo do
Partido, do nosso eleitorado e da população em geral.
Caso a interdição venha mesmo a ocorrer, esgotadas todas as al-
ternativas, o lançamento de outra candidatura petista também seria
uma alternativa a considerar. Aliás, tanto a mídia oligopolista quanto
setores do Partido já vem projetando alguns nomes. Entretanto, além
disto poder legitimar a fraude, há que considerar que dentre os nomes
lembrados, não há candidatura melhor que a de Lula, seja do ponto
de vista eleitoral, seja do ponto de vista político-programático. Aliás,
dificilmente uma candidatura alternativa poderia ser escolhida, sem
que houvesse uma disputa interna, aberta ou não. Finalmente, numa
eleição que “sem Lula é uma fraude”, uma candidatura alternativa
seria “para valer” ou seria uma anti-candidatura de protesto?
O apoio a uma candidatura de outro partido apresentaria pro-
blemas semelhantes (legitimação da fraude; nenhuma alternativa
é melhor que Lula; haveria disputa; seria “de protesto” ou “para A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil
valer”?), com um agravante: o PT estaria sendo levado a ajudar a
construir uma alternativa a si mesmo, enquanto partido que desde
1989 hegemoniza de fato a esquerda brasileira.
Portanto, reiteramos que nossa orientação é:
a) insistir na mobilização de massas em defesa dos direitos;
b) radicalizar o tom e a atitude na resistência;
c) conscientizar a população sobre perigos;
d) não banalizar a violência que se está praticando, nem aceitar
o debate sobre o “plano B”;
e) não abrir mão de lutar até que a última possibilidade esteja
esgotada. Só neste cenário, caberia discutir o que fazer, levando em 69
consideração não apenas os efeitos táticos da opção, mas também
os seus efeitos estratégicos, que devem ser coerentes com uma nova
orientação estratégica, que abandone a política de conciliação de
classes, retomando a defesa de um programa de reformas estruturais
articulado com o socialismo.

Eleições 2018, tática e estratégia


O exemplo mais ilustrativo de que não houve uma reorientação
estratégica no comportamento do Partido está no debate sobre a can-
didatura Lula. Havia quem acreditasse que Lula não seria condenado
em primeira instância. Há quem acredite que certamente haverá jus-
tiça na segunda instância. Há quem acredite que os demais processos
não serão julgados em tempo de impedir a participação de Lula nas
eleições. E há quem acredite que a perseguição judicial-midiática não
será capaz de produzir uma tal desmoralização e rejeição que impeça
nossa vitória eleitoral.
Para quem acredita parcial ou totalmente nisto que citamos no
parágrafo anterior, a correta afirmação de que “eleição sem Lula é
fraude” seria apenas um artifício retórico para pressionar os golpistas
e dialogar de alguma forma com nossa base social.
No fundo, é como se pensassem que o cenário mais provável seria
o seguinte: Lula será absolvido, fará campanha, vencerá as eleições,
governará e tudo voltará aos seus eixos. Motivo pelo qual já dedicam
A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil

boa parte do seu tempo a preparar, nos estados, suas campanhas e


coligações eleitorais, inclusive com os partidos golpistas.
Pelo mesmo motivo, já há os que emitem sinais de que o futuro
governo Lula permitirá o regresso aos ”bons tempos”, inclusive para
os capitalistas, que também estariam preocupados com a crise e
saudosos da época em que o governo Lula estimulava o crescimento
econômico.
Sem falar daqueles que acreditam nos efeitos curativos da reforma
política ora em curso, de conversas com FHC, com os militares, com
os supostos “setores democráticos e progressistas” da burguesia. Ou
até mesmo em reuniões com Temer, como chegaram a fazer gover-
nadores do PT.
70
Ao mesmo tempo, outros setores do Partido, achando que o mais
provável seria a condenação em segunda instância, já começam a
articular candidaturas presidenciais alternativas, sem perceber
que a mesma interdição que paira sobre Lula, também paira sobre
o conjunto do PT. O que explica, aliás, a ofensiva violenta que parte
do golpismo está promovendo contra a presidenta do Partido.
Por tudo isto, tanto a candidatura de Lula quanto qualquer ou-
tra tática eleitoral precisam estar subordinadas e ao serviço de uma
nova estratégia política, bem como apresentar e debater com a classe
trabalhadora as diretrizes programáticas aprovadas no 6º Congresso
do PT, com destaque para a revogação das medidas golpistas, a As-
sembleia Nacional Constituinte e as reformas democrático-populares,
impulsionando a plataforma “Brasil que o povo quer”. 

A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil

71

Retomando o debate sobre a estratégia

A lém das questões mencionadas anteriormente, cabe perguntar


que perspectiva de médio prazo há para uma estratégia de tipo
eleitoral, ancorada essencialmente na figura de Lula, especialmente
levando em conta as movimentações permanentes que se fazem no
sentido do Congresso adotar o parlamentarismo; cabendo lembrar da
tentativa de derrotar o sistema proporcional, adotando no seu lugar o
distritão ou o voto distrital misto, este último aliás respaldado por um
deputado petista que nem a bancada, nem o Partido, desautorizaram
e puniram como se deveria.

Ainda neste contexto, o que será do petismo caso prossiga o


processo de interdição legal do Partido? Cabendo lembrar que não
está descartado que a interdição se estenda, além do próprio PT, ao
conjunto da esquerda. Ademais, que atitude o Partido adotará frente
A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil

ao futuro governo, caso vençam os beneficiários da fraude denuncia-


da por nós? Finalmente: se apesar de tudo conseguirmos disputar e
vencer as próximas eleições presidenciais, o que faremos para via-
bilizar as diretrizes programáticas aprovadas no Sexto Congresso
do PT? Ou deixaremos de lado este programa, sob argumentos os
mais variados, na torcida de que fazendo isto os golpistas não agi-
rão contra Lula como agiram contra Dilma? E o que faremos, face a
esta última hipótese, diante do risco de ver parcelas expressivas da
classe trabalhadora reagirem da mesma forma como reagiram em
2015? Em qualquer dos cenários, o que faremos para recompor nos-
sos laços com a classe trabalhadora? Como imaginamos que agirão
os outros setores da esquerda, a começar por aqueles que pública e
legitimamente disputam a herança do PT? Finalmente, mas com
72 destaque: como imaginamos os próximos anos e décadas, no cenário
regional e mundial? Qual será nossa política internacional, estando
no governo ou fora dele?
Debater estas questões todas conduz ao reconhecimento de que
a estratégia de mudança sem ruptura, ancorada numa via de acesso
ao governo através da disputa eleitoral, está diante de limites que
são intransponíveis nos seus próprios termos. Ou seja: a estratégia
de mudança sem ruptura não permite enfrentar e superar os dilemas
postos pela atual situação. Não permitiu antes, quando vivíamos
uma situação muito mais favorável; e não permitirá agora, quando
estamos no curso de uma crise econômica, social e política de grandes
proporções.
Nenhuma das questões acima relacionadas é tática, eleitoral ou
setorial. Nenhuma delas se resolve debatendo isoladamente “progra-
ma”, especialmente quando este é entendido como lista de reivindi-
cações. Aliás, nos últimos meses houve uma verdadeira inflação de
“programas”, mas prossegue a escassez de formulações estratégicas.
Obviamente, o programa não pode nem deve ser negligenciado. Mas
ele não pode ser descolado das formulações estratégicas e táticas.
No limite, as questões estratégicas apontadas só podem ser re-
solvidas na prática, até porque a luta política em escala nacional,
regional e mundial possui conexões que podem resultar em mudanças
no próprio cenário estratégico. Por exemplo, se houver uma guerra de
proporções maiores do que as que foram habituais no pós-Segunda
Guerra ou no pós-colapso da URSS.
A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil
Seja como for, não podemos continuar subestimando as mudan-
ças no comportamento do grande capital, aqui no Brasil e em todo o
mundo; e, portanto, não podemos continuar subestimando a neces-
sidade de uma reorientação estratégica do Partido. Especialmente
se levamos a sério a necessidade de levantar o estado de ânimo, de
mobilização e de luta da classe trabalhadora brasileira.
Não foi apenas a classe dos capitalistas que mudou sua atitude
frente ao PT e nossos governos. Também uma parte da classe traba-
lhadora mudou de atitude, mudança que para nós tem efeitos muito
mais graves. E que nos leva a reafirmar que uma de nossas principais
tarefas é reconquistar aqueles setores da classe trabalhadora que se
afastaram de nós. 73
Mas a solução prática das questões estratégicas acima relacio-
nadas será mais fácil ou mais difícil, a depender de nossa maior ou
menor capacidade de formular um pensamento estratégico. Neste
particular, a questão chave é: como acreditamos que deveria e po-
deria ser nosso caminho para o poder e para o socialismo? E no que
ele pode e deve se diferenciar do caminho trilhado por nós petistas
entre 1995 e 2016?

A estratégia que foi superada


Desde sempre combatemos; mas desde 2005 temos, além de
combatido, afirmado estar superada a estratégia adotada desde 1995
por nosso Partido – estratégia que nós sintetizamos com a expressão
mudanças sem rupturas – e que, num debate mais rigoroso, dizía-
mos não ser nem mesmo uma estratégia (categoria que pressupõe a
disposição de conquistar o poder), mas sim uma linha política cujo
objetivo máximo era conquistar governos.
Com aquela linha, o PT conseguiu vencer as eleições presidenciais
de 2002; mas já naquela época opinávamos que, com aquela linha
política, o PT não conseguiria iniciar nem realizar transformações
profundas, nem conseguiria manter-se no governo. A chamada “cri-
se do mensalão” foi vista por nós como um sinal da necessidade de
mudar a linha do Partido.
Tentamos vencer o PED de 2005, para, a partir da direção na-
A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil

cional do PT, implementar outra estratégia. Mas fomos triplamente


derrotados.
No PED 2005, ficou evidente que o grupo majoritário do Partido
se dispunha no máximo a fazer uma inflexão na política anterior.
Ficou evidente, também, que parte importante da esquerda par-
tidária optara por substituir a estratégia democrático-popular arti-
culada com o socialismo, pela defesa de uma revolução democrática
com republicanismo.
Igualmente ficou evidente que uma minoria da esquerda enten-
dia que o PT estava superado e preferia sair do Partido a continuar
disputando seus rumos.
A inflexão política feita pelo grupo majoritário do Partido, a partir
74 do PED de 2005, teve êxito relativo. Uma prova disso é que vencemos
as eleições presidenciais de 2006 e de 2010. Outra prova, ainda mais
importante, é que melhorou a vida do povo.
No que consistia aquela inflexão política? Consistia, essencial-
mente, em retomar o espírito da resolução aprovada no congresso
realizado pelo PT no ano de 2001.
Ou seja, a inflexão consistiu em sair da orientação da Carta aos
brasileiros (aliança preferencial com o capital financeiro, simbolizada
pela presença, na presidência do Banco Central, do deputado federal
recém-eleito pelo PSDB Henrique Meirelles, ex-presidente do Bank
of Boston) e regressar à orientação estabelecida pelo documento Uma
ruptura necessária (que previa uma aliança com setores “produtivos”
da burguesia, simbolizados pela presença de José Alencar na vice-
-presidência da República).
Ambas orientações eram variações de uma linha politica que
pressupunha uma aliança com os capitalistas. Sendo que a variante
Carta aos brasileiros era mais conservadora (perpetuava a hegemonia
neoliberal), enquanto a variante Uma ruptura necessária era mais
progressista (ampliava o espaço das políticas sociais e de desenvol-
vimento).
Mas aquela inflexão política tinha dois limites. Por um lado, não
implicou numa ruptura total com a política da Carta aos brasilei-
ros. Duas provas disto: o oligopólio financeiro continuou intocado e
Henrique Meirelles continuou presidindo o BC até 2010. Por outro

A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil


lado, como o grande capital industrial é altamente vinculado ao setor
financeiro, os limites econômicos e políticos explícitos na variante
Carta aos brasileiros mais cedo ou mais tarde também se verificariam
quando da aplicação da variante Uma ruptura necessária.
Teríamos êxito, caso o Partido tivesse adotado outra estratégia
já em 2005? Não sabemos e não há como saber. Entretanto, sabemos
que a inflexão feita, naquele ano, na linha política do Partido permitiu
uma melhoria substancial nas condições de vida do povo, sem que
para isso tivessem sido feitas reformas estruturais. Permitiu, inclu-
sive, enfrentar em melhores condições a crise internacional de 2008.
Destes e de outros fatos, o grupo majoritário do Partido parece
ter extraído a seguinte “lição”: as reformas estruturais não seriam
assim tão “estruturais”, “estratégicas” e “indispensáveis”. 75
Embasado naquela “lição”, o grupo majoritário reafirmou sua
crença de que seria possível ampliar o bem-estar, a democracia, a
soberania e a integração, sem fazer transformações estruturais, sem
fazer rupturas.
Portanto, ao aplicar a variável Uma ruptura necessária, o grupo
majoritário voltou a acreditar na possibilidade de fazer mudanças
sem rupturas.
Ou, no caso daqueles mais fiéis à retórica rupturista que marcou
o PT dos anos 1980, apresentavam cada medida adotada pelo governo
como a “ruptura possível”, “a ruptura realmente existente”. Sempre
destacando que não seria no tempo de duração de um ou dois ou três
ou até quatro mandatos presidenciais, que se conseguiria mudar a
herança de séculos de história. Afirmação que desconsidera o fato
de que as grandes mudanças de rumo são feitas em pouco tempo,
mesmo quando sua materialização completa demanda muito tempo.
Qual lugar o socialismo ocupava nesta estratégia? Isto dependia
do que cada um entendia como sendo o socialismo.
Os que entendiam socialismo como um sistema de valores ou,
ainda, como bem estar social com democracia, consideravam que o
socialismo já estava em marcha (como chegou a afirmar a primeira
versão do documento apresentado ao PED de 2005 pela tendência
Construindo um Novo Brasil).
Os que entendiam que socialismo é uma sociedade em que os
principais meios de produção estão sob controle social, propunham
A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil

postergar a luta pelo socialismo para um segundo momento, quando


considerassem que a correlação de forças fosse mais favorável.
Os êxitos concretos do segundo mandato de Lula explicam porque
a força do grupo majoritário do Partido, declinante no PED de 2005,
voltou a crescer em 2007, 2009 e 2013.
Naqueles três processos eleitorais, as fraudes e as distorções –
intrínsecas ao processo de eleição direta das direções partidárias, que
reproduz vários dos problemas existentes nos processos eleitorais
tradicionais e, portanto, deve substituído por um método que garanta
a democracia interna – foram fatores complementares, mas não es-
senciais, na vitória das chapas e candidaturas do grupo majoritário.
O essencial é que este grupo conseguiu expressar, no interior
76 do Partido, a opinião majoritária dos setores organizados da classe
trabalhadora brasileira. Que, por sua vez, apoiava os êxitos do go-
verno Lula e não enxergava o risco de uma reversão (como a que está
ocorrendo hoje), muito menos estava preocupada com o adiamento
sem data da luta pelo socialismo.
Diz um ditado popular: o que não mata, fortalece. Poderíamos
dizer também: o que não fortalece, mata. A linha politica adotada
pela tendência majoritária do Partido contribuiu para as vitórias ob-
tidas no período 1995-2016; mas também contribuiu para as derrotas
sofridas. Derrotas que incluem não apenas o desmanche do que foi
feito, mas o desmanche de muito mais. Neste sentido, é muito grave
que importantes dirigentes deste setor do Partido sejam incapazes de
produzir uma autocrítica e de formular uma alternativa estratégia
para o Partido.

A variante da revolução democrática com republicanismo


O fortalecimento da crença na mudança sem ruptura foi acompa-
nhado pelo fortalecimento, em um setor da chamada esquerda petista
– especialmente a tendência Democracia Socialista – , da crença na
revolução democrática com republicanismo.
Através dessa fórmula, um setor da esquerda petista foi pouco
a pouco se adaptando ao discurso dominante no Partido, através de
uma variante que pretendia “democratizar radicalmente o processo”
e evitar seus “efeitos colaterais” (promiscuidade na relação com o
grande empresariado e alianças com partidos de direita, por exemplo). A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil
Num resumo grosseiro, é como se combinando a variante Uma
ruptura necessária com altas doses de “participação popular”, fosse
possível caminhar em direção ao socialismo.
Mas, ao fim e ao cabo, a “estratégia” da chamada revolução de-
mocrática nunca passou de uma versão “descafeinada” da estratégia
majoritária no Partido. Conciliação e republicanismo são faces da
mesma ilusão de classe. A primeira se ilude acerca da classe capita-
lista, a segunda se ilude quanto a neutralidade do Estado.
Apesar de “descafeinada”, ou por isso mesmo, a revolução demo-
crática com republicanismo conseguiu atrair aqueles que – especial-
mente na intelectualidade simpatizante do petismo – não queriam 77
gastar tempo com debates estratégicos que muitas vezes soam eso-
téricos ou dogmáticos.
Por outros caminhos, o PCdoB e a Consulta Popular também fo-
ram se aproximando da estratégia defendida pelo grupo majoritário
do Partido.
No caso do primeiro, não se pode falar propriamente de uma
adaptação, mas sim da retomada das formulações originais do pró-
prio movimento comunista brasileiro: enfatizando o tema da aliança
com setores de centro, que seriam expressão da burguesia nacional
e industrial, o PCdoB voltava pouco a pouco à conhecida teoria das
duas etapas da revolução, a primeira democrática e de libertação
nacional, a segunda socialista.
Num certo sentido, aliás, foi o grupo majoritário do PT que foi se
aproximando das posições adotadas pelo comunismo brasileiro antes
do golpe de 1964. É bom reconhecer que um passo importante desta
aproximação conceitual foi feita já em 1993-1994, quando se conferiu
ao “mercado interno de massas” um papel estruturante no programa
do Partido, seja porque nesta formulação torna-se secundário o papel
dos investimentos para o desenvolvimento da indústria de bens de
capital e para o desenvolvimento científico e tecnológico, seja porque
estimula o consumo de bens e serviços privados em detrimento da
oferta massiva de bens e serviços públicos. Naquele momento, a
esquerda partidária (inclusive a AE) era majoritária no Diretório
Nacional do PT.
A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil

No caso da Consulta Popular, pode-se falar de adaptação no


sentido preciso da palavra. Afinal, em meados dos anos 1990, os in-
tegrantes da Consulta Popular se afastaram do PT e passaram a in-
vestir energias na construção de uma alternativa partidária própria,
de tipo não eleitoral. A formulação programática que acompanhava
a construção daquela alternativa partidária enfatizava a defesa da
Nação brasileira, dando centralidade à luta anti-imperialista e pela
soberania. Por este caminho, a Consulta foi construindo uma fórmula
política em que o socialismo era mantido como palavra de ordem, como
horizonte, certamente como “mística”, mas não mais como objetivo
programático e estratégico real.
Sendo assim, quando a gestão Lula tornou-se “defensável” do
78 ponto de vista da Consulta, não foi difícil mudar a postura frente ao
governo, frente ao PT e – como vimos nos últimos anos – não foi difícil
nem mesmo aproximar-se da política do grupo majoritário do Partido.
É importante ressaltar que partiram da “esquerda republicana”,
do PCdoB e da Consulta – e não do grupo majoritário do PT – as
principais tentativas de teorizar acerca do que o segundo governo
Lula estava fazendo. Uma destas tentativas já foi citada por nós:
a revolução democrática e republicana. Outra é a teoria do neode-
senvolvimentismo, que foi formulada por intelectuais próximos à
Consulta Popular.
O neodesenvolvimentismo é uma “narrativa” e uma “denomi-
nação” que em nossa opinião não condiz com os fatos. Como já foi
explicitado algumas vezes, nos governos Lula e Dilma não se quebrou
a hegemonia do capital financeiro, não se golpeou o rentismo nem
se deteve a desindustrialização. Logo, nos parece enganoso denomi-
nar de “desenvolvimentista” ou “neodesenvolvimentista” a política
realmente implementada pelos governos Lula e Dilma, inclusive a
política adotada no segundo mandato de Lula.
O crescimento econômico e a melhoria nas condições de vida do
povo, bem como as políticas que estimularam ambos resultados, não
chegaram ao ponto de superar a hegemonia neoliberal. E a timidez
das propostas acerca do capital financeiro mostra que nunca se pro-
puseram de fato a atingir aquele objetivo. Tanto a política implemen-
tada quanto as diretrizes que a sustentaram sempre foram marcadas
pela conciliação com o capital financeiro, o capital transnacional e o
agronegócio. Sendo assim, falar de “neodesenvolvimentismo” é atri-
A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil
buir uma excessiva “positividade” e coerência ao que foi efetivamente
formulado e executado.
Esta positividade era funcional para quem precisava pavimen-
tar um caminho de (re)aproximação com o governo e o próprio PT.
No caso da Consulta Popular, pode-se argumentar que falar de
“neodesenvolvimentismo” ajudou a fazer uma mudança de política,
reaproximando-se do PT sem a necessidade de uma autocrítica. Por
outro lado, é importante perceber que o “neodesenvolvimentismo”
era compatível com a visão estratégica da própria Consulta, tal como
expressa – por exemplo – no documento “A opção brasileira”.
Que tenha sido principalmente a intelectualidade vinculada ao
PCdoB, a Consulta e a esquerda republicana – ou as próprias or- 79
ganizações enquanto tal – a tentar teorizar sobre os governos Lula
e Dilma, é o que explica que parte importante de nossas polêmicas
digamos teóricas tenha se travado contra as teses apresentadas por
estes setores. Infelizmente, o grupo majoritário do PT propriamente
dito raramente teoriza acerca de sua prática. Neste terreno, assim
como nas finanças e na comunicação, predominou durante muito
tempo a terceirização. Mas é preciso estar atento para os sinais de
surgimento de uma “intelectualidade orgânica da CNB”, integrada
não pelos quadros históricos que vem da “época heróica” de formação
do PT, mas sim por quadros que correspondem a etapa atual, em
que o grupo majoritário passou a atuar como “fração”, como “partido
dentro do partido”.
O período 2006-2010 também foi de grandes dificuldades para a
esquerda socialista do PT. A inflexão estratégica e seus efeitos be-
néficos reduziram o espaço e a audiência da crítica de esquerda aos
rumos seguidos pelo Partido. E também conduziu crescentes setores
da esquerda socialista do PT para uma adaptação à política majori-
tária no Partido. Este é o motivo de fundo da cisão que a AE sofreu
em 2011, assim como é o motivo de fundo das tensões que a esquerda
socialista sofre na relação com seus parlamentares, tanto na condução
cotidiana dos mandatos quanto, principalmente, em épocas eleitorais.
Tendo em conta estes fatores objetivos e subjetivos, é relevante que
a AE tenha conseguido sobreviver a este período, mantendo níveis
mínimos de organicidade e, principalmente, tenha conseguido dar
prosseguimento à sua orientação estratégica e programática.
A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil

A inflexão estratégica feita a partir de 2005 e até 2010 fez crescer


a dificuldade da esquerda antipetista, especialmente do PSOL e do
PSTU. À medida que a inflexão estratégica feita a partir de 2005
rendia seus frutos, crescia o apoio ao PT e seus governos na classe
trabalhadora; e reduzia o espaço para a esquerda antipetista, a quem
restava deslizar para um discurso voltado aos setores médios. Na
prática, estes setores antipetistas foram se convertendo numa espécie
de esquerda udenista, tanto no que diz respeito ao discurso, quanto
no que diz respeito à base social.
Assim, quando esta esquerda antipetista precisou se posicionar
diante da ofensiva do golpe, o PSTU e algumas correntes do PSOL
defenderam o “Fora Todos” e o PCB defendeu “Nem fica, nem fora
80 Dilma”, enquanto a maioria do PSOL e o PCO cerraram fileiras con-
tra o golpe. Neste processo, a militância que não concordava em se
somar ou se omitir diante do golpe saiu das organizações que tiveram
esta atitude. Exemplo disso foi a cisão do PSTU que criou o MAIS e
ingressou no PSOL.

Vale destacar que a maior parte da esquerda brasileira – centenas


de milhares ou até mesmo alguns milhões de pessoas – está passando
por uma intensa luta política e ideológica. Em geral são pessoas que
votaram, tiveram expectativas e inclusive participaram ativamente
do PT ou das campanhas desenvolvidas pelo Partido. Ao mesmo
tempo, tem críticas pontuais ou globais em relação ao PT realmente
existente, sem que isto impeça uma postura de solidariedade na luta
contra o governo Temer e contra a perseguição sofrida pelo Partido.
Nosso grande esforço deve ser buscar incluir estas milhares e milhões
de pessoas no debate sobre o futuro da luta pelo socialismo no Brasil.

O colapso da “estratégia” de mudanças sem rupturas

Hoje sabemos que a inflexão estratégica consagrada no PED de


2005 e reafirmada nas eleições internas seguintes foi apenas parcial
e temporariamente exitosa. Teve êxito enquanto a burguesia estava
obtendo ganhos com o comércio internacional, com o crescimento do
mercado interno e com a dívida pública. Mas assim que mudou o am-
biente internacional, a burguesia também mudou de atitude e passou
a exigir alterações imediatas na política dos nossos governos. Tais A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil
alterações implicariam em deixar de lado a variante Uma ruptura
necessária e regressar à uma versão ainda mais extrema da variante
Carta aos brasileiros. E, à medida que o governo encabeçado pelo
PT resistiu a tal extremismo, a burguesia se orientou numa direção
golpista.

Curiosamente, tanto a “esquerda da esquerda” (PSTU, PSOL)


quanto o grupo majoritário do PT não consideraram a sério esta hi-
pótese. Os primeiros, por achar que os governos Lula e Dilma eram
instrumentos do grande capital e do imperialismo, portanto não
haveria motivo para que estes buscassem derrubar seus supostos
serviçais. O segundo, por acreditar nos efeitos pacificadores que
nossa conciliação de classes supostamente produziria sobre a classe 81
dominante, portanto tampouco haveria motivo para que esta tentasse
nos derrubar.
Durante o primeiro mandato de Dilma Rousseff (2011-2014),
nosso governo e nosso Partido oscilaram entre duas alternativas
impossíveis. Regressar à variante Carta aos brasileiros implicaria
em romper com parcela de nossa base social, tornando impossível nos
manter no governo. Tentar manter a variante Uma ruptura neces-
sária levaria a romper com o conjunto do grande capital (não apenas
com o capital financeiro), o que era impossível para uma linha que
pressupunha uma aliança estratégica com uma parte da burguesia.
Parte de nosso partido atribuiu este ziguezague às idiossincra-
sias da presidenta Dilma, sem perceber que a oscilação decorria da
tentativa de manter a velha estratégia num cenário em que aquela
linha política não produzia mais os mesmos efeitos. Com a queda na
atividade econômica internacional, os diferentes setores do capital
atuantes no Brasil buscaram manter suas taxas de lucro através da
redução do custo direto e indireto da força de trabalho, o que envol-
ve, entre outros, a redução dos salários, o desmonte da legislação
trabalhista e previdenciária e a pressão para garantir o pagamento
do serviço da dívida pública mediante elevadas taxas de juros e do
superávit primário. Além disso, passou a atacar com muito mais força
todas as ações dos governos Lula e Dilma que partiam do pressuposto
de “melhorar a vida dos pobres sem tocar no lucro dos ricos”. Com a
queda da arrecadação decorrente da queda da atividade econômica,
não havia mais espaço para que este pressuposto pudesse seguir
A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil

operando.
As mobilizações de rua de 2013 – facilmente cooptadas por setores
da direita, que fez uso do antipartidarismo e outros chavões do senso
comum sobre a política –, assim como o crescimento nas greves eco-
nômicas no mesmo ano, foram em alguma medida efeitos colaterais
desta ofensiva da burguesia contra os avanços sociais realizados
especialmente a partir de 2006. Frente ao acirramento da luta de
classes, o governo Dilma fez diversos movimentos, mas nenhum de-
les bem planejado, bem articulado e, principalmente, nenhum supôs
romper com a conciliação de classe.
A incompreensão da mudança de postura da classe dominante e
dos efeitos disto sobre toda a luta de classes ficou clara, por exemplo:
82 a) na surpresa do Partido frente às manifestações de 2013, bem como
na dificuldade de construir não apenas uma resposta, mas também
uma explicação (dificuldade que continua até hoje, tema que será
abordado num documento específico); b) num dos argumentos apre-
sentados em favor da substituição de Dilma por Lula, na disputa das
eleições de 2014: Lula saberia “dialogar” com o empresariado; c) na
crença de que Dilma poderia vencer a eleição no primeiro turno de
2014; d) na suposição de que a “falta de diálogo” de Dilma com o par-
lamento foi a principal responsável pela maioria pró-impeachment;
e) na insistência em manter o republicanismo, nas ambiguidades
frente a Operação Lava Jato, na redobrada retórica “em defesa do
Estado de Direito”.
O que há de comum no que foi citado anteriormente é a crença
de que o “diálogo” e a “conciliação” bastariam para impedir um
confronto estratégico. Ou seja, a falta de percepção de que a mesma
burguesia que antes aceitava conviver conosco, agora transitava para
uma posição de não aceitar mais nossa presença no governo federal
– em alguns casos, não aceitava nem mesmo nossa existência – não
importando que concessões estivéssemos dispostos a fazer. Isto fica
demonstrado pelo fato de que o retorno à variante Carta aos Brasi-
leiros logo após o segundo turno de 2014 não resultou na moderação
da burguesia, que passou a operar para a aniquilação do PT e de suas
lideranças. A Operação Lava Jato e o golpe foram instrumentos para
imposição da agenda neoliberal. No meio do caminho, alguns setores
do capital foram temporária e parcialmente sacrificados, como a cons-
trução civil, a indústria naval, a agroindústria da carne, entre outros;
mas o setor financeiro se manteve, ao menos até agora, preservado. A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil
A dificuldade em entender o que estava ocorrendo não atingiu
apenas o grupo majoritário do PT. Aquela parcela da esquerda petista
que havia adotado a tese da revolução democrática com republicanis-
mo também se viu em dificuldades, seja por ter grande presença no
governo Dilma e, portanto, ser diretamente responsável por algumas
das políticas então adotadas; seja por ficar na defensiva frente ao dis-
curso adotado pela direita, segundo o qual o principal problema dos
governos petistas seria a corrupção, ou seja, a falta de republicanismo.
Vale lembrar que depois da crise de 2005, cujo epicentro foi a
denúncia do suposto “mensalão”, cresceu a dependência das finan-
ças partidárias frente ao grande capital. E isto era do conhecimento
de todos os setores do Partido, especialmente daqueles com forte 83
presença institucional. A esse respeito, reafirmamos o que é dito na
resolução “O PT e a luta contra a corrupção”, aprovada pela direção
nacional da AE, com destaque para os seguintes trechos:
Já em 2005, quando a direita fez o “ensaio geral” do que está
fazendo hoje, o Partido cometeu quatro erros fundamentais.
O primeiro e maior deles: manteve e inclusive aprofundou a de-
pendência do Partido frente ao financiamento privado empresarial.
O segundo erro foi não ter convertido a luta pela reforma política
em aspecto central da nossa linha política.
O terceiro erro foi ter deixado a investigação e o julgamento
totalmente nas mãos da Polícia, do Ministério Público e da Justiça,
não formando uma opinião própria, partidária, acerca dos fatos e dos
casos sob julgamento.
O quarto erro foi não ter criado uma corregedoria interna, que
tivesse como tarefa agir preventivamente frente a casos de corrupção.
Enquanto o Partido, através de seus órgãos dirigentes, cometia
os erros citados, a base filiada, social e eleitoral do Partido se dividia.
Parte de nossa base desconhecia completamente os mecanismos
utilizados para financiar as campanhas eleitorais e o próprio Partido,
ficando chocada ao descobrir o nível de promiscuidade e dependência
frente ao dinheiro empresarial.
A verdade é que as decisões adotadas em 1994, tanto acerca do
financiamento público do Partido, quanto acerca do financiamento
A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil

empresarial das campanhas eleitorais, não foram adequadamente de-


batidas nem com a base partidária, nem com o conjunto da sociedade.
Outra parte da base partidária escolheu “naturalizar” o que
estava ocorrendo, na linha do “todos fazem”, sem perceber que este
tipo de discurso é mortal para um partido de esquerda, que se propõe
exatamente a antecipar com uma prática diferente o tipo de sociedade
que almejamos no futuro.
Havia, também, aqueles que — percebendo os objetivos reais da
campanha midiática e judicial — adotaram uma linha segundo a
qual os réus do “mensalão” eram todos “vítimas”, que deveriam ser
tratados como “presos políticos”.
Independente das debilidades de cada uma destas e de outras
84 interpretações, o mais grave é que, passada a fase mais aguda da
crise do “mensalão”, o Partido limitou-se a aprovar uma resolução
congressual a respeito, sem aprofundar o debate e principalmente
sem tomar medidas que superassem a dependência frente ao finan-
ciamento empresarial e que engajassem efetivamente o Partido na
luta por uma reforma política.
O fato de termos sobrevivido à crise de 2005, bem como o fato
de termos vencido as eleições presidenciais de 2006, 2010 e 2014,
fortaleceu em amplos setores do Partido a impressão de que não era
necessário adotar medidas que tornassem o financiamento da ativi-
dade partidária algo independente tanto do empresariado, quanto
do fundo público.
Em 2014 o Partido era muito mais dependente em relação ao
dinheiro empresarial do que era em 2005. A contribuição militante,
a venda de materiais, as doações individuais ou coletivas de sim-
patizantes, tudo isto foi reduzido a uma fração minúscula frente ao
financiamento empresarial.[...]
Nos anos 1990, o PT passou a enfatizar em suas resoluções o tema
da “ética na política”. Mas isto ocorreu no mesmo período em que o
PT relaxou nos seus mecanismos de autofinanciamento, passando a
depender cada vez mais do financiamento público e do uso em larga
escala do financiamento empresarial. Vale dizer que este processo
de adaptação afetou o conjunto do PT, mesmo que tenha sido mais
pronunciado em alguns setores do que outros.
Não é objeto desta resolução analisar os efeitos colaterais negati-
vos do financiamento público, entre os quais facilitar o abandono do A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil
caráter militante da sustentação financeiro do Partido e aumentar
sua dependência frente ao Estado. Entretanto, apontamos a exis-
tência destes problemas e seu vínculo com o financiamento empre-
sarial privado, pois em última análise os dois tipos de financiamento
tendem a alterar a natureza de classe e a linha política do Partido.
Defendemos o financiamento público das campanhas eleitorais, mas
consideramos que partidos, assim como clubes e igrejas, devem ser
financiados exclusivamente pelos seus integrantes.
No que diz respeito ao financiamento empresarial privado, alguns
acreditavam que era possível manter-se imune àquela engrenagem
corrupta e corruptora; e/ou que poderiam utilizá-la a serviço de outros
propósitos, que não os da manutenção dos interesses do grande capital 85
financiador; e/ou que não havia outra alternativa, sob pena de perder
as eleições para os que dispunham do financiamento empresarial; e/
ou que bastaria seguir a lei, como se o problema de fundo estivesse no
“caixa 2” e não no financiamento privado empresarial como um todo.
Na esquerda antipetista, por sua vez, ganhou mais espaço o
udenismo: depois de Heloisa Helena em 2006 e de Plínio Arruda
em 2010, foi a vez da candidatura Luciana Genro em 2014. Mesmo
diante de uma clara ofensiva da direita, esta candidata – expressando
a postura majoritária no PSOL naquele momento – foi a de tomar o
PT como inimigo principal.
Com matizes, no conjunto da esquerda antipetista havia a ilusão
de que se a direita derrotasse o PT, haveria espaço para o crescimento
de uma esquerda verdadeira. Esta ilusão se mantém até hoje, em
parte dos que integram a chamada Frente Povo Sem Medo, como é
o caso de setores do PSOL e do MTST.
Na campanha presidencial de 2014, Dilma e o conjunto do PT de-
ram a entender que haviam abandonado o ziguezague e que começa-
riam uma mudança de estratégia, em favor das reformas estruturais.
Mas, após as eleições, a presidenta Dilma – com o respaldo ativo
e/ou passivo do grupo majoritário do PT – fez exatamente o contrário:
retomou e aprofundou a variante Carta aos brasileiros. O resultado,
como não poderia deixar de ser, foi a confusão política e a perda de
nossa base social, criando as condições para o processo de impeach-
ment.
A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil

Evidentemente, a leitura que se faz do período entre janeiro de


2015 e agosto de 2016 depende dos “óculos estratégicos” usados por
cada setor da esquerda.
Aqueles que entendem que nossa derrota teve como causa princi-
pal um conjunto de erros de natureza tática, direcionam suas críticas
principalmente para as opções da presidenta e de seu governo.
Aqueles que entendem que nossa derrota teve como causa prin-
cipal um conjunto de erros de natureza estratégica, apontam que os
erros da presidenta e de seu governo têm sua origem na orientação
estratégica adotada pelo Partido, orientação que desde 1995 não
previa uma óbvia possibilidade: a de que a classe dominante não
aceitasse as mudanças, mesmo que elas viessem sem reformas es-
86 truturais e sem rupturas.
A incompreensão do significado ao mesmo tempo tático e estraté-
gico do impeachment – e de que, portanto, o conjunto da estratégia
do PT deveria ser revista – explica parte da resistência do grupo
majoritário a realizar, ainda em 2015, um congresso partidário
extraordinário. Mas é bom lembrar que naquele ano a “esquerda
republicana” tampouco se empenhou neste sentido: na maior parte
do Brasil, os delegados vinculados a este setor não contribuíram para
convocar um congresso extraordinário, tal como previa e possibilitava
o estatuto partidário.
É verdade que a resistência do grupo majoritário a convocar um
congresso partidário, destinado a revisar nossa estratégia, também
podia ter motivos mais prosaicos, entre os quais manter os cargos e
salários de alguns dirigentes. É verdade, também, que havia argu-
mentos de natureza combativa, tais como “concentrar energias na
luta contra o golpe”, “enfrentar e vencer as eleições 2016” etc. Seja
como for, o fato é que o congresso partidário foi realizado apenas em
junho de 2017. E, como já buscamos demonstrar, suas resoluções
não resultaram nem implicaram numa mudança efetiva da conduta
estratégica da maioria do Partido. Motivo pelo qual segue necessário
enfrentar formular uma estratégia.

A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil

87

Conquistar o poder e iniciar a
transição socialista

D ecorre do que dissemos até agora que não se trata de construir


uma estratégia para mudar sem rupturas; nem se trata de cons-
truir uma estratégia para fazer reformas estruturais nos marcos do
capitalismo; do que se trata é construir, na teoria e na prática, uma
estratégia que permita conquistar o poder para iniciar a transição
socialista.
No V e no VI Encontro nacional, realizados em 1987 e 1989 res-
pectivamente, o PT começou a desenhar uma estratégia com este
objetivo. Esta estratégia incluía um programa democrático-popular e
socialista; uma política de acumulação de forças, que articulava luta
e organização social, hegemonia cultural e organização partidária,
disputa de eleições e exercício de mandatos parlamentares e execu-
tivos; uma política de alianças, que considerava a classe capitalista
A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil

como inimiga estratégica; e uma via de tomada do poder, que passava


pela conquista do governo federal. Esta estratégia mal começava a ser
formulada e implementada, quando enfrentamos as eleições presiden-
ciais de 1989, a ofensiva neoliberal e a crise do socialismo soviético.
Diante deste tsunami de acontecimentos, com imensas implica-
ções na cultura e na vida objetiva de todas as classes sociais, o PT
debateu entre 1990 e 1995 o que fazer. Havia os que defendiam a ma-
nutenção da estratégia anterior, havia os que defendiam fazer ajustes
naquela estratégia e havia os que – argumentando não existir mais
retaguarda estratégia para implementar aquela política, ao mesmo
tempo que havia espaço para, ampliando a política de alianças, tor-
nar-se governo. Entre 1990 e 1995 o partido oscilou entre diferentes
88 posições. Mas, a partir de 1995, tornou-se majoritária a decisão de
abandonar a estratégia anterior. No lugar do programa democrático-
-popular e socialista, adotou de fato um programa antineoliberal. No
lugar da articulação das formas de luta, adotou de fato uma política
de acúmulo de forças centralmente institucional. No lugar de uma
política de alianças entre trabalhadores e pequenos proprietários,
adotou de fato uma política de alianças com setores do grande capital
industrial. E no lugar de uma via de conquista do poder, adotou de
fato um caminho para conquistar o governo. Esta orientação politica
foi consolidada no documento Uma ruptura necessária.
A partir da Carta ao Povo Brasileiro, aprovada pelo voto da
maioria do DN em 2002, em oposição ao aprovado no XII Encontro
Nacional do PT no ano anterior, houve uma inflexão na linha política
adotada desde 1995: o programa passou a admitir alto nível de coe-
xistência com o neoliberalismo; a política de alianças se estendeu a
setores do capital financeiro; a conquista do governo foi substituída
pelo exercício do governo, sem a pretensão nem mesmo de reformar o
Estado. Estas mudanças deram origem a uma “estratégia de poder”
que de fato não merece este nome, pois não se trata mais de uma
estratégia, mas sim de uma sucessão de táticas eleitorais. Nem se
tratava mais de disputar o poder, mas sim de buscar ganhar eleito-
ralmente governos.
Como dissemos no início deste texto, esta “estratégia” (conside-
rando tanto a variante Uma ruptura necessária quanto a variante
Carta aos brasileiros) orientou o PT na disputa das eleições de 1998,
2002, 2006, 2010 e 2014. Nas quatro últimas eleições, fomos vito-
riosos. A “estratégia” também orientou a ação do PT nos governos A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil
Lula e Dilma, com resultados insatisfatórios quando observados no
detalhe – especialmente no primeiro governo Lula e na fase inicial
do segundo governo Dilma – mas satisfatórios na média, em compa-
ração com governos anteriores. Portanto, do ponto de vista das suas
realizações, julgada à luz de seus próprios parâmetros, não se pode
dizer que tenha sido uma estratégia ineficaz. Salvo por um “detalhe”:
aquela estratégia não levava em conta, logo não preparou o Partido
e a classe trabalhadora para o que faria o outro lado.
Acontece que este outro lado – a classe dos capitalistas e aliados
– não se limitou a fazer oposição e a tentar nos derrotar eleitoral-
mente. Se a classe dominante tivesse se limitado a estas duas ações,
uma eventual derrota eleitoral de nossa parte não poderia ser consi- 89
derada como uma derrota “estratégica”. Afinal, nos marcos de uma
“estratégia” eleitoral, uma derrota eleitoral “faz parte do jogo”. Se
fosse só isto, tampouco poderíamos falar da necessidade de mudar a
estratégia. Afinal, para usar uma analogia militar, perder uma ba-
talha não obriga um Estado Maior a concluir que uma determinada
estratégia esteja incorreta.
Mas os capitalistas e seus aliados não se limitaram a fazer opo-
sição e a tentar nos derrotar eleitoralmente. Foram muito além.
Pressionados pelas mudanças no cenário internacional, aproveitando
os limites da estratégia do PT e fazendo bom uso dos erros cometidos
em sua aplicação, os capitalistas, dirigindo uma coalizão integrada
por partidos de direita, setores do aparato de Estado, pela mídia oli-
gopolizada e pela mobilização “coxinha”, promoveram o impeachment.
Isto em si já constituía uma mudança nas regras do jogo. Mas eles
não pararam por aí. A classe dominante, através do governo golpista,
do parlamento e do judiciário, está tomando medidas que, se forem
levadas até o fim, vão dinamitar as bases que tornavam factível uma
estratégia de mudanças sem rupturas. Estas bases são: um movimen-
to sindical forte; um partido político legal e de massas; uma legislação
eleitoral que permitia a formação de bancadas parlamentares de
esquerda expressivas; o reconhecimento da possibilidade das lide-
ranças da esquerda disputarem e vencerem as eleições presidenciais;
uma legislação que permitia ampliar a oferta de políticas públicas;
um aparato estatal que permitia reorientar em alguma medida os
investimentos privados; um patamar de crescimento que permitia
A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil

algum tipo de redistribuição de renda. Ao destruir ou limitar tudo


isto, a classe dominante está tornando inviável qualquer estratégia
que busque fazer mudanças sem rupturas. Importante dizer que
isto não ocorre apenas no Brasil, nem mesmo na América Latina: é
um processo mundial. E reflete algo mais profundo: a resistência do
capitalismo contemporâneo à reforma de si mesmo.

Os caminhos estratégicos
No momento, o PT está travando uma batalha para tentar impe-
dir que o golpismo tenha êxito. Se sairmos vitoriosos desta batalha,
a estratégia adotada entre 1995 e 2016 pode ganhar novo fôlego,
90 mesmo que isto seja frágil e temporário. Mas se formos derrotados
nesta batalha, se o golpismo tiver êxito em interditar não apenas o
caminho eleitoral, mas inclusive as bases que tornava factível falar
em mudanças sem rupturas a partir de governos eleitos, o PT e o con-
junto da esquerda brasileira se verão diante da obrigação de explicar
qual será sua conduta estratégica. Entre outros, há três caminhos
estratégicos postos no debate.
O primeiro deles é voltar ao status quo da esquerda brasileira
antes de 1980. Ou seja: a de força auxiliar dos setores de centro,
contra os setores de direita. No curto prazo, esta poderia ser uma
das decorrências da interdição de Lula e do eventual apoio do elei-
torado de esquerda a uma candidatura como a de Ciro Gomes, tal
como parece pretender a posição hegemônica no PCdoB. De maneira
geral, uma das consequências imediatas de uma eventual demolição
do PT seria – não a ascensão de outra esquerda com capacidade he-
gemônica – mas a redução da influência de toda a esquerda. Ao se
moverem tendo como objetivo a superação do PT, tanto a esquerda
udenista quanto setores da esquerda republicana podem acabar con-
tribuindo, na prática, para aquela subalternização. Que implicaria
em adiar, para um futuro longínquo e incerto, qualquer possibilidade
de implementar um programa democrático, popular e socialista. E
significaria, também, que no médio e longo prazo a classe trabalha-
dora teria que construir novas organizações, dispostas a defender a
independência da classe trabalhadora, seu programa e sua estratégia.
Em resumo: no atual período histórico, se o PT perder protagonismo,
a classe trabalhadora e a esquerda também perderão protagonismo.
Isto pode acontecer independente de nossa vontade – ou até devido A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil
à falta de vontade e de política do grupo atualmente majoritário no
Partido. Mas dedicaremos o melhor de nossos esforços para que não
venha a ocorrer.
O segundo caminho estratégico é desencadear uma campanha de
desobediência civil ativa, urbana e rural, na perspectiva não apenas
de derrotar o golpismo e de retomar as liberdades democráticas, mas
também na perspectiva de derrubar o golpismo e constituir um novo
governo fundado na rebelião popular. Num certo sentido, é o que se
tentou fazer no final dos anos 1960 e início dos anos 1970. O êxito
de um caminho deste tipo dependeria de uma conjunção de fatores
que hoje não estão no horizonte visível: uma vanguarda disposta e
preparada para assumir uma postura de combate permanente; uma 91
base social disposta a pelo menos servir de retaguarda ativa para
esta vanguarda; um aparato de Estado incapaz de reagir a altura; um
contexto internacional que dificulte a repressão. Na ausência destes
fatores, o mais provável é que um caminho deste tipo resulte no iso-
lamento e na destruição de uma parcela importante da vanguarda,
debilitando as atuais organizações da classe trabalhadora e tornando
inevitável uma reorganização geral no médio prazo.
Defendemos o direito à desobediência civil frente a um governo
ilegítimo, enquanto uma das formas de resistência. Inclusive consi-
deramos que, frente ao governo golpista, ações mais duras de deso-
bediência civil são necessárias. Entretanto, não consideramos que a
desobediência civil – em nenhuma de suas formas – constitua uma
estratégia de luta pelo poder.
Como já ocorreu na história do Brasil, a esquerda pode ser for-
çada a lançar mão da desobediência civil, enquanto forma limite
de resistência, inclusive para não se desmoralizar. Neste sentido,
achamos legítima toda e qualquer forma de resistência ao golpismo,
individual e coletiva. Mas não se deve confundir a legitimidade em
última instância de uma forma de luta, com a conveniência politica e
a adequação estratégica desta mesma forma de luta. A desobediência
civil ativa só é conveniente e estrategicamente adequada quando
adquire caráter de massa, quando realmente é capaz de se converter
em estopim de uma rebelião popular capaz de derrubar um governo.
E a desobediência civil só adquire caráter de massa quando ela surge
no contexto das lutas de massas, como expressão da própria luta de
A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil

massas. Quando as formas mais extremas de desobediência civil são


adotadas por grupos minoritários de vanguarda, que tentam impor
suas formas de luta ao movimento de massas, o resultado mais co-
mum – ao menos no caso do Brasil, mas também noutros países – tem
sido o isolamento e ao final a destruição destes grupos minoritários,
gerando confusão no movimento de massas e privando a esquerda
de um número importante de quadros.
O caminho estrategicamente adequado é aquele que possa ser
trilhado pela classe trabalhadora ou, pelo menos, por setores majori-
tários desta classe. Por isso somos favoráveis a outro caminho estra-
tégico: concentrar energias na oposição politica e social, recuperar a
inserção na classe trabalhadora, desencadear mobilizações de massa
92 que tenham como horizonte não apenas derrotar o governo, mas
também derrubar o Estado. Num certo sentido, é o que o movimento
pró-PT e o PT buscaram fazer no final dos anos 1970 e durante os anos
1980. Mas naquela ocasião, desembocou num desfecho inesperado por
grande parte dos que apostaram na luta de massas como alternativa
estratégica: a eleição presidencial de 1989. Ou seja, o crescimento da
luta de massas não desembocou numa rebelião popular insurrecional,
mas sim numa “disputa institucional”.
Nunca saberemos o que teria ocorrido caso tivéssemos vencido
aquelas eleições. Provavelmente, um governo Lula empossado em
1990 se veria às voltas com situações politicamente similares àque-
las enfrentadas pelo governo Hugo Chávez cerca de dez anos depois.
Sabemos, também, que o impulso da luta de massas – vindo desde
o final dos anos 1970 – arrefeceu ao longo dos anos 1990, o que con-
tribuiu para que a maior parte da esquerda brasileira mudasse sua
estratégia, colocando em primeiro plano a chamada luta institucional.
Esta mudança – da ênfase na luta de massas, para a ênfase na luta
institucional – não foi decorrência automática de uma mudança na si-
tuação objetiva. Em boa medida foi, também, decorrente de mudanças
subjetivas na própria esquerda, mudanças subjetivas que envolviam,
ao mesmo tempo, certo entusiasmo pelas possibilidades eleitorais,
imensa preocupação com a ofensiva neoliberal e a defensiva provo-
cada pela crise do socialismo soviético. Elas afetaram a imagem que
a esquerda tinha acerca do socialismo, acerca da revolução e acerca
do papel do partido. Impactaram a ação dos governos municipais e
a ação dos sindicatos. Ao fim e ao cabo, a maior parte da esquerda
brasileira, já então encabeçada pelo PT, escolheu transitar de uma A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil
estratégia ancorada na luta de massas, para uma estratégia ancorada
na luta eleitoral.
No final dos anos 1990 e no início da década seguinte, a experiên-
cia do governo Hugo Chávez demonstrou que uma estratégia ancorada
na luta eleitoral pode resultar num governo popular, comprometido
não apenas com a soberania nacional, com a ampliação das liberdades
democráticas e do bem estar social, mas também comprometido com
o socialismo. Mas Chávez teve a seu favor uma variável decisiva:
a possibilidade de, já na largada, contar com o apoio ativo de uma
parte das forças armadas e, portanto, reduzir as chances de êxito de
um golpe. Como esta variável não estava e pelo menos por enquanto
não está colocada para a esquerda brasileira, cabe responder de que 93
forma consideramos possível combinar luta de massas e luta eleitoral
numa estratégia de conquista do poder.
Mesmo deixando de lutar pelo poder e se contentando com a dis-
puta de governos, parte majoritária da esquerda brasileira manteve
aquela combinação no plano da retórica, mas na prática subordinou
a luta de massas à luta eleitoral. Uma prova disso é a quantidade
de dirigentes sindicais e de movimentos sociais que encaram os
mandatos parlamentares e executivos como uma “etapa superior”
de sua “carreira” pessoal. Outra prova é a postura da maior parte
de nossos governos, em todos os níveis, que adotam uma postura
arrogante frente aos movimentos sociais. Uma terceira prova é o de-
saparecimento, na pauta das direções partidárias, do debate cotidiano
sobre o trabalho de massas, que foi terceirizado para as organizações
populares, sob o pretexto da “autonomia”. O enfraquecimento dos
núcleos de base do Partido é uma das causas e um dos efeitos disto.
Outra parte da esquerda brasileira tende a menosprezar a luta
eleitoral, considerada ao mesmo tempo inócua (não muda nada) e
perigosa (pois coopta a esquerda). A crítica ao “institucionalismo”
é acompanhada de uma ênfase na luta de massas, sob duas formas
diferentes: o “movimentismo” e a “insurreição”. A orientação movi-
mentista endeusa os movimentos sociais, mas não consegue explicar
como a classe trabalhadora vai passar dos movimentos sociais para
o exercício do poder. A orientação insurrecional imagina a passagem
da luta de massas para a luta direta pelo poder, nos termos como isto
ocorreu em Outubro de 1917, na Rússia, numa situação muito parti-
A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil

cular, em que uma parte das forças armadas apoiou a revolução e a


insurreição. Não descartamos a possibilidade de que a luta de massas
no Brasil se converta numa rebelião popular direta. Mas a experiência
histórica brasileira dá vários indícios de que esta possibilidade não é
a mais provável. No Brasil, na maior parte das vezes em que a luta
de classes atingiu um ponto de fervura, isto envolveu algum tipo de
combinação entre luta de massas e luta eleitoral.
Entre 1989 e 2002, o Partido dos Trabalhadores – e com ele a
maior parte da esquerda brasileira – adotou uma estratégia que en-
fatizava crescentemente a importância da disputa eleitoral. As reso-
luções do VI Encontro nacional do PT, de 1989, apontavam para uma
tentativa de repetir dois aspectos da experiência da Unidade Popular
94 chilena de 1970-1973: a partir de um governo eleito, implementar
reformas estruturais, que levariam a uma reação burguesa, que o
governo popular derrotaria, passando em seguida para uma nova
etapa, a construção de uma área de propriedade social e a construção
de um Estado de novo tipo. Não sabemos no que teria resultado esta
tentativa, se tivéssemos vencido as eleições de 1989. O que é certo é
que, a partir de 1995, esta variável chilena foi deixada de lado, em
favor de algo mais prosaico: vencer as eleições e implementar políticas
públicas em benefício da maioria do povo, tendo como perspectiva de
médio e longo prazo uma transformação democrática e popular. Hoje
já sabemos que, mesmo prosaica, esta alternativa não é compatível
com a resistência que o capitalismo e a classe dominante brasileira
oferecem à qualquer tipo de “melhorismo”. Sendo assim, caso se
considere a necessidade de combinar luta de massas e luta eleitoral;
e caso se recoloque a possibilidade da esquerda brasileira governar
o país, é preciso responder o que será feito não apenas para trans-
formar o Brasil, mas também o que será feito para tentar impedir
desfecho semelhante ao de agosto de 2016. Não se trata de propor
uma retomada do que defendíamos em 1989, nem tampouco imaginar
que se possa repetir a experiência chilena, mas desta vez com “final
feliz”. Do que se trata é estabelecer alguns parâmetros ou balizas
estratégicas, que possam orientar nossa ação política.
Em primeiro lugar, entendemos que cabe recuperar a disposição
de ser governo para ser poder. Em termos práticos, ter como objetivo
vencer eleições presidenciais e eleger uma maioria parlamentar que
permitam construir uma área de propriedade social e um Estado de
outro tipo. A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil
Em segundo lugar, trata-se de reafirmar o caráter socialista do
nosso Partido e expressar isto no programa de transformações que
defendemos para o país. Nossa história, as características de nossa
sociedade, o lugar que ocupamos no mundo, o tipo de capitalismo
que hoje é internacionalmente hegemônico, além da própria crise
do capitalismo, indicam que apenas o socialismo tornará possível a
ampliação do bem-estar social, das liberdades democráticas, o desen-
volvimento e a soberania com integração regional.
Em terceiro lugar, trata-se de reafirmar o caráter revolucionário
do nosso Partido e da estratégia que defendemos. Não devemos ser
apenas um partido de oposição aos que governam, devemos ser um
partido de oposição antissistêmico, um partido anticapitalista, um 95
partido que tem por objetivo derrotar a classe dominante e cons-
truir outro Estado, com democracia participativa e que expresse os
interesses da classe trabalhadora. Portanto, conquistado o governo,
tomaremos medidas para reformar profundamente o Estado. Mas
mais do que isto, nossa participação nos processos eleitorais, bem
como em mandatos executivos e parlamentares, não nos leva a abrir
mão da defesa da revolução política e social, sempre que esta for a
vontade da maioria do povo.
A maior parte do Partido deixou de lado este conjunto de intenções
e compromissos, ao longo dos anos 1990, por um lado sob o argumento
de travar uma dura luta política e social contra o “inimigo principal”,
o neoliberalismo; por outro lado, como resultado de uma dura luta
interna, na qual prevaleceram pontos de vista “melhoristas”, ou seja,
concentrados em melhorar a vida do povo através de políticas públi-
cas nos marcos do capitalismo, não mais em transformar a sociedade
brasileira através de reformas estruturais articuladas com o socia-
lismo. Hoje está posto fazer o caminho oposto: travar uma dura luta
política e social, mas também uma dura luta interna, no sentido de
fazer prevalecer a orientação de transformar a sociedade brasileira
através de reformas estruturais articuladas com o socialismo.

Mas para que estas mudanças sejam possíveis, é preciso combinar


a ação do governo, a ação parlamentar e a luta de massas. Embora não
seja impossível e embora devamos perseguir este objetivo, continuará
sendo pouco provável que um governo popular eleito seja acompanha-
A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil

do desde o início de uma maioria parlamentar de esquerda. Portanto,


é necessário construir as condições para uma “governabilidade de
outro tipo”. Na ausência disto, só restaria nos curvarmos à lógica
da governabilidade tradicional, tal como fizemos na maior parte dos
governos Lula e Dilma, pelo quê pagamos um preço alto até hoje.
Uma governabilidade alternativa implica em articular a ação do
governo central, de suas bancadas e governos aliados, com a mobili-
zação de massa impulsionada pelos partidos de esquerda e organiza-
ções populares. O ponto central desta governabilidade alternativa é,
portanto, a constituição de uma articulação permanente entre pelo
menos a maior parte das organizações da esquerda política e social,
assim como os governantes e parlamentares populares. Tal articu-
96 lação tem que ter presença capilarizada em todas as regiões do país,
não apenas territorial, mas também nas escolas e universidades,
locais de trabalho e de moradia. Necessita dispor de capacidade de
convocatória de massas. Deve construir uma rede nacional de comu-
nicação de massas, de educação e de cultura popular. Precisa dispor
de “serviços de ordem”, de informação e contrainformação capazes
de nos proteger dos grupos paramilitares de direita e de impedir
ações isoladas dos grupos anarquistas, com quem devemos travar
uma disputa político-ideológica para contrapor sua linha de ação. Em
termos ideais, trata-se de construir um “poder popular”, um “estado
paralelo”, capaz de apoiar as ações do governo popular, capaz de
neutralizar as reações conservadoras que provenham de dentro e de
fora do aparato de Estado, capaz de tornar possível a desmontagem
deste Estado e a construção de um Estado de outro tipo.
Certamente isto soará fantasioso para quem conhece o grau de
improvisação artesanal que prevalece em nossas organizações de
massa, bem como nas duas experiências de “articulação permanente”
atualmente existentes: a Frente Brasil Popular e a Frente Povo Sem
Medo. Mas é aquele nível de organicidade que devemos perseguir,
se de fato estamos falando a sério em construir uma estratégia de
poder que combine luta de massas e luta eleitoral, que encare ser
governo como parte da luta para ser poder. Do contrário, estaremos
submetidos à governabilidade tradicional, impotentes frente a pos-
sível repetição do desenlace que vivemos em agosto de 2016.
Importante dizer que o processo de construção de uma “articu-
lação permanente” daquele tipo será longo e tortuoso, motivo pelo
qual suas chances de êxito aumentam se ela for construída desde já. A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil
Importante dizer, ainda, que embora esta frente não seja em si elei-
toral, são seus contornos que definem o arco de alianças da disputa
eleitoral. Noutras palavras: é preciso rever de alto a baixo a política
de alianças. Em primeiro lugar, distinguindo com nitidez as alianças
estratégicas das alianças táticas. Em segundo lugar, estabelecendo
critérios muito restritivos para as alianças táticas que venham a ser
feitas com setores que não são aliados estratégicos. Inclusive porque
a experiência tem demonstrado claramente que não vale a pena con-
quistar e/ou participar de governos, se não for para tê-los como parte
de uma estratégia global de transformação social.

O trabalho cotidiano 97
A única forma de conter a ofensiva estratégica reacionária e
vencer as batalhas táticas consiste em transformar a maior parte
do povo brasileiro numa força cujo poder de mobilização seja capaz
de impor derrotas às diversas frentes (governamental, parlamentar,
judiciária etc.) de atuação dos que pretendem liquidar os direitos po-
líticos e sociais democráticos e a soberania nacional. Por reconhecer
isto, grande parte da esquerda brasileira voltou a falar de “trabalho
de base”. No entanto, não há consenso acerca de como chegamos
à situação atual, no que ela consiste e que medidas adotar. Como
tantas outras palavras e termos, “trabalho de base” corre o risco de
virar um chavão.
Até mesmo o PT não está, hoje, enraizado como deveria no seio
das classes populares, seja em seus locais de trabalho ou de moradia.
Em consequência, o trabalho de organização dessas classes para
lutar por seus direitos elementares foi relativamente abandonado,
perdendo-se grande parte dos laços orgânicos que existiam entre o
partido e aquelas camadas sociais. E a influência de Lula pode ser
neutralizada se a ofensiva reacionária de prendê-lo e impedir sua
candidatura tiver sucesso.
A atualmente frágil relação orgânica entre a esquerda e os con-
tingentes sociais que constituem as principais massas populares se
deve, em grande medida, ao fato da esquerda haver abandonado ou
enfraquecido seu trabalho com base em núcleos de locais de trabalho,
estudo e moradia como os principais instrumentos de organização e
de ação social. Tal abandono reflete também a dificuldade da esquer-
A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil

da em identificar as novas formas de trabalho e quais parcelas da


população atuam em cada setor.
A ausência de organizações de base da própria esquerda enfra-
quece, por sua vez, o trabalho nas organizações de massa (sindicatos,
movimentos, em certa medida o próprio PT). Não há hoje e não há
faz certo tempo, um esforço contínuo para estabelecer, enraizar e
desenvolver as diversas formas de organização de base da sociedade
e participar ativamente delas para a conquista e manutenção dos
direitos, a partir dos elementares.
Como resultado, as lutas e mobilizações massivas muitas vezes
fazem grandes barulhos, mas apresentam pouca eficácia. Não é
raro que as mobilizações sejam espontâneas, mal planejadas e com
98 reduzido potencial, o que permite à repressão policial atacá-las. Em
muitas situações setores das bases ou mesmo das vanguardas tem
optado por radicalizar com ações diretas de rua, montando barrica-
das e caindo nas provocações das forças de segurança do Estado ou
mesmo iniciando enfrentamentos. Também tem ocorrido a infiltração
de agentes do Estado para realizar quebra-quebras e desmoralizar
as manifestações.
É preciso compreender e debater nas organizações que a radi-
calização de ações diretas de rua na atual conjuntura tem ajudado
a esvaziar os atos. Uma radicalização na tática, realizada por uma
vanguarda desconectada do acúmulo político e do estado de ânimo das
massas, só contribui para o isolamento e desmobilização. Também se
faz necessário que o PT e os movimentos sociais organizem serviços
de autodefesa, ordem e segurança para garantir a realização dos atos
e debates e lidar com infiltrados, com as hordas fascistas e impedir
agressões aos manifestantes.
Em tais condições, mesmo que o Partido venha a adotar uma
estratégia e táticas corretas para o momento histórico que o Brasil
atravessa (outra condição essencial para barrar a ofensiva reacioná-
ria), sem núcleos atuantes e estreitamente ligados às organizações
democráticas e populares de todos os tipos, não será possível derrotar
as forças reacionárias e garantir a preservação dos direitos demo-
cráticos e populares.
Além disso, é preciso considerar que a grande maioria das orga-
nizações de massa tem limitações e dificuldades ainda maiores para
organizar os trabalhadores e trabalhadoras do setor informal, que
A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil
apresentam um baixo nível de organização e sindicalização.
Nas últimas décadas, o neoliberalismo promoveu duas iniciativas
combinadas: de um lado, uma ofensiva ideológica do empreendedo-
rismo individualista e meritocrático que estimula os trabalhadores e
trabalhadoras a serem “patrões de si mesmos”; de outro, o aumento
da informalidade, da precarização e da desregulação das relações de
trabalho, uma tendência que agora se aprofunda com a aprovação da
terceirização irrestrita e da antirreforma trabalhista. Hoje, são cerca
de 22 milhões de pessoas na informalidade, sendo que a maior parcela
é composta por mulheres e jovens, em especial as mulheres negras.
Para organizar as trabalhadoras, seja do setor formal ou informal,
é preciso construir uma cultura política que não apenas incorpore 99
as mulheres nos espaços de poder e decisão, por exemplo por meio
de instrumentos como a paridade, como também combater qualquer
tipo de violência contra as mulheres dentro e fora das organizações
de massa.
Será necessário correr contra o tempo para reestabelecer fortes
laços com as organizações sociais de base e se empenhar na criação
dessas organizações onde elas não existam, tendo como eixo principal
a luta pelos direitos sociais básicos, de modo a evitar que se concre-
tize o perigo deles serem completamente atropelados pela ofensiva
reacionária.
Faz-se necessário, portanto, um trabalho consistente no sentido
de, através da própria luta, elevar a consciência política e ampliar a
participação massiva da classe trabalhadora e dos setores populares,
refletindo seus anseios, defendendo-os e transformando-os numa
ação poderosa. Este trabalho será possível apenas se conhecermos,
efetivamente, qual a realidade da classe trabalhadora, e entendermos
como deve ocorrer o diálogo com cada um dos diferentes grupos que
a compõe.

Conclusão
Apontamos ao longo deste documento nossa crítica à estratégia e a
tática adotada pelo nosso Partido dos Trabalhadores, em seu recente
6º Congresso. Seguiremos defendendo que o Partido altere sua estra-
A estratégia da luta pelo socialismo no Brasil

tégia, subordinando a esta nova estratégia as diferentes orientações


táticas demandadas pela conjuntura. Da mesma forma, seguiremos
insistindo na necessidade de alterar, mais que o funcionamento, o
espírito predominante no Partido.
Precisamos de um partido enraizado na classe trabalhadora,
presente em suas lutas cotidianas e gerais, um partido de massas
e militante, um partido que promova os valores do socialismo e da
revolução. A tendência petista Articulação de Esquerda pretende
dar uma modesta contribuição neste sentido. Em 2015 dissemos ser
necessário um “Partido para tempos de guerra”. Mas não foi isto o
que ocorreu. Sofremos uma derrota. Agora, sob condições piores do
que antes, precisamos fazer com que nosso Partido esteja à altura
de vencer esta guerra. 
100
“ Nosso objetivo é construir, na teoria e na prática, uma
estratégia que permita conquistar o poder para
iniciar uma transição socialista, contribuindo
a partir do Brasil para abrir um novo ciclo de expe-
riências de construção do socialismo, portanto um

novo ciclo de tentativas de superar o capitalismo e de
construir uma sociedade comunista. Somos, portan-
to, dos que entendem o socialismo como uma etapa
de transição entre o capitalismo e o comunismo.

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