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Mitos, controvérsias e fatos: construindo a histéria da capoeira” Luiz Renato Vieira’ & Matthias Rohrig Assuncao™” ced poral em ari de 198 “Song, profes do cars ep rabg em poi na Fala de Ect Fee “a Unveil de Bras aor pfx do Departament de Hata da Unveriade de ses, Inglaterra. 0 artigo procure examinar a partir da vasta literatura sobre @ capoeira, os mito ¢ a: controvérsias& luz das fonte eevidéncias atuais procurando identifcar, 0 Tue extd provado, o que & apenas plausvel e 0 que parece claramente equivocad, Procara rejletir sobre a fungdo destes mitos, mostrando que eles se relacionam com tonflos mais abrangentes que se desenrolam na cultura e na sociedade brasileira Jocendo da istvia da capoeira uma hiséria marcada por repturas ¢ conaradies. Palavras-chave: histra da eaposiea, Bras yelagdes racials capoeira regional, capozira Angola Estudos Afro-Asticos (54):81-121, dezembro de 1998 Mitos,controvérsls € at ‘ojejéndo é mais necessériexplicar Hyscience as divulgada, nos sltimos vinte anos, {que ja deu,lteralmente, a “volta a0 mundo”. E praticada no somente em todos os estados brasileiros, mas também na Argentina, nos Estados Unidos, no Canadé, na Europa (Ocidental, em Israel, no Japio © até na Aus- tralia, Ba lista est incompleta. A capocira virou, depois do boxe, a modalidade de uta ‘o-oriental de maior projegio no Ocidente Aomesmo tempo em que se abrem novas academias, a cada dia eresce a literatura sobre a capoeira, acirculam varias revistas especializadas,'dezenas de teses académi- cas tém sido escritas no Brasil eno exterior sobre a capoeira’ e outros tantos livros sobre 0 tema sio publicados a cada ano. Noentanto, historia da caposira, al como ‘la é contada nas academias, oumesmoem muitos livros, continua veiculando uma estranha mistura de mitos e semi-verdades {que se mostra muito reticente &auto-corre- ‘Glo. Eraro soos que, como Nestor Capocira (1992, .12), capoeirstae pesquisador, tm tido a coragem da autocrtica radical ‘A proposta deste artigo é examinar alguns destes mitos econtrovérsias& luz das fontes ¢ evidéncias de que dispomos hoje. Queremos mostrar 0 que podemos, com os conhecimentos de que hoje dispomos aceitar ‘como provado, 0 que 6 apenas plausive, © 0 {que nos parece claramente equivocado. Refetiremos também sobre a fungdo destes mitos, mostrando que se relacionam com conflitos mais abrangentes que se desenro- Jam na cultura e na sociedade brasileira, 1. Mitos e controvérsias no mundo da capoeira E importante notar que, quando falamos em mitos, estamos tratando de concepgoes construlndo 2 hstrla de capoeia vigentes no interior da comunidade dos praticantes da capoeira, veiculadas por diversos meios (tradigio oral, c&nticos, apostilas © publicagdes de pequena circulago), e que tém cumprido a fungl0 cde manterintegrada a comunidade em torno de seus valores considerados fundamen- tajs. No entanto, a concepgdes que a seguir estudaremos so vigentes também para além do estrito universo dos praticantes da Juta pois, uma vez que a capoeira ganhou espagos institucionais e académicos, constituiu-se todo um discurso com pretensies cientificas para sua legitimagio. Existem varios nfveis de mitificagao, primeiro € 0 do mito que nio tem nenhuma base em fatos histéricos nem censinamentos de mestres antigos, mas é inventado para reforcar determinadas posigies idcoldgicas. Em geral, € dificil saber quem inventou o mito, tragar a sua origem precisa. Ele surge em momento ‘oportuno, e acaba sendo repetido tantas vezes que assume ares de verdade incon- testavel. O segundo mais sutil, porque consiste em insistir sobre alguns aspectos ‘em detrimento de outros, que so omitidos Estas verses parciais tém tido fungio importante nos enfrentamentos ideol6gicos, que escolheram ahistéria da capoeira como ‘um dos seus campos privilegiados. Muitas controvérsias sobre a hist6ria da capoeira se assemelharam a um didlogo de surdos, ‘onde 0s argumentos do “outro lado” néo ‘eram considerados. Devemos também distinguir os diferen- tes niveis de discurso, veiculados pelos istintos agentes. HA que se distinguir a conversa informal de capoeiristas, por ‘ocasido de “rodas” ou treinos, das repor- lagens nos jornais sobre estes eventos, & entre as publicagSes mais especializadas, ‘os manuais redigidos por professores ¢ mestres dos textos académicos (artigos, Estudos Afro-Asiticos 34 « dezembro de 1998 « 82 Lule Renato Vieira e Mathias Rahring Assungso teses ¢ livios). A distancia entre os dois lkimos nfo é de nenhuma maneira absoluta, tanto que ha mesires ou capociristas que viraram estudiosos da histéria da capoeira que chegaram a admiraveis niveis de erudigo, como Bira Almeida (Mestre Acordeon), Jair Moura, Nestor Capoeira, Angelo Decénio, Raimundo César Alves de ‘Almeida (Mestre Itapoan).’ Por outro lado, Varios cientistas sociais estudiosos da ‘capoeira so ou eram também praticantes daarte, como Alejandro Frigerio, J. Lowell Lewis, Muniz, Sodsé, Leticia Vidor, et Destart, “se difunde a figura do estudioso- jogador” (Soares, 1995, p.17). Este processo, evidentemente, tem implicagGes metodo- I6gicas importantes. Possibilita ao analista, por um lado, uma visdo itera da dindmica ‘que estuda. Por outro, a insereo do pesqui- sador no campo — no sentido soviolégico de Pierre Bourdieu — da capoeira, o que, sem divida alguma, imerfere nas posigBes ‘que este assume quanto a aspectos doutri- nérios da luta. Por exemplo, as suas avalia- «ges dos sistemas de praduacio, do resgate de diversos rituais ¢ de outras praticas adotadas por diversos grupos de capoeira atualmente existentes dependerio muito dos contatos que conseguiu estabelecer ‘com cada um deles.* Nio se pode exigir 0 mesmo rigor ¢ euidado com detalhes historiogréficos de textos elaborados para aulas, mais preoeu- pados com a diditica, com a maneira pela qual é passada adiante a mensagem, e de textos mais eruditos. Nossa postura aqui é de tentar dialogar com estes diferentes textos. Pensamos que € possivel respeitar ‘os ensinamentos dos mestres antigos e, a0 ‘mesmo tempo, guardar uma distancia erica em relagdo a0s seus discursos, isto 6, levar «em consideragao 0 contexto no qual foram elaborados, eas informagGes as quais nto tiveram acesso. Queremos contrbuir para que os achados das pesquisas académicas sejam discutidos, ¢ assim permitam a claboracdo de uma visio menos a-hist6rica da capoeira. 1.1. O mito das origens remotas Numa noite escura qualquer do século XVI, o primeiro negro escapou da senzala, fugiu do engenho, livrou-se da servidao, ganhou a liberdade... Escapou 0 segundo € 0 terceiro, na tentativa de segui-lo, fracassou. Recaptu- rado, recebeu 0 castigo dos eSerav0s. (x) AS perseguicdes noo tardaram e o sertao se encheu de capitdes-do-mato em busca dos escravos foragidos. Semarmas-e sem ‘munigdes, os negros voltaram: @ ser guerreiros utilizando aquele esporte nascido nas noites sujas das senzalas, € 0 esporte que era disfargado em danga se transformou em luta, a luta dos homens da capoeira." capoeira assim foi eriada” Joma da Capoeira,n. 1, 1996 Noentender de muitos capoeiristas, quando o primeiro escravo angolano pisow a Tera de Santa Cruz, jo teria feito no passo da singa eno ritmo de Sto Bento Grande* A origem africana da capocira € defendida getalmente pelos praticantes da Capocira “Angola. Nsto, podem se waler da sfirmagio do Mestre Pastina: “Nao hé divida de que a capoeira veio para o Brasil com os escravosafrcanos" (1988, p. 22) [Nasa versto mais radical, sta concep- io sustenta que a capocira Angola teria “surgido" na Africa Central, sendo levada parao Brasil pelos escravos angols, O Bra- sil chega a ser visto como apenas a terra Estudos Afro-Asiticos 54 » derembro de 1998 « 83