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ISSN 1806-8073

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Distribuição Gratuita Ano VI – Número 21 – maio a agosto de 2005

Associação Nacional
dos Peritos Criminais Federais
Associação Nacional
dos Peritos Criminais Federais
Diretoria Executiva Nacional

Antônio Carlos Mesquita Charles Rodrigues Valente


Presidente Vice-Presidente

Leonardo Vergara Alan de Oliveira Lopes Sérgio Luis Fava Frederico Quadros D’Almeida
Secretário-Geral Suplente de Diretor Jurídico Diretor de Comunicação Suplente de Diretor Técnico-Social

Bruno Costa Pitanga Maia Roosevelt A. F. Leadebal Júnior Rogério L. de Mesquita Zaíra Hellowell
Suplente de Secretário-Geral Diretor Financeiro Suplente de Diretor de Comunicação Diretor de Aposentados

André Luiz da Costa Morisson Emílio Lenine C. C. da Cruz Antônio Augusto Araújo João Dantas de Carvalho
Diretor Jurídico Suplente de Diretor Financeiro Diretor Técnico-Social Suplente de Diretor de Aposentados

Conselho Fiscal Deliberativo

Paulo Roberto Fagundes Delluiz Simões de Brito Eurico Monteiro Montenegro Renato Rodrigues Barbosa Alyssandra R. de A. Augusto
Titular Titular Titular Suplente Suplente

Diretorias Regionais

ACRE FOZ DO IGUAÇU PARAÍBA RONDÔNIA


Diretor: Rodrigo Marques Cardoso Diretor: Meiga Áurea Mendes Menezes Diretor: Eduardo Aparecido Toledo Diretor: Denis Peters
Suplente: Marcus Vinícius de O. Andrade Suplente: José Augusto Melônio Filho Suplente: Fernanda Scarton Kantorsky
Suplente: Helder Marques Vieira da Silva
apcf.ac@apcf.org.br apcf.pb@apcf.org.br
apcf.ro@apcf.org.br
GOIÁS
ALAGOAS Diretor: José Walber Borges Pinheiro PARANÁ
Diretor: Nivaldo do Nascimento Suplente: Fabiano Afonso de Sousa Menezes Diretor: Silvino Schickmann Júnior RORAIMA
Suplente: João Bosco Carvalho de Almeida apcf.go@apcf.org.br Suplente: Magda Aparecida de Araújo Kemetz
Diretor: José Jair Wermann
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Suplente: Luciana Souto Ferreira
MARANHÃO
AMAZONAS PERNAMBUCO apcf.rr@apcf.org.br
Diretor: Eufrásio Bezerra de Sousa Filho
Diretor: Guilherme Braz de Carvalho Suplente: Luiz Carlos Cardoso Filho Diretor: Agadeilton Gomes L. de Menezes
Suplente: Evandro José de Alencar Paton apcf.ma@apcf.org.br Suplente: Assis Clemente da Silva Filho SANTA CATARINA
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Diretor: Alexanders Tadeu das Neves Belarmino
MATO GROSSO
BAHIA apcf.sc@apcf.org.br
Diretor: Marco Aurélio Gomes Alves PIAUÍ
Diretor: Rogério Matheus Vargas Diretor: Benedito Cláudio Trasferetti
Suplente: William Gomes Gripp
Suplente: Antônio Luís Brandão Franco Suplente: Ricardo Wagner SÃO PAULO
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MATO GROSSO DO SUL Suplente: Eduardo Agra de Brito Neves
CEARÁ RIO DE JANEIRO
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DISTRITO FEDERAL MINAS GERAIS Diretor: Reinaldo do Couto Passos


RIO GRANDE DO NORTE
Diretor: Acir de Oliveira Júnior Diretor: João Luiz Moreira de Oliveira Suplente: Jefferson Ricardo Bastos Braga
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ESPÍRITO SANTO PARÁ TOCANTINS


RIO GRANDE DO SUL
Diretor: Roberto Silveira Diretor: Antonio Carlos Figueiredo dos Santos Diretor: Maurício Monteiro da Rosa Diretor: Carlos Antônio Almeida de Oliveira
Suplente: Fábio Izoton do Nascimento Suplente: Ana Luiza Barbosa de Oliveira Suplente: João Henrique Wilkon Marques Suplente: Daniel Gonçalves Tadim
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Revista Perícia Federal


ISSN 1806-8073
Planejamento e produção: Capa e artes: Gabriela Pires A revista Perícia Federal é uma publicação Correspondências para: Revista Perícia Federal
Assessoria de Comunicação da APCF Diagramação: Marcos Antonio Pereira quadrimestral da APCF. A revista não se SEPS 714/914 Centro Executivo Sabin, Bloco D,
comunicacao@apcf.org.br Revisão: Lindolfo do Amaral Almeida responsabiliza por informes publicitários salas 223/224 CEP 70390-145 – Brasília/DF
Edição e redação: CTP e Impressão: Athalaia Gráfica nem por opiniões e conceitos emitidos em Telefones: (61) 3346-9481 / 3345-0882
Pedro Peduzzi (Mtb: 4811/014/083vDF) Tiragem: 3.500 exemplares artigos assinados. e-mail: apcf@apcf.org.br - www.apcf.org.br

2 Perícia Federal
Sumário Editorial: Antônio Carlos Mesquita
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A PLENO VAPOR
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ISSN 1806-807
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Distribuição Gratuita
Ano VI – Número
21 – maio a agosto
de 2005

Associação
dos Peritos Nacional
Criminais
Federais

a APCF, passamos por um ra, os primeiros 79 PCFs oriundos do último

CAPA
N momento de grandes mu-
danças e acelerado ritmo de
trabalho. Esse ritmo é reflexo
direto do que acontece hoje
no Sistema de Criminalística e na Polícia
Federal como um todo. Muitos frutos do tra-
balho já realizado são agora colhidos, e no-
concurso público tomam posse. A APCF
sente orgulho em ter participado ativamente
do processo de conversão da MP 112/2003
na lei 10.682/2003, criando os 450 cargos
de perito criminal federal que possibilitaram
a realização do maior concurso para a área
já realizado na história do DPF. Parabeni-
OXI, uma “nova” droga? vos desafios se apresentam diariamente. zamos os novos colegas e damo-lhes as
PCF Marcus Vinicius de Oliveira As condições de trabalho para a perícia boas-vindas à Polícia Federal e à APCF.
Andrade no DPF ainda estão distantes do ideal, prin- A nossa Associação também teve a
PÁGINA 11 cipalmente se considerarmos a abrangência oportunidade de participar, como entidade
nacional da nossa atividade. Em muitos es- instituidora, da Fundação Polícia Federal de
tados, a perícia ainda trabalha sem a apare- Apoio ao Ensino e à Pesquisa (FUNPF). A
Corte seletivo de árvores
lhagem mínima necessária, e em condições APCF poderá indicar um dos nove integran-
na Amazônia Legal
precárias, dependendo tes do Conselho de Curadores, que é o ór-
PCFs Clayton Couto e Alexandre Arquivo APCF
da abnegação heróica gão superior de administração da FUNPF.
Henrique Sausmikat
dos peritos para manter Por um lado, a fundação permitirá que
PÁGINA 6
a qualidade dos laudos o conhecimento e o expertise de todos
A utilização emitidos. A Associação aqueles que trabalham ou trabalharam
de escalas de luta continuamente, em na Polícia Federal tenham mais um canal
probabilidade nos várias frentes, para que de disponibilização para outros órgãos
exames grafoscópicos o governo priorize a su- públicos, instituições privadas, entidades


PCFs Marcelo Gatteli Holler e peração dessa deficiên- do terceiro setor e a população em geral.
Carlos André Xavier Villela
cia de meios. Felizmen- Por outro lado, a FUNPF também possui,
PÁGINA 14
te, 2005 está trazendo dentre as suas finalidades precípuas, a
Nossa Associação alguns bons resultados. missão de apoiar a pesquisa científica e
Fraude 419:
O golpe da nota preta defende uma perícia O Instituto Nacional tecnológica e promover o desenvolvimen-
PCF Gustavo Ota Ueno cada vez mais de Criminalística, ór- to do Instituto Nacional de Criminalística, o
PÁGINA 20
atuante e que gere gão central do sistema, que beneficiará toda a perícia.
conta agora com um Estamos seguros de que essa funda-
Audacity Policial resultados práticos amplo e moderno edi-
“ ção representará um marco na dinamiza-
PCF Arnaldo Gomes dos Santos Júnior para a sociedade fício para abrigar todos ção das relações entre o DPF e a socieda-
PÁGINA 24
os setores da perícia, de brasileira, e será um importante fator na
concretizando o sonho solução da questão da segurança pública.
I Seminário de Radioproteção de várias gerações de peritos criminais É o sonho e o trabalho de visionários, em
e Segurança Nuclear federais. E, com recursos dos projetos particular do colega PCF Daelson Viana,
Pedro Peduzzi
Pró-Amazônia/Promotec, finalmente es- transformando-se em realidade.
PÁGINA 29
tão sendo adquiridos equipamentos e sis- Representando a coesão fraterna de
Os peritos, em três tempos temas para a perícia. todos os peritos criminais federais na de-
Pedro Peduzzi Porém, a qualidade e a eficiência da fesa da unidade da atividade pericial, a
PÁGINA 30 Perícia Federal depende não somente dos APCF está a pleno vapor. Nossa Associa-
meios, mas também de pessoal qualificado. ção defende uma perícia cada vez mais
Notas e curtas
PÁGINAS 32 a 34
Enquanto o Curso Superior de Polícia marca atuante e que gere resultados práticos re-
a promoção de 31 peritos ao topo da carrei- levantes para a sociedade.

Perícia Federal 3
ENTREVISTA: Antônio Fernando Barros e Silva de Souza, procurador-geral da República

Ascom/PGR

O novo procurador-geral
da República
Discreto e bastante objetivo, o procurador-geral da República, Antonio Quem é Antônio Fernando Barros e
Fernando Barros e Silva de Souza, nasceu em Fortaleza há 56 anos. Silva de Souza, o novo procurador-
geral da República?
Criado no interior do Paraná, ingressou na carreira em 1975, especiali-
Eu estou no Ministério Público des-
zando-se em matérias de direito constitucional e eleitoral. Casado com
de 1975. Permaneci como procurador
Areozilda Garcia de Souza, é pai de três filhos. da República até 1988, quando fui pro-
Ao ser questionado sobre como pautaria seu trabalho, informa de movido a subprocurador-geral. E des-
forma reduzida: “com seriedade, independência e a observância estrita de então estou no cargo de subprocu-
dos deveres que a Constituição me atribui”. rador-geral aqui em Brasília.

4 Perícia Federal
Como procurador da republica atu- só divulgando, evidentemente, na me- próprias, muitas vezes, mas na grande
ava em Curitiba e já exerci o cargo de dida em que seja possível o fato ser maioria das vezes algum de seus mem-
vice-procurador-geral da República e de conhecimento público sem prejuízo bros pode se desviar da legalidade, da
vice-procurador-geral eleitoral. Atuei para as investigações. Com relação a licitude. De tal forma que os casos de
na Coordenadoria de Câmaras e tive essa questão da investigação, é inte- corrupção não são da instituição. Na
participação no Conselho Superior por ressante ressaltar que o Ministério Pú- verdade são de membros da instituição.
vários mandatos. blico não é o único encarregado de re- E, se tratados pelos mecanismos de
alizar atividades de fiscalização e in- controle devidos, não prejudicam nem
A figura do promotor ad hoc foi vestigação. O tema inclusive é obje- confirmam o vigor da instituição.
definitivamente afastada com a Cons- to de questionamento no Supremo,
tituição de 1988. Recentemente, a em que a Polícia Federal reivindica A importância da prova material
Secretaria de Segurança Pública da para si a exclusividade da investiga- tem levado parlamentares a propor
Paraíba comemorou o fim do cha- ção. A tese do Ministério Público é de a desvinculação entre o corpo peri-


mado delegado comissionado, com cial e as polícias civis nos estados.
a nomeação de dezenas de delega- O sr. acha possível esse cenário
dos de carreira concursados. Como da perícia como órgão autônomo?
o sr. analisa o atual esforço de par- Todas as entidades e instituições Não seria contraproducente disso-
te do Congresso – por meio do PL que têm compromisso com a ciar a Polícia Técnico-Científica da
4.325/2004 – para extinguir a figura investigação e com a prática Polícia Investigativa?
do perito ad hoc na esfera penal? Olha, eu não tenho, sinceramen-
de atos destinados a
Infelizmente não conheço esse pro- te, uma posição firmada sobre isso. O
jeto e acho melhor não comentá-lo. esclarecer eventuais
importante é que os profissionais en-
ilícitos devem agir em carregados das provas periciais ajam
A Polícia Federal está passando,
nos últimos anos, por um proces-

permanente cooperação com competência, com dedicação e
ajam em plena cooperação com aque-
so de oxigenação e ampliação de
les que desempenham as atividades
seus quadros. O sr. encara como vi-
investigativas de outra natureza.
tal para o desenvolvimento das ins-
que não há essa exclusividade, nem
tituições a permanente elaboração
para a PF, nem para o MP. Outros or- Como o sr. pretende conduzir a re-
de concursos públicos de amplo
ganismos estatais também estão au- lação entre a Procuradoria Geral da Re-
acesso à sociedade?
torizados, pela Constituição e por lei, pública e a Perícia Criminal Federal?
O concurso público é uma conquis-
como o Coaf, o Banco Central e a Re- Eu tenho dito e repetido que todas
ta da sociedade democrática e republi-
ceita Federal. Cada um na sua área. A as entidades e instituições que têm
cana. Todas as instituições que querem
questão é de atuação cooperativa. compromisso com a investigação e
ser sérias evidentemente têm os seus
com a prática de atos destinados a es-
quadros obtidos mediante seleção públi-
Várias instituições públicas têm clarecer eventuais ilícitos devem agir
ca. Isso evidentemente é vital para o de-
sido expostas na mídia por casos em permanente cooperação entre si.
senvolvimento de qualquer instituição.
de corrupção, entre elas a própria Sem competição, sem exclusivismos,
A população brasileira nos últi- Polícia Federal. Como o MPF, en- de tal sorte que será nessa linha tam-
mos meses vem assistindo a um es- quanto fiscal externo da ativida- bém a posição em relação à Perícia
petáculo de depoimentos que são, de policial, encara a disposição do Criminal Federal.
muitas vezes, desmentidos alguns DPF em “cortar na própria carne”,
dias depois por provas materiais. num esforço de autodepuração? Alguma mensagem aos peritos?
Nesse contexto, como evitar o de- Todas as instituições – e aí não fi- Sim. A de que continuem desem-
nuncismo, por um lado, e a impuni- cam só as instituições públicas, mas as penhando seu mister com dedicação,
dade, por outro? igrejas, todas as congregações, todas com competência e com a preocupa-
Com a responsabilidade das enti- as entidades, sindicatos, sociedades ci- ção também de cooperar sempre com
dades que têm o dever de investigar, vis etc. – estão sujeitas a isso. Não elas o esclarecimento da verdade.

Perícia Federal 5
CORTE SELETIVO DE ÁRVORES NA AMAZÔNIA LEGAL: PCF Clayton Couto (mestre em Engenharia Florestal) e PCF Alexandre Henrique Sausmikat (bacharel em Engenh

CORTE SELETIVO DE ÁRVORES NA

AMAZÔNIA LEGAL
Algumas modalidades lucrativas de desmatamento predatório com experiência de caminhada em
florestas (mateiros), que, em suas
da mata amazônica escapam da fiscalização por sensoriamento buscas, abrem picadas para a própria
remoto, restando como alternativa a fiscalização no local passagem, marcando o caminho para
seu regresso e posterior acesso do
grupo de extração de madeiras até as

O
s manejos florestais susten- indivíduos adultos, sem cortar as ár- árvores escolhidas. A partir daí ocor-
táveis, obedecendo a prin- vores menores que compõem as va- rem ações como corte, arraste de to-
cípios gerais e fundamentos ras e os varões, e sempre deixando, ras com skider (trator articulado, muito
técnicos, é um sistema planejado em de cada espécie, uma árvore madura próprio para arraste de toras dentro da
que todas as árvores são inventaria- que faz o papel de sementeira, ou floresta) e abertura de carreadores,
das anteriormente à atividade extra- seja, árvore capaz de produzir se- estradas e esplanadas para depósito
tivista, sob um criterioso processo de mentes necessárias para nova colo- das toras. Nesse tipo de ação ocorre
seleção, de forma a identifi car cada nização da espécie, mantendo assim o corte seletivo não planejado com a
espécie madeireira, mensurar o vo- a sustentabilidade da floresta. Nesse retirada do máximo possível de árvo-
lume da madeira, plotar em mapa sua caso o impacto é muito baixo e para res eleitas que apresentam alto valor
localização e dispersão e, ao final, sua execução é necessária a regula- econômico, ocasionando com isso um
escolher e retirar apenas por volta mentação, junto ao Ibama, do Plano gradual empobrecimento da fl oresta
de cinco a seis árvores por hectare de Manejo Florestal Sustentável. e certamente levando à extinção local
a cada 25 anos. Isso significa que No caso do corte seletivo preda- das espécies mais intensivamente
em um hectare, que geralmente tem tório, a atividade madeireira inicia-se exploradas. Depois, a floresta é aban-
cerca de 260 árvores de alto valor com a localização dos indivíduos arbó- donada, geralmente com uma degra-
comercial, quando se tiram cinco ou reos passíveis de interesse comercial. dação que leva dezenas de anos para
seis unidades, está-se retirando os Essa ação é procedida por pessoas se recuperar (vide fotos 1 a 6).

Fotos: Setec/MT

1
1 2

6 Perícia Federal
haria de Minas)

3 4

5 6

FOTO 1: Carreador para retirada de madeira – FOTO 2: Esplanada de toras de cabriúva – FOTO 3: Local de extração da madeira –
FOTO 4: Esplanada onde já retiraram a madeira – FOTO 5: Esplanada encoberta pela copa das árvores – FOTO 6: Acampamento dos madeireiros

Os danos dessa atividade para a as chamadas espécies clímax (espé- importantes em sua dieta na cadeia
vegetação são basicamente a dimi- cies predominantes no nível clímax da alimentar, principalmente para a fau-
nuição do número de indivíduos das evolução florestal), que, diferentemen- na de maior tamanho.
espécies madeireiras; diminuição do te das pioneiras (espécies que primeiro O rastreamento dos vestígios
número de indivíduos florestais, pela colonizam o ambiente), necessitam de desse tipo de corte é dificultado pela
queda e retirada das espécies madei- sombreamento para a germinação e o grande extensão das áreas e o en-
reiras; risco de extinção, no local, de desenvolvimento inicial. cobrimento pela vegetação que se
espécies arbóreas; empobrecimento Além dos danos à flora acima regenera, o que praticamente inviabi-
genético, já que os indivíduos rema- mencionados, podemos identificar, liza operacionalmente a sua quantifi-
nescentes das espécies exploradas, também, interferências na fauna em cação. As dificuldades de localização
quando existem, são em pequeno nú- face dos impactos resultantes das do desflorestamento, de acesso, de
mero; geração de dificuldades, no futu- mudanças de hábitat para grupos ani- mensuração da área desflorestada, de
ro, para a recomposição das espécies mais, que passam a não ter acesso identificação do período do desmate e
pela retirada das plantas-mãe. Essas a certas árvores que lhes ofereçam da quantificação do dano, são uma
modificações afetam particularmente frutos, sementes, folhas e exsudados constante nesse tipo de casuística.

Perícia Federal 7
CORTE SELETIVO DE ÁRVORES NA AMAZÔNIA LEGAL: PCF Clayton Couto (mestre em Engenharia Florestal) e PCF Alexandre Henrique Sausmikat (bacharel em Engenh

Não é possível identificar as áreas possível produzir dados estatísticos b) Garimpo Chapadão, localizado a
de corte seletivo apenas com evidên- em grande escala que representem aproximadamente 46 km da cidade de
cias nos imageamentos de satélite, as áreas já depredadas por essa Juína (MT). Encontra-se no fundo de um
visto que, em face da dificuldade de atividade ilegal em relação às áreas vale próximo à cabeceira de um afluente
identificação dos respectivos locais, intocadas da Amazônia. da margem esquerda do rio Vermelho.
para essa forma de análise exigem-se Para constatar, qualificar e quanti- A vegetação predominante, em
dimensões do objeto acima de 0,5 hec- ficar os danos ambientais, provocados ambos os casos, é a Floresta Om-
tare, e neste caso o objeto tem pontos pelo corte seletivo de espécies arbó- brófila Densa Submontana (Floresta
difusos ou muito reduzidos para a sua reas na Amazônia Legal, os peritos Pluvial Tropical) com inserções de
adequada visualização e interpreta- da Setec/MT realizaram procedimen- tipologia tipo Cerrado.
ção, tendo em vista o padrão da reso- tos de vistorias em dois locais com Primeiramente, na área indígena,
lução espacial das imagens utilizadas características distintas dentro do foram identificadas e quantificadas
(Landsat e CBERS 2). estado de Mato Grosso. as esplanadas (locais de depósito de
E mesmo com imagens de alta toras de madeira, retiradas do interior
resolução espacial, como é o caso Caracterização das da floresta, para posterior embarque e
do satélite Ikonos, por exemplo, a fis- áreas em estudo transporte para as serrarias).
calização fica prejudicada, seja pela A identificação das espécies ve-
dificuldade de identificar as espla- Para este trabalho, foram conside- getais, bem como as tipologias ve-
nadas, já que as copas das árvores radas duas regiões: getacionais encontradas no local
rapidamente encobrem as clareiras, a) Reserva Indígena Sararé, situa- de exame foram baseadas nas ca-
seja pelo alto custo da imagem, que da no sudoeste de Mato Grosso, com- racterísticas dendrológicas e den-
inviabiliza economicamente a ope- preendendo os municípios de Pontes e drométricas intrínsecas ao material
ração. Caso sejam identifi cadas es- Lacerda e Vila Bela da Santíssima Trin- botânico. O Inventário Florestal do
planadas, ainda existe a difi culdade dade, com 67.419,5 hectares e uma local, encomendado pela Funai, exe-
de estabelecer a extensão do dano população aproximada de 97 índios da cutado por Campos Filho, L. V. S. et
que ela representa. Com isso, não é etnia Katithaurlu (vide figura 1). alli, onde foram lançadas parcelas

Esplanadas

Reserva Indígena
Figura 1 – Reserva Indígena
Sararé
Sararé, local onde foram iden-
tificadas, no campo, 55 espla-
nadas, totalizando um corte
seletivo, em 5.648,5 hectares,
de madeiras nobres, no entan-
to, tamanha devastação não é
revelada pela imagem, pelo
menos na resolução espacial
fornecida pelos satélites Land-
sat e CBERS 2

8 Perícia Federal
haria de Minas)

representativas da região e dentro dos fustes e o seu diâmetro à altura e sua distribuição espacial de forma
delas foi identificada cada espécie do peito (a 1,50m do chão). Com esse a obter o volume de madeira de cada
florestal encontrada, com os nomes inventário foi possível estabelecer o espécie por hectare da reserva, como
vulgares e científicos, o comprimento volume de madeira de cada espécie mostra a Tabela 1.

TABELA 1 – RESULTADO DA DISPERSÃO DAS ESPÉCIES


DE VALOR COMERCIAL, EM M³ DE MADEIRA/HA NA RESERVA INDÍGENA SARARÉ.

ANGELIM AMARGOSO – Hymenolobium sp 0,464 m³/ha GARAPEIRA – Apuleia leiocarpa 5,786 m³/ha

CABREÚVA – Myrocarpus frondosus 0,998 m³/ha GUAIÇARA – Luetzelburgia auriculata 0,209 m³/ha

CAIXETA – Qualea albiflora 1,515 m³/ha IPÊ AMARELO – Tabebuia serratifolia 0,65 m³/ha

CAMBARÁ – Moquinia polymorpha 7,434 m³/ha ITAÚBA – Mezilaurus itauba 0,327 m³/ha

CANELA – Nectandra cuspidata 0,431 m³/ha JATOBÁ – Hymanea courbaril 1,500 m³/ha

CANELÃO – Ocotea sp 0,373 m³/ha MANDIOCÃO – Didimopanax morototonii 1,307 m³/ha

CEDRO ROSA – Cedrela odorata 0,742 m³/ha MOGNO – Swietenia macrophylla 0,705 m³/ha

CEREJEIRA – Torresia acreana 1,333 m³/ha PEROBA MICA – Aspidosperma sp 0,994 m³/ha

PEROBA ROSA – Aspidosperma


CUMBARU – Dipterix odorata 0,187 m³/ha 2,229 m³/ha
polineuron

FARINHA-SECA – Parinari excelsa 0,176 m³/ha PINHO CUIABANO – Parkia spp 0,236 m³/ha

Caracterização e quantificação preferencial no local, que é a cabri- um raio de ação de 572 m. Distância
dos danos ambientais úva (madeira da moda), fez-se uma essa em que é viável cortar e arrastar
média das maiores apreensões por a madeira até o ponto de embarque,
Área indígena esplanada. Escolheu-se a média das ou seja, para a esplanada.
No local de exame verificou-se que maiores apreensões porque, quando Dada a natureza móvel do produtor
se trata de corte e/ou supressão de ve- se apreende quantidade muito abaixo do dano, que se irradia por dentro da
getação nativa, na modalidade de corte da média numa esplanada, supõe-se floresta produzindo vestígios que são
seletivo de madeira, ou seja, penetra- que ou a exploração iniciou-se há pou- facilmente camuflados, optou-se pela
ção de exploradores na floresta e extra- co tempo ou já houve a retirada da ma- estimativa do volume de madeira ex-
ção, apenas, das espécies de árvores deira. Obteve-se, com esse método, plorado por esplanada via Inventário
que possuem alto valor econômico em uma média de extração de 102,7 m³ Florestal. Então, para a quantificação
madeira. Essa situação configura uma de cabriúva/esplanada. Considerando da extensão do dano, pode-se utilizar
exploração típica madeireira, onde não os dados de inventário em que a dis- estimativa da abrangência de cada
há intenção de uso do solo para fins de persão da cabriúva no local é de 0,998 esplanada encontrada, ou seja, conta-
atividades agropecuárias. m³/ha (tabela 1), foi possível estimar se o número de esplanadas em campo
Levantando as quantificações das a sua abrangência em área, ou seja, e multiplica-se pelo fator de 102,9
apreensões, ao longo do tempo, pela estimar a área de exploração florestal ha, obtendo-se, assim, toda a exten-
Funai, de madeiras encontradas nas de cada esplanada, que foi de 102,9 são do dano para tipologia florestal
esplanadas, em especial a da espécie ha explorado/esplanada, ou melhor, semelhante. Então, para a Reserva

Perícia Federal 9
CORTE SELETIVO DE ÁRVORES: PCF Clayton Couto (mestre em Engenharia Florestal) e PCF Alexandre H. Sausmikat (bacharel em Engenharia de Minas)

Indígena Sararé, pode-se concluir que ato é dificultada pela gradação do finalidade precípua de retirar o sub-
houve uma devastação de pelo menos fato. Sua detecção só é possível se for bosque e formar pastagens, ou seja,
5.648,5 hectares em toda sua exten- comparada imagem atual de satélite apenas utilizar as potencialidades
são. Tamanho dano não foi revelado com imagem muito antiga para se ob- do solo da região, não sendo nesse
pela imagem de satélite. ter um contraste revelador. caso importante o valor comercial da
Para realização do desmatamento madeira explorada.
Garimpo do Chapadão no local são utilizados motosserras e Em ambos, a fiscalização por
Trata-se de um local de supressão equipamentos automotivos para remo- sensoriamento remoto é ineficaz.
da vegetação nativa, realizando um ção da madeira e enleiramento dos re- Isso denota que toda estatística de
desbaste na fl oresta, com a retirada síduos para possibilitar o plantio de es- levantamento de desmatamento na
de todo o sub-bosque e parte dos indi- pécies forrageiras que servem de pasto Amazônia Legal está mascarada,
víduos arbóreos dominantes, deixan- para gado, como mostra a foto 7. dado ser a prática da modalidade de

FOTO 7: Limpeza do sub-bosque com a finalidade de formação de pastagem

do árvores esparsas com a finalidade Considerações finais corte seletivo a mais comum entre os
de formar pastagens, dificultando a Nos dois casos, tanto na Reserva madeireiros da região. Estamos, en-
percepção do desmatamento pelas Indígena Sararé quanto no garimpo tão, longe de levantar a real situação
imagens de satélite. Esse tipo de do Chapadão, houve atos de corte de depauperamento da vegetação da
ação é um agravante, pois tem como da vegetação arbórea na modalida- floresta amazônica.
finalidade tentar burlar a vigilância dos de de corte seletivo objetivamente
órgãos de fi scalização, que fazem o com a intenção de fugir da fiscali- AGRADECIMENTOS
acompanhamento do desmatamento zação por sensoriamento remoto,
através de imagens de satélite. Em porém com finalidades distintas. À Funai de Mato Grosso, por
seu modus operandi, gradualmente No primeiro, na reserva indígena, a disponibilizar os dados de inven-
vai-se aumentando o desmatamento, finalidade era explorar madeiras de tário florestal e os dados históri-
de forma que ele não será percebido alto valor comercial sem a intenção cos do volume de madeira apre-
facilmente, o que dificulta o desenca- de utilizar o solo para outros fins endida na reserva indígena Vale
deamento de ações de fiscalização in comerciais. Já no segundo caso, do Guaporé.
loco, pois a percepção remota desse no garimpo do Chapadão, havia a

10 Perícia Federal
OXIS OU PASTA BASE?: PCF Marcus Vinicius de Oliveira Andrade (graduado em Farmácia Industrial, mestre em Ciências Farmacêuticas)

Oxi ou pasta base?


Uma “nova droga” começa a fazer vítimas no país, que ainda não conta com os
esclarecimentos técnicos necessários para definir o que vem a ser o oxi
Fotos: PCF Marcus Vinicius
“Não bastasse o efeito “O consumo de uma
devastador do uso do cra- droga derivada da cocaína
ck, que tem se espalhado mais potente e letal do que
pelas regiões Sul e Sudes- o crack foi descoberto por
te do Brasil, uma nova dro- acaso, no Acre. Chamada
ga foi descoberta recente- de oxi, a droga é feita a par-
mente no estado do Acre, tir de resíduos da folha de
fronteira com a Bolívia. coca lacerada e misturada
Possivelmente uma das à cal virgem e querosene.
mais potentes e perigosas Sua proliferação foi detec-
drogas conhecidas, o oxi tada por pesquisadores
ou oxidado, como é co- que estudavam o grau de
nhecido pelos seus usuá- vulnerabilidade de usuários
rios, é uma variante do de drogas às doenças se-
crack. A diferença é que, xualmente transmissíveis.
na elaboração, ao invés de se acrescentar bicarbonato e O oxi é tão potente que pelo menos 13 usuários, não
amoníaco ao cloridrato de cocaína, como é o caso do cra- encontrados após a conclusão das pesquisas, foram da-
ck, adiciona-se querosene ou cal virgem para obter o oxi.” dos como mortos por conhecidos.”

The Narco News Bulletin, 13 de maio de 2005 Estadão, 14 de abril de 2005

D
esde meados do primeiro se- Mas, o que de fato é o oxi? É real- Federal no estado é de pasta base. O
mestre deste ano, uma “nova mente uma nova droga como propaga refino e o batismo, etapas seguintes
descoberta” vem tomando cor- a imprensa ou uma nova forma de no processo de produção e comercia-
po na imprensa. A partir de uma pesqui- consumo da cocaína? E será que é lização da cocaína, não são realiza-
sa patrocinada pelo Centro de Controle tão nova assim? Este artigo se propõe dos no estado acreano. Pelo menos
de Doenças dos EUA, a ONG Reard a lançar essa discussão e colocar o essa não é a regra.
(Rede Acreana de Redução de Danos) assunto em pauta, para estimular tra- A característica de ponto de pas-
levantou-se, junto a viciados nas cida- balhos que visem ao esclarecimento sagem da cocaína em seu estado de
des acreanas de Rio Branco, Epitacio- técnico dessa questão antes que o mito pasta base, “suja”, alia-se à condição
lândia e Brasiléia, dados suficientes oxi se torne verdadeiro demais. socioeconômica da capital acreana,
para, segundo a instituição, comprovar fator que pode ter contribuído para o
o uso crescente de uma nova droga. A SITUAÇÃO DA FRONTEIRA alastramento do oxi e a difusão do tráfi-
Desde então o oxi, ou oxidado, passou Com relação ao tráfico, uma das co e consumo de drogas na capital. No
a sustentar o título de “uma das mais po- principais características da frontei- que concerne ao aspecto socioeconô-
tentes e perigosas drogas conhecidas”, ra acreana é ser notadamente um mico, Rio Branco possui o pior Índice
ou ainda, “mais potente e letal do que ponto de passagem da coca. Por de Desenvolvimento Humano (IDH) da
o próprio crack”, segundo reportagens isso, historicamente grande parte das região Norte e o 21º do país. Fica em
como as exemplificadas acima. apreensões realizadas pela Polícia penúltimo lugar do Brasil quando se

Perícia Federal 11
OXIS OU PASTA BASE?: PCF Marcus Vinicius de Oliveira Andrade (graduado em Farmácia Industrial, mestre em Ciências Farmacêuticas)

Pasta base de cocaína apreendida em Rio Branco e acondicionada juntamente com pó de café. Dentre as muitas formas de
dissimulação da droga utilizadas por traficantes, esta é uma das mais populares

considera o IDI (Índice de Desenvolvi- para colocar, literalmente, trabalhado- a forma de cocaína consumida pelas
mento Infantil) e é campeã em concen- res nas mãos de traficantes. O serviço camadas mais pobres da população.
tração de renda. A falta de saneamento de “mula” acaba por se mostrar como a Talvez daí tenha surgido o oxi, a pasta
básico, assistência médico-hospitalar única alternativa de muitos jovens para base fumada. O nome oxi, aliás, pode
precária e o difícil acesso da popula- conseguir alguma renda. Por conse- ser ainda originário do fato de a pasta
ção ao sistema público de saúde são qüência disso, o sistema os coloca em base encontrada na região já ter pas-
causas diretas no desenvolvimento contato direto com a droga: cocaína na sado pelo processo de oxidação, pela
desse quadro. Não há praticamente in- forma de pasta base. ação do permanganato de potássio.
dústrias no estado, cuja principal renda Abundante na região, a pasta
provém de verbas federais. Segundo base não possui um preço tão ele- QUANTO AOS ASPECTOS
José Mastrângelo, em artigo publicado vado quanto o cloridrato de cocaína MORFOLÓGICOS
no jornal O Rio Branco, o desemprego ou mesmo o crack, formas menos E FÍSICO-QUÍMICOS
chega a cerca de 38% da população freqüentes de serem encontradas no A dificuldade que se impõe é dis-
ativa. Isso contribui de forma decisiva Acre. A pasta, bastante acessível, é tinguir o que é o oxi e o que é pasta

12 Perícia Federal
base. O crack e as formas mais pu- No laboratório, quanto aos en- são apreendidas grandes quantida-
ras da cocaína já refinada – tanto o saios físico-químicos mais corriquei- des de pasta base de cocaína. Não
sal quanto a base livre –, possuem ros realizados para a cocaína, não há nenhuma menção relativa ao oxi,
características físico-químicas que há distinção clara daquilo que é cha- mesmo porque, com os recursos
os distinguem facilmente de outras mado de oxi e de pasta base. Testes técnicos atualmente disponíveis no
formas de apresentação. Já a pasta como Scott Modificado, Mayer e Cro- estado, não há como diferenciá-lo da
base e o oxi são muito parecidos, matografia em Camada Delgada (nos pasta base. A única distinção fica por
isso admitindo que exista realmente dois sistemas de eluição) apontam conta de informações prestadas pelos
alguma diferença em seus consti- indubitavelmente para a presença do agentes da Polícia Federal respon-
tuintes. Ambos possuem coloração alcalóide cocaína e ausência de man- sáveis pela apreensão, sem nenhum
ocre a amarelada. chas características, e que possam embasamento técnico-científico.

O oxi, à esquerda, e a pasta base, à direita: as diferenças são inerentes à procedência do produto

Dependendo de sua origem, podem apontar para prováveis diferenças, Existe uma necessidade premente
ser encontrados na forma de pedras em outra região da placa cromato- de desenvolvimento de um estudo a
ou em consistência sólida e úmida. gráfica. Os testes de solubilidade respeito do assunto, de forma a escla-
Além disso, possuem odor bastante são claros em apontar a presença do recer definitivamente a questão.
característico, oriundo dos solventes alcalóide na forma de base livre. Ca- Há, tecnicamente, alguma dife-
utilizados na sua obtenção. Sabe-se racterísticas físicas como cor, odor e rença na composição da pasta base
que os solventes e produtos utilizados forma são bem similares. em relação àquilo que é chamado
para produção da pasta base são os As variações observadas nesses popularmente de oxi? É, este último,
mais variados possíveis dentro das aspectos são mais provavelmente de- produto da oxidação da pasta base,
características exigidas para o pro- rivadas das características inerentes a etapa comum no processo de refi no
cesso. Na sua maioria, são produtos cada lote de apreensão (origem, forma da cocaína, e que por questões so-
como a cal virgem, cimento (utilizado de transporte, qualidade e quantidade cioeconômicas regionais difundiu-se
nas regiões agrícolas colombianas), dos insumos utilizados na produção) como alternativa de droga de abuso?
querosene, ácido sulfúrico, entre ou- do que propriamente das duas formas Essas questões precisam ser res-
tros. Os mesmos que, teoricamente, da droga. Isto é: a princípio, tecnica- pondidas antes que se crie um mito
são utilizados para a produção do oxi. mente não há distinção alguma. baseado num falso rótulo, um marke-
Poderia, portanto, ser o oxi classificado Oficialmente – pelos dados coleta- ting perigoso para disseminação e
tecnicamente como pasta base? dos pelo Setec/AC –, em Rio Branco consumo indiscriminados da droga.

Perícia Federal 13
GRAFOSCOPIA: PCF Marcelo Gatteli Holler (mestre em Química e químico industrial) e PCF Carlos André Xavier Villela (mestre em Engenharia Civil)

A UTILIZAÇÃO DE ESCALAS
DE PROBABILIDADE
NOS EXAMES
GRAFOSCÓPICOS
e a sua margem de erro
Uma das principais críticas ao exame
grafoscópico é a de que ele não possui uma
margem de erro conhecida. A fim de se obter
uma estimativa desse erro, diversos estudos
têm sido realizados

INTRODUÇÃO Embora, no passado, já tenham Em Grafoscopia, costuma-se

A
Grafoscopia pode ser definida havido tentativas pouco frutíferas de fazer a distinção entre exames de au-
como a técnica que procura desenvolver métodos não subjetivos de tenticidade e de autoria. Os exames
identificar a autoria (ou des- comparação da escrita, por medições de de autenticidade são aqueles em que
cartar a possibilidade de autoria) dos tamanhos e ângulos dos traços, a com- se comparam escritos que de direito
lançamentos manuscritos. paração na Grafoscopia é feita por crité- deveriam ter partido de determinado
A premissa básica da Grafoscopia rios predominantemente subjetivos, que indivíduo com padrões de escrita
é de que a escrita é individual: cada dependem do julgamento dos peritos deste mesmo indivíduo (exemplo: as-
pessoa irá produzir uma escrita que (todavia, recentemente, softwares de sinatura em um cheque). O resultado
será diferente das escritas de quais- reconhecimento automático de escrita que se busca é dizer se os lançamen-
quer outras pessoas, o que torna foram desenvolvidos1). tos são autênticos ou não. Quando o
possível identifi car o autor de deter- Fotos: Setec/RS que se deseja não é determinar se os
minada escrita. Essa premissa, até o lançamentos são autênticos ou não,
momento, foi pouco sujeita a testes mas saber o seu autor, têm-se os exa-
científicos, embora alguns trabalhos mes de autoria.
tenham sido realizados1. A Grafoscopia é uma parte da Do-
O método da Grafoscopia é essen- cumentoscopia, e esta é abrangida
cialmente a comparação dos lança- pela Criminalística. A Criminalísti-
mentos questionados (escritas ques- ca é a disciplina que, munida de di-
tionadas) com padrões cujos autores versas técnicas, mediante o exa-
são conhecidos. Software utilizado para reconhecimento de escrita me de vestígios materiais, busca o

14 Perícia Federal
esclarecimento de fatos ligados a
crimes ou contravenções.
A finalidade precípua da Grafosco-
pia é, então, obter um resultado que
seja utilizável pela Justiça (ou forneça
subsídios para a ação policial investi-
gativa). A maneira como esses resul-
tados são expressos é extremamente
importante e é o tema sobre o qual
versa este artigo.

A EXPRESSÃO DOS RESULTADOS Duas assinaturas para comparação

DE EXAMES GRAFOSCÓPICOS:
SITUAÇÃO NO BRASIL Lupa estereoscópica
Em consultas aos órgãos oficiais
que realizam exames grafoscópi-
cos no Brasil, os autores verificaram
pouca uniformidade na forma com
que os resultados são expressos, e
também uma carência de obras que autoria dos lançamentos questionados A segunda corrente: o uso de termos
abordem o assunto de forma aprofun- a fulano de tal”. de probabilidade
dada, mas é possível identificar duas Um dos defensores dessa corrente Essa corrente, além de utilizar
tendências principais: é o autor Lamartine Bizarro Mendes, os tipos de resultados categóricos
que, no seu livro Documentoscopia2, já citados acima, ainda utiliza outras
A primeira corrente: o uso exclusivo afirma: “As conclusões, para a perícia expressões para contemplar aquelas
de conclusões categóricas grafotécnica, sempre são expostas situações em que, apesar de existi-
Essa corrente prega a utilização de categoricamente, seja para afirmar rem indícios, ainda persiste alguma
três formas apenas para expressar os ou negar. Com isso, o examinador razoável dúvida. São agregadas então
resultados: 1) afirma-se categorica- não pode usar verbos no condicio- expressões do tipo “(provavelmente)
mente a autoria (ou autenticidade) de nal e nem apresentar alternativa”. O (muito provavelmente) os lançamentos
um escrito quando os peritos julgarem mesmo autor admite, entretanto, a questionados foram (ou não foram)
haver elementos suficientes para possibilidade de que, quando se tratar produzidos por fulano”.
assim concluir; 2) nega-se categorica- de exames de autoria, nem sempre é Del Pichia, no seu livro Tratado de
mente essa autoria (ou autenticidade) possível chegar-se a uma conclusão, Documentoscopia3, que, apesar de ter
se os indícios forem suficientes nesse porém, quando o assunto for exames tido sua última edição em 1976, ain-
sentido; 3) o exame é reportado como de autenticidade, ele afirma: “...ques- da é uma importante referência para
inconclusivo caso existir, na opinião tões que envolvem indagações sobre aqueles que trabalham com Docu-
dos peritos, alguma possibilidade de a legitimidade de um lançamento sem- mentoscopia, admite o uso de conclu-
dúvida. As respostas afirmativas ou pre comportam uma solução, seja ela sões não categóricas: “Muitas vezes
negativas são dadas de forma taxati- de autenticidade, seja de falsidade. o perito se encontrará na situação de
va, sem fazer menção a qualquer pos- Disso não há como fugir: ou uma as- não poder afirmar, nem negar a auto-
sibilidade de incerteza. sinatura é legítima ou é apócrifa. Não ria. Terá que se restringir às filiações,
Quando os peritos afirmam a auto- há meio termo”. Bizarro Mendes reco- isto é, probabilidades, em diferentes
ria, podem utilizar textos do tipo “foram nhece que existem críticas à exatidão graus, traduzidas por ‘ligeira’, ‘sim-
encontradas semelhanças (entre os da perícia grafotécnica, mas parece ples’ ou forte filiação”.
lançamentos questionados e os forne- creditá-las, principalmente, à atua- Em exames de autenticidade, Del
cidos como padrões) em quantidade ção de profissionais de má-fé ou de Pichia admite, ainda que apenas em
e qualidade suficientes para atribuir a pessoas inexperientes. casos excepcionais, a impossibilidade

Perícia Federal 15
GRAFOSCOPIA: PCF Marcelo Gatteli Holler (mestre em Química e químico industrial) e PCF Carlos André Xavier Villela (mestre em Engenharia Civil)

de poder concluir-se categoricamente:


“Apenas quando os padrões são insufi-
cientes, ou, em casos excepcionalíssi-
mos (como determinadas questões de
marcas individuais ou rubricas), o pe-
rito pode não chegar a uma conclusão
categórica e segura”.

Comparação entre as correntes Por ser individual, a escrita possibilita a identificação de seus verdadeiros autores
Ambas as formas de expressar os
resultados têm os seus ferrenhos defen-
sores. Aqueles que optam pela primeira
forma costumam dizer que os peritos
só devem pronunciar uma conclusão
quando houver absoluta certeza, e que
qualquer forma de expressar os resul-
tados que faça menção a uma possível
dúvida torna o laudo inválido, pois ha-
vendo uma incerteza o laudo poderia
ser impugnado pela parte que se sentis-
se prejudicada com o seu resultado.
Aqueles que defendem a segun-
da maneira soem dizer que, mesmo
havendo uma razoável incerteza, os
peritos não devem deixar de expressar
as suas opiniões, pois as informações
que estariam omitidas em um resultado
“inconclusivo” poderiam ainda ser de
utilidade para a justiça. Parte de assinatura questionada. Exames podem ser de autoria e autenticidade
A semelhança entre essas duas ten-
dências principais está em que, quan- de probabilidade, diferentes peritos 1. Em minha opinião, os lançamen-
do existem indícios suficientemente podem utilizar termos desiguais que, tos questionados foram feitos pelo
fortes, os resultados são expressos de ao final, podem confundir aqueles que indivíduo fornecedor dos padrões de
forma taxativa, seja pela atribuição ou precisam utilizar-se do laudo, dando confronto.
pela negativa de autoria. uma idéia irreal do grau de certeza que 2. Em minha opinião, há uma alta
Em outros países, encontraremos o perito quis referir. probabilidade de que os lançamentos
maneiras diferentes de expressar os Para evitar esse problema, diver- questionados tenham sido feitos pelo
resultados, como veremos adiante. sos pesquisadores da área têm pro- indivíduo fornecedor dos padrões de
posto o uso de escalas fixas de proba- confronto.
A SISTEMATIZAÇÃO DE ESCALAS bilidades (as quais são ainda pouco 3. Os vestígios são consistentes
DE PROBABILIDADE NOS EXAMES usadas no Brasil). com a possibilidade de que os lança-
GRAFOSCÓPICOS Uma das escalas mais conhecidas mentos questionados tenham sido
Quando forem utilizadas conclu- é a proposta por David Ellen, antigo feitos pelo indivíduo fornecedor dos
sões não categóricas, mas em termos chefe do London Police Laboratory. padrões de confronto.
de probabilidades, um problema pode Em artigo publicado em 19794, Ellen 4. Os vestígios são inconclusivos.
advir da falta de uniformidade dos ter- sugeriu o uso de cinco categorias para 5. Não há indícios de que os lança-
mos utilizados por diferentes peritos: expressar os exames de autoria, que mentos questionados tenham sido feitos
ao querer explicitar uma estimativa podem ser traduzidas como: pelo indivíduo fornecedor dos padrões

16 Perícia Federal
de confronto, mas sim de que tenham - identificação categórica; Formas semelhantes de expressar
sido feitos por pessoas diferentes. - forte probabilidade de identificação; os resultados, sem incluir conclusões
Interessante é notar que o perito - pequena probabilidade de identifi- categóricas, são vistas em outros paí-
utiliza a expressão “opinião”, o que cação; ses da Europa.
não costuma acontecer no Brasil. En- A característica mais marcante
- exame inconclusivo;
tre autores estrangeiros, tem havido dessa maneira de expressar os resul-
- pequena probabilidade de elimina-
alguma controvérsia sobre o que é tados é a ausência das conclusões
ção;
mais adequado: expressar os resul- taxativas, o que é justificado, por
- forte probabilidade de eliminação;
tados em termos de “opiniões” ou em aqueles que as utilizam, pela impossi-
- eliminação categórica.
termos de “conclusões”5. bilidade de se obter uma certeza abso-
Tom Davis, perito inglês, em sua luta em um exame grafoscópico.
Nos Estados Unidos, as escalas de
obra Forensic handwriting analysis in
probabilidade são também utilizadas.
the UK6, aponta o fato de que a escala A CORRESPONDÊNCIA ENTRE OS
Existe inclusive uma norma da ASTM
de Ellen não é simétrica: existem três RESULTADOS EXPRESSOS DE DI-
(American Society of Testing and Ma-
categorias para uma provável identi- FERENTES FORMAS
terials) que estabelece a terminologia
ficação de autoria e apenas uma para Imaginemos a seguinte situação:
padrão recomendada para expressar os
uma negativa de autoria. O mesmo Tom dois peritos examinam os mesmos
resultados dos exames grafoscópicos9.
Davis diz que as provas de Grafoscopia lançamentos manuscritos e chegam à
A ASTM preconiza uma escala com
têm um peso importante nos tribunais mesma opinião: de que os lançamen-
nove pontos, traduzidos aqui como:
ingleses, mas que os peritos oficiais, tos questionados partiram de determi-
trabalhando em casos criminais, são nado escritor.
- Identificação
extremamente cautelosos, deixando Um desses peritos segue a linha
- Alta probabilidade
as conclusões “categóricas” apenas de expressar os resultados de forma
- Probabilidade
para os casos mais excepcionais. categórica, e afirma taxativamente que
- Indicações
Ainda sobre a perícia grafoscópica “os lançamentos foram produzidos por
- Sem conclusão
na Inglaterra, o já citado David Ellen, fulano de tal”.
- Indicações negativas
no livro The Scientific Examination of O segundo perito utiliza escalas de
- Probabilidade negativa
Documents7, refere que a maioria dos probabilidade que excluem as afirma-
- Alta probabilidade negativa
peritos (da Inglaterra) utiliza escalas ções categóricas, e afirma, utilizando
de cinco ou seis graus de probabilida- - Eliminação o grau máximo de certeza de seu
de e cita, para os exames de autoria, sistema de expressar resultados, que
Até agora, apresentamos sistemas
os termos: identificação, alto grau de “muito provavelmente os lançamentos
para expressar resultados que incluem
probabilidade, baixo grau de probabili- foram produzidos por fulano de tal”.
conclusões categóricas, mas em al-
dade, exame inconclusivo e exclusão; Essas duas afirmações, vistas fora
guns países isso não costuma ocorrer
e para os exames de autenticidade: de contexto, podem parecer traduzir
entre os peritos oficiais.
quase certamente autêntico, prova- realidades diferentes. Para um leigo,
Em Portugal, por exemplo, no La-
velmente autêntico, exame inconclusi- a primeira afi rmação pode dar a im-
boratório de Escrita Manual da Polícia
vo, provavelmente inautêntico, quase pressão de maior grau de certeza do
Judiciária, até maio de 2004, eram utili-
certamente inautêntico. que a segunda, mas isso não é ver-
zadas as expressões10:
Observe-se que o autor faz dife- dade. Todas as técnicas têm as suas
renciação entre os “termos de proba- limitações e inexatidões, e expressá-
- Muitíssimo provável
bilidades” para exames de autoria e de las em palavras mais veementes não
- Muito provável
autenticidade, deixando para a autenti- diminui essas limitações. No caso
cidade conclusões menos categóricas. - Provável usado como exemplo, ambos os pe-
Outros autores propuseram escalas - Possível ritos expressaram os resultados utili-
simétricas de termos de probabilidade, - Não concluir zando os graus máximos de certeza
tal como a escala proposta por Totty8, - Provável não dos seus sistemas adotados, logo as
aqui traduzida como: - Muito provável não conclusões são idênticas.

Perícia Federal 17
GRAFOSCOPIA: PCF Marcelo Gatteli Holler (mestre em Química e químico industrial) e PCF Carlos André Xavier Villela (mestre em Engenharia Civil)

A DETERMINAÇÃO DE MARGENS gência de opiniões de


Perita
DE ERRO EM GRAFOSCOPIA peritos experimentados.
analisando
Desde o início da década de 90, os O próprio autor bra- documento
exames grafoscópicos têm sido alvo de sileiro Del Pichia, em
críticas e polêmica, principalmente nos seu livro Tratado de
Estados Unidos da América11. Documentoscopia,
Em 1993, a Suprema Corte daquele re conhece a possibi-
país estabeleceu uma lista de critérios lidade de ocorrerem
a ser seguida pelos juízes a fim de po- divergências nos re-
der aceitar o testemunho de peritos, sultados dos exames
conhecidos como Critérios Daubert12. grafoscópicos, mesmo
Esses critérios são: entre peritos experien-
tes: “Na interpretação
- Existe falsificabilidade de alguns fatos grafo-
para a técnica? cinéticos poderá haver,
- Existe uma margem em casos particulares,
de erro conhecida? confusões. Por esse
- Existem padrões de controle motivo admite-se a
para a técnica? controvérsia honesta
- A técnica foi submetida ao escrutínio entre dois peritos qua-
de outros praticantes da área? lificados”. E em outra
passagem: “Obviamen-
- A técnica é aceita pela
te, quanto mais com-
comunidade científica da área?
petente e experimen-
Diversas cortes americanas, es- tado o perito, desde que disponha de Como exemplo, em experimentos
pecialmente na área cível, chegaram aparelhamento normal para os exa- com peritos profissionais, Kam e ou-
a recusar por completo a utilização da mes gráficos, menos erros cometerá tros14 encontraram um percentual de
Grafoscopia em alguns casos, alegan- nessas interpretações”. 6,5% de atribuições erradas de auto-
do que ela não preenchia os critérios À primeira impressão, a noção de ria, enquanto Sita e outros18 detecta-
acima, mas até hoje ela é utilizada pela que pode existir um erro associado ram um percentual de erro de 3,4%
Justiça americana. com um exame de identificação fo- na determinação de autenticidade ou
Uma das principais críticas que se rense, como é a Grafoscopia, pode falsidade de assinaturas.
fez à Grafoscopia é de que ela não pos- provocar grande preocupação, tanto Como se pode ver, esses percen-
sui uma margem de erro conhecida. entre os praticantes da técnica como tuais são bastante significativos, ainda
Inicialmente, alguém poderia se entre aqueles que se utilizam dela, mais se tratando da área forense.
perguntar: os exames grafoscópicos ou seja, a Justiça. Alguns poderão Diversos trabalhos também de-
são sujeitos a erros? Ora, o exame dizer que uma margem de erro qual- terminaram que, embora sujeitos a
grafoscópico depende do julgamento quer, diferente de zero, é inaceitável erros, os peritos profissionais têm
humano: é o perito que vai examinar os nesses casos. Porém, como em qual- um desempenho melhor do que as
escritos, identificar semelhanças ou di- quer exame científico, existirá uma pessoas leigas.
ferenças, determinar o quão relevantes margem de erro. As margens de erro encontradas
elas são e emitir a sua conclusão. Se os Para tentar chegar a uma estimativa por Sita e outros 18 foram bastante
homens são falíveis, logo os exames do grau de confiabilidade dos exames dependentes dos peritos: enquanto al-
grafoscópicos também o devem ser. grafoscópicos, diversos trabalhos, nos guns se saíram muito bem nos testes,
Ao longo da história temos encon- últimos anos, têm se focado na deter- outros tiveram desempenho bem pior.
trado diversos casos de erros de julga- minação do percentual de erro dos O mesmo autor também determinou
mento de peritos, e até hoje é muito fácil exames grafoscópicos em experimen- que em escritas de baixa complexidade
encontrar casos em que ocorre a diver- tos controlados13,14,15,16,17,18. o percentual de erro foi maior.

18 Perícia Federal
Quando assumimos que os exames Dentro desse contexto, é importante do para que não haja falsas interpreta-
grafoscópicos são sujeitos a erros, em não se pensar nos exames grafoscó- ções da realidade devido a possibilida-
uma margem que não pode ser avalia- picos de maneira isolada. Em muitos des de erro não contabilizadas.
da com precisão, torna-se justificável a casos, eles servirão como uma das pro-
posição adotada por peritos de outros vas do processo e, mesmo que não seja AGRADECIMENTOS
países, os quais têm se utilizado de es- possível chegar a um resultado taxativo,
calas de probabilidade que excluem as uma indicação de forte probabilidade Aos peritos criminais federais
conclusões categóricas. pode, juntamente com outras provas, Frederico Quadros de Almeida
ajudar a formar o convencimento neces- e Charles Rodrigues Valente pe-
CONCLUSÃO sário para fundamentar uma sentença. las valiosas sugestões ao artigo.
Como visto, nos últimos tempos, Dessa forma, os exames grafoscó-
a Grafoscopia tem sido submetida ao picos podem continuar a cumprir a sua CONTATOS:
escrutínio de pesquisadores, que têm função, que é de fornecer subsídios,
gatteli.mgh@dpf.gov.br
ajudado a construir uma base cada vez juntamente com outros indícios, para
villela.caxv@dpf.gov.br
mais científica para a técnica. se obter conclusões confiáveis, cuidan-

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Perícia Federal 19
DOCUMENTOSCOPIA:RPCF Gustavo Ota Ueno (bacharel em Farmácia-Bioquímica)

Fraude 419
O golpe da nota preta
Nem sempre o termo “nota preta” designa dinheiro
em abundância. Isso foi constatado durante as
investigações de um golpe conhecido por Fraude
419, número do artigo que, segundo o Código
Penal da Nigéria, trata sobre estelionato

Introdução sente-se humilhada, tem vergonha de Nossa moeda atual tem 11 anos.

G
anância é, ao mesmo tem- ter sido enganada e não reporta o fato Numa análise instantânea, faltam 14
po, o que motiva e o que às autoridades. anos para alcançarmos a moeda que
fortalece esses golpistas. mais tempo ficou em vigor no país, desde
Como em diversos outros Histórico a criação do Banco Central, sendo atual-
golpes, a ingenuidade e a sede de Desde a criação do Banco Central do mente a terceira que mais anos vigorou.
ganho fácil são os pré-requisitos para Brasil o dinheiro brasileiro já teve diver- A estabilidade da moeda atual, em
torna-se vítima do esquema. E para sas denominações por períodos varia- relação às anteriores, bem como a dis-
piorar as coisas, ou melhorar para os dos. A tabela 1 abaixo relaciona o nome, seminação da informática (impressoras
criminosos, em muitos casos a vítima a época e a equivalência monetária: de alta resolução, por exemplo) podem
ser explicações para o aumento das
TABELA 1: DENOMINAÇÃO DA MOEDA,
ocorrências de falsificação do dinheiro
PERÍODO DE CIRCULAÇÃO E EQUIVALÊNCIA
nacional. A facilidade de comunicação
DENOMINAÇÃO PERÍODO EQUIVALÊNCIA e deslocamento global, por meio de
popularização do uso da Internet e da
Cruzeiro 1942-1967 1.000 réis para 1 cruzeiro facilidade de vôos intercontinentais,
aliada à estabilidade do Real, pode fa-
Cruzeiro Novo 1967-1970 1.000 cruzeiros para 1 cruzeiro novo
zer com que quadrilhas especializadas
Cruzeiro 1970-1986 mantida em fraudes, como a descrita a seguir,
atuem utilizando não só dólares ou eu-
Cruzado 1986-1989 1.000 cruzeiros para 1 cruzado
ros, mas reais também.
Cruzado Novo 1989-1990 1.000 cruzados para 1 cruzado novo
Objetivo
Cruzeiro 1990-1993 mantida
Este artigo tem como objetivo
Cruzeiro Real 1993-1994 1.000 cruzeiros para 1 cruzeiro real alertar os profissionais ligados ao
cumprimento da Justiça no Brasil
Real 1994- 2.750 cruzeiros reais para 1 real
sobre um tipo de golpe chamado de

20 Perícia Federal
“Fraude 419”. O número faz referência abertura de uma conta especial para o Fotos: PCF Gustavo Ota

ao artigo do Código Penal da Nigéria envio do dinheiro.


que trata sobre estelionato. A trapaça A fase seguinte da fraude é conven-
não é nada convincente para pessoas cer a vítima de que a transferência do
de bom senso, mas o fato é que foram dinheiro está de fato ocorrendo. Docu-
encontrados indícios de que uma mentos falsificados, como cartas de cré-
variante da fraude estaria ocorrendo dito de bancos e outros contendo selos
com notas de 50 reais. oficiais, seriam enviados, quase sempre
com menção ao nome da vítima.
Descrição Inúmeras trocas de e-mails, fax e te- Foto 1 – Notas pretas apreendidas
O modus operandi dos esteliona- lefonemas ocorreriam entre os golpis-
tários, conforme descrição contida na tas e a vítima com o intuito de ganhar
página da Interpol na Internet, tem di- sua confiança e coletar dados pesso-
versas variações, mas é apresentado ais. Dados como contas bancárias,
essencialmente da seguinte forma: documentos de identificação, ende-
Um indivíduo ou uma empresa reços e pessoas de contato poderiam
recebe uma comunicação, ser futuramente utilizados para realizar
fax ou corres- novos crimes no nome da vítima.
pondência O próximo passo é a fraude pro-
eletrônica (e- priamente dita. Os fraudadores ale-
Foto 2 – Tamanho similar ao de uma nota real
mail), em que o remetente alega ser gam que alguns imprevistos apare-
cidadão nigeriano e oferece um negócio ceram repentinamente e só poderiam
altamente lucrativo. ser resolvidos com a assistência da
O desconhecido diz ser parente de vítima. Um funcionário público esta-
um membro do governo ou de um rico ria exigindo propina para eventuais
empresário que teria morrido durante desembaraços ou uma taxa deveria
mudanças políticas daquele país. ser paga ao governo nigeriano antes
O falecido teria uma quantia enor- que o dinheiro pudesse ser trans-
me de dinheiro depositado numa con- ferido. Poderiam ser, por exemplo,
ta de um banco da Nigéria e a soma taxas de licenciamento, registro e/ou
informada geralmente varia entre honorários advocatícios. Cada taxa
oitocentos mil a dezenas de milhões paga seria mencionada como sendo Foto 3 – Garrafas com as substâncias utilizadas

de dólares, mas pode alcançar cifras a última a ser paga. São requeridos
ainda maiores. pagamentos adicionais e o esquema
O remetente afirma que tem total é prolongado até que a vítima já não
acesso à conta e pretende transferir o queira mais investir. Na ânsia de pelo
dinheiro para uma conta no exterior. menos tentar recuperar o dinheiro
Ele convence o destinatário de que não gasto, a vítima pode estar correndo o
haveria outra pessoa confiável para risco de perder ainda mais.
ajudá-lo, pois o contato foi feito através Num possível passo seguinte, é
de uma recomendação e promete até solicitado um encontro na Nigéria para
50% da soma total em troca do auxílio. conclusão da negociação, mas muitas
O remetente solicita discrição e, vezes é solicitado que a vítima viaje
dada a quantia exorbitante, a vítima para países neutros para a entrega do
ignoraria protocolos de transações dinheiro num quarto de hotel. Capitais
Foto 4 – Nota apreendida com marca d’água
financeiras e se esqueceria de tomar européias como Londres, Madri e Ams- visível (inferior)
precauções cabíveis. É solicitada a terdã são comuns.

Perícia Federal 21
DOCUMENTOSCOPIA:RPCF Gustavo Ota Ueno (bacharel em Farmácia-Bioquímica)

Fotos: PCF Gustavo Ota As notas pretas Após o pagamento a vítima fica
De acordo com informações conti- com uma mala cheia de papel preto e
das na página da Nova Scotland Yard os criminosos desaparecem.
na Internet, essa fraude é geralmente Dezenas de milhares de correspon-
utilizada numa continuação da anterior. dências, incluindo e-mails, são envia-
Uma mala, que os fraudadores das diariamente. A maioria das pesso-
alegam estar cheia de dinheiro (nor- as tem bom senso e as descarta, mas
malmente notas de US$ 100), é apre- se 1% mostra interesse e 1% desses
sentada à vítima. Porém as notas são cai no golpe, ainda assim há grandes
todas pretas e é dito à vítima que as lucros aos fraudadores.
Foto 5 – Destaque para aparecimento da marca d’água notas foram cobertas com uma subs-
tância especial para poderem ser con- O fato
trabandeadas para fora da Nigéria. No mês de julho deste ano os
A vítima deve comprar uma solução agentes da Delegacia de Repressão
especial de limpeza que custa entre a Entorpecentes da Superintendên-
US$ 20.000 a US$ 500.000 para que cia Regional no Pará se depararam
as dezenas de milhões de dólares com uma situação diferente. Após
supostamente contidas na(s) mala(s) denúncia de que dois estrangeiros
voltem ao estado normal. de origem africana estariam supos-
Na frente da vítima o criminoso sele- tamente utilizando notas falsas de
ciona randomicamente algumas notas 50 reais para pagar suas contas,
Foto 6 – Fotocópia de nota apreendida sem o
da mala. Ele as lava com uma pequena ambos foram detidos num hotel e
dispositivo anticópias em evidência (nota inferior) quantidade de solução que traz consigo maços misteriosos de papel preto
e faz com que elas retornem ao estado do tamanho de notas de real (fotos 1
normal como notas autênticas. Estas e 2) e folhas do mesmo papel preto,
são fornecidas à vítima, que pode verifi- em tamanho A4, foram apreendi-
car a autenticidade no banco. dos juntamente com duas garrafas
Na realidade o criminoso sabe contendo substâncias distintas e
perfeitamente qual nota ele está se- desconhecidas (foto 3). Como não
lecionando; o restante não passa de era do conhecimento de nenhum dos
papel preto cortado no tamanho das policiais a existência de tal fraude, a
notas. Mesmo que a vítima escolha desconfiança imediata foi a de crime
as notas, o criminoso teria a habilida- de falsificação de dinheiro.
Foto 7 – Cédulas autênticas utilizadas nos exames de de trocá-las na hora de realizar o
processo de lavagem. Os exames
O processo de escurecimento das As notas de 50 reais foram exa-
notas é normalmente causado por uma minadas por três peritos criminais
mistura de iodo e vaselina e a solução federais e apresentavam-se com
especial é uma mistura de sabão para odor de cloro, com todas as fibras
lavar roupa ou outro líquido contendo coloridas descoradas, apresen-
cheiro e coloração incomum para tando um tom verde claro; a marca
despistar a vítima. d’água apresentava-se preta e
Em alguns casos, como um sinal de chegava a aparecer no reverso de
boa fé, a vítima pode ficar com a mala algumas notas (fotos 4 e 5). Além
até conseguir o dinheiro para obter a disso, o dispositivo anticópias pre-
Foto 8 – Notas banhadas na solução apreendida solução, que é depois comprada de sente nas cédulas autênticas não
um outro comparsa. era evidente nas notas apreendidas.

22 Perícia Federal
Ao fotocopiar uma cédula autêntica, da e com as notas de 1 real observou- Fotos: PCF Gustavo Ota

a palavra “falsa” aparece na cópia, se um clareamento, inclusive daquela


o que não aconteceu com nitidez que ficara preta (foto 11).
nas notas apreendidas (foto 6). Isso No entanto, as características das
provavelmente ocorreu devido ao notas de 1 real eram distintas das cédu-
processo de lavagem química usa- las de 50 reais apreendidas. Após o mer-
do para retirar a cobertura preta da gulho em solução de hipoclorito de sódio
nota. Porém, os outros elementos (água sanitária), as notas de 1 real apre-
de segurança estavam presentes. sentaram características semelhantes
Realizado um exame qualitativo no às cédulas de 50 reais apreendidas.
laboratório, constatou-se que uma
das garrafas continha uma solução Conclusão Foto 9 – Escurecimento das notas

de iodo (supostamente para escure- Foi constatado que todas as notas


cer notas autênticas) e a outra um lí- apreendidas eram autênticas e nenhu-
quido branco com aroma adocicado ma queixa de fraude fora apresentada
(supostamente para lavar as notas). contra os estrangeiros. Constatou-se
Duas cédulas autênticas de 1 real que as notas pretas eram apenas
foram utilizadas em experimentos re- papel preto recortado no tamanho de
alizados com as duas soluções (foto notas de real.
7). Ambas foram mergulhadas na É grande a dificuldade em se
solução de iodo em placas de petri, constatar esse tipo de crime se a
sendo que em uma delas foi adicio- vítima deixa de registrar que foi lesa-
nado amido (foto 8). Cada nota ficou da. No âmbito da perícia, vestígios
banhada pela solução por aproxima- como substâncias químicas, papéis Foto 10 – Banho no líquido branco
damente 15 minutos. pretos, dinheiro lavado, correspon-
A nota banhada na solução junta- dências eletrônicas, fax, celulares e
mente com amido adquiriu cobertura documentos relativos a transações
preta (foto 9), porém não de forma bancárias são imprescindíveis para
que pudesse ser confundida com um que a Polícia Técnica possa produzir
papel preto (a técnica exata não é co- provas materiais contra os criminosos
nhecida – não foram feitos testes com e ajudar nas investigações. É também
vaselina e a solução). Uma das notas importante preservar o local, deixan-
pretas apreendidas foi mergulhada do o material da forma como foi en-
no líquido branco, assim como as contrado, e evitar apreendê-lo antes
cédulas secas de 1 real utilizadas no da chegada dos peritos.
exame por 15 minutos (foto 10). Nada Foto 11 – Clareamento das notas
Contato: gustavo.gou@dpf.gov.br
aconteceu com a nota preta apreendi-

Referências
1. BANCO CENTRAL DO BRASIL. O Dinheiro Brasileiro desde a Criação do Banco Central do Brasil. Brasília: Senado Fe-
deral, Conselho Editorial: Banco Central do Brasil, 1999.
2. MOTA, M. R. Documentos e Segurança. Belo Horizonte: RCJ Edições Jurídicas, 2001.
3. Página da Internet: Monitor das Fraudes. Fraudes em Operações “Ilícitas” ou Suspeitas. Acessada em 10/8/2005. http://
www.fraudes.org/indexjvs.asp
4. Página da Internet: Metropolitan Police Service. New Scotland Yard. Acessada em 11/8/2005. http://www.met.police.uk
5. Página da Internet: Interpol. Acessada em 11/8/2005. http://www.interpol.int

Perícia Federal 23
AUDACITY POLICIAL:RArnaldo Gomes dos Santos Júnior (bacharel em Ciência da Computação e mestre em Engenharia de Software)

Audacity Policial
Software livre para auxílio à
análise de conteúdo fonográfico
e à transcrição fonográfica
Em muitos casos, gravações
de áudio são a única forma
de se provar a prática de
uma atividade criminosa.
Ciente disso, o Setec/MG
desenvolveu um software
livre bastante eficiente, que
consegue manter os sons,
ruídos e entonações originais

1. Introdução

A
transcrição fonográfica nada
mais é do que passar para o
papel o que se ouve. No caso após receber expe-
de análises policiais, a tarefa diente com mais de mil
compreende transcrever diálogos dis- horas de áudio para a trans-
criminando as intervenções, as falas crição, a Seção de Criminalística da
dos envolvidos. A parte de identificação Superintendência Regional da Polícia
do locutor, por outro lado, já fica a cargo Federal em São Paulo desenvolveu uma interesse para o apuratório com o auxílio
da fonética forense, ramo da perícia cri- metodologia de análise [1] para aumentar de programas de computador especiais.
minal, que não é tratada neste artigo. a eficiência do serviço sem implicar perda Trata-se de um processo de baixo
Historicamente, embora não seja um de qualidade. Esse processo foi denomi- custo, alta produtividade e bons re-
exame pericial, a maioria dos setores nado “análise de conteúdo fonográfico” e sultados para o apuratório. Com um
de Criminalística do país tem recebido pode ser resumido na identificação e na aparelho para reprodução do material
fitas de áudio para transcrição. Em 2003, separação em meio digital de diálogos de de áudio (um toca-fitas comum, por

24 Perícia Federal
exemplo), um cabo de ligação simples, de material de áudio questionado em comuns a sistemas operacionais com
um programa de computador especial investigações policiais e processos interface visual tais como o Microsoft
e um computador com recursos bási- judiciais. Foi desenvolvido com base Windows ®, o Mac OS ® ou o Linux. O
cos de multimídia, é possível realizar no Audacity [3], ferramenta de edição acesso às funções se dá através de
todo o processo. de áudio desenvolvida colaborati- botões com ícones localizados na
No contexto dos programas de com- vamente pela comunidade interna- barra de ferramentas, itens de menu
putador, a questão do software livre tem cional de software livre. O Audacity ou teclas de atalho (Ctrl + Alt + E, por
representado um ponto de fundamen- atende aos requisitos básicos de tra- exemplo, permite editar a descrição de
tal importância para as corporações. balho técnico com material de áudio: um diálogo demarcado).
Segundo o Portal de Software Livre do digitalização, reprodução e aplicação
Governo Federal [2], “Software Livre de efeitos e transformações básicas. 2.2. Captura de áudio
(Free Software) é o software dispo- Também permite a análise gráfica de pelo computador
nível com a permissão para qualquer sinais de áudio. O primeiro passo da análise ou da
um usá-lo, copiá-lo, e distribuí-lo, seja transcrição com o auxílio do compu-
na sua forma original ou com modifi- tador é a captura ou digitalização de
cações, seja gratuitamente ou com áudio. Ao finalizar esse passo, o usuá-
custo. Em especial, a possibilidade rio terá como resultado um arquivo de
de modificações implica que o código computador com todo o áudio cons-
fonte esteja disponível”. tante no material questionado (uma fita
Com a adoção de software livre, cassete, por exemplo).
instituições podem reduzir custos com Para a realização desse passo, o
aquisição de licenças de software e de- usuário precisa de um cabo modelo P2
senvolver ou adaptar soluções para sua x 2RCA2 ou P2 x P2, um aparelho para
própria realidade. A redução de custos reprodução do áudio com saída RCA3
pode ser, portanto, acompanhada de ou P24 e um computador com placa de
melhorias na utilização de Tecnologia Figura 1 – Botão de gravação e seletores de som básica.
da Informação como ferramental para fonte e volume de gravação O Audacity Policial suporta a digitali-
aumento de produtividade e qualidade zação de áudio por meio do botão “Gra-
nos serviços prestados. Isso pode ser O Audacity Policial disponibiliza var” e dos seletores de fonte e volume de
observado com a crescente adoção as funções básicas do Audacity e um gravação (Figura 1). Para utilizá-los cor-
de ferramentas como o Linux (sistema módulo adicional denominado Inves- retamente, o usuário deve verificar se o
operacional), OpenOffice (pacote de tigação. Esse módulo possui funções cabo está conectado na fonte seleciona-
aplicativos para escritórios), Mozilla Fi- para facilitar tanto a análise de conteú- da e se o volume de saída do aparelho
refox (navegador) e Plone (ferramenta do fonográfico quanto a transcrição de reprodução está adequado.
de gestão de conteúdo para a Web). fonográfica. É importante destacar
que tanto o Audacity quanto o Auda-
2. Funções básicas city Policial podem ser executados
da ferramenta nos sistemas operacionais Microsoft
O objetivo deste artigo é apresentar Windows® e Linux.
a ferramenta Audacity Policial, de- As funções básicas do Audacity Po-
senvolvida pelo Setor Técnico-Cien- licial relacionadas ao trabalho de inves-
tífico da Superintendência Regional tigação policial serão apresentadas nas
do Departamento de Polícia Federal seções que seguem.
em Minas Gerais.
Fotos: Setec/MG

O Audacity Policial é um software 2.1. Utilização básica


livre que visa facilitar o trabalho de da ferramenta
investigadores responsáveis pela A utilização da ferramenta é bastan- Figura 2 – Diálogo para alteração
análise ou transcrição fonográfica te simples e se baseia nos conceitos de velocidade

Perícia Federal 25
AUDACITY POLICIAL:RArnaldo Gomes dos Santos Júnior (Bacharel em Ciência da Computação e mestre em Engenharia de Software)

Para confi guração do arquivo de reo). Essas configurações podem ser áudio original a ser analisado é feita
áudio no computador, sugerem-se os feitas no item de menu “Preferências” em equipamentos especiais que per-
seguintes parâmetros: taxa de amos- do menu “Arquivo da ferramenta”. mitem a redução da rotação e, com
tragem (sampling rate) de pelo menos Mudanças em outros parâmetros po- isso, o aumento da duração da fita.
11 KHz (para fitas gravadas em baixa dem ser testadas como forma de se É comum encontrar fitas com tempo
rotação, essa taxa deve ser multipli- verificar possibilidades de otimização duas, três e até quatro vezes maior
cada pelo fator de multiplicação da de qualidade ou tamanho de arquivo. que a especificação, com correspon-
duração) e canais de áudio (configu- dente perda de qualidade.
ração correspondente à saída do apa- 2.3. Alteração de velocidade Caso o usuário tenha fitas cassete
relho de reprodução – mono ou esté- Em diversos casos, a gravação do com rotação alterada, poderá realizar a
alteração da velocidade do áudio cap-
turado no computador com o auxílio
da função “Alterar Velocidade”. Essa
função é acessível através do item
homônimo que se encontra no menu
“Efeitos da ferramenta”. Ao ativá-la, um
diálogo será apresentado (Figura 2) e o
usuário deverá definir o percentual de
mudança da velocidade. A redução da
velocidade em um percentual de 50%
(-50% no campo Percent Change), por
exemplo, implica a multiplicação do
tempo do material por 2.

2.4. Análise de conteúdo


Figura 3 – Menu com funções relativas à análise de conteúdo fonográfico fonográfico
Para a análise de conteúdo fono-
gráfico, o Audacity Policial disponibiliza
funções básicas que permitem:
● demarcação e descrição de diálo-
gos: com essas funções, que também
podem ser acessadas através de itens
de menu (Figura 3), os usuários iniciam
a reprodução do material (tecla de ata-
lho Ctrl + Alt + 1), fecham um diálogo de
interesse (tecla de atalho Ctrl + Alt + 2),
desprezam o trecho recém-ouvido (te-
cla de atalho Ctrl + Alt + 3) ou reiniciam a
reprodução após o trecho selecionado
(tecla de atalho Ctrl + Alt + 4). Ao fechar
um diálogo de interesse, o Audacity Po-
licial imediatamente apresenta uma tela
para descrição desse diálogo (Figura 4);
● exportação e importação da lista
de diálogos para arquivos de defi ni-
ção: com essas funções, que também
Figura 4 – Descrição de um diálogo definido. podem ser acessadas através de

26 Perícia Federal
Figura 5 – Itens de menu para suporte à transcrição fonográfica Figura 6 – Tela de exportação de transcrição

itens de menu (Figura 3), os usuários 2.5. Transcrição fonográfica de áudio e transcrevê-lo simultane-
exportam (gravam) lista com diálogos Para os casos em que o usuário amente através de teclas de atalho
definidos no período de trabalho cor- tenha que realizar a transcrição fono- especiais (Tabela 1)
rente de modo a permitir a continua- gráfica completa do material de áudio
ção do trabalho em período posterior analisado, o Audacity Policial disponi- 3. A experiência do Setec/MG com a
ou importam (carregam) lista com diá- biliza o módulo “Transcrição” com as ferramenta
logos defi nidos em período anterior. seguintes funções: Como foi descrito na introdução
Em conjunto, essas funções permi- ● exportação e importação da trans- deste artigo, o processo de reorga-
tem que o usuário realize o trabalho crição para arquivo de definição: com nização de áudio foi idealizado na
em partes, com interrupções para essas funções, que também podem Secrim/SP a partir de uma demanda
outras atividades; ser acessadas através de ítens de quase intratável por transcrições fo-
● exportação de diálogos para ar- menu (Figura 5), os usuários exportam nográfi cas. Após conversas com as
quivos MP3: por meio do item de menu (gravam) a transcrição feita no período instâncias da Justiça responsáveis
“Exportar Diálogos Definidos para de trabalho corrente de modo a permitir pelo caso, os peritos daquele setor
formato MP3”, o usuário tem acesso a a continuação do trabalho em período conseguiram a permissão para apli-
uma tela onde pode selecionar a pasta posterior ou importam (carregam) a cação do processo no caso.
para a qual os diálogos serão exporta- transcrição feita em período anterior. Durante cerca de um ano, o pro-
dos em formato MP3; Ao ativar a função de exportação, cesso [4] foi aplicado com a utilização
● geração de documentos com por exemplo, uma tela de seleção de de pequenas ferramentas desenvol-
tabelas de diálogos definidos: através arquivo de destino é mostrada para o vidas pelo setor, um software comer-
do item de menu “Gerar Tabela” (tecla usuário (Figura 6). Em conjunto, essas cial chamado Goldwave [5] e um soft-
de atalho Ctrl + Alt + L), o usuário tem funções permitem que o usuário realize ware gratuito chamado RazorLame
acesso a uma tela onde pode sele- o trabalho de transcrição fonográfica [6]. No entanto, esse processo ainda
cionar a pasta na qual o documento em partes, com interrupções para ou- se mostrou árduo, requerendo treina-
(padrão RTF – formato aceito por edi- tras atividades; mento intensivo e certa familiaridade
tores de texto como Microsoft Word® e ● transcrição de material de áudio: com informática.
OpenOffice.Writer) e os arquivos MP3 com essa função (também ativada pela Após o desenvolvimento da ferra-
dos diálogos serão armazenados. Esta tecla de atalho Ctrl + Alt + T), o Auda- menta Audacity Policial no Setec/MG,
pasta deverá estar vazia; o Audacity city Policial disponibiliza um editor de o que se pôde observar foi o ganho
Policial faz a verificação e impede a texto integrado no qual o usuário pode em produtividade obtido na análise
gravação em pastas não vazias. controlar a reprodução do material de conteúdo fonográfico. O trabalho,

Perícia Federal 27
AUDACITY POLICIAL:RArnaldo Gomes dos Santos Júnior (bacharel em Ciência da Computação e mestre em Engenharia de Software)

TECLA DE
AÇÃO CORRESPONDENTE
ATALHO
Ctrl + 1 Volta 1 segundo no ponto de reprodução do material de áudio analisado.
Ctrl + 2 Volta 5 segundos no ponto de reprodução do material de áudio analisado.
Ctrl + 3 Volta 30 segundos no ponto de reprodução do material de áudio analisado.
Ctrl + 4 Avança 1 segundo no ponto de reprodução do material de áudio analisado.
Ctrl + 5 Avança 5 segundos no ponto de reprodução do material de áudio analisado.
Ctrl + 6 Avança 30 segundos no ponto de reprodução do material de áudio analisado.
Ctrl + P Pausa ou retorna à reprodução (caso esteja em pausa) do material de áudio
Ctrl + X Recorta texto de transcrição selecionado e o coloca na área de transferência
Ctrl + C Copia texto de transcrição selecionado e o coloca na área de transferência
Ctrl + V Cola texto da área de transferência no editor de transcrição
Tabela 1 – Teclas de atalho para transcrição fonográfica

que antes era realizado de forma trabalham com grande quantidade de melhores resultados e maior satisfação
bastante compartimentada e com gravações, proporcionando, por meio pessoal para os responsáveis pelas
a dependência de profissionais de da tecnologia, maior produtividade, análises de áudio.
informática em todas as fases, agora
pode ser realizado com a utilização Referências
de apenas uma ferramenta e de for- [1] Gomes, Arnaldo. “Adeus à transcrição fonográfica – um estudo de caso”.
ma praticamente autônoma pelos Revista Perícia Federal, ano IV, nº 16, 2003 – p. 25 a 28.
investigadores responsáveis. [2] Portal do Software Livre do Governo Federal. http://www.softwarelivre.gov.br/ .
Para facilitar a adoção da ferra- [3] Audacity – Software livre para captura e tratamento de áudio.
menta, um minicurso foi formulado e http://audacity.sourceforge.net.
[4] Gomes, Arnaldo. “Mais uma pá de cal na transcrição fonográfica - métodos e fer-
ministrado pelo perito Arnaldo a ou-
ramentas para a análise de conteúdo fonográfico”. Apresentação realizada no
tros peritos do setor. Esse minicurso Nucrim/Setec/SR/DPF/SP, 2003.
foi realizado nas próprias dependên- [5] GoldWave 4.02 – Software para captura e tratamento de áudio.
cias do setor e a duração foi de cerca http://www.goldwave.com.
de duas horas. [6] RazorLame 1.1.5 – Software para compactação de áudio.
No momento, a ferramenta está http://www.dors.de/razorlame.
em estágio de “operação piloto”,
sendo utilizada em alguns casos sob Notas
análise no Setec/SR/DPF/MG. 1. O autor é bacharel em Ciência da Computação pela UFMG em 1995 e mestre em Engenharia
de Software também pela UFMG em 1998. Trabalha como Perito Criminal Federal no Setor
4. CONCLUSÃO Técnico-Científico da Superintendência Regional da Polícia Federal em Minas Gerais desde
novembro de 2004 e como professor de Engenharia de Sotware no curso de Sistemas de In-
Este artigo destina-se a apresentar a formação da PUC/MG. Trabalhou antes na Superintendência Regional da Polícia Federal em
ferramenta Audacity Policial, desenvol- São Paulo (2002-2004).
vida no Setec/SR/DPF/MG para auxiliar 2. Tal cabo pode ser comprado por cerca de R$5,00 em lojas de matrial eletroeletrônico.
3. Saídas RCA costumam ser denominadas LineOut e podem ser encontradas em bons toca-
o trabalho de análise e transcrição de
fitas ou aparelhos integrados ou modulares. Apenas toca-fitas portáteis (walkman) ou mi-
conteúdo fonográfico. crosystems não costumam ter tais saídas.
Mais do que isso, pretende colaborar 4. Toca-fitas portáteis (walkman), CD players portáteis (discman) ou microsystems costumam ter
para que seja inaugurada uma nova era tais saídas.
5 . Esta é uma função original do software Audacity.
nos setores de investigação policial que

28 Perícia Federal
RADIOPROTEÇÃO E SEGURANÇA NUCLEAR: Pedro Peduzzi

I Seminário de Radioproteção e
SEGURANÇA NUCLEAR
realizar o seminário nasceu das reu-
Arquivo APCF
Peritos ampliam
niões que discutiam a apreensões
conhecimentos sobre de minérios radioativos feitas no
materiais radioativos Amapá em 2004. “Mas a preocupa-
ção em instruir os colegas sobre os
procedimentos adequados para lidar

M
anipular e armazenar mate- com esses materiais já existia antes
riais radioativos requer mui- mesmo de flagrarmos o transporte ir-
tos cuidados. Por isso foi regular de minérios no ano passado”,
realizado, entre 20 e 24 de junho, no recorda o perito.
auditório do Instituto Nacional de Cri-
minalística, em Brasília, o I Seminário Potencial multiplicador
TEMAS ABORDADOS
de Radioproteção e Segurança Nuclear, DURANTE O SEMINÁRIO Materiais como os apreendidos no
primeiro curso a abordar o tema de forma Amapá possuem diversas utilidades. Se
direcionada à Polícia Federal. X Instalações nucleares e radioativas; enriquecido, o urânio pode servir para
X Prevenção contra sabotagem nas
Com uma carga horária de 40 horas – usinas e bombas nucleares. Por esse
instalações;
divididas entre palestras, estudos de caso X Fundamentos de física atômica e nuclear; motivo o seminário ampliou bastante seu
e discussões –, o seminário foi coordena- X Estruturas nucleares e atômicas; público, passando a contar com a presen-
X Radioatividade natural;
do pela física-nuclear da CNEN Valéria ça de representantes de praticamente
X Radioecologia;
Pastura e pelos peritos criminais federais X Grandezas e unidades básicas todas as unidades federativas. Ministério
Emílio Lenine e Marcelo de Lawrence em radioproteção; da Defesa, Abin, Corpo de Bombeiros,
Bassay Blum, do Serviço de Perícias de X Apresentação de monitores de radiação; polícias Civil e Militar, Exército e Secreta-
X Efeitos biológicos da radiação;
Engenharia e Meio Ambiente (Sepema). X Normas e regulamentos da CNEN;
ria Nacional de Segurança Pública estão
A equipe do Desin/Ditec ficou responsável X Radioproteção ocupacional; entre as entidades participantes. “Acre-
pela organização. X Terrorismo nuclear e radiológico; dito que a partir de agora ampliaremos
X Aspectos psicossociais em
A cerimônia de abertura contou com a consideravelmente nosso potencial mul-
acidentes nucleares;
participação do diretor Técnico-Científico X Equipamentos utilizados tiplicador”, comemora Marcelo Blum.
do DPF, Geraldo Bertolo; do diretor de em radioproteção; Não é difícil encontrar elementos
X Emergências radiológicas.
Radioproteção e Segurança Nuclear da radioativos na natureza. Sabendo disso,
Comissão Nacional de Energia Nuclear, as empresas de mineração têm acom-
Altair Souza de Assis; do superintendente “Houve grande sinergia entre profis- panhamento constante dos técnicos da
regional da Polícia Federal no Amapá, Né- sionais do DPF que possuem diferentes CNEN. O risco é maior nos garimpos ir-
der Duarte; e do diretor da APCF Roosevelt áreas de especialização. Há peritos for- regulares, que constantemente são des-
Alves Fernandes Leadebal Júnior. Repre- mados em Química, Biologia e Geologia montados por ações da Polícia Federal.
sentando o diretor do INC, esteve presente que, a partir das palestras, puderam “O treinamento de peritos é importante
o PCF Luiz Carlos de Gouvea Horta. unificar terminologias, passando a adotar por causa das atuações na área de meio
as utilizadas pela Comissão Nacional de ambiente, onde volta e meia são reali-
Novos equipamentos Energia Nuclear”, avalia Valéria Pastura. zadas perícias em minérios, materiais
Segundo os organizadores, o seminá- A pesquisadora do CNEN rasgou elogios e poluentes radioativos. Mas também
rio é muito importante por instruir policiais aos participantes: “Apesar de ter vindo está servindo para definirmos ações
federais quanto aos cuidados necessários com grandes expectativas, fiquei surpre- preventivas a serem adotadas nos Jo-
para lidar com materiais radioativos. Ajuda- endida com o alto nível de conhecimento gos Pan-Americanos de 2007”, explica
rá também o DPF a definir os equipamen- dos peritos”. O PCF Marcelo de Lawren- o perito Emílio Lenine, que também foi
tos adequados para exames e análises. ce Bassay Blum explica que a idéia de coordenador do seminário.

Perícia Federal 29
FORMAÇÃO:RPedro Peduzzi

Os PERITOS, Melhor QUA

em três tempos

Fotos: Arquivo APCF


Do início da carreira até a aposentadoria, passando pela classe
especial, todos os peritos vivem dificuldades e conquistas. Em
comum, o prazer de servir à sociedade por meio da Polícia Federal
feitas na companhia de peritos mais antigos.

J
ulho e agosto foram meses bas-
tante positivos para o quadro de Para os iniciantes, foi uma oportunidade de
peritos criminais federais. Com a ter noção clara da importância do trabalho em
equipe para o bom andamento das atividades.
posse de 79 peritos aprovados no con-
“Mas o que me surpreendeu mesmo foi a auto-
curso de 2004 e a finalização da etapa
nomia do nosso trabalho”, diz Rafael.
presencial do Curso Superior de Polícia, “Lutamos muito pela nossa autonomia e PCFs Sérgio Medeiros, Rogério Mesquita, João
o Departamento de Polícia Federal (DPF) pelo aumento do quadro de peritos. Há muito
obteve sucesso em frentes que nem sem- que comemorar com a entrada dos novos co- Um convênio inédito entre a Fundação
pre andam juntas. A da QUANTIDADE, a legas, que certamente nos ajudarão a fazer Getúlio Vargas (FGV/RJ) e a Academia
da QUALIDADE e a da EXPERIÊNCIA. da Perícia Federal brasileira referência mun- Nacional de Polícia (ANP) está preparando,
dial”, comemora o presidente da APCF, An- entre 20 de junho e 3 de dezembro, os 31
tônio Carlos Mesquita. “Desde que cheguei peritos que, com dez anos de casa, deverão
Maior QUANTIDADE: me sinto tratado como colega, e não como mudar da primeira classe para a classe es-
os novos peritos aluno”, conta Rafael. pecial da categoria. Pré-requisito para essa
“Fomos muito bem recebidos pelos peritos promoção, o tradicional Curso Superior de
De repente, uma nova profissão, uma antigos, e o apoio deles ajudou a esclarecer as Polícia passou a ser o curso de Gestão de
nova preparação, uma nova vida e novos dúvidas naturais de quem dá os primeiros pas- Políticas de Segurança Pública, em nível de
objetivos. Esta é a seqüência de etapas que sos numa profissão”, revela Bruno Werneck, MBA e reconhecido como pós-graduação.
aguarda boa parte dos 79 colegas que vieram 23, outro perito empossado. Durante a fase presencial, que ocor-
somar forças à Perícia Criminal Federal. reu entre 11 de julho e 26 de agosto, os
Formados em julho e nomeados em agos- Participar e fortalecer peritos receberam informações sobre
to, os novos peritos já chegaram arregaçan- Bruno elogia a preparação da ANP, mas, diversas áreas, como ética no serviço
do as mangas. O mais novo deles é Rafael depois de identificar um volume de trabalho público, planejamento estratégico, ges-
Gonçalves, 21 anos, engenheiro civil e natu- muito grande, passou a fazer coro com os tão orçamentária e financeira, gestão
ral de Goiânia. “Mal cheguei e já participei de PCFs que vêm apontando as necessidades de qualidade, comunicação, sociologia,
uma investigação muito importante em fun- latentes de ampliar ainda mais o quadro de gerenciamento de crises, inteligência
ção do porte das peritos e de pes- criminal e tecnologia da segurança da
obras periciadas, soal de apoio ad- informação. Ao todo serão 669 horas-aula
a operação Con- ministrativo. ministradas na ANP, em Brasília, e também
fraria. Nela, pe- No mesmo de forma on-line.
guei considerá- ano em que se for- As informações passadas na fase
vel experiência mou em Ciências presencial do curso ajudaram os peritos na
ao ver a atuação da Computação, definição de temas para as monografias,
dos peritos da 2004, Fábio Caus que deverão ser concluídas até o dia 12
área de engenha- Os novos colegas, que chegam para reforçar a Perícia Federal Sicoli, 24 anos, foi de novembro, e defendidas oralmente no
ria, como o PCF aprovado no con- início de dezembro. “As aulas sobre formas
Acir de Oliveira Júnior. Descobri que existem curso para perito. Lotado na Setec da SR/DF, de gerir situações dentro de um local de cri-
peculiaridades nos laudos dessa área, e que Fábio começou a nova profissão realizando me colaboraram bastante para a definição
é exigido um levantamento de local mais tra- trabalhos gerais e variados. Só a partir do pri- do foco da minha monografia, que será so-
balhoso”, explica Rafael. meiro mês é que começou a atuar na área de bre gerenciamento em locais de atentados
A rapidez com que os novos peritos assi- informática. Sicoli é um dos peritos que inves- com uso de explosivos”, anuncia a PCF
miulam os ensinamentos é justificada por um tigaram computadores de supostos doleiros Maristela Guizardi Bisterço.
ponto positivo em relação aos cursos ante- que atuavam em agências de turismo. Quem completar o curso estará apto
riores: a Jornada Específica de Criminalística “Os peritos são muito respeitados na minha para assumir quaisquer cargos de coor-
(JEC), em que simulações de laudos foram SR. As outras categorias têm consciência da

30 Perícia Federal
necessidade de que nossos trabalhos sejam
feitos da forma mais correta possível e no prazo
LIDADE: a classe especial mais adequado”, analisa. “Sei que a APCF teve
grande participação, ao longo do tempo, em
questões muito importantes, como a salarial e a
portantes no curso. “Se antes era apenas da autonomia. Gostaria de ver os novos peritos
uma especialização interna, agora possui participando mais da Associação, inclusive
o aval e a qualidade da FGV. Fora isso, para fortalecer a representatividade da nossa
estamos vivendo um momento especial turma em relação às outras.”
onde os peritos e os delegados que fazem Eventos como seminários e churrascos
o curso podem discutir objetivamente os têm ajudado a APCF a deixar os novatos a par
problemas de gestão no DPF”, avalia. “A dos assuntos mais relevantes. Nesses encon-
troca de opiniões entre peritos e delega- tros, os diretores têm notado empolgação entre
dos é, sem dúvida, um dos pontos mais os novatos. “Ao se darem conta da dimensão
positivos do curso”, concorda a perita Ma- que a perícia tem para o país eles passam a
ristela Bisterço. ficar orgulhosos pela profissão que exercem”,
Para o advogado e professor da FGV descreve Charles Rodrigues Valente, vice-pre-
Ricardo Fonte Boa, que ministrou a dis- sidente da APCF.
ciplina Sociologia da Criminalidade, as A frase “Os peritos só têm compromisso
divergências de opiniões entre as duas ca- com a verdade”, escrita nas apostilas do curso
tegorias estão ligadas às particularidades de formação, até hoje empolga o PCF Fábio
de condutas que, no âmbito da atividade, Sicoli, que começou a desejar ser perito ao ver
são complementares. “Isso se deve à per- algumas matérias jornalísticas sobre o assun-
Luiz e José Gomes a caminho da classe especial cepção que cada um tem a partir da função to. A importância da perícia para os processos
que exerce”, avalia. judiciais reforçou ainda mais essa vontade.
denação, direção ou chefia no DPF. “A melhor O bom nível dos alunos impressionou “Temos objetivos comuns. Por isso o papel
formação de nossos administradores é uma Ricardo. “É um grupo muito interessado da Associação é de extrema importância. Até
reivindicação antiga de nossa categoria. Feliz- em renovar concepções de trabalho, e porque conquistar de forma coletiva é mais fá-
mente estamos tendo a oportunidade de nos que procura assimilar sempre as teorias cil do que de forma individual”, reforça Rafael.
prepararmos para novos desafios”, ressalta e práticas necessárias para o aprimora-
Rogério Mesquita, diretor da APCF e um dos mento da atividade funcional cotidiana.
peritos que estão fazendo o curso superior. Não me parecem estar meramente preo- Mais EXPERIÊNCIA:
“O objetivo de formar os futuros gestores cupados com promoção ou ascensão na
da Polícia Federal está sendo cumprido. carreira, mas interessados na oportuni- os aposentados
Principalmente para aqueles que, como eu, dade de crescimento.”
trabalharam quase exclusivamente com a pre- O elogio dos professores da FGV aos
paração de laudos”, conta o PCF José Gomes alunos-peritos é geral e unânime, segundo
da Silva, que afirma ter ampliado a visão sobre a gestora do XIII Curso Especial de Polícia
os aspectos gerenciais e de planejamento e do XIX Curso Superior de Polícia, Elisa-
ligados a atividades periciais. beth Ladislau dos Santos, que garante: o
curso deixará todos mais capacitados para
Troca de opiniões gerenciar pessoas e instituições. “Todos
O perito João Luiz Moreira de Oliveira, de sairão daqui com mais coragem para assu-
Minas Gerais, aponta dois fatos históricos im- mir uma chefia.”
Zaíra, ao centro, quer aposentados na ANP

Engana-se quem pensa que aposen-


tado e inativo são sinônimos. Que o diga
a diretora de Aposentados e Pensionistas
da APCF, Zaíra Hellowell. Perita desde
1976 e aposentada em 2003, Zaíra é figura
quase onipresente nas reuniões da cate-
goria. A aposentadoria não diminuiu sua
dinâmica, servindo de exemplo para os
outros. “Quero os aposentados passando
sua experiência para os mais novos, e a
ANP é o lugar ideal para isso”, afirma. Além
de fundadora e primeira vice-presidente
da Associação, foi presidente da APCF por
duas gestões consecutivas, entre 1996
e 2000. “Ela deu o pontapé inicial de tudo
que somos hoje”, reconhece o atual presi-
Durante as aulas, peritos e delegados fizeram da troca de opiniões ponto positivo do curso superior dente, Antônio Carlos Mesquita.

Perícia Federal 31
NOTAS

APCF participa de audiência


na Câmara dos Deputados
Parlamentares e autoridades consultam presidente da APCF sobre
a inclusão da Perícia na lista de organismos de segurança pública
legistas de todo o país marcaram
Arquivo APCF

presença, assim como membros do


Judiciário e de outras classes das
atividades de segurança pública,
em especial delegados de polícia e
papiloscopistas. Apesar das aten-
ções divididas com as CPIs que, na
época, estavam em andamento,
a audiência contou com uma par-
ticipação considerável de deputa-
dos. Entre eles Ênio Bacci (PDT/
RS), Capitão Wayne (PSDB/GO) e
Wasny de Roure (PT/DF).
Todos os deputados presentes
Em discurso, Antônio Mesquita (esq.) falou sobre a independência da atividade pericial manifestaram simpatia pela inclu-
são dos órgãos de perícia no rol de

P
reocupada em debater a da atividade pericial para a emissão estruturas elencadas no art. 144
necessidade de alteração dos laudos. Mas ressaltou que “não da Constituição federal, embora
do art.144 da Constituição necessariamente deve ser inserida não tenha sido discutido em deta-
federal, incluindo os órgãos periciais em estrutura administrativa à parte”. lhe nenhum texto específico para
no rol de organismos de segurança E completou: ”A concessão de au- uma possível PEC (Proposta de
pública, a Comissão de Segurança tonomia é assunto que só pode e só Emenda Constitucional).
Pública e Combate ao Crime Orga- deve ser resolvido ante as exigências “Apesar de não termos avança-
nizado da Câmara dos Deputados e peculiaridades de cada caso con- do na preparação de textos a serem
convidou diversas autoridades e re- creto, o que significa que a autonomia apresentados pelos parlamentares,
presentantes classistas – entre eles estrutural deve ser incluída na Carta avançamos muito em termos polí-
o presidente da APCF, Antônio Car- não como uma imposição, mas com ticos, dando maior visibilidade às
los Mesquita – para a audiência pú- os limites que caracterizam uma boa considerações e opiniões de nossa
blica realizada no dia 10 de agosto. e talvez muito produtiva hipótese”. categoria. Os políticos estão cada
Em seu discurso, Mesquita defen- Representantes das categorias vez mais atentos ao que temos para
deu a importância da independência dos peritos criminais e dos médicos dizer”, comemora Mesquita.

APCF é instituidora da FUNPF Contagem de tempo de serviço


Com 165 votos favoráveis, 29 contra e 18 abstenções, os asso- A DGP/DPF posicionou-se oficialmente em relação à contagem
ciados da APCF aprovaram a participação da entidade como insti- de tempo de serviço para efeito de aposentadoria nos casos de ces-
tuidora da Fundação Polícia Federal de Apoio ao Ensino e Pesquisa são, requisição e afastamento para mandato classista e/ou eletivo.
(FUNPF). A votação foi realizada em assembléia no dia 30 de junho. Segundo a Diretoria, nas situações em que a atividade não for estri-
Apesar de não alcançar o quórum mínimo de 40%, foi uma inequí- tamente policial o tempo de serviço não será computado no período
voca confirmação da decisão da assembléia de outubro de 2003. de vinte anos para efeito de aposentadoria especial.

32 Perícia Federal
NOTAS

Combate à lavagem de dinheiro

Ascom-PGJ/MA
Os PCFs Eduardo Siqueira Costa
Neto e José Helano Matos Nogueira,
lotados na Ditec/DPF, foram a São Luís
(MA), entre 15 e 19 de agosto, para par-
ticipar do Curso de Combate à Lavagem
de Dinheiro e Recuperação de Ativos.
Realizado na Escola Superior do
Ministério Público (ESMP), o curso,
de 20 horas-aula, foi dirigido a 50
autoridades do Ministério Público e
do Judiciário, entre juízes federais,
juízes de Direito, procuradores da
República, procuradores estaduais e
promotores de Justiça.
Não é de hoje que o Ministério Pú-
blico demonstra preocupação com a
disseminação dos crimes de lavagem PCF Eduardo Siqueira Costa, durante o curso dirigido a autoridades do MP e Judiciário
de dinheiro por todo o país. Desde
junho, a Escola Superior do Ministério Federal, o Ministério da Justiça e o promovendo, em Brasília, o I Curso
Público da União (ESMPU), juntamen- Colégio de Diretores de Escolas dos de Aperfeiçoamento no Combate à
te com o Ministério Público do Distrito Ministérios Públicos (CDEMP), estão Lavagem de Dinheiro.

Softwares livres Documentoscopia


Os novos computadores instala- positiva a adoção de softwares dessa Entre 9 e 15 de maio, peri-
dos na sede do INC, em Brasília, estão natureza, mas é importante que, antes tos de diferentes instituições e
equipados com diversos softwares li- de adotá-los, desenvolvam-se traba- profissionais do setor privado
vres. Isso evita a aquisição de licenças lhos de capacitação dos servidores”, participaram do I Seminário de
para o uso de softwares pagos, com elogia o perito André Luiz da Costa Documentoscopia, na sede do
custo estimado em mais de R$ 500 mil Morisson, diretor jurídico da APCF. Instituto Nacional de Crimina-
para o DPF, segundo o responsável “No ambiente pericial, a migração lística (INC) em Brasília. Lá,
pelo Serviço de Tecnologia da Infor- deve ser gradativa, pois há metodolo- trocaram informações sobre as
mação da Ditec, PCF Alexandre Coe- gias desenvolvidas baseadas nos tra- tecnologias mais recentes liga-
lho. O pacote de aplicativos de escri- dicionais softwares pagos”, completa. das à produção de elementos de
tório a ser utilizado é o Open Office, e a Tais medidas, adotadas no âmbito segurança, envolvendo assun-
edição de imagens será feita por meio do INC, estão em consonância com a tos como tintas, impressos e su-
do software livre The Gimp. Há ainda política incentivada pelo governo fe- portes utilizados na produção de
aplicativos gratuitos de compactação deral. “É importante que os próximos documentos como passaportes,
de arquivos e de gravação de CDs, em concursos cobrem conhecimentos cédulas, carteiras de identidade,
substituição aos comerciais. desses softwares e que eles sejam carteiras de habilitação e car-
“Apesar de a grande maioria de adotados pelo DPF como um todo”, tões. O seminário, organizado
programas forenses não possuir alerta o vice-presidente da APCF, pela Ditec e pelo INC, teve o
versão gratuita, acho extremamente Charles Rodrigues Valente. apoio da APCF.

Perícia Federal 33
Ajuda a professores de 130 municípios
Professores da rede estadual de

Setec/TO
130 municípios tocantinenses estão
mais informados sobre temas como
farmacologia, toxicologia e fisiologia
da administração de drogas de abuso
nas escolas. Tudo isso graças ao tra-
balho de capacitação que vem sendo
desenvolvido pelo PCF Carlos Antônio
Almeida de Oliveira, do Setec/TO.
Após ministrar palestras sobre o
tema para servidores da Secretaria
Estadual da Saúde, Carlos Antônio re-
cebeu convite para capacitar profes-
sores do estado a abordar o assunto
com os alunos. Os professores de Pal-
mas foram os primeiros beneficiados.
Em seguida, iniciou-se o programa de
educação a distância, por meio de te-
Por meio de teleconferências, o PCF Carlos Antônio capacita professores do TO
leconferência em tempo real.
Uma linha de 0800 foi disponibi- zando uma pesquisa estatística para mitirá o entendimento dos fatores que
lizada para os questionamentos dos um levantamento inédito sobre o perfil contribuem para o aumento dos índi-
professores. “Agora estamos reali- desses usuários de drogas. Isso per- ces de consumo”, informa o perito.

O verdadeiro Papillon
Um laudo produzido a pedido do senador
Eduardo Hollanda

pelos criminais federais Mozarildo Cavalcanti


Paulo Quintiliano e Mar- (PTB-RR), após tomar
celo Ruback pode ter conhecimento de que
comprovado uma das o escritor e fotógrafo
maiores farsas da litera- Platão Arantes vinha
tura mundial. Segundo sugerindo, de forma
o documento, Papillon, bastante embasada,
lendário fugitivo francês que o verdadeiro Pa-
que escapou da prisão da pillon havia morado em
Ilha do Diabo, na Guiana Roraima entre 1940
Francesa, seria Reneé Perito Paulo Quintiliano e 1978 – ano em que
Belbenoit e não Henry Charrière, autor falecera, aos 78 anos. Para comprovar
do livro Papillon. O sucesso alcançado a farsa, Quintiliano utilizou um software
pelo livro resultou, em 1973, na grava- de reconhecimento facial desenvolvido
ção de uma versão cinematográfica da durante seu doutorado. “Esse software
história, estrelada por Dustin Hoffman e permite a identificação de pessoas por
Steve McQueen. O laudo foi preparado meio de imagens faciais”, explica.

34 Perícia Federal
Perícia Federal