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Introdução ao Brasil

UM BANQUETE NO TRÓPICO

ORGANIZADOR
Lourenço Dantas Mota

2ª edição

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasilein do Lino, SP, B."asil)

Introdução ao Brasil. Um banquete no trópico, 2 / Lourenço


Dantas Mota (organizador.) - 2" ed. - São Paulo: Editora
SENAC São Paulo, 2002.

Vários autores.
ISBN 85-7359-176-5

1. Brasil - História - 1500-2000 2. Brasil - Livros -


Resenhas 3. Escritores brasileiros - Livros e leitura 4. Livros
selecionados - Brasil I. Mota, Lourenço Dantas, 1944-.

00-5102 CDD-028.10981

Índices pan catálogo sistemático: EDITORA


c:::::::J
1. Brasil : História : Livros clássicos : Resenhas : senac
Ciências da informação
2. Resenhas: Livros clássicos: Brasil: História:
Ciências da informação
028.10981

028.10981
DO
sÃo PAULO
ADMINISTRAÇÃO REGIONAL DO SENAC NO ESTADO DE SÃO PAULO
T
I

Presidente do Conselho Regional: Abram Szajman


Diretor do Departamento Regional: Luiz Francisco de Assis Salgado
Superintendente de Operações: Darcio Sayad Maia
Sumário
EDITORASENAC SÃO PAULO
Conselho Editorial: Luiz Francisco de Assis Salgado
Clairton Martins
Luiz Carlos Dourado
Darcio Sayad Maia
Marcus Vinicius BariliAlves

Editor: Marcus Vinicius Barili Alves (vinicius@sp.senac.br)

Coordenação de Prospecção Editorial: Isabel M. M. Alexandre (ialexand@sp.senac.br) 7 97


Coordenação de Produção Editorial: Antonio Roberto Bertelli (abertell@sp.senac.br) Nota do Editor AFONSO D'EsCRAGNOLLE TAUNAY

Preparação de Texto: J. Monteiro


História geral das bandeiras paulistas
Jussara Rodrigues Gomes
9
Wilma Peres Costa
Revisão de Texto: Katia Miaciro Introdução
Maristela S. da Nóbrega
Silvana Vieira Lourenço Dantas Mota
TiemiK. 123
Capa: João Baptista da Costa Aguiar 25 ALCÂNTARA 11AcHADO
EditoraçãoEletrônica: Fabiana Fernandes
Impressão e Acabamento: Cromosete Gráfica e Editora Ltda. SÉRGIO BUARQUE DE HOLANDA Vida e morte do bandeirante
Visão do paraíso
Gerência Comercial: Marcus Vinicius BariliAlves (vinicius@sp.senac.br) Laura de Mello e Souza
Administração: Rubens Gonçalves Folha (rfolha@sp.senac.br) Ronaldo Vainfas

43 143
SERAFIM LEITE OLIVEIRA Ln.iA
História da Companhia D. João VI no Brasil
de Jesus no Brasil
Guilherme Pereira das Neves
João Adolfo Hansen

75 167
Todos os direitos desta edição reservados à FRANCISCO ADOLFO DE V ARNHAGEN JOAQUIM NABUCO
Editora SENAC São Paulo
História geral do Brasil O abolicionismo
Rua Rui Barbosa, 377 - 1Q andar - Bela Vista - CEP 01326-010
Caixa Postal 3595 - CEP 01060-970 - São Paulo - SP Lucia Maria Paschoal Guimarães Marco Aurélio Nogueira
Tel. (11) 3284-4322 - Fax (lI) 289-9634
E-mail: eds@sp.senac.br
Home page: http://www.editorasenacsp.com.br

© Editora SENAC São Paulo, 2000


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191 299
T
I

SÍLVIO ROMERO
História da literatura brasileira
OLIVEIRA VIANA
Populações meridionais do Brasil
Nota do Editor
Benjamin Abdala Junior Gildo Marçal Brandão

327
219 GILBERTO FREIRE
JOAQUIM NABUCO Sobrados e mucambos
Minha formação
Brasilio Sallum Jr.
Maria Alice Rezende de Carvalho
357
GILBERTO FREIRE
237 Ordem e progresso
o primeiro volume de Introdução ao Brasil. Um banquete no trópico,
MANUEL BONFIM publicado no final de 1999, assinalou um sucesso editorial no SENAC de São
A América Latina: males de origem Elide Rugai Bastos Paulo, premiando a idéia esplendidamente realizada de reunir estudiosos para
a apresentação de obras-chave da cultura nacional. Naquele "banquete" ser-
Roberto Ventura 385
\ viu-se um conjunto de resenhas que vai dos Sermões de Vieira à Revolução
FLORESTAN FERNANDES burguesa no Brasil de Florestan Fernandes, na intenção de que esses traba-
A integração do negro na lhos criassem "elos que iluminem nossos 500 Anos".
259 sociedade de classes Assim se quis e se fez, com resultados que a acolhida do público e da
ALBERTO TORRES
Gabriel Cohn crítica plenamente aprovou.
A organização nacional Este segundo "banquete", em que entram dezessete outras resenhas ex-
Rolf Kuntz 403 tensas a partir da referente a Visão do paraíso de Sérgio Buarque de Holanda,
DARCI RIBEIRO repete os elos criados no primeiro, já agora também no propósito de que esses
Os índios e a citilização se estendam à formação de um todo dos dois volumes, como bem explica o
279 João Pacheco de Oliveira
texto introdutório do organizador Lourenço Dantas Mota.
JOSÉ VERÍSSIMO Dá-se continuidade aqui ao que se pretendia e se conseguiu no primeiro
História da literatura brasileira volume de Introdução ao Brasil: ter muitos leitores participando da "viva
423 discussão sobre este país mestiço localizado no trópico".
João Alexandre Barbosa Sobre os autores
T

Introdução

Lourenço Dantas Mota


T
,
Do sonho de se encontrar o paraíso perdido nas novas terras da América,
até o balanço da integração de negros e índios na sociedade já madura do
século XX, as dezessete obras resenhadas nesta continuação do "banquete no
trópico" lançam mais luzes sobre o que foi a trajetória do Brasil nestes cinco
séculos. Ao mesmo tempo em que se retomam temas presentes no volume
anterior, são introduzidos aqui outros igualmente indispensáveis à compreen-
são da sociedade, da economia, das instituições políticas e da cultura brasilei-
ras, como veremos nesta introdução guiada pelos resenhistas. A questões como
a miscigenação, para citar apenas uma das mais importantes discutidas no
primeiro volume, vêm se juntar, entre outras, a expansão territorial e o
bandeirismo, a originalidade de nosso processo de independência e o peso da
herança da escravidão, que impregnou a sociedade brasileira.
Os dois volumes formam um todo, não só porque Sobrados e mucambos
e Ordem e progresso completam o estudo de Gilberto Freire sobre a socieda-
de patriarcal, ou porque Populações meridionais do Brasil é necessário para
a exata compreensão de Instituições políticas brasileiras, obra mais madura
e acabada de Oliveira Viana, ou ainda porque Visão do paraíso retoma teses
importantes de Raízes do Brasil. É também, por exemplo, porque sem a inter-
pretação do Brasil contida na História da literatura brasileira, de Sílvio
Romero, que influenciou estudiosos que em seguida se ocuparam do tema,
sem a análise do problema da escravidão de O abolicionismo, de Joaquim
Nabuco, e sem A integração do negro na sociedade de classes, de Florestan
Fernandes, a discussão iniciada no primeiro volume ficaria incompleta.
"Os motivos edênicos no descobrimento e colonização do Brasil", subtí-
tulo de Visão do paraíso, são o tema que abre este segundo volume. Neste
livro - que se estrutura a partir de uma sistemática comparação entre as idéias
e imagens que portugueses e espanhóis construíram sobre os espaços ameri-
canos, como explica Ronaldo Vainfas - Sérgio Buarque de Holanda retoma o
questionamento da homogeneidade da colonização ibérica presente em Raízes
do Brasil. O problema central está exposto logo no primeiro capítulo, "Expe-
riência e fantasia". Interpretando o autor, Vainfas resume o essencial do con-
traste entre portugueses e espanhóis:

Do lado espanhol, predomínio de visões edenizadoras, recuperação e recriação das


imagens paradisíacas produzidas no Ocidente havia séculos; do lado português, pre-
domínio de visões pragmáticas, pouco afeitas ao ideário edenizador e, de resto, aos
elementos maravilhosos que caracterizavam o imaginário ocidental na época das des-
cobertas.

11
INTRODUÇÃO LOURENÇO DANTAS MOTA

Assim, aos portugueses corresponde a "experiência", enquanto a "fanta- o fim principal da missão jesuítica no Brasil e no Maranhão e Grão-Pará é ser útil para
a Igreja, combatendo as heresias e convertendo a gentilidade. Da perspectiva
sia" é principalmente hispânica.
missionária, o padre é um novo apóstolo que toma sobre os ombros os pecados do
Ao fim desse livro extremamente rico, talvez o mais erudito de nossa
mundo na "conquista espiritual" das novas terras, fazendo suas as armas de Cristo,
historiografia, diz Vainfas que "é por metáfora de uma colonização genuina- segundo o imaginário do testemunho e do martírio.
mente predatória que o autor conclui". Nas palavras de Sérgio Buarque:
Um dos alvos de Francisco Adolfo de Varnhagen, em sua História geral
Teremos também os nossos eldorados. Os das minas certamente, mas ainda o do
do Brasil antes de sua separação e independência de Portugal, é justa-
açúcar, o do tabaco, de tantos outros gêneros agrícolas, que se tiram da terra fértil,
mente a ação dos jesuítas, chamados de "sectários da pseudofilantropia de
enquanto fértil, como o ouro se extrai, até esgotar-se do cascalho, sem retribuição de
beneficios. Bartolomeu de Las Casas" por protegerem os índios. Foi o tratamento dado
por Varnhagen aos índios, observa Lucia Guimarães, a razão da má vontade
A ação missionária dos jesuítas, que durou 210 anos e deixou marca com que seu livro foi recebido pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro,
profunda na sociedade colonial- "uma obra sem exemplo na história", segun- no qual prevalecia uma visão romântica das origens da nacionalidade, de inspi-
do Capistrano de Abreu -, é estudada na História da Companhia de Jesus ração indigenista. Avaliação equivocada, pois "trata-se de uma contribuição
no Brasil, do jesuíta português Serafim Leite. No vasto painel que traça nos rara, que contrastava com a escassa historiografia nacional da época, período
dez volumes da obra, o autor mostra as práticas catequéticas e educativas da em que poucos autores conseguiam ultrapassar os limites da crônica".
Companhia de Jesus, assim como as tensões e conflitos que envolveramjesuí- Do ponto de vista interpretativo, a história do Brasil de Varnhagen apre-
tas, indígenas, colonos, a Coroa, padres seculares e membros de outras ordens senta-se como uma continuação da história da metrópole. A idéia de continui-
religiosas, governadores gerais e funcionários da administração portuguesa nos dade, diz Lucia Guimarães, é "o fio condutor da sua narrativa desde a primeira
séculos XVI, XVII e XVIII. Quem se aventura nessa obra "que assombra página da obra", e o Brasil é visto como uma criação do império português.
pela paciência e erudição prodigiosas" - adverte João Adolfo Hansen - deve Outra característica é o papel privilegiado que atribui ao Estado, "daí a sua
ter em mente que sua documentação é fundamentalmente jesuítica, ou seja, é ênfase na primazia dos fatos políticos, relativamente isolados das forças eco-
uma história jesuítica da Companhia de Jesus. E feita de uma perspectiva nômicas e sociais". Em resumo,
portuguesa.
escrito no início da década de 1850, o livro reflete a problemática do processo de
Tratando de um aspecto essencial da missão jesuítica - a forma de enca-
consolidação do Estado nacional. Se a discussão acerca das raízes da nacionalidade
rar as culturas indígenas e africanas - esclarece Hansen que na conceituação
dividia as opiniões dos letrados, não há dúvidas quanto às origens do Estado [ ... ] O
de Serafim Leite a diferença cultural dos índios catequizados ou dos negros Estado estabelecido em 1822 constituía-se no legítimo herdeiro e sucessor do império
escravizados "não é antropológica, mas religiosa". No caso da catequese dos ultramarino português. Legado que se sustentava desde o idioma de Camões até a
grupos indígenas, presença de um representante da dinastia de Bragança no trono brasileiro. E não resta
dúvida de que Varnhagen foi o autor que melhor desenvolveu essas premissas.
a cultura dos grupos aldeados pelos jesuítas sempre é dada como evidentemente
humana, em oposição às teses colonialistas que muitas vezes afirmavam a animalidade A longa e minuciosa História geral das bandeiras paulistas, em onze
dos índios como validação de seu extermínio ou escravidão, mas de uma humanidade volumes, de Afonso Taunay, integra o revisionismo histórico iniciado por
caracterizada como semelhança negativa, distante e deformada da verdade cristã.
Capistrano de Abreu e inspirado na idéia de rever e atualizar a História de
Varnhagen,1 segundo Wilma Peres Costa. Se na historiografia que tinha suas
o que explica os conflitos freqüentes que opuseram os jesuítas aos colo-
nos interessados na exploração da mão-de-obra indígena.
1 Ver Ronaldo Vainfas, "Capistrano de Abreu, Capítulos de história colonial", em Lourenço Dantas
Como parte de um projeto histórico de renovação da fé católica na situa- Mota (org.), Introdução ao Brasil. Um banquete no trópico (2 1 ed. São Paulo: Editora SENAC
ção da cristandade dividida pela Reforma, afirma Hansen, São Paulo, 2000), pp. 171-189.

12 13
INTRODUÇÃO
T
tI
LOURENÇO DANTAS MOTA

raízes em Varnhagen - diz ela - a "invenção" do território era principalmente a compreensão histórica repousa também nos atos do dia-a-dia, monótonos,
uma obra da Coroa portuguesa, e a manutenção e consolidação da unidade repetitivos, banais e até mesmo mesquinhos. Sem julgar o passado - pois não
territorial do Brasil uma obra da monarquia e da continuidade dinástica dos compete ao historiador fazê-lo -, alertou que a pobreza da capitania poderia se
Bragança, "para Taunay os fautores do território foram os colonos, isto é, os transformar em categoria explicativa da sua história, e abriu caminho para o
sertanistas paulistas", que muitas vezes agiram em franca oposição à metrópole. estudo dos mecanismos culturais e econômicos da expansão paulista". E, em-
O que melhor caracteriza a contribuição de Taunay entre os estudiosos bora essa pobreza venha sendo relativizada por estudos recentes, a contribui-
do bandeirismo, acrescenta, é a ênfase no seu aspecto geopolítico. A grande ção de Alcântara Machado continua sendo um marco.
importância das bandeiras está na "expansão do território da América portu- Ao tratar do intrincado jogo diplomático que envolve a transferência da
guesa à custa do território pertencente à Espanha pelo Tratado de Tordesilhas, Corte portuguesa para o Rio de Janeiro, em 1808, e da nova realidade criada
dessa maneira legando à nação brasileira parcela significativa de sua dimen- por ela, Oliveira Lima traz, com o seu D. João VI no Brasil, importantes
são continental". O que não impede Taunay de reconhecer que a principal elementos para a compreensão das condições e características peculiares do
motivação dos bandeirantes foi a escravização do índio. Estabelece assim uma processo que levou à independência do Brasil, tão diferente dos de todos os
relação entre escravidão e formação territorial - "em dimensão até então não outros países americanos. Para ele, a decisão da Corte de vir para o Brasil
tratada entre nós", observa Wilma Peres Costa - e chega a afirmar que a revelou-se mais uma inteligente e feliz manobra política do que uma deserção
escravidão foi "o preço a pagar pelo Brasil". A maior contribuição dessa obra, covarde. Segundo Guilherme Pereira das Neves, a essa percepção original da
embora isto signifique lê-la em sinal contrário, conclui ela, é "estabelecer o mudança da sede do trono o autor acrescenta a "idéia de que o estabelecimen-
nexo perverso entre colonização e escravidão e entre escravidão e construção to da Corte na América traria as condições para fundar um novo império". E
do território em nossa história". essa intenção, ao reagir com "os acontecimentos na Europa, com as condições
Muito diferente do de Taunay é o olhar - e não só o olhar, também o do Brasil e de Portugal e com as limitações políticas e sociais das tradições
estilo simples, direto, elegante - que José de Alcântara Machado de Oliveira luso-brasileiras, daria origem, como mostra Oliveira Lima, a uma série de
lança sobre o São Paulo dos sertanistas, em Vida e morte do bandeirante. antinomias, responsáveis, em última análise, pelo rompimento de 1822".
Olhar análogo ao dos pintores holandeses do século XVII, empenhados em Mas, se os acontecimentos políticos e o jogo das intrigas diplomáticas
retratar aspectos aparentemente secundários da vida cotidiana, no dizer de constituem a espinha dorsal do livro, são "as análises sociais e culturais que lhe
Laura de Mello e Souza: "Olhar capaz de revelar miudezas e destacar detalhes emprestam a profundidade e a densidade de obra-prima". Oliveira Lima re-
imperceptíveis a uma primeira visada, olhar de microscópio". Não trata da veste a estada de D. João VI no Brasil "com a dimensão de um conflito de
epopéia bandeirante e nada tem de grandiloqüente. Antecipando-se aos histo- culturas - entre a cerimônia oficial e a festa popular, entre a etiqueta cortesã e
riadores de sua época (o livro foi publicado em 1929), parte do estudo de cerca a efusão espontânea da população, entre os hissopes dos clérigos e as denta-
de quatrocentos inventários paulistas, de um período que vai de 1578 a 1700, duras nacaradas dos escravos - do qual nasceria o país independente". Na
para traçar um quadro do cotidiano de São Paulo - fortunas, hábitat, mobílias, descrição da sociedade local "mostra-se sensível aos mesmos detalhes do co-
baixelas, roupas, costumes, crenças, instituições. E mostra também as condi- tidiano que posteriormente iriam deleitar Gilberto Freire". Ou como diz Roberto
ções de vida - utensílios, armas, roupas, alimentos e costumes - dos sertanistas DaMatta - citado por Guilherme Pereira das Neves - "o que fascina neste
em suas expedições. livro é menos os meandros de uma história política e diplomática que os seus
Para Alcântara Machado, o que caracteriza a vida paulista nos primeiros subtextos sociológicos e culturais, quando ele reconstrói a sociedade local".
tempos é a pobreza. E, mesmo quando começam a aparecer os sinais de rique- Sociedade desde o início marcada pelo estigma do trabalho escravo, cuja
za em meados do século XVII, o autor mostra - diz Laura de Mello e Souza - abolição deveria completar a independência para finalmente elevar o Brasil "à
que "nada se encontra que justifique o exagero dos linhagistas ou de autores dignidade de país livre", como diz Joaquim Nabuco em O abolicionismo, pu-
como Oliveira Viana, que viram em São Paulo ambientes de luxo europeu". blicado em 1883 e que, escrito como livro de combate, de propaganda, logo
Alcântara Machado soube melhor do que ninguém no seu tempo "mostrar que mostrou ter ficado muito acima da intenção inicial do autor - uma obra de

14 15
INTRODUÇÃO LOURENÇO DANTAS MOTA

interesse pennanente e importância decisiva para a compreensão do Brasil. A dagem dos fatos literários e culturais. Do ponto de vista sociológico, sua prin-
condenação moral e ética da escravidão, explica Marco Aurélio Nogueira, cipal contribuição está na defesa da mestiçagem. Para ele, fonnou-se no Bra-
veio de par com uma justificativa teórica dos motivos que exigiam o seu fim. sil um tipo novo - no qual predomina a mestiçagem tanto do ponto de vista
Nabuco, acrescenta, desenvolveu a tese de que a escravidão ocupava o centro fisico como cultural- como conseqüência da ação de cinco fatores: o português,
do organismo social, fonnando um sistema completo, que corrompia, debilitava o negro, o índio, o meio fisico e a imitação estrangeira. Valoriza tanto a
e degradava o conjunto da nação. "O nosso caráter, o nosso temperamento, a mestiçagem que ela é tomada como padrão para avaliar um autor: quanto mais
nossa organização toda, fisica, intelectual e moral, acha-se terrivelmente afe- mestiço mais próximo do caráter nacional brasileiro. Mas, com a extinção do
tada pelas influências com que a escravidão passou trezentos anos a pennear tráfico de escravos, o gradual desaparecimento dos índios e a imigração euro-
a sociedade brasileira", afinna Nabuco. Daí por que analisá-la e conhecê-la péia, sustentava ele que poderá vir a predominar no futuro, "ao que se pode
era o mesmo que pensar o país como um todo. supor, a feição branca em nosso mestiçamento". Por causa da exaltação da
A escravidão estava "estreitamente ligada por infinitas relações orgânicas mestiçagem encontram-se fortes ecos de Sílvio Romero em Gilberto Freire.
à nossa constituição". Deu-nos um povo, construíra o país. Ainda nas palavras Mas, quando ela caminha para o ideal de branqueamento, com conotações
de Nabuco, "tudo, absolutamente tudo, que existe como resultado do trabalho racistas, é em Oliveira Viana que se faz sentir sua presença. Não é sem razão
manual, como emprego de capital, como acumulação de riqueza, não passa de que Benjamin Abdala cita Antonio Candido, para quem "a contradição era o
doação gratuita da raça que trabalha à que faz trabalhar". Porque a escravidão seu modo próprio de viver o pensamento".
impregnou a vida do país em todos os seus aspectos, não era suficiente a sua Em Minha formação, de Joaquim Nabuco, publicado em 1900, está ex-
simples abolição, como afinal se fez. O projeto por ele proposto em O aboli- presso o "sentimento de crise que acometeu as elites imperiais no contexto
cionismo encontrou sua melhor síntese em frase de um discurso pronunciado na republicano e a mais vigorosa defesa de um futuro pautado pela tradição bra-
campanha eleitoral de 1884, um ano depois da publicação do livro: ''Não nos sileira" - diz Maria Alice Rezende de Carvalho. O programa político implícito
basta acabar com a escravidão; é preciso destruir a obra da escravidão". O que no livro é a defesa da continuidade e o elogio à tradição refonnista do Império,
deveria ser feito por meio de uma série de refonnas nunca realizadas. Só assim em oposição à intenção republicana de romper com o passado para inventar
seria possível "suprimir efetivamente a escravidão da constituição social". um outro Brasil. O livro pode ser lido "como a sugestão política do reencontro
Para Sílvio Romero, em sua História da literatura brasileira, publicada do país consigo mesmo", com Nabuco esperando "corrigir o personalismo de
em 1888 em dois volumes e depois ampliada para cinco por Nelson Romero que eram acometidos os novos líderes políticos, subordinando-os à exemplari-
com a inclusão de outros trabalhos esparsos - sendo essa a edição aqui rese- dade das gerações que os precederam para a realização de um destino nacio-
nhada -, "a literatura é um campo do conhecimento e não se limita às belas- nal esboçado no Império".
letras", como esclarece Benj amin Abdala Junior, e por isso abarca toda a história A importância desse livro não se esgota aí. Em Minha formação, está
cultural do país. Apresenta uma síntese da cultura brasileira, matizada pelos também esboçada uma "sociologia dos intelectuais periféricos, construída a
padrões e as cores de como nos imaginávamos na virada do século XIX para partir dos dilemas vivenciados pelo próprio autor". Para Nabuco, o traço ca-
o XX. É, portanto, um estudo do Brasil e não apenas da sua literatura. Para racterístico de qualquer brasileiro relativamente culto é a dualidade, a incapa-
ele, "o sistema literário seria resultante de uma interação com outros sistemas cidade de satisfazer-se exclusivamente na Europa ou no Brasil. Nas suas
e estaria ligado às condições da circulação literária de cada momento históri- palavras, "de um lado do mar, sente-se a ausência do mundo; do outro, a au-
co. Este seria detenninante, colocando a literatura como um 'produto cultural' sência do país. O sentimento em nós é brasileiro, a imaginação européia". Ou,
subordinando-a assim aos fatos históricos e a detenninações de caráter polí- como afinna Evaldo Cabral de Mello em prefácio a edição comemorativa do
tico-social". centenário do livro, citado por Maria Alice Rezende de Carvalho, Nabuco
Do ponto de vista literário, sua História, segundo Benjamin Abdala, sig- encarna o "dilema do mazombo", a ambigüidade do descendente de europeu,
nificou um avanço para o pensamento crítico, pela preocupação metodológica, com um pé na América e outro na Europa. Para ele, o livro fonnula esse
que veio a constituir um marco inicial no Brasil de toda uma linhagem de abor- dilema "mais certeiramente do que qualquer outra obra de autor nacional".

16 17
INTRODUÇÃO T LOURENÇO DANTAS MOTA

Em A América Latina: males de origem, de Manuel Bonfim, publicado oferecem duas perspectivas para a visão do mundo político. A primeira é a
em 1905, a condenação do racismo e a aceitação da mestiçagem aparecem perspectiva de um poder central "modelador da vida coletiva e guardião da
sem as contradições e ambigüidades de Sílvio Romero. Ele rompe com os unidade nacional e dos objetivos permanentes do país. Esse poder é um
modelos de pensamento de seu tempo, ao afastar a hipótese de inferioridade demiurgo, não um criador: a nação pode ser uma obra de arte, mas é preciso,
racial e valorizar os tipos mestiços e as culturas cruzadas - como explica para bem realizá-la, respeitar as condições fixadas pela história do povo". A
Roberto Ventura -, antecipando posições depois adotadas por Gilberto Freire segunda perspectiva é "a dos homens, portadores de direitos substantivos".
em Casa-grande & senzala. Bonfim "atacou as teorias racistas e a crença Torres demonstra preocupação com as liberdades individuais. Mas a
na superioridade das raças ditas 'puras', por serem idéias que se ligavam aos concretização desses valores democráticos só seria possível no Brasil por meio
interesses de dominação neocolonial dos países europeus". Essas teorias, nas da atuação "de um governo muito forte, caracterizado pela presença de um
palavras duras do autor, não eram mais do que "etnologia privativa das grandes Poder Coordenador capaz de intervir em todas as questões de interesse públi-
nações salteadoras", ou "sofisma abjeto do egoísmo humano, hipocritamente co e em todos os níveis da administração". A defesa de um poder central forte
mascarado de ciência barata". inspirou pensadores autoritários e acabou sendo sua principal influência, ape-
Pensador original, Bonfim atribui os males dos países latino-americanos sar da defesa igualmente decidida dos direitos e das liberdades individuais.
- embora trate da América Latina, é sobretudo o Brasil que ele tem em mente A publicação em 1916 da História da literatura brasileira , de José
- às características sociais dos colonizadores, marcados pelo parasitismo, que, Veríssimo, o outro grande crítico da época ao lado de Sílvio Romero, completa
como diz Ventura, é um "conceito-chave em seu pensamento, que ele transpôs o balanço da produção literária até a virada do século XIX para o século XX.
da biologia". A partir dele, o autor "criou uma teoria biológica da mais-valia, Segundo João Alexandre Barbosa, com ela José Veríssimo encerrava por um
segundo a qual as elites locais, as metrópoles coloniais e as potências imperia- lado toda uma "seqüência de esforços oitocentistas em pró de uma história
listas seriam parasitas das classes trabalhadoras, tomando para si a riqueza literária brasileira, desde os primeiros indícios românticos até a contracorrente
que estas produzem". É assim, prossegue, que ele explica "a produção e apro- de Sílvio Romero", e, por outro, "iniciava a abertura para uma nova historiografia
priação do trabalho no nível interno das relações entre classes e, em termos que somente meio século depois, nos anos 50 do século XX, encontraria a sua
internacionais, a dependência entre colônias e metrópoles". real continuidade", referindo-se principalmente à publicação em 1959 de For-
Originais também - porque destoavam do pensamento dominante entre mação da literatura brasileira, de Antonio Candido. 2
os dirigentes do novo regime republicano, dos quais fazia parte - são as teses A sua noção de literatura, expressa na introdução à História, é essencial
defendidas por Alberto Torres em A organização nacional, publicado em para entender o sentido da obra e também o que a distingue da História de
1914. Trata-se de uma das críticas mais duras à Constituição de 1891, especial- Sílvio Romero. Para José Veríssimo "literatura é arte literária. Somente o es-
mente ao federalismo estabelecido por ela, vinda de homem que conhecia muito crito com o propósito ou a intenção dessa arte, isto é, com os artificios de
bem as engrenagens do novo regime republicano, tendo sido ministro da Justi- invenção e de composição que a constituem, é, a meu ver, literatura". Recusa
ça, governador do estado do Rio de Janeiro e ministro do Supremo Tribunal por ISSO a
Federal. Sua obra, observa Rolf Kuntz, se insere na preocupação de procurar
pseudonovidade germânica que no vocábulo literatura compreende tudo o que se
soluções brasileiras para problemas brasileiros, que crescia então e iria inspirar
escreve num país, poesia lírica e economia política, romance e direito público, teatro
nas décadas seguintes um amplo movimento de renovação do pensamento e artigos de jornal e até o que se não escreve, discursos parlamentares, cantigas e
social e político, da literatura, da música e das artes plásticas. Ele vê na primei- histórias populares, enfim autores e obras de todo o gênero.
ra constituição republicana uma mera cópia, uma "roupagem de empréstimo",
sem ligação profunda com a realidade brasileira.
No projeto de constituição que propõe para o Brasil, as passagens sobre
o Poder Coordenador, uma inovação, e sobre os direitos e garantias individuais 1 Ver Benjamin Abdala Junior, "Antonio Candido, Formação da literatura brasileira", em Lourenço
são, diz Kuntz, os elementos mais esclarecedores do seu pensamento. Elas Dantas Mota (org.), Introdução ao Brasil. Um banquete no trópico, cit., pp. 357-379.

18 19
LOURENÇO DANTAS MOTA
INTRODUÇÃO

com uma extraordinária minúcia, ancorado sempre em enorme riqueza de documen-


Poucas obras suscitaram e continuam a suscitar até hoje tanta polêmica
tos, que incluem relatórios oficiais, livros, memórias, relatos de viagem, anúncios de
quanto Populações meridionais do Brasil, de Oliveira Viana, composta por jornal [ ... ] Cada capítulo retoma o patriarcalismo de um ângulo diferente e segue o seu
dois volumes - o primeiro (1920) dedicado às populações rurais do centro-sul desdobrar no tempo desde o século XVIII, mas quase sempre indo a período anterior,
(paulistas, fluminenses e mineiros) e o segundo (publicado postumamente em até o auge do Império,já na segunda parte do século XIX.
1952) ao "campeador riograndense", sendo o primeiro o mais conhecido, im-
portante e bem realizado. O seu objetivo, explica Gildo Marçal Brandão, era E O resultado, tal como no primeiro livro da trilogia, é "deslumbrante tanto
estudar "essas obscuras gentes de nosso interior", que teriam feito o Brasil, para o olhar do analista da sociedade como para o apreciador da beleza da
mas eram desprezadas pelos intelectuais e políticos cuja "fascinação magnéti- linguagem" .
ca" pelos modelos políticos estrangeiros levara-os a dar as costas ao "país Sobrados e mucambos não conclui, limitando-se o autor a e~cerrá-Io
real". E, com base nesse estudo, formular o projeto de um novo Estado e de com um capítulo em que discute o caráter e a dinâmica da miscigenação da
uma nova diretriz política capaz de criar uma nação solidária, retomando a cultura e da sociedade brasileiras e sua vinculação com as raças formadoras.
obra interrompida dos "reacionários audazes" que salvaram o Império. O ponto-chave da argumentação de Gilberto Freire, nas suas palavras, é que
"o característico mais vivo do ambiente social brasileiro parece-nos hoje o da
A imagem do Brasil que emerge de Populações meridionais é a de um país fragmentado, reciprocidade entre as culturas". Apesar do domínio da cultura portuguesa, já
atomizado, amorfo e inorgânico, uma sociedade desprovida de laços de solidariedade mestiça mas principalmente branca, e da europeização do país a partir do sé-
internos e que dependia umbilical mente do Estado para manter-se unida [ ... ] A predomi- culo XIX, afirma Brasilio Sallum interpretando o autor, "a cultura de origem
nância da autoridade sobre a liberdade resultava da inorganicidade da sociedade civil. A africana teve uma importância enorme na formação da cultura nacional, vem
liberdade não sobreviveria sem um Estado forte, qualificado, imune aos particularismos,
resistindo à desafricanização e, segundo Freire, nunca perderá sua substância
capaz de subordinar o interesse privado ao social [ ... ] Direitos civis e unidade nacional
africana através de toda nossa formação e consolidação em nação". A
garantidos pela centralização política, eis o programa de Oliveira Viana.
interpenetração cultural vem acompanhada de uma intensa mobilidade verti-
cal, entre classes, e horizontal, entre regiões. Nas palavras de Gilberto Freire,
O seu pé-de-chumbo, como diz Gildo Marçal Brandão, é a utilização de
"talvez em nenhum outro país seja possível a ascensão de uma classe a outra:
teorias e argumentos racistas para avaliar o papel da mestiçagem e explicar a
do mucambo ao sobrado. De uma raça a outra: de negro a 'branco' ou a
desigualdade na sociedade e na política brasileiras. E também a apologia do
'moreno' ou 'caboclo'. De uma região a outra: de cearense a paulista".
papel desempenhado pelo latifúndio feudal e a aristocracia rural, a qual para
Ordem e progresso trata da última década do século XIX e das três
ele era o verdadeiro sujeito de nossa história até o momento em que a estuda.
primeiras décadas do século XX - período que compreende a Primeira Repú-
Mas, acrescenta, "jogadas no lixo as velharias racistas", o que mantém o inte-
blica -, analisando a desintegração da sociedade patriarcal no quadro da tran-
resse pelo livro são os "problemas de organização e direção da sociedade e do
sição do trabalho escravo para o trabalho livre. O material de base do livro é
Estado que sua reflexão pretendia resolver".
um inquérito com 183 brasileiros nascidos entre 1850 e 1900. A motivação
Sobrados e mucambos, publicado em 1936, e Ordem e progresso, em
principal do trabalho, explica Elide Rugai Bastos, está em duas perguntas:
1959, completam a Introdução à história da sociedade patriarcal no Bra-
como, na mudança do regime monárquico para o republicano, se mantêm a
sil, de Gilberto Freire, iniciada com Casa-grande & senzala,3 em 1933. So-
organicidade da sociedade e a unidade nacional? Se no Império a simbiose
brados e mucambos, como informa seu subtítulo, trata da "decadência do
monarquia e patriarcado favoreceu uma ordem de certa forma democrática ,
patriarcado rural e o desenvolvimento do urbano", do final do século XVIII até
no momento republicano o que possibilitará a sua continuidade?
a segunda metade do século XIX. Ele reconstrói o processo de transformação
A dupla explicação contida na resposta a essas perguntas, prossegue,
do patriarcalismo, diz Brasilio Sallum Ir., constitui o arcabouço do livro:

J Ver Elide Rugai Bastos, "Gilberto Freire, Casa-grande & senzala", em Lourenço Dantas Mota Forças simultaneamente de equilíbrio e de conflito atravessam a sociedade: de um
(org.), Introdução ao Brasil. Um banquete no trópico, cit., pp. 217-233. lado a permanência de certos ritos que compõem a legitimidade do sistema e permi-

20 21
INTRODUÇÃO LOURENÇO DANTAS MOTA

tem a sua reprodução; de outro, mudanças resultantes da decadência do patriarcado e A frase que ao final de sua resenha Gabriel Cohn diz ser a mais pungente
da alteração da composição étnica da população como produto da vinda de imigrantes do livro - "O negro prolonga assim o destino do escravo" - faz lembrar a
alteram afacies da sociedade brasileira. Assim, as transformações de caráter cultural, advertência de Joaquim Nabuco de que era preciso "destruir a obra da escra-
econômico, social e político -linguagem, crenças, moda, higiene, sanitarismo, urbani-
vidão".
zação, instituições, deslocamento regional da economia - alteram profundamente o
perfil da comunidade nacional. Retomando a proposta do tempo tríbio, da articulação
Os índios e a civilização: a integração das populações indígenas
passado, presente, futuro, já desenvolvida em trabalhos anteriores, Gilberto mostra no Brasil moderno, de Darci Ribeiro, publicado em 1970, ajuda a compreen-
como nas diferentes regiões do país essas transformações ganham arranjos diversos. der, segundo João Pacheco de Oliveira, qual é e como foi gerada a condição
Misturam-se várias ordens e vários progressos. presente das populações indígenas brasileiras. Para o autor, explica ele, o "nú-
cleo tribal" das etnias indígenas, apesar das graves perdas populacionais e
A integração dos negros e índios na sociedade já madura do século XX, socioculturais, não se fundiu jamais no segmento neobrasileiro da população,
como foi dito acima, completa o quadro cuja primeira pincelada foi a discussão tendo diante de si a alternativa: a) a desaparição por extinção; b) a reelaboração
sobre o papel dos motivos edênicos, a "visão do paraíso", no descobrimento e de suas práticas e costumes, promovendo uma adaptação relativa ao meio
colonização do Brasil. Em A integração do negro na sociedade de classes, ambiente natural e humano em que estão inseridas, mantendo, no entanto, uma
publicado em 1964, no qual estuda esse problema tendo como foco São Paulo, identidade própria.
centro urbano exemplar a esse respeito, Florestan Fernandes sustenta que só Essa última opção está ligada ao que Darci Ribeiro chama de "transfigu-
há um modo de plena integração para o negro - o da classe social. Mas isso -
~ação étnica" e é o foco principal do livro. Um processo de adaptação que se
explica Gabriel Cohn interpretando o autor - depende de duas coisas dificeis: Impõe aos grupos indígenas que sobreviveram ao extermínio, e que faz com
primeiro, da abertura de espaços mediante a plena constituição de uma socie- que eles permaneçam indígenas - porém, nas palavras do autor, ')á não nos
dade de classes na qual se possa inserir e, segundo, da sua própria capacidade seus hábitos e costumes, mas na auto-identificação como povos distintos do
para em primeiro lugar organizar-se a ponto de afirmar-se como raça, no sen- brasileiro e vítimas de sua dominação". Quanto ao destino das populações
tido de uma identidade social. Coube aos negros o pior ponto de partida na
indígenas, João Pacheco de Oliveira comenta que
disputa histórica pelas posições sociais mais favoráveis. Um dos grandes pro-
blemas com que se defrontaram é que para isso lhes faltava o essencial: o Darci Ribeiro revela com clareza - e essa é uma de suas principais contribuições
preparo para a rápida aquisição e domínio do que o autor chama "técnicas teóricas e políticas - que a condição última do índio no Brasil não é em qualquer
sociais e culturais do ambiente" em que se moviam. hipótese a sua "descaracterização cultural", a sua completa assimilação aos padrões
Depois de lembrar que o livro não reserva espaço para a apresentação modernos da sociedade brasileira (meta que nunca chegou a se realizar em qualquer
de conclusões, Gabriel Cohn seleciona uma passagem que dá acesso ao que o um dos grupos indígenas considerados), mas sua integração em condição econômica
subordinada e na qualidade de "índios genéricos", isto é, "que quase nada conservam
autor identifica como "o âmago da estrutura e dinâmica da situação de contato
do patrimônio original mas permanecem definidos como índios e identificando-se
racial predominante em São Paulo". Florestan Fernandes chama a atenção como tais".
para
Ao fim desta introdução, não é demais repetir o que foi dito quando da
uma faceta deveras instrutiva da nossa realidade racial. Ela sugere que assiste razão
aos que apontam o Brasil como um caso extremo de tolerância racial. Entretanto, publicação do primeiro volume: que essa reunião de obras tem os defeitos
também evidencia o reverso da medalha, infelizmente negligenciado: a tolerância racial inevitáveis de toda seleção. Deve-se esclarecer ainda que foi tomada a deci-
não está a serviço da igualdade racial e, por conseguinte, é uma condição neutra em sã~ de não incluir obras de autores vivos, com três exceções incluídas no pri-
face dos problemas humanos do "negro", relacionados com a concentração racial da meIro volume - Formação económica do Brasil, de Celso Furtado, Formação
renda, do prestígio social e do poder. Ela se vincula claramente, de fato, à defesa e à
da literatura brasileira, de Antonio Candido, e Os donos do poder, de
perpetuação indefinida do status quo racial, através de efeitos que promovem a pre-
~aymundo Faoro - que nestes quarenta anos decorridos de sua publicação se
servação indireta das disparidades sociais, que condicionam a subalternização perma-
nente do negro e do mulato.
Impuseram entre os especialistas como obras de referência obrigatória. Não é

22 23
INTRODUÇÃO

demais também insistir em que essa Introdução ao Brasil tem um duplo ob- SÉRGIO BUARQUE DE HOLANDA
jetivo - estimular o contato com os textos originais e facilitar o acesso dos não-
especialistas ao diálogo desses autores.
Deve-se registrar que, embora a responsabilidade pela organização des-
te livro nos caiba exclusivamente, ele tem uma dívida com Benjamin Abdala Visão do paraíso
Junior, Maria Victória Benevides, Walnice Nogueira GaIvão, Carlos Guilherme
Mota, Ronaldo Vainfas, Lúcia Lippi Oliveira, Elide Rugai Bastos, Brasilio Sallum
Jr., Marco Aurélio Nogueira, Isabel Alexandre e Celso Ming.

Ronaldo Vainfas

24
VISÃO DO PARAÍSO: BIOGRAFIA DE UMA IDÉIA

Visão do paraíso: os motivos edênicos no descobrimento e coloniza-


ção do Brasil foi o título da tese que levou Sérgio Buarque de Holanda à
cátedra de história da civilização brasileira, em 1958, na Universidade de São
Paulo. O livro seria publicado no ano seguinte, mais de 20 anos depois, portan-
to, do célebre Raízes do Brasil (1936), ensaio que incluiria Sérgio Buarque na
galeria de nossos principais historiadores. A década de 1940 e sobretudo a de
1950 seriam, sem dúvida, as mais férteis na carreira desse grande historiador
brasileiro. Em 1945 publicara Monções e, em 1957, Caminhos e fronteiras,
reunindo ensaios e pesquisas realizadas em parte nos anos 1940, em especial
"Índios e mamelucos".
É possível identificar nessas obras o cerne da contribuição de Sérgio
Buarque para nossa historiografia. É verdade que Sérgio Buarque organizaria
e redigiria boa parte da História geral da civilização brasileira, entre 1960
e 1977, no caso os volumes relativos aos períodos colonial e imperial, sem falar
de diversos ensaios históricos ou de crítica literária, especialmente dos Capí-
tulos de literatura colonial, obra póstuma - falecido Sérgio Buarque em
1982, aos 80 anos - preciosíssima antologia preparada por Antonio Candido
nos anos 1990. Mas o cerne da obra encontra-se basicamente nos anos 1940-
1950. Por meio dessas obras Sérgio Buarque se afirmou como historiador das
totalidades sociais, empenhado em desvendar os aspectos econômicos, sociais
e políticos de nossa história, entrelaçando-os sempre, sem descurar dos aspec-
tos imaginários ou do que se poderia chamar, para usar uma expressão "conci-
liatória", de história intelectual.
Visão do paraíso, que muitos consideram o livro mais erudito da
historiografia brasileira e talvez tenha sido a principal obra de Sérgio Buarque,
é certamente o melhor exemplo da contribuição de Sérgio Buarque de Holanda
a uma história das "representações mentais" produzida no Brasi1.! Publicado
em 1959 o livro não alcançou a merecida ressonância numa década, a de 1960,
onde as preocupações da historiografia brasileira, ainda muito ensaística, liga-
vam-se às preocupações do momento, especialmente à crise que levaria ao
movimento militar de 1964 e à cristalização do regime, em 1968-1969. Livros
prestigiados eram, então, o Formação económica do Brasil, de Celso Furtado,

1 Abordei esse aspecto de Visão do paraíso em "Sérgio Buarque de Holanda: historiador das
representações mentais", em Antonio Candido (org.), Sérgio Buarque de Holanda e o Brasil
(São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 1998), pp. 49-58.

27
VISÃO DO PARAÍSO RONALDO VAINFAS

ou O Formação histórica do Brasil, de Nelson Werneck Sodré, ambos con- do Renascimento e o mundo ibero-americano da expansão atlântica. Paren-
cebidos nos anos 1950 e reeditados na década seguinte. Mas a segunda edição tesco no tocante à eleição de fontes literárias como base de investigação histó-
de Visão do paraíso sairia exatamente em 1969, ano fúnebre de nossa histó- rica, o que faz de ambos, Sérgio Buarque e Febvre, a um só tempo, historiadores
ria, passados pouco mais de dez anos de sua aparição na forma de tese univer- e críticos literários. Parentesco no que toca à rebeldia intelectual: Febvre a
sitária. enfrentar o mito de um Rabelais ateu e Sérgio Buarque a questionar o mito de
Esse livro de Sérgio Buarque, sempre muito festejado e reconhecido, um Brasil paradisíaco. Mas as semelhanças param por aí. Em Febvre, cujo
custaria porém a irrigar nossa historiografia, embora tenha recebido uma ter- título da obra fala em descrença, procura-se antes demonstrar o contrário, isto
ceira edição em 1977. Reeditado em 1994, estava já inserido na voga da "his- é, a impossibilidade que tinha o homem quinhentista de descrer ou de seculari-
tória das mentalidades" que marcou parte de nossa historiografia na década de zar o mundo. Em Sérgio Buarque, cuja obra trata do imaginário do paraíso
1980 e prevalece hoje com alento, ainda que sob outros rótulos ou enqua- terreal na colonização ibérica, procura-se demonstrar, para o caso português,
dramentos, como no caso da "nova história cultural". Por isso mesmo é difun- um precoce desencantamento do mundo, uma espécie de "realismo pedestre"
dida a idéia de que Sérgio Buarque fazia "história das mentalidades" avant la que cedo abandonou as motivações edênicas presumidamente presentes na
lettre , isto é, antes de sua difusão na França dos anos 1960-1970 com as obras descoberta do Novo Mundo. Sérgio Buarque é muito claro a esse respeito:
de Robert Mandrou, Georges Duby, Jacques Le Goff e muitos outros. Obras
preocupadas com o que Pierre Chaunu chamou de "terceiro nível" da estrutu- A obsessão de irrealidades é, com efeito, o que menos parece mover aqueles homens
ra social, ou seja, os fenômenos ligados às religiosidades, às crenças coletivas, em sua constante demanda de terras ignotas. E, se bem que ainda alheios a esse "senso
os sentimentos, os códigos de comportamento consagrados pelo uso. Fenôme- do impossível", por onde, segundo observou finamente Lucien Febvre, pode distin-
guir-se a nossa da mentalidade quinhentista, nem por isso mostravam grande afã em
nos de longa duração, cuja percepção, em parte inspirada pela antropologia
perseguir quimeras. Podiam admitir o maravilhoso, e admitiram-no até de bom grado,
estruturalista, voltava-se para o nível de frialdade presente nas sociedades mas só enquanto se achasse além da órbita do saber empírico.2
históricas, petrificando-as, por vezes, ao menos no tocante a essa dimensão
algo incerta das representações. A rivalizar com a presença da "nova história social francesa" no pensa-
O suposto pioneirismo de Sérgio Buarque no que toca à história das men- mento de Sérgio Buarque, quando não superando-a, estaria a filosofia, a socio-
talidades se refere, obviamente, ao livro Visão do paraíso, obra que, de fato, logia e a historiografia alemãs, como bem indicou Maria Odila da Silva Dias
tratou de aspectos que depois caracterizariam muitos estudos daquele movi- 3
em texto de 1985. Nesse campo de afinidades intelectuais poder-se-ia incluir
mento historiográfico francês. Mas é de todo modo dificil, para não dizer ine-
o próprio Ranke, estudado por Sérgio Buarque, especialmente quanto à con-
xato, relacionar o Sérgio Buarque de Visão do paraíso com a historiografia
vicção no que deveria ser a capacidade essencial do historiador isto é a de
francesa, sobretudo ao movimento que ali se desenvolveu a partir de fins dos "discernir as grandes unidades de sentido no emaranhado de acon~ecime~tos e
anos 1960. Aliás, a historiografia francesa só muito pontualmente é menciona- fatos do passado". A presença da historiografia alemã no autor de Visão do
da ou citada no livro. paraíso se pode perceber na importância da obra de Ernst Curtius, Europaische
Encontram-se citados en passant o Fernand Braudel do Mediterrâneo Literatur un Lateinisches Mittlealter (1948).4 Sérgio Buarque o reconheceu
e o mundo mediterrânico; seu discípulo Pierre Chaunu, de Sevil/e et explicitamente, escrevendo o prefácio à segunda edição da obra, em 1968,
I 'Atlantique; e sobretudo Lucien Febvre, um dos fundadores da escola dos
sublinhando o recurso a uma tópica capaz de articular a pesquisa heurística de
Annales, nome da revista fundada quando Sérgio Buarque atuava como jorna- textos literários com a investigação propriamente histórica. Pois é com base
lista na Alemanha, onde permaneceu de 1929 a 1935.
No que toca à obra de Lucien Febvre - e é dele o conceito de outi/lage
mental presente no livro sobre Rabelais, A época da descrença (1942) -, 1 Sérgio Buarque de Holanda, VIsão do paraíso (3 1 ed. São Paulo: Nacional. 1977), p. 5.
1 Maria Odila da S. Dias, "Sérgio Buarque de Holanda, historiador", em Sérgio Buarque de Holanda
talvez se possa estabelecer algum parentesco entre os autores. Parentesco (São Paulo: Ática, 1985).
temático, ou seja, as crenças ou descrenças de sociedades coevas - a França 4 Literatura européia e Idade Média latina.

28 29
VISÃO DO PARAÍSO RONALDO VAINFAS

na reconstituição do processo de transmissão dos arquétipos do paraíso terres- .1?30, sobre "a compa~ação como varinha de condão da história". Sérgio Buarque
tre que se constrói Visão do paraíso, definido por Sérgio Buarque, literalmen- Ja fizera com maestna uso da comparação entre a América portuguesa e a
te, como "a biografia de uma idéia". Uma biografia construída sobre os diversos espanhola em Raizes do Brasil, sobretudo em "O semeador e o ladrilhador"
topoi do imaginário edênico, a exemplo da Juventa, do Jardim das Delícias ou, texto capital que relativiza a unidade de uma colonização ibérica ao indica:
para citar o próprio Sérgio Buarque, "o da perene primavera e invariável tem- diferenças de estilo: o estilo civilizador do espanhol, arriscando-se no interior,
perança do ar que prevaleceria naquele horto sagrado". 5 ordenando sua ocupação com base em cidades planificadas, sonhando em fa-
Além disso, é caso de realçar o forte diálogo que Sérgio Buarque man- zer da ~érica uma Nova Espanha, uma Nova Granada; o estilo feitorial do
tém com a historiografia do século XIX, ao menos com alguns historiadores- ~ortugues, por outro lado, sempre nostálgico do reino, a cultivar a terra no
chave, como Jacob Burckhardt, autor do clássico A civilização da l~toral, a ;nercadejar nos portos, arranhando a praia como caranguejo. E volta-
Renascença italiana, obra de 1864. No entanto, Sérgio Buarque dele discor- na a faze-lo com notável sistemática em Visão do paraiso, no qual retomaria
da num ponto central, a saber, quanto à existência de uma fratura radical entre seu questionamento da homogeneidade da colonização ibérica.
a Idade Média e o Renascimento. Renascimento que, para Sérgio Buarque,
era menos otimista do que se supunha, assim como muito afeito às magias,
fábulas e maravilhas medievais. A crença na "produtividade inexaurível, quase PARAÍSO TERREAL VERSUS REALISMO PEDESTRE
orgiástica, do homem e da Natureza é ainda", no Renascimento, "ou já é, diz
Sérgio Buarque, sofreada por titubeios e hesitações [oo.]. É nesses momentos O l~v~~ se e.strutura, portanto, a partir de uma sistemática comparação
situados na infância, tanto quanto na agonia, de uma era de otimismo, que entre as IdeiaS e Imagens que portugueses e espanhóis construíram sobre os
iremos deparar com expressões indecisas entre a do abatimento da criatura e eS~,aços ~eri.canos. E o. p;,oblema central se explicita logo no primeiro capítu-
a de sua exaltação".6 E para acrescentar um derradeiro exemplo do diálogo de lo ExpenencIa e fantaSia ,no qual Sérgio Buarque expõe o essencial do con-
Visão do paraíso com a historiografia oitocentista, vale mencionar o italiano tras~e: ~o lad~ espanhol, predomínio de visões edenizadoras, rycuperação e
Arturo Graf, autor de livro hoje muito revisitado, o Mitos, legendas e supers- recnaçao das Imagens paradisíacas produzidas no Ocidente havia séculos; do
tições na Idade Média, originalmente publicado em 1886. Livro que trata lado português, predomínio de visões pragmáticas, pouco afeitas ao ideário
exatamente do tema de Visão do paraíso em outro contexto, ou seja, o pro- edenizador e, de resto, aos elementos maravilhosos que caracterizavam o ima-
blema da busca do paraíso terreal na literatura medieval de viagens, fossem ginário .~ci~ental na .época das descobertas. É aos portugueses que corresponde
reais, como a de Marco Polo, fossem fictícias, como a de Jean de Mandeville. a expenenCia enunCiada no título do capítulo, ao passo que a fantasia é sobre-
Dificil, portanto, relacionar diretamente Visão do paraíso com a história tudo hispânica. A primeira frase do livro não deixa dúvida sobre a tese: "O
das mentalidades francesa, seja como precursor da chamada Nova História gosto da maravilha e do mistério, quase inseparável da literatura de viagens na
dos anos 1970, seja como autor afinado com as mentalidades já divisadas pelos era dos grandes descobrimentos, ocupa espaço singularmente reduzido nos
fundadores dos Annales, a exemplo do Febvre, que estudou Rabelais, ou do escritos quinhentistas portugueses sobre o Novo Mundo". 7
Marc Bloch, que publicou Os reis taumaturgos no meado da década de 1920. Sérgio Buarque atribui o quase desdém português com as terras ameri-
Curiosamente, Marc Bloch não é citado por Sérgio Buarque em Visão do ~anas descobertas antes de tudo à experiência das navegações na África e na
paraíso, como também não o fora em Raízes do Brasil de 1936. Entretanto, Asia. Já calejados com o encontro de outros povos e civilizações, os portugue-
pode-se dizer que é como Marc Bloch que trabalha Sérgio Buarque no tocante ses: que navegavam havia quase um século, não teriam se impressionado com
à perícia da comparação histórica, a comprovar o que escrevera Bloch, em maiS uma descoberta, entre outras. Daí a rarefação de imagens maravilhosas
as mirabilia, tão recorrentes nas crônicas de viagens, desde as crônicas anti~

, Sérgio Buarque de Holanda, "Prefácio à segunda edição", em Visão do paraíso, cit., p. XX.
• Ibid., p. 182. 7 Ibid., p. 1.

30 31
VISÃO DO PARAÍSO RONALDO V AINFAS

gas de viagens imaginárias, como a de Mandeville, até as crônicas de viagens antes de tudo, e de maneira muito pragmática, às potencialidades econômicas
de fato realizadas, como as espanholas posteriores a 1492. A familiaridade do território e às rendas que a exploração colonial poderia proporcionar a el-rei.
leva à indiferença, disse certa vez um historiador francês (Bloch), e talvez Essa é, pois, a primeira grande tese de Visão do paraíso. Tese parado-
tenha sido esse o caso dos lusitanos no Brasil, familiarizados, por assim dizer, xal porque, no tocante à visão portuguesa, sublinha exatamente a ausência de
com o encontro de terras e povos "exóticos". elementos edenizadores ou, quando menos, admite uma presença muito "ate-
Sérgio Buarque reforça essa possibilidade explicativa, agregando que nuada" ou "adelgaçada", para usar as palavras do autor.
talvez o "fascínio do Oriente" recém-descoberto pelos portugueses ainda ab-
sorvesse em demasia as energias imaginativas dos lusitanos, empalidecendo, a
seus olhos, a exuberância da terra brasílica. Mas esta é hipótese mais frágil, MARAVILHAS DO Novo MUNDO, LOCUS DO ÉDEN
pois sugere um deslumbramento português em face do Oriente que mal se
pode divisar na crônica sobre a Índia, China ou Japão. 8 A visão do paraíso prosperou de fato nas crônicas do descobrimento e
Fosse pela experiência acumulada, fosse pela persistência da fantasia conquista castelhana, a começar pelo genovês Cristóvão Colombo, descobri-
oriental, o fato é que, para Sérgio Buarque, o "realismo pedestre" dos portu- dor da América em 1492. Mostra-nos Sérgio Buarque a verdadeira obsessão
gueses nas crônicas sobre o Brasil lembrava muito o espírito e a arte medie- de Colombo com o que julgava ser a proximidade do paraíso terreal, escreven-
vais, particularistas, pouco imaginosas, presentes em pinturas em que até os do das Antilhas aos reis católÍcos, Fernando e Isabel. Numa dessas cartas
anjos pareciam renunciar ao vôo, preferindo caminhar sobre pequenas nuvens. refere-se às terras descobertas como o "outro mundo" e como o "sítio aben~
Tudo em franco contraste com a arte renascentista, o gosto pela fantasia, as çoado onde viveram nossos primeiros pais". Como se acreditava, desde a Ida-
"induções audaciosas e delirantes imaginações" do Quatroccento. de Média, que era nas partes orientais do mundo que se localizava o Éden, de
Sérgio Buarque não fornece razões definitivas para o "realismo pedes- onde Adão e Eva foram expulsos, e como o mesmo Colombo julgava estar nas
tre" do imaginário lusitano em face dos descobrimentos americanos, limitando- cercanias de Cipango (Japão) ou Catai (China), o paraíso, segundo o almiran-
se a enunciar possibilidades no plano da especulação. Mas não resta dúvida de te, deveria estar próximo. Na sua correspondência com os reis espanhóis,
que, comparados aos registros espanhóis, os portugueses são pálidos no que ~olo~bo não deixou de reunir inúmeros indícios dessa proximidade paradisíaca,
toca aos aspectos delirantes e maravilhosos. A idéia do paraíso, em especial, mcl~mdo a presença de seres bizarros e prodigiosos que julgou ver no jovem
praticamente não aparece na crônica colonial portuguesa, com exceção de um contmente.
Simão de Vasconcelos, jesuíta que, no século XVII, defendeu a localização do A ~artir de Colombo, inúmeros cronistas espanhóis, laicos ou religiosos,
paraíso terreal no Brasil, ou de um Rocha Pita que fez o mesmo, sem nenhuma se refenram à localização do paraíso terreal na América e Sérgio Buarque
ênfase, na sua História da América portuguesa (1730). os examina um a um, cotejando narrativas, rastreando as matrizes de talou
O elogio da natureza, que Sérgio Buarque constatou na crônica quinhen- qual visão americana do Éden. Em vários capítulos do livro, a questão reapa-
tista e seiscentista, por exemplo, não desmentiria o tom monocórdio, quase rece, narrada com máxima erudição, a exemplo dos capítulos "Terras incóg-
burocrático predominante. Nem mesmo os arroubos de um Pero Vaz de Cami- nitas", "Paraíso perdido" ou "Visão do paraíso", capítulo que dá título à: obra.
nha - que viu a terra do Brasil tão fértil que, em se plantando, "dar-se-á nela Em "Paraíso perdido", embora seja ele o sétimo do livro, encontramos ver-
tudo" - rivalizaria com o registro espanhol laudatório do clima, dos ares, da dadeira exegese da temática edênica no mundo ocidental, na qual Sérgio
exuberância da flora e da fauna, tudo adornado com seres fantásticos e indícios Buarque inventaria os temas a serem checados no imaginário ibérico dos
do paraíso próximo. No caso português, mesmo o elogio da terra se referia, descobrimentos.
, Um dos maio~es propangadistas, se não o maior, da localização do para-
• É o que se percebe nos textos e documentos citados em Luís de Albuquerque et ai., O confronto ISO t~rreal na Aménca foi António de León Pinelo, conselheiro real de Castela,
do olhar: o encontro dos povos na época das navegações portuguesas (Lisboa: Caminho, cromsta-mor do reino, numismata, recopilador de "las leyes de Indias" bibliófilo
1991 ). um dos sábios mais eruditos, enfim, do Siglo de Oro espanhol. En~re 1645 ~

32 33
VISÃO DO PARAÍSO
RONALDO VAINFAS

1650 León Pinel0 escreveu sua obra magna, El paraiso en el Nuevo Mundo,
com;osto de cinco livros, um total de 88 capítulos, cujos orig~ais m~uscritos
bizarros, de sereias e dragões, pigmeus e gigantes, canibais e coprófagos9 e,
sem dúvida, monstros da mais variada espécie e gênero, como os acéfalos _
contavam com mais de oitocentos fólios. León Pinelo exammou e Impugnou
homens aos quais faltavam as cabeças - ou os cinocéfalos, figuras humanas
todas as teses que buscavam localizar o paraíso no Oriente, p~ocurando de-o
com cabeça de cão, dentre outros seres híbridos ou hipertrofiados nas orelhas,
monstrar que os rios bíblicos na embocadura dos quais ficava o Eden não eram pés ou mãos.
o Tigre, o Eufrates, o Ganges e o Nilo, senão, respectivamente, o Madalena, na
Sérgio Buarque defende, com máximo brilho e erudição"que "a conven-
atual Colômbia, o Orenoco, o Prata e o Amazonas. A localização exata ou
ção literária dos mitos edênicos, onde a narrativa bíblica se deixara contaminar
aproximada do paraíso estaria, portanto, na região amazônica, na Amazônia
de reminiscências clássicas [ ... ] e também da geografia fantástica de todas as
peruana confluente com a região andina. . .
épocas, veio a afetar decisivamente" as descrições coloniais do paraíso terres-
Mostra-nos Sérgio Buarque que León Pinelo não se lllmtou a descrever
tre. E nisso reside o miolo do livro, tarefa verdadeiramente demiúrgica a que
esses rios, traçando as analogias com os saberes edenizadores tradicionais,
se propôs o maior historiador brasileiro: cotejar narrativas da Antiguidade clás-
mas agregou pormenores tipicamente americanos à caracterização desse pa-
sica, incluindo o lendário helenístico ou mesmo oriental sobre o cosmos fantás-
raíso no Mundo Novo. A árvore do bem e do mal não daria, assim, a maçã,
tico, com as interpretações da narrativa bíblica, sobretudo no tempo da
fruto do pecado original para muitos, nem o figo, como disseram outros: mas,,~
escolástica (séculos XIII-XIV), e daí com as narrativas de aventureiroscon-
maracujá, a granadilla, em espanhol, cuja cor e sabor, segundo o cronIsta, e
quistadores e missionários que atuaram no Novo Mundo. Ho~ens que ~iram,
muito conforme ao que dizem os expositores do pomo que foi instrumento de
aqui e ali, mulheres guerreiras, rotas do Eldorado, terras de imortalidade, seres
nossa perdição e feitiço aos olhos de Eva". Prosseguindo na sua "teoria",
monstruosos, humanos, animais ou híbridos.
León Pinelo afirmou que o homem fora criado na América do Sul, razão pela
No rastreamento desses mitos, Sérgio Buarque não se contenta, porém,
qual o continente possuía "a forma de um coração". Noé teria construído .sua
em identificar as matrizes clássicas ou medievais que irrigaram o imaginário
arca na vertente ocidental da cordilheira dos Andes com cedros e madeIras
dos conquistadores da América, admitindo ingredientes fantásticos de outras
fortes da região, etc.
tradições européias, como a dos celtas, presentes, por exemplo, em tópicos da
A partir da narrativa de León Pinelo, Sérgio Buarque procura.identifi~ar
lenda de São Brandão e sua ilha encantada, ou em traços da mitologia heróica
a presença de alguns desses elementos paradisíacos em certos escntos lUSIta-
indígena, como no caso da "terra sem mal" dos tupinambás. Sérgio Buarque é
nos mormente no do padre Simão de Vasconcelos, um dos raros que defendeu
muito claro a esse respeito, ao diZer que
a l;calização do paraíso terreal'no Brasil, tendo escrito nos anos 1660. Mas a
exegese de nosso autor, Sérgio Buarque, só contribui para reforçar sua tese
a idéia de que existe na Terra, com efeito, algum sítio de bem-aventurança, só acessível
central: "pobre figura haveriam de fazer, em realidade, aqueles sete. parágra- aos mortais através de mil perigos e penas, manifestos ora sob a aparência de uma
fos de Simão de Vasconcelos", comparados à copiosa obra do crOnIsta espa- região tenebrosa, ora de colunas ígneas que nos impedem de alcançá-lo, ou então de
nhol, por sinal de remota origem judaica. . . demônios ou pavorosos monstros, pode prevalecer, porém, independentemente das
Mas as "visões do paraíso" de León Pinelo e de outros não se hmItavam tradições clássicas ou das escolásticas sutilezas.1o

a descrever ou procurar delimitar o espaço edênico primordial, a morada de


Adão e Eva antes do pecado irremissível. Nos escritos produzidos no Ocidente Entre essas tradições encontrar-se-ia a célebre Juventa, "fonte da eterna
cristão que, desde a Idade Média, se dedicaram a rastrear o paraíso terreal no juventude", cujas águas jorravam de sítio não muito distante do próprio Éden,
Oriente configurou-se uma plêiade de mitos e maravilhas, muitos deles de após seguir um percurso subterrâneo. Mandeville, que deixou no século XIV
origem ~ais remota, quer na Antiguidade ocidental, quer no próprio Oriente. urna bela narrativa de viagens ao "outro mundo" - viagem imaginária, que, na
As narrativas edenizadoras eram verdadeiramente inseparáveis do mito das
amazonas, do Horto das Hespérides ou Jardim das Delícias, do Eldorado, da
• Comed~t;es 4e fezes.
fonte da eterna juventude - a Juventa - da existência de monstros e seres
10 Sérgio Buarque de Holanda, Visão do paraíso, cit., p. 20.

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35
VISÃO DO PARAÍSO • RONALDO VAlNFAS

verdade, jamais realizou -, disse ter visto a fonte e bebido de sua água três ou entre espanhóis e índios, incluindo as mulheres guerreiras de que falavam as
quatro vezes. E na carta atribuída ao lendário Preste João, consta que a mesma antigas lendas. Ao descrevê-las, afirmou que "eram membrudas, de grande
fonte ficava a três dias de viagem do "jardim de onde Adão fora expulso". Au- estatura e brancas; tinham cabeleira muito longa, trançada e revolta no alto da
têntico apêndice do Éden, assim era a Juventa nos relatos sobre este "outro cabeça; andavam nuas, com as vergonhas tapadas". E, segundo Sérgio Buarque,
mundo fantástico" que, como indica Sérgio Buarque, foi migrando para a Améri- "uma só entre elas valia, no combate, por dez homens". Não resta dúvida de
ca na medida em que se desencantava o Oriente através da expansão marítima. que Carvajal misturou traços do antigo lendário sobre as amazonas com a
Juan Ponce de León, depois de muitos anos na América e contando já experiência vivida nos combates travados no grande rio, acrescentada por in-
com 50 anos, dispôs-se a localizar o caminho para a "sagrada fonte e para o rio formações que o próprio dominicano recolheria entre índios do lugar. 12 Mas
onde os velhos se revigoram e remoçam". Localizou a primeira na ilha de seu relato seria o primeiro de uma série acerca da existência dessa comunida-
Bimini e o rio na contígua península da Flórida. "A lenda indígena", afirma de de guerreiras frnalmente encontrada no Novo Mundo, em especial na re-
Sérgio Buarque, "viera apenas endossar velha tradição erudita sobre a exis- gião que levaria seu nome.
tência, em alguma parte do orbe, de uma fonte dotada daquelas proprie- As descrições sobre a Juventa e o país das amazonas, vizinhos do Éden
dades". II Apesar da frustração de todos com o malogro das descobertas ou apêndices dele em maior ou menor grau, são apenas dois exemplos dentre
fantásticas, sempre fugidias, o lendário não esmoreceu. O prodigioso era me- os vários estudados por Sérgio Buarque em sua obra. Nela se sucedem precio-
nos real do que aparente, alimentado por certa "disposição de espírito" próprio sas descrições de lugares onde o real e o imaginário se confundem, imbricando
de muitos soldados da conquista, que os levava, "depois de tantos espetáculos temporalidades antigas e modernas, cruzando tradições culturais múltiplas, quer
inusitados, a ver em tudo maravilhas [ .. .]". originárias do Velho Mundo, quer inspiradas nos relatos ameríndios.
Outra lenda aparentada ao mito da Juventa e, como ele, apêndice recor- Vale, porém, sublinhar que os mais abundantes e melhores relatos sobre
rente na visão do Éden, foi a das célebres amazonas, as mulheres guerreiras de temas edênicos aparecem na crônica hispânica, adelgaçando-se, pelo menos
tradição longuíssima no Ocidente e no Oriente Próximo. Colombo chegaria a nos seus aspectos mais imaginosos ou eruditos, na crônica de origem portu-
sublinhar, no seu exemplar da Historia rerum escrita pelo papa Pio II, certa guesa. Os pobres sete parágrafos de Simão de Vasconcelos ou mesmo a des-
passagem onde se mencionava urna ilha de fêmeas, isle femelle, que chegou a crição das amazonas que faria Pedro Teixeira no século XVII não chegam
ser localizada na misteriosa ilha de Matiminó. Pedro Martir d' Anghiera, cuja sequer a matizar essa constatação, comprovando a tese central de Sérgio
Décadas do Orbe Novo, escrita no início do século XVI, inspirava-se nos pri- Buarque em seu livro maior.
meiros relatos da decoberta da América, não hesitaria em mencionar as
famigeradas amazonas, mulheres que somente em certas épocas do ano se ajun-
tavam com machos, refugiando-se depois em cunículos para evitar os varões. SUMÉ: CONTRIBUIÇÃO LUS0-BRASILElRA
De continentais na origem, como indica Sérgio Buarque, as amazonas
iriam se transformar por'vezes em misteriosas mulheres insulares, para serem Edenização pálida e adelgaçada, realismo e pragmatismo fortes, nem por
enfim localizadas e vistas no grande rio-mar, por essa razão chamado posterior- isso a crônica portuguesa deixou de dar mostras de adesão ao imaginário fan-
mente de "Rio das Amazonas", o atual rio Amazonas. Sérgio Buarque conta- tástico que marcou a descoberta do Novo Mundo. O mito mais genuinamente
nos em detalhe como isso ocorreu, na altura de 1541, quando a expedição
com~dada por Francisco de Orellana partiu de Quito rumo ao imaginário País
da Canela. O autor da narrativa inaugural foi o capelão da expedição, o ., Luiz Mott viria a desvendar de vez o mistério do relato de Carvajal, que misturou tradições
dominicano frei Gaspar de Carvajal, que o fez depois de ferrenhos combates antigas com informações recolhidas entre os nativos sobre as acclacuna, as "virgens do Sol" do
império inca, de cuja existência sabiam os índios da região amazônica. Esclarece, ainda, que
Carvajal provavelmente viu em combate as mulheres guerreiras da cultura tupinambá. Cf. L.
Mott, "As. amazonas: um mito e algumas hipóteses", em Ronaldo Vainfas (org.), América em
11 Ibid., p. 21 tempo de conquista (Rio de Janeiro: Zahar, 1992), pp. 33-56.

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VISÃO DO PARAÍSO

luso-brasileiro seria a famosa lenda de Sumé, ou seja, a crença de que a Amé-


- RONALDO V AINFAS

em crenças originárias dos primitivos moradores da terra. "Que a presença


rica fora objeto do apostolado de Tomé nos primórdios do cristianismo. Lenda das pegadas nas pedras se tivesse associado, entre esses, e já antes do adven-
que, na verdade, mantém pouca relação com a idéia do paraíso terrestre, ou to do homem branco, à passagem de algum herói civilizador, é admissível, quando
com os mitos que em tomo dele gravitavam, exceto pelos ligames entre a ação se tenha em conta a circunstância de semelhante associação se achar dissemi-
desse apóstolo e a existência do lendário reino do Preste João, crença gestada nada entre inúmeras populações primitivas em todos os lugares do mundo."14
na Baixa Idade Média. De todo modo, a "lenda de Sumé" integra o imaginário No caso do Brasil esteve com certeza associada ao esforço dos jesuítas em
maravilhoso dos descobrimentos americanos e, segundo Sérgio Buarque, foi ~parar, .um pouco in~enuamente, é verdade, o esforço da catequese. Tomé
capaz de expandir-se, sob outras roupagens, pela vizinha América espanhola, fOi ~ssoclado, no Brasil, a um dos heróis da cultura tupinambá, o Sumé, e as
notadamente no Paraguai, Peru e região platina. ~fi~~ades fonéticas en~re os dois "demiurgos" jogou papel decisivo na crença
De Tomé, o apóstolo designado por Cristo, após a Ressurreição, para jesUltlca de que o Brasil sofrera um esboço de evangelização em tempos idos.
pregar o evangelho nas finisterras do mundo, as notícias datam da Idade Mé- Mas, exceto pelo frisson do meado do século XVI, quando os jesuítas de
dia. Sérgio Buarque recorda que, desde a viagem de Vasco da Gama, em 1498, fato rastrearam as pegadas do apóstolo, a lenda do Sumé-Tomé luso-brasileiro
foram recolhidos indícios dessa lenda imemorial, e, no caso dos cristãos da foi perdendo vigor com o tempo. O contrário, aliás, do que ocorreu na América
Índia, um ramo dos nestorianos era ali chamado de "cristãos de São Tomé". espanhola, onde o lendário sobre esse suposto apostolado fincou raízes mais
As ações de São Tomé, a devoção de que foi alvo, suas relíquias, tudo isso profundas e duradouras. Sérgio Buarque identifica vários percursos da lenda
aparece registrado ou mencionado na crônica portuguesa sobre o Oriente, in- n? Peru e no Paraguai e com isso reforça sua tese de que o imaginário mara-
cluindo a correspondência do insigne jesuíta S. Francisco Xavier, o livro de vilhoso no Brasil sempre foi mais atenuado do que na vizinha América hispâni-
Duarte Barbosa e muitos outros. O fato é que, como boa parte do lendário ca. Mito vago no Brasil, o São Tomé americano
ocidental acerca do Oriente, também a relativa ao apostolado de São Tomé
migrou para a América. A primeira notícia desse presumido apostolado no se vai enriquecer e ganhar mais lustre à medida que a notícia de suas prédicas se
Brasil encontra-se na Nova Gazeta Alemã, informa Sérgio Buarque, logo no expande para oeste, rumo às possessões de Castela. Sendo, como é, de fato, o único
início do século XVI, a qual menciona a "recordação de São Tomé" que pare- mito da conquista cuja procedência luso-brasileira parece bem assente, essa circuns-
ciam ter os índios brasílicos. Diz o texto: "Quiseram mostrar aos portugueses tância é o bastante, sem dúvida, para dar uma noção da mentalidade que dirigiu cada
um dos povos ibéricos em sua obra colonizadora. IS
as pegadas de São Tomé no interior do país. Indicam também que têm cruzes
pela terra adentro. E quando falam de São Tomé, chamam-lhe o Deus peque-
no, mas que havia outro Deus maior".B
Diversos outros cronistas, sobretudo os religiosos, e dentre eles os jesuí-
SALVAÇÃO ESPIRITUAL E RIQUEZA MATERIAL
tas, contribuíram para adensar a convicção ou suspeita de que Tomé havia
pregado no Brasil. E não tardou para que, no início do século XVI, os jesuítas
. Percorrendo mitos e lendas de diversas tradições culturais e variada pro-
se pusessem a rastrear as pegadas de São Tomé e outros indícios de seu
cedência, Sérgio Buarque abre um amplo leque de possibilidades para se com-
apostolado em terras brasílicas, abrindo caminho para um in~sgotável inter-
preender a riqueza do imaginário presente nos descobri~entos e conquistas da
câmbio de símbolos entre a cultura católica dos colonizadores e as tradições
ameríndias. Sérgio Buarque sublinha, com razão, que essa "espécie de
~érica pelos ibéricos. Mas não se deve entender, por isso, que se trata de um
hvro construído sobre "camadas de ar", perdido entre paraísos e fantasias,
hagiografia do São Tomé brasileiro" deveu-se sobretudo à colaboração dos
sem nenhuma conexão com a história social da colonização.
missionários católicos, de modo que se incrustaram, afinal, tradições cristãs

14 Ibid., p. 109.

13 Sérgio Buarque de Holanda, Visão do paraíso, cit., p. 108. " Ibid., p. 125.

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39
RONALDO VAINFAS
VISÃO DO PARAÍSO

No "Prefácio à segunda edição" da obra, que só veio a público em 1969, a análise dessa relação entre busca da salvação e da riqueza, quando Sérgio
Buarque afirma que os conquistadores acabariam por canonizar a própria ga-
Sérgio Buarque fez questão de advertir o leitor de que, embora não se tratasse
nância. "Ganância", afirma Sérgio Buarque, "não apenas de riquezas como
de uma "história total", pois acentuava os mitos e idéias, Visão do paraíso
não excluía considerações, ao menos implícitas, aos complementos ou supor- ainda de honrarias, aparatos e glórias do mundo, que passam a constituir a
tes materiais daquilo que, "em suma, na linguagem marxista, se poderia cha- meta constante do conquistador castelhano. E assim, até a ventura eterna vem
mar de infra-estrutura".16 A advertência e a cautela de Sérgio Buarque se a ter, muitas vezes, para ele, a cor da própria cobiça, com o que se recobre o
justificavam, então, pelo clima da época, prestígio do marxismo na historiografia paraíso, em sua imaginação, de todas as galanterias terrenas. "17
Tema-chave para se localizar essa fortíssima conexão encontra-se no
e recrudescimeno do regime militar em tempo de AI -5.
De todo modo, Sérgio Buarque ousou inovar, primeiro ao sugerir que as mito americano do Eldorado, inspirado na lenda oriental do "Príncipe Doura-
do" com sua lagoa e seus tesouros infinitos. Seria o Eldorado procurado em
idéias que estudava no livro podem ter antecipado e mesmo estimulado "pro-
cessos materiais de mudança social". E, segundo, ao dizer que essas mesmas várias partes da América: em Santa Marta, na Nova Granada, atual Colômbia;
idéias, assim como "se movem no espaço, há que acontecer que também via- no vale do Cauca, situado na mesma região; na Guiana; no país dos Omágua,
"onde mais longamente perdurou, sempre sob o fascínio que despertava o nome
jem no tempo, e porventura mais depressa do que os suportes, passando a
da resplandescente Manoa". Inúmeras expedições, portanto, se realizaram na
reagir sobre condições diferentes que venham a encontrar ao longo do cami-
nho". Em poucas linhas Sérgio Buarque foi capaz de desafiar, de um lado, o busca do Eldorado, sempre mesclando, como afirma o autor, "a religião do
esquematismo marxista, então em voga, segundo o qual as condições socio- Cristo e o culto do Bezerro de Ouro". E tamanha foi a obsessão que, na céle-
econômicas sempre determinavam as totalidades sociais; e, de outro lado, su- bre expedição amazônica de Pedro de Orsúa, a mesma que celebrizou Lope
geriu que "as mentalidades" poderiam avançar mais rapidamente do que os de Aguirre, chegou-se a nomear o chefe expedicionário, com sinete oficial, de
processos materiais - o contrário, portanto, do que começavam a afirmar, na "Governador e Capitão-General do Dourado", um país encantado e quimérico.
Vigoroso entre os conquistadores castelhanos, o mito do Eldorado iria
mesma época, os historiadores franceses da Nova História.
Seja como for, Sérgio Buarque se mostra muito atento às possíveis cone- empalidecer, também ele, entre os portugueses. A obsessiva procura de ouro
xões entre o tempo dos mitos e o tempo da colonização, o ânimo das visões que tanto animou os lusitanos desde o início da colonização, e só se viu re-
edênicas e as motivações concretas da expansão e da ação colonizadora dos compensada no final do século XVII com a descoberta dos veios das Gerais ,
povos ibéricos. E não é de admirar que assim o tenha feito, já que as próprias parece ter prescindido de elementos fantásticos. O Eldorado foi citado ape-
versões medievais do mito do paraíso terrestre jamais opuseram radicalmente nas de passagem por frei Vicente do Salvador em sua História do Brasil
a salvação espiritual e o enriquecimento material. Nos livros de viagens, reais (1627), e igualmente de modo tímido por Pero de Magalhães Gandavo (1576),
ou imaginárias, produzidos na Baixa Idade Média, juventas ou jardins das delí- ao mencionar uma serra "fermosa e resplandescente" onde se haviam en-
cias conviviam com ilhas ou lagos dourados, lugares onde os príncipes se ves- contrado umas pedras verdes. Gabriel Soares de Souza, no seu Tratado
descritivo (1587), não fez qualquer menção ao assunto, logo ele que monta-
tiam com mantos de pérolas ou pedras preciosas.
Transpostos para o cenário americano, tais mitos "áureos e argênteos" ria expedição em busca de ouro, sertão adentro, onde viria a morrer. De
iriam mobilizar inúmeras expedições de conquista e exploração territorial, mes- modo que, como diz Sérgio Buarque, esse elemento fantástico, no caso do
clando-se a procura do País da Canela ou do próprio Éden com a obsessiva Dourado brasileiro, "nenhum texto quinhentista o certifica". Reafirma-se,
busca de ouro e pedras preciosas, assunto que nosso autor desenvolve em pois, também no domínio da busca de riquezas, o "realismo pedestre" dos
diversos capítulos, a propósito de talou qual lenda, como no capítulo "Peças e portugueses em sua ação colonizadora.
pedras". O capítulo "Terras incógnitas", segundo do livro, termina preludiando

17 Ibid., pp. 32-33.


16 Ibid., "Prefácio à segunda edição", p. XIX.

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40
VISÃO DO PARAÍSO

PARAÍso AUSENTE
SERAFIM LEITE
Assim seria, quando muito, o paraíso luso-brasileiro. Na verdade, Sérgio
Buarque o considerou como ausente, tragado pelos interesses imediatos de
uma colonização predatória e pouco ligada a motivações propriamente
civilizacionais. Nosso autor retoma com essa tese, que reitera no capítulo final,
História da Companhia
"América portuguesa e Índias de Castela", aquilo que havia esboçado em Raízes
do Brasil, especialmente no capítulo "O semeador e o ladrilhador". Sérgio
Buarque procura avançar e tece considerações sobre a persistência ou dissi-
de Jesus no Brasil
pação do imaginário fantástico presente nas colonizações ibéricas e o tipo de
monarquia, o grau maior ou menor da centralização política nos dois países, a
ocorrência ou ausência de projetos imperiais que articulassem, nos dois casos,
colonização e religião. Nosso autor acrescenta, assim, outras possibilidades
explicativas para tão flagrante contraste entre as mentalidades castelhana e
portuguesa no processo de representação da conquista. Mas, a bem da verda- João Adolfo Hansen
de, apenas tangencia esses novos elementos, prevalecendo, no conjunto, a tese
de que, por serem experimentados nas lides da descoberta, os lusitanos não
viram no Brasil senão uma vasta área de exploração.
A descoberta do ouro, em fins do século XVII, contribuiria tardiamente
para uma renovação desse marasmo pouco fantasioso que marcara os primei-
ros séculos luso-brasileiros. Ao menos a miragem imperial, à moda das Índias
de Castela, iria animar os portugueses, afirma Sérgio Buarque. Uma idéia que
chegaria a estimular o governador Diogo Botelho, ainda no início dos seiscen-
tos, a reclamar para si o título de vice-rei, "como se o enfeitiçasse a esperança
de governar outro Peru ou uma segunda Índia".
Mas nada disso fez surgir, segundo Sérgio Buarque, uma visão do Brasil
paradisíaco. E é por metáfora de uma colonização genuinamente predatória
que o autor conclui o livro dizendo que, sim, "teremos nossos eldorados. Os
das minas, certamente, mas ainda o do açúcar, o do tabaco, de tantos outros
gêneros agrícolas que se tiram da terra fértil, enquanto fértil, como o ouro se
extrai, até esgotar-se do cascalho, sem retribuição de beneficios".18

'8 Ibid., p. 323.

42

Publicados entre 1938 e 1950, os dez tomos da História da Companhia


de Jesus no Brasil, de padre SerafIm Leite, jesuíta português, somam cerca
de 5.136 páginas. A matéria principal da obra é a atuação missionária,
catequética e educacional, da Companhia de Jesus no Estado do Brasil, entre
29 de março de 1549, chegada à Bahia da primeira missão dirigida pelo padre
Manuel da Nóbrega, e no Maranhão, a partir de outubro de 1615, quando foi
retomada a Fortaleza de São Luís, até então em poder de franceses, pelos
portugueses, entre os quais os padres jesuítas Manuel Gomes e Diogo Nunes,
ou 13 de junho de 1622, vinda para o Estado do Maranhão e Grão-Pará, funda-
do em 13 de junho de 1621, da missão chefIada pelos padres Luiz Figueira e
Benedito Amodei, até 3-9-1759, data da expulsão da Companhia dos territórios
de Portugal por ordem de Sebastião José de Carvalho e Melo, depois marquês
de Pombal, ministro do rei D. José I.
Sobre essa linha temporal de 210 anos, o autor distribui a extensa e
variadíssima matéria da obra, compondo quadros geográfIcos onde situa as
práticas catequéticas e educativas da Companhia de Jesus, bem como tensões
e conflitos que envolveram jesuítas, indígenas, colonos, a Coroa, padres secu-
lares e membros de outras ordens religiosas, governadores-gerais e funcioná-
rios da administração portuguesa, nos séculos XVI, XVII e XVIII. Assim, os
volumes ímpares (I, III, V e VII) estabelecem a geografIa da ocupação do
território português do Brasil e do Maranhão e Grão-Pará pelas missões
jesuíticas entre 1549 e 1759. O tomo I (século XVI) trata da ação da Compa-
nhia de Jesus na Bahia, no Espírito Santo e em São Vicente; trata também da
missão jesuítica do Paraguai; da conquista da terra e da fundação do Rio de
Janeiro, além das regiões de Sergipe de El-Rei, Pernambuco, Paraíba e Rio
Grande do Norte. O tomo III (séculos XVII-XVIII) dá conta das missões
jesuíticas do Norte e do Nordeste. O tomo V (séculos XVII-XVIII) tem por
objeto a Bahia, Sergipe de El-Rei, Pernambuco e outras regiões do Nordeste.
O tomo VII (séculos XVII-XVIII) trata de assuntos gerais e conclui a Histó-
ria da Companhia de Jesus no Brasil. Nele, o autor dá conta do governo
interno da Província do Brasil, fazendo um elenco de todos os seus provinciais,
entre 1553 e 1759, além de acompanhar o desenvolvimento do ensino público
do século XVI até o XVIII. Também trata da expulsão da ordem dos territó-
rios portugueses pela lei de 3 de setembro de 1759 ou já em 1760, durante o
reinado de D. José I. Os tomos pares (II, IV e VI) expõem as atividades
catequéticas e educacionais desenvolvidas pelos padres nas missões referidas

45
HISTÓRIA DA COMPANHIA DE JESUS NO BRASIL - JOÃO ADOLFO HANSEN

Goiás, Mato Grosso, da missão do Guaporé e de assuntos relativos a São Pau-


nos tomos ímpares. Assim, o tomo II (século XVI) trata de assuntos corres-
pondentes às iniciativas missionárias vistas no tomo I, como a catequese inicial lo. O subcapítulo "Motins e desterro dos padres do colégio" trata da destruição
do gentio do litoral da Bahia, do Espírito Santo e de São Vicente e a luta contra das missões castelhanas do Guairá pelos bandeirantes paulistas, apresentando
a antropofagia, a poligamia, a nudez e o nomadismo dos indígenas. Seu capítulo o pressuposto histórico e as conseqüências gerais, canônicas e civis, da defesa
sobre a introdução do teatro trata das primeiras manifestações declamatórias dos índios pelos inacianos e do seu apresamento pelos paulistas. Com o subtí-
e cênicas, dos motivos, temas, cenários e cronologia das representações, espe- tulo "As administrações dos índios", refere nove bandeiras escravagistas; as
cificando o sentido do teatro jesuítico, principalmente os autos de José de dúvidas dos moradores de São Paulo acerca dos cativeiros justos e o famoso
Anchieta, como arte fundamentalmente utilitária, dirigida para a catequese do voto do padre Antônio Vieira, em 1694, a favor da liberdade dos aldeados.
índio e a moralização do colono. Segundo a ordem do aparecimento das obras, Também discute as administrações dos jesuítas e dos moradores, especifican-
o Auto de São Tiago foi a primeira peça a ser representada no Brasil, na do a posição do Colégio de Piratininga, no final do século XVII, em 1700,
aldeia de Santiago, na Bahia, em 25-7-1564. Em 1586, como informa o padre quando terminou a grande batalha da liberdade dos índios e iniciou-se o ciclo
Simão de Vasconcelos, o irmão Manuel do Couto preparou, na Aldeia de São mineiro. No caso, levanta indícios de uma cisão entre os partidários do padre
Lourenço (Niterói), uma comédia em louvor do santo. O Auto de São Louren- Antônio Vieira, defensor da liberdade incondicional dos índios aldeados, e os
ço é escrito em tupi, castelhano e português, achando-se no Caderno de jesuítas estrangeiros, adeptos da escravização dos mesmos, como os italianos
Anchieta, que o copiou. O que não significa que necessariamente fosse da João Andreoni (Antonil) e Giorgio Benci ou o holandês Jacob Rolland, autor de
autoria deste; Serafim Leite informa que os autos eram representados mais de uma Apologia pro paulistis, ironizada por Vieira.
uma vez, havendo acomodações dos mesmos às circunstâncias da nova repre- Os tomos VIII e IX são suplementos biobibliográficos, tratando minucio-
sentação e intervenções de mais de um autor. Alguns personagens têm nomes samente, com erudição espantosa, de escritores jesuítas que trabalharam na
de chefes indígenas que foram inimigos dos portugueses durante a Confedera- Província do Brasil e na Vice-Província do Maranhão e Grão-Pará, entre
ção dos Tamoios. É o caso de Guaxará ou Guaixará, principal de Cabo Frio, e 1549 e 1759. A bibliografia consultada por Serafim Leite é referida nas pági-
Aimbirê, que teria ameaçado matar Anchieta, quando este foi refém dos índios nas XI-XXVI do tomo VIII, constando principalmente de obras manuscritas,
em Iperoig. Como afirma Serafim Leite,l muito da correspondência dos jesu- impressas e de cartografia. Esse tomo faz um elenco de autores de A a M·, o
ítas foi perdido nas travessias atlânticas, tempestades e piratarias. Dos docu- tomo IX, de N a Z. O tomo X traz a bibliografia geral da obra. Do tomo I ao
mentos publicados e inéditos que serviram de base para a lista das peças teatrais tomo IX, índices minuciosos das matérias tratadas; listas de instituições cul-
acima, fica evidente a centralidade da Companhia de Jesus. Afinal, só na se- turais visitadas e vários apêndices documentais particularizam ricamente os
gunda metade do século XVII surgiu um autor teatral que não era membro da assuntos tratados.
Companhia - o poeta Manuel Botelho de Oliveira - que introduziu o teatro
espanhol no Brasil, com duas comédias não representadas: Amor, engano y
II
zelos e Hay amigo para amigo.
O tomo IV (Norte-2, "Obra e assuntos gerais", séculos XVII-XVIII)
tem por subtítulo A magna questão da liberdade e ocupa-se principalmente da A assombrosa multiplicidade e a enorme diversidade dos assuntos refe-
ação do padre Antônio Vieira. O tomo VI, Do Rio de Janeiro ao Prata e ao rentes a todas as regiões do Brasil e do Maranhão e Grão-Pará onde estive-
Guaporé. Estabelecimentos e assuntos locais. Séculos XVII-XVIII, trata do ram os jesuítas são interpretadas por critério~ ideológicos que as unificam
Rio de Janeiro, do Espírito Santo, das capitanias do Oeste, como Minas Gerais, segundo um sentido apologético da ação da Companhia de Jesus. Por isso,
antes de ir expondo o que o autor narra, é preciso especificar como ele o faz,
para desnaturalizar seus pressupostos, categorias e procedimentos teórico-
doutrinários e lembrar ao leitor que, assim como a matéria a que se aplicam,
1 História da Companhia de Jesus no Brasil (Lisboa/Rio de Janeiro: Portugáli~ Civilização Brasi-
também eles são históricos, pois produzidos em uma situação particular, com
leira, 1938), tomo II, pp. 605-612.

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HISTÓRIA DA COMPANHIA DE JESUS NO BRASIL Ui JOÃo ADOLFO HANSEN

condicionamentos materiais e institucionais específicos, que implicam as re- documentos, e, principalmente, sempre favorável aos padres portugueses, sem-
frações do uso dos materiais manuscritos dos jesuítas dos séculos XVI, XVII pre caracterizados como bons, caridosos, justos e injustiçados, em compara-
e XVIII para montar seqüências narrativas de "começo-meio-fim" com ações ção com os inimigos externos da Ordem, como o cronista Gabriel Soares de
de personagens constituídas como centrais e secundárias, morais e imorais, Sousa, os colonos e os carmelitas do Maranhão e Grão-Pará, os bandeirantes
justas e injustas, etc. Não se pode positivar o que Serafim Leite propõe, enfim, de São Paulo, e, ainda, em comparação com os padres inimigos das posições
devendo-se fazer a crítica documental e teórica do seu procedimento. portuguesas tradicionais defendidas pela Ordem, caso dos padres classifica-
Inicialmente, é preciso falar dos próprios materiais usados como docu- dos por Serafim Leite como rivais de Vieira, como Andreoni e Gusmão. Ou
mentação. Sendo jesuíta, teve livre acesso a manuscritos da Companhia de seja, o autor não expõe nem constitui suficientemente as razões ou os interes-
Jesus depositados em reservas de arquivos de Portugal, Espanha, Itália, Fran- ses das partes inimigas dos jesuítas defensores dos índios, de modo que o leitor
ça, Bélgica e Holanda, além de instituições culturais do Brasil, que refere mi- corre o risco de generalizar como "verdadeira" a particularidade dos interes-
nuciosamente no tomo X da obra. Logo no início desta, informa que, dentre a ses da Companhia, entendendo as razões dos seus oponentes de maneira qua-
enorme variedade dos papéis que examinou, estabeleceu como fontes princi- se só moral, como se fossem indivíduos e grupos apenas interessados em matar
pais as cartas e os relatórios dos jesuítas que foram agentes nas missões do e escravizar índios, expulsar padres e obter lucros a qualquer custo. Obvia-
Estado do Brasil e do Estado do Maranhão e Grão-Pará entre 1549 e 1760. mente, para se fazer justiça à empresa audaciosa de escrever uma história de
Nada haveria a dizer sobre a escolha do material interno da Companhia, total- tal porte, que assombra pela paciência e erudição prodigiosas, devem-se ima-
mente necessário para a história da mesma, se não fosse documentação quase ginar as dificuldades de toda ordem superadas admiravelmente pelo padre
que exclusiva, ou seja, documentação cujo uso faz com que outras fontes con- Serafim Leite, que durante anos a fio pesquisou, selecionou e organizou milha-
temporâneas fundamentais para a história colonial e para a história da Compa- res de informações, para depois ordená-las na sua narração. Mas tem-se de
nhia de Jesus - como bandos, alvarás, ordens-régias, atas e cartas das câmaras admitir que adotou procedimentos historiográficos discutíveis. Não o seriam,
municipais, oficios de governadores, pleitos, processos, queixas, agravos, tex- talvez, se todos os manuscritos que usou como documentação fossem efetiva-
tos de ficção e não-ficção de autores não pertencentes à Companhia, etc. - mente acessíveis para o público não-religioso, pois, até agora, a maioria deles
sejam constituídas como de interesse apenas indireto e mesmo sem interesse continua de dificil e mesmo impossível acesso para leigos. Logo, quando o
para a história da Companhia de Jesus. A documentação da obra é fundamen- autor cita as cotas de manuscritos, mas não transcreve os textos dos mesmos,
talmente jesuítica, ou seja, documentação jesuítica de uma história jesuítica da afirmando não querer introduzir o leitor "[ ... ] no labirinto das citações inúteis ", 2
Companhia, podendo-se supor, por isso, que os próprios documentos usados talvez por prever que a transcrição de todos os textos que refere tomaria a
predeterminam o crivo interpretativo de Serafim Leite, pois ele os utiliza para obra materialmente inviável, o leitor fica decepcionado. Além disso, quando
dar a palavra a seus agentes dos séculos XVI, XVII e XVIII. Quando falam traduz manuscritos em latim e castelhano - mas também sem transcrever os
outra vez, pela mediação da voz do narrador, fazem-no novamente ad maiorem originais - parece supor que o leitor deva aceitar a interpretação realizada por
Dei gloriam, em defesa das posições da sua ordem no presente e no passado. sua tradução como adequada, verossímil e mesmo verídica. Afirma que a his-
O que fica nítido, por exemplo, quando narra as polêmicas que envolveram os tória que escreve, sendo história portuguesa, não é a história de Portugal; e,
inacianos e os colonos nos séculos XVI e XVII. Nos conflitos entre os padres sendo história brasileira, não é a história do Brasil; e, sendo história eclesiásti-
defensores da liberdade dos índios aldeados e os colonos escravistas - na ca, não é a história da Igreja, mas "[ ... ] história dos atos realizados pelos Jesu-
Bahia, no século XVI; no Maranhão, entre 1653-1662; em São Paulo, ao longo ítas da Assistência de Portugal no Brasil".3 Por isso mesmo, diz, como não é
de todo o século XVII, principalmente nas três décadas fmais, nos vários epi- uma história geral da Companhia de Jesus, trata do Instituto, da formação e
sódios que envolveram as famílias Garcia e Camargo, além de grandes perso- das Constituições da mesma apenas quando isso é indispensável.
nalidades da Companhia de Jesus, como Antônio Vieira, João Andreoni e
Alexandre de Gusmão - a interpretação é sempre favorável à posição dos 1 Ibid., tomo I, p. XIX.
padres contemporâneos dos eventos narrados nos papéis usados como J Ibid., "Prefácio", p. XI.

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HISTÓRIA DA COMPANHIA DE JESUS NO BRASIL
• JOÃO ADOLFO HANSEN

Outros pressupostos historiográficos são expostos no "Prefácio" do tomo Em Portugal, reinava D. João III. O grande monarca, recusando infiltrações anglo-
V, onde propõe que a Cronologia é "[ ... ] a ciência das divisões do tempo e das saxônicas, salvou Portugal da guerra civil e manteve, nesta parte do Ocidente, as
datas históricas"; a Filosofia 'l .. ] a ciência dos seres e das causas e efeitos" tradições intelectuais, morais, religiosas e estéticas, da raça latina. A Providência
reservou à Companhia de Jesus a principal colaboração nesta obra de saneamento
e a História ''[. .. ] a narrativa dos acontecimentos dignos de registo, de que a
espiritual. Sobretudo na vastidão do Império Português, onde ela iria ser veículo de
Cronologia é subsídio e a Filosofia interpretação".4 Pressupondo que as inter- tão grandes idéias. 6
pretações se fundam em teorias e que estas variam conforme os tempos e os
dados inéditos que modificam as premissas sobre as quais a filosofia da histó- E ainda: "Partimos [ ... ] do princípio de que a civilização cristã é boa".?
ria atua, conclui que as interpretações filosóficas são precárias, em decorrên- Assim, embora reconheça que houve "excessos" e "omissões", nunca
cia da própria precariedade da teoria que as informa: põe em dúvida o próprio fundamento metafisico da ação dos missionários e da
sua escrita, a verdade divina. Como diz no tomo VII, quando refere prováveis
E, por evidente contraste, são os dados novos, historicamente adquiridos, que, uma
causas da oposição aos jesuítas no século XVIII, toda liberdade humana está
vez adquiridos, permanecem com o seu valor próprio, independente de teorias e
necessariamente subordinada a Deus:
tendências, que os podem depois interpretar no sentido A ou no sentido B, mas só
eles, os dados, permanecem em si mesmos. l
Não se trata de averiguar aqui as causas deste estado mental da Europa, lembrando
apenas que alguns as atribuem à própria Companhia de Jesus com o seu sistema
Com o enunciado, afirma que a pesquisa histórica se baseia na minúcia
filosófico-teológico do livre-arbítrio, em que defende a liberdade, princípio revolucio-
documental que aumenta o depósito das "noções certas", para incorporá-las nário fecundo, sem dúvida, mas a que logo unia outro de caráter conservador: toda a
positivamente ao conhecimento humano permanente. Obviamente, supondo a autoridade vem de Deus, todavia quem a recebe diretamente não são os Reis, senão o
objetividade dos dados, sem levar em conta que a apropriação dos materiais. Povo, onde se conserva estável.&
pelos critérios particulares do lugar institucional de enunciação do historiador
produz valores-de-uso específicos com os mesmos, Serafim Leite também re- A própria universalidade pressuposta como aval da sua enunciação é, no
corta, organiza e dispõe o material jesuítico como se fosse um "dado objetivo" entanto, um limite da validade dos seus procedimentos historiográficos, porque
ou tivesse "valor próprio, independente de teorias e tendências". Logo, se tais hoje aparece como particularidade de uma religião histórica, entre outras,
procedimentos de uso dos manuscritos como fontes são discutíveis, também é universalizada na expansão ibérica, nos séculos XVI, XVII e XVIII, e na sua
discutível a própria interpretação dos fatos e dos eventos inventados com eles. interpretação que valida, no presente da leitura, a intervenção que submete as
Sendo padre, Serafim Leite interpreta catolicamente as matérias culturas indígenas e africanas ao império português.
selecionadas e organizadas segundo o esquema narrativo de uma crônica Por isso, principalmente quando escreve sobre as culturas indígenas e as
apologética da ação da Companhia de Jesus no Brasil. Embora afirme várias africanas, sua conceituação da diferença cultural dos indios catequizados ou
vezes que se manterá neutro, pois acredita que o material tem "valor próprio, dos negros escravizados não é antropológica, mas religiosa. No caso da
independente de teorias e tendências", nunca o é efetivamente, supondo-se catequese dos grupos indígenas, a cultura dos grupos aldeados pelos jesuítas
que isso seja possível. Principalmente porque a universalidade do Deus de sempre é dada como evidentemente humana, em oposição às teses colonialistas
Roma é posta por ele como evidência positiva de verdade absoluta que funda- que muitas vezes afirmavam a animalidade dos índios como validação do seu
menta a ação missionária no passado reconstituído dos séculos XVI, XVII e extermínio ou escravidão, mas de uma humanidade caracterizada como seme-
XVIII, e no presente da sua enunciação: lhança negativa, distante e deformada da verdade cristã. Por ser inferior, deve
ser convertida à civilização superior dos agentes portugueses:

• Ibid., "Prefácio", tomo I, p. X.


• Ibid., "Prefácio", tomo V, p. X. 7 Ibid., p. XIII.

l Ibidem. I Ibid., tomo VII, p. 336.

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JOÃO ADOLFO HANSEN
HISTÓRIA DA COMPANHIA DE JESUS NO BRASIL

Que importa o debate acerca da sobrevivência de culturas e a verificação de que a vultos da Companhia e defendê-los. É o caso, no século XVI, de Manuel da
cultura inferior, posta em contacto com a superior, ou se desagrega ou morre? Não Nóbrega, agigantado em detrimento do espanhol José de Anchieta. Ou de An-
ficará sempre, como dado positivo, a maior extensão duma cultura superior?9 tônio Vieira, supervalorizado na comparação com jesuítas italianos e holande-
ses do final do século XVII e início do XVIII, como Andreoni, Benci e Rolland.
Além de pressupor tal universalidade como validação da conquista e do Lembrando que a linguagem é sempre consciência prática que independe
colonialismo ibéricos, Serafim Leite também trata muito positivamente os agen- da intenção dos agentes, pode-se dizer que a interpretação feita por Serafim
tes portugueses da colonização, sejam religiosos ou leigos, pelo simples fato de Leite dos eventos que reconstitui tende a alinhar-se objetivamente com seto-
serem portugueses, como foi dito. É um nacionalista ardoroso, afirmando que res conservadores, nacionalistas e colonialistas, de Portugal e do Brasil, nos
anos 1938-1950. Embora a obra permaneça fundamental, como magnífica sis-
[ ... ] uma das "glórias portuguesas" foi operar a substituição da cultura inferior [... ] tematização de informações sobre a Companhia de Jesus no Brasil e no
quase só pelo dinamismo latente da civilização superior, que por si mesma se impôs,
Maranhão e Grão-Pará, é necessário relativizar a interpretação que faz das
agregando a si os elementos inferiores. 10
mesmas, cruzando-a com interpretações realizadas por outros agentes históri-
cos não-jesuítas que, nos séculos XVI, XVII e XVIII, foram contemporâneos
Ou:
de eventos reconstruídos nela, além de historiadores portugueses e brasileiros
Pertencem a este período (século XVII) e a este Tomo, alguns sucessos consideráveis
não-católicos e não-religiosos que, desde o século XVIII, vêm tratando
na história do Brasil. Um deles, a violenta e pérfida pretensão dos holandeses a se polemicamente do assunto.
apoderarem de uma terra já em plena floração civilizada (o que eles encontraram por
civilizar, como a Guiana, e onde ficaram, ainda hoje é simples colônia). Felizmente
triunfou a linha que manteve ao Brasil a fisionomia e personalidade que o distingue li
hoje, segundo o germe inicial de sua vida histórica. ll

No século XVI, os assim chamados "anos heróicos" (1549-1570)


Por isso, também se opõe enfaticamente a interpretações como a de
correspondem à fase da instalação da missão no litoral brasileiro e aos primei-
Felner que, escrevendo sobre a presença jesuítica na Africa, afirma que os
ros contatos com as populações indígenas das capitanias do Nordeste, como a
padres eram amos dos sobas de Angola e que defendiam a liberdade dos índios
Bahia e Pernambuco, e do Sudeste, como o Espírito Santo e São Vicente.
americanos com fmalidades comerciais, pois obrigavam os colonos brasileiros
Nesses anos, a figura fundamental para o projeto jesuítico do século XVI e dos
a comprar escravos negros e, com isso, a se recolonizarem continuamente,
seguintes é o padre Manuel da Nóbrega. Segundo Serafim Leite, Nóbrega
como dependentes diretos da Coroa e da Companhia, que tinham o monopólio
manifesta um conceito básico de unidade na organização política da terra, pois
do tráfico. Sendo os jesuítas donos dos sobas, afirma Felner, só eles podiam
lhe parece que todo o Brasil deve estar sob a imedíàta jurisdição real. Para
vender negros, tendo lucros astronômicosY Logo, quando postula e defende a
efetivar tal unidade, Nóbrega estabeleceu um programa de "catequese e es-
suposta brandura da colonização portuguesa, em geral, e da missão jesuítica
cola", base da política dos aldeamentos indígenas e da educação dos colégios
portuguesa, em particular, falando do "[ ... ] genuíno espírito colonizador de
e seminários, no século XVI, retomado, com adaptações, pela Companhia de
Portugal, esclarecido, humano e cristão",13 Serafim Leite realça os feitos dos
Jesus nos séculos XVII e XVIII.
padres portugueses para retratar positivamente o caráter e a ação de grandes
Nóbrega chegou à Bahia com 32 anos de idade, em 29-3-1549, na esqua-
dra do primeiro governador-geral, Tomé de Sousa, com os padres Leonardo
• Ibid., "Prefácio", tomo I, p. XIII. Nunes, Aspicuelta Navarro, Antônio Pires e os irmãos Vicente Rodrigues e
10 Ibid., pp. XIII-XlV. Diogo Jácome. Na Bahia, fundou a casa de Água dos Meninos, para educar
11 Ibid., p. Xv. jovens índios. Dejulho de 1551 a janeiro de 1552, esteve em Pernambuco. Em
II Ibid., tomo II, p. 345.
13 Ibid., p. 171.
22 de junho de 1552, chegou à Bahia o bispo Pero Fernandes Sardinha.

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HISTORIA DA COMPANHIA DE JESUS NO BRASIL JOÃO ADOLFO HANSEN

Cenfonne Serafim Leite, vinha da Índia e confundiu os índios do Brasil com os A iei que lhes hão-de dar é defender-lhes [proibir-lhes] comer carne humana e guerrear
hindus de Goa. Demonstrando-se desfavorável à catequese, criticou a integração sem licença do Governador; fazer-lhes ter uma só mulher; vestirem-se, pois têm
jesuítica das práticas gentias no ritual da missa, polemizando com Nóbrega muito algodão, ao menos depois de cristãos; tirar-lhes os feiticeiros; mantê-los em
sobre a confissão feita por meio de intérpretes. O método de Nóbrega pres- justiça entre si e para com os cristãos; fazê-los viver quietos, sem se mudarem para
outra parte senão for para entre cristãos, tendo terras repartidas que lhes bastem, e
crevia que os índios a serem batizados deviam provar que eram "bons cris-
com estes Padres da Companhia para os doutrinarem I4
tãos" ou afastar-se da comunidade dos padres. Não se podia batizá-Ios em
multidão; os batizados deveriam viver em aldeias separadas dos restantes. Em
Em 1556, escreveu o Diálogo sobre a conversão do gentio e um texto
São Vicente, em 1553, Nóbrega organizou juridicamente a escola, fundando a
perdido, Tratado contra a antropofagia e contra os cristãos seculares e
Confraria do Menino Jesus. Detenninou então que se ensinasse a ler e a es-
eclesiásticos que a fomentam ou consentem. Em 1561, participou da organi-
crever também aos meninos externos, que aprendiam a doutrina católica, leitu-
zação da guerra contra os tamoios de Iperoig, então aliados aos huguenotes de
ra, escrita, canto, flauta e latim. Em 22-2-1553, inaugurou-se o Colégio.
Villegagnon, na Guanabara; voltou a São Vicente, onde participou, em abril de
O ensino nos colégios fundados por Nóbrega é anterior ao aparecimento
do Ratio studiorum, em novembro de 1599, e deve ter seguido os programas 1563, da pacificação dos índios. Durante as negociações, ele e Anchieta foram
do Colégio de Évora, pertencente à Companhia de Jesus. Nóbrega pretendia reféns do chefe Cunhambeba, em Iperoig. Apoiou Estácio de Sá, sobrinho do
pennanecer em São Vicente, considerando a capitania a mais apropriada para governador Mem de Sá, na guerra contra os franceses, em 1564. Nesse ano,
a conversão do gentio, pois era a entrada para o sertão habitado por índios uma provisão real estabeleceu o Colégio de Salvador para sessenta padres da
bravos. Queria pennanecer em São Vicente para ir ao Paraguai, mas o gover- Companhia. Ainda em 1564, o rei D. Sebastião emitiu um alvará que estabele-
nador o impediu, temendo que a capitania se despovoasse com uma corrida ao cia a redízima dos dízimos do açúcar como "[ ... ] esmola para sempre para
ouro das minas descobertas através do Peru. Além disso, as terras paraguaias sustentação do Colégio da Bahia". Os jesuítas passaram a obter os recursos
pertenciam a Castela. Em 9-7-1553, quando Roma o nomeou o primeiro pro- materiais necessários para a manutenção dos seus colégios; em 1568, o bene-
vincial da recém-criada Província do Brasil, Nóbrega deixou de subordinar-se ficio foi ampliado para o Colégio do Rio; e, em 1576, para o de Olinda.
à província portuguesa da Companhia e à autoridade do bispo de Salvador. Visando a autonomia da Província do Brasil, Nóbrega delineou as bases
Continuando o duplo programa de "catequese e ensino", suas negocia- econômicas para os colégios, detenninando que os produtos da pecuária, além
ções com Brás Cubas e João Ramalho facilitaram a penetração jesuítica no do uso da dotação régia fundada nos dízimos do gado, seriam o fundamento
planalto de São Vicente. A partir de 1553, passou a contar com o auxílio do econômico da Companhia. A primeira fonte de receita dos missionários fora
padre José de Anchieta. No sertão de Santo André da Borda do Campo, par- agrícola; antes mesmo da fundação de Salvador, o governador Tomé de Sousa
ticiparam da fundação de São Paulo de Piratininga, em 1554. Em 24-8-1554, tinha saído com Nóbrega pela região, reservando um "bom vale" para os jesuí-
Nóbrega mandou três innãos para fazer as pazes entre os carijós e os tupis. tas. Em janeiro de 1550, chegaram mais quatro padres e sete meninos órfãos
Dois deles, Pero Correia e João de Sousa, foram mortos pelos carijós instiga- de Lisboa. A organização da Casa dos Meninos coincidiu, então, com o estabe-
dos por um castelhano do Paraguai. São os primeiros mártires da Companhia lecimento do subsídio régio de 400 réis (ou um cruzado) por mês para N óbrega
de Jesus na América. e os cinco companheiros, além de 5.600 réis anuais para roupas. Não havia
As Constituições da Companhia de Jesus chegaram ao Brasil em 1556. dinheiro circulante e o pagamento era feito em ferro que, depois de negociado,
Nesse mesmo ano, voltando à Bahia, Nóbrega começou a fundar aldeias no rio ficava valendo a metade. Em 1550, Tomé de Sousa efetivou a doação da
Vennelho e a proibir a confissão dos colonos que viviam em concubinato públi- sesmaria, chamada de Água dos Meninos. O Colégio recém-estabelecido era
co ou tinham escravos índios comprados sem justiça. É também na Bahia que, destinado ao ensino das crianças índias, com fins apostólicos. A partir de 1551,
movido pela morte do bispo Sardinha, devorado pelos caetés quando o navio o subsídio foi ampliado para os usos dos novos padres que iam chegando ao
que o levava para a Europa naufragou nas costas do Nordeste, sistematizou a
política da catequese em seis itens básicos; extremamente eficazes, atingem o
núcleo da organização social e cultural dos grupos indígenas: '4 Padre Manuel da Nóbrega, Carta da Bahia, 8-5-1558.

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HIST6RIA DA COMPANHIA DE JESUS NO BRASIL JOÃO ADOLFO HANSEN

Brasil. Visando a manutenção dos alunos, criaram-se as confrarias do Menino Janeiro, em 17-10-1570. Desde 1549, tinha estabelecido a política dos
Jesus, que sustentavam os órfãos vindos de Lisboa, além de meninos do Brasil. aldeamentos indígenas, organizara a Província da Companhia de Jesus, funda-
O modelo dessas casas fundadas também no Espírito Santo e em São Vicente ra dois colégios de dotação régia (Bahia e Rio), mais o de Pernambuco, depois
era o Colégio dos Órfãos de Lisboa. A base econômica da confraria de também transformado em colégio real. Estabelecera residências em várias
Piratininga era o gado doado por Brás Cubas e terras de Pero Correia. Essas capitanias: na Babia, em Ilhéus e Porto Seguro; no Espírito Santo, na Vila de
confrarias não estavam previstas nas Constituições, que chegaram em 1556, Vitória e em mais três aldeias, Conceição, Guarapari e São João; na Guanabara,
e só admitiam colégios fundados pela Companhia que tivessem renda própria. o Colégio do Rio de Janeiro e as aldeias de Ibiracica e a de São Lourenço
A grande inovação de Inácio de Loyola, conforme Serafim Leite, consistiu em (atual Niterói); em São Vicente, uma residência na Vila de São Vicente, e
determinar que, para cumprir a finalidade pedagógica, o colégio não poderia cercanias como Santos e Itanhaém, e outra em São Paulo de Piratininga, e
depender de esmolas, mas ter renda fixa. A verba da redízima dos dízimos do adjacências como Santo André da Borda do Campo e Gerebatiba.
açúcar para o Colégio da Babia, em 1564, era destinada para sessenta padres;
a do Colégio do Rio, em 1568, para cinqüenta; a de Pernambuco, em 1575,
para vinte. Cada padre recebia 20.000 réis anuais. N
No caso, a noção de "colégio" não tem sentido apenas material, mas
regional, referindo-se à região da sua instalação, às aldeias e às fazendas. Em Conforme o Regimento dado por D. João III a Tomé de Sousa, em 1548,
1600, os jesuítas do Brasil eram 172; em 1760, quando foram expulsos, 317. a fórmula inicial de organização civil dos índios seriam os aldeamentos ou as
Nesse .tempo, na região Norte, Maranhão e Grão-Pará, não existia nenhum chamadas aldeias de el-rei, distintas de outros agrupamentos de índios chama-
colégio real, como os três citados, que foram os únicos no Brasil até a inter- dos de "administração particular". As aldeias de el-rei dependiam diretamente
venção' de Pombal. Assim, a grande fonte de recursos usados na Província do dos governadores, que nomeavam para elas os institutos religiosos que tinham
Brasil e na Vice-Província do Maranhão e Pará foram as fazendas de gado e as missões como vocação. Nesse sentido, os missionários eram delegados do
os engenhos de açúcar onde, a partir do século XVII, é atestado o trabalho de governador-geral ou governadores da repartição do sul ou capitães-mores. As-
índios escravizados. Nos séculos XVI, XVII e XVIII, não havia o problema da sim, as aldeias de el-rei ficavam fora da alçada das câmaras municipais locais;
legalidade da escravidão, mas sim o do seu modus faciendi. 15 No Voto do os missionários eram diretamente indicados pelos reitores dos colégios ou pro-
padre Antônio Vieira sobre as dúvidas dos moradores de S. Paulo acerca vinciais, com os poderes das leis, de modo que o missionário era ao mesmo
da administração dos índios, de 12-7-1694, Vieira advertia que os índios que tempo o pároco da aldeia e seu regente secular ou civil. As relações das câma-
viviam livres em suas terras e que tinham sido arrancados violentamente delas ras municipais com as aldeias de el-rei eram condicionadas por leis que confe-
pelos bandeirantes e trazidos para São Paulo onde eram escravos ou vendidos riam a jurisdição secular aos superiores das aldeias; às vezes, as câmaras
sofriam injustiça. Aliás, o primeiro ato legal de escravização foi a declaração, assumiam, tal jurisdição. Serafim Leite propõe que a intervenção das câmaras
em 1562, da guerra justa contra os caetés do Nordeste que tinham devorado o era legítima, quando exerciam a jurisdição por poderes especiais confiados a
bispo Sardinha. 16 Em março de 1565, Nóbrega participou da fundação da cida- elas pelos governadores; contudo, quando as câmaras se adiantavam a tais
de de São Sebastião do Rio de Janeiro, tomando-se reitor do colégio dessa poderes, passando a interpretá-los livremente, sua intervenção era ilegal, con-
cidade em 1567. Nesse ano emitiu um parecer, Caso de consciência de 1566- forme o autor, principalmente porque a finalidade do agrupamento dos indios
1567, sobre a escravidão dos indios que se vendiam a si mesmos e aos filhos nas aldeias de el-rei, como reza uma carta do governador-geral do Brasil, Afon-
durante a peste e a fome de 1562-1563. Estabelecendo os "títulos justos" da so Furtado de Castro do Rio de Mendonça, aos oficiais da Câmara da Vila de
escravidão, defendeu a liberdade dos índios aldeados. Morreu no Rio de São Paulo, da Babia, em 7 de outubro de 1671, era ''[. .. ] para Sua Alteza os ter
assim prontos a seu real serviço, que é o fim de elas se perpetuarem".17
" Serafim Leite, op. cit., tomo II, p. 232.
lO Ibld., p. 197. 17 Ibld., tomo VI, pp. 228-229.

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HISTÓRIA DA COMPANHIA DE JESUS NO BRASIL JOÃo ADOLFO HANSEN

v maiores eram, no caso, a base da evangelização. No centro, achava-se o Co-


légio da Bahia; ao sul, os do Espírito Santo, Rio de Janeiro e São Paulo; ao
No fmal do século XVI, a Província do Brasil estava plenamente organi- norte, os de Pernambuco, Maranhão e Pará. Na Bahia, os padres entravam
zada e já se expandia para os limites do território, chegando, ao norte, até à pelo rio Real e pelo rio São Francisco. A região de.ste e a das serras de Arabó
Amazônia e ao Amapá; ao sul, até a Colônia do Sacramento, no rio da Prata; e, e Quiriris tinham grandes populações indígenas. Pelo São Francisco, o chama-
a oeste, até o rio Guaporé. Os primeiros jesuítas do século XVI chamaram de do "caminho das boiadas", chegaram ao Piauí; deste, pelo Maranhão, atingi-
"sertão" a esses lugares desconhecidos e distantes do litoral, que ainda não ram a Serra do Ibiapaba, no Ceará. Na capitania do Espírito Santo, a entrada
tinham sido povoados por europeus. Em 1550, o termo era aplicado aos arre- principal era pelo rio Doce, principalmente no primeiro quartel do século XVII,
dores de Salvador; do mesmo modo, Nóbrega dá notícia da fundação da aldeia adentrando-se o território que hoje é Minas Gerais. Do Rio de Janeiro, desde o
de Piratininga datando-a "[ ... ] deste sertão adentro". Assim, a noção relacio- século XVI e nas primeiras décadas do XVII, iam por mar até Laguna (atual
nava-se ao povoamento, não ao solo; por isso, nomeava um território sempre Santa Catarina), chegando pelo interior ao atual Rio Grande do Sul. O Colégio
cambiável, que se alterava conforme eram dilatadas as fronteiras. Pelos rios e de São Paulo ficou subordinado à influência do Colégio do Rio de Janeiro, não
por vias terrestres, os jesuítas as alargaram constantemente, quando penetra- sendo diretamente uma base para o descimento de índios. Mas os padres ti-
ram mato adentro para fazer a "conquista espiritual" dos novos territórios. A nham bases em lugares distantes de Piratininga, como Botucatu ou São José
partir de 1553, principalmente, começou a preocupação de ir para o interior dos Campos. Com o tempo, as missões do Mato Grosso passaram a depender
descobrir gentio melhor que o da costa. Assim, foram organizadas várias en- da missão de São Paulo donde, em 5-8-1750, por exemplo, saíram de Porto
tradas do sertão, como entradas de reconhecimento missionário, como as de Feliz (antigamente Arariguaba), no rio Tietê, os padres Estêvão de Crasto e
Nóbrega, em 1549, de Porto Seguro ao sul do rio do Frade; a de Leonardo Agostinho Lourenço, acompanhando o governador Antônio Rolim de Moura,
Nunes, em 1550, para o Campo de Piratininga e pelo rio Tietê; ou a de Francis- que ia fundar a capitania de Mato Grosso. Chegando ao Mato Grosso em
co Pires e meninos órfãos, em 1552, ao sertão da Bahia. Em dezembro de 12-1-1751, Estêvão de Crasto fundou uma aldeia próxima de Cuiabá; Agosti-
1553 , obedecendo a uma ordem de D. João III, uma entrada chefiada pelo nho Lourenço, outra, em território que hoje é a Bolívia. IS No Nordeste, o Co-
padre Aspicuelta Navarro avançou em direção do rio Jequitinhonha, no atual légio de Pernambuco foi o núcleo das entradas à Paraíba e ao Rio Grande do
estado de Minas Gerais, ultrapassando o rio de São Francisco, em busca de Norte anteriores à invasão holandesa de 1630. A mais célebre delas foi a dos
ouro; em fevereiro de 1574, o padre João Pereira penetrou a atual chapada padres Luís Figueira e Francisco Pinto, em 1607, que atingiu a serra do Ibiapaba,
Diamantina, indo pelo rio Doce em busca dos índios paranaubis (mares ver- no Ceará. Em 1636, o mesmo padre Luís Figueira saiu por mar do Colégio do
des), com licença régia de fazer o descobrimento das esmeraldas. Em 1578, os Maranhão para entrar no rio Xingu. Na Amazônia, a base das missões era o
padres entraram no sertão do rio Paraíba (Rio de Janeiro), donde desceram Colégio do Pará; em 1653, o padre Antônio Vieira entrou no rio Tocantins.
600 índios depois de pacificá-los. Entre 1575-1576,20 mil índios foram desci- Inúmeras outras entradas foram feitas entre 1659, data da redução dos índios
dos do sertão de Arabó (ou Orobó); em 1583, praticamente todos eles estavam nheengaíbas por Vieira, e 1752, entrada de Manuel dos Santos e Luís Gomes
mortos, o que foi interpretado como "castigo de Deus". Falava-se então que ao rio Javari.
eram "infmitos" e que os índios aldeados em tomo das vilas eram um escudo
contra os negros, os franceses é os aimorés. Já no século XVII, novas entra-
das foram realizadas, como a dos padres Luís Siqueira e Vicente dos Banhos. VI
A Ânua de 1679 informa sobre padres do Espírito Santo que foram ao sertão.
O resultado prático das entradas jesuíticas do século XVI foi o descimento de Serafim Leite chama de "serviços públicos" os que foram prestados pela
índios que foram catequizados e aldeados no litoral; já no século XVII, os Companhia à cultura das letras, artes e ciências, como a constituição de biblio-
padres começaram a fazer entradas não mais para descê-los, mas para cris-
tianizá-los e agrupá-los em missões no interior do território. Os colégios .1 Ibid., pp. 216-224.

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HISTÓRIA DA COMPANHIA DE JESUS NO BRASIL JOÃO ADOLFO HANSEN

tecas nos vários colégios. O Missal, o Breviário e as Regras do Colégio de cultos sincréticos; 4) O tema do "clero" e os subtemas da ignorância t< maus
Coimbra, feitos pelo padre Simão Rodrigues, companheiro de Inácio de Loyola costumes dos padres regulares, dos conflitos com bispos e das práticas dos
e de Francisco Xavier, além dos Exercícios espirituais, de Loyola, do Manual, inacianos no cotidiano da missão.
de Aspicuelta Navarro, de algum exemplar da Imitação de Cristo e métodos Os fundamentos teológico-políticos da catequese dos índios sistemati-
para alfabetizar meninos foram provavelmente os primeiros livros que os pa- zada por Nóbrega, no século XVI, foram retomados em todas as missões
dres tiveram no Brasil. Já em agosto de 1549, Nóbrega escrevia ao Reino jesuíticas, até à expulsão da Companhia de Jesus, com adaptações práticas
pedindo obras de teologia moral e de direito para a resolução de casos de às várias conjunturas coloniais e algumas discordâncias internas, conforme
consciência. Antes do fim desse ano chegaram à Babia duas caixas de livros. Serafim Leite, no caso dos padres "estrangeiros", como Andreoni e Rolland,
Todos os colégios tiveram bibliotecas, maiores ou menores. No final do século no final do século XVII, favoráveis aos paulistas escravagistas. São funda-
XVII, a biblioteca do Colégio da Babia possuía cerca de 3 mil livros; por volta mentos ortodoxos, que reafirmam os dogmas católicos estabelecidos em bu-
de 1760, 12 mil. A biblioteca do Colégio do Rio começou em 1567, com Nóbre- las papais e no Concílio de Trento, como o da presença da luz natural da
ga; em 1775, quinze anos depois da expulsão dos padres, possuía cerca de Graça inata no indígena e no africano, combatendo-se a afirmação, corrente
5.435 volumes, tendo-se perdido cerca de 734. Os colégios de São Paulo, Es- no século XVI, de que a conquista da nova terra era feita de direito porque
pírito Santo, Recife e Pará também tinham muitos livros. A biblioteca do Colé- os índios não tinham/, nem I, nem r (nem fé, nem lei, nem rei) ou porque
gio do Maranhão começou com os livros do padre Antônio Vieira. 19 Em 1760, eram ilegítimas as leis de suas sociedades, pois não conheciam a palavra de
°°
a do Colégio da Vigia, do Pará, possuía 1. 1 volumes. 20 O leitor poderá infor- Deus e, portanto, não se baseavam na Revelação. Defendido por Roma con-
mar-se sobre os títulos das obras nos tomos IV, VIII e IX. tra Lutero e Maquiavel, o dogma da luz natural da Graça inata é nuclear no
Em 1547, informa, o padre Inácio de Loyola e seu secretário de Roma, o projeto de "catequese e escola". Segue fielmente a interpretação acerca dos
padre Polanco, determinaram que as missões passassem a enviar relatórios selvagens americanos adotada pelo Concílio de Trento, reunido em Valladolid
minuciosos para Roma. A correspondência de Nóbrega e a de outros jesuítas na sessão de 1550, contra a tese da "servidão natural" dos mesmos que
dos séculos XVI, XVII e XVIII cumprem a determinação, aplicando os dois então era defendida na América pelos coloniais e na Espanha pelo grande
gêneros da carta, o familiar e o negocial. Apresentam quatro grandes recor- teólogo dominicano, Juan Ginés de Sepúlveda. A doutrina tridentina adotada
tes temáticos: 1) o tema do "índio" e os subtemas da antropofagia, poligamia, pelos jesuítas no Brasil retoma a bula encíclica Sublimis Deus, de 1537, que
inconstância, falta de Deus, nudez, guerras intertribais, guerras justas, determina que os índios são humanos. Assim, Nóbrega e os jesuítas, em
aldeamento, escravidão, feiticeiros, ensino de orações e leitura; 2) o tema do geral, afirmam que as leis positivas das sociedades indígenas são legais e
"colono" e os subtemas da imoralidade sexual e político-econômica, mancebia que não se pode dizer que os índios são "escravos por natureza" por não
dos brancos com índias, violência dos coloniais contra índios aldeados e pa- terem leis cristãs ou não conhecerem a Revelação cristã. No entanto, como
dres, instrumentalização das ordens régias sobre a guerra justa na captura de católicos, Nóbrega e os padres fazem valer o universalismo do Deus de Roma,
mão-de-obra escrava ou no extermínio do gentio; 3) o tema do "governo" e porque entendem que as sociedades indígenas estão corrompidas por "abo-
os subtemas das medidas administrativas, econômicas e militares dos governa- minações" que devem ser extirpadas para que o selvagem tenha sua alma
dores, a edificação de colégios, o provimento de necessidades da Ordem, os salva. Por exemplo, combatem a antropofagia porque transforma o homem
conflitos dos jesuítas com governadores-gerais, como Duarte da Costa, as em meio. 21 Defendendo a tese da luz natural, no Diálogo sobre a conver-
lutas contra os franceses e o gentio tamoio, os aldeamentos e os castigos exem- são do gentio (1556) Nóbrega debate a humanidade do índio segundo os
plares de karaiba, pajés tupis do litoral avessos à catequese, e das santidades, pontos de vista de duas racionalidades representadas por Gonçalo, um padre
humanista, e Nogueira, um padre ferreiro. O Diálogo reitera a doutrina do

I' Ibid., tomo IV, p. 188.


lO Ibid., p. 399. 21 Ibid., tomo II, p. 35.

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JOÃO ADOLFO HANSEN
HISr6RIA DA COMPANHIA DE JESUS NO BRASIL

Concílio de Trento, reafirmando o pressuposto neo-escolástico que se en- preenchimento do vazio espiritual produzido no corpo do índio pelas práticas
contra na correspondência e sermões do padre Antônio Vieira, no século jesuíticas como um pressuposto que justifica a missão. É uma tecnologia de
XVII, e em documentos do século XVIII: os índios são humanos porque têm disciplina do corpo que substitui os padrões culturais indígenas pela memória
as três faculdades que definem escolasticamente a pessoa, memória, vonta- cristã da culpa original. Destribaliza o índio para integrá-lo como subordinado à
de e inteligência. Suas "abominações" decorrem de costumes depravados, civilização portuguesa. Deve-se dizer, no entanto, que por vezes a liberdade
não da natureza. O meio de lhes ensinar as verdades abstratas da fé é o dos índios foi admiravelmente defendida, como no caso dos jesuítas espanhóis.
exemplo visível. Como as marteladas de Nogueira no ferro aquecido na for- O grande padre Ruiz de Montoya, autor do livro Conquista espiritual, obteve
ja, a modelagem católica dos corpos selvagens é animada pelo fogo do amor licença para armar os índios do Paraguai com as armas de fogo que derrota-
de Deus. ram os mamelucos de São Paulo nas batalhas de Caaçapá-Guazu (1639) e
Mbororé (1641).22
Segundo Serafim Leite, a conversão do gentio foi a intenção principal de
Vil D. João III quando enviou a Companhia de Jesus para o Brasil. Desde o início,
dentro dela e em outros setores da Igreja, apareceram posições diferentes
Epreciso determinar historicamente o sentido dado ao termo educação acerca da natureza da devoção dos índios. Por exemplo, o bispo Pero Fernandes
por Serafim Leite quando trata de Nóbrega e de outros jesuítas, entre o século Sardinha afirmava que eram pouco aptos para serem convertidos; o padre
XVI e o XVIII. Deve-se lembrar que a missão jesuítica brasileira inclui-se na Luiz da Grã via no fato de não terem ídolos um empecilho para a conversão; o
devotio moderna contra-reformista. Fazendo parte de um projeto histórico de padre José de Anchieta afirma que a sua malícia e os seus maus costumes os
reflovação da fé católica na situação da cristandade dividida pela Reforma tomam feras que só com a espada e a vara de ferro se educam; o padre
protestante, o fim principal da missão jesuítica no Brasil e no Maranhão e Blásquez, que não são para se converter em geral, mas apenas em casos
Grão-Pará é ser útil para a Igreja, combatendo as heresias e convertendo a particulares; o padre Manuel da Nóbrega, que são humanos, pois têm as facul-
gentilidade. Da perspectiva missionária, o padre é um novo apóstolo que toma dades que definem a pessoa escolasticamente, só que embotadas ou corrompi-
sobre os ombros os pecados do mundo na "conquista espiritual" das novas das por abominações ou péssimos costumes; o padre Antônio Vieira, que são
terras, fazendo suas as armas de Cristo, segundo o imaginário do testemunho e boçais e inconstantes, e que, na relação com eles, o missionário é como um
do martírio. Nunca é demais repetir que a evangelização pressupõe a univer- jardineiro, que poda continuamente os galhos de uma escultura de murta, impe-
salidade do Deus de Roma; logo, que a determinação nuclear da catequese do dindo que a cada momento ela perca a forma original. Segundo Nóbrega, é
indígena e da educação do colono é a teologia-política que define e orienta as preciso criar duas condições que favoreçam a conversão: uma delas depende
práticas da "política católica" da monarquia portuguesa. A perspectiva do pa- dos missionários, que devem dar o exemplo das boas obras de uma vida virtu-
dre jesuíta não é antropológica, pois define o indígena como substância espiri- osa; a outra, dos índios, dos quais se espera a disposição para uma sujeição
tual ou alma que, tendo sido criada por Deus, acha-se distanciada do bem moderada aos padres e para a aceitação da catequese, que levariam à exclu-
devido às "abominações" (antropofagia, nudez, poligamia, nomadismo, são dos maus hábitos dos adultos e à educação das crianças - processo em
xamanismo). Segundo o missionário, o destino da alma selvagem é o inferno, que também concorreram os órfãos portugueses, no século XVI, e, ainda nes-
se a doutrina católica defendida pela monarquia portuguesa não lhe for se século e nos dois seguintes, a cultura difundida nos seminários e colégios.
caridosamente revelada, ensinada e imposta. É preferível que o índio seja es- De 1550 a 1555, vários meninos órfãos foram mandados para o Brasil.
cravo, mas com a alma salva, a que viva a liberdade natural do mato, mas com Serafim Leite propõe que tiveram- função "psicossocial" na catequese, pois
ela condenada ao inferno. Essa tese, também aplicada aos negros, é exposta Nóbrega os misturou com os meninos índios para "quebrar o gelo". Os órfãos
primeiramente por Nóbrega, no século XVI, e defendida por Vieira, no século logo aprenderam tupi e os meninos índios, português. Desde o início dos
XVII contra os colonos do Maranhão e os bandeirantes de São Paulo. A
catequese do índio é homóloga da ocupação do vazio do território, pois é um Z1 Ibid., tomo VI, p. 250.

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HISTÓRIA DA COMPANHIA DE JESUS NO BRASIL JOÃO ADOLFO HANSEN

contatos, O canto foi muito usado como meio de catequese, pois os padres logo doutrine". Segundo o jesuíta, o principal motivo da presença da Companhia no
reconheceram que os gentios eram em extremo afeiçoados à música e às Maranhão era converter e integrar os índios ao corpo místico do Império. Uma
cantorias. Além da missa, do "Padre Nosso" e da "Santa Maria" cantados, carta sua para a rainha D. Luísa, que em 1653 perdera o filho, o príncipe D.
houve motetos, salmos e cantigas devotas adaptadas aos indígenas. A música Teodósio, e a primeira das suas filhas, a infanta D. Joana, interpreta a escravi-
e o canto foram utilizados primeiramente na Bahia, depois em Piratininga. Em dão providencialmente, atribuindo a causa das mortes reais à criação de uma
São Vicente, o padre Antônio Rodrigues criou coros de flautas de curumins, lei com "[ ... ] larguezas na matéria do cativeiro dos índios". Em 23-5-1653,
meninos brasis, que em 1559 foram oficiar missas cantadas em Salvador. Os escrevendo ao provincial, relata medidas quanto aos cativeiros, declarando
meninos órfãos também dançavam e há notícia de que, indo pelo sertão ainda que uma vez por semana os padres tinham lição da língua da terra para se
habitado por índios bravos, entravam pelas aldeias dançando e entoando canta- fazerem hábeis na conversão. Duas vezes por semana, propunham-se lições
res da língua tupi. Passada a fase inicial dos meninos órfãos, as danças foram de casos de consciência, tendo ele e os outros discutido o seguinte tema: qual
restritas às noites de sábados, para impedir que o caxiri, o cauim e outras bebidas obrigação tinham os padres acerca do pecado habitual em que viviam os
alcoólicas atrapalhassem o cotidiano das aldeias. Em 1583, o padre Fernão moradores com os cativeiros dos índios?, chegando à conclusão de que
Cardim visitou as aldeias da Bahia, escrevendo sobre meninos índios que seria prudente nada lhes falar do assunto, a menos que fosse mencionado no
confessionário. Contra a resistência dos coloniais Vieira pregou vários ser-
[ ... ] fazem suas danças à portuguesa, com tamboris e violas, com muita graça como se mões extremamente audaciosos, como o do Domingo das Tentações, que toma
fossem meninos portugueses; e quando fazem estas danças põem uns diademas na
por conceito predicável a terceira tentação do diabo a Cristo: Haec omnia tibi
cabeça, de penas de pássaros de várias cores, e desta sorte fazem também os arcos,
empenam e pintam o corpo, e assim pintados e mui galantes a seu modo fazem suas
dabo. Nele, afirma que uma só alma vale todos os reinos do mundo e, tentando
festas muito aprazíveis. 2l desenganar os homens do Maranhão, demonstra-lhes que estão em condena-
ção por causa dos cativeiros injustos. Contudo, no mesmo ano (17-10-1653),
atendendo o pedido dos mesmos colonos que anteriormente tinham concorda-
do com a libertação dos índios, a Coroa revogou a ordem. Incansável, voltando
vm a Portugal, Vieira conseguiu novas regras favoráveis à Companhia, baixadas
em 9-4-1655. A primeira proibia fazer guerras contra índios sem ordem do rei;
A administração dos índios do Maranhão e Grão-Pará pela Companhia também vetava toda forma de violência contra eles, determinando que só po-
de Jesus foi confirmada pelo alvará de 25-7-1638. Desde o início, a relação diam ser resgatados os "índios de corda", prisioneiros de outros índios que
dos missionários com os colonos desse estado foi tensa e conflitiva. Os jesuí- estivessem prestes a serem comidos. Os índios cristãos que viviam nas aldeias
tas retomam a diretiva do século XVI de "pregar a toda criatura", defenden- não poderiam ser constrangidos a servir os colonos mais que no tempo e na
do a liberdade dos índios aldeados. Quando Vieira chega, em 1653, chefiando forma determinada pela lei; deviam viver livres, governados pelos seus princi-
a missão, vem também uma ordem régia, determinando a libertação de todos pais e pelos padres da Companhia. Os missionários poderiam fazer entradas
os índios cativos. A população se amotina, encabeçada por gente da burocra- ao sertão, independentemente da autorização dos governadores, que deveriam
cia e do clero, como ministros, advogados, juízes, letrados, padres regulares e dar-lhes todo o apoio, escolhendo para capitão ou comandante dos soldados
religiosos do Carmo. Em 20-5-1653, Vieira expôs ao rei D. João IV o que apenas homens julgados idôneos pelos jesuítas. Em três anos, três leis: primei-
chamou de "causas de até agora se ter feito tão pouco fruto" na missão local, ramente a liberdade plena dos índios, com motim dos colonos; depois, o cati-
dizendo escrever "[ ... ] em nome de todas as almas que nestas vastíssimas veiro dissimulado dos índios, com motim dos jesuítas; finalmente, um cativeiro
terras de V. M. estão continuamente descendo ao inferno, por falta de quem as tutelado.
Os colonos ficaram inconformados; um motim contra os jesuítas (o de
Gurupá) foi reprimido com energia pelo governador André Vidal de Negreiros,
2J Ibid., tomo II, p. 100. amigo de Vieira; em 1661, eclodiram novos motins não controlados pelo gover-

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HISTÓRIA DA COMPANHIA DE JESUS NO BRASIL JOÃO ADOLFO HANSEN

nador D. Pedro de Melo. Em 22-5-1661, indo de Belém para São Luís, Vieira segundo o estatuto da instituição; no Brasil, o subsídio missionário não implica-
escre~e a D. Afonso VI. Tenta sensibilizá-lo falando sobre a perdição da alma va o ônus jurídico de ensinar indiscriminadamente a todos, mas o de formar
dos índios mortos sem batismo. Inutilmente. Logo depois, ele e os restantes padres para tomar a Província do Brasil autônoma quanto aos seus meios de
padres foram expulsos pelos colonos. Em Portugal, ainda t~ntaria intervir na evangelização. Segundo Serafim Leite, o ensino era público, em ambos os
questão, pregando o "Sermão da Epifania" para a corte reumda. Nele, verbera casos. Um conflito escolar acerca da admissão de estudantes pardos aos estu-
os colonos maranhenses e critica as autoridades portuguesas. Sem suce~so. A dos maiores definiu a matéria, na Bahia do século XVII, quando a Companhia,
rtir de 1663 depois de haver impedido a admissão de estudantes mestiços, de "vil e obscura
p a , novas leis passaram a regular a escravidão
. . dos ._
índIOs do
Maranhão e Grão-Pará, proibindo-se o retomo de Vieira para a reglao. origem", como se dizia então, terminou por concluir que seria a idoneidade
moral do aluno, não sua cor, o critério da admissão. 24 Ou seja: se o Colégio só
aceitasse uns alunos e excluísse outros, deixava de ser público e de fornecer
IX graus acadêmicos; para permanecer público, tinha que admitir a todos, alterna-
tiva que prevaleceu. 25 O subsídio régio era para o sustento dos padres da
Os colégios brasileiros fundados a partir de 1549 realizavam a segunda Companhia, como foi dito. Inicialmente, acreditou-se que os índios eram como
parte do programa "catequese e escola", proposto inicialmente por. Nóbrega os habitantes das Índias ou do Japão; no entanto:
para o Colégio da Bahia. Neles, havia cursos de ler e escre_ver, ,e~smando-se
latim. O estudo colegial dessa língua fazia parte da formaçao baslca de qual- A desilusão não se fez esperar no que toca à elevação dos Índios ao Sacerdócio, não
por incapacidade radical dos mesmos Índios, pois eram homens e os homens são
quer letrado e habilitava os alunos dos seminários a s~rem futuros padres. ~m
todos iguais, mas por falta de meio ambiente, ainda inculto, e é o que o P. António
1553, o Colégio de São Vicente ensinava leitura, escnta, canto, flauta e ~atlm. Vieira adverte, propondo que os Catecismos de Língua Brasílica, do P. António de
A partir de 1554, o recém-chegado José de Anchieta foi profess~r .de latim d.o Araújo para os Índios, se reduzissem a menos questões, simples e essenciais. 26
Colégio de Piratininga. Com as Constituições, de 1556, ficou prOIbida a c~abl­
tação dos meninos com os padres, criando-se externatos. No final do ~e~u~o Nos colégios, além de pública, a instrução era gratuita, diferentemente
XVII, o padre Alexandre de Gusmão criaria internatos, fundando o S~m~nano dos seminários, onde continuava a ser gratuita, mas era particular, destinada
de Belém da Cachoeira, na Bahia. Em 1568, a Congregação Provmclal da apenas àqueles que se dedicavam à carreira eclesiástica. Freqüentavam os
Bahia propôs ao Geral a conveniência do estudo de dialética no Colégio ~a colégios os filhos de funcionários da administração portuguesa, de senhores de
Bahia. O curso de artes (filosofia e ciências) começou em 1572. Serafim Leite engenho, de criadores de gado, de oficiais mecânicos e, no século XVIII, de
informa que no Brasil era lido o livro de texto Cursus Conimbricensis e que mineiros. Conforme Serafim Leite, os três estados tradicionais do Antigo Regi-
era extremamente comum o uso de manuais. Em 1593, o curso de artes da me na Europa - clero, nobreza e povo - sofreram no Brasil uma transforma-
Bahia tinha vinte alunos; em 1598, quarenta. A teologia moral, conhecida como ção em que eram representados apenas por um critério racial, brancos e filhos
"casos de consciência", foi ensinada a partir de 1556, no Colégio de São Vicente. de brancos, que mantinham o predomínio da política e da cultura, ao passo que
Teologia dogmática (ou especulativa) foi ensinada a partir de 1572 ~a~a os índios e negros, mesclando-se com os brancos, tinham a aspiração de ascen-
membros da Companhia e, a partir de 1575, para os externos. No Coleglo da der na hierarquia dos brancos com os nomes de mamelucos e moços pardos.
Bahia, havia quatro anos de leitura da Summa theologica, de Santo Tomás de O autor acredita no que chama "tendência portuguesa e católica para a atenua-
Aquino. A •
ção dos preconceitos de raça", por isso afirma que "conviviam lado a lado
O Real Colégio das Artes de Coimbra foi o padrão para as colomas de
Portugal. Como escreve Serafim Leite, o subsídio real dado ~os mestre,s de
Coimbra era a título de ensino; o subsídio dos mestres ultramannos era a titulo l4 Ibid., tomo v, pp. 76-77.

de missões. O que determinava uma obrigação diferente: em Coim~ra, o sub- " Ibid., tomo VII, pp. 141-142.
sídio escolar tinha o ônus jurídico de dar ensino a todos que o qUIsessem ter ,. Ibid., p. 142.

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HISTÓRIA DA COMPANHIA DE JESUS NO BRASIL JOÃO ADOLFO HANSEN

todos os homens livres, quer fossem brancos quer mestiços; e abaixo deles, os normas e práticas do Ratio studiorum de 1599 é o da ortodoxia católica,
homens escravos". '2.7 seguindo-se no ensino, com a máxima fidelidade, a tradição e os textos
No Brasil e no Maranhão e Grão-Pará a educação e a instrução subordi- canônicos fixados e autorizados pela Igreja a partir do Concílio de Trento. O
navam-se, assim, à coexistência do elemento livre com o elemento servil. Os Ratio determina que os conhecimentos são adquiridos por meio do exercício
índios já integrados, quando não eram escravos no mesmo pé de igualdade de modelos ou auctoritates, autoridades, cuja repetição, feita na forma de
com os negros, viviam sob a tutela dos padres no regime dos aldeamentos. Os exemplos, acontece como um treinamento constante da ação e para a ação.
escravos negros não tinham liberdade para buscar a instrução média e supe- Os mesmos processos técnicos e intelectuais são generalizados para todos os
rior. Segundo Serafim Leite, a Companhia de Jesus tomou várias medidas de cursos, como aparece no Catálogo de 1757 do Colégio da Bahia, divididos em
amparo dos escravos negros: o padre jesuíta Pero Dias, conhecido como Após- estudos inferiores (gramática, humanidades e retórica) e faculdades superio-
tolo dos negros do Brasil, escreveu uma Arte da língua de Angola com a res (filosofia e teologia). Ao todo, o currículo ordenado pelo Ratio studiorum
finalidade deliberada de os amparar; nos colégios, foi fundado o apostolado do tinha doze classes. A aprendizagem das matérias era graduada, considerando-
mar, na chegada dos navios negreiros da África; e foram multiplicadas as se a idade dos alunos e o nível dos cursos. Desde a classe inferior de gramá-
missões discorrentes, que saíam dos colégios de cada região, em todas as tica, os alunos aprendiam as cerimônias e os ritos cristãos, sistematizados
regiões do Brasil, a favor dos negros dos engenhos e fazendas. Quanto à doutrinária e teoricamente nos cursos de artes (ou filosofia) e nos de teologia.
catequese dos índios, tratada principalmente nos tomos I e IV, não se reduzia Todos os cursos eram orientados pelo estudo de preceitos, estilos e erudição,
ao ensino religioso do catecismo, como ocorria com os adultos, pois os meninos ou seja, prescrições e regras das línguas, da retórica, das letras, da filosofia e
índios também recebiam ensino de ler e escrever, ou "elementos". Brancos e da teologia; exercícios com os vários gêneros retórico-poéticos de representa-
filhos de brancos recebiam instrução nos colégios. Os padres não tinham obri- ção das matérias das humanidades, que eram memorizadas como tópicas ou
gação de ministrar o ensino (era benemerência pública) nem os pais eram lugares-comuns já aplicados e desenvolvidos pelas várias autoridades estuda-
obrigados a enviar os filhos à escola (mais informações sobre a nomenclatura das; memorização de técnicas de falar e de escrever, além dos esquemas da
da instrução primária ministrada pelos jesuítas podem ser encontradas às pági- própria arte da memória. Os alunos já deviam saber ler e escrever quando
nas 146 e 147 do tomo VII). ingressavam na classe dos estudos inferiores para começar a aprender a infima
grammatica, os rudimentos de latim. Caso não o soubessem, uma classe obri-
gatória devia ser anteposta a todas as outras.
x Nos estudos inferiores, as classes de gramática eram divididas em três:
ínfima, em que se estudavam regras gerais da sintaxe latina, princípios de
Depois de 1599, todos os colégios brasileiros passaram a ser organizados grego e algumas das obras de Cícero julgadas "simples", como as cartas; mé-
pelo Ratio studiorum atque Institutio Societatis Jesu. O Ratio é um conjun- dia, em que havia um estudo geral da gramática latina e de obras de Cícero e
to de normas que definem saberes a serem ensinados e condutas a serem Ovídio; no grego, estudavam-se nomes contratos e verbos em mi. Na terceira,
inculcadas, e um conjunto de práticas, que permite a transmissão desses sabe- suprema, supunha-se o conhecimento de toda a gramática latina e notícias da
res e a incorporação de comportamentos, normas e práticas. A Companhia de prosódia, aprendida por exemplo com a metrificação de hexâmetros; em gre-
Jesus é uma ordem eminentemente não contemplativa e o Ratio studiorum de go, continuava o estudo das regras gramaticais; eram lidos os romanos Cícero,
1599 orienta o ensino das letras, artes e teologia para o desenvolvimento das Catulo, Virgílio, Ovídio, Propércio, Tibulo e os gregos São João Crisóstomo,
capacidades de assimilar, transferir e aplicar conhecimentos em questões ime- Agapeto, Esopo, etc. No caso, era básico o texto da Gramática latina , do
diatas do presente. Na situação contra-reformista do século XVII, a interven- padre Manuel Álvares. A Contra-Reforma insistia na oposição vida beata
ção não podia dissociar-se da prática das virtudes cristãs. Logo, o sentido das versus vida libertina, evitando-se obviamente os autores de gêneros baixos,
como os cômicos latinos Plauto e Terêncio, julgados dissolventes. O curso de
27 Ibid., p. 143. humanidades era uma classe intermediária, posta entre a de gramática e a de

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HISTÓRIA DA COMPANHIA DE JESUS NO BRASIL
• JOÃo ADOLFO HANSEN

retórica, que fornecia exercitações do estilo. Nele, além das preleções sobre tinham demonstrado conhecimento pleno de Santo Tomás de Aquino. O pro-
Cícero, os alunos punham-se em contato com as obras de Salústio, César, Tito fessor aplicava três espécies básicas de atividades, a preleção (lectio), a repe-
Lívio, Virgílio e dos gregos Platão, Isócrates, Basílio, Gregório Nazianzeno e tição e a aplicação. A lectio consistia na exposição oral de um texto determinado.
outras autoridades imitadas por meio do exercício de composição de textos de Era feita segundo a técnica tradicional do comentário e seguia preceitos espe-
prosa e poesia. Um extenso rol dos autores e obras estudados nos colégios nas cíficos, adequando-se ortodoxamente ao tema. Assim, o professor fazia um
aulas de retórica, humanidades e na primeira, segunda, terceira e última classe resumo de partes e do todo do texto, citava as autoridades canônicas que já
de gramática é feito por Serafim Leite nas páginas 150-151 do tomo VII. Mais tinham tratado do mesmo, resumia a matéria dessas autoridades, sem nenhu-
informações sobre o ensino de matemática, fisica, história, geografia, direito, ma pretensão de inovar ou de ser original, mantendo-se rigorosamente fiel à
teologia especulativa e os ecos brasileiros das controvérsias doutrinais das versão autorizada pela Igreja conciliar. A preleção devia ser clara, breve, dis-
escolas européias - no início do século XVII, a questão de Auxiliis (de que posta em ordem lógica, do mais simples para o mais complexo, adaptando-se
graças ou auxílios sobrenaturais o homem necessita para salvar-se?) e, no ao nível intelectual dos alunos. Feita a preleção, grande parte do tempo era
início do século XVIII, a questão do Probabilismo (praticamente, a consciên- ocupada por exercícios de memorização em que a repetição tinha lugar abso-
cia se determina por um motivo provável, Probabilismo, ou é obrigada a se- lutamente central. Tratava-se de aprender um método de memorizar funda-
guir o motivo "mais" provável, Probabi liorismo) - podem ser obtidas no mesmo mentado nas antigas artes da memória gregas e romanas, como a que é exposta
tomo VII, fundamental, aliás, para a história da educação no país. na Retórica para Herênio. Os alunos recitavam de memória as lições que
Nos colégios, a retórica ocupava quatro horas por dia, duas pela manhã e tinham aprendido nas preleções para os decuriões, alunos nomeados pelo pro-
duas à tarde. Aos preceitos dos tratados de Cícero (De oratore), Quintiliano fessor para ouvirem a recitação, recolherem composições, anotarem em ca-
(Institutio oratoria), Aristóteles (Rhetorica) e Santo Agostinho (De doctrina dernos as vezes em que falhava a memória de cada um, quem não tinha feito
christiana), juntavam-se novos títulos sintetizando essas autoridades para os os exercícios ou quem não entregara cópia dupla dos mesmos. O professor
iniciantes. Os alunos portugueses e brasileiros estudavam retórica nas classes devia prever a transferência dos conhecimentos memorizados e das técnicas
das escolas menores, principalmente por meio de exercícios e de compêndios, de memorização para novas circunstâncias e novos objetos, que eram apropri-
como os de Soares e Pomey. Essa erudição era adquirida não por meio do ados ou adaptados pelos mesmos processos. Nesse sentido, os alunos sempre
estudo direto de manuais de história ou letras, mas pela leitura, explicação, aprendiam duas coisas: matérias várias, como latim, retórica, teologia, filosofia,
repetição e imitação de autores. Levando sempre em conta que a finalidade de e os modos ou procedimentos de aprendê-las, preleção, resumo, comentário,
todo ensino é a ação, a prática jesuítica da retórica aprendida como exercício repetição, memorização, etc. No curso de filosofia, em que se discutia Aristóteles,
visava a desenvolver a agilidade no manejo oral da erudição, principalmente a e no de teologia, em que o modelo era Santo Tomás de Aquino, os exercícios
doutrinária. costumavam ser de quatro gêneros: repetições diárias das preleções, disputas,
Nos estudos superiores, o curso de filosofia era dividido em três anos. No preleções e atos solenes, em que eram defendidas publicamente as conclu-
primeiro se estudava lógica, metafisica geral e matemáticas elementares, com sões. A repetição diária durava uma hora e era feita com a supervisão do
aulas em uma academia de grego. No segundo ano, estudavam-se cosmologia prefeito de estudos. Nos dias de feriado e domingo, havia disputas, em que um
e outras ciências. No terceiro, teodicéia e ética, astrologia (astronomia) e ma- ou dois alunos defendiam os argumentos de um filósofo. Todos os preceitos de
temáticas superiores. A autoridade de Aristóteles e de Santo Tomás de Aquino ensino do Ratio studiorum subordinam-se à finalidade contra-reformista de
dominava em todos os assuntos. Quanto à teologia, finalizava todos os cursos combater as heresias e converter os gentios. Assim, as normas didáticas do
anteriores. Era ministrada em quatro anos, cuja divisão seguia o sistema de ensino subordinavam-se às normas disciplinares, que pressupunham e implica-
Santo Tomás: teologia patrística ou positiva; teologia escolástica moral, por vam a virtude típica da Companhia de Jesus, a obediência irrestrita à autorida-
dois anos, com a casuística; Sagrada Escritura ou exegese; instituições de, que havia sido redimensionada a partir do Concílio de Trento.
canônicas; hebreu, siríaco e mais línguas bíblicas. O curso de teologia era dado Os dezessete colégios fundados pelos jesuítas no Brasil tinham estudos
por dois e ainda por três professores. Só podiam ensinar nele os padres que inferiores e os cursos de humanidades, destinando-se a estudantes externos;

70 71
HISTÓRIA DA COMPANHIA DE JESUS NO BRASIL
·,114, JOÃO ADOLFO HANSEN

nos seminários, que eram internatos, estudavam os alunos destinados a serem mente no domínio temporal das Aldeias", dando um passo para a supressão do
padres da Companhia de Jesus. Os cursos de artes (basicamente, filosofia) regime missionário. Outra razão seria a execução do Tratado de Limites de
dos colégios de Portugal eram propedêuticos aos cursos da Universidade de 1750 entre Portugal e Espanha. Com a troca da Colônia do Sacramento (Por-
Coimbra, o que não ocorria com os cursos de artes dos colégios brasileiros, de tugal) com os sete povos das Missões (Espanha) foi imposta a transferência
modo que os alunos se viam obrigados a fazer o curso de novo, em Évora ou dos índios, que provocou o levantamento deles, atribuído à incitação dos jesuí-
Coimbra, ou a realizar exames de "equivalência". No final do século XVII, o tas. Segundo Serafim Leite, também foi problemática a demarcação das terras
nível dos estudos das faculdades superiores do colégio jesuítico de Salvador do Norte, na região do rio Negro, onde, segundo ele, para desviar a atenção do
parece ter sido equivalente ao ministrado nas universidades portuguesas, prin- desperdício dos dinheiros públicos pelo governador, irmão de Sebastião José de
cipalmente a de Évora. Por isso, várias vezes se pediu à Coroa, sem nenhum Carvalho e Melo, o ministro de D. José, abriu-se a perseguição contra os pa-
sucesso, que fosse transformado em uma universidade. dres da Companhia. Estes também foram acusados de participação no Motim
do Porto, contra o monopólio dos vinhos, e no atentado contra D. José, em 3-9-
1758. "E para aumentar a sugestão da participação, a lei com que são exilados
XI de Portugal e seus Domínios, faz-se datar do primeiro aniversário daquele
facto, 3 de Setembro de 1759".29
Segundo Serafim Leite, as causas da expulsão da Companhia de Jesus O padre Serafim Leite pergunta se a perseguição à Companhia foi um
dos domínios portugueses devem ser buscadas na Europa, fora do Brasil e de mal ou foi um bem, respondendo que a resposta é fácil, para quem é sincera-
Portugal. Entre os vários inimigos da ordem no século XVIII, propõe, os mente cristão e católico:
jansenistas foram os mais pertinazes, pois teriam conseguido instalar-se em
Roma, obtendo o apoio de membros do alto clero, como o cardeal Passionei. Mas como nem todos o são no mesmo grau, ou mesmo em grau nenhum, a resposta
poderá ser outra, quando se decidir se a sociedade há-de ter Religião, ou não ter
No momento da perseguição movida por Pombal contra a Companhia, triunfa-
Religião, se o Espiritual há-de prevalecer sobre o Temporal, ou, na lógica e última
vam o regalismo e o cesaropapismo. Logo, segundo o autor, quando ocorreu a conseqüência desta matéria, se a sociedade há-de ser com Deus ou sem Deus. 3o
perseguição à Companhia, já se havia produzido na Europa a ruptura entre
liberdade e autoridade: "Sucumbindo a liberdade, a autoridade régia chamava- Provavelmente, aqui o leitor partidário da total separação de Igreja e
se Absolutismo, que em breve chegou ao seu auge e foi o Despotismo".28 Estado discordará de Serafim Leite. Mas, por ser leitor democrático, certa-
Conforme o autor, as instruções públicas e secretas, de 31-5-1751, assinadas mente também não concordará com os exílios em massa e as crueldades con-
pelo secretário do Ultramar Diogo de Mendonça Corte Real, louvavam os tra os padres.
jesuítas (Instrução 22), determinando que fossem preferidos nas missões por
serem os que tratavam os índios com mais caridade. Junto com as públicas, no
entanto, duas secretas (as de números 13 e 14), trabalhavam contra a Compa-
nhia. Segundo Serafim Leite, a de número 13 abolia a ordem jurídica existente,
pois afirmava "[ ... ] poderei dispor das mesmas terras em execução da dita
lei", dando poderes ao governador para as visitar "[ ... ] sem embargo de qual-
quer Privilégio, Ordem ou Resolução em contrário, que todas hei derrogadas,
como se fizesse expressa menção delas". A Instrução 14 afirma que é conhe-
cido "[ ... ] o excessivo poder que têm nesse Estado os Eclesiásticos principal-

2. Ibid., p. 343.
28 Ibid., p. 337. ,. Ibid., p. 356.

72 73
*
FRANCISCO ADOLFO DE V ARNHAGEN

História geral do Brasil

Lucia Maria Paschoal Guimarães


14
TRAÇOS BIOGRÁFICOS

Francisco Adolfo de Varnhagen nasceu em 17 de fevereiro de 1816, na


cidade de Sorocaba, então província de São Paulo, filho do coronel Frederico
Luís Guilherme de Varnhagen e de Dona Maria Flávia de Sá Magalhães. Seu
pai, engenheiro militar formado em Freiburg, J prestava serviços à Coroa portu-
guesa na fundição de Figueiró dos Vinhos. Convocado por D. Rodrigo de Sousa
Coutinho transferiu-se para o Brasil em 1809, a fim de dar início aos trabalhos
da fábrica de ferro de São João de Ipanema, em Sorocaba. O coronel Frederico
Guilherme retomou a Portugal em 1822. A mulher e os filhos só iriam encontrá-
lo um ano depois.
Varnhagen fez os primeiros estudos no Real Colégio Militar da Luz.
Matriculou-se, em seguida, na Academia da Marinha. Integrou o 2Q Batalhão
de Artilharia, tropa de elite do ex-imperador D. Pedro I, que após abdicar da
Coroa brasileira disputou o Trono português com o irmão D. Miguel. Freqüen-
tou o Colégio dos Nobres e cursou a Academia de Fortificações, recebendo o
diploma de engenheiro em 1834. Porém, permaneceu por muito tempo na car-
reira das armas. Dedicou-se à pesquisa histórica, obtendo o reconhecimento
da Academia Real de Ciências de Lisboa, em virtude do trabalho "Reflexões
críticas sobre o escrito do século XVI impresso com o título de Notícia do
Brasil" (de Gabriel Soares de Sousa), editado em 1838. Obra que lhe serviu de
proficiência para ser admitido naquele reduto intelectual. Aos 24 anos licen-
ciou-se do exército português e viajou para o Rio de Janeiro. Veio pleitear a
nacionalidade brasileira ao governo imperiaP Indicado por Antônio Meneses
Vasconcelos de Drumond, ministro plenipotenciário do Império em Lisboa,
elegeu-se sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro
(lHGB).
Criado em 1838, o Instituto dava os seus primeiros passos. 3 Subsidiado
pelo governo imperial, começara a desenvolver um programa de pesquisa,

1 Frederico Guilherme de Varnhagen pertencia a uma conceituada família alemã. Seu irmão, Carlos
Augusto, além de amigo pessoal de Humboldt, fora nobilitado pelo rei da Prússia.
2 O decreto imperial de 24 de setembro de 1844 garantiu-lhe a nacionalidade brasileira.
J O Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro foi fundado em 21 de outubro de 1838. Sobre a criação
do IHGB, ver Manuel L. Salgado Guimarães, "Nação e civilização nos trópicos: o Instituto Histó-
rico e Geográfico Brasileiro e o projeto de uma história nacional", em Estudos Históricos, 1(1), Rio
de Janeiro, 1988, pp. 5-37. Ver também Lucia M. P. Guimarães, "Debaixo da imediata proteção de
Sua Majestade Imperial: o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (1838-1889)", em Revista do
Institllto Histórico e Geográfico Brasileiro, n' 388, Rio de Janeiro, 1995.

77
HISTÓRIA GERAL DO BRASIL :Q LUCIA MARIA PASCHOAL GUIMARÃES

enviando estudiosos aos arquivos europeus, com o objetivo de coligir e extrair Francisco Adolfo de Varnhagen deixou uma extensa e variada obra, com-
cópia de documentos e diplomas para a escrita da história pátria. Entretanto, o posta por dezenas de títulos, entre livros, opúsculos, artigos e memórias. No
primeiro pesquisador comissionado, o diplomata José Maria do Amaral, pouco campo dos estudos históricos, sua obra máxima foi a História geral do Brasil
familiarizado com as práticas arquivísticas, não correspondeu às expectativas antes da sua separação e independência de Portugal. Trata-se de uma
do IHGB. Para substituí-lo, o ministro Vasconcelos de Drumond sugeriu o contribuição rara, que contrastava com a escassa historiografia nacional da
nome de Varnhagen, um jovem talentoso e promissor, que já havia realizado época, período em que poucos autores conseguiam ultrapassar os limites da
investigações por conta própria no acervo da Torre do Tombo, e que desejava crônica. Na extensa bibliografia do visconde de Porto Seguro, em parte publicada
ingressar na carreira diplomática. Ele não desapontaria tão ilustre recomenda- na Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, há ainda duas
ção. Desempenhou com sucesso suas primeiras missões em Portugal e na peças de grande importância, que merecem destaque: a "História das lutas
Espanha, onde foi incumbido de levantar documentos relativos aos tratados de contra os holandeses no Brasil" (1871) e a "História da independência do Bra-
limites da América portuguesa, nos arquivos de Simancas. Regressando ao sil", concluída em 1875, mas que permaneceria inédita até 1916, quando os
Brasil em 1851, elegeu-se primeiro-secretário do Instituto Histórico. Passou, originais foram descobertos por acaso, dentre os papéis do arquivo do barão do
assim, a travar contato direto com o imperador, que freqüentava assiduamente Rio Branco. 4
as sessões do grêmio. Diligente, organizou a biblioteca e o rico acervo docu-
mental do IHGB. A par disso, a proximidade de D. Pedro II permitiu-lhe plei-
tear postos, condecorações e honrarias, além da proteção de Sua Majestade. A OBRA
Encarregado de negócios do Brasil na Espanha, no período 1852-1858,
expandiu suas investigações, examinando manuscritos nos arquivos de O livro compõe-se de 54 seções ou capítulos, cujos conteúdos se suce-
Amsterdam, Paris, Florença e Roma. Promovido a ministro residente em 1859, dem de acordo com a ordem cronológica dos acontecimentos. 5 Do ponto de
exerceu o posto no Paraguai. Passados dois anos, deslocou-se para Caracas, vista interpretativo, a História geral do Brasil apresenta-se como uma conti-
designado representante do Império perante a Venezuela, a Nova Granada nuação da história da metrópole. A formulação está delineada com clareza,
(Colômbia) e o Equador. Em 1863, foi transferido para Santiago. Durante a sobretudo na edição de lançamento do primeiro volume da obra (Madri, 1854),
permanência na capital chilena, que se alongou por cinco anos, casou-se e aberta justamente com a narrativa da viagem de Pedro Álvares Cabral. O que
constituiu família com uma jovem da sociedade local. Sem negligenciar as mereceu inúmeras censuras, sobretudo no Instituto Histórico, como iremos
atribuições do serviço diplomático, continuou dedicado às pesquisas e publica- demonstrar mais adiante, devido ao tratamento secundário dispensado aos ín-
ções. Aliás, ele inauguraria uma linhagem de historiadores diplomatas, muito dios, "os verdadeiros donos da terra". Diante das críticas recebidas, Varnhagen
produtiva por sinal, na qual se destacariam autores do porte de Joaquim Nabuco, trocou a ordem dos dez primeiros capítulos, ao preparar a segunda edição do
do barão do Rio Branco, de Manuel de Oliveira Lima e de Macedo Soares. livro, datada de 1871. Diga-se de passagem, a alteração efetuada não
Nomeado para a legação brasileira em Viena, retornou ao Velho Mundo
em 1868. Reconhecendo o mérito dos seus serviços, o imperador D. Pedro II
concedeu-lhe o título de barão de Porto Seguro (1871), elevando-o a visconde 4 Francisco Adolfo de Varnhagen, "História da independência do Brasil", em Revista do Instituto
com honras de grandeza do mesmo título, três anos mais tarde. Promovido a Histórico e Geográfico Brasileiro, 79 (133), Rio de Janeiro, 1916, pp. 23-596.
l A 21 edição, revista e ampliada pelo autor, perfazia um total de 1.200 páginas. Foi lançada em
ministro plenipotenciário, realizaria, ainda, uma derradeira viagem de estudos 1871. A 3' edição, datada de 1906, revista por Capistrano de Abreu, corresponde apenas à terça
ao Brasil em 1877, ocasião em que percorreu o interior das províncias de São parte da obra original, devido a um incêndio na oficina impressora. As edições subseqüentes
Paulo, Goiás e Bahia. Regressando à Viena, veio a falecer em 1878. O corpo foram revistas e anotadas por Rodolfo Garcia, que também incorporou ao texto notas de
Capistrano e do próprio Varnhagen. Para o presente trabalho apoiamo-nos na 5" edição integral
do historiador, por exigência da esposa, foi sepultado no Chile. Um século mais
- 61 do tomo I. cr. Francisco Adolfo de Varnhagen, História geral do Brasil antes da sua
tarde, seus despojos foram trasladados para Sorocaba, onde hoje se encon- separação e independência de Portugal, 5 tomos, revisão e notas de Rodolfo Garcia (51 ed.
tram, atendendo à sua vontade expressa em testamento. integral - 6" do tomo I. São Paulo: Melhoramentos, 1956).

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HISTÓRIA GERAL DO BRASIL LUCIA MARIA PASCHOAL GUIMARÃES

provocou nenhuma revisão de caráter interpretativo. O Brasil continua a ser diplomacia ibérica, que sob as bênçãos do papado partilhou o Novo Mundo
percebido como uma "criação" do Império ultramarino português, desde a che- entre as dinastias de Avis e Castela. Varnhagen parte da premissa de que: "Os
gada da esquadra de Cabral até a "emancipação do estado de colônia, em interesses do comércio, mais que a curiosidade natural ao homem e que a sede
virtude da franquia de comércio decretada pela carta régia de 28 de janeiro de das conquistas, tem sido em geral a causa da facilidade no trato e comunica-
1808".6 ção dos indivíduos."11 Assim, identifica o comércio das especiarias do Oriente
A História geral do Brasil se inicia, pois, por uma breve explicação como o grande motor que impulsionou o movimento das navegações do início
sobre as origens da denominação por que ficou conhecida a América portugue- da era modema e que culminou com o descobrimento do Novo Continente.
sa, em decorrência do primeiro recurso natural aqui explorado - o pau-brasiI.7 Pesquisador minucioso, observa, no entanto, que a costa setentrional do conti-
Segue-se uma síntese das características do território, principais acidentes ge- nente americano já fora visitada por navegantes nórdicos, quatro séculos antes
ográficos, zonas climáticas e paisagem natural, com ênfase especial na descri- da viagem de Cristóvão Colombo.
ção da flora nativa, plena de espécies exóticas, matas virgens e florestas Se, por um lado, a menção ao meridiano de Tordesilhas reforça a idéia
exuberantes, o que certamente teria intimidado os colonizadores. Explorado o dos direitos prévios de Portugal sobre as terras situadas na parte leste do sul
meio ambiente, o autor introduz os habitantes daquelas paragens. Apresenta um do continente, por outro, o seu "feliz achado" é tributário da necessidade da
estudo aprofundado sobre as culturas indígenas que habitavam o litoral brasilei- dinastia de Avis de assegurar o comércio das especiarias. Sobretudo após a
ro à época da chegada dos portugueses. Em que pesem os julgamentos pouco bem-sucedida viagem de Vasco da Gama às Índias Orientais. Hipótese que é
lisonjeiros acerca do caráter, da religiosidade e do "estado de selvageria" da- comprovada por um testemunho até então inédito, a que Varnhagen tivera
quelas populações, 8 a exposição circunstanciada sobre o grupo de língua tupi acesso nas pesquisas que realizou na Torre do Tombo: as Instruções de via-
constitui um trabalho etnográfico cuidadoso rico de informações. 9 gem do capitão-mor Pedro Álvares Cabral. Documento da maior importância,
A partir daí, estribado em sólida pesquisa documental, Varnhagen segue cujo conteúdo demonstra que a esquadra comandada por Cabral, composta
a trilha dos fatos institucionais, conforme ele mesmo enuncia ao levantar as por treze embarcações, algumas das quais armadas por negociantes particula-
questões que constituem o objeto da sua preocupação: res, destinava-se à fundação de feitorias nas Índias. Além disso, a fonte revela
que o rumo dos pilotos da frota fora traçado de acordo com recomendações
[ ... ] como e quando Portugal se inteirou da existência do legado [ ... ] do Tratado de circunstanciadas de Vasco da Gama, em última análise o grande responsável
Tordesilhas, como o descuidou a princípio, e o beneficiou e aproveitou depois; e pela formidável descoberta.
finalmente como através de muitas vicissitudes [ ... ] veio a surgir naquele mesmo
A narrativa de Varnhagen surpreende o leitor, tal a quantidade de trans-
território um novo Império 1o
crições e comentários de testemunhos da maior importância, destacando-se a
célebre carta de Pero Vaz de Caminha. Outro aspecto interessante, que traduz
Com efeito, a América portuguesa é concebida como uma herança do
as preocupações do historiador e diplomata, pode ser percebido quando levan-
Tratado de Tordesilhas. O que leva aos antecedentes dessa convenção da
ta a discussão sobre a atuação dos navegadores castelhanos, a exemplo de
Alonso de Hojeda e Vicente Yanez Pinzón, que haviam visitado o litoral Norte
, Cf. Francisco Adolfo de Varnhagen, História geral do Brasil antes da sua separação e indepen- e Nordeste brasileiro antes da chegada da esquadra de Cabral. Do ponto de
dência de Portugal, cit., tomo V, p. 102. vista do historiador, reconhece a autenticidade e veracidade das fontes que
7 Ibid., tomo I, p. 13.

8 Segundo Varnhagen, "os indígenas eram [... ) falsos e infiéis; inconstantes e ingratos, e bastante
demonstram a precedência daqueles pilotos. Porém, como homem de chance-
desconfiados. Além de que: desconheciam a virtude da compaixão". Ibid., p. 52. laria, reflete que tais empreendimentos constituíam ações sigilosas, cujos re-
• Cf. Ronaldo Vainfas, "Capistrano de Abreu, Capítulos de história colonial", em Lourenço Dantas sultados teriam sido sonegados pela Casa de Castela. Portanto, conclui que a
Mota (org.), Introdução ao Brasil. Um banquete no trópico (2) ed. São Paulo: Editora SENAC
São Paulo, 2000), p. 176.
10 Cf. Francisco Adolfo de Varnhagen, História geral do Brasil antes da sua separação e indepen-

dência de Portugal, cit., tomo I, p. 67. 11 Ibid., p. 59.

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HISTÓRIA GERAL DO BRASIL LUCIA MARIA PASCHOAL GUIMARÃES

passagem daqueles precursores pela costa brasileira não poderia ferir o direito armas e a mantém por suas leis [... ] reclama a compensação nas vantagens do
dos portugueses às terras encontradas por Cabral. seu comércio, com a exclusão de todas as outras nações, segundo o direito euro-
Do relato das primeiras expedições exploradoras, empreendimentos que peu ainda praticado em nossos dias".14
são relacionados com as infrutíferas tentativas de demarcação dos domínios O estudo sobre as capitanias se alonga por quatro capítulos (IX, X, XI e
de Portugal e Castela na América, depreende-se que o Brasil permaneceu XII), sendo os dois últimos dedicados a uma avaliação circunstanciada dos
num patamar secundário, no âmbito do projeto mercantil da dinastia de Avis. resultados daquela iniciativa de D. João III. Não vem ao caso esmiuçar o
Preterido em esforços e capitais investidos no comércio das especiarias, de relato exaustivo das providências tomadas pelos donatários e seus prepostos.
retomo maior e mais imediato, numa época de crise comercial na Europa. 12 A Nem tratar das alianças ou dos revezes sofridos com os índios. Ou das peripé-
metrópole, na expressão de Varnhagen, 'l .. ] limitou-se a abandonar a mesma cias ocorridas ao longo das viagens daqueles capitães-mores que vieram to-
terra à mercê dos especuladores particulares, os quais à porfia começaram a mar posse das suas terras. Basta apenas dizer que sua abordagem tomou-se
vir a esses portos principalmente a buscar cargas do tal novo pau-brasil".B clássica na historiografia brasileira, adotada inclusive nos livros didáticos: capi-
Porém, a situação iria alterar-se, progressivamente, na medida em que os por- tanias de colonização bem-sucedida e capitanias onde o sistema fracassou.
tugueses perceberam a ousadia dos navegadores franceses, oriundos de Dieppe Dentre os casos de malogro, vale lembrar a história da associação formada
e de Honfleur, que freqüentavam o nosso litoral, contrabandeando pau-brasil, por Fernão Álvares, João de Barros e Aires da Cunha para explorar as capita-
com o auxílio dos indígenas. Por conseguinte, forçado pela necessidade de nias setentrionais. Os preparativos dessa sociedade, na qual foram investidos
defender e preservar os "mares brasílicos", o Reino viu-se obrigado a despa- vultosos capitais, causaram tanta celeuma em Lisboa, que o embaixador espa-
char as expedições comandadas por Cristóvão Jacques e Martim Afonso de nhol chegou a escrever para Madri desconfiado de que a frota armada pelos
Sousa. A descrição da viagem de Martim Afonso, qualificada como o primeiro três donatários destinava-se a atacar os estabelecimentos castelhanos no rio
empreendimento de caráter colonizador promovido pela Coroa portuguesa, se da PrataPS À guisa de curiosidade, convém esclarecer que a expedição nau-
prolonga por dois extensos capítulos. Páginas de grande erudição, estribadas fragou na costa do Maranhão. Aires da Cunha perdeu a vida e João de Barros,
no Diário de Pero Lopes de Sousa, documento que fora descoberto pelo que permanecera em Portugal, foi à bancarrota. As naus que se salvaram
visconde de Porto Seguro, publicado com suas anotações em Lisboa (1839) e foram parar até nas Antilhas ...
reimpresso no Rio de Janeiro pelo IHGB (1861). O foco se desloca dos fatos institucionais para o exame da vida cotidiana
Acontecimento tributário dos sucessos de Martim Afonso de Sousa, a im- dos primeiros colonos, suas relações com os indígenas, bem como os primeiros
plantação do sistema de capitanias hereditárias é outro tema bastante explorado. investimentos aqui realizados. Apesar de tendenciosa e condescendente, a
Afora questões pontuais, como o exame dos direitos dos donatários e distribui- narrativa revela de que modo a cultura autóctone influenciou o cotidiano da-
ção dos lotes, a exposição oferece uma pista importante acerca das diretrizes da queles recém-chegados, tão desamparados que para sobreviver acabaram
política colonial portuguesa, que mais tarde seria devidamente explorada por incorporando os costumes dos bárbaros gentios. Da convivência, os portu-
outros historiadores: o sistema constituía uma alternativa de colonização alta- gueses aprenderam a construir casas de cipó, a dormir em redes e a tomar
mente vantajosa para a Coroa, pois não demandava maiores investimentos, fi- banho diariamente. Passaram a fazer uso do tabaco, a se alimentar de milho,
cando os riscos por conta dos donatários Varnhagen aproveita o ensejo e explica farinha de mandioca, taioba e tantos outros vegetais nativos, destacando-se as
as bases do que hoje em dia denominamos "pacto colonial", amparando-se na bananas-da-terra, fruto que segundo uma testemunha de época assegurava a
obra de Montesquieu. Ou seja, a idéia de que o estabelecimento de uma colônia, subsistência de um colono sem o trabalho, "pois a bananeira seria a figueira do
"[ ... ] por qualquer nação, que a funda com seus filhos, a defende com suas paraíso terreal".16 Adotaram o sistema da coivara, prática agrícola desconhe-

'4 Ibid., p. 160.


12 Ibid., p.106. " Ibid., p. 192.
13 Ibid., p. 84. 16 Ibid., p. 213.

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HISTÓRIA GERAL DO BRASIL LUCIA MARIA PASCHOAL GUIMARÃES

cida em Portugal no plantio de legumes, e que até hoje se utiliza nas áreas celebrações familiares eram as cerimônias religiosas, sobretudo o batismo e o
rurais do Brasil, apesar das advertências de agrônomos e ecologistas. Além matrimônio, ocasiões em que as pessoas envergavam trajes de gala, como se
disso, alguns colonos abraçaram a poligamia, passando a viver maritalmente estivessem na Europa. É curiosa essa menção às festas de casamento entre
com mais de uma nativa, a exemplo de João Ramalho, em Piratininga. Aliás, os colonos. Cerimônia que não deveria ocorrer com muita freqüência, pois
segundo o visconde de Porto Seguro, as índias preferiam unir-se aos europeus, sabe-se que o número de mulheres brancas solteiras era muito escasso na
a viver com os seus semelhantes. A opção, e por que não dizer, a atração pelos Terra de Santa Cruz. Tanto assim, que o padre Manuel da Nóbrega dirigiu ao
brancos seria motivada por razões de ordem cultural e fisiológica. 17 Mas dei- rei de Portugal uma carta, documento muito citado pela historiografia, solici-
xemos de mão as teorias sobre o comportamento sexual das nativas formula- tando o envio de órIaS para remediar tamanha carência.
das por Varnhagen. Voltemos à questão da poligamia. A esse respeito, o Das datas festivas, a exposição retoma ao dia-a-dia da colônia, para
historiador, tão categórico nos seus juízos, cai em contradição: condena o cos- focalizar a questão do trabalho. À operosidade dos brancos, que "[ ... ] não se
tume por motivos religiosos e logo adiante enaltece a sua adoção pelos portu- envergonhavam de roçar mato ou de cavar com a enxada", Varnhagen contra-
gueses, o que teria propiciado a fusão das duas nacionalidades. 18 Termina põe a indolência, a aleivosia e a barbárie dos nativos, que desconheciam os
suas reflexões, afirmando que o desaparecimento do "tipo índio" deve ser cre- "direitos da razão e supremacia da consciência".21 Tais argumentos servem
ditado à mestiçagem, não podendo ser atribuído à crueldade ou à violência do para trazer à tona o problema da carência de mão-de-obra nos primórdios da
colonizador branco. Pelo contrário, a presença do europeu no Novo Mundo colonização. De quebra, justificam a violência dos colonos no trato com os
contribuiu para a preservação das etnias autóctones, já que o "cruzamento índios e a defesa do emprego da força, como o único meio eficaz de convertê-
sucessivo de raça fez que a americana não se exterminasse [... ], mas antes se los à fé cristã, de incorporá-los ao mundo do trabalho, enfim de civilizá-los.
refundisse"!! !19 A discussão acerca dos métodos para submeter os indígenas desemboca
Malgrado a forte influência da cultura indígena na rotina diária dos colo- no tema da catequese. Embora reconheça a religião como um poderosíssimo
nos, sobreviveram certos padrões de comportamento europeu. Varnhagen re- instrumento de civilização e moral, Varnhagen faz um virulento ataque aos
vela, com uma ponta de surpresa, que as festas do calendário romano religiosos da Companhia de Jesus, os "sectários da pseudofilantropia de
continuaram a ser celebradas, consoante as tradições do hemisfério Norte, Bartolomeu de Las Casas", que davam guarida ao gentio. Deduz que a prote-
apesar das diferenças climáticas. Assim, a despeito do calor escaldante do ção extremada aos índios causou um mal maior ao Brasil: a introdução dos
verão, o dia de ano-bom era festejado com banquete à moda portuguesa rega- africanos. Estes, sim, submetidos ao "mais atroz cativeiro".22 Diga-se de pas-
do com muito vinho. No carnaval, época das loucas saturnálias, praticava-se sagem que a repulsa à presença jesuíta na colônia perpassa diversos capítulos
o entrudo, tal qual na metrópole. A folia espantava os nativos, que boquiabertos da obra. Culminando com o comentário de que a Companhia de Jesus consti-
assistiam àquela brincadeira de gosto duvidoso, das pessoas ficarem lançando tuía "[ ... ] já no Estado outro Estado", a propósito de aplaudir a decisão do
umas nas outras farinha, ovos e água. Em maio, era a vez da festa das flores. marquês de Pombal de expulsar os inacianos do reino. 23
Seguia-se a do Espírito Santo. Em junho, comemorava-se Santo Antônio, São O quadro dos primeiros tempos da sociedade colonial prossegue no capí-
João e São Pedro, época das grandes fogueiras e dos rojões. A par disso, tulo XIV, com a entrada em cena dos negros. Varnhagen salienta que tráfico
celebravam-se os dias santos de guarda e as datas dos padroeiros. O calendá- negreiro não se constituía numa novidade para os portugueses, que já se utili-
rio se encerrava no Natal, com seus presépios, seus autos sacros, sua missa do zavam desse bárbaro expediente para suprir a deficiência de braços nas colô-
galo e mesa farta, guarnecida por um belo leitão assado. 20 O ponto alto das nias das ilhas da Madeira e dos Açores. A cidade de Lisboa, inclusive,
transformara-se num grande entreposto de cativos devido à cobrança da sisa.

17 Ibid., p. 215.
18 Ibidem. 11 Ibid., p. 217.
19 Ibidem. [Exclamações da autora.] 12 Ibid., pp. 220-221.
20 Ibid., p. 216. 23 Ibid., tomo IV, pp. 137-138.

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Esses antecedentes, bem como o testamento de Jerônimo de Albuquerque, tidos nas capitanias. Enfim, tratava-se de uma política de povoamento pouco
levam-no a crer que os primeiros donatários certamente trouxeram alguns afri- eficiente, que prejudicou os próprios donatários, visto que ao invés de gente apta
canos, a título de precaução. Porém, a introdução em grande escala, para para o trabalho recebiam infratores de toda a ordem.
atender às demandas do cultivo do açúcar, só ocorreu depois que as autorida- O livro avança com o exame da administração colonial: a criação dos
des metropolitanas proibiram a escravidão dos índios. governos-gerais, as iniciativas em prol da conquista do território e sua expan-
O visconde de Porto Seguro mostra-se bem mais sensível à violência da são para além dos limites de Tordesilhas. Salienta, sobretudo, a preocupação
escravatura africana do que em relação às atrocidades cometidas contra os constante das autoridades metropolitanas de explorar as terras próximas ao
indígenas. Deplora as condições do tráfico. Avalia, no entanto, que os cativos Peru, na esperança de encontrar indícios das tão cobiçadas minas de prata.
receberam um tratamento mais suave no Brasil. Sobretudo quando se compa- Outro ponto a destacar é o cuidado e a minúcia com que são tratadas as
ra com a situação dos negros nos Estados Unidos, "onde o anátema acompa- investidas estrangeiras à Colônia. Varnhagen chega mesmo a afirmar que "[ ... ]
nha não só a condição de escravo, mas também a cor em todas as suas por todas as capitanias, os receios de alguma invasão estrangeira era como um
gradações".24 Reconhece o papel fundamental do trabalho servil na agricultu- sentimento público. Temiam-se franceses, temiam-se ingleses, temiam-se ho-
ra, tanto no período colonial quanto, modernamente, na cultura do café. Entre- landeses [ ... ] até mesmo mouros e turcos". 27 As incursões francesas, por exem-
tanto, ao contrário das idéias desenvolvidas sobre a mestiçagem entre brancos plo, embora diluídas nos diversos capítulos dedicados aos governos-gerais, são
e índios, que como se já viu iria permitir a preservação da raça americana, merecedoras de relatos minuciosos. 28 A aliança entre índios e franceses é
Varnhagen faz votos para que a miscigenação acabasse por eliminar a cor identificada como um dos maiores óbices enfrentados pela colonização portu-
negra na população do nascente império. 25 A esses comentários, acrescenta guesa nos seus primórdios. Nesse sentido, a expulsão dos franceses da baía de
uma breve descrição das principais influências africanas na cultura brasileira. Guanabara toma ares de uma verdadeira epopéia, fazendo jus a um capítulo
O estudo sobre a formação da sociedade colonial tem um desfecho inespe- exclusivo. O tema da presença francesa no Brasil voltaria à tona no exame da
rado. O autor abandona a sua proverbial condescendência com os brancos e conquista e ocupação do Maranhão, tópico bem explorado, a partir de uma
carrega nas tintas, ao comentar aspectos morais da vida dos primeiros povoadores. outra descoberta de Varnhagen - o texto A descrição, de Heriarte. A propó-
À primeira vista, sugere que a Colônia se constituía no paraíso dos contrabandis- sito da narrativa dos sucessos de Daniel de La Touche e sua tentativa de se
tas, degredados, viciados e criminosos. Nem mesmo os religiosos escapam des- estabelecer na ilha de São Luís, o autor também se utiliza de testemunhos
sa pecha, já que muitos "[ ... ] deixavam de cumprir os preceitos da Igreja como, franceses, os padres capuchinhos Claude d' Abbeville e Yves d'Évreux, cujas
às escâncaras, faltavam à sociedade vivendo escandalosamente em poligamia". C6 crônicas considera superiores aos textos de Gabriel Soares de Sousa e de
Lições de moral à parte, o texto deixa claro que a metrópole não dispunha de Fernão Cardim, devido à descrição dos costumes dos índios tupis. 29
gente para povoar tão extenso domínio. A Terra de Santa Cruz, por sua vez, Mas, sem dúvida, o ponto alto do estudo da defesa e preservação da
também não oferecia grandes atrativos. Mormente se comparamos a sua situa- integridade da América portuguesa está no exame das invasões holandesas,
ção com a das feitorias do Oriente, que acenavam possibilidades mais concretas contempladas com sete alentados capítulos, enriquecidos por um brilhante tra-
de fortuna fácil. A escassez de voluntários dispostos a desbravar o território balho de crítica de fontes, acrescentado ao término da narrativa daqueles acon-
desconhecido obrigou a Coroa a tomar certas atitudes contraditórias. No Reino, tecimentos. 3D Aliás, a importância dessa contribuição já foi sobejamente
estabeleceu medidas coercitivas, a exemplo do recrutamento forçado de colonos reconhecida pela historiografia, desde Capistrano de Abreu até Evaldo Cabral
e da criação da pena de degredo para o Brasil. Por outra parte, na Colônia,
afrouxou as rédeas, concedendo o direito de couto e homízio, para crimes come-
27 Ibid., tomo II, p. 160.
li Ver, por exemplo, as seções que tratam dos governos de Duarte Coelho e de Mem de Sá.
24Ibid., p. 223. ,. Cf. Francisco Adolfo de Varnhagen, História geral do BraSIl antes da sua separação e indepen-
IIIbidem. dência de Portugal, cit., tomo II, p. 146.
" Ibld., p. 228. ]. Ibid., tomo III, pp. 99-107.

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de Melo, passando naturalmente por José Honório Rodrigues. Contudo, vale a O historiador apressa o compasso da narrativa, quando adentra nos fatos
pena chamar a atenção para um aspecto muito pouco explorado pelos estudio- do século XVIII. Contudo, em alguns momentos, recobra o ritmo original. Vale
sos: Varnhagen apresenta uma espécie de balanço das chamadas "guerras do a pena rever sua descrição sobre a vertigem, que tomou conta da Colônia,
açúcar". Admite que o Brasil e seus produtos ficaram conhecidos na Europa quando se espalhou a notícia da existência das minas de ouro nas Gerais.
graças aos flamengos. Percebe-os como "[ ... ] indivíduos de uma nação mais Movimento que esvaziou as cidades do litoral, roubou braços da agricultura e
ativa e industriosa". O que lhe permite conferir um valor mais expressivo à atravessou o oceano Atlântico, atraindo toda a sorte de gente para os sertões
resistência contra a presença holandesa. Finalmente, após longa reflexão, o do Brasil. A maratona desenfreada é comparada à corrida do ouro que estava
historiador faz uma pausa e se indaga: "Em definitivo: da invasão holandesa ocorrendo na Califórnia, em meados dos oitocentos. 33
resultou algum proveito para o Brasil?" Mais adiante, conclui categórico: 'l .. ] No caudal dos grandes acontecimentos também emergem episódios me-
se apresentou mais crescido e mais respeitável".31 No seu entender, a guerra nores, mas nem por isso menos importantes, reveladores das tensões que
contra o estrangeiro - o inimigo comum - assumiu o papel de elemento catali- permeavam o relacionamento entre as autoridades metropolitanas e os colo-
sador. Transformou-se na força que aglutinou as três raças. Combateram pela nos. Esse é o caso do relato sobre o tumulto do Maneta, uma rebelião que
mesma causa, brancos, índios e negros. União que seria representada, respec- estourou na capital da Colônia, em 1711, para protestar contra o aumento do
tivamente, pelas figuras emblemáticas de Vidal de Negreiros, Filipe Camarão preço do sal e a elevação de 10% do imposto sobre todos os artigos de impor-
e Henrique Dias. De quebra, a luta ainda propiciou a coesão das capitanias do tação, inclusive escravos de Angola, a pretexto de armar uma frota, para pro-
Nordeste. Vista por esse prisma, a restauração converte-se numa espécie de teger a Bahia contra os inimigos que infestavam a costa. 34
gênese do sentimento nativista. Na verdade, como avalia Capistrano de Abreu, o século XVIII encerra
A História geral do Brasil perde fôlego quando aborda o período sub- grandes transformações - "[ ... ] o Brasil é povoado de um só golpe [ ... ] é o
seqüente à expulsão dos holandeses, em que pesem as continuadas e sucessi- século das minas, das guerras espanholas, das demarcações de fronteiras, da
vas demonstrações de erudição do seu autor. Dessa parte em diante, o título e expulsão dos jesuítas, das tentativas de independência". O estudo aprofundado
a periodização dos capítulos passam a se orientar pelos diversos tratados cele- desse período, no entender de mestre Capistrano, demandaria em certas qua-
brados pela metrópole, para dirimir questões relativas aos seus domínios no lidades específicas do historiador, para compreender o alcance daqueles movi-
Novo Mundo. Ao que tudo indica, Varnhagen utilizou esse recurso para alinha- mentos, o que não era bem o caso do visconde de Porto Seguro. 35 Apesar do
var uma gama de assuntos diferentes e desarticulados. No capítulo XXXVI, trabalho e do rigor documental, o foco das suas atenções concentra-se, sobre-
por exemplo, intitulado "Desde o tratado de 1668 até a execução do de 1681", tudo, na política interna e externa de Portugal, em detrimento de uma análise
o texto principia com as negociações de paz entre Portugal e Espanha. Em das aceleradas e intensas metamorfoses que operavam na Colônia, tal como
seguida, há uma rápida menção ao movimento dos bandeirantes que devassava desejava Capistrano. Isso se percebe em diversas oportunidades, como na
os sertões. Logo adiante, aborda sucessivamente o crescimento da população seção XLV, em que se dedica a elogiar a probidade de D. José I e capacidade
dos dois estados (Maranhão e Brasil); a criação do arcebispado na Bahia; a política do seu ministro, o marquês de Pombal, para desaguar numa defesa do
transferência de colonos das ilhas dos Açores para o Pará; o quilombo de Socorro de capitais e de ouro prestados pelo Brasil, na reconstrução de Lisboa,
Palmares; a venda da capitania do Espírito Santo; a fundação da colônia do após o terremoto de 1755. 36 Ainda assim Varnhagen emite algumas aprecia-
Sacramento e o tratado provisional (1681), que obrigou os espanhóis a entre-
garem aquela colônia aos portugueses. Arrematando a miscelânea, Varnhagen l3 lbid., tomo IV, pp. 99- I Ol.
adverte os leitores de que a saga da ocupação lusa na margem esquerda do rio 14 Ibid., p. 312.
da Prata deverá prosseguir nos capítulos seguintes. 3:! " Cf. Capistrano de Abreu, "Sobre o visconde de Porto Seguro", em Ensaios e estudos, I~ série,
nota liminar de José Honório Rodrigues (Brasília/Rio de Janeiro: INLlCivilização Brasileira,
1975), pp. 135-136.
Jl Ibid., pp. 98-99. 36 Cf. Francisco Adolfo de Varnhagen, Históna geral do BraSil antes da sua separação e indepen-
32 Ibid., pp. 226-239. dência de Portugal, cit., tomo IV, pp. 234-249.

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ções muito significativas sobre o alcance de certas medidas da Coroa, na ad- Do Velho Mundo, Varnhagen desloca-se para o lado de cá do Atlântico.
ministração dos seus domínios na América. Ao se reportar ao célebre alvará No panorama intelectual da Colônia distingue duas categorias de letrados. Essa
de D. Maria I, que proibia a instalação de todas as fábricas e manufaturas no divisão tem um significado muito especial, porquanto articula-se diretamente
Brasil, afirma taxativo que o ato era "[ ... ] arbitrário e opressivo [ ... ] qualquer relacionada com a problemática da independência, como veremos mais à fren-
oposição ou rebeldia que a ele se apresentassem os povos. Em vez dessa, que te. O historiador identifica a existência de um conjunto de estudiosos - oriun-
seria justíssima, por sua origem, outra se manifestou e tomou corpo, chegando dos dos cursos da Universidade de Coimbra, homens de grande visão,
a converter-se em uma ou tal conspiração".37 Ou seja, no entender do historia- preocupados em pesquisar e propor alternativas para a prosperidade do Brasil
dor as proibições do alvará de 1785 seriam tão nocivas aos interesses da Colô- - integrado por naturalistas e políticos. Não cabe aqui uma apreciação
nia, que por si só justificariam até um movimento de caráter emancipacionista. aprofundada acerca das atividades ou da produção intelectual desses vultos.
Juízo que reduz à expressão mais simples um outro ato, igualmente arbitrário, a Por ora, basta apenas apontar os seus nomes. Dentre os naturalistas, mencio-
derrama - a cobrança forçada dos impostos atrasados sobre o ouro, que teria na Manuel de Arruda Câmara, José de Sá Bettencourt e até o antigo juiz de
motivado a Conjuração Mineira. Acontecimento, aliás, que ele insiste em dizer fora do Rio de Janeiro, Baltazar da Silva Lisboa, que por essa época estaria
que fora apenas uma conspiração,38 embora lamente o destino trágico de investigando as matas do litoral da Bahia. No âmbito dos políticos, aparecem o
Tiradentes, decorrente da sua "[ ... ] aspiração prematura em favor da indepen- bispo Azeredo Coutinho, José da Silva Lisboa, Hipólito José da Costa e um
dência do Brasil". 39 desconhecido, que se assinava com o pseudônimo Ideiador. 41
O livro se encerra com a regência do príncipe D. João e a vinda da Corte A esse rol de notabilidades, Varnhagen contrapõe um segundo grupo - o
portuguesa para o Brasil. A narrativa segue os fatos institucionais, como já era dos intelectuais subversivos, por assim dizer. Leitores dos "[ ... ] filósofos e
de esperar. Porém, destaca dois personagens: o príncipe D. João, descrito enciclopedistas do século". Obras proibidas pela Coroa, mas que clandestina-
como homem de "[ ... ] bondoso caráter, pio, dotado de felicíssima memória, e mente circulavam na Colônia, "[ ... ] infectas dos abomináveis princípios fran-
sem maiores ambições políticas".40 E o ministro D. Rodrigo de Sousa Coutinho, ceses".4" Nessa categoria estão incluídos os freqüentadores da sociedade
apresentado como um grande patriota, descendente de família brasileira pelo literária dissolvida pelo vice-rei, o conde de Resende, e que passaram a se
lado matemo, que congregava ao seu redor um grupo de intelectuais brasilei- reunir na casa do poeta e advogado Manuel da Silva Alvarenga. Acusados de
ros. A menção aos protegidos de D. Rodrigo, capitaneados por frei José Mariano conspirar contra a Coroa, esses letrados foram presos em 1794, a exemplo dos
da Conceição Veloso, serve de mote para salientar a existência de uma certa médicos Jacinto José da Silva e Vicente Gomes, do professor João Marques
intelligentsia brasileira, no eixo Lisboa-Coimbra, na virada do século XVIII Pinto e do dr. Mariano José da Fonseca,43 que mais tarde seria nobilitado com
para o XIX. Estudantes, como Antônio Carlos Ribeiro de Andrada e José o título de marquês de Maricá.
Feliciano Fernandes Pinheiro. Professores, a exemplo de Vicente Coelho Seabra A divulgação das "[ ... ] chamas incendiárias da Revolução Francesa", no
(catedrático de zoologia, mineralogia, botânica e agricultura em Coimbra) e entanto, extrapolou os círculos beletristas, atingindo as camadas populares. E,
Manuel Jacinto Nogueira da Gama (lente de matemática em Lisboa). Num nesse caso, representava um perigo ainda maior, reflete Varnhagen, reportan-
patamar mais elevado, incorporados aos quadros do governo real, estavam do-se à rebelião dos negros de São Domingos. A trama inspirava-se nos prin-
José Bonifácio de Andrada, desembargador e lente de mineralogia em Coimbra, cípios de liberdade, igualdade e fraternidade. Gente perigosa "de idéias mais
inspetor de minas e do encanamento do rio Mondego, e Manuel Ferreira da socialistas do que políticas ", que estaria pretendendo estabelecer um "governo
Câmara, membro da Academia de Ciências de Lisboa. democrático", em Salvador. Denunciado o conluio, que ficou conhecido como
Conjuração dos Alfaiates ou Conjuração Baiana de 1798, o governador da
37 Ibld., p. 289.
38 Ibld., p. 313. 41 Ibld., pp. 16-20.
39 Ibld., p. 322. " Cf. D. Rodrigo de Sousa Coutinho, apud Francisco Adolfo de Varnhagen, tbid., p. 23.
4<l Ibld., p. 10. 43Ibid., p. 24.

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capitania mandou prender e executar os principais acusados, "[ ... ] nenhum dos por uma velha rivalidade local, a rixa existente entre pernambucanos e
deles homem de talento, nem de consideração; e quase todos libertos ou escra- portugueses. Opina que os revolucionários só foram adiante e ganharam o
vos, pela maior parte pardos".44 apoio popular, porque faltara pulso ao governador da capitania para segurar as
Vistas as idéias que circulavam na Colônia, segue-se um quadro das suas rédeas da situação, punindo os militares insubordinados na primeira hora. 48 E,
condições econômicas, administrativas e sociais, por ocasião da chegada do conclui, num desabafo "[ ... ] o braço da Providência, bem que à custa de la-
príncipe D. João, em 1808. Completa-se, assim, o cenário desenhado por mentáveis vítimas e sacrificios, amparou o Brasil, provendo em favor da sua
Varnhagen para anunciar a decisão que alterou definitivamente os rumos da integridade".49
América portuguesa: o decreto régio de 28 de janeiro de 1808, que "o emanci- Mas Varnhagen não poderia encerrar a sua História geral do Brasil
pou [Brasil] de uma vez da condição de colônia, e o constituiu nação indepen- com a análise de um acontecimento que contestava a idéia de continuidade, o
dente de Portugal".45 Desse ponto em diante, o autor passa a comentar as fio condutor da sua narrativa desde a primeira página da obra. Além disso, no
transformações que se dão nos antigos domínios da casa de Bragança, seu entender, a chegada da Corte portuguesa representa "[ ... ] uma nova era,
doravante convertidos na sede da monarquia. Abre, inclusive, uma brecha para onde o Brasil se tomou o centro da monarquia regida pela casa de Bragança".5O
inserir um capítulo sobre a introdução da siderurgia no país, consagrado a de- Nessa linha de raciocínio, o tema da proclamação da independência seria o
fender o pioneirismo do seu pai, o coronel Frederico Guilherme de Varnhagen, grand finale, por excelência. Entretanto, o visconde de Porto Seguro não
na primazia da fabricação de ferro. 46 Trata também da política externa desen- comete essa ousadia. Chega perto, porém, valendo-se de um artificio. Consa-
volvida por D. João, das negociações, conquistas e tratados. Considera, ainda, gra o último capítulo do livro Escritores, viajantes e imprensa ao campo das
que a elevação do Brasil a Reino Unido, em 16 de dezembro de 1815, consti- belas-letras. Dispõe-se a examinar obras e autores que tratam do Brasil no
tuiu um expediente de caráter diplomático, porquanto o pacto colonial fora período reinoI.
rompido cerca de oito anos antes, com o decreto que concedia liberdade de A seleção não poderia ser mais significativa. Cita dez trabalhos, todos
comércio. bem conhecidos. A começar do Dicionário da língua portuguesa de Antônio
Ao final da enumeração de tantas realizações e progressos, Varnhagen de Morais Silva. Prossegue com a Corografia brasílica do padre Aires do
resolve cuidar de um assunto espinhoso: "[ ... ] tão pouco simpático, que, se nos Casal, a História do Brasil de Robert Southey, os relatos de viagem do prínci-
fora permitido passar sobre ele um véu, o deixaríamos fora do quadro que nos pe Maximiliano de Neuwied, dos naturalistas Spix e Martius e assim por diante,
propusemos traçar" . Trata-se da revolução pernambucana de 1817. Varnhagen até alcançar os publicistas. Neste momento, reaparecem aquelas três figuras
simplesmente desqualifica essa revolta, de caráter emancipacionista, que co- emblemáticas da boa intelectualidade da Colônia, isto é, o bispo Azeredo Coutinho,
meçou em Pernambuco e se alastrou pelas capitanias da Paraíba, do Rio Grande José da Silva Lisboa e Hipólito da Costa. Varnhagen passa por alto sobre a
do Norte e do Ceará. Apela até para um argumento "científico", para reforçar contribuição dos dois primeiros e centra-se nos artigos de Hipólito da Costa,
sua repulsa pelo movimento: "A verdade é só uma, e há de triunfar em vista publicados no jornal Correio Braziliense. Fazendo corte e colagem dos textos
dos documentos que vão aparecendo".47 No seu entender, a rebelião que pro- de Hipólito, o historiador apresenta a sua versão sobre a independência. Em
clamou a independência de Pernambuco do governo do Rio de Janeiro, não resumo, considera que ao longo da permanência da Corte portuguesa no Rio de
passa de um motim de quartel, provocado por militares insubordinados, insufla- Janeiro, organizara-se o sistema de administração de modo que Portugal e Bra-
sil se tomassem dois Estados diversos, ainda que sujeitos ao mesmo rei. Idéia,
por sinal, muito cara a uma outra figura destacada por Varnhagen, o ministro
44 Ibidem .

., Ibid., pp. 89-90.


46 Ibid., "Minas de ferro: primeiras fundições em ponto grande", tomo V, p. 185. Outros autores

atribuem o pioneirismo da fundição do ferro no Brasil à Fábrica Patriótica, localizada em Minas .. Ibid., p. 161.
Gerais, próximo a Congonhas do Campo, dirigida por outro alemão, o barão de Eschwege. 49 Ibid., p. 177.

47 Ibid., p. 150. '0 Ibid., p. 34.

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HIST6RIA GERAL DO BRASIL

entre os dois intelectuais. O imperador D. Pedro II, inclusive, parecia incenti-


D. Rodrigo de Sousa Coutinho. Mas havia fortes interesses em jogo, de ambos
var a polêmica, visto que agraciou Gonçalves de Magalhães com o título de
os lados. Por conseguinte, avalia, aquele projeto não possuía grandes chances
barão e mais tarde visconde do Araguaia, à propósito do seu indigenismo.
de ir avante, mormente se o rei regressasse para a Europa, o que parecia inevi-
Enquanto concedeu a Varnhagen a mercê de barão e depois visconde de
tável. 5! Assim, restava saber até quando o arranjo iria perdurar e, no caso da
Porto Seguro, numa alusão ao primeiro ponto do litoral brasileiro tocado pelos
emancipação da América portuguesa, que regime político viria a ser adotado?
navegadores portugueses. O certo é que apesar das inúmeras alterações e
À primeira questão, a resposta é curta e clara. A ruptura se dá em decorrência
notas acrescentadas na segunda edição da obra (1871), tentando explicar e,
da revolução do Porto e seus desdobramentos. Quanto à segunda, certamente
por que não dizer, amenizar sua postura inicial em relação aos índios, durante
não seria a república, inspirada nos abomináveis princípios franceses, fonte
um bom tempo, tanto o autor quanto a sua obra amargaram uma certa indife-
da anarquia e do despotismo que assolavam os antigos domínios espanhóis no
rença, no âmbito do Instituto Histórico. A reabilitação de ambos começaria
continente. Diante desses argumentos, Varnhagen identifica apenas uma alter-
após o necrológio que lhe dedicou o historiador Capistrano de Abreu, em 1878.
nativa viável: a monarquia representativa. Nasce o império do Brasil.
Se, por um lado, Capistrano não lhe poupou críticas, devido à "[00'] sua falta
de espírito plástico e simpático", por outro, reconheceu-lhe as virtudes inte-
lectuais e as qualidades de pesquisador incansável: "Grande exemplo a seguir
CONSIDERAÇÕES FINAIS
e a venerar".54 Seja como for, não se pode negar que o visconde de Porto
Seguro foi o maior historiador da sua época, pela extensão da obra, pelos
A História geral do Brasil antes da sua separação e independência
fatos que revelou, pelas fontes que descobriu, pela publicação de inéditos,
de Portugal, mais conhecida como História geral do Brasil, foi dedicada a
pelo seu enorme esforço e determinação. 55
D. Pedro II. Como o seu próprio título indica, a contribuição pretendia se cons-
Adepto das regras estabelecidas pelo historismo alemão, do qual Leopold
tituir numa grande síntese do passado de um "[00'] novo Império a figurar no
von Ranke é a expressão máxima, Varnhagen entendia que o historiador só
Orbe entre as nações civilizadas, regido por uma das primeiras dinastias do
pode se ater aos fatos que efetivamente aconteceram, devendo empenhar-se
nosso tempo".5~
para restabelecer a verdade sobre os mesmos. Nesse sentido, acreditava que
Lançado em Madri, em dois volumes (1854-1857), o portentoso livro
o trabalho histórico deveria apoiar-se na erudição, no rigor do tratamento dis-
não foi bem recebido no Brasil, em que pesem os calorosos elogios que arran-
pensado às fontes. Sua concepção de história apóia-se na premissa de que as
cou na Europa dos maiores brasilianistas da época, o naturalista alemão Martius
ações humanas espelham as intenções de quem as pratica e que cabe ao his-
e o bibliotecário francês Ferdinand Denis. A obra suscitou intensos protestos
toriador compreender tais intenções. Somente assim é possível construir uma
no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, sobretudo por causa do trata-
narrativa lógica e coerente. Desse modo, opera com uma noção de tempo
mento dispensado aos indígenas. Cabe esclarecer que no Instituto, naquela
linear, onde os eventos se sucedem numa seqüência cronológica. Tal como
ocasião, prevalecia uma visão romântica das origens da nacionalidade de viés
Ranke, o visconde de Porto Seguro privilegia sobretudo o Estado, daí a sua
indigenista. O poeta e cronista Domingos Gonçalves de Magalhães, um dos
ênfase na primazia dos fatos políticos, relativamente isolados das forças eco-
expoentes daquela corrente, autor do épico A Confederação dos Tamoios,
nômicas e sociais. 56
escreveu a propósito uma defesa intransigente dos gentios, "Os indígenas
perante a história".53 Não vem ao caso aprofundar o áspero debate travado
,. Capistrano de Abreu, "Necrológio do visconde de Porto Seguro", em Ensaios e estudos, 1" série,
cit., p. 86.
" Ver José Honório Rodrigues, "Varnhagen: mestre da história geral do Brasil", em Revista do
l1 Cf. Hipólito da Costa, apud Francisco Adolfo de Varnhagen, lbid., p. 234.
Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, n" 275, Rio de Janeiro, 1967, pp. 170-196.
12 Francisco Adolfo de Varnhagen, História geral do Brasil antes da sua separação e independên-
" Sobre Ranke e o historismo alemão, apoiamo-nos em George Iggers, "Introduction", em
cia de Portugal, cit., tomo I, p. 67.
Historiography in the Twentieth Century (Hanover/Londres: Wesleyan University Press, 1997),
II Domingos José Gonçalves de Magalhães, "Os indígenas perante a história", em Revista do
pp. 3-5.
Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, n" 23, Rio de Janeiro, 1860, pp. 3-66.

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HISTÓRIA GERAL DO BRASIL

A História geral do Brasil, com suas páginas cheias de referências AFONSO D'ESCRAGNOLLE TAUNAY
luso-brasileiras, retrata também a atmosfera de uma época. Escrito no início
da década de 1850, o livro reflete a problemática do processo de consolidação
do Estado nacional. Se a discussão acerca das raízes da nacionalidade dividia
as opiniões dos letrados, não havia dúvidas quanto às origens do Estado. Essa Históna geral das
questão já estava bem definida, sobretudo no âmbito do Instituto Histórico e
Geográfico Brasileiro, que desde 1838 vinha construindo a memória do país
recém-independente, dotando-o de um passado adequado às pretensões da bandeiras paulistas
monarquia instaurada. Memória marcada pelo traço da continuidade, em que o
Estado estabelecido em 1822 constituía-se no legítimo herdeiro e sucessor do
Império ultramarino português. Legado que se sustentava desde o idioma de
Camões até a presença de um representante da dinastia de Bragança no Tro-
no brasileiro. E não resta dúvida de que Varnhagen foi o autor que melhor
desenvolveu essas premissas.
Wilma Peres Costa

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UMA OBRA MONUMENTAL

A História geral das bandeiras paulistas, de Afonso d'Escragnolle


Taunay (1876-1958), foi, como o próprio autor nos indica no seu subtítulo "es-
crita à vista de avultada documentação inédita dos arquivos brasileiros, portu-
gueses e espanhóis". A obra é, sob todos os aspectos, fruto de um trabalho
monumental e consolida, de forma não superada até hoje, o estado dos conhe-
cimentos factuais sobre o tema do bandeirismo entre os séculos XVI e XVIII.
Em seus onze extensos volumes, publicados ao longo de 27 anos (1924 a 1950),1
estão incorporadas as contribuições dos cronistas coloniais bem como dos es-
tudiosos contemporâneos a Taunay - Alfredo Ellis Ir., Washington Luís,
Capistrano de Abreu, Oliveira Viana, Orville Derby, Teodoro Sampaio. Além
disso, Taunay sumariza na História geral seus próprios trabalhos anteriores
sobre o assunto. O estudo fundamenta-se sobre uma impressionante quantida-
de de documentos: os arquivos relativos à vida da comunidade paulista durante
o período colonial, a coleção de inventários e testamentos dos sertanistas, os
testemunhos jesuíticos sobre o assédio dos paulistas às reduções. A esse acer-
vo, que também tinha sido visitado pelos estudiosos que o precederam, Taunay
acrescentou uma documentação nova e inexplorada até então: os arquivos
ultramarinos, em particular os espanhóis.
A extensão e o caráter exaustivo da obra seriam em si mesmo surpreen-
dentes, não fosse ela produto daquele que foi, possivelmente, o mais prolífico
historiador brasileiro. No momento da publicação da edição abreviada da His-
tória geral das bandeiras,2 Taunay havia produzido nada menos de 24 títulos
de história do Brasil, dentre os quais os quinze volumes da sua História do
café, sob encomenda do Departamento Nacional do Café, cuja publicação
(1927-1937) correu, em parte, paralelamente à História das bandeiras. Con-
tava ainda com 23 títulos sob a rubrica história de São Paulo, destacando-se a
História seiscentista da vila de São Paulo (quatro volumes) e a História da
Cidade de S. Paulo (cinco volumes), além de incontáveis artigos escritos prin-
cipalmente nas revistas do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e do
Instituto Histórico e Geográfico de S. Paulo. O conjunto de seus artigos
publicados ao longo de trinta anos no Jornal do Commercio abarca mais de
sessenta volumes. A vastidão de seus interesses espraiou-se pelas áreas mais

1 Afonso d'Escragnolle Taunay, História geral das bandeiras paulistas, 11 vols. (São Paulo:
Canton, 1924-50).
1 Afonso d'Escragnolle Taunay, História das bandeiras (São Paulo: Melhoramentos, 1951).

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HISTÓRIA GERAL DAS BANDEIRAS PAULISTAS WILMA PERES COSTA

variadas, da lingüística ao romance histórico, passando pela história da ciência UM INTELECTUAL E SUA EFÍGIE

e da arte no Brasil.
A história de São Paulo, capitania, província, estado, foi, entretanto, o Afonso d'Escragnolle Taunay nasceu em Santa Catarina em 1876, quan-
tema mais persistente de Afonso Taunay. Tanto por relações familiares, como do seu pai, o grande intelectual e político do Império, Alfredo d'Escragnolle
por ligações políticas e profissionais, ele identificou-se com a trajetória de cons- Taunay (o visconde de Taunay) presidia aquela província. Embora portador de
tituição e consolidação da hegemonia paulista no interior da federação republi- um nome ilustre, oriundo de uma família que se notabilizara no serviço ao
cana e fez dela uma verdadeira causa para sua militância intelectual. A parte Império, Afonso Taunay não foi herdeiro de fortuna pessoal. Sua família, assim
mais substantiva de sua produção historiográfica foi a que resultou na His tória como a de Joaquim Nabuco, arruinou-se durante a crise financeira que atingiu
geral das bandeiras paulistas e na História do café no Brasil, cada uma tanto a Argentina (crise da Casa Bancária Baring Brothers) como o Brasil
das obras retratando os momentos mais significativos da trajetória paulista e (encilhamento), entre 1890-189l. A crise e o desastre financeiro serviram para
de sua inserção na vida da colônia e da nação. aprofundar o ódio à República e a lealdade monárquica tanto de Joaquim Nabuco
Mais do que um objeto de interesse acadêmico, bandeiras e bandeiran- como do visconde de Taunay, que escreveu sobre essa quadra um romance
tes foram sua verdadeira paixão. Ele costumava dizer que o exame dos in- histórico entre amargo e divertido, muito ao seu estilo (O encilhamento, 1894).
ventários e testamentos dos bandeirantes proporcionara a maior emoção da Afonso tinha apenas 13 anos quando da proclamação da República e não
sua vida, muito maior do que experimentara ao deparar com os padrões qui- parece ter compartilhado, mesmo na juventude, a fé monárquica de seu pai.
nhentistas de Porto Seguro e do Cabo de São Roque. Estes, dizia ele, atesta- Ao contrário, as cartas do visconde ao filho repreendem-no com profundo
vam "epopéia portuguesa" e os bandeirantes representavam um "patrimônio desgosto ao saber que o jovem Afonso se juntara aos florianistas em uma
da humanidade". manifestação em favor do "Marechal de Ferro", carta que o jovem Afonso
A temática das bandeiras foi abordada por Taunay sob múltiplos ângulos teria rasgado, em um assomo de rebeldia juvenil. Apesar do episódio, a rebel-
_ biografia, cartografia, publicação de documentos. 3 Particularmente impor- dia tampouco foi característica da personalidade de Afonso Taunay. Jovem
tantes para o estudo da vida e das mentalidades na capitania de São Paulo, no retraído e estudioso, preferiu sempre a companhia dos livros ao convívio mun-
período colonial, e para a história das bandeiras foram suas reedições comen- dano, diferentemente do visconde que, na mocidade, fora dado à vida festiva
tadas dos velhos cronistas paulistas Pedro Taques de Almeida Leme e frei da corte e se notabilizara pela conversação cativante, pelo prazer da dança e
Gaspar da Madre de Deus,4 matrizes da construção da figura e do mito do pelo fascínio da conversação. Dotado de um grande talento literário, o viscon-
bandeirante em múltiplas dimensões, que seriam criticadas umas, incorporadas de preocupava-se também com o "mau português" do jovem Afonso, insistin-
outras, na História geral das bandeiras. Também se deve a Afonso Taunay do com ele para que apurasse o estilo e aconselhando-lhe a leitura dos sermões
a edição e divulgação da maior parte dos trabalhos de seu pai, destacando-se a de Vieira. 5 O conselho pode parecer um pouco peculiar, oferecido a quem viria
tradução de A retirada da Laguna, escrita originalmente em francês, obra a ser um escritor tão prolífico, mas a verdade é que ele possuía uma certa
que teria também profunda relação com as temáticas exploradas na História adequação. A História geral das bandeiras não é obra que atraia o leitor
geral das bandeiras. pela beleza do estilo. Afonso Taunay conservou, ao lado de uma grande erudi-
ção, uma escrita bastante pesada e por vezes repetitiva, uma tendência à pro-
lixidade, que não foi superada nem mesmo na edição abreviada de seus
trabalhos. Como ele mesmo insistia a cada passo, seu objetivo não era a sínte-
J Uma abrangente bibliografia comentada de Afonso Taunay encontra-se em Myriam Ellis &
Rosemarie Erika Horsh, A//onso d'Escragno/le Taunay no centenário de seu nascimento, 11 de
se, mas a exposição detalhada, erudita, documentada, de seu tema.
julho de 1876, 20 de março de 1958 (São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 1976), de onde Como era comum nos círculos privilegiados, particularmente entre os
foram extraídas as informações biográficas aqui utilizadas. que dispunham de distinção intelectual, a perda da fortuna não impediu que
4 Pedro Taques de Almeida Leme, Noblliarqllla paulistana histónca e genealógica (5) ed. Belo
Horizonte/São Paulo: Itatiaia/Edusp, 1980) e frei Gaspar da Madre de Deus, Memórias para a
história da capitania de São Vicente (Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia/Edusp, 1975). , Myriam Ellis & Rosemarie Erika Horsh, op. Clt., pp. 10-12.

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HISTÓRIA GERAL DAS BANDEIRAS PAULISTAS WILMA PERES COSTA

Afonso se mantivesse, pelo casamento, no mesmo patamar social que fora o cias. 8 Ganhavam espaço os temas que seriam caros à história econômica - a
de seu pai. O visconde fora casado com a filha do barão e da baronesa de ocupação, o povoamento, a penetração do território, as ações anônimas dos
Vassouras, uma das mais importantes famílias ligadas ao café fluminense. agrupamentos humanos.
Mudados os tempos e a geografia da riqueza cafeeira, Afonso Taunay casou- Para Capistrano, os inventários bandeirantes do sertão, que havia no Ar-
se com uma herdeira das mais tradicionais fortunas ligadas à cafeicultura paulista quivo do Estado, eram muito mais importantes do que as cartas régias. "Enve-
- os Sousa Queirós. rede por ali", teria dito Capistrano a Taunay, "não esperdice tempo com
Mantendo uma tradição que perpassou todas as gerações de sua família, Capitães-Generais e Vice-Reis". 9
Afonso Taunay dedicou-se sobretudo ao serviço público. Um pouco em razão Outra influência persistente na vida e na obra de Taunay foi Washington
desse fato, tudo o que se refere a ele tende a ser perpassado de um quase Luís, o eminente político que abrigava também uma vocação de historiador e
inevitável "oficialismo". Ele ocupou praticamente todas as posições institucionais vinha a ser seu concunhado. A ele Taunay dedicou o primeiro volume da His-
estratégicas para a intelectualidade paulista de sua época, tendo-se beneficia- tória geral das bandeiras paulistas e São Paulo nos primeiros anos (1554-
do dos aplausos e incentivos do mundo político e acadêmico, tão significativa- 1601): ensaio de reconstituição social, assim como o primeiro volume dos
mente interligados nas primeiras décadas do século. Formado pela Politécnica Anais do Museu Paulista. Ao patrocínio de Washington Luis também se de-
do Rio de Janeiro, "engenheiro sem vocação", segundo o depoimento de seu veu a disponibilização de grande parte dos documentos sobre a história de São
filho Augusto, exerceu entretanto o magistério na área de ciências fisicas por Paulo, alguns deles fundamentais para o estudo do bandeirismo. Enquanto pre-
mais de vinte anos (1899 a 1923), quando abandonou a cátedra de fisica expe- feito de São Paulo e governador do Estado, ele promoveu a impressão das
rimental da Politécnica, da qual fora o primeiro ocupante. A partir de 1908, Atas e registro geral da Câmara de S. Paulo, bem como dos Inventários e
dedicou-se à pesquisa histórica, incentivado principalmente pelo historiador testamentos, dando continuidade ao trabalho iniciado em 1894, por Toledo Piza,
Capistrano de Abreu 6 e pelo geógrafo Alfredo Moreira Pinto. A partir dessa com a coleção Documentos interessantes para a História e costumes de
influência, é consensual localizar-se Afonso Taunay na escola historiográfica São Paulo. Dentro dessa documentação, Taunay, que se identificava como
conhecida como "revisionismo histórico", inaugurada por Capistrano e inspira- um "viajor infatigável entre quatro paredes", embrenhou-se, como um "ban-
da na idéia de revisão e atualização da história geral do Brasil de Adolfo deirante nas selvas". 10
Varnhagen. 7 É relevante lembrar que essa mudança de direção na historiografia, que
"Revisionismo" é certamente um termo insuficiente para caracterizar o se consolida na obra de Capistrano de Abreu, vinha se desenhando, no plano
que foi realizado pelo grande historiador cearense e seus discípulos. Mais do da política e da própria consciência nacional, desde a Guerra do Paraguai,
que uma mera "revisão", eles operaram uma verdadeira mudança de direção quando se tornaram patentes as enormes distâncias e a vulnerabilidade das
na historiografia brasileira. A orientação imprimida aos estudos históricos no fronteiras do Brasil, e quando teve lugar também uma espécie de "descoberta"
século XIX, influenciada pela obra de Varnhagen, valorizava sobretudo a he- do sertão. Nesse sentido, pode-se dizer que foi o visconde de Taunay, com A
rança ibérica e a obra administrativa e centralizadora da coroa imperial, indu- retirada da Laguna e, de certa forma, também com Inocência quem inaugu-
zindo a uma forma de pesquisar e escrever sobre os temas históricos fortemente rou a temática sertaneja em nossa literatura. O sertão, inóspito e, até então,
calcada nos fatos políticos. A partir de Capistrano, essa orientação daria lugar intransponível, cedendo ao ímpeto dos jovens militares e ao esforço centraliza-
a uma nova concepção historiográfica, interessada nos processos econômicos
e na forma como a cultura material moldou os tipos humanos e suas experiên-
• Para uma reavaliação do papel de Capistrano de Abreu ver Laura de Mello e Souza, "Aspectos da
historiografia da cultura sobre o Brasil Colonial", em Marcos Cezar de Freitas (org.), Historiografia
• Cf. José Honório Rodrigues (org.), Correspondência de Capistrano de Abreu (Rio de Janeiro: brasileira em perspectiva (São Paulo: USF/Contexto, 1998), pp. 18-19.
MEC/INL, 1954), voI. I, pp. 346-349. • Cf. José Honório Rodrigues (org.), Correspondência de Capistrano de Abreu, cit., pp. 330-331.
7 Cf. José Honório Rodrigues, "Monso de Taunay e o revisionismo histórico", em Revista de 10 Afonso d'Escragnolle Taunay, "Discurso de recepção na Academia Brasileira de Letras", em Publi-

História, XVII (35), São Paulo, ano IX, 1958, p. 97. cações da Academia Brasileira: discursos acadêmicos, Rio de Janeiro, vol. 7, 1927-1932, p. 213.

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HISTÓRIA GERAL DAS BANDEIRAS PAULISTAS WILMA PERES COSTA

dor do Estado imperial era a grande personagem de A retirada da Laguna. Entretanto, foi a partir de 1917, quando passou a dirigir o Museu Paulista, a
Eles voltavam a palmilhar o território freqüentado pelos bandeirantes paulistas convite do presidente do Estado, Altino Arantes, que Taunay tomou-se defini-
do século XVII, na fronteira agora invadida pelo inimigo paraguaio. Essa pre- tivamente historiador. Esse foi, por assim dizer, o segundo nicho institucional
cedência era reconhecida também por Capistrano que afirmava a Afonso Taunay da História geral das bandeiras, onde o projeto atingiu sua plena maturida-
que seu pai fora "o primeiro dentre nós que descreveu os sertões de experiên- de. Em sua longa e quase vitalícia gestão na direção da instituição, a temática
cia e autópsia, não de chic. Antes dele só houvera estrangeiros". das bandeiras tomou-se uma constante no acervo documental, na edição de
Foi a partir da República, entretanto, e pelas mãos dos estudiosos que se inúmeras obras (dentre as quais a própria História geral das bandeiras), no
reuniam no Instituto Histórico Geográfico de São Paulo, que a temática da conteúdo dos Anais do Museu Paulista, cuja publicação iniciou. Foi na quali-
conquista e ocupação do sertão sofreria uma viragem decisiva. Nesse, que foi dade de diretor do museu que ele teve a possibilidade de mandar copiar
o primeiro nicho institucional da História geral das bandeiras, iria se desen- valiosíssimos documentos nos arquivos ultramarinos de Portugal e da Espanha,
volver uma historiografia de forte acento regional, envolvendo as elites intelec- que tão sintomaticamente marcaram sua visão da questão do bandeirismo.
tuais do Estado em um intenso movimento de busca de origens e construção de Simbolicamente, foi ele que lá mandou instalar as monumentais estátuas dos
identidades. Nesse esforço, os sócios do Instituto, criado em 1894, transita- bandeirantes que impressionam até os nossos dias os milhares de visitantes
riam pela biografia, pela genealogia, pela pesquisa histórica e promoveriam que adentram o saguão de entrada do Museu. Elas foram inauguradas, por
uma profunda interação entre a história e a geografia, com conseqüências ocasião da comemoração do centenário da independência do Brasil, em 1922,
duradouras na historiografia paulista. Essa interação era parte do movimento com o patrocínio de Washington Luís, então governador do Estado.
de re-pensar a identidade paulista e a problemática inserção do Estado na Em 1923, seis anos depois de sua entrada na direção do Museu Paulista,
estrutura federativa. Como escreveu uma estudiosa do tema: Taunay solicitou exoneração de sua cátedra na Politécnica do Rio de Janeiro ,
a cujos quadros pertencera por 24 anos. Só em 1935 ele retomaria, por breve
Coube à geografia propiciar a reconciliação entre a nação e sua história. O discurso período, ao ensino superior oficial, dessa feita para ser o primeiro catedrático
sobre o território forneceu a moldura capaz de reenquadrar o passado, extirpando-lhe
de história do Brasil da recém-fundada Universidade de São Paulo. Ele acu-
tensões e ambigüidades que obstaculizaram a sua utilização na construção da identi-
dade [00'] a produção do espaço nacional ocupou o centro da cena, subordinando a mulou esse cargo com a direção do Museu Paulista até 1937, quando foi obri-
história, que passou a ser encarada como narrativa dos grandes feitos que assegura- gado a optar por uma das duas posições. Taunay permaneceu na direção do
ram, apesar de todas as adversidades, a posse da terra. Diante da crescente importân- Museu até a aposentadoria compulsória em fins de 1945. Na verdade, ele
cia assumida pela configuração do território, não surpreende que o trabalho mais trabalhou no gabinete, que conservou no recinto do Museu, praticamente até
festejado no Primeiro Congresso de História Nacional realizado no Rio de Janeiro em sua morte em 1958.
1914, tenha sido a Expansão Geográfica do Brasil até fins do século XVII, do histo-
A cátedra de história do Brasil da Universidade de São Paulo foi ocupa-
riador Basílio de Magalhães [00']'
da, em seguida, por outro importante historiador do bandeirismo, Alfredo Ellis,
Certos episódios da história do país, assim como seus protagonistas, ganharam espe-
cial relevo. Observa-se um esforço de reordenação que visava propiciar uma leitura do
também oriundo do Instituto Histórico, que nela permaneceu entre 1937 e 1956.
passado que infundisse confiança nos destinos da nação e colaborasse para afirmar a Em 1956, passou a Sérgio Buarque de Holanda (1956-1971) que, junto com
excelência de um povo aguerrido que soube defender seu patrimônio natural. II uma profunda renovação metodológica, manteve e desenvolveu o interesse
pelo estudo da ocupação territorial e da saga paulista.
o ano de 1911 pode ser considerado o da opção vocacional de Taunay
pelos estudos históricos e assinala sua entrada simultânea no Instituto Históri-
co e Geográfico Brasileiro e no Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. CONTEÚDO E PRINCIPAIS TEMÁTICAS

11 Tania Regina de Luca, A Revista do Brasil: um diagnóstico para a (n)ação (São Paulo: Unesp, Obra de análise e não de síntese, obra de reunião exaustiva de documen-
1998), p. 97. tação e de consolidação de conhecimentos, é praticamente impossível resumir

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W1LMA PERES COSTA
HISTÓRIA GERAL DAS BANDEIRAS PAULISTAS

ou sumarizar a História geral das bandeiras. Não obstante, pensamos que a coube dentro das suas fronteiras".13 Todo o discurso versa sobre o papel de
compreensão da obra e a avaliação de sua resistência ao tempo ganham com São Paulo e dos paulistas na conquista de uma enorme porção do território da
a eleição de algumas temáticas, que formam, por assim dizer, os eixos do tra- colônia portuguesa que, de outra forma, teria sido espanhol por força do Trata-
balho e que nem sempre são evidentes à primeira leitura. do de Tordesilhas. Impelidos por uma "força misteriosa", diz ele, os paulistas
Um desses eixos prende-se aos efeitos complexos da ascensão econô- insistentemente desenham, do Amazonas ao Prata, uma "fronteira natural".
mica e política do Estado de São Paulo durante a Primeira República. Com a
Eram [ ... ] os fatores do arredondamento imprescindível do Brasil meridional, e [ ... ] a
República, operar-se-ia um crescente distanciamento entre o centro político e
corrigir o erro dos descobridores e povoadores quinhentistas, que haviam aberto mão
o pólo dinâmico da economia brasileira, a partir do desenvolvimento do com- do estuário platino, a nossa fronteira natural, a anexar a área imensa hoje distribuída
plexo cafeeiro no oeste paulista, e da emergência da metropolização de São pelos nossos três Estados do Sul. I4
Paulo, ao mesmo tempo em que nela se operava o primeiro surto industrial. A
forte presença econômica do Estado se expressava de forma contundente no Do que era então a capitania de São Paulo, diz ele, "saíram sete estados
jogo político, através do exercício de uma hegemonia dificil e polêmica, que do atual território brasileiro" [ ... ] Da fronteira do Chuí à confluência do Beni e
despertava a oposição das outras unidades federadas. Por um lado, essa as- do Mamoré, os paulistas agiam com tal ímpeto que "nos dá a impressão de que
censão econômica e política teria, no plano da cultura, o mérito de despertar, o Brasil impele para as vagas do pacífico as repúblicas andinas".J5
pela primeira vez, um interesse sistemático pelos assuntos relacionados com a Assim, a ênfase que melhor caracteriza a contribuição de Afonso Taunay,
história , os costumes e a identidade de São Paulo, região que desempenhara entre os estudiosos do bandeirismo, é a geopolítica - para o autor, as bandeiras
um papel bastante secundário na dinâmica política do período colonial. Por foram importantes sobretudo por ter expandido o território da América portu-
outro, é necessário apontar que o esforço de construção de uma identidade guesa à custa do território pertencente à Espanha pelo Tratado de Tordesilhas,
paulista através da investigação histórica produziria, muitas vezes, efeitos con- dessa maneira legando à nação brasileira parcela significativa de sua dimen-
traditórios e que estariam em acentuado contraponto com as intensas transfor- são continental. Esse feito é comparado vantajosamente com o processo de
mações que se operavam na economia e na sociedade da regiãoY constituição territorial dos Estados Unidos da América e da Rússia, procuran-
A História geral das bandeiras expressa de forma contundente esse do demonstrar a grandeza maior do feito bandeirante em razão da insalubrida-
esforço de forjar uma identidade capaz de operar em um universo de contras- de do meio e da resistência indígena.
tes e paradoxos. A tônica principal da obra é o papel primordial atribuído aos Nesse particular, vale a pena observar que o esforço de Taunay signifi-
sertanistas da capitania de São Paulo, na incansável exploração que resultou cou uma mudança importante no sentido que a historiografia do século XIX
na ampliação do território da América portuguesa para as dimensões continen- atribuía à questão da extensão e da unidade territorial brasileira. Na historiografia
tais que foram legadas à nação brasileira. Essa tônica estaria presente já em que tinha suas raízes em Varnhagen, a "invenção" do território aparecia sobre-
seu discurso de posse nos quadros do Instituto Histórico e Geográfico de São tudo como obra da Coroa portuguesa, assim como a consolidação e manuten-
Paulo, e a ela Taunay permaneceria fiel durante toda a sua vida. Conforme ção da unidade territorial do Brasil independente aparecia como obra da
afirmava sugestivamente em seu discurso de posse no IHGSP, "nunca S. Paulo monarquia e da continuidade dinástica. É essa também a interpretação que
está consagrada na visão do visconde de Taunay, em A retirada da Laguna.
Naquele romance, a saga da penetração do sertão e da defesa do território
12 o interesse pela vida intelectual paulista nesse período tem dado lugar a estudos valiosos.
Ver, por
exemplo, Katia Maria Abud, O sangue intimorato e as nobilíssimas tradições - a construção de
um símbolo paulista - o bandeirante, tese de doutorado, São Paulo, FFLCH da USP, 1985;
11 Afonso d'Escragnolle Taunay, "Discurso de posse no Instituto Histórico e Geográfico de s.
Antonio Celso Ferreira, A epopéia paulista, imaginação literária e invenção histórica (1870-
Paulo", em Revista do IHGSP, vol. XVII, São Paulo, 1912, Tipografia Diário Oficial, pp. 97-99.
1940), tese de doutorado, Assis, Dep. História, FFCL da Unesp, 1998; e Antonio Celso Ferreira
14 Ibidem.
et aI., Encontros com a história: percursos historiográficos e historiadores de São Paulo (São
II Ibidem.
Paulo: Unesp/Fapesp/ ANPUH, 1999).

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HISTÓRIA GERAL DAS BANDEIRAS PAULISTAS WILMA PERES COSTA

deve-se à coragem quase insana dos jovens militares, enquanto agentes da Subordinada ao tema da expansão territorial e inseparável dela, como
missão civilizadora do Estado imperial. A tragédia que acompanhou a aventu- sua motivação principal, encontra-se a caça ao elemento indígena e sua
ra, mal grado a fé monarquista do visconde, pode ser considerada como um escravização. Assim, embora a expansão territorial seja, para Taunay, a mais
prenúncio da crise do Estado monárquico. importante resultante da saga dos sertanistas vicentinos, em nenhum momento
Para Afonso Taunay, os fautores do território foram os colonos, isto é, os ele procura elidir o fato de que sua motivação principal foi a escravização do
sertanistas paulistas e, muitas vezes, fizeram-no em franca desobediência aos índio. Pode-se dizer que os sete primeiros volumes da História geral das
ditames da metrópole. Segundo ele, o principal feito do bandeirismo para a bandeiras tratam principalmente do "ciclo da caça ao índio", enquanto os
formação territorial do Brasil foi que, embora não tenha tido um caráter povoador, quatro últimos tratam da busca do ouro e dos conflitos em tomo da mineração.
ao enfrentar e destruir as reduções jesuíticas sob jurisdição espanhola, a saga Os motivos, as técnicas, os conflitos políticos e religiosos da escravidão
bandeirante empurrou a fronteira política em busca de uma suposta "fronteira indígena são minuciosamente tratados, com base nos cronistas do século XVIII,
natural". na documentação jesuítica e espanhola, nos documentos da Câmara de São
A valorização do papel de São Paulo na expansão territorial do Brasil Paulo, nos inventários e testamentos.
vinculava-se também a uma questão contemporânea de Taunay e de seus A aguerrida população do planalto paulista engajava-se na sua incessan-
companheiros na construção do "ciclo das bandeiras". Conforme a citação de te busca da mão-de-obra escrava do índio, para uso em suas lavouras ou para
Rui Barbosa, que abre o segundo tomo da História geral das bandeiras comercialização naquelas regiões que não podiam dispor de recursos para a
paulistas, mão-de-obra africana, muito mais cara. Para tanto, não se furtou ao enfren-
tamento com as ordens metropolitanas, com a permanente oposição dos jesuí-
Não fora o valor e o arrojo desses caçadores de homens [ ... ] e a costa do Brasil ao sul tas e com as autoridades espanholas. A independência dos paulistas coloniais,
do Paranaguá seria hoje espanhola, espanhóis veríamos os sertões de Mato Grosso e sua ferocidade, seu caráter indomável, podem ser considerados como um ou-
Goiás, outro povo ocuparia as nossas melhores zonas, respiraria os nossos ares mais tro importante tema, recorrente em toda a obra. O terceiro volume, por exem-
benignos, cultivaria as nossas mais desejadas terras. 16
plo, reconstitui minuciosamente os conflitos de paulistas e jesuítas entre 1640 e
1653 e o papel que tiveram os sertanistas em sua expulsão e posterior
Ao longo da Primeira República, através da expansão da malha ferroviá-
readmissão. Assim, tema também particularmente caro a Taunay é a rebeldia
ria, a economia paulista conectava-se e integrava-se com as províncias/esta-
e independência da Câmara Municipal de São Paulo, capaz de desafiar as
dos contíguos, em particular, com o Paraná, Mato Grosso e Minas Gerais. Na
autoridades do Estado e da Igreja. No caso dos tumultos de 1640, quando os
esteira dessa expansão processava-se um intenso movimento de apropriação
paulistas expulsaram os jesuítas de São Paulo em retaliação à oposição dos
de terras devolutas, freqüentemente à margem dos procedimentos legais.
padres à escravização dos indígenas e que resultou na excomunhão coletiva
Nesse particular ganham interesse suas múltiplas citações de Oliveira
dos paulistas,18 ele mostra que as principais famílias estavam contra os jesuí-
Viana, autor que primara por engrandecer a aproximação mítica entre os ban-
tas, embora se devesse a Fernão Dias Pais a defesa e o retomo dos padres em
deirantes do passado e os fazendeiros paulistas seus contemporâneos que,
1653. Na raiz do episódio, estaria a origem de uma das mais terríveis lutas de
precedidos pelos "bugreiros" e pelos "grileiros", faziam avançar a fronteira
família ocorridas na capitania, travada entre os Pires e os Camargos e que
agrícola de São Paulo na direção antes palmilhada pelos sertanistas. 17
veio a custar a vida de Pedro Taques.
A rebeldia paulista convivia, na interpretação de Taunay, com a inques-
tionável adesão à lusitanidade, expressa no controvertido episódio da aclama-
16 Afonso d'Escragnolle Taunay, "Epígrafe", em História geral das bandeiras paulistas, cit., tomo
II, p. I.
17 Cf. F. J. de Oliveira Viana, Evolução do povo brasIleiro (2 1 ed. São Paulo: Nacional, 1933), pp.
114-116. Ver Ligia Maria Osório Silva, Terras devolutas e latlfiíndio: efeitos da lei de 1850, 18 Afonso d'Escragnolle Taunay, "Epígrafe", em História geral das bandeiras paulistas, cit., tomo
capítulo XV (Campinas: Unicamp, 1996). III, pp. 25-29.

lOS 109
HISTÓRIA GERAL DAS BANDEIRAS PAULISTAS WILMA PERES COSTA

ção de Amador Bueno. Ainda no terceiro volume Taunay faz uma apaixonada Entretanto, a precoce "fabricação" da nação é obra dos colonos e não da
defesa da veracidade da versão apresentada por frei Gaspar da Madre de administração colonial. Nela ressalta também a superioridade do sul sobre o
Deus. Segundo o cronista, Amador Bueno foi aclamado como rei pelos paulistas norte, como verdadeira matriz nacional. Veja-se, por exemplo, essa citação do
na crise que se sucedeu à restauração da Coroa portuguesa em 1640. Deixa, historiador Oliveira Martins feita com destaque por Taunay, como uma síntese
porém, de aceitar a coroa, por lealdade à causa portuguesa. A análise do epi- de seu pensamento.
sódio desenvolvida por Taunay busca superar seus aspectos pitorescos, para
localizá-la historicamente, tendo por referência a gama de clivagens que se o sul, onde o regime de colonização livre era dominante, progredia mais segura,
abria a partir da restauração da Coroa portuguesa. Apesar da manifestação de embora menos opulentamente, do que as colônias do litoral do norte. No sul, desen-
lealdade à cultura lusitana, vis-à-vis a cultura hispânica, o episódio viria a ex- volviam-se de um modo espontâneo os elementos de uma nação futura; enquanto o
norte, sujeito a uma administração corrupta e meticulosa, dependente da introdução
pressar uma espécie de primeira tentativa de autonomia em relação à Coroa,
dos negros e de uma cultura exótica, pagava a opulência com uma vida menos estável ,
dando a São Paulo uma precoce vocação antimetropolitana. 19 Trata-se de tese
uma população menos homogênea. Sem exagerar demasiado o valor desta expressão,
cara também a Alfredo Ellis, para quem o episódio de Amador Bueno repre- pode dizer-se que, pelos fins do século XVI, a região de S. Paulo apresentava os
senta sinal do independentismo paulista insuflado pelo surto bandeirista. rudimentos de uma nação: ao passo que a Bahia e as dependências do norte eram uma
A visão que Taunay nos apresenta sobre o século XVII, fortemente inspira- fazenda de Portugal naAmérica n
da em Capistrano de Abreu, sublinha a pobreza e dificuldade da metrópole portu-
guesa, cujo império desmoronava. Aponta também para os novos problemas Aqui também é impossível não notar o interesse em sublinhar a vocação
trazidos para a Colônia pelo domínio espanhol. A administração passava a estar a a um tempo autônoma e hegemônica de São Paulo, estado que vinha mantendo
cargo de um rei mais distante, ao mesmo tempo em que adquiria os inimigos da uma posição privilegiada no pacto federativo desde a proclamação da Repúbli-
Espanha, sendo vitima da invasão holandesa. Nesse panorama de dificuldades a ca, posição que precisamente começava a sofrer sérias contestações ao longo
saga bandeirante ganha o sentido de um "destino manifesto". A dilatação além da década de 1920.
Tordesilhas do território da Colônia, o rechaço do espanhol, a permanência da Temos tentado apontar como, buscando responder a esse conjunto de
lealdade à Portugal durante o domínio hispânico, ganham, para Taunay, um signi- desafios, a militância intelectual de Taunay procurava, através do estudo das
ficado transcendente: a origem de um sentimento difuso de brasilidade, apesar da bandeiras, consolidar uma identidade paulista para consumo interno e para ser
pobreza da capitania, ponto em que concorda com Alcântara Machado.:O reconhecida em suas reivindicações hegemônicas do estado. Um dos planos
A fidelidade a Portugal no momento da restauração ganha ainda maior mais controvertidos desse esforço é a sua forma de abordar a questão racial,
importância porque Taunay, ao comparar as duas formas de colonização ibéri- tema inevitável no pensamento brasileiro contemporâneo a Taunay.
ca, inclina-se vivamente pela superioridade da colonização portuguesa, enca- Graças a um ativo tráfico interno de escravos, que coincidiu com a ex-
recendo nela a maior tendência ao acordo e à cordialidade, enquanto as pansão da cultura cafeeira na segunda metade do século XIX, a província de
dissensões seriam mais próprias do sangue espanhol: São Paulo veio a tornar-se, a partir da década de 1870, uma das maiores con-
centrações escravistas do Brasil. Esse fato não impediu que, no que era então
Em suma os caracteres diferenciadores da conquista espanhola e portuguesa são, de a região oeste (arredores da cidade de Campinas), se iniciassem, já em mea-
um lado, entre os castelhanos, terríveis dissensões entre os conquistadores que se dos do século XIX, as primeiras experiências com o trabalho de imigrantes
digladiam e se exterminam com uma ferocidade terrível, ao passo que entre os portu-
europeus. A partir da década de 1880, um processo de atração maciça de
gueses, como em toda parte do mundo, aliás, praticaram, há muito mais acordo de
imigrantes europeus, subsidiado pelos recursos públicos, fez com que também
vistas, incomparavelmente mais disciplina e cordialidade 21
se localizasse em São Paulo a maior concentração de estrangeiros, atingindo o
ápice nas vésperas da Primeira Guerra Mundial. Cessado a partir da guerra o
19 Ibid., pp. 45 e ss.
lO Ibid., tomo I, pp. 43 e ss.
li Ibid., p. 49. u Ibid., p. 35.

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fluxo de migração européia, o estado de São Paulo passaria, na década de que, mesclados aos primeiros, propiciaram um caldeamento original. Esse
1920, a ser o principal pólo da atração de migrantes internos. Esses fatos fize- caldeamento seria responsável pela virilidade, pelo caráter prolífico, pelo espí-
ram com que a transição para o regime de trabalho livre em São Paulo impli- rito de iniciativa e aventura dos habitantes do planalto.
casse um intenso caldeamento de etnias e costumes. No capítulo II, ele incorpora francamente as posições de Oliveira Viana
Nesse sentido, não deixa de ser digna de nota a atitude francamente na questão dos diferentes caldeamentos raciais que caracterizam as várias
defensiva em relação ao acelerado ritmo das mudanças que se desenvolveu no regiões do BrasiJ.23 Esse autor, baseado provavelmente nos equívocos de Pedro
Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo e ao qual Taunay não foi de todo Taques, ~4 aponta elementos de origem germânica nas populações do norte de
imune. O Instituto passou a desenvolver um interesse precisamente por aque- Portugal, de onde teriam se originado os primeiros colonizadores. Essa ascen-
les aspectos do passado que contrastavam com as transformações em curso. dência é que traria, no passado, o espírito de aventura, a busca incansável de
Enquanto o estado passava a ser povoado pelos mais diferentes tipos de ad- novos horizontes, que se perdeu depois com a sedentarização e com o influxo
ventícios e começavam a despontar as primeiras fortunas de imigrantes, esse das gerações subseqüentes, onde teria vindo o elemento de tez morena, oriun-
interesse voltava-se para os estudos genealógicos, para a valorização da do das classes populares.~5
nobiliarquia, para a recuperação das tradições de uma pretensa época heróica, Taunay parece oscilar, no início da obra, entre as duas versões da expli-
algumas vezes com acentuado conteúdo racista. Procurava-se principalmente cação racial- a que enfatiza a Superioridade e ascendência germânica e aque-
sublinhar o fato de que a escravidão africana estivera ausente da região no la que valoriza a miscigenação euro-americana. Nos volumes publicados depois
passado colonial e de que o seu povoamento se fizera por homens de origem da década de 1930, a idéia da virtude da miscigenação ganha mais força. O
lusa que se haviam miscigenado com os ameríndios, gerando um raça prolífica, tipo paulista, segundo Taunay, é o mameluco, misto de branco e índio. Essa
caracterizada pela bravura, pelo espírito de aventura, e pela altivez. mescla nem sempre era obtida pela violência. Usando fundamentalmente as
Se destacarmos Alfredo Ellis Jr., Afonso Taunay e Alcântara Machado fontes jesuíticas nesse particular, Taunay enfatiza o afogueamento erótico dos
como os mais importantes estudiosos do bandeirismo, tal como o tema emergiu portugueses pelas índias, mas também a franca correspondência destas, por-
para a intelectualidade paulista da década de 1920, devemos colocar os dois que, diz ele, elas queriam ter filhos de "raça superior". ~6
primeiros autores como aqueles que visualizaram o bandeirismo como saga e Na defesa da importância de seu objeto, Taunay contrapõe-se aos histo-
como epopéia, em franco contraste com Alcântara Machado, cujo trabalho, riadores que o antecederam e que, no estudo do século XVII, estiveram preo-
explorando a vida cotidiana de São Paulo durante a Colônia busca precisamen- cupados apenas com a expulsão dos holandeses ou com tediosas questões
te despir a figura do bandeirante de sua roupagem épica, apontando para a administrativas, fazendo uma "história da costa", uma "história litorânea",
extrema pobreza das condições de vida na capitania de São Paulo naquele omitindo a conquista do sertão onde se operava persistente e silenciosa cons-
período. Alfredo Ellis Jr. parece ter representado a vertente historiográfica trução da futura nação.
mais conservadora no estudo do tema, particularmente no que se refere à Embora em nenhum momento procure ocultar o caráter atroz e violento
busca de explicações de caráter étnico para uma suposta Superioridade pau- da conquista e da escravização indígena, Taunay polemiza com os autores que
lista no conjunto da nação brasileira. condenaram o bandeirismo com razões humanitárias. Ele é particularmente
Ao longo dos 27 anos de sua publicação, a História geral das bandei-
ras transitou entre os dois pólos e procurou uma forma de composição entre
l3 Ibid., tomo I, pp. 117-121.
eles - a epopéia paulista não perde o seu brilho por ter se desenvolvido em um
24 Pedro Taques caracterizara-se por valorizar, nos habitantes do planalto paulista do século XVII,
meio inóspito, pobre e austero. Antes, ganha significado ainda mais valioso. a pureza racial e a ascendência nobre, enquanto frei Gaspar da Madre de Deus, ele mesmo um
Os três primeiros volumes, publicados na década de 1920, são os que mestiço mameluco, atribui vantagens à mestiçagem indígena e à capacidade desta em fortalecer
o sangue dos reinóis. Cr. Katia Maria Abud, O sangue intimorato e as nobIlíSSImas tradições - a
estão mais fortemente impregnados da temática racial. Sua preocupação é a
construção de um símbolo paulista - o bandeIrante, cit., p. 92.
de encontrar a especificidade étnica da população paulista, tanto no que se " Afonso d'Escragnolle Taunay, História geral das bandeiras paulistas, cit., pp. 121-122.
refere ao tipo de reinóis que nela vieram habitar, como aos grupos indígenas ,. Ibid., p. 127.

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impiedoso com Handelmann por ter se referido ao bandeirismo como "mancha


,.
~.

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Embora a expansão territorial fosse, no entender de Taunay, a contribui-


negra da história do Brasil". Taunay critica o que ele chama de "hipocrisia" ção mais relevante feita pelos bandeirantes paulistas à nação brasileira, ele
dessa observação, apontando as atrocidades produzidas pelos povos europeus encontra os vicentinos em praticamente todos os momentos fundamentais da
na mesma época em que se desenvolvia a saga bandeirante, e também as formação da nacionalidade: na expulsão dos franceses, no auxílio aos
atrocidades contemporâneas como a corrida imperialista do final do século pernambucanos contra os holandeses, na derrota do Quilombo de Palmares,
XIX e a Primeira Guerra MundiaP7 Naquele conflito, tinham-se batido por no aniquilamento das revoltas indígenas, da mesma maneira que sublinha o
suas respectivas identidades e vontade de poder povos que haviam, durante as papel de São Paulo no processo de independência, nas guerras platinas e na
últimas décadas do século XIX, conquistado e subordinado impiedosamente as Guerra do Paraguai.
etnias mais fracas na África e na Ásia. Nesse particular, a polêmica mostra-se O oitavo volume, publicado em 1946, quase uma década depois do séti-
inserida também no campo de debates que a Primeira Guerra Mundial trouxe- mo, dedica-se principalmente ao papel de Domingos Jorge Velho na destruição
ra à tona de forma exacerbada: identidade étnica, nacionalidade e fronteira do Quilombo de Palmares. Para tanto, realiza minucioso estudo do tráfico afri-
natural. Ao mesmo tempo, como Taunay insiste em sublinhar, mesmo em uma cano e da concorrência estabelecida entre a escravidão indígena e a africana.
obra cristã e civilizadora como a dos jesuítas encontra-se uma pretensão de Ele mostra como o Brasil veio a se tornar, durante o século XVII, o centro do
poder: o desejo de fundar um Estado teocrático. Atrozes foram também os contrabando negreiro espanholY Essa posição tendia a acirrar a oposição dos
holandeses e os franceses, sendo os últimos até mesmo acusados de canibalis- paulistas à política jesuítica, porque a mão-de-obra africana era muito mais
mo no Brasil. Listando atrocidades que iam da colonização às guerras de reli- cara, valendo então o africano dez, quinze e vinte vezes o preço de um índio. 3:
gião, das guerras napoleônicas aos horrores da frente ocidental durante a Além disso, a política jesuítica teria o efeito de agir em favor dos desígnios
Primeira Guerra, Taunay buscava contextualizar a questão da violência da metropolitanos ao apoiar o tráfico negreiro, que gerava lucros para a metrópo-
conquista e lidar com a "má consciência" inerente à temática que escolheu. le, em detrimento do tráfico indígena, empresa dos colonos.
Ele busca mesmo relativizar a atitude de portugueses e espanhóis peran-
te a escravidão e os escravizados, por contraste com franceses e ingleses. As leis sobre a liberdade dos índios, inspiradas pelos jesuítas, sobretudo a de 1609,
indignavam os colonos do Brasil que se não conformavam com a proibição de escra-
Para isso, apóia-se no naturalista francês Jacquemont, para quem: "O inglês e
vizar os indígenas de acordo com as normas sem peias do cativeiro negro. Revolta-
o francês [ ... ] exploraram o negro e têm-lhe asco. O espanhol e o português
vam-se contra a obrigação de comprarem africanos. JJ
igualmente o exploram mas nem de longe o desprezam assim".28
A despeito das conotações racistas, vale notar que, ao colocar a escravi-
Nesse volume, Taunay desenvolve importante análise sobre os efeitos da
dão no centro de sua análise, Taunay teve o mérito de apontar a relação pro-
guerra contra os holandeses na interrupção do tráfico africano apontando, com
funda entre colonização e trabalho compulsório, mostrando as várias formas
acuidade, o esforço dos holandeses em controlar os centros de tráfico na Áfri-
de escravidão indígena na América espanhola e portuguesa, tema que vem
ca e a relação desse fato com a possibilidade de manutenção de sua colônia na
sendo redes coberto pela historiografia brasileira.:9 América. 34
Também é seu mérito estabelecer a relação entre escravidão e formação
A inevitabilidade do tráfico africano associa-se, para Taunay, à forma de
territorial, em dimensão até então não tratada entre nós, mesmo quando afirma colonização que se estabelecera no norte da Colônia - a plantation tropical.
que a escravidão foi "o preço a pagar pelo Brasil".30
De seu desenvolvimento no século decorre o aumento da população escrava e

27 Ibid., pp. 57-61. li Ibid., tomo VIII, pp. 1-11.


li Ibid., p. 101. II Ibid., p. 36.
19 Para um tratamento atual da temática, ver John Manuel Monteiro, Negros da terra: índios e 11 Ibid., p. 14.
bandeirantes nas origens de São Palllo (São Paulo: Cia. das Letras, 1995). .. Ibid., pp. 20-21. Sobre os esforços holandeses para estabelecer um fluxo africano de mão-de-
lO Afonso d'Escragnolle Taunay, História geral das bandeiras palllistas, cit., p. 101. obra para a América, ver pp. 23-31.

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o aparecimento de quilombos e mocambos. 35 Em contraste com a influência E, mais adiante, ao afirmar que Palmares infundia terror não apenas na
indígena, na qual ele via um ingrediente aperfeiçoador da raça européia na sua colônia, mas entre os mais importantes cronistas europeus de seu tempo, afir-
adaptação ao trópico, Taunay procura minimizar a influência da cultura africa- ma que,
na. A citação que ele faz aqui é de Capistrano,
bem se compreende a causa de tal sentimento: representava a rebeldia palmarense o
Na antropogênese brasileira são fatores desiguais que contribuíram em proporções foco principal de movimento que se se alastrasse poderia não só subverter completa-
muito diversas para a elaboração do nosso povo. De modo geral (os africanos) não mente a economia colonial como provocar o trucidamento total da raça dominadora. 39
trouxeram mais que o concurso biológico e a função econômica de incomparáveis
trabalhadores tropicais. 36
É nesse sentido que, mais uma vez, foi o concurso dos paulistas, na
figura de Domingos Jorge Velho, que garantiu a derrota de tão grande amea-
Se, para ele, a escravidão é inseparável de nossa história, porque ela é
ça, fato que cerca o bandeirante paulista de uma aura mítica que suplanta
uma decorrência da colonização, cremos não violar seu pensamento se afir-
todos os traços de sua inquestionável ferocidade. Vale a pena reproduzir aqui
marmos que os efeitos da escravidão indígena (fonte do bandeirismo) parecem
a maneira como Taunay traceja essa que é, talvez, a mais expressiva figura
ser antagônicos aos da escravidão africana (base da plantation). A primeira é do bandeirismo paulista:
integradora, ajuda a forjar a raça e a nação. A segunda é fragmentadora e
coloca em risco a própria possibilidade da nação. Exemplo disso é a análise Homem de ferro, no gosto daqueles terríveis merovíngios dos primeiros séculos da
feita do processo de combate ao Quilombo de Palmares, que aparece como a conquista franca das Gálias, e de quem tão impressivo perfil traçou Thierry, figura
mais terrível ameaça sofrida pelo projeto europeu no trópico, contra a qual Domingos Jorge Velho entre as personalidades mais eminentes do ciclo das bandeiras.
haviam sido mal-sucedidos os holandeses e a administração colonial. Ele la- Em enorme região brasileira o seu nome permanecerá indestrutivelmente ligado aos
menta, portanto, um certo "revisionismo" republicano, que procurava resgatar fastos primevos locais, em área que abrange centenas de milhares de quilômetros
quadrados. Delimitam-na o Parnaíba e o Poti, o Rio Grande e o Rio Preto, o curso do
elementos heróicos na experiência de Palmares.
S. Francisco da Barra do Rio Grande à foz do poderoso caudal. Compreende o interior
das terras alagoanas e pernambucanas, parai banas e rio-grandenses, baianas, cea-
o abrandamento do espírito de contenção que o abolicionismo trouxe ao Brasil, renses e piauienses.
provocou forte onda de simpatia pela sina dos míseros re-escravizados de Palmares,
Fez daquela vastidão o teatro das suas expedições topando bandeiras a conquistar o
tanto mais quando, ao mesmo tempo, acompanhou-a justa admiração pelo denodo da
gentio brabo tapuia. Combateu anos a fio no vale do Açu e nas terras palmarenses,
resistência negra e o nobre sacrificio dos chefes, preferindo o suicídio ao cativeiro. O
estabelecendo os marcos de futura civilização em tão dilatada terra. O imperativo da
republicanismo então intenso ainda mais exaltou tais sentimentos entre os apologistas
crueldade foi lhe exigido pela inevitabilidade das condições da empresa a que se
da existência da Tróia negra e verberadora de seu extermínioY
abalançara, contribuindo para construir o patrimônio futuro da sua Nação com a
inquebrantabilidade da constância.
Ele se vale de Nina Rodrigues para condenar tal atitude, para quem,
Foi inegavelmente dos maiores índices de energia de sua grei euro-americana. Operou
"acima [... ] desta incondicional idolatria pela Liberdade deve pairar o respeito em terra como os antepassados de sua gente haviam feito, como bem lembra Ernesto
pela cultura e a Civilização" e concluir que "[ ... ] Serviço relevantíssimo foi Ennes, "na proa das naus, no alto das enxárcias, no cimo das vergas", através dos
pois o do nosso governo colonial, tenaz e previdente, destruindo de vez a maior mistérios tenebrosos dos oceanos.
das ameaças jamais havidas à civilização e ao futuro do Brasil numa situação Era um soldado da conquista lusa, sucessor daqueles vassalos das jornadas do Oriente
que a subsistência de Palmares teria implantado". 38 que haviam devastado as terras viciosas de África e Ásia em campanhas cruéis de
presa e apossamento.

II Ibid., pp. 45-53. No solo americano esses mesmos vassalos devassavam a Selva [ ... ]
,. Ibid., p. 50.
n Ibid., p. 83.
JS Ibidem. " Ibid., p. 82.

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Cruel não poderia Domingos Jorge Velho deixar de ser, como todos os componentes agora recuperar a sua pureza pela progressiva arianização trazida pela imigra-
daquela revoada de geri faltes de que nos fala José Maria de Heredia, despenhada das ção européia. De outro lado, a espantosa expansão da cultura cafeeira, muitas
terras ibéricas sobre o Novo Mundo, cansada de suportar a altiva miséria de seu vezes na mesma direção palmilhada pelos sertanistas (e depois pelas ferrovias
carneiro natal e esperando, em contínua vigília, que cada dia a vir fosse o de um embate paulistas) - Paraná, noroeste do estado em direção a Mato Grosso e Minas
épic0 40 Gerais -, ganhava contornos épicos ao evocar um passado ilustre de conquista
do sertão e incorporação de território, realizadas por homens que desafiavam a
o que valoriza sobremaneira sua obra é a constatação de que o entusias- Igreja e, se necessário, o próprio Estado metropolitano.
mo pela "epopéia paulista" não obscureceu, em Taunay, o verdadeiro culto
O mito bandeirante é dotado de uma extrema plasticidade como apontou
pelo documento e a busca incansável por novas evidências documentais.
uma especialista no assunto. 43 Esse personagem parece estar sempre destina-
Esse estilo de trabalho manifestava-se já em sua profissão de fé de histo-
do a conciliar os opostos, por exemplo, região (regionalismo) e nação; misci-
riador feita nas páginas da revista do Instituto, genação/pureza racial; particularidade do paulista e integração nacional.
Os processos de construção do Estado, nos países que emergiram para
[ ... ] é a sombra a grande inimiga do historiador. O melhor modo de fazer apologética
é ainda dizer a verdade, toda a verdade, nada mais que a verdade [ ... ] a História se faz
a vida independente a partir de situações coloniais, envolvem sempre movi-
com os documentos, os atos cujos vestígios materiais desapareceram estão para ela mentos de ruptura, de continuidade e, em particular, de "reinvenção" daquele
perdidos, e quando muito, podem concentrar-se no domínio das reminiscências cole- passado. Pensamos o período colonial às vezes como "fardo", outras como
tivas [ ... ]41 "legado". No caso brasileiro, a despeito da propalada "vocação unitária" de
suas partes constituintes, a extensão continental, as profundas diversidades
o apoio em farta documentação não é, porém, suficiente para garantir a regionais e, sobretudo, a escassa integração econômica entre as regiões aju-
qualidade do trabalho do historiador. É preciso policiar-se, como ele dizia no daram a imprimir uma dinâmica conflitiva entre as partes (províncias/esta-
mesmo artigo, contra os preconceitos do presente dos) e o centro político.
Por essa razão, a questão das "identidades regionais" e da "identidade
[ ... ] Muito dessemelhantes são as coisas do passado das que vimos e vemos; pouco nacional" afeta os historiadores de modo peculiar, incidindo sobre as relações
estuaram em nós os sentimentos de outras épocas [ ... ] os séculos transformaram
entre a história como disciplina e a sedimentação de representações coletivas.
fundamentalmente o conjunto das idéias que formam o caráter nacional ou o caráter de
Na sua permanente (e às vezes inglória) batalha contra as armadilhas do ana-
uma época [ ... ]42
cronismo, ajudam a fabricar ideários, cujos usos políticos estão longe da ino-
Não obstante as dificuldades em manter-se fiel a este último princípio, cência. 44 Identidades nacionais e regionais, em particular, são ferramentas de
devemos sublinhar alguns aspectos, dentre os muitos, em que esta obra sobre- inclusão e exclusão - elaborando um sentimento do "nós" versus "os outros" ,
viveu ao tempo. Em suas variadas dimensões, a temática bandeirante adequa- com efeitos quase sempre conservadores, que podem mesmo chegar a ser
va-se de maneira privilegiada à busca de forjar um "destino manifesto" para o dramáticos.
estado de São Paulo que, com algumas mutações, ainda permanece vivo em Um esforço fecundo vem sendo desenvolvido entre os historiadores bra-
nossos dias. O bandeirante, fruto da miscigenação entre o europeu e o sileiros travando um acerbo combate contra uma forma particular de anacro-
ameríndio, produzia uma espécie de passado "eugênico", que, interrompido
pela afluência de sangue africano na segunda metade do século XIX, vinha 43 Katia Maria Abud, O sangue intimorato e as nobilíSSImas tradições - a construção de um
símbolo paulista - o bandeirante, cit.
.. Cf, por exemplo, E. Hobsbawm & Terence Ranger, A invenção das tradições (Rio de Janeiro/
São Paulo: Paz e Terra, 1985); e E. Hobsbawm, Nações e nacionalismo desde 1780 - programa.
'" Ibid., p. 213. mito e realidade (Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1991). Em uma direção distinta, ver Benedict
41 Afonso d'Escragnolle Taunay, "Os princípios gerais da moderna crítica histórica", em Revista do
Anderson, Nação e consciência nacional (São Paulo: Ática, 1989); Stephen Bann, As invenções
IHGSP, vol. 16, São Paulo, pp. 225 e ss.
da história: ensaios sobre a representação do passado (São Paulo: Unesp, 1994).
42 Ibidem.

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nismo: aquele que resulta em conceber o Estado nacional brasileiro precoce-


TrI WILMA PERES COSTA

:~,~ ,
A .História geral das bandeiras paulistas é referência obrigatória para
mente prefigurado nos movimentos sociais e políticos do passado colonial. 45 a pesqUlsa sobre a questão da escravidão indígena. Em sua busca exaustiva de
Sob essa ótica, um profundo anacronismo perpassa a História geral das ban- documentação e em extensas transcrições a obra permite uma visão bastante
deiras de Afonso Taunay. O destino manifesto de São Paulo está prefigurado acurada do processo de apresamento e tráfico dos índios, das diferenças da
na dinâmica da capitania no período colonial como se os bandeirantes, em sua legislação sobre a escravidão na América portuguesa e espanhola, nas nuances
feroz caçada humana, pudessem antever a obra de construção da nacionalida- de posições entre as distintas ordens religiosas, na especificidade do "projeto"
de em que estavam envolvidos. jesuíta de catequese. A obra é muito importante também para os estudiosos
Hoje parece consensual na historiografia que, ocupadas primordialmente das dimensões políticas no período colonial- relações Igreja/metrópole/coloni-
com a caça ao índio, as bandeiras não ocuparam, não povoaram e, sobretudo, zação; relações centro administrativo/autonomia das câmaras municipais. Para
não poderiam orientar-se pelo território de uma nação inexistente. É evidente, o leitor atual, entretanto, pode-se dizer que esse trabalho ajuda sobretudo a
entretanto, que sua ação, sua presença, suas razias nas reduções jesuíticas sob compreender os paradoxos de nossa construção nacional. Assim, sua contri-
a coroa espanhola foram fundamentais no jogo diplomático português quando buição mais relevante, embora isso signifique freqüentemente ler essa obra em
em 1750 o Tratado de Madri negociava as fronteiras da América portuguesa sinal contrário, é a de estabelecer o nexo perverso entre colonização e escra-
utilizando pela primeira vez o recurso ao princípio diplomático do uti possidetis. vidão e entre escravidão e construção do território em nossa história.
Que as fronteiras assim garantidas eram bastante vulneráveis demons-
trou-o toda uma seqüência de conflitos na região platina, culminando, em 1865-
1870, com a Guerra da Tríplice Aliança contra o Paraguai. Nesse momento, o
sertão e os sertanistas voltam a povoar os debates historiográficos, abrindo um
ciclo que incorporava também a crise e transformação do Estado imperial e
que se prolongaria pelo período republicano, quando a temática do sertão ga-
nhará toda a força contraditória de seu desafio à efetiva formação da naciona-
lidade.
Em Taunay, essas múltiplas dimensões estão superpostas a serviço de
uma militância intelectual e política específica: a busca de um destino manifes-
to para São Paulo. Olhada como testemunho de uma época, sua obra é a
expressão desse processo de formação de uma identidade pela elite paulista,
para com ela convencer o conjunto da nação. Essa problemática, em uma
época em que a globalização traz consigo, contraditoriamente, a exacerbação
das diferenças, não pode ser considerada ultrapassada.

4, Ver. por exemplo, Luciano Figueiredo, Revoltas, fiscalidade e identidade colonial na América
portuguesa, tese de doutorado (São Paulo: FFLCH da USP, 1996); István Jancsó, "A construção
dos Estados nacionais na América Latina, apontamentos para o estudo do Império como Proje-
to", em Tamás Smerecsányi, J. R. A. Lapa, História econômica da Independência e do Império
(São Paulo: Hucitec/Fapesp, 1996); Márcia R, Berbel, A nação como arte[ato: deputados do
Brasil nas cortes portuguesas, 1821-1822 (São Paulo: Hucitec/Fapesp, 1999), p, 193; Iara L. C.
Souza, Pátria coroada: o Brasil como corpo político autônomo (São Paulo: Unesp, 1999);
Rogério Forastieri da Silva, Colônia e nativismo: a história como "biografia da nação" (São
Paulo: Hucitec, 1997).

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ALCÂNTARA MACHADO

Vida e morte do bandeirante

Laura de Mello e Souza


NOTA SOBRE O AUTOR

José de Alcântara Machado e Oliveira nasceu em Piracicaba em 19 de


outubro de 1875, pertencendo a uma família antiga, rica e muito intelectualizada
da província de São Paulo - à elite, na plena acepção do termo. Seu pai era
Brasílio Machado, seu avô, o brigadeiro J. J. Machado de Oliveira, e em 1901
nasceria seu filho Antônio, um dos mais promissores intelectuais do modernis-
mo paulista, autor de Brás, Bexiga e Barra Funda, companheiro querido e
admirado de homens como Mário de Andrade e Manuel Bandeira, desapareci-
do em 1934 após uma crise de apendicite aguda.!
Alcântara Machado, o historiador, era, de fato, jurista, advogado e políti-
co. Formou-se na escola do Largo de São Francisco, da qual foi professor e
diretor; elegeu-se vereador, deputado estadual e por fim deputado federal. Es-
creveu muitos livros de direito, e era conhecido, em seu tempo, como homem
público e profissional das leis. Mas foi o seu pequeno Vida e morte do bandei-
rante, aparecido em 1928, que o levou à Academia Brasileira de Letras, em
1931, e lhe granjeou admiração, causando certo impacto na época tanto pela
originalidade do tratamento dado ao assunto quanto pela extraordinária lin-
guagem, simples e plástica.~

1. Os INVENTÁRIOS

Em 1907, Capistrano de Abreu traçara um vasto painel do Brasil em


Capítulos de história colonial: livro de síntese, em que se destacam as linhas
de força e os nexos de nossa história, realçando-se pela primeira vez os pro-
cessos de ocupação do interior. Vinte anos depois, mais precisamente em 1929,

1 Para a amizade de Mário de Andrade e Manuel Bandeira por Antônio de Alcântara Machado, ver
Marcos Antônio de Moraes (org.), Correspondência: Mário de Andrade & Manuel Bandeira
(São Paulo: Edusp/IEB, 2000).
, Para dados biográficos sobre Alcântara Machado, ver Raimundo de Menezes, DiCIOnário literário
brasileiro ilustrado, vaI. III (São Paulo: Saraiva, 1969), pp. 742-745. Para a atuação dessas três
gerações de intelectuais, ver José Carlos de Macedo Soares, Três biografias: José Joaquim Macha-
do d'Oliveira, Brasília Augusto Machado d'Oliveira e José de Alcântara Machado d'Olrveira
(São Paulo: Academia Paulista de Letras, 1955). Para considerações sobre a obra que aqui se
resenha, ver Laura de Mello e Souza, "Prefácio" a "Vida e morte do bandeirante", em Silviano
Santiago (org.), Intérpretes do Brasil, vaI. I (Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2000), pp. 1.191-
1. 203. A edição que aqui utilizo e à qual dizem respeito as referências das páginas é Alcântara
Machado, Vida e morte do bandeIrante (2' ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1930).

125
LAURA DE MELLO E SOUZA
VIDA E MORTE DO BANDEIRANTE

meus netos
José de Alcântara Machado e Oliveira se voltaria para a velha capitania de
paulistas como eu
São Paulo com olhar análogo ao dos pintores holandeses do século XVII, e os meus antepassados
empenhados em retratar aspectos aparentemente secundários da vida cotidia- desde Antônio de Oliveira
na nas Províncias Unidas dos Países Baixos: olhar capaz de revelar miudezas chegado a São Vicente em 1532.
e destacar detalhes imperceptíveis a uma primeira visada; olhar de microscó-
pio, atento às qualidades reveladoras do aparentemente insignificante. O olhar do historiador sobre os homens comuns humaniza a história, con-
Vida e morte do bandeirante é o fruto desse olhar minucioso. Não trata fere-lhe verossimilhança, aproxima-a de nós, espectadores afastados daqueles
das entradas paulistas e não tem o tom grandiloqüente de outros estudos volta- protagonistas por vários séculos de distância. "Reduzir o estudo do passado à
dos para a "epopéia bandeirante". E, no entanto, o assunto é a São Paulo dos biografia dos homens ilustres e à narrativa dos feitos retumbantes seria absur-
sertanistas, a vida dos homens do planalto no exato momento em que outros do tão desmedido como circunscrever a geografia ao estudo das montanhas",
historiadores - Alfredo Ellis, Taunay, até Jaime Cortesão - e, antes deles, afirma Alcântara Machado logo à primeira página do livro. 4 Se a história pode
linhagistas - frei Gaspar da Madre de Deus, Pedro Taques, Manuel Eufrásio modificar o meio - cogita, pragmaticamente, algumas linhas depois - como
de Azevedo Marques - haviam qualificado de heróico? contribuir nesse sentido "se concentrarmos toda a atenção em meia dúzia de
A extraordinária aventura paulista está presente em Vida e morte do figuras, esquecendo o esforço permanente dos humildes, a silenciosa colabo-
bandeirante. E se ainda não há no livro uma posição abertamente crítica ante ração dos anônimos, as idéias e os sentimentos das multidões?".5
ela, háflashes e pequenos episódios da vida quotidiana dos piratininganos que Já no título encontra-se expresso o intuito do historiador, a preocupação
permitem apreender sua crueldade e sua tragédia. Sem atacar de frente a com os ritos que marcam a existência humana. No primeiro capítulo, a explica-
mitologia heróica do bandeirismo, Alcântara Machado nos fala de indivíduos ção acerca do principal tipo documental sobre que repousa a obra: os inventá-
talhados numa dimensão demasiadamente humana, capazes de mesquinharias, rios paulistas, cerca de quatrocentos, cobrindo um período que vai de 1578 a
de fraquezas, de atitudes medíocres e triviais. E é essa sua banalidade, mais do 1700, publicados por iniciativa de Washington Luís quando governador da pro-
que o propalado gigantismo, que inspira ora a simpatia, ora a reprovação do víncia, documentação que "encerra subsídios inestimáveis para a determina-
historiador. É ela que o aproxima do passado, que é capaz de fazê-lo identifi- ção da época, do roteiro e da composição de muitas "entradas", "generoso
car-se - mais uma vez, sem grandiloqüência - com os então 400 - hoje, 500 - manancial de notícias relativas à organização da família, vida íntima, economia
anos de história passada, dissolvendo-se nos vultos evocados pela dedicatória: e cultura dos povoadores e seus descendentes imediatos".6
Na valorização dos inventários como fonte documental de relevo, Alcântara
Para minha mulher Machado antecipou-se aos historiadores de sua época: só muito depois, e no
meus filhos bojo da renovação teórico-metodológica da historiografia do hemisfério norte,
minha nora
os historiadores passariam a se deter sobre inventários, com eles trabalhando
de modo sistemático. Talvez essa perspicácia pioneira fosse moldada pela sen-
sibilidade de jurista, afeito a documentos de cartório e suficientemente conhe-
J Alfredo Ellis Jr., O bandeirismo paulista e o recuo do meridiano (2 1 ed. São Paulo: Nacional, cedor deles para perceber o quanto mudavam através dos tempos. Se
1934); Afonso d'Escragnolle Taunay, História geral das bandeiras paulistas, 11 vols. (São modernamente descrevem os bens pela rama, repugnando-se ante a inclusão
Paulo: Canton, 1924-1950); Jaime Cortesão, Raposo Tavares e a formação territorial do Brasil
detalhada dos objetos - "neles não se descobre uma nesga sequer do coração
(Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1958); frei Gaspar da Madre de Deus, Memórias para a
história da capitania de São Vicente. hoje chamada São Paulo [1797] (São Paulo/Belo Hori-
zonte: Edusp/ltatiaia, 1975); Pedro Taques de Almeida Paes Leme, Nobiliarquia paulistana
histórica e genealógica. 3 vols. (51 ed. São Paulo/Belo Horizonte: Edusp/Itatiaia, 1980); Manuel
4 Alcântara Machado, Vida e morte do bandeirante, cit., p. 5.
Eufrásio de Azevedo Marques, Apontamentos históricos. geográficos. biográficos. estatísticos e
, Ibid., p. 6.
noticiosos da província de São Paulo, 2 vols. Publicações Comemorativas do IV Centenário de
• Ibid., p. 7.
São Paulo (São Paulo: Martins, 1953).

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VIDA E MORTE DO BANDEIRANTE LAURA DE MELLO E SOUZA

do testador" _, 7 0S inventários antigos revelavam sentimentos e sensibilidades, casas de morada até 1650, quando os imóveis passam a representar "a parcela
descrevendo à exaustão e revelando um mundo que, carente de bens e de mais alta da riqueza privada". Mesmo assim, pondera, "de quando em quando
mercadorias, valorizava-os muito mais do que o nosso, onde o excesso acaba o espanto nos salteia": a casa de fazenda de Valentim de Barros vale apenas o
por banalizá-los e obscurecer a eventual admiração que pudessem suscitar. dobro das "cortinas de tafetá azul com seu sobrecéu, guarnecida com suas
Nos inventários coevos, menciona-se "o feitio, a variedade e a cor do franjas de retrós vermelho e amarelo", enquanto as roças de Isabel Ribeiro,
tecido, a espécie e o matiz do pano, os enfeites que o alindam, o estado de em 1660, valem menos que seu vestido de seda e veludo preto lavrado. E não
conservação". Também aos bichos, tão importantes nas sociedades tradicio- há que se surpreender ante tais disparates aparentes. Primeiro, porque faltam
nais, abre-se espaço nesses documentos: "uma vaca preta, com a barriga braços para os serviços: "Que vale a terra sem gente que a povoe e aprovei-
branca por baixo, com um filho macho preto; um boi vermelho de barriga te?". Depois, porque sobram distâncias e obstáculos: o mar, onde os piratas
branca e a ponta do rabo branca; uma vaca de papo inchado pintada com acometem as naus; a serra a vencer, caminho "talvez o peor que tem o mun-
uma filha pintada". 8 do", no dizer de frei Gaspar da Madre de Deus - encarecem os produtos
O livro começa justamente pela descrição e valorização da fonte - trazidos da Europa e ajudam a entender esse mundo onde os valores diferem
"laudas amarelecidas pelos anos e rendadas pelas traças" -, revelando que o tanto dos do nosso. "O que falta aos paulistas não é o chão, que aí está, baldio
historiador tinha consciência do quanto era pioneiro no seu uso. 9 Depois, os e imenso, à espera de quem o fecunde. Faltam-lhe, sim, a ferramenta, o ves-
capítulos se sucedem numa ordem lógica, que parte dos aspectos mais propria- tuário, tudo quanto a colônia não produz" e que tem de ser trazido do outro lado
mente econômicos e materiais - fortunas, hábitat, mobílias, baixel as, roupas - do oceano. 11 "Aqui está a razão por que custa mais um côvado de tecido fino
para atingir os costumes, as crenças e as instituições. O fecho é o antológico melcochado ou pinhoela, que uma légua de campo."12 '
capítulo sobre "O sertão", tributário de Capistrano na obra já citada e ante- Nos cenários da vida paulista, os sítios da roça levam a melhor sobre os
cipador do Sérgio Buarque de Holanda de Monções (1945) e de Caminhos e povoados. A vila de São Paulo é triste, modesta, desleixada mesmo depois de
fronteiras (1957).10 elevada à categoria da cidade. Muitas das construções de taipa permanecem
vagas, sem morador que as alugue. Outras não passam de mero pouso de
habitantes que se demoram nas casas da roça durante a maior parte do ano. O
II. A VIDA MATERIAL valor de casas e de terrenos "anda de rastros" até o meado do século XVII.
As ruas e os logradouros carecem de nomenclatura oficial, batizados pelo
O exame dos inventários revela que a vida paulista foi, no início, marcada povo conforme critérios objetivos. "A denominação evoca invariavelmente
pela pobreza. Mesmo quando as marcas de riqueza começaram a aparecer, já algum aspecto ou atributo do lugar: a casa de um morador antigo, um templo,
por volta do meado do século XVII, nada se encontra que justifique o exagero um edificio público. "13
dos linhagistas ou de autores como Oliveira Viana, que viram em São Paulo Não é na vila, mas na roça, onde de início se estabeleceram premidos
ambientes de luxo europeu. pelas circunstâncias, que os paulistas dão mostras de status e poder, ostentan-
Ao analisar as "parcelas que compõem o acervo" dos paulistas e a "rela- do mobiliário e alfaias em tudo superiores aos das casas urbanas. "A pobreza
ção que guardam entre si", Alcântara Machado chega a dados surpreenden- da vila é de explicação facílima. Resulta da supremacia inconteste do meio
tes, revelando fina sensibilidade histórica. As roupas valem mais do que as rural sobre o meio urbano, supremacia que não entra a declinar senão mais
tarde, com o advento do Império."14
, Ibidem.
8 Ibid., p. 10.
• Ibid., p. II. 11 Ibid., pp. 22-23.
lO Para a relação entre Alcântara Machado e Sérgio Buarque de Holanda, ver Laura de Mello e 12 Ib/d., p. 25.
Souza, "Prefácio" a "Vida e morte do bandeirante", em Silviano Santiago (org.), Intérpretes do JJ Ib/d., p. 29.
Brasil, cit. 14 Ibid., p. 40.

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VIDA E MORTE DO BANDEIRANTE LAURA DE MELLO E SOUZA

Constituindo-se num mundo em miniatura, "o campo exerce uma ação ridade crescente no século XVII, começam a chegar ao planalto com maior
duplamente distrófica sobre o povoado": atrai os melhores homens e lhes asse- freqüência. Os feitios custavam pouquíssimo, e o status consiste justamente
gura independência econômica, reduzindo ao mínimo sua relação com a cida- na exibição de tecidos volumosos e caros, portadores de nomes que deslum-
de. "No espaço em que se faz sentir a influência do latifúndio, não há lugar bram Alcântara Machado e lhe evocam "os esplendores do Oriente": serafina,
nem para o comércio, nem para a indústria, elementos geradores das aglome- catalufa, tiruela, encastosolado, damas quilho da Índia. 19
rações humanas."15 Muitas jóias completam a indumentária das grandes ocasiões: para as
Os campos paulistas diferem dos do litoral nordestino: abundam em vi- mulheres, anéis, gargantilhas, cadeias, afogadores e rosários de ouro, de pe-
nhas, em trigais, em algodoais, ostentam "teares de fazer franjas e redes" e dras, de esmalte; para os homens, fivelas de prata nos cintos e nos sapatos,
vastos pomares de marmelo - fruta que, transformada em conserva, toma-se botões nas véstias.
"o artigo principal da exportação paulista". As caixetas de marmelada viajam O apreço crescente pelas jóias e pela prata das baixelas, que no início do
para longe: mil e seiscentas delas "manda a viúva e inventariante de Pedro Vaz povoamento não refulgia senão em peças avulsas, revela antes uma necessi-
de Barros à cidade da Bahia". Quando ficam em Piratininga, integram patri- dade do que o desejo de ostentação. Se objetos em metal precioso chegam a
mônios: "duas mil e duzentas avultam no espólio de Catarina Dorta".16 constituir mais de um terço dos patrimônios individuais é por integrarem "uma
A criação de animais é outro traço distintivo da economia de São Paulo: reserva ou tesouro de fácil transporte e realização imediata. O que hoje pare-
muito gado vacum, "suínos a fartar", carneiros e ovelhas a encherem os cam- ce explosão de vaidade é naquele tempo intimação das condições econômicas
pos e a alimentarem o fabrico de tecidos e chapéus de lã, florescente ainda em e da situação precária da ordem pública".20
1699. Agricultura diversificada e rebanhos numerosos fazem com que o mun-
do rural seja rústico e autocontido.
III. INSTITUIÇÕES E PRÁTICAS SOCIOECONÔMICAS
Dentro de seu domínio, tem o fazendeiro a carne, o pão, o vinho, os cereais que o
alimentam; o couro, a lã, o algodão que o vestem; o azeite de amendoim e a cera que à Numa sociedade de fronteira, onde tudo está por construir e onde a vida
noite lhe dão claridade; a madeira e a telha que o protegem contra as intempéries; os cotidiana é dura e incerta, as práticas do dia-a-dia deixam em segundo plano
17
arcos que lhe servem de boquel. Nada lhe falta. Pode desafiar o mundo.
as instituições mais duradouras. Não há escolas, não há mestres, não há médi-
cos, escasseiam os magistrados. Uns poucos inventários acusam a presença
Não é contudo apenas a terra que confere prestígio social. "É na baixela
minguada de um punhado de livros, revelando ainda que, se boa parte dos
e nas alfaias de cama e mesa que a gente apotentada faz timbre em ostentar a
homens sabia ler, escrever e contar, a maioria das mulheres mal assinava o
sua opulência. "18. Se os móveis são escassos e modestos, evoluindo apenas
nome. Contra as doenças, recorria-se ao conhecimento herbolário dos jesuítas
quando a sociedade se toma mais complexa; se o "estanho plebeu" só aos
ou a práticos mezinheiros, benzedeiros e curandeiros. Mesmo os poucos cirur-
poucos foi "suplantado pela faiança na mesa da gente de prol", os baús sempre
giões aprovados, que não chegaram a Piratininga antes do século XVII, recor-
encerraram panos e toalhas de linho e de bretanha, enfeitados por franjas,
riam à flora indígena e às práticas curativas dos primeiros habitantes, como o
rendas, abrolhos, desfiados "ao redor e pelo meio". Para o dia-a-dia, bastam
uso da pedra-bazar, "concreção pedregosa que se forma no estômago, nos
as vestes feitas com o algodão que abunda na capitania. Para os dias de festa
intestinos ou na bexiga de certos animais, e à qual atribuíam grande virtude os
na vila, exibem-se vestidos e roupas de lã e de seda, panos que, com a prospe-
médicos do Oriente, principalmente como antídoto".21 Corriam, ainda, belas

" Ibid., p. 44.


16 Ibid., pp. 46-47. lO lbid., p. 55.
17 Ibid., pp. 49-50. 20 lbid., p. 65.
18 lbid., p. 84. " Ibid., p. 103.

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VIDA E MORTE DO BANDEIRANTE LAURA DE MELLO E SOUZA

orações mágicas, que a sensibilidade de Alcântara Machado recupera nos in- da terra", carnes salgadas de porco, índios, peles de onça. Em 1624, os impos-
ventários: "Em nome de Deus Padre, em nome de Deus Filho, em nome do tos municipais foram honrados com panos de algodão, couro e cera de abelha,
Espírito Santo, ar vivo, ar morto, ar de estupor, ar de perlesia, ar arrenegado, ar tudo obedecendo aos preços correntes. De ano para ano, variavam as merca-
excomungado, eu te arrenego em nome da Santíssima Trindade [ ... ]".~~ dorias que faziam as vezes de moeda: "Acompanhar essas variações é ter
À Justiça, o Alcântara Machado advogado e jurista se adianta e dedica idéia exata da atividade econômica dos paulistas naqueles tempos apartados".:!5
um dos maiores capítulos do livro. Na falta absoluta de magistrados, os leigos Conforme a economia foi permeada pelas moedas, surgiram os argentários,
desempenham funções jurídicas e, por exemplo, fazem os inventários. A má- como o padre Guilherme Pompeu. Vários foram os que emprestaram dinheiro,
quina judiciária é morosa, as fórmulas são retorcidas, a prática jurídica é muito em geral a juros de 8% mas, vez ou outra, fazendo-o em porcentagens
distinta da nossa e ainda se reveste de simbologias, como o uso de ramos escorchantes, que podiam atingir os 50%. Em muitos inventários aparecem os
verdes nas transações de imóveis. instrumentos particulares de dívidas, os assinados, onde o signatário se com-
prometia a pagar ao credor "até o dia de Santa Isabel", "à volta do sertão" ou
Para empossar-se de terras compradas em praça, Luís Furtado se transportou à
"como vier das minas". Há notícia contudo de que muitos não deixaram papéis
paragem em companhia do tabelião e do alcaide e, lá chegados [diz o auto], logo lhe
escritos, as transações se fazendo apenas com a palavra: "devo a Fulano, ou
metemos terra e ramos na mão [ ... ] o qual Luís Furtado logo apregoou aquela posse,
e o alcaide, se havia quem impedisse ... três vezes ... e por não haver quem lh'o Fulano me é a dever o que ele disser por sua verdade, o que ele achar em sua
impedisse o houvemos por empossado 21 consciência".~6 Nas sociedades tradicionais, e naquela talvez mais que em
outras, sugere Alcântara Machado, a palavra dada tinha força de lei.
Quando se tratava de edifícios, a cerimônia era um pouco diferente: os Em meio à ausência das instituições, a família surgia como o único ele-
interessados se dirigiam para as casas vendidas e, "muito expressivamente", mento de coesão, assumindo os traços de uma organização defensiva.
delas tomavam posse fechando-lhes as portas. Alcântara Machado endossa, nesse tocante, as interpretações vigentes em
As custas processuais eram, então, menores, e os salários judiciais nem seu tempo sobre o papel ordenador do pater familias: era ele quem regia o
sempre se pagavam com moeda, valendo usar, nas transações, estanho velho, destino da prole, escolhendo-lhes os cônjuges e as ocupações, submetendo e
botas e chinelas novas, galinhas, frangões: "em certo inventário, os interessa- enclausurando as consortes, zelando pela limpeza do sangue em sua descen-
dos reclamam contra o procedimento de um avaliador que, sem lhe ser manda- dência.
do pela justiça, se fora ao pasto do defunto, que Deus tem, e trouxera um
porco pelo seu salário. Atendendo à reclamação, manda o juiz que o avaliador Por isso mesmo e porque são poucas as pessoas dessa limpeza e qualidade, os
casamentos se fazem num círculo muito limitado, e as famílias andam em São Paulo
insofrido restitua o dito porco a seu pasto e chiqueiro". O estranhamento do
tão travadas umas com as outras que abundam as uniões consangüíneas.27
historiador ante o inusitado dos costumes pretéritos cede lugar ao advogado
que critica os destemperos de seus colegas de ofício: "Tempo feliz, em que
Essa, a família legítima. Crescendo à sua sombra, havia outra, contudo: a
bastava um cevado para saciar a ganância de um homem do foro!". ~4
família ilegítima, originária das ligações esporádicas ou duradouras com as
Tais práticas revelam, de resto, a ausência de dinheiro amoedado, que se
índias e, mais tarde, com as negras. Se os casamentos mistos eram raros,
fez sentir na vida econômica dos paulistas até as vizinhanças do século XVIII,
essas ligações entre diferentes eram muito comuns, e a mestiçagem se talha-
quando a descoberta das minas provocou transformações radicais. Também
va, pois, na bastardia.
as esmolas e os legados pios se pagavam com fardas, gado, "drogas e cousas

12 Ibid., p. 104. " Ibid., p. 135.


23 Ibid., p. 130. 16 Ibid., p. 140.
M Ibid., p. 132. 27 Ibid., p. 153.

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VIDA E MORTE DO BANDEIRANTE LAURA DE MELLO E SOUZA

Os senhores, a parentela dos senhores, os agregados da família fazendeira são os IV. O HOMEM E O MEIO
reprodutores de escol, os padreadores ardentes da índia, os garanhões fogosos da
negralhada. Este deixa seis filhos naturais. Aquele deixa treze, por não ser casado
nunca. Antônio Pedroso de Barros parece ter perdido a conta dos que houve:ficam Nas lonjuras da capitania de São Paulo, as leis que defendem os índios
alguns bastardos, que não sei a verdade de quantos são meus. 28 vão deixando de ter valor. Aproveitando-se de sua freqüente ambigüidade, os
paulistas acabaram criando "um estado intermediário entre a liberdade e a
E acrescentava: "será conforme as mães disserem". Alguns dos mori- escravidão, que tivesse desta a substância e daquela as aparências".3~ Assim,
bundos mostraram-se tão cheios de dúvidas ao lado dos "negros gentios" da terra começaram pouco a pouco a aparecer os
"serviços forros", as diferenças entre um e outro se esgarçando ao longo do
que, no fim do testamento, retratam a confissão lançada no começo. Assim, depois de século XVII, e ambos acabando por serem escravizados, ao arrepio das deter-
ter declarado livres e forros dois meninos havidos de uma escrava, Brás Gonçalves minações de el-rei.
reflete melhor, e diz em Deus e em sua consciência que não é pai de um dos rapazes Em alguns dos inventários, a condição efetiva dos índios cativos é camu-
nomeados e o deixa por cativo. 29
flada por hipócritas frases de efeito, com as quais o testador "concita a gente
da terra a não abandonar a casa: peço queiram por serviço de Deus servir
Apesar dessas idas e vindas, muitos bastardos foram reconhecidos na
a minha mulher. .. peço que pelo bom trato que sempre lhes dei queiram
hora da morte, quando também se pedia que os que ficavam cuidassem das
servir a meus herdeiros ... peço pelo amor de Deus e pelo que lhes tenho
suas mães. Ante os fatos consumados, a esposa legítima se curvava e mostra-
queiram todos juntos ficar". Alcântara Machado intervém para mostrar o
va tolerância. Manuel Sardinha sabia disso, e, ao morrer, confessou que "hou-
absurdo da situação: "Que remédio tinham os desgraçados senão querer o que
ve uma filha, sendo casado, de uma índia [ ... ] a qual peço à minha mulher
lhes pedia o testador, se o juiz não os consultava antes de adjudicá-los aos
recolha em casa e trate como minha filha". Algumas das matronas paulistas
herdeiros ou legatários?".33 Em outros inventários, a sensibilidade do historia-
mostraram preocupação, ao morrerem, com a prole ilegítima deixada pelos dor capta desabafos mais autênticos e sinceros:
finados maridos:
[ ... ] declaro que fui duas vezes ao sertão dos carijós [ ... ] tenho alguns serviços que
Assim, Maria Paes: e por se dizer a dita menina ser filha de seu primeiro marido João do mando à minha mulher e filhos que querendo eles estar em sua companhia os tratem
Prado a deixava forra e liberta. E Maria Pompeu: deixo à [... ] filha bastarda de meu marido como forros, e quando se queiram ir não lhes impedirão sua ida, mas antes a favore-
que em casa achei um vestido de tafetá, umas cabaças de ouro, uns ramais de corais. lo çam pela afronta que lhes fiz com os trazer com pouca vontade sua.

Mestiços bastardos tomaram-se não raro agregados dos fazendeiros, in- E, critico, Alcântara Machado ajuiza: "Com pouca vontade ... Eufemismo
tegrando-lhes o séquito, acompanhando-os nas jornadas ao sertão e ocupando encantador".34
lugar de destaque naquele mundo: No final do primeiro quartel do século XVII, intensificou-se em São Pau-
lo a posse de índios cativos. Até então, os mais abastados dentre os colonos
É o capanga destemido, sempre disposto a dar a própria vida ou a tirar a alheia, a
tinham cerca de trinta ou quarenta peças. O ponto de viragem foi o assalto de
mando do potentado em arcos a que está ligado pela gratidão, pelo interesse e tam-
Manuel Preto e Raposo Tavares às missões de Guairá, ocorrido entre 1628 e
bém, amiúde, pelo sangue. Não o renegam os outros membros da família. Aceitam-no,
porque têm a consciência mais ou menos clara de que se trata de um elemento inferior, 1632: desde então, "os espólios se vão opulentando sobremodo com o gentio da
mas necessário, do organismo de que fazem parte. ll terra".35 Em 1632, Beatriz Bicudo deixa 130 serviços; 160 são os que constam

18 Ibid., p. 156. J2 Ibid., p. 167.


" Ibid., p. 158. JJ Ibid., p. 170.
30 Ibid., p. 161. 34 Ibid., p. 171.
Jl Ibidem. " Ibid., p. 185.

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VIDA E MORTE DO BANDEIRANTE LAURA DE MELLO E SOUZA

do inventário de Brás Esteves quatro anos depois; no testamento de Antônio Em julho de 1633, Antônio Raposo Tavares e outros potentados assaltam o colégio e
Pais de Barros há, por fim, menção a quinhentas peças. o aldeamento de Barueri, expulsam os jesuítas, despejam os móveis e alfaias, apos-
sam-se dos índios. Os inacianos conseguem do vigário de Parnaíba uma sentença de
Trazidos à força pelas expedições, muitos índios se amotinavam. Os mais
excomunhão contra os amotinados. Sabem como estes acolhem o padre Antônio de
robustos eram enviados como "negros de ganho" ao litoral, transportando car-
Marins que, na qualidade de escrivão do processo, vai intimá-los da condenação? Di-
gas serra acima. Os mais hábeis tomavam-se chapeleiros ou artesãos. Pela lo Azevedo Marques: arrancando-lhe das mãos a sentença e rompendo-a. J9
sua capacidade incomparável de andar dentro do mato, havia os que iam bus-
car outros índios para os paulistas. E era para o mato que fugiam quando não A morte estava sempre presente. Cada entrada para o sertão podia ser a
mais toleravam os maus-tratos: "o grande, o eterno, o verdadeiro amigo e re- derradeira, e no afã de pôr a alma no caminho da salvação - pois o testamento,
dentor dos indígenas é o sertão. É o sertão que lhes dá couto e homizio, quando "longe de ter feição puramente econômica", era também "uma solene de-
se desvencilham das algemas pela força ou pela astúcia"?6 monstração de fé" - muitos testavam antes de partir, "quando as canoas car-
Muito mais raros eram os escravos negros, chamados "negros de Guiné" regadas, as toscas naus de bordas rastejantes, já se aprestam a descer as
para se distinguirem dos "da terra", ou ainda, no vocábulo indígena, de águas do rio misterioso".4o "É no porto de Pirapetingui que, em 6 de março de
"tapanhunos". A primeira menção a eles aparece em 1607, e cem anos depois, 1607, Francisco Barreto se dispõe a testar: sendo Nosso Senhor servido que
segundo os inventários, não somam mais do que um cento. Apesar da nesta viagem para a qual estou de partida a descer o gentio faça Nosso
escravização de africanos ser então legal, os negros contavam menos, portan- Senhor de mim alguma cousa e meus dias lá fenecerem."4\
to, do que os índios como escravos. Outros sertanistas testavam já longe de casa: "Neste sertão do Abueus,
Se os piratininganos não obedeciam à lei, tampouco temiam o Tribunal da doente de uma frechada", menciona Sebastião Preto. "Doente de uma frechada
Inquisição. "Bem conhecidas são as palavras escarninhas daquele mameluco que me deram os topiães, no sertão e rio Paracatu", esclarece Manuel Cha-
de Santo André, quando ameaçado de responder no Juízo terrível por certas ves. 42 A circunstância que ditava a resolução de testar era própria ao sertão: a
práticas suspeitas de gentilidade: acabarei com a Inquisição afrechadas. "37 doença - febre, maleita - ou a guerra - as flechas ervadas, os ferimentos
O Santo Oficio, por sua vez, pouco cuidou dos paulistas antes do século XVIII, vários.
e quando visitou o Brasil, nos dois primeiros séculos, dirigiu-se para o Nordeste Em casa ou no sertão, ao testarem os sertanistas regulavam as mínimas
açucareiro, onde os cristãos-novos, cujos bens podiam ser confiscados, eram coisas: onde deveriam ficar seus ossos, quais os santos intercessores, quais as
então mais numerosos. pompas fúnebres. Atiravam-se "ao assalto do céu" com a mesma sofreguidão
Mas também os havia em São Paulo. Muitos dos habitantes do Planalto com que se arremessavam "à conquista da terra".43 Determinavam a quanti-
tinham "parte de judeu", mas "mais danosa do que as doutrinas heréticas" que dade de missas a se rezar em São Paulo e em Lisboa, mostrando como, entre
eventualmente professassem seria, para Alcântara Machado, a "vida escan- a colônia e a metrópole, ainda oscilava o coração dos piratininganos daqueles
dalosa" em que "chafurdavam" os padres "exportados da metrópole para a tempos. Indicavam quais invocações e santos desejavam honrar: Nossa Se-
América portuguesa".38 Intenso era o comércio de Bulas da Cruzada, consi- nhora da Luz, do Carmo, da Conceição, dos Remédios e das Vitórias; São
deradas um salvo-conduto poderoso para a "última viagem". Como em outras Miguel, São Rafael, São Lázaro, Santo Alberto, São Jerônimo, São Domingos,
localidades da colônia, as confrarias multiplicavam-se, e Nossa Senhora da São Cipriano, São Francisco Xavier, São Brás, Santo Elias, Santo Antônio, São
Conceição gozava de grande popularidade entre os fiéis. Excomungava-se a Francisco. Revelavam, nos seus caprichos, que religiosidade e magia andavam
torto e a direito, e nem por isso era maior o temor às penas espirituais:

J' lbid., p. 206.


'" lbid., p. 221.
J6 Ibid., p. 179. 41 lbid., p. 223.
17 Ibzd., p. 196. 42 lbid., p. 224.
JS Ibid., p. 202. 4J lbid., p. 229.

136 137
VIDA E MORTE DO BANDEIRANTE LAURA DE MELLO E SOUZA

juntas: "Maria de Lara contempla com doze missas os doze apóstolos e com com a sua origem social ou econômica, o sertão "acena-lhes com a miragem
onze as onze mil virgens". Outros consagram nove missas "à honra dos nove da riqueza fácil e imediata, ao alcance das mãos ávidas, nas florestas de índios
meses que a Senhora trouxe em suas entranhas seu filho Nosso Senhor", ou predestinados ao cativeiro, nas minas resplandecentes de gemas e metais de
"quatorze à honra das quatorze obras da Misericórdia, e mais cinco à honra prol, no viso luminoso das serranias que as fábulas sobredouram".49
das cinco chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo".44 O sertão é o espaço onde se exerce o espírito aventureiro e a imagina-
Para ganhar a vida eterna recorriam vez ou outra às práticas de explora- ção; onde a força humana se põe à prova para domar uma natureza desconhe-
ção com que haviam vivido, e Alcântara Machado seleciona um episódio exem- cida e misteriosa; onde os marinheiros da véspera voltam a enfrentar situações
plar: de perigo e de imprevisto. Aliás, lembra Alcântara Machado num golpe de
gênio,
Messias Rodrigues manda aplicar em missas o que ganhar por seu oficio um dos
serviços que possuía, moço do gentio da terra, oficial de sapateiro. Assim, depois de entre o marinheiro e o sertanista são transparentes as afinidades. Resultam das muitas
ter suado em vida da senhora para manter-lhe o corpo, o desventurado tem de traba- que aparentam com o sertão o oceano. Diante do oceano, como diante do sertão, é o
lhar indefinidamente para salvar-lhe a alma [00.]45 mesmo assombro, é a mesma impressão de infinito e de eternidade, é a mesma verti-
gem. Só eles, imensos e desertos, podem saciar a fome de liberdade sem limites que
Outros arrependiam-se na última hora das violências cometidas durante devora o homem, o nomadismo ingênito que o atormenta, o orgulho de bater-se, fraco
e pequenino, contra os elementos desatrelados, e de vencê-los. Em paga dessas volúpias
toda uma vida, pedindo perdão, esgravatando a memória remota e ordenando
sobre-humanas, apoderam-se de todo e para a vida inteira de seus apaixonados.
missas "para satisfação da força que fez ao gentio, e dos mantimentos que lhe
comeu".46
Finda a era heróica das grandes navegações, o colonizador português
Tudo, na vida paulista, convergia enfim para o sertão, "estribilho obsi-
voltou-se para essa expansão interna que caracterizou a atividade dos ho-
dente" que "aparece e reaparece nos inventários", "a denunciar que para o
mens de São Paulo por séculos, e que em tantos pontos se assemelhou à lide
sertão está voltada constantemente a alma coletiva, como a agulha imantada
marítima.
para o pólo magnético". 47 É com o sertão que Alcântara Machado fecha Vida
O meio provoca alterações na alma e no corpo. "Este ganha a elasticida-
e morte do bandeirante, brindando o leitor com uma sucessão de páginas
de e a robustez dos monstros marinhos e das feras." Se o andar do mareante
antológicas:
é balanceado, refletindo o movimento das ondas, o do sertanejo, "em linha
quebrada", reproduz "o rumo divagante das picadas e dos carreadores".5o Sim-
Porque o sertão é bem o centro solar do mundo colonial. Gravitam-lhe em torno,
escravizados à sua influência e vivendo de sua luz e de seu calor, todos os interesses ples e brutais, ingênuos e trépidos, o homem do mar e o homem da floresta
e aspirações. Sem ele não se concebe a vida: por os moradores não poderem viver passam a vida perseguidos pelo oceano e pelo sertão, e é neles que, quase
sem o sertão, proclamam-no os oficiais da Câmara numa vereação de mil, seiscentos sempre, encontram a morte.
e quarenta anos. 48 Não há como fugir ao sertão, escola que "prepara os moços para o exer-
cício das duas únicas profissões tentadoras que o meio comporta: o tráfico
O afã de enriquecimento rápido ajuda a entender o fascínio pelo sertão. vermelho e a mineração. Uma entrada eqüivale a um diploma".51 Na segunda
Contentando-se com a robustez e a audácia dos adventícios, e sem se importar metade do século XVII, não haverá em São Paulo mais do que dois moradores
que não se entreguem ao tráfico de índios, que atrai até ordens religiosas,

44 Ibid., p. 232.
" Ibid., p. 229.
46 Ibid., p. 235. 4' lbid., p. 246.
47 lbid., p. 245. ,. lbid., p. 247.
48 Ibidem. " Ibid., p. 250.

138 139
VIDA E MORTE DO BANDEIRANTE LAURA DE MELLO E SOUZA

como a dos carmelitas. Muito menino saiu da infância já na lide sertaneja, militar, o comandante das entradas via-se compelido a desempenhar as fun-
acompanhando o pai ou algum parente, aprendendo roteiros que, anos mais ções judiciais no cível e no crime. Morto o companheiro, mandava arrolar seus
tarde, voltariam a praticar: bens, quase sempre de forma sumária devido ao insólito da situação e à escas-
sez de papel. "Responsabilidade formidável naquele ambiente carregado de
Mal saído da meninice, apresta-se e parte a buscar a sua vida, o seu modo de lucrar, incertezas", e pela qual quase ninguém pedia pagamento. Quase ninguém, com
o seu remédio e para as suas irmãs. Dezesseis anos conta Francisco Dias da Silva,
a exceção de um: Antônio Raposo Tavares, "heróico devastador de missões",
quando, por ter idade e ser capaz para isso, é levado pelo tio, o formidável Fernão
mas capaz de retirar um par de meias "da pobreza que fica por morte de
Dias Pais Leme, ao descobrimento da prata em serviço de Sua Majestade. Na entrada
Pascoal Neto".55
de 1673, contra os índios serranos, Manuel de Campos Bicudo faz-se acompanhar do
filho Antônio Pires de Campos, que não tem mais de quatorze anos; e doze ou O sertão grandioso, palco principal da "mitologia bandeirante", presencia-
quatorze tem o segundo Anhangüera, ao seguir com o pai, na expedição que atingiu o va também atos terríveis - como o apresamento dos "negros da terra" - e
rio Vermelho, em montaria ás tribos goianas. 52 mesquinhos. Com um desses, e não por acaso, José de Alcântara Machado
encerra o seu belo livro - tão destoante de outros livros, seus contemporâne-
A preparação da viagem, os utensílios, as armas levadas para o mato, a os e mesmo posteriores a ele, nos quais da atividade paulista só se destaca-
roupa do sertanista, os alimentos capazes de resistir ao tempo - tudo é tratado ram o arrojo, a coragem e os eventuais heroísmos.
pelo historiador nesse capítulo admirável, que antecipa, em muitos pontos, al-
gumas das melhores páginas de Sérgio Buarque de Holanda:
V VIDA E MORTE DO BANDEIRANTE
Por que aumentar a carga com mantimentos, se aí estão os rios abundantes em peixes,
as matas e os campos povoados de caça, as frutas silvestres, o mel, o pinhão, o
Se nesse livro, ecoando as idéias correntes na época, a condicionante do
palmito, as roças que os índios espavoridos abandonam, as plantações que assinalam
as etapas das entradas precedentes? Se tudo isso lhe recusa o destino, o bandeirante meio sobre o homem ainda se mostra de forma acentuada, as decorrências daí
devora, para matar a fome, as carnes imundas: cobras, sapos, lagartos. À míngua de extraídas são novas e originais, apontando na direção de uma história diferen-
água para beber, se dessedenta com o sangue dos animais, o suco dos frutos, a seiva te. Para driblar o meio acanhado e periférico, os habitantes de São Paulo tive-
das folhas e das raízes. 51 ram que talhar um destino específico, fazendo-o como homens comuns e não
como "gigantes" ou heróis. Antes da voga da interdisciplinaridade, que em
As belíssimas descrições do meio natural contrastam com as dos horro- tantos pontos esfumaçou os limites entre a história e a antropologia, José de
res da escravidão, objetivo maior das entradas paulistas: Alcântara Machado e Oliveira, rebento de velhos troncos paulistas, cioso dos
seus quatrocentos anos de habitante do Planalto de Piratininga, soube, melhor
Jungidos uns aos outros, presos pelo pescoço às gargalheiras, que os cadeados refor-
do que ninguém no seu tempo, mostrar que a compreensão histórica repousa
çam, é assim que se arrastam, semanas e meses a fio, em demanda do povoado, os
índios arrancados para o cativeiro às tabas e reduções 54
também nos atos do dia-a-dia, monótonos, repetitivos, banais e até mesmo
mesquinhos. Sem julgar o passado - pois não compete ao historiador fazê-lo -,
Cortejo sinistro, esse, que evocava a dimensão trágica da lide sertaneja. alertou que a pobreza da capitania poderia se transformar em categoria
Muitos dos inventários que forneceram a Alcântara Machado a substân- explicativa da sua história, e abriu caminho para o estudo dos mecanismos
culturais e econômicos da expansão paulista.
cia do seu livro foram escritos no sertão, onde, além das funções de chefe
As categorias explicativas também têm história. Estudos recentes vêm
relativizando a idéia de que a economia paulista do Quinhentos e do Seiscentos
12 Ibid., p. 249.
lJ Ibid., pp. 255-256.
54 Ibid., p. 260.

140 141
VIDA E MORTE DO BANDEIRANTE

era pobre. Ilana Blaj enfatizou a complexidade e a diversificação dessa econo- OLIVEIRA LIl\1A
mia, retomando aliás um capítulo já clássico de John Manuel Monteiro em
Negros da terra, "O celeiro do Brasil", que destacava o papel desempenhado
por São Paulo - região alheia à grande cultura da cana - no abastecimento de
várias capitanias da América portuguesa e a importância das economias não- D. João VI no Brasil
exportadoras para a formação do país. 56 EmA opulência relativizada, Milena
Maranho mostra que a pobreza, propalada pelos próprios habitantes do Planal-
to e presente a cada linha dos documentos coevos, representava uma estraté-
gia bem urdida. A alardeada ausência de alternativas econômicas justificava,
por um lado, o apresamento de índios; por outro, fundamentava o não-paga-
mento de impostos e de dívidas. 57 Por fim, o significado que o historiador - no
caso, Alcântara Machado - atribui à pobreza não é obrigatoriamente o mesmo Guilherme Pereira das Neves
atribuído pelos contemporâneos. O destes, aliás, pode ser mais de um, e talvez
uma compreensão mais acurada da pobreza só possa surgir quando levar em
conta sua provável polissemia - máscara sob a qual se ocultaram variadas
visões historiográficas.
O fato de ser contestado não significa que Vida e morte do bandeirante
deixe de ser um marco. Significa, sim, que os que vieram depois - Sérgio
Buarque de Holanda, John Manuel Monteiro - ultrapassaram-no, ou seja, pas-
saram por ele e foram além. 58 Nesse sentido, todo grande livro de História,
como Vida e morte do bandeirante, tem de ser ultrapassado um dia.

50 I1ana BJaj, A trama das tensões: o processo de mercantili::ação de São Paulo colonial (1681-
1721), tese de doutorado (São Paulo: Departamento de História, FFLCH da USP, 1995).
" Milena Maranho, A opulência relativi::ada: significados econômicos e sociais dos níveis de vida
dos habitantes da região do Planalto de Piratininga - 1648-1682, dissertação de mestrado
(Campinas: Departamento de História, IFCH da Unicamp, 2000).
l8 Sérgio Buarque de Holanda, Monções (3 1 ed. ampl. São Paulo: Brasiliense, 1990) e Caminhos e

fronteiras (3 1 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1994); John Manuel Monteiro, Negros da
terra: índios e bandeirantes nas origens de São Paulo (São Paulo: Companhia das Letras,
1994).

142
T
; .. ' o LIVRO
Um apressado leitor atual, ao abrir as quase oitocentas páginas do D.
João VI no Brasil, de Oliveira Lima, em sua terceira edição de 1996, pode
supor que está diante de uma obra tradicional de história política e diplomática.
Se consultar o sumário, após uma introdução sobre a situação internacional de
Portugal em 1808, irá deparar com trinta capítulos, trazendo títulos como: "A
partida", "A rainha D. Carlota", "As intrigas platinas", "No Congresso de Vie-
na", "Elevação do Brasil a Reino", "A conquista da Banda Oriental e os insur-
gentes de Buenos Aires", "A diplomacia de Palmela na questão de Montevidéu",
"A revolução pernambucana de 1817", "A diplomacia estrangeira no Rio:
Caleppi e Balk-Poleff', "O casamento do príncipe real" e "A revolução portu-
guesa de 1820". Títulos que evocam empoeirados manuais escolares, quando
não sugerem dúvidas e indagações de ordem fatual, como as menções a
Palmela, a Caleppi e a esse desconhecido Balk-Poleff, de origem inescrutável
e que parece saído de algum filme de terror. E se começar a ler a "Introdu-
ção", talvez torça o nariz diante da ótica personalista, que situa D. João VI
como "um rei popular", em contraposição a Pedro I, impondo-se pela "energia
e bravura", e a Pedro II, capaz de inspirar "veneração e fervor"; e certamente
sentirá o tom arcaico de expressões como "acrisolado patriotismo" e "flácida e
pomposa natureza tropical". Poderá, assim, ser levado a pensar que se trata de
uma obra datada, característica da época em que foi escrita - há quase um
século - e da intenção que a moveu - comemorar o centenário da instalação
da corte portuguesa no Rio de Janeiro. E acabar concluindo pela sua irrelevância
para a realidade e os problemas do Brasil de hoje.
Não poderia cometer maior engano.
Wilson Martins caracteriza D. João VI no Brasil como um "clássico da
historiografia brasileira".l Ao prefaciar a segunda edição, de 1945, Otávio
Tarquínio de Sousa considerou-o "um dos maiores livros de nossa historiografia
e o mais completo e lúcido acerca do assunto de que se ocupa".2 Recentemen-
te, Roberto DaMatta, com um leve toque de auto-suficiência de antropólogo,
identificou sua importância na "capacidade de prover materiais que nos aju-
dam a pensar melhor as nossas raízes e, com isso, a aquilatar de modo mais
realista as instituições que nos têm governado".3 De fato, se o leitor observar

1 Wilson Martins, "Prefácio à terceira edição", em Manuel de Oliveira Lima, D. João VI no Brasil
(3' ed. Rio de Janeiro: Topbooks, 1996), pp. 13-19.
2 Incluído como apêndice à mesma edição da obra, pp. 770-775.
J Roberto DaMatta, resenha em O Globo, caderno Prosa e Verso, Rio de Janeiro, 29 jun. 1996, pp. 1-2.

145
D. JOÃO VI NO BRASIL GUILHERME PEREIRA DAS NEVES

com cuidado, entremeiam-se, aos capítulos citados, outros absolutamente ori- outra realidade, trazemos, porém, no sangue as tradições que então surgiram
ginais, como aquele que denomina "Emancipação intelectual"; alguns de cará- ou que então adquiriram novas conotações. Num certo sentido, não é outra a
ter mais econômico ou social, sobre o tráfico de escravos, sobre o tratamento função do historiador.
dos índios, e dois sobre o Estado do Brasil em 1808; e, sobretudo, os capítulos
XXV e XXVI, tratando de "O espetáculo das ruas" e de "As solenidades da
corte", que adotam um olhar decididamente antropológico. Além disso, consta- o AUTOR
tará, na enumeração das fontes e nas mais de mil notas ao texto, a amplitude
da pesquisa e o domínio de Oliveira Lima sobre o tema. Por fim, descobrirá, Manuel de Oliveira Lima nasceu no Recife, em 25 de dezembro de 1867.
em meio às expressões obsoletas e às "frases longas e, por vezes, retorcidas", Seu pai era natural do Porto e a mãe, de Pernambuco, onde aquele se estabe-
que Gilberto Freire apontou, um escritor vivaz, capaz de distinguir uma perso- lecera, primeiro como caixeiro e depois como patrão, com negócio de fazendas
nalidade ou uma situação num só traço e também de surpreender pela e consignação de açúcar. Tendo adquirido em pOUCos anos fortuna suficiente
informalidade, bem à brasileira, da linguagem e pelo uso inusitado do diminuti- para retirar-se das atividades comerciais, a família decidiu, em 1873, mudar-se
vo - no que se antecipa, como em tantas outras coisas, ao autor de Casa- de volta para Lisboa. Cresceu, assim, e foi educado Oliveira Lima em Portu-
grande & senzala. 4 gal, no colégio dos Lazaristas e na Escola Acadêmica, manifestando-se muito
"Grande livro - que tem qualquer coisa de fluvial, de caudaloso", como cedo suas predileções literárias e históricas e sua "incompatibilidade congênita
viu Octavio Tarquínio, D. João VI no Brasil constitui a obra-prima de Oliveira com a óptica". Posteriormente, por causa da doença do pai e guiado por um
Lima. Nele se entrelaçam vários fios que, urdidos na mente do leitor, fornecem instinto que o "levava a descortinar não raro no direito a defesa sofistica do
um vasto panorama dos anos que antecederam a independência. Panorama que é torto", ao invés de seguir para Coimbra, inscreveu-se na Faculdade de
que atribui uma outra dimensão à narrativa desconjuntada de Francisco Adolfo Letras, sendo aluno, entre outros, de Pinheiro Chagas, de Teófilo Braga e de
de Varnhagen nos últimos capítulos da História geral do Brasil (1854-1857) Zófimo Consiglieri Pedroso, vulto importante na definição do ensino português
e que antecipa quase todos os temas e interpretações dos mais importantes de história durante a segunda metade do século XIX. Formando-se em 1888 e
trabalhos posteriores sobre o período, como os de Maria Beatriz Nizza da sendo então republicano, "uma urticária de sangue novo", ingressou dois anos
Silva, de Maria Odila Silva Dias, de José Muri10 de Carvalho e de Valentim depois no serviço diplomático brasileiro, nomeado adido de primeira classe à
Alexandre. 5 Como J. Burckhardt, em relação ao Renascimento, ou J. Huizinga, legação de Lisboa pelo novo governo que derrubara a monarquia em 1889.
em relação ao outono da Idade Média, Oliveira Lima, com este livro, reconstituiu Mais tarde, serviu em Berlim, Londres, Tóquio, Caracas, Bruxelas e Washing-
uma época, resgatando dos arquivos, que freqüentou com prazer, os elementos ton. Nesta última cidade, após aposentar-se, radicou-se, passando a lecionar,
indispensáveis para que ela seja vista como algo distinto, específico. Por con- "por ironia do destino", direito internacional na Universidade Católica, à qual
seguinte, capaz de sugerir indagações àqueles, como nós, que, vivendo numa doou uma preciosa coleção de 40 mil volumes, que hoje constitui a Oliveira
Lima Library. Faleceu em 1928, sendo enterrado nos Estados Unidos, com
instrução de jamais ser removido, sob uma lápide, feita com pedra enviada de
4 A expressão entre aspas provém de Oliveira Lima, Don Quixote Gordo (1968), apud Wilson Pernambuco, em que mandara escrever: "Aqui jaz um amigo dos livros".
Martins, "Prefácio à terceira edição", cit., p. 19. Para Freire, ver o trabalho de Elide Rugai Bastos, Ao longo dessa trajetória, suas opiniões francas, sua independência, suas
"Gilberto Freire, Casa-grande & senzala", em Lourenço Dantas Mota (org.), Introdução ao Brasil.
invectivas contra os poderosos, quando julgava a causa justa - ainda que a de
Um banquete no trópico (2 1 ed. São Paulo: Editora SENAC São Paulo, 2000), pp. 215-233.
, Ver, por exemplo, respectivamente, Maria Beatriz Nizza da Silva, Cultura e sociedade no Rio de um humilde telegrafista ou a de um desprotegido professor de inglês - e sobre-
Janeiro (1808-1821) (São Paulo: Nacional, 1977); Maria Odila Silva Dias, "A interiorização da tudo suas convicções monárquicas criaram-lhe mais embaraços do que vanta-
metrópole", em Carlos Guilherme Mota (org.), 1822: dimensões (São Paulo: Perspectiva, 1972), gens em meio aos grupos e interesses que caracterizaram o início do regime
pp. 160-184; José Murilo de Carvalho, A construção da ordem (Rio de Janeiro: Campus, 1980);
e Valentim Alexandre, Os sentidos do império (Porto: Afrontamento, 1993). Para Varnhagen,
republicano, levando-o a considerar que ter caráter "é sempre um atraso na
ver, neste volume, o trabalho de Lucia Maria Paschoal Guimarães. vida". Apesar disso, cumpriu suas missões diplomáticas com rara competên-

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D. JOÃO VI NO BRASIL GUILHERME PEREIRA DAS NEVES

cia, divulgou o Brasil no exterior por meio de conferências e deixou uma vasta considerável a atividade diplomática, em função não só do período e de sua
obra, que só recentemente voltou a despertar a atenção, com a reedição, além própria formação, como também do uso que soube fazer das correspondências
do D. João VI, de Pernambuco: seu desenvolvimento histórico (1894), de consulares, que a sua posição lhe franqueava.
Formação histórica da nacionalidade brasileira (1911) e de No Japão: Nascido com a Paz de Vestfália, em 1648, o mundo da diplomacia mo-
impressões da terra e da gente (1903).6 dema adquiria nesse momento, graças aos problemas levantados pela Revolu-
Cosmopolita por formação e experiência, Oliveira Lima reputava "absur- ção Francesa de 1789 e pelas campanhas militares de Napoleão Bonaparte _
da e insuportável a fórmula inglesa - right or wrong my country, de um e ainda graças à consolidação dos Estados, ao surgimento da opinião pública e
patriotismo estreito e inexorável", preferindo ver a si mesmo como "bem nacio- à melhoria das comunicações, com o funcionamento mais regular dos correios
nal sem ser nacionalista" e procurando "alimentar um interesse compreensivo e o aprimoramento dos transportes - os contornos que conservaria até a Se-
pelas coisas do mundo". Essas preocupações transparecem de seus livros, em gunda Guerra Mundial. Nesse ambiente, a instalação excêntrica da Corte por-
que a perspectiva ampla e o esforço de compreensão dos diversos atores en- tuguesa na América exigiu um esforço extraordinário dos representantes
volvidos situam-no com freqüência à margem das correntes dominantes na diplomáticos estrangeiros credenciados no Rio de Janeiro, como igualmente
época, quase sempre orientadas por um nacionalismo bisonho. Como historia- dos portugueses atuando na Europa, do que resultou uma massa de documen-
dor, da mesma forma que Capistrano, outro original com quem se correspondia, tos valiosos, que Oliveira Lima soube utilizar como poucos.
deu continuidade ao trabalho nos arquivos inaugurado por Varnhagen, mas Portugal, após a Restauração de 1640, ocupou sempre um lugar marginal
infudindo-o com novas preocupações. Melhor do que ninguém, talvez ele pró- nesse intrincado tabuleiro, mas se o ouro do Brasil, durante o reinado de D.
prio tenha salientado suas qualidades ao traçar o perfil de João Lúcio de Aze- João V (1706-1750), e as medidas violentas do marquês de Pombal, como
vedo: ministro todo-poderoso de D. José I (1750-1777), deram-lhe um certo papel na
Europa, o tumultuado último quartel do século XVIII deixou-o numa posição
uma inteligência curiosa, penetrante e compreensiva, escrevendo história como ne- particularmente delicada. Segundo Oliveira Lima, o "imenso império colonial,
nhum outro no Portugal contemporâneo porquanto reúne à paixão do documento uma
tão vasto quanto vulnerável, estava no mais completo desacordo com os meios
segura dedução sociológica e uma pronta interpretação filosófica, tanto mais sugesti-
va quanto evita parecer impor-se [ ... ]'
de ação de que a metrópole dispunha para o defender e manter".8 Compreen-
dem-se, assim, as hesitações e os impasses da diplomacia portuguesa, a partir
de 1790, analisadas na "Introdução", dividido o Reino entre o temor às novas
idéias, de que a França se tomava o principal foco, e a necessidade de utilizá-
A OBRA: A DIMENSÃO POLÍTICA E DIPLOMÁTICA las, a fim de aprimorar o funcionamento do Império; entre o velho fantasma
da anexação pela Espanha, movendo-se na órbita francesa, e o receio de que
Diplomata por vocação e por gosto, Oliveira Lima estruturou o D. João a fragilidade do ultramar atraísse a cobiça da Inglaterra, a despeito da longa
aliança entre os dois países.
VI no Brasil a partir de uma narrativa cronológica dos acontecimentos, ainda
que maleável, desde a decisão de transferir a corte de Portugal para o Brasil, Após a ridícula guerra de 1801 contra o vizinho ibérico, de que resultou a
concretizada em 1808, até o seu regresso, em 182l. Nela assume um peso perda da praça de Olivença, na fronteira, as intrigas e as pressões sobre Por-
tugal aumentaram, à medida que Napoleão se desembaraçava dos problemas
no Leste e se voltava para o Sul, obcecado em isolar a Inglaterra. Como resul-
• o primeiro saiu no Recife, pela Secretaria de Educação e Cultura, em 1975. Os dois outros, no tado, em 1807, a Europa oferecia um espetáculo extraordinário:
Rio de Janeiro, pela Topbooks, em 1997.
7 Manuel de Oliveira Lima, Memórias (estas minhas remimscências ... )(Rio de Janeiro: José
Olympio, 1937), p. 37, obra que Oliveira Lima deixou inconclusa ao falecer e que foi editada por • Manuel de Oliveira Lima, D. João VI no Brasil (3 1 ed. Rio de Janeiro: Topbooks, 1996), p. 23.
Gilberto Freire. Todas as informações biográficas e citações nesta seção provêm desse livro; Doravante, as citações dessa obra serão feitas a partir dessa edição, embora corrigidas, quando
assim como dos demais documentos incorporados ao volume. necessário, de pequenos erros tipográficos pela primeira edição de 1908.

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GUILHERME PEREIRA DAS NEVES
D. JOÃO VI NO BRASIL

o rei da Espanha mendigando em solo francês a proteção de Napoleão; o rei da Prússia Estabelecida a corte no Rio de Janeiro e tomadas as providências indis-
foragido da sua capital ocupada pelos soldados franceses; o Stathouder, quase rei da pensáveis, a imposição dos tratados de 1810 pela Inglaterra (capítulo IX) reve-
Holanda, refugiado em Londres; o rei das Duas Sicílias exilado da sua linda Nápoles; lou a continuada e inevitável dependência em relação ao tradicional aliado. Em
as dinastias da Toscana e Parma, errantes; o rei do Piemonte reduzido á mesquinha seguida, porém, as "intrigas platinas" (capítulo VII) mostrariam o surgimento
corte de Cagliari [ ... ]; o Doge e os X enxotados do tablado político; o czar celebrando
de interesses propriamente americanos, motivados pela antiga pretensão de
entrevistas e jurando amizade para se segurar em Petersburgo; a Escandinávia prestes
estender as fronteiras do Brasil ao Prata, que renasciam em função da inquie-
a implorar um herdeiro dentre os marechais de Bonaparte; o imperador do Sacro
Império e o próprio Pontífice Romano obrigados de quando em vez a desamparar tação das populações do vice-reinado, diante da acefalia do Trono espanhol na
seus tronos que se diziam eternos e intangíveis
9 Europa, e das atitudes da sempre inquieta Carlota J oaquinaY Esta sentia "em
si sobeja virilidade para ser ela o Rei" e com ela fora "supinamente inclemen-
Nessas condições, após sucessivas tentativas de apaziguar a França, que te" o fado, "reduzindo-a à inação e à impotência quando [a natureza] a dotara
abalaram a aliança inglesa, a decisão de partir para o Brasil, com raízes no para querer e dominar, ver e resolver por si, para ser uma Isabel de Inglaterra
passado remoto, e longamente ponderada, revelou-se muito mais "como uma ou uma Catarina da Rússia".n Rodrigo de Sousa Coutinho, agora conde de
inteligente e feliz manobra política do que como uma deserção covarde".1O Linhares, quis inicialmente impor uma tutela portuguesa ao Prata, mas não
Em contraponto a uma tradição estabelecida pelo Instituto Histórico e tinha condições de efetivá-la. Em seguida, pensou-se numa regência de D.
Geográfico Brasileiro (mas não por Varnhagen) de desprezar as tradições por- Carlota para a região, mas o projeto gorou. Em 1811, uma intervenção militar
tuguesas, a fim de erigir uma tradição nacional, fundada na imagem do i~d~ge­ portuguesa no atual Uruguai, alegadamente para conter os conflitos locais,
na e da natureza tropical idealizada, Oliveira Lima, a essa percepção ongmal acabou anulada pela pressão inglesa e pelas dificuldades da empresa, voltando
quanto à mudança da sede do trono, acrescenta uma outra, que até hoje não f~i tudo à situação inicial. Conforme Oliveira Lima, "nesse malfadado imbroglio
examinada com o cuidado que merece. Trata-se da idéia de que o estabelecI- platino cada qual procurava enganar o outro, adversário ou amigo, todos afinal
mento da Corte na América traria as condições para fundar um novo império, se enganando a si mesmos".14
mas desenvolvida a partir da concepção de um império luso-brasileiro, apre- Paralelamente, problemas semelhantes colocavam-se em relação à
sentada por Rodrigo de Sousa Coutinho, secretário da Marinha e do Ultramar Espanha, cujo rei legítimo renunciara por imposição de Bonaparte, sendo subs-
entre 1796 e 1801, como forma de manter a integridade do conjunto ameaçada, tituído no trono por um irmão do general, levando à formação da Junta de
em uma "Memória" de 1797-1798, que aparentemente o autor do D. João VI Cádiz. Apesar dos esforços de Pedro de Sousa e Holstein, futuro conde de
não conheciaY Essa intenção, reagindo com os acontecimentos na Europa, Palmela, como representante português nessa última cidade, as tentativas de
com as condições do Brasil e de Portugal e com as limitações políticas e soci- colocar D. Carlota como regente dos domínios de sua família acabaram igual-
ais das tradições luso-brasileiras, daria origem, como mostra Oliveira Lima nas mente bloqueadas pela Inglaterra, à qual não interessava a eventual união das
páginas finais do primeiro capítulo, a uma série de antinomias, responsáveis, duas monarquias ibéricas (capítulo VIII).
em última análise, pelo rompimento de 1822. Ao contrário, a conquista da Guiana Francesa (capítulo XI) foi "um feito
[ ... ] mais de natureza a produzir efeito, do que de real importância pelos seus
efeitos duradouros",15 não chegando jamais o território a ser declarado parte
, Ibid., p. 49.
10 Ibid., p. 43.
integrante dos domínios portugueses. Ao ocupar Caiena ainda em 1808, com
11 A melhor edição disponível da "Memória sobre o melhoramento dos domínios de Sua Majestade

na América" encontra-se em Andrée Mansuy Diniz Silva (org.), D. Rodrigo de Sou::a Coutinho:
textos políticos, económicos e financeiros (1783-1811), vol. 2 (Lisboa: Banco de Portugal,
12 Quanto aos movimentos de independência no vice-reinado do Prata, ver François-Xavier Guer-
1993), pp. 47-66. Para a idéia de império luso-brasileiro, ver ainda Kenneth Maxwell, "A
ra, Modernidad y independencia (México: Fondo de Cultura Económica, 1993).
geração de 1790 e a idéia do império luso-brasileiro", em Chocolate, piratas e outros malandros:
13 Manuel de Oliveira Lima, D. João VI no Brasil, cit., p. 177.
ensaios tropicais (São Paulo: Paz e Terra, 1999), pp. 157-207; Maria de Lourdes Viana Lyra, A
14 Ibid., pp. 209-210.
IItopia do poderoso império (Rio de Janeiro: Sette Letras, 1994); e, sobretudo, o já citado Os
II Ibid., p. 289.
sentidos do império, de Valentim Alexandre.

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D. JOXO VI NO BRASIL GUILHERME PEREIRA DAS NEVES

apoio inglês, o que a corte do Rio de Janeiro visava "era ter o que restituir na devolu~ãO do territ~rio de Olivença, perdido para a Espanha na guerra de 1801;
paz geral que fatalmente devia rematar o período das guerras napoleônicas",16 a ~xaçao da fronteira norte com a Guiana Francesa de acordo com o estabe-
a fim de assegurar os tradicionais limites americanos setentrionais, fixados lecld~ ~~ Ut,re~ht; e ~ ~e.fesa do tráfico de escravos, cuja abolição a pressão
pelo tratado de Utrecht (1713), que a Inglaterra havia alterado, sem consenti- da oplmao pubhca bntamca exigia. 17 Misturavam-se, assim, interesses ameri-
mento de Portugal, no acordo de Amiens com a França em 1802. canos e europeus do império, que: apesar das habilidades do negociador,
Dispostos, assim, os fios, o tear de Oliveira Lima os combina, em segui- P~lmela: acabaram por mostrar-se Inconciliáveis. Embora elevado o Brasil a
da, numa série de capítulos (do XII ao XVII). Árduas para os não-iniciados no reinO umdo a Portugal e Algarves, a antiga metrópole pennanecia aos olhos
jogo diplomático, repletas de minúcias de procedimentos de agentes que não se europeus um paí~ insigni.ficante e, ademais, na órbita de influência inglesa, não
furtam a recorrer à dissimulação e à bravata, e dificeis de captar nas suas merecendo por ISSO maiOres considerações, nem mesmo da Inglaterra. Em
linhas gerais, essas páginas, não obstante, constituem o coração do livro, em compensação, a .i~possibilidade de convencer a Espanha a ceder Olivença, as
torno das quais articulam-se os demais assuntos. Trata-se, em suma, de anali- demoras em deCIdIr as fronteiras com a Guiana e o limitado sucesso de con-
sar a posição da monarquia sediada no Rio de Janeiro em relação ao cenário servar o tr~fico ao s~,l ?O Eq~ador por mais alguns anos, além de pequenas
internacional, após a paz na Europa, e de verificar o complexo xadrez de inte- compensa~oe~ pecumanas, deixaram as mãos livres à corte no Rio de Janeiro
resses, que a transmigração de 1808 produzira no interior do império luso- para seus intUitoS expansionistas.
brasileiro. De fato, a,"o~upação da Banda Oriental foi o maior desforço, e desforço
Na realidade, a derrota de Napoleão colocara novamente em questão a tomado pelo pnnclpe regente e seus conselheiros em oposição a toda a Euro-
natureza da estadia da Corte na América e o projeto de um novo império a que p~, mesmo. co~tra o aliado inglês, do que Portugal deixara de alcançar em
ela dera origem. Nada mais impedia o regresso de D. João a Lisboa, a não ser Viena e de Justiça lhe cabia".18 Aproveitando-se de uma conjuntura favorável
a consciência da segurança de que gozava ao residir além-mar, distante por- n~ ~uropa, a invasão justificou-se em função da anarquia reinante em Monte-
tanto dos centros de poder europeus, e a percepção, já expressa por Rodrigo ~Ideu, p~~vocada pelas incursões dos bandos annados de Artigas, para quem
de Sousa Coutinho desde o final do século XVIII, quanto à irrelevância do espanhOls, portenhos e portugueses eram em grau igual detestáveis ", 19 e que
pequeno reino diante das dimensões de seus domínios ultramarinos. No entan- ta~~~uc.o agradava ao sempre instável governo de Buenos Aires. Na Europa,
to, de um lado, para o jogo político das potências reunidas no Congresso de a iniCiativa desencadeou seguidas negociações, conduzidas por Palmela do
Viena, assim como para os habitantes da antiga metrópole, agora administrada la~~ P?rtuguês, mas ?~S quais pouco resultou de concreto, apesar da oposição
por uma regência sob a tutela da Inglaterra e quase reduzida à condição de bn~anlca ao ~esto militar .de D. João e da pennanente ameaça espanhola, ja-
colônia, não se concebia que o Brasil assumisse o papel que todos julgavam mais concretizada, de enviar uma expedição militar ao Prata.
pertencer a Portugal. De outro, as possibilidades oferecidas pela experiência . T~l.situação transfonnou o Rio de Janeiro no centro de uma atividade
di reta do Novo Mundo tinham crescentemente interiorizado a metrópole nos dIP.lo~atIca ainda mais intensa, como a do inteligente núncio Caleppi, e plena
trópicos e, diante da fragilidade da Espanha e da instabilidade no Prata, de inCidentes, como o do comportamento inadequado do enviado russo Balk-
redespertado os sonhos expansionistas da corte em relação à região. Criava- Poleff, em cuja descrição sente-se todo o gosto de Oliveira Lima pela c~rreira
se, dessa forma, uma situação ambígua, que comandaria o vaivém das deci- que abraçara (capítulo XXI). Paralelamente, procurando libertar-se da sufo-
sões nos anos seguintes. cante in~uência inglesa e tendo constatado a inclinação da Rússia pela Espanha,
Em Viena, os representantes portugueses, há mais de quatro meses de em funçao das promessas de uma base naval no Mediterrâneo, a corte do Rio
comunicação com a Corte, jogaram "às cegas um jogo de que se não conhe-
ciam todas as regras", procurando resolver as três questões mais prementes: a
17 A expressão entre aspas é de Valentim Alexandre, op. cit., p. 297, o melhor estudo sobre o
assunto posterior a Oliveira Lima.
18 Manuel de Oliveira Lima, D. João VI no Brasil, cit., p. 371.
lO Ibid., p. 29l. 19 Ibld., p. 373.

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D. JOÃO VI NO BRASIL GUILHERME PEREIRA DAS NEVES

de Janeiro buscou uma reaproximação com a Áustria, efetivada pelo casa- A OBRA: A DIMENSÃO SOCIAL E CULTURAL
mento do herdeiro D. Pedro com a princesa Leopoldina em 1817.
Como resultado, em 1820, D. João VI continuava a dar todos os indícios Se OS acontecimentos políticos e o jogo das intrigas diplomáticas servem
de que permanecia fiel ao sonho do novo império que viera buscar na América. de espinha dorsal ao D. João VI no Brasil, são, no entanto, as análises sociais
Nesse ano, porém, a sublevação do Porto logo estendeu-se à antiga metrópole e culturais que lhe emprestam a profundidade e a densidade de obra-prima.
como um todo, convocando-se cortes para a elaboração de uma constituição e Nesse sentido, os capítulos II, "A ilusão da chegada: o que era a nova corte",
exigindo-se a volta do soberano. Este, "o único otimista, e do gênero voluntá- e III, "O que era o resto do Brasil", servem de quadro geral, retomando um
rio, que é o mais dificil de se deixar abalar", foi surpreendido pelos aconteci- l)1odelo proposto por Varnhagen, mas acrescentando-lhe cor e movimento,
mentos, deixando-se cair em abatimento. "A sua finura como que se extraviara, como faria igualmente Capistrano de Abreu, quase na mesma época, com
e a sua prudência tanto se desaprumara com o balanço, que degenerava nessa uma técnica diferente, no célebre "Três séculos depois" dos Capítulos de
emergência na mais improficua vacilação. "20 Apesar disso, a solução era cla- história colonial. 26 Ao passo que o visconde de Porto Seguro procede de
ra: ou partia o rei ou enviava-se o príncipe herdeiro para Portugal, dividindo-se maneira pedestre e quase exclusivamente informativa, imaginando fornecer
a família real, a "beneficio de sua própria conservação", pois na raiz do proble- uma idéia do território americano enquanto "os príncipes e toda a real família
ma encontrava-se a "discórdia criada entre as duas metades da monarquia, bragantina" navegavam "através do Atlântico"; e que o genial cearense pro-
das quais uma reclamava a sua dinastia, sob pena de fazer voar o trono em curava caracterizar a obra de colonização portuguesa em umas poucas pin-
estilhaços, e a outra timbrava em conservar a investidura recebida de cabeça celadas altamente sugestivas, Oliveira Lima esparrama por quase sessenta
do império".21 páginas uma multidão de detalhes, integrando-os no enredo de uma grande
Nos meses que se seguiram, à indecisão das autoridades contrapôs-se o peça dramática.
crescente entusiasmo pela corrente constitucional, "em comunicação com os
dínamos de Lisboa",22 que contagiou o Brasil de norte a sul, a partir do Pará, O desembarque da família real portuguesa no Rio de Janeiro, aos 8 de março de 1808,
passando pela Bahia, até alcançar o Rio de Janeiro em 26 de fevereiro de foi mais do que uma cerimônia oficial: foi uma festa popular. Os habitantes da capital
1821. Evidenciava-se, assim, que, embora os brasileiros preferissem "geral- brasileira corresponderam bizarramente às ordens do vice-rei conde dos Arcos e
saudaram o príncipe regente, não simplesmente como o estipulavam os editais, res-
mente que o rei ficasse, [ ... ] não mais os satisfazia o velho estado de coisas".23
peitosa e carinhosamente, mas com a mais tocante efusão. Dom João pôde facilmente
Enquanto o soberano ainda hesitava entre partir ele próprio ou enviar o herdei-
divisar a satisfação, a reverência e o amor que animavam seus súditos transatlânticos
ro da coroa, "sem ousar contudo pronunciar umfico", a união de sentimentos nos semblantes daqueles que em aglomeração compacta se alinhavam desde a rampa
de ambos os lados do Atlântico fazia de 1821 "o ano português", assim como do cais até a Sé, que então era a igreja do Rosàrio; os sacerdotes paramentados de
as divergências que se seguiriam fariam de 1822 "o ano brasileiro".24 Nessas pluviais de seda e ouro, incensando-o, ao saltar da galeota, com hissopes de ouro,
condições, após os trágicos episódios da praça do Comércio de 21 de abril, a tanto quanto os escravos humildes que de precioso só podiam ostentar num riso feliz
as suas dentaduras nacaradas 17
partida de D. João, menos de uma semana depois, carregando consigo a "de-
silusão do regresso" (capítulo XXX), tanto teve "de soturna", quanto "tivera
de alegre a chegada''.25 Anuncia, assim, sem parecer impor-se, a segura dedução sociológica e a
pronta interpretação filosófica que admirava em João Lúcio de Azevedo, utili-

lO Ibid., p. 635. 26 Para Capistrano de Abreu, ver o trabalho de Ronaldo Vainfas, "Capistrano de Abreu, Capítulos de
21 Ibid., p. 648. história colonial", em Lourenço Dantas Mota (org.), Introdução ao Brasil: um banquete no
!2 Ibid., p. 665. trópico, cit., pp. 171-189. Para Varnhagen, ver o capítulo XLIX, "Continuação. O Brasil e suas
l3 Ibid., p. 661. capitanias durante a regência em Lisboa", de História geral do Bras/I, vol. 5 (3 1 ed. São Paulo:
24 Ibid., p. 680. Melhoramentos, s/d), pp. 65-102.
" Ibid., p. 691. 27 Manuel de Oliveira Lima, D. João VI no BraSil, cit., p. 65.

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D. JOÃO V! NO BRASIL GUILHERME PEREIRA DAS NEVES

zando-as em seguida para ver na estadia de D. João no Brasil muito mais do Sérgio Buarque de Holanda de Raízes do Brasil,33 escrito quase trinta anos
que um episódio. Reveste-a com a dimensão de um conflito de culturas - entre mais tarde, considerava que a
a cerimônia oficial e a festa popular; entre a etiqueta cortesã e a efusão espon-
tânea da população; entre os hissopes dourados dos clérigos e as dentaduras hipocrisia, que os ingleses denominam a sombra da virtude, é um traço pouco peculiar
nacaradas dos escravos - do qual nasceria o país independente. Revela-se, à raça latina, mas no Brasil a sua carência não significava infelizmente franqueza e
rijeza de caráter. Denunciava pelo contrário escassez de sólidas qualidades, a incons-
dessa forma, um precursor da idéia de processo civilizatório proposta por
ciência do mal, a falta de uma alavanca moral que não fosse a pura superstição
Norbert Elias;~ ao falar de "aparelho de aquisição mental'',"9 intui o que Lucien religiosa, a ignorância comum numa sociedade que não só não tinha ainda ao seu
Febvre quis dizer com o conceito de instrumentos mentais;30 e mostra-se alcance os meios de se ilustrar, como revelava geral antipatia ao ensino e limitada sede
sensível aos mesmos detalhes do cotidiano que posteriormente iriam deleitar de angariar conhecimentos. As exceções, mesmo numerosas, não invalidam a regra. l4
Gilberto Freire:
Por isso, não podia deixar de valorizar a obra civilizatória que a presen-
A família concentrava-se toda na sala de trás, espécie da que nas casas alemãs chamam ça da corte ensejou, em particular ao adotar uma política liberal para com os
Berlinerzimmer, onde tinham lugar as refeições, sobre uma mesa ou no chão, comen- estrangeiros, "a mais antiga afirmação da concepção [no Brasil] de que o
do-se com facas ou com a mão; executavam cabriolas as crianças educadas com capri-
homem é cidadão do mundo". No entanto, razões
chos e sem roupas, e se conservava todo o dia, de pernas cruzadas sobre uma esteira,
a dona da casa, rodeada das mucamas, costurando, fiando, fazendo renda, armando
múltiplas e sobretudo a falta de correspondência entre esse programa progressivo e a
flores de seda e papel, batendo bolos gostosOS. ll
atmosfera social do Brasil, obstaram a que a imigração fosse desde o seu início um
fator importante do nosso adiantamento, mas o inquestionável é que então se inaugu-
E, para tanto, recorria, sempre com um extremo cuidado, a um conheci- rou uma nova ordem de coisas. Que menos do que revolucionária se pode chamar uma
mento extraordinário dos viajantes, tanto daqueles mais conhecidos, como política que ia dotar o Brasil de todos os órgãos pelos quais se exercem numa comu-
Luccock, quanto daqueles então quase ignorados, como Tollenare, além de nidade as funções judiciárias, administrativas e econômicas tais como tribunais, jun-
praticamente ter sido o responsável pela divulgação da excepcional correspon- tas, conselhos e bancos, insuflando-lhe deste modo vida independente? E, todavia, a
dência do sempre insatisfeito funcionário da chancelaria-mor do reino, Luís revolução seria conservadora, pois que presidiria às reformas intentadas pelo trono
um certo, um forte socialismo de Estado, muito parecido com o paternalismo, num
Joaquim dos Santos Marrocos, posteriormente publicada nos Anais da Biblio-
tempo e num meio aliás em quc cra ele absolutamente indispensável, mesmo porque
teca Nacional. a atividade individual, além de inexperiente no empregar-se isolada e desajudada,
Por trás dessa percepção encontrava-se a ótica cosmopolita de Oliveira tropeçava em mil embaraços criados e levantados pelo próprio governo 35
Lima, que desprezava o "patriotismo", mas não era imune "ao amor da terra
natal", algo, para ele, inteiramente diverso?" Na realidade, como Varnhagen, o A esse Brasil, até então "em grande parte percorrido, pode mesmo dizer-
autor de D. João VI no Brasil não desprezava a herança portuguesa, mas, se até certo ponto explorado, mas quase nada estudado" e que se abriu "oficial-
como Capistrano, dava-se conta da fragilidade dos elementos constitutivos da mente ao mundo" em 1808,36 a presença da coroa trouxe uma atividade
civilização ocidental, nascidos das Luzes setecentistas, com que os três sécu- desconhecida, inicialmente impulsionada por Rodrigo de Sousa Coutinho, cuja
los de colonização tinham dotado o Brasil.·Num diagnóstico que faz pensar no idéia fundamental

28 Ver O processo civIll::atório, 2 vols. (Rio de Janeiro: Zahar, 1993).


29 Manuel de Oliveira Lima, D. João VI no Brasil, cit., p. 7\. 3J Ver o trabalho de Brasílio Sallum Jr., "Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil", em Lourenço
30 Le probleme de I 'incroyance au XV!' siecle: la religion de Rabelais (Paris: Albin Michel, 1968). Dantas Mota (org.). Introdução ao BraSIl. Um banquete no trópico, cit., pp. 235-256.
[Em francês, a expressão é "outillage mental".] l4 Manuel de Oliveira Lima, D. João VI no Brasil, cit., p. 84.

II Manuel de Oliveira Lima, D. João VI no BraSIl, cit., p. 82. " Ibid., pp. 85-86.
32 Manuel de Oliveira Lima, Memórias (estas minhas reminiscências), cit., p. 19. 36 Ibid., p. 89.

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D. JOÃO VI NO BRASIL GUILHERME PEREIRA DAS NEVES

parecia ser a de acelerar extraordinariamente o movimento sem mudar o sistema do ação. A mudança da corte transformara com efeito o Rio de Janeiro no centro do
maquinismo, apenas aumentando-lhe as peças e carregando demasiado a pressão. Na Império Americano, no que Lisboa era previamente para esses fragmentos geogra-
lida não ocorria ao precipitado engenheiro indagar se a velha e carcomida armação ficamente anexos e moralmente esparsos da monarquia portuguesa, agora unidas de
agüentaria a refrega. 37 um reino quase autônomo. 41

Os efeitos se fizeram sentir a princípio na própria cidade do Rio de Janei- Nesse aspecto, os capítulos sobre o tráfico de escravos (X) e sobre o
ro, "uma espécie de Lisboa, irregular e ainda assim banal, com os documentos tratamento dos índios (XIX) não trazem grandes novidades e não deixam de
artísticos de menos e uma frondosíssima vegetação a mais".38 Em nenhum revelar os preconceitos que Oliveira Lima partilhava com sua época, limitan-
setor, porém, eles se manifestaram mais claramente do que nos aspectos cul- do-se o primeiro à descrição das negociações diplomáticas quanto ao assunto
turais, abalados desde 1759 pelo "duro golpe" que representara a expulsão dos a que o Congresso de Viena conduzira e servindo o segundo mais de oportuni-
jesuítas39 - compreensão, aliás, numa época marcada ainda por um intenso dade para tratar dos esforços empregados de maneira irregular para estimular
pombalismo antijesuítico, bastante original de Oliveira Lima. Apesar de ter a ocupação do interior. 4" Segundo ele, citando Euclides da Cunha ao final, a
fracassado o projeto de uma universidade, a criação da imprensa régia, o apa-
recimento de periódicos, a multiplicação de escolas profissionais, o crescimen- colonização do interior do Brasil, Dom João VI a encontrou e a deixou sob a forma de
um desbravar empírico, exercido a ferro e fogo, sem o aparelho apropriado nem
to do comércio livreiro, a vulgarização dos espetáculos de teatro e música, o
sombra de fundamento científico. Traduzia-se, como hoje ainda, pelas derrubadas e
tom geral menos predominantemente religioso propiciaram de fato a "emanci-
queimadas que, a pretexto de alargarem a zona de cultivação, estendiam, com a su-
pação intelectual" (capítulo V) da antiga colônia, cujos naturais já haviam par- pressão das matas, a área das secas para nela vegetar, sobre um solo que de fértil
ticipado intensamente da vida cultural da metrópole ao longo do século XVIII. passava a estéril, "e decaída pelo impaludismo, tão característico das regiões incultas,
Na realidade, a uma população de mestiços lamentáveis, agitantes num quase deserto"43

emancipação intelectual de uma minoria restrita, pode mesmo dizer-se ínfima, estava Ao que acrescentava um outro eco antecipado do Sérgio Buarque de
feita antes da chegada da corte: restava propagá-Ia, quando não entre a grande massa,
Holanda de "O semeador e o ladrilhador", ao considerar que "o português é
refratária a estudos mais sérios e cuja situação material não comportava cultura, pelo
por temperamento muito mais um explorador do que um colonizador" .44
menos entre as camadas de cima, às quais competia a função diretiva. 40
Em compensação, ao tratar de "A Revolução Pemambucana de 1817"
Essa obra, fruto dos treze anos do reinado americano de D. João, marcou (capítulo XX) - cujo principal depoimento, a obra de Francisco Muniz Tavares,
um divisor de águas: ele iria anotar minuciosamente alguns anos depois 45 - Oliveira Lima demons-

Foi como se houvesse começado uma era nova na existência política do Brasil.
41 Ibid., p. 169.
Principiou desde então o país a ter, não mais a suposição mas a consciência da sua
importância. As capitanias estavam dantes separadas, algumas eram até hostis. 4' Em seguida à publicação de D. João VI no Brasil, constituiu-se uma extensa e diversificada
historiografia sobre a escravidão, assim como há pouco começaram a aparecer trabalhos signifi-
Acontecia o mesmo que na América do Norte durante o regime de dependência
cativos sobre os indígenas. Ver, entre as publicações mais recentes, Mary C. Karasch, Slave Life
colonial. O que lá fizeram a guerra de libertação e a obra do Congresso tão felizmen-
in Rio de Janeiro, 1808-1850 (Princeton: Princeton University Press, 1987); João Luiz R.
te continuada por Washington, aqui o fez a Coroa com a sua generosa iniciativa, que Fragoso, Homens de grossa aventura (Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 1992); Manolo G.
consagrou um estado de coisas criado pelas circunstâncias históricas, independente Florentino, Em costas negras (Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 1995); Luiz Felipe de Alencastro,
da sua vontade, mas também pelas múltiplas e esclarecidas medidas, filhas da sua O trato dos viventes (São Paulo: Companhia das Letras, 2000); Manuela Carneiro da Cunha
(org.), HistÓria dos índIOS no Brasil (São Paulo: Companhia das Letras, 1992); e John M.
Monteiro, Negros da terra (São Paulo: Companhia das Letras, 1994).
37 Ibid., p. 125. 43 Manuel de Oliveira Lima, D. João VI no Braszl, cit., p. 491.
JS Ibid., p. 67. 44 Ibld., p. 492.
J9 Ibid., p. 159. 4' Francisco Muniz Tavares, História da Revolução de Pernambuco em 1817 (3' ed. Recife:
40 Ibid., pp. 174-175. Imprensa Industrial, 1917).

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------------- -

~.
D. JOÃO VI NO BRASIL GUILHERME PEREIRA DAS NEVES

tra um grande equilíbrio e exemplar sobriedade. Não traça propriamente um


.....'
para exibir vigor material de que não dispunha, e manifestar entusiasmo mais geral,
.ft,,;
quadro do desenrolar do movimento, mas busca situá-lo em relação ao seu ainda que não mais ruidoso e consistente, do que o fornecido pelos vigários democra-
objeto central, a atuação de D. João. Começa por mostrar as primeiras notíci- tas que foram a cabeça e o coração do movimento, os senhores de engenho de sangue
azul, rivais natos dos mascates [ ... ] e os patriotas, em diminuto número, de biblios-
as sobre o acontecimento e reúne informações sobre as tensões em Pernambuco
sugestão, frutos das academias do Cabo e do Paraís0 48
na época, para concluir que a
Na corte, com os sucessos recentes das colônias espanholas em mente,
revolução de 1817 tem que ser examinada sobretudo pelo seu lado teórico, no seu
aspecto correlativo, em sua feição proselítica. Foi um sinal mais dos tempos, a mani-
o episódio despertou os maiores temores entre os diplomatas, mas sobretudo
festação de uma combinação de impulsos em que entravam o amor exagerado, literário na fidalguia e no comércio do Rio, que tomaram "a dianteira em todas as
se quiserem, filosófico mesmo, mas em todo caso ativo, da liberdade, e uma noção manifestações de solidariedade com Dom João VI", suprindo o erário vazio
jactanciosa da valia americana [ ... ] com muitos dons voluntários e empréstimos gratuitos. Entretanto, "derrubada
pelos próprios elementos conservadores e até populares da capitania", a revo-
Identifica, em seguida, o papel exercido "pela cizânia levantada 'entre os lução já se encontrava agonizante quando entraram em Pernambuco as tropas
nascidos no Brasil e os nascidos em Portugal''', motivo básico do qual da repressão, passando a proceder com uma rigidez que estava em desacordo
com o espírito das ordens recebidas, descontentando o soberano, por que com-
aparecem os outros como florescência e, cortados do pé, não significam bastante para bates, "lhes não proporcionara o fado na província que tivera a ousadia de
explicarem a sublevação, convindo notar que nos ciúmes nativistas, nem todos de
pensar e a loucura de tentar a sua independência democrática". 49
preponderância política, que a tradição consagrava, entravam em não pequena escala
zelos alimentados pelos nacionais dos bens alcançados pela atividade comercial dos
Finalmente, é nos dois capítulos sobre as festas na corte (XXV e XXVI)
portugueses 46 que surge a maior originalidade do livro, através da complementaridade que
se estabelece entre eles, indicando justamente a perspectiva fundamental do
Percebe, embora não saliente, os agravos ressentidos na periferia pela autor. Ao contrapor "O espetáculo das ruas" às "Solenidades da corte", Oli-
posição de centro que o Rio de Janeiro assumira, permanecendo o "governo veira Lima procurava ressaltar - sem esconder seus preconceitos, nem
das províncias" guiado pelos mesmos princípios daqueles das capitanias colo- tampouco um simpático faSCÍnio por usos e costumes que lhe eram estranhos -
niais, e ainda a peculiaridade pernambucana de uma "aristocracia territorial o conflito de culturas que marcava o país então e que permanece como um de
túrgida de orgulho de nascimento e de sentimento bairrista", que Evaldo Cabral seus maiores problemas.
de Mello iria mais tarde analisar. 47 Apesar disso, faltava à revolução uma base
social. O comércio, majoritariamente nas mãos de naturais de Portugal, As superstições continuam a florescer na nossa capital fluminense - um recente e
curioso inquérito sobre as religiões do Rio o demonstrou, exibindo nomeadamente em
toda a sua crueza as grotescas e terríveis superstições negras - mas não mais se
só podia ser adverso ao movimento emancipador e republicano, o qual não dispondo
ostentam como quando percorriam a cidade os vendedores de arruda, que todas as
senão Iimitadamente de forças regulares - as que se rebelaram fizeram-no por espírito
negras compravam para se preservarem de feitiçarias; ou se dava em cheio com um
de imitação muito mais do que por consciência patriótica e não ofereciam plena
ruidoso funeral de filho de rei africano (o qual continuara na escravidão a exercer
confiança em caso de incertezas - e tendo que lutar contra um sentimento monárquico
prestígio e autoridade sobre os ex-vassalos de seu pai), cujo cadáver fora velado por
que provou ser ainda fervoroso em muitos, ou pelo menos com o temor do desconhe-
deputações das diferentes nações da Costa, e se transportava numa rede, precedida de
cido entre a população de certa condição, carecia de apoiar-se nas camadas baixas. A
um negro atirando foguetes e bombas e de outros executando em todo o percurso
ralé é que afinal podia dotar a revolução do largo fundamento de que esta precisava
cabriolas pelo chão, e seguida de uma multidão cor de ébano, em parte silenciosa,

46 Manuel de Oliveira Lima, D. João VI no BraSIl, cit., p. 498.


47 Evaldo Cabral de Mello, Rllbro velO: o imagináno da restallração pernambllcana (2' ed. Rio de 48 Manuel de Oliveira Lima, D. João VI no Brasil, cit., pp. 503-504.

Janeiro: Topbooks, 1997) e A [ronda dos ma::ombos (São Paulo: Companhia das Letras, 1995). •• Ibid., pp. 510,513 e 517.

160 161
D. JOÃO VI NO BRASIL GUILHERME PEREIRA DAS NEVES

lúgubre e burlesca a um tempo, em parte tangendo instrumentos esquisitos e entoan-


, Diariamente, percorriam ainda as ruas da cidade o Viático, "levado aos
do cantigas estridentes.
monb~ndos ,e doentes debaixo do pálio ou da umbela, segundo o acompanha-
De fato, era "sobretudo a população de cor que emprestava à capital do men~~ la maIS ou menos lu,xuoso"; e, mais esporadicamente, o bando munici-
Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves o seu aspecto estranho e único na pal, proclamando aos habItantes algum acontecimento, auspicioso ou lutuoso
monarquia", documentado pelas litografias de Debret e Chamberlain, que for- ocorrido na corte", seguido pela "música de um regimento da milícia" ou '
" . . ,. , ' o
necem "uma idéia bastante precisa do que era o carnaval perpétuo dessa cida- smlstro prestIto dos condenados à morte",53 A noite, porém, os assaltos ten-
de sob muitos aspectos ainda colonial, sob outros, não menos abundantes, deram a multiplicar-se e, à falta de segurança, somava-se o temor de um le-
exótica, e apenas cortesã por algumas, mais raras, feições",5o vante da gente de cor,54
De início, a corte no Rio de Janeiro sofreu as limitações das circunstân-
Como, sem faltar à verdade de uma reconstrução literària, expulsar do tablado
c~as que tinham provocado a transferência para o Brasil. Num dos primeiros
fluminense da época esse mundo animado de barbeiros ambulantes armados de medo-
nhas navalhas, cesteiros vendendo os samburás que teciam, mercantes de galinhas, de dIas de grande gala passados na América, "formavam todo o cortejo seis seges
caça, de palmitos, de leite, de capim para forragem, de milho, de carvão, de cebolas e abertas puxadas ,por mulas e guiadas por negros pouco asseados", enquanto
alhos, de sapé para colchões, quitandeiras de angu e café, carregadores, condutores de D, Carlota J oaquma, "mais enérgica e varonil que o marido, preferia muito sair
carros de bois que chiavam desesperadamente pelas ruas sem calçamento ou a cavalo a ser sacudida pelas ruas mal calçadas e pelas estradas esburacadas",55
guarnecidas de lajes, puxadores de carretas com fardos, quatro adiante e dois atrás
~as cerimônias religiosas "o tom era menos de respeito que de folia", ressen-
empurrando, à moda japonesa?
tmdo-se o culto "do pouco recato dos eclesiásticos", em decorrência do clima
E, a esse cenário, ainda se acrescentavam "as mulatas da vida airada", da distância dos altos censores hierárquicos, da "relaxação que a existência d~
pavoneando-se como "sacerdotisas do amor fusco" em palanquins cobertos es~r~vidão emprestava aos costumes" e da "ausência de uma aguda questão
de esculturas douradas e fechados por pesadas cortinas de veludo e seda, relIgIOsa como a que no século XVI dotara de tanto valor e estimulara tanta
além das procissões, "fornecendo ocasião e pretexto para as elegâncias femi- virtude entre a combativa milíciajesuítica",56 Em 1810, o "cúmulo do burlesco"
ninas e as pompas das irmandades",51 foi atingido pelos festejos por ocasião do casamento da infanta Maria Teresa
A procissão do Corpo de Deus "assemelhava-se sem tirar nem pôr a "e que decerto procriaram o carnaval fluminense":
uma mascarada, compreendendo São Jorge a cavalo, o homem de ferro,
picadores e cavalos ricamente ajaezados da Real Casa, músicos negros de Duraram sete dias na praça do campo de Santana e, para amostra do que foi o desfilar
de carros alegóricos, basta referir que o primeiro, o dos mercadores, figurava um
vestes escarlates, atiradores de foguetes", ao passo que, em outra, a imagem
monte cor~ado pela estátua da América de arco, aljava, cocar e saiote de plumas,
da Virgem encontrava-se com a de Santa Isabel, mãe de São João Batista, cercada de mdlOs, quadrúpedes e pássaros assomando dentre as ervas e flores donde
tocando-se e beijando-se as duas, reproduzindo "na rua e ao natural a cena da também brotavam esguichos que aguavam a praça. Havia nos outros carros, ~fereci­
Visitação", A dos Passos "era toda de uma tonalidade roxa" e a de São Sebas- dos pelos ourives, negociantes de molhados, latoeiros, carpinteiros e outros como os
tião incluía inúmeros santos populares, como o preto São Benedito, que se
alternavam com
" Ibid., pp. 598-599, O tema das festas populares tem despertado um crescente interesse, Ver João
um rei, uma rainha, um papa com seu sacro colégio de cardeais e São Luís Rei de José, Reis, A morte é uma festa (São Paulo: Companhia das Letras, 1991); Martha Abreu, O
França transportando os três cravos e a coroa de espinhos, mas, sem respeito algum Impeno do dIvino (Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999); e William de Souza Martins, "Corpo
pelas tradições dos alfaiates medievais, regressando da cruzada com um fato do de Deus, corpo do reI: a procissão de Corpus Christi na corte do Rio de Janeiro (1808-1821)", em
século XVII, cabeleira de médico de Mo\iere e mantéu estrelado de mágico. l2 AnaIs da XVII ReUnião da SBPH, Sociedade Brasileira de Pesquisa Histórica Curitiba 1998 pp
177-181. ' , .,

54 Tema também explorado por João José Reis, Rebelião escrava no Brasil (São Paulo: Brasiliense,
'0 Ibid., pp. 593-594, 1986).
" Ibid., p. 595. " Manuel de Oliveira Lima, D. João VI no Brasil, cit., p. 81.
" Ibid., pp. 596-597. '6Ibid, , p. 621.

162 163
D. JOÃO VI NO BRASIL

denominaríamos hoje sindicatos profissionais, uma dança de chins, uma ilha do Pací-
T
I
GUILHERME PEREIRA DAS NEVES

antiportuguesa a debelada sedição pernambucana de 1817."60 Descia o pano


fico com seus indígenas, um castelo donde emergia uma dança militar, um escaler de sobre o reinado de D. João na América, mas afloravam, mais nítidas do que
marujos remando e cantando antes de desembarcarem e bailarem, um grupo de ciganos nunca, as tensões que levariam à desagregação do império luso-brasileiro.
com as mulheres nas garupas dos cavalos, até uma dança de homens disfarçados em
macacos, dando saltos, fazendo caretas, executando cabriolas, até formarem a pirâmi-
de humana - nil novi sub sole - e o macaquinho do tope desenrolar diante da tribuna
real [oO.] os retratos dos sereníssimos consortes
57 A ATUALIDADE DA OBRA

Gradualmente, porém, além do Palácio de São Cristóvão, criaram-se ins- Entre a ilusão da chegada de D. João ao Rio de Janeiro e a desilusão do
talações para a família real na ilha do Governador e na fazenda de Santa Cruz. regresso a Lisboa, Oliveira Lima não escreveu a biografia de um rei, mas
A cerimônia do beija-mão e as festas adquiriram uma certa pompa. A par- compôs, sob a forma de um drama, o retrato de uma época, em que o monarca
tir de 1813, a inauguração de um teatro no Rocio, subvencionado pela monar- assumiu o papel de protagonista. Na "essência um rei absoluto, mas na forma
quia, propiciou um espaço público inédito para a celebração dos aniversários um rei constitucional",61 D. João
da família real. Em 1815, a Capela Real já reunia um corpo de cinqüenta can-
não foi o que se pode chamar um grande soberano, de quem seja lícito referir brilhan-
tores e nela executava-se, por ocasião da Semana Santa, o Miserere de
tes proezas militares ou golpes audaciosos de administração: não foi um Frederico II
Pergolesi, "segundo os entendidos, [ ... ] com o mesmo encanto que em Roma,
da Prússia nem um Pedro I da Rússia. O que fez, o que conseguiu, e não foi afinal
na Capela Sistina", embora a rivalidade entre o músico mulato José Maurício pouco, fê-lo e conseguiu no entanto pelo exercício combinado de dois predicados que
Nunes Garcia e o reinol Marcos Portugal simbolizasse "correntes políticas cada um deles denota superioridade: um de caráter, a bondade, o outro de inteligência,
opostas", que antecipavam "o conflito artístico ao patriótico".58 o senso prático ou de governo. Foi brando e sagaz, insinuante e precavido, afável e
Essas mudanças transpareceram com a celebração do casamento entre pertinaz 6l
o herdeiro D. Pedro e a arquiduques a Leopoldina e, em fevereiro de 1818, com
a aclamação de D. João VI, "as mais solenes e deslumbrantes" festas reais Nesse trecho, como em muitos outros, Oliveira Lima revela também as
celebradas no Rio de Janeiro. 59 No largo do Paço, com projeto de Debret, suas qualidades de historiador. Do seu tempo e do seu meio, certamente, mas
erigiu-se uma galeria com dezoito arcadas e, ao centro, a tribuna em projeção com uma excepcional finura para avaliar os agentes históricos, sem desmerecê-
destinada à cerimônia, revestida no seu interior de veludo carmesim e pinturas los nem exaltá-los, e com um poder extraordinário para trazer à vida novamen-
alegóricas nos tetos. Junto ao cais, um templo de Minerva e um arco do triunfo te uma época distante, através da ampla documentação, imaginativamente
completavam a decoração da praça. O Campo de Santana, por sua vez, trans- interpretada, que consultou. Em suma, alguém que soube enxergar nos papéis
formou-se num jardim, tão feericamente iluminado que o cônsul francês o com- velhos dos arquivos "uma fresta no tecido dos dias, a visão esgarçada de um
parou às Tulherias em Paris. Na praça de touros aí existente, ocorreram os acontecimento inesperado". 63
festejos mais populares, efetuando-se evoluções militares e realizando-se dan- No entanto, se o D. João VI no Brasil se limitasse a isso , não seria
ças, além de representações de mágica, um bailado alegórico, a recitação de provável que continuasse a despertar a atenção senão dos historiadores profis-
sionais, seja para garimpar na mina de informações preciosas que reúne, seja
poesias e de discursos.
"Era a apoteose final. Em 1820 a revolução estalava em Portugal e ven- para satisfazer a perpétua curiosidade do artesão quanto à habilidade de um
cia: uma revolução que era antibrasileira, assim como fora uma revolução colega em resolver os problemas do oficio. No entanto, como salientou Roberto

60 1bid., p. 622.
61 Ibid., p. 152.
" Ibid., p. 607.
" Ibid., pp. 619-620.
6' lbid., p. 577.
63 Arlettc Farge, Le golit de ['archzve (Paris: Seuil, 1989), p. 13.
" Ibid., p. 608.

164 165
D. JOÃO VI NO BRASIL

DaMatta, Oliveira Lima, graças à trajetória marginal que percorreu com nossa
JOAQUIM NABUCO
elite, teve a sensibilidade necessária para detectar a "inusitada reversão hie-
rárquica" representada pelo estabelecimento da Corte na América, cujas im-
plicações simbólicas ainda estamos longe de captar com clareza.

o que fascina, pois, nesse livro, é menos os meandros de uma história política e
o abolicionismo
diplomática (verdadeira especialidade do seu autor) que os seus subtextos sociológi-
cos e culturais, quando ele reconstrói a sociedade local, mostrando um complicado
jogo de transformações e de permanências que vão além do choque de duas culturas,
como ocorre nas situações coloniais clássicas. Pois, no caso da vinda de dom João VI
para o Brasil, tanto o colonizador quanto o colonizado espelhavam-se um no outro,
vendo-se simultaneamente como estrangeiros e como donos da terra.
Marco Aurélio Nogueira
Dessa forma, a presença de um rei,

de certo modo, nos ajudou a confundir a lei com o poder autoritário, impedindo a
distinção entre personalismo e norma universal, como fazem prova nossos surtos de
autoritarismo, reveladores da saudade desse rei que, na visão ingênua do povo, tudo
podia, como os reis dos nossos reizados e carnavais. 64

Ou seja, esse livro de um pensador notável pela inteligência curiosa,


penetrante e compreensiva, escondido sob a figura de um historiador minu-
cioso, oferece a possibilidade de repensar, como é próprio às grandes obras de
história, as tradições das quais brotamos. Em particular, de um ponto de vista
mais estritamente histórico, ele nos faz indagar por que o Brasil não nasceu,
em 1822, das reivindicações de um sentimento compartilhado pela maioria da
população, mas, sim, de uma série de circunstâncias e de acontecimentos for-
tuitos, manipulados por interesses restritos, sob a égide de um anjo torto,
desses que vivem na sombra, vaticinando que a nação haveria de ser gauche
na vida.

64 Roberto DaMaUa, op. cito

166
Quando Joaquim Nabuco começou a escrever O abolicionismo, em
meados de 1882, o movimento em favor do fim da escravidão no Brasil estava
em crise. Um silêncio incômodo entrecortava a marcha claudicante da eman-
cipação.
Ainda que controlassem a Câmara dos Deputados e dirigissem os gabi-
netes parlamentaristas desde 1878, os liberais não haviam progredido em ter-
mos políticos e doutrinários. Permaneciam tímidos, sem apetite para imprimir
outra direção ao país, de modo a reformá-lo e modernizá-lo. Seu liberalismo
não s~ soltava, mantendo prudente distância das vertentes mais inflamadas ou
radicais que, na Europa, haviam se aproximado, por vias muitas vezes trans-
versas, da questão democrática e mesmo da questão social. A sombra do
conservadorismo não se dissipava, reiterando uma tendência incrustada no
processo mesmo da Independência: a mudança radical anunciava-se com fir-
meza, mas sempre acabava por ser assimilada e contida pelo jogo político
prevalecente.
Aos olhos de muitos, parecia estar se repetindo o que acontecera após a
lei de Eusébio de Queirós proibindo o tráfico (1850) e a Lei do Ventre Livre
(28 de setembro de 1871): uma profunda "calmaria da opinião, outra época de
indiferença pela sorte do escravo", como escreverá Nabuco. 1 A questão amea-
çava querer se acomodar ao tradicional marasmo da sociedade imperial, só
não o fazendo porque a dinâmica econômico-social impunha questionamentos
objetivos à continuidade do trabalho escravo. Além do mais, a conjuntura inter-
nacional não favorecia a reprodução do regime: o Brasil era um dos últimos
países escravocratas num mundo praticamente dominado pelo trabalho livre e
pela racionalidade industrial.
O país se candidatava à modernidade, começava a se desenvolver em
termos capitalistas, mas convivia com um regime de trabalho primitivo, retró-
grado, desumano e antieconômico. A escravidão era uma realidade injusta,
cruel e repulsiva: fornecia não só a força de trabalho fundamental para a eco-
nomia, como a base sobre a qual se erguia toda a sociedade nacional, com suas
castas privilegiadas e sua miséria, sua cultura elitista e seu sistema político
excludente, autoritário, discriminador. O contraste era gritante e logo se con-
verteria em contradição: ou se resolvia a questão do trabalho ou o progresso
ficaria comprometido. A realidade espelhava a constatação que Nabuco faria
em O abolicionismo: "a escravidão pertence ao número das instituições

1 Joaquim Nabuco, O aboilcionlsmo (6) ed. Petrópolis: Vozes, 2000), p. 26.

169
o ABOLICIONISMO MARCO AURÉLIO NOGUEIRA

fósseis, e só existe em nosso período social numa porção retardatária do globo, padecia de grande irregularidade operacional, não encontrava aliados entre as
que escapa por infelicidade sua à coesão geral"; trata-se de um fato que "não forças políticas e parecia se ressentir da falta de uma teoria que o balizasse e
pertence naturalmente ao estádio a que já chegou o homem". E isso tanto o explicasse. Era evidente que precisava encorpar e ganhar fôlego.
porque era uma ilegalidade infamante, uma afronta moral, quanto porque arrui- Para se recuperar do tropeço e colocar ordem nas idéias, Nabuco foi
nava economicamente o país e corrompia-lhe o caráter, atrasando seu cresci- para Londres. Terminará, na verdade, escrevendo um tratado sobre a escravi-
mento." dão e sobre as razões da Abolição. No prefácio do livro, datado de 8 de abril de
Mas o que era óbvio no plano objetivo não se traduzia em decisão políti- 1883, faria votos de que seus compatriotas acolhessem bem aquela "lembran-
ca. O imperador vacilava, dividindo-se entre a preocupação de parecer mo- ça de um correligionário ausente, mandada do exterior, donde se ama ainda
derno e o cuidado para não perder o apoio dos escravocratas, que a qualquer mais a pátria do que no próprio país". Sua expectativa era a de que as "semen-
momento poderiam ser arrastados pelo discurso republicano. E como o impe- tes de liberdade, direito e justiça" contidas naquelas páginas concorressem
rador era o vértice de todo o sistema, sua inação tendia a congelar o processo para unir "em uma só legião" os abolicionistas brasileiros e "apressar, ainda
de tomada de decisões. No quinto capítulo do livro, Nabuco se esforçará para que seja de uma hora, o dia em que vejamos a Independência completada pela
afastar ilusões e demonstrar que a causa ainda carecia de amadurecimento e Abolição e o Brasil elevado à dignidade de país livre".4
força. Ela talvez estivesse moralmente ganha, de modo a permitir que os O abolicionismo é, acima de tudo, um texto programático, destinado a
abolicionistas declarassem que "a maioria do país está conosco sem o poder impulsionar um movimento que ainda não havia conseguido sensibilizar de modo
manifestar". Na verdade, porém, a abolição era clara apenas "perante a opi- definitivo a opinião pública e claudicava. Desde o início Nabuco sabia estar
nião pública, dispersa, apática, intangível, não perante o parlamento e o gover- redigindo um "livro de propaganda política sobre a emancipação", um instru-
no, órgãos concretos da opinião", apenas "perante os partidos, não perante os mento meticulosamente desenhado para indispor a escravidão com os próprios
ministros, os deputados, os senadores, nem perante os eleitores que formam a senhores e chamá-los às suas responsabilidades. Não poupará palavras. Ata-
plebe daquela aristocracia"; perante "o Imperador como particular, não peran- cará "abusos, vícios e práticas" com o propósito de denunciar "um regime
te o Chefe do Estado". Em suma, ela só conseguia se impor "perante jurisdi- todo". Tinha clareza de que acabaria por ofender os que se identificavam com
ções virtuais, abstrações políticas, forças que ainda estão no seio do possível, a escravidão, mas sabia que não seria possível "combater um interesse da
simpatias generosas e impotentes, não perante o único tribunal que pode exe- magnitude e da ordem da Escravidão sem dizer o que ele é".5 Reagiria brava-
cutar a sentença da liberdade da raça negra, isto é, a Nação brasileira consti- mente, portanto, aos que acusavam o abolicionismo de ser um movimento
tuída".3 antipatriótico, que injuriava e prejudicava o país.
O próprio Nabuco havia perdido a cadeira de deputado em 1881. Apesar Mas o livro também reflete um esforço pessoal de Nabuco para dar a si
de ter sido eleito, em 1878, com base numa campanha quase formal, já que sua próprio e ao movimento uma melhor fundamentação teórica, algo que pudesse
eleição havia sido acertada entre os chefes políticos pemambucanos, compor- passar em revista os estragos da escravidão, aprofundar a autoconsciência
tou-se como um azougue em seu batismo de fogo parlamentar. Disparará con- dos abolicionistas e levá-los à vitória. Desse ponto de vista, o livro não se
tra tudo e contra todos. Aos 30 anos de idade (nascera em 19 de agosto de limitará a repetir as idéias em voga entre liberais e abolicionistas. Fará uma
1849, na cidade do Recife), estava no auge e encontrará naquele momento o defesa apaixonada da emancipação, mas irá além, articulando uma contunden-
eixo para articular sua trajetória futura: "A grande questão para a democracia te crítica das estruturas e instituições imperiais e propondo um amplo progra-
brasileira não é a monarquia, é a escravidão". A derrota será um claro indica- ma de reforma social. Seu maior interesse parecerá concentrado, portanto, em
dor de que as forças escravocratas ainda respiravam. O movimento abolicionista qualificar o discurso político dos que contestavam a escravidão.

2 Ibid., p. 89. 4 Ibid., pp. 23-24.


J Ibid., pp. 49-50. , Ibid., p. 167.

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-.
o ABOLICIONISMO MARCO AURÉLIO NOGUEIRA

o leitor que se dispuser a seguir a prosa vibrante de O abolicionismo irá tragos da escravidão. A denúncia minuciosa ocupará de modo destacado os
se deparar com um texto ao mesmo tempo analítico e normativo, explosivo e três capítulos do livro em que são examinadas as influências da escravidão
sereno, dedicado tanto a agitar e empolgar os espíritos quanto a sugerir uma sobre a nacionalidade, o território, a população, a sociedade e a política, mas
reflexão mais ponderada. Ficará certamente encantado com a habilidade de- aparecerá em todas as suas páginas e será exaustivamente repetida nas diver-
monstrada por N abuco para examinar friamente a realidade nacional e agre- sas oportunidades daquela década.
gar, à condenação ética e moral, uma justificativa teórica dos motivos que Naqueles dez agitados anos, Nabuco será o liberal avançado que não
exigiam o fim da escravidão. pudera ser antes nem conseguiria ser depois. Costurando com habilidade e
Do ângulo mais imediato, o livro cumprirá plenamente suas funções. Dará apuradíssimo senso estético as palavras, partirá de uma visão abrangente da
a Nabuco um instrumento com que voltar à vida política. Fornecerá a ele a situação nacional, buscando reter os efeitos que sobre ela produzia a escravi-
base de todas as intervenções nos anos seguintes, e, acima de tudo, o progra- dão. No capítulo em que expõe os "fundamentos gerais do abolicionismo",
ma com que fará a campanha eleitoral de 1884 no Recife, memorável pelo Nabuco sintetizará o problema. Deseja acabar com a escravidão, escreverá,
radicalismo e pelo entusiasmo popular que despertou. Em todas as disputas e não só porque ela é ilegítima e ilegal, mas também porque promove a ruína
ações dessa década, o programa traçado no livro pulsará com força. 6 material do país e impede o progresso: "habitua o país ao servilismo, desonra o
O abolicionismo também dará a Nabuco uma teoria para explicar o trabalho manual, retarda a aparição das indústrias, desvia os capitais do seu
país. Ainda que a consistência crítica e a combatividade inerentes ao livro não curso natural, excita o ódio entre classes, produz uma aparência ilusória de
tenham voltado a se repetir, a interpretação do Brasil nele contida permanece- ordem, bem-estar e riqueza, a qual encobre os abismos de anarquia moral,
rá. Alcançava-se ali, naquele aparentemente singelo "volume de propaganda", miséria e destruição". Em termos gerais, a escravidão atrasava o Brasil no seu
uma elaboração teórica para a abolição e para o entendimento do país. crescimento em comparação com os outros Estados sul-americanos que não a
Isso ocorreu porque Nabuco se posicionou com inteligência estratégica, haviam conhecido ou delajá se tinham livrado. A ser mantida, levaria forçosa-
explorando ao máximo uma tese engenhosa: a escravidão ocupava o centro do mente ao "desmembramento e à ruína do país". Justamente por isso, o regime
organismo social, formando um sistema completo, "uma atmosfera que nos en- escravo era algo anti-social, que impedia a convivência mesma dos brasileiros,
volve e abafa todos, e isso no mais rico e admirável dos domínios da terra". Sua acirrando os conflitos entre eles e condenando-os a formar "uma nação de
natureza era a de um regime que corrompe, debilita e degrada o conjunto da proletários".8
nação: "o nosso caráter, o nosso temperamento, a nossa organização toda, fisica, A escravidão degradava o conjunto da nação: embrutecia o escravo na
intelectual e moral, acha-se terrivelmente afetada pelas influências com que a senzala e esmagava o operário nas cidades, isso para não falar nos proprietá-
escravidão passou trezentos anos a permear a sociedade brasileira".? Pensar, rios de terras, nos lavradores que não eram proprietários, nos empresários
portanto, a escravidão, analisá-la e conhecê-la, era pensar o país como um todo. emergentes e nas classes médias. "Este terrível azorrague não açoitou somen-
te as costas do homem negro, macerou as carnes de um povo todo" - agiu
como "uma fábrica de espoliação que não podia realizar bem algum" e foi,
A ESCRAVIDÃO COMO FATO GLOBAL com efeito, "um flagelo que imprimiu na face da sociedade e da terra todos os
sinais da decadência prematura". Sua influência sobre a população e o territó-
A primeira grande trava de sustentação do discurso proposto por Nabuco rio havia sido em todos os sentidos desastrosa. "O caráter da sua cultura é a
em O abolicionismo estará constituída pela apresentação indignada dos es- improvidência, a rotina, a indiferença pela máquina, o mais completo desprezo
pelos interesses do futuro, a ambição de tirar o maior lucro imediato com o
menor trabalho próprio possível, qualquer que seja o prejuízo das gerações
6 Para uma visão abrangente da trajetória de Nabuco e em especial das inflexões registradas na
década de 1880, cf. Marco Aurélio Nogueira, As desventuras do lzberalismo: Joaquim Nabuco.
seguintes." Em vez de progresso e riqueza, o que fez foi "esterilizar o solo,
a monarquia e a república (Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1984).
7 Joaquim Nabuco, O abolicionismo, cit., pp. 110 e 28. • Ibid., pp. 91-92.

172 173
o ABOLICIONISMO MARCO AURÉLIO NOGUEIRA

embrutecer os escravos, impedir o desenvolvimento dos municípios e espalhar de tudo poder. Com isso, o sistema político em seu conjunto - partidos, parla-
em tomo dos feudos senhoriais o aspecto das regiões miasmáticas, ou devas- mento, eleições - ficava desequilibrado em suas funções e em sua atuação.
tadas pelas instituições que suportou, aspecto que o homem livre instintiva- Tendia a ser comido pelo autoritarismo. Intoxicado pelo "vapor pestífero" do
mente reconhece". 9 regime escravocrata, o poder se hipertrofiava, convertia-se em "toda a nossa
Passando pelo território nacional como um "sopro de destruição", a es- história", verdadeira "região das gerações espontâneas", numa clara demons-
cravidão extenuava o país. Sobre a população, seu principal efeito fora tração dos "efeitos mais incontestáveis do servilismo que a escravidão deixa
"africanizá-la, saturá-la de sangue preto", prova cabal de que havia fincado após si".13
raízes profundas na sociedade. 10 Jamais colocaria um imenso número de indi- Os efeitos desse processo eram fortíssimos sobre o funcionalismo, por
víduos "fora da sociedade, como na Grécia ou na Itália antiga"; iria, ao contrá- exemplo. "Das classes que esse sistema faz crescer artificialmente a mais
rio, se consolidar como instituição absoluta, totalitária, onipresente: a sociedade numerosa é a dos empregados públicos. A estreita relação entre a escravidão
estaria não só "baseada sobre a escravidão e permeada em todas as classes e a epidemia do funcionalismo não pode ser mais contestada que a relação
por ela, mas também constituída, na sua maior parte, de secreções daquele entre ela e a superstição do Estado-providência." Como se esperava tudo do
vasto aparelho". Todo o corpo social- "sangue, elementos constitutivos, respi- Estado, o funcionalismo se tomava "a profissão nobre e a vocação de todos",
ração, forças e atividade, músculos e nervos, inteligência e vontade, não só o operando como verdadeiro "asilo dos descendentes das antigas famílias ricas e
caráter, senão o temperamento, e mais do que tudo a energia" - ficaria afeta- fidalgas, que desbarataram as fortunas realizadas pela escravidão", como au-
do pela mesma causa. Isso, em boa medida, avaliará Nabuco, fora possível têntico "viveiro político, que abriga todos os pobres inteligentes, todos os que
porque a escravidão, "ainda que fundada sobre a diferença das duas raças, têm ambição e capacidade". Em decorrência, a classe dos que viviam "com os
nunca desenvolveu a prevenção da cor, e nisso foi infinitamente mais hábil". olhos voltados para a munificência do Governo" crescia sem parar, exigindo a
Impossibilitara, desse modo, que se perpetuassem "castas sociais" ou "divi- progressão constante do orçamento público e levando ao endividamento nacio-
sões fixas de classes". Ao longo dos séculos, ela "manteve-se aberta e esten- nal. Como a escravidão fechava todas as outras portas (da indústria, do co-
deu os seus privilégios a todos indistintamente: brancos ou pretos, ingênuos ou mércio, das letras, da ciência), ela acabava por criar, em tomo do funcionalismo,
libertos, escravos mesmos, estrangeiros ou nacionais, ricos ou pobres". Dessa "uma reserva de pretendentes, cujo número realmente não se pode contar".
forma, "adquiriu, ao mesmo tempo, uma força de absorção dobrada e uma Transformava assim os empregados públicos em verdadeiros "servos da gleba
elasticidade incomparavelmente maior do que houvera tido se fosse um mono- do Governo", que "vivem com suas famílias em terras do Estado, sujeitos a
pólio de raça", como no sul dos Estados Unidos. H uma evicção sem aviso, que equivale à fome, numa dependência da qual só
O regime escravo de trabalho sugava a energia e a iniciativa das forças para os fortes não resulta a quebra do caráter" .14
vivas do país. Limitava dramaticamente as margens de liberdade política e A voracidade da escravidão era assim descomunal: ela deixava sua mar-
democracia, proibindo qualquer avanço na cidadania. Conseguir a liberdade ca em cada uma e em todas as dimensões da sociedade e do Estado. Corroía
para o escravo, portanto, seria dar a todos os brasileiros uma dignidade, então e imobilizava os governos, por exemplo, separando-os da opinião pública, for-
inexistente: "a de Cidadão Brasileiro".12 Além disso, promovia uma espécie de ça, aliás, que ela impedia de crescer e influenciar. Obrigava os governantes a
concentração social no poder estatal, levando a que se acreditasse que dos viver perscrutando "o pensamento esotérico do Imperador", que, em vez de
governos tudo viria. Em decorrência, o Estado se tomava "o pai de todos nós", soberano absoluto, devia ser chamado "o Primeiro-Ministro permanente do
com seus empregos, suas benesses e prebendas, sua inesgotável capacidade Brasil". Vivíamos mergulhados nas "aparências de um governo livre", numa
autêntica "paródia da democracia", na qual o sistema representativo nada mais

9 Ibid., pp. 119-120.


10 Ibid., p. 104.
11 Ibid., pp. 125-126. 13 Ibid., p. 33.
12 Ibid., p. 41. 14 Ibid., pp. 130-132.

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o ABOLICIONISMO MARCO AURÉLIO NOGUEIRA

era do que "um enxerto de formas parlamentares num governo patriarcal", escravidão havia despojado o país de povo e atrofiado a política. "Um povo
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com senadores e deputados que só levavam a sério o papel que lhes cabia '. ,~
que se habitua a ela não dá valor à liberdade, nem aprende a governar-se a si
pelas vantagens que auferiam. Como não havia uma "força de transformação mesmo", acabando por abdicar das funções cívicas, da preocupação política,
social" - uma opinião pública, um associativismo ativo, uma sociedade civil, da responsabilidade pessoal. 17 Com a escravidão, escreverá, não pode haver
poderíamos dizer -, a política se convertia numa "triste e degradante luta por "governo livre, nem democracia verdadeira; há somente governo de casta e
ordenados". Afinal, "nenhum homem vale nada, porque nenhum é sustentado regime de monopólio. As senzalas não podem ter representantes e a população
pelo país". O que se tinha, na verdade, era "um governo de uma simplicidade avassalada e empobrecida não ousa tê-Ios".18 Afinal, ao monopolizar tudo - a
primitiva, em que as responsabilidades se dividem ao infinito e o poder está terra, o capital, o trabalho -, a escravidão tomava-se "um estado no Estado,
concentrado nas mãos de um só", o chefe do EstadoY cem vezes mais forte do que a própria nação".19 Em decorrência, como Nabuco
Inevitável assim que, neste quadro, os partidos políticos perdessem subs- falará na campanha eleitoral de 1884, dela derivava apenas uma "política ne-
tância. Como escreverá Nabuco, eles ficavam todos "mais ou menos sustenta- gativa", que nos abatia, "porque ficamos sem povo" e, sem povo, "as institui-
dos e bafejados pela Escravidão". O abolicionismo cumpria a função de dar ções não têm raízes, a opinião não tem apoio, a sociedade não tem alicerces".20
transparência a esse fato, pois desnudava os "alicerces mentirosos do libera- Os poderes políticos ficavam assim impossibilitados de exprimir a vontade
lismo entre nós" e forçava os republicanos a serem coerentes com o ideal nacional, pois esta não existia; exprimiam apenas a realidade nua e crua de
doutrinário que professavam. "Supondo que a República seja a forma natural uma hipertrofia que impossibilitava qualquer dinamismo: a hipertrofia da co-
da democracia, o dever de elevar os escravos a homens precede a toda arqui- roa, "único poder nacional independente e forte", como será dito em O
tetura democrática", ponderará. A acusação será pungente e fulminante: pra- abolicionismo. 21
ticariam puro "estelionato político" aqueles que - conservadores, liberais ou O tema e a entonação serão constantes e aparecerão em diversas pas-
republicanos - vocalizavam belos princípios jurídicos e políticos, mas que, sagens do livro. Era como se Nabuco reconhecesse que a escravidão impu-
"dentro das porteiras das suas fazendas", exercitavam sobre "centenas de nha um veto ao povo e à liberdade, impedindo com isso o aparecimento, no
entes rebaixados da dignidade de pessoa" um "poder maior que o de um chefe país, de uma sociedade civil em condições de contrastar o poder do trono e
africano", sem que nenhuma lei escrita o regulasse ou fiscalizasse. 16 animá-lo. Falava-se em povo, partidos políticos, opinião pública, imprensa e
Justamente por isso, o abolicionismo se via como um fator de desagrega- eleições sem se dar conta de que essas eram palavras sem substância, às
ção dos partidos e do próprio sistema político do Império, que se mostravam quais não correspondia nenhuma força real no país. Sem povo constituído e
desqualificados para projetar uma nova sociedade, processar os conflitos e sem sociedade civil, a ação política se complicava e produzia efeitos deleté-
governar o país. rios sobre todos os personagens. Os "homens práticos" ficavam obrigados a
"voltar as suas vistas para a única realidade de nossa política, a vontade do
Imperador".22
UM VETO AO POVO E À LIBERDADE O regime escravista, além do mais, reduzia a massa escrava à impotên-
cia política, enredando-a nos mecanismos de cooptação e favor que ele mes-
Mas Nabuco não cansará de repetir e enfatizar: não se tratava de um
defeito institucional ou de uma falha de caráter dos governantes, mas do resul-
17 Ibid., p. 140.
tado imediato da prática da escravidão. Anunciava, assim, o segundo alicerce 18 Ibid., p. 74.
de sustentação de O abolicionismo: pelos estragos profundos que causara, a 19 lbid., p. 34.
20 Joaquim Nabuco, Campanha abolicionista no Recife: eleIções de 1884 (2) ed. Recife: Fundação
Joaquim Nabuco/Massangana, 1988), p. 31.
21 Joaquim Nabuco, O abolicionismo, cit., p. 141.
li Ibid., p. 138. 12 Joaquim Nabuco, "A reorganização do Partido Liberal-II", em O País, 9-12-1886, em Campa-
16 Ibid., pp. 30-32. nhas de imprensa (São Paulo: Instituto Progresso Editorial, 1949), p. 215.

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mo engendrava. Tais mecanismos envolviam o escravo e o convidavam à Nabuco insistirá bastante na tese de que não se poderia exigir maior
subalternidade, mas agiam preferencialmente sobre os negros livres ou protagonismo dos escravos. Num sugestivo capítulo do livro ("O mandato da
alforriados, buscando convertê-los em "não-negros" bem-comportados ou, raça negra"), dará grande destaque à idéia de que o abolicionismo deveria ser
quando muito, dispostos a aproveitar as chances de ascensão oferecidas pela "o advogado gratuito de duas classes sociais que, de outra forma, não teriam
generosidade do branco. Tanto num caso como noutro, terminavam por deca- meios de reivindicar os seus direitos, nem consciência deles. Essas classes
pitar eventuais lideranças, amortecer os impulsos de revolta e obter um acata- são: os escravos e os ingênuos". Tratava-se de dar curso a uma "reforma
mento passivo da ordem de coisas estabelecidas: em vez da emancipação política primordial", que interessava a todos, não apenas aos que sofriam as
coletiva, a ascensão individual pelas mãos dos poderosos. Na inspirada cam- dores da escravidão. A emancipação, escreverá, "não significa tão-somente o
panha eleitoral de 1884, no Recife, Nabuco percebeu e denunciou a situação: termo da injustiça de que o escravo é mártir, mas também a eliminação simul-
tânea dos dois tipos contrários, e no fundo os mesmos: o escravo e o senhor".
Lutamos contra a indiferença que a nossa causa encontra entre essas mesmas classes
Tratava-se também de reconhecer que a raça negra tinha todo o direito de
que deveriam ser nossas aliadas e que a escravidão reduz ao mais infeliz estado de
miséria e dependência. É triste dizê-lo, mas é a verdade. Por acaso os homens de cor,
protestar contra o tratamento que recebia no Brasil. Ela era um "elemento de
filhos e netos de escravos, que trazem no rosto a história do martírio da sua raça, têm considerável importância nacional, estreitamente ligada por infinitas relações
aderido ao nosso movimento com a dedicação e a lealdade que era de esperar dos orgânicas à nossa constituição". Além do mais, havia "nos dado um povo".
herdeiros de tantos sofrimentos? Não! Eles não se atrevem a fazer causa comum com Construíra o país, a ponto de se poder dizer que "tudo, absolutamente tudo, que
os abolicionistas e muitos são encontrados do lado contrário. H existe como resultado do trabalho manual, como emprego de capital, como
acumulação de riqueza, não passa de uma doação gratuita da raça que traba-
Em suma, como a escravidão era um regime invasivo, intimidador e lha à que faz trabalhar". ~6
alienante , ela evidentemente dificultava ao máximo a iniciativa e a mobilização A escravidão corrompia os governos, tornava egoísta a sociedade e blo-
política dos escravos. Trazia consigo todas as barbaridades possíveis. queava a iniciativa da massa escrava, forçando-o à ignorância, à passividade e
à resignação. Como então acabar com ela? Quais seriam seus sujeitos, seus
Ela só pode ser administrada com brandura relativa quando os escravos obedecem
protagonistas, seus animadores?
cegamente e sujeitam-se a tudo; a menor reflexão destes, porém, desperta em toda a
sua ferocidade o monstro adormecido. É que a escravidão só pode existir pelo terror
absoluto infundido na alma do homem. H
INDIGNAÇÃO ÉTICA E PRAGMATISMO POLÍTICO
Por isso, o abolicionismo não podia almejar ter nos escravos seu maior
interlocutor: ele se dirigirá - como opinião, agitação, propaganda, plano de Reconstruída essa dupla face negativa da escravidão - a de ter contami-
reformas - aos livres, aos que podiam agir sem amarras e plenamente conscien- nado toda a sociedade e a de ter esvaziado a política de substância e ânimo
tes do significado, das implicações éticas e dos condicionantes da luta. Dirigir reformador -, Nabuco fixará o terceiro eixo de sustentação de O abolicio-
a propaganda aos escravos e incitar "homens sem defesa" à insurreição - dirá nismo: a tática e a estratégia do movimento deveriam ser pensadas em função
enfaticamente no capítulo em que apresenta o caráter do movimento -, "seria da realidade mesma que se queria transformar.
uma covardia, inepta e criminosa, e um suicídio político para o partido Ao longo das páginas do livro, procurará demonstrar que os estragos da
abolicionista".25 escravidão condicionavam o próprio abolicionismo e a marcha da abolição.
Criavam várias dificuldades para o movimento e levavam a que o processo da
abolição evoluísse sob o controle da Coroa e das elites dominantes. Funcio-
2J Joaquim Nabuco, Campanha abolicionista no Recife, cit., p. 9.
lA Joaquim Nabuco, O abolicionismo, cit., p. 102.
2.1 Ibid., p. 39. 26 Ibid., pp. 35-37.

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nando como verdadeiro "império" dentro do Império, a escravidão aprisionava 1871. A ela, a seus efeitos e a seu limitado caráter, Nabuco dedicará um longo
e amesquinhava a Coroa: permitia-lhe afirmar sua vontade, mas, ao mesmo capítulo de O abolicionismo, sugestivamente intitulado "As promessas da lei
tempo, sugava sua energia e sua grandeza. A Coroa permanecia tacanha na da emancipação". Seu suposto será o de que a lei havia sido um autêntico
visão da coisa pública e se deixava arrastar por uma inércia administrativa que divisor de águas. Não devia ser tomada "como uma transação entre o Estado
a impedia de agilizar o cumprimento das leis e realizar reformas. Além do e os proprietários de escravos", mas como um "ato de soberania nacional".
mais, temia se indispor com os grandes proprietários, que, afinal, formavam Depois da extinção do tráfico em 1850, ela configurou o segundo grande mo-
sua base de apoio. mento de oposição nacional à escravidão. De certa forma, a lei era o reconhe-
De qualquer forma, a Coroa estava obrigada a agir contra a escravidão. cimento oficial da questão servil e expressava um certo compromisso dos
O ambiente interno e internacional a pressionava, e quanto mais o país se políticos com a abolição: representou, nas palavras de O abolicionismo, "um
expandia em termos capitalistas mais se tomava evidente o anacronismo de passo de gigante dado pelo país", o verdadeiro "bloqueio moral da escravi-
seu regime de trabalho. A própria escravidão conspirava contra si própria: dão". Mas deixara intacto o domínio do senhor sobre o escravo e era terrivel-
ainda que conseguisse ter "à sua mercê uma clientela formidável de todas as mente cruel: se aplicada com rigor, acabaria com a escravatura "dentro de um
profissões", de estar "senhora do capital disponível" e de ser sustentada pela prazo de meio século", no decorrer do qual os filhos dos escravos, os ingê-
"maior parte das forças sociais constituídas", a escravidão não conseguia vi- nuos, iriam se emancipando. Como eles, porém, cresceriam nas senzalas, aca-
ver em paz e nem sequer mantinha suas bases em condições perfeitas de bariam por dar origem a uma "classe de futuros cidadãos educados na escravidão
estabilidade e lealdade. "Infelizmente para a escravidão, ao enervar o país e com todos os vícios dela". Não por acaso, observará Nabuco, o visconde de
todo, ela enervou-se também: ao corromper, corrompeu-se", escreverá Nabuco. Itaboraí chamara os ingênuos de "escravos-livres".'28
Seu exército de seguidores "é uma multidão indisciplinada, heterogênea, ansi- Desde o princípio, portanto, era patente que se devia reformar e alargar
osa por voltar-lhe as costas"; sua clientela "tem vergonha de viver das suas aquela lei, de modo a aumentar-lhe o alcance. Dela não derivara qualquer
migalhas ou de depender do seu favor". Por tudo isso, concluirá, "o poder da recomposição social nem qualquer mudança na vida dos escravos:
escravidão, como ela própria, é uma sombra". Para piorar, aquela sombra
"conseguiu produzir outra sombra, mais forte, resultado da abdicação geral o mercado dos escravos continua, as famílias são divididas, as portas delineadas na
lei não foram ainda rasgadas, a Escravidão é a mesma sempre, os seus crimes e as suas
da função cívica por parte do nosso povo: o Governo". Ainda que fosse uma
atrocidades repetem-se freqüentemente, e os escravos vêem-se nas mesmas condi-
"fantasmagoria colossal", uma "evaporação da fraqueza e do entorpecimento
ções individuais, com o mesmo horizonte e o mesmo futuro de sempre, desde que os
do país", uma "miragem da própria escravidão", o poder governamental trazia primeiros africanos foram internados no sertão do Brasil.
consigo todas as possibilidades: diante dele, "a casa da fazenda vale tanto
quanto a senzala do escravo". Essa, portanto, era a "força capaz de destruir a A não se ir além, aquela lei "ficaria sendo uma mentira nacional, um
escravidão, da qual aliás dimana, ainda que, talvez, venham a morrer juntas". '27 artificio fraudulento para enganar o mundo, os brasileiros, e, o que é mais triste
Incapaz de evitar o tema, mas sem encontrar bases firmes que o responsa- ainda, os próprios escravos".'29
bilizassem e o forçassem à ação, o governo imperial administrava a abolição. A libertação dos nascituros não podia, assim, ser saudada sem críticas.
Durante boa parte do Segundo Reinado, promulgou leis emancipacionistas em Na campanha eleitoral de 1884, Nabuco a verá como um "grande poema trun-
doses homeopáticas, como parte de um plano gradualista destinado a proteger a cado", uma "divina comédia" com seu Inferno e seu Purgatório, mas sem o
monarquia, postergar ao máximo a abolição e desarticular os abolicionistas. Paraíso, "sem a recompensa ideal para aqueles a quem foi prometida a bem-
Foi o que se deu, por exemplo, com a Lei do Ventre Livre, sancionada aventurança".30 A lei de 1871, na verdade, acabaria por se configurar como
pelo gabinete conservador do visconde do Rio Branco em 28 de setembro de
28 Ibid., pp. 68-75.

" Ibid., p. 75.


27 Ibid., pp. 150-152. lO Joaquim Nabuco, Campanha abolicionista no Recife, cit., p. 35.

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o ABOLICIONISMO MARCO AURÉLIO NOGUEIRA

uma manobra destinada a frear o ritmo e a confundir os passos do movimento e homogêneo". Acima de tudo, era preciso conceber o movimento como uma
abolicionista. Nos anos que a ela se seguiram, o governo "pôde mesmo esque- "agitação" permanente, algo que operaria "desagregando fortemente os parti-
cer-se de cumprir a lei que havia feito passar" e os abolicionistas tiveram de dos existentes, e até certo ponto constituindo uma igreja à parte composta dos
amargar quase uma década de ostracismo e desarticulação. Justamente por cismáticos de todas as outras".33
isso, o abolicionismo via-se como um movimento dedicado a lutar pela reforma Afinal, escreverá Nabuco, "todos os três partidos baseiam as suas aspi-
radical da lei de 28 de setembro: queria mesmo "suprimi-la, emancipando os rações políticas sobre um estado social cujo nivelamento não os afeta' o
escravos em massa e resgatando os ingénuos da servidão" imposta em 1871. abolicionismo, pelo contrário, começa pelo princípio, e, antes de discutir qu;l o
Só um movimento deste tipo - para o qual "todas as transações de domínio melhor modo para um povo livre de governar a si mesmo - é essa a questão
sobre entes humanos são crimes que só diferem no grau de crueldade" -, que divide os outros -, trata de tomar esse povo livre, aterrando o imenso
portanto, poderia resolver "o verdadeiro problema dos escravos, que é a sua abismo que separa as duas castas sociais em que ele se extrema". Por tudo
própria liberdade". 31 isso, o abolicionismo devia ser assumido como "a escola primária de todos os
Até mesmo uma lei inócua como a dos Sexagenários (proposta por Dantas partidos, o alfabeto da nossa política". 34
em 1884, mas aprovada apenas em setembro do ano seguinte) encontrou sérios Para o sucesso da causa, nenhuma colaboração poderia ser recusada,
entraves; alimentou, no dizer de Nabuco, uma verdadeira "batalha em tomo dos nem sequer a da Coroa, que, afinal, era o pólo dinâmico da sociedade. O fun-
berços e do túmulo dos escravos"3:! e acabou por ser apresentada como con- damental era organizar a opinião pública para imprimir à Coroa uma conduta
cessão, de modo a reforçar o paternalismo; além do mais, não foi executada e de outra qualidade, sintonizada com as aspirações libertárias. Seria essa a grande
serviu de pretexto para novas tentativas de desmobilizar o abolicionismo. Foi contribuição do movimento abolicionista:
preciso que a crise do regime se aprofundasse e os escravocratas perdessem
espaço político para que o movimento reagisse e chegasse à vitória. nosso esforço consiste em estimular a opinião, em apelar para a ação que deve exercer,
O abolicionismo foi, assim, determinado pela lenta e complicada moder- entre todas as classes, a crença de que a escravidão não avilta somente o nosso país:
arruína-o materialmente. O agente está aí, é conhecido, é o Poder. O meio de produzi-
nização através da qual avançava o Brasil. Teve de se adaptar a ela. Apesar
lo é também conhecido: é a opinião pública. O que resta é inspirar a esta a energia
das diferentes orientações existentes entre os abolicionistas, uma vertente prag-
precisa, tirá-la do torpor que a inutiliza, mostrar-lhe como a inércia prolongada é o
mática acabará por prevalecer: pelo tamanho do desafio e pela envergadura suicídio. 3s
de seus propósitos, a reforma precisaria contar com o concurso de sucessivas
gerações e de todas as forças ativas da sociedade. Exatamente por isso, o Mesmo em seus discursos mais radicais, Nabuco jamais deixará de ser
abolicionismo devia ser pensado como um movimento suprapartidário, quase realista e pragmático: perceberá que o Trono - apesar de ter passado cinqüen-
uma frente. Embora considerasse natural a organização de um partido ta anos "fingindo governar um povo livre" - era a principal força com que se
abolicionista no Brasil, Nabuco pensava que as divergências entre liberais, podia contar para libertar os escravos em um prazo razoável. Podendo apoiar
conservadores e republicanos impunham que o abolicionismo, para se tomar apenas um pé nas ruas (e mal podendo contar com as senzalas), o abolicionismo
mais eficiente, trabalhasse os três partidos de forma a cindi-los sempre que fará do imperador o seu sujeito maior; ficando na dependência do avanço de
fosse preciso "reunir os elementos progressistas de cada um numa coopera- providências legais, encontrará no parlamento a sua tribuna principal.
ção desinteressada e transitória, numa aliança política limitada a certo fim". Os abolicionistas foram sensíveis à lógica da sociedade que queriam trans-
Como movimento político, deveria proceder de modo "a decompor e recons- formar. Com diferenças de ênfase e tratamento, o realismo pragmático aca-
truir diversamente os partidos existentes, sem todavia formar um partido único bou por ser adotado por todas as alas. Mas foi Joaquim Nabuco quem o levou

Jl Joaquim Nabuco, O aboliCionismo, cit., pp. 26-27. lJJoaquim Nabuco, O abolrcionismo, cit., pp. 31 e 33.
32 Joaquim Nabuco, "A batalha em torno dos túmulos", Jornal do Commercio, 27-7-1884, em 14Ibid., p. 32.
Campanhas de Imprensa, cit., pp. 40-43. " Ibid., p. 152.

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MARCO AURÉLIO NOGUEIRA
o ABOLICIONISMO

mais longe e o desenvolveu de maneira mais interessante. Seguiu nesse particu- levantem o nível do nosso povo, que o forcem ao trabalho e dêem em resultado
lar os passos e as idéias do pai, senador Nabuco de Araújo, que em 1870 finnou o bem-estar e a independência, que absolutamente não existem e de que ne-
uma posição destinada a ter grande fortuna no império: "Se existe o poder pes- nhum governo ainda cogitou para a nação brasileira". Para viabilizar tais trans-
soal, e é o único que tem vida, por que não podemos pedir-lhe que influa para formações - e antes de tudo conseguir "a abolição completa, civil e territorial,
as reformas?" A essa idéia, Nabuco agregará a concepção de que os abolicio- e o derramamento universal da instrução" -, Nabuco abandonará no parla-
nistas portavam um "mandato da raça negra", e um mandato "irrenunciável": mento "a atitude propriamente política para tomar a atitude do reformador
suas motivações não eram derivadas de "humanidade, compaixão ou defesa social"Y
generosa do fraco e do oprimido"; eram motivações políticas e estavam, por O abolicionismo, escreverá ele logo nas primeiras páginas do livro, "não
isso, obrigadas a seguir regras e critérios eminentemente políticos. reduz a sua missão a promover e conseguir - no mais breve prazo possível- o
resgate dos escravos e dos ingênuos". Essa é apenas a sua tarefa imediata. A
Aceitamos esse mandato [escreverá em O abolicionismo] como homens políticos, ela deveria se seguir uma outra maior, a do futuro, dedicada a "apagar todos os
por motivos políticos, e assim representamos os escravos e os ingênuos na qualidade efeitos de um regime que, há três séculos, é uma escola de desmoralização e
de brasileiros que julgam o seu título de cidadão diminuído enquanto houver brasilei- inércia, de servilismo e irresponsabilidade para a casta dos senhores, e que fez
ros escravos, isto é, no interesse de todo o país e no nosso próprio interesse.l6 do Brasil o Paraguai da escravidão". A emancipação total representaria, as-
sim, apenas o primeiro passo. "Depois que os últimos escravos houverem sido
arrancados ao Poder sinistro que representa para a raça negra a maldição da
cor, será ainda preciso desbastar, por meio de uma educação viril e séria, a
o ABOLICIONISMO COMO REFORMA SOCIAL lenta estratificação de trezentos anos de cativeiro, isto é, de despotismo, su-
perstição e ignorância. "38 A escravidão, afinal, era um mal "que não precisa
O pragmatismo de N abuco decorria, na verdade, do modo mesmo como mais ter as suas fontes renovadas para atuar em nossa circulação"; ela já
ele articulava escravidão e abolição: já que a escravidão era um fato global, ela havia se diluído no sangue. Não seria, pois, a simples emancipação dos escra-
só poderia ser eliminada por uma reforma global. Se quisesse se completar, vos e ingênuos que haveria de destruir aqueles germens: a emancipação seria
portanto, e vencer resistências e interesses poderosos, o abolicionismo teria de apenas "o começo da nossa obra". Libertados os escravos, "a Escravidão
se desdobrar em mil operações. Não podia ser concebido como obra de poucos poderá ser combatida por todos os que hoje nos achamos separados em dois
ou de apenas um partido; precisava conquistar o apoio de milhões de corações campos".39
e mentes, de sucessivas gerações e das mais variadas forças ativas da socieda- Seria inócua, portanto, qualquer reforma que não adotasse uma perspec-
de. Era, pois, uma luta de toda a nação e se completaria ao longo do tempo. tiva abrangente e de longo prazo. Era preciso conceber um programa sério de
Explicitava-se assim o quarto e mais importante eixo de O abolicionismo: reformas profundas, dedicadas a alterar as estruturas da sociedade , os hábitos
o movimento devia propor medidas que transcendessem tanto o nível imediata- e as hierarquias, as instituições e os valores. Não havia como conceber a
mente político-jurídico quanto a eliminação pura e simples da escravidão. Para abolição, por exemplo, sem uma refonna agrária, sem aquilo que Nabuco cha-
ser conseqüente, precisava alterar o sistema produzido pela escravidão e mava de "constituição da democracia rural", por intermédio da difusão da pe-
erradicar os males por ele causados ao país: "não nos basta acabar com a quena propriedade no campo. Uma operação complementava a outra. Dar-se-ia
escravidão; é preciso destruir a obra da escravidão", dirá Nabuco na campa- o mesmo com a introdução de medidas destinadas a garantir e valorizar o
nha eleitoral de 1884. Nabuco, por isso, não terá muitas ilusões com as refor-
mas imediatamente políticas, que não tinham base social nem razão de
precedência: "as reformas de que necessitamos são reformas sociais que
J7 Joaquim Nabuco, Campanha abolicionista no ReCife, cit., pp. 49, 32 e 34.
J8 Joaquim Nabuco, O abolicionismo, cit., p. 27.
J9 Ibid., p. 169.
36 Ibid., pp. 36-37.

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o ABOLICIONISMO MARCO AURÉLIO NOGUEIRA

trabalho, estabelecer uma legislação trabalhista, promover a educação e inau- perigo". Quanto mais crescesse sua obra, mais se dissipariam "os receios de
gurar a previdência social, promovendo desta forma a emancipação de todos ~ma guerra servil, de insurreições e atentados". Ainda que radical, posto que
os trabalhadores. Tudo devia convergir para uma gigantesca reforma nacional, mteressada em transformar a sociedade e cauterizar as raízes da desigualdade
um conjunto articulado de reformas sociais e políticas que se derramariam e~trema de classes, a reforma de Nabuco seria feita mais a partir de princípios
progressivamente, dando origem assim a um novo país, inteiramente diverso ét~cos e sabedoria política do que com base em mobilizações de massas opri-
do da escravidão. midas, explosões populares ou rupturas violentas. Em O abolicionismo a di-
Revela-se, assim, um outro traço da teoria política que dá grandeza a O retriz seria fixada com clareza: '
abolicionismo. Não se tratava de "esperar" que as coisas acontecessem na-
turalmente, mas de ter iniciativa: organizar e dirigir o futuro. Ao diagnóstico A escravidão não há de ser suprimida no Brasil por uma guerra servil, muito menos
nabucoano agregava-se, pois, uma teoria da ação. O abolicionismo precisava por insurreições ou atentados locais. Não deve sê-lo, tampouco, por uma guerra civil,
ser rigorosamente uma sucessão de empreendimentos e decisões concatenadas: como o foi nos Estados Unidos. [ ... ] A emancipação há de ser feita, entre nós, por uma
lei que tenha os requisitos, externos e internos, de todas as outras. É, assim, no
um movimento ativo, determinado, sistemático, dedicado a acuar, sufocar e
Parlamento e não em fazendas ou quilombos do interior que se há de ganhar, ou
golpear de morte a escravidão. "Deixá-la dissolver-se, e desaparecer, insensi- perder, a causa da liberdadeY
velmente, como ela pretende [escreverá Nabuco], é manter um foco de infec-
ção moral permanente no meio da sociedade, tornando endêmico o servilismo O abolicionismo de Nabuco não queria uma revolução. Sabia que fortes
e a exploração do homem pelo homem."40 explosões regulares eram inerentes à escravidão, "um estado violento de com-
Não era, portanto, o caso de apenas exigir reformas que pudessem ser pressão da natureza humana", que expunha todos à "prática de crimes de
impostas pela lei: por mais importantes que fossem, seriam insignificantes maior ou menor gravidade". Mas não era o caso de estimulá-las ou de usá-las
diante "das que devem ser realizadas por nós mesmos, por meio da educação, em beneficio da causa. Fazer a escravidão desaparecer "depois de uma revo-
da associação, da imprensa, da imigração espontânea, da religião purificada, lução, como aconteceu na França", era uma possibilidade que não entrava
de um novo ideal de Estado". As reformas decisivas, escreverá numa das "nos cálculos de nenhum abolicionista". A reforma também não viria por um
mais emblemáticas passagens de O abolicionismo, "não poderão ser realiza- "decreto majestático da Coroa, como o foi na Rússia". O caminho da emanci-
das de um jacto, aos aplausos da multidão, na praça pública", mas terão de ser pação no Brasil seria particular, dado que, entre nós, a escravidão não havia
executadas "dia por dia e noite por noite, obscuramente, anonimamente, no "azedado nunca a alma do escravo contra o senhor", nem criado entre as duas
segredo de nossas vidas, na penumbra da família, sem outro aplauso, nem raças "o ódio recíproco que existe naturalmente entre opressores e oprimi-
outra recompensa, senão os da consciência avigorada, moralizada e disciplina- dos". A vitória viria por meio da luta política, do desprendimento cívico e da
da, ao mesmo tempo viril e humana". Só assim da abolição poderia resultar generalização de uma nova atitude ética. Por desejarem "conciliar todas as
"um povo forte, inteligente, patriota e livre". Só assim seria possível "suprimir classes e não indispor umas contra outras", por atacarem não os proprietários
efetivamente a escravidão da constituição social". co~o indivíduos, mas o domínio que exerciam, por defenderem a emancipação
Nabuco identificava assim a emancipação dos escravos com uma autên- no mteresse não apenas do escravo, mas do próprio senhor, os abolicionistas
tica obra de refundação nacional: "o começo de um Rinnovamento", como não podiam "querer instilar no coração do oprimido um ódio que ele não sente
dirá fazendo alusão ao movimento de unificação da Itália _41 uma operação e muito menos fazer apelo a paixões que não servem para fermento de um~
contundente, ampla e abrangente, ainda que não propriamente revolucionária. causa, que não se resume na reabilitação da raça negra, mas que é equivalente
Afinal, o abolicionismo era uma "reforma vital" que não podia ser "adiada sem à reconstituição completa do país".43

40 Ibid., p. 164. 42 Ibid., pp. 39-43.


41 Ibid., p. 170. 43 Ibidem.

186 187
o ABOLICIONISMO MARCO AURÉLIO NOGUEIRA

A grande reforma social abolicionista iria, portanto, bem além da liberta- ser a primeira etapa da reforma abolicionista: a que estaria dedicada a eliminar
ção dos escravos. Donde a indiferença de Nabuco e de muitos outros o estatuto da escravidão. A expectativa era de que se abria uma nova era e a
abolicionistas para com a questão da forma do governo: enquanto a monarquia monarquia teria como dar seqüência prática à plataforma do movimento con-
estivesse contribuindo para a conclusão da reforma, teria no abolicionismo um centrada no social. Imaginava-se que a coroa seria sensível às propo~ições
leal aliado; discutir a sua substituição pela República configuraria um risco que daqueles que, como Nabuco, haviam batalhado pela libertação dos escravos
não se devia correr. O decisivo era responsabilizar o vértice estatal, convocá- sem abraçar a causa da república.
lo para cumprir seu papel na magna tarefa de erradicar a obra da escravidão.
Como se sabe, o grande plano reformador de Nabuco não sensibilizará
as elites e não empolgará a Coroa, que chegará ao fim conformada com o DEPOIS DE TUDO
próprio destino. O sistema político não responderia às pressões da opinião pú-
blica, nem essas se fariam fortes o suficiente para impor outro ritmo ao pro- A abolição, porém, será limitada e não evitará (muito pelo contrário) a
cesso. Os abolicionistas passarão os últimos anos da escravidão vendo sua República. Nada poderia ser pior para um abolicionista que soubera lutar por
propaganda esbarrar em todo tipo de obstáculo e ser questionada por sucessi- mudanças radicais e simultaneamente reconhecer as vantagens da forma
vos "erros do Imperador", que agia como se quisesse "inutilizar a obra começada monárquica de governo. Sem reformas que modernizassem o país e sem con-
e paralisar o movimento nacional". A todo momento precisavam "sacudir o dic;t'Ses para conviver com o militarismo "plebeu" e "jacobino" embutido no 15
torpor e recomeçar a campanha", como dirá Nabuco em alguns escritos de de novembro, preferirá romper com a política e refugiar-se na vida privada.
1886. 44 Ele próprio ficaria durante anos excluído do parlamento, só voltando a No lugar do abolicionista radical, permanecerá o liberal-conservador. Nabuco
atuar regularmente como deputado no final de 1887. mergulhará em profundo sono nostálgico, como se tivesse ficado mortificado
A abertura dos trabalhos legislativos em 1888 encontrará o país às portas com a inconseqüência prática e operacional do 13 de maio.
da abolição. Como efeito da crise política e do crescimento da agitação popu- O apaixonado reformador de antes - para quem a forma de governo era
lar, o Partido Liberal e o Partido Republicano (que até então tinham vacilado questão secundária e a política, sobretudo propaganda e agitação - cederá o
diante da questão) haviam-se definido pela defesa da emancipação; as forças posto, agora, para o monarquista ortodoxo e melancólico, amortecido pelas
militares, e o Exército em particular, tinham passado a se recusar a intervir frustrações e pela redescoberta da fé, dedicado a remoer e embelezar o pas-
policialmente, seja na repressão às manifestações urbanas, seja na captura de sado. Virá então à tona, com a força de um vulcão, o lado mais propriamente
escravos fugitivos; os próprios setores escravocratas tinham perdido espaço e conservador de sua formação, que havia sido deslocado para os bastidores
começado a compreender a inutilidade da resistência. Como se não bastasse, durante os anos radicais do abolicionismo.
a crise do regime se aguçara sobremaneira. Mas Nabuco jamais chegará a perder o bom senso ou a deixar de ser
A 8 de maio, chega à Câmara a proposta do governo abolindo a escravi- pragmático. No final dos anos 1890, já com a República consolidada e depu-
dão. Na presidência do Conselho de Ministros estava João Alfredo Correia de rada do militarismo dos primeiros tempos, começará a rever posições. Não
Oliveira, prócer do Partido Conservador. Por esmagadora maioria (83 a 9) e de.ixava de ser monarquista nem de criticar os desacertos dos governos repu-
com inédita velocidade, a proposta é discutida e votada na Câmara dia 9, no blIcanos, mas distinguia-se por uma total descrença nas chances da restau-
Senado dia 11 e finalmente transformada em lei numa sessão extraordinária ração do trono e pela preocupação em franquear as portas para um diálogo
(realizada em pleno domingo) no dia 13 de maio. com o novo regime. Em 1899, cede finalmente aos convites da República
Era a vitória. Nabuco reagirá com júbilo, saudando o advento da "Pátria que sempre o cortejara: aceita o encargo de defender o interesse brasileiro
livre" e a generosidade da princesa Isabel. Encerrava-se o que ele considerava na disputa de fronteiras com a Guiana Inglesa, a ele proposto por Campos
Sale~ ..Logo a seguir vem a designação como ministro-chefe da Legação
44 Joaquim Nabuco, "O erro do Imperador" e "O eclipse do abolicionismo", em Campanhas de braslleua em Londres. Nabuco voltava à diplomacia, em nome do patriotis-
imprensa. cit. mo e da vontade de encontrar uma nova forma de continuar servindo ao

188 189
o ABOLICIONISMO

país. Mais tarde, em 1905, é convocado para responder pela primeira repre-
SÍLVIO ROMERO
sentação diplomática do Brasil em nível de embaixada, nos Estados Unidos,
posto que facilitará seu engajamento na causa do pan-americanismo.
Joaquim Nabuco morrerá em Washington, no dia 17 de janeiro de 1910.
Será tratado pela República com todas as honras. Fará sua última viagem a
bordo do vaso de guerra North Caroline, posto à disposição pelo governo
História da
norte-americano. Do Rio, o corpo foi transportado para o Recife. Na chegada
à cidade em que nascera, uma multidão emocionada, em que se misturavam literatura brasileira
ex-escravos, trabalhadores e gente de todas as classes, dará calor popular aos
funerais, homenageando o velho abolicionista que mudara de campo, mas dei-
xara gravado seu nome na história política e social do país.

Benjamin Abdala Junior

190
Em artigo recente, Ariano Suassuna1 disse que Euclides da Cunha come-
teu um grave erro de interpretação ao afirmar que como raça os portugueses
eram superiores aos africanos e aos povos indígenas. Esse erro, segundo
Ariano, persistiu em Gilberto Freire que o transferiu da área biológica para a
cultural quando considerou a cultura européia como superior à dos africanos,
assim como esta seria superior, por sua vez, à dos indígenas. Ao fazer essas
observações negativas, Ariano Suassuna não deixa, porém, de agradecer aos
dois e também a Sílvio Romero por terem contribuído para afastar suas pró-
prias deformações,2 ele que foi educado conforme os padrões do Brasil ofi-
cial, da mesma forma que dela não puderam se afastar os três grandes intérpretes
do país, que foram decisivos em sua formação intelectual.
Vieram desses intelectuais, de acordo com Suassuna, imagens amorenadas
do brasileiro ideal em Sílvio Romero ou ainda dos pardos, em Euclides da
Cunha - uma forma, na verdade, de escamotear os valores dos negros. A
valorização do branqueamentó do mestiço em relação ao negro seria uma
maneira de se desconsiderar as contribuições dos povos africanos. Mais, ele
mesmo faz uma autocrítica quando diz que também se colocou nessa perspec-
tiva quando valorizou o povo castanho em suas produções, vindo a
conscientizar-se depois de que essa era uma maneira de apagar as manchas
negras3 da constituição antropológica brasileira.
A presença dos povos africanos no país é uma evidência que não pode
ser ideologicamente desconsiderada como mancha negra. Um estudo sério
do hibridismo étnico e cultural do Brasil não pode diminuir a grande importân-
cia desses povos com argumentos que são no fundo de um racismo mais ou
menos evidente. Ocorreram também manipulações políticas em relação ao
conceito de mestiçagem, como no caso de Gilberto Freire, no qual esse concei-
to veio a opor:'se ao de negritude, quando da ascensão dos movimentos
reivindicatórios dos negros. Entretanto, é necessário se considerar o fato de
que a cultura brasileira é híbrida e que formulações como as de Gilberto Freire
constituíram rupturas decisivas em relação ao pensamento reacionáriodo sé-
culo XIX, eivado de mitologias de superioridade racial eurocêntricas, que vie-
ram a se projetar de forma perversa no século xx.

1 Ariano Suassuna, "Biologia e cultura. Sobre Gilberto Freire e o racismo", em Bravo, n" 33, ano
III, São Paulo, junho de 2000, pp. 15-16.
, lbid., p. 15.
J lbid., p. 16.

193
HISTÓRIA DA LITERATURA BRASILEIRA BENJAMIN ABDALA JUNIOR

É diante dessas ambigüidades e de sua historicidade, sem anacronismos, outro, que embalou sua personalidade como cidadão: o gosto pela polêmica.
que a História da literatura brasileira, de Sílvio Romero, pretende. ser ~es~­ Esse gosto por contraditar não deixa de se manifestar inclusive (a despeito de
nhada neste texto: 4 uma construção discursiva que além dos seus megaveIs seus cuidados) no interior de sua própria obra critica. Talvez se possa afirmar
méritos, pelos subsídios que apresenta para a compreensão do caráter naci~­ que esse gosto ou força da contradição explica em parte a heterogeneidade de
nal brasileiro, acaba por deixar evidentes as contradições do pensamento crítI- seus textos (apontada e discutida pela critica) e dá elementos para o seu
co de seu autor, um intelectual que dá origem a linhas de reflexões que envolvimento em polêmicas com quem discordasse de seus pontos de vista.
contribuirão de forma decisiva para a discussão da maneira de ser do brasilei- Seria essa a sua luta pela existência de sua obra crítica. Para Antonio Candido,
ro. Tais contradições têm sua historicidade, estando relacionadas com as con- seu leitor em meados do século XX,
vicções de uma época. Não são, pois, de responsabilidade exclusiva de seu
autor, podendo ser creditadas a todo um campo intelectual de seu tempo. Era [ ... ] a contradição era o seu modo próprio de viver o pensamento, tanto assim que, em
essa a maneira como se pensava cientificamente a literatura e a cultura, com vez de paralisá-lo ou fazê-lo voltar atrás, ele o fazia ir para a frente. As suas idéias não
esquemas importados da Europa. Além disso, deve ser destacado o fato de se opunham como desenvolvimento linear e conseqüente, mas como vaivém, retoma-
da incessante, tensão de opostos, visão simultânea do verso e do reverso - o que pode
que a História de Sílvio Romero significou um avanço para o pensamento
ferir exigências lógicas, mas enriquece o senso de realidade. Sob esse aspecto, havia
crítico, pela preocupação metodológica do autor, que veio a constituir um mar- algo dialético no jogo das suas idéias e opiniões, que, se não chegavam a uma síntese
co inicial, no Brasil, de toda uma linha de abordagem dos fatos literários e satisfatória, permitiam sempre alguma conclusão interessante, graças ao entrechoque
culturais. E também por apresentar uma síntese importante da cultura brasilei- por vezes antinômico, mas vivo das proposições, jogadas como pedras.s
ra, matizada como não poderia deixar de ser pelos padrões e as cores de como
nos imaginávamos na virada do século XIX para o XX. As pedras vêm das afirmações peremptórias às vezes com pouca argu-
mentação do crítico. Elas foram jogadas, além disso, de forma mais contun-
dente contra discursos criticos discordantes do seu, originando polêmicas, como
UM POLEMISTA a que manteve com José Veríssimo. Este crítico, embora reconhecesse o mé-
rito histórico de Sílvio Romero, apontava faihas em suas apreciações ou ava-
Sílvio Romero (1851-1914) sempre procurou se inserir de forma explosi- liações literárias. 6 Sílvio Romero foi parcial e equivocou-se nas avaliações de
va no pensamento crítico brasileiro. Sua trajetória intelectual é de uma pers.o- vários escritores, provocando grande impacto, por exemplo, a casmurrice como
nalidade em constante movimento, mas atraída por determinados temas. ASSIm analisou a obra de Machado de Assis, um escandaloso erro critico.
o crítico inquieto os retoma, ou os reformula em seus artigos e ensaios, conflu- Sua concepção de crítica - exercida por ele sobretudo em seu senso
indo-os depois para a sua obra-síntese, a História. Motivado por "aperfei- comum, no sentido de se apontar com veemência o que considerava ruim ou
çoar" sua obra, procura sempre acrescentar novos dados ou nuances a sua errado -, como será desenvolvido mais adiante, envolvia a consideração mais
teoria e crítica - uma atitude, é de se entender, homóloga à maneira de pensar ampla da cultura - fato que o levou a procurar desconsiderar o que viesse de
a realidade de seus horizontes ideológicos, o naturalismo evolucionista: de ma-
neira correlata a um organismo vivo, também sua obra se aperfeiçoaria e os
embates críticos seriam similares aos aperfeiçoamentos das espécies em suas
, Sílvio Romero: teoria, crítica e história literária. Seleção e apresentação de Antonio Candido
lutas pela vida. Esse movimento evolutivo tendente à uniformidade e ao aper-
(Rio de Janeiro/SãoPaulo: LTC/Edusp, 1978), p. XI.
feiçoamento, quando procurava aparar contradições, era concomitante com , Ver, de um lado, Sílvio Romero, Zeverissimações ineptas da crítica (repulsas e desabafos)
(Porto: O comércio do Porto, 1909), e, de outro, os seguintes textos de José Veríssimo: Estudos
de literatura brasileira, 6< série (Rio de Janeiro: Gamier, 1907), pp. 1-14, e Que é literatura? e
outros escritos (Rio de Janeiro: Gamier, 1907), pp. 230-270. Os textos de José Veríssimo
4 Esta resenha fará referência à 6' edição desse livro, organizada e prefaciada por Nélson Romero, encontra.m-se na coletânea José Veríssimo: teona, crítica e história literária, selecionada e
5 tomos (Rio de Janeiro: José Olympio, 1960). organizada por João Alexandre Ba~bosa (Rio de Janeiro/São Paulo: LTC/Edusp, 1978).

194 195
HISTÓRIA DA LITERATURA BRASILEIRA

quem considerasse estetizante ou distanciado da cultura brasileira. As polêmi-


T·.·:
'"
BENJAMIN ABDALA JUNIOR

fatos históricos, a determinações de caráter político-social. Essa idéia de siste-


cas em que se envolveu não se originaram, entretanto, tão à revelia de Sílvio ma ligado à interação com o público será retomada em novas bases e maior
Romero. Ao contrário, ele parecia gostar delas, como manifestação da másca- complexidade, sem subordinação aos fenômenos políticos e sociais, por Anto-
ra de um ator crítico implacável, que ele cultivava, como pode ser observado nio Candido, em sua Formação da literatura brasileira: momentos decisi-
logo no prólogo à primeira edição de sua História, quando diz que "as violentas vos. 8 Para este crítico, o sistema envolve autores, "caracterizando a existência
polêmicas em que se tem achado envolvido", de Recife ao Rio de Janeiro, vem de uma vida literária"; públicos, "permitindo sua veiculação; e tradição, para
do fato de que não faz critica para agradar, fornecendo a "razão da bulha, da dar continuidade ao repertório literário'?
gritaria, dos insultos". 7 Sílvio Romero preocupou-se sobremodo com a repercussão da obra nas
Nascido em Lagarto (Sergipe), Sílvio Romero cursou o secundário no classes dirigentes, de acordo com os modelos da seleção natural de seu tempo:
Rio de Janeiro e formou-se em direito no Recife. Foi promotor e deputado em a repercussão que importava seria especialmente a associada diretamente
seu estado natal; depois, juiz em Parati. Em 1880 - dois anos antes da publica- com o poder político:
ção de sua Introdução à história da literatura brasileira, onde esboçou sua
A criação das academias literárias no século XVIII na Bahia e no Rio de Janeiro,
História da literatura brasileira - foi nomeado catedrático do Colégio Pedro
fenômeno tão mal apreciado por alguns críticos é, entretanto, um fato altamente
II, no Rio de Janeiro, onde se aposentaria em 1910. Nesse percurso foi ainda
significativo. Indica só por si a grande coesão de que gozava o país, o lazer que tinham
deputado federal por Sergipe, relator do Código Civil Brasileiro e professor da as altas classes para o cultivo das letras, o gosto reinante pela poesia e as cousas do
Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro. Foi do centro da espírito. 10
República que Sílvio Romero tentou abarcar toda a vida cultural do país, em
especial do Nordeste, procurando relevar a atividade intelectual e artística Em Antonio Candido, essa idéia de coesão do sistema literário é vista
daquele que considerava o mais importante grupo de seu tempo, a "Escola do diferentemente: o sistema já possui dinâmica própria, permitindo uma autono-
Recife". Embora sua obra seja bastante ampla, distribuindo-se em artigos ou mia relativa em relação aos fatos sociais e políticos.
ensaios publicados em periódicos e de livros, é na História que ele apresenta Poder-se-ia, nessa perspectiva, entender essas articulações literárias, que
uma síntese de seu pensamento sobre a cultura e a sociedade brasileiras, in- propiciam a grande coesão, vista por Sílvio Romero, associando-a às pers-
corporando o que considerou mais significativo dos outros textos. pectivas hegemônicas do poder simbólico. Esse poder é exercido pelos intelec-
tuais, com base em determinados modelos literários considerados canônicos. A
perspectiva de Sílvio Romero seguia critérios diferentes dos críticos anterio-
UMA IDÉIA DE SISTEMA res, que considerava estetizantes. Se os cânones se modificam, também isso
ocorre com os critérios de legitimação das obras literárias. Por outro lado, os
Sílvio Romero vê em sua História da literatura brasileira uma evolu- discursos desse campo intelectual têm especificidades e dinâmicas próprias,
ção natural de sua personalidade. Autor e obra constituiriam dois organismos da mesma forma que outros gêneros discursivos, como a poesia ou o romance.
que seguiram percursos paralelos, evoluindo numa sucessão de fases e em Se essas formulações do discurso crítico se encontram e se articulam, num
interação com o público. Sua concepção de sistema seguia essa organicidade, mesmo recorte histórico, com as dos gêneros literários (um período literário,
de acordo com modelos biológicos da luta pela vida. O sistema literário seria
resul~te de uma interação com outros sistemas e estaria ligado às condições
da circulação literária de cada momento histórico. Este seria determinante, • Antonio Candido, Formação da literatura brasileira: momentos decisivos, 2 vols. (5' ed. São
Paulo/Belo Horizonte: Edusp/ltatiaia, 1975).
colocando a literatura como um produto cultural, subordinando-a assim aos
, Benjamin Abdala Junior, "Antonio Candido, formação da literatura brasileira", em Lourenço
Dantas Mota (org.), Introdução ao Brasil. Um banquete no trópico (2' ed. São Paulo: Editora
SENAC São Paulo, 2000), p. 364.
10 Sílvio Romero, História da literatura brasileira, cit., tomo 2, p. 386.
Sílvio Romero, História da literatura brasileira, cit., tomo 1, p. 33.

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HISTÓRIA DA LITERATURA BRASILEIRA
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BENJAMIN ABDALA JUNIOR

Singular destino da raça negra no Brasil. Alimentou o branco, deu-lhe dinheiro durante
por exemplo), não deixam de se embalar pelo movimento interno, que os proje-
quatro séculos e agora por último dá fama aos gananciosos de nomeada fácil, dá glória
ta para outros períodos. Possuem, pois, como foi indicado, uma autonomia aos espertos [ ... ]l3
relativa diante de outros campos do conhecimento.
A idéia de sistema em Sílvio Romero, embora ele sempre buscasse expli- Seria esta uma das características das elites políticas, sociais e económi-
cações nas ciências naturais, na prática de suas análises, é genérica: os cam- cas brasileiras: adaptar-se a novas situações de forma a continuar exercendo
pos científicos formam sistemas, isto é, conjuntos ou totalidades de objetos, seu poder? Sílvio Romero aponta quem considera libertadores dos escravos: o
reais ou ideais, que se articulam. A energia que os leva a se desenvolver teria povo brasileiro e os homens representativos com ele identificados, mais im-
por base motivações raciais e poderiam ser impulsionados pela cultura, ocor- portantes do que figuras oficiais (sempre a idéia de totalidade e unidades ati-
rendo para ele analogias de situação entre o que ocorria na biologia e nas vas interdependentes, em evolução - essa é sua visão sistêmica). A luta pela
esferas da cultura. Seu modelo de sistema veio basicamente da biologia, como libertação não seria um fato do século XIX, mas muito anterior: começou já no
tem sido reiterado nesta resenha, mas procura relativizar esse método em muitos início da escravidão do índio e, depois, do negro. E este teria ensinado ao
momentos de sua História. Assim, ele assinala que não poderá haver acordo branco o caminho da libertação.
entre duas maneiras opostas de encarar a história: aquela que faz predominar Ao buscar essa "formação" libertária, aponta as muitas ações/revolu-
a ação do exterior para o homem (há sempre aqui um parti pris que ele diz ções com esse horizonte, até as ações decisivas dos últimos tempos, inclusive
não aceitar) ou a que destaca sua ação moral sobre o meio (também não a com sua própria ação. A abolição, segundo ele, veio da pressão do conjunto,
aceita por considerá-la uma metafisica). E conclui: que já ia libertando os escravos nas fazendas e nos Estados - a tal ponto
chegou que, se os políticos não o fizessem logo, não encontrariam mais a quem
Não resta a menor dúvida que a história deve ser encarada como um problema de
libertar. Coloca como vitória de um sistema evolutivo: a abolição progressiva,
biologia; mas a biologia aí se transforma em psicologia e esta em sociologia; há um jogo
de ações e reações no mundo objetivo sobre o subjetivo e vice-versa; há uma multidão
espontânea, popular. Por outro lado, gestos históricos de grupos ou de indiví-
de causas móbeis e variáveis capazes de desorientar o espírito mais observador. 1l duos atenuam o determinismo. É assim que Sílvio vê o significado da Inconfi-
dência Mineira e sua

o SENTIMENTO DE MISSÃO plêiada de poetas, aquele punhado de sonhadores pressentiu, no vago de suas cren-
ças, todas as vastas idéias que este povo deve esforçar-se para levar a efeito [ ... ] A
Inconfidência não chegou a ser uma realidade prática; mas é uma realidade doutrinária.
Há em seu texto um sentimento de missão, de dever, de quem "empenha Não se manchou no terreno dos fatos; mas aí está a tremular, há cem anos, como a
uma pena no Brasil",12 um país em via de formação, que também contribui suprema realidade no mundo de nossas aspirações. 14
para o rompimento dessa pretendida impassibilidade crítica do naturalismo.
Esse sentimento projeta-se na história do país, como um habitus, que havia Após considerar as aspirações como suprema realidade do mundo, ele
sido e que será retomado por outros escritores e intelectuais brasileiros. Uma as situa como uma necessária santa utopia: "Era necessário que a santa
tradição, em termos de modelos psicossociais. Assim, ao se referir à situação utopia fosse desdenhada pelos míopes do tempo, era mister que o sangue
de alguém que escreve num momento libertário, a festa da Abolição, sanciona- ubérrimo dos heróis marcasse os focos brilhantes em que a alma deste povo
da poucos dias antes, vislumbra já nesse momento a expressão de um fenôme- deve revigorar-se para avançar".15 Esse avançar segue perspectiva de civi-
no bem brasileiro - a apropriação das "glórias dos feitos": lização, entendida como independência da pátria, emancipação dos escravos,

13 Ibid., p. 37.
14 Ibid., p. 483.
II Ibid., p. 404.
" Ibidem.
12 Ibid., p. 36.

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1 199
HISTÓRIA DA LITERATURA BRASILEIRA BENJAMIN ABDALA JUNIOR

unidade federal, vida autonôrnica e democrática, prosperidade material, alento Podemos crer na liberdade como produto da matéria; onde quer que apareça está
científico ... Enfim, problemas que o autor descortina na recém-instaurada integrada de forma a produzir o pensamento, produz também a liberdade que é uma
República. fórmula de discernimento [ ... ] Não se deve aceitar, portanto, a opinião daqueles que
tratam os fenômenos sociais pelo mesmo modo que tratariam um problema de mine-
Esse impulso libertário entra em contradição com o sistema naturalista e
ralogia, a cristalização de uma rocha, por exemplo.19
é grande marca do humanismo de Sílvio Romero. Para Antonio Candido, em O
método crítico de Sílvio Romero,16 em toda sua obra passa um esforço e um
Sílvio Romero desconfiava dos sistemas então estabelecidos, embora
convite à libertação: libertação do peso das raças "inferiores", libertação da
mesmo a liberdade se lhe afigurasse como uma fórmula de discernimento.
inclemência do clima, libertação do ensino jesuítico e retórico, libertação dos
Assim esses sistemas, próprios da maneira de se pensar a realidade de sua
vícios políticos coloniais, libertação do servilismo à França, libertação dos exa-
época, sempre teimaram em permanecer em seu horizonte:
geros românticos. Conjugadas, todas essas libertações haveriam de dar-lhe a
impressão de que o homem pode agir com relativa liberdade dentro do A ciência social e a ciência moral, conquanto devam obedecer a leis gerais naturalísticas,
determinismo histórico, que lhe condiciona a existência em sociedade.17 estas leis não estão ainda definitivamente todas descobertas e formuladas. Existem aí,
Essa aspiração pela liberdade em certo sentido relativiza o determinismo é certo, quarenta ou cinqüenta sistemas de sociologia e moral pretensiosos e quase
histórico que condiciona a vida do homem em sociedade. Vem daí a idéia de todos insignificantes em sua pretensiosidade, mas isto não é verdade definitiva. 20
possibilismo com que Antonio Candido o define, em oposição a um rígido
determinismo. Para esse crítico, excetuando-se o primeiro volume da História Aspirava, pois, por um sistema definitivo, mas só tem a evidência de
e abstraídas as premissas gerais preestabelecidas, o que aparece é uma série construções relativas, históricas. Não obstante, a idéia de totalidade de seu
de julgamentos funcionais ou mesmo utilitaristas sobre a contribuição do escri- sistema inclinava-o, ao mesmo tempo, para o campo oposto. Assim quando
tor para o que ele considerava progresso da cultura pátria. São esses (pou- resume sua perspectiva crítica, de acordo com o método científico de sua
cos) indivíduos - homens representativos, de cada momento histórico, isto é, época, considera que essa crítica teve bases históricas, relevando o fato de
personalidades literárias criativas - que se destacaram de um contexto amorfo, que ela se configura no século XIX como sistema mais acabado:
que acabaram por simbolizar e dar sentido a uma época. Embora buscasse
analogias com a biologia em suas sínteses analíticas, ele não o faz em profun- Sabe-se que essa tendência foi inoculada no mundo filosófico por Kant; da filosofia
passou à religião e à história. É que o ilustre criticista havia retalhado a inteligência
didade, recorrendo a ela no fundo para respaldar de tinturas científicas seus
humana, pesando-a com a realidade nua e simples. Mas a filosofia alemã não é a única
julgamentos subjetivos - ou, se se quiser, adotando um método pseudonaturalista,
responsável pelo pensamento de nossa época: a filosofia dos orientalistas, o
de lantejoulas. 18 positivismo de Comte e o evolucionismo de Spencer, são também co-autores. Impri-
Sílvio Romero considerava-se um naturalista idealista, procurando afas- miram-lhe o caráter que mais a distingue: o estudo dos fatos e a abstração das causas
tar-se de uma visão dicotômica tradicional dos "dois velhos sistemas que de- transcendentais. 21
vem ser enterrados": o materialismo e o espiritualismo. Se pensamento e ação,
para ele, teriam origem nos átomos, estes seriam de natureza diferente, haven- Observações como as acima mencionadas, que reduzia tudo a átomos
do unidades diferenciadas. Assim, embora todas essas unidades estivessem conforme os postulados científicos da época, parecem-nos hoje bastante ingê-
regidas pelas mesmas leis da mecânica universal, elas teriam vida e atividades nuas, mas contribuíram para o avanço de um pensamento brasileiro. Ao aspi-
próprias: rar por uma crítica mais imparcial e com embasamento científico, relevando o
fato de que ela devesse se situar no horizonte da cultura nacional , Sílvio Romero

16 Antonio Candido, O método crítico de Sílvio Romero (2) ed. São Paulo: FFLCH da USP, 1963). 19 Sílvio Romero, História da literatura brasileira, cit., tomo 2, pp. 627-628.
17 Ibid., p. 109. '" Ibid., p. 680.
'8 Ibid., p. 83. li Ibid., p. 635.

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HISTÓRIA DA LITERATURA BRASILEIRA BENJAMIN ABDALA JUNIOR

contribuiu para que tomássemos conhecimento de nossa situação, em vários natural processo de evolução. Buscou analogias superficiais, ou de lantejoulas,
campos da cultura e não apenas da literatura. como já foi assinalado, através das formações biológicas: uma espécie de sele-
ção natural através das idéias, onde as idéias superiores devorariam as mais
fracas, por melhor se adaptarem a novas condições históricas. Talvez as
Os PERÍODOS DA LITERATURA BRASILEIRA reformulações se devessem em boa parte, na verdade, a uma outra sua grande
obsessão: a vontade de apresentar quadros sintéticos da literatura e da cultura
Sílvio Romero tinha um critério demasiado amplo para estabelecer o que brasileiras. Para tanto, seriam necessárias grandes e mais exaustivas análises
era ou não literatura: sua noção de sistema literário abarcava inter-relações dos textos literários, o que não ocorreu. As classificações de Sílvio Romero
diretas com outros campos do conhecimento. Isso o distinguiu da tradição re- tiveram o mérito de constituir uma tradição, ensejando depois classificações
tórica anterior, de vinculações clássicas, que se limitava exclusivamente ao mais elaboradas. É uma tradição que se inicia, cujo ponto de chegada (onde a
fato literário como se ele não estivesse imbricado com o conjunto da vida visão sintética se integra a rigor analítico) será a Formação da literatura
histórico-cultural do país. E foi justamente para se contrapor a essa perspecti- brasileira, de Antonio Candido.
va formalista que ele acabou por exagerar o determinismo do meio. Não o Esse distanciamento crítico em relação ao método que dizia seguir toma-
meio fisico, que ele desconsiderou, mas o social em suas interações raciais, se evidente quando apresenta a tríade determinista de Taine: meio, raça e
como será visto mais adiante. momento
O determinismo, aplicado com rigor, leva à subalternidade dos valores
específicos da série literária. A literatura é um campo do conhecimento e não são a trindade portentosa do criticar contemporâneo; servem para sorver todas as
se limita às belas-letras - equívoco, aliás, que vem até a atualidade. Foi a dificuldades [ ... ] Onde encont~am um fato qualquer fora do comum recorrem muitos
ao meio, e o façanhudo fator aparece e arreda os embaraços [ ... ] Outros deixam de lado
ênfase na história e por servir-se da literatura para abarcar toda a história
o meio e agarram a muleta do momento; alguns, finalmente, calçam as botas da raça
cultural do país, que Sílvio Romero coloca ao lado da literatura as manifesta- [... ] Não quero, não posso contestar a influência de qualquer desses fatores no desen-
ções culturais em livro, de caráter paraliterário, como os livros de memória de volvimento e na formação dos produtos literários. Bem pelo contrário, muitas vezes
naturalistas, ou os de história do país. É exemplar o fato de consagrar tópicos tenho recorrido também a eles e ainda agora vou de novo recorrer [ ... ] Mas sustento
de sua História aos economistas, jurisconsultos, publicistas, oradores, lingüis- que, só por si, eles são incapazes de revelar, de esclarecer o problema, todo o segredo
dos gênios e dos grandes talentos das letras 22
tas, moralistas, biógrafos, teólogos, etc. Não figuram esses autores apenas
como entorno da situação cultural, mas como objeto de análise histórico-cultu-
ral, conjuntamente com textos literários. Hoje, a cientificidade na abordagem
do texto literário e sua inserção histórica seguem outros caminhos: é funda-
PERÍODO DE FORMAÇÃO
mental entender os vários campos do conhecimento, bem como a literatura,
como séries culturais, com autonomia relativa. E se o objeto da análise é um
texto literário, nele o crítico encontra seu ponto de partida para estabelecer O primeiro período da História da literatura brasileira foi designado
relações com outras séries discursivas, como as da história, sociologia, econo- por Sílvio Romero como "Primeira época ou período de formação (1500-1750)",
mia, política para a explicação dos autores enquanto personalidades literárias e quando apresenta uma linha evolutiva da adaptação do homem e da cultura de
não o inverso. Portugal aos trópicos. Valoriza, então, José de Anchieta por sua adesão afetiva
Sílvio Romero que sempre teve obsessão pelas classificações, à maneira ao país, embora seguisse as diretrizes de sua ordem religiosa, os jesuítas. Mais
das ciências naturais, acabou por reformulá-las para com isso melhorá-las. relevante do que o poema laudatório Prosopopéia, de Bento Teixeira (primei-
Tinha, pois, consciência de que se tratava de uma construção, estabelecida a ro poema brasileiro publicado em lingua portuguesa) foi Gregório de Matos, no
partir da observação, e que deveria ser aperfeiçoada. Foi muito criticado por
isso. Para o crítico essas contínuas revisões das classificaçõe8 seriam um 12 Sílvio Romero, História da literatura brasileira, cit., tomo 4, pp. 1.136-1.137.

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BENJAMIN ABDALA ruNIOR
HIST6RIA DA LITERATURA BRASILEIRA
1'

Integram esse período da História os oradores, a poesia religiosa e a


século XVII, que considera o fundador da literatura brasileira pelo seu senti-
poesia patriótica. O autor não deixa de enveredar pelas belas-artes, pelas
mento de nacionalidade. O sistema literário se configurará no século XVIII:
"Formam-se tradições intelectuais, fundam-se sociedades literárias".23 Sílvio ciências naturais, pela economia, pelo direito, etc. e também por medíocres
poetas clássicos e poetas de transição para o romantismo. Enfim, a descrição
destaca as personalidades representativas da época, como "os dois irmãos
Gusmões, Rocha Pita e Antônio José, a saber: a política, as invenções, a histó- do sistema cultural exigia esse detalhamento.
ria e o teatro 24 e aprecia com lucidez suas trajetórias, quando ataca a Inquisição
pela tortura e execução de Antônio José e defende Bartolomeu de Gusmão, o
PERÍODO DE TRANSFORMAÇÃO ROMÂNTICA E REAÇÕES ANTI-ROMÂNTICAS
padre voador, inventor do balão e que havia sido ridicularizado pelos portu-
gueses (seu mérito foi reconhecido por José Saramago, em Memorial do con-
As produções da "Terceira época ou período de transformação românti-
vento).25
Nesse período inicial da História já aparece um exemplo da parcialidade ca - Poesia (1830-1870)" já se desenvolvem em ritmo mais acelerado, exigin-
crítica de seu autor. Antônio Vieira foi uma personalidade marcante, um verda- do uma divisão em fases, com escritores representativos: a fase de Gonçalves
deiro homem representativo desse período, como pretendia Sílvio Romero. de ~agalhães e seu grupo; a do indianismo de Gonçalves Dias; a do subjetivismo
de Alvares de Azevedo e seu grupo; a do sertanismo dos poetas do norte; a do
Entretanto, ele só dedica um parágrafo ao jesuíta e desanca sua obra, ao
lirismo de Pedro Luís e Fagundes Varela; e finalmente o condoreirismo de
contrapô-la à de Gregório de Matos. Para o crítico, Vieira é pedante, arro-
Tobias Barreto e de Castro Alves e seu grupo.
gante, vazio de idéias:
O autor da História observa que a diferença entre a literatura do século
Vieira é uma espécie de tribuno e de roupeta que se ilude e ilude os outros com as XIX e a anteriormente produzida seria análoga à que ocorreu entre a ciência e
próprias frases. Matos é um pândego, um precursor dos boêmios, amante das mulatas, a filosofia desse século comparativamente às de outros tempos: antes havia
desbragado, inconveniente, que tem a coragem de atacar bispos e governadores [ ... ]26 um modelo universal para tudo, nas artes, na gramática; agora o direito vem
em função da vida nacional; a língua de uma formação nacional; a poesia de
É assim, desatento aos valores literários, valorizando a mestiçagem e a uma idealização nacional.
afirmação da nacionalidade no conjunto do campo intelectual, que o crítico vai Em relação à primeira fase, Sílvio Romero destaca o significado histórico
continuar seu discurso histórico, ingressando na "Segunda época ou período de de Gonçalves de Magalhães, mas não aceita o fato de ele procurar nacionali-
desenvolvimento autonôrnico (1750-1830)". Para Sílvio, destacam-se nesse mo- zar a literatura através das "regrinhas de programa".29 Embora não fosse apre-
mento os poetas da Escola mineira, onde o projeto político se imbricou com o ciador do indianismo, o crítico acaba por aceitá-lo pelo fato de essa tendência
estético. Ao analisar os poetas desse grupo, mais particularmente Tomás Antô- contribuir para "afastar-nos da exclusiva influência da imitação portuguesa".30
nio Gonzaga, temos um bom exemplo da subjetividade do crítico que se preten- Gonçalves Dias coloca-se na História como o ponto mais alto da segunda
27
dia objetivo: após transcrever a Lira XIX desse poeta, um verdadeiro talento , fase do romantismo brasileiro, em função da qualidade de sua obra, que é
ele emotivamente faz sua apreciação: "Isto é um naturalismo completo e per- representativa do "genuíno povo brasileiro".3l Trata-se, além disso, de um tipo
feito; é a pintura da vida".28 Não aponta o que seja naturalismo completo e de mestiço flsico e moral, que é símbolo de identidade da cultura brasileira,
perfeito e menos ainda a razão de o poema trazer a pintura da vida. cujos passos o autor rastreia ao curso dessa história da literatura.
Álvares de Azevedo foi considerado escritor representativo da fase se-
guinte por ser um produto da vida literária brasileira e por romper com a
lJ Ibid., tomo 2, p. 385.
14 Ibidem.
" José Saramago, Memorial do convento (Lisboa: Caminho, 1982).
!9 Ibid., tomo 3, p. 797.
16 Sílvio Romero, História da literatura brasileira, cit., tomo 2, p. 365.
lO Ibid., p. 915.
'7

l
Ibid., p. 460.
11 Ibid., p. 917.
II Ibid., p. 461.

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HISTÓRIA DA LITERATURA BRASILEIRA
BENJAMIN ABDALA JUNIOR

influência exclusiva portuguesa. Isso foi possível pela existência de uma vida
brasileiro, depois de Gonçalves Dias. Quem ele destaca mais entre os
intelectual (Nabuco, Eusébio, Rio Branco, etc.), facilitada pela criação de fa-
ficcionistas, em termos de espaço, é Machado de Assis, justamente para criticá-
culdades brasileiras. Ao se desprender da influência exclusiva dos portugue-
lo. Seus preconceitos a avaliações pessoais aí afloram, como foi indicado. Sua
ses houve o preenchimento dos espaços literários e culturais pelos franceses,
crítica, equivocada, é indigna do próprio Sílvio Romero:
qu~ Sílvio Romero critica. Para ele, a presença de intelectuais ingleses e ale-
mães nos cursos superiores do Rio de Janeiro contribuiu para o "universalismo
o estilo de Machado de Assis, sem ser notado por um forte cunho pessoal, é a
literário de nosso romantismo".32 Ao abordar o grupo de poetas sentimentais fotografia exata de seu espírito, de sua índole psicológica indecisa. Correto e maneiroso,
dessa época, Sílvio argumenta com sensibilidade crítica que além do sentimen- não é vivace, nem rútilo, nem grandioso, nem eloqüente. É plácido e igual, uniforme e
talismo e das lamúrias, como a critica literária se acostumou a indicar, é neces- compassado. Sente-se que o autor não dispõe profusamente, espontaneamente, do
sário destacar que eles eram rebeldes, com "muito brado, muito brado em prol vocabulário e da frase. Vê-se que ele apalpa e tropeça, que sofre de uma perturbação
qualquer nos órgãos da linguagem. ll
de novas crenças, de novos ideais. Foi um tempo de agitação e toda época de
agitação merece grandes preitos da história". 33 ..
O relevo dado a autores não-literários ou a autores hteranamente secun- Outras manifestações em prosa de publicistas, oradores e historiadores
dários como Tobias Barreto desequilibram essa obra historiográfica. Além dis- completam esse período, caracterizando a atmosfera intelectual desse mo-
so, a poesia foi supervalorizada, 'em detrimento da prosa de ficção, deixando mento de afirmação da nacionalidade. Entre os artigos esparsos dedicados a
essa obra crítica ainda mais lacunar. Sílvio Romero consagra um capítulo para personalidades dessa época, inseridos nessa parte, está um dedicado a Euclides
discutir a poesia condoreira de Tobias Barreto, a última fase do romantismo. A da Cunha. Como fecho, a História da literatura brasileira traz as reações
extensão desse estudo é desmedida, quando comparada a de outros autores. anti-românticas nas quais se insere o próprio Sílvio Romero. Em relação à
Por exemplo, outro condoreiro, de maior impacto de público e de cr~tica, foi poesia era o momento dos poetas baudelairianos e parnasianos. A respeito
Castro Alves. Embora o poeta baiano fosse de sua predileção, dedIca a ele dessas tendências, o autor da História assinala: "Se Teófilo Dias é o mais
menos de 1/12 das páginas consagradas a Tobias Barreto. Essa extensão é ardente, Raimundo Correia o mais sereno, Alberto de Oliveira o mais artista
maior que o total do número de páginas relativas a Macedo, Alen~ar, Manuel destes poetas, Olavo Bilac é o mais espontâneo, o mais natural de todos eles".36
Antônio de Almeida, Franklin Távora, Taunay e Machado de ASSIS. É problemático classificar Bilac como poeta espontâneo e natural.
Em seguida, Sílvio Romero analisa a transformação romântica no teatro
e no romance. Esse tópico conjunto já revela a minimização da prosa de fic-
MESTIÇAGEM, CRITÉRIO DE UNIDADE
ção, mesmo diante do teatro. É importante indicar, entretanto, como ele justifi-
ca o esquecimento por parte da crítica e do público do principal drama~rgo da
época (Martins Pena): entre outros motivos, pelo fato de ele se refem cons- Sílvio Romero tem na mestiçagem o ideal da identidade nacional brasilei-
tantemente aos escravos, moleques, mucamas e a alta freqüência de persona- ra. Nessa interação antropológica, procurava aliar determinantes raciais com
gens negras e mestiças que contrariavam o "gosto da branquidade"34 da vida os de outras esferas, de ordem psicológica, sociológica, cultural e também
social. Foi essa mesma razão que fez com que a obra-prima do teatro de José política. Vem do modelo antropológico da mestiçagem a defesa política do
de Alencar - O demônio familiar - não fosse mais encenada. unitarismo do país, em oposição aofederalismo. Essa idéia de unidade políti-
A apresentação dos romancistas é feita de forma sumaríssima, em~ora ca, espiritual e étnica do país, não poderia correr um risco que considerava
considere José de Alencar a personalidade mais importante do romantIsmo introjetado em nosso povo: o caráter ibero-latino, sempre propício ao
desmembramento como ocorreu na América hispânica. Não aceita, assim, o
que designou mania de se copiar os norte-americanos:
32 Ibid., p. 949.
JJ Ibid., p. 969.
" Ibid., tomo 5, p. 1.506.
J4 Ibid., tomo 4, p. 1.381.
" Ibid., p. 1.677.

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HISTÓRIA DA LITERATURA BRASILEIRA BENJAMIN ABDALA JUNIOR

A idéia de federação se assenta em dois falsos pressupostos: a crença errônea de nos Houve, segundo Sílvio Romero, a formação de um tipo novo pela ação de
convir o que convém aos anglo-americanos e a falsa teoria de supor que para lá nos cinco fatores, em que predomina a mestiçagem, tanto do ponto de vista fisico
levam as lições da história. 37 como cultural. São estes os fatores: o português, o negro, o índio, o meio fisico
e a imitação estrangeira. O horizonte de Sílvio Romero para avaliar um autor
Sílvio Romero pode ser situado no quadro geral das classes médias cita- está nessa mestiçagem: quanto mais mestiço mais próximo do caráter nacional
dinas que não aceitam as oligarquias regionais, estas sim descentralizadoras e brasileiro.
com vocação separatista. Do seu ponto de vista vê então a mestiçagem como
força biológica capaz de contribuir para a unidade nacional. Essa interação
étnica da história brasileira, "representada pelo sangue e pela língua",38 foi-se BRANQUEAMENTO, A MÁSCARA DA MESTIÇAGEM
tomando, para ele, "o centro de atração constituidor dos grandes focos nacio-
nais".39 Para Sílvio Romero o caráter nacional brasileiro estaria no mestiço: Embora situe a mestiçagem como própria do caráter nacional brasileiro,
"O mestiço é produto fisiológico, étnico e histórico do Brasil; é a forma nova Sílvio Romero indica que com a extinção do tráfico, o gradual desapareci-
de nossa diferenciação nacional. Nossa psicologia popular seria um produto mento dos índios e a constante entrada da imigração européia, poderá vir a
desse estado inicial".40 Embora destaque esse caráter étnico-cultural, esse predominar de futuro, "ao que se pode supor, a feição branca em nosso mes-
fato não significa que tiçamento".43 Os estudos de Sílvio Romero serão retornados , com novas nuances ,
no século XX, na obra de um Gilberto Freire, que sobrevalorizou os ideais de
constituímos uma nação de mulatos; pois que a forma branca vai prevalecendo e
miscigenação, contribuindo para a criação do mito de democracia racial. A
prevalecerá; quero dizer apenas que o europeu aliou-se aqui a outras raças, e desta
perspectiva crítica do branqueamento foi substituída assim pelas idéias do ca-
união saiu o genuíno brasileiro, aquele que não se confunde mais com o português e
sobre o qual repousa o nosso futuro. 4' ráter multirracial da sociedade brasileira. Por outro lado , mais à direita, Olivei-
ra Viana se vale de artigos menos relevantes de um certo Sílvio Romero em
Ao abordar esse caráter nacional na literatura brasileira, Sílvio Romero fmal de vida, para uma matização racista e não-democrática dessa miscigena-
destaca o fato de tratar-se de uma literatura transplantada da Europa. Consi- ção, contraditando o discurso liberal que aparece no conjunto da História.
derada como apêndice da literatura portuguesa, nossa literatura figurou no Não obstante, esse ideal de branqueamento que leva à atenuação das bases
texto de autores portugueses como acessório do pensamento da antiga metró- étnico-culturais africanas, o discurso de Sílvio Romero sobre os negros não
pole. Entretanto, essa perspectiva é parcial, pois a história do Brasil e de sua deixa de ser reivindicador:
cultura não podem ser
[... ] é indispensável restituir aos negros o que lhes tiramos: o lugar que lhes compete
em tudo que tem sido praticado no Brasil. E o que mais admira é que o não tenham
a história exclusiva dos portugueses na América. Não é também, como quis de passa-
feito tantos negros e mestiços ilustrados, existentes no país. 44
gem supor o romantismo, a história dos Tupis, ou, segundo o sonho de alguns repre-
42
sentantes do africanismo entre nós, a dos negros em o Novo Mundo
Sílvio Romero fica igualmente contraditório quando pretende pesar o
que existiria de favorável ou de desfavorável na mestiçagem. Curiosamente,
sob este aspecto, o crítico que dizia não aceitar mistificações, ficou preso a
superstições cientificistas. Ele aceita a idéia de Superioridade racial sem veri-
17 Ibid., tomo 1, p. 44. ficar sua pertinência, corroborando acriticamente suas formulações discursivas.
J. Ibidem.
" Ibidem.
40 Ibid., p. 120.

41 Ibidem.
4J Ibid., p. 291.
44 Ibid., p. 296.
41 Ibid., p. 53.

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HISTÓRIA DA LITERATURA BRASILEIRA
,. BENJAMIN ABDALA JUNIOR

admite, pois aponta a importância cultural dos romanos, na transcrição acima.


Decorrem dessas concepções racistas suas ambigüidades quando discorre sobre
Tal importância veio do fato de se estabelecer uma continuidade do repertório
a mestiçagem. Observa, então, que ela foi positiva por propiciar a adaptação
cultural romano na península Ibérica, através de setores sociais hegemônicos
aos trópicos do europeu, mas que teria ocasionado, ao mesmo tempo, "certa
que os fizeram seus, alimentando-se ainda dos repertórios de outros povos ou
instabilidade moral na população, pela desarmonia das índoles e das aspirações
classes sociais. Foi ainda decisiva a influência da Igreja católica e dos sistemas
no povo, que traz a dificuldade da formação de um ideal nacional comum".45
de estado que perpetuaram esses repertórios da práxis social.
Não obstante, num direcionamento oposto, esse mesmo mestiçamento promo-
veu a unidade da geração futura e, se controlado (fusões sobretudo com a
"raça branca", superior), seria possível eliminar seus defeitos e insuficiências,
A INFLUÊNCIA ESTRANGEIRA
através da força da educação. Ao mesmo tempo que aponta o caminho ideoló-
gico do branqueamento, Sílvio Romero diz:
A civilização nas Américas, de acordo com Sílvio Romero, tem sido um
Aos mestiços devemos, na esfera literária, mais do que aos outros elementos da nossa processo de aclimação e, inevitavelmente, de transformação da cultura eu-
população, as cores vivas e ardentes de nosso lirismo, de nossa pintura, de nossa ropéia. Nesse processo, nos três primeiros séculos, quando o país ainda estava
música, de nossa arte em geral. 46 sob domínio colonial, seguiu-se o modelo da metrópole, pois não tínhamos auto-
nomia política e literária. Haveria uma dupla imitação: imitação de seus mode-
Entre os poetas envolvidos no abolicionismo, Sílvio Romero destacou Luís
los e dos modelos que ela imitava. A posição portuguesa, com o romantismo
foi desbancada pela francesa. É através da literatura francesa que conhece~
Gama, pela sátira que ele faz à branquidade, mania que devasta grande porção
de verdadeiros mestiços, que pretendem ter prosápia fidalga. Sabe-se que a
mos outras literaturas: a inglesa, a alemã, a italiana, etc. Um processo de imi-
mistura das três raças fundamentais de nossa população deu-se em larguíssima
tação similar ao dos tempos coloniais. Para o autor da História, essa imitação
escala, e é fenômeno ineludível; o número dos brancos puros é muito pouco
tomou-se uma fatalidade em nosso percurso histórico pelo fato de se constituir
avultado, e, não obstante, quase toda a gente tem suas veleidades a descender
aquilo que hoje denominamos um habitus cultural. Olha-se mais para fora do
de sangue azul.. Y país, desconhecendo-se o que aqui se aclimatou ou se criou. Não há por parte
Em seguida, Sílvio Romero vai ao extremo de negar a latinidade brasilei-
do crítico desconsideração em relação às culturas estrangeiras, mas um
ra. Seus argumentos são étnicos e não culturais. Diz que os índios e os africa-
questionamento desse habitus que vem dos tempos coloniais.
nos evidentemente nada tinham de latinos e os portugueses eram produtos de
Sílvio Romero busca o significado desses habitus na história do país. São
uma grande miscigenação cuja
modelos de comportamento que têm dificultado os indivíduos assumirem suas
base fundamental é de iberos a que se ligaram lígures, celtas, fenícios, cartagineses, cidadanias. Seria responsabilidade da literatura apontar esses problemas, mes-
godos, suevos, árabes, almóades, almorávides, mouros de toda a casta, sem falar de mo causando desagrado. O retrato que traça do país é de ruínas: lavoura deca-
escravos negros e indianos que se lhe adicionaram em tempos./Os romanos entraram dente, comércio nas mãos dos estrangeiros e uma atmosfera de opressão social
também com o seu contingente, importantíssimo pelo lado cultural e insignificante contra os proletários rurais. 49 Busca uma origem histórica para essa situa-
pelo número. 48 ção: o absolutismo monárquico. A ausência de uma forte consciência coletiva
de povo é também vista por Sílvio Romero como conseqüência de uma vida
Novamente o autor da História está fazendo uma leitura via etnologia
geograficamente dispersa, que inviabilizaria
fisica, desconsiderando a evidência da apropriação dos bens culturais que ele
a formação de uma forte consciência coletiva, um vivaz sentimento de nacionalidade
[... ] Uma administração compressora e rapace habituou o nosso povo, desde suas
., Ibid., p. 305.
46 Ibidem.

47 Ibid., tomo 4, p. l.17l.


4' Ibid., p. 139.
48 Ibidem.

2lJ
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HISTÓRIA DA LITERATURA BRASILEIRA
T BENJAMIN ABDALA JUNIOR

origens, a considerar com maus olhos a governança e tudo que com ela se relaciona. Os
Sílvio Romero desconsidera os poetastros que tentaram imitar a cultura
chamados aspectos políticos não podiam escapar a esse desprestígio, a essa falta de popular de forma grosseira, referindo-se negativamente aos Catulos da Paixão
simpatia. 50 Cearense de todos os tempos. Diferentes dessas apropriações da cultura po-
pular são as que encontra nas produções de nossos melhores líricos, como
Essa situação fez com que o brasileiro sempre esperasse uma iniciativa Gonçalves Dias, Fagundes Varela, Castro Alves, Casimiro de Abreu e outros.
de fora e de cima, não desenvolvendo suas próprias potencialidades. Faltar- Na História há reiterados comentários do autor, que não se cansa de
nos-ia, para o autor da História, uma individualidade característica em termos repetir que o Brasil não é o Rio de Janeiro. Ao apontar que o país é mais
políticos e intelectuais. Na literatura, segundo ele, nada mais foi feit~ do ~ue amplo, em sua diversidade, inclusive literária, procura destacar as produções
glosar os europeus, com idéias tomadas às vezes em segunda e terceira mao. culturais nordestinas. Critica, ao mesmo tempo, a situação social controlada
pelos latifundiários regionais. Sua posição é de intelectual brasileiro das cida-
des, uma categoria social originária da ascensão dos filhos de negociantes e
A CULTURA POPULAR
agricultores que conseguiram vencer a coerção desse latifúndio, chegando aos
cursos de medicina, direito e engenharia para engrossar as fileiras dos funcio-
Sílvio Romero foi um grande pesquisador da cultura popular brasileira.
nários públicos: O esforço desses intelectuais
Suas recolhas constituíram repertório inicial para outros estudiosos, entre eles,
Mário de Andrade. Em relação às personagens dessa literatura, ele considerou seria aviventar o pensamento nacional ao cantata das grandes idéias do mundo culto,
roupagens de um mesmo povo o sertanejo, o matuto, o caipira, o praieiro, etc., sem afogar esta nacionalidade nascente num pélago de imitação sem critério, esses não
pois nesses tipos é dominante o caráter nacional, de origem popular, que tudo são ouvidos pelo geral do público, ocupado em bater palmas ao último folhetim ou
unifica. Esse caráter está igualmente nas produções anônimas da cultura po- aos últimos versinhos chegados de Lisboa ou de Paris [ ... Jl4
pular. Isso não significa, entretanto, que se deva sonhar com "um Brasil unifor-
me, monótono, pesado, indistinto, nulificado, entregue à ditadura de um centro
regulador de idéias. Do concurso das diversas aptidões dos Estados é que
52
deve sair o nosso progresso" .51 É aí que está a grande alma nacional. A QUESTÃO DA NACIONALIDADE
Para o autor da História, a fusão e o mestiçamento das cantigas popula-
res, romances, xácaras, orações, parlendas, versos gerais, loas, etc. trazem A história da literatura brasileira coloca-se para Sílvio Romero como
um mestiçamento psicológico correlato: uma descrição dos esforços de seu povo para pensar por conta própria, atra-
vés de seus representantes mais significativos de cada período. Há uma divi-
Romances e xácaras se nos deparam por este Brasil em fora que são casos irrefragáveis são de tarefas nessa empreitada: compete ao crítico e~o historiador discutir as
dessa espécie de hibridização. São produtos recentes de nossas atuais populações questões nacionais, não ao poeta. Este deve ter fundamentalmente talento,
mestiçadas, moldados sobre velhos elementos tradicionais, inteiramente transforma-
sem se preocupar se o que está criando é ou não nacional. Se tentar ser naci-
dos pelos cantores modernos, caipiras, tabaréus, matutas ou sertanejos.53
onal à força, o resultado será falso. Não é nacional quem quer, mas "aquele
É dessa perspectiva descentrada que Sílvio procura ver a cultura brasi- que a natureza o faz, ainda que não o procure ostensivamente".55 Temas uni-
leira, sem o preconceito que ele atribui para quem a vê com a cabeça e os pés versais poderiam e deveriam ser tratados desde uma ótica brasileira. Sílvio vê,
no Rio de Janeiro. nesse sentido, múltiplos sistemas na literatura brasileira, conforme a natureza
étnica de origem (africana, indígena e dos mestiços - sertanejos, tabaréus,

lOIbid., p. 175.
liIbid., p. 151. " Ibid., pp. 139-140.
" Ibidem. " Ibid., tomo 2, p. 406.
" Ibid., p. 161.

213
212
HISTÓRIA DA LITERATURA BRASILEIRA
T BENJAMIN ABDALA JUNIOR

matutos, regatões, etc.). Não há referência na História à diversidade entre CRUZ E SOUSA E EUCLIDES DA CUNHA, ESTRATÉGIAS DISCURSIVAS?
índios e africanos, só em relação à variedade dos mestiços.
O caráter nacional da literatura, de acordo com essa perspectiva, não se Cruz e Sousa, na poesia, e Euclides da Cunha, na prosa, poderiam cons-
inventa, mas nasce espontaneamente e se manifesta literariamente mesmo tituir pontos de chegada do discurso crítico da História. São dois autores es-
contra a vontade dos escritores. É por essa razão que Sílvio Romero critica o treitamente ligados aos ideais de mestiçagem de Sílvio Romero e a estratégia
nacionalismo exterior, que aparece na literatura brasileira, quando se privilegia discursiva desse crítico poderia convergir para eles. Na prática, não foi o que
a representação ufanista, por exemplo, do caboclo ou do sertanejo. Não que a aconteceu, embora eles se aproximem de seus modelos de escritores, pois sua
escolha não seja legítima, mas por faltar-lhe a criticidade, trazendo assim para obra na verdade reúne matéria esparsa, publicada em épocas diferentes.
a literatura as "qualidades nativas, boas ou más".56 Sílvio Romero é eloqüente quando situa Cruz e Sousa como o ponto cul-
Na História, o nacional conflui para o mestiço, como tem sido reiterado. minante da lírica brasileira: sofreu os terríveis agrores de sua posição de preto
Foi em função dessa mestiçagem que o seu autor fez uma defesa emotiva do e de pobre, desprotegido e certamente desprezado. Mas sua alma cândida e
poeta Domingos Caldas Barbosa. É um exemplo de como - a partir de postu- seu peregrino talento deixaram sulco bem forte na poesia nacional. Morreu
lados racistas de seu tempo - Sílvio Romero procura relevar a maneira de ser muito moço, em 1898, quase ao findar deste século, e nele acha-se o ponto
do mestiço, contraditando postulados que julgava acreditar. Nesse sentido, ele culminante da lírica brasileira após quatrocentos anos de existência. 59 A refe-
critica Varnhagen que atribuiu à mestiçagem um suposto caráter submisso rência à imagem das almas cândidas certamente deve ser atribuída às formu-
desse poeta, segundo ele uma injustiça e um erro grave, pois o poeta não era lações ideológicas do autor já referidas. Mas, procurando escapar desses
submisso, horizontes, por via afetiva, reconhece e proclama os méritos artísticos de Cruz
e Sousa - um negro que se colocava à frente de todos, desdizendo pressupos-
apenas amorável, alegre, expansivo e divertido. Além disso, se há alguma coisa no tos de inferioridade racial.
mestiço, que se possa considerar a nota predominante de seu caráter, é a rudeza, a
57 É com Os sertões, embora situado nos "Artigos esparsos" de sua Histó-
independência, o orgulho, a tendência ao desrespeito, a falta de senso de veneração.
ria, que Sílvio Romero encerra o percurso de seu discurso histórico-literário.
Obcecado por modelos unitários, Euclides da Cunha como Cruz e Sousa termi-
Sílvio Romero projeta no mestiço traços psicossociais de altivez e inde-
naram por serem convenientes ao crítico que os admirava. Evidentemente
pendência que imaginava próprios do caráter nacional brasileiro. Em relação
essa visão é parcial, reduzidíssima, pois tende a minimizar o valor de outros
ao sistema literário, Caldas Barbosa seria um poeta representativo de sua épo-
autores significativos, inclusive de outras épocas, para apontar para um
ca também por conseguir consagração e popularidade. Apropriado pela popu-
evolucionismo estreito que contraria o rico colorido das produções literárias
lação anônima, esta fez seus pedaços das cantigas do poeta - um material que
indicadas pelo aut9r em vários momentos de sua História. Adequaram-se
traz a maneira de ser de uma população tropical, muito doce, distante quer de
Euclides e Cruz e Sousa, entretanto, ainda plenamente a suas teses relativa-
Lisboa quer do Rio de Janeiro. Na metrópole, Sílvio vê uma terra de poetas
mente à unidade nacional com base no mestiçamento biológico e cultural. N' Os
"mordazes e inchados de retórica" (Bocage e Agostinho de Macedo); no Rio
sertões, predominavam imagens do amorenamento; na poesia de Cruz e Sousa
de Janeiro, a menos nacional de todas as capitais do mundo. 58
encontrava um negro que, sem abdicar de sua condição étnica, incorporava a
cultura mestiça do país, dialogando com as tendências mais atuais da poesia
européia.
Euclides trouxe uma síntese do homem brasileiro, representado de forma
superiormente artística. Para Sílvio Romero, mais do que uma construção,
56Ibid., nota 1, p. 407.
57Ibid., p. 476.
" Ibid., p. 478. 5. Ibid., tomo 5, p. 1.686.

214 215
HISTÓRIA DA LITERATURA BRASILEIRA BENJAMIN ABDALA JUNIOR

tratava-se de uma representação autêntica de um homem brasileiro, permitin- século, perseguindo às vezes ambiguamente a possibilidade de se construir no
do-lhe então opor essa forma de ver a realidade brasileira, dura e áspera, país um espaço de liberdade. Para tanto, em grandes sínteses, destacou as
baseada na observação, aos poetas deliqüescentes "que enfiam frases no Rio potencialidad~s da~ fo~as literárias produzidas no país - formas mestiças
de Janeiro". 60 Os sertanejos são, em oposição a esses deliqüescentes, tipos embaladas, dIr-se-Ia hOJe, por pedaços de culturas provenientes de Portugal
rígidos e "expoentes indicadores das correntes subalternas das multidões" e (p~ra o. autor, Portugal também é mestiço), da África e dos povos ameríndios.
não expressões passivas "ditadas pela própria natureza",61 pois ali estão cris- Ha, pOIS, uma produtividade interna que motiva a cultura brasileira, sobretudo
talizações humanas obtidas por quatrocentos anos de relacionamentos do ho- em nível ~opular - uma dinâmica cultural que não pode ser desconsiderada por
mem com a terra. A superior organização formal do romance coloca-o como parte da mtelectualidade brasileira, que continua a repetir o habitus adquirido
"um dos livros máximos na literatura de língua portuguesa". 62 nos tempos coloniais e do Império, denunciado por Sílvio Romero: o olhar ob-
sessivo para fora do país, desconsiderando o que aqui se produziu. Essa mes-
ma observação critica vale igualmente para aqueles que se admiram com a
HIBRIDISMO, UMA QUESTÃO ATUAL aparente novidade dos estudos culturais e das teorias relativas à crioulidade ou
à hibridez das culturas, não localizando no pensamento critico brasileiro toda
Para concluir, convém relevar o significado histórico-cultural da História uma tradição relativa à mestiçagem que viria enriquecer esse debate.
da literatura brasileira, uma obra que vale como síntese da literatura e da
cultura do país, publicada nos inícios da República. Era esse momento de so-
nhos libertários e de defesa de uma metodologia científica para as ciências
humanas que imprimiu as motivações de fundo para o projeto de Sílvio
Romero. Um projeto que não se fechava em si, pois que o autor tinha cons-
ciência de sua historicidade, revisando-a, reformulando-a. Conformada sua
estrutura, a obra tomou-se contexto, isto é, ponto de partida crítico para outros
estudiosos da literatura e da cultura do país.
Além desse significado histórico, a História é hoje texto de grande valia
para a discussão da cultura brasileira. As questões sobre mestiçagem e
hibridismo cultural que levanta colocam-se como matéria de interesse para a
discussão das culturas contemporâneas. A hibridez é mostrada por Sílvio
Romero de forma ambígua: ele a teme pelo que ela poderia representar em
termos de desagregação política da nascente república, mas ele também a
aprecia pelos muitos matizes que apresenta da identidade cultural brasileira.
Hoje esse conceito de hibridez é alargado da referência exclusiva aos países
latino-americanos - países de colonização recente -, para o conjunto da cultu-
ra contemporânea. Hibridez, nesse sentido, não é um problema, mas possibi-
lidades abertas por culturas que não se conformam a modelos unitários,
avessos à liberdade. Sílvio Romero discutiu essas questões há mais de um

.. Ibid., p. 1. 793.
6' Ibid., p. 1.795.
62 Ibid., p. 1.797.

216 217
T
j

JOAQUIM NABUCO

Minha formação

Maria Alice Rezende de Carvalho


~l:
..

Na última década do século XIX, o Brasil era uma república incerta,


lidando ainda com a instabilidade política decorrente da ruptura com o antigo
regime. Aos homens públicos daquela época coube, então, apostar no futuro
ou, alternativamente, agarrar-se ao trajeto já feito e compreendê-lo como um
tempo de realizações esgotado.
Minhaformação, publicado em 1900, é o resultado brilhante do balanço
empreendido por Joaquim Nabuco de sua vida, uma avaliação da sua trajetória
pessoal associada à era de realizações do Segundo Reinado brasileiro, cuja
conclusão, embora um tanto nostálgica, permite entrever a disposição do autor
em acorrer a um eventual chamamento do país. É assim que, no último capítulo
do livro, encontra-se a afirmação de que o espírito monárquico não lhe bastava
como uma religião e que, tal como os estadistas que o antecederam, jamais
estabeleceria "o dilema entre a monarquia e a pátria", I porque a pátria não
poderia ter rival. Em Minha formação, portanto, o passado e o futuro são
abordados como cenários incomparavelmente mais significativos do que o que
se apresentava no contexto turbulento da primeira década republicana: o pri-
meiro, como história; o segundo, como possibilidade.
De fato, os anos imediatamente posteriores a 1889 conheceram um
Nabuco apreensivo com a radicalização política que assolava o país e volunta-
riamente afastado da cena pública, em parte por reconhecer na militarização
que acometia a sociedade brasileira o resultado inevitável do caráter violento e
personalista do republicanismo americano, em parte por não vislumbrar, entre
os monarquistas históricos, uma liderança capaz de reconciliar a nação com o
seu passado grandioso, com a tradição reformadora dos antigos estadistas do
Império.
Em 1893, refugiou-se com sua família em Petrópolis. Eram tempos de
um alegado desejo de obscuridade por parte do até então vitorioso homem
público, embora duas memórias tivessem sido concebidas durante aquela esta-
dia serrana: a que recebeu o título de Foi voulue,2 uma narrativa sobre a sua
conversão católica, e a que, nos anos seguintes, seria elaborada com base nos
apontamentos e notas feitos ali, tomando, primeiro, a forma de artigos
jornalísticos sobre a sua convicção monárquica e, posteriormente, a de uma

1 Joaquim Nabuco, Minha formação (13) ed. Rio de Janeiro: Topbooks, 1999), p. 217. [As
citações que se seguem referem-se a essa edição.]
1 Joaquim Nabuco, Minha fé (Recife: Fundação Joaquim Nabuco/Massangana, 1985). Tradução de
Foi vou/ue (1893), por Aída Batista do Vai, a partir do texto estabelecido em francês, em 1971,
por Claude-Henri e Nicole Freches, do Departamento de Estudos Portugueses da Université de la
Provence.

221
MARIA ALICE REZENDE DE CARVALHO
MINHA FORMAÇÃO

autobiografia. No "Prefácio" ao livro Minha formação encontra-se que "[ ... ] Nesse sentido, o programa político implícito em Minha formação con-
a data do livro para a leitura deve assim ser 1893 -18 99, havendo nele idéias, siste na defesa do tema da continuidade, no elogio à tradição reformista do
modos de ver, estados de espírito de cada um desses anos"? Império, em visível oposição à revolução republicana, cuja perspecti~a era a
Minha formação começaria a circular em 1900, provocando um certo do rompimento com o nosso passado, visando a invenção de um outro Brasil.
debate nos meios cultos da capital federal. Elogiada como obra literária, a Segundo Nabuco, a República brasileira inaugurara, de fato, um novo ambien-
coletânea autobiográfica de Nabuco não repetiria, de imediato, o sucesso de te moral e intelectual, cujos princípios eram abstratos, derivados do racionalismo
Um estadista do império,41ivro que ostentava o rigor da pesquisa histórica e jacobino, e não da experiência nacional, tal como a conceberam as elites impe-
que havia conferido enorme prestígio intelectual ao seu autor. Comparado a riais. Daí que, como representantes de um ideário filosófico, mais do que her-
ele, Minha formação estava longe de exibir o mesmo acabamento, demons- deiros da civilização arquitetada pelos construtores do Brasil, as lideranças
trando ser uma reunião de artigos autobiográficos já publicados pela imprensa políticas da República mostravam-se pouco afetas à exemplaridade, conduzin-
monarquista, passagens do diário íntimo de Nabuco, longos trechos do Foi do o país a um total esquecimento de si, da sua trajetória de realizações.
vou/ue e um capítulo final, intitulado "Os últimos 10 anos (1889-1899)", redigi- Assim, ao retratar-se como um simples exemplar da extensa cadeia de
do ao sabor da conjuntura. Ademais, para os padrões da época, a decisão de personagens imbricados no processo de formação de uma consciência úni-
Nabu'co de se expor ao escrutínio público parecia atentar contra o decoro. 5 Ele ca, nacional, Nabuco pretendia fazer da sua história pessoal uma via de acesso
próprio se preocupava com a recepção de seus contemporâneos à obra, consi- à história do Brasil. E, nesse caso, Minha formação pode ser lido como a
derando que aquela iniciativa talvez pudesse suscitar uma impressão "[ ... ] de sugestão política do reencontro do país consigo mesmo, tendo em Nabuco
volubilidade, de flutuação, de diletantismo [... ]". 6 O fato é que, ao longo do um mediador que, ao falar de si, almeja religar a nação aos seus antigos
tempo, a autobiografia de Nabuco passaria a figurar, justamente, como uma ideais, e ao falar da nação, espera corrigir o personalismo de que eram aco-
das grandes realizações literárias brasileiras, conferindo ampla projeção a um metidos os novos líderes políticos, subordinando-os à exemplaridade das ge-
gênero que ainda não havia sido muito praticado entre nós. rações que os precederam para a realização de um destino nacional esboçado
O que, porém, poucos atentaram - e que, mesmo hoje, não costuma ser sob o Império.
enfatizado - é que o livro, a despeito de suas qualidades literárias, não consiste Com Minha formação, tem-se, portanto, o mais contundente relato do
exatamente em uma obra ditada pela subjetividade de Nabuco, sendo, antes, sentimento de crise que acometeu as elites imperiais no contexto republicano e
uma peça de persuasão política. 7 Com Minha formação, o autor pretendia, a mais vigorosa defesa de um futuro pautado pela tradição brasileira. Um
mais do que falar de si, da sua existência íntima ou privada, como costuma relato político apresentado com a elegância literária de que somente Nabuco
ocorrer nas autobiografias, evocar uma certa tradição brasileira, revelada tan- seria capaz, pois, nele, a literatura e a política caminhavam juntas, ou melhor,
to na conduta das elites políticas imperiais, da qual se considerava herdeiro, eram tidas como partes indissociáveis da imaginação estética aplicada à pro-
quanto na índole conservadora da história nacional, que indispunha o Brasil às dução de uma grande obra, fosse ela o texto, a sua vida pública ou a nação.
rupturas revolucionárias.

MONARQUISTA, PORÉM REPUBLICANO


J Joaquim Nabuco, Minha formação, cit., p. 19.
4 Uma resenha do livro encontra-se em Luiz Felipe de Alencastro, "Joaquim Nabuco. Um estadista Os dois primeiros capítulos de Minhaformação, intitulados "Colégio e
do império" em Lourenço Dantas Mota (org.), Introdução ao Brasil. Um banquete no trópico
academia" e "Bagehot", são, talvez, os mais explicitamente comprometidos
(2 1 ed. São Paulo: Editora SENAC São Paulo, 2000), pp. 115-131.
, Cr. Gilberto Freire, "Prefácio", em Joaquim Nabuco, Minha formação (Brasília: UnB, 1981), p. 3. com a defesa das convicções monárquicas do autor. E é curioso que tal
• Joaquim Nabuco, Minha formação (13 1 ed. Rio de Janeiro: Topbooks, 1999), p. 19. defesa se inicie com a revelação de Nabuco de que, quando jovem, hesitara
7 Cr. Beatriz Jaguaribe, "Autobiografia e nação: Henry Adams e Joaquim Nabuco", em Guillermo
entre a república e a monarquia, influenciado pelo debate dos historiadores
Giucci & Maurício Dias David (orgs.), Brasil e EUA: antigas e novas perspectivas sobre socieda-
de e cultura (Rio de Janeiro: Leviatã, 1994), pp. 109-141. franceses do período da Restauração: "[ ... ] Lamartine, Thiers, Mignet, Louis

222 223
MINHA FORMAÇÃO MARIA ALICE REZENDE DE CARVALHO

Blanc, Quinet, Mirabeau, Vergniand e os girondinos, tudo passa sucessiva- Ao rever, portanto, a sua formação política, Nabuco localizou nos anos
mente pelo meu espírito [... ]".8 , . de juventude o embrião de uma inclinação anglófila, confirmada, mais tarde,
Curioso, mas não de todo surpreendente. E que o ideal repubhcano, asso- em suas viagens pelo mundo: "a anglomania [era] a doença da sociedade em
ciado à Revolução Francesa, era ainda o grande farol que iluminava as cons- França". II A Inglaterra parecia-lhe um caso bem-sucedido de "republicanização"
ciências liberais de todos os cantos do mundo. Não seria diferente com o jovem da monarquia, tornado possível mediante a gradual assimilação do ethos de-
Nabuco. No entanto, desde a derrota de Napoleão, abrira-se um periodo de mocrático trazido pelas lutas populares setecentistas, do que resultara, na prá-
grande fortuna política para o tema da reforma, mediante o qual o liberalismo tica, uma saudável oxigenação da vida institucional inglesa,
europeu, refletindo principalmente a posição dos publicistas franceses que se
ressentiam quer do jacobinismo revolucionário, quer do absolutismo monár- eu encontrava republicanismo na Inglaterra em espíritos de primeira ordem [ ... ]. Esse
quico, pôde assimilar as expectativas democráticas disseminadas n? Ocid~nte, fundo de republicanismo, latente, esquecido até, mas que a menor provocação faria
tendo como parâmetro a experiência histórica da Inglaterra, a partIr do sec~lo ressuscitar o mesmo que sob os Stuarts, longe de ser incompatível com a monarquia,
é que a tem conservado. 12
XVIII. A atenção do mundo voltou-se, então, para uma específica monarqUia.
Para a vertente hegemônica do liberalismo, à época, a monarquia cons-
Assim, animado pela lição que a moderna Inglaterra dava ao mundo,
titucional inglesa era a comprovação de que os "valores republicanos" origi-
Nabuco caminhava no sentido de dissociar a noção de República dos seus
nários da escalada das forças sociais do Terceiro Estado poderiam ser
vínculos originários com a Revolução Francesa. Se a República pudera conhe-
incorporados à vida e às instituições das antigas sociedades européias, sem
cer uma versão processual, pacífica, exemplificada pela abertura da monar-
que fosse necessário o concurso de uma "revolução republicana". Nesse
quia inglesa às questões democráticas do século, cancelava-se a polaridade
caso, era-lhes indiferente a forma de governo. Isto é, acreditavam mesmo
entre monarquia e república, cabendo, então, vivificar as instituições brasilei-
que a monarquia constitucional poderia desempenhar melhor o papel de uma
ras com valores universalistas e democráticos. O campo, portanto, em que
República, na medida em que, não representando uma ameaça às forças .da
atuaria só podia ser o da reforma.
tradição, conseguiria acolher, mais facilmente, as irreprimíveis ener~l~s
Mas a adesão de Nabuco à "solução inglesa" não seria destituída de
democratizadoras em curso no mundo, e, de algum modo, ajustá-las, corngl-
dúvidas e oscilações. Ciente de que a sua intenção democrática esbarrava nas
las em sua rude expressividade, incorporá-las ao sistema da ordem sob o
vicissitudes locais de uma sociedade escravista, inerte embaixo, sem possibili-
andamento pacífico e distendido da marcha reformadora.
dade de mobilização popular e sem uma aristocracia à inglesa, aberta ao tema
Relembrando os seus anos de juventude, Nabuco confessará que, por
da reforma, o autor dirá que pouco faltou para que cedesse "ao gérmen revo-
aquela época, ostentava uma indiferença semelhante à do centro liberal euro-
lucionário que as leituras francesas dos vinte anos [lhe] tinham deixado"Y
peu quanto à forma preferencial de governo - se republicana ou monárquica.
Segundo Nabuco, não fossem os ensinamentos que, por aquela época, extraíra
Afirmará, contudo, a sua precoce "fidelidade" à causa reformista, que, segun-
do livro de Bagehot, intitulado A Constituição inglesa, "teria sido arrastado
do ele fora-lhe "hereditariamente" transmitida pela figura incontrastável de
seu p~i, o senador Nabuco de Araújo, a quem considerava a encarnação bra-
irresistivelmente para o movimento republicano que começava".14
sileira do "espírito de reforma".9 Para Nabuco "a atmosfera que respirava em Walter Bagehot, o autor que terá fornecido a "ferramenta" com que
Nabuco desempenharia, mais tarde, a sua atividade política, pode ser conside-
casa" era incompatível com quaisquer dos traços do conservadorismo, "das
rado um seguidor, no século XIX, das idéias de Montesquieu. O modo mais
regras hieráticas de governo", "da velha igreja saquarema, que, com os Torres,
óbvio de aproximá-los costuma ser a menção à preferência de ambos pela
os Paulinos, os Eusébios, dominava tudo no país".lO

11 lbid., p. 55.
• Joaquim Nabuco, Minha formação, cit., p. 26. 12 lbid., pp. 102-103.
• Ibid., p. 23. 13 lbid., p. 107.
10 Ibidem. 14 lbid., p. 38.

224 225
MINHA FORMAÇÃO MARIA ALICE REZENDE DE CARVALHO

monarquia constitucional, tida por Montesquieu como a forma de governo ade- A partir dessas idéias e, segundo ele, gradualmente, a consistência políti-
quada ao mundo de sua época - um mundo marcado pela desigualdade entre ca de Bagehot foi prevalecendo sobre o seu "radicalismo espontâneo". Em
os homens e pela distribuição desses nos lugares e funções de uma sociedade 1873, completaria, por fim, a sua adesão definitiva ao campo monárquico.
hierarquizada. Assim, a honra de cada lugar e função - isto é, de cada estamento
_, que o poder monárquico não se dispunha a ferir, estaria na origem de um
equilíbrio de forças, gerador da ordem e da prosperidade. Esse era, sem dúvi- APRENDIZADO DO MUNDO
da, um ponto em comum entre Montesquieu e Bagehot, constituindo-se em
uma clássica justificativa da monarquia constitucional modema que Nabuco Parte considerável da coletânea autobiográfica de Nabuco dedica-se à
acolheria para sempre. confirmação dos efeitos que o legado civilizacional do Ocidente produzira so-
Porém, o aspecto mais interessante a aproximá-los talvez seja a bre ele. Requisito indispensável à educação das elites oitocentistas em contex-
tematização, presente em ambos, do nexo necessário entre a cultura e a políti- tos periféricos, a grande viagem, o contato com diferentes modos de vida e,
ca,15 ou, em outras palavras, a sugestão de que a legitimação das formas de mais ainda, com distintos modos de ver o mundo, cumpriu-se e foi narrada,
governo, com suas representações, práticas e instituições, não é um fenômeno sem economia, por Nabuco. O peso das experiências de sapientia mundi em
indiferente à existência de determinadas condições culturais. Minha formação é ilustrativo da voracidade do autor quando jovem. Ele es-
De modo que, para Nabuco, a principal contribuição de Bagehot teria creveu:
sido a de alertá-lo contra os perigos de uma adesão a ideais absolutos, cujo
teor não encontrasse validação cultural no ambiente a que se destinava. Era, [ ... ] em 1873 [... ] a minha ambição de conhecer homens célebres de toda ordem era
sem dúvida, uma lição dificil para um jovem que, naqueles anos, costumava sem limites; eu tê-los-ia ido procurar ao fim do mundo. Do mesmo modo com os
lugares. O que eu queria ver eram todas as vistas do globo, tudo o que tem arrancado
expressar-se nos seguintes termos:
um grito de admiração a um viajante inteligente. Nessa qualidade de câmara fotográfi-
ca, só lastimava não ter o dom da ubiqüidade. 18
[ ... ] dos dois governos, o inglês e o norte-americano, o último parecia-me o mais livre,
mais popular. Por motivos diferentes a monarquia constitucional, democratizada por
instituições radicais, seria ainda para o Brasil um governo preferível à república, Daqueles anos, descritos como os do puro "prazer, da embriaguês de
mesmo pelo fato de já existir; mas em tese, entre essa monarquia e a república, a viver, da curiosidade do mundo", Nabuco destacaria não apenas as grandes
superioridade, se havia, estava do lado desta. 16 obras e personalidades com que travou contato na Europa, mas também a
consolidação, nele, de uma "impressão aristocrática da vida", decorrente, em
Com Bagehot, porém, Nabuco terá neutralizado o "doutrinarismo revolu- parte, da freqüência constante a banquetes reais, a bailes, às famosas corridas
cionário" das suas primeiras leituras e compreendido que a via mais segura de Ascot, aos círculos sociais restritos em que se misturava à nobreza e à
para a realização de mudanças passava pelo respeito aos costumes, e não pela intelectualidade européias. Segundo o autor, com a lente que, por aquela épo-
ruptura com a tradição; pelo pragmatismo, pelo espírito do aperfeiçoamento, e ca, lhe era dado ver o mundo, a sua convicção monárquica só poderia ser
não pelo encerramento do espírito "em algum sistema filosófico ou fanatismo aprofundada, recalcando, mais ainda, o que nele restara de uma "imaginação
religioso [ ... ] que aí se isola inteiramente do mundo exterior". 17 revolucionária" .
Portanto, assim como, na Itália, as artes haviam refinado o seu senso
estético, e, na França, as letras haviam cumprido um papel similar, um certo
tipo de convívio social, de mundanismo, uma certa boemia típica de jin-de-
l' cr. Cesar Guimarães, "Cultura, ciência política: aproximações conceituais", em Márcia de Paiva
siecle lhe propiciaria um enriquecimento intelectual, mas, principalmente, polí-
& Maria Ester Moreira (orgs.), Cultura: substantivo plural (São Paulo: Editora 34, 1996),
pp. 11-18.
16 Joaquim Nabuco, Mznha formação, cit, p. 29. [Grifo meu.]
17 Ibid., p. 52. l' Ibid., p. 47.

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MINHA FORMAÇÃO MARIA ALICE REZENDE DE CARVALHO

tico, já que lhe teria tornado mais sensível a compatibilidade entre o liberalismo Novo Mundo, a floresta amazônica ou os pampas argentinos, não valem um
que "respirava em casa" e a forma monárquica de governo. Segundo Nabuco, trecho da Via Appia, uma volta na estrada de Salermo a Amalfi, um pedaço do
o cosmopolitismo que o acometera na Europa, traduzindo-se na diversidade de cais do Sena à sombra do velho Louvre"."" Enfim, entre as realizações da
interlocutores e de opiniões com que se deparava nos salões mundanos, terá história e o ambiente americano - uma espécie de jardim infantil que a huma-
sido, a rigor, a sua grande escola de tolerância liberal e o seu grande antídoto à nidade ainda não havia "ocupado" com a sua obra - a opção do autor é, clara-
intransigência republicana. De modo que, naquelas circunstâncias, pudera con- mente, a primeira.
cluir que "o liberalismo, mesmo o radical, não só é compatível com a monar- Em Nabuco, a superação da dualidade entre o "século" e o "país" jamais
quia, mas até parece aliar-se com o temperamento aristocrático" .19 É, pois, se verificaria plenamente, sendo essa, aliás, uma das contingências da vida
nesse sentido que, para Nabuco, sua formação literária e política caminharam intelectual nas sociedades retardatárias, que obriga a viver, como imaginação,
juntas, constituindo, na verdade, uma única dimensão do seu espírito. aquilo que, nos países centrais, já se impõe como sociologia. Nabuco encontra-
Viagem, pois, de confirmação da tradição familiar, de entronização do ria, porém, nas concepções universalistas da história uma via de integração da
legado cultural das gerações que o precederam - sob esse aspecto, a sociali- jovem nação brasileira na marcha do mundo. Tornava-nos, assim, parte, embo-
zação de Nabuco não discrepava da que se oferecia à quase totalidade dos ra "atrasada", de uma realidade que transcendia a tosca realidade local.
filhos das boas famílias brasileiras do século XIX. O que, porém, torna o seu Esse esforço integrativo, essa necessidade de escapar da "estreita fôr-
relato tão especial é o fato de nele encontrar-se esboçada uma sociologia dos ma" que nos lega o lugar de nascimento, não se expressaria, unicamente, na
intelectuais periféricos, construída a partir dos dilemas vivenciados pelo pró- busca de Nabuco por prestígio e reconhecimento intelectual no grand monde
prio autor. 20 Assim, para Nabuco, o traço característico de qualquer brasileiro europeu - quanto a isso, a correspondência travada, principalmente, com Renan,
relativamente culto é a dualidade, a sua incapacidade de satisfazer-se exclusi- o mestre literário que, por aqueles anos, incendiava a imaginação estética de
vamente na Europa ou no Brasil. Isso porque, o Velho Mundo continha, acu- Nabuco, é prova suficiente. Expressava-se também no combate dirigido a to-
muladas, as "reminiscências da trajetória humana" e era, por isso, a referência dos quantos se alinhassem pelo nativismo romântico que prosperava no Segun-
para a qual se voltava a imaginação dos intelectuais; o Novo Mundo, esvaziado do Reinado.
de densidade histórica, impunha-se, porém, ao sentimento. Nas suas palavras Assim, por exemplo, em Minha formação, o debate encetado, anos an-
"de um lado do mar, sente-se a ausência do mundo; do outro, a ausência do tes, com José de Alencar é rememorado por um Nabuco maduro e, em parte,
país. O sentimento em nós é brasileiro, a imaginação européia","1 arrependido pelos termos ferozes - ditados, segundo ele, pela "presunção e
Tensionado pela atração desses dois pólos, Nabuco, porém, se dirá "an- injustiça da juventude" _"3 com que fustigara o seu interlocutor. É, contudo, o
tes um espectador do século do que do país". Para ele, "as paisagens todas do universalista Nabuco que, passado tanto tempo, ainda continuava a defender o
fundamento europeu da civilização brasileira, criticando o romantismo dos que
19 Ibid., p. 52. imaginavam poder alcançar uma espécie de "núcleo autêntico" da nossa iden-
lO No prefácio de Evaldo Cabral de Melo à edição comemorativa do centenário de Minha forma- tidade. Em uma conhecida passagem do livro, encontra-se que
ção, lê-se que o cosmopolitismo de Joaquim N abuco era expressivo da antiga sensibilidade
(universalista) brasileira, quando ela ainda não se traduzia em um culto ufanista da identidade
nacional. Segundo o autor, Nabuco encarnaria o "dilema de mazombo", isto é, a ambigüidade do a nossa imaginação não pode deixar de ser européia [ ... ]; ela não pára na Primeira
descendente do europeu que, no Brasil ou nos Estados Unidos, estaria sempre ''[. .. ] com um pé na Missa no Brasil, para continuar daí recompondo as tradições dos selvagens que
América e outro na Europa [ ... ]". Comum entre os membros das elites americanas, tal dilema, guarneciam as nossas praias no momento da descoberta; segue pelas civilizações
contudo, pode ser observado também em outros contextos periféricos, nos quais o descompasso todas da humanidade, como a dos europeus, com quem temos o mesmo fundo comum
entre o universal e o local assume dramaticidade idêntica. O caso, aliás, do idealismo filosófico
alemão ilustra, perfeitamente, o desconforto dos intelectuais nativos, divididos entre a observa-
ção da marcha da história e a experimentação dos desacertos nacionais da vida do espírito. Cf.
Evaldo Cabral de Melo, "No centenário de Minha formação", em Joaquim Nabuco, Minha II Ibid., p. 49.
formação, cit., pp. 9-16. II Ibid., p. 80. Cf. também Afrânio Coutinho, A polêmica Alencar-Nabuco (Rio de Janeiro: Tempo

1
li Ibid., p. 26. Brasileiro, 1965).

228 229
MINHA FORMAÇÃO

da língua, religião, arte, direito e poesia, os mesmos séculos de civilização acumulada,


T MARIA ALICE REZENDE DE CARVALHO

pelos Campos Elísios até o Louvre e do Louvre pelo cais do Sena até apanhar Notre-
e, portanto, desde que haja um raio de cultura, a mesma imaginação histórica. 24 Dame. Em Londres não se tem essa impressão de arte que corre por cima da velha
Paris toda, como um friso grego. Para o artista que prccisa inspirar-se exteriormente
nas formas da edificação, viver no meio do bclo realizado pelo gênio humano, Londres
Em suma, entre o ano de 1873, quando primeiro visitou a Europa, e o de
cstá para Paris como Khorsabad para Atenas. [ ... ] Por aí não há o que comparar. [ ... ]
1879, quando se fixou no Brasil, eleito deputado pela província de Pernambuco,
Quanto a tudo o mais quc faz o prazer da vida, eu preferia [ ... ] a naturalidade, a calma,
as viagens foram, para Nabuco, a sua enciclopédia. Durante aquele período- o descanso, as grandes perspectivas, o isolamento, o esquecimento de Londres à
o de sua "febre poética", como dirá -, ocupara-o uma "espessa camada euro- constante vibração de Paris [ ... ]27
péia de imaginação, impermeável à política local, a idéias, preconceitos e pai-
xões de partido". 25 As grandes referências políticas, contudo, as que Em Paris, portanto, a magnitude da criação humana; em Londres, a natu-
transcendiam as práticas dos "políticos profissionais" e que diziam respeito às ralidade dos fatos. Na cidade francesa, seria impossível não relevar a inter-
questões universais, essas continuariam interessando a Nabuco, polindo os venção do ator, a atividade do gênio estético ou político; na inglesa, o andamento
seus princípios formativos e se imiscuindo, a despeito dele próprio, na imagi- da vida, o livre transcorrer dos acontecimentos. Para Nabuco, discípulo de
nação do mundano: Bagehot, estariam, assim, representados dois padrões culturais distintos e, por-
tanto, critérios igualmente distintos de validação de sistemas políticos. Mais
[ ... ] o processo pelo qual a forma monárquica se incorporou à minha consciência uma volta no parafuso e se está diante de uma fórmula consagrada por Nabuco:
estética [ ... ] é o principal trabalho político que se opera em mim desde o ano de 1873
a tradição republicana francesa ("que é a nossa") advém do ímpeto revolucio-
até o ano de 1879, em que tomei assento na Câmara. 26
nário, da exaltação do gesto heróico, de uma racionalidade, enfim, que não
consulta a vida; a tradição monárquica inglesa é a que se traduz em uma "qua-
se superstição do costume", levando a que as mudanças que ali se operam só
possam ser as que visem beneficios coletivos em uma tal escala, que justifique
AALMA POLÍTICA DAS CIDADES
o sacrificio da tradição.
O fato é que a paixão de Nabuco por Londres - "amei Londres acima de
A se tomar como verdadeira a afirmação de N abuco de que os seus anos
todas as outras cidades e lugares que percorri" _28 derivava, segundo ele, de
de formação literária foram também os de assimilação da política no seu sen-
traços específicos à formação histórico-social inglesa, tais como a honra, a
tido moral, é possível reconhecer, em cada uma das impressões formuladas
altivez moral, a individualidade, cuja expressão, no plano político, era, como
sobre as cidades que visitou, mesmo naqueles comentários de teor exclusiva-
em nenhuma outra sociedade, a defesa da liberdade. Quanto a Paris, via, ali, o
mente estético, um julgamento político. Afinal, é sob o impacto de suas vivências
retrato de uma França "sem espírito de liberdade arraigado, sujeita sempre às
em Paris, Londres e Nova York que, segundo o próprio autor, consolidara-se a
crises das revoluções e das glórias".29 Paris lhe parecia "um teatro em que
sua opção pela forma monárquica de governo.
todos, de todas as profissões, de todas as idades, de todos os países vivem
Minha formação contém uma explícita comparação' entre Paris e Lon-
representando para a multidão de curiosos que os cercam".30 Sobre ela paira-
dres. Em uma de suas passagens mais conhecidas, lê-se que
va uma "atmosfera de luxo e combate", na qual cada indivíduo se sentia limita-
Paris, ao lado de Londres é uma obra de arte, imortalmente bela, ao lado de uma
do pela vigilância dos demais - Paris "é um cativeiro [ ... lo cativeiro agradável,
muralha pelásgica; é um Erectéion, em frente ao Memnonium de Tebas. De certo não como seja, mas sempre um cativeiro [.. .]"31
há no mundo uma perspectiva arquitetural igual à que se estende do Arco do Triunfo
27 Ibrd., pp. 88-89.
28 Ibid., p. 90.
24 Joaquim Nabuco, Mrnha formação, cit., p. 49. 29 Ibid., p. 99.
" Ibid., p. 78. lO Ibid., p. 89.
26 Ibid., p. 80. li Ibidem.

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1 231
MINHA FORMAÇÃO
r MARIA ALICE REZENDE DE CARVALHO

Em tais circunstâncias, a liberdade não encontraria um solo adequado. norte-americana, embora fundada sobre os alicerces do pragmatismo anglo-
Grassara, por isso, na França, "uma predisposição igualitária que, logicamente, saxão, assemelhava-se, nos seus efeitos à república preconizada pelos jacobinos,
leva à demagogia"?2 com seu ideal de publicização absoluta e suas execuções sumárias que, nos
De modo que, aguçada pelas impressões que as cidades lhe comunica- Estados Unidos, assumiam a forma de "linchamentos no alto das colunas de
vam, a consciência política de Nabuco ia tecendo a malha comparativa em que jornais" .35
procurava inscrever o Brasil. Tendo deixado o país ainda mal digerida a sua A conclusão de Nabuco é, por isso, a de que "não havia nada que me
preferência monárquica, e tendo descartado, na Europa, qualquer simpatia pelo desse na América do Norte idéia da Superioridade de suas instituições sobre as
republicanismo francês, restava-lhe ainda o combate definitivo com a forma inglesas".36 E prossegue,
política republicana - era preciso conhecer Nova York. Em Minha formação
nem mesmo a de liberdade individual. É certo que o americano, comparado com o
encontra-se, explicitamente, a justificativa da sua viagem ao norte do conti-
inglês, tem o sentimento da altivez individual mais forte, porque não há classe ou
nente:
hierarquia a que ele se curve [ ... ]. A questão é saber, tomando o conjunto dos resulta-
dos, se as sociedades antigas onde as influências tradicionais não se apagaram de todo,
[... ] durante mais de um ano [1876-1877] fui um verdadeiro americano nos Estados como a inglesa [ ... ], não produzem, com as limitações de classe, uma dignidade pes-
Unidos, como o provérbio manda ser romano em Roma. Era o meio de penetrar, de soal moralmente superior a essa altivez da igualdade.
compreender, de sentir a vida política do país, se eu o queria, e este foi o meu motivo
ao desejar ir para os Estados Unidos. JJ Quanto ao privilégio do princípio da igualdade, fundamento central do
republicanismo, a avaliação de Nabuco sobre a América desfere o golpe defi-
De imediato, duas são as suas constatações: a primeira, que havia na nitivo nas suas simpatias juvenis pela República,
América uma ausência de ideal e um excesso de finalidade material - impres-
são logo corrigida pela afirmação de que o ideal americano ainda está se for- é preciso não esquecer, tratando-se do norte-americano, que a igualdade humana para
mando, isto é, "a nação trata de crescer, de povoar o seu imenso território, de ele fica dentro dos limites da raça; já não falando do chin ou do negro - que seria
chegar ao seu completo desenvolvimento [oo.], para depois falar de si e pensar classificado, se vencesse o instinto americano, em uma ordem distinta da do homem
- nunca ninguém convenceria o livre cidadão dos Estados Unidos, como ele se chama,
no nome que deve deixar".34 A segunda constatação, de algum modo associa-
de que o seu vizinho do México ou de Cuba, ou os emigrantes analfabetos e os
da à primeira, foi a de que, lá, a liberdade individual, sendo, quase integralmen- indigentes que ele repele dos seus portos, são seus iguais. J7
te, aplicada ao business, não contemplava, com a devida atenção, a esfera
privada da vida: "todo homem é um homem público, e ele todo". Segundo Foi sob O conjunto dessas impressões que Nabuco retomaria, um pouco
Nabuco, se a liberdade, assim entendida, era um dado positivo para a constru- mais tarde, ao Brasil, convencido de que só havia "um grande país livre no
ção de uma civilização material, pois empurrava a sociedade para a frente, mundo" _38 a Inglaterra.
como uma locomotiva, por outro lado, apagava as diferenças, as modulações
do caráter que caracterizam as formações aristocráticas. UMA CAUSA UNIVERSAL
Desse ponto de vista, em que pesem todas as distinções registradas entre
o republicanismo francês e o norte-americano, Nabuco via também na Améri- A última parte de Minha formação, segundo o plano originalmente es-
ca o predomínio do princípio da igualdade sobre o da liberdade, com a mesma boçado por Nabuco, seria dedicada a apresentar a sua "formação humana, de
conseqüência política do surgimento de demagogos. Nesse sentido, a república modo que o livro confinasse com outro, que eu havia escrito antes, sobre a

Jl Ibid., p. 129.
12 Ibid., p. 52. ,. Ibid., p. 128.
11 Ibid., p. 111. J7 Ibid., p.131.

1
34 Ibid., pp. 120-121. 1. Ibid., p. 99.

232 233
MINHA FORMAÇÃO
T MARIA ALICE REZENDE DE CARVALHO

minha reversão religiosa [... ]".39 Assim, dentre os capítulos finais de sua auto- sumia, então, a face diversa de uma dívida moral, dele próprio e do Brasil,
biografia, levando-se em conta os critérios estabelecidos pelo próprio autor, que se impunha às consciências e transcendia os partidos, mas, como reco-
são centrais os que se referem ao abolicionismo e às reminiscências de sua nhecerá, fora levada no bojo de um "movimento de caráter humanitário e
infância, transcorrida, até os oito anos de idade, no engenho Massangana, na social", que destruíra a injustiça sem, contudo, lograr estender o seu impulso
região do Cabo, em Pernambuco. sobre a futura sociedade: faltara-lhe "a profundeza moral"42 de um grande
Interessante é constatar que os dois temas, da forma como são tratados, movimento religioso.
revelam estar ligados pela continuidade moral entre o menino e o homem públi- Essa dívida, contraída, ainda menino, aos negros, Nabuco resgatará já
co, pois, de acordo com Nabuco, ainda que, por dez anos, tivesse tentado tor- feito político. De fato, desde 1879, quando cedeu à tentação de sua mãe de vê-
nar a questão dos escravos sensível à dinastia e, para isso, tivesse mobilizado lo representar no parlamento a quarta geração da família, elegera-se pela pro-
os recursos da história, da ciência, da moral e da literatura, a escravidão, para víncia de Pernambuco, tendo em vista a única causa que lhe parecia representar
ele, cabia toda em um quadro inesquecido da sua infância. Ele narra: "um interesse de natureza universal" - a liberdade, a emancipação dos escra-
vos. Era, por assim dizer, uma reafirmação de tudo que pudera aprender em
Eu estava uma tarde sentado no patamar da escada exterior da casa, quando vejo
suas viagens, daquilo que conhecera de si e do que admirara no país de sua
precipitar-se para mim um jovem negro desconhecido, de cerca de dezoito anos, o
eleição, a Inglaterra: entraria na vida parlamentar indiferente às questões
qual se abraça a meus pés, suplicando-me pelo amor de Deus que o fizesse comprar
por minha madrinha para me servir. Ele vinha das vizinhanças, procurando mudar de comezinhas que costumavam atrair os "políticos profissionais", buscando, sem-
senhor, porque o dele, dizia-me, o castigava, e ele tinha fugido com risco de vida ... Foi pre, um ponto de vista maiúsculo, uma "política com P grande", que pudesse
esse o traço inesperado que me descobriu a natureza da instituição com a qual eu inscrever a nação no "século". Nas suas palavras:
vivera até então familiarmente, sem suspeitar a dor que ela ocultava 40
No Brasil havia ainda no ano em que comecei minha vida pública um interesse [huma-
Na autobiografia de Nabuco, portanto, o repúdio às relações escravistas, no, universal] daquela ordem, com todo esse poder de fascínio sobre o sentimento e
àquela "indigna marca nacional do Brasil", aninhara-se no seu sentimento, an- o dever [ ... ]. Tal interesse só podia ser o da emancipação, e, por felicidade da minha
tes que na sua reflexão. Todo o prazer infantil de viver à larga, ainda comuni- hora, eu trazia da infância e da adolescência o interesse, a compaixão, o sentimento
cado, após tantos anos, aos sentidos - o prazer da visão derramada sobre "a pelo escravo - bolbo que devia dar a única flor da minha carreira [ ... ]43

planície em que se estendiam os canaviais"; o dos calores do dia, que obrigava


a sesta, "respirando-se o aroma [... ] das grandes tachas em que se cozia o Político de uma só causa, da única causa, o anglófilo Nabuco movia-se,
mel"; o do "silêncio dos céus estrelados" e "do rangido longínquo dos carros ainda, embora nas toscas condições de sua ambiência, no cenário institucional
de boi" -, tudo isso, enfim, vinha-lhe à memória ladeado pela revelação violen- que mais parecia "um jardim encantado do Oriente, onde tudo eram formas
ta do sofrimento do escravo. enganadoras [... ] um vasto simulacro",44 pelas lições de Bagehot, em sua bus-
De modo que, em Minha formação, o tema do abolicionismo não apa- ca pelo conteúdo espiritual, pelo "grande drama de lágrimas e esperanças"
rece como uma questão social ou nacional, tal como fora tratado anos antes, que, latente na sociedade brasileira, justificasse e fizesse mover as engrena-
em livro que lhe conferira grande notoriedade. 41 A luta emancipacionista as- gens políticas. Sua contribuição, nesse sentido, é extraordinária, antecipando,
em muitos aspectos, os grandes ensaístas sociais brasileiros. É dele a cons-
tatação de que, no Brasil, as escolhas, as opiniões, os partidos, institucionali-
J9 Ibid., nota à p. 159. O livro a que Joaquim Nabuco faz menção é o já referido Foi voulue, do qual zados ou não, derivam menos de ideários intelectuais ou cognitivos e mais da
extraiu o capitulo "Massangana", traduzindo-o para publicação na sua coletânea autobiográfica.
40 Ibid., p. 162.
41 Cr. Joaquim Nabuco, O abolicionismo (Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999). Sobre o tema, cr.
também Marco Aurélio Nogueira, As desventuras do liberalismo: Joaquim Nabuco. a monar- " Joaquim Nabuco, Minha formação, cit., pp. 181-182.
quia e a república (Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1984), e, do mesmo autor, a resenha de O 43 Ibid., p.155.

aboliCIOnismo, neste volume. 44 Ibid., p. 190.

234
1 235
MINHA FORMAÇÃO r
consulta ao sentimento, aos filtros sentimentais que são a indulgência, a simpa-
MANUEL BONFIM
tia e a benevolência - "em nossa história não haverá nunca inferno, nem se-
quer purgatório". 45
Mais ainda, ao tratar da escravidão no Brasil, é a natureza singular da
contribuição do negro à nossa formação histórica e a herança que ela terá
legado ao futuro que sobressaem, aliadas à caracterização de uma identifica-
A Amén·ca Latina:
ção hierárquica e afetiva entre senhores e escravos. Por essa via, Nabuco, de
algum modo, retomava o fio de suas descobertas sobre a "mola", o mecanis-
mo oculto, que tanta "grandeza democrática" conferia à monarquia constitucio-
males de origem
nal inglesa. Lá, onde as hierarquias sociais são bem estabelecidas, e onde a
honra é um atributo do lugar a que se pertence, é possível conferir dignidade
a cada cidadão. Nesse caso, o caminho brasileiro para a modernização
institucional e para a sua integração na marcha universal da história, só pode-
ria ser, segundo o autor, a que consultasse a nossa trajetória hierárquica-afetiva,
corrigindo-a, reformando-a radicalmente, até, mas mantendo-se fiel à essa e Roberto Ventura
às demais tradições do país.
De acordo com Nabuco, quando caiu a monarquia, caiu o cimo de um
edificio hierárquico, já corroído embaixo pela substituição da "aristocracia de
maneiras" das elites tradicionais nordestinas pelo instinto utilitário dos novos
fazendeiros do sul, a quem o escravo, desconhecido do dono, "se apresentava
como mero instrumento de colheita". A república, então, pôde renegar os nos-
sos costumes e teve a intenção de escrever uma nova história. A de Nabuco,
em Minha formação, cumprirá sempre o papel de um "princípio negativo",
temperando, com a dúvida, as promessas ainda não realizadas do ideário repu-
blicano.

41 Ibid .. p. 20.

236
r
Publicado em 1905, A América Latina: males de origem, de Manuel
Bonfim, traz uma curiosa reflexão sobre os males de origem dos países do
continente. Os intelectuais da época gostavam de culpar as raças inferiores,
as populações mestiças e o clima tropical pelo atraso destes países. Bonfim,
ao contrário, discutiu a exploração das colônias pelas metrópoles e dos escra-
vos e trabalhadores pelos senhores e proprietários, recorrendo a uma noção
tirada da biologia: o parasitismo. Criticou o Estado brasileiro como tirânico e
espoliador e mostrou o artificialismo de uma democracia de fachada, que ape-
nas servia para perpetuar o poder das elites. Acreditava que a falta de demo-
cracia no Brasil apenas se resolveria com a difusão do ensino primário, já que
as eleições na Primeira República (1889-1930) excluíam o voto do analfabeto.
Bonfim atacou o imperialismo dos Estados Unidos, no momento em que
este estendia sua influência sobre os países do continente a partir da doutrina do
presidente norte-americano James Monroe (1817-1825), que pregava a não-
intervenção das nações européias na América. Remava assim contra a corrente
pan-americanista, que contava com a simpatia de políticos e intelectuais como o
barão do Rio Branco, Rui Barbosa, Joaquim Nabuco e até de inconformados
como Sílvio Romero. Bonfim percebeu, ao contrário, que o pan-americanismo
era um instrumento usado pelos EUA para descartar a presença econômica
européia e estabelecer a sua própria hegemonia no continente. l
A América Latina: males de origem revela a consciência continental do
ensaísta, que falava não só como brasileiro, mas enquanto latino-americano, ao
procurar exprimir a posição de uma região espoliada e atrasada. Outros brasi-
leiros, seus contemporâneos, também refletiram sobre a situação latino-ameri-
cana no período entre o fim do Império e a consolidação da República, de 1880
a 192 O, como lembra Antonio Candido. Joaquim N abuco escreveu Ba Imace da
(1895) sobre o político chileno e mostrava sua desconfiança pelos aspectos
populares de sua atuação, no que desvelava suas próprias preferências aristo-
cráticas. Eduardo Prado ironizou, emA ilusão americana (1893), a "fraternidade
americana" e chamou a atenção para a "rapinagem dos Estados Unidos" em
relação aos países da América Latina. Oliveira Lima discutiu, em Pan-
americanismo (1907), os perigos e o caráter imperialista da Doutrina Monroe,
assumindo posições semelhantes às de Bonfim. O crítico José Veríssimo ad-
vertia, nos jornais, para o "perigo americano" e encarou, em A educação
nacional (1891), a cultura norte-americana com certa desconfiança. Euclides

,-

I
1 Antonio Candido, "Radicalismos", em Vários escritos (São Paulo: Duas Cidades, 1995), p. 287.

239
A AMÉRICA LATINA: MALES DE ORIGEM ROBERTO VENTURA

da Cunha se mostrava pouco seguro, em artigos como "Solidariedade sul-ame- outros radicais, como o líder abolicionista Joaquim Nabuco, propôs um conjun-
ricana", das possibilidades de uma aliança com os países vizinhos e temia a to de idéias e atitudes, que formaram um contrapeso ao movimento conserva-
deflagração de uma guerra entre o Brasil e o Peru por disputas de fronteira. 2 dor que sempre predominou. Gerado na classe média e em setores esclarecidos
A reflexão de Bonfim se insere, em termos latino-americanos, no contex- das classes dominantes, o radical não é um revolucionário, mas sobretudo um
to de consolidação do regime neocolonial e da tutela dos Estados Unidos sobre revoltado, que pensa os problemas e propõe soluções na escala da nação,
os países do continente e exprime, do ponto de vista brasileiro, a forte apreen- passando por cima dos antagonismos entre classes. 5 Só adotou uma postura
são com os rumos do regime republicano recém-proclamado. Sintetizou tais revolucionária em sua última obra, O Brasil nação (1931), em que criticou o
receios na quarta parte de A América Latina, em que criticou a república, que sistema capitalista e o modelo democrático como instrumentos de exploração
se afastara de seus ideais, ao ter se adaptado às instituições monárquicas e ao dos trabalhadores, e pregou uma revolução nacional-popular, que deveria levar
conservadorismo político que pretendera eliminar. O movimento de neoco- os grupos excluídos ao poder.
Ionização, agora sob o controle norte-americano, e a instabilidade política e Formado em medicina na Bahia e no Rio de Janeiro, Manuel Bonfim
financeira deram impulso a interpretações, como a de Bonfim, de âmbito na- abandonou a prática médica após a morte da filha e passou a se dedicar à
cional e continental. 3 educação, publicando vários trabalhos sobre o assunto e alguns livros didáti-
cos. Foi secretário de educação do Distrito Federal, diretor do Instituto de
Psicologia Experimental, no Rio de Janeiro, e redator e diretor da revista peda-
DA MEDICINA À HISTÓRIA gógica Educação e ensino. Escreveu obras de psicologia, como Noções de
psicologia (1916), e sobre pedagogia, como O progresso pela instrução
Político, historiador e educador, nascido em 1868 em Aracaju e morto em (1904), Lições de pedagogia (1915) e Cultura e educação do povo brasi-
1932 no Rio de Janeiro, Manuel Bonfim é um dos mais originais pensadores leiro (1932). Foi ainda autor de obras didáticas para as escolas primárias,
brasileiros. Foi elogiado por Darci Ribeiro como um dos fundadores da antro- dentre elas Através do Brasil (1910), muitas delas em parceria com o poeta
pologia brasileira por investigar a formação do povo a partir dos contatos e Olavo Bilac.
misturas entre etnias e tradições. 4 Rompeu com os modelos de pensamento Escreveu A América Latina em 1903, em Paris, onde estudava psicolo-
de seu tempo, ao afastar a hipótese de inferioridade racial e valorizar os tipos gia. Seu livro é uma reação à visão negativa que os europeus tinham da Amé-
mestiços e as culturas cruzadas, antecipando posições depois adotadas por rica do Sul, tida como condenada ao atraso pela degeneração de raças
Gilberto Freire em Casa-grande & senzala (1933). "inferiores" ou "misturadas" e pela suposta insalubridade do clima tropical.
Bonfim é tido por Antonio Candido como o mais radical pensador do Manifestara antes, em 1897, seu interesse pelos assuntos latino-americanos,
início do século XX por suas críticas ao conservadorismo das elites. Junto com quando se ofereceu, como membro do Conselho Superior de Instrução Públi-
ca, para ser o relator de concurso para a escolha do livro de história da Amé-
rica que seria adotado nas escolas de formação de professores. Deu o parecer
, Antonio Candido, "Os brasileiros e a nossa América", em Recortes (São Paulo: Companhia das
Letras, 1993), p. 131-139; Joaquim Nabuco, Balmaceda (Rio de Janeiro/São Paulo: Civilização sobre a única obra que se apresentou, a História da América (1899), de Ro-
Brasileira/Nacional, 1938); Eduardo Prado, A ilusão americana (Rio de Janeiro: Civilização cha Pombo, em que os males dos países latino-americanos eram apontados
Brasileira, 1933); José Veríssimo, Cultura, literafllra e política na América Latina, organização como o resultado de um passado colonial funesto.
de João Alexandre Barbosa (São Paulo: Brasiliense, 1986); Oliveira Lima, Pan-americanismo
(Monroe, Bolívar, Roosevelt) (Rio de Janeiro/Paris: Garnier, 1907); Euclides da Cunha, "Solida-
As principais fontes históricas de Bonfim foram o livro de Rocha Pombo,
riedade sul-americana", em Contrastes e confrontos, Obra completa, vol. 1 (Rio de Janeiro: do qual tirou informações sobre a América hispânica, e a História de Portu-
Aguilar, 1995). gal (1879), do português Oliveira Martins, que o inspirou na visão calamitosa
J Flora Süssekind, "Introdução" a Manuel Bonfim, "A América Latina: males de origem", em
Silviano Santiago (org.), Intérpretes do Brasil, vol. 1 (Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2000), pp.
612-613.
4 Darci Ribeiro, "Manuel Bonfim, antropólogo", em Revista do Brasil 2, 1984, pp. 48-59. , Antonio Candido, "Radicalismos", cit., pp. 265-269.

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A AMÉRICA LATINA: MALES DE ORIGEM ROBERTO VENTURA

da decadência ibérica, ainda que se afastasse de suas posições racistas. Re- no que chamou de "luta sistemática, dircta, formal, conscientemente dirigida
correu ainda à História do Brasil, de frei Vicente do Salvador, e à História contra o passado", que permitiria romper o marasmo conservador dos países
geral do Brasil (1855), de Francisco Adolfo de Varnhagen, a quem acusava ibero-americanos. 8
de defender os interesses dinásticos da coroa portuguesa. Com informações Bonfim tomou o conceito biológico de parasitismo de empréstimo à botâ-
limitadas, mas contando com sua prodigiosa imaginação histórica, fez uma nica e à zoologia, disciplinas que estudou devido à sua formação médica. Ba-
análise profunda e renovadora da formação brasileira e latino-americana, que seou-se nos estudos de Jean Massart e Émile Vandervelde, que formularam,
rompia com as interpretações então correntes. em Parasitisme biologique et parasitisme social (1898) (Parasitismo bioló-
Investiga, em A América Latina, os males que atingem os países latino- gico e parasitismo social), uma teoria do parasitismo, aplicada tanto às rela-
americanos, atribuindo-os às características sociais dos colonizadores, marca- ções biológicas entre os seres vivos quanto aos vínculos sociais e econômicos
dos pelo "parasitismo", conceito-chave em seu pensamento, que transpôs da entre os indivíduos e grupOS.9 Adaptou, em A América Latina, as relações
biologia. O parasitismo se realiza por meio do trabalho escravo, que gera for- parasitárias das ordens vegetal e animal para o terreno social, mais especifica-
mas desumanas de convivência e incapacita a sociedade para os regimes que mente para a colonização dos espanhóis e portugueses na América.
possam assegurar a liberdade e o progresso, tomando permanente o caos po-
lítico e social do continente.
Afirmava, na apresentação do livro, ser movido por sentimentos patrió- o PARASITISMO NA HISTÓRIA
ticos, representados pelo "desejo de ver esta pátria feliz, próspera, adiantada
e livre" e "de conhecer os motivos dos males de que nos queixamos todos". Bonfim criou, a partir da noção de parasitismo, uma "teoria biológica da
Dedicou A América Latina a Sergipe, seu estado natal, "pedaço de terra mais-valia", segundo a qual as elites locais, as metrópoles coloniais e as potên-
americana em que nasci", tendo sido estimulado tanto pelo "amor ao solo cias imperialistas seriam parasitas das classes trabalhadoras, tomando para si
natal" quanto pelo interesse no porvir do continente: "Este livro deriva dire- a riqueza que estas produzem. Procurou dar conta, por meio de tal concepção
tamente do amor de um brasileiro pelo Brasil, da solicitude de um americano organológica, da produção e apropriação do valor do trabalho no nível interno
pela América".6 das relações entre classes e, em termos internacionais, na dependência entre
Abordou as relações entre classes e países na América Latina com base colônias e metrópoles. Chegou, ainda que partindo de conceitos biológicos, a
no parasitismo legado pelos colonizadores portugueses e espanhóis, que se conclusões semelhantes às formuladas a respeito da mais-valia por Karl Marx
apropriavam da riqueza produzida pelos indígenas e africanos, submetidos à em Das Kapital (O capital), cujos escritos só leria mais tarde, na década de
servidão ou à escravidão. O domínio colonial teria gerado uma proliferação de 1920, ao redigir O Brasil nação. 10
parasitas, representados pelo clero e pelos agentes da administração. Abordou Para o historiador sergipano, o parasitismo é capaz de dar conta do
as causas do atraso das ex-colônias de Portugal e Espanha, de modo seme- surgimento e desaparecimento dos povos ao longo da história: "a decadência e
lhante a um médico que precisa conhecer o passado do paciente, para fazer o a degradação têm como causa um fator que surge com o próprio progresso da
diagnóstico e estabelecer o tratamento: "A cura depende, em grande parte, da civilização - é o parasitismo, sempre e por toda parte o parasitismo, causa das
importância desse 'histórico'''.7 Alinha-se entre os intérpretes da sociedade causas, causa primeira, resumindo a história de todas as decadências em que
brasileira e latino-americana que partem da herança colonial e ibérica e que vão desaparecendo os povos e as civilizações" .11 O parasitismo produziria a
empregam um método genético de investigação, para explicar os males do
presente à luz da história. Mas se afastava do fatalismo histórico, ao se engajar 8 Ibid., pp. 168-169.
9 Jean Massart & Émile Vanderve\de, Parasitisme organique et parasitisme social (Paris: C.
Reinwald/Schleicher Freres, 1898).
6 Manuel Bonfim, A América Latma: males de ongem (O parasItismo social e evolução) (Rio de 10 Flora Süssekind & Roberto Ventura, "Uma teoria biológica da mais-valia?", em História e depen-
Janeiro/Paris: Garnier, 1905), pp. V-IX. dência: cultura e sociedade em Manoel Bonfim (São Paulo: Moderna, 1984).
7 Ibid., p. 22. II Manuel Bonfim, A América Latina: males de origem (O parasitismo social e evolução), cit., p. 357.

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exploração predatória e o gosto pela vida sedentária, que levariam ao esgota- Rompia, portanto, com a concepção positivista de progresso tão reveren-
mento dos recursos e à decadência das sociedades. A eterna luta entre parasi- ciada em sua época, segundo a qual este dependeria da manutenção da ordem
ta e parasitado seria, portanto, o principal fator das transformações históricas. e deveria ser conduzido de cima para baixo pela ação política de uma elite
Bonfim expõe suas idéias sobre o parasitismo na história brasileira e lati- intelectual e científica. Como observou a socióloga Simone Petraglia Kropf:
no-americana nas quatro partes em que dividiu A América Latina. Trata na "Num contexto em que o discurso dominante proclamava a euforia do pro-
primeira parte, "A Europa e a América Latina", da visão negativa que euro- gresso, o diagnóstico do parasitismo como a lógica estruturadora da sociedade
peus, como o francês Gustave Le Bon, tinham do continente, revelando uma era, portanto, um contraste radical em relação ao otimismo propagado".1s
total ignorância de sua história, cujas particularidades nacionais eram Mas, apesar das críticas às analogias entre organismo e sociedade, Bonfim
embaralhadas em uma imagem única: "tudo se confunde para formar um mun- caiu em contradição, ao empregar o conceito biológico de parasitismo em sua
do lendário, de lendas sem grande encanto porque lhes falta o prestígio da análise da história e da política sul-americanas. Transpôs da zoologia para a
ancianidade". A vida política do continente era, para ele, depreciada pelos es- história o conceito dos franceses Massart e Vandervelde, segundo o qual um
critores do Velho Mundo, que tudo reduziam aos "sucessos extremos", às "cri- ser vivo se toma parasita ao viver à custa de outro, explorando-o e sugando-
ses violentas" e às "lutas armadas", que teriam impedido estes países de se lhe as forças e os alimentos. Buscou a causa dos males dos países sul-ameri-
constituírem como nações. 1" canos em seus antecedentes históricos, ligados ao processo de colonização e
Tal juízo negativo acabava se refletindo sobre os próprios latino-america- ao parasitismo que Portugal e Espanha transplantaram, junto com seus órgãos
nos, feridos em seu amor próprio, que ficavam sujeitos, por sua suposta inca- administrativos, para as colônias. As metrópoles ibéricas e os países por eles
pacidade, a ataques externos e a ameaças à sua soberania política. A opinião ocupados padeceriam do mesmo atraso, conseqüência da degeneração impos-
pública norte-americana também julgaria as populações do subcontinente como ta pelo regime parasitário tanto sobre o explorador, que se atrofia a ponto de se
ingovernáveis e imprestáveis, tomando-se carentes da "proteção" dos Estados extinguir, quanto sobre o explorado, que enfraquece ao ser submetido a um
Unidos e se submetendo à incômoda situação de terem sua autonomia reduzi- regime brutal de exploração.
da ou mesmo suprimida: "Defendendo-nos, a América do Norte irá, fatalmen- Assim como existem na natureza parasitas que vivem de outros organis-
te, absorvendo-nos" .13 mos, haveria, na sociedade, dominantes e dominados, senhores e escravos,
Bonfim critica, na segunda parte, "Parasitismo e degeneração", a abor- patrões e trabalhadores, metrópole e colônia, capital estrangeiro e nação, Es-
dagem organológica dos evolucionistas, que concebiam as sociedades como tado e povo. O parasitismo social reproduziria as características do parasitismo
seres vivos, sujeitos às mesmas leis biológicas que regem a evolução das espé- biológico, que traz a debilitação do organismo atacado, submetido à violência
cies. Ao contrário dos darwinistas sociais, considerava os fatos sociais mais do parasita, que lhe retira a energia. Mas o próprio parasita acabaria por dege-
complexos do que os biológicos, já que aqueles dependeriam das leis tanto nerar e entrar em decadência, chegando mesmo ao extermínio.
biológicas quanto sociais. Refutou assim as homologias entre a biologia, a zoo- Busca, na terceira parte, "As nações colonizadoras da América do Sul",
logia e a sociologia, e censurou a idéia linear de progresso dos evolucionistas, as raízes históricas do parasitismo ibérico, cuja origem atribui ao espírito guer-
que concebiam a história segundo etapas ou fases predeterminadas, que fari- reiro e às tendências depredadoras dos povos peninsulares. As constantes guer-
am as sociedades evoluírem do simples ao complexo, do homogêneo ao hete- ras na península Ibérica, varrida por sucessivas invasões ao longo de onze
rogêneo: "Está um tanto desacreditado, em sociologia, esse vezo de assimilar, séculos, teriam determinado a formação guerreira e predatória de suas popula-
em tudo e para tudo, as sociedades aos organismos biológicos".14 ções, que se tomaram inaptas ao trabalho regular e pacífico. Apóia-se no relato
histórico de Oliveira Martins, que trazia à cena o parasitismo dos portugueses

11 Ibid., pp. 1-9. II Simone Petraglia Kropf, "Manuel Bonfim e Euclides da Cunha: vozes dissonantes nos horizontes
II Ibid., p. 12. do progresso", em História, ciências, saúde: Manguinhos, III (I), Rio de Janeiro, março/junho
14 Ibid., p. 20. de 1996, p. 92.

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na Índia, cujos navegadores, dentre eles Vasco da Gama, agiam como verda- mente conservadoras, conseguindo garantir o seu predomínio por meio da apa-
deiros piratas que saqueavam de braço dado com a Coroa. Mostra ainda como rente transformação dos regimes.
os espanhóis destruíram impérios no Peru e no México com o único intuito de Tal processo de mudança conservadora se acentuou a partir da indepen-
pilhar os seus tesouros de ouro e prata. As nações ibéricas se entregaram assim dência das colônias no começo do século XIX, levada à frente por setores das
à vida parasitária, tomando-se sanguessugas das colônias e sofrendo os efeitos elites, que visavam perpetuar a sua dominação e manter intactas as institui-
degenerativos resultantes da decadência progressiva de suas faculdades. ções, sobretudo o trabalho escravo ou servil. Cristalizaram-se no poder as
Transmitido aos países latino-americanos pela colonização, o parasitismo oligarquias, que viviam à custa da espoliação econômica dos trabalhadores
ibérico levou a uma medonha exploração econômica, já que o trabalho era graças à sua excepcional capacidade de acomodação e transigência. Haveria,
desprezado pelas elites, que o impunham ao africano ou ao indígena, responsá- na América Latina, o que Bonfim chama de "deturpação da revolução", que
veis pela criação de toda a riqueza. As metrópoles implantaram uma casta de trazia sempre a vitória dos conservadores sobre os radicais, impedindo o pro-
funcionários, que atuaram como ventosas sobre os organismos parasitados, gresso. Como observou Antonio Candido, a lei fatal do desenvolvimento latino-
com o objetivo de garantir o máximo de tributos. Todo o ônus da produção de americano foi o conservadorismo, fruto direto do parasitismo, causa principal
riquezas recaía sobre o escravo, que sustentava com o suor de seu rosto a dos males destes países. 17
cadeia de relações parasitárias que se estendia, com seus longos tentáculos, O Estado foi implantado no Brasil como "órgão de opressão" a serviço
da colônia à metrópole: "A colônia é parasita; mas, mesmo dentro da colônia, o da metrópole, com a função de "cobrar e coagir e punir aqueles que se ne-
parasitismo se exerce. - Em suma, a vítima das vítimas é o escravo, e este é o guem a pagar ao governo centralizador, absolutista, monopolizador": "O Esta-
único que não tem voz, nem para queixar-se!. .. ''l6 do existe para fazer o mal, exclusivamente [ ... ]: o Estado é o inimigo, o opressor
Em "Efeitos do parasitismo sobre as novas sociedades", quarta e penúl- e o espoliador; a ele não se liga nenhuma idéia de bem ou de útil; só inspira ódio
tima seção do livro, detém-se nos resultados da colonização predatória dos e desconfiança [ ... l". Tomou-se, portanto, um "organismo dominador, tirânico,
portugueses e espanhóis, autênticos saqueadores das regiões sob seu domínio. oneroso, e quase inútil", desvinculado da nação e dos interesses da população,
O parasitismo produziu modificações e perturbações no organismo explorado, organizado com o fim único de sugar a produção da colônia: "Eis o Estado:
que enfraquecia em razão das condições de vida que lhe eram impostas, che- uma realidade à parte, em vez de ser um aparelho nascido da própria naciona-
gando mesmo a sucumbir por excesso de trabalho e deficiência da alimenta- lidade, fazendo corpo com ela, refletindo as suas tendências e interesses".
ção. Criou-se assim uma sociedade marcada por profundas desigualdades, em Alheio à nação, o Estado só existiria para recolher impostos e organizar
que uma parte, constituída pelos senhores, padres e funcionários, vivia de for- as forças armadas, comportando-se como um parasita diante do corpo que
ma parasitária do trabalho da outra. Foi implantado um aparelho administrativo explora: "só sabe existir como poder de opressão, para obrigar os dominados, a
que, ao invés de cuidar dos interesses gerais, se converteu em órgão de opres- massa proletária a fazer a produção em proveito dos dominantes". Tal ânsia
são, representante exclusivo dos interesses das elites locais e metropolitanas. espoliadora teria corrompido as populações submetidas à colonização ibérica,
Submetido ao parasita, o explorado se degrada e chega mesmo a defendê- trazendo a perversão do senso moral, o horror ao trabalho livre e à vida pacífi-
10 e a morrer por ele em guerras e combates, em vez de se rebelar para abolir ca, o ódio ao governo, a desconfiança das autoridades e o desenvolvimento dos
a injustiça social. Vivendo à custa da exploração do parasitado, o parasita se instintos agressivos.
toma incapaz de sobreviver sem ele e decai, para dar lugar a novos dirigentes. A atuação do Estado como parasita da nação não se alterou, segundo
Apesar da mudança dos agentes, mantém-se a estrutura social e política e Bonfim, com a proclamação da independência ou após a introdução do regime
nunca se criam condições para o trabalho realmente livre, que permitiria o republicano: "o Estado em si, permanece qual era". Assim comentou a abdica-
bem-estar social. As elites tendem a se perpetuar em sociedades essencial- ção de D. Pedro I, "lugar-tenente da metrópole" e "chefe do Estado-colônia",
que se declarara brasileiro, antes de retomar a Portugal, para assumir o trono:
16 Manuel Bonfim, A América Latma: males de origem (O parasitismo social e evolllção), cit.,
p. 113. 17 Antonio Candido, "Os brasileiros e a nossa América", cit., pp. 137-138.

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"Partiu, e a máquina aí ficou no trilho: regência, maioridade, rei, revolução, fracos pelos fortes. Ataca as teorias racistas e a crença na superioridade das
ditadura, presidentes [... ] várias gentes se têm sucedido nas funções, mas o raças ditas "puras", por serem idéias que se ligavam aos interesses de domina-
ponto de vista não muda". ção neocolonial dos países europeus: "A ciência alegada pelos filósofos do
Mostra como o orçamento brasileiro de 1903 continha gastos excessivos massacre é a ciência adaptada à exploração". Tais teorias não passavam de
com os órgãos estatais e com as forças armadas, que chegavam a 85% do "etnologia privativa das grandes nações salteadoras", "sofisma abjeto do egoís-
total, desproporcionais se comparados às despesas diminutas com a educação mo humano, hipocritamente mascarado de ciência barata, e covardemente
e a cultura. Propõe, como remédio, uma reorganização do Estado, que deveria aplicado à exploração dos fracos pelos fortes". Resume, de forma virulenta o
abandonar sua "função guerreiro-policial" e assumir o papel previdenciário vínculo entre a teoria das desigualdades étnicas e os interesses imperalista~:
"de proteger os indivíduos contra a natureza, contra as causas naturais de
fraqueza e miséria - contra a ignorância, contra o preconceito, contra a su- Levada à prática, a teoria deu o seguinte resultado: vão os "superiores" aos países
onde existem esses "povos inferiores", organizam-lhes a vida conforme a5 was tradi-
perstição". Deveria ser feito, portanto, um trabalho de reeducação política, de
ções - deles superiores; instituem-se em classes dirigentes, e obrigam os inferiores a
modo a transformar os aparelhos estatais de parasitas da nação em órgãos a
trabalhar para sustentá-las; e se estes o não quiserem, então que os matem e eliminem
serviço da sociedade: "O Estado só tem uma razão de ser: representar e de- de qualquer forma, a fim de ficar a terra para os superiores [ ... ]. Tal é, em síntese, a
fender os interesses gerais das populações, não tendo outros interesses que teoria das raças inferiores. 20
não os interesses comuns da sociedade, e o seu bem-estar" .18
Revela, ainda nesta seção, seu desencanto com o regime republicano: "Era Atribui a condenação da miscigenação e a sua associação com a dege-
um estado social melhor que se pedia, quando se pedia a República". O golpe neração à aproximação indevida entre a mestiçagem humana e os cruzamen-
militar de 1889 não fora capaz de criar uma democracia política: "Foi mais uma tos entre espécies animais diferentes, que poderiam fazer aparecer caracteres
revolução frustrada, à qual só devemos um serviço - haver eliminado a monar- regressivos. Considera que a expressão pejorativa "mulato" e mesmo a cren-
quia hereditária". O governo republicano transformou o sufrágio universal em ça infundada na futura esterilidade dos mestiços de brancos e negros deriva-
uma mentira e passou a representar a vontade de uma minoria insignificante, já vam de uma falsa analogia com o "mulo", animal infecundo, resultante do
que a maioria da população ficou impedida de votar, por não ser alfabetizada, cruzamento entre o cavalo e o asno. Para Bonfim, a valorização dos arianos e
deixando de atender aos requisitos da legislação eleitoral. Proclamada a Repú- dolicocéfalos louros pelos antropólogos racistas se basearia na confusão entre
blica, o país se tomou uma "democracia sem povo, sem cidadãos", em que ape- "parentesco idiomático" e "filiação de sangue", que transformaria, de forma
nas um décimo da população comparecia às umas, para decidir os rumos do descabida, a noção lingüística de "ariano" em categoria étnica."1
país. Caberia assim ao Estado republicano reencontrar a sua verdadeira missão: Até 1910 apenas intelectuais isolados, como Araripe Júnior e Machado
"Mandar ensinar a ler e a escrever a esta população de analfabetos".19 de Assis, atacaram a hierarquia entre as raças. O crítico literário Araripe Júnior
explicava o racismo da ciência européia como ligado ao expansionismo das
nações dominantes, que condenavam as raças não-brancas ou cruzadas, de
A ILUSÃO ILUSTRADA modo a "autorizar a expansão e justificar a expropriação dos povos sem es-
quadras". As teorias racistas seriam, para ele, "sociologias de encomenda",
Em "As novas sociedades", parte final em A América Latina, Bonfim que "mal encobrem as intenções funestas das classes dirigentes e dos gover-
revira as certezas dos intelectuais de sua época, ao criticar o racismo, o nos do lado oposto do Atlântico"."2
evolucionismo e o positivismo, como modelos que justificavam o domínio dos
2. Ibid., pp. 278-282, 398.
21 Manuel Bonfim, O Brasil nação: realidade da soberania brasileira, vol. 2 (Rio de Janeiro:
18Manuel Bonfim, A América Latina: males de origem (O parasitismo social e evolução), cit., Francisco Alves, 1931), pp. 243-244.
pp. 146, 193,208-213. 22 Tristão de Alencar Araripe Júnior, "Clóvis Beviláqua", em Afrânio Coutinho (ed.), Obra crítica,
" Ibid., pp. 224-227, 350, 410. vol. 3 (Rio de Janeiro: Casa de Rui Barbosa, 1963), pp. 327 e 400.

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Bonfim aponta o equívoco dos evolucionistas, que justificavam a livre con- Bonfim ataca ainda a filosofia positivista do francês Auguste Comte
corrência, sem interferência do Estado, por meio da idéia de seleção natural que (1798-1857), cuja crença na existência de etapas históricas fixas acabaria por
o naturalista inglês Charles Darwin tinha formulado para os seres vivos, mas não negar o próprio progresso, atrelado a um conservadorismo social e político,
para as classes sociais. O darwinismo sociológico de Herbert Spencer (1820- voltado para a preservação do capitalismo, "onde o trabalho é inexoravelmente
1903) não passaria, portanto, de justificativa do liberalismo econômico, ao con- espoliado e tiranizado".:6 A influência do positivismo no governo republicano
denar as medidas previdenciárias e a intervenção do Estado na economia sob teria provocado o desinteresse do Estado pela instrução popular, necessária,
o argumento de que perturbariam a seleção natural e a evolução humana. segundo Bonfim, para promover a transformação social e política, capaz de
O ensaísta de A América Latina rejeita a aplicação à sociedade de con- afastar a herança funesta do parasitismo.
ceitos biológicos e de categorias darwinistas, como a luta pela existência e a lei Bonfim tirou conclusões inovadoras de sua análise do parasitismo na his-
da sobrevivência do mais apto. Procura, ao contrário, restabelecer o sentido tória da América Latina. Mesmo sendo o "grande mal" dos países do
atribuído pelo próprio Darwin à expressão struggle for existence. "Devo fri- subcontinente, o parasitismo social não traria, ao contrário do biológico, modi-
sar", escreveu Darwin em The Origin of Species (A origem das espécies), de ficações orgânicas irreversíveis, ficando seus efeitos limitados à ordem moral.
1859, "que emprego o termo luta pela sobrevivência em sentido lato e metafó- Apesar de conceber a sociedade como organismo, procurou investigar as leis
rico, o que implica relações mútuas de dependência dos seres organizados".:3 não-biológicas, específicas aos fatos sociais, e acreditava que o parasitismo
Para Bonfim, tanto o elogio da livre concorrência pelos evolucionistas quanto a social poderia ser extirpado pelos explorados por meio do ensino popular ou da
afirmação das diferenças inatas entre as etnias estariam em flagrante contra- rebelião contra as diversas formas de espoliação: "as populações podem refa-
dição com as idéias do naturalista: "Darwin nunca pretendeu que a lei da sele- zer a sua educação social, corrigindo os vícios havidos na tradição parasitária,
ção natural se aplicava à espécie humana, como o dizem os teoristas do egoísmo e entrar para o progresso; é uma questão de reeducação".:7 Ao colocar limi-
e da rapinagem".:4 tes às analogias entre natureza e sociedade, Bonfim rompeu com o pessimis-
A ideologia liberal e o método evolucionista se fundariam, segundo Bonfim, mo e o determinismo das teorias do meio, da raça e do caráter nacional,
na transposição indevida para o campo social do conceito darwinista de luta concebidos como fatores imutáveis e inelutáveis.
entre espécies, o que levava à apologia da livre concorrência entre indivíduos. Mas não se libertou totalmente da idéia de transmissão hereditária de
Ao contrário do que afirmavam os evolucionistas, a luta pela sobrevivência traços psicológicos, como observou Dante Moreira Leite, em O caráter nacio-
seria substituída na sociedade pelo concurso e solidariedade entre os homens nal brasileiro (1954).:8 Afirmava, em A América Latina, não ter dúvidas
e só poderia ser empregada, em termos sociais, em sentido figurado devido às quanto à existência da hereditariedade social, capaz de definir as característi-
relações de dependência e cooperação. O autor de A América Latina se cas de um povo enquanto síntese dos caracteres herdados, resultantes tanto da
aproximou, nesse sentido, de Karl Marx e Friedrich Engels, que considera- transmissão biológica quanto da educação social: "esta soma de caracteres
vam a luta entre espécies válida apenas no plano natural e animal, negando psíquicos, que se encontram em toda a sua história, em todas as instituições e
sua aplicação social. Para Marx e Engels, a história humana não seria regida épocas, chama-se caráter nacional". E concluía: "A permanência do caráter
pela lei darwinista, e sim pela luta de classes, tomada como lei universal no nacional é o resultado e ao mesmo tempo a prova experimental de hereditari-
Manifesto comunista de 1848: "Até hoje, a história de todas as sociedades edade psicológica nas massas".:9 Tal idéia de transmissão hereditária de tra-
que existiram até os nossos dias tem sido a história das lutas de classes".:s

26 Manuel Bonfim, O Brasil nação: realidade da soberania brasileira, cit., p. 181.


II Charles Darwin, The Origin of Species (Cambridge/Massachusetts, 1964); edição brasileira: A 27 Manuel Bonfim, A América Latina: males de origem (O parasitismo social e evolução), cit., p. 267.
origem das espécies (São Paulo: lIemus, s/d), p. 69. 28 Dante Moreira Leite, O caráter nacional brasileiro: história de uma ideologia (São Paulo:
14 Manuel Bonfim, A América Latzna: males de origem (O parasitismo social e evolução), cit., p. 288. Pioneira, 1976), p. 255.
" Karl Marx & Friedrich Engels, "Manifesto comunista", em Textos, vol. 3 (São Paulo: Alfa- 29 Manuel Bonfim, A América Latzna: males de origem (O parasitismo social e evolução), cit., pp.
Omega, 1976), p. 21. 163-164.

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ços psicológicos entrava em contradição com a solução pedagógica tida como Brasil pode explicar a atenção despertada por um livro tão malfeito, tão falso,
apta a modificar o "caráter" do povo brasileiro. tão cheio dos mais grosseiros erros". Acusa seu autor de cometer inúmeros
Bonfim encerra A América Latina com um tom levemente otimista, ou "galicismos", com o emprego de expressões afrancesadas, e chega a fazer a
pelo menos esperançoso, quanto ao futuro do Brasil e do subcontinente. Pro- lista de seus possíveis erros gramaticais.
pôs um programa de educação popular, capaz de realizar uma reforma política Romero observou indignado que Bonfim resvalaria do terreno da ciência
e de preparar a massa da população para o exercício da cidadania: "Façamos para o das paixões pessoais, ao atacar teóricos do racismo, como Gustave Le
a campanha contra a ignorância; não há outro meio de salvar esta Arnérica".30 Bon. Considerava, ao contrário de Bonfim, a teoria das desigualdades étnicas
E acrescentava, com a linguagem médica e a perspectiva regeneradora e tera- como o resultado imparcial de investigações científicas, "com que a política
pêutica, características de seu ensaio: "O remédio está indicado [... ]: a neces- nada tem a ver", e a utilizou em seus estudos literários e folclóricos, reunidos
sidade imprescritível de atender-se à instrução popular, se a Arnérica Latina se na História da literatura brasileira (1888) e nos Estudos sobre a poesia
quer salvar". 31 Tal nota pedagógica o aproxima de outros pensadores latino- popular do Brasil (1888). Chegou a xingar seu opositor de "mestiço ibero-
americanos do século XIX e do início do XX, como o argentino Domingos americano", membro de um "bando de malfeitores do bom senso e bom gos-
Sarmiento, com Educação popular, ou o mexicano Antonio Caso, nos Dis- to". Isto em uma época em que a mistura de raças era tomada como sinônimo
cursos à nação mexicana, que apontaram a difusão da educação como for- de degeneração.
ma de superar o atraso e corrigir a desigualdade em seus países. 32 Para Romero, a noção de parasitismo era uma idéia genérica ou uma
Essa solução educacional, que se liga à atividade de Bonfim como metáfora desprovida de rigor conceituai, que não poderia servir de base para a
pedagogo e educador, foi criticada por Antonio Candido, para quem A América explicação da história, da política ou da economia: "Em certo sentido, toda a
Latina termina com "um decepcionante estrangulamento da argumentação", enorme categoria da existência não passa duma imensa cadeia de parasitis-
ao apresentar a instrução como panacéia, ao invés de defender a transforma- mos". Observa assim sobre o caráter indefinido e pouco rigoroso da metáfora
ção das estruturas sociais e políticas. 33 Bonfim só iria romper com tal ilusão empregada por Bonfim: "a qualidade de parasita é um predicado que, por
ilustrada em seu último livro, O Brasil nação (1931), em que pregou uma demasiado extenso, não define o sujeito. É pálido, incolor, indeterminado,
revolução nacional-popular contra as classes dirigentes, o aparelho estatal e os incaracterístico, indefinido, e, como tal, não pode exercer a função lógica de
países imperialistas. distinguir e classificar". Critica, em A América Latina, o "abuso das metáfo-
ras", que considerava ser o "flagelo da sociologia", e atacava a escassez de
suas fontes históricas, limitadas às obras de Rocha Pombo e Oliveira Martins.
DA EDUCAÇÃO À REVOLUÇÃO Opunha-se ainda à visão política de seu oponente, que procuraria "desviar um
debate meramente científico para o das paixões partidárias da atualidade", na
Manuel Bonfim foi alvo de uma campanha de descrédito após o lança- tentativa de impor o seu "socialismo de colegial" e seu "reacionarismo negrista
mento de A América Latina. O crítico Sílvio Romero o atacou em uma série e caboclizante". 34
de vinte e cinco artigos no semanário Os Anais, do Rio de Janeiro, depois Bonfim passou as duas décadas seguintes, após a publicação de A Amé-
reunidos no volume de 1906, A América Latina: análise do livro de igual rica Latina, envolvido com o ensino e deixou de lado os temas históricos de
título do dr. Manuel Bonfim: "Só a geral ignorância do mundo legente do sua primeira obra. Além de trabalhar como educador e pedagogo, elegeu-se
deputado estadual por Sergipe. Só voltou a escrever obras históricas no final

lO Ibid., p. 400.
II Ibid., pp. 399-400. 34 Sílvio Romero, A América Latma: análise de livro de igual título do dr. Manuel Bonfim (Porto:
12 Cf. Flora Süssekind, "Introdução", cit., p. 619. Lello & Irmão, 1906), pp. 46-47, 213 e ss. Para seus estudos literários e folclóricos, cf. HIstória
n Antonio Candido, "Literatura e subdesenvolvimento", em A educação pela noite (São Paulo: da literatura brasileira, 2 vols. (2' ed. Rio de Janeiro: Garnier, 1902) e Estudos sobre a poesia
Ática, 1987), p. 147. popular no Brasil: 1870-1888 (Rio de Janeiro: Laemmert, 1888).

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dos anos 20, quando já se encontrava doente. Descobriu em 1926 que tinha tar da classe dominante", agitada pelos políticos, sem qualquer teor de ruptu-
câncer na próstata e passou por quatorze cirurgias até sua morte em 1932. ra ou radicalismo. 36
Escreveu e publicou, em pouco mais de seis anos, três outros livros históricos: Abandonou, nesse último livro, a proposta ilustrada de A América Lati-
O Brasil na América, O Brasil na história e O Brasil nação. na, em que a educação popular era apresentada como salvação das massas.
Retomou, em O Brasil na América (1929), os mesmos conceitos apre- Escreveu agora em O Brasil nação: "O remédio para o caso brasileiro está
sentados em A América Latina, de modo a caracterizar o processo histórico na revolução [ ... ]". Acreditava ser impossível que as classes dominantes
brasileiro a partir das condições latino-americanas de formação colonial. Mas levassem a massa popular à soberania política por meio da educação, pro-
limitou o foco de sua interpretação, ao deixar de lado a perspectiva continental posta antes em A América Latina. Pregava uma revolução socialista, em
da obra de 1905 e se deter na história nacional da era colonial à independência que os explorados passariam a ocupar o poder, trazendo o "caos santo",
política. capaz de transformar a estrutura do país e redefinir o seu lugar no mundo.
Abordou, em O Brasil na história (1930), a historiografia sobre o país, Uma "verdadeira revolução" deveria trazer, segundo ele, a "conquista do
escrita tanto por brasileiros quanto por estrangeiros. Criticou a "deturpação poder por uma classe que nunca o ocupara, em vista de impor ao grupo todo
das tradições nacionais" feita por historiadores, como Francisco Adolfo de um novo padrão de valores [ .. .]".37 Mas sua plataforma revolucionária não
Varnhagen, cuja obra seria uma "história para o trono", que defendia os inte- foi além da oposição entre povo e nação, de um lado, e Estado e nações
resses de dominação da Coroa portuguesa. Para Bonfim, a história deixou de salteadoras, de outro, deixando de apresentar propostas concretas de reor-
ser "orientadora e estimulante do progresso social", ao ter sido falseada em
proveito das elites e do Estado, deixando de lado os interesses dos vencidos e
.
ganização política e econômica.

dos excluídos. A chamada "história universal" teria sido elaborada pelas na-
ções mais poderosas, com o intuito de ressaltar sua própria grandeza em detri- BONFIM NA HISTÓRIA
mento dos povos dominados, aos quais era imposta tal versão colonial ou
neocolonial de seu próprio passado. 3s Manuel Bonfim foi precursor de sociólogos e historiadores, como Gilber-
Bonfim encerrou seus estudos históricos com O Bras iI nação (1931), em to Freire, de Casa-grande & senzala (1933), Sérgio Buarque de Holanda, de
que se radicalizaram as propostas para a solução dos problemas do país, pensa- Raízes do Brasil (1936), e Caio Prado Jr., da História económica do Brasil
das já fora dos quadros institucionais: "Não foi mais possível devisar os destinos (1945). Todos deram ênfase aos fatores sociais e culturais, e não mais étnicos
desta pátria nos plainos da normalidade. Os conceitos, intensos e sentidos sobre ou climáticos, na interpretação da história e da sociedade. O perfil interpretativo
o futuro, romperam o dique da ordem preexistent~, como a despedaçar mura- passou a ser moldado não por conceitos como raça e natureza, mas pelos de
lhas de cativeiro". Sua desilusão com o regime republicano e com o sistema cultura e caráter. Freire observou, no prefácio a Casa-grande & senzala
democrático se tomara profunda e sem remédio, à medida que se agravavam a (1933), que seu ensaio se baseava na diferença entre raça e cultura, de modo
crise política da Primeira República e seu próprio estado de saúde. a separar os fatores genéticos das influências sociais e culturais. 3s
Considerava que a República trouxera a "degradação dos costumes Mas tanto Manuel Bonfim quanto Gilberto Freire foram contraditórios
políticos" e se convertera em um "mundo totalmente podre". Criticou a Re- nessa passagem da raça à cultura, ou na transição do determinismo biológico à
volução de 1930, em que setores do Rio Grande do Sul contestaram a
hegemonia política de São Paulo e Minas Gerais. Ao invés de ser a "legítima
revolução renovadora", por ele tão sonhada, o movimento de 1930 não trou- 36 Manuel Bonfim, O Brasil nação: realidade da soberania braSIleira, cit., pp. 362-371.
xera a substituição de programas e de governantes, limitando-se ao "fermen- 37 Ibid., pp. 337-371.
38 Gilberto Freire, "Prefácio" em "Casa-grande & senzala", Obra escolhida (Rio de Janeiro: Nova
Aguilar, 1977), pp. 77-78. Sobre a passagem da raça à cultura, cf. Roberto Ventura, Estilo
3l Manuel Bonfim, O Brasil na histÓria: deturpação das tradições. degradação política (Rio de tropical: história cultural e polêmicas literárias no Brasil (São Paulo: Companhia das Letras,
Janeiro: Francisco Alves, 1930), pp. 7 e 22. 1991), pp. 66-68.

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A AMÉRICA LATINA: MALES DE ORIGEM ROBERTO VENTURA

história de base social, cultural ou econômica. Freire manteve, em uma das objeto de reflexão, conforme observa Flora Süssekind. Freire imita o persona-
muitas incoerências de seu pensamento, um viés evolucionista, ao acreditar na gem central de sua obra, o mestiço ou o híbrido de raça e cultura, ao optar por
existência de povos mais ou menos adiantados, o que entrava em desacordo um estilo mesclado e sincrético, tanto na combinação de métodos e enfoques,
com a pretendida superação dos modelos biológicos e étnicos. 39 Manteve-se quanto nos níveis de linguagem, que oscila entre o oral e o escrito, entre o
preso, de forma ambígua, à idéia de etnia, apesar de rejeitar o racismo de Sílvio popular e o erudito. Bonfim define, por sua vez, os países latino-americanos
Romero, Euclides da Cunha ou Nina Rodrigues. Mas acabou por criar, como como "sociedades misturadas" e adota igualmente "misturas combinadas" em
mostrou o historiador Ricardo Benzaquen de Araújo, em Guerra e paz (1994), seu pensamento, ao criticar a transposição de conceitos biológicos para a so-
um conceito original de raça, entendida como sinônimo de caráter e cultura, ciedade e usar, ao mesmo tempo, imagens organológicas, como as relações
resultante de traços herdados ou adquiridos, ou enquanto predisposição psico- parasitárias, ou seguir uma perspectiva terapêutica de regeneração educacio-
lógica, capaz de atuar no processo de mestiçagem. 40 nal ou revolucionária. 42
Bonfim, por sua vez, se apropriou de forma singular das ciências natu- A reflexão de Bonfim não teve impacto à época, por incomodar as elites
rais, do evolucionismo e das leis da hereditariedade, dominantes no pensamen- intelectuais e políticas, a quem atribuía a responsabilidade pelo atraso do país,
to brasileiro desde a segunda metade do século XIX. Ao invés de negar a e por criticar os sistemas de pensamento então dominantes, como o racismo, o
hereditariedade social e a noção de "caráter nacional", afirmava que "não há evolucionismo e o positivismo. Indignado com as injustiças sociais, sua lingua-
lugar para separar o que seja devido somente à herança e o que seja efeito da gem é veemente e apaixonada, o que admitiu na apresentação de A América
educação". Afastando-se da teoria das raças inferiores, privilegiava a história Latina, ao revelar preferir a paixão ao "verniz da impassibilidade": "A paixão
e o dado cultural. Observa assim em O Brasil na América: "o valor atual das da linguagem, aqui não dissimulada, traduz a sinceridade com que essas coisas
raças é, apenas, valor de cultura". E acrescenta: "Somos um povo cruzado, e foram pensadas e escritas". Colocava-se, de forma passional, contra os críti-
povos cruzados serão sempre aquilo em que se fizeram: expressão de misturas cos "de curta vista", que só encontrariam verdades em uma linguagem tida
combinadas". 41 como neutra: "prefiro dizer o que penso, com a paixão que o assunto me inspi-
A valorização do cruzamento e das "misturas combinadas" por Bonfim ra; paixão nem sempre é cegueira, nem impede o rigor da lógica".43
se aproxima do elogio da miscigenação e da redefinição de raça, compreendi- Alguns de seus intérpretes, como Dante Moreira Leite e Nelson Werneck
da como tipo biológico e também como formação histórica e expressão cultu- Sodré, criticaram a passionalidade de tal linguagem, que o faria deixar de dar
ral, presentes nas reflexões do mexicano José Vasconcelos, em La raza ênfase às suas teses, apresentadas de maneira sentimental e pouco objetiva. 44
cósmica (1925), e do próprio Freire. Vasconcelos cria a "utopia híbrida" de Esse tom veemente e apaixonado dá, porém, um aspecto pitoresco à sua escri-
uma raça hispânica, "síntese do globo", na qual o cruzamento de raças seria ta, em que o passado colonial e a independência política do Brasil são vistos sob
capaz de gerar uma "humanidade futura". Freire dialoga com Bonfim e faz um viés irônico e satírico, como ao afirmar, em A América Latina, que o siste-
inúmeras referências, em Casa-grande & senzala, às suas obras históricas, ma de produção da colônia se resumia a "algumas centenas de escravos e um
apesar de discordar de sua "indianofilia", que o faria destacar, com "exagero", chicote". Mas a indignação e a revolta com as injustiças sociais fizeram com
as contribuições agrárias e culturais dos indígenas. que sejam enfáticos e repetitivos seus livros escritos no fim da vida sobretudo
Além da valorização da miscigenação, o vínculo entre Bonfim e Freire se O Brasil na América, O Brasil na história e O Brasil nação, em ~ue desdo-
dá na ligação estreita que ambos estabelecem entre a escrita ensaística e o

39 Luiz Costa Lima, "A versão solar do patriarcalismo: Casa-grande & senzala", em A aguarrás do ., Flora Süssekind, "Introdução", cit., pp. 615-616. Sobre o estilo mesclado de Gilberto Freire cf
tempo: estudos sobre a narrativa (Rio de Janeiro: Rocco, 1989). Roberto Ventura, Casa-grande & sen::ala (São Paulo: Publifolha, 2000). ' .
40 Ricardo Benzaquen de Araújo, Guerra e pa::: Casa-grande & sen::ala e a obra de Gilberto Freire 43 Manuel Bonfim, A América Latina: males de origem (O parasitismo social e evolução), cit., p. XII.
nos anos 20 (Rio de Janeiro: Editora 34, 1994), pp. 27 e ss. 44 Dante Moreira Leite, O caráter nacional brasileiro, cit., p. 251; Nelson Werneck Sodré, Histó-
41 Manuel Bonfim, O BraSil na América: caracten::ação da formação brasileira (Rio de Janeiro: ria da lzteratura brasileira: seus jimdamentos econômlcos (Rio de Janeiro: Civilização Brasilei-
Francisco Alves, 1929), pp. 176 e ss. ra, 1969), p. 368.

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A AMÉRICA LATINA: MALES DE ORIGEM

bra as idéias lançadas em sua obra pioneira. A América Latina, seu primeiro
trabalho de fôlego, permanece como sua contribuição mais destacada. ALBERTO TORRES
Apesar do caráter inovador de sua reflexão, Bonfim caiu em um longo
esquecimento após sua morte. Seus livros deixaram de ser reeditados, com
exceção da antologia organizada por Carlos Maul em 1935 e de uma segunda
edição de A América Latina. Só foi redes coberto em 1984 com um ensaio de
A organização nacional
Darci Ribeiro, que o elevou à categoria de pensador mais original da América
Latina, e com a antologia que organizei com Flora Süssekind, História e de-
pendência: cultura e sociedade em Manoel Bonfim. Voltou a ser lido sobre-
tudo a partir de 1993, quando foi relançada A América Latina, seguida de
outras obras históricas, como O Brasil na América e O Brasil nação.
O interesse por sua obra cresceu nos 500 anos do descobrimento do Rolf Kuntz
Brasil, quando houve uma quase canonização de Manuel Bonfim, alçado ao
pedestal dos mais destacados comentaristas do país. Silviano Santiago incluiu
A América Latina no volume Intérpretes do Brasil, junto com ensaístas, his-
toriadores e sociólogos, como Joaquim Nabuco, Euclides da Cunha, Gilberto
Freire, Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Júnior e Florestan Fernandes.
Seu livro didático, Através do Brasil, escrito em parceria com Olavo Bilac, foi
também relançado. Está prevista ainda a reedição de O Brasil na história,
além da publicação de sua biografia, O rebelde esquecido, pelo sociólogo
Ronaldo Conde Aguiar.
Mas o médico e educador em muito contribuiu para o silêncio em torno
de sua obra. Adotou noções biológicas, como o parasitismo, que cairiam em
desuso nas ciências humanas e sociais a partir da década de 1930, com o
predomínio dos modelos da antropologia, da sociologia e da economia. Apesar
de mostrar a falência das analogias biológicas, Bonfim não chegou a criar um
novo sistema conceituaI ou uma nova linguagem interpretativa, que lhe permi-
tiriam superar os limites da abordagem organológica e terapêutica. Apoiou-se,
ao contrário, em categorias da biologia, como a noção de parasitismo, que
deslocou por meio de uma utilização metafórica. Seu ensaísmo histórico-social
é assim profundamente ambíguo pela crítica e pelo emprego simultâneo de um
enfoque biológico, a partir do qual propôs uma teoria da formação do