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Arara

Ashaninka
Jaminawa
Katukina Pano
Kaxinawá
Kulina
Machineri
Nukini
Poyanawa
Shawanaua
Yawanawa

10.
Acre
MAPA

2 ACRE POVOS INDÍGENAS NO BRASIL 2001/2005 - INSTITUTO SOCIOAMBIENTAL


LISTAGEM TERRAS

POVOS INDÍGENAS NO BRASIL 2001/2005 - INSTITUTO SOCIOAMBIENTAL ACRE 3


LISTAGEM TERRAS

4 ACRE POVOS INDÍGENAS NO BRASIL 2001/2005 - INSTITUTO SOCIOAMBIENTAL


Avanços e Impasses na
Regularização das TIs no Acre

Marcelo Piedrafita Iglesias Doutorando em Antropologia Social no Museu Nacional/UFRJ;


pesquisador do Laced/MN/UFRJ
Terri Valle de Aquino Mestre em Antropologia Social pela UnB; gerente de Etnozoneamento
da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Recursos Naturais/AC

APESAR DE SÉRIAS DIFICULDADES E CONFLITOS, O res oriundos da sede municipal e dos seringais Iracema e D’Ouro,
ESTADO DO ACRE VIVE AVANÇO NA REGULARIZAÇÃO que depredavam importantes recursos naturais e criavam uma
DE TERRAS INDÍGENAS, PROCESSO QUE CONTRIBUI potencial situação de conflitos com os “isolados” que ali vivem.
PARA A CONSOLIDAÇÃO DE UM MOSAICO CONTÍNUO A TI Arara do Igarapé Humaitá encontra-se declarada e demar-
DE ÁREAS PROTEGIDAS NO ALTO JURUÁ cada, e as 24 famílias de ocupantes não-índios que ali viviam
foram indenizadas em 2005. No entanto, para encerrar sua re-
gularização faltam ainda a homologação e os respectivos cadas-
Ao longo das três últimas décadas, 34 terras indígenas foram tro e registro na SPU e no CRI de Cruzeiro do Sul.
reconhecidas no Acre pelo governo federal, com uma superfície
agregada de 2.320.232 ha, o que equivale a 14% da extensão do A TI Riozinho do Alto Envira foi identificada no início de setem-
Estado. Esse total não considera as extensões das seis terras que bro de 2005. Antes conhecida como TI Xinane, essa terra estava
ainda figuram como “em identificação” ou “a identificar”. interditada desde 1987. A realização de dois sobrevôos nas cabe-
ceiras do Rio Envira, em julho de 2003 e março de 2004, permi-
Distribuídas em metade dos 22 municípios acreanos, e em dife- tiu constatar a existência de três conjuntos de malocas, até en-
rentes etapas de seus processos de regularização, essas 34 terras tão ignorados, nas cabeceiras dos igarapés Jaminauá, Riozinho e
estão destinadas a 14 povos indígenas, falantes de línguas pano, Furnanha. Os estudos realizados para a elaboração do relatório
arawak e arawá. Uma população estimada em 12.880 pessoas, de identificação e delimitação sugeriram a mudança do nome
cerca de 2% da população atual do Estado. Este dado não inclui dessa terra para TI Riozinho do Alto Envira, e a ampliação de sua
a população indígena que vive em centros urbanos – recenseada, extensão para mais de 260 mil ha, de modo a garantir uma efe-
em 2002, pela Funai, em 3.700 pessoas –, nem a de diferentes tiva proteção do território hoje habitado e usado permanente-
grupos de índios “isolados”, estimada entre 600 e mil indígenas. mente pelos “isolados”.

TERRAS REGULARIZADAS, TERRAS EM IDENTIFICAÇÃO (O DESAFIO


HOMOLOGADAS E DELIMITADAS DAS SOBREPOSIÇÕES)
Atualmente, 24 terras indígenas, ou quase 71% do total das ter- Outras quatro terras indígenas (Arara do Rio Amônia, Manchineri
ras reconhecidas no Acre, tiveram suas demarcações físicas ho- do Seringal Guanabara, Nawa e Kaxinawá do Seringal Curralinho)
mologadas. estão em identificação. Os relatórios de identificação e delimita-
Além dessas, encontra-se demarcada e homologada a TI Alto ção das três primeiras terras já foram entregues à da Funai, que
até a presente data não aprovou suas respectivas conclusões.
Tarauacá, destinada a povos indígenas considerados “isolados”.
Três dessas terras apresentam problemas de sobreposição com
Sua demarcação física, seguida da indenização e da retirada das
unidades de conservação e projetos de assentamento do Incra.
52 famílias de seringueiros e agricultores que ali viviam, ocorreu
em 2002, e sua homologação administrativa dois anos depois. O processo de regularização da TI Kaxinawá do Seringal Currali-
Até abril de 2005, quando um posto de vigilância foi instalado nho está paralisado desde 2002, prazo então previsto para a en-
na foz do rio D’Ouro, foi sistematicamente invadida por caçado- trega do relatório de identificação. O Grupo Técnico, criado em

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2001, foi interrompido por ameaças e constrangimentos prota- do Parque Nacional da Serra do Divisor (PNSD), foram apresen-
gonizados por extrativistas e agricultores dos seringais incluídos tadas pelas lideranças indígenas em 1999. No ano seguinte, tor-
na área proposta. A retomada da identificação desta terra pela naram a ser feitas no âmbito das discussões para a elaboração
Funai parece depender de que o Ibama, ou o governo estadual, do Plano de Manejo do PNSD, razão que levou o IBAMA a solici-
inicie o processo de criação, no entorno, de uma Resex ou de tar à Justiça Federal (1ª Vara do Estado do Acre) uma perícia
um projeto de desenvolvimento sustentável, conforme deman- antropológica para deliberar se aquela população, que se dizia
da apresentada pelos extrativistas em final de 2001. Nawa, é indígena. Por ter sido considerada extinta na historiografia
acreana e pela sociedade regional, e pelos alegados prejuízos que
A regularização da TI Arara do rio Amônia é também objeto de
a criação da terra indígena causaria aos objetivos originais do
impasses. Os Arara não aceitaram a proposta de delimitação apre-
Parque, a etnicidade dos Nawa passou a ser questionada, judici-
sentada pelo coordenador do GT criado em dezembro de 2001.
almente, pelo órgão ambiental.
Além disso, desenhou-se uma forte oposição dos moradores e
dos representantes das associações da Resex do Alto Juruá e do Em 2000, o antropólogo Antonio Pereira Neto, então administra-
Projeto de Assentamento Amônia. Estes se recusaram a um novo dor da Funai de Rio Branco, realizou trabalho de campo e elabo-
deslocamento, alegando que muitas famílias já haviam sido reti- rou relatório confirmando a presença, já antiga na região, de
radas, em 1992, quando da demarcação da TI Kampa do Rio grupos familiares Nawa, muitos deles, frutos de casamentos com
Amônia. Em dezembro de 2004, atendendo ao apelo das lide- outros grupos, como os Nukini, Ashaninka, Arara e Jaminawa-
ranças Arara, foi criado outro GT, que estabeleceu novo mapa de Arara. O relatório foi, no entanto, considerado insuficiente pela
delimitação, respeitando as reivindicações expressas em diver- Justiça Federal. Em 2002, a antropóloga Delvair Montagner foi
sos documentos e abaixo-assinados encaminhados pelas lide- contratada para elaborar laudo técnico em reposta a vários que-
ranças à Diretoria de Assuntos Fundiários (DAF). A nova área sitos propostos pelo Juiz Federal, dentre os quais, os relaciona-
proposta tem 20.764 ha e é destinada a 278 índios, remanes- dos à etnicidade do povo Nawa. No laudo de Montagner, o caso
centes de misturas de várias etnias (Arara, Amawaka, Santa foi entendido como processo de “etnogênese”, produção de uma
Rosa, Txama, Conibo, Ashaninka e Kaxinawá), bem como de identidade étnica ativamente produzida por uma população que,
descendentes de casamentos de membros desses grupos com por ter sido massacrada no passado, na situação de seringal,
regionais. optara por não assumir uma identidade indígena.
A nova extensão proposta incide em 12.092 ha no limite norte Em junho de 2003, a Funai criou um GT para realizar o “levan-
da Resex do Alto Juruá, na margem direita do rio Amônia, em tamento prévio” das reivindicações territoriais dos Nawa e Nuki-
2.186 ha no limite sul do Parque Nacional da Serra do Divisor, ni. O relatório confirmou que as terras tradicionalmente ocupa-
criado pelo Ibama em 1989, e, ainda, em 6.486 ha no limite sul das pelos Nawa estavam integralmente situadas na área norte do
do Projeto de Assentamento Amônia, implantado pelo Incra em Parque e que a ampliação da terra reivindicada pelos Nukini se
1996, ambos situados na margem esquerda do rio. O imbróglio sobrepunha a outra parte do Parque. Em Audiência Pública rea-
gerado nesse processo de identificação só poderá ser equaci- lizada na Justiça Federal, em 15 de outubro de 2003, os Nawa
onado após acordos entre os Arara, os moradores da reserva, os foram finalmente reconhecidos como grupo étnico e sua terra
assentados, de um lado, e representantes da Funai, Ibama e foi reconhecida nos limites do Parque. A Funai comprometeu-
Incra, de outro. se, então, a iniciar a identificação da TI Nawa e a elaborar, com o
Ibama, uma proposta de plano de manejo para a terra indígena.
A TI Manchineri do seringal Guanabara foi estimada, no relató- Em novembro de 2003, o GT constituído pela Funai iniciou os
rio entregue em 2004, em 213.254 ha. No entanto, o processo estudos de identificação que, em junho de 2005, culminaram
encontra-se paralisado na DAF, aguardando adequações do rela- na proposta de uma extensão de 83.218 ha.
tório à legislação indigenista vigente, com a efetiva comprovação
da utilização tradicional feita pelas famílias Manchineri da terra Depois de alguma resistência com relação a essa proposta, uma
reivindicada. Por outro lado, o Ibama, o Incra e o governo esta- nova audiência de conciliação foi promovida pelo Juiz Federal
dual se manifestaram contrários àquela proposta de limites, ale- em 06/03/2006, com a presença de representantes da União,
gando o risco de surgimento de conflitos com os moradores lo- Funai, Incra, Ibama e das lideranças Nawa. A discussão esteve
cais e, ainda, que a montante do rio Iaco está regularizada a TI centrada numa das três propostas de limites sugerida pela União
Mamoadate, a maior em extensão no estado, destinada aos índi- e o Ibama na audiência de outubro de 2003, a saber, aquela,
os Manchineri e Jaminawa intermediária, que implica a retirada de 30 mil ha da proposta
preliminar de 2004, confirmada pelo relatório final da Funai de
2005. À primeira vista, a conciliação “proposta” pelo Juiz foi aca-
O CASO NAWA tada pelas lideranças Nawa, e endossada pela coordenadora da
As primeiras reivindicações do povo Nawa para a identificação CGID/DAF, como meio de agilizar a continuação do processo de
de uma terra indígena, no alto rio Moa, incidente na área norte regularização da TI.

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TERRAS A IDENTIFICAR (ENTRE no rio Iaco (Guajará), ambas no município de Sena Madureira,
CONFLITOS E EMERGÊNCIAS) foram incluídas para identificação no Plano Operativo Anual do
PPTAL para 2004. Até fevereiro de 2006, todavia, estas ações não
Apesar do alto índice de terras indígenas já regularizadas no Acre, foram iniciadas.
ou em processo de regularização em andamento, ainda resta
identificar novas áreas de ocupação indígena. Duas terras indí- A fixação de parcela da população Jaminawa no alto rio Caeté,
genas, destinadas ao povo Jaminawa, uma no rio Caeté e outra afluente da margem esquerda do rio Iaco, é decorrente de con-

ISOLADOS: DESLOCAMENTOS E CONFLITOS


No Estado do Acre, ao longo da fronteira Brasil-Peru e suas cercanias, mer Institute of Linguistics (SIL), visaram estender suas ações aos “iso-
nove terras indígenas e um parque estadual, com extensão agregada lados”. Nos últimos três anos, a crescente penetração dos madeireiros
de pouco mais de 2 milhões de hectares, constituem territórios de vem acompanhada da abertura de estradas nas florestas situadas ao
moradia permanente e/ou de usufruto de povos que podem compor a longo da fronteira, como é o caso daquela que leva de Nueva Itália, no
maior população de índios “isolados” da Amazônia. A Funai estima a Ucayali, à aldeia Sawawo, dos Ashaninka do rio Amônia peruano.
população que habita de forma estável em seis conjuntos de malocas,
Durante quase um século de funcionamento dos seringais, vários gru-
nas TIs Alto Tarauacá e Riozinho do Alto Envira, entre 600 a 1.000
pos de “isolados” mantiveram suas moradias no lado peruano da fron-
pessoas. Por outro lado, os deslocamentos oriundos do Peru, antes de
teira. Costumavam passar o “verão” no lado acreano, onde cruzavam
caráter sazonal, ganharam maior intensidade e novas feições nos últi-
terras indígenas e seringais, nas cabeceiras do Breu, do Tarauacá, do
mos anos, acarretando conflitos com as populações indígenas e não-
Jordão e do Envira, e acabavam por atacar e saquear casas de serin-
indígenas que habitam a região e demandando novas ações da Funai,
gueiros, Kaxinawá e Ashaninka. Os conflitos, com mortes de ambos os
no que diz respeito à regularização de terras indígenas e às ações de
lados, costumavam ocorrer com freqüência.
proteção e vigilância.
A castração e o assassinato, em junho 2000, de um “isolado” na TI Alto
Nos últimos dez anos, a desarticulação dos seringais nas cabeceiras
Tarauacá, por exemplo, tornou evidente a necessidade da presença
dos rios Tarauacá, Jordão, Humaitá e Envira, as ações da Frente de
permanente de um posto de vigilância da FPEE nessa terra, para prote-
Proteção Etno-Ambiental Envira (FPEE), bem como a crescente ativi-
ger os territórios dos “isolados” das invasões feitas por madeireiros e
dade dos madeireiros e missionários no Peru, motivaram diferentes
caçadores vindos da sede do Município de Jordão, bem como evitar
grupos de “isolados” a se estabelecer do lado acreano e a ampliar seus
conflitos armados com a população de extrativistas e agricultores dos
territórios de uso de recursos naturais, inclusive em terras reconheci-
seringais das cercanias.
das para os Kaxinawá, Ashaninka e outros grupos “isolados”. Conflitos
com os seringueiros no alto rio Tarauacá, em meados dos anos 1990, e Em 2001, o governo do estado do Acre assinou acordo de cooperação
a recente identificação de novas malocas no rio Envira levaram a Funai com a presidência da Funai, que estipulava, dentre outras coisas, o
a agilizar a regularização de terras específicas para essas populações, fortalecimento da FPEE e a instalação de um posto de vigilância na TI
cujos processos estavam paralisados desde 1987, e a configurar um Alto Tarauacá, com vistas a garantir exclusividade aos “isolados” no
corredor de terras indígenas ao longo da fronteira Brasil-Peru. uso dos recursos naturais nas terras reconhecidas pela Funai. O acor-
do acabou não sendo cumprido pelo governo estadual. Esse posto de
Atualmente, três terras estão reservadas para grupos “isolados”: a TI
vigilância, todavia, acabou instalado, quatro anos depois, no âmbito do
Ashaninka e Isolados do Rio Envira, a TI Riozinho do Alto Envira e a TI
“Projeto de Proteção Etnoambiental dos Povos Indígenas Isolados na
Alto Tarauacá, todas situadas no Paralelo de 10º S, na região dessa fron-
Amazônia Brasileira”, gerenciado pela CGII/Funai e o Centro de Traba-
teira internacional. No entanto, outras áreas são ocupadas e utilizadas
lho Indigenista, com recursos da Fundação Moore.
por grupos de “isolados”, por exemplo, o Parque Estadual Chandless,
no vale do Acre-Purus. As florestas do limite oeste do Parque, bem Nos últimos anos, as atividades madeireiras ilegais têm provocado in-
como a TI Mamoadate, constituem território tradicional de perambu- tensas migrações e, inclusive, conflitos interétnicos no lado peruano
lação e coleta sazonal dos Masko, ou Mascho-Piro, como são conheci- da fronteira. Em 2003, “isolados” Amahuaca mataram uma mulher e
dos no Peru. Os Masko foram identificados em território acreano já em flecharam duas crianças Ashaninka na comunidade Dulce Glória, no
1999, quando visitaram a FPEE. A partir de então, intensificou, no lado alto Juruá. Os Ashaninka revidaram e promoveram uma matança.
peruano, a extração ilegal de madeira. E, na província de Purus, chega-
A criação, em 2004, no Peru, do Parque Nacional Alto Purus, que incor-
ram os missionários evangélicos da Pioneer Mission, os quais, nos úl-
porou a Reserva Territorial Mascho-Piro, contribuiu para uma virtual
timos anos, organizaram várias expedições para tentar contatar os “iso-
proteção das florestas e nascentes dos rios no entorno do Paralelo 10ºS,
lados”.
bem como para a configuração, no lado peruano, de um corredor de
No extremo ocidental do Paralelo 10ºS, em território peruano, as ativi- territórios indígenas, ocupado pelos Ashaninka, Jaminawa e pelos “iso-
dades madeireiras ganharam força na Reserva Territorial Murunahua lados”. No entanto, a exploração predatória de madeira, bem como a
e em suas cercanias, acarretando invasões nos territórios dos “isola- presença de missionários e narcotraficantes nessa região, continuam a
dos”, bem como enfrentamentos armados, “correrias”, contatos força- representam graves riscos aos povos indígenas que vivem em ambos os
dos e epidemias. Nessa mesma região, missionários evangélicos, do Sum- lados da fronteira Brasil-Peru.

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ASCOM-AC, MAR. 2005
Benki Ashaninka, acompanhando
comitiva do governador do Acre
Jorge Viana, em visita ao presidente do
Peru, Alejandro Toledo, em Lima.
Em pauta, a integração rodoviária e
solicitações de medidas para
a interrupção da exploração ilegal de
madeira na fronteira comum.

flitos faccionais, ocorridos nas TIs Cabeceira do Rio Acre e Ma- região do Iaco, o Incra concedeu um lote de 600 ha a várias
moadate, a partir da década de 1990, que resultaram na migra- dessas famílias Jaminawa. A partir de 2000, representantes des-
ção de várias famílias extensas para a periferia de Rio Branco e sas comunidades passaram a reivindicar o início do processo de
outras cidades do vale do Acre. Pressionada pelo Juizado da In- reconhecimento da TI Jaminawa do Guajará.
fância e da Adolescência, que alertou para a situação de mendi-
Duas novas demandas territoriais, ainda não reconhecidas pela
cância em que estavam vivendo esses índios, a Administração da
Funai, surgiram recentemente. Em Marechal Thaumaturgo, na
Funai em Rio Branco (AER-RBR) promoveu, de maio a agosto
Resex do Alto Juruá, os Milton, família extensa formada por des-
de 1997, a transferência de 67 índios para a aldeia Betel, na TI
cendentes de indígenas Contanawa e Nehenawa, têm pleiteado
Mamoadate, e de outros 17 para a aldeia São Lourenço, na TI
seu reconhecimento enquanto grupo étnico e a identificação de
Cabeceira do Rio Acre. Em setembro de 1997, outros 30 Jaminawa
uma terra indígena incidente na Reserva. Em setembro de 2005,
foram transferidos pela Funai para o seringal Boa Vista, no alto
Manifesto divulgado pela Organização dos Povos Indígenas do
rio Caeté. Devido a constantes invasões de caçadores, pescado-
Acre, Sul do Amazonas e Noroeste de Rondônia (OPIN), além de
res e madeireiros no seringal, a AER-RBR solicitou urgência no
exigir a identificação dessa terra indígena para os Contanawa,
início do processo de identificação e delimitação da TI Jaminawa
solicita o início dos estudos para o reconhecimento da TI Estirão,
do Rio Caeté.
composta por cinco aldeias, habitadas por cerca de 160 Kulina e
Em dezembro de 2002, foi criada a Resex Cazumbá-Iracema, Jaminawa, no Município de Santa Rosa do Purus.
nos municípios de Sena Madureira e Manuel Urbano. Com área
de 750.494 ha, a reserva circundou integralmente a área ocupa-
REVISÃO DE LIMITES E O MOSAICO CONTÍNUO
da, desde 1997, pelos Jaminawa do rio Caeté. Descontentes com
os 9.878 ha restantes, os representantes Jaminawa tornaram a DE TIS E UCS NO ALTO JURUÁ
reivindicar uma terra de cerca de 21.000 ha, correspondente à Demandas de ampliação territorial realizadas nos últimos cinco
área proposta pela AER-RBR. O início desse processo de identifi- anos têm sido fundamentadas pelas lideranças com a justificati-
cação e delimitação poderá, assim, acarretar negociações tensas va de que as demarcações basearam-se em estudos feitos em
entre a Funai e o Ibama, bem como entre os Jaminawa (hoje final da década de 1970, cujos resultados acabaram sendo con-
quase 120 índios) e os moradores da Resex. dicionados por pressões de empresas “paulistas” e de proprietá-
rios de seringais, então apoiados por políticos locais e por repre-
Também em decorrência das dissensões ocorridas na TI Mamo-
sentantes do Conselho de Segurança Nacional.
adate, em fins da década de 1980, diversas famílias Jaminawa
migraram, umas para a TI Cabeceira do Rio Acre e outras para as Essas novas demandas territoriais surgiram em uma conjuntu-
colocações Guajará e Asa Branca, no rio Iaco. Nos anos 1990, ra marcada pelo vigoroso crescimento demográfico dos povos
quando da implantação de um projeto de assentamento nessa indígenas, pela retomada do asfaltamento das BR-364 e BR-317,

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a revisão dos componentes indígenas dos respectivos EIA-RIMAs delegação de lideranças Yawanawá foi recebida pelo governador
e a negociação de planos de mitigação e compensação pelos pre- Jorge Viana, que reiterou a posição favorável do governo estadual
juízos ambientais, sociais e culturais decorrentes da pavimenta- quanto à demanda de ampliação da TI Rio Gregório.
ção dessas estradas.
Está hoje em vias de conclusão a formalização de um acordo
Quase vinte anos após a demarcação de sua terra, com 27.533 entre o governo estadual e a empresa Radan Administração e
ha, os Nukini passaram a reivindicar a revisão de seus limites. Participação Ltda. (da qual a Tinderacre faz parte), garantindo a
Levantamento prévio realizado pela Funai em 2003 estimou a cessão da parte das terras da empresa (cerca de 28.000 ha) con-
ampliação em cerca de 72.000 ha sobre a extensão já regulariza- tidas na proposta de revisão de limites da TI Rio Gregório, bem
da, incorporando duas glebas (Timbaúba e Moa Azul) que o Incra como a não realização de atividades de manejo madeireiro nas
declarou estar disposto em doar aos Nukini, além de outra pe- cercanias dos limites dessa terra. Por outro lado, o governo esta-
quena parcela do Parque Nacional da Serra do Divisor. dual comprometeu-se a redefinir os limites da Floresta Estadual
A partir de 2004, a presidência da Funai adotou a postura de Liberdade, adequando-os aos novos limites da terra indígena.
evitar a revisão de limites de terras já regularizadas, sob alegação Visto que a nova superfície da TI Rio Gregório fará limites com a
de concentrar esforços na identificação de novas terras. Em março Resex Riozinho da Liberdade, criada em fevereiro de 2005; os
de 2004, todavia, uma embaixada de lideranças do povo Yawa- impactos ambientais que advirão da pavimentação da BR-364; a
nawá esteve no Ministério da Justiça e na sede da Funai em Bra- perspectiva do início das atividades madeireiras nas florestas
sília, acompanhada por políticos da bancada federal do Acre, e públicas situadas no entorno de terras indígenas e unidades de
reivindicou a revisão de limites da TI Gregório, que coabitam conservação e, ainda, o compromisso publicamente assumido
com os Katukina. Atendendo a essa demanda, em dezembro de junto às lideranças Yawanawá pelo governador do Acre, a revisão
2004, a Funai designou um GT para realizar estudos de revisão da TI Rio Gregório é hoje de fundamental importância. Esta TI
de limites, cujo relatório, entregue em outubro de 2005, esti- consolida o mosaico contínuo de 29 terras indígenas e 14 uni-
mou que a terra, uma vez revisada, deverá ter extensão total de dades de conservação existente no Acre, com uma extensão, se
187.400 ha. excluídas as sobreposições, de 7.716.133 ha contínuos de flo-
A revisão hoje reivindicada pelos Yawanawá e Katukina incide restas, que correspondem a 47% da extensão do Estado. Os pro-
em terras da União, da Floresta Estadual Liberdade e da antiga cessos, tanto políticos como administrativos, são dinâmicos e,
fazenda da Paranacre, esta comprada pelo grupo empresarial por isso, esses números tendem a sofrer modificações num fu-
Tinderacre, do qual é sócio o apresentador de televisão Carlos turo próximo.
Massa, conhecido por Ratinho. Um plano de negócios, incluin- A continuidade dos processos de regularização de terras indíge-
do a instalação de uma indústria de beneficiamento de madei- nas e unidades de conservação que integram esse mosaico con-
ra, foi apresentado à Secretaria Executiva de Florestas e Extrati- tínuo de áreas protegidas, por meio de ações articuladas de dife-
vismo (SEFE) para análise pelo Conselho de Desenvolvimento rentes órgãos dos governos federal e estadual, é, hoje, de funda-
Industrial do Acre. mental importância para o reconhecimento dos direitos territo-
Em setembro de 2005, a Organização de Agricultores Extrativis- riais tanto de povos indígenas como das populações de serin-
tas Yawanawá do Rio Gregório (OAEYRG) fez circular uma carta gueiros e agricultores. Sem essas ações, poderão continuar a
aberta, demonstrando a preocupação com a chegada de empre- ocorrer, ou se agravar, significativos conflitos territoriais, sociais
sas interessadas em explorar as riquezas florestais do estado, e interétnicos já em curso no Alto Juruá, região onde está situa-
especialmente madeira. Diante da expressiva repercussão desta da a maior parte das terras indígenas e unidades de conservação
carta no Acre, no país e no exterior, uma semana depois, uma do Estado do Acre. (fevereiro, 2006)

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Povos Indígenas da
Fronteira Brasil-Peru
Firmam Compromissos

A ALDEIA APIWTXA, DOS ASHANINKA, SEDIOU, 1999, no sentido de obrigar diferentes órgãos do governo
EM SETEMBRO DE 2005, O IV ENCONTRO DO federal a cumprir suas atribuições constitucionais na vigilância
dos limites de sua terra indígena e da nação brasileira, precisam
GRUPO DE TRABALHO PARA A PROTEÇÃO ser ampliadas para compromissar os governos e diferentes
TRANSFRONTEIRIÇA DA SERRA DO DIVISOR E DO grupos da sociedade civil do lado peruano.
ALTO JURUÁ. RESULTOU DAÍ UM DOCUMENTO 3. As ações iniciadas a partir de 2004 por um consórcio de
CONTENDO COMPROMISSOS ENTRE OS POVOS instituições brasileiras e peruanas no âmbito do Projeto
INDÍGENAS DE AMBOS OS LADOS DA FRONTEIRA “Conservação Transfronteiriça da Região da Serra Divisor
(Brasil-Peru)”.
4. Os três encontros promovidos pelo GT para Proteção
De 15 a 17 de setembro de 2005, na aldeia Apiwtxa, estiveram Transfronteiriça da Serra do Divisor e Alto Juruá – Brasil/Peru,
reunidos lideranças dos povos Ashaninka, Kaxinawá, Kulina, desde abril de 2005, nas quais a preocupante situação na
Mastanawa, Sharanawa, Nukini e Katukina que vivem em fronteira vem sendo objeto de avaliação e posicionamentos
territórios situados na região fronteiriça do Estado do Acre, conjuntos vêm sendo tomados sobre os rumos desejados para
Brasil, e Departamento de Ucayali, Peru, bem como membros o desenvolvimento e a integração na região.
de organizações da sociedade civil e representantes de órgãos
dos governos de ambos os países. 5. Os entendimentos travados pelos Governos do Estado do Acre
e do Departamento do Ucayali, desde 2003, com vistas
Sediada e organizada pela Associação Ashaninka do Rio Amônia à integração entre essas duas regiões. A reunião realizada em
(Apiwtxa), a reunião contou com o respaldo do Grupo de Trabalho Apiwtxa está em consonância com a Ata de Compromissos fruto
(GT) para Proteção Transfronteiriça da Serra do Divisor e Alto da Reunião Técnica para a Conservação da Biodiversidade
Juruá – Brasil/Peru, iniciativa que, no Vale do Juruá acreano, Fronteiriça Ucayali-Acre, ocorrida em Pucallpa em julho de
tem, desde abril de 2005, reunido organizações indígenas e 2005, que estabelece a criação de um Fórum e a ativa participa-
o movimento social, órgãos dos governos federal e estadual ção dos povos indígenas na discussão da situação desses povos
e as cinco prefeituras municipais.
face à integração, extração madeireira e outras atividades
Alinhada com as preocupações do referido GT, a pioneira ilícitas nos territórios indígenas e nas unidades de conservação
iniciativa de Apiwtxa teve por objetivo abrir um processo dessa região de fronteira.
continuado de diálogo e de intercâmbio de experiências entre 6. Uma série de contatos preliminares iniciados pelas lideranças
povos indígenas na fronteira Acre-Ucayali. Visou ainda delinear de Apiwtxa, desde março de 2005, com líderes Ashaninka das
compromissos e agendas comuns que assegurem a participação comunidades nativas dos rios Enê, Juruá, Vacapistea, Tamaya e
desses povos na definição e execução de políticas de desenvolvi- alto Amônia, que resultaram no desejo de fortalecer esse
mento, abram novas alternativas de gestão e vigilância dos
intercâmbio, realizar uma reunião mais ampla e conhecer de
territórios indígenas e protejam a biodiversidade das florestas
perto as experiências inovadoras de gestão ambiental desenvol-
da região.
vidas na aldeia Apiwtxa.
Uma série de antecedentes levou à decisão de realização desta 7. Os últimos acontecimentos concentrados na Aldeia Sawawo,
reunião neste momento histórico. de revolta da população indígena, provocando a mobilização de
1. As profundas implicações sociais e ambientais das atividades cerca de 50 guerreiros Ashaninka dispostos a avançar em
madeireiras sobre as populações e a biodiversidade das terras direção aos acampamentos de madeireiros ilegais com clara
indígenas e do Parque Nacional da Serra do Divisor. intenção de confronto direto. Este confronto seria certamente
desigual, podendo ocasionar mortes de ambos os lados, o que
2. A percepção de que as iniciativas tomadas por Apiwtxa, desde
precipitou o adiantamento da reunião do GT transfronteiriço e a

10 ACRE POVOS INDÍGENAS NO BRASIL 2001/2005 - INSTITUTO SOCIOAMBIENTAL


apressar a articulação das instituições regionais. 4. Desenvolver, manter e fortalecer a articulação com lideranças
indígenas peruanas para a ampliação de sua participação nas
No terceiro dia do encontro, as lideranças indígenas concentra-
discussões quanto à proteção da biodiversidade, dos direitos
ram suas atenções na identificação de agendas e compromissos
e das condições de vida das populações que vivem na faixa
comuns, bem como na construção de uma pauta de recomenda-
de fronteira.
ções direcionada aos governos de ambos países. Tendo em vista
as apresentações e discussões havidas durante os três dias do 5. Fazer respeitar os limites da fronteira Brasil-Peru.
encontro, chegou-se a uma ampla pauta de compromissos
mutuamente assumidos entre os povos indígenas e uma série
COMPROMISSOS DOS POVOS
de recomendações endereçadas pelos povos indígenas peruanos
aos órgãos de governo e a organizações não-governamentais INDÍGENAS PERUANOS
de ambos os países. Estes compromissos e recomendações 1. Com relação aos TERRITÓRIOS
estão expostos à continuação:
· Defender os territórios dos povos indígenas;
· Cooperar com os processos de saneamento físico legal
COMPROMISSOS COMUNS desses territórios;
1. Dar prosseguimento aos canais de diálogo e intercâmbio de · Apoiar a processos de exclusão das concessões florestais
experiências entre povos indígenas e outros povos da floresta, sobrepostas nos territórios dos povos indígenas.
dos dois lados da fronteira Brasil-Peru.
2. Com relação aos RECURSOS NATURAIS
2. Colaborar na identificação e implementação de estratégias de
aproveitamento produtivo sustentável dos territórios indígenas, · Proteger a biodiversidade e uso sustentável dos recursos
de maneira a garantir fontes de subsistência e de comercializa- naturais de nossos territórios e reservas comunais;
ção e a abrir alternativas à exploração madeireira realizada de · Combater a extração ilegal de madeira;
forma ilegal. · Constituir Comitês de Vigilância Comunal;
3. Buscar garantir a presença e participação informada de · Constituir uma Frente de Defesa, que compreenda as bacias
representantes indígenas nas reuniões técnicas do Fórum dos rios Purus, Juruá, Amônia, Tamaya e Sheshea.
para a Integração Acre-Ucayali para discussão da integração
e do desenvolvimento fronteiriço, de maneira a incorporar 3. Com relação à ORGANIZAÇÃO COMUNAL
as demandas e projetos indígenas nas políticas resultantes, · Fortalecimento de organizações comunais de base local;
que devem priorizar investimentos econômicos, ambientais
· Articular as bases comunais com suas organizações
e sociais para a conservação da biodiversidade e a garantia
federativas: FECONAPU, ACONADISH, ACONAMAD e ARPAU;
dos direitos territoriais indígenas, e que não tenham como
ponto de partida a discussão em torno da construção da · Fortalecer as organizações dos professores indígenas EBI-
estrada Pucallpa-Cruzeiro do Sul. ANAMEBI;
4. Defender políticas de segurança jurídica e de vigilância · Promover e fortalecer alianças com povos e organizações
dos territórios ocupados por povos indígenas, inclusive indígenas tanto do Estado peruano quanto do Brasil.
aqueles em isolamento voluntário, que vivem ao longo da
fronteira Brasil-Peru. PROPOSTAS DE COMPROMISSO
PARA O ESTADO PERUANO
COMPROMISSOS DOS POVOS · Demandar uma maior presença do Estado peruano em zonas
INDÍGENAS DO VALE DO JURUÁ de fronteira;
1. Dar ampla divulgação a demandas e reivindicações dos · Exigir do Estado a implementação de mecanismos eficazes para
povos indígenas que vivem na fronteira peruana para a garantir os territórios dos povos indígenas;
proteção do seu território, dos seus direitos e sua identidade. · Implementar políticas públicas viáveis em favor dos povos
2. Disposição de assinar uma carta em conjunto endereçada indígenas com ênfase em saúde, educação e recursos naturais;
à Comissão de Direitos Humanos da ONU, instituição na · Implementar mecanismos eficazes de consulta e participação
qual será buscado proteção aos territórios e à vida dos informada dos povos indígenas, e medidas administrativas e
povos indígenas. projetos econômicos que possam afeta-los, conforme estabelece a
3. Oferecer aos povos indígenas peruanos da faixa de fronteira Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT);
a experiência e conhecimento acumulados pelas organizações · Exclusão das concessões florestais superpostas aos territórios
brasileiras, por meio de cursos de capacitação e intercâmbios, indígenas;
com critérios de seleção, oferecidos pelo GT e OPIAC, AMAAIC,
· Suspensão das concessões minerais e petrolíferas nas bacias
CPI-ACRE, ASATEJO, ASAJURUÁ, OPIRJ, Secretaria de Meio
dos rios Abujao, Callería e Amônia e nas Reservas Territoriais
Ambiente e Turismo de Marechal Thaumaturgo, SEPI.

POVOS INDÍGENAS NO BRASIL 2001/2005 - INSTITUTO SOCIOAMBIENTAL ACRE 11


Isconahua e Murunahua; Marechal Thaumaturgo
· Viabilizar a implementação de projetos produtivos alternativos e PERU
sustentáveis à atividade florestal madeireira; Defensoria del Pueblo – Ucayali; Comisión de Derechos Humanos
· Exigir reconhecimento dos Comitês de Vigilância Comunal, de de Purus; Organización Regional de Pueblos Ashaninkas de
base local, e da Frente de Defesa Fronteiriço, por parte do Estado Ucayali – ARPAU; Asociación de Profesionales Bilíngües
peruano. Indigenas de Yurua – APROBY; Word Wildlife Found de Yurua
Bacia do Yurua: Comunidad Nativa de Sawawo; Comunidad
Nativa Nueva Shahuaya; Comunidad Nativa Dulce Gloria;
PROPOSTAS DE COMPROMISSO PARA
Comunidad Nativa Breu; Comunidad Nativa Paititi; Comunidad
AMBOS OS ESTADOS (BRASIL - PERU) Nativa Coshireni.
· Implementar uma política comum bifronteiriça para conservação Bacia do Sheshea: Comunidad Nativa Capiroshari.
do meio ambiente e biodiversidade, e efetiva proteção aos
direitos dos povos indígenas, que incorpore a plena participação Bacia do Tamaya: Comunidad Nativa Alto Tamaya; Comunidad
desses povos; Nativa Nueva Califórnia de Shatanya; Comunidad Nativa
Cametsari Quipatsi

PROPOSTA DE COMPROMISSO DAS Bacia do Purus: Comunidad Nativa Shalom de Shambuyacu;


Comunidad Nativa Catay; Comunidad Nativa Conta; Comunidad
ONGS DE AMBOS OS PAÍSES Nativa Cantagallo.
· Oferecer apoio técnico e financeiro a estes compromissos
[Trechos de documento publicado na coluna “Papo de Índio”, do
assumidos pelos povos indígenas;
jornal Página 20, de 25/09/2005]
· Difusão de demandas dos povos indígenas através dos meios
de comunicação a fim de gerar fatos políticos;

RECOMENDAÇÕES GERAIS PARA


ACRE E UCAYALI
· Assegurar o cumprimento de compromissos assumidos quanto à
efetiva participação dos diferentes atores (Estados, povos
indígenas e sociedade civil) no marco do processo de integração
engendrado pelos Governos de Ucayali e Acre;
· Garantir uma efetiva articulação entre as ações da Secretaria
Técnica Acre-Ucayali com as propostas do Fórum para a
Integração Ucayali-Acre;
· Ambos os governos devem facilitar recursos financeiros e
logísticos para viabilizar a participação das organizações
indígenas nas reuniões do Fórum para a Integração.
Aldeia Apiwtxa, Terra Indígena Kampa do Rio Amônia, Marechal
Thaumaturgo, Acre, Brasil, 17 de setembro de 2005.
Assinam:
BRASIL
Associação Ashaninka do Rio Amônia – Apiwtxa; Secretaria
Extraordinária dos Povos Indígenas do Acre – SEPI; Organização
dos Professores Indígenas do Acre – OPIAC; Associação do
Movimento dos Agentes Agroflorestais Indígenas do Acre –
AMAAIAC; Comissão Pró-Índio do Acre – CPI/AC; Organização
dos Povos Indígenas do Rio Juruá – OPIRJ; Associação dos
Povos Indígenas do Rio Humaitá – ASPIRH; Associação dos
Produtores e Criadores Kaxinawá da Praia do Carapanã –
ASKPA; Aldeia Ashaninka Morada Nova do Rio Breu; Associação
Agroextrativista do Rio Tejo – ASATEJO; Associação Agroextra-
tivista do Rio Juruá – ASAJURUA; Fundação Nacional do Índio –
Funai; SOS Amazônia; Secretaria de Meio Ambiente e Turismo de

12 ACRE POVOS INDÍGENAS NO BRASIL 2001/2005 - INSTITUTO SOCIOAMBIENTAL


Os Índios e a Florestania

Marcelo Piedrafita Iglesias Doutorando em Antropologia Social no Museu Nacional/UFRJ;


pesquisador do Laced/MN/UFRJ
Terri Valle de Aquino Mestre em Antropologia Social pela UnB; gerente de Etnozoneamento
da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Recursos Naturais/AC

ÍNDIOS PROTAGONIZAM AÇÕES DE GESTÃO Técnica e Extensão Agroflorestal do Acre (Seater), como parte
AMBIENTAL, VIGILÂNCIA DE SUAS TERRAS E dos planos de mitigação dos impactos da pavimentação das BRs
VALORIZAÇÃO DOS CONHECIMENTOS TRADICIONAIS, 364 e 317. Dados da CPI-Acre, de fevereiro de 2005, indicam
RESULTANDO EM UM CRESCIMENTO DO NÚMERO DE que havia no Acre 109 AAFIs, de 10 povos, atuando em 23 TIs e
11 municípios; outros três AAFIs, de dois povos, atuavam em
ASSOCIAÇÕES E LIDERANÇAS RESPONSÁVEIS PELO
três terras no sul do Amazonas.
ESTABELECIMENTO DE CANAIS DE INTERLOCUÇÃO
COM O GOVERNO E A SOCIEDADE CIVIL Os conteúdos programáticos dos cursos e oficinas, oferecidos
pela CPI/AC, têm discutido várias alternativas de manejo agroflo-
restal: construção e manutenção de viveiros, produção e trans-
Há uma década, um novo ator social vem contribuindo para a plante definitivo de mudas de árvores frutíferas, adensamento
gestão territorial nas terras indígenas no Acre: os agentes agro- de capoeiras, terreiros e quintais com espécies alimentares e de
florestais indígenas (AAFIs). Nesse período, eles gradualmente uso cotidiano, recuperação de áreas degradadas com a introdu-
assumiram papel de liderança na organização social e política ção de leguminosas, adubação verde e compostagem, manejo
das aldeias. Enquanto “movimento”, conquistaram crescente em sistemas agroflorestais (SAFs), cultivo de hortas orgânicas,
reconhecimento profissional, passaram a influenciar políticas técnicas biológicas de combate a pragas, manejo de palheiras e
públicas, firmaram parcerias com órgãos do governo e, em agos- palmeiras usadas na construção, estratégias de coleta, manejo e
to de 2002, fundaram a Associação do Movimento dos Agentes destinação do lixo, bem como reciclagem de madeiras desvitali-
Agroflorestais Indígenas do Acre (AMAAIAC), sua própria organi- zadas dos roçados, utilizadas na confecção de móveis e escultu-
zação de representação política. ras. Os cursos intensivos têm também contemplado a formação
A formação profissional dos AAFIs tem sido realizada, desde 1996, básica dos AAFIs, em leitura e escrita, em língua indígena e por-
pelo Setor de Agricultura e Meio Ambiente da Comissão Pró-Ín- tuguesa, em disciplinas como ecologia, ciências, história, geo-
dio do Acre (CPI/AC), por meio de cursos em Rio Branco, ofici- grafia e matemática, bem como na legislação pertinente à sua
nas itinerantes e assessorias em TIs, assim como de viagens de área de atuação.
intercâmbio, nas quais os agentes visitam experiências seme- Hoje, em número bastante superior ao originalmente planeja-
lhantes em TIs de outras regiões do Brasil e de outros países, do, os SAFs servem como modelos demonstrativos para famílias
como o Peru e a Bolívia. interessadas em iniciar atividades semelhantes em seus terrei-
A proposta apresentada pela
CPI/AC ao Projeto Demonstrati-
vo (PDA), em 1996, previa a for-
mação de 15 AAFIs em três TIs.
Em 2003, ao fim da segunda
etapa do apoio do PDA, eram
105 AAFIs, dos quais 84 haviam
participado da formação da CPI.
Os outros 21 iniciaram sua for-
mação em 2001, promovida
pela Secretaria de Assistência

POVOS INDÍGENAS NO BRASIL 2001/2005 - INSTITUTO SOCIOAMBIENTAL ACRE 13


ros e roçados. Além de contribuir na recuperação de áreas de- ções indígenas participaram do I Fórum dos AAFIs do Acre. Do
gradadas e no uso de áreas de roçados, com a introdução de “Documento ao Governo da Floresta”, que daí resultou, cabe
espécies frutíferas, os SAFs têm aberto alternativas alimentares e destacar as seguintes demandas apresentadas no sentido de sub-
de comercialização. Em 2002, por exemplo, os AAFIs e as famíli- sidiar as estratégias de apoio oficial em relação aos agentes agro-
as manejavam quase 75 mil plantas, em SAFs individuais e cole- florestais e às suas atividades: 1) reconhecimento profissional
tivos. Hoje, muitos SAFs estão em produção: além de consumidas dos AAFIs como “funcionários da floresta”, com o estabeleci-
nas aldeias, há frutas cujo excedente é vendido nas sedes muni- mento de um mecanismo permanente de contratação e remu-
cipais mais próximas. neração; 2) implementação de políticas públicas que contem-
plem e fortaleçam as ações dos AAFIs em suas terras; 3) garantia
Para além de seu engajamento em ações de manejo florestal e
da participação da AMAAIAC no planejamento e execução de po-
de criação de animais, os AAFIs têm assumido um papel impor-
líticas estaduais destinadas às TIs ou àquelas que possam cau-
tante na vigilância e fiscalização dos limites de suas terras, mo-
bilizando-se para evitar invasões de caçadores, pescadores e sar impactos ambientais em seu entorno; e 4) discussão e defi-
madeireiros. Para instrumentalizar essas atividades, têm discu- nição participativa de critérios para a ampliação da formação de
tido as legislações federal e estadual, relacionando-as aos pro- AAFIs para outras terras indígenas ainda não contempladas pe-
blemas vividos em suas terras, bem como às formas mais ade- los diferentes programas.
quadas para sua solução no âmbito local. Têm também respal- Como um resultado dessas reivindicações pode-se apontar o con-
dado suas ações junto aos órgãos do governo, o que incluiu ofi- vênio entre a AMAAIAC e o governo estadual, formalizado em
cinas de capacitação, oferecidas pelo Ibama, e sua legitimação agosto de 2005, contemplando recursos para a contratação e
como “agentes ambientais colaboradores”. remuneração de 69 AAFIs, bem como o apoio às ações de vigi-
Em 2001, os AAFIs das três terras kaxinawá do Município de lância das terras indígenas e de educação ambiental nas comu-
Jordão autodemarcaram a TI Kaxinawá do Seringal Independên- nidades.
cia, formada por dois seringais comprados pela Associação dos
Seringueiros Kaxinawá do Rio Jordão (ASKARJ). Essa iniciativa O GOVERNO DA FLORESTA E A CPI/AC
pode oferecer subsídios valiosos à Funai, apontando alternativas
que resultem no barateamento do custo das demarcações físi- A partir de 2001, o governo estadual, como parte do “Programa
cas (ou da reaviventação de picadas e limites) e permitam redi- Integrado de Desenvolvimento Sustentável do Acre”, financiado
recionar parte dos recursos, hoje gastos com empresas de agri- pelo BNDES, implementou medidas mitigadoras e compensató-
mensura, para o fortalecimento institucional das organizações e rias em terras indígenas impactadas pelo asfaltamento das BRs
comunidades indígenas e seus projetos coletivos de vigilância e 364 e 317. Acordadas em diálogos e negociações entre lideran-
gestão territorial. ças, organizações indígenas e órgãos dos governos estadual e fe-
deral, ao longo da revisão dos componentes indígenas dos Estu-
Os trabalhos dos AAFIs em suas terras e aldeias têm também dos de Impacto Ambiental-Relatórios de Impacto Ambiental (EIA-
assumido relevante caráter de educação ambiental: agentes mais Rima) dessas rodovias, várias ações, primeiro emergenciais e de-
experientes têm protagonizado ações de ensino e assessoria nos pois inseridas em um “programa sustentável”, estiveram direci-
cursos, oficinas e viagens de intercâmbio. Os AAFIs têm elabora- onadas à gestão dessas terras e ao fortalecimento institucional
do também levantamentos e diagnósticos da situação ambiental das organizações e comunidades indígenas.
de suas terras e das formas de uso dos recursos naturais. Em
tempos recentes, vídeos passaram a ser usados para a formação As ações do projeto financiado pelo BNDES estiveram concen-
e a divulgação dos seus trabalhos. O Projeto “Vídeo nas Aldeias”, tradas no biênio 2002-2003, e sua continuidade está prevista,
em parceria com o CPI/Acre, AMAAIAC e Opiac, tem capacitado tendo como meta consolidar as organizações indígenas como
professores e AAFIs no manuseio de equipamentos, elaboração referenciais no diálogo com o governo estadual e construir mo-
de roteiros, técnicas de filmagem e edição. Exemplos recentes delos sustentáveis de uso dos recursos naturais pelas comuni-
desse trabalho são os vídeos “Agenda 31”, “Caminho para a vida”, dades indígenas. Até meados de 2005, no entanto, essas ações
“Floresta viva” e “Aprendizes do futuro”. foram iniciadas de forma ainda incipiente. Não houve uma defi-
nição mais detalhada de estratégias para a operacionalização das
Parcerias têm resultado de diálogos e negociações com o gover- ações do Projeto e para a sua futura sustentabilidade, com base
no estadual, cujo tema principal, desde 2000, foi o reconheci- em iniciativas geridas pelas próprias comunidades e organiza-
mento dos AAFIs como categoria profissional de agentes de gestão
ções indígenas. Tampouco houve uma melhor definição dos ca-
ambiental e sua remuneração pelos serviços ambientais e soci-
nais de diálogo e das parcerias com o governo. As ações de capa-
ais prestados à sociedade e à biodiversidade, acreana e global.
citação e empoderamento das comunidades e suas organizações
Em outubro de 2004, no Centro de Formação, em Rio Branco, foram marcadas pela sua breve duração. Não houve efetivo acom-
85 AAFIs, professores, lideranças e representantes de associa- panhamento posterior das ações nem instâncias para sua avali-

14 ACRE POVOS INDÍGENAS NO BRASIL 2001/2005 - INSTITUTO SOCIOAMBIENTAL


ação e para a correção de rumos e estratégias. Por fim, as ativi- tas, dez organizações indígenas e outros representantes de povos
dades do governo permaneceram centradas nas terras indígenas indígenas (um do rio Purus e outro do rio Iaco).
situadas à margem ou nas cercanias das estradas federais, sem
Concebida não como instância executiva, mas sim de planeja-
que planos mais amplos tivessem sido delineados ou implemen-
mento, coordenação e acompanhamento, a Sepi procurou, du-
tados para o conjunto das TIs do estado.
rante o seu primeiro ano, avançar na articulação das políticas
A partir de 2004, tiveram início, em várias TIs, programas de públicas dispersas em várias secretarias e definir estratégias co-
levantamento participativo dos recursos naturais: o de “etno- muns de ação. Buscou, dessa forma, atender às particularida-
mapeamento”, por parte da CPI/AC, AMAAIAC e outras organiza- des das situações, demandas e trabalhos das comunidades e or-
ções indígenas; e o de “etnozoneamento”, por parte do governo ganizações indígenas, tentando romper com a “padronização”
estadual. Em linhas gerais, esses programas têm por objetivo a que marcava várias das ações do Projeto do BNDES.
produção, pelos próprios indígenas, de diagnósticos de suas ter-
No segundo semestre de 2004, a Sepi teve importante papel na
ras, de maneira a subsidiar ações de gestão ambiental e vigilân- mediação das questões relacionadas à situação de crise vivida
cia territorial, bem como influenciar políticas públicas (munici- pelo movimento indígena, após a destituição da Coordenação da
pais, estaduais e federais) voltadas a esses mesmos fins. União das Nações Indígenas do Acre e Sul do Amazonas (UNI),
Ambos os trabalhos, da CPI/AC e do governo, têm metodologias decidida em julho, por conta da apuração da gestão dos recur-
semelhantes e contam com a ativa participação dos AAFIs, lide- sos financeiros do convênio de saúde que a entidade mantinha
ranças, professores, agentes de saúde e chefes de família. Traba- com a Funasa e com várias prefeituras municipais. A partir de
lhando sobre imagens de satélite, as discussões nas oficinas têm então, a Sepi passou a constituir importante respaldo da Coor-
permitido um detalhado mapeamento dos recursos naturais das denação Provisória eleita e contribuiu para manter aberto o diá-
TIs e de seu entorno, resultando em vários mapas temáticos: logo com o gabinete do governador. Nos primeiros meses de 2005,
hidrográfico, vegetação, extrativismo, caça, pesca, coleta e agri- pela primeira vez desde a sua criação, a Secretaria ganhou orça-
cultura de terra firme e de praia, bem como das invasões e das mento próprio, estipulado no plano anual do governo estadual,
formas históricas de ocupação. e conseguiu constituir uma equipe independente.
Por estarem casadas com as iniciativas de gestão ambiental dos A proposta de particularização das demandas tem exigido avan-
AAFIs, as ações promovidas pela CPI/AC obtiveram, desde o iní- ços na articulações com outras secretarias e no delineamento de
cio, uma maior definição quanto a desdobramentos futuros dos políticas públicas mais ágeis e integradas. Um desafio atual e
processos e dos resultados gerados. Para além de um trabalho futuro do governo estadual é, portanto, como, por meio de polí-
de levantamento, e da construção coletiva de planos de gestão ticas públicas que respeitem a diversidade étnica e as formas de
territorial, o projeto do qual participa a CPI/AC iniciou canais de organização e mobilização particulares de cada povo, potenci-
articulação com organizações da sociedade civil, universidades alizar experiências de gestão ambiental e vigilância territorial,
e órgãos do governo peruano, visando delinear estratégias para fortalecendo seus avanços e ajudando a superar as dificuldades.
conservação, manejo e vigilância de TIs e Unidades de Conserva- Se, de um lado, a diversidade é o eixo a ser privilegiado nessas
ção (UCs) situadas na fronteira com o Peru. A partir de 2005, políticas, de outro, continua a ser cada vez mais necessária a
essa agenda passou a incluir a participação nas discussões en- articulação, sob a coordenação da Sepi, dos diferentes órgãos do
tretidas pelos governos do Acre e do Departamento do Ucayali governo, na definição, planejamento, execução e monitoramen-
em torno da integração fronteiriça. As organizações indígenas e to de ações voltadas para a produção, gestão ambiental, educa-
a CPI/AC têm, ainda, participado do Grupo Técnico para Prote- ção, saúde e fortalecimento cultural. Isso implica, portanto, não
ção Transfronteiriça da Serra do Divisor e Alto Juruá – Brasil/ visões ou ações de curto prazo, caracterizadas pela homogenei-
dade, pela brevidade e por resultados imediatos, mas sim pro-
Peru, iniciativa que, no Vale do Juruá acreano, tem, desde abril
gramas integrados e duradouros capazes de fortalecer o protago-
de 2005, reunido organizações do movimento social, órgãos dos
nismo e a autonomia das comunidades indígenas e a sustenta-
governos federal e estadual e as cinco prefeituras municipais
bilidade de seus territórios.
dessa região.
Outra iniciativa do governo do Estado foi a criação da Secretaria
Extraordinária dos Povos Indígenas (Sepi), em 31 de dezembro
AS ORGANIZAÇÕES E O MOVIMENTO INDÍGENA
de 2002, vinculada à Secretaria de Desenvolvimento Humano e In- O ano de 2004 foi marcado pela grave crise da UNI, organização
clusão Social. Em fevereiro de 2003, Francisco da Silva Pianko, um que, em nível regional e nacional, exercera a representação polí-
Ashaninka, foi nomeado secretário e, em seguida, foi criado o tica dos povos indígenas do Acre e sul do Amazonas desde mea-
Conselho Estadual Indígena (CEI). Com caráter consultivo e dos dos anos 1980, e nos últimos anos implementara um con-
deliberativo, o CEI é formado por representantes de quatro ór- junto de ações em parceria com os governos federal e estadual e
gãos estaduais, três órgãos federais, três organizações indigenis- com a cooperação internacional.

POVOS INDÍGENAS NO BRASIL 2001/2005 - INSTITUTO SOCIOAMBIENTAL ACRE 15


Em meados de 2004, a coordenação da UNI foi deposta e uma as profissionais – professores (Opiac) e AAFIs (AMAAIAC) – fo-
coordenação provisória assumiu o processo de reorganização do ram criadas e legalizadas no Acre. A Opiac e a AMAAIAC, em es-
movimento indígena. Em documentos resultantes de reuniões e pecial, gozam hoje de reconhecimento perante os governos esta-
fóruns ocorridos a partir dessa data, consolidou-se um conjun- dual e federal, têm influenciado outros movimentos e organiza-
to de discursos, articulados por lideranças, professores, Agentes ções semelhantes e participado na definição de políticas públi-
Indígenas de Saúde (AIS), AAFIs e representantes de organiza- cas em escala estadual e nacional.
ções regionais e associações locais. Esses discursos convergiram
As associações mais antigas, criadas no final dos anos de 1980 e
em torno de certos temas e bandeiras da mobilização, dentre as
começo dos anos de 1990, desenvolveram, nos últimos anos,
quais: “o movimento indígena não poderia ser identificado, ou
valiosas experiências econômicas e de gestão territorial. Há anos,
reduzido, à UNI”, “o movimento não morreu”, “o movimento
a APIWTXA, dos Ashaninka do Rio Amônia, é exemplo inspirador,
somos nós”. Mesmo com a criação da Organização dos Povos
em função das propostas e ações concretas de manejo agroflo-
Indígenas do Acre, Sul do Amazonas e Noroeste de Rondônia
restal, criação de animais silvestres e pesquisa de produtos flo-
(Opin), decidida em Assembléia ocorrida em meados de 2005,
restais para uso e venda. Outra linha relevante de sua atuação
esses discursos continuam a ser verbalizados por boa parte das
tem sido a valorização das manifestações culturais, por meio de
lideranças e representantes de organizações locais e regionais.
uma “escola tradicional”, o comércio de artesanato e a produ-
Além da Opin, há hoje no Acre 34 organizações indígenas for- ção do CD “Homãpani Ashaninka”, de músicas tradicionais, e
malmente legalizadas: 23 associações, duas cooperativas, qua- de vários vídeos. Em novembro de 2003, as lideranças criaram a
tro organizações regionais, duas de categorias profissionais (AAFIs Ayõpari, separando as atividades comerciais das ações de repre-
e professores), duas de mulheres e uma de estudantes (sediada sentação política, que continuam a exercer via APIWTXA. Por meio
em Rio Branco). Do total de associações, 19 (ou 83%) represen- desta última, os Ashaninka tiveram sucesso, ainda, ao exigir dos
tam povos que vivem em TIs do Vale do Juruá e outras quatro, governos federal e estadual ações efetivas para combater as inva-
todas criadas em 2004, em terras do Vale do Purus. Juntas, re- sões promovidas por madeireiras peruanas, bem como para fis-
presentam 11 diferentes povos. calizar a fronteira com o Peru.
Diferentes processos devem ser considerados e entrelaçados ao Os Yawanawá, que contam desde 1993 com a OAEYRG, criaram,
analisar os motivos que levaram a essa intensa criação de asso- em fevereiro de 2002, a Coopyawa, entidade que tem avançado
ciações. Alguns dizem respeito a mobilizações das próprias lide- na elaboração de planos de negócios e tratado de aspectos co-
ranças para abrir novas formas de representação política e acessar merciais de várias iniciativas. Nos últimos três anos, ampliaram
o “mercado de projetos”, configurado nos anos 1990 pelos pro- suas parcerias com órgãos do governo federal e estadual e com
gramas de agências e da cooperação internacionais. Outros sur- empresas privadas, como a Aveda Corporation e a Formil. Além
giram da necessidade crescente de se relacionar com órgãos de disso, promoveram significativas iniciativas culturais, com a va-
governo no âmbito de políticas públicas de diversas escalas. lorização dos saberes e usos associados à medicina e aos cantos,
A mobilização para a regularização e ampliação de terras esteve a formação de novos pajés, à produção do CD “Saiti Muniti” e do
na origem de associações como a APAIH, dos Arara do Igarapé DVD “Yawa”, o lançamento de uma grife e a realização de festi-
Humaitá, da AIN, dos Nukini, e da Askapa, dos Kaxinawá da Praia vais anuais.
do Carapanã. A revisão do EIA-Rima da BR-364 e o delineamen- De 1999 a 2001, por meio da AAPBI, os Poyanawa se mobiliza-
to de ações para minorar os impactos de seu asfaltamento esti- ram para acompanhar a demarcação de sua terra e implemen-
mularam o surgimento de duas associações Katukina (Akac e taram um projeto de vigilância que durou até 2002, ambos apoi-
Akserg) e três associações Kaxinawá (Aokati 27, APAHC e Aprokap). ados pelo PPTAL. A Askarj, antes conhecida pela cooperação com
Já as discussões sobre o EIA-Rima da BR-317 propiciaram um a empresa Couro Vegetal da Amazonia S.A., bem como pela fis-
estímulo para criação de associações no Vale do Purus, como a calização e gestão das três TIs Kaxinawá do Município de Jordão,
Ocaej, dos Jaminawa do rio Caeté e a Mapkaha, dos Manchineri destacou-se nos últimos anos pelo projeto de revitalização da
do rio Iaco. produção de borracha (2003) e pelo projeto de manejo de lagos
Nem todas dessas novas associações pautam-se penas pela ques- e seus animais. Hoje, um relevante desafio das lideranças Kaxi-
tão da gestão ambiental e vigilância territorial. Algumas têm nawá é participar da administração do vice-prefeito José Osair
priorizado ações relativas ao fortalecimento dos conhecimentos Sales (Siã Kaxinawá), bem como estabelecer parcerias efetivas
tradicionais. Dentre estas cabe citar novamente a Mapkaha e, com o poder municipal, em programas de saúde, educação,
mais recentemente, a ACIRH (Associação de Cultura Indígena transporte e venda de produtos agrícolas.
do Rio Humaitá).
É importante notar que, além da antiga da UNI e da atual Opin,
Na última década, organizações representativas de estudantes instâncias centralizadas de representação dos povos indígenas
(Meiascam), mulheres (GMI/UNI, hoje Situakuri) e de categori- do Acre e sul do Amazonas, foram criadas várias organizações de

16 ACRE POVOS INDÍGENAS NO BRASIL 2001/2005 - INSTITUTO SOCIOAMBIENTAL


PEDRO CONSTANTINO, 2005
âmbito regional. A Opire articula diferentes povos da
bacia do rio Envira; a Opirj, do rio Juruá; e a Opitar,
dos povos indígenas do município de Tarauacá. Além
de participar das discussões de revisão do EIA-Rima
da BR-364 e da implementação das ações para mi-
norar os “impactos de sua pavimentação”, essas or-
ganizações têm realizado gestões junto às secretari-
as municipais de educação, saúde e produção, na
busca de recursos e ações para as comunidades que
representam. Têm, muitas vezes, trabalhado de for-
ma alinhada com os chefes dos Postos da Funai e,
no caso de Cruzeiro do Sul e Feijó, com os escritóri-
os locais do Cimi.
A identificação dos povos indígenas que não possu- AAFIs constroem barragem para a criação de peixes e quelônios,
em associações de representação formalmente cons- durante oficina itinerante na TI Kaxinawá da Praia do Carapanã.
tituídas também revela aspectos da situação em que
esses vivem e outras modalidades de mobilização

DIVULGAÇÃO TJ-AC, 1999


política. À exceção do rio Amônia, nenhuma das co-
letividades Ashaninka que habitam os rios Breu,
Envira e Tarauacá possui hoje uma organização for-
malmente registrada. A morte de lideranças no Breu
e no Envira em meados dos anos de 1990, as cons-
tantes migrações, conflitos familiares, modos me-
nos informados de inserção nos municípios, relaci-
onamento esporádico com o movimento indígena e
a deficiência dos serviços de assistência prestados
aos governos federal e estadual constam dentre as
razões que podem explicar essa ausência. Outro caso
é o dos Madijá, que estão dentre os povos que não
criaram qualquer associação própria e continuam a
Iniciativas do TRE e do Tribunal de Justiça do Acre têm contribuído para maior participação
participar, de forma apenas tangencial, das articula- indígena nas eleições. No destaque, Ashaninka aprende a usar urna eletrônica durante
ções promovidas pelo movimento indígena, em Feijó edição do Projeto Cidadão, na TI Kaxinawá Nova Olinda, em Feijó.
e Rio Branco.
Os casos dos Kaxinawá do Seringal Curralinho, Nawa
e Arara do Rio Amônia revelam semelhanças, devido RENATO GAVAZZI
às suas mobilizações relativamente recentes, que
datam do final dos anos de 1990, visando a legiti-
mação de suas identidades étnicas e o reconheci-
mento pela Funai das terras que tradicionalmente
ocupam. Esses casos demonstram com clareza que
a ausência de associações não implica, de forma al-
guma, a inexistência de mecanismos próprios de re-
presentação e de mobilização política. (fevereiro,
2006)

Oficina de Etnozoneamento na TI Kampa do Rio Amônia.

POVOS INDÍGENAS NO BRASIL 2001/2005 - INSTITUTO SOCIOAMBIENTAL ACRE 17


Francisco Pianko, Secretário dos
Povos Indígenas

Ingrid Weber Antropóloga, CPI-Acre

Txai Terri Valle de Aquino Antropólogo, editor do “Papo de Índio”

NA ENTREVISTA A SEGUIR, FRANCISCO PIANKO é inferior a nenhuma outra, e levar esse nome que a gente tem
ASHANINKA CONTA COMO SE TORNOU LIDERANÇA hoje.
DE SUA COMUNIDADE, FALA SOBRE A MUDANÇA DE
No começo, os Ashaninka trabalharam com madeira. Hoje,
MENTALIDADE COM RELAÇÃO À EXPLORAÇÃO DA
vocês vêm lutando contra a exploração desse recurso. Como
MADEIRA E DA IMPORTÂNCIA DA SECRETARIA foi essa mudança de mentalidade?
EXTRAORDINÁRIA DOS POVOS INDÍGENAS DO ACRE,
Eu vi o meu pai muito envolvido com essa questão da madeira,
DA QUAL É SECRETÁRIO DESDE FEVEREIRO DE 20031
porque, pra comprar alguma coisa, os patrões é que diziam o
que tinha que produzir. Não tinha escolha, tinha que trabalhar
Como você se tornou uma liderança na sua comunidade? pros patrões. Nosso povo trabalhou pros patrões enquanto as
regras eram essas. Não era uma cultura, tradição ashaninka,
Comecei a trabalhar muito cedo. Com quatorze, quinze anos o
trabalhar com madeira. Enquanto um Ashaninka tirava uma
meu pai [Antônio Pianko, grande liderança Ashaninka, que por
árvore, cortava no machado, de forma bem artesanal, uma fa-
sua vez era filho de Samuel Pianko, outra grande liderança] já
mília de brancos tirava de trinta a quarenta árvores, porque ti-
me levava nessas andanças, nesse fóruns que ele era convidado
nha outra visão.
pra falar - convidado pelo Txai Terri, Txai Macedo, Comissão
Pró-Índio, por vários outros parceiros, Funai, Cimi, Conselho Na primeira oportunidade que tivemos de sair da mão dos pa-
Nacional de Seringueiros. Ele me levava para duas coisas: uma trões, a coisa mudou totalmente. Porque o que interessa mesmo
pra ser o barqueiro, e outra para traduzir o aos Ashaninka é ter um produto pra trocar.
Se hoje temos condições de escolher o que
DARA BLUMENHEIN/ARQUIVO PESSOAL

que eles falavam. Então, de mim era cobra-


do muito, eu não podia perder nenhum mo- fazer, a gente vai tirar do nosso conhecimen-
mento. E tudo que era conseguido pra co- to. As trocas, hoje, são baseadas no nosso
munidade, o meu pai colocava na minha artesanato, na arte ashaninka. Trabalhamos
mão pra administrar: desde o barco, a can- muito para que o nosso produto não fosse
tina, essas coisas todas. E com isso eu tinha um produto qualquer, que carregasse com
uma relação com todas as famílias, eu pas- ele toda a nossa história e que pudesse ser
sei a ser um instrumento da comunidade. visto como um produto associado a um pro-
Eu não trabalhava pensando em ser uma li- jeto. Um projeto ecológico, da preservação,
derança da comunidade. Eu trabalhava pen- do cuidado.
sando em dar conta e mostrar que tudo aqui- Hoje, a busca pela madeira é porque ela tem
lo que eu estava falando era possível ser fei- um valor de mercado muito alto e ela está
to, tinha que se concretizar, então esse era o disponível na floresta. As pessoas passam por
desafio. E com isso a gente foi vencendo al- cima de qualquer coisa, de qualquer legis-
gumas etapas: demarcação da terra, sair da lação, para ter esse produto. Para frear isso,
mão dos patrões, organizar o nosso povo pra vamos ter que trabalhar em duas frentes:
LEGENDA
se apresentar como uma sociedade que não uma é a força da justiça, a outra é a questão

18 ACRE POVOS INDÍGENAS NO BRASIL 2001/2005 - INSTITUTO SOCIOAMBIENTAL


da consciência. Porque tirar madeira não é cultura, é negócio. Como surgiu a Secretaria Extraordinária dos Povos Indí-
Eles estão usando a madeira como um produto e vão trabalhar genas (Sepi)? Qual é o seu papel?
até esgotar ele. Não estão preocupados com o futuro, estão pre- A Sepi surgiu porque havia um compromisso do governador Jor-
ocupados em achar o próximo produto quando este se acabar. ge Viana, não foi só porque o movimento estava reivindicando. A
Então, a questão da madeira é essa, para os patrões que estão idéia era preparar o Estado e as comunidades indígenas para ter
por detrás. E aqueles que estão trabalhando na prática, essas uma relação diferente. Quando a gente começou, a primeira
pessoas que são usadas como mão de obra para essa explora- coisa que eu fiz foi ler os relatórios e andar nas comunidades
ção, são pessoas que nunca tiveram outra opção. Eles ainda indígenas. E a gente via que existia toda uma boa intenção de
estão fazendo muito pelos outros, como a gente fazia no passa- fazer as coisas nas comunidades, mas que não levavam em con-
do. ta a sua realidade. Deixavam de atender uma necessidade real,
pra atender os sonhos. Por exemplo, você tava no pensamento
Como diz o antropólogo José Pimenta, no verbete da enci-
de produzir, fazer o açúcar, mas você ainda não tinha plantado
clopédia virtual do ISA, os Ashaninka “descobriram” o
a cana e já chegava a engenhoca. Então, a engenhoca ficava en-
rumo da sustentabilidade e hoje são “um exemplo muito
ferrujando. Essa foi uma discussão que a gente fez, pra não
bem sucedido da nova orientação política do desenvolvi-
cometer mais esse tipo de erro. A outra coisa foram os progra-
mento amazônico”. Como você vê isso?
mas, as atividades. Um exemplo: na TI do Rio Gregório, que é
O contato que os Ashaninka travaram com outras sociedades uma terra grande e rica em recursos naturais, eles têm costume
sempre foi por conta dessa relação de troca. Não vejo outra ne- de coletar, de caçar, de pescar; não têm a cultura de criar ani-
cessidade para as relações com outras sociedades, sejam indíge- mal. Se está havendo um problema na caça, o máximo que a
nas, ou não. A partir do contato com os brancos, passamos a gente pode fazer é trabalhar a orientação do uso, do manejo,
conhecer outros produtos, se criaram novas necessidades, mas mas não pensar em criar. Porque daí a gente já começa errado.
era o mercado que ditava os produtos para os Ashaninka. E a Então, pra tudo isso a gente foi definindo estratégias. A gente
gente obedecia a esse mercado, de acordo com a sua necessida- sempre deixou muito claro o papel do Estado: nós temos o pa-
de, como dei o exemplo da madeira. Quando acabou a madeira, pel de orientar, de fazer as pessoas acessarem os benefícios, mas
não deixamos de adquirir as coisas, mas elas passaram a ser não vamos obrigar as comunidades a entrar num processo para
obtidas pela troca do artesanato com um mercado que traba- ter todas elas com uma mesma cara, com um mesmo nível de
lhamos para construir. Então talvez não tenha sido uma “des- organização ou com a mesma estrutura. E temos muito claro
coberta”, é um jeito que os Ashaninka têm de se relacionar com que é a comunidade indígena quem tem que fazer a sua gestão,
outras sociedades. cuidar da sua identidade, cuidar da sua vida, e não o Estado.
Quando o tempo vai passando, você começa a descobrir que
Quais as perspectivas pro próximo governo? A Sepi conti-
existem outras necessidades também. Uma delas surge a partir
nua? Você continua?
do momento em que você tem uma terra definida, e você preci-
sa se organizar naquilo que você já tem garantido. Nós temos Eu acho que o projeto que vem sendo conduzido até hoje tem
muito claro que algumas coisas estão sob o nosso controle e uma necessidade grande de continuar, independente de ser eu
outras não. Por exemplo, para a gestão desse espaço e dos recur- ou outra pessoa. Nós temos que pensar em cultivar essa idéia,
sos que estão ali, nós temos a capacidade de fazer adaptações, procurar fazer com que permaneça a credibilidade do Estado
mudanças internas, no sentido de garantir a sustentabilidade e perante as comunidades. Estou no meu quarto ano de trabalho
o futuro. E nós temos a capacidade de entender que da maneira nessa gestão. É muito pouco tempo, mas foi plantada uma se-
que tratávamos os nossos recursos antes, por mais que fosse da mente que precisa ser regada, ainda precisa crescer, precisa dar
forma tradicional, eles iriam se acabar. Nós temos que ter, hoje, frutos, amadurecer e se espalhar. Mas não sou eu que vou dizer
a responsabilidade de fazer essa mudança, no sentido de não quem deve assumir, eu só zelo pela intenção, pelo projeto, pela
perder o tradicional, mas de cuidar do nosso patrimônio de for- linha política de trabalho que estamos conduzindo. Na verdade,
ma diferente. quem decide é o próximo governo. Se for do jeito que está, com
a liberdade e responsabilidade que foi dada pra condução desse
Uma outra questão muito forte que a gente tem procurado colo-
projeto, eu acredito que vai depender muito de quem estiver à
car é a das relações políticas com as outras instituições. A gente
frente. Porque é um risco também, você deixar uma liberdade
vê que é importante contar com a prefeitura, com as comunida-
grande na mão de um Secretário, uma pessoa, que não enten-
des do entorno, com as organizações da reserva extrativista ou
deu, que não conhece. Isto pode distorcer e prejudicar uma li-
com outras comunidades indígenas. É importante contar com
nha de trabalho que vem sendo feita obedecendo todos esses
o governo do estado, com o governo federal. Se você olhar, a
critérios que eu falei.
Apiwtxa conquistou um espaço muito grande, porque a luta dos
Ashaninka está em construir e manter essas alianças.
NOTAS
POVOS INDÍGENAS NO BRASIL 2001/2005 - INSTITUTO SOCIOAMBIENTAL 1
A presente entrevista é uma seleção de trechos de uma conversaACRE 19
com Fran-
A BR-364 e os Katukina:
a História se Repete?

Edilene Coffaci de Lima Professora de Antropologia da UFPR,


trabalha com os Katukina desde o início de 1990

PAVIMENTAÇÃO DO TRECHO ACREANO DA lar a migração dos Katukina da TI Rio Gregório. Ao verem os
RODOVIA PRODUZ IMPACTOS NEGATIVOS NA moradores da TI Campinas, com os quais têm parentesco dire-
VIDA DOS KATUKINA E EXIGE AÇÕES URGENTES to, sendo contemplados com benefícios governamentais, os
E DURADOURAS DO GOVERNO Katukina da TI Rio Gregório poderiam se sentir desassistidos pelo
poder público e, assim, estimulados para tentar a vida de forma
mais digna na beira da rodovia. Infelizmente, foi exatamente o
As obras de pavimentação da rodovia BR-364 já realizadas na que ocorreu. Em setembro de 2001, todos os Katukina do rio
extensão que separa Rio Branco de Cruzeiro do Sul transforma- Gregório mudaram-se para o Campinas. E não havia como os
ram significativamente as condições de vida dos Katukina, agentes do governo dizerem que não tinham sido avisados com
espcialmente na TI Campinas, cortada por 18 km da estrada. antecedência. No EIA-Rima esse risco tinha sido considerado com
todas as letras.
O asfaltamento da rodovia nas proximidades de Cruzeiro do Sul
teve início em 1997-1998. Em razão de problemas no EIA-Rima, Para complicar, um impacto acabou por gerar outro. Os mora-
apenas alguns anos mais tarde, em 2002 e 2003, as obras de dores das aldeias da TI Campinas/Katukina, como não poderia
pavimentação avançaram sobre o território katukina e se esten- deixar de ser, receberam seus parentes, hospedando-os e alimen-
deram até o Riozinho da Liberdade. As obras de asfaltamento tado-os com produtos de suas roças. Mas, na ausência de qual-
que garantirão a ligação da capital do Acre ao vale do Juruá avan- quer planejamento, os roçados rapidamente se esgotaram, fa-
çam a cada ano algumas dezenas de quilômetros, e tudo indica zendo com que todos, moradores antigos e recém-chegados,
que demandarão ainda alguns anos. Seja como for, o trajeto que passassem necessidades. A situação só não foi pior porque, com
separa Cruzeiro do Sul de Rio Branco tem agora vários quilôme- os benefícios das aposentadorias, os mais velhos cobriram os
tros asfaltados, que, mesmo descontínuos, propiciaram o au- gastos com a farinha. O governo também foi chamado para acu-
mento do tráfego de veículos no verão, antes impedido pelas más dir a situação. Passados quatro anos, algumas famílias Katukina
condições da estrada de terra nos meses de chuva (essa sazona- retornaram à TI Rio Gregório, mas a maior parte acabou mesmo
lidade garantiu uma certa redução dos impactos na vida dos ficando no novo endereço.
Katukina e de outros povos no Acre). Além disso, a pavimenta-
ção do trecho que vai de Cruzeiro do Sul até o Riozinho da Liber- INVASÕES E SEGURANÇA ALIMENTAR
dade fez com que, ao menos aí, o tráfego de veículos passasse a
ser contínuo durante todo o ano. E isso foi só o começo. Como não é difícil adivinhar, a partir de
2004, concluída a obra de asfaltamento dos 18 km que atraves-
O impacto do asfaltamento da estrada no dia-a-dia começou a sam a TI Campinas/Katukina, os impactos foram sentidos de
ser sentido gradativamente pelos Katukina. No componente in- forma mais grave. Um deles, crônico, é o constante trânsito de
dígena do EIA-Rima (de 2001), o governo foi advertido de que o pessoas estranhas ao grupo nos limites da terra indígena – tanto
plano de mitigação dos impactos do asfaltamento deveria incluir moradores do Riozinho da Liberdade que vão a Cruzeiro do Sul
ações tanto na TI Campinas/Katukina quanto na TI Rio Gregório. suprir suas necessidades de mercadorias, quanto desconheci-
Caso contrário, se as ações se direcionassem exclusivamente à dos que não se sabe de onde vêm nem para onde vão.
primeira, que é, sem qualquer dúvida, a terra indígena mais
impactada pela BR-364 em todo o estado, os órgãos governa- Um outro problema, mais agudo, diz respeito ao impacto que o
mentais estariam, involuntariamente, contribuindo para estimu- maior tráfego de veículos, sobretudo no verão mas também no

20 ACRE POVOS INDÍGENAS NO BRASIL 2001/2005 - INSTITUTO SOCIOAMBIENTAL


inverno, ocasionou sobre a fauna local. Em janeiro de 2005, o Ambos foram adiados e estão previstos para serem realizados
estoque de animais de caça estava tão abaixo do esperado que neste ano (2006). Não se pode perder de vista que ambos os
dois jovens foram caçar em um “centro” (distante, portanto, da planos são indispensáveis para garantir aos Katukina a manu-
movimentação da rodovia) por dois dias, mas não abateram bi- tenção de sua dieta alimentar tradicional, o que repercute forte-
cho algum. Voltaram para casa trazendo apenas dois ou três mente em toda a organização do grupo.
jabutis. É bom saber que, para esse povo, jabuti não é caça. Essa
Do mesmo modo, é preciso implementar o programa de
fome de carne não é uma fome qualquer. Afinal, os Katukina
vivificação e fiscalização das fronteiras da TI, que tem sido cro-
são agricultores e têm seus roçados, nos quais plantam maca-
nicamente invadida por caçadores profissionais, o que explica
xeira, inhame, batata-doce, cana-de-açúcar, mamão, dentre ou-
em parte o baixo estoque de animais de caça. As ações têm de
tros. Contudo, uma dieta exclusivamente vegetariana lhes é bas-
ser integradas, pois de nada adiantará fazer o plano de manejo
tante estranha. Certamente a situação não é pior porque o asfal-
da fauna se não forem criadas as condições para que se encer-
tamento de todo o trecho que separa Cruzeiro do Sul de Rio
rem tais invasões.
Branco ainda não foi concluído. Há quem diga que a conclusão
integral da pavimentação da BR-364 ainda deve demorar, pois o
terreno argiloso entre Manoel Urbano e Sena Madureira consti- IMPACTOS
tui um verdadeiro obstáculo para a continuidade das obras. Infelizmente, como não poderia deixar de ser, os impactos da
Desde 2001, as ações do governo da floresta que receberam menor pavimentação da BR-364 repercutem muito além da dieta ali-
atenção para minimizar os impactos decorrentes da pavimenta- mentar. Dois episódios ocorridos nos últimos anos expressam a
ção foram justamente aquelas relativas aos “programas de sus- gravidade da situação. Em um deles, alguns moradores da TI do
tentação e produção”, inseridas na revisão do Componente In- rio Gregório foram fisicamente agredidos por brancos morado-
dígena do EIA-Rima da BR-364. As sugestões, então, eram o in- res nas proximidades do rio Tauari, quando voltavam para casa,
centivo à criação de animais domésticos (como galinhas, patos caminhando pela BR-364. Os agressores têm nome e endereço
e porcos) e também o estabelecimento de um plano de manejo conhecidos. Não se tem notícia até agora de que tenham sido
dos recursos naturais, notadamente da fauna. O tempo passou, punidos.
as ações não foram encaminhadas e o problema agravou-se. Em
O ponto máximo da violência contra os Katukina aconteceu em
janeiro de 2005, quase toda a carne que entrava nas aldeias da
setembro de 2005. Após disputarem algumas partidas de fute-
TI Campinas/Katukina era comprada na cidade ou de brancos
bol, alguns Katukina foram beber num estabelecimento próxi-
vizinhos – carne de boi, fresca ou em conserva. Uma situação
mo ao ramal 7. Quando decidiram voltar para suas casas com
difícil de aceitar, ou mesmo compreender, dada a dimensão da
sua Toyota, no final da tarde, foram hostilizados. Antes de ga-
referida TI, que soma pouco mais de 32 mil hectares.
nhar velocidade, os brancos lançaram uma garrafa contra o vi-
Um mês depois, em fevereiro do mesmo ano, o governo do Acre dro do carro, que quebrou. O motorista Adriano Rosa da Silva
apresentou o projeto “Segurança alimentar, produção e gestão Katukina parou o carro na tentativa de entender o que se passa-
territorial: apoio às comunidades indígenas Katukina do Campi- va. Começou então o conflito: armados de terçados, facas e paus,
nas (BR 364) e Aldeia Sete Estrelas – TI Rio Gregório”. Tratava- alguns brancos investiram contra os Katukina. No meio do con-
se de um plano emergencial. Nele estava previsto, dentre outras flito, aconteceram duas mortes: Alberto Rosa da Silva Katukina,
coisas, a criação de pequenos animais, o repovoamento dos açu- de 32 anos, pai de quatro filhos e, entre os brancos, Francisco de
des com peixes, o diagnóstico da situação da fauna local e, a Jesus Silva (mais conhecido como Eudes), de 48 anos. Os bran-
partir dele, a elaboração de um plano de manejo. Se bem con- cos fugiram do local do conflito. Um deles apresentou-se 48 ho-
duzidas, tais ações poderiam efetivamente remediar o maior pro- ras mais tarde e assumiu sozinho o assassinato de Alberto. Os
blema que os Katukina têm hoje. As demais ações (como a Katukina ficaram presos por 30 dias e agora estão sendo julga-
vivificação e fiscalização das fronteiras da terra indígena, entre dos por homicídio.
outras) contidas no mesmo projeto reforçavam a iniciativa de
fornecer aos Katukina os meios de enfrentarem com segurança Se os impactos decorrentes da pavimentação da rodovia são per-
os problemas com os quais eles atualmente se ocupam. manentes, o acompanhamento dos problemas gerados por ela
também deverá sê-lo. Os Katukina e os governantes têm, nesse
O programa emergencial de criação de galinhas, parte do proje- sentido, um longo caminho a percorrer juntos. Por enquanto,
to de segurança alimentar, começou a ser implementado nas os impactos se fazem sentir de forma mais objetiva na terra dos
quatro aldeias katukina (Campinas, Martins, Samaúma e Bana- Katukina do rio Campinas, diretamente afetada, pois atravessa-
neira) e, em seis meses, apresentou resultados bastante positi- da pela rodovia. Não irá tardar, contudo, o momento em que
vos. O mesmo aconteceu com o plano de repovoamento dos açu- esses problemas ganharão uma abrangência maior. Como a es-
des com peixes. Contudo, o programa de diagnóstico da situação trada ocupa há tanto tempo o sonho dos acreanos, o melhor a
da fauna local e o plano de manejo não foram implementados. fazer é se preparar para enfrentar os impactos socioambientais
que virão, de modo que, futuramente, não seja preciso improvi-
POVOS INDÍGENAS NO BRASIL 2001/2005 - INSTITUTO SOCIOAMBIENTAL sar. E isso vale tanto para as populações indígenas quanto
ACREpara21
o
restante da população acreana. (fevereiro de 2006)
As Três Frentes da Educação Indígena

Vera Olinda Sena Educadora, CPI/Acre

Gleyson Teixeira Cientista Social, CPI/Acre

SE POR UM LADO OS PROJETOS DE EDUCAÇÃO al do programa. Os cursos, nos quais professores de vários povos
DO ACRE TÊM SÓLIDA DEFINIÇÃO CONCEITUAL se reúnem em média por 45 dias, são espaços ricos para a troca
E PROPOSTAS POLÍTICO-PEDAGÓGICAS BEM entre culturas, abrangendo uma vasta gama de conhecimentos.
ESTRUTURADAS, POR OUTRO PRECISA EFETIVAR Com as publicações didáticas, começou a ser divulgado um esti-
lo próprio de escrita, que foi ganhando as marcas da oralidade,
AÇÕES DE MAIS IMPACTO E APOIO PERMANENTE
favorecendo os povos de tradição oral. Além disso, as ilustrações
indígenas inauguraram uma nova linguagem estética que co-
O Acre é um estado precursor em educação escolar indígena. As meçou a ser difundida e valorizada. Outro importante diferencial
escolas, criadas e coordenadas por professores indígenas e por do programa reside no fato de os assessores de educação passarem
comunidades escolares com autonomia pedagógica e adminis- mais tempo nas aldeias. Há ainda outras atividades, como viagens
trativa, estão presentes desde as primeiras lutas travadas com o de intercâmbio, seminários temáticos, elaboração de projetos.
Estado brasileiro pela demarcação das terras. Atualmente, há Recentemente, o programa passou a atuar em sintonia com o
três “frentes” de trabalho de educação indígena no estado: um eixo ambiental. O trabalho nas aldeias aponta a proximidade
Programa de Educação coordenado pela Comissão Pró-Índio do entre meio ambiente, cultura e educação. Os desdobramentos
Acre (CPI/AC), outro conduzido pela Secretaria de Estado de do trabalho dos Agentes Agroflorestais Indígenas (AAFIs), em
Educação (SEE/AC), e uma importante ação de articulação polí- conjunto com os professores indígenas – nas escolas, nas ofici-
tica e controle social dirigido pela Organização dos Professores nas itinerantes, nas reuniões comunitárias, nos materiais didá-
Indígenas do Acre (Opiac). As ações destes programas, cada qual
ticos –, foi o que levou essa área para o currículo. Atualmente, a
com características específicas, se dirigem a uma comunidade
gestão territorial e ambiental vem sendo a base principal de dis-
escolar de 276 professores e 4.929 alunos, e incidem em 136
cussão para a renovação dos currículos das escolas indígenas na
escolas distribuídas por 31 Terras Indígenas do Acre.
área das ciências naturais e ambientais.

PRIMEIRO PROGRAMA DE EDUCAÇÃO FORMAÇÃO DE PROFESSORES


O primeiro Programa de Educação Indígena do Acre ancorado
Depois da reeleição da Frente Popular em 2002 para o governo
nos princípios da educação diferenciada data de 23 anos atrás. A
do estado, uma forte demanda social proveniente do movimen-
partir dele, outros frutos nasceram e o Acre indígena cresceu.
to de professores indígenas e entidades indigenistas colocou na
Concebido, coordenado e realizado pela CPI/AC, é o responsável
pauta, como primeira linha de ação, a formação de professores.
pela formação direta de 42 professores indígenas em cursos e
Naquele momento, contava-se com cerca de 109 professores
mais cerca de 70 professores em assessorias e oficinas em terras
índios em serviço, a grande maioria não tendo concluído seus
indígenas, que atendem a 1.325 alunos em 65 escolas. Ao longo
estudos nos níveis fundamental ou médio. Foi criada, então, a
desSes anos, ofereceu 26 cursos de formação de magistério indí-
Coordenação de Educação Escolar Indígena como setor, ligada
gena na escola Centro de Formação dos Povos da Floresta (reco-
nhecida em 1998 pela SEE e pelo Conselho Estadual de Educa- aos demais programas da Coordenação de Ensino da Zona Ru-
ção) e publicou 91 materiais didáticos de autoria indígena em ral. Sua equipe passava a se encarregar das articulações com as
línguas indígenas e em português. Até hoje, foram formados 30 entidades indigenistas formadoras e da captação de recursos para
professores indígenas pela CPI/AC. a promoção de cursos de formação. Ao mesmo tempo, a Secre-
taria buscava a estruturação de seus núcleos municipais para
A realização contínua de cursos de formação, de viagens para as atendimento dos professores e escolas indígenas referentes à
aldeias e a publicação de livros didáticos constituem o diferenci- gestão (salários de professores, merenda, material didático).

22 ACRE POVOS INDÍGENAS NO BRASIL 2001/2005 - INSTITUTO SOCIOAMBIENTAL


Em 2000, ocorreu o primeiro curso de formação de professores ainda não são sócios. Até o presente foram realizadas 12 oficinas
indígenas, promovido pela Secretaria de Educação em parceria em 10 diferentes terras indígenas com a participação de aproxi-
com a CPI/AC, quando foi criado oficialmente o Programa Inter- madamente 500 pessoas.
cultural e Bilíngüe. Na ocasião, também foi promovido o primei-
Em 2004, a Opiac realizou um seminário de políticas públicas,
ro curso para capacitação de técnicos dos órgãos governamentais,
em parceria com a CPI/AC e a Associação dos Agentes Agroflores-
encarregados nos municípios da educação escolar indígena.
tais Indígenas do Acre (AMAAIAC), em Rio Branco (AC). Nesse
Os cursos de formação de professores indígenas têm constituído seminário, foi definida uma agenda de propostas concretas para
a principal ação desenvolvida pelo Estado, ao longo desses anos, viabilizar o aperfeiçoamento das políticas do governo estadual
com vistas ao fortalecimento de uma perspectiva de educação destinadas aos povos indígenas e o estreitamento das relações de
diferenciada. Somam-se cinco cursos realizados até 2004, com parceria das organizações indígenas com órgãos do governo. O
um público crescente, que hoje conta com 235 professores. Há resultado foi um elenco de diretrizes encaminhadas ao governo
também cursos de complementação pedagógica no magistério do Acre que, ainda hoje, norteiam a relação da Opiac com o
indígena, oferecidos aos professores índios que concluíram o governo local. Entre elas: agilizar o reconhecimento da categoria
magistério em programas não diferenciados, e também a pro- escola indígena, tirando-a do âmbito de escola rural; compare-
dução de material didático. cer às reuniões, seminários e encontros quando solicitado pela
Opiac; apresentar os valores reais dos recursos do MEC destina-
A OPIAC dos às escolas; disponibilizar para as organizações e comunida-
des indígenas informações sobre programas de apoio à educa-
A Opiac foi criada juridicamente em 2000. Sua fundação resul- ção escolar indígena; orientar e acompanhar os programas que
tou da articulação de um grupo de professores indígenas que já as comunidades podem ou devem gerenciar; fortalecer o deba-
acompanhava e avaliava políticas e outras ações de educação e te/reflexão em torno da implementação de 5ª a 8ª séries; apoiar
concretizou o protagonismo dos professores e outras lideranças o processo de construção, implementação e reconhecimento dos
na condução de políticas públicas de educação. “Todo o proces- projetos político-pedagógicos das escolas indígenas; instalar ener-
so de organização de professores indígenas iniciou-se quando gia onde não há, para atender à demanda da escola noturna;
alguns líderes começaram a discutir sobre a necessidade de ter trabalhar na formação de professores indígenas com informática;
um professor indígena em suas comunidades que falasse sua fazer com que as secretarias mantenham-se informadas sobre a
língua, que conhecesse e valorizasse seus conhecimentos tradi- educação escolar indígena, aproximando-se das comunidades,
cionais e sobre a natureza, e divulgasse uma nova consciência apresentando anualmente os recursos para cada escola e repas-
ambiental para o uso de seu território. Estava aumentando a sando-os; incluir os índios nas reuniões municipais; preparar
responsabilidade do professor e isso aumentava também o tra- professores e técnicos para gerenciar e executar recursos; cons-
balho. E tínhamos que cuidar de ser legítimos, ter uma entidade truir escolas ou deixar que a comunidade faça seus convênios,
própria para defender nossos direitos, ter recursos e não ficar só como aconteceu na TI Praia do Carapanã.
com a CPI ou outra organização indígena. Então para isso cria-
mos a Opiac”, contou, em 2002, o professor Isaac Ashaninka,
vice-coordenador da organização. O QUE FALTA?
Os objetivos da entidade, conforme o estatuto, são: preservar, Se por um lado os projetos têm definição conceitual e de propó-
registrar e difundir as formas de educação tradicional desenvol- sitos, de formulações de propostas político-pedagógicas e de le-
vida nas aldeias; preservar, registrar e divulgar as formas de ma- gislação, por outro precisam efetivar ações de maior impacto. É
nifestação cultural, de conhecimentos e as histórias de cada povo preciso sair das intenções e definir linhas de apoio mais perma-
indígena; representar e defender, judicial e extra-judicialmente nentes, bem como um orçamento justo e satisfatório para exe-
os interesses das comunidades e professores indígenas associa- cutar os programas de educação. Falta aos governos, estadual e
dos quanto às questões relacionadas ao direito a educação esco- federal, romper com sua concepção de uniformidade e enxer-
lar indígena diferenciada, bem como as questões culturais e gar, por fim, a Educação Escolar Indígena como uma das mais
ambientais dos povos indígenas do estado do Acre. Desde então, importantes modalidades educativas para se compreender a
a Opiac tem atuado em políticas públicas no Acre e Brasil, via diversidade, o pluralismo cultural e o multiligüismo neste país.
diálogo permanente com a SEE/AC, CPI/AC, MEC, prefeituras, Voltando o foco para o estado do Acre, isso exigirá que se avance
entre outros. Para isso, vem realizando, desde 2000, seminários na construção de uma agenda orgânica de trabalho, o que in-
de políticas públicas como uma das modalidades da formação clui efetivar as parcerias entre o estado, as organizações indíge-
do magistério indígena, em parceria com a CPI. Desses seminá- nas e a sociedade civil e, assim, potencializar mudanças e criar
rios participam, além dos professores, lideranças, agentes agro- as condições para fazer educação, exercitando a participação e a
florestais indígenas, mulheres e outros professores indígenas que florestania. (fevereiro, 2006)

POVOS INDÍGENAS NO BRASIL 2001/2005 - INSTITUTO SOCIOAMBIENTAL ACRE 23


Kampo: das Florestas Acreanas
aos Grandes Centros Urbanos

Beatriz Labate Doutoranda em Antropologia Social pela Unicamp, pesquisadora


do Núcleo Interdisciplinar de Pesquisa sobre Psicoativos – Neip

Edilene Coffaci de Lima Professora de Antropologia da UFPR,


trabalha com os Katukina desde o início de 1990

ERNESTO DE OUZA/EDITORA GLOBO, SET. 2004


A SECREÇÃO DO SAPO-VERDE CONHECIDO COMO
KAMPO, USADA PELOS KATUKINA E OUTROS POVOS
DO ACRE, TEM DESPERTADO GRANDE INTERESSE
EM CIDADES COMO SÃO PAULO, RIO DE JANEIRO
E BRASÍLIA, E VEM SE FORTALECENDO COMO
UM SÍMBOLO ÉTNICO

Nos últimos anos, o uso da secreção do sapo-verde conhecido


como kampo ou kampu (Phyllomedusa bicolor) alcançou os
grandes centros urbanos e ganhou novos significados. Protago-
nistas de várias reportagens jornalísticas, palestrantes e aplica-
dores de kampo em congressos de xamanismo e clínicas de tera-
pias alternativas, os Katukina tornaram-se personagens centrais
para a compreensão das novas formas do uso dessa substância
nos centros urbanos, que não se limitam às diversas cidades do
Acre, nas quais reside parte dos usuários e aplicadores, mas es- Sérgio Katukina, da reserva de Rio Campinas, em Cruzeiro do Sul (AC),
apresenta o kampo.
coam para grandes metrópoles, como São Paulo, Brasília e Rio
de Janeiro.
O kampo tem despertado nos centros urbanos um duplo inte- 1960. Para além das fronteiras acreanas, muitas pessoas passa-
resse: como um “remédio da ciência”, no qual se exaltam suas ram a experimentar ou a usar regularmente a secreção do sapo-
propriedades bioquímicas, confirmadas pelas várias tentativas verde, sobretudo em clínicas de terapia alternativa, em encon-
internacionais do que se entende vulgarmente ser o “patentea- tros xamânicos e no ambiente das religiões ayahuasqueiras bra-
mento da substância”, e como um “remédio da alma”, no qual sileiras. Através da difusão feita pelos terapeutas holísticos e por
o que mais se valoriza é a sua “origem indígena”. As duas alter- adeptos e ex-adeptos dessas religiões, particularmente a União
nativas seguem paralelas, e a escolha por uma delas não cancela do Vegetal e o Santo Daime, o kampo rapidamente alcançou li-
a outra, às vezes pelo contrário. Por exemplo, em circuitos neo- mites até pouco tempo atrás imprevistos. Não é difícil encontrar
xamânicos, uma porção especifica do movimento New Age, de- hoje em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília e
terminados tipos de terapia parecem ganhar mais sucesso no Curitiba quem aplique o kampo e tais cidades recebem visitas
caso de contar com um “selo de origem indígena”. Esse tem periódicas de ex-seringueiros e índios – em especial, Katukina e
sido certamente o caso do kampo. Kaxinawá – com o mesmo fim.
O principal responsável pela difusão urbana do kampo foi, tudo Toda essa divulgação e interesse científico pelo kampo, embora
indica, o seringueiro Francisco Gomes, falecido em 2001, que promovam alguma desconfiança (afinal, as suspeitas de
viveu entre os Katukina no Riozinho da Liberdade, na década de biopirataria vicejam na Amazônia), elevou o kampo à condição

24 ACRE POVOS INDÍGENAS NO BRASIL 2001/2005 - INSTITUTO SOCIOAMBIENTAL


de “sinal diacrítico” entre os Katukina. Mais do que uma subs- A principal parceira urbana dos Katukina, Sônia Valença de
tância capaz de livrar homens e mulheres de condições negati- Menezes – que se apresenta como terapeuta floral, acupunturista
vas, como a má-sorte na caça (“panema” ou, na língua katukina, e representante da Akac em São Paulo –, defende a idéia de que
yupa), indisposições ou “fraquezas” diversas (entendidas como esse grupo é o principal, ou talvez o “verdadeiro”, detentor dos
“preguiça”, tikish), o kampo tem facilitado aos Katukina a afir- conhecimentos sobre o kampo. Os Katukina contavam, até o
mação positiva de sua identidade étnica. Esses aspectos ficaram final de 2005, em São Paulo, com o apoio de Sônia para realizar
bastante claros nas recentes filmagens de um documentário so- palestras, atendimentos e sessões com aplicação da secreção. Na
bre os Katukina, que aconteceram em 2005. O filme, lançado palestra que ela e um katukina, Ni’i, filho de um rezador, profe-
no começo de 2006, chama-se Noke Haweti: Quem somos e o riram no I Encontro Brasileiro de Xamanismo, em março de
que fazemos e foi produzido por Nicole Algranti em parceria com 2005, ela assim afirmou sobre o uso que os Katukina e outros
a Associação Katukina do Campinas (Akac). Numa das cenas, grupos indígenas do Vale do Juruá fazem do kampo: “Embora
vários rapazes recebem aplicação de kampo, contribuindo as- todas as etnias que vivem por ali tenham conhecimento deste
sim para registrar essa “antiga prática”. Recebem a secreção das remédio, os Katukina são considerados zeladores deste remédio
mãos de velhos caçadores, que esfregam-na diretamente sobre porque eles tomam muito... estão sempre tomando... toda a vida
cada uma das pequenas queimaduras feitas na pele com cipó deles, a alegria deles, a saúde deles é saída de uma rã”.
titica. Alguns deles exibem mais de 120 “pontos” nos braços e
Dado o interesse que o kampo passou a despertar entre a popu-
no peito, demonstrando assim sua grande coragem para supor-
lação não-índia, em abril de 2003, os Katukina encaminharam
tar a dor e o mal-estar e, assim, a sua virilidade.
à Ministra Marina Silva uma carta solicitando que o Ministério
do Meio Ambiente (MMA) coordenasse um estudo sobre o sapo-
SÍMBOLO ÉTNICO verde. A ministra acolheu a demanda dos Katukina e, no mo-
mento, está em curso no MMA a elaboração de um projeto de
O kampo tem permitido aos Katukina uma presença mais
pesquisa envolvendo antropólogos, biólogos moleculares, médi-
marcante no campo da política indígena e indigenista acreana
cos e herpetólogos, entre outros profissionais. A expectativa é que
que, como ocorre em outros locais, é bastante disputado. Entre
tais estudos possam contribuir para regulamentar o uso do
os Ashaninka, com sua forte presença política no Alto Juruá, e a
kampo por não-índios e, ao mesmo tempo, assegurar benefícios
expressiva presença numérica e política dos Kaxinawá, os
econômicos para seus usuários tradicionais. Além dos Katukina,
Katukina ocuparam durante muito tempo uma posição
está previsto que o projeto do MMA seja desenvolvido entre os
desprivilegiada no indigenismo acreano. Agora, eles se vêem di-
Yawanawá e Kaxinawá. Até o presente momento, a realização do
ante da possibilidade de reverter esse quadro.
projeto ainda está sendo negociada, visto que são muitos os de-
O manejo do kampô pelos Katukina como um símbolo étnico talhes para cumprir a legislação específica.
pode ser percebido no fato de há muito pouco tempo um dese-
nho do sapo-verde ter começado a fazer parte da logomarca da O sucesso urbano do kampo fez com que outros grupos indíge-
Akac. Em julho de 2005, após gravarem as músicas do CD Txiriti nas acreanos voltassem, após muitas décadas, a usar a secreção.
Katukina, recém-lançado pelo grupo, uma de suas lideranças Foi o que se passou, por exemplo, com os Poyanawa e Nukini,
decidiu que o repertório teria início com um velho imitando o conforme nos informou uma liderança deste último grupo em
som de duas espécies de kampo, e a primeira música seria jus- janeiro de 2005. Soubemos, além disso, que o filho de um serin-
tamente uma que trata da sorte trazida pelo sapo-verde, cujo gueiro tem divulgado o kampo não só no sul e no sudeste, mas
refrão insistentemente repete seu nome vernáculo. Em peque- também no nordeste brasileiro: aplicações teriam ocorrido tam-
nas ações, os Katukina afirmam seu interesse em ter o kampo bém entre os Fulni-ô de Pernambuco.
estritamente – senão exclusivamente – associado ao grupo. Se kampo é “coisa de índio” ou da “cultura dos índios”, como
Mas é preciso esclarecer, a despeito das acusações de lideranças boa parte dos índios do Acre insiste agora em afirmar, é inevitá-
de outros grupos indígenas, que os Katukina não exercem esse vel dizer que o entendimento do que vem a ser “cultura dos
monopólio. Além dos Katukina, há índios de outras etnias, tam- índios” alcançou uma fronteira muito maior do que se poderia
bém oriundas do Acre, como os Kaxinawá, que muito eventual- inicialmente imaginar. (fevereiro, 2006)
mente aplicam kampo em moradores de São Paulo e Rio de Ja-
[Este texto foi adaptado de “A expansão urbana do kampo (phyllomedusa
neiro. Isso sem falar na família do seringueiro Francisco Gomes bicolor): notas etnográficas”, artigo que fará parte da coletânea Drogas:
e outros seringueiros, que aplicam a secreção em diversas cida- perspectivas em ciências humanas, organizado por Beatriz Labate, Mau-
des, muitas vezes aliados a terapeutas urbanos, e no uso e divul- rício Fiore e Sandra Goulart. Campinas, Mercado de Letras, no prelo]
gação do kampo pelas religiões ayahuasqueiras.

POVOS INDÍGENAS NO BRASIL 2001/2005 - INSTITUTO SOCIOAMBIENTAL ACRE 25


Grafismo Ashaninka
Fonte: Catálogo de exposição. Funarte,
CNFCP, 2000
ACONTECEU

GERAL ABUSOS DE COMERCIANTES médicos para fazer atendimento em todas as


aldeias. Proporções confirmadas pela Funasa,
A Superintendência da PF no Acre pôs fim a
ASHANINKA É O SECRETÁRIO uma prática criminosa de alguns comercian-
órgão responsável pela administração de con-
DOS POVOS INDÍGENAS vênios para a saúde do índio, mostram que
tes do município de Sena Madureira. Eles man- com as estatísticas, cada profissional de medi-
Mais de cem índios Ashaninka, Kaxinauá, Sha- tinham em mãos os cartões de benefício de cina deve atender a cerca de 4.333 índios. O
nenawa, Manchinery, Katukina, Yawanawá, índios aposentados pelo governo federal. Com quadro de profissionais destinados ao trata-
Jaminawa, Kaxarari e Apurinã assistiram neste a prática descoberta, policiais apreenderam
mento da saúde do índio deveria ser no míni-
fim de semana à posse do secretário dos Povos todos os cartões. “Mas eles continuam abusan-
mo o dobro, segundo a Funasa. No entanto, o
Indígenas do Acre, Francisco da Silva Pinhanta, do dos índios”, denunciou o chefe do posto
desinteresse dos profissionais de medicina em
da etnia Ashaninka. A SEPI faz parte de um indígena da Funai de Sena Madureira, Raimun-
atuar na região tem sido o agente implicador
dos compromissos assumidos pelo governador do Nonato Kaxinawá. Segundo ele, quando a
para o descumprimento das metas. (Diva Al-
Jorge Viana (PT/AC), durante encontro com li- PF tomou os cartões, os índios passaram a ter
buquerque, A Gazeta, 18/10/02)
deranças indígenas, e servirá para intermediar, acesso ao auxílio mensal através de uma pro-
coordenar e executar as ações do governo es- curação. Porém, sob as ameaças de comerci-
antes de não poderem mais comprar no mu- FEBRE AMARELA AMEAÇA
tadual referentes às comunidades indígenas. VALE DO ENVIRA
Na cerimônia de posse, Jorge Viana disse que nicípio, tiveram de passar a procuração para o
“o governo da floresta (slogan de seu governo) nome dos infratores. “Infelizmente não pode- Os primeiros casos da doença foram identifi-
agora é, também, o governo do povo da flores- mos fazer nada nesse caso. Cabe a Funai ori- cados na Aldeia Nova Olinda no alto rio Envira.
ta”. O governador sancionou um projeto de lei entar os índios para que eles não se subme- Os índios predominantes na região são os
do deputado Edvaldo Magalhães (PCdoB/AC) tam a essa ameaça de perderem a ligação com kampas cuja aldeia fica localizada a cerca de 5
que instituiu o Conselho Indígena do Acre. os comerciantes, caso não entreguem a pro- dias de barco de Feijó. Uma equipe do progra-
Também encaminhou à Assembléia Legislati- curação de saque do auxílio mensal”, frisou a ma saúde indígena estará vacinando a partir
va um outro projeto para a criação do Fundo delegada [da PF]. Ela completou que ainda da próxima semana toda a população indíge-
Estadual de Fomento ao Desenvolvimento dos ontem os cartões apreendidos foram devolvi-
na contra a febre amarela, não só da aldeia
Povos Indígenas do Estado do Acre. (Radiobrás, dos para a Funai, após uma orientação judici-
Nova Olinda, mas também Simpatia, Cupuaçú,
17/02/03) al. (Renata Brasileiro, Página 20, 02/06/04)
Igarapé do Anjo, Baixo Amazonas, Marunaua,
Jaminawá, Califórnia, Formoso, Grota e 7 Vol-
SEMINÁRIO DISCUTE ANTÔNIO APURINÃ ASSUME tas. As informações são de que apesar da pre-
CURSO SUPERIOR INDÍGENA ADMINISTRAÇÃO DA FUNAI sença da doença entre os índios não se regis-
Depois de quatro meses de intervenção, a Funai trou, pelo menos até agora, vitimas fatais. Além
A OPIAC, em parceria com a Comissão Pró-
terá novo administrador a partir de hoje. Tra- da vacinação, a equipe vai estar fazendo aten-
Índio e com o apoio da SEPI e da Funai, reali-
ta-se de Antônio Apurinã, que assume no lu- dimento médico e odontológico. Outra infor-
za até hoje o II Seminário para criação da Pro-
posta do Curso Superior Indígena. O encontro gar de Wânia Simone de Lucena. A posse acon- mação é de que os índios serão vacinados tam-
reúne professores indígenas, representantes teceu numa solenidade simples ontem à tarde, bém contra o tétano, gripe, tuberculose, e cla-
na Praça Povos da Floresta. Filiado ao PC do B, ro, febre amarela. (A Tribuna, 16/01/03)
da UFAC, Conselho Estadual de Educação, go-
Antônio Apurinã é o segundo suplente da sena-
verno do Estado, UNI, UNEMAT e Comissão de IRREGULARIDADES EM
dora Marina Silva, atual ministra do Meio Am-
Professores Indígenas do Amazonas e Acre. CONVÊNIOS
biente. (Stalin Melo, A Gazeta, 03/02/05)
Para suscitar a troca de experiências, estive-
ram presentes o coordenador do curso de li- A direção da Funasa deixou na lista de inadim-
cenciatura indígena da Unemat, Elias Januário, SAÚDE plentes nove municípios acreanos e a União
e a representante do Conselho Nacional de das Nações Indígenas do Acre e Sul do Amazo-
Educação, a índia Chiquinha Parici. Os avan- HEPATITE DELTA PODE TER nas (UNI) por irregularidades em convênios
ços, segundo o professor Isaac Pinhanta, pre- MATADO QUATRO ÍNDIOS assinados com o Ministério da Saúde. São 17
sidente da OPIAC, em relação ao primeiro en- contratos, assinados entre 1997 e 2001, que
Pelo menos quatro crianças indígenas morre- apresentam problemas na documentação
contro são muitos. “No primeiro levantamos
ram apresentando os sintomas da Hepatite comprovando gastos de materiais e equipa-
a reflexão dos professores indígenas em rela-
Delta este ano em Porto Walter. A informação é mentos, impugnação de contas, falta a presta-
ção ao curso superior, para onde a gente que-
do presidente da Associação dos Portadores de ção de contas e até tomada de contas especial.
ria ir. Já esse segundo encontro requer a for-
Hepatite do Acre, José Luiz Gomes Dantas, que
matação com os critérios de avaliação, dos Entre os inadimplentes, a conta que chama
investiga a presença de casos semelhantes no
conteúdos das disciplinas. Seria o currículo mais atenção é da UNI. A Funasa cobra da di-
município de Marechal Thaumaturgo, também
geral de formação a nível superior”, relata. A reção da UNI documentos comprovando alguns
no Vale do Juruá. Se confirmadas as mortes
próxima etapa é uma análise que será feita em Porto Walter, será o início do histórico da gastos. Existem denúncias de que o dinheiro,
pelas instituições envolvidas, uma leitura da doença no Juruá. (A Gazeta, 02/07/02) que deveria ser exclusivamente usado para
proposta, crítica e construtiva. “Depois dessa atenção básica de 13 mil indígenas de 125 co-
etapa chegaremos a um processo final onde ACRE TEM TRÊS MÉDICOS munidades e a formação de 162 agentes de
poderemos construir outra parceria com o PARA ATENDIMENTO saúde, foi gasto irregularmente. Na hora de
governo do Estado, UFAC, universidades, de- comprar barcos e equipamentos entraram
putados e senadores”, explica. (Rose Farias, Com uma população indígena de 13 mil habi- notas de outros produtos e bens que não cons-
Página 20, 15/08/2003) tantes aproximadamente, o Acre dispõe de três tavam no convênio. A Fundação não mostra

26 ACRE POVOS INDÍGENAS NO BRASIL 2001/2005 - INSTITUTO SOCIOAMBIENTAL


ACONTECEU

números nem fala detalhes de quanto pode envolvidos no desvio de verbas da entidade pres- provisória assumiu. (Andréa Zílio, Página 20,
ter sido o dinheiro usado de forma irregular. tem contas às comunidades indígenas. As sus- 13/08/04)
Para se ter uma idéia do prejuízo, basta olhar peitas são de que pelo menos R$ 3 milhões
os gráficos do aumento de casos de doenças tenham sido desviados. Para ouvir os adminis- UNI TEM QUE EXPLICAR
nas aldeias. Continuam altos os casos de tu- tradores do convênio, os conselhos organiza- AO MPF AS IRREGULARIDADES...
berculose, malária, problemas de pele, desnu- ram uma reunião. “Nós nos reunimos em Rio
trição e hepatites. O coordenador da UNI expli- Branco e cada um veio de sua comunidade e O MPF vai pedir que a PF realize uma perícia
cou que faltam alguns documentos para com- queremos voltar com uma resposta. Todos sa- contábil para saber onde foi parar o dinheiro
provar os gastos dos seis milhões. Isso aconte- bem do problema que houve com o convênio supostamente desviado da UNI. A Funasa rea-
ce porque existe a dificuldade de atender às e isso é vergonhoso para os índios. O relatório lizou auditoria sobre improbidades e irregula-
comunidades e ao mesmo tempo correr atrás da auditoria que veio de Brasília deixa muitas ridades na aplicação dos recursos financeiros,
de papéis, como notas fiscais. “Fizemos a pres- dúvidas e constata várias irregularidades e a oriundos de convênios. Na documentação cons-
tação de contas completa e com certeza não UNI não sabe explicar onde esse dinheiro foi tante do Procedimento Administrativo instau-
houve desvio de dinheiro, tanto que já fizemos aplicado”, comentou o conselheiro deliberativo rado, vislumbra-se a ocorrência dos delitos de
mais dois convênios com a Funasa,” comple- Joaquim Yawanawá. Os conselheiros acreditam peculato e improbidade administrativa, por
tou o coordenador. (A Tribuna, 20/02/04) que os administradores do convênio são os res- parte dos gestores da UNI/AC. O procurador da
ponsáveis pelo desvio de dinheiro. (Tatiana República Marcos Vinícius de Aguiar Macedo
MS BLOQUEIA RECURSOS Campos, A Gazeta, 22/07/04) lembrou que a antiga diretora foi afastada do
cargo, mais ainda terá que explicar na Justiça
PARA UNI
... UNI E FUNASA DEFENDEM-SE onde foi parar o recurso. Segundo ele, o rela-
O Ministério da Saúde, depois de rigorosa in- tório aponta despesas distintas, efetuadas em
DAS ACUSAÇÕES... datas diferentes, pagas em tese por meio do
vestigação, resolveu bloquear os R$ 3,5 milhões
de recursos que seriam repassados para a UNI, Francisco Avelino Batista, coordenador da UNI/ mesmo cheque. A auditoria ainda aponta o re-
porque foram encontradas irregularidades na AC, confirmou que a entidade encontrou difi- cebimento de valores por funcionários, sem a
prestação de contas de 2003 da instituição. De culdades para fechar a prestação de contas do devida informação da destinação dos recursos
acordo com o coordenador da Funasa no Acre, convênio, sendo citada pelo TCU e ficando im- e sem prestação de contas. O MPF acredita que
Eduardo Farias, os diretores da instituição fo- possibilitada de renovar convênio. “Desde ja- o fato caracteriza crime contra a administra-
ram instruídos para refazer a prestação de con- neiro que a Funasa assumiu a responsabilida- ção pública. (Val Sales, Página 20, 05/11/04)
tas, apresentando a documentação necessária de sozinha e não temos mais envolvimento nas
e corrigindo as falhas que, segundo ele, não ações de saúde junto às comunidades”. A tare- ... E ACABA ABRINDO FALÊNCIA
são graves. “Não foram detectados indícios de fa de proceder a rescisão dos funcionários ain-
da está sendo administrada pela UNI. Avelino A UNI responde hoje a mais de 300 processos
desvio de verbas. Apenas algumas notas que
disse que todos os profissionais contratados trabalhistas, que provocaram a falência da en-
estavam erradas e outros pequenos problemas
que serão resolvidos o mais rápido possível para pelo convênio foram pagos. Sobre os motivos tidade. A sua sede, carros, barcos e mobiliári-
garantir a liberação dos recursos”, comentou das irregularidades na prestação de contas, o os deverão ser penhorados para saldar passivo
Farias. (A Tribuna, 03/06/04) líder indígena afirmou que, na maioria dos ca- trabalhista. As irregularidades provocaram um
sos, “fica muito difícil conseguir notas fiscais abalo muito grande nas aldeias. Sentindo-se
junto às comunidades”. O convênio com a UNI traídos, os índios recusam a acreditar na vera-
FUNASA SUPERVISIONA cidade dos fatos e por conta da situação, lide-
APLICAÇÃO DE RECURSOS teria sido rompido no mês passado, segundo
versão da Funasa. A chefe do distrito sanitário ranças de todas as comunidades reuniram-se,
A Funasa passou a supervisionar os recursos indígena, Conceição Leitão, informou que a destituíram a diretoria executiva, conselho fis-
dirigidos às ações do Programa da Saúde da falta de experiência da instituição, em conve- cal e demitiram assessores, nomeando uma
Família Indígena (PSFI). Esse mesmo traba- niar diretamente com os índios, foi o que pro- comissão provisória para contornar a situação.
lho até 30 de junho era controlado pela UNI. vocou algumas irregularidades. (Ana Sales, O (Ana Sales, O Rio Branco, 09/11/04)
Depois de assumir a atribuição a fundação está Rio Branco, 22/07/04)
realizando a retomada do envio das equipes FUNASA DEVE ARCAR COM
de profissionais de saúde para as aldeias de 13 ... E O MPF COMEÇA A DÍVIDAS TRABALHISTAS
municípios do Estado. Para controlar o direci- INVESTIGAR
onamento dos gastos, a Funasa deverá receber O presidente do Tribunal Regional do Traba-
periodicamente a prestação de contas feita pe- A UNI quer realizar em uma assembléia geral lho (TRT), juiz Mário Sérgio Lapunka, negou
las prefeituras que recebem o dinheiro do pro- entre as comunidades indígenas para decidir um recurso apresentado pela Funasa em uma
grama. Atualmente a verba é distribuída de se tenta resgatar a imagem da entidade qui- ação trabalhista movida pela UNI e por Pedro
acordo com o número de comunidades indí- tando suas dívidas ou se é melhor extingui-la. Dutra da Silva, que prestou serviço às duas en-
genas existentes em cada localidade. (Val Sales, Em meio à polêmica, o MPF, a pedido da pró- tidades. Segundo a decisão, publicada ontem
Página 20, 22/07/04) pria UNI, começa a investigar o caso. O inqué- no Diário Oficial, a Funasa deve arcar com to-
rito de investigação foi instaurado no dia 27 de das as dívidas trabalhistas dos convênios 52,
ÍNDIOS COBRAM julho, quando o procurador Marcos Vinícius de 364 e 430, firmados com a UNI. O débito é de
Aguiar recebeu o documento com a solicita- R$ 3,3 milhões, sendo R$ 1,6 milhão de en-
PRESTAÇÃO DE CONTAS... ção. Durante uma reunião no dia 23 de julho, cargos sociais, R$ 487 mil de fornecedores e
Os conselhos Fiscal e Deliberativo do convênio entre membros da UNI e o procurador federal, R$ 1,2 milhão de rescisão de contratos. (Josafá
UNI/Funasa querem que os administradores a comissão da instituição foi exonerada e uma Batista, A Tribuna, 01/02/05)

POVOS INDÍGENAS NO BRASIL 2001/2005 - INSTITUTO SOCIOAMBIENTAL ACRE 27


ACONTECEU

HEPATITE FAZ MORTES EM çou em 1998, e só agora foi concluído. O ad- ontem à PF que investigasse a atuação do Cimi.
SÉRIE ENTRE OS JAMINAWA ministrador da Funai no Acre, Antônio Pereira O Cimi identificou os parceleiros do Incra resi-
Neto, disse ontem que os estudos realizados à dentes no Projeto de Assentamento Amônia,
Exatamente 98% dos índios da aldeia São Lou- época deram às famílias o direito de receber a em Marechal Thaumaturgo, como índios per-
renço, da tribo Jaminawa, estão acometidos indenização. (A Tribuna, 20/11/01) tencentes à tribo indígena Apolymas e os inci-
com o vírus das hepatites do tipo “C” e Delta. A tou a requererem que o projeto de assenta-
aldeia fica em Assis Brasil. Os números são ain- GUERRA ENTRE mento fosse transformado em reserva indíge-
da mais assustadores – seis famílias ao longo na. (A Critica, 15/05/01)
ASHANINKA E AMAWAKA
de dois anos morreram vítimas da doença. Há
cerca de um mês, oito índios estão internados A ação de madeireiras na fronteira Brasil-Peru DISPUTA DE TERRA
na Casa do Índio, e ontem Renato Jaminawa, foi a principal causa do conflito indígena entre
morreu, denuncia o presidente da Associação ashaninkas e amawakas, que resultou na mor- A disputa de uma área de terra às margens do
dos Portadores de Hepatite do Estado do Acre te de dezenas de índios, na semana passada. rio Amônea poderá gerar um conflito entre
(Aphac), José Luiz Gomes. Ele lembra que há Há dez dias na região de Dulce Gloria, cerca de agricultores assentados pelo Incra e os índios
dois anos o Governo Federal e o Exército Brasi- 40 quilômetros dentro do território peruano, Apolina. O alerta foi feito ontem pelo vereador
leiro realizaram na região uma campanha de uma família ashaninka foi atacada a flechadas José Maria. Segundo ele, o clima não é bom e
combate à doença e mesmo alcançados com a por índios amowakas. Uma mulher morreu e há risco de haver confronto, pois os indígenas
vacinação os índios continuam a contrair o ví- três crianças ficaram gravemente feridas. Os não querem ceder a área para a exploração
rus. (Notícias da Hora, 27/12/05) guerreiros ashaninkas se armaram e foram agrícola para mais de 70 famílias que moram
atrás dos agressores, que são considerados “ar- na região. (A Tribuna, 15/06/03)
ISOLADOS redios”, Segundo o relato dos ashaninkas, os
amowakas agressores foram encontrados e eles ÍNDIOS DENUNCIAM AMEAÇA
FUNAI IDENTIFICA NOVA tentaram fazer um contato pacífico que foi res- DE NARCOTRAFICANTES
pondido com flechadas. Então, os guerreiros
TRIBO NA SERRA DO MOA ashaninkas atacaram e muitos amoawakas fo- Três índios Apolima-Arara, da reserva Arara,
A Funai prepara uma expedição ao Parque Na- ram mortos. Para os ashaninkas, os ataques do Alto Juruá, estão marcados para morrer,
cional da Serra do Divisor, para comprovar re- de amoawkas são freqüentes e ameaçam suas segundo relato do cacique Francisco Siqueira
latos de ribeirinhos sobre a presença de índios comunidades tanto no Peru quanto no Brasil. em documento enviado ao administrador da
isolados. “Foram vistos nus na Serra do Moa”, Eles explicaram que isso acontece porque as Funai no Acre, ao comandante do 4º BIS, ao
disse ontem Antônio Pereira Neto, administra- madeireiras que atuam na fronteira estão di- capitão da 1ª Cia de Fuzileiros de Selva e ao
dor da Funai. Os índios teriam saqueado um minuindo o espaço territorial dos “índios ar- delegado da Polícia Federal em Cruzeiro do Sul.
acampamento de caçadores no igarapé Tapa- redios”. (Nelson Liano, Página 20, 8/06/03) A denúncia, assinada também por Getúlio
da. É possível, segundo Pereira, que o grupo Gomes de Oliveira e Antônio Siqueira, pede a
seja da etnia Isconahua, cuja reserva legal está ISOLADOS FLECHAM tomada de providências o mais rápido possí-
vel por parte das autoridades para investiga-
no Peru. (A Tribuna, 06/03/01) SERTANISTA DA FUNAI rem as ameaças, que segundo eles, estariam
Índios isolados atacaram a flechadas o serta- partindo de narcotraficantes peruanos. Os
PF CONCLUI INVESTIGAÇÃO nista José Carlos Meireles da Funai na região povos indígenas afirmam que, em abril deste
DA MORTE DE ARREDIOS do Alto Rio Envira. Meireles estava pescando ano, cerca de 20 homens peruanos, trafican-
A PF concluiu nesta segunda-feira inquérito quando foi cercado por um grupo de dez índi- tes de drogas e conhecidos também como ter-
policial que apurava o assassinato e castração os. O sertanista recebeu uma flechada no ros- roristas, foram até às margens do Rio Amônia
de um índio arredio em junho do ano passa- to, que entrou pelo lado esquerdo do maxilar para matá-los por saberem que foram denun-
do, dentro da terra indígena Alto Tarauacá, em e saiu pela nuca. Outras cinco flechas dispara- ciados pelos índios. Os traficantes, segundo
Jordão. “O seringueiro José Lourenço da Silva, das não o atingiram. Ele mesmo retirou o ob- relata o documento, teriam chegado até a al-
o Trubaldo, foi indiciado por homicídio e o ve- jeto do rosto, provocando muito sangramento, deia através dos rios Putaya e Cayãja, que fa-
reador Auton Farias, por co-autoria e ocultação segundo seu relato à imprensa local. Um heli- zem limites com o Acre. (Silvânia Pinheiro, A
de cadáver”, informou ontem o superintenden- cóptero da FAB resgatou Meireles na manhã Gazeta, 21/05/04)
te da PF no Acre, Ney Ferreira de Sousa. Fran- de ontem da base etnoambiental do rio Envira.
cisco Alves de Morais Filho, o “Chico do Mara- Ele foi levado a um pronto-socorro de Rio Bran- ARARA (SHÃWÃDAWA)
nhoto”, Dézio Oliveira e Francisco Sampaio da co e não corre risco de morte. O sertanista não
Silva também foram indiciados por ocultação soube precisar a razão do ataque, mas avaliou DEMARCAÇÃO DA TI ARARA DO
de cadáver. (A Tribuna, 01/11/01) que os índios devem ter pensado que sua pre- IGARAPÉ HUMAITÁ CHEGA AO FIM
sença era uma ameaça. (FSP, 08/06/04)
FUNAI INDENIZA FAMÍLIAS QUE A TI Arara do Igarapé Humaitá teve a sua de-
ARARA DO RIO AMÔNIA marcação concluída em novembro. Com apoio
VIVIAM NA TI ALTO TARAUACÁ do PPTAL, foi implementado um Projeto de
As indenizações começam a ser pagas a partir INCRA PEDIRÁ À PF PARA Acompanhamento Indígena da Demarcação,
desta semana às 52 famílias que têm direito executado pela APAIH, associação que repre-
ao benefício. Para facilitar a Funai vai efetuar o
INVESTIGAR ATUAÇÃO DO CIMI senta os autodenominados Shawadawa. Em
pagamento no município do Jordão. O proces- O superintendente do Incra, Aldenor Fernan- execução desde maio, o Projeto mobilizou
so de regularização da TI Alto Tarauacá come- des, afirmou que iria pedir ainda na tarde de aquela etnia para o monitoramento do serviço

28 ACRE POVOS INDÍGENAS NO BRASIL 2001/2005 - INSTITUTO SOCIOAMBIENTAL


ACONTECEU

da empresa contratada pela Funai. Além da IBAMA PROMOVE SOLTURA DOS da fronteira, ameaçada pelas guerrilhas colom-
aquisição de equipamentos e da construção de TRACAJÁS NOS ASHANINKAS bianas, pelo narcotráfico e pelo tráfico de ma-
casas de apoio, o PPTAL realizou oficina de ca- deiras. A cooperação iniciou depois da conclu-
pacitação em mecânica para manutenção de A soltura de mais de 800 quelônios na Aldeia são do Sivam, cujo monitoramento abrange
motores de barco. A confecção de mapas, ca- dos Ashaninka, no rio Amônia, foi um evento também áreas localizadas em países fronteiri-
misetas e materiais informativos auxiliou nas que simbolizou o resultado do trabalho dos ços. (Radiobrás, 25/03/04)
ações de divulgação regional. Em janeiro do índios dentro de um Projeto de Manejo para
próximo ano os Arara irão realizar um evento reprodução de quelônios que conta com o MADEIREIROS PERUANOS
de comemoração pela conquista da terra de- apoio do Ibama e da SOS Amazônia. (O Rio
Branco, 31/01/03)
INSISTEM EM INVADIR TI
marcada. Até lá, deverão ter concluído uma
proposta preliminar para futuro Projeto de Vi- Uma operação conjunta do Exército, PF e
gilância, a ser analisada pelo PPTAL. (Informe INVASÃO NO JURUÁ Ibama prendeu quatro peruanos que retira-
PPTAL, Edição IX, dez. 2004) vam madeira da reserva dos índios Ashaninka.
A invasão da madeireira peruana Venado tor-
Três homens e uma mulher foram enviados
nou-se uma séria ameaça territorial e ecológi-
para a sede da PF em Cruzeiro do Sul. “Até o
ASHANINKA DO ca para o Brasil. (A Gazeta, 07/04/03)
momento tínhamos apenas fotos. Era preciso
RIO AMÔNEA MADEIREIROS PERUANOS fazer a apreensão para forçar uma negociação
diplomática e garantir que o Brasil seja res-
INVASÃO DE MADEIREIROS SÃO EXPULSOS sarcido do prejuízo causado pelo impacto am-
PERUANOS A atuação ilegal de madeireiros peruanos em biental dessa ação”, explicou o superintenden-
território brasileirona fronteira do Acre foi abor- te do Ibama, Anselmo Forneck. No primeiro
Madeireiros peruanos já abriram pelo menos tada na última semana de fevereiro por polici- acampamento dos peruanos foram apreendi-
oito clareiras dentro da selva retirando madei- ais federais, soldados do Exército Brasileiro, das cem toras de mogno, o equivalente a mil
ras nobres da Área Indígena Ashaninka do Rio servidores da Funai e policiais civis da Secreta- metros cúbicos de madeira retirada ilegalmen-
Amônia. Eles já avançaram cerca de 10 quilô- ria Estadual de Segurança. Foram expulsos do te da floresta brasileira (Val Sales, Página 20,
metros em território brasileiro, chegando às país 30 madeireiros que operavam em terras 28/09/04)
cabeceiras do Rio Amoninha, afluente do Amô- indígenas dos Ashaninka. (Funai, 10/03/04)
nia. Índios ashaninkas peruanos, da Reserva BENKI PIANKO GANHA PRÊMIO
Sawawo, foram cooptados e estão trabalhando BRASIL E PERU DISCUTEM DE DIREITOS HUMANOS
para retirada ilegal de mogno e para o narco- VIGILÂNCIA DA FRONTEIRA
tráfico, que é de grande vulto na região. Uma Ainda em estado de êxtase, não pela premiação,
pista de pouso de aeronaves foi aberta pelos Os ministros da Defesa do Brasil, José Viegas, e mas sim, pela oportunidade de divulgar a ní-
narcotraficantes na aldeia Sawawo. (A Gazeta, do Peru, Roberto Chiabra, discutem em Lima vel nacional um trabalho que pode ser inten-
03/01/01) a cooperação dos dois países para a segurança sificado ainda mais, o índio ashaninka Benki

ÍNDIOS CAPTURAM PERUANOS...

ROBERTO BARROSO/ABR
Três madeireiros peruanos foram capturados
em território brasileiro por índios Ashaninka.
Mais de dez peruanos estavam explorando
mogno ilegalmente na reserva e parte deles fu-
giu. O clima é de tensão na área e os índios
temem represália dos peruanos que não fo-
ram capturados. Os Ashaninka anunciam que
só entregam os três presos à Polícia Federal,
que deve chegar ao local hoje. (Hugo Marques,
JB, 25/10/02)

... MAS ELES SÃO ABSOLVIDOS


PELA JUSTIÇA
Os três madeireiros peruanos foram absolvi-
dos pela Justiça, por falta de provas. A infor-
mação é do superintendente da PF no Acre, O vice-presidente da República,
Paulo Bezerra. Segundo ele, a PF vem acom- José Alencar, ao lado a ministra
panhando esse caso de perto, e confirma que a do Meio Ambiente, Marina Silva,
absolvição se deu realmente em razão da falta e do ministro Nilmário Miranda,
de provas, pois não foram encontrados com eles da Secretaria de Direitos
elementos que caracterizem flagrante, como Humanos, entrega o prêmio
Direitos Humanos 2004 ao
motosserras ou outros instrumentos que pro- índio Benki Ashaninka, no
movam derrubadas. (A Tribuna, 10/11/02) Palácio do Planalto.

POVOS INDÍGENAS NO BRASIL 2001/2005 - INSTITUTO SOCIOAMBIENTAL ACRE 29


ACONTECEU

RENATO GAVAZZI/CPI
Pianko foi o vencedor do Prêmio Nacional de
Direitos Humanos, como personalidade indí-
gena, pelo trabalho que faz em defesa dos ter-
ritórios indígenas, assim como pela defesa da
soberania e integridade territorial brasileira. O
prêmio concedido no último dia 9 ao índio
acreano, pela Secretaria Especial de Direitos
Humanos da Presidência da República, é o úni-
co na categoria individual. O valor de R$ 10
mil que conquistou, Benki Pianko diz que usa-
rá nos projetos da aldeia, com um intuito de-
safiador de levá-los às outras comunidades. Ano
passado o vencedor do prêmio foi o líder indí-
gena Ailton Krenak. (Andréa Zílio, Página 20,
16/12/04)

KAXINAWÁ
USO INDEVIDO DE
DESENHOS SAGRADOS LEGENDA
Os Kenês, desenhos sagrados utilizados por junto com os meus companheiros, todos AAFI. margens do rio Jordão. Também saiu fortaleci-
índios Kaxinawá, viraram logomarcas de lojas, Trabalhamos durante dez dias: eram dezessete do o Partido Verde, que, pela primeira vez, che-
de transporte coletivo e de lanchonete, poden- agentes agroflorestais e eles ajudaram na au- ga a tão importante cargo no Executivo Muni-
do ser vistos até em porta de banheiro de res- todemarcação do Seringal Independência. Nós cipal. Siã está em Rio Branco na companhia
taurante. Mas a exposição das figuras nesses trabalhamos em grupos: um grupo de cozi- do prefeito Hilário Melo, que venceu a eleição
locais não está agradando nem um pouco os nheiro, outro grupo de caçadores, os “bom- com quase 57% dos votos válidos. Segundo o
índios da etnia de origem. É que, segundo eles, beiros”, aqueles que carregam água para pes- vice-prefeito, no município a população indí-
nenhuma autorização foi pedida por parte dos soas. Nós trabalhamos muito e outro grupo tra- gena soma aproximadamente 40% e a estraté-
reprodutores das imagens e isso poderá acar- balhou do outro lado da terra. No total eram gia para a eleição foi dividir as responsabilida-
retar uma série de complicações, até mesmo 24 pessoas trabalhando num lado e 29 traba- des entre um candidato que representasse os
processo judicial. lhando no outro lado da reserva. Teve a parti- kaxinauás e o outro segmento da população.
Segundo o representante da etnia, Ninawá Ka- cipação dos agentes agroflorestais, de agente (Flaviano Schneider, Página 20, 27/10/04)
xinawá, uma reunião está marcada para o pró- de saúde e de professor... (Josimar Txuã Kaxi-
ximo dia 30 até o dia 4 de janeiro, na Aldeia nawá, Yuimaki, Um Jornal Indígena do Acre, FALTAM RECURSOS AO
Três Fazendas, no município de Jordão. Ele dis- março de 2000) MUNICÍPIO, DIZ SIÃ
se que nenhum Kenê é usado por índios da
tribo sem autorização do pajé. Existem mais QUATRO MORREM DE DIARRÉIA Siã Kaxinawá (PV) ressaltou que muito se tem
de 60 Kenês e cada um é usado por um deter- EM ALDEIA DO JORDÃO dito, mas pouco tem chegado de fato para os
minado grupo. Isso significa que existem de- que moram nas aldeias. Ele disse que nestes
senhos específicos para crianças, mulheres, li- Uma aldeia do povo Kaxinawa teve quatro cri- quase sete meses de administração pouco tem
deranças, idosos e caçadores. “O uso indevido anças entre três e 17 anos de idade mortas no sido feito por falta de recursos e relatou ser o
dessas pinturas nos enfraquece espiritualmen- último fim de semana. A informação é da co- saneamento o principal problema do municí-
te”, completou. Ninawá disse que a primeira ordenadoria da UNI-AC, que recebeu ontem a pio. Segundo Siã, a falta de água tratada e de
medida durante a reunião é levantar se algum informação extra-oficial de um fiscal respon- rede de esgotos são os principais responsáveis
líder das 33 comunidades Kaxinawá existente sável pela área. As informações da tragédia ain- pela grande quantidade de doenças na região.
no Estado liberou o uso das Kenês. Caso não da são escassas, desencontradas. Mas, de acor- “Se na cidade o problema é grave, nas aldeias
tenha havido a liberação, a etnia pretende to- do com a UNI, as crianças teriam sido vítimas o caso é ainda mais sério”, salientou. (O Rio
mar uma providência radical: mandar as em- de alguma espécie de veneno adquirido em Branco, 23/07/05)
presas retirarem a figura criada pelos Kaxina- contato com a água ou com alguns alimentos.
Presas de forte desenteria, as crianças não re-
wá. (Renata Brasileiro, Página 20, 23/12/05)
sistiram e morreram. (Página 20, 30/10/02)
KAXINAWÁ DA PRAIA
DO CARAPANÃ
KAXINAWÁ / SIÃ KAXINAWÁ É O NOVO
MUNICÍPIO DE JORDÃO VICE-PREFEITO DO JORDÃO ALDEIAS INVESTEM NA
CRIAÇÃO DE TRACAJÁS
A AUTODEMARCAÇÃO DO Os índios do Jordão e o movimento indígena
SERINGAL INDEPENDÊNCIA estadual saíram fortalecidos com o resultado Dinheiro é coisa rara em mãos dos ribeirinhos,
das últimas eleições. O resultado mais desta- que em geral conseguem algum vendendo bor-
Vou falar um pouco sobre a autodemarcação cado foi a eleição do índio Siã Kaxinauá ao car- racha ou a produção de suas lavouras, mas a
do Seringal Independência. Foi um trabalho go de vice-prefeito no município situado às criação de quelônios (tartarugas) surge como

30 ACRE POVOS INDÍGENAS NO BRASIL 2001/2005 - INSTITUTO SOCIOAMBIENTAL


ACONTECEU

fonte alternativa de renda. “Nosso projeto pre- da retirada da equipe da Funai, a relação entre nheiro para isso está liberado desde 2003, tan-
vê que pelo menos 20% do excedente da pro- a população de Feijó, os ribeirinhos e os indí- to que deveria ter sido executado no Plano
dução seja comercializada. Os índios Kaxina- genas tem sido pacífica, mas a tensão tende a Operativo Anual (POA) de 2004”, afirma o do-
was da aldeia Mucuripe que fica na terra indí- voltar com a retomada dos trabalhos do GT. cumento. A terra indígena do Caeté abriga 126
gena Carapanã montaram eles próprios sua (Cimi, 28/02/02) índios e a do Guajará 120. (Juracy Xangai, Pá-
criação de tartarugas e tracajás, sem qualquer gina 20, 12/01/06)
orientação e já conseguiram bons resultados. JAMINAWA
Agora nós estamos prestando assistência a MANCHINERI
eles”. A equipe da Seater está aproveitando o ÍNDIOS QUE VIVEM NA CIDADE
impulso que levou a comunidade do Mucuri- TI É INVADIDA POR SUSPEITOS
QUEREM VOLTAR ÀS ALDEIAS
pe, a qual tem 80 famílias e 338 índios, para
estimulá-los a transformar sua experiência em A SEPI se reuniu ontem à tarde com represen-
DE NARCOTRÁFICO...
criação de alta escala. Para isso já elaborou tantes do MPE, MPF, Funai, UNI, Funasa e de- A comunidade indígena do Mamoadate foi sur-
projeto a fim de construir ali duas barragens mais órgãos ligados à área das ações sociais preendida com uma clareira de pelo menos
de médio porte, ambas com praias artificiais para discutir a situação dos índios da tribo 50m² em sua reserva. As lideranças indígenas
destinadas à reprodução, além de berçários Jaminawa que vivem dispersos de suas comu- do local, ao informar o fato à UNI-AC, afirma-
para os filhotes de tartaruga e tracajá. (Juracy nidades e pedem esmolas nas ruas do centro ram acreditar que a pequena clareira seria
Xangai, Página 20, 09/07/04) da cidade. De acordo com o representante da usada como base para o tráfico de drogas ou
SEPI, Francisco Pianco, o problema de disper- para a retirada clandestina de madeira. O local
são dos índios dessa tribo já existe há cerca de invadido é área de fronteira Brasil/Peru. O vice-
KAXINAWÁ DO SERINGAL dez anos. Segundo ele, algumas ações de pla- coordenador da UNI, Manoel Gomes, revelou
CURRALINHO nejamentos passados, voltadas para o auxílio que as lideranças Manchineri encontraram na
desses povos, acabaram provocando a depen- área desmatada várias cápsulas usadas em ar-
VIOLÊNCIA INTERROMPE dência de algumas famílias, que já não conse- mas de fogo detonadas e utensílios comumente
IDENTIFICAÇÃO DE TERRAS guem se adaptar aos costumes e tradições das usados em acampamentos. (Paulo Teixeira, A
suas comunidades de origem. Seis famílias vi- Gazeta, 25/07/02)
O processo de identificação de terras indíge- vem atualmente em Rio Branco e perambulam
nas Nukumã, em Seringal do Curralinho, nas pelas ruas pedindo esmolas. Outras também
aldeias Grota, Nova Esperança e Formiga, do ... TRAFICANTES SÃO PRESOS
estão espalhadas pelos municípios de Brasiléia,
povo Kaxinawá, iniciado em novembro de Assis Brasil e Sena Madureira. A situação é de Três homens, dois peruanos e um brasileiro,
2001, foi interrompido por 90 dias em mea- conhecimento dos dirigentes das comunida- foram detidos e amarrados com cordas ao ten-
dos de janeiro de 2002, depois de episódios de des, que discordam e temem que essa atitude tarem atravessar uma reserva indígena próxi-
violência contra indígenas e contra membros venha a produzir uma má imagem de sua na- ma à aldeia Jatobá, do povo Manchinery, com
do GT de identificação da Funai. A UNI/AC e os ção perante a sociedade. “A idéia é encaminhá- grande quantidade de drogas. Localizada às
membros do GT divulgaram documento rea- los às suas casas, seja na cidade ou nas aldeias margens do Iaco, a aldeia Jatobá tem um pés-
firmando o direito dos povos da região à de- e conscientizá-los da necessidade de se enqua- simo acesso por terra. Por isso, a polícia de Assis
marcação das terras e denunciando as hostili- drarem ao sistema em que vivem, como parte Brasil pediu reforço aéreo. Segundo o subde-
dades de que têm sido vítimas. integrante de uma sociedade com direitos e legado Eduardo Padilha, o trio pretendia atra-
O GT sofreu resistência desde que começou o deveres”, declarou Pianco. (Val Sales, Página vessar a selva e descer com a droga até Sena
trabalho – os problemas iam de pessoas que 20, 17/02/04) Madureira, onde ela seria embarcada para uma
se negavam a fornecer informações até amea- cidade amazonense. (Josafá Batista, A Tribu-
ças contra seus membros. A grande maioria JAMINAWA QUEREM na, 29/1/04)
dos habitantes de Feijó e redondezas foi con- DEMARCAÇÃO DE TERRAS
tra o processo de demarcação de terras. A no- MANCHINERI RESGATAM A
tícia do início da identificação da terra pegou a Lideranças do povo jaminawa denunciam a CULTURA DE SEU POVO
população de surpresa, e os setores organiza- inoperância da diretoria de Assuntos Fundiári-
dos contra a demarcação (AMSCAE – Associa- os da Funai (DAF) e da Coordenação Geral de A organização Mapkha do povo Manchineri do
ção de Moradores do Seringal de Curralinho, Identificação e Delimitação (CGID) no que diz Rio Yaco realizou ontem em Rio Branco um
CNS – Conselho Nacional de Seringueiros, e respeito à demarcação das terras indígenas encontro do Projeto “Resgate, Revitalização e
COAF – Cooperativa Agroextrativista de Feijó, Jaminaua do Rio Caeté e Jaminawa do Guajará. Registro da Cultura Manchineri”. A organiza-
além de políticos) foram ágeis em espalhar O protesto do povo jaminawa está expresso em ção, fundada em 26 de maio de 2003, tem
boatos. A população do campo temia ser ex- carta acompanhada por abaixo-assinado de 34 como objetivo principal buscar benefícios para
pulsa de suas terras e impedida de produzir. A lideranças, enviada ao presidente da Funai e à o povo Manchineri. Toya Manchineri, secretá-
opinião geral era a de que a Funai não indeni- coordenação técnica do PPTAL. O documento rio executivo do Mapkaha, disse que hoje na
zaria ninguém pelas benfeitorias. denuncia o descaso das autoridades para a cidade de Rio Branco há vários índios manchi-
Houve uma reunião com mediadores do go- demarcação das terras desse povo que, sem neris que não falam mais a própria língua,
verno do estado do Acre, na tentativa de che- ter onde ficar, continua migrando para esmolar perderam música, pintura, tecelagem, cerâmi-
gar a um consenso pacífico, assegurando os e até se prostituir nas ruas de Rio Branco, ca e formas de utilização de plantas medici-
direitos dos índios e dos ribeirinhos. Brasiléia, Sena Madureira e Assis Brasil. “Es- nais. Uma oficina teve duração de 19 dias e
Os trabalhos do GT foram suspensos por 90 tranhamos essa demora para o início da de- participação de 12 comunidades. Os membros
dias, a partir de 03 de janeiro de 2002. Depois marcação de nossas terras, até porque o di- da própria comunidade é que realizaram todo

POVOS INDÍGENAS NO BRASIL 2001/2005 - INSTITUTO SOCIOAMBIENTAL ACRE 31


ACONTECEU

o treinamento. O secretario destacou o apoio conflito pode ter ocorrido devido ao processo cina é realizar o resgate cultural. (Página 20,
que a organização vem recebendo do PDPI e de demarcação das terras dos nauas, que acar- 23/10/03)
da Embaixada da Finlândia, que financia até retará numa possível retirada dos brancos da
hoje o projeto. Os próximos objetivos da orga- área. O acusado que reside na região é conhe- YAWA: DO RIO GREGÓRIO
nização são fazer uma cartilha com todo o cido por Cosmildo. (A Tribuna, 18/06/04) PARA O MUNDO
material produzido nessas oficinas, a edição
de um DVD e a produção de uma página na Com câmeras filmadoras modernas e peque-
internet. (Whilley Araújo, Página 20, 26/10/05)
POYANAWA nas, eles registraram um rico documentário
da cultura indígena que será apresentado no
CAÇADORES INVADEM TI Acre no próximo dia 20. Cada cena fascina pelo
NAWA E NUKINI Os Poyanawa apreenderam armas de fogo que realismo que apresenta desde o cotidiano, cos-
estavam em poder de seis caçadores invaso- tumes, tradições, histórias até a grande festa
NUQUINI FECHAM PARQUE que se tornou o festival realizado anualmente,
res. Eles haviam matado um veado, baleado
PARA EXIGIR AMPLIAÇÃO DE TI uma anta e espantado mais duas. Os índios durante uma semana pelo povo Yawanawá. O
Uma equipe de técnicos da Funai segue hoje vieram à sede local do Ibama registrar a ocor- Yawa, como foi intitulado, é um festival de dan-
para o PN da Serra do Divisor, onde os índios rência. Há muito tempo, informa o presidente ça, expressão artística, manifestação cultural
Nukini fecharam o acesso ao parque. Eles da Associação Agro Extrativista Poyanawa Ba- e espiritual dos Yawanawá.
mantiveram refém por quatro horas o secretá- rão e Ipiranga AAPBI, Joel Ferreira Lima, a ter- Com a câmera na mão e uma idéia na cabeça,
rio estadual de Indústria, Comércio e Turismo ra indígena vem sofrendo invasões, especial- o índio Joaquim Yawanawá e o canadense Josh
do Acre, Luiz Figueiredo. A situação é tensa na mente porque as estradas do bairro São Fran- Sage transformaram as cenas que fizeram do
área, mas o bloqueio do rio com paus e ara- cisco, de Mâncio Lima, terminam nas proxi- primeiro ano do Yawa, em um documentário
mes farpados confirma as ameaças feitas pelo midades da terra Poyanawa – tanto é que a de pouco mais de 50 minutos, que ganhará a
cacique Paulo Nukini para exigir a duplicação caça chegou a diminuir bastante. (Flaviano atenção de olhares do mundo todo, por meio
dos 34 mil ha da área onde vivem 470 pessoas. Schneider, Página 20, 14/02/01) da distribuição que será feita para os compra-
Nukini afirma estar solidário também com os dores da empresa de cosméticos Aveda Corpo-
remanescentes da nação Nawa. (JB, 03/04/02) ration. O documentário de Joaquim e Josh foi
YAWANAWÁ / financiado pelo ator americano Joaquim Pho-
OS NAWA TÊM SUA NAÇÃO TI RIO GREGÓRIO enix. A empresa de cosméticos Aveda Corpora-
tion, que compra urucum dos Yawanawá para
E TERRAS RECONHECIDAS usar o seu corante nos cosméticos que fabri-
FESTA DO YAWÁ
O reconhecimento do povo Nawa aconteceu ca, irá comprar os DVDs do povo indígena, para
durante audiência com o juiz federal David Os índios Yawanawá do rio Gregório, que cerca presentear as empresas que distribuem seus
Wilson de Abreu Pardo, da 1ª Vara Federal. Além de dez anos atrás quase não praticavam seus produtos.
de reconhecer o ressurgimento dessa nação, ritos e pouco falavam sua língua – vítimas de O documentário é narrado na língua Yawana-
ficou decidido que aquelas 62 famílias que for- 30 anos de massacre cultural promovido por wá, português, espanhol, alemão, italiano, ja-
mam um conjunto de 362 pessoas terão direi- uma missão religiosa americana instalada na ponês, inglês e coreano. Logo que iniciam as
to à terra que reivindicam. Ibama e Funai com- aldeia –, podem ser considerados hoje uma imagens, um dos pajés da tribo saúda o mun-
prometeram-se em demarcar as terras que te- das etnias com a identidade cultural mais for- do com uma mensagem positiva. (Andréa Zílio,
rão o divisor de águas como limite sul, o rio Moa te do Acre, graças ao trabalho de resgate de seus Página 20, 11/08/04)
ao norte, o rio Jordão a leste e o rio Jesumira a costumes, crenças, lendas, música, mística e
oeste. “Também ficou acertado que os índios ancestralidade, desenvolvido atualmente por ORIENTAÇÃO PARA CRIAR
darão livre acesso a fiscais e pesquisadores que suas lideranças. Toda riqueza cultural e a be- QUEIXADAS, JABUTIS E TRACAJÁS
precisarem usar o rio Moa para entrar no par- leza de seus rituais foram mostradas semana
que nacional. Funai e Ibama também estão passada durante a Festa do Yawa, que reuniu Cinco técnicos, três da Seater, um do Ibama e
encarregados de ajudar a comunidade a orga- mais de 500 índios na Aldeia Nova Esperança. um de uma ONG ligada à saúde visitaram as
nizar um plano de manejo sustentado na área”, (Aníbal Diniz, Página 20, 08/07/03) aldeias dos Yawanawá para implantar ali um
explica a indigenista Jacira Keppi. Já o Incra criatório de animais silvestres com destaque
ficou encarregado de retirar as onze famílias CONVÊNIO COM O GOVERNO para queixadas, jabutis e tracajás. As ações se-
remanescentes de não índios, que ainda vivem PARA FORTALECER A CULTURA rão realizadas junto com a Organização dos
naquela terra, para assentá-los na gleba Havaí Agricultores e Extrativistas Yawanawá do Rio
(Juracy Xangai, Página 20, 17/10/03) O governo do Acre fez um convênio com os Gregório. Durante a visita também foi estimu-
representantes da tribo Yawanawá para forta- lada a recuperação dos cinco hectares de uru-
ÍNDIOS SÃO BALEADOS lecer o resgate cultural. O convênio tem dura- cum que vem sendo explorados pelos índios
ção de seis meses e o valor de R$ 15 mil será Yawanawá que até montaram uma usina para
EM CONFLITO NO JURUÁ repassado mensalmente. Com o incentivo, os secar, moer e tratar essa semente corante que
Conflito entre índios e brancos na região do representantes indígenas pretendem criar uma é repassada para a empresa Formil. (Juracy
Juruá terminou com dois índios baleados e um oficina para fazer um estudo aprofundado so- Xangai, Página 20, 22/07/05)
esfaqueado. O coordenador [do Cimi, Lindo- bre as imagens elaboradas pelos antigos índi-
mar Padilha] confirmou que o conflito ocor- os, que refletiam a cultura e o cotidiano de uma
reu no Seringal Novo Recreio, na região da al- história há muito esquecida e desconhecida
deia dos índios nauas. De acordo com ele, o pela atual geração. O principal objetivo da ofi-

32 ACRE POVOS INDÍGENAS NO BRASIL 2001/2005 - INSTITUTO SOCIOAMBIENTAL

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