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UNIVERSIDADE SALGADO DE OLIVEIRA

CURSO DE GEOGRAFIA
PRODUÇÃO CIENTÍFICA E GEOGRÁFICA

SAMMIS REACHERS CRISTENCE SILVA

TOPOFILIA E ESPACIALIZAÇÃO PELA PERSPECTIVA DOS MORADORES EM


SITUAÇÃO DE RUA

São Gonçalo
2017
SAMMIS REACHERS CRISTENCE SILVA

TOPOFILIA E ESPACIALIZAÇÃO PELA PERSPECTIVA DOS MORADORES EM


SITUAÇÃO DE RUA

Trabalho de conclusão de curso apresentado ao


Curso de Licenciatura em Geografia da
Universidade Salgado de Oliveira como requisito
para a obtenção da graduação em Geografia.

Orientadora: Profa. Viviane da Silva de Alcantara

São Gonçalo
2017
Folha de aprovação
Dedico este trabalho ao meu amigo Carlos Antonio de Oliveira (Carlinhos),
companheiro de trabalho, exemplo de esforço e conduta e meu maior incentivador
para trilhar os caminhos acadêmicos.
RESUMO

Este estudo investiga a existência, modos e características dos sentimentos


topofílicos e topofóbicos a partir da perspectiva dos moradores em situação de rua.
Para tanto, analisou-se a literatura geográfica humanista em busca de suas definições
de lugar, lar e topofilia, e buscou-se embasamentos teóricos para a compreensão
etnográfica dos moradores em situação de rua. Por fim, procedeu-se a entrevistas
através de questionário no objetivo de compreender as características de sua
espacialização e relação sentimental com o lugar.

Palavras-chave: Topofilia; percepção ambiental; moradores em situação de rua;


Geografia Humanista.
ABSTRACT

This study investigates the existence, modes and characteristics of topophilic


and topophobic feelings from the perspective of homeless people. In order to do so, it
was analyzed the humanist geographic literature aiming its definitions of place, home
and topophilia, and it was sought theoretical bases for the ethnographic understanding
of the homeless people. Finally, interviews were conducted through a questionnaire in
order to understand the characteristics of their spatialization and their relationship with
the place.

Keywords: Topophilia; environmental perception; homeless people; Humanist


Geography.
LISTA DE ILUSTRAÇÕES

Figura 1: Croqui apresentando os bairros de Niterói e delimitando a área da pesquisa


................................................................................................................................... 28
Figura 2: Ponto Cem Réis. Na fotografia, em primeiro plano a ponte Rio-Niterói, sob
a qual habitam dois dos entrevistados; ao fundo a Igreja de Santana ...................... 36
Figura 3: Avenida Amaral Peixoto (vazia numa tarde de sábado). Sob suas marquises
habitam diversos moradores em situação de rua ...................................................... 37
Figura 4: Moradores em situação de rua dormem durante o dia, na Avenida Amaral
Peixoto ...................................................................................................................... 37
Figura 5: Rua São João, trecho em frente à Igreja de São João (ao fundo), onde
habitam diversos moradores em situação de rua ...................................................... 38
Figura 6: Alameda São Boaventura, trecho em que localiza-se atualmente a Dicasa
Motos. Local de habitação de um casal de moradores em situação de rua .............. 38
LISTA DE GRÁFICOS

Gráfico 1: Em que lugar gostariam de possuir uma casa ......................................... 35


SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO ...................................................................................................... 10
1.1 Objetivo geral .................................................................................................. 11
1.2 Objetivos específicos ...................................................................................... 11
2. RUA E MORADOR EM SITUAÇÃO DE RUA, TOPOFILIA, LUGAR E LAR:
EQUALIZAÇÕES ELETIVAS ................................................................................... 13
2.1 Topofilia e topofobia ........................................................................................ 13
2.2 Lugar ............................................................................................................... 14
2.3 Lar ................................................................................................................... 15
2.4. Moradores de Rua – Origens, Motivações e Caracterização ......................... 17
2.4.1 Tipologia dos moradores de rua ............................................................... 21
2.4.1.1 Os trecheiros .................................................................................... 22
2.4.1.2 Os andarilhos .................................................................................... 22
2.4.1.3 O “Louco de rua” ............................................................................... 23
2.4.1.4 Albergados ....................................................................................... 23
2.4.1.5 Morador de rua citadino não-albergado ............................................ 24
2.5 O sentimento topofílico: Algumas de suas causas ou por uma morfologia do
sentimento topofílico ............................................................................................. 26
2.6 Recorte espacial: Niterói ................................................................................. 28
3. METODOLOGIA ................................................................................................... 31
4. RESULTADOS ...................................................................................................... 33
5. DISCUSSÃO ......................................................................................................... 39
6. CONCLUSÃO ....................................................................................................... 50
REFERÊNCIAS ........................................................................................................ 52
OBRAS CONSULTADAS ......................................................................................... 54
APÊNDICE 1 – Modelo de questionário ................................................................. 55
10

1. INTRODUÇÃO

A presente pesquisa insere-se no escopo epistemológico da Geografia Humanista.


Esta vertente da ciência geográfica teve seu início a partir de meados do século
passado, notadamente nos Estados Unidos, através do trabalho de geógrafos como
Yi-Fu Tuan (1930 – ), Anne Buttimer (1938 – 2017), e Edward Relph (1944 – ). Hoje
englobada pelo que se convencionou chamar de Geografia Cultural (MARANDOLA
JR., 2013, p.52), notadamente no exterior (leia-se América do Norte e Europa), no
Brasil persiste o uso dos termos Geografia Humanista e Fenomenológica. As
pesquisas que lhe deram origem podem desaguar em dois ramos: Geografia
Existencialista e Geografia Fenomenológica – que, embora imbricadas em suas
raízes, nem sempre são a mesma coisa.
Mas os reais primórdios da Geografia Fenomenológica e Existencial nascem da
obra do francês Éric Dardel (1899 – 1967), que em livros como O Homem e a Terra:
A Natureza da Realidade Geográfica, trouxe ao pensar geográfico influências do
pensamento do filósofo alemão Heidegger (1889 – 1976) e do fundador da moderna
fenomenologia, Edmund Husserl (1859 – 1938).
A carência extrema do morador em situação de rua não é apenas material, mas
afetiva; para além disso, as condições adversas são facilitadoras de patologias
psicológicas de variado espectro. Indivíduos sujeitos a patologias como disforia (perda
de sentimentos, angústia indeterminada) e anedonia (perda da capacidade de sentir
prazer), indivíduos destituídos de um lar na acepção plena do termo, acepção que
comporta valores como afeto, segurança e conforto, podem sentir topofilia alguma?
Assim, uma delimitação do problema aqui abordado poderia ser expressa nos
seguintes termos: Em que graus, modos e condições manifestam-se os sentimentos
topofílico e topofóbico em moradores em situação de rua?
A justificativa para empreender-se tal pesquisa parte do pressuposto de que, se o
sentimento topofílico tem sido estudado a contento em relação a algumas categorias
sociais, a existência, as dimensões e especificidades deste sentimento permanecem
em terreno nebuloso quando se trata de moradores em situação de rua, cujo próprio
status de “sem-teto” (“sem-lugar”?) e nomadismo urbano implica uma relação singular
com o espaço vivido e a percepção do lugar.
A relevância deste estudo para a Geografia estabelece-se primordialmente para
sua vertente humanista, que elegeu o lugar como conceito central de sua
11

investigação, mas seus resultados podem interessar e beneficiar a um amplo espectro


das ciências sociais, ao buscar promover a ampliação do entendimento sobre a
percepção ambiental destes indivíduos sitos à margem. Tal entendimento pode
contribuir para mais do que apenas esclarecer motivações e modos de ser-no-mundo
destes elementos, mas tributar para a própria compreensão da relação do homem
com seu meio, por sua vez um dos nexos temáticos/epistemológicos fundacionais da
ciência geográfica.
Assim, identificar neste “desviante”, neste de alguma maneira destituído da
segurança do lar e dos laços familiares – seu axis mundi, seus eixos sustentadores
ontológicos - um sentimento de apreço pelo lugar, é como retomarmos o fio de sua
humanidade, no que ela tem de mais profundo.
No capítulo 2, aprofunda-se a reflexão sobre os conceitos de lugar, lar e
topofilia, a partir da perspectiva de pensadores como Bachelard e geógrafos
humanistas, para podermos avaliar a ocorrência, os processos e características dos
sentimentos topofílicos e topofóbicos em moradores em situação de rua.
Para entendimento dos moradores em situação de rua, elaboramos uma
tipologia baseados em parte na pesquisa etnográfica de Magni (2006), e na tipologia
coligida e trabalhada por Mattos (2006). No mesmo capítulo, buscamos elencar
fatores com poder de provocar ou desencadear os sentimentos topofílicos, e por fim
traçamos um muito breve panorama sobre o município de Niterói e os bairros eleitos
como recorte espacial de nossa pesquisa.

1.1 Objetivo geral:

Avaliar as formas de percepção ambiental, a ocorrência, os processos, o


desenvolvimento e as formas do sentimento topofílico em moradores em situação de
rua.

1.2 Objetivos específicos:

Avaliar literaturas em busca de referenciais para os conceitos de lugar, lar e


Topofilia, bem como pressupostos teóricos para a compreensão etnográfica do
morador em situação de rua.
12

Identificar a população em condição de rua e proceder à entrevistas.


Analisar e confrontar os dados obtidos em busca de especificidades e
singularidades das formas de espacialização e os sentimentos topofílicos manifestos
pelo grupo alvo da pesquisa.
13

2. TOPOFILIA, LUGAR E LAR, RUA E MORADOR EM SITUAÇÃO DE RUA:


EQUALIZAÇÕES ELETIVAS

O conceito de topofilia foi proposto por Bachelard (1978, p.196), em livro no qual
o autor debruça-se em reflexão sobre a casa, o lar e o conceito de habitar, a partir de
pressupostos fenomenológicos e poéticos. Yi-Fu Tuan (1983 e 2012) aprofunda o
conceito de topofilia, baseado em seus estudos das operações fenomenológicas e
subjetivas da relação afetiva do sujeito com o lugar. “Topofilia é o elo afetivo entre a
pessoa e o lugar ou ambiente físico. Difuso como conceito, vivido e concreto como
experiência pessoal”, resume Tuan (2012, p.19).
Tuan, num recorte espaço-temporal, refere diversas culturas humanas no
objetivo de demonstrar que a afeição e mesmo o amor pelo lugar é característica
inerente ao ser humano, apesar de suas variantes. Até mesmo locais que uma cultura
majoritária pode considerar “repulsivos” (p.ex., bairros decadentes e de altos índices
de miséria e criminalidade norte-americanos) podem atrair e representar um nicho de
aconchego e familiaridade para certos indivíduos.
Em Paisagens do Medo (TUAN, 2005) são os lugares que provocam fobias e
repulsão que são objeto de análise.
Em nossa análise dos moradores em situação de rua utilizamos como
pressupostos antropológicos e etnográficos os conceitos propostos por Cláudia Turra
Magni, em seu livro Nomadismo Urbano (2006), além da segmentação elencada por
Mattos (2006) e outros autores.

2.1 Topofilia e topofobia

Embora possa apresentar-se relacionado a categorias como nação e território,


acreditamos que o fenômeno da Topofilia manifesta-se de melhor e maior maneira
quando relacionado ao lugar. Bachelard (1996, p. 196), ao estabelecer o termo
Topofilia para designar o tipo de estudos a que se lançara, fala do estudo dos espaços
amados, espaços louvados e espaço feliz, “proibido a forças adversas”.
Assim, o lugar já significado é imbuído das forças proativas da afeição, forças
geradas pela manifestação singular ou em colaboração de diversos fatores que o
elegem como lugar amado.
14

Categoria fundamental nas análises espaciais da Geografia Humanista, o lugar


é definido por Tuan (1983, p.14) como

uma classe especial de objeto. Uma concreção de valor, embora não


seja uma coisa valiosa, que possa ser facilmente manipulada ou
levada de um lado para o outro; é um objeto no qual se pode morar. O
espaço, como já mencionamos, é dado pela capacidade de mover-se.
Os movimentos frequentemente são dirigidos para, ou repelidos por,
objetos e lugares. Por isso o espaço pode ser experienciado de várias
maneiras: como a localização relativa de objetos e lugares, como as
distâncias e extensões que separam ou ligam os lugares, e – mais
abstratamente – como a área definida por uma rede de lugares.

Assim, o espaço pode ser referido como uma colcha de lugares, corolário de
espaços eleitos a partir de/sobre um espaço maior, circuito de nexos topofílicos em
meio a um substrato neutro ou mesmo negativo (topofóbico).
Prosseguindo, Tuan (2012, p.135-36), esclarece que

A palavra “Topofilia” é um neologismo, útil quando pode


ser definida em sentido amplo, incluindo todos os laços
afetivos dos seres humanos com o meio ambiente
material. Estes diferem profundamente em intensidade,
sutileza e modo de expressão. A resposta ao meio
ambiente pode ser basicamente estética: em seguida,
pode variar do efêmero prazer que se tem de uma vista,
até a sensação de beleza, igualmente fugaz, mas muito
mais intensa, que é subitamente revelada. A resposta
pode ser tátil: o deleite ao sentir o ar, água, terra. Mais
permanentes e mais difíceis de expressar são
sentimentos que temos para com um lugar, por ser o
lar, o locus de reminiscências e o meio de se ganhar a
vida.

Topofobia, por sua vez, seria, ao contrário de topofilia, o medo ou repulsa por
um lugar, sentimento este igualmente sujeito a gradações e subjetivações as mais
diversas.

2.2 Lugar

Necessário é perguntarmos: o que é o lugar? A geografia humanista apresenta


algumas concepções que, ainda que geralmente partindo de um locus conceitual
comum, disseminam-se em múltiplas direções.
15

Acreditamos que a geografia humanista é aquela que melhor presta-se a


confrontar e perceber, liberta de dogmatismos cientificistas/positivistas, novas
percepções do lugar, ao defrontar-se com aqueles que prefiguram o Outro,
desligados/degredados do status quo, nisso e por isso prenhes de alteridade. E aqui
entendemos encontrarem-se os moradores em situação de rua – com todo o seu
amplo espectro biográfico, sociológico e psicológico.
Acreditamos que é em confronto com os sem-lugar que podemos (embora não
seja esta a pretensão central deste trabalho) ampliar nosso rol de entendimentos
sobre o que é o lugar.
Inspirados pelo conceito de Topofilia, nós definimos o lugar como um nexo de
sentimento no espaço, ou nexo sentimental-espacial. Logo, o lar seria o lugar máximo,
o nexo primal e principal dos sentimentos que se vivenciam sobre o lugar.
Mas, será mesmo assim? Para que possamos (re)dimensionar a amplitude das
percepções sobre o lugar, abro aqui um parênteses: Fernando Pessoa, poeta maior
da língua mas também excelente prosador, em seu livro (para repetir o termo, prenhe
de alteridade) O Livro do Desassossego (1986, p.54), relata:

Eram ainda horas de estar aberto o escritório. Recolhi a ele com um


pasmo natural dos empregados, de quem me havia já despido. Então
de volta? Sim, de volta. Estava ali livre de sentir, sozinho com os que
me acompanhavam sem que espiritualmente ali estivessem para
mim... era em certo modo o lar, isto é, o lugar onde não se sente.

Veja que, escrevendo, claro, uma obra literária não especialmente interessada em
geografia/espacialização e bem antes do desenvolvimento e estabelecimento dos
conceitos geográficos humanistas, não é de despertar a reflexão o fato de o escritor,
nas últimas linhas do trecho referido, definir o lar como “o lugar onde não se sente”
(talvez como lugar do entorpecimento, da “anestesia” sensório-sentimento-
perceptiva?).
Assim, é por não acreditar em dogmatismos, e no anseio de desbravar novas
ontologias e geograficidades, ainda que estas venham a contradizer o que temos
necessária/provisoriamente por pressupostos, e difíceis de perceber e mensurar em
sua alteridade, que nos lançamos a esta pesquisa. Fecha parênteses.

2.3 Lar
16

Acima apresentamos nosso entendimento do lar como um lugar máximo, e em


sequência a visão destoante de Pessoa. Mas e o conceito de lar dentro das
perspectivas humanistas? Entende-se que há aqui fundamentalmente uma promoção
de nível: lar muitas vezes é o lugar principal de significações, aporte seguro, “centro
de nossas vidas” (TUAN, 2011), “nosso canto do mundo” (BACHELARD, 1978, p.200),
e Buttimer (BUTTIMER Apud HOLZER, 2013, p.24) chega a estabelecer boa parte de
sua teoria espacial fundamentando-se na dualidade lar (inspiração) e horizonte a ser
alcançado (expiração).
Se o lar é o “insubstituível centro de significações” (RELPH apud FERREIRA,
2002, p.47), como se dá agora o jogo de significações naquele que não (mais) possui
um lar estável, naquele que instaura um “lar” na provisoriedade do espaço público,
repleto de não-lugares? Há sentimento topofílico que baste para um morador de rua
chamar um canto da rua ou trecho do mobiliário urbano de “lar”, ou assim o definir
inconscientemente? E se não é necessário este sentimento para que ele se signifique
enquanto ente, como se dá a substituição deste “insubstituível” e dessa categoria
espacial que propicia a “fundação de nossa identidade enquanto indivíduos e como
membros de uma comunidade”?
Embora o próprio Tuan (1998, p.7) aceite e referencie a noção de lar de uma
maneira ampla (“A Terra é o nosso lar”), e ainda assim redutível a categorias
decrescentes, como pátria e cidade, acreditamos que a palavra lar precise
necessariamente significar conceito mais restritivo.
Pitorescamente, é forçoso elaborar algumas simplificações para afinar a
compreensão. Se digo que o lar é um centro de significações e afeições, e a Terra
toda é meu lar, como me sentir “no lar” num mergulho na fossa das Marianas, numa
expedição na Antártida ou no deserto de Gobi? Ao contrário, em tais contextos de
extrema alteridade e sujeição à penúrias físicas as mais severas e diversas, seria
então até natural manifestar-se o sentimento topofóbico e ao mesmo tempo um
saudosismo de estar, agora sim, em meu verdadeiro lar, minha “casa” na acepção
sentimental do termo.
Se entendemos a cidade como meu lar, isso pode significar já algo; morando
na região metropolitana do Rio de Janeiro, na cidade de São Gonçalo, lembro-me de
que, ainda bem jovem, sempre que tinha que ir até a cidade do Rio de Janeiro sozinho,
na volta, ao descer da ponte Rio Niterói, já “do lado de cá”, em Niterói (contígua e
conurbada com São Gonçalo) eu sentia-me claramente “em casa”; seguro, em terreno
17

conhecido segundo meus pressupostos da idade. Mas vejamos: e se sou de repente


transportado para um bairro desconhecido dentro de meu próprio e grande município,
São Gonçalo, e mais, um bairro dominado por determinada facção criminosa que
suplanta o Estado e instaura a própria e dura lei? Em tal local de iminente perigo,
ainda que em minha própria cidade natal e de onde jamais me mudei, sentir-me-ei
confortável, “em casa”? Ou desejaria o mais brevemente possível estar fora dali, de
volta ao meu bairro de origem, onde conheço a todos?
Assim, não é senão num aspecto amplo e com alguma generosidade que
podemos entender que “a Terra é meu lar”; e mesmo que “tal cidade é meu lar”;
preferimos, neste estudo, vincular o conceito de lar à noção de casa, moradia e abrigo,
local de descanso, segurança e interações socioemocionais mais básicas e
verdadeiras, pois entre familiares e amigos.
Claro está que nem toda casa será considerada, automaticamente, lar, embora
a confusão de termos e conceitos seja comum entre pessoas de qualquer nível. O
indivíduo pode morar numa casa sem desenvolver por ela sentimento positivo algum,
sem que ela se configure psicologicamente como lar, embora o fator tempo de
permanência tenda a propiciar tanto a eclosão quanto o aprofundamento do
sentimento topofílico.
É assim que indagamos aos moradores de rua entrevistados, “você sente que
a rua é seu lar, você sente a rua como um lar, como sua “casa”, ou como um lugar
hostil, um abrigo temporário e insatisfatório?”. É possível gerar afeição pelo lugar na
rua até um nível profundo, e mais, até o extremo de entende-lo ciente ou
inconscientemente como um lar no sentido referido? Quais as formas e níveis de
topofilia em tal contexto?

2.4 Moradores de Rua – Origens, Motivações e Caracterização

O espectro que abarca a origem e caracterização socio-psicológica dos


moradores de rua pode ser muito amplo. Enquanto há aqueles que foram parar nas
ruas por motivos que poderíamos definir como exógenos (briga familiar, expulsão de
casa, perda de moradia em catástrofes ou despejo etc.), temos aqueles que
simplesmente desejaram morar na rua, e aqueles acometidos por distúrbios mentais
de variada monta.
18

Tais indivíduos podem ser considerados, sob certo prisma, “engajados numa espécie
de negação da ordem social” (GOFFMAN apud MAGNI, 2006, p.37). Afinal (MAGNI
2006, p.13):

Infringir as fronteiras entre casa e rua, estabelecendo no público um


espaço doméstico onde se desenvolvem as atividades cotidianas mais
frugais de dormir, cozinhar, higienizar-se, excretar, entre outras, viola
as regras básicas de privacidade historicamente gestadas no seio da
burguesia.

As regiões centrais oferecem mais valores atrativos que regiões mais


periféricas, ao congregar melhores infraestrutura e disponibilidade de recursos
assistenciais. Tais fatores explicam a procura dos moradores de rua pelos centros das
cidades e adjacências. O morador de rua situa-se assim no centro do ecúmeno: pelos
centros das cidades médias e grandes, ele força espaços, amplia penetrações,
estabelece aprofundadas ocupações: é dele a rua da urbe, onde estabelece-se como
elemento sob alguns enfoques parasitário, sob outros presença natural embora
decorrente de efeito colateral do sistema-mundo, do modo capitalista de organização
socioeconômica e de apropriação do espaço.
Ao romper com o status quo dos fatos sociais mormente aceitos, o indivíduo
mergulha na alteridade da condição de pária: suas ações são atos considerados
absurdos para alguns, crimes imperdoáveis para outros: sobre seus ombros se
lançam estigmas de depreciamento, marcas de separação.
Bem mais do que em pessoas com residência fixa, o sentimento topofílico sofre
a constante ameaça da provisoriedade nos moradores de rua; uma repressão maior
por parte dos agentes particulares (moradores, comerciantes etc.) ou estatais pode
obrigar o morador de rua a deslocar-se em busca de novo abrigo. Na rua “se
acumulam a hostilidade dos homens e a hostilidade do universo” (BACHELARD 1978,
p.202). Suas territorializações são frágeis, flexíveis, pois a desterritorialização
iminente é a espada de Dâmocles sob a qual dormem.
O morador de rua tem por paredes a indiferença dos transeuntes. Simmel (1973,
p.11), em seu texto clássico A Metrópole e a Vida Mental, esclarece que a própria
atitude blasé, a indiferença, reserva e mesmo a alguma hostilidade espontânea são
mecanismos “normais” de defesa/adaptação psíquica do indivíduo urbano.
19

Entendemos que tais atitudes são amplificadas ao extremo em relação ao morador


em situação de rua. Ainda assim, como lidar com essa objetalização a que são
diminuídos pelo outro, que o vê apenas, quando muito, como peça da paisagem,
obstáculo ou ruído?
Quanto às motivações que levam à fixação do indivíduo em algum ponto na rua,
“A escolha do local e sua qualificação em melhor ou pior são feitos levando em conta
a segurança da localidade, o acesso à rede de sobrevivência (e sua opinião sobre ela)
e as relações estabelecidas com os transeuntes.” (ESCOREL apud ROBAINA, 1999,
p.221).

Os espaços ociosos são ocupados ao sabor das necessidades e


oportunidades. Embora projetada para um padrão sedentário de vida,
a cidade acaba se tornando bastante favorável para a subversão de
seus recursos e apropriação de uma existência nômade. (Magri 2006,
p. 64).

Mudanças sociais e econômicas de variadas escalas podem pôr a nu regiões


antes paladinas do progresso, ou estabilizadas em relação aos seus indicadores de
crescimento e prosperidade; um bairro que acabou sendo isolado ou preterido por
motivo qualquer (o aporte da violência, a remoção de algum modal de transporte
coletivo); uma cidade que perdeu sua principal fonte de divisas e empregos (uma
montadora de automóveis, p.ex.); uma região colapsada em sua economia pela
concorrência de outra região ou país; vácuos se abrem, homens têm diluídos os
alicerces de sua permanência no status quo; a miséria cria novos modos e novos
lugares (e formas outras de lugarizar), mesmo onde não havia atividade econômica
viável, e mesmo onde era não-lugar. Claval (2007, p.133), esclarece que:

O desaparecimento das frentes pioneiras nunca é definitivo:


ressurgem no mundo urbano, à medida que este autoriza novas
formas de marginalidade e a emergência de novos tipos de
contraculturas; reaparecem assim que um sistema socioeconômico é
submetido à reestruturação, que suas atividades antigas periclitam e
que as utilizações do solo tradicionais não são mais necessárias: as
áreas abandonadas agrícolas e industriais resultantes das grandes
transformações econômicas contemporâneas constituem margens
momentaneamente esterilizadas, mas que podem se prestar a novas
combinações.
20

Assim vemos a emergência de cracolândias, geradoras/atratoras de rualizados;


instalações púbicas ou particulares, em geral mas nem sempre abandonadas,
tomadas por moradores de rua e sem-teto (estejamos cientes de que temos aqui uma
outra categoria social) que nelas fazem morada ou ponto de apoio e descanso. E
assim também na parte de baixo do viaduto, os fundos “abandonados” do terminal
rodoviário, a velha padaria que faliu e cuja porta de correr foi arrombada,
transformando o interior do edifício em local de morada, “maloca”. É o modo de vida
nômade/rualizado que encontra campo e se instaura e instala, na assimetria de suas
ocupações provisórias, ocupações-guerrilha.
A provisoriedade da situação de rua fala de risco, de ameaça a todo projeto e à
própria ideia de continuidade, pois

A casa, na vida do homem, afasta contingências, multiplica seus


conselhos de continuidade. Sem ela, o homem seria um ser disperso.
Ela mantém o homem através das tempestades do céu e das
tempestades da vida. Ela é corpo e alma. É o primeiro mundo do ser
humano. (BACHELARD, 1978, p.201)

Uma falsa dificuldade que se apresenta a este tipo de pesquisa: como


considerar objetiva ou cientificamente válidos os dados muitas vezes subjetivos
obtidos de pessoas consideradas (pelo status quo/paradigma psicológico vigente)
como mentalmente perturbadas, ou ainda sob efeito, durante a entrevista, de
substâncias entorpecentes?
A nosso ver, isso não representa problema algum, e ao contrário: descortina
todo um campo de pesquisas e reflexão, pois pesquisamos aqui percepções,
impressões e respostas subjetivas buscando o frescor de sua efetivação
fenomenológica, no intuito de compreender não apenas a existência e formas dos
sentimentos topofílico e topofóbico no grupo em análise, mas idealmente as nuances
de sua percepção espacial de uma maneira em geral.
O homem é ser-no-mundo e ser-em-situação, senhor e servo de sua
singularidade. Heidegger afirma que “só é possível habitar o que se constrói”
(HEIDEGGER, 2014), com a acepção, claro, de construção do espaço existencial
mediada pelos canais sensórios, ou espaço-vivido. Assim, é na singularidade de sua
construção de lugar na rua que buscaremos as especificidades do fenômeno
topofílico.
21

A passagem de uma casa, um lar, provisório e problemático que seja, para a


rua é sempre uma mudança de regime ontológico radical. Se “o enraizamento ao
mesmo tempo espacial e sociológico é mais difícil na cidade do que no campo”
(CLAVAL, 2007, p.190), em que vias de realiza o ‘enraizamento’ daquele que habita
as ruas movimentadas da urbe, ou seus recantos algo menos movimentados, mas
fronteiriços à grande profusão de transeuntes, de estranhos?
Ao habitar o espaço urbano, ao habitar espaços cuja característica maior é o
não-lugar ou lugares de instabilidade, a ausência de referências, de elementos
propiciadores de Topofilia, como esta poderia se manifestar no morador em situação
de rua?
Reconhecer-se solicita uma relação sensorial com o espaço, “reconhecer-se
supõe uma apropriação do espaço pelo sentido” (CLAVAL, 2007, p.194) e “esta
depende, além do círculo familiar percorrido a pé em todos os sentidos, do meio de
locomoção utilizado” (CLAVAL, 2007, p.192). Assim, um dos pontos de atenção na
reflexão sobre a Topofilia existente no sujeito sob análise em relação aos não-lugares,
os quais costumamos atravessar em veículos (automóveis, ônibus e trens), resulta de
sua maior vivência espaço-temporal em relação ao (não?-)lugar, pois a pé e ao
atravessá-lo todos os dias e ao longo das noites, quando geralmente os centros de
algumas urbes são desabitados, libertos do ‘ruído’ de comunicação - enquanto espaço
comunicante - que é a presença do outro, lhe permite perceber características,
nuances e pontos de referência e familiarização topofilicamente elegíveis, que o
transeunte comum não capta em sua rápida e tantas vezes desinteressada e/ou
assustada passagem.
Mas o próprio não-lugar, em sua frieza algumas vezes bela mas prenhe de
higienizada insalubridade, nua de tato(s), pode gerar topofilia de per se? É uma
interessante questão.

2.4.1 Tipologia dos moradores em situação de rua

Embora sejam um grupo que prime pela heterogeneidade, foi necessário


dividirmos os moradores em situação de rua em diversos tipos para facilitar a pesquisa
e o entendimento de sua relação com o espaço.
As definições acerca de tipologias e seu uso em consideração aos moradores
em situação de rua carecem de consenso estabelecido; mas algumas abordagens são
22

oportunas para situar certos indivíduos em segmentos que facilitem a análise de seus
procedimentos e objetivos.
A proposição de Vieira, Bezerra e Rosa (1992), delimitando o ser, o estar e o
ficar na rua, é um primeiro passo na composição de um panorama da situação
heterogênea dos que na rua se encontram. Ser da rua denota permanência ou
ausência de desejo de abandonar a rua; aceitação de tal situação; o estar na rua
remete a brevidade temporal, indefinição de rumos, situação transitória em busca de
definições; e o ficar na rua denota ação esporádica ou circunstancial, como o indivíduo
que, não tendo recursos para a passagem de volta para o lar após cada período de
trabalho, permanece na rua, próximo ao mesmo, retornando para casa nos fins de
semana ou esporadicamente. Em geral o tempo de permanência na rua é que trará a
definição do status do indivíduo; a ausência de oportunidades, a entrega ou
conformação à situação podem definir a transição do ficar e estar para o ser da rua.
Avançando na depuração tipológica dos moradores em situação de rua, temos a
segmentação, ainda que embasada em outros autores, proposta por Mattos (2006).

2.4.1.1 Os trecheiros

Avançam de cidade a cidade a períodos indeterminados, em geral em busca de


trabalho ou melhores condições de sobrevivência. Nunca permanecem por muito
tempo em um mesmo lugar, variando de um dia a semanas, ainda possam voltar ao
mesmo durante espaços de tempo (no dia seguinte, na mesma semana, mês ou ano).
Caracterizam-se por buscar trabalho por onde chegam, embora alguns indivíduos
possam viver apenas de esmolas e acharques (estes são ditos por vezes “pardais”).
O grupo dos trecheiros, segundo Mattos (2006, p.61), “é constituído por pessoas em
situação de rua que vivem do nomadismo exercido a pé entre as cidades,
sobrevivendo de trabalhos temporários, mendicância ou achaque, além de contar com
auxílio de instituições assistenciais.”

2.4.1.2 Os andarilhos

Semelhantes em alguns pontos aos trecheiros, mas desvinculados da


necessidade ou da motivação de buscar trabalho, e mesmo um “destino”: apenas
avançam, em busca e novas terras, novos contatos. A marca distintiva dos andarilhos
23

é a errância, “movimentação radical sem qualquer destino, ponto de partida ou


chegada, rumo ou roteiro.” (MATTOS, 2006, p.61). Poderíamos designá-los de
nômades perfeitos: Indivíduos cuja sina é mudar de lugar, não afeitos à permanência.
Sua característica definidora é a pulsão ou atitude de não fixar-se, e mesmo de não
repetir trajetos, ou seja, não retornar ao lugar uma vez abandonado ou ‘superado’ em
seu intermitente avançar. É chamado também de “andante” (FERRAZ, 2000, P.113).
Esta é uma categoria à parte e que mereceria, acerca de suas formas de
espacialização, estudo particularizado, o que em grande parte foge aos objetivos e
alcance do presente trabalho, embora indivíduos do grupo tenham sido aqui
contemplados. Qual seria sua forma de espacializar? Este andarilho, avesso a
qualquer enraizamento, seria senhor de uma espacialização e geograficidade novas,
ou que, mais realisticamente especulando, poderia ao menos nos dar novas pistas
sobre a própria natureza e fenomenologia destes fenômenos?

2.4.1.3 O “Louco de rua”

Embora as diversas categorias possam interpenetrar-se com esta, não


confundamos aqui as demais com aqueles indivíduos muitas vezes vítimas de
patologias psicológicas, o “louco de rua”. Em nossa tentativa de contato com
indivíduos tais, pouca ou nenhuma informação pudemos obter, baseados nas
premissas auferidas pelo questionário padrão. Assim, tal segmento não é abordado
neste trabalho. Estes são muito difíceis que abarcar numa pesquisa sobre
subjetividades como a topofilia e topofobia, embora mereçam também trabalho
particularizado, pois são misteriosas suas formas de especializar, de fundar “uma
cidade própria” (CHNAIDERMAN apud MATTOS, 2006, p.62), e mesmo uma rede
própria, cujos parâmetros, se existem, são invisíveis ou até aqui indecifráveis para a
ciência. Sobre seu desprendimento (aqui refletido como espacial), Ferraz (2000, p.56)
lembra que, segundo a teoria de Freud sobre a psicose, a mesma seria investida de
um “desinvestimento libidinal dos objetos do mundo externo”. O que implicaria
também uma atrofia das capacidades topofílicas.

2.4.1.4 Albergados
24

São os indivíduos que fixam-se em ou nas proximidades de albergue ou abrigo,


público ou particular. Pois há indivíduos que, não havendo vagas nos albergues,
permanecem em suas proximidades, à espera de vaga, e usufruem de facilidades
oferecidas por tais estabelecimentos, tais como banho e alimentação. Poderíamos
considerá-los assim semi-albergados. Costumam fixar-se num lugar por mais tempo
que andarilhos e trecheiros, e mesmo alguns moradores de rua não-albergados. Em
geral apresenta-se em melhores condições que os demais tipos de morador de rua, e
pode manifestar até mesmo preconceito em relação aos que vivem em outra relação
com a rua. Dada sua condição de semi-residenciados, tal grupo não foi contemplado
em nossa pesquisa.

2.4.1.5 Morador de rua citadino não-albergado

Por fim, o grupo que se poderia considerar mais clássico, se não em alguns
casos na realidade urbana, ao menos no imaginário e na cultura populares, os que
chamamos aqui de morador de rua não-albergado. Tais indivíduos costumam fixar-se
por períodos prolongados de tempo (por vezes mais de uma década) num mesmo
local, seja um bairro ou uma cidade, neste caso em geral respeitando os limites
municipais. Não frequentam em geral albergues, e buscam local de fixação baseados
principalmente nas facilidades advindas a partir da ação de terceiros, ou seja, buscam
locais onde percebem/encontram ajuda constante (moradores locais que lhes doam
alimentos, água, lugar para banho etc., proximidade de instituições religiosas ou
sociais de variada monta, onde podem obter com maior constância e amplitude
esmolas e auxílios diversos). Aqui se diferenciam dos albergados e semi-albergados
pela indisposição a sujeitar-se às regras tanto de albergues quanto de outras
instituições de auxílio; usufruem em menor escala, ou numa menor relação de
sujeição/dependência, de tais benesses.
Como se dá a espacialização do morador em situação de rua? Em muitos
casos, a excetuar-se os andarilhos, estabelece-se o chamado circuito, a rede de
lugares, nem sempre contíguos, em que ele diariamente utiliza para obtenção de
serviços, alimentação e abrigo.
É possível que seus sentimentos topofílicos manifestem-se em relação ao
conjunto deste circuito por ele eleito, ou mesmo que lhe tenha sido imposto como o
único possível ou o único viável. Segundo Tuan (1983, p.200):
25

O mundo do nômade consiste em lugares conectados por um


caminho. Os nômades, que estão frequentemente se deslocando, têm
um sentido intenso de lugar? É bem possível. Os nômades se
deslocam, mas se deslocam dentro de uma área circunscrita, e a
distância entre dois pontos extremos de sua peregrinação raramente
excede 320 km.

Outra constatação de Tuan estabelece uma cadeia valorativa na percepção


ambiental: “O lar é o mundo estável a ser transcendido, a meta é o mundo estável a
ser alcançado, e os acampamentos são paradas de descanso no caminho de um
mundo para o outro” (1983, p.199).

2.5 A rua e o sentimento topofílico: Definições e causas ou por uma morfologia do


sentimento topofílico

Um dos nexos causais do sentimento topofílico é a sensação de segurança.


Estar seguro pode sobrepor-se ao sentimento de desconforto (‘um local muito
apertado’), causando prazer ainda assim. Claro, o conceito de segurança pode variar
não apenas de cultura para cultura, mas de indivíduo para indivíduo.
Há casos de indivíduos que escolhem determinado ponto pela paz, a
tranquilidade de ali permanecer sem ser importunado, aliados, claro, a outros fatores
de atração. Alguns buscam manter-se afastados dos pontos de máxima multidão. O
que se percebe é principalmente o casamento entre lugar propício à obtenção de
alimentos e auxílios, fator atrativo principal, à tranquilidade de não serem oprimidos
ou importunados.
Por outro lado, a própria espaciosidade da rua pode ser o maior atrativo
topofílico para certos moradores. Não priorizando a obtenção de auxílios, ou sabendo
onde consegui-los com certa facilidade, não fixam-se num local corriqueiro à espera,
mas dedicam-se a andar pela urbe, e de tal nomadismo, ainda que restrito, retiram
prazer ou sentido. “Espaciosidade está intimamente associada com a sensação de
estar livre. Liberdade implica espaço; significa ter poder e espaço suficientes em que
atuar.” (TUAN, 1983, p.59). O morador de rua pode ser dotado, conscientemente ou
não, da faculdade de “lugarizar” não simplesmente o espaço, ação natural de todo ser
humano, mas a própria espaciosidade. Assim, a rua em conluio com a liberdade
(física, psicológica, econômica e mesmo sentimental) que traz, o desprendimento, a
26

extensão não estática mas variável de suas fronteiras, é lugarizada, assimilada. Se


para uma maioria a rua é o último ou mais acessível recurso, a mesma é o lugar de
eleição do sujeito que não foi para ela empurrado pela severidade das circunstâncias,
mas escolheu a rua, para fundar seu mundo-vivido, o que percebemos como sendo o
caso de alguns dos informantes da pesquisa. Sobre tais indivíduos, dá notícia o texto
da Pesquisa Nacional sobre a População em Situação de Rua (CUNHA e
RODRIGUES, 2009, p.87):

Considerando-se as razões apontadas, há uma que não aparece


expressivamente nos relatos, mas que merece ser destacada: a
escolha pessoal pela rua como opção de moradia. Apesar de não
aparecer como razão principal da saída de casa, esta questão deve
ser considerada na medida em que, mesmo quando as razões
explicitadas envolvem desentendimentos familiares ou as ameaças e
violências sofridas dentro do ambiente familiar, há um grau de escolha
própria para ir para a rua. Essa escolha muitas vezes está relacionada
a uma noção (ainda que vaga) de liberdade proporcionada pela rua, e
acaba sendo um fator fundamental para explicar não apenas a saída
de casa, mas também as razões da permanência na rua. Após
vivenciar a situação de "liberdade" que a rua proporciona, muitas
pessoas se sentem compelidas a permanecer neste ambiente, em
detrimento do ambiente doméstico, considerado, muitas vezes,
perigoso e opressor.

O fator estético, propiciador de formas e experiências topofílicas que podem ser


arrebatadoras porém efêmeras, parece ter pouca ou mesmo nenhuma influência na
escolha do morador em situação de rua por um lugar de permanência.
A rua atrai e repulsa, alegra e constrange, incentiva num a extroversão, noutro
introversão; leva a todos os lugares, são as reais “artérias” na antiquíssima e simplista
percepção da cidade como organismo vivo (GOTTDIENER, 1997, p.35), mas o
simples fato de um homem lugarizá-la a ponto de escolhê-la para lar (de maneira
capital no caso daquele morador em situação de rua que prefere a rua, mesmo tendo
casa ou possibilidade de uma obter), escolhê-la como lugar dos lugares, a transforma,
transtorna de caminho a, mais que lugar, lugar central, micro-centro do ecúmeno,
lugar/não-lugar de ação centrípeta e centrífuga. Que seja: entendemos as ruas do
centro de uma urbe como centros centrífugos e centrípetos do ecúmeno.
Assim, se considerarmos a rua do centro da urbe como o centro do ecúmeno
em sua unidade mínima, o pária, o portador da alteridade que se desfez ou fez-se
imune às convenções a ponto de ser considerado caricatura do (que em tese deve ser
27

o) homem, faz-se, numa interessante inversão, homem central daquilo que é o urbano:
de “miserável” a “príncipe” do ecúmeno.
Pois se para aquele que vive em sua moradia e tem a rua como trajeto, ela pode
apresentar-se ameaçadora, para outros pode representar um tipo alteroso de
segurança, maneiras inusuais de conforto.
Percebendo com alguma poesia as possibilidades da rua, o autor João do Rio,
em seu A Alma Encantadora das Ruas (1995, p.22), poetisa:

Ora, a rua é mais do que isso, a rua é um fator da vida das cidades, a
rua tem alma! Em Benares ou em Amsterdão, em Londres ou Buenos
Aires, sob os céus mais diversos, nos mais variados climas, a rua é a
agasalhadora da miséria. Os desgraçados não se sentem de todo sem
o auxílio dos deuses enquanto diante dos seus olhos uma rua abre
para outra rua.

Assim, a rua pode representar a permanência/imanência das possibilidades de


realização sócio-espacial e sentimental para alguns indivíduos.
A proximidade às fontes providenciais, notadamente de auxílios na figura de
alimentação, abrigo, água, vestimentas e outros, é também um fator de atração do
indivíduo por determinado ponto na rua, acreditamos mesmo que o principal. Um
sentimento especializado pode surgir pela simples atração pelas pessoas do lugar
(tanto de moradores residenciais como de outros moradores de rua), de seu convívio,
independentemente de suas ações assistencialistas. A esta atração chamamos aqui
de atração pelo horizonte relacional.
A posição central e visível do meio urbano é propícia à obtenção de auxílio de
pessoas e entidades; há casos de locais na urbe onde o morador em situação de rua
pode escolher o cardápio, tal a quantidade e variedade de alimentos (sopas,
quentinhas, pães, frutas) ofertadas por agentes diversos, cujas ações, mormente nas
noites e madrugadas, em geral são concomitantes.
A carência extrema do morador de rua não é apenas material, mas afetiva; para
além disso, as condições adversas são facilitadoras de patologias psicológicas de
variado espectro. Indivíduos sujeitos a patologias como disforia (perda de
sentimentos, angústia indeterminada) e anedonia (perda da capacidade de sentir
prazer), podem sentir topofilia alguma? Tais patologias, que podem ser manifestas a
partir de simples depressão, colaboram para mitigar o sentimento topofílico e também
topofóbico.
28

Assim, identificar neste “desviante”, neste de alguma maneira destituído da


segurança do lar e dos laços familiares – axis mundi, eixos sustentadores ontológicos
- um sentimento de apreço pelo lugar, é como retomarmos o fio de sua humanidade,
no que ela tem de mais profundo.
Mas que sentimentos topofílicos seriam possíveis? De alguma outra natureza?
Segundo Magni (2006, p.37):

Ao não se fixar às moradias que improvisa – o que pode ser voluntário


ou não – a população que habita na rua não cria uma relação estável
de propriedade com o que a história da vida privada convencionou
chamar de ‘lar’. Evidencia-se, portanto, uma outra noção de moradia,
mais flexível e transitória do que aquela acalentada pelo cidadão
sedentário.

2.6 Recorte espacial: Niterói

A pesquisa de campo foi circunscrita a trechos do centro da cidade de Niterói,


mais especificamente as ruas Amaral Peixoto e São João, bem como à região do
Ponto Cem Réis, que fica no bairro de Santana, e ao bairro do Fonseca.

Figura 1: Croqui apresentando os bairros de Niterói e delimitando a área da pesquisa.


29

O município Niterói possui área de 133,919 km² e encontra-se na Região


Metropolitana do Rio de Janeiro. Foi fundado ainda no século XVI, pelo índio temiminó
Araribóia. Foi a capital do estado, de 1834 a 1894 e novamente de 1903 a 1975. Sua
população estimada é de 499.479 habitantes segundo os dados do Instituto Brasileiro
de Geografia e Estatística (IBGE, 2015).
A cidade possui alta posição no IDH nacional, afigurando como a 7ª cidade com
melhor qualidade de vida do Brasil (Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil
2013), e a primeira colocada dentre os 92 municípios do Estado do Rio de Janeiro,
segundo análise deste instrumental.
Ainda assim, a miséria e a desigualdade que dão o tom da sociedade brasileira
não se furtam à manifestar-se na assim chamada “cidade sorriso”.
A Prefeitura Municipal, através de sua Secretaria Municipal de Assistência
Social e Direitos Humanos, informou-nos não possuir censo ou contagem atualizada
dos moradores em situação de rua da cidade, além dos números do Censo realizado
pelo Governo Federal em 2007.
A Prefeitura mantém três abrigos dedicados aos indivíduos em situação de rua:
Dois masculinos, um com capacidade para 50 e outro para 30 pessoas, e um feminino,
com capacidade para 50 pessoas. Quando possível, a Secretaria, em conjunto com
órgãos similares de outros municípios, efetua o encaminhamento daqueles que
desejam retornar para sua região de origem. Apenas na atual gestão, já foram
realizados em torno de 80 encaminhamentos.
Embora de maneira oficiosa, a Prefeitura estima que 1/3 dos rualizados de
Niterói sejam oriundos de outros municípios, tanto do Estado do Rio de Janeiro quanto
das demais unidades da Federação; tal número foi exatamente o que apuramos,
dentre os 15 indivíduos que entrevistamos.
Os censos do IBGE, baseados em pesquisa domiciliar, jamais consideraram os
moradores em situação de rua em suas pesquisas. Sua invisibilidade, a nível nacional,
começou a ser desfeita a partir de 2007, com o I Censo e Pesquisa Nacional sobre a
População em Situação de Rua no Brasil (CUNHA e RODRIGUES), promovido pelo
Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Uma dentre as 71 cidades
brasileiras abordadas pela pesquisa, Niterói contava com 529 moradores em situação
de rua (população do município de 474.002, conforme a Contagem da População
IBGE 2007), o que a coloca entre as dez cidades que possuem a maior
proporcionalidade de moradores em situação de rua em relação ao total da população.
30

O choque entre este indicador e aquele já referido (IDH), que coloca a cidade como a
sétima em qualidade de vida, faz-se patente, e dá a nota das contradições passíveis
de manifestar-se no município.
31

3. METODOLOGIA

O método de pesquisa baseou-se na consulta à bibliografia abarcando autores


e obras que desenvolveram temas caros à Geografia Humanista e eleitos como eixos
norteadores de nosso trabalho, a saber, lugar, lar, topofilia e topofobia. A pesquisa
estendeu-se ainda sobre a literatura geográfica e etnográfica abrangendo os
moradores em situação de rua.
A pesquisa de campo valeu-se da observação e de entrevistas, através de
questionário dirigido, com o público alvo da pesquisa. Mais do que as questões
propostas no referido questionário, procedemos a conversas francas e livres sobre
temas outros que não especificamente do escopo desta pesquisa, no intuito de
apreender mais e mais sobre a realidade e as percepções dos moradores em situação
de rua.
Optamos por uma pesquisa qualitativa; o objeto de pesquisa ou grupo alvo é
conhecido por sua insociabilidade e desconfiança, por sinal naturais dado o contexto
em que (sobre)vivem. Diversas perguntas fixas foram estabelecidas, mas demos
espaço para a livre explanação dos entrevistados sobre temas correlatos. Se
estudamos temas de caráter subjetivo, é fundamental deixar o interlocutor proceder
ao livre falar; intervenções mínimas são necessárias apenas para (re)canalizar o relato
para o foco da pesquisa. Não apenas as histórias, mas a forma de narrar, com suas
pausas, expressões e mímicas são igualmente comunicação, igualmente
comunicantes. O morador de rua pode revelar singularidades de sua condição e da
condição de seu grupo; assim incentivamos a que o informante relatasse sua história
e falasse sobre o que desejasse. Queiroz apud Ferraz (2000, p.160) esclarece que:

A história oral pode captar a experiência efetiva dos narradores, mas


também recolhe destes tradições e mitos, narrativas de ficção, crenças
existentes no grupo, assim como relatos que contadores de histórias,
poetas, cantadores inventam num momento dado. Na verdade tudo
quanto se narra oralmente é história, seja a história de alguém, seja a
história de um grupo, seja a história real, seja ela mística."

As entrevistas e observações aconteceram entre 22/09/2017 e 14/10/2017, em


quatro momentos e lugares: Sob um dos acessos (subida) à Ponte Rio-Niterói, no sub-
bairro Ponto Cem Réis (bairro Santana), em frente à Igreja de São Lourenço; na Rua
São João, no centro da cidade; na avenida Amaral Peixoto, também no centro da
32

cidade, numa tarde de sábado, quando a mesma, em geral bastante movimentada, já


se encontrava esvaziada; e na Alameda São Boaventura, em sua parte final (altura da
Dicasa Motos). Foram ao total quinze os indivíduos entrevistados.
33

4. RESULTADOS

Optamos por realizar uma pesquisa qualitativa, dadas as limitações de nosso


tempo, ao número de questões propostas pelo questionário e principalmente a
dificuldade inerente ao trato com indivíduos do grupo alvo. A observação espontânea
uniu-se à pesquisa qualitativa, dando o tônus de nossa práxis.
A pesquisa de campo contemplou um pequeno universo de quinze indivíduos,
entrevistados em quatro pontos do município de Niterói. Nove deles na Avenida
Amaral Peixoto, uma das principais do centro da cidade, e, dada sua posição central,
profusão de marquises e grande movimento, antiga atratora de população de rua. Um
na Rua São João, também no centro da cidade. Dois deles foram entrevistados no
sub-bairro de Ponto Cem Réis, bairro de Santana, contíguo ao centro; dois deles no
Fonseca, bairro que por sua vez liga-se ao bairro de Santana (ao fim deste capítulo,
apresentamos fotografias dos locais de pesquisa. Todas as imagens são de nossa
autoria).
Destes, o mais jovem possui dezoito anos; o mais idoso, setenta e quatro; a
média etária dos entrevistados fica em 35,13 anos.
Quanto à etnia, sete (ou 46,6%) eram negros; cinco (33,3%) pardos; e três (20%)
brancos, sendo onze (73,3%) homens e quatro (26,6%) mulheres. Dos quinze, apenas
cinco (33,3%) são nativos de Niterói; e dez (66,6%) são oriundos de outros municípios
do estado do Rio ou de outros estados da federação: Duque de Caxias (RJ) e
Teresópolis (RJ); e ainda Corumbá (MS), Brasília (DF), Salvador (BA), Santo André
(SP), Juiz de Fora (MG), Governador Valadares (MG), Recife (PE) e Olinda (PE) (cada
cidade sendo natal de um indivíduo).
Quanto ao tempo de permanência em situação de rua, o espectro varia desde
três meses (o indivíduo com menos tempo) até 54 anos (o mais longevo). A média
dos entrevistados fica em 15,7 anos.
Dentre os indivíduos que julgamos mais interessantes para a pesquisa, os que
escolheram ficar na rua mesmo tendo alguma possibilidade de fixar residência,
embora tal conceituação possa ser problemática ou fluídica, pois os indivíduos podem
ter tido – e desperdiçado – oportunidades de deixar a rua, pudemos catalogar quatro
indivíduos.
Perguntados sobre o lugar da cidade que lhes causasse medo ou receio,
mesmo com nossa insistência em prol de uma definição geográfica/espacial, a ampla
34

maioria alegou não possuir medo de parte alguma da cidade, mas sim da “noite”. A
situação de escuridão e solidão, quando as ruas estão desabitadas, é considerada o
verdadeiro perigo. A mais jovem dentre os entrevistados, respondendo à entrevista
sob o efeito narcótico do redutor (tinner), respondeu que o que lhe dava medo na
cidade era “a polícia”.
Dos que apontaram pontos do espaço que lhe causavam algum temor, foram
citados dois pontos onde outros moradores de rua, considerados violentos,
costumavam permanecer, denotando clara territorialização: A Praça do Chafariz
(próximo à Amaral Peixoto) e a Prainha (trecho entre a praça JK e o campus da UFF
no bairro São Domingos). Uma favela também foi citada, pois segundo o morador de
rua, outros lhe informaram que os “caras” de lá (traficantes) eram “covardes”.
Quando perguntados: “Existe algum lugar que você possa dizer que ame?” Dos
treze indivíduos que responderam a esta indagação, apenas seis disseram amar
algum lugar, e todos referiam-se ao seu bairro de criação ou cidade natal. Outros sete
julgam não haver lugar que amem, sendo que destes, um disse “vou amar o local onde
eu estiver”, e outro alegou “amar a rua”, embora nos parecessem, se nos é permitido
este julgamento, em ambos os casos, respostas retóricas, denotando em verdade o
pouco apreço topofílico de tais indivíduos, seja por que lugar for.
A pesquisa levantou alguns dados interessantes. Por exemplo, a maioria dos
entrevistados (40%), quando perguntados se gostariam de possuir uma casa, e onde
e como seria tal moradia, disse que gostaria de possuir casa em área rural. Ou seja,
ele encontra-se na cidade não por prazer algum e indiretamente por algum laço
topofílico mais significativo, mas por conveniência. Apenas um indivíduo gostaria de
possuir uma casa “no centro da cidade”.
Tanto a indivíduos que apresentavam uma tendência de fixação corriqueira a
determinado lugar, quanto àqueles de características mais nômades, foi perguntado
quais os motivos deles terem escolhido EXATAMENTE AQUELE LUGAR em que ora
se encontravam (no momento da pesquisa). Alguns fatores foram propostos, e demos
liberdade aos entrevistados para a eleição de outros fatores. Cada indivíduo poderia
assinalar quantos dentre os fatores listados, ou outros, quisesse. Sendo assim, eis a
lista de fatores, e a quantidade de respostas positivas que cada qual recebeu:
Abrigo do clima (sol, chuva, frio etc.) – 2
Beleza - 0
Aconchego / conforto - 0
35

Proximidade de onde obter alimentação e outros auxílios - 11


Proximidade do local de trabalho - 2
Segurança - 3
Horizonte relacional (amizade por pessoas das proximidades) - 4
Relação histórica com o lugar (individual ou coletiva) - 1
Paz/tranquilidade - 4
Outros - 0
O fator “Proximidade de obtenção de alimento e auxílios diversos” foi o preferido,
seguido por “tranquilidade e paz”, e pelo que denominamos de horizonte relacional,
que definimos como as relações de convivência e amizade possíveis e construídas
em determinado lugar.

Em que lugar gostariam de possuir uma casa


Possui casa
Motorhome (trailer 6,6%
motorizado)
6,6%

Lugar rural
Centro da cidade 40%
6,6%

Comunidade
("Favela")
13,3%
"O lugar não importa"
26,6%

Lugar rural "O lugar não importa Comunidade ("Favela")


Centro da cidade Motorhome (trailer motorizado) Possui casa

Gráfico 1: Em que lugar gostariam de possuir uma casa.

Se perguntados “há algum lugar aqui na cidade, seja uma esquina, um prédio,
um bairro, uma praça, que você ache bonito”, as respostas foram diversificadas, desde
“a cidade inteira” até bairros e praias, como Icaraí e Boa Viagem, praças como a
Araribóia e locais como o Horto Florestal do Fonseca ou o Campo de São Bento.
Perguntados se havia algum lugar que consideram especial (“legal, maneiro,
responsa”) na cidade, seja uma rua, esquina, bairro, prédio, praça etc., as respostas
abarcaram variados pontos de beleza e lazer da cidade, tais como o Horto Florestal
36

(Fonseca), o Campo de São Bento, Biblioteca Parque de Niterói, Museu de Arte


Contemporânea (Boa Viagem), dentre outros.
Interessante notar que as respostas sobre percepção estética (“um lugar
bonito”) e percepção abarcando fatores diversificados e/ou com possibilidades
sentimentais variadas (“um lugar legal, especial”) demonstraram uma significativa
separação: Apenas cinco indivíduos elegeram como lugar bonito e lugar especial ou
o mesmo lugar, ou item constante daquele lugar (p. ex., lugar bonito: Igreja de São
Lourenço; lugar especial: área imediatamente em frente à referida igreja).
Perguntados sobre se já haviam sentido apego por algum lugar onde tenham
morado antes de ir para a rua, e se sentiram o mesmo tipo de sentimento, de sensação
de pertencimento, por algum lugar na rua, de quatorze que responderam à pergunta,
doze disseram ter sentido apego à algum lugar antes da vida na rua, e dois
responderam que não. Dos que alegaram ter sentido apego antes, ao responderem
se já haviam vivenciado o mesmo sentimento de apego ou pertencimento em relação
a algum lugar NA RUA, seis responderam que não; três responderam que sim, e
outros três não responderam à questão.
Quando indagados se a rua poderia ser considerada seu ‘lar’, onze indivíduos
responderam que não, e quatro disseram que sim.

Figura 2: Bairro de Santana (Ponto Cem Réis). Na fotografia, em primeiro plano a ponte Rio-
Niterói, sob a qual habitam dois dos entrevistados; ao fundo a Igreja de São Lourenço.
37

Figura 3: Avenida Amaral Peixoto (vazia numa tarde de sábado). Sob suas marquises habitam
diversos moradores em situação de rua.

Figura 4: Moradores em situação de rua dormem durante o dia, na Avenida Amaral Peixoto.
38

Figura 5: Rua São João, trecho em frente à Igreja de São João (ao fundo), onde habitam diversos
moradores em situação de rua.

Figura 6: Alameda São Boaventura, trecho em que localiza-se atualmente a Dicasa Motos. Local
de habitação de um casal de moradores em situação de rua.
39

5. DISCUSSÃO

A perda ou atrofia da capacidade de nutrir sentimento de maior profundidade


pelo lugar, topofilia, desenvolve-se com a vivência nas ruas, em consequência das
instabilidades decorrentes da situação de rualização; despoja-se dela como se
descarta uma bagagem se não inútil, sempre inoportuna. Tal atrofia tem suas
características amplificadas com o passar do tempo e a permanência na rua e seu
nomadismo, chegando a atingir um estágio de perfeito desprendimento em relação
aos lugares; quando muito, mesmo indivíduos trecheiros ou errantes, mantém um
sentimento mais profundo apenas pelo lugar de origem (cidade natal). De
desterritorialização em desterritorialização, a valorização do território perde
importância; vive-se onde se está, e se já não podemos estar aqui, vamos adiante.
A novidade do lugar atrai, mas suas funcionalidades para o indivíduo é o que
importam: se há abrigo, emprego, comida. Os lugares passam, as pessoas também:
“a Terra é minha casa, meu quintal é gigante”, diz o trecheiro-andarilho-hippie Marcelo,
o que nos remete a Tuan, quando refere a Terra como lar (1998, p.7): as perdas
locacionais do nômade são compensadas com a amplidão, o espaço em sua
totalidade: Nenhum lugar me pertence, logo posso (se não possuo) todos os lugares.
Essa alteridade espacial, se renega o homem moderno, agrilhoado ao capitalismo e
sedentarismo, restrito e conscrito aos mecanismos de lucro, acumulação e
estabilidade(s), celebra o Homem primevo, o nômade possuidor ou melhor,
experimentador da Terra. Embora Magni (2006) saliente a diferenciação entre o
nômade clássico e o morador em situação de rua, entendemos que um mesmo ímpeto
os domina, uma mesma percepção espacial aberta, um relativo desprezo pelo lugar
em prol do espaço, do conjunto sempre ampliável ou ilimitado de lugares. Cartógrafos
de um mapa mental-sentimental que perde em profundidade “locacional” do
sentimento para ganhar em variedade e liberdade: menos certeza, mais
possibilidades. Eleger um lugar é furtar algo ao todo, é diminuir o espaço e diminuir-
se: carga inútil, dasfaçamo-nos dela, para que possamos entrar na posse de tudo,
cumprir nossa sina de seres-no-mundo, para o mundo, pelo mundo.
O próprio conceito de não-lugar parece sinistramente cair por terra diante dos
moradores em situação de rua e nômades urbanos: “não-lugar” faz muito sentido para
nós, os “lugarizados” sedentários (sedentaristas?) no sentido de domiciliados,
segurados espacialmente: em situação de rua, alguns indivíduos tendem a lugarizar
40

o não-lugar com desenvoltura, dissolvendo-o; sua atrofia topofílica, adaptação


ecológica, acaba constituindo-se uma vantagem (e afinal é essa mesma a sua razão
de ser), ao fazer com que todo espaço possa ser, em seus termos, lugarizado. Não
que tal indivíduo não aprecie o conforto, um dos fatores de fixação comuns ao homem;
ele prescinde dele, ou minimiza seu nível de exigência até um padrão paupérrimo. Se
para os que estão em situação de rua há “uma deserção aos padrões convencionais
de família e trabalho” (MATTOS, 2006, p.44), fatores de imenso poder cultural e
simbólico, o conceito de lugar, ainda que parca e inconscientemente elaborado, será
com maior facilidade subvertido ou transfeito.
Se a segurança é um dos fatores geradores de laços topofílicos, percebeu-se
que a maioria dos entrevistados prefere ficar, seja durante o dia ou a noite, em lugares
abertos, pelo motivo principal de segurança. O conforto é claramente deixado em
segundo plano. O medo do risco da tão por eles citada “covardia” (espancamentos,
estupros, homicídios e roubos, de que são vítimas muitas vezes de outros moradores
de rua). O espaço aberto, a praça franca ou grande avenida não atrai pela beleza ou
mesmo o conforto, ou pela simples espaciosidade enquanto referência de liberdade:
pois em todo lugar o indivíduo se arranja, pode deitar-se: a segurança e
principalmente a facilidade de obter alimentos e auxílios diversos são o principal fator
atrativo para tais lugares.
Como referido nos Resultados (Capítulo 4), foi perguntado a indivíduos que
apresentavam uma tendência de fixação corriqueira a determinado lugar, bem como
àqueles de características mais nômades, quais eram os motivos deles terem
escolhido EXATAMENTE AQUELE LUGAR em que ora se encontravam (no momento
da pesquisa). Dentre os fatores propostos, o fator “Proximidade de onde obter
alimentação e outros auxílios” recebeu onze votos, seguido de “Paz/tranquilidade”,
com quatro votos (a que podemos somar com algumas ressalvas o fator “Segurança”,
com três votos), e “Horizonte relacional” (amizade pelas pessoas do lugar), com quatro
votos. Digno de nota é que os fatores “Beleza”, e “Conforto/aconchego” não
receberam nenhum voto. Assim, novamente percebemos que os sentimentos
topofílicos de cunho estético, ao menos na escolha do local de fixação do rualizado
urbano, têm pouca ou nenhuma importância.
Perguntados sobre se teriam medo ou receio de algum lugar, espaço ou ponto
da rua e da cidade, mesmo quando insistíamos numa definição geográfica, parte dos
entrevistados, mesmo os há pouco tempo em situação de rua, alegou não possuir
41

medo de lugar algum (quatro indivíduos); ou, fato interessante, outros quatro alegaram
não possuir medo de local nenhum em específico, mas sim da “noite”, cuja escuridão
somada ao esvaziamento das ruas facilitaria as violências e “covardias” de que muitos
moradores em situação de rua já foram objeto. Sete indivíduos apontaram locais
específicos que lhes despertavam sentimentos topofóbicos. Interessante notar que,
para os dois entrevistados localizados à maior distância do centro da cidade (fixados
no bairro Fonseca), é justamente o centro da cidade (no geral para um, e a Avenida
Amaral Peixoto em especial para outro) o foco de topofobia.
Para dimensionarmos a multiplicidade das percepções espaciais em sua
subjetividade, a Avenida Amaral Peixoto, por sua vez, foi eleita por outro indivíduo
justamente como “lugar especial”, ou seja, um foco topofílico para ele. O mesmo
fenômeno foi constatado em relação ao bairro de Icaraí: “lugar especial”, e “lugar
bonito da cidade” para dois indivíduos, e foco topofóbico para outro. Os que apontaram
lugares repelentes, além do centro da cidade e o bairro de Icaraí, citaram uma favela
e dois locais (Praça do Chafariz e Prainha) onde habitam outros grupos de moradores
de rua aparentemente hostis aos entrevistados, demonstrando a territorialização
efetivada nesses e a partir desses espaços.
Percebemos assim que os sentimentos topofóbicos são em geral raros: a rua é
entendida como espaço franco. Diluem-se os sentimentos topofílicos, diluem-se
também, pelo mesmo processo de despojamento, os topofóbicos. Os lugares mais
isolados e tranquilos do centro urbano, que aparentemente seriam preferíveis ao
menos para dormir, dado os maiores silêncio e privacidade, nas ruas de nossas
cidades são preteridos em prol da sobrevivência, melhor assegurada nos espaços
abertos e movimentados. Uma das entrevistadas apontou a preferência por ficar em
lugar mais “vazio” ou reservado, mas para... namorar.
Assim, é o medo da “covardia”, é o medo das pessoas, e não tanto de lugares
específicos, embora aparentemente repelentes ou assustadores, o que causa
topofobia. Tuan (2005, p.06) corrobora, ao dizer que

Paradoxalmente, é na grande cidade – o símbolo mais visível da


racionalidade e triunfo humano sobre a natureza – que permanecem
alguns dos velhos medos. O crescimento urbano desordenado, por
exemplo, é visto como uma selva, um caos de edifícios, ruas e
movimentos rápidos de veículos que desorientam e assustam os
42

recém-chegados. Mas a maior ameaça, aquela que se destaca em


uma cidade, são as outras pessoas. A malignidade permanece como
um atributo humano, não mais atribuído à natureza.

A nossa hipótese inicial de que a própria urbe, com sua floresta de concreto e
vidro e suas multidões exercia certa atração topofílica de per se sobre os indivíduos,
terminou de ruir quando perguntamos aos entrevistados se eles desejariam possuir
uma residência (casa) e onde ela seria localizada (cidade, praia, favela, campo etc.).
A maioria dos entrevistados (seis indivíduos) alegou desejar uma casa no “campo”,
na “roça”, no “interior”, sendo a segunda opção lugar indiferente, com quatro
(importando apenas possuir uma casa). Interessante que dentre os que desejavam
casa em área rural há indivíduos oriundos de municípios com pouco ou já nada de
zonas rurais, como é o caso de Niterói. Dois indivíduos desejavam uma casa em
comunidade (“favela”). Um único indivíduo desejava uma casa “no centro da cidade”.
Dissemos já que o fator estético, propiciador de formas e experiências
topofílicas sutis que podem ser arrebatadoras porém efêmeras, parece ter pouca ou
mesmo nenhuma influência na escolha da maioria dos moradores em situação de rua
por um lugar de permanência. Isso se comprova não apenas pela resposta aos
motivos da escolha de determinado lugar para fixar-se (mesmo provisoriamente), mas
pelo fato de que, quando solicitados a citar um lugar na cidade que considerassem
bonito, num elenco de sugestões que ia de uma simples esquina a praças, edifícios e
bairros inteiros, apenas três indivíduos elegeram como lugar bonito algo presente no
ou o próprio local onde costumavam permanecer. A maioria citou outros lugares onde
inclusive seria possível a sua permanência (p. ex., bairro de Icaraí, Praça Araribóia),
caso o fator estético fosse seja o fator principal, seja fator de maior importância para
a eleição de um lugar.
Quando perguntados sobre a existência de algum lugar do qual pudessem dizer
“eu o amo”, de treze que responderam, sete alegaram não amar lugar algum; os outros
seis amam seus bairros de criação ou cidades natais. Digno de nota é que mesmo os
andarilhos/trecheiros entrevistados, alguns que alegaram ter conhecido e morado em
dezenas de cidades do país e mesmo do exterior, se amam algum lugar é apenas sua
cidade natal ou bairro onde foram criados; a situação de rua não propiciou laços
topofílicos profundos, a que se pudesse nominar “amor”, a nenhum deles.
43

Os indivíduos que consideramos mais interessantes para esta pesquisa, que


sejam, aqueles que estão nas ruas aparentemente por gosto e livre vontade,
apresentam uma grande facilidade de desapego somada a um desejo de conhecer
novos lugares e também pessoas. Em prazos indeterminados, a partir de motivações
sutis ou que os entrevistados não puderam especificar com maior clareza, “quando dá
na telha” lançam-se nas “BRs” (estradas federais), ganham as estradas e vão ter em
outras praças. O que percebemos em tais indivíduos trecheiros é seu poder de
desapego, aliado a seu entendimento de que a rua é ou sua casa e lar, ou, mesmo
que não possa ser eleita “lar”, ainda assim é o melhor espaço para vivenciar a plena
expressão de seus gostos por liberdade (liberdades, pois são muitas), ausência de
vínculos e despojamento, sua forma enfim de ser-no-mundo. Um dos indivíduos que
se enquadram neste perfil, Marcelo, hippie de origem paulistana (Santo André),
quando indagado sobre o que para ele era um lar, uma casa, afirmou: “A Terra é a
minha casa; o meu quintal é gigante, sou cidadão do mundo, sem pátria, sem patrão,
sem apego, sem vínculo”. Seu desapego manifesta-se ainda quando perguntado
sobre a existência de um lugar, seja edifício, bairro, cidade, que ele ame. Enquanto a
maioria dos entrevistados elege um local assim, Marcelo diz não ter tal nível de
sentimento (amor) por lugar algum; no máximo, ama “a rua”, ou a situação de rua.
Outro indivíduo, Pedro Paulo, há vinte anos na rua, aparentemente citadino (fixado à
uma cidade, no caso a mesma de sua origem, Niterói), quando perguntado se há
algum lugar que ame, responde: “Não [há lugar que] amo. Vou gostar de onde eu
estiver”.
Por sinal, tal sentimento foi constatado em outra moradora (Sara) que, assim
como Pedro e Marcelo, tem já mais de duas décadas de vida na rua, tendo (como no
caso específico do indivíduo Marcelo), iniciado sua experiência nas ruas ainda na
infância. Assim, a precocidade e o prolongamento da situação em situação de rua
parecem colaborar para a diluição dos sentimentos de apego a lugares específicos.
Práticas tais como executar as necessidades fisiológicas em público, manter
relações sexuais, além do simples dormir e alimentar-se, parecem, através da diluição
de pudores, contribuir para uma gradativa assimilação ou reconhecimento, ainda que
de formas semicientes, da rua enquanto “casa”.
Falando sobre objetos, diz Magni (2006, p.99): “O apego às coisas praticamente
inexiste ou é destruído ao longo do tempo de vida na rua: sua bagagem deve ser
limitada para enfrentar a mobilidade.” Também, assim acreditamos, sua bagagem
44

sentimental e, derivadamente, topofílica acaba sofrendo ‘descartes’ no objetivo de


permitir a vida rualizada. A autora continua (MAGNI, 2006, p.99):

Os bens materiais, assim como as pessoas, os companheiros e os


amantes, se perdem de vista com a mesma facilidade com que outros
podem ser reencontrados nos circuitos e trajetos da cidade, do estado,
do país.

Pois a autora refere que, sem ter onde acumular bens de valor em quantidade,
por que fixar-se num lugar? Afinal eles vivem e conseguem recursos, alimentos e
mesmo roupas para o hoje, por gosto ou por força das circunstâncias desligados da
pulsão capitalista do acúmulo, do amanhã e da poupança com vistas a um futuro.
Adaptados ao nicho ecológico que encontraram, ali se fazem. “Sua fonte de vida está
onde estão os excessos da civilização – nas ruas e centros urbanos (MAGNI, 2006,
p.75).
Assim, num círculo de eventos que se retroalimentam, a própria impossibilidade
de apegar-se a bens materiais (móveis, roupas em excesso, livros etc.), além do
apego a pessoas, constrói um poder de desprendimento em relação aos mesmos,
influindo num desapego em relação ao(s) lugar(es), pois em seu caso configurado(s)
eminentemente como espaços de transitoriedades.
Talvez a facilidade do desapego topofílico não seja inerente ao indivíduo, mas
uma construção psicológica erigida pelo e sobre seu contexto espaço-temporal. De
instabilidade em instabilidade, do provisório ao provisório, voluntário ou refém da
dança das desterritorializações, a cadeia de desapegos exigida pela e para a vida na
rua, vida nômade, faz com que o desejo e/ou mesmo a habilidade de aprofundar laços
topofílicos vá sendo “deixada para trás” como mais uma bagagem inútil ou de duvidosa
valia.
“As ideias de ‘espaço’ e ‘lugar’ não podem ser definidas uma sem a outra. A
partir da segurança e estabilidade do lugar estamos cientes da amplidão, da liberdade
e da ameaça do espaço, e vice-versa.” (TUAN, 1983, p.06). Assim, prescindirá o
morador de rua da necessidade de espaço, ao haver aparente e simplesmente
lugarizado todo o espaço? Não tanto, é claro; mas há paradoxalmente uma ampliação
do poder de lugarizar, como já referido pela diminuição dos fatores de eleição do lugar,
pelas menores exigências, a ponto de transformar-se até não-lugares plenos em sua
45

insalubridade e ausências de fatores propiciadores normalmente de Topofilia, em


lugares. Assim, como se ambos pendessem numa balança, o conceito de espaço
enquanto construção neutra ou hostil, o desconhecido no que tem de ameaça e
promessa, para tais indivíduos, acaba diminuído: é pouca a sua ameaça; a liberdade
com que acena, a ‘promessa’ de boas vivências ou sobrevivências, é realizada na
forçada ou espontânea nomadicidade, que elege lugares provisórios a cada avanço
ou retrocesso.
Ao mesmo tempo, é interessante notar como o meio de vida de rua acaba por
dominar os que nela permanecem. Magni relata que alguns moradores que chagaram
a receber casas populares em conjuntos habitacionais voltavam para as ruas, “centro
ecologicamente mais rico e fértil para sobreviver” (2006, p.38). Práticas estranhas
desde a inabilidade em utilizar um vaso sanitário, até o caso de, não podendo adquirir
um fogão, fazer fogo no próprio piso do apartamento, foram relatadas por funcionários
do Departamento de Habitação de Porto Alegre.
Um dos nossos entrevistados, Luciano (31 anos), originário do Recife e que já
morou, como residenciado ou morador de rua, em diversos estados, já teve três
passagens pela rua (entremeadas com moradia fixa), diz que “Você sai da rua, mas a
rua não sai de você. Você acaba se apegando à rua. Você se acostuma a andar de lá
para cá o tempo todo, é difícil desacostumar.” Ele sonha em retomar moradia fixa e
cursar uma faculdade, mas diz da dificuldade de reacostumar-se no sedentarismo,
num trabalho fixo, compromissado, que ele percebe como uma limitação moral e
espacial, já que o bom da rua é que ele “pode andar à vontade pra cima e pra baixo.”
Certa feita, há anos atrás, pudemos visitar uma instituição rural de acolhida e
reabilitação de moradores em situação de rua e alcoólatras, situada no município de
Itaboraí. Uma instituição privada, de grandes dimensões, mantida através de esforços
religiosos. Ao conversarmos com o diretor e fundador do local, o mesmo relatou caso
de um indivíduo que, egresso da rua, pareceu adaptar-se muito bem ao lugar, a ponto
de tornar-se uma espécie de “braço-direito” do diretor. Com o tempo o mesmo passou
a reparar que, após a hora de almoço, o indivíduo em questão “sumia em direção ao
mato”. Achando que ele ia descansar ou espairecer em solidão, o diretor não
preocupava-se, até que certo dia resolveu seguir o agregado mato adentro, e qual não
foi sua surpresa ao notar que o mesmo construíra uma espécie de maloca, com
pedaço de colchão, panos, caixotes e badulaques os mais diversos, e ali folgava em
secreto, EMULANDO as condições de sua vida pregressa na rua. Ou seja, a rua não
46

saíra dele. Assim, o modo de vida da rua gera aculturação crescente sobre o indivíduo;
enquanto uns, seja em situação de rua ou que de tal situação saíram, sustentam
repulsa, outros conformam-se e o tomam por norma, chegando a extrair prazer do
mesmo: tal cultura de rua e as singularidades de seu nomadismo urbano respondem
pelos fenômenos de atrofia topofílica/fóbica aqui caracterizados; são, assim nos
parece, parte integrante desse modo de ser e viver.
Para aprofundar o entendimento sobre a percepção topofílica dos indivíduos,
duas perguntas casadas foram aplicadas: “Você já sentiu-se apegado a algum lugar
em que tenha morado, antes de vir morar na rua?”; e, para os que responderam “sim”
(doze dentre quatorze indivíduos; um não respondeu a esta questão), “E, já como
morador de rua, você sentiu apego semelhante, o mesmo sentimento de
pertencimento, por algum lugar na rua?”. Dos que responderam sim à primeira
pergunta, apenas três indivíduos responderam ter vivenciado sentimento idêntico ou
assemelhado por local na rua. Outros seis disseram não ter vivenciado tal sentimento,
e três indivíduos não responderam a esta segunda questão. Assim, entendemos que
em geral o “pertencimento” à rua é sentimento outro, diverso do que se sente pelo
lugar de residência (cidade, bairro ou a casa e sua segurança). O nível de hostilidade
da vida na rua, ressaltado por diversos entrevistados, parece deixar em suspensão os
mecanismos de afeição mais profundos.
Quanto ao conceito de lar, ele em geral permanece como categoria moralmente
elevada na percepção dos entrevistados, mesmo encontrando-se destituídos de um,
a julgar pelas suas próprias percepções: Uma minoria referiu lar como uma “casa”,
espaço físico, em suas definições. Para a ampla maioria, lar significa
preponderantemente “família”, uma família, estar com a família, desdobrando-se pelos
temas correlatos de segurança, responsabilidade e afeto. Assim, o lar não está situado
no espaço, não é a casa em que eu morava, ali, aquele quintal, aquele quarto; é um
sentimento ou matriz de sentimento atrelada ao ente amado (ainda que tal ente não
tenha efetivamente existido, ainda que seja idealizado, um lar ideal que o indivíduo
efetivamente nunca teve), à sua presença e ao convívio sadio.
Quando indagados se a rua poderia ser considerada seu ‘lar’, a ampla maioria
respondeu que não. Apenas quatro indivíduos disseram ser a rua seu lar: Maluquinho,
citadino, de 38 anos, 26 anos de rua (desde os 12), e que aparentava sofrer pelos
excessos do uso de entorpecentes; Eliézer, trecheiro, 33 anos, 20 de rua (desde os
13); Luís, citadino/trecheiro, 74 anos, há 54 na rua; e indiretamente Marcelo, 46 anos,
47

29 na rua (na rua desde os 17), trecheiro/andarilho (e hippie, que alegou que, embora
“tenha para onde ir”, em termos de residência, se desejasse residir numa casa,
desejaria uma motorhome para poder viajar). É notável que todos eles possuem já
décadas de vivência nas ruas, três dos quais iniciaram sua rualização ainda na
infância/adolescência (Maluquinho, Eliézer e Marcelo), e três apresentam hábitos de
trecheiros (Eliézer, Marcelo e Luís). Novamente o fator tempo opera para a
assimilação da (situação de) rua como modo de vida a ponto de a mesma ser
considerada um lar: confessando ou não, para tais indivíduos a possibilidade de
abandonar a rua deixa de ser considerada, pois só concebem-se nela, espaço vivido
onde estão adaptados. Sintomática é a frase de Eliézer: “Na rua me sinto no lar. Morar
em cima da terra e debaixo do céu, isso é o lar.”
Já a maioria referiu que a rua não pode ser considerada um lar.
Duas perguntas aparentadas foram feitas: “Existe algum lugar (praça, bairro,
edifício ou construção, esquina etc., aqui na cidade, que você considere bonito”, e
“Existe aqui na cidade algum lugar que você considere especial, ‘maneiro, legal’”?
Quanto a lugar bonito, foram arrolados diversos pontos turísticos ou de interesse sócio
cultural da cidade, tais como o Horto do Fonseca, Biblioteca Parque de Niterói, MAC
(Museu de Arte Contemporânea, na Boa Viagem), Campo de São Bento, bairros
inteiros, como Icaraí e Boa Viagem, praias. Já quando responderam sobre “um lugar
especial”, apenas cinco indivíduos elegeram o mesmo lugar ou algum elemento
presente no mesmo, correspondente à sua resposta sobre “lugar bonito da cidade”;
dentre estes, é interessante notar que dois deles, ambos com fortes laços de fixação
a um mesmo ponto (Ponto Cem Réis e Rua São João), elegeram tais lugares como
especiais, e como lugares bonitos dois edifícios contíguos ao local em que habitam:
respectivamente A Igreja de São Lourenço (Ponto Cem Réis, defronte ao local de
moradia do indivíduo), e Igreja de São João (igualmente defronte à qual o indivíduo
habita). Assim, percebe-se que, ao menos para tais indivíduos em particular, os laços
topofílicos manifestam-se em maior amplitude: fixos ao mesmo lugar (um deles há
treze anos no Ponto Cem Réis), podem prescindir da atrofia topofílica tão necessária
e comum aos indivíduos de caráter nômade, em suas variadas gradações. Mas
destes, um deles, Luís (por sinal o entrevistado com mais tempo de rua: 54 anos), já
morou em diversos estados e sempre buscou livremente a situação de rua; assim, o
laço topofílico pelo lugar de sua fixação (Rua São João) foi deliberado, e
aparentemente ocasionado por atração pelo horizonte relacional do lugar (ele se
48

identifica como “paizão” e cuidador de outros rualizados do lugar, um dos quais é


cego). O indivíduo em questão já vivenciou situações em que as filiações topofílicas
não foram levadas em conta. Entendemos aqui que, ao menos em relação ao
indivíduo (pois carecemos de outros exemplos), o sentimento topofílico não se perde;
é deixado de lado como inoportuno, mas pode ser reassumido, ressuscitado, se a
vontade e as condições lhe forem propícias.
Ainda quanto à eleição de lugares especiais, se a maioria referiu outros lugares
que não os eleitos como “bonitos”, percebe-se que, mais que a beleza, eram atraídos
a eles por fatores diversos e de maior subjetividade (p. ex., praia de Boa Viagem, onde
um indivíduo gosta de ir para “pensar na vida”); aqui se encontram as respostas mais
subjetivas, pois é pela colcha de retalhos das percepções que cada qual elege o lugar
especial; fatores estéticos imbricam-se com a sensação de tranquilidade, laços
históricos com o lugar, ludicidade e outros, até o limite em que os seres humanos não
podem mais definir o que os atrai, pois há sempre aquele algo, o sentimento que
escapa à racionalização e consequente verbalização. Aqui percebemos que o
sentimento topofílico não é de forma alguma extinto em tais indivíduos, ou não
haveriam lugares eleitos; ele está lá, seja amortecido ou atrofiado, seja trancafiado.
No entanto, o fato de não permanecerem em tais locais, no caso em que tal é
possível, pode remeter ao fato de entenderem tais locais como vedados a eles, por
fatores de classe, socioeconômicos e outros. A isso corrobora um outro fato: quando
perguntados se desejariam ter uma casa, como seria essa casa ideal e onde tal casa
seria localizada (praia, campo, cidade, favela), nenhum indivíduo elegeu a praia como
local da moradia ideal, nem mesmo aqueles cinco que elegeram uma determinada
praia em especial, ou “praias” no geral como lugares especiais. Assim, a consciência
de classe, de subalternidade imbuída ou infundida neles pela ordem capitalista parece
dizer que tais áreas lhes são impossíveis, a tal ponto que nem de forma hipotética (“se
você tivesse dinheiro e pudesse construir uma casa hoje, onde ela seria?”) aqueles
que amam praias concebem poder morar nelas.
Assim, chegamos a uma percepção final: A exclusão de que os rualizados são
vítimas opera num nível mais profundo; não apenas seus corpos são degredados
econômica e espacialmente, mas mesmo suas consciências, sim, embora sequer
percebam essa forma cônscio-espacial da exclusão, espécie de opressão subliminar
que macula no âmago suas percepções ambientais. Ei-los vítimas da mais radical das
desterritorializações: a que opera a partir do inconsciente.
49

Importante é salientar que o entendimento sobre o fato de esse ser um


fenômeno de alcance mais amplo, ou mesmo socialmente generalizado, ou se é
apenas manifesto na algo limitada realidade dos moradores em situação de rua,
demande outras e bem maiores pesquisas, e seja mesmo um tema promissor, o que,
dada a delimitação do problema em análise, não comportamos na bagagem do
presente trabalho.
50

6. CONCLUSÃO

As perspectivas humanísticas abrem dimensões únicas de percepção, análise


e entendimento dos fenômenos subjetivos da relação do humano com o espaço. Ao
perscrutar o etéreo, o inominado das vivências, ao adentrar pelos meandros da
psique, é uma nova compreensão do homem o que se ensaia, e o que se descortina
no horizonte.
Inicialmente apresentamos conceituações de lugar, lar e topofilia a partir de
pressupostos da Geografia Humanista, enfatizando os conceitos de topofilia, central
para este trabalho, e lar, que entendemos como sendo o lugar máximo ou lugar dos
lugares.
Em seguida buscamos uma caracterização do morador em situação de rua,
discorrendo sobre sua situação, motivações e características comportamentais,
amparados pela etnologia de Magni e segmentação colhida em Mattos, em sua
condição de singularidade e alteridade como habitantes da rua, aqui entendida como
o centro centrípeto e centrífugo do ecúmeno.
Ao analisarmos os dados obtidos junto aos entrevistados, algumas percepções
fizeram-se dignas de nota. Embora as capacidades de topofilia e topofobia
apresentassem uma nítida atrofia ou enfraquecimento nos indivíduos pesquisados,
notou-se que as particularidades destes sentimentos podem ser as mais díspares de
indivíduo a indivíduo, explicitando a complexidade fenomenológica de tais
sentimentos de cunho eminentemente subjetivo; sentimentos com poder de limitar ou
prejudicar a vivência nômade, exigida pela vida rualizada, são deixados de lado
paulatinamente.
O desprendimento topofílico e topofóbico é inerente ao modo de vida do
nomadismo urbano. Ainda assim, em menor escala percebeu-se amplitude e
variedade perceptiva: o que atrai a um, a outro pode ser repulsivo (jogo
topofílico/topofóbico). Aqueles que escolheram livremente ou optaram, mesmo em
algum momento podendo abandoná-la, a vida nas ruas, são os que apresentaram
menor sujeição a laços topofílicos, embora os fatores precocidade de rualização e
tempo de permanência nas ruas aparentemente colabore para a crescente atrofia de
tais sentimentos sobre todos os indivíduos rualizados.
O centro da urbe não atrai pelo que tem de belo ou moderno: simplesmente
propicia maior visibilidade, que reflete-se diretamente em segurança e oportunidades
51

de conseguir auxílio: o centro é um nicho, o mais propício a determinado modo de


vida. Se pudessem, uma maioria dos entrevistados optaria por possuir residência fixa,
e esta numa área rural.
Assimilados ou imediatamente assimiláveis ao espaço vivido do rualizado, as
paisagens ou lugares não são topofóbicos de per se: o que amedronta é a noite, o
risco duplo que a insegurança noturna (ruas vazias e estado indefeso durante o sono)
propicia.
A percepção de lar, em geral, mantém um status sentimental ético-valorativo; o
lar é família e segurança, independente de localização e realização espacial.
Ainda muita terra ficou por conquistar, no que tange à compreensão da
geograficidade, das espacializações e percepções ambientais do morador em
situação de rua. Aqui buscamos levantar informações através de análise da literatura
e depoimentos, cuja facticidade dá azo a, mais que simples compreensões, novas
questões, surgidas a partir da confrontação dos dados obtidos.
Pretendemos no futuro continuar pela vereda neste trabalho aberta; contra
nosso trabalho, percebemos que entrevistas mais aprofundadas deveriam ser
aplicadas, e possivelmente um maior acompanhamento dos elementos-alvo da
pesquisa; se percebemos que os laços topofílicos são deixados de lado
primordialmente pelo seu caráter inoportuno ao indivíduo lançado à rua e suas
(sobre)vivências, o entendimento de como tal sentimento pode ou não ser reativado,
reassumido, ficou em aberto.
Alguns indivíduos aparentaram atração por locais que em geral são repulsivos
ao indivíduo domiciliado, e mesmo a outros moradores de rua: para além da rua como
objeto-geral em sua relação com o homem que a faz de lugar de morada ou mesmo
de lar, a estranha atração de alguns indivíduos por lugares e não-lugares tipicamente
topofóbicos os mais diversos, ou o reconhecimento e entendimento de uma Topofilia
dos lugares odiosos: nisso esperamos nos aprofundar em um eventual futuro trabalho.
52

REFERÊNCIAS

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55

APÊNDICE 1: Modelo de Questionário

Universidade Salgado de Oliveira - UNIVERSO


Pesquisa para Trabalho de Conclusão de Curso
Licenciatura em Geografia
Aluno: Sammis Reachers Cristence Silva

QUESTIONÁRIO

Local:
Condição climática:
Data: Hora: Sexo: Etnia: Idade:
Nome:
Apelido:
Natural de:
Escolaridade:

1) Há quanto tempo vive na rua?

2) Você gosta de morar na rua? Sim ou não e por quê?

3) Apesar de todas as dificuldades, você vê algo de bom em morar na rua?

4) Você acha algo aqui na rua bonito? Se sim, o quê?

5) Motivos para a escolha de um lugar ou ponto da rua para ficar (podem ser marcadas
mais de uma opção)

( ) Abrigo do clima (sol, chuva, frio etc.).


( ) Beleza
( ) Aconchego / conforto
( ) Proximidade de onde obter alimentação e outros auxílios
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( ) Proximidade do local de trabalho


( ) Segurança
( ) Horizonte relacional (amizade por pessoas das proximidades)
( ) Relação histórica com o lugar (individual ou coletiva)
( ) Paz / tranquilidade
( ) Outros
Qual(is)?:

6) Você se sente livre vivendo na rua? Acha que é mais livre do que se morasse numa
casa?

7) Você prefere ficar em espaços abertos ou num lugar mais fechado (mesmo na rua)?

8) Você gostaria de ter uma casa? Se sim, como seria essa casa?

9) Pra você, o que é uma casa, um lar?

10) Passa todo o tempo na rua? Esporadicamente? Apenas o dia ou a noite? Dorme
em abrigo? Qual?

11) Há algum lugar na rua de que você goste mais, um lugar que você considere
especial de alguma maneira? Se sim, qual? Por quê?

12) Quando está em outro lugar (na própria rua ou num abrigo etc.) sente saudade de
estar ali?

13) Você já sentiu apego por algum lugar em que tenha morado, antes de vir para a
rua? Fale sobre isso.
57

14) E sentiu algo semelhante por algum lugar na rua, depois que se tornou morador
de rua? Algo que lhe lembrasse aquele sentimento de pertencimento, de estar em
‘casa’?

15) Você já morou por algum tempo (acima de 15 dias) em algum outro lugar enquanto
morador de rua?

16) Se sim, sentiu-se apegado àquele lugar? O que sentia em relação a ele? O que
lhe atraiu?

17) Sente saudade? Sei sim, por que?

18) Há algum lugar aqui na rua/cidade que lhe cause medo? Por que? Fale sobre isso.

19) Você sente que sua situação na rua é arriscada, instável. Você pode ser expulso
de um lugar, pode ser ferido por alguém, pode ficar sem conseguir comida. Você se
sente inseguro ou tranquilo em relação a isso? O que você pensa sobre essa
insegurança?

20) Você percebe se as pessoas fingem não ver você, como se você fosse um objeto
na paisagem? O que você pensa e sente em relação a isso?

21) Você consome álcool ou faz uso de alguma droga?

22) Existe algum lugar que você possa dizer que ame?

OBSERVAÇÕES:

Condições psicológicas dos entrevistados


( ) Aparentemente são. ( ) Problemas psicológicos. ( ) Problemas de drogadição.