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Artigo original

TEÓRICOS POLÍTICOS E PROPOSTAS


CONSTITUCIONAIS NA INGLATERRA
(1645-1669)*
Eunice Ostrensky
Universidade de São Paulo (USP), São Paulo – SP, Brasil. E-mail: eostrensky@usp.br

DOI: 10.1590/339805/2018

Introdução logo depois, a Inglaterra é declarada “um Estado li-


vre”. Mas, se é que alguma vez realmente chegou a
No início da década de 1640, a crise entre rei ser instituído naquele país, o governo republicano
e Parlamento, que se arrastava pelo menos desde fracassou, permitindo a restauração monárquica de
1628, acirra-se a ponto de fazer eclodir a guer- 1660. Parecia encerrar-se assim o ciclo revolucio-
ra civil na Inglaterra. O doloroso enfrentamento nário, que incluiu, segundo Thomas Hobbes, tes-
entre os dois exércitos no campo de batalha leva temunha desses tempos tumultuosos, a corrupção,
os ingleses a suspeitar que o lugar da soberania se destituição e morte de um regime antigo, mais a
encontre vago. Ao fim de quase três anos de luta instituição, constituição e morte do regime seguin-
para definir quem de fato detinha o poder político, te, e o retorno ao primeiro estado de coisas.
o rei é preso. Em 1649, depois de rendições, fu-
gas e tentativas frustradas de restituição, Carlos I é Vi nessa revolução um movimento circular do
executado em frente ao Palácio de Whitehall como poder soberano, que foi do falecido rei para seu
traidor das leis inglesas. Em pouco tempo, a Câma- filho, passando por dois usurpadores, pai e filho.
ra dos Lordes e a própria monarquia são abolidas; Pois [...] moveu-se do rei Carlos I para o Lon-
go Parlamento; daí para o Rabo; do Rabo para
* Este artigo teve apoio da Fapesp. Agradeço os valiosos Oliver Cromwell; e então de volta de Richard
comentários e sugestões dos pareceristas da RBCS. Cromwell para o Longo Parlamento; deste para
Artigo recebido em 23/05/2017 Carlos II, onde se espera que permaneça por
Aprovado em 08/09/2017 muito tempo (Hobbes, 2001, p. 262).
RBCS Vol. 33 n° 98 /2018: e339805
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Diante desse cenário muito brevemente des- constituição é entendida como politeia e constitu-
crito, inicio o texto com duas indagações: Qual o tio (McIlwain, 1947, pp. 25-26; Stourzh, 1977,
leque de soluções buscadas por diferentes pensa- p. 81); de outro, começa a se expressar um con-
dores, teóricos e homens de ação nesse cenário de junto de novos significados nos quais se observam
crise política sem precedentes? Como se procurou, elementos daquilo que a literatura contemporânea
não apenas explicar a ruptura da soberania, mas identifica como a constituição moderna, produzida
recompor, reconstituir ou mesmo constituir uma pela série de debates em torno das revoluções nor-
nova autoridade política? O foco deste artigo são te-americana e francesa, no final do século XVIII
escritos políticos dos levellers, de Thomas Hobbes, (McIlwain, 1947, Stourzh, 1977, 2007,2 Beaud,
James Harrington e John Locke, que podem ser re- 2009, Grimm, 2006). Os escritos examinados a se-
levantes para entender o desenvolvimento constitu- guir sugerem fortemente, porém, que a distinção
cional. Outros autores, além dos que serão tratados rígida entre constitucionalismo antigo e moderno
adiante, poderiam ter sido invocados, como John não dá conta de formas ocultas de constitucionalis-
Milton, Marchamont Nedham, Anthony Asham mo, isto é, de modos de pensar a constituição que
e Algernon Sidney, já que também eles procura- não são evidentes à luz de nossas categorias norma-
ram apresentar e discutir propostas constitucionais tivas dominantes.
originais nesse contexto. Cabe esclarecer, porém,
que o critério de seleção dos autores e obras aqui
examinados se norteia pela intenção de sublinhar O estado de natureza
especificidades e aspectos comuns de três distintas
linguagens políticas empregadas por eles: contra- Para entendermos melhor a dimensão e o valor
tualismo, republicanismo, constitucionalismo. Há, de algumas propostas constitucionais que se multi-
assim, dois propósitos entrelaçados neste empreen- plicaram na Inglaterra a partir de 1645, retroceda-
dimento: (1) recuperar formas alternativas de cons- mos ao início das guerras civis, quando uma crise
titucionalismo, chamando a atenção para o caráter política inédita atinge as principais instituições tra-
heterogêneo de algumas propostas constitucionais dicionais inglesas. Com o inesperado rompimento
em que se combinam distintos argumentos políti- das relações de autoridade, coloca-se em questão
cos e jurídicos (Hsueh, 2010, p. 9),1 e discutir sig- o que é legítimo ou não fazer quando não se sabe
nificados variados de “constituição”; (2) explorar o mais a quem recorrer, tornando-se indispensável a
papel que as constituições desempenhavam nesse escritores parlamentaristas e monarquistas, de iní-
período, examinando suas finalidades e as lingua- cio, disputarem o uso e a interpretação das leis, isto
gens políticas mobilizadas como estratégia de con- é, sua origem, alcance, limites, bem como as atri-
vencimento na arena de debate. buições das instituições monárquicas.
De acordo com a principal premissa deste ar- Um dos primeiros autores a expressar dúvidas
tigo, durante as guerras civis inglesas e seus desdo- quanto ao dever de obediência dos indivíduos na
bramentos no século XVII, o colapso do governo desesperadora situação de vazio de poder foi Philip
King-in-Parliament e das antigas convenções políti- Hunton, em A treatise of monarchy, de 1643. Como
cas abriu espaço para a discussão e experimentação a guerra entre o rei e o Parlamento teria criado, se-
de arranjos que podem ser intitulados, de maneira gundo Hunton (1643, p. 69), uma “divisão epidê-
genérica, de “propostas constitucionais”. Nesse sen- mica no reino”, era necessário fazer um apelo “ad
tido, esse período proporcionou à sociedade inglesa conscientiam generis humani” para se descobrir qual
uma rara ocasião para criar seus próprios acordos de dos dois lados no campo de batalha mereceria apoio
associação política. Ainda segundo minha hipótese, (p. 18). Essa era uma decisão visceralmente difícil,
a questão a respeito do significado da constituição reconhecia Hunton, uma vez que “o bem e a exis-
não apenas não estava definida no período circuns- tência pública só são alcançados com o máximo de
crito, como ainda era disputada publicamente. De sujeição” (p. 10). Além disso, o dilema moral é agu-
um lado, encontram-se indícios textuais de que a çado pela própria falência das antigas convenções
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políticas, que levou os súditos à situação de extrema do desejou alterar por considerar, talvez, que fosse
solidão e incerteza. Nesse momento de desordem e mais segura para si e mais vantajosa para os súdi-
ruptura, um “estado como se não houvesse gover- tos. Como vários de seus contemporâneos, Hunton
no” (Hunton, 1643, p. 18), cada homem só conta presume que a lei fundamental estabeleceu, no pla-
consigo mesmo para decidir a quem apoiar. Esse no das instituições, a partilha da autoridade no
indivíduo atomizado não tem como buscar na lei reino entre rei, nobres e comuns (King-in-Parlia-
civil a definição do que é certo ou errado, justo ou ment: Rei-no-Parlamento), evitando-se com isso a
injusto, porque essa lei não existe mais. monarquia absoluta (Pocock, 1987, p. 51). Era esse
De qualquer maneira, o vácuo de poder é intole- arranjo que Hunton desejava ver restaurado por
rável e precisa ser superado. Não se pode permanecer meio do apoio às ações do Parlamento.
em dúvida, caso contrário se prolongaria a condição Porém, em breve muitos ingleses viriam a de-
angustiante de conflito. O indivíduo deve agir. Por duzir dos acontecimentos que uma tentativa nes-
sorte – e agora nos afastamos do pesadelo hobbesia- se molde estava condenada de antemão, porque a
no –, ele ainda guarda na lembrança os verdadeiros guerra civil fora ao mesmo tempo causa e efeito
princípios e leis do governo que o orientaram até do fracasso dessas mesmas instituições enaltecidas
aquele ponto, e por isso ainda está em condições por Hunton. A seguir, a exploração de alguns sen-
de escolher um lado. Mais do que isso, ele sabe que tidos de constituição permitirá ver, primeiramente,
existem objetivamente leis regulando a vida política uma versão da imagem do “Rei-no-Parlamento”.
porque sua razão e julgamento (Hunton, 1643, p. Depois, mostrarei algumas soluções apresentadas
18) são faculdades superiores capazes de reconhecê- por autores que, em lugar da Antiga Constituição,
-las. O conflito que o isolou dos seus concidadãos e propuseram a constituição de uma nova estrutura
o colocou nesse trágico dilema não apagou sua cons- de autoridade política legítima, que possibilitasse
ciência, o seu sentido moral de dever. estabelecer leis civis, regular as questões de justiça,
Aquilo que Hunton considerava estar acima de distribuir o poder público.
qualquer dúvida era o impedimento a obedecer ao
responsável pela subversão das leis e destruição do
bem público. Igualmente clara era a ideia de que, Soberania popular e constituição
antes de tudo, cada súdito estaria obrigado às leis
e aos princípios de governo, e somente depois aos Em Touching the fundamentall lawes, panfleto
encarregados de conservá-los. Assim, pondo na ba- anônimo publicado em 1643, há pelo menos três
lança as atuações do rei e do Parlamento, Hunton usos do termo “constituição”, todos eles emprega-
(1643, p. 15) conclui que é mais sensato obedecer dos em sentidos que McIlwain (1947, p. 23) clas-
ao Parlamento, porque este apenas resistiu “aos co- sifica como “antigos”. De acordo com o primeiro
mandos exorbitantes e ilegais de tal monarca”. uso, “constituição” designa uma composição, dis-
A alternativa de Hunton para a saída do confli- posição, natureza ou modo de organização interna,
to passava pela tentativa de reerguer a Antiga Cons- estabelecendo assim uma clara analogia entre o cor-
tituição com base na razão e no costume. Como po político e o corpo natural. Para o autor de Tou-
explica Pocock (1987, p. 46), a crença de que a ching..., a “constituição política” visa à preservação
Antiga Constituição, criada em tempos imemo- dos homens na medida em que permite conferir
riais pelos anglo-saxões, forneceria um repertório “uma existência e um ser, por meio de uma política
de precedentes, máximas e princípios, limitando o externa, a reis e súditos, como cabeça e membros”
alcance da prerrogativa régia “formou um dos prin- (Touching..., 1999 [1643], p. 264). Conforme o
cipais modos de argumento político do século”. segundo uso, constituição são os fundamentos da
Hunton mantém essa crença, argumentando que, associação política, isto é, as leis e atos que confe-
na constituição original da Inglaterra, o poder do rem vida pública a uma comunidade humana. Es-
monarca sempre estivera limitado pela lei da terra, sas leis, caracterizadas como fundamentais, radicais
condição que nem mesmo o conquistador norman- ou primárias, estão na origem da sociedade política,
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por darem forma a todas as relações de autoridade midade era conferida pela história e pelo passado.
e obediência. Por isso, a constituição fundamental Quando ataca a constituição mista, Hobbes sustenta
equivale ao costume ou lei não escrita, capaz de ex- que ela não tem poder para formular e fazer cum-
pressar os modos pelos quais essa sociedade se or- prir a lei (Fukuda, 1997, p. 124; Hoekstra, 2013, p.
ganizou desde tempos imemoriais. É esse o sentido 1080).4 Somente uma constituição baseada na for-
que está mais associado à ideia da Antiga Constitui- ça do soberano, agente externo ao pacto fundante
ção, sistema de leis não escritas, que fornece o para- do Estado, teria meios para fazer isso. Nesse sentido,
digma não apenas para as leis promulgadas no Par- a constituição “moderna”, apropriada ao Estado
lamento, mas para a regulação da sociedade como moderno (Ferreira, 2013, p. 424), somente poderá
um todo. Em Touching..., a constituição política surgir dos escombros da Antiga Constituição, que,
teria sido “adotada e aprovada” por consentimento como vimos, é um caso particular de constituição
comum daqueles que por ela viriam a ser governa- antiga compreendida como politeia ou constitutio.
dos (Touching...,1999 [1643], p. 264). Além disso, ao atribuírem à Antiga Constitui-
Por fim, de acordo com o terceiro uso, a cons- ção a fonte da opressão e dominação que marcava
tituição ou lei fundamental seria uma forma espe- a vida política até as guerras civis, outros autores (e
cífica de governo – neste caso, como uma mistura atores políticos) contribuíram para forjar um novo
entre o regime monárquico, aristocrático e demo- modo de entender as partilhas de poder no interior
crático (Touching...,1999 [1643], p. 267). Esse ter- das associações políticas. É o caso, por exemplo, de
ceiro sentido de constituição é, segundo McIlwain William Walwyn, um dos redatores do Acordo do
(1947, pp. 25-26), a transposição para solo inglês Povo. Em 1645, no panfleto intitulado England’s la-
da tradução latina que Cícero, em De Republica,3 mentable slavery, Walwyn adverte seu companheiro
forneceu para o termo grego politeia: constitutio. John Lilburne a não confiar na Magna Carta, mani-
Conforme avançava a crise entre o rei e o Parla- festação mais conhecida da Antiga Constituição, por
mento, tornava-se mais frequente nos panfletos considerar que a divulgação desse documento tinha
casuístas desse período a sugestão de que a Anti- por finalidade “provocar a cegueira do povo”, le-
ga Constituição de algum modo havia incorpora- vando-o a tomar a servidão por liberdade (Walwyn,
do a constitutio e, em consequência, a doutrina do 1645, p. 3). Enquanto Lilburne, importante líder do
Rei-no-Parlamento ou monarquia mista seria uma movimento, que em breve ficaria pejorativamente
espécie de versão inglesa da república romana (Po- conhecido como Leveller,5 manifesta uma fé quase
cock, 1987, pp. 21-29). A exceção, nesse caso, é inabalável na suposta capacidade de a common law
Oceana, de 1656, na qual James Harrington procu- assegurar direitos e liberdades dos homens nascidos
ra estabelecer uma distinção entre o que seus con- livres, Walwyn julga imprescindível observar o pre-
temporâneos intitulavam a constituição mista e a sente de opressão para romper com a herança do
constituição republicana, o que resulta na separação passado e olhar com esperança para o futuro.
dos dois sentidos de constituição. Para Harrington Essa divergência entre dois importantes perso-
(1992 pp. 32, 43), a constituição, ou constitutio, se nagens do movimento Leveller a respeito do papel da
iguala ao governo republicano, ou commonwealth, Antiga Constituição e também de uma nova consti-
em que se verifica a presença de um elemento po- tuição se reflete, de certo modo, no Acordo do Povo.
pular, enquanto o equilíbrio gótico equivale à An- Vindo a público em 1647, o Acordo pretendia ser
tiga Constituição, um governo monárquico com um documento fundacional de uma nova sociedade
forte domínio da nobreza, em cujas leis ainda se política, em lugar da que fora destruída pela guerra
entreveem resquícios do Império Romano. civil. De um lado, sua estrutura formal é similar à
Entretanto, em meados do século XVII, as ca- das antigas cartas das cidades, cujo objetivo, segundo
tegorias de politeia e de constitutio não parecem mais Lilburne (2014 [1646a]), em “London’s liberty in
dar conta de novos significados que vão surgindo a chains discovered”, consistia em evitar que “o gover-
reboque da ruptura do governo misto (Rei-no-Par- no se tornasse uma tirania”. De outro lado, contudo,
lamento) e das instituições tradicionais, cuja legiti- o Acordo traz evidentes inovações, entre as quais a
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ideia de que o povo é o poder capaz de constituir e, Todo homem e mulher particular, que já res-
ao mesmo tempo, controlar as instituições políticas. piraram no mundo, são por natureza todos
O povo soberano é então chamado, como detentor iguais e afins em poder, dignidade, autoridade
do direito inalienável ao autogoverno, a abandonar e majestade, nenhum deles tendo (por nature-
o antigo modelo de exercício de autoridade, erigin- za) nenhuma autoridade, domínio ou poder
do em seu lugar um edifício de autoridade baseado magisterial sobre o outro ou acima do outro.
na vontade e na razão.6 Desta última perspectiva, o
problema da Antiga Constituição era menos sua fra- Se todos são iguais e igualmente livres, segue-se
queza coercitiva ou sua ineficácia para conservar o daí que todo acréscimo ou desigualdade de poder
Estado, e mais seu caráter injusto e excludente. Mas, somente possa derivar legitimamente do consenti-
seja para Hobbes, seja para os redatores do Acordo mento (Overton, 1646a, p. 243).
do Povo, naquele momento há, para parafrasear Ed- Disso, por sua vez, decorre que a origem e a fi-
mund Burke (1993, p. 41), “um grande desvio do nalidade do poder político são os homens, os quais,
curso antigo”: o passado deixou de governar inteira- talvez impossibilitados por diferentes motivos de
mente o presente. exercer ao mesmo tempo esse poder Legislativo, es-
Para os levellers, não havia de fato outro cami- colhem delegados para representá-los, mas apenas
nho a trilhar se quisessem ser reconhecidos como com a condição de que o poder destes jamais se es-
cidadãos capazes de participar do debate público, tenda para além do poder daqueles (Overton, 1646b,
de eleger e ser eleitos, de reformar o Parlamento e p. 251). Do contrário, duas nefastas consequências
elaborar uma constituição fundada sobre a liber- se seguiriam: o representante teria poder de subme-
dade, voltada para o bem comum. Esse reconheci- ter e até de escravizar o representado; a autoridade
mento seria alcançado com a ampliação do colégio política instituída para promover o bem poderia, se
eleitoral, eleições frequentes, dissolução do Parla- quisesse, causar o mal. Portanto, por princípio, não
mento reunido desde 1640, e com a reforma das re- há nenhum poder absoluto que seja legítimo.
lações entre representantes e representados. É isso, Investigando por que, ao longo de séculos a
basicamente, que se reivindica no Acordo do Povo.7 fio, homens e mulheres como eles foram tratados
O que motivou a redação desse documento fora como escravos e vassalos, as lideranças levellers se
a ameaça de dissolução do Exército de Novo Tipo8 deram conta de que jamais seus interesses de pes-
sem o pagamento dos soldos atrasados. Na avalia- soas livres haviam sido contemplados. A solução
ção dos redatores, os soldados recrutados para lutar para tamanha opressão consistiria na observância
contra o tirano seriam devolvidos à vida ordinária de quatro cláusulas aparentemente muito simples:
na qual se encontravam, antes da guerra, totalmen-
te desarticulados, destituídos de voz e ação política. 1. ampliação do colégio eleitoral e redistribuição
Se até então eles costumavam ser descritos como do voto de acordo com a população;
homens que haviam nascido apenas para obedecer,9 2. necessidade de alternância entre os membros
agora que tinham dado o sangue para derrotar o ti- do Parlamento, a fim de evitar o prolongamen-
rano Carlos I, perderiam seus empregos, suas casas to abusivo dos mandatos;
e mesmo suas famílias; agora que tinham tido um 3. realização de eleições bienais;
papel fundamental na libertação da Inglaterra, não 4. definição do papel dos representantes: se o fun-
aceitavam mais apenas receber ordens. Eles deseja- damento da representação é o consentimento,
vam reconhecimento como cidadãos. então o representante é uma criatura do repre-
A premissa que sustentava essa reivindicação, sentado e só a ele deve responder.
alardeada em vários panfletos das lideranças le-
vellers, é a de que todos os homens são, aos olhos de Na segunda parte do documento, mais quatro
Deus, iguais e livres, na medida em que não exis- cláusulas buscam especificar os direitos inalienáveis
tem hierarquias nem governos por natureza. Diz dos representados, isto é, direitos que o represen-
Lilburne (1646b, p. 11): tado reserva para si mesmo e não delega nem pode
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delegar: direito à liberdade de culto; direito de não rá ser anulada” (Sharp, 1998, p. 127). Apelando a
se expor a morte ou a ferimentos; anistia para os fundamentos abstratos como a teologia e o direi-
atos cometidos durante a guerra; igual sujeição de to natural, o Acordo realmente expressava o conceito
todos à lei, sem consideração por hierarquias ou original e revolucionário de uma constituição escrita
privilégios (Sharp 1998, pp. 93-94). Esses são me- e inalterável, validada pelas assinaturas (o consenti-
canismos de responsabilização e permanente con- mento) dos beneficiários. Mais do que isso, o docu-
trole dos governantes, ao mesmo tempo que afir- mento propunha que se admitisse a necessidade de
mações da soberania popular. Cria-se, assim, uma romper com a história, avaliada como opressiva e
separação entre os poderes que podem e os que não ilusória, já que desde tempos imemoriais alguns ho-
podem ser representados, ou direitos que podem mens deram-se títulos de propriedade e levaram os
ser delegados e os que são reservados ao próprio in- demais a acreditar que eram seus serviçais.11 Em vez
divíduo. Eleições frequentes e mandatos curtos es- de um passado de servidão, a constituição leveller
tabelecem condições de legitimidade dos governos, acenava com um futuro de justiça, a ser garantido
lembrando aos mandatários e funcionários públicos pela escrupulosa obediência às leis produzidas pelo
que eles não são os verdadeiros donos do poder po- consentimento da comunidade.
lítico. Pela mesma razão, todo exercício de poder é, Apesar de a proposta constitucional leveller ter
por princípio, limitado e sujeito às condições ex- sido duramente rechaçada e o movimento disperso
pressas no Acordo. Confiança e desconfiança nos com a prisão de seus principais líderes, permaneceu
governantes, consentimento e dissentimento, são na arena de debate a ideia de que a constituição po-
incorporadas na constituição, tanto quanto meios lítica derivaria seu poder coercitivo do consentimen-
de impor forma ao processo político, como tam- to dado antes de erigida a estrutura de governo. Por
bém garantia de que as interações entre o poder consequência, a constituição teria caráter obrigatório
constituído e o poder constituinte ocorrerão sem- não por reconhecer o costume e o peso da história,
pre no espaço público. mas por expressar a racionalidade do soberano.
As linguagens que os levellers mobilizam em É nesse sentido que se pode considerar Hobbes
seus panfletos e no Acordo do Povo são a da lei e do o autor de uma proposta constitucional, ou, mais
direito de natureza, por meio das quais questionam precisamente de uma “forma de república” (form of
quem possui o status de homem livre; quem pode a commonwealth).12 O filósofo está ciente de que
ser representado; o que é a representação e quais o momento durante o qual escreve é a ocasião de
são seus limites; o que é o povo. Ao reivindicar seu constituição de uma nova autoridade, como se ob-
papel não apenas de eleitores, mas também de le- serva no final do Leviatã, quando afirma subme-
gisladores, os levellers desencadeiam um processo, ter sua doutrina “à consideração daqueles que ain-
ainda incipiente, de democratização do povo. da se encontram em fase de deliberação” (Hobbes,
Mas as reivindicações e as linguagens do Acordo 2003, p. 590; grifos meus). A exemplo dos levellers,
do Povo soaram abusadas aos ouvidos dos legis- Hobbes avalia que o momento político inglês era
ladores naturais da Inglaterra, que rapidamente fa- propício à instituição de um novo aparato de po-
rejaram nelas a subversão de um status quo já por der; mas, contrastando sua proposta às demais
demais abalado. É possível que esses legisladores na- à disposição da assembleia deliberativa, defende
turais estivessem corretos em perceber o potencial que sua teoria era a única verdadeira porque a úni-
subversivo do documento. Em um dos momentos ca conducente à paz. Essa doutrina oferecida aos
mais tensos dos Debates de Putney, quando oficiais contemporâneos em debate quanto à autoridade
e representantes dos soldados se reúnem para discu- a erigir é “vinho novo para ser colocado em bar-
tir a proposta constitucional redigida pelas lideran- ril novo, para que ambos possam ser preservados
ças dos soldados rasos (conhecidos como agitadores) juntamente” (Hobbes, 2003, Revisão e Conclusão,
e por civis da cidade de Londres,10 Maximilliam p. 590). Aqui, são indissociáveis a forma da teoria,
Petty brada: “Se houver uma constituição que não tributária de um método científico inspirado na
permita ao povo ser livre, essa constituição deve- geometria, seu conteúdo, desenvolvendo a relação
TEÓRICOS POLÍTICOS E PROPOSTAS CONSTITUCIONAIS … 7

necessária e fundamental entre Estado e representa- crédulos e mobilizá-los para fins escusos. Mesmo
ção política, e o papel que o próprio teórico assume em um regime democrático, o povo é capaz de deli-
perante os adversários intelectuais: o de inovador berar mas incapaz de ação (Hoekstra, 2006, p. 194)
de uma ordem política. Além disso, a proposta constitucional de
As premissas da constituição hobbesiana en- Hobbes se baseia na ideia de que a constituição
contram-se no diagnóstico de que os efeitos da resulta da imposição da vontade de um soberano,
guerra civil são semelhantes, senão idênticos, ao do e não meramente do acordo entre os detentores
estado de natureza (Hobbes, 2003, cap. XVIII, p. originais do poder, por meio do qual se compro-
157). Nessa condição – lembremos uma vez mais –, meteriam a ser governados pelas leis de natureza.
não há leis capazes de definir o certo e o errado, o Para Hobbes, o acordo é necessário, mas insuficien-
justo e o injusto, e por isso “a vida do homem é so- te para criar o Estado. Realmente fundamental é o
litária, miserável, sórdida, brutal e curta” (Hobbes, reconhecimento constante, por parte dos súditos,
2003, cap. XIII, p. 109). Para escapar desse pesa- de que a sua vontade está expressa nas ações do
delo, o caminho é a constituição de um Estado, soberano ou, o que dá no mesmo, de que foram
que, não possuindo rivais internos para desafiar sua incorporados ao Estado pela autorização. Assim,
autoridade, deterá os meios coercitivos necessários o homem é, ao mesmo tempo, artífice e matéria
para refrear a violência e garantir a obediência às do Estado, mas não é nem legislador, como pre-
leis. São os indivíduos, entendidos como multidão tendiam os republicanos, nem soberano, como
dispersa, que voluntariamente decidem impor so- pretendiam os ideólogos da soberania popular.
bre si mesmos essa poderosa restrição. Todavia, o Quem é legislador e cria as constituições funda-
Estado não designa meramente a soma dos indiví- mentais e instituições do Estado é o soberano re-
duos reunidos. Do contrário, à menor insatisfação, presentante (Hobbes, 2003, cap. XXVI, p. 226).
aquilo que fora instituído como um ato da vontade Do contrário, as constituições seriam revogáveis a
seria destituído como um ato de arbítrio. Em outras qualquer tempo por agentes não políticos.
palavras, o Estado não pode depender dos capri- Portanto, de acordo com essa proposta, a as-
chos dos indivíduos, sob pena de não se conseguir sembleia em deliberação à qual o filósofo se diri-
impor uma paz duradoura. Era essa, aliás, a adver- gia não deveria ser o poder Legislativo ou o autor
tência que Hobbes fazia a partidários de doutrinas da constituição. Ao contrário, uma vez instituído
semelhantes às esposadas pelos levellers (Hobbes, o Estado e designado seu representante, os indiví-
2003, cap. XVII, p. 145). O Estado, portanto, é duos que compõem a assembleia não mais pode-
representante da multidão, mas independente dela riam expressar sua vontade, por já estar encerrado o
(Skinner, 2002, pp. 198-204). processo de deliberação. A assembleia sai então de
Porém, embora em certa medida compartilhem cena para sempre ou pelo menos até a próxima rup-
a linguagem do direito natural e das leis de nature- tura da autoridade soberana. De outro viés, talvez
za, Hobbes e as lideranças levellers se encontram em mais desconcertante, a assembleia deliberativa de-
lados opostos do espectro político. Diferentemente veria simplesmente reconhecer a conquista imple-
do que argumentavam estes, para Hobbes não é o mentada por Cromwell e pelo exército, aceitando
povo soberano quem origina e controla uma cons- a sujeição ao poder da espada e autorizando a so-
tituição, porque só pode haver uma unidade vaga- berania de facto.13 Depois disso, cada qual poderia
mente conhecida como o povo apenas depois da se dedicar aos prazeres e confortos que uma vida
instituição do poder soberano, jamais antes. Quan- em segurança proporciona, sem se preocupar com a
do não se reúnem sob Estados, os indivíduos se en- custosa e turbulenta atividade política. Esse cenário
contram dispersos numa multidão em situação de deve ter se apresentado a Hobbes com tal vivaci-
guerra, que não guarda a menor semelhança com a dade que, em um momento de pura imodéstia, ele
imagem de uma comunidade orientada por certos não se acanhou em manifestar a pretensão de que o
fins. Nesse sentido, “povo” é uma pseudocategoria Leviatã fosse ensinado nas universidades (Hobbes,
política, apenas um artifício para ludibriar espíritos 2003, Revisão e Conclusão, p. 592).
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Também é relevante notar que, na avaliação de do por um momento hobbesiano, por assim di-
Hobbes, a crise política inglesa não tinha uma es- zer. Desse ângulo, Oceana parece reiterar a defesa
pecificidade histórica e tampouco o remédio para da república contra o modelo de Estado absoluto
curá-la. O protagonista dessa teoria – esse sujeito proposto por Hobbes e talvez desejado por Oliver
de quem Hobbes fala e para quem fala – não ape- Cromwell. Mas, como a ameaça hobbesiana ainda
nas pode desconsiderar completamente seu passa- não havia se concretizado àquela altura, podería-
do, como deve orientar sua vida presente por prin- mos pensar, com base em Oceana, que em 1656
cípios que não são retirados da experiência. Aliás, ainda não estava perdida a rara oportunidade de
o passado e o costume só têm validade à medida implantar uma república. Mais do que isso: ainda
que são reconhecidos pelo soberano. A multiplici- havia espaço de ação para o teórico político, por-
dade de experiências pessoais não serve de padrão que, segundo Harrington (1992, p. 273), “a ma-
político. É a uniformidade e homogeneidade do téria ou fundação de um governo bem ordenado
soberano que cria uma constituição de acordo com está pronta [...] e para que seja perfeito nada mais
princípios universais (Tully, 1995, p. 86). falta além de superestruturas próprias ou forma”.
Matéria e forma, como se sabe, são termos aristo-
télicos utilizados por Hobbes no próprio título do
Constituição e república Leviatã para designar, respectivamente, a origem
humana do poder político e a soberania absoluta
Em janeiro de 1649, Carlos I é executado que os homens devem instituir ou aceitar para pôr
como traidor das leis do reino; em março, a mo- fim ao estado de guerra. São termos também em-
narquia é abolida e, em maio, a Inglaterra é oficial- pregados por Maquiavel no capítulo “Exortação a
mente declarada uma “República e Estado livre”. tomar a Itália e libertá-la das mãos dos bárbaros”,
Nesse momento, distintos projetos republicanos de O príncipe (Maquiavel, 2004, VI, p. 24; XXVI,
coincidem em defender o governo da lei contra o p. 123; Maquiavel, 1996, I, 16, pp. 44-45), indi-
governo dos homens, em advogar que a liberdade cando a ocasião propícia criada pela Fortuna para
dos cidadãos seja assegurada contra qualquer coer- que um príncipe de qualidades extraordinárias vies-
ção arbitrária e que se garantam a participação po- se moldar o Estado de acordo com seu arbítrio ou
lítica e a distribuição da autoridade entre diferentes impusesse forma a uma matéria anômala (Pocock,
instituições políticas (Skinner, 1998, pp. 23-57). 1975, p. 161). Ao fazer essa dupla alusão, Harrin-
Essas ideias certamente soaram convincentes aos gton pretende tanto atacar a proposta de Hobbes,
ouvidos dos contemporâneos de Hobbes. Um dos como chamar a atenção de seus leitores para a
principais alvos de Hobbes no Leviatã é a doutrina ocasião única, gerada pelas guerras civis, de que
republicana de que somente se pode viver livre e a Inglaterra finalmente pudesse se tornar a repúbli-
em segurança em Estados livres, e, por consequên- ca desenhada por Maquiavel (Ostrensky, 2011, p.
cia, governos monárquicos são necessariamente 180). Em outras palavras, a ocasião revelava uma
tirânicos, por reduzirem os súditos à condição de matéria sem forma, uma ausência de governo e no-
escravos (Skinner, 1998, cap. 1). Daí o empenho vas condições para edificar a forma de governo mais
de Hobbes (2003, cap. XXI) não apenas em des- adequada à história inglesa.
qualificar essa doutrina, mas também erigir uma Esse, aliás, seria um dos principais problemas
teoria alternativa de liberdade que pudesse suplan- da proposta constitucional de Hobbes. Para Har-
tar a de seus adversários (Skinner, 2008, p. 162). rington (1992, p. 13), ao ignorar a separação entre
Uma das mais fortes reações à proposta consti- poder e autoridade, Hobbes reduziu toda forma e
tucional de Hobbes provém de James Harrington, matéria ao uso da força ou coerção. Disso se segue
que escreve Oceana em 1656, quando a experiência que o pacto como fonte de legitimidade de auto-
republicana se encontra em declínio. O momento ridade ou é enganoso ou não passa “de palavras e
maquiaveliano da Revolução Inglesa dava mostras vento” (Harrington, 1992, p. 14). No primeiro
de esgotamento, sendo gradativamente substituí- caso, toda a autoridade repousará sobre o uso da
TEÓRICOS POLÍTICOS E PROPOSTAS CONSTITUCIONAIS … 9

força e, para isso, precisará de um exército, o que da, 1997, p. 159; Nelson, 2004, pp. 115-124). O
produzirá tirania (a mais odiosa das formas de go- diagnóstico de Harrington sobre o fim das repúbli-
verno); no segundo caso, se o governante nem o cas agora o distancia de seu mestre Maquiavel, uma
exército possuírem – já que a milícia costuma estar vez que aquele vê no conflito entre nobres e plebeus
com quem produz trigo para alimentar soldados –, o motor da corrupção da república romana. Para
haverá privação de governo ou anarquia (Harring- Harrington, ao contrário dos ingleses modernos, os
ton, 1992, p. 272). Ora, Hobbes, tão inteligente, antigos romanos nunca viveram de fato uma condi-
deveria saber que é estéril fundar a política abs- ção de igualdade ou equilíbrio de propriedades. Em
traindo a história, os costumes e as peculiaridades Roma, enquanto os patrícios detinham o predomí-
de cada sociedade. O Leviatã, portanto, apresenta nio de terras, eram os plebeus que empunhavam
uma solução sem fundamento, condenando à mor- as armas; sem terras, embora tivessem autoridade
te o leviatã (Ostrensky, 2009, pp. 42-43). para participar do processo de elaboração e aplica-
Em 1656, Harrington considera a república o ção das leis, os plebeus não tinham poder. Por isso
único regime adequado à distribuição igualitária das é que, ao longo da história da república romana,
propriedades que se verifica na Inglaterra. Entretan- eles buscaram criar leis para limitar as proprieda-
to, para ele, as formas de governo não emanam di- des dos nobres e invariavelmente sofreram a brutal
retamente das fundações. É preciso, pois, arquitetar reação destes (Harrington, 1992, p. 15). Quando
uma constituição republicana assegurando a parti- os irmãos Graco tentaram impedir o excesso de po-
cipação efetiva de todos os cidadãos/proprietários, der dos nobres, isto é, a acumulação excessiva de
assunto a que Harrington se dedica minuciosamente terras, encontraram inimigos ainda mais poderosos.
ao longo de grande parte de Oceana. Como a Ingla- Foi então que começou a ruir, segundo o próprio
terra é uma república moderna, com grande territó- Maquiavel (1996, I, 6, p. 20; I, 37, pp. 78-79), o
rio e população, Harrington (1992, p. 33) cria um modo livre de vida. Mas a violência que caracteri-
sistema, provavelmente inspirado em Veneza, que zou o cotidiano político em Roma teria sido evita-
permite aos cidadãos se alternarem, por sorteio ou da, diz Harrington, se na fundação da república o
eleição, em distintas assembleias e conselhos. Esse legislador tivesse instituído uma lei agrária fixando
mecanismo de alternância no governo, chamado de o equilíbrio igualitário de terras.14 Sem essa precau-
“rotação”, tem a dupla finalidade de impedir o pro- ção, a república nada mais foi do que um gover-
longamento dos mandatos e “mecanizar” a virtude, no oligárquico conflituoso (Harrington, 1992, p.
fazendo que os cidadãos participem da vida políti- 61). Em Oceana, em contrapartida, há um meio
ca para atender a seus próprios interesses (Pocock, de instituir uma lei agrária, fixando o equilíbrio de
1975, p. 393). Como homens livres, que são pro- propriedades no momento em que elas estão igual-
prietários de si mesmos por dependerem unicamente mente distribuída entre o povo sem ofender a nin-
da própria fortuna, eles também podem viver com guém, sem confiscos, sem conflitos. A constituição
autonomia (Harrington, 1992, p. 230). harringtoniana, entendida como legislação e forma
É preciso considerar, entretanto, que todas as de governo, é esse meio que evita a acumulação de
repúblicas, por mais perfeitas que tenham sido, su- propriedade fundiária equivalente à desigualdade
cumbiram à ação do tempo, não ficaram imunes à de poder (Harrington, 1986, p. 12).
anacyclosis descrita por Políbio, isto é, o círculo de
corrupção que cedo ou tarde atinge todos os corpos
políticos. Em Oceana, Harrington parece não dese- Os limites das constituições
jar apenas prolongar a vida da constituição, como
muitos teóricos políticos, mas julga mesmo deter a No final da década de 1650, os prognósticos de
chave para imortalizar a república, lançando mão Harrington sobre a inviabilidade de um retorno da
de um recurso utilizado pelos antigos gregos para Antiga Constituição (ou constituição gótica) come-
conservar a igualdade no interior das comunidades çam a se mostrar equivocados. Mas, a despeito da
políticas: a implantação de uma lei agrária (Fuku- restauração monárquica de 1660 sepultar o sonho
10 REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS SOCIAIS - VOL. 33 N° 98

da república inglesa, os ensinamentos de Harrington – da Carolina deveria ser dividida em cinco partes:
bastante modificados, é verdade – continuaram a um quinto de todas as terras, intituladas senhorias,
ser invocados por um grupo que Pocock (1975, pp. pertenceriam aos oito proprietários; outro quinto,
401-422; 1989, pp. 104-147) descreveu como “neo- as baronias, pertenceriam à nobreza hereditária,
-harringtonianos”. Uma das principais diferenças composta de um landgrave e dois caciques; os três
entre estes e Harrington diz respeito à valorização da quintos restantes seriam partilhados entre os colo-
monarquia gótica, que seria o antídoto mais eficaz nos, que formariam a parte majoritária considerada
contra o veneno do absolutismo monárquico ou ti- povo, cujo poder numericamente superior deveria
rania (Worden, 1994, p. 141). Entre os neo-harrin- ser contrabalançado (Marshall, 1994, p. 175). Essa
gtonianos mais ativos, estaria o líder Whig, conde de distribuição das propriedades fundiárias institui
Shaftesbury (Worden, 1994, p. 142; Hsueh, 2010, toda a estrutura de poder e, portanto, de autori-
p. 61), que, aliás, desde meados da década de 1660 dade. É esse o critério que determina a forma de
havia se tornado patrono de John Locke.15 governo, os pré-requisitos para preenchimento dos
Uma análise preliminar sugere que se pode in- cargos, formas de participação política e criação
terpretar nessa chave As constituições fundamentais dos tribunais. É esse o critério que estabelece toda
da Carolina, de 1669. O texto é uma espécie de a hierarquia política e social, qualificada no texto
adaptação do modelo harringtoniano ao ambiente como “as verdadeiras fundações do governo origi-
colonial norte-americano. Nele, busca-se propor as nal” (Locke, 2007, p. 219).
regras fundamentais relativas à constituição da auto- Os colonos, embora sejam atraídos para as di-
ridade e ao modo como deverá operar a vida da co- ferentes instâncias de processo decisório da provín-
munidade política como um todo, isto é, como uma cia – as assembleias e os vários tribunais –, só se
commonwealth. Aliás, As constituições configuram o elegem como representantes no Parlamento se pos-
próprio ato fundador dessa sociedade política, cujo suírem o mínimo quinhentos acres de terras livres
redator é uma espécie de legislador suficientemente e alodiais (freeholds) no interior do condado pelo
virtuoso para criar, de uma vez só, todo o arranjo qual podem ser escolhidos (artigo 72), os mesmos
de poder que tornará a república menos sujeita aos quinhentos acres que os qualificam para o cargo de
golpes do tempo e da contingência. xerifes nos tribunais de condado (artigo 61). O re-
Mas, em vez de arquitetarem as superestrutu- quisito para que sejam convocados a participar do
ras de uma res publica igualitária, As constituições júri (artigo 68) e se inscrever como eleitores (artigo
visam erigir um governo local que não seja nem 72), os menores graus de cidadania, é a proprieda-
uma monarquia, muito menos “uma democracia de de pelo menos cinquenta acres de terras livres e
numerosa” (Locke, 2007, p. 201). O resultado é alodiais. O documento não especifica a proporção
uma forma de governo misto, capaz de alcançar um de representantes do povo nas assembleias parla-
equilíbrio fino entre a nova aristocracia local e o mentares, mas parece lógico que sua participação
povo, de modo que suas constituições devam “ser e corresponde à quantidade de terras livres e alodiais
permanecer a forma e regra inalterável de governo que se possui. Esse governo provincial pode ser cor-
da Carolina para sempre” (Locke, 2007, p. 225). retamente descrito como uma aristocracia.16
Qualquer desvio desse plano resultaria em rompi- Para manter o equilíbrio, é essencial que a distri-
mento do pacto firmado entre todas as pessoas com buição de todos os privilégios e jurisdições no inte-
idade acima de dezessete anos e inevitável fracasso rior dessa pirâmide social, arquitetada nas suas mais
do empreendimento. delicadas minúcias, permaneça inviolável: todos
A preocupação maior do redator de As cons- os cargos, seja da administração pública, seja
tituições consiste em estabelecer “as verdadeiras dos diferentes tribunais hierarquicamente dispostos
fundações do governo original”, as quais, por sua em cada condado,17 todas as assembleias públicas,
vez, remetem a um princípio que o autor designa do júri ao parlamento, devem decorrer da rígida
por “equilíbrio de governo” (Locke, 2007, p. 202). relação direta entre a posse das propriedades e o
De acordo com esse princípio, a província inteira exercício da autoridade, relação esta que se poderia
TEÓRICOS POLÍTICOS E PROPOSTAS CONSTITUCIONAIS … 11

identificar como de dependência dos menos para pensar, sobretudo, no confronto entre os autores/
com os mais poderosos. Não é à toa que, no inte- teóricos e o mundo da contingência. A necessida-
rior das grandes propriedades, nas senhorias, baro- de de ratificar ou desafiar as convenções políticas
nias e nos domínios, os rendeiros sejam descritos e intelectuais obriga, por assim dizer, os teóricos
como vassalos ou dependentes (leetmen), que só políticos a usar, de maneira razoavelmente flexível,
podem apelar para os tribunais de seus respectivos distintos repertórios políticos e a realizar movimen-
senhores e não dispõem de liberdade de movimen- tos retóricos nos quais o vocabulário conceitual é
to, seja para mudarem de casa e de senhor, seja para empregado com novo sentido. As constituições, des-
apelarem a outras autoridades. Esse imobilismo, se ângulo, nos ajudam a perceber que não há sepa-
que fixa os dependentes definitivamente à terra e rações estritas entre teoria e prática. Pelo contrário,
os vincula ao seu senhor, se reflete no status here- a atenção do autor às condições materiais da socie-
ditário das relações sociais, típico das sociedades e dade e a elementos dos costumes suscita em nós,
governos aristocráticos: “todos os filhos de depen- intérpretes, a necessidade de, pelo menos, registrar
dentes serão dependentes, e assim vale para todas as essas mudanças dinâmicas.
gerações” (artigo 23). Essa observação vale, aliás, para todos os escritos
Apesar do grau de detalhamento das Constitui- aqui examinados. As distintas constituições encar-
ções e também a promulgação dessa constituição em nam valores morais e possuem finalidades variadas:
1669, o texto não chegará a despertar o interesse corrigir a opressão, impedir a guerra civil, adequar as
dos outros proprietários e nunca provocará nenhu- instituições ao modo de sobrevivência material, fazer
ma mudança efetiva no governo da Carolina. Em justiça, produzir legislação, criar meios para que cada
1674, diante da falência econômica da província, um alcance a felicidade. Elas oscilam o tempo todo
Locke defendeu, em nome dos proprietários, que entre a formalidade e o seu caráter mais ou menos
os colonos endividados fossem mandados para par- abstrato, e ordens de governo que absorvem, mas
tes da colônia ainda pouco habitadas e lá conver- também podem modificar, costumes, práticas e va-
tidos em servos hereditários. Principalmente, que lores da sociedade política. No horizonte de todas
eles não recebessem nenhuma parcela de poder po- essas diferentes propostas, mesmo as que se preten-
lítico, sob o argumento de que “o fato de homens dem inabaláveis, está a perspectiva da dissolução da
necessitados terem o poder de fazer leis para os ho- sociedade que elas ensejam criar.
mens que possuem bens seria tão pernicioso como
um estado de guerra” (Marshall, 1994, p. 175).
A importância dessas Constituições para a his- Conclusão
tória das ideias reside, em primeiro lugar, na sua
relação com os Tratados sobre o governo. As Cons- Em face do que se expôs, é possível problema-
tituições, como acabamos de ver, apresentam-se tizar as definições e a cronologia estipuladas por
como um acordo entre grandes proprietários para Charles McIlwain a respeito do constitucionalismo
estabelecer a forma de governo da colônia, e é desse antigo e moderno. McIlwain (1947, p. 11) defen-
ponto de vista que há uma continuidade entre esse de que, entre as características centrais do consti-
texto e o Segundo tratado sobre o governo, escrito tucionalismo moderno, estão a anterioridade das
cerca de dez anos depois. Nos dois textos, de fato, constituições em relação ao governo e a formulação
Locke defende a tese de que o governo civil, basea- consciente e deliberada, por parte do soberano, das
do num pacto entre homens livres e iguais, visa dar leis e dos princípios que guiariam a comunidade
garantias legais para a propriedade.18 Nesse aspecto, política. Já o constitucionalismo antigo, ainda se-
vale observar, as Constituições se afastam da lingua- gundo McIlwain (1947, p. 35), considera a cons-
gem republicana de Oceana, aproximando-se, em tituição como os ordenamentos políticos e sociais
contrapartida, do contratualismo. surgidos no passado e que servem de modelo para
Mas a passagem temporal e espacial entre as sociedades presentes. Como já observou Tully
Oceana, As constituições e o Segundo tratado nos faz (1995, p. 61), entretanto, é inexato afirmar que
12 REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS SOCIAIS - VOL. 33 N° 98

a constituição moderna se baseia no acordo, en- identificar, em alguns dos escritos aqui expostos, o
quanto a constituição antiga se baseia no hábito ou enorme esforço teórico de seus autores em fornecer
costume, uma vez que “tanto a constituição anti- aos contemporâneos os alicerces político-institucio-
ga, ao reconhecer o costume, como a constituição nais de caráter abstrato, unitário e geral que o so-
moderna, ao se sobrepor ao costume, reivindicam berano (o povo ou o Estado surgidos após a guerra
radicar num acordo do povo”. O que define a cons- civil) institui, a fim de ordenar as ações dos cida-
tituição moderna, portanto, não é seu fundamento dãos ou súditos no interior da comunidade. Mais
num acordo do povo, mas o fato de ser uma “forma uma vez, não se trata de dizer que nesses escritos há
de associação que passa a existir mediante um ato de uma antecipação do constitucionalismo do século
imposição” da vontade, razão ou acordo de um XVIII, já os distintos significados de “constituição”
povo compreendido como livre. A constituição an- em coexistência indicam que um não possui mais
tiga, por sua vez, seria “o reconhecimento de como carga de legitimidade do que outro. Outro equívo-
o povo já se encontra constituído pelo conjunto co a evitar é inferir que aqueles elementos típicos
de suas leis fundamentais, instituições e costumes” do constitucionalismo moderno só aparecem no
(Tully, 1995, p. 60). século XVII, não no XVI, por exemplo. Ao contrá-
Ao endossarmos as objeções de Tully à dico- rio, há boas razões para pensarmos que há na obra
tomia formulada por McIlwain, podemos refletir de Jean Bodin uma reflexão consistente sobre os li-
melhor sobre a ideia segundo a qual deve existir um mites jurídicos positivos estabelecidos pelas leis do
soberano antes da constituição, seja ele o povo ou o reino sobre o poder do governo na sua capacidade
representante do Estado. Como autor da constitui- administrativa (Ferreira, 2013, p. 388; Lee, 2016).
ção, o soberano tem poderes para instituir, voluntá- Uma investigação sobre o constitucionalismo
ria e racionalmente, a forma jurídica e política mais inglês do século XVII, além de embaralhar as catego-
apropriada às suas finalidades. Por isso, a constitui- rias fixas que foram utilizadas para caracterizar as li-
ção moderna se caracteriza como “um conjunto de mitações jurídicas ou morais criadas voluntariamente
leis mediante as quais um Estado soberano estabele- para regular a sociedade política, pode nos informar
ce a relação entre governantes e governados” (Laws, algo sobre duas questões fortes de história constitu-
2012, p. 67). Essas leis, que necessariamente são cional, que aqui apenas delineio como sugestão para
escritas, permitem ao soberano (seja o povo ou o re- reflexão. A primeira questão se refere ao papel que
presentante do Estado) definir a forma de governo, teóricos políticos19 desempenham no ambiente em
os direitos e deveres dos cidadãos, as relações entre que escrevem. Suas tarefas parecem não se esgotar –
representantes e representados etc. (Tully, 1995, p. elas nem sequer principiam – com a descrição de um
59). A constituição assume, como consequência, suposto estado de coisas objetivo. Pelo contrário, as
uma “superioridade formal no interior de um siste- controvérsias teóricas sugerem que a objetividade
ma de formas jurídicas” (Ferreira, 2013, p. 398). sempre pode ser contestada. Tampouco suas preocu-
Esse aparato jurídico de uma constituição es- pações visam tão só ao deleite intelectual e à mera
crita, cuja força prescritiva é inquestionável, não contemplação. Quando criam modelos, atores polí-
se conceitua claramente nos escritos políticos que ticos se veem a serviço de seu tempo e de suas comu-
servem de referência a este estudo. Na Inglaterra nidades políticas, são habitantes desse tempo e a ele
seiscentista, como a distância entre o mundo antigo se dirigem. Por isso, correm sempre o risco de ser re-
e o moderno ainda não se consumou, há diferentes chaçados, ridicularizados e até assassinados, porque a
temporalidades e tradições em jogo. Assim, pode-se teoria pode ser uma atividade arriscada em situações
dizer que as constituições são heterogêneas, porque de crises profundas. Seus feitos ora são desprezíveis,
são o efeito da justaposição ou acumulação no tem- ora grandiosos, ora desaparecem sob a montanha de
po de documentos e argumentos tanto de extração outros feitos e outros papeis, dando a nós a impres-
política, moral, como jurídica (Hsueh, 2010). Mas, são de que estavam sozinhos e não tinham seguido-
apesar da pluralidade de significados assumida pelo res. Mas não nos enganemos: o mundo contingente
termo “constituição” e seus derivados, é possível da história continua lá, mesmo quando desprezado.
TEÓRICOS POLÍTICOS E PROPOSTAS CONSTITUCIONAIS … 13

Por fim, ao se dirigirem à multidão ou ao povo, 7 Sobre a colaboração entre as lideranças levellers e sol-
os teóricos políticos invocam a necessidade de qual- dados do Exército de Novo Tipo, ver Vernon e Baker
quer constituição particular de autoridade se basear (2010) e Foxley (2013, pp. 150-159).
em um exercício coletivo de imaginação (Loughlin, 8 O Exército de Novo Tipo foi criado em 1645, na es-
2007, p. 21), de acordo com o qual se criam alianças teira da Self-denying ordinance, que tornou incompa-
e se pensa o futuro. Cada constituição é, a seu modo, tível manter cargo militar e cadeira no Parlamento ao
mesmo tempo. Com isso, os altos comandos no Exér-
não apenas um conjunto de normas para limitar e
cito ficaram abertos a homens de extração modesta,
delimitar campos de ação de governantes e governa- mas que haviam demonstrado dedicação e coragem
dos, mas principalmente um esforço para reconhecer na defesa da causa parlamentarista. Muitos sectários
ou gerar uma comunidade imaginária, fundada so- então assumiram essas posições e o Exército se tornou
bre o consentimento. Se não for assim, a disputa em o celeiro de ideias subversivas. Ver Hill (1980, p. 9) e
torno da legitimidade das ações políticas somente Pocock (1975, pp. 336, 372).
produz dispersão, isolamento e violência. 9 Em De republica anglorum, publicado em 1583, o in-
fluente jurista Thomas Smith considera que somente
deveria considerar-se cidadão quem tivesse a proprieda-
Notas de em regime de freehold e renda superior a 40 shillings
por ano: “O quarto tipo de classe entre nós é o daqueles
1 Vicki Hsueh (2010, p. 11) emprega a expressão “cons- que os antigos romanos chamavam capite censi, prole-
tituições híbridas” para designar o constitucionalismo tários ou operœ, operários diaristas, agricultores pobres,
que se desenvolveu nas colônias norte-americanas nos até mesmo comerciantes ou atacadistas que não pos-
séculos XVII e XVII, cuja característica mais marcan- suem terra livre, foreiros, artífices como alfaiates, sapa-
te é a reformulação da lei inglesa somada à reunião teiros, carpinteiros, oleiros, pedreiros etc. Eles não pos-
de distintas formas de governança. Não cabe aqui suem nenhuma voz ou autoridade na nossa república
empregar a mesma expressão, que se refere mais es- e contam apenas para serem governados, não para go-
pecificamente a uma perspectiva pós-colonialista. vernarem outros, embora não possam ser inteiramente
Mesmo assim, é proveitoso incorporar a ideia de que, negligenciados” (Smith, 1968, p. 212). Nos Debates de
no constitucionalismo do século XVII, há camadas de Putney, essa regra é contestada.
argumentos, temporalidades e tradições de diferentes 10 Entre 28 de outubro e 9 de novembro de 1647, o
extrações, formando um terreno mais complexo do Conselho Geral do Exército, representado principal-
que se costuma supor. mente pelo general Oliver Cromwell e seu genro, o
2 Stourzh (2007, p. 83) faz um exame arguto dos senti- general-comissário Henry Ireton, aceitou se reunir
dos cambiantes de “constituição” no século XVII, mas em Putney, nas cercanias de Londres, para debater o
considera que o termo “governo” seja “o precursor Acordo do Povo com seus redatores. No final dessas
daquilo que ‘constituição’ significará mais tarde, no jornadas, os oficiais se comprometeram a adotar uma
século XVIII”. A meu ver, entretanto, o termo “cons- versão modificada do Acordo, mas sem aceitar as par-
tituição” é suficientemente denso para merecer uma tes que mais interessavam aos soldados rasos.
análise própria. 11 Na verdade, foi durante os debates de Putney que o
3 Cabe notar, entretanto, que havia poucas e incomple- coronel Rainborough fez a afirmação estrondosa de
tas edições do De Republica em circulação na Europa que toda propriedade seria produto de roubo e enga-
durante o século XVII. A obra só foi publicada no no (Sharp, 1998, p. 111).
formato atualmente conhecido no século XIX. Fonte: 12 É oportuno lembrar que, em inglês, commonwealth
<worldcat.org>. designa a república (o bem comum) e sua constitui-
4 A mesma observação vale para Jean Bodin: a consti- ção ou regime.
tuição mista não tem a mesma força coercitiva de um 13 Não há contrassenso nenhum nessa afirmação. Para
Estado soberano absoluto (Hoekstra, 2013, p. 1079). Hoekstra (2006, p. 203), “Hobbes argumenta que a
5 Sobre a origem do nome Leveller, ver Worden (2001). soberania de jure se segue da soberania de facto, e não
o contrário.
6 Há, porém, quem divirja da tese de que o Acordo
do Povo era uma proposta inovadora. Ver Dzelzainis 14 Para Harrington (1996, p. 33), embora seja uma lei,
(2005) e Orr (2012). a lei agrária não corresponde à superestrutura, mas à
14 REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS SOCIAIS - VOL. 33 N° 98

fundação: “uma república igualitária é tal que é igua- -la-constitution-politique-a-la-constitution-


litária tanto no equilíbrio ou fundação e nas superes- -comme-statut-juridique-de-l-Etat-140.html>.
truturas, quer dizer, em sua lei agrária e na sua rotação Acesso em: 16 fev. 2018.
[...]. Assim como a agrária corresponde à fundação, a BURKE, Edmund. (1993), Reflections on the revolu-
rotação corresponde às superestruturas”.
tion in France. Oxford, Oxford University Press.
15 Embora haja outras letras no manuscrito, nunca se DZELZAINIS, Martin. (2005), “History and
duvidou de que a autoria do documento coubesse a
ideology: Milton, the levellers, and the coun-
Locke, tanto no século XVII como no seguinte (Cf.
Armitage, 2004, pp. 607-609). Além disso, um dos
cil of State in 1649”. The Huntington Library
oito proprietários, Peter Colleton, reconhece, em Quarterly, 68 (1/2): 269-287.
1673, que a participação de Locke na composição do FERREIRA, Bernardo. (2013), “O essencial e o
documento é absolutamente considerável (Cf. Locke, acidental: Bodin (e Hobbes) e a invenção do
2007, p. 200). Por outro lado, Hsueh (2010, p. 60) conceito moderno de constituição”. Lua Nova,
chama a atenção para o fato de que, ao redigir o docu- 88: 381-426.
mento, Locke atuava como secretário da associação de FOXLEY, Rachel. (2013), The levellers: radical po-
proprietários da Carolina. litical thought in the English Revolution. Man-
16 “Essa visão da constituição estava vinculada a um chester, Manchester University Press.
conceito de sociedade definitivamente aristocrático” FUKUDA, Arihiro. (1997), Sovereignty and the
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17 Esses tribunais se inspiram, segundo Marshall (1994, HARRINGTON, James. (1986), “The art of lawgi-
p. 175), nas práticas inglesas medievais.
ving in three books”, in ______, Divine right and
18 “[...] nos governos, as leis regulamentam o direito democracy. Editado por David Wootton, Londres,
de propriedade, e a posse da terra é determinada por
Penguin Books.
constituições positivas” (Locke, 1998, V, 50; VIII,
HARRINGTON, James. (1992), “The com-
120). Ver também Armitage (2004).
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19 Utilizo pronomes, adjetivos e substantivos masculinos
Editado por J. G. A. Pocock. Cambridge, Cam-
apenas porque refletem as identidades dos autores que
examinei. bridge University Press.
HILL, Christopher. (1980), The century of revolu-
20 Na bibliografia, em Hunton, Liburne, Overton e
Walwin utilizo a plataforma Early English Books
tion 1603-1714. Londres, Routledge.
Online, onde a letra e os números na sequência são HOBBES, Thomas. (2001), Behemoth. Tradução de
as indicações da localização das obras dentro de uma Eunice Ostrensky. Belo Horizonte, Editora
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RESUMOS / ABSTRACTS / RESUMÉS 17

TEÓRICOS POLÍTICOS E POLITICAL THEORIES AND THÉORICIENS POLITIQUES


PROPOSTAS CONSTITUCIONAIS CONSTITUTIONAL PROPOSALS ET PROPOSITIONS
NA INGLATERRA (1645-1669) IN ENGLAND (1645-1669) CONSTITUTIONNELLES EN
ANGLETERRE (1645-1669)

Eunice Ostrensky Eunice Ostrensky Eunice Ostrensky

Palavras-chave: Constituição; Povo; So- Keywords: Constitution; People; Sover- Mots-clés: Constitution; Peuple; Souve-
berania; Lei; Governo. eignty; Law; Government. raineté; Loi; Gouvernement.

O artigo enfoca diferentes escritos po- The article focuses on different political Cet article analyse différents écrits poli-
líticos publicados na Inglaterra ao lon- writings published in England during the tiques publiés en Angleterre au cours de
go da segunda metade do século XVII, second half of the seventeenth century, in la deuxième moitié du XVIIe siècle, dans
nos quais formas variadas de legislação, which many forms of legislation, institu- lesquels différentes formes de législation,
instituições e modos de governar foram tions and ways of governing were devel- d’institutions et de gouvernement ont
desenvolvidas para superar a inédita cri- oped to overcome the unprecedented cri- été développées pour dépasser la crise
se de soberania ocasionada pelas guerras sis of sovereignty caused by civil wars. It inédite de souveraineté occasionnée par
civis. Argumenta-se que essas formas is argued that these forms can be termed les guerres civiles. Ces formes peuvent
possam ser designadas de “propostas as "constitutional proposals" not only for être désignées de « propositions consti-
constitucionais” não apenas por se apre- presenting themselves as alternatives to tutionnelles » parce qu’elles apparaissent
sentarem como alternativas à falência da the bankruptcy of the Old Constitution, comme des alternatives à la faillite de
Antiga Constituição, mas também por but also for characterizing themselves as l’ancienne constitution, mais aussi parce
se caracterizarem como o ato de funda- the founding act of a new political soci- qu’elles représentent l’acte de fondation
ção de uma nova sociedade política. Ao ety. In examining the different meanings d’une nouvelle société politique. L’exa-
examinar os diferentes significados de of constitution in the selected period, es- men des différents sens de la constitution
constituição no período selecionado, em pecially in the People's Agreement drawn pendant la période sélectionnée, en par-
especial no Acordo do Povo, elaborado up by levellers, Thomas Hobbes's Levia- ticulier dans l’Accord du Peuple élaboré
pelos levellers, o Leviatã, de Thomas Ho- than, James Harrington's Oceana, and par les Niveleurs, le Léviathan de Thomas
bbes, Oceana, de James Harrington, e As John Locke's Fundamental Constitutions Hobbes, La communauté d’Oceana de
constituições fundamentais da Carolina, de of Carolina, the article challenges the too James Harrington et Constitutions fonda-
John Locke, o artigo desafia a caracteriza- rigid characterization between ancient mentales de la Caroline de John Locke,
ção demasiadamente rígida entre consti- and modern constitutionalism permet de questionner la caractérisation
tucionalismo antigo e moderno. extrêmement rigide entre constitutionna-
lisme ancien et moderne.

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